nstruindo sobre os alicerces da sua obra classica, The
ception of the Environment (A percepcio do ambiente),
‘gold se prope aqui a recolocar a vida no lugar ao
Vela deveria pertencer, o corac3o da preacupagiio
ropol6gica. A partir da ideia da vida como um processo
peregtinacdo, Estar vivo — Ensaios sobre movimento,
thecimento deserigao apresenta uma compreensio
»\icalmente nova do movimento, do conhecimento e da
|ricdo como dimensdes nio apenas do estar no mundo,
A do estar vivo para o que nele acontece.
¢
EDITORA
VOZES
SMM
selavome.combr
es
‘yrawvores.comn.br
ANTROPOLOG
EDITORA
VvOzES‘Timm Ingold apresenta neste livro sua
visio do que seria a Antropologia. Os
antrop6logos que lerem esta obra
podem estranhar o fato de o autor
nao se ater s preocupacées usuais da
disciplina, e de o seu centro de
ravidade estar mais perto de outras
reas, tais como a Arte ow a
‘Arquitetura. Tem sido, de fato, parte
do trabalho do autor guinar a
Antropologia nessa direcao, um.
propésito fundado na convicsio de
‘que é insustentével a convengio
segundo a qual a Antropologia se
cempenia em observar e descrever a
vida tal como a encontrames, mas
no em mudé-la, a0 passo que a Arte
ea Arquitetura t8m a liberdade de
propor formas nunca antes
‘encontradas, sem terem que primeiro
observar e descrever 0 que jé esti af
‘A.verdade é que as proposigées da
‘Arte e da Arquitetura, a medida que
‘enham forga, devem estar
fundamentadas em uma profunda
‘compreensio do mundo vivido, e,
inversamente, que 0s relatos
antropolégicos das miltiplas
rmaneiras pelas quais a vida é vivida
no teriam nenhutn proveita se no
fossem levados a se basearern em
Estar vivoTim ingold
eee
=
rooeano
Estar vivo
Ensaios sobre movimento, conhecimento e descricio
Tiadugio de Fabio Creder
‘Dados Internacionais de Catalogagio na Publicagio (CIP)
(Chiara Brasileira do Livro, SP, Beasil)
Tingol Tim, 1948 - Estar vivo = ensaios sobre movimento, conhecimento €
deserigo "Tim Ingold; radio de Fabio Greder ~ Petépols, RJ :
‘Yorss, 2015. (Colegio Anteopologia)
Titulo do original eng alive : exaye on movement, knowledge and description
Bibliograia
ISBN 978-85-326-5052-8,
|
1. Anopologis— Filosofia 2. Ecologia humana Filosotin 3. Racepyo geogeéfica |
4, Seres humanos ~ B&ito do ambiente T. Titulo. Hl, Sei |
EDITORA
VOZES
{nics para cadlogo sxemitico:
1. Antopologia: Flowofia 301.01 Porrépolis
1s-04827 cpp-301.01\
/
© 2011 Tim Ingold
“Tradugio autorizada da edigSo em lingua inglesa, publieada pela Routledge,
ppertencente a6 Grupo Thvlor & Francs
‘ieulo do original inglés: Being Ali ~ Euays on forement, Knowledge and
Desription
Diveitos cle publicasio em agua portuguesa ~ Brasil:
2015, Editors Vozes Lida.
Rha Fret Luis, 100
2689-900 Petrdpolis, RJ
worwcvores.comn. be
Bowl
Tidus os deitos reservados, Nenhuma parce desta obra poder ser veproduzida
‘ur transmitida por qualquer forms e/ou quafsquer meios (elewouieo ou mecinico,
incluindo Fotoedpiae yravagio) ov arguivada em qualquer sistema ou
bhaneo de dados sem permissio escrita di editor,
Diretor editorial
Frei Antonio Moser
Bditores
‘Aline dos Santos Carneiro
José Maria da Silva
Lidio Peretti
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Sceretirio executive
Jofo Batista Kreuch,
Elrrgdo: Masia da Concigi B. de Sousa
"Diggramapo: Alec MA. da Siva
Cape Felipe Souza | Aspect 3
Drag de cp: sobre fro de Zs | Dreamstime
ISBN 978-86-326-5052-8 (Brasil)
ISBN 978.0-415-57684-0 (Esiaclos Unidos)
Editado eonforme 0 novo acondo ortogritico.
Este fiero foi composco¢ impresso pela Edivora Voues Leda
Ba miya vida,
Zack Ingold (3 anos ¢: idade),
para quem, comearinto,
este liveo € elieado,Sumario
Lista de figuras, 9
Proficineagradecimentes, V1
Prdlogo, 23
1 A antropologia ganha vida, 25
Paste I~ Limpando o terreno, 43
2 Materiais contra materaidade, 49
3 Aculura no cho: o mundo percebido através dos pés, 70
4 Andando na prancha: medtag6es sobre um processo de habla, 98
Parte 11 A matha, 111
5 Repensando o animado,reanimando o pensamento, 115
6 Pomto, linha, contraponto: do meio ambiente 30 expaso Milo, 127
7 Quando a formiga se encontra com a aranha:teora socal para arrdpodes, Md
Parte IIT "Terra ecu, 153
8 A forma da Terra, 157
9 ‘Tera, céu, vento e tempo, 179,
10 Paisgem ou mundo-tempor, 193
1 Quatro objegdes a0 conceito de paisagem sonora, 206~
Parte TV —Uen mundo narrado, 211
12 Contra o espago: lugar, movimento, coakecimento, 215
13 Histériss contra a clasiicagio: transporte, peregrinagio ea integrase do.
conhecimento, 230
14 Nomeae como coca histérias: falando de animais entce o¢ Koyukon do
Alaska, 243.
Pacte V - Descaho fazendo esctta, 259
1S Sete variagfies se aera A, 263
16 Mods de cuninhada mene: nr, esrita, pints, 283
17 A vets do fae, 30
18 Desenhando juntos: fiz, obser deseover, 315
Epiogo, 32
19 Aawopolgia mio trai, 327
Referiucias, 349
nie, 373
Figuras
2.1 Peds mad, 49
2.2 Bead, 60
2.3 Ped see, 68
3.1 Esqueletos de gidso, orangorango, chimpanzé,gorlae homen, 72
3. Mio (a) ep (b) de chimpan; to (c) pé (d de homens, 75
4.1 Amancira corrcta de segurar uma serra como usar 0 polegar €a mio
esquerda como guia 20 iniciar 0 covte, 96
5.1 radian vide: uma acicia no Parque Nacional de-Tavo, 0 Quin, 120
6.1 Uma linha de devir, em relagio & conexso localizgvel de A € B (distancia), 8
em relagio & sua contiguidade, 137
6.2 Teco de ligamenta “soto” do rato, 142
72 Forage, consrtora de monticuls, 145
7.2 Arana, a eck de eins, 14S
7.8 Amal (aranhaciafgalho) ea ede detelaGes enue arana, te galh, 149
8.1 Osmodelos ments a Tera, 159
822 (a) O desenho de Ethan da ‘Terra esftica cercada pelo “céu"; (b)0 deser=ho de
Darey do éa, do solo (cont casas) eda Terra esérics, 162
8.3 Bxemplos de cartées ce imagem utlizados no experimento de Nites, Me ia ©
Panagiotali, 167
8.44 Desens da Tere fetos por adultos, 168
9.1 O nmundo trarido para denteo de casa: Hnzno (1939), de René Mitte, 183
9.2 O cxo-habitante da Tecra (a) ¢ os endo-habitantes do mundo-temp (b), 186
9.3 Um esbogoa pis de Vincent van Gogh dado do veréo de 188) e ire
campo de trigo com ciprestes, 189)94 Grammineas murchas na neve congelada, Goodnews Bay, Distrito de Lower
Kuskolsvim, Alaska, 190
9.5 angos irompendlo no asta, 191
13.1. modelo de dupls sucesio de transis gendica ¢ caltura,233
13.2 Nartativa¢ vida, 237
18.3 Pecegrinago (em cima) e transporte embaiso), 289
15.1 “Iso nfo € um A”: cartio, papel, tntae corantecosmético vermelho, 265
15:2 Asem psa, a partir de um alfabeto definido para ciangas da petal, 268
15.3 A cabega de boi ¢ uma cena pintada na parede da capela de ja, na cidade de
“Febs, 270
15.4 A gitico ¢ eixo aco, demonstrando o modo adequado de empunbar a
pena, 272
15.5. Uma linha de escrita: datilografada e manuscrita em papel pautado, 274
15.6 O som do A: nota musical aticulagio fonética e diapasio, 278
15.7 Um A bordado com linha ¢ agulha em tecido, 280
16.1 Palavras em imagens ¢ imagens em palavras: uma
Aberdeen, 290
16.2. Motivos figueativos e geoméicos na arte Yolngu, 292
gina do Bestiétio de
17.1 Linhas de visio como filamentos: duas gravuras de Abraharn Bosse, 314
Preficio e agradecimentos
Sou um antropélogo: no un antropélogo social on cultural; no i anteo-
pélogo biolégico ou arqueolégico; apenas um antropélogo. F neste livro apre~
‘sento uma visio muito pessoal do que, para rim, € 2 antropologia. Nig presen
do que seja de modo algum representative; 20 contrério, os anteopdiogos que
Jerem este livro podem sentir que ele antes divaga longe das suas preccupagées
uusuais,e que 0 seu centro de gravidade esti mais perco de outras reas, ais como
‘arte ou a arquitetura. ‘Tem sido de fato parte do meu propésito guinar a antro-
pologia nesta dregio, um propésito fundado na convicgao de que €insiseentivel
a convengio segundo a qual a antropologia se empenha em observar e jescrever
vida ta como a encontramos, mas néo em mudi-la, ao passo que a are € at
‘quitetura tém a liberdade de propor formas munca antes encontradas, son terem
‘que primeito observare descrever 0 que jd esta. A verdace & que as priposigbes
daarte¢ da arquitetura, na medida em que tenham forga, devem estar fexclamen-
tadas em uma profunda compreensio do mundo vivido, ¢, inversamae, que
(os relatos antropolégicos das miltiplas maneiras pelas quais a vida € vida nfo
teria nenhum proveito se nao fossem levados a basearem-se em inguétios espe-
calativos acerca de quaissejam as possibilidades da vida humana. Portace, arte,
anquitetura ¢ antropologia tém em comum o fato de observarem, desc-y erem €
proporem. Fl, ralvez, uma disciplina \ espera de ser definida e nomeae. ra qual
esses trés campos se encontram, ¢ se alguns letores preferitiam consierar este
liveo como uma espéeie de manifesto por essa disciplina, entio nao dev cabjetar
Tampouco objetaria se alguém considerasse que 0 meu esforgo estivss-€ mais
préximo da filosofia do que da antropologia; apenas dria que 10 sou i dso.
Permanego espantado com filésofos cujas palavras no posso sequer Carvegar @
‘compreender, embora seduzido pela obscuridade com que frequentemere= pare-
‘cem eneobrir seus argumentos. Refletindo, no enitanto, tenho sido surp-e=ndido
pelo fato de que muitos dos teabalhos que inuenciacam o meu pety rnento
vieram de fildsofos, € no de antropélogos. Na verdade, uma conage: ipida
pel bibliografia deste livio revela que, das obras que podem ser definit. rnente
atribuidlas a uma dsciptina particular, ha quase a mesma quantidade en §-osofia
«em antropologia. Mas se 0 meu tipo de antropologia € ra verdade i sofia,
‘ratase entio de uma filosofia que foi langada para fora de suas traci is tor-ves académiesse forgada a pensar eto dentro quanto como préprio mundo do
qual escreve. Em ral filosofia, a bibliografia de um liveo oferece um guia pobre
paras fonceseeais de inspiragio intelectual, Por que reconhecemos apenas tossas
Fontes restuis, mas no 0 chao em que pisamos, as céus em conseante mudanga,
montanhase vos, rochas ¢drvores, as casas nas qunis habitamos eas ferramentas
‘que usamos, para io mtencionar 0s iaimeras compankeiros,ranto animals no
hhumanos qvanro outros seres humanos, com os quais € com quem compartlha-
mos nossa vidas? Bles esto constantemente nos inspianclo, nos desafiand, nos
Aizendo coisas, Se 0 nosso objetivo for ler 0 mxundo, como eu acredito que deva
ser, entio o propasito de textns escritos deve ser entiquecer nossa leitura para que
possamos ser methor aconselhados pelo mundo e capazes de responder a0 que Hos
esti dizendo, Gosearia de pensar que este livo serve a esse proptsito.
Em muitos aspectos, olive € uma continwagio da minha eolegao anterior de
ensaios, The Perception of the Envisonment (A perspeodostcio autbieute), publi-
cada no ano 2000, Enguanto aquele livro retina uma selegio dos meus escritos
a iltima década do século XX, © presente volume fiz, 0 mesmo com os meus
cseritos da primeira década do séeulo XT, Naquela obra apresentet uma con
cepeio do ser human camo um ncxo singular de crescimento cxativo dentro de
‘am campo de rlacionamentas desdobeando-se continunmente. Sugeri que este
rocesso de crescimento equivale a um mavimento ao fongo de um caminho de
Vida, Minha obra, desde entio, tem sido amplamente dedlcada a segue as im-
plicagBes desta sugestio. Ao fazé-lo, encontre-me voltando sempre aos mesos
temas: aie da vida vida a0 longo de erilhas, ou caminhads; a primazia do
movimento; 2 natureza ¢ a constituigio do solo; as perspectivas divergentes da
terra como solo de habitagio c como planeta distante; as relagSes de terrae céu,
vento tempo; a flee atrito de mateias; as experiénctas de luz, som e sent-
‘mento; o que sigifiea Fier as coisas; desenhar eescrever; ¢contarhistéras. Um
dos conecivos-chave que apresento neste liveo &o de malha, entendida como uma
textura de fos entrelagados. Mas 0 prdpri livro exemplifica © conceito, na me-
dda em que também & recido coon 06 fios teméticos que 0 permeiam. Gada um
dios eapteulos é um poneo pacticuly, Seguindo os fos eles podem, a principio, ser
Tidos em qualquer orem. Por uma questo ce conveniéacia, no entanto, &a fim
de destacar 0 que penso serem as principais regioes de convergéncia, agsupel 0s
capicuos em cinco partes.
seas partes sor “Jimpando 0 certeno”, “a math”, “ee era", Sum sudo
contado” e “desenho fazendo eserita”, Els sio aeompanhadas de um prétogo
inwrocutdrio & de um epilogo Final: © peimeiso situa @ volume no eontesto do
desenvolvinen do meu proprio pensumento; o sikimo o situa no contexto
da historia ca diseiplina anteopoigica e dos seus fururos prospectos. Quando
planejio tivo pela primeira vee, pensei que sein dividido em es partes, com
respondents is ers palsras-chave do subttulo: movimento, conhecinento ©
dlserigio, Logo descobri,entretanto, que isso no ira fucionay,jé que quase
todos as eapialoslidavam com toda ts. .expliagio para iso repowsa no
{que supono poder se tomado como o principal argamento do fv, on se,
ge se move. concer e desctever io sio operayGes sepaadas que se segue
tise 3s uray em sri, mas fcets paraels do mesmo proceso ~ aquele da
vida mesma, E movendo-nos qu conhecemos, ¢ € movendo-nos também que
Gescrevernon absurdo pergunta, por exempl, se © andar noemal € uma ma
ira de moverse,conhecer ou desreer, rods a urs woisas ao mesmo emp.
[bss o ¢ pela ei fundamental que esti destacada no eal dof, Fotos
nhedicde longamene sobre a cndigto de ext no melo, Mover, concer
Ceserever, no enema, demandam mais do que esta ey, ot imers20, Demian
dhe olervago, Um ser que se move, conhecee descreve deve estar atento, Estar
aici significa estar vivo para o mundo. Este ive & una eolego de estos
sobre tare.
‘Antxopéloges be
cos, como eu, atualmente enconteam-se trabulhando
‘em um ambiente académico profundamente hosti tara de estar vive. sm.
¢gavdos por uma avalanche cle delaragSes de misso, planos steatégicos,rlat6rios|
‘de autora ¢ exerctcios de revsio, ideias nascidas do suor ¢ do trabalho cle wn
‘compromisso que nada é sero atengo, murcham como plantas sedenta: cle hz,
are umiddade. A prostituigio da pesquisa perante os Wolos gémeos da inovagion
oda compecitvidade rei 0 que jé foram teadigées finas de aprendizagem a
mares de mercado, a busca da exceléncia & dispuca desleal por financiamento ©
prestigio, «livros como este a resultados cujo valor é medio por elssitiea-
Gio impacto, em vez de pelo que poder tera conteibuir para o entens nent
‘humano, Teno a sort, no entanto de tabalhar em uma iostitigao ~a Cirivers
davie de Aberdeen ~ que até agora tem sesistido 208 piores excessos do actelo de
negScios da edagio superior. F um lugar no qual as ideas ainda conan € onde
2 vida incelestual contin afloescee em am expiito de colegialdade, Bx joucos
outs lugares, se em algum, tera sido possfvel constr um programa d-nsino
¢ pesquisa ei antropologin, como temmos feito nos tikimos dez anos, coneaidn
do zero aré a atwagio movimenrada e préspera de hoje. Essa éa década, eb 1.999 a
2009, durante a qual os ensaios que compéem este volume foram escttox
(Os its primeieos anos foram passados desenvolvendo o program, 0 que
Ievout a fimdagio do Departamento de Antropologia, em 2002. Durant 0s tres
anos segutintes eu o chefiei, e durante os seguintes (2005-2008) passei; maior
parte emt licenga, gragas & premiagio, com uma Bolsa Profissional, reco ida do
Consello de Pesquist Econémica e Social, pela qual sou profundamen: grato.
‘A maior parce do trabalho para este livo foi de Eto conclda durante oy
u sis
temas vatiamente definidos como genéticos ou culeurais, naturals ou eocins.
Nasciclos da natureza, moldados pela socieade, impelidos pelas inspicaeses cht
predisposicio genética ¢ guiados pelos preceitos ca cultura transmitida, < seres
Jhumanos sio retrarados como eriaturas cujas vidas sio gastas no cumpi-riento
clas capacidadies concedicas no inicio. Comegando, conforme 0 famoso| §t0 de
Clifford Geerrz, “com o equipamento nacucal para viver mithates ¢ tipos
2sde vida", supde-se que cada un de nés “termine afinal tendo vivido apenas wma”
(GEERTZ, 1973:45). A vida, nessa perspectiva, & um movimento em diregio
a0 desfecho final: um preenchimento gradual de capacidades € esgotamento dle
possbilidades. © meu préprio trabalho, a0 longo do titimo quarto de século,
temsido impulsionado pela ambigao de inverter esta énfase: substitir a concep-
Zo finalistica ou teleondmica do processo da vida por um reconhecimento da
Capacidade da vida de continuamente ultrapassar as destinagées que sio atiradas
cm eu peceurso. H da esstreia da vida que cla 130 comece aqui on terrnine
ali, ou conecte um ponto de origem a urna destinacio final, mas, sim que ela
continue, encontrando um caminho através da mirade de coisas que forinam,
persistem e irrompem em seu percurso. A vida, em suma, € um movimento de
abertra, no de encerramento. Como ta, deve estar no prdprio cerne da preo-
cupagio antropologica
Revendo mens esforgos em restaurar a antropotogia & via, eles parecem re-
‘air em aproximadamente quatro fases, cada uma das quais gira em torno de um
Xinico termo-chave. A primeira fase foi sobre o significado ce produpio; a segunda
fi sobre o significado de hitéria. Na tercera fase estive preocupado com a nogio
de babitar. Altima fase —aquela em que me encontro agora ~ € uma exploragao
dh ideia de que a vida € vivida 20 longo de linha. Embora se sucedam no tem-
po, essas fases no foram, de forma alguma, estanques. Ao conutitio, cada uma
teamstou para a seguinte. Talo comegou com a questio acerca do que significa
dizer dos seres humanos que sejam os produtores de suas vidas. Mas néo deixei
de pensar sobre esta questio, uma ver que ela dew 3 Inz outta: Como é que, a
pprodugio de suas vidas, os seres humanos criam a histéria? Como, se assim de
fato o for, deve esta histria ser distinguida do processo de evolugao no qual to-
das as criauuras vivas supostamente encontramse apanhadas? Tampouco deixei
de pensar acerca da histéria quando comecei a ver, no que chamei de perspectiva
do habitar, uma maneira de superar a divisio araigada entre 0s “dois mundos”
dda nanureza € da sociedad, ¢ de reinserir 0 ser humano ¢ o devi no interior da
‘continuidade do mundo da vida. B ni cessei de pensar sore 0 habitar,as mi-
‘nhas atuas exploragées na antropologia comparada da linha, que crescet a partir
da constatagao de que cada ser € instanciado no mundo como um caminho de
:movimento a0 longo de um modo de vida. Ou, tragando a eyolugio do men
pensamento no sentido inverso: estabelecer um caminho através do mundo &
habitar habitar é viver historicamente; cada forma histérica de vida é um modo
de produgio, No que segue, recapitularei as trés primeicas fases dessa progressio,
«em sua ordem original, como uma introdugio A quarta, que é representada pelos
censtios que constituem o presente volume.
6
Produgio
CChegueiinicialmente & questio da produgio através de uma reflexio sobre
‘como os modos de trabalho dos seres hunianos difecem daqueles dos animais néor
fhumanos (INGOLD, 1983). Mais de um séeulo antes, Friedrich Engels esivera
pponderando a mesma coisa. Em tum projeto de introdugso a sua inacabada may
num opus, Dialétca da natureze, prevavelmente escrita em 1875-1876, Engels
argumentou que os trabalhos das seres humanos diferem fandamentalmente da
ules de outros animais, na medida em que os primeieos s80 movidos por wm.
“objetivo estabeleido com antecedéncia” (ENGELS, 1934: 34). E vedade que
as atividades humanas nao so as tinicas 2 terem consequencias ambientais signi
ficativas; aém disso, a grande maiovia dessas consequéncias, como Engels £01 0
primeiro a admiti-to,sio inintencionais ou imprevistas. No entanto, retornanido
20 tema em tum ensaio sobre “O papel desempenhado pelo trabalho na transigio
do macaco ao homem”, escrito por volta ds mesma época, Engels estava con.
vencido de que a medida da humanislacle do homem reside na extensio em que
as coisas poderiam ser planejadas para acontecerem de acordo com umm plano,
“Quanto mais afastados estio os homens dos animais”, declarou ele, “mais seus
cfeitos sobre @ natureza assumem o cariter de uma agio premeditada, planejada,
dlicigida para fins definidos, preconcebidos” (p.178).
Finalmente, em outro fragmento contemporinco, Engels reconheeeu que 0
carfter finalistco da ago humana é o que a qualifiea como produséo. “O mii-
‘mo que o animal pode conseguir é clear, o homem prods, ele prepara os mics
de vida ... que sem cle a nanureza nio teria procuzido” (p. 308). Dito de outta
‘maneira, independentemente do impacto real das suas atividades, os animais no
trabalham em seu ambiente a fim de muc-lo. Bes nao tém qualquer concepio
de sua tarefa, Mas os seres humanos sempre trabalham corn alguma nogio do
{que estfo fivendo, ¢ por que, mesmo que os resultados nunca se conformem
satisfatoriamente hs expectativas.
Esta também foi a conclusfo a que Karl Marx chegara no primeito volume
de O capital, publicado poucos anos antes, em 1867. Diferentemente da aranha,
«ccendo sua teia, ou da abelha construindo seu alvéolo, 0 processo do trabalho
hhumano, disse Mars, “termina na criagio de algo que, quando 0 processo come
‘04, jf exsta.. em uma forma ideal” (MARX, 1930: 170). No entanto, para
‘Marx, este modelo de criagio apresentava um certo dilema, Pois se a foirna de
‘uma coisa deve ji existir na imaginago antes de o trabalho de produgio poder
sequer comegar, de onde sera que vern esta imagem inicial? Nas notas pubicadas
postumamente como 0 Grundrise, Marx apresentou sua resposta. Fo corsitmo,
argumentou ele, que define os objetivos da produsio. Ele o faz através dh. cia:
io de expectativas acera das formas que as coisas devem assumir e das Fanges
ue clas devem satsfazer, ¢ estas expectativas, por sua vez, motivam 0 processo
a”~
produtivo. “Se estiver claro que a produgio oferece 30 consumo o seu objeto
‘exerno”, raciocinou Marx, “estas, portant, igualmente claro que 0 consis
tetabeleceidealmente 0 abjeto da produgio como una imagem interna, como
‘uma necessidade, como pulsio e como propésito” (MARX, 1973: 91-92). Ox,
‘em poucas palavra, enguanto a produgio de coisas nos fomnece abjeros para
consumit, consumir coisas nas dé ideias do que produit. O resultado € un cir
caito fechado, de produgio ¢ consumo, um convertendo imagens preexistente
ci objetos fis, o outro convertendo objets em imagens. Perguntar o que ver
primeio, se a produgio ou 0 consumo, equivale a perguntar se primero veio ©
x0 01a gaint,
[isto resitia 0 dilema de Mass. Como podetia cle provay, como 0 exigia 2
sna filosofia do matetiaismo, que a produgio tem peecedéncia sobre 0 const
mo? Concedendo que produgio e consumo sejam apenas fases de um processo,
ele contimci a isistr, no Groudrine, que “a produsio € 0 verdadeiro ponto dt:
partda e, portinto, também o momento predominante” (1973: 94). Se assim ©
fosse realmente, no encanto, nto, em algum Iugar a longo da linha, teciam que
apareatr mikigrosamente produtos que apresentassem so consumidor @ necessi-
dade que, posteriormente, motiva a sua produ. Em uma critica antropologica
bem conhicida, Marshal Sahlins desdenlvon das tentativastortuosase, em stim
insti, dreulres de Matz de transforma, como ele o coloca, “a imagem press
tente da produsio em sua consequéacia objetiva” (SAHLINS, 1976: 153). A
fonte do embarago de Mars foi um presente para Sablins, que péde mostrar que,
muito pelo contrécio, as finalidades da produgio sio pré-specificadas nas formas
simbStcas da cultura. A admissio por Marx de que eada ato de produgio tem que
comegar cou uma imagem na mente do que deve ser produzide pareceu apenas
provat a hipGrese de Sablins, No cntanto, win momento de seflecio reveln que
Salas est preso exatamente na mesma armadilha da circulaidade que Max,
seado atinica diferenga gue ele resolveu entrar no cieulo no polo diametralment
‘posto, Enquanto Macx, o materialist, tinha que trae objetos do chapéu a fi
‘de manter a bola rolando, o culeuralista Sains tern que evocar representagé
simbalicas a partic do nada, De fato, desde que assumamos que a produyio no
pase de conversio de imagens em objeto, que 0 consumo no seja mas do que
‘ mansformagio retrocessiva de objetos em imagens, parece no haver neniuma
cscaparGria do ciculo, Nem objeto nem imagem pode ter precedéncia, tem pro-
dlusio mem consumo, quando cada wes é uma precondigéo para 0 ontro
No entanto, 0 préprio Marx, decifeando os elementos do processo de era
batho em O cxpinal, sugere que haja mais do que isso. As imagens no se teans-
formam em objetos de uma hora para a outra. © provesso leva tempo, ¢ como
‘Marx 0 observa, “a vontade intencional” do produtor “manifestando-se como,
a atengio, deve estar operacional durante todo 0 period de dutayio do traba-
28
Iho” (MARX, 1930: 170). Além disso, conforme ele trabullt, No sto apenas
(os maccrais com que tabalha que: sio transfoumnados!, O rabalhador cémn
€ moditicado através da experiéncia. As potencialidades larentes le agio ¢ de
percepsio sio desenvolvidas. Ble se torna, mesmo que muito ligeicamente, wm
pessoa diferente. Talvez, entio, a esséncia da proclugio encontte-s¢ tanto ov mais
‘a qualidacte atencional da ago ~ isto é, na sua sintonizagio © #esponsividade &
tarela conforme ela se desdobra ~ € nos seus efeitos de desenvolvimento sobre ©
produtor, do que em quaisquer imagens ou representagies de fins a serem alean~
«dos que possam ser suscitadas antes disso, HIS ee faro wm prececlenge para este
ponto de vista nos escritos colaborativos anteriores de Marx e Engels, Em wa
passage de A ideologiaalem,escrita em 1846, cles chegamm mesing q igualar a
‘progugio & propria vida, e cada modo de produgio a um modo de vida. “Asian
+ nao
tanto uma interagio entre dois tipos de hist —a histéria com Hm seul
dda hurmanidate no plano da sociedad e a histéria com h mindsculo di-:xture
3‘a~ quanto uma histérla composta pela interagio de diversos seres humanas &
tio humanos em seu envolvimento mito, Em um artigo profético escrito hi
mais de ts décadas atrés, em 1976, 0 gedgrafo Torsten Hiigerstrand jf previa
‘© colapso da grande divisio entre natureza e sociedad. Podemos colocar es-
tas divisoes ent perspectiva, segundo ele, vendo cada componente do meio am
bience como um eaminho de transformagio (HAGERSTRAND, 1976: 332).
HA devires luumanos, devires anima, devires vegetas, ¢ assim sucessivamente
Conforme se mover juntos através do tempo ¢ encontram-se Uns 208 Outros,
cesses caminkwos se entrelagam para formar uma imensa € continua tapegaria em
evolugio, A antropologia, portanto, é 0 estudo dos devites humanos conforme
desdobram-se dentzo da tama do mundo. F foi essa ideia de histéria, evolugio ©
vida social como tecidas, ¢ no como feitas por humanos, on para humanos, que
ime levou 3 habieagio.
Habitagio
Estive refletindo sobre a distingo entre construgio ¢ habitagio muito antes
‘que tuma conversa casual com um estudance ce arquitetura, por volta de 1990, me
ditigsse aos escritosfilos6ficos de Martin Hieidegger sobre o tema. A distingio
pareceurme oferecer tim caso exemplar do contraste, que jé me havia chamado
1 atengio, entre 08 sentidos transitivo ¢ intransitivo da produgio. Foi, portanto,
‘Marx, nio Heidegger, quem me fez pensar sobre isso. A construsio, na eéle-
bre fibula de Marx do arquiteto humano ¢ da abetha, figura como uma relagio
transitiva: 6 arquiteto, voce pode recordar, jf construiu 0 alvéolo na sua eabers
antes de construito em ceca (MARX, 1930; 169-170). Na verdacle, a prestn~
fo de que a forma construida seja o resultado manifesto de um projeto prévio
st implicita na designagio do edificio como uma obta de arquitetura, Hlabitar,
em contrapartida, é intransitivo: concerne & maneira como 0s habicantes, isola-
dos ¢ em conjunto, procuzem as suas préprias vidas, e como a vida, prossegue.
Criticamente, entio, a habitagio ndo é metamente a ocupagéo de estrunuras jé
construidas: niio esta para a eonstrugio como o consumo esti para pyodugio.
Sigoifica antes essa imeasio dos seres nas correntes clo mundo da vida, sem a qual
atividades eomo concepsio, construsio € ocupacio simplesmente nao poderiam
acontecer. Conforme os individluos produzem suas vidas, declararam Marx e En:
gels (1977: 42), assim eles 0 si.
Em seu ensaio seminal, Building Dwelling Thinking (Consteuis, habitar, pen-
sar), Heidegger deferdden precisamente © mesmo ponto. Sua preocupasio era
recuperar, por detris da estreita identificagio modernista de habitagio com ocu-
paso ou consumo, o seu significado original € primério, como ser, abrangendo
toda o caminho em que se vive a sua vida na terra. Portanto, “eu moro, voce
mora” é idéntico a “eu sou, voot & (HEIDEGGER, 1971: 147). Construis,
4
catéo, nfo é um meio para habitar, tampouco habitar determina 0s fins, ou 08
rojetos, que a construgio passa a implementar Pois construit, como Heidegger
© coloca, “4 ¢ em si habitar .. Apenas se formos capazes de habitar, sé entio
ppodemos construit” (p. 160). Em uma colegio antcrior de ensaios sobre The Per
‘eption of te Environment (A. petcepgio do meio ambiente) (INGOLD, 2000a),
come esta como a declaragio fandadora do que chamei de “perspectiva da ha”
bitagio”, Com isso quis denotar uma perspectiva fundada na premissa de que
as formas como os seres humanos constroem, sca na imaginagio ou no chio,
surgem dentro das correntes da atividade na qual estao envalvidos, os conte
tos relacionais especificos dos seus compromissos priticos com scus arredores
Opus esta petspectiva a “perspectiva da construgio”, enclausurada no familiar
Inodelo de produgio, segundo 0 qual o trabalho produtivo seeve meramnce para
transcrever formas ideais precxstentes sobre um substeato material inicialmente
amorfo (INGOLD, 2000a: 178-187). Adorar a perspectiva da habitagao nio
const, abviament, cm gir que oe ss hnmanas contri cis. Ms
m solicitar uma explcagao altemativa para a construso, como un proceso ce
ee ee re ees
‘do meramente traduzi do virtual para o teal
(Ouera maneira de vsualizar isto é pensar na construgio, ou ma prods, de
tama maneira mais geral, como uma modalidade de tecelagem. Assim como a
construgio esté para a habitagio, a produgio ests para a tecelagem: realear 0 pri-
mc termo de cada par implica ver os processos de producio consumidas pelos
sexs produtos finais, cuja origem ¢ atribuida ndo &criatividade improvisafora do
trabalho, que resolve as coisas conforme se processa, mas i novidade de cleter-
rminados fins concebidos antecipadamente. Reakar o segundo termo, per outro
Indo, € dar prioridade 20 processo sobre o produto, ¢ definit a atividate: pela
sxengio do comprometimento ambiental ao invés da transitividade de meios ©
fins. Enquanto a perspectiva da construgio define o produtor como um portador
Ae incengGes prévias, sobre. contra o mundo material, a perspectiva daInbitacion
situa 0 teeelio no meio de um mundo de materais, que ele, literalment,, ext
20 produir o trabalho, Pe é,a este respeito, um produtor, no sentido oil do
termo, Através desta tltima perspectiva esperei mudar a antropologia en geval,
0 estudo da cultura material em particular, pata longe da fixagio com ojos ¢
imagens, ¢ em diregio a uma melhor apreciacio dos fluxos materiais eer entes
de conscitncia sensorial nos quais tanto as ideas como as coisas toman Forma
reciprocamente.
__Apesar de ter me baseaco em Heidegger para a minha discussio do ks bitat,
‘io sou, de mancira alguna, um heideggeriano, ¢ nao faz parte do me. poe
to clucidar 0 que Heidegger realmente quis dizer ou explicar 0 seu sigitseado
para a antropologia. Estou mais do que satiscito em deixar essa tarefa ay tos.
35Para mim, dois aspectos da filosofia de Heidegger se provaram especialmente
problemiticos, Um deles diz respeito ao que significa viver€ babitar na abort
150 outro, a0 modo particular de ser atrbuido aos huinanos em oposigSo aos
animais nao fumanos. Esse aspectos estio conectados, una vex. que Heidegger
afirma que o mundo se abre para os humanos de uma mancira que ele nao 0
fi, endo pode fzé-1o, part 08 no humans, Ele imaginow esta abestura como
‘uma espécie de clarir, live para atividades como a construgio € 0 cultivo, a
produto c acriagio de coisas. Embora confinado A sua catcira,o acontecimento
da habitagio humana parece estranhamente circunserito. A existéneia de animais
‘do humanos, em contrapartcl, fo parece ser tio liitada, mas, 20 contetio,
se derrama nos seus arredores por qualquer caminlio que proveja crescimento €
‘movimento, A conclusio aparentemente paradal de Hledegger foi que, enquan-
toa vida animal ~ que no coohece limites ~ est fechada para o mundo, a vida
humana = que se abre para um mundo ~ & refieada e contida. A solugio para 0
pparadoxo encontrasc na insiséncia heideggeriana em que, apesar de os animmais se
tnintucarem livremente em set ambienee, eles fo tem a capacdae de apreender
as coisas que af encontram pelo que cas sio, emo cosas. Fle tém um ambiente,
ims permanecem privados de um mundo (FIEIDEGGER, 1995: 239). Para os
sens humanos, no entanto, preisamente devi & sua capacidade dle romper os
vinculos que mantém 0 animal preso a0 seu ambiente, unt munclo de coisas se
abe do qual o animal nada sabe, A clareira alegérica na qual a habitagio acontece
uum mundo, portanto, revelada,e se limites $10 0s limites do desvelamento, no
dual as coisas comegam a sua presenga. Baquanto 0 animal meramente exe no
seu ambiemte, dentro destes linites para o amano é possivel sr
Eu mesmo nio me fara a ina divisio tio aguda entre humano e animal
inundo e mefo ambient, se e exsténcia. Ao contritio, um dos mens objetivos
a0 desenvolvera perspectiva da habitagio era lemonstrar que organismo-e-mcio-
“ambiente eser- no-mundo aferecetn pontos de patida para o nosso entendimen
to que sio ontologicamente equivalentes, e dessa mancira unit as abortagens da
ccologiae da fenomenologia dentro de un tnico paradigms. Parce-me que ©
tumano de Heidegger permanece preso no diem de wma criara que pode co-
pheoera si mesma e 40 mundo do qual éviseralmente parte~ no qual vive © 1
pira— somente rentinciando & sua existéncia mesma nesse mundo. Isso pode ser
“um dilemma para ftésofos, mas no 0, penso eu, ur dilema para habitantes que
fandamentalmente conhecern o mundo percorvendo-o, Tanto os sres humarnos
quanto 0s rio humanos, cu objetaria sealizam-se habilmentecenteo e através de
seu entorno, empregando cipacidades de atengio € resposta que tém sido, pelo _
seu desenvolvimento, encarnaclas através da pritica e da experiéncin. A inspiragio
por detrés desta afirmagio no veio da filosofia, enas dla psicologia, © especifica-
mente da abordagem ecoldgica ta percepgio iniciada por James Gibson (1979),
36
[A posigiorealseae pragmsitica de Gibson mio poderia estar nas long
fsnniano com Boson. Os ff, to ene enpakiccan comm 8 MeN ms Me
omg cava nao mao bein, cone im soph asm, set sa cas
pans pees
»NUE
Beegson insist que a vida nfo exté contca nas coisas. E 0 prbprio movimento,
no qual eax organismo emerge como uma pertuebagao peclias, qu interrompe
6 fluxo linear, vinculando-o is formas que vemos. Tao bem ele finge imobilida-
dc, no entanto, que somos facilmente enganados, tratando cada um “como wma
coisa em vez de como um pregresa, esquecendo que a permanéncia mesma da
sua forma & apenas o contomno de um movimento” (19LL: 135). Seria errado,
centio, comparar um organismo vivo a tum objeto, pois “o organismo que vive é
uma coisa gue dara” (p. 16). Como uma raiz on fibra que cresce, ele criast in-
Ulfinidamente asi mesmo, arrastanco sua histéria atris de si conforme o passado
pressiona o presente (p. 29)
Foi exieamente dessa forma que a minha maneira indiveta de pensar me le
vou simuleaveamente ce volta a Bergson e até Deleuze. Na verde, minhas
renativas inicais de ler Deleuze, solicitado pelas recomendagdes de muitos ami
{gos e coles, rio Ievou a lugar enum, Considerando 2 obra simplesmente
incompreensfvel, abandonei essas tencaivas em completa frustragio, Como fe~
‘quentemente acontece com os fildsofos, tive que esperar até que o meu préprio
peasamenco fosse apanhado pelo seu, antes que eu pudesse encontrar algum sen-
tido em tudo 0 que ele estava dlizenclo. Mas, recomesando do zero, preparado
com o que em vo supus sera minha nova visio da vida como um feudmeno de
linhas, fiquei surpreso 20 descobrir que ja havia sido fortemente enunciada por
Deleuze, juntamente com seu colaboracor, 0 psicanalista Félix Guat, jf nos
anos de 1980, em seu livro Mit plat. “Indivicuos ou geupos”, eles escrevem,
“somos compostos de fnhas... ou melhor, fees de inhas” (2004: 223). Existem
linhas de vida, linhas de escrita linhas produtivas de variago em finhas de vida
‘ow escrita, iahas de sorte e azar, ¢ assim por diante (p. 215). Delewze e Guaceri
aschamam, alteroadamente, “inhas de fuga” e “linhas de devie”. Imagine um rio,
‘que fai a0 loago de margens de ambos os lados. Supoahs que as margens do
Fo estejareligadas através de uma ponte. Podemos entio atravessar peln estrada
desde uma localizagio de uni Fado para um local no outro. A ponte, portanto,
estabelece uma conexio transitiva entre os dois locais. Mas 0 ri, cortendo sob a
ponte em uma diego ortogonal estrada, nada conecta a eoisaalguma: Em vez
disso, ele simplesmente flu, sem comego nem fim, erodindo as margens em cada
lado ¢ ganhando velocidade no meio (DELEUZE & GUATTARL, 2004: 28).
Nesta distingio entre 0 conector linear que atravessa de ponta a ponta, © &
Fina de faga que percore, afastando-se em poatos em ambos os lacos enquanto
varce, encontrei um paralelo preciso para a minha distingio original entre senti-
«los transitives cintransitivos de procugio. O conector de ponto a ponte transi-
Fivor ele n9s leva de um ponto de parti, tal como uma imagem do que deve ser
feivo, a um ponto-fiea, na forma do objeto completado, ou vice-versa, do objeto
proveo a usa imagem final na mente do espectador ou do consumidor. A finha
“0
de fuga, pelo contrivio ¢inteansitva: cla continua. Aqui, inalmente, encontrase
2 chave para 0 meu projeto de rstaurar a vida para a anopologin. Com eit,
‘temas nos concentrado nas margens, enquanto perdemos de vist vi, Aina as-
sim, nio fosse © luxo do rio nao haveria maugens, e nena relagio ene els.
Para recuperar 0 rio, precisamos mutlar nossa perspectiva da relagao transversal
entre objetos ¢ imagens para as tajctéras longitulinais de materais e de Cons
cientiragao. Lembre-se da ideia de Hiigerstrand de que tudo 0 que existe, langa-
dona corrente do tempo, tem una trajerria de devi, O entelagamenco dessa
tunjetdrias que sempre se estendem compreende a textura do mind, Se a Nossa
preocupagio ¢ habitar este mundo ou estudio ~ e, no fundo, as dass coisas si0
as mesmas, uma vez que todlos os habitantes sio estuddantes ¢ todos os estucantes
habitantes ~a nossa tare nso € fazer um balago do set conte, mas emir
ue ests acontecendo, rasteeando as mips tilhas do devi, zone gace qu elas
condizam, Rastreat esses caminhos étrazet a antropologia de voli vida
4~
Parte |
Limpando 0 terreno
[A antiopologia no € geralmente considerada una cigncia expetimental. Es
radiosos em muitas outras disciplinas deiberadamente erium situagGes a fim de
cstudarem suas conclusées, pasando a comparar os resultados com 0 que fora
prevsto com base in conjecturas especulativasjé obras medianee tum racics-
io abstrato,tebrico, Os antropélogos, no entanto, so intimados a observar ¢
a deserever as formas de vila com as qusis se encontrar mais ou menes como
as encontram, ¢a teorizar a pattr do fato, Obviamente ees reconhecem, como
_muitos cientistas experimentais ndo o fazem, que pelo fato mesmo da sua presen-
«ay eles nfo podem deixar de paticipar das stuag6es que observam, Mas tom sido
‘mais comu ioterpretar esse envolvimento como uma fone potencialmente pro-
blemitica de preconceito do observador do que como um procedimento de des-
coberta,Temendo que as suas observagées possam ser contaminadas pds seus
prépros projetos ou preconcctos, e para evitar a acusugio de etnocentiismo, a
rmatotia dos antropélogos esti disposta a atenuar as dimensées experimentais
do eu tabalho no que chamnam de “o campo”. No entanto, para as pesoas que
‘moram ai, a vida cotidiana & completamente experimental. Habitantes de todo
6 mundo crescem no conhecimento de como levar sas vides tentando Fazer as
coisas por si mesmos, muita vezes guiados por companheiros mais experientes,
sna expectativa do que possam ser os resultados. E como alunos contessas do
otidiano, os anerop6logos ~ na prétca ~fazem o mesmo, No é pois, aexperi-
mentagio to fundamental para a investigasio antropoldgica quanto 0 épara as
foxmas de vida qu ela busca entendee?
© dilema da Antropologia é que ela permanece attelaa a um modo aca:
démico de produgio de conhecimenro, de acordo com 0 qual a observasi0 no
€ tanto uma mancira de conhecer o que esté agontecendo no mundo quanto
‘uma fone de matéria-prima para posterior processamento em explicagses de
autoridade que pretendem sevelar a verdade por deus da ilusio das apaacies,
‘Afirma-se que essa verdade encontra-se nas estantes da biblioteca, gemercto sob
6 peso de livros escolares e periddicos, a invés de “Li fora” no mundo ck expe
ridncia vivida. este modelo que subecreve a ideia do experimento cietfico,
‘axjo objetivo € produzir os dados observacionais necesstios para provar (ot
arefiar) uma hipdtese, A experimentagio na vida cotidiana, por outro lado, &
tuma questio ado de testa conjectueas em arenas de prea, mas de se inscrever
na atividade pritica no processo mesmo de seguir uma fivlia de pensamento,
£ pensar no aberto, do Indo de fora. Isso, cambém, € 0 que « antropologia fa.
[Experimentos antropoligicos aio necesstam de instruments elaborads que
substituiriam o iavestigador, permitindo que este se esconcesse aris das exnas
«ass, mantivesse a ilusio de austacia que subsereve a reivindicagio de obje-
tividade, Tampouco exigem qualquer boratério no qual cri um simalacro do
muna, projetadlo para estas apenas aquelasvarveis que estejam sueitas A in-
vestigagio. Em vez disso, eles sitiam o investigado, em pessoa, bem no mci das
coisas Em terms de protocolos ccntiicas, esses experimrentos tompem todas
as raga. Bis, elves, porque os antropélogos sio to timidos quanto a assuntie
‘carter experimental da se dsciplina, ¢ porque se abrigam atrés da pretensio
de que, longe de se juntarem 3s pessoas entre as quas trabalhars emt uma busca
de respostas pars as questées fundamentals da vida, do o que fzem no campo
E colerar dados emtogrificos ~ sobre o que essas pessoas dizem ¢ fazer ~ paca
posterior anise
“Acredito que a narureza experimental da antropologia sea algo a ser come-
rmorado ao invés de encoberto, ¢ nesta parte sugio ts experimentos muito sim-
ples que qualquer pessoa pode fazes:O primeiro consiste em molar uma pedra,
eixe-a sccar€ observe o que acontece. O segundo consiste em tirar os sapatos ©
andar descalgo. Eo teceiro consiste em ver através de una prancha de madera
Fstes experimentos nfo tanto oferecem resultados defvitivos para uma anslise
mais aprofirndada, quanto abrem wm terreno inteiro de investigagio, limpando 0
terreno para una abordagem antropolégica ca vida, O primeiro experimento nos
briga a mudar a nossa atcagio da pecra como um objeto material para 0 que
acontece com a pedra ~ wm material ~ no curso ce uma troca de substéneia em
toda a sua superficie com o meio envolvente de ar. No lugar co mundo material,
povoado por objets sdidos, os nossos olhos se abrem para um mun de mae-
Fins, ncuindo a terra, oar € a gua, em que tado est em fluxo ¢ transformagio.
O segundo experimento revela a extensio em gue nossa comprecnsio daquela
superficie mais fundamental de todas, © cho, mokdada pela experiéncia de
caminkar com boras ou sapatos sobre superfiies pavimentadas, Anclardesealgo
revela que o cho é composto ¢ heterogéneo, ni tanto uma platalorma ior
pica para a vida quanto um panto grosso ou de retalhos tecido a partir das idas ©
‘Yindas de seus siiploshabitantes. E revela também 0 quanto 0 nosso contaeo
{Katt primario com o ambiente se através dos pés,€ nfo das mos. O tereciro
experimento nos mostra como a habilidade pritica, reanindo as resistencias de
materais, gestos corporais © dos Huxos da experitneia sensorial, ritmicamente
acopla agio e percepgio a0 longo de caminhos de movimento, Juntos, esses expe-
"
rimentos sugetemn que as corcentes entrelagadas de pensamentd que podertamas
deserever com “mente” no estio confinadas dentro do erinio do que 0 esti0 05
flusos de materials compreencendo a vida corpérea coafinads 00 qe chavwamos
de corpo. Ambos se derramam sobre o mundo.
Comego.com os materiais, Bles sio aquilo de que as coisas si0 fetas. Como
oso no capitulo 2, no entanto, o foeo ~ na antopologia, na arqueologia €
nos estuddos ca cultura material ~tendew a estar na materalidade dos objetos, em
vez de nos macerias © nas sts propriedades. Defeado que 0 conecico absato
de materialidade na verdad impediu a compreensio adequacla dos maverais
‘Aprenderfamos mais envolvendo-nosdieecamente com as pr6prios materia Se
guindo 0 que acontece com eles quando eitcam, misturam-se US 208 OXTOS,
solidiicanyse e se dissolvem tna formagio de coisas mais ou menos dasves
Descobrienos,eneio, que os mateias so ativs. Apenas colocando-os dentro de
objetos fechados eles sio reduzidos & matéria morta ow inerte. B esta tcatativa
de encerramento que dew origem a0 chamado “problema de agéncia”. 6 wm
problema que nés mesmos eausamos. Pergunramo-nos: Como podem os 3€#€8
hhumanos agir? Se féssemos meros pedacos de maréria, nada podteriamos Frzet
Entfo pensumos que algum ingredienteaicional precisa seracicionado para ani
mar nossos pobres corpos. E se, como As vezes nos parece, o8 objetus puderem
“agie de voles", ento este ingrediente também deve ser atribufdo a ees, amos
oo nome de “agéncia” a este ingrediente. E a suposta causa QUE Movimerta 2
smaxévia de out forma inerte. Mas se seguitmos os materinisativos ao invés de
reduz-tos matéria morta, entéo nao temos que invocar wma “agéneca” estranha
para animé-fos de novo, O vento, por exempla, aio é um objeto, Falmpouco 358
as drvores por ser dotado de agencia, Tages de uma corrente cle a de mat
em movimento, Dizemos “o vento sopra”, porque a estrutura stjtp-verbo da
Kingua portuguesa torna dificil express-lo de outra mancira. Mas, verclade,
‘sabemos que 0 vento é° set sopro. Da mesma forma, o cberego é & ua corte
te. Fassim, também, eso 0 que stax fzendo. Bu nio sou umn age, mas wm
amo de atvidade. Se levantasse a tampa, voce iria encontrar algo Mis pare cio
com una pilba de compostagem do que o tipo de estrucura arqulieinica que
anatomistase psieblogos gosta de imagina:
‘No capitulo 3 eu passo dos flaxos de mater
Escclos da cognigio hu
208 movinrentor de pes 503s
a tendem a pressupor que o pensamentye o ceonbe:
cirmento sejan as relizagies de uma mente estacionéria, encerrada enum € FPO
em movimento. Sugio que esta pressuposico tenha o seu fundarmago err #88
fea afins de desenvolvimento tecnolgico que, aa hist6ria das Sotclades- OC
denis, acompanharam o aparecimento da era moderna, A primein fot no> eal
‘dos, particularmente na constrigio de movimento e sensagio impo pela bot
de couro duro, A seguncla foi na consteugioe pavimentagio de estas, tev aeKlo
4s| eriagio de vias tesistenees, que permanecem sem as marcas deixadas pela passa
gem de vida humana. A rereira foi no transporte, pelo qual os viajantes posta
see “wansportados” de um ponto de pactida a um destino, em ver de fazerem 0
‘sex préprio caminho enquanco caminharn, Juntas elas contribuem para. as nossas
ideias de que o movimento é um deslocamento mecinico do corpo humano atra-
‘és ca superficie da terra, de um ponto a outro, e que o conliecimento é montado
partir ce observagGes feitas a partir destes pontos. Obviamente existem formas
dde movimento de pedestees, notoriamente a chamada marcha a pass0s largos,
{que se aproximam do ideal de transporte paro, Como uma oscilasio rigidamente
recinica dos quadris com as pernas esticadas, com os olhos olhando & frente,
20 inves de para baixo, 0 passo s6 fanciona com péscalgados em wma superficie
pavimentada, Fncena uma imagem corporal de ocupagio colonial, ocupando a
discincia entre pontos de pastida ¢ de chegada como se alguém pudesse, simul
taneanente, cet um pé em cada um, abrangendo a ambos ~ ¢ todos os pontos
‘entre eles — em tm tinico movimento de apropriagio, No entanto, a maior parte
dos seres humanos no tém tanto aleance pelas superficies da terra a0 escolhe-
rem seu camino com os pés descalgos, com sandilias ox sapatos. Afitmo que
seja nesses movimentos habilidosos pelos caminhos de vida ¢ viagem, € no no
processamento dle dados coletados de mitiplos lugares de observagio, que 0
onherimento dos habitanteséforjado, Locomogio e cognigio sio, portanto, in-
‘separiveis,¢ uina explicagio da mente deve estar to preocupaca com 0 trabalho
dos pés quanto com aquele da eabera ¢ das mao.
‘O que vale para 0 andar também vale para outras atividads hibeis que tém
‘um carter similarmenteitinerante, No capitulo 4 baseio-me em um relato deta-
Thado da tarefa de serrar uma tébua de madeira para explorar teés temas de fn-
damental importincia pars a compreensio adequada da habilidade téaica, Estes
coreemem & qualidade processional do uso de ferramentas, & sinergia do pro-
{issional, i ferramenta ¢ 0 matasal, ¢ 20 acoplamento de percepsio ¢ agio. Em
_primeiro lugar, mostro que seera é processional do mesmo modo que andar 0 €:
‘ada passo € wm desenvolvimento do anterior € uma preparagio para o seguinte.
‘Assim como fazer wa caminhada, a taefa tem faves reconheciveis de preparo,
inicio, continaagao 0 término, Em segundo lugar pergunto 0 que sigeiica dizee
da serea, como tuma ferramenta, que funciona para cortar madeira, Argumento
{que a fungio ela seara no repousa nos seus atributos objetivos, mas ent estorias
Ge so presécico, Dessas estéras, no entamto, a serra nfo term memétia, A relag
centre mo e serra é, portanto,fandamentalmente assimétrica, Pois a serra depen-
de dos movimentos gestusis da méo, consubstanciados através da priiea ante-
Flog, para que suns estéras scjam contadas, Em terceiro lugar, como umn exemplo
te “tabalho de rsco”, serra exige destreza manual, Afirmo que a esséueia da
destreza reside ia capacidade do carpinteiro de realizar wm conjunto de movi-
46
‘axentos simuleineos, tanto dentro como fora do corpo. F esta sintonizagio que
toma a atvdade nia endo antondra, Longe d se merarent abit
cn fa ser psa, esa aad remia exige nena conn. Es
coneenrao, io enant, €aqica de uma consi que nocd confide na
Cabea do profisional, mas ee eee para 6 meio nmivente ao long demi
plas vt de partiipago sensorial. Qua tem sid, en, o destino de hablidade
haem da xno? Seri que ashabiliades dram tga s muna? Cones
qe nc por cae res. primeira € que mina is, em Fucionanent,
Sistemas aber e no fcindo, +s € que, to ripido quan ss
iniguna sume a operas antes executes por prefisionas qual
nos hinds deel tosnoae mga
aNN
1
2
Materiais contra materialidade
Anites de comegar a er este empiala, por favo, v8 lb fora e encontre tang pear
_grinde,embora nto grande gue néa psa ser fcilmentelevantada e trom porta
‘para um local coberto Taga, e 0 merle em um baie de Agia om debnive de wna
torncina aberta, Entéo a cologne diante de vod em sua mess ~ aloes em ua pada
cu pro de meio a io etrapr a sua mesa de trabala, DE wma bos olbada yen. Se
‘act gosta, oct pode olla pra clade novo de ves om quando, enguato voi eapk-
‘alo, No fina, vou me referir ao que vacé poe ter observada,
Fgura 2.1 Pada molhada (Foto: Susanna Ingold)
”‘ontivia, que 05 sipos de representagées ¢ julgamentos aos quais Godelir se
refcre nfo sio canto importados para acenas de atvidade peitica quanto emer-
gem dentro dels, surgindo das maneiras mesmas pels quais os seres humans
«sto interativamente envolvidas com substincia material (RENEREW, 2004:
23; ef tb, RENFREW, 2001: 127), No entanto, em sua formulagio do que
agora chama de “Teoria do Comprometinsento Material a polaridade da mente
‘eda matérin pemanecern. Pois 0 engajamenta do qual ele fila nio pea carne €
‘osangue de corpos hummanos em contato corporal com matetais de outos tipos,
‘cj orginicos ou inorgsnicos, Ao contestio, poe mentes imateriis cm contato
‘com un nando material.
© que é,entio, este murlo material? Fm que ele consiste? Christopher Gos-
den sagete ue, para fins heucitios, poderfamos dividi-lo ema dois ampios com-
onentes: paiagem € artafites (1999: 152). Assim, parece que temos 2 mente
fromana, por aim tado, €, por outro lado, tum mundo material de paisagem e
arzefatos. 1850, voct poderia pensar, deveria cobrir quase tudo. Mas o fz? Ce
dere-se, por tin momento, o que & deixado de fora, Comegando pets paisagem,
seri que ela inclu o céu? Onde colocamos 0 sol, a lua as extrelas? Podemiosal-
cangar as estreas, mas no podemos tocé-las: Ser4 que eis so, entio, realidades
‘waterais com as quis 05 seres humanos podem fizer contato, ou seré que elas
«existe para ns apenas na mente? Serd que a ha é parte do mundo material para
visjantes tersestes, ou apenas para os cosmonautas que atrrissam na paisagem
lunar? E quanto & luz do sol? A vida depende dela, Mas sea lz solar fosse um
constituinte do mundo material, entéo teriamos que admitir nfo apenas que a
Paisagem diucna difere materialmente da norucna, mas tambéan que a sombra
«de una caracterstica da paissiger, como uma rocha ou wna éevor, participa do
sniido material ranto quanto a propria ciracteristica, Para criaturas que vive
srasombra sso, de fat, fz diferenga! E quanto aa ae? Sera que quanclo voc res-
pir ou sente 0 vento em seu rosto, voot esti se compromectendo com o mundo.
‘material? Quando a névoa desce, e tudo a0 sen redor parece obscutoe misterioso,
ser que o mundo material mudou, ou vocéesté apenas vendo o mesino mundo
de mancita diferente? Seri que a chuva pertence ao macclo material, ou apenas
a8 pogas que elt deiga nas valas © buracos? Seré que a neve que cai participa
ddo mundo marerial somente quanto pousa sobke o eho? Como enigenteiros ©
construrores sabem rodos muito bem, chuva e geada podem romper estiadas
€ edificios. Comto entio podemos afirmar que estes e edifcios sejam parte
cdo mundo material, se a chuva ea geada nio 0 sio? E onde porfamos 0 fogo ea
fainaga a fava incandesceneee as eizas val io mencionae liquidos
de todos 0s tpos, da tinta& gua cortente?
‘3. Discoro sobre mits dest ques rearvapnagen ce cempo nos cap. 9 1,
82
Nenhuma dessas coisas se inserem no imbieo do segunclo componente da
matetialidade de Gosden, ou sea, 08 artefitos. Além disso, a categoria do a
ficial suscita as suas préprias anomalias. Em umn experimento, pedi a um grupo
de alunos de graduago para separarem inna colegio variada de objetos que e
conirassem pelo cho do Indo de fora em dias pilhas, uma de objetos natu
s.outra de arcefitos. Descobrit-se que nem uma dnica coisa ple ser i
‘amente atribuida a uma pilha ou a outa. Se parscam varie em uns escala de
autifiialidade, foi apenas porque, para alguns mais do que para outros, e em
diferentes momentos da sta histria, 0s seres hnznanos sinham desempenado
tum papel nos processos que os levaram a estarem onde estavam, ea assumirern
2s formas que assumiarm no momento em que foraraescolhilos. Neste sentido, 0
machado ce petra de dos gumes feito pars mim recentemente por um ralhdor
litico profissional € ralver. mais artificial do que a pesearecolhiida do seu jt
{que voce tem diante desi ern sua mesa. Mas isso ni fsx com que a primera seja
rmais uma parte do mundo material do que a dltima. Mais geralmente, por gue
‘o myundo material deveria inluir apenas om coisas enconteadas i st, dentro da
paisagem, of coisas jé transformadeas pela atividade humana emt artefatos? Ror
‘que excluir coisas como a pedira, que foram recuperadas cemovidas, mas
transformadas? Bonde, nesta divisio entre paisagem e artefaros, poderisos
colocar todas as diversas formas de vida animal, vegetal, fingica e bacteriana?
‘Como artefatos, ess coisas podem ser avibuidas is propriedades formas de um
projeto, no eneanto elas io foram produidas, mas cresceram., Se, além disso,
ls forem parte do mando material, entéo o mesmo deve ser verdade do meu
proprio corpo. Fntio, onde iso se eacaxa? Se ett mea corpo si uma ¢ a mes
ma coisa, ¢ se 0 mew corpo realmente paticipa do mundo material, entio como
Porte 0 corpo-aue-eu-sout se comprometer com esse mundo?
quivo-
‘Meio, substincia, superficie
‘Uin caminho altcenativo adiante € oferecido por James Gibson, eny seu tra
batho pioneiro sobre A abordagen colin da percepo visual, Aqui, ele distingue
tués componentes do ambiente habitado: mela subsinciac e snperfces (GIBSON,
1979; 16). Para os seres humanos o meio é nomialmente 0 a. £ elaro que pre
cisamos de ar pata Fespirar. Mas além disso, oferecende pouca resisténci, ele
permite-nos mover-nos ~fizer coisas, produit coisis e tocar coisas, Timbém
transmite encigia radiante e vibragio mectnica, de modo que pode €
‘ouvir E permite-nox cheira, uma vez que as moléculs que estimitlam os nossos
receptoresolfaivos so clfndidasnele. Portanto 6 meio, de acordo com Gibson,
proporciona movimento e percepeio. Substiincias, por outro lado, é0 relai va.
imenite resistents a ambos, Has inclnem todos os tipos de coisas mais ou mars
solidas como rochas, cascalho, area, tera, bareo, madeira, concreto € assim por
cliante, Tas maceraisfornecem os fandamentos fisicos necesstios para a vida ~
3x
[Materiais desaparecidos
CComeso com um enigma. £ que a sempre escente literatura, em anto>
pologia e arqucologia, que lida explictamente com os temas da materialidads ©
da cultura material parece vee quase nada a dizes sobre matovais!. Por mates
refico-me as coisas de que as coisas so fits, e um inventiio aproximade pode
ctomegar com algo como 0 sguinte, trado da ista de conteido do excelente ivro
dde Henry Hodges, Arteficts (Artefatos):certmica; emaltados, vidro e laquea-
dos, cobree liga de cobre; ferro ¢ ago} ouro, pata, chumbo € merci; peda;
tmadkira fibra c fos; textes ¢ cess; pees ¢couro; gulhada, oss chifre e mar-
fim; corantes,pigmentosc inas;adesivos; alguns Outos materais (HODGES,
1964: 9).
Este volume pé-no chio esté repleto de informagdes sobre todos os tipos de
materais que 08 povos pré-histricos tm usado para fazer coisas. No entanto,
unea 0 vi referido na literatura sobre materialidade. Procurando pelas minhas
prateleivas encontre ttalos como: The Mental and the Material (O mental €
‘ material), de Maurice Godelier (1986); Mind, Matriality and History (Men-
te, materalidade e historia), de Christie Toren (1999) Matte Maerility and
“Modern Culture (Matéria, materialidade ¢ cultura moderna, edtado por Pau
Graves-Brovm (2000), Thinking throwgh Material Culture (Pensando através da
cuteura material) de Karl Knappete (2008); Marsraliey(Mateialidade),editado
por Daniel Miller (2005); Aaterial Cultures, Material Minds (Culeuras mate-
is, mentes materias), de Nicole Boivin (2008) e Material Agency (Agéncia
material), editado por Lambros Malafouris e Karl Knappect (2008). Em estilo
ceaboedagem, ests livros eso a um milho de milhas da obra de Hlodges. Sus
“ompromissos, na sia maior pte, nfo si6 Omi af CofaE tangivels de prots-
Sionas e manufatureieos, mas com 25 reflexes absteaas de idsofos¢ teorstay
«Ble dscorem,
muitas vezes em uma lingagem de impenetabiidade grotese,
cera das relagGes entre materialidade e uma série de outras qualidades igual-
‘mente insondives, que inchuetragtnci, intencionaldade, funcionaidade, espa-
alidade, semiose, sptiualidade e enearnagio. Procurase em vio, no gptant,
‘qualquer explicagdo compreensfvel do que “materalidade” realmente significa,
‘ou qualquer expicasio los materias e suas propriedades. Para entender a mate:
Talidade, 20 que patée, precisamosficar tio longe quanto possivel de mateciais.
1. Apreso mes acescenrar que, obviamente,amsoe parte da arqueoloya€ dedi presiamente
so exalo de moteiis eda mancicas como tenham sido ulizados em process de produsso.
Sean ra anopologa exist gum taba etogrdico sobre oan, O teu pont € simples
fneate qc este abu tio parce inter de forma sighictiva a ieraoa sobre teria
‘Catt nated ara esnaiouos que deicarare grande parte de suas ener ao ext dos mate
Fas es literati eK mais como am rota de gn para teria ~ uma qe, confess, ev mesmo
jewel Portanto, mea argument €ligido tanto a mien gua a qualquer ura pessoa, pate
ewan rentatin de superar dviso entre taba tesco epic
50
Por que deveria set assim? A antropologia, i muito rempo, ¢ com ra7io,
tem insstide que 0 camino para o entendimento encontra-se na partcipagio
pritic. Voc poderia,cntio, pensar que, como antropsloges, gostaramos de
“|prender sobre a composigio material do mundo habitado comprometendo-nos
pt posi pt
dliretamente com as coisas que queremos entender: serrando toras, construindo
tuma parede, britando pedra ou remanco um barco. Um carpinteiro ¢ alguém
{que tabalha com madeira, mas como Stephanie Buna observou, a maior dos
Snteopslogos s¢ contentaria em consideraro trabalho em termos da identidade
‘social do traballador, das ferramentas que ele ou ela usa, da disposigio da oficina,
das técnicas empregadas, dos objeros produzidos € seus signficados ~ tudo, me
fho¥a madcira mesma. Os materai, a0 que parece, desapareceram, Vindo para
antropologia de sua experitacia como artista c artes, Bunn foi direcionada para a
fiteratura sobre a cultura matedal. Mas em nenhum lngar ness literatura ela po-
devia encontrar qualquer coisa correspondente a0 “pou que ela fer”: 0 trabalho
‘com materiais que repousa no coragio da sua prépria pritica como uma fabrica-
dora (BUNN, 1999: 18), Este fabricar € paca ela, como o é para nmuitos artistas,
uum procedimento de descoberta: nas palavras do escultor Andy Goldsworthy,
Suma abertura para os processos da vida, dentro € em volta” (FRIEDMAN &
GOLDSWORTHY, 1990: 160). Nao poderia tal engajamento— trabalhar prati-
‘amente com marerais - também oferecer & antropologia um procedimento mais
jpoderoso de descoberta do que uma abordagem empenhada na andlise absteata
tas coisas jéfeitast Que perveesio acaclémica nos leva a falar nito de maternis¢
suns proprielades, mas de mateiatidade dos objeto?
Uma pista para a resposta esté no titulo de uma conferéncia realizada no
Instieuto McDonald para a Investigacio Arqucol6gica, em Cambridge, em mac-
{0 de 2003: Repensondo materiatdade: 0 engajamanto da mente com o mundo
‘terial. O provexto paca esta conferéacia surgiu, em grande parte a partir de
uma reagio contra a excessiva polarizagio da mente ¢ da matétia que levou ge-
rages de teéricos a supor que a substincia material do mundo se apresenta &
hhumanidade como uma lousa em branco, uma tabuls ras, para a inserigio de
formas ideacionais. Um exemplo € 0 argumento de Godelier em The Mental
tind the Material (O mental eo material), a que me referi no sltimo capitylo, de
{que no pode haver asio deliberada de sexes humanos sobre o mundo material
{que ido se ponha a eabalhar “realidades mentas, representagbes, jlgamentos,
principios de pensamento” (1986: 11). De onde ento, esas ealidades mentais
‘vem? Serd que clas tém sua origem, como 0 insinua Godelie, erm mitindo de
sociedade que seja ontologicamente dstinto das “tealdades mateias ca nacureza
exterior? (p. 3). Na conferéncia de Cambridge, Colin Renfiew argumencou, 20
2, Os anand confetncia foram poserionmentepublicados como DeMaris el (2004)
sttomaram como certa: a saber, que as relagées huumanas com 0 meio ambiente
io necessariamente mediadas pela culeura (INGOLD, 1992). Afinal, animais
no frumanos que ~ com uma ou dias possiveis excegbes ~ no deveciam com,
partithar a capacidace humana de repeesentasio simbdlica sio, contuda, pexfei-
tamente capzzes de viver bem em seus ambientes. Seri que realmente devernos
screditas, como gostariam os defensores da razéo culeural, que tod significado
€ simbético € que, portanto, os ndo humanos habitam mundos desprovidos de
sentido? Para a minha mente, essa conclusio parecen absurda. Eotio, para in-
verter a questio, perguntei: “Que tipo de significado pode haver na auséncia de
representagio simbélic” Se pudéssemos pelo menos identificar as fontes de
significado ambiental para animals nfo humans, entio poxleriamos considerar
em que medida esss fontes também estio disponives paca os sees humanos. $6
quando essas Fontes estivesem exgotadasnésfinalmente precisarfamos recorter A
esfera da representagio cultural
Buscando respostas para a minha questio, aio enconteei nenhuma nas prin:
cipais correntes da psicologia, nem em qualquer estudlo etalégico do comporta-
mento animal. A maioria dos psicdlogos cognitivos estava convensida de que no
povleria haver nenhuma acio no mundo que néo fosse precedida ¢ determinada
{em sen eutso por uma representacio mental interior ~ isto & por wa intensio
concebida em pensamento. Se os animais nfo conseguissem pensar ou intencio-
nat, les tampouco poderiam agit: Tuco 0 que poderiam fazer é comportatersc,
respondendo mais ou menos automaticamente aos estimulos recebidos através
«de mecanismos inatos vagamente conhecidos como “instintos”. Nenbum signi-
ficado aft A maioria dos estudiosos do comportamento animal adaxou a mesma
opiniao. f certo que houve dissidentes,rais coma Donald Griffin (1984), que
supds que mesmo os insetosinferiores posteriam ser capazes de deliberae sobce
fo curso de agio. Bles também supunham, no eneanto, que no puclesse haver
nenhuma ago sem premeditagio, Su teoria do significado, que vepousava s0-
‘bre uma divisio carteslna entre a mente pensante € o coepo executor, de forma
alyuma divergia da corrente dominante; eles dvergiam apenas quanto a0 hugae
fem que desenhavam a linha, no reno animal, entre erates corm mentes € cria-
‘teas desprovidas le mente. No entanto, néo ¢ irdnico que devamnos esperar da
formign ou da abetha, como condigio ce que encontrem algum significado no
meio ambiente, que conserver em suas meates alguma represcntagio do mundo
€ ajam de acordo com ela, quando isso é algo que ads mesmos, seres humma-
nos, raramente 0 fazemos? Quantas vezes, eu me pergunto, pensamos antes de
agin? Mesmo quando o fazer, ago difiilmente decoree automsaticumente do
pensamento, ¢ pode muitas vezes divergir dole de manciras nunca pretendidas.
Como o filésofo Alfied North Whitehead sabiamente observou, “desde 0 nasc-
mento estamos imersos na agio, ¢ 6 eventualmente poclentos guiila através do
pensimento” (WHITEHEAD, 1938: 217).
i
oe
“ive, portant, que abandonar a conrente daminante paca encontrar miss
sespostus. Na psicologia voltei-me para 0 tabalho de James Gibson, cuja abord
gem ecoldgica da percepco, desenvolvda nos anos de 1950 ede 1960, ea expli:
‘mente oposta 20 paradigma predomiaante do cognitivismo. E em etologia re
descobri os, por muito tempo negligenciatios, escritos anteriores & guerra do pio-
reo estoniano da biossemitica, Jakob von Ueakill. Ambos pavecamn olerecer
‘una maneiraradicalmente alternativa de pensar sobre 0 signiicado,encontrando-
-ornio na correspondéncia entre um mundo externo e sua represent interion,
mas no acoplamnento imedliato de percepsio e ago. No entanto, como tambo
dkescobr, por ders dessa semelhanya tepousavan difewencas signiictivas
James Gibson € 0 coneeito de uffordance
© primeito movimento de Gibson consiste em dlstingnir muito claramente
centre “0 meio ambiente dos animais” e o “mundo fisico” (GIBSON, 1979: 8).
A fisica pode esforgarse para compreender a natureza do mundo ral como ele
realmente 6, reduzido aos seus consttuintes essenciais de forga, energia e maté
‘Um meio ambiente, no entanto, nio existe em si ¢ por si. Ele exists apenas enn
‘relagdo a0 see cujo meio ambiente ele €. Assim, da mesma forma como tio pode
hhaver organismo sem um meio ambiente, também nao pode haver meio ambict:
te sem um oxganismo (ef. th. LEWONTIN, 1982: 160). Embora rio menos
real do que 0 mundo fisico, o meio ambiente é uma realidade pare » organismo
‘em questio (INGOLD, 1992: 444; 20002: 168). O préximo passo de Gilson &
‘demonstrar que 0s constituintes essenciais de qualquer ambiente cirapreendem
‘oque ele charna de affrdances (GIBSON, 1979: 127). Seu argumexto consiste
‘em que, a0 encontrar qualquer objeto ambiental particular, o animal percebe 0
ue ele facilta ou diffcatta no contexto imediato de sua atividade sual. A per
cepgio, portanro, no é uma questio de atribuir algum significado ao objeto ~
de reconhecéo como pertencendo a um certo tipo a0 qual determciados sos
possam ser atrefados -, mas de descobrie significado no pe6prio proc:sso de uso.
© raciocinio de Gibson, a despeito de sua chareza, esti, de fan, ateavessa-
do por contradigSes. O problema reside ma sua incapacidade de coxciliar 0 seu
‘entendimento celacional do meio ambiente com uma visio mais atciga e mais
convencional, que postula 0 meio ambiente como um conjunto 6 condigies
“objtivas que existem de maneira independente ¢ ancerior seciattn s que vem
babitilo, € a0 qual devem forgosamente se adaprat. Sua solugio & + atar ter as
suas coisas, como a seguinte passagem revela:
‘Un fio importante acerea das ffirdances do meio ambicee € que clas
so, em um sentido objetivo, reas Fisieas, ao eonescio cas valores ¢
signiicados, que se supSem itas vers seem subjeivo, Fenomenais
€ mennis. Mas, un verdade, uma afrene nfo € nem tra propries
de objetiva, nem uma propeiedae subjetivs ow ambas, soe? quiet
beria, Pois ao invés de esperarem que o inesperado ocotrs,¢ de serem apanhados
«em consequéncia disso, ela os permite responder, no mesmo momento, 20 fixe
do mundo com euidado, julgamento ¢ sensbilidade.
Serd que animismo ¢ ciéacia sio, portanto,irreconcilidveis? Seré que uma
abereura animista para o mundo € inimiga ca citncia? Certamente no, Nao gos-
taria que minhas observagdes fossem interpretacas como tm ataque contra todo
‘0 empreendimemto cientifico, Mas a ciéncia, tal como esté, repousa sobre uma
impossivel fundagio, pois, a fim de transformar o mundo em wm abjeto de preo-
ceupagio, ela tem que colocat-se acima ¢ além do préprio mundo que ela afiema
centendet. As condigGes que permitem aos cientistas conbererem, pelo menos de
acordo com 0s protocolos oficiais, sio de natureza a tornat impossivel para os
cientists estarem 110 mesmo mundo que buscam conhecer, No entanto, toda a
ciéncia depende de observacio, ¢ toda observagio depende de participasso — ou
seja, de um acoplamento cstreito, em percepsio ¢ agio, entre o observador ¢
aquetes aspectos do mundo que si0 0 foco da atengio. Se a ciéncia quiser ser uma
pritica de conhecimento cocrente, deve ser reconstruida sobre o fundamento da
abertura, em vez. do encerramento, do engajamento em vez.do afastamento, E
isto significa recuperar 0 senso de espanto que € tio notével pela sua auséncia
dda obra cientifica contemporinea. © saber deve ser reconectado com 0 se, a
epistemologia com a ontologia, o pensamento com a vida, Assim, 0:n0ss0 ato de
repensar 0 animismo indigena levou-nos a propor a reanimagio da nossa prépria,
assim chamada, tradigio “ocidental” de pensarnento.
126
6
Ponto, linha, contraponto: do meio ambiente ao
espaco fluido
‘Comegando com o meio ambiente
Este capitulo é a dima das minhas tentativas, em mais de das décadas, ©
ue ainda esté cin cuso, de descobrir o que significa o meio ambiente de um ani-
imal. Vindo de uma formagio em antropologia ecoldgica, que professa estudat as
relages entre pessoas e seus ambientes, no posso evitar as perguntas sobre o que
um ambiente e, mais particularmente, 0 que, se alguma coisa, é especial acerca
dos ambientes desses animais que chamamos de seres humanos. Inicialmente,
_minhas investigagées foram motivadas por uma percepsio de quca antropologia
cecoldgica parece ter chegado a um impasse que estava bloqueando um maior
desenvolvimento no assunto, Ble residia nos imperativos contraditétis, epito-
rmados no tirulo de um livro célebre de Marshall Sablins (1976), da enfin e da
‘mz prdtiea, Seté que todo seatido ¢ valor esté em sistemas de simbolossiggnif-
‘cativos? Se assim o for, entZo os motives ¢ as finalidades para a agio humana 50°
bre o meio ambiente devem estar no que a mente the traz: nas icin, coneeitos ©
categorias de uma tradigio eulnaral recebida, No entanto, seré que acultun, com
seus artefatos ¢ arranjos organizacionais, € 0 conhecimento de como aplicé-los,
pprové aos seres humanos 0 equipamento para trarem um sustento do mundo 20
seu redor? Sera que eles, como Clifford Geertz observou uma vez (1973: 49-50),
‘no seria alejados sem el? Se sim, entio de onde vém os requisitos dltinos da
pritica humana sendo a partir do préprio ambiente? Precisemente aor cleve-
‘mos colocar a cultura no nexo das relagdes ambientaishumanas? Seri que tiea 0s
termas da adaptagio, on se trataré de um meio de adaptagio em termos dieados
pela natureza, ou as das coisas ao mesmo tempo?
‘Toxtos os tipos de soluyées engenhosas foram propostos para este élema,
cstigmatizados por wna enorme gama de rétulos incémodos materialise. cul-
tral, neofuncionalismo, ecologia simbélica, marxismo estrutaral~ cujayecspria
inépcia foi sincomatica de um colapso epistemolégico, Nenhuma delas oérecett
‘uma safda satisfa6ria. Pesqoisando uma abordagem alternativa, comect'a. me
perguntar se a fonte da dificuldade poderia estar na pressuposigio que tcxlos
7Para eles, 0 mando habitado € constituido, em primeizo lugar, pelo Muxo aéeo
do tempo, eta vez de pela fixidez Fandamenada da paisager. © lima € dinden-
co, sempre se desdobrando, sempre mudando em suas correntes, qualidades de
tue sombra, e cores, aleernadamente timid ou seco, quente on fro, e assim por
due. Neste mundo a Terra, longed fornecer uma base sla para a existén-
cia, parece Hazuac como uma jangacha fg eeftmera, ceca a partir dos fios da
vide tereste, e suspensa na grande esfera do céu, Esta esfera é onde toda a agio
sublime acontece: onde o so! brilha, o vento sopra, a neve cai € as tempestales
‘esbravejam. Trata-se de uma esfera na qual pessoas poclerosas nao buscam estara-
parsta vontadesobre a terea, mas algar voo corn os pissaros, planar com 0 vento
e conversar com as estes. Suas ambigées, posteviamos diact, sio mais clesiais
Alo que terior
Este € 0 pongo em que devemos volta 4 pergunta que fiz hé pouco, sobre 0
significado do céa e da sua regio com a tera. Consicere a definigio oferecida
pelo meu dicionitio Chambers. © cé, nos informa 0 dicionitio, é “0 dossel
aparente sobre nossas cabesas”, Isso & revelador em dois aspectos, Een primeito
Iga, o cén € imaginado como uma superficie, exatamente como a superficie da
“Terra, exceto, clo, por se tima eobertura por cima das cabogas, em vez de wma
plaraforma sob 0s pés. Em segundo lugar, no entanto, ao contritio da superficie
dda Tecra, a do céu nio é verdadeira, mas apenas aparente, Na realidade nio hi
superficie menftuma, Concebido como tal, 0 céu é um fantasma, E 0 lugar onde
(0s anjos pisam. Seguindo o que € agora uma linha familiae de pensamento, a
superficie da Terra tornou-se uma interface entre o concreto ¢ 0 imaginitio, 0
{que repouse abaixo (a tetra) pertence a0 rmund fisico, enquanto 0 que arquein
‘emacima (0 céu) € sublimado em pensamento. Com 05 pés no chiio ¢ as eabexas
ro ar, 05 seres humanos parecem estar constitucionalmente divididos entre ©
material ¢0 meatal. Dentro do cosmos animico, no entanto, 0 céu nao € uma su
perfcie, reaf ou imaginsria, mas un meio, Além disso, este meio, como jf vimos,
habitado por uma variedade de sere inclusive o sole Ina, 08 ventos, 0 tovio,
‘0s pfisaros eassim por diante, Estes seres deixam seus proprios rastros areavés do
‘fu, exacamente como os sere terrestres deixar seus rastros através da rerra. O
‘exemplo do cuninio do sol é foi mencionado, Mas também se supe comumen-
te que os veams fagam rilhas através do céu, vindos dos quartéis em que residem
(FARNELL, 1994: 943). Tampouco sio a terra € 0 cfu dominios rmutnamente
cexcludences de habitagéo, Aves rotineiramente se deslocam de wm dominio para
‘outro, como o fazem humnanos posierosos, como ox xan. Os esquiemés Yupik,
de acordo con Anne-Fienup Riontan (1994: 80), reconhecemn tuma classe de
pesoas excraorinérias que tém pes to ligeiros que podem iteralmente decolas,
eixando um mstro de neve soprada pelo vento nas devores.
ia
Bspanto e surpresa
-Em summa, longe de enfrentarem-se mutuaments em ambos os ladas de wna
divisio impenetrével entre real eo imaterial, area ¢ 0 céu esto inextsicavel
mente ligados centro de um campo indivistel, integrado ao longo das linbas de
vida entrelagadas dos seus habitantes. Os pintores sabem disso. Els saben que
pintar 0 que se convencionou chamarde “paisagem” € pintar tanto a terra quanto
‘eu, e que a tera ¢0.céu se misturam na pereepso de um mundo que passa por
tum nascimento continuo, Eles sabem, também, que a percep visual desea ter
«xc, 20 contro daquela de objetos na pasagem, & em primneico hagas, ma
‘experiénci da luz, Em sua pintura pretendem recupera, por detris da med
sade mundana da habilidade de ver ar eoias, o puro espanto dessa experién
‘ou seja, de ser capaz. de ver®, Penso que 0 espanta seja 0 oatro lado da med
para a propria abertura para 6 manxto que tenho mostrado ser fundamen para
a maneira animica de sex: Tata-se do sentient de admiragio oriuncly de se
montar na crista do continao naseimento do munclo. No entanta, juntimnence
com aabertura vem a vulnerabildade. Os forasteiras no familiarizados cy esta
imaneita de ser, que muitas vezes parece timer. ou fraqueza, provam una falea
de rigor earacteritca de crenga ede prtica supostamente primitivas. A nanciea
de conhecer 0 mundo, dizem eles, nao € se abrir ae, mas sim “apreendé lo" em
uuma grade de conceitos categorias. O espanto foi banido dos protoostos da
investigasio racional conceitualmente conduzida, Be €inimigo da ciénci,
Buscando fechamento em vez de abertura, os cientstas sio frequentynente
suurpreendicos pelo que encontrar, mas nunca ficam at6nitos. Os centixas si0
sturpreendicos quando suas previsées dao errado, O objetivo mesmo da pevisto,
‘no encanto, repousa sobre a presungio de que se possa dar conta do muné>. Mas
obviamente o mando segue o seu péprio camino, nada obstante. O que 0 de-
signer Stewart Brand diz acerea de constragdes arquitetnica apica-se iguLmen:
te is construgdes da ciéncia: “Todos os euificios sio prevsGes; todas as prvisscs
esti erradas” (1994; 178). Segundo o programa popperiano de conjerura ¢
reftagio,acigncia tansformou a suepresa em um principio de avango ¢.ativo,
‘onvertendo seu registro cumulativo de fatha preitiva em tama hist6ria & pro:
_gresso. A surpresa, no entanto,s6 exis: para aqueles que se esqueceram domo
se espantarem com 0 nascimeato do mindo, que tém crescido tio acostr ads
20 contole © previsibildade que dependem do inesperado para asegae-lhes
de que 0s eventos estio ocorrendoe de que a histéria est sendo feta. Fy con
trapattida, 0s que estao verdadramente abertos para o mundo, emboray crpe-
‘uamente espantados, munca sio surpreendidos. Se esta aitude de espars> sem
surpresa deixa-os vulnerves, também & uma fonte de fora, resisténcia e«>edo-
6. Volo a ete tema no plako 10, p. 196,
Ws‘Mas nas insceig6es pictogeéficas clos povos nativos das Planicies ca América
do Norte 6 represestado assim:
~~ N
GON
‘nid 0 pequeno entalhe no final da linha indica 0 nascer on 0 por do sol (RAR:
NELL, 1994: 959). Nessas representagées 0 sol no ¢ entenddo como um objeto
que se move elo ce, Ao contri, €identifcado como o caminho do seu movi
mento atranés do c&u, em sta jornada dria do horizonte oriental para 0 ocides:
fal Como devernos imaginar 0 a, ¢, em especial a relagio entre 0 céu ea tera,
um problema 20 qual devo retorar abaixo.
‘Onde quer que haja vida, hd movimento. Nem todo movimento, no entanto,
indica vida. O movimento da vida € especificamente o de tornar-se, em vex. do
Ge ser, da incipiéncia da renovacio ao longo de um caminho, em vez do da ex-
tensividade do destocamento.no espaco (MANNING, 2009: 5-6). Toda eriatura,
fenguanco “ermana” ¢deiva trilhas aris desi, move-seem sua forma caractristica
‘O sol esté vivo devido & maneira como se move através do firmamiento, mas tam
bbém o esto 3s Srvores, devido aos modos peculares de seus ramos se moverem
«¢ suas folhas tremularem a0 vento, € devido aos sons que emitem 20 fazé-lo.
‘Obviamente o cientsta ocidental concordaria que 2 drvore esti viva, mesmo em-
bora possa ter dividisacerea do sol. Mas suas razdcsseriam bastante diferentes,
[A Arvore esti viva ele citi, nfo por eausa do seu movimento, mas porque é wun
“organismo celular exo crescimento € alimentado por reagies de forossintese ©
tegulado pelo ADN no niceo da célu. Quanto a seus movimentos, estes $0
apenas os efeitos do vento, Mas e quanto 20 pr6prio vento? Mais uma vez, 0 cien-
tsa teria sas prdprias explicagSes: 0 vento & causado por diferengas horizontais
‘verticas na pressio clo ar atmosférico, Ble também é um efsito, Na maioria das
Cosmologias anianicas, no entanto, considera-se que os ventos estejam vivos ©
cow assim:
12
tenham poderes auténomos de agente; em muitas eles so pessoas importants
ee tee n0 muro en qu peso va ai cen 06
oso, a lua eas estes.
“Uma vex que reconhesamos a primazia do movimento no cosmos anit
co, a inclusio no pantedo de seres do que a cigncia modema classificaria como
fenémenos meteorolJgicos ~ no apenas os ventos, mas comumente também ©
trovio ~ tornasse failmente compreensivel. Nao estamos obrigaclos a acreditar
que o vento sea um ser que sopra, ou que 0 trovo seja um see que aplne
Pelo contririo, o vento estd soprando, € 0 trovio esté aplaucindo, assim como
‘organismos ¢ as pessoas esto vivendo das manciras pecaliaes a cat aun, Mas
peso que haja um pouco mais aser dito sobre a proeminéncia conferida a 838
Tanifestagbes do ser relacionadas com o clima, € isso me traz de volta relagio
entre a terra € 0 eét.
Céu, terra € 0 lima
‘Mencionei anteriormente nossa propensio a supor que 0 mundo inanimado
seja apresentado 3 vida como uma superficie a see ocupada. Dizemos gue vida é
Vivida no chio, ancorada a fundagbes slides, enquanto o tempo rodopia pelo 2
‘Abaixo desta superficie do solo encontra-sea tera; acima a atmosfera. Nos Pro
rnunciamentos de muitos teorstas, no entanto, o solo figura como um interface
indo merainente entre a terra € a atmosfera, mas muito mais fundamentalren-
teentre os dominios da agéncin e da materialidade, Como virnos no capitulo 2
{p.54s,), isso tema consequéncia muito peculiar de tornarfmteriat omcio at
‘és do qual os organismas eas pessoas se movem na condusio de sussstividactes.
Entre mente € natureza, pessoas e coisas, ¢ agencia ¢ materialidade, nenhum
‘expago concetual permanece para aquees fendmenos ¢ transformayies muito
reais do mio, que so geralmente conhecidos pelo nome de tempo. isto, creo
cu, expla a quase auséncia do tempo de debates filosdicos sobre esis quests
“Trata-e de um resultado da ldgica de inversio — uma l6gica que situa aoeupagio
antes da habitagio, o movimento por, antes do movimento através, superficie
antes do meio, Nos termos desta logica, 0 clima é simplesmente impasivel
‘Na ontologia animica, em contrapartia, inconcebivel € @ propia ideia de
{que a vida se descarole sobre a superficie inanimada de urn mundo jronter- 8
seres'vivos, de acordo com essa ontologia, fizem o sc caminho amr de wm
‘mundo nascente, em vez de pela sua superficie pré-formada, Ao fart, de pe™
ddendo das circunstincias, eles podem experimentar vento € chuva, ul e n&vo,
igexda e nove, © uma série de outros fendmenos relacionados com oxempe> ©
‘quais afetam fundamentalmente todos os seus humores € motivagoe, seus 0°
vimnentos c suas possibilidades de subsisténcia, mesmo quando estesinibrrs tic3”.
Ou seja, cle nio contempla um mundo que sj fnito © complete prosseBue
formando uuna representagio dee. Een vee diss, a slag & ce “aximent<> com
2. in Manning cree, esa ina, que Yesperimenta sempre exit 9 Reta again
ahaa! € coer oproeme
Comm am posanente decmgencia qe 6 ombe que
cle chama de “trabalho de certeza”. Se, no trabalho de risco,o resultado yer pre
uvidoso, no tabatho de certeza ele jf ¢ predeteaminado e inaleerivel devise» in
cio, Por exemplo, no meu uso do esquado para desehar uma linha mapas cha,
antes do corte, a tajetéria da ponta do lips € prestabelecida pel bontnet-1 do
ssquado, Tudo 0 que ext tenho que fazer € comer o pis a0 Longo del, o que
osdeve ser dorado de uma estéia, que © profisional deve conhecer € compreender
a fim de reconheeé-lo como tal « usi-lo apropriadamente. Consiceradas como
Ferramentas, a5 coisas so suas estérias, Estamos, obviamente, mais acostumados
a pensar em ferramentas como tendo certas fung6es, Meu ponto, no entanto, é
que as fangs das coisas nto sio auiburos, mas narativas. Blas so as hisSeias
que contamos sobre elas, Acredito que esse ponto resolva um paradoxo que hié
muito tem atormentado diseussGes sobre © coneeito de fungio. O diciondrio
define fungio como “o tipo especial de atividade adequado a qualquer coisa; 0
modo de ago pelo qual cumpre o seu propésito”. Assim, a fungio do serrore
E cortar madeira: esta é a atividade tradicionalmente considerada “apropriada”
para isso, ¢ aquela para a qual foi expressamente designado, No entanto, como
David Pye obseevou, nada que projetemos é sempre verdadeiramente apto para 0
propésito, Um serrote que realmente funcionasse no prodziria uma porgio de
serragem. O methor que podemos dizer de sua fungao & que seja “o que alguém
provisoriamente decidiu que se possa razoavelmente esperar que [ele] faa no
presente” (PYE, 1978: 11-14), Portanto, se decidfssemos que o serrote devesse
ser usado, em um contesto muito diferente, como tum instrumento musical, iso
dleveria contar igualmente bem. Como pode a idea de que cada ferramenta tem
‘uma fungio apropriada ser conciliada com o fato de que, na prética, nada nunca
funciona exceto como um componente de um sistema constituido no momento
presente? (PRESTON, 2000),
(© paralelo entre o uso de ferramenta € 0 contar estérias sugere uma resposta,
‘Como demonstrate no capfeulo 13 (p. 240), 0s sigoiticados das estéras no vém
‘prontos do passado, incorporados em uma tradigio estitica, fechada."Tampouco,
hho entanto, eles sG0 consteuidos de novo, momento a moments, para concor-
ddarem com as condigies sempre mutiveis do presente, Hles sG0, 20 contrétio,
descobertos retrospectivamente,frequentemente muito tempo apés as estrias
terem sido contadas, quando ouvintes ~ confrontados com circunstincias seme-
Ihantes Aquelas contadas ent uma hist6ria em particular ~ descobrem, em sua
orientagio ein desdobramento, como proceder. Ora, assim como estérias nfo
‘caregam seus significados prontos pars o mundo, da mesma forma, 4s ma
ras pelas quais as ferramentas devem ser usadas nio vém pré-embaladas com as
prdpriasferramentas. Mas tampouco si0 os usos de ferramentas simplesmente
inventados fv lca, sem levar em conta qualquer histéria de préticas do passado.
‘Ao conteério, sio revelados aos profissionais quando, diante de uma tarefa re-
corrente na qual os mesmos dispositivos foram conhecidos antes de terem siclo
empregados, so percebidos como suprindo os recursos para a sua realizago.
Portanto, 2s fung6es das ferramentas, como os significado das estas, sfo reco-
nnhecidas através do alinhamento das circunstincias atuais com as conjungSes do
passado, Uma ver reconhecidas, ssas fungies fornecem ao profssional os meios
102
para seguir em frente, Cada uso de uma ferramenta, em sums, € uma lembranga
‘de como usta, 0 que a0 medio tempo segue as verentes de priticas do passa
ddo.¢.as leva adiante em contestos atwas. O profssional qualiicado & como um
salentoso contador de estérias cujos contos sio contados na pritica da sua arte,
em vex de env palavras. Assim consideradas como ferramenta, a5 coisas tém 0
mesmo cariter processional que as atividades que elas tornam posstveis, Como
vimos, 2 atividade de cortar uma prancha é mais um passeio do que um passo.
‘Damesma forma, a fungo do serrote encontra-se mais em ta esta, ou talvez
«em uma série de estrias, do que em um conjunto de atributos, Funcionalidade e
nnaratividade sio dois lados da mesma moeda
No entanto, embora 0 serrote, tanto na sua consteugio sets
- construgio quanto em seus pa-
does de desgaste, incorpore uma histéria de uso passado, ele em nada lembra
‘ssi histéria, Na verdade ele nada lembra absolutamente. F isso sugere yma res-
Bost mossasegunds questo, J vimos que para com madera in seqote m0
€ suficiente. No minimo, a sera € segurada pelas mios e supetvisionads pelos
clbos. Como, entio, o uso deses drgios corpora se compara com a uilizagio
de quipamentosextrassomaticos, tis como oserote? Em seu ensio sobre te
nicas. Ser eee oant Mauss declarou que o corpo € “o primeiro,
0 mais natural objeto hhomem, ¢, a0 mesmo tempo, meio tno”
(@AUSS 1979: 10) Mas, esas mis pactscgure orf patie ate
_mesmo o cérebro para pensar, equivale a convertélos em objetos de minhs von-
tae, eno one 0 seta, ousuio estes meios corporis, estou? Deveros,
como Mauss, segue Patio em supor que o corpo intelto, e nf0 apees xs foe
‘amenta que servem para amplar oalcance a efeividade de sus agi, oct 0
instrumento de wna inteligencia que sj, necesariamente, desencarmadn «que
se destaque do mundo no qual intervém? Ou deveriamos, ao contritio, exoritrar
tra foaalemativa de pens sobre o wo que no prevupoka i par a0
inkial ene o ulzador c outizado, entre sujeito e objeto? Tver Tose melhor
dizer que em una stividade como cotta madelr,rinha mia nO sj ows
{quanto posta em uso, no sentido de que ¢ guiada em seus movimentce pelos
trags lemibrados de desempenho passado jinservo em um paceio de srk tae
estes tabi ~ sto € sana! (INGOLD, 20004: 382). Mas aro enact
slrig 0 sero, lembrase de como se mover, 0 serrote que clasegtea nit fe,
eis pera oni Asin ala ene ni os eae i
assimetria fundamental, A mo pode por-se em uso, ¢ nos movierientos ye 221%
8c pode contaraisa desta propa itu Moto seodepnc ie vo
paca que a sua histériasejacontada. Ou, mas geralmenteengear 0 ferner 1s
extrasométicas etm biografia, o corpo € tanto bidgrafo quanto ulObidga te.
Se no entant, um objeto, como uma sera, toxnase uma Fe AMeNE ape Mas
Sendo colocado dentzo den campo de aso eta, eno meso i fart
103movimento inicial € um tanto quanto estranho de impulsionar os remos para
tris, para 0 movimento mais confortivel e eficiente de punilos, wna vex que
‘uma profuncldade suficienee de égua tena sido aleangada, Ao serrar, como 20
tema, a partir deste momento parece que estou abated com os instrumen.
tose materais& minha dispesigio em vez de contra eles. Embora obviamente
estcj corrando a prancha no sentido oposto, a madeira, no encanto, “ss
12” ou acomoda a serra a0 longo da linha que eu jf corti, e sujeta-se 20 seu
movimento, em vez de repeiie. Em remos de duragio a fase de continua
é geralmente a mais longa, ¢ pode dentudar considersvel forge resistenia
Mas € também a mais ekadh, fuindo em am suave ritmo legato, que con.
trasta marcadamente com a abrupta passayem stacnto do comego, Ao mesmo
tempo, meu foco fabém muda, do ponto em que a fina desentiadaencontea
a beira para o seu inteio comprimento, e do dette dos dentes da serra para
© aiohamenco da Himina como um todo. Assim contin, até chegar & ise
do encerramento. Nio hg nenhuin momento preciso em gue a co
termine € o encerrarmento comece, mas, em vex disso, um pont de inflexéo a
patirdo qualo movimento é geadualmente etardado esta anuplitude diminui
Simalaneamente, minha atengio comes a desloca-se da linha do corte para 0
seu destino, onde eruza 3 borda posterior da praca
E comumente suposto que cada estigio do processo de fubrcagio de-um
artefato seja completado no momento em que o resultado material corespon-
da precisamente & intengéo inicil do fabricante, Mantendo uma imagem do
resultado pretendido 3 frente de sua mente, dizse que o fabricante mede 0
seu proggesso segundo quanto 0 tenha realizado, e que 0 cessa quaiide ver
atingido um resultado congruente com a imagem. Na prética, no entanto,
€ a imagem do produ final que regula a fase &€aicabamento. Quando esta
fase tiver sido atingida, qualquer desvio em relagio ao plan inital ter sido on
aceito ou corrigido (KELLER, 2001: 40). Se eu tver manto a mika serra
1a linha tragada, entio no preciso ter mais nenhuma preocupagio de que ela
possa desviar-se dela; seen nioo tier, enti ¢ rare mais pata remedia. Ain-
dlaassim, 0 julgamento de quando ¢ como tetininar pade ser «fo crucial quanto
aexcolha do momento de comegat. Dara aleangar este juzo, © profisional deve
voltar a concentrae-se nos minimios detalhes da obea. Os exeiplos de Keller
So retirados dos ofcios do tecelio do prateto, O tecetao cem que decir ern
{que ponto jf mais nenhurn fo pode ser adicionado 3 trama, o priteto tem que
decidir quantos golpes de mattelo o metal anda pode suportat sem rachar. Da
mesma forma, 20 sercit ina ex pasa obtet um corte limp, os movimentos
finais deve ser finamsentejulgados, de tal modo a que se ainja a bore sem
realmente srrar através dela, Portanto, 0 fim da fiha € aborado como wma
assintota: quanto mais perto dela chego, mais suaves e delicados so 0s meus
too
movimientos, © mais a minha atengio é focada no ponto de chegada, até que
finalimente a extremidade livre se solte na minha mio,
Por fim, coneluida ajornada, deivo a minha seera de lado e coloco a prancha,
agora cortada no comprimento certo, no focal onde, em seguida, ela serd neces.
siria, No entanto, este posicionamento de ferramentas © materiais ji € parte da
{orinagio do plano guarda-chuva para a préxima operagio, Colocat as coisas nos
lugares certos & uma maneira de se preparar. Portanto, no uso de ferramentas,
cada final é um novo eomese.
A sinergia entre profissional, ferramenta ¢ material
© que signitica dizer que, nt realizagio de alguma tara, una ferramenta &
uwsada? Poros supor que 0 uso sea o que acontece qaanclo um objeto, dorado
de certa fino, € colocide & disposigio de um agente, quc almeja deteerinado
propésico. Quero cortar uma prancha, ¢ tenho um serrote, Entio uso 9 sexroce
para cortar a prancha, No entanto, a partic a explicasio que jf apreseatei, ests
claro que preciso de mais do que do serrote para cortar a madeira, Peciso do
cavalete para servir de apoio, preciso das minha mios e dos meus jochos, res-
pectivamente, para segurar 0 serrote e para manter a prancha no lugar, preciso de
‘ada miisculo do meu corpo para fornecer a forga que impulsiona o sexrexe © para
‘manter 0 equilibrio enquanto trabalho, preciso dos meus olhos e ouvitos para
_monitorar 0 progresso, Mesmo a prépriaprancha se toena parte do equijamento
part o corte, nela 0 sulco que se vai desenvolvendo ajuda a orientar 0 wabalho.
Cortar madeira, entio, & um efeito nao do serrote apenas, mas de todo « sistema
dle forgas€ relagées eiado pelo envolvimento fatimo do seirote, do cavtete, da
esac do meu proprio corpo. O que é Feito entio do nosso conceito de 4.0? Para
responder a essa questo precisamos considerarteés coisas. Em primeirol ugar, 0
«que & preciso para que um objeto de algum tipo, como 0 sertote ou o tavalete,
conte como uma feramenta? Em segundo lugar, como € que ainstrumenalidade
dla feveanwenta se compara com a do corpo do homem com a qual é cor sagada?
E, em terccro lugar, serd que essa conjungio pode ser considerada indepea dente.
imencé dos movimentos gestaais nos quais € posta em funcionamento?
Nenhum objeto considerado puramente emi si e por si, emi termos:ic seus
atributos inwinsecos apenas, pode ser uma fecramenta, Descrever uns coisa
como uma ferramenta é colocé-la em relapdé'com outras coisas dentrele um
cainpo de atividade no qual pode exercer decerminado efeito, Na verdaie, tem
demos « nomear nossos instrumentos pela atvidades nas quais esto cay ceri
ticamente on normativamente envolvidos, ou pelos efeitos que tém nets . Por
tanto, chamar tum objeto de serrote & posicions-lo no contexto de uma tra,
como a que acabei de contay, sobre cortar uma prancha. Nomear a ferne nents
invocae a estéeia, Segue'se que, para um objeto contat como ferrame a, ele
totno sio mais diseretos ou descontinuos do gue aqueles do eaminhante, Isso quer
tlizer que no seguem um a0 outro em sucesso, como conta em wim cardio,
“Sua orem € processional, 0 invés de sucessiva, Na caminhada, cada passo é tim
desenvolvimento do anterior ¢ uma preparagio para 0 seginte. O mesmo é ver
dadeiro para cada movimento da serragem. Como ir eaminhas, serrac uma tua
tem o cariter de uma viagem que procede de um lugar a outro, através de wm
tnovimento que —embora ritmico e repetitive ~ nunca €esritamente monétono,
|A viagem tem fases reconhecfveis — preparar, comesar, continuar ¢ encerrar —€
cstas confevem uma certa forma temporal ao movimento eral Essas fase i so,
cntretanto, ntidamente demarcadas, Quando, a0 sair de easa pela porta da frente,
lobo a esqina para a rua, aero med ritmo € marcha, levant0 a vista da proximi
dade imediata do degrau da porea para o panorama mais dstante do pavimento, O
tnovimento, no eatanto, & continuo. Dis 0 mesmo corn o corte. Como dobrar
tua ceqina,o entahe incl da bona cla prancha conduz aos movimentos saves
dle cima para baxo do corte através de uma ininterrupta transgio. $6 quando oho
ards o cho caberto poss dizer que uma fse co processo est eerminada,¢ ontra
‘omesou, O mesmo € verdad acera do processo como um todo, Quando comeco
Serer? £ quando marco linha, quando descanso 0 jotlho ea mio sobre a pran-
dda, quando entalho a bora, ou quando comego os movirmentos descends?
FE qundo termino? Talver, tendo atavessado a pranca, cu descanse a err, mas
iso poe ser apenas para pegae a prxima poss a ser corrad, No serrar como No
‘aminhas, o movimento sempre ultrapassa 0s seus cestinos,
‘Othemos mais de perto as quatro fises do processo, comesando pela “prepa:
racic, Mesmo antes de comesie preciso ter chegado a alguna concepgo geral
Ga tarefa a ser executaca ~ do que deve ser feito, de como fizt-o, © das fera-
rmentas ¢ materais necessirios. Essa concepeio cobte uma variedade de fatores
jue estdo apenas vagomente concctados,€ serve para orientar.o trabalho, em
Yer de estritamente determinar-o seu curso. Chatles Kells, um pioneiro no «3-
“fc antropolgico da cognigso na peitca, apropriadamente a chama de “plano
sguada-chuva”, uma constlagio idiossincrétia ~ peculiar a cada profisional ~
{ic comsideragdcs estilstica, funciona, procedimentais e econémicas reunilas
cspecificamente para a trea em quest2o (KELLER, 2001: 38). Embora a com
pmsigio do plano guarda-chuva exja premettagio, este pensamento €emsi wma
‘Kiva prévea mond, inscrida no contesto do local de trabalho, 20 invés
eam exereicio purameate intelectual, “dentro da cabega” (LEUDAR & COS-
TALL, 1996: 164). Fle inclu, por exemplo “avaliac” as pranchas, decidir qual
selecionar paraa pratelera que quero eortar e qual reservar para outros fins, de
Jrodo a minimizar o despecticio de sobras. Também inclu a devolugio da serra
to cavalete ao local ond os havia colocado pela itima vez, de modo a élos &
tno quand for eomesaro corte, Mesmo tga a linka por toda prancha, com
98,
pis esque, pode ser emendido como puedo proses de pane,
ana aa ge fea mio aes do even 9 a
aetament,em larga esas, sobre o prépio materia. De wn moo eral, 4
Tina dps poe xr aug, Ere ca nar ca no come
‘corte posterior, indclevelmente incisada dentro dele. Evidentemente, enti, 0
plno guardi-chiva em nenum sentido est confinato den da ment do pro-
Fission. Ao contro ce eats expla sobre o propio lal de bao. na
mario oe a dlisposigio em relagao a0 corpo do profissional e
Hum avomeno cco naimplementago de qualquer ere quando a pre
pang dinar an infin Bae €omomenta em fe tein oe e cones
‘© desempenho. A partir deste ponto em ciante nfo hi como volta atrés. Marcas
de lipis podem ser apagadas, mas nao se cogita que uma incisio feita corn ali
tina de ua sera desapareya. O pofsionalhabildosoexcolhe ese momento
com cuiddo, sabendo que comes antes de estar preprado, ot alteratvae
te permitr que o momento passe desaperechdo, poeta comprometer todo ©
projet, Os gregosantgos nham uma palavra para ese momen qual se
aires. Como o especialista na Antiguidade Clissca Jean-Pierre Vernant,explica:
doimevircom ss ramen priaonal deve retenie e3P-
targlo momento co tempo ehh mali, «se ape de prarse
Jamete cua, He muna deve abandons 2 posta,
7 pois, se o Fizr,o kxiar pode passat eo trabalho se
a pode p ‘tabalho ser estragul (1983,
ste momento de inicio, no entanto, também & marcado
0 , também é marcaclo por uma rudanga
de perspectiva, da perspectiva abrangente do plano de guarda-chiwva pura um
foco estreito sobre © ponto inicial de conta eatee a fersamenta € 0 mace tal
Pesos ina angi, 20 comey a seraruna prancha, ext fs mg
espago restrto entre 0 lo ‘08 dentes da serra encontram a borda da pran-
jeto
coampleto como uma estate de vos, Nio se fiz, no entanto, em apenas tas
so serragem de ma prancha, Fxz-veem muitos paso; além cso, estes 803
7as fas que de fio toma forma, no dears ai das pers pe
destres, ois pontos de capital importincia se seguem. Em primeiro lugar, uma
Se ae ee
pela quais os sistemas de desenvolvimento através do quis emerge si0 repro-
duzidos e transformados ao longo do tempo. F, em segundo lugar, por meio de
suas ativiclades, suas disciplinas e suas histérias, as pessoas a0 longo dla histéria
ddesempeniaram ~ e continuam a desempenhar ~ um papel ativo neste processo
cvolucionso, moldando as condigGes sob as quais seus sucessores aprender as
artes do uso dos pés. Assim, a evolugio do bipedalismo continua, mesmo en-
{quanto desempenhamos nostas atividades sobre dois pés. Temos sido atrados,
éem suma, para uma visio inteiramente nova da evolugio, uma visio que ater
‘os eres humans no continuum da vida, e que sina a histéra de suas habilidades
corporificadas dentro do desdobramento desse continusin.
fa cote cp ta wos quan rca neta pds at
gong coe Babul oy hie
eS ea eas
Sete eh oem
eee
eee eee
seer ea (oe eae
eee eee
Fences cope anna aieea
=
4
4
‘Andando na prancha: meditagées sobre um processo
de habilidade
Haaren es uma tant gu ren confer wna fo
dh sified por gua coma eles rips
mata?
© ite Te Rant nd Hone Maca A mecca
dems edo taba mana).
Sobre serrar uma prancha
Estou fazendo uma estante de pranchas de madeira. Cada prateleca tem que
ser cortada no comprimento certo. Marcando a distancia a0 longo da prasicha
com uma fita métrica, uso um lipis e um esquadko para desenhar una linha eta
aravés dela, Apés cssas preliminares coloco a prancha sobre um cavalete, levanto
4 minha perna esquerda ¢ me ajoelho sobre ela com o maximo possivel do meu
‘peso, mantendo o equilfbrio no cho com o meu pé dieito. A linha a ser cortadla
pend ligeiramente para 0 lado direito do cavalete. Entdo, inclinando-me, col0co
8 palma da minha mio esquerda sobre a prancha logo & esquerda da lin, segt
sando-a em torno da borda com os dedos. Pegando ma serra com a minha mio
direta, envolvo meus dedos ao redor do punho ~ todos, isto é, menos 0 edo in-
dicador, que se estende ao longo da parte plana do punho, permitindo-me afinat
a diregio da lamina (figura 4.1, cm cima).
Agora, enquanco pressiono para baixo a mio esquerda, com o brago rig ido,
«envolvo a borda com os dents da serra, no ponto em que enconer alia tras
dla por mim, ¢ suavemente entatho a borda com dois ou trés pequrcnos moyierscn-
tos de baixo pra cima, Para guia a serra nesta jungio erica, dobro © polegar da
‘minba mio esquerda, de modo a que a superficie da jungao se projete par ¢cat
a Fimina da serra logo acima dos dentes (figura 41, a seguir). Una ver quic a
ranhura na aresta esteja comprida 0 suficiente para no haver qualquer acc» da
serra saltaredilacerar meu polegar, posso comegar a tabalfi-la com movimer ts
descendemtes. Neste ponto tenho que prestar mais atengio ao alinhameno da i+
mina do que ao posicionamento exato dos dentes, a fim de assegarat quen ¢c>tte
«em evolugio prossiga exatamente na diego cere Para fatto, tenho que posi-
95vios regulares de calgadtos ~ até mesmo de sandlias ruclimentares ~ este rago &
menos desenvolvido. Calar sanclias vende a ampliar a lacuna entre o dedio © 0
segundo dedo do pé, mas, de outeas maneiras, «forma do pé acostumado 20 uso
cle sandliaest§ mais proxima da de pessoas que usam spatos, tm vez que Eanto
cs usados de sandals quanco 0s de sapatos perden o movimento de rolamento
caracterstco do pe descalgo que comega no calcanhar € petcorre sta bora exte-
fog tetminando com a bola do pé e os dedos (ASHIZAWA etal., 1997).
[Nao ¢ apenas a morfologia do péeuropen calgado que € peculiar ~nalinea-
ride, no paralelisma ¢ aos declos das pés, ¢ na flea de espaco entre eles. Fgval-
anente peculiar é 0 chamado Sande a passa largos” de que 0s caminhantes da
civilizagio ocidencal (especialmente os homens) tem desfrutado desde a Antigui-
dave para desbravar o mundo, afirmando, enquanto seguem, a sua supecioridade
sobre povos c animais sueitados. Em um estudo agora elssico, 0 paleoantropé-
logo Jolin Napier afirmou que o passo largo “é a easéncia do bipedalismo hu-
mano € o rivin pelo qual o satus evolucionério de um caminhante horniniceo
dove ser julgado” (NAPIER, 1967: 117). Esta reificagio © universalizagio do
_andaea pasos hegos como a realizagio locomorora humana por excelénciarevela
‘um etnacenteismo que, como o mostra John Devine, hi muito tem atormenta-
do literatura sobre biologia evoluciontia humana. Com efeito, com seus pés
‘steanhamente formados ¢ seu andat exctntrico, “homens € mulheres ocidents-
leeados... podem nos apresentar a excegio € no a regra na ea das habilidades
locomotoras” (DEVINE, 1985: 554). Nao se tata apenas do fato de que as
pessoas a0 redor do mundo andam de todas as maneieas possiveis, dependendo
«ta superficie © dos contornos do cerreno, dos sapacos qu estejam usando (se 0
cstiverem), oclima, e uma série de outros fitores, inclusive expectativas cultural
mente especifcas em selagio As posturas consideracasacequacks para pessoas de
dllerentes idades, sexo ¢ pasigio social. Elas também usam os pés para diversas
‘utes fvalihces, tas como escalar, corer, salts, seguar cosas, peglas, emes-
mo engatinhar: Ao enfarizar Gas variagées, met objetivo nao € afiemar que os
pés eo andar dos excadores-coletores descalgos que “correm, rasgjam €escalan”
(WATANABE, 1971) sejam de alguma fora mais “naturais” do que aqueles dos
‘earopens que caminham calgados a passos largos. Como Mauss reconheceu em
sew ensaio sobre téchicas corporas,simplesmente no ht tal coisa como uma ma-
neics “natural” de anda, que pode ser prescritaindepentdentemente das diversas
circuustincias nas quis os seres humanos crescem € vive stas vidas (MAUS,
1979: 102). Mas ele poderia muito bern ter iro que cada eéenica existente & t30
natucal quanto qualquer ontra, na medic em que incide na faa de possibilidede
ec advéin como uma segunda naturcza para os seus profisionas.
(© que, certumente, nfo seria natural, no entanto, € além do reino da pos-
sibilcade, seria para qualquer ser humano passar a vida, quando no estando
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sentado ou deitado, ou estando ereto em um ponto, como uma esti, Ot ¥a-
gando som exetcersignificativamente algum peso sobre uma supetticie lorizon-
tal rfgida. A imagem corporal ocidental, que subscreve tanto do discurso sobre a
cvolago anatémica humana, baseia-se em umn ideal praticamente inatingjvel fora
cdo ambiente altamente artificial do laboratério, No entanto, é nas configuragBes
esse laboratério que a maioria dos estudos sistemticos da locomogin bipede
tm sido realizados (JOHANSON, 1994), Esses estudos so muitas vezes ias-
teados com imagens de figuras mais ow menos 1iuas caminhando sobre o chéo
escoberto', F, como se, desmudando 0 eoxpo de todos 05 pertences « 0 cho
dle todas as caracteristias, a esséncia universal da marcha humana fosse eevelada
cde uma forma five das partcularidades do ambiente e da culaara. Na verdade,
potéin, no existe essa esséncia Pois os sujeitos experimentais da anise do andar
if trazem consigo, incorporada em seus prépeios corpos, a expetigncia dy aqui-
retura, io vestastio, dos calgados €a bagagem trada da vida fora do Iaburatéio.
‘Muitos los primeiros sujeitos a serem atraidos para a pesquisa sobre locomocio
ran de fato soldadbos, jf tecinados nas rotinas do exercicio, Nao € de suepteca
dee quc, quando comandados a andarem eles marchassem como se esivessem
‘em uma parada! Como Mary Flesher (1997) demonstrou, 0 estdo cienfico da
ocomogio humana tem suas rafzes na diseplina militar.
Nao pocemos, entio, atribuir bipedalismo & natureza humana ow cultura
ou a alguma combinago das duas. Em vex disso, as capacidades humyrias dle
andar, ¢ de usar os pés de intimeras outras manciras, emerge através de pocessos
de desenvolvimento, como propriedades dos sistemas de relacées contiucadas
atcavés da colocacio lo organismo humano em crescimento dentro de rn con-
‘esto ambiental ricamente texturizado. Como a psicéloga Kher ‘hele: e seus
colegas tém mostrado em seus estudas sobre 0 desenvolvimento mote infan
Xl, no € possivel caractetizar a “locomogio bipede” isoladameate do demnpe-
‘oho cm tempo real das miitiplas tarefas pedestres com as quais temos
(THELEN, 1995; 83). Em que sentido, entio, podemos falar da evol
1pé humano, ou do bipedalismo como uma realizagio especificamente h-stana?
‘Se por evolugio quisermos dizer diferenciagio © mudanga 20 longo deeempo
nas formas ¢ capacidades de organisms, entio certamente devemtos acti que
‘como propriedades plenamente incorporadas do organistno humano, e8¢ -r4g0s
de faxo evoluiramn. Nao poclemos, no entanto, entender esta evolusio eme=emos
dla génese de algum plano corporal essential, dado a todos os sexes hiy-aios
antes das condigées desta vida no mundo, a0 qual infleGes particulares ic adi-
cfonadus’forga da experiéncia ambiental e eultural. Pois no existe um top> kano.
‘Nao existe uma forma padrio do pé humano, ou da locomogio biped am
16.6, pes asti de ograas os ole Moybvidge reper eon Naps (1967
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