APARECIDO AIRES
CUIABÁ
2012
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APARECIDO AIRES
CUIABÁ
2012
2
Aires, Aparecido
A298m A matemática e a história dos números decimais / Aparecido
Aires. – Cuiabá : [s.n.], 2012.
152. f. Il.
CDU 51
MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO
UNIVERSIDADE FEDERAL DE MATO GROSSO
PRÓ-REITORIA DE ENSINO DE PÓS-GRADUAÇÃO
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO
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FOLHA DE APROVAÇÃO
TÍTULO: "A matemática e a história dos números decimais"
CUIABÁ, 10/04/2012.
4
AGRADECIMENTO
RESUMO
O presente trabalho tem como foco de estudo a representação das frações decimais
apresentada por Simon Stevin, em seu trabalho De Thiende, em 1585. Esta nova
representação das frações decimais deu origem aos números decimais que conhecemos na
atualidade, ou seja, números no qual usamos a vírgula para separar a parte inteira da parte
decimal. Simon Stevin descreveu (em De Thiende) a maneira de resolver qualquer cálculo
aritmético, com o uso dos números decimais. Estudamos sobre a resolução das operações
fundamentais de aritmética (adição, subtração, multiplicação e divisão) e no cálculo de raízes
(quadrada, cúbica e outras) por meio de algoritmos, para mostrar tanto a eficiência quanto a
ineficiência da utilização do algoritmo no que se refere à aprendizagem da matemática.
Abordamos também dois tipos de pensamento, o pensamento instrumental e o teórico,
destacando as diferenças e a complementaridade entre eles mostrando a sua necessidade para
o desenvolvimento da aprendizagem matemática. A ligação de dois períodos diferentes, que
são o século XVI e o século XX, no que tange à computação, uma vez que Simon Stevin
trouxe uma representação, ou seja, os números decimais no intuito de facilitar os cálculos no
século XVI, e no século XX, a criação do computador fez com que estes cálculos ficassem
ainda mais simples. Porém esta criação só foi possível a partir do momento que houve uma
organização dos números em dígitos, feita por Simon Stevin no final do século XVI. A
estruturação dos conjuntos numéricos com a criação de novos números a fim de suprir as
necessidades do homem na medida em que vai evoluindo, mostrando deste modo que a
representação de Simon Stevin acompanhava essa evolução. A epistemologia e a história dos
números decimais permitiram com que o conhecimento sobre este assunto fosse melhor
compreendido no âmbito da educação matemática.
ABSTRACT
This work has as its object of study of the representation decimal fractions developed by
Simon Stevin, in his work De Thiende in 1585. This new representation of decimal fractions
lead to the decimal numbers that we know on present days, in other words, numbers that we
use comma to separate the integer part of the decimal part. Simon Stevin described (in De
Thiende) the way to solve any arithmetic with the use of decimal numbers. We studied about
the resolution of the fundamental operations of arithmetic (addition, subtraction,
multiplication and division) and the calculation of roots (square, cubic, and others) by means
of algorithms to illustrate the efficiency and inefficiency in the use of the algorithm that refers
to the mathematics learning. We discuss also two types of thought, the instrumental thought
and theoretical thought, exemplifying the differences and complementarity between them
showing the importance for the development of mathematical learning. The binding of two
different periods, that are the XVI century and the XX century, with respect to computing,
when Simon Stevin brought a representation, in other words, the decimal numbers aiming to
facilitate the calculations in the XVI century, and century XX, the creation of the computer
enabled these calculations become even simpler. But this creation was only possible from the
time that there was an organization of numbers in digit, made by Simon Stevin in the late XVI
century. The organization of numerical sets by creating new ones in order to supply the needs
of humans and their evolutions, thereby showing that the representation of Simon Stevin
followed this evolution. Epistemology and history of decinals numbers allowed that
knowledge about this would be better understood in the context of mathematics education.
SUMÁRIO
LISTA DE FIGURAS.............................................................................................................10
LISTA DE TABELAS............................................................................................................11
INTRODUÇÃO.......................................................................................................................12
2. O QUE É UM ALGORITMO?
2.1 Introdução..........................................................................................................................51
2.2 A origem da palavra algoritmo........................................................................................52
2.3 Algoritmos e computadores..............................................................................................53
2.4 O algoritmo de Euclides...................................................................................................59
2.4.1 O lado e a diagonal do quadrado: um problema para o algoritmo de
Euclides....................................................................................................................................64
2.5 Século XVII: o lampejar de uma nova era.....................................................................66
2.6 Máquina de Turing...........................................................................................................68
2.7 O Labirinto........................................................................................................................71
9
3.1 Introdução..........................................................................................................................73
3.2 Uma definição de conceito................................................................................................74
3.3 Pensamento algorítmico...................................................................................................76
3.4 Teste de Turing.................................................................................................................78
3.5 Teorema de Pitágoras.......................................................................................................79
3.6 A duplicação do cubo.......................................................................................................82
3.7 A busca de solução para uma equação do quinto grau.................................................87
4.1. Introdução........................................................................................................................91
4.2 Álgebra e aritmética: a importância do simbolismo......................................................91
4.3 Breve sinopse sobre números..........................................................................................94
4.3.1 Números naturais..........................................................................................................96
4.3.2 Números inteiros............................................................................................................99
4.3.3 Números racionais........................................................................................................102
4.3.4 Números reais..............................................................................................................105
CONSIDERAÇÕES.............................................................................................................110
REFERÊNCIAS...................................................................................................................113
ANEXO..................................................................................................................................117
10
LISTA DE FIGURAS
Figura 12 – Quadrado.............................................................................................................106
LISTA DE TABELAS
INTRODUÇÃO
Deste modo, o uso desta notação não foi tão simples, mas, sim um processo de
transformação no qual vários estudiosos contribuíram para a sua estruturação.
Outro fator importante para a aceitação desta representação foram os números indo-
arábicos, pois, foi a partir destes símbolos, que os cálculos tornaram-se menos complicados,
ao contrário dos cálculos utilizados pelos romanos, ao efetuarem a soma de dois números,
como mostrado a seguir:
CXX
XXXVIII
CLVIII
X,XV
II,LI_ __
XII,LXVI
Esta era a notação adotada pelos romanos na Idade Média, ou seja, letras
representando números e “a base numérica usada pelo povo romano era decimal”
(CONTADOR, 2006, p. 158). Os cálculos complicados com algarismos romanos eram
inviáveis, se não impossíveis e não se pode deixar de observar que “a mistura e a confusão de
1
The first to show by a special treatise that he understood the significance of the decimal fraction was Stevin,
who published a work upon the subject in Flemish, followed in the same year (1585) by a French translation.
This work, entitled in French La Disme, set forth the method by which all business calculations involving
fractions can be performed as readily as if they involved only integers […]. He was the first to lay down definite
rules for operating with decimal fractions, […]
2
Título da versão em francês de De Thiende.
14
números e letras eram difíceis de evitar por que, naturalmente, os algarismos romanos eram
letras romanas” (CROSBY, 1999, p. 113). Esse sistema foi superado, por mais que se possa
afirmar “que durante vários séculos houve intensa competição entre abacista e os algoristas e
somente por volta do século XVI os numerais indo-arábicos se fixaram na sociedade
(CONTADOR, 2006, p. 170). Os exemplos colocados acima podem ser escritos da seguinte
maneira, o primeiro exemplo, que é a soma de 120 e 38:
120
38 +
158
No segundo exemplo, quando aceito os números decimais e que não se tem até o
momento uma notação padrão definida, como se pode ver, “o resultado da fração é escrito
O Renascimento foi o ponto alto na história das artes visuais, arquitetura e literatura.
As ciências passavam por um processo de transição. O Renascimento questionavam os
valores consolidados na Idade Média, confrontando importantes conceitos elaborados pelo
pensamento medieval. No campo da astronomia discutia-se o centro do universo, até então
como sendo a Terra (modelo geocêntrico), defendida pela Igreja com o apoio de Aristóteles
(384-322 a.C.). Mas os estudos dos astrônomos renascentistas e cientistas renascentistas
afirmavam ser o Sol como centro do universo (modelo heliocêntrico) defendido por Nicolau
Copérnico (1473-1543). Confrontos como esses levaram cientistas como Giordano Bruno
(1548-1600) à morte.
O homem renascentista redescobria as obras da Antiguidade fazendo estudos mais
aprofundados, atentando-se para a ciência, buscando-se a perfeição e o entendimento dos
fenômenos, deixando de aceitar as verdades defendidas por autoridades estabelecidas, como
Aristóteles, passando a buscar o rigor e a clareza das demonstrações como formas de
estabelecer a verdade, assim confrontando religião e ciência:
A tensão entre um enfoque religioso sobre a vida, propagada pela Igreja na Idade
Média, e um foco secular sobre o presente e um interesse no mundo natural é uma
característica do Renascimento. Este último ponto de vista era inerente ao
humanismo, um dos fatores essenciais da Reforma. As duas visões de mundo
contrastante colidiram3 (DEVREESE & BERGHE, 2008, p.5, tradução nossa).
3
The tension between a religious focus on the life come, propagated by the Church in the Middle Ages, and a
secular focus on the present and an interest in the natural world was a characteristic of the Renaissance. This
latter viewpoint was inherent to humanism, one of the essential factors of the Reformation. The two contrasting
worldviews collided.
17
4
Humanista: Homens típicos da época do renascimento, que se opunha ao ideal de homem medieval.
5
BOYER, (2003, p. 187.)
18
morte prematura cessou seus planos. Mesmo depois de sua morte, “a lista dos livros que ele
projetava imprimir se preservou e indica que certamente o desenvolvimento da matemática se
teria acelerado se ele tivesse sobrevivido” (BOYER, 2003, p.187). Regiomontanus sabia da
importância da proliferação dessas obras para a ciência.
Nicolau Copérnico (1473-1543), também viveu nesse período, nascido três anos antes
da morte de Regiomontanus. Sua contribuição para a ciência de modo geral foi essencial.
Copérnico foi o divisor de águas. Seu tratamento matemático em relação ao sistema universal
foi de suma importância para que se pudesse deflagrar a revolução astronômica.
Desta forma, o modelo que afirmava a Terra como centro do universo (geocentrismo)
tinha suas bases enfim estremecidas, pois, de acordo com Mourão (2003, p.18) “Na época, já
se sabia a incapacidade do sistema de Ptolomeu de prever com exatidão os movimentos
celestes”.
Copérnico, assim como Aristarco de Samos (320-250 a.C.), observou que o Sol era o
centro do universo (heliocentrismo) e não a Terra. Mas diferente do heliocentrismo de
Aristarco que acabou caindo no esquecimento. Copérnico por meio da sua obra De
revolutionibus. revolucionou de vez o modelo vigente de que a Terra estava no centro do
universo,
Os ideais renascentistas e modelos educacionais espalhados pelo norte para além dos
Alpes na segunda metade do século XV, fez com que cidades como Paris (França), Antuérpia
(Bélgica), Augsburg (Alemanha) e Londres (Inglaterra) crescessem. Outro ponto que chamou
a atenção na transição da Idade Média para a Renascença foi a falta de tolerância dos homens
que defendiam o poder religioso, marcada por guerras e inquisições.
19
Mesmo com as intervenções por parte das autoridades, o movimento tomava força não
podendo ser mais contido e, a partir de então que se abre o leque a fim de movimentar todos
os ramos do conhecimento com o vento da prosperidade. Estavam abertas as portas para os
homens de grande poder de raciocínio, podendo assim instigar e levantar hipótese com intuito
de se chegar a “verdades”.
Números na Idade Média e no Renascimento eram vistos como entidades que
possuíam significados. Pensavam nos números como qualitativos e quantitativos, por
exemplo, um número além de ser usado para representar quantidade de objetos qualquer,
também era utilizado como qualidade, ou seja, referia se aos números como um ente cheio de
significado. O 3 era 1 mais 1 mais 1, ou a raiz quadrada de 9, e assim por diante, mas também
significava a Trindade (Pai, Filho e Espírito Santo).
Os símbolos indo-arábico eram tomados de empréstimos das terras islâmicas e por
mais que houvesse resistência por parte dos europeus em aceitá-los eles revolucionaram a
6
Tolerance was not a hallmark of the reaction to the Reformations. Emanating chiefly from Spain religious wars
and inquisitions were let loose upon Europe and outbreaks of witch-hunting and torture would make the Flanders
of Pieter Bruegel into a kind of Vietnam of Europe.
20
escrita numérica, que até então era escrito com símbolos romanos. Essa conquista de forma
gradativa foi primeiro aceito pelos comerciantes, contadores.
Para escrever um número grande os romanos muitas vezes escreviam utilizando os
algarismos indo-arábico. “Num calendário de 1430, o fabricante do calendário definiu o ano
como sendo composto de ccc e sessenta e 5 dias e seis horas aproximadas. Duas gerações
depois, outro autor expressou o ano então em curso como sendo MCCCC94” (CROSBY,
1999, p.116).
Além dos números serem carregados de conceitos, só eram considerado números 2, 3,
4, 6, 7, 8, 9, 10,..., que hoje são chamados de números naturais, o 0 e o 1 não eram
considerados números, por mais que o zero já fosse usado pelos astrônomos a fim de facilitar
seus cálculos, passaram-se séculos antes que os europeus reconhecessem que o zero era um
número real. Neste período já se tinha conhecimento, dos negativos, dos irracionais, dos
complexos, porém, esses ainda não tinham “status” de número.
As frações eram vistas como relações de dois números inteiros, seu reconhecimento
como número foi gradativo, começando no século XVI até o século XVIII.
Segundo Souza (2008, p.158) “como se vê, o uso das frações vem da remota
Antiguidade. Sua teoria, porém, é muito mais recente, e só nos tempos modernos foram elas
por verdadeiros números.”
Não se tem ao certo o ano de nascimento de Stevin, estima-se que tenha sido em
dezembro de 1548. Segundo Devreese; Berghe (2008, p.32, tradução nossa) “Podemos
deduzir que Stevin deve ter nascido em 1548 ou início de 1549. Uma pintura na biblioteca da
Universidade de Leiden mostra 1548 como o ano de seu nascimento7”, ainda de acordo com
os autores os pais de Simon Stevin são Anthonis Stevin e Cathelyne Van der Poort.
Sabe-se pouco dos primeiros anos da vida de Simon Stevin, os biógrafos dizem que
ele nasceu em Bruges (Bélgica), o que está relatado em quase todas as suas obras. Outra
comprovação de sua estada em Bruges são os documentos encontrados nos arquivos dessa
cidade por Albert Schouteet (1937) datados no período de 1551 a 1597, relatando a vida de
“Simon Stevin” e família em Bruges. De acordo com Eduard Dijksterhuis (1955), dois fatos
levam a acreditar que Simon Stevin é o nosso famoso cientista. Primeiro no anúncio de seu
casamento em Hague em 1616, no qual Simon Stevin é chamado de Simon Anthonis Stevin,
sendo Anthonis nome do pai de Stevin. O segundo fato aparece no Wisconstige
Gedachtenissen (Parte v, Van de Ghemengde Stoffen (Miscellaneous Subjects), v, 2: Van de
Vorstelicke Bouckhouding (On Princely Bookkeeping), no qual Stevin menciona que em seus
primeiros anos trabalhou na administração financeira do “Brugse Vrije” ou liberdade de
Bruges.
7
We can deduce from this that Stevin must have been born in late 1548 or early 1549. A painting in Leiden
University Library gives 1548 as the year of his birth.
22
Simon Stevin refere-se à sua cidade natal nas páginas do titulo de quase todos os seus
livros, assim como mostra a figura 2 do livro Wisconstige Gedachtenissen.
De acordo com Devreese; Berghe (2008), em comparação com outras cidades nos
Países Baixos, Bruges foi à cidade que mais demorou em ter seguidores dos ensinamentos de
João Calvino (1509-1564). Para Maia (2007, p.199) o calvinismo:
8
On 3 March a certain Brother Cornelis identified elements of the city’s magistracy, especially its legal experts
(the lawyers and clerks), as proponents of the new doctrine – ‘principally those who have studied in France [at
Orleans] and there suckled the venomous liquor from the breast of John Calvin’.
23
Não pode haver dúvidas quanto à convicção calvinista de Vicente no ano 1578-1584.
Em 1580, Vincent se tornou um membro do comitê de quatro homens acusados de
regulamentar a venda dos bens eclesiásticos. Ele foi uma dos maiores compradores de bens da
Igreja. Farnese observou em suas cartas de Philip II que, apesar de tudo, ainda havia muitos
calvinistas no banco de novo. Não obstante, Vincent desempenhou um papel ativo na
delegação cívica que negociou os termos para a restauração de Bruges, a obediência real.
Segundo Vandamme apud Devreese; Berghe, (2008, p.26) “é difícil definir a vida
profissional de Vincent, devido à grande variedade de suas atividades como comerciante.
Alguns se referem a ele como um coopman van tapytserie - um negociante de tapeçaria11”.
9
[...] because it is very likely that he was the brother of Joost Sayon, Who married Stevin’s mother acted as
Simon’s legal guardian in 1577 and owned the house called The Golden Shield.
10
[...] Vandamme mentions Vincent Sayon as a member of a Calvinist delegation that was admitted to the town
hall on 3 November 1566 to petition the magistracy after a disturbance in which some religious innovators had
come to blows with the civic militia.
11
[...] it is difficult to define Vincent’s professional life because of the wide range of his activities as a merchant.
Some refer to him as a coopman van tapytserie – a tapestry dealer.
24
Ele pode ter assumido esse negócio de seu pai, Antoon Sayon, e um nome para si mesmo
como um tecelão e vendedor de tapetes.
Podemos notar que a família de Simon Stevin teve grande inclinação para o
calvinismo, Vicente Sayon como se pôde ver foi uma figura importantíssima nessa época e
provavelmente um calvinista fervoroso que defendia os ideais da religião calvinista.
12
There were others from Bruges in the service of the States General in Holland in the early seventeenth century
[…]
25
Não há nenhum documento oficial de Bruges sobre Simon Stevin datado depois de
1577. Ele deve realmente ter deixado a cidade. Talvez suas razões para sair fossem
religiosas, mas também pode ser que ele simplesmente ficou cansado da atmosfera
em Bruges. A discórdia entre católicos e calvinistas, entre os quais sua família mais
próxima teve envolvida, tornou impossível para ele se dedicar ao seu trabalho
científico. Mesmo assim, pelo tempo que ele chegou a Leiden em 1581 ele deve ter
tido uma boa educação científica. Talvez estudasse em uma das universidades
protestantes na França, Alemanha ou Suíça, ou em uma universidade italiana, onde
ele pode ter tido contato com os matemáticos italianos e algebristas de seu dia 13
(DEVREESE; BERGHE, 2008, p.34, tradução nossa).
Talvez não possamos afirmar com veracidade, mas documentos indicam que Simon
Stevin morou em lugares que estavam em consonância com o espírito calvinista.
Então, só a partir de 1581 torna-se mais fácil descrever a trajetória de Simon Stevin.
Nesse ano, o nome do estudioso de Bruges foi inscrito no cadastro municipal da cidade de
13
No official documents dating from after 1577 connected with Simon Stevin are to be found in Bruges. He
must indeed have left the town. Perhaps his reasons for leaving were religious, but it could also be that he had
simply had enough of the atmosphere in Bruges. The dissension between Catholics and Calvinists, among whom
his closest family could be counted, made it impossible for him to devote himself to his scientific work. Even so,
by the time he arrived in Leiden in 1581 he must have had a sound scientific education. Perhaps he studied at
one of the Protestant universities in France, Germany or Switzerland, or at an Italian university, where he may
have had contact with the Italian mathematicians and algebraists of his day.
14
The citizen’s behavior in respect of the laws of God and religion is a particularly important aspect of Het
Burgherlick Leven. Stevin takes it for granted that all parents like to see their children grow up ‘in virtue and
righteousness’. To this end a religion necessary. […] In conclusion, he states that it is best to find a place to live
in which one can comfortably conform to the customs that prevail. If we apply this view to Stevin’s emigration
to the north, we can conclude that he chose for himself a dwelling place where he could conform to Calvinism,
which was the official religion of Holland and Zeeland.
26
15
The decision to study or complete his studies in Leiden was the only fully fledged Calvinist university in the
Low Countries.
16
[...] when he had lived for at least four years in Holland, probably most of the time, if not all, at Leiden.
17
That in 1544 Renaissance scholars translated and published a number of hitherto unknown works by
Archimedes has had a significant impact on the dissemination of knowledge.
27
Simon Stevin foi um dos poucos renascentistas a estudar as obras de Arquimedes. Sua
leitura era difícil de ser compreendida por contemporâneos de Simon Stevin, fazendo de
Arquimedes um homem difícil de ser “entendido”.
Poderíamos atribuir esta dificuldade também aos que copiaram essas obras, uma vez,
que tais obras não eram originais.
A Matemática clássica grega se desenvolveu por volta de 600 a.C. Thales de Mileto
foi um dos primeiros praticantes. Por conseguinte, poderia ser de esperar que os
textos originais grego fossem encontrados também. Infelizmente, este não era o
caso. As obras de Thales de Mileto (por volta de 624 – 547 a.C.), Pitágoras (c. 540
a.C), Euclides (por volta de 330 – 260 a.C.), Apolônio de Perga (c. 262-190 a.C),
Arquimedes (287-212 a.C) e outros não chegaram até nós diretamente. Isso ocorre
porque a partir de 450 a.C, os gregos escreveram em papiros. Papiros, já em uso
desde 3000 a.C, foram muito vulneráveis e facilmente apodreceram. O Rolo só
poderia sobreviver em um ambiente muito seco.
Felizmente, as obras de eruditos gregos, que eram consideradas importantes foram
copiadas muitas e muitas vezes. No processo de cópia, modificações, no entanto,
foram feitas no texto original. Por exemplo, um copista, sem conhecimento técnico
do material a ser copiado facilmente comete erros. Se por outro lado, ele está muito
familiarizado com o tema, ele pode estar inclinado a adicionar elementos baseado no
conhecimento posterior que o escritor do texto original não possuía. Em ambos os
casos, o texto original não é passado para nós 19 (DEVREESE; BERGHE, 2008, p. 9,
tradução nossa).
Esses homens contribuíram com a humanidade, mostrando que são importantes, não
deixando que as obras de homens considerados grandes pensadores se perdessem com o
tempo. Portanto, por mais que houve influência na transcrição dessas obras, seja influência
18
The theories of Archimedes, the most advanced mathematician of Antiquity, were not easily understood, and
creative work based on them was even more difficult. Stevin was among the first Renaissance men to study
Archimedes with a certain amount of independence.
19
Classical Greek mathematics developed as early as circa 600 BCE. Thales de Miletus was one of its earliest
practitioners. It might therefore be expected that original Greek texts would be found as well. Unfortunately, this
was not the case. The works of Thales of Miletus (c. 600 BCE), Pythagoras (c. 540 BCE), Euclid (c. 300 BCE),
Apollonius of Perga (c.262-190 BCE), Archimedes (287-212 BCE) and others have not come down to us
directly. This is because from 450 BCE onwards, the Greeks wrote on papyrus. Papyrus, already in use since
3000 BCE, was very vulnerable and rotted easily. Scrolls could survive only in a very dry environment.
Fortunately, those works of Greek scholars that were thought important were copied over again. In the process of
copying, however, the original text may have undergone changes. For instance, a copyist with no technical
knowledge of the material being copied can easily make mistakes. If, on the other hand, he is very familiar with
the topic he might be inclined to add elements based on later knowledge that the writer of the original text did
not possess. In either case, the parent text is not passed on to us.
28
por não entender do assunto ou por ter conhecimento aprofundado sobre o assunto, trocando
algumas palavras ou fazendo interferências nas obras.
Pode-se observar que pensadores da Antiguidade influenciaram Simon Stevin em
vários campos da ciência, na matemática, na física, na engenharia. Em matemática podemos
ressaltar a obra Problemata. “Influência de Euclides no Problemata é particularmente
evidente nas seções que tratam da divisão proporcional de valores com órgãos regulares 20”
(STRUIK, 1958a, p.6, tradução nossa). Também é visível a influência de Arquimedes nas
obras referente à mecânica de Simon Stevin, em Weeghconst (VI) e Weeghdaet (Via), que se
referem à estática.
1.6 Os trabalhos
20
Euclid’s influence in the Problemata is particularly evident in the sections dealing with proportional division
of figures and with regular bodies,[…]
29
Stevin certamente não se limita às considerações teóricas nestes anos, ele também
aplicou seus conhecimentos. Em 1584, através de seu amigo Johan Cornetas de
Groot, iniciou negociações com o Conselho da cidade de Delft, pedindo permissão
para testar uma de suas invenções a ver com a drenagem. Além disso, e em consulta
com o mesmo amigo, ele melhorou o funcionamento das usinas utilizadas para
bombear a água de terrenos pantanosos22 (DEVREESE; BERGHE, 2008, p.40).
21
[…] the oldest treatise on logic in the Netherlands, […]
22
Stevin certainly did not confine himself to theoretical considerations in these years; he also applied his
knowledge. In 1584, via his friend Johan Cornets de Groot, he began negotiations with Delft’s town council for
permission to test one of his inventions to do with drainage. In addition, and usually in consultation with the
same friend, he improved the working of the mills used for pumping water from marshlands.
30
suas invenções hidráulicas em prática, com isso em mente, ele adquiriu um número de
patentes” (DEVREESE; BERGHE, 2008, p.41, tradução nossa).
Observando os trabalhos de Simon Stevin podemos ver a importância das aplicações
destes, em questões voltadas para o aperfeiçoamento e criações tanto na infra-estrutura, como
em questões pedagógicas.
[...] Stevin publicou dois livros que eram de uso prático para a defesa do país e para
o desenvolvimento da sua frota em crescimento. De Sterctenbouwing (a arte das
fortificações) foi impresso por Frans van Ravelingen em 1594; como o título sugere,
trata-se da teoria da fortificação de construção. Pode ser que ele foi concebido como
material pedagógico para a escola de engenharia que Stevin tinha ajudado a criar,
em Leiden.
Desde o início do século XVI, a construção da fortificação tinha vindo a evoluir
constantemente. O desenvolvimento da artilharia pesada deixa à necessidade de
novos sistemas defensivo imperativo23 (Ibid, p.44, tradução nossa).
Em 1599, um segundo livro se mostrando bastante útil, foi publicado mais uma vez
por Frans van Ravelingen. De Havenvinding (The Haven-Finding Art) descreve um
método pelo qual um navio pode determinar a sua orientação no mar. É de se esperar
que o sempre inventivo Stevin, que agora era habitante de uma potência marítima
florescente, iria colocar sua mente para os problemas de navegação 24 (Ibid, p.45,
tradução nossa).
Essa mente brilhante do século XVI contribuiu e muito para várias áreas do
conhecimento, mas a maior de todas as obras foi o trabalho De Thiende. É nesse trabalho que
Simon Stevin demonstra como resolver todos os cálculos de números “quebrados”, utilizando
os métodos já conhecidos com números inteiros.
23
[...] Stevin published two books that were of practical use for the defence of the country and the development
of its nascen fleet. De Sterctenbouwing (The Art of Fortification) was printed by Frans van Ravelingen in 1594;
as the title suggests, it deals with the theory of fortification-building. It could be that it was intended as course
material for the engineering school that Stevin had helped to set up in Leiden.
Since the start of the sixteenth century, fortification construction had been constantly evolving. The development
of heavy artillery made the need for new defensive systems imperative.
24
In 1599, the second of these useful books was published, again by Frans van Revelingen. De Havenvinding
(The Haven-Finding Art) describes a method by which a ship can determine its bearings at sea. It is only to be
expected that the ever-inventive Stevin, who was now an inhabitant of a burgeoning sea power, would put his
mind to the problems of navigation.
31
Os chineses e os árabes já tinham contato com fração decimal25 no seu dia a dia. “Na
China a adesão à idéia decimal em pesos e medidas teve como resultado um hábito decimal
no tratamento de frações que, ao que se diz, pode ser encontrado já no século quatorze a.C.”
(BOYER, 2003, p.137). O mesmo não pode ser dito em relação aos povos do ocidente.
Embora durante o período do eurocentrismo os escritores não dessem importância a citação
das fontes consultadas na elaboração de seus trabalhos, não podemos deixar de referenciar a
De acordo com Hodgkin (2005, p.120-121, tradução nossa) “al-K a sh i (d. 1429)
certamente sabia o que eram frações decimais, ele tem um termo técnico e o usa de forma
simples e com facilidade.27” Em certo sentido, a introdução desses termos parece ser uma
reivindicação da invenção das frações decimais.
Dividimos a unidade em dez partes, nós, então, dividimos cada décimo em dez
partes, e depois cada um deles em mais dez partes, e em seguida, cada um deles em
mais dez partes e assim por diante, sendo a primeira divisão em décimos, e da
25
Fração Decimal é toda fração em que o denominador é uma potência de 10 com expoente natural.
26
Besides the obvious Eurocentrism of such a judgement, and the increasing evidence that al-kashi’s work did
influence western Europe via Constantinople and Venice, this illustrates the whole problem of how one ascribes
priority. The main interest in a mathematics textbook (medieval or modern), is to explain how you use a
technique, not where the author obtained it; and this seems true even of Islamic writers who worked in a culture
where citation of sources could be quite careful. Hence even where work is original, such originality may not be
claimed, and this leaves the field wide open for historians (who may care more than is necessary ) to argue about
who is copying whom, and whether a writer really understands the method he is explaining.
27
Al-K sh certainly did know what decimal fractions were; he has a technical term for them, and uses them
simply and with facility.
32
Desta forma a fração decimal já era conhecida pelos matemáticos islâmicos e com
certeza al-K a sh i conhecia muito bem esta representação decimal. “Na mera escrita da fração
decimal, pelo menos, esses esforços tinham sido antecipados por al-K a sh i (c.1430), cujo
simbolismo fora tão bom quanto o de qualquer escritor europeu para o próximo século e
meio29” (SMITH, 1958, p. 247, tradução nossa).
Segundo Smith (1959) havia vários estudiosos que tiveram alguma intuição da
necessidade de um dispositivo tal como a fração decimal muito antes do que foi finalmente
trazida à luz, ainda de acordo com este autor Joannes de Muris, ou Jean de Meurs, escreveu
no início do século XIV que:
O mais interessante das primeiras influências que tendem a invenção, foi a regra
n
n
a.10 kn
para a extração de a expressa em símbolos modernos por . Em
10 k
30000 3000000
particular, 3= , ou , o processo real de extrair a raiz
100 1000
sendo bastante igual ao nosso com decimais. Ele era conhecido pelos hindus, arabes
e Johannes Hispalensis (c. 1140), e é encontrado nas obras de Johann von Gmunden
30
(c. 1430), Peurbach (c. 1460), e seus sucessores até o fim do século 16 (SMITH,
1958, p. 236, tradução nossa).
28
We divided the unit into ten parts, we then divided each tenth into ten parts, and then each of them into a
further ten parts, and then each of them into a further ten parts and so on, the first division being into tenths, and
in the same way the second into decimal seconds and the third into decimal thirds and so on, so that the orders of
decimal fractions an wholes are in the same relation as in the principle in astronomical numbering [i.e.
sexagesimals]. We call this ‘decimal fractions’.
29
In the mere writing of the decimal fraction , at least, all these efforts had been anticipated by al-K sh (c.
1430), whose symbolism was quite as good as that of any European writer for the next century and a half.
30
The most interesting of the early influences tending to the invention, however, was a certain rule for the
extraction of , expressed in modern symbols by . In particular, = , or , the actual
process of extracting the root being quite like our present one with decimals. It was known to the Hindus, to the
Arabs, and to Johannes Hispalensis (c.1140), and is found in the works of Johann von Gmünden (c.1430),
Peurbach (c.1460), and their successors until the close of the 16th century.
33
Outra influência que conduziu a invenção da fração decimal foi a regra de divisão por
a
número da forma que é atribuida a Cardano (1539) para Regiomontanus. Essa notação
10 n
3
aparece em diversos escritos do século XV, como no caso 470 : 10 = 47 e 503 : 10 = 50 .
10
Mas, sua representação para alguns valores deixavam a desejar, chegando ao ponto de
embaraçar. “No século XV, era frequente eles usarem frações como 197/280 e, às vezes,
descobriam-se afundado nas areias movediças de frações como 3345312/4320864”
(CROSBY, 1999, p.118). Durante o século XVI a preocupação com as técnicas de
computação fizeram com que matemáticos profissionais e amadores se mantessem motivados
em buscar métodos menos complicados para resolução de cálculos. De acordo com Boyer
(2003, p.217) “Vietè, o maior matemático da França então, em 1579 tinha recomendado
insistentemente o uso de frações decimais em vez de sexagesimais”, a fim de facilitar as
calculações.
Como se observa nos estudos dos historiadores sobre essa época, trabalhar com o
sistema de frações sexagesimais ficava inviável quando se envolvia números grandes ou
números muito pequenos. E desta forma, a fração decimal iria tomando espaço como afirma
Crosby (1999, p. 118) “os europeus foram salvos pelo sistema decimal, que talvez já existisse
em forma embrionária desde o início do século XIII, mas que passou mais trezentos anos sem
dispor de um sistema de notação útil.”
De fato, houve motivos para o surgimento da fração decimal em detrimento da fração
sexagesimal, e por mais que se observe na história da matemática que vários historiadores
reivindicavam a invenção a um determinado matemático, os historiadores da matemática são
unânimes em dizer que Simon Stevin (1548-1620), não só compreendeu a fração decimal,
como também deu-lhe um sentido, mostrando assim sua importância para os cálculos de
números “quebrados.”
A recomendação das frações decimais feita por Simon Stevin, fez com que os livros
didáticos de matemática a considerarem Simon Stevin como o inventor da fração decimal.
“Os livros didáticos da década de 1950 ou antes, alegaram que a invenção das frações
decimais fossem de Simon Stevin31” (HODGKIN, 2005, p.120, tradução nossa).
31
In textbooks from the 1950s or before, it was claimed that the invention was due to Simon Stevin […]
34
Struik (1958, p.373, tradução nossa) afirma que “De Thiende [...], é a mais conhecida
das publicações de Stevin, que lhe rendeu o título de inventor das frações decimais32”. Ainda,
este autor defende que “o título, se tomado com um grão de sal, é merecido”. Porém, estudos
da história da matemática mostram que Simon Stevin não inventou as frações decimais
(Árabes e Chineses já usavam frações decimais), mas ele introduziu seu uso na Matemática da
Europa, mostrando o quão era fácil desenvolver cálculos aritméticos utilizando frações
decimais, tanto quanto, eram utilizados números inteiros, tornando-se um forte defensor da
escala decimal. Não se pode negligenciar que as frações decimais apareceram bem antes de
Simon Stevin, como afirma Boyer (2003, p.217) “é claro que Stevin não foi em nenhum
sentido o inventor das frações decimais, nem o primeiro a usá-las sistematicamente”, porém, a
popularidade de seu livreto foi tão grande que o seu lugar no desenvolvimento das frações
decimais muitas vezes é mal compreendido, elegendo-o indevidamente como inventor das
frações decimais.
De acordo com Smith (1959, p. 20, tradução nossa) “Pellos (1492) usou um ponto para
separar um, dois ou três lugares no dividendo quando o divisor era um múltiplo de 10, 100 ou
100033”. Ainda segundo este autor, os matemáticos Adam Riese (1429-1559) e Rudolf
(1500?-1545), respectivamente publicaram trabalhos utilizando as frações decimais. Adam
Riese (1522) publicou uma tabela de raízes quadradas em que os valores até três casas foram
computadas para os irracionais. Rudolf em1530 utilizou o símbolo como um ponto decimal
em uma tabela de juros compostos.
Até o final do primeiro quarto do século XVIII devemos nos referir não só a
completa e final vitória do ponto (ou vírgula) decimal, mas, também, ao agora
universal método de efetuar operações de divisão e extração de raiz quadrada’,
Temos tratado longamente do progresso da notação decimal, porque ‘a história da
linguagem... é do mais alto interesse, bem como de sua utilidade: suas sugestões
constituem a melhor lição para o futuro que uma mente reflexiva possa ter.
32
De Thiende […], is by far the best know of Stevin’s publications; it earned him the little of inventor of the
decimal fractions.
33
Pellos (1492) used a decimal point to set off one, two, or three places in the dividend when the divisor was a
multiple of 10, 100, or 1000.
35
Simon Stevin sabia em que terreno estava pisando, pois, sua técnica de resolução de
problemas utilizando as propriedades até então aplicadas somente a números inteiros iria
facilitar os cálculos com números quebrados, uma vez, que a manipulação de números tão
grandes e muito pequenos trazia transtornos para os cientistas. Stevin era um entusiasta da
decimalização e esperava substituir as duas representações vigentes com quais os astrônomos
trabalhavam – as sexagesimais e os confusos sistemas de medição com o qual os “medidores
de terra” se confrontavam.
34
And the surveyor or land-meter […], he is not ignorant (especially whose business and employment is great)
of the troublesome multiplications of rods, feet, and oftentimes of inches, the one by the other, which not only
molests, but also often (though he be very well experienced) causes error, tending to the damage of both
parties,[…].
36
A versão original desse trabalho contém 36 páginas, escrito em flamengo sob o título
“De Thiende”, no ano de 1585. Neste mesmo ano foi publicada uma versão em francês pelo
próprio autor Simon Stevin. Esta tradução foi adicionada à coleção de ensaios publicados sob
o título “La Pratique d’Arithmétique”. Havia outras maneiras de os matemáticos terem acesso
a ideia de Simon Stevin. “Duas versões em inglês apareceram, uma sendo literal feita por
Robert Norton, publicada em 1608 e outra mais livre publicada por Henry Lyte em 161935”
(STRUIK, 1958, p. 378, tradução nossa).
De Thiende foi reimpresso em 1626, após a morte de Simon Stevin, dessa vez como
apêndice de um livro escrito por De Decker, publicado novamente em 1630. Quando Girard
em 1634 publicou Oeuvres de Stevin, ele incluiu a versão francesa do panfleto.
No século XX duas reedições do panfleto de Simon Stevin foram publicadas. “A
edição original em holandês de 1585 foi reproduzida em 1924 por H. Bosmans e a versão
francesa do mesmo ano em 1935 por G. Sarton36” (Ibid, p. 385, tradução nossa).
Stevin.
⓪①②③④
3 1 4 1 6
Simon Stevin apresenta uma nova maneira de escrever os números não inteiros ou as
frações decimais e sua preocupação é mostrar novas representações de números e desta forma
amenizar as dificuldades de realizar cálculos.
O astrônomo sabe que pelo cálculo, usando tabelas de declinações o piloto pode
descrever a latitude e longitude de um lugar e que por tais meios cada ponto sobre a
35
Two English versions appeared, a literal one by Robert Norton, published in 1608, and a freer one by Henry
Lyte, published in 1619.
36
The original Dutch edition of 1585 was reproduced in 1924 by H. Bosmans, the French version of the same
year in 1935 by G. Sarton.
37
superfície da Terra pode ser localizado. Mas, como o doce nunca é sem o amargo, o
trabalho desses cálculos não pode ser disfarçado, pois envolvem multiplicações e
divisões tediosas, graus, minutos, segundos, etc. O agrimensor sabe o grande
beneficio que o mundo recebe a partir de sua ciência pela qual ele evita muitas
disputas sobre as áreas desconhecidas da Terra. E aquele que lida com assuntos de
grande porte, não pode ser ignorante das multiplicações cansativo de varas, pés e
polegadas a um pelo outro, que muitas vezes dão origem a erros que tendem a lesão
de uma das partes, e para ruína da reputação do agrimensor. Assim também, como
os mestres da casa da moeda, comerciantes, etc. Por mais importante que seja esses
cálculos, sua execução são muito trabalhosa. [...], La Disme ensina como todos os
cálculos do tipo das quatro operações da aritmética – adição, subtração,
multiplicação e divisão – podem ser realizados por números inteiros com tanta
facilidade como no ajuste de cálculos37 (SMITH, 1959, p. 21-23, tradução nossa).
Sua contribuição não residiu nessa notação especifica em si, mas em fornecer uma
explicação criteriosa e, pelo menos, um tipo de notação clara para o sistema das
frações decimais. Nossa maneira de expressar frações decimais só apareceu no
século seguinte, e até hoje não existe um sistema universal. Algumas sociedades
usam o ponto e outras usam a vírgula entre os números inteiros e suas frações
decimais. Mas tivemos o beneficio inestimável de um ou outro tipo de sistema
funcional de frações decimais, desde os dias de glória de Simon Stevin (CROSBY,
1999, p.119).
37
The astrologer knows that, by computation, using tables of declinations, the pilot may describe the true
latitude and longitude of a place and that by such means every point upon the earth’s surface may be located. But
as the sweet is never without the bitter, the labor of such computations cannot be disguised, for they involve
tedious multiplications and divisions of sexagesimal fractions, degrees, minutes, seconds, thirds, etc. The
surveyor knows the great benefit which the world receives from his science by which it avoids many disputes
concerning the unknown areas of land. And he who deals in large matters, cannot be ignorant of the tiresome
multiplications of rods, feet, and inches the one by the other, which often give rise to error tending to the injury
of one of the parties, and to the ruin of the reputation of the surveyor. So too, with mint-masters, merchants, etc.,
each in his own business. The more important these calculations are, and the more laborious their execution,
[…], La Disme teaches how all computations of the type of the four principles of arithmetic – addition,
subtraction, multiplication and division – may be performed by whole numbers with as much ease as in counter-
reckoning.
38
Décimo;
Definição Início;
Primeiro, segundo, etc.;
Número decimal.
Adição;
Operação Subtração;
Multiplicação;
Divisão.
Tabela 01 – Mostrando as duas partes de De Thiende.
Stevin mostra interesse em disseminar essa nova representação, deixando claro que
“no final deste trabalho, será adicionado um apêndice estabelecendo o uso de números
decimais em problemas reais38” (SMITH, 1959, p. 23, tradução nossa).
Em seu livreto, Stevin se preocupa com o uso da palavra Dime39, dando uma definição
para esta palavra.
38
[...] the end of this discussion, there will be added an appendix setting forth the use of decimal numbers in real
problems.
39
Dime ou Disme em frânces é traduzido em português pela palavra Décimo.
40
Dime is a kind of arithmetic, invented by the tenth progression, consisting in characters of ciphers, whereby a
certain number is described and by which also all account which happen in human affairs are dispatched by
whole numbers, without fractions or broken numbers.
39
aparecem. Nós chamamos este tratado apropriadamente pelo nome de Dime, em que
todas as contas que surgem através das relações de negócios, medidas etc. entre os
homens podem ser forjadas e feitas sem frações ou números quebrados, como a
seguir será exibida41 (Ibid, p. 403-405, tradução nossa).
Além desta primeira definição, seguida de explanação, Stevin introduz uma série de
definições, demonstrando a sua completa compreensão da estrutura de um sistema decimal.42
Segunda definição.
Terceira definição.
Quarta definição
As definições apresentadas por Simon Stevin mostram que ele possui conhecimento
sobre o que está sendo posto, uma vez, que a segunda e terceira definição são seguidas de
exemplos e a quarta definição expõe como essa nova representação das frações decimais será
chamada.
41
Let the certain number be one thousand one hundred an eleven, described by the characters of ciphers thus
1111, in which it appears that each 1 is the 10 th parts of his precedent character 1; likewise in 2378 each unity of
8 is the tenth of each unity of 7, and so of all the others. But because it is convenient that the things whereof we
would speak have names, and that this manner of computation is found by the consideration of such tenth or
dime progression, that is that it consist therein entirely, as shall hereafter appear, we call this treatise fitly by the
name of Dime, whereby all accounts happening in the affairs of man may be wrought and effected without
fractions or broken numbers, as hereafter appears.
42
Os textos em inglês referente às citações de Norton, 1608, apud Struik, 1958, desta seção 1.7.2 se encontra em
anexo.
40
⓪① ②③
2 7 8 4 7
3 7 6 7 5
87 5 7 8 2
94 1 3 0 4
Note que, se os números dados existem alguns sinais sem a sua ordem natural, o
lugar defeituoso será preenchido. Como, por exemplo, dado os números 8 ⓪5①6②
41
e 5⓪7②, em que este último esta sem o sinal ①, no seu lugar será colocado 0①,
levando este último número a 5⓪0①7②, adicionando do seguinte modo
⓪① ②
8 5 6
5 0 7
1 3 6 3
Observa se, que Stevin, está atento a situações como estas, tanto é que remetem esta
situação as demais proposições. “Este exemplo deve servir também para as três proposições
que se seguem, em que a ordem das figuras defeituosas deve ser fornecida, como foi feito no
exemplo anterior” (Ibid, p.411, tradução nossa), ou seja, no caso de lacunas preencha se com
zeros quantas vezes forem necessárias. E adicione, subtraia, multiplique ou divide
independente da operação que se faça.
A próxima proposição leva em consideração a subtração de números decimais.
⓪①② ③
2 3 7 5 7 8
5 9 7 3 9
1 7 7 8 3 9
Logo, após a construção e a demonstração, Simon Stevin chega à conclusão que dado
um número decimal e um número similar que deve ser subtraído a partir deste número
decimal, chega a um resultado verdadeiro, uma vez, que sua demonstração é verdadeira.
Em seguida, a terceira proposição, que aborda a operação de multiplicação,
envolvendo números decimais.
42
⓪①②
3 2 5 7
8 9 4 6
1 9 5 4 2
1 3 0 2 8
2 9 3 1 3
2 6 0 5 6 -
2 9 1 3 7 1 2 2
Disme são os valores 2① e 3②. Seu produto é , que também, pela terceira definição de
344352 : 96 = 3587
No primeiro exemplo da nota, ele demonstra a divisão de 7② por 4⑤, no qual explica
que para acontecer esta divisão é necessário preencher com zeros (0) após o 7 quantas vezes
for preciso, até que se possa efetuar a divisão, neste caso, tendo como quociente o valor
1750⓪.
7000 : 4 = 1750
No outro exemplo desta mesma nota Simon Stevin se preocupa com resultados que
não podem ser expressos com números inteiros, ou seja, resultados constituídos de parte
decimal infinita. Para esta situação, ele demonstra a seguinte situação, 4① dividido por 3②,
parece que o quociente será um número infinito de três. Neste caso, pode se abordar o mais
próximo ao quociente real como o problema requer e omitir o restante, ou seja, o quociente
desta divisão é 13⓪3①3② ou 13⓪3①3②3 ③ é o resultado exato, mas neste trabalho
propomos a utilizar apenas números inteiros, além disso, percebe se que no mundo dos
negócios não se conta a milésima parte de um maille ou de um grão.
Omissões como essas são feitas pelos principais Geométricos e Aritméticos. Mesmo
nos cálculos de grande importância. “Ptolomeu e Jehan de Montroyal, por exemplo, não
fizeram uso de números mistos em suas tabelas, pois tendo em vista o objetivo destas tabelas
à aproximação é mais útil do que a perfeição” (Ibid, p. 423, tradução nossa).
Simon Stevin também explana sobre a extração de raízes de números decimais, dando
a seguinte nota: Números decimais podem ser usados na extração de raízes. Por exemplo, para
encontrar a raiz quadrada de 5②2③9④, o trabalho é de acordo com o método comum usado
para extrair raiz quadrada, sendo assim, a raiz quadrada do número dado é 2①3②. O último
sinal da raiz é sempre a metade do último sinal do número dado. Portanto, se o último sinal do
número for impar, se acrescenta um zero para que o sinal se torne par, e em seguida extrai se a
raiz. Da mesma forma na extração da raiz cúbica, o sinal da raiz cúbica de um número
decimal dado é a terceira parte do último sinal deste número decimal, e assim de todos os
outros tipos de raízes.
Logo, depois de apresentar as duas partes do trabalho La Disme, Stevin anexa um
apêndice, no qual ele começa com o seguinte prefácio.
Vendo que já descremos sobre os números decimais, vamos agora ao seu uso,
mostrando 6 artigos com todos os cálculos que podem acontecer no mundo dos
negócios de qualquer homem, podendo ser facilmente realizadas. Começo
mostrando como elas são colocadas em prática na mensuração de volume ou
quantidade de terra (Ibid, p. 419-421, tradução nossa).
45
A sua preocupação em colocar esta nova notação em prática, levou a produzir estes
artigos a fim de provar a facilidade de se trabalhar com números decimais.
Para o primeiro artigo intitulado “Calculações na metragem de terra”, Simon Stevin
explanou sobre a metragem de terras, no qual utiliza-se de uma medida comum43, ou seja,
conhecida por todos da área de medição de terra, no caso a unidade será “perch” ou “rod” (o
“perch” ou “rod” em inglês ou “roede” em holandês, são ambas medidas de área e de
comprimento), depois da escolha começa se a divisão decimal, o“perch” ou “rod” é chamado
de unidade 1⓪, que é dividida em dez partes iguais ou primeiros, e cada primeiro é dividido
em dez partes iguais ou segundos, e cada segundo é dividido em dez partes iguais ou terceiros
e assim por diante, quantas vezes for necessário. Simon Stevin explica que para efeito de
medidas de terras, as divisões em segundos② são suficientes, mas, em questões que exigem
maior precisão como na medição de espessura de chumbo, etc., neste caso pode se usar os
terceiros③.
Como um entusiasta dos números decimais, Simon Stevin sugere que as medições de
terra passassem a obedecer ao sistema decimal proposto.
Assim sendo feito, estes devem ser usados para medir, deixando de considerar os
pés e os polegares de acordo com o costume local, assim devem ser adicionado,
subtraído, multiplicado e dividido, de acordo com a doutrina dos exemplos
precedentes (Ibid, 429, tradução nossa).
E para reforçar, Stevin cita exemplos desta nova maneira de se fazer cálculos de
medição de terra.
⓪①②
3 4 5 7 2
8 7 2 5 3
6 1 5 4 8
9 5 6 8 6
2 7 9 0 5 9
43
Em todos os 6 artigos, Simon Stevin teve o cuidado de utilizar unidades já conhecidas pela população, deste
modo buscava mostrar os benefícios da sua nova notação e não da nomenclatura utilizada.
46
cada parte 1①, que deve ter novamente cada parte dividido em dez, portanto. Que
cada um ① ser dividido em dois, assim: desenhar a linha BM com um ângulo
correto sobre AB e iguale a 1①, BC, em seguida (pela proposição 13 de Euclides
seu livro 6) Encontre a média proporcional entre BM e seu moiety, que é BN,
cortando BO iguale a BN. E se NS ser igual a BC, a operação é correta. Seguida,
anote o comprimento NC de B para A, como BP, sendo igual a NC, a operação é
correta, do mesmo modo o comprimento do BN de B para Q, e assim o resto.
Permanece ainda a dividir cada comprimento de BO e OC etc., em cinco partes,
consequentemente: Procure o meio proporcional entre BM e sua décima parte, que
deve ser BR, cortando BS igual à BR. Então o comprimento SR, notado de B para
A, enquanto BT é igualmente o comprimento TR de B até V, e assim por diante,
continuando à dividir BS e ST, etc, em ③, eu digo que BS, ST e TV etc., são os
desejados ②, que esta preste à ser demonstrado.
Para que BN seja a linha média proporcional (pela hipótese) entre BM e seu moiety,
o quadrado da BN (pela proposição 17 do sexto livro de Euclides) deve ser igual ao
retângulo de BM e seu moiety. Mas o mesmo retângulo é o moiety do quadrado de
BM. Mas BO é (por hipótese) igual a BN, e BC para BM; o quadrado, então, de BO
é igual ao moiety do quadrado de BC. E como é demonstrado que o quadrado de BS
é igual à décima parte do quadrado de BM (Ibid, p.439, tradução nossa).
No final desta demonstração, Stevin deixa claro que a explicação é para os mestres da
ciência e não para aprendizes: “Fizemos breves demonstrações, porque não escrevemos isto
para aprendizes, mas para mestres da ciência” (Ibid, p.437, tradução nossa).
No quarto artigo intitulado Cálculos de estereometria em geral, Stevin demonstra a
medição do volume, em termos decimais, usando o exemplo de uma coluna com um
comprimento, largura e altura.
①②
3 2
2 4
1 2 8_
64
76 8④
2 3 5②
3 8 4 0
2 3 0 4
1 5 3 6 -
1 8 0 4 8 0
①②③④⑤⑥
Ele nos lembra que os volumes de objetos tridimensionais devem ser calculados e que,
portanto, é necessário trabalhar com as medições em cúbicos.
48
Nota, alguns desconhecedores, (não entendendo o que falamos aqui) dos princípios
da estereometria pode espantar se onde é dito que a grandeza da coluna acima
mencionada é apenas 1① etc.; vendo que ela contêm mais de 180 cubos, dos quais o
comprimento de cada lado é 1①, ele deve saber que a densidade de uma jarda não é
a mesma densidade de 10①, enquanto o comprimento de uma jarda, mas 1000 ①, à
respeito do 1① fazer 100 cubos, cada 1①, como é manifestado entre os metros de
terra na superfície; para quando eles dizem que 2 “rods”, 3 pés de terra, não é apenas
para dizer 2 “rods” quadrados e 3 pés quadrados, mas 2 “rods” (e contando apenas
12 pés de “rod”) 36 pés quadrados; portanto se a questão dita foi quantos cubos,
cada um sendo 1①, estava na grandeza da dita coluna, a solução deveria ser
encontrada de acordo, considerando que cada destes 1①, acaso façam 100①
daqueles; e cada 1② destes façam 10① daqueles etc., ou caso contrário, se a
décima parte da jarda for a melhor medida que a estereometria propõe, seja chamado
de 1⓪, como dito acima (Ibid, p.441, tradução nossa).
Stevin preservou a divisão do círculo em 360 partes, como feito nos artigos anteriores,
isto é, usa-se aqui uma nomenclatura já conhecida, para a qual chamou 360 de início, ou seja,
360⓪. “Chamamos os 360° graus também de começo, expressando-os então 360⓪, e cada
um grau em 1⓪ à ser dividido em 10 partes iguais, no qual, cada um deve fazer 1①, e
novamente cada 1① em 10②, e assim por diante, assim como já tem sido feito” (NORTON,
1608 apud STRUIK, 1958, tradução nossa). “Além disso, usaríamos esta divisão do grau em
todas as tabelas astronômicas e esperamos publicar um desses em nossa própria língua
flamenga, que é o mais rico, o mais ornamentado, e o mais perfeito de todos os idiomas44”
(SMITH, 1959, p. 32, traduçao nossa).
Quando Stevin descreve a última área de aplicação, que é o sexto artigo que tem como
título Cálculos de banqueiros, comerciantes e todos os estados em geral, ele se mostra muito
bem consciente das diferentes moedas, utilizados no comércio internacional. Ele também
demonstra ter uma boa ideia do valor de troca dessas moedas, como aparece, no início do
artigo.
44
Moreover we would use this division of the degree in all astronomical tables and we hope to publish one such
in our own Flemish language which is the richest, the most ornate, and the most perfect of all languages.
49
Mas no final damos um exemplo, suponha que uma marca de ouro valha 36 libras
5①3②, a questão que vale 8 marcas 3①5②4③: multiplique 3653 por 8354,
resultando no produto da terceira proposição (que é também a solução requerida)
305 libras 1①7②1③ enquanto 6④ e 2⑤, não serão considerados (Ibid, p. 449-
451, tradução nossa).
Neste artigo Stevin também observa que uma definição decimal das moedas deveria
ser introduzida de modo que possa ser usada em todas as regiões ou estados. Seria algo
necessário, diz:
Que a mesma progressão decimal deve ser legalmente ordenada pelos superiores,
para que todos usassem a mesma; também faria bem. Se os valores de dinheiro,
principalmente as novas moedas fossem avaliadas e contadas sobre certos
‘primeiros, segundos, terceiros etc. (Ibid, p. 449, tradução nossa).
Pode se perguntar se Simon Stevin realmente esperava que o sistema decimal fosse
aplicado em todas estas áreas. Ele nos dá uma resposta no último parágrafo do apêndice.
Mas se tudo isso não for colocado em prática tão breve quanto gostaríamos, ainda
vamos nos satisfazer, pois terá benefícios para nossos sucessores, se os homens do
futuro forem de tal natureza de que nossos antecessores, que nunca foram
negligentes em tão grande vantagem (Ibid, p. 455, tradução nossa).
O trabalho de Simon Stevin foi apreciado por várias pessoas (Matemáticos e não
matemáticos), ele não tinha a preocupação com a aceitação do seu trabalho. Segundo Crosby
(1999, p.118) De Thiende de Stevin's “foi o livro mais influente sobre o assunto”. Segundo
Devreese; Berghe (2008, p.73, tradução nossa) “Isso fica claro a partir das reações de Napier
e Briggs, que se referem ao trabalho e sua aplicação. E na literatura da época, nomeadamente
50
Desta forma pode se dizer que Simon Stevin com seu tratado sobre frações decimais,
foi importante para a melhoria no que se refere à notação de números quebrados e, assim
facilitando os grandes avanços relacionados com as calculações.
45
This is clear from the reactions of Napier and Briggs, who referred to the work and actually applied it. And in
the literature of the time, particularly the plays of William Shakespeare, we find references to Stevin’s work.
46
But the real breakthrough of the decimal system came with the French Revolution. At the end of the
eighteenth century, it came to be implemented in France and not long afterwards in other European countries as
well. The United States followed with the introduction of the dollar as a monetary unit. The introduction of a
decimal numerical system, together with a method of carrying out every important step in the development of
calculating machines. Thus, Stevin takes his place among the scholars and scientists whose work paved the way
for the development of the modern day computer. In this context his name is usually included in the company of
Pascal, Babbage, Lady Lovelace, Hollerith and Von Neumann.
51
2. O QUE É UM ALGORITMO?
2.1 Introdução
Algoritmo (in. Algorism; fr. Algorithme; al. Algorithmus; it. Algoritmo). Qualquer
processo de cálculo. Esse termo, derivado do nome do autor árabe de um tratado que
introduziu a numeração decimal na Europa do séc. IX, designava a princípio os
processos de cálculo aritmético e depois foi generalizado para indicar todos os
processos de cálculo (ABBAGNANO, 2000, p.25).
Algoritmos como escritos na frase anterior, são desenvolvidos por nós sempre, pode
ser que não nos atentamos para este “detalhe”, mas quem já não se pegou arrumando as cartas
de um baralho ou organizando um jogo de panelas, pois, executando essas tarefas, estará
executando um algoritmo.
Sua importância para o desenvolvimento tecnológico, segundo Berlinski (2002, p. 15)
“foi o algoritmo que tornou possível o mundo moderno”. E para a matemática, no momento
em que sua aplicabilidade se tornava ineficiente forçando as mentes a pensarem sobre o
porquê da sua ineficiência.
A origem da palavra algoritmo, mostrando como surgiu a etimologia. Mostraremos
exemplos de algoritmo, discutindo sua aplicabilidade e sua eficácia. Em seguida falaremos do
século XVII, no qual destaca se Leibniz (1646-1716), para depois falarmos do século XX no
qual ocorreu a revolução da palavra “algoritmo” em termos de significação e manipulação.
Algoritmo é usado com significado de processo finito de passos, no que se refere a um
problema de calculação, no qual se busca métodos de resolução (algorítmico), cujo processos
são aplicados até obter uma resposta para determinado problema. Mas, pode acontecer que a
aplicação desses passos não dê uma resposta, como, é o caso, por exemplo, do número =
e matemáticos hindus em visita à corte do califa al-Mansur. Esta delegação mostrou aos
eruditos árabes como funcionava esse sistema, que logo foi adotado.
Até por volta do século VI, a Arábia era habitada principalmente por tribos nômades
do deserto. Nessa época, poucas cidades funcionavam como centros de comércio.
No século VII, teve inicio a religião islâmica, fundada por Maomé, que conseguiu
unir as tribos do deserto. [...] No contato com os indianos, os árabes assimilaram o
sistema de numeração decimal posicional (IMENES, 1995, p. 12).
Segundo Imenes (1995, p. 12) “os árabes ao invadirem a Europa por volta do século
VIII, levaram consigo essa representação dos números”.
A palavra algoritmo vem do nome al-Khowarizmi, matemático persa, que escreveu um
importante manual de álgebra no século IX. Além de seu célebre livro sobre Álgebra, ele
escreveu outro sobre os numerais hindus – Kitab al Jami wa’l tafrik bi hisab al híndi (Livro
sobre o método hindu da adição e subtração) - e tornou-se seu maior popularizador no império
árabe. Foi um célebre matemático nascido na província persa de Khwarezm, oficialmente
chamada de Khiva e é parte do Uzbequistão. Al-Khowarizmi aprendeu com os indianos a
utilizar o sistema de numeração posicional de base dez e seus respectivos símbolos.
Para Garbi (2009, p. 111) “A obra de al-khwarizmi exerceu grande influência sobre os
matemáticos ocidentais até o início do Renascimento”. Seu papel importante é demonstrado
na adoção do sistema hindu. As palavras algarismo e algoritmo, derivam-se de seu nome.
A influência de al-Khowarizmi no crescimento da ciência em geral é bastante
reconhecida, sobretudo particularmente na Matemática, astronomia e geografia. Al-
khowarizmi colaborou com outros sábios na determinação do valor de um grau meridiano que
Almamon se propôs a medir, preparou outras tábuas astronômicas com resultados tirados de
1 22
Ptolomeu e de Brahmagupta e usou os valores de dos gregos e dos hindus, 3 ; 10 ;
7 7
3,1416. Segundo Boyer (2003), al-Khowarizmi mostrou a solução da equação x 2 10 x 39 ,
que indica o modo de resolução de uma equação da forma x 2 px q .
O nome algoritmo aplica-se hoje ao sistema de designações e convenções que permite
calcular segundo certas regras. Em especial, designa qualquer sistema de notação simbólica.
De acordo com Berlinski (2002, p.15), “o algoritmo é a idéia que governa o mundo”.
Se o algoritmo não tivesse sido descoberto, a vida moderna seria muito diferente, já que o
54
mostra mais eficiente, apesar de ambos levarem ao mesmo resultado. Neste caso, é necessário
buscar o mais rápido com desperdiço mínimo de trabalho e tempo, neste caso, um algoritmo
que seja o mais adequado possível a fim de resolver o problema.
Um algoritmo determinístico polinomial, sempre que testado sobre um mesmo
conjunto de entradas, deve produzir o mesmo conjunto de saídas. Teixeira (1998, p.29)
acrescenta que “um algoritmo roda em tempo polinomial se existem dois inteiros fixos, A e K
tais que para um problema de tamanho n a computação será concluída no máximo An k
passos.” Uma característica importante de um algoritmo é que ele resolve uma classe de
problemas e não uma instância47.
Por exemplo, um algoritmo de ordenação para n números inteiros, ordena qualquer
conjunto com até n inteiros, em qualquer configuração (isto é, qualquer permutação dentre as
n! possíveis). A aplicação do algoritmo sobre um particular conjunto de inteiros constitui a
resolução de uma instância do problema. “Para que o algoritmo possa ser útil, é necessário
que o número de passos seja não só finito, mas muito finito” (LUCCHESI, 1979, p.43).
O dicionário da língua portuguesa editado pelo Ministério da Educação define
Algoritmo - termo matemático - como um processo formal de cálculo. Diversos autores
denominam os problemas que não podem ser selecionados por processos formais de cálculo
como problemas não decidíveis. “Os algoritmos são estratégias para solução de problemas
decidíveis, ou seja, para problemas cuja solução admita um processo formal de ações”
(GOLDBARG; LUNA, 2006, p. 599-600).
Por mais que o conceito de algoritmo seja bem antigo, este é muitas vezes associado
ao conceito formalizado por Alan Turing em 1936. Na definição da máquina de Turing como
modelo abstrato de computador, baseando-se apenas os aspectos lógicos de seu
funcionamento, como memória, transições.
Ora, a grande dificuldade é que não havia, então, uma noção clara do que significava
“procedimento efetivo”. Após milhares de anos de história da Matemática, não se
sabia o que era um algoritmo e tampouco o que era uma computação. Para responder
a estas questões, Turing inventou uma máquina teórica que se tornou o conceito-
chave de toda ciência da computação (TEIXEIRA, 1998, p. 20).
Turing criou uma sequência de operações, bem definidas, que utilizava um conjunto
de valores de entrada e produzia um conjunto de valores de saída, originando assim, uma das
47
Iremos entender instância como os valores de entrada a serem processados, do problema a ele proposto, e vale
salientar que basta que uma instância falhe para o algoritmo ser classificado como ineficiente.
56
definições de algoritmo: Algoritmo é uma sequência de operações que pode ser simulada por
uma máquina de Turing completa.
Segundo Jurkiewicz; Teixeira (2006, p.09) os problemas algorítmicos podem ser
divididos nas seguintes classes:
Problemas de Decisão:
Existe uma estrutura S que satisfaça às propriedades do problema P?
Objetivo: decidir pela resposta Sim ou Não, à questão acima;
Problema de Localização:
Encontrar uma estrutura S que satisfaça às propriedades de S.
Objetivo: localizar certa estrutura S que satisfaça a um conjunto de propriedades
dadas;
Problemas de Otimização:
Encontrar uma estrutura S que satisfaça a certo(s) critério(s) de otimização.
Objetivo: verificar se as propriedades a que S deve satisfazer envolvem critérios de
otimização.
Segundo Branquinho (2006, p. 26) a definição usada de forma moderna, não só leva
em questão os procedimentos, rotinas ou métodos bem definidos, para a resolução do
problema, mas também, a presença de cinco propriedades indispensáveis aos algoritmos
atualmente, são elas:
O exemplo citado por Bucknall em seu livro The Thome of Delphi Algorithms and
Data Structures, resume bem o conceito de algoritmo. Bucknall escreve:
48
An algorithm is a step-by-step recipe for performing some calculation or process. This is a pretty loose
definition, but once you understand that algorithms are nothing to be afraid of per se, you’ll recognize and use
them without further thought.
Go back to you elementary school days, when you were learning addition. The teacher would write on the board
a sum like this:
45
17+
And then ask you to add them up. You had been taught how to do this: start with the units column and add the 5
and the 7 to make 12, put the 2 under the units column, and then carry 1 above the 4.
1
45
17+
2
You’d then add the carried 1, the 4 and the other 1 to make 6, which you’d then write underneath the tens. And,
you’d have arrived at the concentrated answer:62.
Notice that what you had been taught was an algorithm to perform this and any similar addition. You were not
taught how to add 45 and 17 specifically but were instead taught a general way of adding two numbers. Indeed,
pretty soon, you could add many numbers, with lots of digits, by applying the same algorithm.
58
[Do lat. med. algorismos algorithmos, ‘algarismo’, por infl. do gr. Arithmós,
‘número’.] MAT. Processo de cálculo, ou de resolução de um grupo de problemas
semelhantes, em que se estipulam, com generalidade e sem restrições, regras formais
para a obtenção do resultado, ou da solução do problema. [...]. Exemplos Algoritmo
da divisão Álg. Mod. O que se destina à divisão de dois polinômios. Algoritmo de
Briot-Ruffini. Álg. O que se utiliza para determinar o resto da divisão de um
polinômio por um binômio do primeiro grau, ou para determinar as raízes inteiras de
uma equação algébrica; dispositivo prático de Briot. Algoritmo de Euclides. Mat. O
que é aplicável à determinação do máximo divisor comum de dois inteiros.
sólido e imponente como uma catedral; Emil Post, sepultado, como Morris Raphael
Cohen, no City College de Nova York; e, é óbvio, o excêntrico e totalmente original
A. M. Turing, cujo olhar perdido parece vagar ansioso pela segunda metade do
século XX (BERLINSKI, 2002, p. 17-18).
a = 36 e b = 14
Mas, e quando trabalhamos com um par de números que não são divisíveis. Neste
caso, a divisão desses dois números não resultará em resto igual a zero. Dados dois inteiros m
e n, existe um inteiro d com as seguintes propriedades:
d divide m e d divide n;
não existe inteiro maior do que d e que divide m e n.
Assim, pode-se dizer que d é o maior inteiro que divide tanto m quanto n, sendo,
d chamado de Máximo Divisor Comum49 (MDC). O Máximo Divisor Comum de 36 e 14 é 2
porque qualquer outro número inteiro maior que 2 não divide ao mesmo tempo 36 e 14, ou
seja, a decomposição em fatores primos dos números 36 e 14 são respectivamente e2.
7, neste caso, quando se tem um único fator que se repete, o Máximo Divisor Comum é o que
possui menor expoente. Caso não houvesse uma “regra” para determinar o Máximo Divisor
Comum, a coisa seria mais complicada, por exemplo, o número 4 é divisor de 36 (quociente
igual a 9 e resto igual a 0), mas não é divisor de 14 (quociente igual a 3 e resto igual a 2). Já o
número 7 é divisor de 14 (quociente igual 2 e resto igual a 0), mas não é divisor de 36
(quociente igual a 5 e resto igual a 1).
49
O Máximo Divisor Comum (MDC) de dois ou mais números naturais é o produto dos fatores primos comuns
tomados com o menor expoente com que aparecem nas fatorações.
61
m n r
r1 = res{ }, r2 = res{ }, r3 = res{ 1 }, ... .
n r1 r2
62
onde o processo continua até que se obtenha resto zero. O último divisor no qual o processo
algoritmo tem como resto zero, ou seja, r é chamado de máximo divisor comum dos números
m e n. Exemplo:
Tem-se m = 184 e n = 150. Seguindo os passos do algoritmo de Euclides, temos.
184 150 34 14
r1 = res{ }=34, r2 = res{ }=14, r3 = res{ }=6, r4 = res { }=2, r5 =
150 34 14 6
6
res{ }=0.
2
Logo, como se pode observar pelo processo algoritmo aplicado acima, o máximo
divisor comum de 184 e de 150 é 2. Assim, pode-se dizer que o algoritmo de Euclides é uma
“receita” que quando bem “preparada” chega-se ao resultado esperado.
Agora vamos simular, utilizando lápis e papel, assumiremos o papel do computador ou
qualquer máquina executora de algoritmos. Neste caso, acompanha-se a execução do
algoritmo de Euclides para um determinado par de números inteiros. Como já se conhece o
resultado para o máximo divisor comum dos números 36 e 14, faz-se isso anotando os valores
das variáveis em uma tabela: cada coluna corresponde a uma variável, e as linhas indicam os
valores assumidos sucessivamente por essas variáveis.
x y r
36 14 8
14 8 6
8 6 2
6 2 0
2 0
Tabela 02 – Valores das variáveis x, y e r.
Verifica-se que quando a variável r assume valor nulo – de acordo com o 4º passo do
algoritmo de Euclides – a variável x assume o valor 2 e, portanto, este é o máximo divisor
comum entre 36 e 14.
Para mostrar mais uma vez como funciona o algoritmo de Euclides, simularemos
novamente, mas agora com uma instância de problema mais complexa, com os números 2772
e 420.
63
x y r
2772 420 252
420 252 168
252 168 84
168 84 0
84 0
Tabela 03 – Valores das variáveis x, y e r.
Observa-se que ao final da execução, a variável x vale 84, que é o máximo divisor
comum entre 2772 e 420.
Nestas condições uma pergunta que surge naturalmente é se um procedimento,
partindo de dados postos inicialmente, executa uma sequência finita de cálculos, produzindo
resultados finais, ou se então essa sequência de dados nunca termina. De acordo com
Lucchesi (1979, p. 08) “o algoritmo de Euclides pode mostrar que a seqüência de cálculos é
finita provando a seguinte proposição: se no 2º passo do procedimento os valores de x e y são
inteiros e positivos, então os passos 2, 3 e 4 serão executados apenas um número de vezes,
com os cálculos terminando no passo 4”.
Ainda, segundo Lucchesi (1979) a demonstração é feita por indução sobre o valor de
y. Se y = 1, então teremos, pela execução do 2º passo, r = 0. Consequentemente, os passos 2,
3 e 4 são executados uma única vez, desta forma os cálculos terminam no 4º passo. Suponha
se agora que a proposição é verdadeira para qualquer x > 0 e qualquer y, com 1 ≤ y < k, e
demonstra-se que ela é verdadeira para y = k. Por definição do resto da divisão de inteiros
positivos, tem-se após a execução do 2º passo, 0 ≤ r < k. Se r = 0, então a execução termina,
como anteriormente, numa única vez. Se r > 0, então, a execução dos passos 3 e 4, tem
como x = k > 0 e y = r com 0 < r < k, e a execução volta ao 2º passo. Por hipótese de
indução, os passos 2, 3 e 4 serão executados um número finito p de vezes, com os cálculos
terminando no 4º passo. Ao todo tem se, p +1 execuções para y = k. Nota-se que os valores
iniciais x = m e y = n resultantes da execução do 1º passo satisfaz as condições da proposição
acima. Podemos concluir, portanto, que a execução do Algoritmo de Euclides termina para
quaisquer inteiros positivos m e n.
64
Os pitagóricos tinham a ideia de que tudo podia ser representado por números, ou seja,
tudo é número. Esta concepção de que tudo é número leva a aceitação de que dois segmentos
colocados em comparação de medida possuírem, relativamente uma unidade de medida, uma
tradução de números inteiros. Ou seja, haverá sempre um segmento divisor comum (u) que
permita exprimir ambos os segmentos como quantidades inteiras (m e n) de u.
Mas, foi também na época dos pitagóricos que se teve o conhecimento dos números
incomensuráveis, ou seja, segmentos que postos em comparação não possuem um segmento
divisor comum. A história mostra que o problema dos incomensuráveis abalou a filosofia
pitagórica. Segundo Hodgkin (2005) vários autores relatam que para manter o segredo que
abalou a filosofia pitagórica de que tudo é número, os pitagóricos puniam severamente os seus
membros, caso deixasse “vazar” tal segredo, Hippassus de Metapontum membro pitagórico
foi lançado ao mar logo depois de deixar que um dos seus trabalhos mostrando essa
incomensurabilidade fosse revelado.
No que tange à teoria pitagórica de que tudo é número (inteiros) ou relação entre
números (razão), a demonstração atribuída a um discípulo de Pitágoras, estabelecendo a
impossibilidade de haver uma razão entre a diagonal e o lado do quadrado abalou o edifício
da Aritmética criando obstáculos ao desenvolvimento cientifico durante vários séculos.
Trata-se em afirmar que não existe uma razão entre a diagonal com o lado do
quadrado, isto é, não é possível “medir” a diagonal e o lado de um quadrado com uma
unidade de medida comum, neste caso, uma unidade que “caiba” um número exato de vezes
na diagonal e no lado. Em outras palavras, “descobriram que a diagonal de um quadrado
diag
unitário é incomensurável com o lado (ou seja, ≠ razão de dois inteiros).”
lado
(BAUMGART, 1992, p.8).
Esse problema quando aplicado o algoritmo de Euclides desencadeia uma sequência
infinita de passos, no qual se repetirá infinitamente. Para mostrar esse problema, aplica-se à
ideia de frações contínuas desencadeadas a partir dos algoritmos de Euclides.
1
0
1
1
2
1
n
A aplicação deste método a 2 50 levará a uma “coisa” infinita, por mais que se possa
afirmar de que o algoritmo de Euclides é constituído de passos finitos, se observará que não é
assim que acontecerá com 2 , sua aplicação acarretará ao infinito.
50
2 é a diagonal de um quadrado cujo lado mede 1.
66
Veja que 2 repetiu o mesmo resultado que 1 , sendo assim não há necessidade de
continuar o cálculo, para as etapas subseqüentes, uma vez, que o resultado será o mesmo.
Todos os termos da fração contínua será 2, temos:
1
2 1
1
2
1
2
1
2
2
Observa-se que a aplicação deste método levará a uma sequência infinita de frações,
ou seja, fração contínua infinita.
Essa demonstração mostra o problema para o algoritmo de Euclides, que por mais que
se tenha seus passos descritos a sua aplicabilidade em determinadas situações se mostra
infinita, e por mais que se tenta chegar ao fim, não se chegará.
Segundo Darling (2004, p. 10) “o termo algoritmo pode ter sido usado pela primeira
vez por Gottfried Leibniz (1646-1716) no final de 1600”.
Era agora claro para Leibniz que, a fim de descobrir o alfabeto do pensamento
humano e perceber a característica universal, seria necessário analisar todos os
conceitos e reduzi-los a elementos simples por meio de definições, em seguida, para
representar os conceitos simples por símbolos apropriados e inventar símbolos para
suas combinações, e, finalmente. . . para demonstrar todas as verdades conhecidas,
reduzindo-os a princípios simples e evidente51 (AILTON, 1985, p. 78 apud
HODGKIN, 2005, p. 174, tradução nossa).
51
It was now clear to Leibniz that in order to discover the alphabet of human thought and realise the universal
characteristic, it would be necessary to analyse all concepts and reduce them to simple elements by means of
67
O cálculo como nos conhecemos tem suas raízes no trabalho de Leibniz, que com o
intuito de resolver uma maior quantidade de problemas matemáticos desenvolveu o cálculo,
que tinha quase nenhum impacto na época, pois, era tão obscuro, que provavelmente só
Leibniz acreditava que tinha revelado uma revolucionária descoberta para o mundo.
De acordo com Hodgkin (2005, 174, tradução nossa) “a preocupação de resolver um
grande número de problemas matemáticos levou Leibniz a inventar uma máquina de
calcular”. Leibniz buscava o algoritmo para fazer as demonstrações de seus métodos
revolucionários, não se preocupando em justificar tais métodos.
Comparado com este programa ambicioso, que, naturalmente, nunca foi realizado, o
cálculo parece uma conquista secundária. Pode-se pensar que o seu cálculo funciona
em oposição ao objetivo racional da característica; seu status como ‘marcas no papel
que desempenham uma função' é bastante separado de seu significado duvidoso.
Ainda assim, de alguma forma para Leibniz, que era a sua beleza, a comunidade
científica pode aceitar que ele trabalhou, eles concordaram em um projecto comum
para o aperfeiçoamento da humanidade. Na verdade, o centro
do trabalho e este é talvez a resposta
à pergunta sobre seu objetivo encontra-se no uso da palavra "algoritmo". O leitor
está sendo mostrado como seguir um conjunto de regras mecânicas [...] o que
tornará possível resolver com facilidade um grande número de problemas não
resolvidos anteriormente. A justificativa do procedimento, que estava presente em
notas não publicadas de Leibniz de seu tempo10 anos antes em Paris, é secundária a
sua exposição como método52 (HODGKIN, 2005, p. 174, tradução nossa, grifo
nosso).
Leibniz com certeza buscou métodos a fim de elucidar problemas daquela época
(século XVII) e “sempre teve uma percepção aguda da importância de boas notações como
ajuda ao pensamento, e sua escolha no caso do cálculo foi particularmente feliz” (BOYER,
2003, p. 277). No fundo do seu pensamento sabia que o modo como criava seus métodos iria
revolucionar o mundo.
definitions, then to represent the simple concepts by appropriate symbols and invent symbols for their
combinations, and finally . . . to demonstrate all known truths by reducing them to simple, evident principles.
52
Compared with this ambitious programme, which of course was never undertaken, the calculus seems a minor
achievement. It might be thought that his calculus works in opposition to the rational aim of the characteristic; its
status as ‘marks on paper which perform a function’ is quite divorced from its doubtful meaning. Still, in some
way for Leibniz, that was its beauty. If the scientific community could accept that it worked, they would have
agreed on a common project for the betterment of mankind. In fact, the heart of the paper—and this is perhaps
the answer to the question about his aim—lies in his use of the word ‘algorithm’. The reader is being told how to
follow a set of mechanical rules (indeed, Leibniz had also invented a calculating machine) which will make it
possible to solve with ease a vast number of previously unsolved problems. The justification of the procedure,
which was present in Leibniz’s unpublished notes from his time 10 years before in Paris, is secondary to its
exposition as method.
68
[...] Leibniz tinha uma capacidade incomum de perceber as sombras por trás da
substância de seus pensamentos; seus cadernos de notas revelam um homem que
lidava com problemas que mal conseguia descrever, com a atividade de uma
aguçada inteligência que adeja entre o século XVII e o futuro distante. Eles revelam
suas obsessões, os assuntos aos quais voltava repetidamente conforme sua mente se
expandia e se desenvolvia. A idéia de algoritmo toma forma naqueles cadernos,
espanando a poeira dos séculos quando pela primeira vez se move para o átrio da
consciência humana (BERLINSKI, 2002, p. 27).
Como visto o uso de algoritmo por Leibniz mostrava que o processo mecânico muitas
vezes chegava a uma resposta satisfatória, pois, estes de certa forma geravam procedimentos
finitos. Segundo Berlinski (2002, p. 32) “Leibniz é o único entre seus grandes
contemporâneos – ao menos em seus delineamentos – a estruturar um sistema no qual o
movimento mental na inferência poderia ser explicado e ratificado por um procedimento
simples e mecânico”.
a1 a2 ... aj ... an B B
Controle
Finito
(Scanner)
A partir destas sete instruções podemos construir o que chamamos Programa de Post-
Turing, os quais informam à máquina o tipo de computação que ela deve efetuar.
Operar a máquina de Turing não é difícil. Primeiro coloca-se na fita os dados de
entrada zeros e uns (dados de input). A máquina dispõe o scanner em algum ponto da fita que
será o quadrado inicial. A partir deste quadrado todas as ações da máquina são governadas
pelo programa.
Vamos ver como funciona a máquina de Turing por meio de um exemplo:
Suponhamos que a configuração inicial da fita consiste de uma cadeia de uns e zeros em cada
uma das pontas.
0 1 1 1 1 0
Na fita acima, o número 1 sobre o qual a flecha incide indica o quadrado onde o
scanner está posicionado, mostrando a posição inicial. Suponha-se que iremos trocar os 0s
que estão nas marginais por 1s e, em seguida, a máquina de Turing pare, ou seja, esta é a
tarefa a ser cumprida pela máquina. Assim efetuará o seguinte programa:
1 – VÁ UM QUADRADO PARA A DIREITA
2 – VÁ PARA O PASSO 1 SE O QUADRADO NO SCANNER CONTÉM 1
3 – IMPRIMA 1 NO QUADRADO ONDE ESTÁ O SCANNER
4 – VÁ PARA A ESQUERDA UM QUADRADO
5 – VÁ PARA O PASSO 4 SE O QUADRADO NO SCANNER CONTÉM 1
6 – IMPRIMA 1 NO QUADRADO ONDE ESTÁ O SCANNER
7 – PARE.
Seguindo os passos deste programa, percebe se que o scanner se move para a direita
até encontrar o primeiro zero (0), que é então, substituído por 1, pelo comando “IMPRIMA
1”. O scanner em seguida começa a se mover para a esquerda, até parar, isto é, encontrar o
primeiro zero (0).
71
2.7 O Labirinto
Otte (1993) usa a metáfora “labirinto” para mostrar a diferença entre um procedimento
instrumental, um procedimento mecânico ou um procedimento algorítmico e uma visão
teórica, enfatizando a necessidade de conhecimento teórico para conhecer um objeto.
Começando com a aplicação de um algoritmo num primeiro momento, fazendo
encontrar a saída, porém, em seguida, quando torna esse problema (que é encontrar a saída)
mais difícil se verifica que o algoritmo utilizado na resolução do primeiro problema
(encontrar a saída) se torna incapaz de resolver o segundo mostrando a ineficiência e a
necessidade de algo mais na resolução desse novo problema, no caso o “labirinto”.
Para sair da floresta não é necessário muita “coisa” é seguir para o norte orientado por
uma bússola, que com certeza encontrará a saída, mesmo se ocupar boa parte da vida. É que
em se tratando de floresta chegará um momento da vida, que se deparará com a saída, sem
fazer esforço mental. Mas e o labirinto, a bússola e a orientação para caminhar para o norte
resolveriam o problema? O sujeito sairia do labirinto? Seria improvável que o sujeito pudesse
sair desse labirinto, somente com essas informações. O mais natural é o sujeito começar a
andar em círculo eternamente, pois, faltava-lhe algo mais para tirá-lo desta “confusão”, ou
seja, para ajudá-lo a solucionar o problema. Otte (1993, p. 286) afirma que “para evitar isso,
72
Sair do labirinto não nos fornece nenhum conhecimento sobre ele, por mais que se
repita tal experiência infinitas vezes. “Não se fica mais sábio com a experiência, nem se
reconheceria o lugar se a situação fosse repetida uma segunda vez” (OTTE, 1993, p.286). O
algoritmo não fornece nenhum conhecimento sobre o labirinto, é necessário mais que
algoritmo. Por isso, precisamos de teoria, por mais que a teoria possa não ser prática, mas a
teoria leva ao conhecimento do objeto. Transcender a prática faz-se necessário para encontrar
uma teoria que analise o problema.
Diante da possibilidade de não encontrar a saída do labirinto, começamos a perguntar:
O labirinto tem mesmo saída? Então começamos a pensar sobre essa possibilidade de o
labirinto ter ou não saída, começando a refletir: Será que trabalhei de acordo com o
algoritmo? Mas talvez nossa inteligência seja limitada e assim não somos aptos a conhecer a
saída do labirinto. Mas essas reflexões só aparecem diante das dificuldades de sair do
labirinto, pois, quando sairmos do labirinto, ou seja, resolvemos o problema não é necessário
nenhum tipo de reflexão, porque nesse momento o problema foi resolvido.
É a partir dessas perguntas que se começa a mudar o pensamento que até então era
algorítmico. Quando começamos a refletir sobre o que está posto à nossa frente, as ideias
começam a florescer, a intenção agora não é só resolver o problema, mas entendê-lo. Ver o
problema como um objeto do pensamento: “Para o método, o objeto aparece primeiramente
na forma de um problema ou de uma resistência. A aplicação do algoritmo efetiva a
transformação do problema em idéia” (OTTE, 1993, p. 288). Quando a aplicação do
algoritmo é um sucesso, não se vai conhecer o problema, tornando a transformação do
problema em ideia em vão.
73
3.1 Introdução
Quando nos referimos à Matemática, logo nos vem à mente a ideia de números,
figuras, fórmulas e símbolos.
Muitas vezes ao perguntar, o que são números, a resposta mais elementar é, que os
números servem para calcularmos. Ou seja, não há a necessidade no dia a dia de uma pessoa
querer saber sobre o conceito de número. A ideia de número serve somente para calcular,
desta forma, pode-se dizer que o pensamento é somente instrumental, algorítmico.
Podemos dizer que a capacidade é somente instrumental, pois, na medida em que
buscamos meios de resolver o problema, nos valemos dos algoritmos como ferramentas,
como afirma Berlinski (2002, p.16) “Algoritmos são artefatos humanos. Pertencem ao mundo
da memória e do significado, desejo e propósito”.
No entanto, quando um algoritmo não satisfaz ao propósito que é resolver o problema,
esse algoritmo é dado como inválido, isto é, se torna ineficaz, não cumprindo com o seu papel
que é chegar à solução. E assim, tornando o problema um labirinto, do qual não se consegue
sair, porque, nesse caso tem somente o conhecimento instrumental.
O pensamento teórico leva às definições mais gerais, servem para compreender o
problema, assim, podendo de antemão dizer se esse problema tem ou não solução. Otte (1993,
p.287) diz que “compreender algo por meios conceituais e em termos teóricos não implica,
geralmente, que sejamos capazes de resolver, efetivamente, um problema relacionado a eles.”
A Teoria deve mostrar, explicar como resolver um problema e não somente resolver o
problema, neste caso, pensamento teórico se diferencia do pensamento instrumental. Mas não
se pode negligenciar que “a solução de problemas tem se dois aspectos, o estabelecimento de
teorias, por um lado, e resolução de problemas e tarefas, por outro, ambos possuem uma
relativamente existência independente em matemática” (OTTE, 2003, p.203). Enquanto o
pensamento teórico se preocupa em entender o problema o pensamento instrumental está
preocupado em executa-lo a fim de se chegar à resposta.
Para Otte (1993, p.287) “o pensamento teórico pressupõe uma variabilidade na
distância entre o nível de conhecimento e a realidade objetiva sobre a qual o conhecimento
fala”. Deixando clara a necessidade de se pensar teoricamente a fim de “mensurar” essa
distância entre o nível de conhecimento e a realidade objetiva.
74
É importante lembrar que, com essa lógica, conceitos servem somente para ajudar
classificar objetos, até então, levando em conta o fato de que Aristóteles tinha uma
afinidade maior com os assuntos relacionados com a medicina e a biologia de um
modo geral (WIELEWSKI, 2008, p.28).
Porém até o século XVIII, alguns biólogos e naturalistas como Lineé, Lamarck e
Buffon aperfeiçoaram as formas de classificação das plantas, usando basicamente
esse conceito de Aristóteles, adotando para isso a ordenação e reagrupamento de
algumas de suas características, como por exemplo, mamíferos, aves, etc
(WIELEWSKI, 2008, p.28).
75
Por mais que se sabe da necessidade de encontrar um novo modelo, sua representação
não é clara, se entrelaçando com a lógica conceitual de Aristóteles. Como podemos observar
“Deseja-se de fato um conceito científico e espera-se que ele substitua a indeterminação
originária e o caráter polivalente do conteúdo representativo por uma representação rigorosa e
inequívoca” (CASSIRER apud WIELEWSKI (2008, p.32). Porém o que acontece é o
contrário: as delimitações rigorosas parecem reduzir à medida que o processo lógico se
desenrola.
O que se pode observar é que por mais que se busque reformular a ideia de conceito,
desligar da lógica aristotélica não torna tão simples e “assim o mérito particular dessa
interpretação é que nunca destrói ou expõe a unidade da ordinária visão do mundo”
(WIELEWSKI, 2008, p. 30). Com isso Wielewski (2008) se fundamenta em Kant (1724-
1804) para encontrar uma saída para esta dificuldade de se encontrar um novo método de
conhecimento.
Deste modo, se é levado a dizer que não há pensamento sem objeto e que mesmo
sendo mental estará ligado a um conceito, ou seja, uma idéia de como é este objeto. No
entanto, “comenta Otte (1998), significa que um conceito teórico não pode apenas ser
76
definido em termos de referência; nomeada pela extensão, isto é, contando todos os objetos
que lhe pertençam” (Ibid, p. 41). Para Otte (1998), conceito é mais que o contar “um conceito
não é só aquele a qual ele se refere. Mas o conceito exprime uma visão construtiva e ativa do
conhecimento e uma intencionalidade que exige que o conceito seja definido” (Ibid, p. 42).
Aumentando o vocabulário filosófico e científico, consequentemente aumenta-se a
visão de mundo. O conceito é uma idéia ou noção que formamos em nossa mente acerca de
qualquer coisa. Ele é formado pela reunião de características da própria coisa, seja um objeto
real ou abstrato.
utilizado pelo algoritmo é totalmente mecanizado. Sua ação é totalmente dependente, no qual
o objetivo principal é resolver o problema proposto.
De acordo com Teixeira (1998, p.25), o teste da máquina de Turing foi colocado pelo
seu inventor Alan Mathison Turing (1912-1954), e tem como objetivo provar a inteligência
superficial.
Vamos buscar um exemplo, que talvez seja bastante conhecido por grande parte das
pessoas que passaram pelos bancos da escola e que reflete o pensamento instrumental e
pensamento teórico. Muitos alunos já perguntaram: Professor, por que tenho que resolver essa
equação? O que é Teorema de Pitágoras? Outros falam: Não sei o porquê de encontrar, mas o
professor “mandou” encontrar o x. O mais grave é que essas pessoas podem levar tais dúvidas
para a vida toda, podendo mais à frente indagar por que era obrigado a fazer aquelas “contas”.
Durante um tempo se pode ficar resolvendo tais operações, mas chega um momento,
por mais que ele ocorra no inconsciente, que uma pergunta pode surgir. Por que o professor
ensina o Teorema de Pitágoras? Nunca entendi aquilo, mas sabia resolver algumas
“continhas”, só não conseguia resolver quando o professor mudava os sinais.
Pode-se então, chegar à conclusão de que o que era feito durante todo esse tempo nada
mais era do que a aplicação de processos. Por isso que muitas vezes não se consegue entender
o que está sendo feito. De fato, por mais que se possa dizer que um professor de matemática
não está interessado em explicar o que é um Teorema de Pitágoras, a preocupação muitas
vezes é em mostrar a sua aplicabilidade.
Fazendo assim, um processo mecânico da “coisa”. Se atentarmos em alguns livros
didáticos iremos nos deparar com explicações que mostram muito bem a aplicação de um
Teorema de Pitágoras, porém, algumas explicações ficam implícitas, pois, supõem que o
aluno já tenha conhecimento. Por exemplo, o Teorema de Pitágoras só pode ser aplicado em
um triângulo retângulo, mas então, será que todos têm conhecimento do que é um triângulo
retângulo. Outro fato não menos importante é o de não conseguir êxito na aplicação do
Teorema de Pitágoras, para encontrar a medida de um dos catetos, pois, nesse momento é
buscado um entendimento sobre mudança de lado na igualdade, isto é, o que se encontra
positivo de um lado passa negativo do outro lado da igualdade.
De acordo com Giovanni Junior (2009, p.247) “Em todo triângulo retângulo, o
quadrado da medida da hipotenusa é igual à soma dos quadrados das medidas dos catetos,”
que pode ser representado da seguinte forma:
80
A aprendizagem de algo “radicalmente novo” não pode partir somente com aquilo
que o estudante já sabe, mas não pode ignorar também aquele conhecimento e
experiência. Pensamento teórico não pode ser reduzido à experiência empírica
cotidiana, mas também não deve negligenciar esta experiência (OTTE, 2009, p.63).
triângulo retângulo, no qual os catetos têm como medidas 2 unidades, tal problema pode ser
representado da seguinte forma:
a2 b2 c2
a 2 22 22
a2 4 4
a2 8
a 8
Neste caso, houve a aplicação instrumental. Porém, o resultado como se pode dizer
“estranho”. Será que o indivíduo conseguiu assimilar o resultado? Será que consegue
Para uma pessoa ingênua, deve certamente parecer muito estranho e paradoxal que
um conjunto denso de pontos racionais não cubra toda a reta. Nada em nossa
“intuição” pode nos ajudar a “enxergar” os pontos irracionais como distintos dos
racionais (COURANT; ROBBINS, 2005, p.72).
Então, dizer que o aluno assimilou o resultado é considerar que ele tenha o mínimo de
conhecimento teórico, pois é necessário entender que tal resposta 8 não pode ser
representada por uma correspondência entre o símbolo 8 e um ponto na reta. Assimilar tal
53
= 2.828 . . ., which is not a whole number, or even a ‘rational’ number (a fraction , where p, q are whole
numbers). You can approximate it as closely as you like by fractions, but the result will never be exact.
82
instrumental, pois, como se sabe 8 é um número irracional. “Não constitui surpresa o fato
de que a descoberta do incomensurável instigou os filósofos e matemáticos gregos, e que
tenha retido até hoje seu efeito provocativo nas mentes especulativas” (COURANT;
ROBBINS, 2005, p.72).
Em sendo assim, rompe-se a barreira do discreto, passando para o contínuo e, neste
momento, é necessário um pensar puramente abstrato, pois, dizer ao aluno que por mais que
ele busque nunca irá chegar a um resultado exato, exige deste aluno um pensamento teórico.
Outro exemplo que podemos utilizar é sobre a duplicação do cubo, que segundo Kahn
(2007, p.63) “foi um dos problemas mais famosos da matemática grega.” Para a solução deste
problema a pessoa poderia utilizar na sua construção somente a régua não graduada e o
compasso, ou seja, deveria seguir as regras das construções geométricas da Antiguidade, na
qual, todos os problemas deveriam ser resolvidos por meio desses dois instrumentos, sendo a
régua não graduada utilizada para desenhar retas que passam por dois pontos dados e o
compasso utilizado apenas para desenhar um círculo de centro dado e passando por um dado
ponto pré determinado.
O problema da duplicação do cubo muitas vezes é associado à epidemia que assolou
os atenienses. A primeira vez que se ouviu falar em duplicação do cubo foi por ocasião de
uma grande epidemia. A peste tinha se espalhado por Atenas. Nada podia detê-la. Diz a lenda
que a tarefa dada pelo oráculo aos atenienses a fim de cessar a peste foi a “de duplicar o altar
consagrado a Apolo na ilha de Delos” (GUEDJ, 1999, p.187). Nada parecia mais simples para
os atenienses que logo construíram o novo altar, considerando que para duplicar o altar era só
dobrar o tamanho da aresta do altar em questão.
83
Mas, como se observa na figura acima a duplicação das arestas de um cubo dado leva
à construção de um cubo, cujo volume é oito vezes maior do que o anterior, desta forma a
tarefa dada aos atenienses não tinha sido cumprida.
Depois de verificar o erro um novo altar fora construído, como se pode observar na
figura seguinte.
De acordo com Cajori (2007, p.58) Platão é considerado a pessoa que encontrou a
solução da duplicação do cubo.
Consta que Platão resolveu o problema da duplicação do cubo. Mas a solução está
aberta às mesmas objeções que ele apresentou às soluções de Árquitas, Eudoxo e
Menaecmo. Chamou as soluções de mecânicas e não geométricas, pois elas pedem o
uso de outros instrumentos além da régua e do compasso.
54
O termo duplicar aqui utilizado é no sentido de área.
85
Como se pode observar Platão encontra a solução da duplicação do cubo, não pelo uso
da lei, mas por questões filosóficas. “Bem, alguns matemáticos até que ofereceram soluções,
Hípias de Élis, Arquita de Tarento, aquele eu salvou Platão na Itália, Menaecmus, Eudoxo”
(GUEDJ, 1999, p. 189). O que diferencia Platão desses matemáticos, é o reconhecimento de
não se poder duplicar o cubo com o uso somente da régua não graduada e do compasso.
Os gregos estavam tão certos de suas construções utilizando somente régua não
graduada e compasso, que não pararam para observar sobre a impossibilidade de construir um
cubo que tivesse o dobro de volume de um cubo dado. Neste caso, podemos dizer que o
pensamento instrumental prevalecia, pois na certeza da construção não pararam para observar
que tal construção não era possível.
Mas devido a esse problema, a Matemática sofreu grandes mudanças, uma das mais
extraordinárias soluções55 deve se a Arquitas de Tarento (428-347 a.C.), sendo a mais
elaborada matematicamente e a mais antiga solução para a duplicação do cubo de acordo com
Kahn (2007, p.63). Menaecmus (viveu por volta de 360 a.C.), matemático do século IV a. C.
buscou solucionar o problema. “Menaecmus, enquanto tentava resolver o problema da
duplicação do cubo acabou descobrindo as cônicas (elipse, hipérbole e parábola)” (GARBI,
2009, p. 54). Segundo Garbi (idem, p.45) “por volta de 180 a.C., os geômetras Nicodemos e
Diócles, inventaram, respectivamente, duas curvas, a Concoide e a Cissoide, com as quais se
pode realizar, nesta ordem, a trissecção e a duplicação do cubo.” Entretanto, tais curvas não
são construtíveis com régua e compasso e não resolvem os problemas.”
Vamos descrever na linguagem da Matemática moderna o problema da duplicação do
cubo. Se o cubo dado tiver uma aresta de comprimento unitário, seu volume será a unidade
cúbica. O problema exige que se encontre a aresta x de um cubo com o dobro deste volume.
A aresta x exigida, portanto, satisfará a equação cúbica.
x3 2 0
A prova de que este número x não pode ser construído somente com régua e
compasso é indireta. Suponha-se provisoriamente que uma construção seja possível. De
acordo com isto significa que x está contido em algum corpo Fk obtido, a partir do corpo
55
Naturalmente, quando digitamos “soluções” consideramos soluções que não estão em conformidade com os
requisitos das construções utilizando régua não graduada e compasso.
86
racional por extensões sucessivas por meio da adjunção de raízes quadradas. Conforme se
pode demonstrar, esta hipótese conduz a uma consequência absurda.
3
Já se sabe que x não pode estar incluído no corpo racional F0 , porque 2 é um
56
número irracional. Portanto, x somente pode estar incluído em algum corpo extensão Fk ,
onde k é um inteiro positivo. Podemos supor que k é o último inteiro positivo tal que x
esteja contido em algum Fk . Segue-se que x pode ser escrito na forma.
x pq w
equação da equação cúbica x 3 2 0 , então p q w é também uma solução. Uma vez que
x3 2 a b w
b 3 p 2 q q 3 w . Se fizermos
y pq w,
y3 2 a b w .
ab w 0
56
Courant e Robbins, (2000, p. 71).
87
Isto implica (e aqui está a chave do raciocínio) que a e b devem ambos ser nulos. Se b não
a
fosse zero, inferiríamos a partir de a b w que w . Mas assim w seria um número
b
do corpo Fk 1 no qual a e b estão incluídos, contrariando a nossa hipótese. Portanto, b 0 ,
Sabe se que toda equação do segundo grau ax 2 bx c 0 pode ser resolvida dentro
dos radicais. A fórmula geral de resolução das equações de segundo grau pode ser dada da
57
Courant e Robbins, (2000, p. 116.)
88
b b 2 4ac
seguinte forma x . As equações do terceiro grau também possuem
2a
solução. A fórmula de Cardano-Tartaglia que pode ser dada da seguinte forma:
q q q q q q
x3 ( )3 ( ) 2 - 3 ( )3 ( ) 2
3 2 2 3 2 2
solucionava uma equação cúbica, por mais que para a aplicação desta fórmula era necessário
transformar uma equação do tipo ax 3 bx 2 cx d 0 em x 3 ps q .
As equações de grau 4 também obtiveram a sua resolução nesse período, isto é, no
século XVI equações de grau 2, 3 e 4 tinham sido solucionadas. Com uma diferença,
enquanto a equação de segundo grau estava ligada com a prática, ou seja, sua solução poderia
ser útil na prática, as soluções das equações cúbicas e quárticas não tinham essa ligação
prática. “A resolução de equações cúbicas e quárticas não foi em nenhum sentido motivada
por considerações práticas, nem tinham valor para os engenheiros ou praticantes de
matemática” (BOYER, 2003, p.197).
Ainda de acordo com Boyer (2003, p.197) “Era natural que o estudo fosse gene-
ralizado de modo a incluir equações polinomiais de qualquer ordem e que em particular se
procurasse resolver a quíntica”. Neste caso, os matemáticos buscando essa generalização,
enfrentaram um problema algébrico insolúvel, comparável aos problemas geométricos
clássicos da Antiguidade. Um sonho natural, hoje claramente ultrapassado no plano científico,
o de que, para cada tipo de equação algébrica haverá uma fórmula para a sua resolução. Ou
seja, para a equação algébrica de grau n , n N :
58
Carl Boyer, (2003, p.361 – 367).
89
Mas então a resolução de uma equação do quinto grau é um tipo de labirinto sem
saída. O que se pode dizer é que não se pode chegar à uma solução prática, cabendo esta
resposta somente no campo das análises.
Problemas deste tipo sem solução originaram um dos mais notáveis e recentes
desenvolvimentos na Matemática; após séculos de buscas inúteis de uma solução,
cresceu a suspeita de que estes problemas poderiam ser definitivamente insolúveis.
Dessa forma, os matemáticos foram desafiados a investigar a seguinte questão:
Como é possível provar que certos problemas não podem ser resolvidos?
(COURANT; ROBBINS, 2000, p.142).
59
Carl Boyer, (2003, p.343-345).
60
Ibid,( p.354-355).
61
Ibid, (p. 356).
91
4.1. Introdução
moderna a expressão algébrica x 2 5x 24 , não se imagina que tal expressão era escrita na
forma 1Q 5N 24 no século XVII. Segundo Cajori (2007b) Bachet e Fermat escrevem essa
expressão algébrica já com modificações da original escrita por Diophantus. Ainda de acordo
com este autor eles escreveram N ( primeira letra da palavra Numerus) para o s de
Diophantus, Q (Quadratus) para Y , C (Cubus) para K Y .
Isso mostra o quanto se teve de caminhar para chegar às representações conhecidas
hoje que, de certa forma, organizam o nosso pensamento. E desta forma, podemos dizer que o
simbolismo ajudou no desenvolvimento da álgebra e da aritmética, uma vez que facilitava a
escrita e o entendimento sobre o que estava escrevendo. Haja vista que mudanças não se fez
da noite para o dia, houve o trabalho de muitos matemáticos de várias épocas.
Os algarismos indo-arábicos, hoje utilizados por todos que praticam cálculos
aritméticos, não foram aceitos de imediatos, por mais que se sabia das vantagens trazidas
pelos símbolos62, 0, 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8 e 9 no que se refere à representação de quantidades de
qualquer espécie sobrepondo os algarismos romanos que eram utilizados na Idade Média.
meados do século XVII; e ainda os utilizamos para coisas pomposas, como escrever datas em
pedras fundamentais.” (CROSBY, 1999, p.117).
São exemplos como estes citados que mostram a importância do simbolismo na
álgebra e aritmética. “Através do simbolismo algébrico se fornece uma espécie de ‘padrão’ ou
‘máquina operatriz’ matemática, que dirige a mente para um objetivo de maneira tão veloz e
certeira quanto uma matriz guia uma ferramenta de corte numa máquina” (Ibid, p.120).
Até o século XVII a notação algébrica era uma mistura de palavras, abreviaturas delas
e números, até que os algebristas franceses, particularmente.
Viète introduziu uma convenção tão simples quanto fecunda. Usou uma vogal para
representar, em álgebra, uma quantidade suposta desconhecida, ou indeterminada, e
uma consoante para representar uma grandeza ou números supostos conhecidos ou
dados. Aqui encontramos, pela primeira vez na álgebra, uma distinção clara entre o
importante conceito de parâmetro e a idéia de uma quantidade desconhecida
(BOYER, 2003, p. 208).
Desta forma, mostra-se a riqueza dos símbolos matemáticos a ponto de afirmar que
essa simbolização trouxe grandes mudanças na Matemática, seja na álgebra quanto na
63
These abbreviations we shall encounter among Italian writers.
94
aritmética, uma vez que de acordo com Crosby (1999, p. 119) “a álgebra é a generalização da
aritmética”. Ainda segundo Crosby:
Á medida que a álgebra tornou-se mais abstrata e mais generalizada, ela foi ficando
cada vez mais clara. Como o algebrista podia concentrar-se nos símbolos, e deixar
de lado momentaneamente o que eles representavam, ele era capaz de realizar
façanhas intelectuais sem precedentes (1999, p.120).
Falar sobre números nos remete ao início de tudo. Os números são usados em diversas
atividades do homem, como a de contar e medir. No início era necessário somente símbolos
criados pelos membros de diversas civilizações. Entretanto, séculos se passaram e as
comunicações entre essas civilizações em diversas atividades se intensificaram. Entre essas
atividades destacamos o comércio, fazendo necessária a construção de um sistema de
numeração que possibilitasse melhor entendimento entre os povos. E também facilitando as
operações fundamentais.
Compor uma breve obra sobre cálculos por (regras de) complementação e redução,
restrigindo-a ao que é mais fácil e útil essa aritmética, tal como os homens
constantemente necessitam em casos de heranças, legados, partições, processo legais
e comércio, e em todas as sua transações uns com os outros, ou onde se trata de
medir terras, escavar canais, computação geométricas e de outras coisas vários tipos
e espécies (Karpinski, 1915, p.96 apud Boyer, 2003, p.156).
64
BOYER, (2003. p. 144 – 167).
95
E quando se pensava que tinha se chegado ao último dos conjuntos, eis que surge o
problema da incomensurabilidade65.
Dando origem aos números irracionais surge, assim o conjunto dos números reais, no
qual, ao se ter um número real corresponde a um ponto na reta, ou seja, comensurável, este
65
O problema da incomensurabilidade já vem de muito tempo, desde os pitagóricos já se tinha conhecimento
dos incomensuráveis.
96
número real é racional e quando este número real não corresponde a um ponto na reta, ou seja,
incomensurável, este número é irracional.
Reconhecemos aqui uma sequência de problemas que desencadearam a criação de novos
campos numéricos e seguimos a seguinte ordem (campo dos naturais, campo dos inteiros, campo dos
racionais e campo dos reais).
A história do pastor, que para conferir suas ovelhas utilizava uma sacola de pedras já
foi muitas vezes contada pelos professores nas salas de aula para mostrar a necessidade de
contar que por sua vez gerou a necessidade de representar. Daí o surgimento dos números
naturais, isto é, se tem a impressão de que os números naturais foram criados para suprir a
necessidade de contar, impressão errada, na verdade a necessidade de contar é que gerou os
números naturais.
Nos dias de hoje quando se fala em números naturais é normal começarmos pelo 0
(zero).
0, 1, 2, 3, 4, 5, 6,...
Dando a impressão de que este começo fora aceita de forma natural, mas não foi bem
assim que ocorreu com o 0 (zero). “A criação de um símbolo para representar o nada constitui
um dos actos mais audazes do pensamento, uma das maiores aventuras da razão” (CARAÇA,
1998, p.6).
Uma forma de aprender sobre os números naturais é fazer corresponder cada símbolo
com um conjunto de objetos qualquer, desta forma, constrói uma sequência de números
97
Quem alguma vez observou um trem de carga se por em movimento terá notado que
o impulso é comunicado com um solavanco da cada vagão ao vagão seguinte, até
que finalmente inclusive o ultimo vagão é posto em movimento. Quando a
composição é muito grande, leva muito tempo para que o ultimo vagão se mova. Se
o trem fosse infinitamente longo, haveria uma sucessão infinita de solavancos e
jamais chegaria o momento em que toda composição estaria em movimento
(RUSSEL, 1981, p.33).
Sabe-se que o próximo número natural pode ser definido por meio da soma por uma
unidade, isto é, dado um número natural qualquer pode se encontrar o seu sucessor somando
este número a uma unidade. Considerando o zero como primeiro termo da sequência
numérica, temos:
Independente se “n” é muito grande, sempre teremos n+1. Exemplo, n = 40 000, logo,
40 000 + 1 = 40 001.
66
O uso da indução matemática nas demonstrações teve, no passado, algo de misterioso. Não parecia haver
dúvida razoável alguma quanto a que fosse um método válido de prova, mas ninguém sabia bem porque era
válido. Alguns acreditavam que fosse um caso de indução, no sentido em que essa palavra é usada em Lógica.
(RUSSEL, 1981, pp. 32-33).
98
Peano além de mostrar as três ideias primitivas, também mostrou cinco proposições
primitivas que apesar de sua simplicidade, fundamentam uma teoria satisfatória dos números
naturais porque podemos definir ou deduzir a partir deles todos os conceitos e demais
propriedades que conhecemos acerca desses números.
É importante frisar que nem sempre uma descoberta diz respeito a um novo objeto.
Pode ser uma nova maneira de olhar para algo já conhecido por todos, “o que eram patos
antes, agora são coelhos” (OTTE, 1993, p.294). Realmente, o mérito de Peano deve-se mais à
descoberta de que suas proposições são suficientes para caracterizar satisfatoriamente o
campo dos números naturais do que a própria formulação das proposições, as quais podem até
ser consideradas intuitivamente óbvias e conhecidas por todos aqueles que um dia aprenderam
a contar.
99
Ora fato essencial – o maior ou menor conhecimento dos números está ligado com
as condições da vida econômica desses povos; quanto mais intensa é a vida de
relação, quanto mais freqüentes e ativas são as trocas comerciais dentro ou fora da
tribo, maior é o conhecimento dos números (CARAÇA, 1998, p.4).
As dificuldades iriam aparecer, mas com certeza a atividade humana iria de certa
forma transpor essas dificuldades.
No campo dos números naturais é possível que uma operação de subtração não tenha
resultado. Para que a operação de subtração seja possível, é necessário que o aditivo seja
maior ou igual ao subtrativo, ou seja, sendo a – b é necessário que a seja maior ou igual a b,
isto é a ≥ b caso contrário, não tem como resolver tal operação dentro do campo dos números
naturais.
Busca-se a redução dessas restrições nas operações com números, é necessária a
criação de um novo campo numérico, e esse desenvolvimento é chamado de princípio de
extensão. Segundo Caraça (1998), todo o trabalho intelectual do homem é, no fundo,
orientado por certas normas, certos princípios.
Para escolher novas definições de um modo conveniente, o princípio de extensão
procura adequar antigas ou precedentes, isto é, o novo campo numérico tem de atender às
propriedades já existentes, com o dispêndio da mínima quantidade de energia mental ou de
pensamento, abarcando assim o caminho mais rápido e curto.
Neste caso, o princípio de extensão, mostra que o homem tem tendência a generalizar
e “estender todas as aquisições do seu pensamento, seja qual for o caminho pelo qual essas
aquisições se obtêm, e a procurar o maior rendimento possível dessas generalizações pela
exploração metódica de todas as suas consequências” (Ibid, p.09).
Pelo campo da aritmetização, pode-se dizer que esta extensão ocorre pela necessidade
de resolução da operação de subtração, sem nenhuma restrição. Ou seja, dado a – b esse não
poderia necessariamente respeitar a restrição a ≥ b. Suponhamos que durante um período se
100
faz necessário determinar a diferença entre temperaturas de duas cidades, levando sempre em
consideração a cidade A para a cidade B e hipoteticamente consideramos não haver
temperaturas negativas. No Primeiro dia, a cidade A teve como temperatura 35º e a cidade B
teve como temperatura 32º, então a diferença é de 3º, nesse primeiro dia. Agora vamos para o
segundo dia, a cidade A teve como temperatura 33º e a cidade B 30º, então e diferença é de
3º, nesse segundo dia. Se vamos levar em consideração que a cidade A sempre terá uma
temperatura maior ou igual à cidade B, nunca teremos problemas, mas se a cidade A em
algum dia obtiver uma temperatura menor que a cidade B, ou seja, suponhamos que em um
determinado dia a cidade A teve como temperatura 31º e a cidade B teve uma temperatura de
36º, diante dessa situação é impossível obter a diferença, uma vez, que 31 – 36 não tem
solução dentro do campo dos números naturais. “Se desejamos obter, sempre, resultados de
problemas como os postos acima, temos que nos libertar da impossibilidade da subtração”
(CARAÇA, 1998, p.91). A partir da criação de um novo campo numérico, esta operação se
faz sem restrições. Assim, pode-se aplicar o princípio de extensão para criar esse novo campo
numérico.
Segundo Caraça (Ibid, p.91), o que leva a criação de um novo campo numérico é a
impossibilidade encontrada na resolução de problemas envolvendo o campo numérico atual, e
o que nos liberta dessa impossibilidade é a criação de um novo campo numérico.
Na busca de solucionar o problema com a operação de subtração é criado um novo
campo numérico.
Esse novo campo chamará campo dos números inteiros, que é constituindo pelos
números negativos, o zero e os números positivos, no qual os números positivos coincidem
101
com o campo dos números naturais67 e os números negativos respeitam também a sequência
dos números naturais, porém usa um símbolo à frente de cada termo. Para melhor
visualização, iremos mostrar o campo dos números inteiros e sua correspondência ao conjunto
de pontos de uma reta numérica.
O campo dos números inteiros é classificado como infinito discreto (que pode ser
contado), por mais que não possa encontrar o último termo, pois posso contar inúmeros
termos, mas não viverei o suficiente para chegar ao fim dos números inteiros, seja partindo de
zero para a esquerda, ou seja, partindo de zero para a direita, e mesmo se viver, viverei
eternamente.
No decorrer da história houve dificuldade na aceitação dos números negativos.
Segundo Baumgart (1992) matemáticos ilustres como Viete tiveram dificuldade de aceitar
esses números, tendo assim deixado alguns trabalhos inacabados.
De acordo ainda com este autor, somente com a representação geométrica dos
números negativos feita por René Descartes (1596-1650), é que os números negativos
tornaram-se mais aceitáveis.
Nos dias atuais os números negativos não causam tanta polêmica, talvez seja pelo
contato com o campo dos números inteiros, uma vez, que quando nos referimos aos números
67
Nesse caso estamos considerando que os números naturais começam com o um (1) haja visto que o zero (0) é
por definição considerado nulo.
68
O símbolo Z em blackboard bold ( ), que vem do alemão Zahlen, que significa números.
102
negativos, vem à nossa mente o campo dos números inteiros, haja vista, que a partir da
dificuldade na operação da subtração houve a necessidade de estender este campo numérico.
Medir é um ato que praticamos no nosso dia-a-dia. Medimos a distância da nossa casa
à escola, medimos o tempo gasto numa determinada tarefa, medimos a quantidade de terra
retirada de um terreno. Medir envolve grandezas como comprimento, tempo, peso etc. Mas,
afinal o que é medir? Podemos dizer que medir é comparar duas grandezas de mesma espécie,
por exemplo, dois pesos, dois comprimentos.
Segundo Caraça (1998, p.30), “o ato de medir compreende três fases e três aspectos
distintos: a escolha da unidade, a comparação com a unidade, a expressão do resultado dessa
comparação por um número”.
Os matemáticos gregos tratavam a questão da medida usando o conceito de grandezas
comensuráveis. Segundo Caraça (1998) um dos mais destacados representantes da escola
Pitágorica, Filolao, afirma: “todas as coisas tem um número e nada se pode compreender sem
o número”.
Suponha-se querer medir o segmento AB tendo como unidade o segmento CD, da
figura a seguir:
A B
| | | | | |
C D
| |
O segmento AB, medido com a unidade CD = u, mede 5u. De outra maneira pode-se
dizer que AB = 5 CD
Agora vamos dividir o segmento CD em duas partes iguais, de modo a formar um
novo segmento CE, consequentemente uma nova unidade que chamaremos de u’, então CE =
u’.
Então tomaremos u’ para medir o segmento AB. O segmento AB medido com a
unidade u’, tem como medida 10u’.
Naturalmente pode se entender que independente da quantidade de vezes que
dividiremos o segmento CD, ou seja, criando uma nova unidade, não irá se encontrar
problemas em medir o segmento AB com essa nova unidade, resumindo:
103
Diante desse raciocínio, não teremos problema em encontrar um número inteiro que
satisfaça a razão, ou seja, os campos numéricos, até então conhecidos satisfazem.
Mas, imaginemos uma outra situação, nela queremos obter a medida do segmento AB,
tomando como unidade de medida o segmento FG
FG = 3 HI = 3v e AB = 10 HI = 10v
Como podemos observar neste exemplo, deparamos com um problema, uma vez, que
10
não temos um número inteiro que satisfaça a razão . Logo, estamos diante de dois dilemas,
3
no qual temos de escolher o que fazer, de acordo com Caraça (1998), primeiro: renunciar a
exprimir numericamente a medição de AB tomando como unidade de medida FG, que seria
um incomodo, levantando a novas questões – se podemos exprimir a medida em relação à
nova unidade e não em relação à antiga, será porque aquela terá algum privilégio especial?
Qual? Por quê? Segundo: exprimir sempre a medida por um número, e então temos de
reconhecer que o instrumento numérico até então conhecido, é insuficiente, necessitando ser
complementado.
Neste caso, a opção a ser tomada foi de princípio de extensão, uma vez que deparado
com um problema no qual não se pode resolver utilizando os campos numéricos, é necessário
que se crie um novo campo numérico, de modo a respeitar o que fora construído, ou seja, o
novo campo numérico tem de satisfazer as propriedades dos atuais campos numéricos.
Ampliar o domínio com a introdução de novos símbolos, de tal forma que as leis
válidas para o domínio original prevaleçam no domínio maior, é um aspecto do
processo matemático característico da generalização. A generalização dos números
naturais aos racionais satisfaz tanto a necessidade teórica de afastar as restrições na
subtração e na divisão, quanto a necessidade prática de números para expressar os
resultados de medidas (COURANT; ROBBINS, 2000, p.67).
69
Um Q em blackboard bold ( ), que significa quociente.
105
a
= / a Z ; b Z * .
b
No entanto, uma questão fundamental ainda precisa ser respondida: será que esse
instrumento é realmente eficiente? Será que o campo racional é suficiente para realizarmos as
nossas medidas? A princípio acreditavam que sim.
Contudo “Pitágoras descobriu algo monstruoso na matemática, o incomensurável, ou
seja, existiam grandezas não comensuráveis. Em particular, a incomensurabilidade entre o
lado de um quadrado e sua diagonal” (RUSSEL, 1981, p. 12).
Viu-se atrás como a operação da contagem, repetida por muitos milhares de anos,
acabou por levar à criação dos números naturais, e viu-se que a extensão do seu
conhecimento depende do grau de civilização e da intensidade da vida social do
homem. [...]. Para o homem civilizado de hoje o número natural é um ser puramente
aritmético, desligado das coisas reais e independente delas – é uma pura conquista
do seu pensamento (CARAÇA, 1998, p.9).
d 1
Figura 12 – Quadrado
Vamos determinar a medida de sua diagonal.
Primeiro dividimos esse quadrado em dois triângulos isósceles, e consideremos um
desses triângulos.
De posse deste triângulo isósceles retângulo, pode-se então mudar o comprimento da
hipotenusa, que consequentemente estamos chegando à medida da diagonal do quadrado.
O A
OA = OB = 1u.m.
Figura 13 – Triângulo retângulo
Ou seja,
m
(i) AB = . OA
n
Aplicaremos neste triângulo retângulo o Teorema de Pitágoras70, temos:
(ii) (AB)² = (OA)² + (OB)²
Como OB = OA, podemos escrever.
(AB)² = (OA)² + (OA)²
(AB)² = 2(OA)²
AB 2
(iii) =2
OA2
Agora vamos elevar ambos os membros da relação ( i ) ao quadrado:
(AB)² = (m/n)² . (OA)²
70
Em qualquer triângulo retângulo “a medida da hipotenusa ao quadrado é igual a soma das medidas dos catetos
2 2 2
ao quadrado”, essa relação chamada de Teorema de Pitágoras (a = b + c ).
107
AB 2
(iv) = (m/n)²
OA2
2
m
(v) =2
n
[...] para nós, a imagem ideal da continuidade é a linha recta; contentemo-nos, para
perceber a continuidade, com o grau de clareza que tivermos da noção de linha recta;
procuremos antes um critério distintivo, tão simples quanto possível, que nos
permita, em face de um conjunto qualquer, verificar se ele tem ou não a mesma
estrutura da recta e, portanto, se se pode também atribuir-lhe ou não continuidade. O
que vamos procurar é uma espécie de reagente que nos mostre se, um dado
conjunto, existe ou não essa propriedade, assim como o químico determina se , num
dado soluto, existe ou não certo elemento. O reagente pode não dar uma explicação
do elemento procurado, mas nem por isso ele será menos útil ao químico no estudo
do soluto que tiver entre mãos (Ibid, p. 55-56).
É exatamente o que procuramos um bom reagente e não julgue que tal procura foi
fácil. Discute-se continuidade há mais de vinte e cinco séculos e o bom reagente só foi
encontrado na segunda metade do século XIX.
O conceito de corte na reta numérica divide a reta em duas partes constituídas de
infinitos números.
Um ponto ( P ) na reta divide a mesma em duas classes: a classe ( A ), dos pontos que
estão à esquerda de P, e a classe ( B ), dos pontos que estão à direita de P. Neste caso o
próprio ponto P, que produz a repartição, pode ser colocado indiferentemente na classe ( A )
ou na classe ( B ).
Esta afirmação tornou-se conhecida como “Postulado da Continuidade de Dedekind.”
Os números reais são obtidos, a partir deste postulado, por uma extensão dos racionais
para um domínio do contínuo.
Há cortes no conjunto 0 que não têm um elemento de separação em 0 ? São
esses mesmos que nos vão criar os novos elementos de separação. Basta, para isso,
dar a seguinte definição: - chamo número real ao elemento de separação das duas
classes dum corte qualquer no conjunto dos números racionais; se existe um número
racional a separar as duas classes, o número real coincidirá com esse número
racional; se não existe tal número, o número real dir-se-á irracional (CARAÇA,
1998, p.60).
Com a nova definição dos números se constrói um novo campo numérico, chamado de
campo real ou conjunto dos números reais. E como já havia acontecido no campo racional, em
que as frações foram os novos elementos, no campo real são os números irracionais os novos
elementos. “Com esta definição estabelecemos uma perfeita correspondência entre pontos e
números. Isto não é nada mais que a formulação geral do que foi expresso pela definição
utilizando decimais infinitas” (COURANT; ROBBINS, 2000, p.82).
Uma das mais surpreendentes descobertas dos antigos matemáticos gregos (a escola
pitagórica) foi de que a situação não era de forma alguma assim tão simples.
Existem segmentos incomensuráveis ou – se supusermos que a cada segmento
corresponde um número que dá sua medida em termos da unidade – números
irracionais. Esta revelação foi um acontecimento cientifico da maior importância.
[...]. Isto certamente afetou de modo profundo a Matemática e a Filosofia da época
dos gregos até os dias atuais (Ibid, p.70-71).
Considerações
como 0,125.
Esta organização feita por Simon Stevin possibilitando a introdução de um sistema
decimal, juntamente com um método de realização de cada cálculo importante da aritmética.
Este feito foi visto por muitos como um passo importante no desenvolvimento das máquinas
de calcular, desta forma pode se observar uma diferença entre Stevin e Turing, enquanto o
primeiro trabalha, como todo mundo, com dez dígitos, Turing na invenção do computador
usou dois dígitos (0 e 1), ou seja, sistema decimal e sistema dual respectivamente, porém a
maneira de representar números em termos de dígitos, foi inaugurada por Stevin. Isso mostra
também que qualquer que seja o sistema (dual, decimal, duodecimal etc.) o importante é a
maneira de organizar a apresentação dos números e esta é a base de todo computador hoje,
nesse sentido podemos estabelecer uma ligação entre Stevin e Turing, ou seja, entre o que foi
produzido no século XVI com o desenvolvimento do computador. Escrever sobre algoritmos
esclarece esta ligação entre o século XVI e o século XX, mostrando que Simon Stevin não só
revolucionou os cálculos com “números quebrados”, como também abriu caminho para novas
tecnologias. Pois, como sabemos os números decimais estão presentes no computador.
Nosso trabalho era de mostrar a história dos números decimais, porém esse trabalho
foi além de saber sobre números decimais. Ao estudar os números decimais, e verificar que a
criação dos números decimais foi devido a um problema, o problema de calculações
envolvendo “números quebrados”. Verificamos que a criação desses números não gerou
concomitantemente na criação de um novo campo numérico, ou seja, existia um problema, no
entanto, esse problema não clamava pela criação de um novo campo numérico, haja vista, que
a necessidade girava em torno de uma nova notação. O capítulo sobre a Matemática dos
71
Sistema que utiliza os símbolos indo-arábico, esse sistema indica o valor que o símbolo terá no número, pois,
estes símbolos são multiplicados por potências de base 10. Logo o número 846 é 8 . +4. +6. .
112
números mostra que a notação de Simon Stevin não originou na criação de um novo conjunto,
por mais que Simon Stevin conhecia e aceitava símbolos novos, por exemplo, os números
negativos, sua contribuição está na organização.
Estudar a história de um determinado assunto matemático, como a dos números
decimais, é importante para o desenvolvimento de um ensino de qualidade. Poder levar esta
história ao conhecimento dos nossos alunos é fundamental, uma vez, que se sabe que as coisas
não caíram do “céu”, mas sim, são frutos de discussões que consumiram várias gerações.
Desta forma ao chegar ao fim deste trabalho, a visão em relação aos números decimais será
além da simples vírgula que separa a parte inteira da parte decimal.
113
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ANEXO
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119
120
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130
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134
135
136
137
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139
140
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