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Dossiê | Contributo ao debate

10 de dezembro de 2019

Acordo de Alcântara: Desafios ao desenvolvimento soberano 


diante do imperialismo estadunidense1 
 
 
Este dossiê expõe os principais problemas do Acordo de Salvaguardas Tecnológicas (AST) assinado
entre o Brasil e os Estados Unidos da América (EUA) sobre o uso do Centro de Lançamento de
Alcântara (CLA), base espacial brasileira localizada no estado do Maranhão. Para isso, descreve
princípios que jus ficam a problema zação; resume a Polí ca Espacial e a de Desenvolvimento
Nacional contrastando-as com consequências danosas invisibilizadas pelo linguajar técnico/
procedimental do AST; e contextualiza a discussão no quadro da polí ca imperialista dos EUA, com
efeitos sobre a região e o Brasil. Com base na análise de documentos oficiais, do projeto de
decreto de lei que propõe a adoção do acordo, de comunicação confidencial estadunidense
revelada pelo WikiLeaks, e de posições conhecidas de especialistas, entre outros, rejeitamos as
concessões feitas pelo Governo Bolsonaro neste AST. O acordo enquadra-se numa polí ca
imperialista estadunidense que só pode se efe var em oposição ao projeto brasileiro de
desenvolvimento nacional soberano e a uma polí ca externa independente.
 
Siglas 

AEB - Agência Espacial Brasileira


AST - Acordo de Salvaguardas Tecnológicas
ATS - Agenda Tecnológica Setorial
CCJC - Comissão de Cons tuição, Jus ça e Cidadania
CLA - Centro de Lançamento de Alcântara
CRE - Comissão de Relações Exteriores do Senado Federal
CREDN - Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional da Câmara dos Deputados
END - Estratégia Nacional de Defesa
FAB - Força Aérea Brasileira
GSI - Gabinete de Segurança Ins tucional da Presidência da República
MCTIC - Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações
MD - Ministério da Defesa
MRE - Ministério das Relações Exteriores
MTCR - Regime de Controle de Tecnologia de Mísseis
PDL - Projeto de Decreto Legisla vo
PNAE - Programa Nacional de A vidades Espaciais
PNDAE - Polí ca Nacional de Desenvolvimento das A vidades Espaciais
SGDC - Satélite Geoestacionário de Defesa e Comunicações Estratégicas
SINDAE - Sistema Nacional de Desenvolvimento das A vidades Espaciais

1
Autoria: Moara Crivelente, da Diretoria Execu va do CEBRAPAZ, cien sta polí ca e doutoranda em Polí ca
Internacional; Rita Coi nho, do Conselho Consul vo do CEBRAPAZ, socióloga e Doutora em Geografia. Colaboração e
revisão: Diego Pautasso, da Direção Nacional do CEBRAPAZ, geógrafo e Doutor em Ciência Polí ca; José Reinaldo
Carvalho, secretário-geral do CEBRAPAZ, jornalista e especialista em polí ca internacional.

Introdução 
 
Por duas décadas decorreram intermitentemente as negociações entre o Brasil e os Estados Unidos
da América (EUA) para facilitar o uso comercial do Centro de Lançamento de Alcântara (CLA), a
base espacial brasileira localizada no estado do Maranhão. Entre os principais obstáculos estava a
assinatura de um Acordo de Salvaguardas Tecnológicas (AST), condição dos EUA para que se
pudesse lançar satélites estadunidenses ou que contenham componentes estadunidenses desde
Alcântara, mesmo em operações com outros países. No curso dos debates sobre as propostas, o
projeto foi suspenso especialmente devido à rejeição brasileira aos termos invasivos apresentados
pelos EUA e o rechaço dos Estados Unidos às demandas do Brasil por “flexibilização”.

O AST foi finalmente assinado em 18 de março de 2019.2 Em agosto, foi aprovado pela Comissão
de Relações Exteriores e Defesa Nacional (CREDN)3 da Câmara dos Deputados e, em outubro, como
Projeto de Decreto Legisla vo (PDL) 523/19.4 Seguiu então para análise pela Comissão de Relações
Exteriores (CRE) e a Comissão de Cons tuição, Jus ça e Cidadania (CCJC) no Senado Federal e
distribuído ao senador Roberto Rocha (PSDB-MA).5 Em 7 de novembro, o relator emi u parecer
raso e tergiversante, como veremos. Nele, informa não ter recebido emendas no prazo regimental
de uma semana e considera as exposições dos ministérios envolvidos nas negociações. As
exposições insistem na eventual inserção do CLA no “mercado global” de lançamentos, na
predominância da tecnologia estadunidense em satélites e equipamentos afins —o que
supostamente obriga o Brasil a assinar o AST com os EUA— e na também eventual garan a de se
“gerar divisas para o desenvolvimento do Programa Espacial Brasileiro (PEB).”6

Em 12 de novembro, o relatório do senador Rocha passou a cons tuir o parecer da CRE, que
adotou o Requerimento Nº 72/2019 do senador Esperidião Amin (PP-SC) por urgência. No mesmo
dia, o PDL 523/19 foi aprovado no Plenário do Senado e promulgado como Decreto Legisla vo nº
64 em 19/11/2019, adotando o texto do acordo.7 Seguiu, então, para a Assessoria Técnica e

2
Este AST foi denominado Acordo entre o Governo da República Federa va do Brasil e o Governo dos Estados Unidos
da América sobre Salvaguardas Tecnológicas Relacionadas à Par cipação dos Estados Unidos da América em
Lançamentos a par r do Centro Espacial de Alcântara.
3
Câmara dos Deputados. Comissão aprova Acordo de Salvaguardas Tecnológicas assinado com os EUA, 22/08/2019.
<www2.camara.leg.br/a vidade-legisla va/comissoes/comissoes-permanentes/credn/no cias/comissao-aprova-acord
o-de-salvaguardas-tecnologicas-assinado-com-os-eua>
4
Câmara dos Deputados. Câmara aprova acordo entre Brasil e EUA sobre uso da base de Alcântara, 22/10/2019.
<h ps://www.camara.leg.br/no cias/603242-camara-aprova-acordo-entre-brasil-e-eua-sobre-uso-da-base-de-alcanta
ra/>
5
Senado Federal. A vidade Legisla va: Projeto de Decreto Legisla vo n° 523, de 2019.
<h ps://www25.senado.leg.br/web/a vidade/materias/-/materia/139537>
6
Senado Federal. Parecer do senador Roberto Rocha, relator do Projeto de Decreto Legisla vo nº 523, de 2019, da
CREDN da Câmara dos Deputados, que aprova o texto do Acordo entre o Governo da República Federa va do Brasil e o
Governo dos Estados Unidos da América sobre Salvaguardas Tecnológicas Relacionadas à Par cipação dos Estados
Unidos da América em Lançamentos a par r do Centro Espacial de Alcântara, assinado em Washington, em 18 de
março de 2019. <legis.senado.leg.br/sdleg-ge er/documento?dm=8036660&ts=1573240803317&disposi on=inline>
7
Congresso Nacional. Decreto Legisla vo nº 64, de 2019. Aprova o texto do Acordo entre o Governo da República
Federa va do Brasil e o Governo dos Estados Unidos da América sobre Salvaguardas Tecnológicas Relacionadas à
Par cipação dos Estados Unidos da América em Lançamentos a par r do Centro Espacial de Alcântara, assinado em
Washington, em 18 de março de 2019. Brasília, Diário Oficial da União nº 224, Seção 1, p. 8, 20/11/2019.

subsequente promulgação pelo Poder Execu vo, para que passe a vigorar em território brasileiro.8
Até a publicação deste dossiê, o úl mo estágio era recepção do o cio do Ins tuto dos Advogados
Brasileiros sobre sua conclusão, adotada unanimemente com base nos pareceres das suas
Comissões de Direito Cons tucional e de Direito Internacional Público. O parecer da primeira
detalha por que o acordo "impõe graves limitações à soberania nacional", violando o ar go 1º, I,
da Cons tuição, e "viola os princípios que devem ser observados pelo país nas suas relações com
outros Estados, como a independência nacional, a autodeterminação dos povos, a não
intervenção, a igualdade entre os Estados e a defesa da paz (CRFB, ar go 4º, I, III, IV, V, VI)."9
Respostas a estas conclusões, também alcançadas por outros, têm como pilar retórico a alegação
de que a "soberania" do Brasil está inclusive na liberdade de firmar o AST, o que problema zamos.
Os documentos analisados e referenciados não expõem informações concretas que sustentem
tantas previsões; mesmo cifras es madas do rendimento do aluguel da base variam entre fontes.

Embora as negociações deste AST não sejam de inicia va do Governo Bolsonaro, sua assinatura e a
persistência da sua essência apesar de tantos anos de debate evidenciam a natureza deste esforço,
abrindo portas ao imperialismo estadunidense, o que nos chama a resis r.

O Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz (Cebrapaz) é uma organização de
paz an -imperialista, de princípios determinados10 e posições reiteradamente deba das por
órgãos cole vos. Tais posições foram pela úl ma vez definidas na Resolução Polí ca adotada pela
5ª Assembleia Nacional, em dezembro de 2019.11 O Cebrapaz,12 alguns de seus militantes e amigos,
diversos especialistas e conhecedores dos meandros das negociações con nuam a denunciar os
riscos do acordo.13 A miríade de ar gos que o defendem não responde ao conteúdo das crí cas. A
posição aqui expressa assenta-se no impera vo da soberania nacional, sobretudo no campo da
defesa e do desenvolvimento tecnológico autônomo. Começamos pela breve revisão da polí ca
brasileira no setor espacial para passarmos à análise do AST assinado com os EUA e suas
condicionantes, expondo o que consideramos graves obstáculos à promoção da polí ca de
desenvolvimento soberano do Brasil.

8
Senado Federal. Senado aprova acordo com EUA para lançamentos do Centro Espacial de Alcântara, 12/11/2019.
<h ps://www12.senado.leg.br/no cias/audios/2019/11/senado-aprova-acordo-com-eua-para-lancamentos-do-centro
-espacial-de-alcantara>
9
O texto afirma, antes de analisar as “limitações unilaterais impostas ao Brasil”, que “em respeito à soberania
nacional, as autoridades do governo não podem permi r que o Brasil fique numa posição de sujeição, limitação ou
subordinação e dependência em relação a outro Estado Nação, sob pena de atentar contra a segurança nacional e o
povo do país." Ins tuto dos Advogados do Brasil, O cio nº PR-462/2019. Rio de Janeiro, 3/09/2019. Anexado ao
processo do PDL 523 em 28/11/2019, p. 6.
<h ps://legis.senado.leg.br/sdleg-ge er/documento?dm=8050870&ts=1575930955497&disposi on=inline>
10
Cebrapaz. Carta de Princípios. <h ps://cebrapaz.org.br/carta-de-principios/>
11
Cebrapaz. Resolução Polí ca da V Assembleia Nacional do Cebrapaz. Salvador, Bahia, 7/12/2019.
<h ps://cebrapaz.org.br/resolucao-e-mocoes-5a-assembleia-nacional/>
12
Cebrapaz rechaça presença militar estadunidense ou entrega da soberania brasileira sobre Alcântara, 30/01/2017.
<h ps://cebrapaz.org.br/2017/01/30/cebrapaz-rechaca-presenca-militar-estadunidense-ou-entrega-da-soberania-bras
ileira-sobre-alcantara>; Cebrapaz. Moção sobre as bases militares, adotada pela 5ª Assembleia Nacional em
7/12/2019. <h ps://cebrapaz.org.br/resolucao-e-mocoes-5a-assembleia-nacional/>
13
Entre conhecedores das negociações que se opõem estão o ex-Chanceler Celso Amorim e o ex-ministro da Ciência e
Tecnologia Roberto Amaral. Veja, por exemplo: Tutaméia TV. Celso Amorim condena acordo sobre Base de Alcântara,
3/09/2019. <www.youtube.com/watch?v=34vZA58yAug>; Roberto Amaral. “A diplomacia da sabujice contra-ataca” em
Carta Capital, 29/05/2014. <www.cartacapital.com.br/mundo/a-diplomacia-da-sabujice-contra-ataca-6361>

Política Nacional de Desenvolvimento das Atividades Espaciais 

A Agência Espacial Brasileira (AEB), do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e


Comunicações (MCTIC), afirma que a Polí ca Espacial Brasileira é importante para o fortalecimento
da soberania do país e seu “maior crescimento econômico e social” e considera o aspecto
comercial do setor transversal a diversas a vidades.14 “As caracterís cas geoeconômicas e sociais
do Brasil, como a grande extensão territorial, as vastas regiões de florestas tropicais, as amplas
áreas de di cil acesso e baixa ocupação, as extensas fronteiras e costa marí ma, e o significa vo
volume de recursos naturais, tornam expressivas as potencialidades de aplicação das tecnologias
espaciais para o atendimento de inúmeras demandas por soluções de problemas nacionais e para
o bem-estar da sociedade.” A descrição elenca áreas como telecomunicações, prospecção de
recursos naturais, monitoramento de alterações ambientais, vigilância das fronteiras,
meteorologia, combate a desastres, redução das desigualdades regionais e “até mesmo a
promoção da inclusão social” como obje vos. Entretanto, a AEB pondera que poucos países, como
Estados Unidos, Rússia, China, França, Japão e Índia, “detêm o domínio sobre todo o ciclo
produ vo espacial”, afirmando que o “Brasil trabalha para garan r sua autonomia”.15

Para desenvolver o setor, a Polí ca Nacional de Desenvolvimento das A vidades Espaciais (PNDAE)
“estabelece obje vos e diretrizes para os programas e projetos nacionais” visando “a integração da
polí ca espacial às demais polí cas públicas em execução no País por meio do fomento à formação
qualificada, captação e fixação de especialistas capazes de dinamizar a cadeia produ va espacial
brasileira e de viabilizar o domínio sobre as tecnologias crí cas e de acesso restrito”, que ainda não
dominamos. Por isso, con nua, “o Brasil precisa promover mais missões cien ficas e tecnológicas,
capacitação de especialistas e acesso de baixo custo ao espaço. O domínio dessas tecnologias é
essencial para permi r o domínio completo e o acesso autônomo ao espaço.”16

No Programa Nacional de A vidades Espaciais (PNAE), instrumento de planejamento e execução


da PNDAE atualmente em seu decênio 2012-2021,17 também se considera que o Estado deve
“u lizar seu poder de compra para mobilizar a indústria para o desenvolvimento de sistemas
espaciais completos e es mular a criação de empresas integradoras na indústria espacial,
elevando a polí ca espacial à condição de Polí ca de Estado, firmando o interesse estratégico e
geopolí co das a vidades espaciais, que fortalecem a autonomia e soberania do Brasil.” A revisão
do PNAE foi antecipada de 2014 para 2012 para acolher “mudanças no cenário estratégico do
Estado, com novas oportunidades sendo criadas pelo Governo Federal: o programa para o
desenvolvimento de tecnologias crí cas; as ações de absorção tecnológica no contexto do
desenvolvimento do Satélite Geoestacionário de Defesa e Comunicações Estratégicas (SGDC); os
novos direcionamentos dos Fundos Setoriais; a Estratégia Nacional de Defesa (END); as ações da

14
Agência Espacial Brasileira, Programa Espacial Brasileiro: Polí ca, Organizações, Programa e Projetos, 2018.
<h p://www.aeb.gov.br/programa-espacial-brasileiro/poli ca-organizacoes-programa-e-projetos/>
15
Agência Espacial Brasileira, Polí ca Nacional de Desenvolvimento das A vidades Espaciais (PNDAE), 2018.
<h p://www.aeb.gov.br/programa-espacial-brasileiro/poli ca-organizacoes-programa-e-projetos/poli ca-nacional-de-
desenvolvimento-das-a vidades-espaciais-pndae/>
16
Idem.
17
Agência Espacial Brasileira, Programa Nacional de A vidades Espaciais 2012-2021.
<h p://www.aeb.gov.br/wp-content/uploads/2013/03/PNAE-Portugues.pdf>

Agenda Tecnológica Setorial (ATS) no contexto do Plano Brasil Maior; a atuação especial do
Programa Ciência Sem Fronteiras para área espacial; as inicia vas legisla vas para a desoneração
do setor, dentre outras ações de governo.”18 Lançada em 2008 e revista também em 2012, a END
igualmente afirmava a necessidade de o Brasil não depender de tecnologia estrangeira e de
promover o desenvolvimento dos setores espacial, ciberné co e nuclear. Projetar e fabricar
foguetes e satélites e desenvolver tecnologias de comunicação estão entre as prioridades.19

O Sistema Nacional de Desenvolvimento das A vidades Espaciais (SINDAE), ins tuído em 1996,
organiza as a vidades do PEB, albergando as relações e a coordenação entre a AEB, indústria,
universidades, o Ins tuto de Aeronáu ca e Espaço, o Ins tuto Nacional de Pesquisas Espaciais
(INPE), o Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial, o Centro de Lançamento da Barreira
do Inferno (no Rio Grande do Norte) e o CLA.20 Mas em fevereiro de 2018, um Comitê de
Desenvolvimento do Programa Espacial Brasileiro (CDPEB) foi criado por decreto presidencial, a ser
coordenado pelo ministro chefe do Gabinete de Segurança Ins tucional (GSI), para “fixar, por meio
de resoluções, diretrizes e metas para a potencialização” do PEB.21 Outra das suas incumbências
era a coordenação de um grupo técnico para a elaboração de ASTs com outros países. Para alguns,
a criação do comitê contornaria esforços já avançados por dois anos desde a criação do Grupo de
Trabalho Interministerial para o Setor Espacial,22 de cooperação entre o Ministério da Defesa (MD)
e o MCTIC, que tem entre seus órgãos o Ins tuto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e a AEB.23

A cooperação internacional no setor é considerada estratégica e o PNAE (2012-2021) ressalta os


diversos projetos e programas encaminhados com vários países, inclusive a Alemanha, por quatro
décadas —impulsionando o projeto do Satélite de Reentrada Atmosférica (SARA) e do Veículo
Lançador de Microssatélites, de criação brasileira—, Argen na, África do Sul, Japão, França, China,
Rússia, Índia e os Estados Unidos. Afinal, a “cooperação espacial, em pleno mundo globalizado do
século XXI, é bem mais que uma transação comercial; é promover o desenvolvimento conjunto
—cien fico, tecnológico e industrial— com parceiros confiáveis, baseado no interesse mútuo, no
esforço comum e no compar lhamento de bene cios.”24 Portanto, é preciso avaliar como os
instrumentos que guiarão a cooperação funcionam e que condicionantes carregam.

18
Idem, p. 3. O “Plano Brasil Maior” foi lançado em 2011 como a polí ca de desenvolvimento industrial e tecnológico
do governo federal para apoiar a compe vidade do setor produ vo brasileiro.
19
Ministério da Defesa. Estratégia Nacional de Defesa.
<h p://www.defesa.gov.br/estado-e-defesa/estrategia-nacional-de-defesa>
20
Agência Espacial Brasileira, Sistema Nacional de Desenvolvimento das A vidades Espaciais (SINDAE), 2016.
<h p://www.aeb.gov.br/programa-espacial-brasileiro/poli ca-organizacoes-programa-e-projetos/sistema-nacional-de-
desenvolvimento-de-a vidades-espaciais/>
21
Presidência da República. Decreto nº 9.279, de 6 de fevereiro de 2018, Cria o Comitê de Desenvolvimento do
Programa Espacial Brasileiro.
<h p://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2018/Decreto/D9279impressao.htm>
22
Maurício Tuffani, “Temer promulga acordo com EUA que prevê uso de Alcântara. Pence chega hoje” em Direto da
Ciência, 26/06/2018.
<h p://www.diretodaciencia.com/2018/06/26/temer-promulga-acordo-com-eua-que-preve-uso-de-alcantara-pence-c
hega-hoje/>
23
Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações. Portaria Interministerial MD/MCTI nº 2.151,
2/10/2015.
<h p://www.mc c.gov.br/mc c/opencms/legislacao/portarias_interministeriais/migracao/Portaria_Interministerial_
MDMCTI_n_2151_de_02102015.html>
24
Ver Nota 15, p. 15.

Centro de Lançamentos de Alcântara 

O CLA foi estabelecido em 1983 como organização militar do Comando da Aeronáu ca do


Ministério da Defesa;25 de acordo com a Força Aérea Brasileira (FAB),26 é onde se realiza parte
importante do PEB.27 Sua missão é: "Executar as a vidades de lançamento e rastreio de engenhos
aeroespaciais e de coleta e processamento de dados de suas cargas úteis, bem como a execução
de testes e experimentos de interesse do Comando da Aeronáu ca” rela vos à PNDAE.28

Como se tem enfa zado ao longo do debate, a posição geográfica vantajosa da base, próxima à
linha do Equador (a 2° 18’), torna os lançamentos mais baratos em relação a outros centros,29
elevando o seu potencial uso comercial e atraindo operações de outros países. Por isso, a FAB
vinha reivindicando a assinatura de ASTs para possibilitar o uso.30 Até 2018 foram lançados 490
veículos a par r do CLA, totalizando 101 operações. Os veículos veram testes iniciais no CLA e já
foram lançados em mais de 20 operações na Austrália, Noruega e Suécia, fruto de acordos de
cooperação entre o Brasil e a Agência Espacial Europeia.31

O argumento é repe do à exaustão, inclusive no manual do MD, do Ministério das Relações


Exteriores (MRE) e do MCTIC, de abril de 2019: com a permissão dos EUA —que colocavam a
assinatura do AST como precondição para o uso de satélites estadunidenses ou que con vessem
componentes licenciados nos EUA— o Brasil conseguirá “acessar o mercado global de lançamentos
de cargas ao espaço”, o que “gerará recursos substanciais para o desenvolvimento local, regional e
para o nosso Programa Espacial Brasileiro.”32 Es mando que 80% dos equipamentos espaciais têm
algum componente estadunidense, o manual afirma que “sem o AST com os Estados Unidos, o
centro espacial comercial brasileiro jamais poderá lançar qualquer po de objeto que tenha
conteúdo norte-americano, e o Brasil ficará pra camente fora do mercado de lançamentos

25
O decreto de 1983 de criação e o de 2004 de revisão da estrutura do CLA foram revogados e em 2009 entrou em
vigor aquele que definia como competência do Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial planejar, gerenciar,
realizar e controlar as a vidades relacionadas com a ciência, tecnologia e inovação, no âmbito do Comando da
Aeronáu ca, inclusive, os centros de lançamento de Alcântara e o da Barreira do Inferno, no Rio Grande do Norte.
26
Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial da Força Aérea Brasileira. Centro de Lançamento de Alcântara:
Carta de Serviço, 2016. <h p://www2.fab.mil.br/cla/images/conteudo/car lha_cla_2016.pdf>
27
A base de lançamento foi relocalizada, já que a área inicialmente ocupada era reivindicada por comunidades
remanescentes de quilombos, de onde cerca de 300 famílias foram desalojadas em 1983. O programa também foi
suspenso devido ao acidente de 2003, que deixou cerca de 20 ví mas.
28
Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial da Força Aérea Brasileira. Centro de Lançamento de Alcântara:
Missão. <h p://www2.fab.mil.br/cla/index.php/missao>
29
Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial da Força Aérea Brasileira, Centro de Lançamentos de Alcântara,
Carta de Serviços, 2016. <h p://www2.fab.mil.br/cla/images/conteudo/car lha_cla_2016.pdf>
30
Ministério da Defesa, Força Aérea Brasileira, Acordo de salvaguardas tecnológicas é necessário para abertura do CLA
ao mercado global, 14/09/2018. <h p://www.fab.mil.br/no cias/mostra/32772/>
31
Por exemplo: European Space Agency, Brazil joins the Interna onal Charter ‘Space and Major Disasters’, 2011.
<www.esa.int/Applica ons/Observing_the_Earth/Brazil_joins_the_Interna onal_Charter_Space_and_Major_Disasters
>; European Space Agency, ESA on the world stage - interna onal agreements with Brazil, Poland and India, 2002.
<www.esa.int/About_Us/Corporate_news/ESA_on_the_world_stage_-_interna onal_agreements_with_Brazil_Poland
_and_India>
32
Ministérios da Defesa, das Relações Exteriores e da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações. Conhecendo o
Acordo de Salvaguardas Tecnológicas Brasil e Estados Unidos, abril de 2019.
<www.aeb.gov.br/wp-content/uploads/2019/04/folder_AST-minist%C3%A9rios.pdf>

espaciais.”33 O relator da matéria na CREDN, deputado Hildo Rocha (MDB-MA), disse em sessão
que aprovou o AST tratar-se de “parceria estratégica sem precedentes, possibilitando o acesso do
Brasil a recursos que poderão alavancar o tão sonhado Programa Espacial Brasileiro em troca da
u lização do Centro Espacial de Alcântara para o lançamento de foguetes norte-americanos.”
Através do AST assinado com os EUA, o Brasil poderá cobrar aluguel pelo uso do seu CLA, mas
termos importantes do aluguel são definidos não pelo Brasil, e sim pelos EUA.

Embora seus promotores afirmem que o AST não passa de um acordo técnico comum, as
condições sequer resumem-se à locação ou mesmo à proteção da tecnologia estadunidense, mas
a ngem diretamente projetos de relevância estratégica para o Brasil, vitais para o seu
desenvolvimento tecnológico autônomo. Portanto, a questão central não é se o Brasil deve ou não
realizar acordos para o uso do CLA por outros países. Mas os termos do acordo em questão, como
veremos, interferem na soberania nacional, inclusive ao desviar o uso do CLA de seus propósitos
definidos pela PNDAE. Se acordos do po são comuns nesta área, é preciso ressaltar alguns efeitos
do AST em causa para compreender suas consequências muito mais abrangentes do que o
declarado, inclusive para a própria Defesa e a soberania do País.

Contexto político-diplomático das negociações  

Em 2000, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (FHC) firmou com os EUA um acordo para o
uso do CLA cedendo a condições que atentavam contra a soberania nacional, violando a sua
proteção prevista na Cons tuição Federal.34 Já em 2002, FHC assinou um acordo com a Ucrânia,
promulgado por Lula em 2004; embora este seja frequentemente apontado como precedente para
defender o primeiro, uma breve comparação demonstra que no acordo com a Ucrânia não há
condicionantes que refletem direta ingerência na polí ca de desenvolvimento tecnológico do Brasil
e suas parcerias com as encontradas no proposto com os EUA.35

Como exemplo da afronta à soberania nacional apontava-se à permissão do controle de áreas e


operações do CLA pelos EUA, vedando o acesso a brasileiros. Mas o acordo ia além: proibia que o
Brasil firmasse parcerias com países aos quais os EUA impõem restrições e impunha a adequação
de outras parcerias do Brasil ao disposto no acordo com os EUA, subjugando os interesses
brasileiros aos estadunidenses. Também barrava o uso dos recursos recolhidos pelo Brasil das
a vidades de lançamento para adquirir, desenvolver, produzir, testar, liberar ou usar foguetes ou
veículos aéreos não tripulados.36

A tenta va de vedar o uso de recursos gerados pelas a vidades de lançamento no inves mento
tecnológico brasileiro condiz com o afirmado numa mensagem do governo estadunidense vazada

33
Idem, p. 9. Itálico nosso.
34
Dellagneze, René (2011) Base de Lançamento de Foguetes e a Soberania. Universidade Federal de Juiz de Fora.
<h p://www.ecsbdefesa.com.br/defesa/ s/BLFS.pdf>
35
Presidência da República. Decreto nº 5.266, de 8 de novembro de 2004, Promulga o Acordo entre o Governo da
República Federa va do Brasil e o Governo da Ucrânia sobre Salvaguardas Tecnológicas Relacionadas à Par cipação
da Ucrânia em Lançamentos a par r do Centro de Lançamento de Alcântara, concluído em Kiev, em 16 de janeiro de
2002. <h p://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2004-2006/2004/Decreto/D5266.htm>
36
Ver Nota 11.

pelo WikiLeaks, segundo a qual os EUA têm como polí ca “não encorajar” um programa brasileiro
autônomo, como veremos adiante.37 Além disso, também como veremos, importa notar que o
Brasil é hoje signatário de regimes internacionais de controle de patentes, barrando suas chances
de realizar operações de tecnologia reversa que tanto impulsionaram os programas espaciais das
atuais potências militares, por exemplo.38 Como afirmado no PNAE, para criar um programa
espacial próprio e compe vo, o Brasil precisa de acordos de cooperação com países detentores
de tecnologia de ponta que garantam a transferência de conhecimentos —o que não pode ser um
bene cio esperado do AST com os EUA. O acordo não só veda a transferência de tecnologia como
dificulta acordos do Brasil com outros gigantes do setor; ao CLA poderá restar um papel menor, o
de sí o de locação para lançamentos.

Em nota aos parlamentares em 2001, o então ministro da Ciência e Tecnologia Ronaldo Mota
Sardenberg insis u que o acordo não feria a soberania nacional e alegava que tal impressão
resultava da falta de informação por parte dos que se opunham ao AST, oferecendo uma superficial
lista de perguntas e respostas para “esclarecer” os opositores —de forma similar à adotada
recentemente.39 Mas a par r de 2003, com base na rejeição aos termos do acordo, o Governo Lula
suspendeu negociações.

Brasil e China então avançaram na parceria binacional de lançamento de satélites acordada em


1988 para o monitoramento de ambientes rurais e urbanos com o seu Programa CBERS - Satélite
Sino-Brasileiro de Recursos Terrestres. A própria página da AEB descreve a parceria como uma de
“caráter horizontal”, que permite “o desenvolvimento conjunto de tecnologias e a capacitação de
recursos humanos”, correspondendo aos obje vos estratégicos do PEB.40 Importa frisar que
parcerias como esta podem ser comprome das pelas condicionantes dos EUA.41

O Governo Lula também promoveu parcerias como aquela com a Ucrânia para o lançamento de
satélites, baseada no Acordo-Quadro sobre a Cooperação nos Usos Pacíficos do Espaço Exterior,

37
Secretaria de Estado dos EUA. “Responding to Ukrainian Ques ons Concerning USG Support for Ukrainian-Brazilian
SLV joint venture at Alcantara (C)" (09STATE3691_a), 14 de janeiro de 2009, WikiLeaks.
<h ps://wikileaks.org/plusd/cables/09STATE3691_a.html>
38
Em suma e simplificando, “engenharia reversa é o processo de descobrir os princípios tecnológicos e o
funcionamento de um disposi vo, objeto ou sistema, através da análise de sua estrutura, função e operação.
Obje vamente a engenharia reversa consiste em, por exemplo, desmontar uma máquina para descobrir como ela
funciona”. Ver Wikipedia: Engenharia Reversa, <h ps://pt.wikipedia.org/wiki/Engenharia_reversa>. Tratados como
TRIPS (sigla em inglês para Agreement on Trade-Related Aspects of Intellectual Property Rights, ou Acordo sobre
Aspectos dos Direitos de Propriedade Intelectual Relacionados ao Comércio), assinado pelo Brasil no final dos anos
1990, veram o efeito de “congelar” o status tecnológico no mundo, uma vez que operações de engenharia reversa,
ou cópias, amplamente pra cadas por todos os países tecnologicamente avançados do mundo, ficaram
impossibilitadas. Ver: Chang, Ha-Joon. Chutando a Escada: a estratégia do desenvolvimento em perspec va histórica.
São Paulo: Editora UNESP, 2004.
39
Ministério da Ciência e Tecnologia, Esclarecimentos sobre o Acordo de Salvaguardas Tecnológicas com os Estados
Unidos, com Vistas ao Lançamento Comercial de Foguetes e Satélites norte-americanos pelo Centro de Lançamento de
Alcântara, no Maranhão, agosto de 2001.
<h p://www.defesanet.com.br/space/no cia/11637/MCTI-Esclarecimentos-sobre-as-Salvaguardas--do-acordo-com-os
-EUA-sobre-o-CLA/>
40
Agência Espacial Brasileira, Programa Espacial Brasileiro, Cooperação Internacional: China. 19 de fevereiro de 2018.
<www.aeb.gov.br/programa-espacial-brasileiro/cooperacao-internacional/china/>
41
A China não é parte do Regime de Controle de Tecnologia de Mísseis (MTCR), por exemplo, mo vo para, conforme o
AST com os EUA, podar a parceria em diversos âmbitos, como veremos.

assinado em 1999 e promulgado em 2006,42 e no Tratado de 2003 de Cooperação de Longo Prazo


na U lização do Veículo de Lançamento Cyclone-4 no CLA, fundando a empresa binacional
Alcântara Cyclone Space. Este acordo trazia vantagens mútuas no desenvolvimento tecnológico e
no uso do CLA, mas na esteira de uma polêmica iniciada em 2015, a empresa foi ex nta em abril
de 2019 por Medida Provisória encaminhada pelo Poder Execu vo e aprovada pela Câmara dos
Deputados.43 Embora já o Governo de Dilma Rousseff lamentasse que a Ucrânia nha dificuldades
em cumprir sua parte do acordo, houve quem considerasse a ex nção benéfica para a assinatura
do acordo com os EUA.44 É preciso considerar fatores conjunturais relevantes.

Segundo mensagem confidencial de dezembro de 2008 reme da pela Embaixada dos EUA em
Brasília a des natários em missões diplomá cas mundo afora e ao Governo estadunidense, vazada
pelo WikiLeaks, a Ucrânia demandava dos EUA apoio ao programa ucraniano-brasileiro. Uma das
principais preocupações da Ucrânia, e que supostamente também preocuparia os EUA, era a
par cipação da Rússia no projeto brasileiro de desenvolvimento das tecnologias espaciais. A
mensagem afirma que os ucranianos explicavam ter o lançador Cyclone 2 e o Brasil par ciparia
com infraestrutura, enquanto a construção do local de lançamento seria feita conjuntamente; o
plano era lançar a primeira carga comercial de Alcântara em 2011, a de um satélite argen no,
operação a ser repe da em 2012, assim como uma da Brasil Telecom.45

Em mensagem confidencial de janeiro de 2009, também revelada pelo WikiLeaks, a secretária de


Estado —ainda Condoleezza Rice, até 20 de janeiro —respondia à Embaixada estadunidense que o
apoio requisitado pelos ucranianos estaria condicionado à ra ficação, pelo Brasil, do AST.46 A
secretária de Estado reconhece que “um impedimento chave” ao financiamento e,
consequentemente, ao avanço do programa ucraniano-brasileiro, foi a impossibilidade de se lançar
satélites estadunidenses ou satélites com componentes patenteados nos EUA. Traduzimos a seguir
o parágrafo em que a tá ca estadunidense de chantagem fica ainda mais explicitada:

“Os EUA atualmente não permitem lançamentos de Alcântara de satélites estadunidenses


ou satélites estrangeiros com componentes patenteados nos EUA devido à nossa
consistente polí ca de não ‘encorajar’ o programa de VLS do Brasil (ou outros programas
de VLS de países do RCTM que os EUA não vessem apoiado antes do advento do Regime

42
Presidência da República, Decreto Nº 5.894, de 14 de setembro de 2006. Promulga o Acordo-Quadro entre o Governo
da República Federa va do Brasil e o Governo da Ucrânia sobre Cooperação nos Usos Pacíficos do Espaço Exterior,
celebrado em Kiev, 18 de novembro de
1999.<h p://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2004-2006/2006/Decreto/D5894.htm>
43
Câmara dos Deputados, Câmara aprova MP que ex ngue empresa espacial Brasil-Ucrânia, 10 de abril de 2019.
<h ps://www.camara.leg.br/no cias/555344-camara-aprova-mp-que-ex ngue-empresa-espacial-brasil-ucrania/>
44
Câmara dos Deputados, MP que ex ngue empresa Brasil-Ucrânia em Alcântara antecipa polêmicas de acordo com
EUA, 10 de abril de 2019.
<h ps://www.camara.leg.br/no cias/555349-mp-que-ex ngue-empresa-brasil-ucrania-em-alcantara-antecipa-polemi
cas-de-acordo-com-eua/>
45
Embaixada dos EUA em Brasília. “Ukraine requests USG support for Ukrainian-Brazilian space launch joint venture at
Alcantara” (08BRASILIA1652_a), 23 de dezembro de 2008. WikiLeaks.
<h ps://wikileaks.org/plusd/cables/08BRASILIA1652_a.html>
46
Ver Nota 35.
10 

de Controle de Tecnologia de Mísseis em 1987).47 Porém, em 1999 os EUA decidiram que


estariam preparados para permi r tais lançamentos de Alcântara nos Tsyklon [Cyclone] (e
também em VLS estadunidenses) caso o Brasil conclua um AST com os EUA que tanto
protegeria contra transferência não-autorizada de tecnologia quanto forneceria base
credível para os EUA sustentarem que permi r tais lançamentos não ‘encorajaria’ um
programa VLS próprio do Brasil”

Em março de 2011, os governos de Dilma Rousseff e Barack Obama assinaram um Acordo-Quadro


sobre Cooperação nos Usos Pacíficos do Espaço Exterior durante a visita de Obama a Brasília. O
acordo-quadro visava promover a colaboração em diversas áreas, inclusive operações espaciais e
sistemas de exploração. Na declaração conjunta dos presidentes, Dilma Rousseff saudou a ênfase
dada à cooperação internacional na Polí ca Espacial dos EUA de 2010 e “expressou o desejo de
expandir o diálogo com os Estados Unidos, tendo em mente as diretrizes das polí cas espaciais
brasileiras, voltadas para a construção da capacidade tecnológica e o uso comercial da
infraestrutura e tecnologia.”48 Mas é preciso ler realis camente o primeiro obje vo da Polí ca
Espacial estadunidense à luz da já mencionada mensagem confidencial vazada pelo WikiLeaks:49
“Energizar indústrias domés cas compe vas para par cipar nos mercados globais e promover o
desenvolvimento de: fabricação de satélites, serviços satelitais; lançamento espacial; aplicações
terrestres; e intensificado empreendimento.”50

Tentando outro po de parceria com os EUA em busca de trocas tecnológicas e pelo rendimento
do uso do CLA, as negociações foram retomadas e logo suspensas em 2013 e em 2015,51 abrindo
até uma disputa entre Estados Unidos e Rússia pela parceria.52 Os EUA seguiam irredu veis em
termos importantes do AST; também a espionagem realizada pelo governo estadunidense das
comunicações da própria presidenta brasileira esfriaram as relações entre os países e as
negociações do AST.53 Mas ao longo dos anos, a matéria seguiu em discussão.54

47
VLS significa Veículos Lançadores de Satélites; RCTM é o Regime de Controle de Tecnologia de Mísseis (MTCR, na
sigla em inglês). Tradução nossa.
48
Ministério de Relações Exteriores, Nota 119: Comunicado Conjunto da Presidenta Dilma Rousseff e do Presidente
Barack Obama – Brasília, 19 de março de 2011.
<h p://www.itamaraty.gov.br/pt-BR/notas-a-imprensa/2530-comunicado-conjunto-da-presidenta-dilma-rousseff-e-do
-presidente-barack-obama-brasilia-19-de-marco-de-2011>
49
Mensagem segundo a qual os EUA têm a polí ca de “não encorajar” o programa brasileiro autônomo de VLS. Ver
Nota 35.
50
White House, Na onal Space Policy of the United States of America, 28 de junho de 2010, p. 4.
<h ps://obamawhitehouse.archives.gov/sites/default/files/na onal_space_policy_6-28-10.pdf>
51
Paraguassu, Lisandra. “Brasil volta a negociar uso de base de Alcântara com os EUA”, em Estadão, 29/07/2013.
<h ps://poli ca.estadao.com.br/no cias/eleicoes,brasil-volta-a-negociar-uso-de-base-de-alcantara-com-os-eua-imp-,
1058409>
52
Boadle, Anthony e Winter, Brian. “Rússia e EUA competem por parceria espacial com Brasil” em Reuters, 15 de junho
de 2015. <h ps://br.reuters.com/ar cle/topNews/idBRKBN0OV2NR20150615>
53
Revista Fórum. Segundo Wikileaks, EUA grampearam telefones da sala e até do avião de Dilma, 4 de julho de 2015.
<revistaforum.com.br/no cias/segundo-wikileaks-eua-grampearam-telefones-da-sala-e-ate-do-aviao-de-dilma/>
54
O conjunto da argumentação e dos procedimentos foi analisado pela consultoria legisla va da Câmara dos
Deputados. Veja em Camino, Maria Ester Mena Barreto; e Menck, José Theodoro Mascarenhas. “O Centro de
Lançamento de Alcântara Versus a Tramitação Legisla va da Mensagem Nº 296, de 2001, do Poder Execu vo (TSA com
11 

Já com o golpe de estado de 2016 que ensejou um Governo Temer, as condições eram mais
favoráveis para os EUA e as negociações foram retomadas. Segundo CartaCapital, uma proposta
apresentada pelo MRE de Temer foi recusada pelos EUA, que ainda rejeitavam as “flexibilizações”
demandadas.55 Em seguida, O Globo indicava que os Ministérios da Defesa, da Ciência e Tecnologia
e o MRE avaliavam como elaborar nova proposta, contando com a posse do novo presidente
estadunidense, Donald Trump.56
Em junho de 2018, Temer promulgou o Acordo-Quadro assinado no Governo Dilma, aprovado pelo
Congresso Nacional naquele ano.O acordo tem prazo prorrogável de 20 anos e, embora envolva
programas em diversas áreas, como ciência espacial, observação espacial, sistemas de exploração,
operações espaciais e mais, não prevê cooperação em invenções e faz ressalvas detalhadas sobre
direitos de propriedade intelectual ou patentes.57

Segundo o “manual” de 2018 da AEB, o AST assinado com os EUA é “recíproco”, ou seja, “os dois
países estabelecem compromisso mútuo de proteger as tecnologias e patentes da outra parte”,
num acordo que é “praxe no setor espacial”. Por isso, não se trataria de “ameaça à soberania” se
ASTs são “celebrados por acordos de interesse mútuo entre as partes”.58 Ora, nenhum acordo de
parâmetros, vantagens e desvantagens assimétricas ditadas pelas desigualdades factuais, materiais
ou polí cas, foi jamais assinado voluntariamente? Não seria sequer preciso extrapolar para um
exemplo distante do nosso em forma e gravidade, como o da base naval estadunidense até hoje
implantada na província cubana de Guantânamo e cuja persistência os EUA jus ficam com a
assinatura, pelo governo cubano de então, do infame Tratado de Relações de 1903, há mais de um
século, onde Cuba concordava, nada “voluntariamente”, dada a circunstância e a chantagem, com
o aluguel do território aos Estados Unidos. Acordos que pareciam apresentar “boas
oportunidades” ou “bons negócios” e escondem condicionantes gravíssimas ou agravantes de
outra ordem, como de ordem polí ca, abundam.

Em 13 de setembro de 2019, o secretário de Estado Mike Pompeo e o chanceler Ernesto Araújo


lançaram um Diálogo de Parceria Estratégica entre Estados Unidos e Brasil, o que a página do
Departamento de Estado dos EUA relata como “resultado direto da reunião de março de 2019
entre o presidente Trump e o presidente Bolsonaro”, com o obje vo de estabelecer “uma
plataforma para promover ação conjunta sobre as prioridades comuns entre EUA e Brasil”.

E quais seriam essas “prioridades comuns”? Segundo a nota, abrangem “uma variedade de
áreas”, sustentadas em três pilares: “Apoiar a Governança Democrá ca; Buscar a Prosperidade

os Estados Unidos)”, Consultoria Legisla va, Câmara dos Deputados, dezembro de 2016.
<bd.camara.gov.br/bd/bitstream/handle/bdcamara/32260/centro_lancamento_camino_menck.pdf?sequence=1>
55
Carta Capital. Em segredo, Brasil volta a negociar Base de Alcântara com os EUA, 21 de janeiro de 2017.
<www.cartacapital.com.br/poli ca/em-segredo-brasil-volta-a-negociar-base-de-alcantara-com-os-eua/
56
O Globo. Brasil assume de vez negociação espacial com americanos, 23 de janeiro de 2017.
<h ps://oglobo.globo.com/brasil/brasil-assume-de-vez-negociacao-espacial-com-americanos-20811165>
57
Diário Oficial da União, Atos do Congresso Nacional: Decreto nº 14, 15 de março de 2018.
<h p://www.in.gov.br/materia/-/asset_publisher/Kujrw0TZC2Mb/content/id/6659317/do1-2018-03-15-decreto-legisl
a vo-6659313>; Presidência da República. Decreto nº 9.418, de 22 de junho de 2018, Promulga o Acordo-Quadro
entre o Governo da República Federa va do Brasil e o Governo dos Estados Unidos da América sobre Cooperação nos
Usos Pacíficos do Espaço Exterior, firmado em Brasília, em 19 de março de 2011.
<h p://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2018/decreto/D9418.htm>
58
Ver Nota 8.
12 

Econômica; e Fortalecer a Cooperação em Segurança e Defesa.”59 A indefinição dessa “variedade


de áreas” chama a atenção. Mais importante, em cada um dos três “pilares” não poderiam ser
mais profundas as incompa bilidades entre a polí ca externa imperialista dos EUA e os obje vos
de desenvolvimento nacional soberano e com jus ça social, de uma polí ca externa que projete o
Brasil como ator internacional promotor da cooperação diversa, da integração regional, do
fortalecimento do mul lateralismo e de ins tuições internacionais e da reforma daquelas
anacrônicas, não representa vas; e defensor dos princípios de não-ingerência, respeito à igualdade
de soberania das nações, entre outros princípios basilares.

Ter um Brasil sob Bolsonaro comprome do com as “prioridades” dos EUA significa, para além da
entrega dos nossos recursos mais estratégicos, a constância da ameaça à Venezuela e a Cuba; a
submissão e dependência em relação aos Estados Unidos; a criminalização de movimentos sociais;
a militarização regional como componente da “polí ca de segurança”; a rendição ao
neoliberalismo; entre tantas outras mazelas. Foi na visita de março que Donald Trump prometeu
apoiar o incoerente pleito do Brasil pela entrada na Organização para a Cooperação e
Desenvolvimento Econômico (OCDE) —promessa aparentemente não cumprida: em carta à
organização, Pompeo teria recomendado apenas Argen na e Romênia, segundo a Bloomberg.60

Foi ainda quando Araújo esclareceu em demasiadas palavras a guinada manobrada pelo Governo
Bolsonaro, no fa dico discurso do “Dia do Brasil” na Câmara de Comércio em Washington, DC. O
chanceler disse que Estados Unidos e Brasil, subentende-se, estariam “deslocando o eixo da ordem
global de muitas formas: através do compromisso com a democracia —compromisso real, não da
boca para fora, como mostrado no caso da Venezuela— através de uma economia aberta, através
de valores par lhados, muitos deles aqueles chamados de valores conservadores.”61 O papel do
Brasil nesse deslocamento é aquele visionado pelo governo de Bolsonaro, cultuado pelo chanceler
como o “líder mais transformador do Brasil em muito tempo”, que com o slogan “Brasil acima de
tudo e Deus acima de todos” expressa um “projeto polí co e uma concepção de mundo (...) que
correspondem aos sen mentos profundos do povo brasileiro.”62

Segundo a página do Departamento de Estado, Pompeo e Araújo acordaram o estabelecimento de


um fundo de USD 100 milhões liderados pelo setor privado, de implementação ao longo de 11
anos, “para a conservação da biodiversidade na Amazônia”, entre outros projetos relançados no

59
U.S. Department of State, U.S.-Brazil Strategic Partnership Dialogue, Media Note of the Office of the Spokesperson,
16 de setembro de 2019. <h ps://www.state.gov/u-s-brazil-strategic-partnership-dialogue/>
60
Samy Adghirni e Jus n Sink, “Trump Says He S ll Supports Brazil in OECD, Despite Le er”, Bloomberg, 10/10/2019.
<www.bloomberg.com/news/ar cles/2019-10-10/u-s-turns-down-brazil-s-oecd-bid-a er-publicly-endorsing-it>
61
Ministério das Relações Exteriores, Intervenção do embaixador Ernesto Araújo, ministro das Relações Exteriores do
Brasil, no "Dia do Brasil" na Câmara de Comércio dos Estados Unidos, Washington, 18/03/2019 [Inglês].
<www.itamaraty.gov.br/pt-BR/discursos-ar gos-e-entrevistas-categoria/ministro-das-relacoes-exteriores-discursos/20
195-remarks-of-ambassador-ernesto-araujo-minister-of-foreing-affairs-of-brazil-in-the-brazil-day-at-the-u-s-chamber-o
f-commerce-washington-march-18-2020>
62
Ministério das Relações Exteriores, Discurso do ministro Ernesto Araújo na Conferência Brazil Day in Washington da
Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos, Washington, Estados Unidos, 18/03/2019.
<www.itamaraty.gov.br/pt-BR/acontece-no-exterior/20177-discurso-do-ministro-ernesto-araujo-na-conferencia-brazil-
day-in-washington-da-camara-de-comercio-brasil-estados-unidos-washington-estados-unidos-18-de-marco-de-2019>
13 

encontro.63 Pompeo saudou Araújo pela “liderança decisiva do Brasil no trato da crise em curso na
Venezuela” e, no encontro, reafirmou-se o estatuto do Brasil como um grande aliado extra-OTAN
dos EUA —estatuto que garante menos restrições, em algumas matérias similar ao tratamento
dado a membros da OTAN, no quadro das leis sobre assistência estrangeira e sobre o controle de
exportações de armas, por exemplo.64 Também se anunciou um Diálogo Polí co-Militar para
outubro, o “novo apoio estadunidense para a programação do combate a crimes ambientais”, o
controle da proliferação de armas químicas, biológicas e nucleares e temas de tecnologia, como a
“importância de um ecossistema 5G dinâmico, diverso e seguro.”65 Abre-se assim vasta área de
interferência estadunidense, como logo demonstrado com a chantagem dos EUA, segundo o
Huffington Post Brasil, de cancelamento do próprio Acordo de Alcântara caso o Brasil acolha a
par cipação da China no leilão para a prestação do serviço 5G, previsto para 2020.66 Este é,
portanto, um dos exemplos da necessidade de aprofundada análise, inclusive no escopo do CLA.
 
O AST de 2019 e os resquícios de FHC, duas décadas depois 
 
Um AST, em termos técnicos, serve para garan r proteção intelectual e de tecnologia patenteada
das partes envolvidas em projetos, programas ou operações comerciais. Mas nenhum contrato é
“neutro”, por mais obje vo que pareça em linguajar jurídico. Assim, o AST assinado em 2019 entre
os governos do Brasil e dos EUA traz complicações que extrapolam o escopo do uso do CLA e não
podem ser menosprezadas. A promoção do AST com os EUA enquadra-se numa perspec va
“mercadológica” para o CLA segundo a qual, além de se tratar de a vidade rentável, o uso
comercial do centro pode criar condições para impulsionar o próprio PEB. Exemplo desta
argumentação encontra-se no “Texto para Discussão 2423” divulgado em 2018 pelo Ins tuto de
Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), ligado ao Ministério do Planejamento, Desenvolvimento e
Gestão. Segundo os autores, busca “expor um panorama mercadológico” e os “possíveis modelos
de negócio” para a exploração comercial do CLA.67 “Após uma inves gação sobre os principais
desafios para o PEB, conclui-se que a comercialização do CLA, bem como a reestruturação da
governança espacial e a consolidação do Centro Espacial de Alcântara (CEA), representa um
importante passo para o fortalecimento deste setor no país.”68 Os autores69 buscam “entender de

63
No encontro de setembro estavam responsáveis ou representantes das áreas de Assuntos Polí cos, de Controle de
Armas e Segurança Internacional, do Crescimento Econômico, Energia e Ambiente, e dos Assuntos do Hemisfério
Ocidental, do Departamento de Estado. Na delegação brasileira estavam os secretários de Negociações Bilaterais e
Regionais nas Américas; de Polí ca Externa Comercial e Econômica; e de Assuntos de Soberania Nacional e Cidadania.
64
White House, Memorandum on the Designa on of the Federa ve Republic of Brazil as a Major Non-NATO Ally,
Presiden al Memoranda, Foreign Policy, 31/07/2019.
<whitehouse.gov/presiden al-ac ons/memorandum-designa on-federa ve-republic-brazil-major-non-nato-ally>
65
O Departamento de Defesa debruça-se sobre o tema, inclusive em parcerias com outros países. Ver estudo de abril
de 19, The 5G Ecosystem: Risks and Opportuni es for DoD [“O Ecossistema 5G: Riscos e Oportunidades para o
Departamento de Defesa”. <media.defense.gov/2019/Apr/03/2002109302/-1/-1/0/DIB_5G_STUDY_04.03.19.PDF>
66
Álvares, Débora. “EUA ameaçam cancelar acordo de Alcântara se Brasil man ver China no leilão 5G”, Huffpost Brasil,
4/12/2019. <www.huffpostbrasil.com/entry/eua-alcantara-china_br_5de68874e4b00149f73690c6>
67
Israel de Oliveira Andrade; Rogério Luiz Veríssimo Cruz; Giovanni Roriz Lyra Hillebrand; Matheus Augusto Soares,
2018. “O Centro de Lançamento de Alcântara: Abertura para o Mercado Internacional de Satélites e Salvaguardas para
a Tecnologia Nacional”, Texto para Discussão 2423, IPEA. Rio de Janeiro: Ins tuto de Pesquisa Econômica Aplicada
(IPEA). <h p://repositorio.ipea.gov.br/bitstream/11058/8897/1/td_2423.pdf>
68
Idem, p. 5.
14 

que maneira o Brasil pode par cipar do mercado de lançamentos espaciais sem que questões de
defesa nacional e soberania sejam afetadas.”70 Mas o texto não faz um cotejamento das suas
análises com o texto de acordos como o AST com os EUA, um gênero de texto onde qualquer
definição estratégica pode ser posta em xeque.

O já mencionado parecer do senador Roberto Rocha adotado pela CRE no Senado descreve
levianamente as limitações elencadas no AST, expondo a disposição do governo brasileiro a acatar
condições do governo estadunidense que são profundamente lesivas, como veremos. Só
ignorando o cenário geopolí co que os Estados Unidos lutam por hegemonizar e a estratégia
deslegi madora de outros atores e cerco a vo que adotam para isso é que o parecer poderia soar
coerente com o compromisso brasileiro com a não-proliferação e a paz ao mencionar as
obrigações do Brasil rela vas às parcerias com determinados países ---nomeadamente, aqueles
que não integram o MTCR, como China e Rússia, os alvos de sanções pelo Conselho de Segurança
das Nações Unidas (CSNU), ou os taxados de colaboradores com o terrorismo.

O MTCR e o Brasil
Sob a gestão alinhada aos EUA do governo FHC, em 1995, o país tornou-se signatário do
MTCR, adotando as suas Diretrizes e o seu Anexo de Equipamentos, So wares e
Tecnologias. O Regime é uma associação informal de países criada em 1987 como forma de
contribuir para deter a proliferação de capacidade missilís ca, por meio da aplicação de
controles de exportação sobre bens e tecnologias de mísseis e serviços diretamente
relacionados. Atualmente, 34 países fazem parte do Acordo, mas potências nucleares e
missilís cas não aderiram, como China, Rússia, Índia, Irã, República Popular Democrá ca da
Coreia (RPDC), Paquistão e, inclusive aliados dos EUA, como Israel.

Ao todo são quase duas dezenas de itens na lista de controle do MTCR. Ou seja: sistemas
completos de mísseis e seus subsistemas completos; equipamentos e componentes de
propulsão, propelentes, produtos químicos e produção de propelentes; produção de
compósitos estruturais, deposição pirolí ca e densificação e materiais estruturais;
instrumentação, navegação e orientação; controle de vôo; aviônica; suporte a lançamento;
computadores; conversores analógico-digitais; equipamentos e instalações de teste;
modelagem, simulação e projeto de integração de sistemas; sistemas fur vos; proteção
contra efeitos nucleares. Em outras palavras, além de aderir a um acordo assimétrico sem
contrapar das, tal como o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares, ainda
celebramos outros acordos com base nesses óbices.

Os países que os EUA consideram "patrocinadores do terrorismo"


Caracterizando um “Eixo do Mal” desde Bush e, logo, Bolton, os EUA deram-se enorme
capacidade de classificar países e organizações como patrocinadores do terrorismo. As
lições da história poderiam servir para iluminar nossas posições diplomá cas sem

69
Um técnico de planejamento e pesquisa na Diretoria de Estudos e Polí cas Setoriais de Inovação e Infraestrutura
(DISET) do IPEA, um diretor de transporte espacial e licenciamento da AEB e dois pesquisadores do Programa de
Pesquisa para o Desenvolvimento Nacional (PNPD) DISET.
70
Ver Nota 65, p. 7.
15 

ingenuidades. Estão ou es veram na lista dos EUA o Irã, RPDC, Sudão e Síria e, antes, Cuba,
Iraque, Líbia, e Iêmen do Sul (até 1990, quando se uniu ao norte formando a nova
república).71

Países alvos de sanções pelo CSNU


É também sabida a capacidade de Washington impor sanções, embargos e retaliações a
outros países, corporações e en dades de maneira unilateral ou promovê-las via
organizações internacionais.72 Atualmente, há sanções impostas pelo CSNU contra RPDC,
Irã, Mali, Sudão do Sul, República Centro-Africana, Iêmen, Guiné-Bissau, Líbia, Eritreia,
Líbano, República Democrá ca do Congo, Sudão, Somália e Iraque.73

Por que supor que esses atributos conformariam um bom critério para norma zar um acordo com
os EUA? Sabemos que tais categorizações e a imposição de sanções são tá cas do imperialismo
estadunidense. Acatar essas polí cas e outros parâmetros veda ao Brasil parcerias estratégicas e
diversificadas para beneficiar a estratégia geopolí ca dos EUA de garan r suas esferas de influência
e disputar o domínio e a hegemonia de regiões geográficas e setores tecnológicos com outras
potências, polí cas e tá cas que temos denunciado e comba do de forma comprome da.

Outro problema levantado pelos crí cos do AST desde que lançadas as primeiras negociações, há
duas décadas, mereceu meras cinco linhas no parecer adotado pela CRE, onde se alega que o
Ar go VI do acordo aborda os controles de acesso a certas áreas “de forma pormenorizada”, o que
é ques onável: a dis nção destas áreas não é estrita em relação ao acesso estadunidense.74

Rocha dá-se ainda um parágrafo para lamentar que um AST com os EUA não tenha sido já
aprovado em 2000, quando assinado pelo governo do seu correligionário Fernando Henrique
Cardoso. O senador diz que o Brasil “perdeu 19 anos” e que os argumentos contrários nham

71
Departamento de Estado dos EUA. State Sponsors of Terrorism.
<h ps://www.state.gov/state-sponsors-of-terrorism/>
72
Os EUA impõem embargo contra Cuba, Irã e Síria; em sua lista, a Crimeia (considerada região da Ucrânia), China,
Rússia, Venezuela, RPDC, Iraque e alguns destes estão sob o regime de licenças para o comércio de equipamentos
militares. Há também diversos países sob embargo de armamentos pela ONU, sob regime de polí cas especiais. Ver
em University of Pi sburgh, Office of Trade Compliance, Embargoed and Sanc oned Countries.
<h ps://www.tradecompliance.pi .edu/embargoed-and-sanc oned-countries>
73
Consulte a lista consolidada de en dades e indivíduos sujeitos a medidas impostas pelo CSNU:
h ps://scsanc ons.un.org/fop/fop?xml=htdocs/resources/xml/sp/consolidated.xml&xslt=htdocs/resources/xsl/sp/con
solidated.xsl
74
No texto do acordo no Decreto Legisla vo nº 64 de 2019, define-se que: Áreas Restritas estão dentro da jurisdição
territorial do Brasil, “designadas conjuntamente pelas Partes, às quais o Governo da República Federa va do Brasil
somente permi rá acesso a pessoas autorizadas pelo Governo dos Estados Unidos da América, a fim de assegurar que,
de maneira ininterrupta, possam monitorar, inspecionar, acessar e controlar o acesso a Veículos de Lançamento dos
Estados Unidos da América, Espaçonaves dos Estados Unidos da América, Equipamentos Afins e/ou Dados Técnicos,
para fins de realizar A vidades de Lançamento.” As Áreas Controladas estão dentro da jurisdição territorial do Brasil,
designadas pelo Governo do Brasil, nas quais “permi rá acesso apenas a pessoas autorizadas pelo Governo da
República Federa va do Brasil, pelo Governo dos Estados Unidos da América ou por governos de outros países
envolvidos em A vidades de Lançamento, e onde o Governo da República Federa va do Brasil assegurará que pessoas
autorizadas pelo Governo dos Estados Unidos da América possam, de maneira ininterrupta, monitorar, inspecionar,
acessar, acompanhar e controlar o acesso a Veículos de Lançamento dos Estados Unidos da América, Espaçonaves dos
Estados Unidos da América, Equipamentos Afins e/ou Dados Técnicos, para fins de realizar A vidades de Lançamento.”
Ou seja, a ambas as categorias de áreas estadunidenses têm acesso pra camente irrestrito.
16 

meramente um “viés ideológico”, adje vação retórica frequentemente empregada para


desqualificar a crí ca, sobretudo nestes tempos de crise polí ca, em que o valor democrá co do
debate é desprezado. Rocha, como outros, recorda que os EUA têm ASTs com a China, a Rússia e a
Índia —que teriam deixado suas inclinações polí cas de lado em prol de um obje vo estratégico,
alega. Não se poderia esperar que o senador se desse ao trabalho de ponderar se o lugar destes
países no setor, o texto dos seus acordos ou mesmo sua posição rela va à estadunidense, como
em toda negociação, são comparáveis aos do Brasil —daí a afirmação incauta, ou tergiversante.75 O
relator afirmou ainda que o acordo não tem “defeitos em relação à sua juridicidade”, acata a
Cons tuição Federal e está em conformidade com os anseios da comunidade cien fica, do setor
espacial e “com o impulso do povo brasileiro, sobretudo dos meus coestaduanos”.

Temas que vão desde o controle de acessos, com grande margem de discricionariedade ou
influência na decisão concedida aos EUA, assim como graves condicionantes que pra camente
impedem parcerias diversas, de forma claramente poli camente mo vada, con nuam presentes
no texto adotado. A íntegra do acordo pode ser consultada no anexo do Decreto Legisla vo nº 64
de 2019, que adota o texto, pendente de promulgação. Vejamos aqui apenas alguns dos pontos
mais problemá cos no AST em causa. O Ar go I descreve o obje vo do acordo e o Ar go II, as
definições dos termos.

O Ar go III, como elencou levianamente o parecer do senador Rocha, o acordo es pula a


“necessidade de o Brasil não permi r o lançamento desde o CEA [Centro Espacial de Alcântara] de
espaçonaves ou veículos de lançamento de propriedade ou sob o controle de países que estejam
sujeitos a sanções estabelecidas pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas ou tenham
governos repe damente provido apoio a atos de terrorismo internacional”;76 o obstáculo ao
ingresso de equipamentos, tecnologia, mão de obra ou recursos financeiros no CLA provenientes
de países que não sejam membros do MTCR;77 e a permissão condicionada para que o Brasil use
rendimentos das a vidades de lançamento para desenvolver o PEB: “não poderá fazê-lo para a
aquisição, desenvolvimento, produção, teste, emprego ou u lização de sistemas da Categoria I do
MTCR” —que, obviamente, os EUA já possuem.78

O ar go estabelece a possibilidade de “esclarecimentos” por uma das partes e até negociações


pontuais para conciliação de perspec vas quanto às designações e classificações de certos países.
Entretanto, 1) o Brasil teria de se submeter à barganha com os EUA para defender eventuais
interesses por parcerias específicas que os desagradem e 2) não se pode esperar que sob um
75
Veja-se no texto referenciado na Nota 14, por exemplo, que a própria AEB reconhece serem estes alguns dos poucos
países que “detêm o domínio sobre todo o ciclo produ vo espacial”.
76
Para informações sobre o Comitê de Sanções e as en dades, governos e países alvos de sanções pelo Conselho de
Segurança das Nações Unidas, consulte: Conselho de Segurança das Nações Unidas, Lista Consolidada.
<h ps://www.un.org/securitycouncil/es/content/un-sc-consolidated-list>
77
Regime de Controle de Tecnologia de Mísseis, de que o Brasil é parte desde 1995, mas grandes parceiros, como a
China ou a Rússia, por exemplo, não o são.
78
Incluem-se nesta categoria sistemas completos de foguetes (inclusive mísseis balís cos, veículos de lançamento
espacial e foguetes de sondagem) e sistemas de veículos aéreos não tripulados (inclusive sistemas de mísseis cruzeiros
e drones de ataque e reconhecimento) com capacidades superiores ao limite de 300 km / 500 kg de alcance / carga;
instalações de produção de tais sistemas; e grandes subsistemas inclusive estágios de foguetes, veículos de reentrada,
motores de foguetes, sistemas de navegação e mecanismos de ogivas. Descrição do Missile Technology Control Regime
(MTCR) Annex Handbook, 2017, p. iii.
17 

Governo Bolsonaro haja “ques onamento” substancial dessas polí cas e posições tão
embrenhadas estrategicamente na polí ca externa estadunidense. Ou seja, no atual contexto
polí co nacional e diplomá co das relações Brasil-EUA nada indica que os interesses brasileiros
serão defendidos de eventuais imposições estadunidenses.

O Ar go IV, que inicia tratando dos “procedimentos de salvaguardas tecnológicas (...), incluindo os
procedimentos de controle de acesso”,79 define o âmbito e as áreas de aplicação do acordo,
inclusive nas fases de transporte dos VLS, equipamentos, dados e outro material estadunidense, o
que inclui o monitoramento dos trajetos completos, por exemplo, até um porto ou aeroporto em
outra unidade da Federação. Limita ainda o acesso às chamadas áreas restritas a pessoas
autorizadas pelo governo dos EUA,80 sem ressalvas a autoridades brasileiras, imbuindo o Governo
do Brasil de garan r o controle conforme autorização dos EUA; e afirma o direito de inspeção e
monitoramento pelos EUA de veículos e equipamentos relacionados às a vidades de lançamento e
o direito de inspeção por funcionários e/ou autoridades dos EUA aos veículos que por acaso
transportem equipamentos relacionados ao programa espacial.

No Ar go V há um disposi vo que gera preocupação quanto à saúde dos brasileiros e, mais uma
vez, levanta a questão da aplicação de parâmetros estadunidenses em solo brasileiro. O acordo
obriga os EUA a fornecer informações quanto à presença de elementos e materiais radioa vos ou
demais substâncias potencialmente danosas à saúde humana, e é nesta parte que argumentações
como a do senador Rocha se atêm. Entretanto, esta obrigação está atrelada à legislação dos EUA,
ou seja, àquilo que é considerado danoso à saúde nos termos das leis e regulamentos dos EUA e
não nos termos brasileiros.

O Ar go VI afirma que o governo brasileiro “deverá permi r e facilitar a supervisão e o


monitoramento de A vidades de Lançamento”, inclusive por meios eletrônicos, pelo governo
estadunidense, e deverá permi r que servidores do Governo dos EUA no CLA “tenham livre
acesso, a qualquer tempo, para inspecionar, nas Áreas Controladas, Áreas Restritas ou em outros
locais, Veículos de Lançamento dos Estados Unidos da América, Espaçonaves dos Estados Unidos
da América, Equipamentos Afins, e/ou Dados Técnicos que sejam fornecidos por Licenciados
Norte-americanos a Representantes Brasileiros.”

No quinto e sexto parágrafos, o Brasil concede aos EUA o controle de acesso às áreas restritas, o
que inclui o controle do acesso de técnicos e autoridades brasileiros, mas o texto faz um aparente
“recuo”, indicando que os EUA deverão comunicar seus atos de controle de acesso às áreas

79
A formulação completa do parágrafo é: “Este Acordo especifica os procedimentos de salvaguardas tecnológicas a
serem seguidos para A vidades de Lançamento, incluindo os procedimentos de controle de acesso a Veículos de
Lançamento dos Estados Unidos da América, Espaçonaves dos Estados Unidos da América, Equipamentos Afins, Dados
Técnicos e às áreas onde estejam tais itens no Centro Espacial de Alcântara. Este Acordo deverá ser aplicado a todas as
fases de A vidades de Lançamento, incluindo as a vidades em todas as instalações dos Licenciados Norte-americanos,
as a vidades em todas as instalações sob jurisdição e/ou controle da República Federa va do Brasil, e a vidades dos
Representantes Brasileiros e dos Par cipantes Norte-americanos. Este Acordo também deverá ser aplicado a todas as
fases do transporte dos Veículos de Lançamento dos Estados Unidos da América, Espaçonaves dos Estados Unidos da
América, Equipamentos Afins, e/ou Dados Técnicos.”
80
Ver Nota 64.
18 

restritas ao governo brasileiro. Entretanto, o texto prevê que a comunicação não seja feita em
circunstâncias excepcionais, que não estão caracterizadas expressamente.81

Também se determina que todos os documentos de iden ficação de brasileiros, estadunidenses e


demais estrangeiros que circulem no CLA serão elaborados e fornecidos pelo governo dos Estados
Unidos, em “consulta” com o governo do Brasil. O governo estadunidense pode ceder essa
prerroga va a seus licenciados; leia-se: empresas dos EUA que atuarem no CLA. Em caso de
acidente, o Brasil aceita a par cipação de funcionários de empresas e do governo estadunidense
nas buscas externas ao perímetro da Base de Alcântara. Caso haja destroços em outros países, os
dois governos são responsáveis pelas trata vas para autorização de busca.

No Ar go VII define-se que todo o transporte dos equipamentos ocorrerá por via de contêineres
lacrados, que só poderão ser abertos na presença de pessoas autorizadas pelo governo dos EUA,
de modo que as autoridades brasileiras não poderão inspecioná-los quando chegarem aos portos e
aeroportos brasileiros, sequer para verificar se a carga é a que está especificada na documentação.

Além de vedar, por natureza, o acesso de nacionais brasileiros a conhecimentos rela vos à
tecnologia dos EUA, inclusive autoridades brasileiras que venham a auxiliar em buscas de
destroços ou socorro em caso de acidente, também veda aos par cipantes estadunidenses prestar
qualquer assistência a representantes brasileiros “quanto a projeto, desenvolvimento, produção,
operação, manutenção, modificação, aprimoramento, modernização ou reparo” de VLS, a menos
que haja expressa autorização dos EUA. Ou seja, não há mesmo margem para qualquer
cooperação ou troca tecnológica que faça do uso do CLA pelos EUA qualquer coisa além de uma
locação, contrariando expecta vas de que o acordo resulte em colaboração para o avanço do setor.  

Apesar das duas décadas de debates, persis ram na atual versão do texto do acordo
problemá cas reiteradamente levantadas pelos crí cos deste AST, ainda que alterações na forma
de apresentação dos deveres e concessões do Brasil e a adição de aparentes deveres ou
compromissos dos EUA tenham sido feitas, com “poréns” ou “exceções” importantes. Além disso,
várias das jus fica vas apresentadas pelos promotores do acordo são mesmo enganosas ou não
trazem evidências concretas para previsões ambiciosas, em termos monetários ou de
desenvolvimento tecnológico, além de ignorarem as contradições entre a implementação deste
acordo e vários dos obje vos estratégicos do PEB e da polí ca externa brasileira em geral.
 
Em maio de 2019, o Observatório de Polí ca Externa e da Inserção Internacional do Brasil (OPEB)
da Universidade Federal do ABC (UFABC) realizou uma oficina levantando questões graves sobre a
propaganda do acordo, comparando o AST assinado por Bolsonaro àquele assinado por FHC e

81
O quinto parágrafo exprime: “O Governo dos Estados Unidos da América deverá assegurar que Par cipantes
Norte-americanos sejam obrigados, exceto em circunstâncias excepcionais, a no ficar o Governo da República
Federa va do Brasil no momento em que sejam autorizados pelo Governo dos Estados Unidos da América a acessar as
Áreas Restritas. Caso o Governo da República Federa va do Brasil tenha restrição à pessoa indicada na referida
no ficação, deverá no ficar de Imediato os Par cipantes Norte-americanos e, quando apropriado, o Governo dos
Estados Unidos da América, a fim de que as Partes entrem em consultas sobre a questão.”
19 

rejeitado pelo Congresso.82 Para o OPEB, “o governo fornece dados puramente econômicos de
comprovação duvidosa, e evita a discussão das implicações de um alinhamento geopolí co e
tecnológico com os EUA no setor espacial.”83 Os pesquisadores referem-se às es ma vas de perdas
e ganhos em rendimentos, respec vamente, pela não inclusão do CLA no “mercado espacial”
durante os úl mos anos e por sua inclusão graças ao AST com os EUA. As perdas, segundo
es ma vas do MCTI citadas na discussão, teriam sido de US$ 3,9 bilhões nos úl mos 20 anos.

Com o AST e o consequente desimpedimento pelos EUA, “o Brasil teria a possibilidade de capturar
1% do volume global de negócios rela vos à exploração do espaço, es mado [pelo ministro
Marcos Pontos] em US$ 1 trilhão ao ano em 2040”.84 Entretanto, enfa zam os pesquisadores, o
atual é pra camente igual ao acordo assinado por FHC: o obje vo descrito con nua sendo “evitar
o acesso ou a transferência não autorizados de tecnologias dos Estados Unidos da América”, sendo
um AST, mas subsistem ainda contenciosos pontos sobre controles de acesso, como expusemos.85
Os pesquisadores do OPEB pontuam que o AST não especifica como serão categorizadas estas
áreas, “sendo esta responsabilidade concedida aos Licenciados Norte-americanos envolvidos em
a vidades de lançamento”, segundo o Ar go IV, parágrafo 4 do Acordo.86

“Além de permi r qualquer transferência tecnológica apenas em casos de exceção”, con nuam, o
acordo condiciona o inves mento, pelo Brasil, dos seus ganhos financeiros oriundos do aluguel de
Alcântara em programas de aquisição, desenvolvimento, produção, teste, liberação, ou uso de
foguetes ou de sistemas de veículos aéreos não tripulados, bem como em sistemas da Categoria I
do MTCR, e proíbe que o Brasil negocie futuros acordos que envolvam o lançamento de foguetes
em Alcântara com países que não fazem parte do mesmo MTCR.87 Essencialmente, os efeitos do
acordo são semelhantes o suficiente ao AST assinado por FHC; o texto de 2019 não sana graves
preocupações levantadas no passado.

Conclusões 

O Brasil está atrasado no desenvolvimento de tecnologia de lançamento de foguetes e satélites e


um dos mo vos apresentados para a promoção do AST com os EUA como forma de ampliar o uso
comercial do CLA foi a possibilidade de inves mento no setor que os rendimentos supostamente
trariam. Além de o argumento se basear em es ma vas e afirmações aparentemente efêmeras, na
atual conjuntura, o caminho para o desenvolvimento desse po de tecnologia deve passar pela
cooperação técnica com países que já dominam essa tecnologia. O acordo afirma expressamente
que os Estados Unidos não farão cooperação técnica com o Brasil. Além de ser polí ca consistente
dos EUA “não encorajar” o desenvolvimento de um VLS brasileiro, como expusemos, o AST tem
82
Flávio Rocha de Oliveira; Bruno Venâncio A. Costa; Gabriel Santos Carneiro; João Victor Dalla Pola; Lucas Macchia de
Oliveira; Pedro Versolato; Tarcizio Rodrigo de Santana Melo. “O Acordo de Salvaguardas Tecnológicas entre Brasil e
EUA para o Uso do Centro de Lançamento de Alcântara”, texto apresentado em workshop do OPEB, maio de 2019.
<h p://opeb.org/2019/05/01/o-acordo-de-salvaguardas-tecnologicas-entre-brasil-e-eua-para-o-uso-do-centro-de-lanc
amento-de-alcantara/>
83
Idem.
84
Idem.
85
Idem.
86
Idem.
87
Idem.
20 

por fim precisamente impedir a apropriação de conhecimentos e técnicas estadunidenses. Não


bastasse, o acordo ainda cria barreiras ao Brasil, na prá ca, para a cooperação com outros países
que detêm esse po de tecnologia, limitando o uso comercial da base e a realização de parcerias
no desenvolvimento de equipamentos com transferência de tecnologia.

A perspec va “mercadológica” é a do uso do CLA como a vidade rentável que poderia criar
condições para impulsionar o PEB, mas sem traçar rumos de forma estratégica, condizente com
planos e polí cas adotados, ou considerar parcerias já avançadas. Corremos o risco de exercer
excessivo pragma smo numa polí ca que limita o desenvolvimento de um setor estratégico por
recursos pontuais, ou mesmo, como es mam promotores do AST com os EUA, a “inserção do
Brasil no mercado global” de lançamentos espaciais. Enquanto valorizamos a perspec va de que a
cooperação internacional é essencial para o desenvolvimento do nosso setor espacial, não vemos
como um AST com os EUA nos termos do assinado pode favorecer tal empenho. Em suma, diante
do exposto, consideramos necessária a ponderação sobre as vantagens e desvantagens da busca
por rentabilização do CLA em comparação com os obje vos de desenvolvimento nacional
soberano da tecnologia nesta área e até mesmo de proteção da soberania nacional em geral.

Importa averiguar o conteúdo e consequências deste AST em par cular e possibilidades obje vas
de ingerência dos EUA que o acordo contrabandeia em suas cláusulas. Se, como avaliam seus
promotores, e com foco no aspecto puramente comercial da questão, este AST “apenas” traz
oportunidades ao Brasil, por que aceitar tantas condicionantes que, na prá ca, farão tudo menos
ampliar os negócios no CLA? Não são elas formas muito concretas de ingerência ou, quando
menos, influência indevida no programa e nas parcerias que o Brasil busca, ou é permi do buscar?

Aos que argumentam que a Cons tuição tem precedência sobre tratados: já vimos que a
cria vidade para interpretações é infinita. Pode-se averiguar a cons tucionalidade dos acordos
internacionais, como faz a CCJ, no período de análise do acordo anterior à sua aprovação pelo
Congresso e a sua promulgação, processo já em fase avançada, tratado em caráter de urgência. A
par r daí, no Direito dos Tratados existe o princípio, pacta sunt servanda, de que por costume e
legi midade internacional, acordos devem ser cumpridos, ainda que com ressalvas ou cláusulas
interpreta vas. Também se pode denunciar um acordo, ou seja, re rar-se; no caso do AST com os
EUA, esta medida tem carência de um ano para se efe var. Mas como não se pode deixar de frisar,
mesmo assim é preciso ter em conta a conjuntura polí ca em que o tema avança.

Não vemos como a “salvaguarda” da Defesa e da soberania brasileiras será alcançada no quadro
de acordos como o AST com os EUA. Colocamos o tema sob a perspec va de uma polí ca externa
brasileira cuja estratégia considere a configuração do sistema internacional. A adesão do Brasil a
regimes internacionais, tais como os rela vos a patentes e ao controle de tecnologia militar, de
mísseis, como o MTCR, entre outros, apresenta-se como contributo à promoção de um ambiente
de paz e cooperação. No entanto, a maioria dos regimes a que o Brasil e outros países do chamado
Sul são pressionados a aderir desde a década de 1990 são moldados para assegurar o status quo
mundial. Os EUA e a Europa só concordaram com um regime de proteção de patentes, por
exemplo, depois que seu desenvolvimento tecnológico ultrapassou substancialmente o dos demais
países. A China só a ngiu o patamar atual porque recusou-se, peremptoriamente, a aderir a esses
21 

regimes. Agora que a ngiu nível semelhante ou superior, em determinadas áreas, aos países
centrais, começa a ceder em alguns temas, a fim de melhor inserir-se no sistema internacional.

O Brasil, ao contrário da China, não venceu nenhuma das barreiras do atraso tecnológico. É um
país dependente da cooperação internacional na área espacial. Por isso, não faz sen do que assine
um acordo que pra camente impede a cooperação com países diversos e mais avançados na área.
Entre as formas de limitar nossas parcerias estão as medidas polí cas impostas através de
mecanismos de fato agressivos usados pelos EUA. Por exemplo, os Estados Unidos valem-se da sua
“guerra ao terror” para designar todo po de resistência às suas pressões e aos governos aliados,
na busca por deslegi mar tal resistência. Este é um de outros aspectos polí cos escondidos sob a
aparência de questões procedimentais e de compromissos diplomá cos num acordo que está
longe de ser meramente técnico, e que de forma alguma podem ser menosprezados.

Segundo o argumento do governo e outros promotores, de que o AST é “meramente um acordo de


proteção de tecnologia”, “padrão na área espacial”,88 o acordo essencialmente garante que os
Estados Unidos permitam o lançamento de satélites estadunidenses e outros satélites com
componentes protegidos pelas patentes estadunidenses desde o CLA, abrindo assim uma grande
oportunidade de negócios —até então vedada pelos Estados Unidos, ressalte-se.

Aceita-se, assim, que é pra camente impossível não se render ao domínio tecnológico
estadunidense. Seguimos dependentes e vulneráveis às condicionantes dos EUA. Por esta ó ca,
não deveríamos buscar autonomia em setor algum, dada a supremacia dos Estados Unidos e/ou
de outras potências, numa espécie de retorno às vantagens compara vas. Tal raciocínio se poderia
estender muito além da questão discu da, como aos casos da compra dos caças Gripen suecos,
pelos quais optamos, em outra conjuntura, ao invés dos caças estadunidenses, inclusive devido à
possibilidade de transferência de tecnologia;89 ao caso da onerosa fragmentação da Embraer para
a entrega do seu setor comercial à estadunidense Boeing, já na conjuntura atual; ou a própria
indústria de óleo e gás, e a PETROBRAS, com suas polí cas de conteúdo nacional (60%), porque
não dominamos as tecnologias chave. No caso em questão, não haverá mesmo alterna vas?

Em síntese, o AST assinado com os EUA con nua colocando em risco a soberania do Brasil, um dos
poucos países da região em que os Estados Unidos (ainda) não têm uma base militar
propriamente dita.90 Além de garan r uma porta de entrada no Brasil em setores tão estratégicos
e limitar nossas próprias parcerias, o AST em questão é, pelos termos em que se apresenta, um
limitador do desenvolvimento tecnológico nacional e uma potencial ameaça que não podemos
menosprezar.

88
Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações e Agência Espacial Brasileira. Programa Espacial
Brasileiro - Fatos e Mitos: O Acordo de Salvaguardas de Alcântara, 9 de maio de 2018.
<h p://www.aeb.gov.br/wp-content/uploads/2018/05/Folder-Salvaguarda-texto-corrido.pdf>
89
SAAB, A Transferência de Tecnologia, <saab.com/pt/region/brasil/gripen-brasileiro/transferencia-de-tecnologia/>
90
Os EUA e a Organização do Tratado do Atlân co Norte (OTAN) têm cerca de 80 bases militares esparramadas pela
América La na e Caribe, inclusive cercando o Brasil. O CLA não é este po de base, mas não é possível garan r que o
aparente fim civil e comercial do acordo com os EUA não permi rá seu uso para fins militares. Mesmo a vidades civis
podem ter, como é sabido, u lidade militar, caso, por exemplo, da vigilância e monitoramento de território.