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A DIÁSPORA AFRICANA NA AMÉRICA LATINA E O CARIBE 

Luis Ferreira (*) 

A  América  Latina  é  caraterizável  pela  multiplicidade  dos  povos  afro­descendentes  negros  na  sua  geografia:  desde  as  sociedades e culturas predominantemente negras de vários países do Caribe, àquelas como o Brasil, Cuba e Colômbia com  uma significativa proporção de afro­descendentes negros, até outras, como a Venezuela, o Uruguai e o Peru com importantes  minorias negras. Na última década alguns estudiosos e ativistas nas redes de organizações políticas negras da América Latina  referem  a  esses  povos  como  Afro­Latino­americanos.  Os  sentidos  dos  termos  "afro"  e  "latino"  devem  ser  discutidos,  sem  dúvida,  em  termos  das singularidades nacionais e locais destas categorias e das experiências desses povos, considerando  também  gênero,  classe  e  etnicidade,  histórias  locais,  regionais  e  nacionais.  No  entanto,  considerada  a  extensão  que  essa  discussão  implica,  apontamos  aqui  a  questão  mais  política  do  uso  do  termo  "negro"  na  região,  com  uma  acepção  muito  diferente  nos  países  luso­falantes  como  o  Brasil  ­  uma categoria social ampla que engloba a idéia de cor ­ e nos hispano­  falantes ­ em que refere especificamente à cor. 

Na  experiência  mais  recente  do  processo  da  III  Conferência  Mundial  Contra  o  Racismo  (Durban,  África  do  Sul,  2001)  os  movimentos  e  organizações  sociais  negros  da  América  Latina  e  do  Caribe  colocaram  o uso do termo afro­descendente na  linguagem  das  organizações  sociais  negras  e  dos  agentes  de  governo  e  agências  multilaterais.  Este  termo  passa  a  ser  sinônimo  de  pessoa  negra  nos  países  hispano  falantes.  Isto é possível porque historicamente quem "passa" a linha de cor  apaga da sua genealogia pública os ascendentes negros. No entanto, no Brasil isto não parece possível porque as pessoas  brancas  freqüentemente  informam  seus  ascendentes  negros.  Consequentemente,  nos  discursos  dos  movimentos  e  organizações sociais negras hispano falantes, o termo negro, criticado por ser uma criação colonial, pôde ser substituído pelo  termo afro­descendente. Diferentemente, no Brasil a política sobre o termo negro é de valorização. Contudo, na América Latina  toda  se  constata  que  preconceitos  e  práticas  de  discriminação  racial  não  são  baseados  na  ascendência  africana,  mas  na  aparência  em  termos  socialmente  racializados.  Esses  preconceitos  e  práticas  atingem  às  populações  negras  ­  sejam  categorizadas  localmente  como  afro­descendentes,  pardas,  pretas, mestiças ou negras ­ produzindo graves desigualdades,  estatisticamente mensuráveis, no mercado de trabalho, no acesso a recursos econômicos, políticos e de cultura dominante  euro­latino­americana, quando comparados à população branca.

1. 

A presença de população afro­descendente pode ser considerada, primeiro, desde a perspectiva da importância que ela tem  em cada país, isto é, que percentagem significa no total de cada país independentemente de qual seja o número absoluto de  pessoas.  A  classificação  resultante  indica o potencial político que representa essa população a respeito de cada sociedade  nacional e permite algumas comparações sobre a representatividade que ela tem (ou sua ausência) nas classes médias, elites  e cúpulas governamentais de cada país. 

A população negra representa entre 84 e 98% do total em treze países situados todos no Caribe ­ Jamaica, Saint Kitts e Nevis,  Dominica, Santa Lúcia, Haiti, Granada, Guadalupe, Barbados, Antiga e Barbuda, S. Vincente­Grenadines, Bahamas, República  Dominicana. Entre estes países, só a Dominicana é um país latino­americano, com 84% de população negra.

  El  Salvador.  México.  compreendendo oito países.  Uma  segunda  perspectiva  demográfica  é  em  termos da percentagem que a população negra de cada país representa com  respeito ao total de 119 milhões de afrodescendentes da América Latina e do Caribe.  Guatemala.  Na  faixa  inferior.6% (6. Trindade  e Tobago 58%.234 milhões de pessoas). país com um 12% de população negra. . Suriname 41% ­ e dois latino­americanos ­ Cuba 62%. Os outros quatro países encontram­se por debaixo do 2% (percentagens arredondados): Venezuela 1.400 milhões de pessoas).326 milhões de pessoas).  Na faixa de 9 a 31% de população negra temos sete países. seis deles latino­americanos ­ Colômbia com 26%.710 milhões  de pessoas).562 milhões de pessoas). Santa Lúcia (154 milhares). Haiti 5.959 milhões de pessoas).  Venezuela e o Equador ambos com 10%. Honduras (131 milhares).419 milhões de pessoas representa 64. Cuba 5. Dominica (72 milhares). Guatemala. Belize (72 milhares). Sem México. Neste sentido é relevante o Brasil.1% cada um deles. No caso dos restantes seis países ­ Argentina.2%.  Outros  sete  países  do  Caribe  representam  agregados  o  0. Jamaica 1.  A  Bolívia  (2  milhares)  e  os  restantes  seis  países  latino­americanos  sem  dados  ­  Argentina. Quatro deles encontram­se por cima de 5%: Colômbia com 8.  Na faixa igual ou inferior a 5% de população negra de cada país temos a dez países todos eles latino­americanos ­ Peru com  5%. Honduras e a Costa Rica com 2%. Granada (85  milhares). os 119 milhões de afro­descendentes representam o 23%  do total.  de  0.  a  respeito  da  política  interna  essa  população  representa  um  pouco  menos  da  metade  nacional  enquanto  que  a  população  negra em quinze países do Caribe representa em torno a duas terceiras partes ou mais do total demográfico de cada país.3%;  Bahamas  (255  milhares)  e  Barbados  (249  milhares)  ambos  com  0. podem ser comparados em termos relativos com  os Estados Unidos de América. e Equador com 1.Entre 41 e 66% de população negra há seis países. Costa Rica (73 milhares).6% (674  milhares de pessoas); Nicarágua (452 milhares) e Panamá (403 milhares) ambos com 0. Panamá 14%. Saint Kitts e  Nevis  (42  milhares).1  a  0.280  milhões de pessoas). El Salvador. Guiana 45%. Por  outro lado.4%. e o Brasil com 45%.04%.  e  Chile  ­  há  minorias  afro­descendentes  e  organizações  sociais  negras.  Em suma. e Chile ­ possuem uma ou mais organizações sociais negras. Peru 1. (7. quatro deles não­latino­americanos ­ Guiana Francesa com 66%.0%  (1. No entanto. Antiga e Barbuda (58 milhares).  Vincente­Grenadines (99 milhares). Brasil representa o país com maior população negra em termos absolutos da América Latina e o Caribe. Paraguai.247 milhões de pessoas).  há  onze  países  (percentagens  arredondadas): Trindade e Tobago com 0. país  cuja população negra de 76.9% (2. Nicarágua e Uruguai.  mas  sem  uma  avaliação  demográfica da população negra.  Em uma segunda faixa temos os países cuja população negra representa entre 1 e 10% do total da América Latina e o Caribe.  República Dominicana 6. país com uma população de 103 milhões e uma minoria afro­descendente sobre a qual não se dispõe de  dados. México.3% do total dos afro­descendentes da América Latina e do  Caribe agregados.4%  do  total:  S.  No total de 514 milhões de pessoas da América Latina e o Caribe. Bolívia com 0. ambos com 9% ­ e um país não­latino­americano ­ Belize com  31%.8% (6.2% (1.  Paraguai. e a Guiana Francesa (120 milhares) com 0. a percentagem de população afro­descendente é o 29% do total da região.6%  do  total.9% (2.9% (10. Guiana (316 milhares) e Uruguai  (302  milhares)  ambos  com  0.2%;  Suriname  (179  milhares). sete países latino­americanos cuja população negra é de 5 a 26%.

 O termo cimarrón (cimarrones no plural) eqüivalente a quilombola.  Duas grandes experiências políticas se recortam nessa história. A segunda.  à  formação  do  Haiti  como  a  primeira  república  livre  no  mundo  liderada  pelos  africanos  da  Diáspora. no Brasil. o canto e a dança constituem o fundamento do ritual.  sua  ajuda  militar  e  moral  ao  libertador  Simón  Bolivar  para  a  independência de cinco países da América Latina.  A  música  de percussão. compreende as comunidades negras rurais conhecidas no  Brasil como quilombos. no canto e na  dança seus aspectos simbólicos e significativos mais importantes. Iyá (mãe em língua iorubá da Nigéria). no Brasil. abertas ou encobertas.  ameríndios. Itotele.  A  nova  república  oferece. seja no médio  rural ou no médio urbano re­significando ruas. o centro do ritual da Santería são os Batá.  Os  povos  de  língua  ewe­fon  (antigos  reinos  do  Dahomey. e  Okonkolo. prefigurando utopias nas formas da sociabilidade. leva em 1804.  que  se  identificaram  no  Novo  Mundo  como  Congos. onde as práticas rituais teriam na música.  mas também de inteligentes traduções culturais. atravessa a América Latina  toda  significando  a  busca  da  liberdade. em que o ritual é impulsionado pelos três tambores Rara.  Benguelas. ou República Palmarina  como  conceitualizada  por  pensadores  afro­brasileiros.  Destaca­se  nesse  tipo  de  espaço  a  influência  das  culturas  dos  povos  banto. o Quilombo de Palmares. palenques em Cuba e na Colômbia. o canto e a dança.  entre  outros  etnónimos.  ainda. especialmente o Católico. construir espaços fora ou nos interstícios do sistema dominante.  onde  se  encontram  freqüentemente  paralelismos com o sistema de crenças cristão.  com  a  condução  de  Toussaint  Louverture.  Desde o período da escravidão no Novo Mundo. A primeira são as  reconstruções  e  transformações  de  sistemas  religiosos  africanos  no  Novo  Mundo. esses elementos se configuram como ponte de  conexão entre o homem e o cosmos. também conhecida como Santería Lucumí.  Nessas  três  formas  se  encontram  centralmente as técnicas sagradas da música.  Nesses  espaços  libertários  se  reconstruiriam e transformaram diferentes códigos culturais africanos. o Tambor de Xangô no Recife.  A  importância  dessa  influencia  em  Cuba  se  exprime  na . três  tambores sagrados em forma de relógio de areia chamados. chamados Maman. o Batuque de Nação no Rio Grande do Sul.  europeus. Nos rituais. a partir de finais do século dezoito. Em Cuba.  a  rebelião  e  a  resistência  contra  a  opressão. ao Candomblé em Salvador. o culto Vodún nas Casas de Minas em São Luiz de Maranhão.2.  O  primeiro  tipo  de  espaço. em que se inicia um processo de lutas.  Cabindas.  de  busca  de  propostas  de vida livre. A primeira. equivalente ao Shango Cult em Trinidade  e Tobago e.  Angolas. na performance expressiva e em encapsulados verbais de metáforas e mitos. denominadas cumbes na Venezuela. promovendo o descentramento do ego e do  logos como modos de conhecimento sobre os homens e o cosmos. resultantes não somente de táticas de camuflagem. A segunda forma são as transformações africanizadas de sistemas cristãos.  Na primeira forma de processo encontram­se os desenvolvimentos dos povos de língua iorubá (hoje República de Nigéria) no  Novo Mundo: a Regra de Ocha em Cuba. nos anseios por novas relações sociais  e. Desenvolveram também o  culto Arara na província de Matanzas em Cuba e. os africanos negros deportados e seus descendentes conseguiram através de  diversas formas de luta. de maior a menor. especialmente. a  reinterpretação  e  resignificação  desses  sistemas. bairros e esquinas.  O segundo tipo de espaço ao longo da América Latina e do Caribe compreende os espaços religiosos em que se desenvolvem  três formas de processos culturais que respondem a diversas estratégias dos africanos e afro­descendentes. freevillages na Jamaica e  bush societies no Suriname. liderada  pela figura de Zumbi.  A  terceira  são  os  sistemas  emergentes  resultantes  de  processos  de  sincretismo  e  de  fusão  de  vários  sistemas  religiosos  africanos.  hoje  República  de  Benin)  desenvolveram  o  Vodún  no  Haiti. Second e Bulé.  teve  existência  ao  longo  de  cem  anos  no século dezessete.

  os  cânticos  com  termos  em  kikongo. nos tambores de "yuka" em Cuba.  por  exemplo.  no  Brasil. no "tambor de crioula" em São Luiz de Maranhão no Brasil.  No terceiro tipo de espaço. os blocos são conhecidos pelo candômbe. com o "mina" e o "curbeta".  a  passagem  do  controle  católico  ao  controle  político  colonial  a  finais  do  século  dezoito  marcou  a  passagem das Confrarias para o surgimento das Nações. tanto formas devocionais africanizadas como formas de organização  política alternativas às dominantes. em torno a  formas  festivas  vinculadas  à  participação  e  resignificação  do  carnaval  como  espaço  de  liberdade. com expressões na língua kikongo e na denominação do Deus Supremo: Tata Nzambi. Mina­Mahí.  na  forma de Congados. na região do Barlovento. uma transformação cimarrona ou quilombola desses espaços nos interstícios do sistema que tem  sido apontada por pensadores negros da Diáspora como Abdias Nascimento e Beatriz Nascimento no Brasil. Em La Havana.  Na  segunda  forma  de  processo. os três tambores "culo e' puya" ou "redondos" se alternam nos cortejos das festas de  São João. realizando cortejos e procissões  na rua; no leste.  semelhante  à  Cuica  no  Brasil. A finais do século dezenove. de Puerto Cabello à La Sabana. Moçambiques e Reinados. entre outros); a terceira. frigideiras em duplas. e São João. com a passagem da  sociedade envolvente às formas da modernidade. Mina­Nagô.  baseado em grupos de sessenta ou mais tambores de tonel. as crônicas históricas referem às Confrarias  e  aos  Reinados  Congos  em  procissão  pelas  ruas  da  cidade. Catupés. Moçambique. Os tambores "ngoma"  que cronistas como Cavazzi reportaram no Congo no século dezesseis. O  instrumento  musical  chamado  Kinfuiti. afro­americanos. esses blocos popularizaram o ritmo da conga. Em Montevidéu. Na costa do Caribe. Ijeshá. continuam sendo canais de comunicação com o mundo dos antepassados e  dos espíritos inkisses simbolizados em esses elementos. As organizações para  rituais  e  procissões  festivas  como  os  Chimbángueles  na  Venezuela.  Na  Venezuela  a  expressão  desse  tipo  de  irmandades  se  desenvolveu  em  múltiplas  formas.  conhecidas  como  Nações  seguindo  um  etnônimo  (Congo. e as "pipas". sinos ou "cencerros".  Os  "Chimbángueles"  no  sul  do  Lago  Maracaibo  são  formados  por  uma  hierarquia  de  capitães e vassalos de São Benedito. construídas de grandes toneis. grandes tambores de tronco sobre o chão. novos sistemas religiosos surgem no século vinte a partir de processos de fusão e de sincretismo  religioso de elementos africanos.  ou  o  Revival  e  a  Pukumina  na  Jamaica  e  os  Shouters  em  Trinidade.  as  culturas  religiosas  e  expressivas  de  matriz  banto  participaram  em  processos  de  africanização do cristianismo de longa data na América Latina e o Caribe. as festas religiosas são animadas  pelos "cumacos". foram se organizando e re­significando espaços urbanos com modos de fazer e formas  de sensibilidade africanas. desenvolvidos em Confrarias e Irmandades de N. Fanti­Ashanti. em torno a uma orquestra formada por sete tambores.  Assim. aos cortejos carnavalescos.chamada Regra de Palo Mayombe. entre outros. São Benedito (San Benito). a partir de elementos do protestantismo batista negro.  Na América Latina essas organizações se desenvolveram em três etapas históricas: a primeira vinculada a Igreja Católica; a  segunda  organizada  em  Sociedades  Africanas  independentes. e as "claves". . Carabalí. europeus e índios como no caso do Umbandismo no Brasil e o culto a Maria  Lionza  na  Venezuela  com  elementos  do  catolicismo  popular. realizado em tambores de tonel ­ "tumbadoras" ­.  encontram  paralelos  na  América  toda  e. encontram semelhanças nos tambores "redondos" do  Barlovento.  do Rosário. as coroações de reis  de nação. Em La Havana. desde as procissões religiosas. Manuel Zapata  Olivella na Colômbia e Jesús García na Venezuela. assim como nos tambores dos cultos Cumina na Jamaica e em outras ilhas do Caribe. Os grandes "ngoma" encontram semelhança nos "cumacos" do litoral  venezuelano. e nos "atabales" em  Santo Domingo.  Benguela. Juntas e Cabildos. Em suma.  em  Cuba  e  no  Uruguai.  bumbo. entre outros.S.  a  utilização  de  elementos da natureza como símbolos centrais. tocados de pé e amarrados à cintura. Gege­Fon. surgem sociedades recreativas negras e blocos carnavalescos denominados  "comparsas".

  As décadas de 1930 a 1960 vêm a emergência e aceitação da cultura expressiva musical de matrizes africanas: no Brasil.  Uma continuidade de princípios culturais pode ser apontada.  A  aceitação  das  formas  populares.  Rio  de  Janeiro. Músicos.  a  des­africanização  dos  seus  significados  e  de  seus  referentes  raciais;  com  a  passagem do tempo na economia de mercado cultural. nos rappers; a forma antifonal de chamado e resposta.  a  capoeira  regional  (em  oposição  à  africana). política e das relações raciais na América Latina pode ser compreendida em torno a três grandes  períodos:  até  1930. substituídos por atores socialmente brancos.  pese  a  diversidade  demográfica  e  de  formas  culturais  dos  africanos  e  seus  descendentes  na  Diáspora.  O  primeiro  período. as "comparsas" ­ blocos carnavalescos ­ de conga em Cuba e no  Uruguai. no candomblé. central nos congados.  e  de  1980  ao  presente. A queda do modelo exportador de matérias primas em 1930 trouxe também a  queda  desse  modelo  e  a  percepção  de  que  as  sociedades  latino­americanas  não  eram  européias:  a  persistência  africana  nestes países tanto em termos de características de fenótipo na população como de resistência em termos culturais. uma nova geração de afro­descendentes verá com suspeitas todo esse processo. de candômbe.  o  do  calypso  e os tambores de aço (steel­pans) em Trinidade e  Tobago. implicando políticas etnocidas com a promoção de migração massiva de mão de obra européia  branca e a marginalização da população negra.  o  gênero  do  merengue  na  República  Dominicana.  O modelo econômico e político com partidos políticos e lideranças populistas emergente na América Latina nas décadas de  1930  e  1940  procurou  no  povo  os  símbolos  de  integração  nacional  e  de  mudança  política  que  necessitava.  da  uma  forma  sofisticada  para  a  continuidade  da  política  de  embranquecimento  do  período  anterior. tomando  fora.  Brasília.  enraizada  na  valorização  positiva  das  caraterísticas  brancas  e  negativa  das  negras.  de  1930  a  1970.  inclusive  de  religiões  sincréticas  como  o  Umbandismo;  gêneros  musicais  e  de  dança  como  o  son  e  a  rumba  em  Cuba  são  aceitos  depois  do  sucesso  nos  EUA  e  Europa. nos calypsonians. uma  certa  mobilidade  social. por vezes.  Se  o  período  anterior foi caraterizado pelo explicito embranquecimento e o mimetismo com as formas culturais européias. religiosos afro­descendentes negros terão visibilidade. se assiste freqüentemente a invisibilização dos atores negros na prática  dessas formas.  pagará  o  preço  da  nacionalização  das  referências  às  matrizes  africanas.  Orquestras  e  encartes  de  discos  com  imagens  de  músicos  negros  e  pardos  circulam  ao  longo  da  América Latina veiculando a constituição de uma consciência e identidade racial e cultural diaspórica negra. com  as  Escolas  e  o  gênero  do  samba.  se  carateriza  pelas  políticas  raciais  das  elites  através  do  Estado  e  do  jornalismo  excluindo  explicitamente  à  população  negra  e  sua  cultura  dos  projetos  de  construção  nacional. ao longo da história da cultura expressiva negra: a  importância do contador de histórias ou griot. a história cultural.  sobretudo.  iniciado  nas  últimas  décadas  do  século  dezenove  depois  da  abolição.  e  transformando  logo  esses  gêneros  em  formas  de  expressão  locais  e  nacionais  de  contestação e de reflexão da realidade.  Nas décadas seguintes. no puxador do samba ou no sonero e o cantador  de rumba. apagados seus  referentes à população negra e às matrizes africanas. o funk e depois o rap de EUA em São  Paulo.3.  As  elites  latino­americanas  tentaram  embranquecer seus países. dos fluxos globais disponíveis de música negra: o reggae da Jamaica em Salvador.  isto  é. no .  no  entanto.  No  século  vinte.  entretanto. Procurará então novos referentes culturais onde se identificar. que as formas culturais negras foram re­significadas como nacionais e populares.  Mas  haverá  um  preço  a  pagar:  a  essencialização  da  categoria  mestiço  ocultará  a  variabilidade  de  fenótipo  e. agora os símbolos  nacionais  são  o  mestiço  e  as  formas  culturais  populares  de  matrizes  africanas. artistas. no entanto. aceitação e. os gêneros da bomba e da plena em Porto Rico. percebendo que a  ênfase na identidade mestiça encobre uma realidade de desigualdades socioeconômicas e de discriminações que afetam a  pardos e a pretos por igual. presente nos cantos religiosos.

 a finais dos anos  1930. permitiu a constituição da Rede  Continental  de  Organizações  Afro­Americanas. .  em  forma  instrumental  ou  vocal.  organizações  não­governamentais. e o Partido Autóctono Negro. os quais não tiveram sucesso em levar um só candidato ao cargo.  conformada  por  cinco  redes  regionais:  Andina. especialmente Uruguai. sejam atendidas agora pelos governos.  no  son­montuno. um importantíssimo momento para as organizações negras da região foi a reunião em Montevidéu de 1994. rappers.  nos  cenários  nacionais e internacional emergem distintos movimentos sociais e culturais.  perante  o  processo da III Conferência Mundial Contra o Racismo.  des­etnicização  e  nacionalização. 1980 e 1982.  no  samba. Centro e trinta delegados de todos os países americanos. com atos de  protesto em base a grupos de percussão. As experiências mais importantes na região foram o Partido Independiente de Color. são observados com grande atenção pelos outros países da  região. A eficácia dos novos instrumentos e formas de organização faz  que demandas históricas por políticas públicas.  denominada Seminario Continental Sobre Racismo e Xenofobia.  As formas organizativas nos anos 1980 são movimentos sociais baseados na mobilização em rede dos ativistas. Peru. os legados culturais africanos. na luta pela interpretação da realidade. A primeira participação histórica afro­latino­americana em eventos transacionais  foi em 1974 com a participação do ativista e pensador afro­brasileiro Abdias Nascimento no Sexto Congresso Pan­Africano em  Dar­es­Salaam. com o trabalho em redes nacionais.  Caribe. É decisiva para a eficácia desses movimentos e organizações a  formação de redes nacionais e transacionais. Os avanços no Brasil. O avanço acontece  em dois grandes frentes: a reparação das desigualdades que afetam aos afrodescendentes; a educação na diversidade cultural  e nas relações raciais.  Em  2000. é criada a Aliança Estratégica de Organizações Afro­Latino­americanas  e Caribenhas. Colômbia e Venezuela.  a  cultura  política  dos  movimentos  sociais  negros  na  região  muda. convocada por Organizações Mundo Afro com a liderança de  Romero Rodríguez. Em 1977.  desde  finais  da  década  de  1980.  Norte­  América  e  Centro­América. assim como o próprio termo "afro­latino­américa" dando especificidade à  idéia da Diáspora africana no continente. de organizações não governamentais negras em  rede  com  os movimentos de base e a mobilização de rua. com um decisivo papel em levar à Conferência as demandas e propostas dos movimentos sociais negros da  América Latina e o Caribe. nos anos 1930. do norte ao sul. transformados ao longo de vários  séculos  no  Novo  Mundo.  e  o  instrumento  internacional  da  Declaração  e  o  Plano de Ação emanados da Conferencia de Durban em 2001. organizações e redes de  organizações negras da América Latina e do Caribe. Tanzânia. e  transacionais  de  movimentos  sociais.  na  plena. Colômbia.  Dez anos depois.  Por  outro  lado.  ou  na  interação  entre  o  instrumentista e o dançarino como na rumba. depois. em  Cuba nos anos 1920.  sofreram  dois  grandes  processos  de  cima  para  baixo  na  América  Latina  durante  o  século  vinte:  rejeição  e  desvalorização.  Uma nova cultura política dos afro­descendentes marca a década dos 2000.  Em suma. em esse sentido. no Uruguai. assim como na formação. regionais.  No  entanto. aconteceram os três primeiros eventos continentais ­ chamados Congressos  de Cultura Negra das Américas ­ respetivamente em Cáli.  a  rede  Afro­América  XXI.  Cone  Sul. operando a crítica à suposta existência de democracia racial  ou de integração e igualdade social nos países da região. no Panamá  com Gerardo Maloney.  e  a  Iniciativa  Global  Afro  Latina  y  Caribeña  (GALCI). com a liderança de Manuel Zapata Olivella. de baixo para cima. Os novos movimentos sociais negros se baseiam na  formação de consciência. a Frente Negra Brasileira.  Na  década  de  1990  surgem  também  outras  redes  como  a  Red  de  Mujeres  Afrocaribeñas  y  Afrolatinoamericanas. blocos "afro". em termos da noção de cultura em Antropologia.  deixando  para  trás  o  modelo  baseado  na  formação de partidos de base racial. e em São Paulo com Abdias Nascimento.  no  candômbe.góspel.

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  e  El  Movimiento  Negro  en  Uruguay  (2003).  Poder  e  Relações  Raciais. . Seus interesses de pesquisa compreendem a Música Negra da América Latina e os Estudos sobre  Cultura.  publicando  Los  Tambores  del  Candombe  (2002).Universidade de Brasília.