Pietro Ubaldi II Obra – III Trilogia

II – PARTE

I – PARTE

III – PARTE

CONCLUSÃO DA OBRA

PRINCÍPIOS DE UMA NOVA ÉTICA
APRESENTAÇÃO ....................................................................................................................................................... 1 I. DEUS – DUAS CONCEPÇÕES ............................................................................................................................. 1 II. EVOLUÇÃO DA ÉTICA ...................................................................................................................................... 9 III. MÉTODOS DE VIDA ........................................................................................................................................ 16 IV. A PERSONALIDADE HUMANA .................................................................................................................... 23 V. OS TRÊS BIÓTIPOS TERRESTRES ............................................................................................................... 32 VI. O DESTINO ........................................................................................................................................................ 40 VII. PSICANÁLISE .................................................................................................................................................. 47 VIII. A NOVA PSICANÁLISE ................................................................................................................................ 53 IX. TÉCNICAS DE TRATAMENTO ..................................................................................................................... 61 X. ÉTICAS DO SEXO .............................................................................................................................................. 68 XI. A ÉTICA SEXÓFOBA DO CRISTIANISMO ................................................................................................. 73 XII. O SEXO COMO PROBLEMA ATUAL ......................................................................................................... 80 XIII. CONCLUSÕES. AMOR E CONVIVÊNCIA SOCIAL .............................................................................. 85

A DESCIDA DOS IDEAIS
P R E F Á C I O ......................................................................................................................................................... 93 I. A DESCIDA DOS IDEAIS. ESTRUTURA DO FENÔMENO......................................................................... 94 II. A HUMANIDADE EM FASE DE TRANSIÇÃO EVOLUTIVA ................................................................... 99 III. O CRÍTICO MOMENTO HISTÓRICO ATUAL. O INÍCIO DE UMA NOVA ERA. ............................ 102 V. A EVOLUÇÃO DAS RELIGIÕES................................................................................................................... 132 VI. SINAIS DOS TEMPOS – JEAN PAUL SARTRE ......................................................................................... 134 VII. OS IDEAIS E A REALIDADE DA VIDA .................................................................................................... 139 VIII. DESENVOLVIMENTO DO CRISTIANISMO .......................................................................................... 149 X. A CRISE DO CATOLICISMO......................................................................................................................... 160 XI. PSICANÁLISE DAS RELIGIÕES E ............................................................................................................. 166 ASPECTOS DO CRISTIANISMO........................................................................................................................ 166 XII. CIÊNCIA E RELIGIÃO ................................................................................................................................ 188 XIII. TRABALHO E PROPRIEDADE ................................................................................................................ 194

UM DESTINO SEGUINDO CRISTO
PREÂMBULO......................................................................................................................................................... 205 I. O VOTO ............................................................................................................................................................... 208 II. O SIGNIFICADO .............................................................................................................................................. 210 III. POBREZA E EVANGELHO .......................................................................................................................... 215 IV. INCOMPREENSÃO E CONDENAÇÃO ....................................................................................................... 219 V. A VIDA É UMA ESCOLA ................................................................................................................................ 224 VI. O PROBLEMA DA JUSTIÇA E OS EQUILÍBRIOS DA LEI ................................................................... 228 VII. SINAIS DOS TEMPOS .................................................................................................................................. 231

VIII. INVESTIMENTOS NO BANCO DE DEUS ................................................................................................ 240 IX. A UNIVERSAL BIPOLARIDADE DO SEXO NAS RELIGIÕES .............................................................. 244 X. O IDEAL E O MUNDO ..................................................................................................................................... 251 XI. A CRISE DA VELHA MORAL ....................................................................................................................... 257 XII. O PROBLEMA RELIGIOSO. A OBRA PERANTE A IGREJA .............................................................. 271 XIII. A OFERTA ..................................................................................................................................................... 285 XIV. GÊNESE E SIGNIFICADO DA OBRA ....................................................................................................... 289 XV. O CALVÁRIO DE UM IDEALISTA ............................................................................................................. 293 XVI. O MEU CASO PARAPSICOLÓGICO ........................................................................................................ 297 XVII. O ÚLTIMO ATO. O HOMEM PERANTE A MORTE ............................................................................ 312 XVIII. LIBERTAÇÃO ............................................................................................................................................ 324

CRISTO
PRIMEIRA PARTE – A FIGURA DE CRISTO ................................................................................................... 327 PREFÁCIO .............................................................................................................................................................. 327 I. TUDO-UNO-DEUS .............................................................................................................................................. 328 II. O FENÔMENO DA QUEDA ............................................................................................................................ 331 III. A VIA CRUCIS DE CRISTO .......................................................................................................................... 332 IV. A NOVA FIGURA DO CRISTO ..................................................................................................................... 334 V. O CHOQUE ENTRE SISTEMA E ANTI-SISTEMA ..................................................................................... 336 VI. NECESSIDADE MITOLÓGICA .................................................................................................................... 340 VII. O MÉTODO DA NÃO VIOLÊNCIA ............................................................................................................ 343 VIII. O CICLO INVOLUTIVO–EVOLUTIVO ................................................................................................... 345 SEGUNDA PARTE – EVANGELHO E PROBLEMAS SOCIAIS ..................................................................... 348 IX. JUSTIÇA SOCIAL ........................................................................................................................................... 348 X. O SERMÃO DA MONTANHA ......................................................................................................................... 350 XI. POBRES E RICOS ............................................................................................................................................ 353 XII. O IDEAL NA TERRA ..................................................................................................................................... 355 XIII. A ORIGEM DA JUSTIÇA SOCIAL ............................................................................................................ 358 XIV. A ECONOMIA DO EVANGELHO ............................................................................................................. 360 XV. VALORES TERRENOS ................................................................................................................................. 362 XVI. VALORES ESPIRITUAIS ............................................................................................................................ 366 XVII. FINALIDADES DA VIDA ........................................................................................................................... 369 XVIII. OFENDIDO E OFENSOR – SEUS DESTINOS....................................................................................... 372 XIX. A NOVA TÉCNICA DE RELAÇÕES SOCIAIS ........................................................................................ 376 XX. PRINCÍPIO DA RETIDÃO ............................................................................................................................ 381 CONCLUSÃO .......................................................................................................................................................... 385

Vida e Obra de Pietro Ubaldi

(Sinopse).................................................................................... página de fundo

Pietro Ubaldi

PRINCÍPIOS DE UMA NOVA ÉTICA I. DEUS – DUAS CONCEPÇÕES

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PRINCÍPIOS DE UMA NOVA ÉTICA
APRESENTAÇÃO Princípios de uma Nova Ética é o 10o volume da II Obra, que foi chamada de brasileira, porque escrita no Brasil. Este livro segue o recém publicado, Queda e Salvação, que é o 9o volume da II Obra. Assim está sendo publicada esta segunda série de 12 volumes, paralela à primeira, já quase toda editada no Brasil, também de 12 volumes. Estamos, desse modo, nos aproximando do encerramento desta gigantesca Obra, que é composta de duas partes, a I e a II Obra, formando um conjunto com cerca de 10.000 páginas. Por isso, a fase atual de desenvolvimento do pensamento central da Obra não é mais aquela das teorias gerais orientadoras do conhecimento a respeito do imenso problema do universo, mas é a fase do estudo das consequências das afirmações gerais e das suas aplicações no terreno prático, para iluminar quem queira viver com inteligência e honestidade, compreendendo o pensamento das leis que dirigem a existência de todos os seres. É neste ponto que o leitor amadurecido poderá ver a importância destes últimos livros conclusivos, escritos para nos dirigir na ação, o que significa agir com inteligência, evitando erros que, depois, pelos princípios de equilíbrio e justiça da Lei, é inevitável ter de pagar, duramente, cada um às suas custas, com a própria dor. Nestes livros, porém, não queremos impor conduta alguma. Cada um permanece livre, e ninguém pode constranger o outro. Podemos apenas aconselhá-lo, mostrando-lhe qual a consequência fatal de não se viver de acordo com a Lei, mas contra ela, e indicando-lhe o melhor caminho para evitar a reação da Lei, que é a dor, saudável aviso para não voltar ao erro. O destino de cada um está nas próprias mãos, e não nas de quem, pensando e escrevendo, pode com isso explicar, pelas leis que dirigem a vida, o que acontece ao indivíduo como consequência de seu livre comportamento. Para um ser inteligente, que sabe raciocinar, tal demonstração poderia bastar. Mais do que isto o escritor não pode fazer. Se o leitor não entender, terá depois de ler um outro livro, escrito por si mesmo, com a sua dor, no seu destino. No entanto é bom oferecer-lhe uma explicação preliminar, servindo como um aviso, para que ele, conhecendo o funcionamento das leis que regulam a sua vida, possa assim evitar o seu próprio prejuízo. As teorias gerais de que acima falávamos estão contidas nos livros básicos da obra: A Grande Síntese, Deus e Universo, O Sistema e Queda e Salvação. Eles oferecem um sistema científico-filosófico-ético-teológico completo, cujos pormenores os outros livros da Obra explicam, ampliando aspectos particulares. Nesses livros básicos, o leitor encontrará as demonstrações que nos autorizam a chegar às conclusões contidas no presente volume. Isto prova que não chegamos a elas levianamente, fantasiando, mas sim amadurecidos pelo pensamento desenvolvido em milhares de páginas, que constituem a premissa positiva das conclusões. Deus existe Uma prova poderia ser a que nos é oferecida pelo materialismo ateu, que O nega. Assim como a sombra implica a presença da luz, também a negação pressupõe a existência do que se nega. Só se pode afirmar a não-existência daquilo que sabemos que existe. De outra maneira, de que se afirmaria a nãoexistência? Do nada? Mas o nada já não existe por si próprio, e para que ele não exista, não é necessário afirmar a sua nãoexistência. Nada se pode dizer do que não conhecemos, porque não existe. Como se pode afirmar que não existe o que não sabemos o que é? Se não sabemos o que é o nada, é porque ele não existe. Como se pode afirmar a sua não-existência, quando ninguém sabe da sua existência? Portanto, se negamos uma coisa, é porque ela existe. A negação de Deus prova a Sua existência. No caso do materialismo ateu, porém, essa negação não representa a negação de Deus no que Ele é – porque, para o homem, isto está além do seu conhecimento e porque, no absoluto, Deus está acima de toda a nossa negação ou afirmação – mas somente a negação da ideia que o homem, num dado momento histórico, tem de Deus, isto é, da representação que ele, num determinado tempo, faz de Deus, conforme o grau de evolução atingido. Assim, por exemplo, um materialista entre os selvagens seria quem nega a existência do Deus do feiticeiro, representado por um boneco com a cara e as qualidades do selvagem. Há, então, dois pontos bem diferentes na questão: 1) Deus em Si mesmo, no absoluto, acima da compreensão humana; 2) Deus como ideia concebida pelo homem no seu relativo, constituindo a imagem que ele faz de Deus conforme os seus poderes de representação. O primeiro caso nos foge completamente, porque está além do nosso conhecimento. O segundo caso representa tudo o que conseguimos saber de Deus, isto é, uma representação a nós relativa, mas progressiva em função do grau de evolução por nós atingido. Que negou, então, o materialismo da ciência? Negou somente a única coisa que ele podia negar, isto é, o que o homem conhecia: o conceito relativo de Deus, sustentado pelas religiões no período histórico em que o materialismo apareceu. No entanto, pelo próprio fato de que aquele conceito, sendo relativo, está em evolução e de que hoje a humanidade entrou numa fase mais adiantada de amadurecimento mental, o qual leva tudo a ser concebido, e também Deus, com outra forma psicológica e diferentes pontos de referência, eis que o velho materialismo ateu acabou por se encontrar perante uma nova ideia de Deus, e não mais aquela que ele estava negando. Com a evolução, que tudo arrasta no seu caminho, esta ideia havia-se transformado, devido a um amadurecimento evolutivo geral, do qual a própria ciência materialista, com a sua negação do velho conceito de Deus, faz parte. Disto se segue que o clássico materialismo ateu não representa, hoje, senão uma negação da velha concepção de Deus sustentada pelas religiões, enquanto a própria ciência acabou desembocando numa concepção mais adiantada de Deus, a qual ela não pode mais negar, tendo, pelo contrário, de aceitá-la, porque esta ideia explica e funde em unidade os resultados parciais da ciência, dando a eles um sentido orgânico e telefinalista, sem o qual tudo fica abandonado na desordem do acaso e no mistério dos incontáveis problemas ainda não resolvidos. Assim, na economia da vida, o materialismo ateu não foi um meio para chegar à negação de Deus, mas apenas para destruir a velha ideia que Dele era feita pelo homem nas religiões e, com isso, atingir uma nova concepção, mais evoluída, completa e convincente. Tal processo ainda está realizando-se. De fato, a nova ciência destruiu a concepção materialista da matéria, a qual ela desintegrou, desmaterializando-a em energia. Hoje, como estamos vendo acontecer, a ciência está sendo constrangida pelos fatos, os quais ela não pode negar, a abstrair-se cada vez mais da materialidade sensória para chegar a en-

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tender a matéria como uma realidade imaterial, explicando a substância das coisas com um conceito que cada vez mais se aproxima e tende a coincidir com aquele imponderável inteligente, chamado de espírito no passado. O que nos interessa agora é observar quais são essas duas concepções de Deus, com tudo o que delas decorre, sobretudo a respeito da conduta humana, o que nos conduz ao terreno da ética, nosso atual assunto desenvolvido neste volume. Como sempre acontece entre o que está morrendo e o que está nascendo no seu lugar, as duas concepções estão em luta. A primeira está fixada nas religiões e na respectiva forma mental, filha do passado menos evoluído. A segunda é representada pelos espíritos mais amadurecidos, que se rebelam contra o passado, antecipando a nova maneira de conceber Deus e as relações do homem com Ele. O conceito de Deus e a respectiva ética que nos oferecem as religiões atuais, corresponde ao grau de amadurecimento evolutivo atingido pela humanidade atual. Esse é o único conceito que as religiões nos podem oferecer, porque é o único que a maioria pode entender, aquele com o qual ela concorda, porque ele, não importa se atrasado, corresponde aos seus instintos naturais. Um conceito mais adiantado a massa não poderia aceitar, porque está fora da sua forma mental, que estabelece quais são as ideias vigentes em nosso mundo. Como já explicamos em outros livros nossos, o biótipo dominante na Terra é o involuído e, sendo ele a maioria, tem todos os direitos, afirma e pratica a verdade que quer, não importa qual seja a sua fé teoricamente professada nas verdades eternas, as quais, por longa experiência, ele sabe torcer, para adaptá-las às suas comodidades. Qual é então esse conceito que acabamos de mencionar? Uma vez que aqui falaremos de ética, iremos examinar tal conceito sobretudo no que se refere à nossa conduta humana, tendo como ponto de referência Deus e a nossa concepção Dele, da qual depende a ética. A ideia que o homem possui de Deus, herdada do passado, está ligada sobretudo a um ser todopoderoso, que, por isso, pode fazer o que bem entender, violando arbitrariamente e à vontade as leis que Ele próprio estabeleceu para o funcionamento da fenomenologia universal. Assim o homem, com a sua forma mental, tinha construído um Deus com as suas próprias e bem humanas qualidades, de dominador rebelde, cujo poder se realiza e se manifesta pela imposição da sua vontade a todos, seja ela qual for, cioso dos rivais e egoisticamente preocupado apenas em dominar seus súditos, para ser obedecido por eles. O poder deste Deus, então, não estava na ordem, e sim na violação da ordem. Mas isso é justamente o poder da revolta, que gera desordem e destruição, representando o poder negativo do anti-Deus, e não o positivo de Deus. Estamos nos antípodas. Instintivamente, o homem criou para si uma ideia de Deus feita à sua imagem e semelhança, ideia derivada da posição do próprio homem, invertida pela queda no Anti-Sistema. (Que o universo está cindido nos dois termos opostos do dualismo, Sistema e Anti-Sistema, já foi explicado em nosso volume O Sistema. Também no presente livro, quando falarmos de Sistema, abreviaremos com S; e quanto falarmos de Anti-Sistema, abreviaremos com AS). Tal Deus faz milagres, contrapondo-se arbitrariamente à Sua própria ordem, o que leva a uma contradição absurda, possível na criatura que se revolta contra Deus, mas inadmissível em Deus, que, neste caso, estaria revoltando-se contra Si mesmo. Mas o homem não podia sair da sua forma mental e, nada mais possuindo, teve de construir para si a sua ideia de Deus somente com os conceitos que lhe forneciam as suas experiências terrenas, ficando fechado dentro do seu inexorável antropomorfismo. Esse Deus favorece, com a Sua graça, apenas quem Ele quer, infringindo o Seu princípio de justiça. Ele cria do nada as almas e as envia, pelos Seus imperscrutáveis desígnios, para viver na Terra, cada uma em condições bem diferen-

tes da outra, muitas vezes submetidas a sofrimentos diversos, sem que elas saibam o porquê dessa diferença e de tal condenação. Esse Deus pode fazer qualquer coisa, pelo direito do mais forte, na mais desordenada e injustificável arbitrariedade, e a criatura tem de obedecer cegamente, sem ter o direito de saber, obedecendo não porque entendeu e aceitou convencida, mas porque é constrangida, pelo cálculo egoísta, a fugir do terror do inferno e, pela cobiça, a buscar os deleites do paraíso. Entender não é possível, sendo até mesmo proibido, porque considera-se ousadia querer desvendar os mistérios. Não resta, assim, senão a fé cega, o terror e a ignorância. De tudo isto não se pode culpar ninguém, porque nada disso foi feito com propósito de maldade. Este é o nível evolutivo tanto dos chefes como de seus rebanhos, e, neste nível, o homem não sabe conceber e funcionar com outra forma mental. Mas é lógico que, se desta psicologia sai um tal conceito de Deus, dela saia também uma proporcionada concepção de ética, dada por uma moral egoísta e de arbítrio, com base nos mesmos princípios, tanto o da força, que autoriza Deus a mandar, como o da astúcia, que permite o homem se evadir daquele comando. Essa é uma posição falsa e emborcada da ética. Estamos num terreno escorregadio, que, em lugar de levar em subida para o S, leva o ser em descida para o AS. Isso representa o triunfo do involuído, que tudo criou no seu mundo para si, à sua imagem e semelhança. No seu plano evolutivo, tudo é regido pela lei da luta, pela seleção do mais forte e pelos instintos que ela constrangeu o homem a desenvolver, nos quais se baseia a sua ética atual. Nesta fase primitiva não é possível apoiar-se na inteligência e exigir que ela funcione, quando ainda não está suficientemente desenvolvida. Se o conceito de Deus é esse, bem terreno, de um patrão que manda, punindo quem não lhe obedece, só pelo direito que lhe vem da sua força de todo-poderoso, a lógica posição do fiel é, por equilíbrio e defesa da vida, a do servo que procura evadirse, seja amansando a ira do patrão, que ele provocou com a sua desobediência (fazendo de tudo para arrancar seu perdão, com preces, arrependimentos, promessas, ofertas, honras etc., mesmo que mentirosas), seja procurando subtrair-se à dura lei do patrão, com enganos e todas as escapatórias possíveis. Essa atitude é fatal consequência dessa posição em que o homem se coloca perante Deus, de antagonismo, e não de fusão de interesses, posição devida ao estado de revolta, na qual, pela queda, a criatura se colocou perante o Criador. Essa posição invertida vai-se endireitando cada vez mais com a evolução. E assim se explica como a condição do atual ser primitivo seja de inimizade com Deus, isto é, a situação do mais fraco que foge do mais forte, e não de amizade com Deus, isto é, a situação de um amigo que colabora para uma finalidade comum. Explica-se desse modo a estrutura das religiões atuais, feitas sobretudo de práticas exteriores, que são fáceis de realizar com pouco sacrifício e, o mais importante, não incomodam a liberdade de conduta do indivíduo, deixando a cada um a possibilidade de satisfazer os seus instintos e realizar os seus negócios. É reconhecido, desta maneira, e respeitado o direito de pecar, isto é, de violar a Lei, constituindo esta prática sempre a grande atração dos primitivos, que formam a maioria. Tal violação é, assim, prevista de antemão por uma organização encarregada de eternamente remendar tais pecados, para os quais fica, então, amplo lugar no seio das religiões, sem que eles produzam graves consequências para quem os praticou. Em vez de ter, inexoravelmente, de pagar aquelas consequências até o último ceitil em outras encarnações, sem escapatória possível, é lógico que convém mais rezar uma leve penitência e, com um provisório e fortuito arrependimento de relativa duração, considerar-se quite, pronto a repetir o erro, continuando assim a satisfazer-se. Adaptado à comum psicologia atual, este método é aceito porque o pagamento é barato, convindo como bom negócio. Permanece assim,

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com tal método, o defeito de ser ele um engano que o homem desejaria praticar à custa da justiça de Deus, tentativa inútil, pois tudo acaba recaindo sobre o culpado, que nem por isso pode escapar àquela justiça, tendo da mesma forma de pagar nas reencarnações futuras a sua dívida, e isto sem entender nada. E Deus não aparece na Terra para esclarecer e impor à força a Sua lei, mas deixa que o ser a descubra às próprias custas, experimentando. Assim, não obstante o homem acredite que lhe escapa com a sua astúcia, a Lei continua funcionando do mesmo modo, porque, para isso, ela não precisa do nosso conhecimento. E o homem, enquanto não tiver consciência da Lei, terá de pagar com o seu sofrimento o preço da sua ignorância. Eis, então, o que se encontra na realidade dos fatos. Temos, de um lado, a casta sacerdotal, que justifica, enquanto representante de Deus, a sua existência e posição de domínio, apoiada em poderes espirituais dos quais depende a nossa vida futura. Do outro lado, temos o termo oposto, representado pela massa dos fiéis, que procuram os meios para assegurarem as melhores condições de vida na sua continuação depois da morte. Uns e outros são impulsionados pelo mesmo instinto vital, que exige viver e sobreviver, e lutam por isso. Mas todos, uns e outros, vivem num mundo e pertencem a um nível de evolução onde não há ser que não seja rival de outro. Para satisfazer a necessidade fundamental de todos, que é viver, torna-se indispensável concordar numa convivência, à qual não é possível chegar sem se estabelecer um equilíbrio entre as exigências opostas, o que pode ser atingido com o método da troca, pelo qual, para que seja possível coexistir, cada um dos dois dá alguma coisa, para receber outra. Cada um, então, dá o que tem. Assim, a casta sacerdotal oferece ao mundo a solução do problema da vida de além-túmulo com a salvação eterna, recebendo em troca os recursos materiais e o domínio que precisa para viver. Do outro lado, a massa dos fiéis recebe da autoridade espiritual, para isso encarregada por Deus, a garantia de uma vida futura feliz, executando apenas algumas praticas exteriores e afirmando que acredita em coisas que não entende nem lhe interessa entender. Com isto, a classe sacerdotal, pelo princípio da troca, tem direito que a sociedade lhe retribua essa dádiva, reconhecendo o seu poder terreno com todas as suas decorrências. Realiza-se, assim, a troca que permite a convivência, constituindo o meio necessário para, nesse nível evolutivo e conforme suas respectivas leis, chegar à simbiose. Assim, cada um é pago com a moeda que o outro lhe oferece. Simbiose entre o espiritual e o material, na qual cada um dá o que tem e recebe o que lhe falta. O espiritual concede o paraíso e obtém a sua posição material. O material dá vantagens concretas, mas exige por isso ser pago, tomando as vantagens espirituais. Mas cada um faz as suas contas, e o mundo, sabendo muito bem o valor do que ele concede e do que ele calcula receber, procura dar o menos possível, sobretudo em relação a qualquer incômodo esforço individual. Como em tudo na Terra, há luta também entre os dois termos da simbiose, cada um procurando para si a maior vantagem possível à custa do outro. Então, para receber a sua posição na sociedade e nela se manter, era necessário que o poder religioso não pedisse sacrifícios demasiados ao mundo, permitindo-lhe a possibilidade de atingir o seu objetivo de salvação final, praticando uma moral que consentisse muitas escapatórias, com as quais, mantendo o mais profundo respeito pelas práticas exteriores, fosse possível dar suficiente satisfação aos instintos involuídos, a principal exigência da maioria. Deste modo, todos ficam satisfeitos, porque cada um acredita ter sido o mais astuto, recebendo mais do que dá. O espiritual, dando promessas de salvação, mas recebendo a vantagem bem positiva da sua posição social; o material, ganhando a salvação com o mínimo de incômodo e esforço possível. O único que não ficou satisfeito foi Deus, cuja justiça reclama e exigirá pagamento de ambas as partes. Pela grande sabedoria das astú-

cias humanas, parece que o único, neste jogo, a ficar enganado é Deus com a Sua lei. Isto é o que pode pensar o homem com a sua forma mental de involuído e de rebelde à ordem, julgando, com tal psicologia de primitivo, que possa haver vantagem em intrujar a Deus. Mas o homem não sabe que o único a não ser enganado é exatamente Deus e que o engano cairá em cima dos enganadores, os quais não poderão deixar de pagar os terríveis efeitos da sua astúcia. Somente a ignorância do primitivo pode acreditar que seja possível intrujar a Deus. Assim, o involuído é espontaneamente levado a tal absurdo pelo seu instintivo impulso de revolta, ao qual ele, inconscientemente, obedece sem ter conhecimento da Lei nem suspeitar das suas reações, pelas quais querer enganar a Deus significa apenas enganar-se a si próprio. No entanto, as religiões ainda desconhecem o conteúdo da Lei e os princípios que regem a vida, de modo que não os podem ensinar. Enquanto não entender tudo isto, o mundo continuará vivendo satisfeito com esse acordo, que, embora lhe ofereça a vantagem de satisfazer o seu instinto de aproveitar-se de tudo com a sua astúcia, condena-o depois a pagar inexoravelmente o seu erro e saldar a dívida com a justiça divina. O jogo é bem combinado. As castas sacerdotais podem ficar nas suas posições, e a massa dos fiéis pode, pagando apenas com práticas exteriores e seguindo nas suas comodidades, satisfazer-se durante a vida, assegurando, ao mesmo tempo, sua salvação para depois da morte. Desse modo, todos estão contentes, porque puderam continuar vivendo, atingindo o maior resultado com o menor esforço, o que representa para todos um grande ideal. A maioria fica satisfeita apenas com o presente, interessando-se somente com a vantagem imediata. Para ela, porquanto desconhece a Lei e o seu conteúdo, o futuro – que constitui o nosso presente de amanhã – é algo inconcebível, desaparecendo nas neblinas do mistério. ◘◘◘ Esse jogo corre bem, enquanto o homem permanece nas suas atuais condições de involução e de ignorância, as quais não lhe permitem aperceber-se quão prejudicial é para ele tal método de enganos, que, no fim, não deixará de levá-lo a pagar esse erro, à sua custa e com o seu sofrimento. Se, hoje, ele sabe apenas entender o que se verifica no presente imediato, sem se aperceber, devido à sua miopia, das consequências do seu método atual, é fatal que elas acabem chegando e que, assim, ele acabe pagando. Desse modo, a dor cumpre a tarefa de lhe ensinar a conhecer a Lei, para que ele não erre mais, ou seja, não vá mais contra ela. É assim que, pela dor, a mente humana irá aprendendo cada vez mais e, com isso, começará a entender quão louco e perigoso é o seu método atual. Mas, por enquanto, estamos bem longe de chegar aí. O homem ainda funciona impulsionado irresistivelmente pelos seus instintos, fruto do seu passado. Ainda não soube libertarse deles, evoluindo, e continua satisfeito em obedecer-lhes cegamente. O fato é que a lei desse plano de vida é a luta pela conquista de uma posição superior à dos outros, e quem se encontra situado nesse nível de evolução aceita e vive essa lei. É por isso que tal método tende a prevalecer em todas as raças, religiões e partidos, ou seja, onde quer que exista o homem. Esta é a razão pela qual quem tem o poder e manda é, muitas vezes, levado a se aproveitar dessa posição não para cumprir uma tarefa diretiva, mas para dominar e levar vantagem sobre os seus dependentes, que, por sua vez, procuram pagar aos chefes na mesma moeda, defendendo-se o mais que podem e tentando todas as escapatórias para se evadir das leis. É assim que o povo busca enganar os ministros das religiões, mostrando-se fiel nas práticas, mas fazendo ao mesmo tempo os seus negócios e aproveitando as oportunidades, enquanto os chefes ficam com o poder, prometendo em troca a salvação eterna. Esta é a lei deste nível, que a forma mental humana deseja. Esta é a posição na qual tantos ficam satisfeitos, porque a ela cor-

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responde a natureza do homem, que, desse modo, fica ao sabor dos seus instintos. E todos se julgam, assim, inteligentes e sábios. É neste esforço de superação recíproca que está o seu maior trabalho, a satisfação do seu orgulho, a demonstração da sua inteligência e a prova do seu valor. Há, porém, outro fato. A lei do progresso trabalha continuamente para tirar o homem dessa sua triste condição, impulsionando-o a evoluir. Através de incessantes e duras experiências neste baixo nível de vida, o homem acabará forçosamente atingindo o amadurecimento necessário para compreender a estupidez de tal método, pelo qual cada um sabe agir somente em obediência cega aos instintos do inconsciente. O homem terá assim de aprender a pensar, para depois, então, comportar-se com inteligência e consciência. A lei da evolução, que o está incansavelmente impulsionando de baixo para cima nesse sentido, não pode tolerar que tão involuído jogo dure para sempre e que o homem continue sendo apenas um menino, dirigido pelo seu subconsciente animal, como um menor que não sabe o que faz, incapaz de receber de Deus as suas liberdades, por não sabe assumir as suas responsabilidades. A vida somente pode permitir tudo isto a seres primitivos, no atual baixo nível biológico. Pela fatal lei do progresso, a mente humana terá de se abrir, a fim de poder chegar a dirigir a vida com métodos mais inteligentes, honestos e vantajosos. Essa é exatamente a mudança que hoje se começa a realizar. A mente humana está saindo das névoas de sua menoridade. Ela, agora, faz perguntas e pede respostas, não mais aceitando, somente por fé cega, verdades apoiadas no mistério. Começa a raciocinar, olhando as coisas com espírito crítico, e, antes de obedecer, quer ver claramente com a lógica e a razão, exigindo de quem manda que justifique a sua posição. Insatisfeita com as tradicionais palavras e afirmações teóricas, quer ver o que está atrás dos bastidores das verdades proclamadas e da autoridade que, nelas, pretendem se apoiar. Chegou a hora de explicar tudo com sinceridade e justiça, se quisermos que os indivíduos obedeçam às leis. Até ontem, foi necessário o método da fé cega, porque não se pode dar explicações a meninos incapazes de entendê-las, já que isso geraria naqueles cérebros primitivos complicações e mal-entendidos perigosos. Mas hoje, que o homem começa a amadurecer, é cada vez mais necessária uma verdade demonstrada, que explique tudo e responda aos porquês, resolvendo os problemas, isto se não quisermos que ele vire as costas a qualquer princípio superior, entregando-se ao ceticismo. Mas, infelizmente, é o que está acontecendo. De fato, o homem atual encontra-se perante sistemas velhos, adaptados a outras formas mentais, que ele não aceita mais. O que ele pede hoje é um pão verdadeiro, um nutrimento vivo, aderente à realidade biológica e proporcionado ao seu estômago mais exigente, que está pronto para digerir novos pratos, no qual sejam completadas e explicadas nos seus mistérios as mesmas verdades eternas, porém demonstradas para convencer, atualizadas a par do grande progresso da ciência, atrás da qual hoje as religiões, outrora na vanguarda do pensamento mundial, ficaram atrasadas, quase que abandonadas como coisa velha, destinadas a um sótão ou a um museu. Ao invés de satisfazer essa legítima nova fome espiritual, as religiões continuam a repetir as mesmas coisas antigas, com as velhas palavras de sempre, nas quais os séculos passados adormeceram, deixando, assim, de levar em conta e acompanhar essa renovação que se está verificando na forma mental humana. Os jovens pedem esse nutrimento novo e fresco, apresentado numa forma mais vigorosa, como os tempos apocalípticos o exigem, e vão procurá-lo alhures, sobretudo na ciência, porque, nas religiões, encontram apenas um nutrimento rançoso, que hoje ninguém mais digere, apresentado naquela forma estereotipada pela longa repetição e consumida pelo uso dos séculos, própria para os adormecidos, feita de palavras aprendidas de

cor, cansadas pelo peso do tempo, com o sentido já perdido para o ouvido moderno. Não é que na alma, sobretudo na dos jovens, falte a sede de verdades eternas. Mas as velhas teologias não são adequadas aos problemas dos tempos modernos. Quantos não gostariam de ser esclarecidos, para poderem resolver os problemas máximos do conhecimento e, assim, tornarem-se capazes de se dirigir inteligentemente com a sua conduta! Todavia, existem ideias velhas, feitas para nos embalar no sono da indiferença, com conceitos que, no decorrer do tempo, esgotaram o seu impulso vital e que o progresso abandonou ao lado do caminho da evolução. Os jovens de hoje cansaram-se e não prestam mais ouvidos. Eis de onde nasce a hodierna indiferença, o desinteresse de quem, por falta de convicção, não toma mais a sério tais coisas, assumindo o absenteísmo espiritual. Mantém-se assim uma indiferença cheia de respeito, como exigem as religiões, o mesmo respeito que se deve ter para com os monumentos do passado e os túmulos dos mortos. Indiferença que desemboca no materialismo ateu, no epicurismo, na filosofia animal do primitivo, triste substituto de tudo que em vão se procura, mas não se encontrou; fruto do desespero da alma insatisfeita que, precisando de uma filosofia qualquer para se dirigir, não achou coisa melhor. Os jovens estão famintos de sinceridade, honestidade e justiça; estão desiludidos do passado, que muitas vezes lhes soa a engano, pelo mau uso que foi feito de tantas verdades. E, se eles estão revoltados, não é por maldade sua, mas porque encontram falta de bondade. Eles, que agora aparecem no palco da vida, vão observando o que há de verdade por detrás das aparências, e ficam tristes, desnorteados pela falta de uma orientação sadia, coerente e convincente, que os ajude a navegar no oceano desconhecido da vida, dando a esta um significado e uma finalidade a atingir, que justifique e valorize tantos esforços, lutas e sofrimentos. Esse é o pão substancial que é urgente dar ao mundo, um pão de honestidade e de verdade. Disto o mundo precisa muito mais do que de atingir a Lua ou ir a outros planetas (quem sabe para levar até lá as suas guerras!), ou então de fazer novos inventos para destruir a humanidade e a sua civilização. O indispensável, hoje, é uma moral que corte até às raízes toda a possibilidade de violência e de mentira – como lamentávamos acima – mostrando que há leis na vida que ninguém pode enganar. No nível animal-humano, a vida se desenvolve num regime de luta, porque esta é a lei desse plano evolutivo. Disto decorre que, em tal ambiente, a regra é que os bons, por não serem fortes nem astutos, são explorados e eliminados. Para o nosso mundo, a bondade é uma forma de fraqueza que todos têm o direito de explorar, utilizando-a para sua própria vantagem. Na prática, até se assiste ao absurdo de se tentar aproveitar da bondade de Deus, pois tal mundo sabe que Ele é infinitamente bom. É necessário então desvendar esta tão perigosa ilusão, filha da ignorância e dos instintos primitivos. Se o mundo, porque lhe convém, gosta de imaginar Deus dessa maneira, é necessário entender que Ele não é bom somente para que seja possível explorar Sua bondade com o engano, mas que Ele é, sobretudo, inteligente, de modo que ninguém, com a sua astúcia, pode lográ-Lo e se evadir da Sua lei, como o homem, de acordo com a sua forma mental, almejaria. É preciso compreender que o fato de Deus ser bom não significa que, por isso, Ele seja um simplório, a quem se pode enganar. Este tipo de psicologia é terrena e somente serve para atingir as finalidades da lei da seleção do mais forte. Na sua concepção de Deus, o homem não sabe sair desta sua forma mental, produto do seu grau de evolução, adaptada para promover, neste ambiente, o trabalho de seu progresso biológico. Perante Deus e a Sua lei, é loucura querer ser astuto, porque não há escapatórias. Quem faz o mal tem de pagá-lo à sua custa, não importando se é crente ou não. A nossa opinião, fé

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religiosa ou filosofia não podem fazer mudar as leis da vida. Ninguém pode embrulhar Deus e a Sua lei. Mas o homem não gosta de semelhante conceito, preferindo antes, e por isso imaginou, um Deus bom, que se pode enganar. Mas isso não corresponde à verdade, sendo apenas um produto do subconsciente instintivo, uma redução do conceito de Deus dentro dos limites da psicologia terrena de luta, uma criação da mente humana para satisfazer um desejo seu. Deus é o que é, em forma positiva para todos, incluindo os ateus, e não o resultado do que cada um, conforme a sua natureza, gosta mais de crer. O homem aceita o conceito de um Deus ludibriável porque lhe agrada pensar que pode aproveitar-se desse Deus, satisfazendo assim o seu instinto de prevalecer acima de todos. Ora, é necessário não cair nesse engano, pelo qual quem quer enganar acaba sendo enganado. O que de fato ocorre é o contrário do que o homem pensa. Deus abandona ao poder da reação da Lei quem quer fugir à obediência, enquanto defende os sinceros e honestos, que, seguindo o método da justiça, não querem se aproveitar de ninguém, protegendo-os contra um mundo que, seguindo o método da luta, explora-os e esmaga-os, pois, naquele nível, eles são considerados simplórios e tolos, isto é, o biótipo do fraco a ser eliminado pela lei da seleção. Na sua ignorância, o homem acredita que a sua pequena biologia terrestre representa toda a biologia do universo, em todos os seus níveis, e não entende que, em níveis superiores de existência, situados ao longo do caminho da evolução, possam vigorar leis tão diferentes na proteção da vida, que, perante elas, os nossos atuais métodos se tornam absurdos e prejudiciais, a ponto de parecerem emborcados, tamanha a distinção e a oposição entre eles. De fato, trata-se de um progressivo processo de endireitamento das qualidades do AS nas do S. Acontece então que, num mais adiantado plano de existência, os primeiros de hoje serão os últimos de amanhã e os últimos de hoje serão os primeiros de amanhã. Verifica-se o fato de que o ser, ao progredir do AS para o S, em virtude da evolução, vaise gradualmente harmonizando no seio da Lei, encontrando-se, por isso, cada vez menos no estado de separatismo – qualidade dos involuídos que os deixa sozinhos e abandonados, entregues apenas aos seus recursos individuais – e cada vez mais no estado de unificação, qualidade dos evoluídos, que os funde no organismo universal, permitindo-lhes desse modo utilizar os seus recursos e os meios de defesa. O homem não entende que a Lei é viva e representa um pensamento querendo manifestarse, estando sempre pronta a entrar em ação, tão logo o ser, com os seus movimentos, ative o seu funcionamento. A Lei atua em relação a tais movimentos, sendo estes dependentes da natureza do indivíduo, que é, por sua vez, consequência da posição ocupada por ele na escala da evolução. É lógico então que a lei feroz da seleção do mais forte no plano físico funcione só no plano animal-humano, no seio da biologia desse nível, ao passo que outra lei, aquela de harmonia e de justiça, funcione num plano superior, no seio da biologia desse outro nível. Assim, verifica-se que, no plano inferior, quem é julgado o melhor (o mais forte, vencedor) torna-se o pior no plano superior (o rebelde à ordem, delinquente), enquanto no plano inferior, quem é julgado o pior (o homem bom e honesto, julgado fraco) torna-se no plano superior o melhor (o mais forte, vencedor, porque defendido pela Lei). A Lei apenas aceita o método da luta pela seleção do mais forte nos níveis inferiores, onde tal método representa uma defesa da vida. Mas tudo se transforma na evolução do AS para o S, inclusive o método de defesa, que deixa de ser representado pela supremacia bestial de um indivíduo sobre outro, como convém num mundo em estado de caos, para se constituir numa posição de obediência na ordem, como convém num mundo que atingiu o estado orgânico, onde os impulsos inimigos (AS) chegaram, através de tanta luta, a coordenar-se em harmonia (S).

Eis a técnica do fenômeno. Como se diz em palavras simples, Deus defende com a sua justiça os honestos, que o mundo condena e persegue. Deus protege quem Lhe obedece. Quem observa a Sua lei, está defendido por Ele. A arma para salvar os honestos está na defesa proporcionada por Deus, na qual se encontra o grande poder dos que abandonaram as armas da força e da astúcia. Isto é importante, sobretudo com relação ao tema que estamos tratando aqui, a ética, porque aqueles julgados os mais fracos pelo mundo podem, de fato, com tal jogo de elementos, tornar-se os mais fortes. E isso acontece devido à existência de uma lei positiva que rege a vida e que está sempre pronta para funcionar, tão logo o indivíduo se coloque nas devidas condições. Tudo isto está escrito na Lei, que representa o pensamento de Deus e a Sua vontade para realizá-lo. Assim, essa lei é formada não apenas pelos princípios que dirigem os caminhos da vida, mas também pelos impulsos que realizam estes princípios. Essa lei foi escrita por Deus no funcionamento do universo, através da Sua criação, e toda a fenomenologia a cumpre. Tudo e todos têm de obedecer à Lei, se não lhe querem sofrer as reações. Mas o primeiro a obedecer – e eis a grande maravilha – é o próprio Deus, que, assim, apenas obedece livremente à Sua própria vontade, por Ele codificada na Sua lei. Ora, obedecer a si mesmo não é obedecer, mas sim mandar. É por essa obediência de Deus, que o ser tem o mesmo dever de obediência dentro da mesma ordem universal, que não admite ser violada pela vontade descontrolada do arbítrio de Deus. Perante a Sua ordem, isso não representaria liberdade, mas sim violação e erro. Ora, essa violação pode suceder com o ser, que por essa culpa terá de pagar (assim se redimindo), mas não é possível em Deus, pois Ele não pode errar. A Lei, então, representa não somente um princípio de ordem universal inviolável, mas também um compromisso entre o Criador e a criatura, com a garantia absoluta para esta de que a Lei sempre responderá com exatidão aos movimentos do ser, consoante os princípios estabelecidos e em proporção ao merecimento do ser. Esta conclusão, que também diz respeito ao nosso atual tema da ética, é de grande importância para a nossa conduta, porque, conhecendo este fato, o indivíduo sabe que, ao cumprir o seu dever de obediência à Lei, ele tem o direito de receber em troca uma ajuda para defendê-lo. Esse é o princípio pelo qual funciona a Providência de Deus. O real apoio do homem honesto, condenado pelo mundo, é a certeza de que Deus, acima de todos, também respeita a Sua lei, merecendo por isso toda a confiança. Há também outra razão em que nos podemos apoiar para ter essa confiança, e ela está na segurança que nos vem dos resultados, necessária para nos resolvermos a praticar todos os sacrifícios da obediência e o esforço de uma conduta correta. A ideia a respeito de Deus oferecida a nós pelas religiões é a de que Ele criou o universo, tirando-o do nada ou do caos. Mas, depois de haver estabelecido a Sua ordem, Ele ter-se-ia ausentado para os céus, ficando a olhar lá de longe a Sua obra, sem tomar parte ativa no seu funcionamento. Ora, queremos aqui salientar que nada é mais absurdo do que essa ideia da ausência de Deus, a qual permite imaginá-Lo afastado, longínquo e, assim, mais facilmente ludibriável, quando, na verdade, a lógica exige e tudo nos fala da Sua presença viva e contínua entre nós no funcionamento orgânico do todo, dirigindo tudo de perto, vigiando, controlando, velando e realizando. Este fato acarreta importantes consequências no terreno da ética, porque um Deus tão próximo penetra toda a nossa vida por dentro e por fora, constituindo uma atmosfera em que todos estamos mergulhados e todos respiramos, da qual não há possibilidade de nos separarmos. Trata-se de um Deus que está conosco em todo lugar e a toda hora, inclusive fora dos templos, em meio à nossa vida de lutas; um Deus independente de seus ministros, o que elimina a possibilidade de enganá-Lo. ◘◘◘

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Há, portanto, duas maneiras de se conceber Deus, das quais derivam dois métodos de pensar e de viver, duas éticas diferentes, filhas de dois tipos de religião: a do homem atual, ainda involuído, correspondente à sua forma mental de primitivo, e a do evoluído, super-homem do futuro, correspondente a uma forma mental completamente diferente. No primeiro caso, o homem concebe Deus antropomorficamente à sua imagem e semelhança, rebaixando-O até ao seu nível humano, sujeitando-O à sua lei de luta e tratando-O com o seu método de astúcia e psicologia de engano, com que costuma enfrentar os seus semelhantes. No segundo caso, o homem, possuindo outra forma mental, concebe Deus como um ser que está acima das leis do plano humano e das suas maneiras de pensar e agir. Trata-O, por conseguinte, com absoluta sinceridade e confiança, adotando um método completamente diferente, apoiado na honestidade, no merecimento e na justiça. Não se trata aqui das aparências costumeiras, que o mundo desejaria tomar por verdades, nem tão pouco das exterioridades apresentadas pelas doutrinas das religiões. Estamos falando da substância vivida nos fatos, e não das éticas pregadas. Falamos daquilo que o homem de fato é, pensa e faz, sendo isso a única coisa que interessa e vale. O que de fato existe no mundo, então, são dois tipos de religião: a vigente, filha do passado, e outra, que antecipa o futuro. Ambas correspondem a dois níveis de evolução e são consequência da forma mental e das leis que regem a vida do involuído e do evoluído. Isso se deve ao fato de ser o homem uma criatura em evolução, ou seja, em estado de transformismo, pelo qual, ao lado do velho, que está morrendo, aparece e existe o novo, que está nascendo. Esta é a razão para existirem duas verdades diferentes, aparentemente contraditórias, mas que não passam de posições mais ou menos adiantadas ao longo do mesmo caminho da evolução. São momentos sucessivos da mesma lei, que está sendo cumprida por seres pertencentes a dois níveis biológicos sucessivos, um acima do outro. De cada uma dessas duas verdades deriva, coexistindo lado a lado, uma ética específica correspondente: a inferior, praticada pela maioria involuída, e a outra, que, sendo exceção à regra comum, é seguida por uma minoria de evoluídos. Isto é apenas uma constatação de fatos, feita sem a intenção de condenar ou reformar. Com efeito, nada pode ser feito neste sentido por um homem ou um grupo, mas somente pelas poderosas e sábias forças da vida, que se manifestam nos grandes acontecimentos históricos, tratando-se de profundos amadurecimentos biológicos. E os honestos deste mundo são poucos demais para formar um grupo poderoso, além de não possuírem as qualidades de agressividade necessárias para vencer no terreno animal-humano. Quem segue o método evangélico da não-resistência foge da luta e, consequentemente, não pratica qualquer forma de imposição de ideais, condição que implica em ter de respeitar a ignorância na qual o próximo, pronto a lutar para defendê-la, permanece fechado. Quem não aceita o método da luta tem de repudiá-lo, mesmo quando não haja outro meio para tirar a cegueira aos cegos, rendendo-se a deixá-los ser como quiserem ser. O que desejamos fazer aqui é apenas indicar àqueles poucos indivíduos inteligentes as tristes consequências do método hoje em vigor, explicar-lhes como, comparado ao que merece, são poucas as dores do mundo; fazê-los ver que é a Lei, e não o homem, que manda; mostrar-lhes que é a dor que ensina, fazendo isto com fatos, e não com palavras, deixando cada um acreditar e pregar à vontade, mas fazendo-o pagar sempre como merece. Não há, pois, necessidade de impor à força ideias ou até mesmo a salvação, já que isso excita o instinto de agressividade, provocando reação e luta, o que é um convite para a animalidade funcionar. Para que incomodar a fera com sábias pregações, quando ela se ofende em ouvi-las e se revolta contra elas? Para que isto, quando, nas mãos da Lei, está pronta a lição

do sofrimento, para ensinar tão bem o que ninguém pode deixar de aprender? A verdadeira ética não depende do homem, mas de Deus. Ela está acima de tudo e de todos, escrita na Lei e dentro da própria natureza das coisas, razão pela qual não se pode fugir-lhe. Então, por que lutar contra os inferiores, se isto serve apenas para excitar neles a ofensa e os artifícios do engano? Por que lutar para que eles entendam, se, pelo seu nível evolutivo, não podem entender? Por que forçar a sua evolução, se o progresso é fatal e se apenas Deus tem o poder de impulsioná-los para frente? Por que, se a nossa pregação da verdade gera na sua forma mental apenas uma procura por escapatórias? Por que, se de fato não se atinge no mundo uma verdade única e total, mas apenas uma disputa entre verdades e religiões, cada uma considerando-se como absoluta e em luta para destruir as outras? Por que nos substituirmos à sabedoria de Deus, quando a correção de todo erro é automática e a dor é o grande mestre, sempre pronto a nos colocar no caminho certo? Nada mais podemos fazer senão explicar, aos que têm ouvidos para ouvir e inteligência para entender, os imensos prejuízos que derivam da ética hoje vigorante. O atual sistema de insinceridade tem o mesmo valor daquele utilizado tanto pelo patrão capitalista que explora os operários, pagando-lhes o menos possível, como pelo operário que, buscando uma compensação, procura explorar o patrão, trabalhando pouco e da pior maneira possível. Que rendimento pode dar um sistema de enganos e atritos recíprocos, quando a energia tem de ser desperdiçada nessa luta para se explorarem um ao outro? Mas é recolhendo os tristes resultados desse método, que se acaba entendendo quão pouco ele seja rendoso, o que impulsiona a escolher outro, sem tais rivalidades e atritos, até se atingir um estado de colaboração, que representa a maior vantagem para todos. O mesmo acontece, como já vimos, no caso do método empregado tanto pela casta sacerdotal, que, do seu lado, consegue ficar na sua posição de domínio, empregando a ameaça do inferno e a promessa do paraíso, como pela massa de seguidores, que acredita apenas no seu interesse e busca se compensar, enganando a Deus e seus ministros, com a execução somente de práticas exteriores, pensando ganhar com elas a salvação. Chega-se assim a uma religião às avessas, onde se satisfazem os instintos inferiores e se aprende a arte da mentira. Tal método, porém, pelos muitos sofrimentos que gera para todos, persiste apenas enquanto eles não aprendem um outro, menos prejudicial – que, sem praticar enganos, não termine no engano – apoiado na sinceridade com Deus e consigo mesmo. Esta é a religião para a qual o impulso do progresso e a escola de tão duras experiências terá de levar o homem. Religião do futuro, mais livre, porém sem possibilidade de enganos; imaterial, mas inflexível, e não mais flexível como as atuais. Ela não quer destruir as antigas, e sim insuflar no seu cárcere de forma material, com o qual elas se estão fundindo e confundindo, um novo sopro espiritual, para rejuvenescê-las e vivificálas, libertando-as o mais possível daquela forma, que, quando se troca o vaso pelo conteúdo, representa um perigo. Trata-se de um progresso que nos aproxima mais do verdadeiro conceito de Deus. Isto quer dizer conquistar uma posição mais adiantada no caminho da evolução e, por isso, mais poderosa e perfeita, porque mais próxima do S. É estranho, porém, que as religiões atuais considerem tal progresso uma ameaça e prefiram ficar cristalizadas nas suas velhas formas, o que é morte, ao invés de correr ao encontro da vida, renovando-se. Avaliado com as velhas unidades de medida, quem procura a renovação é julgado irreligioso, rebelde, herético e, como tal, é condenado. E os conservadores não entendem que esses indivíduos aparentemente revolucionários não trabalham para destruir o velho, mas sim para salvá-lo, porque a vida está no movimento e na renovação. Quem estaciona a fim de se conservar, envelhece e morre. Sobretudo nas

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horas das mais rápidas mudanças biológicas, como a atual, quem não as segue acaba ficando abandonado para trás, morto no túmulo do passado. E, pela lei da evolução, o novo está destinado a arrombar mais cedo ou mais tarde as portas fechadas de todas as resistências. Os julgados revolucionários não são destruidores, mas sim construtores, para que amanhã, das ruínas das velhas religiões, que estão desmoronando juntamente com os respectivos sistemas éticos nelas apoiados, alguma coisa de firme e seguro permaneça no mundo, para orientar positivamente o homem do futuro e dirigir com clareza e honestidade a sua conduta. A atual falta de fé, constatada no fato de não se tomar mais a sério as coisas de Deus – não importa se disfarçado atrás de aparências formais – representa um grave perigo que ameaça as religiões atuais, anquilosadas na sua imobilidade, num momento em que todo o pensamento da humanidade está em crise e renovandose. A ciência não soube substituí-las por nada e, portanto, não pode dirigir o homem. Ir à Lua ou a outros planetas não orienta o homem na sua conduta, deixando assim sem solução o problema individual e o social. O homem permanece uma fera, porém armada de recursos terríveis. Sobre a cabeça dos povos que conseguem engordar no bem-estar está suspensa por um fio a espada de Dámocles, ameaçando uma guerra destruidora da humanidade e da sua civilização. Se nestes livros procuramos explicar tudo, encarando e resolvendo os maiores problemas, a fim de dar uma resposta hoje ausente, isto não é com a finalidade de criar uma nova teologia para substituir as antigas, mas sim para lhes dar um conteúdo positivo, demonstrado, de cuja lógica a razão não possa fugir, cumprindo a função não de atingir abstrações filosóficas, mas de chegar a conclusões práticas, para uma conduta correta, tendo por base princípios claramente definidos e convincentes. O que procuramos é uma religião capaz de, sem permitir escapatórias, levar o homem a uma ética que, pela sua justiça evidente, tenha o direito de impor o cumprimento dos deveres exigidos por ela, porque se baseia na realidade da vida, e não em abstrações teóricas, situadas fora dessa realidade e, por isso, entendidas por poucos. Perante uma religião inteiramente demonstrada e a natural ética decorrente dela, formando um conjunto que explica positivamente as consequências fatais de cada ato nosso, com as quais cada erro tem de ser pago, não é possível ficar neutro nem há lugar para a hodierna indiferença. Acreditamos que só assim é possível vencer esse inimigo mortal de toda espiritualidade, que inicia a decomposição final das religiões e preludia a sua morte. O que desejamos esclarecer é que não se trata de agressividade destruidora, mas sim de uma desesperada tentativa de aplicar uma injeção vital, para salvar da velhice da forma os valores eternos. Quando estes vão caindo, então as religiões – porque lhes falta a substância e nada mais resta senão o ceticismo – adoecem e, esvaziadas de todo o conteúdo vital, ficam ameaçadas de morte. O que de fato prevalece hoje é o materialismo religioso, dado por uma aparência formal de religião, praticamente ateia na substância, representando esta a última fase da decadência. Na Idade Média, os problemas religiosos eram percebidos vivos, e os homens lutavam naquele terreno. Hoje tais problemas não interessam mais. O mundo voltou-lhes as costas, para tomar a sério os problemas da ciência, a única fonte que parece oferecer um resultado capaz de satisfazer as exigências da mente moderna. Como ninguém agride um morto, assim as religiões saíram do terreno da luta, que é o terreno da vida. Quanto mais a mente se desenvolve, tanto mais o homem se torna exigente em querer conhecer as razões pelas quais ele tem de se conduzir de uma dada maneira, suportando os respectivos deveres e sacrifícios. Desponta então um espírito crítico e uma autonomia de juízo que não permitem mais a aceitação cega das ideias simplistas do passado, impostas por sugestão ou princípio

de autoridade. Assim, aparece o hábito do controle analítico das coisas e ideias, pelo qual, se o indivíduo se apercebe que os ideais proclamados não correspondem à realidade dos fatos e às exigências da vida, então os repele. Quando, com a psicanálise, começa-se a controlar a natureza subconsciente – onde estão as raízes de nossas ações – de tantos dos nossos impulsos secretos, aos quais, no passado, o homem obedecia inconscientemente, como uma verdade absoluta, então não é mais fácil convencer e obter obediência. Os pilares da velha lógica não se sustentam mais, porque está mudando por evolução a forma mental humana. Mas, se neles se baseia o edifício dos princípios que dirigem a nossa conduta, eis que esta fica sem alicerces, e o edifício todo ameaça cair. Então os que são intelectual e espiritualmente mais fortes começam a pensar com a sua própria cabeça, dirigindo-se por si mesmos e assumindo sinceramente, perante Deus, as suas responsabilidades. Eles são condenados como rebeldes por saírem das fileiras, o que é escândalo. Mas quem tem uma cabeça não pode deixar de usá-la para pensar, nem pode cortá-la num suicídio espiritual, que é a renúncia ao conhecimento. Quanto mais a evolução produz tal tipo de homem, tanto mais se torna contraproducente para as religiões o velho método absolutista. Concordar somente numa base de recíproca utilidade, que é o princípio da troca já visto por nós, não pode ser vantajoso, porque não é seguro para durar, nem sólido para construir. A evolução nunca para neste seu trabalho, lento mas constante, de amadurecimento da forma mental humana. Chega-se assim a uma nova maneira de se conceber e se orientar com uma nova psicologia, o que significa dirigir-se com uma ética e método de conduta diferentes. O ser aprende então que, para além de todas as formas exteriores, há uma realidade interior independente delas, representada pela existência da mente diretora de tudo, Deus, que fixou o Seu pensamento e a Sua vontade de realização na Sua lei. Deus está assim sempre presente, imanente em nosso universo, e, por essa Sua presença, o ser existe mergulhado e fundido Nele, que, representando o princípio da própria existência, sustenta e anima tudo. Trata-se de um Deus do qual ninguém pode sair e do qual nada se pode esconder. Um Deus vivo ao nosso lado e presente a toda hora, com a Sua inteligência e atividade. Quanto mais o ser é evoluído, tanto mais ele se torna consciente dessa presença e vive em contato direto com Deus, fundindo-se na Sua vontade e tornando-se assim, ao contrário da criatura egocêntrica e rebelde, Seu fiel instrumento. Um fato assim tão fundamental orienta de maneira completamente diferente a vida, que se torna outra coisa. Então o ser se faz consciente do funcionamento orgânico do todo, dos princípios que o regem e da tarefa que lhe cabe realizar. Ele compreende a lógica do plano divino na direção tudo e percebe que a sua maior vantagem está em segui-lo. Profundamente convencido disto, ele julga loucura o espírito de revolta do homem atual e, espontaneamente, coloca-se na ordem, para obedecer à sabedoria da Lei. ◘◘◘ Dessa nova maneira de conceber decorrem consequências importantes. Antes de tudo, o ser atinge um conceito completamente diferente de Deus, da religião e da ética. Ao princípio antropomórfico do sistema hierárquico se substitui o princípio superior do sistema de tipo unitário. Neste, a criatura não é mais um súdito sujeito à vontade de um rei que se colocou em cima de uma hierarquia de dependentes, perante o qual o indivíduo não tem outro direito a não ser obedecer à lei que o rei quer e faz, transmitida por intermédio dos seus ministros, que o representam, mandando em nome dele. A tal conceito, completamente humano, que é a reprodução da condição encontrada em nosso atual nível biológico, substitui-se outro, de um estado orgânico, segundo o qual a criatura é uma célula do todo, nele harmonicamente fundida numa ordem superior, ou seja, na Lei, que, com justiça imparcial, tudo dirige e domina. A po-

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sição natural do ser não é, então, de automática rebeldia – à qual o rebelde é levado pelo fato de seus interesses, como acontece na sociedade humana, não serem os mesmos do chefe, que manda apenas porque venceu como o mais forte – mas, pelo contrário, é de espontânea obediência, porque esta é a condição da sua maior vantagem. E é lógico que seja assim, porque o conteúdo de um plano evolutivo superior não pode ser senão de tipo unitário, como é o S, do qual aquele plano está mais próximo, e porque o conteúdo de um plano evolutivo inferior, como o humano, não pode ser senão de tipo egocêntrico separatista, como é o AS, do qual este plano está mais próximo. União, fusão, eis a psicologia de quem atingiu a forma mental superior, que está nos antípodas da psicologia egocêntrica, de oposição a tudo e a todos, dividindo em vez de unificar. Trata-se de duas formas opostas de pensamentos e de existência. De tudo isto decorre uma diferente forma de conceber e realizar as relações sociais. O indivíduo, então, não é mais um rival do seu semelhante, em luta contra ele, num regime de inimizade, guerra e atritos, mas é seu amigo, num regime de compreensão, paz e colaboração. Tudo isto representa uma grande mudança nas atuais condições da sociedade humana e será a revolução que transformará um mundo de feras num mundo de seres conscientes e civilizados. Tudo isto é diferente da ética e das religiões em vigor. Diferente não do que elas pregam e sustentam em teoria, mas sim do que a maioria faz na prática, devido à natureza involuída do homem atual, que, com sua forma mental, não sabe sair do seu plano e concebe tudo antropomorficamente, reproduzindo o que ele vê acontecer na Terra. A culpa, então, não é das religiões, mas do homem ainda não evoluído, que não sabe pensar de outro modo. Para ele, são necessárias as formas exteriores, os absolutismos dogmáticos, o espírito de grupo para condenar todos os que se encontram fora dele, a exclusividade da verdade, a coligação de interesses, um Deus atingível só através dos seus representantes materiais, bem visíveis e concretos, o terror do dano (inferno) e a cobiça da vantagem (paraíso), sem o que tudo cairia no abuso. Trata-se, então, dada a natureza humana, de um método indispensável, de um mal necessário, pois não se pode permitir liberdade às massas ignorantes, que, não possuindo qualquer instinto de autodisciplina consciente, mas só a desordenada inconsciência dos impulsos egocêntricos individualistas, acabariam na anarquia. Se, porém, num nível superior a este, o ser atinge a consciência da Lei e da presença de Deus e, nesta consciência, encontra a autodisciplina que dirige a sua conduta, tudo o que é produto daquela necessidade prática para dominar os rebeldes com o medo da pena e o desejo do prêmio, como agora mencionávamos, não é mais necessário e, pelo fato de não ter mais razão para existir, tem de desaparecer. Não há mais nada que justifique tais métodos, quando o ser conhece a sua posição no todo e obedece a Deus com toda a liberdade, por convicção, sem precisar de ser constrangido, porque sabe que obedecer à Lei representa a sua maior vantagem. Esse novo tipo de ética representa a maioridade das religiões, que a nova civilização do III Milênio alcançará. Poderão assim desaparecer por evolução os pontos fracos que vimos a respeito das religiões atuais. Numa religião clara e visível, positiva e racionalmente demonstrada, sem nuvens de mistério, não há mais lugar para enganos. Perante um Deus que a mente concebe verdadeiramente presente, e não só em teoria, não terá mais sentido desenvolver a arte das escapatórias. Quando não houver mais comando praticado com a psicologia de patrão, não haverá mais razão para a revolta que nasce no coração da criatura. Para que então desobedecer a Deus, quando a mente entendeu que isto é absurdo e prejudicial, uma vez que rebelar-se quer dizer ferir-se com as próprias mãos? Quem não procura a sua vantagem e não quer

fugir do seu dano? Ninguém pode ir contra a sua própria vida. O problema é só um: chegar a compreender quão contraproducente é o atual método da conduta humana. Quando o homem entender a conveniência de ser honesto, ele só não fará o que mais lhe convém, se for louco. Apesar de tudo, muitos quereriam ficar parados, descansando nas velhas posições do passado, poupando-se ao trabalho de progredir. Mas a evolução não os deixa em paz, impulsionandoos irresistivelmente para frente. O homem, aos poucos, irá assim entendendo cada vez mais, até se aperceber quão mais satisfatória é uma conduta livre, com a obediência espontânea, dirigida pelo conhecimento e pela convicção, em vez de uma disciplina imposta à força, pelo terror da punição. A isto levará a evolução, o que significa afastar-se do AS e de suas características, para aproximar-se do S, isto é, de Deus. É assim que Ele se aproxima de nós, e nós Dele. É uma sensação deslumbrante a percepção dessa presença. É maravilhoso poder absorver a Sua potência vital, observando o pensamento Dele escrito na Sua lei e lendo esse livro, onde estão os princípios que dirigem a vida de tudo o que existe. Ele representa a atmosfera dinâmica e conceptual que respiramos em todos os momento e lugares, circulando ao nosso redor, penetrando-nos e enchendo-nos por dentro. Que esplendor não ter de imaginar Deus afastado, longínquo nos céus, mas poder senti-lo vivo entre nós, trabalhando ao nosso lado, ajudando-nos em nossa luta para evoluir, com o Seu imenso poder, bondade e sabedoria! Não pode deixar assim de acabar por si mesmo o jogo interesseiro para nos assegurar a vida futura, quando sabemos que ela está automaticamente garantida para quem a mereceu, conforme a justiça exige, e que, seja qual for a nossa astúcia, nada podemos obter, se não for merecido. A massa dos fiéis de hoje, porém, não gosta e não aceita tal verdade, porque não sabe renunciar à bela miragem que satisfaz os seus instintos, com a qual lhe parece possível realizar o sonho de receber sem pagar, de obter sem merecer. Neste nível prevalece o princípio da força e da astúcia, enquanto no nível superior domina o princípio da justiça. Nestes dois níveis biológicos, a vida se defende com armas diferentes. As primeiras são de tipo inferior, mais próximo do AS, e representam, por isso, um método involuído, de superfície, levando a uma vitória mais imediata, porém temporária, destinada a acabar na falência, porque baseada no engano, e não no merecimento. Neste caso trata-se de um edifício que tem de cair, porque, não tendo os seus alicerces nos princípios da Lei, é desequilibrado. As armas que defendem a vida no outro nível biológico são de tipo superior, mais próximo do S, e representam, por isso, um método evoluído, que trabalha na profundeza, com uma vitória em longo prazo, porém estável, que não acaba na falência, porque baseada na verdade e no merecimento. Neste caso, trata-se de um edifício que não cai, porque, tendo os seus alicerces nos princípios da Lei, é equilibrado. Chegando a esse superior plano de evolução, mudam as relações entre o ser e Deus. Nada mais de arbítrio irresponsável, pelo direito do mais forte. Tal conceito não pode existir senão na forma mental humana, em relação ao nível desta e para as finalidades do seu mundo. Chegou a hora de aplicar a psicanálise a este e outros conceitos que dominam nas religiões, para ver de que impulsos do subconsciente eles nasceram. É absurdo que, mais no alto, domine a mesma desordem e espírito de prepotência reinante no nível humano. Direitos e deveres existem para todos, escritos na Lei. E Deus é o primeiro que dá o bom exemplo de obediência à Lei. Se imaginarmos Deus igual a um chefe humano que pode fazer tudo com o seu arbítrio, então o ser estará, justamente por isso, autorizado a agir da mesma forma, tendo o direito de fazer perante Deus, como de fato acontece, o que fazem os súditos humanos, que procuram, com o engano, evadir-se da lei do mais forte.

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É lógico que, em dois níveis biológicos diferentes, seja diverso o conceito de Deus. A concepção antropomórfica do arbítrio descontrolado tem de desaparecer no nível superior, porque aí, onde reina uma ordem preestabelecida e perfeita, ela se torna absurda. Isto não ofende a liberdade de Deus, pois quem obedece à sua própria vontade não é escravo. A primeira concepção se baseia, de um lado, no princípio da força, que em nosso mundo constitui o direito do patrão, e, do outro, como reação correspondente, no princípio da astúcia, que a criatura utiliza para exercer o seu equivalente direito à vida, porquanto este é comum a todos. A segunda concepção não se baseia mais em tal princípio de antagonismos e rivalidades, pelo qual o mais fraco tem de obedecer ao mais forte, mas sim num princípio de equilíbrio estável e de justiça, representado pela reciprocidade dos direitos e deveres. Temos assim uma ordem perfeita para ambos os termos do binômio: Deus e criatura. O conceito de arbítrio está ligado ao de ignorância, tentativa, escolha entre opostos, dualismo, egocentrismo individualista, desordem, imperfeição, e nada disto é compatível com a perfeição de Deus. Em um nível superior, o ser sabe com clareza o que ele deve fazer, tendo certeza de poder contar com a Lei, que lhe permite calcular os efeitos das suas ações. A palavra obediência toma outro significado neste nível superior. Nos planos inferiores, o egocentrismo individualista divide e a obediência significa escravidão perante uma vontade inimiga. Nos planos superiores, a obediência do ser representa concordar e harmonizar-se com os princípios que regem a própria vida dele, para sua maior vantagem. Mas ser constrangido à obediência para realizar o próprio bem não é obedecer, mas sim realizar plenamente a própria vontade. A diferença entre os dois níveis está no fato de que, nos planos inferiores, prevalece o antagonismo, o qual divide os seres entre si e contra Deus, tornando a obediência uma opressão antivital, enquanto, nos planos superiores, tudo isto desaparece numa unidade na qual os seres se fundem entre si e com Deus, numa só vontade, dirigida para a mesma finalidade de bem, o que transforma a obediência em elemento vital. No segundo caso, então, a obediência não significa, como acontece com os patrões terrenos, que Deus esmaga a criatura sua escrava, mas sim que Ele a ajuda, dignifica e respeita nela a Si próprio, todos colaborando juntos para o bem e a felicidade de cada um. Antes de ter o dever de obedecer, o ser tem o direito de saber em proporção ao seu merecimento, desenvolvendo com o seu esforço a sua capacidade de entendimento. E Deus quer que a desenvolvamos sempre mais, para entender cada vez melhor. Ai de quem adormece por preguiça na fé cega, sustentando que tudo já foi resolvido e é conhecido! A obediência será tanto mais perfeita quanto mais perfeito for o conhecimento. Quanto mais este se desenvolve, tanto mais o ser entende que é sua vantagem obedecer, fundindo a sua vontade com a de Deus, que só quer o bem da criatura. E esta fusão pode ser realizada, uma vez que, subindo, desaparecem os egocentrismos separatistas dos rebeldes, levando os seres a se coordenarem e organizarem dentro do único egocentrismo de Deus. Então, o maior desejo e satisfação é fazer a vontade do Pai, com a qual a nossa vontade se funde, tornando-se uma só, porque Ele quer o que nós mais desejamos, isto é, a nossa felicidade. Neste nível, não fazem mais sentido nem têm mais lugar os métodos praticados no nível atual, baseados na ideia da vingança, no terror da pena e nas astúcias para escapar à Lei. O ser pode então se movimentar com conhecimento, num regime de lógica e clareza, que lhe garante os resultados. Ele se encontra finalmente perante um Deus sobretudo inteligente, que não condena como culpa o desejo de conhecimento e que admite perguntas inteligentes, às quais responde para quem tem ouvidos. O ser sabe que tem os seus direitos e quais são eles, porque Deus escreveu tudo na Sua lei; sabe que Deus não é um pa-

trão despótico e caprichoso, como também sabe que pode contar com Ele, porque Ele, honestamente, mantém a Sua palavra. Quando se torna um justo, o ser não tem mais nada a esconder ou a temer de Deus, passando a confiar Nele. Deus, então, não é mais um inimigo a temer, como os rebeldes acham que seja, mas sim um amigo que vem ao nosso encontro para nos ajudar. Então o ser sabe que, obedecendo a Deus, pode, em nome da Sua própria justiça, reclamar perante Ele o cumprimento dela, pois ninguém mais do que Deus pode exigir respeito pela ordem estabelecida por Ele mesmo. Então cada um que tenha verdadeiramente cumprido todo o seu dever e esteja com a consciência limpa, pode dizer: “Senhor, em nome da Tua própria justiça, que procurei realizar com todas as minhas forças, defende-me para eu obter justiça neste mundo de injustiças”. A verdadeira ofensa contra Deus seria se essa justiça não fosse realizada para quem a mereceu e, assim, prevalecesse no lugar da Lei, que é a voz do S, a vontade do rebelde, que representa a voz do AS. O ser pode pecar, rebelando-se contra a vontade de Deus. Mas como pode Deus pecar, rebelando-se contra Sua própria vontade? E como pode ser culpa reclamar perante Deus que seja realizada a Sua lei, isto é, que seja feita a Sua vontade? II. EVOLUÇÃO DA ÉTICA O problema da ética é fundamental no fenômeno evolutivo, que é o maior do universo. Daí a sua extraordinária importância. A ética é fundamental porque representa a norma que dirige a nossa evolução, ensinando-nos o caminho que nos leva à salvação. Ela contém a regra de vida que, praticada, leva o ser cada vez mais a se aproximar do seu estado perfeito de origem, no qual ele se encontrava no S, antes da queda. A importância da ética é fundamental, porque ela está conexa com a Lei, representando a expressão direta dela, da qual enuncia o pensamento e manifesta a vontade a respeito da conduta do homem, dentro dos limites que ele pode entender e praticar em relação à sua posição ao longo da escala evolutiva. É por isso que encontramos éticas relativas e progressivas, como também relativa e progressiva é toda verdade conquistada pelo ser na sua subida, em proporção ao conhecimento da Lei por ele atingido, somente em função do qual a ética relativa pode ser entendida e praticada. Seria, por isso, interessante fazer um estudo da contínua transformação evolutiva das verdades declaradas absolutas pelas religiões. Temos de lembrar que, em qualquer tempo ou lugar, cada fenômeno – portanto também a própria existência – não pode ser entendido senão como um vir-a-ser e que, assim, o ser não pode estar situado senão dentro desse universal transformismo evolutivo nem pode viver senão em função dele. É por isso que a cada nível biológico corresponde uma ética relativa, ou moral de conduta, a qual se transforma tão logo o ser suba a um nível de evolução mais adiantado. Eis como nasce e se justifica o conceito, a ser desenvolvido por nós agora, de uma ética atual, inferior, que chamamos do involuído, e de uma ética futura, mais adiantada, que chamamos do evoluído. Vemos ambas existindo em nossa humanidade, em luta entre si: a ética da teoria e a da prática; a do Evangelho, que quer instaurar na Terra o reino de Deus, e a do mundo, que, feita de cobiça e destruição, quer continuar. Mas somente com esses conceitos se pode explicar a convivência de duas éticas em contradição, em luta uma contra a outra. Isto se deve ao fato de, atualmente, a humanidade se encontrar numa fase de transição evolutiva, que vai de um plano biológico para outro, condição pela qual, em nosso mundo, podemos hoje ver coexistir a velha ética do animal, ainda não extinta, ao lado da nova ética super-humana, que se vai afirmando cada vez mais. Podemos assim entender esse fenômeno à semelhança da luta que se verifica entre a luz e as trevas na alvorada, ambas exis-

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tindo no mesmo tempo e lugar. É por isso que enfrentamos aqui o problema da ética nesta forma dupla, pois este é o aspecto assumido por ela em nosso mundo. Qual é então a diferença entre as duas éticas? Tomamos como pontos de referência os máximos do universo: o S e o AS. O que nos permite julgar uma ética, oferecendo-nos a unidade de medida do seu valor, é a sua posição ao longo da escala da evolução. A ética do involuído é mais próxima do AS e das suas qualidades, portanto mais afastado do S e das qualidades deste. A ética do evoluído, por sua vez, é mais afastada do AS e das suas qualidades, portanto mais próxima do S e das qualidades deste. As qualidades da primeira, como já vimos, são do tipo negativo, com todas as consequências que derivam disto. As qualidades da segunda são do tipo positivo, com os correspondentes resultados. A ética representa a sabedoria que o ser, com o seu esforço, conquistou no caminho da sua evolução, que o leva para a salvação, com o regresso ao S. Sendo diferente conforme o plano de vida atingido, esta sabedoria constitui o resultado de experimentações realizadas e lições aprendidas através do sofrimento, por meio de tentativas progressivas e aproximações cada vez maiores para conhecer e atuar em obediência à Lei, até chegar à perfeita coincidência com ela, no S. É assim que, quanto mais o ser sobe, tanto mais perfeita se torna a sua ética, porque ela tanto mais concorda e coincide com a Lei. A ética completa e perfeita é a que se encontra em toda a sua pureza no S. Eis então que o fenômeno da ética, como todos os fenômenos, está sujeito ao processo evolutivo. Mas por que e de que modo acontece isto? No estado orgânico original do S, como já explicamos em nosso livro O Sistema, cada ser estava fechado entre limites estabelecidos de conhecimento, em relação à função que lhe pertencia realizar no organismo do todo. A revolta consistiu na tentativa de sair e subir acima desses limites, tal como se uma célula de tecido muscular quisesse tornar-se uma célula de tecido mais nobre, de tipo nervoso ou cerebral. Quando o ser se desloca da posição estabelecida para ele por Deus, isto significa rebelião com objetivo de destruir a ordem universal. Mas tal ordem havia sido escrita e fixada por Deus na Sua lei, sem possibilidade de destruição, acima de qualquer tentativa de desordem. Aconteceu então que a desordem permaneceu fechada dentro da ordem e, assim, limitada e disciplinada pela Lei, acabou sendo canalizada num caminho bem definido, constituído pelo ciclo involução-evolução. O resultado da revolta foi, então, que o ser, ao invés de emborcar a Lei e a ordem, para se substituir a elas, terminou por emborcar-se a si próprio, semeando a desordem somente para si, dentro da ordem, que, no seu conjunto, permaneceu inviolável e inviolada. A Lei, ao invés de ser quebrada, permaneceu, pelo contrário, firme e reagiu. O resultado foi, então, o contrário do previsto, fazendo a revolta cair toda em cima do rebelde. Vemos assim vigorar o princípio pelo qual, se a causa gera o efeito, este tem de voltar a ela, que é o seu ponto de partida. Este é o princípio com base no qual podemos afirmar que, quando alguém faz o bem ou o mal, ele o faz a si próprio. É por isso que o caso mencionado nos últimos capítulos de nosso livro Queda e Salvação, desenvolveu-se depois nos fatos, exatamente conforme a teoria ali enunciada, e o agressor ficou preso dentro da sua própria rede, porque todo o mal que tinha lançado voltou contra ele, por força da Lei. Foi assim que, à expansão procurada pelos espíritos contra os equilíbrios da Lei, na grande revolta, seguiu-se uma correspondente contração; à saída fora dos limites correspondeu uma compressão dentro dos limites. Foi assim que à pretensão de uma sabedoria fora da medida estabelecida seguiu-se a ignorância. Mas eis que esta tem de voltar ao seu ponto de partida, que foi a sabedoria, assim como o período de afastamento do S, ou descida involutiva, tem de ser contrabalançado por um correspondente e inverso período de aproximação do S, ou subida

evolutiva redentora. Foi assim que, pelo fato de buscar uma demasiada sabedoria, o ser automaticamente se condenou à ignorância, ficando por esta qualidade do AS – da qual derivam todos os males, pois não saber significa errar – condenado à dor, que, sendo consequência do erro, representa no período evolutivo o meio utilizado pela técnica da redenção para levar à salvação. Todo esse processo já estava potencialmente contido na Lei e, tão logo o ser, pela sua livre vontade, quis movimentálo, desenvolveu-se automática e irresistivelmente, como uma desintegração atômica em cadeia. Assim, aconteceu que, chegando ao ponto final da involução, no AS, que representa a plenitude da realização do plano da revolta, o ser, em vez de se encontrar no estado desejado de sabedoria e felicidade máximos, encontrou-se na condição de ignorância e sofrimento máximos. O plano, como é lógico, pois não podia acontecer de outro modo, tinha fracassado, emborcando-se na insatisfação, mal este saudável, porque, como automática correção do erro da revolta, constituiu-se no remédio para a doença, uma vez que o tormento da insatisfação, cravado no ser como um irresistível e instintivo anseio de libertação da dor, é o maior impulso para o progresso no caminho da evolução. Ocorre que, se o período da descida involutiva foi de criação da dor, o da subida evolutiva representa o período de destruição da dor; se o primeiro foi de destruição da sabedoria e de criação da ignorância, o segundo é de reconstrução da sabedoria e de destruição da ignorância. Isto quer dizer endireitar na obediência a desobediência, em que ela se havia emborcado com a revolta. É assim que se realiza todo o ciclo de ida e volta, por esses momentos sucessivos, consequência um do outro: 1) A sabedoria e a felicidade no S (ponto de partida); 2) A revolta do ser; 3) A sua ignorância; 4) Os seus erros, com sofrimento máximo na plenitude do AS. Aqui acaba o caminho da descida e inicia-se o oposto, da subida: 1) A ignorância e o sofrimento no AS (ponto de partida para o retorno); 2) A eliminação do erro pela escola da dor; 3) A eliminação da ignorância e a reconstrução da sabedoria; 4) O regresso, com a sabedoria, à obediência na ordem; 5) A sabedoria e a felicidade no S, ponto de chegada final de todo o processo, que retorna ao seu ponto de partida. Tivemos de voltar aqui a este assunto, já tratado em outros dos nossos livros, para explicar o significado profundo da ética, entendida como norma relativa e progressiva que, por constantes e cada vez maiores aproximações da Lei, dirige o ser ao estado perfeito, representado por ela no final de todo o caminho. Vemos assim que, por esse processo, o ser está constrangido a conquistar de novo a sabedoria perdida, porque é atormentado pela dor, que o impulsiona a procurar libertar-se dela, e isto por tentativas, único maneira possível para quem ignora as leis da vida. Isto significa ter de descobrir com o seu esforço éticas cada vez mais adiantadas e próximas da verdade, que contém a felicidade, e cada vez mais afastadas do erro, que representa a dor. O ser deve realizar essa conquista, descobrindo novamente a verdade à sua própria custa. Foi o ser que, com a sua liberdade, escolheu o caminho da descida e quis gerar a sua dor. Então é a ele que pertence agora o trabalho de percorrer o caminho oposto de se remir pela sua dor. A Lei não pode ser protecionista. Foi o ser que, colocando-se contra ela, expulsou a si próprio do seu ambiente originário de forças positivas favoráveis, lançando-se assim num mundo de forças negativas inimigas, que agora o perseguem sem piedade e o perseguirão até que ele, pelo muito sofrer, aprenda e evolua, pagando a sua dívida perante a Lei e libertando-se dessa condenação. O ser tem de se reconstruir na sua sabedoria, porém, uma vez que não conhece o caminho certo, tem de descobri-lo por tentativas, sofrendo as consequências dolorosas de cada erro. O ser tem de encontrar onde está a porta para sair do cárcere dos seus sofrimentos, através de incontáveis tentativas, tateando as paredes como um cego e batendo contra elas a sua cabeça, até aprender de novo todo o

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conteúdo da Lei. O ser, pela sua ignorância, tem de experimentar todas as dores que se seguem a seus erros, até ter aprendido toda a lição da Lei, regra por regra, letra por letra. Falamos tudo isto para mostrar que o valor da ética está exatamente no conteúdo das normas de conduta, as quais, relativamente ao nível evolutivo atingido pelo ser, cumprem a função de iluminá-lo e dirigi-lo nas suas tentativas, para que ele, cometendo sempre menos erros, possa cada vez mais se libertar dos sofrimentos decorrentes. Em outras palavras, a ética representa o guia que nos orienta e dirige no caminho da evolução, o qual nos leva para a salvação e a felicidade. Eis o significado da ética. ◘◘◘ Deixemos agora as teorias gerais que nos explicam as razões de tais fenômenos e observemos mais de perto as suas consequências, tal como as encontramos em nossa vida prática. Agora podemos saber o que é moral ou imoral, quando e por que uma coisa é lícita ou ilícita. O ponto de referência da ética, a unidade de medida do valor positivo ou negativo das nossas ações, é a lei de Deus. Tudo o que está dentro das suas regras é bom e lícito, tudo o que está fora das suas regras é mau e ilícito. É moral tudo o que leva para o S; é imoral tudo o que pertence ao AS. É moral tudo o que, pertencendo à positividade em obediência à Lei, constrói; é imoral tudo o que, pertencendo à negatividade em desobediência à Lei, destrói. No S não existe o imoral, sendo tudo moral, positivo, conforme a Lei; no AS não existe o moral, sendo tudo imoral, negativo, contra a Lei. Foi pela cisão, devida à queda, que nasceu o dualismo dos opostos, moral e imoral, originando o conceito de anti-Lei, inexistente no S. Neste tudo é moral. Quanto mais uma ética é evoluída, tanto mais ela é moral, no sentido de que se aproxima da moral perfeita do S; quanto mais uma ética é involuída, tanto mais ela é imoral, no sentido de que se afasta da moral perfeita e se aproxima da sua negação completa no AS. Isto quer dizer que, quanto mais uma ética é evoluída, tanto mais as suas normas se afastam da animalidade para a espiritualidade, das qualidades do AS para as do S. Significa também que, quanto mais uma ética é involuída, tanto mais ela obedece aos imperativos dos instintos inferiores gravados no subconsciente, como muitas vezes acontece em nossa humanidade. Tais impulsos representam o passado, isto é, o período no qual prevaleciam no ser as qualidades do AS. Eis então que cada ser, conforme pertença a um ou outro plano de evolução, possui uma ética diferente. No plano humano, as éticas não são todas iguais, mas dependem do nível biológico do indivíduo e, consequentemente, da respectiva forma mental, com a qual ele estabelece a sua maneira de conceber a vida. A moral de que falamos aqui é aquela da qual o ser está convencido e que, por corresponder aos seus instintos e impulsos espontâneos, é de fato vivida por ele. Trata-se da moral que é realmente praticada, e não daquela oficialmente proclamada, muitas vezes professada só para melhor esconder a verdadeira conduta, bem diferente. Não nos interessam as aparências feitas para enganar, mas somente a realidade que existe atrás delas. Assim, uma vez que, em nosso mundo, o nível biológico oscila do plano do involuído ao do evoluído, a ética relativa também varia de um extremo a outro, indo do tipo involuído ao tipo evoluído. Ela vai da fera ao santo, do nível do subdesenvolvido, selvagem e feroz, ao nível do super-homem, civilizado e evangélico. A maioria se equilibra no meio destes dois extremos, com uma moral ambígua, que pretende ser do segundo tipo, embora muitas vezes, na substância, seja do primeiro. Moral anfíbia, de adaptações entre o superior e o inferior; ética de transformação, em que coexistem dois níveis de vida, com as normas de conduta do nível inferior convertendose nas do superior, que vai sendo conquistado por lentas aproximações evolutivas. Com essa ética, correspondente à sua posição biológica, a sociedade humana, pelo direito do mais forte, que a maioria possui, condena e expulsa de seu seio os mais

atrasados, que pertencem a planos de vida inferiores, e os mais adiantados, que pertencem a planos superiores ao seu. Os primeiros são afastados como delinquentes; os segundos são perseguidos como idealistas e utopistas, ou fracos e ineptos. Tais julgamentos dependem da forma mental de quem julga, conforme a sua posição ao longo da escala evolutiva. Assim, se o nosso mundo julga como imoral e condena tudo o que se encontra abaixo do seu nível biológico, os evoluídos, que pertencem a um plano de vida mais adiantado, também julgam imoral a nossa sociedade e condenam a sua maneira de pensar e agir, considerando-a primitiva e não civilizada. É assim que podemos entender o que está acontecendo em nosso mundo, chegando agora às últimas consequências das teorias já desenvolvidas, sobretudo em relação à teoria da queda, sem a qual não poderíamos ter conhecido a primeira origem desta realidade que vemos vigorar na prática, nem ter entendido o seu significado e finalidade. O conteúdo desta realidade, que salta à vista logo que o indivíduo se eleve acima do nível evolutivo da maioria, é o choque entre a ética do involuído e a do evoluído. A primeira pertence ao passado, que quer continuar a viver, mas tem de morrer; a segunda pertence ao futuro e, apesar da resistência que a outra lhe opõe, tem de vencer. É justamente por isso que o tema interessa, pois tratase da nossa regra de vida de amanhã. Para o involuído, que caiu no separatismo do AS, o ponto de referência não é o organismo do todo, em função do único centro de tudo, Deus, mas tão-somente o centro particular constituído pelo seu eu. Então a sua moral, que estabelece a medida do bem e do mal, é representada pelo seu próprio interesse. O bem, para ele, é tudo que lhe é útil, e o mal é tudo que constitui o seu dano. Por isso a lei, para ser entendida e obedecida, tem de usar o método do prêmio ou da pena. Então não é mais Deus que faz a lei universal, mas é o indivíduo que faz para si a sua lei particular. Assim, a unidade da ordem universal, estabelecida pela lei de Deus, pulverizou-se no caos das tantas leis particulares de cada indivíduo, ligadas entre si apenas no negativo, isto é, por rivalidades na luta infernal que vemos em nosso mundo. Mas tal estado de atrito e destruição recíproca significa fraqueza, enquanto a união, isto é, o estado orgânico do S, representa a força, porque a evolução, conduzindo a ele, devolve ao ser o seu poder originário, que foi sua qualidade no S. Ora, uma vez que isto é uma vantagem, o ser então, buscando gozar dela, sente-se impulsionado a abandonar o separatismo do AS, para se fundir com os outros seres na unidade do S, ficando assim, automaticamente, constrangido a evoluir. Com base nestas premissas, o problema da vida é concebido e resolvido de maneira completamente diferente, conforme o indivíduo pertença ao tipo involuído ou evoluído. Iremos observar agora o que acontece em nosso mundo a este respeito. A nossa organização social se baseia no princípio da autoridade, que representa o cume da pirâmide. A autoridade, até há pouco tempo, foi exercida em nome de Deus por quem se autonomeava Seu ministro. Isto deveria significar que a função da autoridade era aplicar na Terra os princípios de uma ética superior à do plano humano, para corrigir a força com a justiça, a mentira com a verdade, a traição com a honestidade etc., ensinando e educando o ser dessa maneira, para levantá-lo do nível biológico do involuído ao do evoluído. Só neste sentido a autoridade podia descer de Deus e ser praticada em nome Dele. E nisto os povos de boa fé acreditaram por muito tempo. Eis, porém, que, um belo dia, a sua inteligência, aguçada pelo sofrimento, conseguiu aperceber-se que a ética praticada pelos dominadores era a mesma dos súditos, aquela do próprio interesse. Entendeu então que todos lutavam no mesmo plano, pelas mesmas razões e com os mesmos métodos, e que os chefes mandavam não por direito divino ou por superioridade moral, mas pelo direito do mais forte, conquistado pelo vencedor.

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O problema da autoridade é importante, porque se trata de escolher quem manda e quem deve obedecer. Então ele foi resolvido de outra maneira. Ninguém pensa hoje que um presidente da república tenha de ser tal só porque foi consagrado por Deus, através do intermédio dos chefes das religiões. Então, desfeita a lenda do poder dos reis por direito divino, esse poder, ao ficar sem a base teórica que o justificava, foi substituído, numa concepção realista, por outro, pelo poder da maioria, das massas humanas, apoiado no direito, muito mais sincero, dos seus interesses. Que uso fizeram do poder o rei, a aristocracia e o clero antes da revolução francesa? Eles traíram a missão destinada por direito divino às classes dominantes, que é dirigir a marcha evolutiva do povo, o qual lhes está sujeito somente por esse motivo. Foi assim que esse poder, pelo mesmo direito divino sustentado por elas como base para exercê-lo, foi-lhes retirado pela vida, porque, segundo um princípio da lei de Deus, quem faz mau uso de uma posição de vantagem, e não o uso que deveria fazer – utilizando-a não para ajudar os outros a subir, finalidade pela qual ela é concedida, mas só para explorálos em seu interesse egoísta – perde aquela posição de vantagem e retrocede de um plano de vida mais adiantado, no qual se mostrou indigno de permanecer, para um plano de vida inferior, do qual, com a sua forma mental atrasada, deu prova de ser cidadão. A Lei exige que o indivíduo possua e pratique a ética do nível evolutivo ao qual pretende pertencer, cumprindo os respectivos deveres. Não é possível ficar em posições sociais não merecidas, sem cumprir a função evolutiva que a vida confia a quem se encontra nelas. Esta é verdade universal para todos os tempos e lugares, verdade que muitos ainda hoje não entendem, mas que, por inexorável lei biológica, todos têm de aprender à própria custa, por meio de duras experiências. A vida é sempre honesta e utilitária. O resultado útil atingido assim por ela foi a conquista de uma defesa melhor para si, pelo fato de que, com o sistema representativo, tornou-se maior a extensão dos interesses protegidos, abrangendo não só os de uma classe dominante, mas os de toda uma nação. Então, de um nível de ética para o qual o mundo não se havia demonstrado maduro, o poder desceu a um nível mais baixo, prático e destituído de ideais, estabelecido pelo interesse. É assim que os homens de governo acabaram não sendo mais os representantes de um poder por direito divino, mas somente empregados da massa dos cidadãos, que, na organização do Estado, pode exigir que eles prestem conta do seu trabalho e cumpram o seu dever. Mas isto só era possível agora, quando a massa deixou de ser um rebanho inconsciente, para se tornar um povo que atingiu a consciência coletiva de nação e que, amanhã, junto com os outros povos do mundo, conquistará a consciência coletiva de humanidade. Nivelou-se, assim, tudo no plano da realidade biológica, um nível evolutivo mais baixo, porém positivo. A lei desse plano é a luta pela vida para a seleção do mais forte, que, só pelo fato de ser o vencedor do mais fraco, tem o direito de mandar. Os chefes não são seres superiores, biologicamente mais evoluídos, que, por isso, possuem o direito de dirigir os outros, mais atrasados, para o bem destes. A posição de comando não depende do Alto, mas é apenas uma delegação de poderes a alguns escolhidos, por parte de quem é julgado o verdadeiro dono, que é a massa dos cidadãos da nação. Ficam então todos no mesmo nível, funcionando com a mesma forma mental e a ética a ela relativa, obedecendo todos à mesma lei da luta, que faz cada um rival do outro. Assim, divididos em governantes e governados, os primeiros ficam com o direito do comando e os segundos com o dever de obediência, assumindo um a posição de patrão e outro a de criado, em luta entre si, porque esta é a lei do seu plano, já que o nível superior, no qual vigora o princípio da colaboração, ainda não foi atingido. Nessa luta, cada um dos dois termos usa os poderes que possui. Durante as eleições, o povo manda, e os candidatos então o cortejam, para que ele lhes entregue o poder.

Mas depois de terem atingido o seu objetivo, é o povo que tem de obedecer aos seus eleitos. Então, se os governantes procuram evadir-se do cumprimento das suas promessas, os cidadãos procuram evadir-se da obediência. De fato, todos são cidadãos do mesmo plano evolutivo, sujeitos às mesmas leis e praticando a mesma ética de luta, que é a do vencedor e a do vencido. Em tal regime, quem atingiu o poder tem, antes de tudo, de lutar para defendê-lo. O bem é o dele, acima de qualquer coisa. A virtude é o respeito à sua autoridade, e a culpa é a desobediência a ela. O bem do povo é coisa longínqua, menos tangível, pouco urgente, adiável enquanto este se mantiver quieto e não entrar em luta, exigindo que aquele seu bem se realize. Também os povos não têm direito a nada, nem a vida lhes confere qualquer vantagem, enquanto eles não tiverem merecido isso pela sua inteligência e com o seu esforço. A natureza deixa que os povos atrasados sejam explorados, porque são eles os que mais precisam, pelo sofrimento, aprender a sua lição, necessária para evoluir. Que esforço tremendo o povo francês teve de fazer com as guerras napoleônicas para se libertar da escravidão de uma monarquia e aristocracia podres, prontas a continuar explorando-o para sempre! A vida exigiu tal esforço porque, sem ter lutado e merecido, não se pode ter direito a melhoramento algum. Não há progresso para os preguiçosos. Para subir o monte da evolução, não há elevador, mas somente as nossas pernas. Se o povo francês não tivesse enfrentado a sua luta e vencido a sua batalha, teria ficado até hoje na sua posição anterior. Outra consequência de estar a grande maioria no mesmo plano evolutivo, praticando com a mesma forma mental a mesma ética, é que a autoridade, para obter obediência, tem de empregar o princípio melhor entendido pela maioria, o da força ou da ameaça de dano individual, representado pela cadeia ou pelo inferno. Por que deva ser assim, somente se explica com estas observações que aqui vamos desenvolvendo. Não poderia ser de outra maneira, quando a forma mental dominante, que impulsiona as ações da maioria, é dada pelo próprio interesse egoísta individual e pela luta para satisfazê-lo. Os próprios dirigentes estão constrangidos a usar tais métodos, porque a massa não entenderia outros e se aproveitaria para fazer o mal. No passado, o problema do governo para os chefes civis, assim como para os religiosos, foi não somente educar, mas também amansar e domesticar a fera humana. Nos níveis mais baixos, o educador precisa ser antes de tudo um domador, se não quiser ser devorado pelos seus alunos. O nível do ensino depende do nível destes, ao qual o mestre tem de se proporcionar. Verifica-se, assim, a mesma coisa que acontece numa classe de estudantes em relação à disciplina. O mestre está sozinho, mas tem nas mãos o poder de punir. Os alunos, sem poder algum, têm apenas o dever da obediência, mas possuem a força do número. Assim, os dois poderes – o da autoridade, conquistada e sustentada pela lei na organização social, e o da multidão, constituído pelos pobres, que procuram impor-se pelo peso da sua massa – estão diante um do outro, sempre em luta, e dos dois é o mais forte quem vence e domina. Se o mestre é bom e fraco, ao passo que os alunos são rebeldes, a classe se transforma num inferno e o mestre num pobre vencido. Quando o chefe é fraco, como Luís XVI na França, ou como o Czar Nicolau na Rússia, então estouram as revoluções. Se, neste nível biológico, a força é o único argumento que todos entendem, a culpa é de todos, porque eles pertencem a um plano de vida onde, pela forma mental e ética dominante nos fatos, o método inteligente de agir espontaneamente, por compreensão e convicção, representa algo ainda inconcebível. As duas partes se conhecem e se compreendem, porque possuem a mesma forma mental. Tudo na luta é previsto e calculado. Os dois impulsos opostos, cada um para defender o seu interesse e atingir a sua vantagem, param no ponto em que se estabelece o equilíbrio entre os seus poderes contrários, que representam

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o seu valor. E, quando a força não basta ou faz falta, segue-se então o caminho da astúcia, que representa uma força mais sutil, constituída pela inteligência, com todo o seu cortejo de enganos e escapatórias, como já vimos. Tal é a forma mental e o método de vida do involuído. O seu sistema social, consequência do seu tipo de ética, é pesado, pois se baseia no egoísmo, na desconfiança e na luta. Por isso ele requer infinitos controles, uma vez que cada célula do organismo tem de ser constrangida à força a cumprir o seu dever. Esta é razão pela qual a grande máquina da ordem social, seja civil ou religiosa, não pode funcionar senão por disciplina imposta à força ao indivíduo, que é naturalmente rebelde a qualquer obediência. E os povos têm de carregar esse peso, forçoso porém merecido, porque outro meio não há em nosso mundo para manter um início de ordem, necessário para se encaminhar a um nível mais adiantado de vida. Eis porque a sociedade tem de suportar o peso de leis coercitivas, armadas de sanções penais, tropeçando a cada passo com regulamentos, administradores, fiscais, verificações, burocracia, tribunais, polícia, cadeias e outras tantas delícias da moderna organização social. Tudo isto representa um trabalho contínuo, despesas, desperdício de energia, perda de tempo, atritos e complicações, incluindo a necessidade de manter um exército para defender a ordem interior e a segurança contra os inimigos exteriores. Tanto tormento desaparece naturalmente no nível do evoluído, que, conhecendo a sua posição no organismo coletivo e o correlativo dever, cumpre-o livremente, colocando-se sem atritos no lugar que lhe pertence, porque ele sabe que nisso está o seu interesse, mas um interesse inteligente e consciente, diferente daquele egoísta e destruidor, praticado pelo involuído. Trata-se de dois tipos opostos de ética, com todas as suas consequências. O tipo de ética do involuído é exterior, formal, de superfície, apegado às aparências, que deixam possibilidade de enganos. Tal sistema, para se realizar, necessita de um constrangimento vindo de fora, empregando a força material ou psicológica, apoiado no medo do dano ou na cobiça da vantagem, pois só por estes impulsos o egoísmo do indivíduo, mergulhado na sua ignorância, sabe funcionar. O tipo de ética do evoluído é interior, substancial, profundo, ligado a verdades que não deixam possibilidade de enganos. Tal sistema se realiza espontaneamente, apoiado somente no convencimento, porque a consciência despertou e tirou o indivíduo da sua ignorância, de modo que, agora, ele pode livremente dirigir-se com o seu conhecimento. O atual trabalho da evolução em nosso mundo é passar do 1o tipo de ética para o 2o. O eu vai assim despertando cada vez mais, aproximando-se das raízes espirituais do ser, funcionando sempre mais com as qualidades do S, e sempre menos com as do AS. Trata-se do lógico desenvolvimento da evolução, de uma conquista biológica necessária, que traz consigo um novo tipo de ética e estilo de vida, conforme o telefinalismo de todo o fenômeno, que vai do AS para S. Trata-se de um passo para frente no caminho que vai do primeiro ao segundo desses dois extremos. A ética do evoluído é mais livre, todavia mais rigorosa que a do involuído. Às exigências da substância é mais difícil de se subtrair do que às exigências da forma. O evoluído, pela sua própria lógica, tem de exigir virtude sobretudo de si, porque a sua finalidade é subir. O involuído, pela sua forma mental diferente, é levado a exigir virtude, antes de tudo, dos outros, porque a sua ética é de luta, para os sobrepujar. O primeiro procura a honestidade antes de tudo em si mesmo, para benefício dos outros. O segundo procura a honestidade antes de tudo nos outros, para melhor explorá-los em seu proveito. O evoluído pede que os outros, para o próprio bem deles, pratiquem a honestidade, praticada primeiramente por ele. O involuído pede que os outros pratiquem a honestidade, mas apenas para que ele, o primeiro a não praticá-la, possa aproveitar-se.

Quem vive num plano biológico mais adiantado não pode deixar de ficar aterrorizado pelas culpas daqueles que, na sua ignorância, pertencem a um plano biológico mais atrasado e conservam perfeita convicção de inocência. A delinquência das feras assassinas é honesta em relação à moral delas. Com a evolução, subindo de um nível e de sua respectiva ética a um nível e sua respectiva ética superiores, muita coisa julgada moral se torna imoral. Para a forma mental do evoluído, a nossa sociedade atual, tanto no terreno civil como no religioso, admite como lícitas ações e métodos que aquele biótipo não pode praticar e contra os quais ele se rebela, porque, para ele, são profundamente imorais, representando um instintivo produto do subconsciente, tolerável apenas na ética de um nível de existência ainda animal. É destes fatos que aqui procuramos continuar dando exemplos explicativos. ◘◘◘ Quando não é o evoluído a julgar o involuído, mas sim o contrário, como muitas vezes acontece em nosso mundo, é lógico que, então, a ética do evoluído seja condenada como utopia. É natural que assim sejam julgados pelos atrasados um nível de existência mais adiantado e a sua respectiva ética. E, de fato, trata-se de um mundo novo, que está fora da realidade conhecida dos involuídos, na qual eles acreditam estar toda a realidade. Fechados no seu egocentrismo, eles acreditam que a sua verdade particular seja toda a verdade. Há, porém, um fato. A utopia do presente muitas vezes representou a realidade do amanhã. Por outro lado, não há outro meio para fugir dos defeitos da posição atual, bastante pesados, a não ser realizando o esforço para que se torne real um mundo diferente, hoje julgado utópico porque fora da nossa presente realidade. Os homens práticos podem rir-se de tudo isto, já que lhes parece um sonho. Mas não há dúvida de que a posição atual é de muitos sofrimentos. E quem, por ventura, não quer libertar-se deles? Quem fica satisfeito com uma posição desagradável, quando poderia conquistar uma melhor? Quem gosta de ficar estacionário, renunciando ao progresso? E o que é o progresso, senão uma contínua corrida à procura de superiores formas de vida, julgadas utópicas no passado? Se tudo isto é sonho, que os positivos têm de desprezar, então fiquemos satisfeitos com os métodos, sofrimentos e perigos atuais, até que eles nos levem talvez à destruição da humanidade. Com as modernas armas atômicas e a dominante psicologia do involuído, tal ameaça é real. Com a sua forma mental de primitivo instintivo, o homem atual ainda não consegue entender que o método das guerras nunca resolve, mas, pelo princípio de ação e reação, representa apenas a semente de uma nova guerra. Na história, vemos que tal método resultou somente num permanente estado de luta, gerando uma cadeia de desequilíbrios que nunca conseguem resolver-se na posição equilibrada de uma paz definitiva. Cada vitória então, em substância, não é uma vitória, mas sim uma derrota. Isto porque se trata de um mundo ainda situado perto do AS, onde vigora o princípio do emborcamento. Assim o homem tem de ficar mergulhado neste seu ambiente de ilusões, até que o sofrimento tenha desenvolvido a sua inteligência o suficiente para ele entender que, a fim de sair deste impasse, é necessário superar a sua atual forma mental e a respectiva ética da força, para assumir a forma mental do evoluído, hoje julgada utópica, e a respectiva ética de justiça. Enquanto vigorar a atual psicologia do egoísmo separatista, serão inevitáveis os choques entre os impulsos opostos e os sofrimentos que derivam disto. Eles somente poderão acabar quando o homem alcançar uma forma mental de compreensão e colaboração, pela qual os impulsos, ao invés de se chocarem como inimigos, harmonizam-se como amigos, substituindo assim a ordem ao caos. Alega-se, no entanto, que tal biótipo não existe na prática, sendo necessário, por isso, trabalhar com o que o homem

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é, e não com o que ele deveria ser. Muito bem. Mas então temos de ficar com as nossas dores. Não queremos renovar o mundo. Seria loucura pensar que alguns livros possam fazer isso. Queremos tão somente convidar o mundo, se ele assim desejar, a renovar-se por si próprio, explicando-lhe como tudo funciona e mostrando-lhe que os sofrimentos pelos quais ele é atormentado são devidos ao fato de seus movimentos não serem realizados com inteligência no seio do grande organismo do universo, de acordo com a lei de Deus, que o dirige. Não estamos aqui para ensinar métodos rápidos e fáceis para atingir a felicidade. Só procuramos explicar a causa das nossas dores, permanecendo no terreno positivo da realidade dos fatos. Se libertar-se delas é utopia, e não coisa prática, positiva e realizável, que fiquemos então com todas estas dores. Se tal desejo é um engano, deixemo-nos enganar também por todas as outras ilusões de que está repleto o nosso mundo, acreditando que a injustiça da força possa gerar a paz, que a agressividade possa criar o bem estar, que do roubo possa advir riqueza, que do mal dos outros possa nascer o nosso bem, etc. Continuemos, pois, a nos deixarmos ser dirigidos pela nossa ignorância das leis da vida, para atingirmos sempre novas ilusões e termos assim, somente pela dura escola dos sofrimentos, de aprender aonde elas nos levam. Continuemos a praticar loucuras e a exigir que se realize o absurdo. E, se a solução de tais problemas é considerada utopia, só porque na dura cabeça do homem atual não há lugar senão para uma psicologia de subconsciente, isto não importa, pois a dor resolverá tudo automaticamente à força, uma vez que dessa solução depende o futuro da humanidade. A humanidade está hoje completamente fora da rota. Ideais e religiões caíram em completo descrédito. A maioria é religiosa por fora, mas ateia por dentro. A ciência não resolve o problema. Um homem capaz de fazer o mal, mas que sabe ir à Lua e a outros planetas, permanece sempre um homem capaz de fazer o mal, e dessa vez em qualquer parte do sistema solar. Um involuído desprovido de sentido moral, necessário para a convivência com os seus semelhantes, fica sempre um involuído em qualquer parte do universo onde se encontre. Perante as leis biológicas, sempre terá mais valor um justo evoluído. O problema não é de criar novas armas para dominar o mundo, mas de criar homens justos, que não queiram usar mais armas. O problema não é de se tornar astronauta, mas de não haver ladrões e delinquentes. O que de fato interessa para a nossa civilização é mais a conquista da honestidade do que a do espaço. Na Terra, as religiões prometem a felicidade, mas numa outra vida, incontrolável no além-túmulo. As ideologias prometem-na neste mundo, mas para um problemático e longínquo dia, em função de incertos acontecimentos futuros. Elas se baseiam na modificação dos sistemas exteriores da vida, sem transformar, porém, os elementos humanos que os constituem. Muda-se o estilo da arquitetura do edifício, mas este continua sendo construído sempre com o mesmo material. Muda-se a estrutura e a música da orquestra, mas os músicos são sempre os mesmos. Este não é o caminho da solução. Baseamo-nos no fato positivo da evolução biológica, da qual já explicamos alhures os planos, os objetivos e a sua férrea vontade de atingilos. Podemos fazer isso porque as suas transformações, lentas e imperceptíveis no passado, sofreram uma aceleração incrível no atual momento histórico, adquirindo uma grande velocidade de renovação, que é decisiva, pois está sendo realizada a passagem de um nível evolutivo para outro superior. Existe hoje o fato positivo de que a estrutura do sistema nervoso-cerebral e a inteligência estão se desenvolvendo de forma considerável. Trata-se de um profundo amadurecimento biológico, pelo qual o homem deverá ser levado a compreender que, enquanto ele continuar a conceber a vida com a sua forma mental atual e a seguir a respectiva conduta, os problemas que o atormentam não poderão ser resolvidos, como é justo que não sejam, até que

o homem, com o seu esforço, tenha desenvolvido a inteligência necessária para resolvê-los. Então, qual é o maior utopista: quem, baseando-se no conhecimento das leis da vida e dos objetivos da evolução no seio do sistema do universo, pode contar com o resultado, porque tem a certeza que ele está garantido, ou quem, ignorando tais leis, apegado aos resultados imediatos e concretos, movido não pela inteligência e pelo conhecimento, mas sim pelo instinto, vai-se movimentando loucamente dentro da rede de forças da Lei, semeando assim, inconsciente, as causas das suas futuras dores, para acabar fatalmente na ilusão e no sofrimento? Esta é a verdadeira diferença que existe entre os homens, uma diferença substancial, que depende da maneira de se conceber a vida. Perante tal divisão fundamental, perde todo o valor qualquer separação existente entre os vários agrupamentos humanos. Que importa se um indivíduo pertence a este ou àquele partido ou religião, quando ele não sabe pensar nem pode deixar de continuar a agir conforme a sua forma mental de involuído, com todas as consequências decorrentes? Um homem desonesto permanecerá sempre um perigo social, seja qual for o partido ou a religião a que ele pertence. E o contrário acontecerá em qualquer partido ou religião, se o indivíduo for honesto. Assim a verdadeira divisão entre os homens não está nos seus grupos e respectivos interesses – divisão formal, visível, de superfície – mas na natureza do indivíduo, que os divide em justos e injustos. Que adianta, então, continuar repetindo sempre o velho jogo de inventar novas divisões e agrupamentos, atrás dos quais estão os mesmos interesses, deixando o homem sempre no mesmo nível evolutivo, para continuar, de forma diferente, fazendo as mesmas coisas? Isto nada resolve. O problema é diferente. Trata-se da transformação biológica de involuídos em um número sempre maior de evoluídos, o que significa adquirir outra psicologia, outro conhecimento, outra ética e outra conduta, para fazer o mundo ser regido por outros princípios e funcionar com outros métodos. Não há dúvida que se trata de uma revolução. Mas não da costumeira revolução de tipo horizontal, só para dividir o mundo em grupos diferentes dos precedentes, e sim de uma revolução em direção vertical, que corta o mundo em dois tipos de vida, próprios de dois biótipos diferentes. Trata-se de substituir o princípio da luta egoísta do ignorante pelo da compreensão e colaboração do homem inteligente. Se isto parece utopia hoje, deverá ser a realidade do futuro, se a humanidade quiser civilizar-se. A futura divisão não será como a atual, entre grupos políticos ou religiosos, mas sim entre justos e injustos. A nova revolução não é para vencer os semelhantes com os seus mesmos métodos, ficando todos no mesmo nível evolutivo, mas sim para mudar de método, subindo a um nível de vida superior. Esta é a verdadeira revolução. Eis o que significa: “princípios de uma nova ética”. ◘◘◘ A nova revolução não é de superfície, onde se espalham os grupos atuais, não é para dividir seus elementos de outra maneira em outros grupos, mas é uma revolução que se realiza em outra dimensão, volumétrica, pela qual o ser, aprofundando mais as suas raízes no âmago da vida, levanta-se a um nível de vida superior. Então a divisão não está mais na forma, mas sim na substância; não mais no vaso que contém, mas no seu conteúdo; não mais nas aparências, mas na realidade, na natureza do indivíduo. A diferença será entre o biótipo do evoluído e o do involuído. Trata-se de uma revolução interior, que produz um homem diferente, e não exterior, como as outras, que deixam o homem na mesma condição. Não se trata apenas de praticar as mesmas coisas com teorias, palavras e estilos diferentes, mas de viver a vida superior do ser verdadeiramente civilizado. Trata-se de substituir o princípio fundamental do nosso nível biológico, apoiado na luta pela vida para a seleção do mais

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forte – princípio individualista e separatista – por outro, colaboracionista, para formar um estado orgânico unitário. Não se trata de pequenos reajustes dos velhos sistemas, mas de cortar o mal pela raiz, iniciando outra forma de vida. Não se trata de construir novos grupos para travar a luta de sempre contra os outros grupos, a fim de que somente um domine todos os outros, mas de acabar com o desperdício de forças que a luta contínua representa. Esse método já atingiu os seus resultados e, por isso, foi útil, enquanto era necessário. Mas agora, que o homem é o dono do planeta, não há mais finalidade biológica em destruir-se reciprocamente na luta, método que se tornou contraproducente e, por isso, a vida está pronta a abandoná-lo. Quando for conquistado o sentido da verdadeira honestidade, com uma forma mental evoluída e uma ética inteligente, os justos se reconhecerão entre si pelas suas qualidades, que representarão o selo de reconhecimento, impresso de forma indelével, como um sinal de fogo, na sua própria natureza. E eles permanecerão juntos, não pelo constrangimento de uma autoridade e pelo respectivo medo de sanções, mas porque, entre honestos, sempre se encontra o ponto onde concordar, baseandose na sinceridade e boa vontade de colaborar, ao passo que, entre desonestos, movidos pelo instinto de domínio egoísta, sempre se encontra o ponto onde discordar, porque se baseiam no engano e na vontade de explorar. Hoje, justos e injustos estão misturados em todos os grupos. Pode haver ótimos elementos nos piores grupos, assim como péssimos no seio dos melhores. Faz-se muita questão do que aparece por fora e pode ser percebido materialmente, enquanto passa despercebida a realidade interior, que se procura esconder. O justo não luta para submeter os outros à dependência, mas se oferece para com eles se coordenar. Há uma imensa diferença entre os dois métodos de vida e, portanto, entre suas respectivas éticas, porque se trata de duas posições biológicas colocadas em dois diferentes pontos da escala evolutiva. O percurso evolutivo entre eles é grande, porque se trata de passar da categoria dos injustos, que pertencem a um nível de vida, à categoria dos justos, que pertencem a outro nível e representam outro biótipo. A renovação é ampla, porque não se trata de mudar de roupa, passando de uma religião, partido ou grupo humano para outro, deixando tudo mais ou menos como antes e usando os mesmos métodos, mas trata-se de se renovar completamente, para pensar com outra forma mental e agir conforme uma ética diferente. Uma vez que não se trata de uma mudança superficial, para trocar só de forma, mas de uma transformação em profundidade, para mudar de substância, ela só pode ser realizada pelo amadurecimento evolutivo realizado pelas forças biológicas, e não pelo capricho ou interesse de grupos humanos. Não se trata de pintar por fora, com novas aparências de civilização, a mesma ferocidade da desapiedada luta egoísta que se esconde atrás das leis religiosas e civis, mas sim de acabar com essa contínua mentira, adquirindo a natureza, a personalidade e a ética do homem justo e sincero. Então, se alguns homens tomarem parte nessa revolução, eles não poderão fazê-lo como dirigentes do movimento, que está além das possibilidades humanas, mas só como instrumentos das leis da vida, no momento e na forma que estas escolherem. Tão profundas mudanças não podem ser confiadas ao homem, que não possui a força necessária, o conhecimento dos planos da vida e a inteligência para realizá-los. Nunca, até hoje, o homem dirigiu o fenômeno da sua evolução, mas foi sempre dirigido, no seu estado de subconsciência instintiva, pela sabedoria das leis da vida, que conhecem qual é o seu objetivo final e o caminho para atingi-lo. E os grandes reformadores da humanidade foram intérpretes dessas leis, executores obedientes da sua vontade, operários que colaboraram com elas. Mas, no futuro, o homem terá de amadurecer até adquirir o conhecimento daqueles planos de vida, porque o desenvolvimento da sua

inteligência o levará a entender a estrutura do organismo do todo e o conteúdo da lei de Deus, que o rege. Então o homem não será mais um menino dirigido por leis e forças que não compreende, mas poderá ele mesmo dirigir o fenômeno da sua evolução, superando o método atual da tentativa cega e dos erros que disto derivam, evitando todos os sofrimentos correspondentes. Tudo isto, até agora, ocorreu assim pela falta de inteligência do homem, que, por isso, como um menino inexperiente, não podia deixar de se chocar a cada passo com as normas da Lei, excitando as suas dolorosas reações. Mas a salvação é automática, pois a própria Lei contém o amargo remédio. Este remédio é a dor, que constitui o impulso maior para a realização da evolução. É o sofrimento que tem o poder de abrir os olhos também aos cegos. Deste modo, mesmo os involuídos mais rebeldes, depois de terem experimentado todas as dores, deverão acabar entendendo o significado delas, identificando-as como um efeito dos seus erros e vendo na dor um instrumento da evolução, dentro da lei de justiça de Deus. A essa altura, a grande transformação biológica já terá sido realizada e o homem haverá subido a um novo nível de vida, onde, com outra mente, vigora outra ética; desse modo o involuído se terá tornado evoluído e o homem injusto se terá tornado um justo. Eis o significado da revolução da qual estamos falando, dirigida pela Lei, em comparação com as do nosso mundo, dirigidas pelo homem. Neste segundo caso, o impulso é somente dos lutadores, nada havendo atrás deles senão os seus interesses particulares, que muitas vezes não concordam com as leis da vida, contrastando com as finalidades que ela quer atingir. Por isso a Lei não os ajuda, deixando-os abandonados a si mesmos. No primeiro caso ocorre ao contrário, os homens são instrumentos da Lei, e atrás deles está a pressão das forças biológicas, que exigem a realização dos seus objetivos. As revoluções do mundo não se realizam dentro da Lei, seguindo os seus princípios e acompanhando os seus impulsos, mas se fazem substituindo a vontade humana à da Lei, para sobrepô-la, procurando torcê-la no sentido daquilo que se acredita ser a própria vantagem. Há uma grande diferença entre quem trabalha colaborando, em harmonia com o organismo de forças da Lei, e quem, pelo seu egocentrismo, colocando-se em posição de antagonismo com a Lei, fica sozinho, abandonado aos seus pobres recursos. Sobre este último não desce a luz do Alto, orientadora e amiga, mas sobe até ele a caótica tempestade das forças do AS, desorientadoras e inimigas. As duas revoluções também podem ser reconhecidas cada uma pelo seu método completamente diferente. A revolução do evoluído não se faz polemizando para destruir as velhas verdades, mas só explicando e vivendo as novas. O espírito de agressividade é a primeira coisa que deve desaparecer em quem procura superar o nível animal-humano. Quem se coloca do lado do S não pode trabalhar senão em sentido positivo, como construtor, enquanto quem se coloca do lado do AS não pode trabalhar senão em sentido negativo, como destruidor. Que faz o ramo novo ao despontar acima do galho velho e caído, que está apodrecendo? Ele constrói o novo e deixa morrer o velho. Os impulsos da vida descem do S, por isso a natureza representa uma irrefreável vontade positiva de construção, que sempre acaba vencendo a oposta vontade negativa de destruição, representada pelos impulsos de morte, que sobem do AS. Por isso a revolução do evoluído é sempre positiva e construtiva, não obedecendo a nenhum impulso negativo de destruição, que se manifesta no método da luta, agressividade e polêmica. O novo galho não agride o velho para destruí-lo, mas busca apenas se desenvolver, deixando o velho apodrecer por si mesmo. Para superar o velho e continuar o caminho evolutivo da vida, não é necessário destruí-lo, porque, automaticamente, o velho é destruído por dentro pelos impulsos negativos de morte, que chegam do AS, enquanto o novo, automaticamen-

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PRINCÍPIOS DE UMA NOVA ÉTICA III. MÉTODOS DE VIDA

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te, é construído por dentro pelos impulsos positivos de vida, que chegam do S. Mas o velho, empregando o resto do que ainda ficou nele dos impulsos vitais, descidos do S, procura lutar para resistir a esse impulso de destruição, que o domina cada vez mais. O problema da velhice é uma questão de luta entre as forças do AS e as do S, manifestando-se no momento em que, ecoando como um retorno da primeira revolta, as primeiras levam vantagem sobre as segundas, quando os impulsos do S esgotam a sua função evolutiva de continuação e renovação periódica da vida. Porém não adianta o velho lutar para sobreviver, porque o impulso mais poderoso, destinado a vencer, não é o da morte, mas sim o do S, isto é, o da vida, não é o da revolta, mas sim o de Deus, porque não é o AS que manda, mas sim o S, e isto confere à evolução o direito e o poder absoluto de atingir os seus objetivos, sem que ninguém possa pará-la . Eis porque a revolução do evoluído, que opera por dentro e em função da Lei, da qual ele se torna instrumento, tem garantia de alcançar sucesso. Em se tratando do poder das vontades humanas, é sempre possível encontrar o poder de outra vontade que o vença. Mas isto não é possível quando se trata de uma vontade cujo poder está acima do poder de todas as vontades humanas. Eis as profundas razões que justificam o método de realização praticado pelo evoluído. Ele não precisa do esforço da agressão destruidora, porque a sua revolução não se realiza pela iniciativa e vontade dele ou do seu grupo sozinho no universo, mas pela iniciativa e vontade de Deus e Sua lei, que dirige todo o universo. Para que então entrar no mundo do involuído, usando o seu método de luta e colocando-se na posição desvantajosa de isolamento dos maiores poderes da vida, quando o evoluído, que se tornou instrumento da Lei, sabe que atrás dele, para sustentá-lo, estão aqueles poderes? Eis a base de sustentação da ética que o involuído, com a sua forma mental, não pode entender: a ética da não-resistência pregada pelo Evangelho. Quem polemiza, mesmo que seja para sustentar a mais sagrada das verdades, revela a sua natureza de involuído, que nunca consegue afastar-se do método do seu baixo nível evolutivo. Método errado, porque não alcança o seu objetivo. Quem, acreditando que a sua verdade particular seja verdadeira, busca impô-la à força, aplica sem saber o princípio do separatismo, próprio do AS, levantando uma parede que o divide e afasta do seu interlocutor, ao invés de abrir uma porta e de lançar uma ponte que o aproxime e una a ele. Tal método não cria amigos que possam entender e aceitar a nossa verdade, mas inimigos que não a podem entender ou aceitar. Como é lógico, os métodos do AS não podem gerar senão resultados opostos. Assim, na afirmação de uma verdade, toma-se de antemão a posição do lutador que espera o seu antagonista para vencê-lo. Isto gera automaticamente, com o ataque, uma reação de defesa, pois querer impor a alguém uma verdade nossa, destruindo a dele, significa atacar o patrimônio das suas verdades e, portanto, a sua personalidade. Acontece então que o espírito de oposição acorda o instinto da luta, fazendo nascer desconfiança e revolta, ao invés de confiança e convicção. É assim que o método da discussão, pela sua própria natureza, serve apenas para excitar revolta ou legítima defesa, e não para convencer. E, de fato, o método da polêmica não representa uma procura da verdade, juntando os esforços para encontrá-la, mas sim uma peleja para destruir a verdade do antagonista. O método do evoluído está nos antípodas. Não lhe interessa afirmar, pelo seu próprio egoísmo de vencedor, que só ele está certo e que todos os outros estão errados. Assim, ele não excita a natural reação de autodefesa, convidando à confiança, e acaba desse modo sendo aceito sem constrangimentos psicológicos, vencendo apenas com as armas da sua convicção e sinceridade. Tais são os métodos e os resultados de uma ética mais adiantada.

Vimos no capítulo precedente qual é o método de vida do evoluído. Se nele consiste a sua revolução e se esta sua posição biológica representa um ponto de chegada do seu caminho evolutivo, qual será, por outro lado, o trabalho do involuído para se aproximar desse novo nível de existência? Qual deverá ser o método de vida e a ética de tal biótipo? Como a vida utilizará esse material, forjando-o para os seus objetivos? Não há dúvida de que o grande trabalho que as leis da vida têm de realizar no plano evolutivo humano é levantar o atual biótipo dominante para formas de vida mais adiantadas, para que lhe seja possível entender e praticar a ética do evoluído. Este não a quer impor aos atrasados, mas apenas ajudá-los a amadurecerem, até ao ponto de poderem viver esta ética superior. O evoluído não julga o involuído culpado ou mau, apenas o considera um menino a educar, ao qual é útil mostrar, para ele aprender, o que lhe é mais conveniente fazer para seu bem. Cabe aos mais adiantados o dever de ajudar os menos adiantados, não os condenando, mas indo ao seu encontro com a devida compreensão. Este é o método que revela o evoluído, e quem não o pratica não o é. A maior força do evoluído reside na sua justiça; a superioridade do seu método, que o leva à vitória, está em ter superado o método humano da luta, praticando o método oposto, com base no perdão e na inocência. É nesta que está a maior força de quem se colocou do lado do S, assim como na culpa está a maior fraqueza do lutador, que se colocou do lado do AS. Se a vida não abandona ninguém, alguém tem de tomar conta do involuído. É dever, então, dos seus irmãos maiores cuidar dele. A qualidade fundamental do método de vida do involuído é a luta para vencer com a força ou com a astúcia. Já o evoluído, para vencer, pratica, pelo contrário, o método da justiça e da honestidade. A tarefa da evolução é transformar o primeiro tipo de forma mental e respectiva ética, no segundo. Ora, como pode a técnica da evolução realizar essa transformação, utilizando o material involuído existente com as suas qualidades? Se as qualidades que ele desenvolveu são a força e a astúcia, como podem estas se tornar honestidade e justiça? Um primeiro passo foi dado com a instituição das leis humanas, cuja tarefa é estabelecer entre limites exatos os direitos e deveres de cada um, condição sem a qual a vida social não é possível. É assim que a força, cada vez mais apertada no torno de uma disciplina, foi-se gradativamente adaptando e moldando dentro dos quadros do direito. As leis humanas representam uma primeira tentativa de evolução do estado caótico do involuído ao estado orgânico do evoluído. É o direito que se sobrepõe à força, para domesticá-la. Mas o fenômeno, no seu transformismo, encontra-se hoje ainda perto do seu ponto de partida: a força, e vai lentamente encaminhando-se para o seu ponto de chegada: a justiça. É por isso que a substância da justiça é a força e, nesta, continua sempre a basear-se. De fato, no conceito humano de direito, não se concebe a lei sem a respectiva sanção ou constrangimento, sem o que a obediência não pode ficar garantida. Hoje, uma lei que atuasse apoiada apenas na força do convencimento, para que os cidadãos a cumprissem espontaneamente, seria utopia absurda, coisa fora da realidade. Mas este é justamente o ponto de chegada, sem o qual faltaria um objetivo à evolução do direito, que justifica o seu trabalhoso transformismo. Só assim se pode entender o significado biológico do fenômeno da evolução do direito. É verdade que, no fundo deste, ainda sobrevive o mundo do involuído, com o princípio da força, mas é verdade também que, pelo direito surgido no mundo, existe e vai-se cada vez mais radicando o oposto princípio da justiça. No atual nível evolutivo humano, os dois princípios, o da força e o da justiça, estão ainda misturados, como é lógico que aconteça num período de transição, a exemplo do nosso tempo, conforme já explicamos.

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Qual é, então, a posição dos elementos força e astúcia – armas da desobediência no mundo do involuído – dentro do processo evolutivo, que as leva para a honestidade e a justiça do estado orgânico de obediência no mundo do evoluído? A técnica da evolução consiste numa contínua reordenação e reorganização da desordem e do caos em que, devido à revolta, o universo caiu. O resultado da queda foi que nada ficou destruído, mas somente saiu da sua posição correta, ficando fora do seu devido lugar no seio da ordem estabelecida pela lei de Deus. Assim a força, princípio do involuído, representa o poder original na posição inversa, isto é, deslocado da sua posição de meio de colaboração no seio do organismo do S à sua posição oposta, de meio de luta de todos contra todos no estado de separatismo individualista, próprio do AS. O princípio que, no S, representava a fusão de todos os elementos numa unidade de entendimento e de trabalho, tornou-se, no AS, no princípio da cisão, que os dividiu num constante estado de desordem e de luta. É lógico que, se este foi o caminho da involução, oposto tenha de ser o caminho da evolução. Trata-se, então, de submeter a um processo de reorganização, num sistema de disciplina, os elementos que se espalharam numa posição de guerra entre si. Portanto o processo evolutivo não consiste em destruir o elemento força, mas em restringi-lo cada vez mais com os princípios da Lei, para canalizá-lo no caminho que leva à realização dos objetivos da Lei. Eis como as qualidades do involuído podem continuar funcionando, porém cada vez mais dentro dos limites da nova ordem que se vai realizando, na qual a força é empregada não mais para fazer guerra, agredindo e destruindo, mas para cumprir a Lei, buscando o triunfo da justiça, e não o esmagamento do fraco. É assim que, ao lado do puro elemento da força, próprio do nível do involuído, desponta e cada vez mais vai-se afirmando o elemento justiça, próprio do nível do evoluído. Eis, então, que o primeiro passo do involuído é colocar as suas qualidades inferiores a serviço do ideal. A finalidade pode justificar os meios somente quando o indivíduo não pode deixar de empregar meios tão atrasados, porque outros melhores na sua natureza ele não possui. De outro modo, que trabalho superior poderia realizar o involuído? Usando os métodos do seu plano de vida, os únicos que conhece, ele vai subindo os primeiros degraus da sua evolução para o plano de vida do evoluído. É assim que pode ser tolerada a sobrevivência do passado, mas somente pelo fato de se ter colocado o elemento inferior a serviço do que é superior. Presença tolerada apenas na condição de que o inferior vá sendo sempre mais eliminado, para se transformar em superior. Explica-se desse modo como seja hoje possível usar a força para realizar os ideais, junção entre opostos esta que, sem tal conceito de transformação evolutiva de um nível de vida para outro, representaria um absurdo inaceitável. Assim a fera, colocando as suas garras, que representam tudo o que ela possui, a serviço da justiça, procura sair do seu estado para entrar em um mundo novo, aprendendo pouco a pouco novas regras de vida. Isto quer dizer passar da ética do involuído à do evoluído. Eis como funciona a técnica da evolução de um tipo de ética para o outro. A medida da realização dessa evolução é marcada pelo ponto que o ser atingiu no processo de transformação da ética do involuído, cuja base é a força, na ética do evoluído, cuja base é a justiça. Assim o ser, quanto mais usa a força e quanto menos pratica a justiça, tanto mais é atrasado e, quanto mais se apoia na justiça, em vez de se apoiar na força, tanto mais é adiantado. Então, em nosso mundo, a força existe somente como um mal que, devido à natureza involuída do biótipo dominante, ainda não se consegue dispensar. Nunca deveríamos esquecer que, quando a agressividade dos inferiores nos leva ao emprego da força, naquele momento descemos ao nível biológico deles, que é o do animal. Os seres verdadeiramente superiores, como por exemplo Cristo, nunca usam de tais meios. Explica-se assim o que significa a ética da não-resistência, proclamada pelo Evangelho.

Será que homem é culpado, então, por continuar sempre fazendo guerras como os seus antepassados pré-históricos? Mas é culpada a fera pelo fato de ser fera? Decerto que não. A ferocidade faz parte da sua ética, porque é necessária para o ser conseguir sobreviver, condição indispensável para que se realize a sua evolução. A realidade é que, assim como a ferocidade revela a fera, a guerra também revela o involuído, mostrando-o como um ser não civilizado, que pertence ainda ao nível biológico do animal. Esta é a grande glória de que se pode ufanar o nosso mundo atual. Será culpado aquele biótipo que costuma esconder a sua verdadeira face com as suas astúcias? Mas, se isto representa um meio de defesa num mundo feito de luta, como se pode exigir que tal biótipo renuncie a tal arma? Para ser sincero e mostrar o que está dentro de si, o ser não deveria possuir pontos fracos, dos quais seus semelhantes estão sempre prontos para se aproveitar em vantagem própria e em prejuízo dele. Para expor a verdadeira fisionomia, é necessário ser forte, porque, em nosso mundo, só aos fortes é permitido viver. Não há indivíduo, mesmo ignorante, que não conheça tais elementos da ética humana. Enquanto o homem se mantiver no seu atual nível biológico, a força e a mentira serão armas às quais ele, para viver, não poderá renunciar. Assim, o que dos nossos rostos aparece por fora é só uma máscara, atrás da qual o indivíduo procura se esconder, para se defender ou para enganar no ataque. Cada um constrói a máscara que mais lhe convém e com ela cobre o rosto. Por trás dela olha para fora através de dois buracos, que são os olhos, espiando o que acontece no mundo cheio de perigos. E é sobretudo pelos olhos que o indivíduo se comunica com o exterior, sendo eles, como se diz, “o espelho da alma”, revelando os íntimos impulsos e deixando transparecer as reais intenções. O que se chama educação em nosso mundo consiste em aprender a arte de esconder os verdadeiros pensamentos. Mas não é nisto que consiste a civilização. Ela só começa quando, pelo desenvolvimento da inteligência, é possível substituir a ética da luta e suas tristes consequências pela ética da compreensão e da sinceridade. Também a ciência, que por sua natureza é amoral, sem ética, concorre indiretamente para a realização dessa evolução, porque a ela se deve um fato que representa um passo a frente no sentido da superação do método da força, pois hoje se admira como grandes homens o cientista e o astronauta, e não somente o guerreiro que, por ter destruído o maior número possível de inimigos, é julgado herói. Os triunfos da ciência estão introduzindo, em primeiro plano, na tábua dos valores humanos, acima dos tradicionais da força e da habilidade em vencer com a astúcia, a inteligência. É no princípio da luta que se baseiam a vida e a ética do nosso nível evolutivo, e é por ele que está moldada a nossa forma mental. Tudo acaba sendo reconduzido a ele, inclusive quando se acredita aplicar os princípios de uma ética superior. Assim, em nosso mundo de luta, quando alguém fala de justiça, está, sem querer, falando de uma sua justiça particular, conforme a sua verdade e em seu favor, contra a justiça de todos os outros, que a concebem também em favor de si mesmos. Isto quer dizer luta entre justiças opostas, exatamente como vemos ocorrer nos tribunais. É o princípio da luta que domina na ética do nosso mundo atual. Mesmo quando, neste nível de vida, têm de ser aplicadas normas de uma ética superior, isto se realiza por meio de leis civis e religiosas armadas com a força das suas sanções, porque, sem uma imposição, nada pode ser obtido em nosso mundo. Quem não obedece é julgado culpado e tem de ser punido pela sua desobediência. Só quem possui suficiente força ou astúcia pode desobedecer ou até mesmo chegar a impor a sua lei diferente. Tudo não pode acabar senão na posição do mais forte que manda e do mais fraco que tem de obedecer. Em nosso

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mundo sempre acaba vigorando a lei do seu nível biológico, à qual também uma ética superior, quando desce de um plano mais alto, tem de se adaptar. Em tal regime de luta, como se pode exigir que alguém, não possuindo suficiente força, deixe espontaneamente de se defender com a arma da mentira, seu único meio de defesa? E como pode isto acontecer, quando ele sabe que, tal exigência é feita por quem busca se aproveitar de tal sinceridade para vantagem própria e prejuízo alheio? Então, para estabelecer a responsabilidade e a culpabilidade do indivíduo, é necessário levar em conta a sua posição na escala evolutiva e a respectiva ética, considerando tudo em função deste contexto relativo e em evolução. É grande a diferença de posição entre o involuído, que, no nível animal, encontra-se no seu ambiente natural, usando contínua e espontaneamente a força e a astúcia, porque mais a sua mente não sabe conceber, e o evoluído, que só excepcionalmente aceita aplicar tais métodos, quando constrangido pela necessidade de cumprir o seu dever de sobrevivência naquele ambiente, ao qual teve de descer e que não é o seu. A diferença existente entre os dois biótipos é a mesma encontrada entre a fera, que é sempre assim pela sua natureza, e o caçador, que tem de usar os meios das feras, mas só quando se encontra na selva, entre elas, deixando-os tão logo retorne à cidade e se encontre entre civilizados. Neste caso, o caçador usa tal método não porque seja o seu único e normal método de vida, mas somente porque, temporariamente, isto lhe foi imposto pelo ambiente de feras em que se encontra. A diferença está no fato de que, no caso do evoluído, o uso de tais meios é imposto pelo ambiente e não corresponde à sua natureza, não representa um desabafo de instintos inferiores e de agressividade egoísta, não é um mau uso da força contra a justiça, mas, pelo contrário, tais meios são empregados com inteligência, fazendose deles um bom uso, para uma finalidade de bem. Neste caso, os métodos do mundo não são empregados a favor do mundo, mas contra ele, em favor de valores que estão acima dele, não obedecendo, portanto, à ética do subconsciente animal, mas sim impondo-lhe obediência a uma ética superior. Então uma tal descida justifica-se somente enquanto representa um incidente ocasional, imposto por exigências superiores e dependente destas, sustentado por um princípio de honestidade e justiça, orientado em função da ordem do S, e não da desordem do AS. Tudo isto se origina do fato de que o nosso ambiente humano contém diferentes graus de evolução e de éticas correspondentes, mantendo assim, misturados, indivíduos mais ou menos evoluídos, ligados por uma convivência recíproca. No fundo, nas posições mais atrasadas, estão os piores do plano animal humano, que praticam o mal sem escrúpulos, com o método da prepotência. Acima deles estão os mais adiantados, que vão se aproximando da vida superior, conforme o modelo evangélico, praticando ainda o método precedente, mas para uma finalidade de bem. Acima desses, mais adiantados ainda, estão os evangélicos, que praticam este método superior e, seguindo o exemplo de Cristo, custe o que custar, não entram na luta, não descem ao nível do involuído, não reagem, mas perdoam, ficando em perfeita inocência perante a Lei. Assim cada um, situado no lugar que lhe é próprio, cumpre a sua função, recebendo o que merece. Os maus, como consequência da sua conduta, recebem a lição do sofrimento, que os ensina a evoluir. Aqueles que começam a empregar os meios do nível humano para uma finalidade benéfica, vão-se encaminhando para um plano de vida superior. E os evangelizados, com a sua presença e exemplo, vão educando os mais atrasados, para trazê-los ao seu nível mais elevado, ao mesmo tempo em que, procedendo assim, eles mesmos vão progredindo e alcançando posições mais adiantadas. O contraste entre essas diferentes posições biológicas nos aparece evidente no exemplo de quando Cristo foi preso no Getsêmani e Simão Pedro, puxando da espada, deu um golpe no servo do sumo sacerdote, decepando-lhe uma orelha. Então,

Jesus lhe disse: “Embainha a tua espada, pois todos os que t omam a espada morrerão pela espada”, e, tendo tocado a orelha ferida, Ele a curou. Vemos aqui chocarem-se dois sistemas, o segundo e o terceiro dos casos acima mencionados. Simão Pedro pretendia usar a força para uma finalidade benéfica, defendendo um justo. Mas Cristo preferiu praticar o método superior do evoluído, da não-resistência e do perdão, para dar este exemplo e ensinar esta lição, avisando ao mesmo tempo do perigo que representa, para quem desce ao nível do involuído e pratica os seus métodos, ter de ficar depois sujeito ao domínio das reações e das leis ferozes daquele plano. ◘◘◘ Antes de encerrar o assunto, observemos estes princípios aplicados ao caso oposto, no qual, ao invés de termos o evoluído vivendo no mundo dos involuídos, temos o involuído vivendo num ambiente mais evoluído que o seu. Da estrutura da forma mental humana, da qual se originam esses casos, faremos um estudo mais pormenorizado nos capítulos seguintes. Somente nos conceitos que vamos aqui explicando pode-se encontrar um ponto de referência e uma unidade de medida para estabelecer a respectiva responsabilidade e punibilidade do indivíduo, porque ela é concebida em relação à sua posição na escala da evolução ou nível biológico e correspondente forma mental. Apela-se muito, neste caso, à consciência, como a um tribunal íntimo que pode formular infalíveis julgamentos da verdade. Mas, se observarmos bem, teremos de admitir que, no final das contas, quem age de uma certa maneira o faz em perfeita consciência e convencimento de que suas ações sejam boas para ele. Não podemos, portanto, acusá-lo de insinceridade. O problema é saber o que ele julga ser bom e para quem. Então não se trata de mentira, mas de um julgamento errado, fruto da forma mental do involuído, a única que, neste caso, o ser possui para julgar. Mentira seria no caso em que o ser possuísse a forma mental do evoluído, isto é, a necessária iluminação de consciência para entender, e quisesse depois agir contra as diretrizes que essa consciência sabe formular. Quanto mais primitivo é o ser, tanto menor é o patrimônio de ideias que ele possui para se orientar e resolver os casos da sua vida. É assim que, para ele, os problemas de consciência são muito simples. O bem é, para ele, o que lhe traz vantagem ou satisfação; e o mal, o que lhe acarreta prejuízo ou sofrimento. O bem é só o seu bem; o mal é só o seu mal. Então, na sua mente simples, não há razão para que ele não procure pelo caminho mais curto o seu bem, evitando o seu mal. Quanto mais o ser é primitivo, tanto mais ele está fechado e isolado no seu egocentrismo. Assim, não existem para ele, uma vez que não as percebe, as más consequências para os outros das suas ações, vivendo ele só em função do seu eu, que é a única coisa que entende. Mais não pode produzir uma forma mental que somente sabe ir em linha reta até aos seus objetivos, para os quais se sente impelida por seus impulsos elementares. Neste nível não pode existir senão a ética do próprio interesse. A ética diz que devem ser seguidos os ditames da consciência. Mas, para o primitivo, os ditames da consciência são exatamente os do seu interesse. E, se para atingir a sua vantagem, ele tem de fazer mal aos outros, nada o impede de fazê-lo com plena consciência e convencimento de estar fazendo o bem, que para ele, neste caso, é só o seu bem, ou seja, aquilo que constitui a sua exclusiva vantagem. De acordo com a sua forma mental, isso representa a sua sinceridade e honestidade. E como pode ser acusado de mentira quem age conforme aquilo que é, revelando exatamente a sua natureza? Trata-se, portanto, de um problema de egoísmos rivais, onde o que é bem para o interesse de um é mal para o interesse dos outros, sendo que estes, encontrando-se na posição oposta, julgam ser mal e mentira somente para eles, enquanto para o ofensor é bem e verdade, pe-

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lo fato de ele querer ganhar só para si, sem se aperceber que está prejudicando os demais. Acontece então que todos, possuindo a mesma forma mental, querem atingir somente a sua própria e exclusiva vantagem, e cada um assim, para melhor alcançá-la, exige que os outros pratiquem uma ética de sinceridade e honestidade, pois isto representa proveito para si, não importa se em prejuízo dos outros. Esta é a razão pela qual, num tal ambiente de egoísmos opostos, tudo acaba na luta, bem conhecida nossa, de todos contra todos. Se, na forma mental do primitivo, dirigido pelos impulsos do subconsciente animal, não apareceu ainda a ideia de uma ética para freá-lo e orientá-lo por outros caminhos, e se tal ideia é coisa que ele apenas ouviu falar sem entender nada, por se tratar de um conceito que está acima do seu nível evolutivo, como pode ele renunciar àquilo que na sua mente é o seu bem? Quem pode deixar de procurar o próprio bem? Uma vez um missionário perguntou a um selvagem por que ele não criava para si uma vaca, ao invés de furtá-la do vizinho. A resposta do selvagem foi: “porque dá menos trabalho furtá-la, pois ela já está pronta e não é preciso criá-la”. Na sua lógica simples, que não entendia senão a sua vantagem particular e imediata, não existia razão para ele deixar de escolher o caminho mais curto e fácil, de menor resistência ou menor trabalho. Por que então não furtar, em vez de trabalhar? E esta é também a psicologia de muitos que se julgam civilizados. Para eles, os simplórios trabalham, mas não eles, que são espertos e, por isso, sabem ganhar sem fazer esforço, à custa dos outros. Tais indivíduos, no entanto, trazem em si mesmos a própria punição, porque a vida os deixará nos níveis mais atrasados, onde a luta é feroz e o sofrimento maior. E, se quiserem sair do seu baixo plano de vida, terão de realizar todo o esforço necessário. Hoje eles fazem somente o que podem entender como o seu bem. O bem do evoluído é para eles algo ainda inconcebível, porque ninguém pode sair, se não por lenta evolução e duro trabalho, da sua forma mental, na qual está aprisionado. Para o involuído, somente é concebível como bem o que representa uma vantagem perceptível para os sentidos do seu nível biológico, o seu gozo e bem-estar material. Se, para atingir tal objetivo, ele tem de enganar, furtar, matar ou arruinar os outros, isso para ele não é mal, porque não o percebe na própria carne como sofrimento, mas sim, pelo contrário, como satisfação, pois, por este caminho, ele atinge o seu bem-estar, a única coisa que lhe interessa. E só há um meio para ele se deter: ser impedido pela reação do atacado, que o faz, com isso, entender na própria carne o mal contido no prejuízo que inflige aos outros. A medida e a forma dessa reação, para não cair em outros excessos, foi, nos países civilizados, disciplinada em forma de lei, que constitui o direito. Mas permanece o fato fundamental de que, enquanto o involuído não receber de volta as consequências do dano que infligiu aos outros, a consciência lhe dirá que está agindo acertadamente. Pensando assim, o prejuízo dos outros não o atinge. A satisfação que goza lhe prova que ele tem razão. Tal indivíduo somente pode começar a se aperceber que faz o mal, quando dos seus maus atos deriva um mal também para ele. Este é o processo pelo qual acorda nele a consciência do mal feito, que não é um conceito abstrato, mas sim fruto de uma experimentação pessoal. Eis a única finalidade benéfica que pode ter a punição, porque ela cria uma conexão de ideias entre a ação errada e o sofrimento, estabelecendo uma ligação mental causa-efeito pela qual o indivíduo aprende que, para evitar a dor, é necessário não cair em culpa. É assim que a dor pode tornar-se uma escola, um instrumento para aprender, um meio utilizado pela Lei para ensinar ao indivíduo o que é bem e o que é mal, para ele saber o que deve e o que não deve fazer. Aqui funciona a sabedoria da Lei, que cumpre assim a tarefa de educar. Não há método melhor, pois trata-se de um biótipo egocêntrico, que concebe tudo

só em função de si próprio, separado de todos os outros seres pelo seu egoísmo e incapaz, por isso, de entender que está fazendo mal, enquanto este mal não se torna mal também para ele. É assim que o sofrimento, quando é dos outros, parece inconsistente, originado no defeito ou na fraqueza, e a piedade nasce no indivíduo somente quando ele também está incluído naquele sofrimento, porque este também é seu. A solidariedade vem somente numa dor comum. Se alguém chora pelos outros, é porque, com isso, está chorando também por si mesmo. Mas, quando ele tem a certeza de que aquela dor nunca o atingirá, então é difícil que se interesse por quem a sofre. A conclusão é que, para o homem se confraternizar com o próximo, torna-se necessário ele o ter compreendido, por haver experimentado em si próprio todas as dores que podem atormentar os outros, pois, enquanto não tiver feito tal experiência, não poderá entender o que está acontecendo com eles. Nasce assim a ética que condena o mal, concebida por aqueles que o receberam em si mesmos e, porque experimentaram a dor que acarreta, sabem o que ele é. Surge então a ética que afasta e isola na sociedade o involuído que ainda não aprendeu que não se pode procurar o próprio bem isoladamente, porque este não é mais um bem quando se torna um mal para os outros. Então, o que mais sabe, porque mais experimentou, torna-se instrumento da evolução, ensinando aos que menos sabem, porque menos experimentaram. Nasceram assim, como fruto de tal sabedoria, os mandamentos: “não matarás, não adulterarás, não furtarás, não cobiçarás...”. Assim, a dura experimentação dos prejudicados acabou impondo tais regras de ética, disciplinando a conduta dos inferiores inexperientes e introduzindo na vida o conceito de respeito recíproco, necessário para a vida coletiva. É assim que, por ações e reações, pelo fato de que se recebe depois de volta todo o mal que se faz, este automaticamente tende à sua destruição. Todos esses impulsos representam o tratamento e a cura da doença e estão contidos na Lei, de modo que não podem deixar de funcionar em favor do saneamento e da evolução. O resultado final de todo o processo é o fim do mal, fato que se realiza ao ser atingido o S, ponto final da subida evolutiva. ◘◘◘ Com tais conceitos explica-se como, em nosso mundo, para que uma moral superior possa ser entendida pela maioria atrasada, é indispensável aplicar-se a seu respeito o único raciocínio que todos podem entender, dado pelo medo do próprio prejuízo e pela esperança da própria vantagem. É de tal ética, baseada na forma mental de quem só é sensível ao sofrimento ou à satisfação individual, que deriva a exigência da presença de sanções, sejam materiais (cadeias), com as leis penais, sejam espirituais (inferno), com as leis religiosas. Esta é uma necessidade imposta pela natureza do primitivo, que só por tais meios pode ser educado. Infelizmente, muitas vezes, a ferocidade das leis é devida à ferocidade dos indivíduos. Neste nível, o ser obedece aos impulsos descontrolados do seu subconsciente. Quando ele está com um desejo e vê algo que pode satisfazê-lo, não lhe resta senão apoderar-se daquilo, para assim satisfazer-se. O problema para ele é só um: vencer os obstáculos que se interpõem entre ele e o objeto da sua cobiça. Na sua ética, o valor está todo em saber vencer tais obstáculos pelo caminho mais curto, com o menor esforço e prejuízo possíveis. Então não há razão, quando falta a força ou é proibido usá-la, para não usar a astúcia. E por que, quando tal involuído vive em nosso mundo, não deveria ele usar tal meio para vencer as leis humanas, se isto está de acordo com a sua psicologia? Para ele, isto é legítimo. Melhor não sabe fazer o primitivo, pois ainda não conquistou o sentido moral, que é o fruto de uma longuíssima experiência de punições recebidas pelas reações dos lesados. Mas, se esse método é legítimo para ele, não o é, porém, para a sociedade onde ele vive, que o julga e iso-

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la como um perigo social, até chegar um dia a eliminar completamente do seu seio estes elementos cancerosos. Eis como o involuído pode entender as normas que, pelo menos oficialmente, dirigem o nosso mundo. Eis como pode ser vista a nossa ética, quando olhada de baixo para cima pelos mais atrasados. Para eles, então, as leis civis e religiosas representam somente um obstáculo a vencer, um inimigo do qual se defender, um dos tantos empecilhos a superar na luta pela vida. Tudo isto é perfeitamente lógico na forma mental do primitivo. Conforme a sua ética elementar, a habilidade do indivíduo está em saber superar essas dificuldades, impostas pelo inimigo, que manda. Então as leis têm de ser conhecidas não para lhes obedecer, mas para enganá-las. Eis como a desordem vai se insinuando dentro da ordem, como a mentira vai roendo as instituições sociais, até chegar ao ponto, quando tais elementos tornam-se maioria, de destruir uma nação. Tal fenômeno tem a sua lógica. Assim, na forma mental do involuído, uma vez que ele está mais próximo do AS do que do S, é lógico que a virtude apareça em sentido emborcado, não de ordem mas de desordem, não de obediência mas de revolta contra as leis, que representam a ordem do S. Na forma mental de um rebelde egocêntrico, é lógico que o valor consista na sua vitória contra a ordem social e que, para ele, represente uma derrota o seu eu ser constrangido a agir em função dos outros. A obediência na ordem é para ele escravidão, e não um superior estado orgânico. Para o involuído, disciplinar-se dentro de uma ordem que não seja aquela na qual ele manda, significa ficar submetido ao serviço dos outros e, portanto, ser vencido na luta pela vida, que, pelo contrário, o impulsiona a submeter os outros. É lógico que os valores do involuído estejam nos antípodas aos do evoluído, de modo que o valor, para o primeiro, consista na revolta para instaurar o reino onde domina o seu eu separado, enquanto, para o segundo, ele esteja na obediência à ordem em que se realiza o estado orgânico do reino de todos irmanados em unidade. Eis então que, do lado do involuído, há rivalidade e luta, ao passo que, do lado do evoluído, há paz e harmonia. Eis por que os delinquentes são rebeldes à ordem social e por que, quanto mais é involuído o nível humano, tanto mais vigora a lei biológica da luta pela vida. Desta posição emborcada do involuído deriva toda a sua lógica às avessas. Assim o delinquente tem a sua honra e orgulho de rebelde contra a ordem social, e para ele, que está fora dela, é traidor quem se torna honesto em obediência a esta ordem, assim como, para quem está dentro, é culpado quem a desobedece. Na estrutura desta sua forma mental, produto do AS, está a razão pela qual, para o involuído, a justiça consiste na revolta contra tudo o que desce do S, enquanto este, por isso, quer endireitar tudo o que pertence ao AS. Os princípios fundamentais que explicamos em nosso volume O Sistema continuam encontrando a cada passo novas confirmações. Eis de onde nasce essa psicologia tão comum, pela qual é prova de inteligência saber enganar o próximo, embrulhar a lei, aproveitando tudo e todos só para vantagem própria. Se, na forma mental do involuído, a autoridade não pode ser concebida senão como um meio para dominar os fracos, então, para ele, é legítimo procurar evadir-se de uma obediência que significa servidão. Eis por que, em nossa sociedade, as leis não podem funcionar senão por força de sanções e a ética tem de ser um torno de ferro, impondo uma disciplina sem saída. E, onde tudo não pode existir senão em forma de luta, a vida não pode ser senão um inferno. Eis o que infelizmente, muitas vezes, encontra-se na realidade. Quando um indivíduo está com desejo de possuir alguma coisa, o problema para ele é somente apoderar-se dela. O preço que ele tem de pagar se constitui em cumprir o esforço necessário, inclusive aquele de escapar às sanções das leis e enganar a boa fé dos honestos. No mundo atual, o uso da força ficou lícito somente entre nações em guerra, mas não entre indiví-

duos, que então recorrem à astúcia. Assim, por exemplo, se um involuído se apercebe que, através da mentira – mostrando-se fraco e vítima de injustiça, apesar de ser de natureza oposta – consegue tirar vantagem com tal método, explorando a piedade dos bons, não há na sua forma mental razão para que não se regozije pela bela descoberta e não procure praticar o máximo possível, em seu proveito, tão rendoso truque, enquanto encontrar quem acredite em seus enganos. Mas nem sempre há tanta cegueira, que parece má fé, fruto mais de perversão do que de ignorância. A consciência é um poço fundo no qual impulsos do subconsciente instintivo e cálculos impostos pelas necessidades materiais se misturam com atos praticados de boa fé e tentativas para subir, pelo que o mal é feito sem querer, só por falta de conhecimento e de capacidade para saber fazer melhor. Para esclarecer, apresentamos outro exemplo. Não há dúvida que a posição de ministro ou representante de Deus, em qualquer religião, pode oferecer para alguns a vantagem de uma boa situação social, que representa um melhoramento nas condições de vida. Se isto constitui para a maioria um desejo honesto e natural, o mais almejado objetivo a realizar pela própria lei de evolução, é lógico que naquela forma mental, já vista por nós, movida por tais impulsos elementares, possa despontar com toda fé a vocação para as coisas do espírito. E por que não deveria ela parecer espontânea e legítima em plena consciência, quando o indivíduo percebe muito bem e, sobretudo, entende aquela vantagem concreta, que corresponde ao seu instintivo impulso de crescimento? No entanto lhe escapa o verdadeiro sentido da palavra vocação, porque, pela sua forma mental, ele não pode entender o tremendo peso dos imponderáveis valores do espírito. Tudo isto poderá chocar, como profanação, um evoluído, mas, para este outro biótipo, que funciona com tal psicologia, torna-se lógico e natural. Que lhe pedem e exigem dele as leis e as normas de vida vigentes? Qual é o seu dever formal, exterior, que ele entende? Ele quer cumpri-lo e o cumpre de verdade, com toda a honestidade. Ele sabe que a sua tarefa consiste em sustentar e pregar alguns princípios ideais que lhe ensinaram, repetindo-os aos outros e sacrificando-se para praticar algumas regras de vida formais. Com isso, o seu dever está feito, e ele pode ficar descansado. Este é o trabalho que lhe pertence, e ele o faz. Este é o peso carregado por ele, com o qual paga honestamente o que recebe em troca da sociedade, como defesa, sustento, segurança, respeito, coisas que, no cérebro de quem conhece quão dura seja a luta pela vida, são de importância fundamental. A posição implica algumas desvantagens, que são, porém, aceitas fielmente, pois são compensadas com as correspondentes vantagens. A paixão pelo ideal é outra coisa, e isso é tudo o que se pode exigir nesse nível. Não se pode acusar tal biótipo de insinceridade, quando ele, das coisas de espírito, apenas lhes pode entender a forma exterior e quando as pratica com toda a exatidão, obedecendo a todas as regras mecânicas estabelecidas. Como se pode dizer que tal homem, pela sua forma mental, não seja honesto? Como pode ele ser julgado culpado, se o mundo ideal do evoluído está acima do seu entendimento e se ele dá prova de tanta boa vontade em procurar realizar o que não consegue entender? Não será bom que sobretudo quem, ainda não estando maduro, tem de cumprir os seus primeiros passos no caminho da espiritualidade, inicie a sua carreira espiritual por esse caminho, aproximando-se assim do conhecimento de valores ainda inconcebíveis para ele? Alguns se escandalizam porque, neste caso, pode parecer que tal indivíduo faça negócio das coisas de Deus. Mas como pode ele fazer diferente, se esta é a ética que vigora na sua consciência e se, somente quando ele conseguir evoluir até um nível biológico superior, poderá chegar a vibrar pela paixão que arrasta apenas quem entendeu o poder imenso e o valor sublime das coisas do espírito? O indivíduo comum não sabe nada disso e aprende a sua lição de cor, repetindo-a fielmente. Que mais se pode exigir

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dele? Com isso, ele deu tudo o que tem e está convencido de ter feito tudo o que devia ser feito. Não segue ele na sua vida uma conduta exemplar, conforme as regras? Só falta a alma, aquilo que de fato sustenta e justifica as formas. Mas como se pode exigir de alguém que dê o que não possui? Então, o que parece um mal pode ser feito em perfeita boa fé e convencimento de bem. O imenso peso do imponderável não pode ser percebido senão em planos de vida mais adiantados. Como se pode exigir que os surdos ouçam, se eles ainda não desenvolveram o sentido da audição? É lógico que eles reconduzam tudo ao seu nível, entendendo e praticando somente as leis deste plano, e permaneçam insensíveis onde, para um evoluído espiritualizado, desencadeiam-se as maiores tempestades e se revelam as mais elevadas belezas da vida. É lógico que desse mundo os primitivos entendam apenas o que podem, rebaixando-o e transformando-o em alguma coisa possível de ser utilizada para o seu uso no seu ambiente, que obedece a outras leis e impõe outras exigências. É assim que os representantes das religiões podem tornar-se eficientes administradores de uma ótima organização burocrática, cumprindo o seu dever de modo perfeito. Tudo funciona então às mil maravilhas, no entanto, apesar de pouco considerado pelo mundo, falta o mais importante: o conteúdo espiritual, do qual tal religião ficou totalmente esvaziada. Ora, o fato de ter ficado de pé somente a forma exterior, não sustentada por qualquer substância, pode representar a última fase da decadência de uma religião. Mas, onde o homem espiritual se abala e estremece, o mundo continua cuidando dos seus negócios. Podemos apreciar um encontro entre esses dois tipos biológicos frente a frente, cada um funcionando com a forma mental do seu plano de evolução, no romance de Alessandro Nanzoni, I promessi Sposi (Os noivos prometidos). O bom padre Don Adondio, pároco numa pequena aldeia, encontra-se com o cardeal Frederico Borromeo, arcebispo de Milão, e na conversa entre eles revela-se o abismo que divide as duas psicologias. O primeiro, preocupado apenas em evitar o perigo para si, fugindo dos maus e poderosos para salvar a si próprio, indiferente com o que acontecesse aos outros fracos e esmagados, que ele deveria proteger. O segundo, inflamado e ardendo de paixão para defender em nome da justiça os fracos e esmagados, preocupado não com os seus perigos, mas somente com o cumprimento do seu dever, não importando o que sucedesse consigo. O primeiro agia de acordo com as suas obrigações formais e as suas comodidades; o segundo, fremente de espiritualidade, transbordava de santidade. O colóquio entre eles nos mostra como o primeiro, muito bom homem, nada conseguiu entender da psicologia do outro, julgando se tratar da loucura dos santos. Tudo isto nos mostra quão difícil é o trabalho – que as religiões têm de realizar na Terra – de trazer o ideal ao nosso mundo. Elas pedem que sejam praticados princípios opostos aos deste, querendo arrancar ao homem as garras que lhe são necessárias para vencer na sua luta pela vida. O que todos entendem é a ideia da competição. Basta falar em termos de luta, para que todos logo se interessem e vibrem. Como silenciar esse impulso, se ele é fundamental no nível humano, devido à constante presença do adversário num mundo inimigo, onde não é possível sobreviver, senão praticando a cada passo o método do ataque e defesa? Para ninguém é lícito, sob pena de perder a própria vida, esquecer, nem por um só instante, qual é a dura realidade biológica em que estamos todos mergulhados. E, se a maior necessidade é a defesa, como impedir que os fracos procurem nas religiões, em vez do novo esforço que elas exigem para evoluir, um abrigo que ofereça segurança e um alívio que torne a vida menos difícil? É nestas duras condições de ambiente que aparecem as religiões para tirar do homem suas armas e, assim, despido de todo recurso para a luta, lançá-lo num mundo de guerreiros. Como

poderá ele sobreviver aí? Não representa tal método uma condenação à morte? E como se pode exigir que o homem não a converta numa forma de hipocrisia, atrás da qual ele continua praticando o que a vida lhe impõe para se salvar? Se ele usa o sistema do mundo, trai os princípios das religiões, que se apressam a puni-lo com o inferno; mas, se ele pratica o sistema das religiões, isto significa derrota e escravidão de vencido. Como poderá, então, o primitivo não acabar sendo destruído? E, se ele não continuar vivendo, como poderá realizar-se a sua evolução? Então, na prática, o impulso das religiões na direção da subida poderia representar um elemento contraproducente na economia da vida, porque constituiria um perigo de destruição ao invés de um fator de construção. É por isso que o instinto de conservação reage com escapatórias e modera com os acomodamentos humanos o esforço evolutivo que as religiões impõem. Tudo isto nos mostra também como é perigoso outorgar o direito de livre exame, quando essa é a forma mental e a consciência do involuído. Como se lhe pode deixar uma autonomia de julgamento que o autorize a dirigir a sua vida com tal psicologia? Se ele não possui o sentido dos valores éticos, julgará tudo com a mente que possui, não podendo por isso ser julgado responsável. Então, para que ele não fique abandonado a si mesmo, algumas religiões tiram a liberdade do livre exame e impõem disciplina. Esta, no entanto, sendo uma imposição que vem de fora para dentro, fica exterior e formal, criando autômatos que executam mecanicamente, sem nada entender. Os impulsos espirituais das religiões deveriam seguir o caminho oposto, isto é, de dentro para fora, e não como no caso precedente, onde se chega a uma espiritualidade emborcada na materialidade, pela qual a substância fica mergulhada e afogada na forma. Mas já vimos que absolutamente nada de espontaneidade e de livre exame pode sair de dentro para fora em seres com a forma mental do involuído, restando apenas o constrangimento à força, pelo medo de punições. No fim, então, é o biótipo dominante que impõe a sua psicologia de luta – expressão da lei do seu plano – às religiões. Estas, por sua vez, têm de aceitá-la, se quiserem subsistir num mundo de rebeldes, que, mais do que serem iluminados e convencidos, precisam antes de tudo ser domesticados. E eles, concebendo a vida na forma de luta, reagem e, se não podem fazê-lo com a força, fazem-no com o engano e a hipocrisia. Como se vê, trata-se de um círculo vicioso, pelo qual tudo volta à fonte, cabendo ao indivíduo, quando não é maduro, arcar com todas as consequências. Se a função das religiões é levantar o homem para níveis de evolução mais adiantados, elas têm, contudo, se quiserem sobreviver na Terra, de se adaptar ao mundo, descendo ao nível de evolução em que se encontra a maioria. Tudo depende do grau atingido pelo biótipo dominante. ◘◘◘ Assim o panorama se transforma à medida que subimos para planos de vida mais adiantados. Eis os vários graus de amadurecimento evolutivo que se encontram em nosso mundo. Com este quadro resumimos e concluímos este capítulo: 1o grau – O princípio que dirige a vida do indivíduo neste nível é muito simples. Se ele deseja uma coisa, estende a mão e se apodera dela, satisfazendo assim o seu desejo. Forma mental elementar, com sua respectiva ética de obediência mecânica aos impulsos primitivos. 2o grau – Aqui, o caso nem sempre é, assim, tão fácil de resolver. Encontram-se dificuldades e resistências que dificultam a satisfação do desejo. Desponta deste modo o princípio da luta, necessária para arrancar das mãos dos outros o que o ser quer possuir. Então ele se movimenta, usando o método da força, e, se vence, conquista a sua presa, atingindo deste modo o seu objetivo e satisfazendo o seu desejo. Eis a forma mental e a respectiva ética do cidadão desse plano, conforme sua consciência. Neste nível a presença de leis civis e religiosas representa para o indivíduo apenas um obstáculo a superar. No estado atual da

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sociedade humana já existe uma ordem coletiva, que constrange com a força aquele indivíduo a obedecer às leis. Porém, no terreno internacional, ainda não existe uma disciplina entre as nações, que julgam legítimo satisfazer os seus desejos com as guerras, praticando a lei da força, que é proibida para o indivíduo no terreno particular. Assim as unidades coletivas estão mais atrasadas do que ele e, quanto maiores são, tanto mais tempo e trabalho é necessário para se civilizarem. 3o grau – Este é o estado em que o indivíduo obedece às leis, mas somente na forma exterior e porque constrangido à força. Julga-as sempre como um obstáculo a superar, um inimigo a vencer, porque o impede de atingir seu objetivo, que é realizar a satisfação do seu desejo. Então, constrangido pela poder que a organização social possui, contra a qual ele não tem bastante força para se rebelar, o indivíduo emprega outro meio, um substituto dela, a astúcia. Prevalece, assim, sob um ambiente pacífico na superfície e na aparência, uma luta subterrânea, invisível por fora, terrível e desapiedada, mas bem escondida sob um manto de hipocrisia. A forma da luta mudou, mas permaneceu na substância. O princípio e o método de vida permaneceram, mas de um modo mais sutil e aperfeiçoado. Eis a forma mental e a respectiva ética do cidadão deste plano, conforme sua consciência. Então o constante trabalho do indivíduo está em se evadir das leis, que ele continua a julgar um obstáculo a superar. E permanece sempre o mesmo objetivo de satisfazer os seus desejos, mas praticando a arte de escapar às sanções penais das leis. A finalidade não é colaborar, obedecendo na ordem, mas sim rebelar-se para o triunfo do próprio eu. A diferença com o caso precedente está no fato de que agora a violência não é mais física, e sim econômica, nervosa, psicológica, mantendo a desobediência disfarçada sob as aparências de obediência. 4o grau – Se o 1o grau é o nível do animal, o 2o, o da fera, do selvagem, do delinquente ou primitivo mais involuído, e o 3 o, o do homem atual, ou involuído mais adiantado, o 4 o grau é o nível do homem evoluído, que abandonou todos esses métodos de luta, porque conseguiu entender a lei de Deus, obedecendo-a espontaneamente. Nisto ele atinge o seu objetivo e satisfaz o seu desejo de bem. Eis a forma mental e a respectiva ética do cidadão desse plano, conforme sua consciência. O mencionado princípio da luta e o respectivo método de vida ficaram definitivamente abandonados nos níveis biológicos inferiores, dos quais o evoluído não faz mais parte. Eis os biótipos que encontramos em nosso mundo atual, cada um com a sua forma mental e a respectiva ética. Nos capítulos seguintes, teremos de encarar também outros problemas no terreno da ética. E o nosso sistema filosófico nos permite resolvê-los. Cada filosofia representa uma dada interpretação da realidade, filtrada através do temperamento de um dado pensador. Nós não seguimos esta ou aquela escola, não adotamos nenhuma interpretação particular e pessoal da realidade, apenas nos colocamos perante os fatos e os deixamos se manifestar e falar. Nós ficamos somente olhando e escutando, deixando eles nos apresentarem o seu sistema filosófico, contido no pensamento que rege o seu funcionamento. Cada fenômeno nos mostra, no seu desenvolvimento, a lei à qual obedece. Tudo isto significa a presença de uma inteligência, e procuramos entender o seu pensamento. A matéria com que se organiza o nosso universo se apresenta como uma maravilhosa construção lógica e matemática. Sobre esta base física se levanta a vida, movimentando-se naturalmente em função das finalidades que ela deve atingir, as quais explicam e justificam o seu contínuo esforço evolutivo. O trabalho de tal íntima autoelaboração representa a nossa fadiga de hoje, mas o seu fruto será o nosso triunfo de amanhã, para o qual nos leva uma irresistível atração. Ora, pode-se medir a inteligência com o método dos testes, e o que uma inteligência produz nos dá a medida do seu valor. Com tal método,

então, podemos medir quão imenso seja o valor da inteligência que não só construiu o universo físico e a sua ordem matemática, mas também soube produzir a célula viva e organizar bilhões delas no corpo humano, resolvendo todos os respectivos e complexos problemas particulares, como era necessário para atingir tais resultados. Somente com a presença de tal inteligência se pode entender o significado de todos os fenômenos, sejam eles físicos, dinâmicos ou espirituais. Neles ela fala e se revela. Nós ficamos simplesmente escutando. Eis onde se baseia o nosso sistema filosófico. Dentro dessa inteligência, vimos que está escrito também o Evangelho, constituindo um objetivo cuja realização será atingida no futuro, como produto da evolução da vida. As religiões são um meio para chegar a isto, conforme planos históricos preestabelecidos por aquela mente diretriz. Pelo seu atrasado nível evolutivo, o homem atual quereria repelir a concepção evangélica, situada fora da realidade da vida, como coisa que só pode pertencer a um mundo transcendente e sobrenatural, reservada à esfera espiritual dos ideais religiosos. Mas aqui já explicamos que se trata apenas de duas posições diferentes ao longo da escala da evolução, uma no presente, do involuído, e outra no futuro, do evoluído, de modo que a segunda está pronta para aparecer tão logo se esgote a função biológica da primeira. Se estas são as bases do nosso sistema filosófico, a ética que sustentamos aqui representa as consequências deste sistema. Trata-se, então, de uma ética concebida em função de uma visão universal, da qual logicamente derivam estas conclusões práticas. Poderemos assim, nos capítulos seguintes, entrar em outros pormenores. Inferno e paraíso não são fantasia, mas sim realidade. O primeiro é o AS, o segundo é o S. A vida evolui do primeiro para o segundo. O paraíso das religiões representa uma realidade biológica futura, que constitui uma posição positiva de existência, colocada como último objetivo no fim do caminho evolutivo. A ética representa o guia que nos dirige ao longo desse caminho, para nos levar a esse ponto final. Por isso é de nosso interesse fundamental conhecê-la, para praticá-la, porque se trata de nossa felicidade. Veremos agora outros aspectos dessa ética, a respeito dos quais o nosso mundo está navegando na mais completa obscuridade, condição esta inevitável, quando não se sabe dar resposta lógica e convincente às perguntas fundamentais da existência, como por que vivemos, de onde viemos, para onde vamos etc. Vivemos num universo que funciona conforme um plano preestabelecido, que vai se desenvolvendo em momentos encadeados um no outro, sucessivamente, por uma férrea conexão lógica. Não há fenômeno que, assim, não esteja vinculado a infinitos outros. O que acontece a cada um de nós neste momento é o resultado último de impulsos que se movimentaram há milhões de séculos e, agora, chegam daquele passado longínquo até nós, trazidos na onda do tempo. É por isso que não é possível entender e resolver qualquer caso particular, se não soubermos orientá-lo no plano universal. Há problemas escaldantes e tormentosos ainda por resolver em nossa sociedade, como por exemplo o da delinquência, que se procura remediar com punições legalizadas. Mas o delinquente nasce assim ou por tendência hereditária, transmitida de pais para filhos, que a recebem sem saber nem querer, ou por assimilação do ambiente no qual ele teve de se desenvolver, sem possibilidade de escolha. Então a culpa está nos outros, ou seja, na sociedade, que julga o delinquente pessoalmente responsável e como tal o pune, justificando-se com abstratas teorias de justiça, enquanto, de fato, só luta pelo seu interesse, podendo julgar e condenar somente porque se encontra na posição do mais forte e o outro na do mais fraco. E, de fato, vemos o que acontece nas revoluções, quando tal posição se emborca, devido ao enfraquecimento da ordem social. O primeiro crime é da sociedade, ao permitir que sejam gerados esses infelizes, deixando a procriação livre para todos, e admitir, assim, o nas-

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cimento também de doentes físicos e mentais, inconscientes, irresponsáveis, loucos, criminosos etc., semeando sofrimento para si e para os outros. É da sociedade o primeiro crime também, porque a ela, acima de todos, interessa muito mais reprimir, punindo os culpados, do que prevenir a culpa. Ela pode legalmente praticar em sua vantagem o desabafo do seu instinto de agressividade e impor-se para dominar, já que prevenir, evitando que os crimes se realizem, exige esforço, sacrifício e amor, elementos necessários para melhorar o ambiente, substituindo as condições de vida inferior por outras mais adiantadas, onde o mal não pode nascer. Assim, quem é condenável de fato, antes de tudo, é a própria sociedade, porque pune as suas culpas somente em alguns indivíduos, que são apenas o efeito delas. A realidade é que o nosso mundo ainda não sabe se conduzir com inteligência, para dirigir os fenômenos fundamentais da sua vida. Teremos assim, neste livro, de examinar o problema em mais profundidade e penetrar o mistério da personalidade humana, sem o que nada se pode resolver. Eis a dura realidade. Quantos problemas terá de resolver a nossa sociedade, antes que possa chamar-se civilizada! O homem atual resolve os seus problemas empiricamente, sem suspeitar que está obedecendo a impulsos do seu subconsciente, julgando sem conhecimento da lógica das leis que Deus escreveu em todas as coisas. Falamos há pouco do método da força e da astúcia, como sendo do involuído. Não é este o método praticado hoje pelo nosso mundo? Trata-se do método do rebelde, que só sabe cometer erros e, com isso, gerar sofrimentos. Mas pode-se imaginar maior absurdo que este método, pelo qual um ser sedento de felicidade vai continuamente construindo com suas mãos as próprias dores. É o que está acontecendo nas relações entre indivíduos e grupos, inclusive entre as maiores nações, com todas as suas consequências. O método das rivalidades e da luta traz consigo a necessidade de vencer. Neste nível, então, a vida deve ser uma conquista contínua, baseada na força. E é lógico que a outras consequências não possa levar o princípio egocêntrico de tal método. Não pode haver paz senão com a submissão dos outros. Toda vitória e grandeza é um trono que se levanta sobre um cemitério cheio de mortos ou uma prisão de escravos. Convivência pacífica, que não seja em função do domínio de um vencedor, não é possível. Hoje se fala de paz, intensificando a corrida armamentista. Primeiro a astúcia diplomática e, atrás dela, as armas prontas para saltar em cima da outra parte, logo que esta der um sinal de fraqueza. Mas ninguém, nem sequer o fraco, renuncia à vida gratuitamente. No fim, ele a defenderá com a força do desespero, preferindo que morram todos ao invés de morrer ele sozinho. Eis que o resultado final do método atual tende fatalmente, pela sua própria natureza, à destruição de todos, vencedores e vencidos, trazendo a paz do cemitério, que representa o triunfo da negatividade do AS. Eis o que são as vitórias humanas, pois cada uma delas representa um desequilíbrio conquistado à força, uma violação da harmonia universal e, por isso, um débito a pagar à justiça da Lei. Assim, a história não é senão uma série de guerras, vitórias, débitos e sofrimentos a pagar. Quem vence é a justiça de Deus, que constrange todos a pagar. Ele deixa sempre um novo vencedor triunfar, utilizando-o como instrumento para punir o velho vencedor, agora vencido. Todos então, em rodízio, ficam envolvidos no mesmo ciclo. Assim, os cidadãos da Revolução Francesa foram instrumentos da justiça de Deus, para punir os excessos da aristocracia. Mas, por também terem cometido os seus crimes, foram punidos pelo povo francês, que, por sua vez, foi punido pelas dores e mortes das guerras napoleônicas, cujo chefe acabou também punido com a derrota e o desterro. E assim por diante. Nos tempos modernos, a Inglaterra teve as suas culpas punidas pela Alemanha, com as duas últimas guerras, nas quais perdeu o seu império colonial. Depois, os crimes da

Alemanha foram punidos pelos Estados Unidos, que agora estão ameaçados de serem punidos pela Rússia, cujo poder eles próprios criaram com as suas mãos, para vencer a Alemanha. Se a Rússia vencer, depois chegará a China para punir os seus crimes, e assim por diante. Deste modo, cada um paga os seus pecados e, acima de todas as injustiças humanas, filhas do uso da força, triunfa, com o sofrimento por todos merecido, a justiça de Deus. Tal será o destino do mundo, enquanto ele não acabar com tal método de vida, parando de cometer injustiças, para não precisar mais de ser punido. Sabemos que, para a forma mental dos práticos, as nossas palavras parecem utopia, porque outra é a realidade da vida. Mas não há dúvida também que estes não podem deixar de ser os resultados da psicologia e métodos hoje vigorantes. Como há pouco dizíamos, tudo está logicamente encadeado num processo de desenvolvimento consequente, de modo que, quando escolhemos um dado método de ação, nele ficamos fatalmente presos até às suas últimas consequências. Quem semeia causas de um dado tipo terá depois de aceitar os seus efeitos, até que os impulsos movimentados sejam completamente esgotados. Um método de ação representa a aplicação de alguns princípios básicos, desenvolvidos ao longo de um caminho marcado, do qual, uma vez sendo iniciado num dado sentido, não é possível se afastar, já que ele deve ser seguido até ao fim, para realizar a sua lei. O homem ainda terá muito trabalho e incríveis dores para chegar a entender que existe uma lei dirigindo tudo, da qual ninguém pode sair. E, por fim, se quiser parar de sofrer, terá de aprender a se movimentar dentro dela com inteligência, obedecendo-lhe, ao invés de se chocar com ela a cada passo. Neste momento em que estou concluindo este assunto, abro por acaso uma revista europeia e leio: “O materialismo que hoje domina no mundo impulsiona-o para a sua ruína. Toda a ideia de espiritualidade desapareceu, a fera ruge no homem, que caiu no abismo das trevas morais. Em vão, as religiões procuram levá-lo para o bem. Os ouvidos dos homens-animais se tornaram surdos e não entendem mais. Até a ciência, que dirige a humanidade, vive na obscuridade, sem nenhuma orientação a respeito dos supremos objetivos da vida”. E, de fato, o mundo é ateu na prática, dividido em duas formas de ateísmo: os materialistas, abertamente declarados, e os religiosos, que se escondem sob práticas exteriores. Assim, o nosso mundo, apoiandose na sua ignorância da existência e da presença imanente de Deus e de Sua lei funcionando entre nós, acredita ter resolvido os seus problemas, simplificando-os no nível mecânico animal, e haver alcançado a solução certa e permanente. Há, porém, devido a esta imanência, o irresistível impulso da evolução, e cabe a ele realizar fatalmente a transformação do involuído em evoluído, arrastando tudo e todos, porque representa a própria vontade de Deus, a qual exige e garante a nossa salvação, mesmo que isto deva custar ao homem, para ele aprender a lição necessária, ter de sofrer todas as dores que tiver merecido. IV. A PERSONALIDADE HUMANA A ciência já chegou a admitir que o universo é o produto de uma grande inteligência, que está anteposta ao seu funcionamento. Então deve haver um princípio, uma ordem, uma lei que tudo regula. A ciência também admite que nada se cria e nada se destrói. Isto quer dizer que tudo o que existe, apesar de ir sempre mudando de forma, fica indestrutível na substância. Disto se segue que a personalidade humana, cuja existência é um fato positivo, não pode ser destruída, devendo sobreviver à morte. A ciência admite a lei da evolução. Ora, evolução, como já explicamos em outros livros, quer dizer subida, o que implica a ideia de alturas ou níveis diferentes ao longo desse processo de ascensão. Então a nossa concepção de planos de vida diferentes e sobrepostos não é arbitrária, mas sim a con-

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seqüência direta do conceito de evolução. Esta significa um caminho a percorrer, dirigido para finalidades estabelecidas. E, de fato, vemos que tudo é imperfeito, mas vai procurando melhorar-se, subindo para a perfeição. Vemos, assim, aparecerem claras as linhas fundamentais do fenômeno de nossa vida, regido por estes quatro princípios: ordem, indestrutibilidade, evolução e finalismo. Mais especificamente, conclui-se com os seguintes resultados: 1) A existência de Deus e da Sua lei, que tudo dirige. 2) A sobrevivência à morte. 3) O conceito de uma existência muito mais vasta – uma vez que o caminho da evolução não pode ser percorrido senão atravessando níveis de vida diferentes – na qual se juntam, como os vários anéis de uma cadeia, as vidas sucessivas, sem o que não poderia haver evolução. 4) O fato de nossa condição presente ser o produto da nossa conduta no passado, assim como a nossa condição no futuro se constituir do resultado de nossa conduta no presente, tudo sempre em função da última finalidade da evolução. Eis que, por esse caminho, chegamos até às raízes que justificam e fundamentam as normas da ética. Agora, as linhas gerais do fenômeno podem ser vistas claramente. Mas, neste livro, queremos aproximar-nos cada vez mais da realidade prática da vida. Por isso, dos princípios que a regem, temos de descer até ao exame do caso particular, olhando-o de perto, pois isto é o que mais interessa ao indivíduo. Em outras palavras, para saber qual deve ser a nossa conduta na vida e conhecer as suas respectivas consequências, estabelecendo assim as nossas responsabilidades, é necessário conhecer a estrutura de nossa personalidade e a linha de nosso destino, dois problemas que não podem ser resolvidos senão em função um do outro. Veremos, assim, como os princípios gerais que regem a vida podem ser aplicados ao caso particular de cada indivíduo, conforme o seu tipo de personalidade e destino. Na maioria dos casos, o indivíduo vive cegamente, sem saber quem é e sem conhecer as finalidades para as quais ele existe, que explicam e justificam a sua vida. Assim, não orientado pelo conhecimento, ele se movimenta ao acaso, sem a direção de uma norma de conduta correta, que somente pode ser atingida vendo claro na própria personalidade o respectivo destino. O indivíduo movimenta-se, assim, obedecendo apenas aos impulsos descontrolados dos instintos, momento por momento, sem consciência de uma trajetória em sua vida, que se desenvolve em função de um objetivo a atingir. Desprovido da autonomia de direção de quem é sabedor do sentido da sua viagem evolutiva, ele é apenas mecanicamente arrastado pelas forças da Lei. Tal é a triste posição do involuído, mergulhado nas trevas da sua ignorância. Aqui está a grande diferença entre o evoluído e o involuído. Este concebe a sua vida isolada no curto trecho que pode perceber com os sentidos, fechado entre o nascimento e a morte, como se este parêntese percorrido no plano físico fosse toda a vida. Além destes dois pontos, tudo é mistério para ele. O evoluído, pelo contrário, tem consciência de uma vida muito mais vasta, que se estende além destes dois limites, uma vida imensa, que abrange o seu caminho evolutivo na eternidade. Ele conhece os elementos do duplo problema: personalidade e destino, ou seja, sabe quem ele é e qual é o objetivo particular que ele deve atingir na sua atual vida física, em função dos objetivos maiores de toda a sua evolução. Então, para os dois biótipos, involuído e evoluído, a vida é concebida e se torna uma coisa completamente diferente. Para o primeiro, ela contém posições materiais que ele concebe como uma realidade estável e verdadeira, feita para durar. Para o segundo, trata-se somente de cenas que aparecem em contínuo deslocamento, apenas como expressão exterior tangível de outra realidade profunda, dada por um movimento de forças, com efeito de amadurecimento, no desenvolvimento lógico de um destino.

Enfrentemos, então, o problema, procurando em primeiro lugar chegar ao conhecimento da personalidade humana na sua estrutura, observando-a na sua posição estática. Enfrentaremos depois o mesmo problema no seu aspecto dinâmico, observando a personalidade humana na técnica da sua construção. De fato, a consciência que constitui o nosso eu não representa uma posição estável, mas uma entidade em contínua transformação, devido ao seu deslocamento ao longo do caminho da evolução. Isto corresponde ao conceito já mencionado de planos de vida diferentes, cada um deles correspondente a uma correlativa forma de consciência e grau de entendimento, conquistado por evolução, conforme as experiências realizadas nas vidas sucessivas. A teoria da reencarnação já foi por nós demonstrada no livro Problemas Atuais. Há, porém, outro fato. O que chamamos de nossa consciência, dentro dos limites da qual percebemos, pensamos e nos sentimos vivos, não representa todo o nosso eu, mas apenas uma parte dele. Além desta, existe outra parte, cujo conteúdo e limites não conhecemos e escapam ao nosso controle, mas que é imensa e fica mergulhada no mistério, como se fosse um estrato profundo e escondido, sobre o qual se eleva e se evidencia, como se saísse de um mar, a parte consciente do nosso eu. Esta parte desconhecida é o que chamamos de inconsciente. Então o nosso consciente é uma entidade que emerge do inconsciente, isto é, de um mar desconhecido, que está além de nossa consciência. Esta entidade, com a evolução, vai-se deslocando de um plano de vida ou nível biológico para outro. Observemos ainda mais de perto o fenômeno, nos seus pormenores, procurando antes de tudo entender qual é o conteúdo desse inconsciente, situado além dos limites do nosso consciente. Podemos conceber o consciente como um segmento situado entre duas zonas de inconsciente: uma evolutivamente inferior, que chamamos de subconsciente, e outra evolutivamente superior, que chamamos de superconsciente. Evolutivamente inferior significa que, ao longo do caminho da subida evolutiva, o subconsciente representa o trecho já percorrido, ou seja, vivido e assimilado no passado. Evolutivamente superior significa que, ao longo do mesmo caminho, o superconsciente representa o trecho que ainda deve ser percorrido, ou seja, a ser vivido e assimilado no futuro. Então o nosso eu pode existir em três zonas ou níveis diferentes: 1) No subconsciente; 2) No consciente; 3) No superconsciente. Estas três zonas são como três camadas sobrepostas, que correspondem a três fases sucessivas de evolução ou níveis de existência do eu: 1) O eu inferior; 2) O eu médio; 3) O eu superior. Não podíamos deixar de enfrentar o estudo do problema de nosso eu observando-o como transformismo progressivo, em função do fenômeno da evolução, porque este é fundamental para tudo o que existe. No biótipo humano comum, o eu funciona conscientemente no nível médio, enquanto as atividades do eu inferior, bem como as do superior, ficam escondidas, ocultando-se na zona misteriosa do inconsciente. Assim, o fenômeno do eu pode ser visto não apenas em seu aspecto luz-sombra, para nos indicar quais são os limites do terreno dominado pela nossa consciência, que se ergue como uma ilha sobre o mar do inconsciente, mas também em seus três momentos sucessivos, correspondendo às três diferentes posições ao longo da sua ascensão evolutiva. Observemos agora o conteúdo, ou qualidades, dessas três formas de existência do nosso eu, para ver depois como é possível, por evolução, deslocar-se de uma para outra. Na sua estrutura, a personalidade humana poderia ser comparada ao espectro solar. Assim, a parte inferior, dada pelo infravermelho, faixa do espectro não perceptível pela visão, corresponde ao subconsciente, que também está fora da percepção da consciência. Fruto das lições aprendidas no passado, esta é a zona dos instintos, constituídos pelos automatismos adquiridos através da longa re-

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petição, que, por isso, não precisam mais do controle da consciência para realizar o funcionamento do organismo físico, pois se tornaram automáticos. A parte superior, dada pelo ultravioleta, faixa do espectro igualmente não perceptível pela visão, corresponde ao superconsciente, que também está fora da percepção da consciência. Esta é a zona das qualidades superiores ainda a conquistar no futuro, zona das antecipações evolutivas, onde excepcionalmente se realizam as superiores funções psíquicas e espirituais da intuição do gênio, às quais está confiada a descoberta de verdades cada vez mais vastas e profundas, mais próximas do absoluto. Por fim, a parte intermediária, situada na faixa superior ao infravermelho e inferior ao ultravioleta, porção visível do espectro, corresponde à consciência normal, que também está situada entre dois extremos invisíveis para ela, existentes fora dela, um abaixo e outro acima, ambos situados além dos limites do seu conhecimento. Em ambos os casos, somente quando o ritmo vibratório, tanto da luz como da consciência, fica dentro do limite de um dado comprimento de onda, é que aparece o fenômeno chamado por nós de luz ou de consciência. Então, quando falamos de personalidade, ela pode ser entendida não apenas no sentido restrito, limitada à sua parte visível de consciência, mas também no sentido mais vasto, na sua totalidade, abrangendo também a sua parte invisível, subterrânea, que se estende no inconsciente. Uma parte de nós ainda é desconhecida em nosso tempo, mas representa um lado essencial do nosso eu, na qual a moderna psicanálise está procurando penetrar. Trata-se de uma parcela importante da personalidade, porque é daí que saem, subindo de baixo ou descendo do alto, os vários impulsos que chegam no terreno da consciência. Sem tais pesquisas, estes impulsos ficariam escondidos no mistério, sendo impossível conhecer sua origem e significado. Às vezes, a consciência do eu transborda para além dos seus costumeiros e restritos limites, despertando em zonas do inconsciente, que se transformam então em consciente. Isto é possível porque o eu existe em todos os três níveis, mas em forma diferente, ou seja, tanto atual e ativo, acordado no consciente, como latente ou automático, adormecido no inconsciente. Os três níveis não representam três compartimentos estanques, pois o ser pode oscilar de um para o outro, conforme o seu estado vibratório e amadurecimento evolutivo. Isto ocorre porque o eu, ainda que em forma diferente, consciente ou inconsciente, existe nessas três posições, não importando se ele tem ou não conhecimento delas. Nem tudo o que constitui a nossa personalidade está contido na parte consciente, como nem todas as formas de luz estão contidas no espectro visível. O conhecimento de nós mesmos não alcança além da nossa consciência normal. Assim, subconsciente, consciente e superconsciente nada mais são do que três formas de existência do mesmo eu, observado em três de suas diferentes dimensões, sucessivamente conquistadas por evolução. Cada uma é maior do que a precedente, erguendo-se e construindo-se sobre esta, tal como na passagem da dimensão linear à superfície e ao volume, pela movimentação numa direção perpendicular à dimensão precedente. Desta forma, a dimensão do consciente domina a do subconsciente, e a dimensão do superconsciente domina a do consciente. Portanto a razão domina o instinto, e a intuição domina a razão. Quais são então as qualidades de cada uma dessas três dimensões, ou estados do eu, e como podemos, observando-as, saber a que nível elas pertencem: subconsciente, consciente ou superconsciente? No biótipo comum do homem médio, o consciente abrange a parte livre e responsável pela semeadura das causas, a parte acordada e ativa para a conquista de novos estados de consciência, onde, com esta finalidade, realiza-se o trabalho de experimentação da vida, enquanto o subconsciente representa o trabalho já realizado, cujos resultados, fixados nos instintos, foram definitivamente adquiridos, e o superconsciente representa o trabalho ainda a realizar, para seus resultados se fixa-

rem na personalidade sob a forma de novas qualidades adquiridas. Vemos assim como se efetua a obra de ascensão evolutiva. O fato é que subconsciente, consciente e superconsciente representam não somente três níveis de existência do eu, mas também três fases sucessivas do seu desenvolvimento. A primeira constitui a fase atrasada, de tipo ainda animal; a segunda, a fase atual, de tipo humano; e a terceira, a fase adiantada, de tipo super-humano. Temos assim três níveis nos quais pode existir a personalidade humana, que vai evoluindo de um para o outro: 1) O eu inferior, ou animal, 2) O eu médio, ou humano, 3) O eu superior, ou super-humano. Pouco se interessam por este último os psicólogos, porque se trata de um nível excepcional. No entanto ele existe e é importante, porque representa o futuro da raça humana. Poderemos melhor entender o fenômeno observando-o nas suas características elétricas. Em A Grande Síntese, já vimos as origens elétricas da vida. Então o subconsciente ou eu inferior representa a baixa voltagem da força vital, a forma inicial de consciência, a mais involuída, a mais densa, próxima da matéria, aquela que se poderia chamar de espírito inferior. Isto poderia corresponder à onda longa, de baixa frequência, do infravermelho. O consciente ou eu médio representa a média voltagem da força vital, forma mais adiantada e completa da consciência, mais desmaterializada, cerebral, psíquica, que se poderia chamar de espírito médio. Isto poderia corresponder à onda média, de média frequência, do espectro visível. O superconsciente ou eu superior representa a alta voltagem da força vital, forma ainda mais adiantada e completa de consciência, não mais cerebral e psíquica, mas sim espiritual, que se poderia chamar de espírito superior. Isto poderia corresponder à onda curta, de alta frequência, do ultravioleta. Assim, no fenômeno da evolução da consciência verifica-se o mesmo processo de aumento de frequência vibratória e diminuição de comprimento de onda que encontramos no desenvolvimento do espectro solar, na passagem do infravermelho ao ultravioleta. Do primeiro até ao segundo, o número das vibrações sobe de 400 a 750 trilhões de vibrações por segundo, enquanto que, paralelamente, o comprimento de onda diminui de 0,776 mícron no vermelho a 0,400 mícron para o violeta. Assim, resumindo: o subconsciente ou eu inferior representa um estado vibratório de baixo potencial ou voltagem, de onda longa e baixa frequência; o consciente ou eu médio representa um estado vibratório de médio potencial ou voltagem, de onda média e média frequência; e o superconsciente ou eu superior representa um estado vibratório de alto potencial ou voltagem, de onda curta e alta frequência. Em outras palavras, a quantidade se transforma em qualidade, a massa de uma força vital grosseira torna-se uma forma de existência mais sutil e poderosa, o que corresponde à transformação operada pelo processo evolutivo nas qualidades do AS, para lhes substituir as do S. Eis, nas suas grandes linhas, o conteúdo do fenômeno da personalidade humana, o qual nos mostra como o eu pode existir em vários níveis, manifestando-se em três formas diferentes. O princípio funcional que é produto do subconsciente, ou eu inferior, e o caracteriza é o instinto. O princípio funcional que é produto do consciente, ou eu médio, e o caracteriza é o raciocínio. O princípio funcional que é produto do superconsciente, ou eu superior, e o caracteriza é a intuição. Observaremos agora, mais pormenorizadamente, estas características. ◘◘◘ Conforme o seu desenvolvimento, o indivíduo pode viver funcionando num ou noutro desses três níveis biológicos. As qualidades que ele possui nos mostram a qual desses três graus de evolução ele pertence. O biótipo que existe só no plano do subconsciente ou eu inferior é elementar, instintivo, emotivo. Ele só possui a sua sensibilidade e, com ela, vai-se movimentando ao acaso, porque ainda não construiu um inte-

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lecto que lhe permita pensar e se controlar, dirigindo-se com conhecimento. Este é o nível do primitivo, ainda não desenvolvido. Ele funciona por reações inconscientes, seguindo cegamente os impulsos dos sentidos, pois ainda não sabe raciocinar e, assim, não entende o mundo das ideias, só podendo ser impressionado e sugestionado. Como resolve ele o problema da sua conduta? A sua ética se baseia nos instintos animais, aos quais obedece cega e mecanicamente. Sem entender o porquê de suas ações, ele não se orienta com autonomia de juízo, mas apenas imita os outros, repetindo o que fazem, pois, para ele, a maioria representa a verdade. Uma vez que não possui recursos mentais individuais, as soluções oferecidas pelo subconsciente coletivo representam para ele a única orientação onde encontra uma norma de conduta. Eis então como funciona tal biótipo. Ele só possui a sua sensibilidade, sendo movimentado pelo que impressiona os seus sentidos. Em vez de pensar com a sua cabeça, repete por sugestão. Uma vez que não entendeu nem resolveu os seus problemas, ele não se autodirige, mas apenas funciona por imitação, aceitando a solução dos outros e praticando a mesma conduta. Os indivíduos desse nível se movimentam com o método do rebanho de ovelhas, onde cada uma faz o que as outras fazem, mas nenhuma sabe a razão daquilo que faz. Tal biótipo não conhece nem deseja conhecer. Ele não tem problemas morais e intelectuais, mas só os da sua vida física. A ignorância é o seu estado normal, razão pela qual ele aceita como coisa justa e natural as trevas do mistério, fato que explica como essa psicologia seja tão difundida nas religiões. Os problemas dos quais ele toma conhecimento são mínimos, restringindo-se apenas aos da vida animal, de fome e sexo, e do esforço necessário para satisfazer as necessidades de tais instintos. E ele os resolve da maneira mais simples, aceitando e repetindo cegamente a solução dos outros, como um produto em série deles. Nesta fase, ele não vê senão estes problemas, que são os mais elementares e urgentes para a continuação da vida, com os quais ele amadurece, para que ela lhe apresente outros amanhã, mais difíceis de resolver, inerentes ao nível médio e superior. Neste nível inferior, estamos ainda na escola primária, onde se aprende sem entender, apenas repetindo por sugestão e imitando um modelo, até que, pela longa repetição, adquirem-se hábitos mecanicamente, que se fixam, assim, no subconsciente como novas qualidades. Neste nível, o ser é impressionável e receptivo, apelando para a memória, que registra, e não para a inteligência autônoma, que compreende e julga, qualidade ainda desenvolvida por ele. Observemos agora quais são as características e o comportamento do biótipo no nível evolutivo do consciente ou eu médio. Aparece aqui uma forma mental mais complexa, controlada e racional. Acima da sua sensibilidade, tal ser construiu seu intelecto. Desse modo, ele sabe agora não somente sentir, mas também pensar; não somente imitar, mas também se orientar, controlando os instintos e as emoções com a sua inteligência. Este é o nível do homem moderno e culto, dos países mais civilizados. Além da sensibilidade, ele também possui uma mente para orientá-la, com a qual dirige os impulsos cegos do seu subconsciente, em vez de se abandonar a eles. Percebendo não somente o que lhe revela a mecânica dos sentidos, mas também as ideias, é capaz de entender um processo lógico e o valor dos conceitos, podendo ser levado, por meio de provas e demonstração, à compreensão e à convicção. A base fundamental da sua conduta está sempre nos instintos animais, impulsos sobre os quais as leis religiosas e civis sobrepuseram as normas de uma ética prática, ainda primitiva e empírica, que estabelece uma disciplina e uma ordem, pelo menos exterior e formal. Aqui também continua vigorando o método da imitação, pelo qual o ser age sem saber o porquê, porém não mais como cega repetição dos frutos do subconsciente coletivo, mas sim em obediência a regras ditadas por mentes

superiores, que querem com elas ensinar ao homem ignorante os princípios de um sábio comportamento. Então, para aplicar uma norma de conduta correta, esse biótipo possui outros recursos para se guiar, mais adiantados, apoiados nas soluções oferecidas pelas éticas teoricamente aceitas, que representam uma sabedoria descida dos planos superiores. Eis então que tal biótipo funciona não somente por meio de sua sensibilidade, mas também pelo pensamento da sua mente, com o qual ele procura dirigir-se por si mesmo, entendendo e resolvendo os seus problemas. Ele aceita as normas da ética, porém não mais como repetição cega e mecânica, e sim com autonomia de juízo. Tal biótipo não conhece tudo, mas tem vontade de conhecer. Ele sabe que há limites na sua sabedoria, enquanto o biótipo precedente, não tendo consciência da sua ignorância, acredita saber tudo. Ele não fica quieto e satisfeito num mundo de mistérios, como o ser inferior, que fica saciado com a satisfação dos seus instintos, sem querer saber nada mais. Pelo contrário, neste nível, o indivíduo procura sair desse estado de ignorância, penetrando com as pesquisas da ciência as trevas do desconhecido, fato que explica a razão da rebeldia do homem moderno contra o método dos mistérios e da fé cega das religiões. Os seus problemas não são apenas os da vida animal, da fome e do sexo, mas também os do conhecimento, da vida social e da sua evolução. Trata-se de realizar conquistas, descobrindo caminhos novos para o progresso da humanidade, e não somente de continuar funcionando nas velhas posições biológicas. A vida progrediu e hoje apresenta problemas mais difíceis para resolver do que os dos planos biológicos inferiores. A escola que o homem está agora não é mais primária, onde basta decorar para aprender, e sim avançada, onde se cogita de compreender e julgar com a inteligência, qualidade que se vai desenvolvendo agora. Observemos por fim quais são as características e o comportamento do biótipo que existe no nível evolutivo do superconsciente, ou eu superior. Aparecem aqui novas qualidades, que o fazem mais completo. Não há somente, como da parte do consciente ou eu médio, o controle racional dos instintos do subconsciente, nem se trata apenas de estar acima da sensibilidade e emotividade, unicamente onde o eu inferior sabe vibrar. Neste nível, o ser não só construiu o intelecto, que sabe pensar, mas chegou a adquirir uma qualidade nova: o sentido da intuição. Esta lhe permite perceber a verdade por visão, tornando possível ele chegar a entender diretamente, pelo caminho curto da compreensão imediata, o pensamento que rege o funcionamento de muitos fenômenos, sobretudo os que são menos atingíveis com o método da observação e experimentação da ciência. Enquanto a ciência, amarrada ao contato imediato com os fatos, vai pelo seu caminho longo e só depois, procurando se erguer acima dele, sai do terreno concreto e analítico para atingir os princípios gerais, construindo, do particular para o geral, hipóteses e teorias cada vez mais vastas, o superconsciente, no terreno dos princípios abstratos e sintéticos, chega ao contato com as causas e, por intuição, atinge diretamente o conteúdo do pensamento pelo qual a Lei, que tudo rege, é constituída. Este é o nível do homem mais desenvolvido do futuro. Ele se dirige não somente pela razão, mas também pelo conhecimento do sábio. Só então os parciais processos lógicos da ciência ficam orientados por uma visão de conjunto, que pode revelar o plano geral da obra de Deus. Tal biótipo fica espontaneamente convencido, porque tem o sentido da verdade, assim como o nosso olho tem o sentido das cores. Ele não precisa de provas que lhe demonstrem que o vermelho é vermelho, ou que o verde é verde etc. Quem as exige é o cego, que não conhece as cores e, neste caso, representaria o biótipo existindo no nível evolutivo do consciente ou eu médio. Os fundamentos da conduta do evoluído não são mais os instintos do subconsciente animal, nem as normas da ética

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primitiva e empírica vigentes na forma de prática exterior e formal em nosso mundo. Este biótipo, assim como o precedente, não aceita apenas por sugestão e imitação, por fé e obediência (princípio de autoridade), sem ter entendido, as normas de comportamento ditadas pelas mentes superiores, pois ele próprio é um ser superior, que as atinge com os seus recursos de intuição. Então, uma vez que, neste caso, o indivíduo pode chegar ao conhecimento por si mesmo, a sua disciplina, porque iluminada e convencida, é espontânea e representa uma necessidade para a consciência do ser evoluído, que, por haver entendido, não pode deixar de se colocar na sua devida posição dentro da ordem. A sua ética está acima das humanas, porque ele a possui na sua própria consciência. Trata-se de uma ética que, se formalmente parece mais livre, é substancialmente mais exigente e rigorosa. Ele tem em si mesmo o seu guia, porque possui o conhecimento. Assim, ao invés de agir como uma ovelha, transferindo aos pastores a sua própria responsabilidade, ele a assume diretamente perante Deus, com todas as consequências, que não podem ser ignoradas por quem sabe e, por isso, não tem direito a desculpas. Eis então que tal biótipo funciona de modo diverso dos outros dois. Ele não somente vibra pela sua sensibilidade, não somente pensa com a sua mente, racionalmente dirigindo os impulsos instintivos do seu subconsciente, mas também a ilumina com o conhecimento, orientando-a e dirigindo-a pelo caminho de uma conduta correta. Se o biótipo que existe no plano do subconsciente ou eu inferior não conhece nem deseja conhecer, e se o biótipo que existe no plano do consciente ou eu médio não conhece tudo, mas está com vontade de conhecer, o biótipo que pertence ao plano do superconsciente ou eu superior chegou a satisfazer esse seu desejo de conhecimento e possui a sua verdade relativa, com a qual pode dirigir-se em plena consciência e autonomia. Então, não mais se encontrando no estado de ignorância, que satisfaz o primitivo, ele fica satisfeito por ter alcançado agora um estado de sabedoria. A sua posição não é mais a dos mistérios das religiões, aceitos por fé cega, nem a do pesquisador que, rebelando-se contra este método, procura penetrá-los e explicá-los com as descobertas da ciência, mas sim a de quem resolveu o conteúdo deles, saindo do estado de ignorância. É lógico que estas palavras possam soar estranhas em nosso mundo, o qual se acha no nível evolutivo do consciente ou eu médio, onde a autonomia de juízo, porque tudo está feito para funcionar em série, é olhada com suspeita e condenada como uma forma de revolta. Num mundo assim, é lógico se repelir como rebelde a ovelha que não permanece no rebanho, porque, não obedecendo com disciplina, ela traz a desordem. Mas é verdade também que, apesar de tudo isto, a evolução da humanidade está confiada a esses tipos excepcionais, pertencentes ao plano biológico do superconsciente ou eu superior. No nível do eu inferior, o ser não faz perguntas. No segundo nível, o do eu médio, o ser as faz, mas sem obter uma resposta convincente. No terceiro nível, o do eu superior, o ser obteve a resposta e a sua aspiração foi saciada. É lógico que os seres dos planos inferiores devam repelir as verdades superiores, pois, não sendo ainda biologicamente amadurecidos o bastante, não as podem entender. A evolução vai colocando perante o ser, a cada passo, novos problemas, sempre mais difíceis, para ele resolvê-los com os seus recursos, conforme os poderes que conquistou. O tipo que só funciona no nível do eu inferior fica satisfeito ao resolver os problemas impostos pelos instintos da fome e do sexo, no plano físico, onde se esgota toda a sua sabedoria. O tipo que funciona no nível do eu médio resolve problemas e satisfaz desejos mais complexos, no plano mental e da organização social, com maior sabedoria, mas sempre cercado pelas trevas do mistério. O tipo que funciona no nível do eu superior resolve o problema do conhecimento, atingindo a sabedoria e libertando-se das trevas do mistério. Assim como o alu-

no passa da escola primária ao ginásio e, por fim, à faculdade, a vida também proporciona as suas aulas à inteligência e conhecimento adquiridos pelo indivíduo. Podemos, então, pelas suas qualidades, conhecer a que nível de evolução um homem pertence, se ao do subconsciente, do consciente ou do superconsciente. É lógico que a posição de quem chegou a um nível superior domina a do inferior. O superior entende o inferior, mas o inferior não entende o superior. Portanto é inútil raciocinar com o homem do primeiro nível. Ele não se convence, sendo somente impressionado por sugestão no seu subconsciente. Assim o indivíduo do terceiro nível, se quer ser entendido pelo homem do segundo nível, tem de traduzir a sua linguagem intuitivo-sintética para a analítico-racional deste. Em outras palavras, para que possa ser entendido, ele tem de demonstrar a verdade com a lógica e as provas dos fatos, apoiando-se em argumentos racionais e experimentais. ◘◘◘ Temos até aqui estudado a personalidade humana na sua estrutura, observando-a nas suas qualidades e funcionamento nos seus três níveis. Chegamos assim ao conhecimento do problema de nosso eu, examinando-o na sua posição estática. Tal fenômeno, porém, não se nos apresenta só neste seu aspecto, porque ele também é um processo em contínuo desenvolvimento. O eu não permanece estacionário num dos três níveis mencionados, mas, na sua evolução, vai-se movendo de um para outro, mudando com isso as suas qualidades e o seu funcionamento. Estudaremos agora, como já prometemos no início deste capítulo, o fenômeno da personalidade humana no seu aspecto dinâmico, isto é, como transformismo evolutivo. Veremos então qual é o trabalho que o ser, em cada fase, tem de realizar para cumprir a sua evolução e, desse modo, progredir de um nível para outro superior. Assim, depois de ter estudado a personalidade humana na sua estrutura, iremos agora estudá-la na técnica da sua construção. Como já frisamos no início deste capítulo, aqui desenvolvido e completado agora, o subconsciente representa tudo que foi vivido, o trabalho de experimentação realizado, as qualidades já assimiladas e fixadas no nível que agora representa a parte mais baixa, primitiva e menos evoluída da personalidade humana. Assim, o subconsciente abrange tudo o que foi aprendido no passado, gravado na alma por longa repetição, e que agora volta e continua funcionando em forma de automatismos ou hábitos adquiridos. O fenômeno é semelhante a um projétil interplanetário, que requer o esforço do primeiro impulso na fase de lançamento, mas que, depois, continua viajando no espaço automaticamente, obedecendo ao impulso inicial recebido. A este mesmo princípio obedecem também os nossos automatismos fisiológicos. Na atual fase de evolução, esta parte de nossa personalidade fica submersa, permanecendo fora da consciência, uma vez que o centro ativo da vida do homem atual não trabalha mais desperto no nível do subconsciente, no qual o animal trabalha na sua construção e, mais atrás, a planta já se construiu. Para o homem, tudo isto deixou de ser presente e passou a constituir a história passada, representada pela zona da personalidade na qual estão contidos os automatismos assimilados, que chamamos instintos. Esta zona é importante também para o homem, porque nela está escrita e pode ser lida a história do seu passado. Trata-se de um livro impresso, acabado e fechado, depois do qual se poderá escrever outro, que continuará o precedente e poderá até modificá-lo ou corrigi-lo, mas nunca poderá destruir o que foi escrito na longa história da evolução. Esta é a parte que mais interessa à personalidade e aos métodos psicológicos para tratá-la, porque, no atual nível humano, o subconsciente contém a base da personalidade, constituindo as camadas mais velhas e solidificadas, que estabelecem os alicerces dela, construídos pelo eu no seu passado, até às camadas mais próximas do estado atual, e representando, assim, a chave imprescindível para se poder entender e explicar o presente.

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O consciente abrange a zona desperta e ativa das novas construções, representando o terreno virgem em que ferve a experimentação da vida, onde são semeadas as novas causas, que geram novos efeitos, prontos a se realizarem depois, quando esse trabalho do consciente atual pertencer ao passado, tornando-se automatismo assimilado, qualidade adquirida, instinto do subconsciente. No desenvolvimento desse fenômeno ao longo do caminho evolutivo, o correr do tempo coloca o presente no passado, transformando o futuro em presente e este, depois, em passado. Isto quer dizer que o terreno, uma vez dominado pelo consciente, passa depois ao domínio do subconsciente, tornando-se automatismo ou instinto, assim como o que pertencia ao superconsciente desce ao nível do consciente, para, depois, chegar ao subconsciente. A semeadura das causas se encontra sempre na fase precedente, que, no processo da construção do eu, representa a fase de lançamento dos impulsos, ativa e livre, enquanto a colheita dos efeitos se encontra na fase seguinte, na qual aparecem os resultados, sendo ela obrigatória, imposta pela Lei, que se apodera daqueles impulsos para levá-los fatalmente até às suas consequências. É assim que, no consciente atual, vemos emergir, em forma de qualidades nossas, impulsos instintivos e ideias inatas axiomaticamente aceitas, resultantes de nossas vidas passadas, fruto do que aprendemos nela com a nossa experimentação. Então, para entender o fenômeno da personalidade humana, é necessário conhecê-lo não apenas no seu aspecto estático, como estrutura, mas também no seu aspecto dinâmico, ou vir-aser, como realização do trabalho de construção da personalidade. É necessário entender que o eu é um edifício cuja construção o esforço evolutivo do ser vai executando aos poucos, um andar após o outro, num longo processo, realizado através de imensos períodos de tempo, no qual ocorrem mudanças na forma de existência e no gênero de experiências, sempre subindo e se aperfeiçoando, até conquistar novamente as qualidades perdidas pela queda, necessárias para voltar a ser cidadão do S. Enquanto não possuirmos esta orientação universal, não colocaremos no seu devido lugar o fenômeno da personalidade humana, da qual, assim, pouca coisa poderemos entender. Para o atual biótipo humano, o superconsciente representa uma fase de evolução ou nível biológico ainda a explorar e conquistar, que hoje é atingido somente por alguns isolados e fora de série, pioneiros do porvir, como os heróis, os gênios e os santos. Esta fase, porém, terá de ser atingida pela humanidade, porque representa seu estado futuro, para onde fatalmente levará a evolução. Tudo depende do nível em que o ser está situado, no qual ele trabalha na sua fase ativa e consciente de assimilação das experimentações da vida. Chamamos de subconsciente o nível biológico em que o primitivo está situado, funcionando vivo e ativo. Chamamos de consciente o nível em que se encontra o homem atual. E chamamos de superconsciente o nível em que está o super-homem. Cada um vive e trabalha para a construção do próprio eu num plano ou altura evolutiva diferente, que é estabelecido pelo seu próprio nível e lhe pertence conforme sua natureza. Assim, todos os seres vão aprendendo a sua lição, cada um de uma forma diferente, experimentando o que lhe é mais útil e adaptado. Com o progresso desse fenômeno verifica-se que a posição ou estado de consciente do ser, isto é, o ponto em que, ao longo da escala da evolução, ele está vivo e ativo, trabalhando na construção do seu eu, sobe do nível subconsciente ao consciente e deste ao superconsciente. Assim, o que para ele constitui superconsciente torna-se depois consciente e, por fim, subconsciente. Em outras palavras, o ser não só vai despertando num plano evolutivo cada vez mais adiantado, tornando-se vivo nele, consciente e ativo, mas também vai armazenando na sua personalidade, em forma de qualidades adquiridas, o fruto do seu trabalho. É nesse processo de experimentação e fixação dos seus resultados que consiste a técnica da construção da personalidade.

Mais exatamente, o eu pode ser representado não apenas por um ponto subindo ao longo da linha da evolução, mas sim como uma linha dividida em três partes: a parte mais adiantada ou cabeça, que espera e antecipa o trabalho futuro, representando o superconsciente; a parte mediana ou corpo, que está realizando o trabalho presente de construção, representando o consciente; e a parte mais atrasada ou cauda, que contém armazenado todo o trabalho de construção já realizado, representando o subconsciente. A parte na qual o ser vai explorando por tentativas o futuro, experimentando o novo, é a cabeça ou superconsciente. A parte na qual o ser vai se apoderando dessas experiências, fixando-as no próprio eu, é o corpo ou consciente. A parte na qual se conserva tudo o que foi adquirido e está agora fora da zona do trabalho, abandonado no passado, representando o caminho evolutivo já percorrido pelo consciente durante a subida, é a cauda ou subconsciente. Segue-se que, relativamente a um dado nível de evolução, o ser pode se encontrar em três posições diferentes: no superconsciente, no consciente ou no subconsciente. Isto quer dizer que, em relação ao ser, o conteúdo de um dado nível de evolução pode se apresentar de três maneiras: 1) Como antecipação intuitiva e primeira tentativa de atuação; 2) Como trabalho de aquisição de novas qualidades; 3) Como qualidade adquirida. No 1o caso, o nível está situado na posição de superconsciente em relação ao ser, representando o futuro, de cuja realização o ser procura cada vez mais se aproximar. No 2o caso, o nível não representa mais o futuro, mas sim o presente, para cuja realização o ser está trabalhando na posição de consciente, porque, por evolução, subiu até lá. Neste nível, anteriormente acima do seu entendimento, o ser está agora ativo e consciente, realizando um trabalho de assimilação do conteúdo daquele mundo superior, que antes representava o superconsciente. No 3o caso – que tomamos como ponto de referência deste processo evolutivo – o nível, depois de ter constituído o futuro e em seguida o presente, representa agora o passado, fixado na personalidade como qualidade adquirida, assimilada pela experimentação da vida, de modo que o seu conteúdo, tendo sido uma vez o superconsciente, para tornar-se depois consciente, existe agora gravado no subconsciente, manifestando-se na forma automática de instinto. Assim, a evolução realiza uma contínua conquista do superconsciente, efetuada através do trabalho de aquisição que se opera na fase ativa do consciente. Isto nos mostra qual é a finalidade da vida e a importância da experimentação que ela nos constrange a realizar. O ser existe para evoluir e, assim, colocar-se em planos de existência cada vez mais adiantados, progredindo deste modo do AS para o S. Este é o processo pelo qual se realiza a subida do ser ao longo do caminho da evolução. Parece um processo de descida do superconsciente até ao subconsciente, mas trata-se na verdade de um processo de subida do ser, que, transformando-se através da vida, desloca-se para níveis evolutivos preestabelecidos, ascendendo do inferior para o superior. É tarefa das religiões e da ordem social educar o indivíduo para que ele adquira as qualidades de um nível superior, transformando-as em hábitos através de longa repetição, para que fiquem gravadas na sua personalidade, em forma de instinto do subconsciente. Esta é a técnica da construção do eu, representando uma lei geral, que funciona em todos os níveis da evolução e para todos os seres. A posição de cada um é relativa aos níveis que lhe são superiores ou inferiores. Portanto o que para um ser inferior representa o superconsciente ainda a atingir no futuro, pode constituir para um ser superior o subconsciente instintivo, pois já foi assimilado no seu caminho evolutivo passado. Assim, quando um ser nasce, seja planta, animal ou homem, demonstra conhecer tudo quanto é necessário para defender a sua vida, pois, qualquer que seja seu nível, ele possui armazenado em si o fruto das experiências das suas vidas pre-

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cedentes. Mas, através de seu contínuo viver, o ser vai transformando a sua ignorância em sabedoria e completando cada vez mais o seu conhecimento, para encontrar condições de vida diferentes, que apresentam todas as oportunidades de desenvolvimento. E as exigências das novas formas de vida nos níveis mais adiantados continuam sempre ensinando, numa longa evolução, em que a aprendizagem nunca pode parar. E o ser, cada vez que nasce novamente, leva consigo a síntese destilada das suas experiências passadas, que se tornaram lição inesquecível, porque aprendida à sua custa, com o seu sofrimento, ficando gravada na própria alma. Explica-se assim como que o indivíduo, nascendo, traz consigo uma personalidade já feita. Os psicólogos e psicanalistas não se perguntam de onde ela vem, quem a construiu ou porque ela se apresenta agora desta maneira, e não de outra. Mas, também no plano fisiológico, vemos que a vida, na sua forma atual, repete e resume as suas fases evolutivas já percorridas, das quais esta é a consequência (a ontogênese repete e resume a filogênese). O processo da formação da personalidade não está situado fora da vida e, por isso, não pode ser regido por outras leis. E vimos que ele se realiza pela técnica da descida das experiências do consciente no subconsciente. A evolução psíquica e a evolução orgânica morfológica estão ligadas, porque constituem o mesmo processo evolutivo. Uma não pode de ser isolada da outra, porque a evolução morfológica nada mais é senão a expressão exterior da evolução do princípio espiritual, que constrói para si mesmo, regendo-o, o seu organismo no plano físico. A lógica de todo esse processo evolutivo psicofísico nos constrange a admitir, em paralelo à série das formas sucessivas, uma série de existências sucessivas, nas quais o princípio espiritual daquelas formas vai-se elaborando, tornando-se capaz de construir tipos cada vez mais adiantados. Por isso, quando falamos de evolução orgânica, não podemos deixar de falar também de evolução do princípio espiritual gerador dela, o que implica a necessidade de existências sucessivas, ou seja, reencarnação. ◘◘◘ Como já foi mencionado, falamos bastante da teoria da reencarnação no fim de nosso livro Problemas Atuais, mas temos de retomá-la aqui porque, sem ela, não podem ser entendidos o fenômeno da personalidade humana e, sobretudo, a técnica da sua construção. Quem não compreendeu que essa teoria faz parte da técnica da evolução – fenômeno fundamental no universo – não pode praticar uma psicanálise verdadeira e completa. Sem tal conhecimento, a psicanálise é incompleta, pois permanece limitada apenas à vida atual, que se torna mutilada sem o seu passado, unicamente onde é possível encontrar as causas do estado presente. O que mais nos desvia da compreensão do fenômeno é a afirmação não provada de que o espírito seja gerado, por uma criação tirada do nada, no momento do nascimento físico do corpo. Ora, tal afirmação é completamente antropomórfica, derivada não de Deus, mas do relativo e do transformismo em que o ser existe. Pela sua forma mental, fruto do seu estado e inexperiência, o homem sabe que, para criar o novo, este deve ser tirado de um estado precedente de inexistência, que ele chama de nada. Mas trata-se apenas de um nada relativo, pois este é formado pela mesma substância, que tinha outra forma antes de ser transformada em uma nova forma pela criação do homem. Para Deus, no entanto, situado fora do relativo e desse vir-aser que muda uma forma em outra, não pode existir um nada concebido assim. Em Deus, diferente do que acontece com o homem, o nada não pode ser entendido como um estado de não-existência da nova forma, que é tirada da anterior por transformação. Deus existe e opera no absoluto, e não no relativo. Então, quando falamos do nada com relação a Deus, temos de entendê-lo em sentido absoluto, e não relativo.

Neste caso, falar em criação tirada do nada quer dizer contrapor um estado positivo de existência a um oposto estado negativo de não-existência da substância, e não apenas contrapor duas formas diferentes da mesma substância. Admitir tal criação originada do nada significa admitir em Deus a coexistência de dois estados opostos, isto é, a cisão da unidade no dualismo, que é estado somente da criatura rebelde decaída e que, portanto, não pode existir em Deus, pois, caso contrário, Ele estaria dividido contra si mesmo. É o maior dos absurdos pensar que a unidade de Deus possa ficar despedaçada. Aceitar o dualismo fora do terreno gerado pela queda da criatura, reservado somente a esta, é politeísmo. Deus é uno e existe no positivo. O negativo não pode existir em Deus, mas só no universo corrupto e decaído, que contra Ele se rebelou, ficando assim emborcado negativamente. Se Deus significa existir e o nada é a negação da existência, ou seja, de Deus, então em Deus não pode existir a negação Dele mesmo. Ora, Deus, criando tudo do nada, teria tirado tudo de uma negação Dele mesmo, a qual, por isso, não pode existir. Como pode Deus ter derivado tudo de uma coisa que Nele não podia existir, a qual não podemos conceber senão em função do que apareceu depois, em consequência da revolta e da consequente queda da criatura? E não é possível pensar em um nada existindo além de Deus, fora Dele, porquanto Deus é tudo o que existe, sendo impossível existir coisa alguma além ou fora Dele, pois, se assim fosse, haveria alguma coisa que não é Deus e, então, Deus não seria mais Deus. Ele é um infinito que abrange tudo, ao qual nada se pode acrescentar nem tirar. Não é possível conceber existência alguma além e fora desse infinito. Não! Quem é tudo o que existe não pode encontrar a primeira origem de tudo senão dentro de si mesmo, o que significa neste caso um estado de positividade dentro do qual não há lugar para nenhum conceito de negatividade. Mas como pode entender isto o homem, se, pela sua forma mental, filha do seu mundo relativo, ele não pode conceber a criação senão como uma transformação de um estado em outro? Como pode o nada ter constituído a primeira fonte de onde foi derivada a criação, se ele representa a não-existência? A sombra pode ser um efeito ou uma consequência da luz, mas não a luz um efeito ou uma consequência da sombra. O que existe primeiro é a luz, da qual depende a existência da sombra, e não a sombra, da qual não depende a existência da luz. No plano das primeiras causas, quando não há outro positivo anterior, o negativo não pode ser o antecedente do positivo. Do conceito do nada não pode ser derivado o conceito do existir. De um pai que não existe, não pode nascer um filho que existe. No terreno do absoluto, onde se trata da substância em si, e não de mudança de forma, o não-existir não pode gerar o existir. A primeira fonte de tudo o que existe não pode ser senão Deus, que é o existir. Somente depois, em função desta existência, pode nascer a sua posição inversa, que é o nada, assim como do S pode nascer o AS, mas do AS não pode nascer o S, senão no sentido de reconstrução de um S desmoronado, que já existia anteriormente. Ora, o homem pensa que seja possível uma criação derivada do nada exatamente pelo fato de possuir a forma mental de quem está situado no AS. É lógico que o cidadão do AS conceba tudo ao contrário. Esta é a razão pela qual o homem, atribuindo antropomorficamente a Deus as suas qualidades, concebe a criação às avessas, sendo isto equivalente a dizer que a sombra não é consequência da falta de luz, mas sim que a luz é gerada pela ausência da sombra. Esta é a concepção emborcada do rebelde, na qual o centro e a gênese foram deslocados da positividade na negatividade, da luz nas trevas. Tratase de uma concepção luciferiana, que está nos antípodas da originária divina. Então não é Deus que tira tudo da sua positividade, mas é o ser rebelde que tira tudo da sua negatividade. É o

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egocentrismo do ser que prevalece sobre o de Deus, procurando substituir-se a Ele. Eis de onde sai tal concepção da criação derivada do nada, segundo a qual a obra de Deus se torna um absurdo. Tudo isto não pode ser senão produto do AS. O conceito negativo do nada e da criação a partir dele não podia existir dentro do infinito de Deus – que era todo positividade na hora da criação – mas só pôde nele aparecer depois, como AS, isto é, na parte do infinito positivo de Deus que, com a revolta, tornou-se corrompida, emborcando-se ao negativo no AS. Ora, com a ideia da criação tirada do nada, o homem, pelo fato de pertencer ao AS, desejaria atribuir a Deus, na obra maior da criação, uma ideia negativa, que só pode existir no AS, como produto da revolta do ser contra Deus. O homem, na sua ignorância de decaído e na sua posição de rebelde, só possuindo esta concepção negativa, atribui tal ideia também a Deus, fazendo dela, que representa a destruição, a base da criação. E não importa se isto é um absurdo, pois este conceito de criação tirada do nada continua dominando no mundo, sendo uma ideia inerente à forma mental do homem, que consegue assim dar ao problema da criação uma resposta facilmente concebível para ele, aceitando-a por isso. Tivemos de esclarecer esse conceito da criação tirada do nada porque dele deriva um outro, ou seja, o da criação da alma no momento do nascimento do corpo, por uma gênese a partir do nada. Isto quer dizer que, neste momento, Deus tira a alma de um precedente estado de não-existência, que, como já vimos, não se pode encontrar Nele, que é todo o existir, nem além ou fora Dele, que é tudo o que existe. Assim, criação e nada representam duas ideias que não podem ficar juntas, porque a segunda aniquila a primeira. Se tentarmos entender tal nada não em sentido absoluto, mas apenas relativo à alma, isto é, num seu estado de não-existência como individuação separada, enquanto ela já existia no seio de Deus, do qual se destacaria no momento do nascimento do corpo, então chegamos a outro absurdo. Neste caso, a criação constituiria apenas uma mudança de forma, pela transformação da mesma substância de Deus de um estado não individualizado em um individualizado. Ora, tratando-se da mesma substância, cada alma deveria possuir as mesmas qualidades de Deus, no entanto isso não acontece, como podemos verificar na forma em que a alma aparece no mundo, apresentando não as qualidades de Deus, mas sim opostas, anti-Deus, as quais nos revelam um precedente bem diferente, constituído de uma longa experiência no relativo e uma imensa ignorância do absoluto. Concluindo, se não quisermos nos perder no absurdo, teremos de aceitar a teoria da reencarnação, não importa qual seja o lado pelo qual olhemos o problema. Provas que confirmam essa teoria nos chegam também de outras partes. Qual seria o objetivo de uma alma assim imperfeita e mal feita, nascida da perfeição de Deus e destinada a voltar a Ele, ter de atravessar uma só e, portanto, breve experiência terrestre, que quase nada ensina, cheia de perigos, com uma grande probabilidade de acabar nos antípodas do ponto que deve atingir? Não há dúvida sobre o fato de vivermos num mundo que é a negação de Deus, onde triunfa o mal, e não o bem. Não será, então, uma tal experiência feita mais para nos afastar de Deus do que para nos levar de volta a Ele? E do seio de quem teria saído um tal mundo infernal? Outra prova da reencarnação a encontramos no binário vida e morte, dois elementos fundamentais do processo evolutivo. A vida representa o S; a morte, o AS. Eles são indispensáveis, como dois polos insupríveis entre os quais oscila a existência do ser no seu estado de decaído. Toda a técnica da evolução, que significa a destruição do universo do AS e a reconstrução do universo do S, baseia-se nesta contínua oscilação vidamorte. O existir, na forma encontrada hoje por nós em nosso universo, não é puro e íntegro como no S, mas fica manchado pelo seu princípio oposto, a morte, que é a negação da vida. En-

tão não temos mais somente vida, mas sim uma mistura de vida e morte, num estado de dualismo e contradição entre dois elementos opostos. Essa contínua mudança de posição constitui a base do transformismo evolutivo, que se realiza oscilando do polo positivo ao negativo do existir, para transformar as qualidades negativas do AS nas positivas do S. Se o processo involutivo gerou a morte, a tarefa do processo evolutivo é construir de novo a vida. Eis como encontramos assim, a cada passo, estes dois termos, que fundamentam a reencarnação. Se, em nosso universo, a existência toma a forma de mudança alternada entre vida e morte, oscilando sempre de um para outro destes dois polos, eis que o conceito de reencarnação está no centro do plano e da técnica funcional do fenômeno da evolução do universo. A cada passo, morte e reencarnação. Não há outra maneira para realizar o transformismo evolutivo. A morte representa o emborcamento da vida, devido à revolta. A vida representa o S, que vai se reconstruindo com a evolução. A positividade do S, ou vida, que se emborcou ao negativo, com a queda no AS, gerando a morte, vai-se endireitando ao positivo, com a evolução para o S, reconstruindo a vida. Eis que a técnica da reencarnação se enxerta em cheio no processo evolutivo, base do transformismo, que representa a condição de renovação para a salvação, sem a qual não se pode voltar a Deus. Tudo isto é evidente. No quadro do plano do universo, a reencarnação representa a única ideia que pode completar o desenho. Voltamos a este assunto da reencarnação porque agora, após termos desenvolvido outros problemas, podemos resolver este ainda em maior profundidade, como nos permite o novo amadurecimento hoje atingido 1. Se não houvesse uma vida precedente, onde cada um semeasse para si as causas da vida atual, quão grande seria a injustiça de Deus, ao criar seres que, sem uma culpa sua precedente, ficariam condenados a uma vida de sofrimento! Quando precisamos do máximo de experiência adquirida para enfrentar o futuro, não a temos, porque ainda somos jovens, porém a possuímos ao máximo na velhice, quando, devido à proximidade da morte, não precisamos mais dela. Qual a justificativa lógica para isto? Só a reencarnação pode dar a explicação, admitindo que o fruto da lição, resultado da aprendizagem, seja utilizado na vida seguinte, quando não o pode mais ser na atual. E, de fato, a juventude é dirigida mais pelo produto instintivo do subconsciente do que pelo raciocínio, que só aparece na maturidade. ◘◘◘ Encerrada esta breve digressão sobre a reencarnação, voltemos ao assunto precedente. Os conceitos desenvolvidos por nós até aqui permitem entender muitos fatos que, de outro modo, ficam sem explicação. Vemos que os indivíduos nascem com uma personalidade própria já feita. Mas quem a fez? Há quem nasce mau, quem nasce bom, quem nasce pacífico, quem nasce agressivo, quem nasce estúpido, quem nasce inteligente. Outros nascem ladrões, assassinos, artistas, cientistas, heróis ou santos. Por que isso? O ambiente e a educação não mudam o tipo fundamental da personalidade, que, apesar de ser no aspecto exterior filha dos seus antepassados, contém sempre qualidades próprias, que a diferenciam dos outros. Uma vez que o destino do indivíduo depende de tudo isto, significando assim uma vida de satisfação ou de desespero, com todas as suas consequências na vida futura, não se pode deixar tal fato sem explicação, sob domínio do mistério e dos impenetráveis desígnios de Deus, porque as consequências são nossas e nos queimam. Para sermos julgados responsáveis por nossa conduta, temos de conhecer aquilo que tão de perto nos pertence. Com as suas qualidades, a personalidade revela o seu passado. Vivemos para construir o nosso eu, e cada um o constrói como quer, mas depois fica cristalizado naquela forma, como
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Ver no livro O Sistema.

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uma estátua, até realizar outro trabalho para modificá-la. A estátua construída representa o subconsciente; a estátua em construção, na qual se trabalha, representa o consciente; a nova estátua que poderá ser produzida por esse trabalho representa o superconsciente. Assim, tudo é lógico e compreensível. Os psicanalistas, que falam tanto de subconsciente, não se preocupam em explicar como ele nasceu e se construiu, nem em saber qual o fator que o fixou na sua forma atual, desinteressando-se de tentar enquadrar tal fenômeno numa visão filosófica que o explique e justifique em função da fenomenologia universal. O nosso sistema orienta perfeitamente esse fenômeno dentro do plano geral da existência, fundamentando-se na evolução e reconstrução do eu que, depois de ter descido no período involutivo, sobe do AS para o S, voltando assim ao ponto de partida: Deus. Dessa forma, subconsciente, consciente e superconsciente não são senão três posições mais ou menos adiantadas ao longo do caminho da evolução do eu, que vai do AS para o S. Trata-se, então, de três estados sucessivos de desenvolvimento. Podemos, assim, entender que eles representam três níveis: o emotivo, o racional e o intuitivo, situados um acima do outro, cujos significado e função se explicam em relação ao plano universal da existência. É verdade que cada ser, nascendo, possui uma sabedoria já pronta, apta a satisfazer as exigências de sua vida. Cada organismo físico possui um organismo psíquico proporcional para dirigi-lo. Isto em todos os níveis, inclusive nas plantas. Como foi construída esta sabedoria, adaptada à vida terrestre do indivíduo? Diz-se que essa sabedoria é fruto do instinto. Mas como, então, nasceu o instinto? Trata-se de uma sabedoria particular, específica, proporcionada ao ambiente onde o indivíduo, seja planta, animal ou homem, tem de viver. Então esse instinto deve ter-se formado no mesmo ambiente, porque hoje se apresenta como resultado de experiências do mesmo tipo das atuais, que o ser demonstra conhecer desde o nascimento, quando ainda desconhecia a vida presente. Quem ensinou aos animais a andar e voar? Quem ensinou às feras a arte da luta, aos fracos a estratégia da fuga ou da astúcia, às fêmeas as providências da maternidade e da criação, dando a cada um uma técnica sua particular proporcional ao ambiente e aos meios de defesa, tudo para que tanto o indivíduo como a espécie possam sobreviver? Tudo isto, como já dissemos, não pode ter sido aprendido senão em vidas precedentes. Vemos que os seres do mesmo tipo repetem as mesmas coisas em série, com o mesmo método e estilo. Isto porque, ao nascer, eles não têm de aprender uma sabedoria nova, mas apenas relembrar o seu passado, para continuarem a ser dirigidos pelo que já sabem e, ao mesmo tempo, aperfeiçoarem esse conhecimento, levando-o consigo ao longo do caminho da evolução. Se tantas vidas diferentes, espalhadas no tempo, vão repetindo as mesmas coisas, isto mostra que se trata da mesma lição, repetindo-se na mesma escola. Se houvesse só uma vida, cada uma deveria ser independente da outra. Tudo isto se confirma quando verificamos que a natureza também utiliza o método de derivar tudo de um respectivo precedente, aperfeiçoando-o por meio da repetição. Diz-se que a natureza não dá saltos. E, de fato, vemos que ela realiza a evolução por meio de um transformismo lento e gradual. Tudo o que foi aprendido fica armazenado no subconsciente, que representa a base do conhecimento sobre a qual se constrói o novo. Os alicerces da personalidade estão no subconsciente, e deles depende o novo edifício que, com a evolução, sobre eles temos de levantar. Daí a grande importância do subconsciente no estudo da personalidade humana. É assim que cada um traz consigo o seu passado, razão pela qual nascem personalidades diferentes, cada uma com os seus impulsos e qualidades próprias, conforme o que foi experimentado e aprendido por ela. Por isso cada um nasce com um desti-

no diferente, conforme aquilo que semeou no seu passado. Desse fato derivam os choques entre os biótipos que não são iguais, porque cada um é filho de uma dada experimentação. Conhecer tudo isto é importante para saber quem somos e o que nos espera na vida. Mas filosofia, ciência e religiões ignoram tudo isto, embora este conhecimento seja fundamental para viver com inteligência, sem desperdiçar as energias em tentativas, erros e correlativos sofrimentos, como em geral acontece. Em resumo, o homem, na sua vida terrena, possui três fontes de conhecimento e de impulsos, que o dirigem conforme a sua natureza: 1) O subconsciente, que oferece em síntese o resultado final das operações já realizadas nas vidas passadas, mas sem mostrar racionalmente o seu conteúdo, pois não analisa nem procura entender ou explicar, limitando-se apenas a repetir inconscientemente a lição aprendida, conforme as qualidades adquiridas. Esta é a zona de onde são enviados de volta os impulsos com os quais o eu foi formado no passado; 2) O consciente, que pensa, observa e quer entender o que está sendo feito e porquê, constituindo a fase racional, que, erguendo-se acima da precedente, instintiva animal, surge com a inteligência do homem. Este é o nível em que aparecem a filosofia e a ciência; 3) O superconsciente, que revela ao homem, em lampejos de intuição, fases de evolução superiores, pertencentes ao futuro para ele. Esse é o plano das revelações das religiões, assim como das novas descobertas da ciência. Portanto subconsciente, consciente e superconsciente não são somente três níveis de desenvolvimento do eu, mas também representam, cada um deles, uma fonte diferente de conhecimento e de impulsos para se dirigir na vida. Assim o homem pode ser movido pelos instintos do animal (a conquista já realizada, para sustentar a vida), pelo raciocínio e pela inteligência (o trabalho de conquista atual, para fixá-la), ou pela inspiração, com a qual a verdade é percebida por homens excepcionais, mais evoluídos, originando as revelações das religiões (o trabalho de conquista a realizar no futuro, para progredir). Cada indivíduo funciona vivo e ativo num ou noutro desses níveis, conforme o seu grau de evolução. Entre indivíduos do mesmo nível não ocorre conflito de sistemas, e a compreensão é fácil. O choque, porém, é intenso entre indivíduos de níveis evolutivos diferentes, que praticam sistemas e falam linguagens diferentes. Então ambos, um não entendendo nada do outro, condenam-se reciprocamente. Uma vez, porém, que a imensa maioria se encontra no mesmo nível animal, o entendimento entre os indivíduos se desenvolve até atingir um pensamento comum, que constitui o chamado subconsciente coletivo, pelo qual é possível realizar uma concordância mútua, tal como acontece nos hábitos sociais, nas eleições do sistema representativo, na aceitação e aplicação das leis civis e religiosas etc. Disto se segue que a vida coletiva se baseia mais no subconsciente do que no consciente, obedecendo assim mais a uma ética empírica-instintiva do que a princípios racionais, produto da inteligência. E isto a maioria faz com pleno convencimento, conforme a sua assim chamada consciência, porque a mais axiomática e indiscutível verdade é aquela afirmada pelos instintos, que representam o produto das experiências mais antigas e mais profundamente assimiladas. Mas que verdades pode conter o subconsciente senão aquelas mais elementares da vida, necessárias para vencer na luta para a sobrevivência? Trata-se, então, apenas da sabedoria da força e da astúcia, que é aquela sempre encontrada de fato em nosso mundo. Não se pode exigir que o homem pratique uma lei superior à do seu plano biológico, nem se pode pensar que ele não esteja convencido, com toda a sinceridade, que tal método de vida é o melhor e represente o ideal maior, porque a experiência passada e presente lhe confirmam a cada passo ser esse, na prática, o método mais rendoso para sua defesa e vantagem. Isto é provado pelo fato de que, em nosso mundo, quem segue um superior ideal espiritual é jul-

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gado um ingênuo desconhecedor da realidade da vida. E não é esta a lição que, sob pena da própria vida, o homem teve de aprender à sua custa e que, também à própria custa, terá de aprender o idealista ao descer em nosso mundo? Se o biótipo do nível animal tem de viver nesse mundo e se, para sobreviver aí, ele precisa desta sua forma mental, como se pode exigir, então, que ele possua outra? O próprio sistema representativo chega a ponto de confiar a escolha dos melhores – pelos quais a nação deveria ser dirigida – à maioria, constituída pelo tipo inferior de homem, que é exatamente o menos competente para tal escolha, pois não pode entendê-los, e que deveria, pelo contrário, ser dirigido por uma classe de indivíduos mais adiantados. Este seria o caminho mais lógico e curto para evoluir. Mas quem admite tais princípios e está preparado para aplicá-los? A lição aprendida pela massa humana em suas vidas precedentes não é senão o que a história nos conta sobre os feitos dos homens do passado. Este é o ensinamento que agora volta para dirigir a conduta atual. Eis a tremenda realidade da vida, escondida atrás das aparências das leis civis e religiosas, através das quais o homem pretenderia ser civilizado. No fundo da alma ficou gravada uma verdade bem diferente, que a dura experiência lhe ensinou. Aprendeu-se então não só a mentir e a desconfiar, o que constitui boa parte da vida social, mas também a temer o próximo, que representa um inimigo natural. Eis que o estudo psicológico da primeira origem das nossas ideias nos dá a chave para entender a nossa vida social. É lógico que, em tal mundo, a ordem não possa ser senão o resultado de uma disciplina sustentada pela força. E, de fato, vemos que, tão logo tal controle fique impedido ou seja suspenso, imediatamente aparece a ferocidade do guerreiro, sempre pronto para a revolta. Por isso o mundo precisa de leis, tribunais e cadeias, para ensinar à força, com os velhos métodos, hábitos novos. Ao menor sinal de fraqueza das classes dirigentes, as camadas inferiores mais involuídas estão sempre prontas a se rebelar, mostrando assim o que elas são de fato. A lição aprendida no passado lhes ensinou que é mais seguro desconfiar do que acreditar de boa fé, porque, atrás das pregações das várias filosofias, religiões e poderes políticos, o elemento dominante, constantemente aninhado no fundo delas, era na prática, apesar das teorias, a má fé, a tentativa de engano e a exploração da ingenuidade. Eis a realidade que aparece, quando olhamos o nosso mundo não por fora, mas por dentro. Eis a verdade que um exame psicológico dos fatos nos descortina. V. OS TRÊS BIÓTIPOS TERRESTRES Somente depois de ter explicado no capítulo precedente qual é a estrutura da personalidade humana e, sumariamente, a técnica da sua construção, é possível enfrentar agora o problema do destino, que, contendo e nos revelando a lei do desenvolvimento da personalidade, somente pode ser entendido neste sentido, isto é, como processo evolutivo do eu. O estudo que fizemos até aqui do fenômeno da personalidade humana, em relação ao seu conteúdo, qualidades e funcionamento, observando nele o transformismo evolutivo em seus três momentos, como subconsciente, consciente e superconsciente, mostra-nos que a cada um destes três níveis de desenvolvimento do eu corresponde um respectivo biótipo humano. Passemos então a observá-los, a fim de nos encaminharmos à compreensão do fenômeno do destino. A sensibilidade, o conhecimento e a capacidade de entender do indivíduo, fatores determinantes do seu tipo de vida e destino, dependem da sua natureza, que corresponde ao nível evolutivo no qual o seu eu vive e funciona. Cada um possui e somente entende a linguagem do seu plano biológico. O primitivo, que vive no nível do subconsciente, fala e entende somente a linguagem das emoções, não podendo ser convencido pelo

raciocínio, mas apenas sugestionado por impressões. Age não por entendimento seu, mas por imitação do que fazem os outros. Não se interessa pelos efeitos de longo prazo, mas somente pelos resultados imediatos. O que mais o convence é a linguagem dos sentidos, relativa ao seu prazer ou ao seu sofrimento. Estes são para ele fatos bem concretos, porque bastante perceptíveis, além dos quais tudo é um imenso mistério, onde ele sabe que não pode penetrar. Assim, para ser entendido por tal indivíduo, é necessário usar a sua linguagem, que é dada pelo seu lucro ou seu dano, prêmio ou pena, paraíso ou inferno. Esta é a linguagem que o nosso mundo usa para dominar e impor obediência e ordem. Não há lei religiosa ou civil que tenha valor, se não for sustentada pela força para punir o transgressor. O nosso mundo zombaria de um governo sem tribunais, polícia e cadeias, assim como desdenharia uma religião sem inferno ou seus equivalentes. O biótipo desse nível obedece apenas ao mais forte, que tem o poder nas mãos e, por isso, pode fazer-lhe bem ou mal. Para ele, o fraco não merece respeito algum, devendo, pelo contrário, ser escravizado. O biótipo mais adiantado, o chamado tipo civilizado que o homem deveria ser, vive no nível do consciente, falando e entendendo a linguagem da razão. Mais do que sugestionado por impressões, ele pode ser convencido pelo raciocínio. Não segue os outros por imitação, mas procura saber porque ele tem de agir desta ou daquela maneira. Enxerga mais longe, além dos simples resultados imediatos, prevendo, observando, analisando e calculando. Acima da linguagem dos sentidos, entende o raciocínio de sua mente, com a qual controla a sua conduta, para atingir com maior segurança o seu benefício e fugir do seu dano. Para dirigir esse homem não basta o medo do fracasso ou a esperança de vantagem, mas é necessário convencê-lo de que tudo representa de fato o seu interesse e corresponde a um princípio de equidade. Para ele, não é mais mistério a vida, que a ciência começa a desvendar. Tal homem, controlado pelo pensamento, não pode mais, como o biótipo precedente, ser dominado somente pela força, no entanto ele a respeita pela vantagem material que pode usufruir, pois ela representa um poder econômico, bélico, político e social. Assim os impulsos fundamentais da vida permanecem os mesmos do nível precedente. O biótipo ainda mais adiantado, o homem superior, excepcional em nosso mundo, vive no nível do superconsciente, falando e entendendo a linguagem da verdade. Ele não age sugestionado por impressões ou somente pelo raciocínio, mas guia-se pelo conhecimento que possui do sentido da verdade. Não funciona por imitação ou calculando com o raciocínio, mas porque já sabe que deve agir de uma determinada maneira, e não de outra. A sua vista vê tão longe, que abrange a sua existência na eternidade, em função do todo. Acima da linguagem dos sentidos e da mente, ele entende a linguagem das coisas, das quais intui por visão interior o sentido profundo. Esse homem não é dirigido pela simples reação sensória, como no nível do subconsciente, ou pela análise racional do seu cérebro, como no nível do consciente, mas sim por uma autonomia de julgamento e orientação que é consequência do conhecimento, qualidade de quem vive no nível do superconsciente. Quando não há mais trevas de mistério, só pode haver um único caminho, pelo menos nas linhas gerais, para o homem, e este será o caminho certo. Assim vive tal biótipo, sem querer dominar, não precisando de provas racionais para entender e ser convencido, pois já atingiu o conhecimento e possui a verdade. Para melhor esclarecer o nosso pensamento, observemos mais de perto esses três casos. No nível do subconsciente ou plano animal, a direção da vida é realizada pelos dois instintos fundamentais: a fome, que garante a continuação do indivíduo, e o sexo, que garante a continuação da raça. Estes são os impulsos básicos que dirigem o ser primitivo. Sobre esta base apoiam-se as paixões elementares que movimentam o elemen-

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to deste nível. Quando ele satisfaz a fome e o sexo, fica satisfeito, não entendendo nem procurando outra coisa, porque atingiu o seu objetivo principal: viver. No nível do consciente, apoiado nestes dois instintos básicos, inicia-se, no primeiro caso, e levanta-se a construção do edifício da propriedade, da riqueza e das correlativas proteções legais, através das posições sociais, das honras, do poder religioso e do poder político, acrescentados ao redor do eu para aumentá-lo, enquanto, no segundo caso, levanta-se a construção do edifício da família, para a defesa da mulher e dos filhos, estabelecendo direitos e deveres na conduta, na propriedade, na herança etc. A base e o centro de tudo isto é, como no caso precedente, o egocentrismo do eu, para garantir, agora em forma mais completa, a continuação da vida, seja como indivíduo, seja como coletividade. A sua principal finalidade é possuir, na maior medida possível, não só poder e recursos para dominar, mas também mulheres para se multiplicar nos filhos e, afirmando-se assim, espalhar-se no mundo, conquistando o mais que puder. Estamos no nível do egoísmo e da luta de todos contra todos, cada um querendo dominar. A guerra é o estado normal, e a família constitui um castelo armado contra as outras famílias, naturalmente rivais e inimigas, sendo preciso vencer para não ser vencido. O grupo familiar fica, desta forma, unido pelo seu egoísmo, que representa neste plano a base da vida. Constroemse, assim, e ficam unidos os grupos nacionais, nos quais os povos se unem para se armar contra outros povos. Esse é o estado atual da nossa humanidade, que alcançou apenas a organização racional, ao nível do consciente, dos instintos fundamentais que movimentam o ser no nível do subconsciente. A verdadeira revolução biológica só aparece no nível do superconsciente. Para maior clareza, damos um exemplo prático, escolhendo como modelo um ser verdadeiramente superior, que foi Francisco de Assis, em cuja terra nasci e vivi muito tempo. Com os três votos básicos da sua regra, ele quis despedaçar os correspondentes instintos fundamentais do homem, a eles contrapondo como virtudes três impulsos opostos. Ao 1 o, o instinto de possuir, ele contrapôs a regra da pobreza; ao 2 o, o instinto do sexo, contrapôs a regra da castidade; ao 3 o, o instinto do egocentrismo dominador, contrapôs a regra da obediência. Assim, o indivíduo fica como que aniquilado no nível do subconsciente (instintos) e do consciente (razão a serviço dos instintos). O seu passado biológico é esmagado de uma vez, mas sendo conduzido a uma superação. A vida, assim cortada nas suas velhas raízes, parece condenada a morrer, mas, pelo contrário, é levada a ressurgir mais poderosa num plano mais alto. Este é o significado biológico e a lógica do espírito franciscano. Na prática, os indivíduos estão bem longe de se encontrarem prontos para realizar uma revolução biológica. Tudo isto chegou a um mundo dirigido por impulsos bem diferentes. Pelo entusiasmo que a pregação arrebatadora de São Francisco acordou no povo sofredor, porque lhe oferecia a esperança de uma vida melhor, reuniu-se atrás dele uma multidão de seguidores, tanto mais porque o entusiasmo popular se concretizou numa imensa colheita de recursos, com os quais foi rapidamente construído em Assis, para honrar a pobreza, o mosteiro e a basílica de São Francisco, um castelo imenso, que hoje vale bilhões. Na igreja superior da basílica de São Francisco, existe, à direita, um afresco de Giotto, que representa o Papa Inocêncio III, tendo uma visão em sonho, na qual a grande basílica do Laterano em Roma estava caindo enquanto São Francisco a sustentava, evitando que ela caísse. É lógico que esse papa aprovasse e mesmo santificasse o homem cuja inspiração havia levantado o entusiasmo popular para Cristo e o Evangelho, que constituíam as bases teóricas do poder terreno da Igreja, representado pela basílica do Laterano. O grande exemplo cristão de São Francisco confirmava a doutrina na qual se baseia o papado e, com isso, a legitimidade da hierarquia eclesiástica e do seu poder terreno. Para o pastor

que deve dirigir, a maior necessidade é um rebanho de ovelhas obedientes. Não se pode esquecer em que mundo vivemos. Nele, que está cheio de gente querendo possuir e mandar, é lógico então que seja a coisa mais agradável e desejada encontrar quem, renunciando à posse e ao poder, substitua estes dois impulsos pelas virtudes da pobreza e da obediência. Esta é a razão pela qual São Francisco foi glorificado por um mundo que está nos seus antípodas. Talvez, na providência de Deus, não houvesse outro meio para que seres situados no nível evolutivo do subconsciente instintivo pudessem, no seu ambiente, aceitar um biótipo tão diferente deles, pertencente ao nível evolutivo do super-homem. E, de fato, os seus seguidores ficaram no próprio nível, rebaixando tudo até eles, porque, mais do que a sua natureza continha, eles não podiam entender. É inevitável que, ao descer do alto, qualquer ideal não possa sobreviver na Terra senão em forma torcida, adaptando-se às condições biológicas dos indivíduos que têm de realizá-lo. O nosso mundo não é dirigido pelas antecipações ideais do futuro, mas sim pelos instintos, fruto da longa experiência do passado, que dão mais garantia de sobrevivência, tornando mais seguro seguir os velhos caminhos já conhecidos do que arriscar uma aventura na exploração do novo. É por isso que, perante os audaciosos pioneiros, a vida se defende como se enfrentasse um perigo e os aceita com prudência, glorificando-os, mas sem imitá-los, adaptando tudo às suas comodidades, o que pode parecer hipocrisia e traição do ideal, mas que, de fato, representa uma autodefesa, pois é extremamente diferente a realidade biológica em que o ideal quer tomar forma concreta. O amadurecimento das massas, pelo qual serão levadas ao entendimento das coisas superiores, é lento e trabalhoso, exigindo tais adaptações para permitir uma assimilação gradual, em percentagens progressivas. Este fato, porém, não pode impedir que, à vista dos mais evoluídos, tais adaptações pareçam mentiras. Como pode o ser primitivo praticar tais virtudes superiores, se para ele, que não sabe ressuscitar num nível mais alto, elas representam um suicídio? A vida quer o progresso, mas se retrai e recua quando esse caminho se torna perigoso demais. O progresso é necessário, e, se à Terra não descessem os ideais, cuja função é antecipar e preparar o futuro, não seria possível a evolução, pois faltaria orientação para o caminho daqueles que, antes de tudo, são menores e precisam ser educados por alguém que possua mais conhecimento e saiba dirigi-los. Quem se encontra deslocado em nosso mundo é o homem superior, que, tendo de se adaptar a viver num nível biológico inferior, ao qual ele não pertence, deve, por isso, conhecer os instintos, defeitos e paixões que movimentam os primitivos. Estes, pelo contrário, encontram-se confortáveis no ambiente terrestre, porém ninguém mais do que eles precisa de uma educação superior, para tirá-los desse pântano e levantá-los para o alto. ◘◘◘ No ambiente terrestre se encontram misturados os três biótipos que vimos, cada um vivendo no seu respectivo nível: subconsciente, consciente e superconsciente. Cada um desses biótipos reage contra o outro de acordo com a sua própria natureza, julgando e agindo conforme a sua forma mental. Trata-se de três níveis diferentes, cada qual com um tipo de sensibilidade e compreensão: a sensória, a racional e a espiritual. O homem do subconsciente encontra-se completamente escravizado pelos seus impulsos instintivos, sem nenhum controle sobre eles. O homem do consciente é dono dos seus instintos, que são controlados por ele com a razão, através da qual pesquisa o desconhecido e da qual é escravo, pois não possui outro meio para se dirigir. O homem do superconsciente é dono dos instintos e da razão, que domina e controla, orientado pelo seu conhecimento. É como se, no desenvolvimento da sensibilização, houvesse três dimensões sucessivas, uma acima da outra, correspondendo à linha, à superfície e ao vo-

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lume. Trata-se de algo semelhante a três camadas sobrepostas, que revelam as sucessivas posições ocupadas pelo ser no seu crescimento, tal como acontece no tronco das árvores ou nas estratificações geológicas. É lógico que o ser do plano superior seja mais completo do que o ser do plano inferior. Assim quem está em cima, olhando os outros em baixo, não pode deixar de julgá-los mancos e falhos. É claro que um homem do 1o nível (subconsciente), observado por quem está situado no 2o nível (consciente), aparecerá a este como um ser que ainda não sabe pensar e ao qual não adianta explicar nada, pois ele não pode entender. Também é claro que um homem do 2o nível (consciente), observado por quem está situado no 3o nível (superconsciente), aparecerá a este como um cego que busca conhecer a natureza das coisas, tateando com os sentidos a superfície delas. Então, para ser entendido por um tal cego, é necessário lhe explicar tudo com as palavras da razão, que podem ser entendidas por ele. Tal princípio é universal. Assim, é possível falar com os animais, se utilizarmos a sua linguagem, que se baseia nos instintos fundamentais da vida. Então aquilo que representa o mais poderoso argumento para um ser superior pode passar completamente desapercebido para um ser inferior. E pertence ao primeiro a tarefa de descer até ao segundo, pois quem sabe mais pode entender quem sabe menos, mas não ao contrário. Para que os mais adiantados possam comunicar-se com os mais atrasados, fazendo-se compreender por estes, impõe-se aos primeiros a necessidade de traduzirem e adaptarem a sua linguagem à forma mental dos segundos. Assim, o homem racional, se quiser ser entendido pelo homem do subconsciente, terá de descer ao nível dos sentidos e das emoções. Da mesma forma, o homem intuitivo terá de transpor a sua linguagem para o raciocínio lógico, utilizando demonstrações e provas, se quiser ser entendido pelo homem do nível do consciente. O ser não pode compreender o que está acima do seu nível de evolução. Por isso, em nossos livros, foi necessário traduzir as nossas visões na linguagem racional, que corresponde à atual forma mental humana. Para serem entendidas pelos biótipos do nível do subconsciente, teria sido necessário traduzir as visões em termos emocionais de medo, esperança ou entusiasmo, estimulando-os com representações bem perceptíveis pelos sentidos. Tal descida é uma necessidade imposta pela natureza das coisas. Esta é a razão pela qual, a cada passo, encontramos esse fenômeno nas religiões, cuja tarefa é exatamente levar até ao nível dos mais involuídos os princípios superiores, que eles nunca saberiam atingir de outro modo. Quem fala, se quiser ser compreendido, tem de falar a linguagem dos ouvintes. Isto é o que de fato acontece em nosso mundo, quando se trata de convencer as massas populares. Daí a necessidade do uso das imagens e das representações nos rituais das religiões. Para convencer o povo na propaganda política, nas campanhas eleitorais e na venda de produtos comerciais, usam-se slogans simples, que não requerem raciocínio nem esforço de pensamento, constituindo-se de mensagens repetidas em forma de sugestão hipnótica, dirigidas ao subconsciente e apoiadas nos impulsos elementares deste. O instinto do involuído é reduzir tudo dentro dos limites da sua forma mental. O que não cabe dentro da sua cabeça passa despercebido, como se fosse inexistente para ele. Mas, com a evolução, a vida se torna uma conquista contínua, revelando uma realidade sempre mais vasta. A progressiva sensibilização permite penetrar numa parte cada vez maior das vibrações do universo. O campo dominado pela consciência, que, na involução, foi comprimido até chegar à matéria, vai cada vez mais se ampliando com a evolução, até chegar ao espírito. É assim que, onde o evoluído percebe um mundo imenso, o involuído fica cego e surdo, nada percebendo. Onde um cientista, um pensador ou um artista é arrebatado por pensamentos e emoções profundas, impelido às mais enérgicas reações, um homem comum

fica inerte, adormecido pelo tédio. Há coisas preciosas à porta da sua casa, com maravilhas batendo para entrar, mas ele não responde, retornando às misérias do seu mundo pequeno, as únicas que ele sabe entender. É necessário que os seres dos planos superiores reduzam o seu patrimônio mental aos limites dos planos inferiores, condição sem a qual a comunicação não é possível e os ensinamentos não são recebidos. É assim que os superiores conhecem a forma mental e o mundo dos inferiores, mas estes não conhecem a forma mental e o mundo dos superiores. O subconsciente, o consciente e o superconsciente são como três andares do mesmo edifício, no qual o ser pode morar no andar inferior, no médio ou no superior, que correspondem aos diferentes níveis de evolução. Quem mora no inferior não pode conhecer o que há no superior, enquanto não entrar no novo apartamento, subindo a escada que o leva até lá. Mas quem mora no apartamento superior se lembra do que há nos inferiores, onde ele morou no passado. Pode, assim, acontecer que o homem racional, do nível consciente, venha a seguir no seu comportamento os instintos animais, que a ele retornam do subconsciente, isto é, do andar inferior, onde ele residiu no passado. Isto significa um momentâneo retrocesso a posições evolutivas atrasadas. O homem atual subiu há pouco do andar inferior da animalidade ao intermediário da consciência racional, no qual está aprendendo a morar. A lembrança, a forma mental e os hábitos de inquilino do andar inferior ainda estão vivos nele, sempre prontos a voltar. Mas, agora, ele vive mais próximo do terceiro andar, o superconsciente, e essa vizinhança já lhe permite perceber alguma coisa do que acontece nesse andar superior. É daí que descem não só as revelações das religiões, que o iluminam e estabelecem qual deve ser a sua conduta, mas também os indivíduos cuja missão é, com a palavra e o exemplo, mostrar o caminho para subir até esse andar. Eis, então, que o nosso mundo está como que suspenso entre dois outros mundos, um debaixo e um acima dele, recebendo do primeiro impulsos inferiores e do segundo impulsos superiores, os quais, apesar de opostos e em luta, representam, porém, o trabalho criador do amadurecimento evolutivo. Assim, quando em nós surge um impulso, podemos pela sua natureza entender de que nível evolutivo ele chega. As chamadas tentações do pecado, para fazer o mal, pertencem ao nível inferior, enquanto as boas inspirações para fazer o bem pertencem ao superior. Mas, em cada indivíduo, surgirão com mais poder os impulsos do seu plano biológico, e estes vencerão. Assim, com a sua conduta, cada um revelará a que plano pertence, dando a conhecer a sua natureza e o seu grau de evolução. É claro que, tratando-se de indivíduos em transformação, destinados mais cedo ou mais tarde a mudar de um andar para outro, encontramos em nosso mundo impulsos e condutas de todos os gêneros. E a tarefa de dirigir a escolha entre estes impulsos pertence às vozes que descem do plano superior. O observador superficial poderia ser levado a pensar que o homem possuí três almas diferentes, cada uma procurando dirigir a sua conduta. Mas, na verdade, trata-se apenas de três posições diferentes ao longo da escala da evolução. Quando aparecem apenas os impulsos elementares instintivos, como a simpatia, o ódio, o medo do perigo ou a atração sexual, trata-se de produtos do nível inferior, pertencentes ao subconsciente. Quem vive neste plano não conhece mais do que isto, resolvendo assim os problemas de sua vida. Quando o homem começa a pensar, observar, fazer perguntas e procurar respostas, deduzindo e controlando, então ele atingiu o nível médio, do consciente, no qual ele procura resolver os problemas da vida racionalmente. Quando o homem chega a responder às suas perguntas e, assim, resolve os problemas da vida com conhecimento, vivendo esclarecido e, por conseguinte, conduzindo-se retamente, então o ser chegou ao nível superior, do superconsciente.

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Subir de um nível para outro é justamente o duro trabalho no qual se constitui a evolução, que não é inútil, mesmo do ponto de vista da vantagem para o indivíduo. Aumentando o seu conhecimento, aumenta também o poder de defesa de sua existência, porque conhecimento quer dizer sábia orientação e, portanto, menor número de erros – que têm de ser pagos – e menos sofrimentos. Assim o esforço evolutivo é compensado, porque, quanto mais o ser evolui, tanto mais protegida é a vida. Com a evolução, ela ganha em segurança, amplitude, poder e satisfação, como é lógico que aconteça, porque, evoluindo, o ser se afasta do AS e se aproxima do S. A vida não pode deixar de ser diferente para cada um, conforme ele viva no 1 o nível, como um ser impulsivo, instintivo e inconsciente; no 2o nível, como um ser racional e inteligente; ou no 3 o nível, como um ser iluminado, que atingiu o conhecimento. ◘◘◘ Podemos agora enfrentar o problema de nosso destino, que é o assunto deste capítulo, como anunciamos no seu início. Mas, antes, era necessário observar a natureza destes três diferentes biótipos, porque do que somos e dos nossos impulsos depende nosso tipo de destino, que corresponde a cada um dos três níveis a que pertencemos. Assim, neste capítulo, observaremos o fenômeno do destino em geral, em função do nível biológico em que o indivíduo vive. Veremos, então, que aos três tipos de homem correspondem três tipos de destino. Veremos depois, dentro do grande desenho deste quadro geral, as linhas do destino no caso particular do indivíduo separadamente. Cada um de nós traz ao nascer o seu tipo de destino conforme suas próprias qualidades, que construímos em nossas vidas passadas. Delas dependem os impulsos que nos movimentarão em nossa vida atual, dos quais deriva o tipo de conduta e, por isso, de nossa existência. O fato se verifica com qualquer semente, cuja própria natureza nos diz desde o início qual será o desenvolvimento de toda a sua existência, que ela já contém em si potencialmente. Isto porque a vida atual não é senão um trecho a mais, que se junta a um imenso caminho percorrido no passado. O desenvolvimento de um destino representa simplesmente a realização atual do que já estava potencialmente contido na personalidade ao nascer. Assim, quando conhecemos o tipo de personalidade, é possível conhecer qual será o tipo de destino. Pelo fato de pertencermos à raça humana, temos antes de tudo um destino biológico geral, que estabelece os vários períodos e duração de nossa vida. Além dele, temos também um destino econômico e social, que depende da posição e do ambiente em que nascemos; um destino, poder-se-ia dizer, clínico, que marca com antecedência a nossa pré-disposição a esta ou àquela doença, conforme o organismo físico que recebemos dos nossos pais; e por fim, acima de todos, um destino ao qual poderíamos chamar psicológico e espiritual, que revela a verdadeira personalidade e o poder do eu, mais ou menos dono de si mesmo, reagindo contra as condições impostas pelos outros destinos, inferiores, para dominá-los e tornar-se sempre mais livre, impondo a eles sua vontade e, se for maduro, deslocando-se, com a sua conduta moral, a um plano de vida mais alto, a fim de aí se realizar como ele quer, conforme sua natureza. É preciso entender que amadurecimento evolutivo significa elevação de nível biológico e, portanto, de tipo de destino, com as correlativas vantagens e deveres. Tudo isto depende do comportamento do indivíduo, que age de acordo com as suas qualidades, buscando diferentes objetivos conforme o seu nível. Assim um homem do 2o tipo poderá ser sincero e virtuoso, mas sobretudo por calcular uma vantagem para si (paraíso ou inferno etc.), enquanto um homem do 3 o tipo o será sobretudo por um princípio ideal. O tipo médio aterroriza-se com as condenações do mundo e procurará na sua conduta a aprovação do mundo, coisa para ele muito importante. O tipo superior depõe sua consciência perante Deus e pedirá apenas o Seu julgamento,

porque sabe o quanto vale o do mundo. O tipo médio é vaidoso, porque está vazio. O tipo superior é humilde, porque é virtuoso e, por isso, o seu valor não precisa dos louvores dos outros. As finalidades do tipo médio estão todas neste mundo, enquanto as do tipo superior encontram-se além, num mundo superior. Na luta para defender a própria vida, cada um dos dois segue métodos completamente diferentes. O primeiro se conduz como um ser que vive isolado do universo e de Deus, somente podendo contar com os seus únicos recursos: a força e a astúcia. O segundo não vive isolado no universo nem separado de Deus, pois sabe que basta seguir a Lei para ele poder contar com forças superiores, que impõem a justiça de Deus. O 1o acredita que, fazendo o mal, seja possível vencer. O 2o sabe que isto significa perder. O 1o representa a forma mental do mundo. O 2o representa, ao contrário, o superior espírito do Evangelho. Assim, conforme sua natureza, o indivíduo traz consigo, já estruturado, o seu destino, não como uma fatalidade cega e injusta, mas sim como uma lógica e justa consequência das causas semeadas e das qualidades impressas no eu em suas vidas precedentes. A maioria vive cega a respeito de tais problemas. Mas eles são fundamentais para quem queira viver dirigindo-se com inteligência. Então, para conhecer qual o tipo de destino que lhe pertence, é necessário, antes de tudo, saber a que nível evolutivo o indivíduo pertence: ao inferior, instintivo, do subconsciente; ao médio, racional, do consciente; ou ao superior, iluminado, do superconsciente. Trata-se de três níveis biológicos, em cada um dos quais a vida é regida por leis diferentes. Ora, pertencer a um ou outro desses níveis estabelece a lei a que o indivíduo tem de ficar sujeito, segundo a qual são regulados todos os seus movimentos e o desenvolvimento do seu destino. É lógico que o conteúdo de cada vida dependa da posição ocupada pelo ser ao longo do caminho da evolução, em função daquele que já foi percorrido no passado. Esta é a base para conhecer, nas suas linhas gerais, qual deve ser o conteúdo de nossa vida, conforme o tipo de destino próprio de cada um. Teremos, então, três tipos fundamentais de destino, conforme o ser viva no 1o, no 2o ou no 3o nível. No 1o caso, o desenvolvimento da vida é simples, sendo dirigido por alguns impulsos fundamentais, dos quais é fácil prever os efeitos. Neste nível, o indivíduo possui poucas ideias, com as quais resolve os seus poucos problemas, que são os da fome e os do amor. Ao saciar os desejos do estômago e do sexo, o ser fica satisfeito, pois cumpriu as duas funções que a vida lhe pede: assegurar a conservação do indivíduo e a da espécie. Com isso, a sua tarefa biológica se esgota. Além disto, que é todo o seu mundo, ele nada sabe nem procura. A lei desse nível biológico não vai além desses estreitos limites, que estabelecem o caminho ao longo do qual se desenvolverá o destino de quem vive nesse nível. Para ele, o impulso de crescimento poderá manifestar-se no desejo de satisfazer sempre mais os seus impulsos fundamentais, do estômago e do sexo, isto é, engordar, gozar, possuir mulheres, ter filhos e não trabalhar, permanecendo sempre em tal tipo de experiências. Esse é o conteúdo do tipo de destino do indivíduo do 1o caso. No 2o caso, devido à sua maior experiência, que enriqueceu o eu de novas qualidades, o desenvolvimento da vida se torna mais complexo, sendo dirigido por novos impulsos, com maior amplitude tanto na escolha como nos respectivos efeitos. O indivíduo conquistou novas ideias, concebendo e conseguindo resolver problemas maiores, que, superando aqueles apenas elementares do estômago e do sexo, dizem respeito ao poder, à organização social, ao domínio sobre as forças da natureza, à riqueza, à glória, ao conhecimento etc. Nesse nível, a vida continua exigindo a conservação do indivíduo e da espécie, porém, agora, ela deseja que isto seja feito com maior abundância e segurança, desenvolvendo para o serviço da defesa uma arma mais poderosa do que a dos primitivos: a inteligência. Esta, no

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entanto, permanece confinada dentro de limites, além dos quais a mente da maioria nada sabe e pouco procura saber, ficando satisfeita neste seu nível com a solução daqueles problemas, sem olhar para outros mais longínquos. Eis, então, que, dentro de tais limites, está marcado o caminho ao longo do qual se desenvolverá o destino de quem vive nesse nível. Além do conteúdo que constitui a sua forma mental, relativa ao seu plano de evolução, o indivíduo nada pode conceber ou realizar, razão pela qual o seu destino também não pode conter nada mais. Enquanto não subir para formas de vida superiores, ele ficará amarrado a tal tipo de experiências, sendo esta a tarefa que lhe cabe realizar, para cumprir sua evolução. A visão desse biótipo não enxerga horizontes mais vastos. Assim, até que ele tenha adquirido um novo amadurecimento evolutivo, a porta de entrada para um nível superior permanecerá fechada, impedindo-o de alcançá-lo. Sabemos, então, qual é o conteúdo do tipo de destino do indivíduo do 2 o caso. No 3o caso, por ter feito novas experiências e conquistado novas qualidades, o desenvolvimento da vida se torna ainda mais complexo, dirigindo-se para horizontes imensamente mais vastos. Pelo novo entendimento adquirido, nascem novos impulsos, movimentando o ser para novos caminhos, que o levam além dos precedentes. Ele não existe mais só para si, cercado de mistério, fechado em seu pequeno mundo terrestre, mas vive conscientemente, em função do universo, do qual se torna cidadão, coordenando-se organicamente no seio do seu funcionamento. Ele concebe e resolve novos problemas. Seu progresso no conhecimento da natureza das coisas não lhe deixa mais cair vítima das tantas ilusões da vida. Finalmente, ele entendeu que os velhos objetivos pelos quais tanto lutava têm valor relativo. A sua vida transbordou para além dos velhos limites em que estava presa, adquirindo assim um novo significado e conteúdo. Ao invés das restritas conquistas terrenas, para escravizar os vencidos, surgem as conquistas da inteligência e do espírito, para erguer todos a um nível evolutivo mais adiantado e feliz. Chegando a esse plano, o ser transformou a sua vida de cego, dirigido por instintos mais ou menos controlados, na de um iluminado, dirigido pelo conhecimento. Eis, então, que o caminho ao longo do qual se desenvolverá o destino de quem vive nesse nível também está marcado, contudo vai muito além dos velhos limites e em direção diferente. O ser não está mais fechado neles, pois descobriu uma nova forma de existência, adquirindo uma nova forma mental e a respectiva conduta. Com isso, ele mudou o caminho do seu destino. Por ter atingido esse nível superior, tornou-se possível para o indivíduo realizar os valores imperecíveis, situados atrás das aparências que constituíam o mundo do nível inferior precedente. É lógico que, tratando-se de outro biótipo, o ser do 3o caso tenha um tipo de destino cujo conteúdo é completamente diferente dos dois casos anteriores. Nestes três casos, vemos o indivíduo funcionar em três níveis diferentes. No 1o caso, ele funciona como ventre, no 2o como cérebro, e no 3o como espírito. O centro da vida se desloca dos sentidos à mente e depois à alma, subindo para formas de existência cada vez mais evoluídas. Na luta pela vida, cada um resolve o problema fundamental da sua defesa de uma maneira diferente. O 1o biótipo ignora qualquer ideia de justiça, contando apenas com a força bruta dos seus recursos físicos; o 2o conhece o que é justiça, mas somente a utiliza para defender os seus interesses, em seu proveito; o 3o biótipo não julga, mas entrega-se completamente à justiça de Deus, a verdadeira e única, usando a sua obediência à Lei como único meio para a sua defesa. Deste modo vão progredindo juntas a sensibilização do ser, a sua inteligência e a sua capacidade de entender, evitando-se assim os erros e as respectivas dores. É lógico que, assim, muda o tipo de vida ao qual o ser pertence. Isto significa que a evolução também transforma o tipo de destino estabelecido para o indivíduo em seu nascimento. Desse modo, o ser tem de

lutar para subir de um plano biológico para outro, no entanto, uma vez atingido um nível mais adiantado, isto implica automaticamente no desenvolvimento da sua existência conforme um tipo de destino diferente dos precedentes, proporcionado ao novo nível em que o indivíduo, de acordo com o seu amadurecimento, mereceu nascer. ◘◘◘ Chegando até este ponto, a conclusão por nós obtida é que há três tipos fundamentais de destino, conforme a natureza do indivíduo, definida pelo nível evolutivo em que ele se encontra. Ora, quando conhecemos esse fato básico, eis que já possuímos os elementos para estabelecer qual é o tipo de destino que caberá a cada indivíduo na sua vida. Quando, através do estudo das nossas qualidades, podemos individuar qual é o nosso tipo biológico, eis que já podemos determinar nas suas linhas gerais qual será o nosso destino. Estabelecido esse primeiro ponto de nossa pesquisa, continuemos aprofundando, cada vez com maior exatidão, a observação do fenômeno. O que dissemos até aqui a este respeito não nos oferece senão uma visão esquemática básica para nos orientarmos na pesquisa e enfrentarmos a solução do problema. O nosso objetivo é chegar a estabelecer um método que nos ensine como conhecer e prever o desenvolvimento do destino particular de cada um. Isto se torna possível para nós agora, pelo fato de estarmos orientados dentro do plano do universo, segundo a solução oferecida em nossos livros para os diversos problemas que religiões, filosofias e ciência ainda não resolveram. Os problemas menores e particulares não podem ser resolvidos senão depois de se obter a solução dos problemas universais, que nos orienta na pesquisa. O nosso mundo procura soluções isoladas, mas nenhum problema pode ser resolvido isoladamente, num universo onde tudo é ligado e comunicante, regido por uma só lei, fundamentalmente unitária. É preciso levar em conta o fato de que, na prática, os mencionados três níveis não se apresentam como três compartimentos estanques, absolutamente separados um do outro, mas sim como três fases sucessivas e contíguas do mesmo processo evolutivo, que todos estão percorrendo. É fácil assim compreender que o passado transposto esteja superado, mas não completamente destruído, podendo voltar a sobreviver como um retorno ou lembrança daquele passado. Aparece, então, na superfície da consciência o que foi escrito nas camadas inferiores da personalidade, ao longo do caminho do seu desenvolvimento. Pode ocorrer que um indivíduo não viva somente num dado nível biológico, sujeito ao correlativo tipo de destino, mas se encontre numa fase de transição de um nível para outro, na qual lutam para se concretizar impulsos provenientes tanto dos planos inferiores como dos superiores. A prevalência de um ou de outro depende da medida em que o passado foi superado. Lembremo-nos de que se trata de um fenômeno de evolução, o que representa um contínuo transformismo. Eis como pode nascer a luta entre o velho, que não quer morrer, e o novo, que, por lei de evolução, quer e deve nascer. Velho e novo significam as diversas qualidades da personalidade e os respectivos impulsos que dirigem a sua conduta. É preciso, então, para estabelecer qual será o destino do indivíduo, conhecer o tipo biológico que prevalece nele, pois o mais poderoso vencerá a luta. Para prever, então, qual será o destino de um homem, é necessário, antes de tudo, saber em que medida a sua personalidade contém as características de cada um dos três níveis. No 1 o caso, o ser vive todo no plano instintivo animal, não havendo luta entre impulsos diferentes. No 2 o caso, que abrange a maioria humana, surge o problema de saber até que ponto o animal do 1o caso ainda está vivo no homem, e até que ponto já surgiu e se afirmou o biótipo deste 2o caso. No 3o caso, que é excepcional na Terra, o problema é saber até que ponto sobrevive no indivíduo o biótipo do 1o e do 2o caso.

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Pode, assim, acontecer que o indivíduo não ocupe somente um nível de evolução. Como já frisamos no capítulo precedente, a estrutura do eu, melhor do que por um ponto, pode ser representada por um trecho de linha avançando ao longo do caminho da evolução. O seu ponto mais adiantado representa a cabeça, que vai explorando o futuro para subir. O seu ponto mais atrasado representa a cauda, que vai morrendo, abandonada no passado. Com a evolução, a vida se desenvolve do lado da cabeça, ficando superada no lado da cauda. Então a luta pode nascer entre a cabeça, que exige todas as energias vitais para subir, e a cauda, cuja vontade é permanecer dona do terreno que era seu. Tudo isto acontece dentro da amplitude evolutiva que o eu abrange. A conduta do ser depende das qualidades que ele possui e dos impulsos que nele prevalecem. Quando o indivíduo deixa prevalecer os impulsos do lado da cauda, que representa o mal, então está voltando para trás, involuindo para o AS. Quando o indivíduo deixa prevalecer os impulsos do lado da cabeça, que representa o bem, então está progredindo para frente, evoluindo para o S. Eis que este estudo de psicanálise nos leva ao terreno da ética, do qual ela não pode separar-se. Podemos agora entender o significado da luta que as religiões ensinam contra os instintos inferiores, para superar a animalidade, substituindo-a por outros hábitos e qualidades. Explica-se como possam ter valor e função biológica a renúncia pelo ideal e os impulsos de sublimação, conceitos que, de outro modo, parecem biologicamente destrutivos e, por isso, condenáveis. É coisa sabida, em nosso mundo, que religiões e leis, se quiserem ser entendidas, têm de se moldar ao homem. De fato, a ética atual se baseia na premissa de que elas se proporcionam e se adaptam ao tipo dominante, quando querem educá-lo para a superação dos seus instintos animais, a fim de que prevaleçam nele impulsos mais elevados. Realmente, as religiões pressupõem no indivíduo um pecador que elas têm de converter do mal para o bem. Existem, porém, embora excepcionalmente, biótipos mais adiantados, para os quais, logicamente, essa ética resulta absurda, porque, com a sua forma mental de outro nível biológico, eles, já tendo realizado aquelas superações exigidas dos outros, concebem tudo de forma diferente. Mas pode haver também o caso de um biótipo do 3 o nível que tem de lutar para não prevalecerem nele, no lugar dos impulsos do 3o nível, os do 1o e do 2o. Isto pode acontecer no caso em que o indivíduo entrou há pouco neste novo plano de existência e, até esta altura, ainda não consegue levantar todo o seu eu das suas precedentes moradas inferiores. Uma ética completa deveria ser construída por níveis diferentes, para ser proporcionada à natureza e exigências da personalidade de cada um desses biótipos. Logicamente, a ética que dirige o trabalho de construção biológica, própria para um involuído, não pode ser igual à ética praticada por um evoluído. Uma das coisas que o nosso mundo mais procura é o menor trabalho possível, razão pela qual busca fazer tudo em série para as maiorias, mantendo a minoria fora da série abandonada a si mesma. Pode assim haver luta entre éticas de níveis diferentes, cada uma feita para dirigir um biótipo diferente, sendo os mais evoluídos expulsos da regra geral, que vale para a maioria. É lógico, então, que tais indivíduos se isolem, afastando-se das massas, pois elas seguem outro caminho, completamente diferente do seu. Pode assim acontecer que os melhores sejam condenados como inimigos das religiões, quando eles talvez sejam os únicos que possuem a verdadeira espiritualidade. De tudo isto podemos concluir quão complexo seja o problema da ética e entender a razão pela qual ele não pode ser resolvido isoladamente, mas somente em função da solução de muitos outros problemas, como até aqui os temos estudado. ◘◘◘

Observemos, agora mais de perto, como se desenvolve, dentro da amplitude que o eu abrange, essa luta entre planos evolutivos diferentes. Este assunto é importante, porque nesta luta se manifesta a técnica pela qual o processo da evolução se realiza através do amadurecimento do eu. A este respeito já vimos que ele pode se encontrar em uma das três posições: 1 a) Nível inferior; 2 a) Nível médio; 3 a) Nível superior. Tais posições, no entanto, são apenas três degraus sucessivos do contínuo caminho evolutivo percorrido pelo ser. Para o homem, o ponto de partida é a posição N o 1, isto é, da animalidade, e o ponto de chegada é a posição N o 3, isto é, da espiritualidade. A evolução consiste nesse deslocamento de um nível para o outro. O processo da evolução humana se realiza na amplitude representada por estes três níveis. É por isso que os estamos estudando, pois eles nos mostram o caminho do desenvolvimento da personalidade humana. O homem do nível inferior é um primitivo ignorante, que não sabe o que faz, pois é dirigido apenas por alguns elementares e animalescos instintos, aos quais ele obedece cegamente. Em nosso mundo, ele constitui as raças inferiores, compondo as camadas mais baixas da sociedade, não necessariamente no sentido econômico, mas sim no intelectual e moral, de modo que tal tipo de involuído pode ser encontrado também no meio dos ricos e seletos da nossa sociedade. Mas seja qual for a sua posição exterior, tal biótipo fica sempre na lama, que é o seu ambiente natural, do qual gosta e não deseja sair. Está satisfeito na Terra, seu paraíso, onde encontra egoísmo, ferocidade, guerras, roubos e crimes, tudo que ele precisa para desabafar os seus instintos. Um trabalho superior, dirigido para a espiritualidade, iniciase no nível médio, no qual está situada a nossa civilização. Aqui, o homem começa a sair do pântano da animalidade, adquire e desenvolve a inteligência, funda religiões e cria filosofias, descobrindo a arte, a organização social e a ciência. No entanto o nível precedente, por ainda não estar esquecido e definitivamente superado, continua sobrevivendo no subconsciente e volta daí para dominar, colocando a seu serviço a inteligência, que deveria ser usada para o ser libertar-se dele. As religiões, em nome do ideal de espiritualidade do 3o nível, pregam a libertação e a superação da animalidade do 1o nível, mas, para quem pertence a um plano biológico inferior, é muito difícil entender a verdade de um plano superior. Então tal biótipo aceita tal orientação apenas na aparência, praticando-a como uma forma de hipocrisia. A verdade na qual o indivíduo acredita de fato é aquela do seu nível de vida. Esta é a verdade que ele traz impressa na sua personalidade e que representa a sua forma mental, com a qual ele concebe, entende e julga tudo. Um verdadeiro trabalho de superação por sublimação, que afasta o ser da animalidade, somente se faz no 3o nível. Em nosso mundo aparecem as funções do consciente racional, mas estas são usadas em favor do subconsciente animal. Existem grandes descobertas científicas testemunhando o valor da inteligência humana, mas elas são usadas para fazer guerras, matar e destruir, obedecendo aos instintos da animalidade. Isto nos mostra que, no fundo, o homem moderno possui a mesma forma mental da fera da floresta, da qual ele difere apenas porque, para satisfazer os seus impulsos primitivos, usa métodos inteligentes, empregando armas atômicas, em vez de dentes e garras. O conhecimento que o homem atingiu com a ciência não é utilizado para se orientar de maneira diferente e superar os instintos, mas sim para satisfazê-los com meios mais poderosos. Assim, ao invés de dominar o inferior, o eu se colocou às suas ordens. O poder da inteligência foi conquistado não para subjugar o subconsciente, mas para servi-lo. Em vez de ser utilizada para subir, a inteligência se tornou astúcia, sendo dirigida para obter satisfações materiais e vantagens imediatas egoístas. O que devia ser um meio de ascensão, prostituiu-se a serviço do que é inferior.

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O verdadeiro trabalho de construção da espiritualidade inicia-se no nível superior. O eu superior começa a afirmar-se com a sua luta contra os impulsos do subconsciente, para atingir a definitiva superação da animalidade. Neste plano, o homem não coloca a sua inteligência a serviço da sua parte inferior, mas sim da superior. O eu não se alia à sua parte mais baixa, e sim à mais alta. A balança que se inclinava incerta no nível médio, ora para um lado, ora para outro, em tentativas nem sempre bem sucedidas na luta contra o subconsciente, agora pende para o lado do superconsciente. Dividindo a amplitude da personalidade humana em três terços ou níveis, podemos ver que: no trecho inferior domina o 1 o nível; no trecho intermediário começa a dominar o 2 o nível, mas em favor do 1o, realizando ao mesmo tempo tentativas para subir ao 3 o nível; e no trecho superior domina o 3 o nível, que se alia ao 2o para dominar e superar definitivamente o 1 o nível. É neste 3o caso, então, que se realiza a grande batalha da sublimação, levando o ser para o plano biológico superior. Certamente, para o homem que, por já ter atingido o 3 o nível, é levado pela sua própria natureza a tomar a sério o ideal, vivendo-o de fato, deve parecer uma coisa muito estranha a utilização do ideal para encobrir e ajudar o esforço de satisfazer os impulsos inferiores. Mas, por outro lado, como pode o homem do 2 o nível entender algo que está acima da sua natureza, situado além dos limites da sua forma mental? E como se pode exigir que ele tome a sério, para vivê-lo, um ideal que ele não pode entender? Entre um plano de vida e outro há uma grande distância, e o ser tem de percorrê-la toda, se quiser atingir o superior. Mas, apesar de tudo, é no 3o nível que terá de chegar a humanidade de amanhã e é esse tipo superior de homem que dominará no futuro. Chegando a este ponto da sua evolução, o ser não gasta mais o seu tempo e energias na luta contra o seu semelhante, pois a inteligência mostrou a ele qual é o verdadeiro sentido da vida, o seu objetivo e o caminho a percorrer. Então tempo e energia são inteligentemente usados, não mais como vãs tentativas de um cego, e sim no trabalho de superação da animalidade e de aperfeiçoamento moral, que dá mais frutos na conquista da felicidade. A ética e as religiões se tornarão problema atual, vital e biologicamente fundamental, porque terão de cumprir inteligentemente a tarefa de dirigir a evolução da humanidade. Há uma diferença básica entre a religiosidade do homem do 2o nível e a do homem do 3o nível. O primeiro, obedecendo à lei do seu plano, concebe tudo em forma de luta e segue o método gregário, segundo o qual uma doutrina ou religião é, antes de tudo, um grupo a que ele pertence e que representa um castelo armado contra todos os outros, onde ele mora. Na religião desse biótipo, seja qual for ela, está implícita a condenação de todas as outras, que constituem para ele grupos humanos rivais e inimigos. É lógico que os ideais das religiões, produto do 3 o nível, não podem, descendo ao nosso mundo, modificar as leis biológicas vigorantes, que são as do 2o nível. A religião do biótipo do 3o nível é imparcial e universal, não constituindo partido ou grupo. Pela sua forma mental completamente diferente, ele não pode sujeitar-se à maneira de conceber e agir das massas. Expulso do terreno delas, ao qual ele não pôde se adaptar, porque a sua fase de trabalho evolutivo é diferente, o homem do 3o nível permanece isolado e condenado no mundo, envolvido num tremendo esforço ascensional, pelo qual este solitário pioneiro do porvir está procurando aproximar-se sempre mais de Deus. Tal indivíduo não pode ficar preso às diferentes formas que dividem as religiões, porquanto, para ele, a coisa mais importante não é a forma, mas a substância, que pouco interessa ao nosso mundo. Ele sabe que a verdade de Deus está acima da luta e que ela não pode ser atingida pelo homem através de absolutismos, porque é relativa e progressiva. Mas o nosso mundo é constituído pelo homem do 2 o nível, que pensa com a sua forma mental e dela não pode sair. Ora,

para quem vive nesse nível, o homem do 3 tipo é julgado irreligioso e constitui causa de escândalo, porque está fora do rebanho, sendo condenado por isso. Mas, para o homem do 3 o tipo, o ser que vive no 2 o nível é movido não pelo conhecimento, e sim pelos instintos do subconsciente. E, quando o 3 o tipo adverte que a religiosidade não é o que deveria ser, os representantes das religiões interpretam sua queixa como uma condenação das coisas santas, considerando isto falta de religiosidade e suspeitando de uma rivalidade de interesses religiosos, porque esta é a forma mental dos homens do 2 o tipo, que pronunciam esse julgamento. Tudo somente pode existir em função da capacidade de entendimento de um dado biótipo. Também as religiões têm de obedecer à psicologia das massas, adaptando-se às formas exigidas por ela, se quiserem penetrar em nosso mundo. O 2 o tipo precisa de imagens que impressionem os seus sentidos, enquanto o 3 o tipo, em vez disso, ocupa-se em modificar a sua vida a cada momento. O 2o tipo procura seguidores para potencializar o seu grupo. O 3o tipo, deixando tais proselitismos fanáticos e jamais impondo à força a sua fé aos outros, procura tornar-se melhor e aperfeiçoar sua conduta para com os outros. Eis então que o homem do 3o nível é um desterrado em nosso mundo, sendo expulso pela maioria, que, obedecendo às leis do seu plano biológico, faz tudo só para si. Tal expulsão é lógica, porque esse homem está saindo das fileiras da gente comum, deslocando-se com o seu centro vital para outro plano de vida, ainda desconhecido dos outros, e não pode, portanto, funcionar como eles, em série, dentro do rebanho comum. O 3 o tipo está definitivamente superando e abandonando em seu passado tudo que pertence ao nível inferior dos instintos – o qual representa para ele o mundo dos outros – e está acordando no nível do superconsciente. Dura é a vida desse tipo, mas é verdade também que ele está realizando o maior trabalho da evolução: fazer nascer um novo ser. E ele tem de cumprir tal esforço no meio da luta pela vida, que não cessa na Terra. Então, neste caso, o indivíduo tem de sustentar duas lutas: uma interior e outra exterior, uma para chegar à superação das suas velhas formas de vida e outra para não ser esmagado pela agressividade dos outros. O mundo só pratica a segunda luta, dirigida contra o próximo, sem interessar-se pela primeira, encontrando-se, por isso, numa posição que, por demandar menos trabalho, é vantajosa. Porém, assim, o mundo não realiza o esforço da superação e, por isso, permanece no seu nível evolutivo, o que representa a sua maior condenação, pois sabemos quais dores estão aí contidas. Tudo isto está claro para quem entendeu que a verdadeira finalidade da vida é a conquista de valores superiores, para avançar no caminho que vai do AS ao S. Enquanto o mundo muito pouco entendeu de tudo isto, o biótipo do 3o nível está todo empenhado no esforço da superação. A sua personalidade contém e domina os três momentos ou posições evolutivas do eu: a inferior (instintos), a média (razão) e a superior (conhecimento). Neste último caso, o que dirige a vida é o espírito, dominando os outros dois momentos do eu com um regime de disciplina, estabelecida conforme os princípios superiores da lei de Deus. Assim, ao impulso para o gozo substitui-se o hábito da virtude. Cabe ao eu superior tomar a iniciativa das novas criações biológicas, arrastando para frente a sua parte inferior, ignara e preguiçosa, amarrada aos velhos caminhos que já experimentou e refratária a enfrentar o perigo de outros novos. O eu inferior sabe que constitui a parte sólida, onde se funda o edifício da vida, e repele a aventura que lhe oferece o fascínio do desprendimento, pelo qual é arrebatado para o alto o eu superior. Eis então dois destinos: um para o homem do mundo e outro para o super-homem. Pequeno e cinzento o primeiro, esgotando-se em engordar e proliferar; trágico e sublime o segundo, cheio de lutas e dores, mas com vitórias imensas. ◘◘◘

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Mas, afinal, o que esse homem superior quer? Ele é um ser que procura a libertação. Entramos em nosso mundo pela porta do prazer, para sermos condenados a uma vida de ilusões e dores, permanecendo ao mesmo tempo dominados por uma imensa fome de felicidade. E o homem a procura por todos os meios, furtando-a para obtê-la, violando assim a lei de Deus. Porém, quanto mais alegria ele acredita encontrar, tanto mais se afunda na insatisfação e no sofrimento. Isto parece um jogo cruel e traidor, mas corresponde à lógica e à justiça. O ser desejaria voltar a possuir de graça a felicidade perdida do S, mas, para atingi-la, ele precisa remir-se, percorrendo em subida e com fadiga o caminho fácil que foi percorrido na descida, com a involução gerada pela revolta. Assim, estamos amarrados à cruz, mas almejamos a felicidade. Então, acreditando ser astutos, quando de fato somos ignorantes, escolhemos o caminho mais agradável, descendo para o AS, que é sofrimento, ao invés de subir para o S, que é felicidade. Esta é a trágica posição do homem do 2o nível, tal como um esfomeado que não pode comer, porque não é capaz de encontrar outro alimento senão aquele envenenado por ele mesmo com a sua revolta. E, para purificá-lo, não há outro meio senão o caminho da cruz. Eis o drama da vida humana: desesperadamente almejar felicidade, mas estar condenada ao sofrimento, do qual não é possível sair senão por um doloroso esforço de superação. O homem do 3o nível, por já ter entendido tudo isto, sabe que há um caminho através do qual é possível atingir a libertação e o enfrenta corajosamente. Assim, vai subindo e se afastando do nosso mundo, deixando nele, mergulhado no sofrimento, o homem do 2o nível, que procura em vão realizar o paraíso no seu inferno terrestre. Outra solução não há. Parece coisa bem estranha que, procurando gozar, o indivíduo encontre justamente o contrário, não sendo possível alcançar a alegria senão através do sofrimento. Tudo isto parece um truque diabólico, um emborcamento para enganar. Mas ocorre assim justamente porque se trata de endireitar o que estava emborcado, por culpa do próprio ser, devido à sua revolta contra a lei de Deus. É por isso que a escola da vida é uma dura lição cheia de dores. Ela representa o caminho difícil da subida, que deve corrigir o outro fácil, às avessas, percorrido na descida. A vida é um jogo sutil, completamente diferente daquele que parece ser. O nosso destino, tanto nos seus princípios universais como no caso particular de cada indivíduo, contém exatamente aquilo que nos pertence, nem mais nem menos, pelo nosso merecimento, segundo a justiça. Quão justa e tremenda é a lei que existe atrás das aparências! E o homem acredita que possa, com a sua força e astúcia, eximir-se dela! Cada um escolhe o seu caminho. Há então o gozador, sedento de prazer; o avarento, apegado à posse dos bens materiais; o orgulhoso, ávido de poder e glória; o agressivo, do tipo guerreiro; e há também o virtuoso, que segue a vereda do sacrifício e do amor. Assim, cada um constrói o seu destino, no qual se realiza a prestação de contas. Em geral, isto significa ter de pagar a violação da Lei com o próprio sofrimento. O princípio de egoísmo, separatismo, antagonismo e luta, que gera tantos dos nossos males e constitui a base de nosso tormento, não foi criado por Deus, pois Ele não podia agir contra si mesmo, mas sim pela criatura, como consequência da sua revolta. Por isso é justo que paguemos. No entanto o homem do 2o tipo está fechado na forma mental do seu nível, não lhe sendo possível, assim, entender estes conceitos. Para tal tipo, a sabedoria não consiste em ter compreendido a imensa vantagem de obedecer à lei de Deus, mas em saber enganá-la para satisfazer-se, obedecendo aos instintos inferiores. A inteligência serve para esconder o verdadeiro rosto sob uma máscara que permite parecer por fora pessoa nobre e digna de respeito. Para ele, o homem sincero que acredita no ideal é um simplório ignorante das coisas da vida, sendo por isso o tipo mais procurado, porque é fácil enganá-lo e explorá-lo. Assim a

inteligência deve ser usada para obter a própria vantagem e dominar os outros, procurando dominar quem a utiliza para vantagem dos outros e prejuízo próprio, que é considerado louco. Mas eis que, acima das sagacidades humanas, o que de fato manda e acaba vencendo é a justiça da Lei. O homem do 2o tipo obtém a sua vantagem imediata de vencer no seu mundo e, com essa satisfação, recebe a retribuição do seu trabalho, que é momentânea e acaba com a morte. Assim, na vida seguinte, ele se encontra no mesmo nível evolutivo, sem ter avançado nenhum passo. O homem do 3o tipo é um desterrado e vencido neste mundo, onde não encontra senão luta e sofrimentos, estando envolvido num duro trabalho de evolução, que o outro biótipo não conhece, mas que ele realiza para construir o seu futuro. Na sua vida seguinte, ele receberá o fruto desse trabalho, porque se encontrará num mundo de nível evolutivo mais adiantado, usufruindo bens valiosos. É um princípio da evolução que todo esforço realizado pelo ser para subir seja compensado por um proporcional melhoramento das condições de sua existência. Esta é a justiça da Lei. Ora, se a vida pode ser mais fácil para o homem do 2o tipo, porque ele não se fadiga com trabalhos em sentido evolutivo, ele fica, no entanto, estacionário no mesmo nível, o que, do ponto de vista do seu progresso, torna inútil a sua existência, representando perante o maior objetivo desta um tempo perdido. Disso o indivíduo é avisado pela sua intima insatisfação, sentindo uma sensação de vazio e cansaço de tudo, a qual o persegue e desvaloriza as coisas mais preciosas para ele. É regra geral que tudo quanto possuímos apenas tem valor proporcional ao esforço por nós despendido para obtê-lo. Eis então que o bem-estar no ócio tira todo valor à vida do indivíduo, que não pode deixar de sentir sua nulidade, porque nada sabe nem quer fazer. Assim, pela lei de justiça, aquelas que parecem ser as melhores posições sociais, invejadas pela maioria, são muitas vezes as piores, porque roídas por dentro por essa desvalorização do indivíduo, devida à inutilidade de sua vida no bem-estar. Ora, o homem do 3o tipo, que luta desesperadamente contra o mundo para superar a sua própria inferioridade animal, não pode deixar de ter consciência do seu valor, testemunhado pelas conquistas que ele está realizando. No meio dos seus sofrimentos, sabe que está se deslocando para o alto e, assim, realizando o maior impulso da vida, que é o crescimento, esforço ao qual os preguiçosos se recusam. O teclado que tal biótipo pode tocar estende-se muito além daquele comum, porque seu centro vital está se deslocando de baixo para cima, permanecendo ativo em vários níveis. Assim ele possui uma personalidade rica, que pode chegar ao ponto de, na luta entre o subconsciente e o superconsciente, parecer múltipla ou, segundo o psicanalista superficial, patológica. No meio dessa guerra para a superação, a personalidade fica fervendo numa febre contínua, que não aparece em quem está tranquilamente adormecido, arraigado no 2 o nível. Tal febre pode significar complexos, crises de adaptação, impulsos e movimentos desequilibrados ou conduta contraditória, que, apesar de parecerem sintomas indicadores de doença, representam na verdade crises de crescimento. Trata-se de um modelo biológico diferente daquele do homem do 2 o nível, que se encontra equilibrado, mas numa posição estática, ignorando tais dinamismos revolucionários e criadores. É lógico, então, que o biótipo do 2o nível, enxergando de acordo com esta sua perspectiva, condene o homem do 3o nível. Sobre estas bases se levanta o destino de cada um, já marcado conforme sua natureza. O mundo parece se aperceber inconscientemente da desvantagem de sua posição, pois demonstra ter ciúme de quem quer superar tal método de vida. Assim, na tentativa de paralisá-lo, agarra-se a ele, obstruindo a sua subida. Então, num mundo onde, mais do que ser virtuoso, o que importa de fato é parecê-lo, o homem superior acaba sendo o mais censurado, porque não trabalha para esconder os seus defeitos,

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mas sim para destruí-los, ajudando com isso a agressividade dos outros contra si mesmo. Deste modo, ao invés de se encobrir, ele se expõe; ao invés de se desculpar, ele se acusa. O mundo se rebela com tal inversão dos seus métodos, que soam para ele como uma condenação. Assim, o homem do 3o nível será sempre condenado pelo mundo como um escândalo e um mau exemplo, porque é considerado um perigoso descobridor de mentiras, que incomoda, estragando o fruto da trabalhosa adaptação milenária dos ideais às exigências da animalidade humana. Eis que, no mundo, o destino do homem superior é ser tratado como um louco e condenado como um rebelde, para terminar esmagado e vencido como um fraco merece, quando, na verdade, ele é o vencedor da maior batalha da vida: a evolução. Eis o conteúdo biológico dessa sabedoria que o mundo chama de loucura dos santos. Eis a explicação racional e o sentido cientificamente positivo da aparentemente estranha vida de tais indivíduos, que as religiões veneram, mas sem nos esclarecer a respeito disso com estes conceitos, dos quais o homem moderno precisa para ficar convencido. Assim se desenvolve nos seus vários níveis o complexo jogo da vida e de nosso destino. VI. O DESTINO Observamos nos dois capítulos precedentes o fenômeno da personalidade humana nas suas qualidades e comportamento, conforme ela pertença ao 1o, 2o ou 3o dos três níveis evolutivos: subconsciente, consciente e superconsciente. Observamo-la depois na sua evolução do 1o ao 2o e ao 3o destes três níveis. Vimos como, à medida que o ser vai evoluindo, deslocando-se de um plano de existência para outro, a sua natureza muda, transformando o seu tipo de vida e de trabalho. Assistimos assim ao processo de reconstrução do eu na sua subida ao longo do caminho da evolução, que o leva do AS para o S. Vimos também que o tipo de destino do ser é estabelecido pela sua posição ao longo desse caminho, conforme a altura evolutiva na qual ele está situado, pertencendo a um ou outro destes três níveis. Assim, vimos que há uma correspondência entre cada um dos três tipos biológicos e os respectivos destinos, de modo que aos três níveis evolutivos e correlativos tipos biológicos correspondem três tipos fundamentais de destino, os quais mudam com a evolução do ser. Modifica-se então a tábua dos valores e, com isso, a ética e a correlativa conduta, atingindo-se um diferente grau de conhecimento e, com isso, de responsabilidade, porque, sendo diferente a posição do ser na escala evolutiva, conforme seu tipo, é diferente também o caminho a percorrer, o tipo de experiências úteis para evoluir, o trabalho de construção a realizar e a lei que o dirige. Temos desta forma apresentado até aqui o problema do destino nos seus termos gerais, estabelecendo as suas bases em relação ao tipo biológico. Dentro dessas grandes linhas que dirigem o fenômeno no seu conjunto, enfrentaremos agora o problema do destino no caso particular do indivíduo, para atingir o conhecimento do seu conteúdo também nos pormenores específicos, contidos dentro do caso geral. Não há dúvida que o fato de estar o indivíduo situado num dado nível de evolução e correlativo plano de existência, representando um determinado tipo biológico, estabelece a priori quais devem ser o modelo e as características fundamentais do seu destino. Estes elementos estão ligados entre si e assinalam o tipo de caminho que o ser terá de seguir na sua vida. Mas estas são apenas as grandes margens da corrente da existência do indivíduo. Dentro dessa corrente, cada um segue um caminho próprio, que representa o seu destino particular. É neste fenômeno que agora queremos focalizar a nossa observação. Para entendê-lo, é necessário antes de tudo estabelecer qual é o nível evolutivo e o correlativo tipo biológico, porque é den-

tro desse quadro geral que fica situado o destino individual do ser. Logicamente, o caminho que terá de ser percorrido por um tipo inferior não pode ser igual àquele do tipo médio ou superior, porque estes, sendo movidos por outros impulsos, possuem reações ao ambiente e exigências evolutivas de tipo diferente. Depois de ter estabelecido tais limites do quadro geral, que contém o caso particular do indivíduo, teremos de pesquisar, para conhecer o seu destino pessoal, qual é o conteúdo da personalidade dele na sua posição atual, seja como consequência e continuação do caminho percorrido no passado, seja como preparação e antecipação do caminho a percorrer no futuro. Assim teremos agora de voltar ao estudo da personalidade humana, para aprofundar o nosso conhecimento das leis que regem o processo da sua construção e, com isso, o desenvolvimento do seu destino individual. Será possível, então, chegar a conhecer uma coisa de importância vital, que é a técnica da construção de nós mesmos, conhecendo o método com o qual cada um pode, por si próprio, construir o seu destino. Para realizar a construção da personalidade, que representa o trabalho da evolução em nossa fase atual, a inteligência da vida usa o método da transmissão ao subconsciente, segundo o qual as experiências e soluções, havendo sido longamente repetidas pelo fato se terem demonstrado úteis à sobrevivência, tendem a continuar se repetindo automaticamente, pela velocidade adquirida, impulsionando o ser a prosseguir na mesma direção. Assim, o que foi vivido no passado se torna automatismo, fruto assimilado, fixado no subconsciente na forma de novas qualidades adquiridas, constituindo o que chamamos de instintos. Esse é o método pelo qual o homem, assim como os animais e qualquer forma de vida, vai sempre aprendendo com a sua experimentação e, com isso, adquirindo novas características inatas, que, através de impulsos instintivos, dirigem cada nova existência terrestre. Não repare o leitor se às vezes temos de repetir coisas já ditas. Isto pode ser necessário para enquadrar e iluminar novos problemas, em relação aos quais elas são lembradas, mas com sentido e finalidade diferente. Então cada indivíduo, com o nascimento, traz consigo um impulso que o impele para uma direção já assinalada, consequência fatal das experiências realizadas e das forças (tipo e velocidade) lançadas nas vidas precedentes. Este patrimônio de conhecimento adquirido no passado constitui a verdade axiomática oferecida pelo instinto. Valendo mais do que a razão, esta verdade a sobrepuja, porque representa o produto de uma experimentação prática, realizada em contato com a realidade dos fatos. A razão faz pesquisas, explorando por tentativas o novo desconhecido. O instinto permanece num terreno mais limitado, porém mais controlado pela experiência e, por isso, mais seguro. Em substância, a ciência, quando descobriu o método experimental, ao qual deve os seus mais brilhantes resultados, nada mais fez do que imitar o método já praticado pela vida para chegar à conquista do conhecimento, fator indispensável para continuar existindo. Em outras palavras, o método experimental da ciência representa, num nível mais elevado, a continuação do método experimental que a vida utiliza para construir a sabedoria, da qual o ser precisa para resolver o problema da sobrevivência. Apesar de dificultado pelas resistências do ambiente e corrigido pela reação da Lei, tal impulso tende a continuar na mesma direção, estabelecendo a base de uma vida e seu destino, que assim propenderá a se realizar na direção seguida no passado. Esta é a razão pela qual existem acontecimentos que parecem realizar-se por vontade própria. O que constitui essa vontade é a velocidade adquirida anteriormente, a qual continua impulsionando na mesma direção. Os velhos hábitos constituem uma força com tendência a uma contínua atuação, segundo a lei de causa-efeito, pela qual o ser é automaticamente

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constrangido a colher o fruto do que semeou. O passado, qual quisemos vivê-lo, ressurge indestrutível no presente. Poderemos corrigi-lo com novos impulsos da nossa vontade, mas não aniquilá-lo, porque um impulso, uma vez lançado, não pode ser detido nos seus efeitos, até que estes se esgotem. Eis, então, que conhecemos qual é o caminho ao longo do qual se desenvolve o destino de cada um. Claro que tudo isto presume a reencarnação, da qual já falamos no Capítulo IV. Assim, o que acontece na vida depende do indivíduo e de como ele viveu o seu passado. O tipo de existência que nos deram nossos pais e seu respectivo ambiente é a consequência da escolha feita pelo indivíduo ao nascer, porque ele foi, por lei de afinidade, levado a se aproximar dos indivíduos que possuíam qualidades afins àquelas adquiridas por ele nas suas vidas precedentes. Focalizemos as condições do indivíduo no momento do seu nascimento. Ele traz consigo, construída por ele mesmo, uma personalidade já feita, que o acompanhará por toda a vida, dirigindo-o com a forma mental adquirida e levando-o a resultados bons ou maus, mas sempre merecidos. A este dado tipo de personalidade poderão ser feitos alguns retoques, mas ninguém o poderá mudar completamente. Tal personalidade representa um movimento que quer continuar percorrendo a trajetória na direção estabelecida inicialmente, vencendo as resistências encontradas ao longo do caminho. Isto é verdade a respeito do nosso passado, que revive em nosso presente, bem como a respeito do nosso presente, que reviverá em nosso futuro. No início de cada vida, tudo o que foi vivido no passado está oculto, gravado no subconsciente. É sobre esta base que cada nova vida continua construindo o edifício da personalidade. Tal como, na ontogênese, o ser resume a filogênese, ou seja, assim como o embrião, no seu crescimento, repete rapidamente as fases percorridas no desenvolvimento da espécie, também o homem, na meninice e mocidade, antes de chegar ao uso da razão, dirige-se com as qualidades gravadas no seu subconsciente, adquiridas nas vidas precedentes, repetindo rapidamente as fases percorridas no seu desenvolvimento, até iniciar na maioridade, com o despertar da consciência, seu trabalho da nova construção. Assim, tal como o ser, na sua vida embrionária, vai repetindo em resumo o seu passado fisiológico, ele também repete depois, na sua vida extrauterina, o seu passado psicológico. Trata-se de dois desenvolvimentos consecutivos, fazendo parte do mesmo processo evolutivo, que vai da matéria ao espírito, progredindo das mais simples construções biológicas aos complexos sistemas nervosos, cerebrais, psíquicos e espirituais. Essa repetição do passado se realiza de forma tanto mais rápida, quanto mais velha é a lição aprendida, o que significa dizer mais repetida e, por isso, melhor fixada. E, ao contrário, quanto mais a lição é recente, tanto menos ela foi repetida e aprendida e, por isso, precisa ser mais profundamente assimilada com uma nova repetição, chegando ao ponto no qual uma lição completamente nova na vida atual deve ser vivida momento a momento, na lenta sucessão dos acontecimentos concretos. Explica-se assim como há na juventude quem se desenvolve rapidamente, revelando inteligência e qualidades superiores, porque já as possuía, tendo-as conquistado no passado, e como há também quem, apesar da maturidade física, apresenta-se subdesenvolvido, porque ainda é atrasado e se encontra no baixo nível evolutivo dos primitivos. Explica-se assim o fenômeno dos gênios precoces, antecipadamente superdesenvolvidos. Tais indivíduos já trabalharam nas vidas precedentes para conquistar essas qualidades, que agora reaparecem porque eles as possuem gravadas no seu subconsciente, na forma de conhecimento instintivo adquirido, assim como os outros possuem, na mesma forma instintiva, as qualidades inferiores próprias da animalidade. Desse modo, os indivíduos superdotados possuem no es-

tado instintivo espontâneo, pois já assimilado no seu subconsciente, as qualidades que para os outros, ainda atrasados, representa o superconsciente, ou seja, uma posição mais adiantada a ser alcançada no futuro, a qual lhes é ensinada por todas as formas de civilização, mas ainda não é entendida nem aceita por eles, que, por isso, têm de aprender à força. Nascem assim o poeta, o artista, o cientista, o gênio, o herói e o santo. Eles são os super-homens superdesenvolvidos, vivendo em meio aos subdesenvolvidos, que os desprezam e os condenam, pois não os compreendem. É lógico que os mais adiantados, ao renascerem na Terra, encontrem em forma instintiva e espontânea, gravado no seu subconsciente, o resultado de todas as experiências já vividas por eles, como também é lógico que tudo isto, para quem ainda não evoluiu até àquele ponto, represente um superconcebível a ser conquistado no futuro. Tudo depende do caminho percorrido na subida evolutiva. Eis então que, no período da juventude, o homem vai acordando e revelando a sua verdadeira personalidade, que se encontra latente, escondida no subconsciente. O ambiente terrestre oferece resistências, dificuldades e problemas para todos, mas cada um os vence e os resolve de maneira diferente, mostrando, com o seu tipo de reação, qual é a sua verdadeira natureza. Há, então, não somente o terreno já feito, sobre o qual se anda, mas também o indivíduo que sobre ele anda como quer. E nem todos andam da mesma forma sobre o mesmo terreno, pois cada um, conforme a sua natureza, caminha de maneira diferente. Tudo depende do patrimônio pessoal que cada um trás consigo do seu passado, definindo seus recursos e qualidades. Nenhum indivíduo nasce nu, mas traz consigo, para enfrentar cada nova vida, armazenado no subconsciente, o fruto de toda a sua experiência passada. Em sua viagem no tempo, o ser traz consigo como que uma mala, onde vão sendo colocadas sempre mais novas sabedorias e capacidades. Durante a juventude, ele a vai abrindo e tirando dela as ferramentas que ali encontra, para realizar o seu atual trabalho terrestre. No fim da sua vida, ele coloca tudo de novo na mala, cujo conteúdo ele pode ter modificado ou não, aumentado ou diminuído, melhorado ou piorando, conforme ele viveu, para, com essa nova bagagem, enfrentar a vida sucessiva, e assim por diante. Cada vida é sempre uma continuação e uma consequência, não sendo possível construir senão em cima do que já foi construído no passado. É o conteúdo dessa mala que representa a parte determinística do destino, porque estabelece a base para o ponto de partida do seu desenvolvimento, constituindo aquilo que já foi e continuará a ser escrito no livro da vida, segundo o qual se definem os impulsos já movimentados que agora querem chegar à sua realização. Eis que, chegando ao conhecimento de nós mesmos por meio da análise das qualidades que possuímos, poderemos não somente reconstruir a história do nosso passado, no qual as gravamos em nosso subconsciente, mas também, pelo mesmo princípio, prever no futuro as consequências do presente, onde continuamos a gravar no próprio subconsciente outras qualidades. Deste modo, é possível predizer qual será o desenvolvimento de nosso destino, porque, conhecendo seus elementos componentes, identificamos as causas semeadas por nós e, com isso, os efeitos que delas não poderão deixar de resultar. A lei de causa-efeito liga, de maneira incindível, passado, presente e futuro, num único fenômeno em continuação. No passado, encontramos o material já adquirido, que utilizamos para construir o presente, contudo podemos, no presente, juntar ao velho material outro novo, para construir o futuro, sempre melhor se quisermos. Eis que o homem, se for bastante inteligente para chegar a entender tais princípios, poderá tornar-se dono do seu destino, construindo-o à sua vontade e dirigindo-o para onde quiser. ◘◘◘

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Esta análise do fenômeno nos permite atingir três resultados: 1) Analisando os elementos constituintes de nossa personalidade, através da observação das qualidades que hoje possuímos, sobretudo as mais espontâneas e instintivas, emersas do subconsciente, podemos reconstruir o trabalho, realizado por nós mesmos, pelo qual elas foram gravadas em nosso ser e, desta forma, saber qual o tipo de experiências, vividas em nosso passado, que nos levaram, como resultado, à atual estrutura de nossa personalidade, conhecendo assim o conteúdo de nossas vidas passadas. 2) Quando conhecemos o que fizemos em nosso passado, podemos, como continuação e lógica consequência desse trabalho anterior, entender qual deverá ser o novo trabalho a realizar em nossa vida atual. O conhecimento de nosso passado revelará qual a direção do caminho que a nossa vida tomou no desenvolvimento do nosso destino, tornando possível assim prever a forma na qual ele terá propensão para continuar se realizando no presente, como lógica consequência do passado, e no futuro, como lógica consequência do passado e do presente. 3) Quando tivermos atingido esta muito mais ampla visão da vida, que, estendendo-se além dos estreitos limites de nosso presente imediato, enxerga o passado e o futuro, será possível, agora que conhecemos o processo evolutivo da construção da personalidade, introduzir nele, onde existirem erros, os impulsos necessários para corrigi-lo e endireitá-lo, atuando de uma forma inteligente e espontânea, antes de sermos constrangidos à força pela reação da Lei a pagar duramente com a nossa dor. Obteremos assim a capacidade de moldar o nosso próprio destino, tornando-nos donos dele, iluminados pelo conhecimento, ao invés de sermos arrastados como cegos pelas forças da vida. Que imensa vantagem poder atravessar o oceano da existência em evolução, sabendo dirigir o próprio navio, ao invés de ter de ficar ao sabor dos ventos e das ondas, nas trevas da ignorância, obrigado a bater a cada passo nos rochedos do erro e naufragar, para aprender, através de contínuos sofrimentos, qual é o caminho certo! Analisamos esse duro método corretivo da Lei em nosso livro Queda e Salvação. Assim, para conhecer o nosso passado, é necessário conhecer o seguinte princípio da Lei: “Onde hoje há uma dor, aí esteve no passado o nosso corre spondente pecado contra a Lei”. Da mesma forma, para conhecer o nosso futuro, é necessário, também pelo mesmo princípio da Lei, saber que: “Onde hoje se comete um pecado contra a Lei, aí estará no futuro a nossa correspondente dor, constituindo a penitência encarregada de corrigi-lo”. Dada a estrutura do organismo do todo, ninguém pode cindir a complementaridade que liga os dois elementos, culpa e sofrimento. Aprofundemos estes conceitos. Como é possível descobrir o conteúdo de nossas vidas passadas? Qual será o desenvolvimento de nosso futuro destino? Com qual lógica e através de que técnica pode-se realizar isto? 1) Exprimindo com as letras abaixo os seguintes conceitos, isto é, „a‟=causa, „b‟=efeito, „x‟=conteúdo das nossas vidas passadas e „c‟=nossas qualidades atuais, poderemos estabelecer a seguinte proporção: a:b=x:c Esta expressão pode ser lida no seguinte sentido: assim como a natureza do efeito „b‟ nos expressa a natureza da causa „a‟, as nossas qualidades atuais „c‟ também nos revelam „x‟, i sto é, o trabalho realizado por nós para adquiri-las nas vidas passadas. Desse modo, será possível, avaliando os elementos que constituem a nossa personalidade atual, conhecermos o valor da incógnita „x‟, ou seja, o conteúdo das nossas vidas passadas. 2) Exprimindo com as letras abaixo os seguintes conceitos, isto é: „a‟=causa, „b‟=efeito, „c‟=nossas qualidades, condições e destino atual, „x‟ = nosso destino futuro, poderemo s estabelecer a seguinte proporção: a:b=c:x

Esta expressão pode ser lida no seguinte sentido: assim como a natureza da causa „a‟ nos mostra a natureza do efeito „b‟, as nossas condições no destino atual e as qualidades adquiridas por nós agora com o trabalho que estamos realizando na vida presente, „c‟, também nos revelam „x‟, isto é, qual será, como necessária consequência, o nosso destino nas vidas futuras. Desse modo, será possível conhecermos também o valor desta outra incógnita, ou seja, o conteúdo de nossas vidas futuras, avaliando os elementos que encontramos em nossa personalidade nas condições de nossa vida atual. A chave para chegar ao conhecimento tanto de nosso passado como de nosso futuro está no elemento „c‟, o único que p odemos controlar com a nossa observação. Trata-se, então, de estudar a nossa personalidade em seus dois aspectos, seja nas suas qualidades atuais, com as quais ele se construiu no passado, seja nas suas presentes condições de vida e no trabalho que ela está agora realizando para adquirir as novas qualidades do futuro. Este estudo de nossa personalidade significa um profundo ato de introspecção, realizado através de um severo e sincero exame de consciência. O psicanalista poderá praticar este exame, dirigindo as pesquisas e ajudando o inexperiente na sua confissão. O homem inteligente poderá praticá-lo sozinho, observando em si mesmo os impulsos que o movimentam, os resultados atingidos, o tipo de acontecimentos que prevalecem na sua vida, a direção para a qual esta tende a se desenvolver etc. O que interessa conhecer é o valor do elemento „c‟, porquanto ele está situado ao longo de uma trajetória, da qual lhe pedimos para nos revelar o antecedente e o consequente, ou seja, o nosso passado e o nosso futuro ao longo do caminho da evolução. Assim o próprio sujeito poderá realizar um processo interior de autopsicanálise, pesquisando no seu subconsciente para ler o que foi aí escrito por ele mesmo no passado. O valor dos resultados depende da exatidão e da profundidade desse exame. O método da pesquisa para chegar ao conhecimento da incógnita „x‟ nos seus dois sentidos, isto é, em relação ao conteúdo tanto de nossas vidas passadas como de nosso futuro destino, baseiase na observação do único elemento que temos em mãos e podemos observar, o elemento „c‟, do qual, porém, pode ser ded uzido todo o restante. Isto quer dizer que o exame deve ser completo, para nos mostrar qual é o conteúdo de nossa vida atual, realizando a pesquisa em duas direções: 1) Observando introspectivamente as qualidades da nossa personalidade e os respectivos impulsos instintivos que emergem do subconsciente; 2) Observando exteriormente as condições de nossa vida atual, o nosso comportamento, as nossas realizações e os acontecimentos através dos quais se manifesta o nosso destino atual. Em outras palavras, analisando o que somos hoje, por nos termos assim construído em nosso passado, e observando o trabalho que estamos realizando atualmente, com o qual estamos construindo a nossa personalidade futura, poderemos prever o destino que estamos preparando para nós mesmos amanhã. Assim, se concebermos a vida em tão mais vastos termos, indo além dos estreitos limites do seu atual trecho terrestre, poderemos enxergar um destino nosso maior, que vai amadurecendo pouco a pouco, à medida que a personalidade vai-se deslocando e subindo ao longo do caminho da evolução, desde o seu ponto de partida no AS até ao seu ponto de chegada no S. Essas pesquisas no passado e no futuro, que parecem descobertas incríveis, tornam-se possíveis, quando os horizontes abrangidos pela nossa observação estão situados além dos habituais e limitados de nossa vida atual. Estes, então, passam a ser concebidos como um momento de uma imensa vida maior, representada por uma trajetória que, como tal, está sujeita a uma lei própria de desenvolvimento e segue um percurso lógico. O fato de se conceber a vida e o destino como um fenômeno em evolução, no qual a lei e a lógica do amadurecimento do próprio processo estabelece a ligação entre passado, presente e futuro,

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permite-nos descobrir também as partes que escapam à nossa observação direta, como é sempre possível fazer, quando há uma trajetória da qual conhecemos apenas alguns elementos, mas sabemos qual é a lei do seu desenvolvimento. Assim é possível calcular também o valor das zonas desconhecidas do fenômeno. É preciso entender que o processo da construção da personalidade é único, estando canalizado dentro do processo evolutivo universal, sujeito às regras estabelecidas, orientado dentro de um plano pré-ordenado e necessariamente direcionado para um telefinalismo. Tudo isto faz parte da técnica da reconstrução do universo, da qual temos falado bastante em outros livros. A ignorância não nos deixa ver senão um pequeno e momentâneo trecho de nosso destino, separado daquele imenso processo e isolado no vazio, enquanto tudo é lógica consequência e férrea continuação, tal como acontece com a trajetória de um projétil lançado no espaço. Neste caso, assim como no destino, a posição de cada momento está ligada àquelas posições de todos os momentos precedentes e sucessivos, estando o presente contido no passado e o futuro contido no presente. Uma vez iniciado um movimento numa dada direção, tudo tende a continuar movimentando-se na mesma direção. Sem sombra de dúvida, apesar de termos liberdade para introduzir na trajetória de nosso destino novos impulsos, capazes de modificá-lo, a lei que estabelece o percurso de uma trajetória, uma vez que ela tenha sido iniciada num dado sentido, representa no fenômeno um impulso de tipo determinístico, ao qual todo o processo fica inexoravelmente sujeito. Com a sua livre escolha, o ser se lança no caminho da vida numa direção ou em outra, da qual ele depois não poderá sair senão através de impulsos diferentes, lançados por si mesmo em outra direção. Mas até que ele realize com o seu esforço esta mudança, tudo continuará avançando na direção precedente. E mudar não é fácil. É muito difícil modificar os instintos. Eles representam uma massa lançada, que, adquirindo velocidade, tem, por inércia, uma autônoma vontade de continuar, cuja direção não é fácil corrigir. Assim como um projétil tem a sua trajetória no espaço, calculável segundo as suas características, a personalidade também tem, no seu desenvolvimento, a sua trajetória no tempo, calculável segundo as suas características. Essa trajetória no tempo é o que se chama destino. Tanto no espaço como no tempo, tão logo aparece um movimento, tudo mais é consequência, dando origem a uma ligação entre antecedente e consequente, à qual o desenvolvimento do fenômeno fica amarrado sem saída. Esta é a razão pela qual o futuro, antes de se tornar presente, já está demarcado ao longo de uma linha que o prende antes do seu nascimento. O efeito está envolvido e enredado no seio da sua causa, assim como o feto no seio materno e como a planta na sua semente. Tudo chega à existência por esse método de filiação, fenômeno que permite a conservação dos valores adquiridos, a continuidade no desenvolvimento e a orientação constante no caminho evolutivo, estabelecendo um estado de ordem e de organicidade neste imenso movimento de todo o universo. Assim nada morre, mas tudo ressurge nesta contínua repetição do passado. São estes liames que mantêm em unidade a imensa multiplicidade do todo. Não há existência que não esteja em movimento, pois tudo se encontra em perene transformação, mas sempre dentro da disciplina estabelecida por tais princípios. Assim, nascemos aprisionados pelo nosso passado, como indivíduos e como sociedade, sendo constrangidos a andar de novo nos trilhos já percorridos, que, no terreno da vida, continuamente escavamos com os nossos pés. ◘◘◘ Agora que conhecemos a técnica do desenvolvimento de nosso destino, podemos nos perguntar qual a utilidade de saber tudo isto. A vantagem está no fato de que o indivíduo, quando tem conhecimento, deixa de ser um boneco cego, como a maioria, condenada a aprender duramente através dos seus sofrimen-

tos, passando, pelo contrário, a saber como escolher o melhor caminho para ele. Isto significa possuir um meio para dirigir o seu destino inteligentemente, evitando assim os erros e as respectivas dores, que cumprem a função de endireitá-lo. Podemos, portanto, evitar estes choques contra a Lei e nos livrarmos das tristes consequências disso. Queremos a felicidade, mas, para alcançá-la, é necessário conhecer e seguir as leis que nos conduzem até ela, das quais a mesma depende. Deste modo, como já dissemos, dominaremos a arte de moldar o nosso destino, o que significa possuir a técnica da construção da nossa personalidade, sendo este conhecimento fundamental para a nossa libertação e salvação, porque ele nos permite subir para níveis de vida cada vez mais adiantados e, por isso, mais felizes. O destino poderia ser definido como o caminho que o indivíduo percorre na construção da sua personalidade. Os resultados dependem da escolha que ele faz neste caminho, seguindo ou contrariando a Lei, aproximando-se ou afastando-se dela. Agora, já sabemos que há no destino uma parte determinística, representada pelo retorno e continuação do passado, a qual temos de aceitar à força. Mas há nele também uma parte livre, na qual podemos tomar novas iniciativas. Então, se o passado foi errado e hoje nos esmaga, é possível nos libertarmos dele, neutralizando-o, seja deixando que ele esgote o seu mau impulso e suportando com paciência os sofrimentos decorrentes, seja substituindo os velhos hábitos contra a Lei por outros novos, de acordo com ela. Eis o que, inteligentemente, fazem os sábios. Já demonstramos suficientemente que o segredo da felicidade está em nos libertarmos de nosso passado inferior, abandonando a animalidade, para avançar no caminho da evolução. Isto significa nos afastarmos sempre mais do inferno do AS, para nos aproximarmos do paraíso do S. O segredo da felicidade está em saber mudar o nosso destino de involuídos no de evoluídos. Nisto consiste o processo evolutivo para o homem, trabalho que cada um tem de realizar com seu próprio esforço, para si mesmo, sozinho perante a justiça da Lei, carregando todo o peso do seu passado, mas sempre com a possibilidade de se libertar dele, começando a construir a sua personalidade em sentido diferente. Eis qual deve ser o conteúdo e a maior finalidade da ética. O peso das qualidades gravadas no passado, no subconsciente humano individual e coletivo, é imenso, e é ele que dirige a maior parte de nossa vida. Qual é o nosso passado recente e o que se pode exigir de uma humanidade que ainda há pouco tempo estava mergulhada nas trevas e ferocidades da Idade Média? Tudo isto continua pronto para ressurgir do subconsciente na primeira oportunidade. E vimos o que aconteceu na última guerra mundial, como vemos também, todos os dias, o gosto que as pessoas têm para contos e crônicas de crimes. Um dos maiores perigos para a vida social é o espírito de luta, instinto ao qual o ser está fortemente apegado, porque deve a ele a sua sobrevivência, o que torna difícil apagá-lo. Pelo princípio, há pouco mencionado, do retorno e continuação do passado, este impulso guerreiro, que representa a parte determinística do destino, continua funcionando mesmo quando ele não representa mais uma defesa da vida, e sim um meio de destruição universal. Com a evolução, mudam as leis que regem a vida. Assim, o que era útil pode tornar-se um perigo e o que era vantagem pode tornar-se um dano. É dessa forma que, no trabalho da evolução, chegou a hora de mudar de caminho, substituindo, como já dissemos, os velhos hábitos por novos, adquirindo outros instintos. A humanidade terá de atravessar novas experiências, para aprender uma lição mais adiantada, que lhe ensinará uma conduta diferente do passado, porque, com a evolução, estão mudando os valores e os pontos de referência de nossa ética. No futuro próximo, o herói da guerra será simplesmente um criminoso, como é hoje quem mata outro cidadão. A vida tende a permanecer apegada aos velhos caminhos – já bem experimentados e, por isso, mais seguros – mas, ao

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mesmo tempo, a evolução impulsiona para a subida, e tal impulso representa um elemento de renovação, pelo qual a destruição do velho e a criação do novo se torna inevitável. É verdade que até agora a guerra foi um meio de renovação, destruindo o velho para lhe substituir o novo. Um contínuo bem-estar na paz é antievolutivo. Ela pode ser sinônimo de inércia, significando a posição de um mundo estático, que envelhece e apodrece na rotina e na repetição. Aqui, porém, não falamos de destruir a luta e o correlativo esforço criador, mas sim de abandonar essa forma involuída de luta, que não sabe atingir a renovação senão por meio da destruição. O trabalho a ser realizado na atual fase de evolução biológica continua seguindo os impulsos da luta criadora, mas tirando dela toda a negatividade que a acompanhava no passado, ou seja, tudo que é violência, agressividade e destruição. Trata-se de canalizar os velhos instintos, dirigindo-os para atividades criadoras, não destrutivas. O inimigo a ser combatido não será mais o vizinho, e sim os males que atormentam o mundo. Descobriremos, então, que a paz tem também um aspecto positivo, e não somente o negativo, como vimos. É assim que poderemos ter uma paz maravilhosamente dinâmica e criadora, cujo produto não será a decadência na inércia, mas a construção do bem de todos. Este será o conteúdo das guerras do futuro. É maravilhoso observar que o homem é constrangido a subir à força pelo impulso evolucionista. Com o desenvolvimento da inteligência e o progresso científico, transformou-se a tal ponto a técnica da guerra, que ela não será mais possível. Assim a mente humana, sem querer, uma vez que se movimenta na direção materialista, produziu condições de vida nas quais o pacifismo e o colaboracionismo evangélicos, pregados em vão por milênios, terão agora de se realizar, se a humanidade quiser sobreviver. O instinto de conservação exigirá a realização daquilo que até hoje foi utopia. E os atávicos produtos do subconsciente terão de se modificar, gerando novas qualidades, porque experiências apocalípticas estão prontas para corrigir os velhos instintos, ensinando uma nova lição. Todo o processo evolutivo se realiza com esse método da substituição do velho pelo novo, por meio de novas experiências, que, no lugar dos antigos, fixam novos hábitos e qualidades no subconsciente. É assim que as leis religiosas e civis procuram fazer do homem um ser civilizado, educando-o na ordem da vida social. Aparece então a luta dos instintos do animal, impressos no subconsciente, contra essa nova lição, que eles não querem aprender. Tais instintos representam a sobrevivência do passado, que volta, rebelando-se para não ser destruído. Vemos, portanto, que a ética constitui uma luta entre a luz e as trevas, entre o futuro e o passado. Isto resulta, por um lado, no esforço do indivíduo para se evadir de todas as leis e, do outro, na luta das autoridades para obter obediência, as civis por meio da polícia e das cadeias, e as religiosas por meio dos diabos e do inferno. Assim as leis, teoricamente ótimas, não podem chegar à sua realização prática senão em forma torcida, transformando-se para se adaptar às exigências do subconsciente das massas, a força que mais se impõe na realidade da vida. As religiões, cuja função é trazer para a realização prática os princípios superiores, situados acima do nosso nível biológico, estão constrangidas a levar em conta esse fato da resistência do subconsciente, ao qual tem de se adaptar, respeitando as suas exigências fundamentais, porque esta é a primeira condição para a obediência das massas, sem a qual as religiões ficariam como teoria abstrata fora da vida. Assim, o que se encontra nos fatos é um produto híbrido, no qual Céu e Terra se misturam no resultado do embate entre o ideal e a animalidade. Assim, a prática é diferente da teoria, de modo que a pregação é uma coisa, mas a vida vivida é outra bem diferente. Então, os princípios superiores das religiões acabam sendo aplicados como exigem os instintos inferiores da animalidade. Aparecem assim, no seio das reli-

giões, o fanatismo, o sectarismo, a intransigência, a perseguição etc. O resultado, portanto, é que o subconsciente das massas vence e os princípios superiores perdem. Isto porque as grandes verdades reveladas pertencem ao Céu, descendo daí à Terra, onde a animalidade está bem radicada no seu ambiente natural, no qual é necessário, a fim de permitir a realização daquelas verdades, o consentimento das massas, que na Terra, pela força do número, são bem poderosas. A involução da maioria se impõe a tudo em nosso mundo, e não há coisa que lhe possa escapar. Com estas observações, vamos nos explicando muitos fatos dos quais, de outro modo, não poderíamos entender a origem, o sentido e a finalidade. A utilidade de tudo isto está no fato de que tal conhecimento nos permite dirigirmo-nos conscientemente no caminho de nossa evolução, pois nos fornece a técnica da construção de nossa personalidade. A nossa vida adquire, então, uma significação superior, que a orienta para o ponto final e resolutivo do processo evolutivo. O conteúdo da vida é um processo de experimentação progressiva, que deixa uma marca perene no subconsciente, como uma espécie de fita de gravação e armazenagem, onde o patrimônio experimental adquirido vai se acumulando na forma de conhecimento e qualidades. Assim, o nosso eu, por essa contínua registração, continuamente sedimentada em suas camadas profundas, constituídas pelo subconsciente, vai sempre mais se enriquecendo, dilatando-se e aperfeiçoando-se, aproximando-se da sua meta, que é o S. Então, tudo o que nos acontece na vida não é mais um enigma, deixando de ser um impenetrável mistério de Deus. No entanto o homem atual ainda procura explicações ao acaso, culpando isto ou aquilo, sem entender nada das verdadeiras causas de um dado desenvolvimento do seu destino. ◘◘◘ Continuemos a aprofundar este assunto, observando outros casos, para entender o seu significado. Com que sabedoria o homem se dirige nas suas ações, antes de desenvolver as suas qualidades racionais? Tal como os animais, ele se dirige pelo instinto. Isto acontece com todos os subdesenvolvidos, sejam eles animais ou seres primitivos. Tudo depende do nível de evolução atingido. Este período infantil pode ser superado desde a primeira meninice, em indivíduos superdesenvolvidos, como também pode suceder que não seja superado nem sequer na velhice, em seres atrasados. Ser dirigido pelo instinto, como já frisamos, quer dizer funcionar obedecendo cegamente aos automatismos adquiridos nas vidas precedentes, repetindo o que foi gravado no subconsciente pela experiência passada. Somente depois de ter atravessado esse período de repetição automática e instintiva, que resume rapidamente o passado, o indivíduo inicia, na fase consciente, o trabalho de continuar construindo a sua personalidade. É no período da maturidade que o indivíduo, como se acordasse de um estado de sonho no qual ele era dirigido pelo subconsciente, desperta para um estado consciente e toma iniciativas novas, continuando o trabalho de construção da sua personalidade, realizado no passado e armazenado no subconsciente. Este é o período dinâmico das novas experiências, constituindo a fase ativa da exploração e assimilação. Trata-se da viagem do eu que se lança para fora no mundo exterior, onde encontra choques, digerindo e assimilando impressões. Assim o gasto da energia de que são ricos os jovens acaba produzindo a sabedoria da velhice. A carga de dinamismo se transforma em psiquismo. Esta é a função da vida no seio do físio-dínamo-psiquismo que constitui a evolução. Poder-se-ia assim definir o fenômeno biológico como um processo de transformação da energia em conhecimento, pensamento e inteligência. Então o fenômeno biológico representa o trecho dinâmico-psíquico dentro do transformismo físico-dinâmicopsíquico, que é o percurso da evolução. A sabedoria da velhice é o equivalente psíquico dos valores dinâmicos da juventude. Nada se destrói, tudo se transforma. Quando o indivíduo, por

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ter experimentado bastante, tem as suas energias esgotadas, está rico de novas qualidades, as quais valem o que ele perdeu como energia. Na velhice, o consciente adormece, cristalizando-se de novo na inércia, mas o seu trabalho de toda a vida ficou filtrado no subconsciente, do qual estará sempre pronto a ressurgir no futuro, para dirigir o ser automaticamente, enquanto o consciente não estiver acordado para realizar o trabalho de continuar a construção realizada no passado. Este período ativo, no qual o eu está acordado no consciente, constitui aquele em que é possível realizar o esforço da subida e progredir no caminho evolutivo. Os outros períodos têm funções diferentes, servindo para descanso, compreensão, reorganização e assimilação profunda. Esta fase de consciência acordada na vida é a mais independente do determinismo do subconsciente, constituindo-se não mais de repetição automática, mas sim de livre iniciativa do novo. É neste período que o livre arbítrio pode funcionar melhor, sobrepondo-se ao instinto, para corrigi-lo. Durante esta fase descarrega-se a energia vital da juventude, que existe para essa finalidade, dando origem a uma nova construção. Trata-se de uma imensa reconstrução, que vai do AS ao S. Nisto consiste o processo da evolução. Cada vida representa um passo para frente. O desenvolvimento deste processo poderia ser expresso por uma linha em forma de onda, na qual temos um trecho de descida, no período da velhice até à morte, e um trecho de subida, situado depois da juventude, na plenitude da maioridade, no qual é alcançada uma altura superior àquela atingida na vida precedente, de modo que o resultado final de todo o movimento ondulatório é uma ascensão contínua. Então, neste processo de reconstrução da personalidade, o período verdadeiramente ativo, como ascensão evolutiva, é a fase consciente da vida, na qual é possível a livre escolha, ficando acima dos instintos, ou seja, do retorno automático do passado. Depois desse período, tudo cai nas engrenagens da Lei, que se apodera dos resultados do trabalho executado naquela fase consciente e os dirige fatalmente para as suas consequências, até que o contínuo transformismo amadureça outro período de vida ativo e consciente, no qual, baseando-se naquelas consequências, continua o trabalho da construção da personalidade. O desenvolvimento desse processo evolutivo poderia ser expresso também pela abertura de uma espiral, como encontramos descrito em A Grande Síntese, na figura que representa o “desenvolvimento da trajetória típica dos motos fenomênicos”2. O período dinâmico consciente do trabalho construtivo da idade madura, no qual se realiza a subida evolutiva, é representado pelo trecho de abertura da espiral, que expressa o caminho de expansão ascensional da evolução. O oposto trecho de contração involutiva da espiral, que recua um pouco para trás, fechando-se sobre si mesmo, representa o período de involução e inércia da velhice, no qual tudo o que foi vivido desce ao subconsciente, onde permanece gravado para o indivíduo, como lembrança do passado, que ressurgirá amanhã. O fato de que no inicio de sua nova vida, até atingir a maioridade, o indivíduo é dirigido pelo conteúdo gravado em seu subconsciente, é representado pela reabertura da espiral, percorrendo em subida, na juventude, o trecho que, na precedente velhice, foi percorrido em descida, mas acrescentando a ele um novo trecho em subida, que constitui o trecho conquistado a cada vida no caminho progressivo da evolução. E o processo continua assim, de modo que, por esse jogo alternativo de expansão e contração, no qual cada expansão é sempre maior e cada contração é sempre menor, pode-se realizar o processo evolutivo que vai do AS ao S. Poderíamos perguntar, então, por que sempre se repete a fase de contração e retrocesso? Ou, em outras palavras, por que existe a velhice? Tais resultados são produzidos pelo impulso
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Cap. XXV, fig 4.

do AS, dirigido no sentido negativo, destrutivo e antievolucionista, que funciona como freio do progresso em subida, porque desejaria paralisá-lo. Este impulso do AS triunfa com a morte do ser, mas apenas temporariamente, porque há também o impulso oposto, realizado pelo S, que logo ressurge e, por sua vez, prevalece, desenvolvendo-se em cheio com uma nova vida. A revolta gerou o dualismo, que divide o universo em duas partes: S e AS, em luta entre si. Por isso a evolução é trabalhosa, precisando, para se realizar, do esforço do indivíduo, a fim de vencer a resistência do AS, que quer o reino do anti-Deus, e não de Deus. Tais problemas da personalidade humana não podem ser resolvidos isoladamente, como desejaria a ciência, mas só em função da solução dos maiores problemas do conhecimento. O subconsciente representa o passado da evolução, o lado da inconsciência, as trevas do AS. O consciente representa o futuro da evolução, o trabalho de construção da inteligência, a conquista da luz do S. Podemos agora entender porque a nossa existência se alterna entre a vida e a morte, duas formas opostas e em luta uma contra a outra. Este conceito, que significa reencarnação, baseia-se na própria estrutura dualista do nosso universo e na íntima natureza do fenômeno evolutivo. Eis por que o nosso eu oscila – ora na posição de vida, acordado no consciente, ora na posição de morte, adormecido no inconsciente – entre um estado de luz e outro de trevas, conforme vença e prevaleça o S ou o AS, fontes de dois impulsos opostos. Podemos, assim, entender a substância da evolução. Trata-se de um processo que, indo do inconsciente ao consciente, cumpre o trabalho de destruição do primeiro e de reconstrução do segundo, consistindo na conquista da consciência, ou melhor, na reconquista da consciência originária. Por isso vivemos experimentando, para despertar do sono da inconsciência, fruto da queda. Esta é a razão pela qual a vida vai do subconsciente ao consciente e ao superconsciente, saindo do mistério para chegar ao conhecimento, prestando-se para o desenvolvimento da inteligência. O livre arbítrio que cada um possui é proporcional ao nível de evolução por ele atingido, pois depende da medida na qual o ser possui consciência, inteligência e conhecimento. O grau de liberdade do ser depende da sua evolução. Assim, quanto mais evoluído é o ser, mais livre está do determinismo com o qual a Lei dirige os cegos involuídos, liberdade só possível quando surge a consciência necessária para se autodirigir. De tudo isto segue-se que, quanto mais o ser evolui, tanto mais vastos e longos são para ele os períodos de consciência, nos quais se existe no estado desperto, e tanto mais restritos e curtos se tornam para ele os períodos de inconsciência, como a velhice, a meninice e a fase de sono na morte. De fato, vemos as almas superiores ficarem com a mente acordada até à velhice e, quando se encarnam, acordarem já desde a primeira meninice, mais cedo do que é comum, constituindo os gênios precoces. Com a evolução aumenta a zona da consciência e diminui a da inconsciência. É a extensão dessa zona, num sentido ou noutro, que nos revela o nível de evolução atingido pelo indivíduo. Na velhice há para todos um regresso involutivo, no qual a personalidade, como que se enrolando, fecha-se em si mesma, encerrando dentro de si os resultados do trabalho da sua vida atual. Depois chega a morte, o silêncio, a vida introspectiva, como compensação da sua parte inversa e complementar, extrovertida, que também chamamos de vida. Quanto mais o indivíduo é primitivo, tanto mais poderosa e real é a segunda forma de vida e tanto mais fraca, misteriosa e irreal é a primeira. Quanto mais o ser é adiantado, tanto mais ilusória é a vida terrena e tanto mais poderosa, real e viva é a vida extracorpórea depois da morte. Por isso o primitivo julga como irreparável a perda da vida física e luta desesperadamente para conservá-la, enquanto o evoluído possui a sensação de que a morte não o atinge, porque não apaga o seu estado de consciência desperta, no qual ele fica vivo, apesar da morte.

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Ao iniciar uma nova vida, o eu, que na velhice se enrolou sobre si mesmo, fechando-se no subconsciente, desenrola-se na meninice e juventude da nova encarnação, assumindo como ponto de partida da nova vida aquele que foi o ponto de chegada no fim da vida precedente. A conclusão do processo é a conquista da imortalidade. Este é o resultado final da evolução. E imortalidade, de fato, não é senão um estado contínuo de consciência desperta, com conhecimento da própria existência e da dos outros, no qual a mente percebe e a inteligência entende. Potencialmente, tudo o que existe é eterno, indestrutível, imortal. Assim também os primitivos são imortais. Mas não sabem disso, porque, com a morte, perdem a consciência, que os faz sentirem-se vivos. Tudo depende da própria capacidade de perceber, de acordo com o grau de sensibilidade atingido. Quem não sabe sobreviver à morte senão em estado de inconsciência, está morto, porque não sabe que ainda está vivo. Esta inconsciência também é imortalidade, mas decaída na matéria e em tudo o que ruiu no AS, invertida ao negativo, como vida imobilizada na inconsciência da morte. A verdadeira imortalidade é aquela que a evolução realiza, levando o ser até ao S, erguendo-o da matéria até ao espírito, despertando-o do estado de inconsciência próprio do AS para o estado de consciência próprio do S. Então a sensação da sobrevivência como capacidade de introspecção no período de desencarnado depende do grau de desenvolvimento de consciência atingido pelo indivíduo. Por isso esta capacidade não é igual para todos, como não o é também o poder de orientar a sua nova vida e se autodirigir no caminho da evolução, que, pelo fato de ser conquista de consciência, também é conquista de autonomia de existência. É lógico que a capacidade de introspecção, pelo fato de ser um ato consciente, não pode aparecer senão quando o indivíduo está suficiente maduro. Para os primitivos, prevalece o determinismo da Lei, que se encarrega, com seus impulsos, de despertar quem ainda se encontra em estado de inconsciência. E que sejam despertados não só é a vontade da Lei mas também é bom para eles. Eis então o que acontece. No período da vida, todas as experiências ficam registradas no subconsciente, como numa fita. Ao desencarnar, o ser transporta essa gravação para a outra forma de vida, que chamamos de morte, e pode observar os registros gravados. Oposta e complementar à precedente, essa é a fase de decantação e filtragem, de digestão e assimilação, de interpretação e compreensão, trabalho que antes, no meio da luta, não podia ser feito. Essa nova operação será tanto mais profunda e perfeita, quanto mais o ser for evoluído. O fenômeno fundamental que permanece constante, ligando uma vida à outra, é essa assimilação nas profundezas do eu em contínuo crescimento. Vemos, então, que o nosso conceito de subconsciente é muito mais vasto e completo do que o da psicanálise atual. Assim como acontece no tronco de uma árvore, cada vida sobrepõe uma nova camada às precedentes, que nos contam toda a história daquela existência. Cada um leva consigo o livro em que tudo foi escrito, o qual não pode ser apagado, mas pode ser lido, e a psicanálise do futuro será capaz de fazer esta leitura. Cada qualidade, impulso ou movimento no presente não é senão a consequência de tudo o que foi vivido no passado. Só poderemos compreender a nossa vida, se a encararmos neste seu vastíssimo sentido, que a abrange em todo o seu caminho evolutivo. Estamos presos pelas consequências do nosso passado. Somos o que somos porque assim nos construímos nas vidas precedentes, não nos sendo possível sair de nossa forma mental já feita, pois ela é o único instrumento que possuímos para entender e julgar. A nossa sabedoria atual é filha da escola que a ensinou para nós. Tal é a história da formação e da presença dos instintos. Há na natureza humana verdades fundamentais que, pela sua evidência, não precisam de demonstração para serem entendidas e admitidas, sendo aceitas de forma axiomática por todos. Por que isso? Como é que todos, espontaneamente, con-

cordam nestes pontos? Isto acontece porque tais verdades ficaram impressas no subconsciente como fruto das experiências passadas. Muitas das ideias que dirigem o mundo não são fruto de lógica e raciocínio, mas de impulsos instintivos do subconsciente. Então, muitas vezes, não é o racional que dirige nossa vida, mas sim o irracional, do qual agora conhecemos a origem e o profundo significado. Assim, há verdades axiomáticas tão profundamente enraizadas na mente humana, que ninguém as pode abalar. Elas são as mais antigas, confirmadas pela experiência como indispensáveis à sobrevivência, sendo básicas para a existência. E estas grandes verdades elementares, construídas pela vida nos níveis biológicos inferiores, continuam vigorando também no plano humano, dentro da mente racional, apesar da inteligência e do conhecimento do homem. No caso dos involuídos, que não possuem ainda uma consciência para se dirigir, quem os impulsiona pelo caminho certo para o seu futuro é o pensamento e a vontade da Lei. Não é ao acaso que o ser tem de progredir, e sim ao longo de um caminho já assinalado, porque a evolução vai de um universo tipo AS para um universo tipo S. O caminho já está marcado, pois trata-se de endireitar o que se emborcou com a queda, e isto significa ter de percorrer em subida o caminho que, em descida, foi percorrido na fase da involução. Assim, o crescimento do eu pode realizar-se automaticamente também nos níveis inferiores, como no caso da matéria, das plantas e dos animais, nos quais ainda não existe uma consciência que possa dirigir-se por si própria. O caminho a percorrer já foi assinalado no período da descida involutiva. Trata-se agora de percorrer o mesmo caminho, mas na direção oposta, em subida, ao invés de descida. Não somente já estão marcados o ponto de partida e o ponto de chegada, mas também a trajetória da evolução, que os liga, unindo-os no mesmo processo. Não é possível uma conquista do nada, um caminho sem uma direção e uma meta. O tipo de desenvolvimento da existência do ser já está escrito na Lei, de modo que o percurso não pode ser senão um caminho de regresso, cumprindo o trajeto do AS–S. Seria absurdo pensar que o processo evolutivo tivesse de ficar ao dispor das capacidades de compreensão do ser. O conhecimento somente aparece quando o ser, merecendo pelo seu esforço de percorrer o caminho, está bastante adiantado. O surgimento da consciência é um efeito, e não a causa, do amadurecimento. E, de fato, vemos em nossa própria vida que o destino simplesmente atua, sem nos explicar o porquê de sua ação, cuja razão cabe ao indivíduo encontrar. Este, porém, não pode encontrá-la senão quando se tornar bastante evoluído para entender qual é, com relação a ele, a vontade da Lei, que, assim, nada podendo explicar, fustiga-o continuamente, até ele entender. ◘◘◘ Observemos ainda outros aspectos do problema da personalidade humana e do destino. A diferença entre o evoluído e o involuído é que só o primeiro dirige conscientemente a sua vida. Esta é uma sabedoria que o ser tem de conquistar com seu próprio esforço, como faz o menino para aprender a andar, caindo, levantando-se e caindo de novo. Mas aonde o conhecimento do ser não chega, automaticamente funciona a Lei, que o leva na sua corrente. Assim, quando ele tenta afastar-se dela com seus impulsos errados, procurando desvios, a Lei o corrige com a dor. Com tal método, ele acaba por fim aprendendo a se manter dentro dessa corrente e a segui-la, acompanhando seus impulsos, movimentando-se na mesma direção deles, e não contra. Então o progresso, em vez de se realizar pelo choque contra a reação da Lei, que se opõe às tentativas erradas, toma uma forma muito mais fácil e rápida, porque a evolução não é mais freada pela luta entre dois impulsos opostos, mas sim sustentada e estimulada por dois impulsos que concordam e se somam: o da Lei e o do ser.

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Temos falado bastante destes dois tipos biológicos, o evoluído e o involuído. Eles representam dois extremos, entre os quais há vários tipos intermediários de indivíduos e destinos. Cada um, então, apesar de estar ligado às leis da grande corrente que arrasta a todos, pode percorrer o caminho da vida de maneira diferente, particular a ele, continuando a seguir o caminho da sua vida precedente, conforme o construiu no passado. Na juventude, ele abre a mala que contém os instrumentos colocados aí por ele no fim da vida precedente e, tal como os encontra, utiliza-os na sua nova vida. Trata-se dos seus instintos, impulsos e qualidades de todo gênero. Nesta altura poderia surgir uma dúvida, a qual deve ser esclarecida. Como, em meio a tantos outros, progredindo juntos dentro de uma mesma lei geral que os abrange, pode cada destino se desenvolver livre e completo no seu devido caminho, sem ser torcido pela proximidade dos outros? E temos, de fato, muitos destinos diferentes, que se desenvolvem um perto do outro, mas cada um seguindo o seu caminho particular conforme a lei do seu desenvolvimento. Como então, nesta rede, permanecem separados os fios condutores de tantos destinos, seja ele de amor ou de ódio, de bondade ou de maldade, recebendo cada um aquilo que merece segundo a justiça, sem que dela ninguém possa fugir? Deus não pode permitir que seja violada a justiça da Lei, segundo a qual cada um pode semear e colher somente no seu terreno, o que significa receber apenas conforme os seus méritos e culpas, sem que ninguém possa interferir no que não é seu. E como é possível tantos destinos diferentes, ao invés do caos, acabarem construindo em conjunto, tal como numa tapeçaria, um desenho coletivo maior, no qual se encaixa e se cumpre o menor de cada indivíduo separadamente? Como se pode à rigidez da lei de causa e efeito, caracterizada pelo seu férreo encadeamento, no qual se baseia o desenvolvimento de nosso destino, conciliar a necessidade de convivência recíproca entre destinos assim entrelaçados? E tudo isto sem que um destino cometa qualquer violência contra a liberdade dos outros, impondo-se à força. Se, pelo princípio de justiça, pagar as consequências, sem possibilidade de confusão, empréstimos ou escapatórias, atende a uma necessidade absoluta, então cada um tem de assumir plenamente as suas responsabilidades em relação ao seu próprio livre arbítrio, sem que qualquer outra pessoa possa ser responsável em seu lugar. Cada um tem de pagar pelas suas culpas, e não pelas dos outros, assim como tem de ser premiado pelas suas virtudes, e não pelas dos outros. Segundo a justiça de Deus, tudo o que nos acontece na vida deve ter sido merecido por nós, logo a causa deve estar em nós mesmos. Portanto é em nosso passado que temos de procurá-la, e não nos outros. Observando como se processa a evolução, vemos que ela procede por tentativas. E assim acontece porque o seu caminho é percorrido por um ser ignorante, que, justamente através da sua experimentação, está conquistando o conhecimento. Essas tentativas representam uma incerteza de oscilação nas experiências, no entanto a amplitude delas está contida dentro do trilho preestabelecido pela Lei, que dirige o plano geral de desenvolvimento do ser. Trata-se, então, de uma amplitude limitada da liberdade de cometer erros, confinada dentro de uma ordem maior, estabelecida pela Lei, que, se os admite, logo os corrige e endireita pela dor. Eis então que, em cada ação do indivíduo, concorrem juntos três impulsos ou elementos: 1) A ignorância dele, da qual derivam a incerteza das suas tentativas e os seus erros; 2) O rigor da lei causa-efeito, pela qual o indivíduo está sujeito às consequências do seu passado; 3) A liberdade do ser para tomar novas iniciativas, sobrepondo novos impulsos aos velhos, que, porém, a limitam, até que eles se esgotem. Há, portanto, no cumprimento de um destino uma tendência que, apesar de irresistível, é ao mesmo tempo suscetível de se adaptar ao ambiente, ao momento e à pressão dos impulsos dos

outros destinos, que, também querendo se realizar, vão-se desenvolvendo juntos. No cumprimento de um destino há uma necessidade absoluta de realização, mas não se trata de algo rígido e mecânico, e sim de uma vontade contínua, que exerce uma pressão constante e implacável, tendendo e estando sempre pronta a se realizar tão logo o ambiente permita. Tal vontade funciona por tentativas, mas age com tenacidade, sempre aproveitando toda e qualquer oportunidade. Eis, então, que na férrea atuação da lei de causa e efeito permeia uma elasticidade de adaptação às circunstâncias do momento. Se não encontrar logo as condições para se descarregar, a pressão dessa força continuará esperando a oportunidade, mas nessa espera ela irá se concentrando progressivamente, comprimida cada vez mais pela falta de desabafo. Assim, aquela força continuará impelindo com cada vez mais urgência, sempre no mesmo sentido estabelecido pela lei causa-efeito, até que explodirá, conseguindo transformar-se em realidade no fato concreto. Uma vez que o indivíduo, com o seu livre arbítrio, lançou tais forças, elas automaticamente caem no domínio da Lei, que as canaliza, conforme seus princípios, em caminhos dos quais elas não podem sair, tendo de segui-los até seu esgotamento. E o indivíduo fica amarrado a estas forças, pois elas fazem parte do sistema de forças que constituem a sua personalidade. É assim que o passado está dentro de nós, amadurece conosco, define o trajeto de nosso destino e nos acompanha no presente e no futuro, ajudando-nos ou perseguindo-nos conforme houvermos merecido. O princípio de justiça na realização de um destino fica respeitado, porque ele depende da escolha que o indivíduo faz entre tudo o que encontra no seu ambiente e do uso que ele faz de tudo isto, assim como a manifestação das doenças depende da predisposição clínica do ser e também do próprio ambiente microbiano geral. A culpa está na fraqueza congênita – consequência do passado – que estabelece uma predisposição para dados ataques, constituindo uma atração que representa um convite a determinados tipos de agressões. São as consequências do nosso passado, na forma de nossas qualidades, que nos faz sair vencidos ou vencedores. Assim as forças que o indivíduo movimentou no passado, com sua personalidade, agora o dirigem para preferências instintivas, que orientam e governam sua vida. Das mesmas coisas e no mesmo ambiente, indivíduos de natureza diferente podem fazer um uso diferente, com resultados diferentes. Assim cada um paga pelas suas culpas, e não pelas dos outros, sendo cada um é premiado pelas suas virtudes, e não pelas dos outros. É assim que tantos destinos diferentes, enredados no mesmo ambiente, podem, apesar disso, realizar-se juntos, uns ao lado dos outros, sem se misturar, cada um recebendo conforme seu merecimento. Isto é possível porque o impulso do qual depende o nosso destino é provido de elasticidade e adaptação, constituindo ao mesmo tempo uma poderosa vontade de se realizar, o que significa uma tendência e pressão constante, que não pode deixar de atingir o seu objetivo. VII. PSICANÁLISE Para concluir, com este capítulo e o seguinte, o estudo da personalidade humana e do destino, trataremos agora da psicanálise. Para nós, ela é a arte de fazer pesquisas no subconsciente, para descobrir quais são os elementos componentes da personalidade do indivíduo, o seu passado, no qual ele assim a construiu, e, por fim, o seu destino, segundo o qual, como consequência necessária, aquele passado e o presente devem continuar se desenvolvendo. Tal estudo tem importância fundamental para entender a nossa vida, porque é na profundidade da nossa psique que se encontra a primeira raiz de nossos atos. O que existe antes de tudo, como verdade indiscutível e premissa axiomática de todo julgamento, é a forma mental do indivíduo, filha do seu

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temperamento, que constitui para cada um a sua unidade de medida dos valores, representando uma conclusão preconcebida a todo exame, porque a mente é o instrumento com o qual o homem tudo percebe, entende e julga. Tudo é submetido a esse meio e reduzido dentro dos seus limites, seja religião, moral, filosofia prática, política ou orientação na vida individual e social, bem como toda forma de compreensão e comportamento. Não é possível entender o significado dos nossos atos sem ter entendido de que impulsos interiores a conduta humana deriva. Isto prova a importância da psicanálise, mas concebida não como a atualmente em vigor, e sim num sentido mais vasto, como ciência que desvenda o mistério da alma, descobrindo o que fomos no passado e, por conseguinte, seremos no futuro, revelando o conteúdo de uma vida nossa muito maior, da qual a atual não é senão um breve episódio. Trata-se de um mundo desconhecido, que a ciência não leva em conta e o materialismo ateu ignora, como se ele não existisse, deixando-nos, no fim da vida, cair cegos no abismo. As religiões nada sabem de positivo e, com afirmações vagas, às vezes inaceitáveis porque absurdas, impõem o dever de aceitar por fé, cegando-nos a visão e deixando-nos nas mesmas trevas. Só a primitiva forma mental do homem atual pode permitir que ele fique satisfeito com esta sua ignorância a respeito das coisas que, se quisermos viver inteligentemente, compreendendo os longínquos elementos em função dos quais se desenvolve a nossa vida atual, são as mais urgentes a saber. Eis que, já de início, prontamente aparece quão diferente, mais profunda e completa é esta nova psicanálise, em relação à comum hoje aceita. Esta permanece fechada dentro dos dois limites estreitos do nascimento e da morte física, abrangendo, assim, de nossa verdadeira existência somente um trecho mínimo, demasiadamente curto para nos explicar o que mais necessitamos saber. Nos capítulos precedentes, vimos que o nosso ser, quando do nascimento físico, traz consigo uma longa história escrita no subconsciente, no qual ela pode ser lida. Esta é a função fundamental desta nova psicanálise, indispensável para compreender a personalidade humana e o significado do seu estado presente. Isto não pode ser feito por uma psicanálise incompleta como a atual, que não vai além do momento do nascimento, ficando assim limitada ao terreno dos efeitos, ignorando o das causas, de onde tudo deriva. Falta-lhe, então, a parte mais importante, aquela onde estão os alicerces que sustentam o edifício do eu, as raízes onde se apoia a árvore da personalidade, as razões que explicam e justificam o estado atual do indivíduo. Então a primeira característica desta nova psicanálise é que ela atinge a parte mais profunda do eu – a mais escondida, porém mais enraizada e firme, porque a mais antiga; a mais verdadeira, porque controlada por mais longa experimentação – que é a parte situada antes do nascimento. Esta psicanálise não abrange somente o passado, mas se estende também no futuro, que, como ela sabe, está contido no passado e no presente, não podendo ser deles senão uma lógica consequência. Trata-se então de uma psicanálise que não só analisa o período antes do nascimento, mas também prevê qual será o destino do indivíduo. No menino, apesar de latente e invisível, já está fixado o adulto, assim como na semente está potencialmente contido todo o desenvolvimento futuro da árvore. Alargando a sua pesquisa e conhecimento tanto no passado como no futuro, tal psicanálise nos oferece uma visão completa de nossa vida, e não só de um limitado trecho dela, insuficiente para o indivíduo, no seu caso, entender a sua posição, a sua natureza e o seu porvir. Mas, para chegar a tão vastas conclusões, é necessário que a psicanálise, nas suas pesquisas, seja orientada e sustentada por um sistema filosófico completo, que de tudo dê uma explicação lógica, alicerce ainda inexistente na psicanálise atual. O indivíduo nasce com a sua personalidade já construída, que, mesmo somente se revelando mais tarde, já existe. Quem

a construiu e como isto aconteceu? É preciso não só responder a estas questões, mas também desvendar o mistério do nosso futuro. Para isso, no entanto, em vez de limitar o conceito de nosso destino no próximo amanhã, devemos concebê-lo como um percurso imenso, que vai se desenvolvendo ao longo de uma mesma linha, atravessando o passado, o presente e o futuro. Trata-se de um destino cósmico, representado pelo caminho percorrido pelo ser na grande viagem de sua evolução, que vai do AS ao S. Para que se possa entender um fenômeno, não basta apenas observá-lo isoladamente no seu estado presente, é necessário conhecê-lo também no seu transformismo ao longo do tempo adequado. As qualidades que cada um leva consigo, impressas na sua personalidade, representam os instrumentos com os quais ele terá de realizar o trabalho de sua nova vida, como continuação do trabalho realizado nas vidas precedentes. Assim a psicanálise, através da leitura do subconsciente, estudando as características mais espontâneas do indivíduo, pode chegar a uma psicosíntese capaz de revelar qual é a direção tomada pelo ser no trabalho de construção da sua personalidade. Apesar de todos se movimentarem ao longo da mesma grande via da evolução, cada um tem o seu próprio caminho, diferente dos outros, porque a evolução leva ao aperfeiçoamento pela especialização, não para afastar os indivíduos uns dos outros, mas sim para juntálos depois em unidades coletivas, nas quais eles cooperem como elementos complementares. É lógico que a tendência da evolução seja de atingir o estado orgânico, porque o ponto final dela é o S: a unidade orgânica máxima. Sem conhecer tudo isto, ficamos sem orientação, tornandose impossível, assim, dirigirmos inteligentemente o caminho de nossa vida no seu trabalho mais importante, que é a construção do eu. A vida vai sempre mudando, apresentando a cada um, a todo o momento, problemas novos a resolver, novas experiências a realizar e novas lições a aprender. Cada um evolui de modo diferente, conforme os recursos que possui. A sabedoria para se dirigir com conhecimento tem de ser duramente adquirida com o próprio esforço. O ponto de partida é a ignorância no AS, estado do qual o ser procura sair por tentativas, movido pela conquista do desconhecido. Mas a tentativa leva ao erro, e o erro leva à dor, que nos ensina, repetindo-se até que aprendamos. Este trabalho de termos de aprender tudo à nossa própria custa pode parecer uma condenação, mas é justo, porque é consequência da revolta e da queda. É lógico, então, que o destino bata nos pontos mais fracos da personalidade, aqueles mais desprovidos de experiência e conhecimento, onde predomina a ignorância e, por conseguinte, o erro e a dor. Assim, através da dor, a personalidade se enriquece de sabedoria, o ponto fraco se fortalece e a dor, consequência do erro, extingue-se. A psicanálise tem de descobrir quais são esses pontos onde somos mais vulneráveis, contra os quais se encarniça o destino, porque neles está o desvio que a Lei quer endireitar. E desse trabalho ninguém pode escapar, seja querendo subir ou seja querendo descer. Na vida, seja qual for o caminho escolhido, há pão duro de sobra para todos roerem. Há quem saia dela adiantado, e há quem saia atrasado. À psicanálise pertence a tarefa de dirigir este trabalho, orientando as consciências de forma científica, positiva e inteligente. Saindo do estado de AS e tendendo a levar tudo ao estado de S, o transformismo constitui a grande corrente da evolução, que arrasta todos os seres, porque dentro dela está imerso tudo o que existe. Completamente envolvido por ela, o indivíduo só possui uma relativa liberdade de oscilação, adequada aos seus particulares impulsos. Porém o que domina todos os seres, acima de tudo, é a vontade da Lei, que dos destroços do AS quer reconstruir o S. É esta vontade que, através da dor, reconduz o ser ao caminho certo, todas as vezes que ele se afasta pelo erro. É lógico que cada violação da Lei produza nela uma

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espécie de ferida que se repercute no próprio eu, como é lógico também que cada inversão de rota do ser no caminho evolutivo gere fatalmente para ele uma correspondente inversão de valores, pela qual o positivo se torna negativo, transformando a alegria, qualidade do S, em dor, qualidade do AS. Assim, de uma ação em excesso nasce uma reação em forma de carência. É lógico que qualquer violação da Lei, como na primeira revolta, volte a gerar as qualidades do AS, assim como cada esforço para realizar a vontade da Lei tenda a gerar as qualidades do S. Ora, a psicanálise deveria conhecer a técnica dessas compensações, para descobrir qual foi no passado o excesso que gerou a carência de hoje, identificando o gozo ilegítimo que produziu o atual sofrimento. Só assim é possível fazer um tratamento das doenças da alma, tarefa de caráter ético e religioso, que pertence a uma psicanálise mais evoluída. O melhor resultado que a ciência pode atingir é a diminuição da dor, aumentando o bem-estar. Então a tarefa da psicanálise, no estudo da personalidade, é descobrir nesta quais são seus pontos fracos, que carecem de positividade devido ao trabalhou realizado às avessas pelo indivíduo, em descida, a favor da negatividade ou AS, e fortalecer tais pontos com injeções de positividade, endireitando o caminho errado do indivíduo na direção da vontade da Lei, isto é, para o S. Tal psicanálise, conhecendo a técnica de construção da personalidade, como já explicamos, poderá intervir na direção deste importantíssimo processo, que hoje está abandonado à ignorância do indivíduo. Trata-se de canalizar os seus esforços, para evitar o doloroso desperdício de forças e, assim, atingir o maior resultado útil possível. Isto significa acompanhar com inteligência a vontade de salvação da Lei, para, do modo mais rápido e com o menor trabalho, aproximar-se o máximo possível do S, realizando a evolução. Trata-se de dar à vida uma orientação racional, permitindo que cada um entenda o seu destino e o significado dos acontecimentos contidos nele. O problema que mais nos interessa resolver, fundamental para atingir a nossa felicidade, é como dirigir a nossa escolha, da qual depois tudo depende, para saber assim intervir no terreno das causas, no momento da semeadura e da formação de um destino, no ato do lançamento das forças, porque disto depende tudo o mais, que não pode ser depois senão o automático desenvolvimento da trajetória estabelecida pelo primeiro impulso. Hoje só existe o médico do nosso organismo físico. O psicanalista do futuro será o médico do nosso organismo espiritual, de cuja saúde depende o bem-estar do corpo. Mas, para chegar a isto, é preciso entender como nasce e se desenvolve um destino, para conhecer a técnica desse fenômeno e poder intervir nele, introduzindo novos impulsos corretivos, quando o caminho iniciado estiver errado. Assim como faz o médico do homem no plano físico, também o médico do espírito, depois de efetuar a leitura do subconsciente, para fazer um exame da estrutura da personalidade do indivíduo e, assim, estabelecer uma psicodiagnose do caso, deverá tratar o organismo psíquico, fortalecendo-o nos pontos fracos, medicando-o nos pontos doentes, compensando carências, corrigindo complexos, endireitando hábitos errados, controlando a conduta e estabelecendo um regime saudável. Isto significa, sobretudo, ter de educar, penetrando no terreno da ética, que, diferente da atual, não mais será empírico produto do subconsciente como já explicamos, mas sim uma ética científica, positiva, racional e demonstrada. Os remédios não se encontrarão nas farmácias, porque, para doenças psíquicas, são necessários medicamentos psíquicos. Os elementos fundamentais da psicodiagnose serão: 1) Determinar qual é o nível evolutivo do indivíduo, porque disto depende a lei biológica à qual está sujeita a sua vida (a medicina para tratar um involuído é bem diferente daquela que é necessária para tratar um evoluído); 2) Determinar perante que tipo de indivíduo o psicanalista se encontra, identificando qual foi o ca-

minho específico que aquele ser escolheu na sua evolução, isto é, o tipo de sua especialização, para individualizar claramente a sua personalidade. 3) Determinar qual é o tipo e o percurso do destino do indivíduo, estudando o processo da construção de sua personalidade na estratificação, que revela o crescimento do eu. 4) Determinar, observando os produtos do subconsciente, qual é a natureza dos impulsos instintivos que, como retorno do passado, emergem dele hoje, para assim chegar a conhecer de que tipo e série de experiências o estado presente é a consequência. Deste modo, será possível descobrir quais foram as causas que nos escapam no passado, as quais é necessário conhecer, para tratar os efeitos que agora temos de enfrentar. Somente assim será possível chegar a conhecer qual foi a primeira e longínqua origem da nossa atual forma mental, nos seus pontos torcidos e doentes, que formam os complexos, e, com isso, encontrar o antídoto corretivo do mal, determinando o tipo de tratamento psíquico anticomplexo adaptado àquele caso particular. Nessas pesquisas, grande parte do trabalho fica confiada à capacidade de penetração intuitiva individual, da qual dependem os resultados. Mas, pelo fato de, na prática, tal capacidade nem sempre existir, seria necessário oferecer ao psicanalista uma técnica de pesquisa já pronta, que possa ser usada mecanicamente por qualquer pessoa, constituindo-se num aparelho capaz de funcionar nas mãos de todos. Mas isto não é possível fazer aqui. Limitar-nos-emos, então, a estabelecer os princípios gerais para orientação. ◘◘◘ Por que o passado ressurge e volta a nós, determinando o nosso destino atual? Como podemos, com a nossa livre escolha, criar um destino e como pode ele ser fatal? Já vimos que o fato do passado ressuscitar das suas cinzas é devido à tendência do primeiro impulso de continuar na mesma direção em que foi lançado. Trata-se de uma força de tipo espiritual, que, uma vez lançada pelo seu impulso de origem, torna-se autônoma e quer, pela sua própria vontade, tal como um indivíduo independente, atingir o seu objetivo. Essa força faz parte do feixe de forças que constituem a personalidade do indivíduo, dentro da qual continua a se movimentar, de modo que ele a obedece instintivamente, julgando obedecer a si mesmo, porque, sendo ela parte dele, a vontade dela é a vontade dele. O resultado é que o indivíduo pensa e age como quer essa força, que se tornou parte integrante da sua personalidade. É assim que o ser, imaginando realizar a sua vontade, fica amarrado à necessidade de realizar essa outra vontade, que agora o domina. Eis como surge o conceito de fatalidade do destino. Poderse-ia dizer, então, que o nosso passado nos escraviza, porque lança o eu numa dada direção, congelando assim o nosso livre arbítrio em determinismo, do qual seremos escravos até que, em novas vidas, consigamos nos libertar dele. O destino é fatal no sentido de que nós somos no presente do modo como no passado construímos nosso eu e, portanto, o nosso mundo interior, segundo o qual percebemos, entendemos, julgamos e reagimos ao que nos chega de fora. O nosso eu de hoje é a consequência fatal do nosso eu do passado. Este continua funcionando em nós, criando imagens que nos impressionam, miragens que nos convidam e atraem, impulsos que nos empurram numa dada direção, desejos que reclamam e exigem satisfação, de modo que, mais cedo ou mais tarde, o indivíduo acaba sendo arrastado. Eis como o passado ressurge e volta a nós, determinando o nosso destino atual. Esta junção entre passado, presente e futuro é imposta pela necessidade de manter a continuidade do processo evolutivo, que, sem ela, acabaria despedaçado em inúmeros fragmentos desconexos, perdendo assim a sua unidade como um único fenômeno, que, abrangendo tudo, vai do AS ao S. O ser, no momento que está constrangido a obedecer ao seu destino, obedece a si mesmo. Mas trata-se de seguir o desejo de

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um seu eu antigo e superado, diferente do atual. Tal vontade, então, pode ser hoje bem diferente da sua e representar coisa velha, obsoleta e atrasada, que é bom abandonar, pois a evolução tem pressa e impulsiona para frente. Pode surgir assim luta entre duas posições evolutivas dentro do mesmo indivíduo que as contém. De um lado, a sabedoria do instinto, bem comprovada e confirmada por longa experiência, profundamente arraigada nos alicerces da vida, de cuja defesa ela é encarregada, para garantir-lhe a continuação. De outro lado, a sabedoria do homem consciente, constituindo uma conquista nova, que se coloca acima do instinto e é destinada não mais a conservar o passado, mas sim a explorar o futuro. Tudo isto corresponde às duas finalidades fundamentais que a vida quer atingir: a conservação do passado e a conquista do futuro. A luta é entre essas duas exigências opostas. Trata-se da luta entre a matéria e o espírito, o involuído e o evoluído, a fera e o anjo. São dois impulsos da vida, que podem tomar forma de duas personalidades diferentes dentro do mesmo indivíduo, como se ele tivesse uma dupla personalidade. Isto se revela na luta travada contra si mesmo, a qual acontece nos indivíduos em fase de transformação evolutiva, que os leva do nível da animalidade ao da espiritualidade, através de um contínuo choque de uma contra a outra, até a segunda vencer, superando a primeira. Criam-se assim instintos superiores, que tomam o lugar dos inferiores, substituindo-se o novo ao velho. A nossa personalidade é constituída por tudo o que herdamos do passado, fruto das experiências por nós vividas, lançadas e confirmadas por longa repetição, razão pela qual agora voltam como uma inabalável vontade de continuar se realizando na mesma direção, resistindo a toda tentativa de desvio. Eis o mundo imenso que o impulso ascensional da evolução quer e deve transformar! Quanto pior tenha sido o nosso passado, tanto maior é o peso da carga que temos de carregar nas costas, pelo qual somos paralisados no caminho da subida. As forças que uma vez movimentamos, agora nos acompanham, ajudando-nos ou perseguindo-nos como pessoas vivas. Determinando os movimentos do indivíduo, estas forças acabam por colocá-lo nas posições desejadas por elas, atraindo as pessoas mais adaptadas e produzindo as circunstâncias e os acontecimentos para realizar seu destino, que é fatal consequência destes impulsos. Podemos, assim, compreender como tudo depende de nós, do que fizemos e merecemos no passado e, por conseguinte, do que fazemos no presente. O ambiente é o mar onde todos estamos imersos e onde cada um, entre as coisas que encontra, escolhe aquelas preferidas por ele, conforme seu temperamento. Assim, conforme as suas qualidades adquiridas no passado, cada um se coloca na posição que lhe pertence. Agora podemos compreender como a primeira causa do que nos acontece se encontra antes de tudo dentro de nós. Seria suprema injustiça de Deus que aos outros fosse entregue o poder de nos infligir um destino por nós não merecido. Se aos outros fosse dado o arbítrio de modificar o nosso destino à vontade, eles poderiam alterar o caminho da evolução, destruindo a responsabilidade do indivíduo e a justiça de Deus. Quando um indivíduo, por ter-se construído com determinadas qualidades, possui certas predisposições, é fatal que mais cedo ou mais tarde, entre as inúmeras forças com as quais ele terá de se encontrar na vida, acabem funcionando aquelas que serão atraídas por afinidade ou então as que serão impulsionadas pela Lei, para compensar os pontos negativos de carência e, assim, restabelecer o equilíbrio. A função da psicanálise deveria ser a de estabelecer uma psicodiagnose com base nestes princípios, lendo no subconsciente do indivíduo tudo o que foi ali escrito por ele em seu passado. Uma vez conhecidos os impulsos nas suas origens, será possível observar como eles se desenvolveram até o presente, onde aqueles impulsos estão se realizando. Será deste modo possível estabelecer qual o tipo de destino, o seu conteúdo e sua

linha de desenvolvimento no caso particular do indivíduo que estamos estudando. Aqui, no ponto onde houve erros, o psicanalista começa a função corretiva do passado. O tratamento é psicológico-moral. A receita dos remédios está escrita na Lei, e o médico tem de se tornar intérprete dela para ajudar o paciente a entendê-la e aplicá-la, ensinando-lhe a arte da obediência inteligente, que, refreando a resistência do indivíduo, evita atritos e choques com a Lei, para não deixá-lo ser atingido em cheio pelo duro método por ela empregado: a correção pela dor. Aqui começa a parte mais importante do trabalho do psicanalista. Uma vez que ele descobriu o fio condutor do destino do indivíduo examinado, a sua função é orientar esse destino, dirigindo-o, conforme a sua natureza e os elementos que contém, para um futuro melhor, no qual sejam, por meio de lógicas correções de conduta, eliminados erros, complexos e sofrimentos. O princípio geral é que o paciente deve ser orientado de modo a desenvolver o seu caminho na direção do S, que representa o bem, a felicidade, Deus. Trata-se de uma psicanálise profundamente moral e religiosa, ligada aos princípios daquela ética que, pelo fato de ser uma premissa indispensável para o estudo da psicanálise, intencionalmente explicamos neste mesmo volume. Nele, estudamos também a estrutura da personalidade e a técnica da sua construção, porque a função maior do psicanalista, depois de ter descoberto no indivíduo esta estrutura, é guiar aquela construção, a fim de que ela se realize da melhor forma, para o bem e a felicidade dos homens de boa vontade. No futuro, a finalidade da ciência não será a criação de armas para destruir vidas, assim como não será objetivo das religiões a perseguição de pecadores. A meta comum será atingir, com uma conduta sábia e inteligente, o objetivo mais útil, que é, por isso, entendido por todos: a própria felicidade. A tarefa da psicanálise é construir destinos sadios e felizes, dando saúde às almas, curando as doentes, fortalecendo as fracas, sanando feridas, tudo isto no terreno do espírito, assim como o médico do corpo faz no terreno da vida física. Hoje só existe o segundo médico. No futuro, porém, os dois trabalharão lado a lado, juntando as suas duas sabedorias numa só, para chegar a um único diagnóstico e ao respectivo tratamento físico-psíquico, através de uma síntese clínica que abrangerá, ao mesmo tempo, corpo e alma, numa incindível unidade, como de fato é o ser humano. ◘◘◘ É lógico que o tratamento e a direção dependem do tipo do indivíduo e do seu grau de adiantamento no caminho evolutivo. Os erros, sofrimentos e experiências, bem como as éticas e as leis que dirigem a vida do ser, são diferentes conforme o plano biológico em que o indivíduo existe. O psicanalista pode encontrar tanto um primitivo do tipo animal, como um superhomem e, entre estes dois extremos, uma vasta série de tipos intermediários. O que vale para um não é adaptado para o outro. O psicanalista tem de conhecer e acompanhar o desenvolvimento da vida e das suas leis, adaptando a sua ação a esta transformação do ser, na qual tudo muda de um nível a outro. Neste processo, o conteúdo do subconsciente vai se enriquecendo e se dilatando cada vez mais, até conter, ao invés de uma vida regida por poucos instintos elementares, uma concepção tão vasta da existência, que ela é realizada em função do universo. O conteúdo do subconsciente da atual maioria humana fica evidenciado pelos tipos mais difundidos de filmes no cinema, de crônicas nos jornais e de romances nos livros, aqueles mais apreciados pelo público. Basta falar de crimes, processos policiais e roubos ou de sexo na sua forma inferior de violência e vício, que muitos se interessam. O que se encontra no fundo da alma humana é a lembrança da recente experiência da fera. Tudo isto revela quais são os instintos ainda dominantes, que se procura desabafar através de tais meios, com a fantasia, porquanto as leis de um mundo mais civilizado proíbem que tais impulsos se concretizem nos fatos. Assim, a mente se satisfaz

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com tais substitutos, revelando a sua natureza, que está sempre pronta a se desafogar com fatos, tão logo desapareça o freio da ordem na disciplina mantida pela força. Para calcular os efeitos do que ele encontra escrito no subconsciente, o psicanalista tem de aplicar os princípios de equilíbrio e compensação que estão escritos na Lei. Ele terá de observar as forças que a personalidade do indivíduo contém, as qualidades e a potência delas, identificando aquelas benéficas, favoráveis, e aquelas maléficas, contrárias. Trata-se de um verdadeiro exame de consciência, que o paciente tem de fazer perante a Lei, enquanto está se confessando com o psicanalista. Tudo tem de vir à superfície, da profundeza da alma, calculando débitos e créditos perante a justiça de Deus. Os momentos sucessivos do exame psicanalítico, como veremos melhor no Cap. IX, são, da parte do paciente, o exame de consciência e a confissão e, da parte do médico, a interpretação da confissão e dos sintomas psíquicos, a leitura no seu subconsciente, a definição da estrutura de sua personalidade e a identificação das correções necessárias conforme a linha de seu destino. Segue então, da parte do paciente, o arrependimento e a vontade de praticar as mudanças necessárias, realizando-as de fato, para endireitar os erros adquiridos no passado. Tudo isto em forma de estreita colaboração entre os dois, unidos por um liame de sinceridade, confiança, inteligente compreensão e vontade de fazer o bem. Pode haver micróbios patogênicos também no ambiente psíquico, sendo às vezes necessário esterilizar tal ambiente, assim como se faria com um doente. As diretivas para o involuído podem estar nos antípodas daquelas indicadas para o evoluído. O primeiro é um ignorante que precisa ser dirigido para formas de vida superior pelo medo do seu prejuízo, único argumento entendido por ele. A coisa mais urgente é cortar-lhe as garras de fera, para que se torne um ser civilizado. Ele chegou há pouco no ambiente terrestre, subindo de níveis biológicos mais baixos. A finalidade de sua vida atual na Terra é se transformar de fera em homem. O problema é bem diferente no caso do evoluído, que, ao invés de ter subido à Terra de um nível biológico inferior, desceu a ela de um nível superior. O problema para ele não é civilizar-se, mas conseguir sobreviver no meio de seres não civilizados. Então a coisa mais urgente não é cortar-lhe as garras, mas sim ensiná-lo a se comportar como uma fera, fornecendo-lhe como meio de luta pela vida as armas de ataque e defesa, que há muito tempo ele abandonou para conquistar qualidades superiores. Neste caso, deveria ser completamente diferente a lição do psicanalista, o qual deveria orientar o evoluído, ensinando-lhe como é travada esta luta, que é a coisa mais necessária na Terra. Trata-se de uma conduta já esquecida por ele, mas que é praticada pelos involuídos, para os quais ela é fácil e instintiva, porque representa uma experiência recente, ainda bem gravada no subconsciente, enquanto, para o evoluído, é uma experiência longínqua, superada há muito tempo e sepultada nas camadas inferiores do eu, que agora vive em outro nível de evolução. A maior função da psicanálise deverá ser dirigir as consciências, mas com o conhecimento psicológico que as religiões atuais não possuem. O psicanalista deverá, então, ser um educador, mas capaz de lidar com alunos diferentes, a cada um dos quais, conforme a respectiva natureza, deverá dispensar uma lição específica. Assim o psicanalista deverá ser psiquiatra, confessor, amigo, confidente, mestre e salvador, devendo ser dotado de intuição para penetrar os segredos da alma e entendê-los melhor do que o próprio sujeito, indo além do que este conhece ou saiba explicar. Os sofrimentos do indivíduo podem depender de sua incapacidade para se adaptar aos valores e medidas que a maioria faz para si, seja isto por defeito, porque ele é atrasado demais, seja por excesso, porque ele é muito adiantado. É claro que, em cada um destes dois casos, são necessários tratamentos opostos. Os problemas, os sofrimentos e as doenças psíquicas

dos seres do primeiro tipo não são dos mesmos tipos do segundo. Por isso colocamos neste livro, como premissa ao estudo da psicanálise, o conhecimento da personalidade. O psicanalista terá de possuir a arte de se adaptar ao caso particular. Os complexos de um tipo não são os do outro. A evolução transforma a natureza do ser, que depende do nível por ele atingido. Para uns, pode constituir problema tremendo e vital aquilo que, para outros, ainda não apareceu dentro dos limites de seu concebível. Às vezes, um indivíduo pode parecer doente, quando, na verdade, ele se encontra apenas numa fase de deslocamento de um nível biológico para outro, envolvido numa crise de crescimento, que não é doença, mas sim trabalho criador bem sadio. Neste caso, então, psicodiagnose e tratamento terão de ser diferentes. Este não é o caso mais comum, porque a maioria está bem longe de ser evoluída. Mas é o caso mais refinado, difícil e interessante da psicanálise. Surge, então, o problema de como corrigir a falta de adaptabilidade do evoluído no baixo ambiente humano. Deverá o psicanalista se tornar um mestre de involução, para que o evoluído, retrocedendo, possa aprender de novo a conduta indispensável para sobreviver na Terra, ou deverá ele abandonar tal indivíduo ao seu destino? Este homem se tornou, por evolução, justo, honesto, sincero e evangélico. Tal lição, que os outros apenas começam a aprender, foi por ele tão profundamente assimilada, que se tomou impulso espontâneo e instintivo. Assim ele esqueceu a coisa mais importante na Terra, isto é, a arte da luta e do engano, servindo ao instinto do egoísmo e da autodefesa. Como poderá sobreviver na Terra um ser que, por evolução, tornou-se de diabo em anjo, perdendo as garras? O seu destino é se dirigir para outros mundos. Terá ele, então, que renunciar à vida na Terra, escolhendo o caminho do martírio e da morte? A tarefa de dirigir o indivíduo num ou noutro destes dois sentidos cabe ao psicanalista, que enfrentará, assim, o problema de decidir qual das duas alternativas ele irá usar para salvar a vida desse homem no ambiente terrestre. Deverá ele cometer o crime de orientá-lo para uma descida involutiva, intervindo no seu destino em sentido negativo, ou deverá ele estimulá-lo ainda mais no caminho da ascensão, salvando-o, mas com isso impelindo-o a se tornar cordeiro, para ser devorado pelos lobos? Qual das duas vidas deve ser salva: a presente ou a futura? Deve-se cortar-lhe as asas e ajudá-lo a desenvolver as garras para o seu bem imediato, ou deve-se acompanhar o seu sacrifício, cortando-lhe as garras e ajudando-o a desenvolver as asas, para o seu bem futuro? A resposta do psicanalista revelará quem ele é. ◘◘◘ Vale a pena observar o fenômeno mais de perto, porque ele também tem um significado moral, religioso e social. A primeira coisa que faz uma lei religiosa ou civil é estabelecer a sanção punitiva pelo seu não cumprimento. O que se presume, então, não é a obediência, mas a desobediência. Que o cidadão tenha de ser constrangido à força, sob a ameaça de uma pena, constitui a base de qualquer lei. Assim, o indivíduo é prejulgado um rebelde. Por que isso? Porque a base da vida na Terra é a luta. O homem isolado, por ser o mais fraco, não possui, contra as religiões ou os governos, as sanções que estes possuem contra ele. Quem não possui força não possui direitos. O povo tem direitos somente quando se organiza e a unidade do número o torna o mais forte. Em nosso mundo, autoridade e dependentes são inimigos naturais. Os indivíduos, não possuindo a força, procuram, como fazem os mais fracos, evadir-se com o engano, que é a arma dos servos. Os primeiros empregam a cadeia ou o inferno para lutar, os segundos usam a astúcia para escapar. Como fica então o indivíduo fora de série, que não luta nem se defende, permanecendo, por sua natureza, espontaneamente obediente e honesto? Neste ponto, o psicanalista pode iniciar seu trabalho, para estudar o fenômeno da honestidade como um complexo, desco-

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brindo suas origens e praticando um tratamento. Mas por que complexo? Porque o homem honesto se coloca fora da regra da luta para ataque e defesa, na qual se baseia a vida na Terra. E de fato, na prática, o nosso mundo julga o homem honesto como um fraco do qual é bom tirar proveito, um deficiente que não sabe vencer, um doente mental. O caso é doloroso e delicado para resolver. O que deve fazer o psicanalista? Ele poderia dizer ao paciente: “Não seja tão simplório. Na prática, para se evadir das leis religiosas e civis, já existem as escapatórias, elaboradas por milênios na sabedoria dos astutos. Não acredite nas palavras e aparências. Atrás delas, tudo está pronto, sendo já bem conhecido pelo longo uso. Por que você não se aproveita, como é de costume? Na prática, pode-se conciliar tudo, tanto o céu como o mundo, à religião, que, bem adaptada e acomodada na elasticidade de consciência, permite e legitima muitas das coisas que a tua consciência proíbe. Está tacitamente concordado e presumido que você saiba aproveitar tais oportunidades. Se não o fizer, ninguém lhe agradecerá, mas, pelo contrário, o condenará como inexperiente. Se você vencer pelo caminho subentendido, será admirado e respeitado, mas, se você não souber vencer assim, será desprezado”. A conversa com o paciente poderia continuar: “Enquanto permanecer honesto, tanto pior para você. Ninguém reclama, porque os outros gostam da sua derrota. Nisto você não os incomoda, pelo contrário, pode ser vantajoso para eles encontrar, na luta, uma vítima para explorar. O perigo aparece quando você começa a exigir que os outros pratiquem a mesma honestidade utilizada por você. Se você, como de fato o é, proclama-se honesto, isto é visto pelos outros como uma acusação de desonestidade, razão pela qual eles o julgam um inimigo e, armando-se com suas condenações, começam a lutar. E isto acontece porque o método que você prega atrapalha os interesses deles. Não se deve descobrir as armadilhas do próximo, mas sim parecer amigo e acompanhá-lo, tirando vantagem delas. Você quer endireitar o mundo, mas será esmagado por ele”. Do outro lado, o paciente responde que não pode funcionar senão conforme sua natureza, que é de honestidade, não lhe sendo possível mudar este seu instinto. Então o psicanalista continua: “Procuremos entender o fenômeno. Você, assim c omo o mundo, segue os seus impulsos, obedecendo aos seus instintos. Por que tanta diferença entre eles? Vimos que esta espontaneidade depende das experiências vividas no passado, gravadas no subconsciente, que agora as devolve. Que ensinou a vida ao homem no passado? Ensinou que só o mais forte ou o mais astuto vence e pode sobreviver, restando aos que não souberem sê-lo, derrota, sofrimento e morte. A honestidade, que, por princípio, impõe sacrifícios no interesse dos outros, representa neste mundo um altruísmo antivital, contra o qual a vida se rebela. Colocar-se na posição de cordeiro no meio dos lobos, prontos a devorá-lo, é loucura. Quem quer tomar o Evangelho a sério, sem entender que ele mata, é um doente mental, não lhe restando senão acabar sendo martirizado, como aconteceu com Cristo e não pode deixar de acontecer com todos que queiram segui-lo de verdade, e não apenas com palavras. Portanto, biologicamente o mundo tem razão”. Continuemos estudando o fenômeno, para chegar a uma psicodiagnose. Se, no paciente, a honestidade se tornou tão profundamente gravada no subconsciente, manifestando-se agora com a espontaneidade irresistível de instinto, enquanto nos outros acontece o contrário, isto quer dizer que a lição aprendida por ele, com a experimentação vivida e assimilada no passado, é diferente daquela que os outros viveram e aprenderam. O presente só se pode explicar com o passado. Perguntamos então: o atual estado do paciente revela uma anormalidade doentia, um complexo a se curar, ou constitui uma posição apenas relativa, de inferioridade somente em relação ao julgamento do mundo, mas não em sentido absoluto, com relação às leis da vida?

Um sistema de conduta pode ser produtivo e, por isso, aceito até um determinado nível de evolução, além do qual ele se torna contraproducente para os objetivos que a vida quer atingir, sendo então abandonado por ela. Assim, o sistema de luta entre os indivíduos pode ser útil num mundo de elementos separados, no qual a defesa da vida está confiada a cada ser isoladamente, conforme os recursos que ele possui. Mas este método, porque cheio de atritos destruidores, torna-se contraproducente num mundo de elementos sabiamente coordenados, que formam uma sociedade organizada, na qual a defesa da vida está confiada à inteligência, encarregada de dirigir o bom funcionamento do conjunto, e à regular obediência a ela de todos os elementos daquela sociedade. Então a iniciativa individual é substituída pelo poder central, que monopoliza a força e a autoridade, tirando-as dos cidadãos, mas apenas para manter a ordem, que dá segurança e é vantagem para todos. Essa transformação já se realizou dentro dos limites de um povo, no seio daquelas nações que já chegaram a viver no estado orgânico. Mas, fora desses limites, nas relações entre nações, vigora ainda o individualismo dos elementos separados, com o método contraproducente das rivalidades e da guerra. No entanto a evolução da vida exige que a vantagem já atingida dentro do limitado plano nacional, no interesse de cada povo, tenha de ser alcançada também no mais vasto plano internacional, no interesse de toda a humanidade. O principio é o mesmo, e o processo de sua realização já foi iniciado. Trata-se somente de continuá-lo. Este exemplo nos mostra que a vida está sempre pronta a abandonar um método, quando este não lhe seja mais útil, para substituí-lo por outro mais vantajoso. Este é o processo em andamento hoje na humanidade, que terá de acabar compreendendo a utilidade de passar do caos à ordem também no terreno internacional, como já o fez a nível nacional. Ela, então, eliminará o sistema atual de luta, rivalidades e guerras, suprimindo o correlativo estado de insegurança e sofrimento. Ora, o método do homem honesto, que não vive mais fechado em seu egoísmo, na insegurança do estado de guerra contra todos, mas sim na segurança do estado de paz com todos, representa a posição do tipo mais evoluído, que entendeu a utilidade de passar do caos à ordem, acabando com o sistema contraproducente de luta, egoísmo e agressividade, para eliminar o correlativo estado de atrito, insegurança e sofrimento. A evolução da vida terá de levar o homem até esta nova posição biológica. Ao invés de seres fortes ou astutos, terá de produzir seres honestos, pois só eles poderão se tornar elementos do novo estado orgânico da humanidade. Isto porque tal posição de ordem representa uma vantagem que a vida aceita, por ser utilitária e constituir um aperfeiçoamento que a evolução deseja. Podemos agora entender qual o significado, em relação às leis do nível biológico da humanidade, do biótipo do homem honesto. Ele representa uma antecipação da evolução, pertencendo, por isso, a um plano de vida mais adiantado, aonde, porém, terão de chegar também os outros, que formam a maioria humana e que, por viverem em outro nível de evolução, agora o condenam. Neste ambiente, ele se encontra como um desterrado, sendo movido por impulsos que poucos compartilham, impulsionado por instintos fora de série, que o fazem parecer um ser destacado da realidade, um inexperiente, um doente mental. Mas, na verdade, esta aparência é apenas fruto do julgamento correspondente à forma mental de uma humanidade atrasada, tendo como ponto de referência a fase evolutiva de nosso mundo atual. O método do homem honesto representa o modo de vida que o homem de amanhã alcançará. Assim, a posição do ser evoluído é de inferioridade somente com relação à atrasada fase evolutiva de nossa humanidade atual, mas, em função da história desta, constitui uma posição de superioridade. Um ser de grande inteligência e bondade é um desprezível inepto num mundo de feras. Não possuindo armas, que são a base da vida,

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ele será devorado. Todavia este ser representa o germe do futuro desenvolvimento da humanidade, a única esperança e meio que ela possui para sair da barbárie. Se o mundo está contra ele, as forças da evolução estão a seu favor, pois tal biótipo representa o progresso. Se a vida o repele nos seus níveis inferiores, ela o aceita e o glorifica nos superiores. Se os atuais métodos do mundo, porquanto úteis e proporcionados ao ambiente, são aceitos pela vida, ela está sempre pronta a repeli-los tão logo, numa posição biológica diferente, eles se tornem prejudiciais, quando então será o homem desprezado que triunfará. Esta é a análise do caso, como nos propusemos fazer, para chegar a uma psicodiagnose do que chamamos complexo de honestidade. Eis quais são os elementos que o psicanalista deveria levar em conta. Mas, a esta altura, temos de lhe oferecer as respostas a outras perguntas. Por qual processo o indivíduo, apesar disto lhe custar prejuízo imediato, chegou ao seu estado de maior compreensão, que o faz honesto? Como tal forma mental se radicou tão profundamente nele, a ponto de se tornar impulso espontâneo, hábito, instinto? Que experiências pessoais levaram o indivíduo a esse amadurecimento? Esta é a parte que mais interessa ao psicanalista para o tratamento do caso. A inteligência da vida usa um método muito eficaz para educar, convencendo sem constrangimento, com todo o respeito pela liberdade do ser. Ela o deixa correr atrás de suas miragens e errar à vontade, permitindo que ele obedeça aos seus impulsos e desabafe seus instintos inferiores, os quais, pela sua própria natureza, estão condenados a se chocar contra a reação da Lei e a ser corrigidos automaticamente pela dor. É o próprio homem que, pela sua natureza, carrega a sua punição. Sua cobiça insaciável, sua natureza egoísta e seu espírito de revolta o levam ao abuso, que representa o erro no qual é mais fácil cair, abrindo as portas à dor, encarregada de corrigi-lo. Assim, conhecedor das astúcias do mundo mas ignorante das leis da vida, o homem julga poder escapar-lhes, porém acaba ficando preso nelas, tendo de pagar tudo. Eis como o homem, por ter experimentado as consequências dolorosas do abuso, pode chegar à honestidade. Assim como se chega à virtude por se ter sofrido demais com o vício, a humanidade chegará à paz por ter sofrido demais com a guerra etc. Neste caso, o ser leva consigo, gravada no seu subconsciente, uma experiência dolorosa, que lhe ensina a não mais cometer aquele erro. O ser aprendeu à sua custa, pelas duras consequências, a não cometer mais excessos. Eis como pode nascer o que chamamos de complexo de honestidade. O indivíduo aprendeu que todo o mal já praticado por ele contra os outros, acreditando com isto chegar à sua própria satisfação, acabou por levá-lo ao próprio sofrimento. Ele se tornou honesto porque se queimou pela sua desonestidade. Um complexo é uma queimadura do espírito, que jamais a esquece. Esta fase da punição do pecado representa o primeiro passo no caminho da subida para um nível de vida superior. O sofrimento mostra onde ocorreu o erro e convence a não cair mais nele. Assim, a inteligência começa a se desenvolver, até chegar a entender a vantagem de praticar métodos de vida mais adiantados, substituindo-os aos velhos. O indivíduo vai, desse modo, repetindo experiências cada vez mais completas, até que o novo estilo de vida esteja bem assimilado e a nova qualidade se torne instinto, tornando espontâneos os impulsos de honestidade, como aconteceu com o evoluído. No fim, o que impele o ser a subir não é mais a repulsão da Lei, mas sim a própria atração da Lei, que recompensa quem progride no caminho do bem. Podemos agora chegar a algumas conclusões. Não há dúvida que destruir tal complexo de honestidade representa uma vantagem imediata para o indivíduo, porque ajuda a adaptação dele ao mundo, entre os quais há uma inimizade recíproca, e serviria como um tratamento capaz de amenizar tal estado de luta. Surge então um problema para o psicanalista. Deve tal complexo ser

curado, isto é, destruído, porque ele representa um defeito, ou deve ser confirmado e aperfeiçoado, porque ele representa um valor? Mas trata-se de um defeito somente perante o mundo, porquanto é de grande valor perante a maior dentre as leis da vida: a evolução. É lícito, para eliminar os choques com um mundo inferior, sacrificar valores superiores? Para atingir uma vantagem imediata, pode o médico intervir negativamente no processo evolutivo e paralisá-lo, impulsionando o indivíduo a retroceder, com um prejuízo muito maior do que aquela vantagem imediata? Então o psicanalista não deveria lutar para eliminar o complexo, mas sim para alimentá-lo, aumentando a doença. E, para fazer isto, ele deveria se colocar contra o mundo, condenando assim o seu paciente a derrotas e sofrimentos. A solução depende do médico e, sobretudo, do paciente. Este, se for verdadeiramente anjo, nunca se adaptará a tornar-se diabo, jamais aceitando um retrocesso involutivo, que representa para o ser a maior condenação. Ele nunca compactuará com o mundo, mas sempre procurará cada vez mais afastar-se dele, prosseguindo no caminho de ascensão. Ainda que esteja condenado a viver no atual nível humano, ele jamais renunciará ao seu direito de fazer parte de humanidades mais adiantadas. Outro caminho não há para o biótipo evoluído. VIII. A NOVA PSICANÁLISE Conforme explicamos nos capítulos precedentes, os instintos são automatismos adquiridos nas vidas precedentes, os quais são gravados no subconsciente, onde o psicanalista pode ler o que foi vivido pelo indivíduo no passado. É nesta experimentação por ele vivida que se baseia o processo de construção da personalidade observado pelo médico. Então, como podemos ver, a ideia de pesquisa no terreno existente antes do nascimento físico é fundamental em psicanálise, que, sem tal informação, não pode entender o presente, pois este é consequência daquele passado, no qual apoia suas raízes. Eis, então, que uma das características mais importantes da nova psicanálise apresentada aqui é essa penetração no terreno pré-natal, conceito inexistente na psicanálise clássica atual. O tipo desta ciência que aqui oferecemos é mais completo e integrado, pelo fato de procurar reconstruir toda a história da personalidade, seguindo o processo de sua formação e levando em conta elementos que escapam à psicanálise hoje praticada. O subconsciente contém um mundo muito mais vasto do que se julga, abrangendo um imenso passado, no qual o ser viveu incontáveis experiências, que constituem a sua atual sabedoria inata, diferente para cada um, conforme o caminho por ele percorrido. Sem dúvida, a parte da psicanálise que mais interessa na prática é o tratamento das neuroses e complexos. Por isso o próprio Freud preferiu deixar de lado o aspecto filosófico e espiritual da psicanálise, desconsiderando o problema das causas longínquas e dirigindo-se para o seu lado prático, com foco no tratamento. E foi isto que tornou Freud popular. Acontece, porém, que também esse problema prático não pode ser resolvido, se não tiver como base para se apoiar uma teoria fundamental, com um sistema filosófico completo que tudo oriente no seio do funcionamento universal, sem o que qualquer ação será uma tentativa cega, porque carente dos seus princípios diretivos, que só o conhecimento do plano geral da vida pode oferecer. A ciência descobriu leis particulares, mas, por não levar em conta o fato de que elas funcionam dentro de uma lei maior universal, que a todas abrange e coordena, não foi capaz de entendê-las no seu verdadeiro valor, nem colocá-las em ação no terreno da prática, permanecendo no estado de incerteza de quem não conhece todo o problema. Assim como cada fenômeno menor se processa em função de fenômenos maiores, também cada problema particular não pode ser resolvido senão em função do conhecimento do problema universal e de sua solução. Então o problema de se

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achar um tratamento certo para as doenças psíquicas e espirituais não é solúvel senão em função da solução de outros problemas mais vastos, que dizem respeito ao conhecimento da natureza da personalidade, da técnica de sua construção, da finalidade de tal processo evolutivo, da leitura do passado pré-natal escrito no subconsciente etc. Trata-se de curar um sofrimento, portanto é indispensável conhecer o que é a dor, qual a razão de sua existência, por que ela aparece num dado momento, qual é sua origem e que função exerce no plano geral da existência. Uma verdadeira psicanálise, se quiser ser completa, deve abranger horizontes de amplitude bem maior que os atuais. Ela não pode ser entendida só como fenômeno psicológico, mas também como fenômeno ético, religioso, biológico, evolutivo, social etc. A psicanálise original de Sigmund Freud recebeu sucessivas modificações e desenvolvimentos por Adler, Rank, Jung, Stekel etc. Freud viu na personalidade humana, antes de tudo, o elemento sexo, cujos impulsos foram considerados por ele como fator fundamental. Seu seguidor, Jung, respondeu-lhe que “o cérebro não pode ser somente um apêndice das glândulas genitais”. Assim, a concepção feminina da personalidade humana, baseada no instinto sexual, foi por Jung substituída pela concepção masculina baseada na vontade de domínio. Cada um dos dois cientistas viu um dos dois aspectos fundamentais e complementares do mesmo fenômeno, portanto não se contradizendo, mas sim completando-se. A personalidade humana é um conjunto de dois elementos ou aspectos, um relativo ao macho e outro à fêmea, que constituem o espírito de luta, para a função biológica da conquista, e o espírito de bondade e amor, para a função biológica da proteção e conservação. O primeiro impulso executa a tarefa da defesa para a afirmação e sobrevivência do indivíduo, o segundo impulso assegura a continuação da raça. Era inevitável que, na psicanálise, aparecesse e se revelasse o fato da existência destas duas funções fundamentais da vida, assumindo as duas posições: a do macho e a da fêmea. Mas eis que o próprio Jung se encaminhou para uma concepção mais vasta, referindo-se aos princípios gerais de uma lei superior. No seu livro O Arquétipo É Uma Presença Eterna, Jung explica o seguinte: “(...) muitas neuroses do homem moderno nascem de ofensas que o consciente gerou nos arquétipos. Então, estes reagem do inconsciente, perturbando o equilíbrio psíquico do indivíduo. Atinge-se a cura, ajudando o doente a individuar os símbolos do seu próprio subconsciente”. Deste modo, assim como nós, Jung admite, antes de tudo, que a ação saia do consciente, mas faz isso sem explicar que este fato representa, como já dissemos, a parte ativa do processo da construção do eu. A ideia mais importante da afirmação de Jung é que as neuroses nascem de ofensas geradas pelo consciente nos arquétipos. Isto corresponde ao nosso conceito de violação da ordem da lei de Deus, já explicado por nós no livro Queda e Salvação. Corresponde também à nossa afirmação de que a desobediência a essa lei representa uma ofensa, contra a qual ela reage, devolvendo-a ao violador na forma de dor, que é neste caso a desordem da neurose. Mas Jung não explica a técnica desse fenômeno. Neste caso, porém, também não pôde deixar de aparecer e se revelar na psicanálise o fato de existir uma lei que é a base da estrutura do universo e que dirige seu funcionamento. Os arquétipos equivalem ao que chamamos de imutáveis princípios da Lei. A reação surge daquele mundo que, para o homem ignorante, é o inconsciente, pois está situado acima do seu conhecimento ou consciência, que representa a sua forma mental, na qual está contida toda a sua sabedoria, adquirida pela sua experiência passada no trabalho de construção do eu. O resultado da violação, como reação da Lei, é uma perturbação que altera o equilíbrio psíquico do indivíduo. O efeito é da mesma natureza da causa. A Lei devolve ao ser desobediente à ordem o mesmo choque e desordem que este lançou contra ela e que agora, ricocheteando para trás, volta ao ofensor. Eis que as doenças nervosas e psicopáti-

cas constituem o choque resultante da reação da Lei, que restitui o mesmo mal da violação e desequilíbrio gerado pelo indivíduo dentro dela e, portanto, dentro de si mesmo. Assim, justamente esse impulso negativo que o ser, no âmbito da sua liberdade, movimentou em sentido errado, lançando-o em sentido anti-Lei e, portanto, antivida, repercute agora nele e o fere no espírito. Já frisamos que um complexo é uma queimadura do espírito. Este fica magoado pelo choque de tal reação, que, sendo de natureza negativa, produz uma doença no organismo mental, um trauma psíquico, uma ferida na alma, originando uma dor naquele ponto, com todas as suas consequências cerebrais, nervosas e até mesmo físicas. Eis o que é a neurose, a psicose etc. Depois que a livre vontade do ser movimentou o primeiro impulso, todas as consequências, até atingir finalmente a doença, desenvolvemse automaticamente, em forma determinística, fora da vontade e da liberdade do indivíduo. É por isso que neuroses e complexos se manifestam como automatismos situados fora do controle da consciência. Esta é a razão pela qual Jung teve de afirmar que a cura do paciente se atinge ajudando-o a individuar os símbolos de seu subconsciente. Isto porque, assim, é possível, a partir do conhecimento da natureza dos atuais impulsos do subconsciente, deduzir a natureza das causas determinantes de sua origem no passado, observando agora o que, como consequência, surge do subconsciente, cuja expressão se realiza por símbolos ou imagens, e não por processos conscientes racionais. Dado que o tratamento tem de se dirigir não contra os efeitos, mas sobretudo contra as suas causas, para endireitá-las, neutralizando o mal na sua fonte, podemos agora, porque já as conhecemos, determinar qual deve ser a solução. Esta deverá, então, consistir em contrapor novos impulsos volitivos na direção certa, em sentido oposto àqueles lançados em direção errada no passado, para poder assim corrigi-los. Trata-se de dirigir a atividade do paciente, fazendo que ele, ao invés de em sentido negativo, contra a Lei, para se arruinar, atue em sentido positivo, conforme a Lei, para se salvar. Este novo caminho para se aproximar novamente da Lei pode, assim, constituir o tratamento para o caminho anterior, que foi de afastamento dela, estabelecendo com o novo processo, de obediência, a possibilidade de curar o precedente, de revolta. Neste ponto, onde aparece uma terapia mais ampla e integral, Jung parou. A porta de uma psicanálise mais profunda estava aberta, mas ele não entrou. Não podia, porque, não levando em conta as vidas precedentes, escapava-lhe toda possibilidade de pesquisa no terreno do passado pré-natal, justamente a que mais interessa, pois nele se encontram as primeiras causas da doença, as quais o tratamento tem de corrigir, determinando no paciente impulsos opostos. Além disso, faltava a Jung, como já mencionamos, um sistema universal para se dirigir nessa pesquisa, uma visão cósmica que explicasse qual é a finalidade da vida e de sua evolução, mostrando o futuro à espera do ser no seu desenvolvimento, pelo qual ele é levado do AS ao S. Somente provido de uma tal premissa, conhecendo a técnica da construção da personalidade e levando em conta não somente o passado do eu, mas também o futuro que o espera, é possível curar os pontos errados no velho tipo, destruindo-os com a substituição por um novo, sabendo identificar, segundo a Lei, o que está certo e o que está errado, o que gera saúde e o que traz doença. A esta altura, a psicanálise tem de entrar no terreno do superconsciente, no qual se realizam as novas construções do eu, usando a técnica da superação evolutiva e praticando o tratamentos de neuroses pelo estranho caminho da sublimação, que ainda está limitado ao terreno da ética e das religiões, sendo desconhecido pela ciência positiva. Então, a doença pode ser resolvida em sentido evolutivo, cortando o mal pela raiz, através do amadurecimento do indivíduo, que se desloca do seu nível biológico para outro superior, com todas as consequências decorrentes. Isto será mais bem explicado mais adiante. ◘◘◘

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Eis, então, que chegamos a uma nova psicanálise, concebida de outra maneira. Trata-se de uma ciência que, observando os produtos instintivos surgidos do subconsciente, procura reconstruir a história passada do indivíduo, identificando onde e como, no seu caminho evolutivo, ele se movimentou em sentido errado, diante da Lei, que é o ponto de referência em relação ao qual se pode julgar. A doença da neurose é um efeito desse movimento em sentido anti-Lei, constituindo a fatal consequência de sofrimento resultante de cada violação. Se a causa foi a desobediência, que gera a desordem, o remédio está na obediência, que reconstrói a ordem. O tratamento consiste na reintegração dessa ordem, de que dependem a saúde e o bem-estar, neutralizando assim a desordem, de que dependem a doença e a dor. Já explicamos bastante os princípios nos quais se baseia essa interdependência entre erro e sofrimento, entre o conceito de pecado e o de penitência. Pode-se, então, reconstituir o equilíbrio psíquico perturbado do indivíduo através da correção do erro, que foi a causa, eliminando assim a doença, que é o efeito. Eis que a psicanálise, antes de tudo, deve conhecer o conteúdo da Lei, a fim de se orientar no tratamento. Assim, ao lado do elemento psicológico e biológico, nessa ciência entram o elemento filosófico, o ético e o religioso. Já há uma nova tendência revolucionária da medicina psicossomática que sustenta a existência de um liame entre distúrbios emotivos e distúrbios físicos. Eis então que a própria medicina, apoiando-se na psicanálise, procura entender por novos caminhos o significado da doença, afirmando que o indivíduo adoece porque naquele ponto houve uma culpa, pela qual ele se colocou numa posição errada, contra as leis da vida. Culpamos os micróbios, o regime ou o ambiente, mas estes fatores podem ser somente as causas próximas, de caráter secundário, enquanto as verdadeiras, aquelas fundamentais, são mais remotas e profundas. É verdade que a ciência poderia objetar que, por esse caminho, nos afastamos da realidade suscetível de observação direta e de controle experimental imediato. Mas também é verdade que a ciência, pelo fato de seguir o seu caminho positivo, desconsidera elementos cuja influência pode ser de fundamental importância para a doença e o seu tratamento, sendo este o ponto de maior interesse para a ciência. Mudam assim o conceito de doença e o método de seu tratamento. Eis uma medicina que levaria em conta também o elemento moral e espiritual, tratando o ser humano não como um organismo somente animal, mas sim no seu aspecto completo, que constitui um conjunto físico e psíquico ao mesmo tempo. Pode-se assim concluir que a doença é um deslocamento resultante de forças mal dirigidas, levando elementos a se colocaram fora do seu devido lugar. Se, então, a doença representa uma desordem e nos mostra, pela sua natureza, qual foi o tipo particular e específico dessa desordem, eis que, implicitamente, ela nos indica qual deverá ser o tipo particular e específico de tratamento necessário para reconstruir naquele ponto a ordem violada. Há mais ainda para quem entendeu o conceito de doença perante a Lei, em função dos seus princípios fundamentais de equilíbrio e de justiça. Pode-se concluir então que, se a primeira causa de uma doença foi um impulso negativo, de desordem e desequilíbrio, ou seja, um movimento contra as leis da vida – também chamado culpa ou pecado no plano ético – então a própria doença não somente representa, na forma de dor, conforme já demonstramos, a lógica consequência do erro, cumprindo a justa e fatal reação compensadora por parte da Lei, mas também constitui o pagamento da dívida, a devida penitência pela culpa, a necessária expiação, a correção do erro, a forma mais adequada para reconstituir a ordem e o equilíbrio. Então o tratamento do doente está na própria doença, que é de fato um mal como julga a ciência, mas isto somente no momento de sua gênese pelo erro, porquanto, na sua fase de amadurecimento atual do processo, constitui um mal saudável, um curativo

necessário. Então suprimi-lo, como faz a medicina, só nos seus efeitos, sem conhecer as causas para eliminá-las, significa sufocar o natural descarregamento do mau impulso, que assim, impedido de se desabafar, é constrangido a se concentrar, comprimindo-se até chegar a uma nova explosão, que lhe é indispensável, devido ao impulso equilibrante da Lei. Isto muda os atuais conceitos de doença e seu tratamento. Se fecharmos esta válvula de segurança que é a doença, esta acabará explodindo de novo. Assim, se, em vez de neutralizar suas causas, cortando na raiz o impulso que gera a doença, procurarmos eliminar somente os efeitos, tentando suprimi-los à força, e tratar apenas os últimos resultados que vemos, ignorando suas origens longínquas, acabaremos gerando com tal método sempre novas doenças. Tal conceito, para a ciência positiva, pode parecer fantasia fora da realidade. Mas não é exatamente isto o que está acontecendo no mundo atual, onde, ao lado de tantas descobertas e doenças vencidas, surgem sempre outras em novas e diferentes formas? E como a ciência explica esse fato? Cabe à psicanálise descobrir as causas longínquas, porque, na interdependência espírito-corpo, pode haver doenças físicas dependentes de causas psíquicas, ligadas à estrutura da personalidade, que o indivíduo construiu no seu longo passado. Eis então que, para resolver um caso, pode ser necessária, ao lado do diagnóstico médico, uma análise por parte do psicanalista, porque o ser humano é uma unidade bipolar indivisível, não sendo possível tratar-se artificialmente uma doença orgânica como um fenômeno isolado, sem levar em conta a sua correspondente parte espiritual. A moral desta conversa é que o primeiro remédio está em não ter merecido a doença com os nossos erros. Uma vez, porém, que eles tenham sido cometidos e, por isso, escritos em nosso destino, com todas as suas consequências, não nos resta senão aprender a lição através do sofrimento, para não repeti-los mais. Então, a doença é uma experiência de salvação, na qual se manifesta a sabedoria da vida, para tirar o indivíduo do impasse em que ele, por ter errado, caiu. O homem recebe apenas o mal que, na sua inconsciência, lançou contra si mesmo, sendo agora obrigado a suportá-lo. Mas, no fundo do sofrimento, está o impulso para o bem-estar e, no íntimo da doença, a vida trabalha para restaurar de novo a saúde, assim como a morte contém o princípio da ressurreição e, dentro da ruína do S decaído no AS, está presente e trabalha o Deus imanente, para reconduzir tudo de novo ao estado perfeito de S. Eis a que profundos equilíbrios a vida obedece. A conclusão deste parágrafo é que a doença não pode ser “definitivamente” eliminada senão pelo método da penitência, com o correlativo aprendizado da lição, a qual é transmitida ao subconsciente, onde fica retida, para que o erro não se repita no futuro. Esta conclusão concorda com a do parágrafo precedente, confirmando a possibilidade de se tratar as neuroses com o método da obediência à Lei, através da sublimação, que corrige os velhos impulsos, ensinando a praticar outros novos, de um plano biológico superior. O mundo luta desesperadamente contra a dor, mas não sabe o que ela é, ignorando qual a razão de sua existência e a sua função no seio do equilíbrio universal. Assim, o mundo luta contra os últimos efeitos sem atingir as causas, e o resultado de tais métodos é que a dor permanece. É necessário entender que somente poderemos alcançar bons resultados, se agirmos conforme a Lei, cumprindo sua vontade, seguindo seus impulsos e acompanhando o caminho de suas forças. Mas, se quisermos agir contra a Lei, opondo-nos à suprema vontade que, canalizando tudo em sua corrente, dirige e movimenta o universo, então não encontraremos senão resistência e dificuldades, tornando-se vãos todos os nossos esforços, porque lançados contra poderes superiores, que não podem ser vencidos. ◘◘◘

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Observemos agora outros aspectos da pesquisa psicanalítica, para individuar outro método no tratamento das doenças mentais, realizado através da penetração introspectiva nas camadas profundas da personalidade do paciente. Para entender toda a personalidade humana, é necessário observá-la nos seus vários níveis. O consciente está na superfície, onde se realiza a vida, desenvolvendo-se a parte ativa da nova experimentação, que aumenta o patrimônio do conhecimento e das qualidades do indivíduo. Esta é uma zona em contínuo movimento, feita de pequenos fatos sucessivos no tempo, encadeados uns aos outros. Trata-se de uma zona analítica, feita de pormenores exteriores, práticos e concretos, que constituem a nossa chamada realidade da vida. Nesta zona se realiza o novo trabalho de construção da personalidade ao longo do caminho evolutivo. Debaixo desta zona, na qual o homem comum vive a sua vida de cada dia, há outras zonas sobrepostas, situadas fora desse consciente, no inconsciente. A tarefa da psicanálise é pesquisar essa imensa parte de nós, que está submersa e escondida no subconsciente. Ela é fundamental no ser humano e existe sem que ele tenha conhecimento dela, constituindo sempre o mais íntimo âmago do nosso eu. Aí, as tempestades sensórias da superfície se acalmam e o pensamento, ao invés de ser analítico e feito de pormenores exteriores, é vasto, interior e profundo, funcionando por visões de conjunto, dirigido não para a exploração do novo e da construção do eu, mas para a assimilação e conservação do velho. Nessa zona, temos camadas diferentes, uma debaixo da outra, cada vez mais profundas, às quais vai descendo e, por estratificação, fixando-se tudo o que foi vivido pelo consciente na superfície. Se, por um lado, para se realizar no plano da vida prática, o homem tem de se projetar ativo e dinâmico para fora, no seu ambiente, por outro lado ele, para conhecer esse seu mundo interior, tem, ao contrário, de se concentrar em si mesmo, em calma e silêncio, escutando as vibrações sutis desse outro ambiente subterrâneo. A maioria vive somente a vida de superfície, que contém apenas uma parte dos valores do ser, escapando-lhe todo o restante num profundo mistério. Qual é a lógica desse comportamento? A projeção neste mundo exterior dos sentidos e da matéria é o resultado da queda do S no AS, que significa a descida do espírito na matéria. No terreno do AS, isto é, na matéria, o homem vai realizando, ao longo do seu caminho involutivo-evolutivo, o trabalho para voltar ao S, isto é, ao espírito, reconstruindo-se como tal através da sua experiência exterior no seio da matéria, seu atual reino. Por esse processo, o homem vai acumulando nele tudo que, lutando no seio do AS, vai reconquistando do S. Assim a experiência de cada vida deixa, acumulada debaixo da superfície, uma nova camada em cima das antigas. Ao mesmo tempo, o ser transporta o seu trabalho de conquista criadora para um nível mais alto, enquanto a zona da experimentação ativa se levanta para um plano biológico mais adiantado, onde se repete o mesmo processo. E assim por diante. Em nosso ambiente terrestre, o biótipo de homem que mais se encontra é aquele extrovertido, dirigido para fora, atuando no seu ambiente material, no qual realiza sua vida, enquanto é mais raro o biótipo introvertido, dirigido para dentro, atuando no seu mundo interior, no qual realiza a sua vida. O primeiro representa o mundo involuído da matéria, que gravita para o AS; o segundo representa o mundo evoluído do espírito, que gravita para o S. Os dois estão nos antípodas, e um julga o outro em relação à sua posição. O primeiro avisa o segundo do perigo de perder contato com a realidade da matéria, esquecendose das férreas necessidades da luta pela vida. O segundo avisa o primeiro do perigo de acreditar no mundo, que não é senão uma grande ilusão, ignorando as grandes verdades das quais a vida depende. Quem tem razão?

Quem vive apenas no nível da superfície percebe somente os pormenores e as aparências, sendo capaz de resolver os pequenos problemas e vencer na luta de cada dia, mas está cercado de mistérios e desnorteado a respeito dos grandes problemas, cometendo nas questões de longo prazo erros que depois terá de pagar e sendo, no fim, apanhado desprevenido pela morte. Ele tem razão e vence, mas só relativamente ao seu mundo e enquanto nele vive. Além disto, quase nada ele sabe e pode fazer. Pelo contrário, quem olha na profundeza descobre, atrás das aparências exteriores, uma realidade interior mais profunda, atingindo o conhecimento da sua verdadeira natureza e do seu destino numa visão de conjunto. Ele pode, então, orientar-se a respeito dos grandes objetivos de sua vida, dirigindo-se inteligentemente, por si próprio, para atingi-los, seguindo planos superiores tão vastos, que escapam completamente ao outro tipo, que é, assim, servo do destino, enquanto o outro é dono. Há resultados diferentes, com vantagens e desvantagens, em cada um dos dois casos. Um ser completo deveria saber realizar as duas formas de pesquisa. Mas é raro que isto possa acontecer. Assim, cada um dos dois acaba vivendo o seu tipo de vida: 1) A vida exterior, prática e compensada por sucessos imediatos, terminando em desejos insatisfeitos e desilusão diante da morte, no desconhecido; 2) A vida interior, incompreendida no mundo e condenada por derrotas imediatas, mas que, na morte, desemboca numa continuação de vida conhecida e prevista, na qual o indivíduo bem orientado realiza seus desejos. Também nas religiões, a maioria pertence ao primeiro tipo, sendo que tal religião aparecerá como irreligiosa, ou mesmo ausência de religião, ao homem do segundo tipo. Para os dois tipos, os valores da vida são diferentes. O que vale para o primeiro são os recursos materiais. O que vale para o segundo são os recursos espirituais. Para o 1 o, a finalidade da vida está na Terra e, em função disto, ele entende e trabalha. Para o 2o, a finalidade da vida está fora da Terra e, em função disto, ele entende e trabalha. Para o 2o tipo, representa uma contínua profanação a maneira prática e interesseira que o 1 o tipo, apesar de estar convencido de ser honesto e religioso, tem de conceber as coisas espirituais,. Ora, a função da psicanálise é penetrar neste mundo interior do 2o tipo, a fim de ajudar o homem comum, do 1 o tipo, a descobrir o conteúdo de sua personalidade, ensinando-lhe a praticar pesquisas interiores profundas por introspecção, para desvendar assim o mistério escondido fora do consciente e, com isso, revelar seu destino individual, orientando sua conduta em função dele, até chegar ao tratamento das doenças, neuroses e complexos, que dependem deste mundo interior. Estas questões são todas conexas e fazem parte do grande problema da personalidade humana, que é o ponto central da psicanálise. As grandes descobertas da psicologia e da parapsicologia do futuro nascerão desta análise que desce às mais secretas camadas interiores do eu. Esta nova ciência aparece hoje porque, agora, os limites da mente humana estão se ampliando para novos horizontes, como resultado da evolução, o que exige um conhecimento mais profundo de nossa personalidade. A continuação da vida no tempo leva a um aumento progressivo das experiências e do conhecimento adquirido, resultando numa fatal acumulação em nós mesmos de um material que, tornandose sempre maior, não pode deixar de acabar explodindo para além dos velhos limites. Este é o resultado atual do amadurecimento biológico da raça humana. Por isso, hoje, surgiu a psicanálise, ciência inconcebível nos séculos passados, em que todos viviam satisfeitos na mais profunda ignorância dos problemas da personalidade humana. Nesta época, tudo era dirigido, tanto a conduta como as leis civis e religiosas, pelos impulsos instintivos do subconsciente e pela respectiva forma mental, que representava a unidade de medida das verdades dominantes. Hoje, com o constante aumento da prevalência do elemento psí-

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quico em nossa cada vez mais complicada vida social, torna-se sempre mais necessário o conhecimento de nossa personalidade, com tudo o que ela contém e que dela pode nascer. A prática de uma vida psicologicamente mais refinada exige a solução de problemas até agora desconhecidos, situados além da superfície das aparências. O homem começa a entender a vantagem de viver com maior conhecimento e inteligência. Neste ponto pode surgir uma dúvida que é necessário esclarecer. Com a finalidade de orientar o indivíduo para uma vida melhor, dirigindo-o mais inteligentemente na sua conduta, que valor podem representar as profundas pesquisas interiores da psicanálise, quando sabemos que o subconsciente não contém senão o nosso passado, isto é, a parte inferior do nosso ser, atrasada, involuída, animal, já superada hoje? Que vantagem poderemos tirar deste mergulho na parte pior de nossa personalidade? Por que, então, descer a estas camadas profundas, onde não se pode encontrar senão o que foi vivido nos níveis biológicos inferiores? É verdade que, por este caminho às avessas, poderíamos chegar ao fundo do AS, isto é, da queda. Mas é verdade também que, precedendo este ponto, há toda a história da descida, desde o seu ponto de partida, que foi o S. Esta história não foi destruída, mas está apenas latente, esquecida, sepultada na ignorância do ser. O período atual de evolução está contido nesta história, constituindo a segunda fase, oposta e complementar ao primeiro período, o involutivo, do mesmo ciclo de ida e volta. O percurso evolutivo depende do precedente percurso involutivo, sem o qual não poderia existir. A segunda parte do fenômeno não pode ser entendida senão como consequência da sua primeira parte. Uma vez que é consequência, a evolução não pode existir sozinha nem criar uma nova lei própria, mas apenas pode existir em função do precedente período de involução, funcionando somente como reconstrução do que foi destruído pela queda, isto é, do S e do domínio da lei de Deus. Temos de entender bem essa afirmação: a evolução não pode ser uma criação de coisa nova. Esta é a razão pela qual o seu caminho já está marcado antes de ser percorrido, pois não se trata senão de passar através dele em sentido oposto, repetindo em subida o caminho que já foi percorrido em descida. É por isso que a evolução já possui o seu ponto de partida e de chegada. Trata-se de um fenômeno contido na ordem da Lei, de onde nada pode sair, sendo assim orientado com antecedência, sem jamais estar abandonado ao acaso, mas sempre submetido a princípios preestabelecidos, que o dirigem para um seu telefinalismo evidente. Eis o imenso mundo que as profundas pesquisas interiores podem revelar. Além das camadas inferiores situadas no subconsciente, há esta grande história maior, de cujas profundezas o S continua enviando os seus apelos, para conduzir o ser à salvação, trazendo-o de volta ao seu seio. Desse modo, se os piores impulsos nos chegam dos baixos níveis da evolução, os melhores provêm deste outro passado – muito mais longínquo, mas nem por isso morto, e sim apenas adormecido – que vai, com a evolução, despertando e se reconstituindo. Assim, esta observação introspectiva pode nos revelar toda a nossa história, com tudo o que ela contém, mostrando não somente o nosso passado inferior, mas também o nosso mais longínquo passado superior, do qual decaímos. Com isto, os resultados dessa introspecção pode nos mostrar também o que está potencialmente contido no plano geral da evolução, indicando-nos assim o seu futuro desenvolvimento e, portanto, o nosso porvir. Eis, então, que esta nossa pesquisa interior, depois de ter atravessado as camadas inferiores situadas no subconsciente, pode dilatar-se além delas e alcançar a visão de um mais vasto inconsciente, onde está contido um passado mais longínquo, que retorna e já alvorece na consciência dos mais evoluídos, na qual ele, percebido pelas intuições do superconsciente, vai se revelando como antecipação do futuro. Eis como a intros-

pecção e as profundas pesquisas de uma psicanálise muito mais vasta podem orientar o indivíduo para uma vida melhor, dirigindo a sua conduta. Uma psicanálise completa não pode ficar limitada ao tratamento das doenças nervosas e mentais, mas tem de entrar no terreno ético, para dirigir com inteligência a conduta humana. Suas pesquisas devem abranger todo o imenso campo do inconsciente, situado fora do controle imediato do consciente, penetrando os mistérios da personalidade não somente no terreno do subconsciente, mas também no do superconsciente. Elas devem atingir não somente o passado do indivíduo, mas, acima de tudo, o seu futuro, numa visão de conjunto em que passado e futuro se fundem no mesmo problema. Assim, a penetração psicanalítica do inconsciente poderá ser completa, porque atingirá ambos os seus aspectos: o subconsciente e o superconsciente. Depois destas explicações, já podemos entender melhor o sentido das palavras de encerramento do primeiro parágrafo do presente capítulo, onde afirmamos que a psicanálise tem de entrar no terreno do superconsciente, no qual se realizam as novas construções do eu. Agora podemos compreender como e porque é possível realizar isto, bastando, para tanto, a psicanálise utilizar a técnica da superação evolutiva, praticando o tratamento das neuroses pelo caminho da sublimação. ◘◘◘ Observemos agora algumas posições mais próximas da personalidade, enfrentando problemas mais específicos e acessíveis, cujo tratamento é a tarefa da psicanálise atual. Trata-se dos problemas do subconsciente ligados ao conteúdo das suas camadas mais recentes, que foram nele estratificadas nas vidas precedentes e que são analisados na pesquisa do período antes do nascimento. Desenvolveremos, assim, os conceitos com os quais iniciamos este capítulo. Tal pesquisa não tem somente importância teórica e filosófica, mas também prática. No tratamento das doenças, a ciência vai apenas até às causas próximas, e não às remotas. Mas, enquanto estas não forem atingidas, o problema da libertação da dor não poderá ser resolvido. Para tratar exaustivamente os seus casos, a psicanálise tem de conhecer não apenas a técnica pela qual, no duplo ritmo vida-morte, o crescimento e a construção da personalidade se realizam, mas também saber qual o trabalho que o ser realiza no período pré-natal, antes do nascimento físico; como que as experiências da vida precedente se incorporam no eu, tornando-se lição aprendida e constituindo os impulsos instintivos que, depois, emergem do subconsciente; como se realiza o fenômeno da estratificação das camadas sobrepostas; por qual processo, aquilo que foi vivido na forma de consciente sensório numa vida se torna depois automático produto do subconsciente na vida sucessiva; onde e como se constrói a parte determinística de nosso destino, à qual, por ser ela efeito fatal da semeadura realizada no passado, estamos fatalmente sujeitos. Sem conhecer a primeira origem dos complexos, a psicanálise não poderá fazer um verdadeiro tratamento deles, sobretudo para aqueles mais profundos e radicados, cujas causas determinantes não é possível encontrar na vida presente, sendo necessário, por isso, procurá-las nas vidas precedentes, cuja história a psicanálise terá de aprender a ler, pois ela está escrita no subconsciente, como já explicamos. Há qualidades individuais cuja presença a hereditariedade pais-filhos, antepassados-descendentes, não basta para explicar. O processo evolutivo não pode ficar todo ele confiado somente à transmissão do organismo físico, uma vez que a reprodução se faz na juventude, quando a experiência adquirida pelos pais é mínima, enquanto, para a evolução poder assegurar a sua continuidade e acumular os frutos de seu trabalho, a reprodução deveria realizar-se na velhice, no final da vida dos pais, quando eles possuem o máximo de sabedoria a transmitir.

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A biologia só conhece o canal da evolução da forma física, pelo qual se transmitem as qualidades orgânicas, que constituem as conquistas fisiológicas. Mas, para transferir as qualidades e conquistas espirituais – que são de natureza diferente e tornamse cada vez mais importantes, quanto mais a vida evolui – tem de existir outro canal de transmissão, sendo este, no dualismo universal, justamente o outro polo do fenômeno, constituindo a sua parte inversa e complementar, na qual o processo se completa e equilibra. Este canal tem de ser individual e pessoal, pois, de outra forma, não se poderia realizar o fenômeno da construção do eu através da evolução, porque o trabalho de uma vida ficaria desligado de outra, faltando ao progresso uma continuidade e desenvolvimento lógicos, uma vez que, assim, ele seria o resultado de incontáveis experiências, realizadas por diferentes indivíduos, todas elas desconexas ou misturadas na desordem do caos. Nesta confusão, cada um seria obrigado a viver em função e a sofrer a consequência fatal das ações de outros, não importa se antepassados ou mesmo desconhecidos, ficando sujeito a uma injustiça, porque privado de liberdade e responsabilidade individual, condição totalmente contra a justiça, porque o indivíduo teria de sofrer pela culpa de quem viveu anteriormente, tendo de aceitar um destino construído por outros. A psicanálise não pode prescindir do exame do paciente no período pré-natal. Ela já admite o registro das experiências no subconsciente, onde elas ficam gravadas e de onde, depois, emergem no consciente. Mas, nesta pesquisa, a psicanálise para no momento do nascimento e, assim, ignora o que houve antes, deixando de retroceder até atingir o terreno onde foi feita a primeira semeadura das condições atuais. Como se pode, então, desfazer um trabalho errado ou endireitar um caminho torcido, sem conhecê-lo todo, desde o seu início? Como se pode corrigir um defeito com um tratamento oposto, sem conhecer todo o processo de sua formação e desenvolvimento. A psicanálise trabalha na parte espiritual do ser, cuja evolução é um processo único, devido à persistência do eu individual ao longo do percurso de seu caminho ascensional, que vai do AS para o S. O médico do organismo físico pode, até certo ponto, limitar-se ao presente, isolando-o desse seu imenso passado. Tal restrição, porém, não pode ser aplicada pelo médico do organismo espiritual. O psicanalista tem de observar o processo do desenvolvimento da personalidade do paciente, para descobrir qual foi o choque inicial que gerou o complexo a ser tratado e qual o caminho por ele percorrido, a fim de acompanhá-lo até ao seu estado presente, que só assim pode ser entendido. Enquanto não levarmos em conta tudo isto, nossos métodos diagnósticos serão incompletos. Mas nem mesmo o médico que trata somente do corpo pode prescindir completamente de tais fatos. Espírito e matéria são conexos, podendo haver doenças físicas devidas a causas espirituais. Há doenças que são consequência de desequilíbrios no sistema nervoso, que dirige o funcionamento do sistema vegetativo. Portanto as doenças com verdadeira base anímica podem representar apenas a última fase desta série de momentos sucessivos: 1) Desordem espiritual; 2) Desorientação psíquica; 3) Desequilíbrio nervoso; 4) Distúrbios funcionais; 5) Alteração do ritmo vegetativo; 6) Doença orgânica. É somente esta última etapa que o médico percebe e trata isoladamente, deixando de levar em conta os seus precedentes e, assim, de eliminar as suas primeiras causas. O conhecimento que a psicanálise tem do subconsciente é incompleto, porque abrange somente as camadas mais recentes e superficiais da personalidade. Ora, o conhecimento de apenas um trecho da história do paciente não pode bastar para julgar o seu caso e tratá-lo. É necessário estender a pesquisa até às camadas profundas do eu, não se detendo no momento do nascimento, no qual a personalidade aparece já feita, como resultado do seu longo passado. É muito bom o método de analisar todas as manifestações instintivas do subconsciente, observando tudo

o que vemos ressurgir dele nos sonhos. Mas não poderemos entender o significado destes produtos nem saber como neutralizá-los, se não soubermos retroceder ao longo de todo o caminho de seu desenvolvimento. Acompanhemos, então, esta nova psicanálise no seu caminho retrospectivo da vida do indivíduo antes do nascimento. Há, antes de tudo, o período de prelúdio à existência física, vivido no ventre da mãe. Com a fecundação do óvulo materno inicia-se a queda e a fusão do espírito na matéria, período no qual é realizado o trabalho do eu para se revestir de uma forma que lhe permita entrar em contato com o mundo físico. Esta fase representa a descida no AS, constituindo o período mais obscuro e doloroso da vida, e isso tanto mais quanto mais o ser é evoluído, porque, assim, tanto maior é a descida como perda de liberdade e conhecimento. Mas nem por isso o ser se torna insensível e perde a sua receptividade. É neste estado de permanência dentro do ventre materno que o ser é mais vulnerável, porque não possui nenhum meio para se defender e reagir, encontrando-se em posição de completa passividade e impressionabilidade. Ele tem de aceitar e absorver tudo o que lhe chega da parte do organismo físico-psíquico da mãe, que lhe fornece todo o material para a construção do corpo. Assim, vai-se imprimindo no eu do feto o estado orgânico e mental da mãe, que pode ser bom ou mau, alegre ou triste, sadio ou doente, sendo transferido como tal à personalidade do filho. O feto percebe todos os movimentos maternos, suas crises nervosas, seus esforços e sofrimentos, recebendo assim impressões e choques que ficam gravados no subconsciente, de onde depois ressurgirão na forma de impulsos e complexos. O terreno da psicanálise é sobretudo este das influências mentais por parte da mãe sobre o organismo psíquico do filho, um campo importante de pesquisas para descobrir a origem de muitos dos impulsos instintivos, atitudes mentais e complexos do filho. Apesar de tudo isto, a sua personalidade já estava feita. A estratificação deste período não é senão uma das mais recentes, debaixo da qual existem camadas mais velhas e profundas, acumuladas nas vidas precedentes. Para chegar até lá, é preciso aprofundar a pesquisa no período pré-natal. O ser que se encontra no feto, utilizando o material orgânico fornecido pelo pai e pela mãe, já construiu a sua personalidade até um determinado ponto de sua evolução e inicia agora, em continuação, um novo trecho daquele caminho e trabalho, do qual ela representa o resultado. Ora como este resultado passa de uma vida para outra? Que acontece e qual é a forma de vida no período de além-túmulo? É preciso enfrentar o problema da personalidade humana em todos os seus aspectos, conhecendo a sua história em todos os seus momentos, inclusive nos períodos de existência que chamamos de morte. Kant afirmou que passar da forma de vida do ser vivo à forma de vida do ser que chamamos de morto, significa “uma metamorfose da percepção sensória em percepção espiritual. Isto é o que constitui o outro mundo. Não se trata então de um lugar diferente, mas só de uma diferente maneira de perceber” (Kant's Vorlesungen úber Psychologie). Eis que Kant intuiu a presença de duas formas de percepção opostas. Mas o que significa exatamente percepção sensória e percepção espiritual? Procuremos responder a todas estas perguntas. ◘◘◘ Pela lei do dualismo universal, que tudo divide e reúne em duas partes inversas e complementares, como consequência da originária cisão em S e AS, também o ser, na sua unidade, está dividido em duas partes inversas e complementares, que constituem os dois polos do eu: o consciente (positivo) e o inconsciente (negativo). Quando se iniciou a fase evolutiva, ainda no nível do AS ou matéria, o inconsciente era tudo e a ignorância dominava todo o ser. Tal estado constituía um vazio que cabia à experimentação da existência preencher por camadas sucessivas,

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como já vimos, sobrepostas ao longo da subida da evolução, para escalar o céu, voltando assim ao espírito, ou seja, ao S. Em nossa vida, essas duas partes cumprem duas funções opostas, dois trabalhos que se completam reciprocamente. O ser oscila de um ao outro nas suas duas formas de existência, que são a vida e a morte. Eles são alternados. Um funciona no período de vida encarnado, o outro no período de vida desencarnado. Sempre ansiosa por atingir o seu objetivo final, a vida nunca para no seu trabalho evolutivo, ao longo do qual ocorre uma contínua inversão, de modo que ele se realiza sempre emborcando a sua posição relativamente à precedente. Quais são, então, esses dois tipos de trabalho? No período de vida encarnado, o ser executa de forma consciente a fase do seu trabalho de construção da personalidade, projetando-se por meio dos sentidos no mundo exterior, no ambiente físico terrestre, onde realiza experiências e recebe as impressões das respectivas reações, que lhe vão ensinando, por intermédio da dor, a distinguir nos seus movimentos qual aqueles certos e quais os errados, tudo em relação à Lei, cujo conteúdo representa a lição que o ser tem de aprender para voltar ao S. A cada momento, tudo fica registrado e armazenado no inconsciente. No período de vida desencarnado, o ser faz o trabalho oposto, percorrendo a fase inversa do mesmo trabalho bipolar, numa forma que, relativamente à precedente, parece passiva e inconsciente, mas que, em substância, é igualmente de atividade e consciência, constituindo simplesmente uma forma situada nos antípodas. Trata-se, então, somente de dois tipos de trabalho, cada um a seu tempo, sendo ambos ativos e conscientes. Em outras palavras, trata-se de duas posições do mesmo trabalho construtivo do eu, sendo cada uma, alternadamente, ativa e consciente com relação à outra, que ao mesmo tempo se encontra na fase oposta, de descanso, passiva e inconsciente. Durante este seu período de desencarnado, existindo em ambiente imaterial, o ser realiza um trabalho interior, de caráter introspectivo, no qual ele, meditando, entendendo e organizando todas as impressões registradas e armazenadas no período de encarnado, transforma em substância própria tudo o que foi rapidamente engolido em sua vida na matéria. Na fase de encarnado, as experiências vividas e os respectivos resultados foram apenas guardados e gravados, por isso ainda não constituem um ensinamento compreendido e aprendido. É necessário agora um trabalho diferente, que complete o precedente, realizando um processo inverso, de elaboração, digestão e assimilação desse material, a fim de torná-lo qualidade da personalidade, patrimônio do eu, impulso instintivo, forma na qual tudo deverá depois, na fase de atividade, ressurgir no consciente. Sem esse segundo trabalho de assimilação, o eu não poderia, através de suas vidas, realizar seu crescimento, enriquecimento e desenvolvimento, que representam o conteúdo e a função da evolução. Eis o tipo de trabalho que o ser realiza no período de desencarnado, constituindo uma forma de atividade inversa e complementar à do período de encarnado. Eis o binário que, em duas formas opostas, garante a continuidade do processo evolutivo. Eis o fio condutor através do qual a psicanálise pode percorrer, voltando para trás, o caminho que o indivíduo percorreu do seu passado até ao momento atual de sua história. À semelhança das condições enfrentadas durante o dia e a noite, a existência do ser oscila entre duas posições: uma no período de encarnado, num estado acordado em relação à matéria, mas adormecido no que respeita ao espírito, e outra no período de desencarnado, num estado adormecido em relação à matéria, mas acordado no que respeita ao espírito. A passagem da vida de sua forma desperta à outra, na morte, representa um deslocamento do centro ativo do eu para o interior, fazendo voltar-se para dentro tudo que antes estava dirigido para fora. A passagem de sua forma adormecida na morte àquela desperta na vida representa um deslocamento do centro ativo do eu

para o exterior, fazendo voltar-se para fora tudo que antes estava dirigido para dentro. Assim, o período de exteriorização se completa com o oposto de interiorização. Em relação ao mundo físico, é ativa e positiva a fase vida, enquanto é passiva e negativa a fase morte. Em relação ao mundo espiritual, é ativa e positiva a fase morte, enquanto é passiva e negativa a fase vida. Um desencarnado é um adormecido em relação aos vivos e, pelo seu nascimento físico, acordará em nosso mundo da matéria. Um encarnado é um adormecido em relação aos mortos e, pela sua morte, acordará no mundo espiritual. Com esta inversão de posições, é possível para o ser um trabalho contínuo, alternando o período ativo entre cada um dos dois lados, ao mesmo tempo em que descansa do outro. Uma concepção completa da vida somente pode ser obtida se juntarmos ambas as fases opostas. Ela constitui um contínuo adormecer de um lado e acordar do outro, alternadamente, sempre trabalhando no lado acordado, enquanto repousa no lado adormecido. Eis, então, que a vida do além-túmulo significa um despertar da consciência na profundeza do inconsciente, enquanto esta permanece limitada à sua superfície no período de vida na matéria. E toda a história do indivíduo está escrita justamente naquela profundeza, onde fica escondida a parte mais importante e secreta da sua personalidade, aquela que é tarefa da psicanálise descobrir. Em substância, trata-se de dois aspectos ou momentos do mesmo fenômeno, no qual a mesma consciência vai oscilando de um polo ao outro do eu, percorrendo-o completamente, por meio de duas diferentes formas de atividade e aprendizagem, nas quais ele fica sempre desperto para trabalhar na sua construção, ora no período de encarnado, ora no período de desencarnado. Ambas as formas de atividade são necessárias, assim como o são as funções de comer e digerir. A primeira representa a fase da conquista para se apoderar do material, a segunda constitui a fase de sua absorção, ambas com o mesmo objetivo, que é sempre o enriquecimento do eu. Portanto permanece vivo tudo o que pertenceu à vida e morreu. Assim a morte é relativa e aparente, sendo apenas um parêntese de repouso com respeito à parte oposta, que está ativa no período da vida. Então a verdadeira vida, que é a do espírito na forma de desencarnado, fica interrompida pela sua forma oposta no período de existência na matéria, consequência da queda no AS, repetida por este período, do qual, porém, com a evolução, que significa regresso ao S, o ser vai cada dia mais se libertando. Podemos agora compreender quão incompleta é uma psicanálise que fica limitada à observação apenas do período físico desse duplo processo da vida, tornando-se assim incapaz para julgar qualquer assunto pertencente à personalidade humana. O que mais interessa para desvendar os mistérios da personalidade humana é penetrar o conteúdo e o sentido dessa outra vida interior, que, na fase atual de vida física, está adormecida no inconsciente. Que acontece nesta estranha forma de existência que vivemos depois de ter pertencido ao mundo físico e antes de voltar a ele? Podemos agora ver como se realiza o processo do crescimento do eu em evolução. As experiências da vida descem ao subconsciente, estratificando-se nele por camadas sucessivas e ficando aí gravadas e armazenadas. O período de desencarnado não é para captar novas experiências no mundo exterior, mas sim para trabalhar no mundo interior, a fim de elaborar tudo que foi adquirido, meditando sobre as experiências vividas. Este é o material a analisar, compreender e ordenar, num profundo exame de consciência, a fim de entender o que foi feito e o que é necessário ainda fazer, para, assim orientado, tomar decisões e diretrizes que permitam continuar o caminho da evolução na nova vida que seguirá. Isto pode significar a tomada de resoluções tremendas, às quais, depois, o ser poderá ficar fatalmente acorrentado. No estudo da personalidade humana, é necessário levar em conta também tais autossugestões por nós mesmos impressas no subconscien-

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te no período pré-natal, porque depois, no período da vida física, elas podem ressurgir do subconsciente na forma de impulsos instintivos e ideias inatas, enxertando-se irresistíveis na parte determinística de nosso destino. Nas jazidas do subconsciente fica depositado tudo o que nele colocamos. De lá, tudo está pronto para ressuscitar no consciente da vida atual. Em substância, trata-se de uma restituição pela qual o subconsciente devolve ao consciente o material que este conquistou e lhe transmitiu durante a vida, o qual, porém, retorna a ele agora elaborado e assimilado em forma de impulsos e qualidades pessoais. Isto prova quanto as duas formas de vida estejam fundidas na mesma unidade, da qual não representam senão dois aspectos ou momentos. Há entre elas, tal como entre dois vasos comunicantes, uma contínua troca do material construtivo da personalidade, que pode assim, passando de uma para outra forma, ser sucessivamente adquirido, ingerido, elaborado e assimilado, atravessando todas as fases do processo construtivo do eu, até ficar por fim definitivamente assimilado. Temos de levar em conta também outro fato. Nestes dois tipos de vida – apesar de interrompidos a cada passo, para cada um se mudar na sua forma contrária – há uma continuidade, pelo fato de cada um, depois dessa interrupção no período oposto, voltar à sua forma de vida precedente. Vemos, então, que se trata, em substância, de duas imensas vidas – uma em cada polo do ser, o positivo e o negativo – que abrangem todo o caminho evolutivo, como vidas maiores, nas quais os pequenos trechos de cada vida particular se juntam numa série, constituindo assim uma vida completa de cada um dos dois tipos. Temos então, de um lado, uma imensa vida de tipo físico e, de outro, uma imensa vida de tipo espiritual. Que acontece com a evolução? A vida de tipo negativo ou físico corresponde ao AS, e a vida de tipo positivo ou espiritual corresponde ao S. A tarefa da evolução é transformar o primeiro tipo de existência no segundo. Trata-se de um processo evolutivo, cuja finalidade é endireitar o inverso processo involutivo, que emborcou o tipo de existência do S no oposto tipo de existência do AS. Com a evolução, vai gradativamente diminuindo a forma de existência de tipo físico (AS=Matéria) e aumentando a forma de existência de tipo espiritual (S=Espírito). Em substância, existe uma só vida, que vai perdendo suas características negativas e adquirindo as positivas. Trata-se de um processo de transformação das qualidades do AS nas do S, até que estas prevaleçam e cubram todo o terreno da vida, tornando-a completamente positiva, porque todo o negativismo do AS foi reabsorvido e neutralizado pelo processo evolutivo, cujo objetivo é assim atingido. Trata-se de duas imensas vidas, que constituem os dois aspectos de todo o existir: o negativo, do AS, cuja potência é máxima no início do processo evolutivo, mas vai diminuindo com este, até desaparecer; e o positivo, do S, cuja potência, devido ao precedente período involutivo, foi reduzida ao mínimo no início do processo evolutivo, mas vai aumentando com este, até atingir o domínio absoluto e, assim, eliminar o outro. Como podemos concluir, trata-se de uma existência única, que se realiza em duas formas opostas, oscilando entre o seu lado negativo e o seu lado positivo, mas que vai, devido ao impulso da evolução, cada vez mais se deslocando para o lado positivo, até haver transformado completamente o tipo de existência todo negativo no tipo de existência todo positivo, reintegrando o AS no S. É lógico que a vida não possa existir senão em função do maior fenômeno do universo: a transformação do AS em S. A esta altura, visando esclarecer algumas dúvidas que podem surgir, é necessário focalizar determinados pontos há pouco mencionados, os quais podemos agora compreender melhor e podem interessar à psicanálise. Os fenômenos da personalidade humana diferem conforme a sua natureza, que depende da posição atingida pelo ser ao longo do caminho da evolu-

ção. A capacidade de entender e dirigir-se livremente é proporcional ao grau de desenvolvimento do ser. Somente o evoluído sabe viver em estado de lucidez no período de desencarnado. Nesta fase, o involuído, que a ignorava em vida, permanece ignorante. Então, sendo limitada a sua compreensão das experiências vividas, ele não sabe ir além de reações automáticas, retraindo-se para trás, mudando de caminho e dirigindo-se para pontos diferentes daqueles em que acabou chocando-se com a dor. Assim, as resoluções de que há pouco falávamos, para o indivíduo orientar sua vida futura, diferem para cada um, sendo elas tanto mais inteligentes, livres e poderosas quanto mais o ser é evoluído. Com a evolução, a reserva de sabedoria armazenada no inconsciente torna-se sempre maior, podendo, no caso de um evoluído, ser imensa, apesar de não emergir na consciência normal no período de vida material. Do nível evolutivo do ser depende a intensidade de sua vida de desencarnado, como clareza de compreensão, profundidade de penetração, autonomia de juízo, poder de decisão, organicidade de movimentos e liberdade de orientação. No período de desencarnado, o ser vive tanto mais acordado quanto mais ele é evoluído. Com a evolução, cuja função é destruir o AS, o sono da morte, que é produto dele, torna-se cada vez menos profundo, constituindo, no caso do evoluído, um estado bem desperto. Com a descida involutiva, potencializa-se a vida na matéria e se enfraquece e adormece a vida no espírito, enquanto, com a subida evolutiva, potencializa-se a vida no espírito e se enfraquece a vida na matéria. Através da evolução aumenta a parte do eu constituída pelo inconsciente, que é considerado como tal somente em relação à vida na matéria, mas não em relação à vida no espírito, na qual constitui o consciente. Isto significa que, com a evolução, aumenta o patrimônio espiritual, por reabsorção do AS na reconstrução do S. Trata-se de uma conquista do existir em sentido positivo, isto é, da vida no espírito ou S, por eliminação do seu emborcamento ao negativo, isto é, da morte na matéria ou AS. Esta é a função da evolução: conquistar a vida através da destruição da morte, acordando-nos no espírito e libertando-nos da inconsciência, fruto da involução. O patrimônio com o qual o indivíduo nasce é o mesmo que ele possuía no período de desencarnado. Então a vida do indivíduo nos pode revelar o trabalho feito por ele naquele período, não só na elaboração, entendimento e assimilação das experiências vividas, mas também em relação ao que ele resolveu fazer na vida atual, como consequência de seu passado. É claro que, por permanecer consciente, um evoluído pode pensar e resolver muita coisa, dirigindo inteligentemente sua evolução, com uma sábia e esclarecida escolha das condições de sua nova vida. Um involuído nada sabe fazer de tudo isto. Então, no seu sono, não há para ele outra possibilidade senão ser arrastado como um destroço pelas correntes da vida, obedecendo cegamente à vontade da Lei. Eis que o conteúdo e o trabalho da vida de desencarnado não são iguais para todos. Quanto mais o ser evolui, tanto mais, pelo maior conhecimento, ele se torna consciente das diretrizes da Lei e de suas decisões em função dela. A evolução é conquista de consciência, de autonomia e de liberdade, porque vai do AS ao S. A vida se torna, assim, sempre menos trabalho passivo e cega tentativa, e sempre mais trabalho orgânico de construção do eu. O evoluído vive com sabedoria, e isto representa uma imensa vantagem, porque o conhecimento evita o erro, que é a origem da dor. O involuído vive na ignorância, o que significa errar a cada passo e ter de pagar o erro com a dor. Este ainda tem de errar e sofrer muito, até conquistar a sabedoria dos mais adiantados, que eles já conquistaram e que é agora inalienável patrimônio deles. Cada um vive com o que possui, sendo este o seu patrimônio, que varia de um indivíduo para outro, conforme o trabalho realizado por ele no passado. O primitivo conhece só alguns jogos de astúcia para enganar o próximo nesta vida, e

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nisto está toda a sua sabedoria, que ele usa como lícito meio de defesa, pois, como os animais, não possui coisa melhor. O evoluído, para cada ato seu, exige conhecer as razões profundas que o justifiquem e o tornem útil para ele, em função das supremas finalidades da existência. De tudo isto, quando se compara o caso de um involuído com o de um evoluído, pode-se depreender quão desiguais sejam no período de desencarnado os trabalhos de preparação para uma nova vida, quão diversas são as premissas com que tal nova vida aparece em nosso mundo, quão diferente, como qualidade e quantidade, pode ser a bagagem que cada indivíduo leva consigo, escondida no seu subconsciente. Eis o imenso terreno que é tarefa da psicanálise descobrir e entender, penetrando-o com as suas pesquisas; eis como lhe será possível tratar inteligentemente das doenças psíquicas e espirituais de sua competência. IX. TÉCNICAS DE TRATAMENTO Agora, após havermos tratado bastante da penetração introspectiva nas camadas profundas da personalidade, para conhecer o produto do seu trabalho no período pré-natal, e termos identificado outros elementos de pesquisa no terreno mental, para proceder a uma psicodiagnose mais completa, podemos voltar com maior conhecimento ao problema central da psicanálise, que é a cura das neuroses e complexos, a fim de poder finalmente explicar o método de tratamento por sublimação, como prometemos. A psicanálise freudiana admite que os complexos sejam devidos aos choques advindos da luta entre subconsciente e consciente, isto é, entre os desejos incondicionais do primeiro para satisfazer os seus impulsos instintivos e as negações impostas a tudo pelo segundo, por princípios éticos e racionais, que, ao invés de espontânea satisfação, exigem disciplina, sacrifício e dever. Conforme as teorias de Freud, um complexo é o produto de um desejo subconsciente reprimido. Trata-se de uma automática continuação do passado, manifestada através de uma inconsciente e irracional vontade que, batendo à porta do consciente, para pedir o apoio de sua anuência, é negada por ele, porque isto não concorda com os princípios que o dirigem. Esse contraste pode provir do encontro entre os produtos de um passado que, por ainda não ter morrido, ressurge das camadas inferiores do ser e o impulso da evolução, que impele para frente, fazendo pressão para se realizarem as novas construções do futuro. As velhas experiências ainda estão vivas, agitando-se no fundo, e de lá voltam, enquanto novas experiências estão se sobrepondo e querem substituir-se a elas. É assim que se pode verificar, dentro da mesma personalidade, o choque entre dois impulsos antagônicos, um devido à inércia do misoneísmo conservador e o outro devido ao dinamismo ascensional do transformismo evolutivo, que exige renovação e superação. Quando não é possível um acordo entre subconsciente e consciente, eles entram em luta. Então ocorre o choque, desencadeando-se a neurose. Isto pode acontecer sobretudo com os imaturos, quando o indivíduo, tentando sufocar demasiadamente, à força, instintos que querem explodir, quer reprimir a vontade do inconsciente de se realizar, ou quando o próprio ambiente torna essa realização impossível. Então o impulso comprimido acaba produzindo formas mentais torcidas e, com esse esmagamento, a própria personalidade fica magoada e ferida. Nesse ponto surge, como já mencionamos, um trauma psíquico, que é uma doença particular do organismo mental. Ora, muitas vezes, não se pode encontrar a primeira origem de tais contrastes e choques na vida atual, mas só no período pré-natal. Os complexos que derivam deles são os mais profundos e radicados, constituindo os mais difíceis de se corrigir, porque, sendo mais velhos e confirmados pelo tempo, estão, por isso mesmo, bem impressos e fixados na personalidade.

Abordaremos agora a questão que mais interessa à maioria, entrando no terreno prático do tratamento dos complexos. A primeira coisa a fazer é chegar a conhecer qual foi a origem deles, tarefa que se torna possível agora, porque possuímos os princípios para nos dirigir nesta pesquisa. É necessário descobrir qual foi o ponto da personalidade onde se verificou o choque e se iniciou o desvio, isto é, o caminho torcido ou o desabafo do impulso comprimido. Trata-se não somente de parar a repressão em sentido antivital dos impulsos que as leis da vida não querem que sejam reprimidos, mas também de ajudar o desenvolvimento deles, agora endireitados na posição correta, melhor orientados, canalizando com inteligência, em sentido vital, todas as manifestações dos sadios e necessários impulsos da existência. Eis, então, que o trabalho do psicanalista se desenvolve em dois momentos: 1o) A pesquisa sobre a origem e o decurso da doença, para estabelecer um diagnóstico do mal; 2o) O tratamento, para eliminar o contraste e o atrito, causadores da doença, estabelecendo a harmonia e suprimindo a luta interior entre os impulsos opostos, geradores do choque, cicatrizando a ferida, orientando e deixando agora se aliviar pelo caminho certo tudo que não se pôde desabafar senão pela via errada, dando vazão aos impulsos da vida, ao invés de suprimi-los, corrigindo tudo o que estava torcido, substituindo a satisfação oblíqua e doente pela reta e sadia. É preciso procurar educar de novo o indivíduo, até chegar a imprimir na sua personalidade novos hábitos, que serão amanhã suas qualidades e impulsos instintivos, alcançando com isto a libertação do mal e a cura da doença. Para chegar a tais resultados, o psicanalista possui cinco meios: 1) Análise, como já explicamos, da estrutura da personalidade e do destino do paciente, observando os seus impulsos instintivos, para reconstruir através do exame deles o trabalho que os gerou e fixou no passado do indivíduo. 2) Análise de todo produto espontâneo do subconsciente, manifestação que pode aparecer melhor quando o controle do consciente é afastado, colocando-se o paciente em estado de distensão nervosa, para o psicanalista poder escutar e analisar as suas confissões, que constituem desabafo espontâneo de seu subconsciente. 3) Análise dos seus sonhos, outro meio para penetrar no íntimo do paciente, através do qual se atinge o objetivo do psicanalista, que é abrir e ler o livro do subconsciente, onde tudo está escrito (deixaremos de lado, como fez Freud, o método da hipnose, que nos levaria longe demais). 4) Tratamento por substituição do velho pelo novo, enxertando-o no contínuo transformismo da evolução. 5) Tratamento por sublimação, processando essa substituição em sentido evolutivo, orientada para um tipo de vida biologicamente mais adiantado. Observemos melhor estes pontos. 1)Do primeiro já falamos bastante. Trata-se de observar como funciona a vida do indivíduo, por que motivações ela é dirigida, a que estímulos ele responde e como reage aos mesmos, quais são as suas ideias inatas, a que impulsos espontâneos ele obedece. É possível assim reconstruir a história do paciente, estabelecendo o tipo e a linha de desenvolvimento do seu destino, como já explicamos. A história menor dos seus complexos está contida nessa sua história maior, que constitui a base do exame da origem, natureza e desenvolvimento das doenças. Trata-se de um método de pesquisa racional, baseado na lógica e na observação, de caráter positivo, importante também pelo fato de permitir que uma pessoa inteligente possa ser o observador de si mesma, tornando-se o psicanalista do seu próprio caso. Então, o paciente pode, ele próprio, realizar em si tais pesquisas. Chega-se assim à autopsicanálise, tornando-se possível atingir resultados introspectivos mais completos, pois a observação pode ser mais bem percebida e conduzida, porquanto o observador é também o paciente, o que lhe permite descer na profundeza do fenômeno, constituído por ele mesmo. Afinal de contas, a psicanálise faz parte do problema fundamental do: “Conhece-te a ti mesmo”.

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2) A confissão feita ao psicanalista ou, no caso da autopsicanálise, feita a si mesmo, com um sincero exame de consciência, é o meio para descobrir o conteúdo do subconsciente e conhecer, assim, aquela parte do nosso eu desconhecida, que pensa e funciona fora de nossa consciência atual, como automática consequência dos impulsos por nós lançados nas vidas passadas. A condição fundamental é a espontaneidade e a sinceridade, para que a confissão revele qual o verdadeiro conteúdo do subconsciente. É necessário, por isso, analisar tudo com uma visão imparcial e sem preconceitos, afastando todas as resistências das barreiras inibitórias oferecidas pelo controle e pela autocrítica, atrás das quais o indivíduo procura esconder-se e disfarçar-se, constrangido a isso para defender, na luta pela vida, a parte mais íntima e preciosa de sua personalidade, onde estão contidas todas suas qualidades. Assim, para que o paciente possa abrir completamente a sua alma, é necessário ele ter absoluta confiança no seu psicanalista, o qual, por sua vez, tem de merecê-la e saber aproveitá-la, para proceder a uma profunda pesquisa com perguntas inteligentes e uma sábia interpretação das respostas. A confissão pode ter também outra função, representando não somente uma forma de pesquisa, mas também um meio útil para aliviar e, assim, eliminar a carga interior, deixando o paciente desabafar com o seu psicanalista, que deve ser seu amigo e confidente. A confissão se torna, assim, um alívio, constituindo o primeiro passo para se chegar ao tratamento. O paciente se fortalece com a convicção de ter um apoio que lhe permite entregar os seus sofrimentos nos braços de um amigo. Então o psicanalista pode iniciar o seu trabalho, antes de tudo acalmando as águas, colocando o paciente em estado de tranquilidade, que neutraliza a tempestade e permite iniciar o caminho oposto, de correção e endireitamento. Portanto o primeiro passo é enfraquecer o inimigo do tratamento, diminuindo a resistência do indivíduo, que deseja manter-se nas velhas posições e seguir os velhos caminhos. A confissão é, assim, um método que muitos procuram instintivamente realizar, apoiando-se em uma pessoa amiga. Trata-se do mesmo método praticado pelo catolicismo, que presume, porém, um confessor inteligente, habilitado na difícil arte de dirigir consciências, aptidão rara de se encontrar, porque depende de qualidades pessoais que nem todos possuem. Assim, na prática, a confissão se reduz à aplicação mecânica de regras estabelecidas, dadas por uma lista de pecados e pelas correlativas penitências, com tudo estandardizado no baixo nível da consciência média da maioria, para facilitar a prática, reduzindo tudo a formas administrativas burocráticas e exteriores. Seguindo estas normas, o confessor assume a posição de juiz imparcial, mas fica ausente do mundo interior do penitente, com a vantagem de não se meter em problemas psicológicos difíceis de resolver e de não se comprometer, pois deixa de assumir responsabilidades, nada dando de si mesmo e, com frias pregações regulamentares, pouco realizando de espiritual. Pelo contrário, o psicanalista deve possuir qualidades pessoais de intuição, para saber adaptar a pesquisa e o tratamento ao caso particular. É necessário muita compreensão e compaixão, penetração e bondade, porque se trata de penetrar no mais íntimo segredo da alma, de manobrar as forças espirituais que determinam o destino do indivíduo, a sua felicidade ou o seu sofrimento, a sua conduta e o seu futuro. Trabalho difícil e de grande responsabilidade. Mais do que no cérebro, trata-se de uma intervenção na própria alma, tarefa difícil, porque pode salvar, mas também pode matar. É preciso desvendar mistérios ao próprio paciente, penetrando com o desapiedado bisturi da pesquisa o terreno mais cioso das culpas secretas, que o ser não revela nem mesmo a si próprio. Trata-se de fazer, por meio da confissão, juntamente com o paciente, um exame de consciência que revele, antes de tudo a ele, quais foram no passado os

seus pecados, ou seja, os erros que constituíram o ponto fraco no qual teve origem a doença, da natureza dos quais depende o trabalho atual de endireitamento, para realizar a cura. 3)A análise dos sonhos do paciente representa outra forma de pesquisa para penetrar no subconsciente e descobrir o seu conteúdo. É durante o sono que ele se mostra como é, quando, pela falta de controle do consciente, fica abandonado aos seus impulsos espontâneos. Então, o psicanalista aproveita esse fato para observar os sonhos e, interpretando os desabafos emersos do mundo interior do paciente, chegar à reconstrução de sua história passada, na qual está contida a história da doença. Pode-se descobrir, desta forma, quais foram as exigências não satisfeitas ou mal satisfeitas e os choques recebidos, assim como as consequentes feridas, traumas e chagas que ocorreram na personalidade; qual foi o erro inicial que deu origem aos desvios e depois à doença e aos correlativos sofrimentos; como e onde nasceu o primeiro germe que se aninhou na personalidade, com todas as suas consequências. Estamos ainda na fase da pesquisa e análise do caso, para chegar à sua diagnose, da qual depois derivará o tratamento. Temos de seguir esse caminho, porque se trata de desatar o nó que foi feito no passado. A psicanálise estuda os sonhos porque eles contêm a realização imaginária dos impulsos que, por não terem podido realizar-se nos fatos, aparecem então nos sonhos, revelando-se tanto mais quanto mais tenham sido comprimidos. Os sonhos representam um trasbordamento do subconsciente para além dos limites impostos pelo consciente, quando este, na sua passividade, adormece e deixa a personalidade sem o seu controle, livre para se manifestar à vontade. É assim que, nos sonhos, o subconsciente nos devolve as impressões recebidas, revelando-nos os seus segredos e contando-nos a sua verdadeira história, o que lhe é proibido de dia pela consciência desperta, que sabe quão perigosa fraqueza é, na luta pela vida, cada sinceridade. De dia, a personalidade tem de estar desconfiando de todos e fica calada, cercando-se de prudência. Mas os impulsos que, de dia, não foi possível realizar, são satisfeitos durante o sono, realizandose na forma de imagens e miragens, através de uma criação psicológica interior, que representa o substituto da impossibilitada realização concreta dos desejos. ◘◘◘ Com estes três pontos, esgotamos o primeiro período, que é constituído pela pesquisa e análise do caso, do qual agora conhecemos a origem e a história. É possível, então, concluir esta primeira fase com o diagnóstico, que será a base para enfrentar a última fase de nosso trabalho: o tratamento. Mas, antes de estudar este outro aspecto do problema, completemos o assunto com mais algumas observações. O psicanalista deve chegar a conhecer a personalidade do paciente, tarefa que ele pode realizar observando todas as suas manifestações, por meio de exames psicológicos, grafológicos, testes de inteligência etc. O psicanalista deve possuir qualidades pessoais de intuição para penetrar na alma do paciente, orientando-se nas suas pesquisas com estas teorias gerais, aplicando-as e adaptando-as ao caso específico e particular do indivíduo, com a sagacidade que o caso exige. Chegar a ler no subconsciente não é fácil, pois ele se encontra bem fechado, sendo protegido e defendido pelo próprio paciente, porque lá está contido o segredo de sua verdadeira personalidade, principalmente nos seus pontos fracos, cuja revelação é perigosa na luta pela vida, pois se trata de uma debilidade que é necessário esconder para se defender de todos os inimigos, sempre prontos para agredir e destruir. É preciso individuar em qual profundidade do eu se verificou o trauma psíquico, determinando até que camada da personalidade do paciente é necessário descer na longa história do seu passado, para encontrar a primeira origem da doença mental atual, que surgiu assim. Temos, então, de ir à procura do

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ponto onde ela nasceu, buscando descobrir onde ele está situado ao longo da história da vida do paciente, se no passado mais próximo ou mais longínquo, e localizar sua correspondente profundidade na personalidade, na série das estratificações sucessivas de suas experiências. Tal ponto de origem dos choques pode encontrar-se situado tanto na superfície, ou seja, na história recente, vivida há poucos anos na vida atual, como na profundidade, ou seja, na história mais antiga, vivida há muito tempo nas vidas precedentes. Ora, as doenças não podem ser tratadas senão voltando ao seu ponto de origem. E, quando este é longínquo, torna-se necessário, onde quer que ele esteja, alcançá-lo, porque, de outro modo, não é possível realizar o tratamento por correção do caminho percorrido. Pode-se verificar o caso em que o choque parece ser recente, quando em substância ele não o é. Também nas doenças nervosas, assim como nas físicas, o fato de contraí-las ou não depende da predisposição do indivíduo, que é estabelecida pelos pontos onde ele já tenha recebido antes outro choque e sofrido, assim, a respectiva ferida ou trauma psíquico. Esta, então, é a razão pela qual o paciente ficou marcado pelo novo complexo ou neurose, que encontrou o terreno já preparado e adaptado para isso pelos choques precedentes, cuja atuação gera a predisposição e a vulnerabilidade à correlativa doença mental. É assim que, por não se terem tornado predispostos, há indivíduos mais resistentes e, deste modo, menos sujeitos a adoecer. Por isso é necessário conhecer toda a história do indivíduo, pois a primeira origem das neuroses e complexos, à qual é necessário voltar para corrigi-los, nem sempre está no ponto próximo recente como parece, mas muito mais longe, no passado. Temos, assim, de levar em conta no tratamento o fato de que, às vezes, lutamos contra doenças que se desenvolveram e cada vez mais se fixaram na personalidade, sobrepondose e somando-se ao longo do passado. Vimos aqui só alguns aspectos do difícil caminho que o psicanalista tem de percorrer na floresta de problemas que podem surgir no tratamento de cada caso particular. Para descobrir o verdadeiro temperamento, as qualidades e as reações do paciente, o psicanalista deveria, pelo menos por um período de tempo, conviver com o doente. Não é por meio de uma pesquisa rápida e superficial, realizada numa consulta, que é possível penetrar na personalidade, entender e resolver um caso. Mas, em geral, o médico está assoberbado de consultas em série, adaptadas aos tipos dominantes, orientadas pela preocupação do ganho material e, por isso, pela necessidade de satisfazer o cliente, adaptando-se à sua forma mental. Tudo na vida funciona num regime de luta, que domina tudo, enquanto o trabalho do psicanalista deveria ser independente de preocupações econômicas, praticado como missão e sacerdócio, com espírito de compreensão e amor. O nosso mundo está cheio de sofredores, que pedem e precisam de ajuda. E são os próprios métodos de vida de tal mundo que, por sua natureza feroz, geram tais doenças e tornam difícil o seu tratamento. Em última análise, elas são o resultado de um imenso erro coletivo, devido a uma forma mental e regime de vida desviados, abrangendo não só médicos e doentes, mas toda a sociedade. O próprio psicanalista precisa de um ponto de referência, em função do qual possa realizar o seu trabalho. Por isso ele deve estabelecer como modelo a propor ao doente um tipo biológico a ser imitado. Ora, este não poderia ser um superhomem evoluído, porque, devido à falta de amadurecimento, apenas poucos podem entender tal tipo, sendo mais raro ainda quem possa imitá-lo. É necessário que a distância entre o doente a educar e o seu modelo não seja grande demais, se quisermos que um homem comum consiga superá-la. Então o modelo, ou ponto de referência, deve ser o biótipo médio comum, que não seja demasiadamente evoluído e que, apesar de pouco valor biológico, possua, em compensação, uma

forma mental compreensível e acessível para a maioria. Quem não é feito assim, está errado. Em nosso mundo é necessário antes de tudo ser normal, pertencer ao nível comum, pois o indivíduo excepcional acaba sendo considerado anormal e, por isso, é condenado e expulso. 4) Neste ponto, como há pouco mencionávamos, o psicanalista, uma vez concluída a sua pesquisa para determinar o diagnóstico, pode enfrentar a segunda e última parte, constituída pelo tratamento. Falamos de tratamento por substituição, mas como ele pode ser realizado? Ele se baseia no fato de que a vida é um fenômeno em evolução, razão pela qual está sujeita a um contínuo transformismo. Isto se verifica ao longo de um caminho feito por uma concatenação causa-efeito, pela qual cada efeito é por sua vez a causa de outro efeito, e assim por diante. Isto significa não somente que o presente é consequência fatal do passado e o futuro consequência fatal do presente e do passado, mas também que é possível enxertar na sucessão desses movimentos de forças encadeadas outras diferentes, através das quais é possível corrigir a trajetória daquele caminho. Existe assim a possibilidade de se endireitar o que foi lançado em sentido errado. Este método se baseia no fato de ser possível, pelo seu livre arbítrio, o indivíduo gerar novos impulsos, que funcionam como novas causas e, substituindo-se às velhas, podem gerar novos efeitos para neutralizar os precedentes, consequência das velhas causas. É esta atmosfera de movimento, devida ao transformismo evolutivo, que, deixando atravessar novas experiências, permite essa contínua renovação do ser e, com isso, a correção do passado. A tarefa do psicanalista é estimular e dirigir o lançamento de novos impulsos corretivos da parte do paciente, porque nisto consiste o tratamento. Este é constituído pela neutralização dos movimentos errados iniciados no passado, dos quais deriva a doença. Trata-se de substituir a vida anterior por uma nova, diferente, educando o indivíduo, a fim de que ele, com uma nova experimentação, possa assimilar e armazenar no subconsciente qualidades melhores. Aí está o remédio e a cura. Por isso antepusemos a estas observações um estudo sobre o processo da construção da personalidade. Ao longo do caminho evolutivo, o tempo mede fatalmente o incessante transformismo, sobrepondo na estrutura da personalidade uma camada sobre a outra e levantando assim o edifício do eu. O ser vai assim escrevendo uma longa história, que fica nele escrita indelevelmente. Este é o livro que o psicanalista deve ler, para nele introduzir algumas páginas inéditas, construídas pela psicanálise com a sublimação. Ele deve se tornar o engenheiro da grande obra da construção da personalidade, realizando o levantamento do edifício do eu. Se a função da psicanálise fosse apenas tirar doenças e dores, ela poderia realizá-la através da supressão da luta entre consciente e subconsciente – atrito no qual está a causa dos complexos – deixando o subconsciente animal desabafar à vontade. Mas, assim, a psicanálise se tornaria uma escola de involução, traindo a sua maior finalidade, que é ser um meio de evolução. Tudo isto contém e nos indica, implicitamente, o sentido para o qual se deve dirigir a obra do psicanalista. Então o melhor tratamento é aquele que, atuando para realizar uma transformação em sentido evolutivo, leva o paciente para o alto e, assim, além de cumprir o objetivo de corrigir o passado, também conduz ao progresso espiritual, o que significa atingir um mais adiantado plano biológico e, portanto, melhores condições de existência. A função fundamental da psicanálise pode ser, então, não somente corrigir defeitos e curar doenças, mas também ajudar o ser a evoluir, impulsionando-o a seguir o caminho que vai do AS ao S, para conduzi-lo assim a formas de vida mais avançadas e, por isso, mais felizes. ◘◘◘

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5) Eis como surge na psicanálise a ideia de sublimação como método de tratamento. A ela já nos referimos, e agora chegou o momento de desenvolver este assunto, como prometemos no início deste capítulo. A força na qual o psicanalista tem de se apoiar é o sadio impulso vital que anseia pelo crescimento, buscando o progresso, o aperfeiçoamento, a subida para a felicidade. Mas há seres muito atrasados, surdos a tudo isto, que, mergulhados na sua ferocidade e ignorância, não sabem conceber formas de vida superiores, nada mais possuindo no subconsciente senão o resultado de experiências de tipo animal. A sua ética, proporcionada ao seu nível, é primitiva, inadequada para viver na sociedade civilizada, enquanto seria ótima entre as feras da selva. Tais seres constituem os delinquentes. O mundo pensa sobretudo em se defender deles e, por isso, afasta-os e isola-os nas cadeias, punindo nos involuídos a culpa de serem movidos por uma ética de violência, que foi no passado o ideal do homem sadio e que agora, pelo progresso, tornou-se crime. O resultado é a repressão violenta, que gera reações, piorando a situação, porque confirma o criminoso na sua revolta e na convicção da sua justiça. Pelo contrário, a função da sociedade deveria ser educar o indivíduo e melhorar as condições de vida onde nasce o crime, seguindo, tanto quanto possível, a técnica da superação, para elevar em direção ao que é melhor, em vez do método do esmagamento, que confirma o direito à revolta, empurrando o ser para baixo, em direção ao que é pior. O método de tratamento por sublimação pode ser aplicado com tanto maior amplitude quanto mais o paciente é evoluído. O tratamento deve ser proporcionado às capacidades de compreensão e reação do indivíduo. Cabe, assim, ao psicanalista entender e julgar de acordo. É possível ocorrer o caso no qual o doente seja mais evoluído e inteligente do que seu médico. Então, pode acontecer que o paciente faça a psicanálise do psicanalista. Mas o próprio fato de que o primeiro vai no consultório do médico, já estabelece as posições recíprocas, pelo que, a princípio, um se coloca em posição de inferioridade, para ser julgado, e o outro em posição de superioridade, para julgar. Tudo se baseia na interpretação do psicanalista, cuja percepção e entendimento ocorrem segundo a sua forma mental, que é a premissa axiomática de todo julgamento. Então a psicologia do psicanalista faz parte do fenômeno e da observação do fenômeno psicológico do doente. Carl Gustav Jung, nos seus contatos com Sigmund Freud, fez a psicanálise deste, chegando à conclusão de que o complexo de Édipo, tomado por Freud como base de suas teorias, era o complexo do próprio Freud. Conforme o julgamento de Jung, a psicologia freudiana teria sido uma psicologia neurótica. O psicanalista pôde, assim, praticar uma psicanálise imaginosa e destrutiva, baseada no seu próprio temperamento. Por isso, temos aqui sustentado que ela deve se basear num sistema filosófico positivo e completo, através do qual ela possa orientar-se e, assim, realizar-se em relação a um dado modelo biológico, em função das leis da vida, sobretudo da mais fundamental, que é a evolução. O problema do tratamento dos complexos e neuroses não é fácil, requerendo na prática sagacidade e adaptações ao caso particular. Mas, em linhas gerais, esse trabalho pode ser dividido em duas partes fundamentais: 1) A parte negativa, cujo objetivo é a destruição do velho, que estava errado, extraindo assim a causa da doença, tal como se arranca o dente estragado que dói. 2) A parte positiva, cujo objetivo é a substituição do velho pelo novo, enchendo com um conteúdo novo e correto o vazio produzido pela destruição precedente. É um erro perigoso, no qual caíram as religiões em sua perseguição à natureza humana inferior, destruir a vida embaixo, esmagandoa, sem substituí-la por formas de existência mais adiantadas. Qualquer destruição é elemento negativo, antivital, que só pode ser tolerado como condição de progresso. Não basta arran-

car o dente estragado que dói, é preciso substituí-lo por outro, com o qual o indivíduo possa comer. O método de tratamento por sublimação representa a parte positiva do trabalho do psicanalista, realizada na segunda fase. Esta, no entanto, deve ser precedida pela primeira fase, a parte negativa, que exige muito cuidado. Pode acontecer que, a fim de resolver mais rapidamente o caso, o psicanalista seja levado a bombardear os complexos, para eliminá-los. Ora, esta luta para destruir o velho, substituindo-o pelo novo, tem de ser praticada sem que o paciente se aperceba, para não excitar com isso as suas resistências inibitórias, prontas a paralisar o tratamento. É necessária a aceitação, a boa vontade e a obediência do doente. Ora, pelo fato de sua personalidade estar formada com os seus complexos, qualquer tentativa para destruí-los pode ser percebida e entendida por ele como uma tentativa de destruição da sua própria personalidade, que, apesar de doente, constitui o seu eu, defendido ao máximo por ele, como exige o seu instinto de sobrevivência, segundo as leis da vida. Então, se o psicanalista não souber dissimular o tratamento, ocultando o verdadeiro conteúdo do seu trabalho, ele poderá encontrar no doente uma reação inconsciente, que, agindo com uma vontade oposta, buscará neutralizar o seu trabalho de salvação. É necessário, portanto, oferecer ao doente um tratamento fictício, contra o qual ele possa dirigir a sua luta de resistência, para que assim, sem perceber, ele se deixe guiar pelo tratamento verdadeiro, ao qual não presta atenção. Trata-se de colocar o sujeito vivendo num ambiente oposto ao precedente, a fim de que os complexos não encontrem mais alimento para sustentar-se e os velhos hábitos tenham, assim, de morrer por desuso e atrofia. Chega-se deste modo à segunda parte do trabalho do psicanalista. A primeira parte representa a forma mais elementar de tratamento, adaptada aos menos evoluídos. A segunda dirigese aos mais maduros, que, por isso, podem tentar escalar um novo degrau da evolução, resolvendo o seu caso pelo caminho da superação, canalizando as suas energias do nível animalhumano para formas superiores. Como não existem apenas duas classes separadas entre amadurecidos e imaturos, mas sim uma série de formas intermediárias ao longo destes dois extremos, o psicanalista terá de praticar nos seus pacientes injeções de superação proporcionadas à sua capacidade de absorção e assimilação, se ele não quiser fazer um trabalho inútil ou, o que é pior, provocar uma reação da parte do paciente capaz de levá-lo para o sentido oposto. No caso dos mais adiantados, pode acontecer que a neurose seja o resultado de uma crise de crescimento. Sair da animalidade, passando de um nível biológico a outro, representa deslocamentos e esforços enormes, acarretando a necessidade de uma trabalhosa e progressiva adaptação a uma atmosfera diferente, rarefeita demais para os pulmões do homem atual; representa ter de realizar uma profunda transformação do organismo, sobretudo nervoso e cerebral, para acompanhar o nascimento e permitir a vida do novo tipo biológico espiritualizado. Os distúrbios neuropsíquicos podem ser, então, devidos ao esforço que um desenvolvimento demasiadamente rápido da personalidade requer. Nestes casos, o problema da neurose deve ser enfrentado de maneira completamente diferente, não como um fenômeno patológico, mas sim inerente à evolução biológica. A presença das neuroses pode, então, assumir um sentido e valor diferente. Neste caso, o trauma psíquico é o resultado de um esmagamento do subconsciente, devido à luta travada contra ele pelo consciente, que quer substituir nele os impulsos inferiores por outros, superiores. Então a doença não é uma derrota, porque ela existe em função de uma superação, fazendo parte do processo da evolução, pelo qual o direito de vencer pertence ao consciente, pois este é mais adiantado do que o subconsciente, que deve ser superado, porque a lei da vida é o progresso. O trabalho da construção da nova personalidade do futuro realiza-se no consciente,

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pois a ele pertence o comando e deve estar sujeito o inferior subconsciente animal. Então aquilo que parece uma derrota não o é de fato, constituindo apenas a destruição de um mundo inferior, condição necessária, porque sem ela não é possível subir. Portanto doença e sofrimento são meios naturais e inevitáveis, inerentes ao processo evolutivo, como indispensáveis instrumentos de progresso. Trata-se das saudáveis feridas do guerreiro, porque somente descendo à luta pode-se realizar a coisa mais importante da vida, que é a evolução. Tais males representam, na justiça da Lei, o preço do resgate para se remir da queda, correspondendo ao necessário trabalho para se voltar ao S. Neste caso, a função do psicanalista não é combater as neuroses apenas para destruí-las, mas sim acompanhá-las, utilizando-as para ajudar o desenvolvimento do paciente. A doença, neste caso, nada mais é senão um elemento do processo evolutivo. A atenção do psicanalista deverá, então, dirigir-se para o fenômeno mais importante, que é a evolução do indivíduo, e só em função desta cuidar do fenômeno secundário, que são os males consequentes do esforço necessário para se obter uma conquista biológica. Isto não significa que o psicanalista não tenha de tratar os distúrbios nervosos, mas sim que ele deverá fazer isto em função do fator mais importante, constituído pela transformação evolutiva que se está realizando no paciente. Então os distúrbios poderão desaparecer por si próprios, quando tiver acabado o processo de transformação do qual eles são o efeito. Vemos aqui quão mais complexo pode ser o problema do tratamento das neuroses e quão mais vasta pode ser a tarefa do psicanalista. Ele pode ser um construtor da personalidade, tornando-se artífice da evolução. Em todos os indivíduos há energias vitais, que, em alguns casos, na tentativa mal sucedida do indivíduo se evadir à lei de evolução, foram comprimidas, torcidas e deformadas, expandindo-se para baixo, ao invés de para o alto. Por isso vemos surgir a dor, deparando-nos com almas aleijadas e doentes. A descida é a direção perigosa, que leva para a doença, enquanto a direção certa está na subida, que leva para a verdadeira saúde. A expansão das energias em descida confirma e fortalece no subconsciente os instintos inferiores da animalidade, prendendo o ser sempre mais aos sofrimentos de um plano de vida atrasado, do qual o médico, promotor da saúde, deveria procurar afastar o paciente, ajudando-o a deslocarse em subida, e não em descida. Eis, então, que o psicanalista pode canalizar as energias comprimidas, orientando-as e dirigindo-as para um mundo superior, a fim de realizar assim o progresso do indivíduo, o que significa atingir um resultado muito maior do que somente tratar uma doença. E, para um indivíduo maduro, apto para isso, tal método de tratamento por sublimação representará a valorização de seus esforços evolutivos. O paciente será sustentado pela ideia de que o seu caso não é uma doença, mas sim uma crise de evolução; que ele está em fase de crescimento, e não doente; que os seus sofrimentos são a condição necessária de seu progresso. Esperança grande, que leva a uma aceitação mais fácil; ideia saudável e salvadora, que ajuda muito mais, porquanto ela corresponde à verdade. Quanto aos menos amadurecidos, tal tratamento por sublimação também pode ser aceito, porquanto se apoia no natural amor próprio do indivíduo, levando-o assim a acreditar que logo vai pertencer à classe mais adiantada dos evoluídos. Baseando-se nesta fé, ele começará a fazer alguns esforços na direção da subida, que, de qualquer forma, serão vantajosos para ele, pois representam pelo menos uma tentativa de superação da animalidade. Em resumo, na prática, o psicanalista tem de lutar contra duas exigências opostas: 1) Impulsionar o paciente pelo caminho da evolução, levando-o a superar os instintos inferiores, porque este é o caminho da salvação; 2) Tratar os complexos, eliminando os choques que os geraram no esforço para realizar aquela superação.

Se a doença nervosa pode ser o resultado de uma crise de crescimento, dada por um esforço concentrado para realizar uma evolução rápida demais, representando ela o preço pago pelo indivíduo para evoluir, eis que, neste caso, o tratamento para eliminar o complexo consistiria, como já frisamos, em deixar o subconsciente desabafar sua espontaneidade livremente, sem constrangimentos, conforme os seus instintos inferiores, como procura fazer a maioria, que, por isso, não possui complexos. Mas eis que, agindo assim, o psicanalista impulsionaria o indivíduo a retroceder, e não a progredir, paralisando a evolução, que é a maior finalidade da existência. Há pouco dizíamos que, para tratar um complexo, é útil colocar o paciente em um ambiente oposto àquele que continha as condições geradoras da doença. Mas se esta nasceu devido a uma vontade de substituir um vício por uma virtude, isto é, uma forma de vida involuída por uma mais adiantada, então, para eliminar o complexo, seria necessário abandonar a virtude e voltar ao vício, isto é, à forma de vida que não exige esforço para evoluir, resultado espontâneo para o indivíduo atrasado. Mas isto, para o psicanalista, representa o desvirtuamento de sua função, que, como já mencionamos, é sobretudo educar, impulsionando para a subida. Hoje, alguns psicanalistas revelam fraqueza perante o doente, preocupados, antes de tudo, em tirar-lhe os sofrimentos, procurando assim, custe o que custar, deixá-lo curado e satisfeito. Dessa forma, o doente, ao invés de aprender hábitos novos e melhores, continua praticando os velhos e piores, que deste modo, em vez de serem eliminados por desuso, acabam fortalecidos pela reutilização. A sabedoria do psicanalista está em conciliar as duas exigências opostas, reclamando do paciente o esforço que ele pode dar no sentido da evolução, mas deixando-lhe, ao mesmo tempo, um mínimo alívio de satisfação inferior, necessária para acalmar o complexo. Por isso é importante que a arte de substituir os velhos hábitos por novos e melhores, seja realizada com inteligência, por degraus, adaptada ao indivíduo, para não gerar choques e, assim, novos complexos, evitando que o próprio tratamento acabe piorando a doença, ao invés de curá-la. Se, de um lado, é preciso eliminar os complexos, de outro é preciso também evoluir. Se exigirmos esforço demais no sentido evolutivo, perseguindo o paciente, acabaremos gerando novos complexos. Por outro lado, se o deixarmos completamente ao sabor dos seus instintos inferiores, curaremos os complexos, mas seremos mestres de retrocesso, e não de progresso. A sabedoria está em se equilibrar no meio, para atingir o máximo resultado útil, tanto no terreno do tratamento como no da evolução, sabendo proporcionar o tratamento às capacidades de progresso e ao grau de evolução do indivíduo. ◘◘◘ Vemos, então, que a psicanálise pode entrar também no terreno – até agora reservado à ética e às religiões – da direção psicológica e espiritual para a salvação das almas, agindo não em forma empírica, mas com competência científica. Eis que, num mundo mais inteligente, esta nova psicanálise poderá oferecernos um método positivo de redenção, praticando, com conhecimento da natureza do fenômeno, os princípios das religiões, que ensinam a utilidade de aceitar a dor, porque a podemos transformar em instrumento de ascensão evolutiva e, portanto, de salvação. Tudo isto nós sabemos, não por aceitação cega de fé, mas por demonstração positiva e pela lógica da fenomenologia universal, que é convincente a quem queira pensar. Assim as ciências psicológicas se amplificam e atingem horizontes muito mais vastos, tornando-se ciência do espírito e conquistando, devido ao seu conhecimento dos problemas da psique, desconhecidos pelas religiões, o direito de dirigir as almas. Podemos, assim, entender com a nossa forma mental moderna, em termos de psicanálise e evolução, o método da sublimação, que as religiões praticam há milênios. Elas quiseram

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fazer de cada fiel um soldado do ideal, para conquistar um plano de vida biologicamente superior (o Reino de Deus). Foram elas que, no passado, estabeleceram as normas de conduta, encarregando a consciência de impô-las ao subconsciente, para dominar seus inferiores instintos de animalidade e transformálos no sentido evolutivo. A mesma coisa deveria fazer a nova psicanálise, ou seja, colocar o indivíduo no caminho da evolução e impulsioná-lo para frente, aplicando, mas com verdadeiro conhecimento do fenômeno, o velho método empírico das religiões, que consiste em direcionar para o caminho do S, que leva à saúde e à felicidade, o paciente extraviado no caminho do AS, que leva à doença e à dor. Trata-se de acompanhar e dirigir o crescimento do ser, auxiliando a transformação do animal em homem, para o nascimento do super-homem do futuro. De fato, o método das religiões é despertar a consciência (o consciente), para ela controlar os impulsos inferiores (subconsciente instintivo), que o involuído tende a seguir. O exame de consciência faz parte deste método. Trata-se, na verdade, de uma observação introspectiva dos impulsos aninhados no subconsciente, submetidos assim ao controle e domínio do consciente, que conhece e está encarregado de impor as regras de conduta ensinadas a ele pelas religiões. Este método faz parte do processo de descida dos ideais, vindos do alto para a Terra. Assim, os maus hábitos podem ser transformados em virtudes. Com a repetição, podem ser gravadas no subconsciente novas e melhores qualidades, o que torna possível educar o homem e realizar a evolução, construindo a personalidade em formas cada vez mais adiantadas. Eis o ponto de contato entre psicanálise e religião, constituindo a ponte pela qual elas podem comunicar-se. Assim, ambas podem enriquecer-se, a primeira com a longa experiência da segunda e esta com o conhecimento dos fenômenos psicológicos que só a primeira possui. Desta forma, a ciência poderá entender não só o significado biológico da sublimação religiosa e do misticismo, mas também o valor positivo dos métodos psicológicos praticados pelas religiões. Assim, o que foi descoberto por intuição, mas ficou empírico na prática, poderá ser sustentado pela lógica de uma demonstração racional. Eis o que Carl Jung escreve a respeito da relação entre psicanálise e religião: “Entre todos os pacientes que encontrei na segunda metade de minha vida, não houve um cujo problema, em última análise, não fosse o de encontrar uma concepção religiosa da vida. Todos estavam doentes porque tinham perdido o sustentáculo e o apoio oferecido pelas religiões, e posso afirmar que nenhum deles foi verdadeiramente curado sem ter antes conquistado uma concepção religiosa”. Há, porém, uma diferença entre a psicanálise e as religiões. Para os seres primitivos, que funcionam mais por sugestão do que por raciocínio e entendimento, é ótimo o sistema da fé, por meio do qual o indivíduo se entrega cegamente, como na hipnose, nas mãos de quem o dirige, deixando-lhe toda a responsabilidade, porque, sozinho, ele não sabe pensar nem sabe o que fazer. Para essa massa de gente simples, são bem adaptadas e bastam as religiões. O mundo moderno está, porém, tornando-se cada dia mais racional e inteligente, sabendo muito bem – como lhe ensina a ciência – que, para crer, é necessário exigir demonstrações e provas. Por isso a psicanálise, quando se dirige para esse outro tipo de homem, tem de oferecer uma orientação demonstrada, capaz de convencer, dando prova das razões pelas quais temos de segui-la, o que só é possível possuindo o conhecimento do problema. Somente uma religião assim concebida pode resistir aos assaltos do materialismo científico. Talvez seja exatamente uma tal religião positiva o que mais falta ao nosso mundo moderno, sendo esta ausência de uma correta orientação a causa da angústia que o oprime. Ele precisa de uma ideia que dirija a sua vida, de uma esperança que o sustente, de uma meta a atingir, de uma razão para lutar e sofrer. Necessita mais dela para curar as suas neuroses, do

que de tranquilizantes e divertimentos, que intoxicam. O sistema filosófico racional que oferecemos em nossa Obra, para dirigir com conhecimento a nossa conduta, quer cumprir a tarefa de dar ao mundo um meio para salvá-lo da loucura. A causa da neurose coletiva que vai se espalhando cada dia mais é a desordem espiritual, sendo esta a coisa mais urgente para se curar. Eis como a psicanálise, se cumprir uma função orientadora, pode adquirir importância social. Com o método da sublimação, a psicanálise aplica um tratamento das neuroses, oferecendo uma válvula de segurança que permite descarregar os impulsos comprimidos do subconsciente na direção mais útil à vida, ou seja, no sentido evolutivo, como forma de conquista e progresso biológico. Assim, o caminho errado pode ser endireitado, neutralizando-se a doença com um substituto sadio, sendo ela resolvida por superação, num trabalho confiado ao consciente desperto, que representa a parte do eu encarregada da obra da construção da personalidade. Com isto, a psicanálise adquire uma importância nova, muito maior, porque se torna uma escola de evolução, cuja função não é mais só tratar doenças, mas também ajudar o homem novo a nascer, realizando o milagre da transformação biológica do involuído em evoluído, ou seja, do atual ser primitivo no biótipo que deverá constituir a humanidade do futuro. Então a psicanálise se torna a arte de educar o homem, para levantá-lo a um plano de vida superior. Ela pode desse modo colocar-se ao lado da ética e das religiões, iluminando-as no terreno difícil da direção das almas, trabalho que hoje elas fazem empiricamente, com métodos obsoletos e, às vezes, até contraproducentes, senão danosos. É inevitável que seja assim, quando tudo tem de ser feito em série, seguindo uma medida universal, adaptada apenas ao tipo médio. Pode acontecer, então, que o indivíduo superior, por ser muito mais moral e religioso do que o tipo médio, seja condenado. É nestes casos que a psicanálise, ao invés de se dirigir para o subconsciente, onde está a parte inferior, tem de acompanhar o indivíduo na sua exploração e antecipação do superconsciente, pois este, pelo amadurecimento do ser, já começa a transparecer, procurando se manifestar, enquanto fica comprimido pela incompreensão dos atrasados, que impõem a todos as regras oficiais mais convenientes para si mesmos. Então a psicanálise pode ajudar os evoluídos, que têm de se defender para não retrocederem ao nível de involuídos. Eis que o próprio Jung escreve a este respeito: “O homem „normal‟ é um modelo ideal para todos os que estão ainda aba ixo do nível normal de adaptação. Mas, para os homens que possuem capacidades superiores à média, a ideia e a obrigação moral de não poder ser outra coisa senão homens normais, constitui um leito de Procusto, um enjoo mortal e intolerável, um inferno estéril e sem esperança. Quantos neuróticos há que adoecem porque não podem se tornar normais!”. Parece que em nossa sociedade é um dever ser involuído. Este é o modelo para todos, constituindo a unidade de medida que a maioria, porque lhe convém, escolhe e impõe a todos. Cabe ao evoluído defender-se, se ele quer sobreviver como tal. Pude observar vários casos nos quais a neurose nos evoluídos foi gerada pelo esmagamento que eles tiveram de suportar por parte da maioria dos involuídos, que lhes quiseram impor a sua maneira de conceber a religião e a moral. Infelizmente, em muitos casos, esta maneira não representa senão um desabafo de instintos primitivos, de impulsos do subconsciente, que se procura justificar, disfarçando-os em formas diferentes, praticadas até em nome de Deus. Coisa natural para um involuído, mas horrível para um evoluído, que possui outra sensibilidade moral. Assim, no passado, ninguém se apercebia da terrível e evidente contradição entre o Evangelho e as guerras santas, a inquisição, as perseguições, as matanças de heréticos etc. Pude observar o caso de um indivíduo que teve de se afastar da religião porque nela não encontrava senão pessoas determina-

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das, com sua forma mental e conduta, a paralisar suas tentativas de superação da neurose pelo caminho da sublimação. Não era culpa das religiões, mas dos involuídos que as representavam. O resultado foi que, para conservar uma religião, sem ter de se submeter a outras, e seguir o caminho da sublimação, pelo qual sua vida seria salva, aquele indivíduo foi constrangido a fechar as portas de sua alma, suprimindo qualquer manifestação exterior – aquilo que mais atrai a intromissão dos involuídos – e a continuar sozinho, para salvar a sua espiritualidade, aprofundando as suas vivas relações com Deus apenas em seu íntimo, aonde eles não chegam. ◘◘◘ Mas temos de observar também o outro lado da medalha. Nem todos os indivíduos estão prontos para aceitar uma intervenção no sentido de uma sublimação. Por isso o psicanalista tem de estudar a personalidade do paciente, para ver se tal método está adaptado a ele. Tudo depende do estado de amadurecimento do indivíduo. A sublimação não é coisa que se pode impor à força a quem não está pronto para recebê-la. Neste caso, ela se torna uma forma de perseguição, o que representa aquele esmagamento da personalidade, constituindo o caminho direto para a neurose. A destruição do que é inferior, sem uma simultânea substituição pelo que é superior, é somente negatividade suicida, contra a qual a vida tem toda razão de se rebelar, defendendo-se com as suas reações, porque a perda causada pela destruição não é compensada por uma paralela construção positiva. Nestes casos, uma tentativa de sublimação pode excitar revolta ou adaptações torcidas, gerando desvios, ao invés de superações, o que significa descida, e não subida. No ambiente humano se encontram todas as possíveis formas de vida. Quem escolhe é o indivíduo, conforme seu gosto, atrações e forma mental, revelando nisto a sua natureza. A espiritualidade das religiões oferece apenas exemplos de sublimação a todos, aconselhando e impulsionando nessa direção. Mas o primeiro instinto do involuído é se rebelar contra o esforço de superação ou então, se isto não for possível, evadir-se dele. Assim, o sadio impulso em sentido evolutivo se resolve, na prática, em procurar escapatórias, através de fingimentos para se disfarçar, de mentiras para esconder a realidade e de adaptações para satisfazer os instintos da besta, salvando assim as aparências. Eis o tipo de sabedoria que as religiões, impondo a superação, muitas vezes acabaram gerando nos seus seguidores. Eis como as entende o involuído, ainda mergulhado no plano animal. Nem por sonho ele pensa que os ideais de superação sustentados pelas religiões possam ser praticados na realidade. Nestes casos, o método da sublimação se torna uma escola de enganos. Isto é tudo o que o involuído pode entender dos princípios de uma vida superior, porque eles estão situados acima de seu nível biológico. E, dado que tal biótipo representa a maioria, esta é a maneira de viver os ideais que prevalece em nosso mundo, com um consentimento geral subentendido. Isto não acontece por maldade, mas por falta de capacidade de compreender. Tais indivíduos fazem isto em perfeita consciência (relativa ao seu nível), convencidos assim, conforme sua forma mental, que são honestos e religiosos, acreditando possuir e praticar a verdade. Por isso, em nome dela, concordam em condenar quem quer levar a sério os ideais, condenando-o porque ele exige dos outros algo que para eles, por ser inconcebível, é inaceitável. O evoluído diz: “acabai de uma vez com esta vergonha de adaptações para intrujar a Deus, praticando uma religião de mentiras e uma moral só de interesse”. E o involuído respo nde: “mas eu não engano ninguém, sou sincero e honesto. É assim que se pratica a religião. Temos o dever de levar em conta as necessidades concretas da vida, para não nos matar, vivendo fora da realidade, nas nuvens. Para ser um bom religioso, bastam as formas exteriores. Nós as praticamos. Então somos bons religiosos”.

Como pode o biótipo que entende apenas a matéria suspeitar que o valor das religiões possa estar sobretudo no seu conteúdo espiritual? Tudo depende da forma mental, que é o instrumento com o qual se julga. Para o evoluído, a parte formal, que representa para o involuído toda a religião – desprovida assim de qualquer conteúdo espiritual – pode parecer uma profanação e uma mentira. Perante maneiras tão diferentes de conceber a religião, cada um está convencido de possuir a verdade. Mas é claro que cada um não possui senão a sua verdade pessoal, estabelecida a princípio pela absoluta e indiscutível premissa do seu temperamento individual. Ora, quando um indivíduo passa a fazer parte da nossa sociedade, ele logo se coloca junto daqueles que possuem a sua forma mental, agrupando-se assim com os seus semelhantes. Seus impulsos espontâneos, fruto de sua experimentação nas vidas passadas, que constitui a sua sabedoria, dizem-lhe qual a verdade a ser por ele escolhida entre as que encontrou no mundo. Então ele, com segurança e plena consciência, escolhe a verdade que mais lhe convém, aquela temporária e relativa que, para ele, porque corresponde a seu temperamento, representa a verdade absoluta. Entre os indivíduos do mesmo tipo biológico, logo surge um entendimento recíproco, porque, pela sua idêntica forma mental, eles escolhem a mesma verdade, concebendo-a da mesma forma e falando a mesma linguagem. Assim eles se unem por afinidade, para funcionar em série, seguindo os mesmos princípios e métodos. “Diz -me com quem andas e te direi quem és”. É o impulso de atração que instint ivamente liga entre si os semelhantes. Quando o indivíduo entra na vida da coletividade, vai buscar no armazém de seu subconsciente a ideia que o dirigia na vida anterior, não podendo usar outra senão a que nele encontrar. Vai depois procurando no mundo o ambiente onde possa realizar aquela ideia. Na vida do indivíduo, esta é a parte determinística, que representa o seu destino. Ora, o primitivo, quando chega à Terra, traz consigo, já pronto no seu subconsciente, todo o conhecimento necessário para viver no baixo nível de existência de nosso mundo. Aqui, tal biótipo encontra um ambiente a ele bem adaptado, feito na medida para os seus instintos animais. É fácil para ele resolver o problema da vida, porque a sua sabedoria inata lhe basta, representando exatamente o que é necessário para viver aqui. No caso do evoluído, porém, acontece o contrário. Por ser mais adiantado, ele já assimilou na sua personalidade as qualidades de um nível biológico superior, sendo instintivamente levado a dirigir a sua conduta de acordo com elas, que, porém, tornam-no inepto para viver na Terra, onde se pratica outros métodos, obedecendo a outras leis, que condenam e punem a superior maneira de conceber e de agir do evoluído. Este biótipo adquiriu e possui, em forma de instinto, qualidades que, para a maioria do mundo, é somente um ideal longínquo situado no futuro, e, dada essa sua posição biológica, não pode de modo algum retroceder ao nível da animalidade humana, dirigida por instintos inferiores. Tivemos de salientar a importância de uma interpretação do tipo de personalidade, porque é nela que se baseia a possibilidade de tratar as doenças nervosas com o método da sublimação. Este será tanto mais adaptado quanto mais o paciente for um biótipo evoluído, e vice versa. Como já frisamos anteriormente, tentar aplicar o tratamento por sublimação a um indivíduo não maduro para isso, ainda involuído, pode ser inútil ou até contraproducente. No caso, porém, de indivíduos que demonstram já ter conquistado instintos superiores, um tratamento psicanalítico por sublimação representará sem dúvida o método mais adaptado, constituindo um impulso para a salvação e uma ajuda que o paciente aceitará de todo o coração. Eis que o estudo por nós aqui anteposto da personalidade humana é indispensável para o psicanalista, porque não é possível fazer com sucesso tratamento algum, sem ter antes conhecido a qual biótipo ele se dirige.

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Pode assim acontecer que, em alguns casos, o tratamento se possa basear não somente na correção do subconsciente, mas também na antecipação do superconsciente. De fato, relativamente à própria posição na escala evolutiva, para todos existe uma zona superior a conquistar, apesar do conteúdo e do nível serem diferentes para cada indivíduo, de modo que o psicanalista pode sempre se tornar, além de médico, mestre de evolução para todos, funcionando também como construtor de personalidade. Esta tarefa, para quem a entenda, poderia ser maravilhosa, constituindo uma grande missão. Eis como poderíamos imaginar o indivíduo que progride ao longo do caminho da evolução. O superconsciente é como uma linha de alimento que se prolonga na frente, ainda a atingir e devorar. O consciente é a boca do ser, que segue aquela linha e trabalha para mastigar e engolir aquele alimento. O subconsciente é o estômago, que o recebe e assimila, processo pelo qual o corpo vai engordando, isto é, a personalidade vai crescendo, enriquecendo-se e progredindo ao longo do caminho marcado pelo superconsciente. Eis o que se realiza na vida, apesar de cada um ter uma posição diferente ao longo do caminho da evolução. Então qualquer forma de progresso é sempre uma sublimação relativamente à precedente posição inferior. Por sublimação entendemos o progresso dos mais maduros, o que significa superação por espiritualidade. Então a regra para o psicanalista no tratamento das neuroses é adequar o método da sublimação ao amadurecimento espiritual do indivíduo. Quando este se encontrar pronto, ele mesmo será instintivamente levado a solucionar o seu caso pelo caminho da superação em sentido espiritual, porque as fases precedentes já terão sido percorridas, cabendo ao psicanalista somente acompanhar e dirigir o natural processo evolutivo. Não se trata de novidade, porque tudo é implícito e está funcionando pela própria estrutura da lei de Deus. A psicanálise pratica o que a Lei já realizava sem o homem saber. A finalidade de reeducar, endireitando o passado errado, como faz a psicanálise, é a mesma que a Lei quer atingir quando corrige o indivíduo, endireitando o seu erro por meio de uma dor proporcionada. Então a tarefa do psicanalista é a mesma que a da Lei, isto é, impulsionar e dirigir o paciente para ele voltar ao caminho certo, reconstituindo-se na ordem da qual se havia afastado. No caso da Lei, ela faz o mesmo trabalho de endireitamento realizado pelo psicanalista, diferindo, porém, pelo fato de dirigir o indivíduo para a autocorreção por intermédio da dor, que neste caso representa o remédio utilizado no tratamento, o agente encarregado de endireitar o torto, o mestre que ensina a lição a ser aprendida, para não se errar mais. Pode-se, assim, verificar o caso em que o psicanalista tem de aceitar o método de tratamento usado pela Lei, reconhecendo a utilidade e, às vezes, a necessidade destas lições de dor. Há casos em que ela não pode ser suprimida, porque faz parte do tratamento realizado automaticamente pela própria Lei. Então o psicanalista terá de aceitar a dor como parte integrante e meio de cura, porque suprimi-la seria tirar o remédio. O médico, porém, pode explicar ao paciente qual é o sentido e a função do sofrimento, ensinando a ele como utilizá-lo para seu próprio bem. Vemos, assim, quantos outros problemas o psicanalista tem de levar em conta e resolver para praticar o método do tratamento por sublimação. As lições que os indivíduos têm de aprender na vida são diferentes para cada um. A maioria, tendo subido há pouco do nível animal, tem de aprender o que lhe pode ensinar a luta para vencer e satisfazer as suas necessidades materiais, conquistando deste modo os primeiros graus da inteligência. Trata-se de uma forma de experimentação e um tipo de aprendizagem que não têm mais sentido para o ser evoluído, pois este se tornou apto a viver num estado social orgânico, no qual o trabalho da vida não consiste mais somente na luta para o domínio material no caos dos primitivos, mas sim na conquista do conhecimento e da espiritualidade.

Tudo o que existe está no seu devido lugar. O nosso mundo inferior está adaptado ao homem atual, para que ele realize as suas experiências de primitivo. É lógico que, para os mais adiantados, este mundo não possa ser senão lugar de desterro e sofrimento. Ele não é terreno para a realização do superconsciente (aqui o ideal é utopia fora da realidade), mas sim para o domínio e desabafo dos impulsos inferiores do subconsciente. Em nosso mundo não é o espírito que quer subjugar a matéria, mas é a matéria que quer subjugar o espírito. Apesar de tudo isto, no mundo, o evoluído, que já tem os ideais assimilados no subconsciente, não poderá deixar de se realizar no sentido da espiritualidade, ainda que haja martírio, assim como o involuído não poderá deixar de se realizar no sentido da animalidade. Isto porque, para o evoluído, os ideais superiores se tornaram instinto, impulso espontâneo, querendo se realizar deterministicamente, como parte integral do destino do indivíduo, consequência fatal das causas semeadas e das qualidades adquiridas nas vidas precedentes. O psicanalista deve conhecer a lógica e a técnica desses processos, razão pela qual fomos levados a estas explicações. Eis a psicanálise que apresentamos aqui. Uma psicanálise muito mais vasta, porque é uma ciência da alma, abrangendo os maiores problemas da vida: a personalidade humana, a evolução biológica, a orientação individual e social, a direção da conduta, a espiritualidade, a ética e as religiões. Por seguir o percurso do nosso eu até às suas passadas encarnações e ser mais completa em conhecimento, trata-se de uma psicanálise à qual se pode confiar a tarefa de nos dirigir para os mais altos destinos, seguindo a lei de Deus e trabalhando em função do plano geral da existência. Um objetivo muito maior do que tratar doenças mentais é assim atingido: a construção da personalidade, levantandoa com inteligência para formas de vida superior e reconhecendo que, algumas vezes, o que parece doença se assemelha às dores do parto, necessárias para gerar um novo ser. Uma psicanálise que não é conhecimento avulso e isolado, mas está fundida no funcionamento do todo, concebido como um fenômeno orgânico do qual esta ciência faz parte; uma psicanálise que penetra o mistério do espírito e trabalha na luta entre a animalidade e o ideal, para a superação dos instintos inferiores em favor da espiritualidade, ajudando a transformação do biótipo primitivo no homem evoluído do futuro; uma psicanálise que se enxerta no âmago do funcionamento das leis da vida, penetrando e operando no drama cósmico da evolução e da redenção. Poderíamos acrescentar muitas coisas ainda, mais profundas e já amadurecidas no pensamento. Mas, para sobreviver, todas as energias devem ser absorvidas na luta pela vida contra os piores elementos. Em nosso mundo infernal, torna-se cada dia mais difícil se encontrar segurança e sossego para nos abstrairmos em trabalhos de ordem superior, que, por não terem remuneração, não produzem os recursos indispensáveis para viver. X. ÉTICAS DO SEXO Em função de sua atitude em relação ao problema do sexo, tanto os povos como os diferentes períodos históricos poderiam se distinguir em duas grandes categorias: a dos sexófilos e a dos sexófobos. Mas por quê? Para compreender, é necessário subir aos conceitos fundamentais. Vejamos então. Pelo princípio do dualismo universal, devido à quebra (através da revolta e da queda) da unidade do todo em Sistema e Anti-Sistema, tudo o que existe está dividido em duas partes opostas, inversas e complementares, que lutam uma contra a outra como inimigas, devido ao princípio divisionista da revolta, dirigido para o Anti-Sistema, mas que, ao mesmo tempo, abraçam-se, atraindo-se reciprocamente, em virtude do princípio oposto, cujo impulso quer reconstruir tudo em unidade. Em nenhum outro fenômeno biológico aparece tão claramente, ao mesmo tempo, esse contraste e essa atração en-

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tre opostos, como neste caso do sexo, que é um dos mais nevrálgicos da vida, no qual os dois princípios, o egocentrismo separatista (Anti-Sistema) e o amor reunificador (Sistema) lutam para prevalecer um sobre o outro. Essa é a primeira origem do fenômeno da divisão dos sexos, que se poderia chamar como bipolaridade biológica, caso particular da bipolaridade universal. Explica-se assim, no amor, esse contraste, que todos conhecemos e constatamos a toda hora, entre o instinto de generosidade altruísta, querendo dar tudo sem nada pedir, e o oposto instinto de cobiça egoísta, querendo apoderar-se de tudo sem nada retribuir. A primeira forma de amor é própria do evoluído, mais próximo do Sistema, a segunda é própria do involuído, mais próximo do Anti-Sistema. A segunda evolui para a primeira, fato pelo qual o amor é cada vez menos egoísmo, avidez de possuir, agressividade e ciúme, para se tornar cada vez mais altruísmo, generosidade, benevolência e desejo de ajudar, tudo isto se manifestando tão mais acentuadamente, quanto mais nos aproximarmos da espiritualidade, afastando-nos dos níveis inferiores, onde vigora a animalidade. Esta é a estrutura e o fundamento do fenômeno do sexo. Eis, então, o nosso mundo biológico dividido de acordo com o esquema macho e fêmea. Vimos agora as primeiras origens deste fato. Mas esta cisão, pela qual a unidade ficou dividida em duas partes, representa também uma divisão no trabalho da luta pela sobrevivência, que constitui, por sua vez, um meio de evolução. O macho luta contra o ambiente hostil, as feras e os elementos, tendo assim de desenvolver a força e a inteligência nos seus níveis mais baixos, da agressividade, da ferocidade, da guerra como objetivo da conquista, do egoísmo para o domínio. A fêmea luta para o mesmo objetivo, mas por outro caminho, vencendo a morte com a geração. Para isso, desenvolve os instintos de proteção maternal, de pacifismo conservador, de altruísmo e de submissão ao poder do macho. Em forma diversa, os dois opostos colaboram, canalizados ao longo do mesmo caminho, e rumam em direção à mesma finalidade, que é viver para evoluir. Para este objetivo converge todo o esforço, que, enquanto defende, ao mesmo tempo ensina e, ensinando, realiza a evolução. Isto porque a ascensão tem de ser atingida pelo esforço da criatura que, com a sua revolta, decaiu. Eis aqui o motivo desta desapiedada e contínua luta para vencer a morte (Anti-Sistema) e voltar à felicidade (Sistema). Neste fato, também encontramos novas confirmações dos princípios gerais desenvolvidos em nossos precedentes volumes. Suas últimas consequências, vemo-las em nosso mundo, até na estrutura física do organismo do macho e da fêmea. O tipo macho tem os ombros largos, desenvolvidos para a luta e para o trabalho, com a inteligência mais aguçada para a função de dirigir. O tipo fêmea, pelo contrário, têm os quadris mais desenvolvidos para as funções da geração, com mais agudas qualidades de sensibilidade, intuição e sentimento. Estes são os dois tipos complementares da atividade humana. Assim, encontramos no macho a força para vencer e, na mulher, o amor para gerar. É por isso que, no primeiro caso, temos o que foi chamado o sexo forte e, no segundo, o sexo belo. E, de fato, o que é mais apreciado no homem é a força, enquanto na mulher é a beleza. Estas são as qualidades que um sexo mais procura no outro. Conforme estas suas qualidades, cada um dos dois tipos, pelo seu egocentrismo, desejaria impor-se, dominando o outro. Isto porque, se tanto mais eles são aliados quanto mais são evoluídos, pelo contrário, quanto mais são involuídos, como em nosso mundo inferior, tanto mais são rivais. Acontece então que, para o macho (o ser da força) o amor se torna um ato de conquista e, para a fêmea (o ser do amor) a conquista se torna um ato de amor. Assim o amor é uma luta em que o macho ama com a força, enquanto a mulher conquista com o amor, usando as armas da beleza e da bondade. Deste modo, os dois biótipos, apesar de raciocinarem com forma mental oposta e concebendo

como antípodas, atraem-se, unindo-se fora do próprio raciocínio, e, sem se compreenderem, invertem-se um no outro, conseguindo deste modo atingir uma fusão em que ambos ficam satisfeitos, porque, assim, cada um pode compensar com o outro a sua complementaridade, cedendo aquilo que tem de sobra e adquirindo aquilo que mais lhe faz falta. Estes são os dois modelos que a vida nos oferece em nosso planeta, em relação ao fenômeno do sexo, incluindo a raça humana. É deste fato que derivam, neste terreno, dois tipos fundamentais de ética: 1) A ética masculina da força, de natureza sexófoba. 2) A ética feminina do amor, de natureza sexófila. Trata-se de dois aspectos inversos e complementares da ética humana do sexo, constituindo a razão dessa sua estrutura. A história da humanidade desenvolveu-se seguindo ora um e ora outro destes dois tipos de ética. Houve e há povos e raças do 1o tipo, com a respectiva forma mental, amarrados à ética sexófoba, assim como houve e há povos e raças do 2 o tipo, com a respectiva forma mental, amarrados à ética sexófila. Agora que observamos as origens, a natureza e a razão deste fenômeno, podemos compreender o problema do sexo e da sua ética. ◘◘◘ Encontramos no mundo povos de diversas naturezas. Temos os povos guerreiros e conquistadores, dotados das virtudes masculinas da força, do trabalho e da inteligência, com a respectiva forma mental, que, desprezando o amor, dá origem a uma ética sexófoba. Temos também os povos pacíficos e sensíveis, com as virtudes femininas da bondade, da tranquilidade e do sentimento, com a respectiva forma mental, que, apreciando o amor, dão origem a uma ética sexófila. Essa distribuição que encontramos no espaço, também a encontramos no tempo. A história nos oferece períodos masculinos e femininos. Assim, o ser humano vai oscilando alternadamente de um polo a outro do fenômeno. Ora prevalece e se desenvolve um lado, ora outro, enquanto o seu contrário fica à espera. Trata-se de posições e qualidades opostas e complementares. O povo ou o tempo que desenvolve uma não pode desenvolver a outra. Assim elas têm de funcionar em rodízio, uma de cada vez. Nos períodos de paz, o ser trabalha em sentido feminino (requinte, sexualidade, arte, exterioridade religiosa etc.). Nos períodos de guerra, o ser trabalha em sentido masculino (agressividade, conquistas, expansão política, domínio comercial, inteligência e progresso no conhecimento etc.). No primeiro caso, o modelo é a mulher, e o homem torna-se efeminado (como no século XVIII). No segundo caso, o modelo é o homem, e a mulher se masculiniza (como no tempo atual de emancipação e independência feminina). No 1o caso, é o espírito feminino que domina tudo, inclusive o homem. No 2 o caso, é o espírito masculino que domina tudo, inclusive a mulher. No 1o caso, é a mulher que vence e prevalece, enquanto o homem vive em função dela (como amante). No 2o caso, é o homem que vence e prevalece, enquanto a mulher vive em função dele (reduzida a máquina para gerar guerreiros). Os dois polos do dualismo lutam um contra o outro para prevalecer. Assim que, por ter esgotado sua função, um se esgota, o outro leva vantagem sobre ele, e vice-versa. Esta oscilação é também uma compensação, porque o que se perde de um lado é ganho do outro, e ao contrário. Não se pode existir na plenitude de uma posição sem que isto gere um vazio correspondente na posição oposta. Não se pode, ao mesmo tempo, triunfar em cheio em ambos os polos opostos. Ou um, ou outro. Assim, no 1o caso, quando é a mulher que domina, o homem perde a sua virilidade, enfraquecendo nas suas qualidades de luta, trabalho e agressividade (tipo Luís XV e XVI na França). No 2o caso, quando é o homem que domina, a mulher perde a sua feminilidade, tornando-se masculinizada, trabalhadora e independente, lutando ao lado do homem e até contra ele. É o que

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ocorre nos períodos revolucionários ou bélicos, destrutivos e reconstrutores, nos quais é realizado o maior esforço evolutivo. O contrário sucede nos períodos opostos. Depois de ter realizado o seu esforço, cada tipo repousa, enquanto funciona o tipo contrário, gozando neste intervalo dos frutos do seu trabalho precedente, para depois iniciar outro, como antes, e assim por diante. Deste modo, com esta forma alternada, progride o trabalho para ambos os opostos, no qual cada um dos dois polos complementares compensa e corrige o outro, pois, se assim não fosse, o princípio feminino sozinho acabaria apodrecendo na estagnação da inércia, enquanto o princípio masculino sozinho, não compensado pelo seu oposto, acabaria destruindo tudo. Como se vê, tão logo coloquemos cada coisa no seu devido lugar, vemos aparecer em tudo uma sua razão para existir, dada pela função lógica que o justifica. Nada há de errado nas leis da vida. Tudo cumpre devidamente a sua tarefa útil. Não se trata de superioridade ou inferioridade, mas somente de uma inteligente divisão de trabalho. Por isso não há lugar para desprezo ou condenações. Complementando-se na diversidade, ambos têm razão. Aqui, procuramos observar e explicar o que acontece na realidade dos fatos, e não impor conclusões e opiniões. Notamos acima que, em geral, os povos guerreiros e conquistadores seguem uma ética sexófoba, enquanto os pacifistas e sentimentais seguem uma ética sexófila. Mas por que acontece isso? Procuremos compreender a razão desse fato. É lógico que as energias humanas não podem encaminhar-se simultaneamente para esses dois canais, pois cada um deles é, por si só, bastante para absorver todo o esforço possível. Acontece então que o ser, quanto mais se torna poderoso e tem abundância de um dos lados, tanto mais se enfraquece e sente falta do outro. A vida compensa essas unilateralidades opostas por meio de uma distribuição tanto no espaço como no tempo, complementando reciprocamente cada um dos dois termos com o outro. Desse modo, a vida atinge o equilíbrio e a ordem num conjunto completo, permitindo que funcionem as duas qualidades opostas, uma de cada vez. Foi assim que à corrupção do reino de Luís XV, com a sua ética sexófila, dirigida para o prazer, seguiram-se na França a revolução, com o feroz puritanismo de Robespierre, e o período guerreiro napoleônico, com a sua ética sexófoba, dirigida para a conquista. Por este processo, a vida acordou e renovou aquela sociedade, que de outro modo teria apodrecido na inércia. Trata-se de dois impulsos fundamentais, que se dirigem, por dois caminhos diferentes, para a defesa e a conservação da vida. Trata-se de duas qualidades complementares. O fortalecimento dos instintos de agressividade implica no enfraquecimento dos impulsos eróticos, e vice versa. Por isso nas sociedades militaristas e imperialistas tem valor e domina a força, e não as qualidades do amor, que é desprezado como fraqueza feminina. Nos povos e tempos em que vigora a ética sexófoba, a guerra ou o trabalho são as coisas mais importantes, enquanto vale menos o amor. Nos povos e tempos em que vigora a ética sexófila, a guerra ou o trabalho são as coisas menos importantes, enquanto vale mais o amor. O fato é que o ser humano, quando segue o caminho da força e da agressividade, negligencia o do amor, e ao contrário. Assim os dois termos opostos: espírito de luta e abandono à sexualidade, não podem existir juntos. Quando um dos dois prevalece, todas as energias são absorvidas por ele, que as tira do outro. Quem está preso ao esforço de ataque e defesa não pode se abandonar às satisfações do amor, pois, ficando enredado nestas, não pode se defender na luta e será facilmente vencido por qualquer agressor. É assim que o espírito de luta se une à sexofobia, ética com a qual o encontramos sempre ligado, e é assim que o amor gera a sexofilia, ética com a qual o encontramos ligado. A vida tem de se defender numa luta contínua contra todos os inimigos, para sobreviver como indivíduo e como raça num ambiente hostil, vencendo a fome e a morte com a agressivi-

dade do macho e o amor da fêmea. Acontece, porém, que, quanto mais o homem se distrai na luta pela sua atividade sexual, tanto menos ele se encontra pronto para a defesa, sempre necessária no meio de mil perigos. Ora, este enfraquecimento das suas virtudes defensivas de guerreiro, em favor das de amante, pode levar a consequências terríveis num mundo onde a sobrevivência depende de uma vitória contínua na luta desesperada contra todos. No subconsciente instintivo, tiveram de ficar gravadas as impressões de muitas dessas derrotas, devidas e conexas a momentos de fácil abandono à ingênua alegria de viver nos gozos do sexo. Então, no subconsciente, as ideias de satisfação sexual, enfraquecimento e derrota, com as suas terríveis consequências, juntaram-se e soldaram-se uma à outra, fazendo que a dura experiência tantas vezes repetida levasse à assimilação do conceito conclusivo de todo o processo, gerando deste modo o instinto de condenação da sexualidade. Assim explica-se esse fenômeno e encontra-se a primeira origem dessa respectiva forma mental da ética sexófoba. Permanece o princípio geral de que o ser, quando tem, por qualquer razão, de cumprir um esforço, deve canalizar todas as suas energias nesse sentido, evitando qualquer desperdício em outras direções. Assim um indivíduo ou um povo, quando tem de realizar uma luta para defesa ou conquista, deve concentrar nesse objetivo todas as suas forças, abandonando todo o restante. Neste momento, a vida impõe ao ser algo que para ele, nessa condição, é necessidade absoluta, ou seja, a forma mental e a respectiva ética sexófoba. Acontece, deste modo, que os povos machos, conquistadores, são naturalmente sexófobos, até vencerem os obstáculos e atingirem o domínio. Então a vida lhes dá um prêmio, recompensando com o bem-estar o esforço bem sucedido. Mas eis que, neste ponto, não sendo mais necessário o esforço, é lícito finalmente descansar, entregandose às satisfações do sexo. Prevalece então não mais o principio do esforço, mas sim o da vida fácil, com a respectiva forma mental da ética sexófila. Mas eis que, por este caminho, o povo esquece as suas virtudes guerreiras, necessárias à defesa, e acabam engordando e enfraquecendo-se no bem-estar, até que outros povos, mais acordados pela necessidade e mais prontos para a luta, venham a agredi-lo e vencê-lo facilmente. O problema do sexo está conexo com todos os outros, dos quais nos revela a posição. Assim o ciclo se fecha e aquela civilização de bem-estar sexófilo acaba na corrupção em favor dos novos vencedores sexófobos, até que o mesmo ciclo se verifique também para eles, e assim por diante. Tudo isto é lei geral da vida e se realiza para os povos, as classes sociais, as famílias e os indivíduos. Assim decaiu o Império Romano, quando suas antigas virtudes se corromperam e os costumes se amoleceram no luxo e nas comodidades que o poder oferecia. Assim também declinou a aristocracia francesa, com Luís XV, o rei das mulheres, até cair na boca da revolução. E o mesmo está pronto a acontecer à velha Europa, rica e civilizada, que se tornou saboroso petisco para as hordas russas e asiáticas, cada vez mais famintas, devido ao aumento da população, prontas a repetir a história das invasões bárbaras dos povos germânicos contra Roma. A vida está sempre alerta e vigilante. Ela escuta e percebe esses pontos fracos, acorrendo para fortificá-los. Este objetivo ela atinge destruindo quem perdeu a força e substituindo-o por novos e mais poderosos agressores, assim como, para a mesma finalidade, os micróbios acorrem nas doenças ao ponto fraco, de menor resistência, que representa em cada organismo o calcanhar de Aquiles, cuja vulnerabilidade constitui um convite para o mais forte aproveitar. É por isso que a ética sexófoba da agressividade e a ética sexófila do bem-estar são rivais. Quem se abandona à segunda perde a força e cai presa de quem vive a primeira. O que assegura a vida é a ética sexófoba da agressividade, e não a sexófila do bemestar. Por isso os bárbaros conquistaram o Império de Roma, a

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Revolução Francesa conquistou com Napoleão a Europa realista, e a Ásia guerreira, militarizada pelo comunismo imperialista, prepara-se para conquistar a velha Europa. Assim, em rodízio, todos percorrem o mesmo ciclo, obedecendo à mesma lei. Estas observações nos podem explicar algumas coisas. É um fato que, em geral, os regimes velhos e maduros, acomodados ao bem-estar da classe dominante, são sexófilos, enquanto os regimes jovens e conquistadores, filhos de guerras ou revoluções, são sexófobos. Por exemplo, os antigos romanos, em relação ao povo etrusco, que eles venceram e quase destruíram, eram o que, em nosso século, foram os prussianos de Hitler. Naquele tempo, os etruscos, mais civilizados em relação aos romanos, eram corrompidos sexófilos, enquanto os romanos, cheios de todas as virtudes da agressividade, eram puritanos sexófobos. O mesmo aconteceu quando os bárbaros do Norte desceram na península itálica para conquistá-la. Quem venceu foram os povos de costumes severos contra os povos de costumes relaxados, devido ao mesmo principio pelo qual a ética austera do cristianismo, espiritualmente lutadora, puritana e sexófoba, venceu no plano religioso a ética fácil e enfraquecida, livremente sexófila, dos descrentes e lassos pagãos de Roma. Os mesmos conceitos se poderiam repetir hoje a respeito dos regimes totalitários como o fascista, o nazista e o comunista, que procuraram canalizar todas as energias dos povos no esforço dirigido para o domínio (a filosofia de Nietzsche se tornou a de Hitler), realizando por isso uma ética sexófoba. E isto se explica pelo fato de que tais regimes são filhos de revoluções, nas quais se trava uma luta contra a ordem precedente. Então, para que os rebeldes possam sobreviver, é necessário vencer, custe o que custar, razão pela qual ser forte é um problema de vida ou morte. Eles têm de realizar a ética da agressividade, naturalmente sexófoba, porque, para quem vive de luta, não se admite fraqueza, que significa a derrota e, portanto, a própria destruição. Então todas as energias têm de ser canalizadas de maneira a se tornarem agressividade, sendo que o mais urgente é possuir o espírito varonil de luta, enquanto qualquer sentimento feminino é considerado perigoso desperdício. São exaltadas, então, as virtudes de coragem e de força, sendo desprezadas as de bondade e de amor, que se tornam fraqueza imperdoável. Tudo tem de se transformar neste sentido. Fica a família, mas de tipo coelheira, como fábrica de filhos, para fazer deles novos guerreiros e, assim, aumentar o poder demográfico-bélico. Do amor se percebe só o valor prolífico, e a mulher se transforma numa lutadora ao lado do homem, para o trabalho e a conquista, ficando as suas verdadeiras funções de mulher reduzidas somente à de máquina reprodutora. Tem-se assim os regimes guerreiros, onde o Estado é tudo e tudo é devorado por ele, inclusive os filhos, que lhe pertencem como meio de luta para o domínio. É assim que, no choque entre as duas éticas, vencem os povos sexófobos, porque os outros, enfraquecidos, não sabem resistir e acabam sendo destruídos ou escravizados pelos invasores. Mas eis que, neste mesmo ponto, a natureza reage, para reconduzir ao equilíbrio o desenvolvimento demasiadamente unilateral. Aparece então a reação sexófila da vida, através da mulher, construída para isso e encarregada dessa função. Logo depois do movimento realizado pelos machos conquistadores, ela entra por sua vez em ação, para conquistá-los e compensar assim, com a geração de novos seres, que preenchem os vazios da morte, a destruição de vidas realizada por eles, trabalho de renovação para o qual ela chama, a fim de colaborarem como amantes, os vencedores destruidores. Desta forma, tão logo tenham sido atingidas a vitória e a conquista, a ética sexófoba do macho conquistador tende a se transformar na ética sexófila do macho enamorado. Todos são por instinto, nos quais falam as leis da vida, levados para este caminho. Ninguém está mais ansioso de gozar os frutos da vitória do que os vencedores, que

tanto lutaram para atingi-la e agora precisam de descanso. As belezas de uma civilização mais adiantada, com a qual eles tomam contato, são para eles um convite irresistível. Por outro lado, trabalha para o mesmo objetivo o instinto na mulher, que, atraída pela fascinação exercida sobre ela pela força do vencedor, sente-se impulsionada a se lançar nos braços dele. Então todas as mulheres dos vencidos pertencem aos vencedores, para os quais a satisfação do domínio se transforma na satisfação do rico banquete do bem-estar. Com isso, o vencedor fica absorvido e submetido ao ambiente do vencido. Assim, a ética sexófoba do primeiro se transforma na ética sexófila do segundo. Por sua vez, os dominadores assimilam paulatinamente as qualidades dos dominados e, como eles, acabam se enfraquecendo, realizando o mesmo ciclo e seguindo o mesmo destino. Deste modo, cada um dos dois termos cumpre a sua função. O macho, para chegar à sua posição de domínio, desenvolve força e inteligência. A fêmea, para chegar à multiplicação e, com isso, à conservação da raça, realiza o trabalho de geração, que se valoriza ainda mais como seleção pelo concurso de um tipo biologicamente superior, qual é o vencedor. Eis que a vida, movimentando pelos instintos os seres inconscientes, atinge com a sabedoria das suas leis os melhores resultados, porque assim não somente preenche os vazios produzidos pela destruição realizada pelos agressores, mas também renova os falecidos da raça velha e enfraquecida, dando-lhes filhos mais fortes, porque descendentes dos vencedores. No fim, a raça se liberta dos fracos e se fortalece com o sangue dos fortes. Este é o verdadeiro conteúdo das guerras e sentido da história, do qual, porém, não se fala nos livros, apesar de ser ele o mais importante e duradouro. ◘◘◘ Eis como se cumpre o ciclo da transformação dos resultados das duas lutas complementares. Vemos, então, como o impulso da agressividade acaba abrindo as portas à realização do impulso da sexualidade, assim como o impulso da sexualidade acaba abrindo as portas à realização do impulso da agressividade. No primeiro trecho trabalha o homem, enquanto vigora a ética sexófoba; no segundo trabalha a mulher, enquanto vigora a ética sexófila. Cada um desejaria suplantar o outro para substituir-se a ele, invadindo todo o terreno, e com este objetivo ambos lutam como rivais, enquanto na verdade colaboram para o mesmo resultado. A razão que funde em unidade os dois termos contrapostos está no fato de serem eles de natureza complementar, de modo que cada um dos dois egocentrismos opostos necessita do outro para se completar. O resultado final de todo o processo é que os dois opostos, conservando o seu egocentrismo, trabalham em concordância, como os dois polos da mesma unidade, para cumprirem cada um a metade que lhe cabe do mesmo ciclo comum. Este fato nos mostra que a vida não está de modo algum irremediavelmente dividida em dois termos separados pelo dualismo universal, numa cisão irreparável. Pelo contrário, tudo fica sempre mais fundido em unidade, porque o egocentrismo separatista de cada um dos dois termos permanece sempre compensado e corrigido pelo egocentrismo oposto, sendo equilibrado por ele na mesma balança que os unifica. Assim a vida oferece trabalho e descanso a cada um, em rodízio, deixando um trabalhar, enquanto o outro repousa. O ciclo se inicia do negativo para o positivo, para se inverter, depois, do positivo para o negativo. Na primeira metade do ciclo, o movimento começa partindo do negativo, representado pela necessidade que excita no macho (elemento positivo) uma reação positiva, conforme a sua natureza. Da necessidade (–) nasce o esforço que o macho (+) tira de si próprio, gerando a masculinização, a sexofobia, a agressividade, a conquista e a vitória, que representa o clímax da positividade. Atingido o cume da subida neste sentido, o fenômeno se emborca, retrocedendo para o seu ponto de partida. Eis então que, na segunda metade do ciclo, o movimento inverso começa

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partindo da saciedade e do cansaço do elemento positivo, devido ao esgotamento do seu impulso. Esta condição gera um vazio que permite a intervenção do elemento oposto, podendo este agora funcionar conforme a sua natureza, que é negativa. Se o ponto de partida da precedente metade do ciclo era a necessidade, que desperta o impulso, o ponto de partida desta sua segunda metade é, por sua vez, o bem-estar, que adormece. Do repouso na paz (+) nasce a atividade que a fêmea (–), conforme a sua natureza de sinal negativo, tira de si própria, gerando a feminilização, a sexofilia, a conquista do macho e a vitória do sexo, que representa o clímax no sentido oposto. Neste ponto, o ócio, o enfraquecimento das virtudes guerreiras e o aumento da população levam novamente ao ponto de partida precedente, dando início a um novo ciclo semelhante. Chamamos de positiva a primeira metade do ciclo, e de negativa a segunda, porque o nosso ponto de referência foi o macho. Mas, se escolhermos como ponto de referência a fêmea, esta metade poderia ser chamada de positiva, e a outra metade de negativa. Nada há, em sentido absoluto, de verdadeiramente positivo e construtivo ou de negativo e destrutivo, pois cada um dos dois elementos assume o respectivo sinal somente em relação ao outro, que é o seu oposto. Na substância, ambos cumprem sempre uma função útil a favor e em vantagem da vida, porque cada um, destruindo o que o outro constrói, constrói o que o outro destrói. Isto significa que onde o macho, como lutador, destrói com as guerras as vidas que a mulher constrói, ele também, com a vitória e o trabalho, constrói os recursos que, para viver, gerar e criar filhos, a mulher destrói. E, ao contrário, isto significa também que onde a mulher, para viver, gerar e criar filhos, destrói os recursos que o macho com a vitória e o trabalho constrói, ela também, com a geração, constrói as vidas que o macho, com suas lutas, destrói. Tudo isto nos mostra que dentro da natureza existe uma proporção, ou quase uma equivalência, entre a massa vital e os recursos que a sustentam. Esse equilíbrio nos revela a tendência da vida para transformar o bem-estar e a abundância, que representam o fruto da vitória das lutas do princípio masculino, em aumento demográfico. O bem-estar enfraquece os instintos de agressividade e excita os sexuais, adormecendo o impulso de luta da ética sexófoba e acordando o oposto, da ética sexófila, em que funciona não mais o macho, e sim a fêmea. Neste momento, a vida entra na segunda metade do ciclo, no qual o objetivo que ela quer atingir não é mais a conquista, utilizando o homem, mas sim a geração, utilizando a mulher. Podemos observar como isto se verifica nos animais, quando, pelo fato de viverem no cativeiro do homem, a sua existência é assegurada sem a necessidade de luta, pois a nutrição não falta, suprimindo o esforço para obtê-la. Então esse estado de segurança libera as energias destinadas à luta e as canaliza para o caminho da sexualidade, que vemos ser despertada nos animais submetidos a essas condições. Um caso parecido se verifica no ser humano, quando ele começa a civilizar-se. Com esse método, a vida estabelece o equilíbrio demográfico em relação aos recursos disponíveis. Método automático para correção e equilíbrio „a posteriori‟, porque se trata de coletividades que ainda não atingiram o estado orgânico, enquanto, nas sociedades animais já organizadas, a geração é regulada „a priori‟, em proporção aos meios de subsistência. Isto acontece por exemplo nas espécies das abelhas e das formigas, mais adiantadas como unidades orgânicas do que a sociedade humana. Neste caso, a natureza nos mostra um estado de controle inteligente da multiplicação, proporcional às reservas armazenadas, representando, para a defesa da vida, uma sabedoria que o homem ainda tem de conquistar. Eis como a vida equilibra as duas metades do ciclo: a agressividade conquistadora e a sexualidade geradora, colocando o impulso da luta e o fruto da vitória a serviço do aumento demo-

gráfico, de modo que dela possa ser aproveitado o máximo número. Assim, a vida abaixa o nível de existência, voltando à necessidade, que estimula um novo esforço varonil, para novas conquistas, e assim por diante. O resultado final dessa sequência de períodos alternados, seja do princípio masculino no seu esforço para a conquista, seja do princípio feminino no seu esforço para a geração, é uma perene atividade, cujo fruto é a continuação da vida e a sua evolução. ◘◘◘ Temos até aqui explicado qual é a origem da ética sexófoba. O princípio geral é que um indivíduo ou um povo, quando precisa fazer o necessário esforço para vencer na sua luta pela vida, tem de concentrar neste esforço as suas energias, canalizando-as todas para essa finalidade, a fim de evitar qualquer desperdício, desinteressando-se assim da sexualidade, que enfraquece. Eis por que deve tornar-se sexófobo quem tem de lutar. Ora, o esforço que o ser deve fazer pode não ser somente de tipo guerreiro, conquistador, como até agora observamos, mas também de outro gênero. Permanece, no entanto, da mesma forma a necessidade de concentrar todas as energias num dado objetivo, que pode não ser mais a conquista bélica. Em nosso mundo, a luta pela vida assume formas mais adiantadas, como a conquista econômica. Pode-se então, sempre pela mesma necessidade de fazer um esforço e canalizar todas as energias num sentido particular, chegar à ética sexófoba não somente para atingir, com a agressividade bélica, a conquista material, mas também, por exemplo, para atingir, com o trabalho pacífico, a supremacia econômica, o poder comercial e financeiro, a conquista e o domínio do dinheiro etc. Vigorando sempre o princípio geral acima desenvolvido, ele pode agora se aplicar também a um esforço de tipo diferente, dirigido para outros objetivos, o que leva sempre, como todo esforço, à ética sexófoba. Encontramos essa ética ligada não somente ao esforço da conquista bélica, de tipo militar imperialista, mas também conexa a outros dois diferentes tipos de esforço: 1) O econômico, para trabalhar na produção de riqueza; 2) O espiritual, para atingir a sublimação pela superação evolutiva. O primeiro caso é o da nação norte-americana. O segundo é o do cristianismo. Observaremos os dois porque, apesar de terem seguido caminhos diferentes, ambos acabaram na ética sexófoba, assemelhando-se nisto. Assim, depois de termos estudado as relações entre agressividade e sexofobia, examinaremos agora as relações que existem entre dinamismo produtivo e sexofobia, assim como entre sublimação espiritual e sexofobia. Trataremos neste fim de capítulo o primeiro destes dois casos, que diz respeito à América do Norte, enquanto o segundo, referente ao cristianismo, será desenvolvido nos próximos três capítulos, porque ele é muito mais vasto e importante, abrangendo o problema da ética sexual em vigor na civilização ocidental cristã. O fato que a América do Norte nos fornece no terreno da ética do sexo é a prevalência nela do princípio sexófobo, como aconteceu no fascismo, no nazismo e no comunismo, apesar de nestes, como há pouco dizíamos, ter ocorrido por razões diversas e para atingir finalidades diferentes. Observando os fatos, vemos que os Estados Unidos nos oferecem um tipo de mulher emancipada, trabalhadora e masculinizada, lutando no mesmo plano do homem e, às vezes, competindo com ele na corrida para a afirmação pessoal. Essa masculinização da mulher nos diz que o princípio varonil da luta prevalece sobre o oposto princípio feminino do sexo. Nesta condição, então, não nos encontramos na fase sexófila (de feminização do homem), mas sim na sua oposta (de masculinização da mulher). Por que aconteceu isso? Como e por que, neste caso, prevaleceu a ética sexófoba? Há duas razões fundamentais: 1) A civilização norte-americana recebeu essas suas características pela intransigência puritana que os primeiros emigrantes levaram às colônias da New England. Por sua vez, a atitude

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sexófoba do puritanismo não é senão um caso particular daquela assumida pelo cristianismo. Mas deste problema trataremos separadamente no próximo capitulo. 2) A sociedade norte-americana deparou-se com a necessidade de fazer um esforço gigantesco e indispensável para a conquista de um continente. Aquele povo tinha de realizar esse esforço para alcançar este objetivo, porque aquela terra era a sua pátria, procurada pela cobiça das nações europeias, que a reclamavam como colônia. Tratava-se de uma revolução também de princípios, os mesmos sustentados pela Revolução Francesa contra os da velha Europa, e nenhuma revolução pode realizar-se senão com a luta e a vitória do novo contra o velho. A necessidade instava e impelia a conquistar a independência, o território e o poder político, para assumir uma posição entre as nações do mundo. Tem-se aí a necessidade de ser feito o imprescindível esforço para realizar essa conquista. Mas não se trata da luta do guerreiro para submeter outros povos, ação que desenvolve os instintos da agressividade, mas sim da atividade do trabalhador para dominar um continente virgem, tarefa que desenvolve os instintos da laboriosidade. Urgia a necessidade de vencer. Impunha-se, dessa forma, a atuação do princípio já acima desenvolvido, pelo qual um indivíduo ou povo, quando precisa se esforçar para obter uma conquista, tem de canalizar todas as suas energias no sentido da luta, deixando de lado o restante e, assim, abandonando a forma mental sexófila. Então tudo se masculiniza, inclusive a mulher, e prevalece a ética sexófoba do lutador, enquanto, no caso oposto, quando o bem-estar não exige esforços para a conquista, tudo se feminiza, inclusive o homem, e prevalece a ética sexófila do amante. Os Estados Unidos se encontram num caso que, apesar de diferir na forma, é em substância igual àquele do lutador guerreiro. Eles tiveram de enfrentar o esforço de todas as revoluções, como a francesa, a fascista, a nazista e a comunista, porque os princípios da vida funcionam iguais para todos. Há no caso, porém, uma grande diferença, pois, em vez de tomar a forma de agressividade guerreira, dirigindo-se para a conquista de outros países e o domínio sobre outros povos, o esforço norte-americano tomou o caminho do trabalho produtivo, orientando-se para a atividade econômica, a fim de atingir a riqueza e elevar o nível de vida. Assim, pode-se explicar a presença do puritanismo sexófobo e a posição social da mulher nos Estados Unidos. A luta não foi para a conquista bélica, mas sim para o dinheiro. Foi a adoração do sucesso econômico que tomou o lugar da adoração da feminilidade. O impulso do sexo foi absorvido pela febre de trabalhar para o progresso e a supremacia econômica. Em primeiro lugar estava não a agressividade bélica, mas a supremacia do dólar. Chegou-se deste modo, como efeito da luta para a conquista do dinheiro, ao triunfo da ética sexófoba, que também é o resultado final equivalente da outra forma de luta, dirigida à conquista bélica. Trata-se sempre de um esforço que exige a canalização das energias num dado sentido, subtraindo-as às outras finalidades. Prevaleceu então a forma mental do trabalho em detrimento da sexófila, que foi absorvida. A raça foi assim submetida a um processo de masculinização, do qual nasceu o biótipo da mulher norte-americana. Evolvida nesse processo, ela tomou parte na corrida para o sucesso, fazendo dele o seu objetivo principal e desabafando suas energias na forma de trabalho, que substituiu a atividade e as qualidades naturais da feminilidade. A mulher se tornou econômica e socialmente independente, livre da sua habitual e natural submissão ao homem. Mas, se ganhou de um lado, não pôde deixar de perder de outro. Conquistou respeito, liberdade e poder, mas perdeu a sua posição de rainha no domínio do amor, que, se interessa ao homem, é também fundamental para a mulher. Essa transformação da sexofilia em sexofobia pode ter ge-

rado um povo rico, de elevado padrão de vida, economicamente poderoso, mas nem por isso um povo feliz. A riqueza, sem o amor e tudo o que ele gera e traz consigo, não dá felicidade. O indivíduo fica preso na engrenagem da luta, sem saída. No meio de toda a abundância, a alma pode permanecer na mais amarga necessidade, por falta de bondade e de carinho. Quando, ao invés de se juntarem por amor, os dois elementos fundamentais da vida – complementares e feitos para se fundirem, constituindo uma só unidade – ficam divididos pelo seu egocentrismo, fechados neste como rivais um contra o outro, a vida, desiludida, chora dentro deles, sobretudo na mulher, cuja função específica é o amor. Não há para ela vantagem que possa compensar uma tal perda. XI. A ÉTICA SEXÓFOBA DO CRISTIANISMO Vejamos agora, a respeito da ética do sexo, um caso bem mais importante, encontrado no cristianismo. A sua evidente moral sexófoba responde sempre ao mesmo princípio do esforço necessário para realizar qualquer conquista. Vigora então, também neste caso, que parece tão diferente, o mesmo princípio biológico fundamental pelo qual, quando a luta pela vida o exige, é necessário canalizar neste sentido as energias, para que elas não sejam desperdiçadas por outros caminhos, sobretudo o erótico. Neste caso também, se a forma é diferente, a substância é a mesma. Podemos assim compreender quais foram as primeiras origens e explicar o fenômeno dessa atitude sexófoba do cristianismo nas suas formas de catolicismo, protestantismo etc. A diferença entre a atitude sexófoba das revoluções acima mencionadas (francesa, fascista, nazista, comunista etc.), resultante da sua agressividade expansionista, a atitude dos norteamericanos, resultante da concentração de todo o esforço na atividade produtora, e atitude puritana do cristianismo, está no fato de que, neste último caso, a concentração das energias necessárias para sustentar a luta não está dirigida para a conquista bélica ou econômica, mas sim para a conquista espiritual. Os elementos e a técnica do fenômeno são iguais, mas o objetivo é diferente. Esta última também é uma dura conquista, que requer muito esforço. Daí a necessidade de praticar a ética do puritanismo sexófobo, a fim de canalizar neste caso também, tal como nos outros dois, todas as energias somente para o objetivo a atingir, evitando qualquer desperdício, que seria fraqueza imperdoável. Isto nos mostra como as leis biológicas dominam toda a vida, mesmo quando esta assume aspectos religiosos de sublimação espiritual. Desta vez, o grande inimigo a vencer, contra o qual se lança o instinto de luta e agressividade, não são outros povos ou o ambiente hostil, mas sim a própria natureza humana, ainda submersa na animalidade. Então o conteúdo fundamental que explica, justifica e valoriza o princípio sexófobo dentro do cristianismo é o conceito de sublimação espiritual. E não se pode dizer que isso seja biologicamente errado. Pelo contrário, o processo de espiritualização interessa de perto à vida, porque ele significa progresso ao longo do caminho da evolução, que, nos seus níveis mais elevados, resolve-se em espiritualidade. Mesmo sendo elevado, este objetivo não pôde, contudo, impedir que a tentativa para realizar tal transformação evolutiva fosse executada com os meios disponíveis e ao alcance das mãos do homem, conforme sua forma mental de lutador e os seus inferiores instintos animais. Aconteceu então que, para superar a animalidade, ele começou a agredi-la, a fim de destruí-la, praticando contra ela uma guerra na qual os instintos inferiores funcionavam em cheio e, assim, sem querer, confirmando-a e fortalecendo-a, em vez de eliminá-la. O processo se revelou contraproducente, porque, tornando-se uma atitude de autoperseguição, muitas vezes, ao invés de levar ao progresso resultou num desvio.

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Assim o resultado final foi que, para vencer a animalidade, acabou-se fazendo funcionar plenamente a animalidade. Mas como podia o ser humano atuar diferentemente, se esta era a sua natureza e ele não possuía outros recursos? Não conseguindo sair do nível dos instintos, tudo o que ele fez foi lançar o seu instinto de agressividade contra os impulsos do sexo. Quando ele enfrentou o problema da evolução espiritual, não soube e não pôde utilizar senão a forma mental que já possuía, constituída da luta pela vida. Foi assim que, chamada a funcionar, essa psicologia instintiva de ferocidade, em vez de ser vencida e eliminada, fortaleceu-se. Dessa forma, procurando-se a evolução espiritual, foram atingidos resultados contrários. Pela concentração de toda a atenção e esforço na guerra contra o inimigo, representado pelos instintos inferiores, quem se valorizou foi o próprio inimigo, que acabou sendo o grande pesadelo da vida espiritual da Idade Média. Mas, naquele tempo, era desconhecida a crítica da psicanálise, para que fosse possível aperceber-se da verdadeira natureza de tais fenômenos. Nasceu assim, devido a esse impulso de agressividade e essa psicologia de perseguição, o conceito de amor-culpa, ou sexo-pecado. O instinto de luta (sexofobia) prevaleceu sobre o instinto do amor (sexofilia). O divino milagre da gênese foi condenado e repelido como um mal. O ser humano tornou-se filho de um pecado, só tolerado como indispensável meio de geração e reduzido apenas a essa finalidade. Assim, para atingir a sublimação do amor, foi estimulado e reforçado o instinto de agressividade, que levou vantagem sobre o outro. Vamos, assim, penetrando na estrutura do mecanismo biológico e psicológico que originou a atitude repressiva sexófoba do cristianismo, da qual nos é possível deste modo compreender a gênese e a razão de ser. Fenômeno interessante, pois essa atitude representa um fracasso em termos espirituais, uma vez que, neste caso, em vez de levar à ascensão, isto é, ao progresso evolutivo, alcançou o resultado oposto, ocasionando uma descida aos impulsos inferiores combatidos pelo cristianismo, ou seja, um retrocesso involutivo. Sem querer, a religião havia penetrado e mexido no sensível terreno de um dos mais fundamentais problemas da vida: a evolução, tocando um dos seus pontos mais nevrálgicos, justamente o fenômeno do sexo, ao redor do qual mais refervem todas as lutas, sobretudo a luta para a seleção. E tudo isto o cristianismo da Idade Média fez sem conhecimento algum das leis biológicas e psicológicas que regem tais fenômenos, ignorando a ação do subconsciente e a técnica da formação dos instintos, seguindo apenas princípios empíricos, desprovidos de qualquer controle racional, sem qualquer conhecimento dos métodos da psicanálise e da psico-síntese. É perigoso esquecer que atrás dos bastidores, das aparências exteriores e das teorias religiosas e filosóficas há uma invencível realidade biológica, cuja reação é inevitável, quando ofendemos as suas leis, às quais não se pode ignorar sem ter depois de pagar as consequências do erro. Mas essa realidade é a chave para nos explicar o porquê de tantos fatos que depois, sem sabermos como, aparecem na vida. A razão do fenômeno da sexofobia tem raízes profundas na estrutura das leis biológicas e da psique humana, que, sendo levada por seu egocentrismo (tudo só para si) à rivalidade ciosa na posse, está, por isso, sempre pronta a lutar contra todos, sobretudo pela posse sexual, reservada aos mais fortes, conforme a lei da seleção. Essa é a realidade biológica situada no fundo desses problemas, muitas vezes despercebida. Essa é a verdade escondida por trás das afirmações humanas, mesmo quando elas sobem até ao plano filosófico, religioso e teológico. Um exemplo nos pode esclarecer melhor. Observemos no cristianismo, com todo o respeito, mas com olhos de psicanalista, o caso da proclamação oficial da virgindade da mãe de Cristo. Somente a grande importância do instinto sexual, fundamental no subconsciente, pode explicar como, entre tantos proble-

mas, haja sido escolhido exatamente este para ser definido, deixando em suspenso tantos outros, espiritualmente mais importantes e urgentes para o indivíduo e para a coletividade. A divindade de Cristo não precisava do apoio desse dogma para se sustentar. Se, em primeiro lugar, surgiu esse problema no intelecto masculino dos representantes do cristianismo, isto ocorreu como reflexo dos instintos que queimavam aninhados no subconsciente, onde o impulso do sexo, apesar de estar escondido, é mais vivo e ativo. O subconsciente é uma mina secreta de impulsos inferiores, assimilados na vida animal do passado, sempre prontos a aparecer no intelecto, disfarçados em forma mais nobre, para satisfazer a consciência e assim, sendo admitidos, conseguirem desafogar-se. Não há dúvida que, se os ministros do cristianismo, em vez de pelo biótipo homem, tivessem sido representados pelo biótipo mulher, que concebe o amor na forma passiva de silêncio, tal problema a respeito da mãe de Cristo, em vez de ter sido um dos primeiros a ser resolvido, haveria sido enfrentado por último, ou mesmo nunca. Mas desses involuntários jogos de ilusão da mente os homens da Idade Média, desprovidos de qualquer crítica psicológica, nada suspeitavam, caindo neles com pleno convencimento da verdade. Percebe-se claramente que, neste caso, o problema foi resolvido pelos homens, com a forma mental do macho, segundo a qual a condição mais imediata para uma mulher permanecer respeitável é o seu afastamento da presença de qualquer outro macho, principalmente neste caso, onde a mulher deveria ser honrada e venerada com amor, como santa, ato impossível para um homem praticar, quando algum outro já se tenha aproximado dela, o que significa tê-la sob domínio, condição pela qual só ele é o proprietário, sendo considerado furto a aproximação de qualquer outro. Neste caso é prontamente despertado o instinto fundamental da luta pela seleção, bem vivo e difundido, porque os indivíduos que mais o praticaram e assimilaram através de suas experiências reproduziram-se em maior número. Eis o substrato psicológico desse problema da gênese de Cristo. Esta é a realidade biológica oculta que rege e impulsiona tudo por detrás das aparências teóricas. Para tranquilizar o instinto do subconsciente masculino, sempre pronto a impor-se, surge a necessidade da castidade de São José, pai ideal, que não deve possuir os direitos do homem, dando origem à ideia de um substituto espiritual, com a concepção por intermédio do Espírito Santo. É possível, como neste caso, atingir um acordo universal por espontâneo consentimento coletivo, quando este se refere a uma ideia que tem as suas raízes profundas no subconsciente das massas, onde os indivíduos funcionam em série e é fácil chegar assim à aprovação da maioria. Esta aprovação, em geral, não é resultado raciocinado do conhecimento, mas apenas um produto descontrolado do subconsciente. Neste caso, involuntariamente, apenas se idealizou e se legitimou o desabafo de um instinto, afirmando-se energicamente que a mulher é profana, quando ela se aproxima de qualquer outro homem que não seja o próprio sujeito. No fundo reaparece sempre a mesma realidade biológica, em que é fundamental o instinto da luta pela conquista e exclusividade sexual, fato do qual deriva a sexofobia, dirigida contra todos os outros, mas em favor de si próprio. Não há teologia que possa paralisar esse impulso pelo qual cada macho é rival do outro e cada fêmea é rival da outra. A sexofobia é também um derivado subconsciente do instinto de rivalidade (ciúme). Cada um é sexófobo para com os outros, mas não para consigo próprio. Ninguém é culpado nem condenável por isso, pois este comportamento significa apenas que, apesar do cristianismo, ainda não se conseguiu superar este nível evolutivo do animal humano, onde vigora o princípio da luta, pelo qual a satisfação sexual deve constituir prêmio só para quem deu prova de ser mais forte que os outros, vencendo-os na conquista da fêmea. O

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que mais interessa à vida nesse plano é chegar à seleção desse biótipo, ao qual, mais do que a todos os outros, pertence o direito de se reproduzir. Os demais que sejam expulsos do banquete. Os fracos têm de desaparecer. ◘◘◘ Vão surgindo assim as razões desta atitude sexófoba e as causas biológicas deste instinto repressivo contra os outros, impulsos próprios também dos homens das religiões, porque ninguém pode evadir-se das leis do seu plano de vida. E neste seu plano eles permaneceram, apesar de vislumbrarem de longe um mundo superior e procurarem na sublimação espiritual a superação e a libertação. Exceto pelo que ficou nos domínios do sonho, as virtudes tornaram-se na realidade muito mais uma pregação para os outros e uma caça ao pecador, do que propriamente um desejo de realizar a própria sublimação. Disto não se pode culpar o cristianismo. Trata-se aqui da transformação de um biótipo do mundo. E se ela representa o objetivo principal das religiões, nem por isso deixa de constituir um trabalho longo e difícil, que se realiza na profundidade do fenômeno biológico, renovando-o no seu ponto mais central e substancial. Aconteceu então que, dentro do cristianismo, vestidos com a nova roupa de cristão, permaneceram tanto o biótipo do guerreiro romano, enfraquecido, como o do bárbaro do norte, não enfraquecido, sendo ambos grandes lutadores e não podendo oferecer senão aquilo que possuíam, ou seja, o seu instinto de agressividade, o qual eles deixaram prevalecer também no terreno do cristianismo, na forma de perseguição sexófoba. Isto não quer dizer que o princípio da sublimação em vigor no cristianismo não seja ótimo. Ele corresponde perfeitamente às leis da evolução biológica. Mas, exatamente por isso, pressupõe indivíduos evolutivamente maduros, prontos para poderem dar esse salto à frente. A menos que se tenha o estofo necessário, quem poderá fazer isso? Não há dúvida que, neste sentido, o cristianismo produziu exemplos maravilhosos de heróis do espírito, nos grandes santos, lutadores e vencedores desse terreno. Mas eles foram, antes de tudo, fruto da vida, que neles atingiu o grau de amadurecimento necessário. Chegaram depois as religiões, que os enquadraram nos seus princípios e os assimilaram, transferindo-os para o seu seio. A sua glorificação chegou posteriormente, como consequência da sua vida, que era por sua vez consequência da sua natureza. Onde esta não se encontrava, as religiões geraram apenas seres medíocres. O reconhecimento oficial não representa senão a última fase do fenômeno, na qual o mundo dá prova de ter percebido a presença de um ser superior, o que de resto nem sempre acontece, apesar da vida produzi-los em todos os tempos e lugares. O cristianismo aceitou e confirmou muitos desses seres excepcionais. Mas, se eles viram o lado positivo e construtivo das virtudes e foram criadores poderosos no terreno dos valores espirituais, a grande massa do povo, por não ser nada amadurecida, rebaixou tudo a seu nível e, da sublimação espiritual, viu apenas o lado negativo, de perseguição contra a animalidade. Por esta ser representada pelo corpo, que é tudo quanto o involuído conhece, ele transformou as renúncias das virtudes não em um meio para evoluir, mas numa moral de agressão, num impulso de destruição contra a vida, seguindo a tendência dos seus instintos, que representava o caminho mais curto e menos difícil. Foi assim que o sexo se tornou sinônimo de pecado e a castidade, uma regra ideal de vida. A agressividade, desta vez dirigida não contra um inimigo para a conquista bélica, mas contra si próprio e os semelhantes, gerou uma ética sexófoba e repressiva, nos antípodas do espírito do Evangelho, com consequências às vezes opostas às que este queria atingir, resultando em desvio e retrocesso involutivo, em vez de progresso evolutivo. Os inimigos do cristianismo salientam este fato como de devastação milenária, que abrange toda a Idade Média, cujos efeitos até hoje atormentam a sociedade moderna com uma ética sexu-

almente agressiva e antivital. Mas, se é fácil condenar, lançando a culpa aos outros, isto não explica nem resolve nada. Cada moeda tem o seu reverso. Quem de fato resolve esses casos é a maioria com a sua forma mental, filha dos seus instintos, que obedecem às leis biológicas vigorantes no nível evolutivo em que o ser vive. É o peso enorme da maioria que, seguindo o seu subconsciente, estabelece as correntes de pensamento e os pontos de concordância, determinando o que é verdade. E, quando a verdade chega à realidade através da revelação, a massa humana a interpreta, transformando-a e adaptando-a para si, porque, de outro modo, ela não seria utilizável. Para o cristianismo sobreviver, ele teve de aceitar essa adaptação. Trabalho despercebido e absolutamente de boa fé, porque fruto dos impulsos instintivos do subconsciente, onde a sabedoria da vida, fora do conhecimento consciente dos seres humanos, procurou resolver o contraste através de um compromisso de adaptação. Para que isto não acontecesse, seria necessário uma maioria de santos. Mas, já que ela não existe, que mais se poderia esperar de uma maioria de involuídos? Não há dúvida que o Evangelho representa a lei da liberdade e do amor. Mas a humanidade não estava pronta para isso. Como se pode conceder liberdade a quem não sabe senão aproveitá-la para lançar-se no abuso? Para quem possui apenas o instinto de revolta, é necessário salientar não a bondade de Deus, mas sim o seu poder punitivo, com a ameaça do inferno. O Evangelho é amor. Mas a única forma de amor normalmente conhecida e concebível era o amor carnal, fruto da experiência imediata, e não o amor espiritual para Deus e para o próximo, que é considerado natural inimigo pelo egocentrismo instintivo de cada um. Se, para as massas, o amor não pode ser senão desabafo e sexualidade animal, então não se pode permitir o amor, mas apenas exigir a castidade. Se o ideal está no espírito e se este permanece inatingível, porque a vida humana está concentrada toda no corpo, então nos lançamos com toda a nossa ferocidade contra este corpo, pois não conhecemos outro caminho para atingir o espírito. Não se pode negar, apesar da sua falência, a potência e a beleza desse esforço titânico, dessa desesperada tentativa de superação em que foi envolvida a Idade Média, povoada de delinquentes e de santos. Na teoria, a palavra amor tinha um sentido, mas, na prática, ela tinha outro bem diferente. Na luta entre o amor espiritual e o material, o segundo era o mais forte. E deste lado estavam todos os instintos, que representavam o impulso maior. O contraste entre os dois mandamentos, o da natureza física e o do espírito, era intenso, sendo a guerra inevitável. Mas nem todos eram santos para conseguir vencê-la em favor do espírito, e muitos a perderam em favor da animalidade ou, pior ainda, evadiram-se da luta por desvios e substitutos, nos quais estão a base dos muitos complexos e formas psicológicas torcidas e aberrantes que atormentam os cidadãos da nossa civilização moderna. A falência do ideal cristão neste terreno está no fato de que, em vez de realizar uma revolução espiritual do amor, indo ao encontro da vida, ele tomou uma atitude negativa ou de perseguição contra o maior impulso vital da existência: o amor, indo de encontro à vida. O erro e o prejuízo no terreno biológico foi que, neste caso, o esforço humano, em vez de se dirigir no sentido evolutivo, ou seja, positivo e construtivo, dirigiu-se no sentido involutivo, ou seja, negativo e destrutivo. Em vez de se chegar ao paraíso de um amor sublimado, chegou-se assim ao inferno da negação e da perseguição de todo o amor. Por esse caminho de destruição não foi possível chegar senão ao vazio, onde puderam crescer e prosperar os instintos egocêntricos da luta e da agressividade, os maiores inimigos do Evangelho e de qualquer progresso alcançado através da organização coletiva da sociedade humana. Repetimos que isto não foi culpa do cristianismo, porque o objetivo estava certo. A culpa foi do animal humano, que, para evitar o obstáculo,

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procurando atalhos e escapatórias, afastou-se do caminho, caindo em desvios e becos sem saída. Assim, do ideal religioso ficou somente o seu aspecto antivital, feito de virtudes negativas e de moral opressora, porque a destruição do inferior não foi compensada com a construção do superior para substituí-lo. Difícil e longo é o trabalho de domesticar no homem o animal, e o cristianismo encontra-se ainda no começo. ◘◘◘ Foi como consequência de todos esses fatos que o cristianismo assumiu uma atitude sexófoba. O anseio de sublimação, em vez de ser incremento de vitalidade em favor do espírito, acabou, pela imaturidade da maioria, sendo dirigido como agressividade antivital contra o corpo, canalizando sem querer as energias, comprimidas pela falta de desafogo sexual, no sentido da ferocidade perseguidora, da doença mental, dos complexos psicológicos, dos instintos torcidos e dos desvios eróticos substitutos, em lugar de canalizá-las no sentido da subida. Por detrás das teorias teológicas, o que vigorou de fato foi a ética do subconsciente, na qual se procurava desabafar cegamente, às escondidas, os impulsos dos instintos, torcendo aquelas teorias para cobrir-se com elas e justificar-se, ou então buscando escapatórias. Hoje, a psicanálise nos revelou a verdadeira origem de tais atitudes e ilusões psicológicas. Assim, o programa cristão de sublimação espiritual se tornou por vezes uma estratégia contra a vida, originando nela todas as reações consequentes. Desta luta contra si mesmo, poucos saíram vencedores, mas muitos ficaram torcidos, feridos e mutilados, condições que, pela repetição milenária, fixaramse como qualidades na raça, gerando o biótipo atual da nossa sociedade neurótica. Podemos, assim, compreender a causa desse seu estado, sobretudo nos países mais civilizados do mundo ocidental cristão. O objetivo ideal era a sublimação espiritual, mas o que prevaleceu de fato foi o instinto de luta. Sem dúvida não há luta que não sirva para desenvolver a inteligência, uma das maiores finalidades da vida. Mas, aqui, a inteligência se aguçou e aperfeiçoou no sentido dos imaturos, para um nível mais baixo, da astúcia e da mentira, utilizadas como meios de ataque e defesa, sendo isto, num regime de luta, o que mais interessava. Se o mundo dos séculos passados tivesse conhecido as exigências absolutas das leis da realidade biológica, teria compreendido que era melhor procurar uma aproximação gradual da atuação do ideal, fazendo a animalidade evoluir, em vez de agredi-la para destruí-la; respeitando a natureza, em vez de forçá-la; passando pelo caminho do aperfeiçoamento natural do amor, desde os seus níveis inferiores; ajudando a evolução, em vez de oprimi-la, para não excitar assim as perigosas reações da vida, que, quando ofendida num dos seus pontos mais importantes, é constrangida a se revoltar. É lógico que, de uma tal ignorância das leis biológicas e psicológicas nos séculos tenebrosos da Idade Média, mais não se podia exigir. Todavia as consequências de tal ignorância pesam até hoje sobre a estrutura psicológica da sociedade moderna. Teria sido melhor enfrentar o problema da sublimação dos instintos com mais inteligência e sinceridade, para resolvê-lo honestamente, com conhecimento, levando em conta as exigências fisiológicas. Assim, para suprimir tudo, exigindo demais, o ser se enredou nas areias movediças do fingimento. Desenvolveu-se e aperfeiçoou-se então o método da hipocrisia, por meio da qual, fazendo-se aparentemente puros, procura-se, por caminhos oblíquos, escapar furtivamente da agressividade sexófoba dos pregadores de virtude. Explica-se, assim, como nasceu o tipo de moral vigorante no mundo atual, herdada desse passado, pela qual os sinceros e ingênuos, caindo em erro visível, são condenados, enquanto os astutos, que sabem representar a comédia da virtude, vão para o céu. Explica-se, deste modo, como é que, nos resultados práticos, o

impulso para a ascensão e a correspondente evasão mística do sexo se tornou, muitas vezes, uma contorção da verdade e uma depravação dos instintos. A atitude de ferocidade repressiva era natural e passava despercebida na Idade Média, porque estava proporcionada à insensibilidade da maioria e não chocava como hoje choca a nós todos, que podemos percebê-la por nos encontrarmos na diferente posição de mais sensibilizados. Por isso somente hoje surgiu tal contraste, que nossa atual percepção permite enxergar. O conceito da sublimação dos instintos se tornará sempre mais compreensível, à medida que a humanidade for evoluindo. Mas devia ser coisa difícil entendê-la num mundo herdeiro dos pagãos romanos e dos ainda mais pagãos bárbaros invasores. É lógico que os primeiros passos para a superação no sentido cristão não podiam tomar senão a forma de luta para subjugar, que representava o universal método de vida. Se o ideal impunha domesticar no homem a fera da animalidade, a primeira coisa a fazer era submetê-la à força. Este era o modelo psicológico dominante na forma mental do ser humano naqueles tempos. Eis como o princípio da sublimação espiritual, apesar de não conter em si nada de agressivo, transformou-se num sistema de guerra. Mas não podia acontecer de outro modo. Nesta primeira fase, como primeiro degrau da subida, espírito e corpo estavam longe demais um do outro, para que fosse possível concordarem colaborando. Tratava-se de terríveis inimigos entre si, tanto mais que o espírito procurava tirar a vida ao corpo, para deslocar seu centro a um nível mais alto. É necessário entender que, para o ser vivendo no plano físico, a vida espiritual representa a negação e a morte daquela sua forma de existência. É natural, então, conforme a economia da vida, que o corpo não queira morrer e reaja em legítima defesa, quando a evolução para o espírito se apresente numa forma de agressão destruidora. E o corpo, com a sua animalidade, sabe muito bem fazer a guerra, que está no centro dos seus instintos vitais, e pode fazê-la, porque ele se encontra na plenitude do seu plano, no mundo físico, sua pátria e seu terreno, sendo aí, por isso, mais forte que o espírito, que não é ali senão um pobre desterrado. Estas são as duas dificuldades que os primeiros dois milênios de cristianismo tiveram de superar. Hoje, que este primeiro degrau foi galgado, vislumbra-se a possibilidade de um trabalho espiritual mais requintado, todo ele pacífico, sem a guerra e suas respectivas consequências, um trabalho de colaboração entre os dois termos opostos, e não mais de inimizade. Então o corpo, domesticado por um cérebro mais inteligente, torna-se obediente instrumento do espírito, para ajudálo numa obra de progresso, que conduz à vantagem comum. Já falamos em outro lugar que a ética é relativa e evolui. É lógico, então, que a nossa ética seja diferente da ética da Idade Média, porque o plano evolutivo em que o homem vive hoje não é o mesmo do passado. A psicologia medieval hoje nos aparece feroz, porque somos diferentes e compreendemos o quanto ela seja contraproducente, o que não era concebível naquele tempo, pois ela parecia bem natural para quem possuía aquela forma mental. Ninguém se escandaliza ou se ofende com algo que corresponde à sua natureza, pois isso somente sucede quando nos encontramos numa posição diferente. Pela mesma razão, a ideia de um inferno eterno – que era necessária em outros tempos, porque o ser irracional não obedecia senão pelo receio do seu próprio dano – hoje convence cada vez menos e, por isso, torna-se tanto mais contraproducente quanto mais o homem aprende a raciocinar. Não é com a severidade das punições, sejam elas civis ou religiosas, que se pode eliminar o mal e civilizar o mundo. Temos visto quais os resultados que produziu o sistema do terror civil e religioso na Idade Média. A humanidade evoluiu não graças a ele, mas sim apesar dele. A imposição dá origem a uma reação defensiva, e não ao comportamento desejado; gera, como defesa, a mentira,

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ao invés de sinceridade e verdade; produz a revolta, e não a colaboração. A obediência obtida pela força é traidora, como aquela arrancada do escravo que, odiando o patrão, espera qualquer oportunidade para se rebelar. Aquele método, porém, foi útil no seu tempo, porque, com a punição, começou a estabelecer-se uma conexão de ideias entre o ilícito e o dano. Pelo fato de, todas as vezes que ocorria a desobediência, aparecer o sofrimento, as duas ideias começaram a ficar ligadas uma a outra no subconsciente. Então, conexa com o mal, surgiram as ideias de medo, remorso, culpa, arrependimento e de consciência do mal cometido, iniciando então uma forma de educação. Assim, a desobediência levava a um estado psicológico de insegurança. Todo erro se tornou pecado, gerando culpa, fato que despertou por si mesmo o medo da desobediência e, com isso, um sentido de responsabilidade individual. Foi por esse caminho que o ser, pelo hábito, foi acabando com os velhos instintos da fera, para substituí-los por novos instintos, menos atrasados. Já explicamos em outro lugar que a longa repetição gera automatismo e, com isso, a assimilação no subconsciente de novas qualidades, que constituem depois os novos instintos. É assim que, armazenando experiências com a vida, o ser vai evoluindo. Estamos observando o verso e o reverso do problema, para conhecê-lo de todos os lados. Foi assim que o mundo medieval se enredou no culto terrorista do diabo, mais que no culto vivificante do amor de Deus. Muitas energias se canalizaram para a negatividade destruidora, num caminho às avessas, para o AS, em vez de se dirigirem para a positividade construtora, que representa o caminho direto para o S. Obteve-se assim um movimento oposto, involutivo, e não evolutivo; de tortura, e não de sublimação do espírito; para triunfo de Satanás, e não de Deus. Chegou-se então a uma religião de opressão e sofrimento, em vez de alegria e satisfação. E o homem, quando queria alívio, bem sabia onde encontrá-lo, buscando os gozos materiais da animalidade fora da religião, indo contra os princípios por ela pregados. Nasceu assim, no seio do cristianismo, um outro mundo completamente anticristão, nos antípodas daquele pregado por Cristo. Contra o Deus da bondade, do perdão e do amor, prevaleceu o Deus da vingança, da punição e do terror, dominando a religião da inquisição, das fogueiras, dos feiticeiros, das bruxarias e do inferno com os seus diabos. A sublimação mística se tornou uma forma de perseguição sádica do corpo, com todos os seus castigos infligidos à carne (penitência, flagelação, cilícios). Dessa repressão sexófoba não só nasceram os erotismos torcidos, degenerados no sadismo e no masoquismo, mas também, explodindo dos instintos comprimidos e corrompidos, as psicoses individuais e coletivas. Isto por se ter, à força, exigido demais de indivíduos imaturos, sem compreender que a sublimação do espírito não se pode atingir agredindo a vida para destruí-la, mas somente educando-a e ajudando-a a elevar-se. Nasceu assim um cristianismo às avessas, que não vai ao encontro da vida, construindo, mas de encontro a ela, destruindo. Prevaleceram, assim, disfarçadas como do bem, as forças do mal. Não se pode destruir o amor sem destruir o impulso fundamental da existência, pois isto significa ir contra Deus. Por esse caminho chega-se ao suicídio, e não à elevação espiritual. Não há dúvida que a tarefa fundamental da evolução é sublimar esses impulsos, mas querer destruí-los é um grande erro, que se paga caro. Por detrás dos bastidores das aparências e das verdades proclamadas pelas teorias religiosas, foi vigorando uma verdade diferente, a feroz realidade da vida, feita de luta desapiedada para o triunfo do mais forte. Quem mais sofreu com a atitude de agressividade antivital foram os sinceros, honestos e obedientes, mais sugestionáveis e prontos para aceitar a verdade que lhes é oferecida. Biologicamente, porém, eles são aque-

les mais fracos, que a vida, com a luta pela sobrevivência, procura eliminar. Quem de fato venceu no terreno biológico não foram as meigas ovelhas, mas os lobos ferozes, os rebeldes que não se deixaram submeter, os inteligentes que souberam transformar a força em astúcia, vencendo com o engano. Foram estes os que triunfaram, porque eram os mais providos de qualidades para vencer na luta pela vida. Realizou-se assim, no cristianismo, a comum seleção biológica, que representa para ele, porém, uma seleção involutiva, às avessas, resultando na falência dos seus ideais. Assim, o biótipo inferior do AS venceu contra o superior do S, que apareceu só em casos excepcionais, nos santos, fora da realidade comum. A substância da vida ficou sendo a luta feroz (Maquiavel), com a prevalência daqueles que, não acreditando de forma alguma na sublimação espiritual, utilizaram a religião para sua vantagem material, estabelecendo uma escola de hipocrisia, ainda vigente até hoje. ◘◘◘ Estamos observando a atitude do cristianismo medieval porque, nela, encontram-se as raízes que deram origem ao atual estado da sociedade moderna na civilização ocidental de origem cristã, dando-nos a explicação dele. Podemos assim compreender como nasceram a forma mental e a respectiva ética hoje dominante, em vigor na substância, e não na aparência, manifestada nos fatos, e não nas teorias, que sustentam outra verdade. Temos falado de hipocrisia, mas, se a sabedoria das leis da vida permitiu que ela aparecesse e se fixasse na realidade biológica dos fatos, é porque a hipocrisia cumpre uma função que justifica a sua presença. Por que razão, então, ela surgiu, desenvolveu-se e existe em nosso mundo? Não há dúvida que a evolução humana progride para a sublimação espiritual, sustentada pelo cristianismo. Mas trata-se de um cume a ser atingido, sendo necessário desenvolver paulatinamente a inteligência, um grau após o outro. Ora, o cristianismo, indicando desde o início o ideal supremo, colocou-se em absoluto contraste com a realidade da vida, que existe e quer continuar existindo no seu terreno de nível inferior, bem afastado daquele cume. Torna-se inevitável, então, o choque entre o ideal e os fatos, duas exigências opostas dentro da vida, daí a necessidade de conciliá-los de qualquer maneira, resolvendo o conflito na prática, para que seja possível viver. O problema está no fato de que a realidade biológica baseia-se na luta para a seleção do mais forte. Ora, como prover a necessidade de lutar, quando o cristianismo corta as garras à fera e lhe tira todas as armas de defesa? Então, o que pode fazer o cristão, se ele, assim, fica desprovido dos meios indispensáveis para sobreviver num mundo cujo fundamento é a luta? A vida, no seu conjunto de massas humanas, não pode aceitar a posição do cordeiro que se oferece em sacrifício somente para engordar os lobos vorazes. Então o homem, preso dentro desta armadilha, tem de aguçar a sua inteligência para encontrar uma solução. Assim, ele começa a galgar o primeiro degrau neste novo sentido. Até agora tratou-se apenas de força bruta e estúpida, ou, quando muito, dirigida com astúcia. Neste ponto da sua evolução, o homem tem de deixar a força de lado, para substituí-la por um instrumento mais sutil: a inteligência. Todavia trata-se ainda de uma inteligência primitiva e míope, que vence no momento, obtendo a vantagem imediata na luta, mas que perde no longo prazo a batalha maior, de vastos resultados. Desenvolve-se deste modo a inteligência da astúcia e do engano, como a encontramos em nossa civilização atual. Mais não pode compreender e melhor não pode fazer um ser ainda fechado no seu egocentrismo. É lógico que ele terá de sofrer todas as consequências dolorosas desse método ainda imperfeito. Mas o sofrimento está aí exatamente para cumprir a sua função, que é ensinar a quem ainda não sabe.

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Na substância, evolução biológica e sublimação espiritual são a mesma coisa. Esses são os primeiros passos no caminho da subida. Trata-se de transformar o mundo da matéria no do espírito, com todas as suas qualidades. Isto significa transformar a ignorância em conhecimento, desenvolvendo a inteligência, para atingir a compreensão de tudo o que pertence à vida e alcançar a sabedoria, a fim de orientar-se com consciência de si próprio, evitando assim o erro e o mal, que trazem sofrimento, e praticando a verdade e o bem, que trazem felicidade. O ponto de partida da sublimação espiritual é a fera, e o ponto de chegada é o anjo. O caminho é um só e sempre o mesmo, emprestemse-lhe as palavras da ciência ou as das religiões. Subindo do AS para o S, este é o caminho correspondente ao impulso fundamental do existir do universo, que ninguém pode parar. Hoje estamos ainda nos degraus mais baixos desse caminho. O espírito está ainda envolvido nas trevas da ignorância, preso na cadeia de erro e sofrimento da matéria, constrangido a viver dentro de um corpo que não pode sobreviver a não ser à custa de uma luta feroz. Em vez da luz da inteligência, temos armas para o ataque e defesa. Eis de que se necessita no mundo: força! No terreno da inteligência, a mais útil é a inferior, ao nível da astúcia, para enganar o próximo e vencê-lo na luta, armando ciladas com as armadilhas da mentira. Isto terá de durar até o homem chegar a compreender, à sua custa, quanto esse método seja contraproducente e perigoso. Então ele o abandonará, para seguir o muito mais vantajoso método da sinceridade e da honestidade, galgando um novo degrau da subida. O cristianismo não existe fora da vida, nem pode sair das suas leis, estando por isso sujeito a esse processo de desenvolvimento biológico e à forma que este assumiu. Se, com a sua lei de amor, o ideal cristão suprimiu a força, nem por isso o ser pode permitir-se o luxo de ficar fraco, sem defesa alguma. A cobra, por não ter presas e garras, teve de desenvolver o veneno para se defender e sobreviver. Assim, a natureza criou outras armas mais sutis. Daí a necessidade de se passar da fase da força à fase da astúcia, que é mais refinada e constitui o passo seguinte no caminho da evolução. Aparece automaticamente então, esse outro método de luta, necessário para ensejar uma seleção mais adiantada, na qual começa a surgir a inteligência. Ora, esse fato tinha de se verificar no seio do cristianismo, que, com o seu princípio de sublimação dos instintos, havia-se tornado instrumento de evolução. Mas de que grau de evolução? Se o cristianismo não pode sair das leis da vida, é lógico que ele tinha de operar dentro do nível atingido pelo ser humano. Portanto a transformação biológica que ele podia realizar não era aquela teoricamente proclamada e pregada, da sublimação espiritual, mas sim, conforme já observamos, a do plano animal-humano, para transformar a força em astúcia. Assim, o cristianismo realizou somente o que biologicamente podia realizar, conforme a sua natureza. Isto não é culpa de ninguém. A universal luta pela vida não é brincadeira, tratando-se de uma terrível necessidade para todos. Cada fraqueza pode custar a própria vida! Não condenamos o cristianismo. Mas reconhecemos que ele não podia fazer mais do que fez, porque não há religião capaz de permitir ao homem sair de súbito do seu nível de evolução sem ter de obedecer às leis que nele vigoram. Assim se apresenta o problema, quando o enfrentamos com a forma mental positiva da psicanálise, observando-o objetivamente, como fenômeno biológico. Tudo isto dissemos para explicar como nasceu em nossa civilização cristã o hábito e o método da mentira. O fato é racional e biologicamente justificado. Respondemos, assim, à pergunta que há pouco nos fizemos. Do acima exposto, segue-se que, neste caso, a lição de fato aprendida por muitos, por ser a única possível neste nível, foi a astúcia, que substituiu a força como arma necessária, porém mais refinada. Foi possível assim dispensar a violência, pela

qual o lobo é prontamente revelado, para se usar em seu lugar a astúcia, por meio da qual o lobo pode esconder-se nas aparências de cordeiro. É assim que, em nossa sociedade, tornaram-se possíveis as aparências de uma tranquila convivência social. A nossa sociedade atingiu o ápice desse método no frívolo século XVIII, no qual, com o maior respeito formal pela religião e reconhecimento do pleno triunfo do poder da hierarquia eclesiástica, prestando a mais hipócrita homenagem aos ideais religiosos e exaltando o puritanismo sexófobo, a classe privilegiada, fervorosa em todas as práticas edificantes, exercia uma feroz exploração dos pobres e, debaixo da moral oficial, levava uma vida de livre licenciosidade. Esse foi o século mais corrompido, no entanto foi nele que mais se construíram igrejas e capelas, como uma tentativa de cobrir com a plenitude exterior o vazio interior. Triunfo da hipocrisia, pela qual foi possível conciliar as duas exigências opostas: manter a posse de um ideal, colocando-o longínquo no céu e no futuro, afastado o suficiente para não incomodar, e, ao mesmo tempo, vencer na luta do modo mais fácil possível, por meio de uma conduta às escondidas, coberta de ideais e com aparência evangélica. ◘◘◘ Em terreno algum prevaleceu tanto este método do fingimento quanto no dominado pelo puritanismo sexófobo. Observemos as razões desse fenômeno. O fingimento representa a válvula de segurança da vida, aparecendo como uma escapatória todas as vezes que ela precisa resolver um conflito entre dois opostos, sendo necessário conciliá-los. Neste caso, temos, de um lado, o princípio da agressividade sexófoba, que o cristianismo da Idade Média estabeleceu em nossa civilização ocidental. Prevaleceu, assim, o conceito da satanização do amor, que se tornou condenável como culpa e pecado. Da luz da sublimação espiritual não chegou à Terra senão essa sombra de negatividade a respeito do maior impulso da vida. Assim, o estímulo para a evolução se emborcou, torcido, em sentido antivital. De outro lado, temos o princípio oposto, muito mais próximo e percebido, porque constituído não por ideais e teorias, mas pela realidade biológica. Trata-se do principio da continuação da vida, que se impõe por meio do instinto do amor, impulso este que, quanto mais é comprimido, tanto mais se torna poderoso, reagindo tanto mais, quanto mais é agredido com condenações. Os dois princípios, o sexófobo em nome da sublimação espiritual e o sexófilo proveniente da natureza, estão um contra o outro. Os seres humanos, mergulhados nas trevas da ignorância, não compreendem nada desse fenômeno que eles estão vivendo. Então é a vida que resolve o conflito no subconsciente deles, oferecendo automaticamente o resultado final da operação com a qual ela resolve o problema. Como cada uma das duas forças é poderosa o bastante para não ficar vencida pela outra, não sendo possível a eliminação de uma com a vitória completa da outra, os dois impulsos opostos ficam existindo próximos entre si, cada um deixando um pouco do seu espaço para o outro. Atinge-se desta maneira, que é a única possível, um estado de amigável convivência, fazendo brilhar na superfície os ideais com a sua moral perfeita de puritanismo sexófobo, enquanto, debaixo dela, deixa-se funcionar as concretas satisfações materiais, atendendo aos instintos da vida. Se isto pode ser chamado hipocrisia do ponto de vista do ideal, por quem o queira tomar a sério, é, entretanto, ótimo para a maioria, que não pensa nisso, porque sacia todas as exigências, satisfazendo os ideais do espírito nas aparências e atendendo na substância a realidade do corpo. Assim, tributando todas as honras exteriores aos princípios das religiões e dando toda a satisfação positiva aos instintos materiais, o caso foi bem resolvido, como de fato acontece, para a satisfação de todos. Não estamos formulando julgamentos e muito menos condenações, mesmo porque isso seria presunção inútil, que não alteraria nada. Estamos apenas observando o que vai acontecendo

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em nosso mundo, para encontrar uma explicação e compreender o fenômeno pelo qual, através da mentira, foi possível chegar a um compromisso que, conciliando as duas exigências opostas, resolve assim o caso com a coexistência pacífica. O ideal da sublimação espiritual é pesado, e a ascensão requer muito esforço. Além disso, surgem prontas a todo instante as escapatórias que permitem a evasão. Eis como se estabeleceu a coexistência entre o método da proibição oficial, em perfeita obediência aos princípios-ideais, que permaneceram assim respeitados e triunfantes, e o método da desobediência tacitamente praticada e tolerada, para satisfazer as exigências da animalidade humana. Porém a vida resiste a tudo, e não há puritanismo sexófobo que possa subjugá-la. Deste modo permaneceu o insuprimível impulso do amor, em muitos casos olhado como pecado que leva às punições eternas do inferno, em vez de ser concebido como uma forma de bondade para compensar tantas das maldades de que está cheia a vida. Foi assim instituída, por seres naturalmente nascidos pecadores, uma automática e contínua produção de pecados. Mas eis que, tal como para as doenças há prontamente médico e farmácia, também para os pecados as religiões oferecem todos os remédios. A função delas é exatamente limpar pecados, de modo que, para a difusão e prosperidade de si mesmas, a abundância de pecadores e de pecados é útil, assim como, para a prosperidade dos médicos e farmácias, é útil a abundância de doentes e doenças. Chegou-se desse modo a um acordo tácito entre autoridades espirituais e pecadores, que puderam assim permanecer como tais, porquanto necessários para justificar a presença dessas autoridades com o seu trabalho de salvação, com o qual as organizações religiosas se sustentam, tornando-se necessárias. Felizmente atingiu-se a solução do conflito com a satisfação de todos, porque, no mundo, deve haver lugar para todos em paz, convindo a todos o compromisso subentendido. Por fim, tudo acaba sendo lógico e equilibrado. Dado os dois impulsos opostos em ação, cada um exigindo a sua satisfação, essa é a solução perfeita. Como é lógico, venceu o mais forte, isto é, a lei que vigora no nível biológico, no qual está situado o ser humano. Venceu e continuou funcionando a realidade da vida, tal como ela é neste plano, enquanto no alto das torres se desfraldava ao vento a bandeira do ideal, como testemunho, para satisfazer o orgulho, dissimulando com a nobreza a animalidade (bem escondida) do ser humano. Assim, não só a honra dos pecadores foi salva, mas também a sua satisfação, enquanto, ao mesmo tempo, as religiões preservaram a sua posição terrena. A pregação dos ideais ficou para embelezar o mundo. Permaneceu a obra salvadora da redenção dos pecadores, sempre em grande número, quais fregueses indispensáveis e razão de ser do poder social, econômico e político das organizações religiosas. Então todos ficaram satisfeitos: os pecadores com os seus pecados, e os condenadores com as suas condenações. Assim, a secreta satisfação dos instintos satisfez o corpo, enquanto a condenação pública da culpa satisfez o espírito. Deste modo, a vida, sempre utilitária, consegue atingir o acordo entre opostos, por meio de um ajuste no qual cada um dos dois cede de um lado para ganhar do outro, deixando o que para ele é menos importante e ficando com o que mais lhe interessa. Foi assim que cada um pôde levar a sua parte. De um lado, os pecadores ficaram com os seus pecados, o que mais lhe interessa. Do outro lado, os pastores permaneceram com a coisa mais importante para eles, ou seja, suas posições, conservando-as bem assentes sobre um vasto rebanho de pecadores, sempre pecadores, que nunca poderia acabar, pois, tão logo isso acontecesse, desapareceria o trabalho que as justifica. Faz-se necessário um rebanho de seguidores continuamente rebeldes, que devem ser convertidos, mas que nunca se convertem. É preciso um estado de pecado universal e permanente, que dei-

xe o problema não resolvido, sempre à espera de solução. E com isto concorda perfeitamente a maioria, que nada mais almeja senão ficar pecadora. Deste modo, cada um realizando os seus objetivos, não se poderia atingir concórdia maior. Eis como tal posição se estabeleceu nos séculos e por que a encontramos em nosso mundo. Não se pode negar que, neste gênero, esta seja uma obra prima de arte realizada pela sabedoria da vida, conseguindo, nesta fase de transição no caminho evolutivo, conciliar temporariamente dois impulsos opostos, sem destruir nem um nem outro, pois ambos são necessários. Os dois têm de existir, porque cada um deve cumprir a sua função: de um lado, a geração livre e abundante, como quer a natureza, e, de outro, a ascensão espiritual, como quer a evolução. É necessário reconhecer, imparcialmente, o direito da vida atingir com todos os meios, custe o que custar, a sua finalidade, que é a geração da quantidade, necessária para dela, com a seleção posterior, tirar a qualidade e, assim, realizar a evolução. Não está contra as leis da vida que, para a maioria ainda imatura, os esforços requeridos pela sublimação espiritual representem um empecilho, constituindo um peso do qual ela deve libertar-se. Não se pode exigir que um involuído obedeça leis de planos superiores, situadas acima do seu nível de evolução e, portanto, fora da sua forma mental. Tudo isto não escandaliza a vida, que contém em cada nível de evolução uma ética respectiva, diferente e proporcionada a ele. Contudo podemos nos escandalizar, se escolhermos como ponto de referência o ideal, porque assim nos apercebemos da posição atrasada da nossa ética humana em relação à superior. É pelo contraste, então, que se reconhece quanto o ideal seja mentira na Terra. Mas, para a vida, tudo é natural e justo, se colocado no seu devido lugar e julgado a respeito do seu plano de evolução, e não de outros. Em cada plano de existência, a vida raciocina de modo diferente. Amanhã, numa humanidade mais evoluída, a vida irá querer aplicar princípios mais adiantados, como aqueles ligados à sublimação espiritual. Estes, porém, podem representar hoje, para a maioria imatura da involuída humanidade atual, uma negação antivital, contra a qual a vida reage, defendendo-se. Na obra de Deus não se pode dizer que alguma coisa não seja perfeita, enquanto estiver cumprindo a sua função. Se nos aparece de uma maneira diferente, é porque não entendemos o seu lugar e a sua função. É lógico que as exigências do plano de vida onde se encontra hoje o homem sejam completamente diferentes das exigências do nível de evolução que ele atingirá no futuro, quando chegar a realizar os ideais das religiões. O ideal da vida no nível humano atual é a seleção do mais forte através da luta. Só quem, por ter desenvolvido os instintos de agressividade egoísta, venceu e sobreviveu foi escolhido para formar a raça atual e o biótipo hoje dominante. Então é lógico não só que ele siga esses instintos e com eles funcione, mas também que deles dependam a sua forma mental e a sua conduta. Portanto é natural que ele tenha no sangue o gosto da agressividade, pois deve a ela a sua sobrevivência. Oferecer a este tipo alguma coisa para agredir e destruir, significa oferecer-lhe uma oportunidade para satisfazer os seus instintos. Ora, quando esse indivíduo, no mundo civilizado, depara-se com a lei, que lhe pede para viver na ordem, ele nada compreende desse princípio superior, vendo nele apenas um obstáculo a separá-lo de sua liberdade, como uma provocação que o estimula à revolta e à luta. Explica-se assim a instintiva satisfação na violação da lei, considerando-se a exigência de obediência a ela não como uma vantagem, mas como um ataque contra o qual é bom se defender. Tudo acorda a cada passo o instinto do lutador e a reação do rebelde. A coisa proibida, só por isso, torna-se mais preciosa e procurada. Possuí-la significa ser forte e vencedor, merecendo como tal ter direito ao respeito. Eis como tudo se transforma nas mãos do involuído, conforme o que ele

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é. O indivíduo forte nesse plano é lutador e, como tal, gosta de proibições para violá-las, de inimigos para vencê-los e de perigos para superá-los. Trata-se de uma forma ainda inferior, mas já há na luta um princípio de esforço, e isto é evolução. Chegamos ao final. Que acontece então, quando tal biótipo se encontra perante a proibição do puritanismo sexófobo? Para tal ser, cada obstáculo representa uma dificuldade a vencer e, por isso, um convite à luta. Então qualquer coisa, só pelo fato de ser condenada, torna-se para ele mais interessante e procurada. O perigo representa um desafio que excita o desejo de vencer, e a ideia do não permitido confere um sabor de coisa especial e preciosa. Com a proibição, aumenta a falta, com a falta, o desejo e, com o desejo, o valor. É a lei natural da oferta e da procura. Assim funciona a psicologia humana. Uma coisa permitida, que se pode encontrar em abundância, só por isso perde parte do seu valor, enquanto, ao contrário, uma coisa rara, difícil de obter, que não se pode atingir senão às escondidas e à custa de muito esforço, só por isso adquire valor. Eis então que, no plano animal-humano, este conceito do puritanismo sexófobo do cristianismo se reduz a um convite para o indivíduo lutador experimentar o seu valor. Assim, o objetivo atingido foi completamente diferente do previsto. Acima dos princípios ideais das religiões, venceram os princípios inferiores da realidade biológica de fato em vigor. Ora, isto contradiz absolutamente as finalidades da sublimação espiritual do cristianismo, significando a sua falência nesse terreno, porque, na vida real, o homem chegou no ponto contrário daquele que ele deveria chegar. As leis que venceram foram aquelas biológicas do presente, vigorantes no atual nível de evolução, e não as do mundo espiritual do futuro, vigorantes num mais alto nível de evolução. Estas permaneceram longínquas nos céus, à espera de descer um dia à Terra, para aqui serem concretizadas. Realizou-se no mundo a verdade deste nível, que é bem diferente. Aqui, de fato, a vida recompensa o guerreiro que sabe vencer, porque, nesse plano, este é o biótipo mais valioso, o qual ela quer que se reproduza. E, de fato, é neste sentido que a vida se manifesta no instinto da mulher, no momento da escolha sexual. Neste momento, o mais procurado é o homem forte, pois ele garante a defesa, enquanto é desprezado o meigo homem do Evangelho, que, pelo fato de tomar a sério e viver os ideais das religiões, é julgado na prática um ser inútil, por se encontrar fora da realidade da vida. Então a moral que de fato prevaleceu em nosso mundo não foi a cristã, mas sim a do mais forte, a quem, nesse nível onde vigora o princípio do egoísmo, pertence o direito de estabelecer sua própria verdade, de acordo com a sua vontade. Ele construiu assim a sua ética sexual, garantindo domínio e completa liberdade para si, mas fazendo vigorar para a mulher, porque fraca e, por isso, sem direitos, a lei da obediência. Para o macho audacioso, ficou reservado todo o direito de seduzi-la e abandoná-la, se ele for astuto. Neste caso, o filho tem de nascer ilegítimo e a mãe ser desonrada. Para eles, porque mais fracos, toda a culpa e todo o dano. Então, também no casamento, o instinto leva o homem a considerar a mulher como sua propriedade. Assim a vida continua o seu caminho, indiferente às pregações de princípios superiores, torcendo-os continuamente. As proibições do puritanismo sexófobo são utilizadas pela vida para realizar a seleção dos mais rebeldes e astutos, que melhor sabem violar essas proibições, dando assim prova do seu valor e, com isso, adquirindo o direito de serem escolhidos pela vida para se reproduzirem, multiplicando-se com a geração daquele tipo. O que de fato prevalece na realidade é a vida inferior da animalidade, e não a superior das religiões. Este fato nos prova que o nosso mundo atual está mais próximo do AS que do S. Para o homem evangélico, que toma Cristo a sério e o segue, não há outra posição senão a de crucificado, como Ele.

XII. O SEXO COMO PROBLEMA ATUAL Observamos os princípios gerais da ética do sexo e o caso da atitude sexófoba do cristianismo no seu significado e consequências. Procuremos agora observar a ética do sexo como problema atual, na forma em que ele se nos apresenta no tempo presente. Coloquemos imparcialmente os elementos na mesa do laboratório da vida, não para lutar e condenar, mas para compreender e resolver. Os elementos do problema são os seguintes: 1) De um lado, o cristianismo, com a sua ética sexófoba, cujas origens e razões explicamos, concepção que levamos em conta porque domina a nossa civilização cristã ocidental. 2) Do outro lado, a realidade biológica, com as suas leis inerentes ao atual nível de evolução atingido pela raça humana. Essa realidade é o que de fato prevalece na vida e dirige o indivíduo por meio dos instintos, para que sejam atingidas as necessárias finalidades biológicas. Temos de levar em conta ambos estes elementos, com os respectivos impulsos, objetivos e resultados. Ora, no tempo presente acontece que, enquanto a atitude sexófoba do cristianismo permaneceu inalterada, verificaramse no terreno da vida fatos novos devidos à ciência moderna. Sobretudo o homem civilizado acabou por se encontrar em condições biológicas diferentes das antigas. Trata-se de um fato controlável na domesticação dos animais que, quando eles se encontram protegidos e, por isso, não têm necessidade de concentrar as suas energias na luta pela defesa e pela alimentação, ambas asseguradas nesta condição, então, como já mencionamos, essas energias se canalizam no sentido erótico. Diminuem assim a ferocidade e a agressividade, enquanto aumenta o impulso do sexo. Isto sucede porque a natureza quer utilizar cada bem-estar supérfluo, tão logo este apareça, não para o gozo do indivíduo, mas para a multiplicação da raça, o que lhe interessa muito mais. Desse modo, a vida abaixa o nível de existência em favor do número. O homem civilizado encontra-se nessas condições. Pela segurança atingida no que diz respeito à defesa e à alimentação, diminuíram nele os instintos de ferocidade e agressividade, de modo que, pela complementaridade dos dois caminhos (agressividade ou sexo) como já vimos, as energias se dirigiram no sentido do sexo, tendo este impulso levado vantagem sobre os demais. Com isso, a natureza quer utilizar em favor da multiplicação da vida o melhoramento atingido no nível de existência. Mas outro fator importante concorre em favor do aumento do número. O progresso da medicina diminuiu a mortalidade, estabelecendo, com as suas descobertas e seus novos métodos, como já mencionamos, um verdadeiro controle da morte, cuja consequência automática é um notável e cada vez maior aumento da população, pelo fato de não ter havido um proporcional controle dos nascimentos. Isto se acentua ainda mais, uma vez que a ética sexófoba do cristianismo condena o correspondente controle dos nascimentos, suprimindo assim o único meio que poderia equilibrar o controle da morte. O resultado final de tudo isto é um aumento vertiginoso da população. Como consequência, a humanidade está se encaminhando para um desastroso estado de fome. O progresso técnico para aumentar a produção alimentar não consegue preencher a falta gerada pelo consumo de tão grande multidão de seres humanos. Disto se segue que, hoje, dois terços da humanidade, especialmente na Ásia, em relação aos 400 milhões de indianos, recebem uma alimentação inferior à que recebia no passado e menos do que é necessário para viver. Os fenômenos estão ligados um ao outro como os elos de uma corrente. Acontece então que, de um lado, graças à civilização, a vida se torna mais segura, com a defesa e a alimentação garantidas, razão pela qual os impulsos eróticos se inten-

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sificam, aumentando a geração, enquanto de outro lado, ao mesmo tempo, a ciência médica, diminuindo as mortes, aumenta a sobrevivência. A consequência inevitável é que a produção dos recursos alimentares não corresponde em proporção ao aumento da população. O homem não regula o fenômeno com um controle dos nascimentos, deixando tudo nas mãos da natureza, que intervém com as suas desapiedadas leis, resolvendo automaticamente o problema. Ela, então, age por dois caminhos: 1) Ou mata a superpopulação com a fome; 2) Ou, acordando os instintos da agressividade (adormecidos pelo bem-estar produzidos pela civilização), desencadeia guerras, invasões, destruições e mortes, que estabelecem de novo o equilíbrio. Ambos caminhos levam igualmente à morte. À natureza pouco interessa a vida e o bem-estar do indivíduo, pois sua finalidade é a seleção de uma raça de fortes, em função do qual ela o sacrifica. O raciocínio da vida não é o mesmo do homem. Neste ciclo de impulsos e elementos há como que um princípio de determinismo do qual ninguém pode sair. O instinto de alguns insetos, como as abelhas e as formigas, mais evoluído que o do homem, como já mencionamos, impulsiona-os a gerar só em proporção aos recursos alimentares que eles possuem, regulando o número da sua população em função do provimento. O homem não sabe fazer isto, porque ainda não atingiu o estado orgânico dessas sociedades, vivendo, pelo contrário, numa fase atrasada de egocentrismo individualista, coletivamente caótico. Mas, pela lei de evolução, o homem também terá um dia de atingir o estado orgânico de verdadeira sociedade. Ele terá então de tomar as rédeas dos fenômenos biológicos, dos quais depende a sua vida, dominando sobretudo o fundamental fenômeno da geração. Este, então, não será mais abandonado ao acaso, ficando entregue ao poder da ferocidade das leis da natureza, mas será regulado inteligentemente em relação às possibilidades de sustento daqueles que vão nascendo, para não permitir o crime de se gerar seres destinados à morte, e não à vida. Esta é a realidade biológica, e dela ninguém pode fugir. Não se pode resolver o caso sem levá-la em conta, baseandose sobre princípios teóricos, que nada têm a ver com ela. E a solução que nos oferece a natureza, com seus meios de controle demográfico, já vimos quão terríveis são. A ética sexual do cristianismo, condenando o controle, resolve o problema otimamente em teoria, com a castidade ou a continência, mas estabelece assim um visível contraste com as condições atuais de intensificação do impulso sexual, decorrentes, como vimos, da civilização. Que acontece então? Acontece que a natureza, rindo-se das proibições da ética sexófoba, continua por sua conta a impulsionar o ser para um maior erotismo, dirigido para a multiplicação descontrolada da vida, com todas as suas consequências. Então o choque entre aquela ética repressiva e os impulsos da natureza é inevitável. Como resolve o caso o indivíduo que está no meio desse choque? Qual das duas exigências sairá vitoriosa? Será possível que o mundo não possa ter outra escolha a não ser continuar com o velho método das escapatórias e da mentira, fazendo todos às escondidas o que todos publicamente proíbem e condenam? Mas isto não é solução e se, por falta de um melhor, este pode parecer um remédio momentâneo, ele não é inteligente nem vantajoso, muito menos honesto. Este método só é eficaz nas aparências, superficialmente, deixando todo o mal amadurecer na profundidade, uma vez que, na realidade, provoca um grande prejuízo, em razão de todos desvios, substitutos e resultados torcidos que gera. Isto pelo fato de não ser possível destruir um impulso que, quanto mais comprimido, tanto mais força adquire, acabando por se descarregar na direção errada, se não lhe for possível descarregar-se na direção certa. Então, se quisermos pelo menos encaminhar-nos para uma solução verdadeira, que seja racional, e

não produto instintivo do subconsciente, é mister encarar corajosamente e com toda a sinceridade o problema. Não sustentamos uma teoria contra a outra, nem aconselhamos uma ou outra solução. Só deixamos falar os fatos, escutando o que eles nos dizem e observando as suas consequências. ◘◘◘ Perguntamos então. Terá o uso do sexo um significado e valor apenas de função reprodutiva, como máquina de multiplicação de seres, ou terá ele também outro significado e valor, como função neuropsíquica, que se cumpre em benefício do indivíduo? Se esta é a segunda função do sexo e se a ignoramos ou perseguimos, como não cair nas consequências desastrosas da neurose patológica, fazendo surgir por toda a parte complexos psicológicos, como de fato os encontramos em nosso mundo, na prática, resultantes dos erros da civilização, quais a psicanálise de Freud nos revelou? Este é o perigo da ética sexófoba. Podemos perguntar também qual é o significado e valor biológico dessa ética? Será ela um produto racional, que merece consideração, ou trata-se apenas de um produto descontrolado do subconsciente, que aparece em obediência aos instintos de agressividade, já observados acima? Então, como se pode considerar um dever moral a sustentação de uma ética substancialmente baseada no princípio da agressão? Não são porventura os instintos de agressividade os mais atrasados, justamente aqueles que, para nos civilizarmos, é mais urgente superar e eliminar? Então sustentar a ética sexófoba do cristianismo, desviada não por culpa dele, mas sim dos homens que não o entenderam, pode conduzir não ao progresso que a religião quer, mas sim a uma involução para métodos inferiores, apoiados na ferocidade agressiva. Sustentar tal ética pode significar ir de encontro ao objetivo maior do cristianismo, que é a paz e o amor fraternal, e não a luta gerada pela sexofobia com a incitação dos instintos de agressividade. Eis que essa atitude sexófoba, produto patológico dos homens da tenebrosa Idade Média, e não do cristianismo originário, levou o conceito de sublimação a um sentido torcido, que representa o seu emborcamento. Neste caso, não foi o espírito cristão que venceu, mas sim o instinto do homem. Prevaleceu assim a ética de agressividade do involuído, retrógrada e biologicamente contraproducente, porque negativa em relação ao objetivo fundamental tanto da vida como das religiões, que é o progresso evolutivo. O fenômeno da riqueza e da geração, quando não é dirigido pelo homem, mas sim deixado nas mãos da natureza, constitui um fenômeno de produção e consumo de desenvolvimento automático. Para sair da necessidade, o homem, com o seu esforço, gera a abundância. Uma vez instalado no bem-estar, ele procura satisfação na mulher. Segue-se então a geração dos filhos. Mas, quanto maior é essa geração, tanto mais desaparece a abundância, porque aumentam os consumidores. O número abaixa o padrão de vida e destrói o bem-estar. Assim, a mulher desempenha a sua função, enquanto o homem regressa à necessidade, para cumprir a sua função, que é criar novamente, com o seu esforço, a abundância, e assim por diante, num rodízio pelo qual as duas funções complementares se realizam. A necessidade acorda o dinamismo masculino. Então as energias do homem se dirigem no sentido da agressividade conquistadora, com a guerra ou com o esforço produtivo do trabalho. Chegase, assim, à abundância. Neste ponto, o principio masculino, por já ter funcionado o bastante, atingiu o seu objetivo, esgotando o seu impulso, e tem de descansar da sua atividade, a fim de recuperar as energias. O homem, então, descansa no bemestar, entregando-se às satisfações do sexo. Nestas condições, o oposto princípio feminino, atraído pela riqueza, de que ele necessita para se sustentar e cumprir a sua missão de gerar, entra em ação. Assim como, perante a necessidade, despertou o dinamismo masculino, conquistador de recursos, agora, perante a abundância, desperta o dinamismo feminino, gerador de filhos.

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Enquanto o homem descansa e se recupera no bem-estar, a mulher trabalha e se esgota na geração. Chega-se assim à multiplicação do número dos seres, pela qual a abundância é destruída, despertando com isso, através da necessidade, novamente o dinamismo masculino, que agora, depois de já ter descansado o bastante e recebido no gozo a sua recompensa, pode começar novamente o seu trabalho. Trata-se, portanto, de um trabalho contínuo nos dois sentidos, cujo fruto vai sempre se transformando em aumento demográfico. O ciclo pequeno dos dois elementos no grupo familiar, homem e mulher, torna-se o ciclo maior formado, de um lado, pelos povos pobres, famintos e agressivos, e, de outro, pelos povos ricos, civilizados e pacíficos. Os primeiros cumprindo a sua função masculina de atividade conquistadora, e os segundos a sua função feminina de passividade, a ser conquistada e fecundada pelos invasores, para fornecer a eles a abundância da riqueza, necessária para uma nova multiplicação de seres. A realidade biológica que sustenta a história e os seus movimentos é esse dualismo ou principio de complementaridade entre os dois termos opostos e em equilíbrio, o masculino e o feminino. Assim desenvolve-se o ciclo das civilizações. Na sua fase inicial dominam a necessidade e o esforço (período masculino). Na sua fase final dominam a abundância e o descanso (período feminino). Quando acaba de funcionar o primeiro princípio, prevalece o segundo. Quando repousa o homem guerreiro e trabalhador, movimenta-se a mulher geradora. Trata-se de elementos complementares, porém rivais, pois cada um produz somente no sentido que lhe cabe, e não no terreno do outro, cujo produto aquele destrói. E de fato, o trabalho da mulher, multiplicando os seres, destrói a abundância, que é fruto do trabalho do homem, assim como o homem, com a sua agressividade bélica e seu esforço de lutador, destrói as vidas, que são fruto do trabalho da mulher. Estabelece-se, desta forma, na economia da natureza, o equilíbrio entre recursos e prole, e vice-versa. Tendo lugar novamente a abundância, há nova geração de filhos, nova necessidade, novo esforço, e assim por diante. O resultado final é a queda das velhas civilizações e o nascimento e desenvolvimento das novas, em rodízio, através de um contínuo estado de esforço do ser humano, ora do homem, ora da mulher, cujo resultado final é a expansão demográfica, a conquista do mundo e o progresso da raça humana. Tudo vai muito bem, mas não pode continuar assim ao infinito. Há um limite, constituído pelo espaço determinado pela superfície do nosso planeta. Tal processo pressupõe um regime demográfico e econômico fechado dentro dos limites de um povo, pronto a interagir e compensar-se com os igualmente cercados terrenos dos outros povos. Hoje, porém, a humanidade está-se tornando um só povo, não sendo mais possível esta compensação. Aumentar o poder demográfico de um povo como meio de invasão bélica, vai-se tornando cada vez mais coisa sem sentido, inclusive pelo fato de serem as guerras hoje feitas cada vez menos com massas humanas e cada vez mais com as armas produzidas pela ciência e dirigidas pela técnica. Se a abundância da geração já pôde representar uma bênção para um povo, porque a riqueza demográfica constituía um poder para vencer outros povos, hoje tal conquista está se tornando cada vez mais difícil e absurda. O aumento da população já não tem mais na invasão de outros países uma porta de saída para se descarregar. Então o processo fica fechado em si próprio, no ponto em que o número destrói os recursos e a quantidade aniquila a qualidade. Que a civilização aumentou o número dos habitantes do planeta, é um fato. Além disso, as novas condições de vida impedem que a natureza equilibre o fenômeno, praticando os seus habituais meios de destruição. Se, no tempo do Império Romano, a população do mundo pode ter sido de uns duzentos milhões, hoje temos mais de dois bilhões e meio, prevendo-se que, se não sucederem novos acontecimen-

tos, chegaremos no fim do século ao número assustador de cerca de seis bilhões de habitantes. Que acontecerá depois? Para onde nos leva esse caminho? Agora, a válvula de segurança da agressão contra outros povos não funciona mais. Estamos fechados na superfície da Terra e não vamos agredir outros planetas. Então não há outro caminho no caso de superpopulação, a não ser a descida do nível de vida, até chegarmos à necessidade e à fome. Antigamente, para isto, havia como remédio a pilhagem da casa do vizinho. O ciclo que vimos está agora quebrado no ponto em que a necessidade costumava acordar o dinamismo masculino, dirigindo as energias do homem no sentido da agressividade conquistadora. E não há trabalho que possa renovar completamente o ciclo da produção de alimentos. Assim, o homem entrou num beco sem saída. E a consequência fatal é uma descida involutiva, que paralisa a civilização. Se a multiplicação dos seres destrói a abundância e se a superpopulação hoje não representa mais um poder como meio de conquista para voltar à abundância, então todo o processo do ciclo fica parado, sem compensação, no ponto morto da necessidade, do baixo nível de vida, da fome, e isto significa um retrocesso involutivo para os estados primitivos da humanidade. Eis que se impõe a exigência de regular inteligentemente o fenômeno demográfico, controlando o aumento da população, de modo que o número não destrua o progresso conquistado pela civilização. O problema não é solúvel com os métodos do puritanismo sexófobo do cristianismo. Esse controle dos nascimentos não pode ser realizado com sistemas repressivos, pois ninguém pode aniquilar o instinto do amor, que é fundamental na vida. Se o comprimirmos, ele estourará, como já mencionamos, em forma diferente, com característica patológica, o que representa outro perigo, sendo necessário, para evitá-lo, escolher um caminho diferente, se não quisermos cair na perigosa evasão dos substitutos, na vergonha da hipocrisia ou no desastre dos complexos e das doenças mentais. ◘◘◘ Para resolver o problema, é necessário equacioná-lo de outra maneira. É preciso entender que, para o indivíduo, o amor é uma necessidade não só fisiológica, mas também nervosa e espiritual. O amor não é somente um elemento do mecanismo de geração, que apenas tenha direito de existir em função dela. Esta é uma concepção primitiva, bestial, anticristã e antiespiritual. É necessário reconhecer que o amor cumpre duas grandes funções: uma em favor da espécie e outra em favor do indivíduo. O amor deve então ser defendido em ambos os casos. O indivíduo pode ter absoluta necessidade do amor para sustentar o seu equilíbrio fisiológico, nervoso e mental. Segundo a moral vigente, no entanto, o direito do ser ao amor só é tolerado enquanto constitui meio indispensável para a geração e dentro dos limites desta finalidade. O indivíduo não possui outro direito a não ser o de cumprir a função de instrumento multiplicador de seres. Nestas condições, se ele quer defender a sua saúde, então é obrigado a gerar, com todas as consequências inerentes, entregando-as ao acaso, sem que seja possível prever, assumir e, depois, cumprir as suas responsabilidades, deixando assim tudo cegamente nas mãos da natureza, cujos métodos para resolver depois tudo já vimos quão ferozes podem ser. Dada a posição atual do problema, com estes seus elementos, dos quais não se pode fugir, vemos que o homem ainda não tomou a direção do fenômeno da sua reprodução, deixando-o abandonado às leis da natureza neste nível, que são as da animalidade. O mundo, assim, vê-se obrigado a aceitar o controle demográfico realizado pela natureza, o que significa fome ou guerra. O cristianismo, com as suas teorias fora da realidade biológica, não resolve o problema nem se responsabiliza pelas consequências. De fato, com a sua ética sexófoba, ele somente

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pode levar a um destes dois resultados: 1) Ou reprime, gerando desvios patológicos; 2) Ou canaliza as energias para a agressividade, em vez de o serem para o amor. Em ambos os casos, o remédio é pior que a doença. Hoje, o sistema para desafogar a superpopulação – à qual se chegou por falta de diretrizes do fenômeno da procriação – com a invasão de outros países torna-se cada vez menos aceitável e cada vez mais difícil e perigoso. Vimos o que custou ao mundo a recente tentativa da Alemanha para a conquista do seu espaço vital. E só Deus sabe o que poderá acontecer agora que a Ásia superpopulosa despertou. A conclusão é que o homem deve tomar inteligentemente a direção do fenômeno da sua reprodução, para que ela não fique abandonada às leis inferiores do plano biológico da animalidade, com todas as suas consequências. O progresso sempre consistiu no esforço bem sucedido para que a inteligência humana substitua com a sua ordem mais evoluída a desordem dos níveis de vida mais involuídos. É necessário compreender, ajudar e desenvolver o impulso do amor, em vez de agredi-lo na tentativa de suprimi-lo. Ele é o princípio da gênese e também da restauração individual. Perseguindo-o, colocamo-nos ao lado das forças destruidoras, atentando não somente contra a vida da espécie, mas também contra a vida do indivíduo. As civilizações futuras reconhecerão e garantirão sempre o amor, como um direito à satisfação de uma das fundamentais necessidades da vida. É necessário, portanto, um amor completo, e não somente uma parte dele; um amor que cumpra ambas as suas funções, realizando tanto a função em favor da espécie, para garantir a geração, como a função em favor do indivíduo, para garantir o bem-estar individual. Temos, então, de individuar os dois aspectos e momentos do fenômeno, para que, se necessário, seja possível isolálos, evitando a atual confusão, na qual eles se encontram misturados indiscriminadamente. Assim, uma coisa é gerar, outra coisa é amar. A primeira satisfaz as exigências da espécie, a segunda as do indivíduo. As duas podem ficar juntas, mas há casos em que elas têm de ficar separadas. No caso de pobres absolutamente necessitados, gerar significa criar fome. No caso de doentes com marcas hereditárias, gerar quer dizer criar sofrimento. Para não gerarem condenados, os pais não têm outra escolha a não ser condenarem-se a si próprios à castidade. O impasse está no fato de que sempre tem de haver uma vítima. Se não pagam os pais, têm de pagar os filhos. Com o sistema atual não há outra escolha: se os pais não querem sofrer, têm de condenar os filhos ao sofrimento. E isto, infelizmente, é fácil, porque os filhos não podem se defender. A sociedade se carrega assim de produtos de refugo, destinados apenas à criminalidade, às cadeias e aos hospitais. Mas eis que, perante a necessidade de intervir no fenômeno da geração, para dirigi-lo e elevá-lo acima dos impulsos primitivos da natureza, surge o problema de saber fazer tudo isto com inteligência, sinceridade e honestidade. Para chegar a este ponto, seria mister possuir essas qualidades ou, então, dispor da educação necessária para atingi-las, a fim de não se cair em outros erros. Para nos apoderarmos das alavancas dos fenômenos biológicos e manuseá-las, é necessário conhecermos a arte e possuirmos o amadurecimento de quem sabe se dirigir. A realidade, porém, apresenta, pelo contrário, um amontoado de conceitos absurdos radicados no subconsciente, derivados dos instintos primitivos da animalidade, com predominância do espírito de egocentrismo e agressividade. Se as leis religiosas muitas vezes seguem a direção sexófoba, não é por culpa das religiões, que tiveram de tomar essa atitude em função da falta de amadurecimento do ser humano. É perigoso conceder liberdade a um ser que, não possuindo ainda capacidade para fazer dela bom uso, é, pelo contrário, instintivamente levado ao abuso. A sexofobia do cristianismo justifica-se assim pela necessidade de impor à força ordem e disciplina a um homem ainda

involuído, inexperiente e inconsciente, levado muito mais a procurar na lei um meio para se evadir dela do que tentar compreender a vantagem de obedecê-la. Então tudo está proporcionado, tanto o homem à sua respectiva lei, como a lei ao seu respectivo indivíduo. Há um equilíbrio entre as normas que, de um lado, regulam a conduta humana e os instintos que, do outro lado, dominam o ser. Para que seja possível realizar a reforma do homem, são necessárias leis mais adiantadas. Mas, para que seja possível, sem perigo, suavizar as leis nesse sentido, é necessário um biótipo humano mais adiantado. Os dois termos se influenciam reciprocamente, de modo que, na prática, o progresso se realiza através de um vínculo mútuo, pelo qual, quando um deles dá um pequeno passo para frente, o outro o segue, possibilitando ao primeiro avançar ainda um pouco mais, condição na qual o outro pode, por sua vez, progredir ainda um pouco, e assim por diante. A reforma é grande, porque se trata de mudar a atual comum psicologia do amor. Trata-se de não mais concebê-lo apenas como função animal reprodutiva, para a qual, pela própria satisfação, dois corpos se unem, mas sim como função sobretudo de geração espiritual, para a qual duas almas se fundem. Eis que, assim, a sexualidade aparece com um significado positivo, ampliando-se para além da sua função de multiplicação no plano material. A simples proliferação não pode representar todo o conteúdo do amor. Sustentar que assim o seja significa viver exclusivamente no plano da animalidade. Quando falamos de amor, entendemos sobretudo este amor maior e mais nobre. Mas o biótipo atual não pode alcançá-lo apenas de um salto. O ponto de partida está nos instintos. É necessário então nobilitá-los, e não agredi-los para os destruir. É preciso secundá-los, canalizando as suas energias em sentido evolutivo, para que o amor – impulso fundamental da vida – seja utilizado para atingir a sua suprema finalidade, que é a ascensão. Esta força tremendamente poderosa, se não for dirigida nesse sentido, tomará o caminho da agressividade e da luta, indo desafogar-se no sentido descendente, e não ascendente. Então iremos contra o verdadeiro espírito do cristianismo, cuja tarefa é melhorar as condições de vida, amansando a fera e suavizando as relações sociais, para se chegar à pacífica colaboração. Por isso é necessário canalizar as energias no sentido do amor bem entendido, e nunca da agressividade. Mas é mister compreender que ele contém algo mais do que somente o sexo como função animal de reprodução. Então será possível o amor que o indivíduo precisa, pelo qual ele não será obrigatoriamente levado a um aumento de população, o que, em muitos casos, significa ter de voltar à luta e à ferocidade. Estes são os elementos do problema, que nos indicam haver uma única solução: canalizar as energias não para a guerra, mas para o amor, sem que ele tenha sempre e necessariamente de implicar a geração. Não há razão para se ter de esperar que a natureza, com a fome ou a guerra, mate os filhos para restabelecer o equilíbrio, quando este pode existir sem ser perturbado, se o homem se tornar dono do fenômeno e souber regulá-lo com inteligência, não gerando filhos no caso acima citado, no qual a natureza tenha depois de intervir para equilibrar, através da destruição. Há povos que se encontram em condições diferentes, mas estas são raras e excepcionais. A reforma é grande, e não pode ser realizada senão por degraus. A evolução é um monte que tem de ser escalado um passo após o outro, utilizando os elementos que a vida nos oferece. E um dos fundamentais é o impulso do amor. Nos seus primeiros degraus, ele é só conquista animal, para que vença o mais forte. Mas não se pode prescindir deste elemento básico, nem se pode substituí-lo, porque não há outro. Tudo o que podemos fazer é utilizá-lo, aperfeiçoando-o, requintando-o e espiritualizando-o. Este é o caminho lógico e natural, conforme a lei da evolução. O erro dos representantes do cristianismo foi não le-

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varem em conta esta realidade biológica e terem-se lançado, assim, contra a animalidade para destruí-la, tomando, com a ética sexófoba, uma atitude negativa, de agressão contra a vida, ao invés de ajudá-la a subir, reconhecendo o que ela é de fato e utilizando o grande impulso do amor para a construção da espiritualidade. O erro foi exigir a realização de um modelo espiritual quase inconcebível para o biótipo comum, impondo-o à força, com o método da agressividade, que não só é o mais contraproducente, mas também está totalmente nos antípodas do verdadeiro espírito cristão do amor. A espiritualização do amor constitui um problema da evolução individual, e dirigi-la é tarefa sobretudo das religiões, enquanto o problema da geração interessa mais à coletividade, fenômeno cuja direção é tarefa das leis civis e da ciência médica. Vimos a que resultados desastrosos pode levar uma geração descontrolada. Não é possível que a humanidade mais organizada do futuro queira, em função do elemento fundamental da vida social, ficar refém da reprodução indiscriminada. Num mundo mais ordenado não poderá ser permitido que a inconsciência dos simplórios semeie à vontade as causas da fome, das revoluções, das guerras e de tantos sofrimentos. Então, a vida terá de ser protegida e garantida para todos. Por isso a geração não será apenas fruto de cego desafogo dos instintos, mas sim de um planejamento racional, em que seres conscientes tomam as suas responsabilidades. Será julgado como crime o egoísmo dos pais que geram só para sua satisfação, fugindo às consequências. Hoje, todos podem proliferar, tanto os indivíduos com doenças hereditárias de caráter físico ou mental, como os criminosos e os ineptos, todos eles geradores de desgraçados. Tudo isto é lícito atualmente e até abençoado no casamento, sendo consequência da confusão entre amor e reprodução, resultado da ética sexófoba, pela qual não é lícito o amor sem a geração. Infelizmente, a humanidade é ainda como um relógio em que cada roda anda por sua conta. Ela terá, porém, de se tornar um relógio em que cada roda funcione de acordo com todas as outras, com movimentos calculados e coordenados. Para chegar a isto, o mundo terá de se educar, adquirindo consciência eugênica. Reconhecido a todos o direito de amar, inclusive aos que não geram porque não devem, não haverá mais a desculpa do direito ao amor, que constrange a gerar. Então, uma geração na qual ninguém se entrega ao acaso, será uma coisa séria, feita com plena consciência das consequências, onde se assume em relação a si próprio todas as responsabilidades. A vida, evoluindo, ficará sempre menos sob o poder dos seus impulsos elementares, ligados ao estado de caos – em que cada indivíduo tem de procurar o seu caminho na luta – e estará cada vez mais sujeita ao poder da inteligência do homem, num estado orgânico em que tudo é previsto e garantido. Ninguém pode impedir que tudo esteja interligado, fato pelo qual tantos desastres atormentam a humanidade e não podem ser evitados senão regulando inteligentemente, com a devida antecedência, os fenômenos em suas causas. A vantagem não será apenas para a sociedade e para os filhos – com a primeira passando a não ser mais perturbada por maus elementos e os segundos encontrando uma vida agradável, porque mais preparados para ela, num ambiente mais selecionado e, portanto, melhor – mas também para os pais, sejam eles doentes ou não, criminosos ou não, ineptos ou não, que terão o direito de se sustentar com o conforto do amor, sem que, para isso, tenham de praticar o crime, hoje lícito, de gerar mais desgraçados, condenados ao sofrimento. Hoje, a geração está abandonada ao acaso, como uma tentativa cega, na qual muito pouco é previsto, deixando-se o indivíduo largado sozinho às suas forças, para encontrar o seu caminho num caos onde impera o método do individualismo egoísta, submetido a uma condição controlada somente pelas leis brutais da animalidade, e não pela inteligência do homem, que ainda não está maduro para

sair desse nível evolutivo. É um fato, porém, que ninguém pode parar a evolução e impedir que a humanidade atinja a sua fase orgânica, na qual estas teorias, por encontrarem um ser mais adiantado, poderão tornar-se realidade. ◘◘◘ Nestas páginas não estamos aconselhando ou sustentando teoria alguma. Estamos apenas observando o fenômeno por todos os lados. A geração é uma coisa séria, que leva a consequências graves e duradouras, não podendo, por isso, ser feita levianamente. Não se trata de um fato apenas pessoal, que pode ser deixado ao poder do capricho do indivíduo, mas também e sobretudo de um fato de interesse coletivo, no qual está implícita a vida de outros seres, impossibilitados de se defenderem. Não há outra saída: se não quisermos aprender a dirigir inteligentemente o fenômeno, alguém terá de suportar as consequências de cada erro e desordem. A ética em vigor neste terreno é produto empírico dos instintos do subconsciente, nada resolvendo. Não se pode encontrar uma nova ética a não ser subindo a um plano de vida superior, onde o ser funciona com outra forma mental, necessária para agir com inteligência e consciência. Mas isto não é fácil, pois trata-se de subverter e renovar uma psicologia radicada através de milênios no subconsciente, intervindo no próprio âmago da vida, onde se realiza o fenômeno da evolução. Levantar o homem de um plano de existência para outro significa realizar uma transformação biológica profunda. Até que isto aconteça, será difícil aplicar estas teorias, que, desacompanhadas das qualidades necessárias, podem levar a tristes consequências. Tudo o que podemos fazer agora é demonstrar a necessidade lógica de algumas soluções, que poderão ser realizadas num longínquo futuro, por uma humanidade mais inteligente e honesta. Até então, a atual terá de ficar, como é lógico, na sua presente posição, sofrendo as respectivas consequências. Pelo princípio de que se deve todo o respeito às autoridades civis e religiosas, também devem ser respeitados os princípios sustentados por elas no terreno do “birth control 3”, sobretudo porque isto cai sob a sua responsabilidade. No código penal italiano há um artigo (553) que proíbe qualquer forma de propaganda anticoncepcional. É interessante, porém, observar como o mundo atual resolve o problema com tal ética e forma mental. Neste caso acontece o que já dissemos em geral a este respeito, isto é, prevalece o método do fingimento, pelo qual, reservadamente, faz-se o que todos concordam em condenar oficialmente. Assim, apesar das leis, o ser humano vai livremente experimentando, para ter depois de aceitar as consequências. Como sempre, estamos perante o método da tentativa. Nem outro é possível num regime em que o homem foi feito livre por Deus, mas, devido à queda, tornou-se ignorante. É lógico, então, que, também neste terreno, não se possa chegar ao bom uso da liberdade, com todas as suas vantagens, senão depois de se ter feito, pelo contrário, mau uso dela, experimentando todos os prejuízos consequentes. O que deslocou completamente os termos do problema, até agora imóvel na sua posição de indivisibilidade entre geração e amor, admitindo-se somente a castidade como forma de nãogeração, foi o fato novo realizado pelo progresso da ciência médica, por meio da qual os dois termos, geração e amor, puderam tornar-se independentes um do outro. A consequência destas descobertas, se fossem bem entendidas, seria que a geração, pelo fato de não encontrar mais desculpa no desafogo sexual, deveria ser realizada somente com plena consciência e responsabilidade. Isto leva a uma valorização muito maior da vida humana, que assim não é mais gerada por acaso ou por erro, fruto não desejado da própria satisfação, tornando-se uma vida mais protegida e garantida, porque fruto de uma vontade consciente das consequências, as quais são desejadas neste caso e das quais, assim,
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“Controle da natalidade”. (N. da E.)

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assume-se todas as responsabilidades. O objetivo a atingir com o método do controle deveria ser uma garantia cada vez maior de vida para os filhos, que, gerados propositadamente, passam a constituir um sagrado dever, do qual agora não há mais desculpa para evasões. Então a finalidade do método é esta, e não o desafogo de uma ilimitada satisfação pessoal, fugindo-se às consequências. Este é o mau uso que o ser humano, aproveitando-se de tudo inconscientemente, está pronto a fazer desta nova posição do problema. E esta é a razão que justifica e torna necessárias as proibições atuais, que têm, por isso, direito a todo respeito. Infelizmente, dada a ignorância e inconsciência do ser humano atual, não há pelo momento outra solução. O problema do divórcio está implicitamente resolvido em função desta orientação geral que explicamos aqui. Com o método da geração não mais casual, e sim planejada, o primeiro direito, caso ela se verifique, pertence aos filhos. Quando não há filhos, pode prevalecer então o interesse dos pais, sem prejuízo para ninguém. Mas, quando há filhos, é o interesse destes que tem de prevalecer acima do interesse dos pais. Quando só há os pais, o problema fica limitado a eles e, se lhes convier, o divórcio é possível, porque não implica o prejuízo de outras pessoas. A presença dos filhos torna o liame entre os pais não mais uma união só em função de si próprios, mas também em função do interesse dos filhos, para cuja criação é necessária a colaboração de ambos. Neste caso, quando desponta o prejuízo de outros, não pode ser lícito um divórcio, pois este criaria vítimas. Ele será possível quando os filhos estiverem criados, não precisando mais dos pais. A posição da mulher moderna – menos sujeita ao homem, porque, com o trabalho, tornou-se economicamente independente – alterou a posição do problema do divórcio, tornando-o mais fácil em relação à mulher, que possui assim meios de subsistência, permanecendo, porém, sempre o mesmo princípio, pelo qual o divórcio deveria ser possível só aos casais sem filhos, ou depois do casamento destes. Nada resolve esconder no silêncio ou sob hipócritas aparências estes assuntos escaldantes, e não adianta procurar solucionar ou eliminar o problema com condenações e proibições. Que ele está vivo, prova o fato de que muito se fala nele, e nós não podemos esquecê-lo diante dos outros que estamos observando. O cirurgião não cobre a chaga para não vê-la, julgando curar desse modo o doente, mas sim a observa, para fazer o diagnóstico do problema, indicando o tratamento, que é aceito ou não pelo doente. Já observamos o problema nos seus dois polos opostos: de um lado, a condenação oficial; do outro, os impulsos da natureza. Vimos também como ele, na prática, foi resolvido com o método do fingimento. Que temos então? O homem não se rebela abertamente contra o ideal, porque não quer parecer nem mau nem atrasado. A presença de um sonho tão bonito embeleza a sua vida e satisfaz o seu orgulho de homem respeitável e respeitado. Mas, ao mesmo tempo, ele não é tão ingênuo a ponto de levar a sério o ideal e, por ele, renunciar à sua satisfação, que é coisa bem positiva e sensível. Estando bem apegado à realidade, ele resolve então o caso, praticando reservadamente o que, oficialmente, condena em público e nos outros, desenvolvendo nesse jogo a sua inteligência. O resultado final não poderia ser melhor, porque permanece o ideal bem visível e, com ele, a consciência satisfeita, que sustentou a virtude. Mas prevalece na realidade dos fatos a satisfação positiva, aquilo que mais interessa. Dessa forma, concilia-se otimamente os dois opostos: para Deus, a parte espiritual; para si próprio, o gozo saboroso. Assim, o engenho humano chegou a resolver a contradição, pois as coisas da terra representam uma vantagem imediata e concreta, enquanto as do céu são duvidosas e longínquas! Foi atingida assim a convivência pacífica. As autoridades religiosas e civis continuam, com a aprovação de todos, pregando a moral teórica perfeita, justificando desta forma a sua posição social.

Os seguidores e cidadãos continuam criando as suas comodidades, satisfeitos e quietos, sendo isso o que as autoridades mais precisam, ou seja, bons súditos e homens de bem. Elas, assim, gozam também da vantagem de não assumir responsabilidades, porque a culpa, se houver, será dos pecadores desobedientes. Estes gostariam muito de ser oficialmente autorizados, para fugirem de toda condenação e responsabilidade. Mas os dirigentes sabem se defender bem e não assumem essa perigosa responsabilidade. Então tudo continua sendo feito em forma proibida, mas com risco e perigo apenas para quem o faz. Assim, debaixo das proibições oficiais, o mundo continua a fazer por conta própria as suas experiências, para aprender. E neste nível, no qual o homem se debate atualmente, não é a tentativa o método normal da vida para explorar o desconhecido? Então, quando se chega a constatar que os novos métodos não trazem prejuízo, mas sim vantagem, eles se tornam universais. Mas, quando se tornam um estado de fato, aceito por todos, porque deles se viram os bons resultados, então, por não ser mais perigoso assumir pessoalmente a responsabilidade, que antes pesava somente nas costas do violador, as autoridades reconhecem como certo todas as coisas e aceitam tudo, justificando a sua mudança como sendo um progresso que acompanha os tempos. É lógico que, num mundo de luta, ela exista também entre autoridades e súditos, portanto é lógico também que aquelas tenham de pensar antes de tudo na defesa de si mesmas, e não na daqueles, que, por outro lado, desejariam a autorização oficial somente para lançar a responsabilidade de sua culpa sobre os chefes e, dessa forma, satisfazerem-se livremente, sem o incômodo freio da proibição e a responsabilidade da violação. Eis então, resumindo, a posição atual do fenômeno: 1) A ciência médica está desenvolvendo meios de controle cada vez mais simples e baratos, acessíveis a todos. 2) A proibição não impede, pelo contrário ajuda a divulgação, pois o que é proibido torna-se mais interessante e, por isso, procurado. Pelo princípio da luta, o ser é levado mais para a desobediência do que para a obediência, sendo esta julgada uma derrota, reservada aos fracos, que não sabem se defender. 3) Os métodos de controle podem representar uma proteção para os fracos, incapazes de se defender, e isto conforme a moral cristã, porque assim se realiza a eliminação dos filhos ilegítimos, impedindo o seu surgimento, como no caso da mulher que se torna desonrada por ter gerado fora do casamento, com todas as suas consequências (aborto, mulher ou filhos abandonados, prostituição etc.). Nestes casos, a sociedade condena e persegue os efeitos, e não as causas, porque é mais fácil perseguir os fracos do que os fortes. 4) Alguns países sustentam o controle abertamente. E nos países onde é proibido, ele é praticado da mesma forma, mas às escondidas, o que oferece uma oportunidade para experimentar e assim conhecer o valor prático, os danos e as vantagens de tal método. O mundo vai assim, por sua conta e risco, aprendendo do modo que sempre o faz com o novo, por meio do habitual sistema da tentativa, como quem vive no escuro ou não tem olhos para ver, não podendo avançar senão tateando o seu caminho ao acaso. É lógico que as massas, sendo dirigidas por educadores que desses novos problemas sabem menos do que elas, tenham de se educar por si mesmas, pagando se errarem e assim, como é justo, conquistando com o seu esforço a sua sabedoria. XIII. CONCLUSÕES. AMOR E CONVIVÊNCIA SOCIAL Já observamos qual é a posição assumida pelo cristianismo perante o problema do sexo. Não estamos tomando posição contra ele, nem censurando as suas condenações. O que mais nos interessa é explicar os fatos. Como sabemos, tudo o que existe tem a sua razão de ser, pois de outro modo não existiria.

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As condenações são assim explicadas e, do seu ponto de vista, também justificadas. O cristianismo teve de iniciar uma luta titânica contra a bem enraizada e poderosa animalidade humana, travando-a em tempos muito mais ferozes do que os nossos, quando a forma mental, os pontos de referência e os problemas eram diferentes dos atuais. No entanto mesmo o cristianismo não pôde deixar de também ser arrastado pelo progresso, que tudo renova. Não lhe é possível, porém, correr demais, para não se destacar das massas, lentíssimas nos seus movimentos evolutivos. Por isso ele não pode operar transformações rápidas demais, tornando-se pioneiro do novo, o que poderia parecer revolução e gerar desordem na massa. O cristianismo teve o grande mérito de lançar no mundo, ainda que às vezes em forma feroz (como era necessário naquele ambiente), o conceito da superação da animalidade para a espiritualidade pela sublimação da matéria, concepção que está de pleno acordo com as leis da evolução, mesmo sendo tal fato desconhecido na época, pois eram desconhecidas estas leis biológicas. O que dominava no mundo era o ideal pagão do bemestar terreno, baseado no direito do mais forte e nos gozos materiais. Foi contra essa concepção dominante que o cristianismo teve de impor um ideal situado nos antípodas daquele ambiente, do qual representa um emborcamento completo de valores. O cristianismo teve de fazer o esforço do primeiro impulso para quebrar o elo de ferro do egocentrismo dos involuídos. É lógico que, no seu desejo de realizar esse objetivo, o homem, mesmo representando o cristianismo, fosse levado a usar o seu velho e habitual método da luta, que estava enraizado nele e, como ele sabia, era necessário para alcançar qualquer conquista. Assim, a luta o levou automaticamente para a agressividade. E é lógico que ele não pudesse, de uma só vez, tornar-se outro biótipo, como também é lógico que, apesar do ideal, ele não pudesse deixar de se revelar cidadão do AS, qual ele é. Como podia o cristianismo, no seu início, usar o método da bondade evangélica com um ser levado por instinto à desobediência e à luta, pronto a abusar de qualquer liberdade que lhe fosse concedida? Nos níveis inferiores de existência aparece o ideal da ordem, qualidade do S, mas não há outro meio para efetivá-lo senão pela imposição à força, que é qualidade do AS. Quando toda a humanidade está mergulhada num nível inferior de evolução, a pregação de uma teoria nova não pode assumir o poder de subverter as leis biológicas, deslocando de uma só vez os seres daquele seu plano de vida para outro mais adiantado. Tal transformação pode ser apenas o resultado final do processo, sendo isto, portanto, o que o cristianismo poderá realizar no fim do seu trabalho terrestre, e não o que poderia ter feito no seu início. Por isso o evangelho é uma meta longínqua, ainda a atingir, e não uma forma de vida atual. No presente estágio de evolução da humanidade vigoram leis bem diferentes daquelas pelas quais é regida a biologia muito mais evoluída do Evangelho. E, para iniciar o lento trabalho de civilizar o homem, de modo que ele pudesse chegar até lá, o cristianismo não teve outra alternativa senão assumir, ele também, os métodos e a ética da luta, que eram os únicos compreensíveis naquele ambiente. Foi assim que o cristianismo, para sobreviver, teve de se adaptar às condições do mundo, usando os métodos deste, impondose à força como regra de disciplina, organizando-se, na Terra, antes de tudo como hierarquia de guerreiros, providos de recursos materiais e de armas espirituais. Este foi o mundo contra o qual o cristianismo teve de se impor. Era o mundo corrupto do Império Romano na sua decadência. A sexofobia nasceu como reação a esse estado de fato, no qual o amor, tendo-se tornado apenas sexo, abuso e vício, constituía um meio de destruição da civilização. Dentro dos impulsos que se revelaram no cristianismo, era a própria vida que estava presente, reagindo para se salvar dessa queda. Foi por isso, para negar aquele tipo de amor, pelo qual ela era leva-

da para a decadência, que a vida se tornou sexófoba, canalizando em compensação as energias para o dinamismo da luta salvadora. Esta é a razão pela qual apareceu no cristianismo o princípio da agressividade, inerente àquele mundo inferior. Não sendo mais dirigido para a guerra e a conquista material, tal princípio foi torcido, mas continuou em pé como instinto fundamental, sendo utilizado em outro tipo de luta, dirigida para a conquista dos valores espirituais. Se hoje, em posição histórica diferente, essa ética sexófoba nos pode aparecer como uma contradição e um anacronismo, ainda assim ela se explica e se justifica, pois representava a única forma que a luta, para superar a animalidade, podia tomar naquele momento e condições de ambiente. Da ascensão espiritual, então, apareceu antes de tudo o seu lado negativo, de destruição do velho, e não de construção do novo. O que se impunha de imediato era afastar o inimigo presente, representado pela licenciosidade da animalidade dominante, à qual se contrapunha o ideal da sublimação espiritual, onde estava representado o novo impulso que a vida procurava lançar para ressurgir da decadência. E tudo isso conforme a natureza, que não costuma realizar inovações rápidas, mas sim proceder por continuidade. ◘◘◘ A posição biológica e as exigências históricas atuais são diferentes, assim como outros são os nossos problemas. Hoje, a psicanálise nos revelou os desvios e as doenças mentais que o método repressivo da agressividade sexófoba pode produzir. Pelas diferentes reações de um organismo mais sensibilizado em sentido psíquico e nervoso, pode ser prejudicial hoje o que uma vez foi útil e necessário. A ética sexófoba cometeu o erro de separar e contrapor o espírito à carne, fazendo de dois amigos que deveriam colaborar, dois inimigos que lutam para se destruir um ao outro. Tratando-se dos dois elementos componentes do nosso ser humano, que é uno, eles têm de viver juntos e, por isso, deveriam existir em harmonia e equilíbrio, e não no antagonismo inerente dos rivais. Alma e corpo formam, pelo menos enquanto vivemos na Terra, um composto único, conjugando matéria e espírito. É impossível dividi-los e perigoso contrapô-los. Assim, neste terreno, o cristianismo, sem querer, sustentou da vida uma concepção errada e patológica, que pode representar um verdadeiro desvio dos princípios de bondade e amor, fundamentais nele. Desta luta entre espírito e corpo, muitas vezes o primeiro, em vez de sublimar, terminava estropiado, efeito pelo qual um método que, no início, parecia ótimo revelou-se contraproducente, porque acabava levando para resultados opostos aos previstos. O amor tem de ser reabilitado deste estado de condenação como pecado, para ser elevado ao estado de força divina, criadora e defensora da vida, de impulso positivo de bem, dirigido para o S, com a finalidade de vencer o impulso negativo do ódio, da morte e do mal, dirigido para o AS. É necessário compreender que o amor está do lado de Deus, porque representa as forças amigas da vida, e não do lado do anti-Deus, isto é, das forças inimigas da vida. É necessário desenvolver, e não suprimir o amor. Qualquer agressão ou tentativa de destruição neste sentido significa ir de encontro à vida, e não ao seu encontro. Nos castos, inertes e nas pedras não há impulso algum para sublimar. Os frígidos não possuem o calor do amor, que é indispensável para se tornarem santos. Com o cristianismo apareceu na Terra o ideal magnífico da sublimação espiritual, mas ele se enredou na luta contra a animalidade, que, em vez de ser vencida por ele, muitas vezes acabou por vencê-lo, oferecendo-nos dele a forma torcida que vemos vigorando atualmente. O trabalho a ser feito hoje seria endireitá-la novamente, e esta poderia ser a obra de um cristianismo mais inteligente e iluminado, para não tornar inútil e desperdiçar um ideal que representa um dos maiores valores construtivos no terreno da evolução.

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O caminho para Deus não está nos atritos da luta, mas na harmonização, porque a vida evolui da desordem para a ordem, e não ao contrário. Por isso é necessário não contrapor, mas sim harmonizar espírito e corpo, moralidade e sexo, misticismo e sentidos, ideal e instintos. Permanece o fato de haver a experiência nos ensinado que a concepção sexófoba não levou a humanidade para a sublimação no espírito, tendo gerado uma cisão da natureza humana, em vez de uma fusão entre os seus dois polos opostos. A influência das religiões deveria ser sempre benéfica, em favor da vida; sempre construtiva, e jamais destrutiva. A santidade não pode ser regra, mas apenas exceção. Alguns ideais de perfeição não podem descer ao seio da maioria, a não ser desviados e corrompidos. Foi o homem que abaixou tudo ao seu nível e, com a sua inferioridade, transformou o amor em luta de egoísmos, em culpa e mal. A humanidade dos séculos passados, muito mais grosseira, ignorava os nossos problemas psicológicos, revelados a nós por Freud, que demonstrou como tantos complexos nascem e alteram a estrutura da personalidade. A humanidade atual está se tornando neurótica e, portanto, precisa de uma ética menos grosseira e mais inteligente, menos agressiva e mais benévola. A civilização é uma forma de ascensão em benefício da vida, de modo que não pode deixar de suavizar tudo com o tempo. Não se pode menosprezar a função do sexo como elemento equilibrador na formação e na saúde psíquica da personalidade. Um dos aspectos fundamentais do valor da obra de Freud é ter demonstrado a grande importância da influência do sexo na vida individual e social, com a clara intuição do prejuízo que a harmonia, tanto do indivíduo como da sociedade, recebeu com a moral sexófoba. Essa se reduziu por fim a um desabafo de instintos de agressividade contra a mais poderosa, benéfica e cristã das forças da vida, que é o amor, com todas as consequências morais, sociais e patológicas daí decorrentes. Freud, num escrito seu, declara: “Todo o nervosismo do nosso mundo contemporâneo é devido à ação deletéria da repressão sexual, típica da nossa civilização”. O tema central da doutrina freud iana é de fato “a origem sexual de quase todas as neuroses”. Estamos acostumados à junção dos dois princípios pela qual a sublimação espiritual está ligada à condenação da sexualidade. Daí o nosso medo de que, se acabarmos com a sexofobia vigorante, sejam destruídos os maiores valores ideais da nossa civilização, representados pela espiritualidade. A experiência milenária do cristianismo fixou essa conexão de ideias no subconsciente das massas. Para corrigir este desvio, seria necessário submetê-las a um trabalho de psicanálise às avessas. No estado atual, parece que não seja possível conceber a evolução espiritual senão na forma agressiva de autoperseguição e de autodestruição, o que representa a premissa natural das neuroses sadistas e masoquistas. É lógico que as consequências estão reservadas para os fracos, que acreditaram e obedeceram. Isto não aconteceu com os rebeldes, que souberam se defender, não tomando a sério a religião, e desenvolveram a sua inteligência para conseguir se evadir. Estes são os chamados fortes, que pensam com sua própria cabeça, e não com a dos outros. Mas se estes foram condenados e expulsos, só ficaram dentro das religiões as ovelhas meigas, formando o rebanho dos fracos, que se refugiam nelas em busca de defesa na luta, o grupo não dos vencedores do espírito, mas dos vencidos da vida, doentes na alma atormentada, porque uma sublimação espiritual mal interpretada não gerou um amor maior, mas sim o destruiu. Não é fácil intervir nas leis da vida. É necessário vê-las com inteligência positiva e conhecer o que elas são de fato na realidade biológica, em vez de basear-se apenas em abstrações filosóficas e teológicas. Parece que a civilização cristã trouxe consigo o desenvolvimento de uma quantidade de formas psicopatológicas individuais e sociais. Freud descobriu a chaga que havia debaixo das

aparências, sob as quais o homem moderno procura cobrir essa sua falência. Mas, infelizmente, Freud limitou-se a ficar no terreno curativo, não entrando no campo das reformas sociais, porque isto lhe teria sido muito mais difícil, devido à resistência contraposta pela própria humanidade a toda reforma de ideias que se encontrem profundamente assimiladas no subconsciente. As ideologias políticas, nos diversos sistemas em que se divide o mundo, são em substância apenas formas diversas do mesmo egoísmo e espírito de agressividade para chegar ao domínio em favor de algumas classes escolhidas. O que pode, para a grande maioria, suavizar e embelezar a vida é o amor, mas um amor bem compreendido, antiegoísta, sem perseguição nem mentiras, um amor que aplaca os ódios, abranda a agressividade, acalma as invejas, a cobiça e o orgulho, tranquiliza e enternece a alma, gera paz onde há guerra e alegria onde há dor, trazendo ordem e harmonia tanto para o indivíduo como para a sociedade. Ordem e harmonia, eis para onde progride a evolução. Neste sentido é necessário canalizar as nossas energias, não lançando um contra o outro os dois polos do nosso ser, alma e corpo, mas, como já mencionamos, harmonizando-os, para que concordem e colaborem no mesmo e único objetivo da vida: a ascensão espiritual. A humanidade precisa se equilibrar na harmonia, por dentro e por fora, isto é, tanto no indivíduo, ele consigo mesmo, como na sociedade, cada um com os seus semelhantes. Não é o alto nível econômico do padrão de vida, nem o poder político, a supremacia bélica ou o domínio do mundo que podem sanar o mal, mas somente um amor que nos encha de simpatia para com todos os seres e nos devolva a perdida alegria de viver. A inimizade em que vivemos, de todos contra todos, divide, seca e destrói tudo. Precisamos de uma bondade que alimente, construa e una tudo. Só isso poderá dar um alívio à nossa adoentada alma moderna. À atual tendência do mundo para concentrar tudo na conquista bélica ou na superioridade econômica, segundo o mesmo princípio de luta ao qual obedecem hoje as duas maiores potências do mundo, o Brasil poderá contrapor uma contribuição sua e única no planeta, feita de bondade e amor. A Europa já viu bastante os resultados da aplicação das teorias do super-homem de Nietzsche, o herói da força. A nova mensagem é viver em paz e amizade com todas as criaturas do universo. Hoje, o trabalho que mais interessa à vida, não é esmagar-se uns aos outros para selecionar o mais forte, mas sim fazer da humanidade um corpo coletivo unitário, como sociedade orgânica. Quando se construiu a sociedade orgânica das células que constituem o corpo humano, esse resultado não foi atingido com a invenção de sistemas ideológicos e de métodos de organização exteriores, mas sim pela transformação da natureza dos elementos singulares componentes, dotando-os de todas as qualidades necessárias para torná-los aptos a viver no estado orgânico, em vez de num estado de desordem como indivíduos separados. Da mesma forma, ao estado orgânico da sociedade humana, mais do que através de sistemas exteriores políticos e sociais, será possível chegar pelo amadurecimento evolutivo dos indivíduos considerados isoladamente, que desenvolverão as qualidades necessárias para saber viver e funcionar como elementos constitutivos de uma sociedade orgânica. O ser humano terá de se educar nessas novas formas de coexistência, mais adiantadas do que as atuais. Isto não é desprezo ou condenação do estado presente. É um convite que se faz para civilizar-se, porque representa uma imensa vantagem para todos. ◘◘◘ Os problemas estão todos ligados, ecoando e repercutindo uns nos outros. Por isso a solução do problema do sexo significa também ajudar a solucionar o problema da convivência social. Tudo depende de nós, do que somos e queremos ser, condição em função da qual nos colocamos numa ou noutra diferente posição no plano orgânico do universo, com todas as suas con-

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sequências. As tristes condições de nossa vida atual derivam de nossa concepção primária errônea. Vivemos em estado de cisão e de revolta. Desta posição inicial seguem-se todas as outras, porque da revolta nasce a reação corretora por parte da Lei, gerando o estado de culpa, ou seja, de desordem, de onde surge o sofrimento. Esses elementos estão encadeados um ao outro, e todos juntos constroem o nosso mundo inferior. O termo final, que é o sofrimento, existe em função da revolta, que é o termo inicial. Mas, se tirarmos o primeiro termo e o substituirmos pelo seu oposto, o mesmo também acontecerá aos outros termos sucessivos, num encadeamento até à conclusão. Assim, se suprimirmos a desobediência à ordem, desaparecerá a reação da Lei e, portanto, não advirão a culpa, o estado de desordem e o sofrimento. E, se no lugar daquele primeiro termo colocarmos a obediência à ordem, aparecerá a ajuda por parte da Lei, consolidando a nossa posição acertada num estado de ordem e nos trazendo a respectiva felicidade. Tudo isto é automático e lógico. Assim como sofrimento está ligado à revolta e à consequente desordem, a felicidade está ligada à obediência e à consequente ordem. Na obediência, o sofrimento tem de desaparecer, porque então não tem mais razão para existir. Então o ser, quanto mais evolui e se civiliza, tanto mais se harmoniza com os ditames da Lei e, com isso, liberta-se da dor. Quanto mais a parte inferior do ser humano se liberta da sua animalidade, tornando-se menos besta, tanto mais se torna possível uni-la à parte superior, que é o espírito, porque então elas estão mais próximas uma da outra. Somente nos níveis inferiores de existência, em ambientes onde tudo é luta e rivalidade, o corpo é inimigo do espírito. Porém, tão logo se ascende na escala evolutiva, tudo se harmoniza e irmana. Então o corpo não é mais uma fera rebelde que é necessário subjugar, nem uma prisão na qual está presa uma alma revoltada, mas é uma casa para morar e trabalhar, constituindo o templo onde vive a divina centelha de um espírito evoluído. Nesta condição, perde todo o sentido e automaticamente se desfaz com a evolução o assalto do cristianismo sexófobo contra o corpo. Na sua essência, o amor é um impulso próprio do S, porque deste tipo são as suas qualidades, sendo a sua função unificar e gerar. O que pertence ao AS é, pelo contrário, o impulso oposto, constituído pelo egocentrismo separatista e destruidor. Quanto mais o ser sobe na escala evolutiva, tanto mais esquece o seu individualismo de elemento isolado no todo, para se fundir em unidade com todos os outros seres, não mais lutando contra eles, mas sim colaborando com eles. Nisto aparece evidente a passagem dos métodos do AS para os do S. Em nosso mundo, que está situado ao longo do caminho evolutivo, é lógico que não prevaleça nem um nem outro dos dois métodos, mas sim que os encontremos funcionando juntos, ainda que, muitas vezes, pelo fato de estarem em oposição, lutando entre si para se eliminarem reciprocamente. É assim que, em nosso mundo, o princípio altruísta do amor (S) se encontra unido ao princípio egoísta da posse (AS), e o amor costuma ser, antes de tudo, a procura da nossa satisfação, mesmo se obtida pelo sacrifício dos outros, e não a satisfação dos outros com o nosso sacrifício. Assim como a luz se opõe às trevas, o princípio da união (S) luta contra o princípio da divisão (AS), e ao contrário. Então reconhecemos como perfeito o amor que tem as qualidades do S, e como condenável o que tem as qualidades do AS. Tanto mais é superior o amor, quanto mais ele perde as características da animalidade, afastando-se dela. Assim, em nosso mundo, podemos em cada ato nosso encontrar, misturados, tanto o método do S como o do AS, de modo que a todo o momento estamos oscilando em nossa escolha entre o bem e o mal, ou seja, entre o caminho que vai para o S e o que vai para o AS. É assim que, no nível humano, onde a pureza ideal do S está manchada pela imundície do AS, encontramos o amor corrompido pelo egoísmo, numa tal condição,

que mesmo o divino princípio da vida torna-se pecado. Mas todas as vezes que isto acontece, é porque o AS prevalece sobre o S. O que encontramos na realidade é uma luta recíproca entre amor e egoísmo, na qual o mais forte vence, revelando a natureza do indivíduo, conforme a sua posição ao longo da escala da evolução. O amor liga em sentido positivo, porque só quer dar, enquanto o egoísmo liga em sentido negativo, porque só quer receber, tirando dos outros. Então há quem faça do amor um negócio, como há quem por amor fique espoliado. Porém quem enriquece explorando se aprisiona, e quem empobrece dando se liberta. Isto porque o primeiro involui para o AS e o segundo evolui para o S. O primeiro reforça em si as qualidades que o isolam da vida, abismando-o cada vez mais no reino da prepotência e da mentira; o segundo adquire qualidades que o unificam com a vida, levantando-o cada vez mais para o reino da bondade e da sinceridade. Então a evolução, que significa a nossa própria vantagem, está em eliminar do amor o egoísmo, processo por cuja consecução ela se realiza. Se tal eliminação ainda não foi realizada, pois este é o problema atual, cuja solução somente poderá ser alcançada no futuro, e se a inferioridade de instintos é o que se entende hoje pela palavra amor, as reformas sexófilas não podem ser efetuadas no estado atual, porque, se o amor hoje predominante tem a forma de animalidade, então sexofilia significaria a proteção dos seus baixos instintos, o que seria involução, e não evolução. Esta nossa exposição se reduz assim a uma explicação dos fatos e a um programa para as gerações futuras, que, por terem conquistado outras qualidades e instintos, tornarão possível viverse uma concepção de amor mais adiantada, como liberdade e espiritualização, a qual não pode hoje, sem prejuízo, ser entregue às mãos do homem atual. Numa sociedade que não é um organismo de seres conscientes, mas sim um amontoado de elementos inimigos, não pode haver lugar para o que se poderia chamar de um superamor. A triste conclusão é que, enquanto o amor continuar sendo concebido e praticado sobretudo como uma inferior função animal, na qual estão despertos os mais baixos instintos de egoísmo e de luta, a ética não poderá, sem gerar prejuízo, sair da atitude sexófoba do cristianismo. Quando o moralista invoca o amor como tranquilizador e elemento de pacificação social, ele se refere a esse tipo de amor bondoso e inteligente. Mas foi neste mesmo sentido que lutou o cristianismo, quando, com a sua sexofobia, revoltou-se contra o que no amor é inferior instinto de egoísmo e animalidade, e não contra o que nele é superior anelo de bondade e espiritualidade. O cristianismo procurou ser uma escola de superação, para a evolução da vida. Mas que podia ele realizar, se a maioria de seus representantes, tanto dirigentes como dirigidos, era constituída de involuídos? Como é lógico, eles abaixaram tudo ao seu próprio nível de animalidade, concebendo tudo, inclusive o amor, com a respectiva forma mental. A culpa não é dos princípios do cristianismo, mas do estado de involução do biótipo pelo qual ele teve de ser representado na Terra. Foi assim que, entregue nas mãos do involuído, o ideal da sublimação, ao invés de se realizar como impulso para o alto, acabou desviado e torcido para baixo, transformando-se em perseguição sexófoba. Nem podia acontecer de outra maneira, num mundo regido pelo princípio e forma mental da luta, que tudo domina e transforma em agressividade. E, de fato, esta é a psicologia vigente, que aparece nas mais diferentes manifestações humanas, seja fascismo, nazismo, comunismo, negocismo norte-americano, cristianismo etc., porque é sempre o mesmo homem que, de formas diferentes, faz as mesmas coisas. Se é verdade que a tentativa do cristianismo de transformar o mundo não alcançou os resultados esperados, tendo grande parte do seu esforço acabado na forma torcida das psicoses modernas, também é verdade que a tentativa foi feita, pois a ideia foi lançada e o mundo chegou a possuir o conceito da sublima-

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ção espiritual, que corresponde à concepção biologicamente verdadeira de superação por evolução. Esta concepção pode transformar o amor animal em um superamor mais rico, espiritual e nobre. É lógico que os primitivos da Idade Média entendessem a espiritualização do único modo concebível por sua forma mental, segundo o tipo desta, vendo na sublimação espiritual o seu aspecto negativo e destruidor, pois estas são as qualidades dos atrasados do AS, e não o seu lado positivo e construtor, qualidades que só os evoluídos do S possuem. Mas um esforço para subir foi feito. Sem ele, a humanidade teria ficado apodrecendo por lhe faltar o impulso que essa ideia nova lançou no mundo. Em alguns seres mais adiantados, aptos a compreender, aquela chama de dinamismo referveu e realizou o ideal cristão. Nasceram assim os santos, formando as estrelas que iluminaram os tenebrosos céus da Idade Média. ◘◘◘ Para concluir, nas condições atuais da evolução humana, a posição do problema poderia ser resumida nos seguintes pontos: 1) Respeito ao cristianismo, reconhecendo o valor biológico da ideia da superação pela sublimação espiritual, sem cair, porém, na perseguição sexófoba; 2) Abolição da sexofobia, devido às consequências deformatórias que ela pode produzir na personalidade, como neuroses, desvios, complexos etc., assumindo-se uma atitude mais racional e compreensiva em face da sexualidade; 3) Correta educação sexual, para construir uma consciência eugênica, necessária para dirigir inteligentemente os instintos eróticos e as suas consequências, aceitando-se toda a responsabilidade da criação dos filhos no caso de geração, sempre prevista e voluntária por meio do controle, somente admissível amanhã, nas mãos de indivíduos conscientes; 4) Direção do fenômeno biológico no planeta, confiada ao homem, sobretudo na parte que lhe pertence, para procriar em proporção aos recursos disponíveis, em número adequado às condições de ambiente, evitando-se necessidades, fome, guerras, invasões, revoluções etc., como convém numa sociedade civilizada que chegou ao estado orgânico, onde nada pode haver de imprevisto. Poderiam deste modo ser atingidos os seguintes resultados: 1) Defesa do ideal cristão da pureza, entendida corretamente, como sublimação de instintos; 2) Defesa do normal e sadio desenvolvimento da sexualidade, com o tratamento e a supressão das causas dos respectivos desvios; 3) Defesa dos filhos, com uma geração não mais casual e irresponsável, mas sim conscientemente controlada, com o consequente e absoluto sentido de responsabilidade; 4) Defesa da humanidade em relação aos perigos que a ameaçam hoje, como necessidade, fome, guerras etc., com todas suas consequências. Assim, evitando o atrito que os destrói, poderão ser salvos os maiores valores da vida, prevendo-se e evitando-se as diversas calamidades que hoje afligem o mundo. Deixamos que os fatos nos levassem a estas conclusões. Se não as aceitarmos, eis as consequências: 1) Perda dos valores espirituais do ideal cristão, necessário para conseguir a superação, fenômeno que interessa de perto à vida no seu ponto central: a evolução; 2) Triunfo de uma sexualidade-pecado, comprimida e torcida em todos os seus desvios patológicos, fonte de distúrbios e sofrimentos, em vez de uma sexualidade sadia, fonte de alegria e bem-estar; 3) Falta, em muitos casos, de qualquer garantia de defesa dos filhos, consequência da geração descontrolada e irresponsável, realizada apenas como desafogo de instintos, ficando de pé o prejuízo individual e social dos filhos ilegítimos e da mulher desonrada e abandonada, com todas as suas consequências. 4) Nenhuma defesa contra o controle por meio da morte, aplicado pela natureza para equilibrar o aumento demográfico devido à falta de controle dos nascimentos, ficando a humanidade, então, submetida a métodos ferozes e desapiedados, como a fome, as guerras etc., através dos quais a vida tudo corrige e compensa, eliminando com a destruição a superpopulação.

É lógico que o homem tem a liberdade de continuar com o sistema atual, porém ele não pode fugir das respectivas consequências. Não é possível deixar de levar em conta as leis da vida. O impulso do sexo não pode ser esquecido nem destruído, porque ele quer atingir os seus objetivos fundamentais. Então os pontos fixos preestabelecidos, dos quais não é possível fugir, são os seguintes: 1) Se destruirmos os valores espirituais, involuiremos sempre mais para a animalidade. Com isso, pagaremos o erro. 2) Se não dermos alívio aos instintos na direção natural e correta, eles partirão para outra, cega e errada, gerando complexos neuróticos e outras alterações da personalidade. Com isso pagaremos o erro. 3) Se não gerarmos em função das nossas boas qualidades de saúde e meios de subsistência, criaremos, como consequência do egoísmo e da leviandade, filhos doentes ou necessitados. Com isso pagaremos o erro. 4) Se a humanidade não aprender a gerar inteligentemente, em proporção aos recursos e espaço disponíveis, a natureza resolverá o problema, matando os que são de mais. Com isso pagaremos o erro. Se tudo isto, pela imaturidade humana, ainda não é realizável hoje, terá fatalmente de se realizar amanhã, porque teremos de sofrer até aprendermos, e a dor nos ensinará. A evolução não pode deixar de guiar o mundo para uma nova ordem, dirigida pela inteligência do homem, mas de tipo diferente do atual. Um homem consciente da sua posição dentro da lei de Deus e do funcionamento orgânico do universo; um homem que, por isso, não se movimenta mais ao acaso, cegamente, por tentativas, movido só pelos seus instintos, errando e pagando a cada passo, mas age inteligentemente, com conhecimento e honestidade. Se quisermos acabar com o sofrimento, é necessário começar a nos encaminharmos desde agora, para chegar até lá. Devemos cessar qualquer impulso de agressividade, que é sempre destrutiva em todos os campos. É preciso conciliar os opostos, levando em conta a realidade freudiana e os ideais das religiões, e isto sem cair em excesso nem de um lado nem de outro, ou seja, nem na repressão sexófoba, com a ideia de sexo-pecado, nem na licenciosidade e corrupção, com o descontrolado gozo, fim em si mesmo. Temos de levar em conta as necessidades da alma, juntamente com as do corpo, e vice versa, dando a César o que é de César e a Deus o que é de Deus. É urgente educar o ser humano, para que ele, tornando-se mais consciente, possa fazer uso de liberdades das quais hoje não pode gozar, porque tudo tem de ser proibido a quem de tudo está pronto a abusar. É necessário civilizar o homem tanto no terreno religioso como no erótico, para que ele encontre o equilíbrio do seu eu entre os dois polos opostos: a animalidade a superar e a espiritualidade a conquistar. Por isso este grande impulso vital, que é o amor, em vez de ser condenado e sufocado, deve ser chamado a colaborar. Jamais destruir, mas tudo respeitar, enobrecer e dignificar, dirigindo-o para o bem. Assim devemos utilizar tudo, inclusive o amor, para chegarmos à sublimação cristã. A estas soluções a natureza humana involuída está sempre pronta a opor resistência a cada passo. A imaturidade paralisa qualquer aperfeiçoamento. A maior dificuldade a vencer é a atávica forma mental do homem, que construiu uma ética sexual em seu benefício, pelo direito do mais forte. É lógico que a moral do sexo reservada para a mulher seja completamente diferente, porque se trata de um ser fraco. Se, neste nível biológico, a lei que vigora é a da força e do egoísmo e se tudo para o macho vai bem, por que preocupar-se com os outros? É ridículo pensar que, num tal mundo, os fracos possam exigir direitos. Para esta forma mental não há razão pela qual o mais forte renuncie à posição de favor que, naquele plano, pertence a ele por direito. Se isto representa prejuízo para os outros, a culpa é deles. Eles que aprendam a defender-se. Se não sabem fazê-lo com a força, façam-no com a mentira, dando prova de possuir pelo menos a astúcia, que neste nível representa o valor da inteligência. Tudo é lógico, porque o princípio é que qualquer van-

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tagem só pertence a quem sabe conquistá-la, demonstrando assim possuir capacidade para vencer. Quando escolhemos um princípio, ficamos presos às suas consequências e não podemos fugir da sua lógica desapiedada, tendo de ir até o fundo. Caminha assim o nosso mundo, sobrecarregado de injustiças e sofrimentos, abrindo um tapete triunfal de vítimas sob os pés do vencedor. Aqui, o amor, o maior impulso de salvação da vida, está reduzido a uma fonte de lutas e aflições. A solução está na canalização das energias deste grande impulso no sentido da evolução, e não da perseguição; está no refinamento, que faz do amor, além de um elemento de funções reprodutivas, um meio de regeneração espiritual e de pacificação social. Lembremos que a natureza nada destrói, mas tudo transforma. A evolução exige que o amor se torne alguma coisa a mais do que apenas meio de fecundação animal ou satisfação do instinto. Trata-se de elevá-lo a uma tarefa consciente de cooperação criadora junto à obra divina da vida, para vencer a morte e continuar sempre subindo. Tudo, por evolução, tem de se espiritualizar, tornando-se o amor prodígio de sintonização de almas que, em comunhão mística com a essência criadora do universo, no mistério da gênese, cumprem, com a descida de uma alma que se encarna, a função religiosa da ascensão para Deus. Trata-se de elementos vitais, sem os quais, hoje, o matrimônio, mesmo formalmente perfeito e existindo do modo mais regular, é apenas um acasalamento físico-animal. A evolução nos levará a uma nova concepção do amor, que se tornará então instrumento de superação do egocentrismo separatista, mostrando-nos que somos complementares com todos os outros seres e que todos são necessários uns aos outros, em mútua interdependência, quais elementos da mesma vida, incluídos na mesma unidade, fundidos no mesmo organismo universal, no seio e em função do qual todos existimos. O nosso maior desejo é que a humanidade amadureça para chegar a compreender tudo isto, a fim de poder gozar das liberdades que, hoje, ainda não pode receber sem prejuízo. A esperança para o futuro é o advento de uma humanidade mais consciente dos seus deveres, para que ela possa usufruir de maiores direitos, e mais inteligente, para compreender a vantagem de viver na ordem, sem a ameaça contínua da força, das cadeias e do inferno. Conhecemos as leis da vida e sabemos que ela não poderá deixar de passar do seu estado de guerra-destruição ao seu estado de amor-construção. O progresso vai do mal, que semeia ruína, para o bem, que semeia paz e felicidade. Terá de ser superada a forma mental do super-homem da força, do dominador esmagador de vítimas. A Alemanha pagou com a sua ruína por ter acreditado nas nefastas teorias nietzschianas. O amor representa o elemento unificador que pode corrigir e superar o egoísmo separatista, sendo o único meio para quebrar esse estado de divisionismo caótico, feito de rivalidades. Se destruirmos o amor, não restará senão egoísmo. Quem não irradia para os outros, concentra somente para si. Daí o orgulho, a cobiça de posse e a ambição de domínio. O caminho do amor é o da evolução, que vai para a unificação no S. O caminho do egoísmo é o da involução, que vai para o separatismo no AS. Cabe ao primeiro corrigir o segundo. Eis o grande valor do amor: ser instrumento da evolução para nos levar de volta ao S, o que significa salvação. ◘◘◘ Se nestes capítulos falamos de sexofobia, foi porque o fenômeno do amor tem uma significação profunda e universal. Dele depende a solução do problema da convivência social. Trata-se de um dos mais vivos e urgentes a resolver, porque da sua solução depende a pacífica colaboração entre os semelhantes, eliminando-se os atritos da luta, de onde nascem os sofrimentos. Ninguém pode viver sozinho. Quanto mais a humanidade evolui, tanto mais organiza e funde os seus elementos. A coexistência se consolida cada vez mais, tornando-se problema vital em todos

os campos: político, industrial, religioso, familiar, cultural, trabalhista etc. O problema das relações sociais é um problema de reciprocidade e compreensão. Neste sentido, a máquina social, hoje, funciona muito mal, fato que custa lutas, resistências e duras reações, gerando choques e dores para todos. Com isso, pagamos, como é justo, o nosso erro. Constituiria uma vantagem fantástica nos tornarmos suficientemente inteligentes para sabermos evitar tantos erros, que tão caro nos custa. Isto é ciência psicológica, uma arte a ser aprendida, com as suas regras, técnica e dificuldades. Assim como as células do corpo humano, cada indivíduo também lança o fruto do seu funcionamento no reservatório comum do corpo coletivo do ambiente social, do qual cada elemento faz parte e recebe a resposta correspondente. São motivos psicológicos, circulando como impulsos mentais de indivíduo para indivíduo, numa troca de ações e reações, de atrações e repulsões, de simpatia e antipatia, que continuam ecoando de um para outro, de alma para alma, até que acabam voltando à fonte, como se estivessem fechados dentro dos limites de um espaço curvo. O fato é que a humanidade constitui um todo psicológico, dentro do qual fica tudo o que nele nasce. Ali, as vibrações nervosas circulam como o sangue no corpo humano. Para a vida de todos e de cada um, é necessária a circulação do sangue, que, conforme as células sejam sadias ou doentes, traz saúde ou sofrimento. Mas é preciso que ele flua sem parar, seguindo os caminhos do grande corpo coletivo. Para isto, os canais de circulação têm de permanecer abertos. A bondade os abre; a agressividade os fecha. Fazer o bem é vital; fazer o mal é antivital para todos. No primeiro caso, despertaremos confiança, e todas as portas se abrirão. No segundo caso, despertaremos desconfiança, e todas as portas se fecharão. Então o próximo, constrangido a colocar-se em posição de ataque e defesa, movimentar-se-á no sentido da luta e, uma vez dado o primeiro passo neste sentido, esse impulso negativo continuará repercutindo, destruindo tudo no seu caminho, até que um oposto impulso de amor o vença, neutralizando-o e extinguindo-o, substituindo-se a ele com a sua positividade salvadora. Assim cada um vai enviando uma mensagem e esperando uma resposta. Mas como é possível receber boas respostas de más mensagens? Todos gostariam de receber confiança e amor, mas muitas vezes estão transmitindo o oposto. Seria necessário levar em conta o que temos de pensar a respeito dos outros, para receber dos outros o que desejaríamos que eles pensassem a nosso respeito. Como podemos receber bondade, se semeamos veneno? A ilusão de nossa ignorância está em acreditar que o mal possa ser lançado só contra os outros, sem que ele repercuta em nós. O egocentrismo nos faz acreditar no absurdo de que vivemos divididos, quando vivemos todos juntos, e de que o dano dos outros possa ficar isolado do nosso, quando na vida nada há que possa existir separado. Assim, o sofrimento vai-se espalhando, atingindo todos. Para sofrer menos, é necessário ser melhor e menos egoísta. Não se pode endireitar o mal com o mal, nem a violência com a violência, mas somente com o bem e a bondade. Perseguir, mesmo em nome de Deus, não melhora, pelo contrário piora. Perante quem diz “eu” para se impor, todos instintivamente são levados a contrapor o seu “eu”. Então surge a luta. Logo que na Terra surge uma força, eis que aparece a sua contraforça, que a equilibra. Mas, se, ao invés de dizermos “eu”, dissermos “nós”, então os outros também serão levados a dizer “nós”. Então surge a concórdia e a paz. A mansidão nos outros nos tira a vontade de lutar, porque não há mais motivo para isso. Há leis psicológicas que os indivíduos inteligentes podem usar ainda melhor e com mais eficiência do que qualquer técnica empregada no pugilismo. Logo que se aproxima um amigo, todos abrem os braços; logo que se aproxima um inimigo, todos se armam. Não há vantagem cuja conquista possa compensar a destruição material e espiritual que a luta gera ou compensar a morte que a guerra semeia.

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A primeira fonte de tantos sofrimentos nossos está nessa forma mental atrasada, feita de egocentrismo separatista e de agressividade. A culpa fundamental está na falta de amor, que é como a falta de luz, de ar e de calor, elementos necessários para viver. É esta falta que nos faz mergulhar no negativismo, e isto significa afundar nas trevas, na incompreensão, na luta, no erro e no sofrimento, que é o ponto final de todo o processo. A culpa não é de Deus, pois a Sua obra não é mal feita. A culpa é do ser, que não sabe se movimentar inteligentemente dentro das regras com as quais a Lei tudo regula. Pregar e explicar não basta para renovar o homem. Assim, não há outro remédio para ele senão continuar sofrendo, até a dor abrir a sua mente, a fim

de que ele compreenda qual é o verdadeiro caminho e aprenda, à sua custa, a lição, renovando a sua forma mental e conduzindo-se melhor. Nós só podemos fazer votos que isto aconteça o mais rapidamente possível. De uma coisa não há dúvida: enquanto o homem não aprender a arte da conduta correta, terá de viver mergulhado num ambiente de inimizade entre indivíduos e entre povos, num estado de luta contínua, de insegurança universal, de perigos e de sofrimentos sem fim.

FIM

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PREFÁCIO Para compreender o significado do presente livro, devemos vê-lo enquadrado no seio da Obra da qual ele faz parte. Esta é composta de 24 volumes, ligados sucessivamente um ao outro, como anéis de uma cadeia. Cada um deles representa uma fase da construção, um andar, de um edifício único, que constitui a Obra. Tal estrutura não foi premeditada, mas se deveu ao fato de cada volume ter sido vivido pelo autor, que teve representado, no desenvolvimento da série, o espontâneo amadurecimento de seu pensamento e personalidade. Vejamos, pois, em que ponto da Obra se encontra, em relação aos outros, o presente escrito. O termo central dela é o livro O Sistema, preparado pelo volume Deus e Universo, através do qual o leitor é conduzido àquele, ambos completados por A Grande Síntese, que os precede e projeta uma visão mais próxima e acessível, apresentando o aspecto evolutivo do nosso universo. Colocadas assim as bases teóricas da doutrina, a ideia apresentada em O Sistema é então desenvolvido mais detalhadamente no volume Queda e Salvação. Chegando a este ponto, após toda a teoria ter sido exposta, entra-se agora, com os volumes que se seguem, na fase das suas consequências e aplicações. Ela é agora transportada ao terreno prático da sua realização, para controle de sua verdade. Entramos na fase de conclusão da Obra. Assim nasceu o volume Princípios de Uma Nova Ética , que se refere a problemas de moral, psicanálise, personalidade humana etc. A ele segue-se o presente volume, A Descida dos Ideais, que, por sua vez, aborda o problema religioso, tema importante, pois é através das religiões que se realiza na Terra a descida dos ideais, interessando à vida no seu ponto central: a evolução (a salvação, com o retorno a Deus). Estamos preparando o volume sucessivo a este, Um Destino Seguindo Cristo , no qual se avança sobre as mais concretas consequências e realísticas aplicações das teorias básicas, apresentadas na forma vivida por um indivíduo que as aplica, transportando-as para a bancada das experiências e das provas da realidade cotidiana, em contato com os fatos, tal como eles se verificam em nosso mundo. Então a visão global das verdades universais é observada novamente, em suas particularidades, transferida para outro nível e dimensão, em função de outros pontos de referência, situados em nosso plano de evolução. Assim, a atual zona de pensamento torna-se complementar da teoria fundamental, pois esta constitui abstração longínqua da realidade de nosso mundo, enquanto aquela, pelo contrário, propõe-se a submetê-la a controle experimental, para demonstrar-lhe a verdade. Com Um Destino Seguindo Cristo , a segunda Obra vai chegando ao fim. Os outros volumes, surgidos ao longo do caminho, representam ramificações dos conceitos fundamentais, onde se fazem exposições colaterais exemplificativas e complementares, para melhor iluminar, detendo-se em problemas secundários. Tratase de digressões que, originadas no tema central, comprovamno e aprofundam-no, pois ele é o ponto de referência de toda a Obra. O quadro se completa em sentido não só universal, mas também particular, compondo-se de tantos elementos quantos são os vários volumes, ligados ao longo da linha de desenvolvimento de um processo lógico “único”, evidenciado pela sua continuidade. Só agora, que estamos no final e abarcamos com um olhar retrospectivo todo o caminho percorrido, pode aparecer de maneira evidente, sendo possível formar uma visão de conjunto, a unidade fundamental de toda a Obra. Estes volumes finais, dos quais o presente faz parte, são im-

portantes não só porque derivam de um sistema conceptual orgânico, mas também porque, em de vez de se apoiarem numa doutrina particular, apoiam-se sobres bases positivas e universais, tal como as leis que regem a vida e representam a manifestação do pensamento de Deus em nosso plano de evolução. Estas leis existem e, para funcionarem, como de fato sucede, não necessitam absolutamente de nossas opiniões. Elas caminham independentemente das verdades sustentadas por qualquer grupo humano, seja ele partido ou religião, e, indiferentes ao fato de as negarmos ou ignorarmos, continuam sempre funcionando, como podemos verificar. Elas abrangem integralmente a vida, e isto inclui também a vida espiritual, monopolizada pelas religiões. O ponto de referência, portanto, é sólido, sendo ele visível, atual e objetivamente controlável, sem necessidade de mistérios, revelações, fé, reconstruções históricas ou fatos longínquos. Trata-se de um pensamento sempre presente, que sabe falar e se fazer entender nos fatos, castigando-nos com as suas reações vivas e a sua lógica inflexível. Somente com tal visão realista, que abarca todos os aspectos da vida, incluindo os espirituais, é possível convencer as novas gerações. É com esta finalidade de bem que a usamos e a oferecemos para a salvação dos valores espirituais, apresentando-a numa forma positiva, tal como se exige hoje, para que uma ideia possa ser aceita. Novas correntes de pensamentos estão agora amadurecendo rapidamente. O catolicismo, obrigado a se mover, a fim de não ficar abandonado para trás, está chegando em último lugar, ofegante, e apressa-se em atualizarse. Lançando Concílios, vota neles a favor do princípio da liberdade de consciência e procura um diálogo com as outras Igrejas cristãs, abrindo os braços aos irmãos separados, mas só para que eles façam o esforço maior de aproximação em favor da Igreja Católica. Sua ação, assim, resume-se a movimentar-se no sentido de salvar a sua posição de domínio. Por outro lado, o autor, a quem não interessa esta luta recíproca pela defesa do próprio grupo, vê-se constrangido a resolver seus graves problemas, que são de outra natureza, tratando de solucioná-los por si mesmo. Ele começa a pensar, não mais se adaptando a representar, só pelo fato de ser um fiel, o papel da tradicional ovelha do rebanho, obrigado à obediência da autoridade. Assim não se detém em inúteis dissensões teóricas, mas, pelo contrário, dispõe-se a enfrentar e resolver por sua conta os seus próprios problemas. Pode até achar inoportuno o fato de uma religião, que, ao contrário da ciência, não é competente na matéria, ter de imiscuir-se nos seus assuntos, sem ser consultada. Então, pensa ele, sobre que bases positivas apoia-se a prerrogativa na qual elas se arrogam o direito de invadir a sua consciência, entrando num terreno que é dele, onde, portanto, é ilícita qualquer intromissão de estranhos? Para falar com Deus, não se necessita de intérpretes e tradutores. Isto constitui violação de domicílio espiritual. O indivíduo consciente rebela-se contra esta falta de respeito ao seu direito de pensar segundo a sua consciência e conhecimento, tanto mais que semelhante invasão autoritária se faz em nome de Deus. Por tudo isto, oferecemos nestes livros o conhecimento para que o indivíduo pense e compreenda por si mesmo, a fim de que ele forme uma consciência própria para sua vantagem, e não a serviço dos interesses de um grupo. Sem nenhuma imposição nem obrigação de acreditar, ele aceitará apenas se quiser, livremente, porque compreendeu e está convencido. Não pedimos fé, não apresentamos mistérios, nem sequer recorremos a um alto nível teológico. Explicamos tudo claramente, para que cada um veja e julgue por si próprio. O jogo medieval da obediência, baseado no princípio da autoridade, não impressiona mais. Hoje, não se chega à adesão por sugestão ou obrigação, mas sim por demonstração e convicção. Perante a não solici-

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tada intromissão de terceiros na sua consciência, o indivíduo, por direito de legítima defesa, protege-se, assim como, em pleno direito, protege a sua casa e haveres contra qualquer invasor, ou até mesmo com maior direito, porque a casa do espírito vale muito mais. Deve-se respeitar a propriedade individual, e não há razões históricas ou teológicas que possam autorizar a violá-la. No entanto, até mesmo ontem, estas violações foram realizadas por parte de quem possuía a autoridade e se atualizava ao longo do tempo, de modo que tudo ficava como se nada tivesse sucedido, porque a autoridade, uma vez reconhecida pelo fato de ser a mais forte, podia fazer e desfazer a sua verdade como melhor lhe conviesse. Isto pode suceder somente na mente humana, mas não nas leis da vida, segundo as quais não é possível apagar gratuitamente nenhum erro, cujas consequências, pelo contrário, é inevitável suportar. O presente volume, por tratar de problemas religiosos, é de atualidade. Com ele, a Obra, depois de longo caminho, chega às suas conclusões também neste terreno. Isto num momento em que o mundo se encontra perante graves problemas, que exigem solução urgente, razão pela qual ele se pôs a pensar e tem necessidade de conhecimento. Encontramo-nos todos numa gravíssima hora histórica, de grandes decisões e transformações. Já não serve o velho e cômodo método de esperar que a autoridade espiritual decida, para descarregar sobre ela as responsabilidades que nos pertencem. O indivíduo deve chamá-las a si, colocando-se de olhos abertos e ânimo sincero com os seus problemas, perante as honestas e sábias leis da vida. Nestes livros, procuramos iluminar imparcialmente todos os caminhos, para que o homem, por si próprio, encontre o seu, devendo ele mesmo pensar, compreender e decidir. Não buscamos obediência, e sim compreensão. Queremos ajudar, mas a vida exige que tudo seja ganho com o próprio esforço. Ela chegou hoje a uma curva do seu caminho, depois da qual será diferente e, por isso, exigirá métodos diversos. É para este novo trabalho que procuramos nestes livros preparar o leitor para enfrentar o futuro. Por isto falamos aqui de ideais e de sua descida, fazendo-o de forma positiva, porque agora trata-se de realizá-los a sério, passando das palavras aos fatos. Os ideais estão colocados exatamente neste futuro próximo, que se aproxima a grandes passos, e eles são uma realidade insuprimível, porque suprimi-los significa estancar o desenvolvimento da humanidade. Neste futuro próximo, a ciência se prepara para demonstrar positivamente que o homem é também espírito e que, como tal, ele sobrevive à morte, voltando depois a ter experiências no plano de nossa vida física, prosseguindo cada vez mais em ascensão, até percorrer todo o caminho evolutivo, que se realiza com o retorno a Deus. Por este caminho se chegará a uma religião científica, que eliminará tanto o materialismo ateu como as religiões fideísticas. A ciência dominará positivamente o terreno que hoje ainda se encontra nebuloso, nas mãos das religiões. Em vez de lutarem para eliminar-se, a ciência e fé se completarão inteligentemente, de forma recíproca. Teremos então uma religião científica e uma ciência religiosa. A natureza universal da ciência positiva eliminará o espírito exclusivista que separa as religiões atuais, para fazer delas, em vez de diversos aspectos de verdades em luta, uma só verdade universal. Não é por meio das tentativas do atual ecumenismo católico que se chegará à unificação do pensamento religioso mundial. Este ecumenismo tende a uma unificação muito mais restrita, apenas entre parentes da mesma família religiosa. Ele pode, em substância, reduzir-se a um chamado à casa paterna no sentido da absorção de ortodoxos e protestantes no catolicismo, para que se submetam a Roma. Por outro lado, a antítese plurissecular entre Reforma e Contra-Reforma, prova que, no seio da cristandade, seja católica ou protestante, pre-

valeceu o princípio involuído da rivalidade e da luta, e não o do amor, princípio espiritualmente superior. Estamos, pois, situados no polo oposto daquela unificação que o amor cristão deveria estar. Eis que à grande unidade de pensamento religioso não se poderá chegar senão pelas vias da ciência. E, espiritualmente, isto representa uma grande vantagem, porque uma ciência sincera e honesta, esclarecendo as posições, reforçará o verdadeiro espírito de religiosidade, que está desaparecendo nas atuais religiões empíricas. A religião científica, porque demonstrada como verdadeira, não pode permanecer no estado de hipocrisia, impossibilitada de ser tomada a sério. Esta será a religião do Terceiro Milênio, feita não de autoridade e palavras, mas sim de livre convicção e de fatos. Não será proselitista, sectária, fideísta, dogmática, exclusivista, mas sim positiva, racional, demonstrada, convicta, universal. Nossa Obra será compreendida quando o homem chegar a este mais avançado grau de evolução. A isto se chegará não só pela ação positiva e construtiva das forças do Sistema, mas também pela ação negativa e destrutiva das forças do Anti-Sistema, ambas ativas em nosso mundo. Em relação ao aspecto negativo, observamos agora dois fatos convergentes, que tendem a levar o mundo a uma guerra atômica. De um lado, o velho egoísmo, o espírito de domínio e o instinto de violência, não obstante as religiões, ficaram intactos no homem, ainda fechado na lei da luta, qualidade involuída do plano animal, situado no lado do AntiSistema. Do outro lado, com semelhante natureza, o homem chegou repentinamente a ter em seu poder meios de destruição que, se antes eram limitados e, portanto, não podiam produzir senão efeitos limitados, hoje, sendo poderosíssimos instrumentos de extermínio, podem chegar ao aniquilamento da humanidade. O homem não se encontra absolutamente preparado para saber usar com sabedoria semelhante poder novo, pois a sua forma mental não progrediu com a mesma rapidez e proporção daqueles poderes, tendo pelo contrário permanecido igual à do primitivo, dirigida em grande parte por velhos instintos. Em tal situação, é muito duvidoso que ele saiba fazer bom uso de tais meios. As duas condições, de fato, estão conectadas: imensos poderes e instintos atrasados. Não se sabe resolver as divergências entre os povos senão com a força, base de todo o direito, e as religiões aceitam este estado de fato. Para quem ainda não se armou, não resta senão esperar a sorte dos vencidos. É assim que a posse da bomba atômica se tornou uma necessidade defensiva para todos. Hoje a guerra se transferiu para esta nova dimensão. Assistimos uma corrida universal de produção dessas bombas, de maneira que o mundo se enche cada vez mais delas. Assim, cada dia aumenta a probabilidade de que se inicie uma explosão em cadeia, impossível de ser detida, o que significa uma carreira para a morte. A Obra surge neste momento histórico para explicar como funciona tudo isso e, assim, levar à compreensão e à sabedoria. É mais fácil não considerá-la. Mas não se pode impedir que os fatos continuem a se verificar segundo nossa ótica, conduzindo-nos às mencionadas conclusões. De resto, segundo as leis da vida, o involuído tarda em compreender, não sabendo aprender a evoluir senão através da dor. A vida sabe disso e o trata de acordo. Com semelhante biótipo não se pode chegar à compreensão por outro caminho. A tal resultado conduzirão dois fatos: 1) A evolução, que impulsiona o homem para frente, amadurecendo sua mente; 2) A dor, que o castiga, obrigando-o a pensar. É em tal momento histórico e sobre semelhante quadro de acontecimentos apocalípticos que aparece a Obra, da qual o presente volume faz parte. S. Vicente, Natal de 1965. I. A DESCIDA DOS IDEAIS.

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Observaremos neste volume, sob vários de seus aspectos, um fato fundamental na técnica de realização da evolução, constituído pelo fenômeno da descida dos ideais. Que significa isto, porém? Descida de onde? Costuma-se dizer do alto. Mas, que é o alto? O alto é o Sistema, que, na cisão do dualismo, representa Deus ou o lado positivo, em oposição ao lado negativo, dado pelo Anti-Sistema, na posição antagônica de antiDeus. Para abreviar, indicaremos o Sistema por S e o AntiSistema por AS. O fenômeno central de nosso universo é a evolução. Ela representa o trabalho de reconstrução do S a partir de suas ruínas, que constituem o AS. Segue-se, em consequência, que a evolução contém diversos graus de aproximação ao S. O homem encontra-se num desses graus; o animal, num mais atrasado; o super-homem, num mais adiantado. O alto significa, portanto, um grau mais evoluído em comparação com um menos evoluído, que, em relação ao primeiro, pode ser definido como involuído. Descida dos ideais do alto significa transferir a lei de um nível biológico mais avançado para um menos avançado. Isto representa, para quem vive neste nível, uma antecipação da evolução, porque a influência do ideal permite realizar a passagem para aquele mais alto nível biológico. Ao conceito de descida dos ideais poderemos dar uma base positiva, aderente à realidade da vida, assim como aos efeitos deste fenômeno poderemos dar depois um sentido espiritual, não só de evolução biológica positiva, mas também de subida para o ideal, de ascensão das almas em direção ao Céu. Usa-se neste caso outras palavras e imagens. Mas, desse modo, podemos saber o significado delas com base num positivo ponto de vista biológico. Uma tal colocação do problema nos dá a chave para compreender a estrutura e o desenvolvimento do fenômeno desta descida. Se, de um lado, temos o alto, que significa níveis de evolução mais avançados, temos de outro lado o nosso mundo, que representa níveis mais atrasados. O fenômeno da descida dos ideais é dado pela conjunção destes dois termos, que se aproximam um do outro, o lado S tomando corpo no biótipo evoluído, e o lado AS no biótipo involuído. Na realidade, tratase de duas ideias ou princípios distintos, que, incorporando-se nestes dois biótipos opostos, entram em contato através das ações e reações de cada um deles, com a finalidade de realizar a evolução. Tal fenômeno é dirigido pela lei de Deus, que, com esta descida, está empenhada, assim como o destino de quem trabalha apoiado nesta lei, em realizar a salvação do ser. Para compreender o fenômeno da descida, é necessário, antes de tudo, entender como funciona a lei biológica terrestre no nível humano e quais as técnicas com que suas formas evoluem. A existência no plano animal-humano baseia-se na lei da luta pela vida. No entanto esta não é uma lei universal e definitiva, mas apenas relativa a este plano e, por isso, destinada a desaparecer com a evolução. Como pode isto suceder? Eis o que se apresenta na realidade. O ser quer viver e, por isso, luta. Mas por que motivo é necessário lutar para viver? Porque o ambiente é hostil e a vida, com o fim de assegurar sua continuidade, cria com superabundância, para depois selecionar os melhores, abandonando os outros à morte. Assim, se alguma espécie encontrar oportunidade e for favorecida por um ambiente adequado, torna-se potencialmente capaz de ocupar todo o planeta. Mas eis então que, além da adversidade dos elementos, surge a competição entre indivíduos e raças, justamente como consequência daquela geração superabundante. Ora, quanto mais faltar a cada um o espaço vital e os meios para sobreviver, tanto mais se torna feroz a luta para conquistá-los. É assim que a luta se torna inevitável, assumindo uma forma tanto mais feroz quanto mais primitivo é o ser, porque, quanto mais ele é primitivo, tanto mais lhe é hostil o ambiente, que ele ainda não transformou, para adaptá-lo às suas necessidades, e, quanto mais

hostil é o ambiente, tanto mais dura, violenta, feroz e desapiedada é a luta para sobreviver. Além disso, corresponde aos princípios que regem a estrutura de nosso universo o fato de ser a vida tanto mais carregada de dificuldades e dores quanto mais involuída ela for, isto é, quanto mais longe estiver do S e mais próxima se encontrar do AS. Com a transformação do ambiente e a consequente melhor satisfação das próprias necessidades, diminui a necessidade de lutar, reduzindo a violência e a ferocidade exigidas para sobreviver. Com a diminuição das resistências hostis à vida do homem, ele pode, sem perigo para si, diminuir a parcela de energia que deve consumir na luta. É assim que o sistema de violência tende, pouco a pouco, a ser eliminado. Mas, com isso, cessará a luta por completo? Não. A luta para transformar o AS em S não pode cessar senão no ponto final da evolução, ou seja, quando se alcançar o S, com a anulação do AS. A luta nasceu da cisão no dualismo e não pode desaparecer enquanto esta cisão não for sanada, reabsorvendo o dualismo com a reunificação de tudo no S, através do retorno de tudo a Deus. A luta não cessa, transforma-se. Quando a humanidade começa a se reunir em grupos sempre mais vastos, organizando-se em sociedade, a ajuda recíproca no comum interesse da defesa torna menos dura a luta contra o ambiente, tendendo, portanto, a fazer desaparecer, como menos urgente, o sistema da força e da violência, que tão profundas feridas deixa em quem lhes sofre os efeitos. Nesse momento começa, com a disciplina das leis, um processo de ordenação da vida e de cerceamento daquele sistema, que, mesmo podendo momentaneamente beneficiar quem o pratica, é uma constante ameaça para aqueles contra quem ele é utilizado. Que pode fazer então o indivíduo, quando ele, desta maneira, precisa lutar cada vez menos contra um ambiente já dominado sobretudo pelos seus semelhantes, que o cercam e o oprimem, para torná-lo inócuo, procurando envolvê-lo e prejudicá-lo. Então a luta se torna mais sutil, processando-se de forma legal e moral, armada de astúcia, fraude, engano e dissimulação. Esta é a fase atual, na qual a violência, pelo menos dentro dos limites de um país, é condenada como delinquência, apesar de, no caso de ocorrer fora dele e durante a guerra, ser considerada um ato honorífico e de valor. Se, no entanto, a violência é hoje condenada, a astúcia e o engano estão em plena vigência, como método de luta pela vida. Com este método, perante as leis, não se procura obedecer, mas sim evadir-se, assim como, perante o próximo, não se procura colaborar, mas sim explorar. Todavia ser agredido e roubado legalmente já representa um certo progresso em comparação a ser assassinado na estrada. A própria técnica do delito está, portanto, submetida à evolução, sendo hoje possível observar que, com isso, evita-se sempre mais a violência e o derramamento de sangue, para não agravar a pena legal, procurando-se a posse com artes mais sutis, através do furto, que é mais vantajosa. Vejamos agora aonde nos levará este processo de evolução da luta. A razão fundamental dela é sempre a mesma: sobreviver com o menor esforço possível. A vida está pronta a aceitar tudo o que leva para este fim, buscando o máximo rendimento em termos de bem-estar, com o mínimo dano próprio. Ora, apesar de em menor grau do que o da violência, o sistema astúciaengano ainda contém um mal, dado pelo prejuízo resultante para os vencidos, os escravizados e os esmagados. A violência mata a vítima. A astúcia a deixa viva, mas arruinada. As feridas permanecem impressas no subconsciente e não são esquecidas. Antigamente, os vencidos, se quisessem sobreviver, eram obrigados a se fortalecer cada vez mais. Porém, agora, pela mesma razão, são obrigados a se tornar cada vez mais astutos e inteligentes. Eis que novamente, também aqui, o mal é automaticamente levado à sua autodestruição. Manifesta-se assim uma tendência a cercar e restringir gra-

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dualmente o sistema da astúcia, por duas razões: 1 ) Porque o homem se dará conta do imenso custo que o consequente método da desconfiança, pelo fato de exigir controle contínuo, representa como dispêndio de energia e perceberá o quanto é contraproducente tal método, pelos atritos produzidos e pelos danos provocados no vencido, cujo resultado é a geração de um material negativo que, permanecendo em circulação na atmosfera respirada por todos, não pode acabar senão caindo em cima de alguém; 2a) Porque, existindo a probabilidade de que todos sofram estas duras consequências, compreender-se-á não somente a contínua ameaça e a falta de segurança que tal método representa, mas também a imensa vantagem que é para todos seguir, pelo contrário, o método da sinceridade e da colaboração. É por este caminho que, por fim, o sistema de luta acabará sendo superado. Esta transformação corresponde a um processo de saneamento do separatismo, fruto da queda. Com isso, será alcançada a reunificação, fruto da reconstrução evolutiva. Neste processo, os elementos separados tendem sempre mais a se reunir, até se fundirem, reconstruindo o seu estado orgânico original. Temos, pois, três fases, que representam as possíveis posições em que o homem pode se encontrar: 1o) O homem isolado, que luta contra a natureza – Plenitude do método da força-violência. 2o) O homem reagrupado em sociedade, que deve, portanto, lutar menos contra a natureza, mas que permanece ainda rival dos outros componentes do grupo – Desuso do método forçaviolência, o qual é substituído pelo método da astúcia-fraude. 3o) O homem integrado no estado orgânico de coletividade, que, pelo fato de haver, com o método precedente, desenvolvido a inteligência, acabou por compreender quão contraproducente é o sistema astúcia-fraude e quão vantajoso é superá-lo – Adoção do método da sinceridade-colaboração, para alcançar com menor esforço um maior bem-estar. O problema está em desenvolver a inteligência, para se chegar a compreender qual é o método de maior vantagem. Mas é justamente para alcançar este objetivo que o erro produz sofrimento. É por isso que, enquanto não se aprende a eliminá-lo com uma conduta reta, a ignorância significa dano. Vive-se e sofre-se exatamente para se aprender. Atualmente, a humanidade se encontra na segunda das três referidas posições. Assim se explica como hoje, na Terra, os ideais, incluindo aqueles representados pelas religiões, tendem a se manifestar em forma de hipocrisia, gerando então a indústria da exploração do sentimento religioso. Este desenvolvimento em três graus pode parecer como uma supressão do egoísmo em favor do altruísmo, mas significa na realidade a sua dilatação e ampliação, e não destruição. A vida, sempre utilitária, não permite desperdícios inúteis para os seus fins, de modo que não admite altruísmos completamente negativos, totalmente improdutivos. Ela não passa, portanto, do egoísmo para um altruísmo como um fim em si mesmo, mas somente quando isso representa uma vantagem. É por essa razão que ela supera o método da luta entre egoísmos rivais e o substitui pelo método mais produtivo da solidariedade humana. A vida não alcança o altruísmo através de sacrifícios contraproducentes, que constituem renúncia antivital, mas sim através de um egoísmo vital, porque utilitário e sempre mais vasto. Então o altruísmo não significa mais mutilar-se a si próprio em favor do egoísmo dos outros, mas sim em ver-se a si mesmo refletido no próximo, incluindo-o no próprio egoísmo. Desse modo, forma-se o primeiro núcleo, destinado a se dilatar sempre mais. Começa-se com um pequeno egoísmo do casal, do qual nasce depois o do grupo familiar, de onde se chega depois ao de grupos sempre mais vastos: a aldeia, a casta, o partido, a nação e, por fim, a humanidade. Trata-se de um progressivo processo de unificação, segundo o princípio das unidades coletivas. Fora do grupo, ou seja, do recinto da confraternização, existe a guerra,

mas dentro dele há liames de interesses comuns, onde o não provimento à sobrevivência dos outros significa atraiçoar-se a si mesmo. Quanto mais o grupo de que se faz parte aumenta, tanto mais o egoísmo se dilata e a guerra é afastada para mais longe, afastando-se para limites cada vez mais distantes. Quando esta aliança de egoísmos se tornar universal, não haverá mais lugar para a guerra. Então, terá desaparecido aquilo que chamamos de egoísmo, ou seja, aquele egoísmo restrito a um só indivíduo, pois ele se haverá estendido tanto, que abraçará todos num egoísmo universal, o qual chamamos altruísmo. Hoje, a multiplicação dos contatos, devido aos novos meios de comunicação, começa a encaminhar a humanidade para ampliações altruístas cada vez maiores do velho egoísmo. Segundo as três mencionadas fases de evolução, verifica-se igualmente o fato de que os meios fraudulentos substituem os violentos, da mesma forma como, depois, os métodos colaboracionistas substituem os fraudulentos. Agora, a humanidade se encaminha para entrar nesta terceira fase. Assim se transformará também para o homem a lei da luta pela vida. Trata-se, na verdade, de uma fase que, apesar de numa forma mais simples e limitada, já foi alcançada, por exemplo, pelas abelhas e pelas formigas, fato com o qual se comprova que a vida já conhece tais métodos. Caminhando-se em frente no caminho da evolução, primeiramente a violência diminui em favor da fraude, mal menor que substitui o maior, depois a fraude, por sua vez, diminui em favor da sinceridade e da colaboração. Com isto, explica-se a razão pela qual existe em nosso mundo a mentira, que é portadora de uma função biológica, e compreende-se também por que a evolução levará à sua futura eliminação. Será uma grande conquista e um alívio para todos libertarse do peso da hipocrisia, da fadiga de praticá-la e de suportá-la. Com o desenvolvimento da inteligência, a humanidade chegará a isto, e o mesmo acontecerá também em relação à guerra. As religiões e a moral representam a descida dos ideais e trabalham neste sentido, para libertar a humanidade dos métodos fraudulentos da luta pela vida, substituindo-os por um sentimento de solidariedade social e de ajuda recíproca, num estado de colaboração e convivência pacífica. O que nos impede de chegarmos a viver numa posição mais vantajosa para todos é somente a ignorância. E não há outro método para eliminá-la, senão sofrer as duras consequências do estado atual. Sofrer até ser obrigado a procurar aquela posição melhor – que, com a experiência adquirida, pode ser encontrada mais facilmente – e depois, para permanecer nela, compreender, com o desenvolvimento da inteligência, que isso é melhor. Trata-se de conquistar novas qualidades, porque não adianta sobrepor novos sistemas econômicos, sociais ou políticos a indivíduos imaturos. Trata-se de eliminar o atávico antagonismo individual, desenvolvendo o espírito de associação, de modo que as forças dos indivíduos isolados não se eliminem, destruindo-se numa luta recíproca, mas, ao contrário, possam se somar num estado de cooperação. Assim se obtém um rendimento imensamente maior, tornando-se muito fácil resolver o problema da sobrevivência, biologicamente fundamental. Na terceira das três referidas fases, a orgânica, a atividade que se substitui à luta do primeiro e do segundo tipo é o trabalho. O ambiente onde se vive foi gradualmente domesticado com a civilização, através das leis e da educação. A violência foi eliminada da vida social, tendo-se compreendido, por fim, como é contraproducente esforçar-se tanto para se enganar reciprocamente. Pode-se, então, alcançar a terceira fase num ambiente não mais hostil, entre companheiros não mais rivais, porque agora, trabalhando todos juntos, o problema da sobrevivência está resolvido, não havendo mais a necessidade de usar o método da luta, que era inicialmente necessário para sobreviver. Mais adiante, observaremos quais outros problemas podem surgir depois, quando se supera também esta fase. Veremos

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quais os perigos oferecidos por um bem estar assegurado para um biótipo que, ainda provido da velha forma mental, proporcionada aos métodos de vida precedente, não está habituado a isso. Neste capítulo basta haver constatado a necessidade biológica pela qual a evolução deve levar à realização do princípio de solidariedade social, baseado sobre o fato positivo da utilidade de se associar, para melhor vencer na luta pela sobrevivência. É assim que se passa da fase de antagonismos entre egoísmos rivais à da colaboração. Nesta nova posição, o indivíduo se sentirá muito mais protegido e com mais potencialidade, porque não se encontrará mais isolado dentro de uma natureza hostil, cercado por inimigos, mas sim integrado e funcionando como elemento dentro de um grande organismo. A utilidade da associação para vencer na luta pela vida é um fato positivo, portanto, uma vez que a vida é utilitária, torna-se inevitável que ela evolua nesta direção. Por isso é fatal que se acabe passando ao sistema orgânico de cooperação, em substituição ao atual de guerras econômicas, de luta entre classes sociais e de guerras armadas para a destruição universal. Mas como poderá, na prática, surgir uma substituição tão radical de método? O sistema da força, assim como o da astúcia, mesmo sendo o segundo mais refinado que o primeiro, são sempre baseados num egoísmo fechado em si mesmo e na consequente desonestidade para com o próximo. Ora, abrir este egoísmo em direção ao próximo, assumindo a consequente honestidade para com ele, constitui uma profunda transformação de tipo biológico, um salto evolutivo para um nível superior, representando um amadurecimento que leva a um modo totalmente diverso de conceber a vida, o que não é fácil realizar. De que meios dispõe a natureza e que métodos ela usa para alcançar tal objetivo? O processo, como podemos observar, já está em ação. Para eliminar o atual regime de rivalidade, não há outro meio senão a reação das vítimas, que deverão impor, com a persuasão dos meios coercivos, o sistema da honestidade, de modo que fique ferido quem pratica o regime da rivalidade, único processo para compreender que não é salutar repetir o erro. Quando os débeis e os ingênuos não se deixarem mais enganar, tendo a indústria da mentira deixado de dar fruto, não haverá mais razão para que ela continue sendo praticada. Então ela será abandonada, como se faz com todas as coisas que já não dão mais rendimento. Mas, para que isso seja assimilado como qualidades do indivíduo, é necessário que, por longa repetição, os desonestos constatem em si mesmos, pela sua própria experiência, os resultados danosos do seu método, adaptando-se, então, ao outro método, que, ao invés de produzir aqueles resultados, oferece vantagens anteriormente desconhecidas, tornando-se deste modo, por fim, vantajoso para todos. Trata-se de vencer todas as resistências da ignorância, que faz acreditar no contrário. Trata-se de mudar de forma mental, passando para uma nova, o que representa uma verdadeira criação biológica. Para se fixar na raça, tudo isso deve entrar nos hábitos sociais, através de um esforço tenaz de imposição, com um impulso constante nesta direção. O Evangelho, entendido apenas no seu aspecto negativo de sacrifício, santifica o indivíduo que o pratica, mas encoraja os desonestos em seu método de exploração. Enquanto os prejudicados não reagirem, a sua paciência funcionará como fábrica de vítimas. Se os crucificadores de Cristo tivessem recebido uma lição imediata, não teriam ficado encorajados pelo seu fácil sucesso, que lhes ensinou uma verdade totalmente diferente, segundo a qual não é o amor, mas sim a força e o engano que são premiados. Estamos na Terra, e não nos céus, e aqui a realidade biológica nos ensina que o ideal, para se enxertar na vida, deve seguir as leis deste nível. Em relação à Terra, a crucificação de Cristo pode ter tido a função de um escândalo, mostrando ao mundo, durante milênios, a vergonha da humanidade, para que ela compreendesse a má ação e deixasse de repetir semelhantes crimes. Quanto ao significado daquela crucificação perante o

Céu, ao mundo não lhe interessa saber. Hoje culpa-se os judeus por deicídio, como se fosse possível matar Deus! Se assim tivesse sido, eles seriam os seres mais poderosos do universo. No entanto aquele delito não foi apenas de um povo, mas sim de toda a humanidade, que o repete até hoje, perseguindo inocentes, inclusive em nome de Deus. Segue-se, então, que tão grande escândalo não deu resultados positivos. As resistências das coisas velhas são imensas. Enquanto o egoísmo das vítimas, seguindo as leis do plano humano, não conseguir organizar-se para se impor ao egoísmo dos que provocam os danos, obrigando-os a respeitar os direitos de todos, haverá sempre lugar para os desonestos, com vantagem para eles e prejuízo para os demais, não se passando jamais à fase de acordo e equilíbrio, na qual se supera esse sistema. Este fato justifica e torna necessária a presença das leis e das respectivas sanções punitivas, para estabelecer uma ordem na sociedade. Mas também justifica a rebelião, quando essas leis não correspondem à justiça, sendo feitas por um grupo dominante e a favor dele. Daí a origem da revolta para estabelecer uma ordem que dê cada vez menos vantagem para apenas uma parte e seja sempre mais universal, defendendo os interesses de um número cada vez maior de pessoas, até chegar a abranger a todos. Então terá sido realizado o salto biológico, vivendo-se num regime de altruísmo, justiça e honestidade. Permanece, então, de pé o princípio fundamental de que a vida não dá nada gratuitamente, mas apenas oferece aquilo que ganhamos com nosso esforço. O ser quis realizar a descida do S para o AS, mas, agora, são suas as consequências. Para executar a subida do AS para o S, cabe-nos o trabalho de conquista e construção. Cristo apenas nos mostrou o caminho, colocando-se à frente com o exemplo. Compete-nos percorrê-lo com nossos próprios pés. Isto significa que o ideal nos é oferecido do Céu como uma proposta de trabalho. Cabe, pois, ao homem traduzi-lo em realidade, vencendo todas as resistências do AS, que se opõem à reconstrução do S. ◘◘◘ Agora que examinamos as bases positivas do fenômeno da descida dos ideais, podemos melhor compreendê-lo e ver porque eles descem ao ambiente humano, cuja lei fundamental é a luta pela vida. Podemos compreender também por que, não obstante tanta diversidade, eles procuram enxertar-se num ambiente que é a sua absoluta negação. Isto se explica com a lei da evolução. Quem, no caminho da ascensão, está em posição mais adiantada é submetido a um processo que, para ele, constitui retrocesso involutivo, a fim de tornar possível realizar aquilo que, para o mundo, situado numa posição atrasada em relação a ele, constitui um avanço evolutivo. Dizemos “ele” porque os ideais tomam corpo (dado que tudo na Terra adquire uma forma) primeiramente numa pessoa viva, que os afirma e os lança, e, em seguida, nas instituições, que os representam e os transmitem. Precisamente assim se organizam as religiões, que são o canal mais importante da descida dos ideais à Terra. Como se realiza então este fenômeno e o que sucede quando tal realidade, verdadeira no Céu, pretende enxertar-se naquela tão diferente realidade biológica, verdadeira em nosso mundo? Na Terra, o homem está de fato sujeito a leis bem diferentes, que, nada tendo de ideal, obrigam-no a se ocupar em primeiro lugar do problema da sobrevivência. É natural, portanto, que, para este objetivo, ele procure utilizar-se daquilo que encontra, inclusive dos ideais. Estes, por sua vez, querem utilizá-lo para os seus fins, que são totalmente diferentes. Aos ideais interessa a salvação da alma, para a grandeza do espírito, mesmo que seja com o sacrifício da vida terrena. Ao homem interessa sobretudo a vida terrena, porque esta é concreta e atual, somente se interessando pela outra, quando se trata de deixar a presente. As duas posições estão invertidas uma em relação à outra. É natural, então, que cada um dos dois princípios, para não se perder nesse antagonismo, deva buscar o interesse comum. É assim que,

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quando uma religião dita normas de vida para transformar o homem, este procure transformá-las num meio para satisfazer as suas necessidades de vencer na luta pela vida. Deste modo, ele adapta a religião às suas próprias comodidades, de maneira que esta lhe sirva, não a aceitando, se ela não lhe servir. Se a memória de Cristo chegou até nós, isto se deve em grande parte à concessão do Imperador Constantino, que permitiu o poder temporal dos papas, pelo qual o sacerdócio se tornou hierarquia, administração de bens, atividade política e carreira. Mas, para que se continuasse a falar de Cristo, não havia outro meio, senão transformá-lo em algo deste mundo. Mal necessário, que é tanto mais grave, quanto mais primitiva for a humanidade, mas que, com o tempo, vai desaparecendo, porque a tarefa da evolução é eliminá-lo. É inevitável, portanto, que, para tornar possível a aceitação de um ideal na Terra, ele deva descer ao nível de quem vai aceitá-lo, pois este é o dono do ambiente terrestre, onde o fenômeno deve realizar-se. E isto deve acontecer para que o ideal não fique excluído da vida. Os seres nos quais tomam forma os dois princípios opostos são, de um lado, o biótipo evoluído, com o gênio, o santo, o profeta ou o super-homem, e, de outro lado, o biótipo normal animal-humano. O primeiro é o motor da evolução, o elemento ativo. O segundo é o elemento passivo, que se deixa arrastar pelo primeiro. Um ideal demora milênios para ser assimilado e, quando já cumpriu sua função, por ter sido todo utilizado num sentido evolutivo, é substituído por outro mais adiantado, a fim de que a humanidade possa continuar progredindo. No fundo trata-se de uma troca na qual cada um dos dois termos dá e, em compensação, pede alguma coisa. O ideal se oferece, pedindo ao homem o esforço necessário para progredir, e o homem trata de ganhar materialmente o mais que pode e com a menor fadiga possível, utilizando o ideal na Terra apenas para esta finalidade. É assim que surgem como seus representantes os ministros de Deus, formando a casta sacerdotal, que, pelo fato de cumprir um serviço, estabelece a indústria da religião, formando a base terrena indispensável para tornar possível o ideal tomar forma no plano humano. Para os cidadãos da Terra, tudo está em seu lugar, de acordo com a lei do seu plano. Deste modo se explica a razão pela qual os ideais, quando são trazidos ao nível humano na Terra, não se nos apresentam íntegros, mas sim torcidos e adaptados. Naturalmente, isto é adequado ao homem normal, que faz para si o trabalho desta adaptação, mas não para quem assume os ideais a sério e, por esta razão, encontra-se isolado ou, até mesmo, excluído e condenado. Deste último tipo, perante a destruição dos valores morais, tomamos o partido nestes escritos, tratando de salvar o que for possível. Quem se encontra deslocado na Terra não é o involuído, que está em sua casa, no seu ambiente, mas sim o evoluído, que procura levar até lá o ideal. Para poder realizar a sua missão, ele se encontra na merecida posição de condenado a um retrocesso involutivo, o que é um castigo tremendo. É o mesmo que condenar um homem culto e civilizado a viver entre antropófagos, transformados em seus semelhantes, a cujos hábitos ele deve adaptar-se. Tendo por instinto a prática da sinceridade e da colaboração, ele deve viver submerso num mundo de hipocrisia e fraude. E já vimos anteriormente quais são os diversos graus de evolução. Podemos assim entender o que significa transportar um indivíduo do terceiro grau ao segundo, fazendo uma ideia do martírio necessário para que ele possa realizar, no seio de um ambiente biológico involuído, o trabalho de arrastá-lo a um nível mais alto. Transportado ao mundo dos involuídos, o evoluído encontra-se em condições de inferioridade na luta para a sobrevivência. Se, para ele, existem compensações celestiais, isto é coisa que não interessa para o mundo. A Cristo o mundo respondeu apenas nas duas formas que lhe serviam: desprezando-o quando

estava vivo e explorando-o depois de morto. Pelo fato de repelir o método da força-violência assim como o da astúcia-fraude, o homem do terceiro grau evolutivo, de tipo evangélico, seguidor de Cristo, não é apto para sobreviver no ambiente terrestre. Então o ideal seria levado a termo somente por poucos pioneiros, rapidamente liquidados, e nunca poderia se realizar no seio de nossa humanidade. Isto no entanto significaria o fracasso dos planos da evolução. Mas, se isto não pode acontecer, como então a vida soluciona o problema? Os primeiros seguidores do ideal são poucos, mas têm de arrastar consigo muitos, com a palavra e o exemplo. A descida dos ideais somente alcança o seu objetivo, quando tais princípios, por terem sido aceitos em massa, tornam-se um fenômeno coletivo. Antes desta última fase do seu desenvolvimento, os ideais se encontram no mundo apenas no estado de germe. Cristo, até agora, é apenas uma semente que busca crescer. Quantos milênios faltarão para que possa chegar a ser uma árvore! Daí se conclui que a moral evangélica – para a finalidade da evolução, que é a salvação de toda humanidade, e não de apenas poucos casos isolados – é de tipo coletivo, ou seja, não é realizável numa sociedade de tipo inferior, formada por involuídos, onde aquela moral, assim como sucedeu com Cristo, rapidamente liquida o indivíduo que a vive. Ora, a vida pode sacrificar alguns poucos indivíduos na sua economia, quando isto lhe serve para os seus superiores fins evolutivos, mas não pode perder toda a massa, em favor da qual precisamente se realiza este sacrifício. O problema fundamental da vida é a sobrevivência, enquanto a evolução é questão somente secundária, quando haja uma oportunidade. Eis que o Evangelho, para poder verdadeiramente realizar-se como prática, e não apenas como pregação, presume um estado de reciprocidade que somente será possível aparecer quando a humanidade, por evolução, tiver alcançado a terceira fase, com a organização coletiva, na qual a moral do dever não se resolve numa espoliação por parte de quem não a aplica em prejuízo de quem a aplica, mas resulte de um equilíbrio dado pela correspondência dos direitos e deveres de cada um com os direitos e deveres do próximo. Somente então o Evangelho será aplicável em grande escala, porque não representará uma ameaça, mas sim uma ajuda para a sobrevivência. Se praticar o Evangelho pode ser antivital para o evoluído isolado no atual mundo involuído, que tem de fato o cuidado de não o aplicar, esse Evangelho pode, pelo contrário, outorgar vantagem e bem-estar num mundo de evoluídos, onde só se pode usar o método da terceira fase, de sinceridade e colaboração, que é o único capaz de permitir a eliminação da luta com o método da não-resistência. Por si só, transformar-se em cordeiro entre lobos serve apenas para acabar sendo devorado por eles e assim engordá-los. Por isto o evoluído não pode tornar-se involuído, já que o seu destino está marcado. Seria absurdo que, a longo prazo, a vida desperdiçasse as suas energias com o fracasso daquilo que ela possui de melhor. Eis que todo este jogo sobre o qual se baseia a descida dos ideais não pode terminar senão alcançando o objetivo para o qual existe, isto é, um deslocamento da humanidade em sentido evolutivo. Por todos estes motivos, apesar do evoluído realizar uma grande função biológica, o ideal evangélico, transportado para o terreno da realidade da vida, torna-se uma utopia, como coisa fora do lugar. A sociedade humana funciona com princípios opostos. Não é o estado orgânico colaboracionista que prevalece, mas sim o sistema de grupos, dentro do qual se entrincheiram os interesses, numa espécie de castelo medieval, fechado e armado contra todos os outros castelos. Portanto uma pessoa não é julgada pelo seu valor, mas sim pelo fato de estar dentro ou fora do próprio grupo. Então a primeira pergunta que se faz é: “Ele é um dos nossos?”. Se for, perdoa-se-lhe muita coisa, mas, se não for, mesmo que seja santo, ele é sempre um inimigo e, portanto, está errado, devendo por isso ser condenado. Quando se

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apreciam as qualidades de um indivíduo, isto não se faz imparcialmente, mas sim em função da possibilidade de explorá-las para o serviço do grupo. Uma vez que o objetivo maior é a sobrevivência, tudo é concebido e realizado apenas em função dela. O grupo se forma e existe precisamente para este fim, no qual todos os membros estão sumamente interessados. Esta é a força que os mantém unidos, porque a união os fortifica para se defenderem e vencerem. Assim a apreciação de uma pessoa, conforme ela se encontre dentro ou fora do grupo, torna-se muito diferente. As valorizações humanas são, deste modo, torcidas em função desta necessidade de luta. Se quisermos julgar objetivamente um indivíduo pelo que ele realmente é, devemos primeiro despojá-lo das suas atribuições exteriores, prescindindo da sua posição social e despindo-o de todos os adereços com que se cobre e se esconde, pois só assim poderá aparecer sua verdadeira pessoa, em vez dos seus sucessos sociais. Na Terra, portanto, tudo existe em função da luta. O indivíduo deve ocupar-se em primeiro lugar deste trabalho e vale na medida em que pode ser utilizado para este fim. Eis que a parte mais dolorosa da vida do evoluído, quando não morre antes, é a sua glorificação, porque, mesmo conseguindo com isto enxertar um pouco de ideal na vida, começa a sua exploração, sendo então submetido às finalidades humanas, quando se busca sua adaptação e se dá origem ao seu emborcamento a serviço do mundo. A maior paixão de Cristo não foi certamente a do Gólgota, mas sim a sua longuíssima crucificação, que já dura dois mil anos, a serviço dos interesses dos homens. Para o evoluído, a vida não pode ser senão missão e sacrifício. O seu triunfo está na morte, que o liberta do grande sofrimento do retrocesso involutivo, restituindo-o ao seu plano de vida. É assim que a sua posição negativa no mundo torna-se positiva no Céu. Ele trabalha para a realização da evolução, explicando com a palavra e contribuindo com o exemplo, para que se compreenda a utilidade de se empregar o método da honestidade e da colaboração, em vez da força e do engano. O mundo ri-se dele, tratando-o como um ingênuo. Quando este ser abre os braços para colaborar, os outros, farejando nele o indivíduo honesto e inócuo, acabam por escravizá-lo e espoliá-lo. A morte liberta o evoluído de tudo isto e o restitui ao seu mundo, que é feito, pelo contrário, de justiça, onde ele deixa de ser um inepto, pois lá a sabedoria do indivíduo consiste em conhecer o mistério do ser e, consequentemente, atuar com retidão, e não em descobrir as tramas do próximo, para tirar proveito. Que pode fazer ele na Terra? A sua posição aqui é clara. Na Terra, ele é estrangeiro. Tivemos de falar do evoluído porque ele constitui o instrumento da descida dos ideais, nosso tema atual. Continuando a ser cidadão do seu tão diferente mundo, ele desce para viver a sua verdade, que não pode ser desmentida. Esta sua posição, ainda que lhe imponha tremendos deveres, desconhecidos do involuído, também representa para ele um direito e uma força. Cada ser funciona segundo a lei do plano ao qual está ligado, levando-a consigo aonde quer que vá, seja como utilidade ou seja como fardo. O evoluído, que, por sua natureza, não entra na luta do mundo, mas que, para tornar possível o comprimento de sua missão, tem de resolver o problema da sua sobrevivência, deve possuir seus próprios meios de defesa e proteção. Trata-se de um cordeiro que tem de sobreviver entre lobos, de um evangélico que usa o método da não resistência num campo de batalha. E a defesa deste indivíduo interessa à vida, porque ela necessita dele, uma vez que entregou a ele a tarefa, para ela fundamental, de promover a evolução. Será possível que ao involuído inconsciente e destruidor tenha sido deixado o poder de liquidar o evoluído, impedindo assim o desenvolvimento da evolução? Será possível que o mal realmente vença o bem, que o inferior vença o superior? Mas, se é certo que o evoluído é um exilado em terra estrangeira, é verdade também que a lei de sua pátria o segue e o protege, para tornar possível ele cumprir a sua

missão. Se esta lei permite que o involuído elimine tal indivíduo, assim o faz somente quando tenha chegado a hora que convém ao evoluído ir-se embora, porque a sua missão foi cumprida. A lei de Deus é a verdadeira dona de tudo, inclusive do involuído e do mundo. Ninguém pode deter o processo da descida dos ideais à Terra, pois eles realizam os objetivos da evolução. Os obstáculos ficam limitados no espaço e no tempo, tendo sido dado a eles o poder de resistir, mas não de vencer. Eis o significado, a técnica, os instrumentos e as consequências da realização na Terra do fenômeno da descida dos ideais. II. A HUMANIDADE EM FASE DE TRANSIÇÃO EVOLUTIVA É inevitável que as concepções humanas sejam antropomórficas, pois foram conquistadas por um cérebro humano, como resultado das experiências vividas e, portanto, em função dos conhecimentos adquiridos no ambiente terrestre. Como pode a mente humana, que é um produto de nossa vida, conter elementos de juízo e uma unidade de medida que ultrapassem os limites dela? A nossa capacidade de conceber baseia-se e eleva-se sobre elementos oferecidos pelos nossos sentidos, que representam uma abertura para o exterior, estando restritos apenas a uma determinada amplitude do real e a uma determinada ordem de fenômenos. Tudo aquilo que estas vias de comunicação impedem a passagem não é percebido e, portanto, é como se não existisse para nós. Trata-se, por conseguinte, de um material bem limitado aquele que nós podemos obter através destes meios, com os quais foi construída no passado a nossa forma mental, que é o instrumento com o qual hoje julgamos. Não podemos, portanto, elevar as nossas construções ideais senão com este instrumento e sobre estas bases simples, dado que não possuímos outros elementos. Por esta razão, tudo o que está além destes limites encontra-se fora de nossa compreensão, não sendo concebido nem concebível. Assim, se pretendemos elevar-nos a concepções superiores, não podemos fazê-lo senão com estes nossos meios, ou seja, com a nossa mente limitada, que tende a reduzir tudo às formas do seu concebível, pois ela, por força das circunstâncias, não pode e não sabe pensar senão antropomorficamente. Se nós percebemos somente uma pequena parte da realidade, o que haverá então além dela? Apenas recentemente, com meios indiretos, pelas vias da ciência, o homem começou a se dar conta de tudo isto. Ele também viu que nem sequer esta parte percebida por nós é a realidade, mas apenas uma interpretação dela, pois se trata de algo obtido através dos nossos limitados sentidos e interpretada com o instrumento de nossa mente, relativa ao ambiente terrestre. Pode acontecer, então, que o produto de nossa interpretação seja somente uma distorção da realidade, condição pela qual o que julgamos ser a realidade não passaria de uma projeção antropomórfica, construída por nós com as ideias fornecidas pela nossa vida. Mas há também um outro fato que influi sobre o nosso modo de conceber. Se tudo o que existe está englobado no transformismo universal, então nem sequer as nossas concepções podem escapar desse processo, razão pela qual elas têm de ser relativas e progressivas. É indiscutível que, se o universo se transforma por evolução, também por evolução se transforma o órgão mental com o qual o percebemos e julgamos. Portanto tudo é visto sucessivamente de diversos modos, cada um dos quais representa uma determinada realidade, relativa ao indivíduo que a observa e ao momento que ele faz a observação. Eis que não possuímos das coisas senão estas nossas sucessivas e relativas representações, realizadas por nós mesmos. Julgamos ter alcançado a realidade, mas esta é apenas a realidade que o indivíduo alcança por si mesmo, naquele dado instante, a qual varia com o observador e o momento, modificando-se para di-

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ferentes observadores e, com o decorrer do tempo, para o mesmo observador. É assim que as nossas verdades não expressam outra coisa senão a maneira pela qual elas são vistas e concebidas por cada um num dado momento. As verdades são, portanto, relativas ao observador e progressivas no tempo. Uma vez que tal condição depende da estrutura do ser humano, então ela permanece verdadeira também no campo das verdades filosóficas, religiosas, morais, sociais etc. Nenhuma forma de existência parece ser possível, se não for considerada como um vir-a-ser, e o homem deu-se conta de que tudo é movimento, seja no universo físico, no dinâmico ou no espiritual. No campo das verdades acima mencionadas, o transformismo evolutivo é ainda mais evidente, porque a psique é ainda mais móvel e varia mais rapidamente com a evolução, em função das fases sucessivas que ela atravessa. Tais verdades também estão em contínuo movimento, sendo relativas e progressivas. Este é o patrimônio mental que nos é dado possuir, o qual se resume em representações antropomórficas limitadas e a verdades progressivas. No entanto esta mesma progressiva relatividade leva consigo, implícita, a sua compensação. A ideia do transformismo em marcha exige a ideia de um ponto de chegada, que é também o ponto de referência, sem o qual nenhum movimento pode ser apreciado. Então a própria ideia de verdade relativa e progressiva nos leva necessariamente à ideia, oposta e complementar, de verdade absoluta e imutável. O movimento exige uma meta, um ponto situado fora dele, em função do qual se realize. Transformismo e relatividade progressiva, não se mantém por si sós, mas necessitam de um ponto absoluto que, cumprindo a função oposta, sirva de suporte. A isso leva o próprio princípio do dualismo universal, pelo qual cada posição existe em função do seu oposto, somente sendo possível reconstruir a unidade através da reunião das duas metades divididas. É como o reencontro do positivo e do negativo e viceversa, para formar um mesmo e único circuito. A contínua e fugidia mobilidade se apoia na solidez do imóvel, do qual necessita, para que não se perca tudo num futuro imenso, sem equilíbrio, orientação e significado. Esta fluidez deve ser um movimento na ordem, pois, de outra forma, levaria, ou até mesmo já teria levado há muito tempo, tudo a naufragar no caos. A instabilidade não é admissível senão em função de uma estabilidade, assim como a relatividade não se sustém senão em relação a um absoluto. Na lógica da estrutura e do funcionamento do universo há necessidade de um ponto que seja não somente o termo final da evolução – como um seu marco cósmico, último produto do processo ascensional – mas também o seu ponto inicial, constituindo a partida e a chegada, o Alfa e o Ômega, de todo o transformismo dado pela existência; um ponto que abrace, dirija, resuma e justifique todo este imenso fenômeno, como seu centro; um ponto no qual se inicie e se resolva a instabilidade do vir-a-ser, a corrida do movimento, a relatividade deste transformístico modo de existir em formas e dimensões sempre mutáveis; um ponto enfim no qual tudo deve finalmente deter-se, após ter alcançado a sua plenitude no aperfeiçoamento total do imperfeito, completando o incompleto, com a superação final de todas as dimensões. É a própria ideia do relativo no qual vivemos que nos leva, por reflexo, à ideia do absoluto, mesmo que não nos seja dado conhecê-lo diretamente. Se o nosso relativismo nos nega a concepção do absoluto e o nosso antropomorfismo não pode alcançá-lo, nem por isso ele deixa de existir. Pelo contrário, é justamente a nossa posição unilateral e, por isso mesmo, incompleta que, exigindo ser completada, nos indica a posição oposta, unicamente na qual isto pode realizar-se. É precisamente o fato de estarmos colocados apenas num lado do ser que nos faz sentir a necessidade da presença do seu outro lado, somente em função do qual se pode completar o nosso tipo de existência. A esta concepção de uma estabilidade definitiva o homem

pode ter chegado também pelo fato de alguns aspectos da realidade acessível a ele lhe indicarem isto, se bem que em sentido relativo. O transformismo em que ele está submerso pode, de fato, apresentar algumas zonas ou fases de imobilidade, as quais, no entanto, podem verificar-se apenas como temporário descanso ou pausa no caminho, numa aparente suspensão momentânea do movimento, que mesmo assim continua, porém não mais como manifestação exterior, e sim como amadurecimento profundo, no qual a existência prepara as suas mutações, perceptíveis só quando elas se manifestam na forma exterior. É assim que o vir-a-ser da existência pode parecer suspenso, dando a ilusão de imobilidade definitiva. Então é possível, no meio da relatividade, surgirem pontos aparentemente fixos e definitivos, momentos de estabilidade nos quais se é levado a crer que a imutabilidade tenha sido alcançada, apesar de não serem eles nada mais do que repousos e paragens passageiros no transformismo. De fato, eles não passam de transitórias posições de equilíbrio, prontas a se romperem, para retomar o caminho. Trata-se de uma momentânea estabilização de forças contrárias, que se neutralizam no equilíbrio dos impulsos. É nesta posição estática de movimento relativo que, sem a desintegração atômica, a matéria parece eternamente estável, conforme se julgou no passado. Isto, porém, não impede que ela esteja pronta a se transformar em energia, quando são rompidos os seus equilíbrios atômicos internos. O vir-a-ser da existência não se detém jamais. Porém somente é possível um transformismo como um meio para alcançar um fim, e não como um processo sem solução, que se movimenta eternamente numa determinada direção. Não pode haver um transformismo que não seja compensado por um movimento contrário e complementar, em função de um ponto de partida e de chegada, dentro dos limites de um dado percurso ou processo transformístico. Se queremos nos aprofundar, para compreender a natureza deste movimento, temos de chegar aos conceitos de involução e evolução, entendendo-os como os dois períodos opostos e complementares do mesmo ciclo. Somente assim tal movimento não se anula no vazio, mas complementa-se com a sua fase contrária, em função do seu ponto de referência fixo, de partida e de chegada, que lhe imprime uma direção, sem a qual ele não pode existir. Com isso, a simples ideia do movimento de vir-a-ser aperfeiçoa-se, transformando-se numa concepção mais exata, dada por um transformismo na direção involutiva ou evolutiva. Este é então o duplo movimento no qual consiste o vir-a-ser e a existência. Isto significa que, em nosso universo, não se pode existir senão movendo-se na direção involutiva ou na direção evolutiva, progredindo ou retrocedendo, afastando-se ou avizinhando-se de Deus, que é o princípio e o fim, pois tudo existe em função de Dele. A estase, neste processo de ida e volta, não pode ser constituída senão por períodos transitórios, que cedo ou tarde são retomados no movimento da existência. O transformismo não é, pois, uma mutação desordenada qualquer, ao acaso, mas sim um movimento bem regulado, fechado dentro de normas, constituindo um processo fenomênico bem definido e disciplinado. Sem um tal princípio de ordem que o dirija, é difícil imaginar como ele possa se realizar. Ora, tudo isto implica a existência de um esquema diretivo, conforme um plano pré-estabelecido, que determina o caminho e, ao longo dele, as fases de descida e de ascensão. Deve haver, então, vários níveis de evolução, correspondendo a diversas alturas ou graus progressivos no modo de existir e, portanto, a diferentes posições biológicas, mais ou menos avançadas, conforme o caminho executado pelo ser em relação ao ponto final de todo o processo, na direção do qual tudo converge. Eis como pôde nascer e o que significa a ideia de progresso. Eis como ocorre o fenômeno do gradual desenvolvimento do ser por evolução. Vimos estes conceitos se desenvolverem, ligados uns aos outros

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num progressivo concatenamento lógico. Chegando a este ponto, podemos explicar melhor o significado do conceito de verdades relativas e progressivas, do qual falamos anteriormente. O grau do nosso conhecimento é estabelecido conforme o nível de evolução alcançado pelo instrumento que possuímos para este fim, ou seja, a nossa mente. Portanto o conhecimento existe em função da evolução e progride com o aperfeiçoamento deste instrumento, na proporção dada pelo seu desenvolvimento. Na natureza, tudo já está compreendido e resolvido, o que se comprova pelo fato de já encontrarmos tudo no estado de funcionamento. Somos nós, portanto, que ainda deveremos compreender e resolver tudo. No indivíduo mais evoluído, a dificuldade não reside tanto em compreender, mas sim em se fazer compreender pelos menos evoluídos do que ele, podendo, às vezes, levar até mesmo séculos para eles poderem entendê-lo. Esta é a história dos gênios incompreendidos. O que impede o conhecimento são os próprios limites do instrumento mental que o indivíduo tem de utilizar para alcançá-lo. A superação destes limites representa um esforço que o ser não deseja realizar, sendo tanto menor sua agilidade para executar tal trabalho, quanto mais involuído for o ser. Quanto mais atrasado é o indivíduo, tanto mais ele se aproxima da inércia da pedra, aproximando-se evolutivamente dela. O ser involuído tem horror às mudanças e opõe resistência a toda renovação de ideias, apresentando uma vontade antiesforço que busca paralisar qualquer ascensão, para ele muito incômoda. Esta tendência à estagnação chama-se misoneísmo e é devida à tendência do subconsciente ficar agarrado ao conteúdo armazenado no passado, onde se encontra a linha de conduta mais segura, pois já foi comprovada pela existência, constituindo um patrimônio seu, que muito esforço lhe custou para conquistar. Prefere assim, por preguiça, não construir outro patrimônio, quando para viver basta o que já possui. Os vários graus de conhecimento que a evolução nos oferece são alcançados com diferentes tipos de inteligência, proporcionais ao nível biológico conquistado pelo indivíduo. Para as formas superiores de conhecimento, os primitivos estão completamente imaturos. Podem recebê-lo, aprendê-lo, repeti-lo e possuí-lo em aparência, mas uma coisa é a erudição, outra é saber pensar. É necessário compreender qual é o tipo de inteligência do involuído, que não é um estúpido. Trata-se de uma inteligência sempre correspondente ao seu nível evolutivo animal-humano, possuindo assim a respectiva sabedoria, que é direcionada e utilizada para a defesa da vida, sendo resultado do caminho percorrido no passado. Ela limita-se, portanto, a fins imediatos, sendo adequada para resolver os problema práticos e próximos, em vez de teóricos e longínquos. A tal biótipo, basta-lhe a sagacidade comum, a habilidade do engano e a arte de tirar proveito de tudo. Com isto ele se crê inteligente, e esta é de fato a sua inteligência. Mas o tipo de inteligência se transforma com a evolução, elevando-se para enfrentar e resolver outros problemas, bem diferentes, que, para o tipo precedente, ficam fora do concebível. Assim, entre evoluído e involuído, poderá se encontrar o mesmo desnível de compreensão que existe entre um homem e um animal. Com a evolução, a inteligência coloca problemas sempre mais vastos e gerais, mais próximos dos princípios diretores, no centro do conhecimento. É em direção a este centro que avança o ser, afastando-se da periferia ou superfície, onde funciona a realidade prática exterior. Temos, assim, outro tipo de inteligência, feita para outros trabalhos e dirigida para outros fins. Ela abraça horizontes e concentra visões de imensas amplitudes, reunindo em si, numa síntese, espaços conceptuais vastíssimos, libertando-se por abstração da infinita multiplicidade do particular. Poder-se-ia chamar a isto de visão telescópica, feita para enxergar longe, em comparação com a outra, que se poderia chamar visão microscópica, feita para ver de

perto. De fato, trata-se de uma inteligência pequena, limitada ao contingente, descentrada na multiplicidade do particular, desorientada e dispersa em mil fatos pequenos, dos quais lhe escapa o significado do plano diretor. No entanto, evoluindo, ela amplia sua capacidade de ver tais princípios, dilatando sempre mais os horizontes que pode perceber. Os dois tipos de inteligência não se compreendem. O primitivo, justamente por ser ignorante, acredita que possui toda a verdade, completa e definitiva. O evoluído, pelo fato de saber, chega a compreender quão mais amplo é o conhecimento, além das limitadas possibilidades humanas e o quanto, portanto, ele ainda desconhece. O primitivo liquida rapidamente todos os maiores problemas do conhecimento, suprimindo-os e limitando-se aos da vida animal. Somente estes são importantes para ele, que vê o pensador como um inepto para a vida, perdido entre nuvens, fora da realidade, considerando-o uma coisa inútil, cuja eliminação é necessária. Assim, a forma mental, os desejos, as emoções e as dores de cada um são completamente diferentes. Os problemas que o primitivo se coloca e tem de resolver são mais simples dos que os do evoluído, porém, assim como acontece com este, são sempre proporcionais à respectiva inteligência. Quem se encontra ainda envolvido nas necessidades materiais deve, para sobreviver, ocupar-se delas. O interesse por outros problemas, mais adiantados, pode surgir somente quando os primeiros já tenham sido resolvidos, atingindo-se uma fase de civilização mais elevada, na qual a vida seja menos violenta e feroz, os direitos e deveres estejam estabelecidos e a satisfação das necessidades materiais para o indivíduo seja garantida, a fim de que ele, não mais sendo atacado e distraído por elas, possa dedicar-se a outros trabalhos, construindo uma forma mental adequada para realizá-los. Continuemos seguindo o fio de nossa lógica, para ver até onde ele nos leva. Vimos haver no universo uma previsão e coordenação de trabalho que implica a presença de um pensamento diretor. Este planejamento, segundo o qual se move o processo involutivo-evolutivo, não pode ser outra coisa, neste caso, senão o produto de uma inteligência suprema, a qual pode estar somente em Deus, pois tudo isso não pode derivar e depender senão de uma inteligência que esteja situada sobre toda a criação e que, para poder discipliná-la, tenha condição de compreendê-la com a sua mente e envolvê-la com a sua potência, o que só Deus pode fazer. Eis, então, que aquele plano não é outra coisa senão a lei de Deus, imposta como regra da existência e constituindo a base da ordem do universo. Esta lei não é letra morta, escrita em palavra, mas, pelo contrário, está viva e em ação, porque é pensamento e vontade, é ideia e realização. Quando a criatura se desvia, afastando-se da Lei, esta o chama de volta para o caminho reto, impelindo-o a retornar a ela, não só para o bem dele mesmo, mas também porque não é tolerável infringir a Lei, pois isto representa um atentado à integridade do plano de Deus, constituindo uma tentativa de destruí-lo, para à vontade suprema substituir a vontade da criatura rebelde. Então a reação da Lei tem a sua função, que é defender este plano, o qual deve permanecer absolutamente íntegro, para ser realizado, pois a salvação do universo está nele, que determina o caminho de regresso de tudo a Deus, enquanto o ser, tentando impor o seu desvio, procura sair da órbita traçada pela Lei. Esta saída do plano estabelecido para tentar uma órbita diversa, anti-Lei, deve ser liquidada. Este é o princípio fundamental, e cada lei o repete na Terra, reagindo com a prisão ou com o inferno, porque a reação punitiva é a única coisa capaz de fazer o involuído compreender e induzi-lo a obedecer. Se não estivesse em questão o seu próprio dano, o transgressor não se preocuparia em nada com as leis, que permaneceriam uma afirmação teórica, sem nenhum resultado prático. Assim a reação da Lei assume a forma de dor para o violador, o que se justifica como legítima defesa por parte da Lei, pois ela representa o pla-

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no de Deus, anteposto à salvação do ser. Portanto, em última análise, a dor é santa e sábia, pois constitui uma medida providencial de proteção para, assim, obrigar a criatura a tomar o caminho da sua salvação, que consiste no regresso a Deus. O plano da Lei guia o caminho da evolução e determina que ele deve avançar em direção a Deus, seu ponto final. Evoluir significa progredir num processo de divinização, o que implica adquirir as qualidades mais altas do ser, situadas no cimo da escadaria da subida, dadas por potência de pensamento, inteligência, sabedoria, bondade e espiritualidade, todas elas qualidades de Deus. Se esse caminho avança nesta direção, ele tem de consistir num desenvolvimento mental e espiritual. E este é de fato o caminho que verificamos ter sido percorrido pela evolução até hoje, subindo desde a matéria, através da vida vegetal e animal, até ao homem, que se distingue justamente pelo seu desenvolvimento cerebral. Por este trecho, a história de nossa evolução passada nos mostra que esta foi a direção do caminho imprimida pelo plano diretor, fato pelo qual somos levados a crer que, sendo esta a lei seguida pelo fenômeno, ela tem de continuar a se desenvolver no mesmo sentido, segundo o mesmo princípio. A consequência desta lógica é que a humanidade – não por comando de castas religiosas ou de teorias filosófico-morais, mas sim por lei positiva de evolução, segundo os princípios de uma biologia mais ampla, abrangendo passado, presente e futuro – tem de continuar a seguir o seu caminho já traçado, que consiste em se divinizar cada vez mais, ou seja, avançar em direção à espiritualidade. Então, se esta é a vontade da Lei, cada desobediência leva fatalmente, como já vimos, a uma reação correspondente, resultando numa sanção contra quem tenta desviar-se para fora da linha traçada. É, portanto, no sentido da espiritualização que deve realizar-se o crescimento evolutivo. A história do passado nos mostra qual deve ser o nosso futuro. Se, no trecho percorrido até agora, o crescimento evolutivo foi dirigido neste sentido, é evidente que esta é justamente a qualidade que terá de se acentuar cada vez mais no trecho a percorrer no futuro, pois a evolução é um processo único e estamos realizando agora apenas uma continuação dele. Esta é uma descoberta importante, pois nos mostra qual deve ser a direção a seguir agora em nosso caminho evolutivo, sendo este o sentido no qual a Lei quer que nos movamos, sob pena de sofrermos suas reações dolorosas em caso de desobediência. O passo atual é perigoso, pois a maturidade mental alcançada pelo homem o coloca perante o dever de tomar sobre si as responsabilidades que tal madureza acarreta. O homem, neste momento, chegou a um desenvolvimento mental e de consciência que o capacita a assumir a direção do processo evolutivo no seu planeta, passando a funcionar não mais guiado pelo instinto, como um animal, mas sim pelo conhecimento, consciente do plano diretivo da vida, fazendo-se operário inteligente de Deus e colaborador na execução da Sua lei. O homem, agora, não pode mais aceitar cegamente, só por fé, os ideais descidos do Alto, concedidos por revelação, mas deve inteligentemente compreender o significado e a função deles, para obrar ativamente no sentido de traduzi-los em realidade na Terra. Os fatos confirmam estas afirmações. Hoje, a humanidade se encontra realmente numa curva ou virada biológica, atravessando uma fase de transição evolutiva. Ela está passando de um tipo de trabalho inferior, que lhe é imposto pela necessidade da luta pela sobrevivência física num ambiente hostil, para um tipo de trabalho superior, dirigido ao desenvolvimento da mente e do espírito, em ambiente civilizado. A ferocidade e a força bruta, agora, servem cada vez menos para os fins da vida, cujo interesse é sempre maior na cultura, no pensamento e na inteligência, porque eles lhe são mais úteis. E a vida, sem hesitar, escolhe sempre o que é mais útil para a sua afirmação e para a sua continuação. Assim, o tipo de vida que nos espera no futuro está eviden-

temente traçado, e não pode ser outro. Este é o passo que a Lei quer dar no momento atual de nosso desenvolvimento evolutivo. Estas são hoje, para nós, as diretivas do plano de Deus. Este é o comando ao qual Ele exige que se obedeça. Caso o homem não siga esta linha de conduta, acabará se colocando numa posição anti-Lei, tendo de suportar as correspondentes consequências dolorosas que vimos. Assim, se o homem se aproveitar do progresso alcançado e das descobertas realizadas, que o libertam do trabalho físico e de tantas duras necessidades materiais, para utilizar tudo isto somente com a finalidade de se divertir, dirigindo sua inteligência para o mal, e não para o bem, no sentido destrutivo ao invés do criador, então a Lei certamente reagirá, enchendo o mundo de dor, porque, como vimos, cada violação leva ao correspondente pagamento doloroso. Nessas condições, a humanidade ficará fora da Lei, abandonada a si mesma para destruir-se com suas próprias mãos. A conclusão por nós atingida hoje, até aqui, é que a humanidade se encontra em uma encruzilhada: ou ela segue a linha da evolução, segundo o plano de Deus, que é no sentido da espiritualização, avançando em direção ao Sistema, para adquirir as suas qualidades, ou, pelo contrário, continuando a seguir a psicologia do passado, feita de egoísmo e agressividade destrutivos, acabará por fazer um louco uso dos novos e potentíssimos meios dos quais dispõe. No primeiro caso, ela poderá alcançar uma verdadeira civilização. No segundo, ela se autodestruirá, e a supremacia da vida sobre o planeta passará para outras raças animais, inferiores, que substituirão a humana. Espiritualização significa consciência, sentido de responsabilidade e senso de justiça no uso dos novos poderes; significa assumir inteligentemente, sobre a Terra, as diretrizes da vida do homem e dos seus coinquilinos, não mais com a forma mental tradicional do involuído, mas sim com a do evoluído. Insistir na psicologia do passado agora pode significar a morte! Impulsionar a humanidade em direção à sua inteligente espiritualização pode significar salvá-la da destruição. Daí se conclui quão grande é a importância do trabalho realizado por todos que, na Terra, trabalham para a descida dos ideais, porquanto nestes princípios estão contidos o programa do futuro desenvolvimento da humanidade, indicando-nos de que modo deve, agora, continuar na Terra a atuação do plano de Deus, para realizar esta nova fase do processo evolutivo. Muitas vezes, no entanto, o mundo considera estes indivíduos como iludidos, fora da realidade, e os condena, chamando-os de sonhadores carentes de sentido prático, enquanto eles, neste momento, representam a única possibilidade de salvação para a humanidade na sua atual fase de transição evolutiva. III. O CRÍTICO MOMENTO HISTÓRICO ATUAL. O INÍCIO DE UMA NOVA ERA. Tratemos de compreender em profundidade o significado do momento histórico atual. Salta-nos primeiramente à vista o seu aspecto negativo, que é o mais próximo e já se encontra em ação. Trata-se de um processo de destruição dos valores do passado, conquistados com muito esforço nos últimos milênios. Assistimos à dispersão dos mais preciosos tesouros da espiritualidade, que são premissa indispensável para uma sábia direção da conduta humana. Paralelamente, nada vemos ser reconstruído no lugar daquilo que está sendo destruído espiritualmente. Não surgem nem se afirmam novos valores deste tipo em substituição aos antigos, de maneira que se fica num vazio. A espiritualidade está em liquidação, pois suas velhas formas, cada vez menos adaptadas à mente moderna, não convencem mais, não se sabendo ainda substituí-las por outras novas, racionais e científicas. Para suprir a falta de provas, as religiões apresentam suas verdades de um modo fideístico, com base em mistérios, numa forma absolutista e autoritária, afastando o homem de ho-

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je, que vai assim em busca de outras verdades, mais positivas, de natureza científica, demonstradas e utilizáveis na prática. Hoje se pretende colocar o problema da vida de uma forma diferente do passado, sobre bases claras e concretas, e não sobre abstrações teóricas, colocadas fora da realidade da vida. No entanto sucede que, entre o velho que não serve mais e o novo que ainda deve ser construído, a conduta humana fica desorientada, faltando-lhe diretivas superiores, razão pela qual ela segue à deriva, retrocedendo involutivamente em direção à animalidade. Assim os progressos da técnica são usados ao contrário, fazendo-se deles um meio não para alcançar fins superiores, mas sim para engordar no bem-estar ou para aniquilar a todos com uma guerra atômica. Então, no meio de tanto progresso, o mundo fica à mercê dos impulsos elementares, que se prestam muito mais a fazê-lo perder-se do que a salvar-se. Procuremos compreender o que está acontecendo. Quando um fenômeno chega à sua maturação, ele tende irresistivelmente a se precipitar na conclusão e, tal como um parto, deve necessariamente realizar-se. Neste sentido, a vida oferece os meios e estimula os impulsos necessários, preparando tudo para que ele se cumpra com facilidade. No entanto, se o ser, em vez de seguir a Lei até ao fundo, negar-se a isto, todo o processo, no qual ele se encontra envolvido, desmorona sobre ele mesmo. Assim, tudo que estava preparado para um avanço em direção ao melhor transforma-se num retrocesso em direção ao pior. Este é o tremendo perigo que pesa sobre a humanidade de hoje, ou seja, que ela se arruíne por não querer fazer bom uso dos novos poderes conquistados. Tais meios, para não se tornarem mortíferos nas mãos de um inconsciente, teriam a necessidade de serem dirigidos por uma nova sabedoria, ainda mais consciente e efetiva do que a dos séculos passados. No entanto, sucede que, justamente neste momento, não temos nada além dos rudimentos do antigo conhecimento, nem sabemos como substituí-lo. O perigo é grave, porquanto, absorvida nos detalhes e sem se dar conta do que acontece nas linhas gerais, a humanidade está jogando e arriscando o seu futuro destino. Neste ponto do caminho da evolução, ela se encontra numa bifurcação. Se responder ao apelo ascensional da vida, ela subirá a um plano biológico ou nível evolutivo mais avançado, alcançando um estado de maior civilização, com menos luta, dificuldade e dor. Se não responder ao chamado, ela retrocederá a um plano biológico ou nível evolutivo mais atrasado, voltando ao estado selvagem do primitivo e à correspondente dura forma de existência. O momento é crítico, porque está em jogo uma salvação imediata, positiva e controlável neste mundo, aquela que todos compreendem e tomam a sério, porque não é uma fé discutível, mas sim uma realidade biológica. Se a humanidade não aceitar a tarefa, recusando-se a atender ao convite, ela poderá amanhã chorar sobre as suas ruínas, porque, em vez de dar um passo adiante, para evoluir em direção ao melhor, terá retrocedido um passo, involuindo em direção ao pior. Quem conhece a estrutura das leis da vida sabe que tudo isto pode suceder. O tema da descida dos ideais interessa neste momento, sobretudo porque ele nos expõe o programa a ser realizado, além de representar, evolutivamente, uma antecipação de estados mais avançados, que esperam ser realizados por nós no futuro. Chegou a hora da escolha, o momento da curva decisiva, para dar o salto numa direção ou em outra. Procuramos aqui compreender o que está acontecendo, orientados pelo tratado já desenvolvido nos precedentes volumes da nossa Obra, porque, sem a premissa de um sistema filosófico-científico completo, não é possível se chegar a conclusões positivas. As espetaculares realizações da ciência nos mostram que algo de excepcional se está preparando na história da humanidade. Alguma coisa está se movendo nas vísceras do fenômeno evolutivo. Por isso, inconscientemente, o mundo se encontra numa ansiosa agitação, desconhecida no passado. Se o salto falha, não se sabe como nem

onde se irá cair. E é perigoso uma tentativa às cegas. Seria necessário nos movermos orientados no seio do organismo fenomênico universal, dentro do qual existimos e de cujas reações não podemos prescindir, para, através do conhecimento das consequências do que fazemos, sabermos o que deve ser feito. É imprescindível sermos sábios e previdentes. Mas só poderemos sê-lo com conhecimento e consciência. Tentando realizar em nossos volumes uma síntese universal, tratamos de dar uma contribuição neste sentido. Tudo isto é urgente, porque o fenômeno evolutivo, uma vez que exerce pressão para se realizar, corre em direção à conclusão do atual período – que é o início de um outro – para se resolver, seja qual for a nossa escolha, ou a favor da humanidade, com o seu progresso, ou contra ela, para seu dano e retrocesso. O deslocamento em direção a novos equilíbrios já está iniciado. Enquanto a vida avança, o homem, sem compreender o que está sucedendo, resiste com a sua velha forma mental, amarrado ao seu passado. Diante dele há uma estrada cheia de luz, ao longo da qual a vida o impulsiona. Mas ele continua olhando para trás, na direção de um mundo cheio de trevas. Este é o tempestuoso contraste entre os impulsos opostos do momento atual. Contudo ninguém pode mudar a fundamental razão do ser, que é evoluir, nem pode paralisar o irrefreável anseio de progresso, do qual é constituída a vida. Quem tem inteligência, consciência e meios deveria ajudar no sentido de fazer avançar o mais rapidamente possível neste caminho, através do qual, por meio da superação, alcança-se a salvação. A humanidade deve escolher entre as duas direções a tomar. O caminho estabelecido é apenas um, mas pode-se percorrê-lo para frente, evoluindo, ou para trás, involuindo. Adiante encontram-se os mais requintados valores de ordem psíquica e espiritual. Hoje, o homem tem nas mãos poderes jamais possuídos. Mas que uso fará deles? Irá empregá-los para se tornar sempre mais rico, egoísta e corrompido, regredindo ao plano animal, ou, pelo contrário, irá utilizá-los para ascender a um plano mais alto, transformando-se cada vez mais num ser de pensamento e consciência? Estes poderes podem ser utilizados nestas duas direções. Eles permitem um salto de grandes proporções para frente, porém, se forem mal usados, podem levar a um grande retrocesso involutivo. Ou se constrói um novo edifício, ou se fica a descoberto entre as ruínas do velho. Este é um desses momentos da evolução nos quais o ideal e sua realização assumem um valor especial, diferente do costumeiro. Isto significa que o ideal não é mais, como se julga normalmente, algo de utópico, não positivo, estranho à realidade prática, mas, pelo contrário, ele se introduz nesta realidade como uma necessidade vital, trazendo um programa a ser realizado com urgência. Trata-se de um plano necessário para a salvação do mundo, a fim de evitar que este se perca no retrocesso e de, principalmente, fazê-lo avançar ao longo do caminho da evolução. O que está em jogo é imenso. Existe a perspectiva de uma era de bem-estar, com um novo tipo de civilização, que, libertando o homem da escravidão do trabalho, poderá com isto oferecer-lhe novas atividades, muito mais elevadas, inteligentemente orientadas e realizadas por um biótipo humano mais evoluído, com outra forma mental. Isto é o que está amadurecendo na profundidade do fenômeno da evolução. É verdade que a vida não apresenta ao ser tais problemas, nem solicita semelhantes desenvolvimentos, quando ainda não chegou a hora. Antes de chegar o devido momento, a vida prepara longamente o fenômeno, fornecendo-lhe as condições adequadas, protegendo-o e ajudando-o depois, para que ele possa realizar-se. Mas, quando tudo está pronto e o momento da sua realização amadureceu, a vida exige do ser um esforço proporcional às suas capacidades, responsabilizando-o caso falte da parte dele a resposta adequada, condição na qual ela deixa recair sobre ele as consequências. Então a lei de Deus se apropria do fenômeno, e o ser, não tendo poder para torcê-la, pode somente torcer a si mesmo, alterando sua própria

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posição em relação a ela. Verifica-se, assim, o chamado fenômeno do retrocesso involutivo. A Lei castiga automaticamente aqueles que, ao chegar o momento no qual tudo amadureceu e está pronto para avançar, não aceitam a oferta e, buscando fazer mau uso dela, seguem o impulso evolutivo no sentido inverso, no qual os novos meios, em vez de serem utilizados para subir em direção ao S, são aproveitados para descer em direção ao AS. Querendo com isso repetir o motivo da primeira revolta, é inevitável que as consequências sejam as mesmas. Assim o ser se precipita de cabeça no abismo, tendo de ficar ali sepultado, emborcado, como sucedeu a primeira vez, enquanto não realizar o trabalho de regresso ascensional. Não há dúvida que, hoje em dia, a técnica científica e a organização industrial permitem cada vez com menor trabalho alcançar uma maior produção, isto é, com menor esforço um maior bem-estar. Já se fala de dar, além do sábado, também a sexta-feira e de reduzir as horas de trabalho dos outros quatro dias. Ora, o perigo reside no fato de que tal abundância de tempo e enriquecimento de meios não sejam usados em sentido evolutivo, como um capital para realizar um trabalho mais elevado, mas sim em sentido involutivo, como um capital a ser dissipado em satisfações de tipo inferior, abandonando-se na descida e embrutecendo-se na materialidade, ao invés de facilitar um impulso mental e espiritual. Saberá o homem fazer bom uso do aumento de poder que ele hoje tem nas mãos? Depois de longos milênios de estagnação, durante os quais a humanidade jazia em posição estática, julgadas definitivas, chegou o momento no qual tudo tende a se dinamizar e se pôr em movimento, seguindo um princípio oposto, para se deslocar e alcançar novas posições. Mas o caminho está traçado pela Lei e, como já deixamos entrever, não pode ser percorrido a não ser ao longo do percurso involutivo-evolutivo. Ou se avança em direção ao S, ou se retrocede em direção ao AS. O perigo reside no fato de que, em vez de seguir no sentido de melhorar, dirigindo-se em direção ao S, este movimento se realize no sentido de piorar, deslocando-se para o AS. No 1o caso caminhase para a salvação; no 2 o caso, para a perdição. O fato não é novo na história e, se bem que em proporções menores, já ocorreu. Poderia suceder com toda a humanidade o mesmo fato ocorrido no passado com as classes sociais que chegaram à fase de aristocracia, em que, assegurada a vitória, fica estabilizada a posição privilegiada na riqueza e no ócio. Então, ao atingir tal ponto de sua ascensão, aquelas classes sociais, em vez de continuarem o esforço evolutivo, deixaram-se descansar, gozando o fruto do trabalho de conquista anterior. Sucedeu então que, cessando o esforço e o exercício, elas perderam a capacidade e com isto o poder. Assim, iniciou-se a corrupção, o enfraquecimento e a descida destas castas, dando lugar a outras classes sociais, que sobem do fundo, onde se sofre e se luta, mas se aprende e se avança. Esta é a história da ascensão, florescimento e queda das civilizações. Antigamente, este fenômeno abarcava somente um limitado grupo humano, ficando para algum outro a possibilidade de substituí-lo, tão logo aquele decaísse. No caso atual, porém, o fenômeno se estenderia a toda a humanidade, uma vez que, brevemente, com a técnica e o trabalho, ela acabará por se encontrar nas condições de abundância na qual se encontrava o império romano em seu apogeu ou a aristocracia francesa antes da revolução. O perigo está em que agora, se toda a humanidade chegar a elevar o seu nível econômico, se difundam nela as perigosas características dos ricos, anteriormente limitadas a uma só classe social, as que corrompem e destroem, por inconsciência dilapidadora, no ócio e bem-estar gratuito. Isto é o que poderá suceder para a humanidade se ela não souber transformar a abundância, fruto dos seus novos poderes produtivos, num instrumento para um renovado esforço a fim de continuar avançando, em vez de preguiça e gozo. Superado o trabalho material, o novo labor deveria ser de

tipo intelectual, cultural, espiritual. Após se haver libertado da antiga forma de esforço penoso, que o embrutecia, atando-o à necessidade de satisfazer as suas necessidades mais elementares, seria indispensável que o homem, para não retroceder, continuasse ainda a sua atividade, mas dirigindo-a no sentido de conquistas mais altas. No entanto, ele é o mesmo de antes, conservando a mesma forma mental. Permanece para ele, portanto, o perigo de continuar a se comportar como no passado e, assim, em vez de se encaminhar em direção a mais altas conquistas, começar a se exceder nas satisfações de tipo inferior, seguindo os seus impulsos de involuído, entregando-se ao abuso e excedendo-se na satisfação dos instintos mais atrasados, em vez de se dedicar à conquista de um progresso ulterior. É possível, então, vir-se a despertar e fortalecer a besta, em vez de se construir o anjo ou o super-homem. O bem-estar, assim, posto nas mãos de um determinado tipo biológico, ainda não bastante consciente para saber fazer bom uso dele, poderá produzir mais mal do que bem. Esta condição, portanto, constituirá um dano para tal indivíduo, e não uma vantagem, porque a sua atividade, encaminhando-se em direção extrovertida em vez de introvertida, irá dirigir-se não ao desenvolvimento da parte espiritual, mas apenas à multiplicação de comodidades do corpo, como fim em si mesmo, fator evolutivamente de escassa importância. Tomar o bem-estar material não como meio de progresso, mas como principal objetivo da vida, é prostituição do espírito, emborcamento de posições, continuação do caminho em descida em vez de em ascensão. Assim, ao ideal se substituirá o utilitarismo; à fé criadora, o céptico cinismo; à fraternidade, o egoísmo; ao progresso, a estagnação. O perigo está em que o bem-estar termine transformando-se em retrocesso, num requinte e potencialização de animalidade. Tanto progresso será inútil, se a humanidade quiser entregar-se ao ideal de viver somente para gozar a vida, detendo-se numa exteriorização como fim em si mesma, em vez de fazer do progresso um meio para alcançar uma interiorização que utilize os valores materiais para desenvolver os espirituais. Se o momento é perigoso, ele é, no entanto, também maravilhoso, porque oferece possibilidades desconhecidas noutros tempos. O que impele a vida sempre para diante é um irrefreável anseio em direção à felicidade. É o S que sempre chama e atrai de longe. Não se pode encontrar a felicidade, senão evoluindo em direção ao S. O erro consiste em buscá-la de modo inverso, involuindo em direção ao AS. Ao se caminhar para trás, a fim de se satisfazer com o pior em vez de com o melhor, acaba-se por encontrar, ao invés de alegria, dor. Ora, necessita-se de muito mais sabedoria para dirigir um automóvel ou um avião, a fim de não matar ninguém, do que uma simples carroça! Eis o que se pode conseguir com tais meios! Existirá hoje, porém, tal sabedoria, ou teremos de conquistá-la duramente, errando e pagando? Temos, com a libertação do trabalho material, a possibilidade de dispor de muito tempo, mas que uso saberemos fazer de semelhantes vantagens? É rara a presente oportunidade, e cumpre-nos aproveitar as circunstâncias atuais, pois não será fácil que venham a se repetir. O homem se encontra perante perspectivas ilimitadas, não só com liberdade e poder, mas também responsabilidade, desconhecidos nos séculos passados, tendo-se lançado velozmente em direção a radicais mudanças de vida, com imensa possibilidade de novas realizações, que implicam em proporcionais consequências de alegria ou dor. Damo-nos conta, porventura, de que desastre representaria para a humanidade ela não saber fazer bom uso de tais possibilidades, usando-as, pelo contrário, no sentido de degradação? Que imensa dor, pois, constituiria cair e ter de ficar embaixo! Que tremendo trabalho seria necessário para voltar a subir, a fim de reconquistar a posição atual! Nada disto é fantasia, pois tudo está estabelecido pelas leis que regulam a técnica da evolução. Nunca se deve deter o esforço para evoluir. A supressão

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das dificuldades a superar e do esforço necessário para vencer e fazer avançar a vida, acaba por corrompê-la e corroê-la. Estabelecida a satisfação de todas as necessidades e desejos, restam o vazio, a inaptidão e a decadência, por falta desse dinamismo vital no qual se apoia a técnica construtiva das qualidades. Quem renuncia à sua contínua autoconstrução se destrói. Pode-se controlar, tanto na vida individual como na história, quais resultados produz o fácil bem-estar. Tal posição de favor, a qual, no passado, liquidava apenas uma classe social, hoje pode estender-se a toda a humanidade, o que significará a sua destruição em massa. A salvação está em continuar o trabalho com atividades mais elevadas, de caráter intelectual e espiritual, utilizando a libertação das necessidades materiais para levar a vida a um plano mais alto. Saberá o homem fazêlo, ou preferirá corromper-se na inércia, recusando-se a acelerar o passo em direção a mais elevados níveis biológicos? Neste sentido, a prosperidade pode constituir um perigo, um alimento agradável, mas venenoso. Saber ser rico é muito mais difícil e arriscado do que ser pobre. Seria uma coisa nova na história ver uma sociedade rica que não se arruíne. Cada conquista perde valor, se não serve para avançar. O caminho da subida está feito para ser percorrido. A lei é progredir. A evolução é uma pista onde não é possível se deitar para dormir. A vida reside no movimento. Se ela para, chega a morte. Todo o universo é movimento e apoia-se no movimento. Hoje, o homem possui os meios para realizar um grande progresso. Se isto não suceder, a responsabilidade será sua, assim como as consequências. Que o momento esteja maduro para transformações profundas é mostrado pelo estado de agitação em que a humanidade se encontra. Sente-se, difundida, uma insatisfação em relação ao passado e uma preocupação em renovar-se a todo custo. Todos os valores tradicionais estão submetidos a revisão. Mesmo que não se saiba qual deva ser o novo, o velho está em liquidação. Faz-se o vazio pela indiscriminada avidez de encher a vida com novos modos de pensar e agir. Estamos ainda na fase da tentativa, em que as novas formas nas quais se quer modelar a nossa existência ainda não apareceram, caminhando-se às cegas à procura de alguma coisa completamente diferente, à qual, apesar de não sabermos o que é, somos levados por um vago instinto. A ânsia de renovação é indubitável, apesar de não se saber onde ela irá desembocar. Por esta estrada se deverá chegar a um novo tipo de vida, no qual os fermentos agora em ebulição, tendo-se desenvolvido, estarão afirmados e fixados. Nota-se em tudo isto a agitação febril do momento crítico, o esforço da conquista, a incerteza perante o desconhecido. Isto acontece em todos os campos, em cada manifestação do pensamento e das atividades humanas. Desde as descobertas científicas até às ideologias políticas, da técnica à moral, das religiões à arte, está amadurecendo todo um novo modo de ver as coisas e de conceber a vida. Tudo isto se manifesta ainda na forma de uma indefinível ansiedade nos espíritos, assaltando o homem como uma febre em que ferve a ânsia da hora crítica, na qual ele deve decidir se avança ou retrocede. A evolução faz pressão de dentro, numa obsessão que explode do inconsciente, instando o homem a avançar com avidez e ir em frente confusamente. Trata-se da ânsia da expectativa de chegar ao novo estado, que, apesar de tudo já estar pronto, ainda não pode realizar-se, porque, para seu aparecimento, necessita ser fecundado pela adesão do homem, através de seu indispensável esforço. Está em jogo todo o passado, que trouxe a vida até aqui e está agora fazendo pressão para ela poder ascender ainda mais. Este esforço deve ser nosso e livremente desejado. A Lei guia o fenômeno, prepara tudo e, no momento decisivo, dá-nos um impulso para frente. Mas nós devemos assumir o esforço da subida, decidindo-nos a isto espontaneamente. A vida sabe que agora, se quisermos, existem as condições para alcançar o objetivo, realizando o salto para frente. Chegou, portanto, o

momento de usarmos nossas forças. Chegando a este ponto da evolução, existe a possibilidade de superar o fosso. Mas devemos saber superá-lo. Tais condições de favorecimento nos colocam na posição de responsáveis. A vida sabe que, se desejarmos, podemos vencer as dificuldades. Devemos, portanto, saber vencê-las. E, se não o quisermos, a culpa será nossa, assim como todas as consequências. Tudo está pronto. Falta somente a nossa boa vontade, a nossa adesão e decisão. Se a conquista e o resultado serão nossos, é justo então que o esforço também seja nosso. Quando tudo está pronto e as condições favoráveis existem para assegurar o êxito, ajudando no esforço, é culpável negar-se a realizá-lo. Esta é a hora. Amanhã, tais condições poderão não mais ser encontradas, e não restaria senão o prejuízo, com o qual se paga o erro. A Lei fez a sua parte para preparar a realização do fenômeno, e agora ele está maduro. O resto compete ao homem, que, com o seu esforço, deve realizá-lo. Eis aí a gravidade do momento histórico, na posição em que a humanidade se encontra ao longo do caminho de sua evolução. O que está em jogo é a sua felicidade futura, que pode, pelo contrário, tornar-se a sua infelicidade. Se o homem não souber decidir-se a subir mais um degrau, então cairá. A Lei quer a ascensão, e o delito de lesa-evolução paga-se em forma de dor, tanto maior quanto mais baixo se cai. Então, dada a estrutura da Lei, não resta senão pagar duramente. Podia-se haver subido, e se desceu; podia-se haver melhorado, e se piorou. Uma alegria superior estava à mão, e não resta outra coisa senão a tristeza do paraíso perdido. Lamentavelmente, parece que tal sistema de agir está mesmo nos hábitos humanos. Mas isto é lógico para quem compreendeu que o nosso mundo é o resultado de uma queda do S no AS. O grave perigo atual é que o homem queira repetir outra vez este motivo, fazendo prevalecer o impulso do emborcamento em direção ao AS, e assim, pela oportunidade de evolução perdida, precipitar-se na involução. Não se sabe quando ou se a experiência poderá ser repetida, nem quantos milênios de esforço serão necessários para preparar novamente as atuais condições, adequadas para se verificar o fenômeno. O inconsciente coletivo sente confusamente a gravidade da hora. Há no ar uma inquietude indefinida, como de quem se sente preso nas formas do passado e trata de libertarse. Tal como no ensaio de um voo que se tenta com asas ainda não formadas ou inexperientes, sente-se um nervosismo incompreendido no seu verdadeiro significado, como um vago pressentimento apocalíptico. Estes sintomas são interpretados como patológicos, e procura-se acalmá-los, atordoando-se em distrações, para fugir à compreensão, ao esforço e ao peso da responsabilidade. Busca-se então satisfazer o impulso vital não subindo, mas andando para baixo, fugindo aos deveres e à introspecção que no-los indica, procurando eximir-se com as tradicionais escapatórias e acomodações, resvalando-se pelo caminho fácil da descida. A humanidade se encontra perante uma bifurcação da evolução, sem ter plena consciência da gravidade do momento, no qual se impõe uma escolha que terá depois imensas consequências, seja no sentido da salvação ou seja no sentido da perdição. E, uma vez enveredando-se por um destes dois caminhos, será difícil retroceder e mudar de estrada. Eis o significado do atual momento histórico. Esta é a hora da maior conquista da humanidade, mas também da sua maior batalha; a hora das maiores possibilidades, mas também dos maiores riscos e perigos. Estão se deslocando as posições das bases de nossa vida. Desmoronam-se as muralhas levantadas pelo passado, dentro das quais não há mais espaço para o nosso pensamento, que tem de se expandir a outros maiores. Construtores de nosso eterno destino, aprontamo-nos para subir outro degrau ao longo da escada da evolução, em direção a um mais alto plano biológico. A revolução já está em ação. Uma revolução verdadeira, que é feita pela vida, acima de todas as outras feitas pelo homem

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por interesses ou por política,. De dentro, grita a voz de Deus: “Avante, Avante!”. A Sua mão está estendida para ajudar a humanidade a realizar o grande salto da transição evolutiva; ajudála a vencer as forças do mal, que lutam para sufocar este desenvolvimento e transformar a subida em descida; ajudá-la a vencer as forças do egoísmo, do cálculo e da negação, cuja vontade seria, uma vez mais, que o AS prevalecesse sobre o S. O presente volume, assim como os restantes conclusivos da Obra, é, nesta hora decisiva, um sério apelo a quem tenha ouvidos para ouvir, para que seja realizado o esforço da superação e, assim, escolhido o caminho da salvação, em vez da perdição. ◘◘◘ Compreendido o significado do atual momento histórico, vejamos como prever o que de fato poderá suceder. Segundo a configuração celeste, tal como ela se apresenta no final de 1964, enquanto escrevo estas páginas, os astrólogos observam que a conjugação entre Urano e Plutão tem uma influência de tipo revolucionário, no sentido de destruir as velhas formas. Isto é útil como uma forma de limpar o terreno para novas construções, preparando o advento da nova era. Plutão representa a influência no sentido de demolir as estruturas materiais e mentais do passado. Urano representa a influência impulsiva, o dinamismo criador do novo. Isto indica um contraste entre o despertar espiritual, que quer realizar-se, e a resistência das forças negativas, que procuram impedi-lo. O momento atual seria, portanto, uma fase de laboriosa preparação de novos estados futuros. Com influência menor, Saturno indica, pela sua posição, a passagem entre duas eras, transição que exerce a função de encerramento das contas, com que se resolve o carma, através da liquidação do balanço passado e a preparação do futuro. Tudo, portanto, estaria movendo-se em direção a uma nova era. Ao trabalho de tal íntima elaboração deve-se aquela agitação febril de que falávamos anteriormente, própria do momento crítico, manifestada através de distúrbios neuropsíquicos. Há, portanto, três elementos em jogo: 1) Uma parte negativa, de resistência, devida a influencia do AS; 2) Uma parte positiva, expressa por um dinamismo psíquico-espiritual, devida à atração por parte do S; 3) Uma parte representada pelo esforço que o homem tem de fazer para realizar o salto à frente. Estes são os impulsos que constituem o fenômeno. Isto pode levar a desmoronamentos, revoluções, deslocamentos e reconstruções, mas o caminho da evolução caminha em direção ao alto. Observemos agora, por via da lógica, como tudo isto poderá realizar-se. O fato positivo e decisivo para estas profundas transformações, que já está atuando e atuará sempre mais no ambiente e tipo de vida humana, é o moderno tecnicismo. A mais fácil e abundante produção de bens deverá nos levar da fase evolutiva de tipo econômico à de tipo intelectual-culturalespiritual, que representa um nível biológico mais avançado. A evolução da vida se encontraria, assim, num momento decisivo de seu transformismo, aquele que, segundo a terminologia de Teilhard de Chardin, leva à passagem da biosfera à noosfera. Vejamos as causas pelas quais o fenômeno amadurece. Até hoje, as bases da vida da humanidade foram de caráter econômico. O possuir, sendo a coisa mais necessária para viver, foi sempre o ponto fundamental de referência, em função do qual se orientou o modo de pensar e de atuar. Foi assim que se desenvolveu uma forma mental humana que, em contradição com todos os ideais pregados, venera de fato, como supremo e divino valor, o possuir. Sem recursos materiais, não se pode fazer nada de exterior, que é o meio entendido pela maioria, razão pela qual também os ideais e as religiões permanecem no mundo ainda sujeitos ao domínio destes meios, não sendo possível se realizarem senão em posição subordinada a eles. O tecnicismo, com a abundância da produção, tende hoje a levar a humanidade para a libertação de tal escravidão econômica. Isto significa que será outro o ponto de referência segundo o qual se ori-

entará o nosso modo de pensar e agir, o que permitirá a construção e o funcionamento da nova forma mental humana. Livre do assalto das necessidades materiais, o homem deverá então encontrar um outro tipo de trabalho, dirigido à produção de outro tipo de bens, úteis à vida de outro modo, agora que ela virá a se encontrar em outra posição ao longo do caminho da evolução. Estes bens são os valores de um mais avançado nível biológico, até então incompreendidos pelos involuídos, mas cuja importância então será entendida. Eles são os valores espirituais, fundamentais no novo plano de vida, como fundamentais eram os econômicos no precedente. Verdade, moral, escala de valores, tudo é relativo ao grau de evolução alcançado. Antigamente, a luta pela vida material era demasiado dura para que ela não dominasse todas as atividades humanas, tanto físicas como mentais. Ainda agora, as religiões continuam pregando a renúncia aos bens terrenos, mas elas mesmas, em primeiro lugar, baseiam-se sobre estes bens, em desacordo com o que elas pregam e condenam. Em pleno acordo, crentes e ateus lutam pelos mesmos fins concretos, com os mesmos métodos, pois todos sabem que desinteressar-se dos bens próprios, para sonhar com ideais, pode significar a morte. Assim, as próprias religiões são as primeiras a se constituírem em organizações terrenas que possuem e administram os seus interesses como todos, mesmo no caso de ordens religiosas baseadas no voto de pobreza. A fase economista está ainda em pleno vigor, e a nova face culturalista, cuja tendência é, pelo contrário, o enriquecimento no espírito, é algo que ainda está para chegar. Hoje, o problema fundamental do homem não está nos bens espirituais, mas sim nos bens materiais. São estes que dominam tudo, pois, sem eles, pouco se pode realizar na Terra. Assim o mundo está cheio de igrejas frequentadas por gente que, com os fatos, demonstra crer em algo bem diferente. O problema humano mais vivo está no “meu” e no “teu”. A luta mundial entre o imperialismo comunista e o imperialismo capitalista é a luta entre o “meu” e o “teu”. O comuni smo é uma ideologia de assalto ao sistema do “meu”, constit uído pela propriedade e pelo capital. No entanto, com tal ideal, ele tomou posse do que pertence aos outros, tirando-o também do próprio povo, para concentrar tudo nas mãos da classe dirigente. É sempre o mesmo jogo, no qual o mais forte tira dos outros para si próprio. Assim é a natureza humana, e não é uma ideologia que pode transformá-la. Os fenômenos políticos e sociais não são senão um momento do fenômeno biológico, cuja expressão é uma consequência do grau de evolução alcançado. É por isso que o culto da posse hoje é universal, mesmo dentro dos ideais políticos e religiosos, que se proclamam isentos dele. Não há nada que lhe escape. Diz-se: minha mulher, meu marido, meus filhos, meus parentes, meus dependentes, meus clientes, minha cidade, minha pátria, meu partido, minha religião e até meu Deus. Tudo é meu, em função de mim que sou o dono. O homem vale não pelo que é, mas pelo que possui. Esta é a estrutura da nossa forma mental, a base de nossa verdadeira moral. É isto que, através de uma superabundante produção de bens, o novo tecnicismo nos permitirá superar, conseguindo assim deslocar o valor do eu daquilo que ele possui àquilo que ele é. Mas, para passar da tradicional valorização exterior à interior, será necessário aproveitar as novas condições de vida, a fim de deslocar a atividade do trabalho de tipo econômicoprodutivo para o de tipo intelectual-cultural-espiritual, dirigido não ao bem-estar material, que estará assegurado, mas à formação da mais evoluída personalidade do super-homem consciente. Trata-se de uma mutação evolutiva, aquela pela qual, segundo Teilhard de Chardin, o ser deixa a biosfera e desemboca na noosfera, entrando assim, segundo A Grande Síntese , na 3 a fase do fisio–dínamo–psiquismo. Quando o homem tiver superado e organizado em definitivo o dinamismo, dirigindo-o à pro-

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dução econômica de bens, ele haverá fixado então, através do tecnicismo, este funcionamento em forma automática, de maneira que essa produção continuará a se fazer por si mesma. Assim o homem, uma vez realizada esta obra, que já agora é sua, poderá dedicar-se à construção de si mesmo num plano superior do edifício biológico e, através de outro tipo de dinamismo, dirigir-se à produção de outros bens, de caráter espiritual. Tudo isto é lógico, porque faz parte do plano geral do desenvolvimento da evolução, que vai do AS ao S, isto é, da matéria ao espírito. Tudo isto aparece mais evidente no período atual, porque nos encontramos no momento da passagem de uma era para outra, em que há mudança de posições e na qual, devido ao impulso para frente, o transformismo se faz mais rápido, intenso e, portanto, mais visível. Trata-se de uma transição biológica. Haverá a transformação do tipo de vida da humanidade nas suas várias manifestações, como economia, política, literatura, arte, filosofia, ética, religiões, direito etc., porque mudarão a forma mental, o tipo de trabalho e as condições do ambiente. Assim as verdades consideradas absolutas, mas que o são somente em relação aos séculos passados, transformar-se-ão em outras verdades, que também serão julgadas absolutas, mas que serão relativas em relação aos séculos futuros, tudo mudando sempre em relação ao grau de evolução alcançado. A nova grande ocupação do homem não será conquistar para possuir, luta que já não terá razão de existir, quando for superado o estado de necessidade, mas será, pelo contrário, um trabalho dirigido à conquista de conhecimento e à formação da consciência. Tudo isto será aceito pela vida, porque, ao mesmo tempo em que representa um valor biológico, constitui também um modo mais seguro e completo de defesa, garantindo melhor a sobrevivência. Estaremos, então, diante de um tipo de luta praticada com meios mais inteligentes e, portanto, mais eficientes. De fato, não teremos mais o indivíduo em completa ignorância, manobrado só pelos instintos e arrastado por eles como um cego ao longo do caminho da evolução, mas sim um ser iluminado pelo conhecimento, que assume as diretivas da sua vida e do fenômeno evolutivo no seu planeta. A luta pela ascensão continuará, mas, dado o progresso realizado, será sempre mais de tipo S e sempre menos de tipo AS. E sabemos bem o significado de um tipo e de outro. De tudo isto pode-se compreender que, desta vez, não se trata de uma das habituais revoluções, escalonadas em série ao longo do caminho da história, para realizar pequenas e graduais transformações, mas sim da conclusão desta série, para iniciar uma nova, de outro tipo. Em resumo, trata-se de um salto de uma era para outra, de um processo de transformação que tende à criação de um biótipo mais evoluído. Hoje, estamos quase no fim de uma fase de amadurecimento, através do qual o fenômeno se precipita na fase seguinte. Estamos na hora do parto. O feto está pronto. Teremos um recém-nascido: o novo homem, ainda menino, que os futuros milênios levarão à maturidade. Processo lento e longo, mas inexoravelmente construído pelo tempo, que marca o ritmo do transformismo sem nunca se deter. Então, não mais dominará o involuído de hoje, mas sim o evoluído de amanhã, que, como maioria, imporá as suas leis, bastante diferentes. Em relação a este último, já explicamos suficientemente, em nossos livros, quão diferentes são a sua forma mental, a sua ética, a sua religião, o seu tipo de trabalho e o seu objetivo buscado. Ele hoje é exceção e, perante a atual realidade biológica, constitui uma utopia. Amanhã, ele será esta realidade. Hoje é uma antecipação isolada, um mártir pisoteado para abrir caminho aos piores. Amanhã estará no vértice, como mente diretora da evolução biológica do planeta. Este é o esplêndido desenvolvimento que nos espera, programado pela leis da evolução, se o homem não for louco a ponto de querer se precipitar num retrocesso involutivo, abusando

para o mal, na direção do AS, daquelas condições favoráveis que o impulsionam para o bem, em direção ao S, e dilapidando assim o fruto da laboriosa maturação dos milênios passados. ◘◘◘ Ainda com relação a este fenômeno que a evolução está amadurecendo agora, observemos os seus elementos, a sua técnica e a lógica que a vida usa para desenvolvê-los. Falamos anteriormente do culto da posse e da sua correlativa forma mental. É precisamente neste aspecto que a nova forma mental transformará o homem do futuro. É natural que ele, passando a uma fase mais avançada de evolução, mude também o seu modo de conceber a vida, segundo o seu modo de viver e funcionar. Observemos como o homem está se preparando para entrar nesta sua mais avançada fase de evolução e a que novo modo de existência está se encaminhando. A transformação evolutiva que está amadurecendo na estrutura da massa humana, em grande parte ainda amorfa, consiste em levá-la cada vez mais para o estado orgânico. Mais exatamente, esta transformação consiste em se passar do atual e ainda vigente estado ou modo de existir, de tipo individualista-separatista, a um outro, contrário, de tipo orgânico-colaboracionista. Independentemente do comunismo e fora da sua zona de influência no mundo, hoje se afirma cada vez mais uma tendência geral à socialização. O comunismo nada mais é do que apenas um aspecto da expressão mais ousada, ativa e evidente deste fenômeno que assalta toda a humanidade: o socialismo. Tratase de um fato que se encontra por toda a parte, mesmo em terreno politicamente oposto, envolvendo profundas mudanças no modo de conceber e colocar os problemas, de agir, de regular as relações entre os vários elementos da coletividade, enquadrando-os numa nova ordem. Pode-se, portanto, verdadeiramente falar de transformação evolutiva e de fenômeno biológico. Assim o comunismo, mais do que um consciente iniciador, seria só um instintivo seguidor, obediente realizador das leis da vida, as únicas que sabem onde a humanidade deve chegar e que, portanto, verdadeiramente dirigem a história. Trata-se de passar de fato a uma nova forma de vida, coletiva e inteligentemente organizada, isto é, a um modo de viver mais completo, complexo e perfeito, como é o estado orgânico. Quem entende o significado da atual tendência da humanidade à coletivização, compreende tratar-se de uma transformação profunda, que, transcendendo o problema político e ideológico, assume a importância de conquista de uma nova posição biológica, situada numa mais avançada fase de evolução. É natural que tal transformação, atuando em profundidade, seja também psicológica e se estenda a vários setores da atividade e da natureza humana. Também é natural que o instituto da propriedade, baseado ainda sobre o velho modelo social individualista-separatista, ressinta-se deste novo modo de conceber a vida coletiva. Como reação ao antigo sistema, em razão da nova maturação evolutiva, explica-se a universal tendência, mesmo nos países capitalistas, a limitar cada vez mais o conceito individualista-separatista de propriedade absoluta, através de uma progressiva restrição dos seus abusos, permitidos pelo princípio atávico de poder ilimitado do dono. No caso extremo do comunismo, o ataque é frontal, visando destruir definitivamente o próprio instituto da propriedade. Nos países capitalistas, ela é atacada em forma mais moderada, por sucessivas aproximações, não para destruí-la, mas para discipliná-la. Acontece, então, que a antiga forma absoluta, submetida a este processo de cerceamento, limitação e condicionamento, vai sendo lentamente corroída. A propriedade da fase individualista-separatista não pode sobreviver nesta nova fase de evolução, a não ser transformando-se num tipo de propriedade orgânico-colaboracionista, porque toda a sociedade humana está se transformando neste sentido e todas as suas manifestações devem seguir o ritmo da evolução, que tu-

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do arrasta consigo. Assim, vai desaparecendo o conceito de propriedade exclusivista-absolutista, que se atualiza paralelamente com tudo o mais, tornando-se assim cada vez menos abuso de egoísmos e sempre mais função social. Se bem que em diferentes graus, este fenômeno universal de assalto destrutivo ou de limitação da propriedade tem um significado próprio. Ele nasceu e justifica-se como reação aos abusos que se fizeram dela no passado. A humanidade, havendo amadurecido por evolução, agora consegue vê-los e não está mais disposta a suportá-los. É necessário compreender que a evolução, avançando em direção a um estado mais perfeito que o anterior, tem a função de polir o passado. Assim, para tornar possível a ascensão, é necessário a propriedade se tornar livre de todas as superestruturas que a desviaram de sua finalidade e das incrustações parasitárias que se ergueram por sobre as suas culpas e defeitos, condição esta verificada numa intensidade proporcional ao abuso que degenerou a instituição. Então combate-se uma instituição que, por ter sido corrompida, acabou tornando-se prejudicial, o que significa procurar matar o enfermo, para libertar-se da doença. Sucedeu o mesmo com o assalto violento do ateísmo contra as religiões. A culpa está no abuso cometido por elas em nome de Deus. No caso do comunismo, o ataque contra a propriedade e, portanto, contra quem detém a posse, é violento em razão da total resistência da parte oposta. É isto o que obriga a evolução, cuja ação ninguém consegue deter, a usar a força para progredir, quando esta se torna necessária para avançar. Neste caso, o motivo da violência está na resistência do passado, que não quer renovar-se, razão pela qual, para dar o salto à frente, a história deve periodicamente recorrer às revoluções. Se elas acontecem, é porque são úteis à vida, que de outra maneira não as produziria. E pode-se ver como elas são úteis ao progresso, ainda que isso se verifique muito tempo depois. Ninguém admite hoje que seria um bem regressar ao regime anterior à revolução francesa ou ao poder temporal dos papas. Mas quem podia condenar naqueles tempos tais regimes? Por isso o ocidente capitalista vai acompanhando, se bem que lentamente e de longe, o extremismo reformador do comunismo. Pode-se entender também o fenômeno num sentido completamente diferente do político, vendo-o como um instrumento nas mãos de Deus (traduzindo para o cético: meio com o qual se realiza o pensamento e a vontade da evolução), utilizado para realizar os supremos fins da vida, quando não existe outro meio a não ser a destruição. Só por ignorância pode-se chegar a crer que aos interesses egoístas de um grupo ou classe social seja permitido, num universo em que tudo está regulado, deter o movimento ascensional da humanidade. E hoje isto se tem verificado com particular intensidade. As transformações citadas acima não podem ser consideradas como um fenômeno isolado, pois arrastam consigo, envolvido na mesma corrente, tudo o que, encontrando-se próximo, seja paralelo, afim ou influenciável de qualquer modo. Tudo está conexo e repercute, comunicando-se pelas vias físicas, dinâmicas e espirituais do universo. Eis então que o vigente método de luta pela sobrevivência se ressente destas deslocações. Até agora, ele se baseava sobre a posse dos bens, ligando-se à conquista, defesa e conservação deles. Tudo isto, com a evolução do conceito de propriedade, acaba por se transformar. É certo que permanece a fundamental necessidade de se procurar os meios de subsistência. Mas, agora, tal problema deve ser resolvido por outras vias. Se, no passado, as bases da vida se apoiavam na propriedade, o que implicava numa perpétua luta contra os excluídos, ávidos de apossar-se, porque ser dono significava tudo, numa nova fase elas se apoiarão sobre a capacidade e o dever do indivíduo de produzir para a coletividade e no seu correspondente direito, implícito na fase orgânicocolaboracionista, de receber daquela sociedade a defesa e a ajuda necessária para sobreviver, como justa recompensa do

trabalho realizado para vantagem dela. Surge assim, favorecido pelo tecnicismo, um conceito novo: a valorização do trabalho, que se substitui ao valor da propriedade. A produtividade toma o lugar e assume a função que a posse realizava anteriormente. Tudo isto sacode a vida humana da sua posição estática e a dinamiza, exaltando a função criadora em vez da conservadora. Tudo isto significa um método diverso de enfrentar e resolver o problema da existência, de procurar os meios de subsistência, de conduzir a luta pela vida. Esta transformação fixa na raça dois importantes conceitos: a necessidade de trabalho para todos e, em paralelo, a necessidade da previdência social. Veremos, também, que a transformação se torna cada vez mais vasta, invadindo outros aspectos da vida. Valorização do trabalho significa valorização do homem, agora dinamizado e, com isto, elevado a uma nova potência e mais alta dignidade. Criando com a sua atividade e inteligência, ele passa agora da sua precedente posição de servo das coisas possuídas, máximo valor do passado, ao qual ele tinha que se subordinar, para dominador delas, reduzidas nas suas mãos a um instrumento criador. Tudo isso significa que esses meios, que chamamos propriedade e riqueza, deverão ser, para o homem futuro, de tipo diferente, porque o valor não será medido pelas posses, mas sim pelas qualidades pessoais e pela capacidade de produção, baseando-se não na obtenção de bens através do trabalho dos outros, mas sim no rendimento da própria habilidade e atividade. Então o indivíduo não valerá por ser proprietário de terras e capitais, mas sim porque possui um cérebro, um conhecimento, uma consciência e uma grande vontade de trabalhar. Eis o conceito novo que leva o elemento humano ao primeiro plano. De tudo isto se vê quão profunda, importante e plena de consequências é a atual transformação evolutiva. Muda completamente a unidade de medida e o ponto de referência em função dos quais se julga o indivíduo e se estabelece o seu valor. Ele não vale por aquilo que possui, mas pelo que sabe fazer; não vale pela sua riqueza, mas pelas suas qualidades; não vale em relação à propriedade, mas em relação ao seu trabalho e à sua produção. É natural que cada transformação evolutiva, deslocando a posição do ser para um outro nível ao longo da escala da evolução, traga consigo também uma deslocação na posição dos termos da escala de valores. Trata-se de um verdadeiro avanço biológico, porquanto nasce um valor novo: o homem, anteriormente em estado de germe. Tal valor substitui aquele tradicional, constituído pelos bens possuídos. Assim, o homem consegue libertar-se da escravidão das coisas, das quais dependia como de um valor máximo, para transformar-se ele mesmo neste valor. Como se vê, a revolução é profunda, porque chega às raízes da personalidade humana, mudando a sua forma mental, ao mesmo tempo em que desloca as bases econômicas sobre as quais se apoia a estrutura da sociedade e a atual técnica da luta pela vida. Esta transformação traz consigo outras consequências. O instituto da propriedade, historicamente, representa uma posterior legalização, para estabelecer juridicamente a favor do proprietário um aleatório estado de fato ou de posse, formado no início, fora de qualquer lei, por um livre ato de apropriação. É natural, portanto, que quantos tenham ficado excluídos de tal conquista, não compartilhando de suas vantagens, venham a repetir o mesmo ato, com o mesmo método, em prejuízo de quem o realizou primeiramente. Eis como surgem os ladrões e a necessidade de uma propriedade armada em contínua defesa contra eles. Eis que furto e propriedade são duas forças opostas que se equilibram no seio do mesmo fenômeno. Uma implica na outra e a leva consigo, fazendo, assim que surge, nascer a oposta, porque ambas fazem parte do mesmo regime e se apoiam sobre a mesma forma mental da avidez egoísta, seguindo sempre inseparáveis. Proprietário e ladrão, no fundo, são como dois cães à volta do mesmo osso. O primeiro luta para continuar sendo dono. Esta

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é a substância das defesas jurídicas. E o segundo luta para se tornar dono. Esta é a substância dos assaltos, manifestando-se em pequena escala, com o furto, e em grande, com as revoluções. Eis que, para transformar este segundo termo num outro, eliminando-o nesta sua forma, é necessário transformar também o primeiro termo, porque, enquanto este continuar sendo o que é hoje, ele não poderá separar-se de seu fiel companheiro. Ora, sucede que a atual transformação evolutiva procura justamente transformar aquele regime num outro, de tipo diferente, o que leva implicitamente à eliminação de todas as consequências do primeiro. Esta dissertação não teria sentido, se existisse uma propriedade verdadeiramente justa, exclusivamente fruto de trabalho e economia. Tal tipo também pode existir, mas em pequena escala, pois não é certamente com este método que se fazem as riquezas. Eis que, para os males atuais, não existe outro remédio senão uma mudança de método, e isto é o que se está preparando hoje. É certo que, caso se queira obter paz, libertando-se do furto e das revoluções, será necessário chegar a um acordo entre quem tem e quem não tem. Enquanto não for assim, o que não tem andará a caça do que tem, e este, por sua vez, deverá viver armado em seu castelo. Esta é a luta entre comunismo e capitalismo. Não estamos aqui tomando partido por nenhum programa político. Isto é só uma constatação imparcial do funcionamento das leis da vida e das inevitáveis consequências do tipo de forma mental que dirige o atual animal humano. Dia virá em que o conteúdo do “meu” será diferente, quando ele já não será o que possuo como tesouro acumulado, mas sim o que sei fazer, o que possuo como proprietário da minha própria capacidade de produzir. Neste dia cairão automaticamente as ameaças que hoje pesam sobre a propriedade. Este novo tipo de propriedade será, assim, inerente à pessoa, e ninguém poderá roubála, nem por furto nem por revolução. Os ladrões jamais poderão levar as nossas qualidades pessoais. Esta transformação pode levar a consequências ainda mais vastas. Superada a fase do regime separatista do “meu” e do “teu”, acaba por cessar o estado de guerra que dela deriva. Tal estado, tanto para os indivíduos como para as nações, é a inevitável consequência de uma propriedade nascida da posse e utilizada com fins exclusivistas, gerando assim a classe dos esfomeados, prontos ao assalto. Todos os momentos de cada fenômeno estão conexos, um contido em germe no outro, com todas as suas consequências. Com os referidos problemas está conexo também a questão da multiplicação não controlada, sobre a qual voltaremos mais adiante. Até hoje, a vida foi induzida à conquista com o método da multiplicação das massas humanas, lançando-as ao assalto dos povos mais ricos. É assim que propriedade e reprodução são fenômenos interdependentes, porque a segunda leva à necessidade de conquista de um espaço vital à custa da primeira, enquanto esta, representando os meios para a existência, estabelece os limites da segunda. Numa sociedade civil e organizada, estes fenômenos deveriam ser inteligentemente regulados, e não deixados ao arbítrio dos inconscientes. As guerras, com as destruições e dores que custam, não poderão ser eliminadas, enquanto a causa primária não for eliminada. Vivemos num mundo de leis, constituído por uma engrenagem de causas e efeitos, de onde não se pode sair. Cada tentativa neste sentido é um erro pelo qual se paga. A liberdade que conduz para fora da ordem, violando os equilíbrios da vida em prejuízo dos outros, não pode levar a uma conquista, mas somente à reação do ofendido, trazendo não a vitória, mas sim a guerra. Por que isto? Parece um destino maléfico, que persegue o homem desde que ele apareceu sobre a Terra. É a sua posição ainda de involuído, devido ao seu baixo grau de evolução, que o prende dentro da prisão do seu estreito egoísmo, ligando-o assim a uma forma mental que, perseguindo-o como uma condenação, coloca-o em luta com todos. A causa primária es-

tá nesta forma mental atrasada da natureza humana; está no fato de não ter o homem ainda sabido evoluir até ao ponto de formar uma consciência coletiva, que o leve a disciplinar-se numa ordem na qual todos possam espontaneamente colaborar em paz, para o proveito comum. Mas por que o involuído é egoísta e possui semelhante forma mental, causa de tantos dos seus males? A razão para isto tem uma raiz mais profunda. O ser, devido à sua revolta, é um decaído, mergulhado na cisão. Do originário estado orgânico unitário, ele, no início dos tempos, emborcou-se e fragmentou-se no separatismo, condição na qual permanecerá, enquanto não conseguir, evoluindo, reconstruir-se naquele estado de origem. A vida, chegando com a humanidade ao mais alto nível evolutivo do planeta, está agora tentando os seus primeiros passos para se reaproximar da reconstrução daquele estado originário. Eis o mais remoto e profundo significado do coletivismo hoje na moda, visto em função das grandes transformações desejadas pela evolução. Por isso a hora presente toma esta direção no desenvolvimento da história, e por isso também este é o trabalho que agora cabe ao homem realizar, para passar a um grau de civilização mais avançada. Eis, assim, não somente as razões da condenação à luta pela vida e às guerras entre os povos, mas também o seu remédio. Só a evolução pode nos libertar dos trabalhos forçados de tal tipo de existência, inerente aos involuídos. A vida terrestre já conhece este tipo de vida organizada, porque realizou os seus primeiros esboços nas colônias de insetos (abelhas, formigas) e, num grau bem mais elevado, nas colônias de células (organismo humano). Nelas, nenhum elemento se levanta contra o outro, estando todos espontaneamente ligados por um egoísmo coletivo unitário, e não individual separatista. Hoje, assistimos ao início de um processo unificador da humanidade, o qual implica na formação de um biótipo funcionando com outra forma mental, que leva a atuar e a viver de modo diferente. Tal unificação, portanto, é o resultado de uma coletivização decorrente da convicção do ser, no sentido de formar parte de um novo sistema, o que implica naturalmente a abolição das revoluções e das guerras. Novo biótipo, nova forma mental, nova concepção da vida e nova maneira de se comportar, estas são as sucessivas mudanças, ligadas em cadeia, que poderão levar a uma nova civilização, feita para perdurar, fixando-se na raça humana. A evolução, no passado, deu prova de saber realizar transformações bem mais profundas. Com ela, tudo pode gradualmente mudar. O homem se civiliza, tornando-se mais inteligente e menos feroz. A atividade humana, de tipo cada vez mais pacífico e menos guerreiro, torna-se mais produtiva, de modo que os novos cérebros conseguirão compreender quão prejudicial é para todos o método da agressividade. De resto, está na lógica de todo o processo evolutivo que se deva realizar um passo mais em frente, na obra de reordenação que vai do AS ao S. A vida segue vias utilitárias, e o ser aceita o que lhe traz vantagem. Na prática, não há quem deixe de ver a conveniência concreta de dirigir as próprias energias no sentido da produção de bens, em vez do tormentoso esforço destrutivo das guerras. Com o novo método, a vida se torna muito mais rica, além de ficar mais bem defendida, e isto com muito menor desperdício de energias do que com o velho método ainda vigente. Não se poderá fugir à compreensão da facilidade que é resolver o tremendo problema da sobrevivência através do desenvolvimento da inteligência, aplicada como meio pacífico de produção, e não como instrumento de furto e agressão. É precisamente por estas vias que a evolução tende a levar o ser em direção a contínuos melhoramentos, reabsorvendo a dor e criando a felicidade. Observemos agora um outro aspecto desta tendência à unificação do fenômeno evolutivo. É incontestável, hoje, que o aprofundamento do conhecimento leva à especialização. E pode parecer que tal método conduz à separação, e não à unifica-

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ção. Ele se fraciona, porque permite a cada um se aperfeiçoar no próprio ramo, oferecendo assim a possibilidade de realizar um trabalho melhor dentro da própria capacidade e função. No entanto a especialização oferece o perigo de um afastamento e, portanto, de isolamento de cada cérebro especializado. Então, para não se acabar no caos de uma Torre de Babel, surge uma necessidade paralela de coordená-los, a fim de se poder atingir o estado de colaboracionismo que a vida aspira, próprio da fase orgânica. Se a vida não corrigisse, com um equivalente impulso unificador, o impulso divisionista da especialização, o resultado não seria construtivo, mas sim desagregante, e a evolução, ao invés de avançar para a unificação, retrocederia para o separatismo. Mas a tendência unificadora é mais forte do que o impulso separatista e, por isso, está destinada a vencer. Nós a vemos manifestar-se na formação das grandes unidades políticas no mundo, agora já reduzidas apenas a duas principais, que um dia deverão acabar por formar uma só. É assim que, junto com a compensadora tendência à unificação, sente-se hoje a necessidade de uma síntese universal orientadora. Até as religiões procuram aproximar-se através do diálogo, para chegar a uma compreensão unificadora. Devido à evolução, nada pode deixar de se dirigir à unificação. Isto se deve, conforme já explicamos em outro lugar 1, ao princípio das unidades coletivas, pelo qual os elementos, em vez de se separarem com a especialização das suas funções, são retomados no círculo de organizações cada vez mais vastas, que incluem as unidades componentes menores, escalonadas por grandeza e complexidade ao longo do caminho da evolução. Eis que a crescente diversidade à qual o aperfeiçoamento conduz acaba por se tornar um elemento não de cisão, mas sim de unificação, porque demanda uma contínua integração, que funde todos e cada um dos elementos componentes. Vemos que a vida utiliza este método de aproximação colaboracionista, tendendo ao que se poderia chamar de simbiose universal. Os elementos constitutivos do átomo se fundem dentro dele num sistema; a seguir, os átomos se juntam em outros sistemas mais complexos, formando as combinações químicas dos corpos; as moléculas, por sua vez, coordenam-se no sistema celular, enquanto as células se unem umas às outras, para, funcionando em conjunto, formarem órgãos e organismos. Estas já tão complexas unidades coletivas são os primeiros elementos constitutivos de unidades ainda mais vastas. Assim, no homem, a união de indivíduos faz a família, depois o grupo familiar, a cidade, o partido, a nação, a raça e, por fim, a humanidade. É lógico pensar que o processo unificador não pode deter-se neste ponto, devendo continuar com uma união de todas as humanidades, até chegar a um estado orgânico unificador de todas as formas de existência do universo. Temos observado por quantos caminhos a evolução humana está hoje amadurecendo. Cada desenvolvimento está conectado com outro, provocando-o ou sendo por ele condicionado. O fenômeno básico é uma transformação do biótipo humano, o qual agora evolui no tocante às qualidades cerebrais, significando isto a transformação da sua forma mental, ou seja, do seu modo de conceber a vida, de resolver os problemas e, em consequência, de orientar sua ação, que será mais inteligente, pacífica e eficiente. Agora, a evolução não é mais orgânica, concernente apenas às formas, pois atingiu com o homem o seu mais alto nível, começando a se tornar de tipo espiritual. O amadurecimento se faz cada vez mais profundo; penetra no interior, em direção à substância do existir; atua internamente, nas raízes do ser; assalta os órgãos diretivos; tudo isto para que, depois, o próprio homem venha a projetar os resultados no exterior, com a sua ação, realizando o seu pensamento no plano concreto. Disto nasce, en1

V. A Nova Civilização do Terceiro Milênio – Cap. V. “As Grandes Unidades Coletivas”. (N. da E.)

tão, uma transformação do ambiente, que passa a oferecer condições de vida diferentes, as quais permitem por sua vez uma evolução mais avançada. Assim nasceu a ciência e, como consequência desta, a técnica, que facilita a produção de bens e enriquece o homem, libertando-o das duras necessidades materiais e do estado de luta feroz para sobreviver. A técnica produziu os utilíssimos meios de comunicação, para aproximar os elementos distantes e mantê-los em contato, sem o que não é possível chegar à compreensão recíproca, à colaboração e, por fim, ao estado orgânico unitário. Quantos gênios, no passado, realizaram esforços desesperados nesta direção evolucionista, mas não tiveram sucesso, porque lhes faltavam os numerosos meios que a técnica oferece! Só hoje se começa a compreender a possibilidade de uma civilização mundial única, porque foram abertas todas as estradas do mundo, o que significa circulação e comunicação não só de mercadorias e pessoas, mas também de pensamento. Hoje busca-se concretizar os ideais de unificação, com a fusão econômica de vários Estados, coisa anteriormente inconcebível. É a evolução que exerce pressão para romper as portas do separatismo. E, da mesma forma que escancarou as portas e derrubou os muros que fechavam as cidades medievais, ela hoje destrói alfândegas, limites, nacionalismos e racismos separatistas, para se aproximar cada vez mais da fusão num só organismo. Vemos, então, que também o progresso da mecânica pode ser útil ao desenvolvimento do pensamento. Então as coisas mais díspares, aparentemente distantes, acabam por convergir e cooperar para o mesmo fim. O progresso da medicina e o conhecimento das leis da vida poderão permitir ao homem tomar a direção do fenômeno da evolução biológica do planeta, o que é indispensável numa humanidade que atingiu o estado orgânico. Em tal regime de ordem, não será admissível uma multiplicação descontrolada, que desconsidere as imensas consequências demográficas, econômicas e sociais. Uma sociedade orgânica será, em cada um dos seus elementos, responsável pelas consequências de cada ato, e nada será abandonado à liberdade dos inconscientes. Então serão isolados, como elementos de desordem, todos que, dando nascimento desordenado a novos seres, atentam contra a ordem coletiva; serão considerados como uma fonte de perigo social todos que procurem lançar no seio da coletividade – a qual terá depois de suportar o seu peso, arrastando-os – loucos, doentes, incapazes, esfaimados, desviados ou criminosos, estes últimos prontos a conquistar a vida para si, assaltando o próximo. Uma vida melhor não poderá ser alcançada senão numa posição de ordem, de previdência e de disciplina. Nestas novas condições de vida, muitos conceitos mudarão. Assim como o conceito de propriedade passará cada vez mais do sentido de exploração egoísta ao de função mais no interesse coletivo do que individual, também o conceito de autoridade passará cada vez mais do sentido de posição de domínio, sempre em vantagem de quem a detém, ao de função social, como serviço a favor da coletividade. Trata-se de alterações interiores profundas, de convicções e forma mental, com importantes consequências no funcionamento da organização social. Dessa forma, o princípio de autoridade, nascida como opressão escravagista, transforma-se em benéfica potência diretora e protetora da vida. A relação de tais transformações poderia continuar com as diversas alterações delas decorrentes. É toda uma frente de amadurecimento que avança, cuja base está na maturação evolutiva do biótipo humano, da sua mente e da sua capacidade de compreender, que dirige a sua atividade criadora e representa o centro genético das suas obras. É esta maturação, associada à ciência dela derivada, que levará ao completo domínio das forças da natureza. Isto significa não só potencialização e valorização do trabalho que o homem realiza, mas também um avanço em direção a um tipo de trabalho de técnica especializada,

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que exige uma cultura prévia e, portanto, implica um processo de intelectualização, porquanto a atividade se transfere do plano do esforço físico do servo ao plano da função mental do dirigente. Mas este novo tipo de vida não será possível senão no seio de uma nova civilização, que possa, através da sua organização, deixar o indivíduo livre do assalto das necessidades materiais, às quais hoje tudo se encontra subordinado, permitindolhe dedicar-se a coisas mais elevadas do que a procura pelo dinheiro, cuja obtenção se impõe atualmente como finalidade principal de toda a sua atividade. Isto será facilitado pelo fato de, no estado orgânico, estar implícita a existência de uma nova função social, através da qual a coletividade se converte em protetora do indivíduo, até agora abandonado às suas próprias forças e em luta contra os seus semelhantes. Esta função de proteção, até hoje, coube somente ao grupo e dirigiu-se apenas em favor dos próprios componentes, enquanto cada grupo luta contra os demais. Deste sistema medieval, primitivo e separatista, de castelos armados sempre em guerra entre si, sejam partidos políticos, religiões, coligações de interesses, nações etc., passar-se-á ao já mencionado princípio das unidades coletivas, através de sucessivos reagrupamentos cada vez maiores, até ao máximo, que os abraçará a todos, fundidos dentro da mesma unidade: a humanidade. Então, ao invés de luta entre indivíduos que se conhecem somente em termos de rivalidade, cada qual indiferente aos problemas dos outros, chegar-se-á, pelo contrário, à colaboração entre todos, para que sejam resolvidas as questões. O progressivo aumento das previdências sociais em todos os países do mundo e em todos os setores da vida humana expressa o desenvolvimento deste fenômeno. Tudo isto manifesta a fase de superação em que o mundo se encontra hoje, através da qual ele é levado em direção a um desenvolvimento mental capaz de conduzi-lo à espiritualização no mais vasto sentido, porquanto qualquer capacidade de caráter mental representa sempre um valor superior à de tipo físico, guerreiro e material, ultrapassando aquele velho estilo ainda tão apreciado em nosso mundo. Também a ciência é conhecimento e, por isso, não pode deixar de conduzir à consciência e ao progresso em direção ao espírito. É para este tipo de progresso que se move a evolução. Tudo que é atividade de intelecto é vida no seu mais alto grau de desenvolvimento. O fato de máquinas substituírem o trabalho muscular, levando assim a passar da atividade física às funções nervosas e cerebrais, representa, pelas suas consequências, uma transformação de alcance biológico. Agora, o maior problema da vida, que é assegurar a sua continuação, será resolvido com base somente na inteligência, e não na violência. A consequência será a formação de um novo biótipo, espiritualizado no mais vasto sentido, fruto destas novas condições de existência. É assim que do involuído poderá nascer o evoluído, do animal humano do passado poderá nascer o verdadeiro homem. Não é possível aqui passar em revista todos os momentos desta complexa maturação. Podemos apenas concluir que este quadro confirma a existência de uma curva no caminho da evolução, na qual se dá a passagem de uma era para outra, através de um processo de maturação, cujo momento crítico chegou. Ele tende à formação de um tipo humano mais evoluído, que será o elemento constituinte de uma nova civilização, baseada sobre outros princípios, alcançados com uma outra forma mental. Quem tem olhos para ver e cérebro para pensar compreende que estamos num momento crucial e decisivo, de tremendo esforço, grave perigo e excepcional potência criadora. A nossa época parece de destruição, mas representa o trabalho necessário de limpeza do terreno, sem o que não se pode reconstruir. Para a vida poder desenvolver-se em novas formas, mais avançadas, é necessário ela se libertar das coisas velhas, que ocupam o espaço disponível e a impedem. Cada século deve criar algo próprio, segundo suas mais di-

versas capacidades e de acordo com as possibilidades do momento histórico. Mesmo nos períodos de decadência, a vida consegue criar algo, ainda que seja um fruto corrompido por demasiada maturação. Hoje estamos em decadência, mas apenas como imprescindível função de eliminação do passado. Sob este terreno coberto de despojos, ferve e está despontando um mundo novo. Compete a nós fazê-lo nascer. Somos nós, seres viventes, que incorporamos as forças da vida em ação. Nós, humanos, somos os construtores de nosso destino. A vida é uma inteligência que pensa e dirige, e não apenas uma abstração fora da realidade. Mas ela também é vontade de realização, cuja concretização se realiza através do homem, que se torna o seu braço executor. Em épocas mais avançadas, um homem mais evoluído compreenderá e realizará esta íntima colaboração entre a grande inteligência que dirige o funcionamento do universo e a sua pequena inteligência, que serve de operário inteligente. O atual esforço criador para gerar a nova civilização cabe a nós, e dele devemos ser instrumentos heroicos, numa nova época de conquistas sobre-humanas. Neste momento, como em todas as horas apocalípticas, as grandes diretivas estão nas mãos de Deus, enquanto o trabalho pequeno da execução está nas mãos do homem. A ele caberá o esforço, a luta e o perigo, para que seja merecido e lhe pertença o resultado. ◘◘◘ Agora que falamos da expectativa de tão esplêndido desenvolvimento, mudemos em relação a ele o ponto de vista, para olhar não o futuro do mundo, mas sim o presente. Damo-nos por ventura conta do atual tipo biológico e de quais as condições de ambiente a que tudo isto deve ser aplicado? Certamente, o involuído atual, dada a sua natureza, não está, de modo algum, pronto a dar de imediato tão grande salto para frente. Sem dúvida, o tecnicismo transformará o ambiente terrestre e as condições de vida do homem, produzindo depois profundas alterações também em sua natureza. Mas quanto tempo será necessário para que tudo isto possa tornar-se realidade? Falar hoje em abundância de meios e de um tipo de trabalho intelectual superior em países subdesenvolvidos, onde se morre de fome e reina o analfabetismo, pode parecer uma trágica mentira e um insulto à miséria. No entanto o progresso, com o ritmo alcançado hoje, deverá chegar até lá, levando o mundo todo a este nível. Tendo em vista este fato, agora que observamos o fenômeno com uma ampla perspectiva futura, em relação aos seus desenvolvimentos longínquos, procuremos então compreendê-lo também segundo uma perspectiva mais específica, em relação aos seus desenvolvimentos mais próximos, num futuro mais imediato, tendo em conta, sobretudo, o homem atual e a imensa distância que o separa de tais conquistas. Que valor têm na Terra as coisas superiores do espírito? Em nosso mundo, o ideal pode existir somente enquanto pode ser explorado. Mas isto, neste nível, é justo, porque, antes de pensar em evoluir, é necessário assegurar a continuação da vida. Só quando estiver garantido o necessário para resolver este problema, será possível enfrentar outros, mais altos. Quem é assaltado pela fome não pode ocupar-se de cultura e espiritualidade. De fato, debaixo de toda e qualquer pregação de ideal, a realidade que existe é a feroz luta pela vida, que, em nosso nível, representa a mais profunda verdade. Tributa-se grande admiração e veneração pelos valores espirituais, mas apenas em teoria, pois, na prática, apreciam-se e buscam-se de fato os valores materiais. Utilizam-se os ideais então para outros fins, como, por exemplo, constituir um rebanho bom e manso, sujeito, assim, à obediência, para ser ordenhado, como é função dos pastores fazer. Este é o ambiente no qual o involuído se encontra à vontade, pois é proporcional aos seus instintos e necessidades. Quando o involuído tropeça com os ideais, que, pregados aos quatro ventos, não lhe servem para nada em sua vida terrena, qual opção pode tomar, senão tratar de utilizá-los como instru-

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mentos para sobreviver na luta pela existência? Um selvagem que encontrasse um aparelho de televisão não saberia utilizá-lo senão como uma caixa comum, para colocar dentro o que lhe pudesse servir, porque mais não compreenderia. Assim a exploração dos ideais por parte do involuído não é mentira, porque ele não pode compreender-lhes o significado. Ele não tem margem para coisas que não lhe servem para viver na Terra, seu problema premente de cada minuto. Exigir que, em tais condições, ele se ponha a evoluir, lutando pelos ideais, enquanto tem de lutar por coisas bem mais urgentes, representa um atentado à sua vida, sendo natural então que ele se defenda como pode. Tudo o que lhe vem à mão ele deve utilizar para sobreviver num mundo hostil, que não admite sonhos. O evoluído se rebela contra o que julga prostituição, mas, por olhar para o céu, é considerado um tonto pelo involuído, pois arruína-se na terra. O antecipador do futuro, por mais nobre que seja sua ação, é julgado um inepto por quem busca primeiro resolver o problema de viver no presente. Quem, para sobreviver, necessita primeiramente das coisas concretas que servem ao corpo, não sabe o que fazer dos maiores valores do espírito. Nas duras condições de luta do ambiente terrestre, quem esquece este fato e, em vez de cuidar dos reais problemas da vida prática, perdese, indo atrás do espírito, é um louco que procura a morte. É assim que, na Terra, reino dos involuídos, está tacitamente convencionado que o ideal deve ser explorado para fins materiais, porque para outra coisa ele não pode servir. Depois de haver projetado neste quadro as condições espirituais de nosso mundo e ter visto como ele está ainda submerso no seu baixo nível evolutivo, não estando preparado para um salto de improviso à frente, perguntamo-nos se agora, que a técnica poderá permitir uma abundância de bens, menor trabalho e mais tempo livre, bastará isto para tornar possível o involuído compreender o valor dos ideais? Será tal condição suficiente para que ele sinta o gosto das coisas superiores do espírito e mude a sua forma mental, assumindo uma nova, que o induza a praticar um tipo de esforço totalmente diferente, dirigido a conquistas que até agora tão pouco interessam? O profundo instinto do atual subconsciente humano se formou como consequência das ferozes condições do ambiente em que o homem teve de viver no passado, sendo produto delas. Se tais condições mudam, certamente aquele subconsciente vai-se adaptando a elas, experimentando e aprendendo. Mas, para se adaptar à nova situação, assimilar a mudança e se transformar definitivamente, até fazer de tudo isto qualidades e instinto próprios, é necessário muito tempo. Deve-se formar uma nova simbiose com o ambiente, um novo tipo de convivência mútua. Se tomarmos um tosco aldeão e o colocarmos num trono, poderá ele tornar-se um senhor requintado? E quanto tempo será necessário para que isso possa acontecer? Não basta enriquecer um primitivo para que ele possa de repente transformar-se num ser civilizado. O primeiro uso que ele vai fazer da riqueza será desperdiçá-la em disparates. Antes que possa aprender a atuar de maneira diferente, ele deverá atravessar e assimilar novas experiências, entregando-se a abusos e pagando as suas consequências, até aprender, à sua custa, a saber fazer sábio uso dos novos meios. Como pode conhecer os perigos da riqueza e abundância quem não provou senão as duras consequências da miséria? É justamente a experiência que nos permite reconhecer o erro, tão logo incidamos nele. Mas como se pode, na primeira vez, reconhecê-lo e nele não cair, quando ainda não foram provadas as suas tristes consequências, sobretudo por ele se apresentar como salutar correção do erro oposto, cujos duros efeitos já se conhecem? Como fazer compreender a quem suporta as dores da fome a necessidade de evitar as dores que uma indigestão provoca? Vejamos o que sucede, quando se oferece abundância de tempo disponível e de bem-estar a indivíduos não preparados, incapazes de saber se dirigir pela própria disciplina interior. O

regime a que estavam habituados no passado era trabalho forçado e miséria, de maneira que o seu mais alto ideal consistia na supressão destes dois males, para compensá-los em sentido oposto, com ócio, licenciosidade e abundância, buscando em demasia tudo quanto lhes faltava anteriormente. Antes de chegar à mudança, o primitivo se encontra adaptado às suas duras condições de vida, tendo formado para si, com o tempo, uma natureza adequada a elas. Forma-se então, entre indivíduo e ambiente, uma determinada regra de convivência. Ora, quando o valor de um dos dois termos se desloca, nasce um desequilíbrio entre eles, surgindo a necessidade de adaptação para se harmonizarem em novos equilíbrios. Quando o indivíduo vive debaixo de uma determinada pressão, é natural que, se esta for suprimida, salte a mola da reação. Isto é inevitável, e é o que sucede nas revoluções. Para evitar tal consequência, seria necessário manter a pressão ou, melhor ainda, não dar lugar a tal estado de pressão. Uma repentina alteração das condições de vida de indivíduos despreparados para saber utilizá-las bem, não pode deixar de provocar instintivas reações de abuso, tendentes a compensar em primeiro lugar as dolorosas carências precedentes com a imediata realização desse ideal de gozo, por tanto tempo comprimido no subconsciente. Sucede, no entanto, que tais reações, dirigindo-se além de toda e qualquer medida, em sentido não evolutivo, devem ser depois corrigidas, para serem levadas de volta à ordem, com uma reação proporcional ao erro, em termos de sofrimento. O primeiro uso que o involuído poderá fazer do novo bemestar será o abuso. Terminada a compressão forçada da privação, o impulso instintivo saltará para o abuso, indo no sentido oposto, para super saciar-se de tudo aquilo cuja falta antes se sentia, porque era essa a forma de felicidade concebida na condição anterior. Assim o primeiro movimento de um involuído é a procura de uma super-satisfação dos instintos primitivos: gula, orgulho, ócio, sexo etc. É natural que o animal, uma vez livre da pressão que o disciplinava, restitua um impulso no sentido oposto ao que ele estava submetido. O momento seguinte representa a escola que ensina a assimilar os frutos da experiência. Tem-se de suportar os prejuízos que se seguem ao abuso, até se aprender a eliminá-lo. Assim o indivíduo aprende a se autodiciplinar, fazendo sábio uso das coisas. Pouco a pouco, com a regular satisfação, forma-se o hábito, condição que acalma a ansiedade e leva à saciedade. Uma vez atingido este ponto, o impulso inferior em direção ao excesso pode ser eliminado, porque se formam novos equilíbrios. As novas posições se normalizam e a saciedade se torna constante, exigindo sempre menos abuso, o qual vai assim, automaticamente, diminuindo até desaparecer. Então foi aprendida a nova lição, e o indivíduo, superada a oscilação entre carência e excesso, pode deixar de lado o problema, já resolvido, das necessidades materiais e cuidar, através de outras experiências, da solução de problemas mais complexos e da conquista de valores mais altos. Assim a transformação biológica do involuído em evoluído é alcançada gradualmente, através destas oscilações e adaptações sucessivas. Somente quando o indivíduo tiver superado o passado, eliminando suas carências e saciando os seus velhos desejos com uma regular satisfação, poderá nele surgir outro tipo de desejos e a necessidade de satisfazê-los. É assim que, pouco a pouco, emergem primeiramente as aristocracias e, depois, as seguem, subindo de baixo, outras classes sociais, seguindo todos o mesmo caminho ascensional, no qual atravessam o mesmo processo de transformação. Em princípio, a alteração das condições de vida levará, como primeiro efeito, ao desencadeamento dos velhos impulsos até então comprimidos. Uma vez que se lhes ofereceu a possibilidade de se desafogarem livremente, o primeiro resultado não poderá ser outro senão uma satisfação excessiva. Portanto, num primeiro momen-

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A DESCIDA DOS IDEAIS I – Os Pontos Básicos

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to, ao invés da passagem para uma vida superior, teremos, pelo contrário, um reforço da vida inferior. Isto automaticamente leva a outro resultado, que é, primeiramente, ter de suportar as dolorosas consequências do abuso, para depois, através destes sofrimentos, ter de aprender uma autodisciplina e construir uma consciência, elementos básicos para a conquista dos valores espirituais. Estas são as fases do fenômeno. Num primeiro momento, portanto, o processo não resulta em evolução, mas sim num reforço do precedente estado de involução, que não pode ser superado, enquanto o esforço necessário para se libertar dele não for cumprido. Tal esforço é induzido pela dor decorrente do abuso, a qual faz desaparecer toda a satisfação. No previdente jogo de forças que determina o fenômeno, esta satisfação é, automaticamente, levada ao excesso, para que a dor a transforme em insatisfação e, assim, o indivíduo, recebendo um contragolpe, seja levado por ela à superação. Eis que, na economia da evolução, o nascimento espontâneo do abuso tem uma função definida, porquanto conduz a uma inversão de valores, eliminando os velhos e estabelecendo os novos. Sabemos que o sofrimento representa o agente corretivo do erro, tendo a função de endireitar as posições. Somente assim o homem poderá aprender a viver num plano mais elevado. Somente depois de tal série de experiências, a técnica moderna poderá dar fruto em sentido evolutivo. Esta análise nos mostra que, muito provavelmente, o primeiro resultado imediato será um retrocesso involutivo, pois, em princípio, a tendência será usar os novos meios com a velha forma mental, o que levará a uma retomada dos defeitos do passado, potencializada pelos novos poderes. Por exemplo, o primeiro uso que se faz das invenções modernas é com a finalidade de guerra. Quantos estragos serão necessários ainda, até que o homem aprenda a usar tudo isso de um modo melhor? Depois, como acontece com todos os erros, este também será corrigido pela dor, da qual se compreende assim a função e a necessidade. Reabsorvido o erro, o mal ficará neutralizado e o fenômeno se concluirá num progresso evolutivo. Não esperemos, portanto, que o progresso técnico transforme o homem imediatamente e seja, por si só, suficiente para determinar nele o avanço mental, cultural e espiritual de que falamos. O novo bem-estar poderá ser utilizado neste sentido pelos indivíduos maduros, encaminhados já há tempo. Para muitos, porém, ainda involuídos, tal elevação de nível de vida poderá levar primeiramente ao ócio, aos gozos de tipo inferior e aos vícios, desencadeando de novo os desejos inferiores, como um requinte no mal. Quando o centro espiritual de um indivíduo está embaixo, neste nível ficam também as sua manifestações. Não se pode pretender que um primitivo saiba responder diversamente daquilo que ele é, assim como não se fazê-lo utilizar os seus meios com um cérebro diferente daquele que possui. Cada ser, quando se encontra em condições favoráveis ao seu desenvolvimento, somente poderá desenvolver seu próprio tipo, que depois, então, ele adapta às novas condições de vida. Mas, no princípio, ele só poderá crescer e se fortalecer segundo aquilo que já é. Se damos a uma planta venenosa meios para prosperar, isto irá levá-la a se tornar mais potente no seu veneno. Assim, um escorpião, uma serpente ou um macaco, se forem ajudados, irão se tornar cada vez mais escorpião, mais serpente e mais macaco. A construção espiritual, para elevar-se a um mais alto plano de existência, é fenômeno lento e complexo, constituindo uma maturação em profundidade. Para alcançá-la, é necessário lutar, sofrer e vencer. Não basta, para construir o homem, a gratuita ampliação das mais favoráveis condições de vida exterior. A evolução é uma laboriosa conquista, levando em direção à felicidade, que deve ser ganha, para ser merecida. IV. ENCONTRO COM TEILHARD DE CHARDIN

Quando, na vida, encontramos um indivíduo que tem as nossas mesmas ideias e sentimentos e vemos que passou pelas mesmas vicissitudes que passamos, sentimo-nos irresistivelmente atraídos para ele, movidos pelo sentimento de simpatia fraterna. Por este motivo, falo de Teilhard de Chardin. Os pontos de contato são três: 1) As teorias defendidas; 2) Os sofrimentos morais causados pela dolorosa posição de incompreensão e condenação por parte das autoridades religiosas; 3) A paixão pelo Cristo, concebido racionalmente como ponto de convergência da evolução da vida. Observemos os três pontos, para compreender o pensamento e a nobre figura moral deste cientista, filósofo e crente, assim como o significado da sua obra perante a renovação atual do mundo. Este exame poderá nos levar mais além do caso particular, para observações de caráter e interesse geral. 1) As teorias defendidas por Teilhard de Chardin e pelo autor. Em Teilhard encontramos os seguintes conceitos: transformismo, evolucionismo, estrutura orgânica do universo e tendência do ser a alcançar um estado cada vez mais orgânico, de unificação. O homem é um elemento consciente, que, existindo em função de um todo organizado, é destinado a se tornar sempre mais consciente desse todo e dessa organicidade. A evolução é orientada por um íntimo impulso telefinalístico, em direção a um ponto conclusivo: Deus. O fim supremo da existência é a convergência das diversas consciências individuais na consciência única e total do centro Ômega, último momento e fim da evolução: Deus. Teilhard nada mais acrescenta. Mas tudo isto implica e deixa entrever a possibilidade lógica de que este ponto possa ser também o Alfa de todo o processo, que, para ser completo, deve conter ainda a sua contrapartida involutiva precedente, como demonstramos claramente no volume O Sistema . Continuemos, escutando o que nos diz Teilhard. O universo está completamente impregnado de pensamento, que se torna cada vez mais evidente com a evolução da vida, através da crescente complexidade estrutural alcançada desse modo pela matéria. Eis um panpsiquismo que é um pan-espiritualismo e um monismo, mas que, apesar de poder parecê-lo, não é materialista, pois, aqui, o materialismo é impulsionado até se tornar espiritualismo. O condenadíssimo evolucionismo darwiniano não é expulso, mas sim adotado, resultando implícito e logicamente enquadrado neste muito mais vasto evolucionismo, que compreende também o espírito. A função da vida consiste em fazer surgir este espírito, avançando em direção a ele através de um transformismo biológico (o darwiniano), cuja função não é senão servir de veste exterior, como um instrumento de expressão, experimentação e laboração de um outro transformismo mais substancial, de tipo psíquico, escondido na profundidade, que anima a forma. Teilhard intuiu nódoas de consciência incipiente mesmo nos mais ínfimos graus da existência, no plano físico do universo. Para ele, a matéria inorgânica é, antes, uma matéria pré-vivente e, num sentido lato, pré-consciente. A evolução levou esta consciência a se revelar imensamente mais avançada e potente no homem. Ora, dado que a organicidade do todo implica uma lógica, seria absurdo que a evolução se detivesse neste ponto do caminho, sem continuá-lo. Teríamos um processo partido ao meio, que de repente para, sem completar toda a sua trajetória, deixando de alcançar a necessária conclusão, ambas implícitas na lógica do desenvolvimento do próprio fenômeno. E que imensos horizontes nos abre para o futuro o conceito – imprescindível – de um prolongamento do processo evolutivo! Hoje, portanto, um cientista nos confirma que a matéria está

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cheia de vida e a vida cheia de inteligência. Nós acrescentamos, então, que Cristo pode ser proposto à ciência positiva como superbiótipo do futuro, supremo modelo que a raça humana poderá atingir com a evolução, e o Evangelho, como a lei social da unidade coletiva representada pela super-humanidade do futuro. Não obstante as tentativas humanas de conciliação, o Evangelho nos apresenta Cristo e o mundo como dois inimigos inconciliáveis, que, no entanto, devem coexistir na Terra. Mas é necessário compreender o que Cristo entendia por mundo. Isto não quer dizer que Ele seja contrário à vida. Ele se referia a um estado de fato, dado pelo que o mundo – imerso ainda num estado primitivo animal, pleno de egoísmos e lutas ferozes – era e ainda é. Cristo condenava somente esta forma de vida inferior. A inconciliabilidade não se refere a um mundo de evoluídos e civilizados, porquanto Ele quer transformar a forma de vida da humanidade atual justamente num tipo mais avançado, que o Evangelho chama de Reino dos Céus. Com um mundo assim evoluído, Cristo está plenamente de acordo, o que se confirma justamente pelo fato de, nesta condição, a lei do Evangelho se realizar plenamente. Ele veio para nos ensinar qual é este novo modo de viver, dando-nos as normas para isso no Evangelho. Voltando a Teilhard, vemos que ele, orientando-se assim, resolve o dualismo espírito-matéria, segundo o qual a obra de Deus parece encontrar-se dividida num antagonismo entre bem e mal, Deus e Satanás, cisão na qual o cristianismo se debateu durante milênios. Teilhard resolve o conflito em favor do espírito, ao qual ele chega através do materialismo científico, levando-o até às suas mais audazes consequências. Assim, partindo da teoria da evolução, ele a desenvolve até levá-la aos seus mais elevados resultados. Ele não nega a matéria como a ciência a vê, mas acrescenta-lhe o que a ciência ainda não viu: a alma, mostrando o sopro espiritual que explica as suas funções e que, mostrando-nos as suas razões, justifica a sua existência. Assim, a matéria se torna transparente e luminosa de conceito, sendo que, ao invés de significar a negação, é elevada a expressão do pensamento de Deus. Tudo é e continua sendo feito por este pensamento. Isto representa a afirmação racional e a descoberta científica da sua presença em tudo o que existe, demonstrando a imanência de Deus. Fica assim esclarecido o sentido de todo o processo da evolução, numa síntese lógica e harmônica, na qual as verdades provadas pela ciência concordam com os princípios finalísticos da concepção religiosa. Chega-se a uma conciliação dos extremos opostos, a uma fusão orgânica, a uma unificação. Tudo isto pode parecer um materialismo místico, mas também pode constituir as bases científicas do cristianismo, o qual se aproveitaria delas, pois atualmente não as possui, fato que o mantém fora do terreno positivo da ciência. É assim que Teilhard foi julgado por alguns um novo São Tomás, como cristianizador não mais de Aristóteles, e sim de Marx e de Darwin. Poderia deste modo ser sanada a cisão entre ciência e fé, para elas passarem da inimizade à colaboração. Muito teriam elas para dizer uma à outra. Então a fé teria finalmente bases positivas e a ciência poderia ser iluminada e vivificada pelo espírito. O evolucionismo darwiniano permaneceria, mas apenas exteriormente, limitado à forma. Intimamente, ele seria constituído pela evolução de um pensamento nele imanente, estando assim impregnado e orientado para um correspondente e exato telefinalismo. Naquele evolucionismo, até agora entendido materialmente, há lugar de sobra e inclusive existe a necessidade da presença de um centro de pensamento continuamente criador, ou seja, de Deus. Assim, a matéria, de inimiga inerte do espírito, vincula-se, logo nos primeiros graus, ao processo universal da revelação do espírito, verdadeira e fundamental realidade do universo. O homem, no seu nível, faz parte deste processo. Num plano de existência muito mais alto, a evolução se realiza no homem, que não só exprime uma fase do fenômeno, mas é

também arrastado pelo movimento de todo o processo em direção a planos de existência cada vez mais altos. O progresso social revela então a sua mais profunda natureza, que se constitui num processo biológico cuja direção, sobretudo agora, o homem deve assumir, guiando com sua inteligência a evolução. Até hoje, ela se realizou apenas mediante um jogo de determinismos, estabelecidos e impostos pelas leis da natureza. Tratase, agora, não mais de aceitar passivamente a evolução, mas sim de conduzi-la, tornando-nos conscientes dos seus fins, como operários de Deus, para colaborarmos na obra de construção do nosso setor de existência. Então o homem não viverá mais à mercê das leis da natureza, mas sim consciente e responsável, dirigindo o seu próprio destino. Teilhard trata assim de chegar a uma “Nova Teologia”, em que tudo se santifica por meio da universal presença do pensamento de Deus imanente. Chega-se a uma “Santa Evolução”, que corrige o velho criacionismo pueril antropomórfico, não mais adaptado à mente moderna. É um novo evolucionismo, consagrado no altar de Deus. O mundo se move, e mesmo aqueles que não queiram isso têm, forçosamente, de mover-se. O transformismo substitui a velha imobilidade. Podemos ver assim o que há de verdade no panteísmo evolucionista, tão indiscriminadamente condenado. Pode haver algo mais vital do que ver Deus por toda a parte e, através de uma visão evolucionista do universo, não poder concluir senão com a sua espiritualização? Não poderá tudo isto nos conduzir a um cristianismo racionalmente mais aceitável para quem pense, com base num Evangelho mais demonstrado e convincente, levando-nos ao mesmo tempo a uma ciência espiritualizada, mais nobre e santa? Eis a vida levada à sua verdadeira essência. A substância da existência, dada pela estrutura mais íntima do ser, é de natureza psíquica. A vida é pensamento coberto de morfismo. A espiritualidade, base das religiões, é colocada no ápice da evolução. Cristo, então, é um superego que, hoje, é transcendente, mas que, amanhã, será para a raça humana o ponto de chegada, no qual o egoísmo separatista, vigente na luta pela sobrevivência, será substituído pela solidariedade coletiva unitária do amor evangélico universal. Assim, Teilhard nos apresenta uma maravilhosa espiritualização do universo, elevada sobre bases científicas. O Evangelho representa uma transformação das leis biológicas, na qual se dá uma imensa revolução, representada pela passagem da vida de um nível de evolução a outro superior. Quisemos reproduzir em traços genéricos o pensamento fundamental de Teilhard, com a alegria de ver que ele corresponde plenamente ao pensamento exposto em nossa Obra, que atinge agora o seu 21o volume, em mais de 8000 páginas. Uma tal concordância de conceitos com as ideias de um cientista de tão grande valor, na pessoa de um cristão honesto e convicto, cheio de bondade e cultura, significa que as ideias sustentadas por nós não podem estar cientificamente erradas e muito menos podem, ainda, ser moral e teologicamente condenáveis, como já se pretendeu. Os escritos das duas partes são contemporâneos (Teilhard 1881–1955)2, período no qual ambos apareceram em ambientes e países completamente diferentes, sem que tivesse havido conhecimento recíproco. O mundo começa a compreendê-los somente agora, e isto parece nos mostrar que, na primeira metade de nosso século, o pensamento humano quis, através destes dois caminhos, exprimir os mesmos conceitos em forma diversa, porque a humanidade está chegando a uma nova maturação e tem necessidade deles. Tanto é assim que, devido a Teilhard, a religião mais conservadora se prepara para examinálos, pois tem necessidade de se atualizar. Por isso o caso deste cientista é importante e desperta interesse, uma vez que pode ser útil para as religiões alcançarem o nível das últimas desco2

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bertas científicas, perante as quais elas ficaram atrasadas. Se é certo que as conclusões coincidem no conjunto, há, no entanto, uma diferença entre os dois casos, pelo fato de se desenvolverem em posições e com métodos diversos. Como religioso, Teilhard estava, desde o início, preso às afirmações categóricas da sua fé, em favor das quais, pelo fato de não poder afastar-se delas, tinha de concluir a todo o custo, sem possibilidade de escolha. Isto podia pesar sobre a interpretação dos fatos, levando-o a torcê-la num determinado sentido, em prejuízo da verdade objetiva. Ora, a investigação do cientista deve ser livre. A este trabalho não se pode antepor ou impor premissas axiomáticas, pois assim, mais do que à descoberta, tende-se à conciliação, ficando a objetividade comprometida pelo preconceito, o que leva a realidade a ser vista através de uma particular forma mental, já pré-estabelecida. O recinto dentro do qual o pensamento é permitido mover-se, para investigar e concluir, fica limitado por barreiras. Tudo isto paralisa a investigação e não é científico. Em nosso caso, pelo contrário, desde que os fatos nos indicassem e exigissem de uma forma positiva, tínhamos a liberdade de chegar a qualquer conclusão. A nossa finalidade era apenas descobrir a verdade, e não concordar com uma religião. Foi possível, assim, chegar a conclusões mais vastas, aceitáveis mesmo fora das religiões, inclusive pelo materialismo ateu, apesar de serem elas de natureza ideal e espiritual. Nos dois casos, não só as condições de trabalho mas também os métodos foram diferentes. Normalmente parte-se da constatação positiva dos fatos, alcançada com a observação e a experiência, para poder depois, construindo e verificando as hipóteses com as quais tratamos de explicá-los, obter e fixar então uma teoria provada por eles como verdadeira, ou seja, os princípios gerais segundo os quais os fenômenos observados funcionam. O pensador vai, assim, sempre subindo do particular ao universal, tratando de se elevar para conseguir a visão de conjunto mais vasta possível e, portanto, mais apta para orientação. Em nosso caso, o método seguido, pelo menos no princípio, foi o oposto. Aplicou-se o processo dedutivo, e não indutivo. Procedeu-se do universal para o particular, em vez do particular para o universal, partindo-se do princípio diretivo, e não buscando orientação. Os mesmos fatos, no entanto, que constituem para a ciência um ponto de partida, são também examinados por nós num segundo momento, com o mesmo método científico da experiência e observação, mas somente com a finalidade de verificar se eles confirmam a correspondência da visão geral com a realidade. Portanto ela está primeiramente orientada da teoria em direção aos fatos e, posteriormente, dos fatos em direção à teoria. Assim eles são utilizados para o controle da teoria, de modo que esta, em vez de permanecer visão destituída de provas racionais, demonstra, através dos fatos, ser verdadeira e corresponder à realidade. Somente com este segundo método, que chamamos intuitivo, pode-se chegar a uma visão universal do todo, penetrando com mentalidade positiva um terreno no qual a ciência, com o seu método, não pode chegar. Este é o modo pelo qual se pode chegar ao terreno das maiores visões teológicas, que apenas são obtidas com o único método possível: a intuição. É certo que se trata de um voo. Mas, sem alçar voo, não se pode alcançar os princípios universais da existência. Trata-se de um voo longo, após o qual se desce à Terra, trazendo a fotografia da visão obtida, para colocá-la em contato com os fatos e, assim, verificar se ela é verdadeira. Havendo procedido dessa maneira, temos verificado que os fatos confirmam a visão, razão pela qual podemos dizer que ela corresponde à realidade. Não havia outra maneira para obter a síntese universal, algo de que a ciência ainda está muito longe. Teilhard deu a orientação, de modo que já é possível começar não somente a raciocinar cientificamente sobre problemas espirituais, mas também a intuir religiosamente sobre proble-

mas científicos. Pode-se chegar ao ponto de admitir que o produto da revelação contida no cristianismo poderia ser tomado seriamente em consideração pela ciência, como hipótese de trabalho, para explicar a parte que os fatos demonstraram corresponder à realidade. Assim uma revelação positivamente controlada poderia ser aceita pela ciência. A última confirmação de qualquer verdade somente pode ser confiada a uma verificação capaz de demonstrar que os fatos realmente funcionam como essa verdade afirma. Este é o único modo através do qual as intuições ou revelações podem dar garantias de segurança. Apesar de tudo, o mundo caminha, e ninguém tem o poder de pará-lo. Até há poucos anos, a teoria da evolução foi combatida nos ambientes religiosos. Hoje, porém, para a quase totalidade dos biólogos, a evolução é um fato estabelecido, universalmente aceito, e não mais uma hipótese. A maior parte dos cientistas já não põe em dúvida que, biologicamente, o homem provém do mundo animal superior. Mas a evolução não é fenômeno que possa ser limitado à vida, porque, numa visão universal, tudo – portanto todas as formas de existência – deve estar incluído nela, se não quisermos ficar fechados somente num setor do fenômeno da evolução, limitados a apenas um trecho do seu desenvolvimento. Teilhard nos apresenta uma evolução universal, dividida em três grandes etapas: matéria, vida e espírito. No mesmo sentido, o Prof. Marco Todeschini (Bérgamo-Itália) também nos falou de psicobiofísica. O universo astronômico nos oferece, com a matéria dos planetas, a base física, que constitui a geoesfera. Esta, por sua vez, é coberta de revestimento vivente, que representa a bioesfera, cuja função consiste em revelar, através da vida, a consciência. Surge assim o elemento que constitui a nooesfera, formando um novo revestimento, feito de pensamento e consciência. Trata-se, portanto, de três fases sucessivas, sendo que cada uma, depois de alcançada e vivida, eleva-se sobre as precedentes. Este conceito de um crescente psiquismo e cerebralização do ser reproduz em palavras científicas o conceito da progressiva espiritualização cristã, dado pela ascese da alma em direção a Deus. Neste caminho que conduz ao espírito, encontramos o fio condutor de toda a evolução. A cosmogênese inicia o processo. Este continua e se prolonga na biogênese, que desemboca por sua vez na noogênese. Pode-se assim, finalmente, compreender o significado do processo evolutivo, observandoo alinhado ao longo do seu eixo principal, que nos mostra o início, o desenvolvimento e a meta, desde o princípio até ao fim. O Ômega, ponto de chegada, está hoje presente entre nós em forma de ideal, que está esperando a nossa evolução, para se realizar no futuro, apresentando no seu resultado a compensação de tantas das nossas fadigas, dores e perigos. A escalada evolutiva, descoberta e provada pela ciência, vai em direção a Deus, tal como as religiões já ensinaram com outras palavras. Agora, não mais vivemos nem ascendemos como cegos. Por tudo isto e pelo fato de ter a ciência conseguido conhecer o caminho que o homem percorreu para chegar até aqui, podemos deduzir qual será este caminho amanhã e até onde ele nos levará. No terreno das nossas conquistas espirituais, a fé das religiões é substituída agora pela certeza científica. Voltando à comparação com a nossa obra e suas concepções, constatamos que a cosmo-bio-noogênese de Teilhard corresponde ao físio-dínamo-psiquismo de A Grande Síntese. Ele também tentou uma síntese da fenomenologia universal até ao campo filosófico e teológico, ou pelo menos transparece dos seus escritos uma tentativa de orientação universal neste sentido. No entanto ele concebeu os três momentos ao longo dos quais se desenvolve o eixo central da evolução como sendo: matéria, vida e espírito, e não como matéria, energia e espírito. Isto se explica pelo fato de que ele, sendo sobretudo geólogo e paleontólogo, não valorizou adequadamente, na economia do universo, a importância da físi-

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ca nuclear e do fenômeno da desintegração atômica, coisas que então acabavam de aparecer. Passando diretamente da matéria à vida, Teilhard não viu seu termo intermediário, a energia, sem a qual não se explica a origem da vida por evolução. Ele não explica a passagem da química inorgânica à química orgânica, que representam apenas formas exteriores, e não a substância do fenômeno. Escapou-lhe a continuidade do processo evolutivo, que, através da desintegração atômica (base da gênese dinâmica), vai da matéria à eletricidade (a forma de energia mais evoluída) e, a partir desta, passa então à substância da vida, constituída não pela forma orgânica, mas sim pelo psiquismo que a constrói e a dirige, cuja origem é elétrica, como fica demonstrado pela natureza nervosa e cerebral de sua base de apoio. Quando se escreveu A Grande Síntese, por volta de 1933, com uma física nuclear ainda no início, tais afirmações podiam parecer fantasia. Mas hoje procura-se provar experimentalmente a verdade da teoria das origens elétricas da vida. Em 1952, o químico americano S. L. Miller, pensando que a vida pudesse estar relacionada com a descarga elétrica do raio, tratou de reproduzir em laboratório as condições em que a Terra deveria encontrar-se antes do aparecimento da vida. Infelizmente, ele não pôde adiantar suficientemente as suas experiências. Ora, o bioquímico inglês Cyril Pannamperuma, através das suas experiências, concluiu que a matéria inorgânica, sob a ação das descargas e raios cósmicos, pode transformar-se em matéria orgânica, sendo a energia necessária para isso dada pelo raio. Existem, portanto, algumas diferenças com Teilhard. Mas o ponto novo e central, dado pela afirmação de que a vida serve para desenvolver e revelar o espírito, foi captado também por ele e admitido plenamente, o que, dentro do cristianismo, significa uma revolução bem longe de ser pequena. Acrescente-se ainda o fato de podermos, com a nossa teoria, explicar também a tremenda lei da luta pela vida, que leva os seres a se devorarem reciprocamente. Esta luta, se bem que feroz, justifica-se como meio para o desenvolvimento da inteligência, processo que, obrigando ao esforço para a defesa, inicia-se desde os primeiros planos da existência e vai-se revelando, de forma cada vez mais evidente, como um processo de espiritualização, quanto mais o ser avança no caminho da evolução. Há ainda uma outra diferença com Teilhard. Mesmo falando de “nova teologia”, ele não atinge as primeiras origens do universo, referentes à criação e suas consequências, nem o resultado final desta imensa obra. Fica, então, sem explicação como tenha sido possível, das mãos de um Deus sapiente, bom e perfeito sair o mal, a dor e a morte, não se explicando também como a Sua unidade possa ter sido (por Ele ou por outros) despedaçada no dualismo em que existimos. Teilhard, no seu volume L’activation de l’ernegie, chega a definir o mal como um efeito secundário, subproduto inevitável do caminho do universo em evolução. O problema do mal, diz ele, já não se configura, porque é estatisticamente impossível que, numa multidão de fenômenos, em vias de acomodação, procedendo por tentativas, como se desenvolve a evolução, não se verifiquem os casos incompletos, mal terminados, discordantes da ordem geral. Respondemos, no entanto, que o mal, a dor e a morte não são incidentes menores da evolução, aos quais não se dá importância, pelo contrário encontram-se tão profundamente radicados no fenômeno da existência, tentando comprometê-la a cada passo, que, para salvá-la desta ameaça, é necessária a presença contínua e a atividade saneadora da potência criadora de Deus. Portanto Teilhard, como sistema filosófico e teológico, deveria ser pelo menos completado, para esgotar o assunto. Mas ele era sobretudo cientista e, além disso, neste outro terreno, devido à sua posição eclesiástica, estava ligado a uma ordem estabelecida, da qual lhe era proibido sair, tornando-se difícil libertar-se dela. O significado e importância do pensamento de Teilhard es-

tá, sobretudo, nesta tentativa do cristianismo de se aproximar da ciência e assimilar suas conclusões, até ontem condenadíssimas. As religiões representam uma enorme massa, cuja maioria possui uma forma mental elementar, lentíssima para compreender e evoluir. Assim cada alteração de pensamento deve ser feita com extrema prudência, para não se perder o equilíbrio, ultrapassando os limites da compreensão. Mas a evolução está hoje apressando o passo. E temos aqui um sacerdote acusado de panteísmo, monismo, materialismo, evolucionismo, darwinismo, marxismo e até comunismo, sendo em muitos aspectos comparável a Rosmini, razão pela qual ouvimos falar e escutamos com interesse. Eis assim, em ambiente eclesiástico, uma tentativa semelhante à nossa, de realizar uma síntese na qual se unem, como elementos complementares, os dois termos até agora em antítese, ciência e fé, matéria e espírito. A nossa tentativa, no entanto, foi mais livre como pesquisa da verdade, porque, como já assinalamos, não estávamos obrigados a concluir conforme premissas preestabelecidas. Todavia não se pode deixar de reconhecer em Teilhard o grande mérito de haver tratado de santificar o pecado de ser evolucionista (de que tantas vezes foi acusado), agora transformado em santa evolução. Estranho modo de avançar das religiões, apesar de afirmarem que permanecem imóveis! Mas ao divino impulso da evolução não há conservadorismo que possa resistir. Agora, já não se pode dizer que Darwin esteja errado, porquanto a evolução se tornou um fato inegável. Suas ideias se tornam aceitáveis neste momento, não só porque a substância da evolução pode ser considerada como um desenvolvimento de consciência, constituindo-se num fato interior, mas também porque a sua mutação morfológica é dada pela transformação de uma veste exterior, que acompanha uma evolução mais profunda, na qual se encontra a sua verdadeira substância, constituída pela ascensão espiritual em direção a um estado de perfeitíssima consciência, cujo destino é se juntar a Deus. Dinamizada assim, a vida se move, transformando-se num caminho em direção a uma meta estabelecida, visão segundo a qual podemos enxergar um imenso destino, que corresponde ao homem realizar no futuro. A evolução se santifica, porque agora, além da sua face natural, vê-se dela também uma outra: a divina. Então, aceitase o natural como elemento que conduz ao divino, enquanto o divino é aceito como levedura imanente e razão final do natural. A evolução é assim entendida em sentido lato, como um processo que faz avançar a matéria, transubstanciando-a espiritualmente, santificando-a e, assim, conquistando cada vez mais consciência no homem e acima dele, até que o Alfa se reúna ao Ômega, com o retorno da criação ao criador. Desta maneira, o crescimento geológico e biológico desemboca na noogênese, terminando com a vitória final do espírito (puro – pensamento), já expresso por Carrel, quando ele falou da “emersão do espírito da matéria”. Consola-nos, porém, o fato de ver como o catolicismo, que colocou no “Index” meus escritos, onde tais ideias foram apresentadas, prepara-se hoje, se bem que por outras vias, para aceitá-las. Ele é constrangido pela lógica persuasiva dessas ideias e pela difusão delas nos ambientes culturais, para se salvar da expansão do ateísmo, porque hoje se pensa mais e quem pensa exige ser convencido para aceitar a verdade, pois a forma como esta é apresentada atualmente não satisfaz mais esta necessidade da mente moderna. No entanto, atualmente, parte do “rebanho” é constituída por ignorantes e superstici osos, sendo a outra parte composta por ateus, que são exteriormente ótimos praticantes. É necessário o catolicismo se tornar mais convincente, para resolver o problema da sobrevivência de uma fé que ameaça ser superada. 2) Os sofrimentos morais devido à dolorosa posição de incom-

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Teilhard foi mandado para Nova York, para lá morrer em condições de verdadeiro exílio, depois de uma vida cheia de amargura, devido à dificuldade cada vez maior de tornar conhecidos os seus escritos. O seu problema era de consciência, dizendo respeito a um cientista que, havendo descoberto a verdade, trata de levá-las para o terreno religioso, a fim de iluminar os crentes que, honestamente, desejam conhecer mais além da fé, para ficarem convencidos. Sem dúvida, vivemos num momento evolutivo de transição, no qual a ciência avança vertiginosamente no conhecimento, transpondo as portas do mistério. Com isto, a velha forma mental se transforma em uma nova, na qual o modo tradicional de apresentar as verdades de fé torna difícil aceitá-las. Em Teilhard, o drama é duplo, pois ele não somente tem de admitir conscientemente as novas verdades que lhe apareceram, das quais, ainda que não ortodoxas, estava convencido, mas também deve tornálas conhecidas de todos os que tinham necessidades delas para sair da dúvida, da falta de fé e da insatisfação em que se encontra a mente moderna, perante problemas postos de lado ou não resolvidos com clareza convincente. O drama foi devido à sufocação destes dois santos impulsos, sofrido em nome do bem, pois que, segundo a lei de Deus, o bem é progresso. Muitos não querem fazer o esforço de pensar e se arriscar com o novo, preferindo permanecer seguros nas concepções tradicionais. Na comodidade da própria preguiça, considera-se então como elemento perturbador quem, por ter sede de luz, parece rebelde à velha ordem e quer conhecer e fazer conhecer, subir e fazer subir, pois arde numa contínua tensão espiritual, com a qual perturba os que dormem quietos numa aquiescência passiva, chamada por eles de fé e ortodoxia. A muitos não interessa um maior conhecimento nem a conquista da verdade, mas sim o grupo humano do qual cada um faz parte, o seu poder terreno e o seu engrandecimento pela conquista de prosélitos. Não há nada na vida que não se baseie na luta, razão pela qual todo grupo humano é levado a tomar uma posição de defesa, encastelando-se no sectarismo, na intransigência e no dogmatismo, qualidades necessárias para poder resistir e sobreviver. O problema não é de religiões mas sim de tipo biológico, porque esta é a lei da vida no seu atual grau de evolução. Além e acima do universo físico, Teilhard viu, movido mais pela razão do que pela fé, o universo psíquico, percebendo uma nova dimensão, dada pelo espírito, que é o terreno supersensível das religiões. O cosmo, para ele, é um organismo em funcionamento e em evolução, orientado no sentido de fazer surgir e desenvolver a inteligência. Com isto, Teilhard realiza uma espiritualização da matéria e da ciência, estendendo assim o terreno das religiões ao infinito e fazendo delas um problema de interesse universal. Eis então que estas, neste caso, ao invés de fecharem as portas, como se estivessem perante um inimigo, deveriam abri-las, para conseguirem assim uma imensa expansão. O problema para o cientista crente não é tanto compreender tudo isto, para ele evidente, mas sim fazer os outros compreenderem, assim como para o evoluído o problema maior foi e será sempre fazer os involuídos avançarem. Assim como Santo Agostinho resumiu Platão e São Tomás resumiu Aristóteles, cada um deles formulando o cristianismo segundo a linguagem do seu tempo, é de se esperar também que as religiões admitam igualmente, em seu favor, a formulação realizada por Teilhard destas mesmas verdades, segundo a linguagem racional-científica de nosso tempo. Ele sentia a necessidade de realizar um exame crítico do pensamento teológico, para se atualizar perante as conquistas da ciência, que o deixavam ficar para trás, enquanto as religiões, encaminhando-se para Deus, deviam, como seria lógico, estar na vanguarda, em vez de serem as últimas a chegar, arrastadas, contra sua vontade,

pelo progresso do pensamento laico. Estando em contato com Deus, fonte de sua inspiração, as religiões deveriam ser as primeiras a compreender a verdade, e não as últimas. E quem sente, como Teilhard, tais exigências sente também o dever de falar, oferecendo a sua contribuição. Mas, se as religiões não entendem e resistem, ele a oferece à humanidade, que tem hoje necessidade desta ideia para poder progredir, não obstante as religiões negarem qualquer interesse por tais problemas. Teilhard costumava dizer: “se eu não escrevesse, sei que atraiçoaria”. Procuremos explicar o caso com uma imagem. Ofereceram a um homem uma semente preciosa, para que ele a plantasse no seu vaso, mas aquela semente não combinava com aquele vaso, porque era diferente das outras contidas ali, deste modo ele a lançou num campo. No vaso, aquela semente, mesmo estando defendida, poderia apenas crescer em terreno limitado, o que a teria impedido de se desenvolver. Caso continuasse lá, ela teria permanecido fechada num ambiente restrito, sem poder expandir-se. No campo, pelo contrário, a semente pôde desenvolver-se livremente, até se tornar uma grande árvore, o que não podia acontecer dentro do vaso. Foi, portanto, um bem para a semente ter sido lançada para fora. Assim uma ideia, representada por aquela semente, pode tornar-se e de fato se tornou universal. Eis o que acontece quando um grupo humano de ideias restritas rejeita uma ideia fecunda, capaz de novos desenvolvimentos. Há outra imagem ainda. Dois galos, fechados numa gaiola, estavam bicando-se, tentando destruir um ao outro, cada um pensando em vencer, para ser o dono da capoeira. Eles, porém, não percebiam que estavam sendo levados ao mercado e que, pouco depois, acabariam os dois na panela. Assim também se comportam as religiões rivais, enquanto se avizinha o cilindro compressor do comunismo ateu, que se prepara para nivelá-las todas na mesma liquidação. Que fazer então? Este é o grau de evolução da humanidade atual, e explicar não serve para nada. O nível de unificação hoje alcançado não vai além da família e dos grupos particulares, sejam religiosos, econômicos ou políticos, todos sempre limitados em função de determinados interesses comuns. Grupos mais vastos, nacionais ou raciais, estão apenas em formação. Cada unificação na Terra não chega a alcançar senão o grau de partido ou castelo fechado, armado e em luta contra os vizinhos, que também estão em estado de guerra, para não serem destruídos, sendo a destruição do outro justamente o objetivo de todos eles, a fim de garantir para si próprio o triunfo. Enquanto a humanidade não superar esta fase de sua evolução, deverá ficar submetida às leis deste plano biológico inferior. O evoluído que trate de elevá-la a um nível superior, para funcionar com outras leis e segundo uma outra compreensão da vida. Em tal mundo, ele será sempre um intruso, um solitário, um condenado, como foi Teilhard de Chardin. Este biótipo, justamente devido à sua posição avançada, encontra-se fora dos grupos, porque o seu fim não é a defesa de nenhum deles, onde se encontraria encerrado, mas sim o progresso da humanidade. Perante o grupo, tal indivíduo pode escolher entre dois caminhos, segundo a sua própria natureza: a liberdade ou a obediência. No primeiro caso, ele pode, segundo a sua consciência, alcançar o seu ideal, entregar-se à busca da verdade, pensar e falar livremente, cumprir a sua missão, no entanto permanece isolado. Não tendo declarado sua adesão e obediência a nenhum grupo, ele não depende de ninguém, mas também não recebe a defesa de que necessita para viver trabalhando pelo seu ideal. Se ele não se une aos fins de algum grupo, ninguém está disposto a fazer-lhe gratuitamente o trabalho de protegê-lo. São estas as leis da vida no plano humano, e é necessário ter a honestidade de reconhecê-las e declará-las tal como são. Se esse indivíduo não pagar com sua submissão o seu pão, qualquer atividade intelectual lhe será impedida pela necessidade de ter, ele próprio, de lutar pela existência. No se-

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gundo caso, não haverá esta necessidade e ele gozará da vantagem de uma proteção que garante sua vida, dando-lhe tranquilidade para trabalhar. Mas o pensamento e o trabalho ficarão submetidos àqueles do grupo ao qual ele pertence. Deverá, por isso, pensar e trabalhar no interesse do grupo, que, por fornecer o pão, tem o direito de exigir dele obediência espiritual e física. Quem dá e protege o faz para si próprio e, portanto, tende a escravizar. Quem recebe deve dar em troca obediência. Isto porque ao trabalho espiritual é dado valor nulo no mercado das coisas humanas, de modo que a liberdade de pensamento e a atividade correspondente é coisa permitida apenas para quem possui independência econômica. Observando, porém, as coisas pelo lado oposto, vemos que o grupo não é culpado de tudo, porquanto está, por sua vez, empenhado na luta pela sua existência, devendo, por isso, fazer dos seus membros os seus soldados, para manter a sua unidade, defendendo-a dos assaltos externos. Ao grupo não interessa a evolução, mas apenas a sua sobrevivência, que é a coisa mais urgente. A isto ele é constrangido pelas condições da vida terrestre. O evoluído, pelo contrário, antecipa a evolução e, em vez de conservar e consolidar as posições, tende a fazê-las avançar. Em razão desta oposição de intenções, tal biótipo é temido e combatido como um perigo. Ele não representa a conservação, mas sim a arriscada aventura do progresso, que é precisamente aquilo que os imaturos, acomodados na sua preguiça, não querem. O reformador, desejando implantar uma nova ordem, sacode as bases do castelo no qual o grupo se aninha, levando desordem às sua filas, condição da qual os inimigos estão prontos para se aproveitar. É necessário compreender que a vida é um estado de guerra pela sobrevivência. Urge, portanto, como primeira coisa, a defesa e só depois, como luxo de ricos, é admitida a evolução. Tais tentativas de avançar são deslocamentos perigosos, dissipação de forças em tentativas que debilitam o grupo, sendo, assim, consideradas saltos na escuridão. Quem os provoca deve, portanto, ser eliminado. Perante o idealista, atraído pelo céu, está a dura realidade da vida, e não é lícito a ninguém esquecer, nem por um minuto, que se trata de uma luta desesperada. Para quem é especializado nessa luta e não sabe fazer outra coisa, tudo isto pode parecer um engano. Mas, para o idealista, dotado de outras qualidades e dedicado a outros trabalhos, o problema é bem diverso. Ele desejaria desesperadamente gritar que, na Terra, não há lugar para o ideal. A humanidade deveria ajudar estes indivíduos, que trabalham pelo seu progresso. Mas o que, de fato, importa para a humanidade? Ela tem outras coisas para fazer, como pensar em matar e destruir tudo com as guerras, buscando enriquecer e gozar a vida. O problema que o caso de Teilhard nos fez recordar é sobretudo de biologia e interessa à humanidade, porque constitui o problema de evolução da vida. O ideal, antecipação da evolução, realiza-se na Terra através de diversos tipos de instrumentos. Não interessa condenar a ninguém, mas sim conhecer a técnica desta realização. Temos, portanto, de um lado os mártires do ideal, e de outro os administradores e usufrutuários do ideal. Os primeiros, pouquíssimos, trabalham pela conquista de posições mais avançadas. Os segundos, a maioria, ocupam-se em conservá-las, utilizando-as para si. Durante este processo, que vai desde o sacrifício do mártir à mecânica burocrática e ao parasitismo, o impulso do iniciador se desfaz, cansa-se, esgotase, afundando-se no lodo humano, túmulo do ideal. A massa, que forma o corpo da humanidade, é constituída por homens do segundo tipo, e eles lutam contra os do primeiro, tentando reduzi-los ao seu nível. O inovador, por sua própria natureza e pela posição na qual esta o coloca, já fixou o seu destino de incompreensão, isolamento e perseguição. Terá de trabalhar em condições difíceis, porque, em vez de seguir os interesses imediatos do grupo, aqueles que os componentes veem e sentem

melhor, ele procura os interesses superiores e longínquos, que aqueles não veem e, por isso, não entendem. Para poder trabalhar em paz, ele deveria concordar com o grupo. Mas, assim, teria de renunciar à sua iniciativa, à sua independência espiritual e, portanto, ao seu ideal. O drama existe, porquanto o mundo não quer ser incomodado e, assim, afasta os indivíduos que tratam de fazê-lo progredir. Este é o drama de Teilhard de Chardin. Historicamente, é fácil constatar que a humanidade, antes de santificar, dá-se o gosto de sacrificar, trabalho nada espiritual da parte de quem o executa, mas que faz indubitavelmente parte da técnica da santificação. Isto nos é demonstrado em nosso tempo pelo caso do Padre Pio de Pietralcina (Itália). O que deve fazer então o indivíduo? Como se deverá resolver o caso e como o resolveu Teilhard? Se o mundo não quer ser salvo, o indivíduo, no entanto, deverá salvar-se a si mesmo. Para compreendermos, devemos nos referir à moral positiva contida nas leis da vida. Antes de tudo, por que razão a autoridade possui o direito de condenar? Tê-lo-ia, se isto correspondesse a um critério da justiça. Mas não corresponde, visto que a condenação do que se considera hoje prejudicial fica contraditada pela aprovação de amanhã, quando o mesmo fato acaba sendo considerado vantajoso. Este dizer e desdizer, à mercê das circunstâncias e das mudanças de opinião dos indivíduos que julgam, tem muito de provisório, incoerente e irresponsável, não estando de acordo com um tribunal de justiça. Será honesto aprovar uma ideia nova somente depois que todos a aceitaram, quando defendê-la não representa mais nenhum risco ideológico? Assim consegue-se avançar sem perigo algum de enganarse, mas é deprimente ser o último a chegar, arrastado pelos outros, a quem se deixa a responsabilidade das novas afirmações, a fadiga da pesquisa e a incerteza da tentativa, mas sem se abrir mão da apropriação dos resultados, quando tudo leva ao êxito. Quem é imparcial, porém, justifica tudo isto. A vida se baseia na luta, e o grupo tem necessidade de defesa para sobreviver. É pela sua própria conservação que o grupo luta contra as coisas novas, nas quais ele vê uma tentativa de destruição do passado, sobre o qual se baseia a sua existência. Trata-se, portanto, de um caso de legítima defesa contra um perigo, uma ameaça de morte. O direito de julgar e condenar baseia-se nos seguintes fatos: 1) A posição de mais forte que o grupo tem perante o indivíduo, bastando isto, na Terra, para conferir o direito de estabelecer qual é a lei e, portanto, de julgar. O grupo é mais forte porque constitui maioria perante o indivíduo, que, estando isolado ou em minoria, é mais débil e, por isso, não tem direitos. 2) A necessidade imperiosa do grupo se defender, para sua conservação, exercendo o sagrado direito de todos à vida. E quanto ao indivíduo? Será que para ele, pelo fato de estar só e ser minoria, sem dispor do poder proveniente do número, não haverá justiça, ficando-lhe negada a possibilidade de trabalhar para realizar o ideal e, assim, de fazer progredir a vida? O drama consiste no conflito entre os dois termos. De um lado, tal indivíduo, por intuição e raciocínio, compreende a importância e a verdade das suas novas afirmações e, sendo honesto, sente que deve comunicá-las aos seus próprios semelhantes, para o futuro progresso deles, pois, pelo fato de tê-la visto, não pode fazer outra coisa senão enunciar a nova verdade. Do lado oposto, encarregada da defesa dos interesses do grupo, a autoridade, mais preocupada com sua própria conservação e a conservação do grupo do que pela pesquisa da verdade, quer permanecer fiel às velhas coisas, nas quais baseia a sua posição, rejeitando e condenando por isso qualquer novidade. As finalidades são opostas. O reformador busca o progresso, o grupo e a autoridade que o dirige querem continuar a viver com a menor fadiga e riscos possíveis. Em virtude disto, é lógico que a autoridade imponha silêncio ao inovador. Assim o proíbem de falar e publicar, impedindo-o de pensar, compreender e defender a verdade da qual está convencido. Então as

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duas partes em conflito se transformam em dois inimigos em luta, cada um com boas razões para agir à sua maneira. O inovador atenta contra a tranquilidade e a segurança do grupo, o qual então se defende. A autoridade atenta contra a liberdade do espírito, querendo manter o pensamento dentro do grupo, para detê-lo ou torcê-lo, paralisando as mais nobres funções do ser. Isto não é senão um aspecto da luta entre o evoluído, que quer fazer progredir o mundo, e o involuído, que não se quer deixar redimir com este progresso. Isto é contra Deus, mas pode ser feito em nome de Deus. Trata-se de sufocação espiritual, negação de ascensão, mas a autoridade pode fazê-lo porque, sendo mais forte, tem razão contra o indivíduo, que, isolado, é mais débil. Por isso ele deve submeter-se, apesar de lutar por um fim muito mais alto do que aquele pelo qual luta a autoridade. Todavia trata-se de duas funções, ambas necessárias: uma perante os homens, por necessidade terrena, outra perante Deus, por necessidade do ideal. Disto se deduz que, se, de um lado, a autoridade, segundo seu ponto de vista, tem o direito de condenar, de outro lado, o condenado, segundo seu ponto de vista, tem o dever moral, perante Deus e a sua consciência, de não renegar o seu pensamento e continuar a sua obra. Foi exatamente assim que agiu Teilhard. Mais acima, quisemos justamente encontrar e expor as razões que justificam a sua conduta, para nos convencermos de que se trata de um bom exemplo. Baseamo-nos na observação das leis biológicas do grupo, que são verdadeiras para qualquer grupo e, portanto, também para o religioso. Teilhard obedeceu à autoridade, sofrendo em silêncio, mas sem nunca renunciar às suas ideias. Às almas simples do povo ele não ofereceu o escândalo da desobediência, exemplo que todos estão mais dispostos a imitar e que oferece para muitos a oportunidade de se sentirem autorizados a seguir o caminho do mal. Para o homem do ideal, lançado em direção ao futuro, isto é martírio, mas a ignorância humana assim o exige. Ele o sabe e aceita. A posteridade depois julgará com outros critérios, sendo que a autoridade tem tempo para entender e inverter o seu juízo. É assim que, hoje, tudo quanto pode ser útil vai sendo reabilitado, passando-se a aceitar também o que já não se pode deixar de admitir. Vai-se então desenterrando o que foi condenado ao silêncio, com cautelosas sondagens da opinião pública, para ver até onde é possível se atualizar sem correr perigo. Aqui estamos só como observadores imparciais do fenômeno, para explicar o seu funcionamento. Havia também um outro lado de Teilhard. Ele comia o pão da ordem religiosa de que fazia parte, à qual estava moralmente comprometido a permanecer fiel. Sendo honesto, sentia o dever de não se rebelar contra a família à qual passara a pertencer, que o havia criado e agora o protegia em seu seio. Obrigações práticas entre dar e haver, pequena contabilidade terrena, mas que os honestos têm em conta, porque receber sem dar em troca é explorar. Mas nem todos têm um sentido tão perfeito de honestidade. Há os que, feridos no orgulho, revoltam-se abertamente, para satisfazer a própria reação pessoal. Passam então para outro grupo, no qual, conservando o mesmo espírito sectário, continuam lutando contra o grupo que primeiramente os hospedara, demonstrando com isso tratar-se de um homem de partido, que, esteja de um lado ou do outro, permanece sempre o mesmo, sem sair da sua velha forma mental. Que aconteceu então com o espírito do inovador honesto, que não obstante respeita a autoridade? Quais são os seus direitos e as suas compensações? Para ele existe o caminho da paciência, do trabalho e do martírio, que é também o da sua santificação. Observemo-lo, pois ele pode servir de exemplo e guia a quem se encontre em semelhantes situações. Lemos no volume O Jesuíta Proibido, de G. Vigorelli: “Não está ainda escrita a história secreta da „redução ao silê ncio‟ de Teilhard de Chardin. Dos dois interlocutores, um está

sempre ausente e, mesmo quando se faz presente, castiga, mas não entra no diálogo; a mão, a cada vez que castiga, esconde-se (...), drama sumamente cruel, que durou mais de quarenta anos, mais ardente porque ficou coberto pelas cinzas”. O seu confrade Padre Pierre Leroy, no seu livro Pierre Teilhard de Chardin tel que je l’ai connu, testemunha: “Incompreendido e condenado ao silêncio, sofre de angústias, que algumas vezes o aniquilam (...), com paciência suportava uma prova que esmagaria os corações mais fortes. Quantas vezes, na intimidade dos nossos encontros, o havíamos visto abatido (...). Sofria de crises de angústia, que mais tarde deveriam tornar-se mais agudas (...). Tinha crises de choro que o destroçavam.” E Vigorelli continua: “(...) além do silencio, foi -lhe imposto o exílio (...) morria de dor por aquele exílio prolongado. Suplicou muitas vezes aos superiores um regresso, ainda que breve, à Europa, à França (...), as perseguições não cessavam (...). Não lhe era proibida qualquer tomada de posição teológica e filosófica, mas se chegou, depois do seu último afastamento de Paris, a negar-lhe também o livre exercício da sua atividade científica (...). Objetavam-lhe: „Porque levantas todos estes problemas, em vez de se contentar a ensinar o catecismo?‟ (...). Mas quem levantava aqueles problemas não era Teilhard, mas sim os seus contemporâneos, e ele não podia iludi-los”. “Morreu em 1955, em Nova York, seu último exílio depois de outros longuíssimos (...). O seu enterro não foi acompanhado por mais de dez pessoas (...), ali ficou, uma vez mais no exílio, e não foi ainda permitido trazer para sua pátria os seus despojos mortais (...)”. “Teilhard obedeceu e não se revoltou nunca, mas jamais r enunciou à sua verdade, negando-se a considerá-la uma heresia, porque a ciência a legitimava e demonstrava (...), obedecia, baixava a cabeça (...), mas não aceitou, mesmo no menor detalhe, renegar as suas ideias ou sequer suavizá-las. A solução que Teilhard deu à crise foi caracterizada por total ausência de ruptura, intolerância, desobediência ou quaisquer velhos recursos e táticas lesivas (...), o importante era permanecer fiel às suas próprias ideias (...). As ideias devem esperar o seu momento apropriado. A paciência, se é secundada pela intrepidez, pode valer mais que a revolta. Teilhard não se revoltou, mas nunca se deteve. Não abdicou. Rejeitou qualquer compromisso (...). Teilhard nunca foi contra a Igreja; quem sabe se neste momento é a Igreja que não pode mais ir contra ele (...). „Não posso m udar‟, dizia, e não mudou nunca; a esperança nunca o aband onou, nem a certeza que um dia os seus adversários mudariam; e um pouco de tudo isto já está acontecendo”. Vimos assim, com respeito a Teilhard, a sua vida de condenado, a sua atitude perante a autoridade. Penetremos agora no seu espírito, para compreender “os segredos mais profundos que se debatiam somente na sua própria consciência, num diálogo direto com Deus”. Em Teilhard existe uma “exaltação r eligiosa, até mesmo mística, que chega à exuberância, investe e transcende a sua obra, à qual ele permaneceu ligado a vida toda e que, apesar de não lhe ter servido de salvo conduto para a Igreja, seguramente o serviria perante Deus”. Que nos ensinam estes fatos relatados aqui? Perante o mundo, incompreensão, condenação e martírio. Perante as próprias ideias, das quais em consciência se está convencido, fidelidade absoluta. Obediência, submissão e humildade, tudo aquilo que de exterior e formal o mundo exige, mas inviolável liberdade do espírito, tudo o que de interior e substancial o mundo não vê. Perante Deus, comunhão, exaltação e segurança. Qual é, portanto, o balanço de quem se encontra como Teilhard? No passivo, está o ataque do mundo (o silêncio imposto e o exílio), suportado com paciência, mas tornando-se um meio de santificação. Não existe nada tão grande como a inocência perseguida, que sofre para respeitar um ideal de ordem e disciplina. Este sofrimento tem valor e dá o seu fruto. Logicamente, tudo aquilo

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que é culpa e dano segundo o mundo transforma-se em virtude e recompensa perante Deus. Mas também existe o ativo, dado pela própria santificação, pela afirmação da inviolabilidade da liberdade do espírito e, sobretudo, pelo fato de sentir-se puro frente a Deus, gozando a satisfação de, no íntimo da própria consciência, contar com o Seu consentimento, vizinhança e ajuda. É segundo a sua natureza, a qual se revela assim, que o indivíduo escolhe colocar-se do lado do mundo ou do lado de Deus. Estes problemas não interessam à maioria, que não está nestas condições, mas são graves e vivíssimos para o homem espiritual, que se encontra nelas. O que desejamos conhecer bem é como tal indivíduo consegue viver, qual o seu ativo e com quais forças ele pode sustentar-se, para resistir àquela sufocação de alma. Se o dever da obediência procura matá-lo nas suas mais altas inspirações, deverá ele aceitar a sua morte espiritual, o que equivale a consentir no seu próprio suicídio? Não! Apesar da renúncia espiritual e da obediência que lhe é imposta, ele possui para si dois imensos recursos para sobreviver: a inviolabilidade do espírito, no qual nenhuma autoridade humana pode penetrar, e a tranquilidade da sua consciência perante Deus, convencido da sua própria retidão e inocência. Deste modo, ele traz consigo a sensação da presença de Deus e a segurança do seu consentimento e ajuda. Ele sabe que existe um outro tribunal, superior a todos os do mundo, com uma justiça que não erra. Nesta confia e a ela se entrega. Vê-se possuindo uma riqueza de potência, de segurança e de paz que ninguém lhe pode tirar. Refugia-se em Deus, e nenhum tribunal humano poderá alcançá-lo. Esta é a força do mártir: a derrota terrena, que diante de Deus é triunfo. Porém há mais ainda. As leis da vida garantem o triunfo final do ideal, pelo qual o homem espiritual se sacrifica. Diz o citado volume: “Depois de cinquenta anos de proibiçõ es e de admoestações, as ideias revolucionárias de Teilhard abrem caminho. O Concílio Ecumênico, atualmente em curso, está na verdade entrando justamente no sulco salutar daquelas ideias, sendo que a Igreja terá tudo a ganhar e nada a perder, se decidir absolver Teilhard, depois de tê-lo ignorado, contrariado, condenado (...). Está em execução a liquidação da era constantiniana e do espírito sectário da Contra-Reforma (...). É um programa indubitavelmente teilhardiano”. Por conhecer as leis da vida, o indivíduo sabe que o fenômeno deve realizar-se deste modo, já que esta é a linha natural de seu desenvolvimento. Então ele se submete a estas leis e espontaneamente aceita tudo isto por convicção. A evolução deve ser o resultado de um esforço, de modo que a sua realização seja o prêmio de uma fadiga. Este galardão pertence, por direito, ao mais evoluído, que avança à frente dos outros, os quais, por sua vez, representam a resistência a vencer, o obstáculo a superar, as trevas a iluminar. Embaixo, na retaguarda da evolução, está o mundo. Na direção do alto se lança o evoluído, seguindo em frente, avançando em direção a Deus, distanciando-se do mundo. Ele não está do lado do mundo, mas sim do lado de Deus, que o espera, o convida e o impulsiona para diante, atraindo-o e ajudando-o. A enorme força e a grande compensação do condenado, mesmo que a condenação tenha sido feita em nome de Deus, é estar ao lado da verdade e da justiça de Deus, é encontrar-se ao lado de Sua lei, que estabelece no fim a vitória do bem sobre o mal, o domínio da afirmação sobre a negação. A força de quem sofre lutando pela verdade está no fato de que, assim, ele trabalha para avançar na direção determinada pela evolução, sendo, portanto, arrastado em cheio por sua correnteza. O idealista, hoje condenado, sabe que o futuro lhe pertence. Ele leva consigo o impulso irresistível da divina vontade da evolução, que exige a ascese. É precisamente através deste biótipo que se realiza tal impulso, cuja inabalável vontade é conduzir tudo e todos em direção a Deus. E de que poder dispõem os homens contra quem tem a seu favor as leis da vida e a

ajuda de Deus? Quem alcançou o plano do espírito vive acima do mundo. Nesta condição, nenhuma pressão ou submissão pode mais alterar tal estado de fato. Quem viveu tais experiências pode compreender o que estes conceitos significam. Mas, observando as coisas de outro ponto de vista, poderíamos perguntar se os tribunais humanos têm o direito de infligir dores a um inocente? Mesmo segundo as leis do mundo, não seria isto um abuso de autoridade? Mas tal reação se justifica pelo fato de cumprir a função de defender o grupo, sendo que, na desesperada luta pela vida, não há lugar para a debilidade. O grupo reclama o seu direito à legítima defesa de sua existência, sendo justo, portanto, que esmague qualquer um que atente contra ele. As forças em defesa do inovador condenado não devem vir da Terra. Esta representa a parte inferior da existência, a parte negativa, adequada à resistência. Aquele indivíduo pertence, pelo contrário, ao Céu, que representa a parte superior, mais vizinha de Deus, a parte positiva e dinamizadora. Neste caso se verifica o mesmo antagonismo que se estabeleceu imediatamente entre Cristo, o maior dos inovadores em favor da evolução humana, e o mundo, que se dispôs a ser seu inimigo, respondendo à redenção com a crucificação. Portanto, para quem compreendeu a estrutura do fenômeno, tudo está no seu lugar. Cada um age como é, revelando com isto a sua natureza. Dado o estado involuído da humanidade, não é possível obter nada melhor do que isto. Certamente amanhã, graças ao trabalho de mártires inovadores, o mundo será diferente. Mas cabe a eles o trabalho de transformar a humanidade com o seu próprio sacrifício. O caso de Cristo nos mostra que, também com Ele, em idênticas condições, verificou-se o mesmo fenômeno, em relação ao comportamento da classe sacerdotal diante da proposta de inovações. O que mais, no entanto, pode pedir o condenado, senão estar do lado de Cristo, ser tratado como Ele foi tratado, sofrer pelo progresso, que é a redenção, como Ele sofreu, permanecendo junto a Ele, irmanado na mesma dor e pela mesma causa? Que honra, que alegria e que amor maiores podem existir? Que se pode pedir mais? Cada um reage segundo a sua natureza, revelando-a desse modo. Agindo prontamente segundo a lei da luta, que é a lei do seu plano, o primitivo se rebela contra a autoridade, manifestando com isso a sua involução. O evoluído, pelo contrário, tem em mente o “perdoa-lhes porque não sabem o que fazem” e obedece. Mas ele pode refugiar-se no céu, onde é impossível a autoridade alcançá-lo, pois, no tribunal de Deus, os homens não são admitidos a julgar. Uma humanidade mais inteligente e civilizada saberá um dia evitar tais conflitos dolorosos de consciência, saberá defender a fé mais por convicção do que por obrigação, saberá abrir os braços para compreender os novos problemas e as necessidades de quem, buscando honestamente, tem sede de verdade, em vez de afastar a quem pede mais luz. Tais casos, como o de Teilhard, não poderiam acontecer mais. Se eles se verificam, obrigando o investigador honesto a se refugiar em Deus, apelando para Ele, é porque há alguma coisa que não funciona no sistema atual. Por que sepultar no silêncio, oprimindo as consciências, certos problemas novos, que o mundo tem necessidade de resolver, para poder continuar a crer como deseja, mas não pode porque não chega a ver claro, como hoje a mente mais madura o exige? Não se pode impedir de pensar a quem tem cabeça, nem se pode cortá-la somente porque, para quem não a tem, não lhe apetece pensar. E, quando pensar se torna uma coisa proibida, pensa-se então por conta própria, fora das religiões, que são assim colocadas de lado, como coisa inútil. Para elas, isto significa falência e morte. O investigador honesto, por sua vez, está obrigado, por uma questão de consciência, a resolver os problemas que mais o preocupam, discordando de quem entende a fé como inércia espiritual e construindo uma por sua conta. Apesar de condenado devido à reação dessa inér-

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cia, ele representa, no entanto, a levedura do espírito, sendo mais crente e religioso do que os próprios ortodoxos. O resultado de tudo isto é um rebanho de adormecidos, agradáveis porque obedientes, mas passivos e inúteis perante Deus. Um espírito antievolucionista pode representar as forças negativas, cuja função é deter a ascensão em direção a Deus. Querer ficar parado, abaixando todos ao nível dos mais inertes, pode constituir um delito contra a evolução espiritual, que devia ser a maior finalidade das religiões. É certo que se deve controlar e disciplinar, para não gerar anarquia, mas paralisar, mesmo que isso seja feito em nome de Deus, é contra o próprio Deus. As religiões perdem sua função e atraiçoam o seu fim, quando o indivíduo, para encontrar luz e compreensão, deve dirigir-se a outro lugar. A autoridade fica espiritualmente derrotada, quando surge um conflito entre ela e a consciência, mas o indivíduo honesto tem convicção do seu dever de obedecer a Deus em vez de obedecer à autoridade humana. Não é lícito violar o sagrado direito de pensar e de procurar a verdade. Pode até mesmo acontecer que um indivíduo, formalmente fora de uma religião, seja mais religioso e esteja mais próximo de Deus do que um seu adepto, em plena ortodoxia. As reabilitações póstumas não podem sanear a condenação. Como são tardias, elas servem somente para as finalidades dos outros, e não para a obra do missionário. Este, para se manter na sua função produtiva, tem necessidade do consenso de seus contemporâneos, da ajuda em vida, da compreensão imediata do seu próprio tempo. Acercar-se do próximo com compreensão pode ser uma forma de caridade cristã e de amor evangélico, enquanto é anticristã a atitude contrária. Nas religiões deveria existir uma seção de livres investigadores, uma espécie de laboratório para as experiências do espírito, um instituto de investigação religiosa. Diz Teilhard: “E stou preocupado com o fato de faltar à Igreja um órgão de investigação (diferente de tudo o que existe e se desenvolve à sua volta) (...). Esta investigação é uma questão de vida ou de morte (...) Fato que pode surpreender os teólogos na sua vida tranquila (...). Há, hoje, problemas que queimam, os quais ninguém coloca claramente nem defronta, senão em alguma conversa reservada. Existem ideias, ainda em bruto e parcialmente equivocadas, mas libertadoras, que germinam e morrem no espírito de indivíduos isolados. Necessitaria, penso, de um órgão para recolher, centralizar e purificar tudo isto, diria quase um „labor atório‟ dedicado a estas experiências (...). Isto para prevenir um cisma entre a vida humana natural e a Igreja”. De fato o cisma atual é o mais perigoso, porque não se apresenta na forma já conhecida, como se dava no passado, com o surgimento de uma nova religião inimiga, a qual se podia combater, mas aparece como morte do espírito e do sistema de todas as religiões, com a sua extinção no materialismo e na ciência, que simplesmente não as tomam mais em consideração. Assim, no meio da indiferença geral, o pensamento dirigente não se interessa mais e as abandona. O objetivo da intuição anteriormente mencionada deveria ser o reconhecimento da necessidade não só de conservar, mas também de progredir. Como na ciência, também nas religiões, a investigação deveria ser livre, e não fechada e condenada. As várias doutrinas deveriam ter, como tudo o que existe, também uma porta aberta para o caminho da evolução. Seria necessário superar aquela psicologia morta, pela qual comodamente se afirma que todos os casos possíveis já foram vividos e que, por experiência dos séculos, já foi dada resposta a todas objeções, estando tudo já previsto e resolvido. O fato é que, enquanto as religiões procuram detê-lo, o pensamento humano caminha e, justamente por elas quererem detê-lo, ele se pôs a caminhar por sua conta, fora das religiões, que são deixadas para trás e esquecidas, com todo o devido respeito, no meio das coisas velhas, que, não servindo mais, são colocadas no museu. As-

sim nasceu a indiferença, o materialismo, o ateísmo e outros males semelhantes. Os micróbios patogênicos estão por toda a parte, mas o seu ataque vitorioso depende da nossa predisposição e debilidade orgânica. Ninguém pode fugir às leis da vida, que está sempre pronta a liquidar tudo quanto não sirva mais para cumprir a devida função. 3) A paixão por Cristo, racionalmente concebido como ponto de convergência da evolução da vida. Também em Teilhard encontramos uma concepção mais ampla de Cristo. Aparece-nos assim a visão de um Cristo universal, quase super-religioso, num sentido que está acima do sectarismo separatista no qual as religiões tendem a se dividir, de um Cristo que, em vez de se isolar numa delas em oposição às demais, tende a uni-las todas, sendo concebido com a forma mental da imparcialidade científica, em termos vastíssimos, ligado às leis biológicas e situado no ponto de convergência para a última meta divina da evolução da vida. Trata-se de um Cristo muito maior, eixo espiritual do mundo, alcançável tanto pelas vias do misticismo como pelas vias da ciência, ponto Ômega tanto desta como da fé, significado e conclusão da história, princípio, guia e cume da evolução, só concebível desta maneira hoje devido à atual maturação do pensamento humano. Um Cristo total, não só religioso e fechado no passado, mas também progressista, atual e social. Um Cristo que aceita a luz advinda do pensamento científico e reconhece o caráter sagrado da investigação, nobilitando-a e santificando-a, porque é santo todo o conhecimento, como função e produto do espírito; um Cristo que, ao invés de contra, está com a ciência, com a ânsia de saber, com o espírito da indagação, com a paixão de evoluir; um Cristo que se desenvolve agora em dimensões vastíssimas, dentro da mente humana, a qual está hoje apta a concebê-Lo com outras medidas; um Cristo que, sendo mais racional, presente, dinâmico, universal, unitário, é síntese suprema de fé, de pensamento e de vida. É necessário, portanto, refazer o nosso conceito do Cristo, que permaneceu entre nós como imagem feita de matéria, crucificado e morto, com a finalidade de nos recordar, para vergonha nossa, daquilo que fizemos a Ele. Dos esconderijos onde Ele, jazendo coberto de pó atrás dos utensílios de culto, parece ter-se refugiado para escapar do mundo, é preciso fazê-Lo sair, para que ressuscite vivo entre nós. Temos necessidade de um Cristo que esteja junto a nós em todas as horas, convivendo conosco dia e noite, assistindo a todos os nossos pensamentos e obras, tomando parte em nossas alegrias e dores, e não um Cristo com o qual só nos encontramos em horas fixas ou quando decidimos penetrar no recinto dos templos, onde O isolamos fora de nosso mundo. Um Cristo imanente, próximo, que enfrenta conosco os nossos problemas e nos ajuda a resolvêlos, em vez de desaparecer transcendente nos céus, inalcançável na sua glória; um Cristo que orienta a dinâmica da vida, operando junto de nós, no imenso esforço criador da era moderna, potencializando-o com os seus imensos valores espirituais. Um Cristo não mais monopolizado nas mãos dos seus ministros e fechado no âmbito de uma só religião; um Cristo que se possa venerar, sem ter que litigar com as outras religiões, e amar em outras formas, ainda que não ortodoxas; um Cristo que se avizinha dos espíritos com amor, e não apenas para julgar e punir, afastando-os com os raios da vingança; um Cristo feito de concórdia para fundir, e não de rivalidade para dividir, sendo seguido porque convence e convencendo porque fala com compreensão à inteligência, em vez de apenas condenar como um perseguidor de heréticos; um Cristo que é refúgio da pureza, fora de toda a sujidade humana, inclusive daquela escondida sob as aparências de religião. Eis algumas palavras de Teilhard de Chardin na sua Messe

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sur le Monde: “Já que, Senhor, aqui nas estepes da Ásia, eu não tenho nem pão, nem vinho, nem altar, me elevarei por sobre os símbolos, até à pura Majestade do Real, e vos oferecerei, eu, vosso sacerdote, em cima do altar da terra inteira, o trabalho e a dor do mundo (...). O meu cálice e a minha patena são a profundidade de uma alma amplamente aberta a todos os esforços que se estão elevando de todos os pontos do globo a fim de convergirem no espírito (...). A oferta que Vós, Senhor, verdadeiramente esperais, não é outra senão o engrandecimento do mundo agitado pelo transformismo universal”. Cristo pertence a toda a humanidade, e nenhuma religião pode possuí-Lo com exclusividade. Não se pode isolá-lo num templo particular ou num grupo humano, porque Ele está no centro da biologia universal do espírito. Este Cristo, de dimensões cósmicas, superior a todas as formas e dimensões humanas, situado no centro de uma super-religião de substância, no vértice da evolução da vida no planeta, nos antípodas da nossa baixa existência terrena, sempre presente para curar com o Seu divino esplendor a nossa cegueira e sanar com a Sua potência e bondade as misérias de nosso pobre mundo, é o Cristo que, junto a Teilhard, eu venero e amo. II – Ciência e Religião Voltamos a falar, para compreendê-lo melhor, do pensamento de Teilhard de Chardin. Observando os fenômenos, sobretudo no seu íntimo significado, ele chegou a uma visão do plano geral da existência, no qual domina o princípio da evolução, que faz do ser um transformismo em marcha. O conhecimento do passado hominal fez Teilhard entrever as perspectivas em direção às quais se encaminha aquela marcha e, portanto, aquilo que o homem poderá no futuro realizar na Terra. Então Teilhard se sentiu iluminado por uma súbita luz orientadora. Se tudo caminha, é porque tudo se dirige a uma meta que, com este movimento, deverá ser alcançada. Tudo tende a completar-se e aperfeiçoar-se, porque sobe de encontro a um centro, em direção ao qual tudo quanto existe se eleva, à medida que vai evoluindo. Não se trata de um centro físico do universo, mas de um centro-síntese, no qual a pulverização fenomênica se coordena e se organiza, chegando assim, da dispersão periférica, a um estado unitário, orientado em direção àquele centro. A evolução revela-se-nos como um fenômeno de síntese múltiplo, que realiza muitas coisas, levando à ascese, ao aperfeiçoamento e ao melhoramento, mas também alcançando a complexidade, a organicidade e a unificação. O ponto de chegada é o Todo-Uno. Quando a consciência de uma verdade tão vasta e poderosa lampejou no seu espírito, Teilhard não pôde deixar de gritar: Eureca! Ele tinha sido conduzido até ali pela ciência, que, apoiada nos fatos, caminhava com o seu passo seguro. Não podia, portanto, duvidar. Tudo isto lhe diziam os fatos com mil vozes concordantes e convergentes. Então ele, tendo-se dado conta que este era o significado da existência, não pôde deixar de ver as consequências desta sua descoberta. Eis como ele acabou por se dedicar, além da ciência, à filosofia, à metafísica e à teologia. Ora, todo grupo humano, de qualquer espécie, seja escola filosófica, religiosa, teológica etc., tem o seu patrimônio de ideias e terminologia própria, a sua forma mental e linguagem particular, que enquadram o pensamento, cristalizando-o, e é dentro destes padrões que o grupo pretende encerrar e limitar também o pensamento de quem enfrenta os problemas por eles tratados. Mais tarde, quando aquele pensamento chega a uma fase avançada de velhice e de consequente cristalização, fixando-se numa codificação de normas mecânicas para uso de uma determinada organização humana, tudo se estanca e, naquele campo, a evolução para. Então o novo é simplesmente julgado errado e, portanto, condenado. As verdades tratadas por aquele grupo e escola se tornam propriedade sua e, portanto, são reser-

vadas e intocáveis. No entanto isto é justo, afinal elas foram construídas por eles, que têm assim o direito de possuí-las com exclusividade e de defendê-las como coisa própria. O erro está em querer dar à posse da verdade um sentido diverso e maior do que o de legítima propriedade, reservada para uso e vantagem de quem a possua. O erro está no fato de grupos e escolas pretenderem dar um valor universal, eterno e absoluto às suas verdades particulares, que, como tudo na Terra, não podem ser senão relativas e progressivas no tempo. O que aconteceu então a Teilhard? Aconteceu como acontece a todos inovadores, quando eles, vendo mais longe do que os outros, quiseram fazê-los ver mais longe também, para além dos limites das verdades já vistas e codificadas por eles. É neste ponto que aparecem as condenações. Os precursores, desde Cristo a Galileu etc., são condenados como heréticos. Estamos observando imparcialmente o mesmo fenômeno, que se apresenta em todos os tempos e lugares, religiões e partidos, porquanto constitui um fenômeno biológico, o qual se verifica segundo uma lei da vida, toda vez que um indivíduo mais progressista queira arrastar os mais atrasados para frente no caminho da evolução. Eis o que aguardava Teilhard quando, ao ser iluminado pela visão de uma verdade muito mais vasta e convincente, sentiu-se impulsionado a gritá-la ao mundo. Foram novos conceitos, expressos com uma nova linguagem, que, soando dissonantes àqueles ouvidos, habituados à velha terminologia tradicional, foram julgados estranhos e inaceitáveis para aquela forma mental, acostumada aos destilados processos lógicos da filosofia e teologia, parecendo um terremoto numa cidade adormecida, uma tempestade de absurdos sobre um lago tranquilo ou sobre um jardim bem tratado. Então os conservadores se precipitaram em levantar barreiras de defesa, para calar aquele escandaloso “eureca”, que pretendia resolver tudo, fazendo abandonar a velha estrada sobre a qual caminhava tão bem a sua antiga sapiência. Este foi o martírio de Teilhard, assim como o de todos os inovadores: tropeçar nestes obstáculos, colocados no meio do caminho, para tentar deter a evolução. Tropeçar, cair e lacerar a carne, pois quem é velho teve tempo de se tornar poderoso na Terra, mantendo bem agarrado nas mãos o fruto do trabalho executado no passado, com a propriedade adquirida de conceitos, doutrinas, organizações, instituições, leis, autoridades etc., estando, por lei biológica, sempre pronto a usar estas suas forças como arma para defender a sua sobrevivência. Mas a visão de Teilhard é esplêndida. Ele a vê e fica fascinado por ela. Os outros não a veem e a negam. Mas por que as autoridades condenam com tanta pressa? Talvez porque tenham medo do novo. Certamente que, dada a estrutura das leis da vida, o novo deve representar para o velho uma ameaça contínua, porque tende a superá-lo e substituí-lo. É a vida que avança. Assim se explica esta reação. Mas Teilhard viu e não pôde calar. Discute-se nos ambientes tradicionais se ele podia ou queria fazer teologia ou filosofia. Ora, se é justo que a solução de determinados problemas constitua uma propriedade reservada, por ser o produto de certos ambientes particulares, nem por isso se pode declarar que tudo seja reservado como propriedade, com o propósito de excluir os outros de um dado terreno fenomênico, de um determinado tipo de investigações e conclusões, de um setor do conhecimento. Como é possível pôr limites ao pensamento humano? Com que direito se pode proibir ao cientista de ultrapassar os resultados imediatos? Como impedir que ele olhe mais longe do que outros e, assim, saia do terreno da ciência, para expandir-se na filosofia, metafísica e teologia? É impossível seccionar o conhecimento em compartimentos estanques, isolar um problema dos outros ou deter-se no exame de um fenômeno e de uma lei, sem ver em cada campo todas as consequências. Isso é impossível num universo unitário, que, mesmo com tudo se subdividindo depois em infinitas ramificações, é

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regido por um princípio central único. Como pretender que alguém, ao ver o novo, não seja imediatamente levado a colocá-lo na vida, no lugar do velho? Impedi-lo é atentar contra o progresso, é delito de lesa-evolução. Quem viu é levado a se transformar em reformador, para fazer o mundo progredir. Eis uma razão a mais para reforçar a condenação por parte dos poderes constituídos. O problema é que se trata de indivíduos mais evoluídos. Por isso mesmo é difícil que possam ser subitamente compreendidos e aceitos. Eles, pelo fato de serem mais avançados, veem que muitas posições estão ultrapassadas e necessitam ser renovadas. Os outros, menos evoluídos, não se dão conta de nada. Para estes, o mundo se encontra bem e deve permanecer como está. Ressurge sempre o princípio biológico da luta. Os jovens rebentos devem abrir caminho à força entre as ruínas das velhas árvores decadentes, que não cedem o posto à nova vida, enquanto têm forças para resistir. Como pode um cientista que viu, não fazer da sua ciência também uma filosofia e teologia, invadindo, mesmo que não o queira, estes terrenos reservados? Ele sente que sua filosofia e teologia são as do futuro, aquelas que o mundo procura, porque quer viver e resolver cada vez melhor os seus problemas. Percebe instintivamente que, se renunciasse a ocupar-se deles, adormecendo sem lutar para avançar, ficaria abandonado à margem do caminho da vida. Quando, num terreno, encontramos escrito: “Propriedade reservada. Proibido o ingresso a estranhos”, seguimos para outro lado, e a bela propriedade fica intacta e deserta. Mas ela se torna vazia e morta, porque não é habitável uma casa que foi reduzida a um museu de antiguidades, e a vida, que ninguém pode deter, vai então desenvolver-se em outro lugar. Foi para evitar tudo isto, apesar de, por obediência, ser-lhe proibido, que Teilhard quis entrar nos terrenos reservados à filosofia e à teologia e entrar neles como cientista, com conceitos novos e vivificantes. A teoria evolucionista nos dá um conceito novo do universo e da existência. O todo não foi feito por Deus de uma só vez, para sempre, de improviso, num dado momento. Pelo contrário, ele está continuamente se formando. O todo é resultado de uma criação contínua, obra de um Deus sempre ativo e presente, e não de um Deus que, uma vez tendo realizado sua criação, afastou-se dela, para ficar inerte, contemplando-a do alto de Sua glória, separado do fruto de Sua obra, que continua a existir estaticamente, por si mesma, agora independente da ação do Seu criador. Para imaginar a atividade de Deus, o homem não tinha em sua mente ou