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EDITORA VOZES LIMITADA

PETROPOLIS, r . j .
VOZES EM DEFESA DA FÉ

C a d e r n o 3

F rei B oaventura, O.F.M.

A LBV de Alziro Zarur

1960
E D IT Ô R A VOZES L IM IT A D A
P E T R Ó P O L IS RJ
I M P R I M A T U R
POR COMISSÃO ESPECIAL DO EXMO.
E REVMO. SR. DOM M A N U E L PEDRO
DA C U N H A CINTRA, BISPO DE PE-
TRÓPOLIS. FREI DESIDÉRIO KALVER-
K A M P, O. F. M . PETRÓPOLIS, 2-5-1960.

TODOS OS DIREITOS RESERVADOS


A R AZÃO D E STAS P Á G IN A S

N a noite do dia 14-6-59 o Sr. Alziro Zarur anun­


ciou pela Rádio Mundial que a L B V («L eg iã o da
Boa Vontade») já tem mais de 300.000 legioná-
rios inscritos, dos quais 150.000 se dizem católi­
cos, 60.000 espíritas, 15.000 umbandistas, 10.000
evangélicos, 30.000 livres-pensadores, «e o resto é
salada». Mais ou menos a metade, pois, ainda faz
questão de dizer que continua católica. E ’ a esta
porção católica da L B V e aos outros católicos que
ainda poderão ser colocados diante da LBV, que se
dirige o presente opúsculo. Queremos dizer uma
palavra de esclarecimento e orientação. Precisamos
chamar a atenção dos católicos para certos aspectos
da LB V . Muitos, não temos dúvida, entraram na
L B V com a mais louvável das intenções. Deseja­
vam apenas ajudar para o bem de todos. Talvez,
pouco a pouco, entrasse nêles a dúvida. À medida
que iam escutando as palavras do Presidente N a­
cional, que tôdas as noites lhes fala 'durante duas
horas, foram se apèrcebendo que a LBV, além da
businada sopa para os pobres, quer m ais: quer
«restaurar o Cristianismo». . .
Mas não era fácil orientar os católicos. Zarur
não escreve livros. Zarur não gosta de consignar
suas idéias por escrito, prêto sôbre branco, bem
definidas, claras e definitivas. «L iv ro para quê?»,
exclama êle na noite de 6-4-59; e declara: « A L B V

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não tem livro ». Noutra noite inform a: « A cam­
panha da L B V fo i sempre feita de impi’oviso. V ai
de coração para coração. Eu ensino o que os li­
vros não têm. Os livros trazem tanta confusão. . . »
(5-7-57).
P or isso era difícil orientar sôbre a LB V . Mas
descobrimos um confrade que resolveu fazer peni­
tência. Ia exei'citar-se na virtude da paciência. Não
encontrou coisa melhor e mais apta do que escu­
tar, noite por noite, as arengas do Sr. A lziro Za-
rur. Com lápis na mão, caderno diante de si, fo i
escutando e anotando. Tantas anotações fêz que en­
cheu, até agora (março de 1960), exatamente 19
cadernos de 200 páginas. A o todo 3.800 folhas es­
critas, com anotações exatas das «zaruradas» (como
êle d iz), com indicação de dia, mês e ano. Não po­
dia haver fonte mais limpa e mais segura. Pedimos
a Frei Vicente Borgard, O. F. M., nosso herói da
paciência, a licença de passar uns dias enfurnado
nas abundantes «zaruradas» de seus 19 cadernos. E
quanto mais penetrávamos naquele mundo de con­
fusão e contradição, mais nos convencíamos da inu­
tilidade de tomar tudo aquilo a sério. Não valia
a pena. Zarur não era nenhum problema para teó­
logos. Mas era caso interessantíssimo para um
psiquiatra. Se, não obstante, com êle nos ocupa­
mos, não fo i por causa dêle, mas por causa dos
150.000 legionários que se dizem católicos; e por
causa dos muitos outros, católicos também, que
pòderiam entrar em contacto com ê le ...

Z A R U R : «E U NÃO SOU DÊSTE M U N D O ».


O Sr. A lziro Elias David Abraão Zarur nasceu
no dia 25 de Dezembro de 1914, no R io de Janeiro,
filh o de Elias David e Assma Zarur, de fam ília

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ortodoxa. Mas êle mesmo não dá nenhuma impor­
tância aos dados de sua atual existência terrestre.
«Jesus — diz êle no dia 4-8-57 — não entregou a
Legião a um boboca qualquer. O homem que está
à frente tem muitas reencarnações nas costas». Nu­
merosas vêzes já aludiu à sua misteriosa e lon­
gínqua origem : «E u não vim do Rio, nem de N i­
terói. Que saudades que eu tenho da pátria donde
vim ! Lá não há nada disso, nem brigas, nem pex'-
seguições» (21-4-58). E outra vez: «E u não sou
dêste mundo. Vim para me sacrificar. Às vêzes sin­
to uma grande saudade da pátria verdadeira. . .
Eu não sou dêste mundo. Eu estranhei tanto êste
planêta, com tanta maldade, tanta briga, tanta sel-
vageria, tanta baixeza, tanta perseguição religio­
s a . .. Êles me odeiam porque não sou dêste mun­
do. Graças a Deus, não sou daqui, nem de Niterói.
Donde eu vim não há imprensa cloaca, não há êste
humorismo sujo, esta canalhada, não há nada de
bobagem. A h ! se eu pudesse falar-r-r-r! U i! eu
não sou daqui». E no dia 22-1-58: «Eu posso di­
zer com Jesus: Eu vim do alto! Vós sois cá de
baixo; eu sou lá de cim a!» Aos repórteres de jor­
nais e revistas, fêz saber que êste «outro mundo»,
donde veio, é o planêta M a rte ...
Mais de uma vez, entretanto, insinuou ser êle
mesmo o próprio Jesus. Eis alguns exemplos: «Quem
duvida de mim duvida de Jesus. Quem duvida de
Jesus duvida de mim. Porque nós dois somos u m !»
(3-3-58). «Mereço que vocês me recebam como um
anjo de Deus, como o próprio Cristo» (22-1-58).
«Eu vivo no Cristo, e Cristo vive em mim» (3-6-57).
Ou então, no dia 10-9-57: «N ão souberam até hoje
que o espírito de Cristo está em mim? Já repara-
ràm? A minha vida é uma miniatura da vida de

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Jésus. A h ! se eu pudesse fa la r! Um dia vou falar.
Brevemente. Jesus disse: Eu e o Pai somos um.
Eu digo: Eú e Jesus somos um !» — Outras vêzes,
todavia, diz-se «estafeta de Jesus», «enviado de Je­
sus», «apóstolo de Jesus», «pedaço de Jesus,» «alto-
falante de Jesus».
Conforme o dia e a oportunidade dirá que é sa­
cerdote ou que não é sacerdote. Pois dá tudo no
mesmo. Assim no dia 3-3-58: «Eu não sou sacer­
dote, mas vivo mais puro do que muitos sacerdo­
tes»; ou então: «Eu não sou sacerdote, Jesus tam­
bém não o era» (6-12-57) ; «não sou sacerdote.
Para quê? Não quero ser» (24-1-57). Em outras
oportunidades dirá exatamente o contrário: «Deus
sabe que sou um sacerdote como poucos há no mun­
do, talvez não cheguem a dois! Eu sou sacerdote
a paisana» (22-1-58); «ninguém é mais sacerdote
do que eu (repete três vêzes). O sacerdote não
se faz pela roupa, mas pelo espírito» (31-1-58).
E ainda: «Eu sou sacerdote à paisana. Não uso
batina, não tenho aquela coisa na cabeça. Mas sou
sacerdote» (17-8-58).
Raras vêzes dirá que é pecador: «Se alguém fô r
sem pecado, mandem-no para a Avenida Rio Bran­
co, para a feira de amostras» (3-5-57). Mas inú­
meras vêzes insistirá na sua inocência e santida­
de: «E u tenho uma vida pura. Posso falar com au­
toridade. Eu não tenho tempo para pecar. Meu
tempo está todo tomado» (14-3-57). «São Paulo
podia dizer: Sêde meus imitadores. Eu também
posso dizer a cada legionário: Sê meu imitador!
Não há ninguém, não há sacerdote ; que mais
renunciou ao mundo do que eu. Falo com a Bíblia
na mão» (9-1-58). «Sou capaz de fica r quatro ho­
ras em oração, imóvel. Não há mais desprendido

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como eu. Também não há mais velho do que eu:
sou da idade de Matusalém» (7-1-58; três dias an­
tes havia dito: « E ’ porque sou muito velho. Duvi­
do que haja pessoa mais velha no B r a s il»). Com
a mais tranqüila consciência exclama no dia 12-11-
57: «Deus conhece o meu desprendimento, a minha
santidade»; e no dia 24-10-57: «Deus sabe que sou
puro, que sou limpo. Nada me acusa»; e no dia 27-
12-57: «Deus sabe que sou inocente; isto me basta».
«Eu posso enfrentar os olhos de Jesus com a Bí­
blia na mão. Ninguém pode ser mais fiel a uma
obra do que eu. Eu posso dizer com São Paulo:
E ’ Cristo que vive em mim» (4-10-57). «Eu vivo
em absoluta castidade» (28-4-58). «Graças a Deus,
estou bem adiantado de ver Deus face a face»
(11-4-57). E, afinal: «Zarur é o mais fiel cum­
pridor das leis divinas» (6-11-57); «eu posso di­
zer: Estou cheio do Espírito Santo» (17-6-58).
«Respeitem êste homem de Deus!» (9-1-58). «Se
não existe o mal em Deus, como pode existir em
m im ?» (4 -3 -5 8 )... Assim, tôdas as noites, Zarui
fala doentiamente de si, sempre de si, só de si.
Donde recebeu o Sr. Zarur sua missão? Ainda
neste ponto êle é claro e insistente: «Quem me
escolheu para apóstolo fo i o próprio Deus» (29-
12-57); «quem me deu as credenciais fo i Deus por
Jesus Cristo» (26-12-57). «E u tenho as credenciais
que Deus me deu. Queixem-se com êle!» (6-11-57).
«Aquêle que fala aqui não precisa dar conta a
nenhum representante de Deus. Representante de
Deus é Jesus s ó !» (29-3-57). «Pobre apóstolo sou
eu ; não feito por homens, mas diretamente por
Jesus» (11-1-58). «Quem não é por mim é contra
mim. Eu tenho de dizer a verdade. Esta é a ordem
que recebi. Para restaurar a verdade, eu fu i es­

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colhido. Eu não digo tudo, não por mêdo, que não
conheço, mas porque não chegou a h o ra .. . » (5-12-
58). «Antes Jesus estava engavetado. Agora fala
por m im !» (9-2-60). «Êles falam difícil para que
o povo não entenda. O diabo os carregue! Mas eu
quero que o povo me entenda e se salve. Esta é a
minha missão» (23-1-60).
Aliás, parece-lhe facílimo provar a autenticida­
de de sua missão. Pois: «se não recebo ordens de
Jesus, de quem as recebo?» (2 2 -3 -5 8 )... «Se não
fôsse sincero, Deus não me aju daria!» (3-2-57). A in ­
da mais: «A té hoje ninguém me ensinou que estou
errado» (24-12-57). «Nunca ensinei um êrro se­
quer. Desafio que me provem alguma coisa er­
rada» (7-1-58). E por quê? «Deus nos tem dado
dupla visão, para que não erremos» (26-9-57). «O
Presidente da L B V não tem o direito de errar!
Quem dirige a L B V é Jesus, rodeado duma fa ­
lange de espíritos. E ’ pena que vocês não podem
v e r!» (28-8-58). No mais: «N ós estamos aqui para
dar o Evangelho purinho, limpinho, como Cristo
o deu» (7-9-57).
A o mesmo tempo não lhe custa exclamar: «N u n ­
ca tive o sentimento de orgulho, de vaidade, de
p resu n ção...» (11-9-57); «nunca disse uma con­
tradição» (12-5-58).
Se constantemente se apresenta nestes têrmos,
compreende-se o fanatismo que tais palavras produ­
zem na mente do povo simples. O próprio Zarur di­
vulga tôdas as noites as numerosas cartas de lou-
vaminhas e adulações que forçosamente há de re­
ceber. A í é cantado como o novo apóstolo de Jesus,
o enviado de Deus, o veículo de Deus na terra, o
maior homem da terra («desde N . S. Jesus Cristo
jamais apareceu um homem na terra como o ir­

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mão Z a ru r»), o apóstolo de Jesus em terras bra­
sileiras, a trombeta de Jesus a reunir seus filhos,
o missionário divino, o instrumento maior que na
terra fo i escolhido, o único caminho para chegar
a Jesus, o perfeito guia espiritual dos pobres, o
seguro intérprete das verdades evangélicas, o ver­
dadeiro santo, maior do que Aristóteles, o maior
alfabetizador espiritual das massas. . . N a noite de
18-12-59, com voz comovida, Zarur leu o seguinte
trecho duma carta: «Bem-aventurada a mãe que
deu à luz êste homem que veio ao planêta pai’a en­
sinar o santo evangelho em espírito e verdade, que
ninguém soube ensinar até hoje; e ensinar as gran­
des verdades, especialmente a reencamação». Ao
que Zarur comentou: « E ’ verdade. Eu tenho a obri­
gação de pregar as verdades, doa a quem doer».

A LBV.
N a revista Boa Vontade N ’ 1, p. 19, o Sr. Al-
ziro Zarur descreve assim o início da Legião da
Boa Vontade (L B V ) : «Uma noite, assistindo a
uma sessão na FE B [Federação Espírita Brasi­
leira], a saudosa Dona Emília, com aquêles seus
cabelos brancos e seus olhos tão doces, não tirava
o seu olhar de mim. No fim da reunião, chegou-
se a êste soldado de Cristo e disse: — Meu irmão,
São Francisco de Assis está aqui a seu lado e
lhe manda dizer que é chegada a hora de começar.
— E fo i assim que se iniciou em baixo o que es­
tava, há muito iniciado em cima».
Zarur insiste neste ponto: « A L B V é realmente
uma inspiração de Deus e de São Francisco» (29-
5-59); «a L B V nasceu de Deus como o Cristianis­
mo nasceu de Jesus» (6-11-57). E na noite de
3-12-59: « A obra da L B V é de origem divina. A í

A LBV — 2 9
está. Contra os fatos não há argumentos». Mas não
nos diz quais são os fatos. Isso, entretanto, não
impede esta outra afirmação, não menos categóri­
ca de 29-5-59: «Eu inventei a L B V ». Mas a 1-2-60
pode outra vez proclamar: « A L B V não nasceu no
mundo: já há muito tempo estava nos planos de
Deus». Talvez tudo se esclareça, quando chegar
aquêle dia do qual falou na noite de 29-5-59: «U m
dia eu lhes contarei a história secreta da L B V » . . .
São freqüentíssimas, nas arengas noturnas da
Rádio Mundial, generalidades como essas acêrca da
L B V : « A L B V é a maior obra de todos os tem­
pos» (27-11-57); «a L B V é o Cristianismo de Cristo
restaurado» (26-1-57); «a L B V restaura o Cris­
tianismo prim itivo» (26-9-59); «a L B V soluciona
todos os problemas e salvará o Brasil» (9-11-59);
«a L B V se construiu na rocha da verdade» (29-
5-59); «a L B V apresenta a verdade integral como
nunca fêz uma religião até agora» (9-11-59); «a
maior obra do mundo é a L B V » (24-12-59); «o
irmão Zarur passa, mas a L B V não passará: ela
é eterna com Deus» (29-5-59); «a L B V é o evan­
gelho da imortalidade» (9-11-59); «a L B V prega
o Evangelho em espírito e verdade, sem véu» (26-
11-59); «a L B V segue exatamente o caminho de
Jesus» (14-10-59); «Jesus não podia dar tu d o ,...
mas a L B V dá tudo em espírito e verdade» (10-12-
5 9 ); «a L B V restaurou a verdade» (2-1-60); «a
L B V está em conformidade com as encíclicas dos
Papas!» (1-2-58); «até o Papa João X X I I I já
provou que a L B V está certa» (2-4-59); «quem
pertence à L B V já está salvo. Contra fatos não
há argumentos» (27-12-59); «a L B V traz a ver­
dade integral, sem deturpação» (7-7-58); «a L B V
é a doutrina mais avançada do mundo» (80-11-59).

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«A rran jem uma doutrina melhor do que a L B V !
— Não h á !» (22-11-59).
«Tudo até aqui estêve errado» (30-11-59). E,
admirado: «Quantos séculos foram precisos para
restabelecer a verdade!» (1 3-4 -58 )...

E ’ OU NÃO E ’ R E LIG IÃO ?

Incoerentes e contraditórias são as afirmações


do Sr. Zarur com relação à religião. Umas vezes
declara que todas as religiões são hipócritas e só
interessam aos fanáticos e débeis mentais, outras
vêzes sustenta que tôdas as religiões são boas e ne­
cessárias; por vêzes repete que Deus não quer re­
ligião nem tem religião, e por vêzes insiste exa­
tamente no contrário; há dias em que grita que
Jesus não fundou religião nenhuma, e há dias nos
quais ameaça aquêles que não querem seguir a re­
ligião de Cristo; numa hora xinga tôdas as reli­
giões e zomba de todos os que têm religião, nou­
tra exalta as religiões e dá vivas aos católicos, aos
protestantes, aos espíritas, aos umbandistas e aos
budistas; numa semana diz que a L B V não tem
religião, noutra proclama que tem a religião das
religiões. Eis algumas amostras: No dia 3-11-57
declara: « A religião é coisa que menos importa,
como Deus não se incomoda com a religião»; já
no dia 20-1-60 insiste: «Tôdas as religiões são ne­
cessárias. Deus pensa assim e nós também. Quem
pensa de outro modo é contra Deus e contra o
Brasil». No dia 31-10-59 ensina: «Tôdas as reli­
giões foram criadas pelo homem e só servem para
b rig a r»; e logo no dia seguinte anuncia: «Tôdas
as religiões existem pela vontade de Deus: tôdas
são úteis». N o dia 4-6-57 exclama: «O que menos

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interessa a Deus é a religião de qualquer que s eja »;
mas na noite de 1-11-57 pontifica: «Deus não tem
religião, mas quer que todos tenham uma religião».
Há dia em que proclama: «Para ser perfeito não
é preciso ter religião. Eu conheço ateus que são
mais perfeitos do que muitos religiosos» (13-4-58).
E para atrapalhar os católicos pergunta na mes­
ma noite: «Deus tem religião? é católico? vai se
confessar?»
O mais crasso indiferentismo religioso: eis uma
das teses fundamentais e mais vêzes anunciadas
por Alziro Zarur. Bastam alguns exemplos: «Qual­
quer religião serve. Está na cara!» (13-4-58). «N a
LBV não há fiel de cabresto. Cada um crê o que
quer. Cada um escolhe a religião que o coração pe­
dir» (27-11-59). Para Zarur a religião não é uma
questão da inteligência, mas só da vontade («cada
um crê o que quer») e do coração («cada um es­
colhe a religião que o coração pede»). E êle é ainda
mais explicito: «Ter uma religião é a mesma coisa
que gostar dum clube de futebol. Só num país me­
dieval é preciso ser muito bur-r-r-ro, bur-r-r-rão.. . »
(30-6-58). E noutro dia, falando da religião fun­
dada por êle, Zarur, declara: « A nova religião re­
conhece que todas as religiões são para o bem do
homem. Se quer macumba, meu filho, vai! Todas
as religiões são cristãs. Há religiões mais evoluídas
e mais atrasadas. O homem burro escolhe uma re­
ligião mais burra, medieval, atrasada. O homem in­
teligente escolhe uma religião que corresponda mais
ao próprio desenvolvimento. Compadre, onde você
viu uma religião mais ampla do que a nossa?»
(16-11-59). Não há; não pode h aver... Está na cara.

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A N O V A R E L IG IÃ O
Já no dia 23-1-57 anunciava Alziro Zarur: «Re-
cebi diversos pedidos de fundar uma religião. Vocês
querem uma religião? Escrevam ao Irmão Presiden­
te». E no final daquela noite pediu adesões para
fundar uma nova religião. Mas a L B V e seu Presi­
dente Perpétuo continuavam indecisos. Um dia sim,
outro dia não: « A L B V não adota nenhuma reli­
gião. Não tem religião, como Deus também não
tem » (24-1-57) ; meses depois: « A L B V é a religião
das religiões, a religião do futuro» (28-5-57); me­
ses adiante: « A L B V não tem religião» (4-10-57);
mais tempo passa: « A L B V é a verdadeira reli­
gião. Esta foi fundada por Jesus; as outras foram
fundadas pelos homens» (26-10-59); «a L B V é a
religião verdadeira» (7-8-58); dias depois: « A L B V
não é religião, nem tem religião ». . .
E ’ ou não é? Tem ou não tem?
Afin al a coisa ficou mais clara. Inesperadamen­
te o Sr. Alziro Zarur convocou pai’a o dia 5-9-59
a Assembléia Magna Extraordinária da LBV. Foi
então fundada e proclamada a nova religião da LBV.
Chamar-se-ia Religião do Novo Mandamento, ba­
seada em Jo 13, 34: «U m mandamento novo vos
dou: que vos ameis uns aos outros como eu vos amei».
Fôra a descoberta! Desconhecendo ou ignorando
totalmente a ação social e caritativa da Igreja, de­
clarava Zarur: «O novo mandamento ficou quase
dois mil anos encerrado na Bíblia» (27-9-59); «fa z
dois mil anos que tantas verdades ainda são igno­
radas, como a religião do novo mandamento» (11-
9-59). Nem um mês antes visitara, em companhia
do Sr. Euripides Cardoso de Meneses, numerosos
institutos católicos de caridade. «A s obras da Igreja
são admiráveis; talvez nem os próprios católicos as

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conheçam», exclamara na noite de 21-7-59. «E u te­
nho visto tanta coisa bonita!» E perguntava: «P o r
que a Ig re ja Católica, que faz tanta caridade, não
anuncia isso ao mundo?» — Nem vinte dias depois,
desanimado, lamenta: «Ninguém faz caridade; o
novo mandamento de Jesus ficou encaixotado na
B íblia».
Mas Zarur é nacionalista: «O Brasil está ainda
debaixo do domínio estrangeiro. Precisamos duma
Religião Nacional, que é a LBV, a Religião do Novo
M andam ento... Quem é contra a L B V quer um
Brasil escravo, com fom e» (30-11-59) ; «não há
outra solução: a única religião nascida no Brasil
é a Religião do Novo Mandamento. As outras vie­
ram de fora » (11-11-59). O petróleo é nosso!
A nota oficial da Assembléia Magna de 5-9-59,
dia da fundação da nova religião, fo i divulgada pelo
Ir. Zarur na noite de 9-9-59. Conservamos a nota
jravada em nosso arquivo: « . . . A L B V e seu
Presidente Alziro Zarur não poderão, portanto, em
virtude do próprio caráter da Instituição, filiar-
se ou subordinar-se a qualquer religião das exis­
tentes, mas reconhecendo e louvando o respeitável
empenho de cada uma delas na aproximação da cria­
tura ao Criador, lealmente se declaram ambos alia­
dos espirituais de todas as religiões no combate ao
inimigo com um ». . . Pediu de todos os núcleos ple­
nos poderes «para, se julgar necessário, como úni­
co meio de manter assegurado o amparo da lei,
dar form a jurídica à religião que já vinha sendo
simbolicamente praticada na LB V , com a Cruzada
do Novo Mandamento, fazendo nascer assim a Reli­
gião do Novo Mandamento de Jesus».
Nos dias 18, 27 e 28 de setembro de 59 o Sr. Za­
rur revelou ainda os nomes da Diretoria da Nova

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Religião: «O Presidente da Nova Religião é Deus.
Jesus é o Secretário Geral. O Espírito Santo é o
Administrador Geral, rodeado pelos Apóstolos e
engenheiros inteligentes, os anjos. A Diretora Es­
piritual é Nossa Mãe Maria Santíssima. São Pedro
é o Tesoureiro, encarregado por Jesus antes de su­
bir ao céu. São Francisco de Assis, o Assistente
Material. São Paulo, obras constitucionais. O ho­
mem não põe mão nesta obra, para não estragar».
O resto é com êle, Zarur, o Presidente Nacio­
nal e Perpétuo da LBV. No dia 27-12-59, revelan­
do talvez um pouco da história secreta da LBV,
fêz mais uma nomeação: «O Grande Arquiteto do
Universo é o Supremo Comandante da Nova Re­
ligião».
• Ficou ainda a questão do fundador da Nova Re­
ligião. «Dizem por aí que eu fundei uma nova re­
ligião. N ão! Já existem tantas. Para que mais uma?
Eu só declarei que á única religião que Jesus fun
dou é a do Novo Mandamento» (6-12-59). No dií
23-1-57 havia dito: «Jesus não fundou religião ne­
nhuma». O mesmo Zarur que inúmeras vêzes re­
petiu que «Deus não tem religião» disse também:
« A Religião do Novo Mandamento é a religião de
Deus» (26-10-59). O mesmo Zarur que vêzes sem
conta sustentou que fo i Cristo quem fundou a nova
religião, não êle, pergunta na noite de 16-11-59:
«Então, o Zarur não tem fôrça moral para fundar
uma nova religião?» Mas no dia 17-9-59 encontra
outra fórmula: « A Religião do Novo Mandamento
é tão velha como Deus. Zarur só a revelou pela
infinita misericórdia de D eus»; e dois dias depois:
«Jesus me entregou a missão do Novo Mandamen­
to. Não digam que não foram avisados!» — A v i­
sados de quê?

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R E E N C A R N A Ç Ã O , S IM !
Esta é a tese do Sr. Alziro Zarur, explicitamente
formulada por êle no dia 28-11-59: « E ’ preciso ser
muito bur-r-r-ro para não compreender que sem
reencarnação não há solução. Deus devia ser muito
bui'-r-r-ró». E no dia 7-12-59: «Deus seria pior
do que Lampião e Alcapone, se não houvesse re­
encarnação. Seria pior do que o maior bandido.
Sem a reencarnação eu seria comunista, anarquista
ou qualquer outra coisa».
«Eu tenho provas da reencarnação. Ela é de
Deus. Ninguém me pode ensinar. A verdade fica
de pé. Não queremos levar remorsos. Não quere­
mos ofender a ninguém. Eu tenho de falar da re­
incarnação porque tenho prova dela. A reencarna­
ção é uma lei universal, ensinada por Jesus e crida
pelos judeus. N egar a reencarnação é jogar o mun­
do no caos. A lei da reencarnação explica tudo.
Somente a lei da reencarnação restaura o sentido
de muitas passagens da Escritura. Não quero ofen­
der a ninguém; mas não posso deixar de falar do
que vi e ouvi. E ’ crime pregar a verdade? Serei
criminoso porque acredito na reencarnação? Cada
um respeita a sua crença. Cada um pode escolher
a sua crença. Há quem goste de chuchu com ca­
marão, bife com batata frita. Vamos respeitar tu­
do. A reencarnação è uma lei natural, uma lei de
Deus. Muitos não acreditam por causa da ignorân­
cia ou conveniência. A Religião do Novo Manda­
mento respeita a lei da reencarnação» (11-9-59).
Eis .uma posição clara e definida.
Pedem-se as provas e vem â história de João
Batista que seria a reencarnação do profeta Elias.
N o dia 29-9-59 falou disso e exclamou: «E u s e i! Eu
estava lá !» E berrando mais alto, repetiu: «E stava
lá !» E quando se recorda que o próprio João Ba­
tista, perguntado se era Elias, respondeu que não
(Jo 1, 21), Zarur explica: «O corpo não era de
Elias, mas o espírito!» (22-1-60). Outras provas
foram dadas no dia 23-10-59: «M orrer nos seus pe­
cados quer dizer reencarnar; ressuscitar no últi­
mo dia: não precisa mais reencarnar!» Nem a
passagem da epístola aos hebreus («está decretado
que o homem morra uma só v e z ») aperta o Sr.
Zarur: «E m cada vida a gente morre uma só v ez!»
(14-9-59). A h ! Aqui só se fala com a Bíblia na
m ão. . .
Há ainda outro argumento: «Reencamação ? Exis­
te ! E ’ lei universal. Se não existisse reencarnação
Deus seria o mais estúpido, mais estúpido do que
o mais estúpido do mundo [acompanhado de ri­
sadas estúpidas]. Se não quiserem acreditar, per­
guntem a Deus!» (26-10-59). Êste é o supi*emo re­
curso: Perguntem a Deus! E ’ tão fácil ter uma
conversinha com Deus. . .
Mas Zarur é inclusive capaz de descer a minú­
cias, sempre com a Bíblia na mão, para armar
arapucas das quais não tem saída. Na noite de 28-
10-59 fêz a seguinte revelação: «São Francisco de
Assis é uma das reencamações de São João Evan­
gelista! Que bombinha para muita gente». Provas?
Perguntem a São Francisco...

RELAÇÕ ES COM O E SPIR ITIS M O


Convém acentuar o caráter nitidamente espírita
da LBV. Já vimos como o início da L B V se deu
numa sessão espírita, na própria sede da Federa­
ção Espírita Brasileira, mediante a médium Dona
Em ília Ribeiro de Melo. Logo no início, a revista
Boa Vontade mostrou claramente as predileções es­

17
píritas de seu fundador e da LBV. Espíritas foram
seus cofundadores. As publicações da LB V , parti­
cularmente as obras «psicografadas» por Hei-cílio
Maes (com seu fantástico espírito «R a m a tis»), eram
nitidamente espíritas. A própria revista publicava
com particular agrado mensagens «do além» (do
«espírito Emanuel», de Chico X avier) e fazia pro­
paganda de livros espíritas. E ’ certo que Zarur
nunca se sujeitou às determinações, normas ou exi­
gências da Federação Espírita Brasileira; e que,
portanto, não recebeu daquela parte nenhum apoio
notório. Mas alguns chefes da Federação aderiram
logo a LBV. Principalmente no interior do B ra­
sil, em muitíssimos lugares, desde que surgiu a LB V ,
ela se apresentou quase em tudo identificada com
o Espiritismo local. A maioria dos pequenos jor-
mais espíritas do Interior continuam até hoje a fazer
a defesa e a propaganda da LBV.
Por outro lado, para atrair também elementos
fora do Espiritismo e tornar assim a L B V mais
ampla e possibilitar um maior número de legio-
nários, sobretudo para conseguir o apoio dos ca­
tólicos, o Sr. Zarur procurou por muito tempo man­
ter-se neutro nesta questão. Falava vagamente de
um «espiritismo universal». «E u quero o espiritis­
mo que Jesus quer (s ic !). Espiritismo é amor uni­
versal, infinito. O espiritismo não pode ser engar­
rafado» (15-6-57). Np dia seguinte fo i mais claro:
<;Minha'religião é a do Espiritismo Universal». N a
mesma noite proclamou que Allan Kardec «é uma
das colunas da L B V ». Depois da fundação da Re­
ligião do Novo Mandamento (5-9-59) e da procla­
mação da doutrina da reencarnação (que constitui
o cerne da doutrina espírita ou kardecista), o Sr.
Zarur abandonou sua atitude vaga e dúbia perante

18
o Espiritismo. « A Religião do Novo Mandamento
restaura o Espiritismo Universal» (28-9-59). «Se
um padre prega contra o Espiritismo, prega contra
Jesus. Neste número está o nosso irmão Boaven-
tura. Já está condenado! Coitado do Boaventura!»
(9-8-59). «F azer conferências contra o Espiritismo
é tolice. O Espiritismo está errado?» (18-9-59). E,
mais recentemente, no dia 19-2-60: «O Espiritismo
oferece à humanidade o que há de mais puro na
terra. Os espíritas são os mais caridosos. Êles ig­
noram se há dogmas, mistérios. Êles fazem da exis­
tência um apostolado sublime de caridade».

BOROCOXô D A B ÍB L IA
O Sr. Zarur diz-se amigo da Bíblia. Tôdas as
noites repete: «Aqui só se fala de Bíblia na mão!»
Mas êle é inimigo declarado da letra da Biblia. «N in ­
guém interprete a Bíblia segundo a letra!», adverte
na noite de 30-5-59. Já no primeiro número da re­
vista Boa Vontade, p. 19, ameaçava: «N ão nos ve­
nham com traduções do latim, do grego ou do ara-
m aico!» A letra mata: fora com a letra! « A ver­
dade não está na letra: está atrás da letra» (26-7-
5 8 ) . « A Bíblia fala mais entre as linhas do que nas
letras» (3-5-57). «N a Bíblia se deve ver o que não
está escrito» (15-6-57). «Jesus disse: ainda há
muitas outras coisas que não estão neste livro. Mas
nós vamos revelar o que nunca fo i dito. Prometo-
vos dar o que os livros não têm» (13-5-57).
« E ’ esta a nossa missão: tirar o véu da letra. O
Evangelho estava engavetado. Esclarecer o povo,
livrá-lo da ignorância, esta é a minha missão. O Bra­
sil é um país independente só pela metade» (1-12-
5 9 ) . « A Bíblia com véu não vale nada. E ’ preciso
tira r o véu. Pois a letra m ata!» (28-11-59). Os

19
padres têm a Bíblia, «mas não sabem explicar, não
sabem tirar o véu, as teias de aranha. Todo o mundo
lê a Bíblia e não sabe o que lê. Há tanta coisa para
explicar; mas tudo tem a sua hora» (27-11-59).
« A Bíblia com véu é uma tristeza. Aqui só se fala
com o Evangelho na mão, mas sem o véu da letra
que mata» (18-1-60).
«A qu i se prega o Evangelho puro sem as mani­
pulações dos vendilhões. Durante dois mil anos o
povo foi tapeado. O Evangelho estava engavetado. . .
Agora o povo prega o Evangelho depois de de-
sengavetado por mim, por ordem de Jesus» (11-
1-60). «Jesus não podia dizer tudo; então man­
dou o seu estafêta [Zarur] pregar tudo. O Evan­
gelho estava engavetado. Chegou a hora de desen-
gavetar tudo» (6-6-58).
Zarur promete, por isso, dar o Evangelho troca­
do em miúdo, simples, purinho, limpinho como foi
pregado há quase dois mil anos, em espírito e
verdade, sem deturpações, sem fome, sem fedor de
santidade, puro e sem as manipulações dos ven­
dilhões, sem enxertos, sem interpolações, sem sec­
tarismo, sem santarrões, sem falsa santidade, como
nunca fo i pregado, de modo que só um burio não
entende. «M as há cada bobalhão, idiota, borocoxô,
pregando o Evangelho! Duvido que haja alguém
que conheça melhor o Evangelho do que eu» ( 1-2.-58).
«Só agora, depois de dois mil anos, o povo está
ouvindo o Evangelho puro. Os fariseus, escribas e
dòutôres da lei são contra mim, dizendo que não
tenho-autoridade para explicar o Evangelho. Ora,
se Deus não tem autoridade, quem então tem ?»
(26-3-57). «Quem me deu credenciais? Foi Jesus!
Queixem-se com ê le ! Eu estou a serviço de Deus.
Quem me difam ar vai contra Deus» (29-3-57).

20
«Êstes que escrevem contra nós vão receber de
volta. Esperem um pouco! Vão perder o seu latim.
O povo sabe que a Legião é de Deus. Chega de
bobagens, de venenos, de intrigas. Como é bom
viver em Deus, com a consciência limpa» (9-7-57).
«E u prego o Evangelho como nunca foi pregado
no mundo: limpinho, purinho. Quanto urubu aí
dando palpites! O diabo vos carregue!» (2-5-58).

IN F E R N O , N Ã O !
Inferno? — «Quanta gente boròcoxô! Acreditar
em penas eternas! Onde já se viu? Então, esta­
mos na Idade Média? Puxa! Cada burrão! Cada
fariseu! Deus me livre dos intelectuais: como são
confusos, atrapalhões. O' burríssimo amigo, ainda
não entendeste? Vade retro! Cada bicho! Ah, se
pudesse fa la rrr! E olhem que aqui só se fala com
a Bíblia na mão. . . » «Se me provarem que há infer­
no, eu deixarei de falar neste microfone» (5-9-58).
Explode assim, nestes termos, com esta valen­
tia, quando Zarur se lembra de falar do inferno,
quem acredita no inferno é borocoxô, imbecil, per­
versamente mau, balofo, medieval, burro intelectual,
muito bur-r-r-ro, burrão, mau, ignorante, pior que
víbora, cruel, pernóstico, bêsta quadrada, vingati­
vo, charlatão, bicho, fariseu, burríssimo irmão, o
diabo o carregu e... «Então? Deus fêz o inferno
para torrar seus filhos? Para lançar seus filhos
num caldeirão de fogo? Para fazer um churrasco
eterno? Não é possível! Eu absolvo a todos. In­
ferno é bobagem, bobagem, bobagem, bobagem!»
No dia 12-2-58: «D evia ser processado o homem
que atribui a Deus o inferno. Como é que pode?
Eu vou acreditar nesta crueldade? Gente que acre­
dita nesta absurdo tem sentimento medieval. Eu

21
vou defendei* a Deus contra esta infâmia. 99% dos
pregadores não sabem o Evangelho. São burros in­
telectuais que acreditam no inferno. Nem sabem
onde é o inferno. Me digam e eu mando uma re­
portagem ao D iário da Noite. Eu acho até um cri­
me de calúnia». «P a ra que serve a cabeça? Para
pôr chapéu ou brilhantina? Quem prega o infer­
no é tão mau como êle mesmo. A vida já é um
inferno: ruas com tantos buracos, falta de água.
Ainda querem um inferno para tôda a vida? Eu
não acredito que Deus é tão mau. P or que não con­
sultam o Espírito Santo que nos guia? O Espí­
rito Santo é a congregação das entidades celestes»
(18-9-59). «Deus não criou ninguém para a per­
dição. Os donos da moral são geralmente os mais
nauseabundos. Moralistas da cloaca! Olha seu rabo,
macaco!» (26-5-59).
E assim continua o Sr. Zarur a grita r pelas on­
das da Rádio Mundial aos seus milhares de ou­
vintes: «Ninguém vai para o inferno. Deus seria
pior do que um homem mau. Todos se salvam. Nós
não acreditamos no inferno» (17-11-59). «Só os
maus acreditam no inferno, ou os muito ignorantes.
Deus me perdoe!» (20-11-59). «N ão acreditamos
em penas eternas numa fornalha de fogo. Deus
não pode ser tão ruim. Eu protesto em nome de
Jesus contra esta ofensa a Deus. Protesto! Protes­
to » (27-11-59). «O inferno é aqui mesmo, minha
gente, embora muita gente deseje um inferno mais
caprichado. O que se faz aqui, aqui se paga» (27-
1-60). «N ã o me mateis de rir. Ora, inferno! Quem
admite o inferno é muito bur-r-r-ro ou bêsta qua­
drada. Não merece outro nome. Só almas infernais
acreditam no inferno, almas muito más ou esper­
talhões» (28-12-59).

22
A i’gumentos? Mas Alziro Zarur não argumenta,
nem dá para argumentar. Afirm a, e pronto. E
quando se lhe lembra que Jesus falou tantas e tan­
tas vêzes do inferno e com tanta clareza e insis­
tência, êle responde: «Isso é perverter o ensino de
Jesus» (23-1-58). E vem então com a história da
letra que mata, da Bíblia sem véu, do «em espírito
e verdade». São os refúgios constantes para todos
os momentos que poderíam ser de apêrto. Embru­
lha tudo, grita que só fala com a Bíblia na mão,
arma uma arapuca e exclama: «Sai dessa! Não
tem saída». E acabou o argumento. A h ! Tem mais
um argumento: Jesus disse: «Não posso dizer tu­
d o»; e logo Zarur acrescenta: «A gora chegou o
momento de dizer tudo!» Jesus falou da fornalha
inextinguível; Zarur explica: «Esta fornalha inex-
tinguível é o fogo do amor. Sai dessa!» (31-12-57).
Não tem saída. . . Outra vez exclama: «N ão há
eternidade de penas. Quem o diz não sou eu: é Je­
sus! Está no Evangelho» (4-5-58). Mas não nos ci­
ta a passagem do Evangelho. Deve estar entre as
linhas, atrás do v é u ...
Sai dessa!

AM IGO DO D IABO

Chocante e contraditória é a atitude do Sr. Zarur


perante Satanás. P or vêzes declara que Satanás
não existe: «Satanás não existe. E ’ a anedota mais
absurda que se inventou (9-7-57); «eu tenho de
dizer a coisa como é: Satanás não existe. Quem
acredita em Papai Noel, em cegonha?» (2-5-58);
«Satanás nunca existiu. Eu tenho provas disto»
(14-7-58). Mas não nos revela as provas. Outras
vêzes faia do diabo com tanta naturalidade, como

23
se aceitasse sua existência. Exemplos: «Vamos ter
pena de Satanás. Já fêz tantas diabruras, já so­
freu tanto» (15-5-57); «coitado de Satanás! Deve­
mos amá-lo, devemos ter muita pena dêle. Já está
cansado de sofrer» (11-4-57); «Satanás vai ser sal­
vo. Esta é a vontade de Deus. Não devemos seguir
as doutrinas dos homens» (6-1-58).
Tão ampla e generosa é a Legião da Boa Von­
tade que proclama também boa vontade para com
o diabo: «N ós temos boa vontade até com o diabo.
Ajudemos o pobre Satanás. Êle precisa de nós.
Satanás é meu bom amigo. Se viesse pagaria um
cafèzinho para ê le .. . » (29-3-57). Esta amizade mui­
to particular para com o diabo é expressa inúmeras
vêzes. «Satanás é meu amigo. E ’ meu irm ão!» (7-
4-59). Alziro Zarur chegou mesmo a fazer o «P o e ­
ma do Irmão Satanás», publicado por êle na re­
vista Boa Vontade, de agosto de 1956, pp 6-7. Eis
algumas estrofes:

E Lúcifer, com todo o seu quartel,


M e preocupou, de fato, muitos anos:
Quis até devassar os seus arcanos,
Aprofundando a história de Lusbel. . .

Se Deus sempre é perfeito no que faz,


E nada do que faz ao mal destina,
P o r que odiarmos nós a Satanás
Se êle, também, é criação divina?

Am igos meus, oremos por Satã


Amemo-lo de todo o co ração...

P o r mim, com honra, eu amo a Satanás,


M eu pobre irmão perdido nos infernos,
Com êste am or dos sentimentos ternos,
P a r a que êle, também, receba a paz.

24
N o dia 3-7-57 Zarur desenvolveu o seguinte ra­
ciocínio: «Satanás tem feito muito bem a vários,
porque causa doenças e desgraças a muitas pes­
soas. Ora, essas pessoas buscaram socorro na
L B V . .. Logo, Satanás faz b en efícios»... Daí não
tem saída. . .

L IQ U ID IF IC A D O R DO C R IS TIAN IS M O

Zarur não defende apenas a dissolubilidade e


precariedade do matrimônio (o divórcio), mas che­
ga a pregar abertamente o amor livre. Veja-se, por
exemplo, esta tirada da noite de 19-12-59: « E ’ pre­
ciso tirar o véu da letra, porque a letra mata, diz
São Paulo; aliás sai o negócio do inferno, a nega­
ção da reencarnação e o do divórcio. Eu sou divor-
cista. Jesus também era! Quando o casamento está
errado, já está separado, já estão divorciados os
dois. Cada um trate de si! Quando Deus não jun­
ta os dois pelo amor, já estão divorciados, já estão
separados. Isto é a Bíblia sem véu. Por que con­
tinuar hipocritamente?»
N a mesma noite fo i além: «O casamento na Igreja
vale nada diante de Deus. Os fariseus g r i t a m : U i!
U i! A i! A i! Os dois que se amam mütuamente já
estão casados! [é o amor livre] Eu casei. . . para
dar a César o que é de C ésa r... Quem fala é um
cidadão livre. Pode falar o que quiser. Quanta hi­
pocrisia! O divórcio é uma coisa natural. Para que
continuar, se os dois não se entendem? E ’ um in­
fe rn o !» No dia 5-2-60 falou assim: «Jesus fo i con­
tra o divórcio. Casamento de amor, clandestino,
dura etemamente, porque é casamento de Deus.
Casamento feito pelo padre, com tôda a água benta,
não adianta. Em matéria de casamento, eu tenho

25
uma bomba, uma bombona, para soltar. Mas não
posso ainda. . . »
Zarur é também iconoclasta. Investe freqüente-
mente contra o culto católico às imagens. Sempre,
naturalmente, com a absurda suposição de que nós
católicos adoramos as imagens. «D e nada vale um
culto exterior. E ’ fingimento. Os doutores da lei abo­
minam os ídolos, mas os adoram !» (12-7-58). «E u
prego o que diz a Bíblia. Deus proibiu expressa­
mente ajoelhar-se diante de bonecos. Isto é idola­
tria » (23-6-58). Mas êle é particularmente contra
o crucifixo: «N a L B V não queremos o Cristo cru­
cificado. Os ladrões pensam que Jesus não pode
fazer nada, porque está amaiTado. Ninguém pode
crucificar Jesus. A h ! se pudesse fa la r! Tudo tem
sua hora» (26-7-58). «N ós não pregamos Cristo
crucificado, derrotado, amarrado numa cruz: mas
o Cristo glorificado que nunca morreu. Só a igno­
rância pensa isso. A L B V restaurou o Cristianismo.
Deus ensina que, para ser bom, não é preciso ser
religioso. Um ateu pode ser bom. Só os bons de
tôdas as religiões se salvam. Se você quer uma coisa
de Jesus, joga este crucifixo fo ra ! Como pode Je­
sus ajudar a você, estando amarrado?» (1-1-1959).
«H á pessoas que gostam de contemplar a imagem
de Jesus crucificado. E u 'n ã o ! Não posso ver Je­
sus crucificado, amarrado. Jesus nunca m orreu!
Jesus é sempre triunfante» (19-1-59). «Deus é
espírito. O que anda por aí é boneco pintado. Deus
é espírito. Chega de fetichismo e idolatria!» (9-
1-59). — Mas na noite de 9-1-1960, nosso icono­
clasta confessa: «O retrato de meu filho está aqui
diante de mim. Tôda noite trabalho diante d ê le ». . .
Noutro dia um legionário de Cachoeiro do Itape-
m irim pediu um retrato do casal Zarur-Iraci e

26
sugeriu a colocação dêste retrato em todos os nú­
cleos. E o Sr. Zarur, com a Bíblia na mão, acon­
selhou um pouco de paciência, pois que iria pro­
videnciar (4-9-58). Bem escreveu São Paulo aos
Romanos 2, 1: «Naquilo mesmo em que julgas o
outro, a ti mesmo te condenas, porque fazes as
mesmas coisas que julgas».
Quando tem oportunidade, Zarur aproveita para
dizer ao povo que não acreditem na confissão e no
perdão dos pecados. «Nenhum homem tem o poder
de perdoar os pecados. Só Deus. Isto é um conto-do-
vigário» (25-10-59). «Êste sistema de perdoar é
uma estupidez. Deus é justo. Deus não se deixa en­
ternecer por lágrimas de jacaré» (13-11-59). «Deus
sabe tudo! Viu tudo! Pra que dizer os pecados? O
padre diz que perdoa os pecados; mas Deus diz
que n ão!» (3-12-59). «Só Deus pode absolver e nin­
guém mais. Aqui vão ro n ca r..., mas a verdade é
esta» (28-10-59). «Ninguém pode perdoar pecados.
Quem pensa que sim cai num conto-do-vigário. Eu
estou avisando, para não passar por uma grande
decepção na hora da morte: Oh! o Zarur tinha
ra z ã o .. . » (30-10-59). «Ninguém pode perdoar. Nem
Deus perdoa: dá a reencarnação» (13-11-59).
Bom discípulo de Allan Kardec, teria Zarur que
investir necessàriamente contra o mistério (natu­
ralmente, sem saber o que é exatamente um «mis­
té r io »). De fato, na noite de 22-7-58 não se con­
teve: «M istério! U é! Chegou a hora de acabar com
os mistérios. Pois atrapalham muito a vida huma­
na. A h ! meu Pai do céu, dá-me paciência para su­
portas êstes borocoxôs! Vem lá um doutor da lei,
dizendo: Quem te deu credenciais para pregar,
hein?!» No dia 8-1-60 anuncia «o Evangelho ex­
plicado, sem o véu do mistério» e exclama: «Deus

27
nos livre do m istério!». Um mês depois identifica
mistério com tapeação. «O povo quer entender. Já
está farto de tapeações e mistérios» (8-2-60).
Como não há mistérios, também não pode haver
milagres. «N ão há milagres — insiste Zarur no
dia 3-1-58. — Está tudo dentro das leis da natu­
reza. Mas não posso falar ainda». No dia 29-4-58,
doutrinando sôbre o filho da viúva, ressuscitado
por Jesus, declara Zarur que, «evidentemente, não
estava morto. Jesus nunca fo i contra as leis do
Pai Eterno. Aparentemente estava morto». Mas ao
mesmo tempo proclama que a LB V , sim, é que é
autêntico milagre, «o maior milagre de Jesus em
nosso tempo» (10-5-57). Quando, no dia 26-12-59,
a senhora Maria Cunha, de Magé, R. J., comunica
que seu papagaio ficou «milagrosamente curado pela
água fluídica do Sr. Zarur», nosso fanático negador
dos milagres falou comovido: «S im ! Esta água cura
tudo!» N a noite de 28-12-59 Zarur contou a his­
tória dum milagre na L B V : «U m irmão sofreu de
reumatismo, com resignação, mas bebendo, cada
noite, a água milagrosa. E ficou curado. Contra
fatos não há argumentos». — Pois é, Si\ Z a ru r...
Não sabemos se Zarur acredita em profecias.
Mas o certo é que êle mesmo faz questão de pro­
fetizai*, de predizer coisas do futuro. Êle insiste
em dizer que apenas nos sobram 40 anos (certa-
mente para chegarmos ao terceiro milênio) : «T e ­
mos apenas 40 anos! Os maus vão ser varridos dêste
planêta terra. Vão ser lançados na geena, onde
há chôro e ranger de dentes. N a terra vão ficar
os bons. O planêta terra vai ser promovido» (9-
5-59). Dias depois veio com essa novidade: «E m
40 anos vai acabar o in fern o!» (28-5-59). Zarur
não gosta do clero: «Aproxima-se o fim do cleri-

28
calismo! O fim da exploração! Deus não tem re­
presentantes. Nunca teve representantes. Não pre­
cisa de representantes. Está chegando a hora da
prestação de contas! O mundo tem ainda 40 anos
para despertar. Quem fala aqui é amigo ou ini­
migo? Evidentemente, é amigo! N a Itália vai apa­
recer um chefe vermelho, vai aparecer um falso
Papa. Dizem os representantes de Cristo: Zarur é
um caso policial! — Vendilhões do templo! Vem
fogo de cima para devorar-vos todos! Eu estou aqui
como amigo para avisar, antes que seja tarde» (25-
4-59). «Estamos na era apocalíptica! Estamos na
era fin a l! Ainda 40 anos! A i daqueles que não
estiverem na faixa divina!» (19-11-59).
Profetiza e ameaça: «Muito padre vai chorar
lágrimas de sangue, quando souber que perseguiu
o Cristianismo restaurado pela LBV. Todos os que
combatem a LB V vão cair no duro, hão de cair
cegos três dias!» (12-4-59). «Quem persegue a LB V
vai ser castigado... apanha uma leprinha! Não
digam que não foram avisados» (29-11-59).

NÃO CONHECE A IG R EJA


Zarur odeia a Igreja e os padres. Enfurece-se,
só com a idéia de uma autoridade eclesiástica. «Deus
nunca fundou uma Igreja particular. E ’ uma in­
terpretação errônea! Cada um é a igreja de Deus,
quando está integrado em Deus. Aqui só se fala com
a Bíblia na mão, sem véu, em espírito e verdade.
Jesus não fundou Igreja alguma! E ’ o maior lôgro
durante vinte séculos. Jesus fundou coisíssima al­
guma. Se tivesse fundado a Igreja, eu devia estar
lá! N ão! Não é verdade. E ’ ignorância! Os vendi­
lhões do templo estão errados» (4-11-59). E outra
vez: «Quanta ignorância! Há coisa mais ridícula

29
do que esta: Jesus fundou uma Igreja? Eu estava
lá !» (8-11-59). E assim repete inúmeras vêzcs o
mesmo chavão: «Jesus não fundou nenhuma Igre­
ja ». No dia 31-10-59 insiste: «Jesus não fundou
uma Igreja. Não deu o poder de excomungar, de
perdoar os pecados. Esta é a maior patranha! Não
quero ter remorso de não ter avisado, quando che­
gar ao lado de lá. Por isso estou avisando! Não
brinquem com as coisas santas. Eu estou dando a
verdade integral. Jesus não fundou Igreja algu­
ma. Quando chegar ao lado de lá verá. Eu estou
avisando».
Durante alguns meses de 1959 Alziro Zarur na­
morou a Igreja Católica. Os jornais já anuncia­
vam sua conversão. No dia 23-7-59 confessa cân­
didamente: «Houve uma coisa curiosa na minha
vida: o único reduto que eu não conhecia era a
Igreja Católica Apostólica Romana. . . Estudei tudo,
menos a Igreja Católica». Na noite anterior havia
dito: «Estou tão alegre, tão contente, como nunca
fui na vida. A única coisa que o irmão Zarur não
conheceu foi a Igreja Católica. Falam e escrevem
muita coisa contra a Igreja por ignorância. Não
conhecem a Igreja. Ouviram dizer». E à medida que
vai conhecendo, exclama: « A Igreja é uma coisa
divina, grande» (13-7-59); «quanta calúnia aí fora
contra a Igreja Católica Apostólica Romana!» (20-
7-59); «quanta coisa boa tem a Igreja Católica e
eu não sabia. Se a Igreja Católica Apostólica Ro­
mana não prestasse, como poderia estar de pé após
dois mil anos, apesar de tantas perseguições?» (21-
7-59); «eu tenho descoberto coisas maravilhosas
na Igreja Católica Apostólica Romana, graças a
Deus» (22-7-59). No dia seguinte diz que até já

30
aprendeu «que a Igreja não se intitula dona da
verdade, mas serva da verdade».
Mas Zarur não se convenceu da fundação divi­
na da Ig re ja : Não pode ser: «Eu devia estar l á ! . . . »
E fundou uma nova religião.

A N A R Q U IA E D IT A D U R A

O Presidente Nacional e Perpétuo da L B V in­


cita à anarquia e desobediência. Pede e implora
aos católicos de não se guiarem pelas autoridades
eclesiásticas. «Católico bom é aquêle que raciocina
e não vai pela cabeça do padre. Fiel de cabresto
obedece e faz o que o padre manda. Fiel de ca­
bresto fa z : Upa, upa! Ah, se pudesse falar-r-r-r!
Mas o Espírito Santo diz: Calma, Zarur, calminha!
Às vêzes estou com a língua ardendo.. . » (22-6-57).
«N ã o se deixem guiar pelo cabresto de mestres
espirituais» (16-8-57). «Não há coisa pior do que
um país de fiéis de cabresto» (27-10-59). «O que
é de Deus eu respeito, mas o que é dos homens eu
não respeito, não. Fiel de cabresto faz o que o chefe
diz: Upa, upa! Gente de juízo examina tudo, pensa,
não vai pela cabeça dos outros. Cabeça não é só
para brilhantina, para pôr chapéu, mas para pen­
sar» (27-4-58). E assim fala seguidamente dos
«fié is de cabresto». Nega constantemente que os ho­
mens tenham o poder de legislar e afirma que não
precisamos obedecer às leis humanas: «Temos de
cumprir as leis de Deus, não as leis fabricadas pe­
los homens» (7-9-57); «só existe um podei*, é de
Deus; o poder dos homens nada vale» (29-7-57);
«a religião verdadeira consiste no exato cumpri­
mento das leis de Deus e não nas leis impostas pe­
los homens» (7-5-57). «O Brasil continua um país

31
de escravos. Enquanto continuar na dependência
espiritual, o Brasil continua um país de escravos»
(9-12-59). Mas no Brasil, «a maioria é carneira­
da» (7-9-57).
Entretanto, o mesmíssimo Sr. Zarur, que não
quer «católicos de cabresto», que reclama liberdade
absoluta e total para si e para os outros, quando
fa la da L B V e da necessária submissão dos legio­
narios às suas próprias determinações, assume ou­
tro tom. Vejam ou ouçam: «Quem pensa de outra
form a [que êle acabara de apresentar], pode virar
as costas à Legião. Já vai tarde!» (6-8-57); «quem
aqui não se comportar bem sai pela janela: ru a!»
(23-10-57); «quem quiser mandar aqui pode can­
tar em outra freguesia» (11-8-57); «nós precisa­
mos de gente que quer trabalhar sem condições»
(19-8-57). «A go ra vamos começar a expulsar mui-
cos demônios. Meu Deus, em Teu nome ordeno que
saiam desta Legião todos os demônios» (19-7-58).
Quando o Sr. Cardeal do Rio declarou que os
legionários seriam excluídos da Igreja, isto é exco­
mungados, o Presidente da L B V ficou furioso e de­
clarou que «na L B V não há proibição nem exco­
munhões» (25-10-59); disse mesmo que «legioná-
rio qualquer um pode ser, pode estar cheio de pe­
cados: não expulsamos a ninguém, não excomun­
gamos» (31-10-59). Mas antes o mesmo Presidente
havia dito: «Quem trabalha dentro da L B V não
pode ser impuro, desonesto. Não tenhais comuni­
cações com gente impura! Gente que quer fazer
política num núcleo: pontapé nela! Chicote nela!
E já e já. Fora com ela! N a L B V não há lugar
para pernósticos, perturbadores da idéia de Deus!»
(29-7-58). «Gente medrosa, covarde, se afaste de
mim. Que o diabo a Carregue!» (25-3-57). E ou­

32
tra vez, nada manso, nada tolerante: «O irmão
Zarur não está aqui para agradar a ninguém. Quem
não quer trabalhar pela L B V sai, sai pela porta,
sai pela janela ou pelo telhado, mas aqui não fica.
E ’ ordem superior!» (24-1-59). Meses depois di*
rá: «N ós não expulsamos a ninguém.. . » (31-10-59).
Mas no dia 25-1-59 levantou a voz: «Legionário
que procura seu interêsse sai, sai já, já vai tarde!»
E mais forte na noite de 21-2-59: «Nós não ofere­
cemos flores a ninguém, mas balas de canhão!»
«O que é detrito não fica na L B V ; o que é esterco
não fica na L B V !» (27-9-59). E outra vez: «Esta­
mos com a verdade. O podre não pode ficar na
L B V » (24-6-58). Já no dia 4-2-60 exclama: «Quan­
ta gente borocoxô! Na LB V não há santarrões. Há
uns crápulas que vão sair mais dia menos dia. Pois
Deus não há de permitir que fiquem na LB V ». Mas
três dias depois passou a raiva, e o Presidente j:
se apresenta todo tolerante: «Qualquer pessoa, po
mais perversa que seja, pode ser legionário». . .
Ãs vêzes parece que êle se apercebe das contra­
dições sem-número. Mas tem logo desculpa à mão:
«Dizem que eu sou incoei'ente, que me contradigo.
N ã o! Eu sou antena. Eu sou a voz do povo. Ora
sou sereno, ora sou severo. Quem não é por
mim é contra mim. Eu tenho de dizer a verdade.
Esta é a ordem que recebi. Para restaurar a ver­
dade eu fui escolhido. Eu não digo tudo, não por
mêdo, que não conheço, mas porque não chegou a
hora» (5-12-58). Poucos meses antes tinha excla­
mado: «Chegou a hora de desengavetar tudo» (6-
6-58). Chegou ou não chegou?
Contradição? Incoerência? — Zarur dirá: «N ã o !»;
e continuará sereno no caminho da incoerência.

33
C E L IB A T O E C A SA M E N TO
N o fasciculo de outubro de 1956 da revista Boa
Vontade o Sr. A lziro Zarur anunciou em primeira
página: «P a ra ser digno de sua missão, o presi­
dente nacional da L B V fêz três votos diante de
Deus: 1) pobreza; 2) não política; 3) celibato. Já
deu sua vida a Deus. E dará sua morte, se pre­
ciso fô r ».
Mas já no início de 1958 o mesmo Sr. Zarur co­
meçou a falar de modo diferente. Assim, por exem­
plo, falou na noite de 4-2-58: «N ão está na Bíblia
que não é bom que o homem esteja só? P or que o
sacerdote não casa? Eu não proibo o casamento.
A h ! se tivesse uma mulherzinha que me ajudasse
na LBV, uma alma gêmea. A L B V vai ser santifi­
cada pelo casamento de seu Presidente. A mulher
que me protege, protege a L B V ». Era mais ou me­
nos assim que chorava tôdas as noites, nos meses
de janeiro e fevereiro de 58. No dia 1-3-58 veio
a bomba: «Um a notícia! H oje recebi comunicação
do alto que me case! Veio a ordem que me case
em benefício da LBV. Vou-me casar por ordem
de Jesus, por amor à LBV. Eu preciso de uma
companheira, uma alma gêmea. P or ordem de Cristo
está revogado o meu voto de celibato. Eu cum­
pro ordens. Pois o meu casamento pode ser a dig-
nificação, a santificação da L B V ». N a noite se­
guinte continuou: «Deus fêz comigo como fêz com
Abraão que teve fé : Não, Zarur, chega! Eu vou
te dar uma companheira. Eu tenho fé como Abraão.
Deus me desligou do voto de celibato». E na outra
noite fo i assim: «Jesus não precisa mais do sacri­
fício do irmão operário. O voto agora é desne­
cessário. Foi necessário para implantar a LB V.
Aguentei oito anos. C h ega!!! Quem revogou o meu

34
voto de celibato não fui eu: fo i Jesus! Quem não
acredita em mim não acredita em Jesus. 0 voto
de celibato é bom para sofrer. E ’ contra a lei di­
vina. E ’ uma lei imoral. E ’ desumano. E’ uma
imoralidade. Celibato é bobagem! Que mundo mais
medieval. Estamos num país civilizado? Horda de
imbecis, invejosos, pernósticos. A h ! se eu pudesse
fa la r! P or que inventaram êsse celibato? a título
de quê? Tôda a vida, por quê? Ué! então não
posso casar? Não querem um zarurzinho bonitinho?»
N o dia seguinte Zarur continuou o desabafo: «Foi
o próprio Jesus quem revogou o meu voto. Se não
agrada, queixem-se com Jesus, não comigo. Quem
me vai casar é o próprio Jesus. 0 presente que
vou dar à minha esposa é a morte ao mundo». No
dia 5-3-58 declara: «Sou um homem normal. Jesus
viu o meu sofrimento e, por isso, me libertou do
voto de celibato». No dia 16-3-58 anuncia: «Agora,
depois do celibato estou mais perto de Jesus», pois
«o celibato é contra a doutrina de Cristo. Se não
acreditam em mim, não acreditam em Jesus. Pois
eu estou em Jesus!»
De fato, no mês de setembro de 1958, Zarur
«recasou-se» com Iracy Almeida de Abreu, que «já
tinha sido sua esposa noutra encarnação». E Zarur
explica que tudo aquilo era apenas um reencontro,
planejado pela fôrça do Alto e que sua eleita che­
gou do planêta Marte, é amiga de Kardec e con­
corrente de Jesus.

PO B R E ZA E N Ã O -PO LÍTIC A
Com relação ao voto de pobreza, queremos lem­
brar apenas o seguinte: No dia 17-12-59 deu Za­
rur a seguinte notícia: «E m breve vamos festejar
a redenção financeira da LB V . Só faltam 200 con-

35
tos e ainda menos». No dia 13-1-60 anuncia que
o fazendeiro espiritualista Casemiro Radiminski,
do Paraná, enviou Cr$ 500.000,00 (500 contos)
para a redenção financeira da LBV. Nos dias se­
guintes, entretanto, continua a choradeira pela «r e ­
denção financeira da L B V ». Na noite de 10-2-60
fala Zarur: «H o je me perguntaram quanto falta
para a redenção financeira da LBV. Eu disse: fa l­
tam apenas Cr$ 400.000,00». Poucos minutos depois
repete a mesma qu antia... Contradição? N ã o:
antena do povo. . .
Nem admira que num dia dêsses venha, do Alto,
a solene dispensa do voto de pobreza. Pois o ho­
mem tem tanta facilidade de falar com J esu s...
Não acreditamos também na firmeza do voto de
não política. «Religião e política, para mim, é a
mesma coisa», afirm a Zarur no dia 10-1-60. E ou­
tra vez: «Vocês já imaginaram o que a L B V fa ria
com a subvenção do Governo? O que não faria
a L B V com os recursos da política? Eu preciso
de recursos. Não posso deixar a L B V pobre e sem
recursos. Se Deus mandar, eu entro na política.
Com o dinheiro do Govêmo é fácil fazer caridade.
Imaginem a L B V com os recursos do Govêrno. Não
havería brasileiro com fom e» (4-1-60). N o outro
dia insiste: «O que Deus manda, nós o faremos.
Temos de dar a Deus o que é de Deus e a César
o que é de César. A h ! imaginem: a L B V com os
recursos do Brasil. Não haveria brasileiro com fome.
E aquêles que levam milhões, ainda nos perseguem.
Mão bôba! Mão bôba! Continuem! Continuem a
perseguir a L B V e ao Zarur! Zarur não presta;
Zarur é isto e aquilo. A h ! os recursos do Govêrno
na L B V ! Não haveria brasileiro com fome. Ah
não! Não haveria brasileiro com fome. Eu não sei

36
aonde a Providência me leva. Eu tenho de arran­
ja r dinheiro, mesmo que fô r para o inferno!» Na
outra noite já é mais claro: «Com Jesus eu salvo
o Brasil. Eu salvo! Se fô r preciso ir à política, eu
vou. A h ! eu vou! Eu preciso de dinheiro. Eu não
posso ficar nesta moleza eternamente. Não temos
tempo a perder. Não tenho paciência para esperar.
Não vim para a moleza. Eu quero as coisas de­
pressa. Não quero saber de moleza. Se não me
acompanharem, eu tomo uma atitude extrema. A fi­
nal, o dinheiro do Govêrno é do povo». E na prece
final da mesma noite: «Manda, Jesus, eu obedeço.
Não temos tempo a perder, como também tu não
tens tempo a perder. Aproxima-se o fim do ciclo».
N a noite seguinte torna a bater na mesma tecla:
« A L B V é apolítica. Mas se Jesus me chamar para
a política, eu vou. Não sou eu. E ’ Jesus que manda
em mim. P or que vos afobais? Não vos afobeis!
Eu dou a vida pelas ovelhas... Se fô r preciso, se
fô r chamado por Jesus, eu vou entrar na política.
Para ajudar a L B V eu faço qualquer n eg ó c io ...»
No dia 17-1-60 diz: «Desde que fundei a Legião
[outras vêzes nega ser êle o fundador], a política
me persegue. Já me convidaram para ser Vice-
Presidente da República... Já recebi três convites
para a Vice-Presidência da República. Mas não
aceitei nenhum dêles. Só se Jesus m a n d a r...»
Acredite quem qu iser...

L B V R E P R O V A D A E D E N U N C IA D A
PE LO EPISCO PAD O
«Constituídos pelo Espírito Santo para reger a
Ig reja de Deus» (Atos 20, 18), os nossos Exmos.
Senhores Bispos viram em tempo a confusão e a
anarquia religiosa causada pelas palestras diárias

37
do Sr. A lziro Zarur e chamaram a atenção dos fiéis
católicos. Em setembro de 1956 falou, por primeiro,
o Episcopado Fluminense e mandou publicar o se­
guinte aviso oficial:
«Os Excelentíssimos e Reverendissimos Bispos da
Província Eclesiástica do Rio de Janeiro, em sua
reunião ordinária do dia 10 de setembro, presidida
pelo Eminentíssimo Cardeal Dom Jaime de Barros
Câmara, declararam que a Legião da Boa Vontade,
cujas doutrinas não coincidem com o ensino da
Igreja Católica, é uma instituição que merece re­
provação do Episcopado, motivo por que de fato a
denunciam püblicamente».
Mais explícita foi, dois anos depois, o Episcopado
da Província Eclesiástica de Belo Horizonte. Numa
Carta Pastoral Coletiva de 12-4-58, «Sôbre alguns
pontos de mais urgente interêsse», os Bispos M i­
neiros declaram:
«E aí está, finalmente, a alvoroçada Legião da
Boa Vontade, talvez a maior e a mais confusa or­
ganização (diriamos mais exatamente «desorganiza­
ção») pseudo-religiosa do Brasil. Munido da mais
poderosa arma de penetração de que nos possamos
valer junto do povo — uma grande estação de rá­
dio — seu chefe se arvora em pregador do Evan­
gelho para todo o Brasil. Tem como base a mais
absurda das pretensões doutrinárias: afirm a que
tôdas as religiões são boas e necessárias, como se
a verdade pudesse ser assim uma coisa am orfa e
amoldável a todos os gostos. Numa linguagem senti­
mental, eivada de termos plebeus em absoluta incoe­
rência com a natureza elevada do assunto, vai o chefe
da Legião interpretando a seu modo o Evangelho e tô­
das as Sagradas Escrituras, atacando freqüentemente
a Ig re ja e seus ministros e mostrando inegàvelmente

38
sua tendência espírita, especialmente quanto à teo­
ria da reencarnação, que êle sempre defende. Não
fôsse a monotonia e o tom indisfarçàvelmente in­
sincero de suas arengas, que acabam afastando os
ouvintes de bom gôsto, e o mal dessas irradiações
seria muito maior. Assim mesmo é imenso o nú­
mero de pessoas que continuam ouvindo e bebendo
o veneno do êrro destilado no meio de textos do
Evangelho e de exortações a fazer o bem, a querer
bem a tod os... até a Satanás, como fo i expllcita-
mente afirmado num absurdo poema «ao irmão Sa­
tanás». A Revista publicada pela Legião da Boa
Vontade é então — como aliás tôda a doutrinação
do chefe do movimento — um verdadeiro caso po­
licial, pelo que contém de mistificação e de abuso
da boa fé dos cristãos, enchendo suas páginas de
figuras de Jesus Cristo, de Nossa Senhora, de San­
tos da Igreja, de Papas, Bispos e Sacerdotes, ge­
rando tal confusão que perturba o exercício livre
do culto católico garantido pela Constituição. Por
isso mesmo nós os apontamos às autoridades para
que não permitam tal desordem que confunde liber­
dade com anarquia, transpondo as legítimas bar­
reiras da liberdade de imprensa. Porém, mesmo pres­
cindindo dessa desejada ação da autoridade civil,
repetimos a todos os nossos amados diocesanos que
desaprovem e repudiem enèrgicamente êsse movi­
mento, não permitindo entre em suas casas a re­
vista da Boa Vontade, não ouvindo seus progra­
mas, não colaborando de forma alguma com suas
obras. E a nossos zelosos Vigários, particularmente
dos meios rurais, instamos para que alertem seus
paroquianos contra tão insidiosa propaganda. De­
mos esmolas aos pobres, socorramos aos necessita­
dos, mas nunca por intermédio da «Legião». Fazê-

39
Io seria colaborar para uma obra herética e con­
denada pela Igreja . O sentimentalismo não guiado
pela razão é que tem levado — ao menos no início
— muita gente a aderir a êsse movimento. H oje
ninguém mais pode ter dúvida sôbre a natureza
dêle. Para os fiéis que ainda não estivessem escla­
recidos aqui fica esta nossa admoestação e orien­
tação. Cui resistite fortes in fid e : a tudo isso re­
sisti, fortificando vossa fé (1 Ped 5, 9) é o que
diremos perante tôda essa confusão».
Eis aí palavras claras e enérgicas de orientação
para os católicos. Em substância pedem os Bispos
M ineiros:
— desaprovar e repudiar enèrgicamente a L B V ;
— a revista Boa Vontade não deve entrar em la­
res cristãos;
— os católicos não ouvirão os programas da L B V ;
— nenhuma colaboração com as obras do Sr.
Zarur.
Também outras autoridades eclesiásticas falaram
e alertaram os católicos. O Sr. Arcebispo de Bo-
tucatu Dom F rei Henrique G. Trindade, O. F. M.,
em artigo largamente difundido pela imprensa, pon­
derou: «Trata-se de uma cruzada muito cômoda,
de uma legião muito f á c i l . . . : Todos podem entrar,
assim como são, sem nada sacrificar, sem mudar de
suas idéias, creiam ou não creiam na divindade e
na missão de Cristo, sigam ou não sigam seus en­
sinamentos, interpretem como quiserem suas pala­
vras. . . »
O Sr. Bispo de Ponta Grossa, Paraná, Dom An­
tônio Mazzarotto, em Carta Circular, diz que «mais
acertadamente se chamaria Legião da Má V ontade.. . »
E continua: « E ’ uma horrenda confusão, um ecle-
ticismo intragável, cheio de contradições, mas apre­

40
sentado de modo a enganar os incautos». E depois:
«Parece que o demônio nunca disfarçou sua mal­
dade com tantos requintes de aparente bondade.
Nunca o espírito das trevas se manifestou com tão
refulgente luz. Nunca algum lôbo se vestiu tão bem
e com tão vistosa pele de ovelha».
Dom Manoel Nunes Coelho, Bispo de Aterrado,
M. G., em Carta Pastoral chama a L B V de «a in­
venção mais pérfida que o diabo descobriu». E
Dom Paulo Hipólito de Souza Libório, Bispo de
Caruaru, Pernambuco, lamenta ser o Brasil o pio­
neiro dêsse «movimento anárquico em matéria de
religião, dêsse sinci'etismo religioso que pretende
reunir adeptos da Maçonaria e do E sp iritism o...»

LE G IO N AR IO D A L B V
NÃO PODE SER CATÓLICO
Quando, no dia 5-9-59, o Sr. Zarur definiu mais
claramente a posição religiosa da LBV, transfor-
mando-a em nova religião e proclamando que esta
nova religião endossa a doutrina da reencaroação,
ficou também mais definida a posição do católico
perante a L B V e a do elebevista diante da Igreja.
O Sr. Cardeal Dom Jaime de Barros Câmara, A r ­
cebispo do Rio de Janeiro, no programa « A Voz
do Pastor», limitou então os campos. Reproduzimos
aqui a primeira palestra de Sua Eminência:
«O Secretariano Nacional da Fé, em recente cir­
cular, pede seja divulgada a seguinte referência
sobre a Legião da Boa Vontade. Começa por a fir­
mar que um «Legionário da Boa Vontade não pode
ser, ao mesmo tempo, católico».
E ’ muito séria esta asserção, mas nada tem de
exagerada ou enfática, pois é simples conseqüên-
cia lógica de acontecimentos que ocorreram nos

41
arraiais da tal Legião. Ainda bem que se esclare­
ceu, de uma vez por todas, a situação confusa man­
tida por tanto tempo, o que favorecia as mais di­
versas apreciações. Agora, porém, que o presidente
da L B V se definiu, dizendo-se fundador de nova
religião, tornou-se necessária esta nota oficial do
Secretariado Nacional da F é:
«Os Católicos dão os mais sinceros agradecimen­
tos ao Presidente Nacional da L B V pelas últimas
declarações feitas pela imprensa e pelo rádio. Os
agradecimentos não se referem, evidentemente, às
declarações em que o Sr. Alziro Zarur reconheceu,
em público, que a Igreja Católica também pratica
a caridade; que possui ela centenas de obras de
assistência social e milhares de pessoas consagra­
das à prática das obras de misericórdia corporal;
que há nela a mais perfeita caridade, qual seja a
de rezar e fazer o bem pelos que a perseguem.
Tudo isto já era do conhecimento público: só não
sabiam disto aquêles que não têm olhos de ver,
aquêles que não têm ouvidos de ouvir. Até certo
ponto é desculpável a falta de conhecimento das
maravilhas de caridade da Igreja Católica: ela não
trombeteia, não alardeia o que faz ou pensa fazer,
e tudo fica sem propaganda. . . Dissemos que a
ignorância a respeito da Igreja Católica é até certo
ponto desculpável. Melhor seria dizer: Tal igno­
rância é imperdoável. A Igreja, sua doutrina, suas
obras aí estão qual ‘Cidade posta sôbre um monte’ .
Os homens podem fin g ir ignorar a Igreja Cató­
lica, como pode fin g ir ignorar o apartamento em
que vive, aquêle que tem interêsse em que o senho­
rio não exista. Nenhum civilizado pode ignorar aque­
la que o civilizou. Ignorar a Igreja e prescindir
dela é caminhar para a barbárie. O que os cató­

42
licos querem agradecer ao Senhor A. Z. é a sua
afirmação categórica de que não se converteu ao
Catolicismo porque é reencarnacionista, e a Igreja
Católica não admite esta doutrina. Parabéns ao
Senhor A. Z. porque é a primeira vez que faz uma
afirmação categórica. E ’ a primeira vez em que
diz algo que o define. A L B V parecia querer fa ­
zer concorrência às fábricas de liquidificadores:
queria liquidificar tôdas as religiões. Mas uma
rocha resistiu a baldadas tentativas. O Senhor A. Z.,
por ser reencarnacionista, não pôde abraçar a dou­
trina de nenhuma denominação evangélica. Com
isto êle colocou-se à margem não só do cristianismo
autêntico como até das mais peregrinas doutrinas
de nossos irmãos protestantes. Numa palavra, a
afirmação do Sr. A. Z. colocou-o a si e a sua LB V
à margem do cristianismo. De nada lhe vale dizer
que fala ‘de Bíblia na mão’. Os protestantes tam­
bém o fazem e não admitem a reencarnação. As
Testemunhas de Jeová também o fazem e negam
o Deus verdadeiro, pois negam a Trindade; ne­
gam a divindade de Cristo, a imortalidade da alma,
etc. etc. Os adventistas também o fazem e, apesar
disso, são combatidos pelas outras denominações
protestantes. Se o Sr. A. Z. não pôde abraçar a
doutrina da Igreja Católica, porque é reencaraa-
cionista e, sendo a reencarnação doutrina funda­
mental da LBV, devemos concluir que nenhum le-
gionário pode sei*, ao mesmo tempo, católico. O
contrário seria desaprovar o Presidente Nacional
da L B V ».
Prezado ouvinte, escutou bem? No caso vertente
não se trata de interpretar intenções, mas de ti­
rar a mais evidente das conclusões, cujas premis­
sas nos forneceu o próprio fundador e chefe da

43
Legião da Boa Vontade, o qual püblicamente se con­
fessa herege, fautor de heresia, pois que a reen-
carnação é doutrina herética, condenada pela Ig re ­
ja Católica. Portanto, quem abraça tal crença, me­
lhor diria descrença, já não é católico, perdeu to­
dos os direitos aos sacramentos, às exéquias, a
missas e a quaisquer sufrágios após sua m orte;
não pode ser admitido como padrinho em nenhum
ato religioso; enfim, incorreu em excomunhão, por
ter negado a verdadeira fé.
Para fazer caridade não há mister de apos-
tatar. Pelo contrário; eis a situação em que se co­
loca voluntariamente quem, doravante, abraçar ou
permanecer na LB V . Não queira, pois, o amigo
colaborar com a LBV, nem escutar sua doutrina,
seja radiofônica ou em escritos, pois estará incor­
rendo em perigo de eterna condenação».
Até aqui as palavras do Senhor Cardeal Câmara.
Permitimo-nos acentuar a proposição que fo i por
nós grifada. Com sua alta autoridade declara Dom
Jaime de Barros Câmara: O Legionário da Boa
Vontade, que aceita a doutrina de reencarnação
— já não é católico,
— perdeu todos os direitos aos sacramentos,
— perdeu os direitos às exéquias, missas e quais­
quer sufrágios depois da morte,
— não pode ser admitido como padrinho em ne­
nhum ato religioso,
— incorreu na pena da excomunhão.

A E X C O M U N H Ã O DO L E G IO N Á R IO
A última afirmação do Senhor Cardeal Câmara
(que o Legionário «incorreu em excomunhão») me­
receu numa palestra posterior de « A Voz do Pas­

44
tor» novos esclarecimentos. P or sua importância
e pela autoridade de quem as pronunciou, repro­
duziremos aqui as palavras de Dom Jaime de Bar­
ros Câmara:
«N ão era intento meu voltar a dizer-lhe mais
nada sôbre a Legião da Boa Vontade, nem sôbre
seu fundador e dirigente.
Acorreu, porém, tanta consulta por parte da
imprensa, estações de rádio e televisão, que me
julguei obrigado a esclarecer mais uma vez êste
desagradável assunto.
Inicialmente preciso lembrar que o termo exco­
munhão significa exclusão da comunhão dos fiéis,
ou seja, eliminação de um membro da comunidade
cristã ou católica. Assim é que só pode ser atingi­
do pela sanção excomunicatória quem pertence à
Igreja Católica. Ora, o Diretor da LBV, que se
declarou fundador de nova religião, aliás em he­
resia, jamais pertenceu ao corpo da Igreja Católica,
donde, pois, se segue que dela não poderia ter
saído, nem à fôrça de qualquer penalidade.
A advertência, portanto, se dirigia aos católicos,
e não aos que já se encontram, infelizmente, fora
da nossa Igreja.
Visava aquela admoestação a relembrar aos adep­
tos do nosso credo e disciplina os efeitos da ex­
comunhão em que ii'ão incorrer, caso abracem essa
nova religião ou nela permaneçam após êste aviso,
o qual já houve quem alvitrasse, convém seja dado
também em nota oficial da Cúria Metropolitana, para
que todos os sacerdotes a leiam do púlpito.
A razão destas atitudes por parte do clero jus­
tifica-se pelo fato de ter ültimamente, em lares
católicos, certa aceitação dos programas da Rádio

45
Mundial, veículo da doutrinação da LB V , que pa­
recia estar se encaminhando para rumo acertado.
Eis, porém, que em começo de setembro últi­
mo [1959] o Presidente da L B V anunciou pübli-
camente pela imprensa escrita e falada sua decisão
de, «como único meio de manter assegurado o am­
paro da lei, dar form a jurídica à religião que já
vinha simbolicamente sendo praticada na LB V , com
a Cruzada do Novo Mandamento de Jesus».
Além de se declarar instituidor de nova seita, a
L B V faz questão de frisar que esta é reencarna-
cionista, o que significa a completa rejeição de
Cristo como Redentor da Humanidade.
Como assim? estará o caro ouvinte a perguntar-
me. Sim, porque a reencarnação é uma crença que
admite o aperfeiçoamento de cada um, por si pró­
prio, em sucessivas encarnações, sem precisar de
redentor algum, mesmo que seja Jesus Cristo. Nega,
portanto, a redenção divina, que é verdade básica
do cristianismo.
Eis por que tive de alertar os católicos sôbre
a heresia fundamental da assim chamada nova re­
ligião da LBV, para que os fiéis a rejeitem, sob
pena de incorrerem em excomunhão, cujos efeitos
gerais são os seguintes:
a ) o excomungado não pode receber nenhum
sacramento;
b) se fô r sacerdote, é-lhe vedado ser ministro
tanto da confecção como da administração de sa­
cramentos e sacramentais;
c) é-lhes proibido assistir aos ofícios divinos,
embora não à pregação da palavra de Deus, ha­
vendo, contudo, certa benignidade para os tolera­
dos, consentindo-se em sua assistência passiva;

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d) são ilícitos todos os atos do excomungado em
ofícios eclesiásticos, em qualquer função, até no
uso de seus antigos privilégios, perdendo, assim,
tôdas as faculdades para atos legítimos eclesiásticos,
como por exemplo serem padrinhos, testemunhas, etc.
e) com maior razão não pode ser eleito ou no­
meado para cargo algum na Igreja, mesmo em as­
sociações de leigos, nem receber pensões eclesiásti­
cas, honorificências ou dignidades;
f ) são privados até de funerais, exéquias, mis­
sas fúnebres e outros sufrágios, preces públicas da
Igreja e outros auxílios espirituais, inclusive da
sepultura eclesiástica.
Se, por um lado, todos êstes tristes e lamentáveis
efeitos se acham incluídos na excomunhão, por ou­
tra parte, a Igreja tudo faz como mãe, todos os
meios emprega, para reconduzir o desviado, multi­
plicando facilitações para que, arrependido, êle se
penitencie e seja absolvido».
Eis a palavra clara e final da Autoridade Ecle­
siástica sôbre a LBV. Não há motivos para pros­
seguir. Agora os católicos receberam a orientação
necessária. O resto, a decisão por Cristo ou por
Zarur ou qualquer outro fundador de religião, é
um problema de consciência individual.
ÍN D IC E

A razão destas páginas ................................................... 3


Z a ru r: “E u não sou dêste mundo” .............................. 4
A LBV ................................................................................ 9
E* ou não é Religião? ..................................................... 11
A N ova Religião ................................................................ 13
Reencarnação, sim! ........................................................... 16
Relações com o Espiritismo ........................................... 17
Borocoxô da Bíblia ............................................................ 19
Inferno, não! ...................... 21
Amigo do Diabo ................................................................ 23
Liquidificador do Cristianismo ........................................ 25
N ão conhece a Ig re ja ......................................................... 29
A narquia e ditadura ............................... 31
Celibato e casamento ................ 34
Pobreza e não-política ....................................................... 35
LBV reprovada e denunciada pelo Episcopado .......... 37
Legionário da L B V não pode ser católico ................. 41
A excomunhão do legionário .......................................... 44