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Literatura e Matemática

Borges, Perec e o OULIPO

Jacques Fux
Uma vez mais, as armadilhas da escrita se
instalaram. Uma vez mais, fui como uma
criança que brinca de esconde-esconde e
não sabe o que mais teme ou deseja:
permanecer escondida, ser descoberta.
Perec

Que a história tivesse copiado a história já


era suficientemente assombroso; que a
história copie a literatura é inconcebível.
Borges
Motivação

 Estudar a matemática nas obras de Perec e de


Borges, é estudar também e simultaneamente
sua literatura, sua arte e sua potencialidade. É
traçar um novo horizonte no campo e nos
estudos literários de ambos, criando nesse
espaço entre áreas do conhecimento abertura
para saber mais sobre seus universos, seus
jogos, suas trapaças e seus saberes,
matemáticos e ficcionais. É redescobrir suas
obras sob um aspecto diferente, novo e ainda
não muito explorado.
Matemática?
Literatura?
Matemática

 Formalismo: A Matemática é um jogo


sem significado. Este jogo deve conter
duas coisas: regras e pessoas que
jogam com as regras. Essas regras
podem ser explícitas, como em jogos de
cartas, ou espontâneas, como em
linguagens naturais ou na aritmética
básica.
Matemática

 Platonismo: Busca saber os motivos e as


procedências dessas regras e desses
jogos. Acreditam que a matemática
existe fora do espaço e do tempo, fora
do pensamento e da matéria, num
domínio independente de qualquer
consciência individual ou social.
Literatura

 Borges: Literatura é falar e escrever


sobre a própria literatura: sua dignidade
não está na existência de um grande
autor, e sim na conformação de uma
grande narrativa.
Literatura

 Perec: A Literatura é um jogo que se joga a


dois, na qual cada forma de leitura foi pensada
anteriormente pelo autor, controlando assim
todas as suas possibilidades. Porém, ele
próprio discorda e refuta, o tempo todo, esse
jogo entre autor e leitor. Por mais matemático
e estruturado que o projeto literário seja,
quando a obra alcança o público, leitura e
recepção não estão mais nas mãos do
construtor de puzzles.
Problemas matemáticos

 Paradoxos;
 Enumeração;
 Conjuntos Infinitos;
 Grafos (Labirintos);
 Topologia;
 Teoria dos números.
Paradoxos

“Eu sou mentiroso”

11
Paradoxo do Barbeiro

Um barbeiro só barbeia quem não barbeia a si próprio.


Ele se barbeia?
12
Paradoxo do movimento
Enumeração
Hotel de Hilbert

Em uma série infinita, o todo é equivalente a alguma de suas partes.

Alguém podem adicionar membros a um conjunto infinito sem aumentar o


número de membros no conjunto (o número permanece no infinito).

Alguém pode remover os membros do conjunto sem diminuir sua parcela.


Problema do Hotel

 Se um hotel tem um número infinito de


quartos com hóspedes, hóspedes
adicionais poderiam ser recepcionados
sem que ninguém saísse do hotel, e o
número de hóspedes seria o mesmo de
antes. Na placa poderia ser lido, “SEM
VAGAS – HÓSPEDES, SEJAM BEM-
VINDOS”.
Conjuntos infinitos

 O todo não é maior que as partes.


 Conjuntos enumeráveis tem o mesmo
‘tamanho’. Cardinalidade.
 Esse infinito contável é chamado de
Aleph.
Grafos (Labirintos)
Labirintos

 Um labirinto pode ser modalizado em


várias dimensões, sendo os mais
comuns aqueles em duas dimensões.
 A figura anterior apresenta um labirinto
perfeito, onde a entrada está nas
coordenadas (0,4) e a saída está em
(5,4).
Topologia

 A topologia geral é o estudo dos espaços


e de suas propriedades.
Banda de Moebius
Escher
Escher
Nó de Borromeu
Teoria dos números
Sequência de Fibonnaci

1, 1, 2, 3, 5, 8, 13, 21, 34, 55, 89, 144, 233, 377, 610, 987, 1597, 2584, 4181, ...
Monalisa
As contraintes

 Uma contrainte pode ser entendida como


uma restrição inicial imposta à escrita de
um texto ou livro, sendo as mais básicas
de caráter linguístico. Existem, porém,
outras restrições artificiais, que podem
ser de caráter matemático, como as
sugeridas pelos fundadores do grupo
francês OULIPO.
Combinatória
Cent mille milliards de poèmes
Le cheval Parthénon s'énerve sur sa frise
pour la mettre à sécher aux cornes des taureaux
le Turc de ce temps-là pataugeait dans sa crise
il chantait tout de même oui mais il chantait faux
Le cheval Parthénon frissonnait sous la bise
le vulgaire s'entête à vouloir des vers beaux
d'une étrusque inscription la pierre était incise
que les parents féconds offrent aux purs berceaux
Le poète inspiré n'est point un polyglotte
on sale le requin on fume à l'échalote
même s'il prend son sel au celte c'est son bien
L'Amérique du Sud séduit les équivoques
on transporte et le marbre et débris et défroques
si l'Europe le veut l'Europe ou son destin
Potencialidade - Queneau

 Essa pequena obra permite a cada um


compor à vontade cem mil bilhões de
sonetos, todos normalmente bem
entendidos. É um tipo de máquina de
fabricar poemas, mas em número
limitado; é verdade que esse número,
ainda que limitado, produz leitura por
aproximadamente cem milhões de anos
(lendo vinte e quatro horas por dia)
Italo Calvino
 A estrutura é liberdade, produz o texto e ao mesmo tempo a
possibilidade de todos os textos virtuais que podem substituí-lo.
Esta é a novidade que se encontra na idéia da multiplicidade
“potencial” implícita na proposta da literatura que venha a nascer
das limitações que ela mesma escolhe e se impõe. Convém dizer
que no método do “OULIPO” é a qualidade dessas regras, sua
engenhosidade e elegância que conta em primeiro lugar. [...] Em
suma, trata-se de opor uma limitação escolhida voluntariamente
às limitações sofridas impostas pelo ambiente (linguísticas,
culturais, etc.). Cada exemplo de texto construído segundo regras
precisas abre a multiplicidade “potencial” de todos os textos
virtualmente passíveis de escrita segundo aquelas regras e de
todas as leituras virtuais desses textos .
Borges – Livro de areia

 A linha consta de um número infinito de


pontos, o plano, de um número infinito de
linhas; o volume, de um número infinito
de planos, o hipervolume, de um número
infinito de volumes... Não, decididamente
não é este, more geométrico, o melhor
modo de iniciar meu relato.
Livro de Areia

 O número de páginas deste livro é exatamente


infinito. Nenhuma é a primeira; nenhuma, a
última. Não sei por que estão numeradas
desse modo arbitrário. Talvez para dar a
entender que os termos de uma série infinita
admitem qualquer número.
Depois, como se pensasse em voz alta:
- Se o espaço é infinito, estamos em qualquer
ponto do espaço. Se o tempo é infinito,
estamos em qualquer ponto do tempo.
Borges
 Aquiles, símbolo de rapidez, tem que alcançar a
tartaruga, símbolo de morosidade. Aquiles corre dez
vezes mais rápido que a tartaruga e lhe dá dez metros
de vantagem. Aquiles corre dez metros, a tartaruga
corre um; Aquiles corre esse metro, a tartaruga corre
um decímetro; Aquiles corre esse decímetro, a
tartaruga corre um centímetro; Aquiles corre esse
centímetro, a tartaruga um milímetro; Aquiles o
milímetro, a tartaruga um décimo de milímetro, e assim
infinitamente, de modo que Aquiles pode correr para
sempre sem alcançá-la. Tal é o paradoxo imortal.
O Aleph
 Duas observações quero acrescentar: uma, sobra a
natureza do Aleph;outro, sobre seu nome. Este, como
se sabe, é o da primeira letra do alfabeto da língua
sagrada. Sua aplicação ao cerne de minha história não
parece casual. Para Cabala, essa letra significa o Ein
Soph, a ilimitada e pura divindade; também se disse
que tem a forma de um homem que assinala o céu e a
terra, para indicar que o mundo inferior é o espelho e o
mapa do superior; para o Mengenlehre, é o símbolo
dos números transfinitos, nos quais o todo não é maior
que qualquer das partes.
Borges

 O Labirinto e o Livro são, pois, uma só e


mesma coisa. Mas são também outra
coisa: o Universo.
Labirinto de Creta
 Este é o labirinto de Creta. Este é o labirinto de Creta cujo
centro foi o Minotauro. Este é o labirinto de Creta cujo
centro foi o Minotauro que Dante imaginou como um touro
com cabeça de homem e em cuja rede de pedra se
perderam tantas gerações. Este é o labirinto de Creta cujo
centro foi o Minotauro, que Dante imaginou como um touro
com cabeça de homem e em cuja rede de pedra se
perderam tantas gerações como Maria Kodama e eu nos
perdemos. Este é o labirinto de Creta cujo centro foi o
Minotauro, que Dante imaginou como um touro com cabeça
de homem e em cuja rede de pedra se perderam tantas
gerações como Maria Kodama e eu nos perdemos naquela
manhã e continuamos perdidos no tempo, esse outro
labirinto.
O Disco
 Disse que a execução dessa ninharia (em cujo decurso intercalei,
pseudoeruditamente, algum verso da Fáfnismál) permitiu-me
esquecer a moeda. Noites houve em que me acreditei tão seguro
de poder esquecê-la que voluntariamente a recordava. O certo é
que abusei desses momentos; dar-lhes início resultava mais fácil
que lhes dar fim. Em vão repeti que esse abominável disco de
níquel não diferia dos outros que passam de uma para outra mão,
iguais, infinitos e inofensivos. Impelido por essa reflexão, procurei
pensar em outra moeda, mas não pude. Também me lembro de
alguma experiência, frustrada, com cinco e dez centavos chilenos
e com um vintém oriental. Em 16 de julho, adquiri uma libra
esterlina; não a olhei durante o dia, mas nessa noite (e outras)
coloquei-a sob uma lente de aumento e estudei-a à luz de uma
poderosa lâmpada elétrica. Depois, desenhei-a com um lápis,
através de um papel. De nada me valeram o fulgor e o dragão e
São Jorge; não consegui livrar-me da ideia fixa.
Biblioteca de Babel
 O universo (que outros chamam a Biblioteca) compõe-se de um número
indefinido, e talvez infinito, de galerias hexagonais, com vastos poços de
ventilação no centro, cercados por balaustradas baixíssimas. De qualquer
hexágono, vêem-se os andares inferiores e superiores: interminavelmente. A
distribuição das galerias é invariável. Vinte prateleiras, em cinco longas estantes
de cada lado, cobrem todos os lados menos dois; sua altura, que é a dos andares,
excede apenas a de um bibliotecário normal. Uma das faces livres dá para um
estreito vestíbulo, que desemboca em outra galeria, idêntica à primeira e a todas.
À esquerda e à direita do vestíbulo, há dois sanitários minúsculos. Um permite
dormir em pé; outro, satisfazer as necessidades físicas. Por aí passa a escada
espiral, que se abisma e se eleva ao infinito. No vestíbulo há um espelho, que
fielmente duplica as aparências. Os homens costumam inferir desse espelho que
a Biblioteca não é infinita (se o fosse realmente, para que essa duplicação
ilusória?), prefiro sonhar que as superfícies polidas representam e prometem o
infinito... A luz procede de algumas frutas esféricas que levam o nome de
lâmpadas. Há duas em cada hexágono: transversais. A luz que emitem é
insuficiente, incessante.
Babel
Babel
Perec

 Palíndromos; ANA
 Lipogramas; La disparition
 Quadrado-mágico;
 Xadrez e combinatória;
Palíndromos
 Aos dois palíndromos publicados por Perec – À Pierre Getzler
(PEREC, 1970), constituído por 589 letras, e 9691 EDNA D’NILU
O, UM, ACÉRÉ, PSEG ROEG (PEREC, 1973b), constituído por
mais de 5000 letras e que figura no livro Guiness de Records –
podemos ainda juntar outros micropalíndromos presentes em sua
obra. Em La disparition temos alguns, como Noyon, S.O.S,
nommons, mon nom, Radar, lit-il. Em W ou a memória da infância
, temos Otto, bob, selles. Em A vida modo de usar emos um
palíndromo com o “Tlön Uqbar Orbis Tertius” de Borges: “Boris
Baruq Nolt”. Na obra de Perec, podemos observar que a
utilização dos palíndromos (bem como a utilização de todos os
contraintes) está relacionada com a simetria e com sua tentativa
de controlar o acaso.
Lipogramas
 Les revenentes, texto escrito somente com a letra E,
que seria um conjunto complemento de La disparition,
“What a man!”, texto escrito em francês (apesar do
título em inglês) utilizando somente a vogal A e o texto
em inglês “Morton’s Ob”, utilizando apenas a vogal O.
Permutando também as letras, o texto Beaux Présents
utiliza somente as letras do nome de seu destinatário,
aquele que está recebendo o presente. Já em Belles
Absents, as letras faltantes traçam, em forma de cruz,
o nome a ser decifrado.
Quadrado-mágico
Xadrez
A vida modo de usar
Cabala e matemática

 A Cabala (recepção) é uma tradição esotérica


do judaísmo, na qual todas as letras do
alfabeto têm um valor numérico e sua
combinação é capaz de criar (e destruir). Na
introdução do Zohar, o Livro do Esplendor,
uma fábula relata a disputa das 22 letras do
alfabeto hebraico pelo privilégio de receber o
valor número um, ou seja, ser a primeira (e
talvez a mais importante) letra. Por exemplo, o
aleph = 1.
Cabala e matemática
 O Nome Secreto, Inefável, é expresso por um
tetragrama e não possui vogais. Pode ser apresentado
em letras latinas como YHVH e, devido ao seu poder,
só podia ser pronunciado pelo sumo sacerdote, na
época do Templo e no dia de Yom Kipur, o dia mais
santo para os judeus. A proibição de sua articulação é
devida ao seu grande poder e quem descobrisse (e se
permitisse) articular o nome secreto seria capaz de
entender o mistério da criação e, com isso, realizar
tudo o que quisesse. Dessa forma é criado o primeiro
procedimento combinatório da humanidade.
A escrita do Deus
Então ocorreu o que não posso esquecer nem comunicar. Ocorreu a união com a
divindade, com o universo (não sei se estas palavras diferem). O êxtase não
repete seus símbolos; há quem tenha visto Deus num resplendor, há quem o
tenha percebido numa espada ou nos círculos de uma rosa. Eu vi uma Roda
altíssima, que não estava diante de meus olhos, nem atrás, nem nos lados, mas
em todas as partes, a um só tempo. Essa Roda estava feita de água, mas era
também de fogo, e era (embora visse a borda) infinita. Entretecidas, formavam-na
todas as coisas que serão, que são e que foram, e eu era um dos fios dessa trama
total, e Pedro de Alvarado, que me atormentou, era outro. Ali estavam as causas e
os efeitos e me bastava ver essa roda para entender tudo, interminavelmente. Oh,
felicidade de entender, maior que a de imaginar ou a de sentir! Vi o Universo e vi
os íntimos desígnios do universo. Vi as origens narradas pelo Livro do Comum. Vi
as montanhas que surgiram na água, vi os primeiros homens com seu bordão, vi
as tinalhas que se voltaram contra os homens, vi os cães que lhes desfizeram os
rostos. Vi o deus sem face que há por trás dos deuses. Vi infinitos processos que
formavam uma só felicidade e, entendendo tudo, consegui também entender a
escrita do tigre.
A morte e a bússola
 A ligação entre a matemática, os contos policiais e a
Cabala é aqui fornecida de forma ficcional por Borges.
Conto rico em referências literárias e problemas
cabalísticos, como o nome secreto de Deus e os
guetos judeus, “A morte e a bússola” é também um
thriller policial onde o investigador encontra-se sempre
a um passo do crime e do criminoso, seguindo
constantemente sua linha de raciocínio e prevendo os
acontecimentos – como no “Assassinatos na rua
Morgue”, de Edgar Allan Poe.
A morte e bússola
 Em seu labirinto sobram três linhas a mais – disse por
fim. – Eu sei de um labirinto grego que é uma linha
única, reta. Nessa linha perderam-se tantos filósofos
que bem pode perder-se um mero detetive. Quando
em outro avatar você me der caça, finja (ou cometa)
um crime em A, depois um segundo crime em B, a 8
quilômetros de A, depois um terceiro crime em C, a 4
quilômetros de A e de B, no meio do caminho entre os
dois. Aguarde-me depois em D, a 2 quilômetros de A e
de C, de novo no meio do caminho. Mate-me em D,
como agora vai matar-me em Triste-le-Roy.
Golem e a Cabala
 O Golem designa algo sem forma, imperfeito, uma
matéria disforme, uma massa amorfa. Antes do sopro
de seu criador, não tinha vida e, mesmo após sua
criação, continua sendo um ser desajeitado, idiota,
autômato legendário, como vemos em definições do
vocábulo golem. Algumas lendas talmúdicas fazem
referência a Adão antes da criação divina como um
golem, um corpo sem alma. Inúmeras lendas e
versões podem ser encontradas acerca do Golem e
Borges conhecia várias delas; a mais famosa, no
entanto, é a do Golem de Praga.
Golem e a Cabala
 No gueto de Praga, os judeus estavam sendo perseguidos, saqueados e
mortos, e o rabino Judá Leon (1529-1609), matemático, cabalista e
talmudista, moldou em argila um grande boneco com forma humana.
Através da combinatória de letras sagradas, escreveu na testa do boneco
a palavra emet, que significa verdade. A partir de então, o boneco de
argila tornou-se vivo e saiu do gueto para atacar os agressores dos
judeus. Após resolver o problema, o Golem quer continuar vivo; porém,
deve ser destruído, o que acontece somente se for apagada a primeira
letra da palavra emet, o e, que no caso é o aleph. Desaparecendo com
esse primeiro e, forma-se a palavra met, que significa “morto” em
hebraico. Esse jogo com as letras e as palavras, bem como o poder da
combinação de letras sagradas, identificam a ideia da criação e seu
caráter imperfeito, uma vez que o Golem é um monstro um pouco
“idiota”, “burro”, indicando que a monstruosa criatura construída pelo
homem, que é incapaz de criar vida, torna-se um erro já em sua
concepção.
Borges e Golem
 Suas reflexões apresentam, em princípio, a
imperfeição da obra e da criação humana, qualquer
que seja ela, e também o poder da criação divina, da
palavra criadora. A Cabala seria uma metáfora do
pensamento e de sua capacidade de realizar
combinações: “não quero vindicar a doutrina, mas os
procedimentos hermenêuticos ou criptográficos que a
ela conduzem. Assim, para Borges a Torá não é um
texto absoluto e sagrado, mas uma vasta biblioteca por
meio da qual o escritor pode exercer o ofício de
bricoleur.
Perec, Golem e Cabala
 A literatura aqui é uma literatura combinatória, uma
combinação de letras e regras com o objetivo de criar
novas estruturas, textos e interpretações. O cent mille
milliards de poèmes de Queneau abusa desse
conceito e, como o número de poemas criados é 1014,
não podemos verificar todos para saber se algum
deles é capaz de produzir um golem. Em La
disparition, Perec desaparece com a letra e, fazendo
referência à morte de seus pais na Segunda Guerra.
Para matar o golem, é necessário também apagar a
letra e, no caso o Aleph, a letra mais importante da
Cabala, da mesma forma que a letra e é a mais
importante no Francês.
Literatura Comparada
 Essa literatura-matemática estende-se também por entre os conceitos
comparatistas, possibilitando que analisemos as semelhanças e
diferenças de utilização entre uma e outra, e entre um e outro autor. O
situar-se entre permite que a leitura dessas obras não se ressinta de um
conhecimento matemático mais profundo, o que lhe garante níveis de
leitura diversos. Caso nos detivéssemos apenas ao discurso da
matemática, o não conhecimento de suas regras, axiomas, teoremas e
da dedução lógica seria impeditivo. Mas o fato de propormos uma leitura
que se institui entre duas linguagens, entre a literatura e a matemática,
permite que por essas obras transitemos valendo-nos dos recursos dos
dois discursos. Desta forma, é possível adentrar as obras de Perec e
Borges como leitores com ou sem conhecimento matemático, que
conhecem ou não a solução dos enigmas, a dificuldade dos paradoxos e
a enorme variedade combinatória que as estrutura.
Dúvidas?

jacfux@gmail.com