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FILOBENJAMIN auténtica Walter Benjamin O anjo da historia Organizacao e tradugdo de Joao Barrento Copyright © 2012 Auténtica Editora Copyright da traducéo © 2012 Jo50 Barrento TUES corsa Gasarnmelte Schriften, Unter Mitwirkung von Theodor W. Adorno und Gershom Scholem hg. von Rolf Tiedemann und Hermann Schweppenhéuser. Volumes |, i, Mev), ‘CODRDENADOR DA COLEGAO FLO Gilson lannini ‘CONSELHO EDITORAL Gilson lannini (UFOP); Cldudio Oliveira (UFR); Danilo Marcondes {PUC-Rig); Jodo Carlos Sailes (UFBA); Monique David-Ménard (Pati); Otimpio Pimenta (UFOP); Pedro Sssekind (UFF); Rogério Lopes (UEMG); Rodrigo Duarte: (UFMG); Romero Alves Revisado conforme 0 Acordo Ortogréfico 4 em vigor no Brasil desde janeiro de 2009. Freitas (UFOP); Slsvoj 2itek (Liubliana); Vladimir Safatle (USP) PRONTO GRARCO DE CAPA E WOLO Diogo Droschi EOTTORAGAO cLETRONICA Conrado Esteves REVISAO TECNICA E FIXAGAO QE TEXTO PARA 0 PORTUGUES BRAStERO Mariza Guerra de Andrade REVISAD Cecilia Martins EDITORA RESPONSAVEL Rejane Dias ia Lingua Portuguesa de 1990, Tocios 0s direitos reservados pela Auténtica Editora, Nenhumaperte desta Publicagao poder ser teprochizida, seja por meios mecénicos,eletrénicos, Sela Via copia xerogréfica, sem a cutorizacgo prévia da Editor -« AUTENTICA EDITORA LTDA. Belo Horizonte fs Aimorés, 981, 8° andar . Funcionatios 30140-071 . Belo Horizonte. MG Tel: (5531)3214 5700 * Televendas: 0800 283 13 22 www autenticzeditora.corm.bt Dados Internacionais de Cataloyacio na Publicagio (CIP) i Si0 Paulo Ay, Paulista, 2.073, Conjunto Nacional, Horsa | 17° ander, Conj. 1101 . Cequeira César 1311-940. Sic Paulo. SP Tel: (55 11) 3034 4468, (Camara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Benjamin, Walter, 1692-1949, Oanjo da histéria/ Welter Benjamin ; organizaggo e traducéo dle Jogo Barento, - Belo Horizonte : Editora, 2012. ~(FileBenjamin) ISON 978-85-8217-041.0 1. Historia - Filosofia |. Bertento, Joo. Il. Titulo. ill, Série, 12-1459 Auténtica €D0-901 {indices para catdlogo sistematico: 1. HistOria -Flnentia ont 7. 2. 25, 39. 47. 57. 83. 91 109. 123, = 165. Sobre 0 conceito da Histéria Fragmento teolégico-politico Fragmentos (filosofia da Histéria e politica) Anincio da revista Angelus Novus Destino e cardter Sobre a critica do poder como violéncia Experiéncia e pobreza Johann Jakob Bachofen Teorias do fascismo alemao Eduard Fuchs, colecionador e historiador Comentérios Sobre o concelto da Histéria p, 168 Fragmento teolégico-politico p. 193 Fragmentos (filosofia da Histéria e politica) p, 196 Anuncio da revista Angelus Novus p. 201 Destino e cardter p. 211 ‘ Sobre a critica do poder como violéncia p. 213 Experiéncia e pobreza p. 216 Johann Jakob Bachofen p. 217 Teorias do fascismo alemao p. 224” Eduard Fuchs, colecionador e histeriader p, 224 Eduard Fuchs, colecionador e historiador I A obra de Eduard Fuchs, que ocupou toda uma vida, pettence a0 passado recente. Um olhar retrospectivo sobre essa obra coloca-nos perante todas as dificuldades inerentes 4 tentativa de dar conta desse passado mais recente, que é ao mesmo tempo o passado recente da teoria marxista da arte, da qual nos ocuparemos aqui. E isso nao facilita a nossa tarefa, pois, contrariamente ao qué acontece com a teoria econémica, esta ndo tem ainda histéria. Os mestres, Marx ¢ Engels, nfo fizeram mais do que sugerir que existe nela um vasto campo de trabalho, Eos primeiros a ocupar-se dele, um Plekhanov, um Mehting,® sé de forma indireta ou muito tarde absorverama ligio dos mestres. A tradicio que * Franz Mehring (1846-1919) € autor de uma das primeiras biografias de Marx (Karl Mars. Lisboa, Presenga, 1974), ¢ 0 seu livto Die Leising-Legende [Lessing: A Lenda}, publicado em 1893, é 0 primeiro grande trabalho de teoria e critica Hterdrias murxistas. Mehring é acompanhado nessa fase pioneira pelo pelo set contemporineo rusto G. W. Plekhanov (1856-1918), De Plekhanov foi publicade em portugués A Aree a Vida Social (1912-1913). Lisboa, Moracs Editores, 1977. Sobre os primérdios’e os desenvolvimentos da teoria marxista da arte pode ler io Barrento, “De Weimar a Moscovo. A teoria marxista do realismo e da AW etre as duas pircrias”, intredugio a Reaini-Matetlsins Ufema area vai de Marx a Bebei,” passando por Wilhelm Liebknecht” aproveitou majs 4 vertente politica do que A cientifica do marxismo. Mebring passou pelo nacionalismo e, logo, pela escola de Lassalle.® E quando chegou ao partido dominava ai, segundo Kautsky, “do ponto de vista teérico, um Lassalianismo mais ou menos vulgar. Nao se podia falar, a nio ser em alguimas personalidades isoladas, de um pensamento marxista coerente”.°* Mehring sé relativamente tarde‘entrou em contato com Engels, j4 no fim da vida deste. Fuchs, porseu lado, encontrou-se cedo com Mchring. Na relacio entre os dois esboga-se pela primeira vez uma tradi¢o da linha materialista histérica no Ambito da histéria das ideias. Mas o dominio de trabalho de Mehring — a histéria literaria — tinha, no espirito dos dois estudiosos, poucos pontos de contato com o de Fuchs. E mais decisiva ainda é a diferenga das suas orientagdes: Mehring era um erudito, Fuchs, wm colecionador. HA muitos tipos de colecionadores, e em cada um deles atua um feixe de impulsos. Enquanto colecionador, Fuchs foi sobretudo um pio- neiro: fundador de um arquivo, dnico dasua espécie, que documenta a historia da caricatura, da arte erdtica ¢ dos quadros de costumes. Mais importante €, porém, uma outra circunstincia: foi enquanto pioneiro que Fuchs se tornoy colecionador, concretamente como pioneiro da teoria materialista da arte. No entanto, 0 que fez desse materialista um colecionador foi a intuigio mais ou menos clara de uma situagio histérica na qual se viu inserido. Era a situagio do proprio materialismo histrico. Essa situago est expressa numa carta que Friedrich Engels dirigiu a Mehring na mesma altura em que, na redagio de um jornal socialis- ta, Fuchs alcangava as suas primeiras vitérias jornalisticas. A carta tem data de 14 de julho de 1893, ¢ nela se pode ler, entre outras coisas, © ” August Bebel (1840-1913): politico socialista e dirigente do movimento operirio, cofiundador do Partido Social-Democrata Alemio, (N.T.) ® Wilhelm Liebknecht (1826-1900): fiundador do Partido Social-Democrata Ale mio, aproxima-se da Lign Comunista de Mane e Bagels ¢ torna-se 1m des wais destacados deputados socialistas ca era bismarckiana, (N.'T.) ® Ferdinand Lassalle (1825-1864 sociagio Geral dos ‘'raballiacton Partido Social -Democrata, (N ™ Karl Kautsky, “Franz Mehring”, in: Die Neve Zeit, vol. XX (Suutiyynt, (94), np. L03-104. eseritor ¢ politico, pritieia prestelente ile Ay Aleniies (1863), que prepat. Die iaenite de seguinte: “Aquilo que mais contribui para a cegueira da maior parte das pessoas é essa aparéncia de uma histéria aut6noma das formas de organizagio politica, dos sistemas do Direito, das concepgdes ideolé- gicas nos seus respectivos dominios especificos. Quando acontece a ‘superag’o’ da religigo catélica oficial por Lutero ¢ Calvino, quando Hegel supera Fichte ¢ Kant, ou Rousseau, indiretamente, com o seu Contrato Social, 0 constitucionalista Montesquieu, trata-se de um processo que permanece adentro dos limites da teologia, da filosofia, da teoria politica, que representa uma etapa na histéria dessas 4reas de pensamento e nao sai delas. E desde que a ilusio burguesa da natureza eterna e em absoluto definitiva da produgao capitalista chegou a essa conclusao, até a superagao dos mercantilistas pelos fisiocratas e Adam. Smith é,wista como uma mera vitéria do pensamento, ndo como o reflexo, no pensamento, da transformagio de fatos econdmicos, mas como a visio correta e finalmente alcangada de condi¢ées reais eterna € universalmente vigentes”.* Engels contesta aqui duas praticas: em primeiro lugar, a do hibito, na hist6ria das ideias, de apresentar um novo dogma como “evolugio” de um anterior, uma nova escola literéria como “reagdo” a outra, um novo estilo como “superacdo” do que o precede; mas contesta também, implicitamente, o habito de apresentar esas novas constelagGes separadas dos seus efeitos sobre as pessoas e do seu processo de produgio, tanto espiritual como econémico. Com isso, di o golpe de misericérdia nas “ci€ncias do espirito” enquanto histéria das formas de organizagio politica ou das ciéncias da natureza, da religido ou da arte. Masa forga explosiva dessa ideia, que Engels nio abandona durante meio século,” alcanga mais fundo. Questiona o carater fechado das varias 4reas do saber e da sua produgio — por exemplo, no que se refere 4 arte, o seu proprio © 0 das obras que se propde englobar. Para aquele que delas se ocupa usando os instrumentos da dialética histérica, essas obras integram a sua ° Cataely por Gustay Mayer, Euedind Ligels Fie Buyraplae [Pusedaieh yygels. Una Dnsigeatial, vol UW. Bid Pagets nnd der eftusg der Laderterhere Hiiel: a Ascride da Mawnniente Opesinie ia Lapa] Bealia, p. 450 451 si a segumte for “A leva surge Hos primerion exc titers salne Feuerbach, «accel pauliyte por patte de Mars Nae exrte mau hitenta da polities, do direito, da cadiieta | eebeante, la relia” Mary bagel ndinn, Revista do Tustitute Marx- Taiweloale Meseon Db or b> Rauviney Vall Braokfiaet P99R np IO. pré a sua pés-histéria — uma pés-historia dada a qual também a sua pré-hist6ria se torna reconhecivel como um processo de transformagio permanente. Elas ensinam-lhe como a sua fingio é capaz de sobreviver ao seu criador e de fazé-lo deixar para trés as suas intengdes; ¢ como a recepcao pelos contemporaneos € parte integrante do efeito que a obra de arte exerce hoje sobre nds préprios, e como este ailtimo assenta no encontro no apenas com a obra, mas também com a histéria, que petmitiu que ela chegasse aos nossos dias. Goethe deu a entender isso, de forma velada, como tantas vezes faz, numa conyersa sobre Shakespeare com o chanceler von Miiller: “Tudo aquilo que exerceu uma grande influéncia nao pode, de fato, ser j4 objeto de um juizo”’.°” Nao havera palavras mais adequadas para suscitar o desassossego provocado pelo comego de qualquer ocupagio com a historia que merega a designa- ¢io de dialética. Desassossego pelo desafio aa investigador no sentido de abandonar a atitude tranquila e contemplativa em relagio ao seu objeto, para tomar consciéncia da constelagio critica em que se situa precisamente esse fragmento, precisamente nesse presente. “A verdade nio nos foge”: essa formula de Gottfried Keller assinala, na concepgao da histéria prépria do historicismo, precisamente o ponto em que essa concepcao é destruida pelo materialismo histérico. Porque é irrecu- peravel toda imagem do passado que ameaga desaparecer com todo presente que ndo se reconheceu como presente intencionado nela.* Quanto melhor refletirmos sobre as frases de Engels, tanto mais claro se tormara que toda exposigao dialética da historia implica a re- nincia a uma atitude contemplativa caracteristica do historicismo. O materialista historico tem de renunciar ao elemento épico da histéria. Para ele, ela torna-se objeto de uma construgao cujo lugar é constituido nio por um tempo vazio, mas por uma €poca, uma vida, uma obra determinada. Ele arranca a época 4 “continuidade histdrica” reificada, ¢ assiin também a vida 4 sua épaca ¢ uma determinada obra ao conjunto de uma ceuvre. Mas 0 resultado produtivo dessa construgio tem como A forma original da citagio, na conversa com von Miiller em 11 de junho de 1822, é nte: “Umi livro que teve uma grande repercussio nao pode, de fato, sez » dle am jirizo.” (N.T.) pom, bem rome mais trés do: dan beaey sieves can cite da E Teste AVI SVE UL) dois parigrafos seguinees, seri retomada , invdufdas neste volume: teses V, XIV, Ura pay resultado que na obra se contém e se superaa euvre, nesta a época e na época toda a evolucdo histérica.” © historicismo propde a imagem eterna do passado; o materialista histérico fa-lo acompanhar de uma experiéncia que é tnica.A substi- tuic¢do do momento épico’pelo construtivo.revela ser a condicio dessa experiéncia. Nela libertam-se as gigantescas forcas que permanecem, presas ao “Era uma vez” do historicismo.Acionar no contexto da historia a experiéncia que é para cada presente uma experiéncia originfria — essa a tarefa do materialista histérico, que se dirige a uma consciéncia do presente que destr6i o continuo da histéria, A compreensio histérica € entendida pelo materialista histérico como pés-vida do objeto de compreensio, cujo pulsar se faz sentir até © presente, Essa compreensio tem o seu lugar em Fuchs, apesar de ele nio estar acima de qualquer critica. Nele coexistem uma ideia antiga, dogrnatica ¢ ingénua da recepgio com a sua forma nova e critica.A pri- meira pode resumir-se na afirmag%o de que a recepgio determinante de uma obra deve ser para nds aquela que ela teve entre os seus contempo- raneos. Ea perftita analogia do postulado de Ranke [.--] “Tal como foi realmertie”, que seria, afinal,“‘o tinico” que importa."° Mas ao lado desta encontramos, sem mediagao, o ponto de vista dialético ¢ de horizonte mais amplo que reconhece a importincia de uma hist6ria da recepgio. Fuchs critica 0 fato de, na histéria da arte, a questSio da fortuna critica das obras nao ser considerada. “Esta falha [...] 6 um aspecto negativo de toda a nossa historia da arte. E no entanto parece-ine que a descoberta das verdadeitas causas do maior ou menor éxito de um artista, para a duragdo desse éxito ou também para o seu contrario, é um dos mais televantes problemas que se colocam & vida da arte?" Jé Mehring via ” Ba construcio disiética que distingue aquilo que, na experiéncia historica, nos aa partir dhs origens, contra o inventitio indiscriminado dos fatos: “O que & proprio da origem nunca se dé a ver no plano do factual, cru ¢ manifesto. O seu ritmo s6 se revela a um ponto de vista duplo. A origem [...] tem aver.com a pré ¢ a pos-histéria dos fazos .” (W. Benjamin, Origen do Drama Trégito Alemio [Auténtics Ed., 2011, p. 34)) ™ CEE, Fuchs, Bretisthe Kunst (Arte Erética], vol. 1, p. 70. (A obra do historiador Leopold von Ranke a que se referer as citagBes &a seguinte: Geschichte der ranantschen und germanischen Vaiker ton 1494 bis 1544 [Historia dos Povos Ron emuinicos, de 1494 a 1514], 2 ed. Leipzig, 1874, p. VIL [N.T]} * Gavarna, Litegrttiag p, 13, assim as coisas, € 0 seu livro Lessing: a Lenda™ transfortna em ponto de partida das suas anilises a recepgdio de Lessing por Heine e Gervinus, por Stahr e Danzel, finalmente também. por Erich Schmidt. E no tera sido por acaso que pouco depois surgiu o meritério trabalho de Julian Hirsch A Génese da Fama" (meritério, nao tanto-pelo método, mas mais pelo contetido). A questio central € a mesma que Fuchs ja tinha em vista, e a sua solucio fornece o critério de referéncia para o materialismo histérico, Mas esse fato no justifica a omissiio de um outro, o de que essa solugio ainda no foi encontrada, Pelo contririo, ndo ha quaisquer diwidas de que apenas em casos isolados se conseguiu apreender o contetido his- t6rico de uma obra de tal modo que ela se tone para nés transparente enquanto obra de arte. Todo esforco de aproximagio de uma obra de uite sera vao se o seu contetido histérico sdbrio nio se tornar objeto de tun conhecimento dialético, Essa é apenas a primeira das verdades pelas «quais a obra do colecionador Eduard Fuchs se orienta. As suas colegSes sa 4 resposta do pritico as aporias da teoria, . E, apesar de toda a erudigio que adquiriria mais tarde, Hite wsiunine esse papel de sabio. A sua eficicia ultrapassou sempre os unites 411 delimitam 0 campo do investigador. Eo mesmo se passa com asta ativalude ue colecionador e de politico. Fuchs entrou no mundo do Hahalliy ci meados dos anos oitenta, numa aleara em que a lei antisso- Htalista estava ent pleno vigor, © lugar de aprendiz que encontrou p6-lo Fai contato com proletirios politicamente ativos, e em breve foi atraido por eles puta stlute ilepal de entdo, que hoje nos parece uma resisténcia thhew Usses anos de aprendizagem terminaram em 1887. Alguns anos depron, o ory. dos social-democratas da Baviera, o jornal Miinchener Post, ts brs are jovem contabilista a ama tipografia de Seuttgart, pensando ter Huenutiide niele o homem que iria resolver os problenaas administrativos se putial Hriehy fai para Munique, para ai trabalhar com Richard Calver, Sal note (NEY TP Rte h Pie tornados Ruttones. Hine Beunay eur Mbthodenteline der ¢ (fw sede Dunas Contubute pare iinna teoncnietodalagten da T laste uid ea slivhte [A Lape, ‘A editora do Miinchener Post publicava também a revista humoris- tica dos socialistas, o Stiddeutscher Postillon. Um acaso levou a que Fuchs tivesse de dar uma ajuda nas provas de um némero do Postillon, eum. outro a que tivesse de preencher algumas lacunas com textos proprios. O sucesso desses ntimeros foi invulgar, e nesse mesmo ano o ntimero de Maio foi organizado por Fuchs, com auitas ilustragées a cores ~ estava- se nos comegos da imprensa ilustrada a cores, Venderam-se sessenta mil exemplares, em vez dos dois mil e quinhentos da média do ano. E assim Fuchs se tornou redator de uma revista que se dedicava a sitira politica, Comegou ao mesmo tempo a interessar-se pela historia dese seu campo de atividade, e foi assim que nasceram, paralelamente ao trabalho didtio, os estudos ilustrados sobre 0 ano revolucionario de 1848 na caricatu- ral" e sobre 0 caso politico de Lola Montez."5 Exam as primeiras obras de um historiador ilustradas com material documental, diferentes dos livros de histéria ilustrados por desenhadores vivos (por exemplo, os livros populares de Wilhelm Blos sobre a revolugdo, com desenhos de Jentsch). A pedido de Maximitian Harden, Puchs chegou a apresentar a segunda dessas obras na revista Zukunft, nio sem chamar a atengio para o fato de se tratar apenas de uma parte da obra mais ambiciosa que tencionava dedicar 4 caricatura dos povos europeus. Um petiodo de dez meses na prisio, resultante de um processo de lesa-majestade por uma intervengio na imprensa, veio beneficiar os estudos para essa obra, Era evidente quese tratava de uma ideia feliz. Um certo Hans Kraemer, que tinha jé bastante experiéncia na produgio de livros de familia ilustrados, entrou em contato com Fuchs, dando-lhe a noticia de que tinha jé em Preparagdo uma histéria da caricatura; ¢ sugeriu-lhe que disponibilizasse "4A obra (1848 in der Karikatur [1848 na caricatazal) foi publicada em Manique em 1898, (N.T.) "5 Dangarina e aventurcia irlandesa, de seunome Elisbbeth Rosanna Gilbert (1821-1861), cortesi ¢ amantede Luis I da Baviera, qutelhe concedeu o tiuilo de cancessa de | anidstelel ent 1847, © caro Levon a tei a abvlicar sob a pressio da oposgio revoluconina ¢ Tol Montesa figir a Biviera, pritieary para a California, elepons para a Austeilia © finalnente pana Nova tonne, ons le serio amoirer Os maul ate Enchs sobre Lola Montes apareceonn primero nates tts Zenit fur Hee heapeuide (1 oly Monta in der Karthatur”, vol TI LXORZ THY, 1, p TOK 10) e depen, cathe (in vomarzdiches Fansub Lola Mouiee ti der Karka | Uo hte Bakeuce Pie Kevokicondto. Pola Mantes na catatonia). Bech, I) Jan 1955 Max Ophiih dedicou a essa fisura as scus cstudos para uma obra comum, Mas esses contributos nao vie; am logo. E em breve ficou claro que toda a enorme massa de trabalho implicada nesse projeto iria recair sobre Fuchs. O nome do pretenso eolaborador, que ainda aparece na primeira edi¢io, j4 nio se encontra na segunda. Mas Fuchs dera pela primeira vez provas convincentes da sua capacidade de trabalho e do seu dominio da matéria. Iniciava-se assim a longa série das suas principais obras.’ Os comecos de Fuchs coincidem com a época em que, como se podia ler num dos néimeros da revista Neue Zeit, “o tronco do Partido Social-Democrata comegava a crescer por toda parte organicamente, amel a anel”." Isso significava a necessidade de afirmagio de novas *® Obras principais (na editora Albert Langen, Munique): Ilustrierte Sittengeschichte vom Mittelalter bis zur Gegenwart. 1: Renaissance [1909]; I. Die galante Zeit [1910]; Il: Das biagerlicke Zeitalter [1911/1912] (Historia dos Costumes (lustrada, da Idade Média 4 Atualidade. I: Renascimento, [1:A poca Galante, IIT: A Epoca Burguesa). Com trés volumes complementares (1909, 1911, 1912). Nova ed. de todos os volumes em 1926 (citado como “Historia dos Costumes"). Geschichte der erotischen Kunst, I: Das zeitgendssische Problem [1908], nova ed. 1922; IL: Das individuelle Problem. Erster Teil [1923]; Das individuelle Problem, Zuveiter Teil {1926} [Historia da Arte Erética,I:O Problema Contemporineo. {I/III:O Problema Individual, primeira e segunda partes] (citado como “Arte Erotica”). Die Karikeatur der europaischen Volker. 1: Vorn Altertuns bis zum Jahre 1848 [1.ed., 1901; 4.ed., 1921}; [L: Vom Jahre 1848 bis zum Vorabend des Weltkriegs [1.ed., 1903; 4. ed., 1921] [A Caricatura dos Povos Europeus. I: Da Antiguidade a 1848; II:de 1848 as vésperas da Guerra Mundial] (citado como “Caricatura”), Honoré Danrnier, Holzschnitte und Litographien [H.D., Xilogravuras ¢ Litografias] ed. Eduard Fuchs, [: Xilogravuras 1833-1870 [1921]; II:Litografias 1828-1851 [1920], [1]:Litografias 1852-1860 [1921]; IV:Litografias 1861-1872 [1922] (citado como “Daumier”). Der Mater Daumnier [O Pintor Daumier], ed. Eduard Fuchs, 1927 (citado com exte titalo).. Gavarni, Litographien, ed. Eduard Fuchs, 1925 (citado como “Gavarni”). Die grofien Meister dev Erotik, Ein Beitrag zum Problem des SchapfSischen in der Kunst. Malerei und Plastile (Os Grandes Mestres do Erotismo. Contributo para o problema da criatividade na arte, Pintura e escultura], 1931 (citado com este titulo). Tang-Plastik. Chinesische Grabkerarnile des 7. bis 10. Jahrhunderts [Esculeura Tang, Cecimica tumular chinesa dos séculos VII a X], 1924 (citado com este titulo). 1a: hreiter und verwandte chinesische Keramik des 15. bis 18. Jahrhunderts (Coruchéus + Ceramic Chinesa afim,dos Séculos XV a XVII), 1924 (citado com este titulo) mulher,ao judeu e 4 guerra mundial enquanto sabras 3 Fan fs dedneon anna outs temas cl cara atin MR Man, aahie i prabile Hayao de profetatinde intelectual”, Die Newe Arie val MMP rae INU ba th tarefas no ambito do trabalho cultural do partido. Quanto maiores eram as massas de trabalhadores que a‘ele aderiam, tanto menos ele se podia limitar ao esclarecimento politico e cientifico, 4 vulgarizacdo da teoria da mais valia ou da descendéncia. Tinha de dar atencdo 4 dimensio histérica dos assuntos culturais nas intervencées piblicas € nos suplementos da imprensa partidaria. Colocava-se, desse modo, em toda a sua extensio o problema da “popularizagio da ciéncia”, um problema que nunca seria resolvido. E nao seria possivel resolvé~ lo enquanto os destinatarios desse trabalho cultural fossem vistos em termos de “piblico”, e nao de classe.'"* Se 0 objetivo fosse a classe, o trabalho cientifico do partido nunca poderia ter perdido o estreito contato com as tarefas cientificas do materialismo histérico. A matéria histérica, lavrada pela dialética marxista, teria se transformado num solo em que cresceria a semente nele lancada pelo presente. Ora, isso nao aconteceu. Ao lema “Trabalho e cultura”, que guiara a formagio dos trabalhadores nas associa¢Ges satisfeitas com o Estado de Schultze- Deliztsch,"” a social-democracia opés outro que dizia “Saber é poder”. Mas nio se apercebeu do seu duplo sentido. Achava que 0 mesmo saber que consolidou a dominagao do proletariado pela burguesia levaria também aquele a libertar-se dessa dominagio. Na verdade, um saber sem acesso 4 praxis e que nada podia ensinar ao proletariado sobre a sua situacao de classe era inofensivo para os seus opressores. Isso se aplica especialmente ao saber das “ciéncias do espirito”. Era um saber muito afastado da economia, e mantinha-se invulnerivel as suas transformagées. Os agentes desse saber limitavam-se a “estimular” através do seu uso, a “oferecer alternativas”; a “interessar”. Aliviou- se a histéria e obteve-se a “historia da cultura”. E aqui que a obra de Fuchs encontra o seu lugar proprio: a sua grandeza reside na reacio a essa situagio, o seu lado problematico no fato de ainda participar dela. 1 Nietzsche escreven ji em 1874: “O tiltimo resultado disso é a ‘popularizagio’ da ciéncia, hoje to em voga, ou seja, 0 famigerado ajuste do casaco da ciéncia a0 corpo de um ‘piblico misto’ ~ para aplicar a uma atividade de alfaiate um alem3o de alfaiate {..J" (F. Nietzsche, Unzeitgemfe Betrachtungen: “Vor Nutzen und Nachteil der Historie fiirs Leben”) [Consideragdes Intempestivas: “Das vantagens e desvantagens dathistéria para a vida”). Vol. I, Leipzig, 1893, p. 168. ™ Franz Hermann Schulze (1808-1883): politice libe Meias cooperativas de trabalbacores. (NT) al alemio, fiindador das pri- “ Fuchs orientou-se desde sempre pelo principio de que o seu trabalho se devia dirigir as massas de leitores.""" : Muito poucos reconheceram na altura como tanta coisa dependia de um trabalho cultural de orientag3o materialista. As esperangas e mais ainda os receios desses poucos estio bem expréssos num debate cujo rastro se pode encontrar na revista Neve Zeit. O mais importante desses testemunhos é um ensaio de [Carl] Korn intitulado “O proletariado ¢ o classicismo”. © tema era o conceito da heranga cultural, que voltou a estar hoje no centro das atengdes. Segundo Korn, Lassalle via no idealismo alemao uma heran¢a assumida pelas classes trabalhadoras. Mas Marx e Engels viam 0 problema de modo diferente: “Nao foi como heranga que eles chegaram 4 afirmagio do predominio social las classes trabalhadoras, mas a partir da sua posi¢do determinante no proprio processo de producdo. Para que falar de propriedade, ainda ue seja espiritual, no caso de um, recém-chegado as classes como 0 proletariado moderno, que a cada dia ¢ a cada hora evidencia o seu ‘dueito® através do trabalho com que reproduz sempre de novo todo w aparelho cultural [..J? Assim, a joia da coroa do ideal cultural de Lasalle, a filosofia especulativa, ndo é para Marx e Engels nenhum taberiiculo [...]; ambos se sentiram cada vez mais fortemente atraidos peli cine ias maturais, que, de fato, para uma classe cuja ideia é o seu piopuie funcionamento, pode ser a ciéncia por exceléncia, tal como toda a naatéria bistorica é para a classe dominante e possidente a forma natal da sua ideologia. 6 um fato que a ciéncia histérica representa Pata a comseiencia acitegoria da posse, do mesmo modo que no plano rcondned © capital significa © dominio sobre o trabalho passado”." Hsat crilica do historicismo tem o seu peso. A sua referéncia as retieiay da natureza, porém— como “a ciéncia por excgléncia” -, poe avast toda at dimensio da perigosa problemitica da questo cultural. Desde Bebel que o prestigio das ciéncias naturais tinha dominado fades oy debates, A sua obra maior, A Mulher ¢ 0 Socialismo, alcangou hes tanta anos que decorrerany entre sua publicagdo © 0 trabalho de hradita ca cultura que feve a serie a sua nikean tera de we sole Bienes Wp Y) “auton de obt ew ever Seuypte [pate Cal Kom, “Proleautiid Klesak’ [Proleruady ¢ Clsacrane|, Oe New Ze, bol WME (Qeateent LONKY 7 EE tts de Korn uma tiragem de duzentos mil exemplares. O apreco.em que Bebel tem as ciéncias naturais nao deriva apenas da exatidio matemitica dos seus resultados, mas sobretudo das suas possibilidades de aplicagio pratica.'!? Mais tarde, elas irio ter um papel semelhante em Engels, que procura refutar o fenomenalismo de Kant com as referéncias a técnica, cujo sucesso é prova evidente de que reconhecemos “as coisas em si”. As ciéncias naturais, para Korn o modelo da ciéncia por exceléncia, permitem fazé-lo sobretudo enquanto fundamento da técnica. Mas é preciso nao esquecer que a técnica nao é uma pura manifestacdo das ciéncias da natureza, é também uma manifestagio histérica. Enquanto tal, ela obriga-nosa testar a separacio positivista e nio dialética que se tentou instituir entre as ciéncias da natureza e as “ciéncias do espirito”’, As questées que a humanidade coloca a natureza sio codeterminadas pelo est4gio da sua producio. E esse 0 ponto em que o positivismo fracassa, porque, na evolucao da técnica, s6 foi capaz de reconhecer os progressos da técnica, ndo os retrocessos da sociedade. Mas nio se apercebeu de que essa evolucio foi decisivamente determinada pelo capitalismo, E também aos positivistas entre os tedricos social- democratas escapou 0 fato de que tal evolucado tornou cada vez mais precdrio 0 ato, que se revelava cada vez mais urgente, de uma futura tomada de posse dessa técnica pelo proletariado. E ignoraram o lado destrutivo desses desenvolvimentos porque se tinham alheado do lado destrutivo da dialética. Era preciso um prognéstico que no foi feito, ¢ isso marcou um processo que haveria de se revelar como um dos mais caracteristicos do século passado: a desastrosa recep¢io da técnica. Esse desastre con- sistiu numa série de ensaios entusidsticos e sempre renovados que, sem exce¢io, tentaram passar por cima do fato de a técnica sé servir a essa sociedade para a produgio de mercadorias. No come¢o encontramos os saint~simonistas, com a sua poesia industrial; segue-se o realisrfio de un Lu Camp! que vé na locomotiva a salvagio do futuro; e um Ludwig Phau extiai as conclusdes ao escrever: “De nada serve tor armo-nos " Ragust Debet, Die Frnt der Socata, 100 ed Suuttyart, 1841, p. 177-179 e $38 380 (obi aygende. tandtornagoe da economi: dornestica pela técnica), p. 200 201 Gale sinulker cone iventot VONA genni ales Cannes OIE) TSA: senverdnvan a Bint herenb is Coeeedes (RET anjos, o caniinho de ferro vale mais do que um belo par de asas!”." Esse olhar sobre a técnica caiu do “Caramanchio”.''> E podemos perguntar-nos a esse propésito se 0 “aconchego” (Gemiitlichkeit) do século, tao do agrado da burguesia, ndo provém da obscura sensagao de bem-estar por nunca ter de passar pela experiéncia de ver como as forcas de producio tiveram de se desenvolver com o trabalho das suas mios. Essa experiéncia estaria, de fato, reservada ao século seguinte, que constataria como as necessidades foram ultrapassadas pela velocidade dos veiculos miotorizados, pela capacidade das miquinas de reprodugéo da palavra e da escrita. As energias que a técnica desenvolve para la desse limiar sao destruidoras. Reclamam em primeiro lugar as técnicas da guerra e da sua preparagio propagandistica. Dessa evoluc’o, coma sua total determinagio de classe, pode dizer-se que ela se realizou nas costas do século passado, que nao tinha ainda consciéncia das energias destruidoras da técnica. Isso se aplica em particular a social-democracia da virada do século. Se é certo que aqui ¢ ali contestou as ilusdes do positivismo, no seu conjunto ficou presa a elas. Via o passado como definitivamente recolhido nos palheiros do presente; se 0 futuro pro- metia trabalho, nio era menos certa a béngdo da colheita. TW Foi essa a época de formagao de Fuchs, e muitos dos tragos da sua obra derivam dela: numa palavra, participa daquela problematica que é insepardvel da histéria da cultura, e que remete para 0 texto de Engels atrs citado. Quase se poderia dizer que encontramos nele o locus classicus que define © materialismo histérico como histéria da cultura. Nao é esse, de fato, o verdadeiro sentido daquela passagem? Nio ter o estudo das varias Cisciplinas, que perderam j4 a sua aparéncia fle autonomia, de converg'r para o estudo da histéria da cultura como inventirio que a humanid ‘de foi fazendo até hoje? Ao contririo das muitas e proble- maticas unidades abarcadas pela histéria das ideias (enquanto historia da literatur- ¢ da arte, do Direito ou da religiio), 0 investigador que se MHC tach dhe daviel Bach, “John Ruskin”, Die Neve Zeit, vol. XVI (Stuttgart, 1900), Coarnenbaube,o ttle de ama das muy élebies revistas burguesas commer ware as ite ecculy SEX albedo (NOT) questionasse seguindo esse caminho teria apenas de colocar uma nova questio, a mais problematica de todas. Para o materialista histérico, a distancia a partir da qual a histéria da cultura apresenta os seus contetidos é ilusoria e fundada numa falsa consciéncia."* Por isso ele a olha com reservas. Essas reservas seriam legitimadas por-um simples olhar para 0 passado: o que ele ai descobre de arte e ciéncia tem uma proveniéncia que no pode deixar de horroriz4-lo. Tudo isso deve a sua existéncia nao apenas ao esforco dos génios seus criadores, mas também, em maior ou menor grau, 4 escravidio anGnima dos seus contempordneos. Nao ha documento de cultura que niio seja também documento de barbarie."”” Nenhuma histéria da cultura fez ainda justiga ao que de essencial hé nesse fato, e dificilmente pode esperar fazé-lo. Apesar disso, esse no é © ponto decisivo. Se o conceito de cul- tura é problemitico para o materialismo histérico, a sua degenera¢io e transformagio em mercadorias que se tornaram objetos de posse para a humanidade é para ele uma ideia inconcebivel. Para ele, a obra do passado no esta consumada nem fechada. Nio a vé cair no regago a nenhuma época, reificada e dispontvel, nem no todo nem em parte. Enquanto quinta-eséncia de configuragdes encaradas como indepen dentes, se nao do processo de produgio que as viu nascer, pelo menos daqueles em que sobrevivem, © conceito de cultura apresenta-se-lhe com tra¢os fetichistas, reificada. A sua hist6ria nio seria mais do que Uma expressio tipica desse lado ilusério é a que encontramos no discurso de aber tura de Alfred Weber por ocasitio do congresso dos sociélogos alemaes em 1912: “$6 quando a vida deixa para trds as stras necessidades imediatas € 0 seu utilitarismo para se transformar numa constelaco acima deles, sé entdo existira cultura”. Nesse conceito de culuura estio latentes as sementes da barbirie, que entretanto ji des- pontaram. A cultura aparece entio como “uma coisa supérfua para a continuidade da vida, quando afinal sentimos que é para isso que ela existe”. Em suma, a cultura existe como um espécie de obra de arte, “que talvez instale'a confiasdo em muitas formas e muitos principios de vida, que pode ter efeitos corrosivos e destruidores, mas cuja existéncia sentimos como superior a tudo o que é vivo e saudivele ela pode destruir” (Altred Weber, “Der soziologische Kulturbegriff” [O conceito sociologico de cultura}, in: Verhandlungen des Zweiten Deutschen Soziolagentages (Schriften der Deutschen Gesellschaft fir Soziologie) [Atas do Segundo Congresso dos Socidlogos Alemies. Publicadesda Sociedade Alem de Sociclogial, 1* série, vol. Il, Tubingen, 1913, p. 11-12). Vinte e cinco anos depois, alguns Estados de cultura reclamaram para sia honra de se equipararem a tais obras de arte, de serem obras de arte. 17 fon surge também sus teses “Sobre 0 conceit da Historia”, inqluidas neste volume (Tove VID (NT) \ os residuos depositados na consciéncia dos homens pelas coisas me- moriveis, mas deSprovidas de experiéncia auténtica, isto é, politica. De resto, nio se pode esquecer o fato de nenhuma investiga- ao feita sobre uma base hist6rico-cultural ter até hoje contornado essa problemitica. Ela é evidente na monumental Histéria Alema de Lamprecht,"!* que por mais de uma vez, ¢ por razdes compreensiveis, foi objeto-de andlise na revista Die Neue Zeit. Mehring escreve ai: “Lamprecht é, como se sabe, dentre os historiadores burgueses, aquele «jue mais se aproximou do materialismo histérico. No entanto, ficoua meio caminho [...] Suspende-se toda e qualquer metodologia histérica 10 Momento em que Lamprecht pretende tratar o desenvolvimento vcondémico e histérico segundo um determinado método, mas com- pila a partir de outros historiadores a evolugio politica dessa mesma cpocn? Unna coisa é certa: a exposicio de uma historia da cultura bascada na histéria pragmatica € um contrassenso. Mas mais profundo ainda & © contrassenso de uma histéria da cultura que se pretenda em. stmesina dialética, uma vez que o continuo da histéria, desmantelado pela dialética, em nenhuma das suas partes sofre uma maior dispersio thy que naqucla a que se dio nome de cultura. lim resumo: a histéria da cultura apenas aparentemente repre- senita tin avango do ponto de vista, e nem aparentemente um avango da dtaletica. Porque lhe falta o momento destrutivo que assegura 0 pensamento dialético ¢ a autenticidade da experiéncia do historiador dhaletico, Aumienta com certeza o peso dos tesouros que se acumulam aobre os ombros da humanidade. Mas nao lhe dé forgas para sacudi-los, © aim ficar coin cles na mio. O mesmo se pode dizer do trabalho cultural dos socialistas na virada do século, que tomou a histéria da cullita come prande marco de referéncia. Iv ©) perfil historico da obra de Fuchs destaca-se sobre esse pano finde. Nos casos em que tem consisténcia ¢ durabilidade, ela foi anancada a uma constehgdo intelectual que nde podia ser mais adversa, “Gul Lanprecht, Deuhebe Gewhiclite, 12 vols, Berlun, £424 1909 (N14 hon Meliiay, “Akademsebes” [Maténas academics), Die Nene Zest, vol SVE (sariyart, PROB), aL, p 195 196, E foi o colecionador Fuchs que ensinou ao tedrico a apreender muita coisa a que o seu tempo lhe barrava 0 acesso. Foi o colecionador que entrou por zonas de fronteira — o retrato deformado, a representagio pornogrifica ~ nas quais uma série de chavdes da historia da arte tra- dicional mais tarde ou mais cedo tem de fracassar. Em primeiro lugar, é preciso referir que Fuchs rejeita em toda a linha a visio classicista da arte, cujos vestigios ainda sao visiveis em Marx. Nao encontramos j4 em Fuchs os conceitos que haviam servido 4 burguesia para desenvolver essa concepcao da arte: nem a bela aparéncia, nem a harmonia, nem a unidade do diverso. E a mesma autoafirmagao decidida do colecionador, que afastou o autor das teorias classicistas, evidencia-se por vezes, de forma drstica ¢ brusca, até na relagio com a Antiguidade. Em 1908, apoiando-se na obra de Rodin e Slevogt, Fuchs profetiza o advento de uma nova forma de beleza “que, nos seus resultados finais, promete ser infinitamente maior do que a da Antiguidade, pois se esta era apenas manifestagao suprema da forma animal, a nova beleza seri preenchida com um grandioso contetido intelectual e animico”.'° Em suma:aescala de valores que antes determinara a relag3o com a obra de arte, no tempo de Winckelmann ou Goethe, perdeu toda a sua influéncia no caso de Fuchs. Seria, porém, erréneo concluir daqui que se deitou abaixo a prOpria visio idealista da arte, Isso s6 acontecer4 quando,.os disieta membra a que 0 idealismo chama “representacio hist6rica”, por um lado, e “‘homenagem celebratéria”, por outro, se transformarem num sé e forem superados enquanto tal. Esse feito esta destinado a uma cigncia histérica cujo objeto nao é constituido por um novelo de pura faticidade, mas por um conjunto determinado de fios que representam a.penetragdo de um passado na textura do presente. Mas seria errado fazer equivaler essa penetracio a um mero nexo © Arte erética, vol. 1, p. 125. A constante referéneia i arte conterporinea & um dos mais importantes impulsos do colecionador Fuch day grandes criagdes do pasado, © seu incomparavel conheciento da car atura antiga abre a Fuchs bastante cedo 0 cuninho pata a obra de Voulouse Lautrecy Tambérn isso Ihe vem ea parte de Heartheld ou Grange Grosz A sta pando por Dauner leva oa Slevogt, cuja vito de D Quixote the pareve ser a unica que esta a alta de Dauner, Os seus estundos sobre condi dio Ihe todas autoridade para apoute obra de wot Emil Potiier Pu hy teve dada a vids religoes de anuizade con a usta plisticos, ¢ por sso thaw adits que e sew niodo particular de se dirygit a obra de arte seja muitas causal. Trata-se de uma intervengio dialética, podem até ter-se perdido durante séculos alguns desses fios, e o proceso histérico da atualidade retoma-os de forma imperceptivel € stibita. O objeto histérico que foi retirado esfera da pura facticidade no precisa de “homenagem celebratoria”, porque nao oferece vagas analogias com a atualidade, mas constitui-se na exata tarefa dialética que tem de resolver. E esse, de fato, 0 seu objetivo. Se mais exemplos no houvesse, poderia constatar-se isso na marca patética que muitas vezes aproxima 0 texto da oralidade. Mas, por outro lado, mostra também como muita coisa se ficou pela intengio e pelos comegos. O lado absolutamente novo da intengo ganha expressio mais clara sobretudo quando a substancia tematica ver ao seu encontro — por exemplo na interpretago da iconografia, no significado da arte de massas, no estudo das técnicas de reprodugio. Esses lados da obra de Fuchs foram verdadeiramente pioneiros, parte integrante de toda futura aproximagio materialista da obra de arte. Os trés momentos referidos tém algo em comum: remetem para perspectivas de conhecimento que sé podem ser vistas como destruti- vas em face da forma tradicional de entender a arte. A ocupagio com as técnicas de reproducio apreende melhor do que qualquer outra orientacio o significado decisivo da recep¢ao, ¢ permite assim corrigir, adentro de certos limites, o processo de reificagio a que esta sujeita a obra de arte. A consideragao da arte de massas'leva 4 revisio do con- ceito de génio: chama a atengfio para a necessidade de nfo esquecer, para 14 da inspiragao, que tem o seu papel no nascimento da obra, a sua execu¢io, sem a qual ela nfo se tornard produtiva. Finalmente, a interpretagio iconogrifica revela-se nao apenas indispensavel para 0 estudo da recepcio ¢ daarte de massas, como também evita os abusos para que facilmente tende todo o formalismo,'”! ' Fuchs teve de se ocupar do formalismo. Na época em que Fuchs lanca os fundamentos da sua obra estava em ascensio a doutrina de Wolfflin. No ambito do seu “problema individual”, Fuchs articula as suas ideias com > de um princfpio da “arte cléssica” de W6lfflin. Esse principio € 0 seg tinte: “Assim, 0 Quattrocento e o Cinguecento, enquanto Onesie da uneruetyan iconagritica & certamente Fanile Male. Mas as suas fiancesas, dos séeulos XTLa XV, ves ultra chase ated tuvestygay ees Hist an fe filer s@ erie enitiainn anenin centr as de Ba bs conceitos de estilo, nio se confinam a caracteristicas de contefido. O fenémeno remete para uma evolu¢io do olhar artistico no essencial independente de um idedrio e de um ideal de beleza especificos”.!” Nao ha divida de que essa afirmagio pode chocar o materialista his- térico. Mas ela contém igualmente matéria que o pode estimular, pois precisamente ele nao esta particularmente interessado em explicar as mudangas do olhar artistico pelas transformacdes operadas no ideal dé beleza, mas sim em processos mais elementares — processos que, dadas as transformagGes econémicas e técnicas, sdo assimilados pela produgao, No caso concreto.do exemplo dado, nio iria muito longe quem se interrogasse sobre as transformag¢ées economicamente determinadas da arquitetura residencial trazidas pelo Renascimento, e sobre o papel desempenhado pela pintura renascentista como elemento perspectivo da nova arquitetura e como ilustra¢io da visibilidade que ela lhe con- cedeu.'® E certo que Wélfilin sé de passagem aborda essa questio.-Mas quando Fuchs se lhe opde com o comentario: “Sio precisamente esses momentos formais que ndo podem ser explicados a nio ser a partir de um espirito diferente da época”,'** isso remete em primeiro lugar para 0 ja referido cardter problematico das categorias da histéria cultural. Em mais do que um lugar é possivel constatar que © escritor Fuchs nao é dado a polémicas nem a discusses. Por mais polémico que possa parecer, nio encontramos no seu arsenal a dialética eristica, que, segundo a defini¢o de Hegel, “mina a forca do adversirio para 12 Heinrich Wélffin, Die Rlassische Kunst. Eine Einfhrung in die itolienische Renaissance [A Arte Clissica. Unn introdugio a0 Renascimento italiano]. Munique, 1899, p: 275. 2 A pintura ern madeira mais antiga punha o homem a morar em espagos pouco maiores que guaritas, Os pintores dos come¢os do Renascimento foram os primeitos a pintar ‘espacos interiores em que as figuras representadas tém espaco de aio. Foi isso que tornou a invengio ca perspectiva por Ucello tio impressionante para os contempo- rineos e para ele proprio. A pintura, que a paitir de agora oferecia as suas criagdes mais do que nunca aos homens no lugar em que viviam (em vez de, como antes, as fazer para os lugares de orag3o), deu-lhes modelos de habitagio, nio se cansava de erguer diante deles perspectivas das grandes moradias. Q Renascimento tardio, muito mais sdbrio na representagdo do interior propriamente dito, continuou a seguir essa tendéncia. “O Cinguecento tem uma sensibilidade particularmente desenvolvida para a relacdo entre o homem e a obra arquiteténica, para a ressonancia de um belo espaco. E quase impossivel conceber uma existéncia humiana sem 0 enguadramento ca fundamentagio arquitetdnicos” (Walfitin, op. at, p. 227). 2 Ante HuStiea, vol M, p20 destrui-lo a partir de dentro”. Nos investigadores que se seguiram a Marx e Engels enfraqueceu bastante a forga destrutiva do pensamento, que agora j4 nao se propde desafiar o século. Ja Mehring fez descero tom, que nele é mais o de repetidas escaramugas. Apesar disso, a sua leitura da “Lenda Lessing” é um contributo notavel. Mostrou como foi enorme a carga de energias politicas, mas também cientificas e teéricas arregimentadas e gastas nas grandes obras do Classicismo. Reforgou assim a sua antipatia contra a literatice acomodada dos seus contemporaneos. Chegou 4 conclusio (musculada) de que a arte s6 podia esperar um renascimento com a vitéria econdmica e politica do proletariado, Ea outra (mais objetiva): “Na sua luta de libertagio, a arte niio esté em. condigées de ter uma intervengao profunda”’.> A evolugio da arte deu-lhe razao. Os resultados a que chegou levaram-no com dupla convic¢o para o estudo da ciéncia. Foi ele que o equipou com 4 solidez e 0 rigor que o tornaram invulneravel ao revisionismo. E 0 seu caréter ganhou tragos que se poderiam dizer burgueses no melhor sentido da palavra, mas que ficaram Jonge de fazer dele um pensador thalético. Tais tragos nao estavam menos presentes em Fuchs, e talvez até sejam mais marcados nele, porque encontraram uma natureza mais expansiva ¢ sensualista. Seja como for, nio ha davida de que poderia~ mos imaginar 0 seu retrato numa galeria de eruditos burgueses. Ea seu lado podiamos colocar Georg Brandes,'% com quem partilha o furor tacionalista ¢ a paixio de espalhar luz por vastos dominios da histéria «om a tocha do ideal (do progresso, da ciéncia, da razdo). E do outro lado, por exemplo, Adolf Bastian,” 0 etnélogo, com quem Fuchs se compara sobretudo em razdo da sua insacidvel sede de material. E, tal como Bastian alcangou fama lendaria pela sua disponibilidade para \ “Fan Mchring, Geschichte der deutschen Sozialdemokeratic. zweitel Teil: Von Lar ually offcnem Antwortschreiben bis zum Erfurter Programm (= Geschichte des Soviulistnus in, Biazeldarstellungen, IU, 2) [Historia da Social-Democracia Alemi. Segunda parte: 1a carta aberta de Lassalle ao Programa de Erfurt (= Historia do Soculistno, Uma série. Il, 2)]. Stuttgart, 1898, p. 546. * Geanp, Heandes (1842-1927): critico e erudito dinamarqués que langou os fin Mamchitas da neva estética realista e naturalista depois de 1870 © exercet ytande sntluéne sa em to: a Europa do Norte. (N.T.) * Adult Wastian (1326-1905): erudito alemio, nascido em Bremen nun lanitiade semactssanites rices, © conhecido pelos seus trabalhos nos domainios da eta yetatia Fda antiopologia, que ajudou a constituir como disciplina, (N.'I.) partir para qualquer lugar de mala aviada sempre que alguma questo precisava ser esclarecida, langando-se numa expedicio que o mantinha durante meses afastado de casa, assim também Fuchs estava sempre aberto aos impulsos que o levavam em busca de novas provas. Ambas as obras continuario a ser um fundo inesgotavel para os investigadores. Vv Deve ser uma questo interessante para um psicdlogo a de perce- ber como um entusiasta, uma natureza orientada para as coisas positivas, pode chegar a desenvolver uma paixio pela caricatura. Pode responder- the como entender~no caso de Fuchs trata-se de um fato que nio deixa lugar a diividas. Desde sempre o seu interesse pela arte se distinguiu daquilo a que se costuma chamar “o gosto da beleza”. Desde sempre a verdade entrou nesse jogo. Fuchs nao se cansa de acentuar o valor documental ea autoridade da caricatura. Por vezes reduz isso a formula: “A verdade esta nos extremos”. E vai mais longe: para ele, a caricatura 6, “de certo modo, a forma da qual nasce toda a arte objetiva. Basta olhar para os museus de etnografia para se confirmar essa afirmagio”.!28 Quando Fuchs se serve do exemplo dos povos pré-histéricos ou do desenho infantil, o conceito de caricatura entra provavelmente num contexto problemitico; mas também se evidencia de forma mais au- téntica o seu forte interesse pelos ingredientes mais dristicos da obra de arte, sejam eles da ordem do contetido!” ou formais. Esse'interesse atravessa toda a sua obra. Ainda numa das tltimas obras, sobre a escultura Tang, lemos: “O grotesco é a mais elevada potencia¢ao da imaginacdo sensivel [...] Nesse sentido, as formas grotescas so também expresso da exuberante satide de uma época, E certo que nio se pode negar que nas forgas que geram 0 grotesco existe também um polo oposto. muito ébvio. Também as épocas decadentes e os cérebros doentes tem Caricaturra, vol Ap. Vda cuirtosa observagio a propésito das figuias de mulheres protetirias ni obra de Danner “Quem othe pata eses monicntos apetas Come motives dinanitzadores Monta que nan teveacesse as deriacleitay foray motives que tin de se vcionar Pare Citar obi de atte mpresionantes... Preciamente porqtte nestes quadros se trata de qualquer Cons mute ditetcate de ‘mutivos slinamez clot & que estas Hes Hieniuentos a escravidio: cia 40 etermamicnte come tnpresston he XEN LEY Dent Pisses tendéncia para criar formas grotescas. Nesses casos, 0 grotesco é 0 reflexo perturbador do fato de que os problemas do mundo e da existéncia sio insoltiveis para essas épocas e esses individuos. Mas percebe-se 4 primeira vista qual dessas duas tendéncias é a forga criadora por detras de uma fantasia grotesca”.'” Essa passagem 6 esclarecedora. Nela se percebe claramente de onde vem a ampla eficicia,a popularidade especial das obras de Fuchs: 0 dom de articular sempre os conceitos fundamentais de que se serve com juizos de valor — muitas vezes de forma peremptéria™* juizos sempre extremos, que se apresentam sob forma de opostos e polarizam assim 0 conceito com que se fundem.£ 0 que se passa com e com a apresentacdo do grotesco e da caricatura erdtica. Em tempos de deca- déncia esta é “coisa suja” e“brejeirice picante”, em épocas de ascensio é“expressio de prazer transbordante e pujanga”."’ Fuchs serve-se umas vezes dos conceitos valorativos de época Aurea ou de decadéncia, outras dos da satide e da doenca, evitando os casos-limite que se possam tornar problematicos. E prefere tomar como referéncia o que é“verdadeiramente grande”, que tem o privilégio de conceder espaco “ao que ha de mais excitante no mais simples”."°Valoriza pouco épocas artisticas hibridas, como o Barroco; a grande época continua a ser o Renascimento, no qual o se.1 culto da criatividade se sobrepGe A sua rejeico do Classicismo. O sonceito de criatividade tem em Fuchs fortes conotacées biolé- gicas. Enquanto o génio é referido com atributos que por vezes rogam o priapismo, os artistas de quem o autor se distancia sao apresentados com Teservas (uanto 4 sua virilidade. Esse ponto de vista biologista manifesta- se no juizo sumario que Fuchs faz de artistas como El Greco, Murillo, Ribera:“Todos se tornaram representantes clssicos do espirito barroco porque cada um 4 sua maneira é um artista-remendao dd erotismo”."* Nio se pode perder de vista o fato de que Fuchs desénvolve o seu instrumentdrio conceitual numa época para a qual a filtima palavra da '™ Pscultura “ang, p. 44. . ™ Veja separ exemplo, a tese sobre o efeito erdtico das obras de arte:“*Quanto mais tutense br ewe efeito, Lume maior a qualidade artistica? (Arte Erética, vol. 1, p. 68). 1 Canuatun vol Hp Cnualidin po SY Cbs prunes meceties da aite exten pL psicologia da arte era representada pela “patografia”, com autoridades como Lombroso e Mobius.*° E 0 conceito de génio, que pela mesma altura era documentado com grande riqueza de material pela influente obra de Burckhardt A Civilizagao do Renascimento, alimentava a partir de outras fontes a mesma convicgao, muito difundida, de que a cria- tividade era acima de tudo uma manifestagio de for¢a transbordante. Tendéncias semelhantes a essas mais tarde levaram Fuchs a concep¢Ges que se aproximam das da psicanilise, e que ele pela primeira vez aplicou a historia da arte. Esse lado eruptivo e de imediatismo que, segundo essas concep¢oes, marca a cria¢io artistica, é igualmente dominante em Fuchs no que se refere 4 percepcio das obras de arte. Muitas vezes € apenas um passo que separa a percepgio do juizo. Para Fuchs, a“impressio” nio é apenas 0 impulso Sbvio que o observador recebe da obra, mas uma categoria dessa mesma observacio. Quando ele, por exemplo, da expressio as suas reservas criticas a propésito do formalismo artistico da época Ming, resume esse juizo na observacdo de que as suas obras “ern ultima anilise j& no, e muitas vezes nem sequer, alcangam o nivel de impressio alcan- cado, por exemplo, pelo periodo Tang nas suas grandes linhas”." Desse modo 0 escritor Fuchs chega ao estilo particular e apoditico, para nao dizer radical, cujas marcas proprias resume com mestria ao explicar, na Histéria da Arte Erética:““Um. passo apenas separa a impressio correta da decifra¢&o correta e definitiva das forgas em ago numa obra de arte”.'*” Esse estilo nio é acessivel a todos, e Fuchs teve de pagar o seu prego por ele. Numa palavra: nao conseguiu, como escritor, o dom de provocar o espanto. E nio hi divida de que ele proprio sentia essa deficiéncia, ¢ pro- cura compensi-la das mais diversas maneiras, falando.com frequéncia dos Cesare Lombroso (1835-1909): antropélogo, criminologista ¢ jurista italiano cuja obra de antropologia criminal foi muito influenciada pelos estudos fisiondmicos e pelo darwinismo social (¢ também pelo espiritismo, a que Lombroso adere), ¢ revelava interesses estranhos € muito particulares, evidentes em alguns dos seus trabalhos: A raga do cetino e a anomalia do couro cabeludo; As origens do beijo; Por que razo os padres se vestem de mulher... J. P. Mabius: especialista de patografia, autor de estudos sobre Rousseau, Goethe € Nietzsche, e referéncia nos estudos sobre hipnose de Freud e Breuer. (N.T.) "§ Coruchéus, p. 40. 0 Ante Erética, vol. Il, p. 186. mistérios que investiga na psicologia da criago, dos enigmas do processo historico que encontram a sua solugio no materialismo. Mas o impeto para a dominagio imediata dos fatos, que determina ja a sua concep¢io da criagdo e também a da recep¢ao, acaba por se fazer sentir também na anilise das obras. O processo da histéria da arte é para ele “necessirio”, as caracteristicas de estilo sio “orgdnicas”’, as mais estranhas manifestacdes antisticas so, para ele, “légicas”. Nao é tanto no decorrer da anélise que se chega a essas conclusdes, elas esto ja na primeira impressio, como acontece com aqueles seres magicos da época Tang, “absolutamente logicos” e “orginicos”, com os seus chifres e as suas asas flamejantes. “Sio légicas também. as orelhas de elefante desproporcionadas; légica « também sempre a atitude; nunca se trata simplesmente de conceitos construidos, mas da ideia transformada em forma que respira vida.”"* " tultura Tang, p. 30-31. Ese modo de observacio intuitive e imediato toma-se problemitico quando se prope corresponder a uma andlise materialista dos fatos. Sahemnos que Marx nunca se pronunciou em pormenor sobre o modo como se deve entender a relagio entre base e superestrutura em casos particulares. © que sabemos wma série de mediagdes, ou transmissdes, que se ativam entre 48 coniliyes tmateriais de produgio e os dominios mais distantes da superestrutura, ‘now qunais se miclii a arte, Essa ideia encontra-se também em Plekhanov: “Se a arte pnedtuzicls prclas classes mais altas ndo se relacionar de forma direta com o proceso Ur prodty ao. isso tem de ser explicado, em dltima anilise, com eferéncia a causas ccondumcas, Aplica-se também nesse caso a leitura materialista da historia. Mas é evidente que a indiscutivel relagio causal que existe entre ser e consciéncia, entre as dives st ciais que tém como ‘base’ © trabalho, por um lado, ¢ a arte, por outro lado, nae se percebe facilmente. Nesses casos surgem alguns estigios intermédios” (G Plekhia sy, “Das fianzisische Drama und die franzésische Malerei im 18. Jaluhunutert, vow Standpunktder materialistischen Geschichesauffassung” [O drama F 4 pintura fianceses no século XVIII, do ponto de vista da concep¢io materialista «hs Iustinia], in: Die Newe Zeit, vol. KXIX, Stuttgart, 1911, n. 1) p. 543-544), Mas tun coisa & clara: que nesse caso a dialética classica da historia gud encontramos em Marx consicera que existem formas de dependéncia causal, Na pritica posterior nem sempre se fei tio rigoroso, muitas vezes bastava encontrar analogias. E possivel que ‘wo tivesse ¢ ver com a exigéncia de substituir as histérias burguesas da literatura e a site por outras de teor materialista e no menos grandiosas. Essa exig€ncia é parte de uma assitritura de época, ¢ tem o seu suporte no espirito guilhermino. E exigin tanbém a Fachs © seu tributo. Uma das ideias favoritas do autor, que nele surge cm muuitay viantes, estabelece que as €pocas artisticas qealistas se ligam a Estados mereantis. Po case da Holanda do século XVII ou da China dos séculos VII ou IX. Partinelo da andlise da econo fera dos jardins, a luz da qual se explicam muius carscteristicas do império, Fuchs volt ewultara, que surge sob o dominio dos Tang. A rigidez monumental do estilo Han & que ele pensava chinesa associada 4 st pari 4 nova Aqui se afittaa uma série de ideias que esto intimamente rela~ cionadas com as doutrinas social-democratas da época. Conhecemos a profunda influéncia do darwinismo sobre as concep¢ées socialistas da histéria. Na época das perseguigdes por. Bismarck essa influéncia foi benéfica para a confianca inabalavel do partido e para a determinaco da sua luta, Mais tarde, durante a fase revisionista, o ponto de vista evolucionista na teoria da histéria pesou tanto mais sobre a “evolucio” quanto menos o partido estava disposto a apostar nas suas conquistas na luta contra o capitalismo. A histéria assumia tragos deterministas; a vitéria do partido “nio podia deixar de acontecer”. Fuchs sempre esteve distante do revisionismo; o seu instinto politico, a sua natureza marcial levaram-no para a ala esquerda do partido. Mas enquanto ted- tico n&o escapou quelas influéncias, que se sentemn por toda parte na aligeira-se; 0 interese dos mestres andnimos que produzem trabalhos em cerimica concentra-se agora no movimento de seres humanos ¢ animais. Fuchs comenta: “O tempo acordou da sua grande paragem naqueles séculos da histéria da China, pois © comércio significa sempre mais vida e movimento. Por isso a arte da época Tang absorveu em primeiro lugar a vida eo movimento, ¢ essa caracteristica é também a primeira que nos salta a vista. Enquanto os animais do perfodo Han, por exemplo, sio ainda pesados ¢ macigos, nos da época Tang tudo é vivacidade, todos os membros estio em movimento” (Escultura Tang, p. 41-42). Esse método de anilise assenta na pura analogia — movimento no comércio e movimento na escultura -, e poderia- mos chamar-lhe mesmo nominalista. E tambéma tentativa de esclarecer a recepgio da Antiguidade no Renascimento fica presa 4 analogia: “A: base econémica era a mesma nas dias épocas, mas no Renascimento encontrava-se num grau superior de desenvolvimento. Ambas as épocas se baseavam no comiércio de mercadorias” (Arte Erética, vol. 1. p. 42). Por fim, é o proprio cométcio 0 sujeito da pratica antstica, ¢ lemos: “O comércio tem de contar com grandezas dadas, e s6 pode basear-se em grandezas concretas € verificiveis. Por isso tem de ir 20 encontro do mundo e das coisas para poder dominé-las economicamente.-E assim a sua perspectiva artistica das coisas € também, em todos os sentidos, real” (Excultura Tang, p. 42). Deixemos de lado 0 fato de nio ser possivel encontrar na arte uma representacio “em todos os sentidos real”. O que de fundamental haveria a dizer é que uma contextualizagio que se reclama da mesma validade para a arte da China antiga ¢ da Holanda antiga € necessariamente problematica. Na verdade, as coisas nio se passam assim. Basta deitar um olhar 4 Repiiblica de Veneza, que floresceu gragas a0 comércio, 0 que nio significa que aarte de Palma Vecchio, Ticiano ou Veronese possa ser vista como realista “em todos 05 sentidos”. © aspecto da vida que nela encontramos é apenas © representativo e festivo. Por outro lado, a vida comercial exige, em todos os seus niveis de desenvolvimento, um considerivel sentido da realidade. Mas 0 materialista R3n nade avimiv dal eniaicnier namaleRan eahen'n nancies ante ad sua obra. Na altura, um homem como Ferri tomava como modelo as leis da natureza nio apenas para os principios, mas também para a tiwica da social-democracia. Os desvios anarquistas eram por ele expli- cados como exemplo de falta de conhecimentos em geologia e biolo- giz. E certo que dirigentes como Kautsky discutiram esses desvios."” Apesar disso, muitos se satisfaziam com as teses que classificavam os acontecimentos histdricos em “fisiolégicos” ¢ “patolégicos”, ou entio achavam que o materialismo cientifico, nas mios do proletariado, se elevaria “espontaneamente” 4 condigio de materialismo histérico." ‘Fambém Fuchs imagina 0 progresso da sociedade humana como um proceso que “no pode ser travado, 4 semelhanca de um glaciar, que minguém pode fazer parar no seu avango continuo”.'? Desse modo, a concep¢io determinista anda a par com um otimismo inabalavel. Ora, menhuma classe poder intervir politicamente com éxito e a longo prazo se ndo estiver confiante. Mas nao é 0 mesmo o otimismo em relagio 4 forca ativa de uma classe ou as condigdes em que ela opera. Asocial-democracia tendia para a segunda, e mais problematica, dessas formas de otimismo. A perspectiva da barbarie em gestacao, de que um Engels e urn Marx tiveram a intuigdo (respectivamente em A Situagao #as Classes Trabalhadoras na Inglaterra e no prognéstico da evolugao do capitalismo) ¢ que hoje é conhecida de qualquer estadista mediano, estava vedada aos epigonos da virada do século. Quando Condorcet divulgou a doutrina do progresso, a burguesia estava prestes a tomar 0 poder; j4 0 proletariado, um século depois, se encontrava numa situagao muito diferente. Para ele, essa doutrina foi uma fonte de ilusdes que, de fato, constituem ainda o pano de fundo para o qual aponta de vez © Enrico Ferri (1856-1929): criminologista italiano, discipulo dq Lombroso, integra aala revisionista do Partido Socialista Italiano (a queadere em 1493, tendo dirigido oseu Srgio, o Avanti), orientada pelos principios do darwinismo social. Ferri apoia o fascismo de Mussolini nos anos 1920. (N-T.) "Karl Kautsky, “Darwinismus und Marxismus”, in: Die Newe Zeit, vol. KIT (Stutt- gart, 1895), n. 1, p. 709-710. “11. Laufenberg, “Dogma und Klassenkampf’ [Dogma e luta de classes], in: Die Neue Zeit, vol. XXVU (Suattgart, 1909), n. 1, p. 574. O conceito de “espontaneidade” dlegtadour se Uistenente ness altura, A sua grande época foi o século XVIII, quando recomegarane a cqaihlos ovmietcadis, bor essa a sua época triunfal, tanto em Kant Gob a fornia da nae nyediayan) cone tia téent a (cana mvencio dos autématos). Caricature, vol bop Ve em quando a histéria da arte em Eduard Fuchs, quando afirma: “A. arte de hoje trouxe~::9s a concretizagao de centenas de sorthos que, nos mais diversos sentidos, vio muito além do que o Renascimento alcangou, e a arte do futuro ter4 necessariamente de ser superior”! VI O estilo patético que atravessa a concep¢io da historia em Fuchs é 0 pathos democratic de 1830, cujo eco nos chega do orador Victor Hugo. E o maior desses ecos é o daqueles livros em que Hugo fala, como orador, para a posteridade. A concep¢io da historia de Fuchs €a que Hugo celebra em William Shakespeare: ““O passo do progres- so € 0 passo do proprio Deus”. E 0 suftagio universal apresenta-se como o relégio césmico que mede o ritmo desses passos. “Qui vote régne”, escreveu Victor Hugo, ¢ com isso ergueu as tAbuas do. oti- mismo democritico. Esse otimismo fez nascer, bastante mais tarde, estranhos devaneios. Um deles pretendia que “todos os trabalhadores intelectuais, ¢ com eles também pessoas de situagio material social elevada, devem ser vistos como proletarios”; pois “é um fato inegavel que, desde o conselheiro que se pavoneia no seu opulento uniforme dourado até o trabalhador assalariado e sem tempo, todos aqueles que oferecem os seus servicos € so pagos por eles sio vitimas indefesas do capitalismo”.'** As tibuas que Hugo ergueu pairam ainda sobre a obra de Fuchs. De resto, este se mantém na tradi¢io democratica ao se voltar para Franga com grande dedicagio: dedicagdo 4 causa de trés grandes revolugées, A patria dos exilados, as origens do socialismo utdpico, a0 berco dos opositores da tirania Quinet ¢ Michelet, 4 terra onde jazem 0s revolucionirios da Comuna, Era essa a imagem da Franga em Marx ¢ Engels, que Mehring herdou e que chegou a Fuchs como a do pais “da vanguarda da cultura e da liberdade”."“ Este compara a sitira ligeira dos franceses com a mais pesada dos alemies, compara Heine com os que ficaram em casa, e 0 Naturalismo alemao com os roman- ces satiricos de Anatole France. E desse modo, tal como Mehring, foi 18 Ante Erdtica, vol. |, p. 3. \ A. Max, “Zur Frage der Organisation des Proletariats der Intelligenz” [Sobre 0 problema da organizagio do proletariado intelectual], loc. cit., p. 652. ™S Caricatura, vol. Il, p. 238. levado a fazer prognésticos convincentes, particularmente no caso de Gerhart Hauptmann." Também para o colecionador Fuchs a Franga se apresenta como uma patria. A figura do colecionador, que se tora tanto mais atraente quanto mais tempo nos ocupamos dela, nio foi até agora suficiente- mente valorizada. Pensar-se-ia que ninguém, mais do que ela, deveria ter tentado os contadores de: hist6rias romAnticos. Mas é em vio que procuramos esse tipo humano movido por paixées perigosas, apesar de domesticadas, entre as figuras de um Hoffmann, de um De Quincey, de um Nerval. Rominticas sio as figuras do viajante, do fldneur, do jogador, do virtuoso. A do colecionador nio faz parte dessa galeria. K procuramo-la em vio entre as “‘fisiologias”, as quais n3o escapou ucnhuma figura do panéptico parisiense no reinado de Louis Philippe, lo vendedor de rua aos reis dos sales. Mais significative € © papel atribuido ao colecionador em Balzac, que lhe erigiu um monumento sem de modo algum lhe dar um tratamento romintico. Trata-se de um autor desde logo alheio ao Romantismo. E poucas entre as suas obras svelam uma posi¢ao tio surpreendentemente antirromiintica como 0 eshogo d’O Primo Pons. O mais significativo é talvez o seguinte: se, por umn lado, ficamos sabendo tudo sobre as pecas da colegio a que Pons dedicou a sua vida, por outro ndo sabemos quase nada da historia da sud aquisi-Zo. Nao ha nessa obra nenhuma pagina comparavel aquelas cm que cs Goncourt descrevem nos seus diarios, com empolgante suspense, 1 aquisigdo de um achado raro. Balzac nio apresenta o caga- dor nos terrenos de caga do recheio de uma casa, imagem que serve «todo colecionador. A sensa¢io maxima que faz vibrar todas as fibras tly seu Pons e do seu Elie Magus é 0 orgulho - orgulho dos tesouros incompexaveis que guardam com incansivel cuidade Balzac coloca tochia énfase na representagio do “proprietirio”, e escapa-lhe a palavra “* Mehting comentou na Naw Zeit 0 proceso instaurdo a Hauptmann depois da apresentzcio da pega Os Tealées. Certos aspectos da defesa voltaram a ganhar hoje sw atualidede que tiveram em 1893, Nessa altura, o advogado argumentou: “O que ctendia provar era que as pastagens destacadkas, pretensamente revolucionatias, teriam «eset vistas em contraponto com outras mais equilibradas e apaziguadoras. O escritor cmt sequer se coloca do lado da rebelido, pelo contratio, deixa que venga a ordem sirivés da intervengio de uma mio cheia de soldados” (Franz Mehring, “Eneweder- Oder” [Ou... oul. in: Die Neue Zeit, vol. XI. Stutteart. 1893. n. 1p. 780) Bal iar adeconrata sinner “milionario” como sinénimo de “colecionador”. Fala de Paris, e es- creve: “Ai podemos muitas vezes encontrar um Pons, um Elie Magus, miseravelmente vestidos. Parece que nao dio valor a nada, que nio que- rem saber de nada, n3o dio aten¢4o nem as mulheres nem as montras. Andam pelas ruas como em sonhos, de bolsos vazios, olhar perdido, e perguntamo-nos que espécie de parisienses sio esses. S40 miliondrios. Colecionadores, os homens mais apaixonados do mundo”.1i” A imagem do colecionador em Balzac aproxima-se mais da de Fuchs, da sua atividade miltipla, do que a’ que pudéssemos fazer de um romintico. Pode mesmo se dizer, tocando no nervo vital desse homem: Fuchs, o colecionador, é tipicamente balzaquiano, é uma figura de Balzac que ultrapassou o seu préprio criador. Quem melhor poderia documentar essa concep¢io do.que um colecionador cujo orgulho, cuja forca expansiva, desejoso de se mostrar a toda gente com as suas cole¢ées, o levam a apresenta-las ao mercado em reprodugées, para, desse modo — outro trago no menos balzaquiano —, se tomar um homem rico? Nio é apenas o escripulo de-um homem que sabe que é um conservador de tesouros, é também o exibicionismo do grande colecionador aquilo que leva Fuchs a incluir em todas as suas obras exclusivamente material iconografico inédito, e quase sempre das suas préprias colecées. S6 para o primeiro volume d’A Caricatura dos Povos Europeus colecionou nada mais nada menos que 68.000 desenhos, para escolher cerca de quinhentos. Nenhum desses desenhos fi reprodu- zido mais do que uma tinica vez. A riqueza.da sua docuientacio ¢ © espectro amplo da sua difiusdo sio indissociaveis. Amb»s as coisas testemunham as suas origens nas grandes estirpes burguesas dos anos em torno de 1830, como Drumont as caracteriza: “Quas2 todos os dirigentes da escola de 1830 tinham a mesma constituigao invulgar, a mesma fertilidade e a mesma tendéncia para a grandiosidade. Delacroix langa epopeias sobre a tela, Balzac retrata toda uma socieda:de, Dumas abarca nos seus romances uma histéria plurimilenar do género humano. Todos eles t&m costas para as quais nada é pesado de mais”.'"¥ Quando arevoluco chegou em 1848, Dumas publicou um apelo ao: operarios de Paris, no qual se apresenta como seu igual. Em vinte anos escrevera “7 Honoré de Balzac, Le Cousin Pons, Paris, 1925, p. 162. '® Edouard Drumont, Les héros et les pitres. Paris, p. 107-108. quatrocentos romances e trinta e cinco pe¢as de teatro, dando trabalho 28.160 pessoas: compositores ¢ revisores, maquinistas e costureiras, sem esquecer a claque. A sensacio com que o historiador universal Fuchs chega a constituir a base econdmica das suas grandiosas colegées talvez nio ande longe da autoestima de Dumas. Mais tarde, essa base econd- mica permitir-lhe-4 dominar de forma quase tio soberana o mercado Parisiense como as suas prdprias colegSes. O nestor dos negociantes de arte de Paris costumava dizer dele, pela virada do século: “C'est le Monsieur qui mange tout Paris”. Fuchs pertence ao tipo do ramasseur (compilador, agambarcador), tem um prazer rabelaisiano pela quanti- dade, que se evidencia até nas exuberantes repetigdes dos seus textos. vil A arvore genealégica francesa de Fuchs é a do colecionador, a alema, a do historiador. O rigor moral caracteristico do historiador Fuchs di-lhe o seu facies alemao, J 0 dera a Gervinus, cuja Histéria das Belas-Letras Nacionais pode ser vista como uma das primeiras tentativas da “historia do espirito” na Alemanha. O que distingue Gervinus, e mais tarde Fuchs, é 0 fato de os grandes criadores entrarem em cenaem pose, por assim dizer, marcial, e 0 lado ativo, masculino, espontineo da sua natureza se sobrepor a0 contemplativo, feminino e receptivo. E certo que essa tarefa se torna mais facil para Gervinus, j4 que na fase em que escreve 0 seu livro a burguesia se encontrava em plena ascensio, € a sua arte, cheia de energias politicas. Fuchs escreve na época do imperialismo, apresenta de forma polémica ao seu tempo as energias politicas da arte, um tempo em que elas de dia para dia vio enfraquecendo. Mas aescalz de Gervinus é ainda a sua, e pode mesmo ser seguida para tris até o século XVIII pela mio do préprio Gervinus, cujo discurso em meméria de C. F. Schlosser deu expkessio grandiosa a0 aguerrido moralismo da época revoluciondria da burguesia. JA se acusou Schlosser de “rigorismo moral intragivel”. Gervinus defende-o, argumentando: “O que Schlosser poderia dizer, e diria, contra tais acusagdes, € isto: que na vida em grande, na Historia, diferentemente dos romances ¢ das novelas, por mais que neles haja alegria dos sentidos ¢ do espirito, nao se aprende um gosto superficial pela vida; que com © seu estudo se adquire nio um desprezo misantropo, mas um modo rigeroso de ver o mundo ¢ principios sérios sobre a vida; que, pelo menos nos maiores de todos os juizes do mundo e dos homens que souberam medir a vida exterior por uma vida interior propria — um Shakespeare, um Dante, um Maquiavel -, as coisas do mundo sempre produziram uma impressio que os formou na seriedade e no rigor”.'* Eesta a origem do moralismo de Fuchs: um jacobinismo alemio cujo marco maior é a Historia Universal de Schlosser, que Fuchs conhecia desde a juventude.'" Esse moralismo burgués contém — e 0 fato nao é surpreendente ingredientes que colidem com os materialistas em Fuchs. Se ele tivesse consciéncia disso, talvez conseguisse minorar o choque. Mas acontece que ele estava convencido de que a sua visio moralista da histéria ¢ o materialismo histérico podiam conviver em perfeita harmonia. Trata- se de uma ilus%o cujo substrato é a ideia, muito difundida ¢ a precisar de revisio, de que as revolugdes burguesas, tal como sio celebradas pela propria burguesia, estio na base de uma revolucio proletaria.' Contra tal ideia é absolutamente necessario dar aten¢Ao ao espiritualismo que codeterminou aquelas revolugdes, € cujos fios de ouro foram fiados pela moral. A moral burguesa — os primeiros sinais disso esto ja patentes na fase do Terror — ¢ dominada pela interioridade. A sua charneiia é a "© Georg Gottftied Gervinus, Friedrich Christoph Schlosser. Bin Nekrolog. Leipzig, 1861, p. 30-31. 80 Essa orientagio da sua Obra revelou-se titil 2 Fuchs quando comegaram as acu- sagdes de “difuusdo de escritos imorais” por parte do Ministério Ptiblico imperial. Encontramos uma exposicio particularmente expressiva do moralismo de Fuchs na declaragio de voto de um dos especialistas do, caso, feita no Ambito de um dos processos, que terminaram todos com a absolvigio. O documento esté assinado por Fedor von Zobeltitz e diz 0 seguinte na sua passagem mais importante: “Euchs considera-se muito seriarmente um pregador de moral, um educador, ¢ esse modo profundamente sério de encarar 2 vida, a intima convicgio de que a sua obra em prol da historia da humanidade tem de se orientar por principios de uma elevada moralidade bastam para o ilibar da suspeita de qualquer especulagdo comercial desenfteada, de que se teriam de rir todos aqueles que o conhecem & a0 seu luminoso idealismo”. "1 Essa revisdo foi inaugurada por Max Horkheimer no ensaio “Egoismus und Freiheitsbewegung” [Egoismo e movimento de libertagio], na Zeitschrift fir So- zialforschung [Revista de Investigacio Social], vol. V (1936), p. 161 segs. Entre os testemmunhos reunidos por Horkheimer encontra-se uma série de interessantes documentos com 68 quais o radical de direita Abel Bonnard justifica o seu ataque Aqueles historiadotes burgueses da revolugio que Chateaubriand designa de “I'école admirative de la terreut” (cf. Abel Bonnard, Les Modérés. Paris, p. 179 segs.). consciéncia moral — quer ela seja a do citoyen de Robespierre ou a do cidadio do mundo de Kant. O comportamento da burguesia, compati- vel com os seus prdprios interesses, mas dependente do comportamento complementar do proletariado, que nao correspondia aos interesses desta tltima classe, proclamou como instincia moral a consciéncia. A consciéncia moral existe sob o signo do altruismo. Aconselha o proprietirio a agir de acordo com os conceitos cuja vigéncia aproveita indiretamente aos seus coproprictirios, ¢ aconselha facilmente aos nao proprietirios que fagam o mesmo. Se os tltimos-aceitarem este conse- tho, a utilidade do seu comportamento para os proprietarios torna-se tanto mais evidente quanto mais problemitico ele é para os que assim se comportam e para a sua classe. Por isso 0 prego desse comporta- mento é a virtude. E assim a moral de classe se impde. Mas o faz de forma inconsciente. A burguesia nao precisou tanto de consciéncia para construir essa moral de classe como o proletariado precisa para deit4-la abaixo. Fuchs nio faz justia a essa realidade, porque acha que tem de dirigir os seus ataques contra a consciéncia moral da burguesia. A sua ideologia é para ele um jogo de intrigas: “A conversa fiada que até perante os mais descarados preconceitos de classe nos vern com a histéria da honestidade subjetiva dos juizes s6 prova a propria falta de carater daqueles que assim falam ou escrevem, na melhor das hipdteses a sua estupidez”.'5? Nao passa pela cabeca a Fuchs condenar o proprio conceito da bona fides (da boa consciéncia moral), apesar de isso parecer Obvio para o materialista histérico. Nao apenas porque ele reconhece nesse conceito um suporte da moral de classe burguesa, mas também porque nio lhe escapard que esse-conceito estimula a solidariedade da desordem moral com a auséncia de planificacio econdmica. Alguns marxistas mais jovens tocaram nessa questa, pelo meno4 indiretamente. Assim, por exemaplo, nas referéncias 4 politica de Lamartine, que fazia um uso excessivo da bona fides: “A democracia burguesa precisa desse valor, O democrata, do ponto de vista dos negécios, é honesto. Por isso. se sente dispensado da necessidade de ir atrés dos fatos reais”.'* A observagio, mais orientada para os interesses conscientes dos inclividltios do que para as formas de comportamento que a sua classe "0 pintor Dananier, p. 30. muitas veries é obrigada a assumit inconscientemente e dada a sua posigio no processo de produgio, leva a uma sobrevalorizacado do momento consciente na formagio da ideologia. Essa sobrevalorizagao é evidente em Fuchs quando escreve: “A arte é, em todos os seus aspectos ¢s- senciais, o revestimento idealizado da situago social, Pois ha uma lei eterna segundo a qual toda a situaco politica ou social dominante tem tendéncia a idealizar-se, para desse modo legitimar moralmente a sua existncia”.'! Aproximamo-nos do ceme do mal-entendido que con- siste em julgar que a exploragio determina-uma falsa consciéncia, pelo menos do lado dos exploradores, acima de tudo porque uma consciéncia reta Ihes é moralmente incémoda. Essa frase poderd ser parcialmente vilida para o presente, uma época em que a luta de classes apaixona fortemente a globalidade da vida burguesa. Mas de modo nenhum se pode considerar Sbvia a “ma consciéncia” dos privilegiados para explicar as formas da exploracio no passado. A reificago nao se limita a tornar invisiveis as relacdes entre os homens; envolvem-se em névoa também. 0s sujeitos reais dessas relacdes. Entre os detentores do poder da vida econdmica ¢ os explorados existe um aparelho burocritico, juridico e administrativo cujos membros j4 nao funcionam como sujeitos morais plenamente responsiveis; a sua “consciéncia da responsabilidade” nao & mais do que a expressio inconsciente dessa amputacio. VI O moralismo cujos vestigios sio visiveis no materialismo histérico de Fuchs também nio foi abalado pela psicanilise. Sobre a sexualidade escreve: “Sio legitimas todas as formas de conduta sensual nas quais se manifeste o lado criativo dessa lei da vida [...] Condenaveis sio, por outro lado, aquelas formas que degradam essa pulsao superior, transformando-a em mero meio de gozo requintado”."$* Nao ha divida 4 Arte Erbtica, vol. Il, primeira parte, p. 11. “8 Ante Erética, vol. 1, p.43. A apresentagio do Diretorio do ponto de vista dahistoria ‘dos costumes tem tragos que fazern lembrar a literatura de cordel: “O horrivel livso do marqués de Sade, com as suas gravuras, to mis como infames, estava exposto, aberto, em todas ag montras”. E da figura de Barras’ chega-nos “a imaginario desbragada de umibertino sem vergonha” (Caricatura, vol. I, p. 202 ¢ 201). [‘Paul Frangois Jean Nicolas, visconde de Barras (1755-1829): politico rico e sem de que a assinatura desse moralismo é burguesa. Fuchs desconhece a verdadeira desconfianga em relac¢do 4 condenagio burguesa do puro prazer sexual e dos caminhos mais ou menos imaginativos para 4 chegar. Aceita como principio que “sé em termos relativos se pode falar de moralidade e imoralidade”, mas ao mesmo tempo institui uma exce¢do quanto 4 “imoralidade absoluta”, nos casos de “‘infragdes as pulsdes sociais, ou seja, infragdes que vio contra a lei da natureza”. Caracteristica desse ponto de vista é, segundo Fuchs, a vitdria histori- camente comprovavel das “massas, sempre passiveis de evolucao, sobre a individualidade degenerada”."°° Em resumo, pode se afirmar sobre Fuchs que ele “‘ataca nfo a legitimidade de um juizo condenatério contra as pulsdes pretensamente corrompidas, mas as opinides sobre a sua histéria ¢ a sua escala”.'” E isso afeta o esclarecimento do problema psicolégico-sexual, uma questo que se tornou particularmente importante desde que a burguesia assumiu o poder. E aqui que se insere a tabuizagao de zonas mais ou menos amplas do prazer sexual. Os recalcamentos que ela produziu nas massas trazem a lume complexos masoquistas € sadistas aos quais os detentores do poder entregam aqueles objetos que se apre- sentam como os que mais convém 4 sua politica. Um contemporaineo de Fuchs, Wedekind, explorou esses territérios. Fuchs deixou por fazer a sua critica social. Tanto mais importante se torna por isso a passagem em que ele se redime parcialmente dessa falha, chegando a essa critica pelos caminhos da histéria da natureza. Trata-se de uma brilhante defesa da orgia. Segundo Fuchs, “o prazer da orgia é uma das mais valiosas tendéncias da cultura [...] Temos de ter presente que a orgia é uma das caracteristicas que nos distinguem dos animais, que, ao contririo dos humanos, no conhecem a orgia [... O animal igpora a mais su- culenta das refeigdes ¢ a mais cristalina das fontes se estiver saciado de fome e sede, e 0 seu apetite sexual quase sempre se restringe a certos periodos curtos do ano. Oser humano é muito diferente, sobretudo o ser humano criativo, que nio conhece limites”.""’ © momento forte ™ Curratura, vol. 1, p. 188. "’ Max Horkheimer, “Egoismus und Freiheitsbewegung”, lec. cil., p. 166. ™ Aute Ldtica, vol. UL, p. 283. Fachs segue aqui um trilto muito importante. Ser’ wncenst utes agseciae a fronton hare aes das reflexGes psicolégico-sexuais de Fuchs é o das reflexdes em que ele discute as normas tradicionais. Sao essas reflexdes que lhe permitem destruir algumas ilusdes pequeno-burguesas. Assim, por exemplo, ado nudismo, na qual vé, com raz4o, “uma revolugio da tacanhez”. “O ser humano jé nao é, e ainda bem, nenhum animal selvagem, e é preciso que a fantasia, incluindo a érdtica, esteja presente também no vestud- rio. O que nao queremos é unicamente aquela organizaco social da humanidade que reduz tudo isso 4 condi¢ao de um trafico vulgar.”"” O ponto de vista psicolégico e histérico de Fuchs deu frutos na histéria do vestuario. De fato, nenhum outro objeto satisfazia tanto os trés interesses do autor-o histérico, o social ¢ 0 erdtico — como a moda. Isso é ja visfvel na sua definigio, que se socorre de uma formulagao que lembra Karl Kraus. A moda, lé-se na Histdria dos Costumes, dé a ver “o modo como se pretende conduzir 0 negécio da moralidade puiblica”.' Fuchs, de resto, nao caiu no erro, comuma outros autores, de investigar a moda apenas a partir de pontos de vista estéticos e erdticos. Nao lhe escapou o seu papel como instrumento de dominagao: da expressio as mais sutis diferengas dos grupos sociais, e vigia sobretudo as mais acentuadas das classes. No terceiro volume da sua Histéria dos Costumes Fuchs dedica-lhe um grande ensaio cujo pensamento é sintetizado no volume complementar por meio da enumeragio dos elementos de verem uma fotografia de nu feminino ou masculino prova que o olho jé nao € =apaz de ver 0 todo harménico, mas apenas o pormenor picante” (op. cit., p. 26%. O que neste caso tem um efeito de excitagtio sexual é mais a imaginagio do « orpo nu diante da miquina fotogrifica do que a visio da propria nudez. B dev- ter sido esta a intencio da maior parte dessas fotografias. mudangas na moda; ¢ em trceiro lugar nio se deve. esquecer “as finalidades eroticamente estimulantes da moda”."! O culto da criatividade; que atravessa toda a obra de Fuchs, foi buscar novo alimento aos seus estudos psicanaliticos, que enriquece- ram, mas nio corrigiram, as suas concepgdes originalmente fundadas na biologia. Fuchs aceitou com entusiasmo a teoria das origens eréticas dos impulsos criativos. Mas a ‘sua visa. do erotismo continuou muito presa a de uma sensualidade radical, biologicamente determinada. Fuchs evitou na medida do possivel a teoria do recalcamento e dos complexos, que talvez tivesse modificado a sua visio moralista das relacées sociais € sexuais. Do mesmo modo que o seu materialismo histérico faz derivar as coisas mais do interesse econdmico consciente do individuo do que do interesse da classe, em tiltima andlise inconsciente, assim também 0 impulso criativo, tal como ele o vé, se alimenta mais da intengao sensual consciente do que de um inconsciente gerador de imagens." O mundo erédtico das imagens enquanto mundo simbélico, tal como A Interpretagéo dos Sonhos de Freud © delimitou, s6 se manifesta em Fuchs quando o seu empenho interior é maior. Nesse caso, esse mundo preenche os seus textos, mesmo quando se evita qualquer referéncia a ele, como 2contece na magistral caracterizagjo da gravura da fase da revolugao: “Tudo é hirto, inflexivel, militar. As pessoas ndo estiio deitadas, porzue o campo de manobras nio tolera nenhum ‘Mexam- sel’, Até mesiv10 quando estio sentadas parece que querem levantar-se de um salto. Todo o seu corpo est4 tenso, como a seta na corda do arco [...] O «ue se passa com a linha passa~se também com a cor. £ certo que as 2ravuras parecem frias, metélicas, se comparadas com as do Rococé |...] A cor tinha de ser dura, metilica, para se ajustar a0 contetido das gravuras”." Mais explicita é uma referéncia esclarecedora ao fetichismo, que procura investigar os seus equivaldntes histéricos. O resultado 3 que “o crescimento do fetichismo dos sapatos e das Pernas parece apontar para a substitui¢ao do culto de Priapo pelo da ‘ Historia dos “ostumes, vol. complementar III, p. 53-54. “A ane é para Fuchs sensualidade imediata, tal como a ideologia & a producio imediata de interesses. “A esséncia da arte é: a sensualidade. Arte 6 sensualidade, le sob forma potenciada. A arte & sensualidade tomada forma, tornada 9 mesmo tempo a forma suprema e mais nobre dessa sensualidade” (ue Brite, vol. I, p. 61). sy Gnicatara wel Vo 99% vulva”, enquanto 0 aumento do fetichismo do peito, pelo contrario, seria uma tendéncia regressiva: “O culto do pé ¢ das pernas tapados espelha a superioridade da mulher sobre o homem; o culto - Bele espelha o lugar da mulher como objeto de prazer do homem”." As mais profiandas consideragdes sobre 0 dominio do simbolo surgem em Fuchs a propésito dos desenhos de Daumier. O que diz sobre as Arvores de Daumier é um dos mais felizes achados da obra. Nelas reconhece,““uma forma simbélica muito particular em que se revela 0 sentimento de responsabilidade social de Daumier e/a sua convicgio de que é dever da sociedade proteger © individuo [...] A sua forma tipica de representar as 4rvores apresenta-as sempre de ramos muito abertos, sobretudo quando alguém est debaixo delas, em pé ou deitado. Os ramos estendem-se de forma especial nessas arvores, como os bragos de um gigante, parecem literalmente querer alcangar 0 infinito, fecham-se num telhado impenetravel que protege do perigo todos aqueles que sob ele vieram procurar abrigo”.'®° Essa bela descri¢io conduz Fuchs ao elemento maternal dominante na obra de Daumier. Ix Nenhuma outra figura se tornou tio vivapara Fuchs como Dau- mier. Acompanhou-o durante toda a sua vida de trabalho, quase se poderia dizer que com ela Fuchs se tornou um pensador dialético. Pelo menos, concebeu-a em toda a sua plenitude e nas suas contradicdes vivas. Por um lado, apreendeu o elemento maternal na arte de Daumier, ¢ delimitou-o de forma impressionante, mas isso no o impediu de se familiarizar igualmente com 0 outro polo, o.masculino e mais discutivel da figura. Chamou a atengio para 0 fato de faltar 4 obra de Daumier a componente idilica, ndo apenas na paisagem, na representagdo dos animais, nas naturezas mortas, mas também nos motivos erdticos e no autorretrato. O que verdadeiramente atraiu Fuchs em Daumier foio momento ag6nico dessa obra. Serd demasiado ousado procurar numa pergunta a grande origem da caricatura de Daumier? O artista parece perguntar: como se comportariam os homens e mulheres da burguesia “4 Arte Erébtica, vol. Il, p. 390. ea 4 do meu tempo se os umagindssemos numa palaestra'® em luta pela existéncia? Daumier traduziu para a linguagem do dgon a vida privada ptiblica dos parisienses. Entusiasma-se acima de tudo com a tensao atlética.do corpo e das suas vibragées musculares. E isso de modo nenhum entra em contradic¢ao com o fato de:ninguém ter desenhado © profundo relaxamento do corpo de forma tao empolgante como Daumier. A concep¢io de Daumier tem, como Fuchs notou, muitas afinidades com a da escultura. Por isso ele -rapta os tipos sociais que © seu tempo lhe oferece para coloci-los num pedestal, quais herdis olimpicos transfigurados. Sao sobretudo os éstudos de juizes ¢ advo- gados que podemos observar desse ponto de vista. O humor elegiaco em que Daumier gosta de envolver 0 pantedo grego sugere de forma direta essa inspiracdo. Talvez nisso esteja a solugao do enigma que j Baudelaire encontrou no mestre: como pode a sua caricatura, com toda a sua ira e o seu impeto, estar tio livre de rancor? Todas as potencialidades de Fuchs se avivam quando fala de Dau- mier. Nao ha assunto que mais suscite a0 seu conhecimento intuigdes tio fulgurantes. Um desenho, tio insignificante que seria eufemismo chamar-lhe incompleto, basta a Fuchs para fornecer uma anilise profunda do modo de produgio de Daumier. Representa apenas a parte superior de uma caze¢a, em que os Unicos elementos que tém alguma coisa a dizer sio os olhos e 0 nariz. O fato de o esbogo se limitar a esta parte do rosto e de ter como objeto apenas alguém que olha, é para Fuchs um sinal de que é ai que se fixa todo o interesse do pintor. Isso porque, na execucao de um quadro todo pintor, segundo Fuchs, come¢a por aquela secao que mais intensamente o atrai.'*” “Intimeras figuras‘de Daumier”, lemos na obra sobre esse pintor, “se apresentam com um olhar concentrado, ou para o longe, ou observando um determinado objeto, ou ainda olhando dessa form: concentrada a sua propria interioridade. 4s personagens de Daumier ‘ham Jiteralmente [...] com a ponta do nariz”."* : iy grego TaAGIOTpA, a escola de luta e da cultura atlética na Grécia antiga, parte inteyrante do ginisio. (N.T.) 167 Sobre esse ponto, veja-se ainda a seguinte reflexao: “As minhas observagées levam-me a pensar qe os aspectos dominantes da paleta de um artista se manifestam sempre de forma particularmente clara nos seus quadros acentuadamente eréticos, ¢ que neles alcangam ¢ sua mais alta Luminosidade” (Os Grandes Mestres do Erotismo, p. 14). 1 © Pintor. Daumier, p. 18, Entre as figuras de que falamos encontra-se também a do famosa “omnaicour de arte” rina aavarel aus evict em varias verses Tlm dia x Daumier foi o mais feliz, objeto de. investigagio para Fuchs. E igualmente a mais feliz das suas iniciativas. E com justificade orgulho que Fuchs lembra que no foi gragas 4 iniciativa estatal, mas 4 sua propria, que pela primeira vez-alguém conseguiu reunir os primeiros Albuns de Daumier (e de Gavarni) na Alemanha. E nfo esti s6 entre os grandes colecionadores na sua desconfianga em relagio aos miseus. Os Goncourt anteciparam-se-lhe nisso, e ultrapassam-no em violéncia Se, por um lado, as cole¢es pablicas poderiam ser socialmente menos problematicas e cientificamente mais titeis do que as privadas, por outro desperdicam a maior oportunidade destas, O colecionador dispe, nz sua paixio, de uma varinha de vedor que o transforma em descobrider de novas fontes. Isso se aplica a Fuchs, e por essa razio ele tinha de se opor aovréspirito que dominava os museus sob a égide de Guilherme IL, e que s6 se interessava pelas chamadas pegas representativas. “E urn fato”, diz Fuchs, “que esse tipo de colegao esté hoje condicionado pelas disponibilidades de espago dos museus.. Mas esse condicionslismo em nada altera 0 fato de que, por essa via, obtemos uma ideia muito incompleta da cultura do passado. $6 a vemos nos trajes faustosos dos dias de festa, mas raramente nos seus mais modestos fatos de trabalho.””"” Os grandes colecionadores distinguem-se quase sempre pela ori- ginalidade da sua escolha dos objetos. Mas ha exce¢Ges: os Goncourt partiam menos dos objetos do que dos contextos que os escondiam, ¢ realizaram a transfiguracio do interior burgués quando ele acabava de desaparecer. Em regra, porém, os colecionadores deixaram-se guiar pelos apresentarama Fuchs uma versio até ai nfo conhecida, nio se sabendo se era autéatica ‘ou falsa. Fuchs observou a representacio principal desse motivo numa boa reproducio, € comegou a fazer uma comparacio a todos os titulos instrativa, Nem um desvio, por menor que fosse, deixou de ser considerado, ¢ cada um deles exigia chegar 2 conclusdes sobre se era obra da mio de um mestre ou um produto do desespero. Fuchs voltava sempre ao original, mas o modo como o fazia parecia mostrar que bem poderia prescindir disso; o seu olhar mostrava-se tio familiarizado com ele como sé pode acontecer com uma obra que se teve presente em espfrito durante anos. Era esse, sem diivida, 0 caso de Fuchs. E s6 por isso € que ele-estava em condigdes de descobrir a insegurangas mais escondidas nos contomos, as mais insignificantes falls de cor nas sombras, os minimos defeitos no trago, que acabariam por colocar 0 duvidoso desenho no lugar que lhe coinpetia ~ e que nio era o de uma fakificagio, mas o de uma boa cOpia antiga que poderia ter sido feita por um amador. 169 Coruchéus. 9. 5-6, proprios objetos. Lim grande excmplo, no limiar da Idade Moderna, € 0 dos humanistas, cirjas acquisigoes de objetos gregos e viagens & Grécia dio testemunho da forma consequente como orientavam as suas colegées. Com [Michel de] Marolles, modelo de Damoctde,"” 0 colecionador entra na literatura pela mio de La Bruyére (¢ logo com uma imagem pouco lisonjeira). Marolles foi o primeiro a reconhecer a importncia da gravura, ¢ a sua colegio de 125.000 estampas constitui o néicleo fundador do Cabinet des Bstampes, O catilogo em sete volumes das suas colegdes, organizado no século seguinte pelo conde de Caylus, é 0 primeiro grande trabalho desse tipo de arqueologia. A colegio de gemas de Stosch'”' foi catalogada por Winckelmann, por incumbéncia do colecionador. Mes- mo nos casos em que nio estava destinada grande duracao 4 concep¢io cientifica sabjacente a tais colecdes, em. certos casos as proprias colegdes revelaram té-la, Foi o queaconteceu com a de'Wallraf e Boisserée, cujos fandadores, apoiando-se na teoria romantico-nazarena de que a arte de Colénia era herdeira daarte antiga romana, criaram com as suas pinturas da Idade Média alemi o fundo essencial do museu de Colénia. Fuchs snsere-se nessa série de grandes colecionadores que planificavam as suas colegdes ¢ se dedicaram a wma causa sem se desviarem do seu caminho. ‘A sua ideia condutora é a de restituir 4 obra de arte a existécia na so- ciedade, ca qual havia sido de tal modo segregada que © lugar onde ele a foi encuntrar era o de um mercado em que ela, igualmente afastada dos seus j rodutores ¢ daqueles que a poderiam compreender, sobrevivia reduzida i sua condigdo de mercadoria. O fetiche do mercado da arte &0 do nome do mestre. Do ponto de vista histérico, talvez 0 maior mérito de Fuchs tenha sido 0 de ter encetado a libertacio da historia da arte desse fetiche do nome do mestre. Assim, podemos ler no seu livro sobre a escultura do periodo Tang: “Por isso o total anonimato dessas oferendas “unerarias, 0 fato de no se conhecer um tinlico caso de criagao individual dessas obras, é uma importante prova de que nesse dominio nunca se pode falar de produgao artistica individual, mas sempre do Tm Damocé&. € o nome do personagem colecionador de Les caractéres ou Les moeurs de ce sitcle. de La Brayére (1645-1696), publicado em 1688. (N.T-) 1 Baro Phisipp von Stosch (1691-1757): antiquario e colecionador prussiano que viveu er. Roma e Florengs. A colegio de gemas referida € a Gemma Antique Ceclater(| 724), ima colegio de pedras antigas gravadas, reproduzidas em gravaras de Hera! Picart, que reuniam setenta pedras de colegdes europeias. © volume jovese em obra de referéncia para historiadores € colecionadores. (N.T.} transfor modo como o mundo eas coisas eram vistas nessa altura pela totalidade d> populagio”.”? Fuchs foi um dos primeitos a desenvolver as caracte- risticas particulares da arte de massas, promovendo assim impulsos que recebera do materialismo histérico. O estudo da arte de massas leva-nos necessariamente para. questio da possibilidade de reprodugio técnica da obra de arte, “A cada época correspondem técnicas de reprodugdo muito: proprias, que representam as capacidades técnicas disponiveis em cada uma e sio resultados das necessidades do respectivo tempo. Por isso. nio € de estranhar o fenémeno cutioso de que todas as grandes mudangas histéricas, que levaram ao poder classes que destronaram as dominan- tes, condicionaram também regularmente as mudangas nas técnicas de reprodugao das imagens. E preciso lembrar esse fato de forma clara, Pontos de vista como esse evidenciam o papel pioneiro de Fuchs. Com eles chamou a atengio para objetos cujo estudo pode servir de escola do materialismo historico. O grau de desenvolvimento técnico das artes ¢ um deles. Segui-lo é reparar muitos dos. estragos provocados pelo conceito corrente de cultura das ciéncias do espirito (por vezes até no proprio Fuchs). O fato de “milhares de simples oleiros terem conseguido dar forma a objetos técnica ¢ artisticamente ousados”!”* é pata,Fuchs, com razao, uma afirmagdo concreta da arte chinesa an- tiga. Consideragdes de ordem técnica levam-no de vez em.quando a sinteses luminosas, muito avangadas em relag3o'a sua época. S6 assim se pode compreender e explicar a circunstincia de a Antiguidade nio conhecer a caricatura. Qualquer concepgao idealista da hist6ria veria nisso mais um suporte da imagem. classicista da Grécia. E como é que Fuchs explica o fendmeno? A caricatura é para ele uma arte de mas- sas, Nao existe caricatura sem a difiusio em massa dos seus produtos. E difasio em massa significa difusio barata. Ora, “a Antiguidade no conhecia outra forma barata de reprodui¢io que nao fosse a moeda”.'5 1? Bsaultura Tang, p. 14. 5 Honoré Daumier, vol I, p. 13. Compare-se com estas ideias a interpretagao alegérica das Bodas de Canai por Victor Hugo: “O milagre dos pies significa a multplicagio dos leitores. No dia em que o cristo deparou com esse simbolo intuiu a invencao da tipografic.” (V. Hugo, William Shakespeare, cit. por Georges Batault, Le pontif de la démagogie: Vicor Hugo. Paris, 1934, p. 142). '™ Coruchéus, p. 46. 1 Carcanera, vol.1p.19. A excegao confirma a regra. A produgio de figuras em temicota servia-se de um proceso de reprodugio mecanica. E entre elas ha muitas caricanuras