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14 • CORREIO BRAZILIENSE • Brasília, quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Nas urnas sem a ETA
Eleição geral de domingo próximo será a primeira desde a redemocratização, em 1976, sem a sombra do terror separatista basco. No horizonte dos votantes, porém, o que ameaça é a crise econômica e o desemprego, que devem levar à derrota o governo socialista
» JÚNIA GAMA Espanha vai às urnas no próximo domingo cerca de um mês depois de a organização separatista basca ETA ter anunciado o abandono definitivo da luta armada, que marcou as últimas quatro décadas com um rastro de atentados e assassinatos de policiais, militares e políticos. O anúncio foi recebido com otimismo pela população, mas especialistas veem o processo com alguma desconfiança. Embora o tema do terrorismo tenha permeado a agenda política espanhola desde a redemocratização, em 1976, a maioria dos analistas aposta que a trégua terá impacto reduzido sobre a escolha do novo Parlamento e do presidente do governo. Mariano Rajoy, do Partido Popular (oposição de direita), é favorito para tirar do poder o Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), do atual chefe de gabinete, José Luis Rodríguez Zapatero. Com poucos resultados no enfrentamento da crise econômica, Zapatero antecipou a eleição — seu mandato ia até março de 2012 — e desistiu de concorrer. O PSOE vai às urnas liderado pelo ex-ministro do Interior Alfredo Pérez Rubalcaba, conhecido pela linha dura com a ETA. As pesquisas, porém, não indicam que ele tenha chances de capitalizar o fim das atividades do grupo terrorista. Isso ocorre porque, há alguns anos, a ETA deixou de ser uma preocupação prioritária dos espanhóis. Enfraquecido desde meados dos anos 2000, o grupo ainda teve relevância em 2004, quando o governo do PP manipulou os atentados da Al-Qaeda em Madri — as autoridades acusaram a ETA, para fins eleitorais, e Zapatero acabou vencendo nas urnas. Desde 2008, porém, a crise econômica e o desemprego aterrorizam os espanhóis, a ponto de que mesmo no País Basco a direita está em alta. No panorama nacional, as últimas pesquisas dão a Rajoy uma vantagem de 15 pontos sobre o rival socialista. À parte os problemas econômicos, restam desconfianças quanto ao fim da violência separatista. O diretor do curso de Economia do Terrorismo da Universidade Complutense de Madri (UCM), Mikel Buesa, que teve um irmão assassinado pela ETA em 2000, não acredita que a paz seja definitiva. “As coisas são definitivas até que deixam de sê-lo. Em ocasiões anteriores, eles disseram que deixariam de cometer atentados de forma permanente, mas depois voltaram atrás. A ETA não anunciou sua dissolução nem o abandono das armas.”
Ander Gillenea/AFP Susana Vera/Reuters - 29/10/11

A

Parentes de vítimas de atentados durante manifestação realizada em Madri para exigir a punição dos autores: rastro da ETA deixou cicatrizes na sociedade espanhola

Desconfiança
Para o acadêmico, é fundamental que o governo mantenha uma política repressiva, para que o grupo não se recomponha nas sombras, como ocorreu no passado. Ele rejeita a ideia de negociações. “O governo socialista teve uma política firme, mas, nos últimos meses, vozes relevantes do partido falam de possíveis conversas, e isso pode comprometer a continuidade na política antiterrorista”, avalia. Pedro Ibarra, advogado e professor aposentado de ciências sociais da Universidade do País Vasco (UPV ), defende que a Izquierda Abertzale, representação “civil” da ETA, optou politicamente pela desconexão estratégica com a violência antes de que o grupo terrorista anunciasse o cessar-fogo. Por esse motivo, sustenta, deve ter uma participação legítima na política espanhola. O advogado acredita que, após as eleições, serão iniciadas conversas sobre a entrega de armas e a libertação de presos. Ele acredita que

A sociedade, a economia e a política espanholas já levam muito tempo vivendo e se comportando como se a ETA não existisse”
Pedro Ibarra, professor da Universidade do País Basco

o PP vencerá, pelos mesmos motivos que Buesa. “Os reflexos do fim da ETA são muito menores do que os meios de comunicação estão divulgando. A sociedade, a economia e a política espanholas já levam muito tempo vivendo e se comportando como se a ETA não existisse”, diz. Paul Ríos, coordenador da organização Lokarri, que há 13 anos articula a normalização da convivência no País Basco, sustenta que o fim da violência separatista não pode ser usado como trunfo por nenhuma força política. “Como estamos em eleições, há muita competição sobre quem fez mais para conseguir a paz. Mas foi um processo coletivo”, pontua. Ríos se diz otimista em relação à desmobilização da ETA. “Uma vez que eliminemos a violência, podem ocorrer mudanças rápidas na sociedade basca e até a economia pode melhorar, com oportunidades de negócios que não foram aproveitadas a fundo, até agora, por causa da violência.”

Trajetória sangrenta
Origens A organização Euskadi Ta Askatasuna (ETA), que significa Pátria Basca e Liberdade, foi criada em 1959 para lutar pela independência em relação à Espanha, na época sob a ditadura franquista. O País Basco compreende uma porção do território francês. Vítimas A ETA realizou suas primeiras ações armadas em 1968. Entre atentados à bomba e assassinatos seletivos, tendo como alvos prioritários militares, policiais e outros representantes do Estado espanhol — inclusive políticos bascos —, o grupo causou 829 mortes. Repressão Depois de sobreviver à ditadura franquista, encerrada em 1976, a organização separatista entrou em confronto com a nova democracia espanhola e os vizinhos europeus, em especial a França, onde a cúpula etarra foi demantelada a partir de 2004. Desde então, foram presos 734 ativistas e simpatizantes. Tréguas Antes de anunciar a renúncia definitiva à luta armada, em 20 de outubro, a ETA anunciou tréguas em 1996 e 1998. Em duas ocasiões, em 2006 e em janeiro passado, a organização declarou cessar-fogo. Frente política Desde a redemocratização, o partido Herri Batasuna representou as posições da ETA na política institucional, até ser colocado na ilegalidade, em 2003. Na eleição de domingo, esse setor político será representado pela coalizão eleitoral Bildu (“reunir-se”, em idioma basco), que elegeu alguns representantes no País Basco nas eleições municipais de maio. Militância Estima-se que a ETA tenha hoje cerca de 175 militantes, dos quais 140 nas Américas. Apenas cerca de 35, que vivem na França, estão articulados em comandos. Em 2000, eram mais de 500 militantes organizados.

Caminhos da autonomia
A sociedade basca está historicamente dividida em relação à independência pela qual a ETA se levantou em armas em 1968, ano de sua primeira ação violenta. Estima-se que cerca de 30% apoiam a separação total em relação à Espanha, enquanto outros 30% querem apenas mais autonomia para o País Basco. O restante está satisfeito com o estatuto em vigor, aprovado em 1979 e considerado o mais autônomo da Espanha. Supera até o da Catalunha, a comunidade autônoma mais rica do país, que representa quase 20% do PIB. No País Basco, o governo autônomo tem autoridade para arrecadar impostos e tem polícia própria, a Ertzaintza. A gestão econômica e dos aeroportos também é independente. O coordenador da organização Lokarri, Paul Ríos, afirma que as discussões não são tanto sobre o conteúdo do estatuto, mas sobre o status da região na Espanha. “Em 2004, o parlamento basco aprovou um novo estatuto e Madri se negou a debatê-lo. A questão é como se abordam as mudanças no marco jurídico do País Basco. Há quem proponha a independência total, mas o que a maioria quer é que as negociações se façam de igual para igual.” Mikel Buesa lembra que há movimentos separatistas também na Catalunha e na Galícia, mas a opção de um setor minoritário pela luta armada diferencia os bascos. À parte o Partido Nacionalista Vasco, que defende a independência por vias legais, as demais forças separatistas são demasiado ligadas à ETA para terem inserção política nacional. “Uma coisa é a defesa da independência, outra é o terrorismo”, pondera. Buesa reforça que os partidários da independência são minoria, mas sustenta que uma sociedade democrática deve absorver os que não defendam uma ruptura do marco constitucional. “O problema seria se tentassem passar das palavras e converterse em uma insurreição, mas isso ocorreu só no caso da ETA, que agora está muito debilitada.” O advogado Pedro Ibarra acredita que o fim das atividades do grupo terrorista deve ser definitivo, porque o apoio político explícito das agremiações políticas bascas está desaparecendo. Mas a defesa da independência deve seguir por outros meios. “Os integrantes da ETA compreenderam que a única forma de o projeto de independência adquirir força, presença social e política e ter algum futuro era precisamente que eles — a ETA — desaparecessem.” (JG)

Sem armas
O professor da Universidade Complutense de Madri (UCM)

Grafiti da ETA em Arbizu, no País Basco: sociedade rejeita o terror

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