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Proletários de todo o mundo, uni-vos!

Andrei Zhdanov

Escritos

Edições Nova Cultura


2ª edição
2018
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ciativa dos militantes da UNIÃO RECONSTRUÇÃO COMUNISTA,
com o objetivo de promover e divulgar o marxismo-leninismo.

ZHDANOV, Andrei; Escritos. 2ª Edição. 2018.

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termos da licença desta obra.
A morte do camarada Zhdanov, filho querido do Partido de
Lenin e Stalin, que dedicou toda a sua vida ao serviço da
grande causa do comunismo, constitui uma perda muito
grande para o Partido e para todo o povo soviético.

Na pessoa do camarada Zhdanov perde o Partido um desta-


cado teórico marxista, um talentoso propagandista das gran-
des ideias de Lenin e Stálin e um dos mais proeminentes artí-
fices do Partido e do Estado soviético.

Fiel discípulo e camarada de armas do grande Stalin, o ca-


marada Zhdanov, mediante sua vigorosa atitude em prol do
bem-estar da Pátria Soviética, e por sua suprema devoção à
causa do Partido de Lenin e Stálin, conquistou o cálido amor
do Partido e de todo o povo trabalhador de nosso país.

A vida do camarada Andrei Alexandrovich Zhdanov, que dedi-


cou todas as suas ardentes energias à causa da consolidação
do comunismo, servirá para sempre ao povo trabalhador de
nossa grande Pátria soviética".

declaração do Comitê Central do Partido Comunista da URSS


em ocasião da morte de Andrei Zhdanov em 1948
ÍNDICE

Apresentação ........................................................................................ 13

CINCO TESES FILOSÓFICAS

Sobre a Prática ................................................................................ 17

Sobre a Contradição ....................................................................... 41

Sobre a justa solução das Contradições no seio do Povo .............. 97

Sobre o trabalho de Propaganda .................................................. 155

De onde vem as ideias corretas? ................................................... 177


Cinco Teses Filosóficas Mao Tsé-tung

Apresentação

O selo Edições Nova Cultura, criado pela União Re-


construção Comunista, segue seu propósito de difundir a li-
teratura marxista-leninista e resgatar obras e autores que fo-
ram e são tão atacados pela propaganda ideológica burguesa,
quando não excluídos das discussões no mainstream acadê-
mico que se reproduz na sociedade capitalista decadente. Pu-
blicamos agora uma coletânea de escritos do revolucionário
russo Andrei Alexandrovich Zhdanov, importante figura do
Partido Comunista da URSS. Bolchevique exemplar, dedicou
sua vida à revolução, à construção do socialismo, à teoria
marxista e à luta anti-imperialista. Por toda sua trajetória, en-
cerrada prematuramente aos 52 anos, acreditamos ser de
grande valia editar esta obra, para que não seja somente um
registro de um processo histórico do passado, mas sim uma
contribuição para que se conheça melhor como se deu a luta
teórica travada pelo camarada Zhdanov na defesa dos princí-
pios do materialismo histórico e do socialismo científico.
Um dos principais textos que compõe este tomo é o
intitulado “O Marxismo é a Revolução na Filosofia”, fruto de
uma intervenção realizada no debate, realizado em Moscou,
em torno do livro de Alexandrov, “História da Filosofia”. Se
destaca aqui a defesa implacável que Zhdanov faz da concep-
ção materialista da história, dos fundamentos do materia-
lismo histórico, armas primordiais para a disputa ideológica
contra toda contaminação idealista na produção acadêmica,
contra toda tentativa de conciliação com a ideologia burguesa
nos campos científicos e culturais que se desenvolviam no ár-
Cinco Teses Filosóficas Mao Tsé-tung

duo processo de construção do socialismo na URSS. Tal pos-


tura caracterizou a atuação de Zhdanov no debate no seio da
sociedade soviética e do partido. No campo artístico, foi reco-
nhecido como um dos principais teóricos dessa área e, por
isso, foi caluniado por detratores e incompreendido por ou-
tros, que por idealizações ou desvios de outra ordem, não en-
tendiam o papel da arte naquele momento histórico determi-
nado, o princípio de que toda produção artística e cultural
deve ser submetida à crítica das massas populares e as servir.
Esse ponto, em especial, é contemplado em grande es-
cala neste volume; do seu discurso proferido no célebre Con-
gresso dos Escritores Soviéticos realizado em agosto de 1934,
passando por outros artigos sobre o papel da arte progres-
sista, da música e da literatura, pode-se ter um panorama das
suas posições sobre as questões estético-políticas candentes
no decorrer do processo da primeira experiência socialista da
humanidade iniciada pela Revolução de Outubro.
Membro do Politburo desde 1938, também se destacou
na política externa da URSS, sendo um dos responsáveis pela
criação do Cominform após a vitória na Grande Guerra Pa-
triótica. O seu informe, escrito para a Conferência dos Parti-
dos Comunistas realizado na Polônia em 1947 e publicado no
Brasil com o título “Pela Paz, a Democracia e a Independência
dos Povos” é um documento importante para a compreensão
da luta anti-imperialista que se aprofundou após a vitória so-
bre o nazi-fascismo e o ascenso dos Estados Unidos como a
maior potência capitalista.
Como aponta o escritor brasileiro Rui Facó, no bri-
lhante artigo “O Bolchevique Zhdanov, um exemplo a seguir”
escrito para a seção ‘Figuras do Movimento Operário’ da Re-
vista Problemas (que está publicado neste volume, como pre-
fácio), aponta que enquanto um milhão operários, homens,
Cinco Teses Filosóficas Mao Tsé-tung

mulheres e jovens desfilavam silenciosos diante do Zhdanov,


na Praça Vermelha em Moscou, os abutres imperialistas se
apressavam em desferir ataques vis e monstruosos à figura
deste grande bolchevique, tratado como “o mais implacável
inimigo do mundo ocidental”. Como sempre, a ideologia bur-
guesa se esforça em criar a ilusão de que os podres interesses
burgueses se identificam com os da grande massa de homens
e mulheres trabalhadores do Ocidente. O que tal episódio de-
monstra é que o ódio da burguesia à Zhdanov se justifica, por
este ser um revolucionário consequente, que dedicou a vida à
vitória do proletariado em todo o mundo.
Entregamos assim, um livro que acreditamos cumprir
a proposta do selo, de difusão do marxismo-leninismo e do
socialismo científico, que certamente poderá ser útil a todos
aqueles e aquelas que desejam aprofundar o estudo sobre a
história da União Soviética e sobre as diversas questões que
os bolcheviques tiveram que enfrentar para edificar o socia-
lismo. E para tal, o camarada Zhdanov tem muito a contribuir.

UNIÃO RECONSTRUÇÃO COMUNISTA


ESCRITOS
Escritos Andrei Zhdanov

O Marxismo é a
Revolução na Filosofia

Camaradas! A discussão sobre o livro do camarada Ale-


xandrov não se limita ao quadro dos temas em discussão. Ele
se desenvolve em todas as direções, levantando também as
questões mais gerais sobre a situação da frente filosófica. A
discussão se transforma, deste modo, numa espécie de con-
ferência de toda a União sobre a questão das condições dos
trabalhos científicos filosóficos. Isto, sem dúvida, é perfeita-
mente natural e de acordo com as leis do desenvolvimento do
pensamento. A elaboração do livro de história da filosofia, o
primeiro livro marxista dessa ordem, representa tarefa de
imensa significação científica e política. Não é casual, pois a
atenção dada a essa questão pelo Comitê Central, organi-
zando a presente discussão.
Elaborar um bom livro de história da filosofia significa
fornecer à nossa intelectualidade, aos nossos quadros, à
nossa mocidade, novas e poderosas armas ideológicas e ao
mesmo tempo dar grande passo para a frente na estrada do
desenvolvimento da filosofia marxista-leninista. É compreen-
sível, assim; o elevado teor que se exige para o livro, tal como
foi aqui reclamado. O alargamento do quadro da discussão
tornou-se, por isso mesmo, útil. Seus resultados serão, sem
dúvida, muito grandes, tanto mais que aqui foram tratadas
não somente as questões ligadas com a apreciação sobre o
livro, mas também os mais vastos problemas dos trabalhos
filosóficos.
Eu me permito tratar dos dois temas. Estou longe de
pensar em resumir as calorosas discussões; isto é tarefa que
Escritos Andrei Zhdanov

cabe ao autor do livro, de modo que inicio a discussão pela


ordem. Antes de mais nada, peço desculpas pelo fato de re-
correr ao emprego de citações, embora o camarada Baskin,
de todas as maneiras possíveis, advertisse a todos nós de que
deveríamos evitá-las. Certamente, a ele, velho lobo do mar da
filosofia, é fácil sulcar as marés e oceanos da filosofia sem os
instrumentos de navegação, navegando “às cegas”, como di-
zem os marinheiros. Que me seja concedido, porém, como
grumete filosófico, que pela primeira vez ensaia passos no va-
cilante convés do navio filosófico, durante violenta tempes-
tade, empregar as citações, à guisa de bússola, a fim de me
permitir não perder a rota certa. Passemos ao exame do livro:

Falhas do Livro do Camarada Alexandrov


Penso que temos o direito de exigir de um livro de his-
tória da filosofia a observância às seguintes condições, que
no meu modo de ver, são elementares.

1. Primeiro - É preciso que no livro esteja exata-


mente definido o objetivo da história da filosofia
como ciência.
2. Segundo - Que o livro seja científico, baseado nos
fundamentos das conquistas contemporâneas do
materialismo dialético e histórico.
3. Terceiro - É indispensável para que a exposição da
história da filosofia não seja escolástica, mas atu-
ante e ao mesmo tempo criadora, que esteja ligada
diretamente com os problemas contemporâneos e
que seja conduzida de modo a projetar as perspec-
tivas do futuro desenvolvimento da filosofia.
Escritos Andrei Zhdanov

4. Quarto - Que o material citado, baseado sobre fa-


tos, seja completamente controlado e de boa qua-
lidade.
5. Quinto - Que o estilo da exposição seja claro, exato
e convincente. Suponho que essas exigências
acima apresentadas para o livro, não foram satis-
feitas. Antes de tudo, sobre o objetivo da ciência.

O camarada Kivíenko salientou que o livro do cama-


rada Alexandrov não dá uma ideia clara sobre o objetivo da
ciência e que, embora no livro se encontre grande quantidade
de definições, tem particular significação o fato de nele não
existir uma definição completa, generalizadora, porquanto
cada definição particular esclarece somente aspectos parciais
da questão. Esta observação é completamente correta. O ob-
jetivo da história da filosofia como ciência não é definido
como tal. A definição dada à pág. 14 é incompleta. A definição
da pág. 22 sublinhada em itálico, como definição básica, é vi-
sível e essencialmente incorreta, pois se estivéssemos de
acordo com o autor, de que a “história da filosofia é a história
do desenvolvimento progressivo e ascendente do conheci-
mento do homem sobre o mundo que o cerca”, então isto sig-
nificaria que o objetivo da história da filosofia coincide com o
objetivo da história da ciência em geral, e a filosofia, mesmo,
neste caso; pareceria ser a ciência das ciências, o que já há
muito foi rejeitado pelo marxismo.

Materialismo e Idealismo
Incorreta e inexata é também a afirmação do autor de
que a história da filosofia é também a história do nascimento
e desenvolvimento de muitas ideias contemporâneas, pois a
Escritos Andrei Zhdanov

noção de “contemporâneo” se identifica neste caso com a no-


ção “cientifica” o que, evidentemente, é errado. É indispensá-
vel extrair a definição do objetivo da história da filosofia da
definição da ciência filosófica dada por Marx, Engels, Lenin e
Stalin: “Este o lado revolucionário da filosofia de Hegel que
Marx tomou e desenvolveu. O materialismo dialético “não
precisa de qualquer filosofia que fique acima de outras ciên-
cias”. Das antigas filosofias persiste “a doutrina sobre o pen-
samento e suas leis, isto é, a lógica formal e a dialética”. E a
dialética, na concepção de Marx, de acordo também com a de
Hegel, inclui em si a atual chamada teoria do conhecimento,
gnosiologia, a qual deve estudar o teu objetivo, de igual ma-
neira historicamente, estudando e generalizando a origem e
desenvolvimento do conhecimento, sua transição de não co-
nhecimento para o de conhecimento” (V. I. Lenin - Obras
Completas. T. XVIII, pág. 11 – em russo).
A história científica da filosofia, consequentemente, é
a história da germinação, nascimento e desenvolvimento da
concepção materialista científica e suas leis. À medida que
cresce o materialismo e este se desenvolve na luta contra as
correntes do idealismo, a história da filosofia é também a his-
tória das lutas do materialismo contra o idealismo. No que se
refere ao caráter científico do livro, do ponto de vista da utili-
zação das conquistas contemporâneas do materialismo dia-
lético e histórico, também sob esse aspecto o livro tem mui-
tíssimas e sérias falhas.

Uma Revolução na Filosofia


O autor descreve a história da filosofia e a marcha do
desenvolvimento das ideias e sistemas filosóficos como evo-
lução normal através de acréscimos e mudanças quantitativas
sucessivas. Cria-se, assim, a impressão de que o marxismo
Escritos Andrei Zhdanov

surgiu como simples sucessor no desenvolvimento das dou-


trinas progressistas anteriores, principalmente da doutrina
dos materialistas franceses, da economia política inglesa e
das escolas idealistas de Hegel.
O autor, na pág. 475, diz que as teorias filosóficas, cri-
adas antes de Marx e Engels, embora contivessem, às vezes,
grandes descobertas, não foram, contudo, consequentes até
o fim e científicas em todas as suas conclusões. Tal definição
distingue o marxismo dos sistemas filosóficos pré-marxistas
somente como doutrina consequente até o fim e científica em
todas as suas conclusões. Isto nos mostra que a diferença do
marxismo das doutrinas filosóficas pré-marxistas consiste so-
mente em que estas filosofias não foram até o fim consequen-
tes e científicas, como também que os velhos filósofos so-
mente “se equivocaram”.
Como veem, trata-se aqui somente de mudanças
quantitativas. Isto, porém, é metafísica. O aparecimento do
marxismo constituiu uma verdadeira descoberta, foi uma re-
volução em filosofia. Certamente, como em qualquer desco-
berta, como em qualquer salto, interrompe-se a graduação
em cada transição para o novo estado; o marxismo, pois, não
podia ter origem sem preliminar acumulação de mudanças
quantitativas, em filosofia, e, neste caso, somas de desenvol-
vimento da filosofia até a descoberta de Marx e Engels. O au-
tor, evidentemente, não compreende que Marx e Engels cria-
ram nova filosofia, que qualitativamente se diferencia de to-
das as predecessoras, não obstante estas terem sido também
sistemas filosóficos progressistas. Acerca das relações da fi-
losofia de Marx com todas as predecessoras de cuja transfor-
mação resultou o marxismo em filosofia, transformando-o
em ciência, todos têm conhecimento. O que é mais estranhá-
vel é que o autor concentra a sua atenção não no que é novo
Escritos Andrei Zhdanov

e revolucionário no marxismo, em comparação com os siste-


mas filosóficos predecessores, e sim no que o une com o de-
senvolvimento das filosofias pré-marxistas. No entanto,
mesmo Marx e Engels disseram que sua descoberta signifi-
cava o fim das velhas filosofias.
“O sistema de Hegel foi o último, a mais acabada forma
de filosofia, desde que a concebamos como ciência especial,
que fica acima de todas as outras ciências. Junto com ela, toda
a filosofia. Restou somente o método dialético do pensa-
mento e a concepção de todo o mundo natural, histórico e
intelectual, como de um mundo eternamente mutável e mó-
vel, que se encontra em permanente processo de nascimento
e perecimento. Agora, não somente à filosofia, mas também a
toda ciência foi imposta a exigência de descobrir as leis do
desenvolvimento deste eterno processo de transformação em
cada domínio separado. Nisto consiste a herança deixada pela
filosofia hegeliana aos seus sucessores”. (F. Engels - Anti
Dühring, 1945, pág. 23-24. Edição russa).

O Marxismo e o Fim da Velha Filosofia


O autor não compreende, evidentemente, o processo
histórico concreto do desenvolvimento da filosofia. Uma das
essenciais, senão mesmo a principal falha do livro, é a igno-
rância do fato de que na marcha da história se substituem não
somente as opiniões sobre estas ou aquelas questões filosó-
ficas, mas até mesmo sobre um conjunto de questões. O pró-
prio objetivo da filosofia sempre esteve em permanente trans-
mutação, o que corresponde completamente à natureza dia-
lética do conhecimento humano e isto deve ser evidente a
qualquer verdadeiro dialeta.
À pág. 24 de seu livro, expondo a filosofia dos antigos
gregos, o camarada Alexandrov escreve: “A filosofia, como
Escritos Andrei Zhdanov

ramo independente do conhecimento, surgiu na antiga socie-


dade escravista grega”. E mais adiante: “A filosofia, surgindo
no VI século antes da nossa era, como ramo particular do co-
nhecimento, teve larga propagação”.
Podemos, porém, falar sobre as antigas filosofias gre-
gas como um ramo particular do conhecimento que se haja
diferenciado? Absolutamente, não. Os pontos de vista filosó-
ficos dos gregos foram de tal modo estreitamente ligados às
suas ideias políticas e aos seus pontos de vista de história na-
tural que não devemos e não temos o direito de transferir para
a ciência grega a nossa divisão das ciências e sua classifica-
ção, que surgiram muito depois. Em verdade, os gregos co-
nheciam somente uma ciência indivisa, na qual entravam
também as ideias filosóficas. Tomemos Demócrito, Epicuro,
Aristóteles; todos eles igualmente corroboram o pensamento
de Engels sobre isso, que “os mais antigos filósofos gregos
foram simultaneamente naturalistas”. (F. Engels – Dialética e
Natureza – K. Marx e F. Engels, obr. Comp. T. XIV, pág. 498 -
Edição russa).
A originalidade do desenvolvimento da filosofia con-
siste em que a medida que se desenvolvia os conhecimentos
científicos sobre a natureza e a sociedade, dela se ramifica-
vam as ciências positivas, uma após outra. Por consequência,
reduzia-se ininterruptamente o domínio da filosofia devido ao
desenvolvimento das ciências positivas (observação relevante
é que este processo não está terminado e prossegue até no
presente momento), e essa libertação das ciências naturais e
sociais da égide da filosofia representava, por si mesma, um
processo progressivo como também para as ciências naturais
e sociais e da mesma forma para a própria filosofia.
Escritos Andrei Zhdanov

Os criadores dos sistemas filosóficos do passado, que


pretendiam o conhecimento da verdade absoluta, em instân-
cia final, não puderam promover o desenvolvimento das ciên-
cias naturais, porque as enfaixavam em seus esquemas e se
esforçavam por ficar acima das ciências, impondo ao vívido
conhecimento humano as conclusões que eram ditadas não
pela vida real, mas por exigência dos sistemas.
Nestas condições, a filosofia se transformou em mu-
seu, onde foram acumulados os mais diversos fatos, conclu-
sões, hipóteses e simples fantasias. Se a filosofia pode servir
para a supervisão, para a contemplação, no entanto, de nada
valeu como instrumento de ação prática sobre o mundo e
como instrumento de conhecimento do mundo. O último sis-
tema de tal gênero foi o sistema de Hegel, o qual tentou er-
guer o edifício filosófico, que dominaria todas as outras ciên-
cias. Comprimindo no leito de Procusto das suas categorias,
e imaginando poder resolver todas as contradições, o sistema
de Hegel entrou em contradição absoluta com o método dia-
lético, por Hegel mesmo mais pressentido do que compreen-
dido e por isso mesmo indevidamente aplicado.
Mas, “uma vez que compreendamos... que exigir da fi-
losofia a solução de todas as contradições significa exigir que
um só filósofo realize tal obra, que somente poderia ser rea-
lizada por toda a humanidade em seu gradual desenvolvi-
mento; uma vez que compreendamos isto, para as filosofias,
na velha significação da palavra, chegou ao fim, como indi-
cava Engels. Por consequência, deixemos em paz a “verdade
absoluta”, que por esse caminho é inatingível para o homem
isolado e nos esforcemos na pretensão de alcançar para nós
as verdades relativas pelo caminho das ciências positivas e
unificação de seus resultados com a ajuda do método dialé-
tico”. (F. Engels – L. Feuerbach. Marx e Engels – Obr. Compl.
Escritos Andrei Zhdanov

T. XIV, pág. 640 - Edição russa). A descoberta de Marx e Engels


representa o fim da velha filosofia, isto é, o fim daquela filo-
sofia que pretendia dar uma universal explicação do mundo.

Uma Filosofia Científica do Proletariado


As formulações vagas do autor obscurecem a maior
significação revolucionária da genial descoberta filosófica de
Marx e Engels; acentuam quanto estava Marx ligado aos filó-
sofos predecessores; e não mostram que, desde Marx, começa
realmente um novo período de história da filosofia, que desde
então se tornou ciência.
A este erro, está ligada estritamente a maneira não
marxista com que o livro trata a história da filosofia, como de
gradual mudança de uma escola filosófica para outra. Com o
aparecimento do marxismo, como concepção científica do
proletariado, acaba o velho período da história da filosofia,
aquele em que a filosofia era ocupação de indivíduos, propri-
edade de escolas filosóficas, compostas de pequeno número
de filósofos e de seus discípulos, fechados, isolados da vida,
do povo, estranhos a este.
O marxismo não é uma escola filosófica dessa espécie.
Ao contrário, é a superação das velhas filosofias, das que
eram propriedade de uns poucos eleitos da aristocracia do es-
pírito; é o princípio de um período completamente novo da
história da filosofia, quando ela se torna arma científica nas
mãos das massas proletárias, que lutam por sua libertação do
capitalismo. A filosofia marxista, diferentemente dos anterio-
res sistemas filosóficos, não se apresenta como ciência acima
das outras ciências, ainda é um instrumento de investigação
científica, um método, que torna mais penetrante todas as ci-
ências sobre a natureza e a sociedade e que se enriquece ao
Escritos Andrei Zhdanov

mesmo tempo com as conquistas dessas ciências no desen-


rolar de seu desenvolvimento. Nesse sentido, a filosofia mar-
xista é a mais completa e decisiva negação de todas as filoso-
fias precedentes. Mas negar, como destacava Engels, não sig-
nifica dizer simplesmente “não”. A negação encerra em si a
sucessão, significa a absorção, revisão crítica e unificação em
nova e superior síntese de tudo quanto há de vanguardista e
progressista, já conquistado na história do pensamento hu-
mano.
Daqui decorre que a história da filosofia, desde que
existe o método dialético marxista, deve incluir a história da
preparação do aparecimento desse método; mostrar o que
condicionou o seu surgimento. No livro do camarada Alexan-
drov não consta a história da lógica e da dialética, não é ex-
posto o processo do desenvolvimento das categorias lógicas
como reflexo da prática humana; e por isso mesmo ficou no
ar a citação de Lenin, encontrada ao prefácio do livro, de que
cada categoria da lógica dialética precisa ser considerada
como ponto central na história do pensamento humano.
Completamente injustificável é o fato de que a história da fi-
losofia, no livro, só vá até o surgimento da filosofia marxista,
ou seja, até o ano de 1847. Sem a exposição da história da
filosofia destes últimos cem anos, o livro, certamente, não
pode ser considerado como livro de história da filosofia. O
autor não esclareceu e não explicou porque não cuidou desse
período, nem na introdução nem no prefácio da obra.
Nada justifica também a exclusão do desenvolvimento
da filosofia russa, no livro de história em apreço. Não é pre-
ciso provar que essa omissão possui o caráter de princípio.
Fossem quais fossem os motivos que levaram o autor a ex-
cluir a história da filosofia russa da história geral da filosofia,
o seu silêncio sobre ela objetivamente significa a depreciação
Escritos Andrei Zhdanov

do papel da filosofia russa e também a divisão da história da


filosofia em história da filosofia da Europa ocidental e história
da filosofia russa, e para tanto o autor não faz quaisquer ten-
tativas no sentido de esclarecer a necessidade de tal divisão.
Ele eterniza dessa forma a divisão burguesa de cultura “oci-
dental” e “oriental” e considera o marxismo como corrente
regional do “ocidente”. Mais que isso, na página 6 da intro-
dução, demonstra com vigor uma tese inversa, insistindo que
“não tendo estudado atentamente e utilizado a crítica pro-
funda dos sistemas filosóficos do passado, realizada pelos
clássicos da filosofia russa, não se pode organizar uma expo-
sição científica sobre a marcha do desenvolvimento do pen-
samento filosófico nos países da Europa ocidental”. Por que,
então, o autor não organizou essa correta exposição no livro?
Tal fato permanece completamente incompreensível, da
mesma forma que o arbitrário modo de terminar a exposição
da história da filosofia no ano de 1848, que deixam no leitor
a mais opressiva impressão.
Em suas intervenções, os camaradas aqui presentes
também acertadamente apontaram as lacunas na exposição
da história da filosofia do Oriente, que deveria ser clara. Evi-
dentemente, também por esse motivo o livro precisa de radi-
cal revisão. Alguns camaradas salientaram que a introdução
para o livro deveria, sem dúvida, significar o “credo” do autor
e também definir corretamente o objetivo dos problemas e
métodos de investigação, mas que o autor, parece-lhes, não
cumpriu essa obrigação. Penso que esta crítica á insuficiente,
portanto incorreta; também não resiste à crítica feita à própria
introdução.
Escritos Andrei Zhdanov

Por uma Posição de Partido em Filosofia


Já falei sobre a incorreta e inexata definição do objetivo
da história da filosofia. Mas isto é pouco ainda. Na introdução
existem também outros erros teóricos. Os camaradas já fala-
ram aqui de que uma interpretação forçadíssima se encontra
na exposição das bases da história da filosofia marxista-leni-
nista, no que se refere a Chernichevsky, Dobrolyubov e Lomo-
nossov, os quais, certamente, não têm relações diretas com o
assunto.
Mas a questão, entretanto, não é somente essa. As ci-
tações apresentadas, das obras desses grandes mestres e fi-
lósofos russos, são escolhidas com evidente infelicidade, e as
teses teóricas que elas encerram, são, do ponto de vista mar-
xista, incorretas e, eu diria mais, nocivas mesmo. Dizendo
isso, nem no menor grau tenho em vista desacreditar os pró-
prios autores dos textos citados, pois as citações, escolhidas
arbitrariamente, se referem a questões que nada têm em co-
mum com as em que tem em vista o autor. Ou melhor, o autor
cita Chernichevsky para provar que os fundadores dos vários
e ainda que contrários sistemas filosóficos devem tolerante-
mente referir-se um ao outro. Que se me permita fazer cita-
ções de Chernichevsky: “Os continuadores de obra científica
se rebelam contra os seus predecessores cujos trabalhos ser-
viram de ponto de partida para os seus próprios trabalhos.
Assim, Aristóteles olhava para Platão; Sócrates humilhava
imensamente os sofistas, dos quais ele foi continuador. Nos
tempos modernos encontramos também muitos exemplos se-
melhantes. Mas acontece, às vezes, casos de fundadores de
novos sistemas compreenderem claramente a conexão de
suas opiniões com os pensamentos expressos pelos seus pre-
decessores, e modestamente, então, se intitularem de seus
discípulos; ou que, revelando as deficiências das concepções
Escritos Andrei Zhdanov

de seus predecessores, ao mesmo tempo, claramente, confes-


sam quanto contribuíram essas concepções para o desenvol-
vimento de seus próprios pensamentos. Tal foi, por exemplo,
o caso de Spinoza com Descartes. Para honra dos fundadores
da ciência contemporânea, é preciso dizer que eles com res-
peito e quase amor filial olham para os seus predecessores,
reconhecem completamente a grandeza de seus gênios, o ca-
ráter nobre e generoso de suas doutrinas, nas quais apontam
o germe de suas próprias ideias”. (Págs. 6-7, do livro de Ale-
xandrov).
Desde que o autor faz essas citações sem restrições,
elas, evidentemente, são o seu próprio ponto de vista. Se isto
é verdade, então o autor efetivamente se coloca no caminho
da rejeição do princípio de partidarismo em filosofia, o qual é
inerente ao marxismo-leninismo. São conhecidas a paixão e
irreconciliabilidade, com as quais o marxismo-leninismo
sempre conduziu e conduz a áspera luta contra todos os ini-
migos do materialismo. Nessa guerra, os marxista-leninistas
submetem os seus adversários a uma crítica aniquiladora.
Como modelo de luta bolchevique contra os opositores do
materialismo é o livro de Lenin, Materialismo e Empiriocriti-
cismo, onde cada palavra de Lenin representa, por si mesma,
uma arma aniquiladora, que destrói o adversário. A geniali-
dade de Marx e Engels consiste justamente – dizia Lenin – em
que no decorrer de um período muito longo, de quase meio
século, eles desenvolveram o materialismo, impulsionaram
para a frente uma fundamental tendência da filosofia, não
permaneceram na repetição das questões gnosiológicas já re-
solvidas, mas a conduziram consequentemente, isto é, mos-
traram como era preciso levar o materialismo para o campo
das ciências sociais, varrendo impiedosamente como lixo, a
asneira, a bombástica galimátia pretensiosa e as numerosas
Escritos Andrei Zhdanov

tentativas de “descobrir” uma “nova” linha na filosofia, de in-


ventar uma “nova” tendência, etc.
Tomem, finalmente – escreve Lenin mais adiante – as
várias observações filosóficas de Marx em “O Capital” e ou-
tras obras, e vereis imutável a ideia fundamental, a insistência
no materialismo e um altivo desprezo votado a qualquer obs-
curecimento, confusão ou recuo para o idealismo. Sobre es-
sas duas básicas antinomias (materialismo-idealismo) giram
todas as observações filosóficas de Marx, as quais são julga-
das pela filosofia professoral como “estreitas” e “unilaterais”,
e é justamente nisso que consistem suas falhas”. (V. I. Lenin,
Obr. Compl., t. XIII, págs. 275-276).
O próprio Lenin, como se sabe, não poupava os seus
adversários. Na tentativa de amenizar e conciliar as contradi-
ções entre as tendências filosóficas, Lenin sempre viu apenas
uma manobra da filosofia professoral reacionária. Como
pode, pois, depois disso, o camarada Alexandrov apresentar-
se em seu livro, suave e manso, em relação aos filósofos ad-
versários, o que representa positiva concessão ao quase-ob-
jetivismo professoral, ao expor o período em que emergia,
crescia e vencia o marxismo na implacável luta contra todos
os representantes das tendências idealistas? O camarada Ale-
xandrov não se limita a isso. Sua concepção objetiva, ele con-
sequentemente a faz presente através de todo o conteúdo do
livro. Não é por casualidade, pois, que o camarada Alexan-
drov, antes de criticar qualquer filósofo da burguesia, renda
homenagens aos seus méritos, incensando-os. Tomem, por
exemplo, a doutrina de Fourier, que já foi aqui mencionada,
sobre as quatro fases do desenvolvimento da humanidade. O
ponto mais alto da filosofia social de Fourier, diz o camarada
Alexandrov, “é a doutrina sobre o desenvolvimento da huma-
nidade. Em seu desenvolvimento, a sociedade passa, segundo
Escritos Andrei Zhdanov

Fourier, por quatro fases: Destruição ascendente; Harmonia


ascendente; Harmonia descendente; Destruição descendente.
No seu último estádio, a humanidade vive num período
de caducidade, depois do que qualquer vida na terra chega ao
fim. Tanto quanto o desenvolvimento da sociedade se realiza
independentemente dos desejos das pessoas, assim também
o estádio superior do desenvolvimento chega inevitavel-
mente, tal como acontece com a mudança das estações de um
ano. Desta tese deduziu Fourier a inevitável substituição do
regime burguês por uma sociedade na qual dominará o tra-
balho livre e coletivo. Na verdade, a teoria de Fourier do de-
senvolvimento da sociedade foi limitada pelo quadro das qua-
tro fases, mas para aquela época ela representou grande
passo para a frente.” (Ghe. F. Alexandrov, História da Filosofia
da Europa Ocidental, págs. 353-354).
Aqui não há traço de análise marxista. Em comparação
com que representou a teoria de Fourier um passo à frente?
Se a sua limitação consistiu no fato de se referir a 4 fases no
desenvolvimento da humanidade e que a quarta fase constitui
a destruição descendente, no conjunto da qual a vida na terra
chega ao fim, então como compreender se queixe o autor de
Fourier, de que sua teoria do desenvolvimento da sociedade
é limitada a quadro de apenas 4 fases? Uma quinta fase a hu-
manidade a passaria no outro mundo...
Sobre quase todos os velhos filósofos o camarada Ale-
xandrov encontra oportunidade para dizer palavras amáveis.
Quanto maior é o filósofo burguês mais incenso lhe oferece.
Tudo isso leva o camarada Alexandrov, possivelmente mesmo
sem o suspeitar, a tornar-se cativo dos historiadores burgue-
ses da filosofia, os quais partem do princípio de ver em cada
filósofo, antes de tudo, um aliado de profissão, logo depois
um adversário. Tais concepções, se se desenvolvessem entre
Escritos Andrei Zhdanov

nós, inevitavelmente nos conduziriam ao objetivismo; para o


servilismo em face dos filósofos burgueses e exaltação de
seus méritos; para a privação, em nossa filosofia, do seu es-
pírito combativo e agressivo. Mas isto significaria o abandono
do princípio fundamental do materialismo, isto é, de seu par-
tidarismo. Entretanto, Lenin nos ensinou que: “O materia-
lismo encerra em si, por assim dizer; uma posição de partido
que nos obriga, em qualquer apreciação de acontecimentos,
direta e abertamente tomar o ponto de vista de um determi-
nado grupo” (V. I. Lenin, Obr. Compl., T. I, p. 276, em russo).
As exposições das concepções filosóficas no livro são
feitas abstratamente, objetivamente, neutralmente. As escolas
filosóficas são expostas no livro uma depois de outra ou uma
ao lado de outra, mas não em luta uma contra outra. Isto é
também “concessão à tendência” acadêmica e professoral.
Não é por acaso, como veem, que, nessa ligação, a tese do
princípio de partidarismo em filosofia não foi absolutamente
adotado pelo autor. Na qualidade de exemplo de partidarismo
em filosofia o autor apresenta a filosofia de Hegel e a luta das
filosofias inimigas ele descreve como sendo a luta dos princí-
pios reacionários e progressistas dentro da própria filosofia
de Hegel. Tal método de demonstração é não somente ecle-
tismo objetivista, mas também uma clara condescendência
para com Hegel, porquanto por esse método pretende provar
que sua filosofia contém tanto de progressismo quanto tam-
bém de reacionarismo. Para acabar com esta questão, acres-
cento também que o método aconselhado pelo camarada Ale-
xandrov, de apreciação dos diferentes sistemas filosóficos –
igualmente com méritos existem também defeitos (vide pág.
7 do livro de Alexandrov) ou importante significação tem do
mesmo modo tal e tal teoria, que esse método sofre de ex-
trema falta de determinação, é metafísico e somente capaz de
Escritos Andrei Zhdanov

emaranhar o assunto. É incompreensível porque necessitou o


camarada Alexandrov de fazer concessões às tradições cien-
tíficas acadêmicas das velhas escolas burguesas e esquecer a
tese fundamental do materialismo que exige a irreconciliabi-
lidade na luta contra os seus adversários.

Saber utilizar o Método Materialista Dialético


Ainda uma observação. A análise crítica dos sistemas
filosóficos deve ter um objetivo. As opiniões e ideias filosófi-
cas, há bastante tempo derrotadas e enterradas não merecem
muita atenção. Pelo contrário, com particular rigor devem ser
criticados os sistemas e ideias filosóficos que, apesar de seu
reacionarismo, ainda têm curso e são utilizados pelos atuais
inimigos do marxismo. Aqui, referimo-nos particularmente ao
neokantismo, às teologias, às velhas e novas edições do ag-
nosticismo, às tentativas de introduzir Deus, sub-repticia-
mente, de contrabando; nas ciências naturais contemporâ-
neas, e também de qualquer outra modificada, que tenha por
fim retocar e colorir a mofada mercadoria idealista, para con-
sumo do mercado. Enfim, a quantas ideias desse conhecido
stock, que, na época contemporânea, os lacaios filosóficos do
imperialismo põem em circulação para apoiar seus amos as-
sustados.
Na introdução é tratada, igualmente, de forma incor-
reta a concepção sobre as ideias reacionárias e progressistas
e dos sistemas filosóficos. Embora o autor também faça res-
trições em torno das questões sobre o reacionarismo ou o ca-
ráter progressista desta ou daquela ideia ou sistemas filosófi-
cos, elas devem ser resolvidas de forma concreta e histórica.
O autor, porém, persistentemente ignora a conhecida tese do
marxismo de que uma mesma ideia, em diferentes condições
históricas e concretas, pode ser reacionária ou progressista.
Escritos Andrei Zhdanov

Tergiversando nesta questão, o autor abre brecha para a in-


trodução, de contrabando, da concepção idealista das ideias
que são colocadas acima da história.
O autor, mais adiante, corretamente assinala que o de-
senvolvimento do pensamento filosófico, em última análise, é
determinado pelas condições materiais de vida da sociedade
e que o desenvolvimento do pensamento filosófico tem so-
mente uma relativa independência, mas ao mesmo tempo, re-
petidamente, viola essa tese fundamental do materialismo ci-
entífico, e frequentemente se esquece, na sua exposição dos
diferentes sistemas filosóficos, da tese das condições históri-
cas e concretas e das raízes sociais de classe; desta ou da-
quela filosofia.
Tal é o caso, por exemplo, da exposição sobre os pon-
tos de vista de Sócrates, Demócrito, Spinoza, Leibniz, Feuer-
bach e outros, que, certamente, não é científica e dá motivo à
suposição de que o autor, confundindo-se, passou a adotar o
ponto de vista da independência do desenvolvimento das
ideias filosóficas, que pairam acima da história, o que consti-
tui, aliás a característica distintiva da filosofia idealista. A au-
sência de ligação orgânica entre este ou aquele sistema filo-
sófico e as condições concretas, e históricas verifica-se, cons-
tantemente, ainda onde o autor tenta analisar essas condi-
ções. Como resultado disso temos uma ligação puramente
mecânica, e não uma ligação orgânica e essencial. Divisões e
capítulos, em que são interpretadas as concepções filosóficas
de época correspondentes e divisões e capítulos dedicados à
exposição das condições históricas, giram em torno de um
mesmo ponto de vista, mas a própria exposição dos dados
históricos, as ligações causais entre a base e a superestrutura,
como cânone, é apresentada de forma científica, mas desor-
Escritos Andrei Zhdanov

denadamente, e não oferece material para análise, antes re-


presenta uma investigação ruim. Tais são, por exemplo, a in-
trodução e o capítulo VI, sob o título “A França no XVIII Sé-
culo”, que são um cúmulo de ininteligibilidade e de nenhuma
força esclarecem a fonte das ideias da filosofia francesa do
século XVIII e início do século XIX. Como consequência disso,
as ideias dos filósofos franceses perdem suas ligações com a
época e começam a figurar como um certo fenômeno inde-
pendente. Que se me permita recordar esta passagem do livro:
“Começou a França, nos séculos XVI-XVII, depois da Ingla-
terra, gradualmente, a pôr-se no caminho do desenvolvi-
mento da sociedade burguesa. As fundamentais transforma-
ções na economia, na política e na ideologia, levaram um sé-
culo para se realizar. O país, embora ainda estivesse também
completamente atrasado, já começava, porém, a libertar-se
de seu consolidado feudalismo. Da mesma forma que muitos
outros Estados europeus daquele tempo, a França também
entrava no período da acumulação capitalista primitiva. Em
todos os setores da vida social rapidamente se formava a nova
ordem social-burguesa, surgia nova ideologia, nova cultura.
Por esse tempo, se inicia na França, o rápido crescimento das
cidades como Paris e Lion, Marselha e Havre; constrói-se po-
derosa frota marítima. Uma depois da outra organizam-se as
companhias comerciais, internacionais, que preparam) expe-
dições armadas, com que conquistaram numerosas colônias.
Rapidamente cresce o comércio. Nos anos de 1784-1788, o
movimento do comércio externo atingiu a 1.011,6 milhões de
libras, excedendo mais do que quatro vezes ó dos anos de
1716-1720. O desenvolvimento do comércio foi ajudado pelo
pacto de Aacher (1748), e pelo tratado de Paris (1763). Parti-
cularmente demonstrativo é o comércio de livros. Assim, por
exemplo, no ano de 1774, o movimento do comércio de livros
Escritos Andrei Zhdanov

na França chegou a ser de 45 milhões de francos, enquanto


na Inglaterra era somente 12-13 milhões de francos. Nas
mãos da França, encontrava-se cerca da metade do stock de
ouro que possuía a Europa. Entretanto, a França permaneceu
ainda como país agrário. Imensa maioria de sua população se
ocupava com a agricultura” (págs. 315-316).
Isto, certamente, não é uma análise, mas uma simples
catalogação de alguns fatos, expostos não em ligações de uns
com outros, mas simplesmente uns ao lado de outros. Isto,
por si mesmo, evidencia que estes dados sobre a “base” não
continham, é verdade, e não podiam conter quaisquer carac-
terísticas da filosofia francesa, cujo desenvolvimento se rea-
liza como que separado das condições históricas daquele
tempo na França. Tomamos mais adiante, a título de exemplo,
a descrição do aparecimento da filosofia idealista alemã, tal
como é apresentada no livro de Alexandrov. Ele escreveu: “No
século XVIII e primeira metade do século XIX, a Alemanha era
um país atrasado, com um regime político reacionário. Nela
dominavam as relações da servidão feudal e corporações de
ofícios. No fim do XVIII século, a população citadina não al-
cançava 25 por cento, e os ofícios ocupavam somente 4 por
cento de toda a população. A corveia, taxas, a servidão, os
privilégios das corporações impediam o desenvolvimento das
relações capitalistas, que começavam a surgir. Acrescente-se,
ainda, que no país reinava uma excessiva divisão política”.
Encontra-se na citação de Alexandrov a porcentagem
da população citadina da Alemanha, que deve, segundo sua
opinião, ilustrar o atraso desse país e o reacionarismo de seu
governo e de seu regime político-social. Já nesse tempo, po-
rém, a população citadina da França se compunha de menos
10% do que a da Alemanha, embora a França não fosse um
atrasado país feudal, como era a Alemanha, e sim o centro do
Escritos Andrei Zhdanov

movimento revolucionário burguês na Europa. Por conse-


quência, a percentagem da população citadina, por si mesma,
ainda nada esclarece, mais do que isso, ela própria deve ser
esclarecida pelas condições históricas e concretas. Isto, do
mesmo modo, é exemplo do insucesso do autor, na utilização
do material histórico para a elucidação do nascimento e de-
senvolvimento destas ou daquelas formas de ideologia.
Mais adiante, Alexandrov escreveu: “Os mais conheci-
dos ideólogos da burguesia alemã daquele tempo – Kant, de-
pois Fichte e Hegel – nos sistemas filosóficos idealistas que
criaram, exprimiram de forma abstrata, condicionada pela li-
mitação da realidade alemã, a ideologia da burguesia alemã
daquela época”.
Comparemos esta exposição dos fatos, fria, indiferente
e objetivista, por meio da qual não se podem compreender as
causas do nascimento do idealismo germânico, com a análise
marxista das condições daquele tempo na Alemanha, exposta
num estilo vivo, combativo que comove e convence o leitor.
Eis, como Engels caracterizava essas condições na Alemanha:
“Esta era uma massa em estado de putrefação, e que se cor-
rompia. Ninguém se sentia bem. Os ofícios, o comércio, a in-
dústria e a agricultura estavam reduzidos ao mínimo. Os cam-
poneses, os comerciantes e artesãos sofriam dupla opressão:
governo sanguinário e más condições para o comércio. A no-
breza e os príncipes achavam que seus lucros, apesar de que
todos eles arrancados de seus súditos, não deveriam diminuir
em face de suas despesas crescentes. Tudo era ruim e no país
dominava um descontentamento geral. Não havia instrução,
meios de influência sobre a inteligência das massas, liberdade
de imprensa, opinião pública, nem havia qualquer comércio
importante com outros países; em toda parte somente sujeira
e egoísmo, por consequência todo o povo foi impregnado por
Escritos Andrei Zhdanov

um espírito mercantil baixo servil e odioso; corrompia-se, va-


cilava, pronto para ruir; e não se poderiam esperar mudanças
benéficas, porque o povo já não possuía a força com que po-
deria varrer os cadáveres putrefatos das instituições mortas”
(K. Marx-F. Engels, Obras Compl, T. V, págs. 6-7, em russo).
Comparem esta caracterização de Engels, clara, pene-
trante, exata, profundamente científica, com a caracterização
que dá Alexandrov, e vereis como o camarada Alexandrov se
utiliza mal do material de inesgotável riqueza, que nos foi dei-
xado pelos fundadores do marxismo. Desse modo, o autor
não resolveu o problema da utilização do método materialista
para a exposição da história da filosofia, e isto tira do livro o
seu caráter científico e transforma-o, em considerável me-
dida, numa descrição biográfica dos filósofos e de seus siste-
mas filosóficos, considerados fora das condições históricas.
Isso resultou de ter o autor infringido o princípio do materia-
lismo histórico, que ensina: “É preciso investigar em detalhe
as condições de existência das diferentes formações sociais,
antes de tentar extrair delas as correspondentes concepções
políticas, de direito privado, estéticas, filosóficas, religiosas,
etc.” (Da carta de F. Engels a Schmidt, de 5 de agosto de 1890;
Marx e Engels, Cartas Escolhidas,1847, pág. 421).
Obscura e insuficientemente o autor formula também
os objetivos do estudo da história da filosofia. Em parte al-
guma do livro, o autor sublinha que um dos problemas fun-
damentais da filosofia e de sua história é o ulterior desenvol-
vimento da filosofia como ciência, o descobrimento de novas
leis de desenvolvimento, a verificação de suas teses na prá-
tica, a substituição das teses que se tornam caducas por no-
vas. O autor toma como ponto de partida, principalmente, a
significação pedagógica-educativa da história da filosofia; ba-
seia-se sobre os problemas instrutivo-culturais, para dar
Escritos Andrei Zhdanov

dessa forma a todo o estudo da história da filosofia um cará-


ter passivamente contemplativo, acadêmico. Isto, certamente,
não corresponde à definição marxista-leninista da ciência fi-
losófica, que, tal como qualquer outra ciência, deve ininter-
ruptamente desenvolver-se, aperfeiçoar-se e enriquecer-se
com novas teses, rejeitando as caducas. O autor, concen-
trando a sua atenção sobre o aspecto instrutivo do livro, com
isso limita O desenvolvimento da ciência, como se o mar-
xismo-leninismo já tivesse atingido o seu teto, donde o pro-
blema do desenvolvimento de nossa doutrina já não consti-
tuir a principal tarefa. Tal raciocínio contradiz o espírito do
marxismo-leninismo, visto que ele começa por apresentar o
marxismo metafisicamente, como doutrina acabada e com-
pleta, e isso só pode conduzir para ao esgotamento dos vivi-
dos e perquiridores pensamentos filosóficos.

As Relações Entre a Filosofia e as Ciências Naturais


Assim, vai completamente mal o problema do esclare-
cimento das questões do desenvolvimento das ciências natu-
rais. A história da filosofia, sem direta injúria ao espírito cien-
tífico, não se pode expor fora das ligações com as conquistas
das ciências naturais. O livro do camarada Alexandrov não dá
possibilidade de esclarecer, por força disso, as condições de
nascimento e desenvolvimento do materialismo científico,
que cresceu sobra o fundamento granítico das conquistas
contemporâneas das ciências naturais.
Expondo a história da filosofia, o camarada Alexandrov
conseguiu desligá-la da história das ciências naturais. É ca-
racterístico que, na introdução, onde expõe as bases da ori-
entação do livro, o autor, nem com uma palavra, se refere à
inter-relação da filosofia com as ciências naturais. Ele silencia
Escritos Andrei Zhdanov

sobre as ciências naturais mesmo quando isso pareceria com-


pletamente impossível. Assim, na pág. 9, o autor escreveu
“Lenin, em seus trabalhos, e particularmente no Materialismo
e Empiriocriticismo, elaborou de forma completa e impulsio-
nou bem para a frente essa doutrina marxista sobre a socie-
dade”. O camarada Alexandrov conseguiu, falando sobre o
Materialismo e Empiriocriticismo, passar por cima dos pro-
blemas das ciências naturais e das ligações com a filosofia.
Salta aos olhos a imensa pobreza, miserabilidade e ca-
ráter abstrato que caracterizam o nível das ciências naturais
deste ou daquele período. Sobre as ciências naturais deste ou
daquele período. Sobre as ciências naturais dos antigos gre-
gos, Alexandrov disse que, ao seu tempo, teve lugar “a germi-
nação da ciência sobre a natureza” (pág. 26); sobre o último
período da época da escolástica (XII-XIII' séculos), diz que
nele “apareceram muitas invenções e aperfeiçoamentos téc-
nicos” (Pág. 120).
No mesmo lugar, onde o autor tenta esclarecer as for-
mulações vagas, apresenta pouco coerente lista de descober-
tas; junto com isso, no livro, admite erros berrantes, que nos
surpreendem pelo que revelam de sua ignorância nas ques-
tões de ciências naturais. Que valor tem, por exemplo, a se-
guinte descrição do desenvolvimento da ciência na época da
Renascença: “O sábio Guéricke construiu sua famosa bomba
pneumática e demonstrou a existência da pressão atmosfé-
rica, que substitui, por si mesma, a ideia sobre o vácuo. Isso
foi provado praticamente, pela primeira vez, com as experiên-
cias das esferas de Magdeburgo. Pessoas houve, no trans-
curso dos séculos, que discutiram sobre onde encontrar-se o
“centro do mundo” e se era possível considerar o nosso pla-
neta como esse centro. Eis que, porém, no domínio da ciên-
cia, surge Copérnico e depois Galileu Galilei. Este prova a
Escritos Andrei Zhdanov

existência de manchas no sol e mudanças em suas posições.


Ele vê nisso e em outras descobertas a confirmação da dou-
trina de Copérnico sobre a contextura heliocêntrica do nosso
sistema solar. O barômetro ensinou às pessoas predizer o
tempo. O microscópio substituiu o sistema de hipóteses sobre
a vida dos organismos infinitamente pequenos e desempe-
nhou um grande papel no desenvolvimento da biologia. A
bússola ajudou a Colombo provar, experimentalmente, a es-
fericidade de nosso planeta.” (Pág. 135).
Aqui, quase que cada proposição é um absurdo. Como
podia a pressão atmosférica substituir a ideia sobre o vácuo:
será que a existência da atmosfera nega a existência do vá-
cuo? De que maneira o movimento de mancha no sol confir-
mou a doutrina de Copérnico? A ideia de que o barômetro
prediz o tempo, é uma das noções mais anticientífica. Infeliz-
mente, as pessoas, até agora, não sabem como conseguir pre-
ver o tempo, o que de todos vós sois bem conhecidos pela
experiência prática de nosso serviço de meteorologia. Mais
adiante. Será que o microscópio pode substituir o sistema de
hipóteses? E, afinal, o que significa a “esfericidade do nosso
planeta”? Até aqui, parecia-me, que esférico podia ser forma.
Pérolas semelhantes encontram-se a granel no livro do cama-
rada Alexandrov.
O autor, porém, admite também os mais essenciais er-
ros de princípio. Assim, ele considera (pág. 357) que o método
dialético teve as condições de seu surgimento criadas pelo
progresso das ciências naturais “já na segunda metade do sé-
culo XVIII”, Isto, radicalmente, contraria a conhecida tese de
Engels sobre isso, que o método dialético teve as condições
de seu surgimento criadas com a descoberta da constituição
celular do organismo, doutrina sobre a conservação e trans-
Escritos Andrei Zhdanov

formação da energia e doutrina de Darwin. Todas estas des-


cobertas ocorreram no XIX século. Partindo de sua falsa con-
cepção, o autor abre espaço, em seu livro, para a enumeração
das descobertas do século XVIII; fala muito sobre Galvani, La-
place, Layelle, mas com preferência às três grandes descober-
tas, indicadas por Engels, ele se limita ao seguinte: “Assim,
por exemplo, ainda durante a vida de Feuerbach, foi criada a
doutrina sobre a célula, a doutrina sobre a transformação da
energia e aparecia a teoria de Darwin sobre, a origem das es-
pécies por meio da seleção natural”. (Pág. 427).
Tais são as falhas fundamentais do livro. Eu me abs-
traio das falhas secundárias e particularidades, porque não
quero também repetir as muito preciosas observações críti-
cas, no sentido teórico e prático, que aqui foram feitas. A con-
clusão é a seguinte: o livro é ruim e necessita de uma revisão
radical. Mas a revisão do livro significa antes de tudo, a supe-
ração dos incorretos e confusos pontos de vista, que, eviden-
temente, são correntes no meio dos nossos filósofos, entre os
quais também se encontram os dirigentes. E aqui eu passo
para a segunda questão, a questão sobre a situação da nossa
frente filosófica.

Sobre a Situação da Nossa Frente Filosófica


O Livro do camarada Alexandrov recebeu a aprovação
da maioria de nossos trabalhadores filosóficos dirigentes, foi
indicado para o prêmio Stalin, recomendado como livro didá-
tico e mereceu numerosas apreciações elogiosas em revistas
e jornais. Isto significa que também outros trabalhadores fi-
losóficos, evidentemente, participam dos erros do camarada
Alexandrov. Revela, pois, que nem tudo vai bem em nossa
frente teórica.
Escritos Andrei Zhdanov

A circunstância do livro não ter provocado quaisquer


protestos significativos, exigiu a intervenção do Comitê Cen-
tral e pessoalmente a do camarada Stalin, para revelar as fa-
lhas do livro. Isto traduz não haver na frente filosófica a de-
senvolvida crítica e autocrítica bolcheviques. A ausência de
discussões criadoras da crítica e autocrítica, não puderam
deixar de repercutir de maneira prejudicial na elaboração dos
trabalhos filosóficos científicos. Todos sabem que a produção
filosófica é inteiramente insuficiente em quantidade e fraca na
qualidade. Monografias e artigos de filosofias são um fenô-
meno raro.
Aqui, muitos falaram sobre a necessidade de uma re-
vista filosófica. Há, no entanto, uma certa dúvida sobre a ne-
cessidade da criação de tal revista. Ainda não se apagou de
nossa memória a lamentável experiência da revista Sob a ban-
deira do marxismo. Parece-me que, no presente momento,
não são utilizadas, de forma completamente satisfatória, as
possibilidades de publicação de artigos e monografias origi-
nais.
O camarada Svietlóv disse aqui, que os leitores de Bol-
chevik absolutamente não estão capacitados para ler traba-
lhos teóricos especializados. Penso que isso é completamente
inexato e decorre de uma clara subestimação do alto nível dos
nossos leitores e de suas exigências. Tais opiniões, parece-
me, são resultantes da incompreensão do fato de absoluta-
mente não ser a nossa filosofia propriedade de pequenos gru-
pos de filósofos profissionais, mas sim propriedade de toda a
cultura soviética. Nos tempos pré-revolucionários, não havia
mal algum, de acordo, aliás, com as tradições, que as maçu-
das revistas russas progressistas, ao lado dos artigos artís-
tico-literários, publicassem também trabalhos científicos, en-
tre os quais, os de filosofia. Nossa revista Bolchevik, por todos
Escritos Andrei Zhdanov

motivos, possui muito mais público do que qualquer revista


filosófica e enclausurar o trabalho criador dos nossos filóso-
fos nas revistas especializadas em filosofia, parece-me, repre-
sentaria uma ameaça de estreitamento da base de nosso tra-
balho filosófico. Peço que não me julguem como adversário
da revista, porém, parece-me que a escassez de trabalhos fi-
losóficos, em nossas volumosas revistas e no Bolchevik, re-
vela a necessidade de se iniciar, antes de mais nada, a supe-
ração dessa falha, utilizando-nos, a princípio, das nossas vo-
lumosas revistas e do Bolchevik, onde (especialmente, nas vo-
lumosas revistas), de tempos em tempos, ainda agora, apare-
cem artigos de caráter filosófico, que apresentam, sem dú-
vida, interesse científico e social.
Também é anêmica a temática da nossa instituição fi-
losófica dirigente, isto é, do Instituto de Filosofia da Academia
de Ciências e do professorado, etc. O Instituto de Filosofia, na
minha opinião, apresenta um quadro bastante desolador: não
une os trabalhadores da periferia, não está ligado a eles, e por
isso não é uma instituição de caráter nacional. Os filósofos da
província são abandonados a si mesmos, embora eles repre-
sentem, como sabeis, grande força não utilizada, para pesar
nosso. A temática dos trabalhos filosóficos, entre os quais se
incluem também trabalhos de concurso para a obtenção de
graus científicos, está voltada para o passado, para assuntos
históricos inexpressivos e de nenhuma responsabilidade,
como, por exemplo: “A heresia de Copérnico no passado e no
presente”. Isto conduz a um certo renascimento da escolás-
tica. Deste ponto de vista, parece-nos estranho tenha havido
aqui discussão sobre Hegel. Os participantes dessa discussão
quiseram forçar a porta aberta. A questão sobre Hegel há
muito já foi resolvida. Para revivê-la não existe qualquer fun-
Escritos Andrei Zhdanov

damento, nenhum novo material, além dos que já foram apre-


sentados e apreciados. A própria discussão séria desaponta-
damente escolástica e dela resultaria tão pouca cousa como
a seu tempo a escolástica não esclareceu as questões sobre o
direito de se persignar com dois ou três dedos... ou sobre se
Deus pode criar uma pedra, que não possa levantar, e também
a de se a mãe de Deus foi ou não virgem. Os problemas con-
temporâneos, de atualidade, quase não foram analisados.
Tudo isto, em conjunto, é cheio de grandes perigos, muito
maiores do que imaginais. E o maior perigo consiste em que
algum de vós já se acostumaram com essas falhas.

Conduzir nossa Ciência para a Frente


No trabalho filosófico não se percebe espírito de luta e
tampouco o espírito peculiar dos “tempos bolcheviques”. A
respeito, algumas teses errôneas do livro são um eco do
atraso em toda a frente filosófica e por isso não podemos con-
siderá-las como um fato casual, isolado, mas sim como re-
flexo de um fenômeno geral. Aqui, frequentemente, se usa a
expressão “frente filosófica”. Mas onde se encontra, propria-
mente falando, essa frente? A frente filosófica absolutamente
não é semelhante à ideia que fazemos de uma frente. Quando
se fala sobre uma frente filosófica, imediatamente, por asso-
ciação, surge a ideia de um organizado destacamento de filó-
sofos militantes, perfeitamente armados com a teoria mar-
xista, que dirige uma decisiva ofensiva contra a ideologia ini-
miga no estrangeiro, contra as sobrevivências da ideologia
burguesa na consciência da unidade soviética, no interior de
nosso país; que impulsiona incansavelmente para a frente à
nossa ciência; que arma os trabalhadores da sociedade soci-
alista com a consciência da justeza do rumo do desenvolvi-
Escritos Andrei Zhdanov

mento da nossa sociedade e da certeza, cientificamente fun-


damentada, da final vitória de nossa causa. Será que a nossa
frente filosófica se parece com uma verdadeira frente? Ela
mais depressa nos lembra uma tranquila represa ou bivaque
situado em algum lugar, longe do campo da luta. O campo de
batalha ainda não foi ocupado, tampouco foi tomado contato
com os adversários, e o reconhecimento não foi realizado; as
armas se enferrujam, os combatentes lutam por sua própria
conta e risco, e os comandos ou se embriagam com as vitórias
passadas, ou discutem se possuirão bastante forças para a
ofensiva ou se não precisarão pedir auxílio de fora; também
discutem sobre tema de quanto pode a consciência atrasar-se
da realidade da vida, e com isso pretendem provar que não
estão demais atrasados.
E, entretanto, nosso Partido precisa extremamente da
elevação dos trabalhos filosóficos. As rápidas mudanças que
todo dia se verificam na nossa vida socialista, não são gene-
ralizadas pelos nossos filósofos, não são estudadas e justifi-
cadas do ponto de vista da dialética marxista. E por isso
mesmo dificultam as condições para o futuro desenvolvi-
mento da nossa ciência filosófica. A situação se apresenta de
tal modo que o desenvolvimento do pensamento filosófico se
realiza, em considerável medida, apesar dos nossos filósofos
profissionais. Isto é completamente inadmissível.
Certamente, a causa do atraso na frente filosófica não
está ligada a qualquer condição objetiva. As condições objeti-
vas são favoráveis como nunca; o material, que aguarda uma
análise e generalização científicas, é ilimitado. As causas do
atraso na frente filosófica, precisamos procurá-las nos domí-
nios do subjetivo. Essas causas fundamentais são justamente
aquelas que indicou o CC, ao analisar o atraso em outros se-
tores da frente ideológica.
Escritos Andrei Zhdanov

Como vos lembrais, as conhecidas decisões do CC so-


bre as questões ideológicas foram dirigidas contra a falta de
ideologia e o apoliticismo na literatura e nas artes; contra os
que se afastam da temática contemporânea e se volvem para
o passado; contra a admiração em face de todo que é estran-
geiro; e a favor do partidarismo bolchevique combativo na li-
teratura e na arte. É sabido que muitos destacamentos de tra-
balhadores de nossa frente ideológica já chegaram a conclu-
sões apropriadas, apoiados nas decisões do CC, por esse ca-
minho já alcançaram sucessos consideráveis.
Não obstante, nossos filósofos profissionais se atrasa-
ram. Evidentemente, não prestam atenção à falta de princí-
pios e de ideologia no trabalho filosófico, ao desprezo pela
temática contemporânea, ao servilismo e à bajulação em face
da filosofia burguesa. Eles, evidentemente, imaginam que a
viragem na frente ideológica não os atinge. Agora, todos veem
que essa viragem é necessária e dela precisam participar.
Sobre o fato da frente filosófica não se encontrar nas
primeiras linhas do trabalho ideológico, também cabe consi-
derável parte de culpa ao camarada Alexandrov. Ele não pos-
sui, para pesar nosso, uma capacidade crítica e penetrante
para revelar as falhas do trabalho. Ele claramente superestima
suas próprias forças, não se apoiando na experiência e conhe-
cimento dos grandes conjuntos de filósofos. Mais que isso,
ele apoia demais o seu trabalho no estreito círculo dos mais
íntimos colaboradores, também admiradores de seu talento.
A atividade filosófica acabou sendo monopolizada nas mãos
de pequeno grupo de filósofos, mas a maior parte dos filóso-
fos, especialmente os da província, não foi atraída para o tra-
balho dirigente. Dessa forma, foi prejudicada a justa inter-re-
lação entre os filósofos.
Escritos Andrei Zhdanov

Agora, todos veem, que a elaboração de trabalhos


como um livro de história da filosofia não é tarefa para um só
homem, e que o camarada Alexandrov deveria inicialmente
atrair para o trabalho largo conjunto de autores, isto é, espe-
cialistas em materialismo dialético, especialistas em materia-
lismo histórico, historiadores, naturalistas e economistas. O
camarada Alexandrov escolheu um caminho errado para a
elaboração do livro, não se apoiando sobre largo círculo de
pessoas capacitadas. É indispensável corrigir esse erro. Os
conhecimentos filosóficos são, certamente, entre nós, propri-
edade de grandes círculos de filósofos soviéticos. O método
de atração do maior número de autores para a elaboração do
livro de filosofia, agora, aplica-se plenamente para a redação
de um livro de economia política, que deve ficar pronto no
mais curto espaço de tempo e para o trabalho de sua redação
devem ser atraídos largos círculos não somente de economis-
tas, mas também de historiadores e filósofos. Tal método de
elaboração é o mais promissor. Ele implica também uma ou-
tra ideia, a de I reunir os esforços dos vários destacamentos
de trabalhadores ideológicos, no presente insatisfatoriamente
ligados entre si, para a solução dos grandes problemas, que
têm uma significação científica geral. Cumprir-se-á também o
objetivo de pôr esse meio organizar a interação entre os tra-
balhadores dos diversos ramos ideológicos, a fim de impulsi-
onar para a frente a ciência em geral, não cada um por sua
própria conta, ineficientemente, mas por meio de um con-
junto de trabalhadores, de um modo organizado e firme, e,
por consequência, com as maiores garantias de êxito.
Escritos Andrei Zhdanov

A Crítica e Autocrítica, Forma Particular de luta entre o


Velho e o Novo
Onde, então, se encontram as raízes dos erros subjeti-
vos de numerosos dirigentes dos trabalhos da frente filosó-
fica? Por que aqui, na discussão, representantes da velha ge-
ração de filósofos lançaram justa reprovação a alguns moços,
a propósito de sua prematura senilidade e de sua falta de
combatividade, agressividade. A resposta a esta questão im-
põe-se, e só pode ser uma: o insatisfatório conhecimento das
bases do marxismo-leninismo e a presença de remanescentes
influências da ideologia burguesa. Isto revela também que
muitos dos nossos trabalhadores ainda não compreenderam
que o marxismo-leninismo é doutrina viva e criadora, que
ininterruptamente se desenvolve, que ininterruptamente se
enriquece à base da experiência da construção socialista e das
conquistas das ciências naturais contemporâneas. Tal subes-
timação desse vívido e revolucionário lado de nossa doutrina
não pode levar-nos senão ao rebaixamento da filosofia e de
seu papel. Justamente nas falhas do espírito combativo e
agressivo se devem procurar as causas do medo de alguns dos
nossos filósofos experimentarem a sua capacidade em novas
questões – nas questões contemporâneas, na solução dos
problemas que diariamente a prática põe diante dos filósofos
e para as quais a filosofia está obrigada a dar resposta. Já é
tempo de mais audaciosamente impulsionar para a frente à
teoria da sociedade soviética, a teoria do Estado soviético, a
teoria das ciências naturais contemporâneas, da ética e da es-
tética. É preciso acabar com a covardia não bolchevique. Ad-
mitir a estagnação no desenvolvimento da teoria – isto signi-
fica secar a nossa filosofia, privá-la da sua característica mais
preciosa – que é a sua capacidade para o desenvolvimento,
transformando-a em morto e seco dogma. A questão sobre a
Escritos Andrei Zhdanov

crítica e autocrítica bolchevique é para os nossos filósofos


não somente uma questão prática, mas também profunda-
mente teórica.
Se o conteúdo do processo de desenvolvimento, como
nos ensina a dialética, é a luta dos contrários, luta entre o
velho e o novo, entre o que está fenecendo e o que está nas-
cendo, entre o que morre e o que se desenvolve, então a nossa
filosofia soviética precisa mostrar como age esta lei dialética
nas condições da sociedade socialista e em que consiste a ori-
ginalidade de sua aplicação. Sabemos que na sociedade divi-
dida em classe esta lei age diferentemente da forma por que
age em nossa sociedade soviética. Eis onde se encontra o
mais largo campo para a investigação científica, e este campo
nenhum dos nossos filósofos palmilhou. Entretanto, o nosso
partido já há muito achou e colocou a serviço do socialismo
a forma particular de descobrimento e superação das contra-
dições da sociedade socialista (e essas contradições existem,
e sobre elas os nossos filósofos não querem escrever por co-
vardia, e essa forma particular da luta entre e velho e o novo,
entre o que morre e o que nasce, entre nós, na sociedade so-
viética, é o que se chama de crítica e autocrítica.
Marx disse que os filósofos antecessores somente in-
terpretaram o mundo, mas que no presente trata-se é de
transformá-lo. Substituímos o velho mundo e construímos o
novo, mas os nossos filósofos, para pesar nosso, insatisfato-
riamente interpretam este novo mundo, e ainda insatisfatori-
amente participam de sua transformação. Aqui, vimos algu-
mas tentativas, por assim dizer, de “teoricamente” interpretar
as causas deste atraso. Falou-se aqui, por exemplo, sobre
isso, que os filósofos demasiadamente se detiveram na fase
de comentários, por força do que, no tempo próprio, não pas-
Escritos Andrei Zhdanov

saram para o período de realizações. Esta interpretação cer-


tamente tem um aspecto elevado, mas pouco convincente.
Por certo, o trabalho criador dos filósofos precisa ser no pre-
sente a pedra angular de todo trabalho, mas isto não significa
que precise ser um trabalho de especial erudição, para um cír-
culo fechado, mas sim de vulgarização. Dele também precisa
participar o nosso povo.

Contra a Ideologia Podre da Burguesia


É preciso apressar-se em compensar o tempo perdido.
Os problemas não esperam. Conquistando brilhante vitória na
grande guerra patriótica, que também é brilhante vitória do
marxismo, o socialismo ficou como um osso na garganta dos
imperialistas. O Centro da luta contra o marxismo transpor-
tou-se na atualidade para a América e Inglaterra. Todas as
forças do obscurantismo e da reação estão postas agora a ser-
viço da luta contra o marxismo. De novo já trouxeram à luz e
foram aceitas como armas da filosofia burguesa estes instru-
mentos da democracia atômica e do dólar, as armaduras já
gastas do obscurantismo e clericalismo: o Vaticano e as teo-
rias racistas; o nacionalismo selvagem e a caduca filosofia
idealista; a corrupta imprensa amarela e a podre arte bur-
guesa. Mas a força, evidentemente, é insuficiente. Sob a ban-
deira de luta “ideológica”, luta contra o marxismo, recrutam
agora também as suas últimas reservas. São atraídos os
gangsters, cafetões, espiões e criminosos. Tomarei, ao acaso,
um exemplo recente. Como informou há poucos dias Izvestia,
na revista Tempos Modernos, que está sob a direção do exis-
tencialista Sartre, é exaltado como uma revelação o novo livro
do escritor Jean Genêt, “Diário de um ladrão”, que começa
com estas palavras: “A traição, a roubalheira e a homossexu-
alidade – tais serão os meus temas fundamentais. Existe uma
Escritos Andrei Zhdanov

ligação orgânica entre a minha atração pela traição, para a


ocupação com roubalheiras e minhas aventuras amorosas”.
O autor, evidentemente, conhece o seu assunto. As pe-
ças de teatro deste Jean Genêt, largamente anunciadas, per-
manecem na cena parisiense e o próprio Genêt foi chamado
insistentemente à América. Tal a “última palavra”, da filosofia
burguesa. Já é conhecido, pela experiência da nossa vitória
sobre o fascismo, a que impasse foram levados povos inteiros
pela filosofia idealista. Agora, ela apareceu com sua nova na-
tureza, abominavelmente suja, que reflete toda a profunda in-
dignidade e baixeza do desmoronamento da burguesia. Cafe-
tões e criminosos elevados à categoria de filósofos são real-
mente a expressão extrema da ruína e corrupção da burgue-
sia. Essas forças, contudo, ainda “estão vivas e são capazes
de envenenar a consciência das massas.
A ciência burguesa contemporânea fornece ao clerica-
lismo, ao fideísmo, nova argumentação, que precisa ser im-
placavelmente desmascarada. Tomemos, por exemplo, a dou-
trina do astrônomo inglês Eddington sobre as constantes fí-
sicas do mundo, que diretamente o conduz à mística pitagó-
rica dos números e, das suas fórmulas matemáticas, conclui
tais “constantes essenciais” do mundo, como o apocalíptico
número 666, etc. Não compreendendo a marcha dialética do
conhecimento, a inter-relação das verdades absoluta e rela-
tiva, muitos continuadores de Einstein, transferindo certa-
mente os resultados das investigações das leis do movimento
de uma parte limitada e finita do universo para todo o uni-
verso infinito, chegam até à ideia de que o mundo é finito, até
à sua limitação no tempo e no espaço. O astrônomo Milne até
“calculou” que o mundo foi criado já há 2 bilhões de anos.
Para esse sábio inglês são aplicáveis, quiçá, as palavras de seu
grande compatriota, o filósofo Bacon, sobre aqueles que
Escritos Andrei Zhdanov

transformam a impotência de sua ciência em calúnia contra a


natureza.
Igualmente, as manobras kantianas dos físicos atômi-
cos da burguesia contemporânea, conduze-os à conclusão ló-
gica sobre o “livre arbítrio” no eletrônico, às tentativas de in-
terpretar a matéria tão somente como um conjunto de ondas,
com o diabo a quatro. Aí há um campo colossal para a ativi-
dade dos nossos filósofos, que devem analisar e generalizar
as conquistas das ciências naturais contemporâneas, lem-
brando-se da indicação de Engels, de que o materialismo
“deve se modificar segundo toda nova grande descoberta, que
marque época nas ciências naturais.” (Engels – Ludwig Feuer-
bach, K. Marx e F. Engels, Obr. Compl. T. XIV, pág. 647). A
quem, então, cabe essa tarefa, senão a nós, do país em que
venceram o marxismo e seus filósofos, de estar à frente na
luta contra a putrefata e nojenta ideologia burguesa; a quem
cabe essa tarefa, senão a nós, de desfechar golpes destruido-
res!

A Vitória do Marxismo
Das cinzas da guerra nasceram novos estados demo-
cráticos e o movimento de libertação nacional dos povos co-
loniais. O socialismo se impôs na ordem do dia da vida dos
povos. A quem cabe a tarefa, senão a nós, do país em que
venceram o socialismo e seus filósofos, de ajudar os nossos
amigos e irmãos do estrangeiro e esclarecê-los na sua luta
pela nova sociedade à luz do conhecimento do socialismo ci-
entífico; a quem, senão a nós, cabe a tarefa de esclarecê-los e
equipá-los com as armas ideológicas do marxismo!
No nosso país, realiza-se um poderoso florescimento
da cultura e economia socialistas. O seguro crescimento da
consciência socialista das massas apresenta sempre mais e
Escritos Andrei Zhdanov

mais exigências para o nosso trabalho ideológico. Realiza-se


um desenvolvido ataque contra as sobrevivências do capita-
lismo na consciência dos homens. A quem, senão aos nossos
filósofos, caberia tarefa de estar à frente das fileiras de traba-
lhadores da frente ideológica, de aplicar totalmente a teoria
marxista do conhecimento na generalização da imensa expe-
riência da construção socialista e nas decisivas e novas tare-
fas do socialismo!
Em face desses magnos problemas, poder-se-ia per-
guntar: são os nossos filósofos capazes de assumir a respon-
sabilidade de novas tarefas; existirá ainda bastante energia
entre os nossos filósofos; não se enfraqueceram ainda. As for-
ças filosóficas, serão ainda capazes os nossos quadros filosó-
ficos científicos, por meio de suas forças internas, de superar
as falhas de seu desenvolvimento e reconstruir de novo o seu
trabalho? Nesta questão não podem haver duas opiniões. A
discussão filosófica mostrou que essas são importantes, que
essas forças são capazes de revelar as suas falhas para su-
perá-las. É preciso apenas mais fé em suas próprias forças,
mais emprego dessas forças nos ativos combates, no levanta-
mento e soluções dos empolgantes problemas contemporâ-
neos.
É preciso acabar com a falta de espírito de luta, ter di-
namismo no trabalho; expulsar de si o caduco Adão e começar
a trabalhar como trabalhavam Marx, Engels, Lenin, como tra-
balha Stalin. Camaradas, vós vos lembrais como Engels, em
seu tempo, rejubilava-se e assinalava como importante acon-
tecimento político, de imensa significação, a venda dos livros
marxistas, cujas tiragens eram de 2 a 3.000 exemplares. Disto
se conclui que para o nosso estalão, já é insignificante tal
venda, da qual Engels deduzira que a filosofia marxista se ha-
via enraizado profundamente na classe operária. E que dizer
Escritos Andrei Zhdanov

sobre a penetração da filosofia marxista nas largas camadas


do nosso povo e que diriam Marx e Engels se eles soubessem
que os trabalhos filosóficos, entre nós, se propagam pelo
povo em dezenas de milhões de exemplares? Está a verda-
deira vitória do marxismo e isto é testemunha de que a magna
doutrina de Marx-Engels-Lenin-Stalin, tornou-se, entre nós,
a doutrina de todo o povo e sobre essa base fundamental, de
que não há igual no inundo, deve florescer a nossa filosofia.
Sede dignos de nossa época – época de Lenin-Stalin, época
do nosso povo, povo vitorioso!

Intervenção no debate, realizado em Moscou em 1947,


sobre o livro de Alexandrov, “História da Filosofia”.
Publicado na revista Problemas nº. 7 - fevereiro de 1948.
Escritos Andrei Zhdanov

Pela Paz, a Democracia e a


Independência dos Povos

A Situação Mundial Após a Guerra


O Fim da Segunda Guerra Mundial trouxe modifica-
ções essenciais no conjunto da situação mundial. A derrota
militar do bloco dos Estados fascistas, o caráter de libertação
antifascista da guerra, a parte decisiva desempenhada pela
URSS na vitória sobre os agressores fascistas, tudo isto mo-
dificou profundamente a correlação de forças entre os dois
sistemas – socialista e capitalista – em favor do socialismo.
Em que consistem estas modificações? O resultado
principal da segunda guerra consiste na derrota militar da
Alemanha e do Japão, os dois países capitalistas mais milita-
ristas e mais agressivos. Os elementos reacionários imperia-
listas do mundo inteiro, particularmente na Inglaterra, nos
Estados Unidos da América do Norte e na França, haviam de-
positado particulares esperanças Alemanha e no Japão, e so-
bretudo na Alemanha hitleriana, em primeiro lugar, como a
potência mais capaz de desferir um golpe tal sobre a União
Soviética que pudesse em qualquer caso debilitá-la e minar a
sua influência, senão esmagá-la, e em segundo lugar, como
força capaz na própria Alemanha e em todos os países que
foram objeto da agressão hitleriana de esmagar o movimento
operário revolucionário e democrático e consolidar a situação
geral do capitalismo. Isso foi uma das causas principais da
chamada política de Munique, antes da guerra, política de
“Distensão” e de encorajamento à agressão fascista, conse-
quentemente conduzida pelos círculos imperialistas dirigen-
tes da Inglaterra, da França e dos Estados Unidos.
Escritos Andrei Zhdanov

Todavia, as esperanças que os imperialistas anglo-


franco-americanos haviam depositado nos hitlerianos não se
realizaram. Os hitlerianos mostraram-se mais débeis, e a
União Soviética e os povos amantes da liberdade mais fortes
do que poderiam supor os homens de Munique. Como resul-
tado da Segunda Guerra Mundial, as principais forças da rea-
ção fascista internacional, foram derrotadas e postas, por
muito tempo, fora de combate.
Em consequência, o sistema capitalista mundial, no
seu conjunto, sofreu um novo e sério golpe. Se o resultado
mais importante da primeira guerra mundial foi a ruptura da
frente imperialista e o afastamento da Rússia do sistema
mundial do capitalismo, e se, em seguido à vitória do regime
socialista na URSS, o capitalismo deixou de ser o sistema uni-
versal único da economia mundial, na Segunda Guerra Mun-
dial, a derrota do fascismo, a debilidade das posições mundi-
ais do capitalismo e o reforço do movimento antifascista le-
varam uma série de países da Europa Central e da Europa sul-
oriental ao afastamento do sistema imperialista. Novos regi-
mes populares e democráticos surgiram nesses países.
O grande exemplo da guerra patriótica da União Sovi-
ética e a função libertadora do Exército Soviético uniram-se
ao impulso da luta de massa pela libertação nacional dos po-
vos amantes da liberdade contra os invasores fascistas e os
seus cúmplices. No curso dessa luta, foram desmascarados,
como traidores dos interesses nacionais, os elementos filo-
fascistas que haviam colaborado com Hitler, e os colaboraci-
onistas, isto é, os grandes capitalistas mais poderosos, os
grandes latifundiários, os altos funcionários, os oficiais mo-
narquistas. A libertação da escravidão alemã e fascista foi
acompanhada, nos países danubianos, de uma parte, pela eli-
minação do poder, da camada superior da burguesia e dos
Escritos Andrei Zhdanov

grandes proprietários territoriais, comprometidos pela sua


colaboração com o fascismo alemão, e, de outra parte, pela
chegada ao poder de novas forças do povo, que haviam feito
a sua prova durante a luta contra os opressores hitlerianos.
Nesses países, atingiram ao poder os representantes dos ope-
rários, dos camponeses, dos intelectuais progressistas e uma
vez que a classe operária manifestou por toda a parte o maior
heroísmo, a maior coerência e intransigência na luta antifas-
cista, sua autoridade e influência, no seio do povo, aumenta-
ram enormemente.
O novo poder democrático na Iugoslávia, na Bulgária,
na Romênia, na Polônia, na Checoslováquia, na Hungria e na
Albânia, alicerçando-se sobre o apoio das massas, conseguiu
realizar, em breve tempo, transformações democráticas pro-
gressivas tais, que a burguesia não seria capaz de levar a
efeito. A reforma agrária deu a terra aos camponeses e levou
a liquidação da classe dos grandes latifundiários. A naciona-
lização da grande indústria, dos bancos e o confisco da pro-
priedade dos traidores que haviam colaborado com os ale-
mães, extirparam nesses países, de modo radical, as posições
do capital monopolista, e libertaram as massas da servidão
imperialista. Ao mesmo tempo, foram lançados os fundamen-
tos da propriedade do Estado de todo o povo, foi criado um
novo tipo de Estado – a República Popular – em que o poder
pertence ao povo, em que a grande indústria, os transportes
e os bancos pertencem ao Estado e em que a força dirigente
é constituída pelo bloco das classes trabalhadoras da popula-
ção, tendo à sua frente a classe operária. Em conclusão, os
povos desses países não apenas se libertaram da opressão
imperialista, mas eles também estão construindo a base para
passar ao caminho do desenvolvimento socialista.
Escritos Andrei Zhdanov

Como resultado da guerra, aumentaram em medida in-


comparável a importância internacional e a autoridade da
URSS. A URSS foi a força dirigente e a alma do esmagamento
militar da Alemanha e do Japão. Em torno da URSS, reuniram-
se as forças democráticas progressistas do mundo inteiro. O
Estado socialista superou a terrível prova da guerra, e saiu
vitorioso do conflito mortal com o mais forte dos inimigos. A
União Soviética saiu da guerra, não debilitada, mas reforçada
também o aspecto do mundo capitalista mudou de modo
substancial. Das seis chamadas grandes potências imperialis-
tas (Alemanha, Japão, Inglaterra, Estados Unidos, França, Itá-
lia), três foram eliminadas em consequência da sua derrota
militar (Alemanha, Itália e Japão). Também a França foi debi-
litada e perdeu a sua antiga importância como grande potên-
cia. Deste modo, restaram somente duas “grandes” potências
imperialistas mundiais – os EUA e a Inglaterra; mas as posi-
ções de um desses países, a Inglaterra, foram abaladas. Du-
rante a guerra, o imperialismo inglês apareceu debilitado mi-
litar e politicamente. Na Europa, a Inglaterra demonstrou-se
impotente diante da agressão alemã. Na Ásia, a Inglaterra –
grande potência imperialista – não conseguiu, com suas pró-
prias forças, salvaguardar os seus domínios coloniais.
Perdidos, temporariamente, os laços com as colônias,
as quais abasteciam a metrópole de gêneros alimentícios e de
matérias primas e absorviam uma parte considerável da sua
produção industrial, a Inglaterra encontrou-se na dependên-
cia, econômica e militarmente, dos fornecimentos industriais
e alimentares dos Estados Unidos e, depois da guerra, nota-
se que aumentou a dependência econômica e financeira da
Inglaterra, com relação aos Estados Unidos. Terminada a
guerra, a Inglaterra pôde ainda recuperar as suas colônias,
mas teve de se chocar contra uma mais forte influência do
Escritos Andrei Zhdanov

imperialismo norte-americano nas colônias, o qual desenvol-


veu a sua atividade, durante a guerra, em todas as zonas, que
antes eram consideradas esferas de influências monopolistas
do capital inglês (Oriente árabe, Ásia do Sudeste). Foi refor-
çada a influência dos Estados Unidos nos territórios do Impé-
rio britânico e da América do Sul, onde a parte possuída há
tempos pela Inglaterra, passa em medida sempre mais consi-
derável às mãos dos Estados Unidos.
A crise do sistema colonial, que se acentuou em con-
sequência da II Guerra Mundial, manifesta-se no potente im-
pulso do movimento de libertação nacional nas colônias e nos
países dependentes. Deste modo, acham-se ameaçadas as re-
taguardas do sistema capitalista. Os povos das colônias não
querem mais viver como antes. As classes dirigentes das me-
trópoles não podem mais governar as colônias como antes.
As tentativas para esmagar o movimento de libertação nacio-
nal com a força militar chocam-se, agora, contra a crescente
resistência armada dos povos das colônias e desencadeiam
guerras coloniais de grande duração (Holanda-Indonésia;
França-Vietnã).
A guerra, surgida do desenvolvimento desigual do ca-
pitalismo nos diversos países, levou a uma nova acentuação
desta desigualdade de desenvolvimento. De todas as potên-
cias capitalistas, uma só – os Estados Unidos da América do
Norte – saiu da guerra sem ter sido debilitada, mas conside-
ravelmente reforçada, econômica e militarmente. Os capita-
listas americanos enriqueceram-se abundantemente com a
guerra. Ao mesmo tempo, o povo americano não sofreu as
privações derivadas da guerra, nem o jugo da ocupação, nem
os bombardeios aéreos, e as vítimas humanas dos Estados
Unidos, em confronto com as dos outros países, não foram
numerosas, tendo os Estados Unidos tomado parte, de fato,
Escritos Andrei Zhdanov

apenas da última fase da guerra, quando a sua sorte já estava


decidida. Para os Estados Unidos, a guerra serviu sobretudo
como impulso a um vasto desenvolvimento da produção in-
dustrial e ao reforço decisivo da exportação (principalmente
para a Europa).
O término da guerra colocou diante dos Estados Uni-
dos uma série de novos problemas. Os monopólios capitalis-
tas esforçaram-se para manter o nível elevado dos lucros atin-
gidos durante a guerra. Com este escopo, procuraram fazer
com que o volume das encomendas do tempo de guerra não
fosse reduzido. Para alcançar este objetivo era, porém, neces-
sário que os Estados Unidos conservassem todos os merca-
dos exteriores que absorviam durante a guerra à produção
americana e que conquistassem novos mercados, uma vez
que, no pós-guerra, a capacidade de aquisição da maioria dos
países diminuiu nitidamente. Também aumentou a depen-
dência financeiro-econômica destes países com relação aos
Estados Unidos. Os Estados Unidos colocaram, no exterior,
créditos num total de 19 bilhões de dólares, exclusive os in-
vestimentos no Banco Internacional e no fundo internacional
de divisas. Os principais concorrentes dos Estados Unidos – a
Alemanha e o Japão – desapareceram do mercado mundial,
circunstância esta que criou novas e vastas possibilidades
para os Estados Unidos.
Se antes da II Guerra Mundial, os círculos reacionários
mais influentes do imperialismo americano seguiam uma po-
lítica isolacionista e se abstinham de intervir ativamente nos
negócios da Europa e da Ásia, nas novas condições do pós-
guerra os patrões da Wall Street seguem uma outra política.
Eles traçaram um programa de utilização de toda a potência
militar e econômica americana, não somente para conservar
e consolidar as posições conquistadas no exterior durante a
Escritos Andrei Zhdanov

guerra, mas também para estendê-las ao máximo, tomando,


no mercado mundial, o lugar da Alemanha, do Japão e da Itá-
lia. A enorme debilidade da potência econômica dos Estados
capitalistas criou a possibilidade de explorar, com o escopo
de especulação, dificuldades econômicas do pós-guerra, uma
vez que estas tornam mais fácil a submissão deles ao controle
dos Estados Unidos. Em particular, criou-se a possibilidade
de utilizar as dificuldades econômicas da Grã-Bretanha, no
pós-guerra. Os Estados Unidos adotaram um novo caminho,
abertamente conquistador e expansionista.
O objetivo visado pela nova orientação abertamente
expansionista dos Estados Unidos é o de estabelecer o domí-
nio mundial do imperialismo americano. Com o fim de con-
solidar a situação de monopólio dos Estados Unidos sobre os
mercados, que se criaram em seguida ao desaparecimento
dos seus maiores concorrentes, – a Alemanha e o Japão – e
com o fim de debilitar os seus sócios capitalistas – a Inglaterra
e a França – o novo curso da política norte-americana se
funda sobre um vasto programa de medidas de ordem militar,
econômica e política, as quais tendem a estabelecer em todos
os países objetos de sua expansão o domínio político e eco-
nômico dos próprios Estados Unidos, reduzindo esses países
à condição de satélites daquele país, impondo-lhes regimes
internos tais, que afastem todo obstáculo oposto pelo movi-
mento operário democrático à exploração patrocinada pelo
capital americano. Este novo objetivo da sua política, os Es-
tados Unidos buscam estendê-lo, atualmente, não apenas aos
inimigos de ontem e aos Estados neutros, mas, também em
grau sempre maior, aos seus aliados durante a guerra.
Uma atenção especial tem sido dirigida à exploração
das dificuldades econômicas da Inglaterra, aliada e em igual
Escritos Andrei Zhdanov

tempo rival de longa data e concorrente capitalista dos Esta-


dos Unidos. O plano expansionista americano tem como
ponto de partida a consideração de que, não só não é neces-
sário aliviar o peso da dependência econômica com relação
aos Estados Unidos, na qual a Inglaterra caiu durante a
guerra, mas, ao contrário, reforçar a pressão sobre a Ingla-
terra, a fim de arrancar-lhe, pouco a pouco, o controle sobre
as colônias, expulsá-lo de suas esferas de influências e re-
duzi-la à condição de potência vassala.
Assim, a nova política dos Estados Unidos tende a con-
solidar sua posição de monopólio e a submeter e colocar sob
sua dependência os seus sócios capitalistas. Mas, no caminho
das suas aspirações ao domínio mundial, os Estados Unidos
chocam-se contra a URSS e sua crescente influência interna-
cional como bastião da política anti-imperialista e antifas-
cista, chocam-se contra os países da nova democracia, já li-
bertos do controle do imperialismo anglo-americano, cho-
cam-se contra os operários de todos os países, inclusive os
da própria América, que não querem novas guerras para o re-
forço dos seus próprios opressores. Por isso, o novo plano
expansionista e reacionário da política dos Estados Unidos
visa a luta contra a URSS, contra os países da nova democra-
cia, contra o movimento operário dos Estados Unidos, contra
as forças anti-imperialistas de libertação em todos os países.
Os reacionários americanos, inquietos pelos êxitos do
socialismo na URSS, pelos sucessos dos países da nova de-
mocracia e pelo desenvolvimento do movimento operário de-
mocrático em todos os países do mundo, após a guerra, estão
inclinados a se incumbir da tarefa de “salvadores” do sistema
capitalista, ameaçado pelo comunismo.
Escritos Andrei Zhdanov

Deste modo, o programa claramente expansionista


dos Estados Unidos lembra, extraordinariamente, o fracas-
sado programa de aventura dos agressores fascistas os quais
também, como é sabido, pretendiam o domínio sobre todo o
mundo. Assim como os hitlerianos, enquanto preparavam as
suas agressões predatórias, para se assegurarem da possibi-
lidade de oprimir e escravizar todos os povos, e em primeiro
lugar o seu próprio povo, cobriam-se com a máscara do anti-
comunismo, da mesma maneira os hodiernos círculos diri-
gentes dos Estados Unidos tentam mascarar a sua política de
expansão e até mesmo a sua ofensiva contra os interesses vi-
tais dos seus concorrentes imperialistas tornados mais débeis
(Inglaterra), com os objetivos de uma suposta defesa antico-
munista. A corrida febril dos armamentos, a construção de
novas bases bélicas e a criação de pontos de apoio para as
forças armadas americanas em todas as partes do mundo, são
apresentadas com farisaica hipocrisia como medidas de “de-
fesa” contra uma imaginária ameaça militar pela URSS. A di-
plomacia americana, que opera com os métodos da intimida-
ção da corrupção e da chantagem, arranca facilmente aos ou-
tros países capitalistas, e em primeiro lugar à Inglaterra, a
aprovação da consolidação legal das vantajosas posições
americanas na Europa e na Ásia (nas zonas ocidentais da Ale-
manha, na Áustria, na Itália, na Grécia, na Turquia, no Egito,
no Irã, no Afeganistão, na China, no Japão etc.).
Os imperialistas americanos, que se consideram a si
mesmos como a força principal que se opõe à URSS, aos paí-
ses da nova democracia, ao movimento operário-democrático
de todos os países do mundo, como bastião das forças reaci-
onárias, antidemocráticas do mundo inteiro, se puseram, li-
teralmente no dia seguinte ao término da II Guerra Mundial,
Escritos Andrei Zhdanov

a reorganizar uma frente hostil à URSS e à democracia mun-


dial e a encorajar as forças reacionárias e antipopulares. Os
capitalistas colaboracionistas dos velhos países europeus, li-
bertados do jugo hitleriano, começaram a organizar a sua
vida segundo a sua vontade.
Os politiqueiros imperialistas mais raivosos, perdendo
todo equilíbrio, começaram, nos rastros de Churchill, a pre-
parar planos com o escopo de organizar, o mais rapidamente
possível, uma guerra contra a URSS, apelando abertamente
para a utilização contra os povos soviéticos do temporário
monopólio americano da arma atômica. Os instigadores da
nova guerra tentam espantar e atemorizar não somente a
URSS, mas também os outros países, e em particular a China
e a Índia, apresentando caluniosamente a URSS como um
possível agressor, e apresentando-se a si mesmos como “ami-
gos” da China e da Índia, como salvadores” contra o perigo
comunista, chamados a “ajudar” os mais débeis. Deste modo,
vem sendo cumprida a tarefa de manter submetidos ao impe-
rialismo a Índia e a China e de prolongar a sua submissão
política e econômica.

Nova Disposição das Forças Políticas no Pós-guerra e


Formação de Dois Campos: Imperialista Antidemocrático e
Anti-Imperialista Democrático
As profundas transformações havidas na situação in-
ternacional e na situação dos diversos países, em seguida à
guerra, mudaram todo quadro político mundial. Formou-se
um novo reagrupamento das forças políticas. Quanto mais
nos afastamos dos fins da guerra, tanto mais nítidos ficam as
duas principais direções da política mundial do pós-guerra,
correspondentes à disposição em dois campos principais das
forças políticas que operam na arena mundial: de um lado, o
Escritos Andrei Zhdanov

campo imperialista e antidemocrático, e de outro o campo


anti-imperialista e democrático. Os Estados Unidos são a
principal força dirigente do campo imperialista. A Inglaterra e
a França atuam junto aos Estados Unidos, e a existência de
um governo trabalhista Attlee-Bevin na Inglaterra e de um go-
verno socialista Ramadier na França, não impedem à Ingla-
terra e à França de seguirem, em todas as questões principais,
os rastros da política imperialista dos Estados Unidos, na
qualidade de seus satélites. O campo imperialista é susten-
tado também pelos Estados coloniais, como a Bélgica e a Ho-
landa, pelos países de regime reacionário antidemocrático,
como a Turquia e a Grécia, e também pelos países dependen-
tes, política e economicamente, dos Estados Unidos, como o
Oriente Próximo, a América do Sul, a China.
O objetivo principal do campo imperialista consiste em
reforçar o imperialismo, em preparar uma nova guerra impe-
rialista, em lutar contra o socialismo e a democracia e em sus-
tentar por toda parte os regimes e os movimentos filo-fascis-
tas reacionários e antidemocráticos. Com este fim, o campo
imperialista não hesita em se apoiar nas forças reacionárias e
antidemocráticas de todos os países e em sustentar os inimi-
gos de ontem contra os seus aliados de guerra.
As forças anti-imperialistas e antifascistas formam o
outro campo. A URSS e os países da nova democracia são as
suas pilastras. Fazem parte deste campo também os países
que romperam com o imperialismo e que se puseram resolu-
tamente sobre a estrada do desenvolvimento democrático,
como a Romênia, a Hungria, a Finlândia. Ao campo anti-im-
perialista aderem à Indonésia, o Vietnã, e com eles simpati-
zam: a Índia, o Egito e a Síria. O campo anti-imperialista
apoia-se no movimento operário democrático, nos partidos
comunistas irmãos em todos os países, nos combatentes do
Escritos Andrei Zhdanov

movimento de libertação nacional nas colônias e nos países


dependentes, sobre todas as forças progressistas democráti-
cas que existem em cada país. Seu escopo é a luta contra as
ameaças de novas guerras e de expansão imperialista, pela
consolidação da democracia e pela eliminação dos restos do
fascismo. O término da II Guerra Mundial colocou os povos
amantes da liberdade diante da importantíssima tarefa de as-
segurar uma paz democrática duradoura, consolidando a vi-
tória sobre o fascismo. No cumprimento dessa tarefa funda-
mental do pós-guerra, cabe à União Soviética e à sua política
exterior uma função dirigente. Isso decorre da natureza do
Estado soviético socialista, profundamente alheio a qualquer
estímulo, à agressão e à exploração e interessado em criar as
condições mais favoráveis para realizar a construção da soci-
edade comunista. Uma destas condições é a paz. A União So-
viética, encarnação de um sistema social novo e superior, re-
flete, na sua política exterior, as esperanças de toda a huma-
nidade progressista que aspira a ume paz duradoura e não
pode estar interessada numa nova guerra gerada pelo capita-
lismo. A União Soviética, fiel combatente pela liberdade e a
independência de todos os povos, é inimiga da opressão na-
cional e de raça, da exploração colonial sob qualquer forma.
A transformação havida, em seguida à II Guerra Mundial, na
correlação das forças entre o mundo capitalista e o mundo
socialista, aumentou ainda mais a importância da política ex-
terior do Estado soviético e estendeu seu raio de ação.
Frente à tarefa de assegurar uma justa paz democrá-
tica, operou-se o reagrupamento das forças do campo anti-
imperialista e antifascista. Sobre esta base nasceu e reforçou-
se a cooperação amistosa da URSS com os países democráti-
cos em todos os problemas de política exterior. Estes países,
Escritos Andrei Zhdanov

e em primeiro lugar, os países da nova democracia – Iugoslá-


via, Polônia, Checoslováquia e Albânia – que tiveram uma fun-
ção importante na guerra de libertação contra o fascismo bem
como a Bulgária, a Romênia, a Hungria, parcialmente a Fin-
lândia, se juntaram à frente antifascista e se tornaram no pós-
guerra tenazes combatentes pela paz, pela democracia, pela
sua liberdade e independência, contra todas as tentativas dos
Estados Unidos e da Inglaterra para fazê-los retroceder e
lançá-los novamente sob o jugo do imperialismo.
Os êxitos e o crescente prestígio internacional do
campo democrático não são agradáveis aos imperialistas. Já
durante a II Guerra Mundial, na Inglaterra e nos Estados Uni-
dos, a atividade das forças reacionárias estava em constante
aumento e tendia a minar a ação coordenada das potências
aliadas, a prolongar a guerra por longo tempo, a dessangrar
totalmente a URSS e a salvar os agressores fascistas da der-
rota completa.
A sabotagem da segunda frente pelos imperialistas an-
glo-americanos chefiados por Churchill refletia claramente
esta tendência, que é, no fundo, a continuação da “política de
Munique” em situação diferente. Mas, enquanto a guerra
prosseguia, os círculos reacionários da Inglaterra e dos Esta-
dos Unidos não ousavam tomar abertamente posição contra
a União Soviética e os países democráticos, compreendendo
perfeitamente que, em todos os países, as massas populares
estavam sem reservas ao seu lado. Já nos últimos meses da
guerra, a situação começou a se modificar. Ainda no curso das
conversações, na Conferência entre as três potências em Ber-
lim, em julho de 1945, os imperialistas anglo-americanos ma-
nifestaram o seu propósito de não tomarem em consideração
legítimos interesses da URSS e dos países democráticos.
Escritos Andrei Zhdanov

No curso dos últimos dois anos, a política exterior da


União Soviética e dos países democráticos foi uma política de
luta para concretizar consequentemente, num mundo saído
da guerra, os princípios democráticos. Os Estados do campo
anti-imperialista têm sido combatentes fiéis e resolutos na
luta pela realização destes princípios sem afastar-se dos mes-
mos em um ponto sequer. Por isto, a política exterior dos Es-
tados democráticos, no após guerra, tem como tarefa princi-
pal a luta por uma paz democrática, a liquidação dos restos
do fascismo, a luta para impedir uma nova agressão imperia-
lista fascista, para a consolidação dos princípios de igualdade
dos direitos de todos os povos, e para o respeito da sua sobe-
rania, para a redução geral dos armamentos e a proibição das
armas mais destrutivas, destinadas ao extermínio em massa
da população pacífica.
No cumprimento de todas estas tarefas, a diplomacia
soviética e a diplomacia dos Estados democráticos chocaram-
se com a resistência da diplomacia anglo-americana, que,
após a guerra, segue constante e coerentemente a linha da
renúncia a todos os princípios, comuns proclamados pelos
aliados durante a guerra, com o objetivo da organização da
paz. Segue a linha da substituição dessa política de paz e de
consolidação da democracia por uma nova política dirigida
no sentido da ruptura da paz geral, da defesa dos elementos
fascistas e da perseguição da democracia em todos os países.
A ação comum da diplomacia da URSS e dos Estados demo-
cráticos, dirigida para resolver o problema da redução dos ar-
mamentos e da proibição da arma mais destrutiva – a bomba
atômica – tem uma imensa importância.
Por iniciativa da União Soviética, foi apresentada a Or-
ganização das Nações Unidas uma proposta de redução geral
dos armamentos e de proibição, com urgência, da produção
Escritos Andrei Zhdanov

e da utilização da energia atômica, para objetivos de guerra.


Esta proposta do governo soviético encontrou a resistência
encarniçada dos Estados Unidos e da Inglaterra. Todos os es-
forços dos meios imperialistas tendiam à sabotagem desta
decisão, como demonstram as infinitas e estéreis emendas e
os obstáculos e dilações sem fim destinados a impedir qual-
quer medida prática efetiva. A atividade dos delegados da
URSS e dos países democráticos nas reuniões da Organização
das Nações Unidas, reveste um caráter de luta quotidiana, sis-
temática, tenaz, pelos princípios democráticos de cooperação
internacional e pela denúncia das intrigas dos conspiradores
imperialistas contra a paz e a segurança dos povos. Isto foi
constatado de modo particularmente claro, por exemplo, no
exame da situação nas fronteiras setentrionais da Grécia. A
União Soviética e a Polônia intervieram energicamente contra
a tentativa de utilizar o Conselho de Segurança para desacre-
ditar a Iugoslávia, a Bulgária e a Albânia, falsamente acusadas
pelos imperialistas de atos de agressão contra a Grécia.
A política exterior soviética tem como pressuposto a
coexistência, por um longo período, de dois sistemas: o capi-
talismo e o socialismo. Daí deriva a possibilidade de coopera-
ção entre a URSS e os países que têm um outro sistema, sob
a condição de que seja respeitado o princípio de reciprocidade
e que sejam obedecidos os compromissos tomados. É sabido
que a URSS sempre foi e continua fiel aos compromissos as-
sumidos. A União Soviética demonstrou a sua vontade e o seu
desejo de cooperação.
A Inglaterra e a América conduzem, na Organização
das Nações Unidas, uma política completamente oposta. Elas
fazem tudo para se subtrair aos compromissos assumidos an-
teriormente, afim de ter as mãos livres para conduzir uma
Escritos Andrei Zhdanov

nova política fundada, não sobre a colaboração entre os po-


vos, mas tendente a colocar uns contra os outros, a violar os
direitos e os interesses dos povos democráticos e a isolar a
URSS.
A política soviética segue a linha de uma leal observân-
cia das relações de boa vizinhança com todos os Estados que
manifestem o desejo da colaboração. A União Soviética sem-
pre foi, é e será sempre fiel amiga e aliada dos países que são
seus verdadeiros amigos e aliados. A política exterior sovié-
tica é orientada no sentido de estender ainda mais os auxílios
amistosos da URSS a estes países. A política exterior da URSS,
defendendo a causa da paz, repele as ideias de vingança con-
tra os povos vencidos.
Como é sabido, a URSS é pela formação de uma Ale-
manha unida, amante da liberdade, desmilitarizada, demo-
crática. Definindo a política soviética com relação à Alema-
nha, o camarada Stalin afirmou: “Em resumo, a política da
União Soviética na questão alemã se cifra na desmilitarização
e na democratização da Alemanha. A desmilitarização e a de-
mocratização da Alemanha são uma das mais importantes
condições para instalar uma paz duradoura e sólida”. Toda-
via, esta política do Estado soviético com relação à Alemanha
choca-se contra a resistência encarniçada dos meios imperi-
alistas dos Estados Unidos e da Inglaterra.
A sessão do Conselho dos Ministros dos Negócios Ex-
teriores, levada a efeito em Moscou, em março e abril de 1947,
demonstrou que os Estados Unidos, a Inglaterra e a França,
estão prontos não somente a fazer fracassar a democratiza-
ção e a desmilitarização da Alemanha, mas também a liquidar
a Alemanha, como Estado único, a desmembrá-la e a resolver
separadamente o problema da paz. A realização desta política
nas novas condições, que se criaram desde quando a América
Escritos Andrei Zhdanov

rompeu com a antiga política de Roosevelt e passou a uma


nova política, leva a uma política de preparação de novas
aventuras militares.

O Plano Americano de Dominação da Europa


A passagem do imperialismo americano a uma política
agressiva e abertamente expansionista, depois de terminada
a Segunda Guerra Mundial, reflete-se tanto na política exte-
rior, como na política interna dos Estados Unidos. Estes vêm
dando um apoio ativo às forças antidemocráticas reacionárias
no mundo inteiro, tornam ineficientes as decisões de Potsdam
que visam a democratização e a desmilitarização da Alema-
nha, protegem os reacionários japoneses, intensificam os
preparativos militares, acumulam reservas de bombas atômi-
cas e tudo isto é acompanhado de uma ofensiva contra os di-
reitos elementares e democráticos dos trabalhadores dentro
dos Estados Unidos.
Embora os Estados Unidos tenham sido relativamente
pouco golpeados pela guerra, a esmagadora maioria dos
americanos não quer saber de uma nova guerra, nem dos sa-
crifícios e das restrições que das guerras derivam. Isto impele
o capital monopolista e os seus servidores, os círculos diri-
gentes dos Estados Unidos, a procurar meios extraordinários
para quebrar a oposição interna à política agressiva e expan-
sionista, porque é do seu interesse ter as mãos livres para de-
senvolver esta perigosa política.
Mas a campanha contra o comunismo, proclamada pe-
los círculos dirigentes americanos, que se apoiam nos mono-
pólios capitalistas, tem como consequência logicamente ine-
vitável a violação dos direitos e dos interesses vitais dos tra-
balhadores americanos, a fascistização interna da vida polí-
Escritos Andrei Zhdanov

tica dos Estados Unidos, a difusão das mais selvagens e inu-


manas “teorias” e concepções. Os grupos expansionistas
americanos, que sonham com a preparação de uma terceira
guerra mundial, estão profundamente interessados em sufo-
car dentro do país toda resistência possível às aventuras ex-
ternas, em envenenar de chauvinismo e de militarismo as
massas politicamente atrasadas e pouco cultas dos america-
nos médios, em intoxicar o pequeno-burguês americano com
vários meios de propaganda antissoviética, anticomunista,
como por exemplo, o cinema, o rádio, a igreja e a imprensa.
A política externa expansionista, inspirada e guiada pela rea-
ção americana, previu uma atividade simultânea em todas as
direções: 1) medidas estratégicas militares; 2) expansão eco-
nômica; 3) luta ideológica.
A realização dos planos estratégicos militares para as
futuras agressões está ligada com a tendência a utilizar ple-
namente o aparelho de produção militar dos Estados Unidos,
o qual cresceu consideravelmente no fim da Segunda Guerra
Mundial. O imperialismo americano conduz uma política sis-
temática de militarização do país. Nos Estados Unidos, as
despesas anuais para o exército e a frota sobem a mais de 11
bilhões de dólares. Em 1947-1948, os Estados Unidos desti-
naram à manutenção de suas forças armadas 35% do orça-
mento, quer dizer onze vezes mais que em 1937-38.
No início da Segunda Guerra Mundial, o exército dos
Estados Unidos ocupava o 17° lugar entre os exércitos dos pa-
íses capitalistas; hoje, ocupa o primeiro lugar. Paralelamente
à acumulação das bombas atômicas, os estrategistas ameri-
canos não se envergonham de dizer que nos Estados Unidos
se preparam armas bacteriológicas. O plano estratégico mili-
tar dos Estados Unidos prevê a criação em tempo de paz de
numerosas bases e praças d'armas, muito longe do continente
Escritos Andrei Zhdanov

americano e destinadas a ser utilizadas para fins de agressão


contra a URSS e os países da nova democracia. As bases ame-
ricanas, militares, aéreas e navais existem ou estão em vias
de criação no Alaska, no Japão, na Itália, na Coréia Meridio-
nal, na China, no Egito, no Irã, na Turquia, na Grécia, na Áus-
tria, na Alemanha Ocidental. Uma missão militar americana
opera no Afeganistão e também no Nepal. Fazem-se febris
preparativos para a utilização do Ártico aos fins de uma agres-
são militar.
Ainda que a guerra tenha terminado há muito tempo,
a aliança militar entre a Inglaterra e os Estados Unidos conti-
nua a subsistir do mesmo modo que o Estado Maior Unificado
das forças armadas anglo-americanas. Sob a bandeira de um
acordo para a estandardização dos armamentos, os Estados
Unidos estenderam o seu controle sobre as forças armadas e
os planos militares de outros países, em primeiro lugar as da
Inglaterra e o Canadá. Sob a bandeira comum do hemisfério
ocidental, os países da América Latina estão entrando na ór-
bita dos planos de expansão militar dos Estados Unidos.
O governo dos Estados Unidos anunciou que o seu ob-
jetivo oficial era ajudar a modernização do exército turco. O
exército reacionário do Kuomintang foi instruído sob a dire-
ção de oficiais americanos e foi dotado de armas e meios téc-
nicos americanos. A clique militar torna-se uma força política
nos Estados Unidos e fornece, em larga escala, homens de
Estado e diplomatas que dão uma orientação militar agressiva
a toda a política do país. A expansão econômica dos EUA. Tem
uma grande importância na realização do plano estratégico.
O imperialismo americano esforça-se como um usurário, por
explorar as dificuldades em que se debatem, depois da guerra,
os países europeus, e sobretudo a penúria de matérias pri-
Escritos Andrei Zhdanov

mas, de combustíveis e produtos alimentícios dos países ali-


ados que de um modo mais acentuado sofreram a guerra,
para lhes impor condições escravagistas de ajuda. Prevendo a
crise econômica iminente, os EUA se apressam a encontrar
novas esferas monopolistas para o investimento de capitais e
para a venda de mercadorias. A “ajuda “econômica dos EUA
visa submeter a Europa ao capital americano. Quanto mais
grave é a situação econômica de um país tanto mais duras são
as condições que os monopólios americanos se esforçam por
impor-lhes.
Mas o controle econômico leva consigo a dependência
política em relação ao imperialismo americano. Assim, a ex-
tensão das esferas de influência dos monopólios americanos
é acompanhada, pelos Estados Unidos, da aquisição de novas
bases militares para a luta contra as novas forças democráti-
cas da Europa. Os monopólios americanos, “salvando” um
país qualquer da fome e da ruína, pretendem privá-lo de qual-
quer independência. A “ajuda” americana leva consigo quase
automaticamente uma mudança da linha política do país que
recebe tal “ajuda”: vão o poder partidos e personalidades obe-
dientes às diretivas de Washington, prontos a realizar na sua
política interna e externa o programa desejado pelos Estados
Unidos (França, Itália, etc.). Enfim, a tendência dos EUA para
o domínio mundial e a sua política antidemocrática compor-
tam também uma luta ideológica. A parte ideológica do plano
estratégico americano tem principalmente o objetivo de en-
ganar a opinião pública, difundir calúnias sobre a pretensa
agressividade da URSS e dos países da nova democracia, com
o fim de poder, assim, apresentar o bloco anglo-saxão nas
roupagens de um pretenso bloco defensivo e eximi-lo das
suas responsabilidades na preparação de uma nova guerra.
Escritos Andrei Zhdanov

A popularidade da União Soviética, “no exterior, cres-


ceu consideravelmente durante a Segunda Guerra Mundial.
Pela sua luta heroica, cheia de abnegação, contra o imperia-
lismo, a União Soviética mereceu o amor e o respeito dos tra-
balhadores de todos os países. A potência econômica do Es-
tado socialista e a força indestrutível da unidade moral e po-
lítica da sociedade soviética foram claramente confirmados
diante do mundo inteiro. Os círculos reacionários dos EUA e
da Inglaterra perguntam, com afã, como dissipar a impressão
inapagável que a ordem socialista produz sobre os operários
e os trabalhadores do mundo inteiro. Os instigadores de
guerra compreendem muito bem que, para ter a possibilidade
de mandar os seus soldados se baterem contra a União Sovi-
ética, é necessária uma longa preparação ideológica.
Na sua luta ideológica contra a URSS, os imperialistas
americanos que se orientam mal nos problemas políticos e
dão prova de ignorância, agitam antes de tudo a ideia de uma
União Soviética como uma força antidemocrática e totalitária,
enquanto a democracia seria representada pela Inglaterra e
pelos EUA e por todo o mundo capitalista. Esta plataforma da
luta ideológica – defender a pseudodemocracia burguesa e
acusar de totalitarismo ao comunismo – une todos os inimi-
gos da classe operária, sem exceção, desde os magnatas do
capitalismo até os chefes de partidos socialistas de direita, os
quais, com grande urgência, se assenhoreiam de qualquer ca-
lúnia antissoviética sugerida por seus patrões imperialistas. O
ponto central desta pérfida propaganda consiste na afirmação
de que a existência de mais de um partido e de uma oposição
organizada da minoria seria um índice de uma verdadeira de-
mocracia. Nesta base, os laboristas ingleses, que não poupam
as suas forças para lutar contra o comunismo, querem desco-
Escritos Andrei Zhdanov

brir na URSS classes antagônicas com a relativa luta de parti-


dos. Ignorantes em política, eles não podem conseguir com-
preender que já há muito tempo na URSS não existem mais
capitalistas e proprietários territoriais, não há mais classes
antagônicas e, portanto, não há vários partidos. Eles queriam
ter na URSS os partidos caros ao seu coração, os partidos bur-
gueses, aqui compreendidos os partidos pseudossocialistas
na qualidade de agências imperialistas. Mas para sua desven-
tura, a história condenou ao desaparecimento estes partidos
burgueses exploradores.
E enquanto não poupam as palavras para difundir ca-
lúnias contra o regime soviético, os laboristas e os outros ad-
vogados da democracia burguesa acham inteiramente normal
a sangrenta ditadura da minoria fascista sobre o povo na Gré-
cia e na Turquia; fecham os olhos sobre numerosas, vergo-
nhosas violações às próprias normas da democracia formal
nos países burgueses; passam sob silêncio o jugo nacional e
de raça, a corrupção, a desenfreada usurpação dos direitos
democráticos nos EUA.
Uma das linhas da “campanha” ideológica que acom-
panha os planos de subjugação da Europa é o ataque contra
os princípios da soberania nacional, o apelo ao abandono dos
direitos soberanos dos povos e a contraposição a esses prin-
cípios de direitos, da ideia de um “Governo mundial”. O sen-
tido desta campanha consiste em apresentar sob uma luz fa-
vorável a expansão desenfreada do imperialismo americano,
que golpeia descaradamente os direitos soberanos dos povos
e em apresentar os EUA. Nas roupagens de campeão das leis
humanas e aos que resistem à penetração americana em rou-
pagens de fatores de um nacionalismo “egoísta” e caduco. A
ideia de um “governo mundial”, retomada pelos intelectuais
burgueses sonhadores e pacifistas, é utilizada não somente
Escritos Andrei Zhdanov

como meio de pressão, com o objetivo de desarmar moral-


mente os povos que defendem a sua independência dos aten-
tados do imperialismo americano, mas também como palavra
de ordem particularmente oposta à União Soviética, que de-
fende, firme e sistematicamente, o princípio da efetiva igual-
dade dos direitos e da salvaguarda dos direitos soberanos de
todos os povos, grandes e pequenos. Nas condições atuais, os
países imperialistas, como os EUA, a Inglaterra e os países
que estão do seu lado, se tornam inimigos perigosos da inde-
pendência nacional e da autodeterminação dos povos, en-
quanto a União Soviética e os países de nova democracia são
um firme baluarte para a defesa da igualdade dos direitos e
da autodeterminação dos povos.
É bastante característico que os vanguardeiros milita-
res e políticos americanos, tipo Bullit, os chefes dos sindica-
tos amarelos, tipo Green, os socialistas franceses chefiados
por Blum, apologista patenteado do capitalismo, o social de-
mocrata alemão Schumacher e os chefes laboristas tipo Be-
vin, colaborem estreitamente na realização da ideologia tra-
çada pelo imperialismo americano. A “doutrina de Truman” e
o “plano Marshall” são, nas condições atuais dos EUA, a ex-
pressão concreta desses esforços expansionistas. No fundo,
estes dois documentos são a expressão de uma só política,
ainda que se distingam, pela forma em que é apresentada a
pretensão americana de subjugar a Europa. No que concerne
à Europa, as principais linhas da “doutrina Truman” são as
seguintes: 1) Criação de bases americanas na parte oriental
da bacia mediterrânea, com o fim de consolidar o domínio
americano nesta zona; 2) Apoio ostensivo aos regimes reaci-
onários da Grécia e da Turquia, que representam fortalezas
do imperialismo americano contra a nova democracia nos
Bálcãs (ajuda militar e técnica à Turquia e Grécia, concessão
Escritos Andrei Zhdanov

de empréstimos); 3) Pressão ininterrupta sobre os Estados da


nova democracia, que se exprime com falsas acusações de to-
talitarismo e de tendências expansionistas, com ataques con-
tra as bases do novo regime democrático, com uma contínua
ingerência nos assuntos internos desses países, com o apoio
a todos os elementos anti-estatais, antidemocráticos, no in-
terior de cada país, com a ruptura clara das relações econô-
micas com esses países, afim de lhes criar dificuldades eco-
nômicas, de frear seu desenvolvimento econômico, de fazer
falir a sua industrialização, etc. A “doutrina de Truman”, que
prevê a oferta de ajuda americana a todos os regimes reacio-
nários que agem ativamente contra os povos democráticos,
reveste um caráter ativamente agressivo. A sua publicação
provocou uma certa estupefação, mesmo nos círculos dos ca-
pitalistas americanos habituados a tudo. Nos EUA e em outros
países, os elementos progressistas protestaram energica-
mente contra o caráter provocador, abertamente imperialista,
da intervenção de Truman.

A “Doutrina de Truman”
O acolhimento desfavorável que teve a “doutrina de
Truman”, tornou necessário o “plano Marshall”, que é uma
tentativa velada de conduzir essa mesma política de expan-
são. A essência das fórmulas veladas, intencionalmente dis-
farçadas, do “plano Marshall”, consiste na formação de um
bloco de países ligados com regular empenho aos EUA e na
oferta de créditos aos países europeus, em pagamento da re-
núncia à sua independência econômica e, em seguida, à sua
independência política. É, além disso, fundamental no “plano
Marshall” a reconstrução das regiões industriais da Alemanha
Ocidental, controladas pelos monopólios americanos.
Escritos Andrei Zhdanov

Das reuniões e das intervenções dos homens de Es-


tado americanos, que se sucederam, resulta, em síntese, que
o “plano Marshall” não é um plano de ajuda, em primeiro lu-
gar, aos países vencedores empobrecidos, aos aliados da
América na luta contra Alemanha, mas uma oferta de ajuda
aos capitalistas alemães, para que controlem as principais
fontes de carvão e de metais, necessária à Europa e à Alema-
nha, pondo os países que têm necessidade de carvão e de me-
tal sob a dependência da potência econômica alemã em vias
de restauração. Ainda que o “plano Marshall” preveja a defi-
nitiva queda da Inglaterra, como da França, a potências de
segunda ordem, o governo trabalhista de Attlee, na Inglaterra,
e o governo socialista de Ramadier, na França, se agarraram
ao “plano Marshall” como a uma tábua de salvação. Sabe-se
que a Inglaterra, já quase consumiu o empréstimo americano
de 3.750 milhões de dólares, concedidos em 1946. Sabe-se,
além disso, que as condições servis desse empréstimo ataram
a Inglaterra de mãos e pés. O governo trabalhista da Ingla-
terra, agora preso pelo laço de sua dependência financeira,
aos EUA, não vê outra saída que não seja obter outros em-
préstimos. Por isso, acolheu o “plano Marshall” – como uma
via de escape do beco sem saída econômico em que se meteu,
como uma possibilidade de obter novos créditos. Além disso,
os políticos ingleses contavam explorar a cria cão do bloco de
países da Europa Ocidental – devedores nos EUA – Para tentar
assegurar-se, dentro do próprio bloco, a parte de principal
agente americano e de poder, talvez, salvar-se à custa dos pa-
íses débeis. A burguesia inglesa vai utilizando o “plano Mars-
hall”, prestando serviços aos monopólios americanos e sub-
metendo-se ao seu controle; sonhava poder recuperar as po-
sições perdidas em certos países e, em particular, poder res-
tabelecer as suas posições na região balcânica e danubiana.
Escritos Andrei Zhdanov

Com o fim de dar uma aparência maior “de objetividade” às


propostas americanas, foi decidido incluir nas listas dos pro-
motores da realização do “plano Marshall” também a França,
que já tinha meio sacrificada a sua soberania nacional em fa-
vor dos EUA, pois que a concessão de crédito à França, em
maio de 1947, por parte dos EUA foi condicionada ao afasta-
mento dos comunistas do governo.
Sob diretivas de Washington, os governos da Inglaterra
e da França tinham convidado a União Soviética a participar
no exame das propostas Marshall. Este convite tinha o fim de
mascarar o caráter hostil à URSS de tais propostas. Sabendo-
se, previamente, que a URSS se recusaria a discutir as propos-
tas de socorro americano na base das condições formuladas
por Marshall, calculou-se poder aproveitar-se disso para pôr
às costas da URSS a responsabilidade de “não querer contri-
buir na reconstrução econômica da Europa”, e, deste modo,
atirar contra a URSS os países europeus que necessitam real-
mente de ajuda. Se, ao contrário, a URSS tivesse aceitado par-
ticipar dos tratados, seria fácil atrair para a ratoeira da “re-
construção econômica da Europa com a ajuda da América” os
países do Oeste e do Sudoeste da Europa. Enquanto o “plano
Truman” pressionava, com intimidação terrorista, a esses pa-
íses, o “plano Marshall” era destinado, neste caso, a contri-
buir para a realização, de um dos objetivos mais importantes
do programa ianque geral: restabelecer o poder do imperia-
lismo nos países da nova democracia, obrigar esses países a
renunciar à sua cooperação econômica e política com a URSS.
Os representantes da URSS, que consentiram em exa-
minar em Paris, juntamente com os governos da Inglaterra e
da França, as propostas de Marshall, desmascararam, na re-
solução de Paris, a inconsistência da tentativa de elaborar um
programa econômico para toda a Europa. Eles descobriram
Escritos Andrei Zhdanov

na tentativa de criar uma nova organização europeia, sob a


égide da França e da Inglaterra, uma ameaça de intromissão
nos assuntos internos dos países europeus e de violação da
sua soberania. Demonstraram que o “plano Marshall” está em
contradição com os princípios normais de cooperação inter-
nacional, leva em si a cisão da Europa, a ameaça de submis-
são de um certo número de países europeus aos interesses do
capitalismo americano e é fundado sobre a concessão prefe-
rencial, com respeito aos aliados, de socorrer aos consórcios
e monopólios alemães, aos quais está evidentemente reser-
vada uma função particular na Europa. Está clara posição da
União Soviética desmascarou os planos do imperialismo ame-
ricano e dos seus comparsas anglo-francês.
A Conferência de Paris faliu escandalosamente. Oito
Estados Europeus dela se recusaram a participar. Mas houve,
também, entre os que aceitaram participar no exame do
“plano Marshall” e na elaboração das medidas concretas para
sua realização, um certo número de países que não fizeram
um acolhimento particularmente entusiasta a este “plano”,
tanto mais que se viu bem depressa como foi plenamente jus-
tificada a suposição da URSS, de que o plano está longe de
representar uma ajuda efetiva e real. Verificou-se que o go-
verno dos EUA não tem nenhuma pressa em realizar as pro-
messas de Marshall. Personalidades políticas americanas do
Congresso reconheceram que o Congresso não discutirá an-
tes de 1948 as novas somas destinadas para os créditos pro-
metidos a alguns países europeus. Daí resultou que a Ingla-
terra, a França e os outros Estados da Europa Ocidental, que
aceitaram o “esquema de realização” do “plano Marshall”,
elaborado em Paris, caíram vítimas, eles mesmos, da chanta-
gem americana.
Escritos Andrei Zhdanov

Não obstante, continuam as tentativas de formar um


bloco ocidental sob a égide da América. É preciso notar que a
variante americana do bloco ocidental não pode deixar de en-
contrar sérias oposições, mesmo nos países que já dependem
dos EUA, como a Inglaterra e a França. A perspectiva de res-
taurar o imperialismo alemão como força real capaz de opor-
se à democracia e o comunismo na Europa, não pode seduzir
nem à Inglaterra, nem à França. Aqui nos encontramos em
presença de uma das principais contradições internas do
bloco Inglaterra-EUA-França. Visivelmente, os monopólios
americanos, como toda a reação internacional, não pensam
que Franco ou mesmo os fascistas gregos sejam um baluarte
mais ou menos seguro dos EUA. Contra a URSS e as novas
democracias na Europa. Por isso nutrem esperanças particu-
lares sobre a restauração da Alemanha capitalista, conside-
rando-a como a mais importante garantia de sucesso da luta
contra as forças democráticas da Europa. Eles não têm fé,
nem nos trabalhistas na Inglaterra, nem nos socialistas na
França, considerando-os, malgrado a sua complacência,
como “semi-comunistas”, não suficientemente merecedores
de confiança.
Eis porque a questão alemã, e, em particular, a da Ba-
cia do Ruhr, base potencial militar e industrial do bloco hostil
à URSS, é o aspecto mais importante da política internacional
e é causa de litígio entre os EUA, Inglaterra e a França. Os
apetites dos imperialistas americanos não podem deixar de
suscitar uma séria inquietude na Inglaterra e na França. Os
EUA. Fizeram compreender de maneira inequívoca que que-
rem tomar o Ruhr aos ingleses. Os imperialistas americanos
exigem também a fusão das três zonas de ocupação e aberta
formação da Alemanha Ocidental em entidade política sob o
Escritos Andrei Zhdanov

controle americano. Os EUA insistem para que o nível de pro-


dução de aço seja elevado na Bacia do Ruhr à base da manu-
tenção das empresas capitalistas sob a direção dos EUA. Os
créditos prometidos por Marshall para a reconstrução da Eu-
ropa são considerados em Washington, sobretudo, como uma
ajuda aos imperialistas alemães. Assim, o “bloco ocidental”
que a América está criando não afasta o plano Churchill dos
Estados Unidos da Europa, concebido como instrumento da
política inglesa, mas é considerado como um protetorado
americano, no qual os Estados soberanos da Europa, não ex-
cluída a própria Inglaterra, terão uma função que não está
muito longe daquela do famoso “49° Estado. Americano”. O
imperialismo americano trata a Inglaterra e a França de modo
sempre mais insolente e cínico. As deliberações entre dois e
três países sobre problemas que dizem respeito à determina-
ção do nível de produção industrial da Alemanha Ocidental
(Inglaterra, EUA, França), deliberações que infringem arbitra-
riamente as decisões de Potsdam, demonstram, entre outras
coisas, que os EUA, ignoram completamente os interesses vi-
tais dos seus sócios de tratados. A Inglaterra, e sobretudo a
França, estão obrigados a escutar o diktat americano e a
aceitá-lo com resignação.
A conduta da diplomacia americana em Londres e em
Paris recorda, sob muitos aspectos, a que observamos na Gré-
cia, onde os representantes americanos não creem nem
mesmo necessário respeitar as conveniências, nomeiam e
trocam a seu bel-prazer os ministros gregos e se comportam
como conquistadores. Assim, o novo “plano Dawes” para a
Europa é, no fundo, dirigido contra os interesses fundamen-
tais dos povos europeus; é um plano de subjugação e de sub-
missão da Europa aos EUA.
Escritos Andrei Zhdanov

O “plano Marshall” é dirigido contra a industrialização


dos países democráticos da Europa e, por conseguinte, contra
as bases da sua independência. Se, em seu tempo, o “plano
Dawes” para a Europa foi condenado à falência, quando as
forças que se lhe opunham eram muitíssimos inferiores as
atuais, hoje, na Europa de após guerra, existem forças mais
que suficientes sem falar da União Soviética, que demonstram
a sua vontade e decisão para pôr em cheque este último plano
de subjugação. Para os povos da Europa é sobretudo vital que
se mostrem prontos para a resistência e ter a vontade de re-
sistir. No que concerne à URSS, esta empregará todas as suas
forças afins de que este plano não seja realizado.
A apreciação que os países do campo anti-imperialista
fizeram do “plano Marshall” foi inteiramente confirmado no
curso dos acontecimentos. O campo dos países democráticos
frente ao “plano Marshall” demonstrou ser uma potente força
que está vigilante na salvaguarda da independência e da so-
berania de todos os povos europeus, uma força que não se
deixa influenciar pela chantagem e pela intimidação e que, ao
mesmo tempo, não se deixar enganar pelas falsas manobras
da diplomacia do dólar.
O governo soviético nunca fez objeção à utilização de
créditos estrangeiros, em particular americanos; de créditos
quanto aos meios capazes de acelerar o processo da recons-
trução econômica. Não obstante, a União Soviética sempre
partiu da premissa de que as condições de créditos não devem
conduzir à subjugação econômica e política do Estado deve-
dor ao credor. Firme nesta orientação política, a União Sovi-
ética sempre sustentou que os créditos estrangeiros não de-
vem ser o meio principal de reconstrução da economia do
país. A condição fundamental e decisiva da reconstrução eco-
nômica deve consistir na utilização dos recursos internos de
Escritos Andrei Zhdanov

cada país e na criação de uma indústria própria. Somente so-


bre esta base pode ser assegurada a independência do país
contra os atentados do capital estrangeiro, que manifesta
constantemente a tendência de utilizar o crédito como instru-
mento de subjugação política e econômica. Tal é, precisa-
mente, o “plano Marshall”, dirigido contra a industrialização
dos países europeus e que objetiva, por conseguinte, destruir
a independência dos mesmos.
A União Soviética sustenta incansavelmente que as re-
lações econômicas e políticas recíprocas entre os diversos Es-
tados devem apoiar-se exclusivamente, sob os princípios da
igualdade de direito de cada Estado e o respeito recíproco da
sua soberania. A política externa soviética e, em particular, as
relações econômicas soviéticas com os Estados estrangeiros,
são baseadas no princípio da igualdade de direitos que, nos
acordos concluídos, assegura vantagens bilaterais. Os trata-
dos com a URSS constituem acordos reciprocamente vantajo-
sos para as partes contratantes. Eles não contêm nada que
possa prejudicar a independência do Estado, a soberania na-
cional das partes contratantes. Esta característica fundamen-
tal dos acordos entre a URSS e os outros Estados salta nitida-
mente aos olhos, sobretudo, agora, à luz dos acordos injustos
baseados na desigualdade dos direitos, que os EUA, concluem
e preparam. A política comercial externa soviética não co-
nhece acordos fundados na desigualdade de direitos. Além
disso, o desenvolvimento das relações econômicas da URSS
com todos os Estados que nelas têm interesse, indica em que
base devem estabelecer-se normais relações entre os Estados.
Basta recordar os tratados que a URSS concluiu recentemente
com a Polônia, Iugoslávia, Tchecoslováquia, Hungria, Bulgá-
ria e Finlândia. Deste modo, a URSS indica claramente os ca-
minhos sobre os quais a Europa pode encontrar uma saída
Escritos Andrei Zhdanov

para a sua difícil situação econômica. A Inglaterra poderia ter


um tratado deste gênero, se o governo trabalhista não tivesse
sofrido a pressão do exterior e deixado cair o acordo em pre-
paração com a URSS.
O desmascaramento do plano americano de subjuga-
ção econômica dos países Europeus é um mérito indiscutível
da política externa da URSS e dos países de nova democracia.
É preciso, além disso, recordar que a América mesma se acha
ameaçada de uma crise econômica. A generosidade oficial de
Marshall tem as suas sérias razões. Se os países europeus não
receberem créditos americanos, o pedido de mercadorias
americanas por parte desses países diminuiria e isto contri-
buiria para acelerar e agravar a crise econômica que se avizi-
nha nos EUA. Por isso, se os países europeus dão prova da
necessária firmeza e da vontade de resistir às condições servis
de crédito, a América poderia ver-se obrigada a ceder.

As Tarefas dos Partidos Comunistas


A dissolução do Komintern, correspondente às exigên-
cias do desenvolvimento do movimento operário e às condi-
ções da nova situação histórica, exerceu uma função positiva.
A dissolução do Komintern pôs fim para sempre à calúnia pro-
palada pelos adversários do comunismo e do movimento ope-
rário, de que Moscou se intromete na vida interna dos outros
Estados e que os Partidos Comunistas dos países não agem
no interesse de seus povos, mas segundo ordem do exterior.
O Komintern tinha sido fundado depois da Primeira
Guerra Mundial, quando os Partidos Comunistas eram débeis,
as ligações entre a classe operária dos diversos países eram
quase inexistentes, e os Partidos Comunistas não tinham
ainda dirigentes do movimento operário universalmente re-
conhecidos. Foi mérito do Komintern o ter estabelecido e
Escritos Andrei Zhdanov

consolidado as ligações entre os trabalhadores dos diversos


países, elaborado as questões teóricas do movimento operá-
rio nas novas condições do seu desenvolvimento, depois da
guerra, haver fixado normas comuns para propaganda e a agi-
tação da ideia do comunismo e ter facilitado a formação dos
dirigentes do movimento operário. Deste modo, criaram-se as
premissas para a transformação dos jovens Partidos Comu-
nistas em partidos operários de massa. Mas, com a transfor-
mação dos jovens Partidos Comunistas em partidos operários
de massa, a direção destes partidos, da parte de um único
centro, tornava-se impossível e inadequada. Por isso, o
Komintern, que tinha sido um fator do desenvolvimento dos
partidos comunistas, se ia transformando em um organismo
que freava este desenvolvimento. A nova base de desenvolvi-
mento dos Partidos Comunistas exigia novas formas de liga-
ção entre os partidos. Estas circunstâncias determinaram a
necessidade de dissolver o Komintern e de organizar novas
formas de ligação entre os partidos.
Nos quatro anos transcorridos depois da dissolução do
Komintern produziu-se um considerável reforço dos Partidos
Comunistas, um rápido aumento da sua influência em quase
todos os países da Europa e da Ásia. A influência dos Partidos
Comunistas aumentou não somente nos países da Europa
Oriental, mas também em quase todos os países da Europa
que sofreram a dominação fascista e também os países que
sofreram, como a França, a Bélgica, os Países Baixos, a Noru-
ega, a Dinamarca, a Finlândia, etc., a ocupação fascista alemã.
A influência dos comunistas reforçou-se particularmente nos
países de nova democracia, onde os Partidos Comunistas se
tornaram os partidos mais influentes nos Estados respectivos.
Entretanto, na situação atual dos Partidos Comunistas, há
também deficiência. Alguns companheiros acreditaram que a
Escritos Andrei Zhdanov

dissolução do Komintern significava a liquidação de todas as


ligações e de qualquer contato entre os partidos comunistas
irmãos. Entretanto, a experiência demonstrou que um tal iso-
lamento dos Partidos Comunistas não é justo, é nocivo e
substancialmente falso. O movimento comunista desenvolve-
se no quadro nacional, mas ao mesmo tempo há tarefas e in-
teresses comuns aos partidos comunistas dos diversos paí-
ses. Temos frente a nós um quadro bem estranho: os socia-
listas que cospem veneno para demonstrar que o Komintern
dirigia diretivas de Moscou aos comunistas de todos os paí-
ses, reconstituíram a sua Internacional, enquanto os comu-
nistas se abstêm até de encontrar-se e, ainda, de consultar-se
reciprocamente sobre questão que lhes interessa, por temor
da calúnia dos inimigos a respeito da “mão de Moscou”. Os
representantes das diversas atividades – os cientistas, os co-
operadores, os militantes sindicais, os jovens, os estudantes
– acham possível manter entre si contatos internacionais, tro-
car as suas experiências e consultar-se sobre questões con-
cernentes ao seu trabalho, organizar conferências e reuniões
internacionais, e os comunistas, mesmo os dos países que
têm relações de aliança, se sentem impedidos de estabelecer
entre si relações de amizade. Não há dúvida que uma tal situ-
ação, se se prolongasse, estaria prenhe de consequências
muito nocivas para o desenvolvimento do trabalho dos parti-
dos irmãos. Esta exigência de consultar-se e de coordenar vo-
luntariamente a ação dos diversos partidos amadureceu so-
bretudo agora, quando a continuar neste isolamento poderia
conduzir a um enfraquecimento da compreensão recíproca e
muitas vezes, também, a sérios erros. Desde que a maior parte
dos dirigentes dos partidos socialistas (sobretudo os traba-
lhistas ingleses e os socialistas franceses) se comportam
como agentes dos círculos imperialistas dos EUA da América,
Escritos Andrei Zhdanov

cabe aos partidos comunistas a função histórica específica de


pôr-se à frente da resistência ao plano americano de subju-
gação da Europa e de desmascarar resolutamente todos os
auxiliares internos do imperialismo americano. Ao mesmo
tempo, os comunistas devem apoiar todos os elementos ver-
dadeiramente patriotas que não querem deixar ultrajar a sua
pátria, que querem lutar contra a subjugação de sua pátria ao
capital estrangeiro e pela salvaguarda da soberania nacional
do seu país.
Os comunistas devem ser a força dirigente que arrasta
todos os elementos antifascistas amantes da liberdade para a
luta contra os novos planos americanos de expansão e de do-
minação da Europa.
É preciso ter presente que, entre o desejo dos imperi-
alistas de fazer explodir uma nova guerra e a possibilidade de
organizá-la há imensa distância. Os povos do mundo não
querem a guerra. As forças que querem a paz são tão grandes
e importantes que, se elas forem firmes e tenazes na luta pela
defesa da paz, se elas derem prova de constância e firmeza,
os planos dos agressores serão condenados a um completo
fracasso. É preciso não esquecer que o barulho dos agentes
imperialistas a respeito dos perigos de guerra tem o objetivo
de assustar as pessoas indecisas ou fracas de nervos e de ob-
ter, por meio da chantagem, concessões ao agressor. O perigo
principal para a classe operária consiste, atualmente, na su-
bestimação das próprias forças e na superestimação das for-
ças do adversário. Como no passado, a política de Munique
encorajou a agressão hitlerista, também hoje as concessões à
nova política dos EUA. Da América e do campo imperialista
podem tornar os seus inspiradores ainda mais insolentes e
agressivos. Por isso, os Partidos Comunistas devem pôr-se à
frente, da resistência aos planos imperialistas de expansão e
Escritos Andrei Zhdanov

de agressão em todos os campos: governativo, político, eco-


nômico e ideológico. Eles devem cerrar fileiras, unir os seus
esforços na base de uma plataforma anti-imperialista e demo-
crática comum e reunir em torno de si as forças democráticas
e patrióticas do povo.
Aos Partidos Comunistas irmãos da França, da Itália,
da Inglaterra e de outros países cabe uma tarefa particular.
Devem tomar nas suas mãos a bandeira da defesa da inde-
pendência nacional, da soberania dos respectivos países. Se
os Partidos Comunistas permanecerem firmes em suas posi-
ções, se não se deixarem intimidar e enganar, se se puserem
corajosamente em guarda por uma paz sólida e pela demo-
cracia popular, em guarda pela soberania nacional, pela liber-
dade e independência de seus países, se na sua luta contra as
tentativas de submissão econômica e política de seus países,
souberem colocar-se à frente de todas as forças, prontos a
defender a causa da honra e da independência nacional, ne-
nhum plano de dominação da Europa poderá ser realizado.

Informe à Conferência dos Partidos Comunistas, realizada na


Polônia em 1947, que fundou o “Escritório de Informação dos Parti-
dos Comunistas e Operários”, que ficou conhecido como Cominform
Publicado na revista Problemas nº 5 - dezembro de 1947
Escritos Andrei Zhdanov

Literatura Soviética: a mais rica em


ideias, a literatura mais avançada

Camaradas, em nome do Comitê Central do Partido


Comunista da União Soviética (Bolchevique) e do Conselho do
Comissariado do Povo das Repúblicas Socialistas Soviéticas,
permitam-me comunicar ao primeiro Congresso de Escritores
Soviéticos e a todos os escritores da nossa União Soviética
com o grande autor proletário, Maksim Górki, às suas bri-
lhantes saudações bolcheviques.
Camaradas, seu congresso é conveniente em uma
época onde as principais dificuldades nos confrontando no
trabalho da construção socialista já foram superadas, quando
nosso país terminou de estabelecer as bases de uma econo-
mia socialista – conquistas que vão lado a lado da vitória da
política de industrialização e da construção das fazendas co-
letivizadas.
O congresso de vocês é conveniente em uma época
quando sob a liderança do Partido Comunista, sob a orienta-
ção genial de nosso grande líder e professor, Camarada Stalin,
o sistema social finalmente e irrevogavelmente triunfou em
nosso país. De forma consistente, avançando de uma etapa
para a seguinte, de vitória a vitória, do Inferno da Guerra Civil
ao período de restauração e do período da restauração à re-
construção socialista de toda a economia nacional, nosso
Partido liderou o país à vitória sobre os elementos capitalis-
tas, destituindo-os de todas as esferas da vida econômica.
A URSS se tornou um país industrial avançado, um país
cuja agricultura socialista é organizada sob o nível da mais
larga escala do mundo. A URSS se tornou um país no qual
Escritos Andrei Zhdanov

nossa Cultura Soviética está crescendo e se desenvolvendo


em um esplendor exuberante.
A vitória do sistema socialista no nosso país resultou
na abolição das classes parasitárias, abolição do desemprego,
abolição do pauperismo no campo, abolição das favelas ur-
banas. O aspecto inteiro da terra soviética mudou. A mentali-
dade de seu povo foi radicalmente alterada. Os “personagens
ilustres” de nosso país são os próprios construtores do soci-
alismo, os operários e as fazendas coletivas.
Intimamente ligado com as vitórias do socialismo em
nosso país é o fortalecimento da posição da URSS interna-
mente e na política externa, o crescimento de seu peso e au-
toridade em questões internacionais, o aumento da sua im-
portância como a tropa de choque do proletariado mundial,
como um poderoso baluarte da revolução proletária mundial.
No 17º Congresso de nosso Partido, Camarada Stalin
fez uma análise magistral, inigualável de nossas vitórias e dos
fatores que as condicionaram, de nossa posição no tempo
presente e do programa para trabalho futuro em completar a
construção de uma sociedade socialista sem classes. O Cama-
rada Stalin fez uma análise exaustiva dos aspectos atrasados
de nosso trabalho e das dificuldades que nosso Partido, e sob
sua liderança, as milhões de massas fortalecidas da classe
operária e do campesinato das fazendas coletivas, estão tra-
vando uma luta incansável e cotidiana para superar.
A todo custo, devemos superar o estado atrasado de
tais ramos vitais da economia nacional como o transporte fer-
roviário e de água, circulação de mercadorias, metalurgia não
ferrosa. Devemos travar todos os esforços para desenvolver a
pecuária, que se constitui como um dos setores mais impor-
tantes da agricultura socialista.
Escritos Andrei Zhdanov

Camarada Stalin desnudou as próprias raízes de nos-


sas dificuldades e deficiências. Elas resultam do fato que
nosso trabalho organizacional prático não acompanha o nível
que é exigido pela linha política do Partido, às exigências que
o Segundo Plano Quinquenal nos confronta. É por isso que o
17º Congresso do Partido nos define a urgente tarefa de au-
mentar nosso trabalho organizacional para que ele chegue ao
nível dessas enormes tarefas políticas que estamos enca-
rando. Sob a liderança do Camarada Stalin, o Partido está or-
ganizando as massas para uma luta pela liquidação final dos
elementos capitalistas, para superar os resquícios capitalistas
na vida econômica e na consciência do povo, a fim de com-
pletar a reconstrução técnica da economia nacional. Superar
os resquícios capitalistas na consciência do povo implica em
lutar contra todo resquício de influência burguesa sobre o
proletariado, contra a debilidade, contra a vadiagem, contra
dissoluções pequeno-burguesas e individualismo, contra
qualquer atitude de corrupção e desonestidade para com a
propriedade pública.
Temos em nossas mãos a arma correta para a supera-
ção de todas as dificuldades que se interpõem em nosso ca-
minho. Essa arma é a grande e invencível doutrina de Marx,
Engels, Lenin e Stalin, encarnada na vida pelo nosso Partido
e pelos Sovietes.
A poderosa bandeira de Marx, Engels, Lenin e Stalin
triunfou. É pela vitória dessa bandeira que devemos o fato que
o Primeiro Congresso de Escritores Soviéticos se reúne aqui.
Não fosse por essa vitória, o congresso de vocês não estaria
ocorrendo. Um congresso de tal magnitude como este pode
ser convocado apenas por nós, Bolcheviques.
Escritos Andrei Zhdanov

A chave para o sucesso da literatura soviética deve ser


procurada no sucesso da construção do socialismo. Seu cres-
cimento é uma expressão dos sucessos e conquistas de nosso
sistema socialista. Nossa literatura é a mais jovem de todas
as literaturas de todos os povos e países. E ao mesmo tempo,
a mais rica em ideias, a mais avançada e a literatura mais re-
volucionária. Nunca antes houve uma literatura que organi-
zasse os trabalhadores e oprimidos, para a luta pela abolição,
de uma vez por todas, de toda forma de exploração e do jugo
da escravidão assalariada. Nunca antes houve uma literatura
que baseasse seus temas na vida da classe operária e do cam-
pesinato e na sua luta pelo socialismo. Em nenhum lugar, em
nenhum país do mundo, houve uma literatura que defendesse
e endossasse os princípios de direitos iguais para os trabalha-
dores de todas as nações, o princípio de direitos iguais para
mulheres. Não há, e não pode existir haver em países burgue-
ses uma literatura que constantemente ataque todo tipo de
obscurantismo, todo tipo de misticismo, sacerdócio e supers-
tição, como nossa literatura vem fazendo.
Apenas a literatura soviética, que está ligada à cons-
trução socialista, poderia se tornar, e de fato se tornou, tal
literatura--tão rica em ideias, tão avançada e revolucionária.
Os autores soviéticos já criaram vários trabalhos espe-
taculares, que correta e honestamente retratam a vida de
nosso país soviético. Já existem diversos nomes dos quais po-
demos ser, e com justiça, orgulhosos. Sob a liderança do Par-
tido, com a orientação cuidadosa e diária do Comitê Central e
a ajuda e o apoio incansável do camarada Stalin, todo um
exército de escritores soviéticos se mobilizaram em torno do
Poder Soviético e do Partido. E à luz dos sucessos de nossa
Escritos Andrei Zhdanov

literatura soviética, vemos se destacar ainda mais todo o con-


traste entre nossos sistemas, o vitorioso sistema socialista, e
o sistema do capitalismo moribundo, decadente.
De que pode o autor burguês escrever, de que pode ele
sonhar, que fonte de inspiração ele pode achar, de onde ele
pode pegar emprestado sua inspiração, se o operário nos pa-
íses capitalistas não tem certeza do amanhã, se ele não sabe
se terá trabalho no dia seguinte, se o camponês não sabe se
ele vai trabalhar em seu pedaço de terra amanhã ou se sua
vida será arruinada pela crise capitalista, se o trabalhador in-
telectual não tem emprego hoje e não sabe se vai ter algum
amanhã?
Do que pode o autor burguês escrever, que fonte de
inspiração pode ter para ele, quando o mundo está sendo pre-
cipitado mais uma vez, se não hoje, então amanhã, para o
abismo de uma nova guerra imperialista?
O atual estado da literatura burguesa é tal que não
mais é capaz de criar grandes trabalhos artísticos. A decadên-
cia e desintegração da literatura burguesa, resultando do co-
lapso e decadência do sistema capitalista, representa um
traço característico, uma característica peculiar do estado da
cultura e literatura burguesas na vida atual. Não se retornará
mais aos tempos quando a literatura burguesa, refletindo a
vitória da revolução burguesa sobre o feudalismo, era capaz
de criar grandes trabalhos da época quando o capitalismo es-
tava nascendo. Tudo agora está crescendo de forma atrofi-
ada-temas, talentos, autores, heróis.
Sob o medo mortal da revolução proletária, o fascismo
está provocando sua vingança à civilização, jogando as pes-
soas aos períodos mais hediondos e selvagens da história hu-
mana, queimando na fogueira e barbaramente destruindo os
trabalhos das melhores mentes da humanidade.
Escritos Andrei Zhdanov

Características da decadência e declínio da cultura


burguesa são as orgias de misticismo e superstição, a paixão
por pornografia. Os “personagens ilustres” da literatura bur-
guesa – daquela literatura burguesa que vendeu caneta ao ca-
pital – são agora ladrões, detetives policiais, prostitutas, bri-
gões.
Tudo isso é característico daquele segmento da litera-
tura que está tentando esconder o declínio do sistema bur-
guês, que em vão vem tentando provar que nada aconteceu,
que tudo vai bem no “reino da Dinamarca”, que nada se apo-
drece no sistema capitalista. Esses representantes da litera-
tura burguesa que sentem o estado de coisas de forma mais
aguda, são absorvidos em pessimismo, dúvida do amanhã,
elogio da escuridão, exaltação do pessimismo como da teoria
e prática da arte. E apenas uma pequena seção – os mais ho-
nestos e sagazes – estão tentando encontrar um tipo de arte
em outros caminhos, em outras direções, ligando seus desti-
nos com os do proletariado e sua luta revolucionária.
O proletariado dos países capitalistas já está forjando
o exército de seus escritores, de seus artistas, os escritores
revolucionários, cujos representantes estamos felizes de dar
boas-vindas hoje no Primeiro Congresso de Escritores Sovié-
ticos. O destacamento dos escritores revolucionários os paí-
ses capitalistas, ainda não é tão grande, mas está crescendo
continuará a crescer todos os dias, à medida que a luta de
classes se intensifique, e que as forças da revolução proletária
mundial se fortaleçam.
Acreditamos firmemente que essas poucas dezenas de
camaradas estrangeiros que estão aqui hoje representem o
núcleo, a base de um poderoso exército de escritores proletá-
rios que será criada pela revolução proletária mundial nos pa-
íses capitalistas.
Escritos Andrei Zhdanov

É assim que se coloca a situação atual nos países ca-


pitalistas. Não da mesma forma conosco. Nosso escritor so-
viético prepara o material para suas obras de arte, seu objeto,
imagens, linguagem artística, e discurso, a partir da vida e ex-
periência dos homens e mulheres de Dnieprostroy, de Magni-
tostroy. Nosso escritor pega seu material da ação heroica da
expedição de Chelyuskin, da experiência de nossas fazendas
coletivas, da ação criativa que ferve em todos os cantos de
nosso país.
Em nosso país, os principais heróis das obras literárias
são os construtores de uma nova vida: homens e mulheres
operários, e homens e mulheres das fazendas coletivas, mem-
bros do Partido, comerciantes, engenheiros, membros da Liga
Comunista de Jovens, Pioneiros. Tais são os principais tipos e
heróis de nossa literatura Soviética. Nossa literatura está im-
pregnada com entusiasmo e espírito de tarefas heroicas. É
otimista, mas otimista no sentido que sua essência é otimista
por ser a literatura da classe do proletariado que vem se al-
çando, a única classe avançada e progressista. Nossa litera-
tura soviética é forte pela virtude do fato que vem servindo a
uma nova causa, a causa da construção do socialismo.
O camarada Stalin chamou os nossos escritores de en-
genheiros da alma humana. O que isto significa? Que deveres
confere a vocês?
Em primeiro lugar, significa conhecer a vida de modo
a ser capaz de representá-la fielmente nas obras, não para re-
presenta-la de uma forma morta, escolástica, não simples-
mente enquanto “realidade objetiva”, mas retratar a realidade
em seu desenvolvimento revolucionário.
Além disso, a fidelidade e concretude histórica da re-
presentação artística deve ser combinado com remodelagem
ideológica e educação do povo trabalhador sob o espírito do
Escritos Andrei Zhdanov

socialismo. Este método em belles lettres e criticismo literário


é o que chamamos o método do realismo socialista.
Nossa literatura soviética não tem medo da acusação
de tendenciosa. Sim, a literatura soviética é tendenciosa, pelo
fato de que na época da luta de classes, não há e não pode
haver uma literatura que não seja de classe, não tendenciosa,
alegadamente apolítica.
E eu penso que qualquer um de nossos escritores so-
viéticos pode dizer a qualquer burguês obtuso, qualquer filis-
teu, qualquer escritor burguês que chame nossa literatura de
tendenciosa: “Sim, nossa literatura é tendenciosa, e temos or-
gulho disso, porque o objetivo de nossa tendência é libertar
os trabalhadores, para libertar toda a humanidade do jugo da
escravidão capitalista”.
Ser um engenheiro das almas humanas significa ficar
com os dois pés plantados na vida real. E isto por sua vez,
indica uma ruptura com o romantismo de velho tipo, que re-
tratava uma vida não-existente e heróis não-existentes, afas-
tando o leitor dos antagonismos e opressão da vida real e o
levando a um mundo do impossível, para um mundo de so-
nhos utópicos. Nossa literatura, que mantém ambos os pés
firmemente plantados em uma base materialista, não pode
ser hostil ao romantismo, mas deve ser um romantismo de
novo tipo, romantismo revolucionário. Dizemos que o rea-
lismo socialista é o método básico da belles lettres soviético
e criticismo literário, e isso pressupõe que o romantismo re-
volucionário deva entrar na criação literária como uma parte
componente, de toda a vida de nosso Partido, de toda a vida
da classe operária e sua luta consiste em uma combinação do
trabalho prático mais austero e sóbrio com o espírito superior
de feitos heroicos e magníficas perspectivas futuras. Nosso
Partido sempre esteve forte pela virtude do fato que uniu e
Escritos Andrei Zhdanov

continua a unir um estilo completamente eficaz e o espírito


prático com uma visão ampla, e um constante impulso a
avançar, e a luta para construir a sociedade comunista. A lite-
ratura soviética deve ser capaz de retratar nossos heróis; deve
ser capaz em vislumbrar o nosso amanhã. Isso não será ne-
nhum sonho utópico, pelo nosso amanhã já estar sendo pre-
parado hoje pôr à custa de um trabalho planejado consciente.
Não se pode ser um engenheiro das almas humanas
sem conhecer a técnica do trabalho literário, e deve se notar
que a técnica do trabalho do escritor possuí diversas peculia-
ridades específicas.
Vocês têm diversos tipos de armas. A literatura sovié-
tica tem todas as chances de empregar esses tipos de armas
(gêneros, estilos, formas e métodos de criação de literatura)
em sua diversidade e totalidade, pegando tudo de melhor que
foi criado nessa esfera em todos os períodos anteriores. Desse
ponto de vista, a maestria da técnica da escrita, a assimilação
crítica da herança literária de todas as épocas representa uma
tarefa que vocês devem cumprir sem falta, se desejam se tor-
narem engenheiros das almas humanas.
Camaradas, o proletariado, assim como em outros as-
pectos da cultura material e espiritual, é o único herdeiro de
tudo que há de melhor da literatura mundial. A Burguesia des-
perdiçou sua herança literária; é nossa tarefa reunir essa he-
rança com cuidado, estudá-la e, tendo criticamente a assimi-
lado, desenvolvê-la.
Ser engenheiro das almas humanas significa lutar ati-
vamente por cultura, da linguagem, por qualidade de produ-
ção. Nossa literatura ainda não foi até as exigências de nossa
era. As debilidades de nossa literatura são um reflexo do fato
que a consciência do povo ainda está atrasada em relação à
vida econômica-um defeito do qual mesmo nossos escritores
Escritos Andrei Zhdanov

obviamente não estão livres. É por isso que o trabalho incan-


sável direcionado para a auto-educação e para aprimorar sua
arma ideológica sob o espírito do socialismo, representa uma
condição indispensável, sem a qual os escritores Soviéticos
não podem remodelar a mentalidade de seus leitores e, por-
tanto, se tornarem engenheiros de almas humanas.
Exigimos a mais alta maestria na produção artística; e
neste sentido é impossível superestimar a ajuda que Maksim
Górki está prestando ao Partido e ao proletariado na luta por
qualidade na literatura, pela cultura da linguagem. E assim
nossos escritores Soviéticos tem todas as condições necessá-
rias para eles para produzir trabalho que são, como se diz,
consonantes com nossa era, obras das quais o povo de nossa
época possa aprender e que serão o orgulho das futuras ge-
rações.
Todas as condições necessárias foram criadas para
permitir à literatura soviética que produza trabalhos em res-
posta às exigências das massas, que incrementaram seu nível
cultural. Apenas nossa literatura tem a oportunidade de estar
tão intimamente conectada com seus leitores, com toda a vida
da população trabalhadora, como no caso da União das Re-
públicas Socialistas Soviéticas. O atual congresso é signifi-
cante em sua própria peculiaridade. As preparações para o
congresso foram conduzidas não apenas pelos escritores,
mas por todo o país junto a eles. No curso dessas prepara-
ções, pode se notar claramente o amor e a atenção sob o qual
os escritores soviéticos são rodeados pelo Partido, os operá-
rios, e o campesinato das fazendas coletivas, a consideração
e ao mesmo tempo as demandas exigentes que caracterizam
a atitude de nossa classe operária e trabalhadores das fazen-
das coletivas aos escritores Soviéticos. Apenas em nosso país,
Escritos Andrei Zhdanov

existe esse reforço na importância dada à literatura e aos es-


critores.
Organizar o trabalho do congresso de vocês e o da
União de Escritores Soviéticos no futuro de tal modo que o
trabalho criativo de nossos escritores possa estar em confor-
midade com as vitórias que o socialismo conquistou. Criar
obras de grande proeza, e elevado conteúdo ideológico e ar-
tístico. Ativamente ajudar a remodelar a mentalidade do povo
sob o espírito do socialismo. Estar na linha de frente daqueles
que lutam por uma sociedade socialista sem classes.

Discurso no Congresso dos


Escritores Soviéticos realizado em agosto de 1934.
Escritos Andrei Zhdanov

As Tarefas da Literatura na Sociedade

Transparece claramente na resolução do Comitê Cen-


tral que o erro mais grosseiro da revista “Zviezda” foi ter
posto suas páginas à disposição de Zostchenko e Akhmatova
para a publicação de suas “criações” literárias. Creio que não
é necessário citar aqui a obra de Zostchenko “As aventuras de
um macaco”. Provavelmente todos vós a lestes e a conheceis
melhor do que eu. Essa obra visa – tal é sua significação –
apresentar os homens soviéticos como vagabundos e mons-
tros, como pessoas estúpidas e primitivas. O trabalho dos ho-
mens soviéticos, seus esforços e seu heroísmo, suas altas
qualidades sociais e morais, não interessam absolutamente a
Zostchenko. Este tema está sempre ausente de suas obras.
Pequeno burguês e vulgar escolheu ele como tema a análise
dos aspectos mais baixos e mesquinhos da vida. Essa análise
dos fatos insignificantes da vida não é fortuita. É familiar a
todos os escritores burgueses, vulgares, aos quais também
pertence Zostchenko. Sobre eles muito falou Gorki em sua
época, deveis lembrar como no Congresso dos Escritores So-
viéticos, realizado em 1934, Gorki estigmatizou os “literatos”,
se assim posso dizer, que não enxergam além da fuligem da
cozinha.
“As Aventuras de um Macaco” não sai do quadro habi-
tual dos trabalhos de Zostchenko. Essa novela só chamou a
atenção da crítica porque é o exemplo mais surpreendente de
tudo quanto existe de negativo em sua obra literária. Sabe-se
que quando voltou a Leningrado, depois de sua evacuação,
Zostchenko escreveu vários trabalhos que se caracterizam por
sua incapacidade em encontrar na vida soviética um único
elemento positivo, um único tipo positivo. Como nas “Aven-
turas de um macaco”, Zostchenko está habituado a zombar
das massas soviéticas, das instituições, dos cidadãos soviéti-
cos, disfarçando essa ironia sob uma máscara de brincadeira
vazia e de espírito inútil.
Se lerdes mais atentamente e se meditardes sobre essa
novela, “As Aventuras de um Macaco”, vereis que Zostchenko
atribuí ao macaco o papel de juiz supremo de nossas institui-
ções sociais e fazendo-o ministrar aos homens soviéticos
uma espécie de curso de moral. O macaco é apresentado
como um ser racional capaz de julgar a conduta dos homens.
Zostchenko precisou apresentar uma imagem da vida dos ho-
mens soviéticos deliberadamente monstruosa, caricata e vul-
gar para pôr na boca do macaco uma frase pérfida e antisso-
viética, segundo a qual era melhor viver no Jardim Zoológico
do que em liberdade e que era mais fácil respirar na jaula do
que entre os homens soviéticos.
Poder-se-á cair mais baixo, moral e politicamente, e
como puderam habitantes de Leningrado admitir uma tal per-
fídia; uma tal sujeira em suas revistas? Se a revista “Zviezda”
oferece a seus leitores obras desse gênero, como deve ser pre-
cária a vigilância dos que a dirigem para nela publicar obras
envenenadas com uma hostilidade bestial para com o regime
soviético. Só a escória da literatura pode produzir obras se-
melhantes e só cegos e apolíticos podem publicá-las. Diz-se
que o conto de Zostchenko percorreu as ruas de Leningrado.
Como deve estar enfraquecida a direção em Leningrado para
que fatos semelhantes tenham podido ocorrer!
Zostchenko, com sua moral repugnante, soube intro-
duzir-se numa grande revista de Leningrado e nela se instalar
comodamente. Ora, a revista “Zviezda” é um órgão que deve
Escritos Andrei Zhdanov

educar nossa juventude. Mas uma revista que hospeda um es-


critor tão vulgar e tão pouco soviético como Zostchenko, es-
tará à altura dessa tarefa? A redação da “Zviezda” então igno-
rava a feição de Zostchenko? Pois ainda recentemente, em
princípios de 1944, a revista “Bolchevique” criticou violenta-
mente uma revoltante novela de Zostchenko, “Antes do Nas-
cer do Sol”, publicada em plena guerra de libertação do povo
soviético contra os invasores alemães. Nessa novela Zost-
chenko esvazia sua alma pequena, vulgar e baixa, com delei-
tos, com glutoneria, desejoso de dizer a todos: “Vejam como
sou canalha”.
É difícil encontrar, em nossa literatura, algo mais re-
pugnante do que a “moral” apresentada por Zostchenko em
sua novela “Antes do Nascer do Sol”, apresentando os ho-
mens soviéticos e ele próprio, como animais horrendas e lú-
bricos, sem pudor e sem consciência. Ofereceu essa moral aos
leitores soviéticos na ocasião em que nosso povo derramava
seu sangue numa guerra penosa, sem precedente, quando a
vida do Estado soviético estava por um fio, quando o povo
soviético fazia sacrifícios sem número para derrotar os ale-
mães. Enquanto isso emboscado em Alma-Ata, absoluta-
mente na retaguarda, Zostchenko nada fez para ajudar nessa
ocasião o povo soviético em sua luta contra os invasores ale-
mães. Foi absolutamente justa a vergastada pública que ele
levou no “Bolchevique”, considerado como estranho à litera-
tura soviética, como um vulgar libelista. Pouco lhe importava
nessa época a opinião pública. E eis que, dois anos mais
tarde, nem bem seca estava ainda a tinta do artigo cio “Bol-
chevique”, esse mesmo Zostchenko volta triunfantemente a
Leningrado e se agita livremente nas páginas das revistas da
cidade. Não só “Zviezda”, como também a revista “Lenin-
grado” aceitam de bom grado suas colaborações. As salas dos
teatros são postas graciosamente à sua disposição. Muito
mais, dão-lhe a possibilidade de ocupar uma posição desta-
cada na seção de Leningrado da União dos Escritores e de de-
sempenhar um papel ativo na vida literária da cidade. Por que
razão permitis que Zostchenko percorra dessa maneira os jar-
dins e os parques da literatura de Leningrado? Por que os ati-
vistas de Leningrado, por que a organização dos escritores
permitiu fatos tão vergonhosos?
Essa feição social-política e literária de Zostchenko,
completamente podre e corrupta, já se definiu há algum
tempo. Esses trabalhos atuada não foram escritos por acaso.
São a continuação de todos o seu passado| literário, que re-
monta aos anos da década de 20. Quem era Zostchenko no
passado? Era um dos organizadores do grupo literário deno-
minado “Os Irmãos Serapião”. Qual a feição social-política de
Zostchenko nessa época? Permiti que me refira à revista
“Anais Literários”, n.º 3, de 1922, em que os fundadores desse
grupo publicaram seu “credo”. Entre outras revelações en-
contramos nela o “símbolo da fé” de Zostchenko, num opús-
culo intitulado “Sobre mim e sobre mais alguma coisa”. Zos-
tchenko, sem a menor cerimônia, faz declaração pública e ex-
prime de maneira absolutamente clara suas “opiniões” políti-
cas e literárias. Escutai o que ele diz:
Em geral é difícil ser escritor. Tomemos a ideologia.
Hoje exige-se uma ideologia do escritor. Que peso, franca-
mente. Digam-me, qual “exatamente a ideologia” que posso
ter, se nenhum partido, em seu conjunto, me atrai? Do ponto
de vista dos homens de partido, sou um homem sem princí-
pios. De acordo com meu ponto de vista, diria a respeito de
mim mesmo: não sou nem comunista, nem social-revolucio-
nário, nem monarquista, mas simplesmente russo, e ainda
por cima politicamente amoral. Palavra de honra, não sei até
Escritos Andrei Zhdanov

hoje, digamos, por exemplo, Gutchkov, a que partido per-


tence? Para o inferno com o partido a que ele pertence. Sei
que ele não é bolchevique, mas será social-revolucionário ou
cadete? Não sei, nem quero saber, etc. etc.”
Que achais, camaradas, dessa ideologia? 25 anos se
passaram desde que Zostchenko publicou essa confissão.
Mudou ele desde então? Não parece. Desde há 25 anos, não
só nada aprendeu e não mudou, como ao contrário, com fran-
queza cínica, continua a ser o apologista da indiferença e da
vulgaridade, um canalha literário sem princípio e sem consci-
ência. Isto significa que as instituições soviéticas, hoje como
ontem, desagradam a Zostchenko. Hoje como ontem, ele é
estranho e hostil à literatura soviética. Se, apesar de tudo isso,
Zostchenko quase se tornou em Leningrado o corifeu da lite-
ratura, se o Parnaso de Leningrado o incensa, só podemos
nos espantar do grau de indiferença, de facilidade, a que che-
garam os que abriram caminho a Zostchenko, fazendo-lhe
elogios!
Permiti que cite ainda outro fato que ilustra a feição
dos “Irmãos Serapião”. No mesmo nº 3 dos “Anais Literários”
de 1922, um outro Serapião, Lev Lounz, procura também im-
primir um fundo ideológico à orientação nociva e estranha à
literatura soviética, que representa o grupo em questão.
Lounz escreveu: “Nós nos reunimos num momento de pode-
rosa tensão revolucionária e política. “Aquele que não está
conosco está contra nós”, repetiam-nos de um lado e de ou-
tro. Com quem estais, Irmãos Serapião, com os comunistas,
ou contra os comunistas, pela Revolução ou contra a Revolu-
ção? Com quem estamos, Irmãos Serapião? Estamos com o
anacoreta Serapião. Durante muito tempo e de maneira muito
dolorosa a literatura russa foi regida pela política. Não quere-
mos utilitarismos. Não escrevemos para fazer propaganda. A
arte é uma realidade, assim como a própria vida, e, como a
própria vida, não tem objetivo, nem significação, existe por-
que não pode deixar de existir”.
Eis o papel que os Irmãos Serapião destinam à arte,
negando-lhe qualquer ideologia, qualquer significação social,
proclamando sua indiferença, a arte pela arte, a arte sem ob-
jetivo e sem significação. É pura propaganda de um apoliti-
cismo podre, da burguesia e da vulgaridade. Que conclusão
tirar? Se as instituições soviéticas desagradam a Zostchenko,
que se deverá fazer: adaptar-se a Zostchenko? Não somos nós
que devemos nos adaptar a seus gostos. Não somas nós que
devemos modificar nossos costumes e nosso regime à sua
vontade. Ele que se adapte, e se não quiser – que se despeça
da literatura soviética. A literatura soviética não tem lugar
para obras corruptas, vazias de ideias e vulgares. Foi isso que
determinou o Comitê Central a tomar uma decisão a respeito
das revistas “Zviezda” e “Leningrado”.

Degradação do Grupo Literário dos Akmeistas


Examinemos agora a obra literária de Anna Akhma-
tova. Ultimamente suas obras têm reaparecido nas revistas de
Leningrado, que lhe têm concedido espaço considerável. É
tão espantoso e desconcertante isso, como se alguém hou-
vesse tido a ideia de reeditar hoje as obras de Merejkovsky,
Vietcheslav Ivanov, Michel Kuzmin, André Beely, Zinaide
Hippius, Feodor Sologub, Zinovieva Annibal, etc.; em outras
palavras, todos aqueles que nossa literatura e a vanguarda de
nossa opinião pública sempre consideraram como represen-
tantes do obscurantismo reacionário, como renegados na po-
lítica e na arte.
Escritos Andrei Zhdanov

Gorki em sua época dizia que os dez anos de 1907 a


1917 mereciam ser considerados como a década mais vergo-
nhosa e mais estéril da história da intelectualidade russa,
quando depois da Revolução de 1905 uma porção considerá-
vel dessa intelectualidade afastou-se da Revolução e acabou
se afundando nos charcos da mística reacionária e da porno-
grafia, brandindo a indiferença ideológica como uma ban-
deira, disfarçando sua traição nesta “bonita” estrofe: “E quei-
mei tudo o que venerava, rendendo homenagens ao que quei-
mará”.
É exatamente dessa época que datam as obras de re-
negados como “O Corsário Branco” de Ropchin, as obras de
Vinnitchenko e outros desertores do Campo da Revolução
para o da reação, que se apressaram a trair os grandes ideais
pelos quais lutou a parte mais progressista da sociedade
russa. Surgiram os simbolistas, os imaginistas, os decadentes
de toda espécie, renegando o povo, proclamando a tese da
“arte pela arte” preconizando o apoliticismo na literatura, ca-
muflando sua corrupção ideológica e moral em busca da be-
leza vazia da forma. O medo animal da Revolução proletária,
que se avizinhava, unia-os a todos. Basta lembrar que um dos
maiores ideólogos dessas correntes literárias reacionárias foi
Merejkovsky, que chamava a Revolução proletária iminente
de “Rei Malandro” e que recebeu a Revolução de Outubro com
um ódio bestial.
Anna Akhmatova é uma das representantes desse pân-
tano literário apolítico e reacionário. Pertence ao grupo lite-
rário denominado “akmeistas” que se destacou, na ocasião,
do grupo dos simbolistas. É um dos arautos, da poesia vazia,
apolítica, aristocrática, de salão, absolutamente estranha à li-
teratura soviética. Os “akmeistas” representavam uma cor-
rente extremamente individualista na arte. Preconizavam a te-
oria da “arte pela arte”, da “beleza pela beleza”, não queria
nada com o povo, com suas necessidades, seus interesses,
com a vida pública.
No que diz respeito a suas origens sociais, era uma
corrente de nobreza burguesa na literatura, numa época em
que os dias da aristocracia e da burguesia estavam contados
e em que os poetas e os ideólogos das classes dirigentes pro-
curavam evitar à realidade desagradável, refugiando-se nas
alturas nebulosas e nas brumas da mística religiosa, nas suas
pequenas experiências pessoais e na análise de suas almas
pusilânimes. Os “akmeistas”, como os simbolistas e os deca-
dentes, ou outros representantes da dissolvente ideologia
burguesa, foram os apologistas do derrotismo, do pessi-
mismo, da crença num mundo do além.
Toda a inspiração de Akhmatova é essencialmente in-
dividualista.
O diapasão de sua poesia é extremamente pobre – po-
esia de uma mulherzinha histérica, que se debate entre a al-
cova e o oratório. O que nela domina são os temas amorosos,
eróticos, acompanhados dos temas da tristeza, da melancolia,
da morte, da mística, da fatalidade. O sentimento da fatali-
dade – sentimento compreensível num grupo social que se
extingue – o tom doloroso do desespero mortal, de transpor-
tes místicos mesclados de erotismo, esse o mundo espiritual
de Akhmatova, que não é senão o vestígio de uma velha: “cul-
tura aristocrática desaparecida para sempre na eternidade do
mundo “dos bons velhos tempos”. (De Catarina. Freira ou li-
bertina, ou antes freira e libertina, em quem, a libertinagem
se alia à oração: “Mas eu te juro pelo jardim dos anjos, eu te
juro pela imagem milagrosa, pelos êxtases ardentes de nossa
noite”. (Akhmatova. Anno Domini).
Escritos Andrei Zhdanov

Essa é Akhmatova, com sua pequena e mesquinha vida


pessoal, seus sentimentos pusilânimes e seu erotismo religi-
oso e místico. Sua poesia não tem nada de comum com o
povo. É a poesia de 10.000 privilegiados da “velha Rússia aris-
tocrática, condenados a suspirar pelos “velhos bons tempos”.
As casas de campo senhoriais do tempo de Catarina II, com
suas avenidas de árvores seculares, fontes, estátuas, arcos de
pedra, estufas, com seus pequenos bosques românticos e
seus brasões decrépitos sobre os portões. A São Petersburgo
de antanho; o Tsarkoé-Selo; a música de Pavlovsk e outras
relíquias da cultura aristocrática. Tudo isso esvaiu-se em um
passado que não volta-Os vestígios dessa cultura tão longín-
qua e estranha ao povo, conservados por um milagre qual-
quer até nossos dias, não têm nada de melhor a fazer do que
se encerrarem em si próprios e viver de quimeras. “Tudo foi
pilhado, traído, vendido”, escreve Akhmatova. Um dos mais
importantes representantes desse grupo, Ossip Mandeistam,
escrevia pouco antes da Revolução, a respeito dos ideais so-
cial-políticos e literários dos “akmeistas”: “Os akmeistas têm
o mesmo amor do organismo e da organização que a idade
média fisiologicamente genial... A idade média, determinando
à sua maneira o peso específico do homem, o considerava e
reconhecia como absolutamente independente de seus servi-
ços... Sim, a Europa passou pelo labirinto de uma cultura cui-
dadosa quando a vida abstrata, a existência pessoal sem qual-
quer ornamento era considerada como uma façanha. Daí a
intimidade aristocrática, ligando todos os homens, tão estra-
nha ao espírito de igualdade e fraternidade» da grande Revo-
lução... A idade média nos é cara porque nela existia um alto
sentimento dos limites e das barreiras. A. mistura generosa
do pensamento e da mística, a concepção do mundo como
um equilíbrio vivo, nos aproximam dessa época levam a sor-
ver forças nas obras nascidas na era romana, lá pelo ano de
1200”.
Essas ideias de Mandeistam exprimem as aspirações e
os ideais dos “akmeistas”. “Voltemos atrás, para a Idade Mé-
dia” – eis o ideal comum desse grupo aristocrático dos salões.
Voltemos ao macaco – responde-lhe Zostchenko. Diga-se de
passagem, que tanto os “akmeistas” como os Irmãos Sera-
pião têm o mesmo antepassado. Para uns e para outros, é Ho-
ffmann um dos fundadores da decadência e do misticismo
aristocrático de salão.
Por que então, de repente, popularizar a poesia de
Akhmatova? Que tem ela de comum conosco, com o povo so-
viético? Qual a necessidade de conceder uma tribuna literária
a todas essas tendências decadentes e que nos são profunda-
mente estranhas?
Sabemos pela história e pela literatura russa que mais
de urna vez as correntes literárias reacionárias, a que perten-
cem os simbolistas e os “akmeistas”, procuraram pregar uma
cruzada contra as grandes tradições democrático-revolucio-
nárias da literatura russa, contra seus representantes de van-
guarda; procuraram privar a literatura de seu dignificado ele-
vado, ideológico e social, de rebaixá-la ao pântano do apoli-
ticismo e da vulgaridade. Todas essas tendências que estão
“em moda” foram afagadas no Lethes e rejeitadas no passado,
com as classes ideologia refletiam. Todos esses “akmeistas”,
simbolistas, esses camisas “amarelas”, esses “valetes de
ouro”, esses “negadores”, que deixaram eles em nossa litera-
tura soviética russa? Nada, absolutamente, apesar de sua cru-
zada contra os grandes representantes da literatura democrá-
tico-revolucionária russa – Belinsky, Dobrolyubov, Cherni-
chevsky, Herzen, Saltykov, Tchedrin - ter sido preparada de
Escritos Andrei Zhdanov

maneira muito ruidosa e pretensiosa- para ter fracassado tão


completamente.

Servilismo ante a Literatura Pequeno-Burguesa


Os “Akmeistas” proclamaram: “Não modificar nada na
vida c não a criticar” Por que se opunham eles a que a vida
fosse modificada? Pôr que esses velhos costumes burgueses
e aristocráticos lhes eram agradáveis e o povo revolucionário
se preparava para destruir esse modo de vida. Em outubro de
1917, as classes dirigentes, bem como suas ideologias e seus
poetas, foram atirados aos esgotos da história.
E eis que no 29.º ano da Revolução Socialista, inopi-
nadamente, reaparecem essas antiguidades do mundo das
trevas e se põem a doutrinar nossa juventude sobre a maneira
de viver. Akhmatova teve abertas, bem grandes, as páginas da
revista e pôde, livremente, envenenar a consciência da juven-
tude com o espírito deletério de sua poesia. A revista Lenin-
grado publicou em um de seus números uma espécie de an-
tologia das obras de Akhmatova, escritas de 1909 a 1944. Em
meio a esse montão de inutilidade, notemos um poema es-
crito na ocasião de sua evacuação durante a Grande Guerra
Patriótica. Nessa poesia, ela descreve sua solidão, que foi
obrigada a partilhar com um gato preto. O gato preto encara-
a como os olhos do século. O tema não é novo. Akhmatova já
falava do gato preto em 1909. O sentimento da solidão e do
desespero, estranho à literatura soviética, encontra-se por
toda a obra de Akhmatova.
Que há de comum entre essa poesia e os interesses de
nosso povo e de nosso Estado? Absolutamente nada. A obra
de Akhmatova pertence ao passado longínquo; é absoluta-
mente estranha à realidade soviética atual e não devemos ad-
miti-la nas páginas de nossas revistas. Nossa literatura não é
uma empresa privada, destinada a satisfazer os diversos gos-
tos do mercado literário. Não somos absolutamente obriga-
dos a ceder um lugar em nossa literatura aos gostos e costu-
mes que nada têm em comum com a moral e as virtudes dos
homens soviéticos. Que podem ensinar à nossa juventude as
obras de Akhmatova? Nada, a não ser o mal. Não podem se-
não semear o desânimo, o derrotismo, o pessimismo, o de-
sejo de se afastar das questões fundamentais da vida social,
de deixar a grande estrada da vida e da atividade social por
um pequeno e estreito universo de emoções pessoais. Como
é possível confiar-lhe a educação de nossa juventude? E, no
entanto, foi com grande solicitude que se publicaram as obras
de Akhmatova em Zviezda e Leningrado e, o que é pior, publi-
cou-se toda a coleção de seus versos. Foi um grande erro po-
lítico.
Não foi por acaso que depois de tudo isso as revistas
de Leningrado começaram a publicar as obras de outros es-
critores que também haviam adotado atitudes de indiferença
e decadência. Refiro-me às obras de Sadofiev e de Komissa-
rova. Em alguns de seus versos, esses dois poetas seguiram
os passos de Akhmatova, cultivando, eles também, um espí-
rito de desânimo, de tristeza e de solidão, tão caro ã alma de
Akhmatova. Sem dúvida alguma, essas tendências, ou um es-
tado de espírito dessa natureza, não podem deixar de ter in-
fluência negativa sobre nossa juventude, de envenenar sua
consciência com o espírito corrupto a indiferença, do apoliti-
cismo e do desânimo. E que teria acontecido se houvéssemos
educado nossa juventude no espírito de desânimo e de des-
crença a respeito de nossa obra? Não teríamos, certamente,
obtido o triunfo na Grande Guerra Patriótica. Foi precisa-
mente porque o Estado Soviético e nosso partido, com o au-
xílio da literatura soviética, educaram a juventude no espírito
Escritos Andrei Zhdanov

de entusiasmo, de confiança em suas forças, precisamente


porque superamos as maiores dificuldades na edificação do
socialismo, que pudemos conquistar a vitória sobre os ale-
mães e os japoneses.
Que decorre de tudo isto? Decorre que a revista “Zvi-
ezda” publicando obras de valor, ideológicas, estimulantes,
juntamente com obras apolíticas, vulgares, reacionárias, tor-
nou-se uma revista sem orientação, que ajuda os inimigos a
desagregar nossa juventude. Ora, nossas revistas sempre fo-
ram fortes devido a suas tendências estimuladoras e revolu-
cionárias e não pelo ecletismo, a indiferença e o apoliticismo.
A propaganda da indiferença recebeu regalias na revista “Zvi-
ezda”. Mais ainda, diz-se que Zostchenko adquiriu tal influên-
cia entre as organizações de escritores em Leningrado que
chegou a atacar os indóceis e ameaçar de difamação os que
criticassem suas obras futuras. Parecia quase um ditador lite-
rário. Vivia cercado de um grupo de admiradores que o lison-
jeavam.
Por que razão, perguntamos? Por que permitistes es-
sas atividades antinaturais e reacionárias? Não foi absoluta-
mente por acaso que as revistas literárias de Leningrado se
encheram de admiração pela literatura contemporânea bur-
guesa, de baixo nível, do Ocidente. Alguns de nossos escrito-
res começaram a se considerar não como mestres, mas como
alunos dos escritores pequeno burgueses, adotaram o tom de
servilismo e de admiração para com uma literatura estran-
geira mesquinha. Por acaso nos convém, a nós patriotas so-
viéticos, esse servilismo, a nós que edificamos o regime sovi-
ético que ê cem vezes superior e melhor que qualquer regime
burguês? Por acaso convém à nossa literatura soviética, pro-
gressista, a mais revolucionária do mundo, esse servilismo
para com a literatura mesquinha e pequeno burguesa do Oci-
dente?
O grande erro de nossos escritores foi de um lado, se
afastarem dos temas soviéticos atuais, se acantonarem num
tema histórico, e de outro, procurarem utilizar apenas temas
divertidos e vazios. Certos escritores, para se justificarem de
se terem afastado dos grandes temas soviéticos atuais, dizem
que chegou a hora em que o povo tem necessidade de uma
literatura divertida e vazia, em que não se precisa de ideologia
nas obras. Isto é fazer uma ideia profundamente errada de
nosso povo, de suas necessidades o de seus interesses. Nosso
povo espera que os escritores soviéticos exprimam e genera-
lizem a imensa experiência que ele tirou da Grande Guerra
Patriótica, que eles descrevam e generalizem o heroísmo com
que esse mesmo povo trabalha hoje para reerguer, uma vez
expulsos os inimigos, a economia nacional do país.

A Revista “Leningrado” e a Causa dos Seus Erros


Algumas palavras a respeito da revista Leningrado.
Zostchenko nela ocupa uma posição ainda mais sólida do que
em Zviezda, assim como Akhmatova. Tornaram-se os dois
uma força literária ativa nessas revistas. Assim a revista Le-
ningrado é responsável por ter posto suas páginas à disposi-
ção de um escritor tão vulgar como Zostchenko e de uma po-
etisa de salão da espécie de Akhmatova. Mas a revista Lenin-
grado cometeu outros erros. Eis por exemplo a parodia de Eu-
gênio Oneguin, escrita por um certo Hazin. Essa obra intitula-
se: “A Volta de Oneguin”.
Diz-se que se pode assisti-la frequentemente nos tea-
tros de Leningrado. É incompreensível que os leningradenses
permitam que se ridicularize publicamente Leningrado, como
o faz Hazin. Pois o sentido de toda essa paródia, dita literária,
Escritos Andrei Zhdanov

não é apenas uma caçoada inofensiva das aventuras de One-


guin, correndo atualmente em Leningrado. O sentido desse
libelo de Hazin consiste em comparar nossa Leningrado de
hoje à São Petersburgo da época de Pushkin e em demonstrar
que nosso século é inferior ao de Oneguin. Examinemos pelo
menos alguns versos dessa paródia. Nada agrada ao autor na
Leningrado de hoje. Somente zombarias malévolas e calúnias
dos homens soviéticos e de Leningrado, ao passo que o sé-
culo de Oneguin é a idade de ouro, segundo Hazin. Hoje as
coisas são diferentes - surgiram os salvo-condutos, os cartões
de racionamento, o serviço nos quartéis. As jovens, aquelas
criaturas etéreas e sobrenaturais que Oneguin admirava ou-
trora, tornaram-se agora inspetoras do trânsito, elas recons-
troem as casas etc. etc. Permiti-me citar ao menos uma pas-
sagem dessa “paródia”: “Eis que nosso Eugênio sobe no
bonde. Pobre, bom homem! Seu século inculto não conheceu
esse meia de transporte. A sorte lhe sorriu Só lhe pisaram os
pés, E apenas uma vez, empurrando-o, chamaram-no de “idi-
ota”. Ele, lembrando-se dos costumes de outrora, quis encer-
rar o incidente com um duelo. Remexeu nos bolsos, Mas há
muito tempo já lhe haviam subtraído as luvas. Na falta das
luvas não teve remédio senão ficar de boca fechada”.
Eis aí Leningrado tal como era e tal como se tornou
hoje em dia: feia, inculta, grosseira; como desagradou ao po-
bre, ao bom Oneguin. E assim que Hazin apresenta Lenin-
grado e seus habitantes. Que tendência maldosa, corrupta e
podre nessa parodia caluniadora! Como pôde a redação de
Leningrado deixar passar essa maldosa calúnia da cidade e de
seus magníficos habitantes? Como se podem admitir Hazines
nas revistas de Leningrado? Tomemos uma outra obra, a pa-
rodia de uma parodia sobre Nekrasov, escrita de tal sorte que
é um insulto direto à memória do grande poeta e do homem
público que ele foi, insulto com o qual se devia indignar todo
homem culto. Ora, a redação de Leningrado publicou com
boa vontade esse vulgar ensopado literário.
Que encontramos ainda na revista Leningrado? Uma
anedota estrangeira, sem graça e vulgar, tirada provavelmente
das antigas coleções de anedotas surradas do fim do último
século. Não terá, essa revista nada melhor para publicar? Não
há nenhum assunto literário? Vede, por exemplo, o tema da
reconstrução de Leningrado. Um trabalho magnífico se de-
senrola, a cidade cura suas feridas causadas pelo cerco. Os
leningradenses estão cheios de entusiasmo e da alegria da re-
construção do após guerra. A revista Leningrado diz, por
acaso, uma palavra sobre isso? Os habitantes de Leningrado
terão o prazer de ver seus feitos refletidos nas páginas da re-
vista?
Consideremos agora o tema da mulher soviética. Será
possível permitir que se cultivem entre os leitores e feitoras
soviéticos as opiniões impudicas de Akhmatova sobre o papel
da mulher, sem dar uma única ideia exata, da mulher soviética
em geral, da jovem e da mulher heroína de Leningrado em
particular, que suportaram todo o peso das enormes dificul-
dades da “guerra e que trabalham hoje abnegadamente para
levar a caba as árduas tarefas da reconstrução econômica?
Como se vê, a situação na seção de Leningrado da
União dos Escritores é tal que no momento atual as obras de
valor não são suficientes para duas revistas literárias e artís-
ticas. Eis por que o Comitê Central da Partido decidiu suspen-
der a revista Leningrado a fim de concentrar todas as melho-
res forças literárias na revista Zviezda. Isto, naturalmente, não
significa que Leningrado não possuirá, em condições favorá-
veis, uma segunda e mesmo uma terceira revista. A questão
será decidida pelo número de obras de qualidade, de grande
Escritos Andrei Zhdanov

valor. Se estas forem bastante numerosas e se uma única re-


vista não for suficiente, então poder-se-á criar uma segunda
ou uma terceira revista, mas sob a condição única de que nos-
sos escritores de Leningrado produzam obras de valor, do
ponto de vista ideológico e artístico. Foram esses os erros e
as deficiências maiores revelados e destacados pela resolução
do Comitê Central do Partido Comunista em relação às revis-
tas Zviezda e Leningrado. Qual a origem desses erros e dessas
deficiências?
Sua origem decorre do fato de que os redatores das
revistas em questão, nossos escritores soviéticos, bem como
os chefes de nossa frente ideológica em Leningrado, esque-
ceram-se de alguns dos princípios fundamentais do leninismo
sobre a literatura. Numerosos escritores, e entre eles os que
ocupam postos de responsabilidade como redatores, ou na
União das Escritores, pensam que a política é um negócio de
governo, um negócio do Comitê Central. Quanto aos literatos,
a política não lhes diz respeito. Se um homem escreve bem,
artisticamente, numa bela forma – é preciso publicar, apesar
das passagens corrompidas que desorientam nossa juventude
e a envenenam. Exigimos, que nossos camaradas, tanto os
responsáveis literários como os que escrevem, se inspirem no
princípio sem o qual o regime soviético não pode viver, isto é,
a política, a fim de que nossa juventude não seja educada num
espírito de indiferença e de displicência, e sim num espírito
de entusiasmo revolucionário.

Publicado na Revista Problemas nº. 20 – agosto/setembro de 1949.


Escritos Andrei Zhdanov

O Papel Social da Arte Progressista

Sabe-se que o leninismo assimilou todas as melhores


tradições dos revolucionários democratas russos do século
XIX e que nossa cultura soviética nasceu, desenvolveu-se e
desabrochou graças à sua herança cultural do passado, su-
jeita a uma crítica aprofundada. No domínio da literatura
nosso Partido reconheceu mais de uma vez, através das pala-
vras Lenin e Stalin, o importantíssimo papel dos grandes es-
critores e críticos revolucionários democratas – Belinsky, Do-
brolyubov, Chernichevsky, Saltykov-Tchedrin, Plekhanov. Co-
meçando por Belinsky, todos os melhores representantes da
intelectualidade revolucionária democrata não reconheciam a
suposta “arte pura”, “arte (pela arte”, e preconizavam a arte
para o povo, sua alta significação ideológica e social. A arte
não se pode afastar do destino do povo. Lembrai-vos da fa-
mosa “Carta a Gogol” de Belinsky, em que o grande crítico
fustigou apaixonadamente Gogol por ter este tentado trair o
povo e passar para o campo do czar. Lenin caracterizou essa
carta como uma das melhores produções da imprensa demo-
crática não censurada, tendo conservado um grande alcance
literário até o presente. Lembrai-vos dos artigos jornalísticos
e literários de Dobrolyubov que mostram com tanta força
todo o alcance social da literatura. Toda nossa literatura pu-
blicitária revolucionário-democrática está impregnada de um
ódio mortal ao regime czarista e saturada do desejo de lutar
pelos interesses vitais do povo, pela sua cultura, sua instru-
ção, sua libertação das cadeias do regime czarista. Para os
grandes, literatos russos, a literatura e a arte são meios de
combate e de luta pelos supremos ideais do povo. Tcher-
nychevsky, aquele que entre todos os socialistas utópicos
Escritos Andrei Zhdanov

mais se aproximou do socialismo científico, e cuja obra, como


dizia Lenin: “irradiava o espírito da luta de classes”; ensinava
que o objetivo da arte era não só compreender a vida, mas
ainda ensinar os homens a apreciar em seu justo valor os di-
ferentes fenômenos sociais. Seu amigo e companheiro de luta
mais íntimo, Dobrolyubov, acentuava que “a vida não segue
as normas literárias, mas a literatura se adapta às tendências
da vida” e preconizava intensivamente os princípios do rea-
lismo e do populismo na literatura, julgando e a arte suprema
era a realidade, que esta era a fonte da arte e a arte tinha um
papel ativo na vida social, formando a consciência da Se-
gundo Dobrolyubov, a literatura deveria servir à sociedade,
dar respostas para as questões atuais mais prementes, e man-
ter-se no nível das ideias de sua época.
A crítica literária marxista, continuando as grandes tra-
dições de Belinsky, Chernichevsky, Dobrolyubov, sempre foi
a campeã da arte social. Plekhanov muito trabalhou para des-
mascarar as concepções idealistas e anticientíficas da litera-
tura e da arte e para defender os princípios fundamentais de
nossos grandes revolucionários democratas que sempre en-
sinaram que a literatura é um instrumento poderoso para ser-
vir aos interesses do povo. Foi Lenin quem primeiro exprimiu
com a maior nitidez o ponto de vista do pensamento social
progressista sobre a literatura e a arte. Quero lembrar-vos o
célebre artigo de Lenin “A Organização do Partido e a Litera-
tura de Partido”, escrito em fins de 1905, onde ele mostrou,
com o vigor que lhe é próprio, que a literatura não podia dei-
xar de ter partido, que devia ser um fator importante na luta
do proletariado. Nesse artigo ele apresentou todos os princí-
pios que constituem a base do desenvolvimento de nossa li-
teratura soviética. Lenin escreve: “A literatura deve tornar-se
a obra do partido. Contra os costumes burgueses, a imprensa
Escritos Andrei Zhdanov

burguesa do comércio e da empresa, contra o carreirismo e o


individualismo literários burgueses, a “anarquia senhoria” e
a caça aos lucros, o proletariado socialista deve apresentar o
princípio de uma literatura de partido, desenvolver esse prin-
cípio e lhe dar vida da maneira mais completa”.
Em que consiste esse princípio de literatura de par-
tido? Não somente em que a literatura proletária socialista
não pode ser um meio de enriquecimento de um indivíduo ou
de um grupo, mas que em geral não pode ser nem individual,
nem independente da obra comum do proletariado. Abaixo os
escritores sem partido! Abaixo os escritores super-homens! A
literatura deve tornar-se parte integrante da luta proletária.
Mais adiante, no mesmo artigo diz Lenin: “É impossível viver
na sociedade e dela não depender. A liberdade do escritor, do
artista, da atriz burguesa não é senão a dependência camu-
flada (ou hipocritamente disfarçada) da bolsa do empresário”.
O leninismo parte do princípio de que nossa literatura
não pode ser apolítica, não pode considerar “a arte pela arte”,
mas deve desempenhar Um papel de vanguarda na vida social.
Nisso se inspira o princípio leninista da literatura de partido –
a contribuição mais preciosa de Lenin à ciência da literatura.
Segue-se daí que a melhor tradição da literatura soviética
continua as melhores tradições da literatura russa do século
XIX, tradições criadas por nossos grandes revolucionários de-
mocratas – Belinsky, Dobrolyubov, Chernichevsky, Saltykov-
Tchedrin, seguidos por Plekhanov – formuladas e elaboradas
cientificamente por Lenin e Stalin.
Nekrasov chamava sua poesia “a musa da vingança e
da dor”, Chernichevsky e Dobrolyubov consideravam a litera-
tura como um dever sagrado para com o povo Os melhores
representantes da intelectualidade democrática russa mor-
Escritos Andrei Zhdanov

riam, sob o regime czarista, por essas grandes! Ideias genero-


sas, eram condenados à prisão e ao exílio. Como é possível]
esquecer-se dessas gloriosas tradições? Como não as levar
em consideração, como permitir que Akhmatovas e Zostchen-
kos lancem às escondidas palavras de ordem reacionárias da
“arte pela arte” e, disfarçando-se com a máscara do apoliti-
cismo, imponham ideias estranhas ao povo soviético? O leni-
nismo empresta à nossa literatura soviética uma grande im-
portância social e educativa. Se nossa literatura soviética per-
mitir que esse papel educador seja rebaixado – isto significa-
ria um recuo, aí volta à “idade da pedra”.
O camarada Stalin denominou nossos escritores “os
engenheiros da alma humana”. Essa definição tem uma
grande significação. Subentende a enorme responsabilidade
dos escritores soviéticos na educação dos homens, da juven-
tude, em sua vigilância para não permitir produtos literários
defeituosos. Certas pessoas estranham que o Comitê Central
tenha tomado medidas tão fortes numa questão literária. Não
estão habituados a isto. Acham perfeitamente natural a seve-
ridade nas questões de infrações! Na produção, ou de atraso
na realização de programa da produção ou dos estoques de
madeira, mas quanto às infrações na educação da alma Hu-
mana ou da juventude, estas são toleradas. No entanto, não
são estas faltas muito mais graves do que a não-realização de
um programa de produção ou o fracasso de uma tarefa indus-
trial? Com sua resolução, o Comitê Central pretende colocar
a frente ideológica acima de todos os outros ramos de nosso
trabalho.
Ultimamente foram notadas grandes deficiências e
brechas na frente ideológica. Basta citar-vos o atraso de
nossa arte cinematográfica. Quanto joio entre essas produ-
Escritos Andrei Zhdanov

ções de nosso repertório dramático, sem contar o que acon-


teceu nas revistas Zviezda e Leningrado. O Comitê Central foi
forçado a intervir, e a modificar categoricamente a situação.
Não tinha mais o direito de atenuar o golpe que vibrava na-
queles que se esquecem de suas obrigações para com o povo
e a educação da juventude. Se quisermos chamar a atenção
de nossos ativistas para os problemas ideológicos e a fazê-lo
com ordem, orientando claramente a tarefa a cumprir, deve-
remos criticar duramente, como convém a homens soviéticos,
a bolcheviques, os erros e as deficiências do trabalho ideoló-
gico. Só então conseguiremos modificar a situação.
Certos escritores raciocinam da seguinte maneira:
considerando-se que durante a guerra o povo passou fome de
literatura, que se publicavam poucos livros, o leitor engolirá
qualquer mercadoria, mesmo apodrecida. No entanto, não é
o que acontece e não podemos admitir essa espécie de litera-
tura que nos irão apresentar escritores, redatores e editores
sem discernimento. O povo espera dos escritores soviéticos
uma verdadeira armadura ideológica, uma alimentação espi-
ritual que o ajudará a realizar os planos da grande constru-
ção, da restauração e. do envolvimento da economia nacional
de nosso país. Exige muito dos escritores, deseja ver satisfei-
tas suas aspirações ideológicas e culturais. Durante a guerra,
devido às circunstâncias, não pudemos satisfazer suas neces-
sidades vitais. O povo quer que se expressem os acontecimen-
tos passados. Seu nível ideológico e cultural elevou-se. Fre-
quentemente não fica satisfeito com a qualidade das obras li-
terárias e artísticas que se publicam em nosso país. Certos
escritores e trabalhadores da frente ideológica não querem
compreender isto.
O nível das exigências e do gosto de nosso povo ele-
vou-se muito e aquele que não quiser compreendê-lo ou nele
Escritos Andrei Zhdanov

não se conseguir manter ficará para trás. A literatura não se


destina unicamente a seguir o nível das necessidades do
povo, muito mais, deve desenvolver seus gostos, elevar suas
exigências, enriquecê-lo com ideias novas, levá-lo para di-
ante. Aquele que não puder seguir o povo, satisfazer suas as-
pirações, manter-se no nível de desenvolvimento da cultura
soviética, tornar-se-á forçosamente inútil.
Outro grande erro decorre da insuficiência ideológica
dos diretores de Zviezda e Leningrado. Esse erro consiste em
que alguns de nossos trabalhadores da direção haviam colo-
cado em primeiro plano suas relações com os escritores, não
os interesses da educação dos homens soviéticos e de suas
tendências políticas, mas interesses pessoais e de camarada-
gem. Diz-se que numerosas obras perigosas ideologicamente,
e fracas artisticamente, foram publicadas por medo de ofen-
der, este ou aquele escritor. Do ponto de vista desses redato-
res, era melhor sacrificar os interesses de povo e os do Estado
a fim de não defender ninguém. Essa é uma situação perfei-
tamente injusta e politicamente errada, é como se se preten-
desse trocar um milhão por um tostão.

Desenvolver o Espírito Crítico


O Comitê Central do Partido assinalou em sua resolu-
ção o grande perigo que existe no fato de substituir uma ati-
tude de princípio na literatura por relações, de camaradagem.
Essa atitude de camaradagem, sem princípios, de certos es-
critores nossos, teve uma influência profundamente negativa,
provocou o abaixamento do nível ideológico de numerosas
obras literárias e facilitou o acesso à literatura a elementos
estranhos à literatura soviética. A ausência de senso crítico
nos chefes da frente, ideológica em Leningrado, nos redatores
Escritos Andrei Zhdanov

das revistas da cidade, a substituição de uma atitude, de prin-


cípio por relações de camaradagem, à custa dos interesses do
povo, causou um grande prejuízo.
O camarada Stalin nos ensina que se quisermos con-
servar quadros, instruí-los e educá-los, não devemos ter me-
do de ofender ninguém, nem recear uma crítica de princípios
audaciosa, franca e objetiva. Sem a crítica, qualquer organi-
zação, mesmo literária, pode desagregar-se. Sem a crítica
pode-se agravar qualquer doença e será muito mais difícil
vencê-la. Só uma crítica ousada e franca pode contribuir para
aperfeiçoar nossos cidadãos, levá-lo para a frente e superar
as deficiências de seu trabalho, onde não existe crítica, ins-
tala-se a estagnação, falta o ar, não há mais lugar para o pro-
gresso.
O camarada Stalin assinalou mais de uma vez que a
condição essencial de nosso desenvolvimento é que todo ci-
dadão soviético deve fazer corajosamente o balanço de seu
trabalho, criticar suas deficiências e seus erros, refletir sobre
a possibilidade de obter melhores resultados e trabalhar sem
descansar para seu aperfeiçoamento. Isto se refere tanto aos
escritores como aos demais trabalhadores. Aquele que tem
medo de criticar seu trabalho é um poltrão desprezível, in-
digno da estima do povo.
A atitude não-crítica a respeito do trabalho, a substi-
tuição de uma atitude de princípio para com os escritores por
uma atitude de camaradagem também está muito dissemi-
nada na direção da União dos Escritores Soviéticos. A direção
da União, e particularmente seu presidente, o camarada
Tikhonov, são responsáveis pelos erros descobertos nas re-
vistas Zviezda e Leningrado, responsáveis não só pelo fato de
não terem impedido a infiltração na literatura soviética da in-
fluência nociva de Zostchenko, Akhmatova e outros escritores
Escritos Andrei Zhdanov

não-soviéticos, como também por terem estimulado a infil-


tração em nossas revistas de tendências e costumes estra-
nhos à literatura soviética.
O sistema de irresponsabilidade que se instalou na di-
reção das revistas e, particularmente, na redação das revistas
de Leningrado, onde não se sabia quem era o responsável
pela revista, e pelos seus diferentes setores, onde não se ob-
servava nem a ordem mais elementar, esse sistema também
influiu para as deficiências das duas revistas.
É indispensável consertar essa situação. Eis por que o
Comitê Central em sua resolução designou um redator chefe
do Zviezda responsável por suas tendências e pelas altas qua-
lidades ideológicas e artísticas das obras nela publicadas. A
desordem e a anarquia são inadmissíveis nas revistas, como
em qualquer outra empresa. É necessária uma responsabili-
dade precisa para dirigir uma revista e cuidar do material lite-
rário por ela publicado. Deveis restaurar as grandes tradições
da literatura e da frente ideológica de Leningrado. É triste e
penoso que as revistas de Leningrado, que sempre foram ma-
nanciais de ideias progressistas, de uma cultura progressista,
tenham-se tornado o refúgio da indiferença e da vulgaridade.
É preciso restabelecer a honra de Leningrado, como centro
progressista, ideológico e cultural. É preciso recordar que Le-
ningrado foi o berço das organizações bolcheviques de Lenin.
Foi em Leningrado que Lenin e Stalin apresentaram os prin-
cípios do Partido Bolchevique, os princípios da doutrina e da
cultura bolcheviques.
É uma questão de honra para os escritores de Lenin-
grado, para suas atividades partidárias, restaurar e desenvol-
ver essas gloriosas tradições de Leningrado. A tarefa dos tra-
balhadores da frente ideológica, e acima de tudo os escrito-
Escritos Andrei Zhdanov

res, consiste em eliminar da literatura de Leningrado o apoli-


ticismo e a vulgaridade, a elevar bem alto o estandarte da li-
teratura soviética progressista, a aproveitar todas as possibi-
lidades de elevar seu nível ideológico e artístico, e não ficar
para trás dos temas da atualidade, das necessidades do povo,
a desenvolver, por todos os meios, uma crítica ousada de suas
deficiências, não uma crítica servil, nem de grupo, nem de
confraria, mas uma verdadeira crítica audaciosa e indepen-
dente, ideológica e bolchevique.
Camaradas, vedes claramente agora o erro grosseiro
que o Comitê do Partido em Leningrado admitiu, e particular-
mente sua seção e seu Secretário de Propaganda, o camarada
Chirokov, que havia sido colocada à frente do trabalho ideo-
lógico e que é o primeiro responsável pela má direção das re-
vistas. O comitê de Leningrado cometeu um grande erro polí-
tico adotando, em fins do mês de junho, uma decisão relativa
à nova equipe da redação do Zviezda nela incluindo Zost-
chenko. Só uma cegueira política pode explicar que o secre-
tário do Comitê de Leningrado, Kapustin, e o secretário de
propaganda do Comitê de Leningrado Chirokov, tenham to-
mado uma decisão tão errônea. Repito, todos esses erros de-
vem ser emendados o mais rapidamente e o mais categorica-
mente possível, a fim de que Leningrado retome seu lugar na
vida ideológica de nosso Partido.

Tarefas do Escritor Soviético


Todos nós amamos Leningrado, todos nós amamos
nossa organização do Partido em Leningrado, como uma das
unidades de vanguarda de nosso Partido. Leningrado não
deve ser o refúgio dos diversos canalhas literários que querem
explorá-la no seu próprio interesse. Zostchenko, Akhmatova
e tutti quanti não amam a Leningrado soviética. Veem nela o
Escritos Andrei Zhdanov

símbolo de outras instituições sociais-políticas e de uma ou-


tra ideologia. A antiga São Petersburgo, o Cavaleiro de
Bronze, que a encarna aos seus olhos, eis as visões que lhes
enchem os olhos. Mas nós amamos a Leningrado soviética, a
Leningrado centro progressista da literatura soviética. A céle-
bre coorte dos grandes revolucionários democratas, proveni-
entes de Leningrado, são nossos antepassados diretos, à cuja
árvore genealógica pertencemos. As grandes tradições da Le-
ningrado de hoje continuam essas grandes tradições revolu-
cionárias e democráticas que não trocaremos contra nada
neste mundo. Que os ativistas de Leningrado analisem seus
erros com coragem, sem olhar para trás, sem se deterem a fim
de retificar melhor e mais rapidamente suas faltas, e de levar
avante nossa obra ideológica. Os bolcheviques de Leningrado
devem novamente ocupar seu lugar na vanguarda da ideolo-
gia soviética, da consciência social soviética.
Como pôde acontecer que o Comitê do Partido em Le-
ningrado tenha admitido um tal estado de coisas na frente
ideológica?
Provavelmente interessou-se pelo trabalho prático,
corrente, da restauração da cidade, pelo seu progresso indus-
trial e esqueceu-se do papel de seu trabalho ideológico, e este
esquecimento custou caro à organização de Leningrado! Não
se pode esquecer do trabalho ideológico! As riquezas espiri-
tuais de nossos cidadãos são tão importantes quanto suas ri-
quezas materiais. Viver como cego, sem se preocupar, com o
dia de amanhã é tão nocivo no domínio da ideologia quanta
no da produção material. Nossos homens soviéticos cresce-
ram de tal maneira que não “engolirão” qualquer produção
espiritual que lhes queiram oferecer. Os trabalhadores da cul-
Escritos Andrei Zhdanov

tura e da arte que não se queiram reformar, não poderão sa-


tisfazer as exigências crescentes do povo, e perderão rapida-
mente sua confiança.
Camaradas, nossa literatura soviética vive, e deve vi-
ver, pelos interesses do povo e da pátria. A literatura diz res-
peito ao povo. Eis porque o povo considera cada sucesso
vosso, cada uma de vossas obras de valor como vitórias suas.
Eis porque se pode comparar cada obra vitoriosa com um
combate ganho, ou como uma grande vitória na frente eco-
nômica. Pelo contrário, cada fracasso na literatura soviética,
é profunda e amargamente sentida pelo povo, pelo Partido,
pelo Estado. É precisamente o que visa a resolução do Comitê
Central, que se preocupa com os interesses do povo, com sua
literatura, e que está extremamente inquieto com a situação
dos escritores de Leningrado.
Se homens apolíticos querem privar o batalhão dos es-
critores soviéticos de Leningrado de seus fundamentos, sola-
par o aspecto ideológico de seus trabalhos, privar a arte de
seus escritores de seu alcance social e educativo o Comitê
Central espera que saberão encontrar em si próprios forças
suficientes para resistir a todas as tentativas para arrastá-los
e às suas revistas na corrente do apoliticismo, da indiferença
e da covardia. Estais na vanguarda da frente ideológica; er-
guem-se diante de vós imensas tarefas de significação inter-
nacional; isto deve estimular o sentimento de responsabili-
dade de todo escritor soviético para com seu povo, seu Es-
tado, seu Partido, assim como a consciência da importância
do dever cumprido.
Nossos sucessos desagradam ao mundo burguês,
tanto em nosso país como na arena internacional. Depois da
Segunda Guerra Mundial consolidaram-se as posições socia-
Escritos Andrei Zhdanov

listas. O socialismo está na ordem do dia em numerosos paí-


ses da Europa, p que contraria os imperialistas de toda espé-
cie. Eles temem o socialismo, temem nosso país socialista que
é um modelo para toda a humanidade progressista. Os impe-
rialistas, seus êmulos ideológicos, seus escritores e seus jor-
nalistas, seus políticos e seus diplomatas procuram por todos
os meios caluniar nosso país, apresentá-lo sob uma falsa luz,
caluniar o socialismo. Nessas condições a tarefa da literatura
soviética consiste não só em devolver golpe por golpe toda
essa odiosa calúnia e todo ataque contra nossa cultura sovi-
ética, contra o socialismo, mas ainda em fustigar e atacar co-
rajosamente a cultura burguesa que está num estado de ma-
rasmo e corrupção.
Por mais bela que seja a forma externa das obras dos
escritores burgueses atuais da Europa Ocidental ou da Amé-
rica, dos empresários cinematográficos ou dramáticos, eles
não saberão, salvar ou reerguer sua cultura burguesa, pois
que está a serviço da propriedade privada capitalista, a serviço
de interesses egoístas, de uma sociedade privilegiada bur-
guesa. Toda a multidão de escritores, de empresários burgue-
ses, procura desviar a atenção das camadas progressistas da
sociedade das questões candentes da luta política e social, e
de orientá-la para uma literatura e uma arte apolíticas, reple-
tas de gangsteres, de figurantes das variedades, da apologia
do adultério e das façanhas de toda sorte de aventureiros e
velhacos.
Por acaso nos convém, a nós, representantes da cul-
tura soviética progressista, patriotas soviéticos, esse papel
servil diante da cultura burguesa ou o papel de seus discípu-
los? É nossa literatura, refletindo um regime mais evoluído
que qualquer regime burguês-democrático, uma cultura mui-
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tas vezes superior a qualquer cultura burguesa, que tem o di-


reito de ensinar a outros uma nova moral humana. Onde en-
contrarei um povo e um país como os nossos? Onde encon-
trarei essas notáveis virtudes de homens de que deu prova
nosso povo soviético na Grande Guerra Patriótica e de que dá
prova diariamente em seu trabalho, tendo passado à restau-
ração e ao desenvolvimento pacíficos da economia e da cul-
tura? Cada dia que se passa vê elevar-se mais nosso povo.
Não somos mais hoje o que fomos ontem, e amanhã não se-
remos mais o que somos hoje. Não somos mais os russos de
antes de 1917 e a Rússia não é mais a mesma, como não o é
nosso caráter. Mudamos, crescemos com essas gigantescas
reformas que modificaram radicalmente o aspecto de nosso
país.
Mostrar essas grandes virtudes novas dos homens so-
viéticos, mostrar nosso povo, não somente como é hoje, mas
como será amanhã iluminar com um projetor o caminho que
está à frente, – tais são as tarefas de todo escritor soviético
honesto. O escritor não pode ficar a reboque dos aconteci-
mentos, deve marchar na vanguarda do povo, mostrando-lhe
o caminho de seu desenvolvimento! Inspirando-se nos méto-
dos do realismo socialista, estudando conscientemente e
atentamente nossa, realidade, esforçando-se por penetrar
mais profundamente na essência de nossa evolução, o escri-
tor deve educar o povo e armá-lo ideologicamente. Apon-
tando os melhores sentimentos e qualidades do homem sovi-
ético, revelando-lhe seu futuro, devemos ao mesmo tempo
mostrar ao nosso povo aquilo que ele não deve ser, devemos
fustigar as reminiscências do passado, as reminiscências que
impedem o homem soviético de marchar para frente. Os es-
critores soviéticos devem ajudar o povo, o Estado, o Partido a
Escritos Andrei Zhdanov

educar nossa juventude corajosa e confiante em suas forças,


sem temer quaisquer dificuldades.
Sejam quais forem os esforços dos políticos e dos es-
critores burgueses para esconder de seus povos a verdade
pura, os resultados obtidos pelo regime e a cultura soviéticos,
apesar de todas as suas tentativas de erguer uma cortina de
ferro, através da qual a verdade sobre a União Soviética não
possa penetrar, de diminuir a verdadeira envergadura da cul-
tura soviética – todas essas tentativas estarão fadadas, ao fra-
casso. Conhecemos muito bem a força e a supremacia de
nossa cultura. Basta lembrar os sucessos estupendos de nos-
sas delegações culturais no estrangeiro, nossa parada de cul-
tura física, etc. Acaso cabe-nos, a nós, prosternar-nos servil-
mente diante do estrangeiro ou aquartelarmo-nos na defen-
siva?
Se o regime feudal, e em seguida a burguesia, conse-
guiram com seu período de florescimento criar uma arte e
uma literatura para consagrar um novo regime e proclamar
seu brilho, tanto melhor poderemos nós criar, graças a nosso
novo regime socialista, que representa o que há de supremo
e de melhor na história da civilização e da cultura humanas,
a literatura mais progressista do mundo que sobrepujará as
melhores obras do passado.
Camaradas, que quer e exige o Comitê Central? Quer
que os ativistas e os escritores de Leningrado compreendam
bem que chegou o momento em que é indispensável reerguer
consideravelmente o nível de nosso trabalho ideológico. A jo-
vem geração soviética deverá consolidar as forças e o poder
do regime soviético socialista, explorando plenamente as for-
ças motrizes da sociedade soviética, com vistas ao floresci-
mento sem precedente de nosso bem-estar e de nossa cul-
Escritos Andrei Zhdanov

tura. Para este fim, a jovem geração deve ser educada corajo-
samente, ardentemente, sem temer obstáculos, marchando
ao encontro de todas as dificuldades e sabendo superá-las.
Nossos homens devem ser instruídos, ter ideias elevadas, exi-
gências e gostos culturais e morais desenvolvidos. Com esse
objetivo, nossa literatura, nossas revistas, não devem manter-
se afastadas dos problemas da atualidade, mas, ao contrário,
devem ajudar o Partido e o povo a educar a juventude num
espírito de fidelidade absoluta ao regime soviético, de abne-
gação aos interesses do povo.
Os escritores soviéticos e todos os nossos trabalhado-
res ideológicos ocupam na hora atual a primeira linha, pois
que na conjuntura da paz, as tarefas da frente ideológica, e
em primeiro lugar dos escritores, longe de se restringirem, in-
tensificam-se ao contrário. O povo, o Estado e o Partido não
querem que os escritores se afastem da atualidade, querem
que a literatura esclareça todos os aspectos da vida soviética.
Os bolcheviques apreciam grandemente a literatura, veem
claramente sua alta missão histórica e seu papel na consoli-
dação da unidade moral e política do povo, na sua fusão e sua
educação. O Comitê Central quer que tenhamos uma abun-
dante cultura espiritual, pois que vê nessa riqueza uma das
principais tarefas do socialismo. O Comitê Central está certo
de que o setor literário de Leningrado, moral e politicamente
são, saberá retificar rapidamente seus erros e ocupar o lugar
que lhe cabe na literatura soviética. Está certo de que as defi-
ciências do trabalho dos escritores de Leningrado serão su-
peradas e que o trabalho ideológico da organização do Par-
tido nessa cidade elevar-se-á no mais breve prazo à altura
atualmente necessária aos interesses do Partido, do povo e
do Estado.
Escritos Andrei Zhdanov

A Tendência Ideológica
da Música Soviética

Camaradas! Antes de tudo seja-me permitido fazer al-


gumas observações sobre o caráter da discussão que foi aqui
aberta. A apreciação geral da posição no terreno da criação
musical não é suficientemente boa. Alguns disseram que as
coisas andavam particularmente mal no que tange à organi-
zação e chamaram a atenção para o nível pouco satisfatório
da crítica e da autocrítica e da orientação incorreta dos as-
suntos musicais, especialmente na União de Compositores.
Outros, embora de acordo com a crítica dos métodos e da
forma de organização, sublinharam a posição pouco satisfa-
tória quanto à tendência ideológica da música soviética. Ou-
tros ainda procuraram diminuir a urgência do assunto ou pas-
sar por alto estas questões desagradáveis. Não obstante todas
estas diferenças de matiz na apreciação da situação atual, o
centro da discussão está em que as coisas não marcham
muito bem.
Não é minha intenção introduzir dissonância ou ato-
nalidade nesta apreciação, se bem que a “atonalidade” esteja
agora em moda. As coisas realmente marcham mal. Em minha
opinião, pior do que foi dito aqui. Não é minha intenção negar
os êxitos da música soviética. Sem dúvida, tivemos êxitos.
Mas se nos detivemos a pensar nos êxitos que podíamos e
devíamos ter alcançado na música soviética, se também com-
pararmos nossos êxitos na música com nossos êxitos no ter-
reno ideológico em geral, devemos admitir que os primeiros
são bastante insignificantes. No caso da literatura, por exem-
plo, alguns dos grandes periódicos atualmente se veem em
Escritos Andrei Zhdanov

dificuldades para conseguir espaço disponível em seus próxi-


mos números, tão grande é a quantidade de material perfei-
tamente apropriado à publicação que se acumulou em suas
páginas editoriais. Penso que nenhum dos oradores pode jac-
tar-se de uma tal superprodução em música. Foram obtidos
progressos na arte cinematográfica e no teatro, mas em mú-
sica não houve avanço notório.
A música ficou para trás. Tal é a questão desenvolvida
em todas as intervenções. A situação da União dos Composi-
tores e do Comitê de Artes é decididamente anormal. Pouco
se disse a respeito do Comitê de Artes: não se o criticou sufi-
cientemente. De qualquer modo, foi aqui acusada, em muito
maior grau e mais severamente, a União dos Compositores. E,
no entanto, o Comitê de Artes teve um papel muito menos
acertado. Pretendendo permanecer fiel à tendência realista
em música, o Comitê de Artes fez tudo quanto pôde para alen-
tar a tendência formalista, protegendo seus cultores e aju-
dando assim a desorganizar os compositores e a introduzir a
confusão ideológica em suas fileiras. Ignorante e incompe-
tente no que concerne aos problemas da música, o Comitê de
Artes se deixou arrastar pela corrente, a reboque dos compo-
sitores de inclinação formalista.

Quando faltam a Crítica e a Autocrítica, as fontes de


Produção secam
O Comitê de Organização da União dos Compositores
foi aqui comparado a um mosteiro ou a um corpo de generais
sem exército. Estas duas apreciações não se excluem. Se o
destino da música soviética se transforma no privilégio de um
círculo extremamente estreito de compositores e críticos pro-
eminentes – estes últimos eleitos na base do fervor com que
Escritos Andrei Zhdanov

defendem seus mestres, criando assim uma atmosfera sufo-


cante de adulação em torno de tais compositores – se falta a
discussão construtiva, se a prática corrupta e decadente de
classificar os compositores em compositores de primeira e de
segunda categoria foi firmemente estabelecida na União de
Compositores, se o estilo dominante em suas reuniões cons-
trutivas é o do silêncio diplomático ou o do elogio referente a
uns poucos eleitos, se a direção do Comitê de Organização se
mantém afastada da massa de compositores, então não se
pode negar que a situação em nosso “Monte Olimpo” musical
tornou-se realmente alarmante.
Devemos fazer menção especial às perversas tendên-
cias da crítica e à ausência da discussão construtiva na União
dos Compositores. Desde que não há discussão construtiva,
nem crítica, nem autocrítica, não pode haver também pro-
gresso. A discussão construtiva e objetiva, independente-
mente da crítica – isto já é axiomático – são os mais impor-
tantes pré-requisitos da produção criadora. Quando faltam a
crítica e a discussão construtiva, as fontes de produção secam
e se cria uma atmosfera de decadência e estancamento. Nos-
sos compositores, no entanto, precisam antes de tudo e fun-
damentalmente disto. Não é de se estranhar, portanto, que as
pessoas que participam pela primeira vez numa discussão so-
bre problemas musicais, se surpreendam e achem estranho
que existam aqui tantas, contradições irreconciliáveis, como
sejam o regime conservador de organização da União dos
Compositores e os pontos de vista pretensamente ultra pro-
gressistas – na esfera da criação ideológica – de seus dirigen-
tes atuais. Sabemos que a direção da União dos Compositores
subscreveu palavras de ordem tão comprometedoras como
um chamado às inovações, o repúdio à tradição, a luta contra
o “epigonismo”, etc. Mas é estranho que essa mesma gente
Escritos Andrei Zhdanov

que deseja parecer extremamente radical e mesmo revolucio-


nária no terreno da criação artística, que se mostra icono-
clasta, que essa mesma gente se mostre extremamente reaci-
onária frente a qualquer inovação ou modificação no que se
refere à sua participação nas atividades da União dos Compo-
sitores, que seja conservadora em seus métodos de trabalho
e de direção e que, nos problemas de organização, frequente-
mente se subordine a más tradições e ao desprezado “epigo-
nismo”, cultivando os métodos mais velhos e decadentes na
orientação da vida e da atividade de sua organização. Não é
difícil explicar porque isto se dá. Se a parolagem bombástica
sobre pretensas novas tendências da música soviética é
acompanhada de fatos que de nenhum modo podem ser cha-
mados de progressistas, isto por si só confirma as legitimas
dúvidas existentes sobre a natureza pretensamente progres-
sista dos princípios ideológicos criadores que se implantaram
com tais métodos reacionários.
Como todos bem sabeis, o aspecto organizativo de
qualquer assunto é muito importante. As organizações cria-
doras de nossos compositores e músicos evidentemente pre-
cisam de um bom arejamento. É necessária uma brisa fresca
para clarear a atmosfera dessas organizações, a fim de que
possam estabelecer as condições normais para o desenvolvi-
mento do trabalho criador. No entanto, a questão organiza-
tiva, com a importância que tem, não é o ponto básico. O pro-
blema central está na tendência da música soviética. A julgar
pelo caminho que nossa discussão tomou aqui, esta questão
foi subestimada, e isto não está certo. Assim como na música
se procura a frase musical lúcida, da mesma maneira no pro-
blema do desenvolvimento da tendência musical, devemos
conseguir clareza. A pergunta – “Há duas tendências em mú-
sica? “, a discussão de uma resposta perfeitamente definida:
Escritos Andrei Zhdanov

– “Sim; precisamente esta é a questão. “ Se bem que alguns


camaradas tenham evitado chamar as coisas pelo seu nome –
e houve algo de vago na discussão – está claro que se está
levando a cabo uma luta entre duas tendências e que se estão
realizando esforços para substituir uma tendência por outra.
Alguns camaradas sustentaram que não existe razão
para trazer a debate a questão da luta entre tendências, que
não ocorreram modificações de natureza qualitativa, e que o
que se está passando é o desenvolvimento avançado da he-
rança da escola clássica nas condições soviéticas. Disseram
que não se está fazendo a revisão dos princípios da música
clássica e que, por conseguinte, não havia nada a dizer nem
por que alarmar-se. Quiseram demonstrar que era questão
simplesmente de corrigir algo aqui ou ali, em casos isolados
de inclinação pela técnica antes de tudo, de erros naturalistas
isolados, etc. Já que houve essa espécie de camuflagem, o
problema da luta entre as duas tendências exige ser tratado
de maneira mais ampla. Naturalmente não se trata apenas de
fazer algumas correções, não se trata apenas de que haja uma
goteira no teto do Conservatório e que se torne necessário
repará-la, necessidade sobre a qual não podemos deixar de
estar todos de acordo com o camarada Shebalin. Não é so-
mente no teto do Conservatório que existe uma falha – isto
pode consertar-se rapidamente. Há falha muito maior nos ali-
cerces da música soviética. Não podem existir duas opiniões
sobre este ponto. Todos os oradores destacaram aqui que um
determinado grupo de compositores está exercendo um papel
dirigente na atividade criadora da União dos Compositores.
Os compositores em questão são os camaradas Chostako-
vitch, Prokofieff, Miaskovski, Khatchaturian, Popov, Kava-
levski, Chebalin. Há alguém mais que creia possa agregar-se
a este grupo? (Vozes na sala: – Chaporin).
Escritos Andrei Zhdanov

Falando do grupo dirigente que governa todas as cor-


das e chaves do CE sobre trabalho criador, são estes os nomes
que frequentemente se mencionam. Consideramos estes ca-
maradas como as principais figuras dirigentes da tendência
formalista na música. E essa tendência é fundamentalmente
errônea. Os camaradas que mencionei também falaram aqui
e declararam que eles igualmente não estão satisfeitos com a
falta de crítica na União dos Compositores, reclamaram por
serem excessivamente elogiados e disseram reconhecer que
existe certa fraqueza em relação ao seu contato com a massa
principal de compositores e com o público, etc., mas era difícil
que saísse de todas estas verdades uma ópera de êxito – com-
pleta ou quase completa. Essas confissões já deveriam ter
sido feitas há muito tempo. O certo é que para o grupo diri-
gente de nossos compositores com inclinações formalistas, o
regime que existiu até agora em nossas organizações musi-
cais era, para dizê-lo delicadamente, “não de todo desagradá-
vel”.
Houve necessidade de uma reunião do Comitê Central
do Partido para que esses camaradas descobrissem que tal
regime tem seus lados negativos. Seja como for, enquanto
não se realizou aquela reunião do C. C. do Partido, nenhum
deles pensou em modificar o estado de coisas existente na
União dos Compositores. As forças do “tradicionalismo” e do
“epigonismo” funcionavam sem qualquer obstáculo. Foi dito
aqui que chegou o momento de uma mudança radical. É im-
possível deixar de estar de acordo com isso. Já que os postos
mais importantes da música soviética estão ocupados pelos
companheiros citados, desde que ficou demonstrado que as
tentativas de crítica tiveram como resultado, conforme mos-
trou o camarada Zakharov, de maneira explosiva, a imediata
mobilização de todas as forças contra essa crítica, devemos
Escritos Andrei Zhdanov

chegar à conclusão de que foram precisamente aqueles ca-


maradas os que criaram a referida atmosfera, insuportável e
sufocante, de estancamento e de retrocesso, que estão agora
inclinados a declará-la indesejável.
Os camaradas dirigentes da União dos Compositores
sustentam aqui que não há oligarquia na União dos Compo-
sitores. Se assim é, façamos uma pergunta: por que se afer-
ram tanto aos postos principais da União? Será que lhes
agrada o poder pelo poder? Em outras palavras: será que to-
maram o poder em suas mãos porque lhes agrada o poder
pelo poder, por que seu apetite administrativo obtém do po-
der o melhor proveito, ou por que simplesmente desejam im-
por-se aos outros, como Wladimir Galitsky em “O Príncipe
Igor”? Ou será que esse poder era exercido por uma tendência
definida na música? Creio que podemos eliminar a primeira
hipótese; a segunda é mais acertada. Não há razão para dizer-
se que a direção da União dos Compositores não esteja vin-
culada a uma tendência. Tal acusação não pode ser feita a
Chostakovitch, por exemplo. Conclui-se então que era o po-
der em benefício dessa tendência.
E realmente estamos enfrentando, uma luta muito
aguda, se bem que aparentemente oculta, entre duas tendên-
cias na música soviética: uma representa o princípio são e
progressista na música soviética, fundamentado no reconhe-
cimento do enorme papel que exerce a herança clássica e, em
particular, que exercem as tradições da escola musical russa,
combinadas com o conteúdo de elevadas ideias na música,
sua veracidade e realismo, profunda e organicamente vincu-
lados com o povo e sua música e canções – tudo isto entron-
cado a um alto grau de técnica profissional. A outra tendência
é a do formalismo, que é estranha à arte soviética e que se
destaca, sob o pretexto de parecer moderna, pelo repúdio da
Escritos Andrei Zhdanov

herança clássica, pelo desdém para com a música popular,


pela subestimação do povo, preferindo satisfazer emoções
terrivelmente individualistas de um grupo reduzido de estetas
seletos. Esta última tendência substitui uma música natural e
formosamente humana por uma música falsa, vulgar e com
frequência, simplesmente patológica. Ao mesmo tempo é tí-
pico dessa última tendência evitar os ataques de frente, pre-
ferindo esconder sua atividade revisionista sob a máscara de
aparente acordo com os princípios fundamentais do realismo
socialista. Tais métodos de “contrabando”, evidentemente,
não são novos. Temos na história abundantes exemplos de
revisionismo sob o aspecto de aparente acordo com os prin-
cípios fundamentais dos ensinamentos que se pretende revi-
sar. O mais necessário então é expor a verdadeira essência
dessa outra tendência e o dano que está causando ao desen-
volvimento da música soviética.

Perpetuar e desenvolver as tradições da Música Clássica


Examinemos, por exemplo, o problema da atitude
frente à herança clássica. Embora os compositores anterior-
mente mencionados jurem que pisam com ambos os pés so-
bre o terreno da herança clássica, não há nenhuma prova de
que os aderentes da escola formalista estejam perpetuando e
desenvolvendo as tradições da música clássica. Qualquer ou-
vinte poderá dizer que o trabalho dos compositores soviéticos
de tendência formalista é completamente distinto da música
clássica. A música clássica caracteriza-se pela sua veracidade
e realismo, pela faculdade de ater-se à unidade de forma ar-
tística brilhante e de conteúdo profundo e de combinar a
grande técnica com a simplicidade e a compreensibilidade.
Escritos Andrei Zhdanov

A música clássica, em geral, e a soviética, em particu-


lar, são estranhas ao formalismo e ao naturalismo cru. Carac-
terizam-se pelo seu conteúdo de ideias elevadas, baseadas no
reconhecimento da arte musical dos povos como fonte de
música clássica, e pelo profundo respeito e amor aos povos,
à sua música e às suas canções. Que enorme passo para trás
dão os nossos formalistas da música no caminho do desen-
volvimento musical, quando, minando o baluarte da música
verdadeira, compõem música má e falsa, repleta de emoções
idealistas estranhas às grandes massas do povo e capaz de
satisfazer não aos milhões de habitantes da União Soviética,
mas a uns poucos, a uma vintena ou pouco mais de eleitos: a
“elite”. Quinto difere isto da posição de Glinka, Tchaikovsky,
Rimsky Korsakov, Dargonnyjsky e Mussorgsky, que conside-
ravam a faculdade de exprimir o espírito e o caráter do povo
em suas obras como a base fundamental de sua produção ar-
tística. Ao não tomar em consideração as exigências do povo,
seu espírito e sua arte, a tendência formalista em música re-
vela-se de caráter definidamente antipopular.
É terrível que a “teoria” de que “seremos compreendi-
dos daqui a 50 ou 100 anos” e de que “nossos contemporâ-
neos não nos compreendem, mas nos compreenderá a poste-
ridade”, seja corrente entre alguns setores de compositores
soviéticos. Se essa atitude se transformou em hábito, é este
um hábito muito perigoso. Esse tipo de raciocínio significa
isolar-se do povo. Se eu – escritor, artista, homem de letras
em geral ou operário do Partido – não posso esperar ser com-
preendido por meus contemporâneos, para quem vivo e tra-
balho? Isto pode levar somente ao vazio espiritual, a um beco
sem saída. Diz-se que certos críticos musicais servis cochi-
cham essa espécie de “consolo” a nossos compositores, es-
pecialmente agora. Mas será que podem esses compositores
Escritos Andrei Zhdanov

ouvir semelhante conselho, friamente, sem sentir o desejo de


acusar a tais conselheiros pelos menos ante um tribunal de
honra?
Recorde-se como se sentiam os clássicos quanto às
necessidades do povo. Começamos a esquecer com que lin-
guagem inflamada falavam os Cinco Grandes e o grande crí-
tico musical Stasov, que se unia a eles, do elemento popular
na música. Começamos a esquecer as maravilhosas palavras
de Glinka quanto aos vínculos entre o povo e os artistas: “A
música, cria-a o povo, e nós, os artistas, somente arranja-
mos”.
Estamos esquecendo que o grande mestre não ficava
estranho a nenhum gênero de música, se esses gêneros o aju-
dassem a aproximar ainda mais a música das grandes massas
do povo. Permaneceis, no entanto, todos vos, afastados até
mesmo de um gênero como a ópera; considerais a ópera
como secundária, a ela opondo a música sinfônica instrumen-
tal, isto para não mencionar o fato de que menosprezais a
canção, os corais e a música para concerto, considerando ver-
gonhoso rebaixar-se até elas e satisfazer as exigências do
povo. No entanto, Mussorgsky adaptava a música de “O Ho-
pac”, enquanto Glinka utilizava o “Kamorinsky” para uma de
suas melhores composições. Evidentemente, teremos que ad-
mitir que o grande proprietário Glinka, que o oficial Serov e
que o aristocrata Stasov eram mais democratas que vós. É isto
paradoxal, mas é um fato. Juramentos solenes de que todos
vós estais a favor da música popular não são suficientes. Se
assim é, por que utilizais tão pouco as melodias do povo em
vossas obras musicais? Por que se repetem os mesmos defei-
tos que foram criticados, há muito tempo já, por Serov
quando disse que a música “culta”, isto é, a profissional, se
desenvolvia paralela e independentemente da música do
Escritos Andrei Zhdanov

povo? Podemos realmente dizer que nossa música sinfônica


instrumental se está desenvolvendo em estreita interação
com a música do povo, isto é, com a música coral, para con-
certos ou de canções? Não, não podemos dizer isto. Pelo con-
trário, incontestavelmente foi aberto aqui um abismo, em
consequência da subestimação da música popular de parte de
nossos compositores sinfônicos. Seja-me permitido recordar-
vos como definia Serov sua atitude frente à música do povo.
Refiro-me ao seu artigo sobre “A música das canções do sul
da Rússia”, em que dizia: “As canções do povo, como orga-
nismos musicais, não são, de forma alguma, obras de talentos
musicais individuais, mas produções da nação inteira; toda a
sua estrutura as distingue da música artificial escrita em
consciente imitação de exemplos anteriores, nascida como
resultado de certas escolas, ciência, rotina e reflexos. São flo-
res que crescem naturalmente em um terreno dado, que apa-
receram no mundo por si mesmas e surgiram em todo o seu
esplendor, sem a menor preocupação quanto à autor ou no
que se refere à composição e, por conseguinte, com pouca
semelhança com as produções asfixiantes da atividade musi-
cal culta. Daí a ingenuidade da criação e (como dizia com
tanta exatidão Gogol, em “Almas mortas”) aquela sabedoria
elevada da simplicidade que é o maior encanto e o principal
segredo de todo o trabalho artístico, nelas se manifestam com
mais força. Tal como lírio, em sua gloriosa e casta beleza, so-
brepassa o brilho de brocados e pedras preciosas, assim a
música popular, graças à sua simplicidade infantil, é mil vezes
mais rica e mais forte que todos os artifícios da técnica em-
pregados pelos pedantes nos conservatórios e academias de
música”.
Que bem escrita, com quanta verdade e com quanta
força! Com que exatidão definiu o princípio fundamental de
Escritos Andrei Zhdanov

que o desenvolvimento da música deve ser realizado na base


da interação, do enriquecimento da música “culta” pela mú-
sica do povo! Este tema desapareceu quase por completo de
nossos atuais artigos teóricos e críticos. Isto confirma nova-
mente o perigo do isolamento do povo de nossos mais notá-
veis compositores modernos, que menosprezam fontes de
arte tão maravilhosas como as canções e as melodias do
povo. Tal abismo não deve existir na música soviética.
Seja-me permitido passar ao problema das relações
entre a música nacional e a música estrangeira. Os camaradas
observaram corretamente que há predileção até mesmo por
uma orientação no sentido da música burguesa, no sentido
da música decadente, e que isto também é uma das caracte-
rísticas mais acentuadas da tendência formalista na música
soviética. As relações da música russa com a música da Eu-
ropa Ocidental foram bem definidas por Stasov quando escre-
veu, em seu artigo “Alguns obstáculos para a nova arte russa”:
“Seria ridículo negar a ciência ou o conhecimento em qual-
quer terreno, inclusive no musical, mas somente os novos
músicos russos, que não têm atrás de si uma tradição histó-
rica herdada de séculos anteriores, herdada de uma longa ca-
deia de períodos escolásticos na Europa, podem enfrentar a
ciência valentemente, cara a cara; respeitam-na e desfrutam
das vantagens que ela confere, mas sem exagerá-los, sem ser
a ela submissos. Negam a necessidade de seus excessos secos
e pedantes, negam seus divertimentos ginásticos, aos quais
milhares de pessoas na Europa atribuem importância, e não
creem que seja necessário passar-se anos intermináveis sem
fazer outra cousa senão adorar humildemente seus sagrados
mistérios”.
Assim falou Stasov da música clássica da Europa Oci-
dental. Quanto à música moderna burguesa, que chegou a um
Escritos Andrei Zhdanov

estado de completa decadência e degenerescência, nada se


pode dela extrair. Nada, por isso, mais absurdo e ridículo do
que essa manifestação de servilismo à música burguesa mo-
derna em seu atual estado de decadência. Se examinamos a
história de nossa música russa e em seguida da soviética, de-
vemos chegar à conclusão de que se desenvolveu e se trans-
formou em força poderosa precisamente porque soube en-
contrar os caminhos de seu próprio desenvolvimento, sendo-
lhe assim possível revelar o inesgotável conteúdo espiritual
de nosso povo. Aqueles que creem que o florescimento da
música nacional, seja russa ou de outros povos que consti-
tuem a União Soviética, significa diminuir o sentido do inter-
nacionalismo em arte estão profundamente enganados. O in-
ternacionalismo em arte não aparece como o resultado da di-
minuição internacionalismo surge do próprio florescimento
da arte nacional. Esquecer esta verdade é perder de vista o
rumo certo, perder nossa própria face, tornarmo-nos cosmo-
politas sem pátria. Só a nação que possui sua própria cultura
musical amplamente desenvolvida pode apreciar a música de
outros povos. Não se pode ser internacionalista em música,
ou em qualquer outro terreno, sem se ser ao mesmo tempo
um genuíno patriota. Se o internacionalismo se baseia no res-
peito a outros povos, não se pode ser internacionalista sem
começar pelo respeito a seu próprio povo.
Toda a experiência da URSS confirma este ponto de
vista. Quer dizer então que o internacionalismo em música, o
respeito pela arte de outros povos, se está desenvolvendo em
nosso país na base do enriquecimento e do desenvolvimento
da arte musical nacional, na base do florescimento dessa arte
que tenha algo que compartir com outros povos e não na base
do empobrecimento da arte nacional, da cega imitação de
modelos estrangeiros e da extirpação dos traços distintivos
Escritos Andrei Zhdanov

do caráter nacional em música. Nada disto deve ser esquecido


quando se fala das relações entre a música soviética e a mú-
sica estrangeira.

Novo deve ser Melhor que o Velho


Mas, além disso, ao falar do afastamento da tendência
formalista dos princípios da herança clássica, não devemos
deixar de mencionar a diminuirão do papel da música descri-
tiva. Sobre este assunto já se falou aqui, mas a essência do
problema não foi convenientemente revelada. É óbvio que di-
minui entre nós a quantidade de música descritiva, ou mesmo
que quase não existe. As coisas chegaram a um tal ponto que
o conteúdo da composição musical que surge nos dias de hoje
deve ser interpretado ao aparecer. Surgiu uma nova profissão
– a dos críticos que interpretam as obras musicais de compo-
sitores amigos, que procuram na base de sua intuição pessoal
decifrar post factum o conteúdo das obras musicais que foram
postas em conhecimento do público, e cuja ideia confusa, diz-
se, não é perfeitamente clara nem mesmo para seus autores.
O abandono da música descritiva é também um distancia-
mento das tradições progressistas. Como sabeis, a música
clássica russa era em geral música descritiva.
Também surgiu aqui o problema da novidade. Afir-
mou-se que a inovação era, praticamente, o traço caracterís-
tico da tendência formalista. Mas a inovação não constitui um
fim em si mesma; o novo deve ser melhor que o velho, de ou-
tra maneira não tem sentido. Parece-me a mim que os culto-
res da escola formalista usam essa palavra principalmente
para popularizar a música de má qualidade. Não se pode cha-
mar de inovação qualquer intento de originalidade, ou qual-
quer distorção ou truque na música. A menos que se queira
simplesmente agrupar palavras, é necessário ter uma ideia
Escritos Andrei Zhdanov

clara a respeito do que se deve abandonar no velho, e qual é


a meta exata e nova que se pretende alcançar. Sem isto a pa-
lavra inovação só pode significar uma coisa, isto é, a inovação
dos fundamentos da música.
Só pode significar romper com as leis e normas da mú-
sica, leis e normas que não se podem abandonar. Que não se
deve abandoná-las, não implica em ser-se conservador, como
não implica que o abandoná-las signifique inovação. A inova-
ção está muito longe de coincidir sempre com o progresso.
Muitos músicos jovens são desorientados pelo fantasma da
inovação. Disse-lhes que a menos que sejam originais, novos,
serão, escravos das tradições conservadoras. Mas, já que no-
vidade não é sinônimo de progresso, proclamar tais ideais
equivale a semear uma confusão abismal, para não dizermos,
lisa e plenamente, enganar. Mas, além disso, a “inovação” dos
formalistas não é, de modo algum, nova, já que essa “inova-
ção” pouco difere da moderna música burguesa decadente da
Europa e da América. É aqui que se encontram os verdadeiros
“epigonistas”.
Houve tempo, como deveis recordar, em que nas esco-
las -primárias e secundárias seguíamos o método de “briga-
das de laboratório” e o “Plano Dalton”, que reduziam ao mí-
nimo o papel do professor nas escolas e davam a cada aluno
o direito de escolher o tema para a classe, no começo da lição.
Ao chegar à aula, o professar perguntava: “Que estudaremos
hoje?” Os alunos respondiam: “Fale-nos do Ártico”; “Fale-nos
do Antártico”; “Fale-nos de “Chapaiev”; “Fale-nos de Dnie-
prostroi”.
O professor tinha que atender a essas exigências. A isto
se chamava “o método da brigada de laboratório”; na reali-
dade, porém, equivalia a transtornar completamente a orga-
Escritos Andrei Zhdanov

nização docente. Os alunos transformavam-se em força dire-


triz, e o professar obedecia. Chegamos a ter “loose-leaf tex-
tbooks” e abandonou-se o sistema de cinco pontos para a
classificação. Todas estas coisas foram inovações, mas per-
gunto: tais inovações favoreciam o progresso?
O Partido suprimiu todas essas “novidades”. Por quê?
Porque essas “novidades” aparentemente muito “esquerdis-
tas” eram na realidade extremamente reacionárias e contri-
buíam para a anulação da escola. Tomemos este outro exem-
plo. Não há muito organizou-se uma Academia de Belas Artes.
A pintura é vossa irmã, é uma das musas. Em certa época,
como se sabe, a influência burguesa foi muito forte em pin-
tura. Cobria-se frequentemente sob as bandeiras mais es-
querdistas, dando-se a si mesma, rótulos, como os de futu-
rismo, cubismo, modernismo; “destruía-se” o “academicismo
estagnado” e proclamava-se a inovação.
Esta novidade exprimia-se em realizações como, por
exemplo, quando se pintava a uma jovem com uma cabeça
sobre quarenta pernas, com um olho que olhava para nós e o
outro para Arzamas. Como terminou tudo isso? No completo
fracasso da “nova tendência”. O Partido reabilitou o signifi-
cado da herança clássica de Repin, Briníov, Vereshchaguin,
Vasnetsov e Surikov. Fizemos bem em restabelecer os tesou-
ros da pintura clássica e em derrotar os liquidadores da pin-
tura? O prolongamento da existência de tais escolas não terá
significado a anulação da pintura? Atuou o Comitê Central de
forma “conservadora”? Colocou-se sob a influência do “tradi-
cionalismo”, do “epigonismo”, ao defender a herança clássica
em pintura? Afirmar isso seria pura bobagem.
O mesmo pode aplicar-se à música. Não afirmamos
que a herança clássica seja a culminação absoluta da cultura
Escritos Andrei Zhdanov

musical. Dizer isto, significaria admitir que o progresso ter-


mina com os clássicos. Mas os moldes clássicos permanecem
não superados até hoje. Isto significa que devemos aprender
e aprender, que devemos extrair o melhor da herança clássica
musical, o essencial para o melhor desenvolvimento da mú-
sica soviética.
Há muita conversa vazia acerca do “epigonismo” e de
coisas semelhantes; são palavras que se utilizam para intimi-
dar a juventude e afastá-la da aprendizagem dos clássicos.
Corre a palavra de ordem de que os clássicos devem ser dei-
xados de lado. Isto seria, sem dúvida, formidável. Mas para
desterrar os clássicos, é necessário que antes se os haja al-
cançado, e vós não tomais isto em consideração, como se já
houvésseis passado por esta etapa. Mas, para falar com fran-
queza e exprimir o pensamento que está na mente do espec-
tador e do ouvinte soviético, não seria de todo mal se tivésse-
mos agora mais obras semelhantes às clássicas em conteúdo
e forma, em graça, em beleza e musicalidade. Se isto é “epi-
gonismo” não há então nenhum opróbrio em pertencer a esse
tipo de “epigonismo”!

Contra o Naturalismo vulgar, Música para o Povo


Agora tratemos das distorções naturalistas. Ficou aqui
bem claro que as normas naturais e sadias da música foram
sendo progressivamente descartadas. Usa-se cada vez mais
em nossa música elementos de cru naturalismo. Eis o que es-
creveu Serov, há 90 anos, como advertência contra a preocu-
pação pelo naturalismo grosseiro: “Na natureza há uma infi-
nidade de sons das mais diversas espécies e qualidades; mas
todos eles que se conhecem sob o nome de ruído, trovão, ru-
gido, explosão, estrondo, zumbido, repiques, uivo, assobio,
chiado, murmúrio, sussurro, cicio, etc. e outros que carecem
Escritos Andrei Zhdanov

de nome. Todos estes sons tão pouco formam o material da


linguagem musical; ou, se se os incorpora a ela, é de maneira
excepcional (o toque de sinos, de pratos, de triângulos, o som
de tambores, de pandeiros, etc.). O material próprio da mú-
sica é o som de uma qualidade especial”.
Não é certo, não é justo que o som dos pratos e tam-
bores deveria constituir a exceção e não a regra na composi-
ção musical? Não está claro que nem todos os sons naturais
devem ser incorporados às composições musicais? E, sem
embargo, quanta indulgência inescusável há entre nós para
com o naturalismo vulgar, significando, sem nenhuma dú-
vida, retrocesso! Devemos afirmar francamente que umas
quantas obras de compositores modernos se acham de tal
maneira saturadas de sons naturais que fazem pensar numa
perfuradora, se me desculpais a comparação antiestética, ou
num carroção de crimes musicais. Deveis compreender que é
simplesmente impossível escutá-las!
Com tal música começamos a traspassar os limites do
racional, a passar para lá do limite não só das emoções hu-
manas, como também da razão humana normal. É certo que
há teorias em voga atualmente que afirmam que o estado pa-
tológico do homem é algo assim como um estado superior, e
que os esquizofrênicos e paranoicos podem alcançar em suas
alucinações níveis espirituais tão elevados que não podem ser
atingidos jamais pelo homem comum em estado normal. Es-
tas “teorias” não são acidentais, sem dúvida; são muito ca-
racterísticas de época de decadência e de decomposição da
cultura burguesa. Mas deixemos todos esses “refinamentos”
para os loucos. Exijamos que nossos compositores nos deem
música humana normal.
Qual foi o resultado desse esquecimento das leis e nor-
mas em que se baseia a criação musical? A música vingou-se
Escritos Andrei Zhdanov

ela mesma daqueles que procuraram tergiversar sua natu-


reza. Quando a música deixa de ter conteúdo, de ser elevada-
mente artística, quando perde graça, quando se faz feia, vul-
gar, deixa de satisfazer as necessidades para as quais existe,
deixa de ser música.
Talvez vos cause surpresa que o C. C. do Partido Bol-
chevique exija que a música seja formosa e graciosa? Não, isto
não é um lapsus linguae. Afirmamos que somos partidários
da música formosa e graciosa, da música capaz de satisfazer
as exigências estéticas e o gosto artístico do povo soviético.
Estas exigências e gosto surgiram e se desenvolveram inco-
mensuravelmente. O povo aprecia o valor de uma composição
musical na medida em que reflete o espírito de nosso tempo,
o espírito de nosso povo, e no que tem de acessível às grandes
massas. Quem é gênio em música? De modo algum aquele
que só pode ser entendido por determinada pessoa ou por um
grupo de “gourmands” da estética. A composição musical é
tanto mais o trabalho de um gênio, quanto mais intenso e
profundo seja seu conteúdo, quanto maior domínio técnico
denote, e maior número de pessoas atinja, e um maior nú-
mero de pessoas seja capaz de inspirá-la. Nem tudo que é
acessível é trabalho de gênios, mas todo o trabalho realmente
de gênio é acessível, e é tanta mais um trabalho de gênio
quanto mais acessível é às massas do povo. A. N. Serov tinha
absoluta razão ao dizer: “O tempo é impotente contra o que
seja realmente formoso em arte. De outro modo não admira-
ríamos ainda hoje a Homero, a Dante e Shakespeare, ou a Ra-
fael, Ticiano e Poussin, ou a Palestrina, Haendel e Glück”.
Quanto maior o numera de cordas da alma humana
que consegue fazer vibrar, maior é a composição musical. Do
ponto de vista da percepção musical, o homem é uma mem-
brana muito rica e maravilhosa, ou um receptor que funciona
Escritos Andrei Zhdanov

em milhares de comprimentos de onda. Sem dúvida não con-


seguimos achar uma comparação melhor, porque para ele o
som de uma simples nota, uma simples corda, uma simples
emoção, é insuficiente.
Se o compositor pode despertar a vibração de uma só
ou de poucas, cordas humanas não é suficiente, porque o ho-
mem moderno, especialmente o nosso homem soviético, é
um ser perceptivo muito complexo. Já Glinka, Tchaikovsky e
Serov escreveram sobre o senso musical enormemente de-
senvolvido do povo russo. Mas no tempo em que eles escre-
veram isso, o povo russo ainda não havia adquirido um amplo
conhecimento da música clássica. Durante os anos de go-
verno soviético a cultura musical do povo aumentou grande-
mente. Se o nosso povo se distinguia pelo seu grande senso
musical já naquelas épocas, seu gosto artístico atual foi enri-
quecido em consequência da popularização da música clás-
sica. Se se aceita que a música tem se tornado mais pobre, se,
como no caso da ópera de Muradeli, a potencialidade da or-
questra e a habilidade dos cantores não foram utilizadas em
todas as suas possibilidades, é evidente que haveis deixado
de satisfazer as exigências de vossos ouvintes. Semeai ventos
e colhereis tempestade. Deixemos que esses criadores de mú-
sica inacessível fiquem isolados das grandes massas do povo.
Ninguém necessita da música incompreensível. E, se assim
for, disto devem culpar-se a si mesmo, e não ao povo. Devem
revalorizar sua obra de forma crítica e procurar descobrir por
que ela não coincidiu com as exigências populares, por que
não conseguiu o aplauso popular, e que se torna necessário
fazer para, que o povo possa compreender e aplaudir suas
composições. Esta é a linha que deveis tomar em vossas
obras. Não é assim? (Vozes na sala: muito bem!)
Escritos Andrei Zhdanov

Revalorização da Herança Clássica


Agora passarei ao problema do perigo da perda do do-
mínio profissional. Se os desvios formalistas tornam a música
cada vez mais pobre, determinam também o perigo da perda
do domínio profissional. Relativamente a isto, seria bom con-
siderar outro conceito errôneo, amplamente difundido:
aquele que proclama que a música clássica é supostamente
mais simples e a música moderna mais complexa, e que a
complicação da técnica da música moderna significa um
passo adiante, posto que o desenvolvimento sempre significa
passagem progressiva do simples ao complexo, do particular
ao geral. Não é exato que todo exemplo de complexidade
constitua um sinal de superação. Nem todos.
Todo aquele que acredite que qualquer complexidade
significa progresso, está tremendamente equivocado. Eis aqui
um exemplo. Usam-se muitas palavras estrangeiras na litera-
tura russa. Sabeis também quanto Lenin ridicularizou o abuso
do hábito de usar palavras estrangeiras e como mostrou a ne-
cessidade de que nossa língua fosse depurada dessa importa-
ção de vocábulos. A complexidade da linguagem através da
introdução de palavras de outros idiomas em lugar de pala-
vras russas, quando há à mão uma palavra russa perfeita-
mente justa, jamais se (considerou um sinal de progresso lin-
guístico. O vocábulo estrangeiro “lozung” (slong), por exem-
plo, foi substituído agora pela palavra, “prizyv”. Não é isto um
progresso? O mesmo pode dizer-se da música. Sob a máscara
da complicação superficial dos métodos de composição, es-
conde-se uma tendência a empobrecer a música.
A linguagem musical se está tornando inexpressiva,
tanto de grosseiro, vulgar e falso está sendo incorporado à
música, que está deixa de exercer sua função intrínseca: a de
proporcionar prazer. Será que se vai eliminar o papel estético
Escritos Andrei Zhdanov

da música? Será este o propósito de tais inovações? Ou se


pretende transformar a música num solilóquio do composi-
tor? Se assim for, para que então pretender impô-la ao pú-
blico? Essa música se está tornando antipopular e excessiva-
mente individualista; o povo realmente tem todo o direito de
permanecer indiferente quanto ao destino de uma tal música,
e já começa a fazê-lo. Se se pretende que o ouvinte aplauda
essa música grosseira, sem graça, vulgar, baseada em atona-
lidades em dissonâncias do princípio ao fim, música na qual
a consonância constitui uma exceção, e as notas falsas e sua
combinação a regra, isto representa um afastamento direto
das normas básicas musicais. Tudo isso combinado ameaça
arrasar totalmente com a música, da mesma maneira que o
cubismo e o futurismo em pintura não representam nem mais
nem menos do que o propósito de acabar com a pintura. A
música que deliberadamente deixa de lado as emoções huma-
nas normais, que perturba a mente e o sistema nervoso do
homem, não pode ser popular, nem pode ser útil à sociedade.
Fez-se menção aqui do interesse unilateral pela mú-
sica instrumental sinfônica, sem tema. É um mal relegar os
diferentes gêneros musicais ao esquecimento. A ópera de Mu-
radeli é um exemplo dos excessos a que pode levar essa ati-
tude. Lembrai-vos o quanto eram benevolentes e generosos a
respeito da variedade de gêneros musicais os grandes mestres
da arte? Eles compreendiam que o povo exigia a variedade de
gêneros musicais. Por que sois vós tão diferentes de vossos
grandes predecessores? Sois muito menos agradáveis do que
aqueles que, conquanto houvessem chegado ao auge de sua
arte, escreviam árias, e canções corais, e música orquestral
para o povo.
Escritos Andrei Zhdanov

Agora, tratemos da perda da melodia na música. A mú-


sica moderna caracteriza-se pelo interesse unilateral dedi-
cado ao ritmo, em detrimento da melodia. Sabemos, no en-
tanto, que só se pode ter prazer musical, quando todos os
seus elementos (melodia e ritmo) estejam presentes em com-
binações harmônicas. O interesse unilateral por um elemento
da música com prejuízo de outro, tem como resultado a vio-
lação da correta inter-relação dos diferentes elementos e não
pode, naturalmente, ser agradável ao ouvido normal.
Outras vezes, permite-se também o desvirtuamento do
uso dos instrumentos, utilizando-os para fins diferentes da-
queles a que se destilam, como, por exemplo, quando se con-
verte o piano em instrumento de percussão. O papel do canto
é diminuído em benefício do desenvolvimento unilateral da
música instrumental. E o próprio canto conforma-se cada vez
menos com as normas da arte vocal. Os comentários críticos
dos vocalistas, aqui expressados pelas camaradas
Derzhinskaya e Katulskaysj, devem ser tomados em conta
muito seriamente. Todos estes e outros desvios das normas
da arte musical constituem uma violação não somente das
bases do funcionamento normal do som musical, mas tam-
bém das bases da fisiologia do ouvido normal. Infelizmente,
a teoria que estuda o efeito fisiológico da música no orga-
nismo humano, ainda não foi por nós suficientemente elabo-
rada. Devemos, no entanto, ter em consideração que a música
de má qualidade inarmônica, incontestavelmente prejudica o
bom funcionamento psico-fisiológico do homem.
Em conclusão. O papel da herança clássica deve ser
totalmente restaurado, a música humana normal deve ser
amplamente restabelecida. Deve ser acentuado o perigo que
significa a tendência formalista para o futuro da música. Esta
tendência deve ser censurada como uma tentativa, ao estilo
Escritos Andrei Zhdanov

de Eróstrato, de destruir o templo da arte construído pelos


grandes mestres da cultura musical. Todos os nossos compo-
sitores devem mudar de posição e voltar-se para o povo. De-
vem compreender que o nosso Partido, que exprime os inte-
resses do Estado e do Povo Soviético, apoiará somente uma
tendência sadia e progressista em música: a tendência do re-
alismo socialista soviético. Se apreciais o título honroso de
compositor soviético, deveis demonstrar que sois capazes de
servir ao povo melhor do que haveis feito até agora.
Um severo exame vos aguarda. A tendência formalista
em música foi censurada pelo Partido há já 12 anos. Desde
aquela época o governo outorgou, a muitos de vós, inclusive
àqueles que participavam das fileiras do formalismo, prêmios
Stalin. Era isso feito como grande demonstração de confi-
ança. Não julgávamos, ao assim fazê-lo, que vossa obra esti-
vesse isenta de defeitos, mas éramos pacientes e confiávamos
que nossos compositores encontrassem por si mesmo a força
necessária para escolher um caminho acertado. Para todos,
no entanto, já está claro que a intervenção do Partido se tor-
nou imperativo. O Comitê Central vos diz neste momento sim-
plesmente que se continuais pelo caminho que haveis esco-
lhido para a criação musical, nossa música jamais poderá cre-
ditar-se em nosso haver.
Neste momento, os compositores soviéticos encon-
tram-se diante de duas tarefas extremamente importantes. A
principal consiste em desenvolver e aperfeiçoar a música so-
viética. A outra é a de proteger a música soviética contra a
infiltração de elementos da decadência burguesa. Não esque-
çamos que a URSS é neste instante a guardiã da cultura mu-
sical universal, da mesma maneira que noutros aspectos é o
sustentáculo da civilização humana e da cultura contra a de-
cadência burguesa e a decomposição da cultura. Recordemos
Escritos Andrei Zhdanov

que as influências burguesas estranhas procurarão alcançar


reações favoráveis nas mentes de determinados representan-
tes da intelectualidade soviética que ainda conservam restos
do capitalismo e que se manifestam a si mesmos com o desejo
irrefletido e ridículo de substituir os tesouros da cultura mu-
sical soviética pelos tristes despojos da arte burguesa mo-
derna. Portanto, não é somente o ouvido musical, mas tam-
bém o político, dos compositores soviéticos que deve estar
atento.
O contato entre vós e o povo deve ser mais estreito do
que nunca. Devereis desenvolver amplamente o “ouvido” para
a crítica musical. Será necessário que acompanheis atenta-
mente o curso dos processos que se estão desenvolvendo na
arte ocidental. Mas a vossa tarefa não consiste somente em
impedir a infiltração de influências burguesas na música so-
viética. Vossa tarefa consiste em demonstrar a superioridade
da música soviética, em criar grande música soviética, que
seja capaz de elevar ainda mais a cultura de nosso povo e sua
consciência comunista.
Os bolcheviques não repudiam a herança cultural. Pelo
contrário, estamos assimilando de forma crítica a herança
cultural de todas as nações e de todos os tempos, para poder-
mos selecionar dessa herança tudo quanto possa inspirar a
massa trabalhadora da sociedade soviética para as grandes
realizações no trabalho, na ciência e na cultura. Devemos aju-
dar o povo para isso. Se não vos dedicais a essa tarefa, se não
vos entregais a ela de corpo e alma, a fim de que seja reali-
zada, oferecendo-lhe todo vosso ardor e entusiasmo criado-
res, não estareis cumprindo o papel histórico que vos cabe.
Camaradas: queremos, desejamos ardentemente possuir nos-
sos próprios Cinco Grandes e, para isso, queremos ser mais
numerosos e mais fortes, do que aquele grupo que uma vez
Escritos Andrei Zhdanov

assombrou o mundo pelo seu talento e cobriu de glória nossa


nação. Para podermos ser fortes, será necessário pôr valente-
mente de lado tudo quanto passa enfraquecer-nos, e escolher
aquelas armas somente que nos possam ajudar a fazer-nos
sólidos e poderosos. Se vos aproximais decididamente da me-
lhor herança clássica musical e ao mesmo tempo a desenvol-
veis, segundo o espírito das novas exigências de nossa grande
era, transformar-vos-eis no grande núcleo dos Cinco Grandes
Soviéticos. Nós vos queremos vencedores, que domineis o re-
trocesso que vos desviou, e isto com a maior rapidez possível,
que mudeis de posição o quanto antes, e que vos transformeis
numa gloriosa coorte de compositores soviéticos que consti-
tuirão o orgulho de todo o povo da União Soviética.

Discurso pronunciado em nome do Comitê Central do Partido


Comunista da URSS, durante a discussão sobre a música soviética.
Revista Problemas - nº 21 - outubro de 1949.