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A Sua Excelência o Sr.

Presidente da República
A Sua Excelência o Sr. Presidente da Assembleia da República
A Sua Excelência o Sr. Primeiro-Ministro
A Sua Excelência a Ministra da Educação
Ao Sr Director Regional de Educação
Ao Conselho Geral Transitório
Exma. Senhora Presidente do Conselho Executivo
Exma. Senhora Presidente do Conselho Pedagógico

Os docentes do Agrupamento de Escolas Alfredo da Silva, subscritores deste documento,


declaram o seu protesto e desacordo perante o modelo de Avaliação de Desempenho,
aprovado pelo Decreto-Regulamentar nº2/2008, de 10 de Janeiro, e vêm propor a
suspensão do processo de avaliação de desempenho, nos termos e com os fundamentos
seguintes:

1. Após um já longo percurso efectuado durante o ano lectivo de 2007/2008, em que se iniciaram os
trabalhos preparatórios para a operacionalização do modelo proposto, e apesar de todo o esforço
desenvolvido, torna-se evidente para os professores, avaliadores e avaliados, a inexequibilidade do
mesmo e as consequências que se verificam no quotidiano das escolas, resultantes da tentativa da sua
implementação.

2. Desde a publicação do Regulamentar nº2/2008, de 10 de Janeiro, inúmeras horas de trabalho foram


gastas na leitura e descodificação de normativos e de documentos diversos, em reuniões de conselhos
vários, em reflexões individuais e de grupo, na tentativa de descortinar algum sentido e coerência
relativamente a este modelo de avaliação imposto pelo ministério da educação e em formas de
operacionalização do mesmo, nomeadamente a elaboração e aprovação de instrumentos de registo
normalizados.

3. A preparação da implementação do modelo tem prejudicado o normal funcionamento das escolas,


aumentando desmesuradamente o número e a duração de reuniões, monopolizando-as de forma
sistemática, o que tem tido, por vezes, como consequência o tratamento de forma mais superficial de
questões pedagógicas de essencial importância.

4. A tentativa de instalação do modelo tem-se revelado morosa, muito divergente nos ritmos que é
possível encontrar e dificultada pela falta de informação cabal e inequívoca, relativamente às inúmeras
dúvidas que vão aparecendo. O modelo é de tal forma complexo, burocrático e gerador de desigualdades
que se tem verificado ser impossível encontrar processos de operacionalização consensuais, que sejam,
simultaneamente, exequíveis e fiáveis para os fins a que se destinam. Por outro lado, a quantidade de
documentos gerados por este processo adivinha-se gigantesca.

5. O modelo, muito burocrático e claramente irrealista, gera uma efectiva sobrecarga de trabalho, com
prejuízos evidentes na vida profissional e pessoal dos professores, estando neste momento as escolas
literalmente afogadas em reuniões e em rotinas relacionadas com a avaliação, às quais não é reconhecido
qualquer valor, existindo o sério risco de se registarem reflexos negativos no processo de ensino-
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aprendizagem. Na maioria das nossas escolas sente-se ainda um clima de instabilidade e insegurança, que
tem contribuído para a degradação do relacionamento profissional entre a classe docente, perturbando
seriamente o clima escolar.

6. O modelo contempla a avaliação ininterrupta dos professores, em ciclos sucessivos de dois anos. Ora,
numa escola em que todos os docentes estão permanentemente em regime de avaliação, o processo
representa um peso dificilmente suportável e um obstáculo quase intransponível no seu quotidiano.

7. Os documentos propostos, nomeadamente as fichas de avaliação a preencher pelos avaliadores, não


foram objectos de aplicação no terreno, de forma a aferir a sua aplicabilidade e proceder a eventuais
correcções. A maioria dos itens constantes das fichas, pelo seu grau de subjectividade, ressentem-se de
um problema estrutural: não existirem quadros de referência em função dos quais seja possível promover
a objectividade da avaliação de desempenho. Foi pois constatada a impossibilidade de definir/distinguir
de forma clara e consensual os indicadores de medida para a atribuição das diversas classificações, em
especial as de Muito Bom e Excelente, nos diversos parâmetros em avaliação.

8. Acresce ainda que alguns itens da ficha a preencher pelo presidente do conselho executivo se revelam
incompreensíveis, não se tendo verificado, por parte da tutela, disponibilidade para os explicitar de forma
inteligível e clara.

9. A avaliação por pares é potencialmente geradora de um ambiente de conflito, acrescendo que a maior
parte dos professores avaliadores não tem nenhum tipo de formação específica que os prepare para a
tarefa de avaliação dos seus colegas, pelo que, muitas vezes, não lhes serão reconhecidas competências
para tal.

10. Apesar de um dos itens a avaliar ser «Correcção científico-pedagógica e didáctica da planificação das
actividades lectivas», alguns professores serão avaliados por professores com uma preparação científica
diferente da sua.

11. No final do período avaliativo, a calendarização e operacionalização do processo de avaliação revela-se


muito confusa e complexa, sendo de todo inaplicável, tendo em atenção as inúmeras tarefas de
encerramento do ano lectivo e de preparação do ano seguinte, assim como o período de férias a que os
professores legitimamente têm direito. Não há forma humanamente possível de calendarizar e realizar
todas as reuniões previstas: entre avaliadores, entre avaliadores e avaliados e, ainda, as reuniões da
Comissão de Coordenação da Avaliação de Desempenho.

12. O Conselho Científico para a Avaliação de Professores (CCAP), nomeado pelo ministério da educação,
através do Decreto-Regulamentar nº4/2008, de 5 de Fevereiro, alertou, num relatório datado de Julho de
2008 para «…o risco de a avaliação se constituir num acto irrelevante para o desenvolvimento
profissional dos docentes, sem impacto na melhoria das aprendizagens dos alunos, que conviria evitar
desde o início…”. Foram ainda criticados aspectos centrais do modelo de avaliação, nomeadamente a
complexidade e inexequibilidade dos instrumentos de registo e sua utilização pelas escolas, a observação
de aulas, os itens de avaliação e a inclusão do sucesso/insucesso e do abandono dos alunos na atribuição
da classificação aos professores.

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13. Relativamente ao CCAP, cabe aqui perguntar qual a credibilidade de um modelo de avaliação
supostamente apoiado por um órgão que não se manifesta desde Julho e cuja coordenadora se aposentou
justamente na altura em que a aplicação do processo estaria a implementar-se nas diversas escolas e
agrupamentos.

14. Não se afigura legítimo que a avaliação de desempenho dos docentes, e a sua progressão na carreira
dependam dos resultados dos alunos e do abandono escolar, desprezando-se as diversas variáveis de
natureza sociocultural, que escapam ao controlo do professor.

15. Por outro lado, não estão a ser tidas em conta as recomendações emitidas pela CCAP, no que se refere
ao parâmetro de melhoria dos resultados escolares. Relativamente a este parâmetro é referido: «A
produção de instrumentos de aferição fiáveis e de reconhecida credibilidade científica é uma tarefa
complexa e morosa, a desenvolver por instâncias competentes e alheias ao processo de avaliação de
desempenho». Refere ainda: «A tutela pondere a adopção de medidas pelos serviços centrais do
ministério da educação com responsabilidades na produção de instrumentos de aferição das
aprendizagens e de estatística, destinadas a criar condições para viabilizar, de forma credível, a utilização
dos resultados escolares para efeitos de avaliação de desempenho dos docentes».

16. Como recomendação para o ano lectivo 2008/2009 é proposto que «… o progresso dos resultados
escolares dos alunos não seja objecto de aferição quantitativa». Mas, se tal não acontecer, como será
possível avaliar o parâmetro B constante da ficha de avaliação do presidente do conselho executivo
«Melhoria dos resultados escolares dos alunos e redução das taxas de abandono escolar», atribuindo a
cada um dos itens a respectiva classificação?

17. Neste modelo geram-se situações de enorme injustiça e de falta de equidade, como é o caso dos
professores de Língua Portuguesa e Matemática, disciplinas cujos resultados da avaliação externa se
reflectirão na sua avaliação. Situação idêntica é verificada com os professores que leccionam o 4º ano.

18. O próprio Ministério já reconheceu não ser capaz de cumprir na íntegra o que regulamentou, visto que
os Coordenadores de Departamento não serão, no presente ano lectivo, avaliados por um inspector da
área conforme o previsto no nº 1, alínea b do Artigo 29º do Decreto Regulamentar nº 2/2008, nem o
processo de delegação de competência se processará de acordo com as normas constantes do Código de
Procedimento Administrativo.

19. A alteração proposta pelo ministério de educação, relativamente ao Decreto-Lei nº20/2006, de 31 de


Janeiro, que regulamenta o concurso dos professores, no sentido da inclusão dos resultados da avaliação
na graduação profissional, já no próximo concurso para 2009/2010, afigura-se absurda, neste contexto de
aplicação de um sistema tão complexo e contestado.

20. O modelo de avaliação de desempenho preconizado não tem paralelo com os modelos adoptados nos
países de referência do espaço europeu. As boas práticas dos países europeus em matéria de avaliação
regem-se por princípios substancialmente diferentes daqueles que enformam a actual legislação, fazendo
assentar a avaliação dos docentes em um ou em ambos dos seguintes requisitos prévios:

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a) Avaliação institucional prévia (auto-avaliação e avaliação externa) e respectiva análise, com vista a
apurar a necessidade de se proceder à avaliação do desempenho profissional dos seus docentes;
b) Avaliação efectuada a pedido do interessado, nas situações de mudança de escalão e de
consequente acréscimo remuneratório. Regra geral, este tipo de avaliação é feito por um inspector,
em circunstâncias muito específicas e com critérios científico-pedagógicos de todos conhecidos.

21. A senhora ministra tem falado em «simplificação», por via da abolição de «procedimentos inúteis»,
transferindo para as escolas o ónus de tornar exequível o processo preconizado no Decreto-Regulamentar
nº2/2008, de 10 de Janeiro. Ora qualquer tentativa de «simplificação do processo» revela-se igualmente
inaplicável, devido à incoerência técnica e desorganização temporal do modelo e à necessidade de
preenchimento dos modelos de fichas dos avaliadores. Falou ainda em «escolas mal organizadas»,
quando, na realidade as escolas esforçadamente se aplicaram na descodificação de um modelo imposto e
não testado, que se revelou incoerente, incompreensível e inaplicável, para tal tendo sido gastas preciosas
horas de um corpo profissional altamente qualificado.

22. Cabe aqui perguntar se essa orientação no sentido da «simplificação» não corresponde simplesmente
a um fechar de olhos, a uma tentativa de que o modelo se aplique a todo o custo, ainda que a fingir e com
consequências gravosas para todas as partes envolvidas. E para quê? Por que não simplesmente aceitar as
sugestões de quem, no terreno, se tem esforçado por dignificar mais esta tarefa que lhe é imposta e
proceder, desde já, à revisão de todo o processo?

23. A avaliação de desempenho é indispensável, enquanto instrumento de valorização das práticas


docentes, devendo assumir um carácter formativo, potenciador de reais benefícios na aprendizagem dos
alunos, bem como da promoção do desenvolvimento profissional, não sendo, no entanto, um fim em si. É
um tema de enorme importância, fomentador da qualidade e do prestígio da escola pública, devendo
resultar de uma ampla discussão e consenso entre professores e educadores, os seus legítimos
representantes e a tutela.

Todas as questões acima expostas decorrem da regulamentação imposta pelo Decreto-Regulamentar


nº2/2008, de 10 de Janeiro e não da incapacidade ou falta de vontade de resolver os problemas por parte
dos docentes, pelo que, neste momento, a suspensão do processo se afigura a medida mais razoável, sendo
que a sua realização permitirá centrar de novo atenção da escola nas aprendizagens dos alunos e antecipar
em alguns meses a negociação de um novo modelo de avaliação de desempenho.

Reconhecendo todo o esforço, empenho e trabalho desenvolvido pelo Conselho Pedagógico, pela
Comissão de Coordenação da Avaliação de Desempenho e pelos diversos departamentos, os
professores signatários rejeitam o modelo de avaliação de desempenho imposto pelo ministério
da educação, nos moldes definidos pelo Decreto-Regulamentar nº2/2008, de 10 de Janeiro, bem
como no Decreto-Lei 15/2007 que lhe dá suporte legal, pelo que propõem a suspensão de
todos os procedimentos relacionados com a avaliação, enquanto o modelo não for corrigido,
simplificado e experimentado.