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Entre fetichismo e sobrevivência: o artigo cientifico é uma mercadoria


acadêmica? - [Between fetishism and survival: are scientific articles a form of
academic merchandise?].

Article  in  Cadernos de Saúde Pública · December 2007


DOI: 10.1590/S0102-311X2007001200026 · Source: PubMed

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FÓRUM FORUM 3041

Entre fetichismo e sobrevivência: o artigo


científico é uma mercadoria acadêmica?

Between fetishism and survival: are scientific


articles a form of academic merchandise?

Luis David Castiel 1


Javier Sanz-Valero 2
Red MeI-CYTED 3

Abstract Introdução

1 Escola Nacional de Saúde


This article discusses the possible meanings of the Há indicadores bibliométricos que sinalizam pa-
Pública Sergio Arouca,
Fundação Oswaldo Cruz,
intense prevailing concern in academic circles ra mudanças dramáticas no panorama da pes-
Rio de Janeiro, Brasil. over the notion of research productivity, as re- quisa científica nos últimos 10-15 anos. Se, por
2 Departamento de
flected in an excess number of articles published um lado, mais de 70% da produção mundial per-
Enfermería Comunitaria,
Medicina Preventiva y
in various scientific journals. The numerical ac- tence ao eixo Estados Unidos/Comunidade Eu-
Salud Pública e Historia de counting of articles published by researchers in ropéia/Japão, há crescimentos espetaculares em
la Ciencia, Universidad de scientific journals with renowned academic sta- alguns países em especial (como China e Irlanda,
Alicante, Alicante, España.
3 Red de Malnutrición tus serves to legitimize academics in their fields os mais significativos) e declínio em outros (Grã-
en Iberoamérica-CYTED of work, in various ways. In this sense, we suggest Bretanha). Na América Latina, dados recentes
(Programa Iberoamericano
that scientific articles take on aspects of mer- mostram que a produção da ciência brasileira se
de Ciencia y Tecnología para
el Desarrollo). chandise-as-fetish, according to Marx’s theory of destaca em seu crescimento de 8% na repartição
use-value and exchange-value and Benjamin’s do produto anual em termos mundiais e ocupa
Correspondência
exposure value. Meanwhile, the biological no- o 17o lugar na lista de países mais ativos. Talvez
L. D. Castiel
Departamento de tions of selection and evolution are used as meta- mais significativo seja o fato de ocupar o 9o lugar
Epidemiologia e Métodos phorical elements in “bibliographic Darwinism”. entre os países que apresentam maior dinamis-
Quantitativos em Saúde,
There are references as to the possibility many of mo em termos percentuais de crescimento entre
Escola Nacional de Saúde
Pública Sergio Arouca, the prevailing bibliometric concerns serve as in- os anos 1991 a 2003, adiante da Espanha (11o) e
Fundação Oswaldo Cruz. struments for econometric analysis, especially to onde se destacam sobremaneira Coréia do Sul,
Rua Leopoldo Bulhões 1480,
Rio de Janeiro, RJ
orient and enhance cost-effectiveness analysis in Turquia e Singapura 1.
21041-210, Brasil. research investments of various orders and types, Sem dúvida, as análises acima mencionadas
luis.castiel@ensp.fiocruz.br from the point of view of their economic return. merecem a devida atenção quando se trata de
descrever e comparar a produção científica e
Journal Article; Periodicals; Scientific Communi- seus fluxos em múltiplos níveis de abrangência,
cation and Diffusion tanto em termos globais como locais. Porém, tais
dados necessitam de ser contextualizados em
função não apenas de aspectos bibliométricos
regionais e nacionais. É importante também le-
var em conta especificidades de caráter sócio-
histórico no desenvolvimento das disciplinas e
dos campos de produção de conhecimento em

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relação às transformações estruturais em aspec- produção acadêmica que mal altera a precarie-
tos políticos e econômicos que ocorreram nas dade da situação em saúde de muitos rincões
últimas décadas. deste mundo.
Inegavelmente, a adoção de recursos infor- Apesar de a literatura especializada ser mais
máticos e a existência da Internet viabilizaram acessível, é cada vez mais laborioso ler-se o que
uma impressionante difusão e uma concomitan- é publicado nos correspondentes âmbitos de
te ampliação das possibilidades de acesso à pro- interesse. O ideal da atualização nas respectivas
dução acadêmica. Com esses recursos, como se áreas parece ter se tornado algo cada vez mais
sabe, é cada vez mais acessível pesquisar e obter difícil de ser alcançado no dia a dia. Assim, exis-
fontes bibliográficas, utilizar bancos de informa- tem (e existirão) muitos artigos que jamais serão
ções, analisar dados e redigir artigos científicos. lidos. Este dado é difícil de ser estimado. Há,
Em geral, convive-se com a impressão de haver todavia, estimativas de que cerca de 50% dos
se tornado bem menos atribulada a produção de trabalhos em ciências sociais publicados jamais
projetos e, caso sejam obtidos financiamentos, a serão citados 5.
realização de pesquisas. Mas, esta maior dispo- Há termos críticos, até jocosos, que designam
nibilidade investigatória não ocorre sem efeitos esta ordem de questões éticas diante do fenô-
colaterais indesejados. meno de proliferação na literatura científica. Al-
Há um aumento considerável na disputa por guns mais conhecidos, como “ciência-salame”:
recursos para a pesquisa e diminuição de recur- uma pesquisa é fatiada em unidades menores
sos públicos para tanto 2. Um dos requisitos para publicáveis para se tornarem vários artigos dis-
aceder aos financiamentos é a demonstração da tribuídos em diferentes revistas 6. Outros menos
produtividade dos grupos de pesquisa, sobretu- comuns como “publicacionismo” 7 e “produtivi-
do em termos de publicação nos veículos aca- te” 8 começam a ser utilizados para designar tal
dêmicos de melhor reputação nos respectivos quadro.
campos. Assim, a competição se estende à luta Em outras palavras: um mesmo conteúdo
ferrenha entre artigos que buscam a ocupação de pode aparecer em vários artigos, após receber
espaços editoriais – o escoadouro almejado pa- pequenas mudanças cosméticas. A autocitação
ra os resultados dos esforços investigativos, mas pode constituir-se no chamado “autoplágio” 9.
também da necessidade de manutenção das es- Já há revistas que solicitam na declaração que
feras de prestígio e influência 2. se costuma fazer na entrega dos originais um
Não é despropositada a impressão de haver- item especificando não se tratar de publicação
se desencadeado um processo aparentemente redundante 10. Outro aspecto importante seria se
irreversível e, talvez, no limite, incontrolável. Is- o artigo traz algo ao conhecimento ou à discus-
so parece estar se tornando algo cada vez mais são científica, isto é, se é pertinente, relevante e
incidente nos meios acadêmicos, em geral, e “revelante” 11.
no campo da pesquisa em saúde pública em As questões éticas na pesquisa científica não
particular 3. A perspectiva aqui adotada se di- são de forma alguma negligenciáveis. Em ter-
rige à análise dos possíveis significados de um mos mais específicos, pode haver vários tipos de
fenômeno que se manifesta neste contexto de má-conduta e fraudes no meio científico, como
ampliação na pesquisa científica e da intensa o gerenciamento dos protocolos, amostragens e
contabilização numérica de artigos publicados dos dados em geral 12. Ademais, há um crescente
por investigadores em revistas científicas de re- aumento de autores por artigo, significando mais
conhecido status acadêmico para se legitima- do que o suposto aumento dos integrantes dos
rem como profissionais nos seus campos de grupos de pesquisa, mas sim a possível prática de
atuação. “escambo autoral” (meu nome no teu artigo, teu
Com a enorme ampliação do número de re- nome no meu artigo etc.) 13.
vistas e artigos, não à-toa começa-se a conviver A própria presença do plágio se torna algo
com a sensação de haver algo de desarrazoado mais praticável e difícil de ser percebido – ain-
diante desta cornucópia de artigos científicos. da que sejam “microplágios” –, viabilizados pela
Ela se dá, a um só tempo, não só em quantida- cópia de trechos de textos disponíveis na Inter-
des enormes e de forma acelerada, mas também net 14. Não parece ser incomum a prática de au-
apresentando, embutida em sua proliferação, tores, ao utilizarem uma determinada referência
uma perspectiva duvidosa quanto à avaliação da consultada e indicada no próprio artigo destes
respectiva fertilidade nos processos de constru- autores, também citarem outra(s) referência(s)
ção do conhecimento em saúde pública 4. Tal pa- presente no artigo citado como citação de seu
norama não parece se refletir proporcionalmen- próprio artigo, sem haver a consulta específica
te em melhorias correspondentes nos quadros de tal referência. Sem dúvidas, a tarefa de editar
sanitários – como se houvesse uma desmesurada revistas científicas se tornou bastante comple-

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O ARTIGO CIENTÍFICO É UMA MERCADORIA ACADÊMICA? 3043

xa ao envolver intrincados e múltiplos aspectos já a investigação é nutrida de todos esses aspec-


éticos. tos para gerar perguntas de investigação menos
Cabe ainda assinalar que, ao lado do “publica- afastadas de nós próprios. Podemos pensar que
cionismo”, convive-se com outro fenômeno aca- essas duas perspectivas básicas coexistem em
dêmico: o “citacionismo” – a grande importância graus variados na atividade científica atual 16.
do ato de citar outros autores e de ser-se citado Levando adiante tal linha de raciocínio, um
em artigos –, que é em grande parte um efeito olhar científico puro é algo abstrato – como se
do êxito dos indicadores de impacto desenvol- aquilo que essencialmente definisse a atividade
vidos pelo Institute for Scientific Information/ científica fosse a busca fidedigna de dados e a
Thomson Scientific (ISI). Essa excessiva preocu- correspondente aplicação correta de protocolos,
pação tornou-se, de certa forma, representati- desenhos de investigação e análise dos resulta-
va do espírito de “avaliações rápidas” de nossos dos. Já existiu um imaginário social no qual o
tempos modalizados na ambiência acadêmica. cientista era antes de tudo um benfeitor da hu-
Aliás, a etimologia dos adjetivos latinos “citus, ci- manidade 17 (este era o título de um livro lan-
ta, citum” é emblemática ao indicar “posto em çado na década de 1940 para crianças com bio-
movimento”, “vivo”, “pronto”, “rápido”, “ligeiro”. É grafias de renomados cientistas) com qualidades
preciso produzir artigos que gerem citações, ou nobres, entre outras. Por exemplo: desinteresse
seja, que sejam publicados e tenham vitalidade por coisas materiais em nível pessoal 18, altruís-
para estarem presentes nas outras publicações. mo. Tanto que em relação ao artigo científico já
houve momentos poucas décadas atrás em que
o cientista se comportaria como um doador ao
II entregar seus artigos a uma revista, e seria essa
doação que o constituiria como cientista. Como
A ciência é, sem dúvidas, uma tecnologia inte- retribuição receberia prestígio, como diz Hags-
lectual capaz tanto de gerar excelentes entendi- trom. A organização social da ciência consistiria
mentos e interpretações acerca do mundo, como em uma troca de reconhecimento social por in-
de proporcionar intervenções e criação de obje- formação 19. Parece haver, no entanto, indícios
tos técnicos de maneira a corresponder a muitos cada vez mais fortes de que muito desse imaginá-
projetos humanos; contudo, conforme mencio- rio estaria progressivamente se transformando.
nado, surge um problema sério com a ideologia
da cientificidade. Vale dizer, em termos bastante
abreviados, quando se considera que a ciência é III
o melhor modelo (em casos mais radicais, é con-
siderada o único) para se compreender e repre- Uma das atividades dos investigadores é gerar
sentar o mundo e os homens 15. interesse em relação a seu objeto de estudo em
A força da ciência provém do fato de que diferentes níveis do processo de produção cien-
seus protocolos, instrumentos e dispositivos de tífica 20 – isso inclui despertar o interesse de revis-
análise simplificam suficientemente a “realida- tas científicas para publicar artigos de sua linha
de” com a finalidade estudá-la e atuar sobre ela. de pesquisa. Em outras palavras, o pesquisador
E, como presenciamos ao nosso redor, isso cos- necessita também de administrar sua carreira
tuma acontecer de modo bastante eficaz. Mas profissional e seus vínculos e papéis no interior
o que está sob o guarda-chuva chamado ciên- de equipes de investigação. A saber, existem ou-
cia também pode cometer abusos de saber. Por tras dimensões que afetam o trabalho científico e
exemplo, quando se pretende deduzir normas de envolvem relações de influência e jogos de poder
conduta baseadas em unívocas evidências (pes- entre instâncias e grupos de pesquisa.
quisas) científicas. Ou, então, reduzir problemas Parece ser necessário esquadrinhar de modo
somente à sua tradução em termos técnicos 15. mais contextual as várias atividades do pesqui-
Latour abordou a suposta transição de uma sador para além dos requisitos de objetividade e
cultura da “ciência” rumo à cultura da “investiga- da manutenção do rigor científico na atividade
ção”. Entende-se a ciência como uma atividade científica, tais como: estratégias de busca de fi-
fria, direta e objetiva e a investigação, por sua vez, nanciamento, gestão das relações entre grupos
seria acalorada, arriscada, geradora de outras im- acadêmicos, comunicação entre pares (por isso,
plicações. Se a ciência põe um final aos caprichos a suprema importância da padronização e da
das disputas humanas, a investigação cria con- normalização nas práticas científicas), formas de
trovérsias. Como mencionado, a ciência opera produzir e ter sucesso na publicação de um nú-
sob o manto da idéia de objetividade, tentando mero importante de artigos em revistas concei-
escapar tanto quanto seja possível dos supostos tuadas no respectivo campo, ensejando, para o
grilhões da ideologia, das paixões e das emoções; êxito se fazer manifesto, uma boa quantidade de

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citações. Vamos denominar este último aspecto conhecimento satisfatório das diversas formas
de “bibliografia citaciogênica”, no sentido espe- como as tendências de morbidade, mortalidade
cífico e estrito os artigos capazes de geração do e estados de risco e as correspondentes possi-
maior número possível de citações. bilidades de inserção destes conhecimentos em
Um exemplo: Hackett estudou em laborató- termos de práticas que conduzam a resultados
rios de biologia molecular as questões ligadas a efetivos de mudança na situação de saúde.
ambivalências, tensões e paradoxos relativos a Conforme descreveu Coimbra Jr. 22, há que
aspectos como: (1) o estabelecimento e manu- levar em conta, no caso da saúde pública latino-
tenção de identidade do grupo e de cada pesqui- americana, elementos suficientes para conside-
sador no interior do grupo; (2) a obtenção e sus- rar que a utilização dos fatores de impacto do
tentação de poder e controle nas relações entre ISI produz um panorama parcial e deformado
pesquisadores diante do conjunto de tecnologias ao não perceber as especificidades do campo em
e práticas de pesquisa; (3) a escolha de riscos que relação aos “...impactos sobre políticas, planeja-
pesquisadores estão dispostos a assumir em sua mento de estratégias de intervenção e de progra-
atividade em relação às possibilidades de resul- mas de saúde, ou sobre a organização de serviços
tados satisfatórios para a continuidade de suas que muito extrapolam a mera quantificação de
linhas de investigação 21. Claro que a preocupa- referências/citações bibliográficas” 22 (p. 887).
ção citaciogênica está implacavelmente presente Mas, mesmo assim, as pressões publicacio-
neste panorama. nistas em termos de local de publicação e impac-
Vejamos: um pesquisador optou por uma li- to parecem ser onipresentes em todos os contex-
nha de pesquisa com teores mais altos de risco tos. No outro corolário da afirmação acima, o fato
na obtenção de resultados diante de seus inves- de ser-se muito citado não quer necessariamente
timentos – um sistema para estudar eventos re- dizer avanço do conhecimento. Entretanto isso
combinantes em células humanas. Mas houve permanece uma das formas de aferir a supos-
problemas de confounding em razão de artefatos ta importância de um artigo. Inclusive, existem
metodológicos pelo uso da reação em cadeia da recursos informáticos que permitem o acompa-
polimerase que pode provocar recombinação nhamento específico em termos de quem cita
per si. O citado pesquisador abandonou esta li- quem e onde, como por exemplo, o sistema Sco-
nha e adotou outro rumo com outro conjunto pus (http://www.info.scopus.com/).
de tecnologias de pesquisa centrada em ratos
transgênicos, combinando biologia molecular,
genética tradicional e manipulação de óvulos de IV
ratas pseudográvidas. Este tampouco se mostrou
recompensador. Tais malsucedidos processos Desde logo, um caminho imediato para pensar-
interromperam suas fontes de financiamento e se a dimensão “mercadoria” de um artigo cien-
lhe obrigaram a mudar para outra universida- tífico seria considerar que os preços pagos por
de, onde começou outra linha de pesquisa mais interessados por aqueles trabalhos cujo acesso
próxima da medicina que da biologia básica. Os não é livre somente ocorrem mediante paga-
dados do Science Citation Index evidenciam a mento às editoras dos periódicos. Até porque há
versão bibliométrica desta história – própria do vários custos embutidos na confecção editorial
espírito desta época citaciogênica: de artigos por revistas. Por outro lado, há textos
• Fase 1 (biologia básica – até dez anos depois com acesso aberto na Internet, mas uma revisão
da publicação): 7 artigos que receberam 37 ci- bibliográfica consistente não pode abrir mão de
tações; artigos com acesso por meio de pagamento. Po-
• Fase 2 (pesquisas biológicas de orientação rém, esta é uma leitura limitada para o enfoque
biomédica – quatro anos depois do início das pretendido. De qualquer forma, é preciso salien-
investigações): 5 artigos que receberam 211 ci- tar que as discussões “acesso livre versus acesso
tações 21. pago” são candentes e importantes, mas não se
De modo bastante simplificado, no campo trata de objeto deste trabalho.
da saúde pública, todas estas dimensões perten- É cabível encarar um artigo científico sob a
centes à “big science” parecem não se comportar, ótica sociológica da dinâmica das comunidades
em geral, da mesma forma. Aparentemente, não científicas – como resultado de uma linha de in-
há tantas pressões no sentido de novas descober- vestigação que ao lado de sua produção científica
tas ou da criação de produtos e tecnologias. As também gera capitais simbólicos. Dando pros-
tensões parecem assumir outros aspectos – co- seguimento a este argumento, um artigo pode
mo, por exemplo, as premências instrumentais assumir determinados traços como se fossem
das questões de saúde pública e suas defasagens mercadorias que estarão disponibilizadas em
em termos de produzir estudos que permitam o revistas científicas. Estas, por sua vez, são sele-

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tivas em sua capacidade de recusar determina- Decerto seria um exagero detalhista argu-
dos itens e selecionar outros sob critérios aca- mentar que é necessária a adaptação destas
dêmicos de controle de qualidade, aplicados por idéias ao pensá-las no âmbito bibliográfico e ale-
revisores também selecionados dentre autores gar-se que não se trata exatamente de um pro-
consagrados no campo. Outrossim, também, a duto da mão humana – no sentido original de
seletividade das revistas é regida por critérios de manufatura, mas sim resultado da intervenção
oferta e procura. Por exemplo, o BMJ informa aos primordial do intelecto humano. Ainda assim, há
autores que aí querem submeter seus trabalhos um curioso dado lingüístico – no início de sua
que apenas 12% dos 6.000-7.000 artigos subme- trajetória, logo após a confecção pelos autores,
tidos anualmente são aprovados 23. o artigo científico costuma receber o nome ori-
Arranz 24 critica o espírito de “jogo” na pu- ginal de manuscrito, mesmo que na atualidade
blicação científica em função de um artigo do os textos sejam processados mediante recursos
neozelandês Tim Albert 25 traduzido do inglês informáticos.
especialmente para ser publicado pela revista Realmente, importa destacar nesta breve
espanhola Gaceta Sanitaria. Nele, há uma recei- análise do artigo como mercadoria a noção de
ta de dez passos que lembram os manuais de valor de uso perceptível – relativo à utilidade es-
auto-ajuda com conselhos para vencer no “jogo” pecífica deste “artigo” para seus consumidores/
de escrever artigos científicos. A vitória é tê-los leitores em relação à capacidade de contribuir
publicados de preferência em revistas importan- para o que se supõe ser o avanço do conheci-
tes. Há menção explícita que “se trata de uma mento dentro do respectivo campo disciplinar.
atividade de venda” e que “a tarefa é criar um E é preciso, também, levar em conta seu valor
produto [o artigo científico] e vendê-lo ao cliente de troca imperceptível, como fetiche no caso das
[o editor]” 25 (p. 355). Uma vez que este o compra trocas simbólicas – enquanto elemento capaz de
(aceita para publicação), completa-se a transa- ter agregadas certas “quantidades” de prestígio
ção e se resolve com sucesso a tarefa; logo está ou reconhecimento para seus autores. Tais com-
ganha a partida. ponentes são essenciais para mantê-lo ativo e
Nesse sentido, queremos sugerir que o jogo influente e ao grupo ao qual pertence no territó-
que se busca vencer é o “jogo” competitivo do rio de interações cooperativas e competitivas da
mercado com elementos e regras compatíveis comunidade científica em que atua.
com a competitividade reinante em várias ativi- Ainda, uma chave analítica promissora para
dades do mundo atual. Para isso, é preciso am- abordar este aspecto é aquela proposta por Ben-
pliar a discussão acerca da dimensão mercadoló- jamin 27 na noção de “valor de exposição” refe-
gica na publicização da atividade científica. rente ao estudo da obra de arte, mas que mutatis
A autoria de artigos se tornou moeda cor- mutandis cabe ser aplicada também ao artigo
rente – uma mercadoria negociável no mercado científico. Se isso vale para a análise da divulga-
acadêmico em tempos de grandes investimentos ção da obra de arte, também parece valer para
nas ciências biológicas e médicas (“big science”). as formas de comunicação próprias às comu-
Em outro contexto, o próprio Marx 26 (p. 81) in- nidades científicas, se encararmos a divulgação
dicou a dimensão do fetichismo da mercadoria científica também como uma forma implícita de
ao indicar sua característica “misteriosa”: “...ao exibição de autores e linhas de pesquisa.
encobrir as características sociais do próprio tra- Os pesquisadores precisam publicar, seja por
balho dos homens, apresentando-as, como carac- razões normativas definidas pela configuração
terísticas materiais e propriedades sociais ineren- dos necessários intercâmbios em rede que de-
tes aos produtos do trabalho: por ocultar portanto finem o avanço e o debate inerente à atividade
a relação social entre os trabalhos individuais dos científica, seja pela necessidade de mostrar-se
produtores e o trabalho total, ao refleti-la como produtivo aos olhares judiciosos daqueles que
relação social existente, à margem deles, entre os financiam pesquisas. Seguindo Agamben 28, há
produtos de seu próprio trabalho. Através dessa algo de espetacularização focal no interior das
dissimulação, os produtos do trabalho se tornam comunidades científicas, até porque consumo e
mercadorias, coisas sociais, com propriedades espetáculo se constituem em elementos essen-
perceptíveis e imperceptíveis aos sentidos (...). ciais na fase extrema do capitalismo que estamos
Uma relação social definida, estabelecida entre os vivendo, e a ciência parece não ter como escapar
homens, assume a forma fantasmagórica de uma dos efeitos desse processo.
relação entre coisas. (...) É o que ocorre com os pro- A perspectiva que se está desenvolvendo po-
dutos da mão humana, no mundo das mercado- de também ser representada por intermédio de
rias. Chamo a isto de fetichismo, que está sempre analogias darwinistas. A analogia com as idéias
grudado aos produtos do trabalho, quando são evolutivas darwinianas em história das ciências
gerados como mercadorias”. e epistemologia não é original. Thomas Kuhn 29

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considerava que sua idéia de evolução das idéias parte dos autores inclui aqueles que atuam como
científicas se assemelhava às teorias de Darwin “empregados” de empresas, funcionários que se
sobre a evolução de organismos. E, ainda, são dedicam a seguir a rotina de protocolos estabele-
usadas comparações biológicas diante do sur- cidos em propostas de investigação aceitas pelas
gimento ou desaparecimento nos contextos agências financiadoras e consagradas pela co-
editoriais 30. munidade científica. Eles também se dedicam às
Logo, não é absurdo pensar que o conhecido atividades burocráticas que envolvem o métier
lema “publicar ou perecer” implica algo parecido científico: fazer buscas de literatura, manter o
com as lutas territoriais para a seleção dos mais relacionamento com outras instâncias e grupos
aptos entre artigos que lutam entre si. Primeira- de pesquisa, produzir esboços de artigos, apre-
mente, para despertarem o interesse e a atenção sentar pedidos de financiamento, revisar textos
dos editores como tema relevante e importante e materiais, além de participar nos intentos de
no âmbito acadêmico; depois, serem devida- publicar os artigos do grupo 34.
mente analisados para obedecerem às deman- Por sua vez, os líderes de grupos de pesqui-
das dos revisores em busca da ansiada chancela sa, para além de sua expertise técnico-científica,
de qualidade que conduz à meta da aprovação passam a atuar cada vez mais como homens de
para a publicação. Este é um prêmio depois da negócios ao gerenciar insumos, produtos, pes-
ultrapassagem por esses controles, pois isso sig- soal, recursos humanos, equipamentos, mas, so-
nificaria a possibilidade de habitar nichos mais bretudo, devem manter ativas as fontes de finan-
valorizados deste mercado, algo que poderia ser ciamento para dar continuidade à sobrevivência
chamado de “darwinismo bibliográfico”. de seu grupo, que é uma forma de manter a sua
Há, ainda, outras recompensas a alcançar: própria existência no campo.
a luta continua com o objetivo de propagação, Uma ilustração dos interesses privados envol-
por meio da legitimação pela sua respectiva co- vidos no plano dos artigos com maior número de
munidade – as valiosas citações pelos pares. As citações na pesquisa do campo biomédico pode
citações são valorizadas a tal ponto, que exis- ser observado no meticuloso estudo sobre a aná-
tem sistemas de classificação (que pode até se lise das fontes de financiamento de tais artigos
dar em um hit parade de acesso a trabalhos es- no período 1994-2003. Os resultados mostraram
pecíficos em sites de revistas) 31,32 em rankings que dos 289 artigos investigados, o financiamen-
de artigos cujos autores foram bem sucedidos to público era o mais comum (60% dos artigos); a
nesse item. iniciativa privada era responsável por 36%. A pro-
No caso da análise dos significados dos arti- porção dos artigos mais freqüentemente citados
gos científicos, Velho 33 reforça a perspectiva de financiados pela indústria elevou-se ao longo do
artigo como mercadoria. Para ele, a cienciome- tempo e era igual à proporção daqueles financia-
tria bibliométrica propõe a atividade científica dos pelo setor público em 2001. Dos 77 ensaios
como um processo no qual certos insumos ou clínicos aleatorizados mais citados, 65 foram fi-
recursos geram determinados produtos. Medir nanciados pelo setor privado e a proporção au-
o impacto consistiria em estabelecer a relação mentou significativamente ao longo do tempo.
insumo/produto. A questão consiste em instituir Dos 32 mais citados ensaios clínicos publicados
indicadores de insumos e de produtos. É bem depois de 1999, somente 18 foram financiados
mais difícil medir os produtos, sobretudo no que pela indústria 35.
se refere aos efeitos dos conhecimentos produ- Um importante elemento neste quadro se
zidos e seus vínculos com a sociedade. Em geral, localiza no crescimento das contract research or-
esses produtos são mensurados por indicadores ganizations (CRO) – organizações não-governa-
bibliométricos que instauram nexos entre litera- mentais que se dedicam a conduzir pesquisas,
tura científica, resultados de pesquisas e reper- funcionando como “empreiteiras” contratadas
cussões internas ao campo (como a citação em pelas indústrias farmacêuticas para realizar in-
outros artigos), muitas vezes sem relação direta vestigações com menores custos e mais rapida-
(e tampouco indireta) com questões societárias e mente. Em 2000, as CRO já recebiam 60% de to-
do mundo da vida das pessoas 33. dos os recursos para pesquisa farmacêutica 36.
A imagem predominante do autor de artigos
científicos está deixando de ser a do “gênio ro-
mântico” que dedica sua inteligência e capacida- V
de de análise para propor formas de inquirir mis-
térios do mundo para benefício humano. Tam- Os pesquisadores podem ser encarados como
bém deixa de ser a de um “funileiro” que desen- agentes que adotam posturas tanto de fabri-
volve melhores formas de descrever entidades ou cantes como de consumidores de artigos que
aperfeiçoar processos já existentes. Agora, grande competem entre si para chamar a atenção em

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O ARTIGO CIENTÍFICO É UMA MERCADORIA ACADÊMICA? 3047

meio a um mar de “papers”. Em ambos os casos, pela Thompson Corporation em cujos sites po-
é preciso assinalar aspectos relativos às dificul- dem-se acessar classificações de desempenho
dades na aceitação de trabalhos em revistas mais acadêmico em termos quantitativos correspon-
prestigiadas, nas quais se pressupõe a ação de dentes a nomes, revistas, instituições e países
filtros mais estreitos na seleção de artigos – algo por campo disciplinar – por tratar de pesquisa
que pode agregar mais valor ao fato de aí serem básica, infelizmente nem saúde pública, nem
publicados. epidemiologia aparecem. Por exemplo: http://
Em geral, a grande maioria destas revistas isihighlycited.com; www.sciencewatch.com; e
publica no idioma inglês e pertence a contextos http://in-cites.com/. Em todos há classificações
em que a produção científica é mais desenvol- de variados tópicos, formatos e categorias, inclu-
vida (Comunidade Européia e Estados Unidos). sive os “trabalhos mais citados”, chamados “arti-
Como existe nesses âmbitos uma valorização de gos mais quentes” (hottest papers) da temporada,
abordagens empíricas e objetos e temas perten- como se acompanhassem o comportamento no
centes aos respectivos contextos de pesquisa em terreno dos modismos transitórios no contexto
saúde, a aceitação de artigos acaba por refletir do “consumo” usual, a ponto de merecer a mes-
tais padrões. Ou seja, existem temáticas e abor- ma metáfora relativa ao respectivo êxito.
dagens que são mais capazes de gerar interesse Conforme enuncia o site http://in-cites.
e de serem, portanto, aceitas por revistas de mais com, os objetivos explícitos desses rankings é
prestígio. o de “analisar o desempenho de empresas, ins-
No nível das revistas, sob uma perspectiva si- tituições e revistas; classificar países, revistas,
milar, há uma hierarquia de supremacia. Da mes- cientistas, instituições e empresas por campo de
ma maneira, existe um ranking dos periódicos de pesquisa; identificar tendências significativas nas
acordo com o fator de impacto – que desfruta de ciências e ciências sociais; avaliar potenciais em-
uma considerável aceitação em sua capacidade pregados, colaboradores, pareceristas [reviewers]
de descrever contabilmente o panorama de auto- e colegas [peers]; determinar produtos [outputs]
res e revistas, apesar de ser encarada por muitos de pesquisa e impacto em campos específicos de
como uma medida de quantificação criticável pesquisa” 40.
em seu fetichismo numérico ao gerar pontua- Trata-se de um instrumento de análise de ca-
ções descontextualizadas, obtidas por meio de ráter eminentemente econométrico para, sobre-
citações de seus artigos 37. Além disso, é inegá- tudo, orientar e maximizar análises de custo-efe-
vel que, mesmo com todas as precauções éticas, tividade em investimentos em pesquisa de várias
pode haver um poder editorial sendo exercido ordens e tipos sob o ponto de vista de seu retorno
nas revistas mainstream ao implicitamente de- econômico. Isto fica claro na discriminação dos
fenderem interesses às vezes justificados, mas potenciais usuários dessas informações: “policy-
eventualmente nem tanto, ao se aceitarem de- makers do governo, administradores de pesquisa
terminados artigos em detrimento de outros em de universidades ou de empresas; analistas pes-
nome da “boa ciência” 38. quisadores ou especialistas em informação no go-
Em outra escala, a competitividade é mime- verno, academia, indústria, setor de publicações,
tizada no âmbito da relação entre revistas e in- serviços financeiros e fundações de pesquisa” 40.
dexadores. Há também uma competição entre Aqui, chegamos à conhecida e inevitável pergun-
revistas que buscam manter seus respectivos ta própria à crítica dos sistemas hierárquicos de
prestígios – que pode ser dimensionado por sua controle e vigilância: e quem indexa os indexa-
capacidade de receber a chancela de indexado- dores? Pelo visto, tais instâncias exercem suas
res consagrados (em geral, anglo-saxônicos, com atividades e impelem seus padrões e difundem a
destaque para o MEDLINE e o ISI), após duras presente ideologia bibliométrica aparentemente
provas (um dos requisitos é o fator de impacto) sem maiores resistências, alimentando a cornu-
para ser aceita e preencher os requisitos para cópia de produção científica.
manter tal posição.
Em editorial, os editores da revista espanhola
Gaceta Sanitaria, ainda que declarem uma eqüi- Considerações finais
distância em sua posição entre impactofobia e
impactofilia, adotam uma posição “pragmática” Os cientistas, disseram Latour & Woolgar 41 há
quanto à importância das citações. E não têm pu- quase três décadas, são como corporações, e seu
dor para pedir citações desta revista para efeitos curriculum vitae é como um relatório de balan-
de futura indexação no Science Citation Index ço empresarial. A autoria significa capacidade de
do ISI 39. dispor de créditos em termos de capital científi-
Há instâncias especializadas em produzir co que podem ser acumulados e reinvestidos a
rankings bibliométricos que são administrados fim de sustentarem o trabalho de alguém, para

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pedidos de financiamento a novas pesquisas e/ científicas parecem às vezes fiar-se em demasia


ou para trabalhos posteriores aceitos. Os crédi- em seus sistemas de regulação e de controle, co-
tos utilizados com sabedoria são aqueles que res- mo se assim pudessem estar efetivamente afasta-
pondem efetivamente às leis de oferta e procura. das de influências de outros campos da atividade
Neste modelo, cientistas são ao mesmo tempo humana.
empregadores (empresas) e empregados: suas Apesar das dificuldades, são necessárias aná-
fontes de financiamento permanecem como po- lises contextuais dos vetores e relações de poder
der derradeiro neste mercado, sobre o qual pos- que existem quando se publicam ou quando se
suem poder limitado. Por conseguinte, o artigo fazem citações. Nesse sentido, importa desenvol-
científico é uma das formas principais de capital ver e adotar outras categorias que permitam ver
científico com poder de gerar mais capital 42. o processo de produção de artigos a partir ele-
Por mais que não haja consenso em relação a mentos para além de seus conteúdos acadêmi-
perspectivas teóricas nas proposições de estudar cos explícitos. Tais categorias deveriam permitir
a participação da academia no processo de co- a identificação de elementos que possam preen-
mercialização da pesquisa científica, há autores cher os muitos vazios dos resultados de estudos
que sugerem que tal fenômeno teria começado bibliométricos 44. Por exemplo, estudos etnográ-
em várias frentes no início da década de 1980 33, ficos das negociações que ocorrem no processo
quando aconteceu uma evidente inflexão no au- editorial de uma revista desde a chegada de um
mento da pesquisa científica, coincidentemente artigo até o destino final, seja de recusa, seja de
a ocasião em que começa o desenvolvimento de publicação.
recursos informáticos e telemáticos – o compu- A produção científica não tem somente o
tador pessoal e a Internet 43. objetivo de gerar uma estratégia eficaz do que é
Nosso ponto de vista ressalta que no âmbi- possível ser feito, mas também consiste em uma
to da publicação científica a comercialização da vigorosa produção simbólica de caráter ideológi-
pesquisa científica se manifesta pela progressiva co que não cessa de legitimar-se e motivar ações.
mercadorização do objeto “artigo científico”. Co- Vigorosa porque parece pairar acima das ideolo-
mo foi discutido antes, há uma dimensão impor- gias. Sua indiscutível eficácia instrumental pode
tante neste sentido diante das transações para mascarar o funcionamento ideológico da ciên-
entrar-se no “mercado” das comunidades cientí- cia que é também uma atividade situada social-
ficas fortes. Neste caso, quais são as negociações mente. Dessa forma, não se pode negligenciar
entre autores, editores, revisores para além de a necessidade de dimensionar e compreender a
obedecer aos “aspectos técnico-científicos” no participação da perspectiva universalizante da
juízo de um artigo, isto é, elementos extracientí- cultura científica no interior das propostas pre-
ficos e seus limites biblioéticos nas ações e con- valentes na economia atual.
cessões que pesquisadores permitem fazer para Como ocorre em muitos aspectos na produ-
publicar seus artigos e para aceitar os de outrem? ção e no consumo de mercadorias no capitalismo
Colocar como referência bibliográfica trabalhos globalizado, parece haver algo equivalentemente
publicados no mesmo periódico onde se tenta excessivo no modo de produção e consumo de
publicar? Não consultar as fontes bibliográficas artigos científicos. Necessitamos de estudos que
ao copiá-las das referências de outros autores? nos ajudem a compreender a origem, a dinâmi-
A preocupação com a detecção e o combate ca, os fluxos de poder e as respectivas redes pelas
das práticas científicas que se desviam dos tri- quais se movimentam bens, serviços, informação
lhos éticos e mediante controles para regular o e conhecimentos que definem e controlam as de-
empreendimento científico não se mostra um finições do que seja a “realidade” da ciência. Tan-
caminho suficiente para lidar com os excessos do to no sentido de distinguir aspectos benéficos e
panorama atual. As tentativas de controle correm vantajosos para amenizar o sofrimento humano,
o risco, elas mesmas, de se tornarem também ex- como de propostas que naturalizam no cotidiano
cessivas. Importa produzir chaves analíticas que acadêmico as práticas do ideário neoliberal com
permitam a compreensão dos sentidos e signi- implicações na manutenção e ampliação de seus
ficados da atividade científica nessa era prolífe- efeitos de desperdício de vidas 45 ao sustentar ini-
ra em fluxos de informação em uma economia qüidades sociais profundas.
globalizada.
Cabe divisar os contextos acadêmicos de mo-
do menos simplificador e limitado do que fazem
rankings baseados em indicadores bibliomé-
tricos. Como se eles refletissem uma atividade
“purificada” mediante suas propostas de men-
suração da produção científica. As comunidades

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O ARTIGO CIENTÍFICO É UMA MERCADORIA ACADÊMICA? 3049

Resumo Colaboradores

Discutem-se possíveis significados da intensa preocu- Ambos os autores desenvolveram conjuntamente os


pação vigente nos âmbitos acadêmicos com a idéia de conteúdos abordados. L. D. Castiel redigiu o artigo.
produtividade em pesquisa que se reflete em um exces-
so de artigos publicados em várias revistas científicas.
A contabilização numérica de artigos publicados por
investigadores em revistas científicas de reconhecido
status acadêmico serve para legitimar acadêmicos nos
seus campos de atuação de várias formas. Nesse sen-
tido, sugere-se que o artigo científico assume aspectos
de mercadoria como fetiche, segundo a teorização do
valor de uso/valor de troca de Marx e do valor de ex-
posição de Benjamin. Ao mesmo tempo, utilizam-se as
idéias biológicas de seleção/evolução como elementos
metafóricos constitutivos do “darwinismo bibliográ-
fico”. Há referências quanto à possibilidade de grande
parte das preocupações bibliométricas vigentes servi-
rem como instrumentos de análise econométrica para,
sobretudo, orientar e aperfeiçoar análises de custo-
efetividade em investimentos em pesquisa de várias
ordens e tipos sob o ponto de vista de seu retorno
econômico.

Artigo de Revista; Publicações Periódicas; Comunicação


e Divulgação Científica

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