4ª aula

Karl Rahner foi profundamente ligado à renovação da teologia católica e da Igreja. Desde 1948 foi professor de teologia dogmática em Innsbruck. Posteriormente lecionou também teologia nas Universidades de Munique e Münster.

A partir de 1964, e durante três anos, participou dos trabalhos da comissão teológica do Vaticano ll, dando ao mesmo tempo cursos sobre a concepção cristã do mundo na Faculdade de Filosofia de Münster, onde sucedeu Romano Guardini.

Sua obra insere-se na corrente filosófica alemã de Heidegger, de quem foi discípulo, e nutre-se do pensamento teológico alemão tanto católico quanto protestante. É uma teologia aberta e profundamente tradicional, mas fortalecida com um novo alento de vida e cultura moderna.
Sua doutrina mais original, e que divulgou o que se conhece como “cristianismo anônimo”. Para ele, cristão é todo aquele que “choca com o mistério”. Quanto mais o homem se coloca questões fundamentais e se aprofunda na experiência da vida ou utiliza seus conhecimentos científicos, mais se adentra no mistério: “é o mistério que chamamos Deus”.

Segundo Karl Rahner, o homem é o ser "ouvinte da Palavra". Por sua dimensão espiritual, o homem está receptivo a uma possível revelação divina, que lhe explique e dê significado ao mistério da Existência e do Ser.

O homem é o único ser, que pergunta-se pelo mistério e o sentido da Existência e do Ser, e isso devido a sua dimensão espiritual: o homem é espírito.

Por ser espírito, o homem está receptivo e a procura de uma explicação para o Mistério; o homem é um "ouvinte da Palavra"; ele contém um a priori cognoscitivo, que é essa abertura para uma possível revelação divina; o homem é o ser à espera da manifestação de Deus.

.A revelação é uma automanifestação de Deus. é uma auto-revelação. e essa autocomunicação de Deus responde e vem ao encontro da “abertura” ou “receptividade” humana que está à procura e à espera de uma resposta válida e coerente para suas perguntas sobre o Ser e a Vida.

e o homem está a espera de uma Palavra.Assim como Kant estabeleceu os a prioris que permitem o homem chegar ao conhecimento da ciência e do mundo. o Ser e a Vida são mistérios e interrogações que colocam-se diante do homem. O a priori de Rahner. que lhe dê sentido e explicação sobre essas realidades misteriosas. por isso o homem é um "ouvinte da Palavra". consiste nessa abertura e receptvividade do homem para com o Mistério. uma Revelação. 1) . O Mundo. Rahner estabeleceu os a prioris que permitem ao homem chegar ao conhecimento de Deus e da teologia.

2) O homem está à escuta da Palavra que lhe dê a resposta apaziguadora. dandolhes a resposta que eles procuram e buscam. essa Palavra é a auto-comunicação de Deus. Cristo é justamente essa autorevelação e auto-manifestação de Deus. . Deus se auto-revela e se autocomunica aos homens. Em Cristo.

que o homem está a espera de uma revelação. pois parte da dimensão do mistério da Vida e do Ser. . que o homem pergunta-se pelo sentido e significado das coisas. É diante do mistério da Vida e do Ser.A teologia de Rahner é chamada de "transcendental". é a partir desse mistério.

Maria é que é inteiramente uma entre nós. em sí mesmo. um elemento do mundo. Deus. 4) "Deus . O que ela é nós devemos ser. não é uma engrenagem do mundo". É por isto que Maria énos tão familiar. age através de Causas Segundas.3) Maria é a concreta realização do perfeito cristão. É Ele a Causa Primeira que dá origem e sustenta a cadeia de todas as causas segundas que movem o mundo. como se fosse apenas uma causa segunda entre as outras. Ele mesmo. Jesus Cristo é outrossim um como nós. Mas ele também é Deus. É por isso que nós a amamos". Maria é como nós. Mas não é.

mas significam. e do próprio tempo. em última análise. constituição essa que não entra no tempo mas é o fundamento da criatura." "A . Criação e condição de criatura não indicam apenas o primeiro momento da existência de um ser temporal. a constituição desse ser existente e do seu tempo.condição criada do mundo é relação absolutamente única. só ocorre uma vez.

diferente de Deus. Quem aceita inteiramente o seu ser homem. e o coloca em sua realidade de criatura. "O Também não é Ele um mero profeta. Deus planeja o homem de modo criador. tirando-o do nada. de que ele apenas se servisse para assinalar sua presença quando fala. A humanidade de Jesus Cristo não é mera aparência de Deus. manifesta-se como herética qualquer idéia da encarnação que considere a humanidade de Jesus como se fosse apenas uma "roupagem" revestida por Deus. acolheu o Filho do Homem porque.homem deve ser entendido como a possibilidade de ser assumido por Deus. de tornarse o material de possível história de Deus. mas como a "gramática" de possivel autoexpressão de Deus. mas o próprio Deus. . neste. Deus acolheu o homem. Em consequência.

uma vez que o próprio Deus tornou-se este próximo e. eternamente. sempre é acolhido e amado aquele que é simultaneamente o mais próximo e mais longínquo: Deus.Ao dizer a Escritura que quem ama o próximo cumpriu a Lei." . desta sorte.. trata-se aí da verdade última. em todo o próximo. A realidade humana de Deus em Jesus Cristo permanece para sempre..

'Deus é (tornou-se) homem. é um longo e aventureiro caminho. pleno de imprevistos. .de modo a tornar compreensível o que estas proposições significam e em excluir toda a aparência de uma mitologia que se tornou inaceitável hoje". e este Deus que se fez homem é o Jesus Cristo concreto' . na esperança e na caridade. "A tarefa mais urgente de uma Cristologia de hoje consiste em formular o dogma da Igreja . para aí descobrir que esse horrível fosso está pleno do próprio Deus". uma viagem da qual não se vê o fim senão quando se acaba por entrar no seu próprio coração."A descoberta do Coração de Jesus na fé.

mas o triunfo de sua pretensão de ser o mediador absoluto da salvação. . não é possível concebê-la sem uma fé efetiva (ainda que livre) nela. uma fé na qual culmina a própria natureza da ressurreição". "Se a ressurreição de Jesus é a vigência permanente de sua pessoa e sua causa.Tema relevante em Rahner: "O cristão do futuro. ou será místico ou não será cristão". então a fé na sua ressurreição constitui um momento intrínseco dessa ressurreição e não a tomada de consciência de um fato que por sua natureza poderia existir exatamente o mesmo sem ser conhecido. e se esta pessoa-causa não significa a sobrevivência de um homem e de sua história. Se a ressurreição de Jesus há de ser a vitória escatológica da graça de Deus no mundo.

através de sua sexualidade.Segundo o dogma da criação. Tal método tem uma impostação sobre o nome de método antropológico transcendental. embasados no amor. Deus criou o homem e a mulher à sua “imagem e semelhança”. De que se trata? Na experiência humana se deve distinguir entre “apriori” e um “aposteriori”. que ultrapassa o plano carnal e exprime uma vinculação e complementação profunda dos dois. com aptidão para a vida na graça e deu-lhes a missão de perpetuar a espécie. .

. isto é dado de modo irreflexo e a-temático. tematizado. reflexo. e em vários modos classificados. mas que se faz possível a realidade categorial.O mundo da experiência humana considerado nos seus conteúdos é “aposteriori”. mas esse resulta de um “apriori”.

o homem faz várias experiências: é o múltiplo mundo categorial. experiência da finitude. experiência da verdade absoluta e da responsabilidade. que se direciona a um horizonte infinito. experiência da radicalidade do amor e da fidelidade. mas. que se orienta ao absoluto. experiência bem definida nos seus conteúdos. junto.Porém. . A dimensão transcendental da experiência humana no exercício da consciência e da liberdade é a abertura do espírito finito ao infinito. Mas a experiência humana não é só experiência deste e daquele. que ruma ao incondicional.

a transcendentalidade é a estrutura apriorica do espírito humano. horizonte de compreensão no qual se escrevem as várias experiências. a experiência originária que acompanha todas as outras. sua orientação dinâmica para o infinito. a sua abertura radical ao mistério.Se a transcendência é a mesma realidade objetiva de Deus. .A transcendentalidade não é transcendência .

Rahner escreve: “A experiência cotidiana. da liberdade e do amor e de outras experiências profundamente humanas – é sempre também um habitar sobre a praia do mar infinito do mistério” (= transcendental). . é como um ser de grãos no nevoeiro (= categorial) mas essa enquanto experiência também da verdade.

Para Rahner o homem é um ser da transcendência.Portanto. partindo das problemáticas autenticamente teológicas. Podemos chamar teologia transcendental aquela espécie de teologia sistemática que se serve de uma filosofia transcendental e que trata mais explicitamente que no passado e não só de maneira geral das condições a priori existente no sujeito crente pela consciência da fundamental verdade de fé. tanto na elaboração da filosofia transcendental. a originalidade do pensamento de Rahner não consiste. mas no ter introduzido na teologia o método antropológico transcendental. .

A graça permanece gratuita e. E esse a recebe na liberdade. .A transcendentalidade do espírito humano no mundo como abertura radical à transcendência não é simplesmente uma abertura ao mistério de um Deus distante e silencioso. que se revela e se comunica ao humano. sobrenatural vem sempre ao homem de oferta. portanto. a revelação é abertura ao mistério santo da vizinhança de Deus. mas de fato o sabemos.

que dá a compreensão do que é o evento do Cristo. aqui tem dois registros – a) cristologia ôntica – como cristologia aposteriori e categorial. Rhaner dedicou grande parte de sua reflexão sobre a cristologia do concílio de Calcedônia. b) uma cristologia ontológica (em sentido heideggeriano).Ao problema cristológico onde se trata o tema central e mais misterioso do cristianismo. . que ilustra o evento do Cristo.

move uma ulterior interrogação sobre as condições da possibilidade do poder para vir da mensagem relacionada ao Cristo. mas dá um passo adiante. . enquanto.A cristologia transcendental não substitui a cristologia tradicional. o dado histórico dogmático teológico.

em si mesma a fazer compreensível a encarnação de Deus como auto-expressão de Deus na história humana segundo uma constante relação entre antropologia e cristologia. .No conceito de cristologia transcendental de Rahner se desenvolve sobre uma dupla linha: a) uma mais propriamente cristológica.

A antropologia é cristologia incompleta. mas no momento em que essa realidade se torna ciente de si mesma. Toda realidade criada é direcionada a Deus. b) e uma linha mais propriamente soteriológica de acordo a desenvolver uma constante relação entre existencialidade e cristologia. isto é. uma cristologia não realizada. O homem experimenta a si mesmo como um ser livre dado a si mesmo com referimento ao absoluto e a Deus. e a cristologia é antropologia que transcende a si mesma. ela se abre. A antropologia é o homem que se encontra com o paradigma do Cristo homem. .

O Espírito em certo sentido é a matéria que transcende a si mesma. porque também esta matéria é criada por Deus e está referida a ele. .Nesse sentido o espírito significa um pouco mais ontológico: é a consciência da referência a Deus. a capacidade da criatura espiritual de autocompreensão. uma perfeição ôntica. significa uma proximidade ao Criador.

Quando o homem tem espírito e matéria chega a essa compreensão Acontece que a matéria transcende a si mesma. A criação do homem assinala um ponto decisivo na evolução cósmica e Deus intervém nessa evolução não somente de fora diz Rahner. mas ao interno . Esta é aquela que Rahner chama de auto-transcendência.

Deus intervém dentro – essa é a noção de autotranscendência. mas uma profunda unidade: no espírito a matéria transcende a si mesma. conquistando um nível superior de perfeição. Entre matéria e espírito não tem contradição. .

quanto mais se aproxima do criador seu fundamento e finalidade maior é o grau que reúne.O passo seguinte é mais complexo: no espírito o cosmo dá um passo adiante e reúne ao grau maior de perfeição porque se aproxima do Criador. . Quanto mais se aproxima do Criador mais chega a um nível mais elevado.

se fez parte. elemento também material desse cosmo (o Logos se fez carne). Rahner fala de fato que Deus mesmo veio no cosmo. Depois de falar de um movimento ascendente de aperfeicionamento do cosmo que se aproxima de Deus.A esse ponto emerge a característica de Rahner de desenvolver o discurso numa combinação de movimentos ascendente e descendente e vem proposto o movimento dissidente. .

o logos mediador da criação. da consciência. tem um salto também quando o Criador mesmo. Na encarnação Deus mesmo na sua auto-comunicação imediata vem a realidade cósmica Rahner rebate que a encarnação não é um momento de evolução do cosmo.O Criador da criação se torna criatura se torna parte do cosmo. se torna uma parte desse cosmo. . O cosmo chega mais vizinho a seu fundamento e a sua finalidade. Tem-se um momento de crescimento de auto-transcendência do cosmo quando se chega ao salto do espírito.

Deus enviou seu Filho ao mundo por amor. de outra. mas esse momento será sempre o momento mais alto desse cosmo. .A encarnação é gratuita. Deus mesmo vem ao mundo. Duas dimensões: de uma. a gratuidade radical. que no momento no qual Deus se faz homem chega a uma perfeição a qual não teria jamais chegado. é um momento descendente. a perfeição imanente: da matéria ao espírito e desse espírito a uma ulterior autotranscendência. Deus mesmo vem ao homem e com esse a plenitude do cosmo considerado na sua unidade.

mas ao mesmo tempo qualquer coisa de perfeição do interno à realidade criada porque em tal realidade criada não pode haver finalidade senão na união sempre grande com o Criador .O espírito é um grau superior à matéria porque é matéria que se autotranscende. gratuito e descendente. A encarnação é qualquer coisa de absoluto.

.

Quem é o homem a quem Deus se revela? Ente Transcendental? Ouvinte da Palavra? .1.Auto-comunicação de Deus Revelação na História Trindade econômica – evento Cristo.

O ser para o qual o homem está disposto é Deus e Deus que se dispõe ao ente que emite interrogações. O homem é referência ao Mistério Santo. Unidade entre as duas correntes ou vias: Orienta e Ocidental .

Expressão ad intra e ad extra ao mesmo tempo. .Rahner se aproxima mais da via grega. O fato de ser Logos ele deve se encarnar – é auto-expressão intratrinitária que se externaliza pelo próprio fato de ser o Logos.

vem a ser o ouvinte da palavra e o espírito no mundo.O homem é assumido pelo Logos – expressão ad extra – encarnação – amor como verdade de Deus. vem se tornar referência ao Mistério Santo. a expressão ad extra é Amor. . O Logos divino é aquele que na Trindade.

Des se faz referência a si mesmo pela encarnação. Daí a encarnação ser a plenitude da auto-comunicação divina.O Logos de Deus que se comunica com o Pai é aquele que entra no tempo e que comunica o Pai ao mundo. . A quem o ser humano escuta é ao próprio Deus.

O Logos criado assumido pelo Logos não criado. não carne forjada. Natureza humana assumida. Há participação humana na natureza divina permanecendo abismo. . Finitude e infinitude.

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