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CLARA PIMENTA DO VALE

RICARDO FIGUEIREDO

RUI TAVARES
AVENIDA DOS
| UMA INICIATIVA | PRODUTORES | CO-FINANCIADORES | APOIO | PROMOTORES
| APOIO

ALIADOS E BAIXA
DO PORTO
MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA
| APOIO | APOIO

AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO


MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

RICARDO FIGUEIREDO
CLARA PIMENTA DO VALE
RUI TAVARES
AVENIDA DOS
ALIADOS E BAIXA
DO PORTO
MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

ABERTURA
Rui Tavares

A CENTRALIDADE DO PORTO: A PRAÇA


E A AVENIDA
Ricardo Figueiredo

A CIDADE ENTRE O PROJECTO E A


REALIDADE
Clara Pimenta do Vale
FICHA TÉCNICA
© 2013 Porto Vivo, SRU
Todos os direitos reservados. Esta obra não pode ser reproduzida, no todo ou em parte, por qualquer forma ou quaisquer meios eletrónicos,
mecânicos ou outros, incluindo fotocópia, gravação magnética ou qualquer processo de armazenamento ou sistema de recuperação de
informação, sem prévia autorização escrita do editor.

TEXTOS EDITOR
Clara Pimenta do Vale* Porto Vivo, SRU
Ricardo Figueiredo http://www.portovivosru.pt/
Rui Tavares* sru.gabinete.comunicacao@cm-porto.pt

COORDENAÇÃO EXECUTIVA ARTICULAÇÃO INSTITUCIONAL


Clara Pimenta do Vale Rui Tavares

FOTOGRAFIA PRODUÇÃO DE ELEMENTOS GRÁFICOS


Armando Bento Armando Bento
Clara Pimenta do Vale Lia Pinheiro
Lia Pinheiro Pilar Abreu e Lima
Pilar Abreu e Lima* Sofia Garcez

PESQUISA DOCUMENTAL COMPOSIÇÃO GRÁFICA E REVISÃO


Clara Pimenta do Vale Lia Pinheiro
Pilar Abreu e Lima Pilar Abreu e Lima
Sofia Garcez Sofia Garcez

LEVANTAMENTOS E TRABALHO DE CAMPO CAPAS E DESIGN GRÁFICO


Armando Bento Sofia Garcez [Design gráfico]
Clara Pimenta do Vale Clara Pimenta do Vale [Fotografia da Capa]
Lia Pinheiro Lia Pinheiro [Desenho Capa Interna]
Pilar Abreu e Lima
Sofia Garcez PORTO, 2013

* Investigadores CEAU/FAUP. ISBN 978-989-98335-1-7

| UMA INICIATIVA | PRODUTORES | CO-FINANCIADORES | APOIO | APOIO | PROMOTORES


RESUMO

Na presente publicação propõe-se um conjunto de percursos no espaço e no tempo,


que se estabelecem entre o que existe e permanece, e o que foi apenas intenção ou plano.
Estrutura-se a mesma em duas grandes partes que correspondem de certa forma a escalas
distintas, antecedidas por um texto de abertura.

Na primeira parte, intitulada A CENTRALIDADE DO PORTO: A PRAÇA E A AVENIDA,


analisa-se e apresenta-se, num primeiro momento, o processo histórico de conformação
da Praça da Liberdade, enquanto primeiro esforço da definição de uma nova centralidade
urbana, fundada em pressupostos de ‘modernidade’ e, num segundo momento, a refundação
urbana determinada pela definição de um novo centro cívico, com a implementação, ainda
que parcial, do plano de Barry Parker que moldou o carácter da zona central da cidade do
Porto - a abertura da actual Avenida dos Aliados e que foi inicial e justamente designada
por Avenida da Cidade e de um conjunto de arruamentos complementares. Esta primeira
parte divide-se em diversos ‘Tempos’ que correspondem a épocas com características
distintas, dando-se uma maior atenção às épocas mais recentes, pelo maior contributo
para a cidade como a conhecemos.

Para a segunda parte, que designamos por A CIDADE ENTRE O PROJECTO E A


REALIDADE, remete-se um estudo mais centrado nos processos específicos de licenciamento
e construção do edificado corrente, numa análise que tenta perceber os graus de distância
que vão do plano, plano urbano ou projecto arquitectónico, à realidade. Esta parte divide-
se em capítulos que correspondem, de certo modo, ao faseamento da construção do novo
centro cívico, num processo que cruza uma leitura cronológica com uma leitura espacial.
Não sendo uma análise exaustiva, identificam-se e analisam-se a quase totalidade dos
edifícios que ao longo de quase já um século conformaram aquela que é a grande sala de
visitas da cidade do Porto, a Avenida dos Aliados.
APOIOS

A presente publicação é uma ação integrada na componente de Publicidade da


operação “1ª Avenida – Dinamização económica e social da Baixa do Porto”, a qual é
cofinanciada pelo Programa Operacional Temático Valorização do Território (POVT),
integrado no Quadro de Referência Estratégico Nacional 2007-2013. A operação 1ª
Avenida resulta de uma candidatura ao domínio de intervenção “Ações Inovadoras
para o Desenvolvimento Urbano”, enquadrado no “Eixo Prioritário V – Infraestruturas e
Equipamentos para a Valorização Territorial e o Desenvolvimento Urbano.”

INFORMAÇÃO INSTITUCIONAL

A coordenação da operação “1ª Avenida – Dinamização económica e social da Baixa


do Porto” é da responsabilidade da Porto Vivo, SRU, na sua qualidade de Beneficiário,
em parceria com a Porto Lazer, EEM e a Metro do Porto, SA, conforme estabelecido em
Protocolo de Parceria.

A presente publicação foi desenvolvida pela Universidade do Porto, com o


acompanhamento e coordenação editorial da Porto Vivo, SRU.

A operação “1ª Avenida – Dinamização económica e social da Baixa do Porto” possui


como objetivos gerais:
- Captar atividades, projetos, iniciativas e investimento privado e público tendo em
vista a ocupação de espaços vazios ou subutilizados na área de intervenção;
- Privilegiar a acessibilidade através dos transportes públicos urbanos e a utilização
pedonal da área central;
- Implementar metodologias de ações e reforço da cidadania e do sentido de pertença
dos cidadãos.
E como objetivos específicos:
- Relançar a Baixa como destino de compras e de serviços altamente especializados;
- Captar investimento privado para a renovação das atividades comerciais e melhoria
qualitativa do sector de serviços;
- Estimular a substituição das atividades obsoletas e/ou sem qualidade;
- Dinamizar o espaço público e criar um ambiente urbano dinâmico, seguro e de boa
qualidade ambiental;
- Envolver os cidadãos no desenvolvimento de soluções criativas e inovadoras,
adequadas às expectativas e interesses sobre a cidade, envolvendo-os ativamente no
processo de decisão e transformação;
- Estabelecer a Gestão de Área Urbana, e a sua continuidade para além do horizonte
temporal do programa;
- Lançar e enraizar parcerias entre agentes públicos e privados;
- Promover o associativismo dos atores;
- Envolver ativamente a população no processo de transformação.

Neste sentido, foram desenvolvidas quatro grandes ações que se prendem com a
criação do Gabinete de Gestão de Área Urbana dos Aliados, a Linha da Participação e a Linha
da Interatividade enquanto motores de inúmeras atividades culturais que dinamizaram
a área de intervenção, de forma a envolver toda a comunidade, para além ainda da ação
referente à Publicação de Documentos de caracterização da singularidade da arquitetura
e do espaço público e sobre a evolução do tecido económico e social na zona dos Aliados.

Para mais informação, poderá ser consultada a página eletrónica da operação, em


www.portovivosru.pt/1avenida/.
LISTA DE SIGLAS E ACRÓNIMOS

AGCMP Arquivo Geral da Câmara Municipal FAUP Faculdade de Arquitectura da


do Porto Universidade do Porto
AHMP Arquivo Histórico e Municipal do FEUP Faculdade de Engenharia da
Porto Universidade do Porto
AMP Área Metropolitana do Porto FIMS Fundação Instituto Marques da Silva
APDL Administração dos Portos do Douro e FLUP Faculdade de Letras da Universidade
Leixões do Porto
ARF Arquivo Ricardo Figueiredo GPU Gabinete de Planeamento Urbanístico
ART Arquivo Rui Tavares IC Itinerário Complementar
BN Biblioteca Nacional de Portugal IP Itinerário Principal
CEAU Centro de Estudos de Arquitectura e MG Montepio Geral
Urbanismo MNSR Museu Nacional Soares dos Reis
CEE Comunidade Económica Europeia POVT Programa Operacional Temático
CODA Concurso para a obtenção do diploma Valorização do Território
de arquitecto SAAL Serviço Ambulatório de Apoio Local
CGD Caixa Geral de Depósitos SMGE Serviços Municipais de Gás e
CIP Conjunto de Interesse Público Electricidade
CMP Câmara Municipal do Porto SRU Sociedade de Renovação Urbana
COS Coeficiente de Ocupação do Solo UNESCO United Nations Educational, Scientific
CRUARB Comissariado para a Renovação and Cultural Organization
Urbana da Área de Ribeira/Barredo VCI Via de Cintura Interna
EBAP Escola de Belas Artes do Porto
ESBAP Escola Superior de Belas Artes do
Porto

NOTAS

Todas as imagens são propriedade dos seus autores e não podem ser usados fora do âmbito da presente
publicação sem expressa autorização dos mesmos.
Os créditos das imagens são colocados conjuntamente com as legendas. Todas as imagens não
explicitamente creditadas são da responsabilidade dos autores da publicação.
Neste texto ainda é adoptada a forma de escrita pré-acordo ortográfico de 1990 e que entrou em vigor em
Portugal em 13 de Maio 2009.
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

ABERTURA 17

A CENTRALIDADE DO PORTO: A PRAÇA E A AVENIDA 24 A CIDADE ENTRE O PROJECTO E A REALIDADE 204

A PRAÇA
TEMPOS DE FORMAÇÃO 31 A AVENIDA DA CIDADE. DO PLANO À PRÁTICA 207
TEMPOS DAS NAVEGAÇÕES E DE CRESCIMENTO DA CIDADE 35 EDIFICAÇÃO E CONSOLIDAÇÃO DO NOVO CENTRO CÍVICO 225
TEMPOS BARROCOS 41 O INÍCIO DO PROCESSO DE REFUNDAÇÃO URBANA 235
TEMPOS DOS ALMADAS 45 A ABERTURA DO EIXO ALIADOS 249
TEMPOS LIBERAIS 55 A PROCURA DE UMA IMAGEM REPRESENTATIVA
TEMPOS BURGUESES 75 O PERÍODO ENTRE GUERRAS 301
O ALINHAMENTO PASSOS MANUEL E O SEGUNDO TRAMO DA AVENIDA
A AVENIDA A CONCLUSÃO DA FRENTE URBANA 349
TEMPOS REPUBLICANOS 95
A SIMPLIFICAÇÃO DA IMAGEM
TEMPOS DE CONSOLIDAÇÃO E DE PLANEAMENTO 125
TEMPOS DE APOGEU DO CENTRO DO PORTO 151
TEMPOS DE INCERTEZA 167
TEMPOS DE LIBERDADE 179 NOTAS BIOGRÁFICAS 373
TEMPOS EUROPEUS 185 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS E CRÉDITOS DAS IMAGENS 389
TEMPOS DE UM NOVO MILÉNIO 191

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AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

ABERTURA
Rui Tavares

O Centro entre centros – um alinhamento histórico

As cidades são o que sempre foram – ao início do século XV; em oposição de gentes
unidades físicas de concentração e diversidade, e de poder, estabeleceu-se na zona ribeirinha,
entre gentes e actividades. Todas se nos baixos do morro, um centro de actividades
reconhecem, na sua articulação com o território ligadas ao movimento de mercadorias e ao
e na sua estruturação arquitectónica intrínseca, seu armazenamento, que vem a culminar com
pelo valor identitário que se imprime ao seu a construção da alfândega por iniciativa régia
centro. Quer se trate de uma unidade urbana que, sobre essa zona, repartia a autoridade
única, quer se trate de uma unidade duplicada, eclesiástica.
ou até mais vezes singularizada, o que é um
Essa dualidade tinha uma expressão
facto é que a cidade sempre se referenciou e
arquitectónica nos dois edifícios que se
referenciará ao(s) seu(s) centro(s).
associavam às respectivas iniciativas de
A cidade do Porto, em mais de mil anos de poder, que se identificavam como emblemas
permanência urbana, é um exemplo histórico funcionais dessa centralidade repartida entre a
das cidades que sempre o foram e constitui uma zona alta e a zona baixa, deixando claro, pelo seu
cidade que se singulariza pela sua dualidade material pétreo e pela sua estrutura torreada,
central, desde a sua fundação. Entre o poder e a que pertenciam a iniciativas excepcionais – a Sé
economia, na sua relação com o território e, em Catedral ao bispo e a Alfândega ao rei.
particular, com os movimentos e actividades
Assim foi até ao século XV, quando
proporcionadas pelo Rio Douro, na cidade do
se transfere, por negociação, a autoridade
Porto sempre se configuraram duas unidades
da cidade para a coroa e se promove o acto
centrais: no cimo do morro da Pena Ventosa,
que pretendia refundar a cidade, unindo as
debruçado sobre o rio e de onde se podia
autoridades numa só e afirmando a supremacia
vigiar toda a sua actividade, foi estabelecido o
do referencial do morro sobre toda a cidade
poder eclesiástico que governou a cidade até

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AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

– junto à Sé, construiu-se a primeira casa urbana por oposição a uma ruralidade que seria pode rever em dois actos - na nova câmara foi Na entrada do século XX, o centro da
de governo municipal em edifício próprio mais memorável do que real. A estruturação de colocada, em 1819, no tímpano da fachada, uma cidade tinha a configuração arquitectónica
(reconstruído em projecto de Fernando um bairro novo, e que vem a ter o designativo imagem escultórica (a estátua ‘O Porto’) que se de uma pequena praça de feição neoclássica,
Távora), simbolizando assim a ‘conquista do de Bairro do Laranjal, é ainda esse sinal de associa à cidade do Porto e à sua independência, monumentalizada, mas já enquadrada pela
poder’ civil e municipal. urbanização de uma zona rural e é, sobretudo, e, na memória das guerras liberais dos anos 30 edificação ‘Beaux-Arts’ da estação de S.
a consolidação de uma cidade nova, regular e do século XIX, foi erigida a estátua equestre de Bento que se impunha como a imagem mais
Essa articulação interna do espaço
normalizada, que se pode rever no exemplo da D. Pedro IV, em 1866, que monumentalizou o apropriada para uma monumentalidade
urbano, demarcado pela muralha fernandina
Rua do Almada. Constituirá uma iniciativa civil espaço e o referenciou, até aos nossos dias, associada aos centros cívicos europeus. Por
do século XIV, só sofrerá alterações quando
e de ordem pública excepcional, que se vem a como o centro monumental da cidade do outro lado, e tendo em conta a mudança
se reconfigura uma ampliação do centro baixo
repetir quando, no mesmo espaço, se abre a Porto. É também no século XIX que se dá uma operada na estruturação funcional da cidade
para o Largo de S. Domingos, já nos séculos
Avenida dos Aliados por iniciativa do governo das mais significativas alterações de escala, pelas mudanças oitocentistas, o centro da
XVI/XVII, provocada pela importância que o
municipal Republicano, a partir de 1915. função e configuração arquitectónica nesse cidade era apenas mais um numa rede de
eixo da Rua das Flores/Rua de Belmonte vem
espaço, quando se transforma o muro norte novos centros que aproveitaram a estrutura
a ter na articulação entre a Porta de Carros e Para essa nova centralidade na zona
da muralha fernandina na fachada neoclássica polinucleada original da cidade, sobretudo
a Porta Nova, precisamente as duas portas de alta, consubstanciada na estrutura física
dos antigos Lóios conventuais e, do mesmo os centros associados aos transportes como
maior importância no movimento entre o rio e da Praça Nova das Hortas, contribuirá uma
modo, se transforma o muro e o edifício do a Boavista e Campanhã, havendo assim que o
a zona alta. sucessão de acontecimentos no século XIX
convento de S. Bento da Ave Maria na estação distinguir dos demais.
que transformam esse espaço num referencial
É nessa abertura para a zona alta, que central dos transportes ferroviários do norte e
simbólico do poder e da civilidade da vida Essa distinção passava por associar
a Porta de Carros proporciona e centraliza centro/sul do país, a estação de S. Bento (1896-
urbana, bem como no ‘portal físico’ para todas uma supremacia funcional ligada às ‘novas
no eixo de alinhamento do rio com o norte do 1900), apenas inaugurada em 1915. Para
as comunicações humanas com o país e com o e evoluídas’ sectorizações de comércio, de
território, que vai configurar-se, no século XVIII, além destas alterações físicas, é também neste
mundo. A mais importante de todas, pelo seu serviços, financeiras e de restauração, a uma
uma nova zona urbana. Fora de muros, e em espaço urbano que o século XIX se torna mais
valor simbólico, foi a transformação de um dos nova imagem para um novo poder municipal
abertura visual do morro para norte, essa zona expressivo das transformações na vivência e
palácios particulares da face norte da praça Republicano e a uma nova espacialidade
vem a constituir a nova centralidade urbana no enquadramento urbano do movimento de
em sede do governo municipal. Essa mudança urbana que fosse, sobretudo, prestigiante
e, em designação, a segunda praça da cidade transportes e comunicações, com a instalação
alterou o significado residencial do espaço e e emblemática dos novos rumos políticos
depois da Praça da Ribeira – a Praça Nova das dos telégrafos e com a centralidade da rede de
abriu a fase de requalificação pública que se que o governo municipal da cidade traçava
Hortas, memorizando ainda a sua emergência circulação dos transportes urbanos.

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AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

Os graus de construção da memória – do sítio ao lugar

em consonância com os melhores exemplos ambições do governo municipal já que a imagem A construção do Centro haveria de O sítio, como base material para a
das cidades capitais europeias. Essa foi, sem escolhida foi uma arquitectura inspirada na contribuir para uma visibilidade material da ocupação, é o que se pode designar como ‘grau
dúvida, uma das razões para a chamada de imagem neoclássica, presente nas arquitecturas memória urbana com uma carga histórica zero’, e constitui-se como um extenso vale, que
um arquitecto estrangeiro, com uma carreira do Porto e nos modelos britânicos. susceptível de ser classificada em sucessivos se prolonga para norte, definido pelo morro de
já confirmada no que era entendido como ‘a graus. Nesta construção histórica, em que o Clérigos/Cordoaria, a poente, e pelo morro da
As condições para aplicar o plano, em
moderna arte de projectar as cidades’, um dos sítio se transforma num lugar de memória de Batalha/Santa Catarina, a nascente. Nesse vale
‘obra pública’, foram criadas em 1917 e, em
nomes mais importantes no ‘town-planning’ actos humanos materializados, identificam-se correm duas linhas de água de nascente natural,
1920, foi lançada a primeira pedra do novo
britânico – o arquitecto Barry Parker. diversas ‘ordens de natureza’ desses mesmos que viriam a formar o Rio da Vila, afluente do
edifício dos Paços Municipais, depois de
actos que nos ajudam a entender as decisões Douro, unidos na Praça de Almeida Garrett,
Na proposta desenvolvida por Barry um concurso público ganho pelo arquitecto
de criar, manter ou anular as existências mesmo em frente à Estação de São Bento. Uma
Parker, a partir de 1915, que resultaria de Correia da Silva, precisamente 100 anos após
materiais que conformam essa construção. Na das nascentes situa-se na Praça do Marquês
uma evolução após reuniões com arquitectos a instalação da câmara no palácio particular da
consolidação material da memória, os ‘diversos de Pombal, descendo pela Quinta do Laranjal
e outros técnicos portuenses, onde veio a Praça Nova, inaugurando assim a permanente
graus’ constituem-se como cargas históricas (actual Avenida dos Aliados), fundindo-se
ser muito discutida e, até, reformulada pelo afirmação deste espaço como o Centro dos
funcionais que significaram as sucessivas com o segundo fluente, que nasce na Fontinha
gabinete municipal estavam projectos globais centros da cidade do Porto.
fundações e refundações do lugar. e que desce pela zona do actual Mercado do
de desenho urbano e arquitectónico de todas
Em quarenta anos de obra pública e Bolhão. Esse vale, entre os dois morros, tem
as edificações do conjunto central, tanto para A aplicação do plano para o Centro é
particular, o Centro monumental da cidade do duas pequenas plataformas de estabilidade no
os novos Paços Municipais como para todos um dos actos que viabiliza a materialização
Porto inscreve na memória urbana uma fase seu alinhamento a norte e são os espaços onde
os edifícios que se destinavam aos novos construtiva, que se integra num dos graus de
de refundação que se reconhece numa nova se construíram as duas praças: a Praça Nova
programas comerciais [pg. 211] [pg. 215]. Cumpria construção, ao mesmo tempo que contribui
ordenação da estrutura das circulações e dos (actual da Liberdade) e a Praça da Trindade.
o objectivo enunciado que era, sobretudo, para uma anulação de outras existências
acessos ao Centro e, sobretudo, se deixa ver Entre uma e outra, correspondente ao primeiro
criar um novo ‘Centro Cívico’ muito amplo materiais, pertencentes a outro grau, e não
numa renovada arquitectura internacional, troço desse vale, se viria a colocar o programa
na sua configuração urbana, salubrizando mais visíveis como existências urbanas. A
entre o ‘Beaux-Arts’ e o modernismo europeu. do novo ‘Centro Cívico’, dando origem à Avenida
e modernizando a estrutura e a imagem da destruição completa da Praça Nova e do Bairro
dos Aliados.
cidade, mas, foi precisamente neste aspecto do Laranjal são as consequências materiais
que o plano de Parker não se identificou com as dessa construção da memória por redução.

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AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

Nesse sítio, e correspondendo à primeira longo do século XIX: a alteração da fachada (Teatro Rivoli) e financeiro (Palácio Atlântico),
marcação do lugar, se viria a construir a Praça norte do núcleo conventual dos Lóios e a como é a Praça de D. João I. A composição desta
Nova das Hortas, sendo o que se pode designar de configuração neoclássica e civil do alçado sul praça abre-se aos anos cinquenta do século XX
‘grau um’ pois a carga funcional que se introduz da Praça Nova, a monumentalização da praça como um dos pólos de circulação automóvel do
é a residencial e religiosa. Entre os séculos XVII com a estátua equestre de D. Pedro IV e a sua novo Centro da cidade. Esse ciclo, dominado
e XVIII, são construídos os palácios residenciais nomeação de Praça D. Pedro e posterior da pelo automóvel, só foi ultrapassado pela
que conformam o alçado norte e poente da Praça Liberdade, bem como a apropriação civil do recente alteração de todo o espaço central no
Nova, o núcleo conventual dos Congregados que convento de Ave Maria para a construção da projecto que foi realizado no enquadramento
conforma o alçado poente, bem como o Bairro estação central de S. Bento. das iniciativas do ‘Porto Capital Europeia da
do Laranjal na estruturação de todo o espaço Cultura’, em 2001, e desenvolvido por Álvaro
Os acontecimentos decorrentes da carga
a desenvolver-se para norte da Praça Nova. É Siza, que impõe uma urbanidade dominada
institucional atribuída ao lugar vão ser a base
nesse intervalo de tempo histórico da memória pelo uso humano que, sobretudo em actos de
para propor a sua reconfiguração, planeando
urbana que se vão construir as unidades grande frequência, se ajusta plenamente ao
a reconstrução de todo o espaço para uma
religiosas que se enquadram em estruturação sentido do Centro urbano monumental, cívico e
renovação da estrutura e imagem do Centro
cruciforme com o lugar: as igrejas dos Clérigos institucional representativo da cidade do Porto.
da cidade, sendo o que se pode designar de
e de Santo Ildefonso, respectivamente a poente
‘grau três’. A manutenção da carga institucional
e a nascente, contrapostas à igreja da Trindade,
foi reforçada pela introdução de uma imagem
a norte.
alinhada pelos padrões europeus dos novos
A instalação do governo municipal num centros urbanos que se pretendeu introduzir na
dos palácios da Praça Nova, introduz uma própria construção privada, correspondendo,
alteração funcional que corresponde a uma assim, a uma verdadeira acção de refundação
carga institucional que altera, em definitivo, a urbana. As alterações foram extensivas a
natureza do lugar, sendo o que se pode designar espaços adjacentes à Avenida dos Aliados,
como o ‘grau dois’. Essa carga institucional criando uma nova unidade urbana que
é a alteração que justificará todos os actos recompõe o lugar em espaço central público
históricos seguintes que se desenvolvem ao de permanência e fixação de funções de lazer

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A CENTRALIDADE
DO PORTO: A PRAÇA
E A AVENIDA
Ricardo Figueiredo
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

A CENTRALIDADE DO PORTO:
A PRAÇA E A AVENIDA

O espaço central do Porto na Praça da Por isso o centro do Porto está associado
Liberdade, só verdadeiramente se inicia em a dois momentos fortes do poder municipal:
1819, com a instalação da Câmara Municipal na no início do século XIX com a revolução liberal
casa Monteiro Moreira na então Praça Nova. na conformação da Praça da Liberdade e cem
anos mais tarde na implantação da República
A praça sujeita a transformações,
com a abertura da Avenida dos Aliados. Dois
demolições, reconstruções, planos e projectos,
momentos em que os portuenses conseguiram
um século depois é prolongada pela Avenida
decidir o destino da sua cidade e da sua Praça
dos Aliados, alargando este espaço de liberdade,
como símbolo de liberdade e do seu município.
como centralidade do Porto.
Este texto estrutura-se em duas partes: A
Durante quase dois séculos, foi aqui que
Praça e A Avenida, que por sua vez são divididas
tiveram lugar os principais acontecimentos que
em Tempos, correspondentes a uma evolução
marcaram a vida urbana do Porto. Aqui houve
cronológica.
pronunciamentos e proclamações, aqui houve
realizações e comemorações, manifestações e Na primeira parte, A Praça, refere-se
paradas militares, aqui houve feiras e festas, brevemente à evolução do centro do Porto,
recepções e procissões. desde o seu início na Sé, até à sua fixação no
Convento de S. Domingos. De seguida, aborda-se
Mas aqui houve também, revoltas e
a génese da Praça da Liberdade, com a abertura
motins, combates e repressões, crimes e
da Rua das Flores. Finalmente descreve-se a
enforcamentos. Daqui partiram revoluções,
consolidação da Praça como centro do Porto, ao
e aqui se geraram movimentos políticos e
longo do século XIX.
culturais, que transformaram o Porto e o país,
e que tornaram a praça numa autêntica praça Na segunda parte, A Avenida, refere‑se
da Liberdade. à ideia e à concretização de um plano para
a Avenida dos Aliados, a sua consolidação,
Acontecimentos que permanecem na
edificação e as transformações das zonas
memória de qualquer portuense ou qualquer
envolventes, ao longo do século passado.
visitante da cidade.
Finalmente, descrevem-se as intervenções do
século XXI, que conduziram à situação actual do
centro tradicional do Porto.

27
A PRAÇA

“Esta parte do Porto pode chamar-se realmente bella, muito mais bella que o Chiado: na
verdade, não conheço nada em Lisboa n’este estylo que a possa igualar. Se tomarmos a
Praça Nova por um valle como foi antigamente, e as duas ruas que se levantam em frente
uma da outra, cada uma com a sua eminência coroada por uma bonita e antiga igreja,
teremos assim um quadro muito attractivo que nos encanta pela surpresa.”
Lady Jackson
MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

TEMPOS DE FORMAÇÃO

“As suas ruas saõ primorosamente lageadas, especialmente a Rua Nova, e a Rua das Flores;
a primeira das quaes he fabrica delRey D. Joaõ I. e a outra delRey D. Manoel.”

D. Luiz Caetano de Lima

A Praça da Liberdade e a Avenida A Sé foi o primeiro espaço do poder e


dos Aliados ocupam um vale entre as duas de centralidade na cidade, de onde o Bispo
colinas da Sé e da Vitória onde corre o Rio de dominava quer o burgo no interior da primeira
Vila, um ribeiro que corre para o Douro. Esta muralha, quer a cidade baixa e portuária.
conformação orográfica e hidrográfica do sítio
Contra este poder, a partir dos finais do
teve influência na génese e na evolução urbana
século XII, lutou o povo do Porto apoiado nas
da cidade, não só do ponto de vista físico, mas
ordens mendicantes e tendo por trás o monarca,
ainda do ponto de vista do poder político e
interessado em afirmar o seu poder político e
económico.
económico sobre todo o território e sobre todos
O Rio de Vila, que teve particular os seus súbditos [2].
influência na origem e formação da actual Praça
Neste conflito que se estende até ao
e Avenida, foi parcialmente encanado com a
século XV, o Largo e o Convento de S. Domingos
abertura da Rua das Flores em 1521 e quando
tornaram-se o espaço da afirmação do poder
se constrói a Rua de S. João, em 1763, ligando a
civil contra o poder episcopal. Apesar da
Praça da Ribeira com o Largo de S. Domingos. O
construção em 1518 junto à Sé da Casa da
rio foi totalmente coberto apenas na década de
Câmara, foi no alpendre do Convento de
1870 quando foi aberta a Rua de Mouzinho da
S.  Domingos que se realizaram, até ao século
Silveira [1].
Jorge Colaço. Painel de Azulejo da Estação de S. Bento. (BENTO, 2013)

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AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

[1] - Orografia da área central do Porto, com indicação da [2] - Os núcleos originais da cidade do Porto, com indicação
localização da 1ª AVENIDA. Adaptado a partir de (CMP, 1962). da localização da 1ª AVENIDA. Adaptado a partir de (AZEVEDO,
1960).

XIX, as mais importantes reuniões e onde se vizinhas do Olival a poente, ou da Porta de Cimo
tomaram as principais decisões sobre a gestão de Vila a nascente, ela é a primeira construção
da cidade. Em 1913, Firmino Pereira em O que irá conduzir à futura praça central [4].
Porto d’outros tempos aponta: “Foi no alpendre
No reinado de D. João I, e com o
de S. Domingos que funcionou a primeira Bolsa
incremento das actividades portuárias e
que houve no Porto; que se reuniram os homes [3] - A Rua Nova nos Tempos Medievais. (AFONSO, 2000)
comerciais, procede-se a partir de 1395 à
boos para aclamar D. João I; e que o senado
abertura, segundo ordenações reais e precisas,
da Camará decidiu mandar sair da cidade o
da Rua Nova, Fermosa lhe chamou o próprio
orgulhoso fidalgo Ruy Pereira, senhor da Terra Legenda:
rei, de traçado retilíneo e paralela ao Douro,
de Santa Maria, que ousara demorar-se no Porto
entre o Convento de S. Francisco e o Rio de Vila 1 Convento de S. Francisco
mais tempo do que era permitido pelos decretos 2 Rua Nova
e englobando o Armazém e Alfândega Régia [3].
reaes”. 3 Chafariz e boticas
4 Botica das judias
D. João I ao criar a rua institui também 5 Rua das Cangostas
A disputa entre a Coroa e o Bispado 6 Casa do Arco Grande
uma feira franca, realizada no 1º dia de cada 7 Viela e Rossio do Forno Real
sobre o controlo marítimo e fluvial, leva o Rei 8 Torre de Estevão Lourenço
mês, no sentido de dinamizar o comércio das
a promover, em 1325, a construção de um 9 Torre de João Martins Ferreira
mercadorias que chegavam e partiam da cidade. 10 Rua dos Mercadores
armazém destinado à Alfândega e a ordenar a 11 Casa de Fernão Luis
Assim a Rua Nova com a vizinha Praça da 12 Casa dos Caminhas
construção de uma ampla muralha rodeando o
Ribeira, foram-se tornando o centro económico 13 Torre estalagem de Diogo Bustamante
burgo, que para além da sua natureza defensiva 14 Praça da Ribeira
da cidade, o lugar privilegiado das actividades 15 Casa da Moeda
pretendia delimitar um território controlando 16 Alfândega
económicas, de encontro dos comerciantes
nas suas portas, as entradas e saídas de pessoas 17 Casa dos Contos
ligados ao porto e às actividades portuárias. 18 Rossio do Cais
e mercadorias. 19 Paço dos Tabeliães e Casa de Ver-do-Peso
20 Casa de Rui Pereira (queimada)
No século XIX esta centralidade económica 21 Igreja de S. Nicolau
Embora a Porta dos Carros, por onde se
e comercial irá ocupar o Palácio da Bolsa, dando 22 Rua da Reboleira
acedia ao caminho para Guimarães, não tivesse 23 Torre de Álvaro Gonçalves da Maia [4] - A muralha da cidade e a Porta dos Carros, com indicação da
outro significado à Praça do Infante. 24 Postigo de Álvaro Gonçalves localização da 1ª AVENIDA.
a importância nem o movimento das Portas

33
MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

TEMPOS DAS NAVEGAÇÕES E


DE CRESCIMENTO DA CIDADE

“Esta Cidade, he situada junto cõ o Rio, a que chamam Douro, na qual se fazem
muitas, & boas naos, & outros navios mais que em outro lugar, que no Reyno aja.”

Fernão Lopes, Crónica de D. João I

Os Descobrimentos, e o consequente A Rua das Flores foi de importância


aumento da construção naval e das actividades decisiva para a génese da praça central já que,
portuárias, determinaram a transformação da ligando o Largo e o Convento de S. Domingos
cidade medieval. ao, então fundado, Convento de S. Bento de
Avé-Maria (1518) e a uma renovada Porta
No reinado de D. Manuel I, a cidade
dos Carros, deu ao lugar nova importância na
adquiriu nova importância, estendeu-se para
saída para a estrada de Guimarães (Rua do
a Foz do Douro, foram criados elementos
Bonjardim).
para facilitar a navegabilidade do rio e foi
reorganizada a cidade intramuros. Neste rossio ou campo do lado exterior
à muralha, situado junto à Porta dos Carros
Esta reorganização intramuros, assentou
onde se cobravam portagens, formou-se um
fundamentalmente na criação entre 1521
mercado, que completava o mercado junto ao
e 1525, de uma via constituída pelas Ruas
convento de S. Bento de Avé-Maria no interior
de Belmonte e (Santa Catarina) das Flores,
da muralha.
estruturando a malha viária da cidade e
permitindo uma mais fácil comunicação entre Um outro facto importante na génese da
a zona ribeirinha e portuária e as saídas da praça foi, em 1592, a aprovação da reedificação
cidade [5]. de uma nova igreja, dormitório e oficinas no
Detalhe de Eduardo Gomes e Álvaro Rocha, Estaleiros de
Miragaia,1956. Ó óleo s/madeira 304,5 x 364,5 cm. (AHMP)

35
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

[6] - Planta da Praça Nova de 1790, por D. José de Champalimaud de Nussane (Fonte: goo.gl/fr7gMB)

a - Convento dos Lóios c - Convento dos Congregados e - Postigo de Santo Elói


b - Convento de S. Bento de Avé-Maria d - Porta dos Carros f - Fonte da Arca ou da Natividade

[5] - A Rua Nova e o Eixo da Rua de Belmonte


a- Largo de São João Novo. b- Largo de S. Domingos. c- Rua das Flores. d- Porta dos Carros

Convento dos Cónegos de Santo Elói (os Lóios) Convento das Carmelitas (1619), a que seguem
instalado um pouco mais para poente no já no período da Restauração, a Igreja de Nossa
interior da muralha, junto ao postigo de Santo Senhora da Graça e o Colégio dos Órfãos (1651), f
Elói. As obras iniciam-se no ano seguinte com e a Igreja de S. José das Taipas (1666). e
a colocação da 1ª pedra da Capela-Mor em 6 de c
Com a Restauração, sendo a principal
Novembro de 1593.
preocupação a navegação e a defesa da costa
Numa planta desenhada posteriormente, marítima, criou-se um sistema de defesa do
em 1790, por D. José Champalimaud de Nussane, Porto constituído pelo Castelo de S. João da
d
são cartografados os dois edifícios monásticos Foz, remodelado entre 1642 e 1653, o Forte de
dentro da muralha fernandina, no lanço entre Nossa Senhora das Neves de Leça, em 1638 e o
a b
a Porta dos Carros e o Postigo de Santo Elói [6]. Castelo de S. Francisco Xavier (conhecido como
Castelo do Queijo), em 1661.
No tempo dos Filipes e da Restauração,
o investimento urbano situar-se-á sobretudo Na área que nos ocupa são determinantes
no Campo do Olival (Cordoaria), com a criação duas construções realizadas nos finais do século
da Alameda (1613) e a construção do primeiro XVII, e que realizadas no exterior da muralha
edifício da Cadeia e Tribunal da Relação iniciaram a conformação do Campo das Hortas:
(1582), do Convento de S. Bento da Vitória, e do o Convento dos Congregados e a Fonte da Arca.

37
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

[8] - Joaquim Cardoso Villanova “Egreja dos


Congregados”, Praça da Liberdade, 1833
(VILLANOVA, 1833)

[9] - Gravura do século XVIII, representando


a rua que dava à Porta dos Carros e edifícios
circundantes, tais como os extintos conventos dos
[7] - Planta da Fonte da Natividade Lóios e de S. Bento de Avé-Maria e a Igreja dos
publicada na Borboleta Constitucional Congregados, fora de portas.
1822. (DIAS & MARQUES, 2002) (Fonte: goo.gl/j1Xhng) [8]

A Fonte da Arca, aproveitando a presença A Congregação de S. Filipe de Nery dos


do Rio de Vila, é construída em 1608, segundo padres da Congregação Oratório, fundada em
um desenho do padre Pantaleão da Rocha 1666, e até então instalada na Igreja de Nossa
de Magalhães. Reconstruída entre 1679 e Senhora da Graça, na Cordoaria, em Julho de
1682, a fonte, implantada a sul do Campo das 1670 muda-se para a Igreja de Santo António
Hortas, contribuiu para o início, ainda que da Porta dos Carros. A igreja foi construída
orgânico da formação da praça [7]. Segundo sobre uma capela já ali existente desde 1657,
os manuscritos da época, a fonte tinha uma e por volta de 1680 iniciou-se a construção do
forma trapezoidal e constituía um verdadeiro convento anexo à capela. Em 1694 foi decidido
edifício, com três andares voltados a sul. No construir uma igreja mais ampla, a actual, que
primeiro tinha quatro carrancas de granito de ficou concluída em 1703 [8][9].
onde corria a água para um tanque a que se
acedia por escadas. No segundo, uma placa de
mármore com uma inscrição. Num nicho de
pedra terá sido colocada a estátua de Nossa
Senhora da Natividade. A fonte era rematada
por um frontão curvo. Em torno da fonte foram-
se construindo pequenas lojas ao longo de
corredores que tornavam a fonte, um local de
grande actividade, dinamizando o Campo das
Hortas.
[9]

39
MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

TEMPOS BARROCOS

“…Para a minha alma eu queria uma torre como esta,


Assim alta,
Assim de névoa acompanhando o rio”.
Jorge de Sena, Metamorfoses

O território do Porto está estruturado O Barroco e principalmente o Tardo


em torno do núcleo central da cidade rodeada Barroco do século XVIII, é uma arte teatral.
pela muralha, de cujas portas partem as vias Segundo Calderón de La Barca “a vida é uma
de ligação com os lugares e cidades a norte ilusão”, e a cidade é o palco dessa representação.
e a leste, vias essas cujas margens se vão Por isso a arte barroca está associada à cidade,
progressivamente edificando. ao urbanismo e à composição dos espaços
urbanos. O espaço público barroco consolida-
Os lugares e povoações na periferia da
se como espaço teatral e as praças organizam-
cidade vão-se consolidando em torno das suas
se com três elementos principais: a Igreja (ou o
igrejas, que se renovam ou constroem e que se
convento), a Fonte Monumental e o Palácio (ou
tornarão as paróquias e freguesias do Porto,
Casa Nobre).
quando mais tarde, a cidade aumenta os seus
limites administrativos. Neste sentido, nos finais do século XVII,
surgem dois grandiosos projectos para a
Este território periurbano era ainda
construção de uma praça regular e totalmente
ocupado por quintas, vastas propriedades
planificada, projectos esses não concretizados.
pertencentes à aristocracia, nobres e
dignatários da Igreja, que nelas construíram os Um primeiro projecto, de 1687, situava-se
seus palácios e solares, interditos que estavam intramuros na zona da Ponte Nova sobre o Rio
até então de estabelecer as suas residências no de Vila. O projecto, atribuído a Domingos Lopes,
interior da muralha. consistia num espaço rectangular com 100
Igreja e Torre dos Clérigos. (BENTO, 2013)

41
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

[10] - Pormenor de Planta Redonda,


de 1813, com a sobreposição das duas
praças. (AHMP)

metros de comprimento e cerca de 50 metros O principal exemplo é constituído pela


de largura, cujo eixo maior era acentuado pela Torre dos Clérigos, do arquitecto italiano
colocação de duas fontes ladeadas por portas Nicolau Nasoni, concluída em 1763, que se
numa composição simétrica. Estas duas fontes tornou o símbolo da própria cidade, erguida
monumentais aproveitavam as águas do Rio como um ponto de referência no perfil da
de Vila que seria então encanado. A recusa dos cidade e definindo eixos de evolução urbana.
proprietários das casas já então construídas Esses eixos apontam na direcção das diversas
inviabilizou as expropriações e o projecto veio igrejas ou edifícios religiosos, existentes ou em
a ser abandonado [10]. construção.
a) Projecto e localização estimada da
Praça Central, de 1687, atribuída a
O segundo projecto situar-se-ia fora das Particular importância para a
Domingo Lopes. (AA.VV., 1994)
muralhas entre as Portas do Olival e dos Carros. consolidação da praça central, tem o eixo visual
A praça, inspirada no modelo das Praças Maiores definido pela Torre dos Clérigos e a Igreja de
espanholas, seria quadrada, com 120m de lado, Santo Ildefonso (reconstruída em 1730/39).
desenvolvida sobre arcarias e o seu eixo norte-
Com a expansão da cidade para norte e
sul corresponderia à Rua das Hortas (Rua do
a construção de igrejas e conventos junto das
Almada) [10]. As negociações do Município com
portas das muralhas, inicia-se a organização
o Cabido, proprietário dos terrenos, iniciadas
dos espaços públicos do Olival, Batalha e Hortas,
em 1691, arrastar-se-iam e o início da sua
locais onde aliás se realizam feiras.
construção foi sendo sucessivamente adiado.

b) Reconstituição e localização da O campo das Hortas começa a consolidar-


Em 1709 foi nomeado bispo do Porto, D.
“Plaza Mayor” empreendida no se e a definir os seus limites pelas edificações,
episcopado de D. Tomás de Almeida, Tomás de Almeida (1670-1754) acumulando as
no “Campo das Hortas”, conforme segundo o modelo da praça barroca. Aos
o manuscrito de 1710-1715.
funções de governador civil e militar. Foi então
edifícios religiosos (Conventos de Santo Elói,
(MANDROUX-FRANÇA, 1984) conseguida a cedência dos terrenos, chegando a
de S. Bento de Avé-Maria e dos Congregados) e
efectuar-se o respectivo loteamento e a lavrar-
à Fonte da Arca (da Natividade) vêm somar-se
-se contratos para a construção. Este ambicioso
B C nas primeiras décadas do século XVIII, as Casas
projecto foi também abandonado, com a
Nobres de Morais Alão Amorim e Monteiro
nomeação, em 1717, de D. Tomás de Almeida
A Moreira (1724/27) [10]. Estas limitam o espaço
para Patriarca de Lisboa.
a norte transformando o espaço informal do
A A A
Já no princípio do século XVIII, é a Campo das Hortas, numa praça denominada
localização e a arquitectura dos edifícios das Hortas.
que definem a estratégia urbana que se vai
c) A Praça Nova em 1813. Identificação repercutir na criação de eixos estruturantes da
dos edifícios religiosos (A) e de
arquitectura civil - Casa Morais Alão (B)
cidade e na conformação do seu perfil.
e Casa Monteiro Moreira (C).

43
MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

TEMPOS DOS ALMADAS

Dos teus, ó Porto, antigos Orizontes Na concepção iluminista da cidade e


Apenas se descobrem os indícios; com as profundas alterações decorrentes da
Porque até dos penhascos nos resquícios Revolução Francesa, as mudanças na relação
Se extendem ruas, se sustentaõ pontes. entre espaço privado e espaço público irão ter
um efeito fundamental na organização espacial
da cidade.
Novos Caes, novas Praças, novas Fôntes,
Torres, Templos, Palácios, Frontespícios O espaço público como o elemento
Te daõ tanta extensaõ, que os precipícios primário da cena urbana, torna-se o lugar das
Já saõ Cidade, e deixaõ de ser môntes. mais importantes funções colectivas. Pretende-
-se refundar, através dos espaços públicos, as
funções vitais da cidade, quer nas actividades
Cada vez cresces mais: Oh sempre claro
práticas quer nas relações da vida urbana dos
Te assista o Céo, e tenha decretada
cidadãos.
Duraçaõ, que resista ao tempo aváro.
O Porto, na segunda metade do século
E serás imortal, se mensurada XVIII, torna-se uma poderosa cidade portuária,
A vires pelo nome do Precláro conhecida pela sua principal exportação:
Teu fundador segundo, o Illustre Almada. o Vinho do Porto. Data de 1678 a primeira
exportação de vinhos para Inglaterra, registada
na Alfândega do Porto, mas com o Tratado de
Paulino de Cabral, Abade de Jazente Methwen de 1703, a exportação do Vinho do
Porto regulariza-se e, sobretudo, a partir de
1718 é sensível o aumento dessa exportação.

Rua do Almada. (VALE, 2013)

45
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

a) O Tanque da Praça
Nova, 1794, por D. José
de Champalimaud
de Nussane: “Planta
projectada por ordem do
ilustríssimo Sr. Manuel
Francisco da Silva
Veiga, (...) com tanque
para acudir a qualquer
incêndio na cidade e mais
benefícios públicos”.
(Fonte: goo.gl/gMlKCI)

b) Projecto de fonte para a Rua de Cedofeita, 1789. (Fonte: goo.gl/gMlKCI)


[11] - Fontes da cidade do Porto, desenvolvidas sob a alçada da Junta de Obras Públicas. c) Projeto de fonte para a Rua do Laranjal (desaparecida), por Luís Inácio de Barros Lima, 1805. (Fonte: goo.gl/Mpid3C)
d) Projeto de fonte para o Largo do Laranjal (atual Praça da Trindade), 1835. (Fonte: goo.gl/qYqOLr)

Em 1756, o Marquês de Pombal cria, por Estas disposições e privilégios da de expropriação, criada para Lisboa após Constroem-se, dentro de uma estratégia
Alvará Régio, a Companhia Geral das Vinhas do Companhia, não só encareciam o vinho, como o terramoto, que tem por base num novo urbana de localização, vários edifícios civis: o
Alto Douro, “...huma Companhia que, sustentando conflituavam com os interesses dos retalhistas. conceito de interesse público, e que irá permitir Hospital de Santo António de John Carr, a nova
a cultura das vinhas, conserve a produção Assim, logo em Fevereiro de 1757, estalou um a concretização das intervenções na cidade do Cadeia da Relação de Eugénio dos Santos, o
dellas na sua pureza natural, em benefício da motim popular, encabeçado pelos taberneiros, Porto. Há uma centralização das iniciativas e Hospital do Carmo de J. F. de Paiva, a Casa Pia
lavoura, do commercio, e da saúde pública...” e que pretendia acabar com a Companhia dos dos planos, correspondente à acção de João de Reynaldo Oudinot, o Teatro de S. João de
com a qual pretendia não só desenvolver a Vinhos. de Almada e da Junta das Obras Públicas, Vicenzo Mazzoneschi e a Academia Real da
produção do Vinho do Porto, como defender a contrastando com as iniciativas pontuais Marinha de Carlos Cruz Amarante.
O ministro Sebastião José de Carvalho
sua qualidade, e aumentar (aliás com sucesso) e desgarradas do período anterior. Estas
e Melo mandou então reprimir essa revolta, Procura-se com a construção de quartéis,
a sua exportação. intervenções são planeadas de acordo com uma
considerando que atentar contra a Companhia de que se destaca a norte o de Santo Ovídio
estratégia global, a que também não é alheia a
O Vinho do Porto é, já então, “… sem era crime de lesa-majestade, e enviou para de Reynaldo Oudinot, garantir uma eficiente
experiência da reconstrução de Lisboa após o
exageração, a base principal do comércio desta o Porto o tenente general João de Almada e defesa militar da cidade. Procede-se ao arranjo
Terramoto de 1755.
cidade, um dos maiores e mais fecundos ramos Melo (1703-1786), seu primo, que se tornou das Alamedas das Fontainhas, das Virtudes e
que o promove, e a grande alma que o anima, Governador de Armas do Partido do Porto em Os projectistas já não são os arquitectos- de Massarelos. Constrói-se a Ponte das Barcas,
assim como na indústria como nos interesses 1762 e Governador das Justiças e Relação da artistas do período barroco, mas sim os primeiro atravessamento regular do Douro.
gerais”, aponta no final do século o Padre Casa do Porto em 1764. engenheiros-militares, com uma visão mais
Inicia-se uma preocupação com as
Agostinho Rebelo da Costa na sua ‘Descrição racional e estratégica do desenvolvimento e
Suceder-lhe-á o seu filho Francisco de infraestruturas de abastecimento de água,
Historica e Topographica da Cidade do Porto’. do embelezamento urbano. As intervenções
Almada e Mendonça (1757-1804). com a construção de fontes e fontanários [11],
urbanas são projectadas e desenhadas, estando
Para a execução destas políticas foi constroem-se e recuperam-se os cais, reparam-
João de Almada criou uma Junta de por isso documentadas num conjunto de planos
então demarcada a região da cultura do Vinho -se pavimentos e calçadas, introduzem-se
Obras Públicas e alterou significativamente parciais, para as diversas zonas da cidade.
do Porto, e entre as regalias da Companhia nos arruamentos os primeiros passeios para
as estratégias e os métodos de intervenção Criam-se normas para construção dos edifícios
figurava o monopólio da exportação dos vinhos, utilização exclusiva de peões, e efectuam-se os
na cidade. Há um financiamento sustentado quanto à composição das fachadas, obedecendo
aguardentes e vinagres, e o da venda de vinho primeiros ensaios de iluminação pública, na
das intervenções através da Companhia das a regras de composição neoclássica.
na cidade do Porto e arredores. Rua dos Ingleses em 1771.
Vinhas do Alto Douro. É utilizada a legislação

47
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

Da Praça das Hortas à Praça Nova

Em 1761, inserida na decisiva e ordenou o “alinhamento demarcação e abertura


estratégica expansão da cidade para Norte, da rua que deve discurrer desde a que hoje se
Francisco Xavier do Rego e Francisco Pinheiro chama das Hortas athe Santo Ovidio”.
da Cunha, projectam o ordenamento da área [12] [13]
Este traçado é de fundamental
situada na encosta do Rio de Vila, entre a [12] - “Planta do Bairro dos Laranjaes. A rua lavada de amarelo he a que se abre para comunicar a Rua do Almada com a de St.º Ovidio”, por
importância, já que representa a primeira Francisco Pinheiro da Cunha. (Fonte: goo.gl/UNIk7A)
Praça das Hortas e o Campo de Santo Ovídio, e
intervenção planeada na cidade, num gesto [13] - “Planta do Bairro dos Laranjaes. A rua lavada de amarelo he a que se abre para comunicar a Rua do Almada com a de St.º Ovidio”, por
desenham o plano conhecido como “Planta do Francisco Pinheiro da Cunha, em 1761. (Fonte: goo.gl/eWtndT)
que a projecta para norte por uma via traçada
Bairro dos Laranjais” [12].
racionalmente e a primeira independente das
É traçada uma via recta, a Rua das Hortas vias existentes. A Rua das Hortas e o plano do
(Rua do Almada) ligando a postigo de Santo Bairro do Laranjal, terão ainda determinante
Elói (substituído pela Porta do Almada, em influência na reformulação da praça vizinha,
1766), com o Campo de Santo Ovídio (Praça da que agora se chamará Praça Nova das Hortas
República) onde é construído o Quartel-General ou simplesmente Praça Nova.
[13]. Por trás deste, no monte de Germalde é
Em 1789, segundo a descrição do Padre
construída em 1755, segundo um projecto
Agostinho Rebelo da Costa a praça tinha a
de José Figueiredo Seixas, a Igreja de Nossa
nascente “o extenso dormitório do Convento
Senhora da Lapa que estará concluída apenas
dos Padres Néris, todo aberto em janelas altas, e
em 1863. Durante muitos anos marcou o limite
largas de três andares, que formam um agradável
norte da cidade do Porto [14].
prospecto” a norte tinha os Palácios do “Senado
O projecto da Rua das Hortas (Rua do da Relação” e o do “D. António de Amorim” e a
Almada), foi aprovado por D. José e pelo Ministro sul a praça era limitada pela muralha da cidade.
e Secretário de Estado dos Negócios do Reino e Na praça havia um “mercado público todos os
Domínios Ultramarinos, o irmão do Marquês, dias”.
[14] - Imagem da Igreja da Lapa apenas com uma torre, com o quartel em primeiro plano. De notar ao fundo a Capela de Nossa Senhora
Francisco Xavier de Mendonça Furtado, que das Dores e Senhor do Calvário na Ramada Alta. Fonte: “Vista da Igreja de Nossa Senhora da Lapa onde está depositado o coração do senhor
D. Pedro”, Lith. de Lopes, Rua dos Mercadores.

49
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

[15] - Alçado de conjunto da Rua de Santo António, actual Rua de 31 de Janeiro. Assinada por António Pinto de Miranda. [16] - Alçado de conjunto das casas da Calçada dos Clérigos. Assinada e datada em 1792 por Teodoro de Sousa Maldonado.
(Fonte: goo.gl/NVawki) (Fonte: goo.gl/cwUBPP)

As referências ao Senado da Relação Do mesmo modo a poente, abre-se a


no edifício que virá a ser a Câmara Municipal, Rua dos Clérigos, no prolongamento da Rua da
bem como ao facto de que na praça “também se Natividade até à Igreja dos Clérigos, permitindo
formam e exercitam nela as paradas militares”, uma ligação directa da Praça Nova com a zona
revelam a natureza e quem exercia o poder na do Olival [16]. [17] - O eixo barroco Clérigos / Santo Ildefonso. Vista a
partir da Rua dos Clérigos para a Igreja de Santo Ildefonso,
época. sobressaindo a Igreja dos Congregados ao centro.
A norte da Praça Nova, a Praça do (Fonte: goo.gl/nF88uz)
Entre 1794 e 1797 é construída uma Laranjal aberta em 1784, é reformulada com a
[18] - O eixo barroco Clérigos / Santo Ildefonso, sublinhado
nova fonte, segundo desenho de Champalimaud construção da Igreja da Trindade, projecto de pelo pináculo, no adro da Igreja de Santo Ildefonso.
de Nussane [11], embora se mantenha a fonte da Carlos da Cruz Amarante. (ALVÃO, 1984)

Natividade. A sul, junto ao Convento dos Lóios,


As obras da igreja tiveram início 1803,
edifica-se em1764/66 a Porta do Almada que
mas a nave apenas ficou pronta em 1844 e a
vem substituir o Postigo de Santo Elói.
torre em 1848. A envolver o templo, o vasto
Na sequência do eixo visual criado pela edifício hospitalar da Ordem.
Torre e Igreja dos Clérigos com a Igreja de
Com a construção da Igreja, a praça
Santo Ildefonso, acentuado pela colocação de
regularizada, tomará o nome de Praça da
um pináculo no adro desta igreja, procede-se
Trindade. Na sua envolvente, entre 1765 e
à abertura das Ruas de Santo António e dos
1778 foram abertas a Travessa do Laranjal (da
Clérigos [17] [18].
Trindade) e do Pinheiro (que darão origem à
A Rua de Santo António, traçada em Rua do Dr. Ricardo Jorge), continuando pela Rua
linha recta e com um desenho de conjunto da Conceição, até ao Largo do Pinheiro (Largo
das fachadas, inicia-se em frente à Igreja dos da Picaria, e mais tarde Largo de Montpellier
Congregados e segue em linha recta até à Igreja ou Monpilher) onde se abriu para sul a Rua da
de Santo Ildefonso, permitindo a ligação directa Picaria. [17] [18]

da Praça Nova com o Largo da Batalha [15].

51
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

O Porto nos finais do século XVIII, e apesar


da expansão da cidade para norte, apresentava
uma imagem de uma cidade portuária, de
comércio e navegação debruçada sobre o Rio
Douro, por onde habitualmente se chegava ao
Porto e se tinha uma primeira impressão da
cidade.

A gravura de Teodoro de Sousa


Maldonado, que acompanha a Descripção
Topographica Historica da Cidade do Porto de
Agostinho Rebelo da Costa, mostra essa imagem
de uma cidade voltada para o Douro, centrada
na Torre dos Clérigos, tendo no primeiro plano
Gaia e à direita a Serra do Pilar, e estendendo-
se entre a Torre da Marca e o Recolhimento da
Órfãs (Na. Sra. da Esperança) [19].

[19] - Gravura do Porto, de 1789, que acompanha a “Descripção


Topographica e Historica da Cidade do Porto Que contém a sua
origem, situaçaõ, e antiguidades: a magnificencia dos seus templos,
mosteiros, hospitaes, ruas, praças, edificios, e fontes...”, do Padre
Agostinho Rebelo da Costa (?-1791), realizada por Teodoro de
Sousa Maldonado (1759-?). (BND:purl.pt/4036)

53
MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

TEMPOS LIBERAIS

“No espaço de vinte anos o Porto e o Norte do reino assistira a muitas revoluções,
passara por muitos sacrifícios, defendera a todo o transe o estandarte da
liberdade, plantado por suas mãos nas memoráveis areias do Mindelo…”
Júlio Diniz Serões da Província 1870

O período conturbado das invasões Para norte, a cidade que se vai edificando
Francesas, para além das consequências abrange uma área que se estende até à Praça de
no campo ideológico, provocou que os Santo Ovídio (Praça da República), limitada a
acontecimentos militares da segunda invasão poente pela Rua de Cedofeita e a nascente pela
em 1809, dessem origem à elaboração em 1813 Rua de Santa Catarina, tendo no seu centro a
de uma planta da autoria de George Balck, Rua do Almada.
oficial do exército britânico que entrou no
Para nascente, uma zona entre a Rua
Porto em 1809, planta essa dedicada ao general
de Santa Catarina, a Rua da Alegria e a Rua de
Nicholas Trant, então Governador de Armas do
Mal Merendas (Rua Santos Pousada), tendo no
Partido do Porto .
sentido nascente-poente a Travessa de Santa
A planta dada a sua forma, de um círculo Catarina, a Rua Formosa e a Rua do Bolhão e
inscrito num quadrado, é correntemente tendo como limite sul a Rua Direita (Rua de S
conhecida como Planta Redonda, e é a primeira Ildefonso). Estas ruas apresentam já nas suas
planta que mostra a cidade edificada na sua margens algumas edificações.
totalidade, e a sua expansão pelas intervenções
Para poente da Rua de Cedofeita e a norte
do período dos Almadas na segunda metade do
da Cordoaria e do Hospital de Santo António,
século XVIII [20].
uma zona na sua quase totalidade por edificar e

Estátua do Porto, na Praça da Liberdade. (BENTO, 2013)

55
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

[20] - “Planta Redonda”,
de 1813, por George
Balck, com as
intervenções almadinas
destacadas. Adaptado a
partir de (AHMP).

estruturada pelas Ruas do Rosário, do Príncipe norte do rio que se estende de Massarelos
(Miguel Bombarda), pela futura Rua do Breiner com a Torre da Marca até às Fontainhas e
e pela Rua da Torrinha. à Rua de Wellesley, tendo marcado o local
do desembarque das tropas luso-inglesas
Na parte superior da planta e nos limites
comandadas por Wellington, que expulsaram o
da cidade, uma área periférica com as cinco
exército de Soult da cidade do Porto.
estradas de saída da cidade: a Estrada para
Matosinhos pela Rua da Torrinha ou pela Rua Entre estes dois limites, a cidade
dos Quartéis (D. Manuel II); a Estrada para Viana intramuros, cartografada com uma malha
do Castelo pela Rua de Cedofeita; a Estrada para urbana compacta, em que o centro de
Braga pelas Ruas das Hortas e do Almada; a distribuição é o Largo de S. Domingos para
Estrada para Guimarães pela Rua do Bonjardim onde confluem a Rua Nova de S. João ligando à
ou pela Rua de Santa Catarina continuando pela Praça da Ribeira, a Rua das Congostas ligando
Rua da Bella Princesa; e a Estrada para Penafiel à Rua dos Ingleses (antiga Rua Nova), a Rua de
pela Rua de Direita (Santo Ildefonso). Belmonte na direção de Miragaia pela Rua da
Esperança, a Rua da Ferraria de Baixo ligando à
Na parte inferior da planta estão [21] - Localização da
Rua de Banhos. Finalmente o eixo estruturante “1ª AVENIDA” na planta de
cartografadas Villa Nova de Gaya na margem
da Rua das Flores conduzindo à Praça Nova, que George Balck, 1813.
sul do Rio Douro, a ponte das Barcas e a margem

57
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

Fig. 9 – Frontispício da casa Monteiro Moreira, em que o depuramento das formas remete-o para uma ordem superior de arquitectura na Praça. Fig. 19 –As alterações na fachada passaram pela inclusão de escudo oval sobre a entrada principal, pela construção de frontão sobre o corpo central com as
armas da cidade ao centro e guarnecidas lateralmente por festões, pela estátua do Porto sobre o novo frontão, e por um conjunto de seis urnas rematando o
44

topo da nova composição. Cf. com fig. 9.


[22] - Levantamento do alçado principal da Casa Monteiro Moreira e das suas modificações para albergar a Casa da Câmara. [23] - Estátua do Porto que encimava o edifício da Câmara. (Fonte: goo.gl/9tHuxj [24] - Casa da Câmara, anterior a 1916. (ALVÃO, 2002)
29

(SILVA, 2006)

se assume já como o espaço central da expansão do Laranjal e a nascente a Travessa do Estevão. A Câmara, quando em 1819 se instalou do Brasil e que a cidade era dirigida de facto
da cidade para norte [28]. Nesta planta estão Ligando à Rua do Bonjardim, a Viella do Anjo da definitivamente no Palácio da Praça Nova, pelos ingleses, eclode no Porto uma revolta
ainda cartografadas as duas fontes construídas Guarda (com o n.º15). realizou algumas modificações no edifício no armada e é na praça e na varanda da Câmara
na Praça Nova, a da Arca/ Natividade no limite sentido de o adaptar às funções de sede do que, em 24 de Agosto de 1820, é proclamada
De notar a norte da praça, a Quinta do
sul, e o Tanque que define o limite oeste da município. Para lhe conferir maior dignidade a Junta Provisória do Governo Supremo do
Bonjardim pertencente a Gonçalo Cristóvão,
praça. institucional e simbólica, alterou a fachada Reino, com o encargo de convocar as Cortes
que será urbanizada alguns anos depois. Nela
criando um frontão com os símbolos da cidade para elaborar uma Constituição. A Praça Nova
Assinalada com XX a Casa Amorim; com H corre a céu aberto uma parte do Rio de Vila, que
[22]. Nesse frontão foi colocada a pedra de Armas toma então o nome de Praça da Constituição até
a Igreja dos Padres do Oratório; com X o Largo abastece uma fonte na Travessa da Doida [11].
com o Brasão da cidade da época. 1823, quando retoma a toponímia anterior [25].
da Feira; com o n.º 21 a Rua da Fábrica do
O avanço dos ideais liberais trazidos
Tabaco; com o n.º 23 a Travessa da Praça Nova; No topo do edifício, dominando a praça, a
pelas invasões francesas, a ausência do rei,
com o n.º 25 a Rua da Cancella Velha; com o estátua de um guerreiro representando o Porto,
e o protagonismo dos comandos ingleses,
n.º38 a Porta dos Carros; com o n.º40 a Calçada encomendada em 1818 ao Mestre Pedreiro João
provocam a reacção do povo e das elites do
da Tereza. Silva mas de facto executada por João Joaquim
Porto. A administração local assume então um
de Sousa Alão [23]. Esta estátua, depois de ter
A Rua do Bonjardim está aberta até novo protagonismo, e perante a progressiva
estado junto ao Palácio Episcopal, no período
ao início da Rua de Santo António. A Rua do degradação da casa da Câmara junto à Sé,
da construção dos novos Paços do Concelho
Almada ainda se chama Rua das Hortas, no troço instala-se em 1819 na Casa Monteiro Moreira,
1920/1957, esteve no Palácio de Cristal até
compreendido entre a Calçada dos Clérigos e a onde o Tribunal da Relação tinha funcionado
ao início do século XXI, quando foi colocada
Rua dos Lavadouros. desde 1752.
junto à Torre da Câmara reconstruída segundo
Para a Praça do Laranjal (Trindade), Este facto é de extrema importância já que o projecto de Fernando Távora. Em 2013, a
onde se ergue a Igreja da Trindade, confluem representa a fundação do espaço da Praça como Câmara colocou-a na Praça da Liberdade junto
a Travessa da Doida (Rua do Alferes Malheiro) o lugar da centralidade simbólica, institucional ao Banco de Portugal [pg. 54].
[25] - “Praça da Constituição (Praça Nova), aonde no mesmo da
a norte, a poente com o n.º10 a Travessa do e administrativa do Porto, estatuto que não concorreu a tropa, nobreza e povo a dar juramento de se unirem
Traduzindo os ideais liberais, o
Laranjal (Rua do Dr. Ricardo Jorge), a sul a Rua mais perderá. na Regeneração de Portugal, convocando novas Cortes. (...)”
sentimento de que o país estava a ser governado Impresso no Porto em 1822. (RAMOS, 1994)

59
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

[26] - Plano da Cidade do Porto (entre 1818 e 1824), por José Francisco de Paiva (AHMP)

Por estes anos, supõe-se que, por volta de No Campo de Santo Ovídio (Praça da
1822, é desenhada por José Francisco de Paiva República), estão projectadas as diversas vias
(1744-1824) uma planta, cujo único exemplar que partiam dos quatro cantos da praça. O
se encontra muito deteriorado, e que nos seus prolongamento da Rua da Boavista para poente
limites e na cidade edificada não difere muito e uma via no lado sul da praça que não será
da planta de 1813 [26]. realizada.

Mas a sua importância reside no facto Do lado nascente, urbanizando a Quinta


de mostrar a dinâmica que o poder municipal de Santo António do Bonjardim (pertencente
então adquire, sendo a primeira planta do Porto a Gonçalo Cristóvão) vemos um conjunto de
realizada com objectivos civis e não militares, ruas. No sentido O/E e até à Rua do Bonjardim:
com um carácter de ‘plano’, já que não se limita a Rua Gonçalo Cristóvão e a futura Rua Nova do
a cartografar a cidade existente, mas projecta Duque do Porto (hoje Rua de João das Regras).
(a tracejado) um conjunto de ruas e de edifícios No sentido N/S até à Praça do Laranjal (da
(em construção ou apenas projectados). Para Trindade) uma nova Rua (Camões) e da Praça
acentuar este carácter de instrumento de do Laranjal para norte, uma rua até à Rua e ao
planeamento municipal, a indicação dos “(L) Largo do Bonjardim (Largo Tito Fontes). Estas [27] - Localização da
ampioens (que) (v)ão apontados com pontinh(os) ruas serão abertas na década de 30 e 40 do “1ª AVENIDA” na planta
de J. Francisco de Paiva,
prêtos”. século XIX [27]. 1824.

61
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

[28] - Rua de D. Pedro num postal de finais do século XIX. Editor Alberto Ferreira [29] - Largo do Laranjal e Cancela Velha. Editor:
(GCMP) Tabacaria Rodrigues, 1910. (GCMP)

A norte da Praça Nova (então da A Praça do Laranjal é desenhada


Constituição), está projectado para norte, até integrada na malha geométrica que se projecta
à então Rua da Cancela Velha (Guilherme da para o norte da cidade. A praça inscreve-se num
Costa Carvalho), um novo arruamento que se rectângulo definido por três arruamentos e
chamará Rua de D. Pedro [27][28][30]. pela fachada dos edifícios a sul. No centro deste
rectângulo, a Igreja da Trindade isolada a norte,
Na Praça da Constituição é assinalada, pela
ladeada pela Travessa da Doida rectificada e pela
primeira vez a Casa da Câmara, com um III na
rua a nascente também rectificada prolongada
Planta. Ao seu lado a casa Morais Alão Amorim.
em projecto até à Rua do Bonjardim. A norte da
A Porta de Carros já não é cartografada, embora
praça está projectada a tracejado uma via dupla,
a sua demolição apenas tenha terminado em
paralela à Rua das Hortas (do Almada) que se
1827. O Convento dos Lóios está, por sua
articula com um conjunto de vias constituindo
vez, já parcialmente substituído pelo edifício
uma malha geométrica, que no seu encontro, ou
projectado pelos padres Lóios (futuro Palácio
no seu remate, desaguam em praças quadradas.
das Cardosas).
O traçado mais interessante é o
Com interesse para o futuro da zona, a sul
arruamento que partia desta praça até ao limite
da Praça Nova, está projectado um arruamento,
nordeste da planta, formando uma nova praça [30] - Plano topográfico
encanando o Rio de Vila, entre o Largo de S. da década de 1820,
quadrada no encontro com uma via projectada no qual se mostra
Domingos e a Praça de S. Roque esboço da
que partia na direcção norte com início no o o projecto para a
futura Rua de Mouzinho da Silveira. continuação da Rua do
cruzamento da Rua Direita com a Rua Formosa Bispo (futura Rua de D.
Pedro) desenbocando na
(a futura Rua de Santos Pousada).
Praça Nova. (Fonte: goo.
gl/oz9GZs)

63
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

Na sequência das invasões francesas e do A planta de W. B. Clarke, pouco ou nada


Cerco do Porto, com preocupações defensivas adianta em relação à cartografia anterior –
e de navegabilidade do Douro, é publicada reflexo de uma cidade em fase de estagnação
em 1833 uma planta da autoria do arquitecto pela instabilidade política e económica – sendo
inglês William Branwhite Clarke (1798-1878). que a toponímia apresenta, para além de erros
Estas preocupações reflectem-se no desenho de português mostrando a origem da Carta,
da planta, já que é apresentada no canto alguns erros de cartografia.
superior esquerdo uma janela com a planta
De facto, a cidade do Porto foi palco do
dos arredores do Porto, onde a margem norte
conflito que opôs no início dos anos 30, Liberais
do Douro, de Campanhã até à Foz, corresponde
e Absolutistas. O cerco militar que a cidade
sensivelmente aos actuais limites da cidade e
sofreu durante cerca de um ano e meio entre
onde está marcada a Linha Defensiva do Cerco [31] - Planta da Cidade
1932 e 1933, com a presença de D. Pedro IV na do Porto ”OPORTO
do Porto.
cidade, foi rompido pelas tropas liberais com o 1833”, por W. B. Clarke.
Fonte: BN.
Na parte inferior, uma panorâmica do apoio da população do Porto. As consequências
Douro tirada a bordo de um navio, reflectindo a para a cidade traduziram-se nos anos seguintes, [32] - Localização
da “1ª AVENIDA” na
importância da navegação no Douro e do Porto no plano simbólico, com o título de Antiga, planta de W. B. Clarke,
1833.
como cidade portuária [31]. Mui Nobre, Sempre Leal e Invicta Cidade do

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AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

Porto, acrescentado às Armas do Porto, com a


distinção de caber ao segundo filho ou filha dos
reis de Portugal o título de Duque ou Duquesa
do Porto (decretos de 1833 e 37) e com o
Presidente da Câmara a ter o tratamento de
Excelência (decreto de 1843).

No plano prático, D. Pedro criou a


Biblioteca Pública Municipal e foi cedido à
Câmara Municipal o terreno para um Passeio
Público na Cordoaria. Autorizou-se a construção
de um novo Mercado na cerca do Recolhimento
do Anjo. Criou-se, ainda, a Associação Comercial,
aglutinando os principais agentes económicos
da burguesia comercial, a quem foi cedido o
Convento de S. Francisco, então em ruínas, para
a construção da sua sede (o Palácio da Bolsa).

No plano das consequências urbanas,


as operações militares, decorrentes do Cerco,
definiram uma Linha de Defesa onde foram
colocadas as baterias, provocando uma
Linha de Defesa
expansão da cidade e uma nova definição dos
seus limites [33]. É também dada uma nova
atenção aos limites alfandegários no norte
da cidade, onde são criados novos limites Limites século XVIII
administrativos (1832 e 1835).
Limites século XVII

Muralha Fernandina

[33] - A expansão da cidade em consequência das linhas


defensivas do Cerco do Porto, adaptado a partir da Carta
Topographica das Linhas do Porto, do Coronel Francisco Pedro
de Arbués Moreira, de [1835?]. (BNP:purl.pt/1388)

Alameda Miradouro

Centro Vias principais

Igreja Cursos de água

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AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

[34] - Planta
Topographica da
Cidade do Porto de
Joaquim Costa Lima,
1839. Fonte: AHMP

As transformações urbanas ocorridas demolida a Porta do Almada, possibilitando a


na década de 30 aparecem cartografadas na continuidade da Rua das Hortas (do Almada) até
Planta Topographica da Cidade do Porto, de ao Largo dos Lóios, o que conduzirá à abertura
1839, de Joaquim da Costa Lima [34]. Esta planta da Rua de D. Maria II (Trindade Coelho) entre
representa a transição da cidade liberal para a este Largo e a Rua das Flores [35].
cidade burguesa.
Em 1837, após a morte de D. Pedro IV,
A Praça do Laranjal chama-se agora da por decreto de 14 de Janeiro de 1837, redigido
Trindade. A Travessa da Doida dá lugar, na por Almeida Garrett e promulgado por Passos
ligação à Rua do Almada, à Rua de Liceiras Manuel e D. Maria II, e numa afirmação simbólica
e corresponde agora ao arruamento do lado da identidade do Porto, Almeida Garrett
poente da Igreja, entre a Praça e a Rua de elaborará as Armas da Cidade. No mesmo ano
Liceiras (Alferes Malheiro). é aprovada pela Câmara a colocação na Praça
de D. Pedro de um monumento equestre ao Rei-
A Rua de D. Pedro está concluída e
Soldado, que apenas será executado em 1866.
edificada do lado poente. Desaparece a Porta
de Carros demolida em 1827 e, entretanto, é [35] - Localização da
“1ª AVENIDA” na planta
de Joaquim Costa
Lima, 1839.

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AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

[38] - Reconstituição
do alçado lateral
do Convento dos
Congregados.
(SILVA, 2006)

[39] - “Prospeto
para reformar a
frente do edifício do
extinto Convento dos
[36] - Planta da Praça de D. Pedro com a arborização e a implantação do Monumento a D. Pedro IV. (Fonte: goo.gl/A8khtx) Congregados na cidade
do Porto, cuja olha
[37] - Joaquim Cardoso Villanova, Praça Nova (Tanque) 1833. (VILLANOVA, 1833)
para a Praça de Dom
Pedro”, Fevereiro 1844.
Verifica-se desde logo a
alteração funcional deste
edifício, pela abertura
do piso térreo ao espaço
A Praça aparece como Praça de D. Pedro, vulgarmente chamada dos Reis Magos. No lado público. (Fonte: goo.gl/
HHwTMd)
nome que tomou em 1833. Esta afirma-se poente mantém-se o Tanque da Praça Nova,
definitivamente como praça central, e está tendo por detrás as edificações de parcela
consolidada na sua forma urbana. Na planta, estreita [37].
[40] - “Praça de Dom
reflectindo a força do Poder Municipal, ao edifício Pedro, lado do nascente:
Na Praça de D. Pedro, é redesenhada nova planta”, Junho 1844
da Câmara é atribuído significativamente o N.1
a fachada do lado do extinto Convento dos (Fonte: goo.gl/jsYoah)
da legenda [35].
Congregados, em 1837, dando origem a
A arborização de amoreiras e acácias ocupações civis, e nos terrenos do qual abre-se
floridas “… as quaes vaporavam de suas urnas de ainda em 1836, a Rua de Sá da Bandeira (hoje
[41] - Vista sobre a Igreja
branco e rosa aromas suavíssimos” como Camilo Sampaio Bruno). Nesta nova fachada nascente dos Congregados e as
inúmeras parcelas que
evoca antes de ser preso, delimitava uma placa da Praça surge já com o N.º 16 a Fábrica de vieram sobrepor-se ao
central organizando a Praça [36]. Tabaco, que não será realizada, já que em 1838 extinto convento do
mesmo nome. Observa-
são proibidas dentro da cidade as fábricas se que a uniformidade
Nela, é demolida a Fonte da Natividade, pretendida nos projectos
de tabaco, mostrando contudo o avanço da
e a imagem de Nossa Senhora da Natividade de 1844 é preterida
industrialização no Porto. pela distinção do lote
foi recolhida na capela dos Paços do Concelho, como elemento matriz
da malha urbana.
(ALVÃO, 2002)

71
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

[42] - Joaquim Cardoso Villanova Loyos (Fachada) 1833. (VILLANOVA, 1833)

[45] - Convento de S. Bento de Avé-Maria (ALVÃO, 1984)

O remate sul da Praça é, por seu lado, neta, as Cardosas, e daí a designação de Palácio
consolidado com a construção do Palácio das das Cardosas que chegou aos nossos dias [42]-
Cardosas, sobre o extinto Convento dos Lóios. [44].

Em 1794, este convento tinha sido autorizado


Também o Convento de S. Bento de
a demolir o pano da muralha que fazia o limite
[43] - Joaquim Villanova desenha ainda a fachada completa, possivelmente a partir do projecto, já que não serão realizados alguns dos Avé-Maria se encontra cartografado como
sul da praça e a construir um edifício com uma
pormenores do desenho, como os remates superiores corpos laterais, nem se mantém as proporções da fachada. (VILLANOVA, 1833) sensivelmente se manterá até à sua demolição
grandiosa fachada neoclássica virada para a
nos finais do século XIX. No largo deste convento
mesma. Em 1833, quando se decreta a extinção
(Praça de Almeida Garrett) realizava-se uma
do Convento dos Lóios, no seguimento da
importante feira [45].
extinção das Ordens Religiosas e da confiscação
dos seus bens, ainda as obras estavam por
concluir. Em 1834, o Convento dos Lóios foi
adquirido por Manuel Cardoso dos Santos, com
a condição de concluir as obras de construção
da fachada voltada para a Praça Nova, segundo
o projecto de 1794. Com a morte do proprietário
o edifício passa a ser propriedade da sua viúva e
[44] - Levantamento da fachada do edifício das Cardosas (SILVA, 2006)

Fig. 24 – Frontispício do edifício das Cardosas para a Praça de D. Pedro. O mesmo viria a suplantar em magnificiência as frentes das casas nobres, tornando-
se o edifício mais imponente da Praça. Consiste numa frente ímpar na cidade pela funçaõ habitacional e larga extensão. Caracterizado por linhas sóbrias e
73
distintas, assim como pela notável escala e proporção, é exemplo de articulação directa entre projecto de arquitectura e vontade urbana.
MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

TEMPOS BURGUESES

“Passou o reinado dos ideólogos, dos poetas, e dos homens das abstracções, e começou o dos
homens prosaicos e positivos”

D. Pedro V Diário 29 de Maio de 1855

A partir dos anos 40 do século XIX, Porto. Esta Exposição que se realiza no, então
segue-se um longo período de acelerado construído para o evento, Palácio de Cristal,
desenvolvimento do Porto, correspondente mostra que, ao Porto, cidade de Comércio, se
ao reinado de D. Maria II (1834-1853), ao vem juntar a cidade da Indústria e mostra ainda
reinado do seu filho D. Pedro V (1853-1861), e o cosmopolitismo de uma cidade que se quer
ao reinado do seu outro filho, D. Luiz I (1861- aberta ao mundo.
1889).
O Palácio de Cristal, iniciativa da
No entanto, este desenvolvimento do Porto Associação Industrial para a Exposição
manifesta-se por um crescimento ‘orgânico’, e Universal, a Alfândega Nova (iniciada em
não planeado da cidade. Só em 1881, o então 1860), e o Palácio da Bolsa (iniciado em 1842)
presidente da Câmara José Augusto Correia de para sede da Associação Comercial, são os três
Barros irá formalizar por escrito um ‘Plano de edifícios marcantes que consolidam a cidade
Melhoramentos’. oitocentista como uma cidade portuária, de
comércio e de indústria. A zona ribeirinha irá
Nos meados deste período, em 1865,
também sofrer grandes transformações com
Frederico Perry Vidal reelabora uma planta
a abertura da Praça Ferreira Borges (Praça do
que havia desenhado em 1844, de modo a
Infante).
servir os visitantes da Exposição Universal do
Álbum ‘photographia portuense’ - Caleches em frente ao Palácio da Bolsa, antes da
construção do jardim da Praça do Infante D. Henrique, iniciado em 1894 (REIS, 18--)

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AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

[46] - Desenho de
candeeiro a gás para
o Porto. (MATOS et al.
2003)

[47] - A Fábrica do Gás


na Carta Topographica
de Telles Ferreira, de
1892.

O Fontismo traz profundas transforma- O Porto, a partir da segunda metade Pela primeira vez na história, a expansão Em 1854 é publicado o 1º número de ‘O
ções ao País, com profundas repercussões do século XIX, conhece assim os problemas das cidades provoca a perda dos seus ritmos Commercio’, o primeiro dos jornais modernos
nas duas grandes cidades Lisboa e Porto. das grandes cidades europeias, criados pelas e limites naturais, já que o transporte público e de grande tiragem do Porto, abordando “as
Há um sensível incremento da produção rápidas transformações e desenvolvimento quebra, para a maioria da população a matérias económicas, históricas e instructivas”
industrial e da produção agrícola e, por isso, urbano: crescimento da população urbana escala tradicional do andar a pé e dá lugar ao nos sectores do Comércio, da Agricultura e da
da comercialização dos produtos. Aumentam e aumento das densidades populacionais nascimento das periferias reforçando o papel do Indústria. De referir que o jornal, entretanto
nestas duas cidades as classes trabalhadoras e habitacionais que provocam a criação de centro. Simultaneamente a iluminação artificial mudando o nome para ’O Comércio do Porto’,
assalariadas (operários da indústria e da instituições de segurança (à Guarda Nacional (e nomeadamente a iluminação pública), apresentava algumas informações, então
construção civil). criada em 1836, a que vem somar-se a Polícia quebra a cadência dia/noite aumentando o consideradas úteis como a tabela de horários
Civil em 1867 e o Corpo de Bombeiros em período de trabalho e criando a vida nocturna das embarcações, já que na época era elevada a
Desenvolvem-se e multiplicam-se os
1875); o aumento da habitação precária e seja de trabalho ou, para os que podem, apenas emigração. Seguem-se em 1868, ’O Primeiro de
transportes (caminhos de ferro, transportes
da sobreocupação de espaços residenciais; a de lazer. Janeiro’ e em 1888 o ’Jornal de Notícias’.
rodoviários e transportes urbanos) e os meios
criação de zonas urbanas degradadas e zonas
de comunicação (jornais, correios, telégrafo e No Porto com a assinatura do contrato No campo das comunicações, é neste
de más condições sanitárias.
fotografia), favorecendo o desenvolvimento de entre a Câmara Municipal e a Companhia período que se desenvolvem os correios, com a
todos os sectores da economia. A extensão da cidade, o aumento da Portuense de Iluminação a Gás, a iluminação criação dos selos em 1852, por decreto assinado
sua população, e as transformações que daí pública a azeite é substituída em 1855 pela por D. Maria II. Os primeiros selos tinham
Assiste-se à formação do capitalismo com
resultam fazem surgir os novos problemas de rede de iluminação a gás, cujos ensaios tinham a efígie da rainha, à semelhança dos selos
a criação dos primeiros bancos, das companhias
subsistência e trabalho, de abastecimento, de começado em 1851, na Rua de S. João [46][47]. britânicos com a imagem da rainha Victória. O
de seguros, e das sociedades anónimas.
circulação, de alojamento, de ordem pública, a Em 1890, inicia-se a iluminação a electri-cidade telégrafo eléctrico data de 1855 e o telefone de
Paralelamente às migrações internas criação de equipamentos de saúde, de cultura na Rua de Santo António. 1878.
para a cidade, como sintoma das dificuldades e de lazer, e ainda a necessidade de novos
É importante referir os principais jornais O comércio, tradicionalmente associado
no campo e do apelo exercido pelos meios símbolos urbanos.
do Porto, não apenas porque são o grande meio à cidade do Porto, torna-se uma das mais
urbanos, verifica-se uma enorme emigração
de comunicação e de intervenção cultural na significativas funções urbanas, criando novos
para o Brasil.
cidade oitocentista, mas pela influência que a empregos e novas profissões como empregados
localização das suas sedes tem na cidade. de comércio, distribuidores e contabilistas.

77
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

[48] - O trânsito na
“Praça Nova durante
uma greve no final da [49] - Guia Baedeker
Monarquia” (Postal Spain and Portugal
ilustrado em fototipia, Handbook for Travellers,
sem indicação de editor, 1908. Estão assinaladas
cliché de 1909, edição na planta as linhas dos
posterior) (DIAS & transportes urbanos
MARQUES, 2002) sobre carris.

A criação e progressiva generalização da construção da ponte, que permitiu lançar um novas vias. Este transporte de tracção animal de comunicação entre o Douro e o novo centro
do ensino público obrigam à criação na cidade concurso internacional para a ponte ferroviária. sobre carris colocava contudo questões, como da cidade, entre a Praça do Infante e a Praça de
de novos equipamentos e ao aumento dos o transporte de cargas demasiado pesadas, D. Pedro [50][51][52].
Ao concurso apresentaram-se quatro
profissionais ligados ao ensino. Do mesmo que implicavam a necessidade de utilização
empresas, tendo sido escolhida a empresa ’G. A abertura desta importante artéria foi
modo as novas necessidades da administração de várias parelhas para vencer a inclinação de
Eiffel et Compagnie’ cujo projecto é aprovado bastante morosa devido à grande dificuldade
pública produzem uma nova classe de artérias como a Rua de Santo António ou a Rua
pelo Governo em 1876. que se encontrou nas expropriações, explicando
funcionários. dos Clérigos, os frequentes períodos de repouso
assim o tempo desde o planeamento à conclusão
A ponte foi inaugurada em Novembro de que os animais necessitavam e ainda a sujidade
O Caminho-de-Ferro produz grandes deste eixo.
1877, com a presença de D. Luiz I e D. Maria Pia, que provocavam nos pavimentos [48].
alterações na cidade, sobretudo pela localização
que dá o nome à ponte. (A ponte foi desactivada A Praça de D. Pedro torna-se o centro
das estações, geradora de novos espaços Assim, logo em 1895, realizam-se no
em 1991 com a construção da Ponte de S. João). de um sistema de praças: para sul a Praça
urbanos, de urbanizações e edificações, de Porto experiências com veículos de tracção
da Ribeira, a Praça do Infante e o Largo de S.
hotéis, restaurantes e comércio associados aos Em 1886, é inaugurada a ponte rodoviária eléctrica, cuja rede se estenderá por toda a
Domingos na zona histórica, para poente o
viajantes. Luiz I, segundo um projecto de François cidade e nas primeiras décadas do século XX
conjunto de praças dos Voluntários da Rainha
Gustave Théophile Seyrig, que irá ter uma atingirá os subúrbios e os concelhos vizinhos.
Com a construção da linha do Norte, (Praça de Gomes Teixeira, mais conhecida como
fortíssima repercussão no desenvolvimento da
a chegada do Caminho-de-Ferro às Devezas A Praça de D. Pedro como praça central Praça dos Leões) e Largo do Ferradores (Praça
cidade e da sua zona central, já que esteve em
(Vila Nova de Gaia) em 1864, a construção do Porto torna-se o ‘carrefour’ das linhas do de Carlos Alberto), para nascente a Praça da
funcionamento para o tráfico rodoviário até ao
da linha do Minho iniciada em1872 e a linha transporte público, de onde partem e onde Batalha e para norte a Praça da Trindade e o
ano de 2003, quando o seu tabuleiro superior
do Douro em 1873, e com a construção da desaguam todas as linhas do americano e Campo de Santo Ovídio (Praça da Regeneração
foi dedicado ao Metro.
estação de Campanhã (1873/77), impunha-se depois do eléctrico [49]. e Praça da República) [53].
o atravessamento do Douro com uma ponte Nos transportes urbanos, sucedendo ao
Com um significante impacto na Praça de Em 1865 no ano seguinte à chegada
ferroviária. ’ónibus’ e ao carro ’Ripert’, a partir de 1872
D. Pedro é a abertura na década de 1870, da Rua do Caminho-de-Ferro a Gaia e nas vésperas
começa a circular no Porto o ’americano’. A
Depois de um longo processo de fixação de Mouzinho da Silveira, uma artéria com 19 da Exposição Universal do Porto, Perry Vidal
instalação de carris provoca a reconfiguração
do local desse atravessamento, foi em 1875 metros de largura, que se torna o eixo principal corrige e actualiza a planta que tinha elaborado
dos pavimentos, a rectificação e o traçado de
aprovado pelo Governo o caderno de encargos

79
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

Praça da Regeneração

[50] - Aspecto das obras na nova Rua de Mouzinho da Silveira [51] - A Rua de Mouzinho da Silveira num postal dos finais do século
(desenho do natural de Isaías Newton) in ‘Occidente’ n.º 126 de XIX. (SERÉN & SIZA, 2001)
Praça da Trindade
21 de Junho de 1882. (OLIVEIRA, 1985)

Praça de Carlos Alberto

Praça ‘dos Leões’

Praça de D. Pedro

Praça da Batalha

Largo de S. João Novo Largo de S. Domingos

[52] - As demolições
na planta de 1892 -
adaptado de “Planta
do Projecto da Rua da Praça da Ribeira
Biquinha paralela à Rua
das Flores, a qual a Exª
Câmara pretende mandar
abrir para ligar o Largo
da Feira de S. Bento com a
Rua de S. João”. Projecto Praça do Infante
apresentado e aprovado
pela Câmara Municipal
do Porto a 17 de Junho
de 1872, assinado por
Luís António Nogueira, [53] - A Praça de D. Pedro como centro do sistema de espaços públicos da cidade.
Director geral da
Secretaria

81
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

em 1844, com o objectivo de criar uma planta inaugurado em 1 de Dezembro de 1839 na zona
actualizada para os que se deslocassem ao oriental, a que se seguirá o de Agramonte, em
Porto na ocasião da Grande Exposição, e nela 1855, na zona ocidental. No prolongamento da
incluindo o Palácio de Cristal, aliás apenas Rua da Boavista, está desenhada a implantação
apontado esquematicamente [54]. do Hospital Militar. Na zona da Lapa localiza-se
o Telégrafo.
Nesta planta está registada a Rua do
Pombal (Adolfo Casais Monteiro), e a edificação Apresenta no interior da área histórica o
quase completa das ruas do Breiner e do Palácio da Bolsa, sede da Associação Comercial
Príncipe (Miguel Bombarda). e cartografada a Rua de Ferreira Borges. Junto [54] - (Página anterior)
ao rio está implantado o edifício da Nova Perry Vidal, ‘Planta da
A nascente, a Rua Direita chama-se já Rua cidade do Porto contendo
Alfândega. o palácio de Christal,
de Santo Ildefonso e prolonga-se como Rua de nova alfândega, e
diversos melhoramentos
23 de Julho e Rua do Bonfim. Está cartografada a Para além do Palácio de Cristal na zona posteriores a 1844’,
abertura da Rua de Bragança (Rua do Moreira). Ocidental da cidade, aliás o motivo da planta, o Lisboa: Off. de Vasques
& Ca., 1865 (Fonte BND:
No extremo nascente, o Cemitério do Prado do factor mais marcante que distingue esta planta purl.pt/3556)
Repouso, o primeiro cemitério municipal, criado é, sem dúvida, a Ponte Pênsil (Ponte D. Maria II).
após a interdição dos enterros nas igrejas e [55] - A zona da ‘1ª
Avenida’ na planta de
1865

83
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

[56] - Detalhe da planta


de 1865 com a Praça de
D. Pedro

[57] - Postal dos finais


do século XIX, Arquivo
Alvão. (SILVA, 2006)

[58] - Outorga da
1869, ano em que a municipalidade aprova o projecto para iluminação do
Bandeira Constitucional à
cidade do Porto e Entrega monumento153.
do coração de D. Pedro IV
à cidade Porto. Baixos- Culminaria assim, após tentativas que duraram vários anos, o processo de
relevos em mármore introdução do monumento na Praça, reforçando o seu simbolismo mediante uma
121 x 245 cm. Museu
Nacional de Soares dos sensibilidade neoclássica que desde então marcaria a Praça.
Reis Porto.

De facto, a possibilidade de travessia do Mostrando ainda a finalidade da Planta, Assim, procura desenvolver a acessibi-
Douro através da Ponte Pênsil, a partir de 1843, estão indicadas na Praça de D. Pedro e nas lidade à Estação ferroviária de Campanhã e aos
vai permitir o incremento da função comercial, ruas adjacentes as diversas Hospedarias. Com dois tabuleiros da futura Ponte Luiz I (então em
imprimindo uma nova dinâmica à cidade. o n.º 30 a ‘Hospedaria do Peixe’ na Rua do Bom projecto).
Jardim (Sá da Bandeira), que se transferirá
No centro da Praça de D. Pedro, assinalada Procura ainda com o traçado ou o
para o Largo dos Ferradores (Praça de Carlos
com o n.º 46, a ‘Memória de D. Pedro IV’. A estátua, prolongamento de ruas, desenvolver as ligações
Alberto); com o n.º 33, a ‘Hospedaria do Cysne’
decidida em 1837, é apenas concretizada nos entre a cidade Oriental e Ocidental e entre a
no edifício dos Congregados do lado nascente
anos 60 do século e inaugurada em 1866 [56]. cidade ribeirinha e a cidade alta.
da praça; com o n.º 34, a ‘Hospedaria Lusitanea’
É um monumento do escultor Anatole na Rua da Fábrica e ainda outras hospedarias O Plano complementava estas propostas
Calmels (1822-1906), figurando D. Pedro em diversas zonas da cidade. de intervenção urbana, com a definição de uma
IV a cavalo, tendo na mão direita a Carta estratégia para a sua própria gestão financeira,
Na Travessa da Trindade é referida a
Constitucional. mediante recurso a empréstimo bancário. É
‘Assembleia Portuense’ com n.º 7 e na Praça da
um ‘plano de actividades’, predominantemente
No pedestal protegido por um Trindade o ‘Club Portuense’ com o n.º 8 [55].
político, mas com consequências na evolução
gradeamento, encontram-se as Armas da
Em 1881, o então presidente da Câmara, urbana da cidade, já que prevê a abertura e a
Cidade do Porto e as Armas da Casa de Bragança.
José Augusto Correia de Barros, apresenta e faz rectificação de ruas e de praças, e propõe novos
De ambos os lados, dois baixos-relevos em
aprovar o ‘Plano de Melhoramentos da Cidade equipamentos nomeadamente mercados para o
mármore, representando a entrega à Câmara
do Porto’. O plano, embora não inclua nenhuma abastecimento da cidade.
do Porto do coração de D. Pedro e a entrega
peça desenhada, apresenta pela primeira vez
da bandeira ao Batalhão dos Voluntários Com incidência directa na zona da Praça,
Fig. 30 – C.P.F., Arquivo Alvão, cx.198, nº59. O Monumento a D. Pedro IV, já sem a gradaria em
uma visão global da cidade e da estruturação redor que marcava o relacionamento da obra com a Praça. O Monumento conferiu um simbolismo
da Rainha. Os baixos-relevos em mármore Correia de Barros propõe o “Alargamento reforçado à Praça, dando-lhe a segunda estátua equestre no país.
do seu território, fazendo diversas propostas
foram substituídos por réplicas em bronze e do largo da Feira de S. Bento, desde a Praça
no sentido de introduzir um sistema coerente 153
A.H.M.P., Vereações, 123, fl. 8-9v.
os originais recolhidos no Museu Portuense de D. Pedro até à entrada da rua do Mousinho
de comunicações viárias na cidade.
(Soares dos Reis) [57][58].
73

85
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

da Silveira, formando uma avenida de 32m de Na zona centrada na Praça de D.


largura” e o “Alargamento da parte da rua do Pedro, estão cartografadas as realizações e
Bomjardim, desde a Praça de D. Pedro até à rua transformações urbanas concretizadas nos
do Sá da Bandeira”. cerca de trinta anos que separam esta Carta da
planta de Perry Vidal.
Contemporaneamente foi elaborada
ao longo desta década, concluída em 1892 Com incidência na Praça de D. Pedro
e publicada no ano seguinte, a “Carta estão cartografados os trilhos do americano, a
Topographica da Cidade do Porto que foi Rua de Mouzinho da Silveira e a Ponte Luiz I.
mandada levantar na escala 1:500 por ordem da
A Praça de D. Pedro e a sua envolvente
Câmara Municipal da mesma cidade referida ao
no período que corresponde à transição
anno de 1892”, dirigida e levantada por Augusto
entre os dois séculos está já definitivamente
Gerardo Telles Ferreira, contemplando algumas
consolidada, com os Paços do Concelho
das propostas do Plano de Melhoramentos [59].
ocupando toda a fachada norte, dominando
Os dois documentos acabam assim um espaço arborizado em torno de uma
por constituir um instrumento eficaz de grande placa central pavimentada, tendo ao
[59] - (página anterior)
planeamento. centro a estátua de D. Pedro e equipada com ‘Carta Topographica da
o indispensável mobiliário urbano: quiosque, cidade do Porto que foi
A Carta de Telles Ferreira constitui um mandada levantar na
bancos e postes de iluminação [61][62]. escala 1:500 por ordem
precioso instrumento para a compreensão da Câmara Municipal da
do Porto no final do século XIX, já que nela Em todas as frentes da Praça instalam- mesma cidade referida ao
anno de 1892’. (Dirigida
está rigorosamente cartografada toda a se os principais cafés e estabelecimentos e levantada por TELLES
FERREIRA)
cidade definida pelos seus novos limites comerciais da cidade, muitos deles ostentando
administrativos. o nome de Central, mostrando como a Praça é o
[60] - A zona da ‘1ª
verdadeiro centro da cidade. Avenida’ na Carta de
1892.

87
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

[61] - ‘A Praça de D. Pedro, na cidade do Porto’ (Segundo uma photographia [62] - Projecto para a pavimentação da Praça de D. [63] - A Praça de D. Pedro. (ALVÃO, 1984) [64] - O Pasmatório dos Lóios. CPF Arquivo Aurélio da Paz
de E. Biel). I. Newton/Oliveira, in ‘O Occidente’ nº286, dez.1886. (OLIVEIRA, Pedro. 1881. (SILVA, 2006) dos Reis, apr 4162. (SILVA, 2006)
1985)

[65] - Postal a partir de fotografia de Aurélio da Paz dos Reis. A Igreja dos Congregados ainda apresenta a balaustrada e as escadas de
acesso. (DIAS & MARQUES, 2002)

Na frente nascente, onde outrora fora No conjunto dos edifícios até à esquina
o Convento dos Congregados, o ‘Café Suisso’ com a Rua dos Clérigos, destacavam-se entre
junto da esquina com a Rua de Sá da Bandeira os vários estabelecimentos existentes, o
(Sampaio Bruno), separado do ‘Grande Café ‘Hotel Central, a Flora Portuense’, uma casa de
Central’ por uma Farmácia, e ainda o ‘Café sementes e flores pertencente a Aurélio da Paz
Camanho’ no prédio seguinte. dos Reis, e a ‘Cervejaria de Manuel Alves de Sá
Reis’ [63].
O velho café ‘Guichard’, “aquele café que
há-de merecer uma menção honrosa na história Na frente sul, o edifício das Cardosas era
da literatura portuense, se alguém se lembrar totalmente ocupado no rés-do-chão e em parte
de a escrever um dia” segundo Júlio Diniz, e que dos pisos superiores, por estabelecimentos
encerrou as suas portas nos meados do século, comerciais, serviços, escritórios, ‘ateliers’,
situava-se no edifício onde se construiu o etc. Destacam-se em diferentes períodos da
Banco ‘Pinto, Fonseca & Irmão’ (Banco Nacional viragem do século, a ‘Papelaria Central’, o
Ultramarino) com a Companhia de Seguros ‘A jornal ‘O Diário da Tarde’, o ‘Atelier de Costura
Mundial’. Amorim’ e na esquina com o Largo dos Lóios a
célebre ‘Livraria Moré’, depois substituída pela
Na frente poente, onde ao longo da placa
‘Camisaria Central’. O passeio que corria ao
central estacionavam os fiacres de aluguer, o
longo do edifício das Cardosas era ocupado por
espaço correspondente ao local onde estivera
grupos de homens que encostados ao edifício
colocada a Fonte Nova dava acesso à rampa de
aqui gastavam longas horas conversando e
entrada da Rua da Fábrica protegida por um
admirando os e as que passavam, tornando-se
gradeamento.
conhecido como o ‘Pasmatório dos Lóios e o Real
Clube dos Encostados’ [64].

89
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

[66] - Ruínas ‘Do Lado Da [68] - Cartaz de ‘A


Rua de Sá da Bandeira e Brasileira’, com uma
Aspecto Desta Rua No Dia fotografia da fachada
Seguinte Ao Do Incêndio inicial e a presença do
(segundo photographia fundador e proprietário
do photographo amador do estabelecimento
sr. Anthero de Araújo) O comercial. (Fonte: goo.gl/
Occidente’ n.º 334 de 1 de rnur5r)
Abril de 1888.

[69] - Fachada inicial


[67] - Promoção dos do Café ‘A Brasileira’
Armazéns Hermínios em 1916 (Photographia
(PEREIRA, 2010) portuense) foto de
Aurélio da Paz dos Reis
(DIAS & MARQUES,
2002)

Em frente à Igreja dos Congregados, cuja instalaram-se os ‘Armazéns Hermínios’, um [70] - A Rua de Sá da
Bandeira. Postal do início
entrada era protegida por uma balaustrada, novo programa de estabelecimento comercial do século XX, vendo-se
à direita o Teatro Sá da
desenvolvia-se uma praça, junto ao Convento de importado dos ‘Grands Magasins’ de Paris [66]
Bandeira. (Fonte: goo.gl/
S. Bento, que agora se chama Almeida Garrett e [67]. dLj7lS)

onde está já realizado o “Alargamento do largo


Em frente destes armazéns abre em 1903,
da Feira de S. Bento, desde a Praça de D. Pedro [71] - Rua de D. Pedro. No
o conhecido Café ‘A Brasileira’ e no troço que se centro o Hotel Francfort
até à entrada da rua do Mousinho da Silveira”, e o café do Chaves.
dirige para norte até à Rua de Passos Manuel Fotografia de Marçal
do plano de Correia de Barros [65].
instala-se o Teatro ‘Príncipe Real’ (depois Brandão. Gelatino-
brometo, s/d. AMB083,
A nascente da Praça de D. Pedro, a Rua do Teatro Sá da Bandeira) [68][69][70]. AFP/CPF/MC (SERÉN &
SIZA, 2001)
Bonjardim [hoje Sampaio Bruno], compreendia
Para norte da Praça de D. Pedro, junto
o novo “Alargamento da parte da rua Bomjardim [72] - A capela dos Três
ao edifício da Câmara, partia a Rua de D.
desde a Praça de D. Pedro até à rua do Sá da Reis Magos (Rua do
Pedro à entrada da qual se situava o edifício Laranjal). (Fonte: goo.gl/
Bandeira” proposto por Correia de Barros, LpU7HH) [70]
onde estavam instalados o conhecido ‘Hotel
de crucial importância para a circulação do
Francfort’, e no seu rés-do-chão o ‘Café do
transporte público sobre carris. Na esquina das
Chaves’. O edifício ocupava um lote com
duas ruas estava instalado o ‘Credit Portugais’,
frente nascente para a Rua de D. Pedro e com
mostrando a procura de localizações centrais
frente poente para a Rua do Laranjal, onde se
das Casas de Crédito e dos Bancos.
localizava a Capela dos Reis Magos [71][72].
Na Rua de Sá da Bandeira, o Teatro
A Rua do Laranjal alinhava-se ainda, a
Baquet, do nome do seu fundador António
norte, com a Praça da Trindade. onde se instala
Pereira Baquet, alfaiate e comerciante do Porto,
um Teatro (Teatro da Trindade) na entrada
construído em 1859 com entradas pela Rua de
da Travessa do Pinheiro (Rua do Dr. Ricardo
Santo António e pela Rua de Sá da Bandeira,
Jorge).
foi destruído em 1888 por um incêndio. Em
sua substituição na Rua de Sá da Bandeira
[71] [72]

91
A AVENIDA

“O tal ímpeto desmedido vai por aí acima, num rompante de Avenida dos Aliados; mas
pára daí a pouco, embasbacado diante da igreja da Trindade. Eu não cuido de saber neste
momento se sim ou não se devem levar todas as avenidas ao fim… “

Miguel Torga
MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

TEMPOS REPUBLICANOS

“Apenas da immortal cidade, antiga,


Muito nobre, leal, e sempre invicta,
Dizer-te posso aqui tristes verdades:
O Porto é terra livre, e livre a ponto
Que aos Reis de Portugal já se não curva!”
Faustino Xavier de Novais Poesias 1896

Se a República só é proclamada em 1910, Por isso, e porque muitos dos protago-


a verdade é que desde a última década do nistas da administração da cidade são republi-
século, o espírito Republicano vai ganhando canos, quando a República foi proclamada em
força como o demonstra o levantamento do 1910, no Porto também é da varanda dos Paços
31 de Janeiro de 1891 no Porto, revolta que do Concelho, na Praça de D. Pedro, que o novo
teve por palco a Rua de Santo António (que regime é anunciado.
se chamará Rua de 31 Janeiro) e a Praça de D.
Após a proclamação da República é
Pedro, onde os revoltosos se refugiaram no
empossada uma Comissão Administrativa,
edifício dos Paços do Concelho, bombardeado
que, de imediato, pretende que a Praça de
na repressão do movimento [73][74].
D. Pedro se chame de Praça da República.
Na primeira década do século, já são Contudo, e perante as muitas críticas dos que
muitos os que na cidade do Porto aderem afirmavam a importância de D. Pedro IV para
aos ideais da República, e os Republicanos, a identidade da cidade, nos finais de 1910
já representados no Parlamento e na Câmara tomou definitivamente o justo nome de Praça
Municipal, organizam greves (dos tecelões no da Liberdade.
Porto em 1903 e em 1907), comícios e outras
Fotografia de uma manifestação na Praça de
D. Pedro a 9 de Maio de 1912 (photographia actividades contra o regime monárquico.
portuense) (Fonte: goo.gl/TgVuoX)

95
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

A cidade do Porto, ao longo da segunda Nos finais do século XIX, com a integração
metade do século XIX, apresentou um aumento das Freguesias de Nevogilde, Ramalde e
da sua população que, no período entre 1890 Aldoar (1895) e a conclusão da Estrada da
e 1911, passa dos cerca de 150 mil habitantes Circunvalação, a cidade consolida os seus
para os 200 mil. limites administrativos e define um território
de cidade que se mantem até aos nossos dias.
Também a industrialização da cidade,
iniciada a partir de 1850, conjuntamente Em 1896, envolta em grande polémica,
com o desenvolvimento dos transportes, em foi decidida a construção da estação central
particular o caminho-de-ferro, determina novas situada no local do Convento de S. Bento de
localizações para as fábricas de tecelagem, de Avé-Maria, e por isso se chamou Estação de S.
curtumes, de cortiça, de louça, bem como as Bento. Muitos duvidavam da necessidade e da
fundições, até então localizadas junto às linhas pertinência de uma estação central, sobretudo
de água da cidade e margem do Douro. porque a sua localização implicava a demolição
do Convento de S. Bento de Avé-Maria.
[73] - ‘Proclamação da Entretanto, desenvolvem-se e espalham-
Republica, das janellas
dos Paços do Concelho
se pela zona central, centenas de pequenas Realizado o túnel e os carris que unem a
do Porto‘ - Croquis de indústrias, favorecidas pela manutenção de Estação de Campanhã até S. Bento, o primeiro
L. Freire. ‘O Occidente‘,
n.437 11 de Fevereiro ofícios tradicionais. Assim, na transição do comboio aí chegou nos finais de 1896. A
de 1891. (OLIVEIRA, século XIX para o século XX, o Porto é a cidade primeira pedra do edifício projectado pelo
1985)
mais operária do país, o que não significa que arquitecto José Marques da Silva foi colocada
fosse de facto uma cidade industrial, no sentido pelo rei D. Carlos em 22 de Outubro de 1900 [75]
[74] - Bombardeamentos das cidades industriais que um pouco por a [80].
dos Paços do Concelho
no 31 de Janeiro de 1891 todo o lado na Europa e na América então se
Croquis de L. Freire - ‘O
Occidente‘ nº437 11
desenvolvem.
de Fevereiro de 1891.
(OLIVEIRA, 1985)

97
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

[75] [76] [78] a

[75] - A igreja em
demolição, coexistindo
com a gare provisória já
após o desaparecimento
do convento (cliché de
Aurélio da Paz dos Reis, c.
1902) (DIAS, MARQUES,
2002) [78] b

[76] - Chegada do
Comboio a S. Bento. (AA.
VV. 2001)

[77] - 7 de Novembro
de 1896 - chegada do
1º comboio à Estação
Central de S. Bento.
Fotos de Alvão CP-GHM
(ALVÃO, 1984)

[78] - Fases da
Construção da Estação
Central em postal
ilustrado da Casa Emílio
Biel & C. Porto. (DIAS &
MARQUES, 2002)

a) 1904-1816
b) 1914
c) 1925
[77] [78] c

99
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

[79] - Projecto definitivo


da fachada principal, de
Marques da Silva 1904.
(CARVALHO, 1997)

[80] - Estação de S.
Bento, Marques da
Silva. (CLÁUDIO &
FOTOGRAFIA BELEZA
1994)

A Avenida da Cidade

A abertura em 1886 da Ponte Luiz I, do poder local Republicano. Influenciada


do engenheiro Theophile Seyrig, colocava pela Avenida da Liberdade em Lisboa e pelos
problemas da articulação dos dois tabuleiros ‘Champs Elysées’ em Paris, nasce então a ideia e
com a cidade e em particular com o seu o desejo de uma Avenida Central, cujo desenho
centro, a que se somou a chegada do decorrerá de um conjunto de planos que, com
comboio em 1896 à futura Estação Central avanços e recuos, a vão definindo até à sua
de Caminho de Ferro de S. Bento. Também o concretização.
desenvolvimento dos transportes públicos
Ainda em 1889, Carlos Pezerat, então
urbanos (o ‘carro americano’ que vai sendo
Engenheiro-Chefe Director da ‘Compagnie
substituído pelo ‘carro eléctrico’) influenciam
Générale des Eaux pour l’Etranger’, oferece
os que consideravam que a Praça de D. Pedro,
à cidade um primeiro plano o “Projecto
já acanhada para as funções que desempenhava
d’embelezamento da cidade do Porto para servir
na cidade – situando-se numa zona baixa - era
a edificação aos novos Paços do Concelho e
pouco higiénica. O Porto vivia ainda o trauma
outros edifícios públicos…” [81].
provocado pela terrível peste bubónica de
1899 e daí a enorme preocupação sobre as Constituído por uma planta colorida,
condições higiénicas da cidade, em particular à escala 1:500, tendo por base a planta de
as condições da habitação operária, as ilhas e a 1892 de Telles Ferreira, esta é acompanhada
sua extinção, o que condicionará a actuação de por uma carta em que justifica o seu gesto
todas as administrações municipais ao longo de cívico e aponta as suas determinantes: “...
todo o século XX. apresentar resumidissimamente as vantagens
da obra em relação ao seu primordial objectivo:
Para além disso, os Paços do Concelho
— determinação do local para levantamento
mostravam-se manifestamente insuficientes
dos novos Paços Municipais — e outras
para as necessidades de uma administração
consequências profícuas que, por derivadas, não
municipal, interessada em mostrar a eficiência

101
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

C
D

A
[81] - Projecto de uma Avenida para a instalação dos novos
E Paços do Concelho e outros edifícios públicos por Carlos
Pezerat - “Projecto d’embelezamento da cidade do Porto para
servir a edificação aos novos Paços do Concelho e outros edifícios
públicos…”1889 (AHMP Cota: D-CDT-A5-030-FD)

A - Praça da Liberdade
B - Largo em frente à Igreja da Trindade
C - Alameda
D - Eixo transversal à Avenida das Nações Aliadas - Rua de
Passos Manuel
E - Instalação dos Edifícios Administrativos

são de menor importância, — facilidade de ajardinada, com uma configuração próxima A nascente, manter-se-ia a edificação nascente definiriam os percursos em torno do
trânsito e de comunicação entre os bairros das promenades parisienses, implicando resultante do antigo Convento dos Congregados monumento, enfatizando a direcção sul-norte
oriental e ocidental, — aformoseamento naturalmente a demolição do edifício da e, do mesmo modo, a sul o edifício das Cardosas. [81] A.

indispensável duma parte da cidade que, Câmara Municipal. Paralelamente a este eixo
A poente, seriam recuados os dois O Largo da Trindade seria alargado para
sendo inegavelmente o seu coração e fórum central que correspondia em parte à Rua
quarteirões da praça, e seria proposta uma sul e nascente. Demolidos os edifícios a sul
tradicional, exige agora, com a construção de do Laranjal, e a partir da Praça de D. Pedro
rampa, na direcção sul-norte, que dava acesso da praça e para acentuar a direcção do eixo
uma estação de caminho-de-ferro em S. Bento, desenvolviam-se dois percursos paralelos até à
à Rua da Fábrica. O gradeamento era agora central - gerador de toda a composição - e
condições de perspectiva que impressionem Praça da Trindade. O percurso do lado nascente
colocado na direcção norte-sul de modo a valorizar a Igreja da Trindade como remate a
agradavelmente os viajantes — e finalmente correspondia sensivelmente à Rua de D. Pedro,
marcar o alinhamento das fachadas. norte da Avenida, seria colocado um Relógio,
a modificação das condições higiénicas de que se mantinha a edificação a nascente.
sensivelmente ao centro do largo. A norte, a
determinadas pelo ar e pela luz largamente Manter-se-ia sem alterações o atraves-
A norte da Praça de D. Pedro, seriam confluência das ruas da Trindade, Fernandes
difundidas.” samento Santo António/Clérigos. A placa
demolidos os Paços do Concelho e os edifícios Thomaz e do Estevão, formaria um pequeno
central onde se encontra o monumento a D.
O eixo gerador da composição é adjacentes, criando a partir da Rua de Sá da largo que definiria um remate para a Travessa
Pedro IV seria corrigida, ampliada e definida
traçado entre a estátua equestre na Praça de Bandeira (actualmente Sampaio Bruno) um do Pinheiro (Rua do Dr. Ricardo Jorge) do outro
por uma arborização ao longo de todo o
D. Pedro e o centro da fachada da Igreja da atravessamento na direcção da Rua da Fábrica lado do Largo da Trindade. O lado nascente
perímetro, que com a arborização a poente e a
Trindade na praça do mesmo nome. Entre que constituiria o limite da Praça de D. Pedro. seria arborizado, na continuidade da Avenida
estas duas praças é rompida uma avenida projectada. A sul o Largo seria definido pela

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AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

[82] - Alinhamentos e eixo estruturante da Avenida sobre o Projecto de Carlos Pezerat (1889).

direcção da ‘Rua Formosa prolongada’, ou seja Thomaz, do Estêvão, Formosa prolongada’, e Ricardo Jorge) seria, no projecto de Carlos No entanto, pese embora a qualidade da
pelo prolongamento da Rua Formosa até à ainda a Rua da Cancela Velha, a Travessa dos Pezerat, ocupado por três grandes edifícios proposta de Pezerat, ela não vinha ao encontro
Trindade [81] B. Congregados, e a também já referida Rua de Sá separados por pátios onde se ergueriam do das expectativas da Câmara, já que situava
da Bandeira (Sampaio Bruno). No lado poente lado da Rua do Almada alguns outros edifícios o edifício dos novos Paços do Concelho (e
A placa central era concebida como uma
as já referidas Travessa do Pinheiro (Ricardo complementares [81] E. os outros edifícios públicos) numa posição
zona de promenade, com uma alameda central
Jorge) e Rua da Fábrica. marginal em relação à Avenida e subalterna
ladeada por percursos arborizados apenas De norte para sul e seguindo a hierarquia
à Igreja da Trindade, de que se pretendia a
interrompidos pela ‘Rua de Passos Manuel Uma das novidades mais interessantes administrativa, o poder central, o poder
demolição para rasgar uma avenida com outras
Prolongada’. Esta alameda central teria quatro do ‘Projecto d’embelezamento’ seria a criação de municipal e o poder local. De notar que para
dimensões.
espaços circulares de estar. O segundo, a partir uma nova ligação entre a zona oriental e a zona afirmar a ‘monumentalidade’ destes edifícios,
da Praça da Trindade, situado em frente ao ocidental da cidade, até aí feita exclusivamente a arborização é interrompida em frente da Contudo o projecto de Carlos Pezerat,
futuro edifício dos Paços do Concelho, seria mais pelo eixo Santo António-Clérigos. fachada voltada para a Avenida. A norte sendo o primeiro a traduzir graficamente a
amplo e centrado num lago, e sem arborização destinado à Administração Central, o edifício ideia de uma avenida central, tem o mérito
Pezerat propunha para substituir a Rua
e canteiros, permitindo a visibilidade e o acesso do ‘Governo Civil e Fazenda’, tendo no pátio de ficar na memória dos projectos que se
dos Lavadouros, uma ‘Rua de Passos Manuel
ao edifício da Administração Local. Todo o que se abria para a Rua do Almada, o edifício seguirão, demonstrando a possibilidade de
prolongada’ de que apenas são apontados
percurso da alameda ao longo da placa central, destinado ao Corpo da Guarda e as Oficinas. Ao demolir o edifício da Praça de D. Pedro e rasgar
os arranques a partir da Avenida, mas que se
excepto nos dois pontos referidos, era ladeado centro o edifício com um amplo pátio interior, definitivamente a sonhada Avenida.
adivinha do lado poente o seu prolongamento
por dois extensos canteiros, onde serpenteava destinado à ‘Câmara Municipal’ do lado da
até à Praça de Carlos Alberto e do lado nascente Anos mais tarde, nos finais de 1914 e já
uma linha de água aproveitando o Rio de Vila, Avenida e a ‘Bibliotheca e Museu’ abrindo para
até ao Largo de Santo André (Praça dos consolidada a Administração local Republicana,
linhas de água aqui e ali vencidas por pequenas a Rua do Almada. Ladeando este edifício dois
Poveiros). Serão as futuras ruas de Elísio de o então vereador do Pelouro de Obras, Elísio
e românticas pontes. Nestes canteiros seriam pátios, tendo no pátio sul, centralizado por
Melo, de Ceuta, do Dr. Magalhães Lemos e a de Melo, provavelmente tendo presente esta
colocadas esculturas e equipamentos próprios um lago, os edifícios dos ‘Bombeiros’. A sul e
existente Passos Manuel [81] D. proposta, lança um concurso público para o
de jardins como quiosques e coretos [81] C. ocupando sensivelmente o terreno onde mais
‘Plano de Melhoramentos e Ampliação da Cidade
Todo o quarteirão da Avenida entre a ‘Rua tarde se irá instalar a Sede e a Garagem do
No lado nascente da Avenida proposta, do Porto’, que se pretendia “...elaborado em
de Passos Manuel prolongada’ (Rua de Elísio jornal ‘O Comércio do Porto’ era proposto um
desembocariam as já referidas ‘ruas Fernandes conformidade com os princípios da moderna
de Melo) e a ‘Travessa do Pinheiro’ (Rua do Dr. edifício destinado à ‘Administração do Bairros’.

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AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

[83] - Projecto da uma Avenida ligando as Praças da Liberdade e Trindade, realizado pela 3ª repartição da Câmara Municipal do Porto - [84] - ‘Illustração Portugueza‘. Notícia sobre estudos para a Avenida - apresentação da maqueta [85] - ‘Illustração Portugueza‘ - Notícia
1915 (AHMP cota 2D-CMP-02-150-008) (Cliché A. Martins). (Fonte: goo.gl/XZJf0A) sobre estudos para a Avenida (1915)
(Fonte: goo.gl/XZJf0A)

arte de construção das cidades, tendo-se em vista Paços do Concelho. Mas de novo, demolindo a A Avenida é traçada com uma largura belo edifício da Ordem Terceira, que tem n’ele
as circunstâncias locais...” e cujas propostas Casa da Câmara a norte da Praça (agora) da menor que a da praça, valorizando os cunhais instalados o seu hospital e a sua egreja.”
seriam apreciadas “...em mérito absoluto e Liberdade, se retoma a ideia de uma Avenida arredondados dos edifícios, que a poente e
Este projecto foi apresentado em Agosto
relativo, sob o quíntuplo ponto de vista higiénico, até à Praça da Trindade, com 55 m de largura a nascente fazem o arranque da Avenida. A
de 1915 a uma Comissão, formada pelos
técnico, artístico, económico e social por uma e 489 m de extensão, alinhando a nascente pela arborização na Praça da Liberdade acentuava
engenheiros Joaquim Gaudêncio, Casimiro
comissão idónea (...) da qual fará parte, se Rua de Elias Garcia (antiga Rua de D. Pedro) essa diferenciação dos espaços. Uma ideia que
Barbosa e Aníbal de Barros, e pelos arquitectos
esta comissão executiva o tiver por bem, um e a poente sensivelmente pela Travessa dos se manterá no plano posterior de Barry Parker
José Marques da Silva, Correia da Silva e
profissional estrangeiro de nome consagrado Laranjais. Repete-se o desenho de Pezerat no e na construção da Avenida.
Miguel Ventura Terra (que parece não ter
nesta arte”, como refere a Acta da sessão de 31 prolongamento da Rua Formosa até à Avenida
Aprovado o projecto em Fevereiro de comparecido), e onde esteve presente Barry
de Dezembro de 1914 da Comissão Executiva e do prolongamento da Rua de Passos Manuel
1915, no mês seguinte uma fotografia da Parker o “…ilustre técnico inglês que se encontra
da CMP. como atravessamento principal da Avenida.
maquete é publicada na ‘Illustração Portuguesa no Porto a convite da Câmara...”.
O mesmo Elísio de Melo irá orientar a O processo incluía uma maquete que n.º 475 de 29 de Março de 1915’, acompanhada
As críticas então formuladas, conduziram
3.a Repartição Técnica na elaboração de um acrescenta à planta alguns elementos, como com um texto que lhe chama ‘Avenida da
a que este projecto da 3ª Repartição, embora
processo “Praça da Liberdade e Trindade. a arborização no eixo da Avenida. A maquete Liberdade’ (só será das ‘Nações Aliadas e dos
aprovado e publicitado, fosse esquecido e
Projecto de uma Avenida ligando estas Praças”, tem uma legenda com “Projecto da Avenida Aliados’ após a I Guerra). No texto da notícia
que fosse Barry Parker a ser convidado para
de que faz parte um projecto para a abertura da entre as Praças da Liberdade e da Trindade”. pode ler-se: “A Avenida da Liberdade no Porto.
elaborar o Plano da Avenida. Barry Parker
Avenida da Cidade, datado de 18 de Janeiro de Estão colocados pequenos letreiro apontando – A camara municipal do Porto, por proposta do
critica a solução afirmando que “…que nem
1915, colhendo o visto do Vereador responsável os arruamentos: à esquerda ‘rua do Almada’, à seu vereador sr. Elisio de Melo, vae embelezar
era uma Avenida nem uma Praça — larga de
Elísio de Melo em 20 de Janeiro e apresentado direita ‘rua do Bonjardim’, e no segundo plano aquela cidade com mais um melhoramento
mais para Rua tão curta, e comprida de mais
à Câmara onde foi aprovado em 3 de Fevereiro de poente para nascente “Prolongamento da… que muito contribuirá, decerto, para o seu
para uma Praça.”
de 1915 [83]. Rua de Passos Manuel”. Na maquete era também aformoseamento. Esse melhoramento consiste
evidente a preocupação de diferenciar o espaço na abertura de uma avenida que vae desde a Barry Parker permanecerá no Porto até ao
Apesar de ser uma das preocupações
da Praça da Liberdade do espaço da Avenida Praça da Liberdade (antiga Praça Nova) até final do ano de 1915, e aqui elaborará o projecto
centrais da Câmara e um dos objectivos do
[84][85]. ao largo da Trindade, cujo topo é formado pelo para a Avenida. Depois, já em Inglaterra em
plano, não se indica a localização do edifício dos

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AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

[86] - Planta apresentada na Memória e que corresponde ao 2º projecto de Barry Parker (PARKER, 1915)

1916, ampliará o seu plano desde a Ponte Luiz “…o essencial seria rasgar o centro da cidade
I até à zona norte da Praça da Trindade. Barry e crear um verdadeiro Centro Cívico; vejo que
Parker numa publicação da Câmara Municipal tudo fizestes em obediência ao propósito de
do Porto de 1915 e intitulada ‘Memórias sobre salubrisar e ao mesmo tempo dignificar a
a projectada Avenida da Cidade’ (Da Praça da cidade, e vejo-vos ainda bem scientes de que
Liberdade ao Largo da Trindade) propõe como isto se não faz deitando abaixo ruas estreitas e
objectivos para o seu Plano: “Abrir uma Avenida insalubres para as substituir por outras quasi
larga, que deverá ser, antes que tudo, muito egualmente estreitas, e que, porventura, viriam
dignificante. Abrir e alargar uma parte da cidade a tornar-se também insalubres.”
que está muito congestionada. Proporcionar
Parker afirma então a necessidade, para
sítios convenientes para que a collocação de
se chegar a uma boa e económica solução, de
edifícios de valor, estatuas, etc., possa contribuir
compreender o sítio tal como seria se não
devidamente para a decoração da vossa Avenida,
existissem as edificações e de seguida, passa
completando-a na sua concepção architectural.
a descrever e fundamentar esta sua primeira
Ao mesmo tempo, de cada ponto de vista se
proposta em que colocava o novo edifício da
deverá destacar um quadro agradavelmente
Câmara Municipal a sul da Avenida, separando
proporcionado em comprimento, altura e
esta da Praça da Liberdade através de um arco
largura, sem prejuízo da ideia de grandeza ou da
que permitia conservar o eixo visual. E Barry
impressão de amplidão.”
Parker termina esta sua primeira intervenção:
E Barry Parker, no seguimento do plano “… o resultado será o terem para a vossa cidade
anterior considera que “Senti que era de meu uma Avenida mais digna do que a proposta e que
dever melhorar e não destruir a boa forma e não parecerá como poderia parecer, estar por
as proporções das vossas praças da Liberdade completo fora de escala com as suas visinhanças.
e da Trindade, augmentando mesmo, em cada Há-de melhorar em vez de amesquinhar a Praça
uma d’ellas, a impressão de encerramento e da Liberdade, e a Praça da Trindade não parecerá
protecção a que os planeadores de cidades confinar desairosamente com as edificações do
dão tanta importância, quando tratando lado sul da Praça da Liberdade, ou com a Egreja
de praças como estas.” Parker justifica ainda da Trindade, e dar-lhes-ha, de facto, o Centro
os seus primeiros estudos compreendendo as Cívico que pretendem.” [86].
preocupações da Câmara de criar um amplo e
higiénico espaço que funcionasse como Centro:

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AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

[87] - Maquete do plano Barry Parker vista do norte [88] - Maquete do plano Barry Parker vista do sul

Das críticas a este primeiro estudo atravessar a Avenida junto do seu extremo Camará, attrahindo a si muita gente pelas suas reconhecesse a plena importância ligada a
destacam-se as do engenheiro Gaudêncio Norte, a fim de que para ahi afflua a circulação” múltiplas funcções, faz augmentar o trafico e qualquer edifício (sem olhar á sua applicação ou
Pacheco e do arquitecto Marques da Silva, e “…que, passando por ahi, ficarão quasi ruas a concorrência.” Esta localização da Câmara objectivo) da grandeza d’esta Egreja, possuindo
críticas que Barry Parker aproveitará para planas, correndo em direcções dos lados de Leste Municipal tornar-se-á definitiva. Neste mesmo uma torre e estando situada como está.” E o
reformular o seu projecto para a Avenida, que e Oeste que fornecem caminhos alternados entre texto Barry Parker debruça-se sobre a forma e edifício da Câmara “…deverá ser de frente dupla,
se aproxima agora da forma definitiva. Nessa os dois pontos importantes da cidade, já por mim a localização da Torre do Relógio “…uma torre dando d’um lado para a nova Praça e do outro
publicação ele vê com agrado “…a possibilidade apontados, evitando a descida e subida do valle.” de Relógio, hexagonal, com mostradores para os para a Praça da Trindade.” [89].
de se abrirem mais ruas atravez da Nova Avenida, [87][88]. lados de cima e de baixo e para cada uma das
Sucederá precisamente o contrário e a
de Leste para Oeste, ou diagonaes de Nordeste a 4 ruas radiaes”. Colocada a sul “… não dividia a
Barry Parker, nas Memórias sobre a torre da Câmara (com o relógio) elevar-se-á
Sudoeste, e a relação em que estas ruas deveriam Avenida” e pela disposição das ruas “…a torre
projectada Avenida da Cidade aceita ainda a acima da torre da Igreja da Trindade, numa
ficar para com a Avenida.” E constata: “Que do relógio não parecerá uma cousa collocada no
sugestão de Marques da Silva, o qual tinha num afirmação da Administração Local laica, sobre
todas as suas linhas de trafico convergem para meio d’uma longa rua mas será vista como um
“…croquis explicativo” indicando “…que o edifício ponto terminal contra um fundo formado pelos
o símbolo da Igreja.
dois pontos altos; que as principaes estradas,
deveria ser precedido de uma praça de honra que prédios.” E a propósito da torre do relógio e de
vindas do campo, tomam a mesma direcção, e Por último, neste documento ‘Memórias
constituiria o parvis municipal.” Assim considera
que o único meio de ir d’um d’estes pontos para que ela não deveria ser colocada no edifício sobre a projectada Avenida da Cidade’, é
“…que a Camara Municipal poderia ser edificada da Câmara, já que “outra torre ainda mais
o outro, é descendo uma rua muito acidentada publicada a Acta da última reunião da Comissão
ao lado Norte da Avenida em vez de o ser ao Sul.” alta, …faria confusão e seria de mau effeito”,
até à Praça da Liberdade para subir outra, de Técnicos, realizada em 11 de Outubro
E que “…deverá ficar n’um ponto d’onde domine
igualmente íngreme, que parte da mesma Praça. coloca pela primeira vez a questão do conflito de 1915, presidida pelo Vice-Presidente da
toda a Avenida, ou seja no ponto mais alto d’ella.
Notei também que a maior parte das ruas, nas arquitectónico, mas sobretudo ideológico e Comissão e em que Marques da Silva, que
Se para o edifício se olhasse de um ponto mais
visinhanças da Avenida, teem a direcção de simbólico, entre o poder Municipal e a Igreja. mais tarde terá um papel importante na
alto da avenida, o effeito não seria tão digno.
Norte-Sul, sendo cruzadas por vias mais curtas, Para Barry Parker, justificando o seu projecto configuração final da Avenida dos Aliados,
Penso egualmente que, com esta disposição, a dos Paços do Concelho, “…Pondo inteiramente
de Leste para Oeste. Que entre estas a única formula algumas objecções sendo decidido
parte Norte da Avenida, que parecia talvez vir a de parte a opinião ou sentimento que haja,
contínua atravez d’esta área, é a formada pelas fazer “…uma maquette da planta do Snr. Parker,
ser menos concorrida, ganhará muitíssimo com na mente de algumas pessoas, sobre a Egreja
ruas 31 de Janeiro e dos Clérigos, e, finalmente corrigindo-se n’esta qualquer incorrecção que a
a visinhança da Camara Municipal, adquirindo, da Trindade, como Egreja, qualquer projecto
que nesta área não ha ruas diagonaes.” Para mesma maquette porventura accuse.”
por isso, maior valor os terrenos ahi, visto que a seria condemnado architecturalmente que não
estas propõe “…que as ruas diagonaes deveriam

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AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

[89] - Perfil simplificado com alinhamento para a Igreja da Trindade - Barry Parker (AHMP cota D-CDT-A5-061-01FD)

A eliminação da passagem de peões, arredondados o tráfico passa atravez dos cantos, Na sua proposta final e no seguimento simetria, as futuras ruas do Dr. Magalhães
da Praça da Câmara para a Rua do Almada deixando os edifícios, que formam os ângulos das propostas anteriores, Barry Parker toma Lemos a nascente e de Elísio de Melo e Rua de
correspondendo no lado oposto à entrada da interiores, a perder de vista. Os chãos que assim por base da geometria da sua composição Ceuta a poente. Simetricamente à entrada da
Rua Formosa, é eliminada contra a opinião de ficam nunca teem o valor que deviam ter, e casas, urbana, o eixo que liga o centro da fachada da Rua Formosa era criada uma passagem pedonal
Marques da Silva. Parker na publicação citada, nesses ângulos e cantos, são desagradavelmente Igreja da Trindade à estátua de D. Pedro IV na com que Barry Parker completava o esquema
justifica-se evocando argumentos de ordem devassadas pelas outras que lhe ficam em angulo Praça da Liberdade. De seguida traça a partir da [90].

financeira: “Eu estou de accordo que, como recto e uma casa n’um canto não faz frente para estátua de D. Pedro IV, uma paralela à Rua do
Embora retirada da proposta final
effeito architectural a Praça ficou prejudicada. a Praça. À parte estas considerações parece-me Almada, que define a abertura da Avenida em
apresentada na CMP, ela está ainda desenhada
Mas foi considerado que esta curta passagem, que os crescentes hão-de dar um bonito effeito direcção à Câmara. E define o espaço da Avenida
na planta publicada, em 1916, no jornal inglês
entre a Praça e a Rua do Almada, não offerecia architectural ao projecto.” pela transposição para nascente de um eixo
‘The Builder’ [91].
sufficientes vantagens práticas para justificar a simétrico em relação ao eixo central. A norte
Sobre a pavimentação: “Algumas pessoas
perda de chãos para edificações e que o defeito da Avenida completa o losango definindo dois A Praça da Trindade é organizada por
são de opinião que a Praça em frente à Camara
architectural não era tão importante como a lados que se encontram no centro da fachada Barry Parker de forma octogonal, a partir da
deveria ser calcetada sem ter nenhuma parte
parte financeira que se obteria.” da Igreja. Estes lados do losango definem a utilização de um modo muito subtil, da presença
ajardinada. Eu approvo a ideia mas não
poente e a nascente a implantação do edifício dominante da torre da Igreja da Trindade, dos
E, sobre a Praça da Câmara e sobre os devemos perder de vista as desvantagens que
da Câmara. eixos da Avenida e dos arruamentos existentes.
edifícios em crescente na praça do Município: teem grandes áreas de terreno calcetado, ou
Cria ainda uma praça redonda no encontro da
“Parece-me que se tem discutido os crescentes mesmo em forma de mosaico: o reflexo do sol, A geometria dos traçados é completada
Rua Formosa com a Rua do Bonjardim, criando
que occupam, um o N. E. e o outro o N. O. da de verão faz calor, e a sua vista de inverno é pelas transversais, duas enquadrando o
uma rua na direcção do Mercado do Bolhão e da
proposta Praça e devo esclarecer que estes triste. Ajardinar uma parte da Praça, sem dúvida edifício da Câmara, as futuras Ruas de Ramalho
Rua de Fernandes Tomás.
foram propostos por motivo das vantagens que a tornaria mais agradável; a questão é se isso Ortigão e de Rodrigues Sampaio e mais a sul
offerecem; estas vantagens são que: quando destruiria o seu effeito para reuniões públicas. o atravessamento principal poente-nascente, Como refere Rui Tavares num texto de
se passa deante de um largo que tenha os seus Espero no emtanto que se permitta a plantação constituído pela Rua de Passos Manuel 1996, intitulado ‘Da Avenida da Cidade ao Plano
cantos arredondados passa-se perante os de sufficientes árvores para haver sombra e dar prolongada, fazendo uma inflexão simétrica a para a Zona Central’. ‘A Intervenção de Barry
edifícios; mas quando os cantos do largo não são relevo á Praça.” partir do eixo central. Serão, sem seguir esta

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AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

Parker no Porto,’ publicado no Boletim Cultural Crescentes, utilizando o seu raio de círculo como
da Câmara Municipal do Porto, a Praça do gerador de toda a praça [92][93].
Município onde se situaria o edifício dos Paços
Barry Parker com o edifício da Câmara,
do Concelho era “rigorosamente submetida
procura dominar toda a composição, e
ao princípio da simetria axial, tirada ao eixo
simultaneamente respeitar a Igreja da Trindade.
que unia a estátua de D. Pedro com a torre da
Por isso cria um edifício de dois pisos e um
Igreja da Trindade, integrando o próprio edifício
mezanino, implantado numa forma trapezoidal
da Câmara. Procura garantir-se uma clara
centrada no eixo principal da composição
identidade urbana das áreas em que o projecto
e definida pelos traçados propostos para a
se estruturava, ou seja, nunca se perder a noção
articulação das duas praças entre as quais se
de que a avenida liga duas praças. Para tanto
situava. A torre da Trindade surgiria por detrás
contribuía o traçado proposto para a avenida,
dando a ilusão de pertencer ao próprio edifício
não em linhas paralelas, mas convergentes no
para quem subisse a Avenida [94].
sentido da Praça da Liberdade, assegurado a sua
contensão. A fachada principal teria um pórtico
enquadrado por dois corpos, onde se abriam
Também para a Praça Municipal se
duas portarias correspondentes aos dois pisos
procurava essa mesma contensão, ao introduzir
e ao mezanino, encimados por frontões com
uma descontinuidade nos alinhamentos da
um óculo, utilizando Parker, como em todas as
avenida e da praça; enquanto no caso da avenida
edificações que projectará para o Porto, uma
os alinhamentos se aproximavam do eixo central
linguagem inspirada no neoclássico portuense,
da composição, na praça eles afastavam-se.”
aliás de origem inglesa. Daí a reacção por parte
[90] - Eixos e geometria da
Barry Parker organiza cuidadosamente de uma administração e por parte dos mais
composição do desenho da a Praça do Município, procurando enquadrar conceituados técnicos, todos de formação
Avenida de Barry Parker.
o edifício dos Paços do Concelho com os francesa e ‘Beaux-Arts’.

115
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

[91] - (página anterior) O Projecto para a Avenida


da Cidade de Barry Parker publicado em ‘The
Builder’ 1916. (TAVARES, 1985/86)

[92] - Detalhe da Praça da Trindade no projecto


publicado no ‘The Builder’. com indicação dos
eixos

[93] - Proposta para a Praça do Município, eixos e


geometria da composição

117
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

[94] - Alçado da Praça do Município na publicação ‘The Builder’ 1916. (AHMP cota: 20D-CDT-A5-027-FD)

[95] - Projecto para o edifício dos Paços do Concelho por Barry Parker. (AHMP cota: 10D-CDT-A4-003-FD)

Esta linguagem neoclássica é ainda mais Sobre a edificação ao longo da Avenida,


evidente na fachada do lado da Trindade, onde para além da arcada os edifícios organizavam-
a praça a nascente era marcada pelos edifícios se numa alternância de corpos avançados e
neoclássicos do início do século XIX. recuados, formando pátios equipados com
fontes que lhes davam uma intimidade e
O edifício dos Paços do Concelho de dois
tranquilidade contrastando com a animação
pisos e um mezanino, é composto por três
que se pretendia nas arcadas. Parker acrescenta
corpos dispostos em triângulo, formando um
que esta forma visa aumentar a superfície
pátio central onde surge a sala da Vereação em
das frentes das edificações constituindo um
anfiteatro coberta por uma cúpula de vidro.
“forte incremento do valor financeiro dos sítios
Este anfiteatro era, na mais pura tradição
construídos.” [97].
democrática, o espaço mais nobre e importante
do edifício e por isso abria pelo pórtico principal, Do mesmo modo Barry Parker desenha as
para a avenida ou seja, para a cidade [95][96]. edificações para as diagonais, sendo de salientar
o cuidado posto no desenho dos cunhais, com
A parte central da Avenida, a avenida
mais um piso, forma que sensivelmente se
propriamente dita é definida pelos traçados
manterá na edificação da Avenida.
que abrem a partir da Praça da Liberdade até
à Praça do Município, conferindo-lhe uma A Praça da Liberdade, demolidos os
forma triangular. Esta forma foi responsável edifícios a norte, entre os quais a Câmara, é
por, popularmente, a praça ser designada pelo reformulada por Parker de modo a ser integrada
‘Bacalhau’. na composição da Avenida. Para isso propõe a

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AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

[97] - Planta e Alçado do conjunto edificado. gaveto com a Praça da Liberdade. Barry Parker. (AHMP cota: 19D-CDT-A4-116)

reformulação da sua fachada poente criando visibilidade à Galilé de Nasoni, e uma outra
um paralelismo com a Rua do Almada, um dos praça terminando em semicírculo em frente da
eixos geradores da composição. Por outro lado, fachada principal da Catedral. Esta forma seria
Barry Parker, querendo marcar a memória da geradora de um conjunto de ruas aproveitando
praça, não a encerrando mas ao mesmo tempo a topografia do terreno. Integrada neste plano
não a diluindo na Avenida, cria com os dois entre a Estação de S. Bento e a Sé, uma ampla
primeiros edifícios uma entrada na Avenida. praça rematada a sul por um edifício central,
que permitia a articulação para sudoeste com
Barry Parker irá ainda ampliar e integrar
a referida praça que enquadrava a fachada
o Projecto da Avenida da Cidade, num plano
norte da Sé e para sudeste a Rua de Saraiva de
mais vasto, desde o tabuleiro superior da
Carvalho, ligação ao tabuleiro superior da Ponte
Ponte Luiz I até à Avenida projectada e desta
Luiz I. Serpenteando por esta Avenida-Praça
para norte da Praça da Trindade, criando uma
o transporte urbano sobre carris. De novo os
larga avenida que entroncaria na Rua de Faria
edifícios projectados para a praça, quer pelo
Guimarães. A norte do edifício da Igreja e do
desenho dos alçados de conjunto quer pelos
Hospital da Trindade, Barry Parker propõe uma
elementos que compõe a fachada, remetem
praça junto à Rua de Camões, de onde partiria
para a imagem do neoclássico portuense [98][99].
uma avenida até à Rua do Paraíso, onde era
rematada a norte por um edifício. A nascente
desse edifício, a Rua de Faria Guimarães
faria a ligação com a Rua da Constituição.
[96] - Modelos Para sul da Praça da Liberdade, Barry Parker
tridimensionais a partir
de desenho de alçado propõe a reformulação de toda a envolvente
de Barry Parker para os da Sé, criando uma praça rectangular dando
Paços do Concelho

121
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

[99] - Projecto para


a ‘Avenida da Ponte’
- proposta para a
[98] - Plano global criação de novo
das intervenções a centro monumental;
realizar, Barry Parker Barry Parker, 1916.
(CARVALHO, GUMARÃES (AHMP, cota: 11D-CDT-
& BARROCA, 1996) ROL-A2-001)

123
MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

TEMPOS DE CONSOLIDAÇÃO
E DE PLANEAMENTO

“Olá tudo com que hoje se


constrói, com que hoje se
é diferente de ontem!
Eh cimento armado, beton de cimento,
novos processos!”

Álvaro de Campos - Ode Triunfal 1915

Portugal, como a generalidade dos países cidade desenvolve-se no sentido sul-norte, com
europeus no imediato pós-guerra, atravessa os atravessamentos do Douro concentrados
uma generalizada crise, quer política (agravada nas duas pontes existentes, com uma forte
com o assassinato de Sidónio Pais), quer centralização na Praça da Liberdade, e daí
económica, que conduziu ao Golpe de Estado irradiando um conjunto de arruamentos,
de 1926. No Porto, os anos da Ditadura Militar correspondentes à malha tradicional do Porto
e os primeiros anos do Estado Novo, quando (portas da muralha), ao longo dos quais se vão
a cidade ultrapassa os 200.000 habitantes, concentrando novas edificações. Esta estrutura,
correspondem à realização de um conjunto de apesar do considerável aumento do número de
projectos herdados do período Republicano, automóveis (43 000 automóveis em Portugal
entre eles, porventura o mais importante, a em 1935), é acentuada pelos transportes
Avenida dos Aliados. públicos de que o eléctrico é o principal meio
de mobilidade dentro da cidade e da relação
A organização da Cidade do Porto
com os núcleos periféricos nos limites ou no
durante este período, e apesar das propostas
exterior desta (Areosa, Ermesinde, Rio Tinto),
contidas nos diversos planos, não se altera e
estendendo-se aos concelhos de Matosinhos e
até se consolida mantendo-se no essencial a
Gaia.
Vista aérea da Avenida e Praça do General Humberto Delgado. (VALE, 2008) estrutura dos finais do século XIX. Ou seja, a

125
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

[100] - Sobreposição
de planta actual com
proposta de Barry
Parker.

[101] - Projecto de
Correia da Silva para
os Paços do Concelho [102] - Planta do Piso Térreo dos Paços do Concelho, de Correia [103] - Planta do 1º Piso dos Paços do Concelho de Correia da
(Proposta vencedora da Silva. (AHMP, cota: D-CDT-B3-004-01 FD) Silva. (AHMP, cota: D-CDT-B3-004-02-FD)
- 1917) (AHMP, cota: D-
-CDT-A4-180-001 FD

No período entre guerras, com a edificação Com a conclusão do novo edifício do imagem, pela influência parisiense de Marques - As ruas diagonais de Ramalho Ortigão
da Avenida dos Aliados e a sua envolvente, mercado do Bolhão, complementando o da Silva e de Correia da Silva. Do desenho das e Rodrigues Sampaio, embora só abertas
forma-se um verdadeiro centro onde decorre mercado do Anjo, do Peixe e Ferreira Borges, edificações que Parker havia concebido para a parcialmente até à Rua do Almada e até à Rua
toda a vida urbana. A Praça da Liberdade o abastecimento da cidade é concentrado no Avenida, desaparecem os pátios e as arcadas. A do Bonjardim;
reforça-se como o centro distribuidor dos centro. No plano simbólico e monumental, linguagem monumental e ‘fin-de-siècle‘ que se - O atravessamento nascente-poente constituído
transportes públicos; na Avenida estabelecem- procura-se a valorização dos edifícios históricos pretende utilizar na arquitectura dos edifícios, pelo prolongamento da Rua de Passos Manuel
se as primeiras praças de táxis; para além da existentes (segundo os critérios da época) e é uniformizada por regulamento [100]. (ruas do Dr. Magalhães Lemos e de Elísio de
Estação de S. Bento, constrói-se a Estação da erguem-se algumas esculturas. Melo), que aliás já estava programado nos
No entanto permanecem das propostas
Trindade como terminal da linha da Póvoa; anteriores planos para a Avenida;
Assiste-se à penetração, embora lenta, de Barry Parker:
constroem-se as primeiras Garagens; instalam- - No plano global, a ideia da ‘Avenida da Ponte’ e
de algumas expressões de modernidade na
se aqui as sedes dos principais Jornais. Para - O eixo central unindo a estátua de D. Pedro da valorização do edifício da Sé pela demolição
vida e na paisagem citadina. São os magazines
além dos edifícios dos serviços do Estado (Paços com o centro da fachada dos Paços do Concelho de grande parte dos edifícios que a rodeavam.
e as publicações agora utilizando a fotografia,
do Concelho, Banco de Portugal e Caixa Geral de (e da Igreja da Trindade);
os cafés e os clubes, a publicidade nas lojas e
Depósitos) constroi-se um conjunto de edifícios A Avenida da Cidade, inicia-se formal
os anúncios (alguns mesmo luminosos), é o - A forma de abertura de sul para norte, num
de equipamentos culturais (teatros, cinemas, e oficialmente no dia 1 de Fevereiro de 1916,
desenvolvimento da rádio e do cinema, do ângulo em relação ao eixo central definido
sedes de jornais), económico e financeiro (sedes na presença do Presidente da República
automóvel, e das redes de infraestruturas pela Rua do Almada, na zona norte da Avenida
de bancos, companhias de seguros e empresas). Bernardino Machado e do chefe do Governo
urbanas. enquadrando os Paços do Concelho;
Concentram-se neste centro os principais Afonso Costa, “arreando-se a primeira pedra
- O traçado das ruas que ladeiam o edifício da
estabelecimentos comerciais, os cafés e as Neste quadro, a Administração Municipal do cunhal sudoeste do edifício que tem servido
Câmara na direcção da Igreja da Trindade;
confeitarias, e os escritórios dos profissionais vai prosseguir a construção da Avenida, de Paços do Concelho”, como se lê na Acta da
liberais (médicos, advogados, engenheiros, - A identificação clara das praças da Liberdade
seguindo na planimetria as propostas de Barry Cerimónia realizada “nesta cidade do Porto
arquitectos, etc.). e do Município;
Parker, mas alterando significativamente a sua e Praça da Liberdade”. Entretanto, a Câmara

127
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

[104] - Vista geral com o processo de construção dos Paços do


Concelho e envolvente da Avenida. (ALVÃO, [s.d.])

[105] - Zona que deveria ser demolida para a implementação


do plano de Barry Parker sobreposta à planta de Telles Ferreira
de 1892.

Municipal instala-se com todos os seus serviços O programa do concurso, “Perante que apresentou o projecto escolhido pelo Júri. ‘estilo‘ das fachadas da Avenida, segundo Rui
no Paço Episcopal, em Fevereiro de 1916, tendo a Câmara Municipal do Porto está aberto O edifício, apenas iniciado em 1920, só será Tavares é publicado, em 1917, o “Regulamento
sido para isso publicado, ainda em Novembro concurso entre portugueses para a elaboração inaugurado em 1957, e o período da construção para a concessão de prémios destinados às
de 1915, o decreto n°2055 que cedera à Câmara do projecto do edifício destinado à Câmara do edifício dos Paços do Concelho corresponde melhores edificações sob o ponto de vista
Municipal, a título de arrendamento, o edifício Municipal,” datado de 12 de Abril de 1916, de certa maneira à edificação da Avenida e estético” onde se estabelecia que o primeiro
“pelo tempo somente que durar a projectada revela as intensões municipais para a imagem ao apogeu da Baixa do Porto como centro da prémio, denominado ‘Prémio de Honra da
construção dos novos Paços do Município”. que deveriam ter os novos Paços do Concelho: Cidade [101][102][103]. cidade do Porto‘, era concedido “à mais bela
Durará até 1957 e a presença da Administração “O edifício será construído no extremo norte da fachada de edifício construído na futura grande
Entretanto nos finais de Dezembro de
Municipal no Palácio do Bispo será um dos nova Avenida entre a Praça da Liberdade e a avenida da cidade já iniciada, (o que) abre a
1917 instala- se uma nova Administração
argumentos para se fazer sentir a necessidade Praça da Trindade e deverá, pela sua concepção possibilidade de individualizar as construções
Municipal, presidida por Arthur Jorge
de estabelecer uma ligação entre a Ponte Luiz e aspecto, contribuir para o embelezamento do projecto do «centro cívico» subtraindo-se ao
Guimarães, crítica da gestão anterior, mas
I e a Avenida dos Aliados (a ‘Avenida da Ponte’ deste importante centro comercial e industrial, proposto ordenamento de conjunto.” Porém, ao
que irá dar um novo impulso à construção
aberta nos anos posteriores à II Guerra e ainda terminando dignamente a vasta perspectiva longo dos anos, entre as duas guerras, irão ser
da Avenida, iniciando-se as expropriações, o
o Terreiro da Sé para ‘desafogar‘ a Catedral e o da Avenida em execução”. Nas condições a construídos na avenida edifícios cuja linguagem
loteamento e a venda dos terrenos. De facto,
Paço Episcopal, concretizado em 1940). que devem satisfazer os projectos também irá variando entre o ecletismo do fim de século
para a abertura da Avenida foi necessário
se acentuam as relações a considerar com até ao uso das fachadas ‘art-déco’ mantendo-
Como o projecto de Barry Parker para executar um vasto conjunto de expropriações,
as edificações a executar na nova avenida, se contudo uma imagem bastante coerente da
o edifício da Câmara não correspondia às tendo sido realizado o agrupamento das
“edificações que o concorrente presumirá, arquitectura da Avenida. De reparar que todos
expectativas ideológicas e formais, quer da tradicionais parcelas estreitas do Porto para
impondo-lhe condições que porventura julgue os edifícios de gaveto são rematados por um
administração municipal quer dos técnicos criar lotes que possibilitassem a construção de
indispensáveis para salvaguarda da dignidade elemento mais alto, lanternim ou cúpula.
(entre eles o prestigiado Marques da Silva com edifícios de outra dimensão [104][105].
que ao edifício em projecto importa dar, atento
notória influência na arquitectura da cidade), é Marques da Silva, em 1919, apresenta
o seu elevado destino.” Ao concurso apenas se Ainda no período da República,
de imediato lançado, ainda por Elísio de Melo, o esboceto dos dois prédios para o início da
apresentam dois concorrentes, os arquitectos influenciado pelo Prémio Valmor de Lisboa,
um concurso para os novos Paços do Concelho. Avenida, o edifício-sede da seguradora ‘A
Edmundo Tavares da Câmara de Lisboa e mas com a intensão clara de uniformizar o
Nacional‘ e o edifício ‘‘Pinto Leite’‘ (Bank of
António Correia da Silva da Câmara do Porto,

129
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

[106] - Corte
Transversal pela Praça da
Liberdade.

London & South America), que irá projectar coerência da imagem.


entre 1920 e 1922, procurando estabelecer
Esta fase da arquitectura em Portugal, em
o modelo de uma arquitectura ‘Beaux-Arts‘ e
que se realizam as primeiras obras do nosso
monumentalizar a Avenida [108].
modernismo, é marcada pela influência do
Avenida, que no final da I Guerra se que se convencionou chamar ‘art-déco‘ - gosto
chamou das ‘Nações Aliadas‘ e depois Avenida ou moda - e que alguns autores não hesitam
dos Aliados, e cuja construção estará completa mesmo em definir como ‘estilo‘, difundido
(exceptuando o Palácio dos Correios), no a partir ‘da Exposition des Arts Décoratifs‘, [107] - Foto da vista
da Praça da Liberdade
início dos anos 50. Estas duas edificações, no realizada em 1925, em Paris, e de onde, aliás, (estátua de D. Pedro IV
e edifícios ‘A Nacional‘
arranque da Avenida, criam uma espécie de lhe vem a designação. Correspondendo a
e ‘‘Pinto Leite’‘). (VALE,
‘porta‘, que, ao definir o espaço da Praça da um gosto então dominante entre as elites 2013)

Liberdade, concretizam a ideia de Barry Parker burguesas e cultas, invadiu com sucesso, o
de que, mais do que uma avenida de largura domínio dos objectos quotidianos - a moda,
uniforme, ela deveria constituir-se num espaço o mobiliário, a joalharia, a decoração de
urbano organizado pela sucessão de três praças interiores, o ‘lettering‘ – estendendo-se com
[106][107]. naturalidade à arquitectura - pelo menos nos
seus aspectos mais exteriores e decorativos e
A partir destes dois edifícios, no período
em particular nos estabelecimentos comerciais
entre as duas guerras, irá edificar-se quase
e habitações. Não surpreende pois, que os
toda a Avenida, seguindo inicialmente o
primeiros projectos que se quiseram modernos
regulamento, mas com a mudança do regime [108] - O esboceto de
em Portugal, realizados por arquitectos, muitos
político e sobretudo com o aparecimento de Marques da Silva para
deles em contacto com Paris dos anos vinte, o arranque da Avenida
uma nova geração de arquitectos, a linguagem 1919 escala 1/200. Tinta-
recorreram com frequência, no tratamento das da-china e aguarela sobre
vai-se modernizando, mantendo contudo a
fachadas e dos pormenores, a este formulário. As papel vegetal 66,5 x 40.
(cm. FIMS_MSMS_2320-
garagens e os cinemas são os novos programas pd0003)

131
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

[109] - Praça da Liberdade para a Avenida [110] - Praça da Liberdade para a Avenida dos Aliados (postal da época) [111] - ‘Os Meninos‘ do escultor Henrique Moreira e do [112] - A ‘Juventude‘ ou ‘Menina Nua‘ do escultor Henrique Moreira e
dos Aliados. (GRAVATO,2004) (GRAVATO,2004) arquitecto Manuel Marques. (BRANCO & MARQUES, do arquitecto Manuel Marques. (BRANCO & MARQUES, 2005)
2005)

que melhor permitem aos arquitectos ensaiar arquitecto Manuel Marques. A execução da
novas soluções e novas linguagens. escultura foi ganha num concurso municipal
para a “execução de um motivo decorativo a
Em 1934, realiza-se, no Palácio de Cristal,
construir no primeiro Parterre da Avenida das
a Exposição Colonial, um acontecimento
Nações Aliadas”. No momento em que Salazar
marcante da vida da cidade, com uma profusa
lança as bases do seu regime autoritário, e em
utilização desta linguagem, desde uma falsa
vez de colocar no centro da cidade qualquer
fachada adossada ao Palácio até ao monumento
figura histórica ou política, a cidade do Porto
‘Ao Esforço Colonizador‘ de Ponce de Castro
presta homenagem à beleza feminina [112][113].
(actualmente na Praça do Império).
Um pouco mais a norte, será colocada em
Nos arruamentos adjacentes à praça e
1932, a escultura em bronze dourado intitulada
à avenida então abertos, será construído um
‘Os Meninos‘, dos mesmos autores [111].
conjunto de edifícios, na sua quase totalidade
utilizando uma linguagem tão moderna quanto Ainda na continuidade da concretização
e enquanto lhes foi permitido pelo Regime do do plano de Barry Parker, em 1934, os serviços
Estado Novo, interessado, no início, em mostrar técnicos da Câmara elaboram um “Projecto de
uma fachada moderna em oposição ao gosto Prolongamento das Ruas de Ramalho Ortigão
‘fin-de-siècle‘ da República. e Elísio de Melo”, que se prolongariam até ao
eixo das ruas Magalhães Lemos a nascente e
No arranque e no eixo da Avenida dos
Elísio de Melo a poente, formando de cada lado
Aliados, em Dezembro de 1929, é inaugurada
uma praça triangular, e em 1940 na reunião
uma escultura, por todos os motivos
da Comissão de Toponímia, é decidido que ao
surpreendente para a época. Trata-se da
“largo fronteiro ao Teatro Rivoli seja dado o
‘Juventude‘, conhecida popularmente pela
nome de ‘Praça de D. João I‘; e ao largo junto à
‘Menina Nua‘, do escultor Henrique Moreira, [113] - A ‘Juventude‘ ou ‘Menina Nua‘ do escultor Henrique
Garagem de ‘O Comércio do Porto‘, o nome de Moreira e do arquitecto Manuel Marques, 2013 (BENTO,
sobre um belíssimo pedestal ‘Art-Déco‘ do 2013)
‘Praça de D. Filipa de Lencastre‘.” [110].

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AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

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O Conjunto da 1ª Avenida e os Planos da Cidade

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Enquanto decorria a construção do instalações para a Universidade do Porto criada
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plano da Avenida, no período da construção em 1911. A necessidade de planear os acessos


e afirmação do regime do Estado Novo, um ao novo Hospital Escolar, projectado para
conjunto de grandes questões se colocavam à complementar as instalações hospitalares na
cidade e que dependiam do apoio financeiro da cidade do Porto. E finalmente a questão sempre
Administração Central. De entre essas grandes presente da habitação social e da demolição das
questões que requeriam medidas urgentes, ilhas.
destaca-se a incapacidade do porto fluvial
Neste enquadramento, o Porto reclama
servir convenientemente a cidade, sobretudo
urgentemente que seja elaborado um plano
pelo aumento do comércio externo e da
que dê resposta àquelas questões de uma
emigração, o que implicava iniciar a construção
forma coerente e planeada. Inicia-se então um
da Doca n.º1 do porto artificial de Leixões. No
processo de elaboração de sucessivos planos
seguimento desta construção, verificou-se a
apontando soluções para a cidade, destacando-
necessidade de realizar as ligações ferroviárias
se a preocupação crescente com a ligação entre
e rodoviárias ligando a cidade a Leixões. Era
a Ponte Luiz I e a Praça da Liberdade, questão
necessário um novo atravessamento do Rio
que figura de forma detalhada em todos os
Douro que impusesse a construção de uma
planos.
nova ponte no sítio da Arrábida, de modo a
criar um novo acesso ao Porto e desenvolver Em 1932, ano politicamente decisivo,
a zona ocidental da cidade. A premência da em que Salazar, assumindo a presidência do
reorganização da indústria que, dispersa pelo Conselho de Ministros, termina com o período
território da cidade, obrigava à criação de da ‘Ditadura Militar‘ e institui o Estado Novo, o
zonas industriais. A urgência da renovação engenheiro Ezequiel de Campos, então Director
dos edifícios existentes e a criação de novas dos Serviços Municipais de Gás e Electricidade 0 50 100

[114] - A ‘suástica‘ referida por Ezequiel de Campos. 25 150

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135
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

[115] - ‘Esquisso de
Reforma do Centro
Actual da Cidade do
Porto‘, Prólogo ao Plano
da Cidade do Porto.
(CAMPOS, 1932)

(SMGE), por iniciativa própria, coloca as bases O Prólogo tem anexas duas plantas:
para o planeamento da cidade, publicando e ‘Traça das Ruas Primárias da Cidade do Porto‘ à
publicitando um pequeno opúsculo, a que deu escala 1: 25 000, com a cidade cartografada nos
o título de ‘Prólogo ao Plano do Porto‘. seus limites administrativos e englobando o
porto de Leixões, cartografado no seu projecto
Ezequiel de Campos, referindo “...a
completo, e ‘Esquisso de Reforma do Centro
caótica situação urbana, até então modesta
Actual da Cidade do Porto‘ à escala 1:10 000,
e falivelmente controlada por planos de
desde o Hospital de Santo António a poente
intervenção pontual...”, procura dar uma
e o Jardim de S. Lázaro a nascente, e desde a
resposta às prementes questões da cidade e
margem sul até à Praça da República a norte
esboçar uma solução integrada para a cidade.
[115][116].
Escreve Ezequiel de Campos: “É necessário
fazer a Cidade do Porto; acabar com a A importância do Prólogo de Ezequiel [116] - Traça das Ruas
Primárias da Cidade do
ironia dos termos: o Porto, assim chamado na de Campos manifesta-se por, pela primeira Porto, Prólogo ao Plano
corografia, mas sem porto; a Cidade, no apelido vez a cidade do Porto, ser considerada na sua da Cidade do Porto.
(CAMPOS, 1932)
dos rurais, mas apenas um agregado de aldeias totalidade e na sua área de influência, e se
ao núcleo primevo de Portucale que ainda hoje definir uma metodologia para a elaboração [117] - Planta da Cidade
do Porto, escala 1:10000,
é, apesar do terremoto inicial, de Elísio de Melo.” de um Plano, constituída por uma análise 1932

137
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

[120] - Propostas de
Intervenção de Ezequiel
de Campos - tabuleiro
superior da Ponte D.
Luís, à Praça de Almeida
Garrett. Novos acessos
à Avenida dos Aliados.
Prolongamento da Rua
de Sá da Bandeira do
Mercado do Bolhão até
[118] - Fotografia da Praça da Liberdade com a construção da [119] - Estação da Trindade (Fonte: goo.gl/iWgk6z, 2013) à Rua Gonçalo Cristóvão
Câmara ao fundo. (CLÁUDIO & FOTOGRAFIA BELEZA, 1994) (CAMPOS, 1932)

da cidade e do seu desenvolvimento, tendo Atendendo à construção da Praça (sic) dos Nas acessibilidades, Ezequiel de Campos prestígio, que disse ao enviado a Roma estar
em conta os seus principais problemas de Aliados, propõe no seu topo norte um “‘Centro propõe uma artéria que ligue o “tabuleiro na disposição de aceitar o encargo.” Assim o
transportes (como a questão dos portos Municipal‘ constituído pela ‘Domus Municipalis‘, superior da Ponte D. Luís, à Praça de Almeida Presidente da Câmara oficializa o convite a 30
marítimo e fluvial; do transporte ferroviário já que lá vai surgindo”. A sul do edifício dos Garrett”, a tão desejada ‘Avenida da Ponte’ de Dezembro de 1938, a que Marcello Piacentini
e o traçado dos principais eixos de circulação ‘Fenianos’ de Oliveira Ferreira, já construído, (Avenida de D. Afonso Henriques), que com “Os responde, em Fevereiro de 1939, aceitando o
rodoviária e sobre carris), da Área Central e da Ezequiel de Campos propõe um edifício para novos acessos da Praça dos Aliados completam convite, mas dados os seus afazeres que lhe não
zona histórica e os problemas da interligação ‘os Serviços Municipais Gás e Electricidade‘ (de o melhoramento do alcance do centro comercial permitem deslocar-se ao Porto, propõe a vinda
dos concelhos limítrofes e regional. que é há dez anos Director) “…e dos Serviços da Cidade, descongestionando a rua dos Clérigos de dois dos seus colaboradores, o arquitecto
Municipalizados Águas e Saneamento” [118]. e a de 31 de Janeiro.” Giorgio Calza Bini e o engenheiro Vincenzo
Das diversas propostas que o Prólogo
Cívico.
apresenta para a cidade, apenas indicaremos Este edifício, apesar da lógica de localizar No Centro, propõe o prolongamento da
as que se referem à Área Central. Ezequiel os serviços municipais junto dos Paços do Rua de Sá da Bandeira, do Mercado do Bolhão Marcello Piacentini, que nunca se
de Campos considera que, “A vida comercial Concelho, não será construído e só no século até à Rua de Gonçalo Cristóvão (o que apenas deslocou ao Porto, envia, contudo, através
e bancária do Porto passou o seu centro de XXI a CMP colocará alguns dos seus serviços no será realizado após a II Guerra) [120]. dos seus colaboradores, um conjunto de
gravidade da Rua do Infante D. Henrique para vizinho Palácio dos Correios! desenhos apontando, sobretudo, as questões
Em 1938, a Câmara Municipal do Porto,
a Praça da Liberdade, alongada ultimamente na da circulação, de que o engenheiro Vicenzo
Para completar este Centro Municipal, então presidida pelo professor da Universidade
Praça dos Aliados. A suástica das ruas Mouzinho Civico é especialista. De facto, para além das
e para criar uma acessibilidade à Câmara do Porto, António Mendes Correia, vê
da Silveira-Sá da Bandeira, com Carmelitas- questões ferroviárias, como então já se faz
Municipal e aos seus serviços e ao centro da aproximar-se o final do prazo (31 de Dezembro
Clérigos-31 de Janeiro, mais os troços austrais sentir um razoável aumento da circulação
cidade, dinamizando a Avenida dos Aliados, de 1939), estabelecido no Decreto N.º 24 802
das ruas do Almada e de Santa Catarina adensam rodoviária, quer no interior da cidade, quer na
Ezequiel propõe para o “…lado oposto a central de 1934, que impunha a elaboração do ‘Plano
o comércio da Cidade.” [114]. relação com os concelhos limítrofes, o técnico
do caminho-de-ferro de metro «Norte»”. De facto Geral de Urbanização e Expansão da Cidade‘.
italiano preocupa-se em desenhar um conjunto
Para a Avenida dos Aliados e Praça da irá ser construída em 1938, a norte do hospital
Envia então a Roma, o Engenheiro Chefe de soluções para a circulação no interior e no
Liberdade, no essencial, Ezequiel de Campos da Trindade, a estação da linha da Póvoa [119].
dos serviços encarregados do Plano, que “após exterior da cidade.
segue o plano de Barry Parker.
informar-se” escolhe “…o Académico de Itália
Prof. Marcello Piacentini, urbanista de grande

139
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

[121] - ‘Nuovo Schema


Viario del Centro di Porto‘
de Marcello Piacentini,
1939. (AA. VV., 2001)

[122] - Detalhe do
Esquema de M. Piacentini
- arruamento que parte
do lado nascente da Praça
de Carlos Alberto

[123] - Detalhe Esquema


de M. Piacentini -
Reorganização da Praça
do Município e da Praça
da Trindade. [124] - Detalhe do Esquema de M. Piacentini - Proposta para [125] - Detalhe do Esquema de M. Piacentini - parte sul da
abertura da Rua de Ceuta até à Praça de Guilherme Gomes planta a ligação entre a Praça da Liberdade e a Ponte Luís I
Fernandes, no prolongamento da Rua de Elísio de Melo

Mas no que se refere à Área Central, dos O edifício é enquadrado por outros de De uma praça junto à saída da ponte, o enquadramento da Sé e a uma melhor
desenhos que Marcello Piacentini enviou para a arquitectura semelhante, sendo de notar que Piacentini prevê três vias com o mesmo calibre. adaptação à topografia do local. Todas as
Câmara, conhece-se uma planta, ‘Nuovo Schema não há referência à Estação da Trindade. A via poente, sob a forma de um viaduto elevado, soluções propostas, para além de ignorarem
Viario del Centro di Porto‘, que tem como limites dirige-se em linha recta até à Praça dos Lóios. A a topografia da cidade e serem demasiado
Para norte da Trindade, é rasgada uma
a norte a Rua da Boavista e a Rua de João das via nascente, também em linha recta até às ruas dispendiosas, ‘esbarram‘ no obstáculo que
paralela à Rua de Camões até João das Regras,
Regras, e a sul o Douro e a saída para a Ponte da Madeira e Cimo de Vila, que remodeladas constitui o Palácio das Cardosas. Assim, numa
sendo esta prolongada até à Rua de Santa
Luiz I. A poente a Cordoaria e a nascente a Rua com um novo perfil, vão até à Praça da Batalha, das propostas e suas variantes ele é contornado.
Catarina. A Rua de Sá da Bandeira é prolongada
de Santa Catarina [121]. onde é criada uma outra artéria que, em curva, Noutras é demolido como na ‘Proposta di
para nordeste, também até ao encontro com a
vai até Duque de Loulé. A via central dirige- collegamento direto Municipio-Cattedrale‘, onde
Nesta proposta destaca-se o arruamento Rua de Santa Catarina.
se até o Largo da Guarda, mantendo-se todo o embora se mantenha o esquema em forma de
que parte do lado nascente da Praça de Carlos
No topo da Avenida dos Aliados, a Praça quarteirão. pé-de-galinha, se propõe a criação de uma larga
Alberto, junto à Casa Balsemão, e que se dirige
do Município apresenta uma forma rectangular, avenida desde a Sé até à Praça da Liberdade,
para norte em linha recta até à Rua da Boavista, Junto à Sé parte uma circular que,
enquadrando os Paços do Concelho. Desaparece destruindo o edifício das Cardosas que seria
sensivelmente paralelo à Rua dos Mártires da passando em viaduto pela via poente, se
a Rua de Ramalho Ortigão, componente substituído por quatro torres criando uma
Liberdade [122]. prolonga pela Rua Chã.
essencial do plano de Barry Parker e já então entrada monumental na Praça da Liberdade e
A Praça do Município e a Praça da Trindade decidida pela Câmara. Aparece bem marcada a Piacentini apresenta, ainda, um Avenida dos Aliados [126][127].
são reorganizadas, num sistema de praças que (futura) Rua de Ceuta até à Praça de Guilherme conjunto de propostas para a ‘Avenida da
As propostas de Piacentini, que nunca
rematam as ruas Formosa, Fernandes Tomaz, Gomes Fernandes, no prolongamento da Rua de Ponte’, todas elas concebidas no sentido de
se deslocou ao Porto e, portanto, não conhecia
Ricardo Jorge, Alferes Malheiro, Camões e Elísio de Melo [124]. ‘libertar‘ os monumentos, e, em particular, a
a cidade, não se mostravam adequadas nem
Bonjardim [123]. Sé, da envolvente de construções, com uma
Na parte sul da planta, propõe-se a ligação à topografia, nem aos interesses da cidade.
arquitectura considerada menor, lembrando a
A nascente dos Paços do Concelho e da entre a Praça da Liberdade e a Ponte Luiz I. De Ficaram, no entanto, consolidadas algumas
sua fundamentação da Via da Conciliação em
Igreja da Trindade, é projectado o Palácio dos notar, a proposta de um túnel na Ribeira, entre indicações de planos anteriores, para a
Roma.
Correios. Na perspectiva de Piacentini, aponta- o tabuleiro inferior da Ponte Luiz I e a Rua do resolução da ligação ao porto de Leixões, ao
se um edifício clássico rematado por uma torre, Infante, sensivelmente, como será aberto em A solução proposta é considerada num novo atravessamento do Rio Douro (Ponte da
numa arquitectura algo semelhante à da Praça 1952 [125]. conjunto de variantes, destinadas a aperfeiçoar Arrábida) e para a ‘Avenida da Ponte’.
da Vitória em Brescia [135].

141
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

[126] - Marcello
Piacentini – Propostas
para a ligação da Ponte
Luiz I ao centro da
cidade. Nesta proposta
repare-se na demolição
do edifício das Cardosas
e a sua substituição
por quatro torres. (SÁ,
2007)

[127] - Marcello
Piacentini – Perspectiva
da solução anterior. (AA.
VV., 2001)

[128] - Giovanni Muzio. Plano de Urbanização do Porto, recebido pelo Gabinete de Estudo do Plano Geral de Urbanização da CMP, em 26 de
Junho de 1940. (MESQUITA, 2005)

Tendo como pano de fundo uma Europa e da Exposição do Mundo Português‘. Embora então elaborados para a formalização do Plano.
em guerra, e após a cessação do contrato com se realize em Lisboa, tem um conjunto de Segundo A. Garrett, a Câmara comprometeu-se
Marcello Piacentini, a Câmara, na sua reunião actividades e iniciativas espalhadas por todo o de seguida a enviar “relatórios circunstanciados
de 11 de Abril 1940, convida, para Consultor território nacional, sendo que, no Porto, a mais sobre a situação e principais problemas em
Urbanista do Gabinete do Plano de Urbanização significativa é a concretização do Terreiro da Sé, curso”.
e Expansão da Câmara Municipal do Porto, segundo um projecto de Arménio Losa, então a
Nesse sentido, envia relatórios datados
(…) o ilustre arquitecto urbanista italiano G. dirigir o Gabinete de Urbanização da CMP.
de 7 e 17 de Maio - data significativa já que
Muzio, que aceitou orientar os trabalhos do
Enquanto Giovanni Muzio (1893-1982) é a data da Concordata entre a Santa Sé e
Gabinete do Plano de Urbanização e Expansão
não chega ao Porto, o Gabinete da CMP, relata a República Portuguesa - onde se expõe os
da cidade do Porto, gabinete que funciona na
Antão de Almeida Garrett num texto intitulado principais problemas com que se debate a
Câmara Municipal. Congratula-se com o facto,
‘História da Evolução dos Planos Gerais de cidade. No que diz respeito à circulação: a
informando que se tomaram as disposições para
Urbanização da Cidade do Porto‘, publicado ligação com o porto de Leixões, então em
que as linhas gerais do plano estejam concluídas
em 1974 no Boletim da FEUP n.º 11, “…reviu construção, a prevista Ponte da Arrábida, o
até ao fim do ano corrente e sendo conveniente
o que tinha sido feito até então, continuou com trânsito e a ligação do Centro com a Ponte Luiz
que a colaboração do académico Muzio prossiga
a elaboração do inquérito, pensou no possível I, e a ligação ao Hospital Escolar. E ainda, um
nos três anos seguintes [...].”
andamento dos estudos, para ter uma opinião possível zonamento da cidade demarcando as [129] - Giovanni Muzio – Detalhe da Renovação da Área Central
da Cidade do Porto - 3º Esquema Geral - Proposta de Plano em
A Câmara Municipal do Porto, embora já informativa junto do arquitecto Muzio, quando zonas residenciais, industriais, zonas verdes,
1937. (CARVALHO, GUIMARÃES & BARROCA, 1996)
não esteja pressionada para cumprir o prazo chegasse.” campos desportivos e zonas de reserva para
fixado pelo decreto, depara-se, no início de os próximos 20 anos. Neste Relatório também
O arquitecto italiano chega ao Porto
1940, com um conjunto de problemas que se se abordava o ‘Problema social da habitação‘,
em 7 de Abril de 1940, para uma curta visita,
vão acumulando, agravados pela concretização, em que a CMP estava então envolvida, para
tomando um primeiro contacto com a cidade,
em Junho, das ‘Comemorações do Duplo atalhar a carência de 8.000 fogos, para realojar
com os seus principais problemas, com o
Centenário da Fundação da Nacionalidade e da as populações das ‘ilhas‘ e casas degradadas e
gabinete técnico da Câmara e os estudos, até
Restauração da Independência (1140 e 1640) superlotadas.

143
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

[130] - Giovanni Muzio –Desenho n.º 3 - ‘Schizzo prospettico del [131] - Giovanni Muzio - Desenho nº 4 variante desenho n.º 3, [132] - Giovanni Muzio – Solução 12. (AA. VV., [133] - Giovanni Muzio - desenho nº 5, Zona Monumental - Detalhe
collegamento Ponte Luiz – Piazza Liberdade‘, Setembro 1940. Set. 1940. (AA. VV., 2001) 2001) perspéctico. (CARVALHO, GUIMARÃES & BARROCA, 1996)
(AA. VV., 2001)

Junto a esses relatórios são enviados Propõe um túnel, com um traçado especulação privada, por isso penso em edifícios única praça ligada através de um novo troço ao
dois esquemas: a rede actual urbana e a paralelo à Avenida Saraiva de Carvalho, o monumentais e orgânicos mais do que em praças Largo dos Lóios adequadamente desenhado. Para
proposta de grandes comunicações. Traçado qual, mergulhando na nova praça da estação, porticadas de mais difícil distribuição e mais simultaneamente organizar a Praceta Almeida
a partir da sua breve visita ao Porto e dos liga directamente o Centro com a praceta no adaptados lugares de comércio e escritórios, Garrett penso criar um edifício monumental no
elementos fornecidos pelo Gabinete do Plano arranque da Ponte Luiz I [131]. e não na acrópole da cidade. Por outro lado a eixo da Avenida dos Aliados como um pano de
da CMP, Muzio envia um 1º esquema geral, Sé e a Cividade tem tal importância histórica fundo ao sul da grande praça e elemento regulador
A 13 de Setembro 1940, Muzio responde,
acompanhado por comentários sobre cada e visibilidade que não as convém considerar do tráfico que desce para a Rua de Mouzinho
lamentando não poder deslocar-se ao Porto
uma das opções tomadas para a solução quase como um prolongamento da Avenida dos da Silveira e daquele que sobe à Cividade e à Sé
devido à guerra, e envia uma crítica detalhada
dos principais problemas da cidade. Entre a Aliados que tem um carácter comercial, um através do novo troço. O novo troço viário, que
das propostas da CMP, acompanhada de 22
problemática estudada, a ligação do Centro organismo independente. Concluída a Avenida partindo do Largo dos Lóios atinge a Cividade,
desenhos e perspectivas anotados.
com a Ponte Luiz I, já que a Câmara, instalada dos Aliados com um novo palácio ao fundo, duas e passa por sobre a Rua das Flores e a Rua de
no Paço Episcopal, pretende dar continuidade Sobre a ligação da ponte com a Praça ruas principais prolongam-na uma descendo Mouzinho da Silveira quase ortogonalmente,
ao arranjo urbanístico do Terreiro da Sé. Muzio da Liberdade, escreve Giovanni Muzio, citado para o rio e a outra subindo para a Cividade. terá uma pendente de quase 6%. Na parte norte
propõe a ligação da Avenida Saraiva de Carvalho por A. Almeida Garrett: “Depois de maduras Não creio que traga qualquer prejuízo o facto da nova praça da Cividade colocaria um edifício
com o Largo do Corpo da Guarda [128][129][130]. considerações concordo com a ideia de ligar a de não dar continuidade ao eixo da Avenida, público de carácter monumental com uma
Ponte D. Luiz com a Praça da Liberdade passando porque ficaria sempre quebrado e um desvio torre no eixo da Ponte e da Avenida Saraiva de
Este seria reformulado, e nele seria
pela Cividade. É verdade que da cota 60 se sobe mesmo que pequeno é desagradável, enquanto Carvalho, e a sul um edifício público (serviços
implantado “…um edifício público com carácter
até à cota 75 para voltar a descer à cota 60, que a nova avenida partindo da Praça dos Lóios, municipais) com corpos orientados segundo o
monumental…”. O Largo do Corpo da Guarda
enquanto que com a passagem inferior se descia completamente aberta ao panorama a ocidente, eixo heliotérmico ou pátio central. Da Cividade
ligaria ao Centro através da Rua do Loureiro
à cota 52 pra voltar a subir, e o desnível era quase tornar-se-á de incomparável beleza.” pode-se chegar à Sé percorrendo a nova rua de
“…oportunamente alargada e com um novo
metade, mas sou entusiasta de um revalorização carácter panorâmico tendo a eixo o portal de
traçado, em parte em trincheira, para superar E prossegue G. Muzio: “Da ponte D.
das colinas da Sé e da Cividade, afectando-as igreja, ou então percorrendo a Avenida Saraiva
a diferença de cota com uma inclinação não Luiz seguindo a actual Avenida de Saraiva de
às mais alta funções civis e representativas. de Carvalho e o troço da Rua Saraiva que a une à
superior a 5%…”. Carvalho atinge-se o largo Corpo da Guarda
Aqui apenas posso sugerir edifícios públicos Sé.” [132][133][134].
(Cividade). Nesta zona (cota 75) proponho uma
municipais ou do governo, e não construções de

145
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

[134] - Giovanni Muzio - ‘La piazza da Cividade vista dalla Sé‘, [135] - Marcello Piacentini – Proposta para o Palácio dos [136] - Giovanni Muzio - Esquisso n.º 3 [137] - Giovanni Muzio - Perspectiva global de uma das soluções esboçadas. S/
maquete, Dez. 1940. (AA. VV., 2001) Correios na Praça da Trindade. (GARRETT, 1974) Dez. 1940. (CARVALHO, GUIMARÃES & Data. (CARVALHO, GUIMARÃES & BARROCA, 1996)
BARROCA, 1996)

O Gabinete responde, a 12 de Outubro, Avenida Gomes da Costa e Nun’Alvares. Muzio Gomes da Costa, a ligação entre a Boavista e o distância aos dois cruzamentos, da estação e dos
considerando “possível e muito interessante” a anexa, contudo, um texto sobre a ligação entre Porto de Leixões, a criação da zona industrial Lóios é muito pequena causaria sério embaraço
ideia da praça entre as ruas Camões e Fonseca a Ponte D. Luiz e a Praça da Liberdade, com de Ramalde e a zona desportiva do Castelo ao trânsito.”
Cardoso. Por outro lado considera impossível a diversos comentários, esquissos e fotos de do Queijo (actual Parque da Cidade). Destes
A 9 de Março de 1941, o Ministro das
modificação da Praça do Município, quer pelos maquetas. encontros resultaram ideias, sugestões e
Obras Públicas e Comunicações, Duarte Pacheco,
edifícios existentes quer por “estar em estudo formalizações que A. de Almeida Garrett elenca
“A entrada na nova praça da Cividade no desloca-se ao Porto onde tem a, tão solicitada e
adiantado o novo Palácio dos Correios” [135]. e que fornecem preciosas indicações da cidade
eixo da Avenida de Saraiva de Carvalho, seria aguardada, reunião com o arquitecto Muzio e o
em 1941, e das concepções urbanísticas da
Sobre a ligação da Ponte D. Luiz à Praça organizado com uma dignidade monumental Gabinete do Plano da CMP. Após esta reunião,
época.
da Liberdade, o Gabinete admite a perfuração mediante dois edifícios-torre incorporados nos o Gabinete do Plano da Câmara inicia estudos
do edifício das Cardosas, “para se manter a palácios que formam a praça, perfeitamente Segundo A. Almeida Garrett, a 28 de para o que pretende ser a concretização do
unidade da construção”, e parecendo-lhe “pouco visível a quem quer que venha da ponte D. Luiz, Janeiro, “iniciou-se o estudo em maior detalhe Plano Regulador, elaborando uma ‘memória
simpática a solução dos Lóios” mantém “a ideia dada a abertura da Avenida” e propõe ainda das soluções e sobretudo da ligação Ponte D. descritiva‘, em que faz um diagnóstico bastante
de ir ao meio da Praça”. “Blocos simétricos, frente contínua sobre a Luís – Praça, que tantos desenhos perspectivos crítico da situação da cidade do Porto em 1941
Praça da Liberdade com portal de acesso na tem tido a ilustrar várias hipóteses de solução.” (a que não será alheia a presença de Arménio
Sugere, ainda, a junção numa só das
nova artéria. Na Praça de Almeida Garrett nova Almeida Garrett anota que Muzio “Achou boa a Losa no Gabinete), para fundamentar algumas
duas praças que Muzio prevê para a Cividade
fachada paralela à frente da Estação.” ideia da ligação pela Cividade; mas crê ser melhor opções do plano [138][139].
“o que lhe aumenta a grandiosidade, sem nada
pensar na demolição do edifício das Cardosas,
prejudicar o conjunto, conforme nos parece pela Em 26 de Janeiro de 1941, Muzio chega Na análise das plantas que resultaram
fazendo um novo, melhor a eixo e em frente ao
perspectiva que enviamos” finalmente ao Porto, onde permanecerá até 10 destes estudos, destaca-se a consolidação da
edifício novo do Município, com duas vias: uma
de Fevereiro de 1941. ideia da grande avenida partindo de uma praça
Só a 17 de Dezembro 1940, Muzio descendo ao rio e a outra subindo à Sé, dos dois
projectada na zona de Águas Férreas e dirigindo-
responde à Câmara Municipal do Porto, numa São discutidos com os técnicos da CMP lados.” Quanto ao “edifício das Cardosas, com a
se para norte cruzando a Circunvalação, junto
bastante lacónica carta em que praticamente alguns dos problemas da Cidade considerados penetração ficaria necessariamente mau, muito
ao Hospital Escolar, cuja implantação e acessos
aceita, na sua quase totalidade, as propostas e mais prementes, como os acessos ao Hospital reduzido no seu valor útil pelo lado interior.
estão já definidos.
sugestões do Gabinete de Urbanização, sobre o Escolar, a Ponte da Arrábida e a sua articulação A passagem inferior é sempre feia e, como a
Campo Alegre e a Arrábida, o novo Hospital e com a zona do Campo Alegre, o sistema de

147
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

[138] - Estudo para o Plano Regulador - Solução A, com detalhe da zona da 1ª Avenida a). (AA.VV. 1994) [139] - Estudo para o Plano Regulador - Solução B, com detalhe da zona da 1ª Avenida b). (AA.VV. 1994)

Na solução A, a Avenida tem uma forma Campo Alegre. Está estruturado todo o sistema Já na Solução B, é uma das propostas
rectilínea e as margens estão cartografadas da Avenida Gomes da Costa e da ligação do Ouro do Gabinete da CMP, com a perfuração das
como áreas a urbanizar como zonas residenciais com Matosinhos (Avenida Nun’Álvares). Cardosas, que se encontra cartografada [139]
[137].
Na solução B, a avenida não tem a mesma A Avenida da Boavista seria urbanizada
‘monumentalidade‘ e perfil, adaptando-se mais a sul, e a norte está definido o Parque da Em 20 de Outubro, Muzio regressa
ao terreno. Os acessos ao Hospital Escolar estão Cidade. Do lado oriental da cidade na solução ao Porto (acompanhado do engenheiro
mais definidos na solução B, criando-se, a sul, A, para norte da Praça da Trindade, é apenas Miguel Resende que tinha estado em Milão,
uma avenida a eixo do recinto do hospital, que criada uma via que se prolonga até ao Hospital colaborando com Muzio desde 27 de Abril a 19
se desdobra em duas outras ruas, a poente e a Escolar. É prolongada a Avenida Fernão de de Setembro), trazendo um estudo da Zona do
nascente. Magalhães até à Circunvalação, sendo marcada Campo Alegre e uma planta da Rede Viária.
uma praça no cruzamento com a Avenida
Na solução A, a Rua da Boavista é a) Em 29 de Abril de 1943, o Gabinete da
dos Combatentes (futura Praça Velasquez,
prolongada para poente até à Estação de CMP recebe uma carta do arquitecto Muzio
actualmente Sá Carneiro). Na zona central, e
Campanhã. Na solução B, é a Rua de Gonçalo solicitando a opinião do Ministro sobre os
em ambas as soluções é marcada a Praça de D.
Cristóvão que é prolongada para poente estudos do Plano, então já definitivamente
João I e a Rua de Sá da Bandeira prolongada até
até à Estação de Campanhã. Para nascente, adiantados. Quando tudo se encaminhava para
à Rua de Gonçalo Cristóvão.
(retomando a ideia do início do século XIX de J. a concretização do Plano da Cidade do Porto,
Costa Lima) a rua prolonga-se até Francos. Está Na Solução A, é desenvolvido todo um a evolução da II Guerra Mundial e, sobretudo,
cartografada a Ponte da Arrábida e definido sistema de arruamentos a norte da Trindade, a morte do ministro Duarte Pacheco, irão
o eixo norte-sul até à Circunvalação, onde é em torno de uma praça situada entre a Praça condicionar a elaboração do plano e cessa a
criado um nó rodoviário, prolongando-se para da República e a Rua do Bonjardim. Está colaboração de Giovanni Muzio com a CMP.
os concelhos a norte. Estão definidas a praça e cartografada uma solução de Muzio (o Schizzo
as urbanizações à saída da Ponte da Arrábida, nº 3) para a ligação entre a Ponte Luiz I e a
bem como o Bairro de Guerra Junqueiro. Na Praça da Liberdade [138][136].
solução A, aponta-se, ainda, a urbanização do
b)

149
MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

TEMPOS DE APOGEU DO
CENTRO DO PORTO

"São de aceitar os erros, as faltas, as demoras, nesta elaboração de uma Arquitectura melhor;
uma coisa, porém, não é de admitir: a falta de persistência, de esforço constante por acertar, de
procura duma exacta relação entre a Obra e a Vida. E porque os Arquitectos do Porto possuem
esse indispensável espírito, uma grande esperança anima a sua actividade.”

Fernando Távora ‘O Porto caminha


para uma Arquitectura‘ 1952

Em Portugal, no final da II Guerra Portugal é um dos países fundadores,


Mundial, à invenção do transístor (1947) e à em 1960, da EFTA (European Free Trade
difusão do rádio portátil, sucede-se a criação Association) e, em 1960, ingressa no Fundo
da RTP e as emissões regulares de Televisão Monetário Internacional. Em 1959 inicia-se o II
(1957). Em 1956 é criada a Fundação Calouste Plano de Fomento (1959-64).
Gulbenkian, que realiza, no ano seguinte, a I
No plano mais disciplinar do urbanismo e
Exposição de Artes Plásticas, bastante ecléctica
da arquitectura, concretizam-se as realizações
nas correntes artísticas apresentadas. As
das ideias formalizadas no Congresso de
eleições da presidência da República de 1958,
Arquitectura em 1948: a habitação social
são marcadas pela candidatura do General
(Plano de Melhoramentos 1956/66 no Porto
Humberto Delgado. O Bispo do Porto, D.
e Plano dos Olivais em Lisboa), o ‘Inquérito à
António Ferreira Gomes, publica, em 1958,
Arquitectura Popular‘ (1955/61) e a reforma
uma carta aberta intitulada ‘Pró Memória‘,
do ensino de Belas Artes em 1957.
denunciando arbitrariedades do regime, o que
lhe custará o exílio, vindo, assim, dar força No final da II Guerra Mundial, a cidade
aos grupos católicos que, então, se vinham do Porto domina todo um vasto território,
formando - os católicos ‘progressistas‘ - e que onde os concelhos limítrofes, na sua grande
se manifestavam publicamente contra Salazar. parte pouco populosos e edificados, possuem
Vista nocturna geral do edifício da Câmara Municipal para a Avenida dos Aliados. (BENTO, 2013)

151
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

[140] - Plano geral de Urbanização do Porto. Esquema [141] - Plano Regulador da Cidade do Porto. Rede de Comunicações e dos [142] - Plano Regulador da Cidade do Porto. Planta de Zonamento. Separata [143] - A Avenida nos anos 40 sem os dois edifícios de
da Futura Rede de Comunicação. Repare-se na ligação ao Espaços Verdes de Interesse Público. 1952. (GARRETT, 1974) da Civitas, Vol. VIII, nº 2, 1952, s/p. (GARRETT, 1974) remate da Praça do General Humberto Delgado. Foto
porto de Leixões e ao aeroporto de Pedras Rubras. 1947. Bonfim Barreiros. (CMP, 2001)
(GARRETT, 1974)

um desenvolvimento dependente do Porto e O Plano de Almeida Garrett, publicado Almeida Garrett, no espírito que por cruzamentos e troços de ruas onde já há
das suas acessibilidades, ferroviárias, navais e numa Separata da Revista Municipal ‘Civitas‘, caracteriza o urbanismo da época, determina muitos estabelecimentos e se julgaram locais
rodoviárias. dá uma grande atenção à circulação dentro da para a cidade um zonamento, distinguindo apropriados a se desenvolverem — embora com
cidade e às suas ligações com um território mais quatro tipos de zonas: residenciais (que melhor organização do que a actual.”
A norte, destacam-se dois empre-
vasto, a norte e a sul. Destacam-se as propostas podem ser estritamente residenciais,
endimentos construídos nos anos trinta e Esta Zona Central é “(…) o centro
da ‘Via Rápida‘ (actual Avenida da Associação residenciais, e residenciais e de indústria);
quarenta: a Doca n.º1 do porto de Leixões, comercial e cívico da cidade, onde se concentram
Empresarial de Portugal -AEP) de ligação a especiais (comerciais, industriais, ferroviárias,
inaugurada em 1940, e o aeroporto de Pedras as actividades mercantis, os teatros e cinemas,
Matosinhos e ao Porto de Leixões e a ‘Via Norte‘ portuárias, praias, determinados edifícios
Rubras, inaugurado em 1945. O engenheiro os cafés, os escritórios, etc., exerce, por tudo isto,
de ligação ao aeroporto de Pedras Rubras públicos, Histórico-Arqueológico- Turística)
Antão de Almeida Garrett, que tinha tido um comando que se estende ainda para além
(actual aeroporto internacional Francisco Sá e verdes, constituídas por cinturas de
um papel relevante nas relações da Câmara das fronteiras municipais, e destina- se (…)ao
Carneiro). jardins e parques envolventes aos conjuntos
Municipal do Porto com os arquitectos Marcello comércio, escritório, repartições, cafés, teatros,
populacionais e rurais.
Piacentini e Giovanni Muzio, e por isso tinha A sul, nas acessibilidades ao Porto do lado cinemas, etc., actividades que põem na rua um
acompanhado e colaborado nos estudos então oriental da cidade, Almeida Garrett pretende Almeida Garrett, no Plano Regulador do movimento intenso, sobretudo a certas horas do
realizados por esses técnicos, é encarregado, que se aproveite a necessidade de “uma nova Porto, dentro das áreas especiais, define uma dia e da noite.”
em 1945, de elaborar o ‘Anteplano Regional ponte ferroviária no lugar da de D. Maria II para área central destinada a ser o grande centro
E considera Almeida Garrett, que “…
do Porto‘. Entregue em Dezembro de 1946, é a fazer também rodoviária e desviar para ela o comercial e cívico da cidade: “…a extensão do
sendo mais rica a ocupação pelo comércio do
aprovado ministerialmente em Julho de 1950 trânsito que se destina a leste, por uma nova via território abrangido pelo Anel da Zona Central
que pela habitação, ele se encarrega de afastar
[140]. que contorne Gaia, a partir do nó em frente ao e a penetração baixa da Ribeira à Praça de
a moradia. Por enquanto, porém, há ainda muita
edifício dos seus Paços do Concelho.” Almeida Garrett, da Rua de Mouzinho à Rua
Esse Anteplano irá ter continuidade no casa de residência na zona comercial e em alguns
do Comércio do Porto, e onde se concentram
‘AntePlano de Urbanização e no Plano Regulador No lado ocidental, propõe o alargamento prédios novos as moradias ocupam os andares
quase todas as actividades comerciais, de
do Porto‘, que Almeida Garrett irá elaborar entre do perfil transversal da E.N. 1-15 de Espinho e superiores, menos procurados pelo comércio
negócios e de administração; e um certo
1947 e 1952. Será aprovado em 1954 [141][142]. o seu prolongamento “até ao alto da Afurada pelo afastamento da via pública.”
número de Zonas Comerciais locais constituídas
para a nova ponte a construir daí à Arrábida na
região do Campo Alegre.”

153
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

[144] - Postal dos anos 50. Plano Auzelle - Volume I – Plano director [145] - O Garrett de Salvador Barata
Municipal. (CMP, 1962) Feyo. 1954. (BENTO, 2013)

Preocupado com a quantidade de obras na Jornais, os escritórios das empresas e das


Avenida, escreve no Plano Regulador: “Convém profissões liberais, os cafés e, sobretudo, todos
que se termine a Avenida dos Aliados para os principais estabelecimentos comerciais.
acabar com inestéticos tapumes e completar o O Centro funciona ainda como ponto de
[146] - A Praça da Liberdade e a Avenida dos Aliados. (ARF)
quadro das edificações.” [143]. concentração dos transportes ferroviários, com
a Estação de S. Bento e a Estação da Trindade.
Nos anos que sucedem à II Guerra
Ponto, ainda, de concentração dos transportes
Mundial e ao longo dos anos 50, a Praça da
públicos, os eléctricos, que mantendo ainda a Mas o facto marcante, nos anos 50, na Decorrente da conclusão do edifício
Liberdade e a Avenida dos Aliados consolidam-
supremacia do transporte público na cidade, Avenida, é a conclusão e a inauguração dos dos Paços do Concelho, impôs-se o desenho e
se como o centro da cidade. O edifício dos Paços
vão progressivamente sendo substituídos Paços do Concelho (inaugurado em 1957). O organização da Praça do Município (hoje Praça
do Concelho está, desde 1920, em construção e
pelos autocarros (introduzidos em 1948) e, edifício dos Paços do Concelho, um projecto de Humberto Delgado) [144].
será inaugurado em 1957.
posteriormente, pelos ‘trolleys‘ (que aparecem Correia da Silva, cuja construção se arrastava
Aproveitando as comemorações do
Constroem-se, a norte, os edifícios de em 1959). Também, as principais ‘praças‘ desde 1919, é concluído pelo arquitecto
centenário de Almeida Garrett, a praça é
remate: do lado poente, o edifício da Companhia de táxis aqui se localizam. Na zona, vão-se Carlos Ramos, que no exterior irá adequar a
remodelada segundo um projecto de Fernando
de Seguros ‘A Garantia‘ e o edifício ‘Capitólio‘ concentrando as actividades culturais. O entrada principal substituindo a escadaria,
Távora tendo, por centro, a estátua do poeta
[150] e, do lado nascente, o edifício da ‘Companhia cinema, destacando-se o remodelado cinema já construída, por uma rampa de dois braços
portuense, do escultor Salvador Barata Feyo
de Fiação e Tecidos de Fafe‘ [147], sendo que este Trindade e o magnífico Coliseu. A música, simétricos, permitindo a acessibilidade do
[145].
último, juntamente com o edifício ‘A Garantia‘ com os concertos promovidos pelo Círculo de automóvel, e, no interior, adaptar o edifício
[151], seguem projectos de Júlio de Brito, e inicia- Cultura Musical no Rivoli; o teatro, nas várias aos serviços da CMP. O prestígio e a influência Dois outros projectos do Estado Novo,
se a construção do Palácio dos Correios. salas do centro, mas impulsionado pelo TEP que então tinha alcançado o mestre Carlos vêm reforçar esta concentração no centro da
(Teatro Experimental do Porto) então criado e Ramos, permitiu, na decoração do interior, cidade: o Palácio da Justiça, de Rodrigues Lima,
Em torno da Praça da Liberdade e da que constrói um Teatro de Bolso, na Travessa a participação de diversos artistas plásticos, inaugurado em 1961, localizado na Cordoaria e
Avenida dos Aliados, concentram-se todas as de Passos Manuel. Na Praça da Liberdade, muitos deles ligados à Escola Superior de Belas substituindo o oitocentista Mercado do Peixe,
principais actividades: os Bancos e Companhias realiza-se todos anos a muito concorrida Feira Artes que então dirigia. e, sobretudo, o Palácio dos Correios, junto aos
de Seguros, os Teatros e os Cinemas, os do Livro. Paços do Concelho, rematando o topo nascente

155
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

[148] - Foto dos anos 50. É visível o terreno


onde se irá implantar o ‘Palácio dos Correios’,
o que permite a ligação visual entre a Praça
de D. João I, a Praça do Município e a Praça da
Trindade. (Colecção Particular)

da Avenida. O Palácio dos Correios, considerado


de vital importância para a consolidação da
terciarização do centro, localizado e projectado
nos anos 40, só nos finais de 50 iniciará a sua
construção e, apenas, será inaugurado na
década seguinte.

Já nos anos 50, é construído, no gaveto da


Rua da Cancela Velha com a Rua de Rodrigues
Sampaio, um edifício de escritórios projectado
por Viana de Lima, com uma particular atenção
à integração arquitectónica com o edifício
[149] - O edifício ‘Cancela Velha’. (LIMA,
adjacente [149]. 2013)

Para além da conclusão da edificação da


Avenida, estes anos são marcados pela abertura
e regularização das duas praças, a nascente
e a poente da Avenida. A nascente, a Praça de
D. João I [148]. A poente, a Praça de D. Filipa de
Lencastre, esta prolongando-se pela Rua de
Ceuta, então aberta e edificada.

Dois espaços públicos que, com as suas


arquitecturas, são na época os símbolos da
cidade moderna, ou, no dizer do poeta Daniel
Filipe, do “…Porto jovem, o Porto de betão
[147] - O edifício da ‘Companhia de Fiação e Tecidos de Fafe‘. [150] - O edifício ‘Capitólio’. (AA.VV. 2005) [151] - O edifício da ‘Companhia de Seguros Garantia’.
armado, (BENTO, 2013) (VALE, 2013)

157
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

[152] - Fotos antigas da Praça de D. João I e respectivas vistas nos dias de hoje - comparativo. (AHMP:GBB) (BENTO, 2013)

A Praça de D. João I

Nos finais dos anos 30, concretizou-se o de desenho, destinado a servir de base à
prolongamento da Rua de Passos Manuel até operação de venda dos terrenos.
à Avenida dos Aliados, a Rua do Dr. Magalhães
Como se pode ler numa publicação de
Lemos [153].
1951, não assinada, intitulada ‘A Praça de D.
Terá uma importância decisiva na João I e o Palácio Atlântico‘, o projecto municipal
conformação da futura Praça de D. João I, o edifício caracterizava-se por definir uma praça de nível
que Rogério de Azevedo projectou, entre 1940 (mediante a criação de um socalco artificial)
e 44, e inaugurado depois da Guerra - que já para estacionamento de veículos; pela
distante da força expressionista e moderna de circulação principal de veículos ser tangente
uma Garagem de ‘O Comércio do Porto‘, é ainda ao lado sul da praça, prevendo-se a norte uma
uma obra de concepção inovadora (sobretudo rua superior para o ‘movimento de giração‘ e
o 1º projecto), para a escala da cidade, - o acesso ao edifício; pela criação de um espaço
‘arranha-céus‘, como então era designada. No sob o arruamento a norte, para a instalação
edifício de Rogério de Azevedo estava instalado de edifícios comerciais; por se preverem a
o Café ‘Rialto‘ [154]. norte, escadas de modo a ser possível vencer
o desnível. O projecto chegou a contemplar
No seguimento do plano de Barry Parker,
a proposta para a construção de um parque
da edificação da Rua de Rodrigues Sampaio, da
no subsolo da praça, contudo, a proposta foi
construção do Rivoli e do prolongamento da
abandonada (vindo a ser realizada no início do
Rua de Passos Manuel, a Câmara Municipal do
século XXI).
Porto, depois de ensaiadas diversas soluções,
aprova, em 1944, o projecto da Praça de D. João Deste projecto, fazia, também, parte uma
I. São fixados os alinhamentos e definidas as proposta de volumetria para o talhão a edificar
cérceas e é estabelecido um esquema municipal do lado norte da praça.

159
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

[153] - A Rua do Dr.


Magalhães Lemos antes [154] - Postal com a
da abertura da Praça Praça de D. João I e o
de D. João I. (ALVÃO, edifício Rialto em 1950.
1984) (Colecção Particular)

O talhão de terreno a norte, assim como Do trabalho entre os técnicos municipais laterais da praceta interna”; os muretes limite O projecto previa, ainda, a iluminação da
os espaços comerciais sob o arruamento e os arquitectos da Sociedade, resultaram das ruas de Sá da Bandeira e Bonjardim Praça de D. João I, à custa de um único candeeiro
do mesmo lado, serão vendidos, em hasta sucessivos melhoramentos e alterações aos foram substituídos por taludes ajardinados, localizado no seu centro.
pública, à Sociedade ‘Edifícios Atlântico‘, que se primeiros projectos. com escadarias nos pontos terminais e, mais
O Banco Português do Atlântico muda
interessou pelo empreendimento projectado. tarde, estes deram lugar às amplas escadarias
Entre 1946 e 1948, o grupo de arquitectos as suas instalações para este edifício em 1951,
Esta sociedade era formada pela Empresa laterais, de dois lanços, com acessos para as
ARS irá rever o esquema municipal, estudando data da sua inauguração.
‘Sacel‘ e pelo ‘Banco Português do Atlântico‘, ruas contíguas, pelos extremos dos patamares.
a melhor forma de articular a nova praça com o
que pretendia instalar a sua sede no edifício a Os passeios foram adornados com motivos Do outro lado da Avenida, a Praça de
edifício a construir a norte, e lançando o projecto
construir a norte da praça [157]. inspirados na simbologia de Avis e do Atlântico, D. Filipa de Lencastre, aberta em 1936, é
definitivo que servirá de base à edificação.
enquanto na placa central foi traçada uma Rosa remodelada com a construção do Hotel Infante
Projectado pela A.R.S. - Arquitectos, e Este projecto procurava a articulação entre as
dos Ventos. de Sagres, projectado em 1943 por Rogério de
construído em concordância integral com a exigências práticas/funcionais, definidas no
Azevedo, mas inaugurado em 1951, que ocupa
definição do espaço público, Palácio Atlântico e projecto municipal, com a procura de obtenção Em 1966, a Câmara instalou, no mesmo
toda a frente sul entre a Rua do Almada e a
Praça são complementares: “sem este edifício a do máximo efeito estético do conjunto [155][156]. lugar, uma fonte luminosa (actualmente na
Rua de Avis. Abre-se e edifica-se para poente,
praça – circunscrita por construções de aspectos Praça do Marquês de Pombal).
Neste sentido, a Praça deixou de ser ao longo dos anos 50, a rua que vinha sendo
arquitectónicos vários – não passaria de um largo
encarada como um espaço unicamente Acompanhando as escadarias, ladeando a projectada como prolongamento da Rua de
irregular e incaracterístico. Por outro lado, sem
destinado ao estacionamento de veículos, Praça e enquadrando o edifício fronteiro a Norte, Elísio de Melo, mas que se chamará, então, em
os desníveis da própria praça, o edifício perderia
estabelecendo-se, ao nível inferior, uma foram criados dois pedestais, para a colocação coerência com a toponímia das duas praças,
a imponência de que se reveste”, sendo que os
placa central e um passeio periférico, que de duas figuras escultóricas. Inicialmente, Rua de Ceuta [158].
projectos foram desenvolvidos em extrema
tornava possível o trânsito pedonal e o acesso tinha-se ponderado a colocação das imagens
colaboração entre a Câmara e a Sociedade Desde a construção da Ponte Luiz I, que
aos espaços comerciais inferiores. Também de D. João I e de D. Filipa de Lencastre. Estas
privada, o que permitiu “imprimir ao conjunto a questão da articulação do tabuleiro superior
se procuraram diversas soluções para as estátuas nunca chegaram a ser instaladas, e os
Edifício-Praça notável harmonia, pela unidade com a Praça de D. Pedro (da Liberdade), se ia
concordâncias laterais da Praça: os varandins pedestais mantiveram-se vazios até à colocação
e imponência do aspecto”, como se escreve no assumindo como centro da cidade. A construção
do arruamento superior foram encurvados, de ‘Os Corcéis‘, estátuas em bronze, da autoria
citado opúsculo ‘A Praça de D. João I e o Palácio da Estação de S. Bento, e, seguidamente, a
“de modo a diminuir-se à extensão dos ramos de João Fragoso, em 1957.
Atlântico‘.

161
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

[155] - Corte pelo Palácio


Atlântico e Praça de
D. João I. Ainda está
desenhada a estátua de D.
João I. (AA.VV. 1951)

[156] - Palácio Atlântico,


ARS Arquitectos,
Desenho Nº 9. (AA.VV.
1951)

[157] - (à direita) A Praça


de D. João I e Palácio
Atlântico. (MARJAY,
1955)

abertura da Avenida dos Aliados, rematada a e o arranjo da ‘Avenida da Ponte’ (D. Afonso
norte pelos novos Paços do Concelho, vieram Henriques). Por isso, a seguir à guerra, é aberta
tornar premente a abertura de uma avenida a avenida, mesmo sem obedecer a um plano
que ligasse directamente o tabuleiro superior para a sua conformação [159][160][161].
da ponte ao centro da cidade. Por isso, desde
Assim, aberta a avenida, sucedem-se os
Correia de Barros até Almeida Garrett, todos
projectos dos Serviços da CMP: em 1949 do
os planos da cidade procuraram soluções para
engenheiro Guilherme Bonfim Barreiros, em
esta avenida.
1955 do arquitecto Fernando Távora e em 1957
Como foi referido, nos finais dos anos 30, dos arquitectos Manuel Lima Fernandes de Sá e
procedeu-se ao arranjo dos acessos à Sé e foi Benjamim do Carmo.
aberto o Terreiro, para as Comemorações do
Destaca-se o Estudo de Fernando Távora
Bicentenário (Exposição do Mundo Português),
de 1955, pelo cuidadoso modo como liga a
a que, também, não é alheio o facto da Câmara
cidade antiga com a cidade moderna, quer
Municipal estar instalada no Paço Episcopal
pelas edificações que rematam os quarteirões
[162].
existentes, quer pela introdução de arborização.
Agora, para a conformação do eixo sul- Nenhum destes projectos será realizado [163].
norte, tornava-se fundamental a concretização

163
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

[161] - Conclusão da
[158] - A Praça de D.
abertura da ‘Avenida da
Filipa de Lencastre e
Ponte’. (AA.VV. 2001)
o Hotel Infante Sagres
(projecto de Rogério
de Azevedo). (ALVÃO, [162] - Fotografia do
1984) Terreiro da Sé. (CLÁUDIO
& FOTOGRAFIA BELEZA,
1994)
[159] - Entrada da Rua
do Corpo da Guarda
durante o processo de [163] - Projecto de
demolições (1948-64). Fernando Távora para
(AA.VV. 2001) a Avenida de D. Afonso
Henriques. Desenho de
Gouveia Portuense. (AA.
[160] - Zona do Corpo da
VV. 2001)
Guarda e as demolições
para a abertura da
‘Avenida da Ponte’. [164] - Vista aérea actual
(1948-64). (AA.VV. da ‘Avenida da Ponte’.
2001) (VALE, 2008)

165
MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

TEMPOS DE INCERTEZA

“...senhores banqueiros sois a cidade...”

Natália Correia ‘A Defesa do Poeta’, 1968

A Ponte da Arrábida (1956-1963), ideali- Entre 1956 e 1966, é lançado pelo


zada desde o início do século XX, aparece em Presidente da Câmara, José Albino Machado Vaz,
todos os planos da cidade, primeiro numa o ‘Plano de Melhoramentos’, que como se afirma
versão ferroviária e de seguida rodoviária. Em num número da revista francesa ‘Urbanisme’,
Outubro de 1956, inicia-se finalmente a sua dedicado ao Porto, trata-se de um “vasto plano
construção segundo um audacioso projecto do de melhoramentos aprovados em 1956 e que
engenheiro Edgar Cardoso, elaborado a partir se encontra em pleno desenvolvimento, com o
de 1952. A ponte é inaugurada em Junho de patrocínio do Estado, em condições que permitem
1963 [165] a [168]. esperar que irá ser fielmente executado no prazo
previsto” e “os problemas clássicos de todas as
A Ponte da Arrábida, como alternativa
velhas urbes europeias, mas aqui avolumadas em
rodoviária à Ponte Luiz I, terá forte impacto na
certos aspectos, como o da melhoria das condições
zona ocidental da cidade e no seu centro, já que
de alojamento de uma parte importante dos
veio deslocar o trânsito que do sul se dirigia à
seus habitantes moradores nos bairros mais
cidade, retirando a passagem obrigatória pela
antigos e nas tradicionais ‘ilhas’ portuenses”
zona central [167].
e que rapidamente se estende à necessidade
de atender aos problemas colocados pelo
“descongestionamento e valorização da cidade
Detalhe da pintura de Vieira da Silva “Porto” 1962, Coleção velha, os de trânsito, os da expansão da cidade”.
Millenium/BCP in História do Porto. (RAMOS, 1994: 525)

167
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

[165] - Porto do Douro - Construção da Ponte da Arrábida 1961 FOTO: Casa Alvão (CLETO, 1998)

No Prefácio do ‘Plano Director da O ‘Plano Director da Cidade do Porto’,


Cidade do Porto’, Machado Vaz prossegue, conhecido por ‘Plano Auzelle’, foi sem dúvida
justificando o ‘Plano de Melhoramentos’, por o instrumento urbanístico que mais marcou
ter desencadeado “a actual fase de renovação (e marca ainda…) a cidade do Porto a partir da
urbanística e a necessidade física e social de lutar segunda metade do século passado.
contra a insalubridade inaceitável e perigosa,
O Plano reflecte um momento particular-
quer sanitária quer moralmente, duma forte
mente decisivo da cidade do Porto, na transição
percentagem da população de mais modestos
entre o crescimento verificado até ao início da
recursos, alojada nas ‘ilhas’ e acrescenta que
década de 60, e a crise económica e política,
a “coordenação harmónica de todas estas
fruto do início da guerra colonial e o surto de
operações elementares conduziu a repensar,
emigração, que conduzirão ao 25 de Abril.
actualizar, refundir o plano director de expansão
da cidade, necessidade acrescida pela acuidade Mas o ‘Plano Auzelle’, é também marcante
e proporções doutros aspectos da vida actual pela sua longa vigência de trinta anos, (entre
da aglomeração, em especial os relacionados 1963, quando foi publicado e 1993, quando
com a circulação tão dificultada pela topografia foi substituído pelo ‘Plano Castel-Branco’) e
acidentada, e tão intensa nas ruas estreitas da sobretudo, pela forma como foi utilizado pelas
sua zona central”. diversas administrações municipais.
Para resolver estas questões prementes O Plano elaborado entre 1956 e 1962,
da cidade, a CMP decide, em 1956, convidar o e publicado em 1963, propunha-se reforçar
urbanista francês Robert Auzelle para a revisão a ideia do Porto como capital regional, na sua
do ‘Plano Regulador’ então vigente e para a componente administrativa, financeira, cultural
elaboração do ‘Plano Director da Cidade do e turística.
Porto’, que será publicado em 1962.
[166] - Fotografia - ‘Construção e inauguração da Ponte da Arrábida : cortejo fluvial’, (fonte: goo.gl/iFZRuY)

169
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

[167] - A Ponte e a
autoestrada observadas
de Vila Nova de Gaia -
Inauguração da Ponte
da Arrábida em Junho
de1963 (CMP 1964)

[168] - Plano Auzelle


- Volume II – ‘folha n.º
2 da Planta Sistemas
Viários do Plano Director
e do Plano Regulador’
– Detalhe do eixo sul-
norte

[169] - Proposta da
futura rede de circulação
de acordo com o Plano
Auzelle. (GARRETT,
1974)

O Plano Director dá uma particular procura da melhoria da circulação rodoviária Este ‘Centro de Negócios’, prolongando actividade “está nitidamente circunscrita ao
atenção às vias de comunicação, ou se se quiser e baseando-se no sistema viário do Plano o centro tradicional, teria sobretudo funções núcleo central da cidade”.
às suas ‘portas’: o Porto de Leixões, o Aeroporto Regulador, cria um sistema com dois eixos terciárias.
Assim, no edifício das Cardosas instala-se
de Pedras Rubras (Francisco Sá Carneiro), estruturantes sul-norte (Ponte Luiz I, ‘Avenida
Para além do Centro, o Plano pretende o ‘Banco Intercontinental Português’, o ‘Banco
os acessos à Ponte Luiz I (‘Avenida da Ponte’ da Ponte’, Praça da Liberdade, Avenida dos
ainda gerir a expansão da cidade concretizada Totta Aliança’ na Avenida dos Aliados, o ‘Banco
e Viaduto de Duque de Loulé), à Ponte da Aliados, Rua de Camões, Rua de Faria Guimarães
nos terrenos ocupados pelas novas urbanizações de Angola’ na Praça de D. João I e na esquina da
Arrábida (então em construção), à nova ponte até à projectada Via de Cintura Interna) e
do Plano de Melhoramentos, então em Rua de Sá da Bandeira com a Rua de Sampaio
em Campanhã (a futura Ponte do Freixo) e poente-nascente (Avenida da Boavista, Praça
execução, e homogeneizar funcionalmente o Bruno é inaugurado, em Fevereiro de 1962, o
às vias de penetração a norte e a nascente da da República, Rua de Gonçalo Cristóvão,
espaço da cidade, propondo uma nova divisão edifício-sede do ‘Banco Pinto de Magalhães’,
cidade. prolongada em túnel até à Praça das Flores
administrativa, redimensionando as freguesias, segundo um projecto do arquitecto Fernando
e daí até à Estação de Campanhã) e numa via
O Plano, na época, só muito parcial ou e distribuindo os equipamentos de proximidade, Silva [170] [171].
sensivelmente paralela à Circunvalação, unindo
pontualmente será realizado, quer por falta em particular as escolas primárias, por todas
as duas pontes rodoviárias, a ‘Via de Cintura A Praça da Trindade será no Plano
de financiamentos quer por falta de iniciativa estas novas zonas residenciais.
Interna’ (VCI) [169]. Director da Cidade do Porto, objecto de um
municipal. A libertação de terrenos centrais,
Um dos aspectos em que se reflecte o plano de pormenor da autoria de Luís Cunha,
a consolidação dos Bairros Camarários na Numa cidade onde na Baixa se
crescimento da cidade neste período, é o da com o objectivo de “melhorar as condições
periferia da Cidade e a progressiva deslocação concentram edifícios administrativos, sedes de
acumulação do capital financeiro e do aumento da circulação automóvel num troço do eixo de
do Centro, terão como consequência o aumento bancos e companhias de seguros, escritórios
do número e da capacidade das instituições comunicações norte-sul que liga a Avenida dos
especulativo dos terrenos da cidade, razão e consultórios das profissões liberais, estabe-
bancárias, sendo então o Banco Português do Aliados à Rua de Camões. Esta operação deu
não menor, do aparecimento, nestes anos lecimentos do ensino superior, jornais, associa-
Atlântico o maior banco privado português. origem à demolição de uma zona anteriormente
dos ‘dormitórios’ no exterior da cidade, em ções culturais, teatros e cinemas e os principais
Estas instituições bancárias concentram- ocupada por velhos edifícios de habitação e
particular Vila Nova de Gaia. estabelecimentos comerciais, o Plano propõe
se nesta área central, como o demonstra o algumas ilhas, recuperando-se o terreno assim
a ampliação desse centro, criando a norte do
No interior da cidade, o Plano tem duas “documento 5.1.2.1” a evolução do movimento resultante em benefício de instalações comerciais
centro tradicional, um ‘centro direcional’ no
preocupações essenciais: a circulação e a bancário na cidade”, constatando que esta e administrativas de que o centro da cidade
cruzamento desses dois eixos fundamentais de
terciarização do Centro. O Plano Director, na
circulação.

171
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

[172] - Plano Director


Municipal – Volume
III – Quinta Parte –
Apresentação de Estudos
de Pormenor Arranjo
da Trindade – Planta
da Praça da Trindade à
escala 1: 500

[173] - Plano Director


Municipal – Volume
III – Quinta Parte –
Apresentação de Estudos
de Pormenor, Arranjo
da Trindade - Pormenor
do arranjo da Praça da
Trindade

[170] - Plano Director Municipal – Volume I – Segunda [171] - Edifício-sede do Banco Pinto de Magalhães - foto in ‘O Porto‘,
Parte –Inventário do Estado Actual. Primeiras Sínteses e Guido de Monterey 1972.
Propostas – 5.1.2.1 Bancos Inquéritos e localização

tanto carece. Também, como resultante da “1º evitar uma ruptura entre o quarteirão da
mudança dos percursos do trânsito automóvel, Catedral e o da gare de S. Bento; 2º interligar
foi eliminado o cruzamento entre o edifício da plasticamente estes dois quarteirões; 3º
Câmara Municipal e a Igreja da Trindade, sendo organizar as ligações rodoviárias e os percursos
o espaço intermédio transformado em praça de peões de tal forma que a vida continue a
pública para peões”, como se lê no texto que afluir ao centro antigo; 4º operar de seguida
acompanha esta proposta [172][173]. uma renovação geral, eliminando em primeiro
lugar os edifícios de habitação mais degradados
No seguimento deste projecto, a Praça
e de seguida no interior dos quarteirões todas as
da Trindade foi pavimentada e dedicada ao uso
construções precárias.”
exclusivo de peões. No seu centro é colocada
uma Fonte, até então armazenada nos SMAS e E o texto prossegue, mostrando que
proveniente do Largo de S. Domingos. estas intenções não se destinam a resolver
o grave problema social da zona, mas têm
Para a pedreira existente a poente,
apenas como objectivo a promoção do turismo:
é projectado por Bento Lousã um edifício
“Tendo em conta a salubrização assim obtida,
destinado à instalação dos serviços Camarários
o abaixamento da densidade da população, a
[174].
recuperação das fachadas, os edifícios públicos
A ‘Avenida da Ponte’ já aberta, é de a construir, um sistema coerente de circuitos
novo considerada e desenhada no Plano turísticos é estudado para pôr em destaque
Auzelle. É elaborado um estudo de pormenor, os pontos de vista sobre o Douro, os cenários
desenvolvido pelo arquitecto Luís Cunha, que arquitectónicos mais interessantes e facilitar a [174] - Plano Director Municipal – Volume III – Quinta Parte – Apresentação de Estudos de Pormenor Arranjo da Trindade – Perspectiva
das construções previstas para a nova Rua da Trindade
tinha como objectivos, segundo o texto publi- visita aos monumentos, museus e espaços livres
cado no referido número da revista Urbanisme: mais notáveis.”

173
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

[a] [b1]

Por outro lado o texto que acompanha praça de Almeida Garrett, ficando o nível inferior
o Estudo de Pormenor, no Plano Director reservado principalmente para peões.”
preocupa-se sobretudo com as questões de
O Plano propõe para a Avenida “um
trânsito:
edifício alongado que estabelecerá a relação de
“A urbanização dos terrenos libertos continuidade agora interrompida, entre o actual
pela abertura da avenida de D. Afonso centro da cidade e o núcleo antigo dominado
Henriques conduziu ao estudo de uma zona pelo edifício da Sé Catedral.”
relativamente vasta por se ter considerado que
No edifício projectado, “o rés-do-chão,
uma solução correcta para este caso implicava
abrindo sobre um passeio coberto para peões,
uma reorganização do trânsito de toda a zona
será destinado a comércio. Os diversos andares
envolvente e por ser necessário coordená-la com
serão ocupados por escritórios justificando-
o esquema de ligações fundamentais previstas
se no entanto que o topo sul, com vista sobre
no Plano Director.
a zona de interesse histórico, seja utilizado
Para eliminação dos inúmeros pontos de para a instalação de um hotel residencial.”(…)
conflitos existentes actualmente na circulação, “Completa o projecto o ajardinamento dos
foi estudado um sistema de sentidos únicos, cujo espaços livres e a construção de um parque de
funcionamento tornou necessárias algumas estacionamento de veículos sobre a estação de S.
passagens superiores, uma das quais — a da Bento.” [175][176][177].
rua de Saraiva de Carvalho — se encontra já
[175] - Plano Auzelle - Não tendo avançado este projecto, a
Volume III - Cruzamento iniciada. Como elementos fundamentais de todo
da Avenida de D. Afonso Câmara Municipal do Porto encomenda em
o sistema deve notar-se o estabelecimento de um
Henriques com as ruas
1968, ao arquitecto Álvaro Siza, um novo
de Saraiva de Carvalho, sentido circulatório envolvendo o ‘quarteirão
de Mouzinho da Silveira projecto para o arranjo da Avenida de D.
e das Flores – Estado das Cardosas’ e a elevação do pavimento da
actual (a) e propostas (b1 Afonso Henriques (‘Avenida da Ponte’). Álvaro
e b2).
[b2]

175
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

[176] - Plano Director Municipal – Volume III


– Quinta Parte – Apresentação de Estudos de
Pormenor Arranjo da Avenida de D. Afonso
Henriques – perspectiva tomada da Igreja
dos Congregados. (AA. VV. 2001)

[177] - Luís Cunha e Rogério Barroca -


Maqueta do projecto. (AA. VV. 2001)

[178] - Esquissos para a ‘Avenida da Ponte’ -


Álvaro Siza (AA. VV. 2001)

[179] - Maquete do Ante-projecto de Álvaro


Siza para a ‘Avenida da Ponte’, lado nascente,
1968. Vista (de cima para baixo) do sul e do
[176] norte respectivamente. (AA. VV. 2001) [178]

Siza confronta-se então com um projecto de


grande dimensão e significado urbano, numa
zona de grande sensibilidade e delicadeza no
tecido central da cidade, que irá resolver com
um edifício envidraçado, espelhando a imagem
da cidade histórica envolvente, e refazendo
os percursos de peão correspondentes ao
tecido tradicional. O projecto englobava ainda
os pequenos e antigos edifícios existentes.
A pedreira seria desmontada para criar um
parque de estacionamento coberto. Apesar da
qualidade do projecto ele não será construído.
O projecto de Álvaro Siza é um dos vários
projectos que decorrem do Plano de Auzelle,
mas que por razões sobretudo económicas
nunca foram realizados. Estes projectos
permitem-nos pensar o que seria hoje o Porto,
ou pelo menos algumas das suas zonas, se
tivessem sido concretizados [178][179].

[177]
[179]

177
MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

TEMPOS DE LIBERDADE

“... Aqueles para quem o longínquo sonho, se tornara, em consequência da sua luta do dia-a-dia, na mais
fascinante aventura: deixar a barraca para habitar uma casa.”

De um comunicado de moradores

Com o 25 de Abril, a Praça e a Avenida ‘Pelo Direito à Cidade’, procuraram opor-se à


tornaram-se de imediato o local de exercício lógica especulativa que no Porto presidia não
da liberdade e da acção política: manifestações só aos projectos e aos planos existentes, como
populares e reivindicativas, comícios, etc. à própria gestão municipal do regime deposto
[180][181].
Institui-se o SAAL (Serviço Ambulatório
de Apoio Local), para resolver o gravíssimo Mas o que caracterizou e diferenciou
problema da habitação no Porto, procurando, as operações mais importantes do processo
no essencial, mudar a estrutura da propriedade SAAL no Porto, todas realizadas na envolvente
do solo urbano, pressionando a criação de próxima do centro da cidade, foi a possibilidade
mecanismos jurídicos de expropriação e criando de mudar o sentido da utilização do espaço
uma estratégia de construção e renovação de urbano, dando um novo sentido à cidade.
habitats degradados. O processo baseava-se
Iniciou-se uma inversão na confrontação
na participação das populações, fixando-as nos
entre cidade velha-cidade nova, criticando não
locais em que residiam.
só o desenvolvimento urbano funcionalista e
Estas, organizadas em Comissões e Associ- especulativo, como a ideia de uma cidade em
ações de Moradores, utilizando eficazmente as constante crescimento. Por consequência as
palavras de ordem ‘Casas Sim, Barracas Não’ e operações SAAL, opunham-se à ideia do Plano

Manifestação do 1º de Maio de 1974. (VAZ, 1974)

179
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

[180] - Manifestação
na Avenida dos Aliados
[197 - ?] - colecção atelier
Álvaro Siza

[181] - Cartaz de
Manifestação de
Moradores - Alexandre
Alves Costa. (Fonte: goo.
gl/ANEZ1Z)

[182] - Planta síntese do


Plano de Duarte Castel-
Branco (CMP, 1993)

Auzelle de propor para o centro da cidade um Em 1979 a Câmara Municipal do Porto, No entanto, estas opções reflectem
Centro de Negócios exclusivamente terciário, perante as críticas então formuladas ao Plano ainda a crise sobretudo financeira da CMP e
afastando do centro habitações e moradores. Auzelle, e há muito esgotado o prazo legal, da Administração Central, antes da entrada
decide a Revisão do Plano Director Municipal de Portugal para a União Europeia (então CEE
Contudo, esta possibilidade de um
para o que organiza um concurso público. O -Comunidade Económica Europeia).
urbanismo alternativo nunca avançou, fosse
concurso é ganho pelo professor arquitecto
por falta de vontade ou de condições dos que Por isso, o Plano Geral de Urbanização,
Duarte Castel-Branco e, logicamente, a equipe
conduziam o processo urbano, fosse pela arrasta-se na sua elaboração até 1989 e
que este então constitui, resolve não uma
impossibilidade de criar instrumentos eficazes, posteriormente é revisto e aprovado apenas [183] - Plano Castel-Branco – Unidades de Ordenamento.
revisão do Plano Director, mas a elaboração de (CMP, 1993)
e regressou-se aos mesmos velhos métodos e em 1993, como Plano Director Municipal, no
um novo plano, o ‘Plano Geral de Urbanização
às mesmas políticas urbanas, com os mesmos seguimento da legislação de 1991, que obrigava
do Porto’.
protagonistas. Este fracasso contribuiu para a todos os concelhos do País a elaborarem Planos
‘desertificação’ do centro que se agudizou no Os estudos do Plano levam a Câmara Concelhios [182].
Porto nos anos seguintes. do Porto a criar um Gabinete de Planeamento
O Plano Director Municipal, quando
Urbanístico (G.P.U.) e à apresentação de um
Em 1974 é ainda criado o CRUARB aprovado, propunha um plano de ordenamento
documento - ‘As Grandes Opções do Plano’ -
(Comissariado para a Renovação da Área do trânsito, tendo em conta os investimentos
onde se traçavam as principais opções políticas
Ribeira Barredo), que de imediato se irá da Administração Central, então em execução
para a cidade:
ocupar da zona ribeirinha da cidade, a qual ou programados. Desse plano, integralmente
- O Porto como capital Regional;
apresentava dramáticos problemas sociais, cumprido por parte da Administração Central,
com uma escandalosa taxa de sobreocupação - O Porto como cidade de terciário; faziam parte a conclusão da V.C.I., a ponte
dos edifícios, a maior parte perto da ruína, - O Porto como centro de difusão de Ensino ferroviária de S. João, a ponte rodoviária do
causando enormes problemas de degradação Superior e pólo cultural; Freixo, a articulação com o Plano Rodoviário
social dos moradores e física do edificado. - O Porto como cidade de serviços de Saúde: Nacional, nomeadamente as auto-estradas e o
Itinerários Principais e Complementares (IP e
- O Porto como centro de irradiação de
IC) [184].
transportes.

181
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

[184] - Detalhe do Plano Rodoviário Nacional (CMP, 1993)

[185] - Foto Aérea - Do CPF - do Espólio Tavares da Fonseca - (PT-CPF-TAV-VA-0047-000086_m0001)

No que se refere ao trânsito no interior Sistemas Fundamentais de Transportes, Zonas


do concelho, o Plano previa um ‘duplo anel‘ Hospitalares, Industriais, Defesa, Segurança, de
de circulação, que rodearia a zona central Serviços e Equipamentos.
da cidade, entendida como uma área que se
A cidade era dividida em Unidades de
estende da Boavista até Fernão de Magalhães e
Ordenamento, confinadas entre vias ou ruas
da ‘Avenida da Ponte’ até à Constituição.
principais, e sujeitas a planos de pormenor [183].
Neste plano de trânsito, procurava-se
O Plano Director Municipal pretendia
a adaptação à cidade existente, evitando a
ainda um ordenamento da morfologia da cidade,
construção de ‘obras de arte‘, ou seja viadutos
com a introdução do C.O.S. (Coeficiente de
e túneis, não causando por isso, rupturas no
Ocupação do Solo), ou seja, de uma norma que,
tecido consolidado da cidade e a possibilidade
conforme a zona da cidade ou a funcionalidade
de, progressivamente, evitar a penetração nesta
do edifício, limitava o volume da construção a
área do trânsito automóvel privado.
2, 5, ou 8 metros cúbicos por metro quadrado.
Na rotunda da Boavista, considerada
agora e pela primeira vez, uma futura zona
central da cidade, era criado um Centro
Direccional a partir da instalação da sede da
Área Metropolitana do Porto então criada (no
terreno onde se ergue a casa da Música).

Mantinha o zonamento da cidade


propondo: Zonas de Protecção Urbanística,
Arquitectónica e Paisagística, Zonas Uni-
versitárias e Culturais, Zonas Desportivas,
Zonas Verdes e Parques Urbanos, Zonas dos

183
MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

TEMPOS EUROPEUS

“...os gajos lá fora a pagarem-nos tudo, a mandarem a massa à gente para isto e para aquilo, é só pedir
por boca, e tomem lá para as pontes e tomem lá para as estradas.”

Luísa Costa Gomes 1997

O Porto, nos últimos anos de cada século, transformações sociológicas (e psicológicas)


parece ter um frenesim de obras e intervenções. da sociedade portuguesa, os seus diversos
Assim foi com os Almadas, assim aconteceu no efeitos e consequências, na forma de habitar o
final do século XIX e assim aconteceu no final do Porto e na conformação da cidade, não foram
século passado. acompanhados por uma gestão e uma actuação
municipal que soubesse adequar a área central
A segunda metade da década de 80
da cidade a estes novos problemas.
correspondeu a grandes transformações a
nível internacional (conhecidas de todos) Assim, os finais dos anos 80 e a década
e cujos efeitos profundos começaram a de 90 são marcados no Porto, por um forte
emergir no Porto, nos anos seguintes. Importa investimento da Administração Central,
sobretudo referenciar a adesão de Portugal nomeadamente na estrutura viária da cidade e
à União Europeia (então CEE – Comunidade da região: auto estradas, vias rápidas, e pontes.
Económica Europeia), com o consequente e
A VCI, programada desde os anos 50 e
determinante afluxo de fundos financeiros,
cujo primeiro lanço se construiu nos anos 60, é
crescimento económico, diversas alterações
finalizada nestes anos como uma via rápida de
de instituições e regulamentações, bem como
atravessamento, ligando a ponte da Arrábida à,
o aumento dos canais de comunicação com
então construída, Ponte do Freixo. A V.C.I. terá
outros países europeus. E, se estas grandes
uma influência decisiva no centro da cidade,
Vista actual para a Avenida. (BENTO, 2013) mutações corresponderam a importantes

185
MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

[186] - Vista Aérea das pontes de S. João, D. Maria, Infante, Luiz I


e Arrábida (VALE, 2008)

isolando-o, funcionando como um canal de Na zona da Trindade é promovida a


separação entre zonas inteiras da cidade e construção do edifício da Pedreira, recuperando
permitindo o atravessamento desta, sem parar. o projecto inicial do arquitecto Bento Lousã,
indicado no Plano Auzelle. Conflitos entre a
Nas ligações ferroviárias, é construída,
Câmara e o construtor levaram a uma longa
em 1991, a Ponte de S. João, para substituir a
interrupção da obra, que apenas veio a ser
centenária Ponte D. Maria Pia.
concluída em 2009.
A Ponte de S. João, do professor Edgar
O papel tradicional do Porto baseava-se
Cardoso, apesar de ser uma notável obra de
na noção de um centro único, que concentrava
engenharia, quer na sua concepção quer na
postos de trabalho, equipamentos e serviços,
sua estética, implicou o abandono da ponte de
rodeado por um espaço dependente, de
D. Maria, obra de Gustave Eiffel, para a qual as
subúrbios residenciais, indústrias periféricas
administrações não têm sabido encontrar uma
e pequenos núcleos rurais absorvidos
utilização adequada ao seu incontestável valor
por urbanizações. Com o 25 de Abril e o
patrimonial e turístico [186].
desenvolvimento dos concelhos limítrofes,
A Administração Central investiu ainda agora com um poder municipal autónomo
nos equipamentos Universitários, e os novos e democrático, graças sobretudo aos apoios
estabelecimentos vão localizar-se em novas comunitários, assistiu-se a uma crescente
zonas periféricas da cidade, abandonando a zona difusão territorial, baseada numa maior e mais
central e contribuindo para a sua degradação homogénea acessibilidade física aos espaços
habitacional e comercial e sobretudo cultural, metropolitanos, e a uma crescente dispersão dos
num momento em que paradoxalmente se serviços e infraestruturas que anteriormente se
assiste ao aumento da população estudantil. concentravam no Porto.

Já por iniciativa da Câmara Municipal, Em 1991, é criada a Área Metropolitana


no interior da cidade e contrariando o Plano do Porto (AMP), inicialmente constituída por
Director, são realizados vários túneis, previstos nove concelhos: Porto, Matosinhos, Gaia, Maia,
no plano Director de Auzelle em circunstâncias Gondomar, Valongo, Vila do Conde, Póvoa do
e com motivações agora claramente Varzim e Espinho, e recentemente ampliada
ultrapassadas: túneis do Campo Alegre, de com mais oito municípios: Arouca, Santa Maria
Faria Guimarães e da Praça das Flores. da Feira, S. João da Madeira, Trofa, Santo Tirso,
Oliveira de Azeméis, Vale de Cambra e Paredes.

187
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

Mas a AMP, até ao final do século, não


conseguiu responder aos novos problemas de
escala territorial, nem formular uma estratégia
concertada de afirmação e competitividade no
espaço nacional e internacional. A AMP não
conseguiu, sequer, uma coordenação de políticas
intermunicipais, que resolvesse os problemas
deste novo espaço urbano alargado, onde
habitam no quotidiano muitos dos cidadãos
que hoje moram e trabalham, abastecem-se ou
ocupam os seus tempos livres, deslocando-se
nos concelhos da Área Metropolitana e mesmo,
para além deles.

Apesar da acção do CRUARB ter perdido


o impulso inicial, a sua actividade, estendendo-
se a todo o centro histórico da cidade, conduziu
a que, em 1996, a UNESCO o integrasse na Lista
do Património Mundial da Humanidade [187].

A Área Classificada, definida também pela


sua Área de Protecção, tem como limite norte a
zona em estudo. Em 2011, o espaço da Praça da
Liberdade, da Avenida dos Aliados e da Praça
do General Humberto Delgado foi classificado
como Conjunto de Interesse Público (CIP).

Muralha Primitiva
Limite da Área de Intervenção do CRUARB/CH
Limite da Área Classificada [187] - Área definida como Centro Histórico - Património
Muralha Fernandina Mundial da Humanidade onde se ilustram os diferentes limites
de classificação e protecção - Redesenhado sobre fotografia
Limite da Área de Protecção à Zona Classificada aérea

189
MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

TEMPOS DE UM NOVO MILÉNIO

“…E o olhar abre-se imensamente às nascentes nocturnas captando


o eco perdido em cada coisa…”

António Ramos Rosa ‘Facilidade do Ar‘ 1990

No início do século, a Câmara Municipal No Centro, a envolvente edificada foi--


promove a revisão do Plano Director Municipal. se transformando, perdendo muitos dos seus
usos tradicionais e, em muitos casos - em
Com a consultoria de uma equipa chefiada
demasiados casos - foi-se degradando. Entre
pelo professor Manuel Fernandes Sá, elaborou-
muitas outras actividades, houve jornais que
-se, a partir de 2000, um novo Plano Director,
passaram a bancos, sedes de companhias de
que foi aprovado em 2005. Este plano procura
seguros e bancos que foram abandonados, cafés,
o desenvolvimento da cidade, tendo em conta a
confeitarias e restaurantes que encerraram as
morfologia dos tecidos urbanos, das edificações
suas portas, escritórios de profissões liberais
e dos espaços públicos. Assim, propõe uma
que se deslocaram para outras zonas da cidade e
gestão urbana, com diferentes regras para cada
estabelecimentos comerciais de referência que
um dos tipos de zona: ‘histórica, consolidada,
se deslocaram para os novos espaços comercias.
em consolidação, de habitação unifamiliar e de
Por isso, o século XXI inicia-se também com um
habitação colectiva‘ [188].
ambicioso projecto para o centro do Porto.
Para os (poucos) terrenos a urbanizar,
Aproveitando a realização da Capital
prevê Planos de Pormenor, com uma drástica
Europeia da Cultura, foi criada uma empresa,
redução do coeficiente de ocupação do solo.
a ‘Porto 2001 S.A.‘, que pretendia, para além
Medida que provocou forte polémica na
da realização de actividades eminentemente
aprovação do plano, mas que se extinguiu com
culturais, promover um programa Regresso à
a crise imobiliária, que surgiu alguns anos
Baixa, destinado a intervenções na área central
Maquete do Projecto para a Torre dos Paços do Concelho, de Fernando Távora, 1996. Imagem adaptada de (AA.VV., 2001) depois.

191
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

[188] - Planta síntese do Plano Director Municipal. (Fonte: goo.gl/shJlLh) [189] - Áreas de intervenção da ‘Porto 2001‘. (AA.VV. 2000)

do Porto, no sentido de contribuir para estancar De entre estas intervenções, a melhor CRUARB, mas com um território de intervenção
a degradação comercial, habitacional e física do conseguida foi a reabilitação, por parte da mais amplo e uma estratégia adaptada às novas
centro da cidade. equipa de Alexandre Alves Costa e Sérgio realidades, permitindo novas soluções.
Fernandez, da Praça de D. João I e das ruas
A intervenção nos espaços públicos foi Também, no início do século, começa a
adjacentes, dando-lhe um novo significado e
dividida em zonas, a serem projectadas por construção do metropolitano do Porto. A ideia
permitindo-lhe novos usos. As ruas de Sá da
diferentes equipas de arquitectos [189]. de um metro na cidade, nasce nas últimas
Bandeira e de Passos Manuel com novos perfis
décadas do século XX, a partir da rede ferroviária
Estas intervenções, quando se começaram e a introdução de arborização, contribuíram
existente. No início do século XXI, são elaborados
a concretizar, quer pela duração dos trabalhos para aceitação e a aprovação pública. Não
os projectos, e em 2002, é inaugurado o troço
que se arrastaram muito para além de 2001, realizados, os projectos de Álvaro Siza para a
da Linha Azul, entre Matosinhos e a Trindade,
quer porque, simultaneamente, se concretizava Praça da Liberdade/Avenida dos Aliados e o
correspondente à antiga Linha da Póvoa. Esta
um plano municipal de criação de parques de seu novo projecto para a ‘Avenida da Ponte’,
será, de seguida, prolongada em túnel até à
estacionamento subterrâneos, sofreram, por este de iniciativa municipal [190].
estação de Caminho de Ferro de Campanhã.
isso, uma forte contestação da população, em
Com a eleição, nos finais de 2001, de uma No ano seguinte, iniciam-se as obras da linha
particular dos comerciantes, por perturbarem,
nova Administração Municipal, empenhada amarela entre o Hospital de S. João, no polo II
muito para além do razoável, a vida quotidiana
na reabilitação da área central do Porto, é da Universidade (onde, então, se construíram
de quem trabalhava ou se deslocava para o
criada, em 2004, uma Sociedade de Renovação diversas novas instalações de ensino superior),
centro da cidade. Acresce que esta contestação
Urbana (SRU), a Porto Vivo, SRU - Sociedade de e passando pela Avenida dos Aliados (onde é
teve, ainda, como fundamento, a incompreensão
Reabilitação Urbana da Baixa Portuense S.A., criada uma estação subterrânea), pela ‘Avenida
de muitas das soluções apresentadas pelos
uma empresa de capitais públicos (Estado da Ponte’ (onde é criada outra estação) e pelo
técnicos para os diferentes espaços, sem
e Câmara Municipal), com o objectivo de tabuleiro superior da Ponte Luiz I, terminando
dúvida a necessitar de manutenção, mas não de
dinamizar a reabilitação urbana da chamada no topo sul da Avenida da República, na cidade
intervenções radicais que, para muitos, feriam [190] - Álvaro Siza - requalificação da Avenida de D. Afonso
Baixa do Porto, aproveitando a experiência do de Gaia.
a memória citadina. Henriques, intervenção proposta e correspondência com a
malha urbana pré-existente. (AA.VV., 2001)

193
MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

[191] - (à esquerda)
Estação de S. Bento, 2013
(BENTO, 2013)

[192] - Metro do Porto


- Estação da Trindade
projecto de Eduardo
Souto de Moura, 2012
(PINHEIRO, 2012)

No cruzamento destas duas principais vencer as, ainda enormes, resistências


linhas, situa-se a Estação da Trindade, onde, provocadas pelos hábitos criados por anos e
depois de demolido o antigo edifício, se edificou anos de promoção do transporte rodoviário e
a nova estação, desenhada por Eduardo Souto da utilização do automóvel.
de Moura [192].
Em 2004, a Câmara Municipal e a Metro
Com a utilização do tabuleiro superior da do Porto decidem intervir no espaço urbano
Ponte Luiz I pelo Metro, tornou-se necessária que vai desde a praça da Trindade até à Ponte
a construção de um novo atravessamento Luiz I, segundo um plano de Álvaro Siza e
rodoviário do Douro, que permitisse a ligação Eduardo Souto de Moura [193].
de Gaia com a área central do Porto. É, então,
Com as alterações causadas pela execução
construída a Ponte do Infante, segundo um
da linha Amarela do Metro e das suas estações,
projecto do engenheiro Adão da Fonseca e
impunha-se a requalificação das avenidas dos
inaugurada em 2003, unindo a zona da Serra
Aliados e de D. Afonso Henriques (da Ponte).
do Pilar, em Gaia, com a zona das Fontaínhas no
Porto, deslocando para poente, o trânsito entre Álvaro Siza, a partir do projecto que
os centros das cidades de Gaia e do Porto. tinha elaborado para a Porto 2001, e agora com
Eduardo Souto de Moura, o responsável pelos
A actual rede do Metro permite esperar
projectos das estações do Metro, elabora um
uma nova coesão do Porto e dos concelhos
plano entre a estação da Trindade e a ponte
limítrofes e uma nova refundação do centro da
Luiz I.
cidade do Porto, se bem que será necessário

195
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

197
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

[193] - (2 páginas anteriores)


Projecto de Álvaro Siza e Eduardo
Souto de Moura entre a Praça da
Trindade e a Ponte Luiz I. (Cortesia
Atelier Álvaro Siza Arquitecto)

[194] - ‘Projecto de Requalificação


da Baixa Portuense - Área Central‘ -
Praça da Liberdade, de Álvaro Siza e
Eduardo Souto de Moura. (Cortesia
Atelier Álvaro Siza Arquitecto)
[195] - Vista Geral para a Avenida dos Aliados com a espelho de
água/fonte ao centro. (BENTO, 2013)

Álvaro Siza, em Julho de 2000, numa processadas” e no “reforço da relação, já hoje de uma segunda fachada vegetal ao longo do eixo
pequena memória justificativa dirigida à Porto evidente, entre os dois elementos escultóricos que longitudinal” e pela “utilização de um só material
2001 S.A., intitulada Organização do Espaço dominam o espaço central da cidade histórica de revestimento de pavimento, introduzindo um
Praça da Liberdade/Avenida dos Aliados/Praça (a estátua e a torre), tornando-os instrumentos factor de união visual de todo o espaço da Praça.”
do General Humberto Delgado, justifica esta eficazes de medida.” Siza propõe, ainda, a reutilização dos “antigos
sua primeira proposta, fazendo uma leitura candeeiros (de um lampião e de três lampiões),
Na Memória Descritiva e Justificativa
pessoal e pouco convincente do plano de Barry adaptando-os para padrões contemporâneos de
que acompanha o Estudo Prévio da Praça da
Parker, considerando que não foi integralmente qualidade de iluminação”.
Liberdade, também elaborado para a Porto
cumprido “…e que se modificou a organização
2001 S.A., são reforçadas estas justificações. No entanto, este projecto foi sujeito
espacial projectada, surgindo não uma
a fortes críticas, sobretudo, porque as
sequência praça - avenida - praça, mas um longo Mantendo-se a ideia da deslocação e
justificações racionais para mexer na estátua
espaço, de alguma ambiguidade formal”. Depois rotação da estátua equestre de D. Pedro IV,
de D. Pedro IV, colidiam com a memória e os
considera que o edifício dos Paços do Concelho, considera-se agora que ela “permite distender
sentimentos dos portuenses [194].
tendo assumido a “expressão de objecto urbano o eixo da Praça criando simultâneamente um
autónomo e monumental (…) acentuada pela efeito de contenção e definição de limite” e Finalmente, as obras da linha do metro
forte presença da torre central [a que estão] aparece, agora, a concepção de um espaço e a Estação dos Aliados, obrigando a uma
referidas as esculturas que pontuam, ao longo do único, a grande Praça da Cidade. Esta unificação reconfiguração da placa norte da Avenida, e dos
eixo longitudinal, a leitura de um espaço tornado do espaço é conseguida pelo “alinhamento passeios e faixas de rodagem, onde se situam as
unitário.” Dessas esculturas considera Álvaro do traçado das vias de circulação automóvel, entradas para a estação, foram aproveitados,
Siza que “a estátua equestre de D. Pedro IV paralelo às fachadas da Av. dos Aliados que pelos dois arquitectos, para desenhar uma
perdeu definitivamente a centralidade original, se prolonga até ao limite sul da Praça da intervenção na Praça da Liberdade e Avenida
constituindo a sua implantação reminiscência Liberdade”, pela “consolidação e reforço da dos Aliados, numa solução de conjunto da
de uma ordem perdida” para justificar a sua massa arbórea que bordeja as fachadas nascente Estação da Trindade à Ponte Luiz I, tendo em [196] - Detalhe da espelho de água/Fonte no centro da Avenida
dos Aliados. (BENTO, 2013)
deslocação e rotação de 180º na “obtenção de e poente da Praça, contribuindo para a definição conta a linha e as estações do metro.
uma nova ordem, ajustada às transformações

199
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

[197] - A ‘Avenida da Ponte’ na actualidade. (VALE, 2013)

Neste novo projecto, que será executado, desta intervenção foi a substituição dos apesar da sua continuidade, são claramente O sistema de espaços públicos que assenta
reforça-se a ideia da Grande Praça, “um despropositados e desproporcionados postes visíveis e identificáveis os tempos e os espaços no eixo constituído pela Praça da Liberdade,
espaço contínuo (Praça da Liberdade – de iluminação colocados nos anos 60, pelos da Praça da Liberdade, da Avenida dos Aliados a Avenida dos Aliados, a Praça do General
Avenida dos Aliados)”, fundamentada, agora, antigos candeeiros, reabilitando o ambiente e da Praça do General Humberto Delgado. Um Humberto Delgado e a Praça da Trindade,
pela impossibilidade da reconstrução do nocturno da Avenida. Junto da plataforma em espaço onde a arborização e sobretudo os englobando, a nascente, a Praça de D. João I
existente “que não permite recuperar a escala calcário e basalto, em que assenta a estátua canteiros de flores, coloriam e aromatizavam e, a poente, a Praça de D. Filipa de Lencastre,
do jardim”. Assim, as duas placas da Avenida de Garrett (desenho do Arquitecto Fernando os percursos dos peões nas placas centrais, e após 200 anos continua o local privilegiado
serão pavimentadas e a arborização será Távora), era proposta “uma fonte rodeada de enquadravam as esculturas da ‘Menina Nua‘ e da reunião do povo portuense e permanece a
apenas realizada nos limites poente e nascente bancos, cadeiras e seis alinhamentos de árvores” dos ‘Meninos‘, propostas como parte integrante ‘Ágora‘ da cidade.
da placa sul. Esta arborização é reforçada que na execução foi substituída por um Espelho da promenade idealizada nos sucessivos planos.
a poente e nascente da Praça da Liberdade de Água [195]. As realizações da primeira década do
A ‘Avenida da Ponte’ (D. Afonso século - criação da Porto Vivo - SRU, o Metro,
que, com o desenho das faixas de circulação,
A Praça do General Humberto Delgado, Henriques), com a exclusividade do tabuleiro a intervenção no eixo Trindade/ Ponte Luiz I,
anula a marcação e diferenciação, desde
nunca é referida nos textos, apesar de ser superior da Ponte Luiz I dedicado à linha do e alguns projectos de reabilitação do edificado,
sempre existente e tão cara a Barry Parker
separada espacialmente, quer pelo desenho da Metro que, no lado do Porto, é subterrânea, - permitiram que recentemente se tenha
e a Marques da Silva, do espaço da Praça da
circulação rodoviária, quer pela introdução do desde a estação da Trindade até ao início do iniciado uma nova vida urbana na área central
Liberdade, do espaço da Avenida dos Aliados
Espelho de Água, marcando o topo da Avenida. tabuleiro, perdeu boa parte da sua razão de da cidade. Alicerçado num novo protagonismo
e da Praça do General Humberto Delgado. A
A concretização deste projecto, embora os ser, ou seja, de uma avenida ligando a entrada do Porto e do vale do Douro, sustentado por
estátua equestre de D. Pedro IV, conserva-se
arquitectos tenham recuado na deslocação da cidade com o seu centro. E se permanece uma estratégia eficaz de promoção do turismo,
no local e na orientação originais. O projecto
que implicava a rotação da estátua equestre, como ligação com a zona da Sé, trata-se ainda apoiado em novas acessibilidades (aeroporto
propunha, ainda, o redesenho do mobiliário
provocou incompreensão e forte contestação de um espaço incaracterístico, sem arborização Sá Carneiro, terminal de cruzeiros no porto de
urbano, incluindo cobertos de paragens, bancos
de muitos sectores da população do Porto. e onde apenas a meio da Avenida sobressaem Leixões e vias de circulação rápidas), assiste-
e recipientes de lixo e mantinha a ideia dos
Na memória dos portuenses, permanecia e os acessos à estação do Metro [197]. se a uma nova dinâmica no centro da cidade
anteriores projectos de recuperação dos antigos
permanece ainda, a imagem de um espaço onde e a um verdadeiro regresso à Baixa. Esta,
candeeiros. Um dos mais positivos aspectos

201
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

com novas acessibilidades, metro e parques


de estacionamento, com dois grandes hotéis
de referência e um conjunto de pequenas
residenciais, bares, cafés e restaurantes, criou
as condições para um novo investimento na
área central, na recuperação de edifícios e dos
seus usos.

A área central exerce, também, uma


nova atracção na numerosa população jovem
e estudantil, que frequenta as universidades e
os estabelecimentos do ensino superior, o que
se evidencia no renascer da animação nocturna.

Factos que permitem esperar que os


portuenses e os que, por qualquer motivo,
visitam a cidade, se sintam atraídos a frequentar,
a habitar ou mesmo a se estabelecer, neste
espaço tão nobre quanto antigo da cidade do
Porto.

[198] - A Avenida dos Aliados na actualidade. (VALE, 2013)

203
A CIDADE
ENTRE O
PROJECTO E
A REALIDADE
Clara Pimenta do Vale
MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

A AVENIDA DA CIDADE
DO PLANO À PRÁTICA

A área que se convencionou designar por alguns já desaparecidos como o Mercado do


1ª AVENIDA, num conjunto de iniciativas que Peixe, o Mercado do Anjo, o Teatro Nacional,
decorreram entre 2011 e 2013, tem os seus o de triste memória Teatro Baquet, e outros
limites abstractos rigorosamente definidos mas que permanecem ainda hoje, como sejam o
que contudo não correspondem a uma efectiva Campo de Santo Ovídio, inicialmente como
diferenciação real. Mais do que delimitar Praça de Armas, a Estação Central de S. Bento, a
rigorosamente aquela área, o que se pretendeu Estação de via estreita da Trindade, o Mercado
foi abarcar um conjunto de espaços públicos do Bolhão, o Teatro Sá da Bandeira e o Teatro
que se relacionam e articulam, histórica e Nacional de S. João e o Ateneu Comercial, ou, um
actualmente, e servem de suporte à implantação pouco mais distantes, mas mesmo assim ainda
de um edificado rico e diversificado: o Eixo de próxima relação, como o Hospital Geral de
Monumental Aliados (Praça da Liberdade – Santo António, a Sé, a Academia Politécnica, o
Avenida dos Aliados – Praça Humberto Delgado) Palácio do Comércio para sede da Associação
que se estende a norte até à Praça da Trindade; Comercial, ou a Biblioteca Pública e Museu
o contraponto da próxima Praça de D. João I, Municipal.
na sua relação com a Rua de Sá da Bandeira e
Assim, até ao final dos anos 60 do
Rua Passos Manuel; e os menos monumentais
século XX, quando se efectiva uma segunda
e de traçado mais irregular, Largos dos Lóios e
centralidade na zona da Boavista – determinada
Praça de Almeida Garrett.
fundamentalmente pela abertura da ponte da
Este conjunto de espaços públicos veio a Arrábida, e da deslocalização das actividades
constituir-se como um centro (posteriormente portuárias do Douro para Leixões –, era numa
como um dos centros) da dinâmica urbana, circunferência de cerca de 1 700 m de diâmetro
económica, política, cultural e social Portuense, que se localizavam todos os equipamentos e
aspecto ainda mais reforçado pela proximidade infra-estruturas determinantes para o palpitar
de outros equipamentos âncora da cidade, da cidade [199].
Projecto de Leandro de Morais para a Avenida dos Aliados. (CMP & Morais, 1924)

207
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

Na definição desta centralidade urbana


teve também papel preponderante o sector
financeiro. A partir da última década do século
XIX a cidade do Porto conseguiu impor-se como
importante centro financeiro nacional, e foi
crescente o número de sociedades bancárias,
mutualistas e companhias de seguros que se
instalaram na Praça D. Pedro ou nas artérias
da sua envolvente próxima, substituindo ou
complementando o centro intramuros situado
nas imediações do Palácio da Bolsa. Esta
atractividade será mantida e reforçada com a
abertura da Avenida da Cidade.

Os edifícios que foram construídos


nesta zona são assim, e de certo modo, motor
e reflexo dessa dinâmica, sendo contudo
muito mais difícil inferir, da observação
actual do conjunto edificado, essa noção de
articulação informalmente concertada. Na
Avenida há muitos ‘momentos’ distintos, que
podem corresponder efectivamente a tempos
de realização diferentes (com os seus gostos,
necessidades efectivas, processos de regulação
e capacidades de realização), mas também a
diferentes estratégias de intervenção, embora
[199] - Marcação do círculo onde se inserem a quase totalidade dos equipamentos importantes da cidade do Porto, sobre a Planta de 1892. (AHMP)
contemporâneas, ou a uma auto-regulação

209
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

[200] [201]

definida pelo mercado. E a conjugação desses em edifícios rematados por arcadas no rés-do- [200] - Primeira proposta
de Barry Parker para a
processos diversos torna-se mais evidente chão, espaços privilegiados de uma dinâmica “Avenida da Cidade”, ca
quando se analisa o processo e a dinâmica comercial [202]. 1915.
Nesta proposta o edifício
edificatória lote a lote, conjunto a conjunto, ou dos Paços do Concelho
Esta repartição tripartida já é assumida localizava-se na Praça de
quarteirão a quarteirão. D. Pedro, sensivelmente
na proposta de Pezerat, de 1889, contudo no mesmo espaço que
Pelo projecto de Barry Parker, como foi considerando a Praça da Trindade, rematada a Câmara ocupava na
altura, apenas a partir
visto anteriormente, este novo centro cívico pela Igreja, como segundo foco. da qual se abria a nova
dividir-se-ia em três momentos de caracteres avenida que ficava assim
Na proposta preliminar elaborada rematada pela Igreja da
distintos, correspondendo um, do lado sul, Trindade. (ART)
em 1915 pela 3ª Repartição não existe uma [202]
à histórica Praça D. Pedro, que se manteria
clara hierarquia, nem um carácter forte que a
memorialmente reconhecível; do lado norte,
determine, “nem […] uma Avenida nem uma [201] - A proposta de
uma segunda praça, que dignificaria, através Barry Parker numa
Praça” como justamente critica Barry Parker
do espaço público, o edifício dos Paços do pintura de Thomas
(1915: 5) [204]. A importância desta proposta Raffles Davidson, ca 1915
Concelho; e um terceiro momento, de ligação (ART)
reside apenas no facto de a sua discussão ter
entre os dois, uma larga avenida na forma de
servido para trazer Parker ao Porto e de ter [202] - Planta colorida da
um trapézio bastante alongado que, pelo seu
levado a que a Municipalidade lhe consignasse proposta de Barry Parker
desenho e conformação, conferiria escala ao para a Avenida da Cidade,
o projecto do novo centro cívico, em Agosto de s.d. (ART)
conjunto, e onde se instalariam os serviços
1915.
financeiros, bancários, escritórios de advocacia, [203] - Sobreposição
sedes de empresas ou afins, bem como os do plano de Parker com
Nas discussões e críticas às três cartografia de 2005 da
novos programas comerciais (hotéis, grandes propostas elaboradas por Barry Parker CMP. [203]
armazéns, grandes cafés com salão de jogos), lançadas por, entre outros, José Marques da

211
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

a) Proposta de Carlos Pezerat, 1889.

Silva e Gaudêncio Pacheco, e posteriormente A proposta de Parker foi tudo menos


na intervenção directa da dinâmica do mercado consensual. Se alguns se limitavam a fazer
imobiliário, molda-se o actual carácter da críticas, Marques da Silva avança com propostas
Avenida, e das construções que a marginam, alternativas logo desde o início. A variante
b) Proposta da 3ª Repartição, 1915.
bastante distinto do proposto. Se do ponto de proposta em 1915 corresponde a isso mesmo,
vista de desenho urbano o Plano de Parker uma variante que agarra a ideia de Parker de
dignificava o que deveria ser o centro cívico uma avenida que se desenvolve com uma maior
maior da Cidade, Invicta e Sempre Leal, do abertura a norte e estreita do lado sul para
ponto de vista arquitectónico o mesmo carecia permitir a manutenção e o reconhecimento
de escala adequada, e não se ajustava às da identidade da Praça da Liberdade, mas que
aspirações de grandeza da municipalidade que escolhe como eixo de simetria não a linha que
desde os tempos da Regeneração olhava para une directamente os centros da Praça e da
as outras grandes da Europa, como modelos. fachada da Igreja da Trindade, como Parker,
Uma quase ruralidade caracteriza a proposta, mas uma ligeira rotação do mesmo que
sobremaneira evidente na pintura de Thomas diminuía o ângulo feito com a Rua do Almada. c) Proposta de Barry Parker, 1915.
Raffles Davidson que a acompanha [201]. Desta proposta resulta uma avenida em que
Edifícios de feição neoclássica, inspirados quer a variação de largura é mais reduzida, não
nas construções existentes quer nos modelos existe qualquer inflexão de alinhamento entre
britânicos, de reduzida escala, com recurso a o primeiro quarteirão e o que se lhe segue, e,
materiais nobres apenas em situações de remate mais importante, onde o edifício dos Paços do
e de marcação de elementos de composição, não Concelho passa a ter uma forma rectangular,
[204] - Desenho de
se adequam à imagem monumental pretendida, regular [204]. diversas propostas para
a Avenida da Cidade,
nem ao gosto em alteração pelo ímpeto da
sobrepostas à cartografia
Os próprios serviços da municipalidade,
sensação de modernidade que a entrada do de 1892, revelando as
ao prosseguirem com os estudos, vão fazendo demolições necessárias
novo século, e o conflito bélico mundial, tinham para a execução de cada
as suas próprias adaptações a imagens que d) Proposta de Marques da Silva, 1915.
despoletado. um dos planos.

213
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

[205] - Desenho
técnico com o perfil
tipo da Avenida da
Cidade, [1919?]
(AHMP)

[206] - Pormenor e
perspectiva no novo
centro cívico. Autor
não identificado, s.d.
[205] (ART) [206]

achavam mais dignas para o centro cívico. No com modificações já de antemão combinadas, uma substituição da imagem arquitectónica Públicas, passa-se a uma composição geométrica
perfil tipo da Avenida [205], onde se define o Assim se ficará seguro de que cada edificação de feição neoclássica proposta por Parker por baseada em paralelismos, eixos de simetria e
leito dos transportes públicos, ilhas ajardinadas virá a ficar arquitecturalmente harmónica com um conjunto de edifícios com influência da traçados radiais, que tomam como elementos
e colectores de saneamento, também se as outras e com a concepção do vosso projecto arquitectura ‘Beaux-Arts’ numa primeira fase, geradores determinantes a Rua do Almada,
representa, em corte-alçado, os arranques das geral”. (Parker, 1915: 10) e ‘Art Déco’, já no final da década de 20, início a Igreja da Trindade e a estátua equestre de
construções que a marginam, numa linguagem da década de 30. A esta inflexão de gosto não D.  Pedro IV [pg. 84]. Deste novo traçado resulta
Apesar de Barry Parker prever um
sem pontos de contacto com a proposta de é alheio o facto de os principais arquitectos uma repartição mais ponderada dos quarteirões
controlo – da municipalidade mas também
Parker. E pelo desenho da figura [206], de autor Portuenses, alguns com responsabilidade na nesta zona central da cidade, equilibrando
dele próprio – sobre os edifícios a construir na
não identificado, consegue-se perceber, apesar gestão municipal, terem concluído as suas rentabilização da frente pública com o espaço
zona abrangida pelo plano, pela definição de
de todos os problemas de representação da formações disciplinares em Paris. São exemplos edificável dos lotes. Efectivamente, a questão da
uma implantação e alçados de conjunto, que
topografia do terreno, perspectiva, e da escala dessa filiação arquitectónica francesa José rentabilidade económica de toda a intervenção
deveriam ser respeitados pelos particulares que
dos espaços, que se refere à mesma proposta Marques da Silva (1869-1947), António Correia é algo a que Parker é sensível, usando-a mesmo
pretendessem edificar ou reedificar, em 1917,
de imagem arquitectónica, conquanto a solução da Silva (1880-?), Manoel Marques (1890- como justificação para a anulação da ligação
abriu-se a primeira porta para uma modificação
urbanística seja, ‘grosso modo’, a segunda 1941), ou, de uma forma distinta, Júlio de Brito pedonal que projectara entre a Praça Municipal
informal das determinações iniciais com a
proposta de Parker. A estrutura compositiva (1896-1965), nascido em Paris, filho de mãe e a Rua do Almada, ou para algumas opções do
publicação do ‘Regulamento para a concessão de
é similar e até a fenestração é coincidente. E francesa. desenho urbano.
prémios destinados às melhores edificações sob o
na observação geral do desenho há um ‘ar’
ponto de vista estético’. O ‘Prémio de Honra da O Plano de Barry Parker restrutura todos “Ainda mais um ponto, a minha experiência
de Terreiro do Paço que perpassa, apesar de
cidade do Porto’, que irá distinguir a ‘mais bela os acessos à zona central, determinando uma tem-me demonstrado que os chãos que formam
objectivamente serem diferentes.
fachada de edifício construído na futura grande malha de quarteirões que se mantêm, salvo os cantos são os mais difíceis de vender (os que
“Quero dizer, que sou de parecer, que todos avenida da cidade já iniciada’ (IMPRENSA algumas alterações, até aos dias de hoje. De estão nos ângulos inferiores da Praça). (…) Por
os edifícios deverão ser planeados ou desenhados. NACIONAL, 1917 apud TAVARES, 1985-1986: uma estrutura urbana que ainda assentava num esse motivo (entre outros) eu arredondei os
Que a cedência dos chãos deverá somente ser feita 296), incentiva o valor arquitectónico individual misto entre caminhos medievais rectificados cantos. O resultado disso será que em vez dos
sob condição do respectivo comprador se obrigar em detrimento da imagem total de conjunto e uma estratégia radiocêntrica determinada sítios dos cantos serem menos populares e mais
a edificar segundo planos já definidos, ou então inicialmente preconizada. Veremos assim no tempo dos Almadas e da Junta das Obras difíceis de vender, serão pelo contrário os mais
procurados” (Parker, 1915: 16).

215
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

[207] - Paços do Concelho já em processo de demolição, 1916. (MESQUITA, 2008) [208] - Paços do Concelho já em processo de demolição, em 1916, por Alberto Marçal Brandão. (BRANDÃO, s.d.)

Em 1 de Fevereiro de 1916 tem lugar Para além da demolição dos antigos


o acto solene de inauguração das obras do Paços do Concelho, a implementação do Plano
novo centro cívico Portuense – emblemática e determina a demolição de uma quantidade
justamente designada por Avenida da Cidade considerável de imóveis, de lote estreito, que se
– “arreando-se a primeira pedra do cunhal localizam fundamentalmente à margem da Rua
sudoeste do edifício que tem servido de Paços do Laranjal e da Rua de D. Pedro / Elias Garcia
do Concelho” (BASTO, 1937 apud TAVARES, [210]. Na Rua do Almada são também feitas

1985-1986: 296) que do lado norte encerrava algumas demolições, porém mais cirúrgicas,
a antiga Praça D. Pedro. A construção de uma nas zonas de inserção dos novos arruamentos.
nova centralidade é, assim, um processo que Estas permitirão integrar posteriormente,
se inicia, não pela colocação de uma primeira na frente edificatória praticamente contínua
pedra, como é habitual, mas pelo golpe de já construída, novos edifícios de imagem
marreta, de alguma forma mostrando que o afirmativamente moderna – como a Garagem
progresso deverá ser feito a todo custo e que do Comércio do Porto e edifício Soares Marinho,
o passado será considerado, de forma mais ou de Rogério de Azevedo, um dos importantes
menos amorfa, como a matéria-prima do futuro. arquitectos da praça Portuense – a par com [209] - Remoção da estátua
“O Porto” dos Paços do Concelho,
Edificando um Mundo Novo, Laico, Republicano outras edificações com feição revivalista. aquando da demolição do
[207]. mesmo, ca 1916. (REIS, s.d.)

217
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

[210] - Início das


demolições. Lado poente
da Rua do laranjal já
completamente demolido [211] - Estaleiro da obra
[1916-1917], de Aurélio dos Paços do Concelho na
da Paz dos Reis. (DIAS & década de 30.
MARQUES, 2002) (ALVÃO, 1984)

também por um aligeirar do que era o desenho O alçado conjunto da Praça da Liberdade
O novo Plano igualmente determina no tempo, demorando cerca de quatro décadas
inicial e os pressupostos de monumentalidade e Avenida dos Aliados quase que se pode ler
algumas demolições pontuais na Rua do a ser concluído. Os primeiros processos de
requeridos. As mudanças políticas que ocorrem como uma tabela cronológica, numa contagem
Bonjardim, e outras mais extensas na zona licenciamento dão entrada em 1919, cerca
na vereação municipal após o golpe militar de tempo que se inicia – a sul da área em análise,
da Cancela Velha (actual Rua de Guilherme de três anos após o acto inaugural da nova
de Sidónio Pais (Dezembro de 1917), com as após a destruição do Convento dos Lóios –
Costa Carvalho) e na envolvente da Praça da avenida, embora havendo, em alguns casos,
críticas à gestão municipal anterior, acabam com a edificação do Palácio das Cardosas e
Trindade, antiga Praça do Laranjal. Outros consultas informais prévias, provavelmente
por acelerar a alteração, não apenas da feição que termina – no limite norte, já no século
edifícios, fundamentalmente os localizados logo a partir de final de 1917, princípios de
dos edifícios, mas do próprio traçado. Como XXI – com o projecto da Estação de Metro da
no lado nascente da Rua Elias Garcia, terão de 1918. A construção do último lote vago foi
refere Rui Tavares a Avenida “alarga-se numa Trindade de Eduardo Souto Moura. Entre estes
ser ampliados de forma a virem facejar o novo apenas concluída na década de 60 – o Palácio
progressão de alinhamentos quase paralelos que dois pontos e estes dois tempos, um conjunto
alinhamento da Avenida. dos Correios de Carlos Chambers Ramos. O
anulam praticamente a contenção das praças que diversificado de edifícios, projectados por um
próprio edifício dos Paços do Concelho somente
O tempo que decorreu entre o início da liga — da Liberdade e Municipal. Perde-se, assim, conjunto relativamente extenso de arquitectos,
foi finalizado na década de 50, sendo o estaleiro
demolição dos Paços do Concelho e a efectiva um dos aspectos mais conseguidos e de maior engenheiros e mestre-de-obras. Uma obra
da obra a presença tutelar no centro cívico, com
construção dos primeiros edifícios foi assim sentido urbanístico que a proposta contemplava feita do labor contínuo de muitos contributos
o governo municipal deslocado e instalado no
tomado pelos processos de expropriação — a respectiva identidade das diferenciadas individuais, e que o tempo se encarregou de dar
Paço Episcopal, junto à Sé.
necessários, pelas obras iniciais de infra- situações urbanas (praça e avenida). (…) Assim, uma imagem unificada.
estruturação urbana, e pela, nem sempre fácil, O prazo longo que leva do plano/projecto a Avenida foi-se transformando num local de
colocação no mercado dos novos lotes. à realidade reflecte-se de forma sensível passagem, perdendo o sentido que Barry Parker
nas edificações, pela mudança de gostos, introduzira no seu projecto — um centro de
A edificação da frente urbana da comércio e uma zona de passeio” (Tavares,
de requisitos funcionais dos edifícios, da
Avenida será um processo que se estenderá 1985-1986).
capacidade técnica associada à construção mas

219
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

[212] - Identificação das épocas de construção do edificado mais representativo, tendo como referência a
data de emissão da licença de construção.

1910-1919 1920-1929 1930-1939 1940-1949 1950-1959 1960-1969

Como é possível verificar na planta substancialmente maior, e consequentemente o


apresentada, o primeiro tramo do lado poente seu volume de construção, atingindo o máximo
é praticamente todo licenciado ainda no final no Palácio das Correios, de Carlos Chambers

AVENIDA DOS ALIADOS


da década de 10 (1919). A década de 20 é a Ramos.
época de maior dinâmica construtiva, não
Percebe-se que a radial nascente, a Rua
apenas na Avenida, como também na Praça da
de Rodrigues Sampaio, começou mais cedo a
Liberdade e no lançamento do alinhamento

RUA DO BONJARDIM
ser urbanizada, com pequenas intervenções,
M

Passos Manuel. Efectivamente até cerca de


mas num tempo mais longo que se estendeu
1930 os edifícios dos dois primeiros tramos da
PRAÇA DE D. JOÃO I

desde o final a década de 20 até à década de


Avenida ficam concluídos ─ com excepção do
40, e já com alterações posteriores. A radial
último edifício de cada lado ─ isto é, em pouco
poente, a Rua de Ramalho Ortigão é urbanizada
mais de 10 anos edifica-se a quase totalidade da
mais tarde, num sistema bem distinto, de
Avenida. Depois disso o ímpeto esmorece, e são
empreendimentos de maior dimensão, e num
precisas quase mais três décadas para concluir
período muito mais curto de tempo, sem
completamente a construção dos edifícios que
demolições e reconstruções posteriores.
ladeiam a zona superior, no que corresponde já
à Praça General Humberto Delgado.

Estas novas operações, maioritariamente


construídas já no pós-guerra, distinguem-
0

se das anteriores, pela sua escala. Apesar de


aparentemente se manter a mesma cércea
dos edifícios existentes, pelas relações entre
50

duplas mansardas, e novos recuados, a área de


implantação de cada um dos novos edifícios é
100

221
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

Metodologia de abordagem

A área da 1ª AVENIDA foi dividida, em do Dr.  Magalhães Lemos, e abrangendo ainda O contributo individual relativo de cada correspondem a um maior contributo para
termos de processo de análise, em várias a Praça de D. João I, todavia com um carácter uma dessas unidades espaciais na valorização a valorização contemporânea e distinção
unidades espaciais urbanas – espaços públicos próprio, reforçado pelas mais recentes e monumentalização do centro é distinto, e monumental dos Aliados.
de circulação e permanência – que, identitária e intervenções de valorização do espaço público; variável ao longo das épocas e das intervenções
Essas unidades espaciais funcionam, de
memorialmente, são reconhecíveis actualmente de qualificação ou requalificação, urbana e
As ‘Radiais’ – correspondendo aos certo modo, como centros dentro do centro,
ou no tempo histórico. construtiva. A natureza e significado destes
arruamentos que no Plano de Parker partiam elementos com um carácter identitário
espaços, enquanto cenários e actores de um
Essa divisão, num primeiro nível, foi radial e simetricamente do centro da Praça próprio, contudo comungando e promovendo
processo histórico, elementos de uma memória
efectuada em três grandes unidades, que podem em frente aos projectados Paços Municipais, um valor de monumentalidade e centralidade
colectiva e pessoal, base de um conjunto de
ainda ser decompostas em sub-elementos: apenas concretizados em parte e que hoje comuns. Contudo, como as unidades espaciais
intervenções arquitectónicas individuais
correspondem à Rua de Rodrigues Sampaio, Rua sofrem mutações ao longo do tempo, e como,
O ‘Eixo Aliados’ – correspondendo ao ou individualizadas, também conformam
de Ramalho Ortigão, Rua de Guilherme de Costa mais do que caracterizar a situação actual,
conjunto Praça da Liberdade, Avenida dos caracteres diversificados e em perene mutação.
Carvalho, e, de certa forma, ao espaço sobrante nos interessam os processos que nos fizeram
Aliados, e Praça do General Humberto Delgado,
adjacente à Rua do Clube dos Fenianos. Não se centrando apenas na questão chegar ao momento presente, preferimos uma
que se estende a norte à Praça da Trindade e a
de localização espacial, a síntese agora feita abordagem mais livre que cruze espaço e tempo,
sul à Praça de Almeida Garrett; Foram ainda considerados um outro
elege um conjunto de unidades urbanas mostrando o que é único e diverge, de caso para
conjunto de unidades urbanas, já sem uma
O ‘Alinhamento Passos Manuel’ – e arquitectónicas que do ponto de vista caso, mas também o que é comum, invariável.
relação espacial directa com os Aliados,
correspondendo actualmente aos arruamentos representativo e marcação identitária do Porque a identidade desta área faz-se da
correspondendo a alinhamentos secundários
que fazem o corte transversal da Avenida, lugar – significado histórico e actual – e do articulação desses dois valores, o de conjunto, e
sensivelmente paralelos ao eixo Aliados, os
e fariam parte de um atravessamento mais ponto de vista do valor arquitectónico – das da individualidade dos seus elementos.
arruamentos de génese mais antiga, como a
extenso que ligaria a Praça dos Poveiros ao singularidades arquitectónicas dos elementos
Rua do Bonjardim e a Rua do Almada, e, já no
Jardim do Carregal (hoje garantido por túnel) de excepção mas também dos elementos de
limite da área considerada, a mais recente Rua
englobando a Rua de Elísio de Melo e a Rua repetição corrente de uma tipologia edificada –
de Sá da Bandeira.

223
MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

EDIFICAÇÃO E CONSOLIDAÇÃO
DO NOVO CENTRO CÍVICO

“Abrir uma Avenida larga, que deverá ser, antes que tudo, muito dignificante.

Abrir e alargar uma parte da cidade que está muito congestionada.

Proporcionar sítios convenientes para que a colocação de edifícios de valor,


estátuas, etc… possa contribuir devidamente para a decoração da vossa Avenida,
completando-a na sua concepção arquitectural. Ao mesmo tempo, de cada ponto de vista
se deverá destacar um quadro agradavelmente proporcionado em comprimento, altura e
largura, sem prejuízo da ideia de grandeza ou da impressão de amplidão.”

(Parker, 1915: 8)

Na análise que a seguir faremos da dos imóveis, cruzando com autorias de


construção dentro da zona designada por projecto, épocas de construção, ou linguagens
1ª AVENIDA será dado um maior ênfase e arquitectónicas.
destaque aos edifícios que se localizam no
A imagem proposta por Parker assentava
eixo monumental Aliados, e cujo projecto e/ou
numa única linguagem arquitectónica do
construção corresponde efectivamente a um
conjunto, onde o parcelamento base do terreno
acto afirmativo da definição de uma renovada
não tinha qualquer legibilidade. A avenida que
centralidade. Nesse sentido, esta análise mais
foi construída, para além de se distanciar dos
detalhada incidirá particularmente nos edifícios
modelos arquitectónicos de Parker, assenta
construídos entre os finais das décadas de 10
essencialmente na iniciativa privada, pelo que
e 50 do século XX, a quase totalidade da frente
a questão do lote que serve de base ao edifício
urbana da Avenida e da Praça, e procurará
se torna determinante na imagem geral. E o
apreender o processo edificatório a par com
processo de loteamento é diferente dos dois
a caracterização arquitectónica e construtiva
lados da Avenida.
Projecto de Correia da Silva para os Paços do Concelho, 1920. (CMP & SILVA, 1920)

225
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

[213] - A abertura da Avenida dos Aliados e as formas de


loteamento distintas consoante os lados. Desenhada sobre a
“Carta Topographica” de 1892. (AHMP)

Cadastro actual e que mantém desde 1892.


Construção nova para a abertura da 1ª AVENIDA

Do lado poente, as expropriações e ou alteração de revestimentos, se tornaram Administrativa, quer da Comissão de Estética, talento se foi lentamente cerzindo um novo
demolições libertaram terrenos que permitiram evidentes. E esta também não foi uma norma vai no sentido de regular a edificação que irá conjunto urbano, com imponência e dignidade,
estabelecer novos parcelamentos, assentes estabelecida previamente à implementação constituir a fronteira construída do espaço embora com assimetria sensível de propostas,
em lotes de frente muito mais larga, e que deste plano, apesar do parecer de Parker, mas público do centro cívico, quer através de que se torna muito mais evidente pela diferença
possibilitaram a implantação de edifícios de algo que a administração municipal se apercebeu desenhos de alçados de conjunto, projectados temporal de execução.
maior dimensão. apenas depois de iniciados os procedimentos pelos melhores arquitectos da praça Portuense
São muitos, e de várias gerações, os
relativos ao quarteirão poente do primeiro (responsáveis ou não pelo projecto dos
Do lado nascente, o novo alinhamento arquitectos que participam no processo de
tramo da Avenida, quando as primeiras diferentes edifícios) quer pelo estabelecimento
da Avenida corresponde, na realidade, a um consolidação desta área central da cidade, não
propostas apresentadas a licenciamento, da utilização de materiais nobres, como a
realinhamento, por acrescento, dos edifícios apenas com intervenções na Avenida e na Praça
formal ou informal, não se coadunavam com cantaria de pedra. Contudo, não se pretendia
localizados na Rua de D. Pedro / Elias Garcia, não da Liberdade, mas também em vários dos espaços
a imagem que uma nova concepção cultural impor, como no Plano de Parker, um único tipo
sendo praticamente feitas expropriações. Assim, urbanos mais próximos, e que concorrem para
urbana defendia. de fachada, mas sim “estabelecer uma certa
o parcelamento continua a assentar no lote a definição dessa mesma centralidade. Actores
harmonia na fachada dos novos edifícios para
estreito Portuense, e são alçados de conjunto, Era preciso garantir que o novo centro neste processo de edificação e consolidação
que o seu conjunto fosse belo” (CARVALHO,
determinados e aprovados pela municipalidade tivesse a dignidade desejada. E se de algum do novo centro cívico serão apresentados
1992: 363).
que garantem a escala monumental. modo a liberdade de não seguir a proposta a partir do contributo maior, as suas obras.
de Parker foi algo que a nova administração Elementos-chave deste processo são Assim, as páginas seguintes funcionam como
De salientar que este não é um
sidonista via com bons olhos, rapidamente se os técnicos que intervêm nos edifícios da uma síntese, onde se apresentam os edifícios
procedimento novo para a cidade do Porto,
apercebeu que, deixada à livre iniciativa dos nova Avenida, arquitectos responsáveis mais importantes na caracterização da área,
a intervenção no tempo da Junta de Obras
privados, a monumentalidade do centro estaria pelo projecto, na sua maioria, mas também localizando-os, identificando os seus autores e
Públicas assentou em alçados de conjunto cuja
para sempre comprometida. A intervenção do engenheiros e mestres-de-obra. Da sua respectivas épocas de licenciamento (sempre
métrica não correspondia a um loteamento
Município, quer através da própria Comissão sensibilidade, conhecimentos e maior ou menor que possível).
base, situação que, com o tempo, degradação

227
CARLOS CRUZ AMARANTE EDUARDO ALVES JÚNIOR CARLOS MOURÃO CORREIA DA SILVA
(1748-1845) (1872 - ?) (? - ? ) (1880 - ?)

Igreja da Trindade Gaveto Rua Sá da Bandeira e Avenida dos Aliados Mercado do Bolhão Paços do Concelho
Praça da Trindade Rua de 31 de Janeiro 57-69 Rua de Sá da Bandeira Praça do Gen. Humberto Delgado
Século XIX 1916 1919 1914 1920/55

VENTURA TERRA (1866 - 1919) MOURA COUTINHO MARQUES DA SILVA


JOSÉ TEIXEIRA LOPES (1872 - 1919) (1872 - 1954) (1869 - 1947)
AVENIDA DOS ALIADOS

RUA DO BONJARDIM

PRAÇA DE D. JOÃO I

Banco de Portugal ‘Banco do Minho’ ‘Banco Lisboa e Açores’ Estação de São Bento Edf. ‘A Nacional’ Edf. ‘Pinto Leite’ Edf. ‘Jornal de Notícias’ e Alçado Conjunto
Praça da Liberdade 75-112 Avenida dos Aliados 35-41 Avenida dos Aliados 42-54 Praça de Almeida Garrett Avenida dos Aliados 1-19 Avenida dos Aliados 20 Avenida dos Aliados 138-168
1922 1919/22 1921 1908 1920 1924 1927

MICHAELANGELO SOÁ ERNEST KORRODI PARDAL MONTEIRO LEANDRO DE MORAIS CASIMIRO BARBOSA (1874-1943) MANUEL JANEIRA
(? - ?) (1870 - 1944) (1897 - 1957) (1883 - ?) LAÍNHO BARBOSA (? - ?) (? - ?)

Edf. ‘Soares da Costa’ Avenida dos Aliados 151-179 ‘Banco Nacional Ultramarino’ Caixa Geral de Depósitos Projecto de Alçado Conjunto Avenida dos Aliados 26-38 Edf. ‘António Lopes’
Avenida dos Aliados 71-89 1923 Praça da Liberdade 133-139 Avenida dos Aliados 104-128 Avenida dos Aliados 58-90 1926 Avenida dos Aliados 141-147
Planta A1 Edifícios da Planta A1 1919 1920 1923/28 1924 1929
OLIVEIRA FERREIRA SILVA MOREIRA MANOEL MARQUES
(1884 - 1957) (1895 - ?) (1890-1956)

‘Clube Fenianos Portuenses’ Café ‘A Brasileira’ (ampliação) Edf. ‘Casa de Saúde da Avenida’ Rua de Rodrigues Sampaio Rua de Elísio de Melo 29-33 Gaveto Rua de Elísio de Melo Gaveto Rua do Dr. Magalhães Lemos 65-81 ‘Barbearia Tinoco’ Farmácia Vitália ‘Casa Lima’
Rua do Clube dos Fenianos 3-47 Rua de Sá da Bandeira 69-91 Avenida dos Aliados 170-200 157-159 1930 51 e Rua do Almada 182 e Rua do Bonjardim 129-133 Rua de Sá da Bandeira 11 Praça da Liberdade 34-37 Rua de Rodrigues Sampaio
1920 1928 1930/34 1938 1930 1932 1929 1932 184-204 (alterado)
(co-autoria: Amoroso Lopes) 1937

ROGÉRIO DE AZEVEDO JOAQUIM MOREIRA ALMEIDA JÚNIOR JÚLIO DE BRITO


(1898 - 1983) RAMALHÃO (? - ?) (1902 - ?) (1896-1965)
AVENIDA DOS ALIADOS

RUA DO BONJARDIM

PRAÇA DE D. JOÃO I

Gaveto Praça da Liberdade e Edf. ‘O Comércio do Porto’ Garagem de ‘O Comércio do Porto’ Projecto de Alçado Conjunto Edf. ‘Imperial’ Edf. ‘Singer’ Confeitaria ‘Ateneia’ Projecto de Alçado Conjunto Edf. ‘C.ia de Fiação e Tecidos de Fafe’ Edf. ‘C.ia de Seguros Garantia’
Rua de Sampaio Bruno Avenida dos Aliados 107-137 Rua de Elísio de Melo e Rua do Almada Avenida dos Aliados 202-214 Praça da Liberdade 126-130 Rua de Sá da Bandeira 236- Praça da Liberdade 58-60 Praça da Liberdade 62-68 Avenida dos Aliados 220-236 Avenida dos Aliados 195-237
1928 1930 1932 1930 1934 276 (remod.) 1938 c.1930 1948 1955
Co-autoria: Baltazar de Castro Co-autoria: Baltazar de Castro 1939

ANTÓNIO PERES J. FERREIRA PENEDA AUTOR NÃO


GUIMARÃES (1904 - ?) (1893 - 1940) IDENTIFICADO
0

Edf. ‘Soares Marinho’


50

Edf. ‘Rialto’ Hotel Infante Sagres Teatro Rivoli Praça de D. João I 165-173 Rua do Bonjardim 175-179 Rua de Rodrigues
Praça de D. João I Rua de Ramalho Ortigão e Praça de D. Filipa de Lencastre Praça de D. João I (demolido) 1941 Sampaio 179
1928 Rua do Almada 1943 1925/32 1931/33 1944
Co-autoria: Baltazar de Castro 1942 Co-autoria: Baltazar de Castro Rua do Dr. Magalhães Rua do Dr. Magalhães Sede ‘Futebol Clube do Porto’
100

Lemos 83-105 Lemos 109-111 Praça do Gen. Humberto Delgado


Planta A2 Edifícios da Planta A2 Edifícios da Planta A2 1930 1932 321-331 | 1932/33
AUTOR NÃO JOSÉ RIBEIRO DA SILVA LIMA JÚNIOR AUTOR NÃO MÁRIO DE ABREU
IDENTIFICADO (? - ?) IDENTIFICADO (1908 - ?)

‘Associação dos Jornalistas e Homens de Letras’ Rua do Bonjardim 211-213 e Rua de Rodrigues Hotel ‘Pão de Açúcar’ Edf. ‘Pereira de Carvalho’
Rua de Rodrigues Sampaio e Rua do Bonjardim Rua de Rodrigues Sampaio 138-146 Sampaio 160-162 Gaveto Rua de Ramalho Ortigão e Rua do Almada Rua de Ramalho Ortigão nº 16-18
anterior a 1930 1934/35 1940 c. 1940/1950 194-

AUTOR NÃO JOÃO FERNANDO FRANCISCO FERNANDES AUTOR NÃO CARLOS NEVES MANUEL PASSOS JÚNIOR (1908 - ?)
IDENTIFICADO MACHADO GOUVEIA DA SILVA GRANJA IDENTIFICADO (1916 - ?) EDUARDO MARTINS (? - ?)
AVENIDA DOS ALIADOS

RUA DO BONJARDIM

PRAÇA DE D. JOÃO I

Gaveto Rua de Rodrigues Sampaio e Rua do Rua de Rodrigues Edf. Bombeiros Voluntários Rua de Ramalho Ortigão 8-14 Edf. ‘Correia da Silva’
Bonjardim Sampaio 117-119 Rua de Rodrigues Sampaio 194- ? Praça do Gen. Humberto Edf. ‘Capitólio’ e Edf. nº 303-309 (aut. atr.)
1943 83-153 Delgado Praça do Gen. Humberto Delgado
1946 1948 1946 e c. 1946/50

ANTÓNIO TEIXEIRA LOPES ARS ARQUITECTOS CARLOS CHAMBERS RAMOS VIANA DE LIMA AUTOR NÃO
(1903 -?) FORTUNATO CABRAL. CUNHA LEÃO. MORAIS SOARES (1897 - 1969) (1913 - 1991) IDENTIFICADO
0
50

Rua de Rodrigues Rua de Rodrigues Edf. ‘Banco Português do Atlântico’ Edf. ‘Palácio dos Correios’ Edf. ‘Cancela Velha’ Edf. Ordem dos Engenheiros
100

Sampaio 176 Sampaio 161 Praça de D. João I Praça do Gen. Humberto Delgado 266-320 Rua de Guilherme da Costa Carvalho 3-29 Rua de Rodrigues Sampaio 123
Planta A3 Edifícios da Planta A3 1935 1936 1944 1952 1955 1960
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

O INÍCIO DO PROCESSO DE REFUNDAÇÃO


URBANA

“As primeiras administrações políticas


democratas-republicanas do município do
Porto (1910-1926), (…) congregavam esforços
políticos e económicos para a reforma completa
do ‘centro de todos os centros’, dignificando
as funções políticas municipais e criando um
verdadeiro Centro Cívico muito representativo,
que pudesse constituir uma espécie de
‘Refundação’ da cidade, um ‘ícone’ urbano
associado à renovada gestão política municipal,
democrata e republicana.”

(Tavares, 2004: 6)

A Praça da Liberdade (Praça Nova das


Hortas, Praça da Constituição, Praça D. Pedro)
é o elemento gerador desta refundação urbana,
não apenas pela sua função anterior, de Praça
Municipal, mas principalmente pelo papel
que desempenha no novo processo. Por um
lado, Barry Parker elege a estátua equestre
de D. Pedro IV, como um dos focos do traçado
geométrico que vai determinar a forma da nova
Avenida (o outro é o eixo da Igreja da Trindade)
e, consequentemente, dos novos arruamentos e
Praça da Liberdade, anterior a 1916. (DIAS & MARQUES, 2002)

235
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

dos novos quarteirões que os mesmos definem. Ao destinar um ‘chão’ do novo eixo para
Por outro lado, o facto de toda a abertura da as instalações do Banco de Portugal, a escolha [214] [215]

Avenida da Cidade depender de mais ou menos recai sobre o lado poente da Praça, onde as
complicados processos de expropriação e expropriações eram menores pois parte era
demolição, vai fazer com que os trabalhos se já pertença da municipalidade, e onde uma
iniciem precisamente na Praça, sendo um dos eventual falta de ritmo de construção da
primeiros projectos o do Banco de Portugal. Avenida não colidisse com a sua instalação, [214] - Praça da
Liberdade, lado poente,
mas também pelo significado representativo. correspondendo ao
E, talvez por razão idêntica, o ‘chão’ destinado local onde hoje estão
os edifícios da Livraria
Banco de Portugal à Caixa Económica era no gaveto oposto da Rua ‘Figueirinhas’ e o
do Doutor Artur de Magalhães Basto, onde se arranque do edifício do
Banco de Portugal. Ao
A construção do novo centro cívico, acabou por construir ‘A Nacional’ . fundo, o Palácio das
com a quantidade de novas construções que Cardosas. Aurélio da Paz
dos Reis, ant. a 1916.
determinava, apresenta-se também como O projecto é de 1918, da autoria de Miguel (Silva, 2006) [216]

uma oportunidade para deslocar funções Ventura Terra, arquitecto nortenho, natural
importantes para esta zona, ocupando os de Caminha, mas com formação em Paris, e
extensa obra na capital. Integra os quadros do [215] - Banco de Portugal
novos lotes agora vagos mercê de demolições em construção, em 1923,
e expropriações. Como Centro maior deveria Ministério das Obras Públicas a partir de 1896. vendo-se, em segundo
plano, os edifícios
albergar as mais importantes valências ligadas Colabora no projecto José Joaquim Teixeira preexistentes da Rua do
à vida económica da cidade. Se algumas das Lopes Júnior, natural do Porto, igualmente com Almada. (BRAGA, s.d.)

instituições bancárias já tinham dependências formação complementar em Paris.


na antiga Praça D. Pedro e nas suas imediações,
As obras são iniciadas algum tempo [216] - Banco de Portugal
a delegação do Porto do Banco de Portugal ainda em construção, no início
depois, entre 1922 e 23, mas demoram mais
continuava localizada na zona intramuros, no da década de 20, vendo-se
de uma década até à conclusão, que nenhum os edifícios do primeiro
Largo de São Domingos (no agora Palácio das tramo poente da Avenida
dos arquitectos verá pois ambos falecem em já edificados. (Fonte: goo.
Artes), próximo, claro, da sede da Associação
1919. O edifício do Banco de Portugal irá gl/nMbzYS)
Comercial do Porto, instalada no Palácio da
corresponder a uma grande parte do alçado
Bolsa.
do lado poente da Praça da Liberdade e é [217] - Banco de Portugal
em finais da década de 20
(DIAS & MARQUES, 2002) [217]

237
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

provável que inicialmente se tenha previsto ‘Livraria Figueirinhas’


que o restante espaço fosse ocupado por
outros edifícios, não com a mesma dimensão O edifício que designamos por ‘Livraria
do Banco, porque tal não era possível, mas Figueirinhas’, apesar de a mesma já lá não estar [218]

pelo menos com larguras de lotes superiores localizada, corresponde ao conjunto de três
ao tradicional parcelamento Portuense, para lotes com um desenho de alçado comum mas [218] - Praça da
Liberdade, lado poente.
ajudar a conferir escala e dignificar esta zona que mantêm interiormente a conformação das Em primeiro plano o

da eixo monumental. Contudo, tal não se veio casas burguesas oitocentistas preexistentes. Banco de Portugal em
avançada construção,
a verificar, e apenas são demolidos os edifícios sendo visível os quatro
Intervenção que se caracteriza por uma edifícios que na década
para a implantação do Banco de Portugal, mais de 30, darão lugar aos
imagem ainda eclética mas já com alguma edifícios da Livraria
nenhum outro.
inspiração Arte Nova, com um cuidado de ‘Figueirinhas’ e ‘Ateneia’.
(ALVÃO, 1984)
Os quatro edifícios imediatamente escolha de materiais, um desenho equilibrado,
a sul do Banco de Portugal correspondem e que tece relações com a fachada do Banco,
quer ao nível do alinhamento das platibandas, [219] - Praça da
essencialmente a uma operação de redesenho Liberdade e Avenida dos
de fachada, adequando-a uma imagem quer na repartição do alçado em dois grandes Aliados, na década de
30. Estão já construídos
mais moderna e cuidada, no respeito pela momentos, o primeiro, que engloba rés-do- os edifícios do Banco de [219]
monumentalidade da sua localização na chão e primeiro andar, e o segundo, abrangendo Portugal e de ‘O Comércio
do Porto’. Em primeiro
Praça da Liberdade. Correspondem a duas os três pisos superiores, fazendo uma relação plano os três edifícios de
não directa com a diferente escala de pisos que loteamento estreito que
intervenções distintas na década de 30, ambas sofrerão uma intervenção
da autoria de Júlio de Brito, a primeira abrange o programa institucional do Banco de Portugal de fachada, sendo
integrados num desenho
três dos quatro lotes, e a segunda o lote mais a determinava [221]. de alçado conjunto.
(ALVÃO, s.d.)
sul.
Um dos aspectos particulares deste
quarteirão relativamente aos restantes da
[220] - Perspectiva atual
zona envolvente da 1ª AVENIDA é a sua pouca da Praça da Liberdade e
profundidade, que determina, não só que Avenida dos Aliados.
São visíveis os quatro
os edifícios não possuam logradouro, mas edifícios intervencionados
pelo Arqº Júlio de Brito,
na década de 30.
(BENTO, 2013)
[220]

239
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

também que tenham duas frentes urbanas. A Edifício ‘Ateneia’ ‘Figueirinhas’ [221] [222]
quase totalidade dos lotes tem construção que
O edifício da ‘Ateneia’, remodelado em [221] - “Tabuletas da
faz ligação entre a Rua do Almada e a Praça da Livraria Figueirinhas e
Liberdade, embora, em termos de uso, o acesso 1938, também corresponde a uma operação da delegação do Diário
de Lisboa (ambos
funcional e representativo seja o da Praça. de redesenho de fachada num edifício
já desaparecidos)
Assim são também os três lotes que referimos preexistente, contudo, neste caso, Júlio de no quarteirão das
‘confeitarias’, (de que
atrás, mas com uma particularidade que Brito prefere uma composição menos atenta sobrevive, apenas, a
às condicionantes da envolvente, mormente no Ateneia). Fotografia
evidencia que o alçado conjunto é apenas uma da década de 1950.”
operação de arranjo parcelar, quase ‘cosmética’. tocante a alinhamentos, embora respeitando (OLIVEIRA, 1985)

Apesar da fachada conjunta voltada para a ritmos compositivos [223]. Existe um respeito
[222] - Perspectiva
Praça, com nivelamento altimétrico comum, pela monumentalidade que a situação na Praça atual sobre o conjunto
edificado da antiga
do lado da Rua do Almada assumem-se como requeria, mas a mesma é conseguida, não pela Livraria Figueirinhas.
três edifícios distintos, sem alinhamento em profusão do desenho ou escala de intervenção, (LIMA, 2013)

nenhum dos pisos, e com menos um piso no mas sobretudo pelo uso dos materiais, o granito [223]

lote mais a Sul. Percebe-se também, por isto, na totalidade da fachada, numa composição
arquitectónica já bastante depurada. Efectiva-
‘Ateneia’
que a propriedade inicial não era única, e que
estaríamos perante um conjunto de edifícios mente, o edifício tende a salientar-se do [223] - Ligação do
edifício da ‘Livraria
com pouca profundidade e apenas uma frente. conjunto pelo remate superior, ainda num Figueirinhas’ com o
E que na zona agora ocupada pelo Banco de gosto de transição ‘Arte Nova’ e ‘Arte Déco’ mas edifício ‘Ateneia’, sendo
perceptível lógicas de
Portugal, apenas existiriam os edifícios voltados já com um pendor mais expressionista. composição semelhantes
entre os dois edifícios.
para a Rua do Almada, correspondendo à menor (VALE, 2013)
Este edifício faz ligação, do lado esquerdo,
profundidade do quarteirão nesse local, onde
com o único conjunto de edifícios remanescente [224] - Ligação sem
estivera localizado o ‘Tanque da Praça Nova’. remate entre o edifício
da antiga Praça D. Pedro (para além do Palácio
da ‘Ateneia’ e o edifício
das Cardosas), cuja demolição estava prevista da época dos Almadas a
Sul. (VALE, 2013)
no plano de Parker. São edifícios que não
respeitam o alinhamento ortogonal definido
para a Praça, mantendo ainda memória
da implantação da Fonte da Natividade no
alinhamento da sua fachada nascente. [224] [224]

241
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

E essa ideia de demolição deste conjunto cívico, e evidência que são mecanismo que se
deve ter perdurado durante muitos anos, pois a repetem, é a existência de um pedido de licença,
intervenção da ‘Ateneia’ não tenta fazer qualquer de 1829 (a instalação da Câmara na Praça
ligação com a cicatriz exposta do cunhal, antes D. Pedro é feita em 1818), relativamente ao
a assume como algo temporário que deverá ser outro gaveto da Rua do Almada com a Rua dos
expurgado futuramente. Efectivamente, o plano Clérigos, para aumentar um andar e assim ficar
[225] - Projecto para
de Parker tinha determinado a demolição de, nivelado pelo presente edifício. acrescento de um 4º
pelo menos, parte deste quarteirão inicial da andar para o edifício
Apesar de diferentes, os dois edifícios que possuía “Manoel de
Rua do Almada, dando uma maior largura à Sousa Mello na Calçada
têm semelhança ao nível da repartição métrica dos Clérigos e com frente
passagem em frente ao Palácio das Cardosas,
para a Rua das Hortas”.
da fachada, relações de cheios e vazios, e
num alinhamento paralelo ao mesmo que (AHMP)
também, embora de menor forma, de elementos [225] [226] a
passava pela esquina dos Congregados. Se
decorativos, mas o que verdadeiramente
tal tivesse sido executado, a quase totalidade
os unifica é o alinhamento das cérceas.
destes edifícios tinha desaparecido. Contudo o [226] - A entrada
Efectivamente, estes edifícios, para além do
tempo encarregou-se de tornar perene o que na Rua do Almada
seu valor próprio, ganham sentido na sua demarcada da restante
uns julgaram sacrificável em nome de uma malha urbana pela
relação com a antiga Calçada dos Clérigos e ao regularidade das cérceas
maior monumentalidade, mas sobretudo de um
fazerem os três lados do quarteirão ajudam a dos seus cunhais, que
acesso mais franco na relação com o Largo dos lhe confere uma noção
definir, conjuntamente com o edifício da Rua de monumentalidade e
Lóios. regularidade. (BENTO,
dos Clérigos, a entrada do grande eixo aberto 2013) e (VALE, 2013)
Este conjunto corresponde a um grupo de pelos Almadas, a Rua que com o tempo guardou
edifícios construídos na sequência da abertura apenas essa designação.
da Rua das Hortas, depois Rua do Almada, e
[227] - “Singularidades
como localizado num dos arruamentos novos e e permanências” que
nobres da cidade de então, possuiu um desenho se estabelecem entre
edifícios que distam
elegante e sóbrio, que agrega vários lotes num entre si dois séculos. O
alçado comum. Interessante neste processo de edifício de esquina de
finais do século XVIII e os
dignificação das áreas envolventes do centro edifícios de Júlio de Brito,
do princípio do século XX.
(BENTO, 2013)
[226] b [227]

243
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

Banco Nacional Ultramarino O primeiro grande processo de


transformação destes edifícios, que irá
Contemporânea ainda da construção do determinar uma renovação da imagem, será o
Banco de Portugal é a intervenção do gaveto levado a cabo pelo Banco Nacional Ultramarino
[228] - Reconstituição dos alçados sul e poente da Igreja e Convento dos Congregados, com marcação do
fraccionamento da ala do Convento em sete parcelas. Adaptado a partir de (SILVA, 2006)
sudeste da Praça da Liberdade, correspondente ainda antes de 1908, no cunhal sudeste,
ao edifício sede do Banco Nacional Ultramarino correspondendo aos primeiros quatro módulos
no Porto. Se este lado nascente da Praça cedo de janela da fachada conjunta [229].
se estabilizou em termos de alinhamentos
e mancha de implantação de edifícios, em Posteriormente, em 1920, é feita uma
contraponto com o lado poente, do ponto segunda intervenção, com projecto de Ernest
de vista da imagem urbana, teve diversas Korrodi, que visa a ampliação deste primeiro
alterações. edifício, quer em área de implantação, quer em
altura. A extensão corresponde à aquisição de
Como já vimos, até à extinção das dois edifícios a norte, equivalentes a 5 módulos
ordens religiosas, o limite nascente da Praça de janela do edifício conventual, totalizando 9
era uniformemente estabelecido pela ala de de 19 totais [229]. O projecto joga com a mesma
dormitórios do Convento dos Congregados, lógica compositiva do edifício pré-existente, [229] - Alçado do cunhal sudeste da Praça da Liberdade, com marcação da primeira fase do edifício do BNU.
construído na primeira metade do século XVIII Adaptado a partir de (PORTO VIVO, SRU, 2006).
apesar das décadas que os separam, e faz uma
[228], e as propostas elaboradas em 1844, após ampliação que corresponde a um alargar dos
a promulgação da lei das desamortizações, mesmos princípios de desenho do alçado e
correspondem a um aproveitamento dos seus elementos base, a mais um piso e à
praticamente integral do edifício existente, extensão a norte, na fachada voltada à praça.
alterando apenas o rés-do-chão, situação que Apesar dessa inserção coerente entre a fachada
se mantêm até ao final do século XIX, com anterior e a ampliação, notam-se alguns
modificações apenas ao nível de revestimentos detalhes diferentes, que à distância mantêm a
exteriores e coberturas [pg. 71]. unidade geral, mas que uma visão mais próxima
facilmente identifica [235]. [230] - Vista sobre o cunhal sudeste da
Praça da Liberdade. (SIZA & SERÉN, 2001)

[231] - Perspectiva actual sobre o mesmo


cunhal. (BENTO, 2013)

245
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

A forma como é feita a composição do


alçado conjunto da fachada da Praça, numa
[232] - Fotografias anteriores a 1908, sendo a primeira relativa a 1885, retratando os edifícios que resultaram simetria incompleta, leva a crer que existiria
da reconversão da ala poente do Convento dos Congregados. (ALVÃO, 1984) (ALVÃO, 2002)
uma ideia de continuidade de aquisição de mais
edifícios, provavelmente numa intervenção que
poderia corresponder a um redesenho integral
do conjunto do alçado nascente da Praça.
Contudo, tal não virá a suceder, os dois edifícios
que irão substituir os antigos dormitórios e
completar a frente para a Praça, terão linhas
arquitectónicas bastante distintas. O primeiro
a ser licenciado será o edifício do cunhal
nordeste da Praça, um par de anos depois,
[233] - Cunhal sudeste da Praça da Liberdade, em fotografias anteriores a 1920. (ILLUSTRAÇÃO PORTUGUEZA)(ALVÃO, 2002) [235] - Relação entre o primeiro edifício e a ampliação. Dife- com projecto de Rogério de Azevedo, e já na
rentes tratamentos dos remates das janelas. (VALE, 2013)
década de 30, fazendo a ligação entre os dois,
o edifício ‘Imperial’, com projecto de Almeida
Júnior. Ambos os edifícios serão analisados em
capítulos seguintes [234].

“Devo mais declarar que embora esta


nova Avenida se proponha criar um Centro
Cívico e um centro de estabelecimentos, a Praça
da Liberdade continuará, todavia, a ser o vosso
principal centro de tráfico, pois que o trânsito
pela nova Avenida não será muito grande.”

(Parker, 1915: 7)
[234] - Alçado nascente da Praça da Liberdade, antes da construção do edifício ‘‘Imperial’’. Alçado do Banco Nacional Ultramarino, [236] - Edifício BNU. Note-se a alteração da mansarda em
após ampliação, da autoria de Ernest Korrodi. Fotografias posteriores a 1930. (CLÁUDIO & FOTO BELEZA, 1994) (SILVA, 2006) relação à fotografia da década de 30. (BENTO, 2013)

247
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

A ABERTURA DO EIXO ALIADOS


A PROCURA DE UMA IMAGEM REPRESENTATIVA

“Eu pude evitar o apeamento da maior parte


dos prédios sitos Leste da Rua Elias Garcia, mas
vós deveis decidir se eles serão suficientemente
dignos para tão importante avenida, ou se
terão de ser demolidos e substituídos por outros
que condigam melhor com os que venham a
construir-se do lado d’Oeste da vossa avenida
e com uma colunata como proponho para um
mesmo lado.“

(Parker, 1915:10)

Se o projecto do edifício do Banco


de Portugal marca o começo do processo
de refundação urbana, a efectivação da
abertura do eixo da Avenida da Cidade está
simbolicamente ligada a outros dois edifícios, a
sede da companhia de Seguros ‘A Nacional’, e
o edifício ‘Pinto Leite’, localizados em cunhais
opostos da Avenida, em relação directa com a
Praça da Liberdade. Em conjunto funcionam
como os ‘Pilares de Hércules’ da Avenida, o
enquadramento que acompanhará a construção
deste espaço representativo da cidade e dos
O arranque da Avenida dos Aliados, 2013. (VALE, 2013) seus Paços do Concelho.

249
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

Edifício ‘A Nacional’

Exemplo paradigmático da discussão XIX e que tem ainda expressão nas primeiras
entre uma linguagem arquitectónica historicista décadas de XX, com exemplos de referência
que bebe inspiração numa tradição nacional como o Palácio do Buçaco, de Luigi Manini,
medieval, com renovado patriotismo, e uma a estação do Rossio, de Luís Monteiro, ou [237]

nova imagem, mais cosmopolita, em linha a Câmara Municipal de Sintra, de Adães


com os referenciais franceses ‘Beaux-Arts’, é Bermudes, mas que não coadunava com a
o processo relativo à construção do ângulo modernidade pretendida pelos Portuenses para
poente da Avenida da Cidade. Para o mesmo a nova Avenida da Cidade, como as discussões e
local e dono de obra – a companhia de seguros críticas posteriores o demonstraram. Contudo
‘A Nacional’ – são elaborados dois projectos por o projecto teve os seus defensores e foi saudado
dois arquitectos – Francisco Oliveira Ferreira com um artigo na ‘Illustração Portugueza’ em
e José Marques da Silva – com linguagens que se lhe teciam elogios de “uma vigorosa [237] - Praça da
Liberdade, lado poente,
arquitectónicas distintas, correspondendo de prova de patriotismo e elevado bom gosto” em correspondendo ao
certa forma às duas correntes que se digladiam contraponto com “essa miscelânea confusa e local onde a partir de
1920 serão construídos
no início do século XX, uma de arreigado ‘cocotte’, um amálgama de mesquinhos plágios, os edifícios do Banco
nacionalismo e inspiração historicista, e a que é o chamado ‘estilo moderno’, a delícia do de Portugal e de ‘A
Nacional’. (DIAS &
[238]
segunda mais eclética e que se inspira nas burguês rico, que constrói palacetes” (Rubens, MARQUES, 2002).
correntes internacionais mais em voga em cada 1918: 178).
época.
Projecto de composição modular com
[238] - Edifício de ‘A
O processo de licenciamento do edifício certa rigidez, baseando-se em simetrias quer Nacional’ em obras,
é iniciado em 1919, com o projecto de Oliveira em cada uma das fachadas, quer na relação com início da década de 20.
(ART)
Ferreira. Este primeiro projecto, que não foi o próprio gaveto, de desenvolvimento vertical
construído, corresponde a um edifício de contido, apesar dos pontiagudos elementos
feição revivalista, buscando na inspiração decorativos que a encimavam, é muito [239] - A transição entre
historicista manuelina, a resposta ao desejo distinto da proposta que vem efectivamente a Praça da Liberdade e
a Avenida dos Aliados,
de monumentalidade que o sítio e a função a ser construída, na sequência das discussões observando-se a
alteração da escala
determinavam. Enquadra-se numa prática alargadas do que deveria ser a imagem da altimétrica dos edifícios
arquitectónica nacional dos finais do século Avenida – o projecto de Marques da Silva. anunciando o novo eixo.
(BENTO, 2013)
[239]

251
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

Esta mudança de arquitecto tem uma deveria ser a imagem de um dos edifícios que,
razão, de certa forma, curiosa. O mesmo ‘chão’ de certa forma, inaugura a nova Avenida é
adquirido em 1918 pela seguradora ‘A Nacional’ bastante distinto do de Oliveira Ferreira, e a sua
tinha sido destinado, pela Câmara Municipal do proposta está muito mais próxima da imagem
Porto, à instalação da sede da ‘Caixa Económica pretendida pela Municipalidade, a julgar pela
Portuguesa’, no gaveto adjacente ao Banco própria opinião da Comissão de Estética, que ao
de Portugal, como já foi referido. Apesar de a conceder-lhe a aprovação, considera o projecto
aquisição nunca ter sido efectivada, em 1917, excelente (Carvalho, 1992: 366).
a Caixa encomendara verbalmente a Marques
É um edifício que se inspira num
da Silva o respectivo projecto, tendo o mesmo
“gosto europeu de uma nova renascença, com
obtido aprovação da Comissão de Estética, em
referentes na arquitectura francesa e flamenga”
Maio desse ano. Com a aquisição do terreno
(Carvalho, 1992: 362), e que tira partido dos
pela seguradora, em Abril de 1918, esta solicita
novos materiais como o betão armado, para a
um projecto a Oliveira Ferreira que também
expressividade, a ousadia e arrojo de balanços
será responsável por um primeiro projecto
que as cantarias de granito não permitiriam.
para a dependência de Coimbra. Estamos assim
Usa também os novos materiais pela facilidade
perante uma situação peculiar, pouco comum
e economia de execução que o molde de
à época, para uma mesma localização existem
betão permite para a execução de decorações
dois projectos contemporâneos, com programas
complexas.
distintos, contudo bastante próximos.
Mas não é apenas a nível de imagem
Em Abril de 1920 será pedida à Câmara
que as propostas diferem. Marques da Silva
Municipal a substituição do projecto de
não pensa no edifício de forma isolada e tenta
Oliveira Ferreira pelo de Marques da Silva, que
integrá-lo num desenho coerente de cidade.
aproveita a experiência do projecto anterior da
Ainda em 1919 Marques da Silva apresentara
Caixa Económica, integrando na nova solução
um estudo do arranque da Avenida, com uma
alguns dos pressupostos já estabelecidos. O
proposta que englobava, para além do gaveto de
entendimento de Marques da Silva sobre qual
[240] - Alçados do projecto elaborado por Oliveira Ferreira [241] - Alçados do projecto elaborado por Marques da
para ‘A Nacional’. (CMP & FERREIRA, 1919) Silva para ‘A Nacional’. (CARVALHO, 1997)

253
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO

‘A Nacional’, o edifício do gaveto oposto, onde Apesar de ser o edifício sede da filial do
viria a ser construído o edifício ‘Pinto Leite’, Porto da Seguradora, conjuga as instalações
numa proposta que relaciona os dois edifícios, da companhia com outras funções, como era
contudo respeitando a individualidade que até natural à época, e se repetirá em vários dos
a diferente propriedade determina [247]. edifícios da nova Avenida. Associa espaços
comerciais no rés-do-chão, com escritórios,
Este estudo de conjunto para o arranque
incluindo os da própria companhia, do 1º ao
da Avenida acaba por ser paradigmático e
3º andar [243], reservando o ultimo piso para
premonitório do processo de edificação dos
habitação, que se estenderá à mansarda.
Aliados; – uma construção que se faz de edifícios
isolados, de linguagens arquitectónicas e A distribuição espacial interior é muito
pormenores distintos, mas que, de alguma interessante, pela forma como se obtém a
forma, procura uma relação de conjunto, uma leitura interna da quase totalidade da altura
imagem unitária que se consegue perceber na do imóvel, num jogo de escadas, elevador e
distância, enfatizada no desfoque das neblinas relação de acessos horizontais, como percursor
características das madrugadas na cidade – dos grandes átrios centrais de muitos edifícios
e um equilíbrio que se pretende estabelecer representativos bastante posteriores [242].
sistematicamente entre os dois lados da Avenida
Um tratamento de luz pensado através
numa relação de simetria que não sendo directa
de um jogo equilibrado entre uma distante
e rigorosa, mesmo assim condiciona a actuação
clarabóia, portas envidraçadas e bandeiras
de segundos intervenientes às preexistências
translúcidas. Espaço interno cuidado, sóbrio na
recentes, como disso se queixará Rogério de
decoração, mas rico na espacialidade que cria,
Azevedo a propósito da relação que deveria
contrastando com a exuberância e a projecção
estabelecer entre o cunhal do edifício do Jornal
balançada da forma exterior e dos elementos
‘O Comércio do Porto’ e o edifício da Caixa Geral
decorativos.
de Depósitos, de Pardal Monteiro.

[242] - Vista do átrio de ‘A Nacional’, com um pé-direito que


abrange a quase totalidade dos pisos. (BENTO, 2013)
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

Distingue-se também da quase


generalidade dos outros edifícios de gaveto
da Avenida, pela forma como trata o acesso
no próprio gaveto, não por um vazio que
complementa o espaço público, nem pela
continuidade de um espaço comercial, mas por
um volume que é enlaçado por dois corredores
e direcciona os acessos para o átrio central
atrás referido [243].

Apesar de distanciado do processo


de construção da Avenida, Parker manterá,
todavia, um particular interesse sobre a efetiva
e real concretização do seu plano como o [243] piso 1
demonstram as fotografias do decurso de várias [244] [244]

das obras, que estão no Arquivo da Garden


Cities Association, incluindo um pequeno postal
de ‘A Nacional’ ainda em construção [238].

[243] - Planta do piso térreo e primeiro andar de “A Nacional”.


(CARVALHO, 1997)

[244] - Átrio principal de ‘A Nacional’, em 1919 e actualmente.


(AA.VV., 2005) (VALE, 2013)

[245] - Corredor de acesso semi-público ao átrio de ‘A Nacional’.


(VALE, 2013)

[246] - Átrio principal de ‘A Nacional’. (BENTO, 2013) [243] piso 0 [245] [246]

257
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

[247] - Estudo conjunto dos dois gavetos iniciais da Avenida dos Aliados, Marques da Silva, 1917 (FIMS)

259
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

[248]
Edifício ‘Pinto Leite’

O edifício do gaveto da Rua de Sampaio Nações Aliadas, conforme o terreno já adquirido [248] - O edifício
‘Pinto Leite’, antes da
Bruno com a Avenida dos Aliados, licenciado para esse fim. (...) A fachada sobre a Avenida é ampliação em altura,
ant. a 1908. (Fonte: goo.
em 1924, toma a designação do requerente completamente nova (...). Pelo alinhamento dado
gl/cH4mxK)
inicial Joaquim Emílio Pinto Leite. Mais tarde pela Exma Câmara, a tangente ao gaveto fica a
passará a ser a sede do Bank of London & South 0,30 m adentro do ângulo do actual edifício,
America no Porto. de sorte que pelo projecto, os torreões dum e [249] - O edifício ‘Pinto
d’outro lado da Avenida vêm a ter o seu centro Leite’ após a ampliação
Como anteriormente referido para ‘A em altura, sendo já
na perpendicularidade ao eixo da Avenida. (...)”, reconhecível parte [249]
Nacional’, este edifício é também paradigmático do alçado que hoje
(CMP & SILVA, 1924) garantindo-se a simetria
apresenta para a Rua de
e premonitório dos processos de intervenção
requerida. Sampaio Bruno, sendo
da Avenida, no seu lado nascente, o que que esta alteração é
anterior a 1916.
corresponde a um realinhamento da Rua Elias O edifício preexistente datado de meados (SILVA, 2006)
Garcia. do século XIX, que durante muitos anos fez o
cunhal entre a primitiva Rua de Sá da Bandeira
Neste edifício, como em muitos dos outros
(actual Sampaio Bruno) e a Rua de D. Pedro,
deste lado, não se procede a uma demolição da [250] - Postal onde se
também tinha sido já alvo de uma primeira vê a Avenida já aberta
preexistência e a uma construção nova, mas
remodelação, provavelmente no final do século mas ainda são visíveis
a um construir à frente, ou à volta, do edifício as fachadas dos edifícios
XIX, quando recebeu mais um piso em altura, da Rua Elias Garcia, post.
existente (excepção evidente dos edifícios do
uma regularização do tratamento de coberturas a 1916. (Fonte: goo.gl/
[250]
Montepio Geral e da Caixa Geral de Depósitos, qGfZXS)
e platibandas, e um desenho mais cuidado dos
porque correspondem à abertura de um novo
alçados, mas não alterando a repartição de
arruamento transversal, a Rua do Dr. Magalhães
vãos, e a sua forma geral [248][249].
Lemos – ‘o alinhamento Passos Manuel’ ).
[251] - O edifício
O edifício ‘Pinto Leite’, no seu projecto ‘Pinto Leite’ após a
Assim, “o presente projecto compreende seu avanço até ao
inicial apresentado a licenciamento, é já um alinhamento da nova
o avanço que o actual prédio situado no ângulo
edifício que vinca, programaticamente, a avenida, observando-
da antiga Elias Garcia e Sá da Bandeira faz se a manutenção dos
nova feição pretendida para o centro cívico, alinhamentos de cérceas
para vir ao alinhamento da nova Avenida das de pisos e sacadas,
de um dinamismo económico, apesar de
assim como uma relação
proporcional entre os
seus vãos, ca. 1950.
(Fonte: goo.gl/Ecj6Sa) [251]

261
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

não corresponder a um dos programas mais actual para a Rua Elias Garcia, transforma-se
forte, como os Bancos e Seguradoras. Possuiu em parede interna, à qual se ligarão as novas
casas comerciais no piso térreo, escritórios paredes longitudinais, conservando-se na parte
nos restantes pisos, e remete para o vão do actual não modificada a sua estrutura essencial. [252] [253]

telhado as habitações, provavelmente para


(...) Constituindo o edifício um avanço ao
pessoas ligadas à vida diária do edifício, como
novo alinhamento da construção actualmente
o porteiro ou responsáveis por limpeza. É já
existente, conservaram-se os seus níveis de altura
provido de um conjunto de ascensores, que não
em cimalhas de escadas de sacadas e cornija.
tendo o destaque compositivo de, por exemplo, [252] - O edifício
Com um corpo avançado rematado por um ‘Pinto Leite’, 2013.
o edifício de ‘A Nacional’, sobressai pelo facto (VALE, 2013)
“bow-window”, obtém-se a separação da parte
de não considerar apenas um elevador isolado,
existente daquela a construir, mais decorativa
mas um conjunto de três, evidência de uma [253] - O edifício
porque vem ocupar uma situação fora das Ruas ‘Pinto Leite’: união
expectável dinâmica de serviços [255]. entre a preexistência
de Sampaio Bruno e com vista da Praça da e a ampliação, 2013.
“Entre a parte antiga e o seu Liberdade e Avenida das Nações Aliadas” (CMP (VALE, 2013)

prolongamento, é estabelecido o vestíbulo de & SILVA, 1924).


acesso para os andares, tendo ao fundo uma
O edifício mistura a construção tradicional
ampla escada e ascensor, conduzindo a todos os [254] - Alçados
(da pré-existência mas também na ampliação)
andares. (...) Desta sorte é suprimida a escada do projecto para
[254] [254]
com os novos materiais, conjugando fachadas ampliação do edifício
actual e modificada a distribuição interior (...). ‘Pinto Leite’ para o
e paredes internas em pedra de granito, com novo alinhamento da
A junção do edifício em que actualmente está
Avenida dos Aliados.
pilares e vigas de ‘béton’ de cimento armado,
a Filial do Banco do Minho, e que pertence ao (CMP & SILVA,
para garantir uma maior permeabilidade entre 1924)
Exmo Sr. Dr. J. E. Pinto Leite, permitiu abrir
espaços comerciais, caso fosse necessário [258].
pátio para iluminação não só da parte que
São também usados elementos de betão
ocupa actualmente o ‘Crédit’ como das novas [255] - Planta
armado na ‘prisão interna’ das ‘bow-windows’ e do projecto para
edificações, escadas e retretes. ampliação do edifício
na estrutura do torreão. ‘Pinto Leite’ onde é
perceptível a relação
Como se depreende pelo projecto, a fachada entre as duas partes
do edifício. (CMP &
SILVA, 1924) [255]

263
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

As paredes, as interiores de perpianho, direcionam o percurso até ao pátio interno,


e das fachadas, “de boa pedra dura”, serão criado para garantir uma entrada de luz
revestidas de mármore no rés-do-chão, sendo adicional, quer para o novo edifício, quer para
o “restante das fachadas revestido a materiais aquele cuja fachada principal ficou oculta pelo
artificiais” (CMP & SILVA, 1924), designação avanço da Avenida. Este esquema, apesar
curiosa para se referir à decoração executada de distinto do de ‘A Nacional’, tem o mesmo
com reboco de cimento. princípio organizativo, distribuindo os diversos
espaços em torno desse átrio central, mas de
Antes da emissão da licença foi
uma forma muito mais contida.
apresentado um aditamento correspondendo
a algumas modificações na fachada do lado sul A proposta licenciada, alterada por
(reduzindo a intervenção na parte do prédio um aditamento intermédio, corresponde a
existente) porque o necessário apeamento uma solução simples de três espaços de base
implicaria incómodo para os inquilinos, rectangular: dois relacionados com o alçado da [256]
mostrando que toda a obra foi feita com o edifício Avenida dos Aliados por uma porta de entrada
em utilização, algo que foi aparentemente e montra; e o último cujo acesso se coloca no
comum com outros edifícios do lado nascente gaveto mas que não tem maior importância do
da Avenida. Outra pequena alteração é no que os restantes. A transformação do edifício
[256] - Detalhe da
zimbório do torreão da esquina, ao nível da sua na sede Portuense do Bank of London & South
proposta de conjunto de
altura, para poder ter uma maior utilização. America veio dar outro sentido a esse acesso 1919, com a planta do
rés-do-chão. (FIMS)
pelo gaveto, numa tipologia que será usada
Interessante é observar as diferenças
posteriormente em outros edifícios da Avenida,
entre o estudo de 1919 [256] e o projecto
como um espaço semi-exterior, uma recepção [257] - Aditamento
licenciado em 1924 [257]. No primeiro existe
pública, que antecede o espaço privado. final do processo de
uma aposta numa distribuição interna que licenciamento.
(CMP & SILVA, 1924)
tira partido de um eixo de composição que Atente-se ainda a outra importante
corresponde à bissectriz do ângulo do gaveto, diferença entre os projectos, a localização da [258] - Planta que
numa sequência de vestíbulos e átrios que escada, resultado certamente da distinta opção acompanha os cálculos
de betão armado.
(CMP & SILVA, 1924) [257] [258]

265
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

[259] - Perfil transversal da


Avenida dos Aliados, adaptado
a partir de (PORTO VIVO, SRU,
2006).

relativamente à ligação entre a construção a proposta anterior. [260] - As distintas formas


de trabalhar o espaço de
nova e os edifícios antigos. Em 1919, a opção entrada, ora mais intimista
Nesta relação entre nova construção e buscando a inspiração
tinha sido pela ligação mais forte entre os dois
nas passagens interiores
e preexistência, entre as propostas altera-se
edifícios, como se de um projecto único se dos quarteirões de Paris, no
também o que seriam as relações altimétricas edifício de ‘A Nacional’, ora
tratasse, criando os espaços de apoio necessário conferindo-lhe um carácter
entre os edifícios. Contudo, na proposta em
ao conjunto, nos lotes dos dois edifícios pré- de abertura e continuidade
que existe uma maior integração entre as com o espaço público, no
existentes. O que foi construído corresponde edifício ‘Pinto Leite’.
duas fases, é onde as questões de relações (VALE, 2013)
a uma junção simples da nova construção aos
altimétricas e equilíbrio entre os dois edifícios
edifícios antigos, para minimizar o incómodo
estão pior resolvidas. Todavia, percebe-se a
dos utilizadores e habitantes, como se viu. Dessa [261] - Edifícios ‘A Nacional’
razão, se pensarmos que Marques da Silva não e ‘Pinto Leite’: o diálogo que
forma, em vez de um único edifício, estamos
estava a apresentar um projecto específico, mas se estabelece entre gavetos e
perante um conjunto de edifícios justapostos, seus torreões encimados por
uma proposta de arranque da Avenida. Assim, pináculos. (VALE, 2013) [260]
e onde a totalidade de acessos verticais estão
mais do que se relacionar com a preexistência,
concentrados na nova construção, que não
o que ele pretende é estabelecer um diálogo
tendo grande área, impossibilita o esquema axial
equilibrado com o outro gaveto da Avenida [259].
anteriormente proposto. Assim, passamos a ter
um rés-do-chão que se reparte em 3 módulos,
individuais ou individualizáveis, como seria o
caso na altura do licenciamento – versatilidade
garantida pela utilização de pilares de betão
armado no miolo deste novo edifício. Esta
solução corresponde a um desenho muito mais
rígido, pouco trabalhado, em comparação com

[260] [261]

267
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

Edifício sede do ‘Clube Fenianos Portuenses’

De projecto ainda anterior ao do de uma volumetria complexa, alternando rectas


edifício ‘Pinto Leite’, é a proposta de Francisco e curvas, mas preso ainda a uma linguagem
Oliveira Ferreira para sede do ‘Clube Fenianos classicizante, que recorre a frontões quebrados,
Portuenses’, construído no extremo norte da embasamentos, frisos, colunas e capitéis,
Avenida, já em relação directa com a Praça da símbolos e motivos florais numa decoração
Trindade, no local onde, no plano de Barry Parker, que é mais exuberante no projecto do que no
se situava um dos crescentes que envolvia a edifício construído.
praça municipal. O edifício, juntamente com o
Este edifício, cuja licença é emitida ainda
que se localiza imediatamente a sul, corresponde
em 1920, no extremo norte da Avenida, ao
ao único pequeno conjunto construído que
mesmo tempo de ‘A Nacional’ no extremo sul
segue as linhas de implantação do Projecto de
– definindo assim os limites da implementação
Parker sensivelmente respeitando a cércea
do Plano de Parker – acaba por ter pontos de
projectada, ainda que, arquitectonicamente,
contacto com o edifício de Marques da Silva,
não tenha qualquer semelhança com a imagem [262] [263]
apesar de toda a diferença de imagem. Em
inicialmente proposta.
ambos os edifícios a fachada curva, o betão
Oliveira Ferreira, que tinha projectado, armado, ou o revestimento de cantarias toscas
num estilo neomanuelino, o não construído com argamassa, são recursos utilizados. E mais
edifício sede de ‘A Nacional’, usa neste do que uma proximidade entre estas duas obras,
edifício dos ‘Fenianos’ recursos estilísticos podemos falar da influência neste edifício das
completamente distintos. Se olharmos para a obras de arquitectos com formação ‘Beaux-
sua obra, a mesma é pautada por esse ecletismo Arts’ – Marques da Silva e Correia da Silva –
de estilos, de quem faz o modernista e depurado evidenciada na própria memória descritiva
desenho da Clinica Heliântica de Francelos, o onde se refere que “até ao primeiro pavimento
decorativismo nacionalista da proposta para todas as cantarias serão lavradas e deste para
‘A Nacional’, um ecletismo com influências ‘Art cima serão toscas para serem revestidas em
[262] [263]
Déco’ da Casa de Saúde da Avenida, ou deste cimento e areia, à semelhança do Teatro de S.
[262] - Edifício sede do ‘Clube Fenianos [263] - Perspectiva antiga e actual sobre o edifício do ‘Clube Fenianos
projecto para os ‘Fenianos’, em que o recurso João ou mercado do Bolhão” (CMP & Ferreira, Portuenses’ na década de 30, com as alvenarias Portuenses’ e sua envolvente. Nos finais da década de 40, o edifício Capitólio
aos novos materiais lhe proporciona a liberdade 1920). ainda por revestir, e na atualidade.(CLÁUDIO & veio subverter os alinhamentos do plano de Barry Parker, anulando em parte a
FOTO BELEZA, 1994) (BENTO, 2013) presença do edifício sede do FCP. (ALVÃO, 1984) (BENTO, 2013).

269
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

[264] - O crescente poente da praça do município na proposta de [265] - Planta de implantação [266] - Assembleia Portuense, 191-. [270] - Pela relação entre os dois edifícios percebe-se a intenção de sobrepor à
Barry Parker, e sobreposição do plano à cartografia atual. (AHMP, do processo de licenciamento. (Fonte: goo.gl/N2vWpy) estrutura existente a solução compositiva e decorativa preconizada em 1920.
cota: D-CDT-A4-015) (CMP & Ferreira, 1920) (LIMA, 2013)

Com o início da construção, em Agosto o projecto de “um majestoso Palácio com


de 1920, dá-se resposta a um anseio antigo quatro pavimentos e torreão central, de aspecto
do Clube, fundado em 1904 e que funcionou elegante e linhas arquitectónicas perfeitas”,
inicialmente na Praça da Batalha. Não repetindo-se, de alguma forma, o sucedido no
achando que o local que ocupavam respondia gaveto de ‘A Nacional’.
a todas as necessidades, no biénio 1916‑17
Contudo, no projecto licenciado, mais
estatutariamente “fica estabelecido a obrigação [267] - Projecto do edifício da Assembleia Portuense, licenciado em 1857. (AHMP)
precisamente nos seus alçados, não existe
de o Clube construir uma casa para sua instalação”
memória do edifício da Assembleia Portuense,
(Meireles, 1941: 119). Contudo o Clube passa
pois o novo edifício tem uma imagem única,
por um período conturbado e apenas em 1919
que respeita uma lógica geral de composição.
procedem à aquisição dos “terrenos onde existiu
Porém, numa observação mais atenta também
a Assembleia Portuense, no largo da Trindade,
se percebe que a ideia do clube é aproveitar
a que foi em seguida, anexada uma parcela de
ao máximo o edifício existente, integrando-o
terreno com face para a futura Avenida das
na nova construção. A planta de implantação
Nações Aliadas, paralela ao projectado edifício
[265] mantém a linha que representa o limite
municipal”. Escolha que consideraram acertada
do anterior edifício e no próprio alçado para
face ao preço conseguido, e porque “tudo
a antiga Travessa da Trindade, hoje Rua do
indicava que a artéria seria movimentada e
Dr.  Ricardo Jorge, [268] se consegue identificar
central” (Meireles, 1941: 130). Nos terrenos
a zona que corresponderia ao mesmo, numa [268] - Alçados do projecto inicial. (CMP & FERREIRA, 1920)
existia ainda o edifício, datado de 1857, onde
parte do alçado de composição simétrica, e
para além da ‘Assembleia Portuense’, tinha
sem avanços, recuos ou curvaturas, certamente
funcionado também o antigo ‘Teatro do Príncipe
para garantir um fácil aproveitamento das
Real’, e será esta preexistência que irá permitir
paredes existentes (algo que se verificou
uma rápida ocupação do novo espaço, mesmo
impossível pelo alinhamento da própria rua)
antes da conclusão das obras.
[270]. Esta zona do edifício foi construído por

Como curiosidade, o facto de terem partes, envolvendo o edifício existente, apenas


sido iniciadas negociações para “os terrenos concluindo os remates – com o lote vizinho a
da actual Caixa Geral de Depósitos”, tendo poente e o gaveto da Praça da Trindade – mas [269] - Alçado da situação existente, adaptado a partir de (PORTO VIVO, SRU, 2006).
Oliveira Ferreira chegado mesmo a elaborar sem a reformulação do corpo central voltado

271
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

[271] - O edifício do ‘Clube


Fenianos Portuenses’ ainda
por concluir em 1939.
(MEIRELES, 1941)

[272] - Perspectiva actual.


(LIMA, 2013)

[273] - Vista a partir do


exterior e interior do
acesso principal ao edifício.
[271] [272] (BENTO, 2013) [273] [273]

para a Rua Dr. Ricardo Jorge, leitura que se A questão dos acessos ao edifício também Vários aspectos devem ser tidos em conta a implantação proposta de uma inflexão dos
mantém da relação entre os dois edifícios, um merece ser mencionada. Actualmente, não para perceber a situação actual, o projecto alinhamento do alçado principal do edifício dos
abraço apertado ainda não desfeito. se percebe a localização da entrada principal inicial, e as diferenças entre os dois. A questão Paços do Concelho, o gaveto onde projetava
do Clube a meio do alçado que se volta para da integração do edifício anterior na nova a entrada do Clube estava em continuidade
A obra decorreu lentamente, em 1939
a fachada lateral do edifício dos Paços do construção parece ser a mais importante. O com o edifício municipal, dando uma maior
ainda os pisos superiores não estavam
Concelho, um espaço de passagem, de passeios acesso pelo gaveto da Rua do Clube Fenianos importância.
rebocados, e a proposta nunca chegou a ser
estreitos em comparação com a largueza que permite a criação de um amplo espaço de
completamente terminada, por condicionantes Da observação do projecto e do edifício
estava disponível quer na fachada voltada para entrada, com uma ligação a eixo do salão de
económicos, mas também porque a mesma, construído percebe-se também a deficiência do
a Praça da Trindade, quer para o crescente do festas, aproveitando “uma bem lançada e
com o tempo, se foi tornando desadequada, não levantamento inicial, no (re)conhecimento das
lado sul. luxuosa escadaria central”. Contudo a escada
apenas funcionalmente, mas fundamentalmente condições topográficas do terreno. Em projecto,
acabará demolida e o “espaço ocupado, para
em termos de imagem, projecto que era “fruto No projecto inicial considerava-se o como se pode ver pelo corte [57], o desnível
lojas de rendimento” (Meireles, 1941:  132),
da sua época, amadurecido pelo tempo decorrido acesso pelo gaveto da rua que ficou com a entre a Rua da Trindade e a fachada oposta, por
que garantem uma melhor rentabilização
e condenado mais tarde pelos novos processos de designação do Clube a partir de 1931, que não onde se faz o acesso, é inexistente. O adaptar
económica do investimento para permitir a
projectar e construir” (Meireles, 1941: 132). Esta sendo a mais directa – como seria o acesso pelo o projecto às reais condições topográfica fez
sobrevivência do clube.
interrupção da construção verifica-se também lado da Praça da Trindade - todavia se percebe com que o mesmo ‘ganhasse’ mais um piso do
em altura, não sendo executado nenhum dos em função do espaço público que antecedia a Outro aspecto a ter em conta é o facto lado sul, com as necessárias reformulações de
elementos arquitectónicos que se situavam entrada, sendo a mesma noticiada pela própria de o lançamento da construção dos Paços do acessos e distribuição interna.
acima do nível da cornija ou da platibanda, localização da cúpula, e de um tratamento mais Concelho ser apenas feito em 1920 (depois
quer fossem acrotérios, remates de telhados, ou enfático e decorado deste ponto. Actualmente da execução do presente projecto) e que a
mesmo todo o piso superior do salão de festas, perde-se a leitura de uma distinção hierárquica proposta de Parker considerava uma cércea
recuado relativamente ao alinhamento da dos diversos acessos, e o que mais força muito mais baixa para o edifício municipal,
rua. As diferenças entre o projecto e o edifício tem são as grandes aberturas dos espaços em que a escala do arruamento lateral seria
construído são enormes, e esse ar incompleto é comerciais, existentes já no projecto inicial, mas completamente distinta. Olhando para a planta
perfeitamente sensível. aumentadas em largura e em altura, obtendo de Parker podemos talvez começar a entender
uma maior presença. esta escolha de Oliveira Ferreira, pois, com

273
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

‘Banco do Minho’ e ‘Banco Lisboa e Açores’

Apesar de considerarmos os edifícios de sem deixar de ser rico, é sóbrio e de linhas graves
‘A Nacional’ e de ‘Pinto Leite’ como elementos como deve ser a casa de um banco” (CMP &
inaugurais do novo eixo, estes não são os Moura Coutinho, 1919), não convencem os
primeiros ser licenciados. Ainda que em técnicos da referida comissão.
1917 tivesse sido submetido a apreciação
Contudo este parecer negativo não colide
(fundamentalmente da Comissão de Estética)
com a aprovação do projecto e respectiva
um anteprojecto elaborado por Marques da
emissão de licença e apenas em Junho de
Silva para o cunhal poente da Avenida, o mesmo
1922 dará entrada uma alteração à fachada [274] - Vista sobre
referia-se ainda ao edifício da Caixa Económica o lado nascente da
que responderá, sem dúvida, aos reparos
Portuguesa, tutelada pela Caixa Geral de Avenida dos Aliados
da Comissão de Estética, mas também à e Praça da Liberdade.
Depósitos, e nunca foi sujeito a licenciamento Em primeiro plano
necessidade de uma melhor relação com o
efectivo. a cúpula do edifício
edifício vizinho de ‘A Nacional’, nessa altura em ‘Soares da Costa’.
Em segundo plano o
O primeiro edifício a ser licenciado é construção. conjunto edificado
que integra os
então o do ‘Banco do Minho’, projecto de Moura edifícios do Montepio
A verticalidade de composição imposta
Coutinho de Almeida d’Eça, com licença emitida Geral, ‘Lima Júnior’
[274]
por Marques da Silva no edifício de ‘A Nacional’, e ‘Borges & Irmão’,
em 1919, mas tendo dado entrada na Câmara seguido do ‘Banco
de inclinadas mansardas ao gosto flamengo,
em 1 de Janeiro de 1918. O mesmo terá tido, em Lisboa e Açores’.
implica que as mesmas fiquem sobranceiras ao A finalizar o
Junho de 1918, um parecer negativo da Comissão quarteirão, o edifício
presente edifício, “o que trazia ao conjunto um ‘Moreno & Ciª’ e
de Estética relativamente ao alçado para a ‘Pinto Leite’.
aspecto desagradável”, como reconhece Moura
Avenida. As justificações colocadas na memória (BENTO, 2013)
Coutinho. A alteração proposta consiste num
descritiva, de uma forma arquitectónica que
redesenho total da zona superior do edifício,
fosse sensível à “sumptuosidade que este local,
aumentando a altura dos torreões laterais, e das [275] - Vista sobre
sem dúvida de futuro – o mais belo e importante o lado poente da
cúpulas/pavilhões que fazem a relação directa
da cidade – requer – (mas) denunciasse, pelo Avenida dos Aliados.
com os edifícios vizinhos, não apenas por um Da esquerda para
carácter que lhe imprime a sua forma externa, a direita, ‘Banco do
aumento de pé-direito mas pela introdução Minho’, ‘Espírito
o seu destino e aproveitamento interno”, bem
Santo’ e ‘Soares da
de todo um novo piso. Por uma questão de
como a explicação de que “o conjunto geral, Costa’.
equilíbrio compositivo, o corpo central ganha (BENTO, 2013)

[275]

275
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

[276] [279]

também um novo piso, em mansarda, que da filial Portuense do ‘Banco do Minho’. De


“conquanto não se destine a habitação tem certa forma o edifício ‘Banco do Minho’ remete
a altura interior de 2,80 m” (CMP & Moura para a exuberância do rococó bracarense que
Banco Lisboa
Coutinho, 1922). tem o seu expoente máximo em André Soares,
e Açores
contudo sem a assimetria de traçado que lhe é
Da comparação dos dois alçados percebe- [276] - Alçado Aguarelado,
característica. Ou, noutra forma de interpretar 1920. (MARTINS, 2010)
se que Moura Coutinho aproveita também
a diferença, cada um dos Bancos estabelece
o aditamento para um ‘enriquecimento’
relações mais directas com os edifícios dos [277] - Primeira proposta
decorativo do alçado, talvez para melhor de Alçado, 1920.
gavetos do quarteirão em que se inserem, o de (MARTINS, 2010)
ombrear com o dinamismo das ‘bay-windows’,
‘A Nacional’ para o ‘Banco do Minho’, e o mais
balanços, e mais profusa decoração do edifício [278] - Fachada modificada,
limpo ‘Pinto Leite’, para o Banco de Lisboa e
de ‘A Nacional’. Mas o que em Marques da Silva apresentada em 1922.
Açores. (MARTINS, 2010)
é essencialmente forma, curvatura, movimento
de planos, em Moura Coutinho sente-se mais Em ambos os projectos, Moura Coutinho
[277] [280]
como uma volumosa decoração que reveste aposta numa mesma estrutura compositiva
certas partes do edifício. e métrica de divisão do alçado, um momento
central tripartido em largura, e dois pseudo-
‘Banco do
Da análise conjunta deste edifício e dos
torreões laterais encimados por cúpulas/
Minho’
que lhe são próximos percebe-se ainda que [279] - Perspectiva de 1918.
pavilhões. Ambos os edifícios possuem
os cânones compositivos que cada um dos Desenho aguarelado que foi
precisamente o mesmo número de pisos que distribuído, como postal,
arquitectos professa são distintos, e que a única pelo ‘Banco do Minho’, e que
se distribuem exactamente com a mesma corresponde ao primeiro
homogeneidade que se consegue é a do tom
lógica compositiva, um embasamento, que alçado.
do granito, mesmo quando é fingido, como no (Fonte: goo.gl/j0l9iZ)
faz a relação com a rua, uma zona nobre que
edifício de ‘A Nacional’ .
abrange os dois pisos seguintes, e um remate [280] - Primeira proposta
superior que se vai diluindo no afastamento do de Alçado, 1918.
De autoria de Moura Coutinho é também (MARTINS, 2010)
o edifício situado no quarteirão fronteiro, alinhamento principal, alteração de materiais
projectado para o ‘Banco Lisboa e Açores’, ou numa simplificação de detalhes, que se sente [281] - Fachada modificada,
apresentada em 1922.
com algumas semelhanças compositivas mas principalmente no edifício do ‘Banco Lisboa e (MARTINS, 2010)
contudo sem a mesma profusão de decoração Açores’.
[278] [281]

277
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

‘Banco Lisboa e Açores’ ‘Banco do Minho’

Diferem, contudo, na largura dos lotes. O construções e que o seu todo, pela sua forma
[282] [282]
do ‘Banco do Minho’ era substancialmente mais e pelos seus detalhes, exprima uma ideia, um
largo (20 para 16 metros), e essa diferença de carácter em relação íntima com o seu destino”
largura provavelmente dá azo, e espaço, a uma (CMP & Moura Coutinho, 1921).
maior, e mais ‘gorda’, decoração das fachadas.
Aparentemente também se tentou,
Os dois anos que medeiam entre a emissão das
neste primeiro quarteirão do lado nascente da
duas licenças, uma relação mais equilibrada
Avenida, que as intervenções possuíssem uma
com os edifícios da envolvente, como já referido,
imagem mais homogénea, tendo em conta que
ou os diferentes clientes são justificações para
os novos edifícios resultavam de um cerzir de
uma alteração forte entre o jogo decorativo
novas construções com uma malha urbana
de um e outro edifício. De referir que o ‘Banco
preexistente, com situações diferentes que se
Lisboa e Açores’ tem já instalações construídas
tentavam nivelar através de uma imagem que
em Lisboa e podemos encontrar alguma relação
apostava mais num ritmo de verticalidade e
entre os dois projectos, conquanto não sejam
menos em profusas decorações. E esta lógica
do mesmo autor. Contudo, mais do que uma
[283] [283]
de composição acaba por se replicar, de alguma
relação entre os diferentes projectos, devemos
forma, para os quarteirões seguintes.
estar perante autores que usam um léxico
[282] - Fotografia actual,
compositivo comum, “tipologias parisienses perspectiva rectificada.
de alguma erudição (mas muito difundidos (BENTO, 2013)

nos manuais de construção civil de Santos


Segurado)” como justamente refere António
[283] - O recurso aos torreões
Cardoso (Carvalho, 1992: 378). Do ‘Banco do como remate lateral é
recorrente nos dois edifícios,
Minho’ não parece ter havido uma imposição mas efectuado com escalas e
de imagem, a avaliar pela diferente escala de decorações muito distintas.
(LIMA, 2013)
desenho do edifício sede existente em Braga.
Moura Coutinho procurou “que o seu conjunto
[284] - Nos dois edifícios
não desmereça do aspecto geral das restantes recorre-se a uma composição
ritmada como simulação de
métopas para remate do ‘piso
nobre’. (LIMA, 2013) [284] [284]

279
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

Edifício ‘Espírito Santo’ e Edifício ‘Soares da Costa’

Na sequência do ‘Banco do Minho’, e nos três séries de vãos separados por pilastras.
lotes imediatamente a norte, são licenciados, Em altura, cada um deles tem também os três
ainda em 1919, dois edifícios, o ‘Espírito Santo’ momentos base, a que se soma um mesmo
de Carlos Mourão e o ‘Soares da Costa’ de esquema de diluição em altura. Assim, cada
Michelangelo Soá. Com linhas arquitectónicas edifício possuiu um embasamento onde se
muito distintas entre si, estes dois edifícios serão situa o estabelecimento bancário, e que, no
alvo de um curioso processo de transformação caso do edifício de Carlos Mourão, é bastante
na década de 50, como à frente veremos. mais encerrado do que os restantes (mas
inicialmente menos do que hoje), quase dando
O primeiro dos edifícios – licenciado
a imagem que o banco era a sua caixa forte;
em 1919, com projecto de Carlos Mourão e do
um ‘piso nobre’ que engloba os dois andares
engenheiro António Manuel de Almeida, para
que no programa inicial seriam destinados
o que em 1920 viria a ser o Banco Espírito
a escritórios; e um remate superior, que em
Santo – tem uma linguagem neopalladiana,
todos os casos é fortemente vincado no quarto [285]
muito distante e contrastante com a profusão
piso, mas que, num artifício compositivo de
decorativa do remate dos acrotérios de Moura [285] - Vista sobre o
escala e dignificação do alçado, se estende lado poente da Avenida
Coutinho, com os seus grupos escultóricos dos Aliados, anterior à
aos pisos seguintes, sempre com pés-direitos
balançados e ornamentação que os envolve. década de 1950.
menores, até um diluir pelas mansardas, No centro do postal, o
Contudo, se despirmos os edifícios de Moura primeiro quarteirão
que não tendo tradição na arquitectura da Avenida com os
Coutinho e de Carlos Mourão do que são os
portuense invariavelmente foram invocadas edifícios ‘Soares da
reflexos estilísticos adoptados, o esquema Costa’. ‘Espírito Santo’,
pelos arquitectos que primeiro edificaram ‘Banco do Minho’ e ‘A
compositivo base é idêntico, e similar também Nacional’. (COLECÇÃO
nos Aliados, como forma de inserção destes
ao já referido ‘Banco Lisboa e Açores’. PARTICULAR)
edifícios de maior altura na lógica compositiva
As larguras dos lotes são diferentes, que dominavam. [286] - Edifício ‘Espírito
Santo’, antes da década
pelo que a proporção relativa das partes de 50.
Não nos foi possível identificar outros (goo.gl/9Kqagu)
necessariamente também o é, mas a estrutura
trabalhos de Carlos Mourão, pelo que a
base continua a assentar numa repartição
comparação com outras obras, ou a análise do [287] - Pormenor do
tripartida da fachada, dois pseudo-torreões corpo central do edifício
seu percurso arquitectónico não é possível.
laterais e uma zona central dividida em ‘Espírito Santo’.
(LIMA, 2013) [286] [287]

281
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

[288] - Projecto edifício


‘Soares da Costa’, 1919.
Corte transversal
e longitudinal. Na
página seguinte, alçado
planificado.
(CMP & SOÁ, 1919)

O edifício ‘Soares da Costa’, de elemento de remate do cunhal, não com o sentido


Michelangelo Soá, parte já de pressupostos de verticalidade e composição de Marques da
compositivos muito distintos. Silva, que aposta sempre num remate enfático
da própria cúpula com lanternins que mais
Primeiro, ao contrário de todos os edifícios
que duplicam a sua altura, mas como uma
do presente quarteirão, não se destinada
calote esférica, que assenta directamente num
à sede de qualquer instituição bancária ou
tambor que remata o cunhal ao nível do último
seguradora, pelo que a imagem forte que a
piso, sem qualquer recurso a mansardas ou a
adequação a um programa representativo
estabelecimento de ordens compositivas que se
determinava, não se chegava a colocar. Não se
diluam em altura. Esta cúpula seria encimada
aplicava também a questão da dignificação de
por um pináculo, esse sim, o elemento que [289] - Vista sobre o
UMA entrada em detrimento de outras, que tramo poente da Avenida
lhe poderia conferir verticalidade, mas que
eram necessariamente secundárias, em termos dos Aliados, anterior
[289] [290]
não chegou a ser executado. A sua decoração a 1927, estando este
funcionais e de representação, nem tampouco praticamente concluído,
é simples, apenas com a inclusão de alguns com excepção da cúpula
as vincadas diferenças programáticas em altura.
pequenos óculos para iluminação. do edifício ‘Soares da
E, um último aspecto, este projecto corresponde Costa’. (Siza & Serén,
2001)
a um gaveto, tal como ‘A Nacional’, pelo que o O projecto pega no que teriam sido seis
mesmo terá de equacionar essa questão num lotes do parcelamento portuense tradicional,
[290] - Perspectiva
sentido de composição, não apenas do próprio “seis moradas de casas” (CMP & Soá, 1919), atual sobre os edifícios
edifício, mas numa relação total com a nova referenciados na imagem
como se refere no requerimento, e constrói um
anterior.
Avenida que se abre. edifício que sendo único, não deixa de assentar (BENTO, 2013)

numa estrita justaposição de vários módulos


Este edifício, com projecto ainda anterior
construtivos e compositivos numa gramática
ao licenciamento de ‘A Nacional’ (mas já [291] - Pormenores
que poderia estender-se à fachada total do decorativos que revestem
posterior aos estudos de Marques da Silva para
quarteirão. o edifício ‘Soares da
o arranque a Avenida) escolhe a cúpula como o Costa’. (LIMA, 2013)
[291] [291]

283
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

[292] - Reconstituição do alçado existente até à década de 50, e fachada atual, do primeiro
quarteirão poente da Avenida dos Aliados. Adaptado a partir de (PORTO VIVO, SRU, 2006).

A sua métrica assenta num ritmo A-B-B- elementos decorativos, dão a noção de uma a este cunhal e aos módulos imediatamente horizontal em betão. Certo é que o edifício de Soá
A-A’-B´-B’-A’ que, sem prejuízo do aspecto geral, linha compositiva horizontal que é encimada adjacentes. A execução do edifício é faseada, e foi reduzido em cerca de 10 metros (módulos
poderia ser alterado com alguma liberdade, por um último piso, de desenho simplificado, e relativamente lenta. Ainda no início da década A-B-B-A) mantendo os módulos A’‑B´‑B’-A’-B, e
como se pode verificar na fachada lateral para em que o mesmo tipo de janela é repetido em de 30 os dois últimos módulos junto ao gaveto o edifício de Mourão foi aumentado para esse
a Rua de Elísio de Melo, onde se usa um ritmo todos os módulos. No alçado para Avenida, o não se encontravam totalmente concluídos, espaço, numa transformação em continuidade
B-B’-B’-B-A, para responder à diferente largura edifício é apenas rematado por uma platibanda, nem a cúpula construída. com a fachada existente. O edifício de Mourão
de talhões. com balaustrada, encimada por acrotérios que, como vimos, assentava numa repartição
O caso curioso que atrás referimos, em
como muitos dos edifícios Portuenses de tripartida, tomou como eixo de simetria
Este edifício era destinado a habitação, que estão envolvidos os edifícios de Mourão e
épocas anteriores. Para o lado da Rua de Elísio o torreão do lado norte, recebeu mais um
com estabelecimentos comerciais ao nível do de Soá, só foi possível, do nosso ponto de vista,
de Melo, é já construída uma mansarda. Esta conjunto de três vãos, e um novo torreão,
rés-do-chão. Em altura, a estrutura compositiva por esta estrutura compositiva do edifício
diferença de tratamento de cobertura ao nível passando a possuir uma extensão bem superior
faz uma hierarquia muito mais ténue dos pisos. de Soá, que lhe permitia estender-se a todo
dos dois alçados é perfeitamente justificada à inicial, quase duplicando a área de fachada.
O embasamento é marcado pela sua relação com o quarteirão, mas também ser facilmente
numa relação com os edifícios vizinhos e com Ao nível do rés-do-chão foram refeitas algumas
a rua e pela diferença programática, visível num amputado sem que isso parecesse mais
a pendente dos arruamentos, crescente no aberturas, mantendo-se a noção de uma
ritmo diferente de caixilhos, numa sequência de deslocado que a sua composição original.
sentido da Rua de Elísio de Melo. entrada principal, a eixo da composição, e uma
vãos que ocupam, quase por inteiro, a distância
Na década de 50, dois dos que seriam secundária. No 5º piso também são refeitas
entre pilastras dos pisos superiores. Nos pisos Para Soá, o elemento chave da
os seis lotes iniciais foram adquiridos pelo algumas aberturas, sem contudo alterar o seu
seguintes, quatro, todos destinados à habitação, composição seria, não o alçado para a Avenida,
Banco Espírito Santo, para aumentar o número ou localização.
apenas pequenos detalhes dão notícia de um mas o gaveto entre a mesma e a Rua de Elísio
edifício projectado por Carlos Mourão. Não
arranjo compositivo que evidencia o remate de Melo, com a sua cúpula de remate. Tal é Este processo, de um edifício que engole
determinamos o processo exacto como foi feito,
superior do edifício. Os dois primeiros pisos visível até na forma como é apresentado o parcialmente outro, não é novo, claro. Ao longo
se por uma demolição total e nova construção,
de habitação, de imagem muito próxima, são alçado no processo de licenciamento, como do tempo, a história da cidade foi feita por
se apenas pela construção de uma nova fachada
rematados pelo terceiro piso, onde o alterar uma planificação contínua dos dois alçados, e se esta apropriação ditada por meios económicos
e remodelação dos interiores, provavelmente
de desenho superior das janelas, e alguns a simetria existe, ela é estabelecida em relação ou necessidades representativas, e em que a
com a introdução de uma nova estrutura

285
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

imagem que se dá para a esfera pública, é tão anteriormente referidos, mas de tal forma
ou mais importante, do que o que se possuiu sobrevive que esta alteração nem sequer é algo
no foro privado – o já mencionado edifício que seja do conhecimento comum, pois o tempo
BNU, no gaveto sudeste da Praça da Liberdade se encarregou de a fazer esquecer.
corresponde a um processo desta índole. No
Assim, para quem hoje o observa, este
caso presente, para o Banco Espírito Santo, a
edifício não é dos esteticamente mais atractivos,
ampliação das instalações não podia passar
parecendo mais um exercício de decoração para
apenas por um comprar de dois lotes e aí
garantir a distinção que a localização requeria,
instalar os espaços necessários. A questão
com uma cúpula pesada no confronto com os
representativa foi determinante, certamente.
gavetos próximos. Contudo, quando estudado
A, de certa forma apagada, fachada projectada
com cuidado, e conhecido o projecto inicial, é
por Mourão na década de 20, com o processo
um dos mais interessantes, pela época em que
de ampliação da década de 50, ganhou mais
foi projectado. No contexto da intervenção na
visibilidade e mostrou o peso crescente da
Avenida é inaugural de uma forma distinta de
instituição bancária, proprietária também
composição em que a verticalidade é a tónica
actualmente do edifício do ‘Banco do Minho’. [293]
dominante (a verticalidade à escala dos Aliados
E do ponto de vista do que é a imagem de não dos grandes arranha céus que já estava a
conjunto deste primeiro quarteirão da Avenida, conquistar outras partes do planeta).
[293] - Primeiro
a intervenção veio garantir um maior equilíbrio, quarteirão, lado
pois veio garantir ao edifício ‘Espírito Santo’ poente, da Avenida
dos Aliados, ca. 1930.
alguma da escala de que carecia. (MESQUITA, 2008)

O edifício de Soá, amputado dos seus [294] - Perspectiva


dois lotes do lado Sul, mantém a legibilidade atual sobre o primeiro
quarteirão poente da
inicial. Perdeu a riqueza compositiva do alçado, Avenida dos Aliados.
no seu jogo de módulos distintos e que não Da esquerda para a
direita, ‘A Nacional’,
usavam regras de simetria simples como os ‘Banco do Minho’,
edifício ‘Espírito Santo’
e ‘Soares da Costa’.
(BENTO, 2013)
[294]

287
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

Edifício ‘Almeida e Cunha’


[295]

Projecto também de Michelangelo Soá entrada principal conferem ao edifício, e que


é o edifício ‘Almeida e Cunha’, licenciado em contrastam com a verticalidade da composição
1923. Se o seu projecto para o edifício ‘Soares de outros edifícios próximos como o do jornal
da Costa’ tem, como vimos, uma certa riqueza ‘O Comércio do Porto’. Não se compreende
compositiva, o mesmo não se pode dizer também a estreita porta no eixo de simetria,
do projecto para edifício ‘Almeida e Cunha’, comparada com as largas montras, e mais
situado no quarteirão seguinte. Se não lhe do que isso, com grandes zonas opacas que a
conhecêssemos o projecto do edifício ‘Soares da envolvem de um lado e do outro.
Costa’, poderíamos pensar que Soá não possuía
O sistema compositivo, em altura, também
o engenho que lhe permitisse estabelecer uma
é distinto do edifício ‘Soares da Costa’ e muito
regra compositiva para tão largo lote na Avenida
mais próximo dos edifícios de Moura Coutinho
e que por isso recorreu ao ‘esticar’ do que seria
e Carlos Mourão. Efectivamente, o esquema de
uma estrutura compositiva em cinco momentos,
composição de alçado é o mesmo que o edifício
numa simetria rígida, até que a mesma
‘Espírito Santo’ detém actualmente, após a sua [296]
conseguisse englobar a totalidade da largura o
ampliação para norte, mas com proporções e
lote. Porque efectivamente é esse o aspecto do [295] - Perspectiva da
elementos arquitectónicos muito distintos. Avenida dos Aliados
edifício, de uma fachada que se expande para na década de 1940.
além do que seria esteticamente recomendável, Em primeiro plano
Contudo, a opção de desenho de alçado o edifício ‘Almeida e
aspecto que se sente fundamentalmente no de Soá teve também outros reflexos, e este Cunha’, seguindo o
edifício ‘António Lopes’ e
torreão central, provocando um desequilíbrio é o primeiro edifício com uma marcada ‘O Comércio do Porto’.
geral do alçado. horizontalidade na composição, quer pela (Fonte: goo.gl/
nZidBH)
marcação da estereotomia da pedra, quer pela
Percebe-se que um programa comercial
proporção dos vãos, antecipando em décadas
como o do Café Monumental ou do Palácio Ford [296] - Edifício ‘Almeida
o que virá a ser a opção de Júlio de Brito no e Cunha’, 2013.
necessitava de amplas aberturas para montras, (VALE, 2013)
edifício construído a norte, para a companhia
e entrada das viaturas, e que isso determina
de Seguros Garantia. E é neste aspecto que
uma largura grande de vãos ao nível do rés-do-
encontramos paralelos entre os dois edifícios [297] - Pormenor de
chão. Mas o que não se entende é a deselegância cobertura, 2013.
de Soá para a Avenida, e na sua actuação, de uma
e o peso que os panos cegos que ladeiam a (VALE, 2013)
certa premonição intuitiva sobre os ‘caminhos’ [297]

289
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

[299] - Esquema
compositivo da
fachada do edifício
‘Almeida e Cunha’,
com grande
diversidade de tipos
[298] - Projecto para de vãos dos quais se
o edifício ‘Coats & destacam os grandes
Clarks’, de 1922. vãos horizontais.
(CMP, 1922) (BENTO, 2013)

que a arquitectura poderá seguir. de seguros Garantia, e onde actualmente se


localiza o espaço 1ª AVENIDA. Para este local
A janela horizontal, que será um dos 5
foi apresentado um projecto e um aditamento,
pontos postulados por Le Corbusier, é aqui
que contudo não chegou a ser construído [298].
utilizada, no primeiro e segundo andares, de
O lote original licenciado em 1922 corresponde
certa forma ainda mascarada por um reforço
apenas a cerca de metade do espaço ocupado
dos montantes da caixilharia de madeira que
pelo edifício Garantia, na zona do gaveto com
invoca a repartição tripartida, e vertical, dos
a Rua de Ramalho Ortigão, à data apenas ainda
pisos superiores, e do esquema compositivos
considerada como rua em projecto – do plano de
dos outros edifícios da mesma época.
Barry Parker – como pode ser visto no processo
Actualmente, o estado de degradação do edifício ‘Almeida e Cunha’ [301]. Interessante
e o aspecto atarracado deste edifício, apenas neste projecto não realizado é, em primeiro
o deixam perceber como uma mole escura na lugar, a sua localização já nesta zona da Avenida,
Avenida a que um rendilhado de coberturas mostrando que as primeiras intervenções
[300] - O processo de pilhagem dos torreões e mansardas. (VALE, 2013)
em pilhagem confere uma leveza e verdadeira na década de 20 foram feitas pensando que a
diluição em altura [300]. Se as pilhagens frente urbana se iria construir toda em muito
continuarem ao ritmo que se tem observado, pouco tempo, e não ao longo de quase quatro
um dia dos metais se passará à pedra e o edifício décadas como veio a suceder. Segundo aspecto
se esfumará perante os olhos de quem passa. interessante o facto de este projecto usar o
gaveto, enfatizá-lo do que é o ponto de vista
Para o mesmo quarteirão, e contempo- urbano, e contudo, ao nível da organização
râneo do edifício ‘Almeida e Cunha’, é o projecto espacial interna, o tratar quase como um espaço
do edifício para a instalação da conhecida sobrante, mesmo lá localizando a loja.
empresa de linhas ‘Coats & Clarks’, no gaveto
seguinte, correspondendo ao terreno que
[301] - Planta de implantação do edifício ‘Almeida e Cunha’, onde se vê a Rua de Ramalho Ortigão com a designação de ‘Rua em projecto’.
muito mais tarde será ocupado pela companhia (CMP & SOÁ, 1923)

291
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

Edifícios ‘Lima Júnior’, Montepio Geral e ‘Borges & Irmão’

Apesar das evidentes diferenças de representação destinava‑se, certamente, a


imagem e léxico decorativo, existe uma convencer o município da boa integração do
certa proximidade de esquema compositivo novo projecto com o edifício já construído,
entre o edifício ‘Soares da Costa’ e o projecto apesar das diferenças evidentes entre os
de Leandro de Morais para o conjunto do dois. Efectivamente, algumas relações são
gaveto do quarteirão fronteiro. Este grupo de estabelecidas entre a proposta e a preexistência.
edifícios, construídos na década de 20 e cujo O alinhamento do remate do ‘torreão’ norte do
licenciamento inicial correu em nome de Lima edifício do Banco é usado para definir o limite
Júnior e C.ia, Lda, corresponde a uma operação superior da fachada do novo edifício, uma linha
mista entre construção nova e corpos de ligação ondulada que liga vários frontões estilizados,
com alguns edifícios existentes na Rua Elias acima do qual apenas uma mansarda se coloca,
Garcia, reagrupando lotes preexistentes, num alinhando cumeeiras. O ritmo das marcações
novo parcelamento [306] [307]. Neste processo verticais é transposto para os primeiros
inicial, o edifício no gaveto estava destinado módulos da nova composição, respeitando, [302]
à Companhia Fiação e Tecidos de Alcobaça, ao nível do rés-do-chão, o alinhamento de
o central, à empresa Lima Júnior e C.ia, Lda bandeiras de portas, e zonas opacas superiores.
proprietários, e o mais a sul, ao Banco ‘Borges O eixo da composição é marcado quer por um
& Irmão’ (por aquisição). Posteriormente o lote módulo de maior largura, quer por um remate
do gaveto foi comprado pelo Montepio Geral de platibanda mais trabalhado e encimado [302] - Avenida dos
Aliados na década
para construir o seu edifício sede no Porto. por um pequeno telhado, semelhante aos dos de 30. Edifícios
Montepio Geral
torreões do ‘Banco Lisboa e Açores’. e Caixa Geral de
Por imposição da municipalidade, Depósitos, (CLÁUDIO
as novas construções estavam obrigadas a Este conjunto tem uma lógica compositiva & FOTO BELEZA,
1994)
um alçado de conjunto, que foi elaborado e que assenta, como o edifício ‘Soares da Costa’,
aprovado simultaneamente com o edifício numa alternância entre módulos distintos mas
central, o primeiro a ser licenciado. Nesse que, neste caso, acaba por ser mais elaborada, [303] - Avenida dos
Aliados nos dias
alçado de conjunto, que foi aprovado em principalmente no alçado da Avenida, mercê de hoje. Edifícios
Montepio Geral
1924, estava também representado o de uma execução faseada e necessidade e Caixa Geral de
edifício do ‘Banco Lisboa e Açores’, de Moura de considerar os vários lotes de diferentes Depósitos, 2013
(BENTO, 2013).
Coutinho, já construído nessa altura. [305]Esta larguras. No alçado da Rua do Dr. Magalhães [303]

293
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

[304] - Alçado sul da Rua do Dr. Magalhães Lemos e alçado este da Avenida dos Aliados.
Observam-se as alterações impostas no tratamento do gaveto.(PORTO VIVO, SRU, 2006)

Lemos, o último dos projectos a ser executado, se situam os núcleos de acessos, noticiados
já após a compra do mesmo pelo Montepio na fachada através de alguns elementos
Geral, há um certo retrocesso na modernidade compositivos.
da composição, com uma rigidez muito maior,
Relativamente ao edifício do gaveto,
numa simetria perfeita em relação ao eixo do
a venda ao Montepio Geral implica uma [305] - Alçado
alçado (que não engloba o cunhal). Igualmente conjunto do primeiro
reformulação do projecto para se adequar projecto de Leandro
o sentido de transparência do alçado para a
aos requisitos funcionais e de imagem da de Morais para a
Avenida foi substituído pela opacidade maior construção de três
instituição bancária. O primeiro projecto para o parcelas distintas,
das pilastras que contudo continuam a marcar o incluindo também
edifício do gaveto, quando o mesmo ainda era
mesmo ritmo vertical da fachada principal. [309] a representação
para a Companhia de Alcobaça, tem uma lógica do ‘Banco Lisboa e
Açores’, projecto de
Correspondendo a um processo compositiva mais próxima dos restantes, que se de Moura Coutinho.
de construção de um edifício central que altera na passagem para o Montepio. Contudo, (CMP & MORAIS,
1924)
se estende aos lotes laterais, a forma de essa diferenciação é apenas visível para uma [305] [306]

composição de alçado tem que conseguir observação mais atenta, no passar corrente das [306] - Cortes
respeitar esta necessidade, isto é, ser um todo e planta de
pessoas pela Avenida, na diluição que o tom
implantação da
coerente e permitir a individualização da de pedra envelhecido já confere ao conjunto, a parcela a ser
construído pelo
construção. Assim, se observarmos cada lote distinção entre lotes já se esbateu, e é um de um Banco ‘Borges &
individualmente, o alçado do mesmo continua único edifício que dobra o cunhal, o que se tem Irmão’, encerrando
a Viela dos
ainda a ter uma lógica de composição que faz a percepção. Congregados. (CMP &
sentido. No caso do edifício central, a mesma é MORAIS, 1924)
Nesse primeiro projecto [305], a solução
baseada numa simetria de um conjunto de cinco [306]
de remate do gaveto era muito distinta da [307] - Relação
módulos, todos eles com larguras distintas, entre o edifício
que veio a ser executada, com uma cúpula de
mas com definições estilísticas e de desenho preexistente e a
menor volume, e assente num tambor com ampliação feita para
idênticas. A percepção da individualidade do facejar a Avenida.
francas aberturas a toda a volta, numa relação Corte da parcela
lote esbate-se pela justaposição dos restantes
de proximidade evidente com o edifício do central (‘Lima
edifícios. No caso do edifício a sul, a métrica Júnior’), ao qual
gaveto adjacente, da Caixa Geral de Depósitos, corresponde a planta
de alçado assenta numa separação em três do piso térreo.
cujo projecto e construção decorria na mesma
módulos, dois de idênticas dimensões, e um (CMP&MORAIS,
altura. O projecto do Montepio Geral, apesar 1924)
terceiro, ligeiramente mais estreito, onde [307] [307]

295
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

de manter o que é a regra compositiva do caracterizava toda a proposta e determinava


conjunto, faz alterações que o vão aproximar, tratamentos idênticos para situações idênticas.
em termos de imagem volumétrica, do edifício
Paralelamente à edificação deste conjunto
‘Soares da Costa’. O diâmetro do tambor é
decorria o licenciamento e construção do único
aumentado, passando a abranger três módulos
lote ainda não realinhado neste primeiro tramo
compositivos, em vez de dois, ampliando
nascente da Avenida, o edifício ‘Moreno & C.ia’,
assim a dimensão da calote esférica que o
localizado entre os edifícios ‘Pinto Leite’ e ‘Banco
remata. A mesma é encimada por um elemento
Lisboa e Açores’. Projecto dos engenheiros
decorativo maciço que lhe confere um pouco
Arnaldo Casimiro Barbosa e Serafim Laínho
mais altura, tornando o desenho do conjunto
Barbosa, este edifício licenciado em 1926 é um
mais elegante, ao contrário do que sucede
dos poucos em toda a Avenida cujo projecto não
com o edifício ‘Soares da Costa’, onde a calote
é subscrito por um arquitecto. Laínho Barbosa
simples, a ausência do pináculo projectado, e a
estava, nesta altura, ligado ao projecto do Hotel [308] - Pormenores do conjunto edificado de Leandro de Morais. (BENTO, 2013)
cor escura que o reveste, o tornam mais pesado.
Peninsular, na Rua de Sá da Bandeira e Casimiro
Apesar da distinta percepção que se tem
Barbosa já projectara, no final da década de 10,
quando se olha o conjunto dos edifícios, existe
parte da Faculdade de Farmácia. Neste projecto,
uma paridade entre os dois lados da Avenida.
que se insere no conjunto de edifícios que devem
A mesma já tinha sido usada por Marques da
vir facejar o novo alinhamento da Avenida,
Silva nos edifícios de ’A Nacional’ e ‘Pinto Leite’,
assume-se a independência entre preexistência
é reafirmada aqui neste dois edifícios e será
e nova construção, pela interposição, nos pisos
posteriormente invocada pela municipalidade
superiores, de um saguão alongado, que faz a
como um requisito obrigatório, quando Rogério
separação efectiva entre as anteriores fachadas
de Azevedo inicia o projecto do edifício de
e as traseiras da nova construção. Apesar do
‘O Comércio do Porto’ no final da década de 20,
desenho único de alçado corresponde à junção
e apresenta o mesmo, ainda antes do respectivo
de três lotes, inicialmente de dois proprietários
licenciamento, para aprovação prévia da
distintos, situação que permanece a avaliar pelo
Comissão de Estética, como mais à frente
distinto estado de conservação das diversas
veremos. A mesma existia também no plano de
partes da fachada. [309] - Vista aérea sobre o primeiro quarteirão nascente da Avenida. Da esquerda para a direita o conjunto edificado de Leandro de
Parker mais não fosse pela imagem única que Morais, o ‘Banco Lisboa e Açores’, o edifício ‘Moreno & Ciª’ ­– com os seus três torreões, atribuindo maior enfâse ao central – e o arranque
do edifício ‘Pinto Leite’. (VALE, 2008)

297
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

Se considerarmos a totalidade da frente


nascente e poente deste primeiro tramo, foram
precisos 10 anos para que todos os processos
de licenciamento estivessem concluídos, sendo
que mais de 80% se encontravam licenciados
nos primeiros cinco anos. Uma dinâmica forte
que garante uma certa homogeneidade de
tratamento de fachadas, recursos estilísticos e
elementos decorativos. O ritmo de realização
foi distinto dos dois lados, o que correspondeu
à construção de raiz e, portanto, ao maior
investimento foi, contudo, o mais rápido. De
certa forma assistimos a dois mecanismos
diferentes, um de atratividade de ‘novos
proprietários’ no deslocamento de funções de
outras áreas para a nova zona representativa
da cidade, em contraponto com alguma
inércia dos proprietários dos edifícios da Rua
de Elias Garcia, que perante a alteração ficam
divididos entre o aumento de valor do imóvel,
e os encargos a que ficaram obrigados.

[310] - Paridade de tratamento entre os dois lados da Avenida.


Com remate em tambor o edifício Montepio Geral, do lado
esquerdo, e o edifício ‘Soares da Costa’, do lado direito. Ao fundo,
com torreões e pináculos, o edifício ‘Pinto Leite’ e ‘A Nacional’.
(BENTO, 2013)

299
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

O PERÍODO ENTRE GUERRAS


O ALINHAMENTO PASSOS MANUEL E O SEGUNDO TRAMO
DA AVENIDA

“Quanto aos meus quadros picturais, já, no


que deixo dito, eu chamei indirectamente a
atenção para muitos deles. (…) Mais dois são
estabelecidos sobre os eixos dos dois ramos da
Rua de Passos Manuel, os quais terminam nas
torres de ângulo a construir nos cunhais das
edificações.”

(Parker, 1915:9)

Apesar de, logo no início da década de 20,


os edifícios ‘Soares da Costa’ e o projecto para o
cunhal onde viria a ser construído o Montepio
Geral, já conformarem dois dos gavetos que
definiriam o cruzamento do alinhamento
Passos Manuel com a Avenida dos Aliados, no
seguimento do que era a proposta de Parker, os
mesmos correspondiam essencialmente ainda
a um encerrar do processo de edificação do
primeiro tramo da Avenida, com uma dilação
considerável entre o tempo de projecto e a
concretização efectiva.

O segundo tramo da Avenida dos Aliados, 2013. (BENTO, 2013)

301
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

[311] - Fotografia Alvão


da Rua de Passos Manuel
para o alinhamento com
a actual Rua de Elísio de
Melo e a futura Praça de
D. Filipa de Lencastre.
(ALVÃO, 1984)

Em 1921 corriam os processos de


expropriação que iriam permitir a abertura
do alinhamento Passos Manuel. Estas
expropriações do lado nascente, com processo
iniciado ainda em 1915, diziam respeito não
apenas aos edifícios que passariam a fazer parte
do leito do novo arruamento, mas também
englobavam os edifícios imediatamente a norte,
na zona onde se viria a instalar a Caixa Geral de
Depósitos e o Jornal de Notícias [311][312].

Do lado poente da Avenida, os


condicionantes da abertura do alinhamento [312] - Planta Cadastral “de expropriação de um grupo de casas
foram menores, uma vez que a expropriação para a concordância da Rua de Passos Manoel com esta Avenida”
(Avenida das Nações Aliadas) - Processo de expropriações
foi feita de forma sistemática, não distinguindo para abertura da ‘Rua de Passos Manuel’ – Actual Rua do Dr.
Magalhães Lemos. (AHMP cota: D-CMP-20-46-5)
praticamente futuro leito de rua ou lote
privado. Contudo, pelo ritmo dos processos dos
edifícios, e pelas fotografias da época, se percebe
que a efetivação e construção marginal do
alinhamento foi mais demorada no lado poente
do que do lado nascente, mercê certamente
do carácter de promoção pública dos edifícios
[313] - (À direita)
deste lado, a Caixa Geral de Depósitos e o Teatro Fotografia actual - Vista
Rivoli. geral sobre os quatro
gavetos na Avenida dos
Aliados e o alinhamento
da Rua de Passos Manuel.
(BENTO, 2013)

303
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

[314] - ‘Alinhamento Passos Manuel’


– Rua do Dr. Magalhães Lemos e Rua
de Elísio de Melo - Alçado Actual e
comparativo em baixo à mesma escala

[315] - O ‘alinhamento Passos Manuel’ na


proposta de Parker. Adaptação (AHMP,
cota: 9D-CDT-A4-009)

[316] - Detalhe da planta no projecto


para a Avenida da Cidade de Barry
Parker publicado em ‘The Builder’ 1916.
(TAVARES, 1985/86)

305
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

[317] - Avenida dos


Aliados na Década de 30,
edifícios Montepio Geral e
Caixa Geral de Depósitos.
(CLÁUDIO & FOTO
Caixa Geral de Depósitos e o Teatro Rivoli BELEZA, 1994)
[317]
[318] - Gavetos da Rua
do Dr. Magalhães Lemos
com a Avenida dos
Aliados, com o notório
É ainda na década de 20 que é construído um diálogo com os edifícios vizinhos, por um desequilíbrio entre o
edifício da Caixa Geral de
o edifício da Caixa Geral de Depósitos, com respeitar, mesmo parcial, de alinhamentos, de Depósitos e do Montepio
projecto de Porfírio Pardal Monteiro. Depois do alguns ritmos ou métricas, este edifício não Geral. (LIMA, 2013)

projecto não realizado para o primeiro gaveto tece qualquer relação com os restantes. Em sua
[319] - Gaveto do
de Avenida dos Aliados, que acabou construído defesa, o facto de o quarteirão em que se inseria edifício da Caixa Geral
para ‘A Nacional’, a Caixa compra o terreno ainda não estar a ser edificado, mas as queixas de Depósitos. (BENTO,
2013)
do gaveto nordeste do alinhamento Passos da própria municipalidade de desrespeito
Manuel, e encomenda a Pardal Monteiro, como pelo que era solicitado mostram que a opção [320] - Relação do
edifício da Caixa Geral de
arquitecto da própria instituição, o projecto foi consciente. Edifício mais baixo que a Depósitos com a empena
do edifício sede no Porto, que contrasta com generalidade das construções da Avenida tem adjacente. (LIMA,
2013) [318
todas as outras intervenções já executadas na apenas quatro pisos quando todos os restantes,
Avenida. Apesar da marcação de verticalidade quase sem excepção, têm seis pisos, ainda que
feita pelas grandes colunas que pontuam o sexto seja já mansarda, pela diferente cércea
toda a fachada, o edifício tem uma imagem deixa livre a leitura da empena do edifício a
pesada e muita dificuldade em estabelecer norte. Contrariamente também aos restantes,
relações com os outros edifícios, os existentes a leitura do seu telhado é cortada por uma
e alguns deles ainda não construídos, mas já pesada platibanda, reduzindo ainda mais a
definidos por um alçado de conjunto, como o percepção de altura [320]. E no remate do gaveto
grupo imediatamente a norte, com projecto de - o elemento arquitectónico escolhido como
Marques da Silva [318]. definidor do carácter da Avenida – respeita-se
a ideia de cúpula, mas de uma forma estilizada
Esta é uma intervenção que se assume
e contida, que contrasta com todos os outros
como um corte, em relação à envolvente
tipos propostos, ou as flamejantes do arranque
próxima, mas também em relação à
sul da Avenida, ou as mais gordas calotes dos
imagem representativa preconizada pela
gavetos seguintes [319].
municipalidade. Se nas outras intervenções,
com menor ou maior qualidade, existe sempre

[319] [320]

307
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

[322] - Vista actual para o gaveto do edifício da [323] - Entrada do edifício da Caixa Geral de Depósitos. (LIMA, 2013) [325] - Vista geral da entrada principal [326] - Vista do nártex para o átrio - [327] - Átrio do edifício da Caixa Geral de
Caixa Geral de Depósitos. (LIMA, 2013) e nártex do edifício da Caixa Geral de edifício da Caixa Geral de Depósitos Depósitos com vista para o nártex. (LIMA,
Depósitos. (BENTO, 2013) (BENTO, 2013) 2013)
[321] - (página anterior) - fotografia com vista
para um conjunto de gavetos, estando no 1º
plano o edifício da Caixa Geral de Depósitos.
(VALE, 2013)

Mas se o edifício exteriormente é pesado


e desinteressante, no interior outro mundo
se desvenda. Influenciado pela exposição de
artes decorativas de 1925, Pardal Monteiro
experimenta uma gramática ‘Art Déco’ no seu
interior, num desenho cuidado e consequente,
que relaciona os diversos espaços e os vários
pormenores decorativos. O que no exterior é
corte, no interior é integração [323][325].

Na distribuição interna nota-se algumas


semelhanças com a proposta inicial de
Marques da Silva para o edifício ‘Pinto Leite’,
na forma como se dirige o percurso por uma
sequência de átrios, percebendo-se contudo
que aqui os espaços envolventes são ainda
espaços representativos e públicos da grande
instituição bancária nacional, enquanto no
‘‘Pinto Leite’’ correspondem já a espaços de
trabalho, privados [326] a [329].
[324] - Planta do rés-do-chão e alçado sul, da Rua de
Passos Manuel, do edifício da Caixa Geral de Depósitos. [328] - Átrio do edifício da Caixa Geral de Depósitos - vista para [329] - Átrio do edifício da Caixa Geral de Depósitos - vista da
(Fonte: goo.gl/OSjb8X) a porta do nártex. (BENTO, 2013) clarabóia. (BENTO, 2013)

311
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

[330] - Projecto do Teatro Nacional (onde hoje se localiza o [331] - (à direita) Sobreposição dos alinhamentos actuais e o
Rivoli) de 1912. (CMP & MAIA, 1912) cadastro do Teatro Nacional sobre a planta de 1892, de Telles
Ferreira.

Na mesma altura começava-se o projecto construção deveria ser equacionada. Naquele


do que viria a ser o Teatro Rivoli, na continuidade local existia desde 1913 o Teatro Nacional, com
urbana com o edifício Caixa Geral de Depósitos, acessos a partir da Rua do Bonjardim e da Rua
à margem ainda do novo arruamento aberto na de Elias Garcia. De referir que nos quarteirões à
sequência da implementação do plano Parker. volta da antiga Praça de D. Pedro existiam, desde
Este edifício, da autoria de Júlio José de Brito, o final do Século XIX, diversos equipamentos
corresponde a uma reformulação do Teatro ligados ao lazer, de que os teatros seriam os
Nacional que existia no quarteirão entre as Ruas mais representativos. A poente da Praça de D.
do Bonjardim e de Elias Garcia, determinada Pedro existiam (ou tinham existido) o Teatro
fundamentalmente pela continuação de Baquet, o Teatro Sá da Bandeira (que também
abertura do alinhamento Passos Manuel, e a teve a designação de Príncipe Real), o Teatro
oportunidade da construção de uma frente S. João e o Cinema Olympia. A norte da Praça,
urbana com a dignidade que o programa o presente Teatro Nacional, um outro Teatro
deveria merecer [330][331]. do Príncipe Real, um projectado (não sabemos
se construído) Teatro da Rainha, e ainda o
À semelhança do projecto de Oliveira
Cinematógrafo Jardim da Trindade (hoje o
Ferreira para ‘Os Fenianos’, e da quase
Bingo da Trindade), como percursor de muitos
totalidade dos edifícios do lado nascente da
cinemas que durante algumas décadas irão
Avenida, o projecto do Teatro Rivoli conta com
existir na baixa da cidade.
uma preexistência, cuja incorporação na nova

313
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

[332] - Projecto inicial


para o Teatro Rivoli de [334] - Fotografia do Teatro Rivoli antes da alteração da platibanda, da [335] - Fotografia do Teatro Rivoli depois da alteração
Júlio de Brito, propondo época da inauguração - 1925/32. (CLÁUDIO & FOTOGRAFIA BELEZA, da platibanda, para ser vista dos vários eixos, com a
a intervenção sobre 1994) abertura da Praça de D. João I, década de 40. (CLÁUDIO &
o Teatro Nacional FOTOGRAFIA BELEZA, 1994)
existente. De cima para
baixo - alçado com o
gaveto e planta do Rés-
do-chão. (CMP & BRITO,
1936)

O edifício do Teatro Nacional possuía Na primeira proposta, a localização e a


uma sala já com dimensões aceitáveis, pelo que configuração da sala implicavam a colocação
a primeira hipótese colocada para o projecto do acesso principal no novo eixo aberto, o que,
do Teatro Rivoli passa pela manutenção dessa nesses primeiros anos da década de 20 também
sala e um construir à volta para respeitar a se deveria afigurar adequado, contudo com
necessidade de novas fachadas que a abertura uma pequena profundidade o que o conformava
do alinhamento Passos Manuel tinha vindo mais como um corredor, onde se localizavam
determinar. Contudo os estudos devem ter as bilheteiras, e que dava acesso aos dois
demonstrado que tal opção seria sempre um conjuntos de escadas, um em cada topo. Para
remendo, uma solução de segunda categoria o gaveto tinha sido remetido um café, função
e o que era necessário seria um teatro que importante do ponto de vista da sociabilização,
respeitasse os pressupostos modernos, de mas que funcionava independentemente do
conforto, e de imagem representativa. Se Teatro, sem ligações internas [332].
as questões de imagem urbana são sempre
Assim, na segunda proposta para o
importantes, quando estamos perante
Teatro Rivoli, Júlio de Brito parte já para uma
equipamentos ligados ao lazer, as mesmas
[333] - Segunda versão reformulação completa do espaço do lote que
com projecto de raiz para praticamente tomam a dianteira do processo
o Teatro Rivoli de Júlio de passa mesmo pela mudança de orientação
de decisão, pois a moda dita os usos, e o sucesso
Brito. De cima para baixo da sala, sua forma e dimensão. A sala com
- alçado com o gaveto e ou não deste tipo de equipamentos.
planta do Rés-do-chão. os seus corredores laterais passa a ocupar a
(CMP & BRITO, 1936)
totalidade da largura disponível, num desenho

315
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

[336] - Fotografia geral [337] - Fotografia, com detalhe para o gaveto do lado da Praça
para o gaveto do Teatro de D. João I, do Teatro Rivoli na actualidade, após a remodelação
Rivoli, na actualidade, de Pedro Ramalho em 1997. (LIMA, 2013)
após a remodelação de
Pedro Ramalho em 1997.
[338] - Fotografia com detalhe para o desenho das caixilharias.
(BENTO, 2013)
(LIMA, 2013)

simétrico que apenas é desfeito nas zonas em a praticamente toda a fachada para a Rua do porque a proposta tinha já a flexibilidade e
que é preciso relacionar-se com a forma do Bonjardim, num compartimento de forma versatilidade para a aco-modar, relativamente
terreno. Esta proposta permite uma maior trapezoidal, que permite regularizar a planta ao que são as perspectivas mais distantes sobre
dignificação do espaço de átrio, e uma maior do restante edifício, facilitando a simetria da o imóvel, a abertura da Praça tornou visível
racionalidade de acessos, uma vez que agora a composição pretendida. Nesta formulação, um conjunto de telhados que não resultavam
entrada principal será pela Rua do Bonjardim já o átrio principal assume uma dimensão e de forma esteticamente mais agradável, e que
que, com a abertura da Avenida dos Aliados, o caracter de dignificação, enfatizado pela forma levaram Júlio de Brito a fazer uma alteração ao
Teatro anterior acabou por perder o acesso que regular, pé direito mais elevado e pelo jogo de projecto, que passou pela elevação da platibanda
possuía do lado poente, na Rua de Elias Garcia, mezaninos ligados aos sistemas de acessos, no cunhal (aproveitando para a inclusão de
cujo lote correspondente acabou englobado no numa composição cuja racionalidade contrasta um baixo-relevo de Henrique Moreira) numa
terreno que a Caixa Geral de Depósitos adquiriu com a resolução casuística da primeira composição que acabou por dar mais força
[333]. proposta. a uma entrada pelo cunhal do edifício, numa
marcação/manifestação simétrica [334][335].
Neste projecto, mas de uma forma distinta Já após o terminus da construção e
face às diferentes condições e programa, inauguração do Teatro Rivoli (19 de Janeiro de A remodelação do Teatro por Pedro
Júlio de Brito usa a mesma hierarquização de 1932) é decidida e concretizada a abertura da Ramalho, nos anos 90, acabou por diluir um
acessos de outros dos edifícios da Avenida, de Praça de D. João I, como referido na parte 2. Se pouco a força dessa simetria do tratamento do
um jogo de átrios seguidos, numa gradação do ponto de vista do carácter representativo cunhal, pelo aumento do nível de coberturas
de níveis de acesso público. Neste caso, não e funcionalidade dos acessos, esta inflexão do e platibandas, nas zonas imediatamente
partindo de uma marcação que se faz apenas que era a perspectiva principal sobre o edifício, próximas, aproximando-se mais, em termos
no cunhal (que fazia sentido em edifícios como passando do gaveto para uma direcção frontal abstratos, da solução da década de 30 [336].
os dos gavetos da avenida) mas que se estende à fachada nascente, não levanta problemas

317
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

Jornal e Garagem de ‘O Comércio do Porto’

Ainda no alinhamento Passos Manuel, Michelangelo Soá, que, como vimos, uma década
como os dois projectos anteriores, localizam- antes projetara o edifício ‘Soares da Costa’, já
se os edifícios da sede do Jornal ‘O Comércio mencionado, e o edifício ‘Almeida e Cunha’,
do Porto’ e da garagem com o mesmo nome neste mesmo quarteirão, apenas com um lote de [339] - Perspectiva do gaveto com o edifício do Jornal de ‘O [340] - Fotografia com os edifícios da Garagem e do Jornal de
Comércio do Porto’. (GRAVATO, 2004) ‘O Comércio do Porto’, ainda com estaleiro na Rua de Elísio de
– o Jornal no gaveto da Avenida dos Aliados permeio. Ambas as preexistências condicionam Melo. (GRAVATO, 2004)
com a Rua de Elísio de Melo e a garagem no o projecto de Rogério de Azevedo, o edifício
gaveto desta com a Rua do Almada. O Jornal ‘Soares da Costa’, pelo diálogo necessário entre
é o primeiro a ser licenciado, com projecto gavetos adjacentes da Rua de Elísio de Melo e
de Rogério de Azevedo e Baltazar de Castro. o segundo, o ‘Almeida e Cunha’, de uma forma
Apesar da licença ser emitida em 1930, nessa mais sensível, porque implicou mesmo um
altura já decorria a construção do edifício, e as aditamento ao projecto de ‘O Comércio do
rotativas para a impressão do jornal estavam Porto’, para concordância de cérceas, com a
montadas e funcionais desde 2 de Junho de inclusão de um piso de mansarda.
1929, tenho sido usadas pela primeira vez na
O edifício do Jornal, numa linguagem que
comemoração das bodas de diamante do Jornal
cruza influências ‘Art Déco’ com expressionismo,
─ aproveitando a data, fez-se também a bênção
tenta responder de uma forma qualificada ao
solene e a inauguração do edifício ainda não
que eram os requisitos de edificação na Avenida
totalmente concluído [339][340].
dos Aliados, de monumentalidade e materiais
De mencionar que o prolongamento da a utilizar, decorrentes ainda do regulamento
Rua de Elísio de Melo para poente da Rua do do ‘Prémio de Honra da Cidade do Porto’.
Almada é aprovado em Maio de 1929, vindo A composição assenta numa verticalidade
conferir ao arruamento uma maior importância, marcada por “pilares que vão debaixo ao alto
uma vez que o torna efectivamente um do edifício” (CMP & Azevedo, 1930) rematada
atravessamento. À data deste projecto, Rogério superiormente por uma primeira linha de um
de Azevedo era professor na Escola Industrial entablamento, onde pequenas janelas fazem
D. Henrique, onde também fora professor o papel de métopas, e são rematadas por um [341] - Vestíbulo do edifício do Jornal de ‘O Comércio do Porto’, [342] - Vista para o vestíbulo, do ‘hall’ de entrada do edifício
na actualidade. (BENTO, 2013) do Jornal de ‘O Comércio do Porto’, na actualidade. (BENTO,
2013)

319
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

[343] - Edifício do Jornal de ‘O Comércio do Porto’, vista para o entablamento [344] - Edifício do Jornal de ‘O Comércio do Porto’,
(LIMA, 2013) detalhe do entablamento (LIMA, 2013)

frontão estilizado. Acima, uma cobertura (uma impossível) simetria com o edifício da
amansardada, que apareceu para dar resposta Caixa Geral de Depósitos de Pardal Monteiro, se
aos requisitos da Comissão de Estética de um vê obrigado de alterar a concepção do cunhal,
alinhamento altimétrico com o projecto de Soá, mas não poupando uma alfinetada certeira
mas também, embora não tivesse sido usado referindo que procurou “uma arquitectura
como justificação, com a maioria dos restantes sóbria de linhas e que embora simples não desse
edifícios já construídos [343][344]. aos que passam o ar de minguados recursos,
como acontece a muitos prédios, mesmo aqueles
O elemento compositivo determinante
em que o labor dos canteiros supriu a imaginativa
do conjunto é a solução do cunhal, um corpo
do arquitecto”. (CMP & Azevedo, 1930)
de planta circular que remata com um torreão.
“Esta construção erguer-se-ia num dos pontos No exterior faria uma composição entre
mais em evidência da Avenida dos Aliados. Por duas qualidades de granito, “os feixes onde
este motivo, sugeriu-se para o torreão, a ideia, as figuras assentam em granito de S. Gens e as
de nele estabelecer um holofote que ficaria com partes laterais no tom dourado da Caverneira.
as características de vigia de um farol, o que não Os gradeamentos seriam lisos e direitos com [345] - Aditamento ao
projecto com o alçado
brigava com a arquitectura adoptada. Este ponto pequenas aplicações adequadas e sem grande do edifício do Jornal de
luminoso seria para efeito de reclame. Com esta exagero para não tirarem a importância às ‘O Comércio do Porto’,
de Rogério de Azevedo
disposição era permitido à pessoa que dirigisse cantarias. A exuberância do ferro prejudicaria a (CMP & AZEVEDO,
os movimentos de luz estar completamente pedra”. (CMP & Azevedo, 1930) 1930)

abrigada em casos de tempo chuvoso”. (CMP &


Interiormente o edifício possuía uma [346] - Aditamento ao
Azevedo, 1930)
projecto com a planta de
espacialidade interessante, numa composição
rés-do-chão do edifício
Contudo o que vemos construído não que assentava num eixo de simetria do Jornal de ‘O Comércio
do Porto’, de Rogério
corresponde à primeira intenção de Rogério determinado pela bissectriz do ângulo do de Azevedo (CMP &
de Azevedo que, por necessidade de respeitar gaveto, numa composição, como vimos, comum AZEVEDO, 1930)

321
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

[348] - Demolições para


a abertura da Praça de
D. Filipa de Lencastre,
com a Garagem de ‘O
Comércio do Porto’ em
[347] - Detalhe dos vitrais ainda existentes no interior do segundo plano. (Fonte:
edifício do Jornal de ‘O Comércio do Porto’. (BENTO, 2013) goo.gl/ZTnkw1)

a outros gavetos. Contudo neste projecto, pela riqueza interna do edifício, que muitos Ainda de Rogério de Azevedo é o edifício ser o espelho da juventude do motor de explosão,
Rogério de Azevedo para além de apostar erradamente julgam que apenas se define da garagem de ‘O Comércio do Porto’, exemplo tendo dum lado o utilitarismo prático do edifício
na coincidência do eixo de simetria com o pelas superfícies parietais e sua decoração, percursor de modernidade na cidade do Porto. e do outro a amplidão das instalações sanitárias
percurso de acesso ao edifício, coloca sobre esquecendo que os espaços, relações entre os Implantado no mesmo quarteirão do edifício donde possa resultar o máximo rendimento, pois
o mesmo a enfática escada que faz ligação ao mesmos, suas proporções, jogos de iluminação, anterior, no gaveto com a Rua do Almada, neste que enquanto a cocheira abrigava os carros de
piso superior. Nos pisos seguintes a escada relações entre privacidade ou exuberante projecto, Rogério de Azevedo aposta numa um, a ‘garage’ abriga os carros de muitos.”(CMP
é deslocada para um dos espaços laterais, de publicitação, são elementos mais determinantes linguagem modernista para um dos novos & Azevedo, 1932)
forma sensivelmente triangular, e o desenho do carácter de um edifício, e por conseguinte programas que o progresso trouxe. A imagem
A garagem ocupa apenas parcialmente
de degraus é interessante porque conduz o de uma cidade, do que quaisquer elementos é depurada, numa composição assimétrica, e
o edifício, correspondendo à cave, 1º, 2º e 3º
movimento numa helicoidal praticamente decorativos que se mantenham, visíveis ou num desenho de assumido funcionalismo na
pisos, com comunicações verticais por “rampa
contínua, por degraus quase nunca paralelos. O camuflados em neutralizadoras pinturas. objectiva expressão da estrutura e da tipologia,
de rolagem ou pelas escadas e ascensores dos
espaço da escada central fica assim liberto para Transformar um edifício como era o de ‘O tanto no interior como em alçado. Apesar de
extremos “na relação com os lotes vizinhos. Nos
um vazamento que conduz a luz desde uma Comércio do Porto’ num ‘open space’, retirando apenas licenciado em 1933, o processo inicia-
dois últimos pisos e na mansarda localizam-se
clarabóia cinco pisos acima, fazendo lembrar o tudo que eram partições internas, definições se em 1929, quando já decorria o licenciamento
os “escritórios independentes, tendo cada um a
amplo átrio de ‘A Nacional’ [345][346]. espaciais, alterando a conformação e localização e a construção do edifício do Jornal [349][351].
sua retrete privativa” (CMP & Azevedo, 1932)
de escadas, destruindo o jogo de múltiplos pés-
A intervenção efectuada na década de O programa de uma garagem colectiva [352][353].
direitos, significou a destruição do seu carácter,
90, depois da aquisição do edifício pelo BANIF era ainda uma novidade, de tal forma que
transformando-o num contentor, numa perda Mas apesar da imagem moderna, a nível
deixou praticamente ilegível a vida anterior do Rogério de Azevedo tem necessidade de o
irrecuperável para o património da cidade. construtivo ainda há manutenção de alvenarias
edifício. À semelhança de outras intervenções explicar. “(...) A feição moderna da ‘garage’ que
de pedra. Como é referido na memória descri-
nesta zona da cidade, não existiu um respeito nada tem de comum com a antiga cocheira, deve
tiva, “todo o edifício seria construído em ‘béton’

323
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

[349] - Vista actual do gaveto da Garagem de ‘O [350] - Alçados do Projecto para a Garagem de ‘O Comércio do [351] - Planta topográfica onde se assinala a área de
Comércio do Porto’. (BENTO, 2013) Porto’. (CMP & AZEVEDO, 1932) implantação da Garagem de ‘O Comércio do Porto’. (CMP
& AZEVEDO, 1932)

armado (…), sendo as fachadas levantadas em Esta nova posição irá determinar que
granito para revestir a massa. Sobre as portas o mesmo passe a ter apenas duas frentes
de entrada da ‘garage’ aproveitando uma ortogonais entre si, já que o espaço que seria
grande superfície da parede, seria desenhado em o logradouro, agora com frente para a Rua de
parcelas o mapa das estradas de Portugal feito Elísio de Melo, será usado para a construção
com pequenas pedras escuras.”(CMP & Azevedo, de um outro edifício, projecto também de José
1932) [350]. Emílio da Silva Moreira. O licenciamento destes
dois edifícios é temporalmente muito próximo,
Este edifício, conjuntamente com
contudo, a nível de imagem, a diferença é
o do gaveto oposto, da autoria de José
sensível. Enquanto o primeiro dos edifícios
Emílio Moreira, correspondem às primeiras
a ser construído, o do gaveto, ainda tem uma
construções na Rua do Almada, em lotes que
linguagem eclética, conquanto simplificada, com
resultaram das demolições necessárias para a
uma marcação muito forte do embasamento e
concretização do Plano Parker. Mas, enquanto
do elemento central de composição, no segundo
o lote ocupado pela garagem já corresponde
edifício Silva Moreira usa já uma depuração de
a uma parcela com uma boa área, o gaveto
linhas que faz lembrar os edifícios da escola
oposto corresponde apenas a um lote estreito
de Chicago, com uma assumida verticalidade
portuense, de dimensão idêntica a outros que se
e ritmo constante de vãos. Se no edifício do
[352] - Planta do rés-do-chão do projecto da Garagem de ‘O [353] - Planta do 3º e 4º andares do projecto da Garagem de ‘O
mantém na Rua do Almada, e que, pela abertura
gaveto ainda existe uma clara noção de uma Comércio do Porto’. (CMP & AZEVEDO, 1932) Comércio do Porto’. (CMP & AZEVEDO, 1932)
da nova rua, passou a fazer gaveto [348][355].

325
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

[354] - Planta topográfica com a implantação do lote para o edifício de [355] - Fotografia actual do edifício gaveto de [357] - Projecto do edifício do gaveto de Silva Moreira, com fachada para a ‘Rua de [358] - Planta do rés-do-chão e 3º andar do
Silva Moreira na “Rua Passos Manoel (prolongamento) e angulo da Rua do Silva Moreira, entre a Rua de Elísio de Melo e a Passos Manoel (prolongamento)’ e para a Rua do Almada. (CMP & MOREIRA, 1930b) Projecto do edifício de Moreira Ramalhão.
Almada” onde também se vê o lote adjacente para construção, do mesmo Rua do Almada (BENTO, 2013) (CMP & MOREIRA, 1930b)
arquitecto. (CMP & MOREIRA, 1930b)

divisão tripartida em altura, o edifício central


aposta numa repetição de vãos que se estende à
altura total do edifício. Uma mansarda, incluída
num aditamento posterior, não contraria essa
verticalidade, antes lhe confere um fundo
contra a qual a mesma se destaca. Verticalidade
também marcada pelo ritmo de repartição dos
caixilhos da janela, e da própria textura, em
riscado vertical, dos panos de peito de cada
uma delas. Decoração que se cinge, quase
exclusivamente, a alguns elementos ao nível da
platibanda [354][356].

A distribuição interna destes edifícios


é muito simples, resultado da tentativa de
[356] - Fotografia actual do edifício, de Silva [359] - Projecto com a fachada principal do edifício de Silva Moreira, na Rua de Elísio
adequar vários programas a um lote com muito Moreira, na Rua de Elísio de Melo. (BENTO, de Melo e corte transversal. (CMP & MOREIRA, 1930a)
pouca profundidade e apenas uma frente. Uma 2013)

caixa de escadas que tanto serve escritórios


como os dois pisos de uma mesma habitação,
remetida para o canto posterior, e um corredor
que corre encostado ao limite posterior do
lote e que distribui para todos os espaços,
escritórios nos pisos de escritórios e quartos e [360] - Projecto com as plantas do rés-do-
chão, 4º andar, 3º andar e 2º andar do edifício
sala nos pisos de habitação [357] a [360]. de Silva Moreira, na Rua de Elísio de Melo.
(CMP & MOREIRA, 1930a)

327
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

Edifício ‘Imperial’

Numa linguagem arquitectónica que equilibrar aspectos diversos, entre a distribuição


junta referenciais ‘Arte Déco’, modernistas, mas dos estabelecimentos comerciais, escritórios,
que, pela escala, regularidade e verticalidade do e das próprias habitações, dividido em muitas
desenho, também lembra os edifícios da escola fracções com poucos compartimentos cada,
de Chicago, [364] é licenciado em 1934 o edifício que se organizam maioritariamente à volta de
‘Imperial’, com projecto de Artur Almeida 2 átrios por piso, com diferentes dimensões.
Júnior. Este edifício corresponde também a Estes átrios, apesar de internos, pretendem ser
uma simplificação da linguagem decorativa entendidos como um saguão que se reparte em
de alçado dos edifícios que conformam o novo altura, pela colocação dos pavimentos em tijolo
centro cívico, que já se começara a apontar na de vidro, que assim garantem alguma passagem
sede do Jornal ‘O Comércio do Porto’ de Rogério de luz desde a clarabóia colocada ao nível da
de Azevedo, licenciado em 1930. cobertura [367] a [370].

Localizado entre os edifícios do BNU de Entre o projecto e a construção, denotam-


Ernest Korrodi no gaveto sudeste da Praça e o se algumas diferenças, em que a maior será a
edifício de Rogério de Azevedo, é construído, inversão do sentido da escada geral do edifício
à semelhança dos anteriores, sobre a antiga que acaba por condicionar de forma negativa
implantação da ala de dormitórios do convento o desenho do rés-do-chão, designadamente o [361] - Postal do final
dos Congregados [361]e, de certa forma, o ritmo acesso a partir da Praça aos pisos superiores. dos anos 20 (edição J.O.)
com a fachada oriental
vertical marcado pelas pilastras e envidraçados da Praça da Liberdade.
Neste edifício funcionou durante muitos (DIAS & MARQUES,
na fachada, lembra o ritmo vertical e constante
anos um dos cafés emblemáticos da cidade do 2002)
desse antigo alçado. E, na própria forma como
Porto, o café ‘Imperial’. Café no sentido mais
se divide a planta, organizada em dois módulos [362] - Fotografia actual
luxuoso e abrangente da primeira metade do
de largura diferente [365][366], e ocupação parcial com a fachada oriental
século XX, como um espaço social por excelência da Praça da Liberdade.
do meio do quarteirão, se pode reconhecer (VALE, 2013)
em que se conjugavam outras valências, como
divisões do anterior edifício [370].
fossem o salão de jogos, o salão de festas e o [363] - Fotografia de
Este é um projecto que em toda a restaurante [363]. 1982 ainda com o café
‘Imperial’ (DIAS &
composição foge da simetria, e procura MARQUES, 2002)

329
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

[364] - Fotografia actual do entablamento do edifício ‘Imperial’ e relação com os [366] - Fachada principal do edifício ‘Imperial’, [368] - Corte transversal ‘AB‘ do edifício [369] - Corte longitudinal ‘CD‘ do edifício
edifícios adjacentes. (BENTO, 2013) projecto de Almeida Júnior. (CMP & JÚNIOR, ‘Imperial’, projecto de Almeida Júnior. (CMP & ‘Imperial’, projecto de Almeida Júnior.
1934) JÚNIOR, 1934) (CMP & JÚNIOR, 1934)

[365] - Fotografia actual do edifício ‘Imperial’ onde são visíveisos arcos da [367] - Projecto do edifício ‘Imperial’ de [370] - Projecto do edifício ‘Imperial’ de Almeida Júnior -
fachada. (BENTO, 2013) Almeida Júnior - planta de rés-do-chão para o planta do 2º, 3º e 4º andares e planta do 5º andar. (CMP &
qual se abre um mezzanino. (CMP & JÚNIOR, JÚNIOR, 1934)
1934)

331
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

O Conjunto de ‘O Jornal de Notícias‘

Constituindo os edifícios do Montepio lotes dão entrada entre 1927 e 1932, o último
Geral e Caixa Geral de Depósitos excepções correspondendo ao edifico da Lutuosa que não
à forma de construção da frente nascente da estando inserido no Alçado de Conjunto inicial
Avenida, com o conjunto em que se engloba a ele se resolveu subordinar.
‘O Jornal de Notícias’ volta-se ao processo de
Marques da Silva estabelece um ritmo
cerzimento entre as edificações da Rua de Elias
de marcações verticais que são assinalados,
Garcia e os novos alinhamentos da Avenida da
de forma maior e excêntrica, pela fachada do
Cidade [371].
edifício de ‘O Jornal de Notícias’, à qual é aposto,
O Conjunto VI, sujeito a um alçado de do lado direito, uma fachada mais neutra, e
conjunto da autoria de Marques da Silva, do lado esquerdo um conjunto de ritmos de
corresponde à junção de cinco lotes – a que mais vãos mais estreitos, pilastras, e marcações
tarde se junta um sexto – numa composição secundárias. Se no projecto de Leandro de
única de alçado, e numa imagem que não Morais ainda era possível descortinar simetrias
se aproxima de nenhum dos dois edifícios quando se isolavam os lotes na relação com
do Arquitecto construídos nos primeiros o alçado de conjunto, em Marques da Silva
quarteirões, mas com pontos de contacto com a mesma é inexistente dentro de cada lote,
outras obras suas. Do ponto de vista da lógica embora reconhecível se observado o conjunto.
compositiva, esta é muito próximo da proposta Há elementos que se repetem, até para se
de Leandro de Morais – já que os pressupostos perceber essa noção de linguagem única e de
seriam de certa forma idênticos – contudo conjunto, mas os mesmos são colocados num
muito mais elaborada. Ambas pretendiam ritmo próprio que nega qualquer busca de
conseguir unificar num único alçado uma axialidade, simetrias simples, ou ritmos
coerente um conjunto de lotes com larguras repetitivos.
e proprietários diferentes, que poderiam ser
construídos desfasados no tempo, como se
verificou. Os licenciamentos independentes dos
[371] - Montagem fotográfica alinhada com os alçados onde é possível observar os edifícios (linha vermelha) e os lotes que os definem (a
azul), da esquerda para a direita: edifício ‘Vasconcelos‘, a ‘Casa de Saúde da Avenida‘ e o conjunto de ‘O Jornal de Notícias’.

333
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

[372] - Vista aérea onde se destaca o conjunto de ‘O Jornal de Notícias’, ‘Casa de Saúde da Avenida‘ e edifício ‘Vasconcelos‘. Aqui ainda [373] - Licença de obra 151-1928 com os 6 lotes [374] - Fotografia do Gaveto da Caixa Geral de Depósitos. Visível a total falta
é perceptível a permanência do edificado que fazia frente para a Rua de Elias Garcia e o novo alinhamento para a abertura da Avenida. do conjunto ‘O Jornal de Notícias’ para o novo de relação entre o edifício da CGD e o alçado conjunto, elaborado por Marques
(adaptado a partir de Bing Maps) alinhamento da Avenida. (Fonte: goo.gl/ZI8zpo) da Silva, onde se integra o edifico ‘O Jornal de Notícias’, em cuja empena ainda
é perceptível a memória dos edifícios da Rua de Elias Garcia. (Fonte: goo.gl/
fohTWl)

Claro que podemos reconhecer pequenas ângulo agudo [373] – no quarteirão anterior
simetrias, mas a sensação que fica, quando se eram praticamente paralelos – pelo que a nova
observa este alçado, é de uma onda, o eco de construção tem um pequeno afastamento, e
um som ou a marca da ondulação provocada profundidade diminuta – serve praticamente
por gota de chuva em calmo lago. À força apenas para reformular o acesso principal aos
da cúpula/pavilhão de ‘O Jornal de Notícias’ edifícios, equacionada de forma isolada lote a
seguem-se outros momentos, marcações mais lote, ou agregando duas parcelas, ganhando,
simples e menos expressivas, como um eco da nos pisos superiores, um pouco mais de espaço.
primeira, num ritmo que se percebe pelo jogo
Nas fotografias [374] e [375] ainda se
de pilastras, acessos ao nível do rés-do-chão,
consegue perceber, pelo recorte da empena
e sobretudo, pela relação das cúpulas que vão
com a CGD, essa justaposição simples de dois
encimar algum dos elementos compositivos
edifícios. Este conjunto, praticamente, encerra
[379].
essa lógica de edificação da Avenida. O conjunto
Todos estes edifícios correspondem a de lotes seguintes, cuja ocupação era de tipo
um chegar ao alinhamento da Avenida das ainda um pouco informal, sem edifícios na Rua
construções da Rua de Elias Garcia, num tramo de D. Pedro que tivessem dimensão e presença,
em que os dois alinhamentos já fazem um irá corresponder já a construções de raiz. [375] - Gavetos adjacentes da Rua do Dr. Magalhães Lemos, com o notório desequilíbrio entre o edifício da Caixa Geral de depósitos e do
Montepio Geral. Vê-se ainda, com o edifício da CGD, a empena do conjunto de ‘O Jornal de Notícias’ alterado e cego. (VALE, 2011)

335
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

[376] - Fachada principal [377] - Alçado correspondente a 3 parcelas [378] - Alçado correspondente ao edifício [380] - Corte Longitudinal correspondente ao edifício de ‘O Jornal [381] - Montagem fotográfica
no projecto do edifício ‘A pertencentes no projecto do edifício. (CMP & de ‘O Jornal de Notícias’ com parcela de Notícias’ com parcela adjacente do conjunto de Marques da Silva. do edifício de ‘O Jornal de
Lutuosa de Portugal‘. (CMP & SILVA, 1927) adjacente do conjunto de Marques da Silva. (CARVALHO, 1997) Notícias’. (LIMA, 2013)
DUARTE, 1932) (CARVALHO, 1997)

[379] - Fotografia actual do conjunto de


‘O Jornal de Notícias’ de Marques da Silva.
(LIMA, 2013))

Para Marques da Silva o que é efectiva- No corte é perceptível a relação entre


mente importante é o alçado, a urdidura entre o edifício preexistente e a nova construção,
a antiga e a nova construção é secundária. numa relação que pressupõe mesmo diferentes
“Realmente a fachada, no caso sujeito, tem altimetrias que são absorvidas na zona da caixa
uma grande importância e como tal tem de ser de escadas [380]. Os nivelamentos exteriores dos
considerada, desde que mormente se desliga dois arruamentos também diferem, porque a
do grosso da construção. (Os) volumes de proposta de Parker tentou aproximar-se mais
alicerces, de paredes, de travejamentos, enfim da topografia natural do terreno, o antigo vale
de toda a obra que constitui o grosso d’uma agora novamente aberto e visível na nova e
construção e que lhe avolumam a despesa (são) ampla avenida. E essa diferença – a Avenida
precisamente (aqueles) que menos cuidado dão funciona a uma cota inferior à da antiga Rua de
e menos dificuldade apresentam na elaboração Elias Garcia – permite enfatizar o primeiro piso,
d’um projecto. A parte artística é a que tem real pelo aumento do pé-direito.
importância...”. (SILVA, 1928 apud Carvalho,
1992: 383).

[274]

337
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

‘Casa de Saúde da Avenida’ e o Edifício ‘Vasconcelos’

[382] [383] [384]

No conjunto de lotes seguintes localiza- O desenho do alçado deste edifício, se


se a ‘Casa de Saúde da Avenida’, projecto de bem que já despido dos excessos decorativos
Oliveira Ferreira, licenciado em 1930 [382], mas dos projectos anteriores de Oliveira Ferreira
[382] - Projecto inicial
com aditamento em 1934 [383]. Este projecto (do ‘Clube dos Fenianos’ e da não construída ‘A com alçado da ‘Casa de
corresponde a uma construção nova, ao Nacional’) continua a ser rígido, sem identidade Saúde da Avenida’, de
Oliveira Ferreira. (CMP &
contrário dos anteriores, numa agregação de forte (ao contrário dos anteriores), omisso, FERREIRA, 1930)
talhões para garantir uma frente mais extensa, e de certa forma aparece como um reflexo já
e um desenho de alçados que mais uma vez esbatido dos ritmos que se vinham a marcar na [383] - Projecto com
assenta numa simetria estrita. O ritmo de composição do conjunto a sul. alçado alterado da ‘Casa
de Saúde da Avenida‘,
verticalidade de composição inaugurado por de Oliveira Ferreira,
Este edifício será provavelmente uma
Soá e Leandro de Morais no gaveto do primeiro com alçado. (CMP &
das primeiras intervenções mono-funcionais FERREIRA, 1934)
quarteirão são aqui referências já assumidas.
privadas na Avenida, a par com os edifícios dos
[384] - Alçado actual
A marcação das pilastras verticais dois Jornais, uma vez que todos os edifícios da ‘Casa de Saúde da
sobrepõe-se ao que são os ritmos horizontais das casas bancárias e seguradoras, para além Avenida‘, com o eixo de
simetria. [386]
de marcações de embasamentos, e remates de do espaço da própria sede, tinham sempre
pisos e nobres e entablamentos [386]. De certa nos pisos superiores outros programas [385] - Planta de rés-
forma a ideia de Marques da Silva, de uma complementares como escritórios e habitação do-chão e 1º andar do
projecto, de Oliveira
marcação vertical principal, excepcional e eco [385]. Ferreira, da ‘Casa de
Saúde da Avenida‘. (CMP
da mesma que se reproduz em escala mais & FERREIRA, 1934)
Na sequência deste edifício, e
reduzida, ou menor intensidade, aqui também
praticamente na mesma altura é licenciado [386] - Vista dos pisos
é usada por Oliveira Ferreira, mas sem a
o conjunto imediatamente a norte, o edifício superiores da ‘Casa
qualidade de composição do primeiro. de Saúde da Avenida‘.
‘Vasconcelos’, neste caso já numa operação (LIMA, 2013)
Há marcação clara do corpo da entrada, estrita de alteração de fachada, praticamente
simétrica ao lote, com a verticalidade de uma sem outra intervenção construtiva “sujeitando- [387] - Vista do portal
de entrada da ‘Casa
mansarda tipo torreão, e a marcação de dois se ao alinhamento novo que lhe foi de Saúde da Avenida‘.
(LIMA, 2013)
outros momentos, a eixo de cada um dos lados
[384]. [385] [387]

339
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

[390] - Projecto para o


edifício ‘Vasconcelos‘,
composto por duas
[388] - Projecto inicial com alçado do tardoz da ‘Casa de [389] - Projecto da ‘Casa de Saúde da Avenida‘ com alçado parcelas. (CMP &
Saúde da Avenida’, de Oliveira Ferreira. (CMP & FERREIRA, do tardoz alterado, de Oliveira Ferreira. (CMP & FERREIRA, RAMALHÃO, 1930)
1930) 1934)

[391] - Encontro das


duas parcelas do edifício
‘Vasconcelos’. (LIMA,
2013)

[392] - Encontro do
edifício ‘Vasconcelos’
com a ‘Casa de Saúde
da Avenida’. (LIMA,
2013)

imposto”(CMP & RAMALHÃO, 1930). Face ao Interessante neste projecto é o desenho


ângulo agudo existente entre os alinhamentos de uma silhueta que representaria o conjunto
da Avenida e da Rua de Elias Garcia, nesta zona edificado até ao gaveto com a actual Rua de
mais a norte da intervenção existe já uma quase Rodrigues Sampaio, na altura arruamento já
uma coincidência entre os dois. Assim, mais do aberto mas ainda não urbanizado nas suas
que construir um tramo de edifício novo à frente duas frentes [390]. Desta silhueta infere-se a
do edifício antigo, como sucedeu nos exemplos ideia de um edifício que manteria o sistema de
já mencionados dos alçados conjuntos de marcações por torreões encimados por cúpulas/
Leandro de Morais e Marques da Silva, aqui pavilhões, e que seria rematado no gaveto por
trata-se apenas de corrigir a orientação da um elemento excepcional, à semelhança dos
fachada, dando-lhe um novo desenho que se restantes. Contudo, esse elemento de excepção
adeque melhor à monumentalidade pretendida estaria mais próximo das formulações de
para o centro cívico. Marques da Silva para o arranque da Avenida
do que das cúpulas utilizadas no cruzamento
como alinhamento Passos Manuel.

341
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

Edifício ‘Futebol Clube do Porto‘

Na continuidade com o edifício do Clube planta quer em alçado, tendo o alçado posterior
dos Fenianos localiza-se o edifício que foi a um desenho mais simples, sem recurso a
sede do Futebol Clube do Porto. O processo artifícios decorativos presentes ainda no alçado
inicial foi licenciado em 1930, cerca de uma para a Avenida/Praça do General Humberto
década depois do edifício Sede do ‘Clube Delgado.
Fenianos Portuenses’, mas na continuidade de
Este edifício acaba por ter algumas
implantação do crescente do projecto de Barry
características que o diferenciam dos restantes
Parker.
da Avenida. Por um lado, a concavidade do
O processo inicial destinava escritórios, alçado principal permite uma leitura mais rica
duas fracções por piso numa distribuição do edifício a partir do próprio edifício, num
funcional bastante simples e directa. Pequenos desvendar progressivo dos seus elementos [393] - Planta topográfica
W.C. localizavam-se no alçado posterior, decorativos. Por outro lado, o recurso a uma para a construção do
edifício ‘Futebol Clube do
servidos com acesso a partir de pequenas varanda reentrante que corre todo o piso e, de Porto‘. (CMP & DUARTE,
varandas, replicando as soluções usadas nos certa forma, remata o ´piso nobre’, é um recurso 1930)

programas de habitação para o acrescento de novo nesta zona. O edifico da ‘Casa de Saúde da
instalações sanitárias, quando as mesmas não Avenida‘, licenciado no mesmo ano, recorre a [394] - Planta topográfica
do projecto de alteração
eram consideradas no projecto de raiz. um esquema similar, contudo bastante cortado
para o edifício ‘Futebol
pelas marcações verticais, sentindo-se apenas Clube do Porto‘. (CMP &
Este edifício, construído uma década SÁ, 1933).
como uma varanda contida. Aqui desenha-se
depois do ‘Clube dos Fenianos‘, tem, como ponto
um conjunto de dois balcões corridos, apenas [395] - Fotografia com
comum com o mesmo, apenas a implantação
interrompidos pela marcação do eixo de o edifício da Câmara em
e o limite de cérceas. A nível de imagem, os construção e o edifício
simetria do edifício. ‘Futebol Clube do Porto‘
dois são muito distintos, mostrando o tempo ao fundo. (ALVÃO,
transcorrido e a evolução que a arquitectura e 1984)
Este edifício sede do Futebol Clube do
o gosto tinham sofrido. Apesar de não ser um Porto, conjuntamente com o edifício do Clube [396] - Fotografia actual
edifício modernista, o seu desenho já se pauta dos Fenianos, serão os únicos construídos do edifício ‘Futebol Clube
do Porto‘ adjacente
por um princípio de simplicidade, e de uma no terceiro tramo da Avenida, até meados da ao edifício ‘Clube dos
Fenianos‘. (BENTO,
racionalidade de distribuição, legível quer em década de 40.
2013)

343
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

[400] - Projecto para o


edifício ‘Futebol Clube
do Porto‘ com o alçado
principal e de tardoz
de expressões distintas
(clássica e modernista).
(CMP & SANTOS,
1933)

[401] - Projecto para o


edifício ‘Futebol Clube do
Porto‘ - Piso de rés-do-
chão. (CMP & SANTOS,
1933)

[402] - Projecto para o


edifício ‘Futebol Clube do
Porto‘ - 1º e 2º andares.
(CMP & SANTOS,
1933)

[397] - Fotografia da fachada do edifício [398] - Galeria superior do edifício ‘Futebol [399] - Entrada a eixo do edifício ‘Futebol [403] - Detalhe interior da entrada [404] - Detalhe da entrada principal do edifício ‘Futebol Clube do Porto‘. (LIMA, 2013)
‘Futebol Clube do Porto‘. (VALE, 2013) Clube do Porto‘. (LIMA, 2013) Clube do Porto‘. (BENTO, 2013) principal do edifício. (BENTO, 2013)

345
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

Em vista rasante, desde a entrada dos


Paços do Concelho, todos estes edifícios se
confundem num ritmo de pilastras e colunas
em que a verticalidade é a tónica dominante.
As repartições horizontais, que numa vista
frontal ganham força, neste olhar que corre a
totalidade da Avenida, perdem presença e é dos
ritmos consecutivos de muitas intervenções
que se faz o carácter da Avenida até ao final da
II Guerra Mundial.

Contudo, o hiato será mais longo do que a


própria guerra ...

[405] - Pormenor das fachadas da Avenida dos Aliados lado


nascente. (VALE, 2013)

347
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

A CONCLUSÃO DA FRENTE URBANA


A SIMPLIFICAÇÃO DA IMAGEM

“Pelo mesmo motivo sou de parecer que as ruas


diagonais deveriam atravessar a Avenida junto
do seu extremo norte, afim de que para aí aflua
a circulação.
Mas outro motivo eu tenho, e mais forte,
para propor que as ruas diagonais passem
Junto ao cimo da Avenida: o de que, passando
por ai, ficarão quasi ruas planas, correndo
em direcções dos lados de Leste e Oeste que
fornecem caminhos alternados entre os dois
pontos importantes da cidade, já por mim
apontados, evitando a descida e subida do vale.”

(Parker, 1915: 14)

O ritmo de construção do centro cívico


refreia-se. Entre a instabilidade governativa, as
mudanças políticas nacionais que culminam na
instauração do Estado Novo, e o reflexo local
do contexto económico mundial, da grande
depressão de 1929, vários podem ser os factores
que expliquem essa contenção da iniciativa de
novas construções no Centro Cívico. Os projectos
novos estagnam logo no início dos anos 30,
embora as obras se devam ter mantido em
Vista sobre a Avenida dos Aliados e suas radiais. (BENTO, 2013) execução praticamente até meados da década.

349
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

Pela foto aérea de 1939, ferramenta importante Do lado da Rua de Rodrigues Sampaio o
para perceber como estava o processo de panorama é um pouco diferente pois a zona da
edificação da Avenida, podemos observar que a Cancela Velha foi praticamente toda demolida
urbanização do primeiro tramo do lado nascente na reformulação da rede viária, e cerca de 1930
e do lado poente está completamente terminada. o seu aspecto é próximo da destruição de um
Percebemos também que os segundos tramos pós-guerra. A nova edificação inicia‑se primeiro
estão já praticamente concluídos, faltando, em pelos edifícios que fazem a margem nordeste
cada lado, o edifício que faz o gaveto. E que o do arruamento – estando esse quarteirão já
terceiro tramo, com excepção dos mencionados praticamente completo na foto de 39 – e só mais
edifícios do ‘Futebol Clube do Porto’ e do ‘Clube tarde se completa o limite sudoeste do mesmo.
Fenianos Portuenses’, está completamente por A maior parte dos projectos para esta rua são
edificar, e assim se mantendo até ao início da licenciados entre meados da década de 30 e
construção do edifício ‘Capitólio’. o final da II Guerra Mundial, e correspondem
a edifícios com uma frente de lote ainda
Assim, no segundo tramo, em cada um
reduzida e uma cércea de quatro pisos, aos
dos lados, falta o edifício que faz a relação com
quais não são acrescentadas mansardas. Pelo
outro do conjunto de eixos determinados pelo
pouco desfasamento temporal acabam por
plano de Parker, as radiais, e que significaram
apresentar uma imagem de conjunto, com
outro conjunto de demolições e expropriações
muitas referências comuns, e formulações
que se foram arrastando ao longo do tempo.
compositivas idênticas, apesar das diferentes
Do lado norte das radiais nada é feito, entre
autorias. Assentam sobretudo na estrutura
o refrear da construção e a ‘indefinição’ sobre
fundiária da Rua do Bonjardim e Rua Elias
qual o alinhamento a seguir, se a continuidade
Garcia, correspondendo as novas edificações a
do segundo tramo, se dos crescentes do Parker.
um construir sobre o alçado tardoz ou o limite
A urbanização destas radiais não foi do lote. Na frente para a Rua do Bonjardim já se
feita logo no início, em toda a sua extensão. processa a um realinhamento de fachadas. Na
Observa-se, por exemplo, que os lotes da Rua Rua de Ramalho Ortigão o licenciamento é um
do Almada, que irão passar a funcionar como pouco mais tardio, os lotes são substancialmente
gavetos no novo arruamento, ainda em 39 maiores e as cérceas superiores.
mantêm a conformação de uma frente para a
Rua do Almada e segunda frente para o interior
do quarteirão, ‘ignorando’ o arruamento
entretanto aberto. [408] - Fotografia aérea, cerca de 1930. (CLÁUDIO & FOTO BELEZA, 1994)

351
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

Conjunto da Rua de Rodrigues Sampaio e o


Edifício da ‘Companhia de Fiação e Tecidos de Fafe’

Sensivelmente a partir de 1930 começam simular elaborados acabamentos de pedra,


a ser licenciados os edifícios que marginam a contudo, tal recurso acabou por não fazer eco
Rua de Rodrigues Sampaio, primeiro do lado nas restantes intervenções da Avenida e aparte
nordeste, que corresponde a um pequeno os edifícios do ‘Clube Fenianos Portuenses’ e o
[409] [409] [410]
quarteirão com frentes para a Rua do Bonjardim projecto de Rogério de Azevedo para o gaveto
e para a nova Rua de Guilherme Costa Carvalho, da Rua de Sampaio Bruno, nenhum dos outros
no que seria a continuação da Rua Formosa. edifícios construídos até ao início da década de
[409] - Edifício
30 usou o mesmo sistema. ‘Associação de
O primeiro dos edifícios a ser licenciado Jornalistas e de
corresponde à ‘Associação de Jornalistas e de Aqui, neste edifício na Rua de Rodrigues Homens de Letras’,
na sua configuração
Homens de Letras’, no gaveto novo que se define Sampaio, recorre-se ao uso dos rebocos original e na actuali-
entre a Rua do Bonjardim a Rua de Rodrigues moldados numa ornamentação rica de dade. (AHMP: GBB)
(BENTO, 2013)
Sampaio, num lote com pouca área e forma elementos decorativos florais, orlas de vãos,
difícil face ao ângulo agudo que as duas ruas frisos e balaustradas, juntamente com a
fazem. Tendo sido o primeiro a ser licenciado marcação da estereotomia de uma cantaria. [410] - O aspecto
do edifício durante
nesta zona, a sua implantação ajudará a definir o o seu longo período
Da observação de fotografias antigas é de estagnação.
quarteirão. A imagem que hoje lhe conhecemos
(VALE, 2004) (VALE,
possível perceber que no torreão de remate,
não corresponde à inicialmente projectada. Foi 2008) [410]
no gaveto com a Rua do Bonjardim, se usaria
alvo de um processo de ampliação de dois pisos
uma cúpula mais semelhante, em volumetria e
na década de 70, projecto de António Portugal e
desenho, à utilizada no edifício Montepio Geral. [411] - Projecto
Fernando Lanhas, que ficou incompleto durante para instalação de
Contudo este apresenta maior verticalidade,
longo período por dificuldades económicas da uma pastelaria, em
pela continuidade estabelecida entre a cúpula 1934, no piso térreo,
Associação, e só nos últimos anos viu a situação sendo observável o
e o pináculo de remate, situação que se
regularizada e a obra pode ser concluída. tratamento das áreas
mantém de forma estilizada no edifício actual. de acessos verticais.
(CMP & Moreira,
Os edifícios de ‘A Nacional’ e de ‘Pinto Efectivamente este edifício, apesar da reduzida 1934)
Leite’ inauguraram, nesta zona, um tipo de área em planta, ganha monumentalidade pela
[412] - Pormenor
edifícios que recorre a rebocos moldados para forma como estabelece o desenho do gaveto. interior do acesso
realizado a partir
do gaveto. (LIMA,
2013)
[411] [412]

353
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

117 - 119 123 139 - 153 157 - 161 167 169 - 179 183 189 - 193 204 - 184 176 - 172 170 - 160 142 134 - 128

‘C.ia de Fiação e Tecidos de Fafe’ ‘Cancela Velha’ ‘Associação de Jornalistas e de Homens de Letras’

Na sequência deste primeiro edifício são Projecto de Lima Júnior é também o edifício [413] - A Rua de Rodrigues Sampaio, alçado norte e sul.

licenciados vários outros, ao longo da década de seguinte, com o número 160, e licenciado em
30, que vão conformando o novo alinhamento 1940, jogando com corpos balançados a eixo da
do arruamento. Em 1934 é licenciado o lote a composição, solução que se tornou recorrente
norte da ‘Associação de Jornalistas’ que, face pelo aumento de área que proporcionava, num
à reduzida profundidade do quarteirão, faz as esquema compositivo que resulta da aplicação
duas frentes. O projecto é de José Ribeiro da directa das posturas municipais relativamente
Silva Lima Júnior, engenheiro que subscreve a corpos salientes e aos afastamentos que os
inúmeros processos na Câmara do Porto, entre mesmos devem garantir ao limite do lote.
responsabilidade pelo projecto de arquitectura,
Da mesma altura é o licenciamento do
cálculos de estabilidade, ou procedimentos
edifício projectado por António Júlio Teixeira
necessários à legalização de imóveis. Os dois
Lopes para o número 176, e que parte de
alçados, de diferente largura, usam a mesma [414] [415]
princípios compositivos similares, na marcação
estrutura compositiva, que remete ainda
das entradas laterais com pilastras, simulando
para outros edifícios à margem da Avenida,
torreões, mas neste caso optando por um
anteriormente analisados. Uma fachada que [414] - Projecto de Lima
saliente friso ao nível inferior da platibanda,
se reparte entre uma zona central, mais ou Júnior, 1935. Alçados para a
que a separa de resto da fachada. Acima da Rua do Bonjardim e Rua de
menos extensa de acordo com a dimensão Rodrigues Sampaio. (CMP &
mesma mantém-se a marcação dos torreões. LIMA JÚNIOR, 1935)
do lote, e dois pseudo-terreões laterais. Um
Teixeira Lopes projecta um outro edifício para
embasamento, com ‘cantaria’ de reboco [415] - Perspectiva sobre
esta rua, num lote mais estreito, numa imagem o lado norte da Rua de
moldado que faz a relação com a Rua e alberga Rodrigues Sampaio. (LIMA,
que não sendo idêntica comunga dos mesmos 2013)
o espaço comercial, e um coroamento em que
princípios. [416] - Alçado do nº 176
o remate dos ‘torreões’ assume o destaque. No licenciado em 1935, de
caso deste edifício, elementos decorativos de De imagem muito próxima são ainda os António Teixeira Lopes.
(BENTO, 2013)
feição ‘Arte Déco’ pontuam os panos de peito das projectos de Manoel Marques, e de Oliveira [417] - Vista atual da Rua de
janelas e o remate de pilastras estilizadas. Uma Ferreira, de 1937 e 1938 respectivamente. O Rodrigues Sampaio, fachadas
absoluta simetria de alçado que é desmentida norte. Em primeiro plano
primeiro acaba por ser alvo de uma operação a ligação entre o edifício
pela distribuição programática interior. de ‘transformação’, na altura da construção do ‘Cancela Velha’ e o edifício
de Manuel Marques, nº 204.
(VALE, 2013) [416] [417]

355
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

edifício ‘Cancela Velha’, com projecto de Viana o resto da anterior fachada, quase como uma
de Lima. Aquando da construção do edifício, tatuagem que se apõe a uma das fachadas do
em 1937, o alinhamento considerado para o edifício, num contraste entre linguagens. Na
[418] - Planta de implantação que acompanha o processo e licenciamento. [419] - Edifício da Cancela Velha de Viana
arruamento a norte era o estabelecido no Plano continuidade com os restantes edifícios da Rua Na mesma é visível a marcação do alinhamento do quarteirão na continuação de Lima, notando-se a ‘fusão’ com o edifício
de Barry Parker. Contudo, passadas quase de Rodrigues Sampaio, esta manutenção acaba da Rua Formosa e que corresponde ao projecto de Barry Parker.(CMP & projectado por Manoel Marques cerca de duas
MARQUES, 1937) décadas antes. (VALE, 2013)
duas décadas, quando é licenciado o edifício por ajudar ao estabelecimento de uma mais
de Viana de Lima, o alinhamento definido fácil relação contudo, quando visto do gaveto,
para o arruamento é bem distinto, numa resulta desequilibrada a forma como os dois
amputação considerável do quarteirão, e numa se relacionam. E o edifício de Manoel Marques
direcção que passa a ser praticamente paralela efectivamente deixa de ser um edifício, para se
à estrutura fundiária dos lotes que fazem a tornar decoração.
ligação entre a Rua do Bonjardim e a Rua de
A composição de alçado do edifício
Rodrigues Sampaio. Nesse novo alinhamento, o
projectado por Oliveira Ferreira, apesar
lote onde deveria ser construído o novo edifício
de ainda assentar numa divisão tripartida,
passa a englobar o edifício projectado por
a mesma perde expressão, sendo mais
Manoel Marques, que se tinha mantido como
importante a leitura do plano do que as
empena inacabada durante anos. A opção de [420] - Plantas e alçado principal do projecto original de [421] - Edifício projectado por Manoel Marques, com a empena não tratada,
marcações verticais e horizontais dos Manoel Marques. (CMP & MARQUES, 1937) aguardando a continuação da frente urbana. (COLECÇÃO PARTICULAR)
Viana de Lima passa, não por uma demolição
elementos decorativos. Os pontos fortes da
completa do edifício, mas por uma tentativa
composição são agora a varanda e a respectiva
de o integrar, ainda que parcialmente, na nova
cobertura, balançadas num dos pisos, e um
construção. De referir que o edifício de Manoel
forte friso ao nível da platibanda. Outro aspecto
Marques ocupava a totalidade do lote, pelo que
particular deste projecto é a sua distribuição
nos primeiros pisos tinha apenas uma fachada,
em planta, em forma de L, afastando-se do
e apenas abria vão para a fachada tardoz a
limite do lote do lado norte, para permitir uma
partir do momento que a mesma saía acima
maior profundidade da construção, garantindo
dos telhados do lote contíguo. Viana de Lima
iluminação e ventilação. Ainda de referir que a
procede à demolição do corpo lateral mais
incongruência entre a simetria de alçados e a
estreito que fazia a marcação da entrada, e usa
distribuição interna é neste caso levada a um
[422] - Plantas e alçado principal do projecto de Oliveira Ferreira. [423] - Alçado do edifício de Oliveira Ferreira.
(CMP & FERREIRA, 1938) (BENTO, 2013)

357
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

extremo, pela utilização do mesmo tipo de vão plano liso da fachada, onde vãos de dimensão
para aceder ao logradouro ou conjuntamente constante são repetidos. Em alguns, uma
aos pisos de habitação e espaço comercial. alteração da dimensão dos mesmos no último
piso indicia uma intenção de remate, noutros,
Alguns dos edifícios projectados para o
elementos adicionais apostos a esse plano, como
arruamento desapareceram entretanto, como
varandas, ou frisos decorativos, estabelecem
o do lote adjacente ao Teatro Rivoli, licenciado
a segunda lógica que se sobrepõe ao repetir
em 1931 com projecto de Júlio de Brito, e que
cíclico de vãos. As mansardas desaparecem e
foi demolido para a construção do edifício da
inicia-se o reino dos recuados.
Caixa Geral de Depósitos. Igualmente de Júlio
de Brito, mas mais tardio, é o edifício a norte da As duas décadas que passaram entre
‘CGD’, licenciado em 1941. as primeiras intervenções e estas últimas
correspondem a alterações substanciais na
O edifício que virá fechar o gaveto e definir
sociedade, na economia, nas próprias exigências
a relação deste arruamento com a Avenida será
regulamentares – a mais importante será a
licenciado em 1948, também com projecto de
publicação do RGEU em 1951 – mas também
[424] - Edifício da Caixa
Júlio de Brito. O edifício sede da ‘Companhia
no panorama arquitectónico internacional. As Geral de Depósitos que
de Fiação e Tecidos de Fafe’ distingue-se das foi construído após a
referências arquitectónicas destes arquitectos demolição do prédio de
outras intervenções na Avenida pela forma
são agora distintas, o academismo ‘Beaux- Júlio de Brito. (GRAVATO,
como desenha os alçados e pelos materiais de 2004)
Arts’ deixou de fazer sentido, mas mais do
revestimento utilizados e será premonitório de
que a influência de correntes modernistas [425] - Rua do Bonjardim
uma ‘nova era’. na década de 40. Visível
internacionais, nestas novas propostas lê-se a o diferente alinhamento
Enquanto as construções das influência das arquitecturas fascistas e de um dos diversos edifícios. Em
segundo Plano, o edifício
fases anteriores se baseavam em ritmos estilo Português modernizado – designação tão projectado por Júlio
cara às revistas de arquitectura e memórias de Brito e entretanto
compositivos que privilegiavam ou fortes demolido (CLÁUDIO &
alinhamentos verticais, ou uma estrutura descritivas de projectos – com uma feição FOTO BELEZA, 1994).

compositiva tripartida de base clássica, as monumental/tradicionalista.


[426] - Edifício da
novas intervenções irão privilegiar o plano. O ‘Companhia de Fiação
e Tecidos de Fafe’
projectado por Júlio de
Brito. (VALE, 2013)

359
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

Conjunto da Rua de Ramalho Ortigão e


Edifício da Companhia de Seguros Garantia
[427] - A Rua de Ramalho Ortigão, alçado norte. (PORTO VIVO, SRU, 2006)

Apesar da justificação de Barry Parker – elevadores, e algumas das dependências de


de que o alinhamento proposto para as radiais serviços. No traçado deste corpo toma-se
representava uma ligação de nível entre dois como centro gerador o ponto de intersecção
pontos, sendo portanto urbanisticamente das duas fachadas. Esta implantação conforma
ideal – o local de inserção da radial do lado dois pequenos saguões de formas irregulares,
poente na Rua do Almada, numa zona em que cuja dimensão, numa decisão pouco racional,
esta tem uma pendente bastante acentuada, diminuiu em altura.
apenas garante uma ligação nivelada do leito do
No alçado para a Rua do Almada, Rogério
arruamento, mas não das fachadas dos edifícios
de Azevedo utiliza um recurso similar ao que já
que fazem o gaveto. No caso do gaveto nordeste,
havia usado no gaveto da Praça da Liberdade
a relação de cotas entre os dois arruamentos
com a Rua de Sampaio Bruno (antigo café
determina uma diferença de mais de um piso
Suisso), uma ondulação de fachada, para tornar
entre o acesso pela radial, a Rua de Ramalho
mais interessante a composição, que resulta da
Ortigão e a zona média da Rua do Almada.
articulação entre compartimentos com paredes [428] - Gaveto do edifício Soares Marinho, mostrando a [429] - Rés do chão e sobreloja, [430] - Fachada ondulada do edifício
Neste gaveto localiza-se o edifício ‘Soares acentuada diferença de cotas entre os dois arruamentos. uma nova formulação na década de Soares Marinho. (LIMA, 2013)
lisas e compartimentos com uma ‘bow window’ (LIMA, 2013) 40. (LIMA, 2013)
Marinho’ licenciado em 1942 com projecto de
pouco saliente, de certa forma condicionada
Rogério de Azevedo, e a questão da diferença
pela pouca largura da Rua do Almada. No caso
de cotas acaba a condicionar alguns aspectos
do edifício de Sampaio Bruno, a sua gramática
da proposta, pelo facto de um piso inteiro ter
estilística ainda incluía o recurso a elementos
apenas frente para uma das ruas e de se ter de
decorativos apostos à fachada. Neste caso
equacionar dois níveis de espaços comerciais,
apenas usa pequenas marcações associadas
algo que à data não era situação comum.
aos vãos e varandas, e um pequeno engradado
A implantação do edifício assenta em no remate superior de guardas. Apesar da
dois corpos que marginam os arruamentos, década que separa os dois edifícios, existem
articulados no gaveto através de um volume algumas semelhanças entre as duas propostas,
reentrante, e um terceiro corpo, interno ao lote, quer ao nível deste desenho de alçado, mas
de ligação entre os dois e com desenvolvimento também de uma disposição em planta que
[431] - Edifício do Gaveto da Praça da Liberdade, no início da década de 30, e na actualidade. [432] - Fachada ondulada do edifício
curvo, onde se situam as duas caixas de escadas, assenta fundamentalmente numa distribuição (MESQUITA, 2006) (LIMA, 2013) do gaveto da Praça da Liberdade.
(VALE, 2013)

361
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

[433] - Planta do terraço e planta dos pisos tipo de habitação. (CMP & AZEVEDO, 1942)

de compartimentos perpendicularmente ao privado, que será arrendado, e que necessita e escondidos pela perspectiva na construção
arruamento e um corredor de distribuição para de uma serventia comum – e passa a pensar-se real.” (VALE, 2011: 347).
o qual todos se abrem. Solução que no edifício num edifício que agrega células privadas, claro,
Nos acabamentos internos, Rogério de
da Praça da Liberdade, pela forma do lote, mas que equaciona já a existência de espaços de
Azevedo aposta numa distinção entre o que
estreita e comprida, com a maior frente voltada fruição e vivência comuns. Neste edifício, para
considera o átrio principal, ao nível do rés-do-
a norte e sem frente a sul, seria praticamente a além da lavandaria, coloca-se um terraço, que
chão, e o que são as restantes comunicações
única possível. também permite uma utilização colectiva, de
horizontais (mesmo ao nível do rés-do-chão)
serviço ou lúdica.
O edifício tem seis pisos, dois destinados com recurso a materiais de revestimento
a comércio (incluindo sobrelojas para a Rua Na área agora analisada este é o primeiro diferentes, o que resulta em algumas transições
de Ramalho Ortigão) e os restantes quatro são edifício de habitação colectiva que utiliza uma menos bem conseguidas. Na separação entre [434] - Átrio do edifício Soares Marinho. (BENTO, 2013)
de habitação, correspondendo a um aumento cobertura plana. De referir que na cidade do uma zona mais pública e representativa e uma
de cércea relativamente às intervenções da Porto apenas na década de 30 se começam zona já mais simples ou doméstica, que muitos
radial nascente, que evidencia também o tempo a considerar alguns exemplos de coberturas edifícios apresentam, Rogério de Azevedo
transcorrido entre as intervenções nos dois planas, determinadas não apenas por questões opta por apenas incluir na primeira o átrio em
arruamentos. de imagem mas para fruição do espaço – relação directa com a rua, não chegando nem a
exemplo das ‘Quatro Habitações”, no gaveto incluir o átrio de acesso ao elevador, inserido
Aspecto interessante nesta proposta
da Avenida da Boavista com a Rua do Pinheiro no corredor curvo que, no rés-do-chão, mercê
de Rogério de Azevedo é a inclusão de uma
Manso, de Arménio Losa – contudo, durante da já mencionada diferença de cotas dos
lavandaria comum ao nível da cobertura, algo
muito tempo, as mesmas irão corresponder arruamentos, torna-se um ‘cul de sac’.
que meia década depois Arménio Losa também
a exemplos singulares pela dificuldade de
proporá para o edifício da Carvalhosa. Na continuidade com o edifício ‘Soares
garantir a necessária estanquicidade, com os
Marinho’ é construído um segundo lote, de
Efectivamente, na cidade do Porto, são materiais existentes à época. A maior parte
frente estreita que a ele se subordina a nível
os edifícios construídos na década de 40 os dos arquitectos dessa altura, mesmo buscando
compositivo de tal forma que no segundo
primeiros a pensarem o programa de habitação imagens modernas nos seus projectos,
licenciamento apresenta-se um desenho
colectiva em novos moldes, não apenas como continuavam a usar telhados inclinados
comum de alçado e uma planta topográfica que
investimento a ser rentabilizado – como os revestidos a telha marselha (quase sempre com
representa os dois como um único edifício. Este
poucos construídos nas décadas anteriores, em estruturas de madeira), “ocultos por platibandas, [435] - Continuidade de Alçados na Rua de Ramalho
segundo projecto, da autoria de Mário de Abreu, Ortigão, entre os edifícios projectados por Rogério de
que essencialmente se considera um espaço que são ‘esquecidos’ na representação de alçados Azevedo e Mário de Abreu. (LIMA, 2013)
construído com um ligeiro desfasamento acaba

363
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

por ter algumas simplificações no desenho, que mas irá conduzir a uma das zonas pior
resultaram, fundamentalmente, de alterações resolvidas no centro cívico do Porto, a relação
aquando da execução, e que com o tempo, e o entre o a curvatura definida pelos edifícios do
diferente estado de conservação, acabam por ‘Clube Fenianos Portuenses’ e do ‘Futebol Clube
ser mais visíveis. do Porto’, e o alinhamento do edifício ‘Capitólio’,
que termina numa empena cega, e no vislumbre
Entre o edifício sede do ‘Futebol Clube
de um saguão. Esta atitude – na implantação e
do Porto’, licenciado em 30 (e já no crescente [436] - Frente urbana do terceiro tramo da Avenida, lado poente. (LIMA, 2013)
na resolução do projecto – indicia uma ideia de
da Avenida) e este edifício ‘Soares Marinho’,
demolição do que são os edifícios da década
licenciado em 42, irá ser construída nova frente
de 20 e 30 e a sua substituição por novas
urbana para a Avenida, que apenas se concluirá
construções. Apenas essa ideia pode justificar
na década de 50. São edifícios que comungam
aquele espaço sobrante junto aos Paços do
de princípio compositivos similares, numa
Concelho.
simplificação da linguagem, de grandes panos
lisos e ritmos de vãos, numa cércea que se Deste conjunto, maioritariamente
amplia – dos 6 pisos que incluíam mansardas construído na década de 50, o que se destaca,
(dois níveis) das intervenções do primeiro pela sua imagem, é o edifício ‘Capitólio’,
tramo passamos a uma escala que pode chegar assumindo-se como o eixo de composição de
aos nove pisos, incluindo um recuado. uma fachada que poderia ser mais extensa.
[437] - Relação entre o gaveto do edifício ‘Garantia’ e o edifício [438] - Empena e saguão entre os dois edifícios. (LIMA, 2013)
Esta frente urbana, localizada no último tramo ‘Correia da Silva’. (LIMA, 2013)
São edifícios que se implantam, já
da Avenida, tem uma imagem mais uniforme,
não segundo o plano de Parker, fazendo a
mais feita de continuidade do que agregação
ligação com o crescente iniciado a norte mas,
de edifícios individuais, no recurso a uma
aparentemente, numa ideia de rentabilização
monumental imponência fascizante conseguida,
imobiliária, avançando sobre o espaço público
já não através de decoração elaborada e partes
resultante das expropriações das décadas de 10
que se destacam, como nos tramos anteriores,
e 20. Os lotes que resultavam do plano inicial
mas pela escala e repetição de elementos, numa
seriam poucos profundos, pela pouca distância
cércea mais elevada e em fachadas de grande
sobrante em relação ao tardoz das construções
extensão. Projectos de arquitectos de uma
na Rua do Almada. O novo alinhamento define-
geração já nascida no século XX, como Carlos
se em continuidade com o segundo tramo, [439] - Hall de Entrada do edifício ‘Capitólio’, de Eduardo [440] - Hall de entrada do edifício ‘Correia da Silva’, de Carlos
Neves (edifício ‘Correia da Silva’), Eduardo Martins e Passos Júnior. (BENTO, 2013) Neves. (BENTO, 2013)
aumentado a área de implantação disponível,

365
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO

[441] - A Rua de Ramalho Ortigão, alçado sul. (PORTO VIVO, [442] - O edifício ‘Garantia’. (BENTO, 2013)
SRU, 2006)

Martins e Passos Júnior (edifício ‘Capitólio’) Júlio de Brito aposta numa simplificação
não são representativos da totalidade da da imagem, quer a nível de revestimentos
obra dos mesmos, onde encontramos alguns parietais, mas também dos próprios volumes
edifícios modernistas do final da década de 30, que constituem o edifício. Um cilindro faz a
correspondendo ao período da sua formação articulação do gaveto e a leitura do mesmo é
escolar. possível na observação do edifício. Os panos
de alçado são o mais liso possível, a marcação
Do lado sul da Rua de Ramalho Ortigão
que é feita assenta na utilização de materiais
essa mudança de escala, em altura e extensão,
diferentes - nos edifícios da década anteriores,
é ainda mais sensível. Apenas dois edifícios
a aposta era geralmente pela utilização de um
fazem a frente da Rua, o Hotel ‘Pão de Açúcar’,
único material (pedra ou reboco moldados) e
no gaveto com a Rua do Almada e o edifício
os diferentes planos, e elementos decorativos,
‘Garantia’, no gaveto com a Avenida. Será
configuravam o desenho de alçado, facilmente
este edifico, licenciado apenas em 1955, que
marcado pelas sombras e ‘nuances’ de
corresponderá à conclusão (finalmente) do
iluminação dos diferentes elementos.
segundo tramo da Avenida, do lado poente, em
contraponto com o edifício da ‘Fiação’, do lado Neste caso, a opção pela utilização de
nascente. dois materiais distintos permite fazer uma
marcação de zonas praticamente sem alterar o
O edifício ‘Garantia’ é projecto de Júlio de
plano das fachadas. Estamos perante também
Brito, um dos mais prolíferos técnicos da cidade
novos recursos construtivos que as décadas
do Porto, que alia formação em engenharia e
anteriores ainda não dispunham, em condições
arquitectura, e trabalhos nas duas áreas, e com
aceitáveis. Pedras serradas, presas por gatos
edifícios emblemáticos para a cidade como o
metálicos, fazem o revestimento das zonas
Teatro Rivoli e o Coliseu (em co-autoria). Júlio
do edifício que se pretendem salientar, ou
de Brito utiliza no edifico da ‘Companhia de
revestem integralmente um edifício, com maior
Seguros Garantia’ um esquema compositivo
ou menor mudança de plano, como pode ser
bastante distinto do que ainda recorre no
observado no ‘Palácio do Comércio’, de David
gaveto oposto com o projecto da ‘Fiação’. No
Moreira da Silva.
edifício da ‘Companhia de Seguros Garantia’,
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

[443] - O ‘Palácio dos


Correios’. (BENTO,
2013)

Nos edifícios da década de quarenta semi-privado, funcionando o primeiro quase Do ponto de vista do presente estudo –
e de cinquenta nota-se um investimento como um nártex de recepção, e o segundo como da análise dos processos de edificação a que
substancial em alguns dos espaços internos o efectivo espaço de fronteira entre público e se refere esta parte – com a construção do
dos edifícios, quer seja pelo detalhe e desenho privado. edifício da ‘Companhia de Seguros Garantia ‘a
dos revestimentos interiores, quer seja pela mesma se concluiu, no dealbar dos anos 60.
Se, do ponto de vista da imagem exterior,
plasticidade que certos elementos adquirem. Entre a falta de distanciamento temporal, a
estes últimos edifícios que vão encerrar a frente
Exemplo maior dessa procura de uma nova pouca representatividade das intervenções
urbana do novo centro cívico – ficará apenas
expressão são as escadas, ora ainda massas posteriores em termos de imagem urbana
por terminar o longo e extenso edifício do
fortes que se moldam em contínuas curvas, ou (apesar do seu grande reflexo em termos de
‘Palácio dos Correios’, com projecto de Carlos
planos delgados que se deixam atravessar por vivências), e o pensar que um outro trabalho
Ramos e que se assume como um corte efectivo
luzes e vistas. de análise deveria ser feito, achamos que este
e uma afirmação do seu tempo – correspondem
é o ponto exacto para concluir a tarefa que nos
Não sendo algo totalmente novo (veja-se a uma simplificação da imagem, exterior, no
propusemos. O que se pretendeu foi perceber
o átrio de ‘A Nacional’), o mesmo é levado muito interior é onde se aposta num maior requinte
quais foram os processos que levaram do plano
mais além nesta altura. Entre um desenho e rigor de desenho, agora já não fundada [444] - ‘Hotel Pão de Açúcar’. ( LIMA, 2013)
à realidade que hoje conhecemos e de que
ainda muito ligado a uma estética ‘Arte Déco’, em revestimentos e decoração mas numa
forma uns e outros permanecem na cidade que
ou a um mais arrojado modernismo, esta época qualificação do próprio espaço e na plasticidade
nos acolhe.
traz-nos exemplos soberbos de tratamento dos elementos construtivos que o conformam.
destes espaços semi-privados. Compare-se as
São estes edifícios, os prédios de
escadas do Hotel ‘Pão de Açúcar’, da ‘Fiação “Neste mundo o tempo é como um curso
rendimento da década de quarenta e cinquenta
e Tecidos de Fafe’, da Seguradora ‘Garantia’, de água esporadicamente alterado por alguns
– construídos ainda antes da promulgação
ou, já fora desta área de análise, as do edifício detritos ou pela brisa que passa. Uma vez por
do regime de propriedade horizontal que
‘DKW’ de Arménio Losa. Veja-se também a outra, uma qualquer convulsão cósmica poderá
determinou uma alteração importante da
forma como são desenhados os átrios destes levar um riacho de tempo a desviar-se do seu
promoção imobiliária – que se tornarão
edifícios, geralmente usando o mesmo tipo de curso principal, a correr de volta à nascente.
a referência de arquitectos de gerações
hierarquia que apontamos nos tratamentos Quando isso acontece, as aves, a terra, as pessoas
posteriores, numa definição do que será a
dos acessos pelos gavetos, em edifícios como a que se encontram nesse curso tributário, vêem-se
qualidade pretendida para um edifício de
CGD ou do jornal de ‘O Comércio do Porto’, de subitamente transportadas ao passado.”
habitação colectiva.
um átrio semi-público, que liga com um átrio
Alan Lightman [445] - Edifício da ‘Fiação’. (LIMA, 2013)

369
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

NOTAS BIOGRÁFICAS*

Domingos Alvão Alexandre Alves Costa Science e “Honorary Fellow” do


(1872‑1946) (1939) Royal Institute of British Architects.
Doutorado “Honoris Causa” pela
Fotógrafo Arquitecto e professor
Universidade Politécnica de Valência,
Dirigiu a Escola Practica de universitário Escola Politécnica Federal de
Photographia do Photo‑Velo Club, Curso da ESBAP, diplomado em 1966.
Lausanne, Universidade de Palermo,
no nº 120 da Rua de Santa Catarina Integrou a Comissão Coordenadora
Universidade Menendez Pelayo,
no Porto. Foi neste mesmo local do SAAL/ Norte. Tem colaborado
Universidade Nacional de Engenharia
que, em 1903 veio a funcionar a em diversas revistas de Urbanismo e
de Lima, Universidade Coimbra e pela
Fotografia Alvão que, em 1926 Arquitectura, nacionais e estrangeiras.
Universidade Lusíada.
deu lugar à firma Alvão e C.ia. Lda. Recebeu, em 2008, com Sérgio
Dos inúmeros prémios que
Diversas publicações da época, como Fernandez, o Grande Prémio da
reconhecem a qualidade da sua obra
a Ilustração Portugueza ou a Gazeta Associação Internacional dos Críticos
destaca-se o Prémio Pritzker de 1992.
das Aldeias, publicaram fotografias de Arte.
suas. Tem destaque especial a obra Na publicação:
Na publicação: Projecto urbano entre a Praça da
Portugal, editada em 1934 e o Álbum Com Sérgio Fernandez: Remodelação
da Exposição Colonial no Porto do Trindade e a Ponte Luiz I, (com E.
da Zona Leste B, Praça de D. João I,
mesmo ano. Souto de Moura), 2004.
Rua de Passos Manuel e Rua de Sá da
Projecto para Avenida de D. Afonso
Bandeira, projecto integrado na Porto
Henriques 1968, não realizado.
Artur Almeida Júnior 2001, Capital Europeia da Cultura.
Projecto para a Avenida de D. Afonso
(1902‑?) Outras obras: Henriques 2000, não realizado.
Arquitecto Com Sérgio Fernandez: Estudo
Outras obras no Porto:
Formado pela Escola de Belas Artes de Recuperação e Valorização
Cooperativa do Lordelo (alterada),
entre 1915 e 1927. Pertenceu à Patrimonial da Aldeia de Idanha-a-
Pavilhão Carlos Ramos 1985/86
Direcção Geral dos Serviços de Velha. Recuperação do Convento de
e Faculdade de Arquitectura da
Urbanização entre 1927 e 1945 Santa Clara-a-Velha, em Coimbra.
Universidade do Porto 1986/99.
Na publicação: Museu de Serralves 1991/99.
Edifício ‘Imperial’, Praça da Liberdade Álvaro Joaquim de Melo Casa Armanda Passos 2005.
126‑130, 1934. Siza Vieira (1933) Tem diversas obras em Portugal e no
Edifício Singer, Rua de Sá da Bandeira Arquitecto e professor mundo.
236‑276, 1939. universitário
Outras obras no Porto: Estudou Arquitectura na Escola Célestin Anatole Calmels
Sinagoga do Porto, Rua Guerra Superior de Belas Artes do Porto (1822‑1906)
Junqueiro 1929/38. entre 1949 e 1953. CODA 1965. Escultor francês
Ensinou na ESBAP entre 1966 e Em Portugal entre 1843 e 1872.
1969, e regressou ao ensino em 1976
Na publicação:
como Professor da FAUP. Membro
Estátua equestre de D. Pedro IV 1866.
da American Institute of Arts and
* Ordenados pelo nome usual.

373
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

Outras obras em Lisboa: António Peres Dias Edifício de escritórios da fábrica Oliva, Salvador Carvão da Silva D’Eça socialista, ideias explicitadas em 1889 Outras obras no Porto:
Esculturas da Glória coroando o Génio Guimarães (1904‑?) Rua da Fundição, Rua Oliveira Júnior, Barata Feyo (1899‑1990) nos “Ensaios Fabianos”. Estalagem da Via Norte 1961/68
e o Valor, na parte superior do Arco S. João da Madeira 1950. Barry Parker e Raymond Unwin Bairro de Carcavelos, Matosinhos,
Arquitecto Escultor
da Rua Augusta. tornam‑se conhecidos ao planear SAAL Norte. Edifício TLP, Rua Tenente
Diplomado pela EBAP em 1926. Professor de Escultura na ESBAP
Esculturas no Palácio de São Bento. entre 1903 e 1904 Letchworth, a Valadim.
Na publicação: Arménio Taveira Losa 1949/72. Dirigiu o Museu Nacional
Grupo escultórico do frontão primeira ‘cidade‑jardim’, concretizan
Edifício Rua do Dr. Magalhães Lemos (1908‑1988) Soares dos Reis entre 1950 e 1960.
da Câmara Municipal de Lisboa. do as teorias de Ebenezar Howard
83‑105, 1930. Arquitecto Na publicação: Guilherme Bomfim Barreiros
Alegorias ao trabalho e à força (1850‑1928) e por projectarem
moral do portal do Palácio Palmela
Edifício na Rua Passos Manuel, Curso na EBAP 1926/32. CODA 1935. Escultura em bronze Garrett 1954,
os Hampsted Garden Suburb (1894‑1973)
231‑245. Pertenceu ao Gabinete de Praça Humberto Delgado. Engenheiro e fotógrafo
(Procuradoria Geral da República). (1905‑1907). Em 1901 editam juntos
Urbanização da CMP entre 1939 e Outras obras no Porto: ‘The Art of Building a Home’; Barry Ingressou na Repartição das
António Manuel Adão da 1945. Em 1947 integrou o grupo de Rosalia de Castro, 1951/54. Parker, entre 1910 e 1912, publica Edificações Urbanas da CMP, em
António Aníbal de Barros arquitectos que fundaram no Porto a Praça da Galiza, Porto. 1924, que veio a chefiar. Reformou‑se
Fonseca (1947) em “The Craftsman” uma série de
(? ‑?) ODAM (Organização dos Arquitectos Estátua equestre de D. João VI, 1966. em 1964, como Director dos Serviços
Engenheiro e professor 29 artigos intitulados “Modern
Engenheiro Modernos). Praça Quinze de Novembro, Rio de
Country Homes in England” e, em
do Plano de Melhoramentos. O seu
Engenheiro‑Chefe da 3ª Repartição universitário Na publicação: Janeiro e Praça de Gonçalves Zarco no espólio fotográfico foi doado em 1991
Na publicação: 1940, escreve sobre “Sir Raymod
da CMP. Projecto da abertura do Terreiro da Porto. ao AHMP.
Ponte Infante Dom Henrique 1999- Unwin”. Em 1916 desloca‑se ao Brasil
Na publicação: Sé 1939/40. Estátua equestre de Vímara Peres, Na publicação:
2003 onde projecta, entre 1917 e 1920, a
Comissão da CMP para apreciação Outras obras no Porto: 1968. Projecto para a Avenida da Ponte
Outras obras: Ponte Pedro e Inês cidade nova de Pacaembu, perto de
do processo “Praça da Liberdade e Habitação Colectiva em co‑autoria O Génio Acolhedor da Cidade do Porto 1949.
sobre o rio Mondego. S. Paulo. Em 1927 torna‑se consultor
Trindade. Projecto de uma Avenida com Cassiano Barbosa na Rua da e O Génio do Rio Douro nos pilares
Ponte dupla sobre o rio Lima na A3, da Câmara de Manchester para o
ligando estas Praças” 1915. Boavista, 571‑573, 1945/50. norte da Ponte da Arrábida, 1963.
desenvolvimento de Wythenshawe
Nova Ponte sobre o rio Cávado, na EN Edifício de Comércio, Serviços e Esculturas “As Fontes do Direito”, em Carlos Luís Ferreira da Cruz
205, em Amares. cargo que ocupa até 1941. Morreu em
Habitação Colectiva em co‑autoria granito, no Palácio da Justiça do Porto, Amarante (1748‑1815)
António Júlio Teixeira Lopes Edifício do Oceanário de Lisboa, 1960/61.
Letchworth em 1947.
com Cassiano Barbosa na Rua de Sá da
Na publicação: Engenheiro militar
(1903-?) integrando a equipa do Arquitecto Bandeira, 633‑673 e Rua de Guedes
Arquitecto Peter Chermaief 1994 e 1998.
Plano da Avenida da Cidade 1915/16 Na publicação:
de Azevedo, 117‑121, 1946/51. Richard Barry Parker Igreja da Trindade.
Sobrinho do Escultor António Teixeira Habitação Colectiva, em co‑autoria
Lopes (1866-1942), Frequentou a
(1867‑1947) Outras obras no Porto:
António Pinto de Miranda com Cassiano Barbosa na Rua da Arquitecto e urbanista
Benjamim do Carmo Azevedo
EBAP entre 1919 e 1926. Projecto da Academia Real da Marinha
(?‑?)
Constituição, 27‑63, 1950. Nasceu próximo de Chesterfield, (1923‑197?) (actual Reitoria da Universidade do
Na publicação: Edifício de Serviços e Habitação
Arquitecto (Inglaterra) e frequentou a South Arquitecto Porto) 1807. Projecto de ponte à cota
Edifícios na Rua de Rodrigues Colectiva, em co‑autoria com Cassiano Kesington Art School (1886/87). Curso de Arquitectura da EBAP alta 1802. Ponte das Barcas 1806.
Sampaio 176 e 161, de 1935 e 1936 Architecto da Relação em 1794. Barbosa na Rua de Ceuta, 141‑141‑A Continuou a sua aprendizagem em 1940/46. CODA 1967.
respectivamente. Executou diversas plantas e arranjos e Praça de D. Filipa de Lencastre, 16, Outras obras:
de ruas e praças do Porto. Trabalhou Manchester, com o arquitecto George Na publicação: Igreja do Bom Jesus em Braga cerca
Outras obras: 1950/53. Faulkner Armitage (1849‑1937),
para a Ordem Terceira de S. Francisco Colaboração com Manuel Lima de 1849 a 1873.
Parque da Gândara, (Sport Club
entre 1792/99. mudando‑se mais tarde para Buxton Fernandes de Sá num projecto para Igreja do Pópulo em Braga c.1790.
Alberto de Sousa)com o floricultor Aurélio da Paz dos Reis (1895) onde inicia actividade com a Avenida de D. Afonso Henriques Igreja do Hospital em Braga.
Alfredo Moreira da Silva & Filhos.
1930/39. A.R.S. ‑ Arquitectos 1930 (1862‑1931) o primo em segundo grau Raymond (Avenida da Ponte). Ponte de São Gonçalo sobre o Rio
Capela do Sagrado Coração de Jesus, António Fortunato de Matos Cabral Fotógrafo e cineasta Unwin (1863‑1941). Mais tarde Outras obras no Porto: Tâmega em Amarante 1782/90.
Republicano e Maçon, participou na tornar‑se-ão cunhados pelo casamen- Colaborou com Agostinho Ricca na
(Capela de Miramar ) ing. 1938 (1903‑1978), Mário Cândido
Revolta do Porto, de 31 de Janeiro de to de Raymond Unwin com Ethel, elaboração dos projectos de remate
Ampliação do Hotel Mirassol, Miramar de Morais Soares, (1908‑1975), Carlos Filipe Júlio de Pezerat
1891. Possuía um estabelecimento irmã de Barry Parker. Sócios até 1914, da Rua de Sá da Bandeira 1945/58 e
1958 (não realizado). Fernando Manuel Correia da Silva da
comercial – a Flora Portuense – na ambos eram Socialistas Cristãos, da Rua Júlio Diniz 1956. (1825‑1898)
Cunha Leão (1909‑1990).
Praça de D. Pedro, onde se situa hoje envolvidos na Liga Socialista de Engenheiro
Antão de Almeida Garrett Na publicação: William Morris (1834-1896) e mais
a Confeitaria ‘Ateneia’, actual Praça da Nasceu no Rio de Janeiro entre
Praça de D. João I e Palácio Atlântico, tarde, membros (como Bernard
Joaquim Manuel Simões Bento
(1896‑1978) Praça de D. João I, 1946/50.
Liberdade. Muitas das suas fotografias 1825 e 1831 datas em que seu pai
Shaw e H.G. Wells) da Fabian Society Lousan (1932) Pierre‑Joseph de Pezerat, “arquiteto
Engenheiro e professor Outras obras no Porto:
foram publicadas na Illustração
Portuguesa. (do general romano Quinto Fabio Arquitecto particular de Sua Majestade o
universitário Igreja de Nossa Senhora de Fátima,
Aurélio da Paz dos Reis filma a fábrica Maximo), uma organização fundada Curso de Arquitectura da EBAP Imperador” aí se estabeleceu. Em
Na publicação: Rua de Nossa Senhora de Fátima nº em 1883 no Reino Unido, que 1953/57. CODA 1957.
Anteplano Regional do Porto 1946 da Camisaria Confiança, na Rua de 1840 o seu pai, regressa a Lisboa onde
174 e nº 186, 1933/35. pugnava por uma reforma social e Na publicação:
Anteplano de Urbanização do Porto. Santa Catarina, nº 181, sendo este em 1852 é engenheiro da Câmara
Mercado do Bom Sucesso, Praça do uma sociedade mais justa, e lutava Projecto para o edifício Pedreira da
Plano Regulador da Cidade do Porto filme considerado como a primeira Municipal de Lisboa, e em 1853,
Bom Sucesso, 1949/52. contra a exploração e a miséria Trindade, integrado no Plano Director
1952. obra de referência do cinema Professor na Escola Politécnica de
Outras obras: português. Foi também vereador provocadas pelo capitalismo. da Cidade do Porto de 1962 (Plano Lisboa, cujo projecto do edifício lhe é
Mercado municipal, Rua França e presidente substituto da Câmara Os fabianos acreditavam numa Auzelle), retomado em 1989 (não atribuído.
Júnior, Matosinhos, 1936/39. Municipal do Porto. evolução gradual para uma sociedade construído). Carlos Pezerat colabora na “Planta

375
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

de Lisboa à escala de 1/500” e em Concelho do Porto, Avenida dos José Augusto Correia de Restauro do Convento de São Remodelação do edifício da Alfândega Ernesto Korrodi faleceu em Leiria, em
1865 ingressa no Real Corpo de Aliados, 1954. Barros (1835‑1908) Domingos, Abrantes. Nova para Museu dos Transportes e 1944.
Engenheiros Civis. Entre 1881 e Palácio dos Correios, Praça do General
Engenheiro e escritor
Edifício‑sede do antigo Grémio da Comunicações e Centro de Congressos Na publicação:
1883 exerce como Director de Obras Humberto Delgado. 1952‑?. Lavoura Abrantes. e Exposições, 1993. Banco Nacional Ultramarino, Praça da
Presidente da Câmara 1882/87.
Públicas de Lisboa no Ministério das Outras obras no Porto: Formado em Matemática pela
Casa na Avenida da Boavista -Porto, Liberdade 133‑139, 1920.
Obras Públicas. Plano para a zona do Castelo do 1987-1994 Outras obras no Porto:
Universidade de Coimbra, forma‑se Edgar António de Mesquita
Em 1883 vai ocupar o lugar de Queijo (não executado). Bloco de habitação na Rua do Teatro, Igreja do Santíssimo Sacramento,
ainda em engenharia pela Escola do Cardoso (1913‑2000)
Engenheiro Director da Compagnie Arranjo com Barata Feyo da Praça Porto1992/95. 1931.
Exército de Lisboa. Trabalhou nos Engenheiro e professor
Générale des Eaux pour l’Etranger, e Gonçalves Zarco, 1966. Caminhos‑de‑ferro, desempenhou as Outras obras: Outras obras:
fixa residência no Porto. Faleceu em Pavilhão de Rádio do Instituto de universitário Mercado Municipal de Braga, 1980-
funções de engenheiro da Câmara de Palácio de J. Ferreira Rego, Braga,
1898. Oncologia (1927/33). Formado pela Faculdade de 1984. Departamento de Geociências
Lisboa e de inspector dos incêndios 1915‑1918. Mausoléu do Condes de
Na publicação: Liceu de Coimbra (1930/36) Engenharia da Universidade do Porto da Universidade de Aveiro, 1990-
até 1863, ano em que é primeiro Burnay, Lisboa, 1910. Igreja Paroquial
Projecto d’embelezamento da cidade entre 1932 e 1937. Trabalhou na 1994. Estádio de Braga 2000-2003.
engenheiro do distrito do Porto, cargo de S.ta Eulália, Fafe, 1937. Banco
do Porto para servir a edificação aos JAE, de 1938 a 1951. Foi Professor
Arnaldo Casimiro Barbosa de que pediu a exoneração em 1871. Nacional Ultramarino em Portimão,
novos Paços do Concelho e outros do Instituto Superior Técnico. Foi
(1874‑1943) Foi procurador à Junta Geral do Edmundo Tavares Vila Real, Faro, Viseu, Barcelos,
edifícios públicos (…), 1889. sócio correspondente da Academia
Engenheiro distrito do Porto, vereador da câmara (1892‑1983) Chaves, Coimbra, Póvoa do Varzim,
das Ciências de Lisboa. É o autor dos
Aluno da Academia Polytechnica municipal, entre 1878 até 1887, e Beja, Vila Real de Sto. António, todos
Carlos Mourão projectos de diversas pontes no País. Arquitecto
figura no anuário de 1897‑98 de novo em 1887/89 encarregado em 1920. Prédio de Rendimento,
Na publicação: Arquitecto pela Escola de Belas Artes
Avenida Braancamp, Lisboa, 1914.
(? ‑?) Engenheiro Civil Chefe da Câmara do pelouro dos incêndios, sendo
Ponte da Arrábida 1957/63. de Lisboa.
Arquitecto Municipal do Porto. mais tarde inspector. Em 1898 foi Prédio de Rendimento, Rua Viriato,
Ponte de S. João 1991. Na publicação: Lisboa, 1917. Solar do Dr. Egas Moniz,
Na publicação: eleito Par do Reino e sócio honorário
Na publicação: da Associação Comercial do Porto.
Concurso para os Paços do Concelho Avanca, 1918. Pousada do Santuário
Edifício na Avenida dos Aliados, Edifício na Avenida dos Aliados 26‑38, do Porto (não escolhido)
1926. Escreveu diversas peças de teatro, Eduardo da Costa Alves de Monte Córdova, S.to Tirso, 1934.
57‑69, 1919.
entre as quais Nobreza, que se Outras obras:
Outras obras no Porto: Júnior (1872‑?) Mercado dos Lavradores Funchal
Faculdade de Farmácia, Rua Aníbal
representou no teatro de D. Maria, e Arquitecto Eugénio dos Santos e
Carlos Henriques da Silva se publicou em 1864. 1940.
Cunha 1927 (exterior do Arq. Aluno da Academia 1885/94. Carvalho (1711‑1760)
Neves (1916‑?) Aucíndio dos Santos de 1929). Na publicação: Na publicação: Engenheiro militar
Arquitecto Plano de melhoramentos na cidade do Edifício de gaveto Rua de Sá da Ernesto Korrodi 1º Arquitecto das Obras Públicas de
Porto, apresentado à camara pelo seu Bandeira e Rua de 31 de Janeiro, (1870‑1944) Lisboa, trabalhou na reconstrução de
Na publicação: José Champalimaud de presidente, Porto, 1881.
Edifício Correia da Silva no gaveto 1916. Arquitecto Lisboa após o terramoto de 1755.
Nussane (1771‑1825) Nasceu em Zurique, onde se formou
da Avenida dos Aliados com a Rua de Na publicação:
Engenheiro‑militar Domingos Lopes (ou Lopez) em 1888 na Escola de Arte Industrial.
Ramalho Ortigão, 1948. Eduardo Elísio Machado Souto Cadeia e Tribunal da Relação no
Director das Obras Públicas entre Entre 1889 e 1893, foi professor
Outras obras no Porto: 1787 e 1794.
(?‑?) de Moura (1952) Porto.
de Desenho na Escola Industrial
Edifício do “Café Ceuta” na Rua de Na publicação: Arquitecto e professor
Ceuta, 20‑34, 1952. Na publicação: Projecto da primeira Praça Maior no
de Braga depois de concorrer a um
universitário lugar no consulado de Portugal em Ezequiel Pereira de Campos
Edifício Rua de Ceuta, 53-57, 1954. Autor de diversas plantas de arranjos Porto (não realizado). Formado na ESBAP em 1980. Berna. Em 1894, foi para a Escola (1874‑1965)
Edifício na Avenida da Boavista, em de ruas e praças.
Entre diversos prémios nacionais Industrial de Leiria onde se dedicou Engenheiro, político e escritor
colaboração com Francisco Granja Duarte de Castro Ataíde e estrangeiros destaca-se o Prémio
António Correia da Silva ao levantamento e estudo do Castelo, Director dos Serviços Municipais
Castel‑Branco (1927) Pritzker 2011. donde resultou, em 1898, a publicação de Gás e Electricidade da Câmara
Carlos João Chambers (1880‑?) Arquitecto e professor Na publicação: de Estudos de Reconstrução sobre o Municipal do Porto, 1922/39.
Ramos (1897-1969) Arquitecto municipal universitário Projecto entre a Praça da Trindade e a Castelo de Leiria. Curso de engenharia civil, industrial e
Frequentou a Academia Portuense de Ponte Luiz I (com Álvaro Siza), 2004. Em 1902, é agraciado com a Ordem
Arquitecto Curso de Arquitectura da EBAP de minas na Academia Politécnica do
Belas Artes entre 1892 e 1898. Estação do Metro da Trindade. de S. Thiago do Mérito Científico, Porto, em 1899.
Frequenta a EBAL entre 1915 e 1921. 1951/56. CODA 1960.
Comissão da CMP para apreciação Estação do Metro da Avenida dos Literário e Artístico pelo projecto de Director das Obras Públicas de S.
Diplomado pela EBAL em 1926. Professor da ESBAP e da FAUTL.
do processo “Praça da Liberdade e Investigador do Centro de Estudos de Aliados. reconstituição dos Paços do Duque Tomé até 1911. Em 1911, é eleito
Convidado em 1940 para Professor
Trindade. Projecto de uma Avenida Urbanismo Duarte Pacheco. Outras obras no Porto: de Bragança, em Barcelos. Em 1905 como deputado da Assembleia
da EBAP. Com Dordio Gomes na
ligando estas Praças” 1915. Casa das Artes, Centro Cultural da foi nomeado director da Escola Constituinte pelo círculo eleitoral
Pintura e Barata Feyo na Escultura Na publicação:
estruturam a Escola de Belas Artes do Na publicação: Plano Director Municipal do Porto Secretaria de Estado da Cultura, Industrial de Leiria. Os seus projectos de Santo Tirso 1911. Colabora na
Porto. Eleito em 1950 Presidente da Paços do Concelho do Porto, 1993. na Rua António Cardoso, 1981/91. de arquitectura estendem‑se por todo revista Águia (1910/1932), da
Secção Portuguesa da UIA. Director Outras obras no Porto: Outras obras:
Burgo Empreendimento‑edifícios o país, desde Chaves até Vila Real Renascença Portuguesa. Lecciona na
da Escola de Belas Artes do Porto em Mercado do Bolhão 1914. de escritórios e galeria comercial, de Santo António, e em Lisboa foi Universidade Popular do Porto. Em
Colaborou no Plano Director da
1952, cargo que manterá até 1967. na Avenida da Boavista, 1991/2003. agraciado com dois Prémios Valmor, 1916 inicia a sua actividade como
Cidade de Lisboa. Consultor urbanista
Centro Português de Fotografia em 1910 e em 1917. Em 1926, foi‑lhe engenheiro em Évora. A seguir à
Na publicação: para o Plano de Abrantes.
(remodelação do edifício da Cadeia concedido pelo Governo Português, o I Guerra Mundial é convidado para
Conclusão das obras dos Paços do Biblioteca António Botto, Abrantes.
da Relação do Porto) 1997/2001. título de Arquitecto. a Junta Hidráulica Agrícola, onde

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AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

fará o levantamento das plantas do Outras obras: Casa da Câmara junto à Sé, Na publicação: Francisco Xavier do Rego Diplomado em 1933 pela Faculdade
Rio Douro e dos seus afluentes, do Edifício de habitação na Avenida (recuperação e reconstituição) Igreja de Nossa Senhora da Lapa, (1692 ?‑1738) de Arquitectura de Roma. Assistente
Rio Cávado e seus afluentes e do Sidónio Pais, 190, Porto (1955/58). 1996‑2001. 1759. nesta Faculdade em 1934, sendo
Engenheiro‑militar
Rio Tejo. Em 1920 elabora o Plano Moradia no Porto, 1959. Outras obras no Porto: Outras obras no Porto: a partir de 1937 assistente de
Geral de Melhoramentos da Póvoa Moradia em Espinho, 1970. Pavilhão Bairro de Ramalde 1952/60. Gabinete Igreja da Ordem Terceira do Carmo Na publicação: Piacentini na cadeira de Urbanística.
do Varzim. Em 1921 participa com de Exposições de Matosinhos, 1964. Técnico da CMP. 1756. Planta para a zona do Laranjal. Entre 1934 e 1936, realiza diversos
António Sérgio (1883‑1969), o autor Museu Monográfico de Conímbriga, Recuperação da Casa Primo Madeira Outras obras: projectos, de evidente modernidade,
de “Ensaios” (que o considerava como 1982. (Círculo Universitário) 1986/87. Francisco Fernandes da Silva Autor do Tratado Completo entre os quais as estações da
“Agitador de Ideais”) e Raul Proença Centro de Arte e Cultura de S. Pedro Bloco na Rua de Pereira Reis, 1953. da Navegação que contem as auto‑estrada de Génova‑Serralve
Granja (?-?) “Proposiçoens, e Praticas da Scrivia, o Concurso para a Casa do
(1884‑1941) na fundação da “Seara de Bairro, em Famalicão, 1986. Outras obras:
Nova”. Em 1925 (e até 27) torna‑se
Arquitecto Geometria”, 1764 e da “Descripção Estudante na C. Universitária de Roma
Mercado de Santa Maria da Feira
EBAP 1929-1942 de, 1933, Edifício das Corporações em
professor no Instituto Superior do Fernando Silva (1953/59). geographica chronologica, historica, e
Participou na Missão Estética de Cosenza de1936. É conhecido por ser
Comércio do Porto. Nomeado ministro Instituto Nun‘Álvares (1952/53). crítica da villa, e real Ordem de Avis”,
da agricultura e interino do comércio
(1914‑1983) Férias de Coimbra em 1941, dirigida o autor do Plano Regulador da nova
Quinta da Conceição (1956/60). 1730.
em 3 de Junho de 1926, não chega Arquitecto Casa de Ofir (1957/58).
pelo professor Vergílio Correia. cidade de Guidonia inaugurada 1937.
Frequentou a EBAL, mas terminou CODA 1942 Um Hotel à Beira Mar.
a tomar posse. Em 1927 elabora Escola Primária do Cedro (1957/61). Joaquim Gaudêncio Rodrigues Na publicação:
o projecto para a Hidroeléctrica o curso na Escola de Belas Artes do
Plano da zona central de Aveiro e Na publicação:
Pacheco (c.1875‑19--) Colaborador de Marcello Piacentini
de Bitetos para o Douro, que Porto, em 1944. Edifício dos Bombeiros Voluntários,
edifício municipal (1963/67). nos estudos para o Plano Regulador
abasteceria de electricidade a Na publicação: Rua de Rodrigues Sampaio 183-153, Engenheiro
Convento de Gondomar (1961/71). da Cidade do Porto, entre 1938 e
cidade do Porto, e participa no 3° Banco Pinto e Magalhães, Rua de Sá da 1946. Engenheiro‑chefe da 3.ª Repartição da
Igreja Paroquial de S. João de Ver, 1940.
Congresso de Electricidade que Bandeira e Rua de Sampaio Bruno. Outras obras no Porto: Câmara Municipal do Porto.
1966.
se realiza em Coimbra. Em 1928 Outras obras: Convento de Santa Marinha, pousada, Habitações na Foz do Douro (com Na publicação:
Carlos Neves) 1943. Comissão da CMP para apreciação Giovanni Muzio
torna‑se professor na Faculdade de Edifício na Avenida Casal Ribeiro Guimarães (1975/84).
Engenharia da Universidade do Porto, (Prémio Valmor 1946). Plano Geral de Urbanização de Cine-Teatro Vale Formoso do processo “Praça da Liberdade e (1893‑1982)
onde leccionará até 1944. Em 1931 Edifício na Avenida do Restelo com Guimarães 1980. inaugurado em 1944. Trindade. Projecto de uma Avenida Arquitecto italiano
participa em Lisboa no I Congresso João Faria da Costa (Prémio Valmor Instituto Politécnico de Viana do Prédio Armando da Silva Granja da ligando estas Praças”, 1915. Ligado ao grupo Novecento, colabora
dos Engenheiros Portugueses. Publica 1952). Castelo, Escola Superior Agrária, Rua de António José da Costa, n.os Outras obras: nas revistas “Il Primato” e “La Casa”,
em 1931 “Para a Ressureição do Edifício na Rua Maria Veleda (Prémio Convento de Refóios de Lima, Ponte 62-68 (Massarelos, Porto), 1957 Bairro operário do Bonfim 1904/08. e nas revistas “Popolo e Arte”e
Lázaro”, um plano político, económico Valmor 1978). de Lima 1987/93. (com Júlio de Brito). Colónia Viterbo Campos, na Arrábida. “Emporium”. Nos seus primeiros
e financeiro para o país, a realizar em Cinema São Jorge na Avenida da Anfiteatro e instalações acessórias 1916/17. projectos destaca‑se um conjunto
seis anos. Liberdade de 1950. 1989. Francisco Pedro de Arbués residencial, a Cà Brüta, de 1919‑1923,
Faleceu a 26 de Agosto de 1965 na sua Edifício Aviz e o Hotel Sheraton, na Auditório da Faculdade de Direito de Moreira (1777‑1843) A sua experiência urbanística
George Balck afirma‑se sobretudo em 1925 e 1926
residência, o antigo mosteiro de Leça Avenida Fontes Pereira de Melo. Coimbra (1994‑2000). Engenheiro‑militar (?‑?)
do Bailio. como um dos fundadores do “Club
Na publicação: Assistente do Quartel Mestre
Na publicação: Fernando Luís de Noronha dos Urbanistas”. Esta associação
José Figueiredo Seixas Carta topographica das Linhas do General do Exercito Britânico concorre em 1927 à elaboração do
Prólogo ao Plano da Cidade do Porto Tavares eTávora Porto, 1834.
(?-1773) Na publicação: Plano Regulador de Milão, com o
1932
(1923‑2005) Arquitecto Planta Redonda “Cidade do Porto. projecto “Forma Urbis Mediolani”,
Arquitecto e professor Trabalhou como pintor sob a Francisco Pinheiro da Dedicado ao III.mo e Ex.mo Senr. (Mediolanum é o nome romano
Fernando Resende da Silva universitário direcção de Nicolau Nasoni na Sé do de Milão) obtendo o 2º prémio. O
Cunha Brigadeiro Gen. I Sir Nicolao Trant.
Magalhães Lanhas (1923‑2012) Curso de Arquitectura entre 1941 e Porto em 1734, e em Vila Real onde Commendador da Ordem da Torre vencedor é o arquitecto P. Portaluppi
(? ‑?)
Arquitecto e pintor 1946. CODA 1950. possivelmente é o autor da Capela do
e Espada, Encarregado do Governo com o projecto “Ciò per amor”.
Solar de Mateus (1743) e da fachada Engenheiro‑militar
Estudou na EBAP 1942/47. CODA Professor da ESBAP e da FAUP das Armas do Partido do Porto (...)”, Em 1936 é encarregado da cadeira
da Capela Nova (1753). Ajudante de Francisco Xavier do
1963. (1951/93). de Urbanística na nova Faculdade de
Traduziu e anotou em 1732, o Rego. litografada em Londres em 1813.
Director das Publicações de Arte Participa nos congressos CIAM de Arquitectura do Politécnico de Milão,
tratado do jesuíta Andrea Pozzo Entre 1764 e 1779 foi o primeiro
Contemporânea (1954/55). Hoddesdon (1951), Aix‑en‑Provence e em 1939 torna‑se “Accademico
Director das Obras Públicas.
Director do Museu Etnográfico do (1953) e Dubrovnik (1956). Dirige (1642‑1709) Perspectiva Pictorum Giorgio Calza Bini d’Italia”.
Porto (1973/93). et architectorum de 1700. É o autor Na publicação:
a equipa responsável pela Zona 1, (1908 ‑1998) Na publicação:
Como pintor é um dos primeiros de O Tratado da Ruação para Emenda Planta para a zona do Laranjal (Rua
Minho, Douro Litoral e Beira Litoral, Arquitecto italiano
das Ruas, das Cidades, Vilas e Lugares do Almada), 1761. Estudos para o Plano Regulador do
a criar uma pintura abstracta em do Inquérito à Arquitectura Regional Filho de Alberto Calza Bini (1881‑
deste Reino, (1762) e de um possível Porto 1940‑1943.
Portugal. (Arquitectura Popular em Portugal) 1957), Secretário do Sindicato
1955/61. tratado Arte de Edificar, que está
Na publicação: Nacional Fascista dos Arquitectos.
perdido.
Intervenção no Edifício da Associação Na publicação: Foi Mestre da aula de riscar na
dos Jornalistas e Homens de Letras, Praça do General Humberto Delgado cidade do Porto, como se intitula
Rua de Rodrigues Sampaio e Rua do Projecto para a Avenida Afonso no seu Tratado de Ruação, mas
Bonjardim, 1934. Henriques (não realizado) desconhece‑se onde terá leccionado.

379
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

Alexandre Gustave Eiffel Brasil, em Nevogilde, 1937. O Padre Na publicação: Windsor em Inglaterra, na Sociedade Outras obras no Porto: José Ribeiro da Silva Lima
(1832‑1923) Américo, escultura de bronze erguida Planta Topographica da Cidade do das Nações em Genebra, na Argentina, Instituto Moderno (Quartel da Bela Júnior (?-?)
por subscrição pública na Praça da Porto de 1839. no Brasil, em Cuba, entre outros Vista),1915
Engenheiro francês Engenheiro
República, 1955. lugares.
Na publicação: Monumento a Raul Brandão (com Na publicação:
Joaquim Faria Moreira Júlio José de Brito Edifício na Rua do Bonjardim 211-213
Ponte D. Maria Pia 1877 Rogério de Azevedo) no Jardim do José Ferreira Peneda
Frequenta a École Centrale des Arts et Ramalhão (?‑?) (1896‑1965) e Rua de Rodrigues Sampaio 138-146,
Passeio Alegre, 1966.
Manufactures em Paris. Mestre‑de‑obras (1893 ‑1940) Arquitecto e engenheiro 1934/35.
Arquitecto Edifício na Rua de Rodrigues
Funda em 1866 a sua empresa que
João Fragoso Na publicação: Professor na EBAP.
constrói o Grand Palais da Exposição Na publicação: Sampaio 160-162, 1940.
Projecto de Alçado conjunto, Avenida Na publicação:
Universal de 1867. Associa‑se a (1913‑2000) dos Aliados, 202‑214, 1930. Edifício Rua do Dr. Magalhães Lemos Edifício Garantia, Avenida dos Aliados
Théophile Seyrig para a constituição Escultor Outras obras: 109‑111, 1932. 195‑237, 1955. Luís Cunha
da sociedade G. Eiffel et C.ie, que Curso Especial de escultura da EBAL, Prédio próprio, na Rua Nova de Outras obras no Porto: Edifício da Companhia de Fiação e (1933)
vence o concurso para a ponte D. que concluiu. Em 1943, defende a Paranhos, 223, ao Carvalhido, 1932 Casas Geminadas, Avenida dos Tecidos de Fafe, Avenida dos Aliados Arquitecto
Maria. Tese do Curso Superior de Escultura (com Serafim Laínho Barbosa). Combatentes da Grande Guerra, Porto, 220‑236, 1948. Curso de Arquitectura da EBAP
Viveu em Barcelos entre 1875 e sob o tema “S. João de Deus”, em que 1929/31. Edifício da confeitaria Arcádia e 1949/53. CODA 1957.
1877. Projectou em Portugal diversas lhe foi atribuído o Prémio “Roque Edifício na Rua de Fernandes Tomás livraria ‘Figueirinhas’, Praça da Arquitecto da Câmara Municipal do
pontes. São seguramente da sua Gameiro”. John Carr
9‑31 / Rua de S.to Ildefonso 553, Liberdade 62‑68, c.1930. Porto entre 1957 e 1966. Participou
autoria as pontes de Viana do Castelo Na publicação: (1723‑1807) 1936. Edifício da confeitaria ‘‘Ateneia’’ activamente no MRAR, movimento de
sobre o Rio Lima e a de Canavezes Esculturas da Praça de D. João I, 1960, Arquitecto inglês Edifício na Rua de Fernandes Tomás (remod.), Praça da Liberdade 58‑60, renovação da arte religiosa.
sobre o Rio Tâmega (demolida). (1º Prémio do concurso aberto pela Na publicação: 12‑30, 1936. 1938. Na publicação:
Câmara Municipal do Porto em 1954). Projecto do Hospital de Santo Fábrica de Malhas e Sedas “Matos e Teatro Rivoli Praça de D. João I, Projectos para a Praça da Trindade
Henrique Araújo Moreira António para a Misericórdia do Porto Irmão” na Rua da Alegria, 1929. 1925/32. e para a Avenida de D. Afonso
(1890‑1979) 1768/69. Edifício Praça de D. João I 165‑173, Henriques integrados no Plano
Joaquim Cardoso Victoria
Escultor Outras obras: José Francisco de Paiva 1931/33 (demolido). Director da Cidade do Porto 1962
Villanova (c.1793‑1850) Edifício Rua do Bonjardim 175‑179,
Autor de diversos edifícios (Plano Auzelle).
Na publicação: Pintor e gravador (1744‑1824)
neoclássicos, como Tabley House 1941. Edifício Rua de Rodrigues Outras Obras no Porto:
Juventude ou Menina Nua e os A Villanova deve‑se também o Arquitecto e ensamblador Sampaio 179, 1944.
Knutsford 1761/67. École Française de Porto, 1963.
Meninos, Avenida dos Aliados 1929 e desenvolvimento e a difusão no Porto Basildon Park Lower Basildon, Na publicação: Outras obras no Porto:
1932. da litografia. Em 1835 é nomeado Igreja Paroquial do Carvalhido 1969.
Berkshire 1776 /83. Plano da Cidade do Porto para este Edifício Aviz na Rua de Aviz.
Esculturas no Café Guarany e Lente Substituto da Aula de Dezenho Centro de Caridade Nossa senhora
Wentworth Woodhouse, South ser(vi)r aos novos alinhamentos Edifício de gaveto das Ruas Sá da
na fachada do edifício do Jornal na Academia de Marinha e Commercio do Perpétuo Socorro, Rua de Costa
Yorkshire. projectados ( e) Praças preci( s)as na Bandeira e Fernandes Tomás. Cabral, 1962‑1970.
‘O Comércio do Porto’ 1933. da Cidade do Porto, e assistente da extenção do mesmo (P)lano; para a(c) Edifício Cifa, na Rua de Ceuta.
Cariátides e Atlantes no exterior Aula de Pintura Histórica da Academia autelar a construção dos E(difi)cios
Jorge Colaço Edifício de gaveto nas Ruas Duque de
dos Paços do Concelho e Indústria Portuense das Belas Artes. para o(fu)turo; (entre 1818 e 1824). Loulé e Alexandre Herculano. Manuel Pinheiro Fernandes
(uma mulher do povo com um xaile Na publicação: (1868‑1942) Outras obras no Porto: Edifício na Praça Pedro Nunes. de Sá (1943)
ao ombro e uma roda dentada) e Autor de 102 estampas com imagens Pintor Trabalhou em diversas obras da Arquitecto e professor
Arte (uma mulher de dorso nu), no dos edifícios do Porto, reunidas num Presidente da SNBA de 1906 a 1910. cidade, na transição do século XVIII
Serafim Laínho Álvares universitário
interior, 1957. Álbum publicado pela BPMP em 1987. Trabalhou em azulejo na Fábrica para o século XIX, como o Hospital da Licenciado pela ESBAP em 1968.
Aguia no Café ‘Imperial’, Praça da de Louça de Sacavém, na Fábrica Ordem Terceira do Carmo 1791‑1801, Barbosa (? ‑?) Pós Graduação em Planeamento
Liberdade.
Joaquim da Costa Lima de Cerâmica Lusitânia e na Fábrica o Quartel de Sto Ovídio em 1797, e o Engenheiro Urbano e Regional na Universidade de
Fachada do Teatro Rivoli de 1942. Lusitânia de Coimbra. Matadouro‑Novo em 1800. Na publicação:
Júnior (1806-1864) Manchester, em Inglaterra.
Relógio no interior do Café Rialto, Na publicação: Edifício na Avenida dos Aliados 26‑38,
Arquitecto Docente da ESBAP em 1972 e na
Praça de D. João I, 1947. Painéis de azulejo da Estação de 1926.
Usava o apelido Júnior para se José Teixeira Lopes FAUP até 2012.
Outras obras no Porto: S. Bento, 1903. Hotel Peninsular, Rua de Sá da
Busto de Camilo Castelo Branco, na distinguir do tio, o arquitecto Joaquim Exterior da Igreja dos Congregados
(1872-1919) Na publicação:
Bandeira 1927.
Avenida Camilo 1925. Monumento da Costa Lima Sampaio. (1929) e de Santo Ildefonso (1932). Arquitecto Plano Director Municipal do Porto
aos Mortos da Grande Guerra Em 1836 torna‑se professor de Curso na EBAP entre 1885 e 1891. 2005.
Outras obras: Leandro Augusto de Morais
(1914‑1918), Praça de Carlos Alberto, Arquitectura Civil na Academia Em 1892 está em Paris com o irmão Outras obras no Porto:
Painéis de azulejos do Palace‑Hotel
inaugurado em 9 de Abril 1928. Portuense. Foi a partir de 1853 o
do Buçaco (1907), do Pavilhão Carlos
António Teixeira Lopes.Pertenceu à (1883‑?) Bairro de Massarelos, Porto, SAAL
O Pedreiro, estátua em bronze “arquitecto da cidade” ao serviço da Comissão de Estética da CMP. Arquitecto. Norte. Carlton Hotel (actual Hotel
Lopes (1922), da Casa do Alentejo
colocada no Jardim João Chagas Câmara Municipal. Foi o autor do 1º Na publicação: Pestana Porto), na Praça da Ribeira.
(1918). Obras da sua autoria podem Na publicação:
e depois transferida para o Largo projecto para o Mercado do Bolhão, Com Ventura Terra: Banco de Arranjo urbanístico da zona ribeirinha
ainda ser apreciadas no estrangeiro, Proj. de Alçado Conjunto, Avenida dos
de Alexandre Sá Pinto, após a assim como do primeiro projecto Portugal na Praça da Liberdade75 portuense, entre a Igreja de S.
designadamente, no Palácio de Aliados 58‑90, 1924.
relocalização da Escola Infante D. para o Palácio da Bolsa, edifício que 112,1918/33 Francisco e os Pilotos da Barra, na Foz
Henrique, 1933. O Salva‑vidas, estátua acompanhou entre 1840 e 1860. do Douro.
de bronze erguida na Avenida do

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AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

Manuel Ferreira da Silva Praça Gomes Teixeira (Praça dos guarda‑livros na casa Pinto Leite, na Nacional’. João de Moura Coutinho de Casa de Ramalde, c.1746.
Janeira (?‑?) Leões) 1932. agência do Banco Comercial de Braga, Edifício ‘‘Pinto Leite’’ (Bank of Almeida d’Eça (1872-1954) Igreja do Recolhimento dos Órfãos
Pedestal do Monumento aos Mortos e no Caminho de Ferro de Guimarães. London). de Nossa Senhora da Esperança,
Mestre‑de‑obras Arquitecto
da Grande Guerra, Praça de Carlos Foi funcionário do Contencioso Fiscal Edifício do JN. 1746/63.
Na publicação: Alberto, inaugurado em 9 de Abril de da Alfândega do Porto, função que Comissão da CMP para análise do
Em 1889, com apenas 17 anos, Moura
Capela da Casa dos Maias, 1749/54.
Edifício António Lopes, Avenida dos Coutinho encontra‑se em Braga, na
1928, para substituir o monumento desempenhou até ao seu falecimento. processo “Praça da Liberdade e Reconstrução da Casa de Vandoma,
Aliados 141‑147, 1929 Direcção das Obras Públicas deste
existente. Publica fotografias no Boletim do Trindade. Projecto de uma Avenida Rua de D. Hugo, c. 1750.
Outras Obras no Porto: Distrito, como apontador de 3ª classe.
Photo‑Velo Clube, na revista “Sombra ligando estas Praças”, 1915. Casa Barroso‑Pereira 1756/59.
Casas Arte‑Nova nas Ruas de Cândido Em 1890 apresenta‑se ao Serviço
e Luz”, no “Portugal Artístico”, e em Outras obras no Porto: Igreja da Ordem do Terço, c. 1750.
dos Reis e da Galeria de Paris. Manuel da Silva Passos Júnior da Direcção das Obras Públicas de
“O Comércio do Porto Ilustrado”. Teatro S. João (1909). Capela de Nossa Senhora do Pinheiro,
Edifício Rua do Bonjardim 1936. (1908‑?) Coimbra, como apontador de 2ª
Em Dezembro de 1907 entrou na Liceus Alexandre Herculano (1914) e 1757.
Casa Arte Nova na Avenida Brasil, 72. Arquitecto classe. Em 1903 Moura Coutinho
exposição organizada pelos Armazéns Rodrigues de Freitas (1918). Palácio de Bonjóia, 1759.
encontra‑se a trabalhar em Lisboa,
Casa na Rua do Castro, 1911. Na publicação: Grandella, onde recebeu uma menção Armazéns Nascimento (1914). servindo como apontador de 1ª classe,
Edifício Capitólio Praça do General honrosa e viu a obra publicada no Palácio Conde de Vizela (1920). na 1ª Direcção das Obras Públicas Francisco de Oliveira Ferreira
Manuel Lima Fernandes Sá Humberto Delgado, 1946. respectivo catálogo. Casa de Serralves. (1925/44). desta cidade. Por volta de 1905 Moura (1884‑1957)
(1903‑1980) As firmas Araújo & Sobrinho, J. P. Coutinho está de novo em Braga,
da Conceição, a Estrela Vermelha, Arquitecto
Arquitecto e engenheiro Marcello Piacentini Michelangelo Soá continuando a servir na Direcção das
Curso de Engenharia Civil na (1881-1960) e os Grandes Armazéns Hermínios Obras Públicas desta cidade. Na publicação:
produzem postais da cidade do Porto, (? ‑?) ‘Clube Fenianos Portuenses’, Rua do
Faculdade Técnica da Universidade Arquitecto italiano Na publicação:
da região Norte do País e do vale Arquitecto Clube dos Fenianos 3‑47, 1920.
do Porto concluído em 1926, ano Em 1912 obtém o diploma de ‘Banco do Minho’, Avenida dos Aliados
do Douro, com as suas fotografias, Professor da Escola Industrial Infante Café A Brasileira (ampliação) Rua de
em que aquela instituição tomou o arquitecto na Escola de Engenheiros 36‑41, 1919/22.
utilizando a abreviatura A. Brandão. D. Henrique. Sá da Bandeira 69‑91, 1915/30.
nome de Faculdade de Engenharia de Roma, embora já tenha realizado Banco Lisboa & Açores, Avenida dos
da Universidade do Porto (FEUP). a publicação: Aliados 42‑54, 1921.
Clínica Dr. Alberto Gonçalves (Casa da
um razoável número de projectos
Arquitecto pela École Supérieure des Edifício ‘Soares da Costa’, Avenida dos Saúde da Avenida) Avenida Aliados
e obras, como o Pavilhão de Itália Mário Augusto Ferreira de Projecto para o Teatro S. João (2º
170‑200, 1929/34.
Beaux-Arts de Paris, em 1934. Aliados 71‑89, 1919.
na Exposição Universal de Bruxelas Abreu (1908-?) lugar no concurso), Praça da Batalha,
A partir de 1934 trabalha na Direcção Edifício na Avenida dos Aliados Projecto para a C.ª Seguros A Nacional
em 1910 e o plano para o centro de 1910 (não construído).
Arquitecto 151‑179, 1923. (não realizado) 1918.
Regional do Norte dos Monumentos Bergamo em 1907/11. Em 1912/28 Outras obras:
Frequentou a EBAP entre 1921 e Prédio de Alberto Nogueira Gonçalves,
Nacionais. projecta o palácio de justiça de Em Braga destacam‑se: O Teatro
1930, ano em que obteve o diploma Rua de Rodrigues Sampaio nº 155 e
Na publicação: Messina e entre 1915 e 1917 projecta de Arquitecto.
Miguel Resende Circo de Braga, 1907‑1915, o Banco
161, 1938.
Projecto para a Avenida Afonso o cinema Corso e a Villa Allegri em (1910‑1976) de Portugal, 1920‑28, a Garagem
Na publicação: Outras obras no Porto:
Henriques (não realizado). Roma. Em 1921 dirige com Gustavo Engenheiro Auto‑Palace (O Nosso Café), c.
Edifício na Rua de Ramalho Ortigão Ourivesaria Cunha, Rua de St. António
Edifício da Ordem dos Engenheiros, Giovannoni (1873–1947) a revista 1914/16 e a CUF-Companhia União
16-18. Na publicação: 1914. Ourivesaria Aliança, Rua das
Rua de Rodrigues Sampaio. “Archittetura e Arti Decorative” até Fabril, c. 1916.
Outras obras no Porto: Pertenceu ao Gabinete de Urbanização Flores 1925.
1928 quando esta passa a orgão
Garagem Passos Manuel 1930-1938. da CMP Edifício da Casa Inglesa, Rua de Santa
Manoel Marques oficial do Sindicato dos Arquitectos
Garagem Batalha 1930. Outras obras no Porto: Nicolau Nasoni Catarina/Rua Passos Manuel 1922.
Fascistas. Em 1932, a revista passa a
(1890-1956) denominar‑se apenas “Archittetura” e
Café Florida (actual Garça Real), 1945 Com o arquitecto Oldemiro Carneiro (1691‑1773) Grande Colégio Universal, Avenida da
Arquitecto Rádio Porto, Lda. 1947. projectou o Estádio das Antas Arquitecto Boavista 1927.
Piacentini reassume a sua direcção.
Professor na EBAP. Outras obras: 1952‑2004. Outras obras:
Na publicação: Escola Primária e Junta de Freguesia Na publicação:
Na publicação: Outras obras: Igreja (1731/50) e Torre dos Clérigos
Oliveira Ferreira tem uma extensa
Farmácia Vitália, Praça da Liberdade Estudos do Plano Regulador do Porto de Arcozelo 1932. Em 1947 elabora o Plano de lista de obras sobretudo em Vila Nova
entre 1938 e 1941. (1754/63).
34‑37, 1932. Urbanização da Póvoa do Varzim com de Gaia de que se destacam:
Outras obras: Obras de Nasoni, ou a ele Paços do Concelho de Gaia de 1916
Barbearia Tinoco (alterada) Rua de Sá José Marques da Silva o arquitecto Agostinho Rica.
da Bandeira 11, 1929. A Praça da Vitória em Brescia atribuídas, no Porto: e o Sanatório Heliântia de 1929. Em
Ante‑plano de Urbanização da Vila
Juventude ou Menina nua, com 1929/32. A Cidade Universitária de (1869‑1947) de Ovar 1945/54. Elaborou diversos
Paço Episcopal, 1734. Lisboa destaca‑se o Monumento
Henrique Moreira escultor 1929. Roma (1933/35). A Via da Conciliação Arquitecto planos de urbanização como o de
Palácio do Freixo, c.1742/54. Aos Heróis da Guerra Peninsular,
em Roma 1936/50. Estudou na Academia Portuense de Quinta da Prelada, c.1743/58. ganho num concurso em 1908 em
Os Meninos com Henrique Moreira Gondomar 1948, Maia Santo Tirso
Belas Artes. Casa do Despacho da Ordem Terceira colaboração com o seu irmão o
escultor Avenida dos Aliados, 1932. 1951, Vila do Conde 1952 e Vila Nova
Bolseiro em Paris onde trabalhou no de São Francisco, 1746/49. escultor José Oliveira Ferreira. O
Edifício Casa Lima Rua de Rodrigues Alberto Marçal Brandão de Famalicão 1949 e o Plano Director
atelier de Victor Laloux. Fachada da Igreja da Misericórdia do monumento só será inaugurado em
Sampaio 184‑204, 1937. da Região de Lisboa.
(1848‑1919) Professor (1906) e Director da Escola Porto, 1749. 1933.
Edifício na Rua de Rodrigues Sampaio
176, 1935. Fotógrafo de Belas Artes do Porto (1913‑1918 e Palácio de São João Novo, 1725/39.
O seu pai José Marçal Brandão 1931‑1939). Chafariz de São Miguel ou do Anjo, c.
Outras obras no Porto:
pertenceu ao Senado da Câmara Na publicação: 1737.
Casa na Praça Mouzinho de
Municipal do Porto. Estação de S. Bento 1900/30.
Albuquerque.
Alberto Marçal Brandão foi Edifício da Companhia de seguros ‘A
Fachada dos Armazéns Cunha na

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AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

Pe. Pantaleão da Rocha de Frederico Perry Vidal as mais conhecidas O António Riccardo Leone (1951), de Valenton (1971‑1973), Bloco Residencial Armando e Américo
Magalhães (?-1703) (?-?) Maria (1879‑1898), a Pontos (?‑?) e de Villetanneuse (1972‑1976), na da Silva 1969.
nos ii, (1885‑1891) e a Parodia região de Paris. Foi presidente da Remodelação do Paço Couceiro da
Arquitecto Na publicação: Pintor italiano e especialista em
(1900‑1907). Academia Francesa de Arquitectura Costa, 1973.
Na publicação: Planta da cidade do Porto contendo o
Como ceramista inicia a sua actividade vitral. de 1976 a 1983 data da sua morte. Capela Santa Joana do antigo Albergue
palácio de Christal, nova alfândega, e
Fonte da Arca, 1677. em 1884, e trabalha para a Fábrica de Na publicação: Para além da Encyclopedie de Distrital de Aveiro, 1973.
Retábulo‑mor da Igreja do diversos melhoramentos posteriores
Faianças das Caldas da Rainha até à Vitrais do Café ‘Imperial’ na Praça da l’Urbanisme publicou diversos textos
Convento de Santo Elói, (1685). a 1844.
sua morte. Faleceu em 1905 quando Liberdade. sobre urbanismo como:
Rogério dos Santos de
Outras obras: organizava o 1º Carnaval do ‘Clube Outras obras no Porto: Technique de L’urbanisme 1953,
Igreja do Convento do Corpus Christi Porfírio Pardal Monteiro Fenianos Portuenses’. Plaidoyer pour une organisation Azevedo (1898‑1983)
Com a sua oficina efectuou um
em Gaia, 1675. Risco do Sepulcro da (1897‑1957) conjunto notável de vitrais no Porto: consciente de l’espace‑le roman Arquitecto
Sé Catedral do Porto, 1678. Risco do prosaique de Monsieur Urbain1962, Formou‑se em 1917 na Academia
Arquitecto Reynaldo ou Reinaldo Oudinot Ourivesaria Marques 1926, na
Sepulcro da Sé Catedral de Lamego, escadaria do Hotel Infante de Sagres 323 citations sur l’urbanisme, colab. de Belas Artes do Porto mas com a
Estuda na Escola de Belas Artes de (1747‑1807)
1678. Risco do retábulo‑mor e de Rogério de Azevedo. de Jean Gohier et Pierre Vetter, nova organização do Ensino, obteve
Lisboa (1910/19). Trabalha no ateliê
sacrário da Igreja do Convento de Engenheiro francês 1964, L’ architecte 1965, Clefs pour o Diploma de Arquitecto na Escola de
de Miguel Ventura Terra. Professor do Outras obras:
Santo António, Aveiro, 1679. Nascido em França, irmão do l’urbanisme Seghers, 1971, A la Belas Artes em 1926.
Instituto Superior Técnico. Presidente Fachada da Papelaria Fernandes
marechal Nicolas‑Charles, conde de mesure des hommes, 1980. Professor do Ensino Técnico, na
do Sindicato Nacional dos Arquitectos 1929, no Hotel Vitória de Cassiano
Oudinot e duque de Reggio. Escola Industrial D. Henrique, em
Pedro Cândido Almeida de Eça de 1935 a 1944. Branco de 1936, “As Colónias” Na publicação:
Depois de uma estadia em Inglaterra, 1929.
Ramalho (1937) segundo um desenho de Jorge Plano Director de Cidade do Porto
Na publicação: chega a Portugal em 1766, onde Direcção Geral dos Edifícios e
Arquitecto e professor Barradas no café Portugal de Cristino 1956/62.
Edifício da Caixa Geral de Depósitos ingressa no Exército, como “ajudante Monumentos Nacionais (DGEMN)
da Silva em 1938, os vitrais de Almada Outras obras:
universitário na Avenida dos Aliados, 1923/27. de Infantaria com o Exercício de 1936‑1940.
Negreiros para a Igreja de Nossa Plano Director de Aveiro 1964.
Formou-se na Escola Superior de Outras obras: Engenheiro” e em 1784 tem a patente Professor na ESBAP (1940‑1968).
Senhora de Fátima de Pardal Monteiro
Belas-Artes do Porto, em 1968. Obras mais conhecidas, para além de de Tenente‑Coronel. Vereador da CMP 1955‑1959.
em 1938, e ainda nas Termas do Luso
Leccionou na ESBAP entre 1968 e numerosas moradias e edifícios de Em 1803, pelos inúmeros serviços Raul Rodrigues Lima Na publicação:
de Pardal Monteiro em 1931. Mas
1984. Professor da FAUP desde 1985. habitação, alguns premiados com o prestados, é‑lhe concedido o posto (1909‑1979) Edifício sede do jornal ‘O Comércio do
a sua principal intervenção foi no
Na publicação: Prémio Valmor (1928, 1929 e 1930): de Brigadeiro do Real Corpo de Arquitecto Porto’, Avenida dos Aliados 107‑137,
restauro dos vitrais do Mosteiro da
Remodelação do Teatro Municipal Estação Ferroviária do Cais do Sodré, Engenharia. Formado pela EBAL em 1931. 1930.
Batalha.
Rivoli, praça de D. João I, 1992/97. 1926. Instituto Superior Técnico, Em Portugal, a sua primeira Garagem do jornal ‘O Comércio do
Outras obras no Porto: 1927. Instituto Nacional de Estatística, actividade é a execução de Na publicação:
Porto’, Rua de Elísio de Melo e Rua do
1931. Igreja de Nossa Senhora levantamentos cartográficos. Entre
Gaston Léon Robert Auzelle Palácio da Justiça do Porto inaugurado
Com Sérgio Fernandez, Bloco Almada, 1932.
residencial na Pasteleira, 1964/67. de Fátima, 1933. Colaboração de 1772 e 1788 realiza estudos para o (1913‑1983) em 1961.
Edifício do gaveto da Praça da
Edifícios de habitação colectiva na Francisco Franco e Almada Negreiros, aproveitamento dos campos do vale Arquitecto e urbanista francês Outras obras: Liberdade e Rua de Sampaio Bruno,
Pasteleira, 1968 /73. Prémio Valmor 1938. Gare Marítima de Leiria. Depois da sua estadia no Em 1931, frequenta a École Nationale Autor dos Palácios da Justiça de 1928.
Intervenção SAAL, na zona das Antas, de Alcântara e Gare Marítima da Porto parte para a Ilha da Madeira, Supérieure des Beaux-Arts (ENSBA) e Aveiro, Beja, Bragança, Santarém, Edifício Soares Marinho Rua de
1974/76. Rocha do Conde de Óbidos. Painéis em 1804 para realizar obras no em 1936 o Instuitut d’Urbanisme de Viseu, Vila Real e Portalegre. Autor Ramalho Ortigão e Rua do Almada,
Museu e o Auditório na Rua D. Hugo, de Almada Negreiros 1934. Edifício Funchal decorrentes das destruições l’Université de Paris (IUUP), onde se dos cinemas Cinearte (hoje com a C.ª 1942.
1974/78. do Diário de Notícias, Avenida provocadas pelo aluvião do ano formou em 1942. de Teatro A Barraca) e Monumental Hotel Infante Sagres, Praça Filipa de
Faculdade de Engenharia da Da Liberdade Painéis de Almada anterior. Morre na Madeira em 1807. Em 1945 torna‑se professor na (demolido) em Lisboa. Autor do Lencastre.
Universidade do Porto,1988-1994. Negreiros1936, Prémio Valmor 1940. Universidade de Paris (Instituto Teatro Micaelense em Ponta Delgada Edifício Rialto, Praça de D. João I
Na publicação: d’Urbanisme de l’Université de e Cine-Teatro Avenida em Aveiro.
Outras obras: Laboratório Nacional de Engenharia 1928/45.
Quartel de Santo Ovídio 1790.
Piscinas em Matosinhos,1975/79. Civil, 1949. Hotel Tivoli, Hotel Paris) e em 1961 na ENSBA (École Outras obras no Porto:
Conjunto habitacional da cooperativa Mundial, 1952. Cidade Universitária Outras obras no Porto: Nationale Supérieure de Beaux-Arts);
Director dos trabalhos da Barra do
Rogério Augusto Neto Faculdade de Medicina (Instituto Abel
“As Sete Bicas”, Matosinhos, 1987- de Lisboa (Faculdades de Direito e de trabalhou para o MRU (Ministère de Salazar) 1925/33.
Douro desde a foz até à cidade, entre la Reconstrution et de l’Urbanisme).
Barroca (1928)
1994. Conjunto habitacional do Plano Letras e Reitoria). 1952. Biblioteca
Nacional de Portugal, 1954. Hotel Ritz 1790 e 1804. Publica com Ivan Jankovic, a partir Arquitecto
Integrado da Quinta da Senhora da
Real Casa Pia, na Rua Augusto Rosa, de 1947, uma Encyclopédie de Sócio inicial do Cine Clube do Porto Sérgio Fernandez
Conceição, Guimarães, 1973/82. (actual Four Seasons), 1952/59, onde
iniciada em 1790. l’Urbanisme. Entre 1947 e 1953 1945/46. Frequentou a EBAP entre (1937)
Com Luís Ramalho, Departamento vem a falecer de uma queda.
Outras obras: projecta a realização do Quartier 1946 e 1956, tornando-se docente
de Economia, Gestão e Engenharia Arquitecto e professor
Praça Nova (Praça do Almada) e de la Plaine à Clamart. Em 1958 na mesma instituição. CODA 1955,
Industrial da Universidade de Rafael Bordalo universitário
Câmara Municipal da Póvoa de é encarregado com Jankovic de Moradia em Águeda.
Aveiro,1992. Recebeu, em 2008, com Alexandre
Tribunal de Matosinhos, 2000
Pinheiro (1846‑1905) Varzim. Barra Nova e porto de Aveiro. formular um novo estudo para La Na publicação: Alves Costa, o Grande Prémio da
Paços de Concelho de Águeda, Pintor, caricaturista, e Defense em Paris (o 1º estudo é de Colaborador de R. Auzelle no Plano Associação Internacional dos Críticos
1981/85. ceramista 1956) e entre 1969 e 1972 elabora Director da Cidade do Porto 1962. de Arte.
Fundou e elaborou diversas revistas em colaboração com Hector Patriotis Outras obras:
de crítica política e social, sendo um outro projecto para La Defense. Em Aveiro: Com Mário Truta, escultor,
Foi o autor dos cemitérios de Clamart Monumento a José Rabumba, 1969.

385
AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

Na publicação: Secundária Artística de Soares dos Historica e Thopographica da Cidade Alfredo Evangelista Viana de Vicenzo Mazzoneschi como Progressi dell’urbanistica
Com Alexandre Alves Costa, Reis). do Porto do Pe. Agostinho Rebello Lima (1913‑1991) (1747‑1807) italiana: dai piani regionali ai piani
Remodelação da Zona Leste B, Praça Na publicação: da Costa. Autor de diversas plantas
Arquitecto Cenógrafo e arquitecto italiano
territoriali, em L’Ingegnere, aprile
de D. João I, Rua de Passos Manuel Grupo escultórico (Mulher, Hermes e parciais de zonas da cidade. 1939 e L’urbanistica come problema
Frequentou o Curso de Arquitectura Na publicação:
e Rua de Sá da Bandeira, projecto Deméter) no Banco de Portugal 1918- nazionale, em Critica Fascista, marzo
entre 1934 e 1939. Autor do 1º Teatro de S. João do
integrado na Porto 2001, Capital 1934. François Gustave Théophile 1942 e “Distribuire il lavoro per
Em 1947 foi um dos membros Porto. 1796/98 (desaparecido num
Europeia da Cultura. Génio da Independência, Seguro de distribuire la popolazione” idem,
Seyrig (1843‑1923) fundadores do grupo ODAM. incêndio em 1908).
Outras obras no Porto: Vida, Acidente e Trabalho no edifício Apresentou uma comunicação
maggio 1942 Foi Secretário‑geral do
Edifícios Residenciais da Pasteleira, A Nacional 1920-1924. Engenheiro alemão Foi consultado para as obras do “Istituto Nazionale di Urbanística”
intitulada O problema português da
Porto (1965),com Pedro Ramalho. Cariátide no Edifício dos Paços do Na publicação: cemitério subterrâneo da Igreja da 1937 e da “Reggensa Nazionale
habitação, no Congresso Nacional de Ordem Terceira de S. Francisco.
Operação SAAL do Bairro Leal, na Rua Concelho. Ponte Luiz I, 1886 Gruppi Urbanistici” e responsável
Arquitectura de 1948. Leccionou na
das Musas (1974-1978). Outras obras no Porto: Colaborou com Eiffel na ponte D. Outras obras: em 1939 pelo Esquema das Grandes
ESBAP de 1961 a 1981.
Maria Pia. Foi o autor do Teatro Principal de
Outras obras: Bondade no Teatro S. João. Chefia a Delegação portuguesa aos Comunicações Viárias do Plano
Complexo Turístico de Moledo (1980). Grupo escultórico no Mercado Malaga inaugurado em 1793. Regulador de Roma.
congressos CIAM de Hoddesdon
Jardim Infantil de Moledo (1988). do Bolhão. Grupo escultórico nos Miguel Ventura Terra Chegou a Lisboa em 1793.
(1951), Aix‑en‑Provence (1953) e Na publicação
Residência de Estudantes Lisboa, Armazéns Nascimento 1914-1927. Trabalhou como cenógrafo no Teatro
(1866‑1919) Dubrovnik (1956)
de S. Carlos em Lisboa.
Colaborador de Marcello Piacentini
Expo’98 (1996-1998). Monumento ao Esforço Colonizador
Arquitecto Na publicação: Vicenzo Mazzoneschi projectou, para
nos Estudos para o Plano regulador
Com A. Alves Costa: Cine-Teatro Palácio de Cristal 1934 (com Alberto do Porto entre 1938 e 1941.
Aos 15 anos entra na Academia Edifício ‘Cancela Velha’, Rua de o primeiro barão de Quintela em
Constantino Nery em Matosinhos Ponce de Castro)
Portuense de Belas Artes onde estuda Guilherme da Costa Carvalho 3‑29, 1805, o s edifícios em Lisboa nas Ruas
(inaugurado em 2008), Baltazar Guedes no Palácio da Justiça.
até 1886. Bolseiro, frequenta em Paris 1955. da Madalena e dos Fanqueiros, nunca William Branwhite Clarke
Complexo Residencial de Viana Carolina Michaellis na escola
o atelier de Victor Laloux e obtém Outras obras no Porto: realizados. (1798‑1878)
do Castelo (2005), Estudo de secundária do mesmo nome.
o diploma da École de Beaux-Arts
Recuperação e Valorização Ternura no Palácio de Cristal 1964. Moradia Honório de Lima, Porto Arquitecto britânico
de Paris em 1894. Em 1896 está de (demolida). 1939/43.
Patrimonial da Aldeia de Idanha-a- Maria Helena Vieira da Silva Presidente da Architectural Society.
regresso a Portugal. Com um vasto Moradia Aristides Ribeiro, 1949/51.
Velha. Recuperação do Convento de Augusto Gerardo Telles conjunto de obras, acaba por falecer (1908‑1992) Na publicação:
Santa Clara-a-Velha, em Coimbra Moradia Borges, 1950/58 Bloco
Ferreira (1830‑1895) em 1919 não vendo completa a sua Pintora OPORTO 1833 Published under the
inaugurado em 2009. habitacional de Costa Cabral,
Engenheiro militar obra do Banco de Portugal no Porto. Estudos de pintura na Academia de Superintendence of the Society for
1953/55.
Topógrafo de 1ª classe em 1856, da Na publicação: Belas‑Artes de Lisboa entre 1920 e the Diffusion of Useful Knowledge.
Faculdade de Economia da
José Emílio da Silva Moreira Repartição dos Trabalhos Geodésicos, Banco de Portugal, Praça da Universidade do Porto. 1961/74 1928. Parte para Paris onde trabalhou THE ENVIRONS OF OPORTO. View of
(1895‑?) Topográficos, Hidrográficos e Liberdade 75‑112, 1918/33 (com José no atelier de Fernand Léger. Em 1966 OPORTO from Torre da Marca 1833.
Outras obras:
Arquitecto Geológicos do Reino. Teixeira Lopes). é a primeira mulher a receber o Grand Outras obras:
Casa das Marinhas, Esposende,
Na publicação: Outras obras no Porto: Prix National des Arts e, em 1979 Desenhou entre outras as Plantas de
Na publicação: 1954/57.
Lisboa 1833, de Edimburgo 1834, de
“Carta Topographica da Cidade do Moradia na Foz do Douro (muito Complexo Hospitalar de Bragança, recebe a Legião de Honra. Diversas
Edifício Rua de Elísio de Melo 29‑33, Copenhague 1837 de Estocolmo 1836,
Porto que foi mandada levantar na alterada, onde esteve o restaurante D. 1957. obras nos Museus e coleções de
1930. Edifício no gaveto Rua de Elísio de Moscovo 1836, de Paris 1834 e
escala 1:500 por ordem da Câmara Manuel). Remodelação e ampliação do Hotel França e de Portugal.
de Melo 51 e Rua do Almada 182, ainda de Roma Antiga e de Roma
1930. Municipal da mesma cidade referida ao Outras obras: Suave‑Mar, Esposende. 1958. Na publicação:
Moderna 1830.
Edifício no gaveto Rua do Dr. anno de 1892” (1878/92). Casa Ventura Terra, Rua Alexandre Conjunto de Escolas Primárias e Ville de Porto, 1962, colecção
Magalhães Lemos 65‑81 e Rua Outros trabalhos: Herculano, 59, 1903. Habitação, Bragança. Millenium‑BCP.
Bonjardim 129‑133, 1932. Levantamento da Carta Cadastral de Banco Totta e Açores, Rua do Ouro, Plano de Urbanização de Bragança
Outras obras no Porto: Viana do Castelo (1867/69). Sob a 1903. (início), 1960.
Vincenzo Civico
Assina o termo de responsabilidade, direcção de Filipe Folque participou Casa Visconde de Valmor‑Prémio Bloco habitacional e de serviços, Santa
Valmor 1906. Maria da Feira, 1966. (?‑?)
para a execução do projecto da igreja no “Plano Hidrographico da Barra
Maternidade Alfredo da Costa Com Oscar Niemeyer projecta o Engenheiro italiano,
de N.S. de Fátima da autoria de ARS- do Porto” (1861/62), e no “Plano
Arquitectos, 1934. Hidrographico da Barra e Porto de Sinagoga de Lisboa 1907‑1909 Casino‑Hotel do Funchal, Madeira, especialista em transportes e
Vianna do Castello”, (1864/67). Liceus Camões, Pedro Nunes e Maria 1968. arruamentos
Amália Vaz de Carvalho. Palácio de Justiça de Caminha, 1971 Colaborou com Marcello Piacentini
José Fernandes de Sousa Teatro Politeama Lisboa 1912. e de Santa Maria da Feira, 1977 na revisão do Plano de Roma.
Caldas (1894-1965) Teodoro de Sousa Santuário de Santa Luzia, e Hotel (desactivado). Tem diversos artigos publicados
Escultor Maldonado (1759‑1799) de Santa Luzia em Viana do Castelo sobre planeamento e transportes,
Frequentou a APBA, tendo concluído Arquitecto 1899/1925.
o curso em 1911. Foi professor na Arquitecto da Cidade em 1792, por Museu de Esposende 1908‑1911.
Escola Industrial Infante D. Henrique, nomeação do Senado da Câmara do Teatro‑Club de Esposende (hoje
e director na Escola Industrial Porto. Museu Municipal de Esposende)
Passos Manuel de Gaia e na Escola Na publicação: Hospital de Esposende.
Industrial Faria de Guimarães (Escola Gravura inserta na Descripção

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AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS E CRÉDITOS DAS IMAGENS

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pag.92-93 (VALE, 2008) | pag. 204-205 (BENTO, 2013) | pag. 371-372 (VALE, 2013)

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AVENIDA DOS ALIADOS E BAIXA DO PORTO MEMÓRIA, REALIDADE E PERMANÊNCIA

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Cidade do Porto, Porto: Empresa Industrial Gráfica. Avenida dos Aliados, 195-237 [Garantia], Porto: AGCMP. 1183/1924, Avenida dos Aliados, 66-80 [Lima Júnior], 718/1920, Avenida dos Aliados, 1-19 [A Nacional],
Porto: AHMP. Porto: AHMP.
CARVALHO, António Cardoso Pinheiro de (1992). O CMP & BRITO, Júlio José de (1936). Licença nº
Arquitecto José Marques da Silva e a Arquitectura do 18/1936, Rua do D. Magalhães Lemos com a Rua do CMP & MORAIS, Leandro de (1929). Licença nº CMP & SILVA, José Marques da (1924). Licença nº
Norte do País na Primeira Metade do Séc. XX. Tese de Bonjardim [Teatro Rivoli], Porto: AHMP. 308/1929, Avenida dos Aliados, 90 [Montepio Geral] 1603/1924, Avenida dos Aliados, 2-20 [Pinto Leite],
Doutoramento, U.Porto. Porto: AHMP. Porto: AHMP.
CMP & BRITO, Júlio José de (1936). Licença nº
CARVALHO, António Cardoso Pinheiro de (1997). O 18/1936, Rua do D. Magalhães Lemos com a Rua do CMP & MORAIS, Leandro de (1931). Licença nº CMP & SILVA, José Marques da (1927). Licença nº
arquitecto José Marques da Silva e a arquitectura no Bonjardim [Teatro Rivoli], Porto: AHMP. 832/1931, Avenida dos Aliados, 66-80 [Banco Borges & 922/1927, Avenida dos Aliados, 156-168 [Jornal de
Norte do País na primeira metade do séc. XX, Porto: Irmão], Porto: AHMP. Notícias], Porto: AHMP.
FAUP. CMP & DUARTE, José Francisco (1930). Licença nº
572/1930, Avenida dos Aliados, 321-331, Porto: AHMP. CMP & MOREIRA, José Emílio da Silva (1930). CMP & SILVA, José Marques da (1927). Licença nº
CARVALHO, Teresa Pires de, Guimarães, Carlos & Licença nº 220/1930, Rua Elísio de Melo, 51, Porto: 938/1927, Avenida dos Aliados, 156-168, Porto: AHMP.
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Licença nº 44/1930, Rua Elísio de Melo, 29-33, Porto: Porto: AHMP.
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Licença nº 1597/1935 [aditamento], Rua de Rodrigues Aliados, 42-54 [Banco Lisboa & Açores], Porto: AHMP. painéis de azulejo da estação de S. Bento: história,
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CMP & AZEVEDO, Rogério de (1930). Licença nº nº 1651/1935, Rua de Rodrigues Sampaio, 176, Porto: Porto: AHMP. Topográfica da Cidade do Porto [Levantamento
612/1930, Avenida dos Aliados, 109-137 [O Comércio AHMP. à escala 1/500], Câmara Municipal do Porto, Porto:
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CMP & LOPES, António Júlio Teixeira (1936). Licença Licença nº 229/1930, Avenida dos Aliados, 202, Porto:
CMP & AZEVEDO, Rogério de (1932). Licença nº nº 112/1936, Rua de Rodrigues Sampaio, 161, Porto: AHMP. FERREIRA, Sílvia Alexandra Canelas (2012).
941/1932, Gaveto da Rua do Almada com a Rua Elísio de AHMP. Avenida da Ponte: memória e revitalização urbana.
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