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Borges, Cortázar e os bestiários latino-americanos

Eduardo Jorge de Oliveira (UFMG)

Este texto tem como ponto de partida os bestiários medievais e a tentativa

de esboçar uma definição direcionada aos estudos literários em jogos ficcionais de

catalogação de animais reais ou imaginários dentro da literatura. De modo mais

específico, recorremos à definição de Virginia Naughton, em seu livro Bestiario

medieval:

El “bestiario” constituye uno de los tópicos alegóricos fundamentales de la Edad


Media, y a partir de su lectura es posible reconstruir las relaciones que el hombre
medieval mantenía con la naturaleza, y al mismo tiempo nos permite localizar su
posición en el esquema general de las cosas creadas. Junto a esta zoología
simbólica, debe situarse también aquella medicina imaginaria, y al igual que los
bestiarios, la base de su credibilidad y amplia aceptación surgía de combinar
algunas observaciones empíricas con propósitos morales y religiosos, y todo ello,
en el marco de una profusa y abundante imaginería (NAUGHTON, 2005, p. 18).

Especificamente na literatura hispano-americana, dois escritores argentinos

criaram obras importantes, cada um a sua maneira, apropriando-se desse tipo de

literatura e a reutilizando de maneira criativa. Foram eles: Jorge Luis Borges e Julio

Cortázar. Portanto, será interessante traçar um movimento nos dois livros desses

autores que partem desse universo: O livro dos seres imaginários (1978), de Jorge

Luis Borges e Margarita Guerrero, e Bestiario (1951), de Julio Cortázar.

Para pensá-las como duas obras literárias autônomas, e tendo em vista os

bestiários como uma espécie de catalogação de seres reais e imaginários que na

Idade Média possuíam uma finalidade pedagógica, Borges e Cortázar, dentro de uma

produção autoral, assumiram um novo traço aos seus bestiários, isto é, desviam de

uma esfera pedagógica ou moralizante e recriam a possibilidade de catalogação na

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literatura, além de serem livros que são referência de utilização nesse processo entre

autores que se valem desse procedimento criativo.

Os livros partem do mesmo universo imaginário, mas em relação ao seu

aspecto formal são obras com marcações distintas. Borges se aproveita da estética

enciclopédica do saber de um bestiário tradicional, enquanto Cortázar utiliza

fragmentos de diversos animais de uma maneira mais vertiginosa no cotidiano das

personagens de seus contos. Aqui, para ambos, torna-se necessário acrescentar um

outro ponto: a forma de catalogação. É interessante discutir a catalogação, questão

que Maria Esther Maciel levanta em seu livro A memória das coisas (2004), sobretudo

dentro da obra de Jorge Luis Borges, Peter Greenaway e Arthur Bispo do Rosário. A

catalogação nesse caso fornece subsídios para que se elabore a compreensão de que

listas, inventários e catalogações podem ser utilizadas dentro da literatura como parte

do processo criativo do escritor. E, especificamente, essa questão é importante para

se trabalhar em relação a Jorge Luis Borges e Julio Cortázar, nos livros especificados.

Em As palavras e as coisas, Michel Foucault nos apresenta um instigante

prefácio, no qual se refere a “uma certa enciclopédia chinesa”, de Jorge Luis Borges,

que contém a seguinte classificação dos animais:

Os animais se dividem em: a) pertencentes ao imperador, b) embalsamados, c)


domesticados, d) leitões, e) sereias, f) fabulosos, g) cães em liberdade, h) incluídos
na presente classificação, i) que se agitam como loucos, j) inumeráveis, k)
desenhados com um pincel muito fino de pêlo de camelo, l) et cétera, m) que
acabam de quebrar a bilha, n) que de longe parecem moscas (FOUCAULT, 1999,
p. 11).

Essa “vizinhança súbita das coisas sem relação” nos leva a imaginar uma

possibilidade de elementos sem relação que estão ligados sucessivamente por letras

em ordem alfabética. E dentro dessa ordem uma desordem se monta, como se Borges

ao intitular seu texto como uma certa enciclopédia estivesse consciente de um caráter

ambíguo da enciclopédia de tentar ordenar o que é naturalmente desordenado. Nessa

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perspectiva, fazer uma leitura destes “bestiários de autor” (aos quais se incluem

Borges e Cortázar) pode, inclusive, ajudar a transitar por procedimentos similares

dentro da literatura hispano-americana contemporânea.

Como provocação à leitura desses próprios livros, mais um prefácio é

curioso de destacar, o de O livro dos seres imaginários, de Jorge Luis Borges e

Margarita Guerrero. Especificamente para atentar três momentos, que aqui aparecem

fragmentados. O primeiro surge como uma justificativa a respeito do nome do livro:

O nome deste livro justificaria a inclusão do príncipe Hamlet, do ponto, da linha, da


superfície, do hipercubo, de todas as palavras genéricas e, talvez, de cada um de
nós e da divindade. Em suma, quase do universo. Ativemo-nos, contudo, ao que
imediatamente sugere a locução “seres imaginários”, compilamos um manual dos
estranhos entes que engendrou, ao longo do tempo e do espaço, a fantasia dos
homens (BORGES; GUERREIRO, 2006, p. 13).

O segundo momento condiz com o próprio ritmo de um livro conter em si

uma biblioteca, retomando aqui o sentido da “Biblioteca de Babel”, do movimento dos

livros direcionado a um plano infinito: “Um livro desta índole é necessariamente

incompleto; cada nova edição é o núcleo de edições futuras, que podem multiplicar-se

ao infinito”1.

E o terceiro momento trata de uma proposta de ritmo de leitura. E é aqui

que o caráter enciclopédico vai encontrar o melhor ambiente para se manifestar, pois o

conhecimento enciclopédico, por mais circular que seja, não consegue ser esgotado

sucessivamente e situa-se como se separado, catalogado e amparado em diversos

saberes:

Como todas as miscelâneas, como os inesgotáveis volumes de Robert Burton, de


Fraser ou de Plínio, O livro dos seres imaginários não foi escrito para uma leitura
ininterrupta. Desejaríamos que os curiosos o freqüentassem como quem brinca
com as formas variáveis que revela um caleidoscópio (BORGES; GUERREIRO,
2006, p. 13).

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É com uma leitura caleidoscópica que este texto percorre essas

possibilidades de Borges e Cortázar junto ao diálogo com bestiários. Julio Cortázar,

por exemplo, possui uma outra forma de apropriação, pela palavra. A palavra bestiario

apropriada pelo autor para sua primeira reunião de contos, de 1951, parte por um

outro caminho do qual Jorge Luis Borges e Margarita Guerrero tomaram. Não há uma

catalogação de animais de maneira sistematizada, e sim nos seus oito relatos, um

cotidiano vertiginoso em que os animais surgem de onde menos se espera.

Em Cortázar, vamos encontrar um diálogo semelhante com Borges em

suas Histórias de cronópios e de famas, onde o autor de Bestiario cria esses “seres

imaginários” e elabora todos os costumes, origens (fase mitológica), além de

consensos e desentendimentos entre eles. Voltando ao “Bestiario”, o próprio conto que

dá título ao livro, o autor nos apresenta um tigre que altera a rotina de uma família que

vive na província. A família e a convidada, como que ameaçadas, sempre se certificam

onde estaria o tigre para que, assim, pudessem evitá-lo. E, quando se torna possível

perguntar: qual a relação do conto de Cortázar (2006, p. 147), além do título, depara-

se com esse fragmento: “Hoja número 74: verde, forma de corazón, con pintitas

marrones”. Trata-se de duas crianças que catalogam folhas do jardim com o propósito

de construir um herbário. Cortázar, portanto, inclui nesse conto a catalogação na

própria narrativa e nas mãos das crianças. Depois do herbário, as crianças catalogam

formigas (um formigário) e ainda abrangiam na pequena coleção: insetos, caracóis

(divididos por tamanhos e cores) e flores. Já a família, ameaçada pela presença do

animal selvagem dentro da casa, segue sua rotina e assim evita os cômodos onde o

animal possa estar.

E por que o tigre? A pergunta, longe de ser respondida, pode encontrar

apenas uma reverberação em O livro dos seres imaginários (2006, p. 159), quando

“para os anamitas, tigres ou gênios personificados por tigres regem os rumos do

espaço”.

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E além da especificidade da escolha do tigre de Cortázar é interessante se

ressaltar a questão do exercício da animalidade2 do autor (e por que não prolongar

também esse exercício ao livro de Borges e Guerreiro). Maria Esther Maciel (2007, p.

197), no seu texto Zoopoéticas contemporâneas, aborda essa questão que toca o

limite de espelhar-se no animal: “Falar sobre um animal ou assumir sua persona não

deixa de ser também um gesto de espelhamento, de identificação com ele. Em outras

palavras, o exercício da animalidade que nos habita”.

Quando Sylvia Molloy no prefácio do Livro dos seres imaginários retoma o

prólogo do Manual de zoologia fantástica, do Borges, ela recupera justamente esse

momento em que, uma vez criança, não só Borges, mas cada um de nós, pela

primeira vez, diante do “espetáculo” de um jardim zoológico, nos deparamos com

animais nunca antes vistos3. Então, retomando a animalidade que habita cada um de

nós, as visitas ao zoológico muitas vezes representam mais um assombro diante do

outro (o animal) do que realmente assumir uma persona. Portanto, é a literatura o

espaço privilegiado para essa animalidade humana que se sustenta não apenas em

termos de metáforas ou alguma figura de linguagem outra, mas por intermédio do

artifício ficcional, a pele do escritor torna-se outra. O escritor torna-se outro tal como

“Baldanders”, esse ser cujo nome pode ser traduzido por “Já diferente” ou “Já outro”.

Por esse “Já outro”, assim está em O Livro dos seres imaginários:

Em um bosque, o protagonista depara com uma estátua de pedra, que lhe parece
o ídolo de algum velho templo germânico. Toca-a e a estátua lhe diz que é
Baldanders e assume as formas de um homem, de um carvalho, de uma porca, de
um salsichão, de um prado coberto de trevo, de esterco, de uma flor, de um ramo
florido, de uma amoreira, de uma tapeçaria de seda, de muitas outras coisas e
seres, e então, novamente, de um homem (BORGES; GUERREIRO, 2006, p. 194).

Salvo a questão da metamorfose, presente em diversas mitologias e

culturas, esse antigo sonho do homem de alterar sua matéria, tomar outras formas e

voltar à sua humanidade ileso, a questão do escritor com o animal vai além dessas

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transformações, pois a escrita toca um gesto com uma palavra singular “animal” e não

“animais”, palavra única que contém espécimes tão distintos agrupados, como criticou

Jacques Derrida, em O animal que logo sou (2002). Esse agrupamento ironicamente

parece ter uma lógica desconcertante como em “uma certa enciclopédia chinesa”,

contida no texto de Jorge Luis Borges, “O idioma analítico de John Wilkins”, o qual

Michel Foucault cita no prefácio de As palavras e as coisas.

O interesse renovado pelos bestários medievais, sobretudo na América

Latina, tem uma grande influência depois da publicação do Manual de zoologia

fantástica, de Jorge Luis Borges, este que foi ampliado em O livro dos seres

imaginários. Curiosamente, o título do primeiro livro de Julio Cortázar, Bestiario,

também está nesse repertório que, de maneira anacrônica, traz um pouco desse

universo medievo, extraído de seu contexto sociohistórico. Da mesma forma, Virginia

Naughton explicita essa relação:

En nuestra época, el interés por los bestiarios se ha renovado gracias a las


expresiones estéticas y literarias que lo han tomado por objeto. Entre ellas, la
admirable Zoología Fantástica de Borges, nuestro mayor escritor, y otras
contribuciones procedentes de la música, la pintura y la escultura. Y si bien en el
hombre medieval la dimensión de “lo maravilloso” formaba parte de lo cotidiano, en
nuestro tiempo lo interrumpe, lo subvierte, para abrir así un espacio misterioso y
recóndito, y tal vez en ello resida el interés renovado por aquellas descripciones
fantásticas (NAUGHTON, 2005, p. 22).

Esse anacronismo também é ressaltado por Sylvia Molloy, que explica que

Borges tem uma leitura “generosa e anacrônica”, resgatando diversos monstros de um

esquecimento e, sobretudo, inserindo-os em uma atualidade, “dotando-os de nova e

frágil vida”4.

A fragilidade da vida não está presente apenas nesses seres imaginários,

mas em toda a humanidade. A imagem do homem, este ser dotado de racionalidade,

assim traçada por diversos filósofos, escritores e pensadores como um animal

superior, se mostra fragilizada em diversas obras de escritores que se sentem em uma

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outra pele, uma pele de animal. Essa pele não tomada apenas pela sua superfície,

mas conforme apresentamos no diálogo com as “zoopoéticas contemporâneas” de

Maria Esther Maciel, um exercício de outridade5. A racionalidade do cuidado e do

medo da animalidade tal como Julio Cortázar abordou em seu conto “Bestiario”, onde

é preciso checar qual cômodo da casa foi ocupado pelo tigre, para assim evitá-lo. Ou o

próprio estado de maravilhamento do homem ao se deparar com outros seres, como

diversos de O livro dos seres imaginários. Maravilhamento este que não deixa de

passar por uma vergonha. Talvez a vergonha que leve o próprio homem a escrever,

como o disse Gilles Deleuze (1997, p. 11), em A literatura e a vida: “A vergonha de ser

um homem: haverá razão melhor para escrever?”.

Referências

BORGES, Jorge Luis. O idioma analítico de John Wilkins. In: Outras inquisições.

Obras completas. Tradução de Sérgio Molina. São Paulo: Globo, 1999. v. 2.

BORGES, Jorge Luis; GUERREIRO, Margarita. O livro dos seres imaginários.

Tradução de Carmen Vera Cirne Lima. São Paulo: Globo, 2006.

CORTÁZAR, Julio. Bestiario. Buenos Aires: Suma das Letras, 2003.

______. Histórias de cronópios e de famas. Tradução de Gloria Rodriguez. Rio de

Janeiro: Civilização Brasileira, 2007.

DELEUZE, Gilles. A literatura e a vida. In: Crítica e clínica. Tradução de Peter Pál

Pelbart. São Paulo: Ed. 34, 1997.

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DERRIDA, Jacques. O animal que logo sou. Tradução de Fabio Landa. São Paulo:

UNESP, 2002.

FOUCAULT, Michel. As palavras e as coisas. Tradução de Salma Muchail. São Paulo:

Martins Fontes, 2007.

MACIEL, Maria Esther. Zoopoéticas contemporâneas. Remate de Males, Campinas, v.

27, n. 2, p. 197-206, jul./ dez. 2007.

______. A memória das coisas. Ensaios de literatura, cinema e artes plásticas. Rio de

Janeiro: Lamparina, 2004.

NAUGHTON, Virginia. Bestiario medieval. Buenos Aires: Quadrata, 2005.

YELIN, Julieta Rebeca. Nuevos imaginarios, nuevas representaciones. Algunas claves

de lectura para los bestiarios latinoamericanos contemporáneos. LLJournal, Nueva

York, v. 3, n. 1, 2008.

Notas

1
BORGES; GUERREIRO, 2006, p. 13.
2
MACIEL, 2007, p. 197.
3
2006, p. 9.
4
2006, p. 11.
5
2007, p. 200.

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