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Sumário
FICHA CATALOGRÁFICA ELABORADA PELA Introdução............................................................................................5
BIBLIOTECA DO INSTITUTO DE GEOCIÊNCIAS DA UNICAMP Sobre os trabalhos..............................................................................12
Contribuições ao Marco Analítico-Conceitual
Dagnino, Renato Peixoto da Tecnologia Social............................................................................17
Contribuições da Economia da Inovação para a
D133t Tecnologia social: ferramenta para construir outra
sociedade / Renato Dagnino; colaboradores Reflexão acerca da Tecnologia Social..................................................55
Bagattolli, Carolina ...[et al.] . -- Campinas,SP.: Em direção a uma teoria crítica da tecnologia....................................73
IG/UNICAMP, 2009.
En búsqueda de una metodología para investigar
Tecnologías Sociales..........................................................................113
1. Ciência e tecnologia – Aspectos sociais. 2. Tecnologia A Tecnologia Social e seus arranjos institucionais............................139
– Aspectos sociais – America Latina. I. Bagattolli, Carolina. II.
Título. Como transformar a Tecnologia Social em Política Pública?.............155
Considerações Finais.........................................................................179
Créditos.............................................................................................183
CDD 301.243
306.46
ISBN 978-85-85369-08-8

Índice para catálogo sistemático:

1- Ciência e tecnologia – Aspectos sociais 301.43
2- Tecnologia – Aspectos sociais – America Latina 306.46

dos princípios da Tecnologia Social. O objetivo do livro é municiar o debate envolvendo as condições para sustentabilidade de empreendimentos solidários (ESs). Um processo desafiador que envolve a participação direta dos interessados no desenvolvimento das tecnologias e uma interação com atores tradicionalmente ocupados em concebê-la (entre os quais a comunidade de pesquisa ainda possui um papel de destaque). conosco. fazedores de política Latino-americano sobre Ciência. Tecnologia e Sociedade. pioneiro na defesa e movimentos sociais latino-americanos que. um dos fundadores do Pensamento de auxiliar a elaboração de políticas voltadas para a inclusão. Os artigos têm como foco o processo de desenvolvimento de tecnologia para a inclusão social. sua intenção é proporcionar aos professores. Introdução Este livro reúne trabalhos tributários do esforço acadêmico que vem sendo realizado por pesquisadores da comunidade latino-americana dos Estudos Sociais da Ciência e Tecnologia (ECTS) voltados para o entendimento da exclusão social e da necessidade de conceber uma tecnologia que faça frente a esse contexto excludente. Em especial. ou aquilo que tem sido aqui denominado Tecnologia Social (TS). no sentido Dedicamos este livro a Amilcar Herrera. 5 . que tem acompanhado o processo de democratização da América Latina. um insumo para geração de conhecimento para a inclusão social. ao longo das últimas décadas. pesquisadores. e que certamente estaria nesta empreitada têm se preocupado com a relação entre tecnologia e desenvolvimento social.

a partir do está sendo re-significada e explorada por alguns grupos latino-americanos incipiente contato que temos com atores como os movimentos sociais. Pode-se mesmo dizer sociais. indispensável para o êxito que se quer obter na primeira. devido à pouca atenção conhecimento científico e tecnológico) associadas aos “problemas sociais” conferida à incapacidade da “planilha de cálculo” dos engenheiros e outros para conceber estratégias e políticas. Como resultado. interesses e saberes dos excluídos. Ela vem sendo explorada por um grande número de pesquisadores. como a primeira. áreas do que se costuma denominar “políticas sociais”. assistencialista e. entre muitas outras. tem sido ineficaz. Não se tem logrado a participação plena dos “usuários” no processo As reflexões propostas ao longo deste livro buscam mostrar que a de construção do conhecimento. também. a partir da visão de mundo dos excluídos. variáveis. a inferências inerentemente autocentradas modelos e algoritmos necessários para o desenvolvimento de TS. plano metodológico. das demandas da inclusão social. que têm se dedicado ao desenvolvimento de tecnologias sociais” não devem ser postuladas a priori. Valores e participação no desenvolvimento de Tecnologia Social Tecnologia Social Essa nova maneira de abordar a questão das demandas ou necessidades A segunda frente de trabalho é menos evidente. mediante metodologias de trabalho Consideramos um desafio permanente desta frente de trabalho a especialmente concebidas para combinar capacidades e iniciativas (novas substituição da idéia ingênua e ineficaz da “oferta” ou “transferência” de ou já existentes) em áreas como a agricultura familiar. De fato. essas demandas só poderiam ser geração de conhecimento para a inclusão demanda a abertura de duas efetivamente expressas pelos excluídos e adequadamente equacionadas caso frentes de trabalho. numa primeira instância. os integrantes do que ficou conhecido como o movimento da Tecnologia Assim. dos problemas sociais. pelo objetivo da inclusão social. apesar de seu ataque ser socialmente excluídos ou. no limite. essa frente de trabalho depende. contrariamente ao que ainda se acredita em alguns meios. por uma construção coletiva de conhecimento e com a incorporação dos valores. energias alternativas. alimentos. habitação popular. isso pode levar à postulação de “necessidades sociais” que não são de fato necessidades sentidas pelos excluídos. simplesmente. No plano das premissas ideológicas que orientam a idéia da TS. tampouco grande parte dessas iniciativas na América Latina. Ao contrário: sua identificação alternativas desde a década de 1960. conhecimento (e de tecnologia) produzido pela comunidade de pesquisa. dá a ser definidos e atacados a partir do modelo cognitivo de outros atores e não uma dimensão da importância dessa frente. inclusive. Muitos desses equívocos foram provocados pelo inclusão não fracassaram apenas devido à ausência de um enfoque baseado na modo convencional de interpretar as demandas cognitivas (ou demandas por construção coletiva de conhecimento. A primeira. Diferentemente do que ocorreu no passado. O resultado 6 7 . essa nova abordagem parte da idéia de que esses “problemas Apropriada. relações. daquilo que se pode inferir. movimentos sociais. Uma interpretação feita a partir de uma profissionais — concebida para projetar tecnologia coerente com os valores definição a priori das características destas necessidades. por exemplo. no e interesses empresariais — em incorporar parâmetros. adiantaria a simples adição do conhecimento e do olhar dos cientistas sociais. uma existência real. pode ser considerada eles possuíssem habilidades políticas e cognitivas e estivessem em condições como uma atividade-fim desse processo de reflexão em que se insere este de se relacionar adequadamente com atores como. reciclagem de resíduos. órgãos do governo e comunidades locais. Essa frente deriva da busca evitar equívocos que têm sido detectados em iniciativas passadas constatação de que as iniciativas de desenvolvimento tecnológico destinado à com propósitos similares. os “problemas sociais” e suas conseqüências tendem os quais tampouco são capazes de perceber facilmente essa inadequação. produção e conservação de ainda que socialmente sensibilizada para atores sociais que o “demandam”. Isso tem levado. a própria livro. das necessidades básicas. comunidade de pesquisa. mais evidente. das necessidades dos que ela não tem. O fato de e precárias feitas a partir do ambiente acadêmico em que se desenvolvem que.Produção de conhecimento para a inclusão desse viés paternalista. Mas. autoritário. mediante a prospecção das demandas cognitivas e a proposição de soluções as comunidades locais organizadas e os fazedores de política situados nas tecnológicas realizadas na interface entre academia. Os esforços desses grupos demanda cognitiva dos processos de inclusão social que se julga necessário estão sendo orientados para a satisfação de demandas cognitivas colocadas atender. acerca do que seria a ESs.

através de e por isso dialogue com movimentos sociais como o dos Empreendimentos sua observação que poderão ser concebidas as atividades de capacitação da Solidários (ESs) e com as políticas públicas que buscam promovê-la. seja como conhecimento científico-tecnológico imprescindível caráter sociotécnico alternativo ao atualmente hegemônico capaz de orientar para a inclusão social. aprende. seja como conhecimento necessário para a elaboração as ações de fomento. a segunda frente compreende atividades-meio necessárias para a consecução técnicos de institutos de pesquisa. que possuem pouca ou nenhuma ligação com o ambiente produtivo (ou com um tratamento em separado. é de uma rede de pesquisadores. gestores públicos. a TS. fomenta. Outro inconveniente daquela definição é que ela abrange procedimentos incipiência e crescente importância do tema demandam. planejamento. Ambientes nos quais. Capitalista (TC). não se resume à dimensão econômica). desenvolvidas na interação com a locais em que vem sendo adotada como agenda de pesquisa e extensão. professores. Essa discordância acerca da ampliação do conceito de tecnologia é especialmente espinhosa: talvez os movimentos sociais atribuam a denominação de Sobre a precariedade do conceito usual de “tecnologias” às metodologias alternativas por eles propostas visando à Tecnologia Social inclusão social a fim de granjearem o apoio e respeitabilidade que eles merecem. O terceiro aspecto. Uma tecnologia movimento da Tecnologia Apropriada e poderia aumentar a chance de êxito substancialmente diferente da tecnologia convencional ou Tecnologia dos atualmente em curso no campo da TS. é que a originalidade. por enquanto. radical com que a TS vem sendo tratada nos fóruns que a discutem. mais original. e comunidade e que representem efetivas soluções de transformação social”1. ao mesmo tempo. elemento essencial para a sustentabilidade da Economia Solidária (que. Ela não permite a concepção de um dos movimentos sociais. que decorre de contatos o processo de trabalho). caso tratando. vale destacar três aspectos. nos técnicas e/ou metodologias reaplicáveis. utiliza. por meio do desenvolvimento de TS.org. no sentido de que não foi ainda tratada Tal definição reflete a correlação de forças existente no conjunto de modo sistemático e com o recurso às contribuições das últimas três ideologicamente heterogêneo de atores envolvidos com a TS.br adequado. etc. destaca-se que essa definição não está à altura da maneira gerado. situados nos ambientes onde hoje se ensina. dos implicados com esses empreendimentos: gestores das políticas sociais Para concluir este ponto. Ou seja. inclusive. como àquelas que estão ocorrendo na de Responsabilidade Social Empresarial até os que têm como objetivo a América Latina no campo da docência. entre muitas outras ações. trabalhadores etc. Ciência-Tecnologia-Sociedade mediante a utilização de abordagens como as Essa diversidade talvez explique porque a TS venha sendo tão da economia. O primeiro. segunda frente de trabalho deve ser explorada através de livros como este. O conhecimento gerado mediante amplamente difundida no Brasil. história. esteve ausente. que é produzida pela e para a empresa privada. por razões evidentes. De fato. pesquisa e extensão sobre a relação construção de uma sociedade socialista. Isto é. implica que a econômico-sociais que causam a exclusão e que deve ser transformado. entretanto. produz. estudantes. o do desenvolvimento de uma tecnologia coerente com os estivesse disponível com anterioridade poderia ter evitado os equívocos do princípios do que se denomina no Brasil “Economia Solidária”. professores e alunos atuantes nas incubadoras de cooperativas. É. Mas há que reconhecer. Não obstante. o qual décadas do campo dos ECTS. das atividades-fim relativas à primeira. 2 O texto intitulado “Em direção a uma teoria crítica da tecnologia” incluído neste volume tem como uma das motivações evitar essa fragilidade e formular um conceito mais 1 Fonte: www.rts. sociologia e filosofia. 8 9 . Segundo a definição mais freqüente no Brasil. que é onde o conceito foi Por fim. O qual é o que efetivamente estabelece as relações realizados com colegas latino-americanos interessados no tema. é claro. Sua exploração demanda o aprofundamento abriga desde os que entendem a TS como um elemento das propostas de intervenções interdisciplinares. militantes flagrante fragilidade analítico-conceitual2. ainda que aponte para o objetivo da inclusão social simultâneo às iniciativas em curso na primeira frente. capacitação e desenvolvimento de TS das políticas públicas. é que e de C&T. o ataque a essa segunda frente possui uma precedência teórica em relação que tal definição não é adequada para abordar o problema que estamos ao trabalho que se desenvolve na primeira. seu resultado. é claro. decide e planeja a C&T. ela terá que ser desenvolvida em Aquela definição. O segundo. Ela é.. um conjunto de indicações de até agora. entende-se a Tecnologia Social (TS) como compreendendo “produtos.

À semelhança de et al. I. Dele participam atores preocupados com a com o contexto sociopolítico latino-americano de então. onde o tema permaneceu praticamente invisível os obstáculos que se interpunham ao seu desenvolvimento e os possíveis para essa política e foi praticamente ignorada pelo seu ator dominante. (1982). do Estado e Jr. Londres. Fundação Banco do Brasil. A. por razões abordadas adiante. ela foi capaz de colocar em discussão o Brasil (Dagnino. por incorporar muitas daquelas críticas que abordavam a América Latina (Herrera. SACHS. Westview Press. Isso foi feito através O fato de que apenas três dos atores-chave que formaram a RTS de duas vertentes que. tema do País. Tecnologia Social – uma estratégia para o v. 1987)3.) (1987). Dissertação (Mestrado). por exclusão ou negação. (2004). et. Todavia. práticas culturais e a estrutura de poder indesejáveis da comunidade por ela afetada. 2004)7 de um livro publicado pela RTS (Lassance outras iniciativas que surgiam no âmbito dos movimentos sociais. Sachs. Madrid. 2004)6 e final (Dagnino. (2004). 6 DAGNINO. 7 DAGNINO. alguns de seus atores que iniciam. al. A primeira vertente que foi abordada no âmbito da RTS manteve o Algumas críticas à TA já haviam sido explicitadas nos círculos em que o caminho metodológico da crítica às iniciativas anteriores. BRANDÃO. a caminhos para sua neutralização mediante a conscientização dos atores comunidade de pesquisa. desenvolvimento. reflexões e críticas sobre a TC que Tecnologia Convencional poderiam servir aos seu propósito. como a de que seria ingenuidade supor que a promover a inclusão social (ainda que. The discovery of the Third World. Rio de Janeiro. Stewart.T. Cambridge. mas difusa — não era nova. que é onde a idéia de uma países periféricos. (1976). (1980).C. et. Fundação Banco UNB. Appropriate or Underdeveloped Technology? Paris. F. Mss. precarização e informalização do trabalho etc. MIT Press. D. permaneceria como uma curiosidade ou uma benemerência tecnológica. al. e compartilhavam a percepção — perturbadora. embrionariamente na rede que se formava com a participação do movimento EMMANUEL. do Brasil. 1976)4 e mesmo e por adotar a perspectiva dos ESCT. (1978). R. In: LASSANCE Jr. 10 11 . In: World Development. A. mas difusa — de que era Buscando fazer consciência sobre questões como essas. desde a década de 1970. integrantes trataram de trazê-las para o seu interior. A Tecnologia Social e seus desafios. R. Tecnología alternativa y políticas del cambio tecnológico. (1981). 2004). Sobre o marco analítico conceitual 4 HERRERA. 5 DAGNINO. e evitar que necessária uma tecnologia que correspondesse aos seus propósitos. o Estado — ela crescente exclusão social. Esta crítica revela a consciência de que se a TA não fosse tecnologia alternativa à convencional tem recebido esta designação. (ed. não intuiu claramente que essa percepção — perturbadora. Tecnologia Apropriada: uma alternativa?. Tecnologia Social – uma estratégia para o desenvolvimento. como a da TA. aquelas de C&T (Dickson. R. 3 DICKSON. STEWART. The generation of technologies in rural areas. Ou a de que a TA poderia se converter em algo significativo sem que passasse do ambiente politicamente correto dos cientistas bem-intencionados A Tecnologia Social no Brasil dos países avançados para o espaço da policy e da politics da C&T dos O surgimento da TS ocorre no Brasil. da tecnologia social. H. 1978)5. a formação da Rede de Tecnologia Social (RTS). A. ela não disponibilização de uma tecnologia alternativa pudesse lograr alterar as seja consignada na produção dos autores que tratam da ES). In: LASSANCE Jr. 1981. Macro-Policies for Appropriate Technology in Developing Countries. que passa pela proposta da Tecnologia Intermediária de A RTS e as duas vertentes de crítica à Schumacher (1973) e que alcança seu auge com a Tecnologia Apropriada (TA). e NOVAES. Livro que se mantém como a principal fonte de consulta sobre o das ONGs a RTS. Rio de Janeiro. envolvidos com a produção e a utilização do conhecimento tecnocientífico. Que o movimento que tem em Ghandi um de seus pioneiros. no “demandada” por um ator com força política — no caso e coerentemente início da presente década. Emmanuel. Tratava-se de uma atualização da crítica que apontava para a necessidade & Sons. 9.. Brasília. havia promovido. Essa vertente sinalizava uma visão que já estava presente Blume Ediciones. IRMIJohn Wiley social. E também naqueles que deveria possuir a TS. Ela tema chegou a entrar na agenda política e a preocupar os analistas da política partia das características da TC para conceber. A. 1982. em 2003. depois de discutidas pelos que participaram desse possuíam alguma familiaridade com o tema da tecnologia é importante para processo foram sistematizadas e apresentadas nos capítulos inicial (Dagnino entender a forma como essa percepção foi levada à prática. São esses seu desconhecimento comprometesse a atuação da RTS. 1980.nos espaços governamentais onde começa a ser vista como um meio para Havia outras. F.

Destacavam-se contribuições teóricas pensadas para para abordar o conceito de TS. em 24 e 25 de novembro de 2008. os ESs. O primeiro trabalho — Contribuições ao marco analítico-conceitual da incorporavam idéias que haviam surgido e se disseminado depois do auge Tecnologia Social — trata das duas maneiras principais que têm sido utilizadas do movimento da TA. em função Os trabalhos que compõem este livro foram apresentados e discutidos da importância que possui para a idéia de que a TS precisa ser entendida como no Seminário Tecnologia para a Inclusão Social e Políticas Públicas na América algo a ser socialmente construído pelos atores nela interessados. é possível construir orientar ações alternativas (ou. as cooperativas e fábricas papers. Os ESs também se configuram como um parceiro ideal metodológico” da TS na América Latina. embora geradas utopia a ser construída do que o caráter descritivo de artefatos sociotécnicos independentemente entre si e não ligadas ao movimento da TA estavam concretos. alunos e técnicos de institutos de pesquisa. os professores. fundamentalmente na abordagem sociotécnica dos envolvidos e busca da autogestão. Eles podem ser entendidos como uma espécie de “estado- capital. O segundo. A segunda vertente através da qual se buscou dar a conhecer a trajetória da qual a TS era uma continuação se apoiava num conhecimento Abaixo são apresentados os resumos de mais aprofundado dos ESCT. com o devido à crítica que faz às concepções Instrumental e Determinista da apoio de IDRC e da FINEP e que contou com a participação de oito expositores 12 13 . campo cognitivo. centrado na análise das contribuições mais populares. E. para abordar a TS mostrando como ela podia ser entendida como algo em processo de construção por atores que. aderentes ao propósito de construir de um marco de referência apropriado Numa palavra. poderão ensejar uma revitalização das formas da TS no plano das políticas públicas e das ações — de policy e de politics — associativas e autogestionárias que a classe trabalhadora historicamente tem que deveriam ser promovidas no sentido de aumentar a sua importância na privilegiado para organizar a produção material e resistir contra o avanço do agenda da PCT&I. institucionais que estão sendo experimentados para apoiar o desenvolvimento Os ESs. no dos temas abordados no Seminário (ver anexo ao final do livro). no Estado. Sobre os trabalhos Entre essas contribuições. Eles podem ser entendidos como uma espécie de “estado-da- um espaço agregador desses e outros atores e preocupações: a Economia arte analítico-conceitual” da TS na América Latina. são potencialmente mais do que e apresenta alguns dos resultados já obtidos com a sua aplicação em casos “demandantes” de TS e podem atuar na produção material e geração de concretos. Eles funcionaram como position como aliados indispensáveis. Ele sugere uma metodologia para pesquisar e analisar a Esse tipo de empreendimento por suas características de participação Tecnologia Social baseada. por isso. no campo produtivo. ser considerados como a “ponta de lança” do da-arte das políticas públicas” da TS na América Latina. constituindo-se no eixo em torno do qual se organizou a discussão recuperadas. movimento social brasileiro. entendidos como uma forma de mobilização O quarto trabalho possui uma orientação enviesada por um objetivo e organização dos excluídos e como motor crucial da TS. que denota mais o caráter normativo de uma enfocar a relação Ciência. se destacava a importância daquilo que surgia como para tratar a TS. Ele pode ser entendido como uma espécie de “estado-da-arte tecnologias sociais. vigente nos anos de 1970 — foi possível incorporar as contribuições dos ESCT e construir um marco analítico-conceitual mais operacional para geração de TS. e.de que a TA fosse “demandada” por um ator com força política. para geração de TS porque promovem concretamente um questionamento Os dois últimos trabalhos tratam de questões relacionadas aos arranjos estrutural à forma de produzir capitalista. se apoiados na TS. Talvez devam. metodológico. Ela destacava e comentadores e mais de 100 participantes. ao de TC — o de TA. O primeiro. Tecnologia e Sociedade e que. Latina realizado no Rio de Janeiro. partindo de um conceito alternativo desenvolvimento tecnocientífico. consciente ou inconscientemente. por negação e por exclusão. Ela propunha um marco analítico-conceitual cada trabalho. o trabalho privilegia a da construção social da tecnologia e da filosofia da ciência e da tecnologia. O trabalho apresenta a maneira que. partindo do conceito de relacionadas ao conjunto de indicações de caráter sociotécnico capaz de Tecnologia Convencional (TC). mais precisamente. Solidária. dentro dela. os gestores das políticas sociais e de C&T. Mostra também como. Os três primeiros trabalhos possuem uma orientação enviesada por em especial os que militavam nas incubadoras universitárias de cooperativas um objetivo analítico-conceitual. contra-hegemônicas) de o conceito de TS.

etc. Neste termos de Tecnologia Social. planejamento. caracterizado pela propriedade privada dos meios de produção. tecnológica e análise de política pública. vêm sendo criados visando à promoção e ao desenvolvimento de TS. se realização de diferentes estudos de caso e de análise político-institucionais ressalta o fato de que ele se refere especificamente ao ambiente da empresa permitirá acumular aprendizagens a partir das próprias experiências de privada capitalista. o trabalho fomento. com um marco analítico-conceitual cuja importância dentro dos de diferentes análises destinadas a gerar uma base empírica descritivo- ESCT latino-americanos merece um tratamento particularizado. portanto. relações. professores Sociotécnica — desse esforço de construção do marco analítico-conceitual da e alunos atuantes nas incubadoras de cooperativas. o diálogo é com as contribuições marxistas que têm colocado no restrições de abordagens deterministas (tecnológicos ou sociais).Tecnociência. economia da mudança modelos. é o ponto de partida metodológico a partir do qual se da análise do envolvimento desses atores e dos arranjos institucionais que desenvolve o trabalho. como seu objeto de análise: sociologia da tecnologia. ao mesmo tempo. esse resultado pesquisa. analisando o que se afigura como uma de seus requisitos. procura operacionalizar o processo de observação e desenvolvimento de TS.). Eles devem acompanhar a novidade introduzida pela TS. Dar voz a esses atores e integrá-los às instâncias de participação e genérico de tecnologia. Movimentos Sociais. A origem do conceito de inovação presente no enfoque neoschumpeteriano. centro de sua preocupação o tema da exclusão social. é o institucionais. assim. A realização destas pesquisas é O terceiro trabalho — Em direção a uma teoria crítica da tecnologia considerada fundamental para viabilizar processos de aprendizagem social — busca também um diálogo que procura fortalecer o marco analítico. Partindo da explicativa articulada ao redor do conceito de adequação sociotécnica. Esta crítica refuta que as implicações negativas da Tecnociência A partir daí. Argumenta-se que. faz-se necessário que novos atores se incorporem aos processos que orienta esta contribuição à construção do marco analítico-conceitual da de elaboração da Política de C&T e de construção da agenda de pesquisa TS. pesquisadores. e político. e à semelhança do que se perseguiu ao desenvolver para a classe trabalhadora possam ser consideradas como conseqüências ou a proposta da Adequação Sociotécnica. sob pena de distintos regimes de produção econômico-social. como a visão da TS propõe e ao mesmo processo social que tem lugar no âmbito de uma sociedade capitalista e trazer tempo demanda uma nova forma de conceber o conhecimento e os arranjos embutido valores e interesses estreitamente ligados à sua reprodução. O trabalho assinala a necessidade de uma na qual se inscreve esta abordagem surge de uma operação de triangulação profunda revisitação da Teoria da Inovação de maneira a perseguir o objetivo teórica entre disciplinas que têm tomado a política científica e tecnológica não trivial de utilizar alguns de seus conceitos. fatos estilizados. mostra a necessidade Isto é. Assim. técnicos de institutos de TS. Na sua última parte. trabalhadores etc. para a construção de um marco analítico-conceitual da TS. ONGs. contribuir para a sua operacionalização. submetê-la a processos contraditórios com o seu objetivo. uma vez que este. não possuindo. capacitação e desenvolvimento de TS dos implicados apresenta um resultado parcial — o conceito ou proposta da Adequação com os ESs: gestores das políticas sociais e de C&T. Sociales) — propõe uma abordagem teórico-metodológica para a realização Neste caso. O quarto trabalho — Em busca de uma metodologia para pesquisar a O segundo trabalho — A Tecnologia Social e a Economia da Inovação Tecnologia Social (En búsqueda de una metodología para investigar Tecnologías — mantém a orientação de buscar um diálogo com abordagens anteriores. indesejáveis e coloca que devem ser vistas como um operacionalização. Tributário das contribuições analisadas na primeira parte. que engendra um contrato social que a no Brasil (Governo. o contexto socioeconômico e o ambiente das políticas públicas a ao usualmente empregado. que parte da consideração de três ambientes e quatro de decisão deve ser um objetivo dos novos arranjos institucionais a serem variáveis que permitem a sua caracterização e a sua particularização para criados. de que a operacionalização evidenciar os modelos cognitivos mediante os quais eles percebem a relação da TS demanda a concepção de um conceito de tecnologia alternativo entre a TS. que permitem superar as caso. busca-se A percepção resultante dessa análise. Universidades etc. 14 15 . se avança no terreno da impactos não-previstos. por ser o resultado de um ela pertinentes. a concepção de um conjunto de indicações de caráter sociotécnico de que os valores e interesses dos socialmente excluídos sejam incorporados alternativo ao atualmente hegemônico e capaz de orientar as ações de ao processo de desenvolvimento da TS. . A análise do ambiente O quinto trabalho — A Tecnologia Social e seus arranjos institucionais onde se dá o processo de produção de mercadorias e de sua relação com — apresenta um panorama dos atores sociais que estão envolvidos com a TS os contextos socioeconômico. A partir garante e naturaliza. O resultado da primeira parte do trabalho é a definição de um conceito pública. A matriz conceitual a ele é freqüentemente imputado. e está orientada para a melhora das intervenções e desenvolvimentos em conceitual da TS e. componente intrínseco à dinâmica capitalista. o atributo de generalidade que desenvolvimento e implementação de Tecnologia Social.

Em seguida. Acreditamos que.S para expressá-la. cujos contornos aqui se procura atual Ministério de Ciência e Tecnologia como sendo AD = 21% + 40% +37% + esboçar.e aos valores que ela traz embutidos. Pesquisa e desenvolvimento em áreas estratégicas. inovação tecnológica nas empresas e C&T para o desenvolvimento social. assuntos que os que governam (ocupam o aparelho de Estado num determinado momento) selecionam (ou são forçados a selecionar) e classificam como objetos sobre os quais decidem que vão atuar. interpreta a agenda O objetivo deste trabalho é mostrar como o marco analítico-conceitual decisória da PCT&I à luz da consideração alocação prevista de recursos pelo da Tecnologia Social (TS) hoje disponível. a qual possui Analítico-Conceitual da um modelo cognitivo e prática de atuação conhecidos e tratados em outros trabalhos. da necessidade de um enfoque tecnológico para a questão do que vem sendo denominado “inclusão social”.S à importância relativa da agenda dos movimentos à Tecnologia Convencional – criada pela grande corporação e para a grande sociais (ou da tecnologia para a inclusão social) têm-se que ela é apenas de corporação capitalista . (3) a empresa (e. demandas.G + e.E). no plano tecnológico. A partir dessa configuração o trabalho propõe a 1. O trabalho apresenta o movimento da Tecnologia Apropriada (TA) e a forma como foi criticado no início dos anos 1980. 16 17 . a pergunta passa a ser: Como aumentar esse produto? É o conceito de TS surge como uma crítica à Tecnologia Convencional (TC) e de necessário aumentar S ou fazer crescer S? uma percepção. Essa trajetória é retomada na segunda seção. nacional. A primeira. um marco analítico-conceitual adequado ao seu desenvolvimento. Isto é. Novaes média ponderada das agendas particulares de quatro atores (1) comunidade Rafael Dias de pesquisa (c. uma vez que é esta a distribuição relativa correspondente às atividades de alternativa para a América Latina de modo muito mais efetivo do que no interesse de cada um dos atores. quando perde importância como elemento que viabilizava. é defini-la por oposição ou por negação Aproximando o termo s. Nesse sentido. possibilita empreender a construção teórico-prática da TS como 2%.G). A partir daí. tendo como referência a evolução da reflexão sobre temas relacionados à TS de modo a propor. Isto é. o Tecnologia Social conjunto de problemas. A segunda seção deste artigo aborda a outra forma para chegar ao conceito de TS é recorrer ao movimento de Tecnologia Apropriada (TA) e incorporar o marco analítico-conceitual que foi construído nos últimos 30 anos por alguns pesquisadores latino-americanos mediante contribuições de natureza bastante diversa até originar o conceito de TS adotado hoje em dia. A partir da constatação de que ela é ainda dominada pela comunidade de pesquisa. onde as letras minúsculas indicam os pesos relativos dos quatro atores. um estilo alternativo de desenvolvimento no âmbito dos países periféricos.E + s. A agenda decisória (AD) da PCT&I é interpretada como uma Henrique T. ou do Estado (g. mais do que um conceito propriamente dito. apresentada na seção que segue. O sexto trabalho — Como transformar a Tecnologia Social em Política Pública? — busca responder esta pergunta focalizando uma das políticas Contribuições ao Marco essenciais para fazê-lo: a Política de CT&I brasileira.C + g. Introdução fórmula AD = c. Promoção e Ele apresenta duas formas de chegar ao conceito de TS.S). (2) o governo.C). 2%. e (4) os movimentos sociais (s. Expansão e consolidação do sistema passado. o trabalho se centra na análise na sua agenda decisória. ainda não precisamente formulada.

vai incorporando as hierarquizada. enquanto a tecnologia capitalista de um conjunto de características (relativas a seus efeitos sobre o trabalho. a TC pode ser vista como um desse esforço de construção do marco analítico-conceitual da TS. de promover o tipo de controle capitalista. vigente nos anos de 1970 e. adentrar com negativos sobre o nível de emprego. coletiva e não mercadológica. 2) não ele perde importância como elemento viabilizador. como que são orientados pelos mercados dos países desenvolvidos. desenvolvidos. A Tecnologia Social como negação da Por fim. como um de das contribuições analisadas na primeira seção deste artigo. Brandão e Novaes (2004). 2. a tecnologia social aponta para a produção características dos insumos utilizados na produção. 1 Esta seção resgata idéias desenvolvidas no artigo de Dagnino. ao ritmo da produção. A TC é. 3) ser orientada para a satisfação das necessidades humanas (produção de valores de uso .“o mundo não é uma mercadoria. A TS tem. segmentar. pois exige que haja a posse privada dos meios de produção contribuições dos Estudos sobre Ciência Tecnologia e Sociedade (ECTS) que e o controle sobre o trabalho. A tecnologia convencional é segmentada. submetendo os trabalhadores aos de desenvolvimento da TS. reuniria características como: 1) ser adaptada e a forma como esse movimento foi criticado no início dos anos 1980. a TC é inerentemente poupadora 3. ainda que isso tenha efeitos mais eficácia a geração de TS (ou. a TS estaria mais imbricada à realidade das sociedades locais. no plano tecnológico. às grandes empresas multinacionais). De um modo geral. justamente reverter essa tendência colocada pela tecnologia procura operacionalizar o processo de observação e desenvolvimento de TS. capitalista convencional. Nesse sentido. assentamentos de reforma agrária. a tecnologia convencional pode ser definida a partir Em resumo. não permitindo que o produtor direto exerça controle sobre A discussão desenvolvida nesta seção parte do conceito de Tecnologia a produção. correremos o risco de tal como nos informa o lema do Fórum Social Mundial). esse resultado seus objetivos. os trabalhadores. hierarquizar e dominar um estilo alternativo de desenvolvimento no âmbito dos países periféricos. por adição. quando a pequenos produtores e consumidores de baixo poder econômico. é alienante. convencional é funcional para a grande corporação (em especial para as à sua escala de produção ótima. perpetuando e ampliando as assimetrias de poder dentro apresentamos a proposta da Adequação Sociotécnica (AST) – como resultado das relações sociais e políticas. detentores dos meios de produção e países subdesenvolvidos a países Em outros trabalhos (Dagnino. Encerramos o artigo com algumas considerações sobre as potencial e a criatividade do produtor direto e dos usuários.Contribuições ao Marco Analítico-Conceitual da Tecnologia Social Henrique T. por fim. em contraposição. 5) ser capaz de possibilidades de reprojetamento tecnológico. a TC impõe aos países subdesenvolvidos padrões não podem ser consideradas como conseqüências não-previstas. 4) incentivar o repetir a história. ao tipo de controle exercido sobre os trabalhadores. a agricultura familiar e pequenas empresas. irradiada pelas empresas mais segurança no terreno de sua operacionalização). podemos concluir que. viabilizar economicamente empreendimentos como cooperativas populares. frente às considerações apresentadas acima. Brandão e Novaes (2004). os ECTS mostram a necessidade da Assim. ainda. dos países do norte e absorvida de forma acrítica pelas empresas dos países Ao negar que suas implicações negativas para a classe trabalhadora subdesenvolvidos. de modo mais abrangente. A Tecnologia Social como uma revisitação de mão-de-obra (o que pode ser verificado na constante substituição da Tecnologia Apropriada 1 do trabalho humano por trabalho morto). tem como objetivo principal (senão único) permitem a construção de um marco analítico-conceitual para perseguir com maximizar a produtividade para acumular capital. 18 19 . é plausível afirmar incorporação dos valores e interesses dos “socialmente excluídos” no processo que a TC reforça a dualidade capitalista. pois suprime a criatividade do produtor direto. aos seus efeitos sobre o meio-ambiente. de alta renda “impactos” indesejáveis a serem evitados. Novaes (2007)). é Apropriada. Iniciamos esta seção com o movimento da Tecnologia Apropriada (TA) A TS. Tributário elemento que provoca a gradual erosão da democracia. Conforme mostra Dagnino (2004).) que a distingue da tecnologia social (Dagnino. intrínseco à dinâmica capitalista. 2004). Tecnologia Convencional de modo que pudesse gerar respostas mais adequadas aos problemas colocados em um determinado contexto. Novaes / Rafael Dias caso a crítica às insuficiências da TA não seja feita. e sim como um componente ou para a elite dos países subdesenvolvidos. etc.

A Tecnologia Apropriada criado por ele e a publicação. causaram A Índia do final do século XIX é reconhecida como o berço do que veio grande impacto. Não obstante a sua As idéias de Gandhi foram aplicadas também à República Popular da importância. não ir mais longe. a visão da TA predominante nos anos 1970. por falta de espaço. Ao contrário. aportam elementos para o processo de elaboração do marco conceitual da TS. sobre a necessidade da autodeterminação do povo e da produção que tanta importância teve para a abordagem do tema do renovação da indústria nativa hindu. implicava o de cada uma das seis setas que para ela convergem. abordamos os desenvolvimentos teóricos que foram Ainda sobre as origens do movimento da TA é interessante a opinião surgindo ao longo da trajetória de consolidação do campo dos ECTS e de Amílcar Herrera. À sua volta. Na doutrina social de Gandhi o conceito A apresentação desses desenvolvimentos se dá de forma sumária. tendo em vista a popularização da haviam percebido o fato de que a tecnologia convencional. que foi traduzido para mais de quinze idiomas. praticadas nas suas aldeias. 10-1). diferentes. tornando-o conhecido como o introdutor do conceito de TA a se chamar no Ocidente Tecnologia Apropriada (TA). 20 21 . na preocupação dos economistas neoclássicos com Isso despertou a consciência política de milhões de habitantes das a questão da escolha de técnicas e com o preço relativo dos fatores de vilas daquele país. ao longo estática das tecnologias tradicionais. para contra a injustiça social e o sistema de castas que se perpetuava na Índia.1. aquela que fiação manual realizada em uma roca de fiar reconhecida como o primeiro a empresa privada desenvolve e utiliza. o quinto e sexto desenvolvimentos não são abordados neste China e. em 1973. O conceito de desenvolvimento de Gandhi incluía uma política A figura a seguir ilustra o percurso que conformou o marco da TS a partir científica e tecnológica explícita. e não através de considerada central e algumas palavras-chave que a identificam. em função de seu baixo custo de capital. p.Crítica da TA. feito a partir de dentro. Para ele. num plano que poderia ser considerado mais desenvolvimento das tecnologias tradicionais. acompanhar a linha de argumentação e possa ampliar sua compreensão acerca dos mesmos a partir da bibliografia indicada. O surgimento do Grupo de Desenvolvimento da Tecnologia Apropriada 3. e o fomento partir da TA. respeito à dimensão ambiental. não é adequada à realidade dos equipamento tecnologicamente apropriado. um dos poucos pesquisadores latino-americanos que se que. Seu objetivo final era a da Tecnologia. no centro de uma espiral que procura denotar um processo artesanatos das aldeias não significava uma conservação cumulativo. Os pensamentos dos no mundo ocidental. implementação. para identificar e resolver Sociologia da Inovação. seria mais adequada para os países pobres. cunhou a expressão Tecnologia Intermediária para designar uma tecnologia que. Entre 1924 e 1927. Filosofia os problemas importantes imediatos. o que pode ser avaliado pela significativa desenvolvimento econômico em países periféricos nos anos 1960. Cada um desses elementos . a Charkha.Contribuições ao Marco Analítico-Conceitual da Tecnologia Social Henrique T. apesar dele apenas no nível do que parece suficiente para que o leitor interessado possa nunca ter usado esse termo. influenciaram um economista alemão – Schumacher – que artigo. vários pesquisadores dos países avançados como estratégia de luta contra o domínio britânico. através de um processo de latino-americana – encontra-se associado aos autores cuja contribuição foi crescimento orgânico. não produção em massa”. de tecnologia apropriada está claramente definido. A insistência de Gandhi na proteção dos Nela aparece. uma imposição externa. Novaes / Rafael Dias Em seguida. da pesquisa científica e tecnológica. Economia da Inovação. do livro Small is beautiful: economics as if people mattered. propriamente teórico. Essa preocupação pode ter sua origem datada. preocupados com as relações entre a tecnologia e a sociedade já Gandhi dedicou-se a construir programas. 1983. (Herrera. simplicidade. Construção Social da Ciência e da Tecnologia. reformadores daquela sociedade estavam voltados para a reabilitação e o Não obstante. pequena escala. partindo de matrizes disciplinares e concepções ideológicas bastante dedicou ao tema. são apresentados os melhoramento das técnicas locais. que era essencial para sua da incorporação ao movimento da TA das críticas e contribuições dos ECTS. Análise de Política e Crítica à Política Científica e Tecnológica transformação da sociedade hindu. como forma de lutar países periféricos. mais tarde. a adaptação da tecnologia principais elementos que contribuirão para o desenvolvimento conceitual a moderna ao meio ambiente e às condições da Índia. frase por ele cunhada: “produção pelas massas.

tecnologia não-violenta. cada uma denotando alguma especificidade. tecnologia liberatória. adicionalmente. tecnologia democrática. diferenciar-se daquelas tecnologias consideradas de uso culturais. O movimento da TA incorporou aspectos origem. nas apropriada. cunhadas para relação aos fornecedores usuais de tecnologia para os países periféricos. relações em função da percepção de que esta não tinha conseguido resolver e inclusive sociais. tecnologia econômico. Já presentes nessas concepções de tecnologia. tecnologia utópica. em si mesmo. que podem criar mais problemas do que Durante as décadas de 1970 e 1980. a TA possuía o cenário desejável que se desejava construir. tecnologia de auto. 2001. fazer referência à TA. tecnologia ambientalmente apropriada. p. O plano tecnológico. tecnologia efeito de transbordamento ou de mancha de óleo. e não com comunitária. tecnologia um resultado ex post de uma reação em cadeia catalisada pelo acúmulo de emancipadora. Passou-se. e não algo a ser adaptada ao meio ambiente. 1976). tecnologia de vila. tecnologia humana. sociais e políticos à discussão e propôs uma mudança no estilo de intensivo de capital e poupadoras de mão-de-obra. uso intensivo de insumos naturais e regionais. o ajuda. seu bem estar” (Dagnino. tecnologia orientada para o povo. ser duramente criticado. tecnologia correta. na realidade. Novaes / Rafael Dias Foi de fato essa preocupação que originou a reflexão que. Essas concepções. com maior grau de radicalidade. tecnologia adequada. meio-ambiente (com a utilização de recursos renováveis). houve uma grande proliferação de resolvê-los. elas de-obra. em desenvolvimento. sem questionamento. pela linha mais ghandiana do movimento. orientada para a sociedade. tecnologia seguiria a tecnológica. etc. tecnologia doce. tecnologia da escassez. a visão da TA avançou numa se ao processo de transferência massiva de tecnologia de grande direção particularmente interessante para a discussão desenvolvida neste escala. Entre elas: O movimento da TA. a identificar a TA a “um conjunto de técnicas de produção que utiliza Outras expressões foram criadas no interior de movimentos que. enfim. tecnologia limpa. objetando- desenvolvimento (Dagnino. característico dos países desenvolvidos. tecnologia abrangeu outras profissões: a da Tecnologia Intermediária de Schumacher adaptativa. tecnologia popular. seria capaz de evitar os prejuízos sociais e ambientais derivados da adoção A inclusividade do movimento da TA pode ser avaliada pela quantidade das tecnologias convencionais e. grupos de pesquisadores partidários da idéia da TA nos países avançados e uma significativa produção de artefatos tecnológicos baseados nessa perspectiva. passou a não-agressiva ou suave. saúde. a preocupação com a questão ambiental e com de escolha tecnológica. o baixo custo dos produtos ou serviços finais e do as fontes alternativas de energia era relativamente freqüente. foi uma importante inovação em termos da teoria do desenvolvimento tecnologia alternativa. Tecnologia e Sociedade (CTS). nutrição. Este. político que emoldura a relação entre Ciência. criticavam o contexto sócio-econômico e assim. tecnologia modelo da cadeia linear de inovação que supunha que à pesquisa científica do povo. (Brandão.13). nos anos 1970.Contribuições ao Marco Analítico-Conceitual da Tecnologia Social Henrique T. tecnologia deixado ao sabor da paulatina difusão de um padrão de modernidade à la ecológica.. tecnologia branda. produção de alimentos. tecnologia duas pontas – a atrasada e rural e a moderna e urbana -. Nessa linha. o desenvolvimento econômico e depois o social. tecnologia de sobrevivência e tecnologia poupadora ou da Tecnologia Apropriada. Em função de suas características de maior intensidade de mão- Por entenderem essa inadequação com algo estrutural e sistêmico. como passou a ser mais genericamente e de capital. 22 23 . embora não tivesse sido colocado dessa forma. simplicidade de procuravam expressar o caráter alternativo em relação a esse contexto que implantação e manutenção. diminuir a dependência em de expressões. tecnologia racional. tecnologia socialmente periféricos era entendida como demandando um ataque diferenciado. para os países trabalho. a As expressões que foram sendo formuladas tinham como característica simplicidade. emprego.. poderiam agravar os problemas sociais e ambientais. habitação. tentam. tecnologia passava a ser visto como um objetivo imediato. inclusive. A redução da chamada heterogeneidade estrutural dos países intermediária. os efeitos positivos que sua utilização traria para a geração de comum o fato de serem geradas por diferenciação à tecnologia convencional renda. a pequena ou média escala. de maneira ótima os recursos disponíveis de certa sociedade maximizando. 1976). respeito à cultura e capacitação locais. no qual imperava. de alguma forma. investimento necessário para produzi-los. uma massa crítica científica. na sua inclusivamente denominada. tecnologia radical. foram estabelecidas Embora o objetivo central da maioria desses grupos fosse minimizar a pobreza características como: a participação comunitária no processo decisório nos países do Terceiro Mundo. tecnologia progressiva. tecnologia libertária. tecnologia de baixo custo.

1983). Não natureza do processo que preside a adoção de tecnologia. em novos ramos industriais. onde a introdução Essa crítica sugere o que talvez tenha sido . o desemprego nos países periféricos não poderia ser evitado por uma ação Como também foi escassa a participação da comunidade de pesquisa desses contrabalançadora nos setores modernos da economia.a sua de tecnologias de maior produtividade criava. não foram capazes de conceber processos de geração tecnológicos de inadequada qualificação pudessem ser “retreinados” e e difusão de conhecimentos alternativos aos usuais que pudessem. Não obstante. assim como outros aspectos apoiando um considerável número de estudos de caso sobre a utilização e normativos do movimento da TA.Contribuições ao Marco Analítico-Conceitual da Tecnologia Social Henrique T. fazer com que a TA fosse. os responsáveis pelas escassas pesquisas O pluralismo tecnológico defendido pelo movimento foi percebido científicas e tecnológicas em TA que desenvolveram alguns pesquisadores dos por alguns críticos da esquerda como sintoma de seu conservadorismo. ocorrer o mecanismo virtuoso observado nos países centrais. a um processo auto-sustentado semelhante ao que caracteriza a supranacional. seria no setor moderno que o combate ao desemprego poderia ser travado. através reincorporados à produção. Os defensores da TA não compreenderam que o desenvolvimento de O vazamento das atividades mais intensivas em tecnologia. adaptativa e do que com uma iniciativa capaz de alterar significativamente a situação que não-questionadora das estruturas de poder dominantes no plano internacional 24 25 . objetivo de desenvolvimento social. a idéia da TA supunha que trabalho junto às populações do Terceiro mundo que pretendiam beneficiar. Neles. De fato. de maior valor tecnologias alternativas representava uma condição apenas necessária . a imensa maioria dos grupos de pesquisadores de TA está de investigação. Um exemplo significativo é o da Organização Internacional tecnologia convencional (Herrera.e continue sendo .e a escassa probabilidade de que os desempregados Conseqüentemente. Há que se reconhecer que. a manutenção da baixa remuneração dos trabalhadores 4. não tendia a países nesse movimento. dada a então relativamente principal debilidade: o pressuposto de que o simples alargamento do leque de baixa taxa de substituição tecnológica. para o movimento da TA. 1998). pelos interesses dominantes. uma vez que permitiria o aumento da desses países. inexistentes estímulos internos. Dado que. embora centrada no um sentimento de culpa de pesquisadores e empresários do Primeiro Mundo.para sua adoção pelos grupos sociais que pretendiam se beneficiar. Isso seria. com exceção da Índia. de fato. como força antever os problemas migratórios que poderia causar). na países periféricos com maior sensibilidade social. mais do que os quase Política de Ciência e Tecnologia latino-americana (Dagnino. medida em que o movimento da TA estaria apenas propondo um downgrading embora ingênua no seu pressuposto e pouco coerente com o mainstream. Eles que o movimento propugnava supunha reformas no modelo de acumulação mostraram o melhor desempenho das tecnologias intensivas em mão-de. para esses interesses. o tratamento do problema do desemprego desenvolvimento de TA realizados principalmente na Ásia e na África. em última instância. adotada. do envolvimento dos atores sociais interessados na mudança de estilo de Essa mesma preocupação angariou. não eram aceitos obra em termos de seu impacto social e econômico. desenvolvimento que propunham. importantes aliados. tanto no âmbito dos países avançados (talvez por E tampouco conseguiram que essas idéias fossem incorporadas. amenizaria a marginalização social e atenuaria o desemprego estrutural socialmente explosivo. há que reconhecer que. sua postura era defensiva. oportunidades de emprego. Ainda que não explicitamente. do Trabalho que se envolveu com o tema. quanto no plano motora. pelo menos em nível teórico. funcional aos idéia da TA dava vazão ao compromisso social e à busca de originalidade na interesses daqueles que apoiavam as estruturas de poder injustas que seleção de temas de pesquisa de um segmento da comunidade de pesquisa predominavam no Terceiro Mundo. produção e o barateamento da força de trabalho. o movimento da TA sofreu um processo de desqualificação e até ridicularização Uma das críticas ao movimento da TA era a de que ela tinha mais a ver com Nesse sentido. ainda que não fossem radicais.característica da situação suficiente . a da tecnologia convencional. era visualizado como um sério obstáculo. capitalista periférico que. lamentavelmente não perseguida com a ênfase devida situada nos países do Primeiro Mundo e foi muito escassa a incidência de seu posteriormente. de dependência . com alternativas tecnológicas à disposição dos países periféricos poderia alterar a remuneração freqüentemente superior. As críticas ao movimento da Tecnologia não-qualificados demandados pela expansão do modelo urbano-industrial Apropriada implementado era fundamental. é conveniente ressaltar que. Novaes / Rafael Dias A preocupação com o desemprego abriu uma interessante linha denunciava. Daí talvez o seu escasso significado para a Talvez tenham sido esses aliados externos.e não adicionado e maior remuneração para o exterior .

Novaes / Rafael Dias e local. Sobre a questão de ensino.Contribuições ao Marco Analítico-Conceitual da Tecnologia Social Henrique T. software livre e inclusão social de um investimento menor do que o associado às tecnologias convencionais. produção e transformação da realidade (Koury. apesar de não dialogarem entre si e também excluído a idéia de projeto e. em alguns casos de forma dos companheiros de Sérgio Ferro no Grupo Arquitetura Nova escreveu “Notas relacionada com o ambiente econômico e tecnológico criado com a difusão de um estudo sobre objetivos do ensino da arquitetura e meios para atingi-los do neoliberalismo. com a técnica e com as necessidades da projeto de integração subordinada e excludente que produz o agravamento maioria da população.38). Ino e Shimbo (2006). processo de inclusão democrática das classes que lutam por “participação 26 27 . na Universidade de Brasília (UnB). atores situados ao Mayumi e Sérgio Sousa Lima organizando o curso de Arquitetura a convite de longo de um amplo espectro de interesses e visões ideológicas passam a se Darcy Ribeiro. etc) destaque2. em nível internacional. O fato de esse processo ter Todos esses trabalhos. Nesse cenário. não por acaso. duas questões merecem Públicos de Pesquisa (Embrapa. se difundisse. formulando para isso uma pedagogia própria. os detentores do capital (principalmente o capital financeiro) nas economias que pretendeu questionar a atuação profissional hegemônica e estabelecer avançadas e penaliza os países periféricos. conseqüentemente ao enfoque dado pelos professores à questão tecnológica. pesquisadores e extensionistas. por exemplo. pouco se avançou além do discurso freqüentemente demagógico dos governos autoritários da região. b) ao ensino nas universidades e – como forma de construção de um estilo alternativo de desenvolvimento. o cenário político que. foram surgindo desenvolvimentos teóricos que parecem em trabalho de projeto” nos anos 1960. essa social e de estrangulamento econômico interno do País. Dagnino e Novaes (2008). necessidades básicas) era corretamente apontada como prioritária nos planos de governo. é natural que a preocupação com precisa ser escrita. Rodrigo Lefèvre. O objetivo era dar um “banho de realidade” nos alunos. Sobre autogestão e fábricas recuperadas de Henriques (2007). c) possibilidade de atuação dos professores. Arantes (2002). ainda da situação de nosso povo. A título de exemplo. 2003. Apesar disso. politicamente comprometidos 5. 2008). Apropriada’’: O movimento de TA perde momentum no início dos anos 1980. 2 Para a descrição e a crítica às Incubadoras de Empresas e de Cooperativas Populares no Para Lefèvre. Reconstituição do caso da ‘‘Arquitetura em afastar qualquer ameaça aos interesses imediatistas das elites locais. somar a esses movimentos. parece eximir-nos de maiores comentários. resultou num uma nova relação com a realidade. dentre outros. Isso pode ser visto. mediante a ascensão do neoliberalismo. junto aos movimentos sociais. incentivando-o a orientar suas decisões de exposto. ao menos em 1962. mais ainda. um Por outro lado. para que eles se conscientizassem dos problemas sociais do país bem como as formas de superá-los. Veiga (2008) e Monserrat Neto (2008) e engenharia e autogestão Addor sobretudo nos setores mais atrasados (produtores de bens que satisfazem (2004) e Fraga (2007). Instituto de Pesquisas Tecnológicas. se não na implementação. nos deteremos no caso Por um lado. pesquisa e “extensão”. Pinheiro Machado (2004). Ele desmascara uma prática alienada apontar para o processo de elaboração do marco analítico-conceitual aqui por parte do futuro profissional. com estilo de desenvolvimento humano. É certo que ela foi muito combatida e quase todas as as bases tecnológicas de um processo que permita a recuperação da cidadania experiências acabaram violentamente interrompidas. De fato. p. Além das aulas do dos segmentos mais penalizados. manifestou através de um processo de mundialização do capital que favorece Arantes (2002) observa que a história do ensino crítico de Arquitetura. e a construção de um história começa. Novaes A necessidade de geração de postos de trabalho que demandassem (2007) e Faria. sobre agroecologia e movimentos sociais de Guterres (2006). O movimento da TA teve algum impacto. a interrupção da trajetória de fragmentação pintor e arquiteto Sérgio Ferro na Universidade de São Paulo (USP). a consideração de um que envolvia de não convergirem para uma teoria mais ampla da Tecnologia Social. dentre outros. associações de pesquisadores-militantes ou Institutos Tecnologias Alternativas em países periféricos. se da arquitetura. cabe destacar como. nos trabalhos sobre arquitetura projeto com plena consciência da importância do seu papel como agente de e movimentos sociais de Ferro (2006). Para contextualizar a re-emergência de temas relacionados às seja de Universidades. latino-americanos (Dagnino. Altieri (1989 e pelo menos na formulação da Política de Ciência e Tecnologia dos governos 2005). ver Oliveira (2003) e Dagnino (2001). a participação do arquiteto deveria privilegiar o Brasil. tecem a desconstrução e negação de um de seus pilares – a Tecnologia Convencional críticas radicais à: a) tecnologia capitalista. Em nível nacional.

Belas Artes.172).53). escolhe a “demanda” de cada projeto em função de critérios de Lucca e outros colegas. com o abrandamento da acordo com Arantes (2002). Pedro Moacir do Amaral Cruz. no seu consumo como bem material e na sua fruição de experimentação e contestação expande-se da FAU para a Faculdade de estética. Novaes / Rafael Dias no controle social e político” e a participação popular no processo produtivo retomar sua crítica e atuação na FAU. tinha como intenção fundamental reformular o saber estabelecido que se As primeiras experiências de produção de casas pelos movimentos constituía em pressupostos de manutenção do poder: o conhecimento técnico de moradia ocorreram no início da década de 80. autor cite nominalmente o educador Paulo Freire. o foco da arquitetura. Arquitetura e Comunicação. com produzindo aquela obra. o acirramento da violência. ainda na 2002. afirmar que neste espaço se esboça a superação do trabalho alienado. um grupo significativo de profissionais que iriam depois participar de diversas A proposta da Arquitetura Nova de desenvolvimento de sistemas administrações do PT e de assessorias técnicas aos movimentos de moradia alternativos de produção da arquitetura. o diretor afastado e assume o O canteiro promovido por grandes empreiteiras é sinônimo de arquiteto Ariosto Mila. 2002. Sérgio e Mayumi transferem-se para a FAU-Santos e junto com Sérgio No caso dos mutirões autogeridos pelos movimentos sociais. 2002). onde os trabalhadores têm pouca margem para por Artigas (um dos professores da FAU filiado ao Partido Comunista Brasileiro) decidir o que produzir. a alienação. muitos professores passam a capatazes e no qual os arquitetos estão do mesmo lado dos trabalhadores. ao fazer ocupações. entre outros. é evidente a semelhança Evitando a intermediação de uma construtora capitalista. com Siegbert Zanettini. Não por acaso foi adotada usado como instrumento de dominação e o saber popular preso aos limites a forma mais tradicional de cooperação popular: o mutirão. não sabem o que estão produzindo e para quem estão em 1962 e estabelece o 2º Fórum de Ensino (Arantes. tentativa de retomar o modelo “seguro” de ensino de ensino da Arquitetura isso porque substitui os técnicos do governo e das construtoras. é temporariamente fechada. A novidade era de uma tradição ineficiente. a participação dos arquitetos críticos será fundamental. Cruz faz assembléias. É o movimento que. o Instituto de Artes. impedindo a prática fisiológica.170). como se trata de um trabalho sem patrões nem violência promovida pela ditadura militar. fechado. a escola. 2002). Direta ou indiretamente. existe um esboço de controle popular ensino – outra iniciativa abruptamente encerrada. contrata trabalhadores. a universidade sofre intervenção militar e o curso é recursos pelos próprios construtores e futuros moradores. Depois de inovadora que sustentam o poder de organização do movimento (Arantes. De Na segunda metade dos anos 1970. 2003. escala coordenadores. Sérgio Ferro vai para a Escola de Grenoble. decide como serão que também é fechado em 1976 (Arantes. que impõe entre o método de alfabetização de adultos baseado na conscientização sua forma de organização e expropriação do trabalho.Contribuições ao Marco Analítico-Conceitual da Tecnologia Social Henrique T. ateliê. Mayumi segue para São José sobre todo o processo de produção. candidato menos votado na lista tríplice. Após o golpe.101). p. 2002). p. forma comissões de compra. 28 29 . (Arantes. No início de 1965. apesar de Ferro e Francisco de Oliveira. seu “discurso competente” e estabelece uma outra prática e uma base técnica que permaneciam sendo defendidas por professores e alunos. dos Campos. pretendeu resgatar a importância das disciplinas técnicas em detrimento do 2002. 2003. formando no início dos anos 70. as casas e a organização do trabalho no canteiro. Embora em nenhum momento o público e a universalização do direito de moradia (Arantes. cujas atividades eram por ele consideradas “mero artesanato”. como valor expressivo (Koury. Foi o que levou Rodrigo Lefèvre a introduzir no realizá-lo não mais como forma de autoprovisão com economia própria. No início da década de 1980. questiona como nos tempos da Poli. o mutirão organizado política defendida por Freire e o princípio de qualificação de mão de obra pelos movimentos vai permitir o controle das decisões e a administração dos migrante proposto por Lefèvre (Koury. claramente estabelecidos. é escolhido para diretor da FAU o engenheiro elétrico escolhe fornecedores. baseados em técnicas popularizadas. de exploração.170). a importação e o se num importante espaço de renovação do ensino de Arquitetura e forma transplante de técnicas consideradas modernas. na Há diversas características no canteiro autogerido que nos permite França. Dalton indica os terrenos. aprende a negociar com o governo e empresas. p. elaboram uma nova estrutura de um conflito permanente com o Estado. (Arantes. Rapidamente o laboratório da Faculdade de Belas Artes constitui- a arquitetura nova criticava o modismo. p. Rua Maranhão. Em 1968. Cruz abandona as diretrizes da reforma de 1962. p. entendendo-a como um método com terra e financiamento estatais. O novo diretor inicia a construção do prédio projetado alienação. mas canteiro de obras a tecnologia de abóbadas. Na Nos mutirões. diversas ações impositivas e que descontentaram a todos. reivindicando uma parcela do fundo construtivo e didático ao mesmo tempo.

é estocado. mesmo porque não são utilizadas fôrmas de concretagem e andaimes. que ele obra de poupa muitos recursos.Contribuições ao Marco Analítico-Conceitual da Tecnologia Social Henrique T. decide as responsabilidades.194-95). deveria competir com o canteiro de uma empresa privada. Novaes / Rafael Dias seria possível comparar o mutirão assim gerido com uma forma de trabalho Entretanto. madeira desperdiçada. Há uma tendência das de cooperativas) ou as brigadas cubanas (mesmo sem o regime socialista). assalariado. aceitando essa maneira ampliação da exploração. A assim ele conclui: construção tende a ser muito limpa e econômica. autoridades de mando. fundada na idéia democrática da obra que cria o interesse em não desperdiçar nada. p. produtividade e rapidez do canteiro. no que diz respeito à redescoberta do trabalho los limpos no fim do dia. no final da “amador”.196-97). pertence e na qual se reconhecem. demissões. o canteiro do mutirão não tem como e nem sequer Os trabalhadores são convidados ou se convidam a enfrentar desafios. a ausência de amadorismo. dos coordenadores e dos arquitetos em repor hierarquias e controle do mutirão não é feito pelo capitalista ou por sua gerência científica.195). à natureza outra do trabalho no mutirão. mais “eficiente” de produção em detrimento das idas e vindas da gestão mas somente através da invenção de novos procedimentos e técnicas coletiva. 2002. Arantes nos lembra que numa obra comum. e segundo. É ali que cada mutirante retira seus instrumentos e deve devolvê. 2002. os encaminhamentos atropelados. pois em geral. cerca de humano. o canteiro autogerido não escapa à reprodução de parte diferenciada. um canteiro tradicional mas definido em assembléias e comissões. As conversas paralelas não são mais permitidas. porque a defesa da eficácia da empresa privada e o canteiro autogerido onde as mentes dos trabalhadores são aguçadas para representa uma regressão a formas heterônomas e muitas vezes violentas resolver problemas de diversas ordens. Uma não se pode deixar o mito da produtividade destruir o que o visita ao almoxarifado é suficiente para ver o grau de cuidado com que tudo canteiro autogerido contém de pedagogia para a libertação. blocos quebrados. Utilizando os pressão para acelerar a obra. como as cooperativas uruguaias (apesar de não assumir a forma das relações de produção e dominação capitalistas. por outro. embora muitas vezes o seja. O lideranças. cumpre um acordo entre iguais. p. por isso. p. Não obstante. o que acaba resultando num fortalecimento termos de Sérgio Ferro. correspondente. devido à utilização de técnicas racionalizadas. construtivas. profissionais e entre o canteiro convencional onde se “ganha tudo praticamente prontinho” materiais para isso. queda na sabotagem e acidentes. com precarização. O cronograma deve ser cumprido e as famílias fazem táticas de cobrança do governo. Arquitetura Nova] do canteiro como escola paulo-freireana. 30 31 . A separação e a re-totalização são uma ação p. resolver problemas. produtor de uma obra que a todos um terço do material é perdido durante a construção (Arantes. por oposição ao “profissional”. E A economia de recursos é significativa nos mutirões autogerido. Não há dúvida de que assim ela avança No mutirão não é possível aumentar a produtividade através da mais rapidamente e o movimento termina. inclusive. 2002. por um lado. estão todos preocupados em evitar o desperdício e em cuidar dos equipamentos. voluntária dos trabalhadores e o produto por eles realizado não Há uma diferença fundamental que distingue a natureza do trabalho é alienado. Isso. seria possível afirmar que das estruturas de comando. o grupo pode então estabelecer uma aprendizado dos trabalhadores exigem tempos e ritmos diferentes da “iniciativa coletiva máxima” (Arantes. Possibilidade que se deve. Sem o constrangimento da heteronomia do desenho numa grande empreiteira e num canteiro autogerido: a autogestão e o e da violência do capataz. Andando Retornando à tese de Rodrigo Lefèvre [um dos membros da pela obra não se vê entulhos.195). e. p. pode ser feito com um certo prazer (Arantes. a vontade dos mutirantes de receber ordens e não ter Arantes observou ainda que o grupo estipula os seus limites. atrofiando a autogestão (Arantes. primeiro porque não possui condições técnicas.194). em Em síntese. de exploração e trabalho. 2002. desmercantilizado. ausência de corrupção. Como adverte exercitar suas capacidades intelectuais. pondo ali encontramos uma forma de produção sem a dominação a perder grande parte do processo democrático esboçado (Arantes. reproduzindo. A obra não pode ser simplesmente “tocada”. Há uma diferença Arantes. horas extras. 2002. os questionamentos abreviados. É justamente porque se trata de um trabalho de lucro. a gestão muito.

Frei Otto e Buckminster (Arantes. renascendo das cinzas. se preparando para grandes O encontro com do arquiteto com o povo tem e terá conseqüências transformações. Esse que ele aliena tanto o operário que obedece quanto o arquiteto que o contexto histórico colocou novamente na defensiva os grupos de professores realiza. de aço de Otto e Fuller. 2002). sinaliza a possibilidade referências que vão do vernacular ao high-tech: John Turner. o mutirão e a autoconstrução passaram a ser ensino. no entanto. Rudofsky. casas que escapam relativamente bem ao espaço de produção pelas ditaduras militares na América Latina abortou os projetos do grupo de mercadorias. A contradição da autoconstrução teve que abandonar o cargo. sociais. Ermínia Maricato (arquiteta barata e atrasada de produção habitacional diante da crise do Estado e da FAU filiada ao Partido dos Trabalhadores) chegou a trabalhar no Ministério da impossibilidade do Terceiro Mundo de reproduzir as alternativas de das Cidades. Em última instância. institucionalizada. justamente porque trabalham do conhecimento. como o projeto Universidade Aberta “práticas recomendadas” pelo Banco Mundial. é um sinal de que o Estado na periferia do capitalismo tornou-se é apenas uma alternativa para os sem-teto. pesquisa e extensão vinculada aos interesses dos movimentos Gaudí. etc3. é um excelente laboratório para os trabalhadores abóbadas da Arquitetura Nova. no mercado informal. Outras iniciativas ainda resistem. Quase cinqüenta anos depois do surgimento institucionalizadas foram muito pequenas. Desde os anos 1980 se tenta “reatar o fio interrompido”. Flávio e Rodrigo e da TS na arquitetura tendo em vista a resolução dos grandes problemas menos ainda por Artigas. ver o Capítulo 3 de Novaes (2008). pois haverá um confronto entre as culturas A contradição do mutirão autogerido é que eles constroem um valor do técnico e do mutirante. Com a crise da modernização latino-americana no um grupo de professores que pretendia realizar transformação semelhante no final dos anos 1970. Sérgio Ferro afirma que o contexto latino-americano pós-1980 é de regressão histórica. Façamos agora a crítica à visão de uma transformação. Estamos ainda ensaiando. e pesquisadores revolucionários. participativa ou vernacular. a experimentação do que pode vir a ser um desenho emancipado. 3 Para uma sistematização do debate da Arquitetura Nova. Schwarz. A regra era a atuação de grandes da Arquitetura Nova. a “revolução” na Arquitetura apenas conseguiu ensaiar mercadorias. muitos acreditaram que finalmente como pensou Rodrigo Lefèvre. exercitarem o controle da produção. ainda não se pode dizer que houve um verdadeiro empreiteiras habitacionais. Retornando ao debate. No que se refere à Universidade Pública. Com a ascensão de Lula em 2003. Hassan Farty. acreditamos que o mutirão autogerido não produção. trata-se de republicanizar a universidade que Ainda seguindo os rastros de Arantes (2002). 2002). é que mais do que a superação do modelo anterior de Para concluir esta seção. há também uma outra contradição na Em 2000. Novaes / Rafael Dias Na sua crítica ao desenho na produção capitalista. mas diante dos acordos com o conservador Partido Progressista. para o desenho na arquitetura. a combinação da perdeu muitas de suas características públicas com o golpe de 1964 e nos arquitetura terceiro-mundista. A “construção interrompida” na década de 1960 de uso. com as estruturas anos 1990. No entanto. 32 33 . Eles não estão filiados a nenhuma escola e combinam nacionais. acreditamos como a contribuição do debate da agroecologia e cooperativas agrícolas para a TS. ainda não conseguiram inventar formas de Arquitetura Nova. reencontro entre o projeto revolucionário deste grupo com os anseios do Pedro Arantes observa que é só devido à possibilidade de autonomia povo. o reencontro com o povo sinaliza o potencial diretamente influenciados pela arquitetura de Sérgio Ferro. Johan van Lengen. no comércio formal de Nos anos 1960. numa fábrica aonde vendem sua força de trabalho. a Unitau (Universidade de Taubaté) demitiu sumariamente autoconstrução. aproveitando as palavras de R. essas práticas em Santos (Arantes. Do ponto É preciso reconhecer que os arquitetos dos mutirões não foram de vista dos arquitetos críticos. semelhante às simples que o industrial.Contribuições ao Marco Analítico-Conceitual da Tecnologia Social Henrique T. além de muitos outros que se davam em diversos campos emancipar-se do trabalho assalariado. que o mutirão pode ser o lugar da democratização e da conscientização. processo mais arquitetônica que seja ao mesmo tempo popular e moderna. mas um espaço excepcional para incapaz de dar respostas positivas ao enfrentamento do déficit habitacional. pois enfrentava a contradição de se experimentar as novas oferta e demanda de tecnologia. bem Muito embora se tente desenhar “cara a cara” com a população. de formação. dos mutirões autogeridos. Caso contrário. será apenas uma forma seria a oportunidade de reatar o fim interrompido. provisão de moradias dos países centrais. idéias em “casas burguesas” e também porque a “procura do povo” ocorreu poucos anos antes da virada conservadora de 1964. por ser a construção uma manufatura. revelam uma vontade de encontrar a expressão Para Ferro (2006).

ainda. de que esses cientistas e tecnólogos bem- com aqueles que estão inseridos no movimento da Tecnologia Social. a outros que. em função de usuários desde o momento da concepção dos artefatos. numa espécie de “Mercado de Tecnologias Sociais” (Dagnino.Contribuições ao Marco Analítico-Conceitual da Tecnologia Social Henrique T. por pessoas que fossem capazes de abandonar procedimentos técnicos sobretudo se ela se deu sem a participação daqueles que efetivamente irão profundamente arraigados e alterar procedimentos de concepção (ou de comercializar os produtos que a tecnologia permitirá fabricar. é um elemento central do marco analítico-conceitual Inovação para a reflexão acerca da Tecnologia Social” dos mesmos autores deste artigo. A Abordagem Sociotécnica e a construção idéia de inovação. da Inovação. A mais relevante processo de inovação. da Tecnologia Social A contribuição tratada neste item. Assim. dentro dessa Na realidade. por partilharem dos valores e objetivos da Inovação servem como base para a crítica de um pressuposto aceito pela que impregnam o cenário desejável de maior eqüidade. e oferecido. é também pouco plausível à luz da Economia tecnologia para abraçar a noção de que. pudesse ser produzido ex ante. deste livro. como veremos no artigo de Dias e Novaes. que esse A idéia de que a tecnologia alternativa poderia ser produzida conhecimento seja resultante de alguma pesquisa previamente desenvolvida. um processo do qual apareça um conhecimento criado delas diz respeito ao pouco realismo e aplicabilidade do modelo de Oferta e para atender os problemas que enfrenta a organização ou grupo de atores Demanda para tratar questões relativas ao produto conhecimento. se tem mostrado como é relativamente pouco importante. 34 35 . Ela propõe envolvidos. ao contrário. para respaldar a noção de que não poderiam etc). ou mais genericamente. De fato. financeiros. da prontas e acabadas para problemas sociais diversos. que exigem respostas próprias. ver o artigo. dentro da concepção da Tecnologia Social. dá lugar à de “reaplicação”. o movimento social em questão. como aceitava a teoria da inovação a empresa e em nosso caso os movimentos sociais) em que Tecnologia Apropriada. uma perspectiva baseada na interação entre atores no âmbito de um processo mesmo nos ambientes mais formalizados da tecnologia convencional e das de inovação. envolvendo os interagem desde um primeiro momento para engendrar. de modo que não faz sentido. culturais Essas idéias servem. dificilmente ele concebidas. empresas. Esses intencionados pudessem posteriormente transferir a tecnologia gerada para últimos descartam a idéia de oferta de “pacotes” de conhecimento e de um usuário que a demandasse. se supõe. por isso. maioria dos pesquisadores envolvidos com a Tecnologia Apropriada. A contribuição da Teoria da Inovação. Se a idéia de Oferta e Demanda tem sido abandonada como modelo descritivo e normativo da dinâmica que preside a tecnologia convencional nas empresas privadas e substituída pela 7. Da Economia da Inovação podem ser extraídas uma série de 2004). segundo a qual o conhecimento e a em ambientes muito distintos daquele onde foi concebido e com um grau de tecnologia pré-existente seriam adequados às particularidades dos problemas heterogeneidade muito maior do que aquele que existe nos empreendimentos verificados em cada contexto. resultados. múltiplos critérios (científicos. a idéia de re-aplicação perde totalmente seu sentido. que utilizam a tecnologia convencional. “Contribuições da Economia da construção sociotécnica. a inovação supõe um processo em que atores sociais a construção tecnológica deve ocorrer de forma participativa. nos ambientes em concepção de Oferta e Demanda que usualmente se perseguem resultados de pesquisa. Novaes / Rafael Dias 6. entender que a tecnologia só se constitui enquanto tal quando tiver lugar um retenhamos aqui apenas os elementos fundamentais4. Brandão. a idéia de “replicação”. técnicos. foi pouco realista. e em especial o processo de 4 Para outras contribuições. mercadológicos. ou cópia indiscriminada de saberes poderia ser transferido e utilizado por outras pessoas com culturas diferentes e técnicas. soluções previamente conhecimento que eles mesmos vão utilizar. as idéias da Economia origem às tecnologias convencionais. mesmo que o produto pudesse ter seus atributos a priori lógica. Cada contexto envolve uma série de particularidades vão ser produzidos os bens e serviços que o irão incorporar. nos permite Como esse tema será aprofundado no artigo de Dias e Novaes deste livro. construção sociotécnica) para atender a especificações distintas das que dão Assim. admitir a possibilidade de executar a transferência de tecnologias pré- especificados e. De fato. mas não A suposição adicional. tal como a estilizada pela Economia da Inovação. um existir. freqüentemente tácitos e às vezes propositalmente não codificados. A Economia da Inovação e a negação da O modo usual de entender a tecnologia nos levaria a concebê-la como um produto-meta a ser desenvolvido por uns. encontram-se dispostos a demandar esses contribuições pontuais para as reflexões a respeito da Tecnologia Social. Novaes. dentro da proposta alternativa da TS. no próprio lugar (no caso.

Entremeado com situa a tecnologia junto à sociedade. então. ao mesmo redes são então entendidas como conformadas pela própria estrutura dos tempo. possíveis. seria o ponto de partida para entender a dinâmica o tema aqui tratado. Wiebe Bijker e Trevor Pinch – que possuem em começa a se estabelecer em 1984. e não da sociedade propriamente dita. Privilegiando a observação de processos que conhecida como o enfoque da Construção Social da Tecnologia é a que ocorrem no nível micro com categorias e ferramentas analíticas típicas dos desenvolveremos com maior detalhe. passa a se Nela juntamos três contribuições . Ou seja. especificado .que se interesses políticos e outros similares influenciam não apenas a forma final relacionam de modo diverso e que são responsáveis pela consolidação ou que toma a tecnologia. 1992). e de sua correspondente ele terá que ocorrer.que caracteriza os conceitos de TA. naturais ou sociais .Contribuições ao Marco Analítico-Conceitual da Tecnologia Social Henrique T. incapazes de dar por critérios científicos e técnicos. essa escola de pensamento tem muito a contribuir com resistência e força relativa. que denota os e engenheiros. origina no âmbito dessa elementos seria. Novaes / Rafael Dias da TS. trabalhadores. mas também pelos gerentes. e ao destacar a necessidade controvérsias. e de construtivismo social da tecnologia dos A tese central da abordagem da Construção Social da Tecnologia. de ator-rede. conceito permite compreender tanto a condição tecnológica da mudança Seria. pesquisadores abordagem o conceito de conjunto (ensemble) sociotécnico. de uma sociedade. agências de arranjos entre elementos técnicos e sociais que dão como resultado uma governo.baseadas nos conceitos de sistemas ocupar também da tecnologia como objeto de estudo no âmbito do Programa tecnológicos de Thomas Hughes. cunha a expressão de ator-rede para abarcar um conjunto heterogêneo construídas socialmente no sentido de que os grupos de consumidores. o tratamento desse novo objeto de estudo que não admite social quanto a condição social da mudança tecnológica. Coerentemente. Ao transcender a visão estática e normativa – de produto previamente A observação empírica caso a caso dos interesses. 36 37 . a partir dos anos 1980. duas últimas décadas influenciada pela visão Construtivista surgida no âmbito A abordagem do Construtivismo Social da Tecnologia. algo mais do que a simples soma desses elementos. os de elementos . Esse conjunto de A metáfora do tecido sem costura. transformação da rede por eles conformada (Callon. E. Essa abordagem surgiu em associação estudos de caso. que sociólogos da tecnologia. explica como o ambiente social influencia o projeto de um artefato artefatos que elas criam. nas condições dadas pelo ambiente específico onde relativos aos demais elementos não-humanos. negociações. consumidores. ele cria um marco de ator-rede –. 1986). Haveria geralmente um excedente de conta da complexidade da mudança tecnológica. usuários envolvidos com a tecnologia e. Forte de Edimburgo (Bloor. estratégias associados aos elementos humanos. extrapolando o conceito convencional de mudaria ao longo do processo de sua solução. 2002). que foram abandonadas por razões que um “tecido sem costuras” (Hughes. As um artefato. outra entidade. Bruno Latour e John Law. Ao relacionar uma hierarquia que postule a priori uma relação mono-causal – o acionar do o ambiente social com o projeto de um artefato. Mais do que isso: a própria definição do problema freqüentemente A abordagem do ator-rede. mas seu conteúdo. formado não apenas pelos inventores. e dos aspectos de iniciar um processo. as tecnologias seriam ator. Seu argumento central é soluções factíveis para qualquer problema dado e seriam os atores sociais os que a tecnologia é socialmente construída por “grupos sociais relevantes” no responsáveis pela decisão final acerca de uma série de opções tecnicamente âmbito do “tecido sem costuras” da sociedade. também da Nova Sociologia da Ciência. para outras atividades. 1998). 1987). as tecnologias e as teorias não estariam determinadas entre o determinismo tecnológico e o determinismo social. é que o caminho que vai de uma idéia comum a intenção de “abrir a caixa preta da tecnologia” e a metáfora que brilhante até uma aplicação bem sucedida é longo e sinuoso.animados e inanimados. Sociologia da Inovação (Aguiar. Sua origem é a sociologia da ciência que. na qual as considerações sociológicas e técnicas estariam Agrupamos sob essa denominação a perspectiva que se difundiu nas inextricavelmente ligadas. associada a Michael Callon. essa perspectiva foi responsável pela conformação de um com as abordagens do sistema tecnológico e ator-rede tendo em vista as novo campo de estudos sobre a tecnologia: a Sociologia da Tecnologia ou redes que expõem as relações entre os atores sociais e os sistemas técnicos. por sua vez. então. tecnológico e buscam uma alternativa ao que consideram a tensão paralisante Assim. elas se negam têm mais a ver com valores e interesses sociais do que com a superioridade a identificar relações de causalidade mono-direcionais entre o social e o técnica intrínseca da escolha final. e que proporcionam uma espécie de plataforma e como a tecnologia existente influencia o ambiente social. que guia sua trajetória de desenvolvimento. o que permitiria entender significado aceito pelos vários grupos sociais envolvidos na construção de como se vão conformando simultaneamente a sociedade e a tecnologia. à política e à economia conformando alternativas inerentemente viáveis. Esse os objetos materiais (Latour. até mesmo.

então. inclusive normativa. com preferências neutralidade da Tecnologia e interesses diferentes. o significado do artefato é outorgado pelos grupos sociais alternativa deveriam atuar no sentido de potencializar seu desenvolvimento que obtiveram maior sucesso ao longo do processo de negociação. ainda que nem sempre explicitada. um processo de 2002) explora uma linha de argumentação radical . Construtivismo. se da por meio de um processo 8. A Filosofia da Tecnologia e a não no qual artefatos tecnológicos vão tendo suas características definidas através de uma negociação entre grupos sociais relevantes. 2008). Ele pode ser entendido como um processo inverso ao elite de poder (Ham. não podia mais ser entendida como determinada características do artefato tecnológico e a forma com que se dá sua construção somente por uma lógica técnica inerente. 2004) é tributário construção quando do estágio de fechamento. e insatisfeito com a visão pessimista de Heidegger de que só um deus pode nos salvar da catástrofe tecno-cultural que a tecnologia 38 39 . as interpretações descritas acima reforçam a idéia de que as próprias circuito ou programa.no sentido etimológico negociação entre os diversos grupos. Dessa maneira. Haveria. influenciado pela arquitetura de poder original. ao argumentar que o desenvolvimento tecnológico à própria natureza contra-hegemônica do movimento da TS. no sentido da explicitação do conteúdo determina o que ele virá a ser quando for reprojetado e melhorado (segundo de classe que medeia esta relação e que. da Tecnologia Social. concreta sobre como aqueles que advogam a necessidade de uma tecnologia Nesse momento. chamaram de “flexibilidade interpretativa”). em que um artefato tecnológico sofreria um seu campo de abrangência para o que o construtivismo social denomina processo de adequação aos valores e interesses políticos de grupos sociais de marco tecnológico – que vincula o ambiente social com o processo de relevantes (cooperativas populares. entender o desenvolvimento de um artefato tecnológico estudando o Um aporte do Marxismo à idéia da construção social da tecnologia contexto sociopolítico e a relação de forças entre os diversos grupos com ele poderia iniciar com a importância que este confere ao conceito de grupo envolvidos. muitas vezes ignorados. etc). 2001 e Dagnino. particularizando da construção sociotécnica. essas reflexões fornecem insumos Feenberg. Elas produzem ao longo de seu processo de construção sociotécnica. Interlocução que pode ser entendida mudanças na natureza dos objetos. se desdobram ao seu redor. por uma configuração social têm impactos sutis. até que ocorresse o “fechamento”. e sim. Novaes / Rafael Dias O processo de construção sociotécnica. As maneiras diferentes como diferentes grupos sociais interpretam A forma como Andrew Feenberg aborda a relação CTS sugere a e utilizam um objeto técnico (a bicicleta. assim. Se associarmos o conceito de do construtivismo. Além que faz. por exemplo) não são extrínsecas existência de uma interlocução. distintos daqueles que originalmente participaram analiticamente produtiva com a interpretação marxista moderna da relação de sua construção. fica obscurecida. nas próprias relações sociais que específica que serve de unidade e escolha. de ir à raiz da questão . pautando-se principalmente na interpretação do essenciais para a orientação. a configuração de cada disso. com a a ele.Contribuições ao Marco Analítico-Conceitual da Tecnologia Social Henrique T. a escolha de cada engrenagem ou alavanca. Hill. social relevante e ao conceito de flexibilidade interpretativa que termina por Vale ressaltar que o conceito de Adequação Sociotécnica (AST) outorgar um sentido específico e consoante com seus interesses ao objeto em desenvolvido em outro artigo (Dagnino. mas segundo uma orientação distinta. e sua crescente adoção. gerando artefatos semanticamente também distintos (o que os autores disciplinar próxima à da Filosofia da Tecnologia. insumos CTS (Dagnino. desafia a visão até então fortemente sociais) para que possam se tornar suficientemente poderosos para dominante entre os estudiosos da dinâmica tecnológica. visão da construção social da tecnologia. Andrew Feenberg (1999.que nos leva a uma agenda propositiva e e pelas alianças estabelecidas entre eles. Isso se deve O Construtivismo. inclusive pela opção metodológica a percepção dominante) através do tempo. Por essa razão. Brandão e Novaes. A leitura de cada grupo (ou mesmo de diferentes Partindo do mesmo tipo de postura em relação à Tecnologia indivíduos dentro de cada grupo) a respeito de um mesmo artefato pode ser Convencional que adotou o movimento da TA. que envolve o envolve conflito e negociação entre grupos sociais com concepções diferentes empoderamento de determinados grupos (principalmente dos movimentos acerca dos problemas e soluções. importantes para a formulação do conceito de Tecnologia Social. 1993) ao de grupo social relevante. assentamentos de reforma agrária. A idéia de grupo social relevante fornece. A partir de crítica introduzir seus interesses e valores na negociação com outros atores. só é possível que ela faz por um nível de análise micro. O que o objeto significa para o grupo como uma paulatina politização no nível macro de análise da trajetória mais poderoso (um equipamento esportivo ou um meio de transporte?) explicativa proposta por essa visão. concepção de um artefato – talvez seja possível estabelecer uma relação fábricas recuperadas.

uma vez que a tecnologia convencional Construtivismo. sempre muitas potencialidades técnicas que vão permanecer inexploradas. ao contrário. como “furadoras” de greve (Ragon 1986 apud Ferro. Ela é o que assegura que delimitam o espaço de sua consolidação (Feenberg. da luta social no qual projetos políticos alternativos estão em pugna e. 2006. a hegemonia como forma de dominação. p.] as indústrias utilizaram as estruturas de ferro para a geração de trajetórias de coerentes com esses estilos alternativos. Para caracterizar o modo como se dá sua interlocução com o guarda com ela uma semelhança.. a posse da iniciativa técnica (ou o dentre as muitas configurações possíveis. relativo à de adaptação às demandas sociais que possuem os sistemas técnicos. Como vimos nas linhas acima. onde há em algumas mas. que ao introduzir inovações. A tecnologia passa então a ser entendida como um espaço operários” (Marx. uma socioeconômica e de poder político na sociedade capitalista. como delimitado pelos hábitos culturais entender uma das faces da mudança tecnológica.] Se esse material [o (2002) argumenta que a apropriação e o reprojetamento da Ciência e Tecnologia ferro] não destronou concretamente a madeira. Novaes / Rafael Dias capitalista tende a provocar.. 2002). segundo Feenberg. Nessa brilhante passagem de Ragon. a explicação já estava presente na obra de Marx. A importância política da posição de Feenberg é clara: se existem baseado na análise que realizou da mudança técnica que ocorria na Inglaterra. As tecnologias efetivamente empregadas seriam então selecionadas. pode se ramificar em muitas direções e prosseguir ao longo passagens que dão a entender que a escolha entre alternativas técnicas é de mais de uma via. o capitalista não estaria buscando só a estarem tão profundamente arraigados na vida social a ponto de se tornarem acumulação de capital. surgiram apenas como armas do capital contra os motins social existente. Suas decisões técnicas seriam tomadas tendo como aspecto da distribuição do poder social engendrado pelo Capital que sanciona objetivo reforçar seu poder e manter sua capacidade de tomar. tanto para os que são dominados como para os que dominam. Feenberg do proletário. a estrutura metálica de cobertura será inventada para contornar uma greve interminável dos carpinteiros tradicionais utilizando a madeira [. como se conta. que vê a tecnologia como “fura greve”. Marx afirma que: “Poder-se-ia escrever toda uma história dos inventos que. feita. no futuro. Segundo explicar porque o desenvolvimento tecnológico não é linear ou unidirecional ele. não são os imperativos tecnológicos os que estabelecem a hierarquia a partir de 1830. em que o que está em discussão é a necessidade de contar com 9.. Feenberg e Noble advogam o indeterminismo da tecnologia. 40 41 . Tecnologia. No Volume I do Capital. decisões semelhantes5.66. que num certo sentido vai numa direção oposta ao anterior e abre É de forma coerente com essa visão que Feenberg interpreta a maneira uma perspectiva especialmente importante para os trabalhadores. não em função de critérios técnicos e sim sociais. embora um tanto distante da situação que nos materialmente esse código sociotécnico. do ferro e do configuração tecnológica concreto. 1996. Esse capacidade de controlar decisões de natureza técnica. Isto enraizados na economia. a arquitetura moderna não é filha do vidro. Possibilidades de mudança na 5 Ou como sugere Sérgio Ferro. p. Os conceitos ao capitalista seu lugar privilegiado – enquanto classe . religião e tradição.na pirâmide anteriormente apresentados permitem entender porque a tecnologia.420). permite como o capitalismo atua em relação ao processo de seleção técnica. II). segundo um processo pautado pelo controle das decisões de natureza técnica) possui um poder de determinação código sociotécnico estabelecido pela correlação de forças sociais e políticas semelhante e complementar à posse do capital. Feenberg O conceito central presente na explicação de Feenberg (2002) sobre usa esse conceito para apontar a flexibilidade relativa e capacidade parcial a relação entre tecnologia e sociedade é o de poder tecnocrático. ideologia.. utiliza. envolve.Contribuições ao Marco Analítico-Conceitual da Tecnologia Social Henrique T. vez estabelecida ou fechada (no jargão do construtivismo). permitindo uma alienação sempre maior de estilos de desenvolvimento distintos do atualmente dominante. discutiremos a seguir apenas os conceitos centrais que ele tende a dificultar a sua construção. é um interior da empresa. formula o que ele chama de Teoria Crítica da uma tecnologia capaz de alavancar um estilo alternativo de desenvolvimento. mas também o controle do processo de trabalho no naturais. v. Procurando solucionar o impasse que a crítica ao Determinismo este tema fica mais claro: “Da mesma maneira que a ciência virá em socorro do capitalismo Tecnológico coloca para os interessados na sustentabilidade e viabilidade técnica inventando máquinas cada vez mais produtivas. o Essa passagem sugere uma colocação muito importante para se desenvolvimento tecnológico. conceito. passa a validar Esse tipo de reflexão. uma resposta ao sindicalismo. O concreto é filho de uma crise enorme no canteiro. O fato de esses hábitos é. teve pelo menos a conseqüência de dar (C&T) por novos atores são condições necessárias (ainda que não suficientes) nascimento a um novo corps de métier [.

que a tecnologia incorpora valores. ver Dagnino e Novaes (2008). 2002). variáveis ambientais. 2002). do Governo Thatcher o qual. ver Wainwright e Elliot (1982). Seu Embora o Plano fosse o resultado de dois anos de planejamento e debates entendimento mais amplo da tecnologia sugere uma noção de racionalização entre os engenheiros sindicalizados. esta é uma maneira de interpretar as demandas proposta que utilizava as detalhadas informações que haviam sido levantadas contemporâneas por tecnologias ambientalmente sustentáveis. a proposta visava desenvolvimento científico e tecnológico. Foram Feenberg. O envolvimento que potencialize suas possibilidades democráticas. que respeitem a liberdade e a dignidade humana. A melhor maneira de propiciar um “uso contra-hegemônico do Dessa forma. aplicações da sobre a maquinaria e equipamento de todas as fábricas do complexo. também o tipo de qualificações que existiam na companhia para avaliar as métodos de produção que protejam a saúde dos trabalhadores e ofereçam possibilidades de desenhar e produzir de bens socialmente úteis. os grupos dominados poderão jogar. Ele vê na tecnologia uma promessa de (Feenberg. Alguma coisa como um Frankfurt. Como a perspectivas de desenvolvimento das suas capacidades e habilidades ênfase da produção de armas se dá na minimização do tamanho e do peso. posteriormente. também a extensão da democracia até a esfera do trabalho e da educação. também. um campo conhecimento e da tecnologia” é conceber a sociedade e o campo da decisão de batalha historicamente determinado resultante de um processo onde tecnológica através das metáforas do “jogo” (Feenberg. a trajetória de inovação de batalha (Noble. no ano de 1974 o Partido Trabalhista recém eleito resolveu implementar a Para ele. tendo em vista a redefinição e modificação das formas e dos 6 Para maiores detalhes sobre o Plano Lucas. para Feenberg. 2002) ou do campo intervêm múltiplos atores com distintos interesses. uma das maiores fabricantes de armas do no processo de trabalho. 2002). que o impacto da técnica na saúde dos consumidores e o desenvolvimento das englobava 15 fábricas e 18 mil trabalhadores. Feenberg Um exemplo de margem de manobra. Buscando reorientar a atividade do complexo Lucas. técnicos e trabalhadores de produção e muito diferente. tal como sugerem outros autores como Borgmann (1984 apud mão-de-obra e permitiam um processo de produção não-alienante. desmercantilizada? Vale destacar que o conceito de ambivalência difere substancialmente A articulação de novos interesses e a entrada em cena dos do conceito de neutralidade tecnológica devido ao papel que ela atribui para trabalhadores e dos novos movimentos sociais supõem a retirada progressiva os valores sociais no projeto e não simplesmente no uso dos sistemas técnicos da concentração do poder na mão de peritos e especialistas. aproveitando o espaço de negociação (1987). E. 2002).. critérios de saúde no trabalho. os trabalhadores apresentaram potencialidades intelectuais dos trabalhadores. Mas humanos. Através dessas abordagens. mas rejeita desenvolvimento pleno das individualidades humanas. etc. Novaes / Rafael Dias Ao invés de atribuir à técnica atual uma maior eficiência. (Feenberg. jogo e intervenção e propõe um radical reprojetamento tecnológico que incorpore e harmonize na desmercantilização da tecnologia é o caso da luta pelo trabalho útil que se configuração tecnológica outras variáveis tais como participação democrática deu na Cia Aeroespacial Lucas6. Reino Unido. Isso possibilitaria (Feenberg. não cabe frear o que poderia ser aproveitado pela sociedade. liberdade. 42 43 . por ser a tecnologia uma construção social. 2000). 2002).Contribuições ao Marco Analítico-Conceitual da Tecnologia Social Henrique T. Reconhece. Em linhas gerais. Feenberg reconhece as conseqüências catastróficas do uma reconfiguração do sistema técnico levando em conta necessidades e desenvolvimento tecnológico ressaltadas pelo substantivismo da Escola de capacidades humanas até então não consideradas. Cooley propósitos dos artefatos tecnológicos. dos trabalhadores na orientação da empresa despertou a oposição da antiga Podemos então fazer a pergunta: de que forma a tecnologia pode ser administração. eram intensivos em à simplicidade”. voltar pra Idade Média ou “retornar à produção de bens civis que consumiam pouca energia. ou a margem de manobra existente (Feenberg. mas reestruturação da empresa que iria demitir milhares de trabalhadores. fundada na compreensão do papel que exerce nos contextos da administração7. havia muito conhecimento (sobretudo o associado à tecnologia aeroespacial) É necessário ressaltar que. necessitamos não só da ampliação e da produzir bens socialmente úteis e permitiam uma alternativa ao plano de radicalização da democracia nas instituições de mediação política. a direção da empresa inicialmente recusou o Plano. Sua proposta é de uma radical transformação na tecnologia propostos projetos e sistemas de produção alternativos. tal como sugere Marx o pessimismo paralisante dessa visão. também. 7 Para saber mais sobre o papel do engenheiro na sociedade. um Plano no qual expressavam o desejo e indicavam as possibilidades de Segundo Feenberg (2002). como tecnologia médica. se reprojetada para a construção de uma sociedade realmente democrática e opôs à proposta. pois a história é relativamente aberta.

Ou seja. convém ressaltar que a proposta de AST rejeita a idéia Numa outra acepção. indispensáveis ao crescimento e radicalização do movimento critérios suplementares aos técnico-econômicos usuais a processos de associativista e da autogestão (cooperativas surgidas de assentamentos. Esse processo de adaptação da tecnologia proveniente dos países Adequação Sociotécnica centrais às condições técnico-econômicas prevalecentes na América Latina (preço relativo dos fatores capital e trabalho. e no âmbito dessa interlocução com o construtivismo otimizar seu desenvolvimento. dependendo da capacidade social que incorpora uma preocupação em construir a base cognitiva que os dos atores interessados na mudança social em interferir tanto na divisão do atores com ele envolvidos percebam como necessária para levá-lo a cabo. seria um guia para a desconstrução e características autogestionárias. etc) vimos. Novaes / Rafael Dias científica e tecnológica poderia ser redirecionada. 1995. processo . situados mutirões dos Sem-Teto. de que ela não possui um construção sociotécnica usuais possa causar a mudança social (determinismo componente tecnológico (e mesmo científico). ele ocorreu com a participação dos institutos de pesquisa públicos de uma negociação entre grupos sociais relevantes. de acordo com o tecnológico). a AST pode ser concebida por semelhança ao decisório da Política Científica e Tecnológica8. etc). produção e circulação de bens e serviços em circuitos não formais. no qual critérios de natureza distinta. com preferências criados com essa finalidade no âmbito do modelo de industrialização por e interesses diferentes. etc. nas cooperativas rurais. Em alguns o qual artefatos tecnológicos vão tendo suas características definidas através casos. 1976) deu-se no âmbito das empresas nacionais.denominado por alguns de Processo de Aprendizado e por outros de Tropicalização . interesses políticos de grupos sociais relevantes distintos daqueles que o ou ainda sob a forma intangível e mesmo tácita) ao interesses dos atores que originaram. Construção Sociotécnica é o processo mediante (Katz. Como aquisitiva. mais do a tecnologia convencional (e. a AST substitui tem sido o usual. como até agora como concebia o movimento de Tecnologia Apropriada (TA). a AST pode ser entendida como um processo participativo fechamento (Bijker. no interior dos empreendimentos da Economia Solidária. inclusive. social da tecnologia. inclusive substituição de importações. insumos e formas de organização da produção. tamanho. o processo de AST teria por objetivo adequar posterior reconstrução (ou reprojetamento) de artefatos tecnológicos. nessa acepção. p. peças de reposição e mão-de-obra qualificada. por si só. No contexto da preocupação com os empreendimentos com A proposta da AST. contém. disponibilidade de matérias- A proposta da AST pode ser entendida com o concurso do instrumental primas. um reprojetamento do conhecimento científico e tecnológico (esteja ele já em que um artefato tecnológico sofreria um processo de adequação aos incorporado em equipamentos. e não como um resultado (uma deles participam. cooperativas populares. Definido como um processo. um processo que leve a uma adequação não apenas tecnologia desincorporada ou incorporada em algum artefato) a ser obtido tal aos requisitos e finalidades de caráter técnico-econômico. segundo esse enfoque. sociais. mas ao conjunto de aspectos de natureza socioeconômica e a idealização típica do laboratório pela prática concreta dos movimentos ambiental que constituem a relação Ciência.23). nível de exigência dos mercados. em áreas rurais e urbanas (como as Redes de Economia Solidária) visando a Finalmente. mundial) sobre Economia da Tecnologia desde os anos 10. ver Dias (2006) e Serafim (2008). Nessa linha. fábricas recuperadas. Para que passe a questionar a idéia de que a solução da inclusão ante. A AST pode ser entendida como um processo inverso ao da construção. situada no nível da policy. A proposta da AST supõe uma visão do processo de mudança agroecologista Miguel Altieri: 8 Sobre a uma nova PCT para os movimentos sociais. a AST é um chamamento de que a mudança social possa. conceber alternativas) aplicando que adequados.Contribuições ao Marco Analítico-Conceitual da Tecnologia Social Henrique T. quanto no processo Por uma outra via. levar à geração de uma tecnologia à comunidade de pesquisa de esquerda preocupada com a exclusão e a com ela compatível (determinismo social). vão sendo empregados até chegar a uma situação de estabilização e Por essa via. com um projeto político distinto daquele que orienta os processos de social se dará no terreno puramente político. 44 45 . A Tecnologia Social e a proposta de de 1960. técnicos. Tecnologia e Sociedade. Cibotti. que busca promover. Ela rejeita também a idéia de inclusão social para que busque entender as demandas cognitivas que esta que promover a geração de uma tecnologia que busque uma adequação ex. trabalho no chão de fábrica. capacidade de análise proporcionado pelo construtivismo social da tecnologia. condições edafo-climáticas.extensivamente abordado na literatura latino-americana (e posteriormente.

equipamentos). de novos processos movimentos sociais” à sua agenda de pesquisa. resulta do esgotamento do processo sistemático de busca de tecnologias alternativas e na percepção de que é necessária a incorporação à produção de A proposta da AST poderia vir a facilitar a emergência. cooperativas que sucederam a empresas falidas). a partir dele. p. formas demandar o concurso de centros de P&D ou universidades e que implicam na de organização do processo de trabalho. ou a adoção de tecnologia convencional. 2005. com a condição de que se altere a forma como se reparte o excedente gerado. sem dúvida. tecnologia adequada. concepção dos produtos e processos. sendo necessário o emprego de tecnologias alternativas à fazer surgir uma agricultura socialmente justa. A atividade decorrente desta modalidade é a busca e seleção questões são examinadas. 46 47 . finalmente. não produzido. inclusive a do Ajuste do processo de trabalho. saúde pública. de tecnologias existentes. por oposição. significa não só o aumento da vida útil das máquinas e equipamentos. 10 Isso pode ser visto. produtivos ou meios de produção. desenvolvendo (Novaes. equipamentos. E. por exemplo. não embutido nos comunidade de pesquisa. poderíamos dizer que um dos elementos comuns ela implica uma ampliação do conhecimento. básicas são colocadas em discussão. adicionalmente. no interior da conhecimento científico-tecnológico existente (intangível. por seu caráter de “ponte” entre a crítica das Atividades associadas a esta modalidade são processos de inovação de tipo forças produtivas na sociedade capitalista e a possibilidade de desconstrução e construção da tecnologia num sentido desejado. emergirão” (Altieri. é um estribo que os incremental. temas como posse da terra. o questionamento da divisão técnica do um cenário normativo. por parte do trabalhador. resulta do esgotamento do processo de inovação incremental em função da Buscando operacionalizar o conceito de AST. a AST. de um segmento capaz de incorporar a “agenda dos meios de produção). dos das várias correntes que formaram o movimento de TA é o fato de que as aspectos produtivos (fases de produção. estamos lidando com mudanças software e da Universidade de Buenos Aires. julgou-se conveniente inexistência de conhecimento suscetível de ser incorporado a processos ou definir modalidades de AST. Assim. A partir da Modalidade 4. junto com a “fábrica sem patrões” Zanón. sem que exista qualquer modificação no que possuem uma visão normativa.. O número escolhido (sete) não é arbitrário e meios de produção para atender às demandas por AST. Supõe importância do fator político quando as questões científicas ainda a fertilização das tecnologias antigas com componentes novos. 2008). Quando tais convencional. Para encerrar. de-obra. etc) antes empregada (no caso de exploração da fronteira do conhecimento10. Ainda nessa acepção. Considerações Finais 2) Apropriação: entendida como um processo que tem como condição a propriedade coletiva dos meios de produção (máquinas. 111).Contribuições ao Marco Analítico-Conceitual da Tecnologia Social Henrique T. recondicionamento e a revitalização do maquinário. Atividades associadas poderia ser maior. Novaes / Rafael Dias “É crucial que os cientistas envolvidos na busca por tecnologias 4) Revitalização ou Repotenciamento das máquinas e equipamentos: agrícolas sustentáveis se preocupem com quem. o que é modalidades anteriores. sem que fosse explicitada a natureza da trajetória trabalho e a adoção progressiva da autogestão9. mão. Ao formularem as expressões que uso concreto que deles se faz. caso se queira autogestionários. a esta modalidade são processos de inovação de tipo radical que tendem a 1) Uso: O simples uso da tecnologia (máquinas. identificavam as tecnologias que desejavam ver desenvolvidas. movimentos sociais poderão utilizar para “pressionar” a comunidade científica 7) Incorporação de conhecimento científico-tecnológico novo: e o governo a conformar uma nova agenda de Política Científica e Tecnológica. como é produzido e para quem é produzido são são suficientes para dar conta das demandas por AST dos empreendimentos questões-chave que precisam ser levantadas. etc). no caso dos azulejos auto-limpantes que os químicos 9 Cabe acentuar que até a Modalidade 3. ou o desenvolvimento. 11. As quais. mudanças hardware. é percebida como suficiente. para satisfazer as demandas por AST. estão orgware. política de 6) Incorporação de conhecimento científico-tecnológico existente: pesquisas. gerenciais e de expressões que denotam um produto e não um processo. aquelas 3) Ajuste do processo de trabalho: implica a adaptação da organização correntes as entenderam como cenas de chegada. cadeia produtiva. do processo trabalho à forma de propriedade coletiva dos meios de produção se diferenciavam da cena inicial – a tecnologia convencional – no âmbito de (pré-existentes ou convencionais). e não somente quando 5) Alternativas tecnológicas: implica a percepção de que as as tecnologias são distribuídas à sociedade. isolados ou em conjunto com centros de P&D ou universidades. etc. Isso exige que eles reconheçam a também ajustes. mas se beneficiará com elas.

Contribuições ao Marco Analítico-Conceitual da Tecnologia Social Henrique T. Novaes / Rafael Dias

que as separa. A tecnologia designada pela expressão funcionava como um 12. Referências Bibliográficas
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manifestou irrealista. Uma agravante foi a ingênua e determinista expectativa ALTIERI, M. Agroecologia - as bases científicas da agricultura alternativa. Rio
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Acreditamos que a retomada do debate da TA e a incorporação da teoria Porto Alegre: Ed. da UFRGS, 2005. 5a ed.
tecnológica surgida nos últimos 30 anos é uma das formas de modernizar as ARANTES, Pedro. MST usa tecnologia defendida por Sérgio Ferro. Brasil de
críticas da TA. A outra, como vimos, é fazer uma crítica à TC e observar que Fato, n. 161, 2006.
a TS, por negação, aponta para uma outra rota, de natureza completamente ARANTES, P. F. Arquitetura Nova – Sérgio Ferro, Flávio Império e Rodrigo
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Este trabalho pretende apresentar algumas das potenciais contribuições de uma disciplina em particular – a Economia da Inovação – a esse esforço. dos movimentos sociais e das organizações não- governamentais (ONGs). No segundo item. . No primeiro deles. CONTRIBUIÇÕES DA ECONOMIA DA INOVAÇÃO PARA A REFLEXÃO ACERCA DA TECNOLOGIA SOCIAL Rafael de Brito Dias Henrique Tahan Novaes 1. apresentamos brevemente o campo da Economia da Inovação. das políticas públicas. abordamos o conceito de inovação e sua aplicabilidade para tratar a questão da inclusão social ou. Introdução O movimento da tecnologia social (TS) no Brasil. O presente artigo está dividido em cinco itens. No terceiro item. De forma similar. discutimos possíveis limitações do emprego desse referencial nos estudos acerca da TS. Por fim. com o objetivo de melhor fundamentar a argumentação subseqüente. vem ganhando considerável vulto. Devido a sua complexidade. apresentamos algumas considerações finais com base na argumentação aqui desenvolvida. no quinto item. a compreensão de questões associadas a esse tema demanda um aporte interdisciplinar. a exemplo de outros processos correlatos que vêm ocorrendo em outras partes do mundo (e ainda que não identificados sob o “rótulo TS”). reunindo uma série de esforços provenientes do âmbito acadêmico. mais especificamente. no quarto item. expomos algumas das potenciais contribuições da Economia da Inovação para a discussão acerca da tecnologia social. da tecnologia social.

a tecnologia social “compreende produtos. Essa “outra” dimensão da tecnologia seria correspondente a de natureza também sociotécnica. como farinha. por sua vez. tecnologia social geralmente apresentam dois tipos de “ruídos” que podem pode-se afirmar. de fato. Aqui a tecnologia (e. com o objetivo de ressaltar essas diferenças. ou mesmo Social (RTS). além de equipamentos como o técnicas e/ou metodologias reaplicáveis. Ponderações iniciais forno ou o veículo utilizado para ir ao mercado. que aborde. desenvolvidas na interação com a 56 57 . emprega-se. por uma entendida a partir de uma perspectiva dinâmica. excessivamente ampla. porém. Neste sentido. que colocam que a tecnologia engloba “desde o desenvolvimento dimensões da tecnologia conjuntamente determinariam a produtividade ou a de uma máquina (hardware) até as formas de compreender o processo efetividade de qualquer atividade produtiva. de acordo com definir os parâmetros para a utilização da dimensão física da tecnologia. efetivamente. dimensão física. por extensão. o conceito diz respeito a uma tecnologia voltada reducionismo das visões do determinismo social (segundo a qual a tecnologia principalmente para a inclusão social ou. Nesse sentido. é referente mais sutil que sua forma física e que. simultaneamente social e questão de simplificação. assim como os elementos de natureza o conceito de tecnologia social. que todas as tecnologias guardam uma importante dimensão social. do próprio termo “tecnologia social”. considerada social. o termo “tecnologia técnica (portanto. convém explorar brevemente o O segundo “ruído” ao qual nos referimos anteriormente decorre do conceito de social technology. os recursos necessários para adquiri-los. O segundo. toda tecnologia poderia ser (2001) tem um significado bastante distinto daquele da Tecnologia Social. Contudo. uma referente ao conhecimento relacionado a ele e uma referente correspondente aos insumos ou procedimentos empregados na produção à organização social que se desenvolve em consonância a ele. produtivo e a concepção de sistemas de processamento de informação O exemplo dado pelo autor é bastante didático e permite uma melhor (software) passando pelas tecnologias de gestão – organização ou governo – compreensão de seu conceito de tecnologia social. açúcar. podemos argumentar que todas as No que se refere ao primeiro “ruído”. A dimensão social. “tecnologia para a inclusão social”. necessário seguir uma receita. para a construção resulta de aspectos sociais) ou do determinismo tecnológico (de acordo com de um estilo alternativo de desenvolvimento. Essas idéias de um determinado bem. a dimensão física da tecnologia seria em si. a tecnologia No sentido de construir uma base conceitual para as considerações social seria representada pelo mecanismo de coordenação entre os atores posteriores. há que ressaltar o fato de que tecnologias são. conforme comumente empregado no Brasil. partilhando dessa O conceito de social technology empregado por Nelson e Sampat abordagem. quem a tecnologia envolve três dimensões distintas: uma referente ao artefato De acordo com Nelson (2007). a partir do conceito de tecnologia social de Nelson e Sampat tolher sua compreensão. As duas (2004:34). Brandão e Novaes à forma como o trabalho é dividido e coordenado entre os atores. sociais. a TS) é compreendida uma dimensão além daquilo que se poderia perceber como sendo a sua como um conjunto de soluções sociotécnicas para um determinado problema. Para a Rede de Tecnologia qualquer.Contribuições da Economia Da Inovação para a Reflexão Acerca da Tecnologia Social Rafael de Brito Dias / Henrique Tahan Novaes 2. por sua vez. social guardam também uma dimensão técnica fundamental. a é distinto daquele proposto por autores associados à Economia da Inovação: complexidade da relação entre fatores técnicos e fatores sociais não pode ser o de social technology (literalmente. é importante destacar que as reflexões conceituais acerca da envolvidos (aquele que faz o bolo e aquele que vende os ingredientes). Para fazer um bolo é de instituições públicas e privadas (orgware)”. por exemplo. a tecnologia teria sem o devido rigor. Tecnologia Social. simplesmente. corresponderia guardam estreita relação com a argumentação de Dagnino. o termo mais a qual a tecnologia determina os aspectos sociais). São utilizados ingredientes. os fatores social”. sociotécnica). é possível afirmar que. Dessa forma. A todos esses elementos corresponderia a dimensão física da tecnologia. Caminhando nessa direção. Da forma como ele expressa a partir de uma perspectiva unidirecional. técnicos e sociais pertinentes à análise. por esse motivo. sob a pena de incorrer no é aqui compreendido. da mesma forma como é necessário observar Com freqüência. mais amplamente. é freqüentemente ao tratamento do conceito de tecnologia a partir de uma perspectiva ignorada por aqueles que se propõem a estudá-la. emprego do conceito de tecnologia social de forma excessivamente ampla e De acordo Nelson e Sampat (2001) e Nelson (2007). Ou seja. de fato. Assim. objeto da presente análise. formas de coordenação que surgem da interação entre os atores sociais para Compartilha-se também das idéias de Winner (1987). nos deparamos com idéias que envolvem uma uma série de procedimentos para confeccionar um rádio ou outro produto interpretação muito mais flexível desse conceito. Neste exemplo. Essa relação deve ser preciso seria. O primeiro remete a uma imprecisão semântica (2001). de forma conjunta.

conforme se pode extrair das idéias de que buscam concretizar sua proposta. esse A proposta da tecnologia social. processo ou forma de organização (produtiva. permitem elucidar o conceito de novas maneiras de combinar “matérias e forças”. contrária à proposta da TS. representa processo seria condicionado por elementos endógenos. O autor classifica a inovação tecnológica como Essas considerações. em um esquema concorrencial de atividades intensivas em conhecimento em todos os setores. o avanço embate travado em uma outra dimensão. é preciso discutir. incorporadas às reflexões conceituais e metodológicas ao redor da tecnologia substancialmente superiores aos lucros de seus concorrentes. à criação ou melhoria de um produto. O Considerado um dos pioneiros no estudo da inovação tecnológica primeiro deles refere-se à importância conferida ao aprendizado em seu e de seus impactos econômicos. interna à empresa. tecnológica seria. portanto. tendo como fundamentalmente distinto da simples concorrência através de preços. 58 59 . encontra-se o aspecto que. através qual a interpretação neoclássica estava restrita. Quando recente da Economia. Sendo pertinente ao capitalismo e inequivocamente indissociável O conceito de “inovação social”. muitos daqueles envolvidos com a TS não busquem propriamente subverter Originada nos países centrais.Contribuições da Economia Da Inovação para a Reflexão Acerca da Tecnologia Social Rafael de Brito Dias / Henrique Tahan Novaes comunidade e que represente efetivas soluções de transformação social”. ainda que não monolítica. O segundo aspecto envolve capitalista – seriam produtos da busca incessante das empresas pelos “lucros o reconhecimento de que as políticas públicas são essenciais para a promoção extraordinários” garantidos pela inovação. Schumpeter (1988) entende que a sentido amplo (individual. Dessa forma. A proposta da tecnologia social pertence a conseqüências de natureza econômica da inovação tecnológica. que fornece algumas idéias que poderiam ser monopolista. de fato. A inovação social. por extensão. assim como destacado por Schumpeter (1988). e não poderia ser entendida como algo genérico. disso. essa abordagem procura compreender. um embate com seus concorrentes (capital-capital). que seriam perseguidas tecnologia social. fundamentalmente. 3. o capitalista travaria. parece ser inadequado utilizar o No que se refere especificamente às políticas públicas. como ator social. Antes de discutir as questões mais pontuais associadas a pelos capitalistas pela sua capacidade de perturbar o mercado.) com uma motivação necessariamente comercial. garantindo esse tema. a idéia de “inovação social”. Talvez o exemplo mais claro No sentido de tornar essas reflexões mais claras. De acordo com essa corrente. de quase. O que é a Economia da Inovação? O conceito de inovação remete. a abordagem temporariamente ao inovador uma posição diferenciada. o capital e a mercadoria. de certa forma. um fenômeno essencialmente capitalista. organizacional e inter-organizacional). dentre outras que se desenvolveram a partir das reflexões seminais de Schumpeter. parece haver um sentimento comum de insatisfação a partir de uma abordagem disciplinar. da Economia da Inovação. ao objetivo explícito o melhoramento das capacidades das firmas e. justamente. Marx (1987). em alguma medida. etc. porém. A Economia da Inovação representa uma corrente relativamente administrativa. através da metodologias às quais a RTS se refere muitas vezes não envolvem elementos inovação. na que permitam que sejam efetivamente entendidas como tecnologias. estar passando por um seqüestro semântico. As De acordo com essa interpretação. As análises uma dimensão externa ao mercado e distante lucro: estão em seu alicerce realizadas pelos autores associados a essa corrente estão centradas na figura a solidariedade e a participação dos produtores/usuários. quais os principais determinantes e com a tecnologia convencional. que depende concorrência intercapitalista – e. a-social e apolítico. que se convencionou chamar de “mercado”). ou seja. Embora inovação seria o principal. possibilitar ganhos de competitividade (Havas. a nosso ver. é conveniente considerar as disso seja. Mas a inovação está também presente no excessiva flexibilidade do conceito obstaculiza. uma novidade é criada sem essa finalidade ela é tida como uma invenção. aparentemente inócua. entre o capitalista na discussão acerca da tecnologia social e compromete o foco das iniciativas e os trabalhadores (capital-trabalho). Assim. ainda que brevemente. as inovações tecnológicas representariam Nessa distinção. que poderia ser tomado como das grandes empresas (que têm sido cada vez mais identificadas com aquilo equivalente ao de tecnologia social. capitalista. dentre os quais a uma forma de resistência à tecnologia convencional (ou capitalista). em conjunto. o próprio desenvolvimento fortemente da cooperação entre os atores sociais. a-histórico. idéias de Schumpeter (1988). o elemento fundamental que impulsionaria o desenvolvimento do sistema define a inovação no sentido estrito. Essa dimensão externa da empresa. o conceito de inovação parece A própria idéia de “inovação” é. Esta posição lhe permitiria realizar lucros extraordinários. justamente em decorrência dessa questão. e da empresa e do empresário. contém alguns problemas. a leitura termo “inovação social”. associada à Economia da Inovação considera dois aspectos principais. 2004).

produtivas ou viáveis quanto as tecnologias convencionais. Sobre as possíveis contribuições da essa leitura. além daquelas referentes à questão da inovação tecnológica. aumentar a tecer uma interpretação bastante satisfatória de alguns processos ligados à capacidade de atuação sobre ela a partir das políticas públicas. 4. para a reflexão sobre a tecnologia social. Com freqüência. tecnologias alternativas são criticadas por não serem tão rentáveis. o que contribuições importantes. mas. A reflexão de caráter teórico-metodológico acerca da tecnologia social é.Contribuições da Economia Da Inovação para a Reflexão Acerca da Tecnologia Social Rafael de Brito Dias / Henrique Tahan Novaes A Economia da Inovação pode ser considerada aderente ao contexto conceitos e interpretações construídas por essa abordagem para melhor dos países centrais. Isso vale. A primeira contribuição importante da Economia da Inovação parte da idéia segundo a qual uma determinada tecnologia não é escolhida por ser a melhor. essa os dois próximos itens deste artigo estão orientados. Contudo. refere-se à aceitação social de uma tecnologia. apresentaremos alguns conceitos gerados no campo da Economia da Inovação que poderiam servir como elementos para a construção de um referencial teórico-metodológico para a TS buscando proporcionar um “mapeamento” para pesquisas futuras acerca do tema. Sociologia. Interpretações e recomendações de Qualquer estudo sobre a tecnologia deveria levar em conta o conjunto política em países centrais e periféricos de disciplinas – Economia. Naquilo que se refere especificamente à questão da tecnologia A Tecnologia Social representa claramente um caso no qual uma social. História. De fato. é claro. percebe-se que as reflexões da Economia da Inovação apresentam tecnologia não se desenvolve por não ter sido escolhida. é passível de algumas críticas. ainda. Neste item. tem Economia da Inovação para a Tecnologia sido adotada nos países periféricos como um “dever ser”. assim. se torna a melhor porque é escolhida. Também se pode afirmar que suas reflexões permitem compreender a realidade dos países periféricos e. Nesse sentido. a corrente tem fornecido um referencial descritivo-explicativo que pode ser discutir as possíveis contribuições e as limitações da Economia da Inovação empregado para analisar processos dessa natureza nos países centrais. A idéia de “escolha”. de forma isolada e em diferentes medidas. é preciso re-significar alguns dos se percebe é que a tecnologia convencional tem a seu favor o aparato 60 61 . inovação tecnológica que ocorrem nesses países. procuram compreender a forma como esse objeto (a tecnologia) se relaciona com a sociedade em diversos níveis. concebida a partir de análises realizadas nos países centrais. mais do que à superioridade de suas qualidades técnicas. para os estudos sobre a tecnologia social. nesse sentido. acesso garantida aos usuários. Filosofia. sim. a viabilidade das tecnologias alternativas é questionada. – que. O uso que vem sendo feito desse referencial nos países periféricos. A figura abaixo ilustra como ocorre esse processo. Mesmo quando apreciadas a partir de valores de outra natureza. Essa noção parece ser fundamental para o entendimento de algumas questões relativas à Tecnologia Social. Assim. A principal delas diz respeito ao fato de que tem sido dada a essa abordagem uma dimensão normativa. tais como a solidariedade no ambiente de trabalho. 5. etc. contudo. incipiente e a conformação de um referencial para o seu estudo pode envolver elementos de diversas abordagens. respectivamente. algo que ocorre Social com uma série de outras interpretações. Em outras palavras. a sustentabilidade social e ambiental e a maior possibilidade de Fonte: Elaboração própria.

as idéias da Economia da Inovação servem como base para a De acordo com a noção de co-evolução. contexto. por forma participativa. nos quais a TS se insere e. é preciso levar em conta a importância do papel de professores. tendem Economia Solidária e da TS como alternativas que conduzam a um estilo de 62 63 . luz dessas idéias. também. a tecnologia social tende. políticas. presente. para respaldar a noção de que existiriam A empresa responderia aos estímulos desse ambiente (evoluindo). portanto. entre os atores sociais envolvidos com o social diz respeito à idéia de co-evolução entre a empresa e o contexto no qual processo. entretanto. a idéia características sociais. sim.Contribuições da Economia Da Inovação para a Reflexão Acerca da Tecnologia Social Rafael de Brito Dias / Henrique Tahan Novaes legal. compreender que. ao soluções previamente prontas e acabadas para atacar problemas sociais mesmo tempo em que estimularia os elementos do ambiente externo a ela diversos. naturalmente. é fundamental para garantir processos que serão posteriormente demandados pelos usuários. o regime social de propriedade. resultado de uma negociação dinâmica. por exemplo. concorrentes. Por isso. Assim. a ser ignorada como uma possibilidade. sustenta que a tecnologia não é resultado desenvolvem e se difundem em virtude de fatores sociais. possibilita. de um processo no qual os fabricantes simplesmente ofertam produtos e econômicos e ideológicos. dentro da lógica da TS. relacionada à reflexão anterior. Do ponto Uma terceira contribuição da Economia da Inovação para o estudo de vista metodológico. que para analisar o caso da TS à fornecer elementos para a análise de outros tipos de organizações produtivas. Seria. O mecanismo fundamental ao qual as empresas recorreriam seria deveriam descartar a idéia de oferecer “pacotes” de conhecimento e de a inovação. nas reflexões de Nelson (1994). de fato. neste No que se refere ao contexto mais imediato da Economia Solidária. e não apenas técnicos. elementos do ambiente crítica de um pressuposto aceito pela maioria dos pesquisadores envolvidos econômico-institucional gerariam nas empresas nele inseridas mecanismos com a Tecnologia Apropriada e que deveria ser levada em conta por aqueles de adaptação e evolução análogos aos que coloca a Biologia em relação aos que estão inseridos no movimento da Tecnologia Social. etc. de modo que não faz sentido. atrofia das tecnologias sociais em relação às tecnologias convencionais. a idéia de que a respeito da ligação entre o aparente “sucesso” de uma tecnologia e as se possa simplesmente transferir tecnologias pré-concebidas. os instrumentos de a existir conflitos relacionados ao fato de que as dificuldades inerentes à financiamento. etc. envolvendo os usuários desde o momento da concepção universidades e institutos de pesquisa. Esses últimos seres vivos. A Economia da Inovação. permite uma melhor compreensão da dinâmica “reaplicação”. a ideologia dominante. as políticas públicas. que freqüentemente envolve A segunda contribuição da Economia da Inovação para a tecnologia elementos de natureza tácita. identificar as razões por trás dessa condição. fábricas recuperadas e outros empreendimentos empresas capitalistas e os empreendimentos solidários no que respeita à econômicos solidários. seriam adequados às particularidades dos problemas verificados em cada Buscando aproximar essa idéia para tratar o caso da tecnologia social. características de natureza contra-hegemônica. segundo a qual o conhecimento e a tecnologia pré-existente do processo de inovação e de sua relação com a sociedade. E. como aceitava o movimento da Tecnologia Apropriada. pelo Estado. é necessário compreender quais os fatores da tecnologia social diz respeito à negação da idéia de oferta e demanda de sociotécnicos que viabilizam a tecnologia convencional e potencializam o conhecimento. do contexto que de “replicação”. o fato de que esse processo possui nesse sentido. portanto. ela está inserida. contexto envolve uma série de particularidades que exigem respostas Essa idéia está. culturais. ou cópia indiscriminada de saberes e técnicas. tecnologia para abraçar a noção de que a construção da TS deve ocorrer de O ambiente externo à empresa seria composto. entre sustentabilidade dos empreendimentos desse tipo são interpretados como uma infinidade de outros fatores. Assim. dá lugar à de a envolve. através das contribuições de autores seu desenvolvimento. a mídia. em especial. assim como ela. algo passível de ser enfrentado mediante o emprego de “tecnologias mais Ao mesmo tempo em que essa constatação permite justificar a modernas”. Cada (desencadeando o processo de co-evolução). haveria que se considerar os contextos capacidade relativa desses atores de produzir o conhecimento necessário. consideramos que ela possa ser expandida e re-significada no sentido de Há que se ressaltar. culturais. econômicas. freqüentemente. alunos e pesquisadores das instituições públicas de ensino e pesquisa. Para tanto. ainda. as tecnologias se como Kline e Rosenberg (1986). políticos. a formulação de políticas públicas mais adequadas à proposta da TS. é conveniente entender a diferença que existe entre as como cooperativas populares. por exemplo. Mesmo nesse âmbito. por outras empresas dos artefatos. próprias. por aspectos ligados à legislação e infra-estrutura física. momento que se espera seja apenas o inicial do processo de consolidação da embora não exista o mesmo tipo de relação contra-hegemônica. E. a forma de ensino. Essas idéias servem.

proposto São numerosos os exemplos de tecnologias que fracassaram por pelos autores. sobretudo naquilo que se refere ao funcionamento da tecnologia. das reflexões do campo da Economia da Inovação diz respeito à idéia de que Relacionados também a essas idéias estão os estudos gerados a incorporação dos usuários (e mesmo de outras empresas rivais) ao processo pela Economia da Inovação a respeito do aprendizado. derivado das reflexões anteriores de Polanyi (1956) e trabalhado por Apesar dos estudos gerados pela Economia da Inovação terem se autores como Cowan. fundamental. Se a dimensão tácita dos Estudos Sociais da Ciência e da Tecnologia têm se dedicado a analisar é considerada de grande relevância para o estudo da tecnologia. para a dessa abordagem para estudos dessa natureza. essa corrente tem se preocupado pouco com desse conceito para o estudo da tecnologia social é. Essa foi. uma das principais críticas países centrais) que interagem de forma ativa com universidades e institutos tecidas a respeito do movimento da tecnologia apropriada. 1982) e learning by interacting (Anderson próximo item deste artigo está dedicado a apontar algumas limitações e Lundvall. Como já mencionado anteriormente. A importância relação com a dimensão social. ressalta o fato de que são poucas as empresas (mesmo nos ignorar a participação dos usuários. Herstatt e von Hippel (2005). também. dessa forma. até então pouco Economia da Inovação que poderiam ser empregadas em futuros estudos explorada. ainda.Contribuições da Economia Da Inovação para a Reflexão Acerca da Tecnologia Social Rafael de Brito Dias / Henrique Tahan Novaes desenvolvimento alternativo. Alguns a necessidade de traduzir e re-significar as contribuições da Economia da pontos a que se deveria atentar em uma tentativa de adaptação nesse sentido Inovação para os estudos da tecnologia social e em um contexto distinto estão ligados ao fato de que os processos de aprendizado freqüentemente se daquele no qual essas reflexões foram originalmente geradas. Isto é. o doing e learning by using (Rosenberg. espera-se relevar análise de dinâmicas de aprendizado envolvidas nas experiências de TS. talvez possam ser úteis. a buscar outras variáveis explicativas para o comportamento das empresas Neste item. ao estudo dos determinantes sociais da tecnologia (as contribuições da que freqüentemente envolvem conhecimentos tradicionais. orientadas para a compreensão das relações entre as tecnológica. Entende-se por conhecimento aprofundado consideravelmente na discussão acerca da tecnologia e sua tácito aquele que. no sentido de testar sua aderência Conceitos gerados a partir dessas reflexões. Trata-se do conceito de “conhecimento tácito”. Os estudos acerca do conhecimento e das dinâmicas de aprendizado 6. com as devidas adaptações. no caso da TS. que eles contribuam. preciso apreciar criticamente essas idéias. A idéia de que as empresas poderiam se beneficiar de Uma das peculiaridades da tecnologia social diz respeito. ela é ainda as relações existentes entre a ciência. por definição. públicos de pesquisa. verificariam. as empresas não se apóiam da incorporação dos usuários no processo inovativo é. Os estudos da Economia da Inovação acerca da importância A partir da constatação de que. como os de learning by ao contexto dos países periféricos e à proposta da TS. poderia influenciá-lo significativamente. a partir de um novo A quarta contribuição para o estudo da TS que poderia ser extraída enfoque para a geração de conhecimento. As reflexões de Kline de desenvolvimento da tecnologia reduz a incerteza associada à inovação e Rosenberg (1986). 64 65 . de grande de forma importante em resultados externos de pesquisa e desenvolvimento valia para as reflexões a respeito da TS e. justamente. A questão do aprendizado. com efeito. nos trabalhos de von Hippel (1987) e da idéia de que um estoque de conhecimento existente fora da empresa Luthje. em ambientes que se encontram à margem das estruturas convencionais de geração e difusão de conhecimento. Sobre os limites da Economia da trazem ainda um outro conceito fundamental para a compreensão dos processos Inovação relacionados à tecnologia social. por exemplo. Com isso. contudo. não pode ser codificado. por sua vez. o entendimento da atividade científica e de seus determinantes sociais. a ser um dos principais objetos de estudo da sobre a tecnologia social. Isso porque as experiências envolvendo essas tecnologias têm A discussão a respeito da tecnologia social. dimensões do processo inovativo na empresa levaram ao questionamento Essa idéia está presente. a tecnologia e a sociedade e. é Economia da Inovação. assim. para a formulação de (P&D) ou em um estoque de conhecimento codificado disponível. As diversas disciplinas que compõem o campo presente (como universidades e institutos de pesquisa). passou-se políticas públicas orientadas para o desenvolvimento de tecnologias sociais. passou. deveria ocorrido fora dos ambientes nos quais o conhecimento codificado está mais incorporar essas questões. evidentemente. conhecimento. Nesse sentido. aliás. 1988). procuramos apontar algumas reflexões geradas pela em relação ao conhecimento. para fazer avançar esse processo. mais importante para a análise dos processos relacionados à tecnologia social. David e Foray (2000). fontes externas de conhecimento também foi questionada posteriormente à preocupação com a participação ativa dos usuários na construção do por Mowery e Rosenberg (1993) e Rosenberg e Nelson (1993). O modelo chain-linked.

). sim. culturais. essas políticas são afastadas de questões de conteúdo político (“por que?”. envolve também um caráter ideológico. alienação e fenômeno novo. é preciso. a-social nesse sentido). bem como o referencial teórico-metodológico discussão sobre estilos alternativos de desenvolvimento. ocorrem na forma de novos processos – apresentam conseqüências cada vez Fagerberg (2005). é em função da Reconhecer também os aspectos negativos vinculados ao avanço científico apropriação privada do aumento na produtividade do trabalho possibilitado e tecnológico seria. a preocupação exclusiva com a geração de mais ciência e mais tecnologia. uma redução de sentido de um conceito genérico. freqüentemente trata a tecnologia como uma “caixa preta”. de ao sistema capitalista. Essas contribuições outros tipos de valores ao processo decisório na esfera da política científica certamente aumentariam o poder explicativo das idéias propostas pela e tecnológica. capitalista). econômicos. simultaneamente. que teria como conseqüência o Deve-se atentar para o fato de que esse enfoque trata os conceitos de desenvolvimento econômico (ou. elementos presentes em sociedades pré-capitalistas. já abordada de tecnologia e de inovação e. desde o momento de sua concepção. não pode ser utilizado para compreender está na base do movimento da tecnologia social. em Entender inovação e tecnologia como sinônimos envolve alguns parte. políticos. argumentam essas correntes. diz respeito ao fato dessa abordagem ter sido 66 67 . Economia da Inovação. ademais. o desenvolvimento desenvolvimento econômico e desenvolvimento capitalista como sinônimos. de conceitos e métodos mais fácil a vida humana a outro. associado à produção de conhecimento com a finalidade de tornar A Economia da Inovação carece. mas seria. Tampouco parece Nesse sentido. de relevância fundamental. e apolítico. Outra limitação. portanto. Schumpeter (1988). controle pelo capital. adequado para entender fenômenos de caráter tecnológico que ocorrem em questionar a validade de argumentações fundamentalmente econômicas economias planejadas e fora da firma. Apoiadas exclusivamente em argumentos de caráter econômico. uma vez que estariam na base do desenvolvimento capitalista combinações de matérias e forças”. através da figura da firma. benefícios para a sociedade justifica marxistas sobre a tecnologia. justamente. o locus da produção. à obtenção do lucro. o seu potencial descritivo. social e politicamente datado. em especial naquilo que se refere aos estudos sobre Outra limitação dessa abordagem decorre da forma excessivamente a tecnologia social. Essa idéia denota uma conseqüência do parentesco evidente dos conceitos Por fim. anteriormente neste artigo. uma outra limitação da Economia da Inovação. mais precisamente. etc. Para esses autores. que observam o que ocorre dentro da fábrica. como sua crescente exploração. e não algo desenvolvimento. uma metodológica e tem a ver com o fato da idéia de inovação estar associada vez que a singularidade desse estilo de tecnologia emerge. Dessa forma. afirma que a inovação não representa um mais negativas sobre o trabalho. sua hierarquização e sua segmentação. o primeiro passo no sentido de incorporar pela inovação. a políticas (como as iniciativas da tecnologia social e aquelas gestadas no âmbito da científicas. o conceito de inovação. “para quem?”. o que limita. tal como colocado por seus condicionantes sociais. argumenta o autor. constitui o processo (Schumpeter. a-histórico.Contribuições da Economia Da Inovação para a Reflexão Acerca da Tecnologia Social Rafael de Brito Dias / Henrique Tahan Novaes Sociologia e da Filosofia da Tecnologia têm sido particularmente relevantes Isto é. ainda que em sociedades capitalistas no que se refere a políticas tecnológicas e. Essa limitação é problemas. atrelada à concepção segundo a qual todo e qualquer avanço tecnológico A busca constante pelos lucros extraordinários possibilitados pelas “novas é desejável. De fato. Economia Solidária. a crença de que os investimentos em ciência e explicitado por estudos gerados pela Sociologia do Trabalho e pelos estudos tecnologia trarão. inovação e tecnologia como sinônimos. a exclusão de qualquer (2005). central da concorrência intercapitalista. particularmente. tão antigo quanto a própria humanidade. ao mostrarem como as inovações – sobretudo quando ampla com a qual o próprio conceito de inovação é tratado por alguns autores. por exemplo). como colocado por Fagerberg de desenvolvimento viável implica. como colocam Bozeman e Sarewitz (2005). que aponta orientados para a análise dos processos que moldam o conhecimento para a introdução de uma nova idéia economicamente viável no mercado e científico e tecnológico e as práticas a ele atreladas. que o lucro pode se realizar no mercado. A aceitação da idéia de que o capitalismo é o único estilo “tão antigo quanto a própria humanidade”. um dos primeiros autores não-marxistas que se dedicou Outra limitação da Economia da Inovação diz respeito ao fato dela estar a analisar especificamente a relação entre a inovação e a “vida econômica”. O primeiro é de natureza teórico- particularmente significativa para os estudos sobre a tecnologia social. preocupação que que se desenvolveu a partir dele. associada ao problema semântico de entender “para que?”. necessariamente. a subsunção do primeiro ao segundo. Essa abordagem orientada. 1988). explicativo e normativo. por exemplo. limita possíveis discussões a respeito de estilos alternativos de Por se tratar de um fenômeno essencialmente capitalista. portanto. dentre os quais destacamos dois. etc.

limitações relativas de grande relevância. esses aspectos só podem ser com ele abordados à custa de uma recorrente Nesse sentido. Essas construções parecem ser adequadas para 7. Este trabalho procurou destacar algumas potenciais contribuições O que se verifica na América Latina é. da co-evolução entre as unidades produtivas e o contexto tecnológica. A concentração das atividades inovativas em algumas regiões. Esse têm como objeto de estudo a tecnologia e suas relações com a sociedade. vale dizer. limitações absolutas ao emprego do referencial da Economia da Inovação para os estudos acerca da tecnologia social. pesquisas sobre a Tecnologia Social. conceito parece ser suficiente para analisar o que ocorre em países como A Economia da Inovação é. a realidade brasileira. por exemplo. que devem ser levadas em consideração com o objetivo de se gerar um arcabouço teórico-metodológico que permita a compreensão de questões associadas à tecnologia social nos países periféricos em toda a sua complexidade. justamente. proposto por Viotti (1997). Mas são. ainda carece de uma reflexão Um exemplo claro dessa prática é a utilização do conceito de Sistema acadêmica mais abrangente e consistente. baixa propensão a inovar (e. também para a compreensão da dinâmica e dos processos associados à tecnologia social seria interessante realizar traduções e re-significações dos conceitos e métodos do referencial da Economia da Inovação. Mas tem se mostrado estudos que têm como objeto a tecnologia social. devem ser pensadas à luz das Por não se encaixarem no referencial da Economia da Inovação. possivelmente. para um debate posterior. poderia se beneficiar Nacional de Inovação (SNI) – considerado um dos conceitos-chave dessa de conceitos e métodos desenvolvidos no âmbito das diversas disciplinas que literatura – como explicativo da realidade inovativa latino-americana. do qual e qualitativa – que guarda seu comportamento em relação ao esperado. 68 69 . ainda que iniciais. como o do Sistema Nacional de ações práticas no âmbito das políticas públicas. especificidades do contexto periférico e da proposta da TS. possivelmente poderão ser extraídas idéias valiosas para o desenvolvimento Para compreender a realidade latino-americana. De forma análoga. Considerações finais compreender os fenômenos que se manifestam nesse contexto específico. Nesse sentido. da negação da idéia de oferta e demanda de conhecimento de inovações no sentido estrito são exemplos de elementos típicos do e da dinâmica do aprendizado representam contribuições promissoras para capitalismo periférico. consideráveis resultados no plano das ações. as questões apontadas aqui não representam. que caracterizam esses sistemas nos países de capitalismo considerados ao se empregar elementos dessa abordagem em estudos sobre avançado. sim. o elevado fluxo de importação de tecnologia e a escassa geração que as encerra. inadequado para compreender. este trabalho pretendeu fornecer algumas desconsideração do seu caráter sistêmico e. embora tenha alcançado abordar o fenômeno da inovação nos países periféricos. também. tanto em termos de reflexões acadêmicas quanto de interessante adotar referenciais alternativos. Reflexões como aquelas a respeito do fracasso/sucesso social de o predomínio do grande capital estrangeiro nos setores de maior intensidade uma tecnologia.Contribuições da Economia Da Inovação para a Reflexão Acerca da Tecnologia Social Rafael de Brito Dias / Henrique Tahan Novaes gerada nos países centrais. parece ser muito mais da tecnologia social. da distância – quantitativa considerações. a realizar P&D) das empresas locais. têm sido empregadas de forma indiscriminada e acrítica para O movimento da tecnologia social. mais ainda. também para alguns cuidados conceituais e metodológicos que devem ser organização. Contudo. apontando articulações institucionais orgânicas. Contudo. uma das correntes mais EUA. a escassez de da Economia da Inovação para a discussão a respeito da TS. Aprendizado Passivo. fruto de um longo processo de co. Nesse sentido. como explorado nos trabalhos seminais de Mowery populares nesse sentido e poderia contribuir de maneira significativa para os e Rosenberg (1993) e Rosenberg e Nelson (1993). Inglaterra e Japão. a tecnologia social.

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Introdução A motivação deste trabalho é a constatação da fragilidade analítico- conceitual com que se tem abordado a questão do desenvolvimento de tecnologias alternativas à tecnologia convencional (produzida pela e para a empresa privada) e adequadas ao que se tem denominado. . em conseqüência. Isto é. Este trabalho trata de uma das dificuldades que isso representa para aqueles que nos colocamos numa perspectiva acadêmica. ao lado dos movimentos sociais que buscam a inclusão social. Seu objetivo. negativas da tecnologia convencional (TC) e colocando como 1 Para exemplificar. em nosso meio. Isso porque não nos parece possível avançar muito mais do que aquilo que tem sido sugerido1 caso não se altere a estratégia (ou procedimento metodológico) que tem sido utilizada para construir o marco analítico-conceitual necessário para a concepção daquele conjunto de proposições capaz de orientar o desenvolvimento de tecnologias. partindo de uma consideração do que se entende como implicações (ou efeitos) sociais. políticas. é possível destacar uma das primeiras realizadas no Brasil (Dagnino. a estratégia que procura construir esse marco e conceber esse conjunto. Isto é. empreendimentos solidários. trabalhadores etc. o fato de que essa dificuldade não tem permitido a concepção de um conjunto de indicações de caráter sociotécnico alternativo ao atualmente hegemônico capaz de viabilizar esse objetivo.Em direção a uma teoria crítica da tecnologia Renato Dagnino 1. econômicas. professores e alunos que atuam nas incubadoras de cooperativas. 1978) e aqueles que seguem a Dagnino (2002). E que. coisa que tem preocupado um número crescente de pesquisadores do tema e que temos tentado realizar em outros trabalhos. onde temos desenvolvido a proposta de Adequação Sociotécnica. não é tentar conceber esse conjunto de proposições. e citando uma contribuição minha. entretanto. não se disponha de uma “planilha de cálculo” capaz de orientar as ações de desenvolvimento tecnocientífico dos atores envolvidos com esses empreendimentos: gestores das políticas sociais e de Ciência e Tecnologia (C&T). técnicos de institutos de pesquisa. ambientais etc.

na Enciclopédia Britânica. um atributo inerente a qualquer forma de produzir. Para isso. eles. E é por isso que ele busca identificar. dominantes numa dada sociedade. por muito tempo negligenciada. promover o relacionamento entre pessoas e instituições. — e esta é para nós uma questão central — pode guardar consigo esse tipo A partir dessa abordagem genérica buscamos entender as controle mesmo quando deixe de existir esse elemento exógeno.Em direção a uma teoria crítica da tecnologia Renato Dagnino meta a ser perseguida uma tecnologia que não determine estas implicações. dar um primeiro passo na análise sobre os elementos das “inovações” de nossa proposta é que a propriedade privada dos meios que deveria abarcar uma teoria crítica da tecnologia para dar conta desse de produção deve ser considerada para fins de análise como um elemento desafio. Burawoy (1979) Braverman (1987). de outros atores sociais. em função de aspectos daquele irá presidir a concepção e utilização da tecnologia capitalista. O resultado mais importante desse esforço. especificidades da tecnologia capitalista. ela vai incidir na maneira algo original. privada impõe fica impregnado na forma de produzir (tecnologia) capitalista Nosso propósito. O Ou seja. por exemplo. entre outros. Zimbalist (1979). Noble (1979). Edwards (1990). das “chão de fábrica” (ou no processo de trabalho). ferramentas etc. Hirschorn (1984). Tecnologia que contexto. é a proposição de que aquilo que caracteriza a 2. eventualmente. Esse processo se verifica no que denominamos ambiente tem envolvido a sua definição e emprego. Se buscamos desbravá-lo é produção a abolição da propriedade privada dos meios de produção. por um lado. por outro. resultantes de processos de 2 Ou o que tem sido chamado no Brasil. Encontramos. Feenberg (2002). procuramos desenvolver. indicar. Por ser um elemento que condiciona o tipo aquela estratégia privilegia. De fato. 74 75 . Dentre elas. é uma característica de 3 Não é nossa intenção dar a entender que a busca de uma estratégia desse tipo seja nossa abordagem. Embora trabalho anteriores) com o objetivo de produzir um bem ou serviço (daqui esse termo tenha adquirido uma conotação histórica e espacialmente determinada que para frente produto). Além dos autores já citados. ele é usado também neste trabalho. E. de Tecnologia Social. iniciamos conceituando processo de trabalho. deslocar o foco de preocupação como se irá conceituar tecnologia. gerar conhecimento. o fato de que o tipo de controle que o acordo social que a propriedade policy oriented que caracteriza nosso trabalho. etc. or artistic médium. e trabalho morto (matérias-primas. Thompson (1983). Ele é A idéia de que o controle é uma característica das mais importantes entendido como uma combinação de trabalho vivo ou da força de trabalho do da tecnologia capitalista não é nova. como se verá adiante. Uma passamos a adotar3. domínio. se considera privada dos meios de produção possibilita o estabelecimento do controle que como central e ao mesmo tempo variável. e serviços que se verifica no ambiente produtivo. e é neste ambiente onde se concentra nosso foco. instrument. Idéia a qual chegamos ao longo de nossa percorrer do ponto em que estamos até aquele em que seremos capazes de tentativa de explicar porque não basta para construir formas solidárias de construir esse marco e conceber esse conjunto. “marca registrada” útil para designar e comunicar uma idéia do que um conceito adequado para chegar a conceber o conjunto de indicações de caráter sociotécnico capaz de orientar O foco no processo de trabalho. instalações. é então. Ramalho (1991). do marxismo das implicações da tecnologia no emprego e na distribuição da renda e da ao convencimento de que os fenômenos que ocorrem nesse ambiente em riqueza destacando a importância da dominação e da alienação que se manifestam no função desse processo são fatores determinantes. Processo de trabalho e atores sociais tecnologia capitalista ou a tecnologia convencional não é a propriedade Para chegar a um conceito adequado para explicitar a visão crítica que privada dos meios de produção e sim o tipo de controle que ela determina. o controle4. Vários autores têm procurado. governo. buscando o desenvolvimento de algo-que-não-é o que não queremos: que sim nos parece original no que propomos é a idéia de que o controle seja a Tecnologia Alternativa (TA)2. Entre formas de produzir. ele busca se afastar o mais possível da trajetória que exógeno ao ambiente produtivo. no processo de produção de bens as ações de desenvolvimento tecnocientífico. e não uma particularidade Estamos conscientes de quão longo é o caminho que é necessário da forma de produzir capitalista. tendo em vista nosso objetivo de proporcionar um referencial para o desenvolvimento de TA. elementos estruturantes relacionados àqueles fenômenos. efeito ou poder porque nossa percepção é de que qualquer tentativa de implantar projetos de controlar. technique. podemos produtor direto e. no âmbito de acordo social necessário para que exista a cooperação para a produção de um contexto socioeconômico genérico. a propriedade trabalho em que se envolvem os seres humanos. neste trabalho. a partir da estratégia que é um obstáculo central que não tem merecido a importância devida. 4 Embora a acepção mais comum seja aquela registrada pelo Aurélio: ato. as características do processo de que qualquer configuração do processo de trabalho demanda. e deva ser interpretado como sendo mais uma produtivo. Na porque ele nos parece essencial para atingir o objetivo colocado pelo viés verdade. senão estruturantes. Essa característica se deve. uma definição políticos ou estilos de desenvolvimento socioeconômico alternativos demanda mais coerente com aquilo que nos interessa aludir: skill in the use of a tool. inclusive por nós.

ocorra no seu âmbito um acordo de cooperação. é que ele poderá decidir se um acordo de cooperação no ambiente produtivo. seu argumento não relação a ele que iremos definir grande parte dos conceitos que a integram. ao esporte ou à guerra. devido ao seu caráter de coisa construída pelo ser Nosso foco. o proprietário do trabalho permanente mutação. razão é uma condição imprescindível para a produção. é necessário para a obtenção de um dado produto (sempre entendido em necessariamente distribuída. Essa redução do tempo de trabalho necessário para a obtenção de A capacidade que decorre desse aprendizado passa. dependendo da escolha dos trabalhadores diretos. em tudo semelhante ao conceito de inovação. seja para dispor de mais tempo livre. entrarem em governabilidade. Em particular as associadas a uma redução do tempo de trabalho do trabalho vivo. termos quantitativos7. em condições especiais (escassez. aquele que o ator que controla o processo um resultado da “combinação” desses dois atores.). Quando ele é também proprietário do 7 Não trataremos por enquanto de mudanças qualitativas no produto. sua “vontade natural” de diminuir o tempo de trabalho necessário para cooperação é uma condição imprescindível para o trabalho coletivo. a utilização. basicamente. como o aumento do produto gerado ao longo de trabalho. isto é de uma trabalho morto (meios de produção). diminuir o tempo de trabalho. a de trabalho. sempre. 76 77 . o trabalhador individual tome a decisão de sacrificar seu tempo livre e que ele é realizado. A ator. rivalidade etc. uma vez que elas A capacidade de aprender tem sido entendida como o que diferencia implicam uma alteração na forma como se realiza o trabalho vivo ou na forma o ser humano de outros seres vivos. é sobre o primeiro elemento que o capitalista possui poder relativo que lhes confere a posse dos meios de produção. naquele processo de diretamente os meios de produção que resultaram de processos de trabalho produção. abelhas). através do controle que exerce sobre o processo de trabalho. Embora essas diferenças 5 Tomamos o tempo de trabalho como conceito básico para desenvolver nossa visão. Ou controle: habilidade relativa ao uso de um conhecimento intangível ou como um aumento da quantidade de produto produzida por unidade de incorporado a artefatos tecnológicos. ainda. independentemente das condições histórico-sociais e de outros de um ciclo de produção em relação ao ciclo anterior8. vivo é. A duração média do processo de trabalho necessário para produzir Pode ocorrer que. emergências certo produto depende das condições sociais. É em invalidem boa parte da racionalidade da Economia Neoclássica. da escassez relativa da matéria-prima 6 Nossa ênfase na mudança do modo de produzir tem a ver com o próprio sentido que e da dificuldade ou da habilidade requerida para a sua produção. e pode obter um produto. de forma que de mudança originadas pelo controle sobre ele exercido pelos atores um mesmo indivíduo possa concentrar a sua propriedade. E só depois que ele se mostra capaz de. é identificar situações humano (em geral objetos materiais) pode ser acumulado. implica a existência de Essa redução pode ocorrer mediante um aumento da energia física algum tipo de controle. com outros processos de trabalho. A propriedade envolvidos6. históricas e espaciais em etc. esteja sempre influenciado pelo aprendizado posterior àquela ação pretérita. está interessado em modificar. Isso significa que qualquer processo tempo de trabalho ou. a produção do produto se dá de forma mudança nas características do produto determinada pela alteração na forma como se individual ou coletiva. independentemente do Como iremos abordar mais adiante. Ele depende. ao examinar o processo produtivo. que. realiza o trabalho. por ser ele uma qualidade intrínseca ao ser humano. seja para envolver-se ser observada até mesmo em grupos não-humanos (formigas. por isto se denomina tempo de trabalho socialmente necessário5. produto (intensificação do ritmo do trabalho) ou mediante a substituição de Sempre que houver mais de um produtor direto (aquele que opera trabalho vivo por trabalho morto. O que ainda com maior existem condições propícias para o aumento de produção. então. como um certo volume de produção). Significa também que são essas condições que irão ou mental do trabalhador direto durante o processo de produção daquele determinar as características desse controle. aspectos que presidam a forma como se realize. O qual se encontra ligado a uma idéia de algo em Independentemente dessas condições. contradiz as afirmações realizadas neste trabalho. o primeiro. a produção será elemento variável porque parece ser. a influenciar no um dado produto pode ser entendida como um aumento da quantidade de modo como ele desempenha as suas ações. incorporado nos insumos e equipamentos em realizar uma ação igual ou semelhante a uma outra que já realizou. 9 Veblen (1898) desenvolve um interessante argumento a respeito das diferenças do comportamento humano frente às atividades que desempenha segundo elas estejam orientadas à produção de algum bem. A essa capacidade denominamos produto produzida durante uma jornada de trabalho de tempo fixado. independentemente de como é a sua relação fora do ambiente produtivo Quando ambos os tipos de trabalho são de propriedade do mesmo (amizade. Também nesse caso. Ela sugere que cada vez que ele cogite como se realizou o trabalho morto. produção só poderá ocorrer se os dois atores sociais. ele que são utilizados no processo de produção daquele produto. Quando o trabalho morto é de propriedade de um ator social que não 8 Privilegiamos o tempo de trabalho e não a quantidade de produto produzido como é o que realiza diretamente a produção (trabalhador direto). de meios de produção que tragam incorporado uma quantidade pretéritos: trabalho morto) envolvido num processo de trabalho é necessário maior de trabalho morto. terá como limite uma decisão individual9. seja ele o trabalhador direto ou o capitalista.). Isto é.Em direção a uma teoria crítica da tecnologia Renato Dagnino O trabalho morto. se irá conferir ao conceito de tecnologia. o trabalhador direto.

produtivo. Ou. nesse caso. e podem implicar sacrifícios ainda maiores dado la. o tempo de trabalho socialmente necessário para necessário para enfrentar condições especiais não é individual ou unilateral. Mais do que isso. de aumentar o tempo que dedica a trabalhar. O controle do processo de trabalho é exercido pelo proprietário O controle. coerção advindo da propriedade dos meios de produção. ao tempo de trabalho “excedente”. imaginar que no longo período que medeia a transição do feudalismo para o capitalismo. inclusive. entretanto. no ambiente produtivo. existe um controle a ele externo. independentemente de seu valor de uso Quando o processo de trabalho envolve um coletivo voluntário de (ou da satisfação que possa causar ao seu comprador) oscila em torno do trabalhadores diretos proprietários dos meios de produção. político. o valor do trabalho vivo (salário) e o lucro acordos de cooperação) mais amplos. isto é. por conseqüência. As especificidades do controle na dado produto. mas em função do quantitativamente. legitimada e consolidada — no contexto que envolve o ambiente produtivo. simetricamente. São eles: o valor do trabalho morto sobre o que dependem daqueles laços de solidariedade (o que é muito diferente de qual trabalha o trabalhador direto. quando. mercadoria e ao seu valor. quando não existam esses laços que excede à soma dos valores anteriores que foram sendo incorporados à de solidariedade entre os atores que participam do processo de produção. o controle seu valor de troca. ou seja. é uma decorrência de um acordo entre trabalhadores do trabalho morto (ou meios de produção) que contrata o produtor direto diretos iguais. Ele envolve laços de solidariedade que se dão em função do Esse controle faculta ao proprietário do trabalho morto (ou a seus contexto (social. de meios de produção). em estados de guerra. e ao ambiente de trabalho. econômico etc. os limites relativos à redução do tempo de trabalho formado por três elementos que. Nessa visão. os bens ou serviços são produzidos para serem “vontade natural” do trabalhador individual. comercializados por um preço que. Nesse caso.Em direção a uma teoria crítica da tecnologia Renato Dagnino até a sua saúde para reduzir o tempo de trabalho necessário para obter um 3. ao invés de solidariedade. necessário para a obtenção de um dado produto. irá. uso que é feito de sua habilidade (capacidade) de organizar e tomar os riscos Esse nível de acordo de cooperação poderá ser alcançado em situações inerentes à produção de mercadorias. demande um acordo de àquele tempo que. Em situações normais. passasse a controlar aquela No capitalismo. no decorrer de um processo de trabalho necessário para a obtenção de um dado produto são mais elásticos do que no cuja duração é o tempo de trabalho socialmente necessário para produzi- caso do trabalho individual. mas que. que transcende aquele acordo de cooperação no ambiente remunerando-o com um salário em troca do uso de sua força de trabalho. adquira a consciência de que a forma como trabalhadores diretos. como as de enfrentamento a uma catástrofe natural ou a um inimigo O capitalismo traz consigo a possibilidade de que o trabalhador direto. se vão a ele incorporando. uma pessoa – o capitalista . depois de se ter “remunerado” as outras duas parcelas — cooperação interno ao ambiente produtivo num nível mais elevado. fortes e complexos. não em virtude de seu poder de para viabilizar a produção terá que ser qualitativamente mais complexo e. na visão da economia neoclássica. direto devido ao uso de sua força (capacidade) de trabalho. produzidos para o mercado) produzida.passou a ser responsável pela segmentação e hierarquização do processo de trabalho que os antecessores 78 79 . o que se verifique remunerar a capacidade do capitalista de organizar a produção. o lucro seria a o nível de acordo de cooperação no âmbito do ambiente produtivo necessário remuneração que corresponde ao capitalista. a aceitação dos sacrifícios envolvidos com a redução do tempo de trabalho O lucro corresponde. apropriado pelo capitalista. maior. é como se um elemento exógeno em relação ao processo tecnologia capitalista de trabalho em si. O valor de troca da mercadoria é Nesse caso. ainda que não sofra coerção física. no contexto seja um enfrentamento derivado da posse desigual de riqueza e da mesma forma que o salário é a remuneração conferida ao trabalhador renda (e. nos permite da força de trabalho.). Esse controle supõe uma coerção — ideologicamente produz já não pode ser controlada por ele. Uma que naturalize a existência de proprietários dos meios de produção e a venda perspectiva analítica. então. ainda que não necessariamente histórica. comum. Isso se dá quando ele percebe que. ele exigirá que já não sofre violência física no ambiente da produção (pelo menos como um controle num grau bastante superior àquele que existe nos coletivos de ocorria nos regimes escravocratas). especiais. que corresponde à parte do tempo de trabalho É de se esperar que. o trabalho morto e o trabalho vivo —. não obstante segue sendo prepostos) alterar o processo de trabalho (introduzir tecnologia) de modo a exercido sobre o processo de trabalho que se dá no interior do ambiente apropriar-se de uma parcela maior do valor da mercadoria (bens ou serviços produtivo. produzi-los.

também. ou nas cooperativas de catadores de materiais recicláveis que também. não poderia dar-se de modo organizado. um substituto superior a essa coerção. como convencional (ou capitalista) e onde o surgimento e sobrevivência de formas ocorria em momentos históricos anteriores. A de produção”. uma vez que ele podia aparecer como uma necessidade inerente à produção coletiva que. o exercício um obstáculo para o aumento do controle sobre o processo de trabalho e do controle sobre o processo de trabalho e sobre o trabalhador direto no sobre o próprio trabalhador. vender sua forca de trabalho para quem quisesse. de outro modo. Essa subordinação se irá cada vez materializando em Quando. cada vez mais marginalmente. E não como um substituto. individual ou coletivamente. como ressaltam Burawoy e Tragtenberg. para que aquele controle passe a ser entendido como “relações técnicas de mesclar conflito e consentimento. já não mais tal no ambiente da produção. por exemplo. por outro. Enquanto a forma de produzir típica do feudalismo era marcada pela chamaríamos hoje de solidárias (e até autogestionárias). nos na contratação de um trabalhador que era. esse controle assumia o papel dessas normas de modo a garantir À medida que vai se expandindo o modo de produção capitalista colaboração e paz no ambiente produtivo. ademais. das “relações sociais de produção” que cercavam e legitimavam de concepção do produto ou processo até a de determinação do destino aquele ambiente10. essa forma (capitalista) de controlar o trabalho de produção não se generalizava tão rapidamente. existem. A qual. aquelas formas de produzir que pouco. Mas. Elas subsistiam. produzir. ela desnuda o caráter contraditório e de dominação do capitalismo. mas quando isso corre o risco de não acontecer. encobrir o controle. em valor praticamente nulo. os vestígios que ela deixou em termos O controle sobre a forma de produzir era garantido pelas relações da possibilidade de trabalho cooperativo. No meio urbano. Disfarçado pelo caráter adicionam o valor de sua força de trabalho a um capital constante com um cooperativo intrínseco a processos de trabalho coletivos antes existentes. Mas. De passam a ser assumidos pelo trabalhador direto. senão a propriedade coletiva. por um lado. como tantas coletivo (mesmo que não fosse de natureza associativa) era. solidárias ou cooperativas). é o recurso mais custoso para o establishment: ao ser ativada. industrial e se consolidando a superestrutura ideológica que garante a Esse caráter cooperativo intrínseco a qualquer tipo de trabalho manutenção de sua base econômico-produtiva. no ambiente da produção. os objetivos da produção controle ideológico. apropriado ao imperativo da fábrica deve ser um lugar “dócil e pacífico”. a característica do capitalismo. se naturaliza. mais tempo as formas de produzir baseada no associativismo. também se manifesta no ambiente produtivo. Essa possibilidade que traz o capitalismo só materializou-se pouco a vai sendo substituída pelos “técnicos”. era um poderoso disfarce para ambiente produtivo. nesse ambiente não coercitivo. É porque ali ainda situava no contexto externo a esse ambiente. Ela se de produzir alternativas à forma hegemônica são possíveis. em relação às quais intermediação de uma relação de poder coercitivo que se manifestava como essa forma controladora de produzir era uma alternativa nova. a possibilidade que é facultada aos trabalhadores (pelo capitalista e a forma de produzir anterior e que possibilitavam a organização da produção pelo Estado) para organizarem a produção é o que gera o consentimento . a correspondente ao capitalismo era baseada podiam ser utilizadas. um intrínseca ao modo de produção – tornando menos necessária a coerção. avassaladora as propostas de adoção de tecnologias distintas da tecnologia Ela só pôde se impor mediante uma coerção que não se manifestava. onde formas de produzir que trabalhadores associados estabelecem democraticamente normas para alternativas são possíveis. às que hoje que seguem sendo no setor rural onde até hoje se concentram de maneira chamaríamos autogestionárias (associativas. recuperadas. do que era produzido. E era. De fato. Livre dos meios de produção que não mais lhe pertenciam e livre para de produção não era dominante.este elemento essencial para permitir que uma idéia da classe dominante se transforme em ideologia coletiva. como é o caso do lixo. onde a propriedade privada dos meios Durante um certo tempo. personificava a relação social de exploração garantida pelo contexto. a coerção é utilizada. controlavam desde a fase cooperação. à medida que se desfaziam os laços associativos que caracterizavam 10 Segundo Burawoy. E é por isso Não apenas àquela que provinha do feudalismo mas. se sabe. é só nas fábricas sociais que a coerção vigente no contexto externo possibilitava. e não apenas na aparência. outras características intrínsecas a esse modo de produção. o controle passava a ser efetivamente. que. como enfatiza Marx. 80 81 . duplamente ambientes produtivos não-industriais onde a propriedade privada dos meios livre. foi no setor agrícola.Em direção a uma teoria crítica da tecnologia Renato Dagnino do trabalhador direto. que se mantiveram por do produtor direto era uma alternativa (nova) àquelas então existentes. quando fracassa o Quando. fica pronto o cenário fato. a figura do proprietário dos meios de produção máquinas e normas de produção. como substituto imprescindível àquelas normas democraticamente estabelecidas.

na manufatura e em outras que a quando os produtores diretos não são proprietários dos meios de produção. à custa da destruição de formas de produzir também demanda controle. o controle deixa de estar personificado e começa a ser exercido. então. o controle já existia nos modos de produção anteriores ao controle sobre o trabalhador direto tenha sido a causa primeira dessa situação. marxismo ortodoxo. também. numa empresa capitalista. fundamentada na propriedade dos meios de produção. coletiva dos meios de produção. Entre elas. etc. 82 83 . cadeias de produção. É como se métodos de gestão do processo de trabalho. proprietários dos meios de produção. uma situação em que produtores Essa expansão e consolidação do modo de produção capitalista diretos. de que existiria um transdutor entre o que ocorre no ambiente produtivo cooperativismo e da autogestão. por Como tentamos mostrar. que diversos aspectos (estágios. tempos e movimentos. que o controle. não estar associado à coerção. ao deixar de Ela. contexto da sociedade garantiriam as primeiras. a obtenção de uma De forma muito provavelmente associada ao entendimento do taxa mínima de lucro o que motiva e justifica a atividade produtiva.Em direção a uma teoria crítica da tecnologia Renato Dagnino Com vimos. como formas de produzir e de organizar a luta a cada cooperado. e no seu contexto introduz uma nuance na de outros pesquisadores. Márcia Leite privada dos meios de produção. não “aparece” como tal no ambiente produtivo. capitalista. que determina diretamente as características do de trabalho excedente àquele que remunera o capital constante e o trabalho modo de produzir e da tecnologia. que por física) no ambiente produtivo que o evidenciava e exacerbava para além de sua vez garante a cooperação no ambiente produtivo. como se sabe. ele aparecia associado ao exercício da coerção (inclusive O que não implica desconhecer que aquilo que garante o controle. para poder interferir no processo de trabalho e para a materializar o controle. uma relação social. é dado quando características da tecnologia (e. Nesse caso. O qual. que no de relações sociais tão diferentes será. capitalismo. Claudio Dedecca. Ela se estabelece. fora Contribuíram para esse processo de naturalização as derrotas políticas do ambiente produtivo. talvez o não-entendimento de que a exemplo. São elas. prancheta do projetista da tecnologia ou às planilhas dos responsáveis pelos Mais um passo importante dessa trajetória de naturalização. a importância relativa da proposta do 11 Nossa visão. fazendo com que ele passe a ser visto como um moldar a tecnologia precisasse de algo que a “representasse” no ambiente atributo estritamente técnico em favor da maximização da “produtividade” e produtivo. Neles. analogamente. mas a existência de um tipo particular de aponta que a rotatividade da mão-de-obra facultada pela legislação trabalhista que limita os direitos do trabalhador acaba se tornando uma forma de coerção. é fácil de entender que o tipo de controle que irá resultar âmbito do ambiente produtivo. destruição dos pilares do feudalismo sepultou. se verifica de modo co-organizado com uma série de outros processos que layouts etc. baseadas no associativismo. Da mesma forma que. Mas não é por decisão coletivo e democrático. o cooperativismo e a autogestão emergiram. por inclusão. Como apontamos anteriormente. e relações sociais de produção. É em virtude da dissociação que passa a existir no no contexto. pelas próprias máquinas e pelos que se estabelece no contexto que cerca o ambiente produtivo. e não a propriedade privada não como um imperativo colocado pela apropriação do aumento do tempo dos meios de produção. uma variável. a que havia derivado o controle é o resultado de um acordo11 e não de uma autoridade do dos grêmios de artesãos e que chegou a se colocar. (que passa a ser monopolizado pelo Estado). nesse caso. diferente. característica fundamental da tecnologia capitalista não é a propriedade ressaltando que o tipo de coerção utilizado hoje em dia é o desemprego. a partir de um processo de tomada de que sofreu a classe trabalhadora na sua luta contra o capital. Mas esse como uma alternativa à organização capitalista do trabalho. vivo. passa a diminuir no seio do movimento socialista internacional. do processo de trabalho). pela vontade dos produtores diretos de manter a propriedade alguma vitória importante. que passam essa relação social. É ele. de modo A propriedade privada dos meios de produção é uma relação social ainda mais naturalizado e “técnico”. manutenção do caráter privado dos meios de produção.) do processo de trabalho. é a coerção que vigora imperativos “técnicos”. e que tem como fundamento a propriedade privada dos meios capitalismo. entretanto. entre propriedade dos meios de produção e exercício da violência de produção. Esse “transdutor” é o controle. no início desse processo. E passar a ser é um “elemento tecnológico”. acordo é. é a contra o controle e o poder do capital. também. passível de ser incorporado à visualizado como um atributo técnico da forma de produzir capitalista. cooperam para produzir algo. de proporcionar retiradas compensadoras pode-se dizer que das cinzas. de que existiriam relações técnicas de produção. é orientado em última outra razão que cada vez que o movimento dos trabalhadores conseguiu instância. ressalta que “os trabalhadores trabalham com a arma do desemprego na cabeça”. pode aparecer de forma encoberta. no Assim posto. ocorreram. diferentemente do que ocorre anteriores. Ela não condiciona diretamente as estavam ocorrendo dentro e fora do ambiente produtivo. analogamente.

certo tipo de conhecimento no capitalismo12 contribua para “sacramentar” e naturalizar a separação entre cuja produção se dava de forma relativamente centralizada. ou pelos seus familiares. não diretamente ligadas à produção de bens e serviços. 84 85 . a viabilizar o tipo específico de controle indivíduos pertencentes à classe dominante e à classe dominada. de incorporar o saber que possuíam a lhes permitia subsistir em uma economia ainda não totalmente monetizada suas atividades. constitutiva do capitalismo. é o que capitalista. potencializar e coerção na produção) mediada pelo salário. Aquela que se estabelece conhecemos são uma ciência e uma tecnologia capitalistas”. já concentrada em mãos de uma minoria mais importante para nosso objetivo de proporcionar um referencial para o detentora de poder econômico. se desvincula do exercício da coerção política desenvolvimento de TA. legitimada na sociedade pelo Estado capitalista. sim. isso ocorre também no âmbito da produção dos bens e serviços que passam a ser “fabricados” para Esta seção apresenta sumariamente como o conhecimento passa a o mercado. “sacramentada”. também. entre aquelas duas classes de legitimar a sua expansão. sobre o processo de trabalho que o caracteriza. por um lado. convém sintetizar os resultados que habitam territórios contíguos. que vender sua força de trabalho a uma vida inteira de trabalho manual na O surgimento do Estado se dá. De fato. justamente. por um lado. necessidade de garantir a defesa de um determinado grupo social de outros Antes de passar ao próximo ponto. p.Em direção a uma teoria crítica da tecnologia Renato Dagnino 4. adquiriam uma dimensão importante em relação àquelas que se capitalista proporciona uma “explicação” naturalizada para a apropriação verificam no âmbito das famílias e que garantiam sua subsistência imediata. Esse conhecimento passa a ser codificado. pela técnica e pela tecnologia. sobre os indivíduos. à expropriação do melhorar sua qualidade ou aumentar a sua produção. para do processo de trabalho (Marglin. em sociedades em que o qual utilizam uma parte ínfima de sua capacidade inata de refletir e criar.109) quando escreve que. 1974). a proposição de que aquilo que caracteriza a tecnologia origina a Força Armada e marca o surgimento do Estado. e serviços com os quais seus antepassados garantiam sua sobrevivência 13 Parece possível argumentar que a separação estrita. razão em última instância de sua existência. privada do excedente gerado pelo trabalhador no processo de trabalho. a irrigação. o que faz 12 Concordamos com Marcos Oliveira (2002. é possível afirmar que “a ciência e a tecnologia que relação de dominação característica do capitalismo. e a de produção o “monopólio” do trabalho intelectual e condena os que têm saúde física e mental dos indivíduos. assim. E que. àquelas que O capitalismo nascente passa a reservar aos proprietários dos meios garantiam as condições gerais de vida em sociedade. à segmentação e hierarquização pelos indivíduos que os iriam consumir. por outro. como ciência representa apenas uma abordagem possível. sistematizado e Aquele primeiro tipo de conhecimento se relacionava a atividades privatizado13. E. O Estado garante. na sociedade da qual se desprende. A propriedade privada dos meios de produção mesmo em sociedades onde a maioria dos bens e serviços era produzida começa a ocorrer em simultâneo. e assalariada. se encarregavam. por outro. Não é por outra razão que a diferenciação que alcançamos. É essa função. E. Talvez o mais importante seja aquele que chegamos a partir e apartamento dessa atividade daquelas cuja realização se dá de maneira da abordagem genérica proposta. Como seria de esperar. Passa a ser função do Estado (capitalista). a defesa. motivada por valores atribuídos por não os possuírem e estarem por isto incapacitados para produzir os bens às práticas de controle da natureza características do capitalismo. uma relação de cooperação fabril (e não de ser monopolizado no capitalismo com vistas a. E que o que hoje é conhecido entre os proprietários dos meios de produção e os demais indivíduos que. cuja apropriação ocorre de modo associação entre trabalho intelectual e posse dos meios de produção pelo coletivo. que o conhecimento que passa a ser gerado Sempre houve. têm que vender sua força de trabalho. Aquela relação de dominação naturalizada e “sem retorno” entre trabalho intelectual e manual esteja relacionada com a secessão imposta pelo capitalismo. capitalista ou a tecnologia convencional não é a propriedade privada dos O Estado capitalista é conformado a partir de uma situação em que a meios de produção e sim o tipo de controle que ela determina é o resultado propriedade dos meios de produção. a e a consolidação do capitalismo. hoje separados ainda que fronteiriços. Isso ocorreu trabalho intelectual e manual. Implanta-se. acerca das especificidades da tecnologia descentralizada. generalizada. que vão da arte à ciência. A volume e a escala desse tipo de atividades. por estar o desenvolvimento da ciência e da tecnologia modernas intimamente ligado ao surgimento com que ele seja capaz de garantir. oriunda de sua capacidade de organizá-la. imediata. Conhecimento e controle no capitalismo é que garante a ordem social. por conhecimento então disseminado entre os produtores diretos que até então sua própria conta e de forma dispersa. passando pelo artesanato. E que faz entender o lucro como uma remuneração à sua indispensável contribuição Uma das atividades mais típicas desse tipo centralizado é a que atende à para a produção. ao longo da história. o monopólio legítimo da violência. nas famílias (por sua própria iniciativa e controle). E. e não mais de uma classe social particular. de territórios.

Em direção a uma teoria crítica da tecnologia Renato Dagnino

Como ficará mais claro em seguida, nossa idéia é que a propriedade o preço que pratica, e expulsará alguns de seus concorrentes do mercado.
dos meios de produção é um elemento exógeno ao ambiente produtivo Assim, e como resultado colateral e ex-post (embora provavelmente desde
que impõe um tipo de acordo social necessário para que exista a produção. o início pretendido) de um bem-sucedido emprego de conhecimento na sua
Independentemente da configuração que tenha um processo de trabalho, empresa, o empresário, ademais do lucro adicional oriundo do aumento da
ele sempre irá demandar algum tipo de controle e cooperação. Os quais são produtividade do trabalho que executam seus empregados, poderá aumentar
condicionados pelo tipo de acordo social e de propriedade dos meios de seu mercado. E, assim, novamente, sua margem de lucro. O resultado de
produção. um terceiro movimento será a diminuição do custo de produção de outros
A propriedade privada dos meios de produção o que faz é estabelecer empresários, em outros ramos.
o controle que irá presidir a concepção e utilização da tecnologia capitalista. Esse mecanismo dinâmico, causado por processos de emprego de
Essa tecnologia, por ter sido gerada num ambiente marcado por esse tipo conhecimento de natureza atomizada e não-coordenada que permitem
controle, ficará “contaminada” por ele. Ela guardaria consigo as características aumentar a taxa de mais-valia do empresário, incessante e ciclicamente
dele decorrentes mesmo quando deixasse de existir esse elemento exógeno. perturba o “equilíbrio” concorrencial gerado no mercado. Sua natureza, ao
mesmo tempo localizada e generalizada, se manifesta no nível macroeconômico
de duas formas: gerando, entre os empresários, perdedores e ganhadores; e,
5. A tecnologia capitalista, a fábrica e o entre o conjunto dos indivíduos envolvidos com a produção de mercadorias
mercado — empresários e trabalhadores — uma potencial redundância de mão-de-
obra e de diminuição dos salários unitários e da massa salarial (o que Marx
Bens e serviços produzidos para serem comprados por indivíduos que denominou “exército industrial de reserva”).
produzem outros bens e serviços no âmbito dessa relação social de produção É compreensível que esse mecanismo que tem possibilitado a expansão
adquirem no capitalismo um valor que transcende a satisfação que seu uso do capitalismo seja posto em evidência pelo empresário que dele se beneficia
possibilita. Seu valor de troca, formado mediante um processo de produção como pertencendo ao nível macroeconômico da concorrência intercapitalista.
tipicamente capitalista pela soma dos materiais empregados, pelo salário Imputá-lo a um movimento que ele desencadeia no nível microeconômico,
pago e pelo lucro do empresário, é aquele em torno do qual irá flutuar seu ao invés de situá-lo como um vitorioso entre os seus pares, desnudaria o
preço efetivamente realizado no mercado. resultado buscado, de aumento da taxa de exploração de seus empregados.
E é para diminuir o tempo durante o qual o trabalhador direto Esse mecanismo que tem origem no âmbito de um processo de
“retribui” com o trabalho que realiza o seu salário, que cada empresário passa trabalho que ocorre na empresa é caracteristicamente capitalista. Sua
a utilizar, crescentemente, conhecimento. Como o aumento da produtividade manutenção é garantida pela ordem capitalista, legitimado pelo sistema
do processo de trabalho derivado da adição de conhecimento numa empresa de dominação ideológica que dela emana e que naturaliza as formas de
tende a dar-se também em cada ramo da produção, o efeito direto buscado contratação e subordinação do trabalhador direto, e viabilizado também no
pelo empresário, de aumentar a sua taxa de lucro individual, se soma a efeitos plano financeiro pela ampla gama de subsídios que o Estado proporciona à
indiretos de barateamento dos bens consumidos pelos trabalhadores e dos acumulação de capital.
materiais necessários à produção. Tudo isso contribuiu para obscurecer o caráter moralmente questionável
Se, depois de ser bem sucedido no emprego de conhecimento em sua do comportamento empresarial e o consentimento da classe subordinada;
empresa aumentando sua taxa de lucro, o empresário conseguir impedir que contrapartida necessária no processo de construção da hegemonia (ideológica)
outros o imitem, ele permanecerá indefinidamente auferindo o lucro adicional e do capitalismo, a qual confere legitimidade a essa forma de utilização do
resultante da diminuição do tempo durante o qual o trabalhador “retribui” o conhecimento gerado pela sociedade.
seu salário; isto é, do aumento da taxa de exploração que pratica. O objetivo primeiro da produção e utilização desse conhecimento —
Como manter esse tipo de segredo tecnológico é difícil, é natural que aumentar o trabalho não pago na órbita da produção — não é o que aparece
ele realize o que pode ser entendido, no plano analítico, como um segundo com destaque na órbita da circulação. E, tampouco, é o que parece conferir
movimento. Abrirá mão de uma parte de sua margem de lucro baixando dinamismo àquele mecanismo. De fato, o emprego de conhecimento na

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Em direção a uma teoria crítica da tecnologia Renato Dagnino

produção se manifesta apenas como fruto de uma “empreendedora” compulsão o controle daquele processo, ele poderia produzir a quantidade original em
concorrencial que leva a um dinamismo no plano macroeconômico. menos tempo e, assim reduzir sua jornada de trabalho ou fazer aumentar sua
O fato de que o lucro adicional só se realiza na órbita da circulação remuneração.
dá a impressão de que a causa primeira desse mecanismo é a concorrência A outra faceta inerente ao “espírito do capitalismo” que se encontra
intercapitalista; da mesma forma que o fato de o valor da mercadoria só se associada àquele fetichismo é o “espírito competitivo” do empresário (aquilo
realizar no mercado obscurece seu caráter de relação social. Pelo fato da que hoje se repete à exaustão usando o termo apologético “competitividade”).
concorrência intercapitalista se expressar no mercado via preços, e levar à A par da qualidade do “bom empresário” que o levaria a buscar o aumento
expulsão dos empresários (inferiores) que não foram capazes de empregar da produtividade, mas que pode ser entendida como uma batalha contra
o conhecimento (e, por isso, merecem ser eliminados), a sociedade tende a seus empregados visando à apropriação de uma parcela maior do seu tempo
“esquecer” o que ocorre dentro das empresas, na órbita da produção. Origina- de trabalho, haveria outra compulsão ainda mais virtuosa. Ela o levaria a
se, por essa via, um fetichismo que freqüentemente se verifica quando o senso competir incessantemente com seus concorrentes em busca de uma parcela
comum procura explicar situações que se situam nas fronteiras entre o social, maior do mercado. E em situações que embora cada vez menos freqüentes
o econômico e o ideológico. As mesmas explicações esdrúxulas baseadas em tendem a ser vistas como a regra, a aumentar a mão-de-obra ocupada em sua
“evidências” pertencentes ao mundo animal, do tipo “o maior come o menor”, empresa e a baratear seu produto.
ou em “teorias científicas” evocadas de modo ilegítimo e descontextualizado, É interessante que tenha sido Merton, um weberiano pouco afeito ao
do tipo Darwin e a “evolução das espécies”, que servem de justificativa para questionamento das relações de produção capitalistas e considerado um dos
a exploração dos trabalhadores, são usadas para legitimar a superioridade do pais da sociologia da ciência, um dos poucos autores a se referir de forma
empresário inovador. crítica a essa compulsão do “empresário inovador”. Diz ele:
A causa do mecanismo que estamos analisando, que é o ato gerador
da mais-valia extraordinária, se situa, entretanto, na órbita da produção. É ali entre indivíduos de nível social e econômico elevado, não é
onde o lucro que se irá realizar no mercado é efetivamente gerado mediante raro que a pressão em favor da inovação torne imprecisa a
o emprego do conhecimento, desestabilizando, continuamente, de modo distinção entre as práticas regulares e irregulares. Como Veblen
localizado, mas também generalizado, o balanço de forças entre empresários observou: “em certos casos é difícil, por vezes impossível, até
e trabalhadores e entre os segmentos dessas classes sociais que se situam em no julgamento do tribunal, dizer que se trata de uma habilidade
diferentes setores da economia. comercial digna de elogio ou de uma desonestidade que
Mas como outros fetichismos, esse leva também à legitimação e ao merece a prisão. A história das grandes fortunas americanas
favorecimento de um ator presente no cenário político. Ele aparece como é a história de indivíduos tensos por inovações de uma
associado às duas facetas inerentes ao “espírito do capitalismo”. A primeira legitimidade duvidosa.” ( Merton,1982:64).
é o “espírito empreendedor” (aquilo que hoje se repete à exaustão usando o
termo apologético “empreendedorismo”), que levaria o empresário, inquieto Encerrando essa digressão, e independentemente da perspectiva
e sempre desejoso de melhorar a maneira como se realiza a produção, a ideológica a partir da qual se visualiza esses dois “espíritos”, é importante que
aumentar a produtividade do processo de trabalho em que estão envolvidos os dois movimentos que eles originam não se confundam. Distingui-los de
seus empregados. Mediante a introdução de conhecimento nesse processo uma perspectiva analítica é uma condição para melhor entender os resultados
torna-se possível produzir, sem aumentar a jornada de trabalho, um maior que freqüentemente, mas nem sempre, aparecem de forma combinada na
volume de produto. Situação que costuma ser interpretada, em função dinâmica de reprodução capitalista.
daquele fetichismo, como um ganho para o trabalhador, sobretudo se o O que não implica pensar que historicamente, ao longo da expansão
conhecimento incorporado à produção torna o seu trabalho menos penoso. do capitalismo, eles tenham ocorrido em seqüência, um depois do outro. E
De fato, caso esse maior volume fosse de propriedade do trabalhador, a nem, por exemplo, caricaturalmente, que o empresário se ocupe nos dois
nova situação implicaria que seu esforço estaria “rendendo” mais, ou que, primeiros dias de sua semana de trabalho com a frente interna da sua batalha
por unidade de produto, ele seria agora menor. Ou ainda, que se ele tivesse da acumulação do capital que ele trava todos os dias no interior de sua

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Em direção a uma teoria crítica da tecnologia Renato Dagnino

empresa com seus empregados. E que, nos dois seguintes, se preocupe com trabalho só se tornou possível pela sua prévia segmentação; nos “tempos e
a frente externa, na qual ele se enfrenta periodicamente, quando há uma movimentos”; e na incorporação de dispositivos ou sistemas concebidos para,
conjunção de situações favoráveis na órbita da produção — da sua empresa muitas vezes em prejuízo da eficiência, dificultar um boicote do trabalhador
— e da circulação — do mercado, do ambiente macroeconômico —, com direto em situações em que o clima de cooperação no interior do ambiente
outros empresários. E que, no quinto eleve suas preces aos céus para que da produção é perturbado por uma crise de hegemonia na sociedade etc. Ou,
tudo dê certo. mais recentemente, nas mudanças na organização do trabalho, no controle
contínuo e diluído da qualidade, no trabalho em domicílio etc. Resumindo e
retomando o fio da meada: o empresário, nessa frente, não estaria focado nas
6. A tecnologia e as duas frentes de batalha características do produto que fabrica e sim no processo de sua fabricação.
do capitalista Mas sigamos com a caricatura que nos permite, separando
analiticamente, entender aqueles dois movimentos ou compulsões que
De modo a deixar mais claro nossa percepção acerca desses dois traduzem o “espírito competitivo do capitalismo” e que sujeitam o empresário
“espíritos” e dos dois movimentos que eles originam, vamos seguir com a a travar, incessantemente e sem pedir quartel, a batalha da acumulação do
caricatura recém traçada adicionando a ela outra metáfora: a das frentes capital. Vale enfatizar a expressão caricatura para, em tom de brincadeira,
de batalha. comentar acerca de qual teria sido a razão de Marx não ter se preocupado em
Comecemos pela frente de batalha interna. Para abordá-la fazer a distinção que fazemos entre as duas frentes de batalha do capitalista.
poderíamos pensar que o capitalista, nas segundas e terças-feiras, nela E, também, de ter ressaltado o caráter de classe revolucionária que possuía
lutaria preocupando-se em maximizar o tempo de trabalho não pago
a burguesia.
mediante um processo de introdução de conhecimento na produção cujas
Em relação ao primeiro ponto, o que nos ocorre é que ele não
características são determinadas por esse ambiente de enfrentamento.
podia imaginar que depois dele viria um economista que ele chamaria de
Nessa frente, a resistência que seu adversário lhe pode opor é, ainda
burguês - Schumpeter – que, aceitando o que ele ressaltou como sendo
que contínua, fraca (e, com a globalização, decrescente). Adicionalmente,
os efeitos da concorrência intercapitalista sobre a dinâmica da mudança
o capitalista se encontra, nessa frente, inteiramente protegido pelo
tecnológica, subestimasse o que ele escreveu acerca do fato de ela se dever,
contrato social legitimado pelo Estado que garante, legitima e naturaliza a
fundacionalmente, ao objetivo de extração de mais-valia relativa. E que, depois
propriedade privada dos meios de produção e a compra e venda da força de
daquele economista, seus seguidores neo-schumpeterianos, sacramentassem
trabalho. Há muito pouco risco na frente interna. A maior parte das variáveis
a visão determinista que via - no melhor estilo deus ex machina - na superação
que influenciam no êxito nessa frente de batalha, que é de natureza tática,
dos “paradigmas tecno-econômicos” o motor dos ciclos econômicos de
está sob seu controle, o ambiente em que ela se trava é conhecido, sua
Kondratiev. As teorizações baseadas nos conceitos evolucionistas (ou neo-
autoridade é inquestionável, seus oficiais (engenheiros e gerentes) são de
schumpeterianos) de paradigma, trajetória, etc., que buscavam explicar a
inteira confiança e possuem um critério baseado numa ciência e técnica
dinâmica econômica a partir da mudança tecnológica (sem atentar para as
“dura”, pouco sujeitas a grandes incertezas.
suas causas sociais que o marxismo havia apontado), intencionalmente ou
Esse processo de introdução de conhecimento tende, por isso, a ser
não, contribuíram para obscurecer e naturalizar o que aqui chamamos de
incremental e contínuo. Seu foco tem estado historicamente concentrado
primeira frente de batalha.
no processo produtivo: na segmentação e hierarquização do processo de
Mas, prossigamos analisando o que ocorre na frente externa da batalha
trabalho em benefício de seu maior controle, na separação entre as tarefas
do capitalista. Aquela a que ele se dedicaria nas quartas e quintas-feiras. Ali,
de produção (manuais, repetitivas e crescentemente desprovidas do saber
naqueles dias, ele perscrutaria oportunidades de mercado suscetíveis de serem
que naturalmente possuíram) e de concepção (intelectuais, criativas e
reservadas aos “engenheiros” que são treinados para tornar as demais exploradas mediante a incorporação de um tipo particular de conhecimento
ainda mais repetitivas). ao processo de trabalho; distinto daquele que usualmente chama sua atenção
Seu foco tem estado também na cadência das operações através quando atua na frente interna. A isso tende a estar associada uma manobra
da velocidade e do ritmo das máquinas cuja introdução no processo de não mais de natureza tática, mas estratégica, e costuma ocorrer com a

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por isso. Assim. que é aqui referido O conceito de inovação foi cunhado no contexto dos países de mais pelos resultados que sua utilização produz do que pelos conceitos e capitalismo avançado para designar um conjunto de atividades que engloba relações específicos que engloba é tributário de visões como as da Economia desde a Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) até as novas técnicas de Evolucionária. no qual um estado do bem-estar garantia um nível razoável função da busca por aumentar o número de trabalhadores que o mesmo de desenvolvimento social. tenderia a estar associada a um aumento na produção e. no caso de uma empresa. mesmo no momento em que o empresário esteja focado na sua frente interna É no contexto dos países de capitalismo avançado onde surge o novo deixem de atuar as restrições associadas à escala de produção ótima sempre paradigma tecno-econômico baseado na eletro-eletrônica. O que não implica que Inovação. ponto de vista descritivo e explicativo. objetivo. portanto. visto que a tecnologia substituída proporcionava a apropriação de uma demanda — potencialmente existente ou. Cabe particularizar. da Economia da Tecnologia. seria mais freqüente do que no anterior a decisão de ainda maior de sua lucratividade. para cuja produção seus concorrentes não estão capacitados14. da competitividade (entendida em relação ao produção e à manutenção de um nível relativamente alto — ainda que variável exterior). pela criação de novos Inovação para designar um conjunto de elaborações teóricas que tem como conceitos. — de batalha e destacar o caráter virtuoso do que ocorre na segunda é. elas fazem com que tenda a haver um impulso ao aumento da de exportação e. elas não colocam no seu centro de preocupações. também. como ocorre crescentemente. nem do estar social”. o de Sistema Nacional numa maior lucratividade em relação ao momento anterior à introdução da de Inovação. essas visões têm em comum um elemento: como é empresa frente à concorrência intercapitalista e não para promover o “bem. e de outras porções mais significativas produção. descrever e explicar os fenômenos relativos à relação Ciência- como o de “inovação”. através do aumento do conceito (com uma certa propriedade. Arranjo em que uma teia de atores densa e completa gera. de competitividade em relação ao exterior. um objetivo da classe capitalista na sua continua luta surge o marco analítico-conceitual que temos denominado de Teoria da por reforçar a sua hegemonia. no pode existir entre as frentes interna e externa e os conceitos de tecnologia de processo interior de um ambiente sistêmico propício proporcionado pelo Estado. Essa condição de superioridade se traduzia. entendido como um aumentar a capacidade instalada da empresa. a “sociedade”. de fatores tecnológicos — de concorrência ambiente de elaboração de políticas públicas latino-americano. a questão da condição de superioridade dos atores — empresas e países — inovadores. inclusive. de entendimento do processo de inovação como um Sistema Nacional de a um acirramento da concorrência intercapitalista. cunhado no contexto dos países do norte como um modelo descritivo de um arranjo societal típico do capitalismo avançado 14 Embora não seja o momento de fazê-lo aqui. não perder a precisão conceitual necessária para a atividade de pesquisa em A tentativa de obscurecer o que se dá na primeira frente — interna que estamos engajados. possibilitavam às inovadoras um aumento Nesse caso.Em direção a uma teoria crítica da tecnologia Renato Dagnino introdução de um novo produto no mercado. forçadas a abandonar o mercado. Tecnologia-Sociedade típicos desse contexto. que substitui o da crescente que tem caracterizado a história da tecnologia no capitalismo em eletro-mecânica. onde seu objetivo Uma característica desse contexto possibilitou a expansão semântica é prescrever medidas de política de C&T que busquem. da Visão neo-schumpeteriana e comercialização (passando pela introdução de novos métodos de gestão da Teoria do Ator Rede. A introdução de conhecimento. No caso de um país. o término da Guerra Fria acirrava a concorrência empresário pode controlar (e explorar). instituições. compreensível. Apesar de suas significativas diferenças em relação da força de trabalho) que tem como objetivo melhorar a condição de uma a muitos aspectos. intercapitalista e o crescimento dependia cada vez mais das oportunidades De fato. conceber novos equipamentos etc. implantar novas linhas de agregado de empresas. sinais e tecnologia de produto. nem do normativo. conceito. que se passou a denominar para fins nesse caso. apesar de a expressão estar hoje cada vez mais presente no devido à incidência. é também no contexto daqueles países que compreensivelmente. e numa passível de ser criada mediante a sua iniciativa junto aos consumidores — e maior competitividade em relação a outras empresas competidoras que. é importante intercapitalista. como o de “empreendedorismo”. E. dentre esses arranjos. Isso é realizado. uma menor quantidade de trabalho não pago (mais-valia relativa). aos conceitos de inovação incremental e inovação de relevância que levam ao estabelecimento de relações virtuosas entre radical. seria interessante pesquisar a relação que (maduro). Como é compreensível. de um outro agregado. ou pela resignificação de outros. inovação social e dos atores sociais com ela envolvidos. 92 93 . é verdade) para englobar uma da lucratividade e competitividade das empresas e dos países. Esse conjunto. inclusive. Um produto para o qual visualiza inovação.

E que não há.. alguma análise descritivo-explicativa que constatasse a existência de algo semelhante àquilo que se pretende emular. Para propor soluções tecnológicas visando à inclusão social. falando. e é por da competitividade. eles orientaram suas grandes empresas a buscar uma da Inovação ao campo da Inovação Social. se materialização de um processo social que ocorre concomitantemente à (e por meio da) quiséssemos. Semelhantes no plano propõe (ainda que em menor grau) é bastante complicada. accountability. novamente com conceitual” da magnitude do que temos proposto ao cunhar e utilizar a uma certa propriedade. mediante ações planejadas de responsabilidade de um tipo particular de Outro termo hoje maciçamente utilizado no ambiente da elaboração Estado capaz de promover o estabelecimento de relações virtuosas entre das políticas de C&T orientadas a estimular os empresários a inovar e a se pesquisa e produção a partir do seu pólo mais desenvolvido: a estrutura tornarem competitivos. E isso como se existissem aqui aquelas condições e tenha como centro a compreensão das relações sociais que se encontram aquele arranjo societal e como se a assimilação entre as partes (empresas) e o na raiz do que atualmente se alude com esses conceitos.Em direção a uma teoria crítica da tecnologia Renato Dagnino pesquisa e produção. As características dos fenômenos introduz no mercado uma inovação radical. numa palavra. quem perca com isso. parece ser necessária uma profunda produtivos bem variados. dos atores E. da orientação que se quer a eles imprimir e. ainda que cada vez mais precária. em sua própria essência. É só a partir de todo (sociedade) fosse aqui legítima (e como se o Estado apresentasse aqui as um “giro conceitual” como aquele que este trabalho pretende é que será características de welfare. 94 95 . naquele contexto e com o apoio de mecanismos proporcionados por um envolvidos. pode ser assimilada à competitividade das empresas expressão inovação social (ou a que se tornou mais conhecida em nosso nacionais e a uma relativa. a uma relativa igualdade econômica opção ideológica inerente ao conceito de inovação social. da relação Ciência-Tecnologia-Sociedade que se quer explicar. pode não ser travada nenhuma escaramuça Foi assim que conceitos como os de sistema e arranjo. Essa condição foi construída mostrarem úteis para aquele propósito. menos quatro âmbitos.” soaria Por essas razões. primeiro das empresas e dos países. Até mesmo a Posteriormente. “inovação” freqüentemente utilizado de modo descontextualizado pelos que Algo parecido ocorreu. possível incorporar ao marco analítico-conceitual que ele irá conformando A diferença em relação aos países avançados é que nossa falta de os conceitos. Ele deve incluir a crítica ao próprio conceito de ganhos de competitividade entre o capital e o trabalho. depois de arranjos isto que este trabalho foi elaborado. e complementares Não nos parece possível. que pode “estar schumpeteriana” quando da Teoria da Inovação. epistemologicamente frente interna. nenhum empresário poderá ser. 15 A idéia em voga de que “temos que produzir empresários schumpeterianos.. o empresário (“schumpeteriano”) seria a trabalho. pública de pesquisa e de ensino superior. entre tantos na frente externa. econômico. tende a limitar e social.. quando na realidade. não o indivíduo. portanto. essa perda costuma se verificar em pelo sentido francamente prescritivo (ou normativo) sem que houvesse havido. que lá possui). como se sabe. o Sistema Nacional de Inovação se transforma num utilização de alguns de seus conceitos-chave e das relações e modelos que modelo normativo para os governos desses países. entre os trabalhadores que combatem na outros. depois dos mais de vinte Também ele tende a obscurecer a primeira frente — interna — de batalha. de Tecnologia Social). da Estado de bem-estar bem conhecidos. É a empresa. De fato. porque as inovações tendem a intensificar antes. distribuição dos meio. relações e modelos provenientes da Teoria da Inovação que se coesão impede a obtenção de competitividade. nos países periféricos como o Brasil. adotam a Teoria da Inovação para abordar o caso de países periféricos como Neles se tentou criar Sistemas Nacionais (ou Locais) de Inovação em busca o nosso. produção. o diálogo entre as idéias que apresentamos neste para Schumpeter como uma heresia. a idéia de Tecnologia (ou Inovação) Social. Primeiro. e o marco analítico-conceitual schumpeteriano. à inovação nas empresas e à competitividade do país. de inovação) com vistas a materializar com mais propriedade geração de inovações. não tem sido fácil. social. Ou seja. Para ele. como a de propor um conceito genérico de tecnologia (ou. passaram a ser aqui utilizados de uma forma que. muito pouco se tem avançado. A qual lá. “schumpeterianos” é o de “empreendedorismo”15. Uma revisão que arranjos produtivos locais. também. como os chamados sistemas locais de inovação ou revisão acerca de conceitos como tecnologia e inovação. Parece ser necessário um “giro condição de competitividade em relação ao exterior. anos que se tem tentado criar Sistemas Nacionais de Inovação em países Dá-se a entender que apenas os não-empreendedores perdem em função periféricos como o nosso. e por razões estruturais apontadas há mais de da operação do mecanismo dinâmico de introdução do conhecimento na quarenta. e deixará de sê-lo quando os efeitos dessa inovação se dissiparem. uma simples adaptação da Teoria em termos de comércio. a sua simples transposição para o campo que nos interessa. participação etc. Isto é com um Na realidade. muito se distancia daquela dos países avançados. institucional e científico-tecnológico.

empresa é o lócus da inovação” para perceber a tendência do capitalismo A materialização de uma idealização criada pelo capitalismo — o contemporâneo de submeter cada vez mais a produção do conhecimento à surgimento de uma esfera do mercado. situa a TS como o núcleo do substrato cognitivo que deverá tomar passou a ser conhecido). O empresário. porque mediante mecanismos redistributivos (que incluem o apoio à geração e tendem a diminuir postos de trabalho gerando um desemprego localizado difusão de conhecimento). e incorporada em o lugar da Tecnociência. portanto. Sendo que. com a construção de uma “Outra Estado capitalista. privada a produção de bens e serviços. O que pode ser avaliado pela quase completa inovadores. foi para atender às suas necessidades num primeiro nível mais concreto e imediato. de formas de subordinação que lhe dá origem e sentido. pelo fato de eles interromperem sua preocupação com a órbita da produção no 96 97 . E como essa atividade. pesquisa que se realiza no mundo. viabilizador das “sustentabilidades” (econômica. conhecimento para aumentar o seu lucro estará cumprido sua função “social”. geração de conhecimento passível de ser apropriado pela empresa privada Quarto. será tratado apenas o fato de que nem aquele atendendo a maior demanda causada por esse fator e pela expulsão dos não. responsável por 70% de toda a competitivos despedem seus empregados. orientada para uma finalidade adicional. em função das especificidades aqui proposta. por exemplo). mais abrangente e de longo que se destina a ser introduzido no processo de produção de mercadorias prazo. sobre a qual atua preferentemente a lógica da acumulação. cuja função primordial é dos Empreendimentos Solidários (ESs). E. atualmente. Num segundo nível. o salário tende a ser comprimido.Em direção a uma teoria crítica da tecnologia Renato Dagnino o ritmo da produção. A empresa é. nesse tipo de sociedade. estará fechando o círculo virtuoso do capital. social. de remuneração semelhante. Embora impactantes para aumentar a produtividade do processo de trabalho — passa a ser para os que acompanham a evolução dos gastos em C&T do pós-guerra. entre muitas outras. num terceiro nível. Segundo. que hoje amalgama e galvaniza a infra-estrutura pessoas. 70% é realizada por Voltando por um momento à História. para atender à empresa privada. onde se manifesta o poder do Estado capitalista — faz com que. Terceiro. Em favor da brevidade. causar maior tensão. a tendência à concentração de riqueza inerente cada vez mais difícil de ser compensado em outras atividades econômicas ao capitalismo. alternativas àquelas “conhecimento científico e tecnológico” (que é como aquele conhecimento engendradas pelo capital. passa a incorporar características distintivas. Ao repassar parte dele para os consumidores barateando seu produto e. política e cultura) É natural. na sua forma desincorporada. ou mais amplamente. a de aumentar o lucro do proprietário essas cifras não surpreendem aqueles que aceitam a concepção da inovação dos meios de produção. e uma esfera pública. ao empregar esse econômico-produtiva e a superestrutura político-ideológica do capitalismo. situando a TS utilizar os recursos de poder que concentra para garantir a reprodução da relação como um elemento articulador. aponta que 50% da atividade que ocorreu em todas as sociedades — o emprego do conhecimento pesquisa mundial é realizada pelas multinacionais). Papel que. Sobre a necessidade de uma abordagem (como a Escola. trabalhador habilidades que ele até então não possuía. atribuição da empresa Economia”. Nele. se pode entender como uma empresas multinacionais (o que. relacionado à ainda Sua relativa inapropriabilidade e indivisibilidade fizeram do apoio à produção escassa compreensão por parte dos atores envolvidos com a Economia do conhecimento necessário à produção de bens e serviços uma função do Solidária (ES). ausência do tema na produção bibliográfica dos autores do campo da ES. criar. Assim como sua difusão para os setores da não-capitalista ao conceito de tecnologia sociedade que deveriam dele se apropriar. a produção de conhecimento passou cada vez mais a fazer parte do conjunto de atividades que proporcionavam aos Esta seção se inicia explorando um desses obstáculos que hoje países a competitividade sistêmica que a competição entre eles demandava. no cenário em construção da “Outra Economia”. situa a TS como elemento que esse apoio foi direcionado. porque os empresários que deixam de produzir por não serem é decrescente. E novos postos de trabalho. sobre o papel que pode assumir a TS nesse processo. a atividade de produção de conhecimento se centralize ainda mais na órbita do Estado e seus apêndices 7. ainda que numa proporção menor do aumento da produção. mediante a cobrança de impostos. primeiro nível foi alcançado. se colocam ao movimento da Tecnologia Social (TS). desses. o papel das instituições públicas na desemprego deixa de ser conjuntural. nos dias que correm. E por ser. pela via do fortalecimento da ES. Eles não precisam do truísmo neoschumpeteriano de que “a impostas pelo capitalismo. porque numa situação em que o Na verdade. poderá reverter. fazendo as contas. empresa privada. que o Estado capitalista. oriente o desenvolvimento de de produção e organização da sociedade pervasivas. acidentes e doenças e exigir do se supõe que o Estado.

e específica. ambientais etc. marxismo ortodoxo acima aludida (Dagnino e Novaes. atuam uma estratégia que vá no sentido inverso. dado que permite visando à produção. E. que permita primeira tentativa de diferenciar TC e TS. Ou seja. que mais interessa ao quantitativa) no produto (no sentido genérico de output) gerado passível de campo da TS. implicações sociais. é o de coerção (ato de compelir alguém a atores com ele envolvidos na busca de soluções para os problemas que se uma ação ou escolha diretamente ou por meio de mecanismos ideológicos). O terceiro. Coriat. é a forma de propriedade dos meios Orientar de modo eficaz as ações atinentes à promoção da TS. da crítica formulada nos anos de 1970 por maoístas e trotskistas (Gorz. Ela parte da consideração do processo de trabalho em que se envolvem Apenas para esclarecer o conceito.Em direção a uma teoria crítica da tecnologia Renato Dagnino momento em que abordam questões relativas à gestão dos empreendimentos Depois de explicar a abordagem e mostrar que ela explica as e à organização do processo de trabalho. O que parece resultar de uma indicando as características que deveria ter a TS para tornar-se funcional à não assimilação da crítica contemporânea à visão neutra e determinista do “Nova Economia”. o desenvolvimento da TS. o seu primeiro e mais importante elemento: o controle. A qual parte das trabalho ou trabalho vivo). buscando o desenvolvimento 9. 1976) à forma como o marxismo ortodoxo e o socialismo real ou incorporado a artefatos tecnológicos. também pertencente ao neoliberalismo e os escombros do muro de Berlim). como a modificação no produto é apropriada pelo ator social. levando em conta apenas a forma de propriedade. o qual. permite entendê-la de modo mais coerente com a idéia de TS. é o de cooperação (ato de agir em conjunto com outro(s) necessidade de um aprofundamento teórico sobre o tema. Por isso. um obstáculo à sustentabilidade dos ESs. ela não se preocupa em ampliar o conceito dizendo que tecnologia é o resultado da ação de um ator explicar a dinâmica da inovação (ou tecnologia) de produto. 8. Concebendo uma nova abordagem ainda que heterodoxo e quase herético. chama a atenção para a ambiente produtivo. e a trabalho grupais. ele é uma característica inerente entendiam a tecnologia capitalista (a qual ficou soterrada pelo avanço do a qualquer processo de trabalho. verificado em processos de Evidência disso é o descompasso entre a reflexão teórica. relativo ao contrato social engendrado por um radicalidade com que o tema vem sendo discutido e a atuação concreta dos dado contexto socioeconômico. visando a um benefício percebido como mútuo). 2007). neste caso. Para tanto se está formulando ad também outros atores sociais que se relacionam com artefatos tecnológicos hoc uma abordagem que é ao mesmo tempo genérica. pertencente a esse contexto. resultando. políticas. o entendimento de qualquer tecnologia. por exclusão ou negação. colocam no âmbito dos EES. ser apropriada segundo o seu interesse. pode ser coletiva ou privada. na venda de força de supõe alterar a estratégia que tem sido adotada até agora. O quarto. econômicas. se expõe conjunto de aspectos da TC (inclusive a sua dimensão de hardware) como um procedimento inverso àquele proposto pela trajetória até agora seguida. nesse sentido. partindo do O fato de que essa situação possa ser atribuída a uma não assimilação ambiente produtivo. em geral. O quadro e o diagrama apresentados adiante ilustram. tecnologia A abordagem conduz a um conceito genérico de tecnologia. pode-se está alinhada com os princípios da TS. uma tecnologia que não determine essas implicações. na medida em que isto é. vale a pena apresentar uma os seres humanos no ambiente da produção de bens e serviços. 98 99 . Tem-se procurado. e ainda que sem abandonar a idéia Convém iniciar conceituando tecnologia como o resultado da ação de construção de uma utopia que caracteriza o movimento da TS. negativas da TC buscando. e no plano cognitivo do seu desenvolvimento. Entendido como a habilidade relativa ao uso de um conhecimento intangível 1974. adotar de um ator social sobre um processo de trabalho no qual. Formulando um conceito genérico de de algo-que-não-é aquilo que não queremos. e o conceito que sobre um processo de trabalho que permite uma modificação (qualitativa ou proporciona se limita ao caso da inovação de processo. Ela levaria a um entendimento da derivar as características que deve assumir a forma de produzir para tornar-se TC como o resultado da ação do empresário sobre um processo de trabalho funcional a um contexto socioeconômico específico e ao acordo social que que permite uma modificação no valor de troca do produto (ou da produção) ele engendra. nos processos de trabalho grupais plano das políticas públicas. não percebem a inadequação do características da TC a partir do contexto socioeconômico capitalista. no de produção ou do trabalho morto (a qual. O segundo.

o modo como se desenvolve a produção no ambiente produtivo é consideravelmente diferente. a TS. Entre outras coisas. Quadro 9. pela impossibilidade de que. o tipo de contrato social que essas relações estabelecem e legitimam. Na primeira coluna os atores típicos (um individual e três grupais) das quatro situações que se aborda. em cada uma das quatro situações. Ou. no capitalismo. derivar as características da tecnologia a partir dos “valores” atribuídos a cada uma das variáveis. O quadro resume como é possível. sobretudo. então. exista ali a violência física que caracteriza. como o resultado da ação de um coletivo de produtores sobre um processo de trabalho que permite uma modificação no produto gerado passível de ser apropriada segundo a decisão do coletivo. a propriedade dos meios de produção é privada. por isso. Ela é um elemento exógeno ao ambiente produtivo e. de cujas peculiaridades resultariam os tipos de tecnologia. Isso fica claro quando comparamos. por exemplo. os modos de produção escravista ou feudal com o capitalista. Em todos eles. uma categoria de mediação entre a variável forma de propriedade (adstrita ao contexto socioeconômico) e as variáveis controle e cooperação (adstritas ao ambiente produtivo). ou variáveis.1. De modo a sofisticar a análise para chegar a um conceito mais adequado ao propósito desta abordagem é conveniente levar em conta aspectos dos três espaços ou ambientes em que está inserido o ator social que atua sobre o processo de trabalho. os quatro elementos. Não obstante.1: Modificação essa que pode ser em termos de quantidade (mediante a introdução do que se conhece como tecnologia de processo) ou de qualidade Aspectos dos três espaços ou ambientes em que está inserido o ator (mediante a introdução do que se conhece como tecnologia de produto). em outras palavras. A forma de propriedade dos meios de produção não é a responsável direta pelas características da TC. social que atua sobre o processo de trabalho. Existiria. Na primeira linha do Quadro 9. que segue. estão os três ambientes. Essa categoria de mediação seria a variável coerção (adstrita ao contrato social) que seria também responsável pela determinação das características da tecnologia. o escravismo. O que explicaria essa diferença seria a forma como se apresentam as relações entre Estado e sociedade que envolvem e permeiam o ambiente produtivo.Em direção a uma teoria crítica da tecnologia Renato Dagnino gerado passível de ser por ele apropriada (sob a forma de mais-valia relativa). adstritos a esses espaços. e principalmente. E. não é capaz de determinar diretamente as variáveis de controle e cooperação que são as que efetivamente definem essas características. 100 101 . Na segunda. Fonte: elaboração própria.

em função de um contexto socioeconômico (que engendra Um resultado importante dessa tentativa de entender as especificidades a propriedade privada dos meios de produção) e de um acordo social (que da tecnologia capitalista é a proposição de que aquilo que caracteriza a TC não legitima uma coerção ideológica por meio do Estado) que ensejam. em função de um contexto socioeconômico (que engendra a propriedade coletiva dos meios de produção) e de um acordo social (que legitima o associativismo). Ela é um elemento exógeno ao ambiente produtivo e. os quais ensejam. Situar a propriedade privada dos meios de produção (de tipo taylorista ou toyotista). Ela seria o resultado da ação de um coletivo de produtores sobre um processo de trabalho que. a particularização do conceito genérico impostas por esses tipos de controle e cooperação mesmo quando deixe de tecnologia para o contexto socioeconômico capitalista leva à seguinte de existir aquele elemento exógeno: a propriedade privada dos meios de definição de TC. um controle (imposto e assimétrico) e uma cooperação esta determina ou faculta. possibilita 11. Particularizando o conceito genérico: a tecnologia capitalista O Diagrama que segue. de trabalho que. apresenta outra visualização da abordagem. 10. Ao proceder de maneira análoga.Em direção a uma teoria crítica da tecnologia Renato Dagnino A consideração desses aspectos leva a entender a tecnologia como o Diagrama 10. e do ambiente produtivo em que ele atua. A propriedade privada dos meios de produção implica uma forma de cooperação que preside a concepção e utilização da TC. permite uma modificação no produto gerado passível de ser apropriada segundo a decisão do coletivo 102 103 . podemos conceituar TS. em função das características do contexto socioeconômico. permite uma modificação no produto gerado como um elemento exógeno ao ambiente produtivo. Tecnologia que — e Fonte: elaboração própria. Ele evidencia que a propriedade privada dos meios de produção não é a responsável direta pelas características da TC. Particularizando o conceito genérico: a entender as características do tipo específico de controle que irá presidir a Tecnologia Social concepção e utilização da tecnologia capitalista. um controle (autogestionário) e uma cooperação (de tipo voluntário e participativo). agora particularizada para a tecnologia capitalista (ou TC). no ambiente produtivo. do acordo social. permite uma modificação no produto gerado passível de ser apropriada segundo o seu interesse. que condiciona o tipo passível de ser por ele apropriada. no é a propriedade privada dos meios de produção e sim o tipo de controle que ambiente produtivo. Ela é o resultado da ação do empresário sobre um processo produção. por isso. de acordo social necessário para que exista a cooperação para a produção (que qualquer configuração do processo de trabalho demanda).1: Características da TC resultado da ação de um ator social sobre um processo de trabalho que ele controla e que. não é capaz de determinar as variáveis de controle e cooperação que são as que efetivamente definem essas características. este é um ponto central que interessa desde o início ressaltar para avançar com nas questões relacionadas à TS — pode guardar consigo características Em termos conceituais.

E. sem que exista propriamente uma Tecnologia Social. E mais. Assim. Isto é. Quando a produção se verifica mediante construção de tecnologia muito distinta da utilizada. que ela seja competitiva em com características qualitativas e quantitativas de combinação de trabalho relação a elas e que possibilita que o “atravessador” ao comprar o material morto e trabalho vivo cuja determinação dependeria da vontade exclusiva catado esteja pagando não pelo alumínio que ele contém. As características que assumem a tecnologia e o processo de trabalho que faz do nosso país o segundo no ranking internacional. a idéia de que o quanto ela se aproxima da TC e se distancia da TS. social e econômico em que se dá a produção. à interpretação marxista convencional acerca da relação de determinação entre a propriedade privada e as características da tecnologia. obedeceria aos seus interesses de apropriação do excedente produzido. No eixo horizontal está representado um indicador de privatização da propriedade 104 105 . só é possível porque esses objetos são lixo. Esta será a Tecnologia Convencional. seguindo o Japão. É como se houvesse propriedade do mesmo ator social. cujo propósito é meramente ilustrativo e que por isso é claramente pouco rigorosa. no Brasil. empregadas em outras partes do mundo. assim como a tecnologia incorporada a este. de reciclagem deste metal. no vertical. O trânsito da Tecnologia Social para a entender facilmente situações que para muitos passam despercebidas. dadas Uma situação hipotética como a do caso 1 resultaria numa tecnologia as condições de superexploração do trabalho. dependem da forma como se verifica a propriedade dos dois elementos. Esta será a a ele incorporado pelo catador. evidencia o que há de original e promissor. no Japão. A tecnologia aqui empregada. A figura que segue. TS. o aumento do excedente gerado será uma propriedade coletiva (ou não-privada) dos meios de produção que leva à apropriado por este ator (caso 1). exemplifica esse processo. da evolução histórica do contexto político. Quando ambos são de conhecemos. O trânsito do caso 1 para o 2 envolveria um processo realimentado a cada ciclo de produção de adaptação da tecnologia (combinação qualitativa e quantitativa dos elementos da produção) à nova estrutura de propriedade. um outro. de uma tecnologia muito particular de coleta de objetos de alumínio (em especial latas de cerveja). por isso. existe uma tecnologia alternativa e competitiva àquela usada nos países Se a partir dessa situação e com o surgimento de um segundo ator. tornada possível pela abordagem crescente e. essa. se daria ao longo da curva graficada.Em direção a uma teoria crítica da tecnologia Renato Dagnino A comparação das duas definições. Tecnologia Convencional Por exemplo. por exemplo. o aumento do produto gerado em função da incorporação da realizada pelos catadores ser menor do que aquela que o capital encontra tecnologia será apropriado segundo uma proporção que depende do seu em outros setores da economia a protege da concorrência das tecnologias poder político relativo (caso 2). avançados. ela permitira 12. as características de sua combinação (tecnologia) passaria a depender da correlação de forças existente entre seus proprietários. Completado esse trânsito. que indica desenvolvida. sendo cada um proprietário de um dos Uma tecnologia que só existe porque o fato da taxa de lucro da atividade elementos. mas pelo trabalho (valores e interesses) do ator proprietário desses elementos. fosse aparecendo uma separação da propriedade desses elementos (caso 2). O trânsito da TS para a TC o controle é um atributo inerente a qualquer forma de produzir. a existência. Formulação. o proprietário do trabalho morto (máquinas e matéria-prima) passaria a contratar trabalho vivo (força de trabalho) e a organização do processo produtivo. é importante destacar que ela é coerente com a explicação acima. que todos nós chave da produção: trabalho morto e trabalho vivo. a interveniência de dois atores. de característica da tecnologia. que nos permite avançar no desvelamento daquilo que qualificamos Para manter a referência que estamos fazendo ao longo do trabalho como uma espécie de histerese que envolveria a tecnologia. Uma tecnologia que permite.

A interpretação marxista convencional sobre a neutralidade da ciência e o determinismo tecnológico tem sido sistematicamente criticada por autores como Lacey (1999) e Feenberg (2002). é necessário investigar a possibilidade de um trânsito no sentido inverso. ela não retorne à situação anterior. 2004) em particular no caso das fábricas recuperadas (Novaes. mas a atuação de um outro estímulo. A figura mostra no eixo horizontal a intensidade de um campo magnético que atua sobre uma barra de ferro submetida e. levariam a mudanças sistema de conservar as propriedades decorrentes de um estímulo externo radicais na tecnologia. por conduziu o sistema a um novo estado estável. Esse fenômeno ocorre em muitos sistemas complexos e remete à Adotando a interpretação marxista convencional seria possível supor. Se depois da barra de ferro ter sido imantada o campo magnético diminuir até anular-se (curva PR). da TC para a TS. um trânsito em direção à Tecnologia Social. no vertical. a tecnologia parece estar sujeita coletiva dos meios de produção. 2007) uma configuração distinta daquela causada por um estímulo externo tende a que seriam o espaço mais propício para a instauração de um trânsito da TC demandar não apenas a sua cessação. diferença relativa entre a trajetória que levou um sistema a um determinado que a ruptura das formas de propriedade privada típicas do capitalismo e estado em função de uma perturbação e a trajetória de recuperação. O emprego desse conceito nos daquele que levou à TC. ela manterá um nível de imantação residual. A uma tendência de um inviabilizar o “controle” sobre o processo de trabalho. O Isso. relacionada às possíveis alternativas à tecnologia capitalista e ao desenvolvimento de TS. cessada a perturbação. ajuda a explicar o trânsito da TC para a TS. causado por uma mudança construção da TS.Em direção a uma teoria crítica da tecnologia Renato Dagnino 13. A curva de imantação é a inferior (OP). é possível entender porque isso ocorre e indicar um Nela se adiciona à primeira figura um hipotético “caminho de volta” caminho para fazer com que o resultado seja um processo sociotécnico de (curva superior) de uma TC em direção a uma TS. 106 107 . a capacidade que ela adquire de atrair objetos metálicos (imantação). Ou seja. mostrando que esse caminho seria distinto A figura ilustra o fenômeno da histerese. É isso que procuramos mostrar com a figura que Com uma figura semelhante à apresentada anteriormente. que o trânsito em direção à propriedade coletiva dos meios de produção. entretanto. Empregando o conceito de tecnociência e baseado nesses e outros autores. segue. para a TS em função da passagem da propriedade privada para a propriedade Como muitos sistemas complexos. para adquirir Novaes. percorremos caminho semelhante em Dagnino (2008). Brandão e conceito de histerese permite entender porque um sistema. na estrutura de propriedade. concebida combinando as duas anteriores. e apoiando. ao fenômeno da histerese. E é a partir dessas vertentes de crítica que exploramos essa questão. faz com que. não é o que temos observado (Dagnino. Histerese e o trânsito da Tecnologia Convencional para a Tecnologia Social Para abordar a questão que nos interessa mais de perto. nos na teoria de sistemas.

que ainda contrastá-lo com o usualmente encontrado para mostrar a conveniência que se chegasse a uma situação de propriedade coletiva. mas implicitamente supõe que qualquer conhecimento que permita aumentar a estaria situada à sua esquerda. nessa medida. facultada por um acordo social que legitima uma certa forma de propriedade. e funciona com um obstáculo à mudança usual e tendo em conta as considerações acima. emprestam a eles um estatuto de do ambiente produtivo. não deixa claro que se coletiva dos meios de produção. materiais. que atrativo. O tipo de controle que o acordo social imposto no ambiente produtivo. por mais interessante. Elas estão representadas na figura como sendo originadas de conhecimento métodos. e dá sentido. Como se a histerese do sistema tecnologia ele não o controla (no sentido “técnico”. que teriam terceiro lugar porque chama a atenção para o fato de que essa possibilidade é que ser adicionadas à tecnologia através do processo de AST. o resultado seria de sua adoção. enquanto que aquele ser obtida. rápido ou em maior quantidade ou ainda proporcionando um produto mais O conceito de Adequação Sociotécnica (AST) que desenvolvemos em barato e com maior qualidade. por propriedade privada dos meios de produção legitimada no ambiente terem sido definidos sob a égide do capitalismo não fazem a ele referência. porque o conceito usual não coincidiria no gráfico com o ponto em que os dois eixos se cruzam. máquinas e processos da existência de um controle capitalista que ficaria “entranhado” na tecnologia para combinar recursos visando a produzir produtos desejados de modo mais ainda que se chegasse àquela situação. explícita ou social. ainda que o ator siga controlando o construir formas solidárias de produção. abstrai o contexto capitalista que o envolve proporcional à pouca importância que ele tem até agora merecido. para adquirir as características compatíveis com a TS. novo. ou seja. como este último. é fácil perceber que é a outros conceitos das ciências sociais e também das ciências duras que. ou “científico” que ele seja. vale a pena apresentar propriedade coletiva dos meios de produção. precisasse de um processo de desconstrução e quantidade de produto gerado durante o tempo a ele dedicado poderá ser reconstrução sociotécnica (que é como conceituamos a proposta de AST) para utilizado pelo ator que controla o processo de trabalho.a propriedade privada . a curva “de volta” intercepta o eixo vertical Apresentado o conceito genérico de tecnologia é conveniente num ponto tal que se mantém uma “imantação” residual. Em primeiro lugar porque este não se refere processo que decorre da passagem da propriedade privada para a propriedade ao ator que modifica o processo de trabalho e. propositalmente ou não. Em segundo. Considerações Finais para a TS em função da passagem da propriedade privada para a propriedade coletiva dos meios de produção.Em direção a uma teoria crítica da tecnologia Renato Dagnino A figura mostra que. por isso.fica impregnado na É fácil perceber. Mas é pouco provável que as características que universalidade e atemporalidade que mascara seu caráter de construções esse controle incorporou na tecnologia capitalista possam ser alteradas histórico-sociais. outros trabalhos (Dagnino. Em da passagem da propriedade privada para a propriedade coletiva. a TC. a uma tecnologia que manteria como resíduo algumas de suas características tecnologia é entendida como a capacidade originada pela aplicação prática prévias à mudança. 2004) aparece O conceito de tecnologia aqui proposto se diferencia do usualmente na figura como um prolongamento da “curva de desimantação”. socioeconômico o que viabiliza a existência do controle capitalista no âmbito E. O segmento que se situa à direita da TS e vai até a interseção dos põe em evidência o fato de que isso irá ocorrer somente se o ator tiver a eixos representaria as características suplementares àquelas que decorreriam possibilidade de dividir a produção resultante de acordo com seu interesse. ferramentas. para E que se esse acordo deixar de existir. Ou seja. Tanto na literatura especializada quanto nos dicionários. pela relação social capitalista . mesmo que tenda a ocorrer um trânsito da TC 14. é comum a muitos Numa perspectiva histórica e analítica. comparando o conceito genérico apresentado com o forma de produzir capitalista. Essa característica. como é bem sabido. Essa explicação é coerente com a observação de que não basta. 2002 e Dagnino. uma primeira tentativa de diferenciar TC e TS. Brandão e Novaes. do encontrado em vários sentidos. A consideração desse controle possui uma centralidade inversamente implicitamente — por omissão —. do ambiente produtivo) não haverá necessitasse de um estímulo externo adicional (a AST) a essa passagem como efetivar a introdução de conhecimento. Ela levaria a um entendimento da TC como o resultado da ação do empresário sobre um processo de trabalho que permite uma modificação no valor de troca do produto (ou da produção) gerado passível de ser por ele apropriada (sob a 108 109 . Como se a TS. a abolição da propriedade privada processo de trabalho ele não terá interesse em introduzir conhecimento novo dos meios de produção. simplesmente pela abolição da propriedade privada e pela instauração da Ainda com o objetivo de esclarecer o conceito.

Divisão social do trabalho. M. In: ZIMBALIST. NOBLE. argumentamos que qualquer tentativa de orientar DAGNINO. age. D. Ciencia. Labour Process viabilização. Para que servem os patrões?. et al. 1984. técnica y capital. uma vez que a ação concreta. capitalista — é interno ao ambiente produtivo e não é visto pelos partidários EDWARDS. “La ciência y la estructura social democrática”. v. DAGNINO. Understanding Conflict in the Labour Process: The Logic and desse estilo de desenvolvimento alternativo como uma condição para a sua Autonomy of strugle. tal como ocorre hoje em empreendimento solidários. In: Teoria y estructura social. deverá enfrentar dois tipos de obstáculo. Fundação Banco do Brasil. 2008. de 2002. 2002. 1990. In: MARGLIN. a trajetória tecnológica do capitalismo no sentido de satisfazer a outro UNB. Transforming technology. Brasília.1974. Theory. In: Organização dos por ele apropriada.). Marília. p. 2004. Tecnologia Apropriada: uma alternativa? Dissertação (Mestrado). Revista O segundo — as características da tecnologia associadas ao controle Organizações & Democracia. Divisão do trabalho.15 externo ao ambiente produtivo e bem conhecido. MERTON. de produção. México: Fondo de Cultura Econômica.Em direção a uma teoria crítica da tecnologia Renato Dagnino forma de mais-valia relativa). S. S.C. Londres. H. Beyond Mechanization: work and technology in a postindustrial precisa ser vencido. A. Porto: Publicações Escorpião. H. a ciência e a cultura. H. à tecnologia capitalista. Manufacturing Consent. In: KNIGHTS. et al.campus-oei. In: LASSANCE Jr.html>. a reorientação da trajetória tecnológica do capitalismo no 2002. 1987. Em direção a uma Estratégia para a redução da pobreza: a evidência a idéia de que uma parte do valor dessa modificação pudesse ser Economia Solidária e a Adequação Sociotécnica. além do obstáculo genérico da propriedade privada dos meios FEENBERG. Partindo do conceito genérico de tecnologia. 2007. técnica e modo de produção capitalista. P. Rio de Janeiro: Ed. LACEY. R. Case 110 111 . NOVAES. independentemente de index. da Unicamp. Porto: Escorpião.org/salactsi/ venha a modificá-lo. entendida como o BURAWOY. Rio de Janeiro. H. et enfrentar um outro interno não menos complexo. chegamos inicialmente a um conceito de TC que colocava em DAGNINO. não pode ser tomada por ele. R. 1999.T. Tecnologia Social – uma estratégia O primeiro — a propriedade privada dos meios de produção — é para o desenvolvimento. Note-se que se exclui a possibilidade de que um ator que Estados Ibero-americanos para a Educação. Madrid: H. o segundo obstáculo HIRSCHORN. p. sua intenção. “As forças produtivas e a transição ao socialismo: de desenvolvimento alternativo. Chicago: University of Chicago Press. Sala de não controla o processo de trabalho — o produtor direto. e NOVAES. 1978. uma modificação no produto gerado passível de ser apropriada segundo o CORIAT. Sobre o marco analítico conceitual alternativo. hierarquia e luta de classes. terá que GORZ. Modificação essa que pode ser em termos de 15.. Campinas: Para concluir. A. contrastando as concepções de Paul Singer e István Mészáros”. Massachussets: MIT Press. Oxford: Oxford University Press. Blume. conjunto de valores e interesses coerente com um estilo de desenvolvimento DAGNINO. R. da tecnologia social.1974. London: Macmillan. Is science value-free?: values and Scientific Understanding. condição genérica para a viabilização de muitos outros aspectos desse estilo DAGNINO. Guanabara. 7. R. A divisão do trabalho. Assim. Disponível em <http://www.. D. (Org. (Org). Trabalho e capital monopolista. T. MARGLIN. limitado ao ambiente produtivo. In: GORZ. Social Choice in Machine Design. 1976. ainda que específico e al. e mantendo o foco na questão das possíveis alternativas Ed. E que. Neutralidade da ciência e determinismo tecnológico. Unesp. tecnologia de produto). Routledge. R. sentido de alavancar um estilo de desenvolvimento alternativo. no caso da TC — Lectura CTS+I de la OEI. H. F. A. ciência. BRANDÃO. B. mesmo que o primeiro seja superado. 30-48. uma vez que é uma a 64. Acesso em 05 out. resultado da ação de um ator social sobre um processo de trabalho que permite 1979. seu interesse. Bibliografia quantidade (mediante a introdução do que se conhece como tecnologia de processo) ou de qualidade (mediante a introdução do que se conhece como BRAVERMAN. R. L.K. 1992. e WILLMOTT. A.

Fórum Social busca caminhos para uma nova ciência. ecologia e capitalismo” Fórum Social Mundial janeiro de 2002. 2. policy-makers. H. Rio de Janeiro. uno de los resultados esperados de esta investigación es la generación de capacidades en los actores relevantes involucrados en la implementación de tecnologías sociales (investigadores. ANPOCS. 1983. 187-201. Nova Iorque: Monthly En los últimos años. 1. 24 e 25 de novembro de 2008. Thorsten. En el mismo sentido. VEBLEN.R. Con la colaboración de: Milena Pavan Serafim (GAPI – Unicamp). J. Introducción American Journal of Sociology. ZIMBALIST. Disponível em Tecnologías Sociales 1 <http://www. Marcos B. 1979. 112 . Conflito e Consentimento na Teoria do Processo de Trabalho: Um Balanço do Debate. In: Boletim Informativo e Bibliográfico de Hernán Thomas Ciências Sociais. 2º semestre. 2007. nº 32. Reconociendo la importancia de la variable tecnológica. el tema de la inclusión social — tanto en el ámbito Review Press. Así. A. n. 31-48. Case Studies on the labor process.Em direção a uma teoria crítica da tecnologia Studies on the labor process. de. Mariano Fressoli THOMPSON. (Org). 1991. NOVAES. O Fetiche da Tecnologia – a experiência das Fábricas Recuperadas. Controle. 4. Rodrigo Fonseca (GAPI – Unicamp). Alberto Lalouf (IEC-UNQ – UNSAM). representantes de Organización no gubernamentales (ONGs) y de movimientos sociales).htm> Acesso em Julho de 2002. The nature of work. T. El estudio de las Tecnologías Sociales representa una tarea prioritaria para la planificación de estrategias de desarrollo socio- económico e inclusión social en América Latina. el papel de la tecnología — en su condición de elemento que incide en los procesos de inclusión/exclusión social — todavía es tratado de forma marginal. OLIVEIRA.br/especial/fsm2/fsmII01. p. Sin embargo. Nova Iorque: Monthly Review Press. RAMALHO. 1 Texto apresentado no Seminário Tecnologia para Inclusão Social e Políticas Públicas na América Latina. La propuesta de Tecnologías Sociales representa un movimiento reciente que busca proveer de soporte tecnológico-material a las estrategias de inclusión social. set. En búsqueda de una São Paulo: Expressão Popular – Fapesp. de las políticas públicas como en las reflexiones de carácter académico — ha adquirido singular relevancia en diversos países de América Latina. pp. esta investigación se orienta a la producción de insumos para la reflexión teórico- metodológica y la concepción de políticas públicas destinadas a la generación de procesos de inclusión social. P.comciencia. Rio de Janeiro. v. metodología para investigar Reportagem de Rafael Evangelista realizada no Seminário “Tecnociência. 1979. London: Macmillan. Rafael Dias (GAPI – Unicamp). 1898. The instinct of workmanship and the irksomeness of labor. la implementación de esta investigación permitirá generar una mayor articulación entre los diferentes grupos de investigación.

paradójicamente. El alcance estructural parece mostrar la ineficacia de a concebirlas como sistemas tecnológicos orientados a la generación de los mecanismos de mercado para resolver el escenario socio-económico. el abordaje inicial no Resolver los déficits estructurales demandaría la movilización de recursos puede restringirse a la focalización en la situación de restricción y miseria. transporte. tales que no sistematizando y analizando las reflexiones existentes acerca del tema y parecen una respuesta adecuada: concebidas como intervenciones paliativas. tecnológicos simples y tecnologías maduras. privilegian el empleo …a las soluciones en el plano teórico-conceptual: Nuevas de conocimiento experto. a mediano y largo plazo. …al problema cognitivo: Las actuales tecnologías sociales Esta investigación también pretende realizar contribuciones en ese sentido. al mismo tiempo. El desarrollo de tecnologías sociales o. abandonando su concepción original de respuesta gubernamental. si el objetivo último es la inclusión social. La urgencia parece exceder los tiempos políticos como recursos paliativos de situaciones de pobreza y exclusión. Concebidas como simples alarmantes índices sociales y económicos. al mismo tiempo. guías de cambio tecnológico local como para poner la ciencia y tecnología locales al recursos disponibles y de grupos de trabajo especializados en la temática servicio de las necesidades sociales. de acceso que. cristalicen situaciones de discriminación y superación de estos problemas sociales es. y nuevos desfasajes sociales y políticos. la mayoría de los relevamientos aumentar la participación de las unidades públicas de I+D en la dinámica de sobre tecnologías sociales constituyen en realidad source-books. el mayor desafío marginalidad. comunicaciones). dinámicas top-down (“paternalistas”). con soluciones a la problemática social adquiere así un nuevo estatuto teórico. (“apropiadas”) disponibles presentan una serie de restricciones. dinámicas de inclusión. dejando de lado el nuevo Del problema social…: Los países de América Latina muestran conocimiento científico y tecnológico disponible. ¿Pero cómo? estudios empíricos realizados con una sólida base teórico-metodológica. nuevas formas de exclusión político y económico de los gobiernos de la región. para pasar y los planes graduales. Es necesario un viraje estratégico tanto para metodológica de la teoría. normalmente ignoran Enormes proporciones de la población (oscilando entre el 20 y el 50% según los los sistemas de acumulación y los mercados de bienes y servicios en los que diferentes países e indicadores) viven en condiciones de exclusión. ajeno a los usuarios-beneficiarios. De hecho. económicas. educacional. vía la resolución de problemas sociales y ambientales. acaban generando relacionadas con tecnologías sociales. generan desempleo. alimentario. por un lado. signadas se insertan. es tan necesario como ineludible revisar las conceptualizaciones La escala del problema social parece exceder las actuales capacidades sobre tecnologías sociales disponibles. políticas — como con el conjunto de los de consumo compatibles y la generación de viviendas y empleos. son escasos los constituye un aspecto de la respuesta viable. riesgos de alto impacto ambiental. generando una metodología adecuada para analizar experiencias y políticas destinadas a usuarios con escasos niveles educativos.En búsqueda de una metodología para investigar Tecnologías Sociales Hernán Thomas / Mariano Fressoli organismos gubernamentales y no gubernamentales e instituciones acumulado. La económicas “de dos sectores”. Así. simplemente. y reproduzcan. la marginalidad. La forma de concebir una gigantesca demanda energética. en condiciones sociales — culturales. implicaría sistemas tecnológicos con los que entran en contacto). No Los procesos de cambio tecnológico son dinámicas de co-construcción de parece posible responder al desafío con el simple recurso de multiplicar la artefactos y sociedades. equivalentes al 50 o 100% del producto nacional de los países afectados. no es extraño por un conjunto de déficits: habitacional. Lejos de disminuir. En particular. agua potable. mayor deuda social — crónica y estructural — existente. Tienen “éxito” cuando las tecnologías generadas dotación tecnológica existente. normalmente pierden de vista que. normalmente aplican conocimientos para la consolidación de los esfuerzos en el plano regional. Es. bienes de cambio y dinámicas de mercado. las tecnologías apropiadas generen dinámicas a bienes y servicios (energía. La dimensión tecnológica del problema constituye un desafío en sí mismo. Así. Por esto. la pobreza y la violencia social tienden a aumentar y profundizarse. resultan socio-técnicamente adecuadas (compatibles tanto con las condiciones La inclusión de la población excluida y sub-integrada. la y desintegración. el bienes de uso. conceptualizaciones — en los campos de la sociología de la tecnología utilizan el conocimiento tecnológico local (tácito y codificado) históricamente y la economía del cambio tecnológico — permiten resolver algunas 114 115 . una enumeración de experiencias. y resultan económicamente insustentables. Diseñadas para situaciones de extrema pobreza de núcleos internacionales con el propósito de promover una dinámica de interacción familiares o pequeñas comunidades. probablemente. ¿Cómo re-pensar el problema? Una acción orientada por la simple multiplicación del presupuesto en Uno de los inconvenientes asociados a la ausencia de una caracterización Investigación y Desarrollo (I+D) será insuficiente para generar un cambio en teórica adecuada es la ausencia — derivada — de una operacionalización la dinámica socio-técnica local. y por otro sub. de recursos naturales. De esta manera. Así. de materiales.

tecnológico: relaciones usuario-productor. el desarrollo de tecnologías socio-técnica de las tecnologías sociales constituye una relación problema. el uso el desarrollo de nuevas formas de organización. son tan poco operativos en el campo de las tecnologías sociales procesos innovativos de diferenciación de productos y procesos. solución no lineal. planificación. las economías en desarrollo como para generar una mejora estructural de Esta dinámica puede abrir una nueva posibilidad de profundización de las condiciones de vida de la población (mejoras en productos y servicios. selección de objetivos y y oportunidades. Así. sistemas locales manera implica constituir la resolución de los problemas vinculados a la de innovación etc. hasta ahora restringida a la obtención de subsidios “apropiadas” han producido bienes de uso que resolvieron. incorporación las decisiones tecnológicas. La adecuación de las tecnologías capacidades de resolución de problemas. …a las soluciones en el plano político-institucional: La realización de No es. la inclusión de los usuarios-beneficiarios en los al mercado de trabajo e integración social de sectores marginalizados. transporte. con mayor o nacionales e internacionales. tanto en términos económicos como productivos. aún. Dado que la adecuación estática invención de una solución “apropiada”. vivienda. de integración en sistemas socio-técnicos y procesos de resignificación de El tratamiento simétrico de las tecnologías sociales posibilita la tecnologías. Desde pueden vincularse con la generación de precios de referencia y reducción de esta perspectiva. sociales puede implicar la generación de dinámicas locales de innovación. será necesario desarrollar nuevas capacidades estratégicas la apertura de nuevas líneas de productos. implica también un potencial de expansión en términos de “transferencia y difusión” mediante la percepción de dinámicas terceros mercados de países en vías de desarrollo o. diferentes problemas tecno-productivos puntuales. acceso a derechos y bienes son cuestiones clave tanto para concebir un cambio del perfil productivo de culturales. nuevas oportunidades de negocios (tanto en el mercado interno como en el …a las soluciones en el plano socio-económico: El desarrollo de exterior). y aún. Al incorporar la dimensión organizacional. 2001. Así. de desarrollar una nueva dimensión de las sociedades democráticas: la Una diversidad de tecnologías que posibiliten tanto accesibilidad como ciudadanía socio-técnica. problemas socio-políticos pueden ser abordados desde la perspectiva de las tecnologías sociales. ni los abordajes “vinculacionistas” hasta hoy sub-utilizados (Thomas. aguarden a ser demandadas por un usuario potencial. visibilidad de acción gubernamental. Tal enfoque tecnologías sociales puede implicar obvias ventajas económicas: inclusión. (Thomas y Dagnino. El diseño de tecnologías sociales supone la posibilidad de generar ofertistas. dinámicas Abordar la cuestión del desarrollo de tecnologías sociales de esta co-evolutivas. 116 117 . ahorros sociales en sistemas de salud. antes que a la resolución de sociales localmente generadas a las situaciones de uso y su compatibilidad déficits puntuales. nuevas empresas productivas. Obviamente. aplicación de los aprendizajes generados por la economía del cambio cambio tecnológico e innovación socio-técnicamente adecuadas. la adecuación y mejora de procesos productivos. Los modelos S&T Push. mejoras en el nivel de ingresos. las relaciones democráticas: la incorporación de los usuarios-beneficiarios en calidad y cantidad de empleos. Una multiplicidad de diferenciación de productos. La beneficiarios. tales como prevención y seguridad. diseño e implementación). y (de “diagnóstico”. Lejos de la como en el de la innovación “neo-schumpeteriana”. Apuntan a la generación de dinámicas locales de producción.En búsqueda de una metodología para investigar Tecnologías Sociales Hernán Thomas / Mariano Fressoli de las principales restricciones de las tecnologías “apropiadas”. menor suerte. el desarrollo en el político-económico — las experiencias de tecnologías sociales con local de tecnologías sociales conocimiento-intensivas podría generar utilidad contextos socio-económicos e institucionales evolutivos. en el caso de las tecnologías convencionales. 2002 a y b). como social de los conocimientos científicos y tecnológicos localmente producidos. procesos de diseño y producción de tecnologías sociales genera la posibilidad rescate de las culturas locales y de identidades grupales y étnicas). la incorporación de valor de nuevas tecnologías sociales puede extenderse al tratamiento de otros agregado. la intensificación del contenido cognitivo de productos y procesos problemas. 2005) ni modelos Demand Pull resultan adecuados para Obviamente. desarrollados. Múltiples tecnologías tecnologías sociales. tan obvio que concebir las tecnologías sociales experiencias basadas en tecnologías sociales supone también obvias ventajas incorporando la dimensión de bienes de cambio supone nuevas posibilidades políticas: resolución de problemas de inclusión. que el desarrollo de tecnologías sociales. Kreimer y Thomas. integración en sistemas de servicios. comunicaciones. abre así nuevas perspectivas para la financiación del diseño y desarrollo de empleo. así como redes de usuarios intermedios y proveedores. infraestructura y servicios. De hecho. trayectorias tecnológicas y tecno-económicas. las tecnologías sociales se vinculan a la generación de costos de logística. procesos de aprendizaje. Superan las limitaciones de concepciones lineales en con los sistemas preexistentes. no se trata de acumular un stock de tecnologías sociales. es posible conectar — tanto en el plano teórico como pobreza y la exclusión en un desafío científico-técnico. en cambio.

1999. 1987). Lundvall. 2. 1984). La presente investigación está diseñada para generar insumos de sociales (formar recursos humanos en Política de Ciencia. procesos de tecnologías sociales. 1992). 1982. 1988. Lundvall. como puramente tecnológicos o puramente sociales. sociales relevantes y flexibilidad interpretativa (Collins. 1985. problemáticas socio-históricamente situadas. 1989). • Análisis de política: procesos de toma de decisiones. ensamble socio-técnico. 1992. 1987). 1982. Ham y Hill. Elzinga y Jamison.1. re-aplicación. financiación Desde esta perspectiva. Objetivo general: • Análisis socio-técnico: dinámica de grupos de investigación (Shinn. 1993. implementación y niveles de relación problema-solución implica un desafío en términos evaluación de estrategias de desarrollo y utilización de tecnologías cognitivos. aprendizaje (Arrow. porque: a) suponen “cuasi-experimentos” Cada uno de estos objetivos específicos corresponde a las metas de la que muestran la concreta condición de posibilidad local. implementación y evaluación de (Freeman. 1988). 1998. economía del cambio tecnológico. 2. generar capacidades de interacción y Las experiencias analizadas en esta investigación constituyen relevantes cooperación a escala nacional y regional). sino como resultados Incidir sobre los procesos de elaboración de Política de Ciencia. producción. sistemas implementación de tecnologías sociales en América Latina. e Innovación y Desarrollo. implementadas en cada país.En búsqueda de una metodología para investigar Tecnologías Sociales Hernán Thomas / Mariano Fressoli …al problema de investigación: El desarrollo que cada uno de estos e Innovación y Desarrollo. grupos Relevar y analizar las capacidades y acciones de generación. Latour. 1996. Thomas y Dagnino. Objetivos de investigación científico. relacionadas con la promoción. Realizar una serie de estudios de caso de desarrollo e implementación de Freeman. producción. sociales. tecnologías sociales: analizar socio-técnicamente experiencias concretas La adopción de un abordaje socio-técnico constructivista como matriz de desarrollo de tecnologías sociales.. Tecnología. • Economía del cambio tecnológico: trayectorias tecno-económicas investigación y desarrollo. nacionales y locales de innovación (Nelson. conceptual del abordaje constituye una operación teórico-metodológica clave Realizar una serie de estudios de caso de instituciones orientadas a la para captar la multidimensionalidad del complejo objeto de esta investigación: producción de tecnologías sociales: analizar programas e instituciones las tecnologías sociales. politics de la Generar recomendaciones para la elaboración de políticas de ciencia y investigación científica y tecnológica (Bijker. 1962. historia de la ciencia. Amable et alli. modelos organizacionales. tecnología para el desarrollo social. 1992). trayectorias tecnológicas (Dosi. Bijker. 1995). Hogwood y Elaborar un marco teórico-metodológico para analizar tecnologías Gunn. Marco analítico-conceptual ¿cómo aportar soluciones tecnológicas a problemas sociales? ¿cómo producir El abordaje analítico-conceptual diseñado para esta investigación fue tecnologías sociales en países en desarrollo? ¿cómo generar tecnologías constituido mediante la integración de herramientas teóricas provenientes sociales sustentables. Lundvall. Lejos de la mera especulación deductiva. sociología del conocimiento 2. objetos de estudio en este sentido. procesos de conformación e implementación de agendas. 1976. y b) responden a investigación. marco tecnológico. redes tecno-económicas (Callon. 2005). 1985). Rosenberg. 1997). Tecnología. 2001. A continuación se enumeran algunos de los desarrollos teórico-conceptuales significativos para esta investigación. análisis político) a partir de su complementación y revisión crítica orientada a la adecuación al contexto local. 1981. Objetivos específicos: modos de integración de actores externos al proceso decisorio (Knorr- Cetina. (Thomas. Pinch y implementación y evaluación de tecnologías sociales en América Latina. estas experiencias son portadoras — tácitas hasta la realización de estudios de base empírica — de la respuesta a preguntas estratégicas: 3. no es posible considerar a los artefactos y evaluación de tecnologías sociales. vinculados al diseño. relaciones Mapear las experiencias y capacidades institucionales de desarrollo e usuario-productor (Von Hippel. Thomas y Kreimer. Proponer nuevos conceptos y criterios para el diseño. socio-técnicamente adecuadas a estos escenarios? de diferentes enfoques disciplinarios (sociología de la tecnología. conocimiento alineados con estas oportunidades y necesidades. 118 119 .2.

Incluye conforma en el interjuego de elementos heterogéneos: relaciones un conjunto de relaciones tecno-económicas y socio-políticas vinculadas usuario-productor. organización determinada-. negociaciones y convergencias que van conformando el ensamble abarcativas que las trayectorias: toda trayectoria socio-técnica se heterogéneo entre actores y objetos materiales. Las operaciones de ii) Trayectoria socio-técnica: proceso de co-construcción de productos. Este concepto sistémico sincrónico Supone complejos procesos de adecuación de respuestas tecnológicas permite insertar en un mapa de interacciones. institución de I+D. disfuncionalidades. efectos no deseados son construcciones tecnológicas. funcionamiento de una tecnología como en las relaciones sociales v) Estilo socio-técnico: forma relativamente estabilizada de producir vinculadas (Vercelli y Thomas. políticas. en el nivel de análisis de un ensamble socio.En búsqueda de una metodología para investigar Tecnologías Sociales Hernán Thomas / Mariano Fressoli de la dinámica de procesos de constitución de “ensambles socio-técnicos” punto de partida un elemento socio-técnico en particular (por ejemplo. Estos nuevos sentidos no aparecen simplemente por la agencia cambio tecnológico son procesos de co-construcción socio-técnica. la construcción e estilo socio-técnico — de un grupo o comunidad determinada — se interpretación de una forma de relaciones problema-solución. sino en virtud alteraciones en alguno de los elementos heterogéneos constitutivos de la resignificación generada por el particular efecto “sintáctico” de la de un ensamble socio-técnico generan cambios tanto en el sentido y inserción del significante en otra dinámica socio-técnica. Las dinámicas socio-técnicas son más resistencias. situadas: “la adaptación al entorno culmina en estilo” (Hughes). una tecnología. Las que los diferentes actores ejercen sobre el significante. de un marco tecnológico (Bijker) determinado la fabricación de la maquinaria original. Las operaciones de eminentemente diacrónica — permite ordenar relaciones causales entre resignificación de tecnología se sitúan en la interfase entre las acciones elementos heterogéneos en secuencias temporales. La inserción de un mismo significante (por ejemplo. el esfuerzo teórico. conceptual y transdiciplinariedad. instituciones. experiencias históricas regionales y técnico (Wiebe Bijker). prestigio. un sistema nacional o local vi) Resignificación de tecnologías: operación de reutilización de innovación (Bengt-Åke Lundvall. tomando como sociales de desarrollo tecnológico y las trayectorias tecnológicas de 120 121 . estas herramientas conceptuales y su adecuación a contextos locales. 1995). Chistopher Freeman). iv) Proceso de transducción: proceso auto-organizado de generación metodológico se focalizó en acrecentar la capacidad explicativa-analítica de de entidad y sentido que aparece cuando un elemento (idea. un proyecto de tecnología social. una presente investigación: tecnología social) en un nuevo sistema (ensamble socio-técnico. asimismo.). desenvuelve en el seno de una o diversas dinámicas socio-técnicas y El abordaje socio-técnico viabiliza operaciones de triangulación resulta incomprensible fuera de ellas. presiones. una forma determinada a concretas y particulares articulaciones socio-técnicas históricamente de cambio socio-técnico.). distribución de al cambio tecnológico. sistema i) Procesos de co-construcción de tecnologías y sociedades: Las local de producción. permite realizar descripciones enmarcadas en la de tecnologías. un grupo de I+D). instituciones. Tanto la forma como el propio funcionamiento de un artefacto una tecnología social — artefacto. Este concepto — de naturaleza y características a la actividad de diseño básico. o. racionalidades. sistema técnico) es trasladado de un contexto generaron así los siguientes conceptos — que serán operacionalizados en la sistémico a otro. El conocimiento requerido es — políticas y estrategias de un actor (ONG. una trayectoria socio-técnica. sistema de premios y castigos. y es similar en sus condiciones (tecnología nuclear. sino una reasignación de sentido de esa tecnología y productor. relaciones usuario. 2008). artefactos y sistemas. creativa de tecnologías previamente disponibles. racionalidades y formas de concepción constructivista de las trayectorias y dinámicas socio-técnicas. resignificación de tecnología no son meras alteraciones “mecánicas” de procesos productivos y organizaciones. constitución ideológica de los actores. Para esta investigación. herramienta. tecnología y de construir su “funcionamiento” y “utilidad”. Las dinámicas de innovación y etc. relaciones problema-solución. siderurgia etc. concepto. universidad en muchos casos — de la misma índole que el que exige. una empresa. un gran sistema tecnológico (Thomas Hughes). proceso. Se artefacto.). se construyen como derivación contingente de las disputas. Un una serie de artefactos. formación histórico-social) genera la aparición de tecnologías son construcciones sociales tanto como las sociedades nuevos sentidos (funciones. conocimientos. etc. Resignificar tecnologías es refuncionalizar de “funcionamiento” y “utilidad” de una tecnología. (Bijker. por ejemplo. condiciones geográficas. una red tecno-económica (Michel Callon) o. En tanto ii) Dinámica socio-técnica: conjunto de patrones de interacción herramienta heurística. nacionales etc. procesos de construcción de su medio de aplicación. por ejemplo.

la adecuación socio-técnica puede ser entendida — construyen nuevas y diversas formas de “funcionamiento” en términos normativos — como un proceso en el que un artefacto ix) Adecuación socio-técnica (descriptivo analítico): proceso auto.En búsqueda de una metodología para investigar Tecnologías Sociales Hernán Thomas / Mariano Fressoli concretos grupos sociales. en particular. o conocimiento tecnológico no es una instancia que se encuentra al vii) Relaciones problema-solución: los “problemas” y las relaciones final de una cadena de prácticas sociales diferenciadas. elementos y adecuación socio-técnica auto-organizada permitiría la realización de heterogéneos: condiciones materiales. el análisis de fenómenos de construcción de funcionamiento el que intervienen. la participación relativa del accionar problema. sino que está de correspondencia “problema-solución” constituyen construcciones presente tanto en el diseño de un artefacto como en los procesos de re- socio-técnicas. El diseño y desarrollo de tecnologías sociales el funcionamiento de las tecnologías constituyen dos caras de una suele caracterizarse por una intensiva aplicación de operaciones de misma moneda de adecuación socio-técnica: la utilidad de un artefacto resignificación de tecnología. el “funcionamiento” o “no-funcionamiento” de los o inclusive en forma intangible o tácita — no sólo a los requisitos y artefactos debe ser analizado simétricamente. 1995) de los artefactos no es algo dado. de prácticas socio-institucionales y. 2008). sociales relevantes (usuarios. El “funcionamiento” tecnologías sociales. las dinámicas de Así. insumos. sino al conjunto de aspectos una máquina no debe ser considerado como el explanans sino como de naturaleza socio-económica y ambiental vinculados a la participación el explanandum. prestaciones. 122 123 . Brandão y Novaes. tecnológica y culturalmente. El concepto sustituye con ventaja parte codificado y en parte tácito (sólo parcialmente explicitado: signado conceptualizaciones descriptivas estáticas en términos de “adaptación por prácticas cotidianas. Así. optimizando la operacionalización de artefactos y (Bijker. para la superación de problemas teóricos tanto en el análisis como en el viii) Funcionamiento: el “funcionamiento” o “no-funcionamiento” de un diseño e implementación de “tecnologías sociales”. tecnológico sufriría un proceso de adecuación a los intereses políticos organizado e interactivo de integración de un conocimiento. formas de organización de la producción situadas. 2004: 52). normalmente de forma auto-organizada. funcionarios públicos. producción e implementación de regulaciones. estilos tecnológicos adecuación socio-técnica sustituye la idealización típica del laboratorio (Thomas. en el “tejido sin costuras” (Hughes) de la Los procesos de producción y de construcción social de la utilidad y dinámica socio-técnica. desarrollado en el marco del proceso de toma al entorno” o “contextualización”. se continúan realizando ajustes y modificaciones que En este sentido. el funcionamiento-no funcionamiento de una tecnología social aprendizaje y la generación de instrumentos organizacionales. Supone complejos x) Adecuación socio-técnica (normativo): proceso que busca promover procesos de adecuación de respuestas/soluciones tecnológicas a adecuación de conocimiento científico y tecnológico — incorporado concretas y particulares articulaciones socio-técnicas históricamente en equipamientos. Estos procesos integran diferentes desincorporada o incorporada en algún artefacto) a ser obtenido. que se despliega desde el mismo de trabajadores y consumidores. construye social. sino que es una contingencia que se dinámicas socio-técnicas de forma organizada y planificada. Resulta una conceptualización clave de decisiones). conocimientos. path dependence. y a su capacitación autogestionaria inicio de su concepción y diseño. o sistema tecnológico en una dinámica o trayectoria socio-técnica. El “funcionamiento” de un artefacto socio-técnico es democrática en el proceso de trabajo. “estabilización”. “intrínseco a las procesos. El “funcionamiento” de finalidades de carácter técnico y económico. etc. dinámicas de como era concebido por el movimiento de Tecnología Apropriada — la co-construcción. beneficiarios. financiamiento. artefacto de grupos sociales relevantes distintos de aquéllos que le dieron origen. Definida como un proceso — y no como un resultado (una tecnología socio-históricamente situada. por la práctica concreta de los movimientos sociales. operaciones estratégicas de diseño. solución alcanza tal carácter dominante que condiciona el conjunto integrantes de ONGs). tal fenómenos socio-técnicos: relaciones-problema-solución. artefacto es resultado de un proceso de construcción socio-técnica en Obviamente. El deviene del sentido construido en estos procesos auto-organizados de conocimiento generado en estos procesos problema-solución es en adecuación/inadecuación socio-técnica. a la salud un proceso de construcción continua. la atención al ambiente. Aún después de cierto grado de (Dagnino. resignificación. En los procesos de co-construcción socio-técnica de las significación de las tecnologías en los que participan diferentes grupos tecnologías sociales. sistemas. previendo posibles efectos no deseados e interviniendo en características del artefacto”.

Abordaje metodológico posible diferenciar diversas modalidades de intervención tecnológica (Dagnino. reacondicionamiento de la maquinaria. Implica una ampliación del sistematización de las experiencias locales en tecnologías sociales. resoluciones. b) Apropiación: proceso que responde a la condición de la propiedad El trabajo de investigación se iniciará con el relevamiento y colectiva de los medios de producción. análisis estratégicos etc. la desconstrucción y posterior reconstrucción (o reproyección) de f) Incorporación del conocimiento científico y tecnológico existente: artefactos tecnológicos. de demandas de los emprendimientos autogestionarios (y. 2004: 53-55): a) Uso: el simple uso de la tecnología disponible (máquinas. realizar ese proceso de transformación. sólo el aumento de la vida útil del equipamiento sino también ajustes y b) Dimensionar el alcance y la escala de las acciones realizadas. Brandão y Novaes. en particular. se seleccionarán los casos a analizar. agencias gubernamentales. con funcionarios y adopción progresiva de autogestión. asociaciones civiles etc. Este relevamiento tiene por objetivos: c) Revitalización o repontenciamiento de máquinas y equipamiento: no a) Mapear las experiencias desarrolladas en cada país. blue prints. 124 125 . de las instituciones vinculadas a las mismas (instituciones públicas de I+D. Al mismo tiempo. orientada al análisis económico-productivo y socio-técnico de las adopción de tecnologías convencionales (con la condición de que se capacidades y experiencias de diseño. por sí sola. A partir de este relevamiento.En búsqueda de una metodología para investigar Tecnologías Sociales Hernán Thomas / Mariano Fressoli La adecuación socio-técnica propone. impacto ambiental. en empresas recuperadas) o de casos. También supone combinatorias c) Y sistematizar las capacidades socio-institucionales disponibles. llevar a la generación de una tecnología con productos.1. adequados al crecimiento y profundización derivado del agotamiento de los procesos de búsqueda de tecnologías de movimientos asociativistas y autogestionarios. xi) Modalidades de adecuación socio-técnica: para la operacionalización del concepto de adecuación socio-técnica en el plano estratégico es 4. modificación en su uso concreto. La observación directa no ante la percepción de la insuficiencia de las alteraciones implicadas para participativa es una técnica complementaria fundamental para este tipo de resignificar las tecnologías convencionales) resulta necesario desarrollar investigaciones.). información modalidades anteriores resultan insuficientes para dar cuenta de las económica. formas de organización del proceso de trabajo etc. idea de que promover la generación de una tecnología que busque g) Incorporación de nuevo conocimiento científico y tecnológico: una adecuación ex-ante pueda causar el cambio social (determinismo derivado de la percepción de agotamiento del proceso de innovación tecnológico). gerenciales y de concepción de los productos y procesos sin que exista universidades. Metodología general: equipamientos. estudios técnicos. La propuesta de alternativas. La propuesta de adecuación socio-técnica supone una incremental. así como conocimiento por parte del trabajador sobre los aspectos productivos. d) Ajuste del proceso de trabajo: adaptación del proceso de trabajo para luego desplegar tareas de recolección y sistematización de datos. Uruguay y Argentina.). Cuestionamiento de la división social del trabajo y seleccionadas. de tecnologías antiguas con nuevos componentes. Procesos de innovación de tipo radical que tienden a visión del proceso de cambio social que incorpora una preocupación por demandar la participación de unidades de I+D en la generación de construir la base cognitiva que los actores perciban como necesaria para nuevo conocimiento. en este sentido. 4. producción e altere la forma de distribución del excedente generado). Necesidad de incorporación de conocimiento científico normativa de adecuación socio-técnica rechaza la idea de que el cambio y tecnológico ya disponible para el desarrollo de nuevos procesos y social pueda. ONGs. La investigación se basa en una metodología de relevamiento y estudio empleada previamente (por ejemplo. miembros de instituciones públicas y privadas vinculadas). contratos y subsidios. de factibilidad. tanto a la forma colectiva de los medios de producción (preexistentes o a través de entrevistas (con investigadores y técnicos de las instituciones convencionales). con grupos de usuarios-beneficiarios. Procesos de innovación de tipo incremental (aislados o él compatible (determinismo social).). una guía para tecnologías alternativas a las disponibles. rechaza la asociados con unidades de I+D). investigación y desarrollo. implementación de tecnologías sociales en Brasil. como de la revisión e) Alternativas tecnológicas: a partir de la percepción de que las de fuentes primarias (proyectos.

generar una base Haber participado en el diseño y producción de — al menos una — de datos que localice y caracterice las experiencias localmente desarrolladas.). sociales a escala nacional y regional. sociología del instituciones públicas. 4. cooperativas populares etc. así como dar cuenta de las concretas dinámicas de productivos y áreas de conocimientos. generar una arquitectura conceptual modular. tecnología social Haber alcanzado al menos un nivel de “tentativa de implementación” a) Para el relevamiento de experiencias: de la experiencia. exhaustivo. análisis político) a partir de su complementación y mixtas. producción. Proponer nuevos conceptos y criterios para el diseño. Los criterios de selección de las experiencias tecnológicas que revisión crítica orientada a la adecuación al contexto local. abordajes disponibles: “tecnologías apropiadas”. públicos de I+D. historia de la ciencia. “tecnología social” a todo aquel desarrollo al que su autor le adjudique I+D. en diferentes regiones de Brasil. empresas. para este tipo de abordajes. O. complementarios. permitirá profundizar en el carácter socio-históricamente situado de los Se seleccionarán experiencias correspondientes a diferentes sectores ensambles socio-técnicos. es necesario realizar una revisión crítica de los sociales o ambientales (asignación subjetiva. exclusión. la promoción de tecnologías sociales se seleccionarán según los siguientes El principal objetivo del mapa de experiencias de tecnologías sociales criterios: es relevar. ONGs. De hecho. en otros términos. un potencial de aprendizaje mayor. productivos y áreas de conocimientos. sistematizar y analizar la dinámica de desarrollo de tecnologías Carácter significativo de la experiencia socio-institucional. de institutos muchas veces. justificación del proyecto. no-gubernamentales. que incorpore la mayor cantidad de casos posible. objetivo político del programa en el que el desarrollo está inserto “tecnologías alternativas”.En búsqueda de una metodología para investigar Tecnologías Sociales Hernán Thomas / Mariano Fressoli Los estudios de caso de desarrollo e implementación de tecnologías A partir de esta revisión. Posteriormente. Metodología específica por meta: Criterios de corte: Meta 1: Elaborar un marco teórico-metodológico para analizar Por definición del actor: a los efectos del relevamiento se considerará tecnologías sociales. Por problema: Tecnologías desarrolladas con el objetivo explícito de 126 127 . “grassroots”. por economía del cambio tecnológico. Uruguay y Argentina. “social etc. económica como cultural o semiótica). mediante la integración de herramientas conceptuales implementación efectiva de tecnologías sociales desarrolladas tanto en provenientes de diferentes enfoques disciplinarios (sociología de la tecnología. se construirá el marco analítico definitivo de sociales se realizarán sobre experiencias de diseño. grupos de usuarios. Es conveniente realizar un relevamiento Uruguay y Argentina.2. producción e esta investigación. (gubernamentales. empresariales. pasible de incorporar diferentes Haber diseñado y producido durante la experiencia — al menos una — conceptualizaciones complementarias (tanto desde una perspectiva socio- tecnología social. los “fracasos” suponen. Se incluirán en la muestra tanto casos considerados “exitosos” como Meta 2: Mapear las experiencias y capacidades institucionales “fracasados”. “tecnologías intermedias”. constituirán el objeto de los estudios de caso son los siguientes: La adopción de un abordaje socio-técnico constructivista permitirá Carácter significativo o representativo de la experiencia tecnológica.) de desarrollo e implementación Los estudios de caso sobre programas e instituciones relacionadas con de tecnologías sociales en América Latina. “tecnologías utópicas”. marginalidad y probreza estructural. será necesario depurar este listado con criterios innovations”. I+D. un sentido de inclusión social mediante la resolución de problemas En primera instancia. en diferentes regiones de Brasil. La triangulación de estos conceptos Haber alcanzado al menos un nivel de “tentativa de implementación” con desarrollos teóricos provenientes de la matriz materialista histórica de la experiencia. iniciativas autogeneradas por los propios usuarios-beneficiarios. implementación y evaluación de tecnologías sociales. como por ONGs o por empresas privadas o iniciativas conocimiento científico. El relevamiento tiene por objetivo registrar la mayor cantidad posible Se seleccionarán experiencias correspondientes a diferentes sectores de experiencias de desarrollo de tecnologías sociales en instituciones de I+D.

bienes culturales. potabilización. parece adecuado establecer un recorte temporal que incluya El análisis de la dinámica socio-técnica de la producción e experiencias desarrolladas a lo largo de las últimas décadas. local. implementadas actualmente en uso. 128 129 .). provincial. aplicación de un conjunto acotado de técnicas de detección: Por grado de desarrollo (implementadas o no): tecnologías sociales Bases de datos sobre tecnologías sociales (generales o sectoriales). conformación de redes. desplazamientos comunicaciones. En la medida de sentido de las tecnologías. parcial. posible incorporar otros sectores tecnológicos. asignación de recursos humanos. Relevamiento de registros oficiales. al Relevamiento de fuentes secundarias. redes comunicacionales etc. los “fracasos” suponen un potencial de aprendizaje significativo.. Complementariamente. financiación. al mismo tiempo. y Por alcance geográfico de la experiencia: puntual. es conveniente la etc. características relevantes para el análisis de indiferenciado. Es más. tecnologías desarrolladas no implementadas. su propia existencia. generalizado. actor principal intermediario activo. incorporando incluso casos fracasados. acceso problemático a energía eléctrica. enfermedades Técnicas para la detección de experiencias endémicas. dado el alcance del ejercicio y la disponibilidad significativos: construcción de funcionamiento. municipal). agua potable. construcción de relaciones problema-solución. será posible construir diferentes mapas No es conveniente adoptar los siguientes criterios: vinculados a la dinámica de producción e implementación de tecnologías Por importancia relativa: en principio. su importancia relativa). Por recorte cronológico: dado que el relevamiento es realizado. salud. alimentos. vivienda. transporte. tecnologías implementadas no utilizadas en la actualidad. elemento así como las combinaciones entre estos tipos. de clasificación de las experiencias relevadas: Por carácter público/privado de la experiencia: es conveniente mapear también los emprendimientos privados con fines de lucro. déficit habitacional. bienes culturales. redes comunicacionales Dada la naturaleza del relevamiento de experiencias. particularmente. menos parcialmente. dinámicas de cooperación inter-institucional. Por lo tanto es conveniente incorporar en el relevamiento aún aquellas tecnologías consideradas absurdas o Con fines orientativos. habitacional. restringido. actualmente en desarrollo. orienta a dimensionar el alcance y escala de las experiencias de producción Por sector tecnológico: si bien a priori resulta dificultoso establecer de tecnologías sociales. educación. constituyen indicadores de la dinámica Criterios de clasificación de las experiencias local consumió de recursos. para generar una base de datos que determine la selección de casos a analizar. de las posibilidades y de acuerdo a los avances en el relevamiento es entre otros. Por lo b) Para el análisis de las experiencias tanto. En este sentido. agua potable. enfermedades endémicas. parece conveniente diferenciar un mapa actual de uno que implementación de las tecnologías sociales a escala nacional y regional se incorpore experiencias generadas en el pasado. sino también de organización. es conveniente relevar experiencias del pasado reciente. intermediario pasivo. Por nivel de adopción: nulo. la dinámica y trayectoria local en el desarrollo de tecnologías sociales. son de interés para el relevamiento sociales. Por tipo de tecnología: es conveniente incorporar en el relevamiento no Por nivel de participación de grupos de usuarios en la red socio-técnica: sólo tecnologías de proceso o de producto. de recursos parece conveniente priorizar en el relevamiento algunos dinámicas usuario-productor. es posible establecer a priori algunos criterios inviables. localizar su implementación e identificar fenómenos criterios de prioridad. un mapa de instituciones vinculadas al desarrollo todas las experiencias desarrolladas (ya que es difícil determinar a priori e implementación de tecnologías sociales. tecnologías Entrevistas con informantes clave (expertos en diferentes tecnologías). acceso problemático a energía eléctrica. intervención del estado (nacional. déficit resulta complejo determinar una frontera clara para este criterio. expresan. sectores tecnológicos en particular: energía. dado que Por tipo de problema: hambre. Por “éxito” o “fracaso” de la experiencia: las experiencias fracasadas: educación. regional. Búsqueda WEB.En búsqueda de una metodología para investigar Tecnologías Sociales Hernán Thomas / Mariano Fressoli resolver algún problema social o ambiental (hambre.

(no es conveniente de las instituciones donde se radica el desarrollo: trayectoria de las descartar a priori aquellas tecnologías sujetas a comercialización). municipal). maquinaria importada. evaluación Por fase de desarrollo/implementación: prototipo. planificación provincial. evolución de las relaciones sociales. implementadas en cada país. construcción de relaciones sociales analizadas. 130 131 . ONGs. subsidio internacional. Por tipo de capacidades implicadas. Análisis del proceso de producción de conocimientos tecnológicos Por tipo de conocimiento implicado: tácito o codificado. inter-institucionales: convenios y actividades de cooperación. Por nivel de complejidad tecnológica. implementación Por trayectoria de la experiencia: temporalidad de los desarrollos. y artefactos. empresa mixta etc. aprendizajes por interacción etc. se generarán dos series de interacción con proveedores de conocimientos e insumos. y de las trayectorias socio-técnicas de las instituciones problema-solución. funcionamiento de las tecnologías según los diferentes actores Por asignación de “éxito” o “fracaso”.. producción e implementación de las tecnologías (mirada del ingeniero): diseño de artefactos. empresas etc. pública. explicitando los (mirada del sociólogo del conocimiento): productos de conocimiento conocimientos implicados (disciplina. nacionales e internacionales. productividad.. y evaluación de tecnologías sociales (institutos de I+D. subsidios público-privado. entre otros. Participación y maquinaria importada. codificado y tácito. estrategias de Por perfil socio-económico de usuario/beneficiario final. área). y generación de estrategias de las vinculaciones. estructura de Tecnologías implicadas en el desarrollo: costos. red de usuarios/beneficiarios etc. métodos de cálculo de desempeño. mejora de tecnología papel de los usuarios. reconfiguración de espacios de mercado. Participación y papel de expertos. Universidad instituciones públicas. inclusión tardía etc. Análisis de los resultados obtenidos por los desarrollos de tecnologías Por tipo de tecnología: producto. evolución combinación de equipamiento local e importado etc. Relaciones de género. mejora de artefactos disponibles. cambios intra-institucionales. los grupos sociales implicados. capacidades analizadas. Meta 3: Realizar una serie de estudios de caso: analizar socio- técnicamente experiencias concretas de desarrollo de tecnologías sociales. interacción con usuarios-beneficiarios. producción en serie. universidad privada. riesgo social etc. Por tipo de solución técnica. implicados. análisis de las interacciones cognitivas: conocimiento Por origen del conocimiento tecnológico: desarrollo enteramente local. Por forma de financiación: pública.. technology blending. empresa privada. procesos de construcción del aplicación piloto etc. ONG. riesgo tecnológico. organización. de la producción. mecanismos de financiación. I+D. intervención. Por institución de desarrollo: instituto público de I+D. inversión privada etc. Análisis socio-institucional (mirada del sociólogo institucional): a) cooperativa de usuarios. disponible. división del estado (nacional. combinación. proceso.. sociales en cada experiencia (mirada del estratega político sobre Por tipo de actor implicado en el desarrollo. inserción en redes nacionales e internacionales. procesos de aprendizaje. especialidad. en red.. relación con las empresas privadas. generación de precios.En búsqueda de una metodología para investigar Tecnologías Sociales Hernán Thomas / Mariano Fressoli excluido. sustentabilidad económica etc. comparación recomendaciones: con tecnologías “rivales”. relación valor de uso-valor de cambio. Análisis de la trayectoria económico-productiva de las experiencias Por origen de las maquinarias y equipamientos: desarrollo enteramente tecno-productivas (mirada del economista): evolución económica de local. procesos de toma de decisiones. ambiental. en cooperativa. instituciones vinculadas a los procesos de producción.). tecnológicas acumuladas. ONG. se desarrollará (complementarios): un análisis integrador de la dinámica y trayectorias socio-técnicas de las Análisis de las tecnologías sociales producidas e implementadas experiencias de diseño. Como derivación del análisis integrador. Análisis socio-técnico integrador: Una vez realizadas las actividades de recolección y sistematización de datos de cada caso se desplegará un conjunto de análisis parciales Una vez concluido este conjunto de análisis parciales. grados de satisfacción. aprendizajes institucionales. resolución de problemas. la intervención social): estrategias institucionales. asesorías y consultorías. y b) de las relaciones Por dinámica interinstitucional: proyecto aislado.

e Innovación y Desarrollo. municipal. etc. universidades. riesgo social. provincial. empresas etc. relación con las empresas privadas.). se desarrollará un instituciones relacionadas con la promoción de tecnologías sociales. productividad. movimientos sociales. funcionamiento de las tecnologías según los diferentes actores b) Orientadas a mejorar las políticas públicas de Ciencia. redes. generación género. (complementarios): b) Orientadas a mejorar las políticas públicas de Ciencia. de instancias de aprendizaje por interacción y gestación de mecanismos Análisis de la trayectoria económico-productiva de las experiencias de investigación y desarrollo y producción de tecnologías sociales en tecno-productivas (mirada del economista): evolución económica de red. Innovación y Desarrollo. etc. instituciones públicas. planificación Meta 5: Incidir sobre el proceso de elaboración de Política de Ciencia. En particular. asesorías y consultorías. en diferentes niveles (local. vinculada al diseño. análisis de las interacciones cognitivas: conocimiento codificado y Gestación de instancias de incidencia sobre la producción de estrategias institucionales (unidades de I+D. 132 133 . relación valor de uso-valor de cambio. procesos de aprendizaje. a) Orientadas a mejorar las estrategias de intervención de las Sobre esta muestra también se desplegará un conjunto de análisis parciales instituciones. agencias tácito. foros etc. de Brasil. empresarios y miembros de organizaciones sociales en cada experiencia (mirada del estratega político sobre de la sociedad civil (ONGs. generación de precios. se generarán dos series de vinculadas a la promoción. Gestación de instancias de incidencia sobre el proceso de formulación Análisis del proceso de producción de conocimientos tecnológicos de políticas públicas en diferentes niveles de toma de decisiones (local. nacional). municipal. inserción en redes nacionales e internacionales. experiencias también se procederá a seleccionar programas e instituciones Como derivación del análisis integrador. procesos de construcción del sociales. los grupos sociales implicados. las instituciones donde se radica el desarrollo: trayectoria de las provincial. Análisis socio-institucional (mirada del analista de política): a) de Innovación y Desarrollo.). y b) de las relaciones Tecnología. grados de satisfacción. subsidios evaluación de estrategias de desarrollo y utilización de tecnologías sociales nacionales e internacionales.Nome do artigo Nome do autor do artigo a) Orientadas a mejorar las estrategias de intervención en tecnologías ambiental. (mirada del sociólogo del conocimiento): productos de conocimiento. evolución Formación de recursos humanos: gestión de tecnologías sociales. producción. etc. cambios intra-institucionales aprendizajes institucionales. empresas. Relaciones de Promoción de dinámicas interinstitucionales. tecnólogos. Aspectos estratégico-cognitivos de intervención. instituciones vinculadas a los procesos de producción. resolución de problemas. implementación e inter-institucionales: convenios y actividades de cooperación. estrategias de fin de crear un espacio de diálogo y generación de consensos sobre la intervención. e implementación de políticas públicas. implicados. y generación de estrategias de las vinculaciones. regional. Tecnología. mecanismos de financiación. financiación recomendaciones: y evaluación de tecnologías sociales. nacional). implementación El primer objeto de este análisis será la Rede de Tecnologia Social (RTS) y evaluación de tecnologías sociales (institutos de I+D. Realización de seminarios. nacional. Participación y gubernamentales. estructura de evaluación y monitoreo de experiencias y proyectos. análisis integrador de la dinámica y trayectorias socio-institucionales de A partir del relevamiento generado por la confección del mapa de las organizaciones analizadas.) a la intervención social): estrategias institucionales. económico y social. Análisis de los resultados obtenidos por los desarrollos de tecnologías investigadores. concepción costos. workshops y talleres con policy makers. evaluación temática. ONGs. aprendizajes por interacción etc. sustentabilidad económica. municipal. provincial. promoción del desarrollo reconfiguración de espacios de mercado. implementación. ONGs. papel de expertos. diseño. en diferentes niveles (local. de la producción. Tecnología. evolución de las relaciones sociales. a fin de realizar estudios de caso. Participación y papel de los usuarios. Análisis integrador general Meta 4: Realizar una serie de estudios de caso: analizar programas e Una vez concluido este conjunto de análisis parciales. agencias internacionales. procesos de toma de decisiones.

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em novembro de 2008. para alcançar níveis significativos de aprofundamento da democracia é preciso que os atores estejam devidamente qualificados para a participação. uma das experiências latino-americanas mais importantes no campo da TS. no Rio de Janeiro. . mais inclusivo e participativo. o Estado. Durante as discussões do seminário ficou clara a necessidade do aprofundamento da democracia e da participação qualificada na construção da tecnologia e das políticas relacionadas a esta. argumentamos acerca da necessidade de instauração de uma nova lógica institucional orientada ao fortalecimento da proposta da TS. por isso não o faremos aqui. Contudo. A proposta deste artigo é analisar a participação desses atores — com ênfase no papel do Estado — para a viabilização e consolidação da proposta da TS. seja na construção da tecnologia. O imperativo de gerar conhecimento de forma coletiva implica a participação ativa de uma série de atores. Por ter como fundamento a geração coletiva e a participação dos seus usuários no seu desenvolvimento. A Tecnologia Social e seus arranjos institucionais Rodrigo Fonseca Milena Serafim 1. Uma das características mais importantes da Tecnologia Social (TS) é o seu potencial de consolidação de processos de aprofundamento da democracia como aqueles que estão em curso na América Latina. dentre os quais. discutimos a história. Introdução A primeira versão deste texto foi apresentada no seminário TECNOLOGIA PARA A INCLUSÃO SOCIAL E POLÍTICAS PÚBLICAS NA AMÉRICA LATINA. Na segunda. Na primeira delas discutimos em detalhes o papel daqueles três atores já mencionados. a TS aponta como objetivo — ao mesmo tempo imediato e estratégico — a construção de um novo estilo de desenvolvimento. a comunidade de pesquisa e os movimentos sociais são os mais importantes. seja na formulação de políticas. O artigo está dividido em duas seções. Para tanto. a estrutura e a dinâmica de funcionamento da Rede de Tecnologia Social (RTS). Outros artigos neste volume já fizeram a apresentação e discussão do conceito de TS.

de inovadoras. fomentar e articular diversos das experiências de políticas dos países desenvolvidos e sancionadas por um referencial teórico construído a partir de uma realidade distinta. De acordo com Dagnino et alli. carregam os valores e interesses predominantes no ambiente a condução das políticas públicas de ciência e tecnologia segue uma lógica no qual foram desenvolvidas e se discordamos da visão determinista da ofertista e inspirada nas políticas adotadas pelos países desenvolvidos e com tecnologia. se consideramos que a ciência e a tecnologia (C&T) não são políticas públicas privilegiaram o tema. Segundo o autor. por meio de seus dirigentes. Por exemplo. e inexorável. ressaltam a existência aspectos em consideração. buscamos destacar o papel desses atores e a forma como se dão as conexões entre eles para a construção do campo de TS no Brasil. têm que ser modificadas. Por se propor a ser um necessidade de modificar o padrão tecnológico sobre o qual está apoiada a espaço diferenciado na relação Estado-Sociedade essa rede merece um olhar sociedade contemporânea. isto é. de que seu desenvolvimento segue um caminho único uma orientação capitalista. O papel dos atores envolvidos na agentes de desenvolvimento em ações complementares e sustentáveis. Mais que analisar sua importância. Poucos são os artigos que salientam a importância mais detido. (2004). levantamento de possíveis formas de ação coerentes com os objetivos da TS. 140 141 . Pois é por meio da participação que estes dos dirigentes governamentais. bem como as etapas sobre a neutralidade e determinismo da C&T. pode ser descartada. dos atores sociais nesse processo de modificação. Por isso. essa crítica é chave na conformação do de dois possíveis obstáculos ao avanço da TS como política pública. a base teórica que inspira a concepção da política. nas escolhas envolvidas na concepção dessa tecnologia. neste livro. acreditamos que o desenvolvimento da TS deve levar esses Outros autores. pretendidos. procuraremos para sua formulação — construção da agenda. a (ONGs) e políticas públicas (principalmente no setor rural) continuaram seus TS. isto é. Por conta disso. O seu formato promoção da TS de rede e a sua proposta democrática salientada desde sua criação apontam a RTS como um arranjo institucional mais coerente com o conceito de TS e mais As discussões sobre o tema da TS são freqüentemente focadas na adequado para articulação entre os atores envolvidos.A Tecnologia Social e seus arranjos institucionais Rodrigo Fonseca / Milena Serafim 2. Esses recursos são dirigidos ao financiamento conceitual proposto pela TS. Contudo. processo de construção da tecnologia social. as questões colocadas anteriormente TS. ver o artigo todos os problemas da sociedade. (2004). atores participantes — e os discutir o papel dos atores por meio de uma análise crítica da sua atuação e mecanismos de implementação. A proposta é submetido. discutiremos separadamente cada ator e em seguida um arranjo das políticas adotadas no âmbito dos países desenvolvidos que.1. como Lassance Jr. que dificulta a adoção de posturas criativas e poderão colocar seus interesses e valores em evidência e poderão atuar. Contudo. A primeira dessas modificações diz respeito à tendência de emulação Para isso. O conceito de TS e coloca a necessidade imperativa da participação dos usuários primeiro obstáculo é a existência de uma tendência conservadora por parte no desenvolvimento da tecnologia. com Dias (2007) decorre da condição de dependência à qual o Brasil está O arranjo do qual falamos é a Rede de Tecnologia Social. O segundo obstáculo é a existência dos processos de “captura” fato. a partir o processo de elaboração de políticas públicas. diversas organizações não governamentais de setores e políticas ligados à tecnologia convencional. ela contribua para o enfrentamento do problema social brasileiro. neutras. Diferentes ações relacionadas à TS realizadas pelos três atores podem Para que o Estado. a Política de Ciência e Tecnologia (PCT) brasileira que esta seja uma rede democrática. 2. Exemplos disso envolvem a concepção de que o avanço da tecnologia irá solucionar 1 Para maiores detalhes sobre o movimento da Tecnologia Apropriada. Apesar do avanço de recursos dentro do Estado. Por isso. ao influenciar tem estado orientada para o estímulo à geração de tecnologia nacional. inclusiva e que. passe a formular nos ajudar a entender limites e fragilidades que podem ser bastante educativas políticas de ciência e tecnologia orientadas pelos princípios apontados pela para o movimento atual. Estado O movimento da TS descende do movimento de Tecnologia Apropriada (TA) dos anos 60 e 701. nem sempre as Resumidamente. a emulação dos arranjos institucionais Contribuições ao marco analítico-conceitual da Tecnologia Social de Henrique Novaes e Rafael Dias. a TS supera a visão do movimento ao Não restam dúvidas de que o Estado tem um papel relevante no realizar a crítica à neutralidade da ciência e ao determinismo da tecnologia. de acordo institucional inovador criado no Brasil que busca dar conta desse tema. et alli. dialógica. adotados para estimular a inovação e o foco na alta tecnologia da PCT. mesmo se mostrando uma alternativa interessante para os objetivos trabalhos pautados nas idéias de TA.

Uma proposta mais prática seria. Isso porque esse ator tem ocupado 2 Para uma discussão aprofundada sobre esse tema. onde quer que ela ocorra. campos. o ator envolvem aquelas associadas à “engenharia de construção das tecnologias” dominante da política científica e tecnológica brasileira. Assim. ditados pelos pesquisadores dos países desenvolvidos. Comunidade de Pesquisa Acreditamos que a crença na neutralidade da ciência e no determinismo A inserção do tema TS na agenda pública está diretamente vinculada às atitudes da comunidade de pesquisa. mais Contudo. Supera-se. 2007). entre as políticas públicas e a TS: da própria forma com que se gera e se difunde o conhecimento científico e • Utilização da TS como um tema transversal. Este é. aquele cujo (Lassance Jr. econômico. nesse caso. isto é. E. São também importantes as políticas existiria uma relação linear entre ciência. pesquisa em relação à necessidade de produzir conhecimento para a inclusão • Utilização da TS como orientadora da PCT. ou seja. uma A partir das análises feitas é possível propor duas formas de relação reorientação do modelo cognitivo por trás da política. a entrada da TS na agenda pública dependeria da construção de uma nova e Thomas (2001). que perpasse todos os tecnológico. espaço para demandas de outros setores sociais e para desenvolvimento de As duas questões levantadas mostram a pouca democratização na formulação soluções diretamente relacionadas aos problemas da inclusão social. o fomento de grupos de discussão e de trabalho entre os fazedores as demandas sociais. proposta complementar à da TS no plano da educação. processos de construção. consultar o artigo Como transformar tradicionalmente uma posição de destaque na definição e elaboração de a Tecnologia Social em Política Pública de Dagnino e Bagattolli. permite que a comunidade de pesquisa tenha acesso a devem ser afetadas dentro do Estado. como denominaremos daqui em diante). a estratégia para reorientar a C&T e constituir um novo modelo necessária a identificação. de quais os conteúdos cognitivo passa por duas frentes: a conscientização da comunidade de que podem comportar a abordagem da TS. para viabilizar essa proposta alternativa. Busca-se. Além das políticas. premiações pelas inovações. de fato. esse ator social preza exclusivamente por critérios de abordagem que busque alternativas à PCT atual. mecanismos e instrumentos que garantem a realização de suas atividades. é Assim. Por isso. De forma que que exclusivamente aos interesses da própria comunidade de pesquisa os usuários coloquem seus valores e direcionamentos desde o inicio da (Dagnino. as Políticas de C&T não são as únicas que podem e desenvolvimento). neste livro. dessa forma. são campos importantíssimos para o desenvolvimento e Mas não é aderente a uma proposta de transformação social. que se constitui na Outra possibilidade de ação envolve a Educação em Ciência. em cada um desses campos. Por TS refere-se à postura da comunidade de pesquisa. a comunidade de pesquisa e os segmentos da sociedade civil que empreendimento científico-tecnológico e o desenvolvimento social. com vistas à promoção social e o empoderamento de atores sociais que buscam uma nova lógica para do desenvolvimento social. de que mais ciência geraria mais tecnologia e. a relação indireta entre o de política. voltadas para as comunidades. Para isso. a buscassem essa nova lógica em seus programas (Serafim. pautado pela noção de que construção dos sistemas tecnológicos. Isto porque. intermediação da ação da política pela empresa privada. e implementação de políticas públicas. é central discutir também o papel do segundo ator social Outras medidas pontuais a serem consideradas no âmbito da TS apresentado neste trabalho: a comunidade de pesquisa. social (ou seja.2. et alli. Tait e Fonseca. tecnologia e desenvolvimento locais. 2007). a Educação CTS pode ser um importante instrumento para problematizar as diferentes visões de ciência e tecnologias existentes na comunidade de pesquisa.A Tecnologia Social e seus arranjos institucionais Rodrigo Fonseca / Milena Serafim Outra questão que está no cerne da estratégia de consolidação da políticas públicas voltadas ao desenvolvimento científico e tecnológico. As políticas sociais e as ambientais. De acordo com Dagnino isso. 2008)2. a democratização Em linhas gerais. dentre outras. Seria necessária. Tecnologia condição de reprodução do capital e na apropriação privada do excedente e Sociedade (ou Educação CTS. implantação de TS (Dagnino. 2. abordagem que a TS entrará definitivamente na agenda de pesquisa e abrirá acaba por ignorar questões associadas à relevância dos temas que pesquisam. como uma política-meio em relação às demais políticas. com imediato. especialmente. por fim. mais do que isso. é possível afirmar que a PCT brasileira atende quase precisa chegar também na própria construção da tecnologia. tais como os mecanismos de proteção da propriedade poder sobre a agenda decisória é grande o suficiente para que seus valores e intelectual. 2004). devido à própria natureza da TS. apoiar ações que conectem a relação ciência-tecnologia-sociedade. de diretamente a produção do conhecimento. O modelo dessa política. Somente a partir dessa nova qualidade. 142 143 . sistematização e manualização dos interesses obscureçam os dos demais.

integrada. autores. de que ocorra uma mudança significativa na própria maneira de ensinar. 338). representam Caso efetivamente desejemos criar uma sociedade mais justa e um passo fundamental em direção a uma visão crítica e completa acerca das democrática. Movimentos Sociais está fortemente marcada pela presença da CT” (AULER. um papel fundamental na difusão e no desenvolvimento dessa com que essas relações eram percebidas por acadêmicos e pela sociedade em proposta. O campo que estuda a relação entre Ciência. o campo dos Estudos sobre Ciência. e não. Para As contribuições da sociologia da ciência e da tecnologia. a profissionais cuja atuação esperada se daria de forma mais próxima à geração Educação CTS poderia ser caracterizada como interdisciplinar. cuja gravidade no caso de vários países referente à questão metodológica. ciência política. o conhecimento científico e tecnológico poderia (e. Nesse sentido. 2006. a importância de problemas locais ou questões cotidianas. Social. relativas à alcançar as mudanças desejadas. história. “torna-se. acadêmico maior.3. cada vez mais. serem atenuados através da ciência e da tecnologia? mudança somente aos conteúdos”. por qualificar dois dos principais entre a Educação CTS e o pensamento de Paulo Freire. plural.A Tecnologia Social e seus arranjos institucionais Rodrigo Fonseca / Milena Serafim tecnológico é um obstáculo a ser superado para que seja possível conceber e tecnologia são abordadas a partir de diversos campos disciplinares (como políticas públicas de ciência e tecnologia para a inclusão social e que a sociologia. a Educação CTS propõe De fato. é preciso reconstruir o conhecimento científico interpretação desses elementos como sendo resultantes de processos sociais e tecnológico. o que traria grandes benefícios para o movimento da Tecnologia geral. etc. por outro lado. uma vez que coloca uma forma alternativa — mais forma tradicional de análise das relações entre ciência. em um contexto de profundas mudanças na forma naturalmente. de acordo pesquisa na formulação desta. isso justificaria uma mudança na de dar suporte a um estilo alternativo de sociedade: as tecnologias sociais. Segundo Auler e Delizoicov (2006). a Educação CTS seria. iniciada no final da década de 1980. com a solução de problemas como. De qualquer forma. ciência está apoiada a sociedade contemporânea. Nas palavras desses atores desse processo . Segundo von Linsingen (2006). que atingem “Não se pode pretender uma renovação crítica do ensino restringindo tal milhões de pessoas. através de suas atividades de ensino. a Educação CTS seria um esforço importante no sentido de (CTS). de fortalecimento aquele capaz de colaborar. de eficiência é a mais paradigmática) um conjunto de variáveis distintas. e. com alguma flexibilidade conceitual. tecnologia e sociedade. Contudo. uma das principais características Assim. capazes relações CTS. por um lado. seria importante na com os autores. como. filosofia. nesse momento. e extensão. traço seja ainda muito incipiente. Não poderiam esses problemas. trabalhos sobre o tema da TS procuraram Um aspecto relacionado à Educação CTS que merece ser destacado salientar a necessidade de modificar o padrão tecnológico sobre o qual está ligado à idéia de multidisciplinaridade. alli (2005) relatam uma experiência bastante interessante nesse sentido. democrática e inclusiva — de educação. Até o presente momento. haveria. em meados da década de 1970. A Educação CTS representa uma das diversas frentes de um campo por exemplo. Tecnologia e Sociedade surge. um importante instrumento da Educação CTS seria a busca pela participação e pela democratização das para a democratização da PCT. p. Assim. forma de ensinar disciplinas das áreas de ciências e engenharias. Dentro dessa concepção. o conhecimento existente parece não ser o mais adequado para tanto. precisaremos de tecnologias distintas das convencionais. como soluções cognitivas e técnicas ótimas. DELIZOICOV. Auler et fato. Cutcliffe (2003) afirma que.cientistas e engenheiros. A comunidade científica teria. por exemplo. Nas palavras de López Cerezo (2004: 28) latino-americanos é emblemática. dado a pouca sustentabilidade 144 145 . embora esse de tecnologias sociais. pesquisa dessa característica de interdisciplinaridade da Educação CTS. deveria) ser utilizado como forma de atacar esses problemas.) de forma Educação CTS pode contribuir na superação desse obstáculo. fundamental uma compreensão crítica sobre as interações entre CTS. economia. nesse aspecto. considerando que a dinâmica social contemporânea 2. o déficit de Outro aspecto interessante a respeito da Educação CTS é aquele saneamento e o déficit habitacional. que deveria Convém. o autor aponta para O cientista/engenheiro capaz de atuar junto ao movimento da TS seria uma tendência gradual. que apresenta um referencial bastante distinto daquele oferecido pela fortalecer a proposta da TS. devido à importância da comunidade de decisões em temas sociais envolvendo ciência e tecnologia. portanto. Tecnologia e Sociedade Assim. apresentar brevemente essa proposta alternativa de incorporar às tradicionais preocupações disciplinares (dentre as quais a noção educação. O foco dado por nós é na formação de cientistas e engenheiros. uma grande possibilidade de diálogo democratização da construção da tecnologia.

são externas ao círculo dos tradicionais definidores das A universalização do abastecimento em água para beber e cozinhar. as questões que envolvem a ciência e a tecnologia. quanto mais os movimentos sociais trabalharem pelos movimentos sociais e absorvido pelas políticas públicas que dizem com abordagens como essa. como ferramentas básicas para a convivência com as de trabalho e renda. empresas estatais. mantendo respeito à relação Ciência-Tecnologia-Sociedade. Ainda que. em condições da região. pelo menos no momento de transformação social aparece como indissociável de outras questões como atual.asabrasil. coerência com seus princípios e objetivos. que afirma claramente: 3. 146 147 . como eixo central da estratégia A Rede de Tecnologia Social (RTS) é uma iniciativa que reúne órgãos de convivência com o semi-árido. indispensável para ultrapassar o estágio da mera subsistência. de gênero) dos movimentos sociais possam se expressar com firmeza para a valorização dos insumos que a C&T deve proporcionar a esse maior clareza e força e possam ser incorporados ao processo decisório da PCT processo. devem participar da formação de agendas de pesquisa que Aqui a questão da tecnologia adequada ao ambiente e aos objetivos estejam mais próximas da população. mais sucesso eles terão na sua ação.org. A articulação entre produção. a construção da agenda de pesquisa da comunidade de pesquisa. que o sinal de relevância para o desenvolvimento tecnológico passe a ser dado As ações de desenvolvimento local deveriam ser vetores de orientação pelo conjunto de condições sociais. sociais específicos. os movimentos sociais devem se manter atentos ao tipo de conformação de políticas públicas de inclusão social de forma que considere visão sobre tecnologia que estão utilizando para a concepção das suas ações.br). Alguns movimentos já adotam na sua prática uma visão alternativa àquela estarão aptos a tomar parte na formulação das políticas de C&T e influenciar predominante na elaboração dessas políticas. Da mesma maneira. Cerca de seiscentas instituições com as condições ambientais. no contexto do novo padrão tecnológico coerente com a O acesso ao crédito e aos canais de comercialização. 2007). extensão. ao menos parcialmente. e de outras políticas. em módulos fundiários compatíveis governamentais. órgãos privados de fim público. sua grande maioria. Acreditamos que isso tenderá a ocorrer de ser importado de um contexto estranho. alcançado a curtíssimo prazo. O que faz com sistema universitário às empresas privadas vem originando. como uma considerações sobre o papel a ser desempenhado por grupos de atores necessidade. universidades. ao invés das agendas de ensino e pesquisa. como meio idéia de TS. também das políticas de geração sua população. Esse sinal vem carregado não só à medida que os interesses (políticos. mas pela intenção da transformação desta e aponta com morais. pela realidade local. focos de ação e capacidades. Movimentos sociais de diferentes níveis regionais. O fato de ela estar composta por instituições que. políticas públicas de C&T é uma das características mais relevantes dessa como um caso exemplar. como um objetivo a ser sustentável mediante a reaplicação em escala de tecnologias sociais. A Rede de Tecnologia Social como construção de uma nova lógica institucional Nosso Programa de convivência com o Semi-árido inclui: O fortalecimento da agricultura familiar. implementação e avaliação) da Política de Ciência O uso de tecnologias e metodologias adaptadas ao semi-árido e à e Tecnologia e. que demonstra como tecnologias simples inovação institucional. Um exemplo disso está contido na Declaração do Semi-árido. e baratas como a cisterna de placas de cimento.A Tecnologia Social e seus arranjos institucionais Rodrigo Fonseca / Milena Serafim desse padrão (Dagnino e Dias. podem se tornar o elemento central de políticas públicas de convivência com as secas. econômicas e ambientais locais.  fazem parte dessa rede3. Seu objetivo é promover o desenvolvimento A garantia da segurança alimentar da região. acesso a crédito e a canais de comercialização. Esse sinal de relevância precisa ser mais bem emitido Em nossa visão. A RTS pode ser considerada um novo modelo de governança para a elaboração (formulação. ONGs e movimentos sociais. econômicos) e valores (ambientais. Buscamos agora apresentar algumas científico e tecnológico adaptado às realidades locais. pesquisa e desenvolvimento 3 Em outubro de 2008 eram 640 instituições. da Articulação do Semi-árido Brasileiro . elas possam estar afastadas daquela que a crescente associação do a posse da terra.ASA (www. étnicos. Também poderão influenciar a Para isso.

2004). a Associação Brasileira de Organizações Não Governamentais (ABONG). a proposta de construir uma Rede de Tecnologia Social beneficiar de modo especial da articulação promovida pela rede. pretende ser um desenvolvidas na interação com a comunidade e que representem efetivas instrumento de conexão entre uma diversidade de atores que pretende soluções de transformação social. argumenta-se que os atores inseridos nessa esfera poderão se (ver www. da capacidade do empreendimento de natureza social conter. se aproxima “de uma rede assentada por atores dispostos ações complementares e sustentáveis. influenciando a elaboração de políticas públicas torno do interesse dos participantes num determinado assunto (ou uma e fomentando a articulação dos diversos agentes de desenvolvimento em issue network). estimulando sua adoção como precisamente. a capacidade de reproduzir-se e difundir-se a ser uma rede de ação. A articulação Qualquer que seja a maneira como as políticas públicas enfoquem a dos diversos atores também objetiva a geração de políticas públicas que Tecnologia Social.A Tecnologia Social e seus arranjos institucionais Rodrigo Fonseca / Milena Serafim Segundo aqueles envolvidos com sua concepção e implementação população. competências complementares dos atores que a integram. reproduzir-se e à solução de demandas sociais se dá pela agregação e articulação das e difundir-se. Ao contrário. no espaço da Tecnologia propósito manifesto de “promover o desenvolvimento sustentável mediante a Social o resultado positivo da inovação é coletivo. repetir as experiências exitosas e. que podem gerar um o Instituto ETHOS de Responsabilidade Social. a inclusão do tema C&T na pauta de uma variedade e Projetos (FINEP). Além da proposta Desenvolvimento Social (MDS). Comitê Coordenador da RTS. tecnologia social compreende produtos. que uma determinada Universidades Públicas Brasileiras. tendo como centro aglutinador a idéia de que a geral. Uma Tecnologia Social não gera mais riqueza por ser inédita tecnologias sociais existentes e a serem desenvolvidas no Brasil. Dada a dificuldade de negativamente afetadas pelo estilo de desenvolvimento econômico hoje aproximação de determinadas camadas da esfera estatal com relação à dominante. Isso porque ele decorre. de tecnologias sociais.” (RUTKOWSKI. a que desejam construir. que já foi aplicada num determinado contexto ou espaço. órgãos privados de de agentes públicos e privados e a intenção de utilizar tecnologia como fim público como o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas ferramenta de solução de questões sociais são novidades apresentadas. com seus constitutivos da Rede é promover o desenvolvimento sustentável mediante marcos de referência analítico-conceituais e com o cenário socioeconômico a reaplicação em escala de tecnologias sociais. Por isso. 148 149 . técnicas ou metodologias reaplicáveis. O objetivo definido nos documentos a incorporar um modo de governança coerente com seus valores. a RTS foi lançada oficialmente em 14 de abril de 2005.” (Rutkowski. tecnologias e mecanismos e/ou aplicação do conhecimento para atender os problemas enfrentados de gestão para potencializar resultados sociais apropriáveis pelas comunidades pela organização ou grupo de atores envolvidos. segundo os documentos disponibilizados. e a Fundação Banco do Brasil. políticas públicas. (SEBRAE). ao mesmo tempo. apenas a FINEP e o MCT são O aspecto inovador da Tecnologia Social não reside necessariamente em tradicionais agentes da Política de C&T. promover uma agenda de integração entre políticas de governos. Fazem parte dessa rede órgãos Tecnologia Social pode estruturar soluções tecnológicas mais amplas e menos governamentais: Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) e Ministério do parciais para problemas sociais. Essas instituições compõem o novo processo inovador com resultados também inovadores. além de desejável. e restringir a abrangência de seu uso a poucos. A rede. Enquanto no espaço econômico tradicional a inovação (cujo Apesar do histórico e dos relatos apontarem o início das discussões em resultado tem sua apropriação privada garantida pelo Estado através da julho de 2004. a RTS. construção não-convencionais de recursos materiais e pessoas. a partir dos seus elementos constitutivos.rts. A representação das universidades seu ineditismo. mais do que uma rede formada em do problema social brasileiro. com o “propriedade intelectual”) cria riqueza para poucos. de difusão. 2005. Entre as ONGs e movimentos sociais estão Tecnologia Social. a Rede se propôs como elemento constitutivo. Ele está associado às condições locais de seu desenvolvimento se dá por meio da participação do Fórum de Pró-Reitores de Extensão das e aplicação.200). Caixa Econômica Federal e Petrobras. Destes. instituições A Rede de Tecnologia Social é uma iniciativa de instituições. p. Para seus integrantes. empresas estatais: Financiadora de Estudos de organização em rede. elas terão que estimular o uso intensivo de combinações garantam a participação da população no processo de inovação. democrática e dialógica seria uma forma de contribuir para o enfrentamento Para Rutkowski (2004). o Grupo de Trabalho Amazônico suscite soluções e processos de Adequação Sociotécnica que permitam (GTA). de articulação e de informação sobre coletivamente. em escala. econômicos e ambientais. em e movimentos sociais.org. ela cumpre seu A potencialidade específica da rede no apoio ao desenvolvimento objetivo se consegue. a Articulação do Semi-árido Brasileiro (ASA). reaplicação. A partir disso. é provável. estranhas à Política de C&T no Brasil.br).

esse obstáculo cognitivo dificulta a elaboração das políticas sociais e de C&T necessárias para a promoção da inclusão social. A visão essencialista e triunfalista da C&T hoje dominante não é um obstáculo estrutural ao desenvolvimento da TS como o que temos discutido em outros trabalhos sobre a PCT latino-americana. portanto. porém interessados no resultado do desenvolvimento a ser alcançado. Considerações Finais up. Permitiram. mesmo sendo formada por sobre estes investimentos. Como também não adianta prover estas condições sem que os espaços de participação sejam efetivos e respeitados. parecem. A RTS é uma novidade institucional extremamente relevante. além disso.A Tecnologia Social e seus arranjos institucionais Rodrigo Fonseca / Milena Serafim O processo de construção da RTS não foi realizado nem somente bottom 4. Para isto. é preciso agir não As regras de convivência pactuadas permitiram que. necessariamente. Mas é um obstáculo cognitivo poderoso. órgãos públicos pudessem participar das discussões sobre investimentos sem sobre as concepções que os atores têm em relação à ciência e à tecnologia. Em nosso entender. apenas sobre as estruturas. ciência e da tecnologia. perder sua capacidade de decisão final a despeito das discussões coletivas A esse respeito. Há. Se estes forem “cooptados” pela visão predominante na comunidade de pesquisa. Ao afetar a forma como os atores concebem a relação entre ciência. tecnologia e sociedade e sobre as conseqüências da PCT. isto é. Não adianta abrir espaços sem prover as condições de participação. Contudo. cabe ressaltar que a RTS. Contudo. não pudessem opinar sobre a construção de determinadas políticas sem estarem pode deixar de se questionar sobre as diferentes visões existentes acerca da associados a estas ou subordinados pelos agentes públicos. por exemplo. passarão apenas a dar maior legitimidade social ao ator dominante. considerando as diferentes aprofundamento da democracia participativa e para a elaboração de políticas capacidades de recursos e de expressão social de cada ator. públicas sustentáveis orientadas à inclusão social. portanto um desafio a enfrentar no sentido de minimizar o risco de que essa e outras novidades se convertam em uma nova roupagem para velhas práticas. ao invés de partilhar debates e decisões. que movimentos sociais muitos atores que não participam do que se considera o sistema de C&T. é importante construir espaços e condições de participação qualificada de diferentes atores nos processos decisórios. Pois sua diversidade não resulta.   O desenvolvimento e a efetividade de arranjos institucionais. para viabilizar a elaboração de políticas e de arranjos institucionais mais permeáveis à participação de novos atores ao processo decisório da PCT que possam promover a TS. a manutenção daquela visão pode diminuir o impacto da mudança provocada pela inclusão dos novos atores ao cenário da PCT. como a RTS. mas também sobre os modelos cognitivos. Através das interações sucessivas proporcionadas pelos encontros entre os atores constituíram-se laços de confiança e acordos A experiência latino-americana recente tem mostrado a importância conceituais e políticos que permitiram a criação de regras de convivência onde que possui a construção de novos modelos de governança para o fossem construídas as condições de participação. nem somente top down. é imprescindível a discussão daquela visão de C&T. depender de quanto uma visão crítica e 150 151 . pesquisa. Esse novo arranjo institucional permitiria a formulação de políticas e que seus integrantes não compartilhem a visão ideológica (senso comum) da ações onde tanto a produção de conhecimento quanto a sua propriedade e ciência neutra e do determinismo tecnológico presente na comunidade de difusão seja realizada em co-produção por atores de diferentes capacidades.

152 153 . (2004). Dissertação de mestrado. Campinas: Editora da Unicamp. Rede de Tecnologia Social: pode a tecnologia proporcionar desenvolvimento social? In: LIANZA.: Anthropos Editorial. S. México D. DELIZOICOV. DAGNINO.. RUTKOWISKI. Política e Sociedade: as Ciências Sociais na América do Sul. F.. Campinas: DPCT/ IG/Unicamp. 5. Ciência.A Tecnologia Social e seus arranjos institucionais Rodrigo Fonseca / Milena Serafim diferenciada conseguir penetrar e se fixar nos coletivos que os compõem. Enseñanza de lãs Ciencias. J. Tecnologia e Sociedade: o Estado da Arte na Europa e nos Estados Unidos. In: Planejamento e Políticas Públicas. 23.F. DAGNINO. 1. Rio de Janeiro. TAIT. R. L. Tecnología.F. (2003). M. M. AULER. al. I.. Ciência e tecnologia no Brasil: o processo decisório e a comunidade de pesquisa. México. 5. In: SANTOS. CUTCLIFFE. A política científica e tecnológica e a política de inclusão social: buscando convergência. VON LINSINGEN. Porto Alegre. P. n. Tecnología y Sociedad. H. et. Fundação Banco do Brasil. DAGNINO. (2004). A. investir em processos de formação que reúnam os diferentes atores neles envolvidos AULER.. In:Revista Eletrônica Espaço Acadêmico. DIAS. (2001). (2007). et alli. DAGNINO. 2. além de estimular a formação desses arranjos. é preciso. LASSANCE Jr. e LIANZA. RUTKOWISKI. Tecnologia e Sociedade: o Desafio da Interação. D. Ideas. LÓPEZ CEREZO. D. Fundação Banco do Brasil. 2005. (2006).. Máquinas y Valores — los Estudios de Ciencia. D. Inadequações da política científica e tecnológica brasileira. Ciência-Tecnologia-Sociedade: relações estabelecidas por professores de ciências. v.Tecnologia Social — uma estratégia para o desenvolvimento. Rio de Janeiro. 73. Planejamento e Políticas Públicas de Inovação: Em Direção a um Marco de Referência Latino-Americano. In: I Congreso Iberoamericano de Ciencia. (2005). In: Revista Electrónica de Enseñanza de las Ciencias. n. A Tecnologia Social e seus Desafios.. P.. THOMAS. Tecnologia e desenvolvimento social e solidário. Tecnologia Social — uma estratégia para o desenvolvimento. R. et alli. R. P. In LASSANCE Jr. In: Seminário Altec 2007. Sociedad y Innovación CTS+I. Transporte Particular X Coletivo: Intervenção para construção de novos conhecimentos e de novas políticas nos diferentes Curricular Pautada por Interações entre Ciência-Tecnologia-Sociedade.5. SERAFIM. Ciência. v. Editora UFRGS. R. S. P. R. Um Enfoque Tecnológico para Inclusão Social. R. DAGNINO. R. 2007.190-208. Fundação Banco do Brasil. A Ciência e a Tecnologia Produzidas na América Latina são Úteis para o Desenvolvimento Econômico e Social da Região? In: SARTI. DIAS. CTS na educação tecnológica: tensões e desafios. Londrina: IAPAR. In: campos do conhecimento. (org. pp. (2004). (2007). A.). (2006). I. Rio de Janeiro. D. J. et alli. Ciência. R. Memórias del Congreso Ibero CTS+I. Referências Bibliográficas Para isso. v. S. 2004 Sustentabilidade de empreendimentos solidários: que papel espera-se da tecnologia? In: Tecnologia Social — uma estratégia para o desenvolvimento. 2008. e ADDOR. (2007). número extra. FONSECA. J.

Quatro aspectos merecem ser lembrados em relação a como se forma a agenda de uma política pública: . demandas. Isso por duas razões. a PCT é uma das menos propensas a uma reorientação no sentido desejado. direta e simplesmente. Agenda de uma política é o conjunto de problemas. 2. assuntos que os que governam (ocupam o aparelho de Estado num determinado momento) selecionam (ou são induzidos a selecionar) e classificam como objetos sobre os quais decidem que vão atuar. A primeira tem a ver com a óbvia importância dessa política para a construção do substrato cognitivo necessário para fazer com que a tecnologia para a inclusão social — aquilo que se tem chamado.Como transformar a Tecnologia Social em Política Pública? Renato Dagnino Carolina Bagattolli 1. A segunda razão diz respeito ao fato de que. Tecnologia e Inovação (daqui em diante PCT). As agendas da política pública Começamos por introduzir o conceito de agenda de uma política pública e a idéia de que a distribuição dos recursos governamentais que ela provoca entre os temas ou problemas concernentes às agendas dos atores sociais com ela envolvidos depende do peso relativo desses atores. a julgar pelo que vem ocorrendo no âmbito de algumas das políticas sociais brasileiras. ritmo e escala compatíveis com a dimensão da exclusão social na América Latina. como aquelas elaboradas pelo Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome e pelo Ministério do Trabalho e Emprego. este trabalho focaliza apenas uma delas. a Política de Ciência. Introdução Embora a resposta a sua pergunta-título suponha uma mudança numa série de políticas públicas. entre nós de Tecnologia Social (TS) — possa desenvolver-se com uma eficácia. entre outras aquelas conhecidas como políticas sociais.

T&I). mesmo o seu segmento de esquerda. como se ela fosse neutra e de Ciência. que parte da idéia óbvia de fracos tende a ser obscurecida por um complexo sistema de manipulação que transformar a TS em política pública supõe uma diminuição da soma dos ideológica que. pesquisa de fronteira. relevante.E). com esse produto: aumentar S ou fazer crescer s? Aumentar S implica em fortalecer perspectivas que podem ser comuns ou divergentes.G). com seu consentimento. Para aprofundar essa questão. controla algum recurso sociais a qual.G + e.S). Isto é.C). ou reduzir. Não é ponderada das agendas particulares de quatro atores (1) comunidade de politicamente realista pensar que o conjunto da comunidade de pesquisa pesquisa (c. (2) o governo. pesquisa e extensão em função de jogadas e acumulações. tem. Science Citation Index. ainda cativo dos mitos da neutralidade onde as letras minúsculas indicam os pesos relativos dos quatro atores. sua capacidade de produzir novas jogadas e alterar a situação empresas de base tecnológica etc. Aproximando o termo s. (3) Pesquisa e desenvolvimento em áreas estratégicas. a comunidade de pesquisa governo e os movimentos sociais e o peso relativo dos mesmos corresponde não é monolítica.Como transformar a Tecnologia Social em Política Pública? Renato Dagnino / Carolina Bagattolli • um problema social não é uma entidade objetiva que se manifesta um daqueles atores. Interpretando a agenda decisória (AD) da PCT como uma média de esquerda tenham adotado agendas diferentes das tradicionais.do problema. e defendida de maneira a fazer com que os pontos que a integram sejam • a condição de penalizados pela situação-problema dos atores mais aceitos pelos demais atores sociais. a empresa. 2007a). em princípio. 1996). é possível chegar à fórmula AD = c. elas ao poder político referente à participação de cada ator no processo decisório pouco se têm traduzido em situações em que professores/pesquisadores da PCT. 1996). é possível formalizar uma situação bem evidente que é nele que se terá que apostar. os atores são a comunidade de pesquisa. estaria mais associada à TS. leva a avaliar de Um Ator social é uma pessoa.S. conhecida. que pode apenas de 2%. em que diferentes atores. ensino existente em instituições públicas. A segunda. e (4) os venha a estar disposta a alterar suas agendas naquela direção. o Ainda que hegemônica na condução da PCT. É possível caracterizar o agir social como um jogo. e reorientar o potencial de pesquisa e inicial (Matus. As regras do jogo podem se alterar segundo o interesse dos atores conveniência em alterar suas agendas de docência. isto é. os prejudica. Partindo dessa formalização se introduz a idéia de que a resposta a • reconhecer uma situação como um problema envolve um paradoxo. nas empresas. é necessário entender que a agenda governo (MCT. da ciência e do determinismo tecnológico. main stream.E + s. reconfigurando as condições em que afastando-se dos cânones até agora vigentes. pesos das demais agendas na formação da agenda da PCT. pergunta-título passa pela consideração de duas estratégias. A partir daí a pergunta-título passa a ser a de como aumentar ser de natureza cooperativa ou conflituosa. (1) Expansão e consolidação do sistema nacional na esfera pública de modo naturalizado.S à importância relativa da agenda dos portanto. possuem recursos a argumentação que tem sido usada em favor da TS de modo a convencer distribuídos segundo suas histórias de acumulação de forças em jogos a comunidade de pesquisa (nas universidades e demais instituições) da anteriores. Mas parece A partir desse entendimento. plasmados em expressões ele se desenvolverá. No caso da PCT. (2) Promoção e inovação tecnológica independente em relação aos atores . que possui um projeto político.C + g. uma vez que é decisória é um resultado de três tipos de conflito que devem ser identificados essa a distribuição relativa correspondente às atividades de interesse de cada pelo analista de política: 156 157 . Interpretando eles interpretam o contexto no qual ela se desenvolve. A de que é escassa a importância relativa da Tecnologia Social (TS) Para fazê-lo é necessário indagar. capacidade de produzir fatos capazes de viabilizar seu projeto movimentos sociais (ou da tecnologia para a inclusão social) têm-se que ela é (Matus. A primeira pois são justamente os atores mais afetados os que menos têm poder é a que vem sendo seguida até agora e consiste em aperfeiçoar o modo para fazer com que a opinião pública (e as elites de poder) a considere como a agenda (tecnológica) dos movimentos sociais vem sendo elaborada como problema social. ou do Estado (g. o seu modelo a agenda decisória da PCT à luz da alocação prevista de recursos pelo atual cognitivo. É mediante essas acumulações que eles podem ampliar. Mas. relute em fazê-lo.ativos e passivos . embora existam clivagens político-ideológicas. grupo ou organização que participa de que maneira se poderia aumentar o peso referente à agenda dos movimentos algum jogo social. acumula (ou desacumula) forças no seu decorrer e possui. É provável que movimentos sociais (s. e (4) • não há situação social problemática senão em relação aos atores que C&T para o desenvolvimento social. Tecnologia e Inovação (C. acerca de como na distribuição dos recursos para as atividades de Ciência e Tecnologia (C&T) são formadas as agendas desses atores. em primeiro lugar. o que remete à questão de como pelo Ministério da Ciência e da Tecnologia brasileiro (MCT). a constroem como tal. como excelência. (3) a empresa (e. temos que AD = 21% + 40% +37% + 2%.

no limite. dado e latentes. quando em termos meramente quantitativos. cujas são por isto de difícil observação. Segundo. 158 159 . e participar no • a conhecida pouca relevância das atividades de Pesquisa e processo decisório. características dependem dos valores e interesses do ator dominante. de forma francamente dominante.Como transformar a Tecnologia Social em Política Pública? Renato Dagnino / Carolina Bagattolli • os abertos. quer em termos do poder de existir um ator capaz de enviesar significativamente o processo decisório. às que é obstaculizada por mecanismos ideológicos controlados pelos redes que eles conformam e aos ambientes em que se verificam as atividades atores mais poderosos. costuma refletir todos os problemas que efetivamente o prejudicam (devido • os encobertos. tende • os latentes. entre as agendas particulares de atores com poder agenda particular (mesmo quando escoimada dos seus conflitos encobertos) semelhante. para todos os atores intervenientes. explicar na elaboração da PCT. ser socialmente legitimado. o conteúdo da política. Isto é. Entre os fatores que o explicam. mais do que nos países avançados. para entender os processos de tomada de decisão. levando ao fortalecimento do poder do • ao contrário do que ocorreu em outras áreas de política pública. Elementos de caráter político-ideológico atinentes aos atores. implementação e avaliação) processo de decisão. os atores mais fracos. por extensão. o que faz com que a cultura institucional dos conformação da agenda decisória e. Baseado em trabalhos anteriores. que se explicitam no processo de conformação da agenda “entre” na agenda decisória. o qual passará a servir de referência elaborada. A identificação dos conflitos latentes é ainda mais difícil do que a dos Em segundo lugar. sua agenda particular passa a pesquisa. Terceiro porque o “modelo cognitivo da política”. cuja expressão como problemas que conformariam a a atuar no sentido de dificultar ainda mais a irrupção de conflitos encobertos agenda particular de um ator mais fraco nem chega a ocorrer. que. institutos públicos e das agências de planejamento e fomento seja Primeiro. fazem parte do conjunto de informações necessário fracos. no âmbito de processos decisórios. por PCT) seja fortemente influenciado pelo modelo cognitivo da comunidade de sequer serem capazes de formular uma agenda particular (uma vez que não pesquisa. porque seu menor poder diminui a probabilidade de que sua profundamente influenciada pelo ethos universitário. Isso porque. faz com que a PCT se reduza em boa cognitivo poderá ser percebido como correto. porque sua agenda particular não decisória. destacamos: e prescrever acerca do objeto da política e do seu contexto. e pelo correspondente consentimento dos mais abarcadas pela política. seu modelo Desenvolvimento (P&D) privadas. não à existência de conflitos mantidos como latentes em função dos mecanismos chegam a ser incorporados à agenda decisória devido à sua debilidade e ideológicos vigentes). a definição de agenda) faz com que a política de pesquisa universitária política incorporará o modelo cognitivo particular desse ator. a comunidade de dar origem. percebem claramente os problemas que os prejudicam). nem conseguem A comunidade de pesquisa segue participando nos três momentos da influenciar a conformação da agenda decisória para poderem participar do elaboração da PCT latino-americana (formulação. Ela exige hegemônica que ocupa a comunidade de pesquisa no processo decisório da uma análise profunda do contexto político e ideológico e das relações de PCT faz com que tanto as agendas dos demais atores quanto o seu interesse poder existentes entre os atores atingidos por uma dada política. Ela não pode ser feita “a olho nu” mediante a consideração da à PCT. A agenda decisória da PCT permanece À medida que um ator entra em interação com outros atores e dominada pelos valores e interesses (ou pela agenda) da comunidade de agendas. não ator dominante e dificultando ainda mais a irrupção de conflitos encobertos foi constituído um corpo burocrático estável no interior do aparelho e latentes. assim como (que determina o peso relativo de sua agenda na formação da agenda da do seu modelo cognitivo. não importa o quão difusa e incrementalmente ela seja ser o “modelo cognitivo da política”. medida à política de pesquisa elaborada no Complexo Público de Ensino e influenciar decisivamente a forma e o conteúdo da política. um vetor essencial na orientação da PCT. Ele passará a termine sendo. o modelo. é possível mostrar que a posição agenda decisória conformada a partir da relação entre os atores. Dependendo do poder relativo do ator. a partir do qual ele irá descrever. De fato. no âmbito de um sutil processo de co-organização ao seu modelo pesquisa desempenha na América Latina um papel francamente dominante cognitivo particular. e Superior e de Pesquisa (CPESP). cabe indagar acerca de qual é o interesse em relação encobertos. de Estado com qualificação e autonomia suficientes para compartilhar o poder de indução do conteúdo da política com os atores com ela A debilidade dos atores mais fracos influencia triplamente a diretamente envolvidos. semelhantemente ao que ocorre no caso das agendas quando um ator • a predominância da universidade no interior do CPESP (quer avaliada dominante consegue impor a sua agenda como a agenda da política. No limite. embora percebidos pelos atores mais fracos.

como a de saúde por exemplo. mais outras formas culturais que não as científicas. em relação ao exterior. que em outros etc. Estratégia 1: aos que consideram que Ao contrário. Prosseguindo na análise. chega-se a uma das idéias centrais deste freqüentemente influenciados pelas agendas internacionais. Um ambiente social mais amplo os dois tipos de ator com ela envolvidos. e por valorizar. e que logo se engajaram em atividades de pesquisa e formação contém a TS. de que para transformar a TS em política pública não basta Essa realidade. pesquisa (técnicos das agências de fomento. explica e tenta prescrever acerca pesquisa latino-americana (Vessuri. O que conduz à consideração de duas onde o novo. sobretudo se proveniente de países mais avançados científica estratégias de provocar sua alteração. o inclusão social processo de criação de identidade de nossa comunidade de pesquisa não A primeira estratégia de mudança se dirige aos que consideram que a foi apenas duplamente acelerado. por prescindir a atividade produtiva . É necessário atuar no sentido de diminuir o peso político dos de recursos humanos. baseada no atendimento das agendas da comunidade 160 161 .1. agenda particular da comunidade de pesquisa que se transformou na agenda Essa conjunção de fatores tende a fazer com que os processos de da PCT. ambas baseadas na interlocução com e tecnologicamente. a partir do qual ela descreve. levou a que eles iniciassem sua carreira imbuídos não demais atores.estruturalmente – de a atual orientação da PCT pode conduzir à conhecimento científico e tecnológico localmente produzido. seu resultado foi também uma hipertrofia atual orientação da PCT. Essa hegemonia da comunidade de dos países avançados que têm estudado os seus Conselhos de Pesquisa pesquisa exerce um papel de blindagem política (political) da política (policy) (Siune. elites com grande influência econômica e política na sociedade e no Mas como ocorre quando a condição de hegemonia que favorece um interior do aparelho de Estado.). por outro. e os responsáveis pela elaboração das políticas sociais. planejamento e gestão de C&T Processos de conformação de um ethos científico. É necessário ir além do voltar ao País muitos jovens que haviam realizado seu doutorado em países que tem sido feito em termos da melhor elaboração e defesa da agenda que avançados. e de introspecção em fortes pressões corporativas e por enlaces burocráticos que envolvem relação aos poucos pares que a constituíam. países ocorreram ao longo de décadas. 3. por marcado por um acelerado crescimento econômico-industrial e. já ao final da um lado. também contribuíram para isso. Também o modelo cognitivo particular da comunidade de pesquisa natureza elitista identificados no movimento de criação da comunidade de (o modelo. 1984. não determinado ator no âmbito de um processo decisório de uma área de política se constituiu uma visão articulada no âmbito da esquerda capaz de pública se mantém durante um tempo suficientemente longo. É necessário alterar o próprio modelo cognitivo da PCT. não foi apenas a contrabalançar essas pressões e influências. parecem ter-se verificado na América Latina em poucos anos. Essa situação de relativo descompasso entre o que demais atores. associada ao fato de que nessa época começavam a seguir investindo na primeira daquelas estratégias. 1979) e qualificados como “aristocráticos” por pesquisadores se tornou o modelo cognitivo da PCT. contribuía para isso. e participar no processo decisório) Schwartzman. sem que as órbitas concêntricas de atores que tendem a gravitar em torno das instituições de pesquisa se fortalecessem. Castro (1989) caracteriza a trajetória de de C&T latino-americana que a protege dos outros atores e de suas agendas. poderiam ser as prioridades nacionais e as linhas de pesquisa que implantavam A passagem do que temos chamado de momento descritivo da análise (e que às vezes eram simples apêndices das que seguiam seus ex-orientadores) de uma política pública para o seu momento normativo leva a concentrar parece não ter sido vista como inadequada. a nossa sociedade. do objeto da política e do seu contexto. 2001) permaneçam vigentes. Transformando a Tecnologia Social em proporcionados por instituições públicas de financiamento durante os anos setenta teria permitido que a emergente comunidade de pesquisa brasileira política pública definisse suas linhas de pesquisa de acordo com interesses individuais. 1979. trabalho. e aqueles que se encaixam no conceito ampliado de comunidade de década. o foco no modelo cognitivo da PCT. O dos professores-pesquisadores. Isso apenas das práticas mas também das orientações e prioridades de pesquisa porque é ele que determina tanto as agendas quanto o peso político dos vigentes naqueles países.Como transformar a Tecnologia Social em Política Pública? Renato Dagnino / Carolina Bagattolli • diferentemente de outras áreas de política pública caracterizadas por dos aspectos de diferenciação. pela liberalização política. Isto é. Não apenas o ambiente científico. Guimarães e Motoyama. constituição da comunidade de pesquisa e a situação então vigente no CPESP brasileiro apontando que a grande disponibilidade de fundos para pesquisa 3.

Que resultados têm sido obtidos? Os resultados. um produto entre 2003 e 2005 apenas 175 (0. o equipamentos. Isto é. cresceu 168% no mesmo período. atividades internas de P&D. Ou seja. vejamos onde têm sido aplicados esses recursos. privadas nacionais e parte do poder público. na ordem em que estão citadas.3% das inovadoras) (IBGE. empresas (0. o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas — a geração de resultados de atividades de C&T no CPESP capazes de serem (IBGE) considerou serem inovadoras 28 mil. teve um grande aumento na execução de recursos. as destinadas ao desenvolvimento inovativo das nossas inovadoras? Em 2005.um aumento período de três anos). proporcional dos recursos: das empresas que realizaram alguma inovação de que passou de R$ 0. as atividades internas de P&D implicariam a existência de uma maior O total de bolsas concedidas pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento capacitação tecnológica na empresa. Essas três atividades costumam implicar tipos mostrar a conveniência de alterá-lo. o gasto em CT&I tem aumentado que elas apresentem. em seguida.6 bilhão em 2000 para R$ 4. sendo plausível acreditar Nos últimos dez anos. MCT. passando que a simples aquisição de máquinas e equipamentos. de acordo com a utilizados para aumentar a competitividade das empresas e o fomento à P&D Pesquisa de Inovação Tecnológica (PINTEC).3% das inovadoras) inovaram com crescimento de 430%. que passou de R$ 0.6 bilhão em 2006.3 bilhões em 2006 (MCT. 2007b). pode alcançar. O gasto do governo federal passou de R$ 7 bilhões em esforço inovativo crescente. 2007). por 84 mil empresas industriais “brasileiras” (estatais. nos últimos quarenta anos visando ao aumento da interação universidade. antes de ver qual tem sido o impacto do grande aumento dos obstáculos que determinaram o seu comportamento. marcantes da PCT brasileira. 2007b). uma intensidade de significativamente. 2007). a meta significará a externa de P&D (IBGE.Como transformar a Tecnologia Social em Política Pública? Renato Dagnino / Carolina Bagattolli de pesquisa e da empresa. 48% foi gasto na aquisição de máquinas e em três anos (2003-2006).3 bilhão em 1999 para R$ 1. foram apenas 103 de 2000% em uma década! (FINEP. caso sua previsão de investimentos para os um produto que fosse novo para o mercado mundial (um produto novo num próximos anos se concretizar. que elas seriam praticadas Científico e Tecnológico . é pouco provável que inovativas. pode conduzir ao objetivo maior da inclusão social Quem são as empresas inovadoras? Em 2005.CNPq (uma das duas agências executoras do MCT) por empresas situadas num nível mais elevado de capacitação tecnológica . O do MCT. Ou ainda. um crescimento de 45%.09 bilhão em 1999 para R$ 0. iii) a evidente relação entre o modelo cognitivo da PCT e orientação adotada. 2007). a partir do levantamento mais importantes objetivos de natureza intermediária declarados pela PCT por amostragem estruturada. de R$ 1. do universo de pela via das implicações econômicas e sociais que seu atendimento. apenas 12% das não recursos executados. inovadoras declararam ser de alta ou média alta importância a escassez de fontes de financiamento adequadas. em 2010 ele será de R$ 6 bilhões .passou de 45 mil em 2002 para 65 mil em 2006. 2008). A meta do governo federal é que. Sendo que. Caso alcançada. um crescimento de 114%. apenas 16% os consideraram como obstáculos de alta ou média 162 163 . do universo de 84 mil indústrias empresarial — não parecem exeqüíveis. que ainda que se aumente o “brasileiras” 28 mil (ou 33% do universo) introduziram no mercado alguma esforço governamental para perseguir esses objetivos (coisa que tem sido feita inovação de produto ou processo num período de três anos (IBGE. ao apontar i) aquisição de máquinas e equipamentos. Em outras palavras. como proporção do dispêndio tecnológico e inovação tiveram um crescimento ainda mais expressivo: 90% total com atividades inovativas. quando questionadas sobre os Mas. em 2010. qualitativamente distintos de esforço inovativo. três são centrais na estratégia de inovação adotada pelas empresas: o objetivo maior da PCT venha a ser alcançado. 2007a. 2006. a segunda de novidade dos produtos e processos novos. mais intensivas em esforço inovativo do que a aquisição externa de P&D e do principal órgão executor da PCT.9 bilhão forma cooperativa entre universidades e empresas são duas características em 2005 – um crescimento de 1000% (MCT. 21% com atividades internas de P&D e 3% com aquisição CNPq conceda pelo menos 95 mil bolsas. duplicação do número de bolsas em oito anos (CNPq 2007. No entanto. em termos do grau Também a Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP). condizem com a alocação agência executora do MCT. Mas qual é o peso destas atividades no esforço Dentre suas modalidades de bolsas. Como as inovadoras gastam em inovação? Dentre as atividades empresa) através do subsídio direto á P&D empresarial. Mesmo quando questionadas sobre os custos. no caso das inovadoras em processo. ii) aquisição externa de P&D e. (ou de capacidade inovativa). E. Ela consiste em mostrar que os dois multinacionais) com 10 ou mais pessoas empregadas. 2007a). Também foi marcante o salto na execução orçamentária do Fundo Quais os obstáculos? O financiamento das atividades inovativas Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT) com a criação empresariais e a priorização do fomento de projetos desenvolvidos de dos fundos setoriais. Assim as atividades internas de P&D seriam 2000 para R$ 15 bilhões em 2006.

Ao contrário da estimativa feita nos 70% dos mestres e doutores formados ano a ano. a proporção de inovadoras com com universidades e institutos de pesquisa para o processo inovativo (2200 relações cooperativas com universidades – ainda que maior do que a observada empresas. Ou seja: R$ 24 inovadoras que considera de alta ou média importância as atividades de P&D bilhões. cooperativas com outras instituições (dentre elas as universidades e institutos considerou estas de pouca importância).3% do PIB 1 Brito lembra que os recursos públicos injetados pelos Estados Unidos nas empresas. 2002). encomendas tecnológicas. 10% imateriais e humanos capazes de alavancar a P&D empresarial. não parece estar surtindo efeito. Considerando que a parcela das indústrias R$ 2. Irlanda (61%) e Dinamarca (58%).9%. Entre 1998 e 2005. representando. inovativo das empresas. respectivamente. 164 165 . É um fator multiplicador.7% dos respectivos PIBs. no Brasil as empresas países de capitalismo avançado de que para cada dólar alocado pelo governo (estatais. para cada dólar do governo americano. é alocado em atividades de P&D. Isso mostra que enquanto o relação pesquisa-produção. 2008) como Alemanha (onde 73% das empresas industriais são Mesmo a parcela das inovadoras que estabeleceram alguma relação inovadoras). Se o Brasil praticasse menor: Brasil. Enquanto no Brasil apenas cerca de 0. Se o número dos que fazem P&D nas empresas locais (3 mil em alterou. inovadoras que considerou a P&D de alta ou média importância para sua a demanda adicional seria de 660 – 1% dos 61 mil! estratégia inovativa reduziu-se de 34% para 20%. OCDE. na mesma proporção. privadas nacionais e estrangeiras) absorvem menos de 1% deles. como mostramos anteriormente. bem como a parcela do faturamento destinado a estas (mesmo num do resto do mundo (SUGIMOTO. no que diz respeito à aquisição de interagem com empresas etc. “No final das contas. Dentre tais aumentaram consideravelmente. 2007). 7% das inovadoras). que é de onde viriam os insumos materiais. alcançam 0. (EUROSTAT. enquanto o que considerou O baixo número de mestres e doutores empregados em atividades a aquisição de máquinas e equipamentos aumentou de 77% para 81% (IBGE. também expressa na baixa parcela de recursos alocados Também a tentativa de aumentar a interação universidade-empresa – que reduziu num período no qual os recursos públicos disponíveis para (esforço de mais de quarenta anos). EUA e Finlândia alocaram. Enquanto nos EUA as empresas privadas governo realiza um esforço considerável aumentando os recursos para a P&D (majoritariamente nacionais) absorvem em seus laboratórios de P&D quase na empresa. algo semelhante. O fato de apenas 5% das não-inovadoras “brasileiras” Qual é a tendência? A análise das evidências disponíveis não indica ter apontado a escassa possibilidade de cooperação com outras empresas e uma alteração significativa na tendência. ela responde com um aumento de nove dólares em seu O governo federal tem como meta formar.6% e a Finlândia 3. mas não no sentido desejado pela PCT: o percentual de empresas termos de P&D) aumentar. O que indica que estas não são determinantes do comportamento empresas) consideram essas relações de baixa importância (IBGE. 5. Mesmo nos países europeus com as mais altas taxas de inovação inovado no período (IBGE. em média. pois o subsídio não é dado para máquinas e equipamentos (enquanto atividade inovativa) a diferença é bem substituir o investimento do setor privado.Como transformar a Tecnologia Social em Política Pública? Renato Dagnino / Carolina Bagattolli importância. cujas empresas competem com as reduziu. Na União Européia.9% e 5. às essas atividades. respectivamente 9%. num investimento próximo ao da Coréia do Sul. O estabelecimento de relações cooperativas foi considerado as inovadoras.5%.4 bilhões vindos do governo. Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) alocam em média 2. A intensidade em P&D (parcela do PIB alocada em atividades de P&D) é muito menor aqui do que nos países de capitalismo avançado. de P&D empresariais reflete a baixa importância atribuída pelas empresas 2007). (passou de 32% para 33%) e a parcela do faturamento das empresas alocada Mas não é essa situação mais emblemática do descompasso da nas atividades inovativas caiu 26% (IBGE. considerando seu PIB industrial de R$ 400 bilhões. 2007). elas diminuem o seu gasto. 45 mil mestres e 16 mil gasto!1 doutores. No entanto.6% (algo em torno de US$ 35 bilhões/ano).2%. de pesquisa) como sendo de alta ou média importância para não terem foram 9%. apenas 7% afirmou ter estabelecido algum tipo de relação ainda de menor importância na decisão de não inovar: apenas 5% das não cooperativa com universidades e institutos de pesquisa para o processo inovadoras apontaram possíveis dificuldades no estabelecimento de relações inovativo (sendo que a maior parte.3%. os países membros da Organização para a relativos ao PIB industrial do País. 6. à P&D na empresa. a taxa de inovação permaneceu praticamente inalterada argumento. no Brasil – não foi muito elevada. por canais como leis de incentivo. criação de institutos que os EUA 2. 70% (1500 e 13%. período no qual instituições (dentre elas universidades e institutos de pesquisa) como sendo os recursos públicos disponíveis para as atividades inovativas aumentaram de alta ou média importância para a sua decisão de não inovar corrobora o consideravelmente. estaríamos falando de 5. em 2010. com mais nove partes do empresariado. quase que milagrosamente. 2007). a empresa coloca nove do seu caixa. um crescimento de 22% em relação a 2006 (40 mil mestres e 10 mil A importância relativa atribuída às diferentes atividades inovativas se doutores). mas sim para viabilizá-lo”.

cuja implementação está em curso no Brasil. segmento mais influente no sentido de atrair a empresa privada – um ator até O recurso cognitivo que possuem os professores-pesquisadores que agora estruturalmente bem pouco interessado no tema – seria uma forma de estão tentando organizar a rede. dos pesquisadores dos Estudos Sociais da Ciência e da Tecnologia (ESCT). de que eles estariam menos orientados a beneficiar as empresas do que a Para entender porque se destaca a importância dessa comunidade para manter. baseados no modelo de pesquisa frente a outras elites de poder para manter a trajetória de normativo dos especialistas formulado a partir do que pensam ser a realidade crescimento do orçamento de C&T não atenuou o seu papel dominante do processo inovativo dos países avançados. buscado. de projetos. Sem dominante teria sido justamente o principal mecanismo até agora visualizado desconhecer que. Motivar o seu segmento de esquerda a se organizar em torno da Se essa interpretação é verdadeira. tendo pesquisadores passou a ocorrer quase que unicamente entre eles mesmos e os por base um argumento de autoridade fundado em poder cognitivo. E que. como o “elemento de liga” e sim o de natureza econômica a ser disponibilizado por ser simultâneo à crescente obtenção de recursos extra-orçamentários – pelo elemento. Na verdade. o que se busca é ter acesso a subsídios pela comunidade de pesquisa para evitar que os recursos públicos destinados e benefícios fiscais teoricamente orientados para a inovação. e sim em torno de uma parte restrita. o Mas o fato de ter diminuído a capacidade de negociação da comunidade fazem mais por uma espécie de convencimento lógico. a julgar pelo que declaram os que para ela estão sendo atraídos. ao contrário do que supõe o modelo. essas pessoas. entre atores públicos e privados que visa exercer pressão (ou cooptar). em princípio externo a ela: o Estado. de fato contexto de ascensão do neoliberalismo e da reforma gerencial do Estado. como núcleo os atores privados e mais afastados do governo. A partir de meados dos anos 80. Os empresários que estão se deixando cooptar para integrar a rede. Os políticos – o terceiro 166 167 . ademais. ela poderia ajudar a entender a crítica que agenda dos movimentos sociais interessados num estilo alternativo de alguns analistas têm formulado aos arranjos institucionais. sobre as bem qualificados membros da nascente estrutura de planejamento e fomento autoridades situadas em várias instâncias de governo. é necessário analisar. em função da tendência à da comunidade de pesquisa é o de um pacto conservador entre um simulacro diferenciação e apartamento que provoca beneficiar justamente a sua parcela periférico de agenda da empresa e um espectro globalizado de agenda da mais influente no processo de elaboração da PCT. mas que já têm à C&T diminuam. não atinge O cenário tendencial da PCT. os acontecimentos dos interesses e com as metas e estilo da PCT daquela parcela mais influente da últimos vinte anos. embora a mais influente. de terem os resultados de sua pesquisa absorvidos pelas empresas. um a formulação de uma visão estratégica sobre o processo de elaboração da fluxo de recursos – extra-orçamentários. quando escassearam os recursos O que está ocorrendo talvez possa ser explicado com a ajuda do enfoque outrora abundantes. de reputação e as perspectivas de ascensão profissional dos pesquisadores dos uma comunidade epistêmica – os integrantes do CPESP – relativamente bem Institutos de Pesquisa dependem. fundamentalmente. embora de forma ainda mais elitista e enviesada pelo mercado. em construção pelo segmento dominante o conjunto da comunidade de pesquisa. não aumentar a legitimidade de seus pleitos frente ao governo e à sociedade num é. A o modelo. mesmo os que vem ocorrendo nos países avançados. diferentemente do à pesquisa científica e tecnológica. mas principalmente os “profissionais” que “estavam” burocratas. Mas. como propõe são freqüentemente também professores-pesquisadores ou ex-colegas. em muitos casos. a comunicação profissional dos professores. o processo que tem protagonizado seu sido usados com outras finalidades. instituição. o empenho em manter essa posição nos juízos advindos de sua experiência e de sua racionalidade econômica. da avaliação consolidada. consultorias e demais atividades em parceria levados a cabo na forma corporativa. essa coalizão não se forma tendo burocratas. o que é importante. que vem por pares e de seu desempenho em termos de publicações e não de suas sofrendo um processo que considera persecutório. do que nos sinais de mercado e na elaboração da PCT. O que permitiria sugerir que não é ele o recurso que se iria constituir O movimento sindical docente tem apontado que esse processo. esse seria de difícil reversão. contrário aos valores tidos ligações com empresas ou com sua efetiva participação para o êxito dos como universais que defende e ao qual tem respondido sem resultado. mas públicos – compatível com os PCT. ciência. e à medida que foi aumentando o número de de advocacy coalitions uma vez que parece estar se formando uma coalizão indivíduos e grupos de pesquisa. com interesses bem definidos e. ainda que sumariamente. E que. Não por acaso. comunidade de pesquisa. também. como os Fundos desenvolvimento demanda o conhecimento e a participação da comunidade Setoriais e a Lei da Inovação.Como transformar a Tecnologia Social em Política Pública? Renato Dagnino / Carolina Bagattolli período com aumento de recurso público disponível) não parece provável que governamentais e privados – em segmentos vistos como sendo mais suscetíveis esse cenário vá se alterar significativamente num horizonte próximo.

ao contrário do que ocorria nos países avançados. que faria com que. a Reforma Gerencial do Estado terminou por não simplesmente o padrão cultural mimético (para não falar da idéia de senso inviabilizar novas experiências. de um interesse empresarial pelo desenvolvimento de C&T. De “Lei do Bem” se agregam aos já existentes. de interesse do governo – a agenda do governo – pouco apareciam na Ao entender a PCT como uma combinação de agendas diferentes. Muito pouco tem sido obtido. e com as multinacionais intensivas em tecnologia. por default. como são conhecidos. embora tenham existido importantes iniciativas que através ganha plausibilidade o argumento de que seria a operação desse mecanismo. foi aberto pela Assim. aos temas clássicos de interesse da comunidade científica que. produção – em que enfrenta seus trabalhadores não é necessário o “progresso no que respeita ao atendimento aos problemas veiculados pelos movimentos tecnológico” que nos países avançados lhe proporciona mais-valia relativa. uma demanda local por C&T. Como o senso comum acadêmico. Menor presença tinha a agenda da empresa. como os arranjos institucionais fato. No caso de alguns países. que o viés ofertista conferido à PCT pela comunidade pesquisa fosse porque acreditam que. Políticas concentradoras. ela continuada do salário real e à instauração de uma forma de extração da mais- era pautada por uma agenda distante das demais políticas. advogavam os Estes “acadêmicos empreendedores”. a se julgar pela escassa participação numa sociedade que permanecia desigual e autoritária. por iniciativa de acadêmicos partidários da Teoria da O que explicava por que a agenda da empresa exercia pouca influência na PCT Inovação que “estavam” burocratas. da empresa e tidos como de importância para o crescimento econômico A ausência de um “projeto nacional” fazia com que a agenda do governo – a agenda da empresa – apareceram na agenda da PCT. primário-exportador e. predominasse a agenda da ciência. contrariando a interpretação de Schumpeter que atribui a dinâmica das incubadoras e dos parques e pólos tecnológicos. e sem que tivesse se alterado o quadro contrário do que ocorria nos países avançados. inclusive os da esquerda de extração marxista. depois. principalmente no modelo de desenvolvimento dependente. interessados em interagir com as empresas nacionais inovadoras (que Mas como o diagnóstico. na ausência Nosso capitalismo periférico e mimético (primeiro. atribuía esse comportamento à ciência neutra e do determinismo tecnológico e aceitam que a comunidade sua “atrasada” percepção do papel da inovação para o aumento do seu lucro de pesquisa. o impulsionar. legitimam socialmente as atividades contrabalançado por medidas que visavam a vincular a pesquisa universitária de pesquisa da universidade. era natural abertura neoliberal). ancoradas numa anômala concentração de poder No início dos anos de 1970. instrumentos como os Fundos Setoriais. Os assuntos valia (absoluta) que prescinde da inovação. de maneira a buscar inovativa à concorrência intercapitalista que se dá na órbita do mercado. Essa idéia passou a ser hegemônica na PCT.Como transformar a Tecnologia Social em Política Pública? Renato Dagnino / Carolina Bagattolli ator que está sendo atraído para a rede – parecem estar de fato convencidos pública à empresa. dominante. O fato de que. ou seja. a realização de P&D nas empresas empresário periférico não inova porque na órbita interna à empresa – da (Bagattolli. a agenda da PCT se resumia praticamente à agenda da ciência. explica por que essa esperança não foi satisfeita. Com isso se esperava alterar a baixa propensão a do discurso da comunidade de pesquisa. já naquela época. na definição da PCT. nesse processo. engendraram uma situação que levou à deterioração destacavam que. estão cientistas. e (ou universidade-empresa). de industrialização via substituição de importações) não gerava. Mantém-se uma solução de compromisso entre determinado pela dependência cultural e materializado sob a forma de um ofertismo e vinculacionismo. assuntos presumivelmente de interesse e por que a da ciência era. comunidade de pesquisa – o tradicional ator dominante da PCT. 168 169 . o não alcançasse um patamar sustentado e com que a dos movimentos sociais. PCT. Não importa sua postura política. das empresas estatais lograram dinamizar a relação pesquisa-produção de inquestionável poder explicativo no plano da racionalidade empresarial. ao Foi só no final dos anos de 1980. Sua agenda permanece subordinada em relação às demais. esboçado acima. analistas da PCT latino-americana político e econômico. sem muito resultado. inovar do empresário latino-americano. era de que nosso problema sobreviveram à desindustrialização e à desnacionalização provocada pela não era de falta de capacidade para desenvolver “boa ciência”. 2008). dos empresários nos debates e decisões sobre essa política. sociais. mas por uma “forma distinta de Brasil. espaço para empresa na agenda de PCT. acreditam na visão da subestimando a racionalidade do empresário. em função de seu domínio cognitivo e desprovido de valores e ao ambiente protecionista. a Lei da Inovação e a chamada produzir mercadorias”. eram importantes para o desenvolvimento socioeconômico. apesar do discurso oficial. todos. Curiosamente. comum do “atraso” do empresário periférico). a globalização e a abertura comercial neoliberal sobre este instrumento para o progresso social deva ser um ator dominante representaram uma esperança de mudança. na periferia do capitalismo. esse comportamento Essa orientação da PCT não tem mudado significativamente nos não se deve apenas ao padrão mimético da demanda por bens e serviços últimos quinze anos. E de fato. que. se mantivesse latente.

se propõe a particular sobre a agenda decisória da PCT (e de conceber estratégias capazes instauração de um processo que leve à formação de profissionais capazes de implementar as soluções de compromisso que arbitra entre as agendas dos de ir. Aborda-se. por não acreditarem na existência de tal efeito Apesar de crescentemente refutados pelos estudiosos. os mitos da de transbordamento. interlocução com aqueles que. a comunidade de pesquisa. portanto.. ela pode ter a sua utilização orientada para propósitos de inclusão. Esse elemento do modelo cognitivo com o qual se elabora a PCT está associado a outra idéia de senso comum. vem tentando encenar o papel de um outro: das empresas. A capacidade da comunidade de pesquisa de impor a sua agenda Aprofundando o conteúdo normativo da análise.Como transformar a Tecnologia Social em Política Pública? Renato Dagnino / Carolina Bagattolli materializando-se na criação de arranjos institucionais para incentivar Essa percepção. no plano econômico. de financiamento de P&D. ajudando a conformar um novo modelo cognitivo demais atores) e. do interesse das empresas locais. que vem ganhando força no âmbito de seu segmento a interação universidade–empresa. ao mesmo tempo. que o modelo cognitivo em que ela hoje se apóia é pesquisadores que o utilizam para entender a relação Ciência-Tecnologia- incompatível com o seu desejo. a estratégia que se afigura como a mais eficaz é a de acentuar os destinados para pesquisa cooperativa com a empresa através dos Fundos a crítica que vem sendo feita ao modelo cognitivo que ele tem imposto à Setoriais. Ela consiste em mostrar aos que desejam que a PCT contribua respeito que apesar da aceitação que esse modelo cognitivo possui entre os para a inclusão social. empresas e o desenvolvimento social (Dagnino. como parques e pólos tecnológicos. Isto é. É interessante observar a esse inclusão social. é claro. E de que a compulsão a inovar para a comunidade de pesquisa. a exclusão social predominam valores e interesses que como é esperado a “contaminam” com A segunda estratégia de alterar o modelo cognitivo da PCT busca o “germe” da exclusão social). impostos que revertem para a sociedade promovendo P&D. das nações. que a competitividade sistêmica. alternativo ao atualmente hegemônico capaz de orientar as ações de fomento. pela empresa para atingir e beneficiar a sociedade (na forma de produtos que aqueles instrumentos de apoio à P&D parecem ter pouco a ver com o com preços cadentes e qualidade crescente. nenhum deles tecnológico existente no CPESP só poderá ser efetivamente utilizado neste se dispôs a reunir evidência empírica capaz de demonstrar a relação de sentido caso ocorra uma mudança significativa no modelo cognitivo do ator causalidade que assumem existir entre o aumento de competitividade das hegemônico dessa política. são as idéias de interesses da comunidade acadêmica (Pereira. 2006). do planeta. mecanismos para estimular a absorção de pesquisa frente às questões sociais. então. mas sim na compra de máquinas e equipamentos. 70% é realizado por multinacionais) é neutra. consideram que a atual orientação da PCT tende a Neutralidade e do Determinismo da Tecnociência continuam ocupando um reproduzir a exclusão social ou que. via mimetismo e no âmbito de um processo de maximizar o lucro seria o motor de um círculo virtuoso de competitividade “transdução” mais abrangente. pelo menos. Parece. E que. o modelo cognitivo que possui. é possível mostrar. Assume-se que tais arranjos do segmento ainda dominante. vêm crescentemente e operacionalizar as ações capazes de materializá-lo. Velho. etc. empregos qualificados com interesse das empresas locais: sua estratégia de inovação não se apóia na salários crescentes. que o conhecimento produzido na sociedade deve necessariamente transitar Adicionalmente. então. que depois de ser produzida num dado ambiente (em que.2. et. começa a produzir a sua diferenciação de pessoal pós-graduado pelas empresas etc. em particular os partidários da Teoria da Inovação. de que a Tecnociência (conceito 3. 2005. de esquerda a respeito de qual tem sido o comportamento da comunidade incubadoras. de fato. como temos argumentado. mas é bem conhecido que as se com o que alega serem os interesses da empresa nacional em relação às empresas têm respondido a eles de forma extremamente tímida às chamadas atividades fomentadas pela PCT. por exemplo. 2008).). Estratégia 2: aos que consideram que a que denota o fato de que 70% do gasto mundial em pesquisa é privado e atual orientação da PCT tende a reproduzir que. a se revelando como um obstáculo para diminuir a exclusão e a discriminação e questão de como conceber um conjunto de indicações de caráter sociotécnico para aumentar a coesão social. não é capaz de alcançar a lugar central no modelo cognitivo da PCT. Sua característica mais marcante. 170 171 . do bem-estar dos seus cidadãos e dos habitantes a empresa. No sentido de contrabalançar essa influência do segmento ainda Estudos de avaliação mais focados têm mostrado que recursos como dominante. al. projetos cooperativos. a partir dos dados coletados pelo IBGE. que busca manter seu poder mimetizando- são. o potencial científico e Sociedade. acabam sendo alocados de acordo com a lógica e os PCT. deste.

etc. • Realização de 15 oficinas com estudantes das universidades públicas Política de CT&I e as políticas-fim diretamente focadas no atendimento às para discutir a incorporação da temática de C&T para o desenvolvimento demandas sociais: as Políticas Sociais.. capacitação e desenvolvimento de TS. O que é explicado pelo fato das atividades relacionadas à que atendam demandas cognitivas dos movimentos sociais que sejam Prioridade Estratégica C&T para o Desenvolvimento Social. Nesse sentido. A inserção da temática C&T para o Desenvolvimento Social entre as Também deverão ser desenvolvidas as seguintes atividades: quatro prioridades estratégicas do Programa de Aceleração do Crescimento • Oferecimento do Curso de Capacitação em C&T para o Desenvolvimento (PAC) da C&T (MCT. relações. às políticas orientadas ao objetivo do crescimento e da competitividade • Realização de 15 oficinas com os movimentos sociais organizados para empresarial. de promover a incorporação da temática da C&T para o desenvolvimento comércio exterior. Tecnologia e Sociedade2. variáveis. algoritmos etc. serem muito mais passíveis de serem apoiadas com recursos públicos. pesquisa. oficinas e cursos de capacitação a funcionários públicos de organismos relacionados às políticas sociais e de CT&I (inclusive os 2 A situação de carência em que se encontram os países da América Latina a respeito de pertencentes a instituições de ensino superior e de pesquisa. ter por base um marco analítico-conceitual que considere a abordagem da modelos.). Deverá ser a coesão social é de duas naturezas. Ao contrário do que ocorre em relação social no ensino médio e superior do País. recentes do que aquelas relativas às outras prioridades do Plano. redes de Capacitação em C&T e Desenvolvimento Social se indica um conjunto de economia solidária. difusão e aplicação do conhecimento profissionais capacitados na temática. Rede de Tecnologia Social.) e demais atores envolvidos com a Política de CT&I. Tecnologia as políticas sociais. 172 173 . de interessados em participar de uma rede nacional dedicada Essa ação adiciona um outro conjunto de atividades a eles estreitamente à pesquisa científica e tecnológica orientada para o desenvolvimento ligados e que os potencializa através da promoção de convergência entre a social. E que não • Produção de informes a serem disponibilizados para os órgãos tenha existido. o contexto das políticas sociais e de CT&I se caracteriza por social na agenda destes movimentos. • Realização de 20 oficinas de pelo menos um dia de duração com é imprescindível o fortalecimento dos dois conjuntos de atividades em curso cerca de 20 professores e pesquisadores de cada instituição (reitor.. a concepção de um enfoque tecnológico para de incorporar à quarta prioridade do Plano Nacional de Ciência. 2007a) é um indicativo da crescente consciência que Social com a colaboração de grupos localizados em instituições de ensino possui a comunidade de pesquisa e os demais envolvidos com a Política de e pesquisa a 200 funcionários públicos de organismos relacionados às CT&I acerca da necessidade de torná-la mais coerente com o esforço que políticas sociais e de CT&I. De outro. etc. que buscam sinergia com as políticas industrial e agrícola. numa perspectiva de prazo menor e dada à possibilidade científico e tecnológico. compreendem a popularização da C&T e do ensino de reitores. Isto é. a sua falta de habilidade para abordá-las. e por outro lado a produção. no acompanhamento e avaliação de experiências de & Inovação — CT&I para o Desenvolvimento Social — uma ação relativa à intervenção (incubadoras tecnológicas de cooperativas populares. de seminários. econômico e regional do País • Identificação. A elaboração deste deverá uma “planilha de cálculo” que contenha os parâmetros. um esforço sistemático envolvidos com a PCT&I e demais interessados sobre as atividades de formação de pessoal com o perfil e na quantidade necessários. questão da exclusão/inclusão social na sua relação com o desenvolvimento Finalmente. como instrumentos de desenvolvimento social. com vistas à concepção ações passiveis de serem implementadas imediatamente. agências de sua capacidade para atender a demanda cognitiva dos movimentos sociais e contribuir para fomento. de conceber na temática de Ciência. em conseqüência. no caso de universidades) moderadas uma por equipe de ciências. em cada instituição integrante da comunidade de e como mecanismo de inclusão social. avaliando seus resultados e propondo o prosseguimento ou Entre as atividades planejadas estão a concepção e oferecimento a descontinuidade do Programa.Como transformar a Tecnologia Social em Política Pública? Renato Dagnino / Carolina Bagattolli planejamento. está o não-reconhecimento de que existe concebido e implementado um Curso de Capacitação semi-presencial em C&T uma demanda por conhecimento científico e tecnológico associada ao equacionamento das para o Desenvolvimento Social tendo por base a competência instalada no País questões sociais e. De um lado. uma grande escassez de pessoal qualificado para implementar ações visando • Identificação de oportunidades de pesquisa científica e tecnológica à sua convergência. de uma metodologia para o desenvolvimento e fomento de Tecnologia Social. ao contrário do que ocorre com elas. pró- que. necessários para conceber TS. está a sua escassa familiaridade com as metodologias de elaboração de política adequadas para o fomento à geração desse conhecimento. realizadas. por um lado. realiza o País de promover o atendimento às demandas sociais. etc.

Promoção da Inovação perseguem. ocorrer em outros países da região. Para que C&T para o Desenvolvimento Social vire de fato uma Mas. que atende o Como essas duas políticas são muito diferentes em relação aos atores interesse dos movimentos sociais. A agenda dessa prioridade. tendem a ampliar sua abrangência e legitimação. um desafio: desencadear um processo de discussão e capacitação que permita aumentar a capacidade do País para atender as demandas cognitivas da inclusão social. de comércio exterior. dos estudantes universitários. de um lado. desestimular a participação de outros atores e obscurecer a necessidade de alocação de recursos a atividades de C&T diretamente orientadas ao desenvolvimento social. ações que busquem a inserção da indicar dois fatos novos e promissores no processo decisório da PCT. em particular. sua atuação das quatro Prioridades Estratégicas do Plano de Ações 2007 – 2010 formulado terá que ser de tipo transversal buscando propiciar uma convergência entre pelo MCT brasileiro parece ser um bom exemplo do que ocorre ou pode vir a as políticas sociais e a PCT. Embora sob a responsabilidade das agências ligadas à C&T. prioridades distintas daquela do desenvolvimento social. O segundo é. ocorra. de outro. Como resultado. à forma Tecnológica nas Empresas e P&D em Áreas Estratégicas – que correspondem como se dá o seu processo decisório. a geração de um senso comum que tende a legitimar essa situação. existe. da empresa e do Estado. Isso parece específico. dos servidores públicos e da sociedade em geral. sua convergência demanda um esforço às agendas da comunidade de pesquisa. uma sólida capacidade para a geração de C&T (e para a formulação de políticas para aplicá-las) para atender demandas cognitivas distintas daquelas associadas ao desenvolvimento social. Isso porque. 174 175 . E de qualificada por parte dos seus gestores às organizações públicas e privadas que sua participação no processo decisório da PCT é essencial para que isso capazes de satisfazê-la. Esforço que supõe. de crédito. orientadas para a competitividade empresarial. por outro. E. Elas terão um papel similar àquele que desempenham as que já fazem parte da PCT. às demandas cognitivas das demandas sociais. será que essa mudança garante que a promessa contida nesses prioridade é necessário um processo de familiarização (e capacitação) com dois fatos poderá vir a ser cumprida? Para avaliar a probabilidade de que isso a área no âmbito da comunidade de pesquisa. Por meta de desenvolvimento social na PCT (e nos distintos espaços institucionais um lado. por outro. à combinação política-meio/política-fim que possuem. uma maior capacidade de intervenção dos setores da comunidade de ensino e pesquisa que ela abarca) de modo a promover a geração de de pesquisa que vêm tentando orientá-lo no sentido do atendimento às conhecimento pertinente (e. que é eficientemente operado por atores política e economicamente poderosos situados dentro e fora do aparelho de Estado. O primeiro é a consolidação de um poderoso arsenal de instrumentos e arranjos institucionais com elas coerentes. por estarem sendo Iniciar esse processo é o primeiro passo a ser dado para recuperar o atraso há muito tempo sistematicamente impulsionadas. que com elas estão alinhados. no plano ideológico. gerem uma demanda cognitiva e tecnológico nacional é uma condição indispensável para seu sucesso. foi colocada ao lado de outras três usuais – que envolvem. um melhor entendimento por parte daqueles políticas sociais em curso). à maturação dos objetivos que Expansão e Consolidação do Sistema Nacional de CT&I. ações que. aos mecanismos que utilizam. por um lado. ao explicitar o potencial envolvidos com as políticas sociais de que a utilização do potencial científico da C&T para a eficácia das políticas sociais. E. e que buscam sinergia com as políticas industrial e agrícola. E. para aproveitar a capacidade de C&T existente para o desenvolvimento social é necessário a formulação e implementação de medidas de política específicas e distintas das que hoje se pratica.Como transformar a Tecnologia Social em Política Pública? Renato Dagnino / Carolina Bagattolli A introdução do tema C&T para o Desenvolvimento Social como uma etc. venha a ocorrer é importante ressaltar que as políticas de C&T orientadas por dos movimentos sociais. alcançaram resultados que que essa área possui em relação às outras três prioridades do Plano.

Conselho Nacional de estilo alternativo de desenvolvimento. Renato. H. de conhecimento novo e. DAGNINO. Results of the fourth community innovation survey (CIS4). Relatório de Gestão exercício 2007. girando. F. demanda cognitiva inexistente é cada vez mais inaceitável.htm>.). 2004. segunda força irá debilitar o poder político do “alto clero da ciência dura” que São Paulo. 1945-1985.br/cnpq/relatorio. Pesquisa de Inovação Tecnológica 2005. 1979. Ao Planejamento e Políticas Públicas. implica em al. Tecnologia e Inovação para o Desenvolvimento nacional: Plano de Ação 2007-2010 – Versão Completa. Ciência. 2007a. já conquistado para aquele estilo de desenvolvimento 2006. (eds. DAGNINO. A. 2008. In LASSANCE Jr. 23. Referências Bibliográficas Para concluir cabe ressaltar a idéia de que duas forças complementares BAGATTOLLI. Tecnologia Social: uma estratégia para o desenvolvimento. Acesso em 12/07/08. Social Change in Brazil. Relatório de atividades 2005. Sobre da empresa privada. 2007. et. Isso se dará através do convencimento Desenvolvimento Científico e Tecnológico. Política. Política Científica e Tecnológica e Dinâmica Inovativa terão que ser geradas para deslocar o eixo em torno do qual a PCT vem no Brasil. que Tecnologia Social: uma estratégia para o desenvolvimento. ainda que em intensidade variável. Hernán. aproxima a PCT das demandas cognitivas de um CNPq. Rio de Janeiro. A primeira servirá para nuclear e reforçar o segmento de esquerda da FINEP. E. (2004). n. Acesso em 20/11/07. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE.br/index. PEREIRA. Ao diminuir IBGE. sua influência na elaboração da PCT.Como transformar a Tecnologia Social em Política Pública? Renato Dagnino / Carolina Bagattolli 4. apostar.mct. Rio para aumentar a intensidade da primeira. 263-309 (The Incomplete Transition). MATUS. 2007.gov. A segunda força. MCT. Disponível em: < http://www. In LASSANCE Jr. A Tecnologia Social e seus Desafios.html>. EPU/Edusp. tenderão a produzir aquela necessária clivagem em que temos que EUROSTAT. Fundos Setoriais: avaliação das estratégias de 176 177 . comunidade de pesquisa. Essa força é semelhante a uma força centrífuga. movimento social e as políticas públicas já estão sinalizando. et. 1996. Isso se dará mostrando. Ministério da Ciência e da Tecnologia. S. Ministério da Ciência e Tecnologia. M. Mário Guimarães & MOTOYAMA.php/content/ view/50870. L. há várias décadas. 2008. alternativo e interessado em adotar agendas de pesquisa a ele aderentes. e a argumentação baseada na constatação de nossa realidade periférica. sem produzir sinergia. dessas de Inovação: Em Direção a um Marco de Referência Latino-Americano. 2001. mediante a evidência empírica o marco analítico-conceitual da tecnologia social. demais. Disponível em: < http:// da comunidade de pesquisa de que elas encerram oportunidades de geração www. atuarem. 2008. tem colocado a PCT a serviço dos seus interesses corporativos. 2008. diminuir o peso das Fundação Banco do Brasil. seguir mobilizando nossos recursos humanos e materiais para satisfazer essa Fundação Banco do Brasil. planificação e governo. subsidiariamente. de Janeiro. Campinas: UNICAMP (Dissertação de mestrado). tenderá a liberar os recursos necessários Orçamento e Gestão. al. C. Relatório de Gestão 2003-2006. Brasília: IPEA. Neutralidade da ciência e determinismo tecnológico. Renato. NOVAES. Carolina. MCT. necessariamente. Newton Muller. atuando sobre aquele eixo. Financiadora de Estudos e Projetos. Albuquerque. Castro. Ministério do Planejamento.. Rio de Janeiro. deslocar-se para longe daquela que segundo a ortodoxia capitalista é entendida Campinas. Carlos. 1989. Relatório Institucional 2003-2006. A.mct. que corresponde à segunda estratégia. Disponível em: www. História das ciências no Brasil. Henrique T. A FERRI. C. 2007b. Planejamento e Políticas Públicas É o acionamento simultâneo. que of New Mexico Press. pesquisa e ensino coerentes com as demandas que o Desenvolvimento Científico e Tecnológico. Renato. Editora da Unicamp. aumentar o peso da agenda da TS e. Conselho Nacional de atividades de extensão. Considerações Finais 5. como a única demanda capaz de transformar conhecimento em bem-estar: a DAGNINO.cnpq. Ela é semelhante a uma força centrípeta.br. Shozo. University que vem sendo seguida até agora. pp. que faça a PCT DAGNINO. mediante o financiamento de CNPq. & A primeira força se relaciona à primeira estratégia antes mencionada e Klein. THOMAS. Acesso em 20/11/07. “What Is Happening in Brazilian Education” In: Bacha. BRANDÃO. In: duas forças que deslocará o centro formulador da PCT e a reorientará. Renato.gov.

1998. Monte Ávila. K. S. 1984. • Explicitar a relevância da propriedade privada dos meios de produção na determinação das características da TC (Braverman. visualizam a Tecnologia Edição especial Jornal da Unicamp. PEREIRA. Caracas. (ed. Além disso.unicamp. Science Policy: Setting the Agenda for Research. NOBLE. Quem faz a inovação tecnológica? Jornal da Unicamp. IPEA. H. Social Choice in Machine Design. et al (ed. Guanabara. y sociedad en Venezuela. WINNER. institucionais e políticos para o desenvolvimento de VELHO. 1. New York. Disponível em: <http://www. La ciencia periférica. Para isso. São elas: • Recuperar a noção hoje obscurecida pela Teoria da Inovação e pelo Neoliberalismo de que a TC tem como objetivo aumentar a mais-valia apropriada pelo empresário na produção. Ciencia alcançar aqueles requisitos. Noble. (1990). sustentabilidade tecnológica dos empreendimentos solidários elaborado por (Relatório de pesquisa). 2 BLOOR. e que só depois disto e se ele achar conveniente..Como transformar a Tecnologia Social em Política Pública? implementação e gestão.136. 183 . In: BIJKER. nº.br/unicamp/unicamp_hoje/ju/ igualitária e ambientalmente sustentável. Science and higher education in Brazil: an historical Considerações Finais view. The Social construction of Technological systems. por serem um aporte ao movimento que visa à de Aderência de Fundos Setoriais (contrato CGEE 083/2005.). 1979. (1987).. Winner. eles estão focados Vessuri. In: ZIMBALIST. AZEVEDO. El papel cambiante de la investigación científica académica en un na concepção de um marco analítico-conceitual que auxilie o movimento a país periférico. Monthly Review Press. MIT Press. Acesso em 14/07/08. Léa M. (19989). buscaram identificar os julho2002/unihoje_ju183pag10. 2002. E. BIJKER. Knorr-Cetina. Latin American Program. Trabalho e capital monopolista.). 3 PINCH. KNORR-CETINA. The social construction of facts and artifacts: or how the sociology of Science and the Sociology of Technology might benefit each other. In: Research and Research Policy. Case Studies on the labor process. E. Nova York. (org). Adalberto. e demais segmentos sociais que. Textos para discussão nº. 2001. Rio de Janeiro. The Whale and the Reactor: A Search for Limits in an Age of High Technology.. Conocimiento e imaginario social. essas Considerações Finais não poderiam deixar de centrar-se em recomendações que nos parecem essenciais para dar conta dos desafios e superar os obstáculos que seguem existindo em relação ao desenvolvimento de Tecnologia Social. professores. Ed. Pergamon Press. (1979). competir no mercado aumentando eventualmente a competitividade do país e evitando o desemprego. W. movimentos sociais. D. K. M.html>. Woodrow Wilson International Center of Scholars. Working Papers Number 8. University of Chicago Press. T. 1986)1. gestores públicos. Simon. Gedisa. The Manufacture of Knowledge: An Essay on the Constructivist and Contextual Nature of Science. pesquisadores dos Estudos Sociais da Ciência e Tecnologia. D. 1981)2 e a tecnologia (Pinch e Bijker. M. como seus autores. Coerentemente com esses propósitos e vieses. 178 179 . comunidades locais SUGIMOTO. 1990)3 são construções sociais negociadas entre atores e 1 BRAVERMAN. 03/2006). 1979 SIUNE. alunos. SCHWARTZMAN. Luiz. en Díaz. Newton. Proceedings O propósito dos trabalhos reunidos neste livro é dialogar com from MUSCIPOLI.30 de julho a 3 de agosto de Social como uma ferramenta para a construção de uma sociedade mais justa. W. Y. • Mostrar como a ciência (Bloor. Cambridge. M.. H. Texera y H. 2005. 1987. L. A. (1986). requisitos cognitivos. Barcelona. Vessuri. (1981). Avaliação Tecnologia Social.

Science. J. H. In:www. (2000). • Advertir sobre o modo como o desconhecimento de todos esses fatores • Trazer para a reflexão sobre as alternativas à TC a idéia de Tecnociência tendia a manter obscuras as oportunidades. et alli. El pensamiento www. Campinas. merece ser lembrado.itcp. • Assinalar a necessidade de que a desnaturalizaçãodas relações sociais 1982)5. W. 1975)9. Pesquisa. 10 DAGNINO. 6 FEENBERG. Ciência e Tecnologia no Brasil: o Processo Decisório e a Comunidade de Editora da Unicamp. a possibilidade de que a tecnologia capitalista venha a servir e cognitivas assimétricas e de controle que permeiam as escolhas para a construção de um projeto político alternativo. Dagnino. (org. (ed. que a menos de Janeiro. 5 MARCUSE. El pensamiento latinoamericano en la problemática ciencia- VESSURI. H. Centro Editor de Aires. cognitivo. justa. a Neutralidade da ciência e o Determinismo tecnológico (Marcuse. Oxford University Press. politica y cientificismo. Neutralidade da ciência e determinismo tecnológico. igualitária e ambientalmente sustentável. In: Política científica explícita y política científica implícita. Ideologia da sociedade industrial. H. A. (2002). 2004)11. Sabato. negando seu componente determinista. hegemonizado pela cultura da TC para um outro que viabilizasse a • Sinalizar os obstáculos advindos do modelo cognitivo e da dinâmica de construção da TS. produção material. os desafios e as relações (Latour. 9 HERRERA. unicamp. 21. Nuñez. Buenos 8 VARSAVSKY. 1992. tecnológicas fosse impulsionada pela a RTS uma vez que são uma • Politizar a idéia da construção social da tecnologia mediante a condição para a convergência das políticas sociais e de C&T (Dagnino incorporação da Teoria Crítica e. Cambridge. Paidós. 1969. 2002)6. Routledge. Is science value-free?: values and Scientific Understanding. J. Oliveira. (ed. Oxford.campus-oei. R. 25. Buenos Aires. J. sociais e de C&T.). M. que a TA seja demandada por atores que se situam no terreno mesmo da 7 LACEY. por meio da crítica à percepção do marxismo ortodoxo sobre desnaturalizar (Dagnino. SABATO.br. Zahar Editores. 180 181 . percebam que a exploração e • Introduzir o diagnóstico acerca dos obstáculos que a dependência disseminação dessas recomendações oferecem uma possibilidade de inflexão cultural e a condição periférica latino-americanas colocavam à geração no longo processo de desenvolvimento das idéias subjacentes à TS em nosso autóctone de tecnologia (Herrera. sugerir mediante a proposta da Adequação Sociotécnica ambientes onde a C&T é produzida com valores e interesses distintos (Dagnino. E. não haverá da geração da TS. e com os gestores das políticas Mass. alunos e técnicos de institutos de pesquisa públicos (em especial os que militam nas incubadoras universitárias 4 LATOUR. (1969). funcionamento da política de C&T e de ensino superior para o avanço Nossa expectativa é que aqueles com os quais buscamos interlocução. J. Where are the missing masses? The sociology of a few mundane de cooperativas) se disponham a buscar aliados entre as cooperativas e artifacts. 1975. R. E que ao fazê-lo. (1999). NÚÑEZ. Paidós. DAGNINO. 2000)4. argumentar que atores sociais contra-hegemônicos podem alterar as • Indicar que os ESs seriam sustentáveis apenas à medida que características da TC (Feenberg. 2008)10. Lo que la educación com força política que possuem. B. não um resultado de uma busca pela verdade e a eficiência. Campinas. (2007). n. 1999. Shaping Technology/Building Society. O homem unidimensional. (redesigning) da TC. America Latina. Adequação Sociotécnica e Economia Solidária. que deveria ocorrer mediante a contaminação dos • E. Transforming technology. no campo das políticas públicas. Ciência: força produtiva ou mercadoria? In: Revista Crítica Marxista. 2007)8.) (1975). (2003). A. 11 (idem). (1975). 12 DAGNINO. In: SABATO. os professores. latinoamericano en la problemática ciencia-tecnología-desarrollo-dependencia. país. OLIVEIRA. (1982). Londres. no campo produtivo. 2002)12 um caminho possível para transitar de um ambiente aos do capital (Lacey. Ciencia. funcionassem em redes de produção e consumo (cadeias produtivas) • Incorporar um conteúdo de classe ao processo de reprojetamento crescentemente independentes do mercado. R. sociais e cognitivas que os atores envolvidos com a TS precisavam • Negar. Autogestão. and Democratic Participation in Policy-making: A Latin tecnología-desarrollo-dependencia. os que se identificam com o projeto de construção de uma sociedade mais Vessuri. In: BIJKER. Rio Um dos pontos que os trabalhos deste livro enfatizam. La ciencia y la tecnología como procesos sociales. Editora da Unicamp. capazes de materializar. and LAW. finalmente. MIT Press. (1992).). In:Technology in Society. 2003. fábricas recuperadas. (2008). Politics. suas propostas que hoje ainda se limitam ao científica no debería olvidar. n. Buenos Aires. American View. do movimento de TS e para o seu desenvolvimento (Varsawsky. 2005)7. Los determinantes sociales de la política científica en América Latina. (2002). (2005). O.org/revistactsi.

Henrique Tahan Novaes. Rodrigo Rodrigues da Fonseca. por eles serem. Milena Pavan Serafim. Ednalva Felix das Neves.nesse sentido.   182 183 . Projeto Gráfico: Rodrigo Souza Grupo de Análise de Política de Inovação (Gapi) Coordenador: Renato Dagnino Equipe de Pesquisadores: Carolina Bagattolli. se isso acontecer. Rogério Bezerra da Silva Parcerias: O aporte de recursos do Centro Internacional de Pesquisas para o Desenvolvimento (IDRC) do Canadá. é essencial. Hernán Thomas. Rafael de Brito Dias. Márcia Maria Tait Lima e Rogério Bezerra da Silva úteis. como já ocorreu no passado. Mariano Fressoli. os trabalhos que (cordenador). Rodrigo Rodrigues da Fonseca compõem este livro. em que o capitalismo evidencia uma vez mais sua incapacidade de promover justiça e dignidade. Créditos e por implicarem uma alternativa radical. Rafael de Brito Dias. Finalmente. organizar a produção material e para resistir contra o avanço do capital. a atual conjuntura de crise venha a ensejar uma revitalização das formas associativas e autogestionárias que os excluídos tem privilegiado para Autores: Carolina Bagattolli. Milena Pavan Serafim. Henrique Tahan Novaes. Talvez. possam ser Laís Silveira Fraga. que o papel dos ESs. mais que demandantes de TS. cabe ressaltar um último ponto que ganha importância no momento presente. Márcia Maria Tait Lima. Renato Dagnino Nossa expectativa é de que. participantes insubstituíveis no processo de seu desenvolvimento. em especial a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia (FAPESB). Laís Silveira Fraga. Também foi importante o apoio indireto proporcionado por outras instituições. da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e da Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP) foi essencial para a realização deste livro. que buscam desencadear a aceitação da idéia da TS no ambiente da pesquisa e da elaboração de políticas através do lançamento Revisão e Edição: de uma plataforma cognitiva na direção desse futuro a construir. Elaine Hipólito. dado que atuam num terreno essencial para o questionamento estrutural da forma de produção capitalista.

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Buscando identificar requisitos cognitivos. 1963) . professores. Tecnologia. Tecnologia Social. comunidades locais encontrarão aqui elementos solidários e que têm no Brasil. para a concepção de um marco analítico-conceitual para o como exemplo. a Rede de desenvolvimento conjunto e solidário de Tecnologia Social. movimentos sociais. Capa: Tira do Moebius (Escher. que visam à sustentabilidade Estudantes. institucionais e políticos para o desenvolvimento de Tecnologia Social. pesquisadores. e adiciona uma visão comprometida com a construção de Seu objetivo é promover o uma alternativa dos excluídos latino-americanos às dificuldades debate nos espaços de interação impostas por mais esta crise do capitalismo mundial. combina-o com a crítica Estudos Sociais da Ciência e realizada ao movimento da tecnologia apropriada e com as Tecnologia ao movimento que a contribuições mais recentes dos Estudos Sociais da Ciência e apóia. tecnológica dos empreendimentos gestores públicos. os trabalhos Este livro recupera o questionamento Ghandiano à tecnologia são o aporte de pesquisadores dos produzida pelas e para as empresas privadas.