Daltro Lucena Ulguim.

“GENEALOGIA DA VONTADE DE PODER”
Esta monografia será apresentada ao programa de Pós-Graduação da Faculdade de Filosofia de Pelotas como requisito parcial para a conclusão do curso de Pós – Graduação Lato Sensu – Especialização em Filosofia Moral e Política, na Universidade Federal de Pelotas, e obtenção do título de Especialista em Filosofia Moral e Política, sob orientação do Dr. Clademir Araldi. ORIENTADOR: Prof. Dr. Clademir Araldi.

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Pelotas, 2004.

SÚMARIO.
GENEALOGIA DA VONTADE DE PODER: Introdução SOBRE A HISTÓRIA EM NIETZSCHE Foucault leitor de Nietzsche: a genealogia e a história Uma História Natural SOBRE A MORAL Moral Aristocrática e Moral Servil Uma Filosofia contra a Moral Cristã Bom e Mau, Bom e Ruim Culpa, Má Consciência e Coisas Afins A POLÍTICA Nietzsche e as Interpretações Nazistas O ETERNO RETORNO Tese Cosmológica A Concepção Cosmológica e a Vontade de Poder VONTADE DE PODER E PARADÍGMA CIENTÍFICO A Crise do Paradigma Científico CONCLUSÃO BIBLIOGRAFIA FICHA CATALOGRÁFICA 2. 4. 4. 8. 17. 17. 21. 24. 29. 31. 32. 37. 37. 42. 48. 48. 67. 79. 81.

1. 1.21.322.12.22.32.43. 3.14. 4.14.25. 5.16. 7. 8.

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GENEALOGIA DA VONTADE DE PODER

INTRODUÇÃO Ao iniciar esta monografia sobre a Vontade de Poder já se sabia da longa caminhada que se deveria enfrentar; porque aprender Nietzsche é uma árdua tarefa, que, no entanto, se torna prazerosa na medida em que o desejo esteja em primeiro lugar. Uma introdução ao conhecimento de Nietzsche requer a apreensão de seus conceitos fundamentais, porque eles são os veículos que nos impulsionarão sobre seus temas; para isso é fundamental discutir e refletir sobre o conceito de Vontade de Poder e a importância deste conceito na sua filosofia. Para Justificar a pesquisa acredita-se que o estudo do conceito de Vontade de Poder está relacionado a outras categorias nietzschianas, fundamentalmente à categoria do “Eterno Retorno” que se pretende clarificar no decorrer dos estudos de suas obras e mesmo nas obras de comentadores o que certamente irá abrir horizontes no estudo da filosofia de Nietzsche, para insipientes e neófitos. Em nosso Sistema Conceitual pretende-se trabalhar não só a categoria de Vontade de Poder, objeto principal do presente trabalho, e embora este seja o nosso tema central, pretende-se relacioná-lo com outros conceitos nietzscheanos, como: Ascetismo, Eterno Retorno, Homem Superior, Niilismo, Moral, História, Genealogia e outras categorias que enriqueçam a monografia. De Gilles Deleuze poderemos juntar os comentários sobre os conceitos nietzscheanos acima considerados, os conceitos de história e genealogia tratados por Michel Foucault em Microfísica do Poder.

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Conceitos novos e ainda não discutidos, de outros comentadores, desde que relacionados com o tema poderão e devem ser aceitos, como é certo surgirão no decorrer da pesquisa serão juntados e discutidos na monografia. Já temos como liqüida a investigação dos conceitos nietzscheanos em Wofgang Müller-Lauter, Scarlett Marton, Vânia Dutra Azeredo, Leon Kossovitch, Oswaldo Giacoia Junior, Alberto Marcos Onate, Mario Sérgio Ribeiro, mas certamente outros deverão aparecer no decorrer da pesquisa. A nossa Teoria de Base que se pretende utilizar para a monografia são os conceitos e categorias relativos a “Vontade de Poder” que pretendemos, como já dizia Nietzsche, ruminar ao extremo e com isso aprofundar nossos conhecimentos filosóficos. A nossa Metodologia será sistemática embora saibamos de antemão que Nietzsche não tinha afinidades com a sistematização de teorias. Em geral o tipo de metodologia que utilizaremos trata-se especificamente da metodologia dos estudos filosóficos, calcados em obras bibliográficas, portanto uma pesquisa filosófica bibliográfica. Enfim a nossa busca constante neste trabalho será incessantemente a “ruminação” do conceito de Vontade de Poder, e por tal utilizaremos sempre sua escrita com iniciais maiúsculas em virtude de ser a essência da monografia. No final, será elaboradas uma síntese com as idéias que ficaram gravadas no espírito do autor tentando consubstanciar o que Nietzsche traz dentro da sua filosofia sobre “Vontade de Poder”. Espera-se com isso alcançar resultados profícuos e estabelecer uma leitura prazerosa.

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Nietzsche. 1 Foucault. Ela deve construir “movimentos ciclotópicos” não a golpes de “grandes erros benfazejos” mas de “pequenas verdades inaparentes estabelecidas por um método severo” (FOUCAULT. segundo Foucault. é cinza. HISTÓRIA. a minúcia do saber. sucessivo. Michel. ou que sua essência foi construída peça por peça a partir de figuras que lhe eram estranhas. I. Porque Nietzsche genealogista recusa. LEITOR DE NIETZSCHE: A GENEALOGIA E A A genealogia. 15). sua forma imóvel e anterior a tudo o que é externo. A genealogia exige. nesse sentido. A alta origem é o “exagero metafísico que reaparece na concepção de que no começo de todas as coisas se encontra o que há de mais precioso e essencial” (FOUCAULT. sua mais pura possibilidade. sua identidade cuidadosamente recolhida em si mesma. FOUCAULT. Ora. 15. se o genealogista tem cuidados de escritor e a história em vez de acreditar na metafísica. não seu segredo essencial e sem data. 1999. EM NIETZSCHE. se esforça para recolher nela a essência exata da coisa. In Microfísica do Poder. ela é meticulosa. a pesquisa da origem (Ursprung)? Primeiramente porque a pesquisa. mas o segredo que eles são sem essências.1. 1 SOBRE A HISTÓRIA. A história ensina a rir das solenidades. o que é que ele apreende? Que atrás das coisas há “algo inteiramente diferente”. portanto. 1. a genealogia e a história. 17). 5 . pacientemente documentária. Ela trabalha com pergaminhos embaralhados riscados e reescritos. um grande número de materiais acumulados e exige paciência. pelo menos em certas ocasiões. 1999.5 1. acidental.

O corpo – e tudo o que diz respeito ao corpo. a genealogia não pretende recuar no tempo para restabelecer uma grande continuidade para além da dispersão do esquecimento: sua tarefa não é a de mostrar que o passado ainda está lá. 21. depois de ter imposto a todos os obstáculos do percurso uma forma delineada desde o início. Zaratustra terá seu macaco que saltará atrás dele e tirará o pano de sua vestimenta (FOUCAULT. Acontece também a força da luta contra si mesma e não somente a embriaguez de um processo que lhe permitiria se dividir no momento em que ela se enfraquece. quando o perigo externo não ameaça mais. 22). a alimentação. E que reage extraindo sua força dessa que 6 . entram em luta. 1997. seus abalos. como o bom filósofo necessita do médico para conjurar a sombra da alma. III. O corpo: superfície de inscrição dos acontecimentos – “a linguagem o marca”. um pouco. mas o jogo casual das dominações. suas surpresas. animando o ainda em segredo. os desfalecimentos e os erros: nele também se atam e de repente se exprimem. A emergência das variações individuais se produz em um outro estado das forças. as vacilantes vitórias. O homem começou pela careta daquilo em que ele ia se tornar. se apagam uns aos outros e continuam seus insuportáveis conflitos. É preciso saber reconhecer os acontecimentos da história. que a genealogia restabelece os diversos sistemas de submissão: não a potência antecipadora de um sentido. Desse modo o genealogista necessita da história para conjurar a quimera da origem e. 1999. as derrotas mal digeridas que dão conta dos atavismos e das hereditariedades da mesma forma que é preciso saber diagnosticar as doenças do corpo. bem vivo no presente. 17 a 20). mas nele também se desatam. pois no seu limiar está o macaco. quando a espécie triunfou. É em Nietzsche que a força reage contra sua lassidão. Sobre o corpo se encontra o estigma dos acontecimentos passados do mesmo modo que dele nascem os desejos. Como Foucault ensina. 1999. o clima.6 Na mesma obra diz Foucault: Procura se despertar o sentimento de soberania do homem mostrando seu nascimento divino: isto se tornou um caminho proibido. 17-20). e quando “os egoísmos voltados uns contra os outros que brilham de algum modo lutam juntos pelo sol e pela luz”. volume em perpétua pulverização (FOUCAULT. lugar de dissociação do Eu – supõe a quimera da unidade existencial -. Nietzsche entende. o solo – é o lugar da “Herkunft”. os estados de fraqueza e de energia. as idéias o dissolvem –. segundo Foucault. suas rachaduras e suas resistências para avaliar o que é um discurso filosófico (FOUCAULT.

ela lhe impor limites. 23 a 26). os alimentos e a digestão e as energias. mas alegre – de uma agitação bárbara e inconfessável. ela tem que ser o conhecimento diferencial 7 . fantasiá-la de um valor moral e se revigorar. O que Nietzsche parou de criticar desde a segunda das “Considerações Extemporâneas” é esta forma histórica que reintroduz e põe sempre o ponto de vista suprahistórico: uma história que teria por função recolher em uma totalidade bem fechada sobre si mesma. E a genealogia deve ser a história da interpretação das morais. suplícios. Contudo. o sistema nervoso. de quem se introduzindo no aparelho complexo.7 não deixa de crescer e se voltando em sua direção para abatê-la. dos conceitos metafísicos. A história “efetiva” lança seus olhares ao que está próximo: o corpo. 1997. Ninguém pode ser responsável por uma emergência. Aquela inverte a relação habitualmente estabelecida entre o acontecimento e a necessidade contínua. portanto a entrada em cena das forças. o fizer funcionar de tal modo que os dominadores encontrar-se-ão dominados por suas próprias regras. ela perscruta as decadências e se afronta outra época é com a suspeita – não rancorosa. história do conceito de liberdade ou da vida ascética. Pode-se entender que as características próprias do sentido histórico como Nietzsche os compreende aquele que opõe a “Wirkliche Historie” à História tradicional. IV. A história tem mais a fazer do que ser serva da filosofia e do que narrar o nascimento necessário da verdade e do valor. a genealogia é designada por vezes como “Wirkliche Historie”. A história “efetiva” se distingue daquela dos historiadores pelo fato de que ela não se apóia em nenhuma constância: nada no homem – nem mesmo seu corpo – é bastante fixo para compreender outros homens e se reconhecer neles. o salto pelo qual elas passam dos bastidores para o teatro. mas ao contrário a satisfazer a violência. de quem tomar o lugar daqueles que as utilizaram. é sua interrupção. cada uma com seu vigor e sua própria juventude. em várias ocasiões ela é caracterizada pelo “espírito” ou “sentido histórico”. como emergências de interpretações diferentes (FOUCAULT. Universo de regras que não é “destinado a adoçar”. ninguém pode se autoglorificar por ela. O grande jogo da história será de quem se apoderar das regras. de quem se disfarçar para pervertê-las e utilizá-las ao inverso e voltá-las contra aqueles que as tinham imposto. o sentido histórico escapará da metafísica para se tornar um instrumento privilegiado da genealogia se ele não se apóia sobre nenhum absoluto. Em compensação. a diversidade reduzida do tempo. ela sempre se produz no interstício. A emergência é. dos ideais.

A dissociação sistemática da nossa identidade. Nesta genealogia da história que esboça em vários momentos. O Historiador é insensível a todos os nojos: ou melhor. ele tem prazer com aquilo mesmo que o coração deveria afastar. cortar suas raízes. Um e outro possuem um único começo. Em 1874. E só então o sentido histórico libertar-se-á da história supra-histórica. apenas uma obstinada verdade. ela não pretende demarcar o território único aonde nós não viemos. destruir suas venerações para libertar o homem e não deixar outra origem que não aquelas que desejar reconhecer. segundo a máscara que ela usa. As “Considerações Extemporâneas” falam do uso crítico da história: tratava-se de colocar o passado na justiça. No terceiro uso da história há o sacrifício do sujeito de conhecimento. V. o terceiro é o uso sacrificial e destruidor da verdade que se opõe à história-conhecimento. O sentido histórico comporta três usos que se opõem às três modalidades platônicas de história. dos venenos e contravenenos. que o conhecimento repousa sobre a injustiça. Nietzsche criticava esta história devotada à veneração por obstruir as intensidades da vida e suas criações. outro é o reconhecimento da identidade que se opõe à históriacontinuidade ou tradição. A análise histórica do grande querer-saber que percorre a humanidade faz aparecer a verdade. tornar-se mestre da história para dela fazer uso genealógico. obstina-se em dissipá-la.8 das energias e desfalecimentos. Deve esconder seu singular rancor sob a máscara do universal. que não há no conhecimento um direito à verdade. um uso rigorosamente antiplatônico. Se dominarmos e nos apoderarmos da genealogia e a voltarmos contra seu próprio nascimento. É preciso despedaçar o que Platão fez da filosofia socrática e não fundá-la em uma filosofia da história. ela se tornará análise genealógica e já não será um conhecimento demagógico ou religioso. Nietzsche liga o sentido histórico à história dos historiadores. 1999. dos olhares e desmascaramentos. ao contrário. Um é o uso paródico e destruidor da realidade que se opõe ao tema da história reminiscência. A 8 . A consciência histórica é neutra. impuro e misturado. Ela tem que ser a ciência dos remédios (FOUCAULT. Trata-se de parodiar a história para deixar claro que ela é apenas paródia. essa pátria à qual os metafísicos prometem que não retornaremos – ela pretende fazer aparecer todas as descontinuidades que nos atravessam. 26 a 30). despojada da paixão. A história genealogicamente dirigida não tem por fim encontrar as raízes de nossa identidade. é onde tentamos assegurar sob a máscara apenas uma paródia. bastante fraca.

Uma vontade “em si” ou “como” tal é uma abstração: ela não existe factualmente. em última instância. Os filósofos ao se ocuparem da moral como ciência pretendiam sua fundamentação e todos eles julgaram. da sua classe. e mais ainda. mas também era jovem. Essa tarefa aparentemente modesta de descrever a moral estava distante do orgulho destes filósofos. UMA HISTÓRIA NATURAL. Os filósofos da moral conheciam apenas grosseiramente os “facta morais” como extratos arbitrários ou abreviações causais como espelhos da moralidade do seu meio. Müller-Lauter. 2 O sentimento moral da Europa da época de Nietzsche era indelével. mas retorna superando objeções que fazia em nome da vida. para realizá-la. 1. do seu clima e religião. Friedrich.2. VI. 100. 30. 9 . Todo querer é. Retorna como uma metamorfose venerando tornar-se paródia: tornar-se dissociação sistemática. querer-algo. não chegaram sequer a vislumbrar o problema da moral. tardio. irritável e refinado. Os filósofos chamavam de “fundamentação da moral” que propunham realizar encarnada como forma erudita da cândida crença na moral dominante como conjunto das circunstâncias dentro de determinada moral. iniciante. 2002. A expressão “ciência moral” é demasiada pretensiosa e contrária ao bom gosto de palavras mais modestas. falso e sentimental: é esta proposição da moral num mundo cuja essência é a Vontade de Poder. e nem os desejavam conhecer. do espírito da sua época. segundo Nietzsche. 1999. ao tempo e épocas passadas. grosseiro e correspondia a “ciência moral” notavelmente perceptível. de seu poder de criar. Quem alguma vez se sentiu profundamente insípido. Wolfgang. 51. “A interpretação da Vontade de Poder como Princípio Metafísico” in “A doutrina da Vontade de Poder em Nietzsche”. múltiplo. tê-la fundamentado e a consideravam como dada. 1997. até agora. e 32 a 37). crítica das injustiças do passado pela verdade do presente tornando-se destruidor do sujeito de conhecimento pela injustiça da Vontade de Saber (FOUCAULT. Estavam malinformados quanto ao povo. Esse algo-posto. Para Wolfgang Müller-Lauter3 o que é Vontade de Poder? Vontade de Poder não é um caso especial do querer.9 genealogia retorna às três modalidades da história que Nietzsche reconhecia em 1874. uma espécie de negação de que essa moral pudesse ser concebida como problema. Para além do Bem e do Mal. da igreja. Vontade de Poder procura dominar e alargar 2 3 Nietzsche. essencial em todo querer é: poder.

a curiosidade impiedosa e a mobilidade leviana do espírito Europeu. a escravidão5. Sob a pressão desta idiossincrasia. Ao que tudo indica. esconder-se. revelou o meio pelo qual se criou a força. feia palavra!) [. Vânia Dutra de AZEREDO (2000: 26) expõe que na perspectiva nietzscheana nunca houve um questionamento quanto ao valor dos valores morais. contrário à razão. quer dizer. na obra “Nietzsche”. talvez Kant. 1997. esta idiossincrasia dos democratas. no sentido mais grosseiro. como real como além de qualquer questionamento”. Para ela tal questão nem sequer foi cogitada e ampara seu pensamento citando o próprio Nietzsche “pois se considerou o valor desses ‘valores’ como dado. Há a moral que tem por fim justificar seu autor para os outros.] infiltra-se hoje. 10 . para mal delas. outras têm por fim acalmá-lo ou pô-lo disposto consigo mesmo. outros querem vingar-se. o da atividade propriamente dita. é também o meio indispensável de disciplina e educação espiritual. gota a gota.. A moral de escravos será mais bem explicada no capitulo Moral Aristocrática e Moral Servil. sempre mais eficaz.. Para os utilitaristas e sua esperteza “por amor de um absurdo” e para os anarquistas “por submissão de leis arbitrárias” sendo muito provável que isso seja “natureza” e “natural”. a circunstâncias exteriores (SPENCER in DELEUZE. uma simples ‘reatividade’. expressa dois tipos de forças. em outro. uma atividade de segunda ordem. ou mais fino. há moral que tem o intuito de fazer seu autor esquecer a si mesmo ou algo de si. outras que se crucificam e humilham-se. 54. definiu-se a própria vida: uma adaptação interior. a ativa e a reativa: A aversão contra tudo o que dirige e quer dirigir. Este é um ponto crucial: 4 5 Müller-Lauter. até mais. No dizer de Nietzsche um certo moralista pode querer exercer sobre a humanidade seu poder e seu capricho criador. no sentido em que lhes escamoteou um conceito fundamental. Todo esforço violento. dá a entender que o que há de respeitável em mim é o fato de eu poder obedecer. nas ciências mais exatas. A doutrina da Vontade de Poder em Nietzsche. Nesse sentido Gilles DELEUZE citando Herbert SPENCER. transfigurar-se ou se colocar nas alturas e distâncias. o ‘misarquismo’ moderno (ah.10 incessantemente seu âmbito de poder. Parece-me mesmo que ele já se tornou senhor da filosofia e da biologia inteira. é evidente. Alargamento de poder se perfaz em processos de dominação. arbitrário. do mesmo modo com as pessoas deve-se passar o mesmo que comigo. Wolfgang. terrível. mais objetivas na aparência. coisa má. 4 Nietzsche afirma que há diversas morais. avança-se a ‘faculdade de adaptação’. duro. 1965: 6065).

se conjugam no mundo atual. explica Marcuse. 1993. Para os frankfurtianos há dois fenômenos distintos: a dominação que é anterior e difícil de ser resolvida porque a exploração econômica pode terminar. mas o desejo de servir e o desejo de comandar continuam. porém. nos permitimos discordar contra esse seu pensamento. A escravidão. Tal racionalidade é fonte do irracional que converte o opositor político em inimigo a ser liquidado. Em resumo. Um elemento de autoderrota. Mas a “Teoria Crítica” terá de caminhar para uma crítica da civilização técnica porque os domínios da natureza e da técnica. a crítica à economia política era insuficiente para as possibilidades das transformações sociais e políticas. parece habitar os movimentos de luta pela emancipação. pós-modernamente. porque neste ponto eles progrediram e elaboraram com mais precisão esta categoria. é insustentável e inconcebível. ação imediata não-reflexiva quer corrigir seus erros pela violência ou terror supondo os seres como domesticados e obedientes. No ponto de vista frankfurtiano a teoria “Tradicional” foi responsável pela ascensão e triunfo do nazismo.11 e apesar da tentativa de abstermo-nos da intervenção para não prejudicar a idéia mais aproximada à de Nietzsche em estudo. a empiria. não aceitam a escravidão. na tomada do poder. restava aos frankfurtianos reexaminar o “conceito de razão” próprio da “Teoria Tradicional”. em um sentido preciso: o herói na história. ou de uma teoria que orientasse a práxis justa. a Teoria Tradicional teleguia os sujeitos históricos. Contra a “escravidão” é possível apenas pensar como inevitável a idéia da servidão voluntária que se fundamenta nos frankfurtianos. mas questionam porque os homens escolhem seus próprios opressores. Desconfiados dos partidos políticos. Para a Escola de Frankfurt. Os frankfurtianos. 11 . Essa teoria mecanicista e causal está presente também na “Teoria Revolucionária”. O pragmatismo vem tomando o lugar do pensamento e reflexão. reduzindo-os a simples objetos de uma “verdade política” pela qual são controlados. pensar é o contrário de obedecer. Nessa condição. hoje não se justifica a escravidão – mas ainda existe implicitamente a realidade do senhor e do servo embutidos na “Servidão Voluntária” (MATOS. com largas vantagens. dos heróis. a vanguarda. Para os frankfurtianos. o partido revolucionário são supostos portadores de um saber capaz de controlar o rumo dos acontecimentos.

por muito tempo. como revela Nietzsche. Isso é o imperativo7 da moral da natureza que não chega a ser nem categórico como exigia Kant. incapazes de se informarem sobre os motivos de sua conduta. se encontra na moral de Platão e era fundamentalmente aristocrático. O homem é mau só por engano e ao se esclarecer o engano se tornará bom. O bem enquanto problema filosófico e histórico é um antigo problema moral que aparece pela primeira vez na pessoa de Sócrates que dividiu espíritos. 12 .F. sondando sua consciência.39) 6. qualquer moral é o que nela há de “natureza” que ensina a odiar a excessiva liberdade e implanta a necessidade de horizontes limitados e tarefas mais modestas como condição necessária à vida e ao crescimento. para Nietzsche. seguir os instintos e persuadir a razão a apóia-los.12 38. porque esta deseja que se aprecie tudo conforme um “porquê” e. e o instinto sexual no período cristão da Europa. senão perecerás e perderás o resto de respeito por ti mesmo”. Escola de Frankfurt: luzes e sombras do iluminismo. Contudo. O socratismo. O próprio Sócrates com critério do seu talento se colocou do lado da razão. a mesma incapacidade. portanto segundo as conveniências e utilidades. Conforme Nietzsche foi Platão quem divulgou Sócrates. Para Nietzsche este silogismo não é correto. ele apanhou na rua todo o Sócrates como um tema ou canção variando até ao infinito e ao impossível em todas suas máscaras e multiplicidades. Todo mal é inconsciente e o “indivíduo mau” prejudica-se a si mesmo. O fanatismo moral aparece em gerações e períodos como equivalentes destes jejuns impostos à força onde um instinto aprende a submeter-se e curvar-se. Olgária C. Assim. a purificar-se e refinar-se. Há dúvidas em saber se o instinto merece mais autoridade que a razão. Descobriu nele mesmo. o estreitamento da perspectiva e a estupidez “tu deves obedecer seja a quem for. Onde houver instintos e hábitos poderosos os legisladores devem intercalar dias em que esses instintos possam ser acorrentados ou libertados. Platão 6 7 Matos. em meio à cultura helenística. porque só encara as más conseqüências e porque só admite o “bom” como idêntico a “útil” e “agradável”. permite interpretações semelhantes. mas não o faria se soubesse que o mal é mau. Internamente percebeu o que há de irracional nos juízos morais. O estoicismo. 1993. e que se dirige ao indivíduo. homens dotados dos instintos. Riu-se toda sua vida da incapacidade dos aristocratas. quando ao contrário deveria ajudá-los pela razão a exercer seus direitos. 38. se explica o paradoxo da sublimação até ao amor. porque disse para consigo mesmo separar-se dos instintos. Desenvolveremos melhor esta parte nos capítulos: Eterno retorno: Tese cosmológica ou imperativo ético.

artifício irracional na forma barroca porque se destina a “todos” generalizando onde não devia generalizar. É mania. fantasias. Ela funciona como fruição dos afetos numa diluição intencional e espiritualização pelo simbolismo da arte. como eles próprios crêem “povo eleito entre os povos”. todos os filósofos. Porque? A favor das zonas temperadas? A favor dos homens moderados? Daqueles que têm “moral”? Dos medíocres? A moral é proposta que se destina a construir a felicidade do indivíduo e o grau de perigo que vive consigo mesmo. violento. Impõem-se de modo incondicional e absoluto. Só com o tempo nossos sentidos aprendem a ser cautelosos com o conhecimento. 13 . Nietzsche cita Tácito. com exceção de Descartes. Ela é esse estudo de deixar-se rir ou chorar. Para ele os moralistas interpretam assim. para este.13 persuadiu-se com todas as forças de que a razão e o instinto se dirigem espontaneamente para o bem. fé e ausência de desconfiança. Suas normas suportáveis e sedutoras deixam um perigoso cheiro de outro mundo. A rebelião dos escravos na moral começa com os judeus. pai do racionalismo. É remédio contra suas paixões e tendências que equilibram a vontade de pedir. ímpio. Os judeus realizavam o milagre da inversão dos valores. E. Tanto no saber como no conhecer desenvolveu hipóteses. avô da revolução. A investigação da história de qualquer ciência mostra na sua evolução o fio condutor para a compreensão dos processos mais comuns do saber e do conhecer. de destruição dos afetos pela análise ingenuamente preconizada por Espinosa. até aqui o seguiram. para Nietzsche. Ela reduz os afetos a uma média inócua onde se satisfaz o aristotelismo da moral. Nessa inversão os profetas empregam a palavra “pobre” como sinônimo de “santo” e de “amigo”. A vida na terra recebe um novo atrativo e seus profetas fundiram a palavra “rico” com “mau. que apenas concebeu autoridade a razão apenas como instrumento. Intelectualmente a moral vale pouco. os judeus eram “o povo nascido para a escravidão”. menos ainda “sabedoria”. sensual” numa só palavra e deram um sentido injurioso à palavra “mundo”. ou para “Deus”. não é ciência. O homem feroz e a fera são quase incompreensíveis. Entende-se mal a natureza quando se procura sua “doença” na base saudável dos monstros e plantas tropicais. É a esperteza e a estupidez misturadas e multiplicadas por três que os estóicos aconselhavam como antídotos para loucura das paixões. Não deixam mostrar o ódio a selva virgem e aos trópicos? Para eles é necessário desacreditar do “homem tropical” seja como doença ou degenerescência do homem quer como seu próprio enfermo ou suplício. no mundo antigo.

domesticado. ou ao homem por amor de Deus. Ele lutará de todas as formas para semear a dor. o homem de rebanho apresenta-se como a única espécie autorizada por suas qualidades. a fim de se apoderar de novos súditos” (AZEREDO. moderação. A influência de Napoleão é quase a história da felicidade superior que seu século conseguiu alcançar no melhor momento. benevolência. Quando não é possível dispensar o condutor. ou seja. indulgência e compaixão. consideração. A moral criada pela religião garante direito de cidadania as paixões contando que a ela se associe o homem. valores opostos que lutam entre si e que não o deixam descansar. Na visão nietzscheana. (NIETZSCHE. sendo natural admitir-se que cada um possua presentemente a necessidade de obedecer como ordena a consciência formal “deve-se fazer tal coisa” ou “deve-se deixar de fazer tal coisa”. então surgem fantásticos seres mágicos. A necessidade procura dar um conteúdo a sua forma. o aparecimento de um senhor absoluto representa alívio de uma pressão insuportável da necessidade de ser mandado. Desde que existe o homem também houve rebanhos humanos obedientes e reduzidos número de mandatários.. Na Europa. Todavia se na natureza do homem atua a contradição e a guerra como estímulo de vida e se por outro lado ela herdou instintos poderosos e inconciliáveis numa mestria na arte de fazer a guerra a si mesmo.. aplicação. exatamente por isso. Aqui Vânia Dutra de Azeredo ensina com mestria: “O sacerdote ascético. enfim “deves”. sendo um inimigo natural de toda saúde. Aqui vale a pena citar “literalmente” Nietzsche: O homem de uma era de dissolução e mestiçagem de raças traz no seu organismo. na arte de se dominar e enganar a si mesmo. para os europeusanimais-de-rebanho tem como testemunho o efeito produzido por Napoleão. que lutam entre si e raras vezes o deixam descansar. à 14 . com virtudes únicas como a sociabilidade. O remédio. ou chefe. ele também um desses homens. é como a felicidade do repouso. para este homem. é preciso experiências substituindo os que mandam por um somatório acumulativo de homens de rebanho inteligentes. 2000. tratável e útil ao rebanho. A obediência foi até agora a melhor e mais praticada entre os homens. a herança de uma ascendência múltipla. incompreensíveis e inimagináveis: homens predestinados à vitória. a divisão e a contradição. instintos e escalas de valor opostos.14 sob forma de música. formador de rebanhos. O homem traz na genética as múltiplas ascendências e com elas instintos. e mais que opostos. tranqüilidade da unidade conseguida com a paz duradoura de Agostinho. § 200. ou de amor a Deus. 2002. defende-os dos sãos e da inveja que aqueles inspiram. 112). 147).

que não conseguiam conter aquela ralé.15 sedução. que para ser verdadeira não deve ser anárquica: odiava profundamente a anarquia. Kossovitch. 1964. era considerada uma espécie de “menosprezo involuntário”. em Nietzsche há diferenças em relação a Carlyle como bem o demonstra Kossovitch: Mas. Eles surgem na mesma época em que aparece o tipo fraco com seu desejo de repouso. Verifica-se que neste cruzamento. tais coisas não pertencem ao domínio das valorizações morais e são extramorais. ele se espantava que não houvesse homem algum para comandar aqueles pobres suíços. Para este. Naquele Vinte de Julho (1792) Bourrienne e ele estavam num café. O amor ao próximo é secundário. cujas expressões refletem César e Alcebíades ou Frederico II de Hohenstaufen. 15 . da “virtude”. figuras do heroísmo. à interpretação independente do senhor corresponde. 238 e 294. Nietzsche (1844 – 1900) se aproxima do pensamento de Thomas CARLYLE (1795 – 1881). historiador e publicista: Chegamos agora à última forma de heroísmo. Ele deve ser tido e havido como um super-homem. O medo do próximo cria novas perspectivas de valor moral. entre os artistas um Leonardo Da Vinci. é aquele que traz um bem-estar para a humanidade. à dependência do escravo. Signos e Poder em Nietzsche. fomentado pela educação militar. assimetricamente. Os Heróis e o Culto dos heróis. conhecia aquela Democracia. 39. enquanto a população passava: Napoleão demonstrava o mais profundo desprezo pelas pessoas de autoridade. Na época dos Romanos um ato de piedade não era considerado nem mau. a 8 9 Carlyle. A produção do escravo passa pelo senhor. a que denominamos Realeza. O condutor de homens. Mais adiante na mesma obra diz Carlyle: Napoleão em seu primeiro período era um verdadeiro Democrata. 1979. pela sua natureza. ele é pura reação. Thomas. o Outro é o princípio da interpretação. nem moral e nem imoral. convencional e aparentemente arbitrário em relação ao medo do próximo em uma estrutura de sociedade estabelecida no conjunto de garantias contra os perigos externos. venceriam se houvesse um. No dez de Agosto. a cuja vontade as nossas devem estar subordinadas e render-se lealmente. passivo. logo que fosse comparado com outro ato que considerasse o interesse da “res publica”. pois. da compaixão. E ainda.9 Não poderá haver moral de amor ao próximo se o juízo de valor que lhe fundar for útil e visar somente à comunidade e considerar imoral tudo aquilo que parece perigoso a essa mesma comunidade. Considerando que no amor ao próximo existe o exercício da consideração. Ambos se completam e provêm das mesmas causas. 8 Contudo. O elogio. Os instintos fortes e perigosos como a temeridade. de “moralidade”. Leon.

A moral de rebanho. E a espiritualidade superior e independente. Castigar torna alguém. à vontade de Salomão. Uma aristocracia e auto-responsabilidade altiva e dura são quase insultos que provocam desconfiança: “cordeiros” ou “ovelhas” são cada vez mais necessários.16 vingança. Para este modo de pensar é melhor condenar e difamar estes instintos. A mentalidade tolerante. já nada haja a temer!” e conforme Nietzsche em seu tempo em toda Europa a vontade e o caminho para este dia se chama “progresso”. a astúcia. e o faz com seriedade e honestidade. sabe-se o que Sócrates julgou não saber – o que é bem e mal. criados e cultivados porque se precisavam deles contra o perigo e os inimigos comuns. Tudo que faça o indivíduo elevando-se acima do rebanho e amedronte o próximo a partir de agora passa a ser considerado como “mau”. arrastam o indivíduo e fazem-no ultrapassar de longe a mediania e a baixeza da consciência do rebanho. Para esta moral significa pensar da seguinte forma: “não basta tornar o criminoso inofensivo? Para que castigar ainda? Castigar é horrível!”. submissa. atualmente lhes falta amparo e hoje são acusados de imorais e expostos à difamação. o motivo do medo porque a moral deixaria de ter utilidade e já não se faz necessária. e a grande razão são sentidos como perigosos. Em períodos de paz faltam cada vez mais a ocasião e a necessidade de nos educarmos para a dureza e a severidade e esta. que aniquilam a noção da dignidade própria da comunidade. irrompendo passionalmente. É o instinto de animal de rebanho que 16 . modesta. O fato de se empregar constantemente as expressões “rebanho”. injusto. O instinto de rebanho tira progressivamente suas conseqüências. Os instintos mais elevados e mais fortes. Nesta Europa de Nietzsche era quase insulto incluir o homem entre os animais. fundada nestas inquisições vai até suas últimas conseqüências: ela deixa de existir. pelo criminoso. Na Europa e países influenciados por ela. Os que analisaram a consciência dos europeus de nossos tempos terão de extrair de mil dobras e esconderijos morais sempre o mesmo imperativo. “Nós queremos que algum dia. mesmo na justiça. quebrando-lhe a fé em si mesma. sem metáforas. A idéia do “castigo” e do “dever castigar” lhe mete medo e dói. igualitária e a mediocridade dos desejos recebem nome e honras morais. Atualmente são as tendências e os instintos “opostos” que recebem as honras morais. a ambição de poder que antes eram honrados e úteis à comunidade com altos valores. de algum modo. Há na história da sociedade um ponto de enfraquecimento doentio em que ela toma partido pelo que prejudica. “instinto de rebanho” e outros semelhantes quase se considera crime. a partir do momento em que também deixa de existir o perigo. incomoda as consciências. o imperativo de receio de rebanho.

pois. na incapacidade quase feminina de poder presenciar. Unidos no grito e impaciência da compaixão. 2000. a remissão das culpas do passado. enfim unidos na crença da comunidade como salvadora do rebanho. Essa moral resiste teimosamente e implacavelmente dizendo que é a própria moral. a crença em “si”. Unidos contra a justiça punitiva como se esta violência contra o fraco fosse injustiça da sociedade. antes de mais nada. trata-se agora de suprimir o solo mesmo a partir do qual eles foram colocados. herdeiro do movimento cristão. como se esta fosse a própria moral. portanto. Há. Os ensinamentos de Scarlett MARTON esclarecem algo sobre Deus: “Se foi no mundo supra-sensível que até então os valores encontram legitimidade. em antropologia. (MARTON. de poder fazer sofrer. a esperança do futuro. que permitirá a Nietzsche acalentar o projeto de transvalorar todos os valores. descendo até o animal ou indo até Deus. a consolação do presente. o dualismo de mundo foi invenção do pensar metafísico e fabulação da religião cristã. da solidariedade onde quer que esteja ou sinta. teve início a ruptura da unidade entre physis e logos – e a filosofia converte-se. o cume alcançado. outra moral principalmente as morais superiores. o movimento democrático. na sua época. porque excesso de compaixão por Deus faz parte de uma época democrática.17 se glorifica com louvor ou censura e que adquiriu preponderância sobre os outros instintos. Em outra passagem ela ainda coloca: É a morte de Deus. apenas uma moral humana ao lado da qual deveria ser possível. para engendrar novos valores”. unidos na sua fé moral da compaixão comunitária. antes ou depois. 17 . que não há moral fora dela. Unidos na religião de composição. que se sujeita aos desejos do animal de rebanho. encontrou-se nas instituições políticas e sociais a expressão cada vez mais visível desta moral. Com Sócrates. 56). Para Nietzsche. Traço essencial de nossa cultura. no ódio ao sofrimento. a moral é uma moral de animal de rebanho. Com o auxilio de uma religião.

18 2. Nietzsche encontrou sinais comuns que distinguem os dois tipos básicos: a moral dos senhores e a moral dos escravos. 2000. bom e ruim”. 2. Essa duplicidade refere-se a dois tipos de homens: o nobre ou senhor e o escravo. 62. portanto. a Vontade de Poder é a instância da criação e. 10 Há uma dupla designação dos juízos de valor “bom e mau. Vânia Dutra de. mas é possível encontrar mesclas de ambas num único homem se os valores nasceram de uma espécie dominante.1. Nos dois casos. Mas obedecer também faz parte igualmente da Vontade de Poder. com duas respectivas interpretações desses juízos e. Enquanto a moral dos senhores tem como partida o sentimento de distância e superioridade para introduzir valores. assim como comandar. SOBRE A MORAL. todas as propriedades que permitirem resguardar os fracos e oprimidos 10 Azeredo. a moral dos escravos faz da igualdade da fraqueza o móvel de suas valorações.. ou das espécies dominada que é dependente. e se existem duas condições de nascimento dos valores. MORAL ARÍSTOCRÁTICA E MORAL SERVIL. responsável pela interpretação ou avaliação. Nietzsche e a Dissolução da moral. que tem consciência da diferença frente aos demais. portanto duas tendências morais que procedem desses juízos. 18 .. Vânia Dutra AZEREDO na obra “Nietzsche e a Dissolução da Moral” é explicita ao colocar: “.

A moral dos nobres está baseada na profunda veneração pela tradição.19 são postas como valorosas para um tipo de moral que. A moral de escravos11 valora em razão da utilidade e se caracteriza por inibir o desenvolvimento e estimular a fraqueza e a igualdade. mas não era exatamente o mesmo porque houve um declínio da nobreza guerreira ao qual se seguiu a ascensão da aristocracia sacerdotal. Vânia Dutra de. conseguem elevar o tipo homem e faz dele criador de valores: a crença e o orgulho que tem de si são a base para o estabelecimento dos valores. visando à preservação desses fracos. por expressões que remetam a sua função sacerdotal.] a diferença entre uma aristocracia sacerdotal e uma guerreira pode ser evidenciada pelo uso distintivo de termos. em Nietzsche. hábitos de domínio hostis de ação. houve uma espécie de luta travada entre a aristocraciaguerreira e a sacerdotal em termos da primazia de suas avaliações e. respeito pela idade e o direito contido nessa veneração. no caso da aristocracia sacerdotal. 66. Citando novamente Nietzsche. O escravo é o precursor de uma moral de rebanho. utilizam “puro” “Rein” e “impuro” “Unrein” como elementos de diferenciação de estamento. Nietzsche e a Dissolução da moral. O nobre e sua moral. É uma moral de autodefesa. 19 . Vânia Dutra de AZEREDO escreve: [. mas não para realizar distinções nesse nível. o pensamento de Vânia se mostra: Inicialmente. O modo de ser da aristocracia sacerdotal.12 A moral dos sacerdotes representa uma valoração que nega a imanência de comandar o transcendente como objetivo de elevação. 12 Azeredo. 64). a moral de rebanho. fornece os indicativos para a cisão entre aristocracia nos modos de valorar. apontando a via da Escola de Frankfurt e pelas próprias colocações de Nietzsche que sempre enfatiza a fraqueza dada a esta condição. Citando Nietzsche. 11 Sobre a moral dos escravos já nos referimos anteriormente. donde posteriormente passarão a desenvolver-se ‘bom’ e ‘mau’.. É pelo sacerdote que a alma ganha profundidade e se torna “má”. 2000. Pode-se dizer que as duas morais são oriundas da mesma classe dominadora ou de um mesmo estamento. 2000. A moral escrava avalia como “bom” o que favorece a coletividade e como “mau” o que lhe ameaça. O medo funda a moral de escravos por que teme a existência de tipos diferentes criando uma moral em defesa da coletividade. O escravo não possui impulsos que o elevem acima do coletivo e opta pela moral que generaliza. pois suprime a diferença. crença e preconceito em favor dos antepassados. elege aquilo que é útil para a sua manutenção” (AZEREDO. Por isso. Amoral de senhores tem a vigência do seu dever para com seus iguais. a preferência se dá. A expansão da moral de escravo remonta à própria distinção entre aristocracia sacerdotal e aristocracia guerreira. via de regra.. pois com os inferiores não há deveres.

e a representação da exterioridade passou a ser a determinação da postulação. já que houve um declínio da nobreza guerreira ao qual se seguiu a ascensão da aristocracia sacerdotal – se diferenciavam pela adesão a princípios opostos. que impregnados pelo ódio e impotência desejavam vingar-se de seus dominadores.20 conseqüentemente. (AZEREDO. Pág. uma vontade que se volta contra a vida. 67: 2000). porque se baseia na igualdade abstendo-se de toda ação à sua manutenção favorecendo a preservação de fracos e oprimidos. A vingança dos sacerdotes é imaginária. Mas a interioridade e sua fragilidade foram julgadas e condenadas. Mas. a saúde. negativa e postuladora. A primeira usava o princípio da força. O elemento diferencial é o nobre. o que mais causou danos a moral aristocrática. por excelência. enquanto o da segunda. como única possibilidade de continuidade como vontade. a plenitude da força impondo sentido. Na moral guerreira se desenvolve a musculatura. O escravo tem medo da diferença e busca todas as formas de suprimi-las embora também se encontre nele algo que aparece como uma força debilitada como uma vontade determinada. a Vontade de Poder do nobre estabelecendo valores. Os judeus promoveram a transmutação dos valores com a inversão dos valores da aristocracia guerreira impondo sua vingança eminentemente espiritual. ao contrario é a decadência e a negação além de um ódio radical em relação a moral dos senhores. Interpreta-se a interioridade versus exterioridade como possibilidade da exterioridade enquanto determinante da instância básica da vida. O estabelecimento da moral sacerdotal implica a negação do homem como potência e atividade. Derivada da Aristocracia. a moral sacerdotal desenvolveu-se em sentido contrário ocorrendo um grande conflito pela disputa hegemônica porque seus juízos e valores são antagônicos. a aventura e todas as potências do vigor e energia. a “Vontade de Poder”. mas. o da impotência. Pode-se dizer que ambas as morais eram oriundas de uma mesma classe dominadora. mas a vitória é um dado objetivo que se dá mediante a transmutação dos valores. A moral sacerdotal em sua busca de destruição da moral dos senhores torna o homem um tipo decadente ao seguir os seus princípios. a própria impotência de uma intencionalidade acarreta a construção de uma representação externa para manter um impulso vital doente. da afirmação de suas respectivas morai. Na moral sacerdotal. Historicamente há um esforço dos sacerdotes movidos por seu ódio ao nobre em agregar os fracos e sofredores a fim de transformar a moral dos senhores em moral de escravos. O povo judeu é um povo de sacerdotes. O escravo 20 . embora tendo sua proveniência em um mesmo estamento – não era exatamente o mesmo.

e sim uma inversão. como efetiva para além de qualquer reflexão. uma negação. o escravo passa a estabelecer a sua moral como dada. expressão de dominação. é uma mascara que visa encobrir o impulso e a partir do desmascaramento se pode determinar qual o valor dos valores que promovem ou que obstruem a vida. em oprimir e distanciar. A partir da inversão dos valores da moral de senhores. 2002. de subjugação. O escravo avalia a partir de seu tipo de vida decadente fazendo surgir uma moral de rebanhos.21 almeja a inversão e utilizando-se do ideal. Nietzsche mostra a maior elevação do tipo “homem” até agora e talvez sempre seja a obra da sociedade aristocrática assentada em uma longa escala de hierarquia e diferenças de valores entre os homens que precisam da escravatura em todos os sentidos. inverte. O pathos só surgirá com o pathos da distância que é produto das diferenças enraizadas das classes. § 257). para Nietzsche o que impede a elevação do tipo homem é aquele outro pathos que mais misterioso não poderá surgir. mas que não é uma criação. não é o desenvolvimento de um Estado cada vez maior e complexo ou a contínua “auto-superação do homem” para empregar a fórmula moral num sentido supramoral (NIETZSCHE. Assim. e o escravo o é. o que não quer dizer que não realiza uma avaliação. em que uma é dominante e outra dominada. conceitualizada em declínio. e do escravo. As manifestações são expressões de forças em relação. desde o início nega a imposição do senhor para conseguir uma aparente afirmação de si mesmo. O escravo não consegue afirmar. expressão de uma vida. A imagem do escravo passa a ser necessariamente invertida porque faz da afirmação uma negação. o desejo de um aumento sempre renovado da distância dentro da própria alma. só surgirá sem o olhar perscrutador e altivo da casta dominante sobre os súditos e instrumentos. A absolutização da moral é autodefesa que visa mascarar o medo através da universalização dos preceitos. um determinado tipo de homem. mas com relação ao senhor as forças em relação fazem do senhor. A conceitualização configura a justificação do estabelecido. Mudar o valor é mudar o criador. mas o escravo. ele age movido pela Vontade de Poder que está na base da diferença das forças em relação. só surgirá da prática constante de obedecer e mandar. mas se os escravos se definem pela subjugação o que o leva a querer a ascensão? Se a vida é Vontade de Poder. uma transformação. mas consegue impedir a vigência de valores mediante sua inversão. O escravo constitui-se a partir da relação entre forças diferentes. O homem é Vontade de Poder. 21 .

no início da revolução a corrupção foi o ato final daqueles séculos de corrupção permanente. apoiada na sociedade mostrar a sua felicidade. sem tristezas 13 Nietzsche. adaptar sua vontade própria ä de outro. Para ele. este princípio não pode ser extremado como princípio fundamental da sociedade porque se revelaria como negação da vida. UMA FILOSOFIA CONTRA A MORAL CRISTÃ?13 Em o “Anticristo”. A cultura superior começa com a verdade que dói. (NIETZSCHE. em todos os sentidos da palavra. (NIETZSCHE. homens-fera que de posse de uma inquebrantável força de vontade e desejo de poder lançaram sobre raças mais fracas. Para uma aristocracia boa ou sã é essencial que ela não se sinta apenas como função. Esse costume pode tornar-se bom método entre indivíduos se existirem condições como quantidade de forças equivalentes ou escala de valores semelhantes. ou sobre velhas culturas caducas em que as forças vitais já apagavam o espírito e resplandecia a corrupção. A corrupção varia basicamente de acordo com a forma de vida em que ela mesma se manifesta. De grande importância o que surge neste parágrafo é a questão fundamental: o que é Vontade de Negação? Para Nietzsche é deixar de ofender e abster-se da violência. Nietzsche começa falando dos hiperbóreos. terminando apenas como aparato ou pompa exterior. civilizadas. 22 . § 259). como seres superiores de elite consiga erguer-se para cumprir sua missão superior. A fé básica da aristocracia deve ser que a sociedade não deva existir por amor da sociedade. 2002. Sem piedade. os homens dotados de uma natureza natural. 2002. suprema justificativa. é à vontade de negação. com um nojo sublime. dissolução e decadência. com a aristocracia cedendo aos poucos seus direitos senhoriais e reduzindo-se a apenas a função de realeza. 37. Friedrich. § 258). mas que se sinta como seu pleno sentido. mas deve existir como alicerce e andaime sobre os quais ela. Prólogo In “O anticristo”. ou homogeneidades dentro de um mesmo organismo. 2. Ocorre corrupção quando uma aristocracia abre mão. Mas. na França. 2002. um povo da mitologia grega que habitava o extremo norte da terra vivendo num paraíso. seja da realeza. da exploração.2. Nietzsche revela que a corrupção é indicadora de ameaça de anarquia nos instintos e abalos na base dos afetos e estruturas da vida. aos privilégios e os sacrifica aos excessos de seu sentimento moral.22 O filósofo espera do “tipo Homem” que ele não tenha ilusões humanitárias da gênese de uma sociedade aristocrática ou de sua condição prévia. os bárbaros. seja da comunidade. criadores de gado.

aperfeiçoar-se. mais dignidade e seguro de futuro é o problema que deve ser resolvido. a suprema besta humana. 2002. Sobre o homem superior citamos HEIDEGGER na obra Nietzsche: metafísica e niilismo: A subjetividade incondicionada do super-homem traz a Vontade de Poder enquanto o ser de todo ente para o seio da luminosidade de si própria. fortalecer-se. ela é uma espécie de desvelamento e ainda contém. 204). tribos e povos inteiros podem representar um acerto no alvo. conquanto o ser se mostre como Vontade de Poder (HEIDEGGER. Desenvolver-se não significa elevar-se. desvios ou tentações. Diz Nietzsche: “Nem por terra nem por mar encontrarás o caminho que conduz aos hiperbóreos”. É bom tudo que desperta o sentimento de poder. 2000. O cristianismo trava uma guerra de morte contra este homem superior ao renegar os instintos fundamentais do homem superior destilando o mal. O homem superior não virá por acaso. tem mais valor. mas como exceção e não como tipo desejado. corrompeu a faculdade das naturezas intelectualmente poderosas ao ensinar que os valores superiores do intelecto não passam de pecados. (NIETZSCHE. Este homem já nasceu mais de uma vez. pois não encontramos caminho algum e a nossa felicidade é um sim. Sendo assim. a nossa própria natureza nublara-se. Este homem é o mais temido temor que produziu um tipo inverso. não há felicidade. compaixão em benefício de fracos e incapazes é mais nocivo que todos os vícios (NIETZSCHE. 38. mas estes golpes de sorte foram e serão sempre possíveis e até raças. 39). do incapaz transformando em ideal a oposição aos instintos de conservação da vida saudável. o animal de rebanho ou cristão. Nessa atmosfera de tempestade. A humanidade não evoluiu para o mais forte. mas sim a guerra. não há virtude. o progresso é uma idéia moderna falsa. O homem que se deverá criar. uma linha reta. desta forma um rasto da antiga essência da verdade. o negativo e censurando o homem forte como proscrito. 39). não há paz. Em virtude disso afirmamos: a subjetividade incondicionada do super-homem é a verdade do ente. e nossa caridade. Para ele. o mais elevado. Nietzsche considerase aquele que ergueu o pano da corrupção dos homens. mas o valor.23 nem doenças e onde só se podia chegar com a ajuda dos deuses. 2002. Ele entende essa corrupção no 23 . um não. Casos isolados florescem em diferentes culturas e regiões da terra. A felicidade é a sensação de que o poder cresce ou que uma resistência foi vencida. O cristianismo tomou partido do fraco. mas mais poder. à Vontade de Poder ou o próprio poder. e tudo que nasce da fraqueza é mau. ele será resultado de uma subjetividade formada. incapazes ou fracos devem perecer. uma meta. um tipo superior que constitui uma espécie de homem superior.

(NIETZSCHE. a palavra. 2002. para o poder e sem isso ocorre o desastre. O homem perde o poder quando tem sentimento de piedade e esta é causa de sofrimento podendo conduzir a um total sacrifício da vida e energia vital. como se a humildade. mais mórbido e perigosamente desviado dos seus instintos. a vontade niilista. a pobreza. O que um teólogo considerar como verdadeiro deve ser falso. e os valores de decadência e niilismo superiores os mais sagrados (NIETZSCHE. através da consciência dos príncipes (ou povos) estendem as mãos para o poder não duvidem do que realmente acontece: a Vontade do Fim. É o seu mais baixo instinto de conservação que o proíbe de honrar a verdade. Para a proteção do instinto vital era necessário separar o temor da piedade cristã. Para o filósofo. 40. o “conforto”. não é a coroa da criação porque cada ser encontra-se no mesmo grau de perfeição. uma espécie é corrupta quando faz uma opção que lhe é prejudicial. a “ciência”. 43). um indivíduo. Quando teólogos. A piedade é deprimente porque enfraquece as paixões revigorantes que aumentam o prazer de viver. e de todos os animais. com uma perda total e desproporcional diante da causa. mas hoje até a “vontade” lhe retiraram. A humanidade chama a piedade de virtude. têm nas mãos as grandes nações e as lança com benévolo desprezo contra o “intelecto”. mas estes valores verdadeiramente elevados foram despojados da vontade. (NIETZSCHE. a castidade. a santidade não tivessem causado infinitamente mais prejuízos à vida que qualquer horror ou vício. de sequer conceder a palavra em que assunto for. O antigo termo “vontade” ou “arbítrio” só serve para o designar “um a um” a espécie de 24 . Um animal. Aonde chegar a influência teológica estão pervertidas as avaliações ou invertidos os conceitos verdadeiro e falso. O idealista como o padre. 2002. A piedade opõe-se à lei da evolução e seleção natural porque luta pelos condenados da vida. o homem é o animal mais forte porque é o mais hábil e sua espiritualidade é conseqüência disso. os “sentidos”. 41). É por isso que em outros tempos concedia-se ao homem o livre arbítrio como prêmio do mundo superior. Aristóteles via na piedade um estado mórbido e perigoso que era preciso eliminar por meio de um purgante: a tragédia. na medida em que não se trata mais de um atributo. aspira o poder. A vida já apresenta um instinto para o crescimento. 42). as “honras”. e vê tais coisas a baixo de si como “forças” perniciosas e sedutoras sobre as quais plana o espírito em abstração pura. porém. O homem. 41. o homem é o mais imperfeito. Uma análise do que seja estes sentimentos elevados esclareceria porque o homem é tão degenerado.24 sentido de decadência que todos os valores nos quais a humanidade deposita seus anseios são valores de decadência. 2002.

1998. aqueles aos quais eram úteis. As designações para 14 Nietzsche. 2. No entanto essa utilidade foi experiência cotidiana em todos os tempos continuamente enfatizada e ao invés de desaparecer da consciência deveria firmar-se na consciência. originalmente as ações não egoístas foram louvadas e consideradas boas por aqueles aos quais eram feitos. Esse pathos da nobreza e da distância sentimento global da relação da estirpe senhorial com a estirpe baixa. Desse pathos da distância é que tomaram para si o direito de criar valores. 47. Ocorre então uma idiossincrasia e por fim o erro que serve de base a uma valoração em que o homem até agora tem o orgulho como um privilégio. sendo também sentidas como boas se por si própria já fossem algo bom. Em Nietzsche o juízo “bom” não provém daqueles aos quais se fez o “bem”. a vontade já não age nem se move.3. importando a eles a utilidade. Somente com um declínio dos juízos de valores aristocráticos que essa oposição “egoísta” e “não egoísta” se impõe à consciência humana. 2002. Mais tarde foi esquecida essa origem do louvar as ações não egoístas pelo simples fato de serem consideradas costumeiramente como boas. dar nomes aos valores. não está ligada necessariamente a ações “não egoístas”. Nietzsche considera a consciência o espírito e o sintoma relativo da imperfeição do organismo como um trabalho em que se consome inutilmente muita energia nervosa.25 reação individual que serve a um conjunto de extrações concordantes ou contraditórias. de primeira ordem em oposição a tudo que era baixo. vulgar e plebeu. poderosos. 17. “BOM E RUIM”. Friedrich. (NIETZSCHE. para ele o puro espírito é uma estupidez porque se retirarmos o sistema nervoso e os sentidos. A utilidade da ação não egoísta seria a causa de sua aprovação e esta terá sido esquecida e deixado de existir. diz Nietzsche. superiores em posição e pensamentos que sentiam e os estabeleciam a si e seus atos como bons. o resto é um erro de cálculo. 25 . 48). Em princípio a palavra: “bom”. Para ele foram os nobres. chamado “invólucro mortal”. Esse direito senhorial de dar nomes vai tão longe que concebe a própria origem de linguagem com a expressão do poder dos senhores. eles que dizem: “isto é isto” marcando cada coisa e acontecimento com um som se aproximando assim delas. eis a origem da oposição: “bom” e “ruim”. são historiadores da moral a quem falta o espírito histórico abandonados pelos bons espíritos da história que pensam de forma a-histórica como o costume dos filósofos. “BOM E MAU”. Para os psicólogos ao investigar a origem do conceito e do juízo “bom”. Genealogia da Moral. 14 Os psicólogos.

nobre.18-20). de “espiritualmente bem-nascido ou privilegiado”. verdadeiro. originalmente homem louro. habitantes pré-arianos da Itália que se distinguiam pela cor da raça loura ariana dos conquistadores tornados senhores. a virtude e a doença. que em toda parte. e tornou-se má. E estas são as duas formas fundamentais da superioridade de umas sobre as outras bestas. sentimentalmente explosivos com seqüelas inerentes aos sacerdotes de todos os tempos. enfatiza a covardia. que é real. livre e contente.26 “bom”. a sede de domínio. nobre. e dos arianos não estivessem sucumbindo fisiologicamente. numa mudança subjetiva significa verdadeiro e nesta fase da transformação conceitual assume o sentido de “nobre” em oposição ao homem mentiroso. A natureza de uma aristocracia sacerdotal esclarece. e os juízos de valor cavalheiresco-aristocráticos têm como pressuposto a constituição física poderosa. uma saúde transbordante e rica junto com o que lhe serve à conservação. o amor. tornando-se madura. Com sacerdotes tudo se torna mais perigoso. aristocrático. depois. Nas palavras. o plebeu em contraposição ao bom. tem outros supostos. no sentido social. a perspicácia. puro. as antíteses de valores que se tornaram mais intensas. não apenas as curas e artes médicas. é o conceito básico a partir do qual se desenvolveu “bom” no sentido de “espiritualmente nobre”. por outro lado. A palavra cunhada para bom. a termo distintivo de nobreza. nobre. sugerindo em que direção se deve buscar a origem etimológica. covarde. 1998. cunhado pelas diversas línguas remetem a mesma transformação conceitual. Percebe-se que a valoração sacerdotal deriva do aristocrático. em contraposição aos nativos de pele escura e cabelos negros (NIETZSCHE. Já o nobre sacerdotal. mas também a altivez. Com a preponderância moderna da democracia. de cabelos negros. a dança. que tem realidade. sinistra. a caça. “Aristocrático”. e nessa impotência o ódio toma grande proporção. a aventura. os torneio e atividades robustas. mau. pela mais primitiva forma social comum aos socialistas. não significava um grande atavismo que a raça de conquistadores e senhores. alguém que é. espiritual e 26 . a dissolução. do anarquismo e a inclinação pela “commune”. feio (kakos). como tímido. a guerra. significa por sua raiz. No âmbito dessa forma perigosa o homem torna-se animal interessante e a alma humana ganha profundidade num sentido superior. Na aristocracia sacerdotal existem hábitos hostis à ação. Os sacerdotes são os maiores inimigos da guerra porque são os mais impotentes. com o declínio da nobreza passa a designar aristocracia espiritual. O latim “malus” (Nietzsche relaciona a negro) poderia caracterizar o homem comum como homem de pele escura. do homem bom. da Europa de Nietzsche. por fim. a vingança. a guerra para eles é mau negócio.

Os judeus. última e extrema crueldade da autocrucificação de Deus para salvação do homem. e onde os nobres. essa seria sua utilidade. é o evangelho vivo do amor. aterrador paradoxo de um “Deus na cruz”.22-35). Essa intoxicação bem sucedida a redenção do gênero humano do jugo dos senhores marcha através do corpo da humanidade e seus passos são cautelosos. Os senhores foram abolidos. corruptora que se igualasse aquele símbolo da “cruz sagrada”. um poder moderar e obstruir essa marcha. mistério inimaginável. agir e crescer espontaneamente buscando seu oposto apenas para dizer sim a si mesmo com maior júbilo e gratidão. apenas por uma vingança obtêm reparação. 1998.27 venenosa. Na história universal os maiores odiadores foram os sacerdotes. condição para poder agir em absoluto. mas também foram os mais ricos em espíritos. poderoso. os necessitados. uma rebelião que tem dois mil anos de história e que foi vitoriosa. os feios. a dos atos. Seu conceito negativo é apenas imagem de contraste 27 . Atualmente ela mais afasta do que seduz. Com os judeus inicia a revolta dos escravos na moral. os cruéis. Seria possível conceber uma isca mais perigosa. Jesus de Nazaré. A rebelião escrava na moral inicia quando o próprio ressentimento se torna criador e gera valores: o ressentimento dos seres aos quais é negada a verdadeira ação. um povo de sacerdotes soube desforrar-se de seus inimigos conquistadores através de uma transvaloração radical dos valores. mas ao mesmo tempo essa vitória é como um envenenamento do sangue. os insaciáveis. e poderosos serão pela eternidade os maus. os miseráveis. No modo de valoração nobre a ação é positiva. A história humana seria tolice sem o espírito que os sacerdotes impotentes trouxeram (NIETZSCHE. feliz. redentor e portador da vitória e bem aventurança aos doentes. a moral do homem comum venceu. não o seu veneno. um ato de vingança espiritual. um direito de existência. os impotentes. a moral escrava sempre requer um mundo oposto e exterior. misturando as raças entre si. algo atrativo. Qual de nós seria livre pensador não houvesse a igreja. caro aos deuses. é a sedução em sua forma mais irresistível para os novos valores judaicos do ideal. belo. Amamos o seu veneno não a igreja. pobres e pecadores. os doentes que são os únicos abençoados. É a igreja que nos repugna. os lascivos. e com unhas e dentes do ódio mais profundo e impotente se apegaram a uma inversão onde somente são bons os pobres. Para nascer. os sofredores. porque sua ação não é mais que reação. A igreja possui hoje uma tarefa necessária. inebriante. Foram os judeus que com uma coerência apavorante inverteram a equação de valores aristocráticos onde bom era nobre. os ímpios. inaudíveis. eternamente malditos e danados.

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em relação ao conceito básico positivo; nós os nobres, nós os bons, os belos, os felizes (NIETZSCHE, 1998, 26-28). Os “bem-nascidos” se sentiam mesmo “felizes” pois não tinham que construir artificialmente a sua felicidade, ou menti-la para si, ou por meio do olhar aos inimigos como costumam fazer os ressentidos. Sendo os nobres, ativos e repletos de ação e força não sabiam separar felicidade da ação. Não havia felicidade sem ação, nem ação sem felicidade. O homem nobre vive com a confiança e com franqueza. O homem do ressentimento não é franco nem ingênuo, nem honesto ou reto consigo mesmo. Ele ama os refúgios, os subterfúgios, os caminho-ocultos, escondidos, sua segurança, do silêncio, do apequenamento e humilhação própria. Essa raça de homens do ressentimento resultará necessariamente mais inteligente que a raça nobre e venerará a inteligência como condição primeira da sobrevivência, enquanto que o nobre facilmente adquire um gosto de luxo porque nele está longe de ser essencial a certeza de funcionamento dos instintos “reguladores” inconsciente, ou seja, a prudência. O ressentimento do homem nobre quando aparece se consome e exaure de imediato, porque não se envenena e não consegue levar a sério por muito tempo seus inimigos. Um homem desse tipo com um só movimento se livra de muitos vermes que em outros se enterrariam. Um nobre tem reverência para com seus inimigos porque não suporta um inimigo que não pode desprezar e que tenha de venerar. O homem ressentido concebe o inimigo como “mau” e elabora como imagem equivalente um “bom” e outro pólo, ele mesmo (NIETZSCHE, 1998, 29-31). Os portadores dos instintos depressores e sedentos de desforra, os descendentes de toda escravatura, os descendentes da população pré-ariana representam o retrocesso da humanidade. Em Nietzsche é racional temer e se manter em guarda contra a besta loura que existe em toda raça nobre; mas para Nietzsche quem não preferiria isso, poder admirar a não temer e não mais poder se livrar da visão asquerosa dos amargurados e envenenados (NIETZSCHE, 1998, 34). Exigir da força que não seja um querer dominar, um querer vencer, um querer subjugar, uma sede de inimigos, resistência e trunfos é tão absurdo quanto exigir da fraqueza que se expresse como uma força. Um “quantum de força” equivale a um mesmo “quantum de impulso”, vontade, atividade. Quando os oprimidos ultrajados exortam uns aos outros dizendo com a vingativa astúcia da impotência: “Sejamos diferente dos maus, sejamos os bons”. E nesta visão “bom” é aquele que não fere, não ultraja, não ataca, que remete a Deus a vingança e se mantém na sombra como nós, os pacientes, humildes,

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justos; isso apenas significa “nós, fracos, somos realmente fracos e convém que nada façamos para o qual não somos fortes o bastante”; mas essa prudência, que os insetos possuem quando se fingem de morto ante o perigo próximo, graças à mentira própria da impotência toma forma de virtude que cala, renuncia, a espera do mais fraco fosse um ato voluntário, desejado, escolhido; um mérito. Na terra se fabricam ideais. A fraqueza é mudada em mérito e a impotência é vista como bondade; a baixeza é humildade, a submissão àqueles que odeia é obediência. A covardia do fraco é vista como paciência ou virtude; o não poder vingar-se por não querer vingar-se é perdão. Fala-se em perdão aos inimigos e suam quando o dizem. Dão a entender que são melhores que os poderosos, os senhores da terra a quem tem de obedecer, não por temor, mas porque Deus ordena que seja honrada a autoridade. Estes se dizem bons, justos e pretendem o triunfo na justiça. Eles não odeiam seu inimigo, mas sim a injustiça, a falta de Deus; o que crêem e esperam de Deus, dos justos sobre os ateus; na terra não amam seus irmãos no ódio, mas seus irmãos no amor, lhes servindo de consolo à bem aventurança futura antecipada. A isto chamam de juízo final ou reino de Deus, do seu reino. Estes fracos também desejam ser os fortes algum dia, não há dúvida, e seu reino deverá vir junto, mas para viver isto é preciso uma vida longa que ultrapasse a morte; é preciso uma vida eterna no amor, na fé, na esperança para ser recompensado no reino de Deus (NIETZSCHE, 1998, 36-39). Assim os dois valores contrapostos “bom e mau”, “bom e ruim” travam na terra uma luta terrível, milenar e embora predomine o segundo valor ainda não falta lugar em que a luta não foi decidida. Poderia-se dizer que ela foi levada incessantemente para o alto e com isso se espiritualizando, de modo que hoje não há sinal decisivo de uma “natureza elevada, ou espiritual”, mas de uma verdadeira batalha entre os dois opostos – Seria uma Dialética? A história humana comprova isto; Roma e Judéia – nunca houve luta maior –, nessa oposição moral Roma via nos judeus a antípoda ou monstro de si, a antinatureza; em Roma os judeus eram tidos por culpados de ódio a todo gênero humano. Os judeus sentiam pelos romanos a mais selvagem das investidas que a vingança tem na consciência porque os romanos eram fortes e nobres como jamais existiram outros, e cada vestígio ou inscrição encanta ao observador. Não pode haver dúvidas sobre o vencedor considerando-se que na própria Roma os homens inclinam-se como a quinta-essência dos mais altos valores como metade do mundo e em toda parte que o homem queira ser domado. Roma sucumbiu não resta dúvidas, num sentido mais profundo; e a Judéia conquista outra vitória com a

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revolução francesa, uma vitória sobre o ideal clássico; a última nobreza política que havia na Europa, a da França dos séculos XVII e XVIII perece sobre os instintos populares do ressentimento. Mas, isto não foi a causa final da derrocada da aristocracia porque havia outros problemas. O próprio Nietzsche bem os demonstra em “Para Além do Bem e do Mal” quando relata:
A corrupção, indicadora da anarquia nos instintos e de abalo ba base dos afetos estruturais da “vida”. A corrupção varia basicamente de acordo com a forma de vida em que se manifesta. Por exemplo, quando uma aristocracia como a da França, no inicio da Revolução deita fora com um nojo sublime os privilégios e se sacrifica aos excessos do seu sentimento moral, pode-se dizer que isto é corrupção. Realmente, foi apenas o ato final daqueles séculos de corrupção permanente, graças à qual ela tinha cedido, passo a passo, os seus direitos senhoriais e se tinha reduzido a uma função de realeza (terminando a somente um falso aparato, a uma pompa exterior). (NIETZSCHE, 2002, § 258, Pág. 184).

Mas em meio a isso inesperadamente em face da velha senha mentirosa do ressentimento e privilégio da maioria surge Napoleão, o mais tardio dos homens nobres. Quem refletir e reconsiderar tão cedo não chegará ao fim o maior entre os conflitos de ideais entre o bem e o mal (NITZSCHE, 1998; 43-45). 2.4. “CULPA”, “MÁ CONSCIÊNCIA” E COISAS AFINS.15 Esquecer não é uma simples força inercial como se crê superficialmente, mas uma força inibidora ativa, positiva no mais rigoroso sentido onde nossas consciências, permitindo-se tornar um pouco de tabula rasa para que haja lugar para o novo, e, sobretudo para as funções mais nobres. A utilidade do esquecimento é ser a guardiã da porta, que cuida da ordem psíquica. Quem tem danificado este aparelho inibidor é comparável a um dispéptico incapaz de se dar conta. Esse esquecer é uma força, uma forma de saúde forte que desenvolveu em si uma facilidade oposta à memória que pode suspender o esquecimento em alguns casos. Esta é a origem da responsabilidade: criar um animal capaz de fazer promessas trazendo consigo a condição e preparação de tornar o homem necessário constante e confiável. A moralidade do costume; trabalho do homem em si no período mais longo de sua existência encontra sentido no trabalho pré-histórico, com a ajuda desta camisa de força social o homem foi tornado confiável. Mas o indivíduo soberano igual apenas a si mesmo liberado da moralidade do costume, indivíduo autônomo supramoral de vontade própria e independente que pode fazer promessas se encontra nele
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Idem, 47.

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vibrante uma orgulhosa consciência de poder e liberdade, um sentimento de realização. Esse senhor de livre arbítrio merece confiança, temor e reverência e tendo domínio sobre a circunstância, natureza e todas as criaturas inseguras e pobres de vontade terá nessa posse a sua medida de valor, e olhando para os outros a partir de si. Ele honra ou despreza tão necessariamente quanto honra os seus iguais, os fortes e confiáveis, os que podem prometer (NIETZSCHE, 1998, 46-49). Imaginou-se o castigo, escreve Nietzsche, como inventado para castigar, mas todos os seus fins e utilidades são apenas indícios de uma Vontade de Poder que se tornou senhor de algo menos poderoso e lhe deu sentido e função. Também para ele, a inutilização parcial, a atrofia e degeneração, a perda de sentido ou de propósito, a morte, tudo está em condições para o verdadeiro “progressus” que sempre aparece em forma de vontade e via de maior poder, e sempre imposto à custa de inúmeros poderes menores porque a magnitude de um avanço se mede pela massa do sacrifício. Nietzsche valora com ênfase capital o ponto de vista do método histórico porque vai de encontro ao gosto e instinto dominante que antes se conciliavam com a mecânica absurda de todo acontecer do que com a teoria de uma Vontade de Poder operante em todo acontecer. É a idiossincrasia democrática contra tudo que domina se mascarando no espiritual e que penetra devagar e rigorosamente nas mais aparentes ciências objetivas. Com isso se desconhece a essência da vida e sua Vontade de Poder, não se percebe a primazia fundamental das forças espontâneas, agressivas, expansivas, criadoras de novas formas, interpretações e direções, forças em que a ação precede a adaptação; com isso se nega o papel dominante dos melhores a quem a Vontade de Vida aparece ativa e conformadora (NIETZSCHE, 1998, 66-67). Todos os instintos que não se descarregam para fora, voltam-se para dentro, numa interiorização do homem de tal forma que cresce a sua alma. O mundo interior no início fraco se expande e se estende em profundidade, largura e altura na mesma medida em que o homem foi inibido em sua descarga para fora. Os castigos estão entre as formas com que os instintos de liberdade do homem selvagem e errante se voltam contra o próprio homem. Esse homem que estando sem inimigo e resistência exterior, preso numa opressiva estreiteza e regularidade de costumes lacerou esse animal que querem amansar; esse prisioneiro tornou-se o inventor da má-consciência, e com esta, é induzido a mais sinistra doença de que até agora não se curou o homem como resultado de uma separação do seu passado animal e declaração de guerra aos velhos

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O advento do Deus cristão. a Vontade de Poder com a diferença que a natureza conformadora dessa força violenta é o próprio homem. Na origem do Estado. A POLÍTICA. nos primórdios da comunidade tribal. seu prazer e temor em se que inspirava. Deus máximo alcançado trouxe junto ao mundo o máximo do sentimento de culpa. raça de conquistadores. a geração que sempre reconhece na anterior. constrói a liberdade. seu velho Eu animal. não apenas um mero vínculo de sentimento. uma terrível tirania. e em especial com a primeira fundadora da estirpe. A convicção é que a nova geração reconhece uma dívida crescente e permanente com os espíritos poderosos de conceder vantagens e adiantamentos a partir de sua força. A partir daí inicia-se o Estado e não sob a forma sentimental de um “contrato”. 3. uma obrigação jurídica. mas sem preparo para a luta.32 instintos nas quais até então se baseou em sua força. É a mesma força ativa que age nos organizadores da violência que constrói Estados e que interiormente em escala menor cria a má consciência. onde um bando de bestas louras. O medo do ancestral e do seu poder. a formação do Estado não se dá pelo contrato social. iniciada e terminada pela violência. pois ele considera o Estado a mais primitiva forma. Em Nietzsche. a consciência de ter dívidas para com eles cresce na medida exata do poder da estirpe. na linguagem de Nietzsche. organizada para a guerra lança sua força sobre uma população muito maior em número. onde subitamente nos achamos ante um paradoxo horrível na qual a humanidade só encontra alívio da culpa num golpe de gênio do cristianismo: o próprio 32 . Quem pode dar ordens é o senhor que nada tem a ver com contratos.

Diz uma fórmula socialista: “Nem Deus. o homem de grande amor e desprezo. penetração na realidade. Para ele a cadência sonolenta deste movimento aparece nas manifestações cada vez mais histéricas e franca dos anarquistas que habitavam a cultura Européia. Há uma espécie de loucura da vontade nessa crueldade psíquica que é nada menos que a vontade do homem em sentir-se culpado e desprezível até a expiação na sua vontade de crer-se castigado sem que o castigo jamais se equivalha a sua culpa. NIETZSCHE E AS INTERPRETAÇÕES NAZISTAS. instintivamente são contra toda forma de sociedade que não seja a do rebanho autônomo. o espírito criador cuja força impulsora afastará sempre de toda transcendência e toda insignificância. 3. nem mestre”.33 Deus pagando a si mesmo. Os socialistas ficam agrupados numa resistência tenaz a toda pretensão individual. esse vencedor de Deus e do nada – ele tem que vir um dia (NIETZSCHE. cuja solidão não será compreendida pelo povo. do niilismo. Para Nietzsche isto acabará de forma diversa e num futuro próximo pelas mãos de um novo redentor que ele mesmo dá como garantia: Algum dia. do grande nojo. 33 . como uma fuga da realidade . negando os conceitos de “senhor” e “servo”. “Interpretações Nazistas” In Cadernos Nietzsche. inseguro de si mesmo. que devolve à terra sua finalidade e ao homem sua esperança. e em maior oposição os filósofos entusiastas do socialismo querem a “sociedade livre” mas na realidade. Assim o homem aprende a suprimir seus autênticos instintos animais e os reinterpreta como culpa em relação a Deus.1. 16 16 Montinari. num tempo mais forte do que esse presente murcho. Deus como único que pode redimir o homem de sua culpa. Esse homem do futuro que nos salvará não só do ideal vigente. da vontade de nada. no fundo resistência a todos os direitos porque com a igualdade ninguém precisa de “direitos”. como daquilo que dele forçosamente nasceria. Nietzsche era contra os anarquistas. ao retornar à luz do dia. absorção.quando será apenas a sua imersão. 55. porém. que torna novamente livre a vontade. 1999. Para Nietzsche o credor se sacrificando por amor do seu devedor. esse toque de sino do meio-dia e da grande decisão. ele possa trazer a redenção dessa realidade: sua redenção da maldição que o ideal existente sobre ela lançou. Os anarquistas em aparente oposição aos democratas e ideólogos revolucionários pacíficos trabalhadores. ele virá. esse anticristão e antiniilista. direito particular ou privilégio. Mesmo desprezando o homem de rebanho. 1998. Mazzimo. para que. o homem redentor. 73-84).

Os historiadores tiveram que constatar que Nietzsche era estranho aos fundadores do nazismo. Hans Langreder. cientificamente se utilizarmos os instrumentos da ciência da história. Não existe na Alemanha um grupo mais cínico e cretino do que estes antisemitas. bagrenthiano e racista. Apesar disso. estudioso alemão iniciou uma investigação histórica sobre “Nietzsche no terceiro Reich” com uma dissertação apresentada em 1970 à universidade de Kiel. Nojo! Nojo! Nojo! (MONTINARI. Hitler não se formou a partir das obras de Nietzsche e até é discutível que Hitler o tenha lido algum dia. Uma nota que se encontrou entre as cartas póstumas de Nietzsche é esclarecedora: Há algum tempo um certo Theodor Fritsch de Leipzig me escreveu. Theodor Fritsch viveu de 1852 a 1933 e era destacado expoente do anti-semitismo de seu tempo. os nazistas reivindicam Nietzsche para si e ainda hoje (1999)17 vale para muitos uma frase de Lukács que via em Nietzsche um “precursor intelectual do nacional-socialismo”. 1999). no terreno sólido da história. e de Houston Stewart Chamberlain que por sua vez sempre combateu Nietzsche do ponto de vista wagneriano. A teoria da raça. Seriamente. a “ideologia nacional socialista” fica digerida de mitos e representações de que a “falsa consciência da realidade” se serve para sua ação política. de uma real assimilação de Nietzsche. este que tinha sido profundamente desprezado pelo Nietzsche autêntico. base da corrupção hitleriana era estranha a Nietzsche e também os princípios do “Führer”. 34 . constatando que no 17 Ano em que Montinari escreveu o seu artigo “Interpretações Nazistas” In Cadernos Nietzsche. quando este estava no poder na Alemanha nazista. Rosemberg no “Mito do século XX” reivindicou Nietzsche entre os precursores do nazismo e o coloca na companhia discutível de Paulo de Lagande. “Vontade de Poder”. logo percebemos que são as representações vagas que servem de conceitos como “violência do super-homem”. Reconstituindo a realidade com os instrumentos da crítica histórica. tornando-se “deputado nacional socialista” e a qual Nietzsche responde para que ele pare de remeter-lhe o “Antisemitische Correpondez”.34 A associação entre Nietzsche e o nacional-socialismo é uma associação ordinária que o “intelectual médio italiano” costuma fazer em razão da ideologia de Hitler. um belo pontapé como carta. 1999. documentos e fatos. Eu lhes desferi. da qual Nietzsche teria sido precursor quando a economia capitalista livrou-se das aparências liberais. é impossível falar. “besta loura” que pretendem se deixar assimilar a uma não melhor “ideologia” do nacionalsocialismo. Este canalha ousa pronunciar o nome de Zaratustra. Mas. como sinal de agradecimento. como ele foi e pensou por parte do nacional-socialismo.

Por volta de 1930 Erich F. Vontade de Potência – Obra póstuma que foi atribuída a Nietsche. como foi publicada pelos Arquivos Nietzsche. O próprio Peter Gast que auxiliou Elizabeth Förster-Nietzsche compilou a obra “Vontade de Potência” reconheceu que uma edição que publicasse os manuscritos de Nietzsche tal qual estavam. A interpretação de Nietzsche proposta e imposta por Bäunler que até aos antifascistas e marxistas foram feita em negativa baseava-se em dois pressupostos metodológicos: 1) A verdadeira filosofia de Nietzsche encontra-se nas suas anotações póstumas. Naquele tempo ele teve influência como poeta e escritor e até hoje. oportunidades para se expor capacidades. Havia até ideólogos do nacional socialismo que o consideravam incômodo. teria agradado ao especialista. mas também ambições e malignidades privadas ou tendências ocultas de política cultural. sistematizada e escrita por sua irmã Elizabeth Foerster-Nietzsche. Podac expõe pela primeira vez o laudo médico do manicômio de Jena dos dois primeiros anos de sua doença (1889-1890). Idem.35 terceiro Reich não existia. as obras de Nietzsche não estão mais protegidas por direitos autorais. 1999. mas não ao grande público. 35 . Assim. Importante saber se a politização do pensamento de Nietzsche operada por Bäunler é sustentável. A vida privada de Nietzsche tornou-se alvo de um esforço de desmitização com a qual reagia a imagem do “santo” leigo. 60-61). Bäumler aceita sem crítica a compilação que fez história em “Vontade de Potência”. 2) Para julgar a obra de Nietzsche é necessário fazer o que Bäunler não teve tempo de fazer. segundo a legislação da época tinham vigência até 30 anos após a morte do autor e Nietzsche morrera em 25 de agosto de 1900. mas como editor das obras de Nietzsche. no início dos anos trinta era um período de discussões da obra do pensador tornam-se livre propriedade do seu povo e do mundo intelectual. Em Bäunler o que lhe importa é forçar a filosofia de Nietzsche para fazer dela a premissa de uma concepção política germânica. Como virtuoso de um estilo profundo e ao mesmo tempo conciso Nietzsche conquistou a geração que entrou na cena literária pública da Alemanha após sua morte. um juízo unânime sobre Nietzsche. 55-58. (1999)18 ainda é amado como tal. em absoluto. (MONTINARI. O documento causou sensação no público e desencadeou infinitas discussões. é preciso assumir um trabalho da conexão lógica na obra de Nietzsche. havia a necessidade da compilação. individualista e apolítico. ou de uma imagem positiva ou negativa da ideologia nacional-socialista. cosmopolita. mediações.19 Continuou aceitando mesmo depois da segunda guerra mundial quando não era mais nazista. A partir de 1930. O mesmo 18 19 Montinari. Então.

em um filósofo. como nos interessa o que Nietzsche disse e não o que Bäumler gostaria que Nietzsche dissesse. 63). o que deve e o que não deve ser considerado. mais tirânico. Nietzsche escreve um dos tantos prefácios para o livro que havia renunciado tantas vezes de escrever: “A Vontade de Potência”. uma doença do caráter. em devir do pensamento de Nietzsche. seus planos de publicação. No verão de 1888.36 Peter Gast. 1999. mais forte. Bäumler constrói seu Nietzsche (MONTINARI. tinha um valor esotérico.. mais impenoso. É preciso habituar-se a dois modos de considerar os manuscritos das anotações como uma expressão unitária. somos levados a crer e duvidar do talento interpretativo de Bäumler. mais dominador. ou aberto para utilizações sucessivas indicadas em planos eventuais ou descartados e superados por Nietzsche no decorrer de suas meditações. os fragmentos póstumos incompletos. praticamente sem lacunas de sua produção e intenções. Sob a forma do “realismo heróico”. “mais dominador”..mais tolo significa. Sobre a Vontade de Sistema. 65-66). segundo a própria Elizabeth não era um estudioso. enquanto obra. .”. sobretudo os de a Vontade de Poder. Os manuscritos de Nietzsche lidos segundo a sua sucessão cronológica fornecem uma representação autêntica. 1999. 1999. quer dizer “mais forte”. o que permaneceu no estado elaborado do fragmento. Assim. pois lhe faltava a consciênciosidade do filósofo e por isso seria necessária uma nova edição dos textos póstumos de Nietzsche. É justamente na base dos arbítrios e mutilações que Bäumler prepara Nietzsche decapitado e do qual precisa para a segunda parte de sua operação. 67). cujo texto. etc. Mas para Bäumler. mais inculto. e em termos não morais é a sua vontade de apresentar-se como mais tolo do que realmente é. ao contrário são complementos de uma mesma investigação (MONTINARI. O que Bäumler precisa é de Nietzsche que se apresente como “mais tolo do que realmente é”. em termos morais é uma corrupção mais sutil. autêntico fragmento tornou-se conhecido: “Desconfio de todos os sistemas e me afasto deles: talvez por trás deste livro se possa descobrir o sistema em uma filosofia que evitei. O segundo modo é especificar no conjunto as intenções literárias de Nietzsche. Os dois modos não podem um levar a exclusão do outro. Os fragmentos póstumos publicados segundo sua cronologia nos manuscritos encontram-se numa relação de esclarecimentos e complementos no que refere as obras já acabadas. mais simples. uma filosofia política pseudo- 36 . É justamente essa ótica errada que é causa de falsificação do pensamento de Nietzsche (MONTINARI.

73). inclusive de jornais e quais as obras de Nietzsche foram publicadas e popularizadas pelo governo ao povo alemão durante o terceiro Reich e durante os doze anos do governo Hitler. é preciso não admitir a existência de um problema histórico. 70.37 revolucionária. Mas isso já é uma outra investigação que requer seja averiguado qual método usado. Isso iria escancarar o quadro de violência ideológica e propagandista de uma terrível simplificação de um Nietzsche diferente (MONTINARI. 37 . 1999. analisar quais artigos. o das razões da política “cultural” e da propaganda nazista a servirse de Nietzsche. Após constatarmos a insustentabilidade da anexação da ideologia de Nietzsche ao nacional-socialismo no caso Bäumler.

Scarlett. 67). concebendo o mundo como criação e destruição permanente. tal como ensinou. Bertrand. 55). em Heráclito que Nietzsche julga encontrar a idéia do eterno retorno. Tese Cosmológica ou Imperativo Ético? In “Extravagâncias: Ensaios sobre a filosofia de Nietzsche”. Ao examinar diferentes tipos de historiografias. 38 .1.. mas ter de viver outra vez o que não se quis. nada pode fazer para refutá-la” (RUSSELL. desse modo. TESE COSMOLÓGICA. a configuração geral colocaria em ponto de repetição (MARTON. 1957. ele vê no que chama de “história monumental” que os acontecimentos se repetem com exatidão até os mínimos pormenores (Nietzsche in Marton: 2000. De acordo com Marton. 1957.. como vimos. 2000. Historiador de filosofia Nietzsche atribui a Heráclito o que veio constituir uma tese estóica. Ao seu ver. 4.38 4. é dolorosa. 55. Nietzsche ao querer a repetição eterna de todos as coisas implicaria não só viver de novo o que se escolheu. 68). História da Filosofia Ocidental. é ao reescrever a história pré-socrática. Heráclito. doutrina do fluxo perpétuo. Na mesma obra Russell já havia mencionado: 20 Marton. e a ciência. O ETERNO RETORNO. 21 Russell.20 Conforme Marton. 2000. Bertrand Russell21 em “História da Filosofia Ocidental” ensina que a “. 67. o pré-socrático entenderia que sucumbe periodicamente para ressurgir sempre o mesmo e.

terra é origem e fim. No entanto. em uma vontade de não. de forma oracular. ou no máximo dar-lhe um caráter heurístico. O logos é a Razão Universal.] antecipa experimentalmente até mesmo as possibilidades do niilismo radical. 92). 204). atravessar até no 22 23 A grafia na obra é esta mesma. Ensinado por Zaratustra a um grupo seleto.71). Heráclito afirma. de relacionar e ligar todas as coisas umas às outras (SANTOS. Por sua vez Mario José dos Santos23 em “Os Pré-Socráticos” explica: Na sua doutrina. para Heidegger é “. berço e sepultura. para corroborar seu pensamento cita Nietzsche: “Uma filosofia experimental como eu vivo”. o Uno. Tomando o pensamento do eterno retorno como meio de purificação. mas em sua filosofia o fogo central jamais se extingue: o mundo “sempre foi. declara: [. expressaria as implicações da afirmação trágica da vida face ao espectro temporal da experiência humana. 2001. o Princípio imprincipiado e incondicionado que tem o poder de unificar tudo. preciso trazer os dois para o interior de uma outra combinação e em contrapartida à oposição que se tornou corrente a partir do próprio Nietzsche. preferindo inscrevê-la no registro da fé. no não. Recolhendo os opostos. 2001. segundo a qual ambos ensinam que o ser ‘é’ o ‘devir’” (HEIDEGGER. a terra coloca-se na base do ciclo que ela própria movimenta” (SCHÜLER. guia de conduta. que o logos é aquilo segundo o qual tudo acontece. 112). 2000. sem querer dizer com isso que ela de distinga em uma negação. vida e morte. 54). que provêm de Parmênides.. ou imperativo existencial. Também o pensamento de Donaldo Schüler na obra “Heráclito: e seu (dis) curso” de forma didática coloca a cosmogonia heraclitiana explicando-a como um ciclo onde a “. tudo governa. A concepção de eternidade (oposta à de duração infinita). Ele defende o que constitui uma concepção experimental e não uma teoria física ou empírica.. essa doutrina esotérica demandaria preparação prévia dos ouvintes. 2000.. 92. não se encontra em Heráclito.39 O próprio Heráclito. Assim. Aceito pela fé e não pela prova. exercício de introspecção. prova de coragem. Santos. Por isso não se preocupam em discutir sua validade ou falsidade. (MARTON. 2001. mesmo que a filosofia heraclitiana não seja mesma Nietzscheana ela tem profundas verossimilhanças e coisas comuns. é o pensamento que tudo dirige e. 70.. através de tudo.. 1957. 39 . Ela quer em vez disso. apesar de tôda22 (?) a sua crença na transformação. os comentadores que adotam essa linha interpretativa põem-se de acordo quanto a este ponto: o foco da doutrina nietzschiana reside nas questões existenciais e não nas científicas. admitiu alguma coisa duradoura. Marton. é e será um fogo de vida eterna” (RUSSELL.. Os pré-socráticos. Mario José dos. tampouco metafísica.

o tempo não teve início nem terá fim (MARTON. exceção e seleção (NIETZSCHE in MARTON. Nietzsche é incisivo: “a tarefa consiste em viver de tal maneira que devas desejar viver de novo – tu viveras de novo de qualquer modo!”. 40 . Houve quem argumentasse que imperativo categórico e o eterno retorno exprimiam uma exigência ética: a dos indivíduos se submeterem todas as suas ações a uma norma. mas em longitude fazendo a repetição infinita. seria possível avançar ou recuar no tempo sem jamais encontrar um termo. 72-75). a faculdade universal que comanda imperativamente e abriga a vontade. E conclui: Nietzsche “quer o eterno curso circular: . Por um lado. 2000. 71). tal como é. Nietzsche fornece um imperativo para a ação: o de querermos algo que retorne sem cessar. Embora não possa provar as premissas também não é possível contrariá-las. Ao caracterizar a própria reflexão como experimental Nietzsche dispõem-se a explorar o que acredita estar por vir. com reflexo no ser humano. Ao expor a versão cosmológica de sua doutrina. Para Kant é a razão. partindo deste momento.40 inverso – até um dionisíaco dizer-sim ao mundo. a mesma lógica e ilógica do encadeamento” (NIETZSCHE in MARTON. nenhum deles diria ao homem o que fazer. 71). Houve quem julgasse que Kant estendia a ação em latitude numa repetição ilimitada com reflexo na sociedade e que Nietzsche ampliava a ação. Por um lado. a aparente proximidade entre a admoestação nietzschiana e o imperativo kantiano não tem pertinência. para Nietzsche são os pensamentos. Mas essas multiplicações teriam o mesmo fim: dar às ações seu verdadeiro peso e enfatizar a responsabilidade do homem. como agir. Kant coloca acima da circunstancias particulares e vantagens passageiras “a máxima” que o homem deve seguir nas suas ações. Para ele a ruína do cristianismo. sem desconto. a invenção da vida após a morte. os sentimentos e os impulsos que lhe impõe o que fazer. mas Nietzsche faz a ação depender de situações conjunturais e subordinar-se a interesses específicos. Para Marton. Houve quem defendesse haver semelhança profunda entre o eterno retorno e o imperativo categórico. o niilismo de sua época.as mesmas coisas. 2000. Nietzsche parte de duas idéias: a força é finita e o tempo é infinito. Mas. na tentativa de negar o mundo real estabelecendo a existência de outro foi destruidor da existência. 2000. Kant espera subsumir os juízos acerca das ações individuais numa lei moral racional e Nietzsche quer apontar o caráter singular e irrecuperável de cada ação. Mas não foram poucos os que tentaram aproximá-lo da filosofia prática de Kant.

não é algo. Como a teoria das forças descarta o atomismo moderno e faz opção pela energética e a doutrina do eterno retorno posiciona-se contra o mecanicismo e com a segunda lei da termodinâmica contrapõe-se a lei da entropia. Introdução a Psicologia Junguiana. 41 . O mundo não é nada é senão. Ele entende que Vontade de Poder e pluralidade de forças são conceitos com valor cognitivo elaborado por uma perspectiva determinada. mas na relação com outras. todas elas finitas. “Generalizando: a energia flui de um corpo mais forte para um mais fraco. 1993. sua doutrina do eterno retorno estão vinculadas à teoria das forças e ao conceito de Vontade de Poder. dispõem-se de outra maneira. nem se 24 Hall. Tradução de Heloysa de Lima Dantas. 58-59. esta aparece como explicitação do caráter da força.41 Por outro lado tudo que existe é constituído por forças. Ao conceber o mundo como campos de força instáveis em permanente tensão. o filósofo acaba por ressaltar seu traço perspectivista. 1993. exercendo quando pode. A força simplesmente efetiva. Finito. resistindo. e tudo o que já existiu tornará a existir porque o princípio da conservação da energia exige o eterno retorno. mas um agir sobre. com isso concebe o mundo como pleno vir-a-ser. Não há objetivos a atingir por isso não admite trégua nem termo. Elas relacionam-se diferentes. quando dois corpos de diferentes temperaturas colocados em contato ocorre de o calor – energia térmica – passar do mais quente para o mais frio até que a temperatura de ambos se iguale. Das suas concepções cosmológicas Nietzsche não pode aceitar que o mundo chegue a um estado final. irradiando Vontade de Poder. melhor. é um efetivar-se agindo em outras forças. a todo instante estão em combate entre elas fazendo surgir novas formas e configurações. A partir daí Nietzsche propõem criticar a idéia de entropia e a partir da primeira lei da termodinâmica refutar a segunda lei (MARTON. 2000. Hall e Nordby24 mostraram que entropia é um conceito derivado da segunda lei da Termodinâmica em ciência da Física. A concepção cosmológica de Nietzsche. Calvin S. vir-a-ser: o mundo não teve início nem terá fim. Para ele a força só existe no plural: não é em si. quando têm acesso um ao outro. 76-78). o mundo não se constitui no caos. Não houve momento inicial. Não há finalidade. mas privilegiada porque manifesta o perspectivismo do mundo. pois à Vontade de Poder não se pode atribuir nenhuma intencionalidade. mas eterno. Como pluralidade de forças. até o limite. A operação do principio da entropia tem como resultado um equilíbrio de forças” (HALL & NORBDBY. & Nordbay Vernon J. a cada mudança segue-se outra. ela é desprovida de caráter teleológico. a cada estado sucede-se outro. 58-59).

A doutrina do eterno retorno afirma o eterno retorno do mesmo: assevera que este momento que estamos vivendo já se deu e voltará a dar-se um número infinito de vezes exatamente como se dá agora (MARTON. 83). 81 a 82. múltiplas. O que resta é aprender a amar o nosso destino. é um processo – e não uma estrutura estável. mas também isso. mônadas. os elementos em causa. como jogo de forças e ondas de força. Processo circular que não tem fim que se Põem como força por toda parte. interrelações – e não partículas. Com o eterno retorno Nietzsche desautoriza as filosofias que supõe uma teologia objetiva governando a existência. ninguém conte com a evolução ou progresso. o que a história representaria? Revestindo o caráter supra-histórico. Segundo Marton. mas comparado aos ciclos cósmicos. E mais: não há substância alguma que garanta sua coesão. para Nietzsche na passagem de uma serie de acontecimentos a outro.25 O mundo é uma totalidade interconectada de “quanta” dinâmicos. Se a memória procura preservar as experiências de uma vida. eu estiver de novo escrevendo estas palavras. somos forçados a admitir que várias vezes já nos encontramos na situação em que nos achamos aqui e agora – e outras tantas mais haveremos de nos encontrar.42 confunde com um sistema. não põem em risco a cosmologia que o filósofo arquitetou enquanto um todo. 82. estão todas interrelacionadas. ninguém espere sequer continuidade. 2000. ao mesmo tempo um e múltiplo acumulando-se e minguando em si próprio em eterna mudança recorrente com descomunais anos de retorno (MARTON. desacredita das religiões que 25 Idem. 84-86). ninguém supunha alteração ou mudanças. quando no próximo ciclo. Nada se mantém – muito menos a memória ou a consciência. Conforme Nietzsche. Mas não é nos limites estreitos da história que o eterno retorno tem lugar – e sim na infinitude do tempo. 42 . desabona as teorias científicas que presumem um estado final para o mundo. a história tentaria criar um mundo conhecido e estável. Considerada ciência. 2000. Só permanece uno porque as forças. Se aceitarmos o eterno retorno como concepção de mundo. Mas entre os comentadores é unânime a convicção de que o pensamento do eterno retorno na dimensão cosmológica é contestável. O que se repete é o que ocorre de fato – e não o que eventualmente poderia ocorrer. diz Marton. segundo Marton. o eterno retorno apresenta-se como “a mais extrema forma do niilismo” e “a mais alta forma de aquiescência que se pode atingir”. será outra vez março de 1991 da era cristã – e eu não me lembrarei de tê-las escrito antes. átomos. a história. memória milenar e coletiva deveria ser depositária das experiências da humanidade.

vê. vida e forças In “Nietzsche: das forças Cósmicas aos valores humanos”.2. Vê. nem foi feito à imagem de Deus. 4. Nietzsche vem conciliar os opostos. 29). 26 Marton. O homem não é criação divina. destronando o homem que deixa de ser um sujeito frente à realidade para tornar-se parte do mundo. rejeita o mecanicismo e a entropia. Com a morte de deus e a afirmação dionisíaca do mundo. alivia o peso da esperança vã. um princípio negador do mundo é o monstruoso mau gosto da consciência. ali encontrei Vontade de Potência. é a vez de sua Vontade de Potência” e ainda sobre Vontade de Poder “onde encontrei vida. 26 Scarlett Marton. Suprimindo o dualismo entre mundo verdadeiro e mundo aparente Nietzsche julga que o homem é parte do mundo e nele se espelha o todo. vem recusar que existam opostos – logo não aceita a dialética. e até mesmo na vontade daquele que serve encontrei vontade de ser senhor (NIETZSCHE in MARTON. É mais que um imperativo ético exortar que se viva como se esta vida retornasse inúmeras vezes. Para ela. Para Nietzsche o homem não é a medida de todas as coisas. ao iniciar o capítulo propõe que foi em “Assim Falou Zaratustra” que Nietzsche introduz o conceito de Vontade de Poder ao conceder aos povos a sua necessidade e diferença: Uma tábua dos bens está suspensa sobre cada povo. Homem e mundo não podem mais se opor e devem estar em harmonia. 43 . 1990. o eterno retorno aponta a falta de sentido de todas as coisas. Aterrorizante. 29. O eterno retorno: imperativo ético ou tese cosmológica? A questão perde o sentido. A Constituição Cosmológica: vontade de potência. Ele recusa a metafísica e o mundo supra-sensível. repele o cristianismo e a vida depois da morte. Para Marton o conceito de Vontade de Poder já serve como elemento explicativo dos fenômenos biológicos. melhor ainda. acredita que o ser humano partilha o destino de todas as coisas. O eterno retorno é um projeto que acaba com a primazia da subjetividade. descarta os mundos hipotéticos. é a tábua de suas superações de si mesmo. Negando a oposição entre ego e “factum”. 1990. o homem é contra o mundo.43 acenam punições e recompensas futuras. A CONCEPÇÃO COSMÓLOGICA E A VONTADE DE PODER. O eterno retorno é mais que tese cosmológica porque quer queiramos ou não a vida retorna inúmeras vezes e não se limita a descrever o mundo. com a travessia do niilismo e sua superação no amor “fati”. Scarlett. psicológicos e da vida social que serve como elo de ligação entre as reflexões pertinentes às ciências da natureza e às ciências do espírito.

1990. como unidade do sujeito. é uma generalização injustificada. o desaparecimento e produção de novas células. e a luta é de tal forma que não há pausa ou fins possíveis e Continua. É com processos de dominação que a vida se confunde e é com Vontade de Poder que ela se identifica (MARTON. uma pluralidade de adversários. 1990. 1990. Há a questão da sua multiplicidade. 31. a Vontade de Poder não pode ser limitada e há passagens em que Nietzsche recupera a idéia de conflito no interior do homem. e sim – assim vos ensino – Vontade de Potência” (NIETZSCHE in MARTON. 32). 44 . a todo instante qualquer elemento pode predominar ou perecer. A chamada Teoria Psicológica negligencia a vontade de agir no homem e no ser em geral. Nietzsche. concebe a tese que a “vontade” como a psicologia a compreende. Assim. É 27 Idem. mas não significando que se instalou a paz. 30. relaciona com a vida: “somente onde há vida. a luta propicia que se estabeleçam hierarquias. Com a organização hierárquica. Vencedores e vencidos surgem necessariamente a cada momento porque nossa vida é ao mesmo tempo uma morte perpétua. órgãos em animação e combate permanente. 31). na superação de si. Essa vontade absolutamente não existe e em vez de apreender a transformação de uma vontade determinada em várias formas risca-se seu caráter e elimina-se seu conteúdo e direção. As hierarquias não são definitivas e mandar e obedecer é um prosseguir a luta. uns se subordinam a outros e o sistema se torna coeso formando um todo. seres microscópicos que constituem sem cessar. garantindo a permanência da mudança. suas células. o vir a ser. é errôneo supor a existência de um sujeito responsável pelo querer. Dominar é também suportar o ônus do mais fraco é uma continuação da luta e obedecer é também lutar. como em Nietzsche seria falso inferir o sujeito como monarca absoluto do corpo. 27 Para ela. Compreende-se “a vida vive sempre às expensas de outra vida” (NIETZSCHE in MARTON. mesmo temporariamente. há também vontade: mas não vontade de vida.44 Nietzsche caracteriza a Vontade de Poder como vontade orgânica quando em Zaratustra. E no limite. Mas em Marton. é por exercer-se que torna a luta inevitável. diz Marton. Para Nietzsche a Vontade de Poder só pode manifestar-se em face da resistência que a Vontade de Poder se exerce. tecidos. 30). as hierarquias. mas é em Zaratustra que o filósofo a explicita como se dá no nível fisiológico. precisamente nos numerosos seres vivos microscópicos que constituem o organismo. e aponta seu caráter transitório. Nietzsche vê o corpo como um edifício de múltiplas almas desqualificando a hipótese de um sujeito único.

É equivoco pensar 45 . sua coordenação sob o predomínio de um único impulso resulta em “vontade forte”. Nietzsche se afasta da “Teoria Psicológica” da vontade. exercício da Vontade de Poder. desordenadas e sem direção fazendo surgir uma “vontade fraca”. Posteriormente. vem a coordená-los e impor direção clara e precisa acarreta uma “vontade forte”. mas múltiplas. não agregadoras. Nietzsche se refere a vontades fortes e fracas: “obediência e mando: o corpo – a vontade mais forte dirige a mais fraca. mas também em cada elemento do ser vivo. Para Nietzsche. a segunda – ainda presente atualmente.Sentir uma excitação violenta como prazer ou desprazer é uma interpretação do intelecto que trabalha na maioria das vezes no inconsciente. existem pontuações de vontade que constantemente aumentam ou perdem potência (NIETZSCHE in MARTON. Não há absolutamente nenhuma outra causalidade a não ser a vontade sobre a vontade” (NIETZSCHE in MARTON. A multiplicidade e desagregação dos impulsos. 34). Para Marton. mas já é por si mesmas. 1990. e não mais declara que prazer e desprazer resultam de uma interpretação do intelecto. 35). naturalmente. Em todo prazer está incluída a dor. em luta. cuja mesma excitação é interpretada como prazer ou desprazer. não existe vontade. e que o próprio pensar como se sentir acha-se misturados à vontade: agora prazer e desprazer não mais constituem representações. Nietzsche opera com três abordagens da vontade: a primeira – em tempos passados a vontade às vezes atribuída aos agentes sobrenaturais. a falta de sistema que os reúna resulta em “vontade fraca”.e não sobre “matéria” (NIETZSCHE in MARTON. Marton explica que Nietzsche em oposição a Schopenhauer opera três teses: 1Para que a vontade surja é necessária uma representação do prazer ou desprazer. Nietzsche pretende repensar o prazer e o desprazer. 1990. 34). Nietzsche muda de opinião quanto à tese que opõe a Schopenhauer afirmando que a vontade se produz não apenas nos seres providos de intelecto. só pode fazer efeito sobre vontade” . no homem do senso comum e tomada enquanto manifestação de forças abstratas. mas também se afasta da concepção metafísica. 1990. Um estímulo provavelmente sobre outros que se conjuga com disposição concordante e sobrepondo-se aos antagônicos.45 reducionismo quem descuida que a Vontade de Poder tem diversas direções e generaliza quem desconsidera sua ação nos elementos mais ínfimos do organismo. Ela refere que noutro texto Nietzsche retoma a idéia: “Vontade. desprazer e vontade. 3. oscilantes. 2. Para ela. O prazer nada mais é que excitação do sentimento de potência por um entrave de forma a aumentá-lo. no parágrafo 127. a terceira – como um mecanismo a ser cuidadosamente observado.apenas nos seres intelectuais existe prazer. Em Gaia Ciência.

e a vida é agora subsumida no conceito de Vontade de Poder. E tudo se passa como introduzir o 46 . Para Nietzsche.. porque preservar o que conquistou constitui somente uma decorrência do seu exercício (MARTON. O instinto de conservação é apenas conseqüência da Vontade de Poder. os tecidos e os órgãos. portanto lutar (MARTON.. a vida é mandar e obedecer. em “Gaia Ciência” retoma estas questões e a idéia de conflito entre elas desaparece. por uma vez. em caso sutis. a luta é necessária e simplesmente não pode deixar de existir. 48). ela quer dominar tudo a sua volta. mas também as células. Começa a se delinear a concepção de vida onde a luta se impõe como fundamental. 1990. 1990. Em seguida Nietzsche retoma a idéia que o homem é multiplicidade de Vontade de Poder e que elas desencadeiam lutas permitindo que se estabeleçam hierarquias jamais definitivas. sentimentos. impulsos estão em franco combate. Traço fundamental da vida. ligadas por um processo comum de alimentação. 1990. 47. eles são interligados e se complementam. Sobre o conflito entre conhecimento e vida. temporariamente lhes é permitido mudar de papel. Com a teoria das forças Nietzsche pretende resolver o que constitui um dos problemas centrais para a ciência da sua época. Há uma concepção nova de Vontade de Poder: até aí ela se caracterizava como vontade inorgânica. agora aparece como força eficiente. Em 1884. mas a força é desprovida do Caráter teleológico. 52). a vida é vista como possibilidades de “experimentação de conhecimento” e estes conflitos são encarados como aquilo que permite a manutenção da vida. 42). e onde pensamentos. denominamos ‘vida’”. que não pode deixar de querer mais potência. A Vontade de Poder não busca simplesmente manter seus domínios. Não é a satisfação da vontade que causa prazer. e a Vontade de Poder nada mais é do que o próprio afeto de mando.46 que os dois sentimentos se opõem. Prazer e desprazer são causas e não efeitos. quem geralmente manda deve. As que mandam devem estar subordinadas. 36-38). 1990. com isso ele restringe a existência das forças do domínio orgânico. são resultados do exercício da Vontade de Poder. na própria Vontade de Poder estão englobados os sentimentos e o pensar no limite. mas sim que a vontade queira prosseguir e continue a apoderar-se do que está em seu caminho. Ganha terreno a idéia de conflito interior e a luta entre seus diversos impulsos manifestam-se até mesmo no pensamento. Marton escreve que para Nietzsche: “o homem é uma pluralidade de forças que se situam numa hierarquia. ele afirma: “há uma pluralidade de forças. mas nessa medida é forma primitiva de afeto de que todos os outros afetos são seu desenvolvimento (MARTON. obedecer” (NIETZSCHE in MARTON.

não tem sentido dizer que força produz efeitos. porque isso é equiparar com causa algo que não se confunde com ela. 1990. como um constatar de graus e de força. Na verdade força e Vontade de Poder poderiam ser equivalentes e nada permite supor distinções entre elas. Deve-se entender que “toda força motora é Vontade de Poder que não existe fora dela nenhuma força física. A todo o momento força e Vontade de Poder vencem resistências. então. 55). Mas que força? Na medida em que a força só existe enquanto efetivação. todo o movimento. se auto-superam e fazem surgir novas formas sendo. Quando trata do mundo sempre postula a existência de pluralidades de forças presentes em todas as partes. Com a teoria das forças Nietzsche é levado a ampliar o âmbito de atuação do conceito de Vontade de Poder e quando foi introduzido operava apenas no domínio orgânico e a partir de agora passa atuar em relação a tudo que existe.47 conceito de força e nada viesse alterar a caracterização da Vontade de Poder enquanto orgânica (NIETZSCHE in MARTON. A força é um efetivar-se. 55). portanto força plástica criadora. Em 1885 Nietzsche afirma que a ligação entre o inorgânico e o orgânico repousa necessariamente na força repulsiva que cada átomo de força exerce um no outro. A Vontade de Poder é. na Vontade de Poder acham-se subsumidos dois outros conceitos. 1990. parece não poder definí-la. as pulsões cósmicas. impulso de toda força a efetivar-se e com isso cria novas configurações em relação às demais. Mas em momento algum Nietzsche admite a existência de uma única força criadora de tudo que existe.” (NIETZSCHE in MARTON. aspectos que o conceito de Vontade de Poder 47 . Assim. Para Marton. A Vontade de Poder diz respeito ao efetivar-se da força. todo vir a ser. é inevitável a luta por mais potência. dinâmica ou psíquica” (NIETZSCHE in MARTON. como a força não se ajusta a relação de causa e efeito. 1990. essa concepção traduz a opção de Nietzsche que faz da força uma energia e posicionando-se contra o mecanicismo e substituindo a hipóteses da matéria pela hipótese de força.. a Vontade de Poder não se enquadra nos parâmetros de causalidade. apolíneas e dionisíacas. Não é por acaso que sugere que “tudo ocorre. Em outro texto de 1884. Para Marton.. como um combate. ele evidencia a possibilidade de que Vontade de Poder deva estar presente também na matéria inorgânica apropriada. A força querendo vir a ser mais forte esbarra em outras que resistem. 55). Aqui se encontra o Caráter pluralista de sua filosofia presente ao nível das “preocupações cosmológicas”. ou se presumir que ambas atuam sobre a matéria inorgânica.

48 . não existem causas. O conceito de Nietzsche constitui uma das principais rupturas em relação à tradição filosófica (NIETZSCHE in MARTON. O caráter essencialmente dinâmico da força impede que ela não se exerça e seu querer vir-a-ser impede que ela cesse o combate: o mundo se apresenta como pleno vir a ser e a cada mudança se segue outra. sua coesão não é garantida por substância alguma. O mundo não é governado por leis. o mundo “não constitui um sistema”. mas “quanta” dinâmicos numa relação de tensão com os outros “quanta” dinâmicos. não houve ponto inicial porque à Vontade de Poder não se pode atribuir intencionalidades ou conferir caráter teleológico. O mundo vive de si próprio. 52-57). O mundo é um processo e não uma estrutura estável com os elementos em causa. de seus excrementos. inter-relações. Nietzsche acredita que o mecanicismo não dá conta do que existe para explicar o mundo e quer juntar aos “quanta” uma qualidade de que todo acontecer à Vontade de Poder diz respeito ao efetivar-se da força. não cumpre finalidades. Para Nietzsche. além disso!”. Totalidade permanente. 1990. Totalidade interconectada de “quanta” dinâmicos. Para Marton. é fenômeno universal e absoluto: “esse mundo é Vontade de Poder – e nada. não se acha submetido a um poder transcendental. Nietzsche concebe o mundo como eterno: ele subsiste e não é nada que vem a ser. permanecendo uno porque suas forças múltiplas estão inter-relacionadas. mas que nunca começou a vir a ser e nunca cessou de perecer. de campos de força instáveis em permanente tensão.48 recobre. geradora e destruidora de si mesma.

Vivemos um período de revolução científica que se iniciou com Einstein e a mecânica quântica e não se sabe quando acabará. Os sinais nos permitem somente especular sobre o paradigma que emergirá deste período revolucionário. A primeira observação é que a identificação dos limites. O aprofundamento do conhecimento permitiu ver a fragilidade dos pilares em que se funda. São fortes os sinais de que o modelo moderno de racionalidade científica em alguns dos seus traços principais atravessa uma profunda crise. Boaventura Santos é um pensador que trata com muita propriedade sobre a crise de paradigma científico.1. mas se pode afirmar que entrarão em colapso com as distinções básicas em que assenta o paradigma dominante contemporâneo. Einstein distingue entre a simultaneidade de acontecimentos presentes no mesmo lugar e a simultaneidade de acontecimentos distantes. Einstein. Em relação a estes últimos. das insuficiências estruturais do paradigma científico moderno é o resultado do grande avanço no conhecimento que ele propiciou.49 5. VONTADE DE PODER E PARADIGMA CIENTÍFICO. Essa crise é também irreversível. constitui o primeiro rombo no paradigma da ciência moderna. A CRISE DO PARADIGMA CIENTÍFICO. o problema lógico a resolver é o 49 . diz Santos. Um dos pensamentos mais profundos de Einstein é o da relatividade da simultaneidade. 5. em particular de acontecimentos separados por distâncias astronômicas.

sendo estruturalmente limitado o 28 E. p. University Press. 7. 1970. Scientific Essays. e a tal ponto que o objeto que sai de um processo de medição não é o mesmo que lá entrou.28 A idéia de que não conhecemos do real senão o que nele introduzimos. Einstein defronta-se com um círculo vicioso: a fim de determinar a simultaneidade dos acontecimentos distantes é necessário conhecer a velocidade. a mecânica quântica fê-lo no domínio da microfísica. vai inspirar o surgimento da segunda condição teórica da crise do paradigma dominante. ao medir a velocidade numa direção única. pode tão-só ser definida. Wigner. p. Por um lado. sem o alterar. portanto. Como ilustra Wigner. Dois acontecimentos simultâneos num sistema de referência não são simultâneos noutro sistema de referência. e. No entanto. Cambridge.50 seguinte: como é que o observador estabelece a ordem temporal de acontecimentos no espaço? Certamente por medições da velocidade da luz. mas para medir a velocidade é necessário conhecer a simultaneidade dos acontecimentos. apud Santos. que é fundamental à teoria de Einstein. Symmetries and Reflections. portanto. que não conhecemos do real senão a nossa intervenção está expressa no princípio da incerteza de Heisenberg: não se pode reduzir simultaneamente os erros da medição da velocidade e da posição das partículas. “a medição da curvatura do espaço causada por uma partícula não pode ser levada a cabo sem criar novos campos que são bilhões de vezes maiores que o campo sob investigação”. portanto. o que for feito para reduzir o erro de uma das medições aumenta o erro da outra. 2001. Esta teoria veio revolucionar as nossas concepções de espaço e de tempo.Portugal: afrontamento. entre dois pontos. 25. As leis da física e da geometria assentam em medições locais e o caráter local das medições. quando fazemos medições não pode haver contradições nos resultados uma vez que estes nos devolverão a simultaneidade que nós introduzimos por definição no sistema de medição. Se Einstein relativizou o rigor das leis de Newton no domínio da astrofísica. Einstein rompe com este círculo. arbitrária e daí que. Não havendo simultaneidade universal. Este princípio. Porto . 50 . demonstrando que a simultaneidade de acontecimentos distantes não pode ser verificada. como salienta Reichenbach. Boaventura de Souza. Um discurso sobre as Ciências. partindo do pressuposto. a demonstração da interferência estrutural do sujeito no objeto observado. ou seja. o tempo e o espaço absolutos de Newton deixam de existir. a mecânica quântica. Heisenberg e Bohr demonstram que não é possível observar ou medir um objeto sem interferir nele. tem implicações de vulto. do rigor do conhecimento que com base nelas se obtém. que não há na natureza velocidade superior à da luz. É.

em vez do mecanicismo.51 rigor do nosso conhecimento. as investigações de Gödel vêm demonstrar que o rigor da matemática carece de fundamento. nunca são inteiramente previsíveis. Em vez da eternidade. A situação de bifurcação. a hipótese do determinismo mecanicista é inviabilizada uma vez que a totalidade do real não se reduz à soma das partes em que a dividimos para observar e medir. se assenta num critério de seletividade e como tal. a evolução explica-se por flutuações de energia que em determinados momentos. em vez do determinismo. da química e da biologia nos últimos vinte anos. é muito mais complexa do que à primeira vista pode parecer. representa a potencialidade do sistema em ser atraído para um novo estado de menor entropia. a interpenetração. a desordem. por via de mecanismos não lineares. Deste modo a irreversibilidade nos sistemas abertos significa que estes são produto da sua história. a distinção sujeito-objeto. o ponto crítico em que a mínima flutuação de energia pode conduzir a um novo estado. a criatividade e o acidente. uma concepção dificilmente comparável com a que herdamos da física clássica. a espontaneidade e a auto-organização. A quarta condição teórica da crise do paradigma newtoniano é constituída pelos avanços do conhecimento nos domínios da microfísica. Por outro lado. só podemos aspirar a resultados aproximados e por isso as leis da física são apenas probabilísticas. desencadeiam reações que. 51 . para Boaventura de Souza Santos. a irreversibilidade e a evolução. A importância desta teoria está na nova concepção da matéria e da natureza que propõe. pressionam o sistema para além de um limite máximo de instabilidade e o conduzem a um novo estado macroscópico. em vez da reversibilidade. Por último. A título de exemplo. tem um lado construtivo e um lado destrutivo. Esta transformação irreversível e termodinâmica é o resultado da interação de processos microscópicos segundo uma lógica de auto-organização numa situação de não-equilíbrio. A teoria das estruturas dissipativas e o princípio da “ordem através de flutuações” estabelecem que em sistemas abertos. como qualquer outra forma de rigor. a história. em vez da ordem. Se as leis da natureza fundamentam o seu rigor no rigor das formalizações matemáticas em que se expressam. tem vindo a problematizar criativamente estes temas e reconhece hoje que o rigor matemático. ou seja. em sistemas que funcionam nas margens da estabilidade. em vez da necessidade. menciono as investigações do físico-químico Ilya Prigogine. A própria filosofia da matemática que incide sobre a experiência matemática. a imprevisibilidade. ou seja.

47 a 84. É certo que Nietzsche. na sua teoria da Vontade de Poder. Este movimento científico e as inovações teóricas definidas como condições teóricas da crise do paradigma dominante têm vindo a propiciar uma profunda reflexão epistemológica sobre o conhecimento científico.52 A teoria de Prigogine recupera inclusivamente conceitos aristotélicos tais como os conceitos de potencialidade e virtualidade que a revolução científica do século XVI parecia ter atirado definitivamente para o lixo da história. sobretudo a partir da última década. na teoria das catástrofes de Thom. Mas. na teoria da “ordem implicada” de David Bohm ou na teoria da matriz-S de Geoffrey Chew e na filosofia do “bootstrap” que lhe subjaz. Ela faz parte de um movimento convergente. bem simbolizada pelo positivismo. Esta reflexão apresenta duas faces sociológicas importantes: 1. Tradução de Tomaz Tadeu da Silva. Nunca houve tantos cientistas-filósofos como atualmente. a importância maior desta teoria está em que ela não é um fenômeno isolado. 52 . no conceito de hiperciclo e na teoria da origem da vida de Eigen. no conceito de autopoiesis de Maturana e Varela. Depois da euforia cientista do século XIX e da conseqüente aversão à reflexão filosófica. sobre o principio da identidade de Hegel. pujante. dedica uma delas. Pós-Estruturalismo e Filosofia da Diferença: Uma introdução. neste livro de duas partes. com o conhecimento de nós próprios. “Pós-estruturalismo e Filosofia da Diferença”. na sinergética de Haken. por cientistas que adquiriram uma competência e um interesse filosóficos para problematizar a sua prática científica. entre outras. 29 Peters. uma reflexão de tal modo rica e diversificada que. Peters. o bom cientista-filósofo dos séculos XX e XXI tem inspiração nietzschiana. Michael. conforme se verifica na obra de Michael Peters29 traduzido para o português por Tomaz Tadeu da Silva. melhor do que qualquer outra circunstância caracteriza exemplarmente a situação intelectual do tempo presente. Tão certo quanto isto. um movimento de vocação transdisciplinar que Jantsch designa por paradigma da auto-organização e que tem aflorações. 2000 pág. que atravessa as várias ciências da natureza e até as ciências sociais. integralmente para Nietzsche. na teoria de Prigogine. já prenunciara essa interação da filosofia com a ciência sob pena da catástrofe. e isso não se deve a uma evolução arbitrária do interesse intelectual.A reflexão é levada a cabo predominantemente pelos próprios cientistas. isto é. na teoria da evolução de Jantsch. para discutir sobre a crítica da razão. que Nietzsche combatia com muita força e a questão da Pós-modernidade. chegamos a finais do século XX possuídos pelo desejo quase desesperado de complementarmos o conhecimento das coisas com o conhecimento do conhecimento das coisas.

um rigor que. A reflexão crítica tem incidido tanto no problema ontológico da causalidade: quais as características do nexo causal? Esse nexo existe na realidade? Como no problema metodológico da causalidade: quais os critérios de causalidade? Como reconhecer um nexo causal ou testar uma hipótese causal? O segundo tema de reflexão epistemológica versa mais sobre o conteúdo do conhecimento científico do que sobre a sua forma. ou. esse rendimento é sempre inferior à unidade e só em casos raros é próximo dela. são questionados o conceito de lei e o conceito de causalidade que lhe está associado. se é verdade que o conhecimento só 53 . aproximativo e provisório. uma forma de rigor que. segundo Brillouin. os caricaturiza. Qualquer observação efetuada sobre um sistema físico aumenta a entropia do sistema no laboratório. O questionamento da causalidade nos tempos modernos vem desde David Hume e do positivismo lógico. destrói a personalidade da natureza. A análise das condições sociais. desqualifica. porque fundado no rigor matemático. É.53 2. dos modelos organizacionais da investigação científica. A formulação das leis da natureza funda-se na idéia de que os fenômenos observados independem de tudo exceto de um conjunto razoavelmente pequeno de condições – as condições iniciais – cuja interferência é observada e medida. antes acantonada no campo separado e estanque da sociologia da ciência. em suma e finalmente. Esta idéia obriga a separações grosseiras entre os fenômenos. Por último. As leis têm assim um caráter probabilístico. O rendimento de uma dada experiência deve assim ser definido pela relação entre a informação obtida e o aumento concomitante da entropia.A segunda face desta reflexão é a que abrange questões que antes eram deixadas aos sociólogos. dos contextos culturais. A própria precisão quantitativa do conhecimento é estruturalmente limitada. Desta reflexão. ao objetivar os fenômenos. num interlocutor terrivelmente estúpido. expresso no princípio da falsificabilidade de Popper. a precisão é limitada porque. a experiência exata é irrealizável. ao afirmar a personalidade do cientista. como diz Prigogine. ao caracterizar os fenômenos. separações que são sempre provisórias e precárias uma vez que a verificação da não interferência de certos fatores é sempre produto de um conhecimento imperfeito. os objetualiza e os degrada. que. Nestes termos. O rigor científico. passou a ocupar papel de relevo na reflexão epistemológica. pois que exigiria um dispêndio infinito de atividades humanas. Sendo um conhecimento mínimo que fecha as portas a muitos outros saberes sobre o mundo. por mais perfeito que seja. Ora. o conhecimento científico moderno é um conhecimento desencantado e triste que transforma a natureza num autômato. ao quantificar. é um rigor que quantifica e que.

Se a consciência da anomalia desempenha papel na emergência de novos tipos de fenômenos. Ao nos ocuparmos da emergência de novas teorias inevitavelmente ampliaremos nossa compreensão da natureza das descobertas. são constituídos por anéis que se entrecruzam em teias complexas com os restantes objetos. Com assimilação das descobertas os cientistas começaram a se dar conta que podiam explicar um número muito maior de fenômenos. Esse assunto também foi tema de pesquisa de outro grande pensador: Thomas S. coincidência não é identidade e as descobertas isoladas não foram responsáveis pelas alterações de paradigmas. a tal ponto que os objetos em si são menos reais que as relações entre eles. mais profunda. Contudo as descobertas não são as únicas fontes dessas mudanças construtivas . o efeito fotoelétrico e a radiação de um corpo negro. As grandes descobertas conforme mencionado por Boaventura Santos contribuíram para mudanças do paradigma moderno. A astronomia ptolomaica estava em situação escandalosa antes de Copérnico. 54 .desconstrutivas de paradigmas. mas tal avanço só foi possível a medida que algumas crenças e valores antes aceitos foram sendo descartados sendo substituídos pelos novos. seja um pré-requisito para todas as mudanças de teoria aceitáveis. Os fatos observados têm vindo a escapar ao regime de isolamento prisional a que a ciência os sujeita.54 sabe avançar pela via da progressiva parcelização do objeto é exatamente por essa via que melhor confirma a irredutibilidade das totalidades orgânicas ou inorgânicas às partes que as constituem. As contribuições de Galileu no estudo do movimento estão relacionados com as dificuldades descobertas na teoria aristotélica pelos críticos escolásticos. A evidência histórica é totalmente inequívoca. A teoria ondulatória que substituiu a newtoniana foi anunciada em meio a uma preocupação cada vez maior com as anomalias presentes na relação entre a teoria de Newton e os efeitos de polarização e refração. 5-58). A teoria de Newton sobre a luz e a cor originou-se da descoberta de que nenhuma das teorias pré-paradigmáticas existentes explicava o comprimento do espectro. A crise do paradigma da ciência moderna se explica por condições teóricas e por condições sociais (BOAVENTURA SANTOS. Os objetos têm fronteiras cada vez menos definidas. A termodinâmica nasceu da colisão de duas teorias físicas existentes no século XIX e a Mecânica Quântica de diversas dificuldades que rodeavam os calores específicos. Kuhn em sua obra “A Estrutura Das Revoluções Científicas”. 2001. Mesmo assim. não se deveria surpreender com o fato de que uma consciência semelhante.

Quando os instrumentos proporcionados por um paradigma são capazes de resolver os problemas que 55 .55 Em todos os casos. emergiu a teoria especial da relatividade de Einstein. E o fracasso das regras existentes é o prelúdio para a busca de novas regras. no final do século XIX. Tão bem sucedida.C. em 1905. Um terceiro exemplo se refere à crise na Física e o fim do século XIX que acaba abrindo caminho para a teoria da relatividade. Um caso muito conhecido de mudança de paradigma foi quando do surgimento da astronomia copernicana. Estudiosos da Filosofia da Ciência demonstraram que mais de uma construção pode ser aplicada a um conjunto de dados determinados. foi bem sucedido na predição da mudança de posição das estrelas e planetas. O resultado foi uma proliferação de teorias que eram concomitantes com as crises e foi neste contexto histórico que. A história da ciência indica que nos primeiros estágios de desenvolvimento de um novo paradigma não é fácil inventar tais alternativas. qualquer que seja o caso considerado. a consciência da anomalia persistia por tanto tempo e penetrara tão profundamente na comunidade científica que é possível descrever os campos por ela afetados como em estado de crise crescente. Essa insegurança é gerada pelo fracasso constante da ciência normal em produzir resultados esperados em problemas que se eternizavam.. Durante o século XVIII respostas que eram consideradas adequadas ao problema do aumento de peso tornam-se difíceis de ser sustentadas. Mas é essa invenção de alternativas que os cientistas empreendem. exceto o de Newton. Diversos estudiosos da Filosofia da Natureza e especialmente Leibniz criticavam Newton por manter a versão clássica do espaço absoluto. o sistema precedente que era o ptolomaico. exceto no período pré-paradigmático do desenvolvimento de sua ciência e em ocasiões especiais de sua evolução. Diga-se de passagem.C. A emergência de novas teorias é geralmente precedida por um período de insegurança profissional pronunciada porque exige a destruição em larga escala de paradigmas e grandes alterações nos problemas e técnicas da ciência normal. Um segundo exemplo foi a crise que precedeu a emergência da teoria de Lavoisier sobre a combustão do oxigênio e sua preocupação com o aumento de peso de certos materiais quando aquecidos. a astronomia ptolomaica ainda hoje é usada para cálculos aproximados porque no que concerne aos planetas ela era tão boa quanto às predições da de Copérnico. Quando de sua elaboração no período 200 a. que Nietzsche sempre foi um crítico desta concepção moderna do espaço e do mecanicismo. Os químicos descobriram um número cada vez maior de casos nos quais o aumento de peso acompanhava o aquecimento. a 200 d.

devemos retomar Nietzsche para podermos compreender melhor como a categoria da Vontade de Poder poderá nos dar luzes sobre as questões ainda não resolvidas pela ciência moderna e que poderão ser alcançadas dentro de um conceito de ciência pósmoderna. no processo orgânico como uma espécie de vida dos instintos na qual estão resumidas todos as funções orgânicas como a auto-regulação. a moral do método da qual o homem não deve subtrair-se como se fosse um cálculo matemático. A questão do 56 . então pensar é uma interrelação desses instintos. Quando vai a procura da compreensão do mundo material deixa uma indagação: se com esse “dado” é possível compreender o mundo mecanicista ou material. As crises significam que é chegada a hora de renovar os instrumentos (KUHN. 93-105). Ao supor que não possamos descer ou ascender a nenhuma “realidade” que não seja nossos instintos. alimentação. Nietzsche vai mais longe em suas especulações: ele quer compreender o “dado” como que pertencendo a categoria de realidade de nosso próprio objeto como forma primitiva de mundo dos afetos onde existe numa unidade poderosa tudo que posteriormente se ramifica e desenvolve. Os instintos para Nietzsche são de uma relevância enorme porque são alguns dos pressupostos da vontade.56 este define. porque a Vontade de Poder também não depende dele. ela é um impulso cósmico que supera o ser humano. secreção e metabolismo. Contudo. do mesmo modo como se enfraquece. 2001. A moral do método é não admitir os diversos tipos de causalidades enquanto não se tenha levado até o seu limite extremo. até ao absurdo a tentativa de nos contentar com um só. a ciência move-se com maior rapidez e aprofunda-se ainda mais na utilização confiante desses instrumentos. a assimilação. Ao supor que nada nos é “dado” como real a não ser no mundo dos desejos e paixões. Na manufatura como na ciência a produção de novos instrumentos é uma extravagância reservada para ocasiões que o exigem. Podemos entender que a realidade não depende do ser humano. Daí decorre a importância de Nietzsche quando trata sobre o pensar? Ele faz uma suposição.

predominar sobre aquilo que o circunda. 2002. órgãos. perdem seu estatuto de estruturas descritivas eficazes. subjugar tudo que ainda não estiver sob seu domínio. para Nietzsche em última instância reside em reconhecer a vontade como ativa. em acreditarmos na causalidade da vontade. § 36). é o eterno retorno. Nietzsche expõe aquilo que mais nos interessa no momento. Nietzsche concebe uma cosmologia. Em Nietzsche a “vontade” só pode atuar sobre a vontade.57 método. é na esfera do corpo humano. Não há 57 . Neste ponto de nossos estudos averiguamos o caráter contemporâneo e atual da explicação de Alberto Marcos Onate sobre Vontade de Poder que considera todo o corpo vivo enquanto Vontade de Poder encarnada. não absoluta porque não é uma mônada. Átomos. é precisamente a força de vontade. força que pudesse reconduzir todas as funções orgânicas a essa Vontade de Poder e nela encontrasse também a solução para o problema de geração e nutrição. inequívoca que conseguisse explicar a vida instintiva como é a elaboração e ramificação de uma força básica da vontade. Cada mínima parcela do corpo quer superar-se. a cosmologia nietzscheana. como ponto de confluência supressiva da dicotomia cartesiana “res cogitans/res extensa”. tecidos. funções. é o efeito da vontade. passando a indicar apenas formas específicas de efetivação das potências corporais. não pode atuar sobre a matéria. aparelhos. tornar-se mais forte. Nietzsche coloca todas as formas de vida sob os auspícios do dinamismo potencial. autotransgredir seu nível potencial. nem sobre o “nervo”. Esta indica que há forças finitas. uma idéia de Vontade de Poder. a causalidade da vontade como única (NIETZSCHE. que o jogo de potências dispares alcança seu grau maior de refinamento e complexidade. Ao se acreditar nisso deve-se então fazer a tentativa de postular hipoteticamente. Nessa idéia de Vontade de Poder pretende mostrar que toda força atuante. Contudo. Em resumo se deve arriscar sobre as hipóteses onde se reconhecem “efeitos”. Todo componente corporal quer intensificar-se. entendido como “Selbst”. No final do § 36. Uma vontade atua sobre outra vontade como todo processo mecânico desde que nele atue uma força. células. É a existência da natureza. plurais em movimento incessante que tornam suas perspectivas infinitas.

No primeiro aforismo de “Para Além do Bem e do Mal”. por que seu sentido mais amplo pode abranger a expressão vontade de potência. A crítica do conhecimento.129). A Vontade de Verdade. O mundo visto de dentro. Para Além do Bem e do Mal. pois jamais se formulou como problema crítico à questão da Vontade de Verdade. para Giacoia. Giacoia Junior.. 58 . 98). Detive-me. o mais longamente diante da pergunta pelas causas ocultas dessa exigência. 2002. há uma crítica à filosofia. microoposições dissimuladas (ONATE. no primeiro capítulo “Dos Preconceitos dos filósofos”. o mundo definido e designado conforme o seu ‘caráter inteligível’ – Seria justamente ‘Vontade de Poder’. Nisso repousa.30 Por tudo isto neste trabalho optar-se-á pela expressão Vontade de Poder. que me conduzir por caminhos não inofensivos. interessada na verdade. Em nosso entender a expressão “Vontade de Poder” tem mais acesso a outros conceitos nietzscheanos podendo estender seu sentido para a melhor compreensão do todo desta monografia.58 nenhuma zona de armistício: mesmo lá onde parece reinar a concórdia. detive-me na pergunta pelo valor dessa exigência. coloca-me na boca a mesma. 127. A “Vontade de Verdade” como Experimento é ponto de partida para Giacoia31. 1997. uma relação de subordinação entre os mais fortes e os mais fracos. não foi suficientemente radical. Contudo em cada organismo há uma hierarquia. que ainda me seduzirá a alguma ousadia – quantas curiosas perguntas já colocou diante de mim (que malignas. Giacoia afirma que para Nietzsche. p. a amostra dos erros e preconceitos dos filósofos..). 2000. (NIETZSCHE in GIACOIA: 1997. problemáticas perguntas!. ou sua falta de profundidade e rigor. Seria “. 128. In Labirintos da Alma: Nietzsche e a auto-supressão da moral. E nesta perspectiva crítica da filosofia como dogmatismo que Giacoia pretende inserir a análise do aforismo inaugural de “Para Além do Bem e do Mal”. 66. 30 31 Nietzsche. os filósofos teriam se conduzido como ingênuos.. e nada mais”. Friedrich. Alea jacta est – a “Vontade de Verdade”. A Vontade de Verdade como Experimento. inábeis e canhestros dos conquistadores e jamais suspeitavam que a incondicional vontade que impulsiona o saber pudesse ela mesma constituir problema. Osvaldo.. um dogmatismo inconsciente que Nietzsche elabora em “Bem e Mal”. vontade que determina por antecipação o modo de ser e de se desenvolver de todo empreendimento levado a efeito com o propósito de “descobrir a verdade”. batalhas circunscritas. um olhar mais arguto revelará sutis desníveis potenciais.. mais problemática de todos as perguntas.. mas por último.

59 Essa Vontade de Verdade. os trilhos em que se é constrangido a se mover. 1997. É precioso que aprendemos com a esfinge a perguntar e nós mesmos formular as questões. “inverdade”. que petrifica os erros da razão na linguagem. pensamos aqui poder discordar em parte de Nietzsche ao dizer que “algumas perguntas não foram respondidas” satisfatoriamente. ao invés da posição passiva de ser perguntado. Porém. incondicional. Somos nós que perguntamos e com isso invertemos as posições. Nesse reflexo determina-se como aprender a perguntar. em que conforme Nietzsche nenhuma questão até agora foi respondida satisfatoriamente. que o resultado do movimento de voltar-se sobre si mesma é empreendido pela Vontade de Verdade e se consuma de modo a desconstituir o valor da verdade. fora da Vontade de Verdade que. etc. Que questões colocam esta Vontade de Verdade? Essa é uma velha história. a história dos dogmatismos e seus questionamentos duram tanto quanto a história do pensamento ocidental. O fundamento a partir do que se originou a questão do valor continua sendo a veracidade ou Vontade de Verdade e ainda é ela que nos induz a tal ousadia. impulsionava e sustentou o questionamento dos filósofos em busca da verdade. A questão da causa dessa vontade permanece nas melhores das possibilidades do pensamento. E sempre ha um sub-rogado das categorias lógico-gramaticais que se dirige à pergunta remetendo a essência ou substância. até aqui havia sido a esfinge que coloca na boca as perguntas que formulamos. asfixiada nas categorias lógico-gramaticais. a Vontade de Verdade se abre para outra questão: pergunta-se agora pelo valor da veracidade. que coloca na boca dos filósofos as perguntas que eles se formulam é para Nietzsche denominada veracidade. ou engano? E posto que exigimos a verdade a qualquer preço. passando com esse movimento ao plano de ação. aprender a formular uma questão diferente das até aqui enunciadas (GIACOIA. É porque queremos conhecer a verdade sobre a Vontade de Verdade e sua origem que nos 59 . 1997. Diz Giacoia. porque queremos “verdade”. o valor da verdade é como o incondicionado. Ou ainda. absoluto: e tudo será sacrificado no altar da verdade (GIACOIA. e permanecer-se sob o comando da esfinge. fixam o pensamento as margens de cognoscibilidade. 132). Esta inconsciente economia doméstica do intelecto. Aprender a perguntar significa retornar contra si mesmo a Vontade de Verdade que conduziu até aqui a filosofia. ser dirigido. Para Giacoia. 129 a 131). É a história da filosofia. A se voltar sobre si mesma.

Se a veracidade não dispõe mais de critérios para distinguir verdade e inverdade. e aparece evanescente caindo num abismo de indiferenciação que confunde Édipo e a esfinge. e a origem incondicional da Vontade de Verdade revela-se inverídica. pois a pergunta pelo valor propicia a perspectiva da origem. do valor absoluto do verdadeiro. e foi a própria Vontade de Verdade que se colocou diante de Nietzsche como questão engendrada e explicitada cuja lógica e dinâmica formam a história da metafísica (GIACOIA. 1997. nesse sentido. Mas é. para que então construir. ousado? Como problema a Vontade de Verdade mostra-se vinculada a condições e interesses de conservação e crescimento que implicam o contrário da exigência incondicionada. mas é a pergunta pelo valor que possibilita a perspectiva da origem. Nietzsche quem coloca a Vontade de Verdade como problemática ao perguntar sobre o valor da veracidade. a verdade não subsiste como inconcluso fundamento. O resultado do experimento como Vontade de Verdade não é obtenção de uma “verdadeira veracidade” que o elevando a um nível superior de desenvolvimento consistiria na desconstituição. Se for a Vontade de Verdade que se coloca como fundamento quando se pergunta pelo valor e pela origem da veracidade. o risco que se corre com a questão é a desconstituição da base do fundamento em que até aqui se apoiava o perguntar. tal ousadia é porque queremos conhecer a verdade sobre a Vontade de Verdade e sua origem porque nos colocamos diante da questão do valor da veracidade. Ao final desse experimento a verdade aparece como problema: o problema da veracidade aparece como se tivesse sido colocado. Giacoia entende o fundamento a partir da qual se originou a questão do valor e continua sendo a veracidade. Para ser veraz.60 colocamos diante da questão do valor da veracidade. a Vontade de Verdade é compelida a reconhecer a “verdade” sobre a sua origem e projetá-la além de si mesma. no desvanecimento de sua origem. Na experiência de identificação entre “verdade” e “não verdade”. e se não é em função da verdade que podemos perguntar. ou Vontade de Verdade. como exigência incondicional de verdade irremissivelmente comprometida com condições ou perspectivas de valor. como ponto de vista das condições de formação é transformação desses centros vitais complexos. como o contrário de si mesma. 133-135). O resultado expressa-se como auto-superação da Vontade de Verdade num movimento que a impele além dela mesma. fazer ou 60 . limiar em que se confundem Édipo e a esfinge a Vontade de Verdade cai no vácuo do fundamento. e proba.

Mário D. por isso. 1997. Os tradutores franceses como Henrri 32 Estudos extraídos do prefácio da obra: Nietzsche. segundo Mario: À vontade de Potência. título restrito que tem permitido a muitos. pois “zur” é dativo. 64) destacando que a tradução de Vontade de Poder é demasiadamente estreita e dá lugar a equívoco. 1997. Se o experimento com a Vontade de Verdade não conduz a uma verdade depurada e superior em que a inquietação filosófica pudesse encontrar refúgio. Nietzsche pretende superar o ceticismo. Contudo há a interpretação como “Vontade de Poder” que Scarlett Marton refere no prefácio da obra “Vontade de Poder” do próprio Wolfgang Müller-Lauter. Impõe-se. O assunto provoca discussões na academia e por isso de imediato colocamos o pensamento de um dos tradutores de Nietzsche. então não estamos autorizados a perguntar se Nietzsche em “Para Além do Bem e do Mal” ficou encerrado na posição de contra-discurso reconsiderando ao não sustentar nenhuma opinião? Mas esse não é o principal resultado desse esconderijo em forma de enigma? Não revelou ele ser indigno de um filósofo a pretensão de sustentar opiniões autênticas e definitivas? (GIACOIA. Ediouro: [199?]. A tradução literal de “Der Wille Zur Macht” deveria ser. Vontade de Potência. Tradução de Mario D. uma justificação. que não leram a obra. concluir que o nietzscheismo é simplesmente uma metafísica da violência. Ocorre uma discussão interessante do conceito de Vontade de Poder atribuída a Nietzsche que se trata sobre a denominação “Vontade de Potência”. Publicação de Elizabeth Förster-Nietzsche. como tem dado. Mario Ferreira dos Santos32 utiliza o termo Vontade de Potência na obra editada por Elizabeth Förster-Nietzsche de autoria atribuída por ela a Nietzsche. Como escreve Mario é comum quando se fazem referência à obra de Nietzsche traduzir-se “Der Wille Zur Macht” como Vontade de Poder. Ferreira Santos que elaborou o prefácio da obra Vontade de Potência. num movimento de auto-superação da Vontade de Verdade. São Paulo. que se satisfaz com a inverdade. A idéia que Mario faz sobre Vontade de Potência ele escreve no referido prefácio (SANTOS in NIETZSCHE. Desacreditado e superado todo o dogmatismo insustentável diante das exigências intelectuais não se pode refugiar-se no ceticismo forma desencontrada do dogmatismo enfraquecido. Ferreira Santos. sob o título “A terceira Margem da Interpretação” na obra “A Doutrina da Vontade de Poder em Nietzsche” (MARTON in Müller-Lauter. 16). 136-138). 199[?]). ou seria “Vontade de Poder?”. 61 .61 deixar existir o conhecimento? Para Giacoia falta a resposta. Friedrich.

sentí-lo. De Gaos. Santos é um filósofo que deu impulso ao existencialismo origem de novas escolas filosóficas. Eduardo Ovejero y Maury. de Müller-Lauter. preferindo algumas vezes. 62 . Ele preferia ser somente ele e suas idéias que o refletem nessa fidelidade. Ao mesmo tempo Nietzsche foi pessimista e otimista. compreendê-lo. por sua vez. Vontade de Potência. poder. conhecedor de contradições e posições antípodas. de acordo com Mario F. potência. Para Mario. “Obras Completas” publicada em novembro de 1901. mesmo a categoria de Vontade de Poder em Nietzsche com detalhes esclarecedores. tradutor das obras de Nietzsche. p. É preciso ‘ruminá-lo’. no corpo da obra. [199?]. mesmo que em nosso presente trabalho preferíssemos a expressão “Vontade de Poder”.62 Albert traduzem por “La volunte de Puissance” e não por “La Volonté de Pouvoir”. Os italianos por “La Voluntà di Potenza” e não “La Voluntà di Poder” e Angeles H. O prólogo de Mario Ferreira apresenta uma riqueza de conceito que adquire grande importância talvez maior que a própria obra. Nietzsche sem contradições não se trata de Nietzsche porque em Nietzsche negar suas antípodas era negar a sua existência e o próprio homem. o prólogo de Mario Ferreira dos Santos não perde o brilho de sua interpretação mesmo que Scarlett Marton ponha uma forte crítica sobre a autoria de Vontade de Potência. Até a época de Nietzsche só era filósofo quem construísse um sistema bem ordenado e organizado com uma resposta para cada pergunta. Nietzsche. E nunca é demais repetir: É preciso ter algo de Nietzsche”. 64-65. tanto quanto talvez de maior brilho ainda. um dos melhores tradutores do alemão para a língua espanhola. cético e crente. traduz “La Voluntad de Potencia”. na parte reservada a Vontade de Potência Mario inicia com uma advertência: “Ler Nietzsche não é passar os olhos pelas páginas de seus livros. Entretanto. Friedrich. Muito bem escrito. é a interpretação de Scarlett Marton. traduziu-a por “La Voluntad de Domínio”. À medida que foi sendo reconhecido penetra na Filosofia com uma característica muito própria. desde que se desconsidere a mazela sobre a melhor nominação. no seu prólogo “A terceira Margem da Interpretação” em Vontade de Poder em Nietzsche. enriquecendo. No entanto Nietzsche nunca sistematizou nada porque ele próprio acusava os sistemas em Filosofia. 33 33 Segundo Mario Ferreira dos Santos a tradução se fez sobre a obra publicada na primeira edição das Nietzsche. poderio. nem sempre traduziu a palavra “Macht” por domínio. o pensamento de Nietzsche não é sistematizado porque quem passou uma vida com as mesmas idéias e perspectivas ano após ano torturou suas tendências e impulsos além de si mesmo. místico e sensualista. Em seu prólogo.

A Vontade de Potência é somente um esforço para triunfar do nada. 59). é onde o humilde quer ser estimado. de passividade. um de mais e outro de menos. Nietzsche determina-a como a mais forte de todos os instintos. É vontade de mais. uma força não existe mais que em sua tensão momentânea. de aniquilamento. O nitzscheismo não é só uma metafísica da violência. mas uma existência uma e idêntica ante o nada que ameaça. (Nietzsche. vontade de ser e consciência. nem consciência psicológica e moral. Ela gera a luta criando o possível além do atual obedecendo a um apelo possível. uma luta do ser contra o não ser. é por todas as partes idênticas. mas nada existe de substancial. escreve Mario. vencendo a fatalidade e o aniquilamento. A Vontade de Potência é um impulso e o destino de buscar sua contradição. Nietzsche não concebia a Vontade de Potência como objetivação. É uma concepção trágico-dialética. segundo Mario.63 Em Vontade de Potência. Não é somente a luta da vontade de preservar no ser. e por inteiro o que é: é potência. símbolo de um impulso de vida. mas também vontade de ultrapassar. A potência ao mesmo tempo é fenômeno e substância. porque para ele a “Vontade de Potência” não é somente vontade de dominar. a catástrofe trágica. não essência oculta ou coisa em si. Aceitando-se uma concepção mecanicista de mundo a Vontade de Potência seria aceita como o móvel do inorgânico. 63). o impulso de menos é o impulso de morte. Em Lefebvre. É uma Expressão que concretiza o 63 . a que dirige a evolução orgânica. [199?]: 62. diz Mario F. há uma tentativa de unificação. a doutrina atômica em seu conceito de energia é uma afirmação dessa Vontade de Potência no universo. vontade de posse total da existência e de si mesmo. A Vontade de Potência de Nietzsche é um símbolo. Santos. A Vontade de Potência descreve o ser disperso no cosmos em centros de forças disseminadas conscientes e concentrado no espírito. nem objeto. o instinto de conservação. não existe o “eu”. estender e intensificar a vida. de vencer. O impulso de mais seria o da vida. A Vontade de Potência é vontade de durar. Em um nível superior a Vontade de Potência se torna generosidade. o da potência. crescer. de degeneração. o fraco quer ser forte. Nietzsche reduz todas as funções fundamentais orgânicas à Vontade de Potência. a expressão Vontade de Potência é simbólica porque Nietzsche não queria afirmar que no todo há luta entre dois impulsos. Assim. nem verdade. Nietzsche chama de “Vontade de Potência” ao conjunto das manifestações energéticas da existência natural e espiritual à atividade multiforme. inclusive quando se opõe a si mesma e quando a força se opõe à força sem a qual não podia exercer-se (LEFEBVRE. O instante é inteiro o que é inteiro. e a morte.

Não se trata do poder que se impõe pela força. Mario atribui à Vontade de Potência. Müller-Lauter concebe que Nietzsche interpreta a Vontade de Poder como um princípio fundante da metafísica onde são as várias Vontades de Poder concretas como manifestações de um princípio voluntário determinante de toda efetividade: “Nas interpretações de Nietzsche predomina a concepção segundo a qual Vontade de Poder deve ser entendida como o fundante metafísico” (MÜLLER-LAUTER. a força.64 impulso vital. como uma espécie da Vontade de Potência. A Vontade de Potência é um nome humano dado ao acontecer universal como movimento. 65). não ocorrendo o mesmo com a expressão: Vontade de Poder. já que Vontade de Poder. Para Mario Nietzsche usava Vontade de Poder entre parênteses ou ainda grifada quando queria empregá-la no sentido estreito de poder. como faculdade física. idéia esta que não é de se aceitar como criticaremos a seguir. sim. e é por isso que Mario o traduz por Vontade de Potência. a expressão símbolo. Nietzsche usa um termo somente: “Wille zur Macht?” Que significa “Vontade de Poder”. esse impulso interior da força que gera o movimento. [199?]. Mas há. para Mario. é um conceito muito estreito de significados que dá uma causa para equívocos. que é de sentido reduzido. para ele. também a Vontade de Poder. dos físicos que criaram Deus e o mundo. A Vontade de Potência seria uma concepção maior e mais cósmica se adaptando perfeitamente às diversas acepções usadas por Nietzsche. também ao desejo insaciável de mostrar potência e vontade. Daí então preferimos a expressão Vontade de Poder. fundamentado em si 64 . 1997. Nele não existe nada fora do todo e o todo é a Vontade de Potência. é a Vontade de Potência que é uma espécie do gênero Vontade de Poder. como um “princípio substancial de efetividade. Vontade de Poder é. Além disso. é de se entender que ao contrário da afirmação de Mário. Weischedel: Mesmo quando nos recusamos a conceber a Vontade de Poder como “inequívoca” vontade metafísica. Na seqüência ele corrobora seu pensar dando como fundamento paralelo ao seu o de W. mas sim da força psíquica de uma alma forte que não quer senão alimentar sua própria força. definidora do acontecer universal que se manifesta em formas infinitas (NIETZSCHE. ocorre exatamente o contrário do que afirma Mário. potência e existência. 70). no sentido de Schopenhauer – isto é. 64. Mas é de se discordar de Mário.

“com efeito. no múltiplo organizado. no interior de uma efetividade sem transcendência no mundo da “pura imanência”. Mas este pensar na verdade tem origem em Martin Heidegger na obra “Nietzsche – Metafísica e Niilismo” quando chega a seguinte conclusão: Contudo. então. Mas. é Vontade de Poder. as várias Vontades de Poder concretas como manifestações de um princípio unitário. não é verdadeiro. Para Müller-Lauter. 65 . Entretanto Müller-Lauter deseja desenvolver este entendimento de Vontade de Poder. todas as doutrinas do um”. Müller-Lauter faz a mesma indagação que Nietzsche: o que quer dizer. nem é redutível a um”. então. não diferente de como uma comunidade humana é unidade (NIETZSCHE in MÜLLER-LAUTER. “tudo que é simples é meramente imaginário. – ainda assim pode-se persistir em que Nietzsche. A Vontade de Poder como um e múltiplo é como o mundo. além disso. como teológico é metafisicamente recusado por Zaratustra que diz “ser má. se a metafísica Nietzschiana não interpreta apenas o ser enquanto um valor a partir do ente no sentido da Vontade de Poder. Sendo um. 1997). O que é verdadeiro. Na questão sobre a unidade. unidade para Nietzsche? Nietzsche responde: Toda unidade só é unidade como organização e concerto (Zusammenspiel). isso vai forçar Müller-Lauter a pensar também o “um” da Vontade de Poder: Só uma multiplicidade pode ser organizada em unidade. Jaspers considera que Nietzsche substancializa o autêntico ser como Vontade de Poder. se. 71). 1997. finalmente. pois. 1997. Trata-se. Conforme Müller-Lauter. este é múltiplo. sob esse aspecto. para Nietzsche o “múltiplo” se deixa com certeza compreender a partir do “um”. nem é um. 70. 74. Quando Nietzsche escreve sobre o mundo ele já serve a Vontade de Poder e nada mais. determinante de toda efetividade” (WEISCHEDEL in MÜLLER-LAUTHER. (HEIDEGGER. estabelecer uma ligação com aquilo que foi exposto por ocasião da “segunda prova” de Schlechta.65 mesmo”. 265. Já Heidegger parte da unicidade da Vontade de Poder que se mantém e se supera a si mesma. então ganha voz de tal modo em meio a esse querer superar o mais extremo enredar-se da Metafísica no impróprio do niilismo que esse enredar-se se fecha para a sua própria essência e assim transpõe o niilismo em forma de superação do niilismo para o efetivo da sua inessência desprendida. Também o um é para Nietzsche de modo algum “o simples”. mas pensa a Vontade de Poder enquanto o princípio de uma nova avaliação além de entender e assumir essa nova avaliação como a superação do niilismo. pensa. Posso. 2000). Então se proíbe qualquer concepção que a efetividade não seja considerada como unidade metafisicamente fundada (MÜLLERLAUTER. o único mundo não é nada mais que Vontade de Poder. 70). de “quanta de poder”.

A mim mesmo: há uma porção de consciência e de vontade em todo complicado ser orgânico. ou que de dois se tornassem um. assim é possível o aparente ato de vontade. então a Vontade de Poder. mas não de “unidade” porque este é apenas organização. e ele está convicto que ela engana (MÜLLER-LAUTER. no sentido de Nietzsche. Nietzsche emprega o singular em tripla significação: 66 . 73-75). Com efeito. Conforme Müller-Lauter. para Nietzsche o “um” não é. sob a ascendência da Vontade de Poder dominante. Em Nietzsche não somos uma multiplicidade que se imaginou unidade. (MÜLLER-LAUTER. O múltiplo dos quantas de poder não pode ser entendido como pluralidade de dados últimos quantitativamente irredutíveis. Por essa consciência a formação de domínio que sou se dá a entender para si mesma como um: pelo simplificar e esclarecer. o mundo é uma firme brônzea grandeza de força.66 A Vontade de Poder é multiplicidade das forças em combate umas com as outras. Haverá contradição em Nietzsche? Se a linguagem é dentro da razão. Todavia a “linguagemrazão” é para Nietzsche “uma velha senhora mentirosa”. A consciência do intelecto serve como meio com o qual eu “me engano”. portanto falsificar. a unidade é uma organização como organização. 1997. Nietzsche fala o mundo como jogo e contra-jogo de forças ou de Vontade de Poder. mas nossa consciência superior se mantém fechada aos outros. 1997. A linguagem simula unidades. sim. e. só podemos falar em unidade no sentido de organização. Também da força. 7680). Todavia o significar é de essência mais originária do que o falar que é maneira de expressar do “querer-poder”. ele forma “um quantum de força”. Mas esse quantum só é contraposição de quanta. Deslocamentos de poder no interior de organizações instáveis permitiam que de um “quantum de poder” adviessem dois. 1997). porque a unidade de formações do domínio em que está inserida é uma multiplicidade de quanta de força que não tem nenhum ser. não como pluralidade de “mônadas” indivisíveis. Mas se essas aglomerações de quanta de poder ininterruptamente aumentam e diminuem então se pode falar de “unidades continuamente mutáveis”. 74. Nietzsche tem em vista multiplicidades fáticas de Vontades de Poder que significam um sentido de simplicidade ou estabilidade também formações complexas incessantes e mutantes em que ocorrem contraposições de quanta de força em várias graduações (MÜLLER-LAUTER. há que se perguntar em que sentido não há ser? Para Nietzsche “ser” é uma ficção vazia e com isso acredita poder se reportar a Heráclito e aos Eleatas. E ainda. Na verdade.

a única qualidade já é dada em tais quantitativos particularidades. Mas elas já são “falsas” em razão de sua universalidade. Tornar visível essa essência é a tarefa de uma “morfologia” da Vontade de Poder. Toda Vontade de Poder é dependente de sua posição a outra Vontade de Poder para ser Vontade de Poder. Nietzsche exprime que a Vontade de Poder é a única qualidade que se deixa encontrar (MÜLLER-LAUTER. 1997. nesse caso é manifestação do homem como Vontade de Poder e significa. Para Nietzsche todos os fins. ou é exteriorizada como arte. e que o mais profundo instinto permaneceu desconhecido e oculto que seguiu seu mandamento porque somos esse mandamento. ao contrário. sentidos. Se ele escreve “a Vontade de Poder” ou “Vontade de Poder” com certeza ele pensa sempre a única qualidade.67 1) A primeira designação de Vontade de Poder é relacionada à totalidade do efetivo: o mundo é Vontade de Poder e nada. A Vontade de Poder pode ser entendida como um fundamento do mundo. 1997. metas. Para ele. mas apenas quando o universal é atribuído “existência”. Em Nietzsche. não só essência da efetividade. desconsiderando os casos nas quais com designação “a Vontade de Poder” ele destaca uma Vontade de Poder em sua constituição particular. Nietzsche pode empregar o singular em vista de determinações universais com as quais as multiplicidades são reunidas em âmbito ou adquirem significação de algum outro modo abrangente. mas um efetivo de sua efetividade. Em “Ensaios de uma Transvaloração de todos os Valores” Nietzsche mostra as maneiras de se entender a Vontade de Poder. que produz vida. O todo é designado com o nome de “Vontade de Poder”. Quando Nietzsche fala de Vontade de Poder como qualidade única então ele não usa o artigo. 2) Na segunda significação do “modo de expressão no singular” a Vontade de Poder é única qualidade do efetivo. Esse universal é apenas fumaça porque a realidade consiste a cada vez no particular jogo-total de ações e reações operado no interior de complexas formações de centros de força (MÜLLER-LAUTER. além disso. as configurações e determinações universais não são falsas apenas na medida em que nelas conteúdos particulares são reunidos em unidades. diz Müller-Lauter. 67 . a qualidade não existe por si. 81). 90). 3) A terceira significação que o singular adquire em Nietzsche é uma Vontade de Poder como particular Vontade de Poder distinto de outra. são maneiras de expressão e metamorfoses de uma vontade inerente ao acontecer à Vontade de Poder. 84-88. ou se efetiva como humanidade. sem isso não poderia ser qualidade. não como sujeito ou quase sujeito.

conclui com Nietzsche. 68 . a Vontade de Poder é uma determinação essencial. jogo de posição e concertos de muitas Vontades de Poder. 1997. partindo de duas afirmações: o mundo seria um múltiplo. 92-93 e 95-96). Então. MüllerLauter. a uma Vontade de Poder cabe a efetiva unidade apenas como concerto na oposição à outra Vontade de Poder. além disso. O resultado das reflexões é que existe uma multiplicidade de Vontades de Poder. Vontade de Poder também poderia ser uno e múltiplo. Aquilo que Nietzsche denominou uma Vontade de Poder é de fato. de todo modo organizados em unidade.68 Falar de uma Vontade de Poder que se submete a outra é uma simplificação. E aquela vontade está inserida na contraposição e concerto de uma Vontade de Poder mais abrangente. o mundo seria Vontade de Poder e nada mais. o mundo seria um e múltiplo (MÜLLER-LAUTER.

dizem os historiadores é a deusa Clio guardiã da memória. Por outro lado. 19). Segundo Hesíodo. Filha da Memória e de Zeus. Clio tem seu berço no cume do poder terrestre e na representação do passado. senhor do poder do Olimpo. ou seja. Para os gregos. É sumariamente necessário reconhecer que a história anda aos saltos e trancos. ao mesmo tempo. Sem memória não haveria as artes. a mãe Memória é a geratriz das artes. a terra da liberdade completa. Só a deusa Clio poderá “conjurar a quimera da origem”. a primeira delas (GIRON. têm memória coletiva porque para a loucura a história não existe (GIRON. e não em linha reta como equivocadamente trabalham alguns historiadores.] sob o ponto de vista histórico. Loraine Slomp GIRON. (FOUCAULT. os loucos. 2000. nem a História. para os povos que possuem escrita a memória perde muito do seu significado. da mesma forma como o psicólogo pode conjurar a sombra da alma. no artigo “Da Memória Nasce a História” escreve que nos povos préhistóricos e povos ágrafos a memória tem papel de suma importância porque é depositária do passado.. sendo. CONCLUSÃO.69 6. a deusa Memória (Mnêmesis) é a “rainha das colinas de Eleutera”. A história. o interior da palavra memória guarda uma deusa: Mnêmesis. De forma poética e didática ela explica sobre a origem da memória e da Deusa Clio: [. Foucault entende que o genealogista deve superar seus limites através da história. A genealogia é uma forma muito especial da história. num vai e vem constante. nasce Clio (a História). 23). porém. garantia de manutenção das lembranças. Memória nasce dos amores do Céu (Cronos) e da Terra (Gea). muitos menos. Da união nascem ainda as nove musas. 1999. Da ligação entre Zeus e Mnêmesis. a deusa protetora da justiça e da vingança. 24). O que anuncia a história efetiva? Ela é anunciadora e monitoradora do corpo e perscrutadora da decadência e outros afazeres diversificados e importantes por isso a história não pode se limitar a continuar sendo serva da filosofia e da narração da verdade e do valor. A genealogia da própria história se esboça em vários momentos num sentido 69 . a loucura não tem passado nem memória. O pastor de memória era o encarregado de repassar os conhecimentos históricos de seu povo para seu sucessor e este realiza a união entre o fato e a sua representação mantendo vivo o passado do seu grupo. É importante salientar que os loucos vivem sem o tempo das suas alucinações que não são os da memória.. É a memória que realiza a ligação entre o mundo real de Gea e o mundo da representação de Cronos. 2000.

70 histórico à história dos historiadores. como Vânia Dutra de Azeredo. a fim de se apoderar de novos súditos (NIETZSCHE in AZEREDO. Nem Deus. sendo um inimigo natural de toda saúde. mas é só. por exemplo” (NIETZSCHE. Para ele os anarquistas estão sempre em oposição aos democratas. 2000. ensina com mestria: O sacerdote ascético. nem mestre. 238 e 294). § 97. os aristocratas nobres e os aristocratas sacerdotes. Para Carlyle. Os socialistas agrupados numa resistência tenaz a toda pretensão individual. 147). a genealogia das origens mostra a moral do senhor e a moral dos escravos. formador de rebanhos. Para ele acima destes está a moral dos nobres. Ele chega a ter traços do seu pensar com Thomas Carlyle neste cruzamento. a quem devemos estar subordinados e rendermo-nos totalmente. cuja vontade sobrepõe-se sobre as nossas. Mas é muito antes da moral dos escravos que se inicia uma luta entre senhores. aquele que traz um bem-estar para a humanidade como um super-homem. ambições e amores ou seu ódio. historiador e publicista quando este chega à última forma do heroísmo que pertence à realeza. e sem maior oposição a certos filósofos e entusiastas do socialismo que querem a “sociedade livre” mas na realidade. direito particular ou privilégio. instintivamente são contra toda forma de sociedade que não seja o rebanho autônomo. moral: de senhores e de escravos e se preocupa com anarquistas e socialistas. aos ideólogos revolucionários pacíficos. Nietzsche critica Carlyle a quem chama de uma “loquacidade por íntimo deleite com ruído e desordem das emoções: em Carlyle. Ele lutará de todas as formas para semear a dor. no fundo resistência a todos os direitos porque com a igualdade ninguém precisa de “direitos”. diz uma fórmula socialista. Napoleão é o primeiro e verdadeiro Democrata (CARLYLE. negando os conceitos de “senhor” e “servo”. 1964. defende-os dos sãos e da inveja que aqueles inspiram. mas o historiador é insensível às emoções e por profissão terá o prazer da descoberta mesmo que esta lhe venha contrariar seus desejos. o homem superior. Assemelha-se ao pensamento de Thomas CARLYLE (1795 – 1881). 2002. O herói é o condutor de homens. É por isso que a investigação histórica de qualquer ciência desnudará as mentiras e verdades de sua evolução. o seu mundo desconhecido para ser conhecido. a divisão e a contradição. Saindo da própria história e entrando na história da moral. ambos possuem um começo impuro e de mistura. genealogia. Em sua filosofia Nietzsche passa pela história. Mas Nietzsche não se preocupa somente com a moral de sacerdotes ou de escravos. 122). 70 . Nietzsche.

A aparência neste escrito é de que compara sacerdotes com mulheres e homossexuais. Isso se verifica na noção das forças e Vontade de Poder. censurando o homem forte como proscrito. a remissão das culpas do passado. o negativo. mas com relação ao senhor. Ali ataca os sacerdotes que unidos no grito e impaciência da compaixão. Mas. porque se dá mediante a transmutação dos valores. Para ele é possível. expressão de dominação. O escravo utilizando-se do ideal nega a imposição do senhor para conseguir uma aparente afirmação de si mesmo. porque permite ao leitor ver um preconceito contra mulheres e homossexuais. Como dizem os socialistas até ao homem da “sociedade livre”. E critica violentamente essa degenerescência e amesquinhamento do homem que vai até o perfeito animal de rebanho. desvios ou tentações. com isso. Com isso Nietzsche ataca com força a moral sacerdotal a que considera um tipo decadente na sua busca de destruição da moral dos senhores e que força o homem ao seguir os seus princípios degenerados. Nietzsche se considera como aquele que ergue o 71 . A imagem do escravo passa a ser invertida porque faz da afirmação uma negação. Senhor e escravo se constituem a partir da relação entre forças diferentes. no ódio ao sofrimento. O cristianismo toma partido do fraco. de subjugação. e do escravo. Sem descontarmos o contexto e a época em que vive Nietzsche é escandalosa esta colocação. em que uma é dominante e outra dominada. e por isso deseja a transmutação dos valores. como se esta fosse a própria moral. O cristianismo ataca e renega os instintos fundamentais do homem superior. enfim unidos na crença da comunidade como salvadora do rebanho. na incapacidade quase feminina de poder presenciar. Nietzsche sabe que a degeneração total do homem é aquilo que é considerado pelos socialistas como “homem do futuro”. Nietzsche ataca o cristianismo porque ele trava uma guerra de morte contra este homem superior. a crença em “si”. a consolação do presente. a esperança do futuro. Em sua mente só a transmutação dos valores o tornará senhor. Nietzsche vê a vingança dos sacerdotes como imaginária. unidos na sua fé moral da compaixão comunitária. o próprio escravo almeja a inversão. do incapaz e transforma em ideal a oposição aos instintos de conservação da vida saudável. Não há escravo que não almeje ser senhor. E assim sendo. o cume alcançado. O cristianismo corrompe a faculdade das naturezas intelectualmente poderosas ao ensinar que os valores superiores do intelecto não passam de pecados. as forças fazem do senhor. a bestialização do homem dos direitos iguais e reinvidicação igualitária porque certamente ninguém é igual. ele destila o mal.71 Nietzsche ataca freqüentemente a moral cristã. de poder fazer sofrer.

espiritual e venenosa. numa interiorização do homem de tal forma que cresce a sua alma. Eu lhes desferi. 72 . Por sua posição filosófica alguns autores consideram Nietzsche irracionalista.72 pano da corrupção e decadência dos homens. Ele entende essa corrupção como a decadência de todos os valores nos quais a humanidade deposita seus anseios e valores. O mundo interior no início fraco se expande e se estende em profundidade. Para Marton. Este canalha ousa pronunciar o nome de Zaratustra. Então. Porém uma nota esclarecedora se encontrou entre suas cartas póstumas. como sinal de agradecimento.. e voltam-se para dentro. o pensamento nietzscheano não pode ser desvinculado da doutrina do “Eterno Retorno”. e outros se aproveitam de sua filosofia deturpando-a e tomando-a também como Nazista. Ela diz: Há algum tempo um certo Theodor Fritsch de Leipzig me escreveu. É essa a luta de Nietzsche contra a moral cristã. discordamos porque em nossas buscas nas obras mencionadas verificamos que Nietzsche pretendia fundamentar e provar teoricamente o eterno retorno. (NIETZSCHE in MONTINARI. Um nobre tem reverência para com seus inimigos porque não suporta um inimigo que não pode desprezar e ao mesmo tempo tenha de venerar. e em 1930 tem ascensão o nazismo ao poder. tornando-se “deputado nacional socialista” e a qual Nietzsche responde para que ele pare de remeter-lhe o “Antisemitische Correpondez”. São exatamente trinta anos depois da morte de Nietzsche quando as suas obras já podiam ser publicadas sem necessidades de autorização familiar ou direito autoral. Por outro lado. Theodor Fritsch viveu de 1852 a 1933 e era destacado expoente do anti-semitismo de seu tempo. No entanto. sinistra. vai contra todos os instintos do homem. largura e altura na mesma medida em que o homem foi inibido em sua descarga para fora. E todos os instintos que não podem se descarregar para fora. e nessa impotência o ódio toma proporção. os sacerdotes são os maiores inimigos da guerra porque são os mais impotentes.. Aqui fica clara a posição de Nietzsche com relação ao nazismo. diz Nietzsche. mas não necessariamente da vinculação do pensamento Nietzscheano ao nacional-socialismo. Para ele a moral superior é a moral do nobre. Nietzsche não admite qualquer fundamento teórico a respeito. Nietzsche faleceu em 1900. um belo pontapé como carta. 1999. Nietzsche entende que por suas fraquezas. Nojo! Nojo! Nojo!. 55). Conforme ela. é uma época proliferadora das obras Nietzscheanas que coincide com a ascensão de Hitler e do nazismo ao poder. A moral cristã. Não existe na Alemanha um grupo mais cínico e cretino do que estes antisemitas.

Embora não se possa provar as premissas. 71). Nietzsche vem conciliar os opostos. que adotam essa linha interpretativa. Suprime o dualismo entre mundo verdadeiro e mundo aparente julga que o homem é parte 73 . a doutrina não pode ser provada. vem recusar que existam opostos e com isso descarta a Dialética. quem explica é a própria Scarlett Marton: Tomando o pensamento do eterno retorno como meio de purificação. Eles não pregariam um tipo de comportamento determinado nem imporiam um estilo de vida específico (MARTON. descarta os mundos hipotéticos. Tu viverás de novo de qualquer maneira. se no Eterno Retorno a tarefa consiste em viver de tal maneira que devas desejar viver de novo. porque como crítico negava o princípio de autoridade como base de uma doutrina.73 Daí que se ele abandona essa tentativa e recorre ao princípio de autoridade. põem-se de acordo quanto a este ponto: o foco da doutrina nietzschiana reside nas questões existenciais – e não nas científicas (MARTON. Só queremos que algo bom retorne sem cessar e para isso deve-se viver bem. Mas o imperativo existencial é apenas um modo como o eterno retorno pode ser visto não se tratando de coisa diferente. Mas Marton não abre mão de que a doutrina do eterno retorno funciona pelo princípio de autoridade. conforme Marton isso seria em Nietzsche uma autocontradição. exercício de introspecção. Em outra passagem MARTON coloca: Houve quem argumentasse que tanto imperativo categórico quanto o eterno retorno exprimiam uma exigência ética: a de o individuo submeter todas as suas ações a uma norma. por isso o “Eterno Retorno” também teria fundamento teórico. com a travessia do niilismo. melhor ainda. Entendemos que Nietzsche nunca foi dogmático ou autoritário e ao contrário sempre criticou o principio de autoridade. Com isso. O eterno retorno é amedrontador. 73). os comentadores. um niilismo que aponta a falta de sentido de todas as coisas. Por outro lado. Segundo ela. também não é possível contrariá-las. mas também não pode ser desmentida. alivia o peso da esperança vã com a morte de Deus e a afirmação dionisíaca do mundo. 2000. A versão cosmológica de Nietzsche parte de duas idéias principais: que a força é finita e o tempo é infinito. que tanto combatia. No entanto a doutrina do Eterno Retorno adquire sentido real e teórico quando torna possível a sua superação pelo “amor fati”. É. guia de conduta ou “imperativo existencial”. prova de coragem. 2000. não sendo somente isso. é para alguns. já que cada sofrimento também se repetirá. pois um imperativo existencial para a ação. porém.

2000. Por exemplo. Assim. onde a história é pouco mais que o nada. Para uns Vontade de Potência. queiramos ou não. podemos agora adentrar sobre os conhecimentos do princípio da “Vontade de Poder”. não é nos limites estreitos e curtos da história que o eterno retorno tem lugar. Vontade de Poder. Daí as questões: o eterno retorno: tese cosmológica? Imperativo ético? As questões perdem o sentido. para Wolfgang Müller-Lauter34 já dizia que Vontade de Poder não é um caso especial do querer ou uma vontade “em si”. ou “como” tal uma abstração. o homem deixa de ser um sujeito frente aa realidade para tornar-se parte do mundo”. No entanto. O eterno retorno é mais que tese cosmológica. é sim. Sustentar que. Ela não existe factualmente e por isso todo querer é. Então o eterno retorno é muito mais que imperativo ético. é o monstruoso mau gosto da consciência. Negando a oposição entre ego e factum. menos ainda a memória ou a consciência. Enfim. ninguém supunha alteração ou mudança no status vindouro. Destronado. é mais do que uma tese cosmológica. 74 . na passagem de uma série de acontecimentos a outro. ninguém deverá contar com a evolução ou progresso. é exortar que se viva como se esta vida retornasse inúmeras vezes. nem foi feito à imagem de Deus. quer queiramos ou não. Nada se mantém. acredita que o ser humano partilha o destino de todas as coisas. Vontade de Poder? Agora que buscamos auxílio no pensamento nietzscheano já se pode trabalhar com nossas próprias idéias apoiada nas dele. a vida retorna inúmeras vezes e não se limita apenas a descrever o mundo. Por outro lado. O que é isso. (MARTON. ainda é Scarlett Marton quem dá o golpe final decidindo em definitivo a questão sobre o eterno retorno: “O eterno retorno é parte constitutiva de um projeto que acaba com a primazia da subjetividade. Adquire forma de teoria porque. Exortar a que se vida como se esta vida retornasse inúmeras vezes não se restringe a advertir sobre a conduta humana. Assim o homem “não é a medida de todas as coisas”. porque ele próprio já nos ensinou isso. é mais do que um imperativo ético. Marton destaca com propriedade: O eterno retorno: tese cosmológica ou imperativo ético? A questão deixa de ter sentido. Marton citando Nietzsche. na infinitude do tempo.74 do mundo e nele se espelha o todo. um 34 Ver capítulo “A interpretação da Vontade de Poder como Princípio Metafísico” neste texto. citando Nietzsche. O homem não é criação divina. esta vida retorna inúmeras vezes não se limita a descrever o mundo. para outros. Homem e mundo não podem mais se opor e devem estar em harmonia sob pena da morte do homem. e também os outros autores. princípio negador do mundo. ninguém espere sequer continuidade. o homem é contra o mundo. 93).

78). Ao perceber o mundo como campos de força instáveis em permanente tensão. irradiando Vontade de Potência. Vontade de Poder procura dominar e alargar incessantemente seu âmbito de poder. o filósofo acaba por ressaltar seu traço perspectivista. Extravagâncias: Ensaios sobre a filosofia de Nietzsche. e justamente a partir da primeira lei da termodinâmica espera refutar a segunda lei. resistindo. Marton explica que Nietzsche conheceu os rudimentos do conceito de entropia de Clausius. Se o número dos estados porque passa o mundo é finito e se o tempo é infinito todos os estados que hão de ocorrer no futuro já ocorreram no passado. Sobre o conceito de entropia já discutimos no capitulo cinco. Daí se segue que tudo já existiu e tudo tornará a existir. Scarlett. sua doutrina do eterno retorno estão vinculadas à teoria das forças e ao conceito de Vontade de Potência. é um efetivar-se agindo em outras forças.35 O entendimento de Nietzsche de fato é questionável porque tem amparo contra a teoria de Clausius baseada na perda de calor do corpo terrestre. 75 . Resulta que “o princípio da conservação da energia exige o eterno retorno” (MARTON. Elas relacionam-se diferentes. dispõem-se de outra maneira. mas eterno: é o quanto basta para formular a doutrina do eterno retorno. esse algo-posto. Para ele a força só existe no plural: não é em si. de sorte que o universo tende para um estado de equilíbrio termonuclear ou a um estado final. Ele entende que Vontade de Poder e pluralidade de forças são conceitos com valor cognitivos.75 querer-algo. Alargamento de poder se perfaz em processos de dominação (MÜLLER-LAUTER. onde a totalidade da energia cósmica está continuamente perdendo-se em calor. ela é desprovida de caráter teleológico. 1997. elaborados por uma perspectiva determinada. mas na relação com outras. é o que Marton conclui dos fragmentos póstumos e escreve: Finito. até o limite. não é algo. Não há objetivos a atingir e por isso não admite trégua nem termo. mas o mundo é eterno. melhor. 2000. Não há finalidade. Conforme sua nota de rodapé na pág. a todo instante estão em combate entre elas fazendo surgir novas formas e configurações. todas elas finitas. É a partir desse principio que Nietzsche se propõe a criticar a idéia de entropia. essencial em todo querer é: poder. exercendo quando pode. finito é o número de combinações entre elas. 54). 78. Com a teoria das forças descarta o atomismo moderno e faz opção pela energética como a doutrina do 35 Marton. Das suas concepções cosmológicas Nietzsche não pode aceitar que o mundo chegue a um estado final. Todos os dados são conhecidos: finitas são as forças. mas um “agir sobre”. Nietzsche compreendeu tão bem a idéia que chega a argumentar contra ela. Por outro lado tudo que existe é constituído por forças. mas privilegiada porque manifesta o perspectivismo do mundo. esta aparece como explicitação do caráter da força. A força simplesmente efetiva. A concepção cosmológica de Nietzsche.

Se a veracidade não dispõe mais de critérios para distinguir verdade e inverdade. Nada é senão. sendo. Mas em momento algum ocorre só a existência de uma única força criadora de tudo que existe. nunca cessou de perecer. no desvanecimento de sua origem. nem se confunde com um sistema. ele nunca começou a vir-a-ser. e se não é em função da verdade que podemos perguntar. pois à Vontade de Poder não se pode atribuir nenhuma intencionalidade. vir-a-ser: o mundo não teve início nem terá fim. impulso de toda força a efetivar-se e com isso cria novas configurações em relação às demais. Como pluralidade de forças. se auto-superam e fazem surgir novas formas de força e potência. Na Vontade de Poder acham-se subsumidos dois outros conceitos. não é nada que vem a ser. para que então o conhecimento? Desacreditado e superado. aspectos que o conceito de Vontade de Poder recobre. É a existência da natureza. A força é um efetivar-se. subsiste. Não houve momento inicial. plurais em movimento incessante que tornam suas perspectivas infinitas. o dogmatismo é insustentável diante das 76 . e ao mesmo tempo. o mundo não se constitui no caos. O mundo é eterno. portanto força plástica criadora. O caráter essencialmente dinâmico da força impede que ela não se exerça e seu querer vir-a-ser impede que ela cesse o combate: o mundo se apresenta como pleno vir a ser e a cada mudança se segue outra. O resultado de uma experiência como Vontade de Verdade não é a obtenção de uma “verdadeira veracidade” que se elevando a um nível superior de desenvolvimento que consistiria na desconstituição. Uma vontade atua sobre outra vontade como todo processo mecânico desde que nele atue uma força. Vontade de Poder é. A “vontade” só pode atuar sobre outra vontade. apolíneas e dionisíacas. a cada mudança segue-se outra. as pulsões cósmicas. ele não é um vir-a-ser. a cada estado sucede-se outro. então. é precisamente a força de vontade. é o efeito da vontade. não pode atuar sobre a matéria. essa concepção faz da força uma energia e posicionando-se contra o mecanicismo e substituindo a hipóteses da matéria pela hipótese de força. nem sobre o “nervo”. A todo o momento força e Vontade de Poder vencem resistências.76 eterno retorno posiciona-se contra o mecanicismo e com a segunda lei da termodinâmica contrapõe-se a lei da entropia. A cosmologia nietzscheana indica que há forças finitas. com isso concebe o mundo como pleno vir-a-ser. não absoluta porque é o eterno retorno. O resultado da experiência se expressa como auto-superação da Vontade de Verdade num movimento que impele além dela mesma.

Concluindo: partindo-se de duas afirmações em Nietzsche. Pode-se. Ao meu juízo. O impulso de mais seria o da vida. o impulso de menos é o impulso de morte. a Vontade de Poder é uma determinação essencial a uma outra Vontade de Poder e cabe à efetiva unidade apenas como concerto na oposição a outras Vontades de Poder. de degeneração. poderá também ser aceita como o móvel do inorgânico. sob a ascendência da Vontade de Poder dominante. o mundo seria Vontade de Poder e nada mais. o da potência. mas não de “unidade” porque esta é apenas organização. entre outras formas.77 exigências intelectuais não se pode refugiar-se no ceticismo forma desencontrada do dogmatismo enfraquecido. o mundo então seria um e múltiplo. Falar-se de uma Vontade de Poder que se submete a outra é uma simplificação. a expressão Vontade de Poder é simbólica porque não se quer apenas afirmar que no todo haja luta entre dois impulsos. de passividade. Não é isso. O resultado dessas reflexões é que existe uma multiplicidade na Vontade de Poder. o que vier depois provavelmente será plágio. logo. Toda fundamentação teórica com base em Vontade de 77 . Nietzsche querendo e almejando a liberdade de escrita e de idéias fugindo da angústia de toda e qualquer construção de um sistema conceitual nos deixa esse legado que se chama Vontade de Poder. aqui não se usa o artigo. Na segunda significação do “modo de expressão no singular” a Vontade de Poder é a única qualidade do efetivo. Mesmo que a autoria de “Vontade de Potência” não seja atribuída a Nietzsche. Assim. de aniquilamento. Fala-se de Vontade de Poder como qualidade única. Toda Vontade de Poder é dependente de sua posição a outra Vontade de Poder para ser Vontade de Poder. além disso. Há multiplicidades fáticas de Vontades de Poder que significam um sentido de simplicidade ou estabilidade. mas também há formações complexas incessantes e mutantes em que ocorrem contraposições de quanta de força em várias graduações. Então. um de mais e outro de menos. Aqui se fala do mundo como jogo e contra-jogo de forças ou de Vontade de Poder. Vontade de Poder também poderia ser uno e múltiplo. Vontade de Poder é de fato jogo de posição e concerto de muitas Vontades de Poder. A Vontade de Poder. o mundo seria um múltiplo. de todo modo organizados em unidade. empregar o singular em vista das determinações universais com as quais as multiplicidades estão reunidas em âmbito ou adquirirem significação de algum outro modo abrangente. Essas aglomerações de quanta de poder ininterruptamente aumentam e diminuem e então se pode falar de “unidades continuamente mutáveis”. então. o certo é que “o conceito é de Nietzsche”.

física. A Vontade de Poder se liberta de seu criador adquirindo vida própria. 2000. Rio de Janeiro: 1962. psicologia. de Habermas. 78 . não sistematizável “stricto sensu” que sempre inventa novas formas de ser e de estar no mundo. 2001. é que a Vontade de Potência é espécie do gênero Vontade de Poder que por sua vez é o início de um futuro promissor de uma idéia que pode ser aplicável sobre qualquer ciência ou conhecimento. Ela poderá ser aplicada nas mais diversas disciplinas e teorias por educadores e educadoras que querem problematizar. que direta ou indiretamente aceitam a categoria da Vontade de Poder. no conhecimento onde quer que seja necessário. matemática. para ser aplicada nas ciências. Com isso ela explica muitas coisas que a ciência moderna. “Vontade de Poder”. Também Boaventura Santos37 na esteira de Kuhn avança na proposta de sua obra “Introdução a uma Ciência Pós-moderna". Introdução a uma ciência pós-moderna. Poderia ser a preparação de uma nova ciência pós-moderna? Thomas S. 38 Dicionário Escolar Latim Português – Ministério da Educação e cultura. Santos. E como forma criadora a Vontade de Poder permanece ou sai da área da filosofia. Gilles Deleuze e Felix Guattari: autores que trabalharam muito a questão da subjetividade e estética na formação do sujeito. e que a ciência pós-moderna que também não consegue explicar. não conseguiu. Thomas S. Kuhn36 já havia escrito na obra “A Estrutura das Revoluções Científicas” sobre as crises e emergências das teorias científicas modernas. se tornando patrimônio do mundo. educação. etc. A Estrutura das Revoluções Científicas. Uma possibilidade da aplicação da categoria “Vontade de Poder” está avançando na esteira de Michel Foucault. Sua obra é rica à menção sobre Vontade de Poder conforme se verificou nesta pesquisa. A conclusão final a qual se chega. 36 37 Kuhn. No entanto. Um “tertius genus” 38 ou terceira via que coloco em questão é a de que a Vontade de Poder é capaz de oferecer problematizações e gerar soluções para questões ainda não resolvidas pela ciência Moderna e Pós-moderna. É um conceito ou categoria indefinível. entre esses modos se constata a razão comunicativa. exemplificamos. a qual Nietzsche combatia.78 Poder deverá. sem querer enumerar uma lista infindável. apresentar questões e oferecer sugestões dentro de um discurso coerente fugindo da razão instrumental e buscando outros modos de compreender a razão. libertada por sua própria força e poder é perceptível na vida diária e em qualquer ato ou fato. na origem. No entanto em nenhum deles é destacada uma teoria ou categoria como essa importante noção de Vontade de Poder. A criatura. Boaventura de Souza. biologia. ser atribuída a Nietzsche.

(III) Suscita também dúvidas acerca do repetido processo por meio do qual o iluminismo se torna reflexivo (IV). Jürgem. o esclarecimento esconde uma vontade de potência (o grifo é meu) que em última análise. ao vincular a liberdade subjetiva à razão ‘científica. O Discurso Filosófico da Modernidade. Mas em nossos estudos encontramos a obra “O discurso Filosófico da Modernidade” do próprio Jürgen Habermas que não vê com bons olhos a utilização conjunta da “Vontade de Poder” e “Teoria Crítica” ou mesmo da “Vontade de Poder” em sua teoria da “Razão Instrumental”. 1990 p. argumenta que deveríamos tentar preservar o “impulso emancipatório” que subjaz ao esclarecimento. (II) O grande modelo para uma auto-ultrapassagem totalizante da crítica da ideologia foi Nietzsche. segundo ele. além construir as origens genealógicas da Vontade de Poder. Habermas39 crítica a “Dialética do Iluminismo” de Horkheimer e Adorno colocando suas objeções: (I) A partir da apreciação da modernidade nasce o problema que me interessa acerca da situação actual: porque é que Horkheimer e Adorno querem fazer o iluminismo iluminar-se radicalmente a si próprio. Michael Peters. situando a si próprio na tradição da crítica social marxista. Finalmente. pois sua razão. refletida no trabalho da Escola de Frankfurt.79 a questão da compatibilidade entre a Vontade de Poder de Nietzsche e a Razão Comunicativa de Habermas parece de difícil solução. especialista em estudos de Pós-modernismo e Pós-estruturalismo nesta esteira apresenta sua tese da seguinte maneira: Habermas (1981. 79 . meu desejo é que possa se proliferar críticas a favor ou contra 39 Habermas. p. Dom Quixote. já que este afirmava estar ela imune ao esquema do poder. pode-se concluir que Vontade de Poder e Dialética dificilmente poderão interligar-se e que não existe um vínculo entre a Vontade de Poder e a razão comunicativa de Habermas. Na obra “Dialética do Iluminismo” Horkheimer e Adorno inserem a “Vontade de Poder” na razão instrumental. à luta sem fim entre as “Vontades de Poder”. 19). prende o individuo ao aparato tecnológico (O grifo é meu)”. Peters quer provar que o esclarecimento trás embutido em si mesmo a própria Vontade de Poder e explicita: “O pensamento pós-estruturalista sustenta que. se assenta sobre o fundamento do diálogo e da busca do consenso e não da luta e da guerra. Com isso. 110. A comparação de Horkheimer e Adorno com Nietzsche não se limita a elucidar sobre as direções contrárias nas quais as duas partes levam a cabo a sua crítica da cultura.

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