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12e Ano - Modulo 8

PORTUGAL E O MUNDO DA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL AO INÍCIO DA DÉCADA DE 80 – OPÇÕES INTERNAS E


CONTEXTO INTERNACIONAL
Unidade1: NASCIMENTO E AFIRMAÇÂO DE UM NOVO QUADRO GEOPOLÍTICO

1.2. O tempo da Guerra Fria - a consolidação de um mundo bipolar

Com a derrota do Eixo, imediatamente vieram ao de cima os antagonismos ideológicos que tinham sido
esquecidos durante a guerra contra o nazi-fascismo e prontamente exibidos nas diferentes propostas políticas e
económicas defendidas por americanos e soviéticos na definição da nova ordem geopolítica.
 os EUA defendiam um regime político democrático-liberal e uma economia inspirada no modelo capitalista;
 a URSS defendia um regime socialista de centralismo democrático e uma economia coletivizada e
planificada
A rutura da aliança acabou por se confirmar com o desenvolvimento dos primeiros focos de tensão gerados nas
ambições expansionistas da URSS nos estados do Leste da Europa e na resposta americana, visando a contenção
desse expansionismo e o reforço da sua posição, no Ocidente.

Um mundo dividido: a rutura


O primeiro momento de tensão, ainda em 1945, foi motivado pelo facto de Estaline não promover a realização
de eleições verdadeiramente livres na Polónia e pretender impor um governo da sua confiança. Perante a
tentativa dos EUA enviarem observadores internacionais, Estaline manifesta a sua oposição sob o pretexto de
intromissão na "dignidade polaca". Churchill não tem qualquer problema em considerar que a ameaça soviética
substituiu o inimigo nazi e considera que deixou de haver condições para entendimento pacífico.
As denúncias públicas da política estalinista de apoio à ascensão dos partidos comunistas ao poder, nos países
colocados na esfera de influência soviética, continuaram em 1946, quando Churchill acusou a URSS de fazer
descer sobre a Europa uma "cortina de ferro", de Stettin, no Báltico, até Trieste, no Adriático.
Em 1947 (Março), perante as pressões soviéticas sobre a Turquia e sobre a Grécia, o presidente Truman não tem
qualquer dúvida em afirmar a necessidade de adotar uma política de contenção do avanço comunista. Apela ao
Ocidente para a luta contra o que considerou ser o totalitarismo soviético e comprometeu-se a prestar auxílio a
todos os estados cuja liberdade fosse ameaçada por forças externas. Era a Doutrina Truman que
institucionalizava os EUA como bastião das democracias ocidentais.
Ainda em 1947, acreditando que a rápida recuperação económica da Europa inviabilizaria a expansão comunista
para ocidente e reforçaria a presença americana no Velho Continente, o Governo americano, na pessoa do
Secretário de Estado George Marshall, no âmbito da doutrina Truman, propôs um amplo programa de ajuda
económica e técnica aos países europeus destruídos pela guerra, no sentido de relançar imediatamente as suas
economias e criar condições para a estabilidade política.
Conhecido por Plano Marshall, este Plano de Reconstrução Europeia era extensível também a países do bloco
comunista, que sob pressão da URSS o recusaram. Consideravam os soviéticos, num claro ambiente de Guerra
Fria, que o plano proposto não era mais do que uma manobra para os EUA imporem a sua hegemonia no
continente europeu.
Efetivamente, o Plano Marshall, entre outras condições que beneficiavam os interesses geostratégicos
americanos nos países contemplados e respetivas áreas coloniais, foi oferecido sob condição de os estados
beneficiários aceitarem o controlo e fiscalização das suas economias por parte das autoridades americanas e de
criarem um organismo de coordenação da ajuda financeira prestada e das relações económicas entre si
estabelecidas. Foi no cumprimento desta condição que foi criada, em Abril de 1948, a primeira aliança
económica europeia - a Organização Europeia de Cooperação Económica (OECE), mais tarde (1961) renomeada
Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE).
O plano americano de ajuda ao Ocidente europeu constituiu argumento para Estaline adotar a mesma atitude
relativamente aos países submetidos à sua influência,

Imediatamente (Setembro), respondem os soviéticos com a Doutrina Jdanov, que defendia, sem qualquer
reserva, a divisão do mundo em dois campos opostos: um "imperialista" e antidemocrático, tutelado pelos EUA e
outro "democrático e anti-imperialista", tutelado pela URSS, e advogava o direito à extensão da influência
comunista até ao centro da Europa pela transformação dos países vizinhos, libertados da dominação nazi por
ação do Exército Vermelho, em satélites políticos da URSS.
Em Janeiro de 1949, Moscovo “responde” também ao Plano Marshall, lançando o plano Molotov, que
estabelece as estruturas de cooperação económica da Europa Oriental. Foi no âmbito deste plano que se criou o
COMECON, em 1949. Tratava-se de um Conselho de Assistência Económica Mútua, através do qual se estabelecia
a coordenação dos planos económicos dos países membros e a ajuda financeira da URSS aos seus aliados.
Constituía-se assim um bloco económico socialista em reação à organização económica do Ocidente (OECE) que
resultou da implementação do Plano Marshall.
Era o início da Guerra Fria que, até finais dos anos 80 do século passado, marcaria a consolidação de um mundo
bipolar - o mundo capitalista e o mundo comunista.

O 1.º conflito: a "questão alemã" e a corrida à formação de alianças militares


Em 1948-49, o ambiente de Guerra Fria entre os dois blocos geopolíticos esteve na iminência de provocar a
primeira situação de conflito militar.
Das diferentes estratégias para a reconstrução da Alemanha, resultou a unificação administrativa e monetária
das zonas ocupadas por americanos, ingleses e franceses e a atribuição de avultadas ajudas financeiras.
Pretendiam as potências democráticas edificar uma Alemanha ocidental rica e capaz de se reafirmar
honrosamente entre as nações livres e pacíficas em oposição a uma Alemanha de Leste cada vez mais
ruralizada e pobre, em virtude do desmantelamento do seu sector industrial, transferido para a URSS.
Estaline interpretou a política ocidental como um afrontamento e acusou os antigos aliados de pretenderem
criar um bastião do capitalismo às portas do mundo socialista. Em retaliação, decretou o bloqueio à zona
ocidental da cidade de Berlim, encravada na parte alemã submetida à administração soviética, nos termos de os
acordos de Potsdam.
Perante a impossibilidade dos países ocidentais contactarem por terra com as partes da cidade de Berlim por si
tuteladas, foi organizada uma ponte aérea que, em mais de 200 mil viagens, durante 11 meses, fez chegar todo
o género de produtos, numa manifestação de firmeza e de grande poder tecnológico dos Estados Unidos
Estaline chegou a ameaçar com o derrube dos aviões e receou-se que tal viesse a concretizar-se. Porém, o
bloqueio acabou por ser levantado sem incidentes de carácter militar, mas dele resultou uma grave crise política
que:
 culminou com a divisão da Alemanha em dois Estados, confirmada no ano seguinte com a independência, da
República Federal Alemã, a ocidente, na esfera liberal capitalista, e da República Democrática Alemã, a leste,
na esfera socialista soviética;
 clarificou definitivamente as posições expansionistas, americana e soviética, e os seus objetivos
hegemónicos na constituição de áreas de influência na Europa, numa primeira fase, e em todo o Globo, em
fases posteriores;
 originou uma intensa corrida aos armamentos e a formação dos primeiros blocos militares antagónicos, no
seguimento dos já claramente definidos blocos ideológico-políticos e económicos.

A Guerra Fria
Designou-se por Guerra Fria o ambiente de tensão que caracterizou as relações entre os governos americanos e
soviético, desde o final da Segunda Guerra, em 1945, até à dissolução da URSS, em 1991.
Tratou-se de uma guerra fria porque os contendores se abstiveram de recorrer diretamente às armas nucleares,
mas:
 Utilizavam, um contra o outro, as mais refinadas e agressivas formas de propaganda ideológica;
 Exibiam o seu imenso potencial militar, cada vez mais sofisticado;
 Desenvolviam uma intensa ação de espionagem sobre inovações bélicas e sobre a interferência em países
terceiros ou organizações internacionais;
 Intervinham no fomento de conflitos localizados em apoio, por vezes pouco dissimulado, dos beligerantes.

1.2.2. O mundo capitalista

A política de alianças dos Estados Unidos.


Em 1949, do lado ocidental, foi assinado o Pacto do Atlântico que, no ano seguinte, viria a originar a formação da
OTAN - Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO, em inglês). Como o nome sugere, tratava-se de uma
organização que, na sua origem, envolvia países localizados nas costas do Atlântico Norte, como os EUA, o
Canadá e as democracias da Europa Ocidental e do Norte.

A Grécia, a Turquia, a Itália e Portugal vieram também a integrar a NATO no ano da sua fundação.
Mas o empenhamento dos Estados Unidos em isolar a URSS e em consolidar a sua influência em todos os
continentes levou os governos americanos a estenderem a sua política a alianças multilaterais por todo o
mundo:
 o primeiro de uma série de tratados que assinaram foi o TIAR - Inter-American Treaty of Reciprocal
Assistance, também conhecido por Pacto do Rio, acertado no Rio de Janeiro em 1947, tendo por princípio o
conceito de "defesa coletiva" do continente americano. Por ele, as nações latino-americanas formariam uma
frente comum caso houvesse a agressão de uma potência externa;
 em 1948, na Conferência de Bogotá (Colômbia), foi formada a OEA - Organização dos Estados Americanos,
outro pacto de ajuda mútua que abrangia países signatários de todo o continente americano;
 em 1951, os EUA consolidam a sua influência na Oceânia com a celebração do Pacto do Pacífico com a
Austrália e a Nova Zelândia e a formação da ANZUS, esta aliança seria alargada aos países do sudeste asiático
(Paquistão, Filipinas, Tailândia) e antigas potências colonizadoras da região (França e Inglaterra);
 em 1954, com a formação da OTASE - Organização do Tratado da Ásia do Sudeste (SEATO, em inglês);
 no Médio Oriente, a celebração do Pacto de Bagdade, em 1955, deu origem à formação da CENTO -
Organização do Tratado Central, que abrangia a Grã-Bretanha, a Turquia, o Paquistão, o Irão e o Iraque.

A formação destas alianças político-militares era acompanhada pela celebração de acordos bilaterais com
muitos dos países aliados para estabelecimento de bases militares, em pontos estratégicos, autênticas
sentinelas de alerta contra a ameaça comunista, com o objetivo de intervir prontamente em potenciais conflitos
que pudessem pôr em causa a sua hegemonia.
A política económica e social das democracias ocidentais
- A ascensão do socialismo reformista

O triunfo sobre os totalitarismos nazi-fascistas repercutiu-se, nos anos que se seguiram à guerra, na ascensão ao
poder de partidos defensores de políticas reformistas e intervencionistas, inspiradas na social-democracia e na
democracia-cristã, em prejuízo dos velhos partidos conservadores identificados com o capitalismo liberal e com a
Depressão dos anos 30 a ele associada e suspeitos de terem dado apoio ao nazi-fascismo.
- A social-democracia é uma proposta política desenvolvida a partir das conceções revisionistas de Bernstein (II
Internacional, 1889), que defende a construção da sociedade socialista através de processos reformistas e
democráticos, em prejuízo da via revolucionária proposta pelo marxismo. Em conformidade, os partidos sociais-
democratas propõem a conciliação entre os princípios da livre concorrência, defendidos pelos partidos liberais,
com a intervenção do Estado na regulamentação das atividades económicas e na promoção do bem-estar dos
cidadãos, preconizada pelos partidos socialistas. Para o efeito, os estados com governo social-democrata devem
intervir no controlo dos sectores-chave da economia e adotar políticas fiscais que favoreçam uma melhor
distribuição da riqueza.

A democracia-cristã tem origem nas primeiras manifestações de denúncia da condição operária e de


condenação dos excessos do capitalismo liberal, na segunda metade do século XIX, onde se insere a moralidade
cristã e a doutrina social da Igreja Para os democratas-cristãos é dever dos estados implementar políticas
orientadas pelos princípios humanistas de promoção da dignidade do Homem, conciliando o espírito laico da
democracia, triunfante na Revolução Francesa, com os valores do cristianismo. Por conseguinte, a justiça social
e o bem-estar dos cidadãos através da intervenção do Estado na regulamentação da economia e na distribuição
mais justa da riqueza nacional deve ser também a grande preocupação dos governos democratas-cristãos.

Ora, estas ideias encontram, nos problemas económicos e sociais decorrentes da conjuntura de guerra e na
necessidade de evitar o seu agravamento, as condições necessárias para triunfarem e levarem ao poder os
partidos que as defendem. Com efeito, é cada vez mais sentida a ideia de que a democracia não se pode limitar
ao processo de formação do poder pela livre escolha dos governantes através de sufrágios cada vez mais
aperfeiçoados. Cada vez mais o exercício do poder democrático passa pelo dever de os governantes eleitos
assumirem um papel mais interventivo na vida económica e social, de forma a promover e assegurar o bem-estar
dos cidadãos e uma maior justiça social

É nesta conjuntura que os partidos que defendem este novo conceito de democracia vêem crescer os seus
resultados eleitorais, ascendendo ao poder por quase toda a Europa ocidental, a começar na Inglaterra, com a
vitória dos Trabalhistas sobre os Conservadores de Wiston Churchill, um dos grandes obreiros da paz, logo nas
eleições de 1945.

A afirmação do Estado-Providência
Com a ascensão dos partidos de esquerda reformista ao poder, nos anos que se seguiram à guerra, o Estado-
Providência instituído nos anos 30 como resposta à crise económica ganhou novo impulso.
Aproveitando os financiamentos americanos no âmbito dos vários planos de apoio à reconstrução dos países
destruídos pela guerra e os tempos de prosperidade económica que se seguiram, os países capitalistas
desenvolvem as conceções keynesianas e assumem uma clara intervenção na resolução das dificuldades
económicas. Para o efeito, o Estado afirma-se como elemento equilibrador e organizador da economia e
promotor da justiça social.
O Estado passa a funcionar como elemento equilibrador ao constituir-se como grande empresa empregadora,
concorrendo com a iniciativa privada na criação de postos de trabalho.
Neste caso, o Estado funciona como patrão ao favorecer os investimentos públicos e privados, concretamente:
 ao promover e financiar grandes obras públicas;
 ao aumentar consideravelmente os quadros da administração pública e do aparelho militar e paramilitar;
 ao assumir importantes participações no sector privado, onde aplica considerável parte dos seus recursos
orçamentais.
É, todavia, na qualidade de autoridade reguladora do mercado que a intervenção do Estado é mais visível,
quando o poder político intervém na orientação da política económica e financeira nacional com medidas
legislativas no sentido de submeter as diferentes atividades aos seus objetivos. É nesta condição que, sem cair
numa planificação rígida da economia que viesse a pôr em causa a propriedade privada e a livre iniciativa, a
autoridade pública intervém:
 nacionalização de sectores vitais da economia, como o sector energético, o sector siderúrgico e
metalomecânico, o sector financeiro (bancos e seguros), os transportes, entre outros;
 no controlo da produção industrial privada, visando estabelecer o equilíbrio entre a oferta e a procura;
 no estabelecimento de horários de trabalho em conformidade com as necessidades conjunturais;
 na fixação de níveis salariais, para impedir os abusos e promover o consumo entre a população;
 na supervisão de taxas de juro, de políticas cambiais, bem como na definição de regras claras de
funcionamento dos mercados financeiros;
 na definição de políticas fiscais, no sentido de promover uma maior justiça social.

Para promover a justiça social, é dever dos estados implementarem sistemas de redistribuição mais equitativa da
riqueza nacional, canalizando a sua capacidade financeira para a promoção da qualidade de vida dos cidadãos
mais desfavorecidos pelas suas condições socioeconómicas.
Para conseguirem essa capacidade financeira, os governos adotam sistemas de tributação progressiva dos
rendimentos, de modo a que o Estado possa absorver uma maior parte dos rendimentos dos mais ricos, que
serão orientados para a garantia das necessidades básicas dos cidadãos, através da instituição de um complexo
sistema de serviço social.

Neste âmbito, passa a ser dever do Estado:


 acautelar as situações de desemprego, de doença, de invalidez por acidente, de velhice, mediante a
atribuição de ajudas financeiras sob a forma de subsídios;
 garantir serviços públicos de educação, saúde e habitação;
 promover uma melhor qualidade de vida das famílias através da atribuição de um vasto leque de outras
ajudas financeiras em determinados atos da vida civil, como nascimento de filhos, aleitamento e educação
(abonos de família), casamento e óbito, mesmo instituindo um salário mínimo de sobrevivência para os mais
carenciados.

A prosperidade económica do mundo capitalista


Emergente de um longo período de depressão e de guerra, o mundo capitalista conheceu, entre 1945 e 1973,
um tempo de crescimento económico sem precedentes, tão espantoso quanto surpreendente.

Os "trinta gloriosos"
"Trinta gloriosos" foi a expressão encontrada pelo economista francês Jean Fourastié, e que acabou por se tornar
corrente, para identificar aqueles cerca de 30 anos da História do século XX.
Tratou-se, efetivamente, de um tempo de crescimento acelerado da economia com origem nos Estados Unidos
e que se estendeu aos restantes países do bloco capitalista, à medida que se consolidavam as suas políticas de
apoio à reconstrução dos países destruídos pela guerra.
São manifestações deste fortíssimo crescimento económico:
 o aumento espantoso da produção mundial de bens e serviços. Em média, o Produto Nacional I Bruto (PNB)
mundial mais que triplicou (por PNB entende-se o valor da totalidade de bens e serviços produzidos
anualmente num determinado Estado, incluindo o saldo da balança comercial); e a produtividade agrícola
quadruplicou, graças às novidades conseguidas nas técnicas de exploração da terra, apesar de a mão-de-obra
rural ter diminuído em consequência do recurso à mecanização cada vez mais intensiva;
 a produção de energia (electricidade, petróleo e gás natural) e a produção industrial de bens de consumo
duradouros, como automóveis e eletrodomésticos, viram o seu crescimento multiplicado por dez. Vive-se um
tempo de sensacionais progressos tecnológicos, patentes no desenvolvimento da aviação comercial, da
astronáutica, da indústria electrónica e das telecomunicações, da informática e da robótica, mas que também
se refletem na modernização dos setores tradicionais, como a indústria siderúrgica e metalomecânica, a
indústria petroquímica, construção naval, construção civil e transportes;
 a revolução verificada no desenvolvimento dos transportes terrestres e aéreos e o consequente crescimento
espetacular do volume das trocas comerciais à escala mundial.

Os fatores do crescimento
Não pode haver crescimento económico sem intensificação da procura de bens e serviços e sem resposta do
sector produtivo, tendo em vista a intensificação da oferta.
Entre os fatores da intensificação da procura, consideramos:
 o imprescindível surto demográfico - o baby-boom. A paz e a confiança no futuro, nos anos que se seguiram
à guerra, favoreceram um acentuado aumento da natalidade, o que, em meados dos anos 60, se traduziu,
naturalmente, no aumento significativo do mercado consumidor. Acresce que a prosperidade das empresas
permitia grande facilidade na obtenção de emprego e de salários elevados;
 a liberalização das trocas comerciais no quadro de implementação das novas regras para a economia. A
diminuição das barreiras alfandegárias e de outros entraves à circulação de mercadorias proporcionou a
internacionalização das trocas. Produtos outrora excedentes em determinadas regiões passam a chegar em
condições de mais fácil consumo a regiões onde eram deficitários;
 a intervenção do Estado na promoção da qualidade de vida dos cidadãos Os financiamentos americanos no
âmbito dos planos de ajuda à recuperação económica dos países aliados também foram aplicados na
melhoria das condições de vida das populações, o que se traduziu no respectivo aumento do poder de
compra. São os tempos de afirmação do Estado-Providência.

Mais variados são os fatores da intensificação da resposta do sector produtivo:


 a mão-de-obra disponível cresceu não só em termos de quantidade, mas também em termos de qualidade.
A população activa dos anos 60 é maioritariamente constituída por jovens com níveis de escolaridade cada
vez mais elevados, imbuídos de forte espírito inovador e para os quais havia abundância de trabalho bem
remunerado. Os trabalhos menos exigentes em termos de formação profissional eram exercidos por
populações imigrantes;
 a disponibilidade de capitais. Uma das características das economias capitalistas é o contínuo reinvestimento
de capitais acumulados na mira da sua infindável rentabilização. A crescente prosperidade de algumas regiões
do Globo era, por conseguinte, a origem de avultados capitais que eram reinvestidos em novos e modernos
empreendimentos industriais;
 o novo capitalismo industrial, caracterizado pelo aumento da concentração industrial e formação de
poderosas multinacionais. Associada à maior disponibilidade de capitais está a sua gestão por empresas
gigantescas constituídas como sociedades anónimas, geridas por equipas técnicas altamente especializadas.
Financiam a investigação científica, tendo em vista o desenvolvimento das novas tecnologias. Dominam os
grandes sectores da produção e, através das suas filiais, estão presentes em todo o mundo, oferecendo toda
a panóplia de produtos mais consumidos;

 a aceleração do progresso científico e tecnológico é, aliás, a condição fundamental para o incremento da


produção. É uma "Terceira Revolução Industrial" que está em curso, tão espetaculares são as descobertas e
inovações aplicadas às novas indústrias. Vivem-se tempos de reforço da aliança entre a fábrica e o
laboratório, que caracterizou os progressos da segunda metade do século XIX. Cada vez mais a ciência e a
técnica estão associadas ao desenvolvimento da competitividade económica, o que explica os fabulosos
investimentos feitos na investigação científica.

A sociedade de consumo
É o tipo de sociedade que se caracteriza por elevados índices de consumo não só de bens e de serviços
estritamente necessários a uma sobrevivência com mínimos de boa qualidade, mas, sobretudo, de bens e de
serviços considerados supérfluos. Trata-se de um tipo de sociedade característico de tempos de prosperidade
em que o aumento do consumo estimula o aumento da produção, que, por sua vez, proporciona o pleno
emprego com elevados salários. Esta situação de bem-estar material das famílias traduz-se no aumento do poder
de compra que, transformado em procura efetiva, vai proporcionar novos estímulos à produção, num círculo
vicioso de prosperidade.

Foi este o tipo de sociedade que se afirmou nos "trinta gloriosos" anos que se seguiram ao fim da Segunda
Guerra Mundial, primeiro nos Estados Unidos e depois em todo o mundo capitalista.
São os tempos em que os lares domésticos, sobretudo os urbanos, se enchem de toda a panóplia de
eletrodomésticos, de peças de mobiliário, de produtos decorativos, utilidades domésticas propiciadoras do
maior conforto possível, onde se inclui o telefone, a televisão e o tão desejado automóvel. Fora do lar, é o tempo
da frequência de restaurantes, estâncias de férias ou de simples residências de fins-de-semana, numa busca
crescente de tempos e de espaços de lazer.

Todo este consumo é estimulado pela multiplicação de grandes centros comerciais ou de vendedores de porta
que, recorrendo a sofisticadas técnicas de publicidade e de marketing, onde se insere proliferação das vendas a
crédito, convidam ao consumo não só do estritamente necessário, mas, na maior parte dos casos, daquilo que
apenas "pode dar jeito".

1.2.3. O mundo comunista

O expansionismo soviético na Europa


O plano americano de ajuda ao Ocidente europeu constituiu argumento para Estaline adotar a mesma atitude
relativamente aos países submetidos à sua influência, como já vimos anteriormente.
Com efeito, a confirmação do ambiente de Guerra Fria pela intensificação da influência soviética nos países de
Leste acabou por ser a grande consequência da intervenção americana nas economias da Europa ocidental:
 influência política através do COMINFORM (Comunist Information Bureau),uma organização internacional
dos partidos comunistas dos vários países integrantes do bloco socialista, sob coordenação do Partido
Comunista da URSS, fundada em 1947 (substituiu o Komintern de 1919);
 influência económica através da formação do COMECON (Councilfor Mutual Economic),em 1949. Tratava-se
de um Conselho de Assistência Económica Mútua ,através do qual se estabelecia a coordenação dos planos
económicos dos países membros e a ajuda financeira da URSS aos seus aliados. Constituía-se assim um bloco
económico socialista em reação à organização económica do Ocidente (OECE) que resultou da
implementação do Plano Marshall;
 influência militar, respondendo à formação da OTAN (NATO), com a formação, em 1955, de um bloco militar
alternativo comunista - o Pacto de Varsóvia.

A formação das democracias populares


O COMINFORM, o COMECON e, mais tarde, o Pacto de Varsóvia acabaram por ser os principais instrumentos de
dominação dos países da "cortina de ferro", (com exceção para a Jugoslávia, que se afastou da orientação
estalinista em 1948). Estes países tinham passado pela mais violenta dominação nazi-fascista e a reação foi
dirigida por fortes movimentos de inspiração comunista (os partizans) apoiados pelo Exército Vermelho. Ora,
após a derrota do nazismo, a URSS reclamou o direito de intervir diretamente na reorganização económica e
política dos estados cuja libertação tinha sido conseguida por sua ação direta, até como forma de compensação
material dos prejuízos tidos com a sua intervenção
Porém, na sequência das conferências de paz, praticamente todos os países de Leste tinham aderido ao modelo
parlamentar de tipo ocidental, em que os partidos comunistas, apesar de fortes, eram minoritários
Neste quadro, perante as dificuldades em os partidos comunistas ascenderem ao poder pela via democrática,
Jdanov impõe nos países de Leste a rutura com o imperialismo ocidental pela instituição das democracias
populares com recurso à força.
As democracias populares eram formas políticas de transição entre a democracia parlamentar e o centralismo
democrático. Na prática, continuava a existir o pluripartidarismo e a haver eleições consideradas livres. Todavia,
os partidos comunistas foram-se impondo gradualmente no domínio dos aparelhos de Estado, transformando
as democracias liberais em democracias de tipo soviético.

O processo de conquista do poder foi igual em todos os países:


 numa primeira fase, o Partido Comunista procurava formar com outros partidos de esquerda governos de
coligação, onde conseguiam a tutela dos ministérios mais importantes e influentes;
 numa segunda fase, utilizavam o poder para apoiar organizações de base, como sindicatos e milícias armadas,
de que se serviam para pressionar os sectores da oposição liberal. Esta pressão podia mesmo passar pela
perseguição política, eliminação física ou prisão em consequência de processos judiciais obscuros;
 após a generalização da repressão sobre as forças liberais, estas foram perdendo influência, acabando por se
remeterem à inoperância política com o silêncio ou a fuga dos seus dirigentes;
 finalmente, o poder tornou-se propriedade exclusiva das classes trabalhadoras, cuja vanguarda era
constituída pelos partidos comunistas. É o centralismo democrático na plenitude do seu exercício.

O exercício do poder totalitário nestes países contava com o "apoio" do Exército Vermelho, que passa a ser
constituído como força militar integrante do Pacto de Varsóvia.

O expansionismo soviético na Ásia


O apoio aos movimentos comunistas asiáticos
É sob inspiração marxista que, a partir de 1945, decorrem no continente asiático, dois processos políticos de
importantes repercussões: a formação da República Popular da China e a independência da Indochina
Foi o apoio da URSS que contribuiu para o arranque da revolução que culminou na proclamação da República
Popular da China, em 1 de Outubro de 1949. Até 1958, o Governo chinês segue fielmente o modelo político
estalinista, em conformidade com o tratado de "amizade, aliança e assistência mútua" celebrado em 1950. É
nesta conjuntura que a China se lança no processo de transição para o socialismo, adotando o modelo soviético
dos planos quinquenais, para o desenvolvimento industrial, e o da coletivização da agricultura através da
constituição de cooperativas socialistas que, em 1956, já abrangiam praticamente toda a população.
Apesar das importantes desinteligências com as orientações políticas assumidas por Mao Tsé-Tung, a partir de
1958, a URSS pôde contar com uma importante colaboração a oriente, na luta contra o imperialismo americano.
A URSS está também presente na formação e fortalecimento dos partidos comunistas que irão encabeçar os
complicados processos de libertação dos países da Indochina, quando as potências europeias, depois de
perderem a sua hegemonia para o Japão, durante a Segunda Guerra Mundial, recusam a autoproclamada
independência das suas colónias, no seguimento da derrota do Japão.

A questão da Coreia
No seguimento das conferências de paz, a Coreia, após a evacuação dos japoneses, ficou dividida pelo paralelo
38 numa zona de influência soviética, a norte, e noutra de influência americana, a sul.
Fortalecidos com a vitória de Mao Tsé-Tung, na China, em 1949, os norte-coreanos tentam a unificação do país,
em 1950, violando a linha de separação.
Ameaçados nos seus interesses geostratégicos, japoneses e americanos intervêm imediatamente em apoio do
Governo anticomunista da Coreia do Sul, a coberto de um contingente militar da ONU, que inicia os
bombardeamentos sobre as tropas norte-coreanas imediatamente apoiadas por um exército sino-soviético.
Após três anos de grande tensão e de grande violência bélica que chegou a envolver ameaças de recurso a armas
nucleares por parte dos americanos, o armistício foi assinado em 1953, já depois da morte de Estaline.

No final, confirmou-se a divisão da península da Coreia em dois estados: a República Democrática da Coreia, a
sul, como importante aliada dos EUA, e a República Popular da Coreia, a norte, de Governo comunista, apoiada
pela URSS.

A influência soviética na evolução política da América Latina e no continente africano

A importância de Cuba na irradiação do comunismo na América do Sul


Em 1 de Janeiro de 1959, em Cuba, um grupo de revolucionários, sob comando de Fidel Castro e de Che Guevara,
leva a efeito um ato revolucionário que culminou na deposição do ditador pró-americano Fulgêncio Batista e na
constituição de um governo revolucionário de tendências socialistas.
Ainda que, de início, os revolucionários não assumissem um claro relacionamento com Moscovo e não
pretendessem hostilizar os Estados Unidos, as relações agravaram-se à medida que Cuba se aproximou comercial
e militarmente da URSS e deu início à nacionalização das principais empresas americanas sedeadas na ilha.
O Governo dos EUA passa a apoiar sem reservas os opositores de Fidel Castro refugiados na Florida e organiza,
em Abril de 1961, o desembarque na Baía dos Porcos de um contingente de anti-castristas treinado e armado
pelo exército americano. Perante o falhanço dos apoios internos, o golpe fracassou e os invasores foram feitos
prisioneiros.
Em resposta, a URSS fez deslocar para a ilha rampas de lançamento de mísseis nucleares com poder de alcance
capaz de atingir solo americano. Descobertas em Outubro de 1962 pela aviação americana, são denunciadas
como uma provocação e uma agressão à paz e à estabilidade mundial, o que não impediu que Kruchtchev
continuasse a armar Cuba com potencial atómico, mediante o argumento de que se tratava apenas de mísseis
defensivos.
O Governo americano passa então a exigir firmemente a retirada dos mísseis soviéticos colocando o mundo
perante a iminência de um conflito entre as duas potências.
Numa resposta positiva às exigências americanas, o presidente soviético começou por ordenar a inversão de
marcha de mais um carregamento nuclear que se dirigia a Cuba e iniciou o desmantelamento das bases
militares. Por seu lado, o Governo americano suspendeu o bloqueio entretanto imposto à ilha e prometeu
respeitar o Governo revolucionário
A solução da crise de Cuba não deixou de confirmar a ilha como um bastião do comunismo internacional às
portas de Washington e ponto de partida das grandes investidas soviéticas dos anos 70 em apoio dos
movimentos revolucionários da Bolívia (onde Che Guevara foi assassinado), Colômbia, Peru e, sobretudo, das
guerrilhas marxistas da Guatemala, El Salvador e Nicarágua, aproveitando um momento de relativo apagamento
americano em consequência do seu fracasso no Vietname e da crise económica do capitalismo ocidental.

A presença soviética em África


É também de Cuba que irradia a influência soviética para o continente africano. São os revolucionários cubanos,
incluindo Che Guevara, que percorrem as savanas africanas em apoio dos movimentos independentistas
africanos dos anos 60 e são os militares do exército cubano, já nos anos 70, quem vai apoiar as propostas
marxistas de organização do poder de muitos países africanos, após a sua independência, como aconteceu em
Angola e Moçambique.

Opções e realizações da economia de direção central


A Segunda Guerra Mundial veio não só interromper os consideráveis sucessos económicos resultantes da
implementação dos planos quinquenais instituídos por Estaline em finais dos anos 20, como também provocar
uma acentuada quebra na produção industrial e consequente degradação da situação económica da URSS.
Tornava-se urgente restaurar o sector produtivo para que à condição de potência política correspondesse
paralela condição de potência económica.

A ação de Estaline
Estaline estimulado pela competição com o bloco capitalista, no quadro da Guerra Fria, retoma o modelo da
economia planificada, que concretiza com a implementação de novos planos quinquenais.

No âmbito do IV plano, lançado imediatamente a seguir à guerra e a vigorar até 1950, Estaline:
 continua a privilegiar o desenvolvimento da indústria pesada, nomeadamente o relançamento dos sectores
hidroelétrico e siderúrgico, considerados estruturantes na recuperação económica da União e na sua
afirmação no mundo industrializado do século XX.
 dá grande relevo à investigação científica, tendo em vista a produção de armamento e a conquista do espaço
interplanetário, no quadro político-militar da Guerra Fria.

No âmbito do V Plano Quinquenal, entre 1950 e 1955, Estaline:


 mantémas preocupações em dotar a União Soviética de um poderoso sector industrial;
 empenha-se também no desenvolvimento dos meios de comunicação.

O sucesso foi imediato, tão evidentes foram os resultados dos programas de industrialização:
 em 1949, a União Soviética já produzia a bomba atómica;
 em 1957, já lançava o seu primeiro satélite artificial;
 em finais da década, afirmava-se como a segunda potência industrial do mundo.

Todavia, a orientação económica estalinista não tinha em conta a necessidade de produzir bens de consumo e de
criar outras condições socioeconómicas, no sentido de repor os níveis de produtividade capazes de
proporcionar o bem-estar das populações Em vez de acompanhar o grande crescimento económico do Estado, o
nível de vida do povo soviético degradava-se cada vez mais. Por outro lado, os excessos do centralismo estavam
na origem do fortalecimento do aparelho burocrático, que acabava por constituir um bloqueio à capacidade de
iniciativa e ao crescimento.

A ação de Kruchtchev
É contra esta orientação que se afirma Kruchtchev, sucessor de Estaline, no XX Congresso do PCUS, em 1956.
A partir de 1959, no âmbito da sua política de desestalinização e de reformas do regime, o novo dirigente
soviético contestou a rigidez e os excessos da centralização estalinista e assume como prioridade o aumento da
produção de bens de consumo, industriais e agrícolas, desvalorizando as preocupações com a indústria pesada.
Ao rigor dos planos quinquenais, contrapõe uma economia também dirigida, mas sujeita a planos anualmente
ajustáveis prolongados por sete anos, considerando ser desta forma que a economia soviética melhor podia
responder à concorrência capitalista dos países ocidentais

12.4. A escalada armamentista e o início da era espacial

A corrida ao armamento
O ambiente de Guerra Fria que se viveu após 1945 não se refletiu apenas na formação de alianças político-
militares. A iminência de um conflito armado, evidenciada por frequentes crises políticas e pela violência das
acusações recíprocas, levou as grandes potências a intensificarem a corrida aos armamentos.
A nova escalada armamentista aconteceu numa conjuntura de grandes progressos científicos e técnicos
verificados na produção de armas, durante a Segunda Guerra Mundial, que culminaram com a explosão de duas
bombas nucleares americanas, em 1945, para terminar com a resistência japonesa e pôr fim à guerra no Pacífico.
A URSS não podia permanecer indiferente a tão grande potencial bélico dos EUA. Em 1949, após intensos
estudos e canalização de importantes investimentos, no âmbito de novo plano quinquenal em que era
privilegiado o desenvolvimento científico e a sua colocação ao serviço do sector militar, Estaline assiste à
explosão da primeira bomba atómica de fabrico soviético.
Em 1953, os americanos conseguem a bomba de hidrogénio, com poder muito mais destrutivo do que a bomba
atómica, mas, no ano seguinte, os soviéticos também já controlam a sua produção. Seguem-se a bomba de
neutrões, as "armas químicas", os aviões supersônicos, os submarinos nucleares, os mísseis intercontinentais e
toda a panóplia de material infinitamente destrutivo.
As relações internacionais passam a ser condicionadas pelo terror nuclear que nunca chegou a ser acionado.
Com efeito, os blocos em confronto tinham consciência de que de uma guerra nuclear ninguém sairia vencedor,
tal era o potencial destrutivo que poderia ser colocado em campo.
E assim, o poder nuclear acabou por ser a grande força dissuasora da eclosão de um novo conflito mundial
que, todavia, esteve iminente por várias vezes.

A liderança soviética na corrida ao espaço


Em meados da década de 50, as preocupações com a supremacia militar já ultrapassavam as ambições de
domínio geopolítico do planeta. Efetivamente, as intenções bélicas de soviéticos e americanos há muito que
vinham motivando o desenvolvimento de projetos de conquista do espaço interplanetário através do
lançamento de satélites artificiais com potencialidades de exploração para fins militares, entre outros de
carácter científico.
Quando, em 4 de Outubro de 1957, a URSS anunciou que tinha colocado em órbita o primeiro satélite artificial -
o Sputnik o mundo assistiu, surpreendido, ao começo da era espacial. Os soviéticos acabavam de demonstrar
que reuniam capacidades técnicas e financeiras para superar o grande rival ocidental na produção de foguetões
que os colocariam à frente na conquista do espaço sideral.
Passado um mês, a URSS lança o Sputnik II e coloca no espaço o primeiro ser vivo, a famosa cadela Laika, e ficava
cabalmente confirmado o triunfo da tecnologia soviética no domínio do espaço extraterrestre
O efeito foi o sobressalto dos EUA perante a alteração verificada na correlação de forças entre os dois campos.
Pela primeira vez, no quadro da Guerra Fria, os americanos sentem-se inferiores à URSS. Afinal, a ciência
americana não era a melhor do mundo, afinal os cientistas americanos não eram os mais competentes do
mundo, afinal, com recursos financeiros reconhecidamente inferiores, a URSS superava os EUA num avanço
estrategicamente tão relevante.
Os temores americanos tornam-se ainda mais fortes quando tomam consciência de que os mísseis que
colocavam os satélites artificiais no espaço também podiam transportar armas de enorme potencial destrutivo
a longa distância. Efetivamente, com o potencial aerospacial evidenciado, a URSS acabava de mostrar ao mundo
e, em particular, aos EUA, a sua capacidade para produzir mísseis balísticos de longo alcance, que, em situação
de conflito militar, poderiam vir a atingir solo americano.

A resposta americana
Tornava-se cada vez mais urgente uma resposta positiva dos EUA. Ela viria a ser conseguida em 1958, com o
lançamento do Explorer I, mas o sucesso americano seria ultrapassado, mais uma vez, pelo dos soviéticos
quando, em 12 de Abril de 1961, colocam em órbita o satélite Vostok I, no qual, pela primeira vez um ser
humano - um jovem de 27 anos, Yuri Gagarine - viaja durante 108 minutos em órbita da Terra.
E já no final dos anos 60, em consequência de grandes investimentos na recuperação científica e tecnológica no
domínio aerospacial, que os americanos conseguem o seu primeiro grande êxito.
Em 20 de Julho de 1969, é consumada a primeira viagem tripulada à Lua com os astronautas Michael Collins,
Edwin Aldrin e Neil Armstrong. "O que é um pequeno passo para o Homem é um grande salto para a
Humanidade", considerava Armstrong no momento em que ficava na História como primeiro Homem a pisar o
solo lunar.

Os resultados
Com efeito, não eram apenas objetivos militares que dominavam as preocupações americanas e soviéticas com a
conquista espacial. Foi uma incomensurável quantidade de conhecimentos sobre a Terra e sobre o Universo que
se pôde desenvolver e não apenas nas áreas mais diretamente conotadas com a empresa espacial, mas também
noutras, como as tecnologias da informação, onde se insere a própria emergência da Internet, cujas virtualidades
todos conhecemos e de que todos usufruímos.

Unidade 2:PORTUGAL DO AUTORITARISMO À DEMOCRACIA

Imobilismo político e crescimento económico do pós-guerra a 1974

Politicamente, após a Segunda Guerra Mundial, Portugal manteve a mesma feição autoritária, ignorando a onda
democrática que inundava a Europa.
Quando, em 1945, a maior parte dos países europeus festejou o triunfo da democracia sobre o nazi-fascismo,
parecia que estavam reunidas as condições políticas para, também em Portugal, Salazar enveredar pela
democratização do país.
Efetivamente, Salazar deu sinais de ter entendido os motivos dos festejos, que também se estenderam ao nosso
país, como demonstra a sua preocupação em renovar a imagem do regime. Foi neste contexto que, entre outras
medidas:
 concedeu amnistia a alguns presos políticos;
 renovou a polícia política, que de PVDE passou a chamar-se PIDE (de Polícia de Vigilância para Polícia
Internacional de Defesa do Estado);
 antecipou a revisão constitucional com o objetivo de introduzir o sistema de eleição dos deputados por
círculos eleitorais, em vez de um círculo nacional único;
 dissolveu a Assembleia Nacional e convocou novas eleições "tão livres como as da livre Inglaterra", dizia.

Todavia, a estrutura da nova política e a atuação do Governo não evidenciaram as alterações e as novas eleições
em nada divergiram das eleições realizadas anteriormente:
 continuava a não serem dadas aos partidos candidatos condições para que pudessem desenvolver livremente
a sua intervenção política junto dos eleitores;
 os cadernos eleitorais, onde apenas constava uma minoria de recenseados, não eram atualizados, de modo
que pessoas há muito falecidas "continuavam a votar";
 as campanhas eleitorais eram feitas sempre sob apertada vigilância da polícia política;
 se isto não bastasse, os resultados eram sistematicamente manipulados.

Nesta conjuntura, para não contribuírem para a legitimação daquilo que era considerado uma farsa, as
organizações oposicionistas acabavam por desistir à boca das urnas, não se apresentando ao sufrágio. Enfim, o
anúncio do carácter democrático das eleições era apenas para dar cumprimento à letra da Constituição e para
iludir a opinião pública internacional. Na realidade, a abertura política anunciada por Salazar contribuiu para
que os opositores ao regime passassem a ser mais conhecidos, o que lhes valeu a intensificação das
perseguições, a prisão e os despedimentos dos empregos públicos ou, em alternativa, o exílio.
A feição autoritária e conservadora do regime dava claros sinais de se perpetuar, evidenciando o imobilismo
político de Salazar, que contava mesmo com alguns apoios internacionais. Com efeito, o carácter anticomunista
do Estado Novo até nem desagradava às democracias ocidentais. Vivia-se o ambiente de Guerra Fria e, por isso,
os EUA e a Inglaterra chegaram mesmo a apoiar o regime português, como o demonstra a aceitação de Portugal
como país fundador da NATO, em 1949, e como membro da ONU, em 1955.

Crescimento económico
A economia manteve estruturas que impossibilitaram o crescimento económico.
Portugal viveu entre 1945 e 1974 um período de evidentes contradições no crescimento: um desenvolvimento
tardio, que não acompanhou o espantoso crescimento económico do Ocidente europeu, marcado pela
estagnação do mundo rural e pela emigração, por um lado, e por um considerável surto industrial e urbano, por
outro. As colónias foram também objeto de preocupações pelo seu desenvolvimento por parte do Governo de
Lisboa, já que, mais não fosse, para justificar a tese de que se tratava de extensões naturais do território
continental.

Estagnação do mundo rural


Apesar da agricultura ser o sector dominante, tratava-se, todavia, de uma agricultura pouco desenvolvida
caracterizada por baixos índices de produtividade que fazia de Portugal um dos países mais atrasados da Europa.
O sector primário empregava cerca de 40% da população portuguesa e proporcionava menos de 25% da riqueza
nacional. Deste modo, o objetivo da auto-suficiência alimentar, preconizado pelo nacionalismo económico do
Estado Novo, continuava por alcançar e Portugal tinha de importar grandes quantidades de produtos agrícolas.
Constituíam grandes impedimentos ao desenvolvimento:
1. A assimetria verificada na dimensão e titularidade da terra
 No Norte, predominava o minifúndio, terra dividida em pequenas parcelas trabalhadas por uma imensidão
de pequenos proprietários ou rendeiros de mentalidade tradicional, resistentes à introdução de novas
culturas e processos de cultivo, tendo em vista apenas o autoconsumo.
 No Sul, predominavam os latifúndios, imensas propriedades subaproveitadas, dado o pouco interesse no seu
desenvolvimento por parte dos seus proprietários, na sua maioria absentistas. Eram terras dirigidas por
dedicados e submissos capatazes (maiorais ou manajeiros) e trabalhadas por uma abundante mão-de-obra
assalariada, em condições de humilhante precariedade e, por isso, pouco empenhada com a sua
produtividade.

2. A resistência dos proprietários à alteração da estrutura fundiária


O Governo reconhece a necessidade de modernização do sector agrícola e, sobretudo com o II Plano de
Fomento, em 1959-64, propõe algumas alterações na estrutura fundiária:
 No Norte, constituição de propriedades mais vastas, através da aquisição pelo Estado de pequenas
propriedades, que seriam emparceladas e vendidas a jovens dotados de espírito empreendedor e dispostos a
investir em novas técnicas e produtos agrícolas de que o país era deficitário;
 No Sul, tentou-se estimular a constituição de propriedades mais pequenas, igualmente entregues à
exploração de pequenos rendeiros, mediante garantias de usufruto mais sólidas e alargadas no tempo.
Paralelamente, foi incentivada a diversificação da produção e a florestação de zonas mais inóspitas, mediante
a concessão de financiamentos da inovação e lançamento de um plano de rega para o Alentejo.
Estas propostas de modernização não contaram, todavia, com a adesão dos proprietários que, no Norte,
preferiam continuar agarrados ao bocado que herdaram e que garantia a sua subsistência e, no Sul, preferiam
continuar a viver à custa da perpetuação dos baixos salários e dos subsídios e outros apoios subaproveitados do
Estado, sem perceberem as mudanças operadas no consumo resultantes do aumento do poder de compra das
populações urbanas.

3. O êxodo rural e a falência do sector agrícola


Quando, nos anos 60, se confirma em Portugal um novo modelo de desenvolvimento assente no crescimento
industrial concentrado nas grandes cidades do litoral, as aldeias do interior rural vêem partir as suas populações
em busca de melhores condições de vida associadas ao emprego na fábrica ou no escritório. As que ficam,
continuam agarradas aos cereais, às batatas e ao arroz, os alimentos pobres, incapazes de alimentar uma
população cada vez com melhor poder de compra e que, por isso, já podia comer alimentos mais ricos, como
carne, leite, ovos e fruta.
Demorou muito tempo para que o sector empresarial rural português acabasse por entender esta nova realidade
económica. As importações continuaram a ser a única solução, com graves consequências para o agravamento
das contas do Estado.

A emigração
Enquanto que nas décadas de 30 e 40 a emigração foi bastante reduzida, a década de 60 tornou-se no período
de emigração mais intenso da nossa história. O grande sorvedouro da população rural portuguesa foi a
emigração para os países desenvolvidos da Europa, em especial França e Alemanha, para as "províncias
ultramarinas" e, com menor relevo, para o continente americano e África do Sul.
As causas da emigração
Constituíam razões para o quase total despovoamento de algumas regiões, em especial do interior norte e das
ilhas adjacentes, dependendo dos países de destino:
 a pobreza em que algumas populações viviam, confrontadas com o conhecimento dos elevados níveis
salariais praticados nos países industrializados;
 a fuga de muitos jovens à incorporação militar obrigatória e consequente avanço para as frentes de
combate na guerra colonial;
 a promoção, por parte do poder político, da ocupação dos territórios ultramarinos com população branca,
como forma de "valorização" desses territórios e de resolver as dificuldades do país em sustentar uma
população em crescimento;
 a despenalização da emigração clandestina a partir do momento em que Salazar entendeu a importância
das remessas enviadas pelos emigrantes para o equilíbrio da balança de pagamentos e aumento do
consumo interno
As formas de emigração
Os emigrantes eram, na sua maioria, homens, predominantemente jovens entre os 18 e os 29 anos, dispostos a
aceitar qualquer tipo de trabalho que proporcionasse um rendimento inatingível na ocupação que tinham nas
suas terras.
Perante os obstáculos que, inicialmente, eram colocados à emigração para a Europa, a maior parte da emigração
fez-se clandestinamente "a salto", com grandes benefícios materiais para os engajadores “os "passadores",
muitas vezes desprovidos de escrúpulos, que conduziam grupos de emigrantes por roteiros fronteiriços
mediante o pagamento de avultadas importâncias. Com efeito, eram enormes as dificuldades para quem partia
nestas condições: o elevado custo da passagem, em muitos casos, a detenção pela PIDE ou pelas forças de
segurança (GNR e Guarda Fiscal) e, sobretudo, a total ausência de proteção civil com que chegavam aos locais
de destino.
A solução passava pelo alojamento em barracas, nos "bidonvilles" (bairros de lata), de familiares ou simples
conterrâneos já instalados que os acompanhavam na procura de emprego e integravam nas suas comunidades.
Só quando o Governo português entendeu o interesse económico e financeiro deste surto migratório é que
passou a intervir institucionalmente na proteção dos emigrantes portugueses nos seus países de destino.

O surto industrial e urbano


O considerável surto industrial e urbano verificado a partir de 1945 insere-se na resposta à convicção cada vez
mais forte, por parte de alguns detentores de capital, de que era no crescimento industrial que deveria assentar
o verdadeiro motor de todo o sistema económico nacional. Esta posição vai ganhando consistência à medida que
o sector agrícola se vai revelando incapaz de responder às necessidades económicas do país e se confirmam as
dificuldades dos tradicionais fornecedores do mercado consumidor nacional, em consequência do seu
envolvimento na guerra e do seu arranque para a recuperação do seu sector produtivo.
Primeira fase
Numa primeira fase, nos anos 50 e até meados de 60, o desenvolvimento da indústria portuguesa insere-se na
política económica nacionalista e autárcica, submetida a rigorosas regras de condicionamento e ao objetivo de
substituição das importações por produtos nacionais que era uma das características do Estado Novo.
É o tempo dos primeiros Planos de Fomento:
 o I Plano, entre 1953 e 1958, dá prioridade à criação das infra-estruturas, concretamente ao
desenvolvimento dos sectores elétrico, dos transportes e das comunicações;
 o II Plano, entre 1959 e 1964 mostrou-se mais ambicioso nos montantes a investir e produziu, por
conseguinte, resultados muito mais significativos. Além disso, este Plano coincidiu com o 1º arranque da
política de fomento económico das colónias e com a integração do nosso país na economia internacional:
logo em 1960, Portugal integra um espaço económico europeu, a EFTA,e o Governo assina o acordo do BIRD –
Banco Mundial - e do FMI. Em 1962, assina também o protocolo do GATT – Organização do Comércio
Internacional.
Os sectores que mais sentiram os efeitos do fomento industrial deste período foram os ligados à; indústria
pesada, também considerada estruturante do desenvolvimento económico, concretamente as indústrias
siderúrgica, metalomecânica, petroquímica, os adubos e a celulose.

Segunda fase
Numa segunda fase, a partir da segunda metade dos anos 60, a abertura ao exterior e o reforço da economia
privada são, de forma cada vez mais assumida, as grandes opções da política económica nacional, evidenciadas
por um Plano Intercalar de Fomento, entre 1965 e 1967. O condicionamento da economia revelava-se
totalmente desajustado dos novos tempos, marcados pela concorrência externa, em consequência dos acordos
assinados. O resultado traduziu-se numa clara inversão da política da autarcia das primeiras décadas do Estado
Novo. Era o fim definitivo do ciclo conservador e ruralista de Salazar e a afirmação das novas opções para a
economia nacional, defendidas por jovens políticos, entre os quais sobressaía Marcello Caetano.

Terceira fase
É Marcello Caetano, nomeado para Presidente do Conselho em 1968, quem lança o III Plano de Fomento, que
viria a vigorar até 1973.
A implementação deste novo plano veio confirmar a internacionalização da economia portuguesa, o
desenvolvimento da indústria privada como sector dominante da economia nacional, o crescimento do sector
terciário e consequente incremento urbano.
No que concerne à internacionalização da economia, assistiu-se ao fomento da exportação de produtos
nacionais, num quadro de afirmação cada vez mais consistente da livre concorrência, e à abertura do país aos
investimentos estrangeiros, em especial quando geradores de emprego e portadores de tecnologias avançadas.
Internamente, foi o tempo da formação dos grandes grupos económicos, como o complexo de Sines e a
Siderurgia Nacional, em consequência dos estímulos dados aos empresários capitalistas, os grandes suportes do
regime, e do apoio às grandes concentrações industriais.

O urbanismo
Este surto industrial traduziu-se inevitavelmente no crescimento do sector terciário e na progressiva
urbanização do país. Em 1970, mais de 3/4 da população portuguesa vivia em cidades e cerca de metade desta
população urbana vivia em cidades com mais de 10 000 habitantes. Viveu-se em Portugal, no terceiro quartel do
século XX, o fenómeno urbano que caracterizou a Europa no século anterior.
Com efeito, sobretudo as cidades do litoral, onde se concentravam as grandes indústrias e os serviços, viram
aumentar os seus efetivos populacionais, concentrados nas áreas periféricas. É o tempo da formação, em torno
das grandes cidades, dos "dormitórios" de populações que, diariamente, passaram a dirigir-se para os locais de
trabalho, tornando obsoleto o sistema de transportes públicos.
Quer dizer que, à semelhança do que ocorreu na Europa industrializada, também em Portugal se fizeram sentir
os efeitos da falta de estruturas habitacionais, de transportes, de saúde, de educação, de abastecimento, tal
como os mesmos problemas de degradação da qualidade de vida, de marginalidade e de clandestinidade a que
os poderes públicos tiveram de dar resposta.
O desenvolvimento económico das colónias
Após a 2ª guerra mundial, o fomento económico das colónias também passou a constituir uma preocupação do
governo. Com efeito, nos inícios dos anos 50, o pretendido conceito de província ultramarina não se coadunava
com as formas tipicamente coloniais de exploração dos territórios africanos. O entendimento das colónias como
extensões naturais do território metropolitano tinha, forçosamente, de levar o Governo de Salazar a autorizar a
instalação das primeiras indústrias como alternativa económica à exploração do trabalho negro nas grandes
fazendas agrícolas. Havia necessidade de demonstrar à comunidade internacional que o governo central se
empenhava no fomento económico das suas “províncias ultramarinas” como forma de legitimar este novo
conceito de colónias. Acrescia que a industrialização dos territórios ultramarinos era cada vez mais entendida
como um fator determinante do desenvolvimento da economia metropolitana.
Por conseguinte, os sucessivos planos de fomento previam também para os territórios africanos, em especial
para Angola e Moçambique, medidas impulsionadoras do seu desenvolvimento, paralelas às implementadas na
metrópole.
Logo em 1953, cabem nas preocupações do I Plano de Fomento:
 a criação de infra-estruturas, sobretudo ligadas aos transportes e comunicações (estradas, portos,
aeroportos, caminhos-de-ferro);
 a criação de infra-estruturas ligadas à produção de energia e de cimento para uma construção urbana que
urgia desenvolver;
 a modernização do sector agrícola, tendo em vista a grande produção de produtos tropicais como o sisal, o
açúcar, o café, o algodão, óleos vegetais;
 a promoção da exploração de matérias-primas, em especial do rico subsolo angolano (petróleo, diamantes,
carvão e minério de ferro), tendo em vista o mercado nacional.

Associado a este fomento económico esteve o lançamento de uma colonização intensiva com população branca,
sobretudo após o início da guerra. A consolidação da presença portuguesa em áreas onde era pouco notada a
influência branca era também uma forma de evidenciar a particularidade das relações de Portugal com as suas
colónias e, por outro lado, constituía uma forma de atrair as populações locais para o lado português e suster o
avanço dos guerrilheiros.
O fomento económico das colónias intensificou-se, com efeito, em consequência da eclosão da guerra na
sequência do lançamento da ideia de Salazar em constituir um Espaço Económico Português. É no âmbito deste
objectivo que se assiste à beneficiação de vias de comunicação, à construção de escolas, hospitais e, sobretudo,
ao lançamento de obras grandiosas, de que a barragem de Cahora Bassa, iniciada em 1969, em Moçambique,
constitui o exemplo mais significativo.

A radicalização das oposições e o sobressalto político de 1958


O início da "oposição democrática"
Perante a certeza, cedo confirmada, de que Salazar não estava seriamente empenhado em abrir o regime às
transformações democráticas que triunfavam na Europa, concretamente perante as dúvidas do que viriam a ser
as eleições de Novembro de 1945, as forças políticas oposicionistas iniciam um processo de luta organizada
contra o regime. Para o efeito, em Outubro, constituíram-se como primeira forma de oposição organizada - o
MUD {Movimento de Unidade Democrática).
A ação empreendida por este movimento oposicionista na denúncia dos abusos do regime e na reclamação de
eleições verdadeiramente livres e justas, como manifestação do arranque definitivo para a democratização do
país, teve grande impacto na opinião pública. Em consequência, as adesões cresceram por todo o país, formando
a chamada oposição democrática que, até 1974, não mais iria dar tréguas ao regime, mau grado a intensificação
da repressão.
Outro momento de grande contestação do regime acontece em 1949, ano de eleições para a Presidência da
República. A oposição apresentou, pela primeira vez, um candidato - o general Norton de Matos. Tratava-se de
um destacado militar, combatente da Primeira Guerra, que, pelo seu prestígio político e integridade cívica,
conseguiu reunir as diversas tendências oposicionistas. Mas, mais uma vez, face à intensificação da repressão e
à inevitabilidade de uma derrota, Norton de Matos teve de desistir do processo eleitoral.
Todavia, a forte mobilização popular em torno da candidatura de Norton de Matos e o entusiasmo que suscitou
na opinião pública deixavam aberto o caminho àquele que seria o grande sobressalto do regime.

O sobressalto político de 1958


1958 é ano de novas eleições para a Presidência da República. Superadas algumas dificuldades originadas nos
desentendimentos entre uma tendência comunista, que ganhava grande força, e uma tendência moderada e
democrática, a oposição encontra no general Humberto Delgado um homem: determinado a afrontar o
candidato da União Nacional, Américo Tomás.
Afirmando publicamente e sem rodeios a sua intenção de demitir Salazar, caso fosse eleito, assumindo o
título de "general sem medo", congregou à sua volta um movimento de apoio tão amplo e tão fervoroso que
surpreendeu as mais otimistas vontades de mudança e fez tremer o regime pela primeira vez, de forma
convincente. Com efeito, apesar de reconhecer que se preparava mais uma burla eleitoral e apesar da forte
repressão policial, Humberto Delgado levou a sua candidatura até às urnas, apelando, de forma entusiástica, a
todos os eleitores que comparecessem e que desmascarassem com o seu voto os "traidores e os cobardes",
"aqueles que cometem ilegalidades constitucionais", os "inimigos do povo e dos princípios cristãos".
O resultado revelou mais uma vitória esmagadora do candidato do regime, mas, desta vez, a credibilidade do
Governo ficou indelevelmente abalada Salazar teve consciência de que outro terramoto político podia
acontecer e que começava a ser difícil para o regime continuar a enganar a opinião pública e subtrair-se às
pressões da comunidade internacional Por isso, introduziu mais uma alteração à Constituição, segundo a
qual era anulada a eleição por sufrágio direto do Presidente da República, que passava a ser eleito por um
colégio eleitoral restrito.
Mais uma vez, Salazar recorria ao subterfúgio das leis para recusar a inevitabilidade da mudança.

A radicalização das oposições


A necessidade de divulgar internacionalmente a natureza antidemocrática do regime levou a oposição a
intensificar a sua ação de contestação, recorrendo a atos de maior impacto, pela relevância das personagens
intervenientes e pela espetacularidade das ações.
É neste quadro que se inserem, entre outras ocorrências:
 a "carta" do bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes, em que, no exercício do magistério episcopal e em
defesa da doutrina social da Igreja, teve a coragem de tecer, com toda a frontalidade, críticas contundentes
relativas à situação político-social e religiosa do país. A consequência foi o seu exílio até Junho de 1969;
 o exílio e o assassinato de Humberto Delgado. Tendo-se mantido à cabeça da oposição ao regime, o "general
sem medo" acabou destituído das suas funções militares e, para poder continuar a desenvolver a sua ação em
prol da democracia, retirou-se para o Brasil. Em 1963, fixa-se na Argélia, onde passa a dirigir a Frente
Patriótica de Libertação Nacional. A sua ação era de tal modo lesiva da imagem internacional do regime que,
em Fevereiro de 1965, Salazar se vê obrigado a determinar a sua eliminação física. Em consequência de uma
trama urdida pela PIDE, Humberto Delgado é atraído a Badajoz, onde é assassinado;
 o assalto ao Santa Maria. Em Janeiro de 1961, em pleno mar das Caraíbas, o navio português Santa Maria é
assaltado e ocupado pelo comandante Henrique Galvão, como forma de protesto contra a falta de liberdade
cívica e política em Portugal. Apesar de o Governo português tentar rotular o ato de pirataria organizada, ele
foi entendido nas instâncias internacionais como um espetacular ato de protesto legítimo. Consumados os
objetivos, o comando assaltante entregou-se à armada americana que conduziu os rebeldes ao exílio no
Brasil;
 o desvio de um avião da TAP. Ainda em 1961, um grupo de oposicionistas liderado por Palma Inácio toma de
assalto um avião da TAP e inunda Lisboa de propaganda antifascista. Os caças da Força Aérea não o
conseguiram intercetar antes de aterrar em Casablanca em busca de exílio, para desespero do regime;
 o assalto à dependência do Banco de Portugal, na Figueira da Foz, levado a cabo pelo mesmo Palma Inácio,
em Maio de 1967, já à frente de um grupo de ação armada - LUAR - Liga de Unidade e Ação Revolucionária,
com o objetivo de angariar fundos para posteriores ações de revolta. Foi esta uma das operações que mais
feriram o orgulho de Salazar, não apenas pela operação em si, mas porque todos os pedidos de extradição
solicitados pelas autoridades portuguesas às suas congéneres estrangeiras foram recusados, uma vez que os
respetivos órgãos judiciais compreenderam que se tratara de uma operação de carácter político

Se a ação seguinte de Palma Inácio, que consistia em tomar a cidade da Covilhã, fracassou e levou o "último
herói romântico de Portugal" à prisão, não falhariam outras ações violentas constituídas por assaltos a quartéis
militares, atentados bombistas, ações de sabotagem, enfim, uma dinâmica oposicionista que fazia tremer
permanentemente o regime e prenunciava o seu fim.

A questão colonial
A partir de 1945, a questão colonial passa a constituir mais um sério problema para Portugal. A nova ordem
internacional instituída pela Carta das Nações e a primeira vaga de descolonizações tiveram importantes
repercussões na política colonial do Estado Novo.
Com efeito, a partir do momento em que a ONU reconhece o direito à autodeterminação dos povos e em que as
grandes potências coloniais começam a negociar a independência das suas possessões ultramarinas, torna-se
difícil para o Governo português manter a política colonial instituída com a publicação do Ato Colonial, em 1930.
A simples mística imperial começava a revelar-se ultrapassada para explicar as posições coloniais do Estado
Novo. Salazar tem de procurar novas soluções para afirmar a vocação colonial de Portugal e para recusar
qualquer cedência às crescentes pressões internacionais.

Soluções preconizadas
1. A tese do luso-tropicalismo
A afirmação da vocação colonial de Portugal passa a ser justificada pela tese do luso-tropicalismo segundo a qual
era confirmada a ideia, já presente no Ato Colonial de 1930, de que a presença portuguesa em África se revestia
de características particulares e não podia ser considerada uma presença colonial visando interesses meramente
económicos, tal como a presença das grandes potências europeias. A presença portuguesa em África era, acima
de tudo, uma manifestação da extensão, a outros continentes, da histórica missão civilizadora de Portugal,
explicada pelas boas relações estabelecidas com as populações indígenas e pela ausência de contestação à
presença portuguesa.
Tornava-se necessário clarificar juridicamente as relações da metrópole com os espaços ultramarinos.

2. Um Estado pluricontinental e multirracial


Neste sentido, na revisão constitucional de 1951, em pleno processo internacional de descolonização, Salazar
revoga o Ato Colonial e insere o estatuto das colónias por ele abrangido na Constituição. Todo o território
português ficava abrangido pela mesma lei fundamental.
Para melhor concretizar esta integração, desaparece o conceito de colónia, que é substituído pelo de província
e, concomitantemente, desaparece o conceito de Império Português, que é substituído pelo conceito de
Ultramar Português

Na prática, a Constituição portuguesa passa a apresentar os espaços ultramarinos como legítimas extensões do
território nacional que, assim, se apresentava como um Estado pluricontinental e multirracial, "do Minho a
Timor". Portugal deixava, institucionalmente, de ter áreas de ocupação colonial.
Seria este, com efeito, o grande argumento apresentado à comunidade internacional pelo governo português
sempre que interpelado sobre a questão das colónias e era com base neste argumento que a diplomacia
portuguesa se recusava a prestar informações sobre esses territórios, sobretudo a partir de 1955, quando
Portugal passou a ter assento na ONU.

As primeiras divergências
Entretanto, em 1961, no seguimento da eclosão das primeiras revoltas em Angola e da invasão dos territórios da
Índia (Goa, Damão e Diu) pelos exércitos da União Indiana, começam a notar-se algumas divergências nas
posições a tomar sobre a questão do Ultramar.
Os sectores mais conservadores persistem na tese da integração plena e incondicional dos territórios
ultramarinos no Estado Português, o que implicava a resistência armada à luta considerada terrorista,
entretanto iniciada pelos movimentos independentistas.
Outra tese, defendida não só pela oposição ao regime, mas também por altos quadros da hierarquia militar e por
alguns membros do Governo, prevendo as dificuldades humanas e materiais em manter uma guerra com três
frentes, propunha a concessão de uma autonomia progressiva que conduzisse a formação de uma federação de
estados, à semelhança do que ia sendo tentado pelas grandes potências coloniais. Os defensores desta tese
federalista chegaram a propor ao Presidente da República a destituição de Salazar.
Destituídos acabaram por ser eles, saindo reforçada a tese de Salazar que, irredutível na sua posição, ordenou
que o Exército português avançasse para Angola "rapidamente e em força", dando início a uma guerra que se
prolongou até à queda do regime, em 1974

A luta armada
A guerra de libertação foi iniciada no Norte de Angola em Fevereiro de 1961, em consequência das primeiras
investidas contra a presença portuguesa levadas a cabo pelas forças da UPA/FNLA (União das Populações do
Norte de Angola, posteriormente Frente Nacional de Libertação de Angola),fundada em 1954 e dirigida por
Holden Roberto. Mais tarde, a rebelião ganhou outra força militar com a entrada em ação do MPLA (Movimento
Popular de Libertação de Angola),fundado em 1955 e presidido por Agostinho Neto, apoiado pela URSS. A partir
de 1966, os combates já se estendem a todo o território com o aparecimento de outra organização político-
militar, a UNITA (União Nacional para a Independência Total de Angola),fundada por Jonas Savimbi, dissidente
da FNLA, que liderou os combates na região interior leste.

Na Guiné, a luta anticolonialista iniciou-se em 1963, sob a ação do PAIGC (Partido Africano da Independência da
Guiné e Cabo Verde),fundado em 1956 por Amílcar Cabral. Foi na Guiné que a guerrilha conseguiu a libertação
efetiva de importantes áreas do território, com a proclamação unilateral de independência em 1973,
reconhecida imediatamente por 82 países da comunidade internacional com assento na Assembleia-Geral da
ONU.

Em Setembro de 1964, a guerrilha estendeu-se também a Moçambique, por ação da FRELIMO (Frente de
Libertação de Moçambique),fundada em 1962 por Eduardo Mondlane e dirigida por Samora Machel após a
morte daquele.

Durante treze anos, Portugal viu-se envolvido em três duras frentes de batalha que, à custa de elevadíssimos
custos materiais (40% do orçamento do Estado) e humanos (8000 mortos e cerca de 100 000 mutilados), chegou
a surpreender a comunidade internacional. Todavia, a intensificação das pressões internacionais e o isolamento
a que o país era votado acabariam por tornar inevitável a cedência perante o processo descolonizador, ainda que
essa cedência tivesse custado o próprio regime.

As pressões internacionais
Quando, em 1955, Portugal passa a ser membro da ONU, o Governo não democrático de Oliveira Salazar
continuava a defender uma política de reforço da autoridade portuguesa sobre os espaços ultramarinos e de
indiscutível recusa de qualquer negociação que pudesse pôr em causa essa autoridade. Estava fora de causa
qualquer cedência às crescentes pressões internacionais.
Esta posição do Governo português levou a Assembleia-Geral da ONU, sob fortes pressões dos países do
Terceiro Mundo, a colocar sobre a mesa a questão colonial portuguesa. A questão ganha ainda mais pertinência
perante a habilidade de Salazar em transformar colónias em províncias para não ter que se submeter às
disposições da Carta das Nações Unidas no que aos territórios não autónomos dizia respeito.
A Assembleia-Geral da ONU não só não aceitou esta tese, que também não era efetivamente comprovada com
o pleno exercício da cidadania nacional pelas comunidades indígenas, como condenou sistematicamente a
atitude colonialista portuguesa e aprovou sucessivas resoluções para pressionar Portugal a arrancar com um
efetivo programa de descolonização.
A condenação internacional do colonialismo português culminou na aprovação da Resolução 1514, que
confirmou as possessões portuguesas plenamente inseridas no conceito de colónia previsto pela Carta da ONU

Por conseguinte, o Governo português teria de passar a ter em conta as aspirações políticas das populações
locais e estimular o desenvolvimento das suas instituições, tendo em vista o reconhecimento da sua
autodeterminação e independência. A delegação portuguesa absteve-se, por continuar a manter a posição, cada
vez mais absurda, de considerar que o assunto não dizia respeito a Portugal e que as determinações da ONU
relativamente aos "nossos" territórios africanos constituíam ingerência nos assuntos internos do Estado.

No seguimento desta resolução e do seu não-acatamento pelo Governo português, os movimentos


independentistas ficam legitimados internacionalmente para pegarem em armas, o que fizeram logo nos
primeiros meses de 1961.
Segue-se a intensificação da hostilidade internacional, incluindo da administração americana, e o consequente
isolamento de Portugal nas diversas instituições internacionais que Salazar aceita e ao qual respondia com a
política do "orgulhosamente sós".

A "Primavera marcelista"
Reformismo político não sustentado
Em 1968, perante a intensificação da oposição interna e das denúncias internacionais do colonialismo português,
o afastamento de Salazar por doença parecia finalmente abrir as portas do regime à liberalização democrática
A presidência do Conselho de Ministros foi entregue a Marcello Caetano, que subordinou a sua ação política a
um princípio original de renovação na continuidade.
Pretendia o novo governante conciliar os interesses políticos dos sectores conservadores com as crescentes
exigências de democratização do regime. Continuidade para uns, renovação para outros.
Numa primeira fase da sua ação governativa, a chamada "Primavera marcelista", Marcello Caetano empreendeu
alguma dinâmica reformista ao regime
No campo político:
 notou-se alguma descompressão na repressão policial e na censura;
 foi permitido o regresso de alguns exilados políticos;
 a PIDE muda o nome para DGS (Direcção-Geral de Segurança)para dar a imagem de uma polícia mais
moderna e institucional;
 a União Nacional passa a designar-se por ANP (Ação Nacional Popular)e abre-se a novas sensibilidades
políticas, onde se destaca o aparecimento de uma jovem geração de deputados adeptos da liberalização do
regime;
 para as eleições de 1969, foi concedido o direito de voto a todas as mulheres alfabetizadas, foram
legalizados movimentos políticos não comunistas opositores ao regime e foi-lhes autorizada a consulta dos
cadernos eleitorais e a fiscalização das mesas de voto, para que as eleições fossem "legitimamente
democráticas";
 os movimentos oposicionistas organizaram alguns congressos, onde, apesar da vigilância e repressão policial,
conseguiram algum sucesso na denúncia do carácter ditatorial do regime;
 iniciou-se uma reforma democrática do ensino por ação do ministro Veiga Simão.
Todavia, cedo Marcello Caetano começa a dar sinais de esquecer a evolução e privilegiar a continuidade:
 quando em 1969, sob influência dos acontecimentos de Maio de 1968 em França, eclode o movimento de
contestação estudantil nas universidades de Lisboa e de Coimbra e quando o movimento grevista se estende ao
sector laboral, com manifestações de rua em apoio aos movimentos eleitorais de esquerda e atacando a guerra
colonial, o regime entendeu que tinha ido "longe de mais" na tentativa liberalizadora;
 no seguimento desta conjuntura, o Governo inicia um violento ataque aos movimentos eleitorais entretanto
constituídos, a CDE (Comissão Democrática Eleitoral),onde preponderavam desde elementos da esquerda
comunista até católicos progressistas, e a CEUD (Comissão Eleitoral de Unidade Democrática),que incluía muitos
dos fundadores do Partido Socialista;
 em consequência, a oposição pura e simplesmente não elegeu qualquer deputado. As eleições acabaram por
constituir mais uma fraude. A Assembleia Nacional continuava dominada pelos eleitos na lista do regime,
incluindo apenas uma ala liberal de jovens deputados cuja voz era abafada pelas forças conservadoras,
acabando por, gradualmente, abandonarem a Assembleia;
 intensifica-se de novo a repressão policial e as detenções aumentam a partir de 1970;
 perante a intensificação da contestação estudantil, onde emergem vários grupos marxistas-leninistas, as
associações de estudantes são encerradas e as universidades são invadidas pelos "gorilas", uma polícia
recrutada entre ex-combatentes nas tropas de elite.

Entretanto, intensificam-se as denúncias internacionais da injustiça da Guerra Colonial, a oposição reorganiza-se


com a formação do Partido Socialista, na Alemanha, em 1973, que se aproxima do Partido Comunista na
exigência da democratização do país, e os movimentos clandestinos armados intensificam as ações violentas
com assaltos a bancos e atentados bombistas a sectores estratégicos do regime.

O impacto da guerra colonial


A política de renovação tentada por Marcello Caetano também teve reflexos na questão colonial:
 a presença colonial nos territórios africanos deixa de ser afirmada como uma "missão histórica" ou questão
de "independência nacional" para ser reconhecida por questões de defesa dos interesses das populações
brancas que há muito aí residiam;
 no seguimento deste novo carácter da colonização portuguesa, já se admite o princípio da "autonomia
progressiva" e concede-se o título honorífico de Estado às províncias de Angola e de Moçambique, que são
dotadas com governos, assembleias e tribunais próprios, ainda que dependentes de Lisboa.
 Apesar de este novo estatuto vir a ser consagrado na Constituição, em 1971, pouco ou nada mudava para os
movimentos independentistas e para a conjuntura internacional que lhes era favorável.

Assim, a guerra prosseguia à medida que se acentuava o isolamento internacional de Portugal, evidenciado:
 pela receção dos principais dirigentes dos movimentos de libertação pelo Papa Paulo VI, em 1970, traduzida
numa humilhação sem paralelo da administração colonial portuguesa;
 pelas manifestações de protesto que envolveram a visita de Marcello Caetano a Londres, em 1973, em
consequência do conhecimento internacional dos massacres cometidos pelo exército português em
Moçambique;
 pela declaração unilateral da independência da Guiné-Bissau, ainda em 1973, e o seu reconhecimento pela
Assembleia-Geral da ONU.

Entretanto, também internamente, apesar da atuação da censura, são conhecidas as denúncias da injustiça da
Guerra Colonial e os apelos à solução política do conflito:
 crescem, sobretudo entre as camadas estudantis, fortes movimentos de oposição à guerra e acentuam-se as
fugas à incorporação militar;
 grupos de católicos progressistas, incluindo membros da hierarquia religiosa, levam a cabo manifestações
públicas de condenação da guerra e de reconhecimento do direito dos povos africanos à autodeterminação. De
todas, a iniciativa mais marcante foi a vigília realizada na capela do Rato (Lisboa), em 30 de Dezembro de 1972,
no âmbito da comemoração do Dia Mundial da Paz, proposta por Paulo VI;
 em finais de 1973, são os próprios deputados da ala mais liberal da Assembleia Nacional quem protesta
contra a guerra, abandonando 0 Parlamento;
 já em inícios de 1974, perante a iminência de uma derrota vergonhosa, é a alta hierarquia militar,
concretamente o general António de Spínola, antigo governador e comandante-chefe das Forças Armadas da
Guiné e, na altura, vice-chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, quem denuncia a falência da solução militar
com a publicação do seu livro Portugal e o Futuro. Era o próprio regime que começava a ruir por dentro.

2.2. Da Revolução à estabilização da democracia.


O Movimento das Forças Armadas e a eclosão da revolução
A conjuntura política
Em 1974, enquanto o regime agonizava, o problema da guerra colonial continuava por resolver.
Na Guiné, como já vimos, onde o PAIGC ocupava parte significativa do território e já tinha declarado a
independência unilateral, a guerra estava perdida. Em Angola e Moçambique, a situação continuava num
impasse. Entretanto, intensificava-se a condenação internacional da política colonial do regime à medida que
cresciam os apoios políticos e militares aos movimentos independentistas.
Perante a recusa de uma solução política pelo Governo marcelista, os militares entenderam que se tornava
urgente pôr fim à ditadura e abrir o caminho para a democratização do país Tanto mais que a esta conjuntura
política se juntava:
 o crescente descontentamento popular contra o aumento do custo de vida, provocado pela crise dos inícios
de 70 e pelo choque petrolífero;
 a insatisfação de um sector empresarial moderno, descrente no marcelismo e desejoso de aproximação à
Europa comunitária e que via a democratização do regime como único meio de o país poder enveredar pela
senda do progresso;
 a intensificação da violência levada a cabo pelos movimentos clandestinos armados.

Do "Movimento dos Capitães" ao "Movimento das Forças Armadas"

O "Movimento dos Capitães"


Em consequência, a partir de 1973, começa a organizar-se um movimento clandestino de militares, onde
predominavam oficiais de baixa patente, a maioria capitães, que arranca com a preparação de um golpe de
Estado tendo em vista o derrube do regime ditatorial e a criação de condições favoráveis à resolução política da
questão colonial
Foram, originalmente, questões corporativas que motivaram o autodenominado Movimento dos Capitães.
Tratava-se, efetivamente, de um movimento constituído por oficiais do quadro permanente em protesto contra
a integração na carreira militar de oficiais milicianos, mediante uma formação intensiva na Academia Militar,
onde eles tinham cursado durante anos.
A satisfação das suas reivindicações levou-os a tomar plena consciência da sua força política. A busca de uma
solução política para o problema do Ultramar passa, por conseguinte, a ser o grande objetivo das futuras
reuniões do Movimento dos Capitães.

O "Movimento das Forças Armadas"


Face à obstinação do regime em persistir na manutenção da guerra, o alto-comando do Estado-Maior das Forças
Armadas (Costa Gomes, chefe, e António de Spínola, vice-chefe) recusou-se a participar numa manifestação de
apoio ao Governo e à sua política. Foram prontamente exonerados dos cargos, ficando disponíveis para
congregar a confiança do movimento de contestação que crescia no meio militar
Liderado então pelos generais Spínola e Costa Gomes e assumindo claros objetivos de pôr fim à política do
Estado Novo, o original movimento corporativo dos capitães cresce entretanto com a adesão das principais
unidades militares, tornando-se mais forte e mais bem organizado. O Movimento dos Capitães evoluiu para um
movimento das Forças Armadas. Nascia o Movimento das Forças Armadas - MFA

O "25 de Abril"
São as Forças Armadas, assim organizadas, que vêm para a rua na madrugada de 25 de Abril de 1974 e
conseguem levar a cabo uma ação revolucionária que pôs fim ao regime de ditadura que vigorava desde 1926
A ação militar, sob coordenação do major Otelo Saraiva de Carvalho, teve início cerca das 23 horas do dia 24
com a transmissão, pela rádio, da canção "E Depois do Adeus", de Paulo de Carvalho. Era a primeira indicação
aos envolvidos no processo de que as operações estavam a decorrer com normalidade.
Às 0:20 do dia 25, era transmitida a canção "Grândola, Vila Morena", de José Afonso. Estava dado o sinal de que
as unidades militares podiam avançar para a ocupação dos pontos considerados estratégicos para o sucesso do
ato revolucionário, como as estações de rádio e da RTP, os aeroportos civis e militares, as principais instituições
de direção político-militar, entre outros.
Com o fim da resistência do Regimento de Cavalaria, a única força que saiu em defesa do regime, em confronto
com o destacamento da Escola Prática de Cavalaria de Santarém, comandado pelo capitão Salgueiro Maia, no
Terreiro do Paço, e com a rendição pacífica de Marcello Caetano, que dignamente entregou o poder ao general
Spínola, terminava, ao fim da tarde, o cerco ao quartel da GNR, no Carmo, e terminava, com êxito, a operação
"Fim Regime".
Entretanto, já o golpe militar era aclamado nas ruas pela população portuguesa, cansada da guerra e da
ditadura, transformando os acontecimentos de Lisboa numa explosão social por todo o país, uma autêntica
revolução nacional que, pelo seu carácter pacífico, ficou conhecida como a "Revolução dos Cravos".

Desmantelamento das estruturas de suporte do Estado Novo


A adesão pacífica da população ao ato revolucionário dos agora chamados "Capitães de Abril “constituiu um
poderoso estímulo para que, imediatamente e sem quaisquer reservas, se desse início ao processo de
desmantelamento do regime deposto.
Para garantir a normalidade governativa possível, foi prontamente nomeada uma Junta de Salvação Nacional,
com António de Spínola, na qualidade de representante do MFA, na presidência, a quem foram entregues os
principais poderes do Estado, até à formação de um Governo Provisório civil.
A esta instituição coube levar a cabo o processo de desmantelamento do regime, previsto no programa do MFA:
 Américo Tomás, Presidente da República, e Marcello Caetano, Presidente do Governo, foram; destituídos do
poder, presos e, mais tarde, exilados para o Brasil;
 A Assembleia Nacional e o Conselho de Estado são dissolvidos;
 Todos os governadores civis, no continente, governadores dos distritos autónomos, nas ilhas adjacentes, e
governadores-gerais, nas províncias ultramarinas, bem como a Ação Nacional Popular são destituídos;
 Iniciou-se o processo de extinção das estruturas repressivas da ditadura (PIDE, Censura e Legião Portuguesa) e
a prisão de grande parte dos seus membros;
 São também extintas todas as organizações políticas de propaganda e de arregimentação do regime;
 Os presos políticos foram amnistiados e libertados e os exilados iniciaram o regresso ao país;
 Iniciou-se a formação de novos partidos políticos e de sindicatos livres, enquanto as forças políticas de
oposição ao regime já existentes abandonaram a situação de clandestinidade em consequência da sua
legalização;
 Procedeu-se à nomeação de um Governo Provisório que integrava personalidades representativas das várias
correntes políticas;
 Iniciou-se a preparação de eleições livres para eleger uma Assembleia Constituinte, à qual incumbiria a
redação de uma nova Constituição:
 Em 15 de Maio, para normalizar a situação política, António de Spínola é nomeado Presidente da República e
o advogado Adelino da Palma Carlos é convidado para presidir à formação do I Governo Provisório.
Tensões político-ideológicas na sociedade e no interior do movimento revolucionário
Os tempos não foram fáceis para as novas instituições democráticas. Passados os primeiros momentos de
entusiasmo popular na aclamação da liberdade conseguida, seguiram-se dois anos politicamente muito
conturbados. Com efeito, vieram ao de cima profundas divergências ideológicas que conduziram a graves
confrontações sociais e políticas e chegaram a provocar situações de iminente conflito militar.

O novo quadro social e político


As dificuldades em conter alguns excessos levados a cabo por grupos sócio laborais, na reivindicação de direitos
duramente reprimidos durante 48 anos, criaram no país um ambiente de agitação difícil de controlar por uma
autoridade política que, dadas as circunstâncias do tempo, se sentia fragilizada. Passados dois meses da sua
formação, o I Governo Provisório demitia-se.

Com a formação do II Governo Provisório, chefiado por Vasco Gonçalves, o novo regime evolui para uma clara
tendência revolucionária de esquerda, aproveitada por estudantes e por trabalhadores para imporem processos
sumários de saneamento de docentes e de empresários ou gestores identificados com o antigo regime, de
ocupações de instalações laborais, de fábricas, de campos agrícolas, de residências devolutas. Cresciam por todo
o país organizações com forte poder reivindicativo e que se iam assumindo com força para imporem ao poder
público a resolução dos seus problemas. Eram manifestações de poder popular que emergiam em Portugal.

O quadro social e político que tinha levado o primeiro Governo a pedir a demissão confirmava-se sob o olhar
passivo das forças da ordem, tuteladas por um Comando das Forças Armadas, o Comando Operacional do
Continente (COPCOIM), constituído como instrumento político-militar de ideologia radical, e com apoio do
Partido Comunista
Entretanto, agravam-se as dissidências entre o Presidente da República, general Spínola, e o Movimento das
Forças Armadas sobre os rumos a empreender no processo da descolonização e sobre a evolução política do
país. Spínola congrega as simpatias dos conservadores, o MFA apresenta-se mais identificado com o
esquerdismo revolucionário, cada vez mais influente no exercício do poder, em prejuízo da autoridade do
Presidente da República.

Os primeiros confrontos
O 28 de Setembro
Nesta conjuntura, em 28 de Setembro, ainda em 1974, ocorrem os primeiros confrontos, quando os sectores
conservadores, considerados reacionários, a Maioria Silenciosa, organizam uma manifestação de apoio a
Spínola. O MFA proíbe a manifestação e, em consequência, as forças de esquerda respondem com a organização
de barricadas, para impedirem o acesso dos manifestantes a Lisboa. Na sequência destes graves acontecimentos,
Spínola, claramente fragilizado, só teve que resignar, sucedendo-lhe Costa Gomes. Estava confirmada a aliança
MFA/Povo que mais não era do que a aliança MFA/Partido Comunista. Os militantes socialistas sentiram isso
mesmo e cada vez mais se afastaram dos comunistas que acusavam de tentar fazer triunfar, também em
Portugal, uma democracia popular

O 11 de Março
A 11 de Março de 1975, os militares afetos a Spínola, correspondendo às crescentes preocupações das forças
políticas mais conservadoras sobre os rumos do processo revolucionário, tentam levar a cabo um golpe com o
objetivo de travar o ímpeto revolucionário das forças de esquerda. O golpe foi facilmente dominado pelo MFA e
Spínola teve de se refugiar em Espanha. As forças de esquerda revolucionária saíam reforçadas.
O "Verão Quente"
Em consequência, uma assembleia do MFA dominada pelo Partido Comunista criou o Conselho da Revolução,
em substituição da Junta de Salvação Nacional e do Conselho de Estado, e propôs uma remodelação do Governo
visando o afastamento dos elementos moderados.
Entretanto, das eleições para a Assembleia Constituinte, realizadas em 25 de Abril, sai vencedor o Partido
Socialista que, por essa razão, passa a reclamar maior intervenção na atividade governativa. Todavia, a
preponderância política continua a ser detida pelo Partido Comunista com apoio do sector mais radical do MFA e
do Conselho da Revolução, que se constituem como os verdadeiros detentores do poder, provocando o
abandono do Governo pelos socialistas.
Vivem-se os tempos do Verão quente de 1975,em que esteve iminente o confronto entre os partidos
conservadores e os partidos de esquerda.
O país entrava nos tempos mais conturbados da revolução.

Política económica antimonopolista e intervenção do Estado nos domínios económico e financeiro


O "Processo Revolucionário em Curso"
Foram os tempos do PREC (Processo Revolucionário em Curso), expressão usada para designar a vaga de
atividades revolucionárias levadas a cabo pela esquerda radical com vista à conquista do poder e ao reforço da
transição para o socialismo
Com efeito, foi nesta altura que se assistiu à intervenção do Estado na eliminação dos privilégios monopolistas
do débil sector capitalista português, em consequência das medidas socializantes adotadas pelos sucessivos
governos de Vasco Gonçalves, concretamente:
 A apropriação pelo Estado dos sectores-chave da economia nacional, em consequência do
desmantelamento dos mais poderosos grupos económicos portugueses, ligados aos sectores da indústria
química, banca, seguros, transportes e comunicações, cimentos, celuloses e siderurgia, que foram
nacionalizados;
 A intervenção do Estado na administração de pequenas e médias empresas, muitas delas focos de violenta
agitação laboral, sob acusação de dificultarem o desenvolvimento económico do país. Os antigos
administradores, são afastados e substituídos por comissões administrativas nomeadas pelo Governo. Foi o
tempo dos saneamentos selvagens e da fuga de importantes quadros para o Brasil;
 A reforma agrária com a expropriação institucional das grandes herdades e a organização da sua
exploração em Unidades Coletivas de Produção (UCP) sob controlo do Partido Comunista, no seguimento das
primeiras ocupações de terras nos latifúndios do Ribatejo e do Alentejo, sob o lema "a terra a quem a trabalha";
 As grandes campanhas de dinamização cultural promovidas pelo MFA com o objetivo de explicar às
populações do interior rural o significado da revolução, o valor da democracia e a importância do voto popular
nos diversos sufrágios em curso, bem como os direitos dos trabalhadores;
 As grandes conquistas dos trabalhadores, que viram a sua situação social e económica muito beneficiada. À
conquista do direito à greve e da liberdade sindical juntou-se a instituição do salário mínimo nacional, o controlo
dos preços dos bens de primeira necessidade, a redução do horário de trabalho, a melhoria das pensões e das
reformas, a generalização de subsídios sociais e a publicação de medidas legislativas tendentes a promover as
garantias de trabalho criando dificuldades aos despedimentos, sem olhar às reais capacidades económicas e
financeiras das empresas.
A opção constitucional de 1976
O "Documento dos Nove"
Face à crescente radicalização do processo revolucionário e aos excessos cometidos rumo ao socialismo, um
grupo de nove oficiais moderados com Melo Antunes à frente, toma posição política sobre a situação,
publicando, em Agosto de 1975, um documento que ficou conhecido como o Documento dos Nove Nele,
declaram que o processo revolucionário chegou a um ponto crucial e que é chegado o momento de tomar
importantes decisões relativamente ao futuro político do país.
Segundo os autores, tornava-se urgente clarificar "posições políticas e ideológicas, terminando com
ambiguidades que foram semeadas e progressivamente alimentadas". Denunciam os rumos que o processo
revolucionário começava a tomar e recusam para Portugal um regime de tipo "europeu- oriental".
Em consequência, Vasco Gonçalves foi demitido e um VI Governo Provisório é entregue a Pinheiro de Azevedo,
outro militar, politicamente mais moderado.

O "25 de Novembro"
Esta inversão do processo revolucionário traduziu-se no agravamento da confrontação política e social de tal
modo que, no Outono de 1975, as insubordinações e sublevações nos quartéis faziam prever a eclosão de um
conflito militar generalizado.
É então que, em 25 de Novembro, sob a argumentação de que se estava a preparar uma tentativa de golpe,
animada pela esquerda militar e pelo PCP, um grupo de militares moderados liderados pelo general Ramalho
Eanes responde com um contragolpe.
Fosse em resposta ou fosse por livre iniciativa, o que aconteceu em 25 de Novembro foi uma surpreendente e
arriscada ação militar contra o avanço da esquerda, que acabou por conduzir as forças moderadas ao poder
Era o fim da fase extremista do processo revolucionário. A revolução regressava aos princípios democráticos e
pluralistas de 25 de Abril, que serão confirmados com a promulgação da Constituição de 1976.

A Constituição de 1976
Promulgada em 2 Abril de 1976, a nova Constituição foi elaborada no clima de forte radicalização política que
caracterizámos atrás. Esse clima revolucionário está, com efeito, bem presente no carácter marcadamente
ideológico no sentido do socialismo, muito especialmente no que respeita aos aspetos económicos.
O texto constitucional consagra, o Estado português como uma república democrática e pluralista, ao garantir
as liberdades individuais e a alternância democrática, através da realização de eleições livres e universais que
possibilitariam aos cidadãos a escolha dos seus representantes para as várias instituições de poder.
Deste modo, a Constituição de 1976, ao conseguir conciliar as diferentes conceções ideológicas subjacentes ao
processo revolucionário, pode ser considerada o documento fundador da democracia portuguesa.
É, com efeito, pelos princípios nela definidos que se vão pautar os novos tempos e os novos rumos da atividade
política em Portugal, a começar imediatamente pela legitimação constitucional das instituições político-
administrativas, ainda em 1976.
Assim, no seguimento da promulgação da Constituição, realizam-se as eleições:
 para a primeira Assembleia da República, em 25 de Abril de 76, vencidas pelo Partido Socialista, que forma o
Governo Constitucional, chefiado por Mário Soares;
 para a Presidência da República, em Julho do mesmo ano, vencidas por Ramalho Eanes, o grande triunfador
do 25 de Novembro, contra o candidato do PC, Octávio Pato, e Otelo Saraiva de Carvalho, apoiado na
esquerda radical;
 para as autarquias locais, ainda em 1976, em Dezembro.
O poder local foi estruturado em municípios e freguesias dotados de um órgão legislativo, respetivamente, a
Assembleia Municipal e a Assembleia de Freguesia, e de um órgão executivo, a Câmara Municipal e as Juntas de
Freguesia, todos eles eleitos diretamente pelas respetivas populações do concelho ou da freguesia, num
ambiente político de plena liberdade e independência do Poder Central.
Outra manifestação de poder local, salvaguardada pela Constituição, foi o reconhecimento da autonomia
administrativa das ilhas adjacentes. Com efeito, os arquipélagos da Madeira e dos Açores foram dotados de
governos regionais suportados por assembleias legislativas regionais, à imagem do que se passava no governo da
República. Como representante da autoridade máxima da soberania nacional é designado, pelo Chefe de Estado,
um Ministro da República com competências paralelas a nível local.

O reconhecimento dos movimentos nacionalistas e o processo de descolonização


O outro processo imediatamente iniciado foi o da descolonização (o terceiro dos "D" que nortearam a revolução:
Democracia, Desenvolvimento e Descolonização).
Tratou-se de um complicado processo marcado por profundas divergências sobre a acção a empreender:
 o programa do MFA propunha "o claro reconhecimento do direito à autodeterminação e a adoção acelerada
de medidas tendentes à autonomia administrativa e política dos territórios ultramarinos";
 uma corrente política mais moderada, representada pelo próprio Presidente da República, António de
Spínola, o autor da obra Portugal e o Futuro,onde denunciava o fracasso da solução militar para a guerra
colonial, propunha apenas o "lançamento de uma política ultramarina que conduza à paz".

Os tempos eram favoráveis ao triunfo da primeira opção:


 os movimentos independentistas exigiam a rápida solução do problema colonial pelo imediato
reconhecimento da independência, com transferência do poder para os movimentos de libertação, sem
passar por qualquer processo eleitora;
 a pressão internacional, sobretudo da ONU e dos países da Organização da Unidade Africana, excluía um
processo de descolonização faseado, pela sua morosidade;
 aos governantes portugueses também não era de todo alheia a vontade de resolver o problema o mais
rapidamente possível, para fazer regressar os militares portugueses e para que, internacionalmente, não
restassem quaisquer dúvidas sobre o carácter democrático e anticolonial do novo regime.
Com a tomada de posse do II Governo Provisório, o MFA passa a assumir maiores responsabilidades no processo
e inicia prontamente as negociações para a transferência de poderes

Os processos pacíficos
O processo negociai para a independência da Guiné inicia-se a 1 de Julho de 1974, no próprio território, com o
reconhecimento do PAIGC como único parceiro com legitimidade para assumir o poder, sem grande contestação
por parte de outros grupos políticos. A nova República foi reconhecida com a assinatura do Acordo de
Argel,celebrado entre 25 e 29 de Agosto.

A 5 de Junho de 1975, ainda na sequência deste acordo, é reconhecida a independência de Cabo Verde e inicia-
se o processo de independência de territórios onde não havia guerra, numa prova de que a descolonização era
extensível a todas as parcelas do império e não apenas àquelas onde se desenvolvia o conflito militar.

O poder em S. Tomé e Príncipe é entregue ao MLSTP, movimento não militar, organizado no exílio e reconhecido
pelo Governo português, em 12 de Julho de 1975,
Estes processos não ofereceram grandes problemas, quer no decurso das negociações, quer nas suas posteriores
evoluções políticas (em S. Tomé e na Guiné, vieram a ocorrer, mais tarde, algumas perturbações, cujas origens só
já muito remotamente se podem considerar ligadas ao processo de descolonização).
Porém, os casos de Angola e de Moçambique vieram a tornar-se muito complicados e, apenas nos inícios deste
milénio, os efeitos devastadores das divergências políticas internas começaram a dissipar-se com a chegada de
uma paz que, finalmente, parece sólida e duradoira.

O caso de Moçambique
O principal movimento de libertação imediatamente reconhecido pelo MFA como único representante legítimo
do povo moçambicano foi a FRELIMO.
Entretanto, surgem outras organizações políticas a contestar a exclusividade da presença desta organização no
processo negocial, tanto mais que esta força política se identificava com a ideologia comunista. A contestação
aumenta de tom quando, em 7 de Setembro, o Governo português celebra exclusivamente com representantes
da FRELIMO o Acordo de Lusaca que estabelece o cessar-fogo e a formação de um governo de transição
Imediatamente ocorre o levantamento militar dos movimentos oposicionistas que se organizam num grupo de
resistência armada, a RENAMO (Resistência Nacional Moçambicana), contra o que consideram ser o
desvirtuamento da democracia com a entrega do poder a um único movimento de representatividade parcial.
Consequentemente, Moçambique viu-se envolvido numa guerra civil que provocou o abandono do território por
parte de milhares de portugueses, a grande maioria dos quais retornou à metrópole, no denominado
"movimento dos retornados".
O processo político moçambicano ficou resolvido com a assinatura dos acordos de paz celebrados em Outubro
de 1992, o que implicou uma alteração constitucional, segundo a qual o regime admitia o pluripartidarismo. A
paz foi confirmada com a realização de eleições livres, em 1994, ganhas pelo partido FRELIMO.

O caso de Angola
O caso de Angola foi muito mais complexo. A luta armada contra a dominação colonial portuguesa tinha sido
empreendida por três movimentos de libertação que, além de representarem tendências políticas
diferenciadas, eram constituídos por etnias rivais dominantes na população angolana A complicar ainda mais
este processo estava o facto de Angola ser a província economicamente mais poderosa, onde os interesses da
população branca eram mais fortes e impunham uma intervenção política mais cuidada por parte do Governo
português.
Em 15 de Janeiro de 1975, depois do acantonamento dos vários movimentos de libertação no território angolano
e no decurso de complicadas negociações quadripartidas, consegue-se a assinatura do Acordo de Alvor, que
previa o reconhecimento dos três movimentos como legítimos representantes do povo angolano, incluindo
também o enclave de Cabinda, e marca-se a independência para 11 de Novembro. Seguir-se-ia a formação de
Forças Armadas Integradas e a organização de eleições livres e democráticas para uma assembleia legislativa
pluripartidária.
Nada se concretizou. Pelo contrário, os movimentos reforçaram as suas posições militares no terreno e, em
Maio, inicia-se o conflito armado entre o MPLA e a FNLA, movimentos preponderantes no Norte de Angola, com
a intervenção da URSS em apoio do MPLA e dos EUA, via Zaire, em apoio da FNLA
Em Julho, o conflito agrava-se e internacionaliza-se ainda mais com a intervenção direta de outros países da
Europa de Leste, de Cuba e do Congo, em apoio do MPLA, e a intervenção da África do Sul, Zaire e EUA em apoio
da FNLA e da UNITA que, entretanto, também inicia a luta armada.
O agravamento do conflito armado conduz à formação de dois governos, o da República Popular de Angola, do
MPLA, com sede em Luanda, sob a presidência de José Eduardo dos Santos, e o da República Democrática de
Angola, da UNITA/FNLA, com sede no Huambo, sob a presidência de Jonas Savimbi. O Estado português veio a
reconhecer o Governo do MPLA, em Fevereiro de 1976.
Em consequência do rumo dos acontecimentos, a população branca angolana inicia também o processo de
retorno à metrópole, engrossando o movimento de retornados iniciado em Moçambique, deixando os angolanos
envolvidos numa violenta guerra civil
Em finais dos anos 80, a conjuntura internacional marcada pelo fim da Guerra Fria é favorável à pacificação de
Angola. Efetivamente, em 1989, as tropas cubanas abandonam o território e, em 1991, celebra-se o acordo de
paz, que é confirmada no ano seguinte com a realização das eleições livres, previstas no Acordo de Alvor, sob o
olhar atento da comunidade internacional.
O MPLA sai vencedor, mas a UNITA não reconhece os resultados, alegando fraude. O conflito reinicia-se e
prolonga-se até 1997, ano em que se consegue nova situação de paz, confirmada pela constituição de um
Governo de Unidade e Reconciliação Nacional. Todavia, Jonas Savimbi recusou-se a fixar residência em Luanda,
dando um claro sinal de que as divergências políticas continuavam por resolver.
Efetivamente, só a partir de 22 de Fevereiro de 2002, dia em que, numa ação militar levada a cabo pelo exército
angolano, foi morto o líder da UNITA, é que o problema da pacificação de Angola entrou no caminho da
resolução definitiva.

A revisão constitucional de 1982 e funcionamento das instituições democráticas


O quadro político favorável à revisão da Constituição de 1976
A normalização das relações institucionais
Em 1982, a democracia portuguesa davba claros sinais de que o processo revolucionário tinha assumido
definitivamente o carácter democrático e pluralista da Constituição de 1976. Os tempos do Verão quente de
1975 iam sendo ultrapassados pela normalização das relações institucionais entre os diversos órgãos de
soberania e, sobretudo, pela aproximação das forças políticas mais moderadas, cuja importância na construção
do Portugal moderno, e em fase de plena afirmação na comunidade europeia, era reconhecida pela instituição
militar.
É nesta nova conjuntura política que o revolucionário pacto MFA/Povo, inspirador de manifestações de poder
popular tão do agrado do esquerdismo revolucionário, é substituído pelo pacto MFA/Partidos, criando as
condições para que o considerado excessivo comprometimento do primitivo texto constitucional com o
socialismo e a forte presença militar no exercício do poder pudessem ser revistos.

O novo texto constitucional


Deste modo, em 1982, o Partido Socialista (PS), o Partido Social-Democrata (PSD) e o Centro Democrático Social
(CDS) conseguem chegar a acordo sobre as alterações a introduzir na Constituição de 1976, de forma a torná-la
mais ajustada aos novos e importantes objetivos da governação, quer internamente, quer no que concerne à
integração de Portugal na Europa comunitária.
É certo que o novo texto constitucional, relativamente a alguns dos seus princípios socializantes, não trouxe
grandes novidades. Concretamente, em questões de economia, por exemplo, o processo das nacionalizações foi
considerado irreversível, tal como a reforma agrária.
O novo texto, todavia, introduziu a suavização de algumas referências mais vincadamente ideológicas, deixando
prever que a eliminação do carácter socialista da Constituição portuguesa era uma questão de tempo, consi-
derando os rumos assumidos pelo processo revolucionário.
No que se refere à organização e funcionamento do poder político é que as alterações foram consideráveis, a
começar pela extinção do Conselho da Revolução, cujas funções foram distribuídas pelo Conselho de Estado e
pelo Tribunal Constitucional, entretanto criados.
Ao fim de sete anos, os militares deixavam de interferir no exercício do poder político, aceitando o primado do
poder civil na atividade governativa. Perto está o tempo em que a própria Presidência da República, tradicional-
mente exercida por militares, abrirá as suas portas ao primeiro civil, Mário Soares, eleito em 1986.

O funcionamento das instituições democráticas:


1. O Presidente da República
Eleito por sufrágio direto e universal, por maioria absoluta, por um período de cinco anos com possibilidade de
reeleição por mais um mandato consecutivo (pode vir a exercer outros mandatos, mas após a interrupção dos
dois primeiros), é o representante máximo da soberania nacional. Como tal, compete-lhe assegurar a
independência nacional, a unidade do Estado e o bom funcionamento das instituições.
Para o efeito, exerce o cargo de Comandante Supremo das Forças Armadas e, apoiado no Conselho de Estado
que, de certo modo, limita a sua iniciativa institucional, tem poderes para nomear o Primeiro-Ministro,
respeitando por norma os resultados das eleições; nomear e dar posse ou exonerar os ministros, mediante
proposta do Primeiro-Ministro; dissolver a Assembleia da República e demitir o Governo em situações de
irresolúvel crise política e depois de ouvir os partidos; convocar novas eleições; promulgar e executar as leis ou
exercer sobre elas o direito de veto se tiver dúvidas sobre a sua constitucionalidade ou se considerar os seus
efeitos políticos gravemente lesivos do interesse nacional. Compete-lhe ainda a importante função de moderar
os conflitos entre as várias instituições, sobretudo aqueles que possam pôr em causa a autoridade do Estado.

2. A Assembleia da República
Constituída por deputados eleitos por círculos eleitorais correspondentes aos distritos do continente e a cada
região autónoma, é o órgão legislativo por excelência.
Durante os quatro anos que, em situação normal, deve durar a legislatura, compete aos deputados apresentar
projetos de lei que se transformarão em leis depois de discutidos, votados e aprovados por maioria parlamentar.
Têm ainda o poder de interpelar o Governo; conferir-lhe autorizações legislativas; discutir e votar o seu
programa e votar moções de confiança e de censura.
É esta possibilidade de censurar ou apoiar a atividade governativa que faz depender os governos do apoio do
Parlamento. Deste modo, o apoio maioritário do Parlamento, seja por uma maioria absoluta de um único
partido, seja mediante a formação de alianças pré ou pós-eleitorais, é essencial para a estabilidade governativa.
Todavia, o apoio de uma maioria absoluta do Parlamento pode conduzir a manifestações autoritárias de poder,
ficando reservado para os partidos da oposição apenas o poder de crítica e de censura inconsequente da
atividade governativa.

3. O Governo
Constituído pelo Primeiro-Ministro, pelos ministros e pelos secretários e subsecretários de Estado, é o órgão que
superintende a administração pública do país. Em situação normal e nos termos da Constituição, o Primeiro-
Ministro é nomeado pelo Presidente da República, depois de ouvidos os partidos e tendo em consideração os
resultados eleitorais. Por conseguinte, o Governo é formado pelo partido vencedor das eleições para a respetiva
legislatura.
Detentor de amplo poder executivo, compete ao Governo conduzir a política geral do país através de decretos-
lei, propostas de leis que tem de submeter à aprovação da Assembleia da República, e outros normativos
regulamentadores da vida pública nacional.
4. Os tribunais
Aos tribunais compete o exercício do poder judicial, em total independência do poder político. A revisão de 1982
introduziu a novidade do Tribunal Constitucional, ao qual compete zelar pelo rigoroso cumprimento dos
princípios consagrados na Constituição, ao lado do Presidente da República. São ainda competências desta nova
instituição garantir o funcionamento da democracia, nomeadamente tutelar os vários processos eleitorais.