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RL 445.26 A POLITICA EXTERNA DO GOVERNO MEDICI (1969-1974): UMA NOVA PROPOSTA DE INSERCAO INTERNACIONAL PARA O BRASIL Cintia Vieira Souto * Introdugdo Nos tiltimos anos, tom aumentado sobremaneira o interesse por temas relativos as relagdes internacionais e & politica externa brasileira. A politica externa dos governos militares ¢ 0 seu desenvolvimento ao longo do processo de abertura politica é responsavel por considerdvel parcela dessa produgio intelectual. Os vinte e um anos em questao foram ricos em temas interessantes a serem investigados. Do ponto de vista internacional, assiste-se a evolucéo da bipolaridade para um contexto muito mais complexo ¢ fluido, Na perspectiva interna, a tentativa de construgio de um projeto politico coerente, com os ajustes relacionados & oscilacao de grupos no poder, leva a uma radical transformacao dos pressupostos de politica externa jé nos cinco primeiros anos apés 0 Golpe de 1964. A crise econémica mundial dos primeiros anos de década de 1970 teve profundo impacto na economia brasileira, obrigando o governo a tomar decisées quanto ao projeto de crescimento em curso com conseqiéncias marcantes na politica externa do pafs. O Acordo Nuclear com a Alemanha de 1975 muito bem ilustra as opcées feitas nesse periodo. O iiltimo lustro do perfodo militar foi marcado pela crise recessiva, que inviabilizou o projeto concebido na década de 1970. Paralelamente, a efervescéncia politica resultante do processo de abertura e o dificil posicionamento brasileiro face & Guerra das Malvinas tiveram importante impacto nas relac6es externas do pafs. Todos esses pontos, com diferentes intensidades, jé mereceram algum esforgo analitico. 0 governo Geisel 6 0 mais estudado, seguido pelos governos Figueiredo, Costa e Silva e Castelo Branco 1. E digna de nota a falta de interesse pelo governo Médici. Essa falta de interesse faz com que a escassa bibliografia existente sobre o tema apresente anélises completamente contradit6rias. Enquanto alguns autores situam a evista Cena Intemacionol. 3 (1): 43-61 [2001] ‘Mestre em Ciénela Politica pela Universidade Federal do Rio Grondo do Sul. O presente artigo 6 extonsivamente basoado na dissertagio de mestrado da autora, apresontada ao programa de Pés-graduacdo emt Ciencia Politica da LUFRGS (Porto Alogro} em 1998, 1974): UMA NOVA PROFOS A POLITICA EXTERNA DO GOVERNO MEDIC! (1969 WF vcnsecionmmacona mone, on politica externa do governo Médici no ambito das fronteiras ideolégicas, ou seja, pautada pelo apoio incondicional ao ocidentalismo ¢ pelo alinhamento automético com 0 governo norte-americano?, outros a consideram “pré-imperialista” ¢ desafiadora do poderio norte-americano* . Qual teria sido o real carater da politica externa desses cinco anos (1969-1974)? Cinco anos marcados por profundas alteragées no cenério internacional e por modificag6es “revolucionérias” na estrutura produtiva do pais ¢ em sua insergao no sistema capitalista mundial *. Enfim, os cinco anos que assinalaram a institucionalizacao dos militares no poder, O Projeto politico-econémico interno e a politica externa do governo Médici Partindo das nogées de ruptura e continuidade na formulagéo e pratica da politica externa, analisa-se a diplomacia do interesse nacional, procurando desvendar © seu cardter, a sua individualidade. Dessa forma, valorizam-se comparagées com os dois governos militares anteriores, bem como com o governo militar posterior. A natureza de parte das fontes fez com que a atengao fosse voltada para os projetos ¢ os discursos ©, Todavia, em vista da multiplicidade de fins na enunciacao de idéias em politica externa’, a andlise da pratica ndo péde ser deixada de lado. ‘Ao contrério de seus dois antecessores, Castelo Branco e Costa e Silva, Emilio Garrastazu Médici era uma figura desconhecida do piiblico ao assumir a Presidéncia. Aceitou o designio como mais um dever militar a ser cumprido, e sua escolha foi determinada pelo fato de ser o tinico general de quatro estrelas capaz.de deter a diviséo das Forgas Armadas naquele momento. A hesitagao de Médici em aceitar a Presidéncia 6 bastante documentada’ . Médici ocupara alguns dos principais cargos da hierarquia militar, tendo sido Adido Militar em Washington durante a presidéncia de Castelo Branco, e Chefe do SNI, no perfodo Costa e Silva. Em 1969, pouco antes de chegar & Presidéncia, tornou-se Comandante do Terceiro Exército da Regio Sul. O estilo do governo de Médici diferiu bastante do estilo de seus antecessores militares, bem como de seu sucessor. Médici possufa um estilo delegativo, assumindo ‘a postura de coordenador geral das questées de governo. A triagem dos assuntos ‘encaminhados ao gabinete do Presidente era bastante rigorosa. Dividiu 0 governo em lués dreas:a militar, a politica e a econémica. Os assuntos militares ficaram ao cargo de Orlando Geisel, Ministro do Exército. A érea econdmica era coordenada pelo Ministro da Fazenda, Delfim Neto. As quest6es politicas couberam ao Chefe da Casa Civil, Leitao de Abreu. Esse iiltimo exercia forte lideranca ministerial ¢ seus despachos com os A POLITICA EXTERNA DO GOVERNO MEnici (1969-1974); UMA NOVA PROPOSTA. DEINSERGAO INTERNACIONAL Para o Beast, “SAR Sr ministros eram amplamente decis6rios. A capacidade deciséria de Delfim Neto na rea econémica dispensava Médici e Leitao de Abreu do manuseio de rotinas. O modelo se reproduzia na administragéo dos assuntos de seguranga, em relacdo aos quais a lideranga de Orlando Geisel, dispensava o Chef da Casa Militar, General Joao Batista Figueiredo, da necessidade de levar questes menos complexas & consideracao do Presidente. * (...) 0 SNI despachava assuntos de interesse estratégico com Orlando Geisel enquanto a canalizacao de informagées para instruir as decis6es presidenciais era feita através de Leitao de Abreu” ®. Seu ministério era composto na sua maior parte por administradores, ao contrario dos ministérios dominados por politicos profissionais de seus antecessores. O governo Médici foi, do ponto de vista politico, marcado por uma espécie de “trégua”, jé que as disputas dentro do estamento militar haviam sido apaziguadas em nome da necessidade de unidade para a luta contra a subversdo, e do “milagre econémico” que conferiu legitimidade ao governo no plano politico e social 19. Os éxitos econémicos promotores do “milagre brasileiro” trouxeram a tona questées diretamente relacionadas a politica externa: 0 denominado projeto “Brasil: grande poténcia” suas implicagoes geopoliticas. Discussées sobre a possibilidade do Brasil se tornar uma grande poténcia remetem A 1919, na obra na qual Elyseo de Carvalho reflete sobre a questo siderdrgica 11, A partir dai, a idéia tornar-se-ia um leitmotivna produgao brasileira sobre geopolitica e ingressaria de forma ret6rica e difusa no discurso politico. A associago da idéia de “Brasil Grande Poténcia” com o governo Médici 6 quase de senso comum. A expressdo era corrente na imprensa, nos discursos e declaragées de politicos, bem como nas censuras dos analistas latino-americanos. Na verdade, 0 ufanismo relacionado ao “Brasil Poténcia” forneceu farta munigao para os estudiosos de geopolitica latino-americanos, bem como para os opositores do regime. Veja-se a obra-dentincia de Paulo Shilling, O Expansionismo Brasileiro (a Geopolitica do General Golbery ¢ a diplomacia do Itamaraty)'*. A obra 6 apoiada sobre citagdes de jornais (nem sempre referenciadas), de declaragées de politicos, jornalistas, ou personalidades de destaque, nem sempre ligados ao governo, mas unidos, entre si, pela idéia de “Brasil Poténcia” e de expansionismo do Brasil em detrimento dos demais pafses latino- americanos. Para os objetivos do trabalho, nao cabe analisar a idéia de Brasil Poténcia, nem mesmo sua pratica, Cré-se até que seria uma idéia interessante, principalmente em se tratando da vinculagdo das idéias com a pratica, Para os fins do trabalho, entretanto, 6 mister tentar compreender o que esse suposto projeto tinha a ver com a politica externa do governo Médici e se a diplomacia do interesse nacional era parte desse projeto