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Tratado de Versificação

Olavo Bilac Guimaraens Passos

Texto fonte BILAC, Olavo.PASSOS, Guimaraens Tratado de Versificação Rio de Janeiro:1905 Editoração Eletrônica Ana Luiza Nunes Paula Mendes Abelaira

Tratado de Versificação

Primeira Parte Segunda Parte Terceira Parte

Primeira Parte A POESIA NO BRASIL Quando o Brasil foi descoberto, em 1500, a litteratura portugueza entrava no seculo em que ia desenvolver a sua maior actividade. A lingua ia inaugurar o seu «periodo de disciplina grammatical». D'ahi a 24 annos ia nascer Camões, o grande epico; d'ahi a cêrca de 40 annos, iam publicar Fernão de Oliveira a sua «Grammatica da Linguagem Portugueza» e João de Barros a sua «Grammatica da Lingua Portugueza». Emquanto se fazia, na terra conquistada, o trabalho moroso da exploração e do povoamento, no correr do seculo XVI, em Portugal se operava, imitada da Italia, a Renascença da cultura greco-romana. Seculo de ouro da litteratura portugueza, esse seculo foi a grande éra dos Quinhentistas; depois de uma lucta, de pequena duração, entre os cultores do classicismo e os «poetas da medida velha», a Renascença venceu. Camões immortalisou a sua terra e a sua gente, nas estrophes geniaes dos «Lusiadas»; Bernardim Ribeiro, Sã de Miranda, Antonio Ferrefira, Diogo Bernardes, Fernão Alvares do Oriente, Pero de Andrade Caminha reformaram a poesia lyrica, introduziram no paiz a egloga, a elegia, as odes, os villancetes, as canções, os romances, os sonetos, importados da Italia e da Hespanha, generos em que tambem o grande Camões se exercitou e brilhou. Foi durante esse seculo que appareceram no Brasil as primeiras manifestações da poesia erudita, — sem falar na poesia popular, em que á melancolia das cantigas dos colonisadores principiou a misturar-se a melancolia das cantigas dos indios selvagens. Os versos de Anchieta,que não eram propriamente «litteratura», — mas simples recursos de catechese, foram a primeira d'essas manifestações; a segunda foi a Prosopopéa de Bento Teixeira Pinto, «o mais antigo dos poetas nascidos no Brasil», na phrase de Sylvio Roméro. A Prosopopéa é um curto poema dedicado ao governador Jorge de Albuquerque Coelho, e escripto em Pernambuco em fins do seculo XVI. Nesse poema, composto em oitavas de decasyllabos rimados, á maneira camoneana, já se encontram algumas descripções do Brasil. No seculo XVII, emquanto em Portugal a influencia hespanhola vencia a influencia italiana, e appareciam as Lyricas de F. Rodrigues Lobo e de D. Francisco Manoel de Mello, as Poesias mystico-amorosas de Frei Antonio das Chagas, D. Francisco de Portugal, Dona Bernarda de Lacerda, as Epopéas historicas de Francisco Rodrigues Lobo (o poema do Condestabre), de Gabriel Pereira de Castro (a Ullysséa), de Manoel Thomaz (a Insulana), de Francisco de Sá de Menezes (Malacca Conquistada), as comedias de capa e espada, as Academias dos Singulares e dos Generosos, e as tragicomedias dos Jesuitas, — appareceu no Brasil, na Bahia, a chamada Escola Bahiana. D’essa Escola, o principal, e podemos dizer o unico poeta verdadeiro e notavel, foi Gregorio de Mattos Guerra (nascido em 1623 e fallecido em 1696), de quem diz Capistrano de Abreu que foi «um phenomeno estranho, que desprezou tanto ao brasileiro como ao portuguez, dando-lhes uma especie de balanço pessimista,

singularmente curioso», — e a quem Sylvio Roméro confere o titulo de «fundador da nossa litteratura». Gregorio de Mattos, que teve uma existencia accidentada e desregrada, — espirito de revolta e de maledicencia, tão desgraçado e tão desequilibrado na vida particular como na vida publica, — compoz algumas poesias lyricas, ao gosto da epoca, como Os trabalhos da vida humana, o Retrato de Dona Brites, e magnificos sonetos; mas o seu genero preferido sempre foi a satyra. Tambem pertenceram á Escola Bahiana os poetas Domingos Barbosa, Martinho de Mesquita, Salvador de Mesquita, Bernardo Vieira Ravasco, Gonçalo Ravasco, José Borges de Barros, Grasson Tinoco, que nada deixaram de notavel, e Manoel Botelho de Oliveira, que, entre Outras poesias, deixou uma, A Ilha da Maré, que só póde ter hoje um valor historico. A primeira metade do seculo XVIII foi; para a litteratura brasileira, de uma esterilidade quasi absoluta; houve um como repouso em nossa formação litteraria, preparando a epoca brilhante da outra metade do seculo. Durante esses primeiros cincoenta annos, sempre imitando servilmente a litteratura portugueza, cujos cultores se haviam congregado em sociedades, — o Brasil teve as Academias dos Esquecidos e dos Renascidos, na Bahia, e as dos Felizes e dos Selectos no Rio de Janeiro. A essas Sociedades litterarias pertenceram muitos poetas, cujos versos em geral se perderam ou esqueceram: João Brito de Lima, Gonçalo da — França, João de Mello, Manoel José Cherém, Pires de Carvalho, Borges de Barros, Oliveira Serpa, Fr. Henrique de Souza, Corrêa de Lacerda, Fr. Francisco Xavier de Santa Thereza, João Mendes da Silva, Prudencio do Amaral, Francisco de Almeida, — e Fr. Manoel de Santa Maria Itaparica, o melhor de todos, que escreveu dois poemas: Eustachidos, e Descripção da Ilha de Itaparica. A esta mesma epoca pertenceu o grande Antonio José da Silva, nascido no Rio de Janeiro a 8 de Maio de 1705, e queimado como judeu, em Lisboa, pela Inquisição, a 19 de Março de 1739. Esse extraordinario poeta, que deixou um numero consideravel de comedias em prosa e verso (Amphitryão, Don Quixote, Encantos de Medéa, Phaetonte, Labyrintho de Creta, Guerras do Alecrim e da Mangerona, etc.) e uma farta collecção de poesias lyricas, apenas é brasileiro por haver nascido no Brasil: partiu para Portugal aos 8 annos de idade, e nunca mais voltou á patria. Por isso, não é talvez muito acertado classifical-o como «poeta brasileiro». * * * De 1750 a 1830, ha no Brasil o periodo litterario, a que Sylvio Roméro dá com propriedade o nome de «periodo do desenvolvimento autonomico». Nessa era floresceu a Escola Mineira, — á qual devemos as primeiras tentativas reaes em prol da nossa autonomia litteraria; e, luminosa coincidencia, essa epoca do primeiro anceio pela independencia nas lettras é tambem a epoca do primeiro anceio pila independencia politica. «É agora o momento decisivo da nossa historia é o ponto culminante; é a phase da preparação do pensamento autonomico e da emancipação politica. Qualquer que seja o futuro do Brasil, quaesquer que venham a ser os accidentes da sua — jornada atravez dos seculos, não será menos certo que ás gerações, que, nos oitenta annos de 1750 a 1830, pelejaram a nossa causa, devemos os melhores titulos que possuimos.» (*)

Os principaes poetas lyricos da Escola Mineira entraram na Conjuração da Inconfidencia. Essa coincidencia dos dois ideaes, — o litterario e o politico, — dominando o espirito d'esses homens, demonstra que nessa época já o caracter brasileiro começava a formar-se: libertava-se a nossa intelligencia, — e nasciamos como povo.

portuguez como Garrett. mas por um lento trabalho duplo de demolição e de reconstrucção. alguns poetas do Brasil visitaram a metropole. — e uma tentativa feliz. mas do que deixou de fazer. a escolha dos seus assumptos. A lingua de que se serviam os poetas da Escola Mineira. as — lyras — de Gonzaga supplantaram a insipidez das composições arcadicas e a — Viola deLereno — de Caldas Barbosa.» No seculo XVIII. Mas a censura não tem cabimento.. «O espirito revolucionario do fim do seculo XVIII apparece tambem no Brasil. E ninguem diz que esses poetas realizaram_ a independencia litteraria do Brasil. Theophilo Braga. Merece transcripção integral a pagina do critico. comprehendeu admiravelmente esse papel da pleiade mineira. os poetas. só me queixaria não do que fez. Os socios mais conhecidos da Arcadia Ultramarina foram. Sobem nas azas dos ventos As modinhas brasileiras. que tanto irritava Bocage e Filinto. Os poetas da província de Minas. cujo lusitanismo Garrett censura.. em que se descreve um aspecto da vida agrícola e industrial da Capitania das Minas A emancipação litteraria completa só veio depois. As — lyras — de Gonzaga renovam as velhas fórmas das — Serranilhas —. Explico-me: quizéra eu que. tem algumas Lyras de um brasileirismo innegavel. Manoel da Arruda Camera. Mas o trabalho da Escola Mineira foi uma tentativa. Bartholomeu Antonio Cordovil. com Alencar e Gonçalves Dias. e as — modinhas — acordaram a sympathia tradicional. na materia e na côr. sendo victimas os poetas Claudio Manoel da Costa. como ninguem diz que elles realizaram a sua independencia política. Ignacio José de Alvarenga Peixoto e Thomaz Antonio Gonzaga. que na — MariliadeDirceu — descreve a pungente realidade do seu amor e: da sua desgraça. quadros inteiramente europeus. E esse mesmo Gonzaga. pintasse os seus paineis com as côres do paiz onde os situou. a sua maneira de versificar.» Essa censura tem sido habitualmente reeditada por todos quantos procuram negará Escola Mineira um distinctivo litterario francamente nacional. de entre as verdes murteiras Em suavissimos accentos. Quando o se calo se apresenta exhausto de vigor moral e de talento. Luiz de Vasconcellos e Souza. pela minha parte.. que floresceram de 1750 a 1830. Domingos Vidal Barbosa.. que se inspiravam das idéas encyclopedistas. das quaes fala Tolentino: «Já. foram os propugnadores da autonomia da nova nacionalidade brasileira. Era a mesma corrente de liberdade. Com segundas e primeiras. Rendon. ou aqui fixaram residencia. Balthazar da Silva Lisboa. chegou a vulgarisar-se entre o povo. José Marianno da Conceição Velloso e Domingos Caldeira Barbosa. coroada de exito: foi um primeiro passo. de lhe fazer alguma censura. além dos dois fundadores já ` citados. e em 1789 tomara corpo na Revolução Franceza. sirva de exemplo a Lyra XXVI. Academia Poetica protegida pelo illustradissimo vicerei D. no assumpto e na fôrma. uma primeira conquista. aos quaes se não deve recusar agradecido louvor. O movimento iniciado em Minas foi abafado com sangue. e não podiam deixar de ser. que persistiam entre o vulgo como titulo de — modinhas —. eram. em vez de nos debuxar no Brasil scenas da Arcadia. Manoel Ignacio de Alvarenga e José Basilio da Gama — fundam pouco mais ou menos por 1799 a Arcadia Ultramarina. João Pereira da Silva.. José Ferreira Cardoso. o seu estylo. uma imitação do modelo portuguez: uma litteratura não se emancipa repentinamente. foram precursores de alto merito.Referindo-se a um dos poetas da Escola Mineira Gonzaga). escreveu Almeida Garrett: «Se houvesse. que em 1787 creara os Estados-Unidos. é da . Ignacio de Andrade Souto Mayor.

naturezas e creadoras. e `cujo thema é o louvor de um chefe africano. appareceram no Brasil alguns poetas. _ora a Alvarenga Peixoto. com o pseudonymo de Alcindo Palmireno. Padre Manoel de Souza Magalhães. Bartholomeu Antonio Cordovil. cantatas. e se oppunham á demarcação de limites decretada pelo tratado de 1750. José Ignacio da Silva Costa. que pertence á Arcadia Ultramarina. Outros poetas do tempo: Domingos Caldas Barbosa (Lereno Selinuntino). episodios. Dos poetas lyricos. que. Joaquim José da Silva. em que é tratada a lenda do portuguez Diogo Alvares. mais humano. Seixas Brandão e Pinto da França. O poema de Santa Rita Durão é o Caramurú. epopéa de pouco valor. — cujo assumpto é a lucta dos portuguezes contra os indios. sonetos e eglogas. que eram instigados pelos jesuitas. em oitavas camoneanas. — pelejou contra as armas de Hollanda. (*)Temos adoptado. ã excepção de Domingos Caldas Barbosa. Claudio Manoel da Costa escreveu o Villa-Rica. tem sido attribuido ora a Claudio Manoel da Costa. Gonzaga é não somente superior aos seus companheiros da Escola Mineira. que se agita na aspiração da sua independencia. Tambem não teve grande valor Ignacio José de Alvarenga Peixoto (na Arcadia.colonia. Depois dos poetas da Escola Mineira. Padre Silva Mascarenhas. . poema em versos decasyllabos sem rima. lyricos e satyricos. Domingos Vidal Barbosa. Luiz da Cunha Menezes. mas ainda superior aos seus contemporaneos portuguezes. o maior é sem duvida Thomaz Antonio Gonzaga (Dirceu). ao lado dos portuguezes. ora a Gonzaga. que escreveu o Desertor das Lettras.»(*) A Escola Mineira teve poetas epicos. — havendo ainda quem o attribua á collaboração desses poetas. poema inferior ao Uruguay. A poesia comico-satyrica foi cultivada por Manoel Ignacio da Silva Alvarenga. Bento de Figueiredo Aranha. Basilio tambem escreveu o Quitubia. em que é ferozmente satyrisado o governador de Minas. cognominado OSapateiroSilva. canções. e tem inspiração mais vibrante e estylo mais colorido. a divisão e a classificação de Sylvio Roméro. A sua Marilia deDirceu é a. Os epicos foram José Basilio da Gama. Basilio é incontestavelmente superior a Santa Rita Darão: é mais brasileiro. e ainda dentro d'esse brilhante periodo litterario de 1750 a 1830 (*). João Pereira da Silva. prisioneiro e depois dominador dos Tupinambás. o mais notavel lyrista da epoca é Manoel Ignacio da Silva Alvarenga. naufragado na Bahia em 1510. Frei José de Santa Rita Durão — e Claudio Manoel da Costa. É do primeiro o Uruguay. primeira manifestação genuina do encantador lyrismo brasileiro. d'elle. nesta rapida synopse da «Poesia no Brasil». foram mediocres. Depois. que deixou a Viola deLereno. Como poeta epico.O seu livro Glaura é uma preciosa collecção de odes. Joaquim José Lisboa. Todos esses. Manoel Joaquim Ribeiro. o Padre Costa Gadelha e Francisco de Mello Franco. Claudio Manoel da Costa (na Arcadia. Eureste Phenicio). O poema CartasChilenas. Foi talvez o menos brasileiro e o mais classico dos poetas da epoca. que lhe vem a seiva das. tão elevado pelo genio dos poetas modernos. que compôz o poema O Reino da Estupidez. Antonio Mendes Bordallo (Abusos da Magistratura). em que são celebradas as conquistas dos sertões pelas «bandeiras» paulistas. que cultivaram especialmente a poesia religiosa e patriotica. GlaucesteSaturnio) deixou grande numero de odes. madrigaes e sonetos.

que traduziu em verso os Proverbios de Salomão e o Livro de Job. sonetista exímio. de Virgilio (Eneida. lias sciencias. mineiro. José de Salomé Queiroga. Firmino Rodrigues Silva. Odorico Mendes. mais propriamente. Publicou em 1855 dois volumes de poesias.Citemos: Antonio Pereira de Souza Caldas. auctor dos poemetos Nictheroy e Os Garimpeiros. e que deixou algumas poesias lyricas.. marquez de Sapucahy. e auctor de muitas poesias originaes foi um verdadeiro poeta de transição: classico de um classicismo extremado nas suas traduções. primeiro Marquez de Paranaguá. * * * Chegamos agora ao periodo da grande revolução. nas lettras e na política. contra o Culteranismo. que tambem entrou na revolução da RepublicadoEquador. ao lado de grande fervor mystico. entre os quaes a famosa Cantata á Primavera. e José Bonifacio. cujo talento de improvisação enthusiasmava a quem o ouvia. a Creação e a Immortalidade da Alma. que compôz alguns curtos poemas. em que. frei Francisco de São Carlos. e «poetas de transição entre classicos e romanticos». auctor da afamada nenia Nictheroy. Antonio Augusto de Queiroga. Ribeiro. Maciel Monteiro. e compôz a Ode ao Homem Selvagem. * * * Vão agora apparecer os poetas. como poeta. e. que se operou na litteratura universal: o Romantismo. barão de Itamaracá. As litteraturas do norte da Europa deram o Primeiro signal da reforma. um dos cabeças da revolução pernambucana de 1824. nos versos do proprio lavor. auctor do poemeto Os Tumulos e d’As Poesias offerecidas ás senhoras brasileiras por um bahiano. que publicou em 1870 o Canhenho de Poesias Brasileiras. cujo poema A Festa do Baldo descreve typos e scenas populares e costumes domesticos e políticos do tempo. em que ha algumas de bastante valor. Santa Rita Baraúna José Eloy Ottoni. José Maria do Amaral. O Romantismo foi a renovação do Ideal litterario e artístico. que sómente agora vão ser colleccionadas e publicadas pela Academia Pernambucana de Lettras. Emquanto esse poeta trabalhava no Maranhão. padre Januario da Cunha Barbosa. que traduziu os Psalmos de David. em 1825. O Romantismo foi uma reacção contra a infiuencia do classicismo francez. e auctor do poema A Assumpção da Virgem. publicadas em França. a que Sylvio Romero dá a classificação de — «ultimos poetas classicos». ou. deixou uma collecção de excellentes poesias patrioticas e lyricas. José da Natividade Saldanha. ganhava popularidade na Bahia o repentista Francisco Muniz Barreto. . notavel orador. foi. — e que. ha algumas descripções de paizagens brasileiras frei Joaquim do Amor Divino Caneca. suppliciado pelo governo imperial. o — Patriarcha da Independencia. emfim. intelligencia maravilhosa que se exercitou. um romantico. visconde de Pedra Branca.. e Domingos Borges de Barros. traductor de Homero (Illiada e Odysséa). sempre com grande brilho. Araujo Vianna. pernambucano. É o auctor do celebre soneto: Formosa qual pincel em tela fina. cujos innumeraveis e bellos sonetos ainda infelizmente não foram colleccionados. Georgicas e Bucolicas) e de Voltaire (Mérope). Vejamos os do segundo grupo. Francisco Bernardino. No primeiro grupo. e A Henrique Dias. com o titulo de — Poesias de Americo Elysio.A Camarão. escreveu algemas poesias lyricas. auctor das odes A Vidal de Negreiros. avultam Francisco Villela Barbosa. Alvaro Teixeira de Macedo. que rapidamente se propagou e venceu. deixou muitas poesias esparsas. Ao mesmo periodo litterario pertencem: João de Barros Falcão.

elevou-se ás mais bellas fôrmas do lyrismo pessoal. Depois. escreve Theophilo Braga. vilificando-o. um acordar de tradições. pela comprehensão das suas origens no periodo medieval. A idade média foi uma transformação social. de mais a mais lhe calcava o peso da oppressão esmagadora. Apenas envolta nas confusas e seductoras revoas da lenda. Foi madame de Staël quem o revelou á França. Em Portugal. O orgulho estupido e perverso da raça dominadora. Esse acontecimento veio por um momento sopitar a reconstrucção que se operava ao lado da destruição do imperio romano.O movimento partiu da Allemanha. Mas a sua influencia real e positiva revelou-se pelo apparecimento do Indianismo. que lhe creára o bem estar. e até se ignoravam. rebaixada condição e abjectos costumes não se viam. de intruso. e a embrenharem-se no adyto das florestas sombrias e impenetraveis. a riqueza e o ocio. Wolf. se considerarmos. que derrama o tempo. O Brasil não teve idade média. diremos. dirigido pela melancolia dos Lakistas. e transplantou para a nossa lingua o typo do romance creado por Walter Scott. Mas como seguir o movimento geral? Para onde dirigir as forças sentimentaes e imaginativas? O portuguez não nos despertava sympathias. Castilho continuou as velhas fôrmas arcadicas. O negro foi sempre a raça degenerada. e. O trabalho da unificação d'esses elementos. reagiu por longo tempo contra a introducção do romantismo. Quem estudar a litteratura brasileira ha de notar. anniquilando-o. . um abrolhar do sentimento nacional. Foi para ahi que se voltou o espirito brasileiro. nos povos europeus. quando quiz encontrar os elos da sua tradição historica. depois do conhecimento de Klopstock. numa expansão de brutal egoismo. a creação das línguas européas pela corrupção do latim. escreveu Clovis Bevilacqua algumas paginas de solida argumentação: «O Romantismo foi. esterilisando-o. a historia das perseguições movidas pelos colonos contra os míseros indios apresados. Accrescentae a isso o prestigio. pesado e longo. distinguindo-se. pelo seu lyrismo religioso. apenas perante a chronologia. atravez das chronicas dos jesuítas. em que a filiação historica não se quebrou. Herculano renovou os estudos da historia portugueza. o Romantismo appareceu com Domingos de Magalhães. a constituição das nacionalidades produzidas pelo amalgama dos elementos heterogeneos. a era que na historia tomou essa designação. pelo novo modo de poetar dos trovadores. acima de tudo. e. Ainda a Sciencia não tinha trazido a este paiz a verdadeira idéa do que fosse um povo selvagem. Porto-Alegre. é o que devemos chamar a nossa idade média. se nos ativermos ao facto material das datas. porque ainda nos olhava com certa sobranceria humorada de dono destituído. á medida que a organisação romana se decompunha. esse immenso laboratorio de onde saíram as linguas e as nacionalidades modernas. O principal trabalho da idade média foi a reparação da desordem trazida á evolução pelos barbaros. ingrata ao mourejar ininterrupto do negro. D'esse facto resultou um phenomeno de regressão identico ao que soffrera a civilisação geral do occidente. Herculano e Castilho «Garrett iniciou o estudo da tradição nacional. creou o theatro portuguez. vindo por fim a cooperar na idealisação da idade média e a traduzir as obras que mais caracterisavam a inspiração moderna. Como e porque começou o indio a interessar a poesia nacional? Sobre essa questão. os epigones do Romantismo foram Garrett. Voltou-se então a imaginação para o indio. Aqui (no Brasil). com F. e comprehendereis a exaltação romantica do Indianismo. cuja exiguidade intellectiva.» No Brasil. Mas colloquemo-nos em um ponto de vista superior. lhe chegava. a invasão veio de povos mais civilisados sobre povos menos civilisados. e a crua desesperança que obrigava os poucos escapos a fugirem diante da pata do cavallo de Attila. a preparação da idade moderna pela transformação do escravo em servo e do servo em povo. mas perturbou-se com a invasão dos barbaros. o passado irrevocavel. e nunca o nosso povo conseguiu deixar de consideral-o sem a sua qualidade odiosa de invasor. ainda nos veio um novo factor de nosso rebaixamento social: foi o negro. subindo gradualmente. Teixeira e Souza.

Gonçalves Dias é anterior a Domingos Gonçalves de Magalhães e a Porto Alegre. os Cantos do Guerreiro. até rebentar a esplendida eclosão do Indianismo. a bordo da barca franceia Ville de Bourgogne. visconde de Araguaya. Foi o primeiro passo da esthetica brasileira procurando o seu typo especial e proprio. as Brasilianas de porto Alegre. Deixou tragedias e dramas em verso (Antonio José. que. porque não só elle foi uma originalidade nossa. Soláo de Gonçalo Henriques. Então. dos tres. remoçou a lingua — dando-lhe um viço novo e uma frescura encantadora que encantaram Alexandre Herculano. — Lôa da Princeza Santa. ainda não era isso uma trausudação do sentir intimo do povo. e em 1858 os Mysterios e os Canticos Fúnebres. Agora e Sempre. Foi o estremunhar do sentimento nacional. um germinar da consciencia nacional estremunhada pelo sangue selvagem? Desse ponto devemos partir para descobrir a filiação historica do nativismo brasileiro. em naufragio. os seus melhores trabalhos são: o poemeto I Juca-Pirama. Não me deixes! — são composições do mais ardente e inspirado lyrismo. o Canto do Indio. o poema (incompleto) d’Os Tymbiras. e Lenda de S. foi elle. Gulnare e Mustaphá. Gonçalo. no começo do seculo XVIII. como tampem datam d'elle todas as outras que foram tentadas por nossos poetas e romancistas. nasceu em 1823. Mas o que nos deixou como poeta lyrico é de uma riqueza ainda maior. regressava da Europa ao Brasil. da consciencia brasileira manifestando-se de um modo indisciplinado. as poesias Marabá. na sua combinação com o romantismo. dramaturgo e ethnologista. Olgiato. Canção do Tamoyo. deslumbrado por uma natureza virgem' e grandiosa. Ora. que deve ser comprehendida essa escola sem grande afinidade com Fenimore Cooper. que se impõe o estudo e á admiração de quem examina a phase romantica da Poesia no Brasil. nascido no Rio de Janeiro em 1811 e fallecido em 1882. Depois. em Caxias (Maranhão) e morreu em 1864. o Canto do Piága. em estylo classico. produziu o mais alevantado esforço de originalidade de que até hoje foi capaz a nossa esthetica — o indianismo. a encantadora Ainda uma vez. filho das condições sociologicas.) Manoel de Araujo Porto Alegre (1806-1879) natural do Rio Grande do Sul. Domingos Gonçalves de Magalhães. Como poeta indianista. Leito de Folhas Verdes. o seu nome ficou immortal. Gonçalves Dias. o poeta que mais influencia exerceu sobre os seus contemporaneos. o volume dos Primeiros Cantos de Gonçalves Dias appareceu em 1846: e é nesse volume que se encontram o Canto do Guerreiro. estreiou em 1836 com o volume dos Suspiros Poeticos (cuja principal composição é a Ode a Napoleão em Waterloo). e tão distanciada do que escreveu Chateaubriand. Como eu te amo. é a de Gonçalves Dias. adeus!. A Confederação dos Tamoyos de Magalhães foi publicada em 1856. mas uma simples côr local sem graves pretenções. Conhecendo como poucos o idioma que tratava Gonçalves Dias reformou. «um factor poderoso no desenvolvimento da litteratura brasileira»: o interesse pelas particularidades da natureza indigena. Além disso. a intenção se foi accentuando. do Piága e doIndio. nesse facto altamente significativo. Foi poeta e prosador. Como não descobrir. É assim. antes . quando. e publicou em 1856 a Confederação dos Tamoyos. repontam os primeiros rebentos do que elle chama. penso. O poeta escreveu ainda. e sobre os que vieram depois. o Tabyra. as forças se foram accumulando.que. e tantas outras poesias de um exaltado americanismo. com todo o fundamento. parece-me. Como poeta indianista. porém natural. da mentalidade brasileira de então. um indicio da reacção do meio cosmico sobre o novo brasileiro. a admiravel Palinodia. etc.» * * * A primeira figura. foi. em 1863. Soláo do rei dom João. as Sextilhas de Frei Antão. Como poeta (e é sómente como poeta que elle figura neste rapido resumo historico).

Tambem deixou algumas poesias satyricas — (O Ganhador. Que importa? a ode O Redivivo. Em 1863 publicou as Brasilianas (O Voador.não foram — até hoje colleccionadas: O Pé. etc). pintor e critico musical. O Corcovado). Folhas do Outono).uma brilhante pleiade de poetas. O Pastor. successivamente influenciado por Lamartine. Lamartine e La Fontaine. O livro dos meus amores. nascido em 1833 e ainda vivo. nascido em 1837 e morto em 1860. Poesias. registrando a epoca em que floresceram e o trabalho que deixaram. José Bonifacio de Andrada e Silva (*) (1827-1886). Roméro que «foi o talento mais espontaneo que tem apparecido no Brasil. Laurindo J. Alvares de Azevedo. A Destruição das Florestas. de quem ficaram dois volumes (Poesias e Messalina) e Franco de Sá. auctor de Sombras e Sonhos e Myosotis. etc. Bruno Seabra (18371876).de sé revelar poeta. Mas Bittencourt Sampaio (1834-1896). e . e Casimiro de Abreu. Paulo. popular. de todo o Brasil. João Cardoso de Menezes. Nascido em 1826 e fallecido em 1864. hiano (1830-1880). appareceram: Anreliano Lessa (1828-1861) de quem se publicou um volume de Poesias Posthumas. Magalhães e Porto Alegre.) De 1830 a 1870. Dirceu de Marilia.: lyrico (Os tres dias de um noivado) e varias poesias. poetava na Babia. e d'elle escreve S. no Sul. tambem paulista. Em 1831. Antonio Francisco Dutra e Mello (18231846) e Francisco Octaviano de Almeida Rosa (1825-1889) deixaram poesias es arsas. Teixeira e Souza (1812-1861) escreveu um poema épico (A Independencia do Brasil). reunidas no volume dos Cantos Lyricos. deixando grande numero de poesias lyricas. E logo depois. que não é possivel. onde escreveu as Inspirações do claustro. talvez. Gentil Homem — de Almeida Braga (18341876). em S Paulo. e Bernardo Guimarães (1827-1884) poeta muitas vezes de um ardente e brilhante nacionalismo (Cantos da Solidão. no Norte. A Voz da Natureza. São do mesmo tempo: Antonio Augusto de Mendonça.» Emquanto Laurindo — poetava no Rio. surge. nos apertados limites d'este trabalho. e depois o Colombo. fundadores de uma escola «sertaneja». Far-seá apenas aqui uma enumeração dos principaes. o mesmo se pôde dizer de Elisiario Pinto (18401897) tambem sergipano. estreiou em 1849 com a Harpa Gemedora publicado varias traducções de Byron. Flores entre espinhos. como os seus companheiros. que. escreveu varias poesias. Esse poeta morreu aos 21 annos de idade (1852). improvisador famoso e poeta satyrico de grande valor. etc. cultivando o genero bucolico e campezino. Joaquim Serra (1837-1888). Pedro Calasans. Franklin Doria (barão de Loreto). foi tambem um excellente poeta lyrico. succedendo a Gonçalves Dias. Novas Poesias. Trajano Galvão (1830-1864). o poeta Mais. dois poetas lyricos: Teixeira de Mello. e Joaquim Norberto de Souza e Silva (1820-1891) — cinco volumes de poesias: Modulações Poeticas. maranhense (1836-1856). com quem se inaugurou uma nova phase 'do romantismo brasileiro. Seu nome. um poema. Apparecem agora. quasi todas de grande sentimento (Lyra dos Vinte Annos. das scenas da vida do sertão foi antes um lyrico subjectivista (Paginas soltas e Ultimas paginas). nasceu em S. e Juvenal Galeno foram poetas legitimamente nacionaes. nascido em 1827.: da Silva Rabello. Victor Hugo e Byron. barão de Paranapiacaba. Ao lado de Alvares de Azevedo. dar a todos um estudo demorado. e depois d'elle. poema em 40 cantos. e ainda hoje vivo e em plena actividade litteraria. Junqueira Freire(1832-1855). Cantos Epicos. nascido em 1836 e ainda vivo. auctor das Primaveras. appareceram no Brasil tantos poetas (alguns de extraordinario valor). que foi algum tempo monge do convento benedictino. auctor da celebre poesia O Festim de Balthasar. de Sergipe (1836-1874) não foi tão amigo. e que ainda deixou um volume intitulado Contradicções Poeticas.

de Joaquim Serra. O meu roçado. Os seus. e falleceu em 1871. e Diario de Lazaro. Cantiga á viola. Basta. de Juvenal. grande poeta. O Tropeiro. um dos maiores lyricos brasileiros. lyrico. — porque. filho do repentista bahiano. embora imitando successivamente Lamartine. Santa Helena Magno. e dos poemas Anchieta ou o Evangelho nas Selvas. Moreninha. O Cajueiro Pequenino. dos contrastes. Sonetos eRimas e Lyra Final. Leconte de Lisle. Heredia. Luiz Guimarães Junior (1845-1898). e as que deram azo á creação de neologismo com que ficou sendo conhecida a escola. Outros poetas do periodo: Victoriano Palhares (tres volumes: Mocidade e Tristeza. que comprehendem: as Espumas Fluctuantes e o Poema dos Escravos.889. Hugo. o cantor.versos foram colligidos pelo dr. O Mestre de Reza. em certas composições. — e Machado de Assis. — e até Verlaine. Centelhas e Peregrinas). de Franklin Doria. que sob certo ponto de vista. e auctor dos Vôos Icarios. A sua obra completa está hoje compendiada em dois volumes.celebrando. O Lenhador. * . Musset. (*) Mas. de um intenso lyrismo pessoal. e A crioula. ha alguns poetas de transição. entre as duas. Carneiro Villela. têm sido essencialmente lyricos. A mucama. Victor Hugo já havia influido directa e intensamente na evolução da poesia brasileira. de Trajano Galvão. Na Aldeia. Rozendo Muniz Barreto (1845-1897). — principalmente como lyricos. dos Cantos Meridionaes. — Mello Moraes Filho nascido em 1844) poeta tradicionalista. desde o tempo dos primeiros romanticos. e cujos livros de versos foram ha pouco enfeixados em um volume. convém notar. Tobias Barreto (de Menezes) nasceu em Sergipe (villa de — Campos) em 1839 e morreu em 1. essa influencia se fez de modo especial. o encanto original da vida sertaneja do norte do Brasil. de Bittencourt Sampaio. com sentimento — e graça. O Roceiro de Volta. qual se reconhece claramente a influencia hugoana. O Calhambola. das imagens arrojadas. que dá a primazia dos Dias e Noites. da maneira hugoana. A Missa do Gallo. Castro Alves (Antonio de) nasceu na Bahia (Cachoeira) em 1847. sendo os principaes: Pedro Luiz Soares de Souza (1839-1884). dos Cantos e Fantasias. todos os poetas brasileiros desde Gonzaga e Silva Alvarenga até os de hoje. A Jangada. em Castro Alves e Tobias Barreto. A mangueira. especialmente. A Ilhoa. com o titulo geral de Poesias. Tributos e Crenças. dos Cantos do Ermo e da Cidade. auctor dos Nocturnos. Mas. * * * Os proceres do condoreirismo no Brasil foram Castro Alves e Tobias Barreto. e deixou Corymbos. dos vôos épicos e foram essas composições as que mais concorreram para a espalhada fama dos dois. Gautier. no volume intitulado Dias e Noites: Foram dois poetas de alto valor. antes de tudo. Cantos da aurora. Galeno. Byron. e Fagundes Varella (1841-1875). A critica e o povo da opinião de Sylvio Roméro. cuja obra ainda não foi colleccionada. Esses não deixaram de ser. poetas lyricos. Sylvio Roméro. de Bruno Seabra. dos Dias e Noites e o das Espumas Fluctuantes adoptaram. O canto da serrana. auctor dos Cantos do Equador e dos Mythos e Poemas. das Vozes da America. para demonstrar isso. * * * Succedendo a essa escola. Luiz Delphino dos Santos (nascido em 1834). Mas. mais justamente conhecido e estimado como prosador do que como poeta. de Gentil Homem. citar os titulos de algumas das poesias que nos deixaram esses poetas nortistas: A cigana. o uso frequente das hyperboles. de primeira ordem. Baudelaire. apparece a dos condoreiros. póde ser considerado como um parnasiano.

ou simultaneamente com os parnasianos. Lucio de Mendonça (Poesias Completas). Depois de Castro Alves. depois de uma curta phase em que se cingiram. Augusto de Lima (Contemporaneas). Junior. Assim é que Mello Moraes. que não chegaram a formar escola. — sendo para notar que os dois citados em ultimo logar acompanharam a evolução da poesia. Luiz Murat (Ondas). Damasceno Vieira. João Ribeiro (Versos). Fontoura Xavier (Opalas). e pela habilidade com que variam e aperfeiçoam a metrica.e. e o que em boa hora lucraram. Das syllabas . Orlando Teixeira. antes de tratar das diversas especies de versos. Wencesláo de Queiroz. É preciso ainda observar que o parnasianismo brasileiro nunca teve o exclusivismo do francez. Machado de Assis ainda estão vivos. Sem estabelecer distiucções de escolas. Felix Pacheco. Olavo Bilac. o que se entende por syllabas e por pausas. Alphonsus de Guimaraens. Emiliano Penetta. alistaram-se. foi a preoccupação da fórma. Silva Ramos.Theophilo Dias. possuindo um sentimento igual. Mucio Teixeira (Poesias Completas). Magalhães de Azeredo (Procellarias. Rodrigo Octavio (Idyllios e Poemas). appareceram alguns symbolistas. Sylvio Roméro (varios volumes de versos).* * É difficil separar dos ultimos poetas. Pedro Rabello (Opera Lyrica). Nestor Victor. Depois dos parnasianos. como chefes e mestres. Oscar Lopes. (*) Vejamos. Emilio de Menezes (Olhos Funereos e Missa Funebre). deram liberdade á sua inspiração. que redundam em musica. Thomaz Lopes. Teixeira de Souza. Raymundo Corrêa (Symphonias. mais que em qualquer outra lingua. Julio Cesar da Silva. Julia Cortines. Segunda Parte A METRICA Comprehende-se por verso — ou metro — o ajuntamento de palavras. em portuguez. se cultivam. e antes. comprehendamos todos esses poetas na classificação geral de modernos. Luiz Edmundo. Generino dos Santos. Francisca Julia. Antonio Salles. Severiano de Rezende. e ficaram sendo excellentes poetas lyricos. aos preceitos de Banville. e em plena actividade litteraria. Os nossos parnasianos. As duas gerações confundem-se. Osorio Duque Estrada. Martins Junior Sylvestre de Lima. Horas Sagradas). entre os parnasianos. — e citemos os nomes dos principaes: Alberto de Oliveira (Poesias Completas). appareceram no Brasil alguns adeptos de «uma poesia scientifica». _que. Guimarães Passos. VersoseVersões e Alleluias). com rigorosa fidelidade. elles excellem pelo cuidado que dão á pureza da linguagem. Luiz Guimarães Filho. e ás vezes superior ao dos poetas antigos. Medeiros e Albuquerque (Poesias Completas). B. mas o seu symbolismo nada teve de caracteristico. que ahi ficam citados. — . Leoncio Corrêa. Luiz Delphino. Os nossos poetas de hoje. Lopes (Chromos e Brazões). etc. Assis Brasil. Martins Fontes. os que se lhes seguiram. Vicente de Carvalho. com pausas obrigadas e determinado numero de syllabas. ou ainda uma só palavra. com esse estagio no parnasianismo. Carvalho. Filinto de Almeida (Lyrica). Entre os mortos: Valentino Magalhães.

Para o grammatico, todos os sons distinetos, em que se divide ma palavra, são outras tantas syllabas, sejam estes sons uma simples vogal, um diphthongo ou uma vogal seguida de uma ou mais consoantes, que batam justas, quer lhe fiquem antes, quer depois, quer lhe fiquem de permeio, como por exemplo em — pó, se, luz, quer, finalmente, seja um diphthongo com consoantes, que lhe dêm articulação, como em cão, rei, cães, reis, etc. O metrificador, differente mente, apenas conta por syllabas aquelles sons que lhe ferem o ouvido, assignalando a sua existencia indispensavel. Quanto aos sons vulgares, da linguagem e audição commum, estes lhe passam completamente despercebidos, porque não formam syllabas; e são como se não existissem. Para o grammatico, a palavra representa sempre o que é precisamente: nada lhe importa o ouvido. O metrificador não se preoccupa senão com o ouvido, e com o modo como a palavra lhe sôa. Querem ver como grammatico e versificador differem? Em pequeno exemplo é bastante. Um, nada omitte na palavra; o outro, de tal modo, até na recitação, a enuncia, que os diversos tons são absorvidos uns nos outros, de sorte que, só depois de escripto o vocabulo, se pôde perceber qual a sua constituição syllabica. Aqui vão as syllabas grammaticiaes em italico e em seguida as syllabas poeticas neste admiravel soneto de Luiz Delfino: 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 Je- sus ex- pi- ra o hu- mil- de e gran- de o- brei- ro 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 Je- su-sex- pi- rao hu- mil- dee- gran- deo- brei- ro. 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 So- bem já pe- la cruz a- ci- ma es ca- das 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 So- bem já pe- la cruz á ci- mes- ca- das 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 E nos cra- vos va- ra- dos no ma- dei- ro 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 E nos cra- vos va- ra- dos no ma- dei- ro 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 Os ma- lhos ba- tem cru- zam- se as pan- ca- das 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 Os ma- lhos ba- tem cru- zam- seas pan- ca- das. 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 So- lu- ça o cho- ro em tor- no; as mãos pri- mei- ro 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 So- lu- çao cho- roem tor- noas mãos pri- mei- ro 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 I- ner- tes ca- em no ar de- pen- du- ra- das 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 I- ner- tes ca- em noar de- pen- du- ra- das 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 O ros- to os- cil- la, ver- ga o tor- so in- tei- ro 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 O ros- toos- cil- la ver- gao tor- soin- tei- ro. 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 Nos bra- ços das mu- lhe- res des- gre- nha- das 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 Nos bra- ços das mu- lhe- res des- gre- nha- das

1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 Sol- tam- se- os pés au- gmen- ta o pran- to e a quei- xa 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 Sol- tam- seos pés aug men- tao pran- toea- quei- xa; 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 Só Ma- gda- le- na ao ou- ro da ma- dei- xa 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 Só Ma- gda- le- naao ou- ro da ma- dei- xa 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 Lim- pa- lhe a fa- ce que de man- so in- cli- na 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 Lim- pa- lhea fa- ce- que de man- soin- cli- na; 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 E no mei- o da la- gri- ma ma- is- lin- da 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 E no mei- o da la- gri- ma mais lin- da 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 Com o de- do a- brin- do a pal- pe- bra di- vi- na 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 Co’o de- doa- brin- doa pal- pe- bra di- vi- na 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 Bus- ca- ver se el- le a vê bei- jan- do o a- in- da 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 Bus- ca- vêr seel- lea vê bei- jan- doo ain- da. Fazendo isto o principiante, é conveniente praticar o mais possível em livros de prosa e verso, para conseguir com facilidade distinguir as syllabas grammaticaes das poeticas, e assim conseguir a metrificação justa e sonora. Para melhor comprehensão do exposto, aqui apresentamos regras geraes, princípios indispensaveis que se não devem absolutamente desprezar nem sequer deixar de ter presentes. Da contagem das syllabas REGRA 1ª. — Uma vogal antes de outra absorve-se nella, formando assim as duas syllabas uma só (os diphthongos são a explicação, ou melhor, a prova d'isto, pois, sendo juntados em vogaes, tem um unico som que não permitte á separação das vogaes, e formam uma só syllaba). A vogal que termina uma palavra absorve-se na outra que começa a palavra seguinte; e até no meio, quando concorrem duas vogaes, que podemos dizer brandas, ellas formam um unico som, e por isso uma só syllaba, — como, por exemplo: bondade infinita que lemos bondad'infinita; no meio da palavra: anciedade, o grammatico contará an-ci-e-da-de, o poeta contará an-cie-da-de, Camões. contava (como outros antigos) em saudade 4 syllabas — sa-u-da-de; isto, porém, ha muito caiu em desuso. EXCEPÇÕES DA REGRA. — Sendo a vogal muito forte, a absorpção d'ella na seguinte provoca uma assonancia, que convém evitar, como agora: vá eu, que ficaria vaêu, e só uma, que pronunciariamos souma. Vogaes de absorpção mais ou menos difficil. Ha vogaes mais fortes, mais duras, como sejam o o, que é mais forte que o a, o a mais que o i, o i mais que o e.

Pronuncia das vogaes Na lingua portugueza cada vogal tem diversas pronuncias: o a tem duas bem distinctas: mais forte na; 1ª syllaba de cára, menos forte na 2ª syllaba do mesmo vocabulo; em cará (palavra bem distincta) o primeiro a é menos aberto, o segundo abertissimo. O e tem quatro pronuncias: abertissima em Sé; aberta em mercê; surda na ultima syllaba de bondade, e finalmente como i na conjuncção e: é assim que, escrevendo tu e eu, lemos tu i eu. Para o o encontramos tres: abertissima em nó, aberta na segunda de pescoço, e surda, como u, na ultima do mesmo nome. O u não se modifica, é a vogal de menos substancia, é pronunciada pelos labios quasi fechados. Ás vezes é impe rceptivel na pronuncia, como em requinte, que é como se fosse escripto reqinte. REGRA 2ª. — A vogal mais fraca, menos accentuada e menos pausada, é a mais facil de absorver na que vem immediatamente depois: o que quer dizer que'as mais accentuadas, mais fortes e mais pausadas só se elidem violentamente. EXPLICAÇÃO. — Nem sempre elidir ou absorver é omittir. Omitte-se em saudade infinda, o ultimo e de saudade; mas não se omitte, ainda que pareça, pois que se deixa de contar, em canto amargo, o ultimo o de canto. Sempre que as duas vogaes se encontram e se embebem, sôam como uma só, como vimos acima. REGRA 3ª. — Duas vogaes concurrentes não só se elidem, quando a primeira não é longa, como podem elidir-se mais, se mais concorrem com igual requisito; em ciume e amor, estão absorvidas a primeira na segunda e a terceira e quarta na quinta,assim pronunciando ciu-mea-mor. Castilho oppõe uma limitação a esta regra, quando acha possivel a absorpção de quatro vogaes numa só syllaba, e cita gloria e amor que lhe parece gloramor. Acha isto um barbarismo, senão um erro. O ouvido (aconselha o mestre), é o melhor guia. Synerese e Synalepha A figura synerese absorve duas vogaes dentro de uma só; e a synalepha contráe duas syllabas em uma, na passagem de uma para outra. Castilho não liga grande ou talvez nenhuma importarncia a estas regras, seguindo, e é natural, o antigo poetar portuguez; no Brasil, porém, é isto muito observado. A applicação d'esta doutrina, já a expozemos na regra precedente, onde mostrámos que as syllabas do grammatico são amas e as do poeta outras muito diferentes. O ouvido, o ouvido é o melhor auxiliar. Modo de alterar o numero de syllabas São tres os modos conhecidos e acceitos de augmentar o numero das syllabas: no principio, no meio e no fim. No principio, Prothese; no meio, Epenthese; no fim, Paragoge. São figuras grammaticaes. Exemplo de Prothese ametade, por metade; de Epenthese: afeito, por affecto; de Paragoge: tenace, por tenaz. Levariamos longe as exemplificações, pois, como está explicado, o accrescimo no principio. meio e fim são permittidos, desde que não alteram a palavra na sua essencia, isto é, na sua origem e filiação. Diminue-se o numero das syllabas, em virtude de regras invertidamente similares, no começo, meio e fim. Apherese é a primeira figura, que a isto auctorisa; a Syncope auctorisa a suppressão no meio; e a Apócope, no fim. Exemplifiquemos: té, por até, isto permitte a figura Apherese; mór, por maior, concede-nos a figura Syncope; e a Apócope deixa-nos escrever marmor por marmore.

é mascara lustrosa. para esclarecimento das primeiras figuras. e onde o som é talvez mais frouxo. Todas as palavras cabem no verso: tenha o versificador paciencia. mas absolutamente não os tem. nestes casos. . deve haver summa cautela. como assignala Theophilo Braga. o accento predominante recáe na vogal mais aberta: — em aguia. em formulas resumidas e precisas: «Vogaes contráe a Synerese. Mas tu. a terceira. a quarta. a segunda. e o que mais se deve. assignalando-a. Bocage rarissimas vezes se valeu desses recursos. com que se pretende encobrir um defeito muito real. por todos os seis modos indicados. accrescentamos.» Advertencia de Castilho «No usar de qualquer das seis figuras sobreditas.» Das segundas: «Principios come a Apherese. no prefacio do Parnaso Lusitano. na terceira. em impertinente. Paragoge os augmenta. exemplificando. A Epenthese accrescenta. porém. que parecem ter dois accentos. no accento. no correr dos annos. em ananaz.Castilho. Exemplo: — em tampa. Synalepha. na pronunciação. na primeira. está no a da terceira syllaba. na segunda. Ha palavras. isto é. referindo-se á lingua portugueza falada em Portugal (Europa). Geralmente. Dentro a mesma dicção. conheça a lingua. que um continente diverso impõe. até aos mínimos escrevedores. «Bocage (estamos de perfeito accôrdo) de todos os nossos metrificadores o mais delicioso. muitas palavras. em esperança. o accento está na primeira. Dos accentos predominantes ou pausas O accento predominante ou a pausa numa palavra é aquella syllaba em que parecemos insistir. Se em duas vozes estão. em estupido. quando uma lingua soffre as modificações. todas as figuras que auctorisam viciar palavras auctorisam defeitos. em amado. satanicamente. O som mais ou menos aberto da vogal não influe sobre o accento. O uso geral de um povo altera. de todos os nossos metrificadores os mais duros e mais desastrados. Os melhores metrificadores são os que menos tomam taes licenças. quanto ao metro. o que o caracterisa. pois que o nome de figura. e no Brasil (America). e adquira um apuro superior de ouvido. não dão passada sem muletas.» Em conclusão. «Adulterar. os adverbios em ente. é o que determina a pausa. onde mais nos demoramos. a demora é. ficam sendo licitas. em impertinentissimo. Ferreira e Filinto. com a sua notavel comprehensão dos antigos (que os hellenos legislaram a principio em verso) diz. por propria actoridade uma palavra accrescentando-a ou a diminuindo (continua Castilho) é ousadia. exemplos: em amo — a primeira. depois de assim generalisadas. Todas essas alterações. absórvel-as. por exemplo: — furibundamente. A demora na syllaba.» Mórmente. em amador. Corta nos fins Apócope. A Prothese os inventa. a quinta. inculcar aos principiantes como carta de guia. No meio tira a Syncope.

Reparem que são dois vocabulos juntos. insupportavel. ou aguda a palavra que o termina. que não pôde deter-se em duas pausas. conforme está collocada. Palavras agudas. abacaxi. Exemplos de agudas: sol. cathedratico. e dá elegancia ao verso. visão. ou: Amo. desprezam-se as duas ultimas. estapafurdio. Clamo. nos versos agudos. de graves: pato. risonho Cherubim! . Porque Se inflamma? De tres syllabas Lindo sonho. porque é breve a ultima. miserabilissimo. todas as syllabas se contam. Gemo. Vem a mim! Vem. esdruxula. podem enganar o ouvido inesperto. a palavra é aguda. é sempre agudo. conforme é grave. capataz. Não ha dois accentos. a combinação de palavras em que entram e se misturam os tres generos. Tremo! Verso de duas syllabas Você Me chama. grave ou esdruxula. pernostico. Jacarepaguá. esdruxulo. Por capricho. embora sejam dois. e. Exemplo: Quem Não Tem cão?. cadeira. Compete ao bom metrificador.incongruentemente. Das especies de metros na lingua portugueza Temos na. de esdruxulas: tingido. O monosyllabo. ou surdo um). a esdruxula ou dactylica tem a antepenultima aguda e duas ultimas breves. Na contagem das syllabas de um verso grave. porque os ouvidos. Os poetas brasileiros modernos nisto excellem. percebem o mesmo som (a menos que sejam surdos. despreza-se a ultima syllaba. na das syllabas de um verso esdruxulo. Se a ultima syllaba é aguda. está claro. porém não o attento. a palavra grave tem o accento na penultima syllaba. graves e esdruxulas A syllaba longa é que dá á palavra o nome de aguda. Um verso é grave. lingua portugueza versos de duas até doze syllabas. ou agudo. alguns poetas inserem em suas composições versos de uma só syllaba. incontinencia. bofetada.

a madrugada. De nove syllabas Ai! que vida. Se acaso os olhos ponho. Que o cruza. que passa na terra Quem não ouve o rufar do tambor. mais outra. Minha querida! De cinco syllabas Ao ver-te. sanguinea e fresca. Não sei que senti. Não negues. és o cysne. De onze syllabas Cantemos a gloria dos nossos guerreiros. Quem não grita na força da guerra Ai! amor! ai! amor! ai! amor! De dez syllabas Vae-se a primeira pomba despertada. dezenas De pombas vão-se dos pombaes. .De quatro syllabas Eu nada espero Mais nesta vida Vês? sou sincero. Vae-se outra mais. emfim. Naquella creatura. eu vi! De seis syllabas Do meu viver medonho Esqueço á historia escura. Ficaste chorosa. e. sem que a alvura tisne Da aza no limo infecto e immnundo. De sete syllabas O’ doce paiz do Congo. formosa. apenas Raia. Doces terras de além mar! O’ dias de sol formoso! O’ noites de almo luar! De oito syllabas No horrendo pantano profundo Em que vivemos.

Um ponto apparece. Que entre verdores Se vêm brilhar. * * * Na seguinte poesia de Gonçalves Dias — ATempestade — ha todas as especies de versos. E puro. As estrellas. estanque o rio immenso dorme. Têm tudo que exalta. E tremulo. o annoso tronco informe Mira ao queimor do sol a retorcida fronde. Côr de rosa. O céo. E o prado e o monte E o céo e o mar. Da floresta no chão sumindo as aguas. onde cresce. que exprime valor. Seduz! Vem a aurora Pressurosa. Dourando a fonte. O sol desponta Lá no horizonte. Rutila. Que eram bellas. E um manto bello De vivas côres Adorna as flôres. que. onde Como combusto espectro. — excepto os de uma e doze syllabas: Um raio Fulgura No espaço. Que o dia entristece. A seus raios. Teem desmaios Já por fim. Esparso De luz. Se aviva. em ser brasileiros. Se esquiva. . São elles os bravos.Que á Patria seu sangue votaram sem dor. De doze syllabas Negro. Que se córa De carmim. putrido.

Fantasmas do genio do mal! E no turgido occaso se avista. atrôa. dentro em pouco. Logo um raio scintilla. Sentindo oppresso o peito De tanta inspiração. Eis outro inda mais perto.De negro a tingir. Que mudas fuzilam incertas. Bem como serpentes que o frio Em nós emmaranha. Troveja. Que um cauto. inda mais ronco. mas bella. Do norte ao sul — de um ponto a outro corre. Disséras que viras vagando Nas furnas do céo entreabertas. Estilham-se como as velas Que no largo mar apanha. E o vate um canto a medo Desfere lentamente. Ardendo na usada sanha. Ainda outro. fascinante. Um som longinquo. . e mais outro. Um clarão momentaneo que brilha. Oh! vede a procella Infrene. É mudo quanto habita Da terra na amplidão. veloz. Sem das nuvens o seio rasgar. — salgadas As ondas se estanham pesadas Batendo no frouxo areal. e. Que no ar se encapella Já prompta a rugir! Não solta a voz canora No bosque o vate alado. Subitaneo vendaval. A coma então luzente Se agita do arvoredo. Tem sempre a cada aurora. e na amplidão do espaço morre. Entre a cinza que o céo apolvilha. Como ovelhas assustadas De um fero lobo cerval. cavernoso e ôco Rouqueja. Que alpestres cimos mais veloz percorre. Fogem do vento que ruge As nuvens auri-nevadas. Qual centelha que. de inspirado. estoura. Se converte de incendios em mar. em rapido instante.

mirra o tronco.Devorador incendio alastra os ares. rutila. que no espaço ondeia. doudejam nos ares. que as nuvens devassa. E o penedo. os rios crescem. E o corisco num rapido instante Brilha. Emquanto a noite pesa sobre os mares. que os sentidos nos enleia. E os templos e as grimpas soberbas. Da chuva. Das ruínas completa o grande estrago. e fugiu. Inda ronca o trovão retumbante. Transtorna-se. Remeche-se a copa dos troncos altivos. É já torrente bravia. E emquanto a luz do raio o sol roxeia. já ruge do vento o pegão. que as rochas abala no cerro. Como tronco sem viço partiu. rebramam. fulge. Deixando a palhoça singela. . E atira-os raivoso dos montes além. Onde parece á terra estar collado. Inda o raio fuzila no espaço. Que viu crescer a enchente. O forte peso em turbilhão mudado. Parecendo mudar a terra em lago. Os troncos enlaça nas azas de ferro. Da nuvem deusa. E nas turvas ondas rolam Grossos troncos a boiar! O corrego. Humilde labor da pobreza. Da nossa vaidosa grandeza. Nos ultimos cimos dos montes erguidos. Estorcem-se os leques dos verdes palmares. Rasga-se o negro bojo carregado. que inda ha pouco No torrado leito ardia. Mas ai do desditoso. E o vento. doada. Mas se á terra desceu. Que da praia arreda o mar. Cresce a chuva. Em breves momentos é pó. Volteiam. Nivela os fastígios sem dó. Que a foice do tempo poupára. Até que lascados baqueiam no chão. Cega o triste que iroso ameaça. baqueia tambem. Já silva. Palacio ou mesquita preclara. Pobres regatos se empolam.

Mais desbotado. Dão antes crua morte. Nitente. Vacilla. Palpita. Quando desce. Inda outro arqueia. fluctuantes. A folha Luzente Do orvalho. Inteiros. Como a virgem. numa hora. Que sembram primores De um novo arrebol. E a curva altiva Sublima ao céo. e córa. Tal a chuva Transparece. E inda vê-se O Sol luzir. Que asylo e protecção! Porém no occidente Se ergueu de repente O arco luzente. A gotta Retráe. De Deus o pharol. Como embotado De tenue véo. E torna a rir. Que imitam as flôres. Que. E os tectos arrasados. . Succedem-se as côres. Mais grossa. Ri-se. Depois chora. E a base viva De luz esquiva.E desce descuidoso Ao valle. Hesita. quando sente Crescer de um lado e de outro O mar da alluvião! Os troncos arrancados Sem rumo vão boiantes. Nas aguas pousa. Quasi apagado.

. Dos versos graves. só em combinação artística desempenham o seu papel real. todos da ctylicos: maximo. com as quaes a sua toada tem uma secreta affinidade. Apreciando as suas qualidades. constando tão sómente de versos agudos. O que eu fiz. Dos versos esdruxulos em geral O verso esdruxulo. por assim dizer. grandissmo. reunidos propositalmente e em grande numero. talvez. isto é.. se estamos ausentes. por isso. Não é verdade que o mesmo tom material d’estes adjectivos assim tem alguma coisa de representativo?» Seriam interminaveis as citações. — os arcades. senão insupportavel. amplissimo. que é a idéa representada pelo som: ribombar. convém notar que os esdruxulos em abuso. Como neste caso: . o que fizeste. Aquillo que eu não te disse. etc. altissinto. uma composição poetica. que. descaindo para o vulgar ou ridículo. humorístico ou satyrico.E treme. sussurrar. por exemplo. Exemplo de agudos combinados com versos graves. são os versos graves mais numerosos. Porque? Como já dissemos. Dos versos agudos em geral Os versos agudos não sôam com tanta suavidade como os graves. principalmente na onomatopéa.. em todos os generos da nossa poesia. Considerae os superlativos. a idéa de extensão ou grandeza. tornando-se agradaveis ao ouvido. ainda um soneto. v. vastissinto. Porém. os esdruxulos empregados com sobriedade conseguem todo o effeito que visam. produzem um effeito contrario. Tudo nos lembra. optimo.. sobre serem na lingua portugueza limitados. troar. É isso acceitavel em composições de genero burlesco. bonissimo. parece que os espera: Dar-se-á maior creancice?! Somos dois indifferentes. Entretanto. se ao outro um não vê. assim como na italiana e na hespanhola. Os agudos. Porém.. Dos versos graves em geral Os vocabulos portuguezes na sua maioria são graves. O que tu não me disseste. que não existe na metrica franceza (porque a lingua franceza não possue palavras esdruxulas) é frequentemente empregado na metrica portugueza.. g. é sempre monotona. E cáe. agudos e esdruxulos Os versos graves predominam por serem os mais numerosos e mais agradaveis. diz Castilho: «Idéas ha. Peccáram por isso muitos poetas (hoje quasi esquecidos). profundissimo.

Costumam agora os lyricos Versos fazer neste estylo Tu és isto. por fim. eu assim. Dos de seis syllabas Quatro são os modos de decompôr estes versos: em tres metros de duas syllabas. ou em um de duas e outro de quatro. — tres metros de duas syllabas: 1 2 Do meu 1 2 Vi ver 1 2 Me donho Anjo sem coração. Ficaste chorosa. ou em dois de tres. Os metros podem dividir-se em metros elementares ou simples. formosa. que se desfolha No verde chão do jardim. pois podem ser reduzidos. outro de tres: Ao ver-te. Composição dos versos de cinco syllabas Compõe-se cada um destes versos de dois: um de duas syllabas. todos os Outros metros são compostos. para quem começa a fazer versos. tres e quatro syllabas. partidos em dois ou mais de dois. isto é. Não sei que senti. e metros compostos.. Á primeira d’estas classes pertencem os versos de uma. dá um extraordinario apuro ao ouvido e uma technica perfeita. eu sou aquillo. 1 2 Ao ver 1 2 3 Te for mosa 1 2 Não sei 1 2 3 Que sen ti 1 2 Fi cas 1 2 3 Te cho rosa 1 2 Não ne 1 2 3 Gues eu vi Estão ahi marcados os numeros e as pausas.Tu és flôr: as tuas petalas O orvalho lubrico molha. obedecendo á ordem musical.. É de proveito. ou. Dos metros simples e compostos em geral Já deixámos especificadas as doze variedades de versos. que nisso se adquire. A pratica. decompôr os metros que a isto se prestam em metros simples. duas. Tu és assada. — dois de tres syllabas: . Eu sou flôr. eu vi. em um de quatro e outro de duas: Do meu viver medonho.. Não negues.

que poderiamos multiplicar. Entre nós. principalmente em uma composição longa. outro de quatro: 1 Vê 1 2 jam só 1 2 3 4 Que de sa linho O noivo fedia a vinho: um de duas. outro de duas. outro de tres e outro de duas: 1 2 O noi 1 2 3 vo fe di 1 2 a vinho Bastam estes exemplos. para tornal-o o mais deleitoso possivel. — um de quatro e outro de duas syllabas: 1 2 3 4 Que eter na men 1 2 Te vel-a Todos os versos de seis syllabas são bons. por exemplo: em um verso de uma. No horrendo pantano medonho. — assim se decompõe: 1 2 No horren 1 2 . De sete syllabas Differentes modos ha de dividil-os. De oito syllabas Os antigos poetas portuguezes pouco empregaram este metro. convém entremearem-se de todos os padrões. para fugir á monotonia. É bom sempre variar o septisyllabo na contextura. o proprio Castilho cultivou-o duas ou tres vezes. Entretanto. se não é muito commum. porém os melhores são os que se reduzem a tres metros de duas syllabas.1 2 3 An jo sem 1 2 3 Co ra ção Naquella creatura. não deixa de ser amado. — um de duas e outro de quatro syllabas: 1 2 Na quel 1 2 3 4 La cre a tura Que eternamente vel-a. porque sempre soam bem.

é o mais bello da lingua portugueza. e é susceptivel da maior variedade. ou heroico ou ainda decasyllabo. Vejam de quantos modos é possivel dividil-o: Da doce luz do plenilunio de ouro. Rolaram numa esplendida carreira: 1 2 Ro la 1 2 Ram nu 1 2 Ma es plen 1 2 3 Dida car reira E inda tenho presente a cambalhota: . e dois de duas. em que vivemos és o cysne: 1 2 3 4 Em que vi ve 1 2 Mos és 1 2 O cysne Ou ainda em quatro versos de duas syllabas Que o cruza sem que a alvura tisne: 1 2 Que o cru 1 2 Za sem 1 2 Que a alvu 1 2 Ra tisne De nove syllabas Exemplo: Ai! amor! ai! amor! ai! amor! Póde decompôr-se em tres versos de tres syllabas: 1 2 3 Ai! amor! 12 3 Ai amor! 12 3 Ai amor! De dez syllabas Chamamol-o italiano. presta-se á expressão de todas as idéas.Do pan 1 2 3 4 Ta no me donho O octisyllabo tambem se pôde dividir em um verso de quatro syllabas.

Cantemos a gloria dos nossos guerreiros: 1 2 3 4 5 Can te mos a glo 1 2 3 4 5 6 Ria dos nos sos guer reiros ou em um verso de duas e tres de tres syllabas: 1 2 Can te 1 2 3 Mos a glo 1 2 3 Ria dos nos 1 2 3 Sos guer reiros De doze syllabas ou alexandrino (*) . mas não porque hei peccado: 1 2 Pe quei 1 2 Se nhor 1 2 Mas não 1 2 Porque hei 1 2 Pec cado Da vossa alta bondade me despido: 1 2 3 Da vossa al 1 2 3 Ta bon da 1 2 3 4 De me des pido São sufficientes estes exemplos De onze syllabas Chama-se tambem este verso de arte maior„.12 E in 1 2 Da te 1 2 3 Nho pre sen 1 2 3 4 Te a cam ba lhota Pequei. Senhor. podemos decompol-o em um verso de cinco e outro de seis syllabas.

de Châteaudun. e erige uma longa e persistente pratica. que não é usado na metrica italiana. vogal ou consoante. porém é indispensavel observar que dois simples versos de seis syllabas nem sempre fazem um alexandrino perfeito. como o h. quando a ultima palavra do primeiro verso é aguda. formado de dois versos de seis syllabas. Este verso alexandrino: dava-lhe a custo a sombra escassa e pequenina. Alguns poetas modernos. a elisão do a de sombra com o e de escassa é perfeita. o legitimo. á luz da fé. 2° a ultima palavra do primeiro verso nunca pode ser esdruxula.» Este verso compõe-se geralmente de dois versos de seis syllabas. este amor. Assim o seu uma é uma dupla allusão ao nome do heróe e ao do trovador. Mas o alexandrino classico o verdadeiro.(*) O verso alexandrino. á luz de Deus! 1 2 3 4 Á luz da cren 1 2 3 4 Ça á luz da fé 1 2 3 4 Á luz de Deus ou em dois de tres e um de seis syllabas: Este amor. e para ella chamamos muito especialmente a attenção dos principiantes. para que haja a elisão. ou melhor. é o que obedece a esse preceitos. Mas se. mas não seria um alexandrino. Em dois versos de seis syllabas: Bailando no ar gemia inquieto vagalume 1 2 3 4 5 6 Bai lan do no ar ge mi 1 2 3 4 5 6 A in quie to va ga lume ou em tres de quatro syllabas: Á luz da crença. porque. a primeira do segundo Pode indiferentemente começar por qualquer lettra. É uma creação franceza. este meu louco amor! 1 2 3 Es te a mor 1 2 3 . O verso alexandrino é o mais difficil de manejar. trovador normando do mesmo seculo. por ter sido methodicamente empregado na composição do famoso Roman d’Alexandre le Grand. Claro está que. Esta regra é essencial. em vez da palavra escassa houvesse alli a palavra fraca. — poema começado no seculo XII Lambert Licors. a primeira palavra do segundo deve começar per uma vogal ou por um h. no ponto de juncção dos dois metros reunidos (*). seria um verso de doze syllabas. nem hespanhola. Só depois de Bocage começou a ser empregado na portuguesa. Escreve Quitard: «liste vero chama-se alexandrino. — o verso assim composto — dava-lhe a custo a sombra fraca e pequenina — seria um alexandrino errado. Quando o primeiro verso de seis syllabas termina por uma palavra grave. está certo. e continuado por Alexandre d Bernay. desprezando essa regra essencial têm abolido a tyrannia do hemistichio. Alguns exemplos do modo de reduzil-o. a outra deve começar por vogal ou consoante muda. A lei organica do alexandrino pôde ser expressa em dois artigos: 1° quando a ultima palavra do primeiro verso de seis syllabas é grave.

Es te a mor 1 2 3 4 5 6 Es te meu lou co a mor ou ainda em seis de duas syllabas: Sem ar! Sem luz! Sem Deus! Sem fé! Sem pão! Sem lar! 1 2 Sem ar! 1 2 Sem luz! 1 2 Sem Deus! 1 2 Sem fé! 1 2 Sem pão! 1 2 Sem lar! _______________

OBSERVAÇÕES 1ª Os versos podem estar certos na medida, repetimos, mas podem não ter melodia. Convém evitar as palavras de difficil encaixe, que são as de pronunciação custosa. Evitem-se igualmente as cacophonias, intoleraveis na prosa e muito mais nos versos. Assim tambem os hiatos. Os poetas portuguezes abusam das figuras de que já falámos, quando escrevem F’liz, por feliz; mol, por molle; ou esp’rança, por esperança. Todas as palavras cabem no verso sem mutilação, tenha o metrificador cuidado, pericia e paciencia, sem o que não fará bons versos. As más rimas são imperdoaveis. 2ª Aos poetas humoristicos são permittidas certas liberdades. O visconde de Castilho, por quem sempre nos guiámos, escreveu os seguintes versos na sua traducção do Fausto de Goethe: «Catava-se um rei, quando acha, Nas suas meias reaes, Uma grande pulga macha, Pae, avô e Adão das mais ............................................. No clero, nobreza e vulgo Foi immensa a admiração A primeira vez que o pulgo Se mostrou de fardalhão.» Não existe macha nem existe pulgo. Mas o valor do mestre auctorisa a tolerancia. Não aconselhamos o abuso; recommendamos criterio aos versificadores. Outro exemplo de um poeta tambem celebre: «Mandou-me o senhor vigario

Que lhe comprasse unia lampada, Para alumiar a estampa Da senhora do Rosario» __ Dos exercicios metricos Primeiro Conhecida a theoria até este ponto, deve o principiante habituar o ouvido á cadencia dos diferentes metros, principalmente do heroico, do de seis syllabas e do de sete, que é a redondilha, o mais popular dos versos dá lingua portugueza. O melhor, para fixar o rhythmo na memoria, é procurar uma especie de cantilena para cada especie, obrigando as pausas e os tempos a firmemente se caracterisarem. Uma vez ajustada ao verso a toada musical, nenhum verso sem medida certa escapará ao metrificador. Segundo O que mais convém ao principiante, é não se preoccupar muito com o que é a poesia em si, procurando de preferencia surprehender o segredo do verso e assenhorear-se da sua mecanica. Praticar e praticar muito; o resto virá depois. O pensamento só deverá ser aproveitado, quando todas as subtilezas da arte do verso estiverem tão desvendadas e tão familiares as suas modalidades, que o verso salte espontaneo da mente para a graphia, sem prejuizo da expressão que deve ter, nem da emoção que pretende communicar. Sem desenho não ha pintura, sem tempos não ha musica; sem regras e proporções não ha architectura nem esculptura. Deve o que começa ensaiar-se no verso mais accessivel, que é a redondilha, não procurando combinar idéas, exprimir pensamentos, mas reunindo palavras desconnexas, porém que se ajustem, e dêm o verso sonoro e cantante, com todos os requisitos exigidos pelos mestres. Chamam-se estes versos nonsenses (denominação dos inglezes). Senhor uma vez da metrica de um verso, tente o discipulo os outros, sem ordem, mas buscando conhecer e aperfeiçoar-se em todos, até o alexandrino. Dos versos duros São duros os versos em que entram palavras de pronunciação desagradavel ou difficil; aquelles em que abundam os monosyllabos fortemente accentuados; aquelles em que se repete consecutivamente a mesma consoante, como em tem tres tios, ou em sem ser são; e, final mente, aquelles em que, na contagem das syllabas, se fazem elisões forçadas. Dos versos frouxos São frouxos todos os que dão logar ao hiato, isto é, quando a vogal ou o h mudo não se absorve na vogal seguinte, como A estrella baixou no horizonte. De sombra faço-os e possa fazei-os, — é tambem um máu verso, porque tem uma pausa forçada na conjuncção e.

Versos monóphonos Eu sei talvez direi Lagrimas nalma faces apagadas. Vi, ouvi, mas sentir quiz, impossivel! Em opposição, justamente para condemnar os monophonos, este, em que entram differentes vogaes, que obtêm outros tantos sons: «Protuberancia olympica do seio.» Versos cacophonicos Seja qual for a cacophonia, indecente ou não, é sempre desagradavel, ou melhor, intoleravel. «Amar ella, eis meu triste e duro fado!» «Andromacha te implora...» Não queremos citar exemplos menos decorosos. ___

Vejamos os valores de algumas lettras do alphabeto. Da lettra A A primeira, a mais facil, a mais franca, a mais frequente. Exprime alegria; admiração, carinho, enthusiasmo. «Amava-te, minha amiga...» «Bramia o bravo mar alevantando» Em todas as composições em que o A insiste, ha sempre uma expressão bôa e agradavel, como nesta propria palavra. Chamam-n’ a todos a lettra por excellencia. Da lettra E Já esta não tem o mesmo valor onomatopico, nada representa por si, parece um som apertado do A; exprime molleza, calma, pacificidade. Tem pouca distincção e quasi nenhuma qualidade musical. Da lettra I O I, que parece um grito, dá entretanto a idéa de estreiteza e pequenez. Entra em todos os diminutivos, que, sendo uma riqueza para nossa lingua, a tornam, ás vezes, monotona e ridicula, principalmente quando levados ao exagero, o que é mais que commum na linguagem familiar: dormindinho, por exemplo, agorinha, pequititinhozinho.

. em xarope. gago. a dura necessidade da rima obriga o versificador a empregal-os com valor similar. meiguice. e um tombo. — o primeiro é brando e melifluo. subtil. mais forte. silva a serpente. e assim confunde-se com o K. zabumba. é funereo. porém é mais clangorosa. e triste. mórmente depois de O e U. de proposito. que. seguido de H. — como guê para exprimir objectos difficeis ou resistentes. tigre. resistencia. as pancadas seccas. Da lettra U O U. coruja.. bradar. Cicia a brisa. mais imperiosa. o valor de Q. como angustia. o segundo. como em convexo. tatú. animoso e forte. tenue e incerto. Como X. É frequentissimo o seu uso por esta mesma razão. como em urubú. bater. porém mais energicas em suas representações. São evocativos tambem. resôa com vi or. como em ribombo. Notem: «O A é brilhante e arrojado. No fim de syllaba. como. tropeços. ao lucto. S e Z nos finaes das palavras confundem-se. como amor. não podemos deixar de parte o que diz Castilho. AS LETTRAS D e T.» Das consoantes As consoantes tem tambem o seu valor peculiar. salvo quando o Ch tem. Isso não importa. elle entra com seu peso lugubre. pois que é expresso com a bocca quasi fechada. em escangalhar. etc. o V mais brando. como em exame. AS LETTRAS C e S soam naturalmente e muitas vezes se confundem. O X sôa ás vezes como ecs. como acontece na lingua portugueza. com valor proprio. So ns imitativos de inanimados e viventes. As quédas repentinas. de variedades de uma só especie. embalar. o N é como se . Recapitulando. não passam. por exemplo. o I. A primeira sôa como gê e como guê. lucto. do K e do Q. do C aspero. graphia. baralhar. se bem que tenha o Z um som mais energico. o U. O M entra docemente nas palavras que tocam o coração. parece ainda mais francamente aberta. luva. ou não seriam lettras. matraca. O V é o F mais aspero. O N em fim de syllaba é como o M.Da lettra O Esta tem toda a energia. á tristeza. mornarchia. quasi como o A. garrar. por exemplo. em charuto. o F. o E. são a prova do que affirmamos. Confundem-se muitas vezes os sons respectivos. tim-bum. Ph e V formam-se do mesmo modo nos labios. pum lembra um tiro. estalidos. Em descripções epicas o seu valor é notavel sempre. só differindo a. que muito obedece á sua etymologia. por assim dizer. O B e o P guardam muita semelhança entre si. Até em especimens da natureza que nos causam repugnancia. parece apropriado sempre aos sentimentos negativos. dar. Bumba. como em Chronica. tiros. L e Lh. frisa assim os valores das vogaes. prolonga o som. É de notar que estas lettras exprimem. e significam fortaleza. pois o som é sempre o mesmo. chinelo. uma pancada. assopra o vento. valentia. como z. amigo. Tumulo. O C sôa como Q em caco. como em molle. som que parece abafado. mamãe. o O. Das lettras G. são como o B e o P. O Ch e o X soam de igual modo. carrancudo e turvo. lembra-nos uma quéda. sepulcro. F.

ou na semelhança de vogaes na syllaba breve. Uma só palavra não chega ás vezes para expôr uma idéa. trabalho. Por isso julgamos que em composição alguma de versos se deve prescindir da rima. de modo a evitar a pobreza e a monotonia. — depois a arte. Exemplos: mão. etc. pranto. (Dies irae. pôde escrever. porém hoje estão em desuso. finalmente. As em ão. murmurio. que contém a mesma vogal ou diphthongo. martyrio. e frisando-o quando lêem.. antes disso. e alguns ha admiraveis entre os classicos portuguezes e brasileiros. são as que apenas se conformam na pausa. á excepção dos poetas hespanhoes. já ella tinha sido usada pelos poetas francos.. igualmente. ler o maior numero de classicos auctorizados. e todas as idéas ganham com palavras novas. etc. Dos versos soltos e rimados.) As rimas podem ser consoantes ou toantes. de todas as artes a mais difficil. Merito das rimas Nem todas as rimas têm o mesmo merito. conhecer-lhe as origens. para a de um adverbio. estanho. mas. Exemplos: dá. torrente. em geral Os versos soltos já tiveram grande voga. para ter grande valor. arabes da Hespanha transmittiram o uso da rima aos trovadores de França. O R é fortissimo. em prega as rimas toantes. que d’elle tiram o melhor partido. um verbo. Stabat mater. reclamam maior attenção para o. para depois se arriscar á arte difficil do verso. As rimas. Já ninguem. a filiação. Divisão das rimas Rima é a uniformidade do som na terminação de dois ou mais versos. da Africa e da America. que quasi sempre sacrificam a emoção. recolhido. desde a vogal ou diphthongo do accento predominante até a ultima lettra. Mas não aconselhamos o abuso das rimas difficeis. Deve-se procurar para a rima de um substantivo. Toantes. Só depois de tudo esmiuçado. como em arranco. a coincidencia da ultima vogal fórma uma rima toante. Consoantes são as que se conformam perfeitamente no som. que se lhe siga. encantam. Os. dá uma idéa de coisa liquida. ado. ella já existia entre os mais antigos povos da Asia. — como nos Evangelhos Rimados do monge Otfried (seculo IX). Lexicologia Deve o poeta estudar com affinco a sua lingua. e nelle está o recurso de muitos poetas. que trará o deleite e a victoria. Segundo Vossins. Ella é indispensavel. soporifero. É duro e tremulo. Pange lingua. etc. As rimas chamam idéas. ar. finissimo. A lingua em primeiro logar. devem ser de indole grammatical differente. Sem grande cópia de vocabulos sempre será falha a enunciação do pensamento. charco. e por muitos auctores de hymnos religiosos. etc. empregando-o com habilidade quando escrevem.. moral. Muito se tem discutido sobre a «historia da rima». os substantivos e os adjectivos bem combinados são os vocábulos que dão . ava. cortezão. são vulgares. Somos por isso de parecer que todos os versos devem ser rimados. assas. registrado e analysado. issimo. Os verbos. Varios psalmos dos hebreus são rimados. mamão.ficasse molhado. um adjectivo.

vejam-se as composições que .» Rimas misturadas: «De uma eu sei. Que cheguei a estimar. para bem explicar todos os modos de. E. a canção Pouco a pouco enfraquecia Do dia ao teme clarão.» Mas. certo. Um palacio construiu todo d’oiro. á vasa fria. em geral. em piscinas de luxo. e o do centro com os extremos do terceto se guinte. Exemplo de rimas cruzadas ou entrelaçadas: «Pouco a pouco se perdia. é mister explicar o modo de compôs as differentes especies de estrophes. A rima deve ser rara para não ser corriqueira. que é rematada por um quarteto. disposição das rimas. sextilhas. o Califa. Tres são os modos principaes: rimas cruzadas. Rimas em parelha: «No outro tempo em Bagdad Almansor. como indica a denominação. quintilhas. Tercetos Compõem-se os tercetos de tres versos. quadras e decimas. a alcatifa De jaspe.» ou ainda: Entrega ao mar a tua magua. com as rimas em cruz. empregam-se tercetos. em frente d’esse asylo.. entretanto. mas não tão rebuscada que possa parecer ridicula. Da disposição das rimas De differentes modos se podem dispôr as rimas na estrophe. oriental. Desce ao fundo do mar. Por ser tão desgraçada! Tive-a hospedada a um canto Do pequeno jardim Era toda riscada De um trago côr de mar. até o fim da composição.. Exemplo (*): (*) Para mais exemplos de todas as fórmas metricas que citamos. rimas misturadas. rimas em parelha. Na metrica brasileira. E um traço carmesim. Chovem aurea poeira as fontes em repuxo. O negro espectro. não fluctua. o verso primeiro com o terceiro. oitavas. Rimam. a columnata em porphyro e o frontal De toda a pedraria asiatica.as rimas mais dignas de um bom poeta. Fia Das crespas ondas a amargura tua: Dôr de tal peso.

mas isso passou. calma. estendida. e á vida Tornando.. como: «Quando os tens olhos para mim levantas Minha alma dentro d’elles se ajoelha. Inda fitava a turca. Castilho condemna as sextilhas. a pelle de urso. e no chão está. espavorida. Tiveram.. Tu sentes do futuro a grande gestação! Nossas almas viris. Oitavas A oitava antiga tinha rimas obrigadas. de tal sorte. As nuas arvores agita. bandeira Havemos de plantar teu grande pavilhão! ou ainda: O frio lúgubre se entranha Pela floresta que tirita. Olha. pois variam immensamente. que é como o de uma ovelha. ao peso de impressão tão forte. aguias das cordilheiras. com o oitavo. E eu vejo logo as illusões mais santas. «Nisto calou-se o monstro. Sextilhas. Como um fulvo tapete. Que demonstrava a não deixar tão cedo. está mais livida que a morte. Quando os tens olhos para mim levantas. Não achamos motivo para isso. com o quarto e com o sexto. são dignas de cultivo. O vento. ao principio. . E a neve põe sobre a montanha O seu branco burel de carmelita. Porém. As sextilhas podem rimar de qualquer maneira. Ao contrario. e erecto e quedo. como se vê nos Lusiadas. Fulgurando na minima centelha Do teu olhar. e o setimo.» Era esta a forma antiga das elegias e das epistolas. Subito acorda a desgraçada.transcrevemos na 3ª parte d’este trabalho. com guerreira sanha.» ou: O’ patria brasileira! ó terra das montanhas! Um embryão immenso agita-te as entranhas. O primeiro verso rimava com o terceiro e com o quinto. suando frio. Oppressa. o segundo. Remontam para o sol! Entre as livres. rimas obrigadas. Ainda escutando o tragico discurso.

Olha-me bem. Sei quanto ella transfigura.» As estrophes de nove versos caíram em completo desuso. o 6° e 7° com o 1O°. De mim afastas o rosto. um exemplo tirado da poesia popular: «Até nas flôres se encontra A differença da sorte: Umas enfeitam a vida. Da casa em que nós moramos. não me conheces.. ha mais liberdade. Elles. e segundo requer ou impõe o assumpto.» Quadras São estas as estrophes mais cultivadas. Pois tanto pôde o desgosto Transformar o rosto meu? Sei a afflicção quanto pôde.» Outro : «Tu me falas. que sou eu. Outras enfeitam a morte. á vontade do poeta. pelo menos no Brasil.. Os poetas populares rimam apenas o segundo e o quarto versos. Decimas Dividem-se estas estrophes em duas sub-estrophes. mas os metrificadores escrupulosos rimam os quatro (em rimas cruzadas): Exemplo: «Como é bello ter-se em frente. e eu te faio. me consolam.Hoje. . uma de quatro versos. e mais as flôres. porém. calo.» Finalmente. Sirva de exemplo esta oitava de Gonçalves Dias: Mas que tens. porém. Exemplo: «Amigo. e mais o sol. o 2° com o 3°. estes aligeros tenores. Rimam assim os versos: o 1° com o 4° e o 5°. no exilio em que vivo. São os unicos bons consoladores. E eu não vivi na ventura. ó 8° com o 9° Quatro rimas diversas. Que. outra de seis. Um verde mundo de ramos. Nem a mim proprio direi O que penso. Quintilhas São estrophes sempre agradaveis e rimam indiferentemente. Que papeiam gazis e rouxinolam. O que me dizes não sei. Um claro jardim florente.

Tudo acabarei por fim. ou vós me haveis de entender. E pinta o Pereira. Torneando o claro verso e alando a rima. não trata. variando apenas e quasi sempre de mais aberto para mais fechado e vice-versa.» ____ As estrophes misturadas. porém pôde a decima ser feita como se se compozesse de duas quintilhas juxtapostas Aqui estão quasi todos os padrões de estrophes. são elegantes. como neste soneto Ás mãos erguendo a lyra de ouro fino. e principalmente para o de harmonia imitativa: Tibios flautins finissimos gritavam. sempre desagradavel e não sei se algo haverá que a sanccione. as que não obedecem a igual medida de versos. isto é. bem mais. E. a homophonia pôde dar-se por exigencia artistica. Pois gastas todas as tintas E a metade tu não pintas Do que elle proprio ha pintado. da rima. e nesta a uniformidade de som. pinta Esse typo endiabrado. para fazel-as. Eram muito usadas nos villancete: Exemplo: «Querer-vos não posso assim. Não exemplificamos por ser ocioso. se não offerecem contraste ou opposição de som. preta. Porém pinta com cuidado. Do que me quereis a mim. hoje antiquadas. Que. Caso assim só me queiraes. o mesmo deve exigir-se das rimas quando se partilham ou alternam. preta. . pára certos effeitos.» Esta é a maneira classica. fatalmente acarretam monotonia. é. Crotalos claros de metalcantavam Os versos — salvo estes casos de effeito procurado — sendo tanto mais euphonicos quanto mais sortidas trazem as vogaes. porém. Ou morro por vos querer. as curvas harpas de ouro acompanhando. Rimas que se acostam umas ás outras ou se defrontam em vizinhança. Querendo-vos eu. preta. Mais que a preta mais retinta. No primeiro caso. ao meu ver.Exemplo: «Carrega o pincel na tinta E deixa a tua palheta Preta. basta conhecer todos os metros e entresachar uns com os outros. Não falamos das estrophes de 7 versos. se bem que engenhosas. Da homophonia do verso e da rima (*) «Da homophonia do verso trata Castilho.

mas se a lingua atravessava ainda um periodo de formação. Um Deus consolador. que toda está coalhada . Com tardo pé caminha o delinquente. quando o surprehende um hymno. e assi ajuntados. meu destino? Com a doirada harmonia e brando accento. Duro nó pelas mãos do algoz cruento Estreitar-se no cóllo o réo já sente. o valle é prata. Que da occidental praia lusitana etc.. Que voz aquella! que trovar divino! Diz elle — Nada sei que aquillo exprima. e os barões assignalados. teriamos abundante messe de exemplos do caso em questão. Cae-lhe a lyra das mãos na trova ingrata. Parecem-me. D’onde jorra este magico contento? Donde? — lias nisto a voz lhe falta e esfria. A campina. Bate horror sobre horror no pensamento. Sae a alma dentre os véos da humanidade.. No maior poeta epico das linguas novilatinas. Admira como o apuradissimo ouvido de Elmapo se não sentiu da falta de contraste da accentuação tonica final em tão bellos versos. lhe vigora o sofrimento.. minha musa? ou. entretanto. A Portugueza furia costumada Em breve os Mouros tem desbaratados. Olhos e ais dirigindo á divindade. Ao termo expiador da iniquidade. em Camões. Folga a Justiça. anceia a mente. O ar azul se torna. Das leis se cumpre a salutar dureza. e geme a — Natureza. indesculpaveis oitavas como esta: E com a famosa gente á guerra usadas Vae socorrer o filho. envolto nas sombras da tristeza. e principalmente á rima. Mutiplicada a morte. Será a voz de Ariel que se lastima? Serás tu. Sóbe. E elle adormece á ultima harmonia. Ia cantar. maior progresso não tinha a arte do verso no que respeita ao apuro de fórma.O poeta em doce voz que o espaço anima. desde a estancia com que abre os Lusiadas: As armas. um Deus clemente Lhe inspira. O mesmo defeito tem o afamado soneto bocageano: Ao crebro som do lugubre instrumento.

como já de ha muito se protesta contra a do verso.» Terceira Parte GENEROS POETICOS Em cinco generos differentes se pôde exercitar a creação poetica: — epico. Aos poetas brasileiros. lyrico. Além d’este.De marlotas. — e . a myrrha. que se póde definir: «narração poetica. por vêl-a. capuzes variados. no periodo fabuloso ou heroico da sua vida. jaêzes. vi. escreveu um soneto que assim começa — salvo o erro de memoria na feitura de um ou outro verso —: Todo o Oriente corre a recebêl-a: O nardo. á canella. que podia colher em poetas brasileiros e portuguezes dos mais distinctos. Lustra com o sol o arnez. Pelas concavidades reboando. do mesmo auctor publicado um outro soneto cujas rimas nos quartetos são em ôres e óres. De seus senhores mortos cheia fica. a lança. que nasceram das legendas e tradições dos povos. Vão rinchando os cavallos jaezados. Luiz Delfino. Estes exemplos e outros muitos. Entre os poetas brasileiros. (Collecção Levantinas). CVII). O sandalo e a baunilha estão por ella Azas de aróma a levantar. o aloes. (Canto III — Est. primitivas. não devem ser imitados. a espada. como os que mais o são. de caracter legendario ou historico». A canora trombeta embandeirada Os corações á paz acostumados Vae as fulgentes armas incitando. ha tempos. De cavallos. tão excellentes cultores da fôrma. (Canto III — Est. GENERO EPICO O molde do genero epico é a — epopéa. LXXXI) ou esta: Mas já com os esquadrões da gente armada Os elborenses campos vão coalhados. Ha epopéas espontaneas. satyrico didactico. apezar de nada até agora se haver legislado neste sentido. cabe de direito louvor pela iniciativa de protestar contra a homophonia da rima. dramatico. prêsa rica. um dos maiores. em que se celebram acções heroicas.

cabe a qualificação de — «epopéas artificiaes. começou a declìnar. na França e na Allemanha. já ninguem hoje admitte a existencia real desse poeta fabuloso. etc. e assignalando uma phase critica da historia da humanidade. que se define pela passagem gradual da poesia objectiva. São rapsodias. A epopéa natural foi a fórma mais antiga da poesia grega. o Scha-Nameh ou Livro dos Reis (poema pema. e os outros heroes do cyclo carlo-vingio são os protogonistas das Canções dos Gestas (gesta. porque. composta de 214. ha a narração das lactas da tribo desse nome com o poderoso Atila. Ás primeiras. de todas as outras. Nos Niebelungen. e Carlos Magno. em virtude de uma lei dei progresso. Typo da epoca: a Eneida. os Niebelungen e as Canções dos gestas (poemas heroicos). com as Canções dos Gestas e os Niebelungen. mas sem admiração. herdeira da civilisação grega. depois dos trabalhos de Benthley. só se conhecem na Europa epopéas artificiae A Divina Comedia. para de todo se extinguir no seculo XIV. organico. são o producto collectivo do trabalho de varias: gerações. quando. Theseida. modelos que imitassem os seus typos litterarios produziram-se. devidas á collaboração de varios creadores. Wood. só a Pharsalia de Lucano ainda consegue ser lida com benevolencia. para a poesia lyrica propriamente dita.» (*) Em Roma. creados numa epoca em que se não conhecia a escripta. de Dante. embora enquanto á musica e outras particularidades exteriores os gregos recebessem influencia dos povos com que se achavam em contacto não tiveram. D’ahi por diante. e outros. já não houve epopéas naturaes. já Flavius Josephus o considerava uma ficção. augmentadas. como os romanos. significava: chronica de heroes).000 versos). Africa. de Virgílio. As epopéas só: reappareceram (novamente naturaes e anonymas) depois dos Merovingios.» As epopéas naturaes são anonymas. As epopéas romanas foram todas artificiaes. que foi a unica epopéa romana digna de admiração perpetua. de Petrarcha. A Odysséa e a Illiada. pois. tambem são epopéas naturaes. Lachmann. devidas á intelligencia cie um só homem. e. dáse o nome de «epopéas naturaes». ás quaes vive ligado o nome de Homero. «O desenvolvimento das fórmas litterarias entre os gregos deu-se de um modo perfeitamente regular. na antiguidade. de geração em geração. ás segundas. impessoal. Ambos esses poemas são o producto da poesia religiosa e guerreira do tempo. de uma evolução subordinada ás modificações sociaes. em que se manifesta a individualidade subjectiva. algumas vezes attribuidas a poetas cuja existencia nunca se conseguiu demonstrar. productos de imitação e convenção. está demonstrado que esses dois poema immortaes. Orlando . Esse período epico durou. encadeia da e transmittidas atravez dos seculos. honre o eclipse desse genero poetico. Taes são: o Mahabharata (epopéa aryana em sanscrito. aperfeiçoadas. Do seculo de Virgílio ao seculo X da éra christã. em maravilhosa e farta florescencia até o seculo XII.epopéas de convenção. composto de 120.778 versos). o Ramayana (tambem em sanscrito. de Boccacio. e onde se combinam symbolicamente as tradições populares e os mysterios sacerdotaes da India). na linguagem medieval.

é uma nação de formação recente e burgueza. Jerusalem Libertada. Francisco de S. ha outras novas que surgem. de fr. na excellente Historia da Litteratura Brasileira de Sylvio Roméro. quando a colonia sentia já a sua força. não tem um passado mythico. escrevia em Pernambuco um poema. de Gonçalves de Magalhães. nem muito cedo nem muito tarde. Uruguay e Quitubia.. sem as suas desillusões. Era no seculo XVIII. Ha. uma narração entresachada de varios episodios. não têm. de Castro Alves. de Porto Alegre. O Paraiso Perdido. ou o verso decasyllabo branco (solto). A Confederação dos Tamoyos. de Gonçalves Dias. O que os protege é o seu tempo. de Hamerling. o Colombo.Furioso. inuteis. existe outra especial e igualmente peremptoria o Brasil é uma nação de hontem. nellas se têm empregado: ou a oitava camoneana. de fr. Riachuelo. de Pereira de Castro. de Claudio Manoel da Costa. Caramurú. os Tymbiras. etc. A Prosopopéa. prosaicos. Tambem podem ser considerados poemas: Y-juca Pirama. Já no seculo XVI um poeta brasileiro. (inacabado) de Gonçalves Dias. A epopéa é sempre uma peça poetica longa. Messiada. de Ariosto. não tem elementos para. de Klopstock. de Pereira da Silva. appareceram a proposito. De então até hoje. o Villa-Rica e outros. contendo um exordio. de Basilio da Gama. Colombo. Carlos. Na evolução das letras e das artes ha phenomenos d’estes. quando ainda não tinhamos uma historia não era tambem nos tempos recentes. ou poemas epicos têm quasi sempre obedecido a duas fórmas métricas. os Filhos de Tupan. É por isso que todos os nossos poemas são simplesmente massantes. Não era mais nos primeiros tempos da conquista. uma pagina que deve ser sempre lida e relida: «O poema epico é hoje uma fórma litteraria condemnada. A Independencia do Brasil. ou se quer um passado heroico. em meio de nossa vida mercantil e prosaica. No Brasil. e um desenlace. de Santa Rita Durão. não podem ter vôos para a epopéa. Bento Teixeira Pinto. a Confederação dos Tamoyos. — e poucos outros. Villa-Rica. Anchieta. É impossivel encontrar e definir as regras. Nossos poetas são por essencia lyristas. ou uma invocação. Os Lusiadas. Além d’esta razão geral contra nossos poemas épicos. ha fórmas que desapparecem. O Oriente. Não nos parece que seja empreza facil ou compensadora a tentativa d’este genero. a Assumpção da Virem. de Tasso.» Exemplos da fórma epica: CARAMURU (excerpto) . Os Tymbiras. tivemos os seguintes poemas heroicos e lyricos: Eustachidos. a que se deve subordinar o poema epico. dedicado ao governador Jorge de Albuquerque Coelho. A Assumpção da Virgem. impossiveis. de Camões. e Os Escravos. com assumpto heroico. o genero epico tentou e seduziu varios poetas.. Ahasverus. são productos mortos. epopéa. * * * No Brasil. D’esse naufragio geral salvam-se apenas o Uruguay e o Caramurú. Manoel de Santa Maria Itaparica. de Macedo. de Milton. de Fagundes Varella. as epopéas. a Ullysséa.

por escrava te seguira. por mais que te ame. Que é favor. e d’esta sorte Paga meu fino amor tão crua morte! «Tão dura ingratidão menos sentira. Era Moema. dado a tempo. essa traidora. sem que o creia Sobre ser-me inferior. coriscos. Nem me offenderas a escutar-me altivo. Com mão já sem vigor voltando o leme .. Só a ti não domou. «Emfim tens coração de vêr-me. Porém o tigre.. penhasco! «Bem poderas. Por serva. cruel. afflicta. Se não temera de chamar senhora A vil Paraguassú. Ah! que o corisco és tu. Fugiste-me. ignorando a occasião da estranha empreza. Como não consumis aquelle infame? Mas pagar tanto amor com tedio e asco. Perde o lume dos olhos. Não vinha menos bella do que irada.: Furias.. raio.Copiosa multidão da não franceza Corre a vêr o espectaculo assombrada. se esta fé teu peito irrita. por cruel que brame. o aspecto moribundo. traidor. Com fazer-te a meus rogos sempre humano.. que o ar consomem. E esse fado cruel doce me fora. cae num desmaio. um desengano.» E. ter sido esquivo. Acha forças Amor. Quando eu a fé rendia ao teu engano. Porém.. que emfim o domem. com que aos meus respondas: Barbaro. E. que. Fluctuar moribunda ente estas ondas Nem o passado amor teu peito incita A um ai sómente. essa infame.. é nescia e feia. que nada: Uma. (Disse. Pallida a côr. Se a meu despeito triumphar não vira Essa indigna. indo a dizer o mais.. pasma e treme. que as mais precede em gentileza. vendo-o fugir) ah! não te escondas! Dispara sobre mim teu cruel raio. E já vizinha á náo se apega ao leme.. raios. «Barbaro (a bella diz) tigre e não homem.. Pasma da turba feminil. deixando o coração captivo. que de inveja geme..

Emfim sacode O arco e faz voar aguda setta. Nem pôde o claro heróe sem pena vel-as. Entre a ira e o temor..... E. Este logar delicioso e triste.. Sem que o amante a chore.. E.. e apresse no fugir a morte.. SANTA RITA DURÃO.. sorveu-se n’agua. Que nadando a floema acompanhavam. 1784) ___ O URUGUAY (excerpto) . Onde. que espalhava Melancolica sombra. Com tantas provas que de amor lhe davam Nem mais lhe lembra o nome de Moema. que treme Do perigo da irmã. Porém o dentro Caitetú... Entram. 172O — m... ao pé de uma lapa cavernosa. sem mais vista ser. que irado freme... E nem se atrevem a chamal-a... «Ah! Diogo cruel!» disse com mágua.. e lhe passeia e cinge Pescoço e braços. vendo que sem dôr navegam d’ellas. (n. Mais de perto Descobrem que se enrola no seu corpo Verde serpente. Cançada de viver. escuro e negro... tinha escolhido Para morrer a misera Lindoya... Fogem de a ver assim... e temem Que desperte assustada e irrite o monstro... e a mão no tronco De um funebre cypreste.... sobresaltados.. na mais remota e interna Parte de antigo bosque... emfim.... Curva latada de jasmins e rosas.... Mas na onda do mar... ou grato gema.Entre as salas escumas desce ao fundo. e lhe lambe o seio....... e quiz tres vezes Soltar o tiro...... E fuja. Á branca praia com furor tornavam.. E param cheios de temor ao longe. e vacillou tres vezes. Cobre uma rouca fonte.. Tinha a face na mão. sem mais demora Dobrou as pontas do arco.... Choraram da Bahia as nymphas bellas.. Que toca o peito de Lindoya e fere ... Lá reclinada.. como que dormia Na branda relva e nas mimosas flôres..... Tornando a apparecer desde o profundo... que murmura...

na testa..... o livido veneno..... envolto Em negro sangue.. e vê ferido Pelo dente subtil o brando peito. JOSÉ BASILIO DA GAMA (n...... e vérte.. Chegou. entre nós ambos ... ao despertal-a....A serpente..... Guedelha e ronco dos sertões immensos...... armado e forte.... e em tortuosos gyros Se enrosca no cypreste.... Nos olhos Caitetú não soffre o pranto... 1795. e muda aquella lingua Que ao surdo vento e aos ethos tantas vezes Contou a larga historia dos seus males!.. Leva nos braços a infeliz Lindoya O desgraçado irmão... Saiu primeiro a campo. Cobrindo os montes e juncando as mattas.... — «A nós só caiba (Disse elle) a honra e a gloria......... 174O — m..) * * * OS TYMBIRAS (excerpto) . E por todas as partes repetido O suspirado nome de Cacambo.. Conhece (com que dôr!) no frio rosto Os signaes de veneno.. Com pejado carcaz de hervadas settas Tingidas de urucú.. Os olhos em que o amor reinava um dia Cheios de morte... Cioso de alcançar renome e gloria........... Inda conserva o pallido semblante Um não sei que de magoado e triste.. e fez saber que era chegado O rei das selvas a propôr combate Dos Tymbiras ao chefe... E rompe em profundissimos suspiros. segundo a usança Barbara e féra............... Dos Gamellas um chefe destemido. Lendo na testa da fronteira gruta De sua mão já tremula gravado O alheio crime e voluntaria morte....... Açouta o campo com a ligeira cauda O irado monstro.... e a bocca e os dente Deixou cravados no vizinho tronco...... que.... Que os corações mais duros enternece Tanto era bella no seu rosto a morte! ....... Vencendo a fama que os sertões enchia. desgarrados gritos Davam no meio das canções de guerra. Guerreiros mil e mil vinham traz elle.

Estes. fugiu mais longe. torna o barbaro. despojo opimo! Nas tabas em que habito. peito a peito. e to preso. impavidos guerreiros. Ambos o punho inutil rejeitando. á victoria affeitos. Que vezes tres o mede em toda a altura! Travaram lucta fera os dois guerreiros.Decida-se a questão do esforço e brios. de terror transidos. Alentando açodados. Além dos Andes voará meu nome! O filho de Jaguar sorriu-se a furto Assim o pae sorri ao filho imberbe. Revolvem fundo a terra aos pés. Mudos quedaram. Qual d’aquelles heróes ha-de primeiro Sentir o egregio esforço abandonal-o? Perguntam. Do Gamella Entrou a frecha tremula num tronco E só parou no cerne. ora as mulheres Tecem da sapucaia as longas cordas. que a victoria é minha. São meus. encaram fito O sol brilhante.. se és o vencido. Que. a do Tymbira. poisque me affrontas. Esbelto como o tronco da palmeira. desprezado — o arco seu pequeno Talhado para aquellas mãos sem forças. E tu vil.» — Não fugirei. Roçando apenas os frondosos cimos. os teus me sigam Aceita ou foge. meus iguaes. Tamanhos campeões vendo na arena. se me vences. Estreitam-se valentes: braço a braço. São teus. Que hei-de certo alcançar. Primeiro ambos de longe as settas vibram. Encontram-se os tacapes. Nos ares as desgarram. e os não deslumbra o raio! «Serás. Tenta de outro maior curvar as pontas. lá se partem. que me obedecem. que ambos protegem. que vês. Amigos Manitós. Scena vistosa! quadro apparatoso! Guerreiros velhos. São ambos fortes: o Tymbira hardído.. Que os pulsos tens hão-de arrochar-te em breve. — responde-lhe Itajuba Que os homens. Ciciando veloz. . e tu coberto De escarneo e de irrisão! — Cheio de gloria. Do meu valor tropheu. — e da victoria. e ao longe Rouqueja o peito arfado um som confuso. mas não ha quem lhes responda. E a lucta horrivel e o combate acceso.

Ambos arquejam. Não vale humana força desprendel-a D’alli. áquellas mattas. cáe de chofre. que desaba Da serra altiva. e atrôa forte os ethos. 1823 — m. Doce coberta de verdura e flôres.. _________ GENERO LYRICO .. immenso e forte É como rocha enorme.1864). como ó condor. Cinge-o nos braços.. — os seus exclamam. «Morre!» lhe brada «e o nome teu comtigo!» — O pé desceu. «Itajuba! Itajuba!». tal como elle. (n. — a acção foi de ambos. O filho de Jaguar voltou-se rapido: De onde essa voz partiu? quem n’o aguilhôa? Raiva de tigre annuviou-lhe o rosto. GONÇALVES DIAS. e. o desditos Áquelles céos de azul. eleva-se. sobre o lhama descuidoso.. Assim cáe na floresta um tronco annoso. estua. desaba.. Ostenta-se robusto o rei das selvas. Foi de um o pensamento. é dar-se por vencido.Flexivel como a frecha bem talhada. e cae no valle inteira. Arfa. Separam-se os guerreiros um do outro. E o pó levanta. Cada qual mais pasmado que medroso. Seu corpo musculoso. Do exanime vencido: os olhos turvos Levou. a extrema vez. — E o ar em ondas sôffregos respiram. E sóbe audaz onde não chega o raio. Pavido o prende nas torcidas garras. contra si o aperta Com força incrivel: o collosso verga. Se estranha a força que no outro encontra. onde ella está.. batendo a arca do peito.. Guerreiro. E o som da quéda se propaga ao longe! O fero vencedor.. E os olhos côr de sangue irados pulam. — A mal cuidada resistencia o irrita. descendo a prumo Dos astros. Inclina-se. comprime-se. descoberto o peito. — Voa Itajuba sobre o rei das selvas. «A tua vida a minha gloria insulta!» — Grita ao rival — «e já demais viveste! Disse. um pé alçando. se descora Um só momento. fugaz corisco Bate-lhe a calva fronte sem partil-a.

os psalmos eram acompanhados com a voz de instrumentos de cordas. HYMNOS. . elegiacas. foi uma c reação dos hebreus. etc. o Te-Deum laudamus. Foi talvez David quem fixou a sua. A denominação de genero lyrico explica-se e justifica-se pelo facto de serem as peças d’este genero. A revolve e a medita Na tenebrosa noite e claro dia. cantadas e acompanhadas pelo som da lyra. cantico essencialmente religioso. gentes!. o poeta é um simples narrador. como o Stupete. Muitas odes de Alcêo de pindaro e de Callimaco eram verdadeiros hymnos. Muitos d’elles foram esquecidos. Cantico. feito em louvor dos heróes e dos deuses. antes da civilisação grega. todo o poema enthusiastico. O Livro dos Psalmos da igreja catholica é constituido por 150 composições poeticas. penitenciaes ou propheticas. Mas está claro que. A fortuna e a desgraça. em que se exalta alguem. limitando-se a descrever os factos heroicos. de que se não pôde dar uma definição precisa. na Grecia.O que essencialmente distingue a poesia lyrica da poesia epica é o seu caracter subjectivo. Plantado ã margem de um ribeiro ameno. Que de virentes folhas A erguida frente bem depressa ornando. etc. moraes. religiosos ou guerreiros que celebra. é toda a expressão poética e subjectiva de amor. Mas. e outros têm sido moderna. Na sasão opportuna. o primeiro balbucio da alma humana. antigamente. de alegria.: o Hymno Nacional. ao contrario.» Ex. aos prophetas Aggêo e Zacharias. por assim dizer. já a poesia lyrica existia: ella foi. Vamos dar a enumeração e a analyse dos principies. de gratidão. O género épico é impessoal. os de nos 146—148. de enthusiasmo. CANTICOS E PSALMOS Estas tres fórmas da poesia lyrica imitam-se e con fundem-se muitas vezes. acompanhada ou não de musica. o Hymno da Republica. fórma. na lei do Senhor fitando os olhos. Innumeros são os moldes da creação lyrica. ou se celebra algum acontecimento. Exemplo de psalmo: Feliz aquelle que os ouvidos cerra A malvados conselhos. O psalmo 89 é attribuido a Moysés. — theologicas. Nem se encosta orgulhoso na cadeira Pelo vicio empestada. e o mesmo se pôde dizer de certos canticos catholicos. na — lyrica. Tudo parece ao seu saber moldar-se Elle é qual tenro arbusto. dá-se hoje o nome de hymno a «uma composição poetica. Na poesia epica. Hymno era. o poeta desvenda e analysa os seus proprios sentimentos. Rigorosamente. e com que se excitam os animos por uma entoação forte e elevada.mente creados. E não caminha pela estrada iniqua Do peccador infame. Antigamente. O Psalmo. o lyrico é pessoal.

. O Senhor da virtude é firme esteio. Para te pôr num altar!. e me parece Que a tua voz é uma prece!. A naufragar sem tino. ás armas corramos. na piedade. Não sois assim.. Todo de flôres coberto E dominando um deserto. Que graça. Vissem-te os mãos. Que hoje a Patria affrontada nos chama. Na assembléa dos justos. Quem te podera levar. De horrisonas procellas combatido. Não ouvis esses echos terriveis? ... impio corre. Para te pôr num altar! Creio no bem.De fructos curva os succulentos ramos. Quem te podera levar. 1814) A seguinte poesia póde ser dada como exemplo de Cantico de amor: Creio no bem. Emquanto o.. Para te pôr num altar!. PADRE SOUZA CALDAS (n. e duvido Que os peitos seus. que claridade. 1762 — m. Pois tudo que é grande e santo Te empresta não sei que encanto. ALBERTO DE OLIVEIRA (n. Aos ares alevanta. Para te pôr num altar! És doce como uni exemplo. creio em ti. E bate e espalha e com furor dissipa Por isso vos espera O dia da vingança. Quem te podera levar.... 1859) Exemplo de hymnos: HYMNO GUERREIRO Brasileiros. És pura e sã como um templo. que o vento assopra. Quando o teu labio sorrí E falas. oh impios! Mas qual o leve pó. de gloria revestidos. Tivessem mais um gemido! Quem te podera levar. e o frio sangue Vos coalhará de susto! Nem surgireis. alquebrados Por males continuados..

como os cantos heroicos de Pindaro e Alcêo. e muitas vezes a dança. Corajosos á lucta corramos. vingança bradando. e ella ficou sendo o que ainda é hoje. Com seu sangue lavemos a terra. Todos querem. de sangue sedenta. Tremam elles ao ver-nos unidos. e á Patria juremos Que o inimigo feroz venceremos! D. ás armas. os córos. em geral. D’ella escreveu Boileau: «Son style impetueux souvent marche au hasard. já entre os romanos. as canções bacchicas ou eroticas de. a terceira. os cantos guerreiros de Tyrtêo. e a quarta. Contra nós arrogante se ostenta! Eia. Pelo immenso Brasil se dilata. Mas.» . Do inimigo a insolencia domando. e livres. Para a majestade da ode. todo o poema destinado a ser cantado. correndo á victoria Colher louros no campo da gloria! Eia.É a voz do canhão que rebrama! Impia gente. — anacreontica — e philosophica ou moral. Chez elle. Não ha regras precisas e invioláveis para a factura da ode. Anacreonte e de Sapho. ás armas. nossa Patria ‘Stão vingança. Que homens somos. ás armas. a ode era. e á Patria juremos Que o inimigo feroz venceremos! Defendendo este solo sagrado. ás armas. pela natureza do seu assumpto philosophico. Pois que louco chamou-nos á guerra. etc. póde ser com mais propriedade incluída no genero didactico. e á Patria juremos Que o inimigo feroz venceremos! Nossos paes. separou-se a ode da musica. A vencer ou morrer decididos. un beau désordre est un effet de l’art. e bravos. nossas mães. 1882) ODE Entre os gregos antigos. tecida de delicadeza e graça. Eia. 1811 — m. E da terra se elevam guerreiros. GONÇALVES DE MAGALHÃES (n. e á Patria juremos Que o inimigo feroz venceremos! Um só grito. canta o amor e os prazeres. os grandes sentimentos da alma humana. Que salvemos a honra ultrajada. que atroa espantoso. A primeira é religiosa. em que se exprimem. concorriam a musica. A ode póde ser sagrada. a segunda celebra factos heroicos. Eia. Aggredido por hordas de escravos. — heroica ou pindarica. de modo ardente e vivo. Do longinquo Amazonas ao Prata. — um poema lyrico.

orgullo e fasto. pôde o fado. E vós tambem. a pró da Patria. Quem a morte não teme. ó Musa! Accenderam teu estro: a só virtude Soube inspirar louvores. Que os servis amam tanto. iguaes pela natureza e pelo numero dos versos. sem saber. se o gran-senhor carrega. ó tu. Ou mal dormiu a sesta. Porém nunca aviltar-me. Duas vezes. emquanto me animar o peito . nunca. Porém. a mão que açouta. desfizestes As cabalas que perfidos urdiram Inda no meu desterro. para ver se abate A virtude que odeia. Inchado de poder. Ambição de poder. carinhos. sobr’olho iroso. a ode é dividida em estrophes. Que o barbaro Tapuya deslumbrado O deus do mal adora. reduzir-me a pó. ó Musa! vem! na lyra de ouro Não cantarei horrores… Arbitraria fortuna! desprezivel Mais que essas almas vis que até se humilham! Prostener-se a teus pés o Brasil todo. me escolhestes Para a voz levantar. de orgullo e sanha. Nunca comprados cantos retumbaram: Ah! vem. roubar-me tudo. Esclavos nados. Na assembléa geral. Treme o vizir. mas duas vezes Foram baldados votos. Embora nos degraus de excelso throno Rasteje a lesma. Eu nem curvo o joelho. Na abobada do templo da Memoria. Beijem o pé que esmaga. sem brio. nada teme. Porque mal digeriu.Em geral. Eu nisto só confio. Nem insanos encomios profer De crueis demagogos. Exemplos de ode: ODE AOS BAHIANOS Altiva Musa. que nunca incenso Queimaste em nobre altar ao despotismo. bahianos. — a mim me alenta Do que valho a certeza. Não. desprezastes Ameaças. bahianos.

sempre verdes prados.Este sopro de vida que inda dura. Trajando roupas luctuosas. e de mil flôres Roubar aromas. altivo brio. Lá me ia formando a fantasia Projectos mil para vencer mil ocios. Para mim o Brasil não é mais patria. Que no Brasil só vis esclavos medram. monstros o vedam! Não verei mais a viração suave. Horror jámais inspirará meu nome. e brincar travessa Co’o tremulo raminho. Nunca aspirei a flagellar humanos. O’ paiz sem igual. paiz mimoso. O nome da Bahia. Amei a liberdade e a independencia. altas mattas. Parar o aereo vôo. agradecido. E pingues campos. Para crear prodigios! Jardins. De estranha emulação acceso o peito. Mas não. Grutas frescas então. Valles e serras. que ennobrecem Dos homens a existencia. fugi! Ferinas almas Querem que em França um desterrado morra! Já vejo o genio da certeira morte Ir afiando a fouce! Gallicana doncella. Justiça. Se habitassem em ti sabedoria. Doces visões. Sonhei outr’ora Poderia entre vós morrer contente. Da doce cara Patria. viscosos lagos. Meu nome acabe — para sempre acabe — Si para o libertar do eterno olvido Forem precisos crimes! Morrerei no desterro. em terra estranha. Um novo Eden fariam. Nem seu pae a criança. Nunca a viuva ha de pedir-me o esposo. lacrymosa. com riso e mofa: — Eis o meu crime todo! Cingida a fronte de sangrentos louros. Pois faltou á justiça. Do meu pobre sepulcro a tosca lousa Só cobrirá de flôres! . longas. umbrosas alamedas. vergeis. a quem o Luso Oprimía sem dó. Repetirei com jubilo. rios Nunca mais vos verei.

. Ás minhas cinzas um buraco nega… Talvez tempo virá. Por elles. Se mostrava ás nações. Em França amigo. Obra prima do céo. Gratos serão a quem lhes deu socorro Contra o bárbaro Luso. Como. como folha d’alamo fremente. as azas adejando. ó Deus! Que portento! A Urania Venus Ante mim se apresenta! Riso meigo Banha-lhe a linda bocca. Os teus Bahianos. Em que ha de naufragar. Tanto áulico perverso. que domina ufana Os altos topos da floresta espessa. que inda pranteie Por mim com dôr pungente! Exulta. que escurece Fino coral nas côres: «Eu consultei os fados. e a liberdade Metteu no solo escravo. para a patria. justiça. Freme á face dos males. De malfazejas furias. voou. inda no berço. Nem. Das trevas surgirá sereno dia Para ti. Serão nervos do Estado. O chão brotará flores!» Calou-se então. Foi teu desterro um porto. paz. Ha-de emfim essa gente generosa As trevas dissipar. Tal bem presto será no novo mundo O Brasil bem fadado! Em vão de paixão víl cruzados ramos Tentarão impedir do sol os raios: A luz vae penetrando a copa opaca. velha Europa! O novo imperio. E os zephyros. no berço mesmo É já cadáver de crueis harpias.Que o Brasil inclemente. ingrato ou fraco. Qual a palmeira. Escapaste a cachopos mil occultos. nobres e briosos. liberdade. por fado impio Não será mais o teu rival altivo Em commercio e marinha! Aquelle que gigante. que não mentem (Assim me fala piedosa deusa). e as soltas tranças Em torno espalham mil sabeus perfumes. Co’os berros da borrasca não se assusta. O constante varão que ama a virtude. salvar o império. como té agora.

Do velho Anacreonte. Mas. Rheso. O acorrentado Prometheu liberta! Lembra-te Byron. Com os louros da Arte e da destreza. — E que por ti. 1838) ODE Á GRECIA Abra-se a tumba ha seculos fechada Pela manopla ferrea do Islamita. que a belleza pura. Não recordes idyllios voluptuosos. A lyra de ouro e o estro peregrino De Apollo herdara. Soam na Hellade toques de alvorada. D’esses que á sombra do olival no monte. em dias ociosos. Diz ainda ao narciso e ao trevo a fonte. os louros Da civica virtude! O sol dos fortes no levante assoma. Heitor desperta. E no teu nobre e limpido idioma Vibra o canto dos classicos poetas. Recorda os carmes de Tyrteu e Homero. Colha outra vez a tua juventude. O’ Grecia. Elle caiu em face do inimigo. Ajax. Chamando-te á palestra dos athletas. Que os aprendeu. Achilles. de Eschilo acabando o drama austero. a alma dos heróes se agita. neste albor da tua nova Historia. em epica aventura. Seu grande espirito estará comtigo! Quando no mundo opresos e opresores . por favor divino.Vasam dos ares rosas… JOSÉ BONIFÁCIO (o velho). 1765 — m. (n. E. Foi tentar o Destino! Sem o supremo gôzo da victoria. resuscita! Toma a egide e a panoplia de Minerva E os raios do teu Júpiter empunha! Investe a raça barbara e proterva! Do que has soffrido o mundo é testemunha! Tornem os dias imperecedouros De Athenas elegante e Esparta rude. Nas cinzas.

exterminio. e que a odalisca rindo aponta Do Grão-Senhor ao imperial sarcasmo! Canhões reboam. Elles bradam com voz altiva e forte: — Basta de humilhação e tyrannia! Ou liberdade ou morte! Não querem resignar-se ao dolo e á afronta Quaes vis eunucos. torturas. . Embora frema a Europa e o Turco brade! Tu vencerás emfim. E as malhas romperás do triste enrêdo. Contra quem os navios vêm armados? Contra o Sultão e os seus crueis soldados? Não. incendio? Vae! socorre os teus filhos de Candía! Socorre-os! Fartos de uma inicua sorte. E com teu feito generoso humilla A inepta covardia do Occidente! Quantas nações te ameaçam. Desafia as esquadras frente a frente. que hoje és de novo. com o gladio de Alexandre. padecendo santas dôres. Em nome da justiça! Impelle ávante o teu heroico Povo.Rabiosamente luctam peito a peito. só por medo Da sua mesma universal cubiça! Vem tu. Estremece a terra. que em senil marasmo Dormem. para vergonha Do seculo que expira? Não vês que o odio fatal raizes lança Nos corações que ulcera o vilipendio? Não vês que ao proprio céo pedem vingança Saques. O Imperio do Direito? Queres que do deserto a ingrata areia Sem fructo absorva. ha quasi dois mil annos. Não has de defender no acerbo pleito Quem firma. O sangue derramado na Judéa Pelo maior dos martyres humanos? Soffrerás que a christãos seu jugo imponha O musulmano embriagado de ira? Que com impuro alfanje abata e fira Irmãos da nossa fé. contra ti! E os que te fazem guerra São netos de Cruzados! Alça o pendão nos mastros da flotilla. á liça.

a Brabançonne. os bravos Só pode exaltar. Já as possuiam os egypcios. etc. os fados. a Allemanha. que a vida É lucta renhida: Viver é luctar! A vida é combate. meu filho! Não chores. muitas vezes levemente satyrico ou malicioso. No arco que entesa. a Suissa. Que os fracos abate.O’ Grecia. invadir o dominio da ode ou o da elegia. Condor ou tapyr. o cobarde Seus feitos inveja. o hymeneo. Algumas canções têm estribilho. a Hespanha. Portugal. satyrica. Todos os povos têm as suas cançõesnacionaes. A Noruega tem as sagas. as modinhas e os lundús. a Bélgica. mestra e mãe da humanidade! MAGALHÃES DE AZEREDO. sentimental. (n.. os ranas. . as seguidilhas. o poean. A canção póde comportar todos os generos: póde ser guerreira. O lino. erotica. politica. De o ver na peleja Garboso e feroz. 1871) CANÇÃO É uma curta composição poetica. III O forte. a scolia dos gregos eram verdadeiras canções. Quer seja tapuya. e distingue-se commummente pelo seu caracter ligeiro e vivo. Tem certa uma presa. a Italia. Que os fortes. que póde ás vezes. patriotica. Canção guerreira: CANÇÃO DO TAMOYO I Não chores. II Um dia vivemos! O homem que é forte Não teme da morte. os lieder. philosophica. Só teme fugir. o Brasil. e nem sempre se destina a ser cantada. os sòngs. as barcarollas. a Escossia. pela sua elevação ou pela sua melancolia.

E os timidos velhos. Se morre. descança Dos seus na lembrança. Não cures da vida! Sê bravo. si a fortuna. sem dôr! VIII Porém. Que a gente inimiga Talvez não escute Sem pranto. Peior que o trovão! VII E a mãe. Na voz do porvir. Curvadas as frontes. Que a morte ha de vir! V E pois que és meu filho. Robusto. Meus brios reveste. Querendo calados Os filhos creados Na lei do terror. fragueiro. E tremam de ouvil-o Peior que o sibilo Das settas ligeiras. . Tamoyo nasceste. nessas tabas. sê forte! Não fujas da morte. Teu nome lhes diga. se vive. Na guerra e na paz! VI Teu grito de guerra Retumbe aos ouvidos De amigos transidos Por vil commoção. Valente serás! Sê duro guerreiro. Brazão dos tamoyos. Escutam-lhe a voz! IV Domina. Nos graves conselhos.

Trahindo teus passos. ó flôr! Vives? — o meu viver é limpido e suave… Amas-me? — a existencia é um cantico de amor… Como sorri o azul! como cantam as aguas! Como me brilha na alma a tua voz. Partido. Morte. Te arroja nos laços Do imigo fallaz. Viver é luctar. e meu o teu amor! Jámais blasphemarei á luz e ao ser. Pranto. ó flôr! Vejo-te? — nada exprime esta palavra: maguas. conquista Mais alto brazão! X As armas ensaia Penetra na vida: Pesada ou querida. Em teu bafejo. Na ultima hora Teus feitos memora. Aos fortes.) CANÇÃO AMOROSA Não! não existe Dôr. 1864. Tranquillo nos gestos. Infortunio. Emquanto fôres minha. ó ave. Se o duro combate Os fracos abate. ó flôr! . ó ave. emquanto No coração sentir o teu calor. (N. 1823 — m. aos bravos Só póde exaltar! GONÇALVES DIAS. Impavido. IX E cáe como o tronco Do raio tocado. Sinto falar-me Deus. O teu perfume. Sorris-me? — do Océano applacou-se o furor. no teu canto. Triumpha. rojado. A vida é uma canção. ó ave! Tua pureza. Por larga extensão. andaz. o Universo um encanto. Assim morre o forte! No passo da morte.

um elogio discreto ou uma discreta confissão de amor. a pôr em concurso. no seculo XVI. O que chamamos actualmente madrigal é uma pequena composição destinada a exprimir. Tua tristeza. Me verias. queimou parte do seu cabelo. um galanteio. ó flôr! VALENTIM MAGALHÃES (n. entre os seus asociados. a quem disse sua dama que lhe parecia melhor á luz de uma vela. Concisão. — Uma dama contando as estrellas. lendo a uma luz um papel do seu amante. os seguintes themasdemadrigal: — Uma dama que. — Filis deu a Fabio a espadinha. expedindo da bocca uma folha de rosa. — Uma dama que chorou tanto sobre o retrato do seu amante que lhe apagou a pintura. lhe estalou aos raios do sol. Em Portugal. — Uma dama que. um pensamento espirituoso e elegante. num resumido numero de versos. — Uma dama desmaiada de uma sangria.Choras? vence-te a dôr? vergas ao soffrimento? — Ah! já sei o que são pranto. nem mayor tolice… Todas as fórmas metricas podem servir ao madrigal. por lhe haver elle pedido uma prenda. A palabra perdeu essa significação. Roubando em tua face melindrosa O doce nectar de purpurea rosa. ó ave. piedoso e bom. oh! que ventura! Desprezara a ternura Das bellas flôres no risonho prado: Alegre e namorado. Nelle se empregam habitualmente a redondilla. 1749 — m. se lhe poz em uma face. de que os poetas classicos abusaram considerablemente. não é possivel imaginar mayor insipidez. o teu lamento. ou os versos de 10 e 6 syllabas entremeiados. ficou um tanto desmoralisado por esse abuso. — são as suas qualidades esenciaes. O madrigal. — Uma dama que tendo no peito um cupido de azeviche. uma especie de composição musical e poetica. que aos raios do sol. graça e delicadeza. 1814) . SILVA ALVARENGA (n. em novos giros. — Uma dama que desmaiou de ver uma caveira… Como se vê. 1859 — m. consistindo em canto vocal sem acompanhamento. A Academia dos Singulares de Lisboa chegou. que trazia na cabeza. 1903) MADRIGAL De origen italiana. no seculo XVII. a futilidade litteraria transformou esse genero lyrico em uma intolerable exhibição de tolice e semsaboria. ruge nesse momento… Dão-me a idéa da morte. Exhalar mil suspiros. Exemplo de madrigal: Si eu conseguisse um dia ser mudado Em verde beija-flôr. ó Glaura. uma vez. o madrigal era. maguas e dôr… O céo. — Fabio.

o adeus da filha de Jephté ás suas companheiras. filha! Sei que a dôr de te perder Emquanto eu fôr vivo. Archiloco de Paros era considerado como o inventor da elegia. porque elles tinham o habito de classificar os gêneros pela fórma exterior. a elegia é uma composição melancolica. Os ossos dos seus carrega: Por isso. Mas. Da vida no amplo deserto. Forasteiro. como convém a uma poesia narrativa. Nunca dos seus longe está! Ando. — no disticho elegíaco a cada hexametro seguia-se um pentametro.ELEGIA « A palabra elegia (elegion) entre os gregos. não com acompanhamento de cythara ou de lyra. Cultivaram especialmente a elegia: na Italia. onde quer que chega. referia-se exclusivamente á fórma. Camões e Sá de Miranda. Com esta significação. torna essa classificação importante. mas de flauta. As elegias eram recitadas em publico. Com essa pequena alteração. que era o instrumento ligado a esse genero. isto é. um hexametro em que se eliminava a segunda metade breve do terceiro e do sexto pés. Que em minha afflicção me diga D’essas palabras que fazem A dôr no peito abrandar! E sei que morreste. sem lar. Emquanto na epopéa os versos eram monotanamente iguaes em numero de pés. vago. » (*) No moderno sentido da palavra. a impressão produzida pela elegia não era muito differente da produzida pela epopéa. errante. Garcilaso e Campoamor. quasi á maneira epica. Na Biblia. Nunca se ha de esvaecer! . Todos os poetas brasileiros têm mais ou menos escripto elegias. objectiva. incessante. na Hespanha. Como que a patria tem perto. Sem ter uma voz amiga. como elle. em banquetes. e outra em decasyllabos soltos: A MINHA FILHA O nosso indio errante vaga. Sem proprio abrigo. por onde quer que vá. mas um pequeno movimento lyrico estava iniciado pela opposição entre o verso mais curto e o mais longo do disticho. já a elegia era empregada pelos hebreus. uma em redondillas rimadas. mas intima relação. e todo o livro de Job são verdadeiras elegias. Petrarcha e Manzini. em Portugal. nunca. destinada a exprimir sentimentos e pensamentos tristes. em geral pelos seus proprios auctores. as lamentações de David junto de Gelboé. durante os periodos organicos da litteratura grega existiu entre a fórma e a materia. aqui estão duas. que.

pois perdida Teve uma filha na vida Não a perca lá tambem! GONÇALVES DIAS. (n. Se algum arbusto se inflora A cada nova estação. e onde Jazem teus restos mortaes… Esse logar que te esconde. Dos seraphins resplendentes. Chorar meu ultimo adeus. Dize a Jesus: «É meu pae!» Elle humanou-se! — quiz ser Filho tambem de mulher. na linguagem dos anjos. remontando aos céus Direi a Deus: «Aqui estou!» Tu. ao partir-me da vida. Não vi.Mas qual teu jazigo. não verei jámais! Não sei se ahí nasce a relva. 1823 — m. Desprega! — e. meiga e humilhada. E. Ao throno do Eterno vae. Ou se tambem de alguns olhos Recebes pia oblação! Sei que o pranto que se verte Longe do morto. O orvalho lagrimas chora Sobre esse humilde torrão. Se. a cada nacer da aurora. não basta! É pranto que a dôr não gasta. Se ahi nasce o triste goivo. as azas candentes. porque os céus Não tinham bastante espaço Para um homem pae de Deus! Bem sabe elle quanta gloria Sente o pae que um anjo tem! Julgará que. Ou só espinhos e abrolhos. Que nenhum allivio traz! Sei que. Minha alma andará perdida Para saber onde estás! Irei beijar teu sepulcro. Que a vida não maculou. d’entre o côro dos anjos. Então. não. 1864) . Depois. Mas de homem.

suspirae commigo! O piága.Á MORTE DE GONÇALVES DIAS «Morto. arrancada . é morto o cantor dos meus guerreiros! Virgens da matta. Repita o nome do cantor. Que o rio leva ao mar. Sobre a margem das aguas escondidas. Morto. made-lhe ao menos Uma sentida lagrima. que foge a estranhos olhos. suspirae commigo! Coema. é morto o cantor dos meus guerreiros! Virgens da matta. Sua nobre figura adorna as festas E enflora os sonhos dos valentes. é morto o cantor dos meus guerreiros! Virgens da matta. E triste o vento suspirar-lhe em torno: Ella perdura. suspirae commigo! A grande agua o levou como invejosa. Morto. Nem mais válida a voz ergueu na taba. o valor. é morto o cantor dos meus guerreiros! Virgens da matta. E vive e morre na floresta escura. e a filha da floresta Ha de a historia guardar das velhas tabas Inda depois das ultimas ruinas. nas aguas. Airosa e linda. a doce amada de Itajuba. Brotava-lhe do peito a alma divina. Elle. Virgem nenhuma suspirou mais terna. Ella vive entre nós. Nenhum pé trilhará seu derradeiro Funebre leito. O famoso cantor quebrou da morte O eterno jugo. A colera. O guerreiro tamoyo. a virgem dos Tymbiras. a folha agreste Póde em ramas ornar-lhe a sepultura. elle repousa eterno Em sitio onde nem olhos de valentes. tristeza e magua. Doce e forte. Morto. Coema não morreu. suspirae commigo! Elle houvera do Ybarke o dom supremo De modular nas vozes a ternura. Sabiá da patria De longe o chamará saudoso e meigo. Sem que elle venha repetir-lhe o canto. Nem mãos de virgens poderão tocar-lhe Os frios restos. Suas nobres acções cantando aos ventos. E repetir aos namorados echos Quanto vive e reluz no pensamento.

Do coração que elle tocará outr’ora. Já não são tuas faces. a perda infausta Do filho teu amado. nem teus olhos Lampejam de alegria. e o epicedio era pronunciado na cerimonia dos funeraes. suspirae commigo! MACHADO DE ASSIS (n. 1839) NENIA. Trespassada de pranto. que inda na infancia Co’a cima excelsa devassava as nuvens! Eu o vi pelos raios matutinos Do sol apenas nado auri-tingido. Cubiçosos os anjos te roubaram. EPICEDIO Havia na antita Roma tres especies de cantos ou poemas. que teus labios Outr’ora enfeitiçava? — Côr de jambo. compostas para celebrar a memoria ou lamentar a perda de pessoa illustre e querida. EPITAPHIO. Foi em teu seio . Exemplo de nenia: Nictheroy. Quaes só podem gemer dôres maternas. Que é da c’rôa De madresilva. Que a fronte engrinaldava? eil-a de rojo. Pelo sol d’estes Zeus enrudecido. o epitaphio era gravado sobre a urna. Inda sepulta em trevas a floresta! Eu o vi e asylou-me a sua sombra… Honra do valle. E na voz celebrou de eternos carmes… Morto. é morto o cantor dos meus guerreiros! Virgens da matta. Franzem-te os labios co’o sorrir de angustias. e as flôres murchas Mirradas pelo sopro do infortunio… Uns ais tão doloridos. O vocabulo epitaphio ainda tem a mesma significação. a nenia e o epicedio são hoje elegias funebres. Que no valle das lagrimas não vinga A planta que é do céu. estando o corpo presente. que se recitavam nas exequias das pessoas notaveis: a nenia era declamada ou cantada junto á fogueira. em que se incinerava o cadaver. Desventurada mãe. Quando o ouviu palpitar sereno e puro. de cecens e rosas. e que outro filho Mais sincero chorar ha merecido? Da noite o furacão prostrou tremendo Audaz jequitibá. Deshumanas pungindo os seios d’alma. De teus forzosos olhos se desatam Dois arroios de lagrimas: tu choras. inveja das montanhas. Para que no Eden fosses transplantado. tão maguados. Nictheroy! que é do sorriso Donoso da ventura.

. ó alma grande. meus olhos viram Pela primeira vez a côr dos bosques. de um suspiro descontante... Nictheroy. E o azul dos céus e o verde-mar das aguas… Tambem sou filho teu..... Entrada se permite á mortal ancia De uma dôr.. Gravar um epitaphio. 1879.. vaes pisando Do fresco Elizio a região bemdita.. em nada atina… Vive outra vez: das cinzas da ruina Resuscita.. Centro do gosto. A luctuosa victima do pranto Melhor que o immarcescivel amaranto. Quizeramos na campa. rasgando Essa esphera de luzes..... Se nesses campos. Não te offendas! que a victima tão pura.. CLAUDIO MANOEL DA COSTA (n. oh! minha patria! E o melhor dos amigos hei perdido. ó Salicio... O nosso sentimento aquí te asiste... que te cobre.... escreve: Seja o epitaphio teu: A cifra breve Mostrará no discreto. que ha muito consagrada Nas aras da amizade foi jurada! ……………………………………………. e no polido. RODRIGUES SILVA (n....) Exemplo de epicedio: Espirito inmortal........... Busque seguir-te. que declare Quem o tumulo esconde. dicta. 1816 — m. onde a gloria habita. Se lá reliquia alguna se consente D’esta cançada humana desventura. a urna triste. Da minha guarda o anjo… Eia! deixemos Amargueado pranto deslisar-se Por faces onde o riso só folgará… Que elle mitigue dôr que não tem cura! .. Em nenias entoando maguadas Hymnos saudosos e canções pezadas...... Bem que o tormento ainda mais se dobre. tu que.) ..... Que é Salicio o que aqui vive escondido..... por lograr o preço D’aquella fé.. 1789. do prazer estancia.. 1729 — m. Que em meus ternos soluços te offereço. Te cerca. F......Que tambem.. e bem que apare Qualquer engenho a penna.

. já os romanos tinham os cantos (carmina) do trabalho agricola. no periodo ante-classico. quando Virgilio o tratou primorosamente nas 10 eglogas das Bucolicas (traducções e imitações de Theocrito) e nas Georgicas (poema dactico em quatro cantos). Mas o genero pastoril só ficou definitivamente creado. Quem póde estar seguro d’esses raios.. De ser pago algum dia amor tão fino? Liz. a dicção. Laur. ó impia. atiras? Só quem não vê.. sermone tonabat. Exemplo de egloga: . E tu. da patria gloria.. Pastora. C. 1764 — m.Epitaphio para o tumulo de Souza Caldas.. Que contra tantos mil. EGLOGA. ha varios modelos do genero. que amar-te só procura... Te adoro mais que todos: que Amor cego Quiz que eu dos tiros seus victima fôra... e é algunas vezes acompanhada de musica e dança... Deixa de repertir-me essa loucura: Pois viste o meu desgosto manifesto.... . Logo no inicio da civilisação litteraria de Roma......) IDYLLIO. Pois nem se quer. Laur..... Se quem te ama. que foi muito cultivado no Brasil pelos poetas da Escola Mineira....) até Scilla. a fórma. Não emprendas de mim mais segurança... cruel.. Tudo te adora: Que em tudo influe Amor os seus desmaios.. PASTORAL São composições que celebram a vida bucolica. O discurso.. em vez de agradecer-me. que durou de Livio Andronico (240 annos A....... verbaque fulmen erant! » Do Brasil esplendor.. te conspiras Contra uma alma. Discorrendo ou falando. Os personagens são pastores... a essencia. ou fingem ser pastores. a pastoral conta dois ou mais personagens.. que te dou: ao Céo protesto Que em meu obrar não ha de haver mudança.. verbo... meu bem. em latim e portuguez: «Brasiliae splendor.... Fulmen erat sermo... Eu só (triste de mim!) eu só.... 1851. Na poesia classica portugueza.... meu desatino Te chega a merecer uma esperanza... se me não queres ser molesto.. Que aquella.. O idyllio e a egloga são ás vezes dialogados. merece as tuas iras. em versos de uma monotonia aborrecida..... trovejava.. ó dura! Que. ó cruel. Tão veloz como o raio se inflammava… JOSÉ ELOY OTTONI (n....... O’barbara. Tanto abusaram do genero os poetas classicos... nem morre nos ensayos Do cego deus de amor.. que elle ficou sendo uma insipida repetição das mesmas insipidas idéas.

1774 — m. os succos saborosos Das orvalhadas flôres. tyranno Amor! Quem te arrancasse Essas azas. Para cantar de ti. com que teu vôo elevas! Quem arco. aljava. tanto panno? . meu senhor. Erguendo as brancas azas e o pescoço. dás-me um beijo? — E que me dá. que na lyra eu me ensayase. Não teem a tua graça! THOMAZ ANTONIO GONZAGA (n. esse cravo!… De que me serve uma flôr? Ha tantas flôres nos campos! Hei de agora. O cysne. 1789) As Lyras de Dircêo (Thomaz Antonio Gonzaga) são modelos de idyllio: « As abelhas nas azas suspendidas Tiram. minha Marilia. chupam ambrosias Nunca fartos amores. A náo. A fonte crystallina Que sobre as pedras cáe de immensa altura.Lá desde as verdes margens do Mondego Fez Amor. como fórma A tua voz divina. quando parte em largas fitas As folhas que meneia com brandura. O teu garbo não teem. O vento. 1807) Este dialogo bucolico de Bruno Seabra póde tambem ser dado como exemplo de «idyllio»: — Moreninha. O mel não chupam. moreninha: Dou-te um córte de cambraia! — Por um beijo. quando corta o manso lago. meu senhor? — Este cravo… — Ora. Quando o vento lhe enfuna o panno grosso. Mas ah. que longe passa. 1729 — m. meu bello emprego. Pendentes de teus labios graciosos. Marilia. Dar-lhe um viejo por um cravo? É barato… guarde a flôr! — Dá-me um beijo. e flechas te quebrasse! CLAUDIO MANOEL DA COSTA (n. Não formam som tão doce.

Compro de graça uma saia… Olhe que perde na troca. case com ella… A rainha o fará rei! — Casar-me?! inda sou tão moço!… — Como é criança esta ovelha! Pois eu… p’ra beijar crianças… Adeusinho! já sou velha! BRUNO SEABRA (n. 1837 — m. como esta. e Rousseau na poesia. composta para celebrar o 4 centenario do Descobrimento do Brasil: I A Partida Côro: Plange a dobrada voz dos sinos… Amanhece. no seculo XVII. A cantata póde ser profana ou sagrada (oratorio). Morin a introduziu na musica. resplandece . meu senhor! — Anda cá! ouve um segredo!… — Ai! pois quer fiar-se em mim? Deus o livre! eu falo muito… Toda a mulher é assim… E um segredo… ora! um segredo… Quer o meu beijo de graça? Um beijo por um segredo?! — Quero dizer-te ao ouvido Que tu é suma rainha! — Acha. passando á França no começo do seculo seguinte. por vida minha?… — Quem déra que tu quizesses!… — Não divide. manhã dourada! Sorrindo. pois? e que tem isso? Quer ser rei. começou a affirmar a sua existencia na Italia. Salve. Algunas vezes celebra acontecimentos historicos. É uma pequena opera. caro. Como eu perdera com a flôr! Tanto panno por um beijo? Sae-lhe. A Creação de Haynd e a Armida de Beethowen são excellentes modelos. Póde conter sólos. recitativos. Neste ultimo paiz. 1876) CANTATA A cantata é um poema destinado a ser posto em musica. Varios outros paizes a adoptaram. córos. que o farei! Meu senhor. arias.

as ondas rasas… Salve. sofregas aves. Á sombra maternal Das arvores amigas! Adeus. Aves do largo mar. formosas naves! Propicio o vento vos enfuna as velas. Rufam os atabaques e os tambores… Adeus. Aventureira gente! O’lagrimas de amor dos que ficaes. Cantando. verdes collinas. manhã de rosas! Solo: Plange a dobrada voz dos sinos tristemente… Homens do mar! ao mar que vos reclama! O perigo te chama. A tiritar no banho Do orvalho matinal! . Adeus! Nos frescos alcantis umbrosos. vida feliz! Solo: Gados do verde monte. doces cantigas. ardei! Estrellas da saudade. trepidos.Em fogo o firmamento E. A face azul do Tejo arfa e estremece. correi! Ai de quem fica só! ai de quem perde o que ama! Prontos de mãe. formosa terra! Adeus. rolando. aos viejos da alvorada E ás caricias do vento. Mollemente vos beijam amorosas. a dobrada voz plange dos sinos graves… Palpitam no horizonte Os velames ansiosos… Adeus. ardei perpetuamente! Côro: Farfalham palpitando As bandeiras de guerra… Clamam as trompas. Tristonhas emmudecem As gaitas pastoris… Os valles adormecem… Ermaram-se as campinas… Adeus. Desdobra-vos as azas… Esbeltas carabelas. Salve. noivas e flôres! Adeus. amigos e aves! Longe.

a frota errante… Á proa. Terra do nosso amor. Pelo pendor descendo Das encostas floridas! Vaes desapparecendo. resoam Os sinistros e os pandeiros… — E as grandes náus. acolha a tua luz As grandes náus. A agua infinita. astros do céo profundo. Roucos. os frautins. plange… Ao mar! Manhã de março. em relampagos aberto… Dias de susto… o vento incerto. O estandarte da Cruz! II Terra!… Solo: Noites de horror! O céo troante. Olhando o mar torvo e espumante. immovel e desperto. voam… Solo: Adeus. Allucinado navegante. que vão á procura de um mundo! Refresca o vento… Ao largo! A cordoalha range… Ao largo! Protegei. de azas abertas. Em nevoa fria amortalhadas… . Que buscas tu neste deserto? Já para traz todas as ilhas Deixaste. ó louco peregrino. Negro. Gritam. rindo. casaes risonhos. Entre o ouro da seara E a alvura do rebanho! Côro: Fulgura o sol nas armas dos guerreiros. aguas queridas Do Tejo encantador! Adeus. Berço dos nossos sonhos! Côro: Plange a dobrada voz dos sinos graves.Ribeiros de agua clara.

cheia de graça. e com elle.E. Dançam as náus desarvoradas… Côro: Succede o dia á noite… A noite afoga o dia Em trevas… E o Mysterio as suas portas cérra… Quando apparecerás. os teus véos! A voz: Terra! Côro: Adorada terra! III . Descerra. caricia d’estes céos! A voz: Terra! Côro: Terra! Bemdito o vento. passa Um passaro erradio… Salve. o murmurio Das arvores. Mysterio.. O’ave da esperança! Bemdita sejas tu. Frota de espectros sem destino. que balança Os mastros nobres! Vem. contra o mar quebrando as quilhas.. Terra formosa e rica?! Ai! é tão longo o mar! tão longa esta agonia! Uma voz (abafada): Terra! Côro: Ai! é tão vasto o mar! e a India tão longe fica! A voz (mais alto): Terra! Côro: Terra!… Entreabrindo as azas brancas.

morada da Esperança! Ave. Sobre o verdor da terra joven Estende os braços que se movem. e a terceira de cinco. Brilha.. fascinados. com um estribilho ou ritornello constante. as primeiras palavras são repetidas no fim da segunda e da terceira estancias. constituido por seis quadras de duas rimas. desmaia! Ameiga e dobra a viração Os largos leques dos coqueiros. em qualquer numero de versos. Exemplo: Voae. Entre os coqueiros emplumados Vendo subir a grande cruz! A grande cruz sóbe tranquilla No ar perfumado. que não rimam com os outros. Nautas. Glaura bella está dormindo. formando pequenos versos supplementares... filha do sol. O mar. Quanto é lindo o meu amor! . Patria criança! Ave. que se compõe de tres versos de duas rimas. E borborinha a praia. domina a terra e o mar . a segunda de tres. zephyros mimosos. Distribuindo bençans no ar! Côro Final Filha amada da Luz! terra piedosa e bella Bemvindo o sol de amor que ao nosso olhar revela Teu seio virginal. com cautela. à maneira de estribilho. O rondó portuguez tem mais liberdade: é uma composição.. a primeira de cinco versos. guerreiros Á terra ideal da Promissão! Solo: A aurora beija em fogo a areia. Brasil! RONDÓ O rondeau francez é um pequeno poema de fôrma fixa: ha o rondeau simples. dispostas em tres estancias. oscilla.. e ha o rondeau dobrado. Sóbe. Vagarosos. cantae! Na curva praia. sob este céo de anil! Ave.. em perolas. cheia Da multidão dos homens nús . descei! baixae. Homens de bronze.A Cruz Côro: Aves.

. Ah! derrama em tuas flôres.. por piedade. Glaura bella. Canta! chega-te a mim! dá-me essa bocca ardente! Sobre as ondas oscilla o batel docemente. embalado ao som do canto d'ella. Leve somno. passam tremulamente Aureos traços de luz. Vagarosos. Quanto é lindo o meu amor! Se nos mares apparece Venus terna e melindrosa. Nuvens de prata. O descanço... Vagas azues. fontes. troncos.... SILVA ALVARENGA. O pezar.. Vagarosos. — Tu. Sopra o vento a gemer. que nem ousa Bocejar e só me escuta. está dormindo. brilhando esparsos nella. Quanto é lindo o meu amor! O silencio. Ouça do espaço a estrella Ouça de baixo o oceano.. zephyros mimosos. Treme enfunada a vela. (n. Tudo sente um puro ardor. Treme enfunada a vela. Glaura. e. com cautela. parae! Curvo céo transparente. Mal se move nesta gruta E repousa sem rumor.. penhas.. 1749 — m. Sopra o vento a gemer. . palpitante e bella.) Outro exemplo: Sobre as ondas oscilla o batel docemente. Do que as rosas orvalhadas Ao pequeno beija-flôr. ouça o luar albente: Ella canta. Na agua clara do mar. a paz contente Só respiram nestes montes: Sombras.. as dôres E as saudades do pastor! Voae. Lá desponta o luar. a magoa. . Glaura mais formosa Lhe escurece o seu valor. Voae. zephyros mimosos. Glaura bella está dormindo..Mais me enlevam sobre o feno Suas faces encarnadas.. ouvi!... 1814. com cautela.

o 1º verso não rima. em que ha uma glósa. no correr do seculo XII. Saudades mal compensadas Destes-me rindo. no castello. Corri á ogiva para vel-o. Senhora. Exemplo: Por noite velha. Quiz-vos depois com afinco. cuja fórma foi fixada por Villon e Marot. Todas as nações européas tiveram as suas balladas. de fórma variavel. d'ahi. Aceitastes-me por brinco.. por cousas passadas. d'este motte. que eu proprio busquei Como agora as deixarei? BALLADA A ballada nunca teve fórmas invariaveis. na Provença ou na Italia (canzone da ballo). Vasto solar dos meus avós. Elle sorriu-me. ou em octisyllabos. Não me quiz vossa cegueira. Varado vejo meu peito. em redondilhas (septisyllabos). Busquei-vos por brincadeira. que é um motte. com tres oitavas.. Porque motivo as tomei? Como agora as deixarei? Hoje. uma canção simples e inge-nua. ao ver brilhar o meu cabello. com as mesmas rimas.. Foi que eu ouvi. Vitraes de par em par abri. foi. typica. eu lhe sorri. rimam o 2º e 3º. por Sete Espadas. Foi inventada.. e seguidas de uma quadra em que as rimasse repetem. e não sei Porque motivo as tomei. A principio. Exemplo: Saudades mal compensadas. Venceu-me logo um vivo anhelo. Ultimamente. Do pagem loiro a doce voz.. o seu nome. Penas. . Vejo-me d'esta maneira. na Italia e na França.Sobre as ondas oscilla o batel docemente . VILLANCETE É uma especie de rondó. alguns poetas do Brasil adaptaram á metrica nacional a ballada franceza.. acompanhada de um bailado. E. O villancete gira em torno de um terceto. num ritornello. E só por vosso respeito.

e no sonho.. formam tambem uma ballada: I «Tu vaes partir. nem sei dizel-o! No collo seu desfalleci. aos lares não retorna?! E o beijo avulta devorando a trama Do quadro. e inda sorri. Que o solitario beijo aos poucos ia Roubando á téla a pallida figura. O pagem foge.. Por noite velha. no seu morzello. haurindo a pallida figura.. Felizes fomos ambos nós. do pagem bello. um anno após. FILINTO DE ALMEIDA. E toda a longa noite vélo... onde se vae. Só com a aurora adormeci. alta manhã... que se agrupam de modo differente. Dias depois.. 1857) Mas nem sempre a ballada obedece a essa fórma rigorosa. recresce as linhas devastando. Junto ao solar onde eu o ouvi. E tanta incomparavel amargura.. E. Pensando em vel-o e ouvir-lhe a voz. (n.. Como isto foi. Nodoa voraz pela figura entorna. haveis de crel-o? Inda o meu pagem me sorri! Seguindo a amal-o com desvelo. Sonho.. Dom Gil! Sus. Os seguintes versos. Triste. Dom Gil. Cresce. que demorando Não apparece. . sentada no escabello. Termina emfim o meu flagello. Ao golpe horrivel do cutello Rola a cabeça. e inda sorri.. cavalleiro! «Essa tristeza da tua alma espanca! «Deixa o penhor de um beijo derradeiro «No retrato gentil de Dona Branca!» II Mas tanto fel no longo beijo havia.Queimou-me logo um fogo atroz.

Exemplo: ..III Tarde chega Dom Gil.... que de Achilles fôra Inveja um dia.. estás tentando! Gentil Mancebo.. Seus dias inda apenas esmaltados Dos primeiros Abris. e do solar de Bobadella! Nutrido foi á sombra dos Loureiros Sob as palmas nasceu dos seus Primeiros. que se cantava por occasião das bodas.. dois outros que parecem ser traducções ou imitações da famosa poetisa de Lesbos... Conta por ellas os Avós honrados..... Os mais celebres epithalamios são os de Sapho.... que era cantado. Quem de Dom Gil esta tristeza espanca? Havia um beijo — eis tudo quanto havia! A téla estava inteiramente branca. e nos suores.. Em soccorro de Amor já se derrama Todo o influxo do Céo.. e o epithalamio egerthico. que oiço.. baixa dos ares O suspirado Nume: os doces lares De Andrada.... além do Epithalamio de Pelêo e Thetis... para saudar o despertar do casal..... já me promettem Vencer os feitos... Que illustres vivem para gloria bella Da casa. 1860) EPITHALAMIO É um poema. oh Deus. nestes Paços mora: Francisco é o seu nome: a natureza Lhe impoz no sangue a necessaria empreza De igualar seus Maiores Na militar fadiga. longo ou curto... Nas obras de Catullo. na manhã que se seguia ao casamento.. e que repetem Nas Elizias moradas As sombras adoradas Dos Freires immortaes.. Os gregos tinham o epithalamio coemetico.. de Andrada vão buscando: Que grande empreza. louvar os noivos e augurar-lhes venturas.. Sim! da tocha nupcial accesa a chamma......... encontram-se. Amor. JOÃO RIBEIRO (n..... O Cantico dos Canticos de Salomão é um epithalamio... composto para celebrar um casamento..... esses que pisam . ó santa creatura! Funda tristeza o rosto lhe annuvia. De longe exclama: — Vou ver-te agora......

em que podem ser empregadas varias fórmas metricas. Andrada. Do ferro as flexas quebre. Caistes cá na terra! . o canto natalicio serve para celebrar um natal. Foi um sopro de Deus. E o Céo. 1729 — 1789) CANTO NATALICIO OU GENETHLIACO Como o epithalamio serve para celebrar os esponsaes. que vos ornavam O berço abençoado. se falaes. Tu és a prêsa de que o Amor se agrada. é o echo Da angelica harmonia. Entre as flôres gentis. Das mãos do Creador vos escapastes. O ar. que a inda hoje ensina. no Empyreo os anjos Hymnos de amor cantaram nesse dia. Não ha tambem regras fixas para a versificação d'esta especie poetica. No fogo d'esses vossos olhos bellos. senhora. Não debalde se viu partida a lança Do deus gradivo: mais a gloria avança Nas campanhas de Amor quem mais se rende E quem de Eliza triumphar pertende! Vê qual nos olhos seus se manifesta Divino encanto! A tua Esposa é esta! Perdure em almas vossas De Amor a chamma ardente. E em vós eternamente Reinar se veja Amor. embalsamado.De Fama o Templo. — o nascimento ou anniversario natalicio de alguem. Exemplo: «Ao nascerdes. Gerada para o céo. um astro novo Vos inundou de luz. E com feliz agoiro Sómente as flexas de oiro Em vós imprima Amor! CLAUDIO MANOEL DA COSTA. Ao ver-vos sua igual. e os nomes eternizam... Para ti é que corre. Tu és ditoso. Vossa origem divina. E o que se escuta. (n. que respirastes sobre a terra. que o céo sómente Da creação a pompa e o brilho encerra. o mesmo Céo é que o soccorre.

consistindo num pequeno canto improvisado e sem estylo determi-nado. Attribue-se ainda a Arion a separação dos satyros e de seu canto de poesia melica do côro. «Mestres de coros dorios foram estabelecer-se na Attica. na fronte. quaes gemeos um rio outro retratado. os.Um anjo vos seguiu. O nucleo do dithyrambo consistia então num mimo musical. Vossa immortalidade!» MACIEL MONTEIRO. Sem que o tempo lhe apague o fulgor santo! Por isso. perenne. onde implantaram o dithyrambo. Primitivamente. principalImente satyros. que alli recebeu um desenvolvimento novo da choregia. segundo os rhythmos da harmonia phrygia. «Arion desenvolveu o elemento poetico do dithyrambo. admittindo nelle differentes mythos. Na Attica. ou corporação dos cidadãos que faziam as despezas dos espectaculos publicos. ligada ao culto dyonisiaco. Não ha nenhum documento nem segura noticia historica d'essa primeira phase do dithyrambo. alargou o campo dithyrambico além do cyclo bacchico. porém. em que certas figuras caracteristicas do acompanhamento de Dyoniso (Baccho). emquanto á forma. 1868) DITHYRAMBO «O dithyrambo (escreve Adolpho Coelho). «Laso. que entoavam cantos choricos agrupados antistrophicamente. dando assim um passo para o drama satyrico. é de certo A c'rôa dos meus versos! Dos meus versos! Ah! não! Que inextinguivel E o incenso queimado à divindade: E ao canto que inspiraes vós daes. segundo os tempos e os logares. que encontramos mais tarde ao lado da tragedia. a parte cantada reduzia-se. e que abriu caminho para o drama. cerca de um seculo depois de Arion. exprimia apenas a alegria e agitação produzidas pelo vinho. 1804 — m. Em vós. a ultima especie de mélo. (Tão bella sempre em tempos tão diversos!) Uma c'rôa murchar-vos. E. senhora. vossos dons são sempre os mesmos O mesmo o vosso encanto. é tudo eterno! E se. recordavam de um modo popular a historia do deus. desenvolveu a musica dithyrambica pela opposição dos instrumentos. Quem pôde distinguir o anjo da guarda Do anjo que é guardado? Só um raio do céo arde. A esse mimo ligavam-se uma dança viva e musica de flauta. fixou em 50 o numero dos coristas. para guardar-vos. (n. emquanto á materia. executando movimentos alternados com os dançantes. variando os rythmos. e um côro. a preludios tradicionaes e formulas finaes. saindo do cyclo bacchico para o campo dos mimos . o dithyrambo desvia-se inteiramente da sua materia original. á mimica e ao acompanhamento musical um jogo livre. e permittia á dança. revestiu diversos caracteres.

. propriamente.. medonhos.. e o oitavo igual ao segundo. em que mythos e representações idyllicas eram tratados a capricho... Então. verás — do Vinho sublime effeito – ella a teus braços chegar. sorrindo.. nos olhos baços — febre illusoria o mundo inteiro verás clamar. o segundo com o sexto. as turbas loucas dirão frementes. — e sendo o quarto e o setimo iguaes ao primeiro. São tão alegres e tantas As cantigas que tu cantas! Minhas tristezas espantas Com tuas velhas cantigas: . bebe de novo! MEDEIROS E ALBUQUERQUE (n. de origem franceza.. enchamos as finas taças dos claros vinhos no louro rio! deixem-se as maguas vãs das desgraças. rimando: o primeiro com o terceiro e com o quinto. gritos ardentes.» O dithyrambo é hoje.profanos. no afecto dos puros beijos. produzindo pelo esplendor do estylo e da musica um effeito theatral. — uma canção bacchica. Bebe! E se ao cabo da noite escura hora de crimes torpes. Vivas. uma composição destinada a celebrar o vinho. o brilho vivo da razão pura varrer-te acaso da mente os sonhos. do pensamento negro e sombrio: seja a Alegria quem do horizonte derrame os gozos na nossa fronte! Bebe! Se sentes no arfar do peito nome de virgem casto surgindo. serão cumpridos os teus desejos.. O triolet é formado por oito versos. appIausos. 1867) TRIOLET Alguns poetas modernos introduziram na metrica nacional esta composição. Exemplo: Ás cantigas que tu cantas Fogem-me as maguas antigas.. Bebe! Se queres a eterna gloria para teu nome de luz banhar. cerra os ouvidos á voz do povo! — ergue teu calix. Exemplo: Conviva..

encerrando a essencia do pensamento geral da composição: «si le venin du scorpion est dans sa queue. Ultimamente. Benserade.Ás cantigas que tu cantas Fogem-me as maguas antigas.. Camões (mais de quinhentos sonetos encantadores). II. Heredia. na metrica brasileira contemporanea. Desde o seu inicio até hoje. morto em 1278. por Garcilaso de La Vega. Soulary. Ai! que eu cantar-te não possa A guitarra isto que escrevo! VALENTIM MAGALHÃES (n. O soneto passou á Italia. pertencendo a quatro phases diversas da historia da litteratura brasileira: Escola bahiana (seculo XVII): . Théophile Gautier. apezar da guerra que lhe tem sido movida. Scarron. O soneto é uma composição poetica. le mérite du sonnet est dans son dernier vers» — escreveu Théophile Gautier.. Em muitos tratados de «Litteratura» e de «Versificação». a mais difficil e a mais bella das fórmas da poesia lyrica. Banville. Rodrigues Lobo. por Petrarcha (mais de trezentos sonetos admiraveis). e apezar do abuso que d'elle têm feito os poetas mediocres. na. e por todos os poetas que lhe succederam. Santa Thereza de Jesus. e d'ahi voltou á França no seculo XVI. SullyPruddhome. se lê que o soneto é de invenção italiana. Cervantes. Ai! que eu cantar-te não possa A guitarra isto que escrevo! As redondilhas da roça Ai! que eu cantar-te não possa! Castellan fidalga e moça. o soneto sempre encontrou poetas que o estimassem e servissem. Sá de Miranda. Eis teu bardo medievo. Voiture. Italia. constituida por 14 versos.» (Art Poétique. elle foi especialmente praticado por J. Mas o que parece estar hoje positivamente averiguado é que essa fórma poetica foi creada na Europa por Girard de Bournenil. 1903) SONETO É. trovador (troubadour) francez (de Limoges) do seculo XIII. Desbarreaux. Desportes. a nossa litteratura poetica usou e abusou d'essa fórma. 94. 1859 — m.) Aqui estão quatro sonetos. etc. No Brasil. que inspirou a Boileau o famoso verso: Un sonnet sans défaut vaut seul un long poëme. na Hespanha e em Portugal. Quevedo. Todas as litteraturas da Europa têm cultivado o soneto. A tradição quer que o ultimo verso do soneto seja sempre uma «chave de ouro». o «parnasianismo» brasileiro tem dado sonetos de uma perfeição admiravel. Sainte-Beuve. distribuidos em 2 quartetos e 2 tercetos. Malleville. du Bellay. Na França. etc. — honrando e restaurando o lindo poemeto..

A noite em dia emfim se equivocava. Em que a luz da razão. A mão que te gerou teus passos guia. é já chegado o dia.. e se abalava e estremecia. GREGORIO DE MATTOS. 1696) Escola mineira (seculo XVIII): Amada filha.. E com estrondo horrivel se assombrava A terra. Despreza offertas de uma vã belleza. Que amar a Deus. preceitos da verdade. De fogo e ar o ser se embaraçava. qual tocha accesa. Relampagos. 1623 — m. Vem conduzir a simples natureza: — É hoje que o teu mundo principia. 1744 — m. (n. coriscos. (n. Estampa na tu'alma a Caridade. E sacrifica as honras e a riqueza Ás santas leis do Filho de Maria. Desde o centro aos mais altos obeliscos.. Das aguias negras harmonia ao grito.. festa á sepultura. raios. ameaçando riscos. De terra e ar o ser se confundia. Com assombros. amar aos semelhantes São eternos.. em tempestade brava. Painel da noite. Musgo ao rochedo. o vento embravecia.Na confusão do mais horrendo dia. com pasmos e com medos. ALVARENGA PEIXOTO. Procura ser feliz na eternidade. Que désse ao pantano a corrente pura. Tudo o mais são idéas delirantes. Que o mundo são brevissimos instantes. 1793) Escola romantica (seculo XIX): Se houvesse ainda talisman bemdito. Desde os altos aos concavos rochedos. Bramava o mar.. Houve temor nas nuvens e penedos: Pois dava o céo. trovões. Se alguem podesse ao infeliz precito .

Mas nunca houve regras fixas para a collocação das rimas dos quartetos e dos tercetos... o quinto e o oitavo... o segundo com o terceiro. Mas. os innocentes Olhos revê da filha.. Na hora de expirar. 1841 — m. Ha. 1871) Escola parnasiana (seculos XIX e XX): Era um habito antigo que elle tinha: Entrar dando com a. Certo. (n. o quinto e o setimo. escancara-se.. repartidos em dois quartetos e dois tercetos.. a rir. Uma vez. basta Morrer beijando a cruz do teu rosario!.. donzella casta. oh Dulce. muitas variantes. com as rudes mãos trementes. o sexto e o oitavo. em meio do Calvario. o quinto e o setimo. o segundo com o quarto. de Gregorio de Mattos: — o primeiro verso com o quarto. o decimo com o duodecimo e com o ultimo. Ri-se. o nono com o undecimo e com o penultimo. — «Que te fez esta porta?» a mulher vinha E interrogava. o coração lhe fala: — «Entra mais devagar. Quem me tomasse.. O soneto classico (petrarcheano e camoneano) é o soneto em versos decasyllabos ou heroicos. porém. o sexto e o oitavo.Dar logar no-banquete da ventura. cerrando os dentes: — «Nada! Traze o jantar!» Mas á noitinha Calmava-se. Feliz. Nisso nos gonzos range a velha porta. E elle vê na sala A mulher como douda e a filha morta! ALBERTO DE OLIVEIRA (n.. e a cabecinha Lhe afaga. Eis algumas: Variantes nos quartetos: a) — o primeiro com o terceiro.. E trocar-lhe o velar da insomnia escura No poema dos beijos infinito. CASTRO ALVES. serias tu. ao tornar à casa. entre os classicos.» Pára. porta nos batentes. quando Erguia a aldraba. 1859) Já dissemos que o soneto se compõe de quatorze versos. se tudo recusa-me o fadario. o sexto e o setimo. A cruz de angustias que o meu ser arrasta!.. o segundo com o quarto. se bem que a collocação mais geralmente seguida tenha sido.. b) — o primeiro com o terceiro. c) . geralmente admittidas. a que se observa no soneto acima transcripto. hesitando. Elle.

Peregrina do céo. ha essas tres variantes: (a) «O coração da infância (eu lhe dizia) É manso!» E elle me disse: «Essas estradas Quando eu. E as sombras de uma noite que vem perto.. Sua origem não póde ser aquella Da nossa triste e misera existencia. quando os olhos para o céo levanta. que do deserto. o quinto e o oitavo. ADELINO FONTOURA. Exilada da etherea transparencia. (c) Fatigado viajor. Nem parece mulher. de barbas brancas derramadas No burel negro.» Falei-lhe então da gloria e da alegria. candida e pura. E. quando eu lhe falei do amor. Mas. E elle. o sexto e o setimo. Inundados da mystica doçura. as percorria. Era a luz de um relampago indeciso. um riso Rapido as faces do impassivel monge Iluminou: era o vislumbre incerto. Que eu concebera o typo da innocencia Nessa criança immaculada e bella. o segundo com o terceiro. (n. o olhar sómente erguia As cérulas regiões illimitadas. pallida estrella. . outro Elyseu. Tem a celeste e ingenua formosura E a luminosa auréola sacrosanta De uma visão do céo. Nos seguintes sonetos.. RAYMUINDO CORRÊA. 1860) (b) É tão divina a angelica apparencia E a graça que illumina o rosto d'ella. Entre os clarões de um sol que já vae longe. As crianças lançavam-me pedradas. — parece santa.— o primeiro com o quarto.

e o undecimo com o ultimo Meu amor! meu amor! hirta.Ledo. Mas. 1845 — m. para mim aberto. real que o sol castiga. — Beijo que guarda como a mancenilha O mesmo aroma que envenena e mata! OSORIO DUQUE ESTRADA. E sobre os labios teus. Fui repousar. De uma planta fatal.. Pastam os vermes no teu collo airoso.. exanime.. 1870) Variantes nos tercetos. afficto. Pois quando foste para a immensaterra Num beijo eu te sorvi a alma adorada. Sinto dois corações e ambos palpitam! LUIZ GUIMARÃES (n. gelada. ó minha doce amiga! Em meio ainda do percurso incerto. (n. o decimo com o penultimo. Assim teu beijo a vida me arrebata. Assim tambem. Vendo as sombras da noite que vem perto. o duodecimo com o penultimo. na loucura minha. que em meio á trilha Em flôres perfumosas se desata. No teu regaço. oh milagre! dentro do meu peito Convulso. exhausto de fadiga. Busca um pouso na terra. .. Bebe a morte o viajor que o somno pilha. As negras larvas funeraes se agitam. Dormes o somno que amedronta e aterra: Oh meu franzino bogary da serra! Oh minha rosa pallida e magoada! A alma gentil. onde se abriga. e o undecimo com o ultimo: Dentro de um bosque nemoroso errava Sobre um solo de trevos a mesquinha. a essencia immaculada Que teu corpo encerrou. 1897) 2ª O nono verso do soneto com o duodecirno. meu corpo encerra. Anjo saudoso. A dryada que eu louco procurava Galgando montes. percorre o. desfeito. 1ª — O nono verso do soneto com o decimo.

a dryada estremece. Quantas por mim ella passado tinha. Surge.. Nisto a trompa de caça embóco. parecem Das contorsões do gozo electrisados. — Da alma a vida me foge sonho a sonho. e o penultimo com o ultimo: Ante a mesquita de aureos minaretes Açoitam dois telingas a traidora. tremulo. Sibilam sobre a carne tentadora. Deuses! sabei que a furia do instrumento Que o valle abranda e os bosques enternece. E a esperança de vel-a quasi perco. nos espasmos do soffrer. delicados. da estrada. o de-cimo com o duodecimo.Mas quando eu vinha. Á vibração das varas. seu perfil risonho. E. praga por praga. firmes.. que a torrente alaga. Ia-se embora a deusa quando eu vinha.. As vergastas. Tudo me envolve em tenebroso cerco . e o alento Da tuba estruge. Montes e valles.. Por ella tantas vezes eu passava. 1860) 3ª O nono verso do soneto com o undecimo. o duodecimo com o ultimo. 1867) 4ª — O nono verso do soneto com o undecimo. estremecem Seus niveos membros. subtis como floretes. a densa recuava. Da natureza ao intimo recesso Gritos de auguro vão.. subito. e o decimo com o penultimo: Noite de chuva tétrica e presaga. Da ultima estrella á restea infima e vaga Invios caminhos. Venço e á alimaria o incerto passo apresso. Ao clarão da varanda illuminada! EMILIO DE MENEZES (n. Cortando a treva e o mattagal espesso. do curso a cabelleira panda. Corre. atravesso. JOÃO RIBEIRO (n. Não a enternece nem seu peito abranda. em auréola.. Mas numa volta. .

em redondilhas e em outros metros. MEDEIROS E ALBUQUERQUE (n.. no pisar.. com ciume: «Podesse eu copiar-te o transparente lume. Que arde no eterno azul. sim. a fronte amada e bella. sabei que passa O Mimo. a Mocidade. firmes e serenos . E do alvo collo. todos os versos são graves. que seu peito orvalham. gemia inquieto vagalume: «Quem me déra que fosse aquella loura estrella. Dobram-se as curvas. da grega columna á gothica janella.. — ora conservar nos quartetos todas as rimas graves.» Mas a lua fitando o sol com azedume: . amargurado e exangue. si o pé pequenino pisa incerto. Que. e terminar os dois tercetos com uma rima aguda. elle por certo Sente que pisa sobre corações. Contemplou. sonetos compostos em versos alexandrinos. ha subtis venenos Do seu olhar no delicioso brilho . na poesia nacional moderna. a Graça: — Tudo o que inspira os hymnos e as canções! E. A segunda fórma é a mais frequente: Não tem da deusa antiga de Virgilio Graves os passos. fitando a lua. que as carnes lhe retalham. VALENTIM MAGALHÃES (n. 1859— m. Dois exemplos: Bailando no ar. No soneto classico. os olhos bellos Perolas vertem. É Venus.Geme aos golpes. É porque. symetricamente. suspirosa. aberta a rosea boca. Si eu noto que ella vem. Ha capitosos. Mas os poetas brasileiros costumam. ora entremeiar nos quartetos e nos tercetos rimas graves com agudas. E. me maravilho Dos seus mais simples e banaes acenos! Quando a virdes surgir. — Como esparsos rubis — gotteja o sangue. 1903).. soltam-se os cabellos. o Encanto. mas pequenina Venus Feita p'ra os cantos de um travesso idyllio. 1867) Ha. ás vezes. como uma eterna vela!» Mas a estrella...

E de morrer como um beijo Nas ondas dos teus cabellos. Irei nella deitar-me ao lado teu. os enterrados Erguem-se e dançam. tenho desejo De aspiral-os. Porque não nasci eu um simples vagalume?» MACHADO DE ASSIS (n. Cabello puro e annellado.«Misera! Tivesse eu aquella enorme. pallida... E tu. de sorvel-os. ardentemente. Tu te fores deitar na campa fria. morro tambem eu. aquella Claridade immortal. Que habita o seio doirado Da madresilva e das rosas. estreitamente unidos como esposos. bem abraçados. abraço-te muito. 1845 — m. Eis o dia da ira. E nós. quando um dia.. estremeço. 1839) Tranças! ai! tranças formosas! . grupos nebulosos. Enfara-me esta azul e desmedida umbella. Deixamo-nos ficar. do eterno premio descuidosos.. antepondo os tercetos aos quartetos: Ó doce amada minha. indifferente.. Tão negro. amor. Ficamo-nos no tumulo deitados. convocados. LUIZ GUIMARÃES (n. Erguem-se os mortos para a dôr e os gozos. 1897) Alguns poetas têm invertido a collocação das quatro estrophes ou estancias.. quando vejo Esses escuros novellos Revoltos. Eu sinto o aroma orvalhado. que toda a luz resume!» Mas o sol inclinando a rútila capella: Pésa-me esta brilhante aureola de nume. E.. . de que se compõe o soneto.. muda.. Por isso. Beijo. Ouve-se meia-noite. tão perfumado Como as mattas tenebrosas! Nas vossas rôscas cheirosas. Grito..

.... 1859) Ou como: Caíra o sol no horizonte! A rapariga travessa Vae... vendo-a. Assim.LUCIO DE MENDONÇA. Pelo caminho da fonte. Que arte em pintal-a!. Fino artista chinez. Na tinta ardente de um calor sombrio. pois. Posta em relevo. Casualmente. ha sonetos a) méramente descriptivos. ALBERTO DE OLIVEIRA. brilhante. Entre um leque. Mas. como: Estranho mimo aquelle vaso! Vi-o. 1859) . LOPES (n.. De olhos cortados á feição de amendoa. como quasi todos os que citámos. acaso. Sentia um bem estar. Nelle pozera o coração doentio Em rubras flôres de um subtil lavrado.. não raro. Irado. E o largo silencio corta Uma toada distante. que a noite desça.. Antes. B.. Dando ração ao cavallo. Lá se achava de um velho mandarim. 1854) _____ O soneto é uma composição lyrica por excellencia. (n. Defronte Azula-se a matta espessa. Voam as aves ao monte.. a singular figura. e a gente. Mas talvez. enxotando o gallo. enamorado. com aquelle chim. (n. de um perfumado Contador sobre o marmor luzidio. Fumega o rancho. de cantaro á cabeça. Está um homem na porta. uma vez.. tem sido empregado corno molde de outros generos poeticos. Aponta Vesper. e um começo de bordado. por contraste á desventura. além dos sonetos lyricos.

Lembrem-vos Guararapes e esse cume. como: Ha coisa como ver um payayá. que alvejam campos. como: O INCESTO. niveos ossos. Sejam iguaes aos seus os feitos vossos: — Imitae vossos paes até na morte! SILVA ALVARENGA (n. jovens Brasileiros! Esses. Onde brilharam Dias e Negreiros! Lembrem-vos esses golpes tão certeiros. carirú. A linha feminina é carimá. segui seu lume. Acto primeiro: Jardim. 1623 — m. Pahy. jovens Brasileiros. c'um branco Pahy. Seu exemplo segui. Dormiu no promontorio de Pacé.. O cavalleiro jura um casto amor profundo. Moqueca. Mingáu de puba. petitinga. Cobé. O branco era um marau que veio aqui. Cujo torpe idioma é copebá?. Drama em tres actos. 1814) c) satyricos. A masculina é uma aricobé... 1749 — m. 1696) d) humoristicos. (n.. 'E a castellã resiste. Mui presado de ser caramurú. Filhos da patria. Ao fiel cidadão prospéra a sorte. Um famulo matreiro . como: Filhos da patria. Copeba. Ella era nina india de Maré. vinho de cajú. Que ás mais cultas nações deram ciume. Pisado num pilão de Pirajá. Inda se prezam de chamar-se nossos. Velho castello illuminado ao fundo.b) épicos. GREGORIO DE MATTOS. Aricobé. Cuja filha Cobé. Que as bandeiras seguis de marcio nume. Descendente do sangue de tatú. Dando a vida por nós constante e forte.

trabalha.. interessantissimo. que. Divertida a melodia. os ultimos poetas clássicos. os versos são tantos quantas as lettras de que se compõe o nome d'essa pessoa.. Horror! Vingança! — Acto terceiro Em casa do galan. — Apito! — Acto segundo: Num salão do castello. Que me roubaste a honra. Como se verá.» O soneto tem hoje uma liberdade folgada. O acrostico é uma pequena composição. Honesta e alegre e suave. 1855) * * * Todos esses exemplos servem para demonstrar que o soneto não é hoje. OUTRAS FORMAS LYRICAS Ha ainda algumas fórmas lyricas. Os meus defeitos consente: Nome não busco excellente Insigne entre os escriptores. e me roubaste o amor!» O mancebo descobre o peito: «Uma medalha! Quem t'a deu?!» — «Minha mãe!» — «Meu filho!» Cáe o panno. furioso. quasi sempre amorosa. hoje pouco praticadas: taes são o acrostico e a glosa. Para exemplo de acrostico escolhemos um. no começo do volume em que foram publicadas as suas comedias.. . Não critico rigoroso Te desejo: mas. Esta comica harmonia Passatempo he douto. Sabe de tudo. de fórma fixa. sentado.. prudente. O Judeu. Amigo leitor. Os applausos inferiores Julgo a meu plectro bastantes: Os encomios relevantes São para engenhos maiores.. pela Inquisição.. e destinada ao louvor da pessoa amada. iracundo. — e é talvez por isso que os poetas o cultivam com tanta frequencia. e grave. cultivaram. tyrano. e diz: «Morre. e os poetas de transição entre classicos e romanticos. Elle foge. em 1739. Entra o barão. (n. como antigamente. e queimado vivo em Lisboa. que o poeta Antonio José da Silva..Vem dizer que o barão suspeita o cavalleiro. á maneira de prefacio. ella grita. collocou. no Brasil. uma composição poetica sujeita a regras immutaveis e severas. O barão. as iniciaes dos versos formam o nome: Antonio Joseph da Silva. e cada um d'elles começa por uma d'essas lettras. Á scena o auctor! á scena o auctor! á scena o auctor! ARTHUR AZEVEDO. nascido noRio de Janeiro em 1705. que larga e abusivamente. — «um pensamento de ouro num carcere de aço. piedoso..

tres ou quatro versos. e do que se vê logo abrazado Sentir o coração de um fogo ardente. meu bem! MACIEL MONTEIRO (n. Leitor. dois. Exemplos: MOTE Deixa beijar-te. Vontade para servir-te. e d'este amor se morre! GLOSA Ver. 1868) Glosa em soneto: MOTE Isto é amor. Se a natureza o consente. tres ou quatro estrophes. De teu recato o pudor: Não beija o zephyro a flôr? Não beija a aurora a bonina? Quando o sol meigo se inclina Não beija as ondas tambem? Se ao terno pombo convém Beijar a rôla innocente. Nem o será talvez. De prazer um suspiro de repente Exhalar.. Ser feliz e ser logo desgraçado. Do rosto a côr mudar constantemente. lograr na mente. Affecto para agradar-te. Aquillo que não foi inda logrado. — Deixa beijar-te. Annalia divina. Assim. meu bem! GLOSA Suspende. a glosa terá uma. facundia e arte. Soberano me reparte Ideias. se o mote tiver um.. . e após elle um ai maguado. que illustra o dia. 1804 — m. duas.Apollo. (*) A glosa é uma composição em que é desdobrada uma outra composição mais curta — (mote) — de modo que cadaum dos versos do mote termina urna das estrophes da glosa. para divertir-te.

e vestiam-se imitando personagens determinados. que se chamava «a rainha». de origem attica. na essencia e na organisação. festas bacchicas do inverno. a mulher do segundo Archonte. Nas festas do vinho de Dyoniso. punham mascaras de páo. e da fuga e da expiação que seguem. mas sim ás pequenas dyonisiacas ou campestres. e que nos explicam o caracter mimetico que tomára o dithyrambo. gracejos. comquanto o impulso para este genero e os seus primeiros germens fossem recebidos do Peloponeso.» A Tragedia e a Comedia depois de se aperfeiçoarem na Grecia. cebo. cingiam-se com pelles de bódes. 1804 — m. segundo a denominação moderna.Desejar tanto mais quão mais se prive. e entregando-se ao mesmo tempo a toda a sorte de folias. Em Samos representava-se na festa principal de Hera o casamento com Zeus. Calmar o ardor que pelas veias corre Já querer.» A Comedia é «um poema dramatico. 1868) __________ GENERO DRAMATICO As principaes fórmas d'este genero poetico são a TRAGEDIA e a COMEDIA. — não ás leneanas. de cascas de arvores. que existem mais ou menos desenvolvidas em todos os povos. O que isto é a todos nós ocorre: — Isto é amor. com uma acção intensa. disfarçavam-se em satyros. arrastados pela tendencia mimica. sentindo como que a necessidade de sair de si mesmos. Nessas festas. determinaram a existencia de numerosos elementos dramaticos nos cultos hellenicos. em que se representava a historia de Demeter e Cora. e reappareceram em toda a Europa durante o periodo brilhante da Renascença. festas finaes das vindimas. essas são mais obscuras do que as da tragedia. ao que parece. — festas em honra de Dyo-niso. A Tragedia em verso é hoje «uma composição dramatica. «Quanto ás origens da comedia. um drama mythico. dirigindo-lhes chufas. ambas de origem grega. de varios personagens. sacrificava-se um bóde. capaz de excitar o terror e a piedade. os que nellas tomavam parte mais activa. era desposada ao deus por meio de uma solemnidademysteriosa. em que os convivas zombavam dos espectadores. em que havia uma parte chamada «comos» ou festim. e d'este amor se vive! — Isto é amor e d'este amor se morre! FRANCISCO MONIZ BARRETO (n. Os myste-rios de Eleusis eram. formada só de coros — ou tragedia lyrica. um adolescente figurava Apollo no quadro vivo do combate contra o dragão. mas ligavam-se como as d'esta ao culto de Dyoniso. em que se representam uma ou mais . Em Delphos. minio. Faltam-nos muitos elos na cadeia que liga a tragedia attica ao dithyrambo na sua fórma mais desenvolvida. «Comedia» era o canto do «comos». Esses cantos tornaram-se a materia da tragedia dorica. emquanto se executavam cantos e coros. ou acontecimento funesto (tragico). e terminando ordinariamente por uma catastrophe. passaram á litteratura romana. Nas anthesterias de Athenas. cobriam o corpo com gesso. «A tragedia era. As tendencias mimicas. já buscar que elle se active.

Este chão frio e humido por leito E palhas por lençol?! — E por que causa! Por uma opinião.. Mas p'ra mim acabou-se o dia e o mundo. Pallida e triste como a luz dos mortos. por uma idéa Que meu pae recebeu dos seus maiores E transmittiu ao filho! E sou culpado! É possivel que os homens tão máos sejam Que como um fero tigre assim me tratem. e septisyllabos... na Cruz suspenso. que corre. quando Esse Deus homem.. É meu unico sol esta candeia. pintando.situações da vida commum.. morto no Calvario Prégou no mundo leis de fogo e sangue? Quando. de maneira divertida ou maliciosa. deu aos homens O poder de vingar a sua morte? Que direitos têm elles. esta corrente. os defeitos e os ridículos de uma epoca.. Mesmo por sua lei. Tendo por cabeceira um duro cepo. de perseguir-nos?.) ANTONIO JOSÉ É dia ou noite? o sol talvez já brilhe Fora d'esta masmorraA natureza Talvez cheia de vida e de alegria O hymno da manhã entôe agora. Por uma idéa occulta de minha alma. Por musica continua. Um excerpto de tragedia (Antonio José ou O Poeta e a Inquisição): (ACTO V. Para tingir de horror este sepulcro...» No Brasil.. . Mas quando. alexandrinos. um somno ao menos Livre d'estas cadeias — porém. Só perturba o silencio d'este carcere O ferrolho. Como este fumo negro que ella exhala E em confusos novellos se evapora. SCENA V. Porque.. e a dura porta. Sigo a lei de Moysés?!. Vejo correr meus ultimos instantes. Sim! p'ra o mundo morri! minha existência Já não conto por dias. os costumes.. Se eu podesse dormir. a tragedia em verso tem sido geralmente composta em decasyllabos sem rima (heroicos brancos) e a comedia em varios metros. Diante dos meus olhos sempre accesa. Que em horas dadas se abre. como. p'ra fechar-se. Que retine e chocalha em meus ouvidos E de negros vergões me crava o corpo... em vez de seguir a lei de Christo. heroicos rimados ou não. Seu vapor pestilento respirando. mas por dôres! Nesta perpetua noite sepultado. que justiça..

Eis o que é vida! Mal a luz se extingue. que o prende á pilastra. De fraqueza e tormento. Prazer que em dôr começa e em dôr acaba.. O horror e a. Arrancando-me a vida. malvados! Assás tenho valor para insultar-vos De cima da fogueira! A minha morte Quero que sobre vós toda recaia! (Pausa.. Quem sabe o que é a morte? Porto de salvamento ou de naufragio! E a vida? — um sonho num baixel sem leme.. confusão desapparecem. E. Fica apoiado sobre o braço. Abaixa a cabeça como absorvido em algum pensamento e. que horror! que atroz hypocrisia! (Pausa. Sonhos entremeiados d'outros sonhos. que deviam esmagal-os! Oh céos. convertidas em leis de odio! E são elles christãos!. Creio que morrerei nesta masmorra..... sacudindo-a. com a mão no chão e com a outra segura a cadeia. não..... ousam mostrar-se Á face do universo. Quão vis são estes homens! Como abutres os mortos despedaçam P'ra saciar seu odio.. revestidos Com sagradas insignias.. Dóe-me o corpo todo. Tinem as cadeias. Leis de amor. E interrompe o recondito mysterio.. Onde a escassez da luz o horror augmenta. O meu cadaver Será queimado e em cinza reduzido! Oh que irrisão!. quando a vida. diz com voz pausada e baixa) Morrer!. Não mancharei meus dias derradeiros. assim manchando O nome de seu Deus.) Ai.Oh! que infâmia! Assim é que elles entendem De seu legislador os mandamentos?!. Como tenho este braço! (Toma uma Iarga respiração) O ar me falta. . Esforça-se por mudar de posição. morrer!. O que foi minha vida e o que é agora? — Uma masmorra allumiada apenas.... já não posso. Onde tudo se vê confusamente.. profanando Os templos. De suas tristes victimas se escapa! (Com indignação) Não! eu não fugirei á vossa raiva.

ANGELICA Qual! minha filha nunca teve d'isso! LUCAS Nesse caso. que não a vejo? LUCAS Para o seu quarto foi co'uma enxaqueca. Completa-se o mysterio.. CEZAR Não. 1811 — m. Sentiu-se incommodada. ANGELICA Valha-me o Bom Jesus! Vou ter com ella! LUCAS Um vidro tenho aqui de saes inglezes. acto II — scena V): RAMOS Então? Que é isso? Desertaram ambos? D.. A senhorita Bebeu Bucellas e bebeu Collares: Não estando acostumada a taes misturas.O palacio e a masmorra se confundem. fez hoje a sua estreia.. 1882) Fragmento de comedia (O Badejo. D. Não será nada.. eis o que é morte! GONÇALVES DE MAGALHÃES. não creia: Muito pouco bebeu durante o almoço. (Angelica sae sem lhe dar ouvidos) RAMOS Deixe. (Senta-se a examinar um album de photographias) BENJAMIM . D. (n. ANGELICA Ambrosina onde está.

Já lá está. RAMOS Gosta de vêr retratos. LUCAS. Ambrosina Por tanto ouvir falar ao Cezar Santos Em transacções da praça. senhor Cezar? CEZAR É divertido. RAMOS Aqui me tem. CEZAR Ainda se parece. (Alto. LUCAS Pois engana-se .. no tempo Em que eu tinha talvez. sentando-se ao lado d'elle) Quer saber o motivo da enxaqueca? Qual mistura de vinhos! qual historias! RAMOS Esta é minha mulher. BENJAMIM Eu desconfio Que indisposta ficou D. a sua idade.Diz muito bem.. Foi bem bonita.. á parte Vou penetrar nesta alma de ocioso. Nos calices apenas Os labios virginaes humedecia. RAMOS Este é meu sogro.. (Lucas se approxima de Benjamim. coitado! LUCAS Foi o senhor a causa da enxaqueca! . que está sentado no sofá). (Ramos senta-se ao lado de Cezar e vae-lhe mostrando os retratos).

Era bem homem. é muito tola.. É tão mal preparada!. visconde de Alcochete! BENJAMIM Pois tenho pena que ella me deteste: Tencionava pedil-a em casamento LUCAS Pedil-a em casamento? Oh! desastrado! Meu Deus. não nego. mas — que pena! -Falta-lhe o savoirvivre. LUCAS Ella. LUCAS Ella não aprecia o seu estylo. Só lhe agradam Palavras corriqueiras. Não faça caso do que eu disse! Pilulas! Por minha causa perde a rapariga Um casamento d'estes! Não! Não! casem-se! . aqui para nós..BENJAMIM Eu! Ora essa! Não comprehendo.. quando era mais mocinha.. Explique-se! RAMOS A Ambrosina. Teve uma loja de calçado. RAMOS O fenecido meu compadre Lopes.... Padrinho da pequena. Hoje é o Sr.. Elegante... RAMOS É isso! Na rua da Quitanda. Uma burgueza! RAMOS Este é o Freitas Simões. fil-a bonita! Meu amigo. CEZAR Eu conheci-o. que foi meu socio... É bonita.

e não raro grosseiro. ou ao publico. Outra cousa não é. — o monologo.. Mas se ainda assim nas suas boas graças Não cair. porque sou rico. além das satyras e dos epigrammas. de um comico rasteiro. RAMOS O Gouvêa da rua do Mercado. Ter-me instruido sobre os gostos d'ella.. POEMA HEROI-COMICO E PARODIA . creia. Outra donzella Talvez encontre menos exigente. ARTHUR AZEVEDO.. cheia de situações burlescas. etc. e fala a si mesmo. devem ser incluidos os poemas heroi-comicos e as parodias.. paciencia. E lhe agradeço até. ha ainda: — a farça. O que me agrada nella é a formosura Com que a dotou a natureza prodiga. eu não desanimo por tão pouco. BENJAMIN Eu tratarei de transformar-me. scena theatral. 1855) Além d'essas especies dramaticas em verso. — o intermedio. em que o actor está só no palco. RAMOS Conhece? É o Nazareth da rua Sete. comedia ligeira. pequena comedia que se representa entre os actos da comedia. LUCAS Em Deus? Sim! tem razão! Deus é quem mata . ____________ GENERO SATYRICO Neste genero. Mas no tempo em que usava a barba toda. — a burleta que essencialmente não differe da farça. (n.Virá depois o savoirvivre! Diabo! Hei de ser sempre uma criança estupida!. E ainda espero em Deus herdar bastante. meu caro joven.. BENJAMIM Não.

ou que engenhosamente procura estabelecer um contraste divertido entre a altiloquencia do estylo e a pequenez das acções cantadas. O cair em torpezas semelhantes. por Young. em que se atacam e ridicularisam os vicios. que se conhece. por Bocage. que passou a sua longa e attribulada existencia a atacar os defeitos sociaes e politicos da terra e do tempo em que viveu. Alfieri. as tolices de uma epoca. Laprade.O poema heroi-comico é uma composição. A satyra nunca deixou de ser cultivada. Ha-gedorn. por Ariosto. acho que Ovidio tem escripto. e o Reino da Estupidez. desde o Margitès do cyclo homerico e os iambos de Archilocco. em Portugal. foi depois tratada: na França. de Menippo. mas desviando o seu sentido para nina applicação ridicula ou apenas chistosa. Quando desembarcaste da fragata. do mosquito. e muitos dos poetas antigos e modernos. SATYRA É uma composição poetica. . é a famosa Batrachomymachia (combate dos ratos e das rans). A Parodia é a composição comica. Antonio de Sousa Menezes. Dona Anatomia. que canto cousa mais delgada. Quevedo. na Hespanha. Homero. entremeiadas de prosa. em poetas elegantes. em Portugal. attribuido ao cyclo homerico. Mas os gregos já possuiam uma poesia satyrica. o Desertor das Lettras. Pope. Argensola. mais esmagada. reproduzindo a acção e o tom d'esta. Mais chata. o. de Silva Alvarenga. a petulancia dos homens. Hyssope. Pacuvio. em França. Aqui está um trecho da sua Satyra a D. Byron. de Boileau. na Inglaterra. que Varrão traduziu em Roma com o titulo de satyras manippéas. Das rans. os defeitos. por Wieland. calcada sobre uma composição séria. por Boileau. Aretino. por Castillejo. Persio. em todas as litteraturas. mais subtil. Lucilio. Horacio. a hypocrisia. Que escreveram materia de mais peso Do que eu. cognominado O Braço de Prata: Oh! não te espantes. da mais remota antiguidade até hoje. Mürner. que imita a epopéa. no Brasil. na Italia. Os romanos fizeram da satyra um genero especial em que se celebrisaram Ennio. mas que deve ter sido composta no 6° ou no 5º seculo antes de Christo. Mery. de Diniz. Com espremida voz. e estes não desprézo. Juvenal. com plectro esguio. São poemas heroi-comicos o Lutrin. Cantar ao mundo esse teu bom feitio: Que é já velho. A verdadeira satyra (do latim satura) é originaria da civilisação romana. Lucano. até as estrophes. Da pulga. ou os costumes. pondo os sentimentos e as palavras dos heroes na alma e na bocca de gente de baixa educação. na Allemanha. Floresceu na idade média. de Domingos Caldas Barbosa. O nosso grande poeta satyrico foi o terrivel Gregorio de Mattos. Voltaire. Que se atreva a Bahia. O mais antigo poema heroi-comico.

Hoje. Que o julguei por um sacco de melões. Sempre em cima da figura. O sentido moral foi se ligando depois a este genero. sendo livreiro. impressionando o espirito. . Por solfa de fá bordão. ou idéas que se alliavam ao caracter de uma inscripção. O rosto de azarcão afogueado. entre os gregos. de malicia caustica». «Na Grecia. em que se exprimia um pensamento acerca de um objecto. E em partes mal untado. Vi-te o braço pendente da garganta.. Tao cheio o corpanzil de godilhões. EPIGRAMMA O sentido d'esta palavra não é hoje o que era antigamente. Onde a valia se apura. a palavra indica: «uma pequena poesia. Por analogia. de que aqui damos dois exemplares: A UM MUSICO QUE LEVARA UMA SÓVA DE PÁO Uma grave entoação Vos cantaram. Pois metter folhas no couro Tambem é encadernar. Segundo se conta e diz. Pelo compasso da mão. Antes é para notar Que trabalhou como um mouro. o epigramma era propriamente uma inscripção. —Vendo tão espremido salvajola.Meu Dom Braço de Prata.» Entre os romanos. mas perfeito. Cuidei que a esta cidade tola e fatua Mandava a Inquisição alguma estatua. Desencadernadamente. A UM LIVREIRO QUE COMERA TODO UM CANTEIRO DE ALFACE Levou um livreiro a dente De alfaces todo um canteiro. Marcial transformou o epigramma em auxiliar da satyra. rapida e incisiva. Parecia solfa escura. Gregorio de Matos foi auctor de innumeros epigrammas. E nunca prata vi com liga tanta. O merito do epigramma consistia em fazer conhecer um objecto de modo simples. Braz Luiz. veio a palavra a designar depois simples composições poeticas. nem no chão dava. Porém eu digo que mente A quem d'isso o quer taxar. Nem no ar. que se punha num tumulo ou num templo. Visão de palha sobre um mariola. E comeu. Porque a mão nunca parava..

é necessario abrir-lhe logar nesta rapida enumeração dos generos poeticos. destruil-a E ao velho tecelão Offerecem dinheiro. esfarrapada ao vento. o califa Almansor Esteve a meditar. ao certo. sem exame.. alli perto havia em frente ao monumento Uma choça mesquinha. oriental. esta casa que habito Nunca será vendida. antes seja eu maldito! Arrasae-a porquanto é-vos facil poder. Um palacio construiu. 1623 — m. Um dos servos: — «Senhor! Sois poderoso e rei. a columnata em porphyro. na qual. A Maxima é uma curta sentença.GREGORIO DE MATTOS. à resposta do velho. Essa misera casa. Exemplo: O CALIFA No outro tempo. vós. Chovem aurea poeira as fontes em repuxo. Retrocederdes.) O Apologo é uma parabola.. Desagradavel. diante d'um tecelão?!»Almansor. 1858. transtornava A sumptuosa impressão do palacio.) _______ GENERO DIDACTICO Este genero litterario pertence mais á prosa do que á poesia. podem caber uns tres. Quasi a cair. Exemplo: Pobres. Causava Não sei que dôr. transparece um ensinamento moral. de oiro todo: a alcatifa De jaspe. Tanta riqueza ao pé de choça miseravel! Convinha. e nella hei de eu morrer!» E. em piscinas de luxo. num. já e já. Almansor. ergueu-se e disse: — «Não! . pois. que encerra uma lição philosophica ou moral. para poder classificar as maximas. E. Essa casa arrasar. velho e simples tecelão. Ora. ou allegoria. em frente d'esse asylo. (n. Nella morreu meu pae. só colchão. em Bagdad. os apologos e as fabulas em verso. E o velho disse: — «Não! Guardae vosso ouro todo. humilde e tristonha mansão De um velho pobre. vós podeis. e o frontal De toda a pedraria asiatica. (n. o califa. Mas o maior imperio é pouco p'ra dois reis! FONTOURA XAVIER. Ainda assim. sem vexame. talvez asco. o Califa. 1696.

que fazia os bichos mais tremer. (n. Se d'essa phrase a bocca cheia De toda a gente (diz o La Fontaine) está?. Loucos por um desastre ao teu desastre igual. (n. — a animaes privados da razão e da palavra. sem custo.. 1860) (*) Sylvio Roméro . bem junto a mim. urros descommunaes.. Não vêm quebrar nossos ouvidos. irada. RAYMUNDO CORRÊA. disse. Exemplo: A LEÔA E A URSA Caiu-lhe o filho na cilada. sem meu filho! Ai! que velhice. Sem elle. com algazarra tal!» — «Eu.Eu não quero destruir a mesquinha choupana. 1860) A Fabula é a narração poetica e simples de um facto attribuido ordinariamente a seres distinctos do homem. a urrar. Porquanto a geração dos meus filhos se expande. arrastarei com este fado atroz!» Disse a leôa. — e da qual se tira uma lição moral. Vendo o palacio diga: Ave! Almansor foi grande! E vendo a pobre choça: — Elle foi mais: foi justo!» JOÃO RIBEIRO. porém. Não n'os quebres tu. A mãe leôa a urrar — a urrar. essa cabana. E quero que cada um a reflectir. E a noite toda e todo o dia Soltou berros crueis.. (que era Comadre d'ella) em prol dos mais interceder: «Comadre. que culpa temos nós!?» — «É o destino que me odeia!... acaso. mãe nem pae? Têm. Não têm elles tambem. Mas nem dormir deixava os outros animaes. Até que veio a ursa. Quero-a de pé. Que o mendaz caçador lhe veio ao bosque armar. E a ursa disse: «Do teu fado. andava. E pelo bosque. Entretanto.. pungidos. os innocentes Que famulenta e crua estrangulando vae A aguda serra dos teus dentes. pois.. a urrar.. E não só ella não dormia. estes. Tamanho e tal berreiro a féra Fazia.» E quem no mesmo caso o mesmo não dirá.

por ter sido methodicamente empregado na composição do famoso Roman d’Alexandre le Grand. oração) — oratio prosa. Historia da Litteratura Portugueza. (*) Todo este trecho. — porque. verso é derivado de versus. que não é usado na metrica italiana. — poema começado no seculo XII Lambert Licors. COELHO (Litteratura antiga e medieval). de Châteaudun. quando os nossos poetas pareciam estar imitando Guerra Junqueiro. 1787. É uma creação franceza. nunca mais tivemos poetas portuguezes. (*) É licito dizer que. do verbo vertere. discurso continuo. seguido. — porque. professor da cadeira de PoesianoPedagogium do Rio de Janeiro. para se distinguir do outro poeta de igual nome. e volta de novo ao ponto «de partida. discurso. (*) Cognominado o moço. (*) Adolpho Coelho. que formam o alexandrino chama-se hemistichio. nem hespanhola. depois da Escola Mineira. Braga. Só depois de Bocage começou a ser empregado na portuguesa.» (*) O ponto em que se faz a juncção dos dois versos de seis syllabas. que se refere á «Homophonia do Verso e da Rima». tornar ou voltar.(*) Th. trovador normando do mesmo seculo. Baudelaire e Victor Hugo. e continuado por Alexandre d Bernay. atravez da imitação anterior do auctor da «Musa em Ferias». nos foi communicado pelo illustre poeta Alberto de Oliveira. . (*) A. os modelos que elles realmente imitavam eram Byron. uma vez exgottado um certo numero de syllabas. a oração interrompe-se. afim de começar outra evolução syllabica. (*) «A etymologia latina das palavras prosa e verso claramente indica a differença essencial da sua significação: prosa vem do adjectivo latino prosa (subentendendo-se o substantivo oratio. (*) — «Theatro Comico Portuguez» ou «Collecção das Operas Portuguezas. Patriarcha da Independencia. e respeitando a ordem grammatical directa. Lisboa. Cumprimos o dever de agradecer publicamente tão preciosa collaboração (Nota dos auctores). Edição de Simão Thadeu Ferreira. que se representaram na Casa do Theatro publico do Bairro Alto de Lisboa» offerecidas á muito nobre senhora Pecunia Argentina. (*) O verso alexandrino. Assim o seu uma é uma dupla allusão ao nome do heróe e ao do trovador.» — Quitard. por ***. Escreve Quitard: «liste vero chama-se alexandrino.