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ÍNDICE

1. O futuro pode ser diferente do passado 9


2. Limpar o convés 23
3. Um terceiro modo de pensar 31
4. Provem-no’ 37
5. Cautela com aquilo que deseja 47
6. A loucura dos macacos 57
7. Como o cão ficou com a cauda enrolada 65
8. Dançar com fantasmas 77
9. Qual a função de um abre-latas? Como é que sabe? 87
10. A sua licença de aprendiz 95
11. Bem-vindo a casa, filho pródigo 101
12. Ensinar os especialistas 111
13. A cidade do crime 121
14. Como aprendi a deixar de me preocupar e a amar
o determinismo genético 135
15. Como eles têm personalidade’ 145
16. A beleza de Abraham Lincoln 165
17. Ama o teu próximo, o micróbio 179
18. Grupos até lá abaixo 191
19. Divididos soçobramos 199
20. Mentes aladas 207
21. O macaco igualitário 219
22. Atravessar a divisória da cooperação 237
23. A primeira gargalhada 249
24. As artes vitais 261
25. O Dr. Doolittle tinha razão 277
26. Quantos inventores são precisos para criar uma lâmpada 289
27. Não sei como isto funciona’ 307
28. A catedral de Darwin 331
29. Está alguém aí fora? Está alguém aí em cima 359
30. Ayn Rand: uma fanática religiosa 377
31. A inteligência social das nações, ou os alienígenas
maus não fazem cá falta nenhuma 399
32. O Sr. Pager 417
33. A ecologia do bem e do mal 431
34. Mosquitos debaixo da cama 443
35. O regresso do cientista amador 455
36. Boa viagem 485
AGRADECIMENTOS 493
NOTAS 495
BIBLIOGRAFIA 515
WEB SITES 533
ÍNDICE REMISSIVO 535
1
O futuro pode ser
diferente do passado

Este livro faz afirmações sonantes a respeito da evolução: que esta se pode
tornar uma questão incontroversa, que os seus princípios básicos são fáceis de
apreender, que toda a gente deveria querer conhecê-los e que, uma vez
compreendidas as suas implicações, a evolução e a religião, esses velhos
inimigos que presentemente se situam em campos opostos do pensamento
humano, se podem associar de forma harmoniosa.
Será possível que estas afirmações sejam verdadeiras? Não será a evolução
a teoria mais controversa que o mundo alguma vez conheceu? Uma vez que é
um tema científico, não será difícil de apreender? Se as suas implicações são
inócuas, porque tanto receio e nervosismo? E porque diabo velhos inimigos
como a evolução e a religião haveriam de abandonar os campos opostos do seu
combate?
Posso ser um optimista, mas não sou ingénuo. Permita-me que me
apresente: sou um evolucionista, o que significa que uso os princípios da
evolução para compreender o mundo à minha volta. Seria um biólogo evolutivo
se me restringisse aos temas tipicamente associados à biologia, mas incluo tudo
o que é humano na vida no seu conjunto. Isso faz de mim um evolucionista sem
quaisquer limitações. Eu e os meus colegas evolucionistas estudamos a criação
em todos os seus aspectos, desde a origem da vida até à religião. Por
conseguinte, tenho uma percepção bastante clara do que as pessoas pensam
sobre a evolução e posso afirmar que a situação é muito pior do que se poderá
pensar. Vou mostrar como ela é má antes de explicar por que razão continuo a
estar confiante quanto ao cumprimento dos objectivos deste livro.
A maioria das pessoas conhece a relutância da generalidade do público em
aceitar a teoria da evolução, especialmente nos Estados Unidos da América.
Segundo a sondagem mais recente da Harris, 54 por cento dos adultos dos EUA
acreditam que o ser humano não é um produto da evolução de espécies
anteriores. Este valor é superior aos 46 por cento de 1994. A rejeição da
evolução estende-se às ideias sobre a origem de outras espécies e ao registo
fóssil como prova da evolução, e vai de par com o refrão constante de que a
evolução é «apenas uma teoria».
Para piorar as coisas, a maioria das pessoas que aceitam a teoria da
evolução não a usa para compreender o mundo que as rodeia. Para elas, esta
teoria tem a ver com dinossauros, fósseis e seres humanos a evoluir a partir dos
macacos, e não com o meio ambiente actual ou com a condição humana. As
sondagens não medem a percentagem de pessoas que relacionam a evolução
com a sua vida quotidiana, mas ela deve ser mínima.
Para os cientistas e intelectuais, é fácil sorrir face à ignorância dos crentes
e do público em geral, mas a verdade é que eles não são muito melhores. A torre
de marfim seria mais apropriadamente apelidada «arquipélago de marfim». É
composta por centenas de temas isolados, cada um deles dividido em outros
mais pequenos numa progressão quase infinita. As pessoas são examinadas, não
tanto com um microscópio, mas com um caleidoscópio — psicologia,
antropologia, economia, ciência política, sociologia, história, arte, literatura,
filosofia, estudos de género, estudos étnicos. Cada perspectiva tem a sua própria
história e os seus pressupostos específicos. A heresia de uma pessoa é a
trivialidade de outra. No que respeita à evolução, a maioria dos cientistas e
intelectuais diria que aceita a teoria de Darwin, mas muitos negariam a sua
relevância para os assuntos humanos ou reconheceriam de bom grado a sua
importância sem a utilizarem nas suas vidas profissionais ou quotidianas. Com
efeito, há um muro no mundo académico que restringe o estudo da evolução à
biologia e a uns poucos de assuntos relacionados com o ser humano, como a
genética humana, a antropologia física e ramos especializados da psicologia.
Para além deste muro, é possível uma pessoa fazer um doutoramento sem uma
única disciplina de evolução ou mais do que uma referência casual a esta teoria
noutras disciplinas. É por isso que a expressão «biólogo evolutivo» é uma
designação reconhecida pelas pessoas, enquanto o termo mais geral
«evolucionista» lhes parece estranho.
Alguns intelectuais rivalizam com os criacionistas da Terra jovem na
rejeição da evolução no que respeita aos assuntos humanos. Um artigo
publicado na revista The Nation em 1997, intitulado «The New Creationism:
Biology Under Attack», formula a questão nos seguintes termos:
O resultado é uma visão ideológica estranhamente semelhante à do criacionismo
religioso. Tal como os seus homólogos cristãos fundamentalistas, os antibiologistas mais
radicais sugerem que os seres humanos têm um estatuto completamente diferente, e
nitidamente «acima» do dos outros seres vivos. Do mesmo modo que os fundamentalistas
religiosos, os novos criacionistas universitários defendem a sua posição como se estivesse
em jogo toda a dignidade humana e toda a esperança no futuro.

A famosa metáfora da mente como tábua rasa apodera-se da ideia de que


podemos compreender a condição humana sem qualquer referência a princípios
evolutivos básicos ou ao nosso próprio passado evolutivo. Os criacionistas
universitários mais radicais rejeitam não só a evolução, mas também a ciência
em geral, considerando-a apenas mais uma construção social. Contudo, não
passam de uma tribo particularmente aguerrida que habita o arquipélago de
marfim. Há outras tribos que se inserem plenamente no mundo científico, mas
mesmo assim conseguem excluir a teoria da evolução. Num estudo, realizado
em 1979, de vinte e quatro manuais de Introdução à Sociologia, todos
consideravam que os factores biológicos eram irrelevantes para o estudo do
comportamento e da sociedade humanos. Saltando agora para o presente, o
cientista político lan Lustick pôde dizer o seguinte, num artigo de 2005,
referindo-se às ciências sociais humanas:
É claro que os cientistas sociais não têm nada contra aplicar a teoria da evolução às
ciências da vida — biologia, zoologia, botânica, etc. No entanto, a ideia de aplicar o
pensamento evolutivo aos problemas das ciências sociais suscita normalmente fortes
reacções negativas. Com efeito, os cientistas sociais abordam as ciências da vida como se
estas estivessem envolvidas por uma espécie de muro impermeável. Acredita-se que, no
interior deste muro, o pensamento evolutivo é capaz de produzir verdades poderosas e
surpreendentes. Fora do muro, no domínio do comportamento humano, é habitual as
aplicações do pensamento evolutivo serem consideradas, na melhor das hipóteses,
irrelevantes, mas, na maioria dos casos, perniciosas, erradas e absolutamente perigosas.

Aparentemente a situação não pode ser mais deprimente, mas é. Os


próprios biólogos evolutivos estão em desacordo a respeito do estudo da nossa
espécie. Quando Edward O. Wilson, um biólogo evolutivo de Harvard, publicou,
em 1975, a sua obra enciclopédica Sociobiology, os seus críticos mais ferozes
foram Stephen Jay Gould e Richard Lewontin, outros biólogos evolutivos
também de Harvard. Saltando para o presente, o esforço mais recente e
ambicioso da National Science Foundation para financiar a investigação
evolutiva chama-se National Evolutionary Synthesis Center (NESCent). A sua
missão básica é «ajudar a promover uma grande síntese das disciplinas
biológicas através do princípio unificador da descendência com modificação».
Esta linguagem não é tão grandiloquente como poderia parecer. Os biólogos
esperam que a evolução sirva como teoria unificadora, produzindo «verdades
poderosas e surpreendentes», nas palavras de lan Lustick. Diga-se, como
complemento curioso deste diagnóstico das ciências sociais, que nem um único
membro do conselho consultivo científico do NESCent representa uma área
relacionada com o ser humano, para além da genética humana. Aparentemente,
a barreira que separa o estudo dos seres humanos do estudo do resto da vida é
em grande medida respeitada por ambos os lados, mesmo pelos biólogos
evolutivos que tentam promover uma grande síntese.
Sabendo tudo isto, continuo a acreditar que existe um caminho capaz de
tornear ambos os muros de resistência, o primeiro, que nega completamente a
evolução, e o segundo, que nega a sua importância para os assuntos humanos.
Darwin constitui um exemplo que nos pode servir de émulo: todos os dias
poderíamos encontrá-lo a dissecar cracas, a observar minuciosamente o
comportamento dos filhos ou a fazer germinar sementes que antes tinham
servido para alimentar ratos, que, por sua vez, haviam servido de alimento aos
falcões do Jardim Zoológico de Londres. A mesma pessoa que estudava
minhocas e orquídeas também estudava a moral humana. Os interesses de
Darwin eram tão variados que recebia montanhas de correspondência dos
quatro cantos do globo. A uma carta sobre a distribuição das plantas na Índia
podia seguir-se outra sobre as expressões emocionais dos nativos africanos. O
império do pensamento de Darwin era maior do que o Império Britânico.
Como foi Darwin capaz de reunir tantos assuntos diferentes e de fundir os
seres humanos com o resto da vida de uma forma perfeitamente homogénea?
Talvez fosse um génio. Talvez nessa altura houvesse menos para saber. Talvez,
mas a razão principal é mais interessante e relevante para a nossa situação. Foi
sobretudo a teoria de Darwin, e não os seus atributos pessoais ou a sua época e
o lugar onde viveu, que lhe permitiu construir o seu império de conhecimento.
Além disso, a sua teoria era poderosa mesmo numa forma rudimentar, pois ele
sabia muito menos sobre os pormenores da evolução do que nós sabemos agora.
A mesma teoria permite aos evolucionistas modernos erigir impérios
próprios. Não sou nenhum Darwin, mas a minha carreira mostra o que uma boa
teoria pode fazer. Estudei seres tão diversos como bactérias, escaravelhos e aves.
Estudei assuntos tão diferentes como o altruísmo, o acasalamento e a
origem das espécies. Posso compreender e apreciar o trabalho dos meus colegas
que estudam uma gama ainda maior de seres e assuntos. Por favor não pensem
que me estou a gabar — isso seria aborrecido. Estou a gabar a teoria, e o
objectivo deste livro consiste em mostrar que qualquer pessoa pode beneficiar
dela. Precisamos de uma grande teoria, não de uma grande inteligência, para
adquirir este tipo de conhecimento sintético.
Se a nossa espécie puder ser incluída nesta síntese grandiosa, há todas as
razões para o fazer. Seria como uma figura estranha a emergir das sombras para
desfrutar do calor de uma fogueira em boa companhia. A minha carreira mostra
que isto é possível. Tal como Darwin — não por partilhar dos seus atributos
pessoais, mas porque partilho da sua teoria —, acrescentei de uma forma
perfeitamente coerente os seres humanos ao bestiário de animais que estudo em
questões tão diversas como o altruísmo, a beleza, a tomada de decisões, a
mexeriquice, a personalidade e a religião. Para além de fazer investigação em
biologia, colaboro em revistas de antropologia, economia, filosofia e psicologia.
Os meus livros versam temas que a maioria das pessoas não associa à evolução:
Unto Others: The Evolution and Psychology of Unselfish Behaviour (escrito em
colaboração com um filósofo de nível mundial chamado Elliott Sober), Darwin’s
Cathedral: Evolution, Religion, and the Nature of Society, e The Literary
Animal: Evolution and the Nature of Narrative (co-editado com um jovem
arrojado especialista em literatura chamado Jonathan Gottschall). Não se trata
de trabalhos de divulgação aligeirados para o público em geral. São escritos para
especialistas, a maioria dos quais passa a vida a estudar uma gama muito mais
restrita de assuntos. Os evolucionistas são capazes de percorrer os temas
relacionados com o ser humano ao mais alto nível da reflexão intelectual, do
mesmo modo que os biólogos evolutivos já estão habituados a fazê-lo a respeito
das questões biológicas.
E devíamos seguir as pisadas de Darwin a outro respeito. As suas
interacções com pessoas de todos os quadrantes da vida foram respeitosas e
cordiais. Podemos aprender com a humildade e o bom humor com que expunha
a sua teoria aos outros, para além de aprendermos com a teoria em si mesma.
Desde que escrevi Unto Others e Darwin’s Cathedral, tenho falado sobre
evolução, moral e religião perante diversas audiências em todo o mundo. Talvez
a minha experiência mais memorável tenha sido uma conversa televisiva com
um grupo de docentes e frades da St. John’s University, no Minnesota, uma
universidade católica e o mosteiro beneditino mais antigo da América do Norte.
O meu co-autor Elliott Sober foi convidado para uma conversa com Sua
Santidade o Dalai Lama, o que me provocou uma inveja indizível. Estes
encontros são exactamente o oposto dos «debates» estéreis que têm lugar entre
criacionistas e evolucionistas. Se é possível acontecer um diálogo cordial deste
tipo a respeito da evolução e da religião, então certamente também o será entre
a evolução e qualquer outro tema relacionado com o ser humano.
Na realidade, a evolução está a ser cada vez mais usada para estudar todas
as coisas humanas, para além da vida em geral. Recentemente, dirigi uma
análise da revista científica muito respeitada Behavioral and Brain Sciences
(BBS). Cada número da BBS consiste num artigo extenso, denominado artigo-
alvo, seguido de comentários de vários autores, proporcionando assim uma
exploração muito completa de um assunto particular. Os temas cobertos pela
BBS são muito diversos, e vão das neurociências à antropologia cultural. Os
artigos da revista são objecto de um processo de revisão contundente antes de
serem aceites, isto para não falar do exame apurado a que são sujeitos nos
comentários. Têm muitas vezes um grande impacto na investigação
subsequente. Com base numa fórmula usada pela indústria da edição científica
para calcular o impacto das suas revistas, a BBS encontra-se em primeiro lugar
entre quarenta revistas de ciência comportamental e em sétimo entre as 198
revistas de neurociências. Se há alguma coisa que possa ser qualificada de
ciência sólida e definidora de tendências é um artigo-alvo da BBS.
A minha análise mostra que, durante o período de 2000- 2004, 31,5 por
cento dos artigos-alvo da BBS utilizaram a palavra «evolução» no título ou como
palavra-chave para assuntos tão diversos como religião, esquizofrenia, choro de
crianças, linguagem, transferência de alimentos em sociedades de caçadores-
recolectores, expressão facial, empatia, visão, evolução do cérebro, tomadas de
decisão, fobias, acasalamento, evolução cultural e sonhos. Por outras palavras,
utilizar a evolução para estudar a nossa espécie não é um projecto futuro nem
ciência marginal. É algo que já chegou.
Curioso, lancei uma pesquisa por e-mail junto dos autores destes artigos-
alvo para saber como tinham adquirido os seus conhecimentos sobre
evolucionismo. Descobri que a maioria fez os seus estudos formais noutras áreas
(como psicologia, antropologia ou linguística), com pouca ou nenhuma
formação em evolução durante a licenciatura ou a pós-graduação, como seria de
esperar a partir da minha descrição deprimente do arquipélago de marfim. O
facto é que tomaram contacto com a teoria da evolução por si próprios, muitas
vezes por acaso, aumentando depois gradualmente os seus conhecimentos neste
domínio até estes se tornarem uma força condutora da sua actividade de
investigadores. A circunstância de terem podido tão facilmente adquirir esta
formação indica que o poder do pensamento evolutivo não reside numa massa
de pormenores técnicos, mas sim em algo de muito mais simples que talvez
qualquer pessoa consiga apreender. Eles repetiram de múltiplas maneiras a
experiência de Darwin, que construiu o seu império do pensamento sem o
benefício da grande quantidade de pormenores técnicos disponíveis hoje em
dia.
Talvez o leitor possa começar a ver agora por que razão acredito que é
possível atingir os objectivos deste livro, mas já vai compreender melhor. Para
além de cientista, sou professor. Todos os anos ministro um curso chamado
Evolução para Todos, aberto a todos os estudantes. O ano passado tive alunos
provenientes dos seguintes departamentos: Antropologia, Arte, Biologia,
Gestão, Química, Cinema, Ciência Computacional, Escrita Criativa, Economia,
Educação, Engenharia, Inglês, História, Desenvolvimento Humano, Linguística,
Matemática, Enfermagem, Filosofia, Física, Ciência Política e Psicologia. Havia
alunos acabados de chegar do ensino secundário, outros, mais maduros, já a
frequentarem a universidade e mesmo estudantes-trabalhadores que estavam a
prosseguir estudos. No final do semestre pede-se aos estudantes que avaliem o
curso de forma anónima, de modo que não têm nada a ganhar ou a perder com
os seus comentários. Eis uma amostra do que disseram:

Este curso fornece provas concludentes de que a evolução está


presente em tudo. Ele mudou totalmente o meu modo de encarar os
problemas.

Este curso mudou a forma como olho para as coisas em geral. Agora
tento vê-las e compreendê-las a partir de uma perspectiva evolutiva.

Este curso mostra como a evolução pode ser positiva. Ensina-nos


muito e aumenta o nosso interesse.

Inscrevi-me nesta disciplina sem saber grande coisa sobre evolução.


Agora tenho uma perspectiva completamente diferente sobre como a
evolução pode ser aplicada a muitos aspectos da vida.

Tive aulas de evolução na escola secundária e nunca as achei


interessantes, mas este curso alterou radicalmente o meu modo de ver. As
teorias mais aborrecidas trans formaram-se em pensamentos
interessantes que pude relacionar com a minha vida quotidiana.

Gostaria muito de poder atribuir estes comentários entusiásticos à minha


mestria como professor, mas mais uma vez os louros vão para a teoria. A minha
contribuição consistiu em ajudar os estudantes a repetir a experiência de
Darwin, em grande medida como fizeram os autores da BBS por sua própria
iniciativa. Para conhecer melhor a reacção dos meus alunos ao curso, pedi-lhes
que respondessem a um inquérito que permitia medir os seus valores políticos e
religiosos, formação científica, conhecimento prévio da evolução e competências
teóricas em geral. Os pormenores serão publicados numa revista técnica para
que qualquer pessoa possa examinar os meus métodos, mas os resultados foram
os seguintes:

• A maioria dos estudantes, e não apenas uma pequena elite,


aprendeu a pensar a evolução como um modo poderoso de compreender o
mundo em geral, e em particular os seus próprios interesses e
preocupações.

• Não foi necessária uma formação em ciência nem um


conhecimento prévio da evolução. Os caloiros do curso de Inglês
apreenderam tão bem o assunto como os finalistas do curso de Biologia.

• O curso teve sucesso com estudantes de toda a gama de convicções


políticas e crenças religiosas, das feministas aos jovens republicanos e dos
ateus aos crentes. Parece incrível que uma pessoa religiosa possa aceitar a
evolução, não com dificuldade, mas tão facilmente como outra pessoa
qualquer. Este facto fará cada vez mais sentido à medida que avançarmos.

• Os alunos aumentaram as suas competências de pensamento geral,


e não só o seu conhecimento sobre evolução. Em linguagem simples,
tornaram-se mais inteligentes. Pode parecer difícil acreditar que aprender
coisas sobre a evolução nos torna mais inteligentes, mas atentemos no
seguinte: Darwin construiu o seu império do pensamento aplicando um
conjunto único de princípios a uma grande diversidade de assuntos, o que
está muito perto de uma definição de inteligência geral.

Para muitos estudantes que se inscrevem numa disciplina como a que


ministro, aprender coisas sobre evolução é como transpor uma porta e não
querer voltar para trás. Utilizá-la para pensar sobre os seus interesses e
preocupações torna-se uma segunda natureza, como andar de bicicleta. Sentem-
se desejosos de desenvolver as suas novas capacidades noutras disciplinas e
ficam decepcionados com professores que não partilham desta perspectiva nova
de ver as coisas. Em resposta a esta necessidade, eu e os meus colegas da
Universidade de Binghamton criámos um programa chamado EvoS, que
permite a qualquer pessoa usar a teoria da evolução para explorar o espectáculo
da vida na Terra, incluindo o espectáculo da vida humana
(http:llbingweb.binghamton. edu/—evos; os principais web sites descritos
neste livro estão também listados nas páginas 533-534). Gosto de considerar o
EvoS uma nova ilha no arquipélago de marfim, um paraíso tropical, por assim
dizer. Um estudánte descreve-o tão bem como eu: «O EvoS proporciona um
ambiente estimulante no qual biólogos, psicólogos, antropólogos, filósofos,
cientistas sociais e mesmo estudantes de artes podem transcender as fronteiras
académicas tradicionais e colaborar no estudo de assuntos de interesse mútuo.
Ele cria uma atmosfera de reflexão de vários tipos, e é uma coisa linda!»
Agora espero que possam compreender por que razão acredito no
cumprimento dos objectivos deste livro. Em certo sentido, eles já foram
cumpridos. Existe já um caminho que contorna os dois muros de resistência, o
primeiro, que nega completamente a evolução, e o segundo, que rejeita a sua
importância para os assuntos humanos. Não se trata de um caminho estreito
apenas acessível a um punhado de corajosos, mas de uma estrada percorrida
regularmente por muitos. Nesta obra procurei expor os fundamentos mais
básicos, de modo a o leitor poder começar a caminhar pela mesma estrada. Não
se deixe enganar pela simplicidade dos assuntos dos capítulos. A simplicidade é
uma virtude, e os diferentes capítulos abrangem as mesmas questões discutidas
pelos evolucionistas ao nível mais avançado. Espero que no final concorde
comigo em que, quando se trata de evolução e da sua aceitação generalizada, o
futuro pode ser diferente do passado.

2
Limpar o convés

A teoria da evolução é um navio que enfrentou muitas tempestades.


Ultimamente tem sido fustigada pelos ventos do criacionismo e do seu primo
renascido, o desígnio inteligente (DI), mas os inimigos da evolução são
inofensivos comparados com os seus amigos. Herbert Spencei um gcv ante
intelectual contemporâneo de Darwin, gostava da evolução por pensar que ela
justificava as desigualdades da sociedade de classes britânica. A primeira
metade do clássico de Ronald Fisher The Genetical Theory of Natural Selection
ainda é lida nos nossos dias, mas a segunda metade, sobre a eugenia (o
melhoramente da sociedade por meio da reprodução selectiva), é delicadamente
ignorada. Hitler gostava da evolução por pensar que ela justificava a suprema
desigualdade social do genocídio. A ideia de usar a evolução para justificar a
desigualdade social tornou-se conhecida como «darwinismo social». O próprio
Darwin foi um opositor apaixonado da escravatura e era de opinião que a
política social se devia basear na compaixão, que considerava «a parte mais
nobre da nossa natureza»; mas mesmo assim não era um homem New Age
segundo os padrões modernos. Se avaliássemos a teoria de Darwin com base em
algumas das suas companhias, sobretudo dos primeiros tempos, certamente nos
manteríamos ao largo.
A minha perspectiva da ciência e dos cientistas nada tem de romântica.
Considero a ciência uma actividade para a qual é preciso arregaçar as mangas,
como a jardinagem ou a construção civil. Encaro os cientistas como indivíduos
como outros quaisquer. Não é possível ter confiança em ninguém com base nos
seus diplomas — nem nos cientistas, nem nos políticos, nos padres ou em
intelectuais farisaicos. A confiança exige responsabilidade. Alguns indivíduos
são responsáveis por si próprios, mas isso não é suficiente ao nível institucional.
Um governo, uma religião ou uma cultura científica eficazes têm de incluir
mecanismos que tornem toda a gente responsável. Quando estava a mergulhar
no estudo da religião a fim de escrever Darwin’s Cathedral, descobri que as
religiões mais fortes e eficazes devem em parte o seu sucesso à sua
responsabilidade. Por exemplo, a igreja fundada por João Calvino na Genebra
do século XVI era dirigida, não por uma pessoa, mas por um grupo de pastores.
Quando não conseguiam chegar a acordo, o círculo decisor não se estreitava,
mas alargava-se. Os anciãos designados pela igreja para supervisionarem
diferentes zonas da cidade tinham de ser aprovados por aqueles que estavam a
ser supervisionados. Os trabalhos que punham a vida em risco, como cuidar dos
pestíferos nos lazaretos, eram distribuídos por sorteio. Recorria-se a métodos de
dupla verificação de contas a fim de controlar os fundos de beneficência. A
igreja de Calvino era fiável como instituição porque incluía mecanismos que
tornavam difícil a fraude, mesmo para os próprios dirigentes — exactamente o
que seria de esperar de uma religião baseada na doutrina do pecado original!
A ciência é em grande medida uma maneira de assegurar a
responsabilidade no que respeita a afirmações factuais. No último capítulo fiz
algumas afirmações factuais acerca da maneira como os alunos reagiram ao
meu curso de Evolução para Todos. Tenho de apresentar os pormenores do meu
estudo a quem quer que deseje examiná-los. Oriento-me por um código de
honra (nunca por nunca falsificar deliberadamente os dados) que em grande
medida é respeitado e que, quando é violado, implica um castigo e a exclusão.
As pessoas podem discordar livremente da veracidade ou da interpretação dos
meus resultados. Podem não se pronunciar até o estudo ser repetido ou a
mesma afirmação ser demonstrada recorrendo a métodos diferentes. Quando o
processo funciona bem, dá origem a uma acumulação de afirmações factuais
que são sustentadas, como um andaime firme sobre o qual podemos estar com
confiança para construir mais em altura. Mas, tal como com os padres e os
políticos, a vigilância é necessária em todos os momentos.
Esta perspectiva prática da ciência pode ajudar-nos a limpar o convés,
eliminando as controvérsias passadas acerca da evolução a fim de prepararmos
a nossa própria viagem. Relativamente a Hitler e a outros que utilizaram a
evolução para promover as suas causas iníquas, não se pode dizer que o mundo
era um lugar encantador antes de Darwin e se tornou sórdido com base na sua
teoria. A América foi colonizada antes de Darwin e os pioneiros invocaram o
princípio do direito divino para espoliar os nativos. Já que estamos a referir este
assunto, deixemo-nos de idealizar povos nativos. Em várias civilizações
indígenas, a palavra para definir «o nosso povo» é «humano» e os forasteiros
são classificados como um tipo de animal. Antes de Darwin conhecem-se
panfletos religiosos que afirmavam que os negros não tinham alma e que «Deus
e a Natureza» destinavam as mulheres a uma vida de servidão doméstica. Será
uma surpresa que a teoria da evolução tenha sido distorcida de modo a servir o
mesmo objectivo? Será essa uma razão para a rejeitarmos?
A ciência, a religião e a política enfrentam o mesmo problema. Alguns
indivíduos são levados a colher benefícios, em detrimento de outros ou da
sociedade como um todo. A uma escala mais vasta, alguns grupos são levados a
obter proveitos colectivamente em detrimento de outros. Em ciência, este
problema assume a forma de afirmações factuais em benefício próprio. Digo que
algo é verdadeiro, não porque na realidade o seja, mas porque isso serve os
meus interesses. As ideias erradas mais importantes em ciência não são apenas
conjecturas incorrectas; elas servem sistematicamente os interesses dos seus
proponentes. Há cem anos, médicos e cientistas respeitáveis pensavam que as
mulheres não deviam ir para a universidade porque o desenvolvimento do
cérebro interferia com o desenvolvimento dos ovários. Não se tratava apenas de
uma conjectura falsa, mas de uma conjectura falsa que sustentava concepções
profundamente arreigadas sobre o papel das mulheres na sociedade. Um
antropólogo meu amigo que estuda os conflitos étnicos disse-me que alguns
católicos da Irlanda do Norte estão convencidos de que conseguem identificar os
protestantes por estes terem os olhos muito juntos. Alguns protestantes têm
exactamente a mesma teoria sobre os católicos. Não estamos apenas perante
falsas conjecturas sobre a morfologia facial, mas perante falsas conjecturas que
desumanizam o inimigo.
Para piorar o cenário, os nossos interesses ocultos não são
necessariamente conscientes. Não é como se víssemos o mundo com nitidez e
depois o distorcêssemos voluntariamente para se conformar com os nossos
objectivos. O mundo que vemos claramente já foi deformado por processos
mentais inconscientes. Aqueles que acreditaram na teoria dos olhos não a
inventaram por saberem que era falsa. Estavam mesmo convencidos de que ela
era verdadeira. Por sorte, embora nem sempre consigamos detectar os nossos
próprios preconceitos, podemos considerar-nos mutuamente responsáveis pelas
nossas afirmações factuais recorrendo aos métodos científicos. Revelou-se
completamente errado que as mulheres que frequentavam a universidade
tivessem ovários atrofiados. A teoria dos olhos pode ser rejeitada numa única
tarde com uma craveira. Se não é possível responsabilizar as pessoas pelas suas
afirmações factuais a um nível tão básico, pouca esperança resta de que se
chegue a acordo sobre questões mais importantes.
Como deveríamos responder a uma pessoa que usa uma teoria científica
para justificar actos que consideramos repreensíveis? Há duas linhas de defesa.
Uma consiste em pôr em causa o que é afirmado. A outra consiste em pôr em
causa que os factos justifiquem os actos. Mesmo que ir para a universidade
atrofiasse os ovários, poderíamos decidir que as mulheres têm o direito de
escolher que órgão querem desenvolver.
Uma terceira linha de defesa consiste em declarar a teoria interdita. De
uma perspectiva impulsiva, isto é tentador, mas se reflectirmos não faz sentido.
Imaginemos que alguém nos entra pela casa a correr e a gritar: «Um monstro
horrível vem na nossa direcção! Vamos fingir que não é nada connosco!» É o
que uma pessoa faz quando declara que uma teoria é tabu por pensar que ela
pode ter más consequências. Precisamos de reunir a coragem para determinar
se as afirmações factuais estão erradas (em geral porque servem os interesses de
alguém) ou se estão certas, e neste caso temos de decidir o que fazer com elas de
uma maneira moralmente responsável.
Nem todas as afirmações factuais são controversas. Às vezes há tudo a
ganhar e nada a perder por sabermos a verdade sobre o assunto, como, por
exemplo, o que é preciso para manter um avião no ar. Muitos factos revelados
pela teoria da evolução são deste tipo e seria uma tolice ignorá-los. Todavia,
mesmo as afirmações mais controversas associadas à evolução são menos
ameaçadoras do que poderíamos imaginar quando arregaçamos as mangas e
nos pomos a trabalhar sobre elas. As afirmações em proveito próprio em geral
constituem más teorias científicas, que é fácil rejeitar depois de uma análise
atenta. No curso que lecciono e neste livro não há tópicos interditos. Os meus
alunos não são ameaçados nem agredidos, e aposto que o mesmo se passará
com o leitor.
A teoria de Darwin está a aproximar-se do seu 150.0 aniversário e poderia
parecer que as descobertas mais importantes já foram feitas. Contudo, na
verdade, trata-se de um período curto e há ainda muito por descobrir no futuro.
A genética como ciência só teve início aquando da redescoberta de Mendel e das
suas ervilhas em 1904. A princípio, o «mendelismo» era considerado uma
alternativa ao «darwinismo», e só se associaram em 1918, em parte graças ao já
referido Ronald Fisher. Só em 1953 se descobriu que o ADN era o código da
vida. E o uso da evolução para estudar os organismos nos seus ambientes
naturais só se começou realmente a desenvolver na década de 1960.
Ainda há mais coisas a descobrir sobre a nossa espécie. Durante milénios
imaginámo-nos separados do resto da natureza. A nossa reflexão sobre nós
próprios é particularmente propensa a preconceitos que nos favorecem.
Durante mais de um século, as nossas tradições académicas desenvolveram-se
desligadas da evolução. Na antropologia, uma das grandes questões da época de
Darwin era saber por que motivo alguns povos se tinham tornado «civilizados»
enquanto outros permaneceram num estado de «selvejaria». A abordagem
moderna desta questão é ilustrada pela magnífica obra Armas, Germes e Aço,
de Jared Diamond, mas nesse tempo parecia razoável imaginar uma progressão
evolutiva linear seguida por todas as civilizações, estando umas mais avançadas
do que outras. Em reacção a esta abordagem, alguns antropólogos declararam-
se «antievolucionistas», insistindo que cada civilização deveria ser estudada e
apreciada autonomamente, tradição esta que subsiste nos nossos dias. Em
psicologia, a teoria da evolução foi eclipsada por uma tradição conhecida por
behaviorismo, segundo a qual as pessoas podiam ser moldadas praticamente de
todas as maneiras possíveis pela aprendizagem. Se a mente é uma tábua rasa,
então que importa saber o que aconteceu na Idade da Pedra? O campo da
economia tem sido dominado por algo a que se dá o nome de teoria da escolha
racional, que afirma que as pessoas tentam maximizar os valores egoístas. Os
valores são flexíveis, e os economistas não se preocupam muito em saber quais
eles serão, desde que possam empregar os seus modelos de optimização. A
teoria da evolução foi forçada a manter-se na sombra, enquanto estas outras
teorias ocupavam o primeiro plano. Até os cientistas mais talentosos e de
espírito mais aberto nestes campos estão condicionados por acontecimentos que
tiveram lugar antes de eles terem nascido e que se tornaram a base da sua
formação específica, como vimos no caso dos autores da BBS, que tiveram de
descobrir a evolução à sua custa.
Uma teoria não passa de uma maneira de organizar ideias que parece
capaz de compreender o mundo. Os métodos científicos são meras formas de
rejeitar ou apoiar afirmações factuais que derivam das teorias. Não
apreendemos automaticamente o mundo tal como ele de facto é e temos uma
propensão particular para os preconceitos que nos favorecem. Por definição, a
curto prazo estes preconceitos são vantajosos para algumas pessoas, mas muitas
vezes a longo prazo são prejudiciais para outras pessoas e mesmo para toda a
gente. Por conseguinte, chegar a acordo para estabelecer, proteger e respeitar
um corpo de informações factuais reveste-se de uma qualidade moral
semelhante à das normas de uma religião ou de um governo democrático. Nem
sempre é fácil, especialmente quando o interesse pessoai parece estar em causa,
mas os factos, por si sós, nunca conduzem a acções. Podem apenas dar forma a
um sistema de valores. Eu preferia viver numa sociedade baseada em factos
consistentes interpretados por um bom sistema de valores a viver em qualquer
outro tipo de sociedade.
Então que teoria é esta que parece explicar tão bem o mundo e até mesmo
aumentar o conhecimento que temos de nós próprios? Agora que limpámos o
convés das controvérsias do passado, desfraldemos as velas para dar início à
nossa viagem.

3
Um terceiro modo
de pensar

Ateoria da selecção natural de Darwin é como uma receita com três


ingredientes. Começamos com a variação. Os indivíduos como o leitor e eu
somos diferentes em quase tudo o que pode ser medido, como a altura, a cor dos
olhos ou a rapidez com que nos irritamos. Depois acrescentamos as
consequências. As dissemelhanças entre nós às vezes fazem diferença na nossa
capacidade de sobreviver e de nos reproduzirmos. Talvez o facto de ser maior do
que eu lhe permita tirar-me o que tenho ou mesmo matar-me. Talvez o meu
tamanho inferior me permita sobreviver no Inverno com menos comida. Os
pormenores dependem das nossas características particulares e do ambiente em
que vivemos. O ingrediente final, uma espécie de fermento que completa a
receita, é a hereditariedade. No que diz respeito a muitas características, os
filhos têm tendência a assemelhar-se aos pais. Darwin não sabia como a
hereditariedade funcionava num sentido mecanicista, mas ela era um facto
inquestionável.
Quando estes ingredientes se associam, produzem um resultado
aparentemente inevitável. Imaginemos, por exemplo, uma população de
borboletas que variam na cor (primeiro ingrediente). Algumas são mais fáceis
de detectar e são mais facilmente comidas pelos predadores, sendo eliminadas
da população (segundo ingrediente). A descendência das sobreviventes parece-
se com os progenitores (terceiro ingrediente), de modo que toda a geração de
descendentes se torna, em média, mais críptica do que a geração parental. Se
repetirmos o processo ao longo de muitas gerações, e se nada mais acontecer
para complicar a nossa história, os predadores vão ter muita dificuldade em
descobrir as borboletas. Se pudéssemos representar a imagem de cada geração
numa folha e usar a resma de folhas como um desses livros em que as imagens
parecem em movimento quando os folheamos, as borboletas pareceriam fundir-
se com o fundo. Adquiriram uma característica que as ajuda a sobreviver no seu
ambiente. Em jargão evolutivo, aumentaram a sua fitness, ou seja, o sucesso
reprodutor ao longo da vida, e tornaram-se bem adaptadas.
E isto é tudo? Quase. Aprender o que é a selecção natural é como ter uma
ejaculação precoce. Pensa-se que vai demorar muito tempo e conduzir a um
clímax fantástico, mas acaba quase no momento em que começou!
A pergunta fundamental sobre a selecção natural não é «O que é?» ou
«Isso acontece mesmo?», mas «O que tem ela de tão extraordinário?». Para
responder a esta pergunta, imagine que lhe pus um objecto na mão, talvez uma
pedra reluzente ou um rato felpudo, e lhe pergunto como obtiveram as suas
propriedades. Antes de Darwin só teria duas opções. Podia dizer que Deus assim
quisera, de acordo com os Seus desígnios. Talvez a pedra fosse reluzente para
agradar à vista e o rato fosse um animal nocivo, que propagava a peste, para nos
ensinar a humildade. Ou podia desmontar o todo e explicá-lo como produto das
suas partes. Talvez a pedra fosse reluzente por conter cristais de quartzo e o pêlo
do rato queratina. O que a selecção natural tem de tão extraordinário é que
fornece uma terceira maneira de explicar as propriedades do rato, embora não
as da pedra. Podia-sedizer que, devido à selecção natural, o rato possui as
propriedades que lhe permitem sobreviver e reproduzir-se no seu meio
ambiente.
É óbvio que a explicação da selecção natural é diferente da explicação
teológica. A razão por que também é diferente da explicação material é um
pouco mais subtil. Imagine que lhe ponho uma escultura de argila na mão e lhe
pergunto como obteve ela as suas propriedades. Dedicaria a maior parte da sua
resposta a falar da forma criada pelo artista, e não das propriedades da argila. A
argila permite mas não causa as propriedades da escultura. Exactamente do
mesmo modo, a variação hereditária transforma os organismos numa espécie de
argila viva que pode ser modelada pela selecção natural. É habitual os
evolucionistas como eu prevermos as propriedades de organismos sem qualquer
referência àquilo de que são feitos, nem sequer aos seus genes.
A fim de exemplificar o poder desta maneira de pensar, consideremos a
questão do infanticídio. Uma vez que a selecção natural tem a ver com a
descendência, pode parecer patológico eliminar esta última. No entanto, com
um pouco de esforço, talvez se consiga pensar em situações ambientais que
tornem o infanticídio adaptativo. Nas minhas aulas faço os alunos virarem-se
para os vizinhos e discutirem durante alguns minutos as diferentes
possibilidades a este respeito antes de me apresentarem as suas sugestões.
Podemos estar certos de que irão identificar as seguintes situações que tornam o
infanticídio adaptativo.
A primeira é a falta de recursos. Se uma mãe não consegue alimentar-se e
cuidar da sua progenitura, isto não irá aumentar a sua fitness para ter mais
descendentes. A segunda é a fraca qualidade da progenitura. Uma
descendência com pouca probabilidade de sobreviver e de se reproduzir não irá
aumentar a fitness de um progenitor para a criar. A terceira é a paternidade
incerta. Com algumas excepções importantes (continue a ler!), criar uma
descendência alheia não irá aumentar a fitness de um progenitor. Esta terceira
situação depara-se principalmente aos machos dos mamíferos como nós,
embora uma ave do sexo feminino possa ser «enganada» por outra fêmea que
põe os ovos no seu ninho.
Os meus alunos (e talvez também o leitor) responderam muito bem, uma
vez que, segundo os cientistas que realmente estudam o assunto, na realidade
estas são as três grandes situações que favorecem a evolução do infanticídio. A
mensagem deste exercício é simples, mas profunda: Como é que os meus alunos
se tornaram tão inteligentes? Não tinham lido nada sobre infanticídio e tenho
esperança de que não tivessem experiência dele. Tinham acabado de iniciar a
sua formação no domínio da evolução, mas mesmo uma parcela minúscula lhes
permitiu tornarem-se peritos, acertando como mísseis termoguiados nas
previsões feitas pelos especialistas. É este o poder do pensamento da selecção
natural, que o torna tão importante.
Os meus alunos também se tinham tornado peritos em taxonomia. Não
precisaram de ser entomologistas, ictiologistas, herpetologistas, ornitologistas
ou mamalogistas para fazerem uma afirmação importante sobre os insectos, os
peixes, os répteis, as aves e os mamíferos. O pensamento da selecção natural
baseia-se na relação entre um organismo e o seu meio ambiente,
independentemente da sua identidade taxonómica.
Ainda melhor, os meus alunos tornaram-se especialistas sem qualquer
conhecimento da constituição física dos organismos. Em nenhuma espécie
particular. o comportamento infanticida será causado por mecanismos físicos
que operam através de determinadas vias, mas não precisamos de saber isto
para prever a ocorrência do comportamento. Desde que tenhamos a argila viva
da variação hereditária, podemos fazer previsões baseadas na influência
modeladora da selecção natural.
Finalmente, podemos repetir o exercício para nos tornarmos peritos
numa infinidade de outros assuntos. Por que motivo são os machos maiores do
que as fêmeas em determinadas espécies e se verifica o inverso noutras? E, para
já, porque existem dois sexos? Porque nascem machos e fêmeas em proporções
iguais em certas espécies mas não noutras? Por que motivo alguns organismos
se reproduzem uma vez e depois morrem, enquanto outros se reproduzem a
intervalos regulares? Porque vivem algumas plantas três semanas e outras três
mil anos? Porque são alguns organismos sociais e outros solitários? Entre os
organismos sociais, porque cooperam alguns indivíduos e outros fazem batota?
As perguntas deste tipo são intermináveis.
Dentro em pouco, irei acrescentar algumas especificações ao poder do
pensamento da selecção natural, mas por agora vamos fazer uma pausa para
apreciar o seu imenso alcance explanatório. No início deste livro afirmei que
praticamente qualquer pessoa pode tornar-se um evolucionista aprendendo a
pensar como Darwin. Talvez isto tenha parecido uma loucura, mas agora espero
que possa perceber que se trata de uma sugestão muito sensata e realista. O que
precisamos de apreender é a ideia central da selecção natural, que constitui um
instrumento poderoso mesmo na sua forma mais rudimentar. Isto aplica-se ao
próprio Darwin, que evocou o seu momento de iluminação como se tivesse sido
atingido por um raio.
Recordo-me do sítio exacto da estrada, quando seguia na minha carruagem, em que,
para meu júbilo, me ocorreu a solução. [...j Segundo creio, esta solução é que a
descendência modificada de todas as formas dominantes e em crescimento tende a
tornar-se adaptada a diversos lugares altamente diversificados na economia da natureza.

Antes deste golpe de inspiração, Darwin debatera-se com milhares de


pequenas parcelas de informação que recusavam encaixar umas nas outras.
Nesse momento viu como podiam tornar-se um grande quadro, como se
formassem um puzzle. Não admira que tivesse usado a palavra «júbilo» para
descrever a experiência!
Também é júbilo que sinto quando examino a vastidão e a amplitude da
criação e se me deparam assuntos e organismos que estimulam a minha
fantasia: timidez e audácia dos peixes à segunda-feira, postura de ovos das aves
na terça, mexeriquice humana na quarta. Enche-me de júbilo pensar em coisas
tão diferentes como parte de um quadro único, mas é um prazer especial
trabalhar nelas a nível profissional, descobrindo novas peças e o modo como
estas encaixam pela primeira vez. Como é surpreendente que praticamente
todos nós consigamos começar a expandir os nossos horizontes e a encaixar as
peças do nosso mundo tendo como base uma ideia tão simples!

4
Provem-no!

A evolução é uma teoria fantástica para prever as propriedades dos


organismos, mas não é garantido que nenhuma teoria seja correcta. A menos
que as previsões possam ser comprovadas por métodos científicos, o progresso
fica imobilizado. Ouvindo certas pessoas, o leitor poderá pensar que, ao cabo de
todos estes anos, a teoria da evolução continua por comprovar. Mesmo alguém
tão ilustre como o presidente dos Estados Unidos (George W. Bush) declarou
que ainda não foi proferida a sentença. Quando arregaçamos as mangas e
abordamos o trabalho científico como uma tarefa árdua e prática é fácil
percebermos como isto é disparatado.
Estudei o infanticídio num insecto maravilhoso, o escaravelho-necrófago
(família Silphidae, género Nicroph orus). Se quiser ver um destes escaravelhos,
pegue num bocado de carne crua aproximadamente do tamanho de um ovo e
ate-o muito bem com um longo pedaço de fio dental. Coloque-o no chão numa
zona arborizada e volte no dia seguinte. Há boas hipóteses de a carne ter
desaparecido, mas o fio dental ainda estará visível. Siga-o até ao sítio onde ele
desaparece enterrado no solo, retire a terra com cuidado utilizando uma colher
e é provável que encontre a carne com dois grandes escaravelhos das cores do
Haloween, laranja e preto. Se olhar mais de perto, verá que têm nas costas
ácaros, semelhantes a passageiros de um avião.
Estes escaravelhos, que se alimentam de carne putrefacta, são
especializados em pequenas carcaças, como ratos e aves bebés caídas dos
ninhos. São dos raros insectos que praticam os valores familiares: tanto a mãe
como o pai ficam a criar a descendência. Trabalham juntos, arrastam a carcaça
até um local adequado e enterram-na numa câmara subterrânea onde fica
protegida. Por si só, esta proeza é extraordinária, porque a carcaça pode ter um
peso muitas vezes superior ao do insecto e o solo contém obstáculos como raízes
e pedras. Uma vez a carcaça enterrada, a fêmea põe os ovos no solo que a rodeia
e o casal começa a prepará-la para a ninhada. Isto implica remover o pêlo ou as
penas, fazer rolar a carcaça inúmeras vezes na câmara subterrânea até ela ficar
com uma forma esférica e cobri-la com uma secreção que impede o
desenvolvimento de micróbios. Os pais devem ocupar-se da carcaça
continuamente porque, quando os retiramos, desenvolve-se imediatamente uma
camada de fungos ou de bactérias.
Quando os ovos eclodem, os pais chamam as pequenas larvas para a
carcaça, emitindo um som que produzem esfregando as asas anteriores
endurecidas contra o abdómen. Em vez de se alimentarem directamente da
carcaça, as larvas aglomeram-se à volta dos pais, que regurgitam comida pré-
digerida. Quando as larvas crescem alimentam-se directamente da carcaça,
reduzindo-a a ossos ao mesmo tempo que se vão transformando em larvas
brancas e gordas. Mal estas abrem túneis no solo onde se irão transformar em
insectos adultos, os pais voam um para cada lado em busca de outras carcaças.
Isto poderia parecer uma história simpática, mas encerra um lado negro. A
carcaça pode variar de dimensões, podendo ir do tamanho de um rato bebé até
ao de um esquilo adulto. Será que os escaravelhos-necrófagos adaptam o
tamanho da prole ao tamanho da carcaça? E, se assim for, como conseguem
fazê-lo? Acontece que procedem mesmo a um ajustamento e põem-no em
prática por meio do infanticídio. Ao mesmo tempo que se ocupam de uma parte
da descendência, devoram a outra até reduzirem a ninhada a uma dimensão
apropriada ao tamanho da carcaça. Este processo ilustra a primeira situação
ambiental que favorece a evolução do infanticídio: a falta de recursos.
Como posso afirmar estes factos com uma tão grande certeza? Fui ao
supermercado e comprei um conjunto de caixas de plástico para sapatos e um
saco de terra. Enchi as caixas com terra e coloquei um casal de escaravelhos e
um rato morto em cada uma delas. Metade dos ratos eram pequenos e a outra
metade grandes. Desmanchei um terço das caixas depois da postura e antes de
os ovos terem eclodido. Contei os ovos e descobri que as fêmeas que enterram
ratos pequenos põem exactamente o mesmo número de ovos que as fêmeas que
enterram ratos grandes. Desmanchei outro terço das caixas durante o estádio
larvar e descobri que o tamanho da ninhada se tinha tornado proporcional ao
tamanho da carcaça. Permiti que a descendência completasse o seu
desenvolvimento no último terço e descobri que não havia diferença de tamanho
dos escaravelhos alimentados com as carcaças grandes e pequenas. Por outras
palavras, o número de descendentes havia sido regulado com uma precisão
notável de modo que o seu tamanho médio permanecia constante.
A regulação tem lugar depois da fase de ovo. Como se realiza? Podia tratar-
se de infanticídio, de competição entre a descendência ou até de suicídio. A
observação directa resolveu a questão. É fácil ver os adultos a cuidarem de parte
da prole e a devorarem o resto até o tamanho da ninhada ser proporcional ao
tamanho da carcaça. A sua estratégia adaptativa consiste numa sobreprodução
na fase embrionária e numa redução na fase larvar. Tanto o infanticídio como os
cuidados dos progenitores fazem parte desta estratégia.
Outra questão que me interessa consiste em saber por que motivo ambos
os progenitores ficam a cuidar dos filhos. Há várias possibilidades. Afinal ser
um escaravelho-necrófago é um trabalho árduo. Têm de arrastar uma coisa
muitas centenas de vezes maior do que eles, de a enterrar, de trabalhar
incansavelmente para impedir o desenvolvimento microbiano, e por aí adiante.
Os meus colegas e eu, que estudamos este ser maravilhoso, fizemos numerosas
experiências do género da que descrevi para a regulação da ninhada, tanto no
laboratório como no seu habitat natural. Verificámos com surpresa que, na
maioria dos aspectos, as «mães solteiras» se saíam tão bem como as famílias
intactas. Não estávamos à espera disto e ainda nos custa a acreditar, mas é para
isso que os resultados apontam. A principal situação que exige o pai além da
mãe tem a ver com a expulsão dos intrusos.
Verificámos que o maior perigo com que os escaravelhos-necrófagos se
defrontam são os outros escaravelhos-necrófagos. Com o seu olfacto apurado,
conseguem detectar uma carcaça enterrada e quando a encontram segue-se um
combate. Machos e fêmeas são igualmente ferozes e não existe entre eles uma
diferença sensível de tamanho. Se o intruso sai vencedoi ele ou ela mata a prole
do vencido para arranjar espaço para a sua. O membro residente do mesmo sexo
é expulso e o membro residente do sexo oposto acasala obrigatoriamente com o
assassino dos filhos. Esta é a terceira situação ambiental qué favorece a evolução
do infanticídio: estar em presença de filhos alheios.
E a segunda situação ambiental que favorece a evoluçãõ do infanticídio —
a fraca qualidade da descendência? Se os progenitores reduzem o tamanho da
ninhada, não faria sentido avaliarem a sua qualidade para reterem os melhores?
Não posso responder a esta pergunta, pois ainda não foi feita a experiência
apropriada. Todavia, aposto que consegue imaginar como ela poderia ser
concebida. Basta ir ao supermercado comprar mais caixas e mais terra. Em
metade das caixas, intercepta os jovens à medida que vão chegando à carcaça e
reduz o tamanho da ninhada retirando-lhe alguns membros ao acaso. Na outra
metade das caixas deixa os progenitores procederem como bem entenderem.
Compare a qualidade da descendência (a sua capacidade de sobreviver e de se
reproduzir) e festeje o facto que acaba de documentar com uma cerveja.
Este tipo de ciência de mangas arregaçadas documenta factos da mesma
maneira que uma fábrica produz tijolos. Um tijolo é um objecto humilde, com
pouca utilidade em si mesmo, mas é duradouro e torna-se importante associado
a outros tijolos. O mesmo acontece com os factos documentados por métodos
científicos. Um facto como «os escaravelhos-necrófagos regulam o tamanho da
ninhada, mas não na fase embrionária» é insignificante e pouco vale em si
mesmo. Contudo, partindo do princípio de que sobrevive ao exame de outros
cientistas, é duradouro e será tão verdadeiro daqui a quinhentos anos como é
hoje. A ideia de que a ciência é difícil de pôr em prática e de que os factos nunca
são fiáveis é incorrecta ao nível do tijolo.
As grandes teorias como a da evolução e o criacionismo são avaliadas não
por uma única experiência decisiva, mas pela perfeição com que interpretam os
inúmeros factos que nos rodeiam como pilhas de tijolos. O criacionismo falha
como teoria em parte por ser tão inútil. Alguém sabe qual a vontade de Deus
relativamente aos escaravelhos-necrófagos? O pensamento da selecção natural,
pelo contrário, fornece previsões muito específicas, como «o infanticídio poderá
ocorrer principalmente em três situações». As previsões podem estar certas ou
erradas, mas pelo menos dizem-nos o que devemos procurar. Quando uma
previsão pormenorizada se confirma, serve de apoio à teoria de que resultou a
previsão — nunca de uma forma decisiva, mas apenas cumulativa. Talvez não
tenha ficado convencido com a selecção natural a grande escala, mas tem de
admitir que ela fez um bom trabalho a informar-nos sobre onde encontrar o
infanticídio nos besouros-necrófagos.
E não apenas nestes insectos. Os cientistas são incansáveis e têm andado a
produzir factos coerentes sobre o infanticídio em todo o tipo de espécies. Se
tiver acesso à Internet, vá ao Google Scholar (http://www.scholar.google.com),
um ramo especializado do Google que pesquisa literatura científica. Digite
«infanticide» e obterá mais de 25 mil entradas com informação sobre dezenas e
dezenas de espécies, desde outros insectos até ao gorila-das-montanhas.
Predominantemente, o infanticídio verifica-se nas «três grandes» situações que
os meus alunos, com pouquíssimos conhecimentos sobre selecção natural,
conseguiram identificar.
Também encontrará muitas informações sobre o infanticídio na nossa
espécie. Gostava de saber se ocupamos um lugar à parte em relação ao resto da
natureza ou se nos encaixamos no mesmo padrão? Os meus alunos gostavam,
mas tenho de o manter na expectativa até um capítulo posterior.
Talvez fiquem surpreendidos por um escaravelho-necrófago, com um
cérebro do tamanho de uma semente de mostarda, ser capaz de um
comportamento tão sofisticado. Arrastar a carcaça, enterrá-la, modificá-la,
avaliá-la não exigirá inteligência? A inteligência não será uma coisa que nós
possuímos e ele não? A teoria da evolução não faz uma previsão sólida sobre
esta questão. À primeira vista, é plausível que os comportamentos sofisticados
exijam grandes cérebros. Se assim fosse, os seres com pequenos cérebros
comportar-se-iam de maneira pouco sofisticada (por exemplo, pondo ovos, mas
não regulando o tamanho da ninhada) e os seres com grandes cérebros
comportar-se-iam de maneiras sofisticadas (por exemplo, regulando o tamanho
da ninhada) e nós seríamos os mais sofisticados de todos. É provável que há
cinquenta anos a maioria dos evolucionistas supusesse que assim era, mas os
factos contaram uma história diferente. A maioria das espécies revelou-se
muitíssimo boa a resolver os problemas relevantes para a sua sobrevivência e
reprodução, como vimos no caso dos escaravelhos-necrófagos. As capacidades
mentais dos animais podem ultrapassar em muito a nossa no que se refere a
tarefas específicas. Algumas formigas são capazes de encontrar o caminho para
casa através de uma paisagem sem características distintivas orientando-se pelo
Sol. Conseguem fazer isto? O chapim consegue recordar a localização de
milhares de alimentos que armazenou durante o Outono e que recupera durante
o Inverno, enquanto nós temos dificuldade em encontrar as chaves de casa.
Contudo, nós somos especiais na flexibilidade da nossa inteligência. A nossa
espécie consegue resolver problemas absolutamente novos de uma maneira de
que as outras espécies são incapazes.
Há um século, o grande naturalista francês Jean-Henri Fabre demonstrou
este facto com elegância relativamente aos escaravelhos-necrófagos. A fim de
mostrar que estes insectos não possuem uma inteligência semelhante à dos
seres humanos, atou a extremidade de um arame a um rato morto e a outra
extremidade a um pau enterrado no solo. Os escaravelhos não podiam roer o
arame, de modo que, para enterrar o rato, precisavam de derrubar o pau
escavando por baixo dele. Não se tratava de uma tarefa difícil, dado que os
escaravelhos são mestres em escavações. Todavia, tratava-se de uma tarefa
nova, pois os escaravelhos estão acostumados a escavar por baixo de ratos. Uma
pessoa depressa resolveria o novo problema, mas os escaravelhos ficaram sem
saber o que fazei Limitaram-se a repetir mecanicamente o que estavam
programados para fazer, sem um vislumbre de consciência ou de criatividade.
Fabre era um experimentalista exímio que demonstrou dezenas de factos
como aquele e que são tão consistentes hoje como quando foram documentados
pela primeira vez. Era também um criacionista, como a maioria dos naturalistas
da sua época, embora o criacionismo daquele tempo pouca semelhança tivesse
com a sua forma actual. Darwin, que o admirava e lhe chamava «aquele
observador inimitável», estava ciente de que os factos são uma propriedade
comum, que pode ser usada por qualquer teoria. A sua teoria explicava os factos
de uma forma tão superior mesmo nessa época, que o apoio ao criacionismo se
foi rapidamente desvanecendo. Não se tratou de uma conspiração contra a
religião, uma vez que o número dos evolucionistas era reduzido, mas sim da
maneira como os factos eram vistos. Os factos de Fabre subsistirão para sempre,
mas o modo como ele os interpretou dissipou-se como neblina matinal.
O que mostrei para o infanticídio pode repetir-se em relação a inúmeros
assuntos. Na realidade, o meu principal interesse em estudar os escaravelhos-
necrófagos não foi o infanticídio, nem sequer os escaravelhos, mas sim os
ácaros, que se podem ver olhando atentamente para os esçaravelhos. Também
estes se alimentam de matéria em putrefacção, mas, dado não possuírem asas,
necessitam que os escaravelhos se desloquem de umas carcaças para as outras.
Pode haver mais ácaros num único escaravelho do que passageiros num avião a
jacto, mas isso é outra história.

5
Cautela com aquilo
que deseja

Inúmeros contos tradicionais narram a história de alguém a quem é


concedido um desejo, mas em que tudo acaba por sair tremendamente errado.
Isto também se passa com a selecção natural. A natureza pode ser muitíssimo
inspiradora: a asa da borboleta, a sequóia que parece tocar no céu, a incrível
maquinaria do corpo e da mente. É fácil imaginar que as adaptações são sempre
benéficas, tal como as personagens dos contos tradicionais se convencem de que
os seus desejos as farão viver felizes para sempre. Mas as adaptações, tal como
os desejos, não são exactamente o que parecem. O infanticídio já nos deu um
indício do que pode correr mal. Imaginem-me sentado com a minha família à
mesa de jantar, só que não é um peru que estamos a trinchar, mas Bobby, o
nosso benjamim. Este ano não houve comida que chegasse para todos. É então
que uma mulher enorme abre a porta e entra de rompante, expulsa a minha
mulher de casa, assassina os meus outros filhos diante dos meus olhos e fica à
espera que eu acasale com ela imediatamente. Tudo isto são adaptações que
evoluíram nos escaravelhos-necrófagos através da selecção natural, mas que não
nos parecem inspiradoras e que não desejamos para nós!
A repulsa visceral que esta história provoca não se limita aos crentes
religiosos de coração sensível. Um dos primeiros cientistas a reflectir seriamente
no infanticídio como adaptação foi a primatologista Sarah Blaffer Hrdy, que
observou machos langures (primatas asiáticos) a penetrarem de rompante num
bando, a expulsarem o macho residente e a tentarem matar a descendência tal
como descrevi para os escaravelhos-necrófagos e na minha história sinistra. A
sua sugestão de que o infanticídio era adaptativo para os machos foi acolhida
com repulsa e reacções escandalizadas por muitos membros da comunidade
científica. Como podia um comportamento tão desprezível ser adaptativo? Sem
dúvida tinha de ser patológico, talvez provocado por qualquer coisa não
natural, como o excesso populacional. Os ânimos exaltaram-se, mas graças aos
métodos científicos ainda se registaram progressos. Os proponentes da teoria do
excesso populacional viram-se forçados a aceitar as previsões sobre quando
teria lugar o infanticídio. A hipótese do excesso populacional não foi apoiada
pelos factos e foi-se desvanecendo lentamente.
O cerne da questão é que, frequentemente, o conceito evolutivo da
adaptação se afasta do que consideramos benéfico. As adaptações podem ser o
exemplo perfeito do egoísmo de vistas curtas, prejudicando mesmo toda a gente
a longo prazo. Isto é ameaçador, pois parece implicar que o mundo não é e
nunca poderá ser como desejaríamos e que as nossas utopias não passam de
ilusões reconfortantes. É comum reagir a isto de diversas maneiras, todas elas
insatisfatórias.
Quem é cínico pode limitar-se a sorrir e a dizer «Eu bem dizia». Os cínicos
acreditam que as nossas utopias são ilusões reconfortantes, de modo que para
eles o lado sombrio da teoria da evolução não põe nenhum problema. Eu não
sou um cínico, como provavelmente já terá percebido. Gosto de aceitar o bem tal
como é e penso que o mundo pode ser muito melhor no futuro do que no
passado ou no presente. Além disso, julgo poder provar que na teoria da
evolução há espaço para o meu tipo de optimismo, por estranho que isso possa
parecer.
Outra reacção consiste em declarar a evolução um assunto tabu. Já
descrevi isto quando imaginei uma pessoa a gritar «Um monstro horrível vem
na nossa direcção! Vamos fingir que não é nada connosco!» No mínimo,
deveríamos reunir a coragem para enfrentar a ameaça.
Uma terceira reacção consiste em depurar a evolução, centrando-nos
principalmente nas suas criações não ameaçadoras e que inspiram respeito. Um
livro recente, intitulado Inside the Mind of God: Images and Words of Inner
Space, de Sharon Begley e Michael Reagan, associa imagens extraordinárias do
mundo natural microscópico com passagens inspiradoras e é um bom exemplo
desta atitude. Um dos seus aspectos positivos é incluir uma boa introdução e
imagens extraordinárias de células cancerosas e do vírus da sida, bem como do
ADN e de sinapses nervosas. No entanto, o objectivo da obra é nitidamente criar
o mesmo tipo de reverência com que entramos numa catedral. Isso nada tem de
errado, mas é um empreendimento diferente do tipo de abordagem da ciência
de mangas arregaçadas que eu tento transmitir e que deve conceder igual
atenção ao bom, ao mau, ao belo e ao feio.
Uma quarta reacção consiste em enfrentar a música evolutiva e declarar
que podemos melhorar a vida de algum modo «rebelando-nos contra os nossos
genes», como se a evolução não deixasse espaço para o optimismo e outra teoria
qualquer o fizesse. O meu problema com esta reacção é que a outra teoria nunca
é descrita com clareza. Só entra em cena para salvar a situação como o herói de
um filme mau. Poderá estar a pensar «E o saber e a cultura? Não serão esses os
heróis em que já confiámos para nos salvarem dos nossos genes perversos?»
Está certo, mas mais adiante vou mostrar que o saber e a cultura são mais fáceis
de compreender no quadro da teoria da evolução do que no das teorias
alternativas.
Que reacção é aceitável se estas não o forem? A minha história tem um
final feliz, que o facto de ser completamente realista ainda torna mais feliz. Eis
como a apresento aos meus alunos. Em primeiro lugar, peço-lhes que façam
uma lista das características que associam ao bem. Como descreveriam um
indivíduo moralmente perfeito? Depois peço-lhes que façam uma lista das
características opostas, que associam ao puro mal. Só há uma condição: tal
como nas histórias tradicionais em que é pedido um desejo, não lhes é
permitido mudar de opinião. Eles divertem-se com este exercício e é habitual
referirem as seguintes características:

Características boas Características más


Altruísmo Egoísmo
Honestidade Falsidade
Amor Ódio
Sacrifício Avareza
Bravura Cobardia
Lealdade Traição
Capacidade de perdoar Despeito
Estas listas, que são a representação-padrão do bem e do mal, não são
surpreendentes. Em seguida peço-lhes que considerem três experiências
imaginárias:
Que acontecerá se puserem uma pessoa boa e uma pessoa má juntas
numa ilha deserta? Os meus alunos não consideram esta pergunta um desafio.
Dentro de poucos dias a pessoa boa tornar-se-á comida de tubarão. Como diz o
Ray Charles numa velha canção, <She took advantage of my goodness and made
a pitiful fool out of me», ou seja, «Ela aproveitou-se da minha bondade e
enrolou-me».
Que acontecerá se puserem um grupo de pessoas boas numa ilha e um
grupo de pessoas más noutra? Eles também acham simples responder a isto. O
grupo bom irá trabalhar em conjunto para sair da ilha ou para a transformar
num pequeno paraíso, enquanto o grupo mau se irá auto- destruir.
Que acontecerá se deixarem uma pessoa má nadar até à ilha da Virtude?
A resposta a esta pergunta não é óbvia, pois é uma combinação complicada das
respostas fáceis às duas primeiras perguntas.
A mensagem deste exercício é simples mas profunda. Ela mostra que o
bem pode evoluir, pelo menos em condições apropriadas. É provável que os
grupos de indivíduos que manifestam características boas sobrevivam e se
reproduzam melhor do que qualquer outro tipo de grupo. O problema com o
bem é a sua vulnerabilidade à subversão vinda do seu interior. Na medida em
que a selecção natural se baseia nas diferenças de fitness dentro dos grupos, as
características associadas com o mal são o desfecho esperado. Na medida em
que a selecção natural se baseia nas diferenças de fitness entre grupos, as
características associadas com o bem são o desfecho esperado. Se for rápido,
talvez já estejam a perguntar: «Os comportamentos que contam como bons
dentro dos grupos não podem ser usados para fins maus entre os grupos?» A
resposta é afirmativa, e ilustra outra forma de a adaptação se poder tornar má:
grupos cujos membros são bons até mais não uns para os outros e que pintam a
manta contra outros grupos. Isto lhe diz nada? Voltarei a este problema (e a
possíveis soluções) mais adiante, mas por agora precisamos de avaliar os
progressos que fizemos: o que os meus alunos (e talvez o leitor) consideram
bom pode evoluir como adaptação biológica. A única exigência é haver
indivíduos que manifestem características boas a interagirem uns com os outros
e a excluírem indivíduos que manifestem características más.
Na frase anterior escolhi as palavras com todo o cuidado e disse
«indivíduos que manifestem características boas (ou más)» em vez de
«indivíduos bons (ou maus)». Fi-lo por ser fácil imaginar indivíduos com
comportamento flexível, capazes de exibir características boas ou más. Não
podemos rotular indivíduos flexíveis, apenas a maneira como se comportam, e o
bem evolui quando os comportamentos se agrupam de forma adequada.
No final do exercício, alguns dos meus alunos sentem-se tentados a mudar
de opinião sobre o que conta como bem e mal, embora eu lhes diga que
escolham com cuidado. Há uma certa tendência, sobretudo na nossa civilização,
para identificar «bem-sucedido» com «egoísta». Uma maneira de o fazer
consiste em imaginar o que faria um indivíduo egoísta sabendo que seria
inserido num grupo consoante a maneira como se comporta. Um indivíduo
assim optaria por ser bom na segunda experiência, pois a sua única alternativa é
ser um indivíduo bom num grupo bom ou um indivíduo mau num grupo mau.
Isto não torna o bem egoísta, pelo menos quando funciona? A questão
importante seja qual for o prisma por que se encare o assunto — é haver duas
vias muito diferentes que conduzem ao sucesso evolutivo. Uma envolve explorar
o nosso vizinho e a outra envolve colaborar com ele para alcançar resultados
benéficos. A segunda via cria espaço na teoria da evolução para aquilo a que
chamamos bem.
Ver as duas vias permite-nos avançar muito no sentido de reduzir a
ameaça tantas vezes associada à evolução. Já afirmei anteriormente que esta é
ameaçadora, pois parece implicar que o mundo não é e nunca poderá ser como
nós desejaríamos. Agora podemos ver que esta implicação é falsa. Se as
características que associamos ao bem podem evoluir, podemos torná-las mais
comuns criando condições ambientais que lhes sejam propícias. Longe de negar
o potencial para a mudança, a teoria da evolução pode fornecer uma receita
pormenorizada para a alcançar.
Também afirmei que podia provar que na teoria da evolução existe espaço
para o meu tipo de optimismo, o que inclui aceitar o bem incondicionalmente e
pensar que o mundo pode ser melhor no futuro do que no passado ou no
presente. Embora a minha pretensão possa ter parecido extravagante, não foi
isso precisamente o que fiz? Se a teoria da evolução deixa espaço para o
optimismo, haverá necessidade de procurar noutro sítio alguma coisa que nos
«salve dos nossos genes»?
Ver ambas as vias também nos ajuda a evitar os erros envolvidos em
depurar a evolução. O indivíduo médio sabe que os comportamentos imorais
são comuns e tentadores porque beneficiam quem os pratica, que os grupos
humanos têm uma tendência inquietante para limitar o bem aos seus próprios
membros, e por aí adiante. No Antigo Testamento, o próprio Deus ordena ao
povo eleito que cometa infanticídio e castiga aqueles que mostram compaixão
pelo inimigo (por exemplo, 1.° livro de Samuel, capítulo 15). Sabendo isto sobre
a nossa própria espécie, porque haveríamos de pretender que a evolução ou a
natureza como um todo é algo de inerentemente bom? Na realidade, as
altíssimas sequóias são admiráveis, mas a razão pela qual estas árvores são tão
altas é privar de luz os seus vizinhos mais baixos. Se quisermos pregar sobre a
natureza, façamo-lo com um sermão em que se invoque «fogo e enxofre», no
qual o bem só pode ser alcançado criando as condições adequadas — escolhendo
os caminhos rectos e estreitos, como diria um pregador.
Da mesma maneira que não descreveríamos a natureza como uma
catedral, também não a descreveríamos como uma arena de gladiadores. As
características que associamos ao bem e as condições ambientais que permitem
que este evolua não se restringem à nossa espécie. A natureza não é boa como
um todo, mas, como dentro em pouco descobrirá, o bem existe na natureza em
lugares inesperados.
Toda esta conversa sobre bem e mal pode parecer de uma moralidade oca,
muito distante do mundo da ciência. Pelo contrário, se aprender alguma coisa
com este livro, deve ser o valor prático da teoria da evolução para a ciência como
actividade a desenvolver de mangas arregaçadas. As ideias do presente capítulo
podem mesmo ser usadas para qualquer coisa tão prática como criar galinhas
melhores.
Acontece que qualquer coisa muito semelhante à minha experiência
imaginária da ilha deserta já foi realizada com galinhas por William Muir, um
cientista que trabalha com galináceos. Quando falo de trabalho com galináceos,
não se ponha a imaginar uma pessoa de fato-macaco e chapéu de palha. A
ciência dos galinácios é um domínio sofisticado e Bili tem uma sólida formação
em genética e evolução. As galinhas sempre viveram em grupo e na moderna
indústria de produção de ovos são amontoadas de uma forma desumana em
gaiolas que em geral contêm nove a doze. Bili queria aumentar a produção de
ovos por meio da criação selectiva e tentou fazê-lo de duas maneiras. O primeiro
método consistia em seleccionar a galinha mais produtiva de cada uma de um
determinado número de gaiolas para procriar a geração de galinhas seguinte. O
segundo método consistia em seleccionar todas as galinhas das gaiolas mais
produtivas para procriar a geração seguinte de galinhas. Poder-se-ia pensar que
a diferença entre os dois métodos é pequena e que o primeiro método devia
funcionar melhor. Afinal trata-se de seres que põem ovos, de modo que
seleccionar os melhores indivíduos directamente devia ser mais eficaz do que
seleccionar os melhores grupos, o que poderia incluir algumas desgraças
individuais. Os resultados foram muito diferentes do que se poderia imaginar.
Quando Bili os apresentou, numa conferência científica a que assisti há
vários anos, mostrou um diapositivo com galinhas seleccionadas pelo primeiro
método após seis gerações. O público ficou boquiaberto. Dentro da gaiola havia
apenas três galinhas, e não nove, porque as outras seis tinham sido
assassinadas. As três sobreviventes tinham arrancado as penas umas das outras
durante os seus ataques incessantes e no momento em que foram fotografadas
estavam quase carecas. A produção de ovos tinha sofrido uma diminuição
acentuada no decurso da experiência, embora em cada geração tivessem sido
seleccionados os indivíduos mais produtivos. O que aconteceu? Os indivíduos
mais produtivos tinham conseguido o seu sucesso suprimindo a produtividade
dos seus companheiros de gaiola. Bili tinha seleccionado as galinhas mais
cruéis de cada gaiola e, após seis gerações, havia produzido uma raça de
psicopatas. O primeiro método correspondia à primeira versão da minha
experiência imaginária, na qual um indivíduo bom e outro mau são postos
juntos numa ilha deserta.
Em seguida Bili mostrou um diapositivo de galinhas seleccionadas pelo
segundo método após cinco gerações. A gaiola continha as nove galinhas,
gordas, com todas as penas e, a avaliar pela sua expressão, muito bem-
dispostas! No decurso desta experiência, a produção de ovos tinha aumentado
de uma forma espectacular. Ao seleccionar grupos inteiros, Bill eliminara
caracteres agressivos em favor de caracteres cooperativos, que permitiam às
galinhas coexistir harmoniosamente. O segundo método correspondia à
segunda e terceira versões da minha experiência imaginária, que incluía a
selecção natural ao nível de grupos. Inútil será dizer que foi este o método que a
indústria de criação de galináceos adoptou para obter uma boa produtividade de
ovos de galinha.
Os diapositivos eram tão surpreendentes que Bili teve a gentileza de me
oferecer cópias para mostrar nas minhas palestras. Depois de uma delas, uma
professora universitária correu para mim e exclamou: «O primeiro diapositivo
descreve o meu departamento! Sei os nomes dessas três galinhas!» Como é
evidente, o departamento dela tinha adoptado uma política de promoção dos
membros apenas com base nas suas realizações individuais, o que produzira
resultados comparáveis com os do primeiro método de criar galinhas e da
minha primeira experiência imaginária da ilha deserta. Claro que a evolução
genética não se tinha verificado, mas tinha ocorrido qualquer coisa que
produzia resultados comparáveis. Em breve irei referir o que poderia ser esse
«qualquer coisa». Por agora, sejam quais forem as afirmações que fizermos
sobre o bem e o mal humanos, posso garantir com toda a segurança que os ovos
dos nossos frigoríficos são produzidos por galinhas boas.
6
A loucura dos macacos

A selecção natural pode produzir adaptações requintadas, mas nem


sempre é assim. Em alguns casos elas fazem lembrar as engenhocas de Rube
Goldberg, montadas a partir de peças soltas. Em outros casos nem sequer
evoluem, embora se isso acontecesse fossem imensamente úteis. Estes factos
relativos à evolução têm sido sublinhados vezes sem conta, especialmente em
argumentos contra criacionistas e defensores do DI (Desígnio Inteligente). Se
conseguir identificar o deus, ou qualquer outro agente inteligente que tenha
criado as minhas dores nas costas e os meus joelhos com pouca força, diga-me,
para eu poder pedir que mos substituam!
O objectivo do presente capítulo não é desferir um novo golpe nos
criacionistas ou nos defensores do DI com o mesmo instrumento embotado. Na
realidade, todo este livro se desenrola num comprimento de onda no qual essa
gente ainda não está sintonizada. Para participar no jogo da ciência de mangas
arregaçadas eles precisariam de usar o seu conhecimento do agente inteligente
para preverem as propriedades dos organismos até ao mais ínfimo pormenor,
por exemplo, o momento provável em que os escaravelhos- necrófagos cometem
infanticídio. Precisariam de fazer as suas previsões antes de a informação estar
recolhida em vez de proferirem sentenças depois de as coisas terem acontecido.
Só nesse caso poderiam competir com a teoria da evolução na arena da recolha e
da interpretação dos factos. Pode tentar se quiser, mas duvido que seja bem
sucedido. Afinal, os proponentes do DI nem sequer sabem dizer-nos se o agente
inteligente é um deus. Além disso, a própria ideia de conhecer a vontade de
Deus de uma forma tão pormenorizada está em desacordo com muitas
doutrinas religiosas. Segundo João Calvino (como descobri enquanto escrevia
Darwin’s Cathedral), abandonar a húbris própria da ideia de que se pode
conhecer a vontade de Deus é o primeiro passo para conseguir ter acesso ao Seu
reino.
Mesmo sem tomar em conta os críticos da evolução, a imperfeição é um
conceito importante para os evolucionistas. A descrição do pensamento da
selecção natural que fiz no capítulo 3 foi demasiado simples. Podemos prever as
características que seriam adaptativas para um dado organismo numa dada
situação ambiental, mas a nossa previsão pode falhar por uma grande
quantidade de razões. Para ter uma ideia dos factores que impedem a selecção
natural, passo a apresentar o caso do macaco louco.
O nosso detective é o Dr. Stephen Suomi, um cientista importante dos
National Institutes of Health que trabalha com primatas. Enquanto
evolucionista, Steve valoriza a importância de estudar os animais em relação
com o seu meio ambiente natural. Sempre que possível, alberga os primatas em
grandes recintos ao ar livre e mantém-se em contacto com cientistas que
estudam as mesmas espécies na natureza. Em cada geração, uma pequena
percentagem de machos da sua colónia de macacos rhesus tinha um
comportamento descontrolado. É habitual os macacos rhesus bebés iniciarem a
vida com as mães e associarem-se gradualmente a «grupos de brincadeiras»
constituídos por outros macacos da mesma idade. Quando crescem, as fêmeas
permanecem no mesmo grupo, enquanto os machos partem para tentar a sua
sorte com outros grupos. Os macacos loucos pareciam descontrolados desde o
dia em que nasciam. As mães não conseguiam lidar com eles. O mesmo se
passava com os amigos. A maneira como Steve aprendeu a identificá-los foi
pelos riscos insanos que se dispunham a correr quando saltavam de ramo em
ramo. Atiravam-se literalmente contra as paredes do recinto onde se
encontravam encerrados!
(Pode parecer estranho que eu me refira pelo nome próprio a cientistas
notáveis como Bill Muir e agora Steve Suomi. Para mim é natural, pois quase
todas as minhas interacções com colegas em disciplinas muito díspares passam
pelo uso do nome próprio. Além disso, quando Steve estava na faculdade usava
o cabelo pelos ombros e o género de roupa que o comediante Mike Myers
parodiou nos filmes Austin Powers. Neste livro, vou pôr-vos em contacto com
muitos cientistas e académicos distintos e tratá-los-ei pelos primeiros nomes a
menos que me sinta pouco à vontade a fazê-lo na vida real.)
Como bom evolucionista, Steve suspeitava que aquela «loucura» fosse
biologicamente adaptativa para os indivíduos do sexo masculino, apesar dos
riscos que corriam e dos problemas que levantavam aos outros. A sua melhor
hipótese era os machos tresloucados entrarem em novos grupos e assumirem
uma posição de domínio, acasalarem com as fêmeas quer estas gostassem quer
não e, deste modo, perpetuarem os genes. Embora faça sentido, isto revelou-se
falso, pelo menos de acordo com os factos conhecidos até agora. Rejeitados pela
família e pelos amigos, os macacos tresloucados depressa deixam os grupos
onde nasceram para entrar em novos grupos antes de estarem prontos a
competir com os machos adultos. O acolhimento que lhes fazem nos novos
grupos é semelhante, o que os obriga a levar uma vida triste e solitária até
morrerem.
Por que motivo a selecção natural não se livra de uma coisa tão mal
adaptada? Incapaz de encontrar um benefício neste comportamento, Steve
tentou procurar uma causa mecanicista para ele. A biologia molecular moderna
permite que se estudem mecanismos como anteriormente não era possível, e ele
não tardou a ter uma suspeita: uma versão particular de um gene que influencia
o modo como o cérebro responde à serotonina, um neurotransmissor químico.
Nós actuamos sobre este químico quando tomamos um fármaco como o Prozac,
e os machos psicóticos tinham um gene que fazia o mesmo.
Encontrar um gene para associar ao comportamento foi um passo
importante, mas, em certos aspectos, só aprofundou o mistério. Este gene
surgiu por mutação algures num passado distante e depois aumentou para a sua
frequência actual, de aproximadamente dez por cento. Os indivíduos com o gene
reproduziam-se e sobreviviam melhor que os que não o possuíam. Isto pode
acontecer por casualidade com um gene que não tem efeito na fitness, mas Steve
já tinha mostrado neste caso um forte efeito negativo. Onde estava a vantagem
que superava a desvantagem e permitia ao gene tornar-se relativamente comum
na população em vez de permanecer raro?
Para encontrar a solução do mistério foi necessário olhar muito para além
dos machos loucos. O gene está localizado num dos autossomas e, por
conseguinte, existe em ambos os sexos. Talvez a sua desvantagem nos machos
seja contrabalançada por uma vantagem nas fêmeas. Uma vez identificado o
gene, era fácil verificar esta possibilidade. Claro que o mesmo gene que produz
machos loucos também produz fêmeas confiantes e capazes, que conseguem um
estatuto elevado dentro dos seus grupos. Além disso, só alguns dos machos que
têm o gene enlouquecem. Outros macacos machos têm o mesmo gene, mas são
cidadãos decentes. Estas descobertas não teriam sido possíveis sem primeiro
identificar um gene candidato associado a uma síndrome comportamental
particular (machos loucos), e em seguida procurar o gene em indivíduos que
não têm a síndrome.
Steve centrou-se depois na diferença entre machos que partilham o mesmo
gene, mas que não partilham a mesma síndrome. Revelou-se que a principal
diferença era o estilo parental das mães. As mães capazes conseguem canalizar
os sistemas neuroquímicos dos filhos para fins construtivos, mas as mães
incapazes perdem o controlo. Em jargão evolutivo, chama-se a isto um «efeito
de interacção». Um dado comportamento (como no caso dos machos loucos) é
causado por genes particulares que interagem de maneiras particulares com
elementos particulares do ambiente.
A mensagem desta história é que, quando fazemos o balanço dos custos e
benefícios que mantêm um dado gene a um determinado nível numa população,
temos de determinar a média em todos os ambientes a que o gene está sujeito.
Ele existirá nos machos e nas fêmeas (a menos que se encontre no cromossoma
Y de uma espécie como a nossa). Em cada sexo, estará sujeito a diferentes
ambientes sociais e físicos, que podem modificar-se no espaço e no tempo. Para
tornar as coisas mais complexas, um único gene não é o mesmo que uma única
característica visível. Um gene pode influenciar muitas características,
contribuindo todas elas para o cômputo dos custos e benefícios. Só se o cômputo
for equilibrado para o efeito médio de um gene este permanecerá na população.
Estamos habituados a fazer o cálculo de custos e benefícios para
organismos isolados. Na realidade, a teoria da escolha racional, que há muitos
anos serve de orientação ao campo da economia, defende a ideia de que os
indivíduos estão concebidos para maximizar as suas conveniências pessoais.
Isto pode ser válido em determinados casos, e era normal que Steve procurasse
benefícios que equilibrassem os custos para os seus macacos loucos. Mas não é
necessariamente verdadeiro em todos os casos, como Steve percebeu quando
descobriu que os custos estavam concentrados em alguns indivíduos e os
benefícios estavam concentrados noutros.
Os evolucionistas há muito que conhecem o cálculo de custos e benefícios a
nível dos genes, a que se dá o nome preciso mas pouco interessante de «efeitos
médios». Na década de 1970, o meu colega evolucionista Richard Dawkins
queria fazer uma descrição mais «gritante» da evolução para uma audiência
popular e criou a nova expressão «gene egoísta». Isso chamou a atenção das
pessoas, mas também gerou muita confusão, que subsistiu até aos nossos dias.
Um gene chama-se egoísta sempre que, após consideração de todos os factores,
sobrevive e se reproduz melhor que outros genes, mas isto é apenas uma
maneira de dizer «tudo aquilo que evolui». Por exemplo, imaginemos que as
características associadas ao bem e ao mal no capítulo 5 têm uma base genética.
Se as características boas evoluíssem por estarem convenientemente agrupadas
— como na segunda experiência com as galinhas e na segunda e na terceira
experiências imaginárias —, Richard chamar-lhes-ia egoístas porque
substituiriam as características más. Não interessa que tenham sido bem
sucedidas por se ajudarem mutuamente e apesar de serem exploradas pelas
características más que acabaram por fracassar. Não há maneira de o bem sair
vencedor sem ser reclassificado como egoísta.
Com o devido respeito por Richard, não precisamos de um novo termo
para «tudo aquilo que evolui» e muito menos de um termo com uma carga
como «egoísta». Todavia, se regressarmos à expressão muito menos
desagradável mas mais exacta de «efeito médio», podemos ver que o ponto de
vista do gene tem muito a seu favor. Explica como os indivíduos que funcionam
de uma forma deficiente podem persistir indefinidamente porque são o infeliz
repositório dos custos dos genes cujos benefícios residem em outros indivíduos
mais afortunados. Numa perspectiva optimista, isto mostra que o mesmo gene
pode ter manifestações comportarnentais muito diferentes, consoante o
ambiente com o qual esteja associado. Não temos necessariamente de recorrer a
uma «terapia genética» para curar a loucura dos macacos. Podemos também
recorrer a uma «terapia ambiental» ajudando as mães a tornar-se mais capazes.
O caso do macaco louco tem um desfecho fascinante. Há muitos anos,
Steve começou a trabalhar com macacos rhesus que vinham da China e não da
Índia. O seu técnico, em quem depositava toda a confiança e que havia muitos
anos trabalhava com os macacos indianos, não tardou a reparar que os macacos
chineses eram ainda mais malucos. Sem dúvida que a frequência do gene
associado com os machos psicóticos era mais elevada na população chinesa.
Steve teve um palpite de que os antepassados distantes da população chinesa
eram originários da Índia, o que exigia a travessia dos Himalaias. Que tipo de
macaco seria suficientemente louco para fazer uma coisa dessas?

7
Como o cão ficou
com a cauda enrolada

Dmitry K. Belyaev não estava onde queria estar. Era um geneticista russo
que se recusava a apoiar as teorias de cariz ideológico do seu colega Trofim
Lysenko, e por isso fora retirado de um posto de trabalho prestigioso em
Moscovo e enviado para a Sibéria — não para trabalhar no gulag, mas para criar
um novo instituto científico. Mesmo o seu antigo trabalho parecia estranho aos
olhos de um americano: chefe do Departamento de Criação de Animais com
Pêlo no Laboratório de Investigação Central de Criação de Animais para
Curtumes. No entanto, em 1959 Belyaev iniciou uma experiência no seu novo
instituto que revelou algo fundamental sobre a evolução em geral.
O objectivo restrito da experiência era criar uma variedade de raposa-
prateada mais mansa. Desde o início do século xx, as raposas-prateadas
selvagens eram criadas em jaulas para obtenção de peles, mas não eram de
modo nenhum animais completamente domesticados. Belyaev estabeleceu um
protocolo rígido para medir o grau de domesticação ao longo do
desenvolvimento, começando com animais com um mês e indo até aos que
tinham adquirido maturidade sexual. Os indivíduos eram seleccionados para
criação apenas com base no seu índice de domesticidade, sem atender a
nenhuma outra característica. Quarenta anos e quarenta e cinco mil raposas
mais tarde, Belyaev (que morreu em 1985) e os seus sucessores tinham
produzido uma nova raça à altura de receber o nobre título de «elite
domesticada». Em vez de fugirem das pessoas e de as morderem quando as
tratavam, como os seus antepassados haviam feito, as raposas da nova raça
ansiavam por contacto humano, ganindo, farejando e lambendo como cães,
ainda antes de completarem um mês.
É assim o poder da selecção artificial, que inspirou parcialmente a teoria
da selecção natural de Darwin. Todavia, o mais extraordinário nesta experiência
foi as raposas terem-se tornado semelhantes a cães noutros aspectos. As caudas
tinham ficado enroladas, as orelhas caídas, o pêlo às manchas. As pernas
tinham-se tornado mais curtas e os crânios mais largos. Estas características
físicas não haviam sido seleccionadas, mas mesmo assim tinham aparecido,
como que ligadas por fios invisíveis a uma característica comportamental de
domesticidade.
Estas relações ocultas forçam-me a corrigir a minha descrição de variação
hereditária como um tipo de argila viva que pode ser modelada pela selecção
natural. Isto era demasiado simples. A argila verdadeira é tão maleável que se
pode modelar uma parte de uma escultura sem alterar as outras partes. A argila
viva é mais complexa e interligada, impondo uma forma própria. Como bom
evolucionista, é possível que lhe interesse uma característica bem visível, como
uma cauda enrolada ou uma orelha caída, e pergunte como evoluiu ela
contribuindo para a sobrevivência e a reprodução. É uma boa pergunta e eu
poderia fornecer muitos exemplos de características que inicialmente parecem
tão caprichosas como uma orelha caída, mas que, submetidas a um estudo mais
atento, acabam por se revelar importantes adaptações. No entanto, a
experiência da raposa revela uma possibilidade completamente diferente: talvez
a característica não tenha absolutamente nenhuma função. Existe devido a
relações ocultas com outras características que podem ser tão obscuras como as
relações entre uma cauda enrolada e a domesticidade.
Para saber mais, temos de compreender de uma forma mais
pormenorizada a argila viva da variação hereditária. No capítulo 3 descrevi três
maneiras de pensar baseadas na teologia, no materialismo e na selecção natural.
A teologia já não é usada para explicar o mundo material, não por ter sido
injustamente excluída, mas por inúmeras vezes ter mostrado a sua incapacidade
nesta matéria. Ao fazer esta afirmação, não é minha intenção manifestar
qualquer falta de respeito, e de resto voltarei a fixar a atenção na teologia em
capítulos futuros. De momento, basta dizer que a missão da teologia é
estabelecer valores, e não factos, relativos ao mundo material.
Restam as outras duas maneiras de pensar, baseadas no materialismo e na
selecção natural. Estas são complementares e uma nunca pode substituir a
outra. Um conhecimento completo sobre a constituição física dos organismos
não nos elucidará sobre a influência da selecção natural. Um conhecimento
completo sobre a selecção natural não nos elucidará sobre os mecanismos que
evoluem ou misteriosas relações ocultas. como as que foram reveladas pela
experiência da raposa. Os evolucionistas usam os termos «último» (para
explicações baseadas na selecção natural) e «próximo» (para explicações
referentes aos mecanismos) a fim de estabelecerem esta distinção. Usando estes
termos, precisamos de aprender mais sobre os mecanismos próximos que levam
uma raposa a ser brava ou mansa.
Quase todos os animais selvagens são mais mansos em pequenos do que
em adultos. É provável que isto seja óbvio a partir da vossa experiência e que
faça sentido do ponto de vista funcional. Uma raposa bebé é incapaz de se
defender e vive num mundo protegido que lhe é proporcionado pelos pais. Só
mais tarde terá os meios e as razões para correr ou lutar. Esta lógica adaptativa
(a explicação última) é implementada em raposas bebés por mecanismos
hormonais (a explicação próxima). Elas nascem mansas e o medo cai como uma
cortina entre os dois e os quatro meses de idade, causado pelo aumento dos
níveis de corticosteróides, hormonas associadas ao stresse. Os seus corpos estão
simplesmente programados para que isto aconteça, não sendo necessária
qualquer experiência. É fácil imaginar uma raposa bebé que tivesse de
experimentar um acontecimento assustador antes de ficar medrosa, mas esses
bebés não sobreviveriam tão bem como os que ficam automaticamente
medrosos quando têm uma determinada idade.
A nível individual, as raposas distinguem-se umas das outras quanto à
altura exacta em que cai a cortina hormonal, e esta variação é hereditária.
Quando Belyaev seleccionava raposas puramente pela sua mansidão, escolhia as
que tinham o período imaturo mais prolongado. No entanto, as hormonas não
influenciam comportamentos isolados; são como condutores que determinam
muitos comportamentos de uma maneira coordenada. As raposas mansas
permaneciam infantis em muitos aspectos, incluindo as orelhas caídas, as
pernas curtas e os crânios largos. Outro aspecto do desenvolvimento dos
mamíferos consiste em as células pigmentares (melanócitos) terem origem
numa parte do embrião (a crista neural) e migrarem para a sua localização final
na pele. Prolongar o desenvolvimento infantil atrasa a sua migração e leva
algumas a morrerem, o que tem por resultado zonas de pele sem pigmentação —
manchas.
Estas regras do desenvolvimento dos mamíferos são muito gerais, o que
explica um padrão surpreendente. Já alguma vez reparou que todos os
mamíferos domésticos, incluindo cães, gatos, gado, cavalos, porcos e
porquinhos-da-índia têm tendência para partilhar determinadas características?
Tendem mesmo a partilhar a mesma malha branca na testa, em forma de
estrela. Darwin, sempre tão observador, reparou que «não existe um único
animal doméstico que não tenha orelhas caídas em país nenhum». Ora aqui está
um facto humilde em si mas que adquire importância em associação com outros
factos! Entre os mamíferos selvagens, a maioria das crias tem orelhas caídas,
mas só o elefante as mantém em adulto. Todos os nossos animais domésticos se
tornaram mansos retendo as suas características juvenis, como as raposas da
experiência de Belyaev.
Belyaev era um importante cientista e evolucionista, que teve de lutar
contra grandes adversidades. O seu colega Trofim Lysenko tirou-lhe o
prestigioso posto de trabalho e praticamente ilegalizou o estudo da genética e da
evolução na Rússia durante décadas. O governo do seu país não compreendia o
valor do conhecimento fundamental, o que o forçou a justificar o seu trabalho
com os parcos benefícios do comércio de peles. O país era tão pobre que oferecia
um escasso apoio a qualquer tipo de ciência, fundamental ou aplicada. É
extraordinário que, em tais circunstâncias, ele tenha conseguido manter o seu
empenhamento na ciência fundamental.
Em comparação com Belyaev, um jovem cientista americano chamado
Douglas Emlen é um homem cheio de sorte. Está exactamente onde quer estar,
ou seja, na Universidade de Montana em Missoula. Faz exactamente o que quer
fazei que é estudar a evolução e o desenvolvimento, tal como Belyaev. Ainda
melhor, consegue concentrar-se completamente no conhecimento fundamental
avançado, o que o leva a estudar um grupo de escaravelhos sem qualquer
significado económico mas de grande significado científico.
Estes insectos assemelham-se um pouco aos meus escaravelhos-
necrófagos, só que enterram esterco em vez de carne putrefacta. A maioria das
pessoas que visitam África fica maravilhada com a caça grossa, mas há outro
espectáculo que tem lugar cada vez que um dos grandes animais que constituem
a caça defeca. Quase antes de as fezes tocarem no chão, aproximam-se centenas
de escaravelhos, vindos de todas as direcções. Sei por experiência que os
ouvimos chegar antes de conseguirmos puxar as calças para cima. Estes animais
pertencem a dezenas de espécies, que têm desde o tamanho de uma bola de
golfe até ao de uma lentilha, e muitos deles têm chifres como rinocerontes voa-
dores em miniatura.
Doug estuda um único género de escaravelhos-bosteiros chamados
Onthophagus. Um género é a unidade taxonómica acima da espécie, de modo
que todos os seus membros derivam de um antepassado comum recente. O
género Ontophagus inclui mais de duas mil espécies, distribuídas por todo o
mundo, e a morfologia do chifre é extraordinariamente variada. Alguns
escaravelhos não têm chifre, enquanto outros exibem enormes peças bucais
semelhantes a um par de presas. Os chifres podem estar situados na ponta da
cabeça, na testa ou numa espécie de escudo (chamado pronoto) atrás da cabeça.
Os estudos moleculares revelaram que qualquer tipode chifre dentro do género
evoluiu não uma, mas inúmeras vezes. Se pudéssemos transformar a evolução
de todo o género num desses livrinhos de imagens que, quando rapidamente
folheados, dão a ilusão de movimento, veríamos uma sucessão louca de chifres,
a brotar, a encolher e a mudar de posição. Doug escolheu este género por ele
permitir tantas comparações e o seu objectivo é estudar a evolução e o
desenvolvimento dos chifres tanto de uma perspectiva assente nas causas
últimas como próximas. Claro que o que mais interessa não são os escaravelhos
em si, mas o que eles nos dizem sobre a evolução e o desenvolvimento em geral.
Do ponto de vista das causas últimas, queremos saber se os chifres são
adaptações que evoluiram por selecção natural. Como vimos, a resposta não
precisa de ser afirmativa. Os chifres podiam ser como as orelhas caídas das
raposas, que não têm nenhuma função. Todavia, uma vez que se penetra nas
vidas destes seres maravilhosos, a função dos chifres torna-se evidente. As
fêmeas, que não têm chifres na maioria das espécies, acumulam excrementos
em túneis subterrâneos para criarem as ninhadas. Os machos, que têm chifres,
guardam as entradas dos túneis impedindo a entrada de outros machos.
Debaixo de cada pilha de esterco tem lugar uma batalha homérica entre machos
pela posse das fêmeas e dos recursos.
Alguns machos são demasiado pequenos para travarem estas batalhas. O
motivo pelo qual são pequenos é não terem recebido alimento suficiente. Um
escaravelho-bosteiro bebé ingere o que arranja e transforma-se em adulto
quando a comida acaba. É melhor ser um adulto enfezado do que não conseguir
chegar a adulto. Estes machos fracalhotes não sao fortes mas são astutos e
conseguem ter acesso às fêmeas cavando os seus próprios túneis. Os chifres
seriam um impedimento para esta estratégia «furtiva», e os machos pequenos
não os têm.
Tal como com os escaravelhos-necrófagos que descrevi anteriormente,
talvez fiquem estupefactos por estes insectos serem capazes de tantas
estratégias «inteligentes». Os machos e as fêmeas não só se envolvem em
tarefas muito diferentes, mas além disso os machos adultos adoptam estratégias
diferentes consoante a quantidade de comida que receberam enquanto larvas.
Mudam não só os seus comportamentos, mas até os seus corpos, por exemplo
com a presença ou ausência de chifres. Os escaravelhos-bosteiros não possuem
mais inteligência do tipo da inteligência humana que os escaravelhos-
necrófagos, mas possuem um sistema de mecanismos físicos (a explicação
próxima) que os dota de corpos e comportamentos que os ajudam a sobreviver e
a reproduzir-se (a explicação última).
Com os escaravelhos-bosteiros verifica-se um período crítico quando a
larva se transforma num adulto (a fase pupal). Nesta altura, a presença ou
ausência do cromossoma sexual determina que genes serão ligados ou
desligados de modo a produzir um adulto macho ou fêmea. Se for um macho, o
tamanho do corpo é avaliado e comparado com um limiar a fim de determinar
se será produzido um chifre. São igualmente tomadas outras decisões. O corpo
larvar é como um único mealheiro cheio de dinheiro que precisa de ser
distribuído pelas partes do corpo adulto: quanto deve ir para as asas, os olhos,
as pernas, as antenas, os ovários ou os testículos? De certo modo, as interacções
hormonais no interior do escaravelho funcionam como uma calculadora,
recebendo informação (como o tamanho do corpo) e dando respostas sensatas
(as partes e as proporções certas do corpo).
Os chifres são claramente adaptativos para os indivíduos que os têm
(machos grandes), mas ainda precisamos de explicar a diversidade de chifres.
Porque se encontram localizados na ponta da cabeça, na testa ou no escudo na
parte posterior da cabeça em diferentes espécies de escaravelhos-bosteiros?
Verificou-se que a resposta a esta pergunta se baseia não numa diversidade de
funções (todos os chifres são usados basicamente para o mesmo fim) mas num
capricho do desenvolvimento do escaravelho. A competição verifica-se não só
entre escaravelhos machos que usam os chifres para combater, mas entre partes
do corpo adjacentes dos escaravelhos machos durante o desenvolvimento
adulto. Se o chifre estiver localizado na ponta da cabeça, só se pode tornar maior
se as antenas se tornarem mais pequenas. Se estiver localizado na testa, só se
pode tornar maior se os olhos se tornarem mais pequenos. Se estiver localizado
no escudo, só se pode tornar maior se as asas se tornarem mais pequenas. Estas
trocas talvez pareçam intrigantes. Não seria possível conceber um sistema que
não exigisse competição entre estruturas adjacentes? Talvez, mas não foi um
sistema desses que se desenvolveu nos escaravelhos-bosteiros.
A competição interna entre partes do corpo adjacentes começa a explicar
por que motivo os chifres podiam estar localizados em diversas partes do corpo
em espécies diferentes. Por exemplo, entre os milhares de espécies do género
Onthophagus, algumas são diurnas e outras nocturnas. As espécies nocturnas
precisam de olhos maiores para verem no escuro, de modo que os seus chifres
deviam estar localizados na ponta da cabeça ou nos escudos, mas não na testa.
Claro que foi isto que Doug descobriu quando comparou as espécies diurnas e
nocturnas dentro deste único género. De igual modo, as espécies que têm de
percorrer grandes distâncias a voar não deviam ter chifres nos escudos e as
espécies que dependem principalmente das antenas para detectar substâncias
químicas não deviam ter chifres na ponta da cabeça. Doug está a testar estas
hipóteses comparando os milhares de espécies neste único género das maneiras
apropriadas.
Os escaravelhos-bosteiros de Doug e as raposas de Belyaev dizem-nos que
o pensamento que se baseia na selecção natural e o pensamento mecanicista —
último e próximo — devem ter lugar em associação com uma compreensão
plena do processo da evolução. A argila viva da variação hereditária não é
infinitamente maleável e as suas propriedades só podem ser descobertas por
meio de um trabalho árduo. Ninguém poderia ter sabido antecipadamente que
as raposas seleccionadas puramente pela mansidão se tornariam semelhantes a
cães em outros aspectos ou que partes do corpo adjacentes competem entre si
durante o desenvolvimento dos escaravelhos. A única maneira de obter este
conhecimento consiste em arregaçar as mangas e começar a trabalhar utilizando
métodos científicos e uma boa teoria que faça as perguntas certas.
Doug e eu somos ambos evolucionistas, mas praticamos a nossa arte de
modos muito diferentes. Eu uso a evolução para estudar a criação em toda a sua
amplitude, e nunca me ocupo de qualquer organismo ou assunto particular
durante muitos anos. Ele baseia toda a sua carreira num único assunto (os
chifres) e num único grupo esotérico de insectos (os escaravelhos-bosteiros), o
que talvez pareça incrivelmente limitado. Mas o trabalho de Doug é certeiro
como um raio laser. Ele utiliza o seu conhecimento pormenorizado para fazer
perguntas básicas e encontrar uma resposta para elas, perguntas essas que eu
nem sequer consigo abordar com o meu conhecimento relativamente
superficial. Ambas as abordagens merecem coexistir devido às suas perspectivas
distintas.
Doug e eu fazemos ambos investigação científica fundamental, o que
significa que o nosso objectivo principal é promover o conhecimento por si
mesmo. Pode parecer que a ciência prática e a ciência fundamental deviam ser
completamente compatíveis. Se se puder estudar a evolução e o
desenvolvimento ao mesmo tempo que se cria uma raposa melhor, porque não
fazê-lo? Infelizmente, estas associações tão felizes só aparecem de vez em
quando. Da mesma maneira que há trocas entre partes do corpo adjacentes de
um escaravelho-bosteiro, há trocas entre ciência fundamental e prática. A
experiência da raposa podia ter sido realizada de uma forma muito mais rápida
e menos dispendiosa usando ratos do campo, que não possuem nenhum
significado económico. Emlen escolheu os seus escaravelhos-bosteiros como o
melhor sistema para promover o conhecimento fundamental sobre evolução e
desenvolvimento. Não há nenhum sistema comparável que seja
economicamente significativo. A vida moderna assenta em alicerces de
conhecimento fundamental e não é necessário justificar o reforço desses
alicerces com um objectivo prático mais restrito.
É possível levar mais longe a metáfora da ciência fundamental como
alicerce. Construir alicerces exige uma certa estabilidade e riqueza. Não faz
sentido se não estivermos aqui amanhã ou se estivermos preocupados com a
próxima refeição. A sociedade russa tem falta de estabilidade e de riqueza para
investir muito em conhecimento fundamental. Na realidade, a situação depois
do colapso do comunismo é pior do que nunca, como os sucessores de Belyaev
descrevem num artigo de 1999 que constitui um pedido de socorro neste esforço
heróico para prosseguir com a experiência da raposa:
Pela primeira vez em quarenta anos, o futuro da nossa experiência de domesticação é
incerto, ameaçado pela crise contínua da economia russa. Em 1996, o nosso efectivo
reprodutor era constituído por 700 elementos. No ano passado, sem fundos para
alimentar as raposas ou para pagar os salários ao nosso pessoal, tivemos de reduzir esse
número para 100. Anteriormente, conseguíamos cobrir a maioria das nossas despesas
vendendo as peles das piores raposas da matilha. Agora essa fonte de rendimento já
praticamente se esgotou, deixando-nos cada vez mais dependentes do financiamento
exterior, numa época em que os orçamentos reduzidos e as alterações no sistema de
concessão de subsídios da Rússia estão a tornar cada vez mais difícil manter experiências
a longo prazo como a nossa. Como muitos outros empreendimentos do nosso país,
estamos a tornar-nos cada vez mais semelhantes a empresas.

É uma sorte que pelo menos alguns países do mundo possuam a


estabilidade, a riqueza e a sabedoria para investirem no avanço desinteressado
do conhecimento fundamental.

8
Dançar com fantasmas

Imaginem um sonho surreal que começa com uma sala de baile cheia de
dançarinos elegantemente vestidos. De súbito, um membro de cada par
desaparece, mas os seus companheiros continuam a dançar como se nada se
tivesse modificado. Os seus braços permanecem estendidos e eles continuam a
descrever círculos como se estivessem a dançar com fantasmas. Depois surge
um poço sem fundo no meio da pista de dança. Ficamos a ver, fascinados, os
dançarinos solitários aproximarem-se da beira do poço, como actores da beira
de um palco. Infelizmente, os dançarmos mostram-se tão inconscientes do poço
como da ausência dos seus pares. E nada podemos fazer quando eles
mergulham um a um e desaparecem.
Esta fantasia sinistra torna-se realidade cada vez que umaespécie se
depara com um novo meio ambiente. Já mostrei que seres como os escaravelhos
necrofagos e os escaravelhos-bosteiros não têm uma inteligência semelhante à
dos seres humanos. A sua sabedoria — a sua dança — é o produto dos processos
do nascimento e da morte a esculpirem a argila viva da variação hereditária ao
longo de muitas gerações. Se mudarmos o meio ambiente, nada de mental se
verifica que os leve a alterar o seu comportamento. As estratégias bem sucedidas
tornam-se simplesmente mal sucedidas e desvanecem-se lentamente ao mesmo
tempo que a escultura viva adquire uma nova forma.
O facto de ser necessário tempo para as forças da selecção natural
causarem a evolução das adaptações leva-me a corrigir a descrição que fiz no
capítulo 3 do meio ambiente como um guia rápido para as propriedades dos
organismos. Isso era demasiado simples. Os organismos têm de residir no meio
ambiente durante um número suficiente de gerações para a relação organismo-
ambiente se consolidar.
Quantas gerações são suficientes? Darwin imaginou a evolução como um
processo de uma lentidão glaciar, que actuava sobre pequenas diferenças na
capacidade de sobrevivência e reprodução. The Beak of the Finch, o livro
maravilhoso de Jonathan Weiner mostra como essa concepção se modificou
com base na investigação moderna. As forças da natureza podem actuar com a
intensidade de um furacão, e diferenças minúsculas entre indivíduos, como uma
fracção de milímetro no bico de um tentilhão, podem fazer a diferença entre a
vida e a morte. Em certas espécies de zooplâncton (seres minúsculos que
flutuam na água), um quarto da população é consumido por predadores todos
os dias. Uma única estirpe de bactérias colocadas num caldo nutritivo sofrerá
mutações transformando-se em poucos dias em diversas formas que ocupam
diferentes nichos, como o líquido, os lados do recipiente e a película da
superfície (abrangendo muitas gerações bacterianas). Por outras palavras, o
mesmo tipo de diversificação que tem lugar em ilhas remotas como o Havai e as
Galápagos também ocorre a nível microbiano numa taça de sopa; se, por
distracção, nos esquecermos dela e voltarmos uma semana mais tarde,
descobriremos que o caldo se tornou «nojento». Quando temos uma infecção na
bexiga, não é apenas porque uma E. coli qualquer conseguiu penetrar nela, mas
porque a evolução genética teve lugar no interior do nosso corpo, criando uma
nova estirpe de E. coli capaz de se agarrar às paredes da nossa bexiga. A selecção
natural tem lugar dentro de nós e à nossa volta, como é relatado com tanta
eloquência em The Beak of the Finch.
Ainda assim, ela precisa de algum tempo para se desenvolver, e quando
uma espécie encontra um novo meio ambiente começa a dançar com fantasmas.
Desde tempos imemoriais, as tartarugas marinhas bebés saem dos ninhos nas
praias à noite e abrem caminho até ao mar. Evoluíram de modo a poderem
orientar-se pela luz reflectida pela superfície da água, o que lhes proporcionou
uma pista fiável até à altura em que começaram a ser construídas casas na praia.
Agora as luzes das casas brilham ainda mais que o luar reflectido no mar, o que
leva as tartarugas a tomarem a direcção errada, rumo à morte, exactamente
como os dançarinos que caíam no poço no meu salão de baile surreal.
Podia apresentar dezenas de outros exemplos, muitos deles relacionados
com as alterações ambientais causadas pelo homem. Os antilocapras fogem com
uma velocidade e uma resistência extraordinárias de predadores que já não
existem nas planícies americanas, Os carvalhos produzem as bolotas em
resposta a pombos que já não escurecem os céus. Estas espécies irão continuar a
dançar com fantasmas até se extinguirem ou até a selecção natural lhes ensinar
novos passos de dança.
A ideia de um novo ambiente exige clarificação. A rã--dos-bosques (Rana
sylvatica) põe os ovos em pequenas poças de água durante a Primavera. Uma
dada poça pode ter ou não ter predadores. Para um girino que nasce numa poça
com predadores, uma poça sem predadores seria um novo ambiente, mas é
habitual a população de girinos viver em ambos os ambientes. Nesta situação,
que adaptações será provável evoluírem? Teoricamente, um girino devia ser
capaz de começar a avaliar o seu ambiente para em seguida manifestar a
adaptação adequada. Já vimos um exemplo deste tipo de flexibilidade nos
machos dos escaravelhos-necrófagos, que avaliam o seu tamanho e depois
exibem chifres só no caso de serem suficientemente grandes.
Espero que neste momento já consigam ver que uma previsão como esta
não é necessariamente correcta. É apenas uma conjectura razoável, que exige
trabalho para poder ser confirmada ou rejeitada. Acontece que muitas espécies
são muito boas a avaliar o seu meio ambiente e a manifestar as adaptações
adequadas. As rãs-dos-bosques têm um plano A e um plano B para a presença
ou ausência de predadores, tal como acontece com os machos dos escaravelhos-
necrófagos em relação ao tamanho do seu corpo. A presença de predadores é
detectada quimicamente, e cada plano envolve uma série coordenada de
comportamentos (tal como o movimento), de características anatómicas (como
o tamanho da cauda) e de características do ciclo de vida (como a melhor altura
para sair da poça). O ambiente tem um enorme efeito no organismo, mas não da
forma que em geral associamos à aprendizagem. Em vez disso, um traço muito
específico do ambiente (a presença ou ausência de um determinado químico) é
utilizado como interruptor para activar estratégias geneticamente
determinadas.
Pensemos noutro exemplo. Imaginemos a criação de uma determinada
espécie de vairão a partir da fase de ovo em diversos aquários em condições
cuidadosamente controladas. Quando os espécimes tiverem seis meses,
peguemos num lúcio (um predador do vairão) de plástico preso à ponta de um
pau e desloquemo-lo lentamente através da água durante um minuto em
metade dos aquários. Depois não precisamos de fazer nada durante os dezoito
meses que se seguirem. Esta experiência incrivelmente breve tem um efeito
profundo e duradouro no comportamento dos vairões, levando-os a recear os
predadores até ao fim da vida. Isto não é aprendizagem como em geral a
entendemos. Assemelha-se mais a um plano de guerra elaborado, posto em
movimento por um único telefonema.
Os vairões e as rãs-dos-bosques têm «planos de guerra» desencadeados
pelo ambiente para se protegerem contra os predadores porque, ao longo de
muitas gerações, algumas vezes defrontaram-se com eles no seu ambiente
natural. E as espécies que nunca se defrontaram com predadores? Essas
espécies existem, especialmente em ilhas remotas. Quando os primeiros
marinheiros desembarcaram nas Galápagos, as aves não os trataram como
predadores, mas como árvores. Não tinham plano de guerra para os predadores,
pois ha muitas, muitas gerações que estes estavam completamente ausentes do
seu ambiente. Uma vez que não possuíam inteligência de tipo humano, nunca
aprenderam a evitar os marinheiros, limitando-se a permitir que estes as
apanhassem nos poleiros e as atirassem para a panela em mais uma versão cruel
do meu sonho surreal.
Que entendo por inteligência humana e como nos protege ela de
dançarmos com fantasmas? Quando somos postos numa situação
completamente nova, dispomos pelo menos de alguma capacidade de
compreender que temos um problema e de tentar arranjar uma nova solução.
Tem lugar um processo mental rápido que realiza aproximadamente a mesma
coisa que o processo geracional lento da selecção natural. Mais adiante teremos
mais para dizer sobre a inteligência semelhante à dos seres humanos, mas por
agora quero sublinhar a sua natureza limitada. É uma coisa maravilhosa que
funciona às vezes, mas quem pensar que ela resolve completamente o problema
de dançar com fantasmas está tristemente iludido. Antes de possuirmos
inteligência humana éramos mamíferos e primatas com um arsenal de planos de
guerra que evoluíram por meio da selecção natural. A nossa inteligência
humana foi somar-se a esse arsenal. Não substituiu os outros planos de guerra,
nem nós necessariamente desejaríamos que tal acontecesse. Alguns dos planos
de guerra nem sequer são mentais. Na realidade, todo o conceito de «mental»
está a desvanecer-se diante de nós. Um cérebro é um sistema físico que actua
como uma calculadora, recebendo informação e dando respostas sensatas. Já
vimos que os escaravelhos na fase larvar têm calculadoras hormonais que fazem
a mesma coisa. Até as bactérias têm calculadoras moleculares que recebem
informação e dão respostas sensatas. Precisamos de alargar o conceito de
mental de modo a incluir todos os tipos de calculadoras, independentemente da
sua composição material. Quando fazemos isto, torna-se claro que estamos a
dançar com fantasmas apesar da nossa inteligência humana, de que tanto nos
vangloriamos.
Os nossos hábitos alimentares constituem um excelente exemplo de
dançar com fantasmas. O desejo que sentimos de gordura, açúcar e sal fazia
todo o sentido num ambiente em que estas substâncias eram constantemente
escassas, mas pôr um restaurante de comida rápida em cada esquina é como
iluminar o céu da ilha para as tartarugas marinhas bebés. Precipitamo-nos para
consumir, mas é uma partida cruel e acabamos por nos matar. Sabemos que há
um problema, mas isso não significa que saibamos resolvê-lo com um simples
acto de força de vontade usando a nossa maravilhosa inteligência. A nossa
chamada mente racional não tem assim tanto controlo sobre o resto da nossa
mente e do nosso corpo.
Isto é evidente a partir da experiência comum, mas uma análise mais
atenta revela que estamos a dançar com fantasmas diferentes. Tanto quanto
sabemos, baseando-nos na informação de que actualmente dispomos, os nossos
antepassados saíram de África (ou permaneceram lá, se o leitor for africano) há
aproximadamente setenta mil anos e espalharam-se pelo planeta, chegando à
Austrália há aproximadamente sessenta mil anos e às Américas há cerca de
trinta mil anos. Podemos agradecer esta expansão à inteligência humana, pois
ela exigiu a solução para diversos problemas a uma grande escala. Para onde
quer que fôssemos, descobríamos como extrair comida do ambiente, até
estarmos a comer tudo, desde sementes até baleias. Em seguida descobrimos
como produzir os nossos próprios alimentos, não uma mas numerosas vezes em
várias regiões do planeta, como Jared Diamond relatou em Guns, Germs and
Steel.
Em cada população humana distinta, a lenta sabedoria da selecção natural
seguia para onde a rápida sabedoria da inteligência humana a conduzia. Em
civilizações que criavam gado, pela primeira vez na história dos mamíferos o
leite tornou-se um recurso para os adultos. A princípio era difícil de digerir
porque o corpo dos mamíferos está adaptado para encerrar o sistema digestivo
dos bebés (plano A) e para dar início ao sistema digestivo dos adultos (plano B)
na altura do desmame. Pôr os micróbios a fazerem a digestão fermentando o
leite proporcionou uma solução de curto prazo, mas nessa altura surgiram
mutações genéticas que permitiram aos seres humanos adultos digerirem-no
directamente e estas mutações proporcionaram uma vantagem suficiente para
se tornarem comuns em populações criadoras de gado. Outras populações
humanas começaram da mesma maneira a tornar-se geneticamente adaptadas
às suas dietas particulares. É importante sublinhar que todas essas mutações
genéticas ocorriam em todas as populações mas só aumentavam de frequência
quando proporcionavam uma vantagem. Milhares de anos são tempo suficiente
para permitir este tipo de diversificação genética. Lentamente, cada uma das
diferentes populações humanas começou a realizar os passos de dança certos
para o seu ambiente, mas apenas para vermos o sonho surreal repetir-se com as
migrações em massa e com as alterações ambientais dos tempos modernos. Na
década de 1950, os programas americanos de ajuda ao estrangeiro enviaram
leite em pó para todo o mundo, produzindo flatulência generalizada em regiões
onde as pessoas não estão geneticamente adaptadas a digerir leite em adultas.
Não admira que nos odeiem! Hoje, a questão de o peso de uma pessoa ser 80 ou
150 quilos no mesmo ambiente de comida rápida depende em parte do local de
origem dos seus antepassados.
Também depende em parte de quanto pesava quando nasceu. Tal como as
larvas do escaravelho-bosteiro têm uma calculadora hormonal que avalia o
tamanho do corpo, parece que os mamíferos realizam uma avaliação semelhante
numa fase precoce da vida, mesmo antes de nascerem. Se forem pequenos,
consideram esse facto um sinal de que as condições são más e de que devem
acumular todas as calorias em adultos. Se forem grandes, consideram-no um
sinal de que a comida é abundante e de que se podem dar ao luxo de ser menos
eficientes em adultos. Claro que não pensam porque ainda são embriões, mas
algum sistema físico está a funcionar como uma calculadora para implementar o
plano metabólico A ou o plano metabólico B baseado no sinal ambiental
(tamanho do corpo). Uma vez a decisão tomada, não há possibilidade de
retroceder, tal como um escaravelho-bosteiro macho não pode eliminar o seu
chifre.
Este tipo de flexibilidade adaptativa evoluiu porque o tamanho do corpo
fetal foi um indicador fiável do ambiente alimentar do adulto durante muitos
milhares de gerações, mesmo antes do nosso aparecimento como espécie, uma
vez que outros mamíferos como os ratos têm a mesma adaptação. Podemos
pregar uma partida cruel a um rato alimentando a mãe com uma dieta restrita
durante a gravidez e depois mudando o ambiente dando ao filho tanta comida
quanta ele quiser. O rato torna-se obeso porque o seu metabolismo foi
concebido para absorver todas as calorias que puder e por ter tantas para
absorver. De igual modo, se uma pessoa é obesa, é provável que tivesse pouco
peso quando nasceu. Essa pessoa está a dançar com fantasmas num sonho
surreal.
O facto de a selecção natural levar tempo e de por vezes haver um
desfasamento entre as adaptações e o ambiente actual torna o estudo da
evolução mais difícil, mas também mais urgente. Estamos a dançar com
fantasmas de muitas formas além dos nossos hábitos alimentares e o nosso
impacto ambiental está a levar outras espécies a fazê-lo a um ritmo cada vez
mais acelerado. Não podemos ficar de braços cruzados a ver a tragédia
desenrolar-se como no sonho. Precisamos de compreender como as adaptações
funcionam e de tentar intervir quando elas funcionam mal nas nossas vidas
presentes.

9
Qual a função de um abre-latas?
Como é que sabe?

No capítulo 2 afirmei que a religião, o governo e a ciência enfrentam o


mesmo problema; os indivíduos e os grupos são impelidos a colher benefícios
em detrimento de outros indivíduos e grupos. Na ciência, isto assume a forma
de afirmações factuais com mensagens ocultas em proveito próprio ou em
proveito do grupo. Devemos estar alerta ante de afirmações factuais suspeitas
como as que se seguem:

Afirmação factual Mensagem oculta


É pouco saudável. Não faças isso.
É antinatural. Não faças isso.
É imaturo. Não faças isso.
É demasiado difícil. Não faças isso.

Atenção, pois há coisas que são genuinamente pouco saudáveis (uma


pessoa com malária), antinaturais (um urso a andar de bicicleta), imaturas (o
discurso de uma criança que está a aprender a falar) e demasiado difíceis (subir
uma escada a carregar um piano sozinho). Porém, na maior parte dos casos,
estas afirmações factuais são incorrectas enquanto factos e funcionam para
influenciar o comportamento, como as mensagens que consta aparecerem em
filmes, durante breves instantes, a dizer: «Come pipocas. Come pipocas.»
Poder-se-ia pensar que só as pessoas simplórias e incultas empregam
tácticas tão grosseiras como estas. Mas isso não é verdade. Alguns dos
movimentos intelectuais e teorias científicas mais importantes derivam desta
fonte, como a teoria do desenvolvimento moral de Kohlberg (durante o nosso
desenvolvimento passamos por um determinado número de fases morais) e a
ideia de Rousseau do bom selvagem (o homem natural é bom e a civilização
corrompe-o). A ansiedade provocada pela evolução deve-se em grande medida
ao pressuposto visceral de que, se qualquer coisa é natural (por ter evoluído por
meio da selecção natural), então podemos fazê-la (será lícito). Para tornar as
coisas piores, as tácticas em benefício próprio ou do grupo podem ser
completamente subconscientes. Isso podia acontecer-me a mim, por exemplo.
A ideia de que alguma coisa é demasiado difícil merece uma análise
especial. Já descrevi a ciência como uma actividade a desenvolver de mangas
arregaçadas. Regressamos a casa ao fim do dia com a testa suada, a precisarmos
de eliminar o odor de escaravelhos-necrófagos, de escaravelhos-bosteiros ou de
raposas prateadas. Muitas coisas são difíceis — a jardinagem, o basquetebol, ir à
faculdade, combater um incêndio —, mas uma coisa só é demasiado difícil
quando não proporciona um benefício suficiente. Quando os criacionistas e os
defensores do DI afirmam que estudar a evolução é demasiado difícil, querem
dizer que uma certa quantidade de trabalho não produziu resultados
concludentes.
Os criacionistas não são os únicos a pretender que estudar a evolução é
demasiado difícil. Outros defendem o mesmo, muitas vezes sob o grito de guerra
de: «Falácia ad hoc!» Tal como Rudyard Kipling criou histórias fantásticas, por
exemplo «Como a girafa arranjou o seu pescoço comprido», o pensamento da
selecção natural é representado como uma forma de especulação inútil que
raramente pode ser comprovada como facto científico. Até alguns evolucionistas
famosos fizeram esta afirmação, como Stephen Jay Gould, que achava que
alguns dos seus colegas evolucionistas davam um relevo excessivo à adaptação
em comparação com coisas como o desenvolvimento que abordei no capítulo 7.
Com o devido respeito por Steve e outros, penso que o «Falácia ad hoc!» é
muitas vezes usado como a palavra de código para «Não faças isso!», ou seja,
uma reacção de defesa visceral por parte daqueles, incluindo alguns
evolucionistas, que se sentem nervosos por causa de algumas implicações do
pensamento da selecção natural. Enquanto afirmação factual, ela é, não apenas
errada, mas também retrógrada. Em geral é mais fácil determinar se alguma
coisa é urna adaptação do que imaginar coisas como mecanismos de
desenvolvimento. Além disso, é inútil comparar a sua dificuldade relativa, dado
que as explicações últimas e próximas são complementares e nunca podem
substituir-se umas às outras, como já mostrei.
No meu curso demonstro estas questões passando um abre-latas entre os
alunos. Embora toda a gente saiba que a finalidade de um abre-latas é abrir
latas, que aconteceria se alguém exigisse provas? Como sabemos que não é um
mineral desenterrado numa escavação, um objecto manufacturado com uma
função diferente ou um objecto manufacturado sem nenhuma função prática,
como uma peça artística? A resposta típica consiste em dizer que o objecto se
compõe de um determinado número de partes que interagem exactamente da
maneira correcta para abrir latas: uma roda afiada que fura o metal, uma roda
dentada para agarrar o rebordo da lata, uma alavanca para aplicar a pressão que
fura a lata, uma pega para deslocar a roda dentada ao longo do rebordo, e por aí
fora. Nenhum mineral é assim tão harmonioso do ponto de vista funcional, ou
capaz de realizar qualquer outra tarefa com a mesma perfeição, e desafio-o a
encontrar qualquer coisa num museu de arte ou numa joalharia que realize tão
bem uma função imbricada como um abre-latas. Só um brincalhão continuaria a
insistir no assunto.
Há características do abre-latas mais discutíveis. Que dizer da cor ou da
forma específica do cabo? É possível que elas tenham uma função, tal como
encaixar bem na palma da mão, saltar à vista numa gaveta, ou chamar a atenção
do consumidor num expositor de uma loja atravancado de outros objectos, mas
poderiam com igual facilidade ser arbitrárias. Além disso, mesmo que a cor de
um abre-latas nos ajude a encontrá-lo nas nossas gavetas da cozinha, ele não foi
necessariamente concebido tendo em mente essa função particular. E o entalhe
em forma de gancho que existe em muitos, embora não em todos os abre-latas?
Dá imenso jeito para abrir garrafas, mas teria sido concebido com essa
finalidade? Um abre-garrafas não tem as partes interactivas de um abre-latas, o
que torna mais difícil discutir com um céptico a sua finalidade. A maioria destas
questões controversas sobre abre-latas pode ser resolvida com um pouco de
trabalho, mas elas não são tão evidentes como a função das principais partes
interactivas.
Depois de trocar impressões sobre abre-latas com os meus alunos mostro-
lhes um objecto de cozinha menos comum. Trata-se de uma pega ligada a um
aro de metal dividido em secções. É óbvio que se trata de um objecto utilitário,
mas a sua finalidade específica é obscura. Tratar-se-á de um batedor de claras?
De um instrumento para cortar ovos às fatias? A maioria dos alunos não faz
ideia da resposta correcta, que é um instrumento para cortar abacates às fatias.
Porém, depois de eu lhes explicar do que se trata, eles imediatamente
consideram isso óbvio. Isto deve-se ao facto de o objecto ser muito mais
apropriado para cortar abacates às fatias do que para as funções anteriormente
imaginadas, facto que não pôde ser apreciado até se descobrir a sua função
correcta. Poderíamos ter tido a mesma experiência vasculhando lojas antigas à
procura de objectos cujas funções eram óbvias para os nossos avós, mas não
para nós.
Estas maneiras de pensar sobre a função, que os meus alunos empregam
sem qualquer treino formal, são perfeitamente válidas. Um objecto com uma
função tem de ter certas características de concepção para realizar essa mesma
função, por vezes suficientemente complexas e integradas para não poderem ser
explicadas de nenhuma outra forma. Usamos constantemente a nossa
capacidade de inferir a finalidade e sentir-nos-íamos infelizes sem ela. O cérebro
humano até talvez esteja geneticamente adaptado para inferir a finalidade, tal
como os cérebros dos chapins estão geneticamente adaptados para recordarem
a localização de milhares de sementes durante o Inverno.
Nada se modifica quando pensamos em milhares de objectos naturais em
vez de nos objectos feitos pelo homem. A função do coração e do sistema
circulatório era obscura até o médico britânico William Harvey a ter tornado
evidente, no início do século XVII. É óbvio que os escaravelhos que enterram
ratos e lutam com chifres se comportam com uma finalidade. A natureza sempre
foi considerada um manancial de funções, o que está correcto. Darwin forneceu
uma nova maneira de explicar como os organismos se tornam bem concebidos,
mas, tal como em relação à função do abre-latas, nunca se pôs em dúvida que
todos eles fossem bem concebidos (na sua maioria). Tendo tudo isto em vista, é
bizarro afirmar que o pensamento com base na selecção natural é
irremediavelmente especulativo.
Pelo contrário, considerar o desafio de descobrir os antepassados da
espécie na grande árvore ramificada da vida (filogenia) era algo de que Steve
Gould muito gostava. Trata-se de uma tarefa difícil, pois o registo fóssil é
incompleto e as espécies vivas podem ser semelhantes ou porque partilham um
antepassado comum, ou porque convergiram para as mesmas características
apesar de serem espécies afastadas entre si. Por exemplo, as espécies dos
escaravelhos-bosteiros com chifres na extremidade da cabeça podem ser
semelhantes porque partilham um antepassado comum ou porque se adaptaram
independentemente a um modo de vida nocturno. Os progressos na biologia
molecular revolucionaram a nossa capacidade para resolver questões como
estas. Por vezes, as filogenias baseadas em métodos mais antigos são
confirmadas pelos novos métodos, mas é frequente revelarem-se
completamente erradas. No caso dos escaravelhos-bosteiros a localização dos
chifres dá-nos muito poucas informações sobre a ascendência comum, pois ela
modifica-se facilmente ao longo do tempo evolutivo dentro de uma dada estirpe
— um facto que, para ser apurado, exigiu o trabalho árduo de cientistas como
Doug Emlen.
Embora seja difícil compreender a filogenia e os mecanismos de
desenvolvimento, não é demasiado difícil porque a informação é importante,
embora difícil de obter. A boa informação sobre a nossa ascendência é
incrivelmente difícil de obter, mas cada êxito é celebrado como uma descoberta
importante e, com trabalho suficiente, há linhas convergentes de dados que
produzem uma descrição extraordinariamente pormenorizada. Quando vejo
documentários de antropólogos a escavarem fósseis com instrumentos
dentários e escovas de dentes sob o sol escaldante da Etiópia, protegidos dos
bandidos por membros de tribos locais armados de espingardas, sei que isso
seria demasiado difícil para mim, mas fico grato por não o ser para eles.
A ciência da evolução é como qualquer outro tipo de ciência. Uma teoria
gera hipóteses alternativas, que são avaliadas com métodos científicos. Cada
ciclo de formulação e comprovação de hipóteses é como rodar a manivela de
uma roda que gera conhecimento factual. A teoria da evolução tem um âmbito
explicativo excepcionalmente vasto, em grande medida graças ao pensamento
da selecção natural. As hipóteses criadas pelo pensamento fundado na selecção
natural não são mais difíceis e por vezes é mais simples testá-las do que às
hipóteses baseadas em mecanismos próximos e em processos históricos.
Todavia, comparar a sua dificuldade é absurdo, pois são fontes de informação
complementares e tem de se rodar a manivela para todas elas. Para dar urna
ideia da velocidade com que a manivela da selecção natural está a girar, limitei-
me a digitar a frase «selecção natural dos gupis» no Google Scholar e tive acesso
a três mil entradas — para uma única espécie de peixes! Multiplique isto por
vários milhares de modo a incluir investigação em outras espécies e torna-se
evidente que o conhecimento está a avançar a cada minuto que passa.
Entendida como deve ser, a expressão «Falácia ad hoc!» é apenas mais uma fase
da «hipótese não testada» e deve ser encarada como um grito de guerra para
mais uma volta da manivela.
l0
A sua licença de aprendiz

Parabéns! Acabei de transmitir as noções básicas mais rudimentares da


teoria da evolução, como disse que faria no capítulo 1. Se me acompanhou até
aqui, pode considerar-se aprendiz de evolucionista. No restante da presente
obra utilizaremos estas noções básicas para explorar a criação em toda a sua
amplitude, desde a origem da vida até aos sistemas de valores humanos,
desenvolvendo a nossa competência ao longo do percurso.
A fim de lhe reavivar a memória, vou passar em revista os elementos
básicos. Em primeiro lugar e acima de todos os outros, temos o princípio da
selecção natural, que descrevi como uma terceira maneira de pensar, diferente
tanto da teologia como do materialismo. A selecção natural assemelha-se à
actividade de um artista a modelar a argila viva da variação hereditária. Sem o
princípio da selecção natural, as nossas hipóteses de compreender o mundo que
nos rodeia são tão escassas como as de entender uma escultura sem fazer ideia
do que é um artista. Além disso, ao contrário das intenções insondáveis dos
deuses e de outros agentes inteligentes imaginados no decurso da história da
humanidade, a influência modeladora da selecção natural é muitas vezes tão
transparente que mesmo um completo amador pode fazer conjecturas
inteligentes sobre as propriedades dos organismos, como mostrei no que toca à
questão do infanticídio no capítulo 3.
O segundo ponto essencial a reter é que as adaptações evolutivas nem
sempre correspondem ao que consideramos bom ou útil no sentido corrente dos
termos. Na realidade, elas podem ser o exemplo acabado do egoísmo tacanho
que, a longo prazo, acaba por destruir a qualidade de vida de toda a gente. Isto é
uma pílula difícil de engolir, e sem dúvida que explica a relutância de muitas
pessoas em aceitarem a teoria da evolução por muito bem fundada que ela tenha
sido do ponto de vista factual. Felizmente, a pílula amarga revela-se um bom
medicamento. As adaptações evolutivas incluem o que consideramos bom e útil,
embora não se limitem a isso, como mostrei no capítulo 5. Esta perspectiva
simples mas profunda conduz a uma forma de optimismo prático que nos
permite melhorar a qualidade de vida proporcionando condições apropriadas,
como mostrarei repetidas vezes em capítulos futuros. Os benefícios práticos de
uma teoria que explica o bom, o mau, o belo e o feio ultrapassam em muito o
retrato reconfortante mas falso da evolução como algo de benéfico no seu
conjunto.
O terceiro ponto essencial a reter é que a argila viva da variação hereditária
é muito mais complicada do que a argila real. Os nossos genes residem em nós
porque tiveram um efeito positivo líquido para a média de todos os organismos
individuais e ambientes em que viveram ao longo de milhares de gerações. Se
tiveram um efeito positivo em nós é uma questão em aberto, como mostrei no
capítulo 6. O desenvolvimento é um processo complicado que liga
características aparentemente tão diferentes como comportamento amigável e
uma cauda enrolada, como mostrei no capítulo 7. Estas e outras complicações
explicam a existência de características que nunca poderiam ser explicadas
tendo apenas por base o conceito da selecção natural, sublinhando a
necessidade de compreender a base física da vida (explicação próxima), além da
sua base funcional (explicação final).
O quarto ponto essencial a reter é que a selecção natural leva tempo e é
frequente os organismos estarem desajustados do seu ambiente presente.
Quando isto se verifica, estarão a dançar com fantasmas dos seus ambientes
passados, em seu próprio detrimento no ambiente actual, até a mão lenta da
selecção natural lhes ensinar os movimentos certos para dançarem com os seus
pares actuais. Só as espécies com um rápido processo de adaptação ao meio
conseguem evitar este destino, mas nem os tão apregoados processos mentais
associados à inteligência humana nos impedem completamente de dançar com
fantasmas, como mostrei no capítulo 8.
O terceiro e quarto pontos obrigaram-me a recuar muito em relação à
minha descrição inicial, segundo a qual o pensamento fundado no conceito de
selecção natural era como um míssil termoguiado que encontra infalivelmente o
alvo. Recorrendo a uma metáfora melhoi imagine que está à frente de uma
unidade de salvamento que recebe uma comunicação urgente sobre uma criança
desaparecida A sua primeira tarefa consistira em utilizar toda a informação de
que dispõe a fim de determinar onde deverão dar inicio a busca. Como e obvio,
não irão lançar-se de para quedas sobre a floresta e aterrar directamente em
cima da criança, pois nesse caso ela não estaria desaparecida. No entanto, a sua
tarefa será muito mais fácil se puder aterrar num raio de quinze quilómetros do
que num raio de mil quilómetros, de modo que o primeiro cálculo que fizer será
o mais importante. Depois de dar início à busca, continua a usar toda a
informação de que dispõe, acrescentando-lhe o conhecimento que adquirir
durante a busca.
A investigação científica assemelha-se muito a isto. Usamos uma teoria e a
informação factual de que dispomos para fazermos a melhor conjectura inicial
que for possível. Depois continuamos a usar a teoria juntamente com
informações que se foram acumulando a fim de apurar a nossa investigação até
encontrarmos aquilo que procuramos. O pensamento com base na selecção
natural desempenha sempre um papel nesta investigação, uma vez que o objecto
da nossa busca foi modelado pela selecção natural. No entanto, nunca
desempenha um papel exclusivo, na medida em que o terceiro e quarto pontos
sublinhados acima entram em acção. Por vezes desempenha um papel
especialmente importante no início de uma investigação, pois a influência
modeladora da selecção natural é muitas vezes mais fácil de prever do que os
pormenores da genética, do desenvolvimento e da filogenia. Porém, esta
consideração é apenas de ordem prática e não existe mais nada que privilegie o
pensamento fundado na selecção natural em comparação com outras fontes de
informação.
A metáfora da busca empreendida pela equipa de salvamento chama a
atenção para o quinto e último ponto essencial a reter para se tornar aprendiz
de evolucionista: nenhuma teoria conduz directamente aos factos. Há sempre
um processo repetido de formação e teste de hipóteses, que descrevi no capítulo
9 como o girar de uma manivela. Se não conseguirmos girar a manivela, a
investigação científica pára. A ciência é muitas vezes descrita como uma
actividade sublime e difícil, apenas acessível a uma elite de indivíduos
inteligentes e altamente especializados. Esforcei-me o que pude para a descrever
como uma actividade terra-a-terra, como a agricultura, o fabrico de tijolos e a
construção de casas. Como Edison afirmou a respeito das invenções, elas exigem
mais transpiração do que inspiração, e é frequente mesmo esta última ser do
tipo «Porque não pensei nisto antes?», que pode acontecer a qualquer pessoa,
em geral depois de muita transpiração. Se me acompanhou até aqui, já adquiriu
os atributos de um cientista que, com um pouco de pensamento claro e muito
trabalho árduo, pode ajudar a criar qualquer coisa gratificante do ponto de vista
pessoal e maior e mais duradoura do que nós.

11
Bem-vindo a casa, filho pródigo

O filho pródigo saiu de casa com uma herança que desbaratou


estouvadamente numa vida de dissipação. Empobrecido e envergonhado,
regressou a casa do pai a pedir apenas para ser tratado como criado, uma vez
que, como era evidente, não merecia mais. Perante a sua surpresa e gratidão, foi
recebido com amor e perdão, como alguém renascido para um novo tipo de vida
mais sustentável.
A ideia que fazemos de nós mesmos como estando desligados do resto da
natureza assemelha-se à maneira de pensar do filho pródigo ao partir de casa
com uma herança avultada. O colapso repetido de civilizações passadas e o
destino incerto da nossa é como o desbaratar da nossa herança numa vida de
dissipação. Antes de ficarmos verdadeiramente empobrecidos e envergonhados,
talvez esteja na altura de regressarmos a casa para nos vermos como uma parte
integrante da natureza. Talvez isto possa conduzir a um modo de vida mais
sustentável no futuro do que no passado.
Nos capítulos que se seguem iremos explorar o que significa ser a cem por
cento um produto da evolução. Todavia, em primeiro lugar é importante
cultivar o estado de espírito adequado. O filho pródigo só passou por esta
mudança de atitude depois de ter sido vencido pelos seus antigos hábitos. De
igual modo, as religiões de todo o mundo cultivam uma atitude de humildade e
contrição como preparação para adquirir uma nova fé. Os programas de
reabilitação como os Alcoólicos Anónimos, embora só sejam marginalmente
religiosos, mesmo assim instilam a crença de que a vida passada de um
indivíduo era deplorável e destrutiva como preparação para adquirir um novo
estilo de vida mais sustentável. A adopção de um novo conjunto de convicções
sobre nós mesmos ajudar-nos-á a avaliar como as nossas antigas convicções
fracassaram.
Em primeiro lugar, temos de abandonar a ideia de que uma entidade mais
poderosa instilou em nós qualquer qualidade especial. Isto não nos obriga a
abandonar a fé religiosa — muitas pessoas conseguem associar uma fé profunda
a uma concepção plenamente naturalista do mundo —, mas exige que
abandonemos determinados tipos de fé religiosa. Um dos meus amigos mais
irreverentes gosta de dizer que o teste mais forte da fé que temos num Deus que
intervém em nosso auxílio se verifica quando o nosso carro se avaria. Se o
deixarmos na berma da estrada e rezarmos para que fique em bom estado,
somos verdadeiros crentes. Se o arranjarmos nós mesmos ou chamarmos o
reboque para o levar até ao mecânico mais próximo, estaremos a reconhecer
tacitamente que algumas coisas têm uma explicação puramente naturalista.
Talvez Deus tenha criado as leis da física, mas essas leis são suficientes para
explicar o que está errado com o carro sem ser necessária a intervenção de um
poder superior. Se tivermos o tipo de fé religiosa que nos leva a rezar pelo carro
na berma da estrada, então estaremos a prejudicar-nos a nós mesmos, àqueles a
quem amamos e provavelmente ao resto da sociedade. Se tivermos o tipo de fé
religiosa que nos permite arranjar o carro, então somos duplamente felizes.
Podemos desfrutar das vantagens do conhecimento sobre o mundo físico e dos
benefícios consideráveis da fé religiosa que irei documentar em capítulos
subsequentes.
O que se aplica ao conhecimento do mundo físico também se aplica ao
conhecimento sobre nós mesmos. Se alguma coisa corre mal com o nosso corpo,
com a nossa mente ou com a sociedade, isso, tal como o problema com o carro,
tem uma explicação naturalista. Acreditar que temos capacidades especiais que
nos foram dadas por Deus é como rezar pelo nosso carro na berma da estrada.
Em boa verdade, esta comparação não é totalmente correcta, porque o bem-
estar dos nossos corpos, mentes e sociedades depende em grande medida
daquilo em que acreditamos. É duvidoso que acreditar que temos capacidades
especiais dadas por Deus nos torne mais saudáveis e mais felizes em todos os
aspectos. No entanto, isso não tornaria a afirmação factualmente correcta. Para
ser mais exacto, a afirmação de que «acreditar que temos capacidades que nos
foram dadas por Deus é bom para nós» poderia ser factualmente correcta, ao
passo que a afirmação de que «temos capacidades que nos foram dadas por
Deus» tem toda a probabilidade de ser incorrecta. Estou convicto do que afirmo,
não por ser hostil à religião, mas porque as explicações sobrenaturais de
nósmesmos, bem como as explicações sobrenaturais do mundofísico e do resto
da natureza, se revelaram vezes sem containadequadas. Da próxima vez que for
ao médico, deve fazer votos para que ele seja suficientemente esclarecido para
apreciar a importância da crença para a saúde física e mental, mas deve também
congratular-se por ele, tal como o seu mecânico de automóveis, não recorrer a
explicações sobrenaturais.
Abandonar as explicações sobrenaturais é apenas o primeiro passo na
vasta estrada que temos de percorrer rumo à recuperação. O mundo está cheio
de pessoas que já abandonaram as explicações sobrenaturais, que aceitam
plenamente o facto da evolução e das origens humanas, mas que não fazem
ideia de toda a informação pormenorizada que a evolução nos pode dar sobre os
nossos corpos, mentes e sociedades. Como mostrarei no próximo capítulo, é
provável que o médico que referi acima se conte entre elas. A convicção secular
de que ocupamos um lugar à parte em relação ao resto da natureza assume uma
grande variedade de formas que, na sua maioria, sublinham capacidades
infinitas como a aprendizagem, a linguagem, a cultura e o pensamento racional.
Estas capacidades deveriam permitir que nos regêssemos por regras diferentes
das das outras espécies e não exigem um conhecimento pormenorizado da
evolução, embora possivelmente tenham surgido por um processo de evolução
genética. É comum dizer-se que a «biologia» estabelece limites amplos ao nosso
comportamento, como a alimentação e a procriação, mas que a «cultura»
determina o que nós fazemos dentro desses limites amplos, como fazer arte em
vez de fazer bebés. Embora seja um lugar-comum, é verdade que gostamos de
comer e de sexo; muito mais interessante é a riqueza da nossa diversidade
cultural, acerca da qual a evolução não tem nada a dizer. Acima de tudo,
podemos escolher o nosso destino porque, ao contrário das outras espécies, o
nosso comportamento não está geneticamente determinado. Se acres-
centarmos o acompanhamento musical apropriado, a humanidade torna-se
como o capitão Kirk a bordo da nave espacial Enterprise, a dirigir-se confiante
para onde nunca ninguém esteve.
Húbris e mais húbris! Em primeiro lugar, ela dá excessiva ênfase aos
nossos atributos humanos únicos. Em segundo lugar, não mostra apreço pela
quantidade de evolução necessária para compreender os nossos atributos
humanos únicos.
Esses atributos únicos evoluíram ao longo de um período de
aproximadamente seis milhões de anos. Representam modificações dos
atributos dos grandes símios que têm aproximadamente dez milhões de anos,
dos atributos dos primatas que têm aproximadamente cinquenta e cinco
milhões de anos, dos atributos dos mamíferos que têm aproximadamente
duzentos e quarenta e cinco milhões de anos, dos atributos dos vertebrados que
têm aproximadamente seiscentos milhões de anos e dos atributos das células
nucleadas que têm aproximadamente mil e quinhentos milhões de anos. Se for
de opinião que não é necessário recuar tanto na árvore da vida para
compreender os nossos atributos, pense com humildade que partilhamos com
os nemátodos (pequenos seres semelhantes a minhocas) o gene que controla o
apetite. Quanto muito, os nossos atributos únicos assemelham-se a um anexo
acrescentado a uma vasta mansão com muitos quartos. É pura húbris pensar
que podemos ignorar tudo menos o quarto mais recente.
Já apresentei um exemplo de uma adaptação que partilhamos com outras
espécies de mamíferos: a avaliação de recursos durante a fase de
desenvolvimento fetal que determina a estratégia metabólica para o restante
tempo de vida do organismo. Esta simples adaptação tem uma combinação de
características que deixam a mente convencional estupefacta. Em geral não
imaginamos um feto a tomar uma decisão informada. Associamos as tomadas
de decisão ao pensamento consciente ou pelo menos a cérebros, quando esta
decisão é possivelmente inconsciente e envolve um sistema físico que tem os
atributos de uma «calculadora», mas não se limita necessariamente ao cérebro.
Associamos efeitos ambientais à aprendizagem, quando esta se assemelha mais
a uma chamada telefónica que desencadeia um «plano de guerra»
elaboradamente coordenado e previamente preparado. Se é assim que somos
construídos como espécie, juntamente com os macacos, os porcos e os ratos,
temos de estar informados acerca disso, para bem dos nossos filhos e não
apenas de uma compreensão científica esotérica.
Agora multiplique este exemplo por dezenas ou centenas de exemplos
semelhantes, influenciando todos os aspectos dos nossos corpos, mentes e
sociedades, e começará a apreciar a necessidade de pensar em nós como um
produto da evolução, como outra espécie qualquer. Há um bom livro recente
sobre este tema, que é Strangers to Ourselves: Discovering the Adaptative
Unconscious, do psicólogo social Timothy Wilson, que mostra quantas das
nossas decisões são provocadas por algoritmos inconscientes, em processos
semelhantes aos dos fetos a «decidirem» a estratégia metabólica que irão
adoptar.
Depois de nos apercebermos de que vivemos numa mansão com muitos
quartos construída pela evolução podemos dirigir a nossa atenção para o quarto
mais recente, que nos distingue das outras espécies. Ao longo dos séculos,
considerámo-nos os únicos seres inteligentes, dotados de uma moral, flexíveis e
capazes de apreciação estética. Na sua maioria, estas convicções são
autocomplacentes e suspeitas como afirmações factuais. Já mostrei que outras
espécies ultrapassam em muito a nossa inteligência para tarefas específicas e
que as características associadas ao bem podem evoluir em qualquer espécie,
desde que existam as condições ambientais adequadas. Mais adiante irei
alargar-me acerca destes temas e também revelar as profundas raízes evolutivas
da apreciação estética. No entanto, em última análise, é inegável a nossa
singularidade como espécie, sobretudo no que se refere à nossa flexibilidade
comportamental e à nossa capacidade de construir ambientes sociais. Muitos
professores e intelectuais designam-se a si próprios «construtivistas sociais» e
comprazem-se com a diversidade cultural. O seu problema não é estarem
errados, mas encararem a sua posição como não evolutiva. Precisam de se
tornar construtivistas sociais evolutivos, como irei mostrar de uma maneira
indirecta.
Consideremos o sistema imunitário dos mamíferos. Trata-se de uma
adaptação fabulosa, que evoluiu para nos proteger dos minúsculos predadores
que designamos por organismos portadores de doença. Os grandes predadores
como os leões e os tigres ocupam um lugar de destaque na nossa imaginação,
mas os predadores minúsculos são mais mortais e acompanham-nos, invadindo
os nossos corpos cada vez que respiramos ou comemos. Quando morremos, o
nosso sistema imunitário deixa de funcionar e somos imediatamente
consumidos pelos micróbios, semelhantes a muitos milhares de milhões de
hienas a lutarem sobre uma enorme carcaça de elefante. De certo modo, o nosso
sistema imunitário mantém estes predadores à distância, mas como? Uma
possibilidade consiste num grande número de «planos de guerra» que
evoluíram anteriormente, semelhantes às estratégias de distribuição dos
escaravelhos-bosteiros, às estratégias de defesa contra os predadores das rãs-
dos-bosques e dos vairões e às estratégias metabólicas dos fetos, que já descrevi.
O micróbio X invade o nosso corpo, é detectado por processos químicos e é
imediatamente atacado com o plano de guerra X do arsenal do sistema
imunitário. É assim, parcialmente, que funciona o sistema imunitário, mas isto
não é, nem pode ser, toda a história. Não só há demasiados tipos diferentes de
micróbios, mas cada tipo evolui a uma grande velocidade, como os micróbios da
taça de sopa que descrevi no capítulo 8. A única maneira de combater uma tal
diversidade de inimigos que se modificam tão depressa é combater o fogo com o
fogo, ou seja, a evolução com a evolução. O cerne do sistema imunitário, como
provavelmente já sabe, é a produção aleatória de anticorpos e a selecção
daqueles que se associam com êxito aos organismos de doença particulares no
nosso corpo. O sistema imunitário é um processo de ritmo rápido de evolução
de anticorpos, criado pelo processo de ritmo lento da evolução genética.
Ao contrário de outras adaptações genéticas que temos vindo a analisar o
sistema imunitário resolve o problema da dança com os fantasmas. Suponha
que um tipo de micróbio completamente novo chega de Marte e invade o nosso
corpo. A produção e selecção aleatória de anticorpos bem sucedidos talvez ainda
seja uma defesa eficaz, independentemente de o micróbio ter vindo da Terra, de
Marte ou da galáxia mais próxima. O facto de o sistema imunitário, em si
mesmo, ser um processo evolutivo significa que ele pode desenvolver soluções
adaptativas à sua própria escala de tempo e não à escala de tempo da evolução
genética.
Agora suponha que alguém se punha a afirmar que podemos compreender
o sistema imunitário sem nos preocuparmos a pensar na evolução. Isso estaria
profundamente errado por dois motivos. Em primeiro lugar, ignoraria o facto de
o sistema imunitário no seu cerne ser um processo evolutivo de ritmo rápido.
Em segundo lugar, ignoraria o facto de o sistema imunitário chegar a soluções
adaptativas apenas devido a uma arquitectura vasta e complicada que se
desenvolveu por meio da evolução genética. Compreender o sistema imunitário
exige um conhecimento detalhado da evolução, que opera a duas escalas de
tempo diferentes.
Espero que consiga ver como o caminho indirecto que segui nos faz recuar
até ao tema da singularidade humana e do construtivismo social. O sistema
irnunitário não é o único processo evolutivo de ritmo rápido construído pela
evolução genética. Gerald Edelman, galardoado com um Prémio Nobel pelo seu
trabalho sobre o sistema imunitário, estudou o cérebro humano como um
processo evolutivo por direito próprio e designa isto por «darwinismo neural».
A maioria dos processos abertos que associamos à singularidade humana, desde
o desenvolvimento flexível do cérebro até ao pensamento simbólico e à
diversidade cultural, reflectem processos evolutivos de ritmo rápido que se
verificam no interior de uma arquitectura criada pela evolução genética. Não
escapámos à evolução. Experimentamo-la a uma velocidade alucinante.
Todavia, a nave espacial Evolução não é como a Enterprise. Se não
compreendermos como funciona, levar-nos-á a sítios aonde não queremos ir.
À semelhança do filho pródigo e de programas como os Alcoólicos
Anónimos, tentei cultivar a humildade em relação a antigas maneiras de pensar
a fim de me preparar para me defrontar com novas maneiras de pensar. Vamos
rever os passos que demos no longo caminho que temos de percorrer rumo à
recuperação. Em primeiro lugar, tivemos de abandonar a noção de que
possuímos qualidades especiais que nos foram instiladas por um Criador.
Depois tivemos de reconhecer que vivemos numa mansão com muitos quartos,
a maioria dos quais partilhados com outras espécies. Finalmente, tivemos de
admitir que o nosso quarto especial requer a mesma compreensão
pormenorizada da evolução que opera a múltiplas escalas de tempo que é
necessária para compreender o sistema imunitário. Estas conclusões decorrem
da teoria da evolução a um nível tão fundamental que é muito pouco provável
estarem erradas, mas exigirão ajustamentos sísmicos em concepções da
natureza humana que têm muitos séculos. Como afirmei no capítulo 2, embora
a teoria de Darwin se esteja a aproximar do seu centésimo quinquagésimo
aniversário, ainda resta muito para o futuro desvendar. Vamos agora explorar o
que significa pensar em nós como um produto da evolução a cem por cento e
como esta maneira de pensar nos pode ajudar a descobrir uma maneira de viver
mais sustentável.

12
Ensinar os especialistas

Iniciei este livro com uma lista de afirmações sonantes acerca da evolução:
que ela pode tornar-se incontroversa, que os seus princípios básicos são fáceis
de apreender, que toda a gente devia querer aprendê-los, e por aí adiante. Neste
momento, espero que todo o meu leitor esteja de acordo quanto a estas
afirmações poderem ser sonantes, mas não escandalosas. Todas elas são
afirmações sustentáveis que decorrem da teoria da evolução a um nível
elementar.
Uma das minhas afirmações sonantes é que um evolucionista como eu
pode abordar com desenvoltura um novo assunto (como a religião) e ensinar
qualquer coisa aos especialistas cujo conhecimento factual é muito superior ao
que eu alguma vez poderei vir a ter esperança de alcançar. Se o leitor não estiver
familiarizado com o pensamento com base na selecção natural, assemelha-se ao
Darwin anterior ao seu momento na carruagem ou a uma pessoa a tentar
explicar uma escultura sem fazer ideia do que é um artista. Se for um
especialista, nesse caso o seu problema poderá ser ainda pior pois a sua cabeça
está repleta de factos sobre um assunto restrito que o impedem de pensar
noutros factos. Ninguém ilustra melhor esta situação que Margie Profet, uma
mulher catapultada para a fama em 1993 ao tornar-se um dos mais jovens
«génios» galardoados com o prémio da MacArthur Foundation que distinguiu a
sua teoria evolutiva sobre os enjoos durante a gravidez.
Margie não era especialista em coisa nenhuma. Filha de um casal que vivia
para a ciência (uma mãe engenheira e um pai físico), concluiu o curso de
Ciências Políticas em Harvard e obteve um segundo diploma em Física na
Universidade da Califórnia em Berkeley. Nenhum desses graus académicos
satisfez a sua curiosidade intelectual, pelo que abandonou a vida académica e se
tornou uma «vagabunda», como se define a si mesma, a fim de dispor de mais
tempo para pensar. Não tinha qualquer diploma formal em Evolução ou mesmo
em Biologia, mas, como descreveu em 1996 num artigo da Scientifjc American,
«conhecia algumas pessoas no campo da biologia evolutiva, com as quais
costumava conversar, lia tudo sobre o assunto e comecei a pensar nas coisas».
Uma dessas coisas ocorreu-lhe durante uma conversa com umas familiares
grávidas que se queixavam dos enjoos matinais, que é mais correcto designar
por enjoos da gravidez, pois podem ter lugar em qualquer altura do dia. Como
muitas outras mulheres grávidas, não podiam comer certas coisas que havia
umas escassas semanas tinham feito parte da sua dieta habitual, incluindo
algumas do seu particular agrado, como café e alimentos considerados
saudáveis, como legumes de folha verde escura. É frequente as grávidas terem
náuseas apenas com o cheiro destes alimentos e às vezes ficam tão mal dispostas
que têm de ir ao médico.
Estes factos do conhecimento geral sobre os enjoos da gravidez não
encaixavam bem no conhecimento que Margie acabara de adquirir sobre a
evolução. Considerados em si, os enjoos da gravidez são desagradáveis para a
mulher e para o bebé que vai nascer. A selecção natural elimina coisas que são
desagradáveis. É necessário acrescentar algo à história para explicar por que
motivo milhões e milhões de mulheres ficam misteriosamente «enjoadas»
quando engravidam. O raciocínio de Margie sobre o enjoo na gravidez
assemelhou-se à busca empreendida por Steve Suomi de um benefício que
compensasse o custo dos macacos dementes descritos no capítulo 6.
A pergunta que não saía da cabeça de Margie tinha mais de uma resposta
plausível. Talvez as mulheres grávidas sejam particularmente vulneráveis à
doença e os enjoos sejam causados por um agente infeccioso. Talvez haja um
poluente ambiental muito disseminado que provoque os enjoos. Talvez estes
estejam indissoluvelmente ligados a alterações hormonais que têm lugar
durante a gravidez, tal como uma cauda enrolada está ligada a um
comportamento amigável. Ou talvez o custo dos enjoos da gravidez esteja
associado a quaisquer benefícios mais vastos que possam ser identificados com
um nadinha de pensamento baseado na selecção natural.
Margie não levou muito tempo a conceber uma teoria plausível dos enjoos
da gravidez como uma adaptação, tal como muitos estudantes (e talvez também
o leitor) foram capazes de conceber uma teoria do infanticídio. A maioria das
espécies está envolvida numa corrida evolutiva com os seus predadores e a sua
presa. Os antílopes e as chitas evoluíram para correr mais depressa até ambos
correrem a uma velocidade vertiginosa. As sementes desenvolvem cascas mais
grossas e os papagaios bicos mais resistentes até conseguirem partir cascas de
oleaginosas que uma pessoa teria dificuldade em abrir com um alicate. Uma
corrida evolutiva semelhante criou inúmeras espécies de animais, plantas e
micróbios que estão adaptados para se protegerem com toxinas, mas, no
entanto, são comidos por espécies que estão adaptadas para fazerem face às
toxinas. Enquanto espécie omnívora descendente de uma longa linhagem de
omnívoros, somos tão bons a enfrentar as defesas químicas das outras espécies
que as utilizamos para combater os nossos parasitas e doenças.
Margie pôs a hipótese de os embriões não terem a capacidade de aguentar
a chacina química que faz parte da alimentação quotidiana de um adulto. Assim
sendo, a gravidez exigiria uma modificação nos hábitos alimentares da mãe para
proteger o seu embrião em desenvolvimento de ser envenenado pelas toxinas da
sua alimentação normal. Porém, a modificação não seria consciente, mas
aconteceria com a mesma regularidade mecânica com que um escaravelho
desenvolve chifres ou um feto adopta uma determinada estratégia metabólica,
Os enjoos da gravidez podem ser desagradáveis para a mãe e privar de calorias o
embrião em desenvolvimento, mas as consequências de não sofrer de náuseas
durante a gravidez poderiam ser muito piores.
A teoria de Margie era tentadora, mas isso não bastava para a tornar
correcta. Como já sublinhei, o melhor que uma teoria pode fazer é sugerir um
certo número de alternativas plausíveis. Para se avançar é necessário fazer girar
a manivela do método científico. Felizmente, as várias hipóteses dão origem a
consequências muito diferentes. Se os enjoos da gravidez forem causados por
um agente infeccioso, então seria possível identificar esse agente ou talvez curar
os enjoos com um antibiótico. Se os enjoos da gravidez forem causados por um
poluente disseminado, então isso seria um fenómeno recente e talvez mais
comum em países industrializados. Se os enjoos da gravidez fossem um
subproduto de modificações hormonais que têm lugar durante a gravidez (como
a cauda enrolada do cão), então devia ser possível descobrir as associações
ocultas. Se os enjoos da gravidez fossem uma adaptação destinada a proteger
das toxinas o embrião em desenvolvimento, então daí decorreria um certo
número de consequências. As náuseas deveriam coincidir com o período de
desenvolvimento mais vulnerável, deveriam ser desencadeadas pelos alimentos
com maior probabilidade de fazerem mal ao embrião, e por aí adiante. Cada
hipótese conduz a previsões tão diferentes que, com trabalho suficiente, devia
ser simples determinar a verdade da questão.
A trabalhar num apartamento de uma única divisão que partilhava com
esquilos e gaios do mato que iam receber mãos-cheias de amendoins, Margie
mergulhou na literatura científica e médica. Recordemos que, como foi referido
no capítulo 4, os factos são como tijolos — duradouros e fáceis de produzir,
embora inúteis até serem reunidos numa estrutura maior. A grande proeza de
Darwin consistiu em criar uma teoria que organiza os factos existentes e orienta
a busca de novos factos. O desafio de Margie consistiu em repetir o feito de
Darwin para o tema específico dos enjoos durante a gravidez. Ela teve acesso a
centenas de factos, mas estes eram como tijolos empilhados ao acaso, aqui e
além. Se tivesse podido montar com eles uma estrutura sólida, que hipóteses
iria essa mesma estrutura sustentar?
Um a um, os factos pareciam favorecer a hipótese da adaptação. Já em
1940 um investigador médico referia que as mulheres que sofriam de enjoos
graves durante a gravidez tinham menos propensão para abortar do que as
mulheres com sintomas menos graves. Os enjoos da gravidez ocorrem
principalmente durante o período em que o embrião está a desenvolver os seus
principais sistemas de órgãos e é particularmente sensível a toxinas. Os
alimentos muito condimentados e amargos são mais susceptíveis de
desencadear enjoos do que os insípidos. Esses mesmos alimentos estão
implicados em abortos e deficiências do feto. Não há conhecimento de nenhum
agente infeccioso ou poluente ambiental associado aos enjoos da gravidez. E
estes não estão limitados aos países industrializados modernos.
A investigação de Margie não tardou a levá-la para além do tema restrito
dos enjoos da gravidez, até outras adaptações que parecem destinadas a
proteger o embrião em desenvolvimento das toxinas dos alimentos. As grávidas
não só evitam determinados alimentos, mas os seus corpos também trabalham
mais para eliminar os produtos tóxicos dos alimentos que elas ingerem. Os
alimentos deslocam-se mais lentamente através dos intestinos. O fluxo
sanguíneo para os rins aumenta. O fígado eleva gradualmente a produção de
enzimas. O nariz torna-se mais sensível aos cheiros. Até o hábito aparentemente
bizarro de comer argila se torna explicável, uma vez que se provou que a argila
reduz a absorção de produtos químicos tóxicos para a corrente sanguínea e é um
ingrediente fundamental do Kaopectate, usado para tratar problemas de
estômago e náuseas. Estas alterações coordenadas têm todas a marca distintiva
de um importante «plano de guerra» fisiológico que evoluiu ao longo de milhões
de gerações, muito antes do nosso aparecimento como espécie, para resolver um
problema recorrente de sobrevivência e reprodução.
Vamos fazer uma pausa a fim de saborearmos a ironia da situação. Se a
teoria da Margie estiver correcta, as mulheres estão biologicamente adaptadas
para proteger os seus bebés durante o desenvolvimento. Porém, não têm um
conhecimento consciente da sua capacidade e só experimentam os sintomas
incómodos da aversão pela comida. Vão ao médico, a pensar que estão doentes.
Os médicos são especialistas que quase de certeza acreditam na evolução, mas a
grande maioria não pensa nela em relação com a sua profissão. A sua principal
preocupação consiste em encontrar alguma coisa que impeça as grávidas. de
vomitarem. Na década de 1950 receitavam um fármaco chamado talidomida,
que provocou deficiências trágicas em milhares de crianças de todo o mundo.
Mesmo depois de suspenderem o fabrico deste medicamento, praticamente
ninguém punha em causa a interpretação dos enjoos da gravidez como uma
indisposição que tinha de ser curada. Foi preciso uma vagabunda
intelectualmente curiosa para organizar o grande quadro como se fosse um
puzzle, usando o pensamento com base na selecção natural como a imagem da
tampa e os factos criados pelos especialistas como as peças, no seu apartamento,
rodeada pelos seus amigos esquilos e gaios do mato.
Margie publicou os resultados a que chegou para dois públicos. Para os
especialistas escreveu um longo artigo inserido num livro intitulado The
Adapted Mind: Evolutionary Psychology and the Generation of Culture, que
foi publicado em 1992 e ajudou a iniciar o estudo moderno da nossa espécie de
uma perspectiva evolutiva. Para as mães de toda a parte redigiu um livro
intitulado Protecting Your Baby to Be: Preventing Birth Defects on the First
Trimester, publicado em 1995. Alguns membros da corporação médica
manifestaram a sua desaprovação, afirmando que Margie estava a dar conselhos
médicos não comprovados, mas quem eram eles para atirar a primeira pedra
nesse mundo de informação incompleta? É certo que Margie elaborou o seu
texto a partir de estudos passados, em grande medida empreendidos tendo em
vista outros objectivos, mas isso seria por culpa dela? Como não ocorreu aos
especialistas que os enjoos da gravidez talvez representassem a outra face de
uma importante adaptação? Que irão fazer a esse respeito em termos de
investigação futura? Porque deviam as mães de todo o lado ser impedidas de
conhecer a teoria de Margie, que, afinal, se baseia numa avaliação cuidadosa de
informação científica passada?
Os enjoos da gravidez constituem o primeiro tópico que apresento aos
meus alunos depois de lhes ensinar os princípios básicos da evolução. Em vez de
usar o texto de Margie, utilizo um artigo mais recente de Samuel M. Flaxman e
Paul W. Sherman, publicado em 2000. Paul é um evolucionista da minha
geração que se tornou famoso já como estudante de pós-graduação pela sua
pesquisa sobre uma determinada espécie de esquilo terrestre. Costumava chegar
ao seu local de trabalho no campo todos os anos no Verão com uma equipa de
estudantes universitários que ficavam sentados em cadeiras semelhantes às dos
nadadores-salvadores, desde o nascer ao pôr do Sol, a registar tudo o que os
esquilos terrestres faziam quando estavam à superfície. Paul foi um dos
primeiros a apresentar dados comprovativos da teoria da selecção parental,
segundo a qual os animais devem ser particularmente agradáveis para com os
seus parentes genéticos. Ainda recordo que quando entrei para o mercado de
trabalho Sherman era a primeira escolha de tantas universidades que toda a
gente que competia pelos mesmos postos de trabalho tinha de esperar que ele
tomasse uma decisão. Acabou na Universidade de Cornell e, tal como eu, estuda
uma grande diversidade de assuntos. Sam era um aluno de Cornell que
trabalhava com Paul na avaliação da teoria de Margie. Por outras palavras, tanto
Sam como Paul eram não-especialistas no tema dos enjoos da gravidez, embora
Paul seja um especialista em evolução.
Dizem que assentar tijolos parece simples mas que, na realidade, se trata
de uma tarefa altamente especializada. É extraordinário ver um mestre nesta
arte a aplicar a argamassa e a assentar os tijolos sem desperdiçar um único
movimento. É ássim que penso no artigo de Simon e Paul: o mestre e o seu
aprendiz em acção a fazerem girar a manivela do método científico sem um
único movimento desperdiçado. A maioria dos meus alunos está de acordo, o
que me dá um grande prazer. Eles andam apenas há umas semanas a reflectir
sobre evolução e já lêem artigos científicos — escritos por especialistas — e não
só os entendem como extraem prazer da sua leitura.
No capítulo 3 afirmei que o pensamento baseado na selecção natural pode
ser aplicado a um número infinito de assuntos. A mente de Margie estava num
estado de grande agitação relativamente a três assuntos e não apenas a um.
Além dos enjoos da gravidez, ela tinha teorias sobre alergias e menstruação. O
seu raciocínio era o mesmo em todos os casos: consideradas em si, estas coisas
são más e deviam ser eliminadas pela selecção natural. A que estão associadas
que as mantém como uma parte da experiência humana? Este simples processo
de raciocínio não é como um míssil termoguiado que encontra infalivelmente o
seu alvo, como já sublinhei. Ele apenas nos lança de pára-quedas nas
proximidades de uma resposta, mas quem, em seu pleno juízo, iria evitar usar
essa informação quando é tão fácil ter acesso a ela? Tanto quanto sei, a teoria de
Margie relativa à menstruação não teve grande êxito, a sua teoria das alergias foi
mais bem acolhida e ambas ajudaram a acelerar o movimento da roda do
método científico. Quanto a Paul Sherman, com a ajuda de outra estudante
universitária, chamada Jennifer Billing, realizou mais uma proeza sobre o tema
aparentemente arbitrário do motivo pelo qual pomos especiarias na comida. Já
alguma vez se interrogou sobre o motivo por que algumas cozinhas insistem
muito mais nas especiarias do que outras? Sabia que quando os Godos cercaram
Roma, em 408 d. C., pediram de resgate cinco mil libras de ouro e três mil libras
de pimenta? Tal como os alunos do meu curso, que começam a ter prazer na
leitura de artigos científicos e a compreendê-los, talvez lhe agrade visitar o site
de Paul na Internet (basta digitar o nome dele no Google) e fazer o download de
alguns dos seus artigos sobre especiarias. Uma vez adquirida a preparação
necessária, são mais interessantes que as inconsistências das revistas populares.
Como um dos meus alunos observou: «Nunca mais voltarei a encarar as
especiarias da mesma maneira!»
A ciência médica é altamente sofisticada, mas raramente beneficia do
pensamento com base na selecção natural. A maioria dos médicos e dos
investigadores dessa área acredita na evolução como algo evidente, mas o seu
contacto com ela nas faculdades de Medicina é praticamente nulo e não
reflectem nela relativamente à sua profissão. Enquanto esta situação se
mantiver, os vagabundos intelectuais como Margie Profet e os mestres
evolucionistas como Paul Sherman com o seu grupo de alunos universitários
têm muito a ensinar aos especialistas.

15
A cidade do crime

No mês de Junho de 2005 estive no átrio do luxuoso Hyatt Regency Hotel,


em Austin, no Texas. Tinha-me reunido com 450 dos meus colegas para
assistirmos à conferência anual da Human Behavior and Evolution Society
(HBES). Por casualidade, vinte mil motociclistas também se tinham
concentrado em Austin para participar no encontro de motociclistas de 2005 da
República do Texas (ROT). Havia máquinas monstruosas alinhadas no parque
de estacionamento e no bar os membros do ROT, com o seu ar de duros,
misturavam-se com os elementos da HBES, que tinham ar de ratos de
biblioteca. Aquilo devia parecer a cena de abertura de uma guerra de culturas
cataclísmica, embora não fosse nada que se assemelhasse a isso. Toda a gente
estava ali para se divertir e não havia o mais ligeiro vestígio de tensão.
Na noite anterior eu tinha-me associado à gente do ROT, da HBES e a
outros, numa das maiores atracções de Austin, a maior colónia de morcegos
urbanos do mundo. Reunimo-nos numa das pontes sobre o rio Cobrado como se
estivéssemos a assistir a um concerto ao ar livre. Na altura em que começou a
escurecer, a ponte e a zona coberta de relva por baixo dela estavam cheias de
espectadores, e os primeiros morcegos-rabudos mexicanos começaram a jorrar
de baixo da ponte. O ribeiro tornou-se uma torrente, que continuou a engrossar
até não ser possível entender como tantos morcegos — calculados em 1,5
milhões — podiam caber debaixo de uma única ponte. Que coisa maravilhosa
essa explosão de vida não ter sido exterminada, tornando-se, antes, uma causa
de celebração.
Embora fossem invisíveis para nós, centenas de milhares de morcegos
bebés permaneceram debaixo da ponte à espera do regresso das mães.
Pendurados de cabeça para baixo, estão tão juntos que os seus corpos formam
um tapete vivo contínuo. Talvez se perguntem como uma determinada mãe
consegue encontrar o filho no meio de tantos pequenos morcegos. Falando com
todo o rigor, isso não é necessário. As mães podiam ligar-se a qualquer bebé e a
população perpetuar-se-ia, talvez ainda melhor do que se cada mãe insistisse em
encontrar o seu próprio filho. Por outro lado, um pouco de pensamento com
base na selecção natural torna evidente que as mães que dão preferência a
amamentar os seus próprios filhos perpetuarão melhor os genes do que aquelas
que amamentam indiscriminadamente.
Como com todas as outras previsões deste livro, esta não passa de uma
conjectura, que não está necessariamente correcta. Talvez não haja
simplesmente maneira de as mães encontrarem os seus rebentos no tapete vivo,
por muito vantajoso que isso pudesse ser. Justamente, esta pergunta foi feita e
obteve resposta relativamente aos morcegos-rabudos mexicanos. Cada bebé tem
um grito característico que a mãe consegue reconhecer entre centenas de
milhares de outros gritos. Os mecanismos próximos que possibilitam isto ainda
são mais extraordinários que o espectáculo da corrente interminável de
morcegos que nos reunimos para ver. O bebé recém-nascido tem de emitir o seu
grito único, esse grito tem de ficar registado no cérebro da mãe antes de ela voar
pela primeira vez para longe do filho, e a mãe tem de possuir o equipamento
auditivo para identificar e localizar aquele grito entre milhares de outros. Essa
capacidade é sobre-humana porque nunca nos defrontámos com este problema
particular durante o nosso passado evolutivo. Depois de nos maravilharmos
com a sua complexidade, temos igualmente de reconhecer o seu lado sombrio.
Um bebé que perde a mãe não é alimentado por mais ninguém. Fica rodeado de
corpos, mas não de amor. O seu grito característico torna-se mais estridente,
depois mais débil, até o bebé cair ao rio Colorado e se transformar em comida
de peixe.
Quando a noite caiu fui reunir-me aos meus companheiros da HBES e
regressámos ao hotel. A conferência de quatro dias integrava centenas de
comunicações, semelhantes ao exemplo dos enjoos da gravidez a que me referi
no capítulo anterior e abarcava a experiência humana em toda a sua extensão.
Algumas das maiores celebridades científicas encontravam-se presentes,
incluindo Ed Wilson e Steven Pinker, além de outras estrelas da HBES, ainda
que menos conhecidas do público em geral. Estas incluíam Martin Daly e Margo
Wilson, que, em 1988, publicaram a obra Homicide, que constituiu um marco.
Esse livro não conseguiu o número de leitores de Consilience, de Ed, ou de The
Blank Slate, de Steve, embora em alguns aspectos ainda fosse mais importante,
pois a sua leitura imprimiu algum movimento científico à manivela, em vez de
abordar generalizações, por muito importantes que estas sejam.
Martin e Margo tiveram a brilhante ideia de que era possível recorrer a
estatísticas de homicídio a fim de testar hipóteses evolutivas acerca do
comportamento humano. Afinal quase todas as mortes são registadas e
investigadas, mesmo que não se encontre solução para todos os casos. As
pessoas matam-se umas às outras por razões que as apaixonam, ao contrário
dos estudantes universitários que preenchem mais um questionário psicológico.
Finalmente, se a teoria da evolução pode fazer luz sobre o motivo que leva as
pessoas a matarem-se umas às outras, isso pode ter um enorme valor prático
além do seu interesse puramente científico. Homicide apresenta os resultados
dessa investigação. Porque matam os pais os seus descendentes? Porque matam
os descendentes os pais? Porque matam os maridos as mulheres e vice-versa?
Porque se matam desconhecidos uns aos outros, por vezes por motivos
aparentemente triviais? Porque é tantas vezes o homicídio praticado entre
grupos e legitimado como guerra? Para cada uma destas perguntas, Martin Daly
e Margo Wilson constroem uma resposta, como se fosse um puzzle, utilizando o
pensamento com base na selecção natural como a imagem da tampa e as
estatísticas dos crimes como as peças, à semelhança do que Margie Profet fez
para os enjoos da gravidez. Ainda me recordo de quando recebi o livro pelo
correio, com essa única palavra, Homicide, impressa numa capa preta, como
que saída da máquina de escrever de um repórter criminal calejado. Li-o
imediatamente e adorei-o de tal modo que no Natal o ofereci a toda a minha
família e a todos os meus amigos. Achei-o muito melhor do que um romance
policial, por ser uma abordagem da verdade: os factos mais consistentes que é
possível comprovar reunidos na mais consistente estrutura explicativa que
podemos construir.
Convidei Martin e Margo para tomarem o pequeno-almoço comigo
durante a conferência a fim de me contarem como tinham escrito aquele livro
maravilhoso. Eles são marido e mulher e trabalham juntos há tanto tempo que a
sua conversa alterna entre um e outro formando um todõ homogéneo, embora
com um ou outro ponto de desacordo bem-humorado, como nos números de
comédia bem ensaiados. A sua história começa na década de 1970, quando eram
jovens assistentes no campus de Riverside da Universidade da Califórnia. Nesse
tempo estudavam animais, e não seres humanos e, com um grupo de alunos,
andavam a ler a obra de Ed Wilson publicada havia pouco Sociobiology: The
New Synthesis.
Esse livro reflectia uma transformação que tinha ocorrido no estudo do
comportamento animal. Ainda que a semente do pensamento com base na
selecção natural tivesse sido lançada à terra por Darwin e se tivesse
desenvolvido no início do século xx, graças a pioneiros como Karl von Frisch,
Konrad Lorenz e Niko Tinbergen (que receberam o Prémio Nobel em 1973), só
nos anos 60 os cientistas adquiriam o hábito de fazer a pergunta simples de
«Como se comportaria um animal bem adaptado numa dada situação?», como
eu fiz sobre o infanticídio no capítulo 3. Como que saídas de uma bola de cristal,
surgiram centenas de previsões. Os modelos matemáticos conferiram a estas
previsões uma precisão misteriosa: os predadores forrageiros deviam ignorar
um determinado tipo de presa precisamente quando o tempo exigido para
processar isto pode ser mais bem empregado a procurar e processar uma presa
mais desejável. Indivíduos da mesma espécie deviam ter propensão para a
entreajuda na proporção directa do seu coeficiente de parentesco genético. O
rácio sexual das vespas parasitas devia depender do número de fêmeas que
punham ovos num único hospedeiro. Muitos biólogos, pouco acostumados ao
pensamento com base na selecção natural, mostraram-se incrédulos. Porque
devia uma vespa comportar-se de uma maneira que exige cálculo para a
prevermos? Quer nos agradassem quer não, as previsões eram
fundamentalmente testáveis e a manivela do método científico começou a girar
com um ruído satisfatório. Surgiu um novo quadro de animais muito mais
sofisticados nas suas estratégias comportamentais do que a maioria dos
cientistas anteriormente imaginava. The New Synthesis foi um excelente
subtítulo para Sociobiology, porque, pela primeira vez, todas as formas de
comportamento social em todas as espécies estavam a ser abordadas de uma
única perspectiva teórica, O último capítulo do livro de Ed sobre os seres
humanos deu brado, mas poucas pessoas puseram em causa a nova síntese em
relação ao resto do mundo animal.
Martin e Margo ficaram impressionados com o poder de previsão da teoria
da evolução, mas também se orgulhavam de ser bons empiristas, cujo lema
poderia ser «Mostrem-me os dados». Martin estava a estudar os cuidados e a
negligência parental nos ratos (num trabalho semelhante ao meu trabalho sobre
os escaravelhos-necrófagos descrito no capítulo 4) e era com frequência que os
debates da Sociobiology se voltavam para dados relativos a outras espécies.
Quase como em resultado de uma ideia que tivesse acabado de lhe ocorrer,
alguém perguntava: «E os seres humanos?» Afinal os maus tratos infantis são
um problema amplamente reconhecido e o número de pessoas que o estudam é
muito superior ao número das que estudam a negligência parental em todas as
outras espécies reunidas. Um aluno ofereceu-se como voluntário para verificar
isto e regressou desapontado. Era fácil encontrar artigos sobre maus tratos
infantis, mas ficava-se com a impressão de que não estavam a fazer as mesmas
perguntas ou a recolher o tipo certo de informação para verificar mesmo as
hipóteses evolutivas mais básicas.
Martin e Margo podiam nem ter escrito o seu livro se não fossem dois
acontecimentos inesperados: Martin tornou-se alérgico aos ratos e ofereceram-
lhes novos empregos a ambos no Canadá, de onde eram naturais, na McMaster
University, em Hamilton, no Ontário. Pelo caminho passaram por Detroit, no
Michigan, que recentemente havia sido apelidada de «Cidade do Crime» pela
imprensa por ter a taxa de homicídio mais elevada dos Estados Unidos. Foi
então que tiveram a sua ideia genial sobre as estatísticas de homicídio como
fonte de informação fiável para comprovarem as hipóteses evolutivas. Martin
precisava de um novo organismo de estudo que não lhe provocasse urticária —
porque não pessoas? A partir destes primeiros passos humildes, foram aos
poucos reunindo informações sobre o crime em Detroit, em sociedades
modernas e tradicionais de todo o mundo e mesmo em tempos tão recuados
como a Inglaterra do século XIII a fim de satisfazerem a sua necessidade
premente de dados.
Não tardaram a descobrir que, embora praticamente todas as mortes
sejam investigadas, é frequente a informação reunida para cada uma delas
deixar muito a desejar. Era necessária habilidade para prosseguir. Pensemos na
teoria de William Hamilton da selecção de parentesco, que prevê que,
mantendo-se todos os outros dados, os animais devem ajudar-se (e evitar
prejudicar-se) uns aos outros na proporção directa do seu grau de parentesco
genético. Isto pode parecer evidente — uma versão formal da expressão «O
sangue é mais espesso que a água» —, mas na altura constituiu uma importante
descoberta teórica, e Paul Sherman, cujo trabalho sobre os enjoos durante a
gravidez e as especiarias descrevemos no capítulo anterior, começou por tornar-
se conhecido ao mostrar que é mais provável os esquilos terrestres avisarem um
parente genetico da aproximação de um predador do que um vizinho que não
esteja geneticamente relacionado com eles. Como vimos no caso do infanticídio,
a ocorrência de conflitos fatais entre parentes é normal em determinadas
situações, mas em geral a regra de Hamilton de «o sangue ser mais espesso que
a água» mantém a sua validade. Esta foi a primeira previsão que Martin e
Margo esperavam comprovar para os seres humanos com as suas estatísticas de
homicídio.
Para sua surpresa, descobriram que os criminologistas tinham chegado a
conclusões diferentes. Como dois preeminentes especialistas em violência
doméstica dos Estados Unidos constataram: «Na nossa sociedade, à excepção
da polícia e dos militares, a família é talvez o grupo social mais violento e o lar o
quadro social mais violento. É mais provável uma pessoa ser assassinada na sua
casa por outro membro da família do que noutro lugar qualquer ou por outra
pessoa qualquer.»
Esta conclusão baseava-se no facto de aproximadamente um quarto dos
homicídios cometidos nos Estados Unidos ter lugar entre membros da família —
mas o que se considera um membro da família? É característico as estatísticas
do crime incluírem uma categoria como «parente» para a relação entre o
assassino e a vítima, mas, além do parente genético, essa pessoa pode ser o
cônjuge, um parente por afinidade ou um enteado. A maioria das estatísticas do
crime não inclui estas subcategorias. Quando o fazem, é muito mais provável
que as vítimas de homicídio sejam os cônjuges e os parentes por afinidade do
que os parentes de sangue, como a regra de Hamilton previa.
Outro problema relacionado com a imagem da família enquanto quadro
social violento exige uma compreensão básica dos números em contraposição
com os rácios. Na cidade de Nova Iorque todas as noites há mais pessoas a
morrerem na cama do que em Central Park. Isso torna a cama de uma pessoa
um sítio mais perigoso do que Central Park à noite? Claro que não, pois há mais
pessoas na cama do que em Central Park. É necessário um rácio para calcular o
risco — talvez 1 morte para 1000 pessoas em Central Park à noite (1/1000 =
0,001) e 20 mortes para 8 000 000 de pessoas na cama (20/8 000 000 =
0,0000025). Poderia parecer que os criminologistas profissionais não
cometeriam um erro tão crasso, mas foram muitas as vezes que Martin e Margo,
desapontados, o encontraram. Sempre que conseguiram calcular os rácios de
risco adequados, descobriram que na realidade o sangue era mais espesso que a
água. Talvez a comparação mais hábil que fizeram fosse a que envolveu
homicídios comparativos, em que duas ou mais pessoas se aliam para matar
uma terceira. Se o parentesco genético não faz diferença, então o grau médio de
parentesco entre os assassinos e a vítima devia ser o mesmo que entre os
assassinos. Martin e Margo descobriram dados adequados para comprovar esta
hipótese em sociedades tão diversas como os horticultores tribais, a Inglaterra
medieval, as aldeias maias e a América urbana. Em todos os casos, era muito
mais provável os assassinos estarem geneticamente relacionados uns com os
outros do que com a vítima.
Foi então que Martin Daly e Margo Wilson se viraram para o tema
específico do infanticídio. Se bem se recorda, no capítulo 3 o infanticídio foi
estudado numa grande quantidade de espécies animais, tendendo a ser
associado à falta de recursos, à fraca qualidade da descendência e à paternidade
incerta. Os padrastos e madrastas estão certos de que não têm parentesco
genético com os enteados, o que poderia parecer criar uma situação arriscada.
Como é óbvio, o parentesco genético não é o único factor relevante e muitos
padrastos e madrastas (incluindo os meus) têm relações maravilhosas com os
enteados. Ao contrário dos morcegos-rabudos mexicanos bebés, os bebés
humanos, além de estarem rodeados de corpos, podem ser rodeados de amor e o
círculo do amor pode estender-se para lá dos parentes de sangue. Em breve
iremos explorar esta capacidade humana especial, mas por agora precisamos de
chamar a atenção para a sua natureza parcial. Seria ingénuo pensar que todos os
padrastos e madrastas consideram os enteados e os filhos exactamente da
mesma maneira e exactamente com a mesma preocupação. Uma pessoa média,
sem formação científica, rir-se-ia desta ideia, e um evolucionista mostrar-se-ia
particularmente incrédulo. Recorde-se que no capítulo 11 referi que a mente
humana é uma mansão com muitos quartos, alguns tão antigos que são
anteriores à nossa existência como espécie ou até à existência de toda a ordem
dos primatas. Os cuidados maternos são uma antiga adaptação dos mamíferos
orquestrada pelo mesmo tipo de «calculadoras» inconscientes que descrevi no
capítulo 8 para os nossos hábitos alimentares. Os cuidados parentais por parte
do pai são muito menos comuns entre os mamíferos, mas mesmo assim
desenvolveram-se inúmeras vezes como resposta a condições ambientais que
permitem aos machos melhorar a aptidão da progenitura conjugando esforços
com as mães. Apesar da sua ocorrência esporádica, os cuidados parentais por
parte do pai também são orquestrados por «calculadoras» inconscientes.
Mesmo partindo do princípio de que somos suficientemente esclarecidos para
conceder conscientemente igual tratamento aos nossos enteados e aos nossos
filhos biológicos, será húbris pensar que as nossas decisões conscientes se
sobrepõem completamente a estes mecanismos inconscientes. Estatisticamente,
é fácil apostar que os filhos correm maiores riscos com um padrasto ou
madrasta do que com os pais biológicos. Foi esta a previsão evolutiva de Martin
e Margo, mas muitas pessoas considerá-la-iam puro senso comum.
Mais uma vez, Martin e Margo ficaram surpreendidos com o que se lhes
deparou na literatura científica criminológica e social. O parentesco genético
não era reconhecido como factor relevante no que tocava aos maus tratos
infantis e muitas vezes as estatísticas do homicídio incluíam apenas uma
categoria para «pais», sem distinguir padrastos e madrastas de pais biológicos.
Quando esta distinção tinha lugar, havia o problema dos números em
contraposição aos rácios. Numa amostra de casos fatais de bebés espancados em
Inglaterra, quinze foram mortos por padrastos e catorze por pais biológicos.
Estes números fornecem os numeradores, mas nada significam até dispormos
dos denominadores — o número de bebés que residem com progenitores
biológicos contraposto ao dos que residem com padrastos ou madrastas, à
semelhança do número de pessoas em Central Park contraposto ao das que
estão no quarto. Embora o divórcio e um novo casamento sejam comuns em
Inglaterra, tal como acontece noutros países, raramente têm lugar tão
rapidamente que um bebé vá residir com um padrasto, pelo menos em
comparação com o número dos que residem com o pai biológico. Assim, temos
de dividir por um número muito grande os catorze bebés mortos pelos pais
biológicos e por um número muito mais pequeno os quinze que haviam sido
mortos pelos padrastos, precisamente como no exemplo que apresentámos de
Central Park. Quando Martin e Margo calcularam os rácios correctamente, o
parentesco genético emergiu não apenas como um factor de risco, mas como o
factor de risco mais importante no que toca ao infanticídio. Consoante a
sociedade em que conseguiam encontrar a informação necessária, era vinte a
cem vezes mais provável uma criança ser morta por um padrasto ou madrasta
do que por um pai ou mãe biológico. Num gráfico no qual a altura de uma
coluna indica o risco de infanticídio, as colunas para os padrastos e madrastas e
para os pais biológicos surgem como o Empire State Building ao lado da casa de
um rancho. Todavia, é importante recordar que mesmo as taxas mais elevadas
são da ordem de seiscentas vítimas num milhão de pares pai-filho co-residentes,
por ano. O infanticídio não é comum e há uma variação considerável entre as
sociedades, ainda que, como é evidente, os padrastos representem um risco
maior do que os pais biológicos em todas as sociedades onde existe informação
disponível. Há muitas comparações relevantes a ter em mente.
Estes cálculos nem sequer consideram a possibilidade de os pais
classificados como «biológicos» poderem ter tido sérias preocupações acerca da
sua verdadeira paternidade, a ausência de recursos ou a qualidade da
progenitura. Por outras palavras, a casa do rancho talvez tenha uma lógica
evolutiva própria, ainda que seja pequena ao lado do Empire State Building.
Com uma energia aparentemente inesgotável, Martin e Margo passaram a pente
fino a literatura mundial relativa a sociedades tradicionais, bem como
modernas, e mostraram que os três grandes factores explicavam a ocorrência de
infanticídio na nossa espécie assim como em todas as outras. Há também um
efeito importante da idade materna. De uma perspectiva evolutiva, as decisões
de investimento parental são fundamentalmente um compromisso entre a
reprodução presente e futura. Quanto mais velha uma pessoa é menos provável
se torna que venha a reproduzir-se no futuro. Por conseguinte, o infanticídio
deveria ocorrer com mais frequência entre as mulheres jovens, o que se revela
válido para sociedades tão diversas como o Canadá e os índios ayoreo da
América do Sul.
Isto é apenas uma pequena fracção do que Martin e Margo realizam em
Homicide. A história que contam parece-me profuhdamente irónica. Eles estão
a estudar não um tema obscuro pelo qual só um cientista se pudesse interessar,
mas um tema que é altamente relevante para o bem-estar humano. Os políticos
que gostam de ridicularizar a investigação científica podem escolher como alvo
a negligência parental nos ratos, mas não a negligência parental nos seres
humanos. O governo declara guerra ao crime e cria um exército de
criminologistas e de cientistas sociais para o estudar, como é seu dever. Ainda
que este exército disparasse ao acaso, parece que se deveriam descobrir os
principais factores de risco associados a um problema como os maus tratos
infantis, cuja manifestação mais extrema é o infanticídio. Entram em cena
Martin e Margo, não especialistas e armados apenas de previsões
dolorosamente óbvias de uma perspectiva evolutiva. Algumas são mesmo óbvias
de uma perspectiva de senso comum, como ser mais fácil as crianças serem
maltratadas por padrastos ou madrastas do que pelos pais biológicos. No
entanto, a novidade dessas previsões é tal que a maioria dos especialistas nem
sequer está preparada para elas. Encontrar a informação relevante é como
peneirar montanhas de gravilha para encontrar umas escassas pepitas de ouro.
«Como foi o Homicide recebido?», perguntei-lhes enquanto tomávamos o
pequeno-almoço.
«Há quem o adore, mas outros detestam-no», respondeu Martin.
«Alguns ficam apoplécticos», acrescentou Margo.
Atendendo a todas as outras ironias, aquela já não me surpreendeu. Está
qualquer coisa a passar-se que é mais complicada do que o modo característico
como o processo científico é apresentado, qualquer coisa que permite que uma
mesma afirmação seja evidente para uma pessoa e inadmissível para outra.
A sessão da manhã da HBES estava prestes a começar e precisávamos de
terminar a nossa conversa do pequeno-almoço. Martin e Margo não queriam
perder uma palestra sobre a escolha de parceiro sexual e eu queria assistir a
outra sobre o uso de chifres como símbolos na mitologia. Martin, porém, é um
pouco exaltado e, quando começa a falar sobre a recepção do Homicide, tem
dificuldade em parar. As últimas palavras que o ouvi dizer enquanto Margo o
empurrava através do átrio do Hotel Hyatt Regency foram: «Eles não sabem que
há vidas em jogo?»

14
Como aprendi a deixar
de me preocupar e a amar
o determinismo genético

Quando dizemos a palavra «evolução» algumas pessoas ouvem a


expressão «determinismo genético». Se os nossos comportamentos são
determinados pelos nossos genes, e se os nossos genes não podem mudar, então
os nossos comportamentos também não podem mudar por muito que
queiramos. As injustiças sociais têm de ser impossíveis de erradicar por estarem
enraizadas nos nossos genes. Para muitas pessoas, negar o potencial humano
para a mudança é o equivalente secular de negar a existência de Deus. As
implicações imaginárias do determinismo genético são tão ameaçadoras que
conduzem a uma forma de criacionismo secular descrita no capítulo 1 — a
negação da importância da evolução para os assuntos humanos, apesar da sua
importância para o resto da vida.
Conto-me entre aqueles que acalentam a ideia de que o mundo pode vir a
ser muito melhor no futuro, mas considero a teoria da evolução uma ferramenta
essencial para realizar a mudança. Deixem-me mostrar porque está errado o
raciocínio do parágrafo anterior e por que motivo qualquer pessoa que queira
melhorar a condição humana deveria desejar tornar-se um evolucionista
sofisticado.
Nenhum ser vivo — nem sequer uma bactéria — é tão simples que receba
instruções dos seus genes para «fazer X». Todos os seres vivem em ambientes
variáveis e recebem instruções dos seus genes para se comportarem de um
determinado número de maneiras, consoante as condições específicas que se
lhes deparem. Uma caricatura do determinismo genético teria de ser pelo
menos como se segue:

Nesta situação... ...comporta-te desta maneira


X x’
Y Y’
Z z’

Nos capítulos anteriores há numerosos exemplos deste tipo de


flexibilidade geneticamente determinada. Se o leitor for um escaravelho-
necrófago e tiver uma carcaça pequena, então reduz o tamanho da ninhada. Se
for uma fêmea ou um macho pequeno de um escaravelho-bosteiro, então não
desenvolve um chifre. Se for um vairão e vir um predador, então mantém-se
tímido até ao fim da vida. Se for um feto com peso insuficiente, então
desenvolve um metabolismo económico. O comportamento é rigorosamente
determinado pelos genes em qualquer situação ambiental particular, como é
costume imaginar para o determinismo genético, mas a existência de múltiplas
situações introduz uma alteração. Suponhamos que considera o comportamento
Z’ desejável. Por muito que tente, pode não conseguir realizar o com portamento
Z’ nas situações X ou Y, mas não pode deixar de conseguir realizar o
comportamento Z’ na situação Z. O seu plano de acção para realizar o
comportamento Z, desejável, tornou-se evidente: forneça a situação ambiente Z
e já está.
Não pretendo dizer que melhorar a situação humana é assim tão fácil, mas
existe qualquer coisa profunda neste exemplo simples que precisamos de
apreciar plenamente antes de acrescentarmos complicações. Como é habitual
imaginar, o determinismo genético é ameaçador pois implica a incapacidade de
mudança e a futilidade da intervenção ambiental. Encarar o determinismo
genético como um conjunto de regras do tipo «se-então» permite-nos chegar à
conclusão exactamente oposta. O novo determinismo genético fornece uma
receita pormenorizada para se conseguir a mudança especificando o tipo certo
de intervenção ambiental. Todas as pessoas que detestam o velho determinismo
genético deveriam adorar o novo!
O meu exemplo parte do pressuposto de que a espécie se confrontou com a
situação Z vezes suficientes durante a sua evolução genética para desenvolver a
resposta adaptativa Z’. De outro modo, não há razão para esperar que Z’ faça
parte do repertório comportamental e regressamos às implicações sombrias que
é característico associar ao determinismo genético, como vimos para as aves das
ilhas Galápagos que confundiam os marinheiros com árvores. Por outro lado, o
meu exemplo não inclui os processos evolutivos de ritmo rápido construídos
pela evolução genética que descrevi no capítulo 11 e que cada vez irão chamar
mais a nossa atenção nos próximos capítulos. Estes podem produzir o
comportamento Z’ desejável em resposta à situação ambiental Z, mesmo que Z
não estivesse presente durante a evolução genética.
Vou recorrer a um exemplo para ilustrar estas ideias abstractas. Em 1997,
os incansáveis Margo Wilson e Martin Daly publicaram um artigo no British
Journal of Medicine intitulado «Life Expectancy, Economic Inequality,
Homicide, and Reproductive Timing in Chicago Neighborhoods» (inverti a
ordem dos nomes deles, pois Martin é o primeiro autor de Homicide e Margo é
a primeira autora do artigo). A cidade de Chicago está dividida em setenta e sete
bairros para os quais as taxas de homicídio e outros dados estatísticos vitais são
compilados separadamente. Esses bairros variam imenso quanto a qualidade de
vida, incluindo a própria duração média de vida. Os bebés nascidos nos
melhores bairros têm uma esperança de vida vinte anos superior (até aos
setenta e tal anos) à dos nascidos nos piores (cinquenta e tal anos). As
diferenças desta amplitude verificam-se em geral entre países desenvolvidos e
subdesenvolvidos, mas Margo e Martin encontraram-nas numa escala muito
mais reduzida dentro de uma única cidade americana.
Nos bairros com menor esperança de vida, as mulheres também tinham
tendência a começar a ter filhos mais cedo. A gravidez durante a adolescência é
também amplamente reconhecida como um problema social, mas quando
perguntaram às mulheres do gueto por que motivo tinham filhos tão cedo elas
deram uma resposta que só pode suscitar simpatia. Disseram que queriam que
as mães delas conhecessem os netos e elas também queriam poder conhecer os
próprios netos. Usavam o termo «desgaste» para descrever a deterioração de
saúde que observavam à sua volta. Se o leitor e aqueles que lhe são chegados
estivessem a desgastar-se a um ritmo rápido não gostaria de começar a ter filhos
suficientemente cedo para os conhecer e para os ajudar a criarem os seus
próprios filhos?
As taxas de homicídio variavam enormemente entre bairros, oscilando
entre 1,3 e 156 por 100 mil por ano. Quando Margo e Martin compararam a taxa
de homicídio de um bairro com outras causas de morte (a esperança de vida na
altura do nascimento não ‘tendo em conta a mortalidade provocada por
homicídio), descobriram uma correlação extraordinariamente forte (r=-0,88). A
maioria dos gráficos deste tipo revela uma grande nuvem de pontos com uma
tendência ascendente ou descendente, mas este assemelha-se mais às pérolas
num colar. Como é evidente, se o leitor for um indivíduo do sexo masculino
natural da cidade de Chicago, a hipótese de vir a cometer ou a ser vítima de um
crime está muito fortemente relacionada com a sua hipótese de morrer de
outras causas.
É talvez mais difícil sentir empatia por indivíduos do sexo masculino das
zonas deprimidas da cidade que cometem assassínios do que por mulheres
dessas mesmas zonas que têm filhos, mas pense na situação desesperada de um
homem que quase não tem perspectivas de reprodução se é um «zé-ninguém» e
que tem bastantes perspectivas se conseguir vir a ser «alguém». A vida tornou-
se uma lotaria perversa, com uns quantos bem-sucedidos e muitos falhados.
Entrar na lotaria exige assumir riscos extremos a fim de obter estatuto,
incluindo confrontos directos com outros homens que competem pelo mesmo
estatuto. Como o rapper 50 Cent diz no álbum e no filme: «get rich or die
tryin». Um dos maiores feitos de Martin e de Margo em Homicide consistiu em
explicar o tipo de crime que parece ocorrer por uma insignificância: dois
homens discutem por causa de um jogo de bilhar ou um insulta a namorada do
outro e a animosidade vai subindo até chegar ao assassínio, muitas vezes à vista
de quem está por perto. Os criminologistas costumam classificar este tipo de
homicídio como uma «altercação trivial», uma interpretação profundamente
errada do que lhe está subjacente. Martin e Margo mostram que o que está em
causa é a competição entre indivíduos do sexo masculino pelo estatuto, o que
pode ser tudo menos trivial.
As mulheres poucas vezes vão igualmente longe neste tipo de competição
desenfreada e quase nunca se envolvem em cenas de murros nos bares. Os
homens só às vezes o fazem, e isso depende do seu meio social. Para mim, foi
fácil casar e ter filhos. Tudo o que tive de fazer foi ir para a universidade e
garantir um bom trabalho. Agora tenho cinquenta e seis anos — já ultrapassei a
idade em que morre o homem médio das zonas deprimidas de Chicago — e
ainda estou de excelente saúde. Nunca me envolveria numa luta desse género
porque teria muito a perder e muito pouco a ganhar. Sou como os homens dos
bairros mais favorecidos de Chicago, que não têm maior probabilidade de vir a
cometer assassínios do que as suas mulheres. Gostaria de atribuir o meu
comportamento civilizado ao meu excelente carácter, mas, acima de tudo, tenho
de estar grato à minha situação. Se fosse de súbito transportado até um bairro
desfavorecido, quase de certeza que me transformaria num daqueles falhados.
Se tivesse sido transportado até lá há muitos anos, não sei como me teria saído,
mas estou certo de que teria tentado envolver-me num jogo diferente.
O estatuto é um conceito intrinsecamente relativo. Uma pessoa consciente
do estatuto adora o seu carro se este for o melhor da vizinhança, mas odeia-o se
os outros conduzirem carros melhores. Este facto permitiu que Margo e Martin
identificassem a desigualdade económica como um factor que contribui para as
taxas de homicídio, independentemente da esperança de vida média ou do
rendimento familiar. Imagine que representa num gráfico os rendimentos
familiares de um único bairro, desde os mais pobres até aos mais ricos. A linha
será horizontal se toda a gente ganhar o mesmo e tornar-se-á uma curva
ascendente se as pessoas tiverem rendimentos diferentes. A forma da curva
fornece um índice de desigualdade económica, por vezes chamado «índice
Robin Hood», independentemente do grau de riqueza médio. Maro e Martin
calcularam o índice Robin Hood para cada bairro e mostraram que ele permitia
prever as taxas de homicídio melhor que o rendimento médio. As pessoas, e
especialmente os homens, sentem-se descontentes quando se apercebem de que
têm menos que os outros, independentemente do que na realidade têm. Já era
sabido que a desigualdade económica permitia prever diferenças nas taxas de
homicídio entre países (o Canadá contraposto aos Estados Unidos, por
exemplo). Margo e Martin mostraram que ela também podia explicar diferenças
à escala muito mais reduzida dos bairros de uma única cidade.
Este estudo maravilhoso pode ser representado de uma forma crua por
uma lista de regras do tipo «se-então», semelhante à lista abstracta que
apresentei no início deste capítulo.

Nesta situação... ... comporta-te desta maneira

Meio instável e esperança de vida Ocupa-te das necessidades


baixa. imediatas e reproduz-te cedo.

Meio estável e esperança de vida Faz planos a longo prazo e deixa os


alta. filhos para mais tarde.

Competição do tipo «tudo ou Assume riscos extremos para obter


nada» para obtenção de estatuto. estatuto.

Meios seguros para obter estatuto Evita riscos e trabalha muito para
sem conflito violento. obter estatuto.

Se considerarmos a gravidez precoce e a violência coerciva como


problemas e se esta lista de regras do tipo «se--então» estiver mais ou menos
correcta, teremos um plano de acção claro: criar um ambiente social estável,
com uma esperança de vida elevada e meios seguros para obter estatuto sem
conflito violento. Se não conseguirmos implementar estas modificações do
nosso meio, é provável que venhamos a fracassar por muito que nos esforcemos,
precisamente como descrevi para o meu exemplo abstracto de determinismo
genético no início deste capítulo.
Talvez esteja a pensar que não é necessário recorrer à evolução para fazer
uma previsão tão razoável, mas lembre-se que, como referi no último capftulo,
era necessária uma teoria coerente para prever mesmo uma coisa tão razoável
como «as crianças estão sujeitas a maiores perigos da parte dos padrastos do
que dos pais biológicos». Eis como Margo e Martin descrevem a sabedoria
científica convencional no início do seu artigo, o que tornou a sua abordagem
digna de ser publicada numa revista médica conceituada:
Os psicólogos, os economistas e os criminologistas descobriram que os jovens
adultos, os pobres e os criminosos têm tendência para desvalorizar o futuro de forma
acentuada. Essas tendências têm sido apelidadas de «impulsividade» e de «horizontes a
curto prazo» ou, de uma forma mais pejorativa, de impaciência, miopia, falta de
autodomínio e incapacidade para adiar a gratificação. Subjacente ao emprego destas
expressões encontramos o pressuposto de que esta desvalorização acentuada é
disfuncional e de que a ponderação adequada das recompensas presentes contra os
investimentos futuros é independente da fase da vida e da situação sócio-económica.
Há um ponto de vista alternativo: a adaptação às taxas de desvalorização em relação
com a idade e outras variáveis são tudo o que devemos esperar de um psiquismo evoluído
a funcionar normalmente. .A desvalorização acentuada do futuro pode ser uma resposta
«racional» à informação que indica uma probabilidade incerta ou baixa de sobreviver
para mais tarde colher benefícios, por exemplo, e correr riscos «impensados» pode ser a
solução óptima quando os benefícios esperados de uma escolha de acções mais segura são
insignificantes.

Em conformidade com esta avaliação, a sabedoria científica convencional


não tem convergido para uma imagem do organismo humano como um
conjunto de regras do tipo «se-então» que nos permitisse operar
espontaneamente uma modificação social positiva através do tipo certo de
intervenção no meio ambiente. É por este motivo que é necessária uma
compreensão básica da evolução para obter uma imagem razoável da nova
sabedoria convencional.
De acordo com a forma mais forte de determinismo genético seria de
prever que as regras do tipo «se-então» fossem inatas, como no meu exemplo
inicial. Também podíamos esperar diferenças sexuais inatas. É possível que,
pelo facto de os machos terem vivido a experiência da competição do tipo «tudo
ou nada» com muito mais frequência que as fêmeas durante a nossa evolução
genética, isso seja muito mais natural para eles do que para elas. Uma forma
mais fraca de determinismo genético faria prever que qualquer regra do tipo
«se-então» é determinada pela aprendizagem e pela transmissão cultural, mas
que estas são orientadas por mecanismos psicológicos que se desenvolveram
por evolução genética para produzirem resultados biologicamente adaptativos,
pelo menos a maioria das vezes. Neste caso, podíamos pôr mulheres numa
situação de competição do tipo «tudo ou nada» e ficaríamos à espera que elas
desatassem aos murros umas às outras em bares, exactamente como os homens.
Ambas as possibilidades são razoáveis, e o rodar da manivela seria
indispensável para determinar a resposta correcta. Seja como for, não há razão
para nos sentirmos ameaçados pela perspectiva de homens e mulheres, em
média, possuírem diferentes regras do tipo «se-então», como mostrarei no
próximo capítulo.
Uma terceira possibilidade é que as regras do tipo «se--então» possam ser
criadas sem qualquer referência a resultados biologicamente adaptativos. Neste
cenário de vale tudo é tão provável que as pessoas façam planos a longo prazo
como a curto prazo em resposta a uma esperança de vida baixa. Não só esta
possibilidade é pouco provável, mas além disso não vejo porque havia alguém
de desejar que o fosse. Os criacionistas seculares insistem numa concepção do
tipo vale tudo da natureza humana por pensarem que é necessário definir a sua
visão do que é uma boa vida. Ironicamente, é mais fácil alcançar essa sua visão
adoptando uma concepção da natureza humana que lute tenazmente para
sobreviver e para se reproduzir.
A evolução tem intrinsecamente a ver com organismos que reagem a
modificações ambientais. Só por meio dos mais estranhos pressupostos
secundários é possível interpretá-la como negação da capacidade de mudança.
O criacionismo religioso e secular sempre se baseou no medo das consequências
de aceitar a evolução — se assim não fosse, por que motivo pessoas que sabem
tão pouco sobre ela se sentem tão compelidas a rejeitá-la? Quando se passa a
encarar a teoria da evolução como um instrumento capaz de proporcionar uma
modificação positiva, ela é fácil de aceitar e conduz a descobertas que, em
retrospectiva, parecem apenas de senso comum. Como afirmei logo no início
deste livro, no que toca à evolução, o futuro pode ser diferente do passado.

15
Como eles têm personalidade!

Aminha mulher, Anne B. Clark, é uma evolucionista que trabalha tanto


como eu. Éramos alunos de universidades diferentes, mas conhecemo-nos
quando frequentámos o mesmo curso de Biologia Tropical na Costa Rica. Não
há como apaixonarmo-nos nos trópicos, especialmente quando estamos ambos
tão deslumbrados com a profusão da vida em nosso redor como um com outro.
A princípio parecia apenas uma daquelas coisas, mas depois passou a parecer
uma daquelas coisas que vão durar para sempre. Casámos mal terminámos o
doutoramento e, duas semanas mais tarde, Anne partiu para a África do Sul,
onde arranjou um lugar de pós-doutorada a estudar um primata nocturno, o
galago-de-cauda-espessa (Otolemur crassicaudatus). Eu obtive um lugar de
pós-doutoramento na Washington University, em Seattle, que consistia
sobretudo em trabalho intelectual que podia ser feito em qualquer sítio, pelo
que passei a maior parte do tempo com Anne, enquanto ela alternava entre
ensinar na Universidade do Witwatersrand, em Joanesburgo, e o sítio onde
desenvolvia o seu trabalho de campo, no Norte do Transvaal, perto da fronteira
do actual Zimbabué, que então se chamava Rodésia (foi aí que descobri que se
conseguem ouvir os escaravelhos-bosteiros a chegar antes de termos tempo de
puxar as calças para cima).
O sítio onde Anne trabalhava era uma faixa de floresta na orla de um rio
lamacento que corria entre o pasto de uma fazenda, cujo dono teve a gentileza
de lhe permitir trabalhar na sua propriedade. Embora os maiores mamíferos
africanos estivessem ausentes, a diversidade da vida selvagem era
extraordinária — oricteropes, porcos-vermelhos, civetas, cabritos-vermelhos,
genetas, galinhas-da-índia, leopardos, mambas negras e verdes, mangustos,
pitons, macacos vervet habitavam na longa faixa à beira-rio, juntamente com os
galagos, enquanto os babuínos soltavam os seus gritos nos penhascos das
imediações. Nessa época quase nada se sabia sobre os galagos e os métodos de
alta tecnologia, como o rádio-seguimento, ainda não eram comuns, pelo que
grande parte da investigação de Anne implicava bater o terreno à noite a fazer
observações básicas sobre animais que tinham caído nas armadilhas e que
haviam sido marcados. Para os marcarmos tosquiávamos um bocado do pêlo ou
pintávamos um pedaço da cauda com tinta para o cabelo. Localizávamos os
galagos com a ajuda de lâmpadas com filtros infravermelhos alimentadas por
baterias de motorizadas que levávamos presas às ancas. Os olhos dos animais
nocturnos são altamente reflectores e os olhos dos galagos, mesmo a uma
grande distância, cintilam como carvão incandescente. Tornámo-nos hábeis a
identificar os animais nocturnos pelo brilho dos olhos. Dois pequenos círculos
próximos um do outro, no meio das árvores, eram um galago. Um único olho
perto do solo era um cabrito-vermelho (cujos olhos têm uma colocação lateral, e
não frontal). Dois grandes olhos amendoados, bem afastados um do outro, eram
um leopardo, coisa que era raro vermos mas em relação à qual eu estava sempre
em guarda! Uma rulote estacionada junto da palhota que havíamos alugado
tinha dois grandes discos reflectores colocados a uma distância de cerca de um
metro e vinte, que brilhavam iluminados pelos faróis do nosso carro quando
regressávamos à noite de uma longa observação de galagos. Eu andava tão
absorto com o brilho dos olhos que o meu coração quase parava ao pensar no
enorme animal que aqueles olhos tão espaçados deviam representar!
Os galagos não tardaram a habituar-se aos estranhos novos animais com
um único olho vermelho que se deslocavam pesadamente a um nível mais baixo
que o deles, tal como se tinham habituado ao gado, mas tenho de confessar que
nunca me acostumei a realizar trabalho de campo à noite, sempre preocupado
com os leopardos e com as mambas negras a perseguir os galagos e o brilho
fugidio dos seus olhos. Muits vezes preferia ficar na nossa palhota, a ler e a
escrevinhar as minhas equações, para grande escândalo dos agricultores locais,
que achavam que eu devia estar a proteger a minha mulher. Anne nunca parecia
tão feliz como na companhia dos seus galagos e era costume regressar ao
romper do dia com histórias das suas aventuras. O seu estudo de campo
estabeleceu que estes animais têm uma vida social profundamente complexa,
contrariamente à sua reputação anterior de seres primitivos e solitários em
comparação com os chamados primatas superiores.
Uma das muitas coisas que Anne observou em relação aos galagos foi a
extraordinária variedade de personalidades, mesmo entre membros da mesma
família (é habitual eles darem à luz gémeos ou trigémeos). Numa família que ela
acompanhou de perto, uma das filhas era aventureira, fazia rapidamente amigos
entre os outros galagos e acabou por estabelecer um círculo territorial diferente
do da mãe. Outra filha era quase sempre vista junto da mãe, parecia nervosa na
companhia de outros galagos e acabou por permanecer no território dela. De
regresso a Joanesburgo, Anne apoiou os resultados do seu trabalho de campo
com experiências em que oferecia aos galagos em cativeiro objectos que eram
novidade para eles. Alguns recusavam aproximar-se, enquanto outros se
abeiravam e exploravam os objectos com confiança. Em termos humanos,
poderíamos chamar-lhes tímidos e ousados. Na realidade, as experiências que
Anne realizou dando objectos novos aos galagos basearam-se em experiências
do célebre psicólogo Jerome Kagan, que revelaram diferenças individuais
semelhantes em bebés humanos com seis meses de idade.
Nessa época (na década de 1970), havia todo um ramo da psicologia
dedicado ao estudo da personalidade humana, mas não de uma perspectiva
evolutiva. Os biólogos que estudavam outras espécies estavam à espera de
encontrar diferenças etárias e sexuais, mas em geral não pensavam em procurar
diferenças individuais significativas transversais às diferentes categorias etárias
e sexuais. Em resumo, os psicólogos da personalidade não pensavam na
evolução e os biólogos evolutivos não pensavam na personalidade. No entanto, a
ideia de diferenças individuais adaptativas em comportamentos como a ousadia,
o movimento e a sociabilidade transversais às categorias etárias e sexuais
pareciam excepcionalmente razoáveis, não só quanto aos galagos, mas de uma
forma geral. Enquanto Anne, pela calada da noite, observava os seus galagos tão
diferentes do ponto de vista comportamental, eu comecei a escrevinhar algumas
equações à luz da lâmpada, a fim de mostrar como a selecção natural podia
manter uma diversidade de estratégias comportamentais no interior de uma
única população.
Após dois anos na África do Sul, Anne e eu mudámo-nos para a
Universidade da Califórnia, em Davis, onde eu tinha um trabalho de professor
assistente e onde tiveram a gentileza de dar um cargo a Anne. Nessa época, o
mundo académico não sabia que fazer com um casal em que marido e mulher
eram igualmente ambiciosos em relação ao seu trabalho. Os empregos eram
escassos e só eram oferecidos um de cada vez. Arranjar dois empregos no
mesmo sítio era quase tão provável como ganhar duas vezes a lotaria. Em certas
universidades havia mesmo velhas normas, destinadas a desencorajar o
nepotismo, que proibiam marido e mulher de trabalharem no mesmo
departamento. Os nossos colegas em Davis receberam bem Anne, mas, no que
dizia respeito à universidade, ela era apenas uma cidadã de segunda classe.
Comecei a leccionar e a realizar investigação sobre escaravelhos-
necrófagos, como descrevi no capítulo 4. Um dos meus sítios de trabalho de
campo era uma extensão de terreno na costa do Pacífico chamada Sea Ranch,
que tinha sido destinada a urbanizações dispendiosas. A Sea Ranch Association
orgulhava-se da sua consciência ecológica e de permitir que um professor fizesse
investigação nos seus terrenos. Enquanto eu deambulava por entre os
condomínios de um milhão de dólares com latas de carne podre para apanhar os
escaravelhos, pensava: «É assim que se devem sentir as castas dos intocáveis da
Índia.»
Anne tirava o máximo partido da sua situação. Escrevia artigos baseados
na sua experiência com os galagos. Além das diferentes personalidades, outra
coisa em que ela tinha reparado era eles darem à luz mais machos do que
fêmeas. A análise que realizou foi publicada na revista Science e tornou-se um
clássico para o estudo do desvio no rácio sexuado noutras espécies. Deu início a
uma nova investigação sobre os periquitos, esses pássaros tão conhecidos que
talvez vivam na casa do leitor como animais de estimação, e que estão a poucas
gerações de distância dos seus antepassados australianos selvagens. Essas aves
têm histórias para contar que talvez o surpreendam. Escrevemos ambos um
longo artigo sobre o motivo por que muitas espécies de aves começam a chocar
os ovos antes de terem posto o último, o que faz que a saída da casca da ninhada
seja dessincronizada. Isto pode parecer um tema de estudo estranho, tão
arbitrário como a cauda enrolada de um cão, mas reflecte fortemente a
influência modeladora da selecção natural. Além de trabalhar com escaravelhos-
necrófagos, eu estava a escrever modelos matemáticos de evolução.
Escaravelhos à segunda-feira, galagos à terça, aves à quarta, equações à quinta.
Os projectos dela e os meus misturavam-se de manhã à noite. Em Davis éramos
dezenas de amigos e colegas a empreender diversos projectos, todos parte de
um puzzle glorioso montado com a ajuda da teoria da evolução.
Decorridos três anos, mudámo-nos para a Kellogg Biological Station, que
fazia parte da Michigan State University, mas que ficava situada a quase cem
quilómetros do campus principal. A estação havia sido criada quando W. K.
Kellogg, o rei dos cereais, doou à universidade a sua propriedade de veraneio na
margem do lago Gull. Eu nunca hei-de ser tão rico como o velho Kellogg, mas
desfrutava como um rei dos seus terrenos bem cuidados, quase um quilómetro à
beira de água, e da sua mansão de estilo bávaro. Longe da estação, os terrenos
eram tão baratos que pude comprar um velho casarão, cheio de correntes de ar,
num terreno de vinte e oito hectares pelo preço que rendeu o nosso rancho
suburbano da Califórnia com o seu terreno do tamanho de um selo de correio.
Mais uma vez, eu tinha o emprego e Ann obteve um lugar por ser minha
mulher. Continuei a trabalhar com escaravelhos-necrófagos e modelos
matemáticos de evolução. Anne interessou-se por um bando de perus bravos
que visitavam uma reserva de aves ligada à estação. Voltou a despertar o nosso
interesse pela ideia de uma única espécie como um conjunto de indivíduos
diversos, por oposição a uma entidade uniforme que habita um único «nicho».
Anne escreveu um longo artigo com um estudante de pós-graduação chamado
Tim Ehlinger, explorando o conceito de personalidade como qualquer coisa que
podia aplicar-se a todas as espécies, e não apenas à humana. Eu publiquei
modelos a mostrar que uma única espécie podia ocupar nichos múltiplos
mesmo quando os especialistas acasalavam uns com os outros e produziam uma
descendência de generalistas relativamente ineficazes.
Anne começava a ressentir-se da falta de um trabalho a sério, mas noutros
aspectos a vida era boa. Tivemos a nossa primeira filha, Katie, seguida pela
segunda, Tamar, que nasceu cinco anos mais tarde. Aquecíamo-nos com lenha,
tínhamos um grande jardim e havia galinhas a passear pelo quintal. Fazíamos
caminhadas pelos bosques, pelos campos e pântanos da nossa propriedade. No
Outono, colhíamos maçãs do nosso pomar votado ao abandono, que levávamos
a um lagar local para fazer sidra. Ainda me lembro de trepar às árvores
contorcidas, de lhes abanar os troncos e de rir quando as maçãs que caíam me
acertavam na cabeça e nos ombros sob o sol radioso de Setembro.
Perguntava-me se ter filhos iria interferir com o meu trabalho, mas não era
necessário preocupar-me. Quando amamos uma coisa, arranjamos maneira de a
encaixar. Às três da manhã podia estar na sala, a passear com a Katie ao colo
para a adormecer de novo, com o seu corpinho minúsculo num braço e um
grande livro sobre a evolução do sexo no outro. Tanto Katie como Tamar, já
antes de terem dois meses, acompanhavam Anne a conferências importantes.
Quando cresceram, andavam atrás de nós como patinhos enquanto fazíamos o
nosso trabalho. E os nossos alunos eram os seus melhores amigos.
Decorridos alguns anos, decidi que já estudava os escaravelhos-necrófagos
e os seus ácaros havia tempo suficiente. «Não quero saber se eles são
conceptualmente elegantes», pensei. «Já cheiram mal!» Além disso, tinha uma
ideia para outro projecto. A Katie e eu pegámos nuns baldes e em duas canas de
pesca e, seguindo a vereda que atravessava os bosques, chegámos a um lago que
confinava com a nossa propriedade. A remar, conduzimos a nossa canoa até ao
meio do lago e passámos uma hora agradável a pescar peixes-guelra-azul.
Depois remámos até uma pequena baía de águas pouco profundas, cheia de
algas, e apanhámos mais alguns, que guardámos separados dos primeiros.
Levámos os peixes para o meu laboratório, onde Tim Ehlinger (o mesmo aluno
que escreveu o artigo com Anne) e eu os medimos cuidadosamente com uma
craveira. Introduzimos os dados obtidos num computador, trabalhámo-los com
um método estatístico chamado análise discriminatória de funções e veja o que
aconteceu! Os peixes que tinham sido capturados nas águas desimpedidas e os
que tinham sido capturados no meio da vegetação tinham formas diferentes.
Eram todos membros da mesma espécie, viviam no mesmo lago, mas os que
haviam sido capturados na água desimpedida tinham uma forma apropriada
para percorrerem longas distâncias e os que haviam sido capturados no meio da
vegetação tinham uma forma apropriada para andarem às voltas e reviravoltas
através do seu ambiente espacial complexo. Agora dispunha de um exemplo
fascinante de uma única espécie que ocupava mais de um nicho e que tinha an
dado a estudar com as minhas equações matemáticas. Nada mau para um dia de
pescaria!
Depois de oito anos na Kellogg Biological Station e onze anos sem Anne
arranjar um trabalho propriamente dito, a Universidade de Binghamton de
Nova Iorque ofereceu a ambos empregos bem remunerados. Apesar de todas as
dificuldades por que havia passado e da falta de apreço a nível institucional,
Anne era tão respeitada entre os colegas que em 2003 foi eleita presidente da
Animal Behavior Society.
Pouco tempo depois da nossa chegada a Binghamton, uma aluna de pós-
graduação chamada Kristine Coleman permitiu que Anne e eu retomássemos o
nosso interesse pelas personalidades dos animais. Kris era uma aluna excelente,
mas por acaso bastante tímida, que falava num murmúrio, quando
conseguíamos pô-la a falar. Perguntámos-lhe se gostaria de realizar uma
experiência-piloto sobre a timidez e a ousadia nas percas-sol. Seria possível elas
distinguirem-se não só na forma física, mas também nas respostas
comportamentais que davam umas às outras e ao seu ambiente?
A nossa primeira experiência, tal como a minha pescaria com Katie, foi de
uma simplicidade extrema. Kris e eu fomos até um lago com percas-sol (uma
espécie estreitamente relacionada com o peixe-guelra-azul) e colocámos iscos
artificiais com a forma de vairões, de metal brilhante, sem engodo, a intervalos
de dez metros ao longo da margem Fiquei fascinado a observar o
comportamento das percas-sol juvenis quando a novidade constituída por estes
enormes objectos bateu na água com um forte ruído e lentamente desceu para o
fundo, como uma nave espacial alienígena a descer para a Terra. Ao princípio os
pequenos peixes puseram-se em fuga, mas, tal como algumas pessoas fugiriam
de uma nave espacial alienígena enquanto outras acorreriam para a observar,
pelo menos alguns peixes-sol regressaram para explorar as armadilhas e
entraram nas aberturas afuniladas. Foram capturados devido à sua curiosidade.
Ao fim de dez minutos recolhemos as armadilhas e usámos uma rede de arrasto
ao longo da mesma faixa da margem para capturar os peixes que não tinham
entrado nas armadilhas. Neste caso, não estávamos a comparar peixes de
diferentes habitats (água desimpedida e com vegetação), mas a procurar
diferenças comportamentais entre peixes de um único habitat. Se as percas-sol
juvenis variam ao longo de um continuum timidez-ousadia, então os peixes
ousados, ao contrário dos outros, deviam entrar nas armadilhas. Como é
evidente, quando colocámos os peixes capturados com armadilhas e com a rede
de arrasto em diferentes aquários do laboratório, a média dos peixes capturados
com a armadilha aclimatou-se ao seu novo ambiente e começou a comer cinco
dias mais cedo do que a média dos peixes capturados com a rede de arrasto.
Encorajada por este resultado preliminar, Kris passou os quatro anos seguintes
a estudar peixes-sol tímidos e ousados para a sua tese de doutoramento.
Além de realizar experiências de laboratório, Kris precisava de uma
maneira de observar os peixes tímidos e ousados no seu ambiente natural, tal
como Anne andara atrás dos galagos-de-cauda-espessa em África. Imaginámos
uma maneira engenhosa de o fazer utilizando um lago quadrado da instalação
de lagos experimentais da Universidade de Cornell. Mergulhámos quatro
postes, um em cada canto, e estendemos um arame ao longo de todo o
perímetro do lago, o que servia de guia para dois arames cruzados ligados por
roldanas ao outro que acompanhava o perímetro. Construímos uma câmara de
observação com um fundo de vidro para flutuar à superfície do lago, com o
tamanho suficiente para Kris se poder deitar de barriga para baixo e ver os
peixes de cima. A câmara estava colocada na intersecção dos arames cruzados,
de modo que Kris podia deslocar-se pelo lago puxando os arames. Graças às
roldanas, puxar um dos arames fazia o outro mover-se com a câmara. Os
arames cruzados estavam marcados a intervalos de um metro de modo que a
localização da câmara pudesse ser registada a qualquer momento, como um
ponto numa folha gigantesca de papel milimétrico. Era necessária uma
cobertura para escurecer a câmara e para impedir que os peixes vissem Kris.
Isso dava ao dispositivo o aspecto desagradável de um caixão flutuante, mas
permitia uma perspectiva magnífica dos peixes. No que lhes dizia respeito, o
posto de observação assemelhava-se a um tronco a flutuar à deriva pelo lago.
Assim podíamos capturar os peixes do lago com armadilhas e com rede, tal
como havíamos feito na nossa experiência-piloto, e marcá-los individualmente
com contas de plástico coloridas presas às costas como piercings e em seguida
devolvê-los ao lago para uma observação detalhada. Kris passou muitas horas
deitada de barriga para baixo no seu caixão flutuante, a travar conhecimento
com os peixes-sol não como uma população homogénea, mas como uma
comunidade de indivíduos a resolver os problemas de alimentação, a evitar
predadores e a interagir uns com os outros de diversas maneiras.
Esses primeiros estudos foram viagens de descoberta, mas o conceito de
personalidade tinha-se tornado um tópico fundamental na investigação do
comportamento animal. A ideia convencional de uma única espécie como uma
entidade relativamente uniforme ocupando um único nicho deu lugar a uma
noção muito mais rica de uma única espécie como uma comunidade de
indivíduos empregando diferentes estratégias para sobreviverem e se
reproduzirem. Estas estratégias podem envolver o acasalamento, a alimentação,
a deslocação, a socialização ou a procura de protecção em relação aos
predadores. Podem estar ligadas à idade ou ao sexo ou atravessar estas
categorias. Os seus mecanismos próximos podem incluir polimorfismos
genéticos, efeitos no desenvolvimento ou flexibilidade comportamental a curto
prazo. Não se limitam aos chamados animais superiores, mas também existem
em seres como os insectos, os cefalópodes e até as plantas, que, depois de os
conhecermos bem, não merecem ser catalogados como «inferiores». Em
resumo, a diversidade da vida que tão bem se reflecte nos milhões de espécies
que habitam o globo não se detém no limiar de uma única espécie, mas
prossegue sob a forma de diferenças individuais que reconhecemos com o termo
vagamente definido de «personalidade».
A investigação também se tornou mais ambiciosa e sofisticada. O chapim-
real, uma ave eurasiana comum, é uma espécie excepcionalmente bem
estudada. Durante décadas, os chapins constituíram organismos de eleição para
os investigadores, fornecendo uma enorme quantidade de informação de fundo.
São fáceis de estudar, em parte porque fazem o ninho em buracos de árvores e
estão prontos a aceitar caixas para fazerem de ninho. Em algumas populações
estudadas, são colocadas centenas de caixas em árvores de modo que uma
grande percentagem da população de chapins pode ser monitorizada. É fácil
capturar os adultos nas caixas ou em estações de alimentação. É possível
proceder diariamente à medição e à pesagem da prole. Também é fácil marcar
as aves permanentemente com anilhas coloridas nas pernas. Durante o dia pode
observar-se com binóculos o seu comportamento fora das caixas. Estas virtudes
permitiram que um grupo de investigadores dos Países Baixos, incluindo
Monica Verbeek, Piet Drent e Niels Dingemanse, descobrisse mais sobre o
chapim-real e a evolução da sua personalidade do que se sabe talvez sobre
qualquer outra espécie não humana.
Para descrever apenas uma das suas experiências, os pais e os passarinhos
acabados de sair da casca foram capturados nas suas caixas-ninhos e levados
para o laboratório. Os progenitores foram libertados um a um na sala de
observação, que continha cinco árvores artificiais, cada uma com quatro ramos.
As aves exploraram a sala voando entre as árvores e saltitando entre os ramos. A
quantidade de tempo exigida para visitarem quatro das cinco árvores foi usada
como um índice de comportamento exploratório. Uma ave «rápida» atingia a
quarta árvore em menos de um minuto, e uma ave «lenta» podia necessitar de
mais de dez minutos. Depois de testados, os pais foram devolvidos ao sítio onde
haviam sido capturados, e a prole foi criada pelos investigadores até uma idade
em que pôde ser testada relativamente ao seu comportamento exploratório.
Assemelhava-se aos pais, o que sugeria, embora não provasse, que esse traço é
herdado geneticamente. Os factores ambientais de aprendizagem ou partilhados
também podem fazer que os membros da mesma família se assemelhem uns aos
outros. A fim de estabelecer uma distinção entre estas possibilidades, os
descendentes mais rápidos e mais lentos foram albergados em aviários
separados com caixas-ninhos que lhes permitissem reproduzir-se e com as
precauções devidas a fim de evitar a endogamia. Sempre que uma ave punha um
ovo, este era substituído por um ovo a fingir e o verdadeiro era colocado numa
caixa-ninho de uma ave selvagem para ser incubado. Um dia depois da eclosão
dos ovos, as aves minúsculas eram marcadas e misturadas de modo que uma
única ninhada criada por pais de substituição na natureza incluísse tanto
descendentes de aves lentas como rápidas nos aviários. Quando a prole tinha
dez dias, foi retirada das caixas-ninhos e restituída ao laboratório, onde os
investigadores, incansáveis, retomaram o seu papel de pais de substituição
criando a prole dos adultos originários até uma idade em que podiam ser
testadas no que dizia respeito ao seu comportamento exploratório. Este
processo prosseguiu durante quatro gerações. Da mesma maneira que a
selecção artificial produziu as galinhas psicopatas e as santas que descrevi no
capítulo 5 e as raposas de elite domesticadas do capítulo 6, esta experiência
produziu estirpes de chapins super-rápidos e super-lentos, não restando
dúvidas de que o seu comportamento exploratório tem uma base parcialmente
genética.
Esta experiência exigiu uma quantidade heróica de trabalho, mas foi
apenas um exercício de aquecimento para os investigadores holandeses. Em
experiências subsequentes, estes capturaram, marcaram, testaram e libertaram
mais de um milhar de chapins para estudarem com que rapidez e lentidão os
indivíduos interagem uns com os outros e com o seu ambiente natural. Mediram
a sua taxa de sobrevivência, o número dos seus descendentes e o seu estado de
saúde, como fazem provisões e competem, até que distância se afastam do ninho
natal, quanto tempo levam a recuperar de um susto e até a facilidade com que
aprendem uns com os outros. É talvez mais apropriado descrever os indivíduos
rápidos como brutos insensíveis, que tentam apoderar-se dos melhores
recursos. Há vantagens óbvias em ser brutamontes vencedores, mas os
brutamontes que perdem não aceitam a derrota muito bem. Se os chapins
dessem festas, os rápidos incomodariam toda a gente com as suas conversas
barulhentas, enquanto os outros resmungariam, com o nariz enfiado na cerveja,
que ninguém tinha respeito por eles. É mais apropriado descrever os indivíduos
lentos como sendo tímidos e sensíveis. Não se afirmam, mas são observadores e
reparam em coisas que são invisíveis para os brutamontes. São os escritores e os
artistas da festa, que têm conversas interessantes longe dos ouvidos dos
brutamontes. São os inventores que criam novos modos de comportamento,
enquanto os brutamontes lhes roubam as patentes copiando o seu
comportamento.
O modo como estas diferenças comportamentais se relacionam com a
sobrevivência e a reprodução depende das condições ambientais. Os chapins
dependem fortemente dos frutos das faias para sobreviverem ao Inverno. Estas
árvores desenvolveram uma estratégia inteligente para produzir a sua própria
descendência. Durante alguns anos produzem muito poucos frutos a fim de
reduzir a população de predadores desses mesmos frutos e depois inundam o
mercado com uma produção abundante. Depois de um Inverno de fome, há
imensos sítios para fazer o ninho, mas encontrar um território após um Inverno
de abundância pode ser tão difícil como encontrar um apartamento em
Manhattan. Estas variações nas condições ambientais favorecem
alternadamente os indivíduos rápidos e lentos, como um jogo de basquetebol
cheio de suspense em que a vantagem está sempre a mudar. Um Inverno de
fome favorece as fêmeas rápidas, mas uma oferta excessiva de habitação
favorece os machos lentos. Os machos rápidos conseguem os melhores
territórios, mas as fêmeas lentas são mães mais atentas. Se fôssemos chapins, a
nossa boa forma podia mesmo depender da personalidade da nossa cara-
metade. Num ano os casais em que ambos eram rápidos e em que ambos eram
lentos tiveram mais sucesso do que os pares mistos, que, evidentemente, tinham
problemas de compatibilidade.
Mesmo depois desta quantidade de trabalho heróica, os investigadores
holandeses foram os primeiros a admitir que as personalidades dos chapins são
mais complexas do que um continuum unidimensional de rápido a lento, mas
isto só reforça a mensagem principal da sua investigação: não há uma melhor
personalidade de chapim isolado, mas antes uma diversidade de personalidades
mantida pela selecção natural. Além disso, a variação a nível comportamental
baseia-se em parte na variação genética subjacente. Em princípio, talvez fosse
possível a variação comportamental ser inteiramente causada por mecanismos
como alterações do desenvolvimento ou aprendizagem a curto prazo, sem
qualquer variação genética subjacente, mas não é este o caso do chapim-real.
Estes estudos maravilhosos sobre as personalidades dos animais, na sua
grande maioria empreendidos ao longo dos últimos vinte anos, proporcionam
um pano de fundo panorâmico para pensar a diversidade comportamental
humana como uma comunidade de estratégias que resolve de diversos modos os
problemas de sobrevivência e reprodução. Um estudo recente de extrovertidos e
introvertidos humanos, levado a cabo pelo psicólogo Daniel Nettle, é
extraordinariamente semelhante à investigação sobre os chapins rápidos e
lentos. Os extrovertidos procuram activamente estímulos e novidade enquanto
os introvertidos tendem a ser mais reservados, especialmente em situações que
não lhes são familiares. Se libertássemos extrovertidos e introvertidos numa
grande sala de observação e medíssemos o seu comportamento exploratório,
quase de certeza eles seriam identificados como rápidos e lentos. Nettle não
realizou esta experiência; limitou-se a administrar um teste-padrão de
personalidade que mediu a extroversão num grande número de adultos e fez-
lhes algumas perguntas adicionais acerca das suas vidas que são óbvias de uma
perspectiva evolutiva, mas que não haviam ocorrido a psicólogos não
familiarizados com o pensamento com base na selecção natural. Os
extrovertidos tinham uma constelação de atitudes de «pegar o touro pelos
cornos». Tinham um maior interesse pelo sexo, eram mais ambiciosos e
competitivos e gostavam mais de viajar do que os introvertidos. É fácil imaginar
alguns deles rodeados por um círculo de admiradores numa festa e os outros a
resmungarem, com o nariz enfiado na cerveja, que ninguém tinha respeito por
eles. Estas atitudes reflectiamse nas histórias de vida que contavam. Havia uma
forte relação entre a extroversão e o número de parceiros sexuais durante a vida,
tanto para os homens como para as mulheres. Os extrovertidos tinham
tendência para terminar as suas relações românticas para iniciar outras,
enquanto os introvertidos tendiam a deixar que fosse o parceiro a acabar a
relação. Por outro lado, também era mais provável os extrovertidos serem
hospitalizados devido a um acidente ou doença. Quando se agarra a vida pelos
cornos, às vezes apanha-se uma cornada.
Os benefícios e os custos da introversão são explorados num aprofundado
artigo de revisão da autoria dos psicólogos Elaine e Arthur Aron. Estes afirmam
que há um eixo de variação fundamental tanto nos seres humanos como noutras
espécies que envolve o processamento de informação. Esta informação é uma
moeda de duas faces: muito pouca pode ser desastrosa, demasiada pode ser
avassaladora. Não há uma única solução perfeita para este compromisso. Por
vezes pode ser melhor seguir uma rotina inflexível, e outras vezes é melhor
considerar todas as opções de que se dispõe. Os indivíduos têm uma certa
capacidade para oscilar entre estas estratégias alternativas, mas há também
diferenças individuais, que, quase de certeza, ou têm uma base genética ou são
geneticamente desencadeadas numa fase muito precoce do desenvolvimento.
Um sistema nervoso concebido para processar uma quantidade de informação
tem simplesmente de ser diferente de outro que se atira para a frente sem
pensar. As pessoas altamente sensíveis (PAS), como os Arons lhe chamam, não
conseguem evitar processar informação. Na realidade, além do processamento
mental, a sua sensibilidade parece ser muito geral, e diz respeito à dor, à luz
intensa, aos tecidos ásperos, aos ruídos estridentes e aos fármacos. Uma pessoa
que refira ter uma vida interior intensa e complexa e experimentar uma emoção
profunda perante as artes também tem tendência a afirmar-se sensível à cafeína
e a sobressaltar-se com facilidade.
É provável que as pessoas (ou os animais) altamente sensíveis sejam lentos
numa situação nova, pela simples razão de estarem a processar informação
nova. Em vez de «avançar», «param para verificar». Se recebem demasiados
estímulos sensoriais, as pessoas altamente sensíveis tendem a ficar esmagadas e
a recuar. Trata-se de uma forma de timidez, embora as pessoas altamente
sensíveis não sejam intrinsecamente tímidas. Afinal, o objectivo de processar
toda essa informação é chegar a novas soluções para problemas da vida. Uma
pessoa altamente sensível que consegue fazer isto pode tornar-se tão sociável e
gregária como alguém que se limita a «avançar». Algumas particularidades
individuais (como a sociabilidade) não são inatas, mas sim manifestações de
outras diferenças individuais (por exemplo no processamento da informação)
que o são.
Poderia parecer que as pessoas altamente sensíveis são menos resilientes
do que aquelas que avançam, mas, em determinadas circunstâncias, é o oposto
que sucede. Os Arons começaram o seu artigo com o seguinte passo de Victor
Frankl, um psiquiatra mundialmente famoso e sobrevivente do Holocausto:
As pessoas sensíveis [...] podem ter sofrido muito [nos campos de concentração]
(muitas vezes eram de constituição delicada), mas os danos ao seu eu interior foram
menores. Elas conseguiram retirar-se [...] para uma vida de riquezas íntimas e liberdade
espiritual. Só desta maneira se pode explicar o aparente paradoxo de certos prisioneiros
de constituição menos resistente parecerem sobreviver à vida no campo de concentração
melhor que os de natureza mais robusta.

Tantas coisas aconteceram desde que Anne se apercebeu com surpresa das
diferenças de personalidade entre os seus galagos, com os seus olhos vermelhos
como fogo a reflectirem a luz da lanterna... Não só as espécies individuais são
reconhecidas como comunidades variadas por direito próprio, mas a nossa
espécie foi acrescentada à lista. Psicólogos como Daniel Nettle e Elaine e Arthur
Aron citam a literatura animal e empregam o mesmo raciocínio evolutivo que
Kris Coleman ao olhar para o seu peixe e que os investigadores holandeses a
contemplarem as suas aves. Darwin teria ficado satisfeito, embora talvez se
perguntasse por que motivo demorámos tanto a combinar o estudo de nós
próprios com o da restante vida, como ele conseguiu fazer há tanto tempo.
Deveremos sentir-nos ameaçados pela perspectiva de alguns aspectos da
nossa personalidade serem definidos pelos nossos genes ou numa fase muito
precoce do nosso desenvolvimento, ou ainda por uma pessoa poder achar difícil
pegar a vida pelos cornos e outra poder achar igualmente difícil ficar
emocionada com uma sinfonia? Penso que sei como Elaine Aron responderia a
esta pergunta. Além de ter uma carreira académica, Elaine trabalha como
psicoterapeuta e, através dos seus livros, do seus workshops e do seu Web site
(http:llwww.hsperson.com), onde se pode fazer um teste simples para descobrir
se somos pessoas altamente sensíveis, conquistou um grande número de
adeptos, todos eles pessoas altamente sensíveis. Numa linguagem simples que
todos podem entender, ela explica que esta característica é normal, está
presente entre 15 e 20 por cento da população e existe aproximadamente na
mesma proporção em outras espécies. É um grande dom que também pode ser
uma desvantagem em certas situações. Dá especialmente lugar a equívocos na
nossa cultura, que valoriza a dureza e considera a sensibilidade extrema
anormal (é mais fácil ser uma pessoa altamente sensível na Ásia). O leitor citado
no início do seu livro, intitulado The Highly Sensitive Person, sentiram-se tudo
menos ameaçados: «Através das suas palavras, tornou bem claro o que eu
sempre soube acerca de mim mesmo.» «Não sei como lhe hei-de agradecer a
paz interior que o seu livro me proporcionou!» «Sem dúvida que me fez sentir
integrada num grupo mais vasto e me ajudou a perder a sensação de ser uma
ave rara.»
Ainda me parece mais válido pensar que este «grupo mais vasto» inclui
não só pessoas altamente sensíveis, mas também seres altamente sensíveis,
grandes e pequenos.

16
A beleza de Abraham Lincoln

A sensação de beleza tem uma qualidade etérea que parece ocupar um


plano de existência diferente da luta crua pela sobrevivência e pela reprodução.
A teoria de Darwin talvez explique por que motivo nos esforçamos por arranjar
comida e lutamos para arranjar parceiros mas não por que motivo
contemplamos enlevados o pôr do Sol. Talvez explique porque fazemos taças,
mas não porque as decoramos.
Na realidade, está a surgir uma teoria evolutiva da estética que promete
explicar, não só o nosso sentido da beleza, mas também um sentimento
semelhante em muitos outros seres. Já vimos que, mesmo espécies
consideradas simples, como os insectos, têm «calculadoras» sofisticadas para
resolverem os seus problemas particulares de sobrevivência e reprodução, por
incapazes que sejam de resolver problemas novos. Qual seria o aspecto de uma
calculadora dessas, para, por exemplo, um coiote no cimo de um monte a
examinar o panorama lá em baixo, tentando decidir que direcção tomar?
Enquanto olha da esquerda para a direita, os processos mentais precisariam de
avaliar e comparar as características relevantes para a sobrevivência e a
reprodução — a presença ou probabilidade de encontrar comida e água, lugares
que oferecem protecção dos predadores e dos elementos, e por aí adiante. Estes
cálculos podem não ser conscientes. É mais provável que tenham lugar
automaticamente a um nível abaixo da percepção consciente, como respirar, ver
e ouvir. Da mesma maneira que não sabe que a sua mente está a converter a luz
que incide na superfície bidimensional da sua retina numa representação do
mundo elaborada, tridimensional, o coiote também não sabe que a sua mente
está a calcular o melhor rumo a tomar para descer do monte. Tudo o que sente é
uma atracção magnética em direcção à gruta desocupada no meio da vegetação
luxuriante, com o belo espectáculo dos coelhos a saltarem à volta.
Em resumo, uma teoria evolutiva da estética baseia-se em três
pressupostos: 1. todos os seres evoluíram de modo a avaliar o seu ambiente a
fim de fazerem escolhas adaptativas, 2. muitas vezes, os mecanismos de
avaliação têm lugar abaixo da percepção consciente e 3. os mecanismos são
experimentados de uma forma subjectiva como um sentimento de atracção em
direcção a características ambientais que aumentam a fitness (beleza) e de
rejeição em relação a características que a reduzem (fealdade). Ainda que esta
teoria só esteja parcialmente correcta, o nosso sentido da beleza, tal como as
nossas personalidades, pode ser estudado como algo que tem continuidade com
o resto da vida, em vez de permanecer para sempre um enigma de uma
perspectiva evolutiva.
Certa ou errada, pelo menos é possível testar alguns aspectos da teoria.
Existe ou não uma correspondência entre o que é considerado belo e o que
aumenta a nossa fitness biológica? Mal começamos a fazer esta pergunta, quer
cientificamente, quer com base na experiência comum, verifica-se uma
transformação extraordinária. Algumas observações permanecem enigmáticas,
como contemplar um pôr do Sol ou decorar uma taça, mas outras fazem de tal
modo sentido que, em retrospectiva, parecem óbvias. Pense-se no nosso gosto
por paisagens. A maior parte das pessoas gosta de estar rodeada de água, de
vegetação luxuriante e de grandes espaços salpicados de árvores. As paisagens
ainda nos parecem mais belas quando incluem grandes animais a pastar!
Adoramos viver em casas que nos façam sentir protegidos, ao mesmo tempo que
proporcionam uma boa vista para o exterior. Deliciamo-nos com o calor de um
fogo crepitante. Estes sentimentos têm raízes tão profundas que os doentes de
um hospital recuperam mais depressa num quarto com uma janela e ainda mais
depressa se essa janela proporcionar uma vista agradável. Podem perguntar-se
porque é costume levar flores aos doentes, mas sabe-se que ter flores no quarto
também acelera a recuperação da doença. Todas estas características do
ambiente que nos cerca, que nos dão alegria e nos parecem belas, estão
claramente relacionadas com a sobrevivência e a reprodução biológicas. Se as
retirarmos, ficamos de tal modo agitados que até a nossa saúde se pode
ressentir.
A teoria também explica por que motivo os indivíduos e as culturas tantas
vezes se distinguem na sua percepção de beleza. Imagine que era um
adolescente de uma vilória rural para quem o futuro nada tem de promissor,
pelo menos tão longe quanto lhe é dado ver. Isso pode parecer horroroso em
comparação com as luzes brilhantes da cidade. Na canção «My Little Town», de
Paul Simon, até as cores do arco-íris se tornam negras. A mesma vila pode
parecer deslumbrante aos olhos de citadinos que enriqueceram e querem
abandonar tudo isso. A maioria dos pioneiros americanos considerava feia a
vastidão dos terrenos por desbravar e sentia-se impaciente por abater as árvores
a fim de dar lugar às suas lindas herdades. Essa mesma natureza por desbravar
— ou o pouco que resta dela — é adorada hoje em dia por se manter «intacta».
Todas estas diferentes percepções da beleza têm uma coisa em comum — o que
é considerado valioso é também considerado belo.
A nossa percepção da beleza humana assemelha-se à da beleza do que nos
rodeia. Uma tez límpida, dentes fortes e um cabelo brilhante são excelentes
indicadores tanto de saúde como de beleza. Das mulheres a contemplarem de
olhos arregalados os homens musculosos numa praia até aos homens a olhar
todos babados para as páginas centrais da Playboy, que existirá na beleza que
nos escapa enquanto avaliação inconsciente do valor de fitness dos nossos
parceiros potenciais? Se queremos ir para além da experiência comum, os
psicólogos da evolução adoram este tópico e têm feito girar com entusiasmo a
roda da ciência. Para dar um exemplo recente, uma equipa de investigadores
britânicos dirigida por S. Craig Roberts colheu uma amostra de sangue de
noventa e sete homens e também lhes fotografou os rostos sob condições de
iluminação estandardizadas. O sangue foi utilizado para medir a
heterozigosidade (a presença de diferentes alelos, ou versões de um gene, numa
dada localização do cromossoma) para três genes no complexo major de
histocompatibilidade (MHC), o que permite ao nosso sistema imunitário
distinguir entre as nossas próprias células e as células de organismos invasores
portadores de doença. Em geral, quanto mais os nossos genes MHC forem
heterozigóticos, maiores probabilidades teremos de ser saudáveis. As fotografias
foram manipuladas digitalmente, de modo que apenas o rosto era visível, e
depois foram apresentadas por ordem aleatória a cinquenta mulheres que
classificaram o seu grau de atracção numa escala de sete pontos. Os rostos eram
classificados como fisicamente atraentes em proporção directa com o número
de genes heterozigóticos. Em seguida, os investigadores retiravam digitalmente
um pedaço de pele de cada imagem, entre o nariz e o lábio superior,
aumentavam-no 300 por cento e pediam às mulheres que avaliassem a saúde
aparente desse pedaço de pele. Mais uma vez, as suas classificações
correspondiam ao número de genes MHC que eram heterozigóticos. Elas nem
sequer precisavam de ver o resto do rosto. Era como se as mulheres estivessem a
fazer, com os olhos, um exame médico pormenorizado aos homens e a passar-
lhes um atestado de saúde com a avaliação do seu grau de atracção!
Confrontados com a ideia óbvia em retrospectiva de que em parte a beleza
é uma avaliação inconsciente do valor de fitness, é fácil concluir que nada de
novo foi realizado. É claro que preferimos dentes brancos a dentes podres e pele
limpa a feridas a supurarem. É claro que gostamos mais de água e de vegetação
luxuriante do que de um deserto ressequido. Dado que qualquer pessoa num
bar ou num supermercado nos poderia dizer isto, porque gastamos o dinheiro
dos contribuintes para o estudar cientificamente? Além disso, há qualquer coisa
de vulgar nestas formas de beleza, como se elas justificassem a atracção exercida
pela arte dos calendários e pela pornografia, mas não as inefáveis qualidades da
«grande» arte ou da «verdadeira beleza» de uma pessoa, seja isto o que for.
Ainda que a nossa teoria evolutiva da estética nunca vá para além da arte
dos calendários e da pornografia, é importante declarar que alguma coisa de
novo foi realizada. O meu dicionário define o termo inglês vulgar como «vulgar,
banal; não avançado ou sofisticado; grosseiro nos modos ou no carácter;
ordinário». Uma coisa é afirmar que a estética é unicamente humana e nada
tem a ver com a sobrevivência ou a reprodução. Outra muito diferente é afirmar
que há aspectos da estética considerados banais que são fáceis de explicar em
termos de sobrevivência e de reprodução, restando qualquer coisa a que
chamamos «sofisticado». Quanto a ser óbvio em retrospectiva, nada é menos
óbvio do que o conceito de óbvio. Sempre que Sherlock Holmes explicava o
raciocínio subjacente às suas extraordinárias deduções, Watson exclamava «É
óbvio! », para grande irritação do seu inteligente amigo. A mesma observação
pode ser obviamente verdadeira, obviamente falsa, ou simplesmente invisível,
consoante o pano de fundo constituído por outras observações e pressupostos.
O que é óbvio hoje não era óbvio há cem anos, e o que era óbvio nessa altura
parece-nos difícil de compreender. Iniciei este livro afirmando que estudar
evolução pode ser como transpor uma porta e não querer voltar para trás. Pode
tornar-se tão natural como andar de bicicleta, o que, como é evidente, não é
nada natural, mas apenas uma segunda natureza. Para aqueles que
experimentaram esta transição, muitas coisas que não eram óbvias
anteriormente tornam-se óbvias.
Além disso, a nossa teoria evolutiva da estética pode levar-nos para além
da arte dos calendários e da pornografia. Pergunte a várias pessoas — mesmo a
pessoas «comuns» — o que mais valorizam num companheiro de uma relação a
longo prazo, e verá que em geral as principais qualidades não são físicas, mas
sim características como a simpatia, a inteligência e, estranhamente, o sentido
de humor. As qualidades físicas como a beleza e as qualidades materiais como a
riqueza tendem a ser classificadas mais abaixo, com grandes diferenças
individuais e diferenças de género mais modestas. Num estudo, por exemplo, a
beleza recebia uma classificação de 3 para os homens e de 6 para as mulheres,
enquanto a riqueza recebia uma classificação média de 8 para as mulheres e de
11 para os homens. A importância das qualidades não físicas num parceiro
social, seja um colega, seja um amigo ou um associado, faz perfeitamente
sentido de um ponto de vista biológico.
Daqui se conclui que a percepção de beleza deveria ser influenciada tanto
por factores não físicos como por factores físicos. Imaginemos o Sam, que
pondera se há-de casar com a Jenny. As características físicas dela são apenas
médias, mas ela é excepcionalmente simpática e inteligente e tem um sentido de
humor maravilhoso. Talvez na mente dele as características físicas e não físicas
se mantenham separadas. Sam poderia pensar (consciente ou
inconscientemente): «A Jen só tem a classificação 5 no que diz respeito à
aparência, mas é maravilhosa noutros aspectos. Acho que a vou pedir em
casamento!» Por outro lado, talvez na mente dele as características físicas e não
físicas se fundam, dando origem a um cálculo geral de valor de fitness, o que é
intuído como beleza. Ele sente-se simplesmente atraído por ela, incluindo pela
sua aparência, e classificá-la-ia como mais atraente fisicamente do que outros
que não se dão conta das suas virtudes não físicas. Ambos estes cenários são
possíveis — lembre-se que uma teoria mais não faz do que sugerir alternativas
plausíveis —, mas o segundo é mais fiel ao conceito de beleza como avaliação
inconsciente do valor de fitness.
Há alguns anos fiquei fascinado com esta possibilidade e decidi testá-la
com a ajuda de um dos meus alunos de pós-graduação, chamado Kevin Kniffin.
Kevin era o primeiro membro da sua família a frequentar a universidade e uma
bolsa da Lehigh University permitiu-lhe seguir a sua musa sem ter de contrair
uma dívida descomunal. Girava em torno das grandes questões, como o motivo
que leva as pessoas a cooperarem, e foi influenciado por dois professores, John
Gatewood e Donald Campbell, que abordavam estas interrogações de uma
perspectiva evolutiva. Ao princípio ele tinha a intenção de se tornar um cigano
depois de se formar (como ele próprio refere), de deambular pelo país sem ter
em mente um objectivo determinado, mas uma lesão causada pelo basquetebol
forçou-o a permanecer em casa durante um ano, período durante o qual
continuou as suas leituras sobre a evolução nos livros que conseguia arranjar
nos alfarrabistas de Filadélfia. Nessa altura já estava suficientemente
interessado para frequentar um curso de pós-graduação e para trabalhar comigo
em grupos humanos. O seu gosto pelo desporto levou-o a considerar as equipas
desportivas como unidades cooperativas dos tempos modernos e para a sua tese
de mestrado estava a estudar a equipa de remo da universidade do mesmo
modo que os antropólogos estudam tribos distantes — vivendo entre os seus
membros e observando cada um dos seus movimentos. Não foi preciso recorrer
a nenhum estratagema — o treinador e os membros da equipa sabiam o que ele
estava a fazer —, mas também o aceitaram como um companheiro de equipa
que partilhava a dureza dos treinos extenuantes, que assistia às reuniões, e por
aí fora. O projecto da beleza era uma novidade para nós os dois. Sabíamos que
estávamos demasiado ocupados, mas ele era demasiado interessante para o
passarmos por alto. Os projectos são como os filhos — tão divertidos de
conceber que uma pessoa se esquece do trabalho que é necessário para os
acompanhar até amadurecerem.
Iniciámos com ligeireza um estudo que envolvia a classificação de
fotografias. Centenas de estudos de atracção física envolveram a classificação
das fotografias de desconhecidos, semelhantes ao estudo dos genes MHC a que
atrás fiz referência. Acrescentámos um novo pormenor fazendo pessoas
classificarem as fotografias de outras pessoas suas conhecidas — colegas da
escola secundária nas fotografias dos livros de curso —, o que tinha a ver com
familiaridade, agrado, respeito e atracção física. Em seguida, pedimos a outra
pessoa da mesma idade e sexo do dono do livro de curso, e que não conhecia as
fotografias, que as classificasse. Se a percepção da atracção física se baseia em
características puramente físicas (visíveis a partir das fotografias), então as duas
opiniões deveriam ser em grande medida coincidentes, independentemente do
que se sabe sobre as características não físicas das pessoas. Se a percepção da
atracção física se baseia numa avaliação do valor de fitness global, então a
classificação da atracção física por parte dos donos dos livros de curso deveria
ser influenciada tanto pelo que sabiam sobre as pessoas das fotografias como
pela avaliação das características puramente físicas realizada pelos segundos
classificadores.
A primeira pessoa a participar neste estudo foi a secretária do nosso
departamento, uma mulher gentil, de cinquenta e tal anos, que ainda tinha o
livro de curso do tempo de escola. A sua avaliação da atracção física
correspondeu muito mais fortemente aos sentimentos que nutria pelos colegas
do que a avaliação do segundo classificador. Fascinado, mostrei-lhe as
fotografias da pessoa que ela tinha avaliado como fisicamente menos atraente.
Era um indivíduo do sexo masculino que parecia completamente banal aos
meus olhos e aos do segundo classificador. Bastou olhar para a fotografia para o
rosto dela se franzir de desagrado, ao mesmo tempo que me dizia como ele era
uma pessoa horrorosa, com uma língua viperina e outros defeitos de carácter
que nada tinham a ver com as suas características físicas. O seu carácter tinha
ficado tão fortemente impresso nas suas características físicas que ela se
comportou como se estivesse a cuspir comida podre, embora não o visse nem
tivesse qualquer contacto com ele há mais de trinta anos!
Encorajados, alargámos a nossa amostra a vinte e sete donos de livros de
curso que também funcionaram como segundos classificadores, avaliando
igualmente as fotografias do livro de outra pessoa qualquer para além das do
seu. As qualidades não físicas tiveram uma influência preponderante na
avaliação da atracção física. Como a teoria previa, o que faz a grande diferença
não é conhecer uma pessoa muito bem (familiaridade per se), mas a maneira
como a consideramos (agrado e respeito). Também havia diferenças de género e
diferenças individuais dentro de cada género. Os homens tendiam mais do que
as mulheres a basear a sua avaliação da atracção física em caracteres puramente
físicos (concordando com o segundo classificador), mas isto era apenas uma
diferença média; alguns homens pareciam quase inteiramente influenciados
pelo agrado e algumas mulheres quase inteiramente pelos caracteres físicos.
Seria fascinante relacionar as diferenças individuais na avaliação da beleza com
as diferenças individuais de personalidade abordadas no capítulo anterior, mas
isso é um estudo para o futuro. Diga-se de passagem que este estudo é tão fácil
de fazer que seria um excelente exercício para realizar na aula. Basta os alunos
levarem os seus livros de curso para a aula e os dados podem ser recolhidos
durante um único período escolar. A minha filha Tamar e a amiga dela Nicole
Benson realizaram uma versão desta experiência como projecto para a aula de
estatística da escola secundárja e confirmaram os nossos resultados — além de
terem obtido a classificação máxima no projecto.
Aconteceu dar-se um caso entre os membros da equipa de remo que Kevin
estava a estudar para a sua tese que se tornou relevante para o nosso estudo da
beleza. Um membro da equipa dos homens havia-se revelado desinteressado,
aparecendo muitas vezes tarde para os treinos extenuantes e às vezes até não
comparecendo. Remar exige esforço mútuo e aquilo era uma séria violação do
contrato social. O desleixado tornou-se alvo de má-língua (outra coisa que Kevin
andava a estudar); em comparação com ele, os membros mais empenhados da
equipa eram alvo de admiração. Seria possível esta diferença de apreço social
reflectir-se na avaliação da atracção física? Kevin pediu aos membros da equipa
(tanto homens como mulheres) que se classificassem uns aos outros em termos
de talento, esforço, agrado, respeito e atracção física. Depois, tal como no estudo
anterior, pediu a desconhecidos que classificassem as fotografias. Claro que as
características não físicas apareceram altamente correlacionadas umas com as
outras e com a avaliação da atracção física entre os membros da equipa, mas
não com a avaliação da atracção física com base nas fotografias por parte de
desconhecidos. O mandrião tinha-se tornado feio, mas só para aqueles que o
conheciam.
Estes dois estudos foram encorajadores, mas também revelaram algumas
fraquezas. Talvez uma única fotografia não forneça informação suficiente sobre
traços puramente físicos em comparação com ver uma pessoa em carne e osso.
Talvez dois classificadores diferentes discordem acerca do que pode ser
considerado fisicamente atraente, mesmo na base de características puramente
físicas. O estudo ideal teria um grupo de pessoas a classificarem-se umas às
outras quanto à atracção física depois de se encontrarem pessoalmente uma
primeira vez e depois de novo após conhecerem as qualidades não físicas umas
das outras. Houve a sorte de uma turma de Arqueologia de um curso de Verão
proporcionar exactamente esta oportunidade. Os alunos trabalhavam numa
escavação oito horas por dia, cinco dias por semana, durante um período de seis
semanas. Com a autorização do instrutor e da comissão de avaliação da
universidade (o que é indispensável para toda a investigação empreendida com
seres humanos), Kevin visitou a turma no primeiro dia e pediu aos alunos que se
avaliassem uns aos outros numa escala de 1 (baixo) a 9 (alto) quanto a
familiaridade, inteligência, esforço, agrado e atracção física. Uma vez que
algumas destas perguntas eram inadequadas no primeiro dia de aulas, os alunos
receberam instruções para responder mesmo se tivessem apenas uma vaga
impressão ou para deixarem a resposta em branco se não fizessem a menor
ideia. Junto do lugar de cada aluno foi colocado um dístico com o seu nome a
fim de facilitar a identificação. O mesmo questionário foi completado durante o
último dia de aulas. Kevin também passou vários dias a trabalhar com a turma e
entrevistou os instrutores a fim de obter uma descrição do grupo e da
participação dos seus elementos. Como é evidente, os alunos modificaram a sua
avaliação inicial da atracção física depois de se conhecerem uns aos outros. Uma
mulher que no início recebeu uma avaliação média de 3,25 quanto à atracção
física revelou-se trabalhadora e um membro popular da turma. Não só
gostavam dela, mas a avaliação da atracção física subiu para 7,00!
O meu exemplo favorito de uma pessoa a quem as qualidades não físicas
tornaram bela é Abraham Lincoln. Em vida ele foi considerado horrorosamente
feio, especialmente pelos seus opositores políticos, que o comparavam a um
gorila. O próprio Lincoin zombava da sua aparência. Uma vez, quando o
acusaram de ter duas caras, ele retorquiu: «Se eu tivesse duas caras, acham que
usava esta?» No entanto, hoje em dia é impossível olhar para o seu rosto sem
um sentimento de amor e emoção. Não dizemos «Que homem maravilhoso! É
pena que parecesse um gorila.» Adoramos o seu rosto, que se tornou
inseparável das suas qualidades admiráveis. A nossa teoria evolutiva da estética
pode explicar potencialmente não só a beleza «vulgar» da arte de calendário e
da pornografia, mas até a beleza inefável de Abe Lincoln.
No capítulo 24 retomarei a questão do motivo por que fazemos objectos
belos (arte) e, no capítulo 23, a intrigante questão do motivo pelo qual
valorizamos o sentido de humor. Por agora, o mínimo que posso fazer é oferecer
uma dica de beleza invulgar: se deseja tornar-se mais atraente fisicamente,
torne-se um parceiro social mais valioso. Ignore este conselho e, por muito que
trabalhe na sua aparência exterior, pode sempre tornar-se vítima de uma
observação que ouvi uma mulher fazer a outra quando iam a atravessar o
campus: «Se eu não o conhecesse e não o detestasse, até podia achá-lo giro!»

17
Ama o teu próximo, o micróbio.
Nos dois últimos capítulos tentei mostrar que o que parece
intrinsecamente humano, como as nossas diversas personalidades e o nosso
sentido da beleza, forma uma continuidade profunda com o resto da vida. Agora
tentarei provar o mesmo para a moral e a religião. Isto vai exigir alguns
capítulos, como convém à amplitude do tema. É frequente as religiões
representarem o conflito entre o bem e o mal como uma luta de proporções
cósmicas. Acontece que têm razão. O conflito é eterno e abrange todas as
espécies existentes no mundo. Embora seja difícil de verificar, era capaz de
apostar tudo o que tenho que esse conflito existe em todos os planetas do
cosmos nos quais existe vida, porque a teoria da evolução prevê que as coisas se
passem assim a esse nível tão fundamental.
Já demos início à nossa viagem no capítulo 5, onde mostrei que termos
com uma forte carga moral como o «bem» e o «mal» possuem uma
interpretação biológica surpreendentemente simples. Características associadas
com «o bem» determinam o bom funcionamento de grupos como unidades,
enquanto características associadas com «o mal» favorecem indivíduos em
detrimento dos seus grupos. Também sugeri que os grupos cujos membros são
verdadeiros anjos uns para os outros se podem comportar em relação a outro
grupo da mesma maneira que os indivíduos maus se comportam para com
membros do seu próprio grupo. Ao que parece, há níveis de bem e de mal, uma
observação que reaparecerá repetidas vezes nos próximos capítulos.
Cheguei a estas conclusões não impondo a minha própria interpretação de
bem e mal, mas perguntando aos meus alunos o que eles associavam com o bem
e com o mal. As listas deles, e não as minhas, é que foram tão fáceis de
interpretar em termos do funcionamento e da sabotagem de grupos. Gostaria de
repetir o exercício em diversas culturas em todo o mundo. Com efeito, se
pertencer a uma cultura diferente da minha, por favor realize um estudo entre
os seus amigos e envie-me os resultados. Suspeito que os indivíduos e as
culturas irão discordar sobre quem se pode incluir no círculo moral (família,
tribo, país, apenas homens, humanidade, todas as espécies) e sobre o que é
preciso para um grupo moral funcionar bem (como conformidade, contra-posta
a tolerância das diferenças), mas que quase toda a gente irá associar moral com
o bem do grupo definido pelo círculo moral e imoralidade com a sabotagem do
grupo.
Na ausência de um estudo cruzado de culturas, podemos consultar
tradições religiosas de todo o mundo e ao longo da história. Segundo o papa S.
Gregório Magno, do final do século VI, os sete pecados mortais são (por ordem
crescente de gravidade) a luxúria, a gula, a avareza, a preguiça, a ira, a inveja e o
orgulho. Alguns deles podem parecer estranhos e até divertidos a membros das
modernas sociedades abastadas que idolatram no altar do consumo, mas fazem
todo o sentido no enquadramento da época. Por exemplo, a definição de orgulho
de Dante era «o amor do eu pervertido em ódio e o desprezo pelo próximo».
Quando desafiaram o rabino Hillel para explicar a Tora durante o tempo em que
conseguia manter o equilíbrio apoiado num só pé, a sua resposta, que se tornou
famosa, foi: «Não faças ao próximo o que detestarias que te fizessem a ti [...] O
resto são comentários.» Dizem que todas as grandes tradições religiosas
incluem a regra de ouro (em linguagem corrente, «Trata os outros como
desejarias que te tratassem»). O antropólogo britânico E. E. Evans-Pritchard
classificava «a eliminação do eu, a negação da individualidade, o facto de esta
não ter significado, nem sequer existência, excepto como parte de algo maior,
diferente do eu», como um «fundamento psicológico» das chamadas religiões
primitivas.
Os filósofos podem franzir o sobrolho ante a minha confiança nas
concepções de moral laicas e religiosas, como se eles nada tivessem a dizer sobre
o assunto. E os problemas associados com o utilitarismo, o imperativo
categórico de Kant e todos esses dilemas morais cuidadosamente engendrados
que confundem a nossa intuição? Tal como com o nosso sentido da beleza,
parece existir um senso comum da moral, captado pela regra de ouro, e outra
coisa qualquer a que chamamos sofisticação. Tal como com a nossa análise da
beleza, precisamos de começar por explicar o equivalente moral da arte de
calendário e de anotar o que realizámos se formos bem sucedidos. Uma coisa é
afirmar que a moral é unicamente humana e nada tem a ver com a evolução.
Outra coisa é afirmar que há aspectos da moral considerados «comuns» que são
fáceis de explicar em termos de evolução, restando qualquer coisa a que
chamamos «sofisticado». É a forma «faz aos outros» do bem e do mal que pode
ser encontrada sempre que existe vida. A forma de vida mais simples na Terra é
um vírus, que se pode dar ao luxo de ser simples porque parasita o mecanismo
muito mais complexo dos organismos que vivem livremente. Quando um vírus
penetra numa célula, os seus genes dão instruções aos genes da célula para que
façam produtos que possam ser associados para a construção de mais vírus.
Estes produtos espalham-se pela célula, criando uma espécie de caldo para a
replicação viral. A célula acaba por rebentar, libertando centenas de
descendentes virais que procuram e invadem outras células.
Por vezes acontece uma partícula viral perder alguns dos seus genes e
transformar-se num parasita ineficaz. Este já não consegue levar a célula a fazer
os produtos para a sua replicação, mas pode continuar a usar os produtos
fornecidos por outras partículas virais na mesma célula. Na realidade, o seu
genoma mais curto pode replicar-se mais depressa que os genomas de
comprimento normal. Em termos económicos, o vírus normal está a fornecer
um bem público, ao contribuir para o caldo de produtos genéticos que podem
ser usados por todos os vírus dentro da célula. O vírus mutante está «a fazer
batota», ao lucrar com o bem público sem contribuir para ele. É culpado do
quarto pecado mortal, a preguiça.
Uma partícula viral batoteira colhe benefícios à custa dos cidadãos
decentes, o seu próximo dentro da mesma célula, mas o que acontece quando a
descendência é libertada no ambiente para procurar novas células? Os
descendentes podem continuar a lucrar com a sua indolência se entrarem numa
célula que também contém cidadãos decentes, mas não têm sorte nenhuma se
entrarem em células sozinhos. Por conseguinte, o seu êxito a longo prazo
depende do número médio de partículas virais que infectam uma dada célula.
Os biólogos chamam a isto «co-infecção» e esta pode ser facilmente manipulada
no laboratório. Se diminuirmos a concentração de partículas virais, a maioria
das células será infectada por uma única partícula. Os batoteiros não terão
ninguém a quem explorar e reduzir-se-ão para uma frequência muito baixa na
população. Se aumentarmos a concentração de partículas virais, a maioria das
células será infectada por muitas partículas. Em geral, os batoteiros terão
cidadãos decentes para explorar e aumentarão para uma frequência elevada na
população. À semelhança dos deuses gregos no alto do monte Olimpo, que
muitas vezes se mostravam indiferentes e mesmo desdenhosos com os mortais,
podemos alterar o curso da batalha entre o bem e o mal, a preguiça e a
diligência, bastando para tal modificar a concentração de partículas virais no
tubo de ensaio.
As bactérias contam-se entre os organismos mais simples que vivem em
liberdade. No capítulo 8 descrevi como uma taça de sopa que se deixou no
parapeito da janela se assemelha a uma ilha isolada como o Havai no que diz
respeito à evolução bacteriana. Com os seus períodos de geração ultracurtos, as
primeiras bactérias a colonizar a «ilha» diversificam-se numa questão de dias
para ocupar um certo número de nichos ecológicos. Paul Rainey, um
microbiologista que divide o tempo entre a Universidade de Oxford, em
Inglaterra, e a Universidade de Auckland, na Nova Zelândia, estuda a evolução
bacteriana em condições laboratoriais cuidadosamente controladas. Fornece a
«sopa» sob a forma de um meio de cultura líquido estéril e introduz nela uma
única espécie bacteriana, a Pseudomonas fluorescens. A população cresce
rapidamente, até ficar sem oxigénio suficiente, criando uma vantagem para um
tipo mutante que pode formar um tapete na superficie, com acesso ao oxigénio
proveniente de cima e a nutrientes provenientes de baixo. À forma ancestral
chama-se «lisa» (SM, do inglês «smooth») e à forma mutante chama-se
«enrugada» (WS, do inglês «wrinkly spreader»), com base no aspecto das
colónias quando cultivadas em placas de agar.
O WS cria um tapete produzindo quantidades abundantes de um polímero
adesivo que cola as bactérias umas às outras. O polímero é dispendioso de fazer;
o que dá origem a outro dilema social. As mutações dentro do tapete criam
preguiçosos cujo lema é: «Façam meninos e não cola!» Os preguiçosos alastram
à custa dos cidadãos decentes até o tapete se desintegrar e toda a gente cair para
o fundo da taça, como a cidade perdida da Atlántida. E assim a cola da
civilização é dissolvida pela preguiça!
Estes dois exemplos do bem e do mal entre os micróbios podem ser
repetidos indefinidamente porque se baseiam em factos incontornáveis da vida
social. Muitas vezes os indivíduos vivem em grupos, quer queiram quer não, e os
esforços que desenvolvem em seu próprio beneficio são vulneráveis à
exploração, como no nosso exemplo viral. Os indivíduos podem com frequência
trabalhar juntos para criar algo maior do que qualquer pessoa poderia ter
conseguido sozinha, como no nosso exemplo bacteriano; mas, mais uma vez, o
esforço conjunto é vulnerável à exploração por parte de indivíduos que
partilham os beneficios sem partilharem os custos. Estes problemas existirão
onde quer que exista vida social. São entendidos como problemas morais na
nossa espécie, mas, enquanto evolucionistas, precisamos de compreender a
industriosidade e a preguiça, o bem e o mal, como estratégias alternativas que
são bem sucedidas e fracassam de diferentes maneiras. Não há um abandono da
moral, mas um prelúdio para pensar sobre a natureza da moral de uma
perspectiva evolutiva. De momento, precisamos de adoptar a perspectiva
distanciada dos deuses gregos, observando a tragédia e a comédia da vida que se
desenrola lá em baixo. Há os preguiçosos, que tiram partido dos cidadãos
decentes de cada grupo. Há os cidadãos decentes que funcionam bem enquanto
grupos, pelo menos até serem corrompidos pelos pecados mortais. A luta é
eterna, embora possamos fazer pender a vantagem para o lado que bem
entendermos.
Talvez o exemplo mais notável de virtude microbiana seja o bolor mucoso
celular Dictyostelium discoideum, conhecido pelo simpático diminutivo de
Dicty pelas centenas de cientistas que o estudam. O Dicty conta-se entre o grupo
de elite dos «organismos-modelo» seleccionados pela comunidade científica
para nele centrarem a investigação. A ideia é estudar um pequeno número de
espécies em extremo pormenor a fim de clarificar os processos básicos de vida
comuns a muitas espécies. Enquanto organismo-modelo, o Dicty recebeu muito
mais atenção do que teria recebido com base na sua história natural fascinante.
Todo o arsenal de tecnologia científica moderna se tem centrado nele, desde a
sequenciação genética até aos métodos inteligentes de visualizar as interacções
químicas que têm lugar dentro de uma única célula. Pode maravilhar-se com
algumas destas técnicas vísitando dictyBase, um site onde os cientistas que
estudam o Dicty se reúnem para trocar informações, imagens e outras coisas
(http://dictybase.org). Isto pode parecer o máximo da carolice, mas
experimente uma vez e aposto que voltará lá!
O Dicty é uma amiba, um ser unicelular que muda continuamente de
forma, deslocando-se e absorvendo o alimento por meio de extensões informes
de si próprio, chamadas pseudópodes (falsos pés). No site podem ver-se vídeos
de amibas, incluindo uma extraordinária imagem lateral obtida com um
microscópio confocal, que usa raios laser e uma quantidade de processamento
computacional para construir imagens tridimensionais de objectos minúsculos,
O Dicty não é apenas uma amiba. Quando outras espécies de amibas ficam sem
alimento ou sem humidade, assumem a forma de cápsulas protectoras
chamadas «cistos» até as condições melhorarem, O Dicty reage pedindo auxílio
aos vizinhos. Especificamente, liberta AMP cíclico (AMPc), uma molécula que
também é importante em muitos processos intracelulares. Além de libertar
AMPc, a superfície de cada Dicty está crivada de milhares de receptores que são
sensíveis ao AMPc. Quando o Dicty encontra um gradiente de concentração de
AMPc, os seus receptores são mais estimulados numa extremidade do seu
minúsculo corpo do que na outra, indicando para onde deve deslocar-se em
direcção ao vizinho.
Uma vez que um Dicty em apuros está no centro do seu próprio gradiente
de concentração de AMPc, poder-se-á perguntar como consegue detectar o
gradiente produzido por um vizinho. Engenhosamente, ele produz o seu próprio
AMPc de um modo pulsado, que se afasta do corpo numa onda em espiral. Os
seus receptores estão sincronizados para só se tornarem sensíveis ao AMPc
durante as depressões da sua própria onda em espiral, permitindo-lhe sentir as
ondas emanadas dos vizinhos. Os cientistas que investigam o Dicty
desenvolveram maneiras engenhosas de visualizar tanto as ondas como os locais
receptores em videoclips que se podem ver no site. As ondas saem em espiral de
cada indivíduo, como arte produzida por computador, e os receptores acendem-
se como minúsculos faróis, conduzindo cada Dicty na direcção dos seus
vizinhos. Quando eles começam a agregar-se, sincronizam os seus sinais para
produzir uma onda em espiral maior que passa busca ao mundo inteiro como o
feixe de luz em rotação proveniente de um farol. Os aglomerados mais pequenos
são atraídos para aglomerados maiores, culminando em agregados enormes,
que podem atingir os cem mil indivíduos.
Agora que o clã está reunido, transforma-se num objecto semelhante a
uma lesma, que consiste em células inseridas numa matriz gelatinosa que elas
segregaram. A lesma é capaz de percorrer distâncias que podem chegar aos
vinte centímetros. Considerando o tamanho de um Dicty, é como uma pessoa
percorrer sessenta quilómetros. A lesma não só consegue mover-se, mas
consegue ver suficientemente bem para se deslocar em direcção à luz! O modo
como estes prodígios de coordenação são realizados foi descoberto com um
pormenor igualmente prodigioso pelos cientistas que estudam o Dicty. Num
videoclip, as células das lesmas foram marcadas com corantes fluorescentes que
brilham com diferentes cores, consoante o estádio de desenvolvimento da
célula. A extremidade anterior da lesma é verde, a extremidade posterior é
laranja, e todas as células giram dentro da matriz gelatinosa como um tornado
deitado de lado, enquanto a lesma avança.
Depois de esta se ter deslocado até um ponto conveniente, tem lugar uma
transformação ainda mais notável. Ela coloca-se na vertical, como um pino de
bowling, com as células ainda a girarem no seu interior. Algumas das células
verdes da ponta — agora o cimo — separam-se do resto e descem em espiral até
formarem uma base adesiva resistente. As outras células verdes formam um
pedúnculo esguio, enquanto as células laranja migram para o cimo para formar
uma elegante esfera de esporos. A estrutura final tem uma delicadeza que está
em contraste com a lesma, como o patinho feio transformado num cisne.
O objectivo deste poderoso esforço de grupo é percorrer uma distância
mais longa do que aquela que qualquer Dicty isolado seria capaz de percorrer
sozinho. Não só a lesma se assemelha a uma locomotiva a atravessar um país,
mas é provável que os esporos elevados se colem ao corpo de um insecto que
passa para um voo transcontinental. Este esforço de grupo exige um grau de
coordenação que talvez nunca tivéssemos esperado encontrar num ser tão
«simples», mas também exige um certo grau de sacrifício. As células que
formam a base e o pedúnculo da estrutura perdem a capacidade de se
reproduzir. Em termos darwinistas, sacrificaram a vida a fim de que outros
membros do seu grupo se possam reproduzir. Se, numa situação comparável,
uma pessoa se comportasse dessa maneira de livre vontade, postumamente
seria indigitada para receber a Medalha de Honra ou para ser beatificada.
Do nosso posto de observação desapaixonada no monte Olimpo, não
estamos aqui para louvar o Dicty, mas apenas para nos maravilharmos com o
modo como uma tal divisão do trabalho pôde evoluir quando os batoteiros que
insistem em tornar-se esporos teriam uma enorme vantagem sobre os cidadãos
decentes que cumprem o seu dever de se tornarem células do pedúnculo e da
base. Uma das possibilidades é que uma dada célula não tenha alternativa.
Talvez tudo isso a rodopiar dentro da lesma seja como uma tômbola a misturar
bilhetes de lotaria, de modo que os vencedores (as células que se tornam
esporos) dependam da sorte da extracção. Talvez todas as células que se juntam
para formar uma lesma sejam geneticamente idênticas e derivem de um único
antepassado muitas divisões de células atrás. Infelizmente, nenhuma destas
respostas está inteiramente correcta. É frequente as lesmas conterem células de
diferentes linhagens e algumas delas conseguem fazer pender a lotaria a seu
favor. O bolor mucoso celular é um modelo acabado de virtude microbiana, mas
mesmo o Dicty não é isento de pecado.
O conflito que definimos em termos de bem e de mal existe em todos os
seres que interagem com o seu próximo. Não depende da complexidade nem da
actividade mental do organismo, e neste momento até já deve estar a perguntar-
se o que significam estes termos. Podia ter deliciado o leitor com histórias de
santos e de pecadores entre leões, elefantes e chimpanzés, mas não era
necessário. Os micróbios oferecem centenas de histórias invisíveis, em nós e à
nossa volta.

18
Grupos até lá abaixo

Consta que William James foi certa vez abordado depois de uma
conferência por uma senhora idosa que partilhou com ele a sua teoria de que a
Terra está apoiada nas costas de uma tartaruga gigante. Delicadamente, James
perguntou-lhe em que estava assente a tartaruga. «Numa segunda tartaruga,
muito maior!», replicou ela, segura de si. «Mas em que está assente a segunda
tartaruga?», insistiu William James, na esperança de revelar como o argumento
dela era absurdo. «É inútil, Mr. James», insistiu ela toda ufana, «são tartarugas
até lá abaixo!»
Está a surgir algo estranhamente semelhante a uma progressão infinita de
tartarugas na nossa compreensão dos indivíduos e dos grupos. Os primeiros
parecem-nos muito mais reais do que os segundos. Os indivíduos são
fisicamente diversos, enquanto os grupos parecem abstracções indistintas.
Dotamos os indivíduos de propriedades mentais como intenções e interesse
pessoal e consideramos os grupos apenas uma palavra conveniente para o que
os indivíduos fazem uns aos outros com vista a satisfazer o seu interesse
pessoal. Em boa verdade, na época de James era mais comum pensar na
sociedade como um organismo por direito próprio, mas durante o último meio
século os indivíduos ocuparam o centro do universo intelectual. A primeira-
ministra britânica Margaret Thatcher deu voz ao seu tempo quando, num
discurso de 1978, afirmou que «sociedade é uma coisa que não existe. Só
existem indivíduos e as suas famílias».
Ao mesmo tempo que Thatcher proferia estas palavras, uma bióloga
celular chamada Lynn Margulis fazia a afirmação oposta — que os indivíduos
são coisa que não existe, que tudo o que existe são as sociedades. As células de
todas as plantas e animais (chamadas eucariotas) são muito diferentes e mais
complexas do que as células das bactérias (chamadas procariotas). O seu ADN
encontra-se armazenado dentro de um núcleo e o resto da célula (o citoplasma)
é habitado por outras estruturas complexas, como as mitocôndrias (que
produzem energia), os cloroplastos (que captam e produzem energia a partir da
luz nas plantas) e uma rede de canais chamados «retículo endoplasmático».
Praticamente todos os biólogos partiam do princípio de que as células
eucariotas tinham evoluído por meio de pequenos passos mutacionais a partir
das células procariotas — indivíduos a partir de indivíduos. Lynn afirmava que
as células eucariotas evoluíam a partir de associações simbióticas de bactérias —
indivíduos a partir de grupos. Hoje existem muitas associações simbióticas,
como as bactérias e as algas, que vivem nos tecidos dos protozoários. Lynn pôs a
hipótese de que, quando os membros de uma associação simbiótica se tornam
suficientemente dependentes uns dos outros, fazem uma transição de
organismos para órgãos e essa associação se torna um novo organismo de um
nível mais elevado.
A ideia não era inteiramente nova. Tal como os primeiros cartógrafos
observaram que as linhas costeiras da África e da América do Sul pareciam
encaixar-se como peças de um puzzle e propuseram uma teoria da deriva dos
continentes, os primeiros biólogos celulares observaram que as mitocôndrias se
assemelhavam a células bacterianas. Contudo, ambas as teorias foram rejeitadas
como absurdas, deixando a missão de as ressuscitar às almas corajosas do
futuro. Lynn ressuscitou a teoria simbiótica da célula eucariota contra a feroz
oposição dos seus colegas. Embora eu tenha descrito a ciência como um
processo tão simples como fazer girar uma manivela, as questões realmente
importantes como esta suscitam paixões que evocam mais uma guerra religiosa.
No entanto, a manivela gira e hoje em dia nenhuma pessoa razoável duvidaria
da evidência quer da deriva dos continentes, quer da origem simbiótica das
células eucariotas. Em 1983, Lynn foi eleita para a Academia Nacional das
Ciências dos Estados Unidos, a mais alta honra que os Estados Unidos
concedem aos seus cientistas.
Alguns aspectos da teoria simbiótica continuam a ser controversos, como a
origem dos flagelos e dos cílios, as estruturas semelhantes a um chicote e a um
pêlo que fazem mover as células eucariotas. Lynn pensa que estas derivam de
bactérias móveis chamadas «espiroquetas», que evoluíram para deslocar as
comunidades simbióticas como rebocadores a puxar um barco através de um
porto. Também pensa que as estruturas filamentosas internas da célula derivam
das espiroquetas, incluindo os axónios das nossas células nervosas. Lynn
provavelmente não se sentiria feliz se não pudesse atormentar os seus colegas
conservadores com afirmações como: «Tudo o que peço é que comparemos a
consciência humana com a ecologia das espiroquetas.» Embora não tenha razão
no que respeita a alguns pormenores, continua a ser válido que os organismos
unicelulares eucariotas dos nossos dias, que não nos deixam dúvidas quanto à
sua individualidade, eram comunidades de bactérias no passado distante. Foi
ultrapassado um limiar de integração que nos permitiu ver o todo em vez das
partes.
Prosseguindo em sentido ascendente, os organismos multicelulares como
o leitor e eu somos grupos sociais de células eucariotas. No sentido descendente,
as bactérias são grupos sociais de genes. Como uma pilha infinita de tartarugas,
tudo o que reconhecemos como um indivíduo é também uma população de
subunidades. Chamamos a essas subunidades órgãos, em vez de organismos,
por elas trabalharem tão bem em conjunto em nome do todo.
O conceito de organismos como sociedades é mais do que uma simples
metáfora interessante. Já vimos que a vida social é uma competição entre
«cidadãos decentes» que funcionam bem como grupos e «pecadores» que
lucram à custa dos cidadãos decentes dentro dos grupos. Existe a mesma
competição entre as partes de um único organismo. Cada vez que os genes se
replicam no interior das células e as células se dividem no interior de um
organismo multicelular, existe potencial para algum ganho à custa dos outros e
do bem-estar do grupo como um todo. Quando isto acontece, o todo torna-se
menos um organismo e mais um mero grupo, Os subelementos tornam-se
menos órgãos e mais organismos antagónicos com os seus programas distintos.
A harmonia de um organismo não pode ser considerada dado adquirido. Exige a
evolução de mecanismos que impedem a subversão vinda do interior.
Pensar em indivíduos como grupos sociais expandiu imenso o domínio do
comportamento social para além das interacções entre indivíduos, até à
organização interna de indivíduos. Por que motivo existem os cromossomas? Se
os genes existissem como unidades independentes, poderiam replicar-se
diferencialmente no interior da célula, como os vírus e as bactérias descritos no
capítulo anterior. Ligá-los numa única estrutura que se replica como uma
unidade resolve muito bem o problema da replicação diferencial. Porque são as
regras da meiose tão elaboradas? A meiose é o processo de divisão celular que
dá origem à formação de espermatozóides e óvulos (gâmetas). Este estádio do
ciclo da vida é particularmente vulnerável à replicação diferencial, pelo que a
meiose está elaboradamente concebida para dar a cada gene uma hipótese igual
de se tornar um gâmeta. Porque há uma divisão entre células que estão
destinadas a reproduzir-se (a linha germinal) e células que estão destinadas a
construir o corpo do organismo (a linha somática), que ocorre muito cedo no
desenvolvimento? Para minimizar o número de divisões celulares que produzem
mutações na linha germinal e para garantir que a linha somática é
exclusivamente seleccionada devido à sua capacidade de aumentar a fitness do
organismo como um todo, em vez da competição para formar gâmetas. Porque
estão tantas células somáticas destinadas à autodestruição após um número
finito de divisões? A fim de impedir as estratégias de batota de evoluir ao longo
de um período de muitas divisões celulares.
Por vezes chama-se leis a estes factos da genética e do desenvolvimento
por eles serem tão generalizados, mas a palavra «lei» adquiriu recentemente um
outro significado — um contrato social destinado a promover o bem comum. O
uso que faço das palavras extraídas da vida social humana, como «cidadão
decente» e «pecador», não é apenas uma liberdade poética para agradar a um
público leigo. É assim que os especialistas falam uns com os outros. Num único
artigo de revisão, intitulado «The Social Gene», o seu autor, o biólogo de
Harvard David Haig, uma autoridade reconhecida na matéria, usava as
seguintes expressões: «bajular», «borlistas», «cabala», « coerção»,
«colectivos», «coligação», «comércio», «compromissos vinculativos»,
«comuns», «conspirar», «contrato social», «corrupto», «custos de transacção»,
«defraudar», «desentendimento», « disposições contratuais», « embuste», «
enganar», «equipa», «estrategas», «exploração», «extorsão», «facções»,
«firma», « fraude», «malfeitor», «igualitário», «inadequado», «instituições»,
«interesse pessoal», «jogo limpo», «lealdade», «licenciamento», «lotaria»,
«manipular», «mercado», « monopólio», «motivação», «não autorizado»,
«pandilha», «parceria», «parlamento», «polícia», «política», «roubar»,
«sabotagem», «sistema de segurança», «sociedade aberta», «subornos»,
«vendedor de banha da cobra», «vigarista e «vigilância». Há cinquenta anos,
ninguém teria sonhado que estas palavras seriam usadas para descrever as
interacções que ocorrem num único indivíduo ao nível genético, fisiológico e do
desenvolvimento.
Mostrei que os grandes organismos, como o leitor e eu, são grupos de
células que por sua vez são grupos de bactérias, que por sua vez são grupos de
genes. Cada nível da hierarquia defronta-se com os factos inelutáveis da vida
social: os benefícios a nível de grupo de trabalhar em conjunto e os benefícios a
nível individual de explorar o grupo. O nível superior só se considera um
organismo porque os problemas que associamos com egoísmo e imoralidade aos
níveis inferiores foram substancialmente resolvidos. Mas serão de facto grupos
até lá abaixo? O nível mais baixo a que podemos chegar é a própria origem da
vida.
Se as primeiras formas de vida eram indivíduos, então provavelmente
eram filamentos nus de moléculas semelhantes a ARN, que diferiam na
sequência de nucleótidos (ACGU), as famosas quatro letras do alfabeto genético
(o uracilo é substituído pela timina no alfabeto de quatro letras do ADN). Cada
filamento (como AAACCGUU) cria o seu filamento complementar
(UUUGGCAA) a partir de nucleótidos disponíveis no meio ambiente, o que, por
sua vez, recria o filamento original. Sequências de aminoácidos diferentes
podem variar na eficácia de replicação, conduzindo a uma forma primitiva de
selecção natural. O problema com esta hipótese — que foi ensaiada no
laboratório — é que a replicação do ARN não é muito eficaz na ausência de
enzimas altamente específicas que não podiam estar presentes na sopa
primordial. A fidelidade de cópia por nucleótido provavelmente não
ultrapassava os noventa e nove por cento, o que pode parecer elevado até nos
apercebermos de que um filamento de 100 nucleótidos sofre quase de certeza
uma mutação algures ao longo do seu comprimento em cada replicação. O
resultado é um caldo de filamentos de ARN muito curtos, consistindo numa
única sequência dominante e num halo de sequências estreitamente
relacionadas, que sofreram uma mutação muito longe do que quer que
possamos chamar vida.
Para avançar, é necessário postular que a vida começou como uma
comunidade de reacções moleculares cooperantes. Por exemplo, a replicação do
ADN e do ARN nas formas de vida modernas torna-se eficaz devido a outras
moléculas a que chamamos «replicases», mas estas moléculas ajudantes
também têm de ser replicadas para o sistema como um todo permanecer
intacto. Mal pensamos numa rede de interacções moleculares cooperantes
deparamo-nos com os mesmos factos inelutáveis da vida social com que se
confrontam as formas de vida superiores. As reacções moleculares não
cooperantes também ocorrem e acabam por destruir a rede. Como o biólogo
húngaro Eörs Szathmáry escreveu num artigo recente, «Fornecer apoio
catalítico numa rede catalítica molecular de controlo retroactivo é um
comportamento altruísta condenado a ser explorado por moléculas parasitas e
por fim à extinção». O que reconhecemos como bem e mal em termos humanos
estende-se mesmo ao domínio das reacções químicas!
Tal como com as formas de vida superiores, a solução (parcial) para a
exploração primordial era provavelmente a existência de muitos grupos de redes
catalíticas de controlo retroactivo, algumas das quais trabalhavam melhor do
que outras, exactamente como na minha hipótese da ilha deserta do capítulo 5 e
em exemplos de virtude microbiana do capítulo 17. Talvez os primeiros grupos
estivessem organizados em torno de partículas de argila ou de vesículas de
lípidos com auto-organização. A origem da vida continua a ser um profundo
mistério, embora eu esteja convencido de que este vai acabar por ser vencido
pela compreensão científica. Se assim for, resolver o mistério não o fará perder a
sua grandiosidade. Acho impressionante pensar que a vida apareceu sob a
forma de confrarias moleculares minúsculas. Se assim foi, como na teoria da
senhora idosa sobre a pilha infinita de tartarugas, são grupos até lá abaixo.

19
Divididos soçobramos

Os grupos tornam-se organismos quando a selecção dentro do grupo é


suprimida, permitindo que a selecção entre grupos se torne a principal força
evolutiva. Nos grupos a que chamamos organismos, este desequilíbrio verificou-
se num grau extraordinário. Uma pessoa vem a este mundo como uma colecção
única de genes que permanece a mesma durante toda a vida. O processo da
meiose torna os espermatozóides ou os óvulos diferentes uns dos outros, mas
cada gene tem a mesma probabilidade de estar representado. A meiose é um
patrão que dá oportunidades iguais a todos. A estabilidade de cada um de nós
enquanto população de genes, associada à imparcialidade das regras da meiose,
significa que não há evolução dentro de nós. Excepto no que diz respeito as
mutaçoes, os genes que saem através dos gâmetas são os mesmos que entram
através da união dos gâmetas dos nossos pais. A única maneira de os nossos
genes poderem dar um contributo diferenciado para o pool genético é fazendo-
nos, enquanto indivíduos, sobreviver e reproduzir-nos melhor do que outros
indivíduos da população.
Enfim, não é bem assim. O nosso desenvolvimento desde uma única célula
até um organismo multicelular exigiu muitas divisões celulares. Em adultos, as
nossas células continuam a dividir-se para se substituírem a si mesmas,
especialmente as que se deterioram depressa, como as células da pele. Cada
divisão é como o tiquetaque de um relógio no qual podem ocorrer mutações que
alastram em competição com outras linhagens celulares. O facto de uma
linhagem celular mutante bem-sucedida — a que chamamos cancro — poder
acabar por se destruir a si mesma juntamente com o resto do organismo é
irrelevante. A evolução que tem lugar dentro do nosso corpo não faz previsões. É
um simples processo mecânico por meio do qual algumas formas surgem,
competem com outras e saem vencedoras na base de interacções imediatas.
Quanto às regras imparciais da meiose, as leis são feitas para serem infringidas.
Alguns genes mutantes são capazes de aumentar a sua representação nos
gâmetas acima dos cinquenta por cento, como um passageiro de um barco a
afundar-se que abre caminho à força até um salva-vidas. A vantagem de ser
excessivamente representado nos gâmetas é tão grande que os genes de «desvio
meiótico», como são chamados, podem evoluir mesmo quando têm um efeito
debilitante em todo o organismo. Nesta, e num número surpreendente de outras
formas, a evolução tem lugar dentro de organismos únicos, quebrando a sua
harmonia e transformando-os de novo em meros grupos.
Para compreender o cancro, temos de pensar num organismo único como
uma vasta população de células, todas com o mesmo conjunto de genes excepto
no que diz respeito às mutações que estão prestes a tornar-se as protagonistas
da nossa história. A vida de qualquer célula particular é regulada do berço até à
sepultura de modo a garantir que desempenha o papel adequado. Os genes que
realizam este milagre de coordenação são designados por nomes como caretaker
(zelador), gatekeeper (porteiro) e landscaper (vigilante da paisagem), como se o
corpo fosse um domínio rural inglês meticulosamente gerido. Até a morte é
regulada por um processo chamado «apoptose», que desagrega as células de um
modo ordenado quando elas já não são necessárias ou já não conseguem
desempenhar o seu papel de acordo com as regras. Talvez o estado totalitário
seja uma metáfora melhor que a propriedade rural inglesa.
A divisão celular é excepcionalmente bem supervisionada. É feita uma
nova cópia dc ADN, como se um monge copiasse um texto sagrado. A cópia é
revista e corrigida com uma tal exactidão que a taxa de erro final pode ser
inferior a um em um milhão para qualquer letra do texto. Mesmo assim, o texto
na sua totalidade contém milhões de letras, pelo que a maioria das cópias inclui
alguns erros. Deste modo, as mutações ocorrem com a regularidade de um
relógio com cada divisão celular.
Muitas mutações não têm efeito no funcionamento da célula. A maioria
das que o têm é rapidamente detectada e destruída pelo sistema imunitário, que
actua como uma força policial de uma eficácia implacável. Batem à porta a meio
da noite e levam os desgraçados dos mutantes. Todavia, uma pequena fracção
consegue escapar à polícia. Estes podem parecer inimigos do estado ou heróicos
combatentes pela liberdade a resistir à tirania do estado, consoante a
perspectiva por que se opte. Porém, uma maneira ainda melhor de pensar neles
é como organismos-presas a evoluírem para evitar os predadores. Tal como as
aves retiram da floresta os insectos que mais sobressaem, deixando os que se
fundem com o meio circundante, o sistema imunitário remove as células
mutantes do corpo que mais se destacam, deixando as que não são detectadas
para sobreviverem e crescerem em minúsculas populações. É provável que neste
momento haja centenas destas populações mutantes no seu corpo.
Tendo-se adaptado para evitar os predadores, as populações mutantes têm
de competir pelos recursos com as células normais da vizinhança, que
continuam a desempenhar a sua função. Na maioria dos casos, a competição
salda-se num empate. A população mutante permanece reduzida e com pouco
importância para o organismo como um todo, e não ajuda nem prejudica.
Contudo, o relógio mutacional continua a trabalhar e outros mutantes surgem
em algumas das populações que as tornam mais agressivas na competição com
as células vizinhas. Tal como algumas plantas se expandem produzindo uma
toxina que elas conseguem aguentar mas as vizinhas não, as populações
duplamente mutantes expandem-se agressivamente e tornam-se tumores
incipientes.
Agora que os tumores incipientes evoluíram de modo a enfrentar os
predadores e competidores, novos factores impedem a continuação do
crescimento. As células são alimentadas e os seus desperdícios retirados pelos
vasos sanguíneos. A menos que um tumor incipiente consiga recrutar vasos
sanguíneos da mesma maneira que os tecidos normais, não pode crescer para
além de determinadas dimensões. A maioria dos tumores incipientes pára aí,
mas em alguns verificam-se mutações adicionais que superam este factor
limitativo. Isto pode parecer um passo grande e complicado, mas as instruções
genéticas para recrutar vasos sanguíneos evoluíram há muito tempo como parte
do desenvolvimento normal. Tudo o que a mutação no tumor incipiente tem de
fazer é activar estas instruções, o que é relativamente simples.
Desta maneira, os tumores adaptam-se aos desafios do seu meio ambiente,
mutação a mutação, exactamente da mesma maneira que os organismos que
vivem em liberdade, como as aves e os peixes, se adaptam ao seu ambiente, e os
organismos da doença evoluem rapidamente dentro dos seus hospedeiros. O
facto de uma doença como o vírus da imuno deficiência humana (HIV) ser um
organismo separado, enquanto um tumor deriva das nossas próprias células,
não faz qualquer diferença. Em ambos os casos, eles sobrevivem dentro do
nosso corpo, não contribuem para o nosso bem-estar e vão avançando a um
ritmo constante como bombas-relógio mutacionais.
O HIV é particularmente perigoso por avançar a um ritmo muito rápido.
Não só tem um tempo de geração curto, mas a transcrição do seu código
genético assemelha-se ao trabalho de um monge deliberadamente desleixado,
que produz cópias do texto sem verificar se há erros. Na realidade, este desleixo
é adaptativo; apesar de produzir dezenas de mutações prejudiciais, também
produz a mutação benéfica seguinte mais rapidamente do que produziria
noutras circunstâncias. As mutações em tumores têm o mesmo efeito quando
começam a interferir com a maquinaria sofisticada que regula as vidas das
células normais, fazendo as células tumorais crescerem mais depressa e com
mais erros. Os factores ambientais que aumentam o ritmo da mutação também
têm o mesmo efeito. Em ambos os casos, a bomba-relógio mutacional começa a
avançar mais depressa. O tumor torna-se um mosaico de populações celulares
que diferem umas das outras, criando um novo campo de competição. Os clones
mais agressivos expandem-se à custa de outros clones, tal como o mutante
original se expandiu à custa das células normais.
Assim como as plantas e os animais que vivem em liberdade abandonam
zonas actualmente ocupadas para colonizarem novas zonas, a adaptação final
que garante o sucesso de um tumor é dispersar-se, enviando propágulos para
colonizarem novas zonas do corpo. Nesta altura, se não antes, o tumor interfere
com as funções vitais do organismo e a grande experiência evolutiva chega ao
fim. A invasão tecidular e as metástases são responsáveis por 90 por cento das
mortes por cancro.
A evolução do cancro parece o cúmulo da estreiteza de vistas. Cada
«avanço» mutacional que permite a uma linha celular evitar os seus
«predadores» (o sistema imunitário), vencer os seus «competidores» (as células
que funcionam normalmente) e colonizar outras zonas do corpo (metástases) fá-
la aproximar-se mais da sua própria morte. Mesmo se um tumor permanecer
benigno, desaparecerá com a morte natural do organismo, dado não existir
nenhum mecanismo que lhe permita passar de um corpo para outro. A evolução
dentro do organismo é incapaz de impedir esta inutilidade, que é adaptativa no
que diz respeito às interacções imediatas entre as células. Só a evolução entre
organismos pode criar o desfecho de vistas largas de células que colaboram para
o bem comum. Temos sorte por a selecção actuar de forma tão vigorosa a este
nível e durante tanto tempo que o cancro é uma doença rara que se manifesta
sobretudo numa idade avançada.
Infelizmente, os organismos isolados desempenham potencialmente o
papel de células cancerosas quando interagem em grupos. A selecção dentro dos
grupos favorece as estratégias de vistas curtas e, como vimos, a selecção entre os
grupos é necessária para criar o desfecho de vistas largas dos organismos que
colaboram para o bem comum. Se a selecção entre os grupos vence a selecção
dentro dos grupos de uma forma tão decisiva como a selecção entre organismos
vence a selecção dentro de organismos, o problema aparece de novo no degrau
seguinte da hierarquia biológica. Se conseguirmos extinguir-nos como espécie,
será devido ao mesmo tipo de estreiteza de vistas que leva as células cancerosas
a acelerarem a sua própria morte.

20
Mentes aladas

A paragem seguinte na nossa viagem desde a origem da vida até à moral e


à religião humanas é nos insectos sociais. A história é em grande medida a
mesma — a selecção entre grupos leva a melhor sobre a selecção dentro dos
grupos, transformando os grupos em organismos —, mas neste caso as unidades
de nível inferior são insectos individuais e as unidades de nível superior são
colónias. Ao invés de um organismo individual, uma colónia de insectos sociais
não é uma entidade fisicamente isolada. Num determinado dia, as obreiras de
uma colónia de abelhas podem sobrevoar uma área de vários quilómetros
quadrados. As colónias de formigas legionárias nem sequer têm uma habitação
própria fisicamente separada. Surpreendentemente, estas sociedades de mais de
um milhão de indivíduos estão em permanente movimento. A rainha, com o seu
abdómen protuberante, é incapaz de se movimentar e é transportada às costas
de obreiras zelosas. Os milhares de ovos que põe são transportados e
alimentados durante o seu período de desenvolvimento por uma casta de aias
dedicadas. Quando encontram terreno acidentado durante as suas deslocações,
algumas obreiras formam espontaneamente pontes vivas que o resto da colónia
atravessa. As colónias de insectos sociais classificam-se como organismos, não
por estarem fisicamente ligadas, mas porque os seus membros coordenam as
suas actividades de uma forma orgânica a fim de perpetuar o todo. A divisão
reprodutiva de trabalho entre rainhas e obreiras é semelhante à distinção entre
células germinativas e células somáticas em organismos multicelulares como
nós próprios.
Não é fácil transpor o limiar que separa grupos de organismos de grupos
enquanto organismos. Segundo cálculos actuais, este salto evolutivo só se
verificou quinze vezes na evolução dos insectos. Todavia, as vantagens da
cooperação são tão grandes que estas quinze origens separadas produziram
milhares de espécies de térmitas, formigas, vespas e abelhas, que, todas juntas,
constituem mais de metade da biomassa de todos os insectos. Quando
passeamos pelos bosques e pelos campos, a maioria das grandes propriedades
por onde passamos está ocupada por colónias de insectos sociais, com insectos
solitários a preencherem os espaços. Ed Wilson descreve uma colónia de
insectos sociais como uma fábrica dentro de uma fortaleza com a qual os
insectos solitários não podem competir. Uma colónia de formigas a deslocar-se
para o interior de um tronco apodrecido é como um gigantesco hipermercado a
implantar-se no bairro onde moramos: as pequenas lojas têm de desaparecer.
Todos os organismos precisam de uma maneira de coordenar as suas
partes. Os organismos fisicamente isolados, como nós, seres humanos, têm um
sistema de nervos e hormonas. Um organismo fisicamente disperso como uma
colónia de insectos sociais tem de ter um sistema comparável que possa actuar à
distância. Tal como um sinal a deslocar-se pelo axónio do comprimento de uma
célula nervosa tem de atravessar a minúscula distância de comprimento de uma
sinapse para entrar noutra célula nervosa, é obrigado a dar um salto maior de
um indivíduo para outro numa colónia de insectos sociais. De igual modo, as
hormonas (definidas como sinais químicos no interior do corpo) têm de ser
complementadas pelas feromonas (definidas como sinais químicos que viajam
entre corpos). Em suma, tal como a mente de um indivíduo não está contida
dentro de um único neurónio ou hormona, uma colónia de insectos sociais tem
uma mente que não está contida dentro de um único insecto.
É possível que o conceito de uma mente de grupo pareça ficção científica,
mas foi documentado com grande riqueza de pormenores por biólogos
especializados em insectos sociais, como Thomas Seeley, da Universidade de
Cornell. Tom é o tipo de cientista que dedica a vida ao estudo de uma única
espécie — as abelhas — e que aperfeiçoou o mesmo género de visão laser que
descrevi no capítulo 7 para Doug Emlen e os seus escaravelhos-bosteiros. Há
pouco tempo, num dia quente de Setembro, visitei Tom no laboratório onde
trabalha, que fica situado, não no campus buliçoso de Cornell, mas a uns
quilómetros de distância num edifício modesto, aninhado entre campos e
florestas. As varas-de-ouro e os ásteres estavam em flor e o silêncio do campo
estabelecia um contraste delicioso com o ruído mecânico que se tornou uma
parte tão constante e incómoda do nosso meio ambiente.
Tom é um homem alto que faz lembrar um monge. O pai era professor de
Botânica em Cornell e ele cresceu a deambular por estes mesmos campos e
florestas e teve um tipo de infância que quase já não existe. Recorda-se de ter
ficado fascinado pelos insectos sociais muito cedo, quando descobriu algumas
colmeias ao lado de uma velha casa de quinta. O aroma da cera e do mel e o
espectáculo de milhares de abelhas a ziguezaguearem no céu estival, enquanto
ele permanecia deitado na erva alta, deixou nele uma marca indelével. Mais
tarde, enquanto estudante do ensino secundário e da faculdade, passava o Verão
a trabalhar como ajudante de um professor de Apicultura da Universidade de
Cornell, a princípio só a pintar colmeias e a cortar a relva, mas depois a ajudar
com experiências e a aprender a velha arte da apicultura. Muito antes de a
ciência existir como prática cultural, as pessoas já criavam abelhas.
Na faculdade, Tom estava hesitante entre fazer do seu amor pelas abelhas
um passatempo ou uma profissão. Acabou por se decidir influenciado pela
publicação de The Insect Societies, a obra magistral de Ed Wilson, escrita quatro
anos antes de Sociobiology. Foi o passo de abertura da obra que influenciou
Tom:
Porque estudamos estes insectos? Porque, juntamente com o homem, o beija-flor e o
pinheiro Pinus longaeva contam-se entre as realizações mais extraordinárias da evolução
biológica. A sua organização social — muito inferior à do homem, como é evidente, devido
ao fraco intelecto e à ausência de cultura, mas muito maior no que respeita a coesão, a
especialização de casta e a altruísmo individual — é inigualável. O biólogo deve reflectir
nas sociedades de insectos, pois elas exemplificam na perfeição toda a amplitude dos
níveis ascendentes da organização, desde a molécula até à sociedade.

Tom foi então duplamente inspirado pelo seu amor pelas abelhas e pelo
estímulo intelectual fornecido por Ed. Munido de uma licenciatura em Química
pelo Dartmouth Coliege e dos conhecimentos de um apicultor experiente, Tom
candidatou-se a um curso de pós-graduação na Universidade de Harvard para
trabalhar com Ed e com Bert Holldobler, seu colaborador de sempre no estudo
das formigas. Foi a única universidade a que se candidatou.
«Isso não foi arriscado?», perguntei durante a minha visita.
«Eu era bom aluno», respondeu Tom, com uma pontinha de arrogância.
A sorrir, tentei imaginar Ed a ler a candidatura de Tom e a obter
informações sobre esse estudante brilhante e com uma dedicação monacal às
abelhas. Como é evidente, Tom foi aceite. Tal como os apicultores transportam
as colmeias para os campos e os pomares a fim de recolherem mel e de
contribuírem para a polinização das culturas, Tom empilhou as suas colmeias
na parte de trás da carrinha que conduziu até Cambridge, no Massachusetts,
onde as depositou no telhado do Museu de Zoologia Comparada de Harvard.
Isto foi há um quarto de século. Agora Tom é um conceituado especialista
no modo como uma colónia de colmeias toma decisões inteligentes enquanto
unidade colectiva. Numa experiência que realizou, transportou uma colmeia
para as profundezas de uma floresta com muito poucas flores para as abelhas
visitarem e forneceu-lhes as «flores» de que dispunha sob a forma de dois
comedouros, localizados a quatrocentos metros de cada lado da colmeia.
Primeiro, num dos comedouros foi colocada uma solução de açúcar mais
concentrada do que no outro e daí a horas a colónia enviava para aí a maioria
das suas obreiras. Em seguida, as concentrações foram trocadas e daí a horas a
colónia enviava a maioria das obreiras para o outro comedouro. Como
conseguia a colónia monitorizar os seus recursos e responder às modificações
tão rapidamente? Tom sabia a resposta, porque ele e os seus assistentes tinham-
se dado ao trabalho de marcar os quatro milhares de abelhas da colónia
colando-lhes nas costas minúsculos discos numerados, o que permitia
identificá-las como indivíduos. Com um assistente em cada comedouro e Tom a
observar o interior da colmeia através de uma placa de vidro, foi possível
monitorizar em pormenor todo o processo de tomada de decisões. A maioria das
abelhas visitou apenas um comedouro, pelo que não dispunha de um quadro de
comparação para a sua tomada de decisão. Em contrapartida, quando as
abelhas regressavam à colmeia de um dos comedouros e dançavam a fim de
indicar a sua localização às companheiras, a duração da dança era proporcional
à concentração de açúcar. As outras abelhas não comparavam a duração das
diferentes danças, embora dispusessem dessa informação. Em vez disso,
limitavam-se a escolher uma dançarina ao acaso e iam ao comedouro
correspondente. O facto de algumas abelhas dançarem mais tempo do que
outras criava um desvio estatístico que dirigia mais abelhas para o melhor
comedouro. As abelhas que dançavam durante mais tempo atraíam seguidoras
simplesmente porque passavam mais tempo «em cena» do que as
companheiras que dançavam durante menos tempo. Nenhuma abelha
estabelecia uma comparação entre as duas zonas, quer visitando ambas as
zonas, quer comparando as danças das abelhas que o tinham feito, mas as suas
interacções sociais permitiam estabelecer a comparação ao nível da colmeia.
Outro exemplo de inteligência descentralizada é o facto de a colónia actuar
como se tivesse fome quando as reservas de mel se tornam escassas, enviando
mais obreiras para os campos a fim de recolherem néctar, embora a fome da
colónia não possa ser relacionada com a fome de qualquer abelha considerada
individualmente. Pelo contrário, quando uma abelha colectora regressa a
colmeia, regurgita a sua carga de néctar, que é recolhida por uma segunda
abelha, que, por sua vez, a armazena nos favos de mel. Quando há poucas flores
e as reservas de mel são escassas, as colectoras que regressam podem transferir
imediatamente a sua carga para uma força de trabalho ociosa de
armazenadoras. Quando as flores são abundantes e a maioria dos favos está
cheia, as colectoras que regressam têm de esperar até poderem transferir a sua
carga para as armazenadoras afadigadas. A quantidade de tempo que têm de
esperar fornece um sinal fiável da necessidade de recolher mais néctar. Tom
descobriu que quando as colectoras podem transferir imediatamente a sua carga
(reservas de mel baixas), são estimuladas a dançar durante mais tempo, o que
recruta mais obreiras para se tornarem colectoras. Quando têm de esperar para
transferir a sua carga (reservas de mel altas), dançam durante menos tempo e
interrompem a sua actividade de recolha de alimento. A experiência decisiva
consistiu em remover uma parte da força de trabalho armazenadora, o que
levou as colectoras que regressavam a esperar, embora as reservas de mel
estivessem baixas A colonia respondeu ao falso sinal reduzindo a actividade de
recolha de alimento, como se os favos estivessem cheios.
Estes e outros exemplos de inteligência descentralizada são descritos com
grande entusiasmo de pormenores no livro de Tom The Wisdom of the Hive:
The Social Phisiology of Honey Bee Colonies. O título deriva de uma obra
famosa, intitulada The Wisdom of the Body, publicada por Walter B. Cannon na
década de 1930 e que descrevia os extraordinários processos fisiológicos dos
organismos individuais. A sabedoria da colmeia, tal como a sabedoria do corpo,
é surpreendente quando compreendida em pormenor. Durante a sua breve vida,
uma colónia de abelhas monitoriza centenas de zonas com flores ao longo de
muitos quilómetros quadrados. Além do néctar, as colectoras têm de recolher
pólen e água e têm mecanismos para distribuírem sabiamente os seus esforços
em resposta a circunstâncias em mutação. A temperatura da colmeia é regulada
com precisão: uma colónia de abelhas é um animal de sangue quente! A
temperatura é aumentada por meio de vibrações e reduzida recolhendo água e
aspergindo com ela a superfície da colmeia, o que é equivalente à nossa
transpiração. No interior da colmeia são executadas inúmeras tarefas, como
construir os favos, cuidar da rainha e da progenitura e remover as obreiras
mortas. Todas estas funções são executadas por meio de processos de controlo
retroactivo, semelhantes aos que descrevi para a recolha do néctar. Não há
inteligência centralizada, nenhuma abelha isolada a conduzir a operação, e
muito menos a rainha. É o padrão das interacções sociais que cria a sabedoria
da colmeia, tal como é o padrão das interacções neuronais e hormonais que cria
a sabedoria de um único organismo individual.
Durante a minha visita, Tom estava ansioso por descrever a sua mais
recente investigação sobre um momento determinante no ciclo de vida de uma
colónia, quando esta se divide para formar uma nova colónia. A rainha e cerca
de metade das obreiras saem da colmeia e formam um aglomerado, mais ou
menos do tamanho de uma bola de futebol, sobre o ramo de uma árvore das
imediações, deixando as restantes obreiras criarem uma nova rainha,
alimentando uma das larvas com um produto especial chamado geleia real. As
batedoras deixam o enxame e voam pelos campos em busca de uma cavidade
numa árvore que possa servir de novo lar. É costume encontrarem dez ou vinte
locais potenciais, o que exige uma decisão, uma escolha. Tom tem andado a
estudar se o enxame é capaz de fazer uma escolha sensata e a maneira exacta
como isto se processa. Está entusiasmado porque o processo de tomada de
decisão é muito semelhante às interacções entre neurónios que permitem aos
organismos individuais tomar decisões acertadas.
Tom explicou todo este processo descrevendo experiências que os
neurocientistas realizaram com macacos rhesus treinados para observarem um
conjunto de pontos a deslocarem-se num ecrã. Alguns pontos deslocam-se para
a direita e outros para a esquerda. Os macacos foram treinados para olharem na
direcção em que a maioria dos pontos se está a deslocar. Se acertarem, são
recompensados com umas gotas de sumo de frutos. Se errarem, são castigados
com umas gotas de água salgada. Os animais depressa se tornam eficientes no
desempenho da tarefa, embora ainda cometam erros quando o número de
pontos que se desloca em cada direcção é quase igual. Enquanto tudo isto
acontece, os cientistas registam a actividade de neurónios individuais dentro do
cérebro dos macacos, tal como Tom observa a actividade de abelhas individuais
dentro de uma colónia.
Veio a revelar-se que alguns neurónios só disparam quando um ponto se
desloca para a direita. Outros só disparam quando um ponto se desloca para a
esquerda. Estas duas classes de neurónios disparam a velocidades diferentes,
consoante o número de pontos que se desloca em cada direcção. Mal a
velocidade dos disparos de uma das classes atinge um dado limiar, o macaco
toma a sua decisão e mexe a cabeça na direcção correspondente. A decisão do
macaco baseia-se num processo competitivo simples entre neurónios.
As experiências de Tom com os enxames de abelhas têm lugar numa ilha
sem árvores ao largo da costa do Maine, o que lhe permite controlar por
completo a disponibilidade dos ninhos artificiais que criou. Alterando as
propriedades dessas cavidades, determinou que as abelhas batedoras estão
atentas a nada menos do que sete factores: o volume da cavidade, o tamanho do
orifício de entrada, a altura desse mesmo orifício, a sua orientação, o sítio onde
o orifício penetra na cavidade (no topo ou na base), a presença de favos (é
frequente as colónias morrerem de fome durante o Inverno e as cavidades
podem ser reutilizadas), a distância em relação ao enxame, havendo uma
preferência pelos locais mais distantes em relação aos mais próximos a fim de
evitar a competição com a colónia-mãe. As batedoras regressam ao enxame e
realizam uma dança na sua superfície cuja duração é proporcional à qualidade
da cavidade-ninho, como já descrevi para as colectoras que indicam a
localização e a qualidade das fontes de néctar. Desde modo, são recrutadas mais
batedoras para partirem em reconhecimento das melhores cavidades.
Acontece que a decisão final não é tomada no enxame, mas nas diferentes
cavidades-ninho. Quando uma batedora penetra numa cavidade, não regressa
imediatamente, permanece lá durante cerca de uma hora. Mal o número de
batedoras numa dada cavidade ultrapassa um certo limiar, elas regressam ao
enxame e desenvolvem um novo comportamento designado por «tocar flauta»,
que assinala o fim do processo de tomada de decisão. Tom mostrava-se
particularmente exultante em relação a esta sua descoberta mais recente, que
realizou por meio de uma experiência inteligente. Colocou cinco cavidades-
ninho idênticas mesmo ao lado umas das outras, ou seja, demasiado próximas
para as batedoras as distinguirem. As abelhas batedoras recrutadas para o local
entraram nas cinco cavidades de forma aleatória e, por esse motivo,
acumularam-se no interior de cada uma delas a um quinto da velocidade
normal. O processo de tomada de decisão prolongou-se de forma
correspondente, demonstrando que a avaliação final tem lugar nas cavidades-
ninho e não no enxame.
Aproximadamente uma centena de abelhas, ou sej a, uma pequena fracção
da totalidade do enxame, toma parte neste processo de tomada de decisão. As
outras abelhas (incluindo a rainha) permanecem passivas, formando a
superfície sobre a qual dançam as companheiras que tomaram a decisão. Mal as
batedoras que regressam do local escolhido começam a tocar flauta, todas as
abelhas aquecem os músculos de voo e, dentro de sessenta segundos, a massa
expande-se, formando uma densa nuvem mais ou menos do tamanho da sala de
estar da nossa casa.
«Que acontece a seguir?», perguntei de respiração suspensa.
Tom deitou-me uma olhadela desconsolada. Observou este processo
muitas vezes, mas não consegue descobrir como há-de estudá-lo com a precisão
que desejaria. Pensa que as batedoras voam repetidamente através da nuvem
em direcção ao local escolhido, indicando às outras qual o caminho a seguir.
Lentamente, a nuvem vai ganhando ímpeto, como um comboio que se afasta de
uma estação, e pode percorrer dois quilómetros antes de abrandar e de parar
nas irnediações no novo local. Nesta altura, as batedoras reúnem-se à volta da
entrada da cavidade, que pode ser tão pequena como um orifício aberto quando
se retira um nó da madeira, e emitem uma feromona que guia o resto do
enxame até ao seu novo lar.
Mesmo desconhecendo os pormenores desta viagem final, Tom mostrou
que o processo de tomada de decisão de um enxame de abelhas quanto à
localização do seu novo lar encerra uma misteriosa semelhança com o processo
de um macaco rhesus a decidir em que direcção deve virar a cabeça. Em ambos
os casos, uma decisão inteligente pela unidade de nível superior é causada por
um processo mecânico que tem lugar entre as unidades de nível inferior. O
processo envolve uma competição organizada entre facções que representam
escolhas alternativas, cujo desfecho se baseia em qual a facção que atinge
primeiro um limiar. A inteligência da unidade de nível superior não se pode
encontrar em nenhuma das partes, mas, pelo contrário, surge da interacção
entre ambas. Cada mente é uma mente de grupo e cada mente de um organismo
disperso tem de incluir interacções sociais além de interacções neuronais.
O meu encontro com Tom terminou porque ele tinha de ir extrair o mel de
algumas das colmeias com um amigo apicultor. Esse amigo tinha encontrado
um comprador que pagaria um preço exorbitante por mel não filtrado para o
mercado de alimentos saudáveis. «Completamente não filtrado, incluindo as
partes do corpo das abelhas mortas», explicou Tom com um sorriso. Além de
explorar algumas das interrogações mais fundamentais que é possível fazer
sobre a natureza da mentalidade, Tom continua a ser um apicultor.

21
O macaco igualitário

Além de abordarem tópicos já de si fascinantes, os últimos quatro


capítulos destinavam-se a ser pontos de apoio na nossa caminhada em direcção
aos tópicos da moral e da religião humanas. Passando em revista o nosso
trajecto, os conflitos que formulamos em termos de bem e de mal existem para
todos os seres vivos que interagem com os seus vizinhos, até mesmo para os
vírus e as bactérias. É extraordinário que os indivíduos não sejam apenas
membros de grupos, mas constituam eles próprios grupos. Chamamos-lhes
indivíduos por terem resolvido tão bem os problemas do conflito no seio do
grupo. Porém, mesmo os indivíduos estão longe do ideal de harmonia total
associada ao termo «organismo», como podemos ver no caso do cancro. As
colónias de insectos elevam a harmonia a um novo nível, assumindo as
características de organismos embora os seus membros estejam fisicamente
dispersos. Um organismo disperso deve ser coordenado por uma «fisiologia
social» e por uma «mente de grupo» comparável às interacções fisiológicas e
neuronais dentro de organismos discretos.
Prosseguindo a nossa viagem, precisamos de nos centrar na evolução
humana. Em capítulos anteriores, comparei a nossa espécie com uma mansão
com muitas divisões, a maioria das quais partilhada por outras espécies.
Descrevi as capacidades de outras espécies que excedem em grande medida a
nossa. Critiquei a representação habitual, auto-complacente, da singularidade
humana, como se apenas nós fôssemos inteligentes e tivéssemos qualidades
morais e estéticas. No entanto, distinguimo-nos em determinados aspectos,
especialmente em comparação com os nossos antepassados primatas imediatos.
A nossa capacidade de pensamento simbólico, incluindo a linguagem, embora
não se limitando a ela, ultrapassa em muito a de qualquer outra espécie. E o
mesmo acontece com a nossa capacidade de transmitir socialmente informação
aprendida, ou sei a, aquilo que designamos por cultura. Finalmente, a nossa
capacidade de cooperar, embora comparável à de organismos multicelulares e
insectos sociais, ultrapassa muito a de outros vertebrados.
«Singulares» é a palavra errada para descrever essas capacidades
especiais. A evolução exige continuidade, pelo que as nossas capacidades devem
ter tido precursores no antepassado comum que partilhamos com os outros
grandes primatas vivos — chimpanzés, bonobos, gorilas e orangotangos — há
apenas seis milhões de anos. Quem eram esses precursores e que aconteceu
para os transformar nos três cês da evolução humana — cognição, cultura e
cooperação?
A resposta provável é que nós somos a transição mais recente da evolução
de grupos de organismos para grupos enquanto organismos. Os nossos grupos
sociais são o equivalente primata de corpos e colmeias. Como vimos para os
insectos sociais, essa transição é um acontecimento raro, mas quando acontece
as consequências são importantíssumas. Os simples indivíduos e os grupos
desorganizados não estão à altura do novo organismo de grupo, que
rapidamente consegue o domínio ecológico. Como também vimos para os
insectos sociais, além das actividades físicas, o organismo de grupo coordena as
suas actividades mentais. No nosso caso, tanto o pensamento simbólico como a
transmissão social de informação constituem actividades fundamentalmente
comunitárias. Os três cês da evolução humana são todos eles manifestações de
um único cê — a cooperação.
É certo que, em muitos aspectos, os grupos humanos são também
diferentes dos corpos e das colmeias. Os membros de um grupo humano não
são geneticamente idênticos uns aos outros, como as células de um organismo
isolado (não tendo em conta as mutações). Não há mulheres com abdómenes
protuberantes a deixar cair constantemente bebés nos braços de amas
celibatárias. Todavia, estas diferenças não são necessariamente importantes. Os
grupos humanos são comparáveis a corpos e colmeias, não por partilharem
qualquer característica particular, mas porque, nos três casos, a selecção entre
grupos supera a selecção dentro do grupo. Supostamente, os mecanismos
próximos que levam a que isto aconteça são diferentes em linhagens tão
diferentes. De igual modo, as estrelas-do-mar (equinodermes) e os peixes-sol
(vertebrados) são umas e outros considerados organismos, apesar das
diferenças acentuadas entre as suas anatomias e fisiologias.
A transição humana tem uma semelhança maior com os mecanismos que
regulam o comportamento social dos genes, como os cromossomas e as regras
da meiose. Como vimos, estes mecanismos garantem que todos os membros do
grupo se reproduzem igualmente ou pelo menos têm uma oportunidade igual de
se reproduzir. Mesmo destinos altamente díspares, como os dos esporos e os
das células do pedúnculo do Dictyostelium, o bolor viscoso celular, podem
tornar-se equitativos por meio de um processo de lotaria semelhante a tirar à
sorte. A transição humana baseia-se em mecanismos que estabelecem igualdade
entre os membros do grupo, motivo pelo qual biólogos como David Haig
utilizam com tanta facilidade a linguagem do comportamento social humano
para descrever o comportamento social dos genes, como vimos no capítulo 18.
Pode parecer estranho descrever o comportamento social humano como
igualitário, dadas as desigualdades que existem à nossa volta, mas as mega-
sociedades dos nossos dias não se assemelham nada aos minúsculos grupos
sociais que existiam no período da nossa emergência como espécie. Para uma
comparação melhor, imagine que, depois de um naufrágio, foi parar a uma ilha
tropical com mais trinta pessoas. Apercebe-se de que têm de trabalhar em
conjunto para sobreviver, mas também é assaltado pela tentação de deitar a
mão ao que puder para si próprio, recorrendo à força ou de uma forma furtiva.
A opção da força é impossível, pois nenhum indivíduo isolado é suficientemente
forte para dominar trinta pessoas. A opção de actuar de uma forma furtiva é
igualmente inviável, pois quase nunca está sozinho. As suas oportunidades de
proveito egoísta ficam drasticamente restringidas, se não mesmo
completamente excluídas. Felizmente, todas as outras pessoas estão no mesmo
bote (ou antes, na mesma ilha), pelo que é pouco provável que o ludibriem,
especialmente se se mantiver vigilante. O grupo é igualitário, não por toda a
gente ser virtuosa, mas porque, colectivamente, têm maneira de detectar e punir
possíveis traidores e brutamontes.
Os programas de variedades da televisão são feitos deste modo, mas a
fantasia é uma realidade para as pessoas que vivem exclusivamente da caça e da
recolecção e que habitam em pequenos grupos desde o dealbar da humanidade.
Os caçadores-recolectores transformaram o igualitarismo numa forma de arte.
Veja-se o seguinte relato, tornado famoso, de um membro da tribo !Kung San (o
ponto de exclamação indica um estalido produzido com a língua e que não tem
equivalente nas línguas europeias) do deserto do Kalahari, na África Austral, a
explicar os costumes do seu povo ao antropólogo Richard Lee na década de
1970. «Imagine um homem que andou a caçar. Ele não pode voltar para casa e
anunciar como um fanfarrão: ‘Matei uma coisa grande na selva!’ Primeiro tem
de se sentar em silêncio até eu ou outra pessoa qualquer chegar ao pé da
fogueira dele e perguntar:
‘Que viste hoje?’ Então ele responde calmamente: ‘Ah, eu não sou nada
bom a caçar. Não vi nada de nada... talvez só uma coisinha pequena.’ Depois eu
sorrio de mim para comigo porque fiquei a saber que ele matou qualquer coisa
grande.»
A brincadeira continua enquanto vão buscar o animal morto: «Queres
dizer que nos arrastaste a todos até aqui para nos obrigares a levar para casa o
teu monte de ossos? Ah, se eu tivesse sabido que era assim tão magro não teria
vindo. E pensar que abdiquei de um belo dia à sombra para isto... Em casa
podemos ter fome, mas pelo menos temos água fresca para beber.»
O informador de Lee estava perfeitamente a par do objectivo de toda esta
brincadeira: «Quando um jovem caça e consegue muita carne, passa a ver-se
como um chefe ou um homem importante e pensa em nós como seus servos ou
inferiores. Não podemos aceitar isso. Recusamos quem é fanfarrão, pois um dia
o seu orgulho levá-lo-á a matar alguém. Por isso falamos sempre dos animais
que ele caça como se fossem uma coisa insignificante. Desta maneira, esfriamos-
lhe o coração e tornamo-lo simpático.»
A centenas de quilómetros de distância, nas selvas quentes e húmidas da
África equatorial, o antropólogo Colin Turnbull descreveu uma cena semelhante
para os Mbuti (conhecidos por pigmeus na nossa cultura). Depois de descrever
as proezas dos melhores caçadores, Turnbull prossegue: «Nenhum deles tem a
menor autoridade sobre os outros. E também não era exercida nenhuma
pressão moral para influenciar uma decisão através de consideração ou do
respeito pessoal. A única consideração moral desse tipo jamais mencionada era
que, quando o grupo tomava uma decisão, esta era considerada ‘boa’ ou dizia-se
que ‘iria agradar à floresta’. Era, pois, provável que se achasse que alguém que
não se associasse à decisão desagradava à floresta, o que era considerado ‘mau’.
Qualquer indivíduo decidido a impor o seu ponto de vista podia fazer apelo à
floresta com base no pressuposto de que o seu ponto de vista era ‘bom’ e
‘agradava’; porém, só a decisão geral definitiva iria determinar a validade da sua
pretensão.»
No outro extremo do oceano Índico, nas florestas da península da Malásia,
a tribo Chewong acredita num sistema de superstições designado por punen,
que significa aproximadamente «uma calamidade ou infortúnio, devido a não se
ter satisfeito um desejo premente». Como relata a antropóloga Signe Howell:
«No mundo chewong, o mais provável é os desejos terem a ver com comida. Se
alguém não é imediatamente convidado a partilhar uma refeição a que assiste,
ou se não recebe o seu quinhão de qualquer alimento que viu trazerem da
floresta, essa pessoa é posta num estado de punen, pois parte-se do princípio de
que uma pessoa deseja sempre receber uma parte... Aos olhos dos Chewong,
‘comer sozinho’ é o cúmulo do mau comportamento e existem vários mitos que
o comprovam. A sanção imposta à partilha de comida tem origem no mito sobre
Yinlugen Bud, que constituía o principal instrumento para tirar os Chewong do
seu estado pré-social dizendo-lhes que comer sozinhos não era um
comportamento humano apropriado.»
A crença no punen inclui um ritual que tem lugar sempre que é trazido
alimento da floresta. Signe Howell prossegue: «Mal chegam com a carcaça, e
antes de esta ser dividida, alguém da família do caçador toca-lhe com o dedo e
anda à roda, tocando em todas as pessoas presentes no acampamento e dizendo
a cada vez punen [...] Esta é outra maneira de anunciar a todos os presentes que
a comida não tardará a ser sua e que se devem abster de a desejar durante mais
algum tempo. Se chegarem convidados enquanto os anfitriões estão no meio de
uma refeição, ser-lhes-á imediatamente proposto que a partilhem. Se
recusarem, alegando que acabaram de comer, tocam-lhes com um dedo
mergulhado na comida, ao mesmo tempo que a pessoa que lhes toca diz
punen.»
A calamidade que atinge alguém posto num estado de punen assume a
forma de um ataque de um tigre, de uma serpente e ou de uma centopeia
venenosa. Uma vez que se pensa que estes animais existem em espírito assim
como sob forma material, praticamente qualquer infortúnio pode ser
interpretado como uma consequência de uma transgressão social.
A humildade, os mitos, os rituais, a crença nos espíritos que aprovam e
castigam são traços humanos inconfundíveis e, para a maioria das pessoas,
associados à religião e não à evolução. Todavia, o seu significado evolutivo
torna-se imediatamente claro no contexto dos grupos de caçadores-recolectores,
enquanto mecanismos que eliminam diferenças de fitness entre indivíduos no
seio dos grupos, permitindo que estes funcionem como unidades adaptativas.
Eles são os equivalentes humanos dos cromossomas e das regras da meiose.
Esta interpretação não é apenas uma vã especulação da minha parte,
baseada em alguns exemplos seleccionados. Foi elaborada em grande pormenor
por Christopher Boehm, um homem cuja vida é uma odisseia intelectual. Filho
de um professor e de uma bibliotecária, Chris obteve um grau académico em
Filosofia no Antioch College e adquiriu o seu gosto pela evolução devido a um
talentoso professor de Biologia. Interessou-se profundamente pela natureza da
moral e fez um mestrado e um doutoramento em Antropologia na Universidade
de Harvard. Durante este período viveu três anos com a tribo Alto Moraca do
Montenegro (então parte da Jugoslávia), o que conduziu à escrita do seu livro,
intitulado Blood Revenge, sobre conflitos e a sua resolução em sociedades
tribais. Enquanto jovem assistente na Northwestern University, sofreu a
influência de Donald Campbell, o mesmo homem que anos mais tarde foi o
mentor de Kevin Kniffin, cujo trabalho sobre a beleza, realizado em colaboração
comigo, descrevi no capítulo 16. O interesse precoce de Chris pela evolução
reacendeu-se ao ler Sociobiology, de Ed Wilson, a pedido de Campbell. Quando
a Guerra Fria tornou impossível o trabalho de campo na Jugoslávia, Chris
escreveu a Jane Goodall pedindo-lhe autorização para estudar o conflito e a sua
resolução em chimpanzés no local onde ela desenvolvia o seu trabalho de
campo, no Parque Nacional Gombe, da Tanzânia. Ao mesmo tempo, começou a
passar em revista a literatura antropológica a fim de conseguir fundamentar a
sua convicção de que as sociedades de caçadores- -recolectores são
fundamentalmente igualitárias. Poucas pessoas estarão mais habilitadas que ele
para reflectir sobre a transição da sociedade primata para a sociedade humana.
Como Chris afirma na sua obra de 1999 Hierarchy in the Forest, o
igualitarismo é prevalecente não só entre os grupos de caçadores-recolectores,
mas praticamente em todas as sociedades humanas de pequena escala. Segue-se
uma descrição típica do ethos predominante (extraída de um relato de um
inuíte, do Alasca): «Aos seus olhos, todos os homens têm os mesmos direitos e
os mesmos privilégios de todos os outros homens da comunidade. Um poderá
ser melhor caçador, ou um dançarino mais apto, ou ainda ter maior controlo
sobre o mundo espiritual, mas isto não o torna mais do que um membro de um
grupo no qual todos são livres e teoricamente iguais.»
A ênfase posta na igualdade entre os homens é reveladora. As mulheres
estão muitas vezes (embora nem sempre) excluídas do círculo moral e são
dominadas pelos mesmos homens que insistem na igualdade entre os elementos
do sexo masculino. Como um membro da tribo ona, que habita no extremo da
América do Sul, explicava a um ocidental que não podia crer que eles não
tivessem um chefe único: «Nós, os Ona, temos muitos chefes. Os homens são
todos capitães e as mulheres são marinheiros.» De igual modo, o círculo moral
pode excluir todos os membros de outros grupos. Quando Chris, enquanto
estudante de pós-graduação, trabalhou durante um breve período entre os
índios navahos, do Sudoeste americano, ficou surpreendido com a sua falta de
agressividade recíproca, o que não os impedia de viverem da prática tradicional
de fazerem incursões noutras tribos.
Costumamos admirar-nos com este tipo de incoerência, como se ela fosse
hipócrita, mas em vez disso deveríamos admirar-nos com as razões por que
ficamos admirados. A coerência talvez seja uma virtude para o filósofo, mas não
para um organismo, quer este seja um indivíduo, quer um grupo. Um
organismo tem de modificar adaptativamente o seu comportamento consoante
o contexto, o que é exactamente o oposto da coerência. Esperamos que um
organismo individual tenha uma fisiologia interna harmoniosa,
independentemente de actuar como predador, parasita, competidor ou
mutualista em relação aos outros organismos. Porque deveríamos então ficar
surpreendidos por um grupo humano como os Nahajos revelar harmonia
interna, mesmo quando vai pilhar outros grupos? Recorde-se que estamos a
tentar compreender como os traços que associamos à moral evoluíram
enquanto adaptações biológicas, o que exige uma perspectiva isenta, semelhante
à dos deuses gregos que olham para baixo do alto do monte Olimpo. A
propósito, recordemos que até os Atenienses praticavam uma forma de
democracia que se limitava aos homens e exclufa as mulheres, os escravos e os
bárbaros, termo que designava todos aqueles que não fossem gregos. O que
Boehm e Outros demonstraram foi que o igualitarismo não é uma invenção
cultural com início na Grécia antiga, como muita gente supôs, mas faz parte da
nossa herança genética, que se afirma sempre que se deparam condições
apropriadas. O controlo mútuo é uma situação com que se defrontam quase
invariavelmente os homens das sociedades a pequena escala, mas só algumas
vezes as mulheres. Quando estas são incluídas no círculo moral, é provável que
tal se deva a disporem de meios para resistir ao domínio dos homens.
Chris descreve as sociedades humanas de pequena escala como
«comunidades morais» que estão de acordo quanto aos seus valores e, como
uma coligação política latente mas poderosa, estão sempre prontas a manipular
ou suprimir os desvios individuais. «Os valores positivos incluem [estes termos
são retirados de estudos etnográficos compilados por Chris] bravura,
competência, energia, generosidade, honestidade, humildade, imparcialidade,
diligência, modéstia, paciência, responsabilidade, autodomínio, tacto,
integridade e sabedoria. As proezas individuais são admiradas, mas também
temidas por levarem facilmente à arrogância, que é um dos vícios capitais.
Acima de tudo, um membro de uma sociedade de pequena escala não deveria
ser dominador e violar a autonomia dos outros. A combinação de valores
comunitários e a insistência na autonomia parece estranha até recordarmos a
vigilância exigida para impedir que as virtudes comunitárias sejam exploradas
por membros do próprio grupo.
Uma sociedade de pequena escala reage agressivamente contra a
subversão vinda do seu seio. A primeira linha de defesa são os mexericos, que
mantêm um dossiê de informação sobre cada membro e detectam rapidamente
as falhas sociais. Um exemplo recolhido durante a década de 1930 junto dos
Lesu, da Micronésia, ilustra o poder dos mexericos. O porco de um homem
entrou no jardim de outro homem e comeu-lhe a plantação de taro. A vítima não
ficou zangada, mas o transgressor ficou alarmado devido a todo o falatório que o
incidente provocou, o que era prejudicial para a sua reputação. Por conseguinte,
tentou dar o porcoà pessoa lesada a fim de «parar com o falatório». O outro
recusou amavelmente a oferta e parou com os comentários, declarando que o
incidente devia ser esquecido. Os mexericos funcionaram como um sistema
imunitário, detectando e reparando mesmo aquela minúscula falha no
cumprimento das normas estabelecidas.
Quando os mexericos falham, são activados mecanismos mais poderosos.
Como Chris descreve: «Quando as sanções se tornam activas, uma maneira fria
de cumprimentar pode ser um sinal pouco auspicioso, susceptível de conduzir
directamente às críticas ou até mesmo ao ridículo. Ser alvo da troça dos pares é
particularmente doloroso se alguém está condenado a viver para sempre num
pequeno aglomerado de grupos e é incapaz de escapar à má fama. Alguns
espertalhões são facilmente postos no lugar pelo ridículo, mas outros podem ser
menos sensíveis — ou mais determinados. É provável que o transgressor ou
infractor habitual se confronte com penas mais severas: pode ser votado ao
ostracismo pelo silêncio ou pelo desprezo activo, ou pode mesmo ser expulso do
grupo. Se um infractor se tornar perigoso para a vida ou para a liberdade dos
outros e for imune a sanções menores, os indivíduos receosos ou moralmente
lesados recorrem à forma suprema de afastamento social: a execução.»
A necessidade de um tal arsenal de defesas não implica que toda a gente
tenha propensão para a fraude ou para a exploração. Pelo contrário, o sistema
de defesa proporciona um meio social no qual a integridade e o altruísmo
genuínos podem prosperar, precisamente porque os lobos do egoísmo são
mantidos à distância. Não precisamos de viajar até países distantes para
verificarmos isto, mas podemos prová-lo com uma pequena experiência.
Imagine que se associa a outras nove pessoas e que cada uma recebe 100 dólares
para guardar ou investir numa conta de grupo. O dinheiro que depositarem é
duplicado e distribuído equitativamente por todos os membros do grupo. Se
toda a gente contribuiu com a totalidade do dinheiro (100 dólares), cada um
receberá 200. Imagine, porém, um batoteiro que guarda o dinheiro enquanto
todos os outros investem o que receberam. Os 900 dólares depositados
duplicam e convertem-se em 1800, que são equitativamente distribuídos, de
modo que o batoteiro recebe um total de 280 dólares em vez dos 180 que os
outros recebem — o que constitui um incentivo considerável para fazer batota.
Quanto investiria pela sua parte e com quanto pensa que os outros iriam
contribuir? Esta experiência encerra a essência daquilo que designei pelos factos
inelutáveis da vida social com que se defrontam todos os seres vivos, desde os
seres humanos até aos vírus, que contribuem para um «fundo de grupo» de
produtos genéticos disponíveis para todos os vírus dentro de uma célula, como
vimos no capítulo 17. Ela tem sido realizada em muitas variações diferentes por
cientistas sociais, fornecendo um complemento fascinante para a análise que
Chris Boehm realizou de todas as sociedades de pequena escala em todo o
mundo.
Numa versão da experiência, os membros realizam o jogo repetidamente
uns com os outros, mas os seus contributos mantêm-se anónimos. A maioria
das pessoas começa com investimentos moderadamente generosos, mas
algumas cedem à tentação de fazer batota. Uma vez que os outros se apercebem
de que estão a ser explorados, retiram os seus investimentos e a cooperação
desaparece como água a escoar-se numa banheira. Numa segunda versão da
experiência, os membros são autorizados a contribuir para um segundo fundo
de grupo que é usado para punir os batoteiros. Para cada dólar depositado neste
segundo fundo, são deduzidos três dólares dos ganhos dos batoteiros. A
capacidade de punir proporcionada pelo segundo fundo altera completamente o
resultado do jogo. Quando as pessoas se apercebem de que os batoteiros estão
entre elas, em vez de retirarem a sua generosidade, reorientam-na contribuindo
com zelo para o segundo fundo. Graças aos que aplicam o castigo, a batota deixa
de ser lucrativa e toda a gente do grupo passa a cooperar. O que Chris Boehm
documentou com tanto labor para as sociedades de pequena escala em todo o
mundo pode ser reproduzido no laboratório numa única tarde.
A indignação é de tal modo intensa, pelo menos em certas pessoas, que
permanece depois de todos os incentivos materiais terem sido eliminados.
Numa experiência, os participantes observavam uma transacção social injusta
entre duas outras pessoas e era-lhes dada oportunidade de punirem o
transgressor à sua própria custa. As outras duas pessoas ignoravam por
completo a existência do outro indivíduo, que, por conseguinte, não tinha nada
a ganhar em termos de reputação ou de interacções futuras. No entanto, uma
percentagem considerável dos participantes optava por punir os transgressores
por considerar isso sua obrigação.
Em que medida se compara o sentido do igualitarismo de pequenos grupos
humanos com o de um grupo de primatas? Chris Boehm experimentou ele
próprio a diferença quando, impedido de percorrer as terras altas da Jugoslávia,
se viu a caminhar penosamente pelas florestas do Parque Nacional Gombe em
busca dos chimpanzés. Eis como ele descreve um chimpanzé macho
característico: «Todos os jovens machos, quando se aproximam da
adolescência, ou quando a atingem, começam a ser dominados por aspirações
políticas. Em primeiro lugar, exibem-se perante as fêmeas adultas que ocupam
o ponto mais baixo da escala até elas começarem a arfar e a roncar, numa
atitude de submissão, quando os saúdam. Depois passam para as fêmeas mais
importantes. Às vezes, nesse percurso, sofrem revezes, principalmente se as
fêmeas têm aliados que as ajudem. Por fim, dominam todas as fêmeas e
começam a exibir-se perante os machos adultos que ocupam os lugares
inferiores na escala. Se forem bem sucedidos, vão subindo na hierarquia dos
machos até não conseguirem ir mais além.»
Os chimpanzés machos dominantes afirmam o seu estatuto tão
incessantemente quanto os caçadores-recolectores mantêm na ordem os
supostos dominantes. Os chimpanzés olham atentamente, eriçam-se,
aproximam-se com ar ameaçador e atacam imediatamente. Os subordinados
evitam os sarilhos agachando-se e mostrando os dentes numa expressão
amedrontada, como a dizer: «Tu é que mandas! Tu é que mandas!» Porém, a
sociedade dos chimpanzés não é totalmente tirânica. Sem aliados, um macho
não consegue atingir um estatuto elevado e é frequente desempenhar o papel de
apaziguador quando se verificam conflitos entre os outros membros do grupo,
como o primatologista Frans de Waal relata com um pormenor maravilhoso em
obras como Chimpanzee Politics e Good Natured. Numa interacção observada
por Chris entre os chimpanzés de Gombe, um macho dominante chamado
Satan rodeou com os seus braços enormes dois adolescentes que lutavam e
separou-os. Em conjunto, os machos defendem o seu território e atacam outros
machos desconhecidos, por vezes até à morte. Associam-se para caçar pequenas
presas e partilham aquelas de que se apoderam, pelo menos entre um círculo
escolhido de aliados. Até mesmo os machos que ocupam o lugar mais baixo da
hierarquia têm direito a um mínimo de respeito. Numa cena memorável
observada por Chris na vertente de uma montanha a dominar o lago Tanganica,
um macho da base da hierarquia chamado Jomeo apoderou-se de um javali
bebé que tinha sido capturado por babuínos. Foi imediatamente rodeado por
um bando de chimpanzés mais dominantes que arrancaram pedaços de carne
para si próprios, deixando Jomeo a «emitir um som agudo, contínuo e incerto,
com todos os dentes à mostra numa careta de medo». O facto extraordinário foi
terem permitido que Jomeo guardasse uma porção da sua presa, ainda que
pudessem ter ficado com tudo para eles.
A sociedade despótica dos chimpanzés parece ocupar o extremo oposto do
igualitarismo da sociedade humana de pequena escala, embora tudo o que as
separa seja um desvio no equilíbrio do poder. Sem controlo mútuo, a sociedade
de caçadores-recolectos sofreria um desvio na direcção da sociedade dos
chimpanzés. Se tivéssemos de algum modo a possibilidade de permitir que os
chimpanzés subordinados se defendessem de forma mais eficaz, a sua sociedade
sofreria um desvio no sentido do igualitarismo. Se algo tivesse acontecido a
alguma espécie semelhante à dos chimpanzés aproximadamente há seis milhões
de anos para fazer pender a balança do poder na direcção da igualdade, isso
teria alterado radicalmente o curso da sua evolução subsequente, em
comparação com outras espécies semelhantes aos chimpanzés, como água a
descer em cascata por lados diferentes da divisória continental.
Um biólogo molecular chamado Paul Bingham julga saber o que é esse
«algo». Não teve formação que lhe permitisse estudar a evolução humana, mas,
como vimos, há muitas coisas que as pessoas de outras áreas podem ensinar aos
especialistas em evolução. Segundo Paul, a adaptação humana fundamental é a
capacidade de atirar pedras. Os seres humanos modernos são
incomparavelmente melhores nisso do que os chimpanzés ou do que qualquer
outra espécie, e essa capacidade exigiu muitas modificações anatómicas, como
prova o movimento de todo o corpo de um lançador de basebol. Paul está
convencido de que inicialmente o acto de atirar pedras evoluiu para afastar os
predadores e os competidores na savana africana. Porém, mal conseguimos
atirar pedras com precisão e força mortais, começámos a apedrejar-nos uns aos
outros. Um macho alfa pode ser capaz de intimidar qualquer rival num combate
a dois, mas colectivamente pode ser rodeado e rechaçado para uma distância
segura com pedras.
A hipótese do lançamento das pedras de Paul Bingham é uma versão
específica da hipótese mais geral de Chris Bohem sobre a igualdade forçada
como a adaptação crucial que nos torna tão diferentes das outras espécies de
primatas. Isto, por sua vez, é um exemplo específico da transformação de grupos
de organismos em grupos enquanto organismos que criaram colmeias, corpos e
talvez até a própria vida. Poder-se-ia pensar que o conhecimento da nossa
origem como espécie ficou perdido para todo o sempre na neblina do tempo,
fora do alcance de qualquer investigação científica. Pelo contrário, os
acontecimentos passados deixam pistas que podem ser engenhosamente
reunidas. É por este motivo que somos capazes de resolver crimes e conhecemos
quase com segurança acontecimentos passados como idades do gelo e embates
de meteoros com a Terra. A chave para desvendar um crime ou um enigma
científico sobre o passado consiste em possuir uma teoria capaz de prever como
as pistas se encaixam melhor do que qualquer outra teoria de que se disponha.
Não quero dizer que tenhamos resolvido o mistério de como surgimos como
espécie, mas penso que demos uns primeiros passos auspiciosos. Desde a
tolerância afável até à insistência na conformidade, desde os valores
comunitários até à autonomia ciosamente guardada, desde a profunda não
agressão até à exploração desapiedada de outros grupos, desde o amor altruísta
até ao apedrejamento, haverá qualquer outra teoria que explique tão bem a
bizarra constelação de caracteres associados à moral humana?

22
Atravessar a divisoria da cooperaçao

No último capítulo comparei a divergência da nossa própria espécie


relativamente a outras espécies de primatas com água a descer em cascata por
lados diferentes da divisória continental. No nosso caso, tratava-se da divisória
da cooperação: mal o igualitarismo estabilizou o suficiente, a evolução genética
começou a conferir nova forma às nossas mentes e aos nossos corpos de modo a
funcionarmos como jogadores de uma equipa em vez de entrarmos em
competição com membros dos nossos próprios grupos. Os rudimentos da
cooperação física e mental sempre existiram; era apenas uma questão de a
selecção funcionar a seu favor e não contra eles.
Quais são exactamente os caracteres que nos permitem funcionar como
jogadores de uma equipa? Alguns deles são extraordinariamente simples.
Pensemos nos olhos, por exemplo. Os olhos de todos os mamíferos são
constituídos por uma pupila que permite que a luz penetre no interior, uma íris
que funciona como o diafragma de uma câmara e uma esclerótica envolvente,
que funciona como uma camada exterior protectora. Na nossa espécie, a
esclerótica é branca e brilhante e a íris colorida, o que produz um intenso
contraste visual. Quando olhamos para uma pessoa, mesmo a uma distância
considerável, graças ao contraste entre a esclerótica e a íris, podemos ver com
nitidez para onde os seus olhos estão a apontar, independentemente do sítio
para onde o seu rosto está virado. De mais perto, podemos ver se os olhos estão
dilatados, graças ao contraste entre a íris e a pupila. O poder emocional e
comunicativo dos olhos é tão grande que lhes chamamos as janelas da alma.
Se for este o caso, talvez sejamos a única espécie de primatas que possui
janelas através das quais os outros podem olhar. Os investigadores japoneses
Hiromi Kobayashi e Shiro Kohshima examinaram noventa e duas espécies de
primatas e descobriram que somos a única na qual os contornos do olho e a
posição da íris são claramente visíveis. Em todas as outras espécies a esclerótica
é pigmentada de modo a fornecer um contraste baixo, e não alto, com a íris e o
resto do rosto. Além disso, em comparação com outros primatas, nos seres
humanos a porção de olho visível é desproporcionadamente grande e alongada
no sentido horizontal. Os gorilas são maiores que nós, mas a porção do olho
exposta é mais pequena, o que faz os seus olhos assemelharem-se a contas.
Tendo como única excepção a nossa espécie, os olhos dos primatas evoluíram
para serem difíceis de ver, para ocultarem, e não revelarem, informação sobre
nós próprios — o equivalente natural dos óculos de sol ou das janelas com
cortinas corridas.
No capítulo 4 afirmei que os factos são como tijolos — humildes em si, mas
grandes em combinação com outros factos. Uma bolsa de investigação
destinada ao estudo dos olhos dos primatas seria um alvo de eleição para ser
ridicularizada pelos políticos americanos e considerada um esbanjamento do
dinheiro dos contribuintes; todavia, associado ao estudo de outros factos, torna-
se uma prova crucial num dos maiores mistérios científicos por solucionar do
nosso tempo: a origem da nossa própria espécie. O cientista americano Michael
Tomasello está na linha da frente dos que tentam desvendar este mistério,
embora tenha sido obrigado a atravessar o oceano para o fazer. Ele é co-director
do Instituto Max Plank para a Antropologia Evolutiva, em Leipzig, na
Alemanha, onde lhe forneceram recursos que teriam sido difíceis ou impossíveis
de obter nos Estados Unidos.
Se visitar o Jardim Zoológico de Leipzig, terá a rara oportunidade de
observar as quatro espécies de grandes símios — chimpanzés, bonobos, gorilas e
orangotangos — alojadas separadamente em grandes instalações que tentam
reconstituir as condições naturais. Estes animais contam-se entre as atracções
mais populares do zoo, mas a sua presença também tem outro objectivo. Além
de proporcionarem a exibição ao público, as instalações foram concebidas de
modo a funcionar como um importante centro de investigação de primatas.
Mike Tomasello e os seus colaboradores podem não só observar os animais das
quatro espécies nos seus habitats semínaturais, mas também podem levá-los
isoladamente para divisões contíguas a fim de realizarem experiências
cuidadosamente controladas. Como se isto não fosse suficiente, no Instituto
Max Plank existem laboratórios para efectuar investigação comportamental em
crianças paralelamente à investigação realizada em símios.
Mike desenvolveu aquilo que designa por «hipótese do olho cooperativo»
para explicar como os nossos olhos se tornaram tão diferentes dos dos outros
primatas. Todos os símios estão profundamente conscientes dos outros
membros do seu grupo e atentos ao sítio para que estão a olhar, com base na
orientação da cabeça. Contudo, a sua utilização desta informação não é
necessariamente cooperativa. Numa sociedade onde os indivíduos dominantes
fuzilam com os olhos os seus subordinados, que não se atrevem a devolver-lhes
o olhar, a selecção natural favorece a ocultação de informação. A direcção da
cabeça não pode ser ocultada, mas a direcção do olhar pode sê-lo minimizando a
porção de olho exposta e o contraste entre a íris, a esclerótica e o resto do rosto.
Numa sociedade igualitária torna-se vantajoso para os membros da equipa
partilhar informação, transformando os olhos, para além de órgãos de visão, em
órgãos de comunicação.
A fim de explorar algumas destas ideias, Mike e os seus colaboradores
realizaram a mesma experiência em símios e em crianças. Os primeiros foram
conduzidos, independentemente uns dos outros, para uma sala contígua das
suas instalações, com uma oferta de comida. Aí ficaram sentados de frente para
um investigador humano, do outro lado de um painel de plexiglas. Depois de se
certificar de que o símio estava a prestar atenção, o investigador realizava uma
das seguintes acções, por uma ordem aleatória: 1. levantar a cabeça em direcção
ao tecto com os olhos fechados, 2. olhar para o tecto sem mover a cabeça, 3.
olhar para o tecto virando a cabeça e os olhos, 4. olhar para a frente com a
cabeça e os olhos virados nessa direcção, 5. desviar o rosto do símio e erguer a
cabeça para o tecto e 6. desviar o rosto do símio e virá-lo para a frente. Uma
câmara de vídeo registava se o símio erguia os olhos para o tecto em resposta a
estas diferentes acções. Os resultados revelaram que os símios prestavam o
dobro da atenção à direcção da cabeça do que à direcção dos olhos.
Pelo contrário, quando as crianças, apenas com 1 ano de idade,
observavam as mesmas acções sentadas ao colo das mães, seguiam os
movimentos de cabeça quando o investigador desviava o olhar, mas baseavam-
se quase totalmente no movimento dos olhos quando o investigador virava o
rosto para elas. Mesmo tão pequeninos, os olhos já eram o centro da atenção.
Uma descoberta ainda mais extraordinária feita por Mike e outros
primatologistas tem a ver com o gesto de apontar. Que haverá de mais simples e
natural do que apontar para um objecto a fim de chamar a atenção para ele?
Mas isto só é assim com os seres humanos. Como é evidente, não há uma única
observação fiável de um símio, a viver na natureza ou em cativeiro, a apontar
para um objecto usando um braço erguido ou qualquer outro gesto equivalente.
Os macacos criados com pessoas aprendem a apontar para coisas que querem,
mas nunca apontam para chamar a atenção dos seres humanos para objectos de
interesse mútuo, uma coisa que as crianças começam a fazer por volta do
primeiro ano de vida.
Os macacos também não reagem quando as pessoas tentam chamar-lhes a
atenção para coisas apontando para elas. Numa das experiências de Mike, uma
pessoa mostra a um macaco qual de três baldes contém comida, inclinando o
balde para a frente de modo que o animal possa ver o alimento. Depois de o
macaco se habituar a este jogo, o investigador começa a apontar para o balde em
vez de o inclinar. As crianças depressa compreendem o sinal, mas os símios de
todas as idades ficam intrigados. Porém, se o investigador estabelecer uma
relação de competição com o macaco e estender a mão em direcção ao balde
como se fosse tirar qualquer coisa — um gesto muito semelhante ao de apontar
—, o animal compreende imediatamente e estende a mão para o mesmo
recipiente.
Num dos seus artigos, Mike explica estes resultados surpreendentes da
seguinte maneira: «Se uma pessoa me encontrar na rua e eu me limitar a
apontar para um edifício, a resposta normal será ‘O que foi?’ Mas, se ambos
soubermos que ele está à procura do novo consultório do dentista, então o gesto
de apontar adquire imediatamente significado.» O que se passa naturalmente
com os seres humanos, mesmo com as crianças pequenas, é uma partilha de
intenções, um conhecimento implícito de que estamos envolvidos numa
actividade comum e que o mais natural é ajudarmo-nos um ao outro, quanto
mais não seja chamando a atenção recíproca para objectos relevantes. É
evidente que os nossos parentes símios não possuem esta consciência, o que os
impede de compreender o significado de apontar, por muito inteligentes que
sejam noutros domínios.
Mike e os seus colaboradores realizaram numerosas experiências a fim de
demonstrar que há partilha de intenções em crianças de muito tenra idade.
Numa delas, uma criança é estimulada a apontar para qualquer coisa a fim de
chamar a atenção de um adulto, que tem uma das quatro reacções seguintes: 1.
limitar-se a olhar para o objecto, 2. ter uma reacção positiva para com a criança,
sem olhar para o objecto, 3. não mostrar reacção ou 4. movimentar o olhar
repetidas vezes entre o objecto e a criança, manifestando reacções positivas.
Mesmo as crianças de 1 ano tendem a expressar infelicidade perante as
primeiras três respostas e só se mostram contentes com a quarta, o que sugere
que o seu objectivo consiste em estabelecer uma partilha de interesses e de
atenção em relação ao objecto. Como afirma Mike: «Isto em si é compensador
para as crianças — aparentemente de uma maneira que não se verifica com
outras espécies do planeta.»
Numa segunda experiência, um adulto realiza uma actividade como
agrafar papéis diante de uma criança sem tentar chamar-lhe a atenção ou
solicitá-la a participar. Em seguida, o adulto finge mudar o agrafador de lugar e
começar à procura dele. Mesmo as crianças apenas com 1 ano têm tendência a
apontar para o agrafador, mostrando uma partilha de atenção e de intenção.
Numa terceira experiência, um adulto esboça um gesto ambíguo em
direcção a três brinquedos e diz a uma criança: «Olha, que giro! És capaz de mo
dar?» Anteriormente brincaram os dois juntos com dois dos brinquedos e a
criança está familiarizada com os três. É extraordinário que mesmo crianças de
1 ano revelam ter consciência da experiência prévia do adulto, escolhendo o
brinquedo que é novo para ele.
Numa quarta experiência, um adulto envolve uma criança num jogo que
implica passar brinquedos por cima de uma mesa. De vez em quando, o adulto
pega num brinquedo sem o passar, simulando não ter vontade de o fazer ou
tentar passá-lo sem ser capaz (estas simulações são realizadas de maneiras
variadas). Mesmo as crianças de 9 meses parecem distinguir as intenções do
adulto, ficando mais inquietas quando este simula não querer do que quando
simula não ser capaz.
Numa quinta experiência, as crianças observam um adulto a tocar com a
cabeça na parte de cima de uma caixa para acender uma luz. Numa situação as
mãos do adulto estão ocupadas a segurar em qualquer coisa, enquanto numa
segunda situação ele tem as mãos livres. Quando é dada às crianças uma
oportunidade de acenderem a luz elas têm tendência a usar as mãos na primeira
situação, revelando consciência de que o adulto tinha a intenção de acender a
luz e só estava a usar a cabeça por ter as mãos ocupadas. As crianças tendem a
usar a cabeça na segunda situação revelando consciência de que o adulto deve
ter tido uma razão para usar a cabeça se tinha as mãos livres. Estas inferências
já surgem aos 18 meses, mas nunca com os macacos.
Esta e outras experiências revelam que a mentalidade humana se baseia
fundamentalmente na partilha. Se não partilhámos intenção e atenção, nem
sequer podemos fazer uma coisa tão simples como apontar para um objecto de
interesse mútuo e muito menos partilhar os nossos comportamentos e
representações simbólicas. Felizmente, a partilha faz parte do nosso meio social
externo há tempo suficiente para se ter incorporado geneticamente nas nossas
mentes, tão profunda e subconscientemente que não a reconhecemos como
partilha até a estudarmos por métodos científicos.
Símios que não sabem apontar, crianças que escolhem o brinquedo com
que sabem que o adulto ainda não brincou — estes resultados científicos
surpreendem-nos em parte porque estamos habituados a pensar nos seres
humanos como os únicos seres inteligentes e na inteligência como uma coisa
única. Daqui decorre que, a seguir ao homem, os símios deviam ser as criaturas
mais inteligentes do mundo, que os adultos deviam ser mais inteligentes que os
bebés e que uma coisa tão simples como apontar não devia ser um quebra-
cabeças para ninguém. Todas estas expectativas ficam viradas de pernas para o
ar quando pensamos no trabalho de equipa mental e físico como a marca
distintiva da evolução humana, em vez de o encararmos como um tipo qualquer
de inteligência genérica. Não é necessário que as adaptações que possibilitam o
trabalho de equipa sejam complexas e as crianças precisam de participar nelas
desde o princípio, solucionando o paradoxo dos macacos que são obtusos no
que diz respeito ao trabalho de equipa, por muito brilhantes que sejam noutros
aspectos, e dos bebés, que são brilhantes relativamente aos elementos do
trabalho de equipa, embora pouco desenvolvidos noutros domínios.
Estas ideias são de tal modo novas (em grande medida só foram
desenvolvidas durante os últimos dez anos) que ainda resta muito por descobrir.
Talvez tudo se desvende por completo sob o escrutínio contínuo dos métodos
científicos. No entanto, elas recebem apoio adicional de uma fonte inesperada e
fascinante — a domesticação de cães.
Os cães descendem dos lobos e, com base em estudo de genética
molecular, pensa-se que foram domesticados pelos seres humanos há cerca de
135 mil anos. A sociedade dos lobos é diferente da dos símios em muitos
aspectos, mas também se baseia fortemente no domínio. Os primeiros lobos que
se associaram aos seres humanos fizeram uma transição de uma sociedade
baseada na competição para uma sociedade baseada na equipa, uma versão
abrupta da transição mais gradual feita pelos próprios seres humanos. Se o
trabalho de equipa mental depende mais do que é favorecido pela selecção
natural do que pela capacidade intelectual genérica, então os cães domésticos
deviam ser melhores que os lobos e os macacos a compreender o significado de
apontar e outras formas de comunicação humana. E isto parece ser um facto.
Num conjunto de experiências realizadas pelo evolucionista húngaro
Adam Miklosi e pelos seus colaboradores, cães e lobos criados por seres
humanos observaram uma pessoa a indicar qual de dois recipientes continha
comida, tocando no recipiente apropriado, apontando para ele de uma distância
de cinco a dez centímetros ou apontando para ele de uma distância de cinquenta
centímetros. Embora os lobos tivessem sido criados em condições semelhantes
às dos cães, estes últimos revelavam um melhor desempenho que os primeiros,
sobretudo quando se apontava da distância maior. Numa segunda experiência,
destinada a determinar por que motivo os cães tinham um desempenho melhor,
os mesmos animais eram treinados para realizar uma tarefa simples (por
exemplo, puxar uma corda para obter alimento) e depois contrariados na sua
tentativa (tornando a corda impossível de puxar). Os lobos e os cães
aprenderam a tarefa com igual facilidade, mas quando contrariados os cães
olhavam para o dono mais depressa e durante um período mais prolongado que
os lobos. Os cães, mais que os lobos, consideravam os donos uma fonte de
informação, não devido a experiências que tivessem tido lugar durante a sua
vida, mas por estarem geneticamente adaptados a um ambiente social onde a
informação é livremente partilhada. Quem for entusiasta de cães, sabe que as
várias raças são capazes de proezas de comunicação e de coordenação que
ultrapassam em muito a exigência destas simples experiências. Em termos de
trabalho mental de equipa, o segundo lugar é ocupado não pelos macacos, mas
pelos cães.
Os cães atravessaram a divisória da cooperação associando-se aos seres
humanos há apenas cerca de 135 mil anos. O homem teve um período muito
mais prolongado para se precipitar em cascata em direcção às planícies férteis
do trabalho de equipa mental e físico. Mike Tomasello conclui o seu artigo sobre
o motivo pelo qual os símios não apontam sugerindo que o simples acto de
apontar inclui a maioria dos ingredientes da linguagem. Ambos são actos de
comunicação que exigem uma associação de intenção e atenção. Ambos exigem
um feedback e uma adaptação da interacção até se alcançar a compreensão.
Ambos se prestam a mudanças de direcção, com o assinalado a tornar-se o
assinalador. Ambos podem ser usados com múltiplas finalidades, como atingir
um objectivo desejado, chamar a atenção para qualquer coisa de interesse
mútuo ou ajudar alguém a atingir um objectivo desejado. É fácil imaginar um
dedo a apontar a conduzir ao meio muitíssimo mais poderoso da linguagem,
desde que decorra tempo suficiente.
A vida moderna está muito distante da sociedade de pequena escala e às
vezes torna-se tão hierárquica e competitiva como a de um bando de
chimpanzés ou a de uma matilha de lobos. O que acontece quando atravessamos
a divisória da cooperação em sentido contrário? Deixamos de falar e pomo-nos a
apontar para mostrar as coisas uns aos outros? Evitamos o contacto visual?
Pergunto-me se os óculos de sol não serão uma maneira moderna de correr as
cortinas sobre as janelas da alma, como os olhos opacos dos nossos parentes
primatas. Quando não se destinam a proteger do sol, não serão usados
sobretudo em ambientes sociais competitivos e hierárquicos? Cheio de
curiosidade, enviei um e-mail a Mike Tomasello a pô-lo a par da minha ideia e
recebi a seguinte resposta: «Não conheço dados. Mas vi o Campeonato Mundial
de Póquer na televisão e todos eles usam óculos de sol!»

23
A primeira gargalhada

Estava-se em Setembro de 2002, no início de mais um ano académico.


Anne havia sido incumbida da tarefa exigente de leccionar o curso de
Introdução à Biologia a cerca de seiscentos alunos, a maioria dos quais acabados
de sair da escola secundária. Com o seu metro e cinquenta e oito e quarenta e
oito quilos ela chegava bem para eles, mas não era divertido. Todos eram
brilhantes, mas nem todos estavam num estado de espírito propiciador da
aprendizagem. Alguns eram tão brilhantes que tinham feito todo o percurso do
ensino secundário sem se esforçarem e só nessa altura estavam a descobrir a
necessidade de disciplina. Outros tinham sido submetidos a uma disciplina
imposta pela família e só então estavam a descobrir a necessidade da
autodisciplina. Outros ainda eram altamente disciplinados, mas com
preocupações tão estreitas em relação às suas ambições profissionais (os
famosos alunos que queriam seguir Medicina) que só se preocupavam com o
que era preciso para obter a nota máxima. Muitos estavam tão deslumbrados ou
stressados com a sua vida social que só de vez em quando pensavam nos cursos.
Quando Anne olhava para aquele mar de alunos, só uns quantos lhe pareciam
genuinamente interessados, ousando fazer uma pergunta ou aparecendo depois
da aula para explorar alguma questão particularmente interessante. Essas eram
as pessoas que estavam num estado de espírito capaz de conduzir à
aprendizagem e estavam a ser prejudicadas por uma turma grande como aquela.
Anne reflectiu naquele dilema e decidiu fazer qualquer coisa. Anunciou na
aula que iria patrocinar um curso de um crédito no semestre seguinte para
explorar tópicos interessantes em ecologia, evolução e comportamento. Seriam
os alunos a decidir o que liam e como organizavam o debate. A cadeira não
contaria para a nota de curso e seria feita puramente na base do interesse pelo
tema.
Cerca de uma dúzia de alunos aceitou a oferta de Anne. A maioria era do
seu curso de Introdução à Biologia, mas alguns ouviram falar disso através de
alguma fonte invisível e vieram de outro sítio qualquer. Durante o semestre
seguinte, leram e debateram livros e artigos da sua escolha. Anne estava
presente, mas não dominava o debate. Eu assisti a uma sessão, mas quase tudo
o que fiz foi observar à distância o «salão intelectual» de Anne. O que me
pareceu mais extraordinário foi o modo como aqueles alunos se distinguiram
nos anos que se seguiram. Os melhores alunos universitários ultrapassam em
muito o estreito grau de exigência dos cursos, acumulando disciplinas
adicionais, envolvendo-se na investigação e funcionando como pensadores
independentes. Quando terminam o curso, seja qual for a escolha profissional
que façam, são ansiosamente procurados. Esses eram os alunos que
consideraram a oferta de Anne uma oportunidade, embora, num sentido estrito,
ela não alargasse as suas perspectivas de carreira. Nunca saberemos se a
experiência teve um efeito formativo ou se se limitou a proporcionar um local de
reunião para aqueles que já estavam a avançar com os seus interesses, mas seja
como for ela ilustra a importância de um estado de espírito para o
desenvolvimento intelectual.
Matt Gervais, um caloiro da turma de Anne, era tão seguro de si que pediu
para assistir as minhas aulas sobre evolução e comportamento humano para
estudantes avançados e de pos-graduação. Como vim a saber mais tarde, Matt
distinguiu-se no ensino secundario não como aluno, mas como atleta Era
capitão da equipa de futebol e ficou em primeiro lugar nos campeonatos de
levantamento de pesos do estado de Nova Iorque durante os dois ultimos anos
do ensino secundario Descrevia se a si mesmo como um atleta tipico, que
gostava de festas e so trabalhava o suficiente para conseguir boas notas ate ver o
filme Matrix, que lhe despertou a curiosidade intelectual. Na altura em que
entrou para a universidade dedicava-se aos interesses academicos com o mesmo
entusiasmo que desenvolvia no campo atietico.
Matt registou progressos no meu curso e não teve problemas em
acompanhar os alunos mais avançados. A teoria da evolução ofereceu-lhe
exactamente o tipo de quadro intelectual abrangente que ele procurava. O seu
trabalho de fim de período foi de longe o melhor da turma, como se ele tivesse
arrancado e corrido pelo campo para marcar um ensaio. O tema para esse
trabalho consistia em escolher qualquer assunto para explorar de uma
perspectiva evolutiva. De uma forma um tanto caprichosa, Matt escolheu o tema
do riso.
Superficialmente, o riso, tal como o suicídio, a homossexualidade, a
adopção e a arte, parece difícil de explicar de uma perspectiva evolutiva. Porque
fazemos estas coisas quando elas parecem supérfluas ou mesmo prejudiciais
para a nossa sobrevivência e reprodução? Porém, como rapidamente me
apercebi depois de ler o trabalho de Matt, o riso é tudo menos supérfluo.
Pensemos em alguns dos factos básicos que toda a gente sabe: todas as pessoas
são capazes de rir, excepto umas quantas que, tragicamente, sofrem de uma
deficiência mental grave. Os bebés começam a rir entre os dois e os quatro
meses, muito antes do começo da aquisição da linguagem. Mesmo os bebés que
sofrem de surdez e cegueira congénitas riem, pelo que ouvir e ver o riso dos
outros não é necessário. Rir é essencialmente um fenómeno social; sabemos isto
por experiência própria, mas os estudos mostram que a probabilidade de rirmos
na companhia de outros é mais de trinta vezes superior à de rirmos sozinhos.
O riso é facilmente reconhecível, apesar das variações individuais e
culturais. Rir é contagiante; o simples som dá-nos vontade de rir. Finalmente,
rir é agradável. Põe-nos de bom humor e faz-nos agir de uma forma diferente.
Se alguma coisa se pode considerar uma capacidade geneticamente inata que
exige uma explicação evolutiva é o riso.
Há dois mil anos que o riso é estudado e observado, por Aristóteles e
Darwin, entre outros, pelo que se poderia pensar que um ex-jogador de futebol
no seu primeiro ano de faculdade teria pouco a oferecer nesta matéria, pois
talvez já houvesse explicações de sobra. Nos bebés, o riso pode ser provocado
por cócegas e jogos de palavras e nos adultos por anedotas escabrosas. Ele
irrompe espontaneamente, mas também é usado de forma estratégica. Pode ser
usado para invocar bons sentimentos ou como um instrumento de agressão.
Terão fenómenos tão diversos uma explicação única? O que Matt tentou fazer
no seu trabalho foi semelhante ao que Margie Profet fez em relação ao tema dos
enjoos da gravidez, como descrevi no capítulo 12. Tentou encaixar os diversos
factos dispares acerca do riso na literatura científica como as peças de um
puzzle, usando a teoria da evolução como a imagem da caixa. Além disso, reuniu
peças de muitas disciplinas científicas diferentes, incluindo a primatologia, a
antropologia, a psicologia e a neurobiologia. A teoria da evolução transcende os
limites disciplinares, como Matt tinha aprendido no meu curso e o leitor
(espero) aprenderam com este livro. Por conseguinte, Matt, em comparação
com especialistas que permanecem encerrados nas suas esferas disciplinares,
tinha duas vantagens: uma boa teoria para guiar a sua busca e mais peças do
puzzle com que trabalhar.
Com a primatologia, Matt aprendeu que os nossos parentes símios se
envolvem em jogos de cócegas e perseguições acompanhados por uma
expressão facial e um som ofegante muito semelhante ao riso humano. As
maravilhosas fotografias de primatas apresentadas por Frans de Waal no seu
livro My Family Album incluem uma de um bonobo adulto a fazer cócegas no
estômago de um macho adolescente, cuja boca está muito aberta numa grande
gargalhada, inconfundível para o observador humano. Assim, o riso humano
tem um precursor nítido nos símios que ocorre durante as interacções de pares
que brincam. Isto contrasta com a linguagem humana, que não tem precursores
óbvios nos macacos.
Com a neurobiologia, Matt aprendeu que há dois tipos de riso diferentes. O
riso Duchenne (cujo nome deriva do pioneiro da neurofisiologia G. B. A.
Duchenne de Boulogne, cujo livro The Mechanisms of Human Facial
Expression foi publicado em 1862) constitui a reacção espontânea e carregada
de emoção às brincadeiras nas crianças e às situações que despertam o humor
nos adultos, como as anedotas, os trocadilhos e as peripécias de uma comédia,
que partilham todas a característica da incongruência e do inesperado num
ambiente social seguro. As cócegas, as perseguições e o súbito aparecimento de
um rosto podem provocar nas crianças o riso ou o medo, consoante a maneira
como forem interpretados. Escorregar numa casca de banana é divertido, a
menos que a pessoa se magoe a sério. O riso não Duchenne é mais estratégico,
menos espontâneo e nem sequer precisa de ser acompanhado pelo humor. A
conversa normal é muitas vezes acompanhada pelo riso, que o falante usa para
sublinhar uma observação e o ouvinte para indicar apreço. Este tipo de riso está
bem integrado na conversa, ao contrário do mais «genuíno» riso Duchenne, que
pode levar a conversa até uma paragem por perda de fôlego ou dificuldade de
respiração. Além de lubrificar a conversa normal, o riso não Duchenne é usado
para distender situações tensas (riso nervoso), para fazer os outros sentirem-se
pouco à vontade (riso malévolo) e para outros fins estratégicos. Os estudos
neurobiológicos mostram que o riso Duchenne activa antigos circuitos cerebrais
que têm a ver com as brincadeiras e com as emoções positivas em todos os
primatas e, na realidade, na maioria dos mamíferos. Só o riso não Duchenne
activa zonas do cérebro associadas com as nossas capacidades cognitivas
avançadas.
Estes factos sugerem que o riso Duchenne se desenvolveu numa fase muito
precoce da evolução dos hominídeos, antes de termos capacidades cognitivas
avançadas. Já presente no repertório comportamental pré-humano, o riso
Duchenne pôde ser integrado com funções cognitivas mais elevadas como a
linguagem e o pensamento simbólico à medida que estes evoluíam, dando
origem às muitas funções do riso não Duchenne. Em termos simples, podemos
dizer que, antes de falarem ou até de pensarem em termos humanos, os nossos
antepassados provavelmente já se riam.
A sintese de Matt era tão interessante que me perguntei se, com mais
trabalho, poderia justificar a publicação Alem disso, ele inseria-se numa visão
mais ampla que eu estava prestes a implementar com os meus colegas — um
programa a nível do campus que usa a evolução como uma linguagem comum
para estudar todos os assuntos, aberto a todos os alunos e professores que
desejem participar. Essa visão tornou-se o EvoS, que descrevi no capítulo 1 e foi
iniciado no ano seguinte. Matt foi um dos primeiros membros, juntamente com
a maioria dos outros alunos do «salão intelectual» de Anne.
Com a ajuda do EvoS, Matt seleccionou as disciplinas subsequentes para
avançar com o estudo do riso. Não havia um unico departamento que pudesse
abarcar todos os seus interesses. Frequentou o curso de Comportamento Animal
de Anne a fim de aprender mais sobre a brincadeira em espécies não humanas.
Fez disciplinas de Neurociência Cognitiva e de Psicolinguística a fim de
aprender mais sobre os mecanismos do cérebro. Fez disciplinas independentes
comigo para conseguir uma margem de manobra ainda maior. Os pensadores
independentes não esperam para tirar cursos a fim de aprenderem qualquer
coisa que precisam de saber. A qualquer altura, Matt podia ir buscar várias
dezenas de livros à biblioteca para seguir esta ou aquela linha de pensarnento.
Tal como Anne, colaborei fornecendo feedback sempre que era solicitado, mas,
de uma forma geral, deixei Matt entregue a si próprio.
A primeira experiência de êxito verificou-se sob a forma de uma bolsa
Barry M. Goldwater, a que ele se candidatou e que recebeu no momento mais
alto da sua investigação. Esta bolsa baseia-se numa competição a nível nacional
e desfruta de grande prestígio, sendo o tipo de coisa que os jornais das
universidades e da cidade adoram apregoar. Mas estaria Matt em situação de
competir com os melhores? Durante o primeiro ano de faculdade, apresentámos
um extenso manuscrito à Quarterly Review of Biology intitulado «The
Evolution and Functions of Laughter and Humor: A Synthetic Approach». O
artigo foi revisto anonimamente por duas sumidades que nada sabiam sobre o
estatuto de Matt como aluno universitário. A avaliação deles fez-nos corar a
ambos: «Uma síntese extraordinária de múltiplas referências e perspectivas [...]
um trabalho cuidadoso, cheio de cambiantes e persuasivo [...] intrigante e
acessível do princípio ao fim [...] virá a ter uma grande influência em anos
vindouros [...] uma preciosidade.»
A síntese de Matt está em grande concordância com o conceito de grupos
humanos como organismos dispersos que, como as colónias de insectos sociais
descritas no capítulo 20, exigem mecanismos sociais de coordenação. Quanto
mais começássemos a confiar uns nos outros, mais precisávamos de sentir o
mesmo ao mesmo tempo. Os nossos cérebros parecem estar preparados para
este tipo de coordenação, especialmente na forma de algo chamado «sistemas
de correspondência por espelho», que se tornam activos não só quando fazemos
qualquer coisa, mas também quando vemos outros fazê-la. Estes sistemas têm
precursores noutros primatas, mas têm sido desenvolvidos na nossa espécie
para fornecer o que um investigador designa por «uma multiplicidade
partilhada de intersubjectividade». Podemos apreciar movimentos, sensações e
emoções dos outros porque os nossos cérebros são literalmente activados do
mesmo modo que se os estivéssemos a fazer e a sentir nós mesmos.
O riso é um mecanismo altamente eficaz para levar os membros de um
grupo a sentirem o mesmo ao mesmo tempo. Pensemos num sinal eléctrico a
percorrer um axónio de uma célula nervosa. Quando chega ao fim, provoca a
libertação de substâncias químicas no minúsculo espaço (a sinapse) entre
células nervosas, o que, por sua vez, faz as células adjacentes dispararem,
propagando o sinal. Agora pensemos em alguém a rir. Se o riso tem lugar num
contexto apropriado, leva espontaneamente outros a rirem-se até todo o grupo
estar a rir. A propagação do sinal é quase tão rápida e automática como a
propagação de um sinal eléctrico de uma parte de um determinado cérebro para
outra. Se o riso tem lugar num contexto inapropriado (como um funeral),
provavelmente vai provocar um olhar reprovador por parte do resto do grupo e
quem ri depressa se vai dar conta do lapso. É difícil pensarmos em nós como
neurónios de um cérebro de grupo, mas isso é precisamente o que temos de
fazer para compreender plenamente o que significa fazer parte de um
organismo de grupo disperso.
Quando é apropriado, o riso provoca a boa disposição de toda a gente,
como sabemos por experiência própria. Mecanicamente, o cérebro liberta um
cocktail de químicos semelhantes aos que se tomam artificialmente quando se
quer passar um bom bocado, como o ópio e a morfina. É perigoso consumir
estas substâncias porque elas se limitam a fazer-nos sentir bem sem nos
levarem a agir bem. Uma infinidade de anos de evolução levou estes químicos a
libertarem-se naturalmente só quando nos fazem agir de uma maneira que
aumenta a nossa capacidade de sobrevivência e reprodução. No que diz respeito
aos químicos do cérebro, a mãe-natureza sabe o que faz.
Por que motivo a boa-disposição aumentou a capacidade de sobrevivência
e de reprodução dos nossos antepassados? A vida consiste numa hierarquia de
necessidades, como os psicólogos humanistas como Abraham Maslow
observaram. Não podemos aprender coisas novas se estamos preocupados com
a refeição seguinte ou receosos pela nossa vida. Os nossos antepassados
passavam uma quantidade de tempo a procurar comida e a temer pela vida
quando desceram das árvores e se aventuraram nas planícies africanas
sustentados pelas suas duas pernas vacilantes. Os períodos de segurança e
saciedade eram poucos e espaçados. É provável que o riso humano tivesse
começado por evoluir como um sinal para identificar esses períodos e
rapidamente estabelecer uma «multiplicidade partilhada de
intersubjectividade» para tirar o maior partido possível deles.
As coisas que os nossos antepassados aprendiam nos períodos de bom
humor estavam longe de ser superficiais. Já alguma vez pensou por que motivo
um cavalo ou uma vaca demoram três anos a tornar-se adultos enquanto um
chimpanzé leva cerca de doze anos e nós cerca de dezoito? Em parte a resposta é
porque precisamos de adquirir mais informações dos membros do nosso grupo
e o nosso ciclo de vida se alargou em conformidade com isso. O nosso período
prolongado de desenvolvimento juvenil (em comparação com o de outros
primatas) evoluiu aproximadamente ao mesmo tempo que a nossa capacidade
de rir. Quanto menos dependíamos dos nossos genes no que diz respeito à
maneira de nos comportarmos, mais tínhamos de depender dos membros do
nosso grupo, o que exigia tirar o melhor partido possível dos períodos de
segurança e de saciedade. O medo e a fome são tóxicos para o desenvolvimento
humano, enquanto o riso é um elixir que o torna possível, tanto no que diz
respeito aos nossos antepassados como a nós mesmos.
Em três anos, Matt desenvolveu-se, e passou de um atleta fascinado com
Matrix a um cientista que deu um contributo fundamental ao conhecimento.
Esta transformação exigiu uma pessoa excepcional num estado de espírito
conducente à aprendizagem, mas também exigiu uma teoria capaz de explicar o
mundo e uma maneira de transmitir essa teoria que invoca o prazer e não o
medo. O EvoS foi criado para proporcionar um ambiente social de apoio com
vista ao ensino da evolução e é gratificante ver alunos como Matt e os outros que
se reuniam no «salão intelectual» de Anne tirarem tamanho proveito dele.
Se pareço orgulhoso, recorde que é da teoria e não de quaisquer feitos
pessoais. A longo prazo, importa pouco se eu, Ann, Matt ou outra pessoa
qualquer somos dotados como indivíduos. O que interessa é uma maneira de
pensar que todas as pessoas competentes podem usar para compreender o
mundo que as rodeia. O que Matt conseguiu mostra-nos o contributo que esta
maneira de pensar pode dar mesmo a um assunto tão venerável como o riso,
que há milhares de anos constitui um tema de reflexão para os maiores
espíritos. O EvoS mostra-nos como esta maneira de pensar pode ser utilizada
para unir toda uma comunidade universitária que abrange todas as matérias. O
presente livro destina-se a expandir ainda mais esse circulo. O leitor aprende os
mesmos princípios básicos que permitiram a Matt dar os primeiros passos.
Podem não se considerar cientistas, mas adquiriram a formação necessária para
compreender e apreciar o artigo que nós escrevemos para os especialistas
(disponível no meu site: htip:llwww.biology.binghamton.edu/dwilson). Ou
talvez estejam interessados em explorar um assunto que lhes diga respeito, o
que será ainda melhor. Talvez não possam reunir-se a nós pessoalmente, mas
posso garantir que as nossas conversas são acompanhadas por humor e
gargalhadas.
24
As artes vitais

Quando o famoso historiador William H. McNeill era jovem e trabalhava


no seu doutoramento, em 1941, foi chamado para a tropa e enviado para o Texas
para fazer a recruta. O único equipamento militar para todo o batalhão era uma
metralhadora anti-aérea que não funcionava, pelo que a maior parte do treino
consistia em ver filmes e marchar de um lado para o outro num campo
poeirento, sob um sol escaldante, ao ritmo de «um, dois, esquerdo, direito».
McNeill não precisava da sua formação superior para perceber que aquela
marcha em ordem unida se tinha tornado completamente obsoleta no que dizia
respeito a movimentos de tropas e tácticas de campo de batalha. Porem, para
sua surpresa, descobriu que gostava daquilo. Como explica no seu livro de 1995
Keeping Together in Time: Dance and Drili in Human History: «As palavras
são inadequadas para descrever as emoções suscitadas pelo movimento
prolongado e em sintonia que a recruta implicava. Uma profunda sensação de
bem-estar é o que recordo; mais especificamente, uma estranha sensação de
alargamento pessoal; uma espécie de inchar, de me tornar maior do que o
mundo, graças à participação num ritual colectivo.»
A maioria de nós, hoje em dia, pensa que dançar é um ritual de
acasalamento realizado por pares ou algo que pagamos para ver profissionais
realizarem no palco, mas a maior parte da dança ao longo da história tem sido
um assunto de grupo. Desde o treino militar até às danças de êxtase religioso, às
danças comunitárias de aldeias em ocasiões festivas e às danças tribais de povos
indígenas por todo o mundo, há grupos de pessoas que se reúnem para
movimentar os corpos em uníssono, por vezes durante tanto tempo que caem de
exaustão ou entram num estado semelhante ao transe. O efeito em todos os
casos é criar uma sensação de unidade entre os membros do grupo que
dançaram juntos. Como o antropólogo A. R. Radcliffe-Brown descreveu
relativamente aos habitantes das ilhas Andamão, em 1922: «Os sentimentos
precisos variavam com o contexto, como quando dois grupos dançavam juntos
após um longo período de separação e geravam um sentimento de harmonia,
quando os guerreiros dançavam para produzir uma ira colectiva antes de
começarem a combater, ou numa cerimónia de paz e reconciliação. Em todas as
ocasiões, as impressões de unidade e de concórdia eram intensamente sentidas
por todos os dançarinos, e essa era a função primordial da dança.» Se não
queremos basear-nos nas palavras de um europeu, podemos ouvir o rei suazi
Subhuza II, que em 1940 explicava como os seus súbditos permaneciam unidos:
«Os guerreiros dançam e cantam no Incwala (uma festa anual), por isso não
combatem, embora sejam muitos, orgulhosos e de todas as partes do país.
Quando dançam sentem que são um e podem manifestar o seu apreço mútuo.»
O que McNeill descobriu por experiência própria quando era jovem, e
voltou a explorar intelectualmente mais tarde, é que a harmonia induzida pela
dança é tão visceral que deve ter uma base genética. A razão para ele não
conseguir descrever exactamente a sua euforia com palavras deve-se ao facto de
esta emanar de partes do cérebro que existiam antes de a nossa capacidade da
linguagem ter evoluído. Tal como referi em relação ao riso no capítulo anterior,
é provável que já dançássemos antes de falarmos ou até de pensarmos em
termos humanos modernos. Desde um estádio muito recuado da nossa
evolução, a dança terá feito parte da «fisiologia social» que define e coordena os
grupos humanos. Maurice de Saxe, marechal de França que viveu no século
XVIII, compreendeu a natureza instintiva da dança sem precisar de a estudar
cientificamente: «Façam-nos marchar em cadência. É todo o segredo, e é o
passo militar dos Romanos [...] Toda a gente já viu pessoas a dançar a noite
inteira. Mas peguem num homem e façam-no dançar durante um quarto de
hora sem música e vejam se ele aguenta [...] O movimento ao som da música é
natural e automático. Reparei muitas vezes, enquanto os tambores rufavam
quando a bandeira era içada, que todos os soldados marchavam em cadência
sem intenção e sem se darem conta de que o faziam. Eram a natureza e o
instinto a fazê-lo por eles.»
O poder visceral da dança tornou possível formar exércitos com pessoas
que não tinham qualquer razão objectiva para combater. Pelo simples facto de
marcharem ao ritmo e devido a outras actividades comuns, ficaram
emocionalmente ligadas umas às outras. É difícil para aqueles que não viveram
a experiência desse tipo de ligação (incluindo eu mesmo) compreender a sua
intensidade, mas J. Glenn Gray expressa isso do seguinte modo na sua obra The
Warriors: Reflexions on Men in Battle: «Estou convencido de que muitos
veteranos que são honestos consigo próprios admitirão que a experiência do
esforço comum na batalha, mesmo sob as condições alteradas da guerra
moderna, constitui o ponto alto das suas vidas [...] O seu ‘eu’ transforma-se
insensivelmente em ‘nós’, o ‘meu’ converte-se em ‘nosso’ e o destino individual
perde a sua importância central [...] Penso que isto é nada mais nada menos do
que a garantia da imortalidade que torna o auto-sacrifício relativamente fácil
nesses momentos [...] Posso cair, mas não morro, pois isso que é real em mim
continua a viver nos camaradas pelos quais dei a vida.»
Mesmo a arte do ballet, que pode parecer no extremo oposto do exercício
militar, era empregada como um instrumento de coesão de grupo por Luís XIV
de França. Ao mesmo tempo que o seu inspector-geral de infantaria, o coronel
Jean Martinet, usava o treino militar para criar o exército mais poderoso da
Europa, o monarca exigia que os nobres mais poderosos de França vivessem
durante longos períodos na corte, onde tomavam parte em bailes elaborados e
outros rituais. Ele próprio um dançarino exímio, o rei ocupava-se da instrução
desses nobres até eles terem vinte e seis anos, após o que era substituído por
dançarinos profissionais, que criaram a forma de arte do ballet clássico. Luís
XIV continuou a tomar parte nos bailes e esperava que os seus cortesãos
fizessem o mesmo. Dançar unificou a nação francesa, tal como a nação da
Suazilândia.
Estas afirmações relativas à dança também se aplicam à música, que, como
é evidente, acompanha invariavelmente a dança. No seu livro The Mating Mind,
o meu colega evolucionista Geoffrey Miller tenta explicar a música, bem como
todas as formas de arte, como uma exibição sexual praticada principalmente por
homens com o objectivo de atrair mulheres. Afinal, os vídeos de música típicos
consistem em jovens cantores do sexo masculino a ostentarem os seus atributos
diante de um grupo de mulheres atractivas seminuas. Que falta ainda explicar?
Uma quantidade de coisas, como Steven Brown, outro dos meus colegas
evolucionistas, mostra num artigo intitulado «Evolutionary Models of Music:
From Sexual Selection to Group Selection». Nas culturas tradicionais é raro a
música assumir a forma de jovens a pavonearem-se à frente das mulheres. Pelo
contrário, isso verifica-se em muitos outros contextos que coordenam as
actividades de grupos. Talvez a descrição mais abrangente da actividade musical
numa sociedade de caçadores-recolectores se deva ao musicólogo Simha Arom
em relação aos pigmeus aka da África Central. A sua música consiste pelo menos
em vinte e quatro categorias distintas, demarcadas por diferenças de ritmo,
escala, tipo de instrumentos e conjunto de executantes. Cada categoria está
estreitamente associada a um contexto social e é executada apenas nesse
contexto — por exemplo, «propiciação para uma caçada colectiva» ou «funeral».
Cada uma dessas categorias é imediatamente reconhecida pelos Aka, que se lhe
referem, na sua língua, pelo contexto social correspondente (por exemplo
«música para funeral»). Steve conclui que «nas populações caçadoras-
recolectoras como os pigmeus aka, a música é um componente essencial de
rigorosamente todas as actividades sociais, e não é necessário um grande
esforço de imaginação para acreditar que o mesmo deve ter sido válido para os
nossos antepassados hominídeos. [...] Aos níveis afectivos e motivacionais, a
música é um tipo de estimulante emotivo e, na medida em que faz parte da
experiência de um grupo durante eventos rituais, essa estimulação promove a
sincronização da emoção, da motivação e da acção desse mesmo grupo.»
Esta interpretação da música é exactamente o que deveríamos esperar
quando consideramos seriamente o conceito de organismo de grupo. Se a
fisiologia de um grupo humano é, nem que seja remotamente, comparável à de
um corpo ou de uma colmeia, tem de coordenar muitas actividades diversas; um
sentido geral de unidade não é suficiente. As formas musicais específicas
associadas a contextos sociais específicos aproximam-se da complexidade
inerente ao termo «fisiologia».
As modernas culturas ocidentais proporcionam muitos exemplos de
funcionalidade e especificidade da música. Steven inicia o seu artigo com uma
descrição da patriótica Sétima Sinfonia de Dmitri Chostakovich, composta no
início do cerco nazi a Leninegrado. «A Sinfonia tornou-se rapidamente um
importante símbolo internacional da resistência do povo russo perante a
ameaça nazi. Os relatos pessoais da época atribuem a esta sinfonia o mérito de
ter dado tanto aos cidadãos como aos soldados de Leninegrado a força moral
necessária para resistir ao cerco. Essa peça musical foi de tal modo importante
para o moral do povo que os soldados da linha da frente que também tinham
formação musical foram transportados da frente de batalha até à sala de
concertos para executarem a Sinfonia, que seria transmitida em directo pela
rádio no momento mais duro do cerco, a 13 de Agosto de 1942.»
A sinfonia seguinte de Chostakovjch foi um lamento pela morte e pelo
sofrimento dos seus compatriotas em Leninegrado e noutros lugares. E Steve
prossegue: «Do princípio ao fim, a obra é uma expressão de desespero e horror.
É interessante que a Oitava Sinfonia tenha sido condenada na reunião de 1948
do Comité Central do Partido Comunista pela sua visão excessivamente
catastrofista da guerra e pela utilização geral, por parte de Chostakovich, de
«distorções formalistas». A música é importante, tanto para nós como para os
nossos antepassados remotos. Poder-se-iam apresentar inúmeros exemplos de
que assim é, retirados da vida americana, da música de protesto dos anos 60 à
música assustadora e arrepiante das campanhas de ataques políticos actuais. A
quantidade de tempo e de dinheiro que despendemos a despejar música para os
ouvidos constitui uma indicação do quanto precisamos de estímulos externos
para dominar os nossos pensamentos e emoções. Antes de existirem os
auscultadores e os iPods, esses estímulos provinham de outros membros do
nosso grupo.
O que dissemos sobre a dança e a música aplica-se igualmente às artes
visuais. Quando pensamos estritamente na sobrevivência e na reprodução,
parece intrigante as pessoas passarem tanto tempo a decorar os seus utensílios
ou a produzir objectos sem qualquer finalidade utilitária. Todavia, a principal
adaptação humana é no sentido de os nossos comportamentos serem adquiridos
cada vez menos directamente a partir dos nossos genes e cada vez mais a partir
de outras pessoas. A transmissão genética de informação não é somente uma
questão de filamentos de ADN ou ARN a copiarem-se a si próprios. Como
mostrei no capítulo 18 em relação à origem da vida, é necessária uma
comunidade de interacções moleculares reguladas. De igual modo, a
transmissão social de informação não é apenas uma questão de pessoas a
andarem de um lado para o outro a aprenderem o que lhes apetece, sendo
necessária uma comunidade de interacções sociais reguladas. Quando
pensamos de uma forma lata acerca de sobrevivência e reprodução, incluindo a
adaptação humana primária da transmissão social para além das exigências
diárias de sobrevivência e reprodução, diminui o mistério relacionado com a
questão de saber por que motivo produzimos arte.
Elien Dissanayake (em livros como What Is Art For?) e Kathryn Coe (na
sua obra The Ancestress Hypothesis: Visual Art as Adaptation) são pioneiras
no estudo da arte visual desta perspectiva cultural evolutiva. Estas duas
mulheres têm biografias fascinantes, que incluem experiência com culturas
indígenas, além de estudos académicos no domínio da arte. Veja-se a descrição
feita por Kathryn de como Anna Shaw, uma mulher da tribo pima do Arizona
aprendeu a entrançar o vime: «Anna passava horas a apanhar unha-do-diabo,
raminhos de salgueiro e tábua-larga na companhia da avó enquanto percorriam
juntas o deserto de Sonora. A observar e a ajudar, Anna foi aprendendo quando
e como apanhar os materiais que lhe viriam a ser úteis. Enquanto ajudava a avó
a preparar estes materiais para os entrançar, Anna desenvolveu as suas próprias
aptidões. Ao ver a avó trabalhar, via crescer as formas dos cestos e surgir os
motivos decorativos. Ao princípio aquele trabalho era difícil para os seus dedos
infantis, e os cestos tinham de ser entrançados, depois desfeitos e novamente
entrançados até o trabalho ficar como devia ser. Ela conta-nos que a avó lhe
dizia que ‘fazer cestos serve para te ensinar a paciência, minha neta’. Quando o
seu primeiro cesto bem feito ficou acabado, ela foi considerada uma mulher, e o
seu estatuto de adulta teve início quando ofereceu esse cesto à avó.»
Este exemplo mostra que o processo de fazer arte é pelo menos tão
importante como o produto acabado. Kathryn prossegue: «Aqueles anos [...]
forneceram uma oportunidade para uma rapariga desenvolver uma relação com
a avó e ouvir histórias sobre os antepassados comuns, incluindo o significado
dos motivos decorativos que ambas haviam herdado desses mesmos
antepassados, até à primeira mulher pima que tinha feito os primeiros cestos.
Os antepassados estavam à espera que a avó ensinasse a neta a fazer os cestos.
Também estavam à espera, foi Anna informada, de que a neta aprendesse a
fazê-los para mostrar a sua generosidade oferecendo à avó o seu primeiro cesto
bem feito, sendo essa a origem da sua aptidão nessa arte [...] Eles também
esperavam que ela respeitasse os idosos, fosse leal e generosa, se tornasse uma
boa esposa e uma boa mãe e cooperasse e fosse generosa com a sua gente,
primeiro com a família e depois com os outros pima. Era com estes que Anna
partilhava um antepassado comum e eram eles que podiam ser identificados
não apenas pela língua que falavam e pela maneira de vestir, mas também pelos
cestos característicos feitos pelas mulheres.»
Quando é exigida a perfeição na arte para se alcançar um estatuto elevado
e é também necessária paciência, obediência, respeito e muitos anos na
presença de anciãos que transmitem outras informações para além das aptidões,
o valor adaptativo da arte no sentido lato torna-se plausível.
É certo que estas ideias sobre dança, música e artes visuais são
especulativas. Quando as discuto com os meus colegas é frequente ouvir como
reacção a frase feita rabugenta «Que grande treta!» No entanto, como sublinhei
no capítulo 9, a especulação não é um pecado. A investigação científica começa
sempre com especulação, a que é costume atribuir o epíteto mais simpático de
«hipótese não testada». Quando perguntamos por que motivo são estas ideias
em grande medida não testadas, depara-se-nos um problema que ultrapassa
qualquer assunto particular. O próprio conceito de formular e testar hipóteses
científicas sobre dança, música ou artes visuais é alheio à grande maioria das
pessoas que amam e estudam estas actividades e se empenham nelas.
Pensemos na maneira como o comportamento está organizado em
instituições de ensino superior. A minha universidade, como a maioria das
outras, tem uma Faculdade de Artes e Ciências, que se compõe de um dado
número de divisões. A Divisão de Ciência e Matemática inclui Física, Química,
Biologia, Geologia e um departamento relacionado com os seres humanos —
Psicologia. A Divisão de Ciências Sociais inclui Antropologia, Economia,
Geografia, História, Ciências Políticas e Sociologia. Estas disciplinas
relacionadas com os seres humanos são muitas vezes consideradas mais
«moles», ou menos rigorosas cientificamente, do que uma ciência «dura» como
a Física ou a Biologia. A Divisão de Humanidades inclui Arte, Inglês, Música,
Filosofia, Religião e Teatro. Estas matérias relacionadas com o ser humano são
consideradas não só mais «moles» do que as ciências sociais, mas
completamente fora do domínio da investigação científica.
Esta organização, embora profundamente entrincheirada na cultura
académica, não faz sentido de uma perspectiva evolutiva. Se a teoria da evolução
faz parte da ciência «dura» da biologia, então pode fornecer um quadro
igualmente rigoroso para estudar a nossa própria espécie. Quanto mais não seja,
as disciplinas associadas com as humanidades deviam ser mais fáceis de
estudar de uma perspectiva evolutiva do que a maioria das disciplinas
associadas com as ciências sociais. Afinal, a dança, a música e as artes visuais
possuem as marcas distintivas das capacidades geneticamente desenvolvidas:
aparecem numa fase precoce da vida, são intrinsecamente agradáveis, existem
em todas as culturas, são mediadas por antigos mecanismos neuronais e muitas
vezes realizam funções sociais vitais, como vimos. Pelo contrário, a ciência da
economia é incompreensível para uma criança muito pequena, é difícil de
aprender mesmo para alunos da faculdade, existe em poucas culturas e é
mediada pelos nossos mecanismos neuronais que evoluíram mais recentemente.
É certo que é mais provável o acto de estudar economia envolver métodos
científicos do que os actos de cantar, dançar e criar arte visual, mas a teoria da
evolução e os métodos científicos são necessários para compreender por que
motivo estas últimas actividades despertam de uma forma tão natural e são tão
vitais para o nosso bem-estar que sem elas nem parece valer a pena viver.
Infelizmente, não é assim que a maioria das pessoas que estuda
Humanidades com intuitos profissionais encara a questão. O mais provável é
considerarem a ciência em geral e a evolução em particular irrelevantes para as
suas preocupações ou mesmo uma ameaça a tudo o que lhes é caro.
Talvez mesmo aqueles que sentem curiosidade por estas ideias se sintam
ameaçados pela sua falta de formação científica básica, o que os põe numa
posição de novatos e não de conhecedores. A situação é tão má que ainda não é
profissionalmente aceitável para membros dos departamentos de Humanidades
namoriscarem a evolução. Bill McNeill detém uma posição tão sólida que pode
fazer o que lhe apetece. Geoff Milier é membro de um departamento de
Psicologia, onde a ciência e a evolução são mais respeitáveis. Steve Brown ganha
a vida no campo médico da neuro-imagem e já desistiu de tentar arranjar
emprego como musicólogo. Elien Dissanayake sobrevive de uma forma precária
como profissional independente sem uma posição académica permanente. O
trabalho de Kathryn Coe é no domínio da saúde pública. Estas pessoas são
pioneiras no estudo das humanidades de uma perspectiva evolutiva, e nem uma
única tem trabalho num departamento de Humanidades. Não admira que as
suas ideias permaneçam na fase especulativa!
Eu próprio tive contacto com este tipo de resistência quando um jovem
chamado Jonathan Gottschall apareceu à porta do meu gabinete há vários anos.
Era um estudante de pós-graduação do nosso departamento de Inglês que
queria escrever a tese sobre a Ilíada, de Homero, numa perspectiva evolutiva,
mas tinha sido proibido de o fazer pelo seu orientador. Acabou por ser ele a
levar a melhor, o que só conseguiu formando uma comissão de dissertação
inteiramente composta por membros exteriores ao seu departamento. Depois de
obter o doutoramento, decidimos publicar um livro com textos de vários autores
intitulado The Literary Animal: Evolution and the Nature of Narrative.
Quando tentámos encontrar um editor para esse volume, pude saborear a forma
como o mundo académico pode rivalizar com o criacionismo religioso no seu
medo e intolerância para com a evolução.
Jon começou por descobrir por si próprio a evolução, tal como os autores
dos artigos da Behavioral and Brain Sciences que descrevi no capítulo 1.
Aconteceu-lhe comprar um exemplar em segunda mão de O Macaco Nu, escrito
em 1967 por Desmond Morris, um dos primeiros cientistas dos tempos recentes
a sugerir a um vasto público que a evolução podia ter qualquer coisa a dizer
sobre a nossa espécie. Ao mesmo tempo, Jon estava também a reler a Ilíada, de
Homero, num seminário de pós-graduação. Eis como ele descreve a experiência
que o surpreendeu na introdução do referido volume: «Como sempre, Homero
fez os meus ossos vacilarem e doerem sob o peso de todo o terror e beleza da
condição humana. Mas nessa altura eu também senti a Ilíada como um drama
de macacos nus — a pavonearem-se, bem ataviados, a lutarem, a tatuarem o
peito e a apregoarem em altos gritos o seu poder na feroz competição para
alcançarem o predomínio social, parceiras desejáveis e recursos materiais.
Longe de diminuir a minha simpatia pelas personagens, a revelação da lógica
evolutiva intemporal subjacente a toda a mesquinhez do ciúme, das
infidelidades, das questiúnculas, das mentiras, das trafulhices, das violações,
dos homicídios constantes do enredo do poema conferiram-lhe, aos meus olhos,
um novo tipo de dignidade. Como Darwin escreveu, e como todos os
evolucionistas sabem no seu íntimo, existe grandeza nesta perspectiva da vida »
Os teóricos literários e culturais orgulham-se da sua tolerância. Afinal, um
dos principais dogmas do pós-modernismo e que todos os sistemas de crenças
têm de ser aceites tal como são. Todavia, essa tolerância não se alargou a teoria
da evolução, como Jon descobriu quando tentou debater o seu novo interesse
com os professores e os colegas «Os professores mais velhos, çomo o que
leccionava a poesia épica, pareciam encarar a perspectiva do ‘macaco nu’ como
um insulto de um parolo a humanidade e a grande arte Os professores mais
jovens, bem como os meus colegas de pos-graduação, encaravam-na como algo
ainda pior. Depressa aprendi que, quando eu falava de comportamento
humano, de psicologia e de cultura em termos de evolução, as suas mentes
revolviam um processo instantâneo e inconsciente de tradução e o que ouviam
era ‘Hitler’, ‘Galton’, ‘Spencer’, ‘diferenças de QI’, ‘holocausto’, ‘frenologia
racial’, ‘esterilização forçada’, ‘determinismo genetico’, ‘fundamentalismo
darwiniano’ e ‘imperialismo disciplinar’ [ ] Uma mulher a quem eu conhecia
bem pareceu falar por todos os presentes no seminário quando se virou para
mim e disse, a abanar a cabeça com um misto de tristeza, de piedade e de
esperança obstinada: ‘Não estás mesmo convencido disso, pois não, Jon?’»
Havia diversos motivos para eu encorajar Jon e unir forças com ele a fim
de produzir o tal livro. A um nível pessoal, sou filho de um romancista. O meu
pai era Sloan Wilson, autor de livros como The Man in the Gray Flanel Suit e A
Summer Place. Sempre senti que o meu zelo por estudar todas as coisas
humanas de uma perspectiva evolutiva é semelhante ao zelo do meu pai e de
outros romancistas por explorar a condição humana. A um nível profissional, a
literatura proporciona uma forma sem paralelo de adquirir conhecimentos
acerca de outras culturas. Uma obra épica como a Ilíada, de Homero, não pode
ser considerada história literal, mas quem quer que deseje conhecer como
pensavam e agiam as pessoas numa dada época devia ler as suas histórias além
das reconstruções académicas da sua história. A literatura reflecte temas básicos
da evolução que se aplicam a muitas espécies, como Jon descobriu em relação à
Ilíada. Alguém que colaborou com o nosso livro observa com humor que, se os
babuínos soubessem ler, ficariam fascinados com Shakespeare. Todavia, a
literatura também desempenha um papel fundamental na evolução cultural.
Mais atrás neste capítulo afirmei que a principal adaptação humana é no
sentido de os nossos comportamentos serem adquiridos cada vez menos
directamente a partir dos nossos genes e cada vez mais a partir de outras
pessoas. Sem dúvida que as histórias e outras narrativas desempenham um
papel neste processo, juntamente com a dança, a música e as artes visuais.
A obra The Literary Animal destinava-se a ajudar a consolidar o campo
nascente do darwinismo literário através da identificação e da exploração destes
temas. Seria equilibrada, incluindo contributos de pessoas com formação em
análise literária que, como Jon, se tinham começado a interessar pela evolução,
e de evolucionistas como eu que estavam ansiosos por incluir a literatura no
estudo de todas as coisas humanas. Representaria uma pluralidade de pontos de
vista, como se impunha para uma iniciativa de tipo novo como aquela.
Conseguimos reunir um grupo extraordinário de colaboradores, incluindo
pioneiros do darwinismo cultural como Joseph Carroll, sumidades do mundo da
biologia como Ed Wilson, personalidades do domínio da análise literária, como
Denis Dutton (que, além de produzir a sua própria obra, dirige o site Arts and
Letters Daily: http:/Iwww. aldaily.com) e mesmo o autor britânico lan
McEwan, cujo romance O Fardo do Amor foi inspirado em parte em temas
evolutivos. Com um assunto de tal monta e um tal escol de autores, fiquei certo
de que não teríamos dificuldade em arranjar um editor académico.
Começámos por propor o livro à University of Chicago Press, que tinha
acabado de publicar a minha obra Darwin’s Cathedral. Agradou-me trabalhar
com a minha editora, Christie Henry, pelo que me pareceu natural ser ela a
ocupar-se de The Literary Animal. O processo de revisão decorreu sem atritos
até, para espanto dela, o manuscrito ser rejeitado pelo conselho executivo,
constituído por membros do corpo docente que supervisiona a University of
Chicago Press. Um ou mais membros desse conselho tinham caído sobre nós
como um deus vingador e atacado o nosso livro! A University of Chicago Press
podia publicar um livro sobre religião de uma perspectiva evolutiva, mas não
podia publicar um livro sobre literatura de uma perspectiva evolutiva!
Abordámos então outras grandes editoras de universidades, incluindo
Harvard, Princeton, Yale, Oxford e Cambridge. Em todos os casos o editor de
biologia manifestava-se interessado, mas a proposta não passava do editor
literário. Soltámos um grande suspiro de alívio quando finalmente encontrámos
um editor na Northwestern University Press.
Na altura em que escrevo estas palavras, The Literary Animal acaba de ser
publicado e está a atrair o género de atenção que esperávamos, dando origem a
recensões e artigos em fóruns científicos como a Nature e a Science e em fóruns
intelectuais de grande divulgação como a New York Times Sunday Magazine.
Creio que Jon e eu nos deveríamos sentir vingados e contentes depois de termos
sido rejeitados por tantas editoras, mas anseio pelo dia em que o estudo, de uma
perspectiva evolutiva, da literatura, das artes visuais, da música, da dança e de
todos os outros assuntos associados às humanidades seja incontroverso. A
actual controvérsia é como a Torre de Babel, que não pode ser construída
quando toda a gente fala uma língua diferente. A teoria da evolução fornece uma
linguagem comum capaz de apagar as distinções entre as ciências duras, as
ciências sociais e as humanidades. Quando falarmos uma língua comum,
poderemos passar a controvérsias mais construtivas de que resulte um
progresso genuíno. É esta a visão que perseguimos na minha universidade, e
alegra-me referir que inúmeros alunos e docentes dos departamentos de
Humanidades se tornaram participantes entusiásticos do EvoS.
Pensa-se muitas vezes que a ciência rouba importância e vitalidade às
artes. É irónico a teoria da evolução conduzir a uma concepção das artes como
uma parte tão relevante da nossa «fisiologia social» que estas podem mesmo ser
consideradas órgãos vitais.

25
O Dr. Doolittle tinha razão

Quem não fica encantado ao pensar no Dr. Doolittlea conversar com o seu
papagaio, Polynesia, em inglês e com outros animais nas suas próprias línguas?
Claro que isto é apenas uma história. Não é verdade que a linguagem e a
capacidade de pensamento simbólico são as jóias da coroa da singularidade
humana? Talvez, mas num mundo em que os macacos não apontam e em que os
bebés conseguem inferir as intenções dos adultos há espaço para um papagaio
que é capaz de pensar simbolicamente e de falar sobre isso em inglês.
A nossa história começa com Terrence Deacon, um polímata cuja obra The
Symbolic Species é uma estimulante mistura de evolução, neurociência e
desenvolvimento. A última vez que o ouvi falar, ele conseguiu mesmo incluir a
formação dos flocos de neve na conferência. Terry acredita que o pensamento
simbólico é mesmo exclusivo dos seres humanos mas que, apesar disso, evoluiu
directamente a partir do pensamento não simbólico dos símios. Isto é como
tirar um coelho da cartola. Como pode uma coisa exclusiva derivar de um
processo que exige continuidade? Para ver como Terry explica isso, temos de
considerar a natureza do pensamento simbólico em comparação com outras
maneiras de pensar. Imagine que eu digo repetidamente a palavra «queijo» a
um rato enquanto lhe dou a comer um bocado de queijo. Depressa o animal irá
associar a palavra ao objecto, tal como os cães de Pavlov associavam o som de
uma campainha à comida. Agora imagine que eu continuo a repetir a palavra
«queijo», mas sem dar queijo ao mesmo tempo. Será tão certo o rato deixar de
associar a palavra ao objecto como ter formado a associação na situação inicial.
Agora imagine que uma pessoa perversa lhe diz a si a palavra «queijo» um
milhão de vezes sem lhe oferecer queijo. Pode ficar com vontade de o esmurrar,
mas continuará a associar a palavra ao objecto, ainda que eles não existam em
simultâneo no seu meio ambiente. Acontece mesmo todos associarmos a
palavra «fantasma» a uma coisa que provavelmente nunca vimos na vida!
É isso que o pensamento simbólico tem de especial. Com o
condicionamento pavloviano, as associações mentais correspondem às
associações que de facto existem no meio ambiente. Mas com o pensamento
simbólico as associáções tornam-se desligadas das associações ambientais, o
que permite que adquiram uma vida própria.
Passemos agora ao floreado imaginativo que permitiu a Terry tirar o
coelho da singularidade humana da cartola da continuidade evolutiva. O
pensamento simbólico não é necessariamente difícil em termos computacionais.
É possível que não exija um cérebro maior ou sequer diferente do que as outras
espécies possuem. O problema com o pensamento simbólico é que ele não é útil.
De que serve criar associações mentais permanentes que não existem no mundo
real quando a sobrevivência e a reprodução dependem de descobrir as
associações que existem?
Por conseguinte, o truque para explicar por que motivo somos a única
espécie que pensa simbolicamente consiste em mostrar como o pensamento
simbólico se tornou útil para os nossos antepassados, ao contrário de
praticamente todas as outras espécies. A resposta já foi dada no capítulo 22. O
pensamento simbólico é fundamentalmente comum e exige a travessia da
divisória da cooperação. Tem o seu lugar em paralelo com os nossos olhos, a
nossa capacidade de apontar e a nossa natureza artística, como uma semente
que só aguarda o ambiente social apropriado para crescer.
O truque mágico de Terry tem uma implicação extraordinária: se os
rudimentos do pensamento simbólico não forem difíceis em termos
computacionais, talvez possam ser ensinados aos outros animais. Isto não seria
uma questão de descobrir como eles já pensam das maneiras insondáveis que
lhes são próprias, mas de os ensinar a pensar mais como nós do que como a sua
própria espécie, como um urso a andar de bicicleta. Para ver se isto se tinha
concretizado, Terry avaliou as numerosas tentativas de ensinar os nossos
parentes macacos a usarem a linguagem. Os símios não têm a capacidade de
produzir sons que lhes permitam falar (outra coisa que evoluiu na nossa espécie,
paralelamente à nossa capacidade de comunicar com os olhos), por isso os
esforços centraram-se em ensinar-lhes linguagem dos sinais ou um sistema de
simbolos numa consola de computador que pode ser activado em sequência, tal
como as palavras são proferidas em sequência. O método do computador é
usado por Sue Savage-Rumbaugh e Duane Rumbaugh na Georgia State
University e tem a vantagem de registar cada vez que se carrega numa tecla, o
que fornece um registo detalhado do processo de aprendizagem e do sistema de
pensamento dele resultante. Por exemplo, algumas teclas referem-se a verbos
como «comer» ou «beber», enquanto outras se referem a nomes como
«banana» ou «sumo». As sequências correctas como «comer banana» ou
«beber sumo» são recompensadas, enquanto as frases incorrectas como «beber
banana» ou «sumo comer» não o são. Os macacos tornam-se competentes em
aprender as combinações certas, embora alguns se revelem muito melhores do
que outros e sejam necessárias muitas centenas de tentativas mesmo para
aqueles que conseguem. A questão consiste em saber se eles se limitaram a
aprender um grande número de associações específicas ou se começaram a
compreender um sistema mais geral de relações representado pelos símbolos. O
teste consiste em introduzir alguns novos símbolos para um novo objecto, como
«uva». Se o macaco estiver a pensar simbolicamente, compreenderá que uma
uva se inclui na categoria de «alimentos sólidos» e dirá imediatamente
(carregando nas teclas na sequência apropriada) «comer uva». Não há nada a
aprender porque uma uva se inclui num sistema de categorias e de relações que
já foi aprendido — é nisso que consiste o pensamento simbólico. Se o macaco se
limitou a aprender um grande número de associações específicas, apenas
repetirá coisas como «beber uva» e «uva banana» antes de aprender que
combinação é recompensada. Segundo Terry, só algumas experiências com
linguagem de macacos conseguiram ensinar pensamento simbólico e essas
exigiram técnicas de treino muito especializadas. Contudo, mesmo que isso só
tivesse acontecido uma vez, demonstraria a extraordinária possibilidade de uma
espécie não humana poder ser ensinada a pensar simbolicamente.
De longe, o campeão do pensamento simbólico entre os símios é um
bonobo chamado Kanzi. Em bebé, Kanzi foi criado por uma mãe de
substituição, uma chimpanzé chamada Matata. Esta foi submetida a uma
experiência de aprendizagem de linguagem, com Kanzi ainda bebé a gatinhar à
volta dela e sempre a incomodar. Porém, Kanzi ultrapassou em muito a mãe
sem nenhum do treino formal que ela estava a receber, tal como as crianças
muito pequenas aprendem a falar espontaneamente com os adultos, enquanto
estes só com dificuldade aprendem uma segunda língua. Kanzi tornou-se tão
bom que aprendeu a perceber inglês embora só soubesse falar através dos
símbolos da consola do computador.
Kanzi tem aparecido em muitos documentários científicos, incluindo um
episódio de uma série da Nature da Public Broadcasting Corporation intitulado
«Macaco ao Espelho». A sequência abre com ele num piquenique,
acompanhado por dois dos seus tratadores humanos, a cortar uma maçã às
fatias com grande habilidade, a enrolá-las em folha de alumínio e a pô-las ao
lume. «Fecha-as bem!», disse um dos tratadores a Kanzi. E o bonobo enrola
bem as maçãs no alumínio. Ao pedido «Podes pôr as maçãs ao lume?», ele, sem
se apressar, põe o embrulho na frigideira. De regresso ao laboratório, Kanzi
senta-se entre um conjunto de objectos com uma tratadora à sua frente, com o
rosto tapado por uma máscara de soldador a fim de ocultar quaisquer sinais que
pudessem ser transmitidos inadvertidamente através de expressões faciais.
«Podias pôr sabonete na bola?», pede ela, e Kanzi responde espremendo um
pouco de sabonete líquido para uma bola de basquete, embora até então nunca
lhe tivessem pedido que o fizesse. Kanzi continua a responder correctamente a
uma série de pedidos cada vez mais bizarros, como: «Podes pôr as agulhas de
pinheiro no frigorífico?» Quando ela lhe pede que despeje a água Perrier na
gelatina, ele escolhe correctamente a garrafa de água Perrier e não o jarro com
água normal. Quando lhe diz que vá buscar as agulhas de pinheiro que estão no
frigorífico, ele ignora as agulhas de pinheiro que estão ao seu lado e vai buscar
as que tinha metido no frigorífico. A sequência termina com o pedido mais
bizarro de todos: «Leva o aspirador lá para fora.» Kanzi começa por pegar no fio
eléctrico do aspirador, mas pára e olha para a tratadora com a máscara, como
que a dizer «Queres que eu faça o quê?» Ela repete o pedido e ele puxa o
aspirador pelo fio até à porta do recinto onde se encontra, ao lar livre, pega nele
e fá-lo passar a porta. Estas e outras demonstrações fornecem uma prova
inquestionável de que Kanzi compreende o inglês falado e já ultrapassou em
muito a aprendizagem de associações específicas.
Os papagaios dispõem do equipamento vocal necessário para falar a
linguagem dos seres humanos. Será possível ensiná-los a pensar
simbolicamente, permitindo-lhes falar connosco como o papagaio do Dr.
Doolittle? Esta possibilidade não é tão ridícula como poderia parecer à primeira
vista. Em primeiro lugal a inteligência não é uma escala linear, com os seres
humanos numa extremidade, os símios a seguir e qualquer coisa como um
papagaio muito mais para baixo. Até os evolucionistas cometem este erro.
Ficamos extasiados quando vemos um chimpanzé usar um pauzinho para ver se
há térmitas num buraco ou quando um gorila pega num ramo para se apoiar ao
atravessar um rio, como se estivéssemos a ver o dealbar do uso de utensílios na
nossa própria espécie. Depois esfregamos os olhos de incredulidade quando os
corvos da ilha de Nova Caledónia do Pacífico (mas não de outros locais) fazem
ganchos para tirar larvas de escaravelhos dos buracos e fendas das árvores.
Descobriu-se que muitas aves da família dos psitacídeos (que inclui os
papagaios) e dos corvídeos (que inclui os corvos) possuem o mesmo tipo de
inteligência flexível que associamos aos primatas, em parte porque vivem no
mesmo tipo de grupos sociais e procuram o mesmo tipo de alimentos. Em
segundo lugar, não estamos necessariamente a pressupor que os papagaios, tal
como os macacos, evoluíram no sentido do pensamento simbólico. A questão é
se podem ser treinados para pensar mais como nós do que como a sua espécie.
Em terceiro lugar, se Terry Deacon tiver razão, o pensamento simbólico não é
assim tão complicado, desde que se saiba para o que se vai treinar.
Foi preciso uma não especialista como Irene Pepperberg para tentar algo
tão escandaloso como ensinar mesmo um papagaio a falar. Irene era uma filha
única que cresceu num apartamento por cima de uma loja em Nova Iorque,
onde passava uma quantidade de tempo a falar com o seu periquito de
estimação. O pai dela queria ser bioquímico, mas tornou-se professor primário
por não ter dinheiro para pagar os estudos universitários. A mãe era uma dona
de casa que de vez em quando trabalhava como contabilista. Inicialmente Irene
tinha medo da Química, mas, encorajada pelo pai, descobriu que era boa nessa
disciplina. Licenciou-se no MIT e estava a trabalhar no doutoramento em
Química Teórica em Harvard quando começou a ver os programas sobre ciência
e sobre a natureza, como o Nova, que passavam na televisão. Até então o seu
único contacto com a biologia na faculdade tinha sido do género de «cortar em
cubos e fatias» (para usar as suas próprias palavras) e o único programa
televisivo sobre a natureza era o Wild Kingdom, com Marlin Perkins e o seu
companheiro inseparável, o robusto Stan Brock, a lutarem com anacondas e a
fazerem muitas outras façanhas.
A ideia de que era possível fazer carreira a estudar animais sem ter de os
cortar às postas foi uma revelação para Irene. Harvard era um bom centro para
esse tipo de investigação, mas isso era invisível para alguém que estudava
Química Teórica. Quando ela viu programas sobre experiências destinadas a
ensinar linguagem aos macacos, ocorreu-lhe imediatamente a ideia de usar
papagaios. Como era demasiado tarde para mudar a sua formação, passou os
últimos dois anos em Harvard a frequentar as disciplinas que queria fazer ao
mesmo tempo que prosseguia com o doutoramento em Química. Depois de
obter este grau académico, seguiu o marido até à Purdue University, onde ele
tinha um emprego e ela conseguiu um cargo, tal como Anna, a minha mulher.
Foi aí que comprou Alex, um papagaio africano cinzento, que os iria tornar
famosos a ambos. A primeira candidatura a uma bolsa que Irene redigiu a fim
de conseguir fundos para financiar a sua investigação foi rejeitada. Como ela
diz, o conteúdo dos pareceres era do género: «Que anda você a fumar?» Por fim
conseguiu financiamento e lançou-se na sua carreira, embora apenas graças a
benfeitores que consideravam o trabalho dela revolucionário e estavam
dispostos a lutar por ela.
Irene treinou Alex incluindo-o numa conversa a três em que participava
outra pessoa. Por exemplo, Irene podia pegar numa rolha e perguntar à outra
pessoa: «O que é isto?» Perante a resposta, «Rolha», Irene estendia a rolha à
outra pessoa, que, com um ar deliciado, a desfazia em bocadinhos. Depois
viravam-se para Alex e perguntavam-lhe o que era. Se ele respondesse com um
som semelhante a «rolha», recebia uma rolha para desfazer. Em vez de comida,
o objecto era a recompensa por dar uma resposta certa. Só mais tarde, quando
Alex já tinha construído um vocabulário e podia pedir outra coisa qualquer por
ter dado a resposta certa, a recompensa passou a ser comida.
Muitos anos mais tarde, Alex manifesta os mesmos indícios assombrosos
de pensamento simbólico que Kanzi, ainda mais extraordinários por serem
expressos em inglês e não a digitar nas teclas de uma consola de computador.
Numa sessão de treino mostrada num episodio de Scientific American
Frontiers, Alex aparece a identificar as formas e cores de liversos objectos, mas
mostra verdadeira inteligência quando perde interesse e declara: «Vou-me
embora!» Além desta capacidade verbal, Alex é capaz de contar até seis o
número de objectos à sua frente e domina os conceitos de maior/mais pequeno,
o mesmo/diferente e a ausência de diferença. Por exemplo, quando lhe
perguntam a diferença entre cubos vermelhos e azuis do mesmo tamanho, ele
responde: «Cor.» Quando lhe perguntam a diferença entre dois cubos azuis do
mesmo tamanho, ele responde: «Nenhuma.» Até sabe que um número (como
seis) é maior que outro (como quatro) quando lhe mostram os algarismos
árabes!
O momento alto de Alex teve lugar durante uma demonstração que Irene
estava a fazer para alguns potenciais mecenas da sua investigação. Ela estava a
mostrar que Alex tinha aprendido o som de cada letra, mas ele estava
principalmente interessado em comer nozes. Pondo-lhe à frente uma bandeja
com letras magneticas coloridas, dessas que se põem no frigorífico, Irene
perguntou: «Que som é azul?»
Alex pronunciou correctamente o som do T azul e acrescentou: «Quero
uma noz.»
Irene tentou distraí-lo fazendo outra pergunta: «Que som é roxo?»
Alex pronunciou correctamente o som do S roxo e repetiu: «Quero uma
noz!»
Irene tentou fazer-lhe outra pergunta, mas Alex perdeu a paciência e
interrompeu-a: «Quero uma noz! N-O-Z», pronunciando as três letras da
palavra!
É importante não exagerar as proezas de Alex, de Kanzi e de outros
animais que aprenderam a pensar e a comunicar simbolicamente. Isto não quer
dizer que eles tenham conversas íntimas com as pessoas que cuidam deles. Mais
de 90 por cento do que Kanzi manifesta carregando nas teclas tem a ver com
obter coisas. De igual modo, Alex fala principalmente para conseguir alimento
ou atenção. Também é importante ser modesto com o que tem sido
demonstrado cientificamente. Talvez estes animais tenham sido ensinados a
pensar mais como nós do que como a sua própria espécie, à semelhança do urso
que anda de bicicleta, ou talvez pensem e falem simbolicamente uns com os
outros utilizando linguagens que nós ainda não decifrámos. Já é extraordinário
que tenham aprendido a falar e a pensar simbolicamente, mas talvez no futuro
seja possível conceber métodos de treino ainda melhores. Nunca saberemos se
não prosseguirmos com este género de investigação, que, infelizmente, se
tornou tão precária nos Estados Unidos como a das raposas-prateadas na
Rússia, que descrevi no capítulo 7. Em 1999 Irene deixou de ser financiada por
fontes federais como a National Science Foundation, o que a forçou a lançar-se
numa busca frenética de mecenas privados e até a vender canecas com a
imagem de Alex e brincos feitos com as penas dele. Se desejar contribuir com
um donativo, visite a Alex Foundation (http://www.alexfoundation.org) na
Internet. Alex e dois outros papagaios que estão a ser treinados, Griffin e
Arthur, são forçados a partilhar um espaço comum, o que torna difícil ensiná-
los independentemente e realizar experiências controladas. No entanto, essas
condições permitem a Alex desempenhar o papel de professor mal-humorado.
Quando as aves mais novas estão a ser ensinadas pode acontecer ele
interromper com comentários como: «Fala de maneira que se perceba!»
Apesar de tudo o que não se sabe, Alex e Kanzi dão-nos uma informação
extraordinariamente importante sobre a evolução humana. Não precisamos de
pressupor a existência de uma criação mental mágica para explicar as jóias da
coroa da singularidade humana. As sementes do pensamen to simbólico existem
latentes em macacos e até em papagaios, à espera do meio ambiente propício
para serem favorecidas pela selecção natural, o meio fértil a que obtivemos
acesso atravessando a divisoria da cooperação.

26
Quantos inventores são precisos para criar uma
lâmpada?

Quantos gestores de qualidade são precisos para mudar uma lâmpada?


Formámos um círculo de qualidade para estudar o problema do motivo pelo
qual as lâmpadas se fundem e para determinar a melhor coisa que nós, gestores,
podemos fazer para permitir que elas funcionem de forma mais inteligente, e
não com mais intensidade.
As piadas com lâmpadas (há milhares delas) são divertidas porque
apresentam grupos de pessoas a fazerem mal o que uma única pessoa pode fazer
com facilidade. Curiosamente, grande parte da literatura científica sobre o
modo como as pessoas pensam em grupo assemelha-se às anedotas da lâmpada.
Veja-se o conceito de pensamento de grupo, uma expressão criada por Irving
Janis na década de 1970 para descrever grupos como unidades disfuncionais de
tomada de decisão. Como ele afirmou: «Uso a expressão ‘pensamento de grupo’
como uma maneira rápida e fácil de referir um modo de pensar que as pessoas
adoptam quando estão profundamente envolvidas num grupo coeso, quando os
esforços dos membros no sentido de conseguirem a unanimidade ultrapassam a
sua motivação para avaliarem de maneira realista vias de acção alternativas. O
pensamento de grupo tem a ver com uma deterioração da eficácia mental, do
teste da realidade e do julgamento moral que resulta das pressões do grupo.»
Janis interpretou alguns fracassos famosos da política externa como exemplos
de pensamento de grupo. Como é evidente, construir uma política externa é
como mudar uma lâmpada — qualquer coisa que fica mais bem feita por
indivíduos e que fica mal feita por grupos.
Ou então pense-se no conceito de brainstorming. Em 1939, um executivo
de publicidade chamado Alex Osborne afirmou que os seus empregados
produziam ideias melhores e mais abundantes em grupo do que sozinhos. Os
psicólogos realizaram dezenas de experiências destinadas a testar esta
afirmação comparando o desempenho de grupos de brainstorming com o
desempenho de um igual número de indivíduos a pensar sozinhos (aquilo a que
se chama «grupos nominais»). Os resultados foram tão uniformemente
negativos que um artigo de 1991 concluiu: «Parece ser particularmente difícil
defender técnicas de brainstorming em termos de quaisquer resultados de
desempenho e a popularidade de que há muito desfrutam as técnicas de
brainstorming é inequívoca e substantivamente injustificada.»
Estes resultados aparentemente indiscutíveis desafiam o conceito de
trabalho mental de grupo que esbocei nos últimos cinco capítulos. Julgo que
seria de esperar precisamente o oposto. As abelhas pensam tão bem em grupo
que se fundem numa única mente, como mostrei no capítulo 20. Se os membros
dos grupos humanos associam os seus músculos em actividades físicas
cooperativas, não deveriam também associar as suas mentes? Temos vivido em
grupos durante toda a nossa história enquanto espécie e quanto mais
importante é o que está em jogo quanto mais «profundamente envolvidos
estamos num grupo coeso» —, melhor a nossa tomada de decisões colectiva se
deveria tornar. A ideia da evolução humana como uma longa anedota sobre uma
lâmpada não faz qualquer sentido — embora pareça sustentada por um enorme
corpo de investigação científica.
Há dez anos decidi resolver esta questão por mim mesmo. Talvez lhe
interesse saber como abordo um novo assunto como este sem qualquer
formação prévia. O primeiro passo que dei consistiu em digitar «tomada de
decisões em grupo» e «resolução de problemas em grupo» no PsychoInfo, um
serviço computorizado especializado na pesquisa de literatura psicológica.
Bastou carregar num botão para receber as citações e resumos de 495 artigos,
que imprimi e coloquei num grande dossiê. Levaria muito tempo a ler todos
esses artigos, mas os resumos podem ser lidos em poucas horas. Foi o que fiz
durante um fim-de-semana, e elaborei uma lista dos artigos mais relevantes,
que me pareceu que valia a pena ler na totalidade. Como seria de esperar do
arquipélago de marfim, os artigos representavam muitos grupos de investigação
que só parcialmente comunicavam entre si. Tive imediatamente uma
panorâmica geral do assunto que ultrapassava a maioria dos especialistas. À
medida que a minha investigação se ia aprofundando, ia-me encontrando ou ia
comunicando por e-mail com alguns dos autores e perguntava-lhes: «Está a par
da investigação tal e tal sobre o assunto tal e tal?» Era frequente eles nunca
terem ouvido falar disso, o que me deixava na posição invulgar de os aconselhar
sobre um tema que lhes dizia respeito.
Fiquei com uma caixa cheia de peças de puzzle para montar, usando a
teoria da evolução como a imagem da caixa, tal como tinha acontecido com
Margie Profet em relação ao tema dos enjoos da gravidez e a Matt Gervais em
relação ao tema do riso. Além disso, eu queria conduzir a minha própria
investigação. Tinha ideia de que as tarefas mentais usadas na maioria das
experiências psicológicas não eram suficientemente difíceis. Afinal, uma tarefa
física trivial, como mudar uma lâmpada, é mais bem desempenhada por um
único indivíduo, e haver mais pessoas só empata. É preciso uma tarefa mais
difícil, como deslocar um piano, para mostrar as vantagens da cooperação física.
Tornando a tarefa mental suficientemente difícil, talvez se pudessem mostrar as
vantagens da cooperação mental onde esforços anteriores haviam fracassado.
Ao longo deste livro tenho tentado representar a ciência como uma
actividade terra-a-terra, a realizar de mangas arregaçadas, como a jardinagem
ou a construção. É um trabalho duro, mas não demasiado duro, já que as
recompensas são suficientemente grandes. Se é exigido tanto esforço é por a
ciência ter a ver com responsabilidade. Pelo menos no que se refere a algumas
tarefas mentais, precisava de provar a uma comunidade de pessoas muito
inteligentes que provavelmente iriam acolher as minhas afirmações com
cepticismo que os grupos ultrapassam os indivíduos. Os meus métodos e
resultados seriam analisados com todo o cuidado até ao mais ínfimo pormenor.
Um movimento em falso levaria o meu estudo a ser rejeitado para publicação ou
a ser desacreditado posteriormente.
Um trabalho tão difícil como este exige ajuda, independentemente do que
os psicólogos possam dizer sobre o pensamento de grupo e o brainstorming. Os
meus parceiros para este projecto foram Ralph Miller, um distinto psicólogo da
minha universidade, e o meu aluno de pós-graduação John Timmel. Ralph
realiza experiências meticulosas sobre aprendizagem em ratos e seres humanos,
mas também gosta de me acompanhar nas minhas incursões bárbaras neste
campo. John é filho de um advogado e de uma dona de casa e cresceu em State
Island, ao lado de um parque com bosques e pântanos. Adorava apanhar cobras
e rãs, e a mãe permitia-lhe ter um pequeno jardim zoológico de animais de
estimação. Ele frequentou escolas católicas e alistou-se na Marinha para poder
frequentar a universidade ao abrigo da G. I. Bill, uma lei que oferecia
oportunidades a militares. Ingressou num curso de pós-graduação a pensar que
iria estudar qualquer coisa como cobras e rãs, mas, depois de concluir uma das
disciplinas que lecciono, depressa ficou fascinado com o estudo do
comportamento humano de uma perspectiva evolutiva.
O nosso primeiro desafio consistiu em decidir que tipo de tarefa mental
seria realizado por indivíduos e por grupos. Depois de muito reflectirmos,
escolhemos o jogo infantil das vinte perguntas, que envolve descobrir uma
palavra fazendo perguntas que podem obter como resposta «sim», «não» ou
«ambíguo». Escolhemos este jogo por um certo número de razões. A maioria
das pessoas conhece-o, pelo que não são necessárias grandes explicações. É uma
tarefa mental difícil, especialmente quando a palavra a ser adivinhada é
obscura. Para um dado jogo, a dificuldade vai aumentando, à medida que cada
pergunta e a sua resposta se vão juntar à quantidade de informação que tem de
ser memorizada para fazer a pergunta seguinte. Finalmente, o jogo pode ser
jogado por indivíduos ou por grupos. Como iriam os grupos sair-se em
comparação com os indivíduos? E a sua vantagem aumentaria com a dificuldade
do jogo?
A palavra que os pusemos a adivinhar era o nome de uma profissão,
definida como qualquer coisa que pode ser feita para ganhar a vida. Antes da
experiência, a fim de obter uma lista de nomes de profissões, pedimos a
quarenta alunos que fizessem uma lista de todas as profissões de que se
lembrassem durante um período de uma hora e que compilassem as suas
respostas numa lista principal, em que reuniram 442 nomes de profissões.
Também verificámos o número de listas em que aparecia o nome de uma dada
profissão. Por exemplo, «médico» constava das quarenta listas, enquanto
«assentador de tijolos» estava incluído apenas numa lista. Isto, só por si, já dá
uma informação interessante sobre a organização da memória. Toda a gente
sabe que «assentador de tijolos» é o nome de uma profissão, mas quase
ninguém se recorda dele quando lhe pedem que faça uma lista de nomes de
profissões! O número de listas em que o nome de uma dada profissão aparecia
forneceu-nos um índice de dificuldade de recordar. Se a cooperação mental é
necessária sobretudo para tarefas difíceis, então a vantagem do desempenho dos
grupos deveria ser maior para palavras como «assentador de tijolos» do que
para palavras como «médico».
A seguir tivemos de ensinar o jogo a algumas pessoas. A maioria das
experiências de psicologia é realizada com alunos da faculdade que estão a fazer
uma disciplina de Introdução à Psicologia e têm de funcionar como cobaias
durante trinta minutos ou uma hora em várias experiências difíceis durante o
semestre. Como precisávamos dos estudantes durante um período mais longo,
criámos o nosso curso de longa duração, intitulado «Evolução e Psicologia da
Tomada de Decisões». A experiência teria lugar durante as primeiras semanas
do curso, com os alunos a funcionarem como cobaias. Depois eles ajudariam a
analisar a experiência durante o resto do curso, ao mesmo tempo que liam e
discutiam a literatura científica. Pode parecer estranho utilizar assim um curso
para realizar uma experiência, mas ele proporcionava uma actividade
educacional muito mais rica do que um curso normal, como os próprios alunos
salientaram na sua avaliação final.
Após semanas de planeamento, finalmente teve início a nossa grande
experiência, quando trinta e seis alunos entraram na aula no início do semestre.
Metade participaram no jogo individualmente e a outra metade em grupos de
três indivíduos durante cinco sessões de uma hora ao longo de um período de
duas semanas (fase I). Em seguida os seus papéis inverteram-se durante quatro
sessões adicionais de uma hora (fase II), de modo que cada aluno participava no
jogo individualmente e como membro de um grupo. Cada sessão tinha lugar
numa sala sem mobiliário que não fosse uma mesa e cadeiras, a fim de evitar
dicas. A palavra a ser adivinhada era escolhida ao acaso da lista principal e, mal
um jogo acabava, começava outro até a hora chegar ao fim. Não havia limite de
tempo para um jogo e os que estivessem incompletos no fim da hora eram
excluídos da análise. Nada podia ser anotado por escrito, mas, à parte isso, os
indivíduos e os grupos eram livres de jogar como quisessem. O monitor (John
ou um ajudante que não fosse aluno do curso), anotava cada pergunta, cada
resposta e o tempo necessário para fazer cada pergunta, ficando com um registo
de cada jogo. Os alunos recebiam instruções para não falarem sobre os jogos e
especialmente para não discutirem estratégias fora das sessões de uma hora.
Pode parecer enfadonho estar a enumerar todos estes pormenores, mas é
este o preço da responsabilidade científica. Ralph, John e eu não nos
aborrecíamos mesmo nada enquanto discutíamos os prós e os contras de os
grupos deverem integrar somente pessoas do mesmo sexo ou dos dois sexos, a
necessidade de John e o seu ajudante se comportarem da mesma maneira
enquanto monitores, e dezenas de outros pontos a fim de garantir que tudo se
mantivesse constante excepto a comparação prevista entre indivíduos e grupos.
Por exemplo, imagine que tínhamos decidido pôr toda a gente a jogar primeiro
individualmente e em seguida como membro de um grupo. Isso seria uma falha
fatal porque os nossos resultados podiam ser atribuídos quer a um efeito de
grupo (indivíduos contrapostos a grupos) quer a um efeito de sequência (antes
contraposto a depois). O fundo do oceano da ciência está coberto com os
despojos de experiências que naufragaram devido a falhas fatais como estas e de
que nunca mais houve notícia. Queríamos evitar esse destino para a nossa
experiência, o que despertou em nós um enorme interesse pelos pormenores.
Mal a experiência terminou, Ralph, John e eu precipitámo-nos para
analisar os resultados a transmitir aos alunos. De um modo geral, os grupos
resolveram duas vezes mais jogos que os indivíduos. A sua vantagem no
desempenho era maior para profissões obscuras (do género de «assentador de
tijolos») do que para profissões comuns (como «médico»), exactamente como
nós havíamos previsto na base da dificuldade da tarefa. Surpreendentemente,
não havia tendência para os indivíduos ou os grupos melhorarem ao longo das
cinco sessões da fase I ou das quatro sessões da fase II. Além disso, os alunos
que participaram em grupos durante a fase I não obtiveram melhores resultados
do que os indivíduos da fase II. Como é evidente, os grupos não aprenderam
determinadas estratégias que podiam depois ter sido usadas pelos indivíduos.
Em vez disso, as vantagens de jogar como grupo exigiam estar num grupo.
Em seguida comparámos o desempenho de indivíduos que jogavam
sozinhos com o seu desempenho como membros de um grupo. Alguns alunos
eram muito melhores a jogar a solo do que outros. Um dos melhores jogadores a
solo veio a obter o seu MBA na Universidade de Yale e tornou-se um banqueiro
de investimento. Quando ele se integrava num grupo tornava-se rapidamente o
líder e dizia aos outros como deviam jogar, embora esse grupo tivesse um
desempenho fraco em comparação com outros cujos membros tinham maus
resultados como indivíduos! De uma forma geral, não havia nenhuma
correlação entre o desempenho dos indivíduos que jogavam a solo e o seu
desempenho como membros de grupos.
Estes resultados começaram a fazer sentido quando reflectimos sobre os
comportamentos exibidos pelos indivíduos e pelos grupos durante as sessões.
Os indivíduos começavam por fazer perguntas sensatas como «É necessário ter
uma licenciatura?» ou «O trabalho é realizado dentro de casa?». Porém, o jogo
prosseguia e eles começavam a debater-se sob o peso da informação que
necessitavam de manter presente para fazerem a pergunta seguinte. Alguns
descreveram a experiência como «desesperante» e receavam passar horas a
jogar sozinhos. Pelo contrário, os grupos tinham tendência a irromper em
conversas espontâneas. Era frequente desenvolver-se uma atmosfera de festa,
com aplausos para perguntas consideradas correctas e gemidos para perguntas
que pareciam não ir dar em nada. Talvez o grupo organizado pelo futuro MBA
tivesse um resultado fraco por os outros membros seguirem as suas instruções
sem grande entusiasmo e não se ter conseguido criar uma atmosfera
espontânea. O grupo médio não só tinha um desempenho melhor que o
indivíduo médio mas também se divertia mais!
Estes resultados apoiaram a minha suspeita inicial de que é necessária
uma tarefa desafiadora para mostrar as vantagens tanto da cooperação mental
como da cooperação física. No jogo das vinte perguntas, fazer a primeira
pergunta é como mudar uma lâmpada, mas fazer a décima é como deslocar um
piano. Além disso, a espontaneidade do desempenho de grupo é exactamente a
que se esperaria de uma perspectiva evolutiva. Pensar em grupo não é uma coisa
que tenhamos de aprender, como a matemática, mas uma coisa que evoluímos
para fazer sem aprender, como ver. Abrimos os olhos e vemos, sem qualquer
instrução, embora a visão exija um processo mental extraordinariamente
complexo quando estudado cientificamente. Iniciamos uma conversa
espontânea agradável sobre assuntos de interesse mútuo sem recebermos
qualquer instrução e o processo mental que tem lugar entre os indivíduos pode
ser igualmente complexo. Basta um tudo-nada de pensamento evolutivo para
imaginar que a tomada de decisões de grupo é como a visão, e a nossa humilde
experiência sugeriu que estávamos no bom caminho.
Para avançar, demos início a uma análise que exigia a participação de toda
a turma depois de a experiência estar terminada. Imagine um jogo das vinte
perguntas no qual a palavra a ser adivinhada é «marinheiro» e a primeira
pergunta feita é «O trabalho exige uma licenciatura?». Esta pergunta pode ser
respondida não só para a profissão de marinheiro, mas para todas as profissões
da lista principal, permitindo determinar a fracção das profissões excluídas pela
primeira pergunta. A segunda pergunta, como «O trabalho é realizado no
exterior?», pode de igual modo ser respondida para todas as profissões da lista
principal que não foram excluídas pela primeira pergunta. Deste modo, a
sequência de perguntas de um único jogo pode ser representada como uma
curva descendente para o número de nomes de profissões que ainda restam na
lista principal. A curva descendente tem um declive muito acentuado num jogo
bem jogado e pouco acentuado num jogo mal jogado, independentemente de os
jogadores adivinharem o nome da profissão no final do jogo. Esta análise exigiu
a construção de um grande arquivo no qual todas as perguntas feitas por
indivíduos ou por grupos para um dado número de jogos — mais de oitocentas
perguntas — foram respondidas para as 442 profissões da lista principal. Se a
nossa experiência se assemelhou à construção de uma casa, esta análise
assemelhou-se ao trabalho comunitário de construção de um celeiro. Foi um
trabalho difícil, mas não demasiado difícil porque os resultados foram muito
gratificantes. No que toca às primeiras perguntas do jogo, as curvas
descendentes foram idênticas para indivíduos e para grupos, mas depois foram-
se tornando mais inclinadas para os grupos em comparação com os indivíduos.
Só quando o processo mental se tornou difícil os grupos ultrapassaram os
indivíduos enquanto unidades de tomada de decisão.
Os cientistas são uma classe céptica. Mesmo quando uma experiência se
torna inquestionável, continuam a mostrar reservas até outro laboratório
realizar a mesma experiência e obter o mesmo resultado, ou o mesmo
laboratório demonstrar o mesmo resultado usando métodos diferentes. Por
conseguinte, depois de o jogo ter terminado, Ralph, John e eu realizámos uma
segunda experiência num formato de brainstorming a fim de confirmar os
nossos resultados. Como referi no início deste capítulo, as experiências com
brainstorming comparam o número e a criatividade das ideias geradas pelos
grupos reais com os chamados grupos nominais cujos membros geram ideias
próprias. As ideias dos membros dos grupos nominais são associadas e os
duplicados retirados (de uma forma semelhante à da criação da nossa lista de
nomes de profissões) para comparar com os grupos reais. O resultado típico é os
grupos nominais não serem menos criativos e quase invariavelmente
ultrapassarem os grupos reais no que toca ao número de ideias. Contudo, para
nossa surpresa, nenhuma das muitas experiências de brainstorming tinha
examinado a importância da dificuldade da tarefa. Assim, comparámos os
grupos reais e nominais para uma tarefa fácil e difícil. A tarefa fácil foi pensar
em tantos nomes de profissões quanto possível. Mesmo esta tarefa não é assim
tão fácil, uma vez que, como já referi, é difícil recordar nomes de profissões
obscuras como «assentador de tijolos». A tarefa difícil era pensar em tantos
nomes de profissões quanto possível que satisfizessem as respostas dadas a sete
perguntas, como no meu jogo das vinte perguntas (usámos um jogo da nossa
primeira experiência). Esta experiência exigiu apenas uma hora para cada
participante, sendo, por conseguinte, muito mais simples de realizar do que a
nossa primeira experiência ciclópica. Os grupos reais e nominais saíram-se
igualmente bem na tarefa simples, mas os grupos reais produziram 50 por cento
mais nomes de profissões que os grupos nominais para a tarefa difícil. É
extraordinário que toda a literatura científica sobre brainstorming tivesse
chegado a uma conclusão falsa sobre as vantagens de pensar em grupo por se ter
limitado a tarefas mentais comparáveis a mudar uma lâmpada, e não a deslocar
um piano.
Enquanto estas experiências estavam em progresso, eu ia também
tentando reunir 495 resumos no meu dossiê, como outras tantas peças de um
puzzle, de modo a formarem um único quadro coerente. Cada resumo descrevia
investigações que envolviam aproximadamente a mesma quantidade de esforço
que o nossos estudo. Cada um tinha sobrevivido ao processo de revisão
científica para ser publicado e, por esse motivo, documentava factos que
provavelmente eram verdadeiros. No entanto, estes factos haviam sido
montados num quadro mais vasto de grupos considerados disfuncionais em
tarefas mentais, o que não fazia sentido de uma perspectiva evolutiva. Quanto
mais me familiarizava com estes artigos lendo-os do princípio ao fim, mais
provas encontrava das vantagens de pensar em grupo. O problema não residia
nos factos mas na maneira como eles tinham sido reunidos para chegar a uma
conclusão geral mais vasta.
Alguns dos artigos tinham a qualidade preciosa de um bom conto. O meu
favorito era uma experiência realizada por Arie Kruglanski e Donna Webster
sobre a escolha de um de dois sítios para montar um acampamento feita por
batedores do exército israelita, sendo um deles objectivamente melhor que o
outro. Os indivíduos tinham-se previamente avaliado uns aos outros no que se
referia aos sentimentos mútuos de agrado, apreço e respeito, qualidades
combinadas num único índice de estatuto social. Para cada grupo, pedia-se a um
membro de estatuto intermédio que funcionasse como cúmplice dos
organizadores da experiência, dando-lhe instruções para defender quer o
melhor local (a posição da maioria), quer o pior (a posição de uma minoria),
umas vezes no início, outras mais para o fim do processo de tomada de decisão.
Depois de a decisão ter sido tomada, os membros do grupo eram informados de
que a sua avaliação prévia uns dos outros se tinha perdido e pedia-se-lhes que
preenchessem de novo os formulários de avaliação. Esta artimanha permitia
medir o estatuto social do cúmplice depois da tomada de decisão. Só os
cúmplices que defendiam a posição da minoria tarde no processo de tomada de
decisão sofriam uma perda de estatuto. Não sei como Arie e Donna conseguiram
realizar esta experiência, mas ela ilustra muito bem o conceito de inteligência
colectiva espontânea. Um bom processo de tomada de decisão começa com uma
fase de geração alternativa, seguida por uma fase de avaliação que conduz à
rejeição de todas as decisões excepto da final. Faz sentido defender as posições
da minoria numa fase precoce do processo de tomada de decisão mas torna-se
absurdo quando o grupo já se encontra na fase final. Os batedores coordenaram
espontaneamente esta dança da tomada de decisão zangando-se com o cúmplice
só quando a posição da minoria foi defendida na altura errada. Outras
experiências da minha caixa de puzzle mostraram que quando os líderes do
grupo recebem instruções para expressar a sua opinião cedo, e não tarde, no
processo de tomada de decisão, a qualidade da decisão ressente-se com isso.
Ainda que o «pensamento de grupo» continue a ser uma expressão
familiar, descobri que o conceito tem sido testado e em grande medida rejeitado
por estudos subsequentes. Por exemplo, George Kennan formulou o Plano
Marshall encorajando deliberadamente o debate e a discordância entre os seus
conselheiros. Pelo contrário, Lyndon Johnson era um líder dominador que
saudava os pontos de vista discordantes por parte dos seus conselheiros com a
sinistra afirmação «Receio que ele esteja a perder a sua eficácia», forçando
muitos a abandonar o seu círculo íntimo e aqueles que permaneciam a calar as
suas opiniões. Os historiadores concordam que o Plano Marshall foi uma
decisão bem engendrada, enquanto a política da Guerra do Vietname de
Johnson foi uma calamidade. Mas que informações nos dá isto sobre a
qualidade dos grupos contrapostos aos indivíduos enquanto unidades de
tomada de decisão? Em vez de impor a sua decisão, Kennan funcionou como
moderador de um grupo, enquanto Johnson reduziu o tamanho do seu grupo de
tomada de decisão a uma única pessoa (ele próprio). Ao criar a expressão
«pensamento de grupo», Janis fez algumas afirmações de carácter geral: a
tomada de decisão deteriora-se quando o grupo se torna mais coeso, ou quando
a importância da decisão aumenta, e por aí adiante. Estas afirmações não foram
apoiadas por análises subsequentes das decisões da política externa e por
experiências laboratoriais que manipulassem a coesão do grupo e a importância
da decisão como variáveis independentes. Como afirmava um artigo, «Na base
da nossa análise parece evidente que há pouco apoio para o modelo completo do
pensamento de grupo. [...] Além disso, não se verificou que a variável central da
coesão desempenhasse um papel consistente. [...] Esta sugestão está
diametralmente oposta à perspectiva de Janis (1982) segundo a qual a coesão
elevada e uma tendência concomitante para a procura da concorrência que
interfere com o pensamento crítico constituem as ‘características centrais do
pensamento de grupo’». Estas peças do meu puzzle, compreendendo
aproximadamente uma dezena dos meus 495 resumos, encaixaram
perfeitamente quando as li em pormenor.
Outra coisa que descobri foi que muitas vezes a comparação entre
indivíduos e grupos não era nada disso. Por favor, vejam essas experiências de
brainstorming! Baseiam-se numa comparação de grupos reais de pessoas que
atiram ideias umas às outras com os chamados grupos nominais, cujos
membros pensam isoladamente. Mas um grupo nominal não é um indivíduo; é
outro tipo de grupo que inclui o investigador como um dos seus membros. Em
primeiro lugar, o investigador recebe as ideias compiladas pelos membros do
grupo nominal e insere-as numa lista, eliminando redundâncias durante o
processo. O facto de esta lista ser mais longa (e não menos criativa) que a lista
compilada pelos grupos reais é usado como prova de que os grupos nominais
são superiores aos grupos reais. Porém, estes últimos não precisam dos serviços
do investigador para compilar a sua lista, e o tempo exigido pelo investigador
não é acrescentado ao tempo despendido pelos grupos nominais. Além disso,
usar a lista para tomar uma decisão exige examinar todos os itens que dela
constam. Os grupos reais podem fazer isto enquanto compilam a lista, ao passo
que os grupos nominais nem sequer podem começar antes de a experiência ter
terminado. Quando estes factores são tomados em consideração, não é evidente
que um grupo real que queira tomar uma decisão real vá emular a estrutura dos
chamados grupos nominais, mesmo para as tarefas simples utilizadas nas
experiências de brainstorming. Se compararmos o desempenho de um único
indivíduo quer com o de grupos reais, quer com o de grupos nominais, o
resultado é simples. Os indivíduos criam muitíssimo menos ideias. Quando
organizámos a nossa lista principal de nomes de profissões, a maioria dos
indivíduos, depois de muito matutar, só conseguiu fazer uma lista de cerca de
setenta, enquanto juntos pensaram em 442. A superioridade dos grupos sobre
os indivíduos é tão evidente que os investigadores de brainstorming
praticamente nem a comentam na sua pressa de estudarem algo mais subtil,
como a diferença entre os grupos reais e nominais.
Por vezes, mesmo as demonstrações mais claras de trabalho mental de
grupo parecem individualistas por se ter alterado o quadro de comparação.
Imagine que é um estudante universitário a preparar-se para um teste com dois
colegas. Depois de os três fazerem o teste individualmente, recebem um quarto
exemplar para resolverem em grupo. Larry Michaelson e os seus colaboradores
realizaram esta experiência em vinte e cinco cursos leccionados ao longo de um
período de cinco anos para um total de 222 grupos. A média individual para o
teste foi de 74,2, a média para o melhor teste individual de cada grupo foi 82,6 e
a média para o teste em grupo foi 89,9. Um total de 97 por cento dos grupos
obteve um resultado superior ao do seu membro melhor. Se isto não fornece
indicações de trabalho mental de equipa, então o que o fará? A capacidade dos
membros do grupo de avaliarem e corrigirem os erros uns dos outros caso a
caso é mesmo semelhante à capacidade da nossa maquinaria genética de
detectar e reparar erros mutacionais numa cópia do ADN baseada na «resposta
correcta» fornecida pela outra cópia. No entanto, este estudo foi criticado por
outros investigadores, que afirmaram que os grupos precisariam de responder
correctamente a perguntas a que cada membro deu uma resposta errada para
demonstrar que havia «um efeito de bónus do conjunto». Larry e os seus
colaboradores replicaram que os seus grupos demonstram mesmo que esse
efeito se produz, mas a questão que eu ponho é mais simples: porque diabo
põem eles a fasquia tão alto para uma coisa que conta como um processo de
grupo? Corrigir os erros uns dos outros quando alguém não cometeu erros não
exige também um grupo?
Na altura em que acabei de reunir as peças da literatura psicológica, no
que me dizia respeito esta fornecia provas inquestionáveis de que há vantagens
em pensar em grupo. A minha análise foi publicada num artigo com o título
retorcido de «Incorporating Group Selection into the Adaptationist Program: A
Case Study Involving Human Decision Making». As minhas experiências com
Ralph e John foram publicadas num segundo artigo intitulado «Cognitive
Cooperation: When the Going Gets Tough, Think as a Group». Encontram-se
ambos no meu site e por esta altura o meu leitor já está amplamente preparado
para os lerem, não obstante terem sido escritos para um público científico. Os
dois mergulham nos pormenores, o que pode tornar a leitura difícil ou
enfadonha para algumas pessoas, mas estes mesmos pormenores tornam-se
interessantes quando se adquire o espírito da investigação científica e se aprecia
como eles permitem que os cientistas se considerem uns aos outros
responsáveis pelas suas afirmações factuais.
Todas as tarefas mentais empregadas por todas as experiências
psicológicas empalidecem em comparação com os problemas da vida real. Um
livro fascinante intitulado Technological Innovation as an Evolutionary
Process, editado pelo famoso físico John Ziman, mostra como muitos objectos
que existem no nosso mundo resultam de processos de grupo. Se julga que a
lâmpada foi inventada por uma única pessoa como Thomas Edison, pense
melhor. Ela exigiu dezenas e dezenas de pessoas, que existiram numa civilização
que lhes permitiu trabalhar como trabalharam, que, por sua vez, foi a criação de
centenas de milhares de pessoas anónimas que já se perderam na névoa do
tempo. Quando chegamos à comparação dos indivíduos com os grupos como
unidades de tomada de decisão, a piada é sobre o indivíduo.

27
Não sei como isto funciona!

Na nossa casa há muitos livros e poucos filmes. De facto, quando Katie, a


nossa filha mais velha, era pequena, o único que tínhamos era O Feiticeiro de
Oz, que eu devo ter visto com ela uma centena de vezes. Não me importava com
isso, pois de cada vez me concentrava em mais pormenores daqueles actores de
vaudeville maravilhosos a praticarem a sua arte em desaparecimento. Apesar de
o filme ser tão diferente do livro, como só o podem ser os filmes de Hollywood,
tinha uma intemporalidade muito própria. Uma das minhas cenas favoritas era
no final, quando o Feiticeiro está a partir no balão e Dorothy lhe suplica que
volte. «Não posso!», responde ele numa voz que se perde ao longe. «Não sei
como isto funciona!»
Esse refrão merece ser um mantra para a nossa actual compreensão de nós
mesmos. Há mais de um século que tentamos explicar tudo quanto podemos
com teorias minimalistas que quase não fazem referência à evolução. O esforço
de produzir uma explicação evolutiva é tão novo que quase tudo o que referi
neste livro foi descoberto durante os últimos vinte anos. Estas descobertas
tornam evidente que é necessário um discurso evolutivo, mas ainda mal
começaram a produzi-lo. Há outro tanto a descobrir no futuro.
Em vez de pressupostos minimalistas, como o relativo à maximização da
utilidade da teoria da escolha racional, ou da tábua rasa do behaviorismo e do
construtivismo social, precisamos de descobrir uma arquitectura psicológica
complexa que se desenvolveu por meio da evolução genética e leva os pequenos
grupos a organizarem-se em unidades coordenadas. Alexis de Tocqueville tinha
razão quando, em 1835, escreveu: «A aldeia ou vila é a única associação tão
perfeitamente natural que [...] parece constituir-se a si mesma», mas a moderna
ciência ainda está muito longe de levar a sério esta afirmação. O pensamento
intencional consciente é apenas a ponta de um icebergue. O resto do icebergue
actua abaixo da consciência e tem de ser descoberto cientificamente, como a
visão, não obstante ter lugar dentro de nós a cada momento do dia. De um
modo ainda mais estranho, além de ter lugar nas nossas interacções neuronais,
tem também lugar fora de nós, nas nossas relações sociais. A ideia de que
desempenhamos um papel em processos mentais a nível de grupo, sem
qualquer consciência disso, vai exigir alguma habituação, especialmente contra
o pano de fundo do individualismo, que tem dominado a paisagem intelectual
durante o último meio século.
Como se estas camadas de ignorância não bastassem, há uma outra que
envolve a cultura e não os genes. A nossa arquitectura genética permite-nos
criar, transmitir e seleccionar comportamentos aproximadamente da mesma
maneira que o sistema imunitário cria, transmite e selecciona anticorpos. Parte
deste processo é consciente e intencional. Em certa medida, estamos
conscientes dos nossos problemas e procuramos activamente soluções, como
mostrei no capítulo anterior. Porem, numa medida maior, a criação, a retenção
e a selecção de comportamentos tem lugar abaixo da consciência. Muito cedo na
vida aprendemos os usos e costumes da nossa cultura, que absorvemos como
esponjas, da mesma maneira que aprendemos a sua linguagem. Em adultos
adoptamos novos comportamentos e maneirismos inconscientemente, pelo
menos em tão grande medida como conscientemente. Muitos dos nossos
comportamentos actuais existem não porque alguém tenha decidido que eram
úteis, mas porque sobreviveram a comportamentos que com eles competiam. A
vida humana consiste em muitas experiências sociais não intencionais. Mesmo
quando tentamos modificar o curso dos acontecimentos, os nossos esforços
interagem com os de outros de maneiras imprevisíveis, que poderiam muito
bem ter sido aleatórias. Umas escassas experiências sociais mantêm-se coesas,
enquanto as outras se desfazem em pó. Nem sequer esquecemos os fracassos,
porque, para começar, nem os recordamos. Como o Feiticeiro no seu enorme
balão de ar, nascemos rumo ao céu em mundos culturais que nós próprios
fizemos, sem sabermos como funcionam.
A fim de apreciarmos a importância da evolução cultural, vamos regressar
ao conceito da nossa espécie como o equivalente primata de uma colónia de
insectos sociais. No capítulo 20 referi que os insectos só cerca de quinze vezes
atravessaram a divisória da cooperação, mas os descendentes desses
acontecimentos originários representam mais de 50 por cento da biomassa de
todos os insectos. Sem dúvida que esta combinação de origem rara seguida pelo
predomínio ecológico descreve a nossa espécie. Ed Wilson, cujo nome já surgiu
repetidas vezes neste livro, devido à influência que teve noutras obras minhas,
bem como aos seus próprios contributos, fez esta afirmação num artigo recente
que escreveu com Bert Holldobler, há muito seu associado, e publicado no
Proceedings of the National Academy of Sciences. Esse artigo intitula-se
«Eurosociality: Origin and Consequences» e tem como tema principal os
insectos sociais, embora termine com esta afirmação provocadora sobre os seres
humanos: «A raridade de ocorrência e as pré-adaptações invulgares
caracterizaram as primeiras espécies de Homo e foram seguidas, de uma
maneira semelhante ao que se passou com os avanços das formigas e das
térmitas, pelo espectacular êxito ecológico e pela exclusão prévia de formas
competidoras por parte do Homo sapiens.
Esta subestimação faz-me lembrar a maneira como James Watson e
Francis Crick terminavam o seu famoso artigo sobre o ADN: «Não escapou à
nossa atenção o facto de o emparelhamento específico que postulámos sugerir
imediatamente um possível mecanismo de cópia para o material genético.»
Ambas são frases simples que abrem a porta a um mundo de implicações.
Todavia, há uma diferença entre o domínio ecológico alcançado pelos insectos
sociais e o dos seres humanos. Depois de terem atravessado a divisória da
cooperação, aquelas 15 espécies de insectos separaram-se inúmeras vezes até
haver muitos milhares de espécies de insectos sociais. Depois de termos
atravessado a divisória da cooperação, alcançámos um domínio ecológico
mundial permanecendo uma única espécie. A razão é que a nossa diversificação
foi mais cultural que genética. Há milhares de culturas humanas, tal como há
milhares de espécies de insectos sociais, mas todas foram criadas por uma
arquitectura genética que é mais ou menos a mesma em todo o mundo.
Pense no seguinte: tanto quanto sabemos, descendemos todos de uma
pequena população que se espalhou a partir de África há cerca de 70 mil anos e
que cobriu o globo, desalojando, à medida que avançava, populações anteriores
de Homo e muitas outras espécies. É isto «o êxito ecológico e a exclusão prévia»
a que Ed e Bert se referem. Podemos celebrá-la ou deplorá-la, mas de uma
forma ou de outra isso exigiu uma extraordinária flexibilidade comportamental.
Não se tratou de implementar «planos de guerra» que antes tivessem evoluído
geneticamente no meio ambiente africano, mas de um processo mais aberto de
criar e reter novas adaptações. Diversificámo-nos em milhares de «modos de
vida, falando línguas diferentes e praticando diversas actividades de
subsistência, da colheita de sementes até à pesca de baleias. Adaptámo-nos a
todas as zonas climáticas, da floresta tropical até ao deserto e às paragens
gélidas do Árctico. Invadimos os mares com barcos. Ecologicamente, tornámo-
nos o equivalente a centenas de espécies diferentes numas meras dezenas de
milhares de anos, em vez de nos milhões de anos necessários para uma
irradiação adaptativa comparável por evolução genética. A nossa capacidade
para a cultura fez a evolução avançar à velocidade da luz.
O advento da agricultura introduziu mais alterações do que as que se
tinham verificado durante toda a nossa história enquanto espécie. A dimensão
da população foi limitada pela organização social e não pela quantidade de
alimentos. Algumas culturas encontraram maneiras de actuar de forma mais
eficaz e a uma escala maior que outras, suplantando-as como tinha acontecido
com as populações de Homo mais antigas. Por vezes isto assumiu a forma da
conquista violenta, mas também se apresentou sob a forma de imitação e
assimilação. Com a evolução cultural, os combates não têm necessariamente
lugar em campos de batalha. As escalas crescentes de organização social
conduziram-nos a um período que a nossa miopia nos levou a designar por
história humana, onde continua até aos nossos dias, como reconhecem
especialistas de história mundial como William McNeill.
Se fizermos a nossa própria viagem de balão sobrevoando o arquipélago de
marfim, encontraremos alguns exemplos excelentes de evolução cultural em
acção. Aterremos em África, na bacia do Nilo superior, no início do século XIX.
Era uma zona habitada por uma tribo chamada Dinka, à excepção de uma
pequena região ocupada por outra tribo chamada Nuer. Ambas as tribos
criavam gado e cultivavam milho-miúdo no mesmo tipo de ambiente físico,
embora os Nuer tenham expandido muito o seu território à custa dos Dinka e
pudessem tê-los substituído por completo se não fosse o aparecimento de uma
doença que, no final do século XIX, dizimou o gado de ambas as tribos. Seguiu-
se uma intervenção da administração colonial anglo-egípcia no início do século
XX. Há mais de sessenta anos que os antropólogos estudam a expansão dos
Nuer o que os torna um dos exemplos mais bem documentados do modo como
as civilizações se substituem umas às outras. A obra The Nuer Conquest, de
Raymond Kelly, fornece uma excelente fonte para esta literatura, o que mostra
como o estudo da evolução cultural pode ser aprofundado e cientificamente
fundamentado.
As tribos não são unidades homogéneas; consistem em subtribos, que, por
sua vez, consistem em clãs, com variações entre unidades em tdas as escalas. Os
Nuer eram uma subtribo dos Dinka que se tornou suficientemente distinta para
se transformar numa tribo autónoma. A sua língua e a maior parte dos seus
costumes eram semelhantes, com algumas diferenças fundamentais que
estabeleciam uma diferença no que dizia respeito às suas interacções. Para
ambas as tribos, o casamento implicava um pagamento em gado à família da
noiva, mas o pagamento era maior e exigia mais gado para os Nuer do que para
os Dinka. Esta distinção aparentemente trivial estabelecia uma diferença, pois
obrigava os Nuer a criarem o gado de uma maneira diferente, sobrecarregando
as suas terra com pastos e proporcionando um incentivo para invadirem o
território dinka por causa do gado, da terra e das mulheres.
As duas tribos também diferiam nos sistemas de parentesco. Entre os
Dinka, as pessoas que se consideravam parentes concentravam-se em
comunidades onde tinham lugar a criação de gado e o cultivo de milho-miúdo.
O sistema de parentesco dos Nuer ligava pessoas de comunidades diferentes que
não tinham motivo para interagir — excepto no que tocava ao roubo de gado. De
um modo geral, os Nuer conseguiam pôr em acção uma força de combate
superior à dos Dinka em virtude ao seu sistema de parentesco. As obrigações
sociais entre parentes proporcionavam uma vantagem aos Nuer nas
competições intergrupos, independentemente de os «parentes» estarem
geneticamente relacionados.
Com mais incentivos e uma maior capacidade de combate, os Nuer iam-se
apropriando de pequenas parcelas de território dinka em dezenas de incursões
isoladas, até, em 1880, o seu território ter quadruplicado. É claro que se
registaram mortes, mas foi muito maior o número de dinkas que se inseriram na
sociedade nuer como esposas e escravos. Até estes últimos modificaram
rapidamente a sua identidade social. Na década de 1940, quando o grande
antropólogo britânico E. E. Evans-Pritchard estudava os Nuer, pelo menos
metade da sua população era constituída por antigos Dinka, e era difícil
distinguir uma segunda geração dinka de uma nuer de «sangue mais azul».
Uma cultura substituía outra, mas não se tratava apenas de uma substituição de
indivíduos.
Gostaria de me debruçar durante mais tempo sobre este exemplo
fascinante, mas mesmo o meu breve relato revela alguns factos importantes
sobre a evolução cultural. Como mostrei no capftulo 3, o primeiro ingrediente
de um processo evolutivo é a variação. O exemplo dos Nuer mostra que
raramente a variação cultural é escassa. Ela parece emergir espontaneamente
das interacções sociais humanas, criando ramificações, como é o caso dos Nuer,
a partir de uma sociedade previamente existente, como os Dinka. Este tipo de
geração espontânea pode parecer digno de nota, mas na realidade é natural
verificar-se em todos os sistemas complexos, incluindo sistemas puramente
físicos, como as condições atmosféricas. É sabido que o estado do tempo é
imprevisível devido a minúsculas alterações nas condições iniciais que se
amplificam ao longo do tempo devido a interacções complexas. A isto costuma
chamar-se «efeito borboleta», numa referência à possibilidade de uma
borboleta a bater as asas no Brasil poder provocar um tornado no Texas. Dada a
imprevisibjljdade do tempo, não nos deveria surpreender que as pequenas
diferenças culturais entre grupos sociais possam amplificar-se e dar lugar a
diferenças maiores ao longo do tempo.
O segundo ingrediente de um processo evolutivo envolve as consequências
da variação. As disparidades no modo como as pessoas se comportam têm de
fazer diferença em termos de sobrevivência e reprodução, O exemplo dos Nuer
mostra como coisas como os costumes ligados ao casamento e aos sistemas de
parentesco podem ter um enorme impacto nas interacções competitivas entre
culturas. Ao mesmo tempo, seria um erro pensar que todas as diferenças entre
os Nuer e os Dinka têm um significado funcional. A evolução não é só selecção
natural, como tive o cuidado de sublinhar nos capítulos 6 a 8, e essas lições
aplicam-se tão eficazmente à evolução cultural como à evolução genética.
Raymond Kelly refere numerosas características das sociedades nuer e dinka
que são o equivalente cultural dos macacos loucos e das caudas enroladas dos
cães.
O terceiro ingrediente de um processo evolutivo é os comportamentos
poderem ser herdados. Têm de se perpetuar através do tempo para as
diferenças na sobrevivência e na reprodução terem um efeito cumulativo. O
terceiro ingrediente parece contradizer o primeiro. Se as pequenas diferenças
podem alterar o curso da história para uma cultura, onde está a estabilidade
necessária para preservar as soluções bem sucedidas? O exemplo dos Nuer
mostra que as culturas, além de variabilidade, possuem estabilidade, por
paradoxal que isto possa parecer. A cultura nuer era uma ramificação da cultura
dinka, mas era tão estável que pôde suportar um influxo em massa de
indivíduos dinka sem se modificar! Outro exemplo de estabilidade cultural
revelou-se quando os rebanhos se reduziram devido a doenças no final do século
XIX. A maioria dos nuer deixou de ter o número de cabeças de gado que a sua
cultura impunha para comprar uma nova esposa. Os casamentos continuaram a
ter lugar, mas o ideal permaneceu inalterável e reafirmou-se mal o gado
recuperou. Como Kelly afirmou: «Embora as flutuações na dimensão dos
rebanhos nuer provocassem variações na magnitude do pagamento feito à
família da noiva [...] não produzem uma redefinição dos pagamentos aceitáveis
e ideais que a definem. Estes estão muito profundamente inseridos nas
obrigações de parentesco.» A cultura fornece um conjunto estável de linhas
orientadoras quanto ao comportamento a ter, mesmo quando na realidade as
pessoas não conseguem viver de acordo com essas linhas orientadoras.
Em resumo, o exemplo dos Nuer mostra como os ingredientes
fundamentais de um processo evolutivo podem existir relativamente à mudança
cultural bem como à genética, mas é ainda mais notável por mostrar como a
evolução cultural tem lugar a um nível abaixo da consciência. É indubitável que
tanto os Nuer como os Dinka reflectiam muito sobre assuntos importantes nas
suas vidas quotidianas, como criar gado, cultivar milho-miúdo, casar, planear
incursões, mas pareciam não ter a menor consciência dos parâmetros culturais
mais amplos que enquadravam as suas decisões quotidianas. Não há a menor
indicação, por exemplo, de que os Dinka alguma vez se tenham interrogado
acerca do motivo por que perdiam terreno a favor dos Nuer ou sobre como
podiam modificar os seus costumes para se tornarem mais competitivos. A sua
ignorância da sua própria cultura era tão profunda como a ignorância das suas
adaptações que tinham evoluído geneticamente.
Vamos agora deixar os Nuer e viajar até à época da história humana em
que a escrita emergiu como uma adaptação cultural. O nosso guia será Walter J.
Ong, um padre católico e estudioso das humanidades mundialmente famoso,
que morreu em 2003 com 90 anos de idade. No seu livro Orality and Literacy,
Ong afirma de forma convincente que escrever alterou fundamentalmente o
carácter do pensamento humano. Nas culturas puramente orais, tudo o que é
sabido tem de ser recordado através de inúmeras repetições, o que põe enormes
limitações à organização do conhecimento e da comunicação. Escrever
permitiu-nos armazenar informações fora das nossas cabeças como nunca
acontecera antes (é provável que a arte e os artefactos físicos tenham funções
semelhantes), libertando as nossas mentes para novas actividades. Segundo
Ong, não é por acaso que a expansão da filosofia, da lógica, da matemática e de
outras formas de pensamento analítico na Grécia antiga teve lugar na altura em
que teve. Essas operações mentais eram luxos a que ninguém podia dar-se antes
do advento da escrita.
Hoje em dia, o pensamento humano transformou-se de tal modo que os
membros das sociedades alfabetizadas mal conseguem imaginar o que era
pensar sem a ajuda da palavra escrita. Ong explica-o do seguinte modo:
«Sabemos o que somos capazes de recordar. Quando afirmamos conhecer a
geometria euclidiana, isso não significa que de momento tenhamos em mente
cada uma das suas proposições e demonstrações, mas sim que é fácil evocá-las.
Podemos recordá-las. O teorema «Sabe-se o que se consegue recordar» aplica-
se também a uma cultura oral. Mas como recordam as pessoas uma tal cultura?
O conhecimento organizado que as pessoas alfabetizadas estudam hoje em dia
de modo a ficarem a «sabê-lo», ou seja, a poderem recordá-lo, com muito
poucas excepções, se é que com alguma, foi reunido e posto à sua disposição por
escrito. É este o caso não só da geometria euclidiana, mas também da história
da Revolução Americana, ou até das estatísticas do basebol ou das regras do
trânsito.
O conhecimento nas sociedades orais é armazenado e comunicado em
grande medida sob a forma de provérbios. Ainda usamos os provérbios como
pepitas de informação memoráveis especialmente adequadas a dadas situações,
como «Não guardes para amanhã o que podes fazer hoje», mas eles
desempenham um papel muito mais insignificante nos nossos pensamentos e
conversas do que nas culturas orais. Ong prossegue: «As fórmulas ajudam a
implementar o discurso rítmico e também funcionam como auxiliares
mnemónicos, como expressões estabelecidas que circulam entre todos, por
passa palavra. ‘Depois de chuva, nevoeiro, tens bom tempo marinheiro.’‘Dividir
para reinar.’‘Errar é humano, perdoar é divino.’‘É melhor a tristeza do que o
riso, porqúe debaixo de um rosto triste o coração pode estar alegre.’ (Eclesiastes
7:3). ‘A modesta violeta.’‘O carvalho robusto.’‘De nada adianta expulsar a
natureza pela porta. Ela volta a galope pela janela.’ Expressões deste género e de
outros, fixas, muitas vezes ritmicamente equilibradas, podem encontrar-se de
quando em quando impressas e mesmo ser procuradas em livros de aforismos.
No entanto, nas culturas orais elas não são ocasionais; surgem incessantemente
formam a essência do próprio pensamento. Sem elas é impossível qualquer
forma alargada de pensamento, pois este consiste nelas.
A diferença entre o pensamento oral e alfabetizado é maravilhosamente
captada no romance No Longer at Ease, de Chinua Achebe, cuja acção decorre
na Nigéria na década de 1960. O protagonista, Obi Okonkwo, é um jovem que
foi enviado para Inglaterra pela sua aldeia para receber uma educação moderna,
a fim de poder regressar e obter um posto elevado na administração nigeriana.
Ele fez a transição para o pensamento alfabetizado e, cheio de orgulho,
considera-se nigeriano, e não um filho de Umuofia, a sua aldeia. Mas os
membros dessa mesma aldeia, que tanto se sacrificaram para lhe dar instrução,
ainda o consideram um dos seus. O conflito e o final trágico constituem a base
do livro, mas o diálogo dos aldeões também ilustra o modo como os membros
das sociedades orais pensam e falam uns com os outros em termos de
provérbios. No passo que se segue, Obi (que é neto de Ogbuefi Okonkwo, o
protagonista do romance mais conhecido de Achebe, Things Fall Apart*, está de
visita à sua aldeia pela primeira vez desde que regressou de Inglaterra:
Quatro anos em Inglaterra haviam deixado Obi cheio de saudades de Umuofia. Este
sentimento era por vezes tão intenso que se sentia envergonhado de estudar inglês para
tirar o curso. Falava ibo sempre que tinha a menor oportunidade de o fazer. Nada lhe
dava maior prazer do que encontrar num autocarro de Londres outro estudante que
falasse a sua língua. No entanto, baixava a voz quando tinha de falar inglês com um
estudante nigeriano de outra tribo. Era humilhante ter de falar com um compatriota
numa língua estrangeira, especialmente na presença dos orgulhosos proprietários dessa
língua. Como era natural, estes imaginavam que ninguém tinha uma língua própria.
Como gostava que eles estivessem ali para ver. Naquele momento, haviam de estar em
Umuofia a ouvir falar os homens que tornavam a conversa uma grande arte. Se ali fossem,
veriam homens, mulheres e crianças que sabiam como viver, cuja alegria de vida ainda
não tinha sido aniquilada por aqueles que pretendiam ensinar outras nações a viver.

Essa «grande arte da conversa» consistia no artístico desfiar de


provérbios, que em si mesmos já são tão artísticos como pedras polidas. «Ela
fica com ele como a Lua fica no céu. Quando chega a hora, ela parte.» «Temos
os nossos defeitos, mas não somos homens vazios que ficamos brancos quando
vemos branco e pretos quando vemos preto.» «A grande árvore escolhe onde
crescer e é aí que a encontramos, e o mesmo acontece com a grandeza dos
homens.»
O fosso entre o pensamento alfabetizado e oral também é ilustrado por
uma série de entrevistas que o grande psicólogo russo Alexander Luria fez a
camponeses analfabetos na década de 1930. As entrevistas foram realizadas no
ambiente não ameaçador de uma casa de chá. Embora beber chá sentados a
uma mesa deva ter ajudado a diminuir a distância social, não podia diminuir a
distância mental entre Luria como membro de uma sociedade alfabetizada e os
seus convidados como membros de uma sociedade camponesa que permanecia
essencialmente oral. Quando lhes foi pedido que identificassem figuras
geométricas, os camponeses nunca responderam com termos abstractos como
«círculo» ou «quadrado», mas com nomes práticos como «prato» ou «espelho».
Quando Luria lhes mostrou desenhos de um martelo, de uma serra, de um
machado e de um tronco, perguntando-lhes a que categoria pertenciam três
deles e a qual pertencia o quarto, os camponeses foram incapazes de separar os
três instrumentos do tronco. Em vez disso, continuaram a pensar em usar as
ferramentas no tronco: «São iguais. A serra vai serrar o tronco e o machado vai
cortá-lo em pedacinhos. Se algum destes tiver de desaparecer, eu atirava fora o
machado. Ele não faz um trabalho tão bom como uma serra.»
Os camponeses pareciam particularmente intrigados pelas perguntas
sobre si mesmos, como revela o diálogo que passo a transcrever:
Pergunta: «Que género de pessoa é? Como é o seu carácter? Quais são as suas
qualidades e defeitos? Como se descreveria? »
Resposta: «Sou de Uch-Kurgan. Eu era muito pobre e agora sou casado e tenho
filhos.»
Pergunta: «Está satisfeito consigo ou gostaria de ser diferente?»
Resposta: «Era bom se tivesse um bocadinho mais de terra e se pudesse semear
trigo.»
Pergunta: «Quais são as suas falhas?»
Resposta: «Este ano semeei uma arroba de trigo, e aos poucos temos estado a
resolver as falhas.»
Pergunta: «Bem, as pessoas são diferentes umas das outras: calmas, irritadiças, às
vezes têm falta de memória. Que pensa de si?»
Resposta: «Nós portamo-nos bem. Se fôssemos maus, ninguém nos respeitava.»

Outro camponês respondeu com eloquência a ultima pergunta, replicando:


«Que posso dizer sobre o meu coração? Como posso falar do meu carácter?
Pergunte aos outros; eles podem falar-lhe de mim. Eu mesmo não sei dizer
nada.»
Estas respostas reflectem a tremenda necessídade das pessoas das
sociedades orais de usarem a cabeça para fins práticos. Abstracções como
«círculo», «ferramenta» ou «o género de pessoa que sou» são luxos que só se
tornam úteis no contexto de urna sociedade organizada pela escrita. Como Ong
afirma: «Sem um sistema de escrita, o pensarnento aprofundado — isto é, a
análise — é um processo de alto risco.»
Os membros das sociedades orais são tão inteligentes como outras pessoas
quaisquer, mas parecem atrasados mentais pelos padrões alfabetizados. No
passo que se segue, Ong mostra na perfeição como uma pessoa alfabetizada
também pode parecer atrasada por padrões orais: «Os proponentes dos testes
de inteligência têm de reconhecer que as perguntas dos nossos testes de
inteligência comuns são dirigidas a um tipo especial de consciência,
profundamente condicionado pela literacia e pelos livros [...] Pode pensar-se
que urna pessoa muito inteligente de uma cultura oral ou residualmente oral vai
reagir normalmente ao tipo de perguntas de Luria, como muitos dos que lhe
responderam claramente fizeram, não respondendo à pergunta aparentemente
disparatada, mas tentando avaliar o contexto intrigante na sua totalidade (a
mente oral totaliza): Porque me estará ele a fazer esta pergunta estúpida? Que
está ele a tentar fazer? Perguntou-me ‘o que é uma árvore?’ Estará mesmo à
espera que eu responda a isso quando ele e todas as outras pessoas já viram
milhares de árvores? A adivinhas eu sei responder, mas isto não é uma adivinha.
Será um jogo? Claro que é um jogo, mas a pessoa nascida numa cultura oral não
conhece as regras. As pessoas que fazem perguntas desse género vivem desde a
infância bombardeadas por elas e não se dão conta de que estão a usar regras
especiais.»
Tal como os Nuer e os Dinka, as sociedades alfabetizadas, além de serem
um produto da evolução genética, também são um produto da evolução cultural,
e os seus membros são profundamente ignorantes sobre ambas.
A paragem seguinte e também a última da nossa viagem é nos Estados
Unidos. O nosso guia é Richard Nisbett, um eminente psicólogo social cujo
interesse na evolução cultural despertou devido a uma experiência de juventude,
num processo muito semelhante ao interesse de Bili McNeill pela dança descrito
no capítulo 24. Nascido e criado no Texas, Dick Nisbett mudou-se para o
Massachusetts aos 18 anos e a diferença cultural entre as regiões saltou-lhe à
vista. O Sul é conhecido pela sua gentileza e hospitalidade, mas também pela
sua violência. Ao longo da história americana, as rixas, os duelos e os
linchamentos têm tido lugar principalmente no Sul. O famoso conflito entre os
Hatfields e os McCoys que teve lugar na fronteira do Kentucky com a Virgínia
Ocidental pareceria deslocado na Nova Inglaterra. Segundo uma estimativa, a
taxa de homicídios para os planaltos das montanhas Cumberland do Tennessee
entre 1865 e 1915 era mais de dez vezes superior à média nacional actual e o
dobro das nossas piores zonas degradadas urbanas. Os Sulistas interessam-se
muito mais pela guerra e têm tido uma representação excepcionalmente grande
nas forças armadas ao longo da história dos Estados Unidos. Até os
entretenimentos são mais violentos no Sul. Se visitarmos um bar do Sul,
podemos assistir a um jogo chamado purring, no qual dois homens se agarram
pelos ombros e dão pontapés um ao outro até um deles ceder.
Despois de estabelecer a sua reputação como psicólogo social com livros
como Human Inference: Strategies and Shortcomings of Social Judgement (de
que foi co-autor com Lee Ross, em 1985), Dick decidiu centrar-se profissional-
mente na variação cultural, começando com a diferença Norte-Sul que o
intrigara em jovem. Ele e o seu aluno Dov Cohen muitos factos, reunidos no
livro de 1996 Cultnre of Honor: The Psychology of Violence in the South, que
para mim é tão interessante como qualquer romance de mistério.
A violência no Sul tem sido atribuída a várias causas, como à miséria, ao
clima e à instituição da escravatura, que no passado sancionou a violência
enquanto forma de domínio social. Estes factores talvez tivessem
desempenhado um papel, mas ignoram um quarto factor, que nada tem a ver
com a história americana. As pessoas que colonizaram o Norte e o Sul já eram
diferentes nas suas práticas culturais antes de porem pés em solo americano. O
Norte foi colonizado principalmente por agricultores e comerciantes que
estavam acostumados a ter os seus assuntos resolvidos por uma forte
autoridade política e religiosa, como os Puritanos, que colonizaram a Nova
Inglaterra, e os Quakers, que colonizaram a Pensilvânia e o Delaware. O Sul foi
colonizado em parte pelos filhos de famílias nobres britânicas, que criaram
plantações nas terras baixas férteis, mas ainda mais por uma população de
pastores das terras altas das Ilhas Britânicas, escoceses e irlandeses, que se
deslocaram para as regiões altas do Sul da América do Norte e continuaram a
viver em grande medida como tinham vivido até então.
Os povos de todo o mundo que se dedicam à pastorícia têm um conjunto
de problemas comum. Ao contrário do campo de um agricultor, a sua
propriedade é móvel e pode ser roubada com facilidade. Têm também tendência
a viver em zonas escassamente povoadas, difíceis de governar por uma
autoridade central. A única solução para estes problemas é a autodefesa, que
conduz a uma «cultura da honra» que os antropólogos documentaram para
povos historicamente tão diferentes como os Nuer e os Dinka em África, os
pastores gregos, os Navahos, do Sudoeste americano, e os Celtas, na Europa, a
quem os Romanos respeitavam pela ferocidade, mas desprezavam pela falta de
organização. Estes povos são semelhantes uns aos outros, não por estarem
historicamente relacionados, mas porque a evolução cultural os fez convergir no
sentido de uma solução comum para um conjunto de problemas comuns.
Numa cultura da honra, usar a violência para defender a reputação é, não
só moralmente aceitável, mas até imperativo. O jornalista Hodding Carter
recorda-se de ter feito parte de um júri no Louisiana na década de 1930. O caso
envolveu um homem que vivia ao lado de uma bomba de gasolina, onde
costumavam estar uns sujeitos que implicavam com ele. Um dia abriu fogo
contra eles com uma espingarda, feriu dois e matou uma pessoa inocente que
estava por perto. Carter foi o único membro do júri a propor o veredicto de
culpado. Os outros protestaram: «Ele não teve culpa. Se não tivesse alvejado
aqueles sujeitos não era homem nem era nada.»
Quanto às crianças, a cultura da honra é o único mundo que conhecem.
Chris Boehm, cujo trabalho sobre o igualitarismo descrevi no capítulo 21,
passou o início da sua carreira a estudar os pastores do Montenegro, uma
cultura que pratica a defesa da honra. Uma vez falou-me de uma reunião de
família ao anoitecer em que deram a um rapazinho, que mal sabia andar um
atiçador de lareira e o provocaram até ele atacar os adultos, enraivecido, perante
o gáudio e os incitamentos de todos. De igual modo, um observador da vida no
Sul observou que as crianças muito pequenas «costumavam agarrar em coisas e
lutar em cima do tapete para entreter os pais, arremessavam os brinquedos para
todo o lado, desafiavam as ordens paternas e até se atiravam às visitas numa
briga amigavel» Quando os rapazes cresciam, esses jogos tornavam-se treino
para o combate. Um rapaz que voltasse para casa a queixar-se de um agressor
era enviado de volta para mostrar ao atacante «aquilo de que és feito». Um
rapaz que evitasse uma pedrada era tratado como cobarde; a ideia era deixar
que lhe acertassem e depois pagar na mesma moeda.
As mulheres desempenham um papel essencial na cultura da honra, por
vezes na luta, mas principalmente na influência que exercem sobre os homens.
Eis como um romano descrevia os antepassados femininos dos Escoceses e dos
Irlandeses: «Um bando de estrangeiros não conseguiria suster um único gaulês
se este chamasse para o ajudar a mulher, que em geral era muito forte e tinha
olhos azuis; especialmente quando, com o pescoço inchado, de dentes cerrados
e brandindo os braços pálidos, de um tamanho descomunal, ela começava a
desferir murros, misturados com pontapés, como se fossem projécteis enviados
por uma catapulta.»
Os Sulistas dos primórdios da América idolatravam as mães da antiga
Esparta, que, segundo afirmavam, ordenavam aos filhos que voltassem da
batalha ou com os escudos ou em cima deles. A mãe de Sam Houston deu-lhe
um mosquete, ao mesmo tempo que lhe dizia: «Nunca o desonres; não te
esqueças que eu preferia ver todos os meus filhos numa sepultura honrada a
saber que um deles tinha virado as costas para salvar a vida.» Depois ofereceu-
lhe um anel de ouro singelo com a palavra «honra» gravada no interior. Quando
perguntaram a um veterano sulista da Guerra Civil por que motivo continuavam
os Confederados a combater depois de a derrota ser certa, este respondeu:
«Tínhamos medo de parar [...J Receávamos as mulheres em casa [...J Elas
teriam vergonha de nós.»
O Sul moderno já não é uma sociedade de pastores. Tal como no Norte, a
grande maioria da população tem empregos rotineiros, mas isso não significa
que as diferenças culturais entre o Norte e o Sul vão desaparecer em breve. A
evolução cultural é mais rápida que a evolução genética, mas mesmo assim a
reacção à mudança ambiental exige tempo. Recorde-se que a percepção
consciente e o planeamento intencional são apenas a ponta de um icebergue. Os
valores e as práticas aprendidos e transmitidos a um nível abaixo da percepção
consciente caracterizam-se por uma inércia muito maior. Tal como no que se
refere à evolução genética, também no que toca à evolução cultural dançamos
com fantasmas de ambientes passados.
Um conjunto de experiências realizadas por Dick, um texano
transplantado, e por Dov, natural do Norte, mostra a que ponto a cultura pode
dotar uma pessoa de uma segunda natureza. As experiências foram realizadas
com alunos da Universidade do Michigan e tinham as características de um
programa de apanhados. Um a um, pedia-se a cada aluno que preenchesse um
questionário e o levasse até uma mesa ao fundo de um corredor comprido e
estreito. Pelo caminho, ele passava por um armário de arquivo e por um
cúmplice dos organizadores da experiência, que tinha de interromper o que
estava a fazer e fechar a gaveta do arquivo para permitir que o sujeito passasse.
Depois de lá deixar o questionário, o sujeito regressava pelo mesmo corredor e
interrompia de novo o cúmplice, que se punha de pé, fechava a gaveta com toda
a força, começava a andar e ao passar pelo sujeito lhe dava um encontrão no
ombro e lhe chamava palerma.
O objectivo deste insulto cuidadosamente ensaiado era ver se os alunos da
Universidade do Michigan originários dos estados do Sul reagiam de uma forma
diferente dos do Norte. Os alunos de ambas as regiões eram oriundos de
famílias abastadas, com um rendimento médio de 85 mil dólares anuais para os
do Norte e 95 mil para os do Sul. É provável que os estudantes do Sul que
decidem frequentar uma universidade do Norte se assemelhem mais aos do
Norte do que aqueles que permanecem na sua região. No entanto, houve
diferenças enormes na maneira como os estudantes do Sul e do Norte reagiram
ao insulto. Os primeiros tiveram tendência para ficar visivelmente zangados,
enquanto os do Norte tiveram tendência para se mostrar divertidos, de acordo
com os observadores parados em cada extremo do corredor e que não
conheciam a identidade de nenhum participante em particular. Numa versão da
experiência com uma encenação ainda mais elaborada, o insulto era seguido
pelo aparecimento no corredor de um segundo cúmplice, com um metro e
noventa de altura e cento e quinze quilos. Até onde permitiria o sujeito
insultado que o segundo colaborador se aproximasse antes de se desviar? Os
habitantes do Norte desviavam-se a uma distância de cerca de um metro e meio,
independentemente de terem sido insultados. Os do Sul afastavam-se a uma
distância respeitosa de dois metros e setenta na ausência de um insulto (a
famosa delicadeza sulista), mas na sequência de um insulto esperavam, numa
atitude bélica, até uma distância de noventa centímetros. Talvez a versão mais
elucidativa da experiência envolvesse a obtenção de uma amostra de saliva antes
e depois do insulto para análise hormonal. Depois do insulto, os níveis de
cortisol e de testosterona (duas hormonas associadas ao stresse e à
agressividade) subiam nos do Sul, mas não nos do Norte. Não havia diferenças
antes do insulto e na ausência dele. Mesmo os estudantes abastados do Sul que
tinham optado por frequentar uma universidade do Norte eram condicionados,
em termos comportais e horrnonais, pela sua cultura para defenderem a honra.
Dick consegue relacionar-se com os estudantes do Sul porque, embora viva
no Norte há várias décadas, continua programado pela cultura sulista da sua
juventude. Uma vez disse-me que, se está à janela do primeiro andar da sua casa
e vê alguém entrar no jardim, antes de ter tempo de pensar no que está a fazer já
está lá fora a defender o seu território. Pouco importa que seja um homem de
meia-idade, esteja em má forma física ou de pijama. «Está-me na massa do
sangue!», explicou ele. Mas não lhe está na massa do sangue se por isso
entendemos os seus genes. A capacidade de resposta está nos seus genes, tal
como a minha incapacidade de resposta enquanto produto da cultura puritana
da Nova Inglaterra, e uma vasta gama de outras capacidades, passadas e
futuras. Para compreender que capacidade está «na massa do sangue» de
qualquer indivíduo ou sociedade particular temos de olhar para o processo de
evolução cultural, e não de evolução genética.
A nossa viagem incluiu três exemplos significativos de evolução cultural,
mas talvez o leitor deseje prolongá-la por si mesmo. Nesse caso, leia o livro mais
recente de Dick Nisbett, Geography of Thought, a fim de conhecer as diferenças
entre as sociedades asiáticas e ocidentais, o livro de Robert Putnam Making
Democracy Work, para obter informações sobre variação cultural na Itália, ou
Trust, de Francis Fukuyama, para ficar a par da variação cultural internacional
na capacidade de confiar. Acima de tudo, se ainda não o fez, leia o clássico de
Alexis de Tocqueville A Democracia na América, para uma análise
extraordinarjamente penetrante das causas e das consequências da variação
cultural.
Pode parecer estranho ter dado início a este capítulo sublinhando a nossa
ignorância sobre a evolução cultural, tendo depois passado a descrever
exemplos bem conhecidos e bem documentados. Raymond Kelly, Walter Ong,
Djck Nisbett, Robert Putnam, Francis Fukuyama e Alexis de Tocquevilie são
gigantes nos seus respectivos campos e não necessitam de uma introdução por
parte de um evolucionista itinerante como eu. Ou necessitarão? Tudo depende
da ilha do arquipélago de marfim que visitarmos. Um gigante numa disciplina
pode ser um completo desconhecido noutra. Pior ainda, as ideias que um
gigante representa podem constituir o fundamento de uma disciplina, estar
totalmente ausentes de outra e ser uma heresia ainda noutra. As disciplinas
académicas também são culturas, com determinadas proposições «na massa do
sangue» e outras para além, da sua imaginação. No início da sua carreira, Dick
Nisbett e a maioria dos seus colegas partiram do princípio de que o que quer
que descobrissem para os estudantes universitários americanos representaria a
psicologia da toda a nossa espécie. Ficou chocado ao descobrir a importância da
cultura e tornou-se uma voz poderosa, ainda que minoritária, dentro do seu
próprio campo da psicologia social.
Mesmo os meus colegas evolucionistas que são versados em evolução
genética muitas vezes não sabem que fazer da evolução cultural. Dêem-lhes uma
amostra de comportamento ou de psicologia humana moderna para explicar e
eles tentam imaginar como ela teria funcionado na Idade da Pedra. Como já
sublinhei em capítulos anteriores deste livro, trata-se de uma maneira de pensar
razoável sobre certas adaptações humanas, mas ignora completamente o
processo mais aberto da evolução cultural. Actualmente não há consenso entre
os evolucionistas acerca do que conta como parte da nossa arquitectura
psicológica geneticamente inata e do que conta como produto da evolução
cultural dessa mesma arquitectura.
Quando nos deslocamos para ilhas do arquipélago de marfim onde existe
mais apreço pela variação cultural, descobrimos que elas também oferecem
mais resistência à ideia da evolução, seja sob que forma for, como descrevi nos
capítulos 1 e 24. Muitas negariam a existência de uma arquitectura genética
complexa culturalmente universal, ou a possibilidade de explicar a diversidade
cultural da mesma maneira que os evolucionistas explicam a diversidade
biológica. Se há um consenso sobre a evolução entre os entendidos em variação
cultural, ele é errado.
Estes assuntos não dizem respeito à pura curiosidade intelectual. O nosso
futuro depende da adaptação das nossas culturas às realidades da vida moderna
a uma escala espacial e temporal sem precedentes. Em retrospectiva, a ideia de
que podemos fazê-lo sem um conhecimento pormenorizado da evolução
genética e cultural irá parecer ridícula — se tivermos a sorte de persistir tempo
suficiente nas actuais culturas de má adaptação. Talvez um dia, cheios de
confiança, partamos rumo ao futuro, como o capitão Kirk na nave Enterprise.
Até lá seremos como o Feiticeiro de Oz, que não sabe como funciona o balão de
ar quente que o leva.
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*Quando Tudo se Desmorona, Mercado das Letras, 2008. (N. da T.)
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A catedral de Darwin

Estava-se em Janeiro de 2002, no primeiro dia de um novo curso que eu


leccionava sobre evolução e religião. Tinham-se matriculado trinta e seis alunos.
Quando se apresentaram, a mim e uns aos outros, fiquei a saber que dezanove
eram cristãos, nove judeus, três muçulmanos, um hindu, um budista e três
ateus. Não era espantoso, pensei eu, que numa disciplina sobre todas as
religiões que existiram no mundo ao longo da história, os alunos daquela turma
fossem de todas as partes do mundo e representassem a maioria das tradições
religiosas que íamos estudar?
O principal manual para o curso seria o livro que eu escrevera havia pouco,
Darwin’s Cathedral: Evolution, Religion, and the Nature of Society. Esta obra
tenta fazer em relação à religião o que eu e os meus colegas evolucionistas
fizemos em relação a tantos outros temas referidos neste livro, desde o
infanticídio às culturas da honra. São abordadas muitas religiões diferentes,
mas a maioria foram escolhidas selectivamente, pelo que fiquei exposto à crítica
de parcialidade. Da mesma maneira que é possível apresentar selectivamente as
estatísticas para apoiar quase todas as posições, talvez eu me tivesse limitado a
procurar entre muitas religiões para encontrar aquelas que apoiavam as minhas
ideias favoritas.
Há uma solução para o problema da parcialidade da selecção, a que se
chama «amostragem aleatória». A ideia é simplicíssima: estuda-se uma amostra
das religiões seleccionadas sem ter em conta nenhuma hipótese particular e o
que for soará. Iniciei este método em Darwjn’s Cathedral usando a
Encyclopedja of World Religions, em dezasseis volumes, editada por Mircea
Eliade, o grande estudioso das religiões. Escrevi um programa de computador
que escolhia um volume ao acaso, seguido por um número de página ao acaso
dentro do volume. Em seguida avaliei a entrada da enciclopédia que incluía o
número da página para ver se se referia a uma única religião, definida como
«um grupo de pessoas reconhecível, com crenças e práticas que podem ser
distinguidas de outras crenças e práticas». Esta définição, além de estabelecer
uma distinção entre diferentes tradições religiosas importantes, como o
cristianismo e o budismo, também as estabelecia entre denominações no
interior de uma importante tradição religiosa, como o calvinismo e o
luteranismo. Se uma entrada satisfazia a definição, a religião era incluída na
minha amostra. Se tal não acontecia (algumas entradas referiam-se a tópicos
gerais como «mito» ou «politeísmo», e não a uma única religião), passava as
páginas e avançava até à primeira entrada apropriada. Este processo foi
repetido de modo a proporcionarme uma amostra de religiões, seleccionadas
sem ter em conta qualquer favorecimento da minha parte. Todas as crenças e
práticas foram consideradas religiosas, porque afinal haviam sido extraídas de
uma enciclopédia das religiões. Por outras palavras, deixei que fossem Eliade e a
sua equipa de editores a decidir o que é considerado religioso, em vez de ser eu a
impor a minha própria definição.
Em Darwin’s Cathedral escolhi as religiões por este método, numa
ilustração do princípio da amostragem aleatória. O objectivo do meu curso era
estudar as religiões da amostra com a ajuda dos alunos. Depois de estes se
terem apresentado, expliquei que cada aluno ficaria encarregado de investigar
uma única religião da amostra ao longo do semestre. Como é evidente, a escolha
seria aleatória, de modo que a um aluno judeu pudesse ser atribuída uma
religião muçulmana, a um aluno cristão uma religião hindu, e assim
sucessivamente. O desafio a que teriam de responder era tornar-se especialistas
nessa religião, estudando a fundo a literatura sobre o assunto. Depois teriam de
fazer um teste sobre essa religião, que consistiria em responder a trinta e duas
perguntas preparadas por mim. Eu leria esses trabalhos durante o curso e, caso
fosse necessário, remeteria de novo os alunos para a literatura a fim de
recolherem mais informações. Finalmente, usaríamos métodos desenvolvidos
por cientistas sociais para converter essas montanhas de informação descritiva
numa forma numérica.
Em silêncio, os estudantes ouviram-me expor os objectivos do curso, como
se pensassem que se tinham inscrito nos escuteiros e se vissem confrontados
com um sargento instrutor de recrutas num acampamento militar. No entanto,
mostraram-se interessados e ninguém optou por sair da turma, o que seria fácil
no princípio do semestre. Bem vistas as coisas, é exaltante pensarmos que
podemos contribuir activamente para o conhecimento, em vez de o recebermos
de uma forma passiva, especialmente em relação a um tópico tão importante e
fascinante como a religião.
O meu próprio fascínio pela religião tinha começado três anos antes,
quando se me deparou o seguinte passo escrito há mais de 350 anos por um
membro da fé huterita (uma seita cristã anabaptista):
O verdadeiro amor significa crescimento para todo o organismo, cujos membros são,
todos eles, interdependentes e se servem uns aos outros. Essa é a forma exterior do
trabalho interior do espírito, o organismo do Corpo governado por Cristo. Vemos a
mesma coisa entre as abelhas, que trabalham todas com igual zelo na recolha do mel.

É possível que o leitor se tenha questionado, logo no princípio deste livro,


em relação à minha afirmação sonante de que «a evolução e a religião, esses
velhos inimigos que presentemente se situam em campos opostos do
pensamento humano, se podem associar harmoniosamente». Agora talvez
consigam ver como é possível essa união. Os últimos onze capítulos têm-se
debruçado sobre grupos como organismos, desde a origem da vida até aos
corpos multicelulares, às colónias de insectos sociais e aos nossos antepassados,
que se tornaram tão diferentes dos outros primatas atravessando a divisória da
cooperação. O autor do passo acima transcrito nada sabia sobre evolução ou
ciência, mas a sua comparação de corpos, colmeias e do seu próprio grupo
religioso pareceu-me muito mais que uma metáfora poética. Se de facto eu
quisesse estudar os grupos humanos enquanto estes podem ser considerados
comparáveis a corpos e colmeias, não deveria estudar os grupos religiosos?
Afinal é assim que pelo menos alguns crentes religiosos se descrevem a si
próprios!
O interesse já despertara, mas poderia dar-me ao luxo de dispor do tempo
e do esforço necessários para levar a cabo um projecto tão ambicioso? Um
cientista como eu tem de financiar a sua investigação com bolsas. Sabia que
havia agências federais, como a National Scíence Foundation, demasiado
tímidas para financiar uma proposta de trabalho sobre religião a partir de uma
perspectiva evolutiva. Por sorte, uma fundação privada, criada pelo rico
investidor John Marks Templeton, dedicava-se ao estudo da religião de um
ponto de vista científico. Sir John (agraciado pela rainha Isabel II em 1987) era
de uma família presbiteriana do Tennessee rural, de uma terra não afastada do
local onde, tinha ele 11 anos, se realizara o famoso «julgamento do macaco»,
contra John Scopes. Ainda activo aos 92 anos de idade, tem sido a religião a
guiá-lo durante toda a vida e ele faz gala de começar todas as reuniões de
negócios com uma oração. Porém, ao contrário dos vizinhos criacionistas da sua
juventude, Sir John está convencido de que a ciência e a religião têm muito a
oferecer uma à outra. Em particular, pensa que as tradições religiosas de todo o
mundo são mananciais de sabedoria que ainda podem receber contributos da
investigação científica. A missão da sua fundação é fornecer o financiamento
para tornar possível essa investigação científica. Ao mesmo tempo que eu me
interessei pela religião de uma perspectiva evolutiva, a Fundação Templeton
anunciou uma nova iniciativa para financiar investigação científica sobre o
perdão. Formei uma equipa com o meu amigo e colega Chris Boehm, cuja obra
sobre o igualitarismo descrevi no capítulo 21, e candidatámo-nos a uma bolsa
para estudar o perdão nas sociedades de caçadores-recolectores (a parte de
Chris) e nas religiões modernas (a minha parte) de uma perspectiva evolutiva. O
projecto foi financiado e eu lancei-me numa das mais fascinantes aventuras
intelectuais da minha carreira.
Não tive qualquer tipo de formação religiosa. Os meus pais eram pessoas
calorosas, dedicadas e de altos padrões morais, mas não frequentavam a igreja,
e o meu pai em particular desdenhava a religião. Uma vez recebeu a visita de um
pároco local, que lhe perguntou: «Não quer juntar-se à nossa congregação, Mr.
Wilson? A média dos nossos membros ganha um salário de mais de 20 mil
dólares anuais», o que, naquele tempo, era uma quantia avultada. Ainda me
lembro da expressão de júbilo do meu pai quando me contou a história, como se
a hipocrisia de toda a religião tivesse sido revelada naquele dia.
Munido de uma parca experiência pessoal, parti em viagem pelo
arquipélago de marfim para ver o que podia aprender sobre religião. Aquilo
assemelhava-se um pouco à demanda de Bilbo Baggins, a personagem de O
Hobbit, de J. R. R. Tolkien, que parte do Shire para descobrir que o mundo é
muito maior do que ele imaginara. A literatura sobre religião é vasta. Primeiro
há os textos religiosos, com muitos milhares de anos. Depois há a literatura que
os estudiosos de todos os tipos escreveram sobre religíão. Para dar uma ideia da
sua vastidão, embora a minha universidade não seja forte nessa área e a nossa
biblioteca seja modesta, contém mais de uma centena de livros sobre a versão
particular do cristianismo fundada por João Calvino no século XVI. A biblioteca
do Calvin Coilege, em Grand Rapids, no Michigan, um baluarte do calvinismo
nos Estados Unidos, tem bem mais de dez vezes esse número. Cada versão
notável do cristianismo recebeu uma atenção semelhante, para não falar das
outras grandes tradições religiosas. Finalmente, há uma literatura de ciências
sociais sobre religião, mais recente, numa grande quantidade de livros e
revistas, como o Journal for the Scientific Study of Religion. É absurdo pensar
que eu, ou seja quem for, possa dominar um tão grande corpo de informação em
três anos de vida.
Contudo, o meu desafio não consistia em assimilar toda esta informação,
mas em fornecer um quadro teórico para a organizar. Como deviam ser as
religiões de uma perspectiva evolutiva? A minha hipótese principal era que os
grupos religiosos são produto de uma selecção cultural ao nível do grupo e se
assemelham a corpos e colmeias. Uma dada religião adapta os seus membros ao
meio ambiente local, permitindo-lhes alcançar através da acção colectiva o que
não podem alcançar sozinhos, ou até mesmo juntos, na ausência da religião. Os
principais benefícios da religião têm lugar neste mundo, e não no além. E,
embora seja frequente os elementos da religião parecerem bizarros, irracionais e
até declaradamente disfuncionais aos não crentes, quando examinados de perto
a maioria faz sentido como parte de uma «fisiologia social» que coordena a
acção e resolve o problema crucial da impostura vinda do interior.
Por outro lado, talvez a religião seja essencialmente mais um produto de
selecção no interior do grupo do que intergrupos. Quando as pessoas são
encorajadas a obedecer à regra de ouro e a fazer sacrifícios neste mundo para
receber a recompensa no Paraíso, talvez, consciente ou inconscientemente,
estejam a ser enganadas pelos seus líderes. Se assim for, quando olhamos
atentamente para a religião esta deve revelar-se como uma operação
fraudulenta com os líderes a espoliarem o rebanho e não a conduzirem-no. Sem
dúvida que há muitos exemplos de abuso e exploração na história das religiões,
como as práticas da Igreja Católica que levaram à reforma protestante e à
Contra-Reforma, mas talvez Karl Marx tivesse razão ao afirmar que a maioria
dos elementos da religião são o «ópio das massas».
O facto de a evolução cultural envolver a transmissão de ideias de umas
pessoas para as outras suscita uma terceira possibilidade. Há organismos
patogénicos, como o herpes e o vírus da gripe, que também se transmitem de
umas pessoas para as outras. Beneficiam não pessoas ou grupos, mas apenas a
si próprios. O meu colega evolucionista, o famoso Richard Dawkins, fez a
famosa sugestão de que há pedacinhos de cultura chamados «memes» que
podem evoluir e transformar-se em organismos parasitas autónomos. Se assim
for, uma análise atenta dos movimentos religiosos pode revelar que eles são
como epidemias de doenças que deixam toda a gente pior que antes, tanto os
líderes como os seus seguidores.
Ou talvez o encanto que a religião suscita em nós seja uma forma de
dançarmos com fantasmas, como descrevi no capítulo 8. Da mesma maneira
que os nossos hábitos alimentares faziam sentido nos meios ambientes antigos,
mas não nos modernos, talvez o nosso impulso para ajudar os outros fizesse
sentido nas micro-sociedades antigas, compostas por parentes genéticos, mas
não nas mega-sociedades actuais. Se assim for, uma análise atenta da religião
revelaria que ela é como a obesidade, algo que fazemos porque não o podemos
evitar, embora já não seja benéfico para nós.
Ou talvez as religiões sejam como os macacos loucos e a cauda enrolada de
um cão, que não têm função e só subsistem em virtude de uma relação com
outra coisa qualquer que a tem. Afinal muitas características associadas à
religião são também expressas em contextos não religiosos. Talvez a sua
expressão não religiosa seja claramente adaptativa e a sua expressão religiosa
reflicta um preço que não pode ser evitado. Se assim foi teremos de olhar para
fora da religião a fim de explicar a existência da religião como um subproduto.
Em resumo, a teoria da evolução fornece, não uma, mas cinco grandes
hipóteses sobre a religião. Todas elas são plausíveis e susceptíveis de explicar
potencialmente algumas ou todas as características da religião. Os poucos
evolucionistas que reflectiram acerca da religião não estão de acordo quanto as
hipoteses que seria mais provavel estarem correctas, eu prefiro a da adaptação a
nivel de grupo, mas Richard Dawkins e o filósofo Daniel Dennett, nos seus livros
A Desilusão de Deus e Quebrar o Feitiço, são a favor da hipótese do parasita
cultural. Os cientistas não devem concordar antes de testar as suas hipóteses
preferidas. A concordância surge depois de algumas hipoteses explicarem os
factos do mundo real melhor que outras. Nesta fase da minha investigação
estava simplesmente a tentar articular as grandes hipoteses evolutivas sobre a
religião como preparação para as testar.
A maior parte das teorias da religião foram formuladas por pessoas que
nunca usaram a palavra «evolução», mas não tardei a descobrir que elas podiam
ser divididas em categorias em termos das cinco grandes hipóteses evolutivas
sem que fossem necessárias análises adicionais. Por exemplo, em 1912, o grande
sociólogo Émile Durkheim (que era filho de um rabino) definiu a religião do
seguinte modo: «Uma religião é um sistema unificado de crenças e práticas
relativas a coisas sagradas [...] que unem numa única comunidade moral
chamada igreja todos aqueles que aderem a elas.» Sem dúvida que Durkheim
considerava os grupos religiosos como corpos e colmeias (a primeira grande
hipótese apresentada acima), mas não fornecia disso nenhuma explicação
evolutiva, e os seus sucessores classificaram a sua teoria como «sociológica» e
não como «evolutiva», um termo que associavam a outro conjunto de ideias
acerca da religião. Estas configurações de ideias devem ter parecido razoáveis na
época, mas já não faziam sentido contra o pano de fundo da moderna teoria da
evolução. Mas o pior é que descobri que as ideias de Durkheim sobre a religião
haviam sido em grande medida rejeitadas pelos cientistas sociais modernos
juntamente com a tradição mais vasta do funcionalismo (o conceito da
sociedade como organismo), que ele representava. Adorei ler As Formas
Elementares de Vida Religiosa, de Durkheim, e a dado ponto fiquei tão
entusiasmado que exclamei para a minha mulher: «Anne! O Durkheim está a
falar comigo do outro lado do abismo do tempo!» Anne está acostumada a
exclamações deste género e sorriu com indulgência antes de regressar ao seu
trabalho. Pensei que Durkheim estava no caminho certo e que era possível
atribuir-lhe uma formulação evolutiva moderna, mas percebi que daria imenso
trabalho convencer disto alguns especialistas.
Os cientistas sociais da actualidade confiam mais na teoria económica do
que em Durkheim para explicar a natureza da religião. Não levei muito tempo a
descobrir a obra de Rodney Stark e de William Bainbridge, que, entre muitos
outros, escreveram os livros A Theory of Religion e The Future of Religion.
Segundo a sua teoria, as pessoas são muito boas a formular explicações do
mundo que as rodeia e a raciocinar em termos de custos e benefícios para obter
o que querem. Infelizmente, há algumas coisas que não é possível ter; como
chuva durante uma seca ou viver eternamente. Porém, o facto de serem
inacessíveis não nos impede de as desejar; sendo por isso que inventamos
religiões, num esforço vão para conseguir o que não podemos ter. Suplicamos a
Deus para termos uma vida eterna e não para nos permitir chegar ao trabalho
de manhã. A religião, por si só, não produz quaisquer benefícios práticos. É um
subproduto da mente económica que proporciona benefícios óbvios em
contextos não religiosos, mas que não tem qualquer efeito no caso da religião.
Segundo Stark, «Todos os aspectos da religião — a crença, a emoção, o ritual, a
oração, o sacrifício, o misticismo e o milagre — podem ser compreendidos na
base das relações de troca entre os seres humanos e seres sobrenaturais».
Para Stark e Bainbridge, a grande palavra é «economia», e não
«evolução», mas estas teorias não devem ser consideradas alternativas. A
maioria dos economistas admite de bom grado que a capacidade humana para
formular explicações e raciocinar na base de custos e benefícios se desenvolveu
por meio da evolução genética. Consideram a teoria económica compatível com
a teoria da evolução de uma forma que não exige muito conhecimento sobre esta
última, o que lhes permite continuar na base dos seus pressupostos
minimalistas. Em capítulos anteriores critiquei esta posição, mas mesmo assim
é fácil classificar a teoria de Stark e Bainbridge como uma explicação da religião
como produto subsidiário (a quinta grande hipótese apresentada acima). Dois
dos meus colegas evolucionistas, Pascal Boyer no seu livro Religion Explained e
Scott Atran na sua obra In Gods We Trust, têm uma concepção da mente
humana diferente da de Stark e Bainbridge, mas também consideram a religião
um produto subsidiário de adaptações psicológicas que evoluíram em contextos
não religiosos. Se eles estiverem no caminho certo, então a quinta grande
hipótese emergirá triunfante, e a primeira, que é a minha preferida, será
consumida pelas chamas quando os factos relativos à religião forem
consultados.
Os primeiros dois capítulos de Darwin’s Cathedral são dedicados a este
tipo de trabalho básico conceptual, mas o verdadeiro prazer e suspense de
escrever o livro começaram com a minha tentativa de descrever as religiões
actuais em pormenor. Como iria o meu quadro evolutivo explicar os factos e
quais das grandes hipóteses seriam confirmadas (se acaso alguma o fosse)?
Decidi começar pelo calvinismo, uma das muitas versões do cristianismo, por
este representar uma experiência natural. Estava-se na década de 1530, nos
tempos caóticos da reforma protestante. Havia pouco, a cidade de Genebra
expulsara a Igreja Católica Romana, para se tornar independente do ducado da
Sabóia. Ansiava pela independência, mas estava totalmente dependente da
Confederação Helvética no que tocava ao apoio militar, especialmente da cidade
de Berna. O movimento reformista protestante suíço tinha alastrado a Genebra,
mas faltava-lhe organização. Além disso, a cidade era governada por um
conselho democraticamente eleito que só recentemente adquirira
independência em relação à igreja Católica e que não cederia perante uma nova
autoridade religiosa.
Neste ambiente político e religioso volátil surgiu João Calvino, um erudito
de passagem pela cidade, mas a quem a vergonha levou a ficar junto dos dois
principais reformadores de Genebra. Vale a pena citar o relato feito pelo próprio
Calvino deste acontecimento histórico:
Pouco tempo antes, o papado havia sido expulso pelo homem bom que referi
[Guillaume FareI] e por Pierre Viret. As coisas, porém, ainda estavam longe de se
encontrar resolvidas e havia divisões e facções sérias e perigosas entre os habitantes da
cidade. [...] Farel (que, animado por um zelo maravilhoso, ardia por promover os
Evangelhos) desviou-se do seu caminho para me convencer a ficar. E, depois de ter
ouvido que eu tinha diversos assuntos privados para os quais pretendia manter-me livre e
ao descobrir que não chegaria a sítio nenhum com as suas solicitações, deu livre curso a
uma imprecação, rogando a Deus que amaldiçoasse o meu ócio e a paz para o estudo que
eu procurava, caso me fosse embora e recusasse dar-lhe apoio e auxilio numa situação de
tão grande necessidade. Estas palavras abalaram-me e comoveram-me a tal ponto que
desisti da viagem que tencionava fazer.

Segundo o próprio Calvino, apesar de possuir um governo forte,


democraticamente eleito, Genebra era incapaz de se organizar como unidade
social. Os historiadores e os contemporâneos de Calvino estão de acordo: a
divisão em facções era chamada a «doença de Genebra». Calvino e Farei
elaboraram um programa religioso que incluía o catecismo e um breve conjunto
de regras designadas por Ordenanças Eclesiásticas. A princípio, os padres da
cidade ficaram tão alarmados pela sua austeridade que expulsaram Calvino e
Farel, mas três anos mais tarde voltaram atrás com a sua decisão e convidaram-
nos a regressar. Foi por este motivo que optei pelo calvinismo como experiência
natural para o meu primeiro estudo de caso. Pude analisar como uma única
sociedade humana — a cidade de Genebra no século XVI — funcionava, quer na
presença quer na ausência de uma nova religião.
Embora os historiadores que se debruçam sobre esse período não estejam
de acordo quanto aos pormenores (todos os temas têm uma fronteira de
controvérsia, ou não valeria a pena estuda-los), pouca duvida subsiste de que o
calvinismo foi um instrumento fundamental para resolver o problema das
facções e para ajudar a cidade de Genebra a sobreviver como entidade social,
como foi resumido pelo eminente estudioso das religiões Alister McGrath:
Os acontecimentos na ausência de Farli e Calvino tinham demonstrado a estreita
interdependência da reforma e da autonomia, da moral e do moral. Embora o conselho da
cidade estivesse principalmente preocupado com a independência e com o moral da
cidade, o facto de não ser possível escapar ao programa religioso de Farel foi emergindo
gradualmente. A facção de Farel provavelmente tinha pouco entusiasmo pela reforma
religiosa ou pela imposição da moral pública; no entanto, a sobrevivência da república
genebrina parecia depender delas.

Tente imaginar o meu entusiasmo depois de ler pela primeira vez este
passo e outros semelhantes. O calvinismo podia ter-se encaixado em qualquer
das grandes hipóteses evolutivas apresentadas acima, ou mesmo não se ter
encaixado em nenhuma delas, se todo o quadro evolutivo fosse desadequado
para o estudo da religião. Eu podia ter descoberto que Calvino e os seus
companheiros estavam secretamente a ocupar-se dos seus próprios ninhos, que
a religião era uma cultura parasítica que fazia toda a gente sofrer, que podia ter
feito sentido para um grupo de caçadores-recolectores mas não para uma
cidade, que era a face perniciosa de uma moeda com outra face não religiosa
benéfica. Em vez disso, descobri que o calvinismo era essencial para a
viabilidade da cidade. Além disso, aquilo não era uma interpretação esotérica da
minha parte, mas a avaliação séria dos historiadores que melhor conheciam os
factos relacionados com a questão. Agradou-me particularmente a justaposição
dos dois sentidos da palavra «moral». O termo no feminino refere-se a um
sentido do certo e do errado. O masculino tem a ver com a motivação para a
acção. McGrath sugeria que para os cidadãos de Genebra terem um moral forte
tinham de ter um sentido forte e unificado do certo e do errado. Como os grupos
muito mais pequenos de caçadores-recolecores descritos por Chris Boehm, eles
precisavam de constituir uma comunidade moral. Isso era, evidentemente, o
que a religião proporcionava, e o que mesmo um governo forte,
democraticamente eleito, não possuía.
Como exerceu exactamente a religião do calvinismo o seu poder mágico
sobre a cidade de Genebra? Para saber mais, decidi estudar o catecismo e as
Ordenanças Eclesiasticas que Calvino escreveu e insistiu que a cidade adoptasse
como condição para o seu envolvimento. Pensei que, se é possível considerar
alguma coisa como «genoma cultural», transmitindo o essencial de uma religião
de uma pessoa para outra, era esse o caso das ordenanças. Descobri que
incluíam, não só prescrições relativas ao comportamento geral, como os dez
mandamentos, mas também outras mais específicas, adaptadas ao ambiente
social genebrino. A concepção de Deus e a sua relação com as pessoas, incluindo
a transmissão de conceitos como pecado original, fé e perdão, pareciam
extraordinariamente apropriadas para cultivar uma atitude de obediência cívica.
Acima de tudo, as práticas sociais especificadas pelas Ordenanças Eclesiásticas
pareceram-me destinadas a suprimir o importante problema da impostura
vinda do interior. Martin Bucer outro reformador protestante e contemporâneo
de Calvino, exprimiu-se do seguinte modo: «Onde não há disciplina e
excomunhão não há comunidade cristã.» O que eu traduzo do seguinte modo:
«Se uma pessoa não se pode livrar da impostura excluindo esse comportamento
(disciplina) ou a pessoa se necessário (excomunhão), não se pode pensar em
criar uma sociedade cooperativa.»
Fiquei especialmente interessado na forma como esses mecanismos para
impedir a impostura se estendiam, não só à gente comum, mas também aos
líderes. O chefe da igreja não era um indivíduo único, mas um grupo de pastores
que tomavam decisões por consenso, de uma forma muito semelhante à dos
caçadores-recolectores igualitários acocorados à volta de uma fogueira. Quando
não conseguiam chegar a acordo, o círculo que tomava as decisões era alargado,
e não estreitado. Calvino partilhava todos os deveres de um pastor, apesar do
seu tremendo trabalho adicional como principal arquitecto da religião e da sua
vasta correspondência com reformadores de outros lugares. Os anciãos que
supervisionavam sectores da cidade tinham de ter a aprovação não só dos
pastores e do conselho da cidade, mas também dos residentes do sector.
Usavam-se os métodos de dupla contabilidade a fim de evitar o uso impróprio
dos fundos doados pelas organizações de caridade. Estas verificações práticas
faziam tanto parte da religião como os seus elementos espirituais. O espírito
igualitário do calvinismo é talvez mais bem ilustrado pelo dever de cuidar dos
moribundos vítimas da peste. Esta tarefa que punha a vida em perigo era tirada
à sorte. Calvino estava isento de se submeter a essa prática por decreto do
conselho da cidade, pois a sua morte teria um impacto muito maior que a dos
outros pastores sobre o destino da igreja. Quando Teodoro de Beza sucedeu a
Calvino depois da morte deste último, foi o próprio Beza a fazer pressão sobre o
conselho da cidade para ser incluído neste mecanismo, o que conseguiu que se
viesse a verificar. A segunda grande hipótese evolutiva — que as religiões se
destinam a beneficiar os líderes à custa da gente comum — pode ser rejeitada no
caso dos primórdios do calvinismo.
Não é minha intenção fazer propaganda ao calvinismo ou a qualquer outra
religião. Ele criou uma infra-estrutura social e psicológica para os seus
membros, mas não estendeu as suas virtudes a outros grupos religiosos. A
comunidade judaica de Genebra havia sido expulsa pelos católicos antes de
estes terem, por sua vez, sido expulsos pelos protestantes. Calvino acreditava
firmemente que o papa era o Anticristo. O grau de controlo social dentro da
igreja assemelha-a mais às religiões fundamentalistas islâmicas dos nossos dias
que às modernas religiões cristãs, incluindo no que diz respeito às numerosas
execuções por heresia. Na Genebra de Calvino as pessoas podiam ser multadas
por dançar de forma imprópria ou ir parar à cadeia por jogar ao domingo. O
calvinismo e praticamente todas as religiões desse período são culpados quando
julgados em termos de direitos humanos modernos ou do padrão supremo da
irmandade universal. Contudo, enquanto evolucionistas, não é nossa tarefa
julgar moralmente as religiões, mas sim explicá-las como produtos da evolução
genética e cultural. No capítulo 5 já chamei a atenção para o facto de as
adaptações nem sempre corresponderem ao que nós consideramos bom e útil.
No que toca às adaptações, é preciso ter cuidado com os desejos que se
formulam. Seja o que for que pensemos sobre o calvinismo da nossa
perspectiva, podemos concordar que, de entre as cinco grandes hipóteses
evolutivas, ele corresponde à primeira (adaptação a nível de grupo). O seu êxito
deveu-se a permitir que a cidade de Genebra funcionasse como uma unidade,
um corpo ou uma colmeia.
Enquanto palmilhava os montes e vales da vasta literatura sobre a religião,
descobri que o carácter eminentemente prático do calvinismo não era invulgar.
Um livro maravilhoso do antropólogo Stephen Lansing intitulado Priests and
Programmers mostrou como um sistema elaborado de templos na ilha de Bali
se destina a coordenar a cultura do arroz. O judaísmo parecia particularmente
adequado para a análise evolutiva. Um dos meus romancistas favoritos é Isaac
Bashevis Singer, que ganhou o Prémio Nobel da literatura em 1978. Fiquei
entusiasmado quando descobri que o seu romance histórico O Escravo
correspondia exactamente à literatura académica que eu andava a ler sobre as
comunidades de judeus na Europa e noutras partes do mundo. Jacob, a
personagem principal do romance, tem uma revelação que cito logo no início de
Darwin’s Cathedral: «Mas agora, pelo menos, ele compreendia a sua religião: a
sua essência era a relação entre o homem e os seus companheiros.»
Elaine Pagels, uma estudiosa das religiões, já é famosa pelos seus livros
sobre os primórdios do cristianismo, como The Origin of Satan e The Gnostic
Gospels. Já alguma vez perguntou a si mesmo por que motivo os quatro
Evangelhos do Novo Testamento são tão diferentes uns dos outros, embora
todos sejam apresentados como relatos factuais da vida de Cristo? Vários
estudos exaustivos determinaram que eles foram escritos independentemente
entre trinta e cinco e cem anos depois da morte de Jesus. Segundo Elaine
Pagels, são diferentes não só porque a memória se vai desvanecendo com o
tempo, mas porque se adaptavam às necessidades de diferentes comunidades
locais cristãs. O Evangelho segundo São Marcos foi escrito imediatamente a
seguir ao cerco romano de Jerusalém e à destruição do Templo, no ano 70 d. C.
Os Romanos não gostavam dos cristãos e dos judeus, mas os primeiros cristãos
encaravam os judeus que ocupavam posições de autoridade como os seus
principais inimigos e os judeus despojados dos seus privilégios como a principal
fonte de convertidos. A destruição do Templo por parte dos Romanos foi
interpretada como castigo de Deus pelos pecados dos judeus, vaticinado por
Cristo, e os judeus que detinham o poder foram considerados os principais
responsáveis pela morte de Jesus.
Para São Mateus, que escreveu apenas dez ou vinte anos depois de São
Marcos, o principal corpo do judaísmo era controlado pelos representantes de
um partido religioso conhecido como dos fariseus, que era muito menos
poderoso no tempo de Jesus. Seja como for, no Evangelho segundo São Mateus,
os fariseus tornaram-se o principal inimigo e o alvo das acusações pela morte de
Cristo. É provável que São João fosse membro de uma igreja sectária e radical
composta por judeus, que se opunha ainda mais ferozmente ao establishment
judaico do que outras comunidades cristãs. O seu Evangelho ultrapassa todos os
outros na representação do combate da Igreja como parte de uma luta cósmica
entre o bem e o mal. Desde então, segundo Elaine Pagels, as comunidades
cristãs que têm de se bater pelas suas vidas têm encontrado especial inspiração
e conforto no Evangelho segundo São João.
O Evangelho de São Lucas é provavelmente o único escrito por e para não
judeus, o que se reflecte amplamente no seu conteúdo. Quando Jesus prega na
sua cidade natal, Nazaré, é bem recebido nos outros três Evangelhos, mas no de
São Lucas é quase atirado de um penhasco por dizer que Deus trará salvação aos
gentios. Segundo São Lucas, todos os judeus clamam pela morte de Jesus, e não
apenas os fariseus ou o establishment judaico. Pôncio Pilatos, o governador
romano da Judeia, é representado como um homem sensato, que tenta o mais
que pode salvar Jesus, embora as fontes não bíblicas o descrevam como um
homem de «carácter inflexível, obstinado e cruel, cuja administração foi
marcada pela cobiça, pela violência, pelo roubo, pela agressão e por
comportamentos insultuosos, execuções frequentes sem julgamento e
ferocidade e selvajaria intermináveis». Quando Jesus morre na cruz, segundo
São Lucas um centurião romano exclama: «Sem dúvida que este homem é
inocente!» (23:47).
Ainda mais interessantes são os Evangelhos que não se encontram
incluídos no Novo Testamento. Quando o movimento cristão ganhou ímpeto
suficiente, tornou-se necessário impor a uniformidade canonizando alguns dos
ensinamentos religiosos e denunciando os restantes. No final do século II, os
bispos da igreja cristã que passara a designar-se a si mesma por ortodoxa
reuniram-se para coligir o Novo Testamento e estigmatizar tudo o resto, que,
segundo as palavras de um dos bispos, era «um abismo de loucura e de
blasfémia contra Cristo». Afortunadamente, alguns dos documentos
condenados sobreviveram e foram recuperados por estudiosos como Elaine
Pagels. Um deles é o Evangelho segundo São Tomás, que encoraja os crentes a
embarcarem numa viagem de autodescoberta em vez de ficarem inseridos num
grupo coeso. Segundo Elaine Pagels, os Evangelhos que viriam a ficar incluídos
no Novo Testamento foram escolhidos pela seguinte razão:
O autor do Evangelho segundo São Marcos oferece um modelo rudimentar para a
vida comunitária cristã. Os Evangelhos que a maioria dos cristãos adoptou seguem todos,
em certa medida, o exemplo de São Marcos. Gerações sucessivas encontraram nos
Evangelhos do Novo Testamento o que não encontravam em muitos outros elementos da
tradição de Jesus nos seus primórdios — um modelo prático das comunidades cristãs.

Pagels não usa a palavra «evolução», mas não há dúvida que está a
descrever um processo de evolução cultural. As versões do cristianismo que
construíram comunidades fortes sobrevivem enquanto outras se desmoronam.
Os elementos de uma religião necessários para a sobrevivência dependem do
ambiente social envolvente, pelo que as religiões se diversificam
necessariamente à medida que evoluem. No início da minha investigação não
imaginava que o Novo Testamento pudesse ser considerado um registo fóssil de
adaptação cultural local! Tal como com o calvinismo, não se tratava de uma
interpretação pessoal esotérica, mas da opinião de estudiosos conceituados.
Até os chefes religiosos, e não apenas os especialistas em religiões,
descrevem por vezes a religião em termos evolutivos sem usar a palavra
«evolução». Veja-se o seguinte passo de John Wesley, o fundador do ramo do
cristianismo conhecido por metodismo:
Não vejo como é possível, de acordo com a natureza das coisas, alguma renovação da
religíão continuar durante muito tempo. Isto porque a religião tem necessariamente de
produzir tanto a industriosidade como a frugalidade. E estas não podem deixar de
produzir riqueza. Mas, à medida que a riqueza aumenta, também aumentam o orgulho, a
cólera e o amor mundano em todas as suas ramificações.

Wesley está a dizer que as religiões são tão boas a proporcionar benefícios
materiais que os seus membros se tornam abastados, após o que perdem o
incentivo para cooperar e tentam afrouxar a austeridade que lhes permitiu sair
da pobreza. Além disso, as religiões não são totalmente justas na prática. Alguns
membros lucram à custa de outros (a segunda grande hipótese referida acima),
impelindo os que nada têm a partir para criar a sua própria igreja «purificada».
As religiões não só se adaptam aos seus ambientes sociais, mas também os
modificam, num ciclo infinito de corrupção e renovação que tem sido
documentado pelos estudiosos para todas as tradições religiosas, em todo o
mundo e ao longo da história.
E o perdão, esse tópico específico para o estudo do qual fui financiado pela
Fundação Templeton? O perdão cristão é muitas vezes resumido pela frase «dá
a outra face», mas esta prescrição comportamental é demasiado simples de uma
perspectiva evolutiva. Qualquer religião que se preze deve fornecer muitas
regras sobre o perdão que são empregadas de forma flexível, de acordo com a
situação. A primeira exigência é definir o grupo e isolá-lo do resto da sociedade,
de modo que os comportamentos no interior e no exterior do grupo possam ser
regulados em separado. Alguém que conheça bem os Evangelhos sabe que Jesus
exigiu um comprometimento total, que se sobrepunha não só à religião anterior
professada pela pessoa, mas também à sua família imediata. Na parábola dos
talentos (Lucas 19:12-27), Jesus conta a história de um homem que parte para
um país distante «a fim de ser coroado rei». Depois do seu regresso, exige a
morte dos que foram desleais na sua ausência: «Quanto a esses meus inimigos
que não queriam que eu reinasse sobre eles, trazei-os aqui e matai-os na minha
frente.» Esta faceta do cristianismo está no pólo oposto do «dar a outra face» —
e tem de estar, para cumprir a sua função. Antes de poder haver um grupo
fortemente empenhado, têm de existir consequências sinistras, intuídas (ou
reais), por deixar o grupo. Saltando para o século XVI, o Deus de Calvino
concede o perdão com uma precisão numérica: aqueles que entram na fé e
depois a abandonam são amaldiçoados até à quarta geração, aqueles que
mantêm a fé são abençoados durante um milhar de gerações, e assim
sucessivamente.
Dentro do grupo, os membros não «dão a outra face» relativamente a
transgressões sociais, mas seguem um conjunto pormenorizado de regras, como
descreveu o mesmo membro da fé huterita que começou por despertar o meu
interesse pela religião descrevendo o seu grupo como um corpo e uma colmeia:
O laço do amor mantém-se puro e intacto através da punição do Espírito Santo. As
pessoas sobrecarregadas de vícios que alastram e corrompem não podem fazer parte dele.
Esta fraternidade harmoniosa exclui quem quer que não faça parte do espírito unânime
[...] Se um homem se obstina na rebelião, o passo extremo da separação é inevitável. De
outro modo, toda a comunidade seria arrastada para o seu pecado, tornando-se parte dele
[...] Por isso, o apóstolo Paulo diz: «Expulsem a pessoa perversa do vosso seio.»
No caso de transgressões menores, esta disciplina consiste numa simples reprimenda
fraterna. Se alguém agiu mal para com outra pessoa mas não cometeu um grande pecado,
uma censura e uma advertência são suficientes. Mas, se um irmão ou uma irmã resiste
obstinadamente à correcção fraterna e ao bom conselho, então mesmo essas coisas
relativamente insignificantes têm de ser levadas abertamente perante a Igreja. Se esse
irmão estiver pronto a escutar a Igreja e disposto a ser corrigido, ser-lhe-á mostrado o
caminho certo para lidar com a situação. Tudo ficará esclarecido. Mas, se ele persistir na
sua obstinação e recusar escutar mesmo a Igreja, então só haverá uma resposta para esta
situação, que é afastá-lo e excluí-lo. É melhor para alguém com um coração cheio de
veneno ser excluído do que toda a Igreja ser levada a cair na confusão ou ficar maculada.
Todavia, o objectivo total desta disciplina não é a exclusão, mas uma mudança de
atitude. Esta não é aplicada para a ruína de um irmão, mesmo quando este incorreu num
pecado flagrante, em pecados de impureza que o tornam profundamente culpado perante
Deus. Em nome do exemplo e da advertência, nesta ocorrência a verdade tem de ser
abertamente declarada perante a Igreja. Mesmo nesse caso, o referido irmão não deve
abandonar a sua esperança e a sua fé. Não deve afastar-se e deixar tudo, mas aceitar e
suportar o que lhe é imposto pela Igreja. Deve arrepender-se sinceramente, por muitas
lágrimas que isso lhe possa custar e muito sofrimento que possa envolver. Na altura certa,
quando estiver arrependido, os que estão unidos na Igreja oram por ele, e todos os que
estão no Céu rejubilam com eles. Depois de ter mostrado um arrependimento sincero, é
recebido com grande alegria numa reunião de toda a Igreja, cujos membros intercedem
unanimemente em seu favor, para que nunca mais se pense nos seus pecados, mas para
que estes sejam perdoados e apagados para sempre.

Citei este longo passo para mostrar como uma religião pode incorporar
instruções pormenorizadas quanto à maneira de medir o perdão em situações
particulares. Se conhece o ramo da matemática designado por teoria dos jogos,
reconhecerá imediatamente os elementos deste passo religioso e achá-lo-á
semelhante aos elementos das estratégias teóricas que promovem a evolução da
cooperação — retaliação condimentada com a quantidade exacta de
generosidade, contrição e perdão, condicionados por uma modificação do
comportamento.
Que papel desempenha o «dar a outra face» neste sistema complexo de
regras do tipo «se, então»? Jack Miles, vencedor do Prémio Pulitzer e autor da
obra God: A Biography, fornece parte da resposta num ensaio intitulado «The
Disarmament of God». Segundo Miles, o Deus hebraico era essencialmente um
guerreiro que comandava o seu povo para combater e lhe prometia a vitória no
futuro, por muitas derrotas que tivesse sofrido no passado. O Deus cristão
reflectia a realidade de a vitória militar já não ser possível e a única estratégia de
sobrevivência envolver uma coexistência mais pacífica. O Deus cristão pousou
as armas. Esta estratégia social era tão radicalmente diferente que era possível
afirmar que o Deus cristão era um Deus completamente distinto do Deus
hebraico, como alguns especialistas afirmaram. No entanto, como a evolução
cultural raramente envolve descontinuidades tão radicais, os cristãos
imaginaram o seu Deus a formar uma continuidade com o passado. De qualquer
modo, «dar a outra face» pode ser uma boa estratégia não militarista numa
competição intergrupos, como os acontecimentos subsequentes amplamente
confirmam. Quando os cristãos se tornaram politicamente poderosos, a
evolução cultural promoveu a retomada das estratégias militares, como durante
as cruzadas.
No final da minha viagem de três anos fiquei convencido de que os crentes
religiosos estão essencialmente correctos quando descrevem os seus grupos
como corpos e colmeias. A evolução é um processo complicado e multifactorial.
Talvez as cinco grandes hipóteses evolutivas tenham um certo grau de validade,
mas, se apenas fosse possível dizermos uma coisa sobre a religião, ela não
andaria longe da definição de Durkheim já citada neste capítulo, o que exige um
processo de selecção cultural ao nível de grupo a ser explicado em termos
evolutivos modernos. Porém, a minha viagem foi pouco organizada, motivo pelo
qual reuni o meu grupo de alunos para me ajudarem a escolher a minha
amostra de religiões ao acaso, como a deusa da justiça imparcial, de olhos
vendados. Gostaria de poder dizer que, no espaço de um semestre, os meus
alunos se tornaram uma excelente equipa de especialistas no campo da religião
evolutiva. Seria um enredo magnífico para um filme inspirador feito para passar
na televisão. Infelizmente, não atingiram os padrões exigidos em relação à parte
do curso destinada a converter a informação descritiva em forma numérica. No
entanto, escreveram textos com muitas informações de qualidade, com centenas
de referências a livros e artigos sobre as religiões da amostra, o que me permitiu
prosseguir com o estudo depois de o semestre chegar ao fim. Os resultados
foram publicados num artigo intitulado «Testing Major Evolutionary
Hypothesis About Religion with a Random Sample», que pode descarregar do
meu site. Está amplamente preparado para o desfrutar e avaliar, não obstante
ter sido escrito para profissionais. Basta dizer que a amostra aleatória confirma
as conclusões a que cheguei em Darwin’s Cathedral, baseadas na minha viagem
menos organizada. A beleza da amostragem aleatória reside no facto de, a não
ser que tenha ocorrido um acidente de amostragem invulgar, as conclusões
válidas para a amostra também serem válidas para todas as religiões do décimo
sexto volume da Encyclopedia of World Religions, do qual a amostra foi
extraída.
Desde que escrevi Darwin’s Cathedral corri mundo a falar sobre evolução
e religião a públicos de todos os tipos. Termino a minha exposição com o
seguinte passo da autobiografia de Darwin acerca de uma viagem que ele fez em
jovem com o seu professor Adam Sedgwick a um vale no País de Gales.
Passámos muitas horas em Cwm Idwal, a examinar todas as rochas com extremo
cuidado, pois Sedgwick estava ansioso por encontrar fósseis; mas nenhum de nós viu em
redor o menor vestígio dos maravilhosos fenómenos glaciares; nenhum de nós viu as
rochas visivelmente estriadas, os pedregulhos empoleirados, as moreias laterais e
terminais. Contudo, estes fenómenos são tão visíveis que [...] uma casa consumida pelo
fogo não nos contaria uma história mais clara que este vale. Se ele ainda estivesse cheio
com um glaciar os fenómenos teriam sido menos nítidos do que são agora.

Este passo ilustra maravilhosamente a necessidade de uma teoria para


ver o que temos à nossa frente. Darwin e Sedgwick não viram indícios de
glaciares porque a teoria da glaciação ainda não tinha sido proposta. Com a
teoria em mente, os dados que a confirmavam tornaram-se tão óbvios que era
como se os glaciares ainda estivessem presentes. As medições detalhadas, as
estatisticas e outras armadilhas da ciência moderna eram desnecessarias. A
informação descritiva cuidadosamente reunida pelos geólogos da época era
suficiente.
A teoria da selecção natural de Darwin representa outra transformação do
óbvio. Foi criada totalmente na base das informações descritivas sobre o mundo
vivo, cuidadosamente reunidas pelos naturalistas da época, a maioria dos quais
pensava que ainda estava a estudar a obra de Deus.
Da mesma maneira que Darwin e Sedgwick não conseguiram encontrar
fósseis no vale de Cwm Idwal, o criacionismo também não conseguiu explicar os
factos, mas com a teoria certa em mente os dados que a comprovavam
tornavam-se tão óbvios qüe era como se estivéssemos presentes aquando da
origem e da diversificação das espécies.
Penso que uma transformação semelhante do óbvio terá lugar para a nossa
compreensão da religião. Os estudiosos da religião são como os geólogos e os
naturalistas da época de Darwin. Ao longo das décadas, criaram montanhas de
informações descritivas cuidadosamente reunidas sobre religiões de todo o
mundo e no decurso de toda a história. Eu sei, porque passei anos a percorrer
essas montanhas sem lhes ver o fim. Alguns estudiosos das religiões são
religiosos no que toca às suas convicções pessoais, alguns são guiados por um ou
outro quadro teórico, mas nunca ninguém explicou tudo isso. Por sorte, o futuro
não precisa de ser como o passado, como vimos no caso da geologia e da
biologia. Com a teoria certa, os dados que a comprovam podem tornar-se tão
óbvios que é como se estivéssemos presentes aquando da a origem e da
diversificação das religiões, tal como na realidade acontece, uma vez que o
processo continua a ter lugar à nossa volta. Não importa que a informação seja
descritiva e não possua os dispositivos da ciência moderna. A quantificação
refina, mas não define o processo científico, sendo este o motivo pelo qual
Darwin pôde estabelecer a sua teoria com base na força das informações
puramente descritivas.
A evolução e a religião já não podem ocupar extremos opostos do
pensamento humano. Os evolucionistas têm de considerar a religião como parte
do que significa ser humano, e quando os crentes descrevem os seus grupos
como corpos e colmeias não têm nada a recear da ciência.

29
Está alguém aí fora? Está alguém aí em cima?

Os meus gostos musicais não são muito requintados, mas sei do que gosto,
e isso inclui Ray Charles. Não me lembro como o descobri, mas enquanto os
meus amigos andavam a cantar ao som dos Beatles e das Supremes, eu gritava a
plenos pulmões interpretações de «What I’d Say» e de «You Don’t Know Me».
Há pouco dei-me ao luxo de comprar uma colecção de cinco CD que inclui
canções mais recentes, além dos velhos clássicos. Uma das minhas favoritas é
um prodigioso número de gospel intitulado «Is There Anyone Out There?». O
facto de eu ser um evolucionista não significa que não me possa comover com
gospel, e, quando a emoção pura da voz de Ray é acompanhada pelo que parece
um coro de milhares de anjos, sou invadido pelo mesmo sentimento electrizante
que assalta a média dos crentes religiosos.
Mas espere lá! O título da canção é «Is There Anyone Out There?» Não
será «Is There Anyone Up There?» Quando escuto as palavras com atenção,
descubro que a canção é inteiramente sobre a necessidade de relações sociais. À
parte um ou dois «Que o Senhor Tenha Piedade», não há uma única referência a
um poder superior, mas isso não reduz o poder da canção e a sua mensagem
subjacente.
Como acabámos de ver, as religiões podem ser imensamente eficazes na
formação de relações sociais, o que responde à pergunta de Ray: «Está Alguém
Aí Fora?» Mas a religião é intrinsecamente sobre a segunda pergunta, mesmo
que ela não esteja presente nesta canção particular. Os estudiosos das religiões
usam mesmo os termos «horizontal» e «vertical» de maneiras que
correspondem ao «fora» e «em cima» das minhas duas perguntas, como na
seguinte definição do islão da enciclopédia de Eliade:
Um nome derivado do verbo aslama («submeter-se ou render-se [a Deus]») designa
o acto por meio do qual um indivíduo reconhece a sua relação com o divino e ao mesmo
tempo a comunidade de todos aqueles que respondem com submissão. Por conseguinte,
descreve tanto a relação singular e vertical entre o ser humano e Deus como a relação
colectiva, horizontal, de todos aqueles que se reúnem numa fé e numa prática comuns.

Por que motivo as religiões incluem, além de uma dimensão horizontal,


uma dimensão vertical? Porque havia alguém de se preocupar com a existência
de um poder superior uma vez que há pessoas aí fora para as ajudarem nos
momentos de necessidade? A teoria da evolução talvez dê respostas a estas
perguntas, com duas palavras que lhe são próprias: «próximo» e «último».
Como disse nos capítulos 7 e 10, todas as adaptações exigem duas
explicações. Porque desabrocharn as flores na Primavera? A explicação última é
que a Primavera é a melhor época para desabrocharem. Se desabrochassem
mais cedo, talvez fossem destruídas pela geada e, se desabrochassem mais tarde,
talvez não tivessem tempo para desenvolver os frutos. A explicação próxima
baseia-se nos mecanismos físicos que fazem as flores desabrochar na Primavera,
como a sensibilidade à duração do dia. Repare que a duração do dia, por si só,
não tem efeito na sobrevivência e na reprodução. É apenas um sinal que
seguramente faz as flores desabrocharem na melhor altura relativamente aos
outros factores ambientais. Em geral, a explicação próxima de uma
característica não precisa de ter qualquer relação com a explicação última
correspondente, desde que produza seguramente a característica que sobrevive
e se reproduz melhor do que outras.
Voltando à religião, é possível que uma dada crença ou prática exista
porque fomenta a sobrevivência e a reprodução — por exemplo, fazendo o grupo
funcionar bem em comparação com outros grupos —, mas isto é apenas a
explicação remota. É necessária uma explicação próxima complementar que não
precisa de ter relação com a explicação última, para além de assegurar de forma
fiável que a característica ocorra. Talvez um crente ajude outro porque quer
ajudar o próximo, ou talvez porque quer servir um Deus perfeito que lhe ordena
que ajude os outros. Se estes dois mecanismos próximos forem igualmente
eficazes a motivar um comportamento solidário, a evolução será indiferente
relativamente a qual deles irá evoluir. Se o desejo de servir um Deus perfeito for
mais motivador do que o desejo directo de ajudar os outros, é provável que
evolua como mecanismo próximo, embora esteja menos obviamente
relacionado com o comportamento que produz e exija a crença num agente para
o qual não existe prova tangível.
Em resumo, a distinção próximo/último fornecida pela teoria da evolução
dá muito jeito para explicar as dimensões vertical e horizontal da religião. Se o
leitor considerar esta observação elementar, é só porque já está a pensar como
evolucionista. No passado a religião confundiu a imaginação científica por
parecer tão irracional. Como pode alguém alimentar crenças tão bizarras e para
as quais não há nenhuma prova tangível? Estas perguntas pressupõem que o
pensamento racional e a prova tangível são padrões-ouro apropriados para
avaliar a religião — mas porque haveria de ser assim? De uma perspectiva
evolutiva, existe apenas um padrão-ouro para avaliar o pensamento religioso, o
pensamento racional ou qualquer outra forma de pensamento — o que leva as
pessoas a fazerem? Uma vez que empreguemos o padrão-ouro certo, torna-se
evidente que só em determinadas condições o pensamento racional é capaz de
produzir comportamentos bem sucedidos e que noutras condições o
afastamento do pensamento racional pode ser altamente bem sucedido. A
natureza irracional do pensamento religioso deixa de se tornar intrigante para a
imaginação cientifica, mas era necessário um tudo-nada de pensamento
evolutivo para fornecer o padrão-ouro certo.
Desde que escrevi Darwin’s Cathedral falei com muitos crentes que
pensam que o facto de me centrar em benefícios práticos deixa escapar a
essência da experiência religiosa, que é uma relação com Deus profundamente
sentida. Concordo com eles no que toca a experiência religiosa psicologica, mas
isso e precisamente o que a distinção proximo/último nos leva a esperar. Eu
podia estar certo quanto à religião ter a ver com benefícios práticos em termos
do que a crença religiosa leva as pessoas a fazer (a explicação última, que
corresponde à dimensão horizontal da religião), e eles podiam ter razão quanto
a a sua experiência religiosa se basear muito mais na sua relação com Deus do
que nos benefícios práticos para si mesmos ou para quem quer que fosse (a
explicação próxima, que corresponde à dimensão prática da religião). A
explicação próxima não tem de ter qualquer relação com a explicação última
para além de causar seguramente o comportamento certo, como vimos com o
nosso exemplo das flores a desabrocharem. De igual modo, as pessoas
apaixonam-se em parte para ter filhos (uma explicação última), mas isso de
modo nenhum descreve a experiência subjectiva de uma pessoa se apaixonar (a
explicação próxima).
As crenças religiosas são tão diversas que parecem desafiar a
categorização. Os agentes sobrenaturais desempenham um papel muito mais
importante em certas religiões do que em outras. Buda recusava estar associado
a outros deuses; afirmava que se limitava a estar desperto e que tinha
encontrado um caminho para a iluminação. É verdade que há deuses associados
ao budismo enquanto grande tradição religiosa, mas parecem existir mais nas
orlas do que no centro. O confucianismo ainda é mais francamente pragmático
que o budismo, o que não desvaloriza o seu poder ou influência histórica.
Mesmo as religiões que confiam nos agentes sobrenaturais não podem ser
inteiramente definidas em termos dessas convicções, pois desse modo não
haveria maneira de distinguir entre Deus e o coelho da Páscoa.
A teoria da evolução faz um bom trabalho a explicar a diversidade
biológica e pode ir muito longe a explicar padrões de diversidade religiosa. Em
primeiro lugar, tanto as espécies biológicas como as variedades de religião são
muito menos diversas do que poderiam ser porque nós vemos principalmente os
sobreviventes. Os ursos, os texugos e os búfalos estão altamente adaptados aos
seus respectivos nichos ecológicos. Se se pudessem cruzar uns com os outros ou
se pudéssemos produzir híbridos por meio de qualquer acto dúbio de
engenharia genética, as formas intermédias seriam rapidamente eliminadas por
selecção natural porque não possuem a combinação certa de caracteres para
sobreviverem e se reproduzirem. É por esse motivo que os ursos, os texugos e os
búfalos não acasalam uns com os outros, nem sequer com espécies muito mais
próximas! A diversidade adaptativa é grande, mas mesmo assim constitui uma
minúscula fracção da diversidade não adaptativa.
Se a maioria das religiões são tão adaptativas a nível de grupo como eu
afirmo em Darwin’s Cathedral, então a dimensão vertical da religião tem de
estar muito estreitamente ligada à dimensão horizontal. É fácil imaginar crenças
religiosas que inspirassem as pessoas a fazer todo o tipo de coisas — ajudar os
vigaristas, suicidarem-se, só se ocuparem de si próprias. Estas crenças podiam
existir, mas a teoria da evolução prevê que tal não se vai verificar, ou antes que
elas estão muito pouco representadas, porque não conduzem a comunidades
sustentáveis.
Na minha amostra aleatória de religiões, fiquei surpreendido com a
maneira estreita como as dimensões vertical e horizontal estavam ligadas uma à
outra. Joseph Smith traduziu O Livro de Mormon enfiando a cara num chapéu
que continha pedras mágicas. A religião Cao Dai no Vietname teve início com o
Ser Supremo a revelar-se através de uma tábua ouija. Santa Catarina de Siena
teve uma visão de Cristo quando tinha 6 anos e fez um voto de castidade contra
os desejos da família. Nahman de Bratislava (um líder espiritual judeu) fechou-
se no sótão de casa dos pais durante um longo período numa tentativa de ficar
mais próximo de Deus. A sua rejeição dos desejos seculares foi tão longe que ele
não queria ter discípulos, o que só aumentou a sua fama aos olhos dos seus
seguidores. Os ascetas jainas fazem tudo que é possível para evitar matar as
mais insignificantes formas de vida. Aqueles que não são religiosos podem ser
perdoados por considerarem loucas essas pessoas e os seus seguidores. Todavia,
é extraordinário que estas e outras crenças religiosas «loucas» conduzam a
práticas que estão no extremo oposto da loucura!
O que conta para a relação entre a dimensão vertical da religião, que tantas
vezes se reveste da aparência de loucura, e a dimensão horizontal, imensamente
prática? Parte da resposta envolve pura e simplesmente a variação e a selecção.
Estão sempre a ser criadas novas religiões e a grande maioria dissolve-se sem
que ninguém disso se aperceba. Depois há os fracassos religiosos
espectaculares, como o suicídio em massa do culto do Templo do Povo, em
1978. Muitos activistas religiosos acorreram a Genebra para aprender os
segredos do calvinismo, mas poucos se precipitaram para a Guiana para
aprender os segredos de Jim Jones. Em certa medida, as crenças religiosas são
como as mutações genéticas: surgem arbitrariamente e só aquelas que
funcionam são retidas por imitação e selecção.
Mas isto é apenas parte da história. A mente humana faz muito mais do
que procurar soluções ao acaso. A escolha racional é, em grande medida, um
método consciente de procurar soluções para os problemas da vida e há muitos
outros métodos que operam abaixo do nível da percepção consciente, como
vimos nos capítulos 26 e 27. Estas adaptações mentais evoluíram no passado
por um processo tosco de variação e selecção, mas elas próprias são altamente
estratégicas. É provável que estejamos psicologicamente adaptados para criar
crenças tendo em mente objectivos práticos. Por outras palavras, as dimensões
horizontal e vertical da religião já estão associadas pelos nossos processos
mentais, embora nós possamos não ter consciência dessa associação. Quando
Joseph Smith enfiava a cara no chapéu que continha as pedras mágicas e
aqueles que deram origem à religião Cao Dai estavam reunidos à volta da tábua
ouija, quer o soubessem quer não, é provável que tivessem qualquer coisa em
mente que tornava as suas incipientes religiões mais do que um simples lançar
de dados.
Independentemente da forma como as dimensões horizontal e vertical da
religião se associam uma à outra, as crenças religiosas mais duradouras
conduzem a benefícios práticos, o que eu digo com base em Darwin’s Cathedral
e na minha amostragem aleatória. A diversidade religiosa é muito menos do que
poderia ser por, tal como a diversidade biológica, se restringir a ilhas de
funcionalidade. Mesmo assim, qualquer traço dado adaptativo pode ser causado
por muitos mecanismos próximos diferentes. Para continuar com o meu
exemplo biologico, nem todas as plantas que dão flor na Primavera são sensiveis
a duração do dia. Algumas espécies são sensíveis à temperatura, outras têm um
relógio biológico interno, e por aí adiante. Há muitas maneiras de esfolar um
gato e o mecanismo próximo particular que surge por evolução numa espécie
particular pode ser uma questão de acaso ou de contingência histórica. De igual
modo, um único comportamento associado à religião pode ser motivado por
muitas crenças e práticas diferentes. Imaginemos que perdemos a carteira,
cheia de cartões de credito e com mil dolares em notas. Como por milagre, ela e
nos devolvida com todo o seu conteudo. O que provocou um acto tão nobre?
Talvez aquele que a encontrou agisse movido por um sentimento de dever, por
isso o fazer sentir-se bem, por considerar esse gesto um bilhete para o Ceu, ou
por estar com outros que o forçaram a fazer isso por vergonha. Não sabemos, e
em certo sentido não devemos preocupar-nos com isso, já que nos devolveram a
carteira. É muito possível que as religiões sejam semelhantes nos
comportamentos que promovem (como devolver uma carteira), mas são
diferentes na maneira como isso é feito.
Vejamos como estas ideias podem ser usadas para estudar um importante
conceito religioso como a vida depois da morte. Uma das teorias mais comuns
da religião a nível de conversa de festas em casa de amigos baseia-se no nosso
medo da morte. Segundo esta teoria, a consciência de si evoluiu na nossa
espécie produzindo muitos benefícios práticos, mas teve o infeliz efeito
secundário de nos tornar conscientes do nosso fim. O conceito de uma vida
eterna gloriosa foi inventado para mitigar o nosso medo da morte. Deve ter
ouvido esta teoria dezenas de vezes. Provavelmente ninguém usou a palavra
«evolução», mas ela é facilmente classificada como subproduto, semelhante no
espírito, se não no pormenoi às teorias mais formais de Stark, Bainbridge, Boyer
e Atran brevemente mencionadas no capítulo 28. É um cenário perfeitamente
plausível, mas não encaixa com os factos. Prevê que a crença numa vida eterna
gloriosa deveria ser universal do ponto de vista religioso, o que não é o caso.
Nada há de reconfortante na vida eterna dos Gregos. Até o judaísmo dá muito
menos ênfase que o cristianismo à vida depois da morte. Historicamente, os
judeus já tinham uma forte motivação para criarem o reino de Israel na Terra.
Em geral, todas as religiões duradouras têm de motivar muito os seus membros,
mas o meio específico como o fazem pode ser altamente variável. Isto é de
esperar da relação de muitos para um entre mecanismos próximos e qualquer
comportamento isolado. Mesmo uma crença tão importante em certas religiões
como uma vida eterna gloriosa pode ser periférica ou não existir noutras.
A religião é em parte um tema como outro qualquer, uma característica
particular de uma espécie particular que precisa de ser explicada, como o
infanticídio nos escaravelhos ou a timidez no peixe-sol. A religião é
particularmente fascinante desta perspectiva puramente intelectual por ser um
território tão pouco explorado, pelo menos no que diz respeito à teoria da
evolução. A grande maioria dos estudiosos e dos cientistas sociais que estudam
religião sabe muito menos de evolução do que o leitor aprendeu neste livro. Por
conseguinte, sinto o entusiasmo da descoberta, semelhantea o que os primeiros
naturalistas devem ter sentido quando contemplaram pela primeira vez uma
floresta tropical húmida.
Claro que a religião não é um tema puramente intelectual, especialmente
para os crentes. Eu posso ficar entusiasmado com a perspectiva do Paraíso
enquanto um de vários mecanismos próximos responsáveis por motivar o
comportamento, mas é provável que alguém que acredita piamente no Paraíso
reaja de uma maneira diferente. A minha grande pretensão quanto a reunir
harmoniosamente a evolução e a religião poderá tornar-se uma realidade tanto
para o crente como para o cientista que estuda a religião?
Ao dilema do crente preciso de acrescentar um dilema meu. Em Darwin’s
Cathedral faço uma distinção entre realismo factual e prático. Uma crença é
factualmente realista quando descreve com exactidão características do mundo.
Uma crença é realista do ponto de vista prático quando ajuda as pessoas a
reproduzirem-se e a sobreviverem no mundo. Enquanto ser humano
compadecido tenho o mesmo interésse forte pelo realismo prático que qualquer
crente. Quando vejo as religiões darem resposta à pergunta de Ray Charles
«Está alguém aí fora?», tudo o que sinto é admiração. Enquanto cientista
também sinto um forte comprometimento com o realismo factual, que me
impede de aceitar muitas respostas religiosas à pergunta «Está alguém aí em
cima?». A minha religião ideal forneceria uma forte dimensão horizontal e uma
forte dimensão vertical totalmente coerente com o conhecimento científico.
Uma tal religião será possível, ou a dimensão vertical só se pode tornar forte
separando-se do realismo factual? É esse o meu dilema e sinto-o com a mesma
agudeza que um crente confrontado com a possibilidade de a sua crença
religiosa ser realista «apenas» do ponto de vista prático e não factualmente.
Não tenho resposta para o meu dilema e muito menos uma resposta que
possa ser validada cientificamente, mas aos poucos e após muita reflexão estou
a adquirir a convicção de que posso ter o meu bolo e ainda por cima comê-lo.
Em primeiro lugar, muitas religiões são construídas para serem coerentes com o
conhecimento factual da sua época e para só com a passagem do tempo se
tornarem factualmente irrealistas. Os antigos Hebreus não sabiam que a luz
vinha do Sol, o que tornava razoável dizerem que Deus tinha criado a luz antes
do Sol. Quando li o catecismo de Calvino fiquei impressionado pela sua validade
científica, baseada no conhecimento disponível na época. É importante recordar
que antes de Darwin não havia maneira de explicar a imensa funcionalidade da
natureza e dos assuntos humanos sem invocar uma divindade. Pode não ser
fácil as religiões acompanharem o ritmo das mudanças em matéria de
conhecimento factual, especialmente porque as crenças são muitas vezes
apresentadas como eternas, mas elas nem sempre se preocupam com exibir
conhecimento factual.
Em segundo lugar, as grandes tradições religiosas, como o budismo e o
confucianismo, aproximam-se da minha religião ideal, fornecendo fortes
dimensões horizontais com dimensões verticais profundamente compatíveis
com o realismo factual. Sua Santidade o Dalai Lama escreveu um livro sobre
este assunto intitulado O Universo Num Átomo: A Convergência entre Ciência
e Espiritualidade. Toda a gente devia ler este livro para perceber como a ciência
não entra em conflito com a religião em si, mas apenas com certas tradições
religiosas. No pensamento budista, «desafiar a autoridade dos dados empíricos
é desqualificar-se, não se mostrando alguém digno de participação crítica num
diálogo». Quando ainda era um jovem, o dalai lama começou a sentir
curiosidade pela ciência e olhava para a Lua através de um telescópio que tinha
pertencido ao décimo terceiro dalai lama. O seu exílio político tornou-o um
embaixador espiritual em todo o mundo e também lhe permitiu satisfazer a
curiosidade científica. Fez um grande esforço para aprender as mais recentes
teorias da cosmologia, da física, da evolução, da psicologia e da neurobiologia
através de uma rede mundial de conselheiros e das conferências periódicas
«Mente e Vida», que ele organiza.
A sua humildade é maravilhosamente refrescante. Em relação à teoria da
relatividade de Einstein, observa: «Apreciar plenamente a natureza do paradoxo
dos gémeos implica compreender um conjunto de cálculos complexos que receio
bem estejam para além das minhas possibilidades.» Conclui com jovialidade
que «o budismo [...] tem de estar disposto a adaptar a física rudimentar dos
primórdios das teorias atómicas, apesar da sua autoridade bem estabelecida
dentro da tradição». Quando descobriu que os neurobiólogos estavam
interessados em estudar os estados do cérebro associados à meditação, pô-los
mesmo em contacto com alguns eremitas que conhecia!
Para os eremitas que escolheram a solidão da vida nas montanhas [...] uma
experiência dessas constitui uma profunda intrusão na sua vida e na sua prática
espiritual. Não é de surpreender que de início muitos se tenham mostrado relutantes.
Mesmo à parte tudo o resto, simplesmente não viam qual a utilidade daquilo, para além
de satisfazer a curiosidade de alguns homens esquisitos que transportavam máquinas.
Todavia, eu tinha (e ainda tenho) a firme convicção de que a aplicação da ciência à
compreensão da consciência de quem medita é extremamente importante, e fiz todos os
esforços para persuadir os eremitas a permitirem que as experiências fossem realizadas.
Argumentei que eles deviam submeter-se à experiência por altruísmo; se os bons efeitos
de acalmar a mente e de cultivar estados mentais salutares podem ser demonstrados
cientificamente, isto pode ter resultados benéficos para outros. Só espero não ter sido
demasiado insistente. Alguns eremitas aceitaram, persuadidos, conforme espero, pelos
meus argumentos, e não por se terem simplesmente submetido à autoridade do dalai
lama.

Como pode um líder religioso como o dalai lama, cujo estatuto entre os
budistas tibetanos é equivalente ao do papa entre os católicos, sentir-se tão
pouco ameaçado pela ciência? Como ele refere, «a grandeza de Buda como
mestre espiritual não reside tanto no seu domínio de diversos campos de
conhecimento como em ter atingido a perfeição da compaixão ilimitada por
todos os seres». Noutro passo, afirma: «O principal objectivo da psicologia
budista não é catalogar a composição da mente, nem sequer descrever como
esta funciona; pelo contrário, a sua preocupação fundamental é superar o
sofrimento, especialmente os padecimentos psicológicos e emocionais, e
eliminar esses mesmos padecimentos.» Neste e noutros passos, revela uma
consciência explícita de que o objectivo último da religião é criar uma forte
dimensão horizontal, com a dimensão vertical dependente desse objectivo. Se
eu tivesse a sorte de conversar com o dalai lama, penso que em grande medida
estaríamos de acordo.
Outras tradições religiosas podem não ser tão explícitas sobre o objectivo
último da religião e o papel dependente da dimensão vertical, mas ele lá está,
mesmo abaixo da superfície. Eu não estou apenas disposto, mas ansioso, por
falar com crentes e tenho tido oportunidade de o fazer desde que escrevi
Darwin’s Cathedral. Falei em clubes do livro de igrejas baptistas, passei uma
semana idílica num retiro unitário numa ilha ao largo da costa do Maine e
participei num debate televisivo com monges beneditinos e membros do corpo
docente da St. John University do Minnesota. A ordem beneditina é uma das
mais antigas organizações sociais sobreviventes da história da humanidade,
como aprendi na preparação para a minha visita, e o mosteiro onde tiveram a
gentileza de me albergar é o mais antigo da América do Norte. A Regra
Beneditina (não regras, como me informaram em termos peremptórios) podia
ter sido facilmente incluída em Darwin’s Cathedral juntamente com o
catecismo de Calvino e as Ordenanças Eclesiásticas como um modelo para a
vida da comunidade. Toda a face norte da St. John Abbey Church está ocupada
por uma janela com vitrais com um motivo em favos de mel, o que me fez sentir
em casa.
Os meus encontros na divisória ciência-religião são invariavelmente
cordiais, não por o nosso comportamento ser exemplar, mas por termos tanto
em comum. Há muito mais na religião do que a crença nos agentes
sobrenaturais — a construção de comunidades fortes, a ajuda aos necessitados e
o sermos, por nossa vez, ajudados, a transmissão dos nossos melhores valores
aos nossos filhos e a possibilidade de modificação e transformação. É tudo isto
que constitui a dimensão horizontal da religião e que pode ser em grande
medida afirmado pela teoria da evolução, ou pelo menos pela primeira grande
hipótese descrita no capítulo 28. Se o leitor fosse crente e pudesse escolher entre
as cinco grandes hipóteses evolutivas, qual preferiria? É verdade que as religiões
são concebidas principalmente para cuidar dos seus membros, mas serão os
grupos seculares diferentes? Em Darwin’s Cathedral afirmo que criticar as
religiões por não porem em prática a irmandade universal é o mesmo que
criticar as aves por não ultrapassarem a barreira do som. Não poderemos
admirá-las por voarem tão bem como voam? Quando à algazarra criada por
interacções entre grupos religiosos, segundo a minha amostra aleatória de
religiões, a proporção que alastrou por conflito violento é de facto muito
reduzida. A maioria das religiões cresceu oferecendo um bom negócio aos seus
membros. Em comparação, o que fizeram os grupos não religiosos, como os
regimes comunistas e totalitários?
Nas minhas conferências e encontros pessoais, fico animado pelo número
de pessoas que vêem as suas religiões com clareza e permanecem firmes na sua
fé sem precisarem de se afastar da realidade factual. Veja-se o caso de Myles
Horton, um dos grandes activistas sociais do século XX. É de uma família
calvinista de Savannah, no Tennessee, não longe do local de nascimento de Sir
John Templeton e de Dayton, o local do julgamento de Scopes. A mãe era um
pilar da sua igreja, o tipo de mulher a quem toda a gente da comunidade
recorria em busca de conselhos e de apoio. Mal o pequeno Myles teve idade
suficiente para aprender o catecismo, pediu à mãe que o aconselhasse. Eis como
ele recorda o acontecimento na sua autobiografia, intitulada The Long Haul:
Um dia fui ter com a minha mãe e disse-lhe: «Não sei, mas esta coisa da
predestinação não faz sentido para mim, não acredito em nada disto. Acho que não devia
estar nesta igreja.» A mãe riu-se e respondeu: «Não te preocupes com isso que não tem
importância, isso é só conversa de pregador. A única coisa que é importante é que tens de
amar o próximo.» Não disse «amar Deus», mas sim «amar o próximo», que só isso
importava... Era uma boa base não doutrinária, e deu-me a noção do que estava certo e
errado.

Horton fundou a Highlander Folk School, em 1932, que ensinava


competências de liderança e organizacionais tanto a negros como a brancos,
num desafio às leis da segregação racial. Segundo o comentador social Bill
Moyers: «Ele foi espancado, encarcerado, explorado e insultado por racistas,
rufias, demagogos e governadores.» Nem ele nem a mãe precisavam de
convicções complicadas que se afastassem da realidade factual.
Na sua autobiografia, Benjamin Franklin expressou uma perspectiva
pragmática semelhante em relação à religião:
Cresci convencido de que a verdade, a sinceridade e a integridade na relação entre os
homens eram de extrema importância para uma vida feliz [...] Na realidade, a revelação
enquanto tal não tinha peso para mim, mas acalentava a opinião de que, embora certas
acções pudessem não ser más porque ela as proibia, ou boas porque ela as ordenava,
provavelmente essas acções eram proibidas porque eram más para nós, ou ordenadas
porque eram benéficas para nós, pela sua própria natureza, consideradas todas as
circunstâncias das coisas.

Para Myles Horton e Benjamin Franklin, compreender a sabedoria prática


da religião não enfraquecia, mas reforçava, o seu sentido do certo e do errado.
Não partilho a crença desses homens, mas tenho uma história para contar
extraída da minha própria vida. Quando as nossas duas filhas eram pequenas,
ensinámo-las a cumprir as promessas que faziam e a dizer a verdade de uma
maneira que era completamente prática. O que poderá ser melhor do que saber
sem sombra de dúvida que os outros nos dizem a verdade e cumprem as
promessas que fazem? Tudo o que é preciso fazer é seguir as mesmas regras.
Com Tamar, a nossa filha mais nova, exemplifiquei dando-lhe uma frase mágica
que podia dizer sempre que queria que eu parasse de fazer alguma coisa: «Não
quero, não quero mesmo, que tu faças isto!» Exemplificava fazendo-lhe cócegas
e quando ela proferia a frase mágica era como se ficasse protegida por um
escudo invisível. Nada disto era muito deliberado, mas funcionou melhor do que
eu poderia ter imaginado. As nossas filhas eram tão escrupulosas que nem
sequer faziam figas. Cada uma por sua vez declarou solenemente aos
professores da escola primária que não podia repetir a parte sobre Deus durante
o juramento de lealdade, e eu prometi que não as obrigaríamos a fazê-lo! O
nosso conselho teria sido que ficassem caladas, mas isso não estava à altura dos
seus escrúpulos morais. Era extraordinário que as amigas delas, que tinham
recebido uma educação religiosa e a quem tinham incutido o medo de irem para
o Inferno, fossem muito menos escrupulosas quanto ao cumprimento de
promessas e de dizer a verdade (pelo menos na escola) do que as nossas filhas!
A convenção social da nossa família só funcionava porque nós cumpríamos
a nossa parte do compromisso. Nem uma única vez continuei a fazer cócegas a
Tamar ou a realizar qualquer acto a que ela se opusesse depois de ela ter
proferido as palavras mágicas. Se o fizesse, teria tido de pagar caro, e Tamar não
é para brincadeiras, garanto-vos. A convenção social era sagrada, e como tal
respeitámo-la. A minha experiência, associada a exemplos como o do dalai
lama, o de Myles Horton e o de Benjamin Franklin, está lentamente a incutir em
mim a fé de que a bênção da religião não exige afastamentos da realidade
factual.

30
Ayn Rand: uma fanática religiosa

Como mostrei nos dois últimos capítulos, as religiões têm tendência para
se afastarem do realismo factual no seu esforço de alcançarem o realismo
prático. Este afastamento não se limita de modo nenhum à crença em agentes
sobrenaturais. Como Elaine Pagels mostra na sua análise dos Evangelhos
cristãos, as pessoas e os acontecimentos são livremente inventados e alterados.
Quando o único objectivo de uma crença religiosa é fornecer um modelo para a
acção, é lícito que toque em todos os aspectos e mais alguns da realidade factual.
Mal começamos a pensar na religião desta maneira, torna-se evidente que
temos de alargar a nossa análise para lá dela. As histórias patrióticas nacionais
têm a mesma qualidade distorcida e movida por um objectivo que as religiões, o
que se torna óbvio logo que consideramos as histórias de países que não o
nosso. Muitas vezes os movimentos intelectuais como o feminismo e o pós-
modernismo são descaradamente abertos na forma como associam verdades
aceitáveis a consequências observadas. É isso que significa ser politicamente
correcto. As teorias científicas não ficam imunes. Com o passar do tempo, tal
como as religiões, também muitas teorias científicas do passado se tornam
sinistramente inverosímeis. Quando isto acontece elas são muitas vezes
desmascaradas, revelando-se não que estão erradas, mas também que são
movidas por um objectivo. Os meus exemplos favoritos têm a ver com as teorias
científicas que apoiam convicções convencionais sobre o papel das mulheres na
sociedade. No século XIX era aceite como teoria científica que ir para a
universidade iria interferir com o desenvolvimento dos ovários. Mesmo na
década de 1970, as mulheres eram impedidas de correr a maratona porque se
pensava que correr mais do que alguns quilómetros teria efeitos nefastos nos
seus corpos. Hoje podemos rir-nos destas teorias e considerá-las
completamente erradas mas só porque foram desmentidas pelos factos —
mulheres que correm a maratona e tiram cursos universitários com ovários a
funcionar bem. Não se pode esperar que as teorias científicas se aproximem da
realidade factual quando são propostas, mas só depois de terem sido
escrutinadas.
Estes e outros sistemas de crenças não são classificados como religiões
porque não invocam agentes sobrenaturais, mas são tal qual como as religiões
quando avaliados em termos de realismo factual e prático. Em todos os casos
funcionam principalmente como modelos para a acção e ao longo do percurso
vão-se afastando do realismo factual. A presença ou ausência de agentes
sobrenaturais — um afastamento particular do realismo factual — é apenas um
pormenor.
Temos de reconhecer com humildade que em geral as preocupações
expressas sobre a religião precisam de ser alargadas a praticamente todas as
formas de pensamento humano. Talvez mesmo os sistemas de crenças não
religiosas sejam uma maior causa de preocupação por serem mais eficazes a
disfarçar-se de realidade factual. Podemos chamar- lhes religiões furtivas.
Um bom exemplo de uma religião furtiva é a filosofia do objectivismo de
Ayn Rand. Se conhece esta autora e os seus livros, aperceber-se-á da ironia do
título que dei ao presente capítulo. Ela era uma ateia fervorosa e a sua filosofia
baseia-se na virtude do pensamento racional. Quando as pessoas a rotulavam de
individualista, ela corrigia-as afirmando-se racionalista. Por que motivo lhe
chamo zelota religiosa?
Não tomei a decisão de estudar Ayn Rand mas descobri-a como parte de
um projecto sobre linguagem. Algumas palavras, como as partes de um navio,
têm definições muito precisas. É fácil compreender que as partes de um navio
tenham definições precisas porque é importante referi-las sem ambiguidade.
Quando há uma grande tempestade e a vida de toda a gente está em perigo, não
se pode dizer: «Peguem naquela corda ali! Não! Não é essa! Aquela ali!»
Outras palavras parecem perdidas numa névoa de ambiguidade. Pensei na
palavra «egoísta»; baseia-se numa mistura nebulosa de acções e motivos que
actuam a curto e a longo prazo. Para alguns é uma maneira como não devemos
comportar-nos, enquanto para outros é um princípio que explica todo o
comportamento racional. Porque não é a palavra «egoísta» definida de uma
forma tão precisa como a palavra «adriça»? Das pessoas com quem falei,
nenhuma parecia conhecer ou sequer ter pensado na questão. Um filósofo
limitou-se a encolher os ombros e retorquiu que as pessoas acordaram em
discordar.
Pensei ter uma nova resposta para esta pergunta baseada numa analogia
com ecossistemas naturais, onde muitas espécies coexistem sobrevivendo e
reproduzindo-se de várias maneiras. Como sublinhei nos capítulos anteriores,
as pessoas são tão diversas do ponto de vista comportamental que se
assemelham mais a um ecossistema do que a uma única espécie. O ecossistema
humano inclui, não muitas espécies, mas muitos sistemas de crenças, cada um
dos quais dá instruções aos seus membros para se comportarem de diferentes
maneiras. Dentro de um dado sistema de crenças, um termo como «egoísta»
pode ter um significado coerente, como a palavra «adriça», mas não se deve
esperar coerência transversal a sistemas de crenças. Bem vistas as coisas, os
sistemas de crenças têm muitas vezes de usar as mesmas palavras em sentidos
diferentes se quiserem motivar comportamentos diferentes.
A fim de testar a minha ideia, decidi recolher e classificar usos da palavra
«egoísta» e de palavras relacionadas com ela, como um entomologista poderia
recolher e classificar espécies de borboletas. Desenvolvi uma lista de
«caracteres» associados à palavra «egoísta» pelo menos algumas vezes. Quando
se descreve um comportamento como egoísta, quais são os seus efeitos sobre a
própria pessoa e sobre os outros? Esses efeitos serão a curto ou a longo prazo?
Serão materiais ou psicológicos? Sempre que encontrava a palavra «egoísta»
nas minhas leituras, apanhava-a na minha rede como se fosse uma borboleta e
classificava-a preenchendo a minha lista. Por exemplo, eis um passo de uma
carta que o jovem William James escreveu à mãe a pedir-lhe dinheiro:
«Quando a mãe fala do aumento das suas despesas, sinto-me muito
culpado e egoísta por alimentar projectos que possam parecer, para não dizer
mais, uma extravagância.» O comportamento rotulado de egoísta (pedir
dinheiro) é bom para o próprio (James), mau para o outro (mãe), não há
distinção entre o curto e o longo prazo e os efeitos são principalmente materiais
(dinheiro). O facto de James se sentir culpado (um efeito psicológico negativo)
não alterou a sua noção do estatuto do comportamento como egoísta.
Este significado da palavra egoísta é tão comum que temos tendência a não
pensar nele, mas vejamos como a mesma palavra é usada num artigo da
Reader’s Digest intitulado «How Love Came Back». O autor confessa a si
mesmo ter sido um marido egoísta (é o emprego da palavra que eu apanho na
minha rede). O seu egoísmo manifesta-se sobretudo em pequenas coisas, como
repreender a mulher por chegar tarde e insistir em ver os seus programas de
televisão favoritos. Durante as férias decide ser simpático para ela e descobre
que isso também o torna mais feliz. A mulher fica de tal modo estupefacta com a
gentileza dele que decide que só pode ter uma doença terminal. A história acaba
com ele a abraçá-la e a dizer: «Não, querida! Não estás a morrer. Eu é que estou
a começar a viver!»
Se conseguiram reprimir o enjoo, podemos passar a classificar este
espécime particular da palavra «egoísta». Ele refere-se a um comportamento
(ser indelicado) que é bom para o marido e mau para a mulhei a curto prazo,
mas mau para ambos a longo prazo. Os efeitos são principalmente psicológicos
(felicidade). A característica mais importante deste uso e o que o distingue do
anterior é que o egoísmo deixou de ser um comportamento do tipo ganha-perde
para se tornar um do tipo perde-perde. No mundo minúsculo construído pela
história minúscula não há conflitos de interesses.
Esta «espécie de pensamento», como gosto de a referir, é extremamente
comum. No conto infantil de Oscar Wilde «O Gigante Egoísta», um gigante
impede as crianças de brincarem no seu jardim, acabando por ver o Inverno
instalar-se em permanência na sua propriedade. A Primavera regressa quando
ele autoriza as crianças a regressarem. Um slogan da Cruz Vermelha diz o
seguinte: «Faz alguma coisa por nada e obterás tudo.» A palavra «egoísta» e
vários sinónimos são usados dezanove vezes nos primeiros cinco capítulos do
manual dos Alcoólicos Anónimos. Em todos os casos, as consequências a longo
prazo são descritas como negativas para a pessoa egoísta, como no seguinte
exemplo:
«Egoísmo — viver centrado em si! Parece-nos que aí reside a raiz dos
nossos problemas. Movidos por uma centena de formas de medo, ilusões,
egocentrismo e autocomiseração, espezinhamos os nossos semelhantes e eles
retaliam. Por vezes magoam-nos, aparentemente sem que os provoquemos, mas
invariavelmente descobrimos que em qualquer altura do passado tomámos
decisões baseadas no eu que mais tarde nos deixam em posição de sermos
magoados [...] Acima de tudo, nós, os alcoólicos, temos de nos libertar do nosso
egoísmo. Se assim não for, seremos vítimas dele!
No manual dos AA, pelo menos, o termo «egoísmo» tem a mesma
coerência e exactidão que o termo «adriça». Podem fazer-se três observações
sobre esta «espécie de pensamento». Em primeiro lugar, destina-se claramente
a obter uma mudança de comportamento, levando as pessoas a orientarem-se
mais para os outros. Em segundo lugar, talvez dê bons conselhos em termos
práticos. Em terceiro lugar, consegue o seu efeito descrevendo um mundo sem
compromissos, como se a bondade fosse invariavelmente benéfica e o egoísmo
fosse invariavelmente prejudicial para o próprio e para os outros. Para alguém
que entre num sistema de crenças como este, é fácil decidir o que fazer. A
inteligência (ou outro processo de selecção) talvez tenha interferido na criação
do sistema de crenças, mas não é necessária muita para se ser guiado por ele.
Basta seguir o letreiro que diz «Por aqui».
Não é surpreendente que esta «espécie de pensamento» seja
particularmente comum em textos religiosos. O texto huterita citado do capítulo
28 é completamente polarizado quando as palavras são classificadas segundo o
meu esquema de categorização. Uma lista de palavras refere-se a
comportamentos que tanto são bons para o próprio como para os outros:
irmandade, comunidade, disciplina, fidelidade, amor, ajuda mútua, obediência,
ordem, sacrifício, renúncia, verdadeira igualdade. Estes comportamentos
produzem uma infinidade de benefícios: alimento, abrigo, «a jóia mais
preciosa», «o tesouro oculto», «a verdadeira vida», «vida e alegria duradouras»,
«felicidade genuína», «lucros multiplicados por cem» e «poder que dá vida para
produzir frutos». Não há necessidade de estabelecer distinções entre benefícios
materiais e psicológicos porque tudo intervém no negócio. Outra lista de
palavras refere-se a comportamentos que são maus tanto para o próprio como
para os outros: arrogância, avareza, cobiça, egocentrismo, ganância,
individualismo, orgulho, egoísmo, interesse pessoal, oportunismo, obstinação.
Não há palavras — nem uma única — que se refiram a comportamentos que
beneficiam o próprio à custa dos outros ou os outros à custa do próprio, a longo
prazo. O sistema de crenças huterita descreve um mundo sem compromissos,
um caminho único no qual a única decisão racional para o crente consiste em
correr em direcção à glória e para longe da ruína. O slogan da Cruz Vermelha
«Faz alguma coisa por nada e obterás tudo» é uma depuração perfeita do que o
texto huterita refere em termos mais elaborados.
Pode parecer surpreendente que as definições familiares de egoísmo
(beneficiar o próprio à custa dos outros) e altruísmo (beneficiar os outros à
custa do próprio) estejam totalmente ausentes deste texto religioso particular.
As distinções em que os filósofos adoram deter-se estão igualmente ausentes. A
ideia de que um acto «aparentemente» altruísta é «realmente» egoísta porque
também beneficia material e psicologicamente aquele que o pratica é alheia à
imaginação huterita. O que é ainda mais extraordinário é que seja alheia à
imaginação de todas as religiões. Esta afirmação tão radical não se baseia na
minha própria obra, mas num projecto ambicioso criado pela Fundação John
Templeton e posto em prática por três estudiosos da religião de fama mundial:
Jacob Neusner, Bruce Chilton e William Scott Green.
Além de se interessar pelo perdão, em que se baseou o meu projecto de que
resultou Darwin’s Cathedral, a Fundação Templeton está interessada no
conceito de altruísmo. Abordou Jack Neusner pedindo-lhe que organizasse uma
conferência sobre altruísmo e religião. Jack encarregou BilI de formular um
conjunto de perguntas sobre altruísmo para ver se se tratava de um conceito útil
e adequado para o estudo académico da religião. Em seguida essas perguntas
foram enviadas a especialistas das grandes tradições religiosas, cujas respostas
foram apresentadas numa conferência e publicadas num livro intitulado
Altruism in World Religions, editado por Jack e Bruce. A resposta enfática foi
que, quando o altruísmo é definido como «acção intencional destinada ao bem-
estar dos outros, que implica pelo menos a possibilidade de não haver benefício
ou mesmo de haver perda para quem a pratica», é alheio à imaginação de todas
as grandes tradições religiosas. O hinduísmo, o budismo, o judaísmo, o
islamismo e o cristianismo retratam mundos sem essas relações de troca através
das quais beneficiar os outros resulta num cumular de benefícios materiais,
psicológicos e extra-terrenos para o próprio. A palavra «altruísmo» foi pela
primeira vez utilizada na década de 1830 (por Auguste Comte) e representa uma
«espécie de pensamento» que, como é evidente, se limita à vida secular.
Altruism in World Religions termina com o seguinte texto de Bill:
Embora o altruísmo contemporâneo pareça não encontrar guarida nas grandes
religiões, os resultados deste projecto colectivo estão longe de ser totalmente negativos. A
inadequação do altruísmo contemporâneo a estas religiões não significa que elas sejam
bastiões de egoísmo. O que se passa é o oposto. Os diferentes estudos apresentados neste
volume manifestam com um pormenor maravilhoso como a benevolência e a caridade
actuam dentro dos valores e estruturas das religiões estudadas. Se a história do Sr. Cinco
Pecados do Talmude, as parábolas de Jesus, a história de Shaykh Abô ‘Abd Allâh, os
ensinamentos dos textos budistas em pali, as lições de Nhat Hahn, a disciplina de
Nicherin, os ensinamentos de Krishna, o ideal de amizade na filosofia greco-romana, ou o
«altruísmo graduado» do Mencius cada tradição representada neste livro revela até que
ponto uma preocupação activa com os outros se encontra inserida no seu sistema e
representa categorias fundamentais de significado. Alguns destes exemplos assemelham-
se ao altruísmo contemporâneo, outros não, mas, como vários autores sublinham, só
através de um cálculo secular rígido a benevolência é menos benevolente se aquele que a
pratica beneficia com ela. É inquestionável que as religiões são forças fundamentais para
o comportamento humano dirigido para os outros. O facto de esse comportamento operar
dentro de um quadro transcendente ou eterno não diminui o seu impacto nem reduz a
sua capacidade de melhorar a condição humana.

Esses distintos estudiosos da religião não precisavam de um amador como


eu para lhes falar dos benefícios práticos colectivos da religião. Eles também não
tinham conheci- mento da minha incursão despreocupada pela língua inglesa,
capturando e classificando usos de palavras como se fossem borboletas. Porém,
depois de admirarmos as religiões pelo seu realismo prático, temos também de
apreciar como, ao longo do percurso, elas se vão demarcando do realismo
factual. O mundo real está cheio de situações de compromisso complicadas, de
conflitos de interesses, de situações de perde-ganha. Em princípio, um sistema
de crenças podia marcar muitos pontos no realismo factual representando todas
estas complexidades, e também no realismo prático, mostrando como lidar com
elas. Na prática, um tal sistema de crenças, para actuar, iria provavelmente
exigir muito tempo, energia e recursos mentais para a maioria das pessoas e das
sociedades. Os sistemas de crenças religiosas são mais amigos do utilizador.
Reduzem a complexidade do mundo real a fim de motivarem um conjunto de
comportamentos que são adaptativos no mundo real. Ironicamente, essas
contrapartidas estão ausentes dos sistemas de crenças religiosas porque há um
compromisso entre a maximização simultânea do realismo factual e prático.
A minha procura dos usos da palavra «egoísta» acabou por me levar a dois
livros com títulos quase idênticos: The Art of Selfishness, de David Seabury,
escrito em 1937, e The Virtue of Selfishness, de Ayn Rand, escrito em 1963.
Representavam «espécies de pensamento» diferentes, como podemos ver no
seguinte passo de Seabury: «Há anos decidi ir para o estrangeiro preparar-me
para a minha vocação. A minha mãe tinha 62 anos. Oito amigos dela
escreveram-me a recordar-me que ela já estava com uma idade avançada e a
suplicar-me que não a deixasse até ela morrer. Ela faleceu com 93 anos. Os que
escreveram essas cartas condenaram-me como egoísta por ter partido. A minha
mãe sofreu por ver os seus desejos contrariados, mas umas semanas antes de
morrer disse-me que a melhor coisa que eu tinha feito por ela tinha sido deixá-
la quando e como o fiz. Se eu não tivesse ido, é óbvio que teria começado com a
minha formação aos 50 anos. Teria guardado no coração um ressentimento
mais doloroso para a nossa relação do que a minha ausência. Não podia ter-lhe
dado o apoio financeiro e espiritual que a minha profissão possibilitou.»
Este emprego do termo «egoísta» refere-se a um comportamento (ser
insensível) que é bom para David Seabury e mau para a sua mãe a curto prazo,
mas que se revela bom para ambos a longo prazo. Os efeitos são ao mesmo
tempo psicológicos e materiais. O egoísmo passou de situação perde-ganha a
situação ganha-ganha, que é o oposto da história do Reader’s Digest.
A mensagem principal de ambos os livros é que as virtudes convencionais
são sobrevalorizadas e o verdadeiro segredo da felicidade consiste em seguir os
nossos ideais, por muito forte que seja a oposição. Bom conselho, talvez, tal
como um conselho religioso poderia ser bom, mas eu estava mais interessado na
forma como ele era apresentado. Enquanto prosseguia com a leitura do livro de
Seabury, recolhi uma longa lista de palavras e de expressões apresentadas como
boas para toda a gente: «cooperação», «egoísmo elevado», «egoísmo
construtivo», «integridade», «conhecimento», «homens de ciência», «ajuda
mútua», «decisões naturais», «verdadeira abnegação». Outras eram
representadas como más para toda a gente: «abnegação aparente», «bondade
coerciva», «virtude cruel», «negação», «dever», «pseudomoral», «pseudo-
abnegação», «quase-abnegação», «responsabilidade», «sacrifício», «renúncia»,
«escravos da virtude», «sacrifício de si desdenhoso», «tradição», «abnegação»,
«convencionalistas virtuosos». Nem uma única palavra ou expressão se referia a
comportamentos que beneficiam o próprio à custa dos outros ou os outros à
custa do próprio, a longo prazo. O mundo de Seabury é tão polarizado como o
mundo dos huteritas, impelindo toda a gente que o toma a sério a saltar em
direcção à glória e para longe da ruína. Os dois sistemas de crenças promovem
comportamentos diferentes, mas exactamente da mesma maneira.
Qualquer sistema de crenças que glorifique o egoísmo tem de se distanciar
de comportamentos obviamente anti-sociais como a violação e o assassínio.
Estes são apresentados como estúpidos, e não egoístas, porque os seus efeitos a
longo prazo são maus para o próprio, além de o serem para os outros, tal como
as virtudes convencionais: «Mas vamos entender-nos. Esta nova liberdade não é
anarquia. Nas atitudes da ciência não há aconselhamento de cobiça, luxúria ou
licenciosidade [...] A arrogância desenfreada e a rebelião voraz não são egoísmo
construtivo, mas sim loucura.» Como podemos saber qual a diferença entre
egoísmo bom e mau? Os princípios da ciência, é claro!
Há, creio eu, quatro espécies de homens na Terra: os ególatras implacáveis, que
seguem o caminho da ganância, os convencionalistas virtuosos, que seguem a doutrina, os
rebeldes cegos, que não se vergam perante quaisquer leis, e os homens de ciência, que se
esforçam por obedecer à lei natural. Não há nenhum ponto de encontro entre as atitudes
velhas e novas face aos problemas da vida. Seguimos duas vias. Aqueles que veneram «os
bons velhos métodos» seguem os preceitos e as convenções. Aqueles que procuram
obedecer à natureza, através das descobertas da ciência, seguem outro conjunto de
valores.

Seria difícil encontrar um exemplo mais claro de que a ciência é usada


como substituto de Deus. No caso de a mensagem do livro ser obscurecida pela
subtileza da prosa, Seabury explica no prólogo: «Faça isto e descobrirá, como eu
descobri, que o que é bom para si é invariavelmente bom para os outros.»
The Art of Selfishness foi escrito em 1937, reimpresso em 1964 e
actualmente encontra-se esgotado. Algum leitor dedicado pusera comentários
tocantes no Amazon.com a testemunhar como a obra havia modificado a sua
vida: «Uma pérola de sabedoria.» «Até hoje, o seu conteúdo nunca me
abandonou. Sentimos que, em grande medida, a nossa felicidade se deve à
orientação que este livro nos proporcionou.» Seabury escreveu no estilo dos
autores de livros de auto-ajuda, com poucas pretensões intelectuais. Ayn Rand,
pelo contrário, é considerada uma gigante intelectual pelos seus seguidores e é
menosprezada com igual zelo pelos seus detractores. O seu livro mais lido é
Atlas Shrugged, que tem mais de 1300 comentários de leitores no Amazon.com.
Quantos outros livros escritos em 1957 podem ter estas pretensões? The Virtue
of Selfishness é uma colecção de ensaios publicada em 1963 para explicar e
desenvolver a filosofia do objectivismo da autora. Continua a ser possível
encontrá-lo à venda e a capa da actual edição brochada mostra um indivíduo
solitário de pé, como um deus, no cimo de uma escada dourada, voltado para
um Sol nascente.
Apesar das suas ambições filosóficas, depressa descobri que a estrutura de
The Virtue of Selfishness é idêntica à sabedoria caseira de The Art of Selfishness.
As virtudes convencionais estão escandalosamente arrumadas na coluna do
perde-perde, com uma longa lista de palavras e expressões: «altruísmo»,
«colectivo», «fé», «dever incompreensível», «canibalismo moral»,
«misticismo», «sacrifício», «renúncia», «auto-imolação», «auto-sacrifício» e
«abnegação». A busca do interesse pessoal é colocada na coluna do ganha-
ganha com outra lista de palavras e expressões: «cooperação», «egotismo»,
«honestidade», «independência», «integridade», «lógica», «orgulho»,
«princípios racionais», «interesse pessoal racional», «razão», «amor-próprio»,
egoísmo. Finalmente, uma lista de comportamentos estupidamente egoístas vai
juntar-se às virtudes convencionais da coluna do perde--perde: «animal»,
«desejos cegos», «sentimento», «hedonismo», «emoções irracionais»,
«pilhagem», «bruto imbecil», «egoístas nietzschianos», « parasitas», «criatura
sub-humana», «impulsos» e «caprichos». Tal como Seabury, também Rand não
quer que a sua mensagem se perca na subtileza da sua prosa, pelo que afirma
sem hesitação que «não há conflitos de interesses entre homens racionais». Por
exemplo, se dois homens racionais estão a competir pelo mesmo emprego,
chegarão a acordo sobre quem é o melhor e o outro retirar-se-á
voluntariamente. O leitor pode protestar dizendo que não é isto que as outras
pessoas entendem por «racional», mas o que se podia esperar? Como já vimos
para a palavra «egoísta», só se pode esperar que exista coerência no interior dos
sistemas de crenças, e não transversalmente a eles.
Estas duas obras têm a mesma estrutura básica, não porque um autor
tivesse plagiado o outro, mas porque têm de motivar o mesmo conjunto de
comportamentos. São como duas espécies biológicas que se adaptaram
independentemente ao mesmo ambiente. Na realidade, algumas diferenças
entre os dois livros apresentam indícios das suas origens distintas. Qualquer
sistema de crenças que exalte o egoísmo tem de ter duas categorias de egoísmo,
mas as palavras usadas para as distinguir são um tanto arbitrárias. Seabury
usou o termo egoism para o tipo mau de egoísmo, mas Rand usou-o para o tipo
bom, dando ao seu livro o subtítulo de «um novo conceito de egoísmo». Esta
diferença não existiria se Rand tivesse plagiado Seabury, a menos que estivesse
atenta a detectives linguísticos como eu e tivesse apagado deliberadamente
todas as pistas!
Até agora apresentei uma perspectiva desapaixonada e distante de
sistemas de crenças polarizados. Como será estar no interior e olhar para fora?
Nathaniel Branden apresenta um vislumbre disso no seu livro sobre o
movimento de Ayn Rand designado por Judgement Day. Branden leu pela
primeira vez o romance de Rand The Fountainhead quando tinha 14 anos. A sua
irmã mais velha, na companhia das amigas, soltava risadinhas com as cenas de
sexo e quando elas partiram ele pegou no livro, cheio de curiosidade. Aquela
prosa enfeitiçou-o e mudou a sua vida para sempre. Como descreveu mais tarde:
«O meu entusiasmo não se deveu apenas à estilização da escrita, ao seu modo
particular de ver e recriar a realidade, que perpassa tudo, mas foi como habitar
um universo estilizado.» Aqui está uma bela descrição de como um sistema de
crenças se pode tornar mais poderoso afastando-se do realismo factual.
Sendo um jovem intenso e introspectivo, Branden tinha visões de grandeza
para si mesmo que estavam deslocadas no seu mundo conformista e burguês. O
livro de Rand foi de encontro aos seus desejos mais profundos: «Dei-me conta
de que Ayn Rand me havia tocado de uma maneira singular e de que nas
virtudes cardeais do romance — independência, integridade, amor pelo trabalho
que se faz e um sentimento sagrado da missão da própria vida — encontrei um
mundo mais interessante, mais estimulante, mais desafiador e, de certo modo,
mais real que o mundo que me rodeava. Tive a sensação de que esse mundo era
mais importante para o meu crescimento e desenvolvimento do que tudo aquilo
de que ouvia os mais velhos falarem. Para mim, aos 14 anos, a visão
proporcionada por The Fountainhead foi uma dádiva magnífica e inspiradora.»
Durante os quatro anos que se seguiram, Branden leu The Fountainhead
quase continuamente, «com a dedicação e a paixão de um estudante do
Talmude». Se uma pessoa lhe lesse uma frase, ele era capaz de recitar as
anteriores e as seguintes. Descrevia isso como «um escudo» e «uma fortaleza»
contra a mediocridade da sua vida. Quando frequentava a Universidade da
Califórnia, em Los Angeles, ele e um círculo de amigos que eram também
admiradores fervorosos da autora e que se tornaram seus discípulos,
convenceram-se de que iam transformar o mundo: «Éramos assim naquele
tempo, Ayn, eu e todos os outros: desligados do mundo, inebriados pela
sensação de voarmos céu fora numa visão de vida que tornava a existência banal
insuportavelmente monótona.»
Em resumo, o movimento de Ayn Rand tinha toda a intensidade de um
movimento religioso. Não interessava não haver deuses nem vida para além da
morte. A salvação pela escolha racional revelou-se igualmente inebriante. Pouco
importava que os textos fossem ficcionais e não se pedia a ninguém que
acreditasse que as personagens tinham existido ou que os acontecimentos
tinham tido lugar. Eles eram melhores do que reais devido à maneira como
organizavam a percepção, oferecendo um caminho cintilante rumo à glória, uma
escada dourada virada para o Sol nascente. Os discípulos de Rand podiam
perseguir os seus objectivos individuais com a consciência limpa pois todas as
outras pessoas iriam igualmente colher benefícios. Se estas discordassem, era
fácil classificá-las como convencionalistas com «más premissas». Se fosse esse o
caso, os efeitos seriam de curto prazo e mesmo elas acabariam por ficar
agradecidas. Se alguém vacilasse, tudo o que tinha de fazer era repensar as
premissas e retomar a caminhada. Um dos membros desse movimento inicial
foi Alan Greespan, o economista que mais tarde viria a estar à frente da Reserva
Federal dos Estados Unidos. Como este afirmou: «O que ela fez [...] foi levar-me
a reflectir no motivo por que o capitalismo não era apenas eficiente e prático,
mas também moral.» Cá está de novo essa associação entre a moral e o moral,
semelhante ao efeito do calvinismo sobre os bons cidadãos de Genebra.
Infelizmente, as controvérsias que tiveram lugar no círculo interior em
nada se assemelhavam a um diálogo racional. Rand era considerada infalível,
qual oráculo de Delfos, e costumava surpreender os seus seguidores dando uma
resposta a todas as perguntas com a mais absoluta certeza. Era como se
possuísse uma vasta fórmula para resolver todos os problemas da vida. O seu
lema era «Julga e prepara-te para seres julgado», pelo que passavam grande
parte do tempo a analisar-se uns aos outros a fim de eliminar premissas falsas,
como demónios. Como era imensamente vingativa, aqueles que não
concordavam com ela não tardavam a ser excluídos como «seres sub-
humanos». Quando ela e Branden iniciaram uma relação amorosa,
racionalizaram-na perante si próprios e os respectivos cônjuges, considerando-a
nobre e justa. Anos mais tarde, quando Rand tentou retomar a ligação e
Branden se tinha apaixonado por outro membro do grupo com uma idade mais
próxima da sua, ela votou-o ao ostracismo com uma fúria violentíssima.
A prova mais triste do alheamento de Rand da realidade surgiu quando ela
descobriu ter um cancro do pulmão. Embora tivesse sido fumadora a vida
inteira, ficou chocada e só revelou o segredo aos amigos mais chegados. Como
podia ela ter um cancro do pulmão quando não tinha más premissas? Não se
mostrou mais racional em relação à natureza da doença do que um membro da
Ciência Cristã ou do que aqueles que fazem fila para serem curados num
encontro revivalista.
Durante o funeral de Rand um arranjo floral com a forma de um símbolo
de dólar, quase com dois metros de altura, erguia-se junto da urna, e havia
guardas para impedirem a aproximação de inimigos como Nathaniel Branden.
Ela já não está entre nós, mas ainda é possível penetrar no seu mundo atraves
dos livros que escreveu e de numerosas organizações, como o Ayn Rand
Institute (http://www.ayn-rand.org), que faz o seguinte convite apelativo:
«Aqueles que leram The Fountainhead ou Atlas Shrugged sabem que o
universo luminoso que Ayn Rand descreve nos seus romances não se assemelha
ao mundo que vêem em seu redor. Como se pode alcançar a visão límpida e a
existência radiosa dos seus heróis ficcionais?»
O que leva algumas pessoas a odiarem a religião? Permitam-me que faça
uma enumeração: o modo como os grupos religiosos acumulam benefícios para
os seus membros, a sua intolerância para com outros grupos e até para com os
seus membros que saem da linha e a sua tendência descarada para sacrificarem
a realidade factual no altar dos seus objectivos mesquinhos. Para alguém que
partilhe estas preocupações, lamento informar que a situação é muito pior do
que possa pensar. Todos estes problemas existem para os sistemas de crenças
que não reconhecemos como religiosos, como podemos ver claramente no caso
do movimento de Ayn Rand. Se o leitor se preocupa com as religiões, deve
realmente preocupar-se com as religiões dissimuladas. Na verdade, a presença
ou ausência de agentes sobrenaturais — uma distorção particular da realidade
factual — é apenas um pormenor.
No entanto, não estou aqui para zurzir as religiões dissimuladas, tal como
não o fiz com as religiões que abordei nos dois capítulos anteriores. É necessária
uma interpretação mais compassiva para entender a verdadeira natureza do
problema. Em primeiro lugar o realismo prático é uma coisa boa. Se um sistema
de crenças não nos permite desabrochar, deverá ser substituído por outro que o
permita. O meu empenhamento no realismo factual baseia-se numa convicção
— numa fé, se quiser — de que, a longo prazo, o sistema de crenças mais prático
para uma sociedade a grande escala é o que estiver mais firmemente ancorado à
realidade factual. Em primeiro lugar temos de saber como o mundo de facto
funciona (por exemplo no que se refere às causas do cancro) e depois temos de
tomar decisões sensatas com base na informação.
O realismo factual não é benéfico por si mesmo; só quando associado a um
sistema de valores benéfico. Os factos por si sós podem ser usados para o bem
ou para o mal. Os valores por si sós não conseguem atingir os seus objectivos
sem os factos. Se os associarmos, teremos um sistema de crenças no qual o
realismo factual contribui para o realismo prático. O sistema de crenças só será
benéfico a grande escala e a longo prazo se contabilizar os custos e os benefícios
para muitas pessoas e até um ponto distante do futuro. Qualquer sistema de
valores que se restrinja a um pequeno grupo de pessoas e se concentre nos
benefícios a curto prazo acabará por ser prejudicial, mesmo para aquelas
pessoas que pensaram que estavam elas próprias a beneficiar, como as células
de cancro descritas no capítulo 19, que se estavam a sair muito bem até porem
termo à vida do organismo.
Talvez este seja o sistema de crenças ideal para se tentar realizar no futuro,
mas é absurdo manter padrões tão elevados para sistemas de crenças do
passado e do presente. Se o sistema de crenças ideal é de algum modo possível,
exige grandes sociedades diferenciadas, com a riqueza e a estabilidade para
perseguirem objectivos a longo prazo em vez deviver em para o momento que
passa. Como sublinhei ao longo deste livro, estabelecer factos é uma actividade
simples e directa, mas é também um trabalho duro e um luxo a que não nos
podemos dar se estamos preocupados com a proxima refeição ou com a luta
pela vida Ao longo da histona, as pessoas têm sido confrontadas com o
problema da sobrevivência em pequenos grupos, a curto prazo e com recursos
limitados O sistema de crenças ideal nunca sobreviveria num ambiente deste
tipo. Os sistemas de crenças que sobrevivem não estão inteiramente desligados
da realidade factual Segundo os antropologos, todas as culturas incluem um
modo de raciocinio pratico que reconhecemos facilmente como pragmatico,
racional e protocientifico No entanto, ele é facilmente eclipsado por outros que
distorcem livremente e inventam factos para motivar comportamentos bem
sucedidos. Enquanto evolucionistas, é exactamente assim que devemos esperar
que a mente humana funcione.
Na realidade, quando somos evolucionistas, torna-se obvio que a ilusão
tem inicio com a percepção. Todos os seres captam somente aqueles aspectos do
mundo físico que são importantes para a sua sobrevivência e reprodução.Tudo o
mais se torna literalmente invisível. Não podemos navegar seguindo o campo
magnético da Terra, como algumas aves, nem detectar presas através dos seus
campos eléctricos, como certos peixes. Os morcegos e os elefantes emitem sons
que não conseguimos ouvir. As aves, os insectos e as flores pintam-se de cores
vivas que não podemos ver. Os nossos antepassados partiram do realismo
factual no seu trajecto rumo ao realismo prático muito antes de desenvolverem
por meio da evolução a capacidade de terem crenças.
Aqueles que criticam as religiões e precisam de se preocupar ainda mais
com as religiões dissimuladas têm razão quanto aos seus fracassos. Contudo,
parecem pensar que basta revelarem esses fracassos para as pessoas rectas
verem a luz e o problema ficar resolvido. Isso é um completo disparate. Têm de
compreender que o problema está profundamente enraizado na maneira como
somos enquanto espécie e que a solução exige a criação de um ambiente social
no qual o seu sistema de crenças ideal, e também o meu, possam sobreviver.

31
A inteligência social das nações, ou os alienígenas
maus não fazem cá falta nenhuma.

Imagine começar uma conversa com alguém que se revela um egoísta


manifesto. Não só essa pessoa se preocupa apenas consigo própria, mas fala
como se se importasse apenas consigo própria. Ouvimo-la referir esquemas para
seguir em frente espezinhando outras pessoas. Depois revela como nós
figuramos nos seus planos sem a mais ligeira preocupação com o nosso bem-
estar. Ficamos duplamente surpreendidos com uma pessoa assim. Só um idiota
social poderia ter valores tão reduzidos sem fazer qualquer tentativa para os
disfarçar.
Porém, descrevi o vulgar discurso político sobre relações internacionais. É
extraordinário como os políticos podem enfrentar os seus eleitores e dizer sem
corar que a única coisa que têm em mente é o bem-estar do seu país. O que me
preocupa não é a possibilidade de estarem a mentir aos seus eleitores, mas sim a
possibilidade de estarem a dizer a verdade.
Eles não sabem que há elementos de outros países que podem estar à
escuta da conversa? Embora ficássemos escandalizados com um grau tão baixo
de inteligência social num indivíduo, ele é banal num país.
Se eu fosse dizer a um político qualquer que a teoria da evolução tem
alguma coisa a dizer sobre as relações internacionais, ele olharia para mim
como se eu tivesse acabado de chegar de outro planeta. No entanto, os países
não são mais que grupos muito grandes que tentam funcionar como unidades
colectivas. Os últimos catorze capítulos têm sido sobre grupos que evoluem para
funcionar como unidades colectivas. Mesmo os indivíduos que o nosso
incrédulo político conta entre os seus constituintes são grupos de grupos de
grupos. A única razão por que lhes chamamos indivíduos é terem evoluído de
modo a funcionarem tão bem como unidades colectivas.
Os países não só são compostos por indivíduos, mas também incluem
subgrupos de todas as formas e tipos. Os mais pequenos são do tamanho de
grupos de caçadores-recolectores e constituem-se como por milagre, como
Tocqueville observou com uma tão grande perspicácia, não por isso ser fácil,
mas por ser tão automático como abrir os olhos e ver. Estes eram os únicos
grupos humanos há uns escassos quinze mil anos (com uns milhares a mais ou a
menos). Os processos culturais já tinham acelerado a evolução humana,
permitindo-nos povoar o globo e ocupar centenas de nichos ecológicos, mas a
dimensão do grupo era limitada principalmente pela disponibilidade de
recursos. Uma vez eliminado esse factor limitativo pela invenção da agricultura,
a escala da sociedade humana começou a aumentar pelo mesmo processo de
selecção multiníveis que nos deu corpos, colmeias e sociedades humanas de
pequena escala. Os grupos maiores conseguiram funcionar como unidades
colectivas complementando a nossa «fisiologia social» inata com novos
mecanismos que nunca tinham existido. Mesmo a cidade de Genebra no século
XVI, minúscula em comparação com um país moderno, exigiu a invenção de
novos mecanismos, como descrevi sucintamente no capítulo 28 e de forma mais
pormenorizada em Darwin’s Cathedral. Alguns destes mecanismos foram
inventados conscientemente, mas outros limitaram-se a emergir do processo em
bruto da evolução cultural, como as poucas experiências sociais não
programadas que subsistiram, a par das muitas que fracassaram.
Em resumo, os países modernos representam a fronteira actual da
evolução cultural multiníveis. As ideias deste livro podem proporcionar um
importante enquadramento para a compreensão de como um grupo do tamanho
de um país pode funcionar como uma unidade colectiva e de como as
interacções entre países podem ser orientadas, não na direcção do conflito, mas
sim da cooperação. Porém, antes de prosseguir, impõe-se uma palavra de
advertência. Os teóricos políticos só estão a começar a travar conhecimento com
as ideias que já são familiares ao leitor deste livro, mas ainda falta escrever um
livro sobre evolução cultural política comparável a Darwin’s Cathedral. No
entanto, algumas observações são tão básicas que eu ficaria surpreendido se elas
se viessem a revelar falsas. Além disso, é importante mostrar que a teoria da
evolução pode ser usada para fazer avançar ideais políticos que são o oposto do
darwinismo social imaginado no século XIX. Com estas advertências em mente,
proponho os seguintes tesouros de sabedoria evolutiva de fabrico caseiro sobre
os organismos mais importantes e estúpidos que jamais pisaram a superfície da
Terra.
Não estamos condenados pelos nossos genes a envolver-nos em
conflitos violentos. Muito antes de Darwin, o nosso passado sangrento já
tinha sido citado como prova da inevitabilidade de um futuro sangrento.
Embora este argumento seja muitas vezes usado em termos de genes, não faz
sentido de uma perspectiva evolutiva porque não há um comportamento isolado
que seja adaptativo em todas as condições ambientais. O conflito sangrento não
está em toda a parte. Tem uma «distribuição e abundância», como uma espécie
num ecossistema. Prospera em determinadas condições, mas noutras perde em
favor de estratégias mais benignas. Os viquingues da Islândia contavam-se entre
os povos mais ferozes da Terra e agora são dos mais pacíficos. Em princípio, é
possível eliminar completamente o conflito violento, eliminando o seu habitat
preferido, independentemente de ele ter sido muito raro ou muito comum no
passado.
A pessoa média é um sociopata potencial. Talvez não estejamos
condenados pelos nossos genes a envolver-nos em conflitos violentos, mas sem
dúvida que eles nos preparam para isso. Não quero nem por um momento
menosprezar o papel do conflito violento na genética humana e na evolução
cultural. Além de uma grande riqueza arqueológica, antropológica e histórica no
registo do crime e da violência, há amplas indicações psicológicas de que
estamos programados para distinguir entre o «nós» e o «eles» e para nos
comportarmos com desumanidade para com «eles» à mais ligeira provocação,
como o jornalista científico David Berreby relata no seu livro Us and Them:
Understanding Your Tribal Mind. Grande parte desta investigação foi iniciada
na sequência da Segunda Guerra Mundial para explicar como puderam pessoas
decentes participar no Holocausto. Henri Tajfel, um sobrevivente do
Holocausto, descobriu que podia desencadear o pensamento do tipo nós contra
eles simplesmente distribuindo as pessoas por grupos arbitrários. No que se
tornou conhecido como a experiência da caverna dos ladrões, o psicólogo social
Muzafer Sherif e os seus colaboradores mostraram como era fácil provocar a
hostilidade recíproca de rapazes americanos bem-educados num acampamento
de Verão alojando-os em cabinas separadas e uni-los com igual facilidade
dando-lhes uma tarefa comum. Livros contemporâneos como Among the
Thugs, de Bill Buford, e War is a Force That Gives Us Meaning, de Chris
Hedges, descrevem o conflito violento como instintivamente agradável, à
semelhança de uma experiência sexual. Em capftulos anteriores descrevi
algumas adaptações como sendo semelhantes a «planos de guerra» elaborados,
prontos a serem implementados a qualquer momento. A metáfora do plano de
guerra inclui não só estratégias metabólicas desencadeadas numa fase precoce
do desenvolvimento, como descrevi no capítulo 8, mas verdadeiros planos de
guerra, desencadeados com grande facilidade sempre que parecem justificados.
O meu dicionário define um sociopata como «uma pessoa com uma perturbação
de personalidade que se manifesta em atitudes e comportamento extremamente
anti-sociais». Uma quantidade ínfima de pensamento evolutivo torna óbvio que
«atitudes e comportamento extremamente anti-sociais» não reflectem
necessariamente um traço de carácter ou uma perturbação, mas podem ser uma
tendência evoluída susceptível de se manifestar em qualquer pessoa dominada
pelo pensamento do nós contra eles. Se desejamos evitar este tipo de sociopatia
potencial, precisamos de evitar carregar nos botões psicológicos errados, tal
como o presidente dos Estados Unidos evita carregar no lendário botão
vermelho susceptível de desencadear um ataque nuclear.
Cuidado com a mão invisível. Em The Theory of Moral Sentiments
(1759), Adam Smith fez a afirmação que se viria a tornar famosa de que os
indivíduos que só se preocupam com os seus interesses mesquinhos são
conduzidos «por uma mão invisível» que os leva a beneficiar a sociedade.
Bernard Mandevilie expressou a mesma ideia em Fable of the Bees (1705), uma
obra cheia de humor que apresenta a sociedade humana como uma colmeia
onde reina a azáfama e cujos membros só agem movidos pelo interesse pessoal.
Para avaliar estas metáforas em termos evolutivos modernos têm de se
distinguir dois conceitos: auto-organização e interesse pessoal.
Um sistema é auto-organizado quando as partes que o compõem
interagem de uma maneira relativamente simples para produzir
comportamentos complexos e inesperados («emergentes») a nível do sistema
global. Nuvens, tornados e flocos de neve são exemplos de sistemas físicos auto-
organizados. Todas as formas de vida são auto-organizadas. Uma verdadeira
colmeia produz um exemplo fabuloso de auto-organização a nível do grupo,
como expliquei sucintamente no capítulo 20 e Tom Seeley descreve com muito
mais pormenor no seu livro The Wisdom of the Hive. Cada abelha segue um
conjunto relativamente simples de regras comportamentais como «escolher
uma dançarina ao acaso» ou «dançar menos se for preciso esperar muito tempo
para descarregar o néctar», mas estas regras associam-se para produzir a
fisiologia social complexa da colmeia. Se era aqui que Smith e Mandeville
pretendiam chegar com as suas metáforas, então estavam no caminho certo
para os grupos humanos. A nossa fisiologia social é como um icebergue,
somente com uma pequeníssima fracção acima da superfície da consciência,
como já sublinhei em capítulos anteriores.
Todavia, Smith e Mandeville também afirmaram que as intenções
conscientes das pessoas podiam ser descritas como «interesseiras». Eis como
Mandeville pôs isso humoristica mente em verso na sua fábula:
Como impostores, Parasitas, Chulos, Jogadores,
Carteiristas, Charlatães, Videntes, Falsificadores,
E todos aqueles que, agressivamente,
Com grande actividade, astuciosamente,
Em Proveito próprio convertem o Labor
Do seu Irmão descuidado e respeitador:
À parte o Nome, esses Vigaristas eram Iguais
Aos austeros Trabalhadores entre os Demais.
Havia Fraude em todos os Ofícios e Ocasiões,
E a Burla reinava em todas as Profissões.

A prosa de Smith é mais circunspecta, mas o seu conteúdo é o mesmo:


Os ricos só retiram do monte o que é mais precioso e agradável. Consomem pouco
mais que os pobres e, apesar do seu egoísmo e rapacidade naturais, embora só atendam
às suas conveniências e a única finalidade que propõem a partir do labor de todos os
milhares a quem dão emprego seja a gratificação dos seus próprios desejos vãos e
insaciáveis, dividem com os pobres o produto de todos os benefícios que colhem. São
conduzidos por uma mão invisível para fazer quase a mesma distribuição daquilo que é
indispensável à vida que teria sido feita caso a Terra tivesse sido dividida em parcelas
iguais entre todos os seus habitantes; e assim, sem que isso seja intencional, sem o
saberem, promovem o interesse da sociedade e proporcionam meios para a multiplicação
da espécie. Quando a Providência dividiu a Terra entre os seus escassos donos e senhores,
nunca esqueceu nem abandonou aqueles que pareciam ter sido excluídos da partilha.
Também estes desfrutam de tudo o que ela produz. No que constitui a verdadeira
felicidade da vida humana, não são em nenhum aspecto inferiores aos que parecem estar
muito acima deles.

Este passo particular não representa completamente a opinião de Smith


sobre a moral, uma vez que ele discorda de Mandevilie e, noutros passos do seu
livro, dá ênfase a instintos mais orientados para os outros. De qualquer modo, a
moderna interpretação de ambas as metáforas é que as pessoas são interesseiras
por natureza, que o conceito de interesse pessoal pode ser reduzido a algo
semelhante à maximização da utilidade da teoria económica e que o interesse
pessoal conduz a sociedades que funcionam bem. Esta interpretação tem falhas
profundas de acordo com princípios elementares evolutivos que é muito pouco
provável estarem errados. Escrevi um artigo para os especialistas acerca deste
assunto com o título «The New Fable of the Bees», que se pode encontrar no
meu site, mas é fácil compreender a essência da minha tese com base neste
livro. Há biliões de maneiras de uma sociedade humana se auto-organizar.
Destas, só uma minúscula fracção é adaptativa em algum sentido. Destas,
apenas uma fracção é adaptativa ao nível de grupo. As regras simples que
permitem às pessoas organizar-se em sociedades adaptativas evoluíram por
selecção genética e cultural ao nível do grupo ao longo de um período
prolongado. Outras regras simples que tendem a fazer as sociedades entrar em
ruptura evoluíram através de selecção no interior do grupo. As regras que
existem numa sociedade não precisam de existir noutra, como sublinhei para as
religiões no capítulo 29. Não há maneira de reduzir toda esta complexidade a
uma simples fórmula minimalista como o interesse pessoal ou a maximização
da utilidade. Mandeville e Smith tinham razão quanto à auto-organização, mas
estavam errados no que se referia ao interesse pessoal. Nunca
compreenderemos as regras relativamente simples que levam as pessoas a auto-
organizarem-se em sociedades adaptativas até as estudarmos de uma
perspectiva evolutiva.
Os alienígenas maus não fazem cá falta nenhuma, parte 1.
Quantas vezes já ouviu falar da conjectura segundo a qual a cooperação mundial
só podia ser alcançada face a uma invasão de alienígenas vindos do espaço? Não
só esta sugestão é irrealizável, mas provavelmente não funcionaria. Lembre-se
que a evolução tem a ver com diferenças de sobrevivência e reprodução,
independentemente das consequências a longo prazo. As células cancerígenas
descritas no capítulo 19 alastraram à custa dos cidadãos decentes seus vizinhos,
apesar de acelerarem a sua própria destruição. Se a Terra se visse confrontada
com a destruição global (o que é uma realidade, só que mais difícil de visualizar
do que o ataque de alienígenas assustadores), alguns de nós sacrificariam mais
do que outros, uns envolver-se-iam na procura desenfreada de lucro, outros
ajudariam os alienígenas num esforço para salvar a pele, e por aí fora. Aumentar
a escala e a intensidade da ameaça não eliminaria estas diferenças.
Os alienígenas maus não fazem cá falta nenhuma, parte 2. Outra
versão da tese do alienígena mau consiste em descrever os adversários de uma
pessoa na Terra como maus, por exemplo a União Soviética como o «império do
mal», ou o Iraque, o Irão ou a Coreia do Norte como um «eixo do mal».
Acontece que estes dois exemplos envolvem presidentes americanos que
pertencem ao Partido Republicano, mas eu não estou a referir-me a nenhuma
administração, partido ou país em particular. Este tipo de linguagem destina-se
a fazer vir à superfície o sociopata potencial que existe em todos nós
desumanizando os nossos adversários. Os nossos líderes políticos têm o cuidado
de não carregar no lendário botão vermelho susceptível de desencadear um
ataque nuclear, mas não hesitam em passar o tempo a fazê-lo com os nossos
botões psicológicos. Nas interacções pessoais, evitamos pessoas que agem
impulsivamente e não conseguem dominar as suas emoções. Valorizamos
pessoas que permanecem calmas, serenas e têm autodomínio em situações
tensas. Um país deve obedecer aos mesmos padrões.
As respostas emocionais a curto prazo não se podem manter e
tornam-se perniciosas a longo prazo. As nossas emoções são concebidas
de modo a mobilizarem os nossos corpos e mentes para acontecimentos a curto
prazo e não se podem manter a longo prazo. É frequente as catástrofes darem
lugar a um extravasamento espontâneo de auxílio, acompanhado por
sentimentos profundamente agradáveis de unidade, mas depois, numa questão
de semanas, as pessoas regressam ao seu estado emocional habitual. As
emoções de medo, cólera e ódio têm efeitos tão poderosos nos nossos corpos e
mentes que se tornam literalmente tóxicos a longo prazo, devorando os nossos
sistemas imunitários e até os nossos cérebros, como o meu colega evolucionista
Robert Sapolsky refere no seu livro Why Zebras Don’t Get Ulcers. Uma política
nacional ou qualquer outro sistema de crenças que tente manter a longo prazo
emoções intensas como o medo e o ódio está quase de certeza votada ao fracasso
e destinada a produzir graves efeitos secundários negativos a longo prazo. O
potencial humano só pode ser desenvolvido quando não estamos assustados,
encolerizados ou esfomeados. A nossa evolução enquanto espécie exigiu
períodos de segurança e de saciedade, que reconhecemos e comunicamos
através do riso, como vimos no capítulo 23. Se não rimos e não apreciamos a
companhia uns dos outros, não desenvolvemos o nosso potencial.
Tomar a sério a aldeia global. Se a mão invisível e os alienígenas maus
não conseguem fazer-nos viver em harmonia, o que o conseguirá? Em 1964,
Marshall McLuhan observou que a rapidez das viagens e da comunicação
electrónica está a transformar o mundo numa aldeia global. Esta metáfora
merece ser tomada muito a sério. Como já sublinhei repetidas vezes, uma
verdadeira aldeia humana tem exactamente a dimensão certa para os nossos
instintos sociais funcionarem de forma eficaz. Se pudermos aumentar a escala
das interacções da aldeia, com os países como indivíduos e o planeta como
aldeia, a cooperação mundial tornar-se-á tão natural que surgirá
espontaneamente, para usar a frase feliz de Tocqueville. Todavia, isto exigirá
mais que rapidez nas viagens e na comunicação electrónica. Além disso,
precisamos de criar as condições que inicialmente levaram a sociedade humana
a atravessar a divisória da cooperação, como refiro em pormenor mais adiante.
A aldeia global não pode ser formada pelos idiotas da aldeia.
Fazer um tratado com um país, considerar um país responsável por um acto de
terrorismo, ou qualquer outra decisão política pressupõe que esse país pode ser
tratado como uma «unidade corporativa» e considerado responsável como se
fosse um indivíduo. Quanto mais um país está dilacerado por conflitos internos,
mais idiota se torna como unidade corporativa. O romance de Chinua Achebe
No Longer at Ease, que referi no capítulo 27 para ilustrar a diferença entre
pensamento oral e alfabetizado, também revela a natureza da corrupção num
país como a Nigéria. A unidade corporativa tradicional é uma única aldeia,
como Umuofia, a aldeia de Obi. A tribo consiste num conjunto de aldeias que se
consideram concorrentes, mais ou menos como as equipas de uma liga
desportiva. Ninguém em Umuofia se considera nigeriano, e os habitantes têm
orgulho em ser os primeiros das aldeias a enviar os filhos para recebereni
instrução no estrangeiro. Encaram o facto de colocar um dos filhos numa
posição de poder em Lagos, a capital, o novo campo de competição que substitui
incursões e festas. É claro que uma pessoa dessas deve actuar como patrono
para a sua aldeia. Um dogma fundamental da evolução multiníveis é que as
virtudes a um nível se tornam vícios a níveis mais elevados; preocupar-se
consigo mesmo torna-se egoísmo, preocupar-se com a família torna-se
nepotismo e preocupar-se com a aldeia torna-se corrupção. As pessoas não
modificam a sua identidade social por decreto. Foi necessário um longo
processo histórico para os habitantes da Europa se considerarem Britânicos,
Franceses e Alemães, e não membros de unidades sociais mais pequenas. Um
indivíduo como Obi pode fazer a transição, considerando-se orgulhosamente
nigeriano e jurando resistir à corrupção, mas é imensamente mais difícil mudar
uma região geográfica cujas subpopulações estão tão isoladas que não
conseguem falar as línguas umas das outras. Quando Obi sucumbe à corrupção,
cede aos imperativos morais da sociedade a uma escala mais reduzida. Antes de
um país como este poder actuar como membro responsável de uma aldeia
global, tem de resolver estes problemas internos de modo a poder começar a
agir como uma unidade corporativa.
Onde não há disciplina e excomunhão, não há comunidade. Esta
afirmação provém do reformador protestante Martin Bucer, citado no capítulo
28, com a palavra «cristã» retirada. Uma vez que os membros da aldeia global
sejam capazes de actuar como unidades corporativas, tem de haver um
equilíbrio de poder relativamente igual. Isto faz toda a diferença entre uma
sociedade despótica, semelhante à dos chimpanzés, e uma sociedade humana
igualitária de pequena escala, como vimos no capítulo 21. Tem de haver uma
maneira de dominar os novos-ricos e os brutamontes, tanto no que se refere aos
indivíduos como aos países. O livro Priests and Programmers, do antropólogo
Steve Lansing, tem como tema principal a religião do Templo da Água de Bali,
como referi resumidamente no capítulo 28, mas começa por relatar a brutal
exploração dos Balineses pelos Holandeses. A história do colonialismo fornece
amplas provas de que um país esclarecido no que diz respeito a interacções
entre grupos é coisa que não existe. O igualitarismo tem de ser preservado,
tanto para a aldeia global como para uma aldeia real.
Os países mais poderosos deviam aprender a virtude da
humildade. O equilíbrio de poder nunca é total nas aldeias verdadeiras.
Alguns membros são melhores que outros em proezas físicas, inteligência ou
experiência. Um membro poderoso de uma aldeia assinala as suas boas
intenções adoptando uma atitude de humildade, como o caçador !kung, descrito
no capítulo 21, que ridicularizava a sua proeza e permitia que os seus
compatriotas zombassem dele. Os membros poderosos das aldeias que mostram
as suas boas intenções são recompensados com a liderança enquanto aqueles
que pensam que são os melhores são desprezados e excluídos.
A moral é necessária para conseguir o moral. Segundo Chris
Boehm, as sociedades de pequena escala estão acima de todas as comunidades
morais. Estão unificadas não por terem os mesmos genes, mas sim por terem o
mesmo sentido do que está certo e os meios para o porem em prática. Um forte
sistema de valores é necessário para uma acção decisiva. Este tema tem surgido
repetidamente, da Genebra de Calvino até à economia de mercado livre de Alan
Greenspan. E também faz sentido de uma perspectiva puramente teórica. No
capítulo 2 afirmei que os factos, por si, nunca levam a acções. Só podem
enformar um sistema de valores. Se não houver acordo quanto ao sistema de
valores, não há acordo sobre o que fazer com base nos factos. Por conseguinte, é
necessário um sistema de valores partilhado à escala internacional para a aldeia
global se tornar uma comunidade moral.
As comunidades morais podem encarnar quaisquer valores
considerados bons e certos. As comunidades morais têm pelo menos dois
lados sombrios. Não alargam necessariamente as suas bênçãos para fora do
círculo moral, e a maneira como aplicam as suas normas dentro do círculo
moral podem ser repressivas e até brutais. Se tiver acesso à Internet, digite
lapidação nas imagens do Google e verá o que quero dizer. A uma escala mais
moderada, conheço uma quantidade de pessoas que detestavam as pressões
para se submeterem às normas vigentes nas suas pequenas cidades e que se
sentiram libertadas quando se mudaram para um sítio como Los Angeles. Estes
aspectos da moral são eles próprios imorais para certas pessoas. No entanto, a
aplicação de normas não precisa de ser repressiva nem de sufocar formas de
diversidade que são valorizadas pelos membros da comunidade moral. O
pluralismo, por exemplo, pode ser venerado como uma virtude e a sua
supressão punida. A maioria das sociedades de pequena escala analisadas por
Chris Boehm valoriza tanto a autonomia como a conformidade em relação a
normas consensuais. Uma das proibições mais fortes é a intromissão nos
assuntos alheios. Praticamente qualquer sistema de valores pode ser
estabilizado por recompensas e castigos, desde que isso seja consensual.
Aprender com a sabedoria das religiões ou com outras
organizações sociais tradicionais. A ciência é de tal modo respeitada na
vida moderna que aqueles que reivindicam autoridade científica são muitas
vezes tão arrogantes como os líderes dos países poderosos. Pressupõem que o
conhecimento científico actual é superior ao conhecimento derivado de
qualquer outro processo. Os cientistas que defendiam que a educação superior
interfere com o desenvolvimento ovárico eram igualmente arrogantes. A ciência
esteve completamente errada no passado, está completamente errada sobre
certas coisas actualmente e estará completamente errada sobre outras coisas no
futuro. Os métodos científicos permitem aos cientistas descobrir quando estão
errados e trabalhar para alcançar a verdade, com muitas voltas e reviravoltas
pelo caminho. Quanto ao conhecimento considerado não científico, quando é o
produto de processos evolutivos, pode ultrapassar em grande medida a maneira
desajeitada como hoje em dia lidamos com a ciência. O conceito de sociedade
como organismo fornece um excelente exemplo. No início do século XX, os
cientistas encaravam-no como senso comum, depois foi abandonado e agora,
recentemente, foi redescoberto. Até agora a ciência tem sido como um
perdigueiro com problemas de faro. Entretanto, há verdadeiras sociedades
humanas que funcionam como organismos há séculos ou milénios. A postura
correcta para os cientistas é que é provável as sociedades tradicionais
incorporarem uma grande quantidade de sabedoria que ainda tem de ser
descoberta cientificamente. Têm de explorar as sociedades tradicionais em
busca da sua sabedoria, do mesmo modo que exploram o Dicty, o bolor mucoso
celular, e outros organismos-modelo da biologia. Foi assim que Sir John
Templeton decidiu gastar os seus milhões, e outras agências de financiamento
fariam bem em seguir o exemplo.
A melhor maneira de conceber uma sociedade de grande escala é
compreender em pormenor como funcionam as sociedades de escala mais
pequena. Estou impressionado com a maneira como os huteritas respondem ao
comportamento desviante, começando com admoestações gentis e subindo de
tom apenas na medida em que tal é necessário. Estou particularmente
impressionado com a maneira como o seu sistema social está concebido para
punir mais os comportamentos do que os indivíduos. Na moderna sociedade
americana uma pessoa que se comporta mal é muitas vezes considerada uma
má pessoa, sem qualquer capacidade de mudar. Esta convicção é envolvida em
roupagens científicas quando procuramos os «genes» de comportamentos como
se fosse de esperar uma correspondência unívoca. Na sociedade huterita,
considera-se que os indivíduos que se comportam mal são capazes de se
modificar e são bem-vindos de volta à sociedade logo que dão provas
convincentes de terem mudado. Estou igualmente impressionado por um
conceito como o sagrado poder ser entendido em termos puramente utilitários,
como descrevi para a minha própria família no capítulo 29. E o poder da dança?
Poderíamos alcançar a paz mundial se toda a gente nos Estados Unidos enfiasse
um maillot?
Não tente fazer cirurgia de transplante social a menos que esteja
habilitado para tal e que tenha a autorização do doente. Se as
sociedades são como organismos com fisiologias complexas, operar mudanças
fundamentais numa sociedade é como realizar um transplante de um órgão
vital. Exige um conhecimento pormenorizado e, sem dúvida, a autorização do
doente. Países poderosos como a Grã-Bretanha durante o seu período colonial e
os Estados Unidos actuais estão seguros quanto à sua visão da sociedade e à
maneira de a implementar noutros países. Na realidade, são como médicos
ignorantes que pensam que podem amarrar um doente à mesa de operações,
extrair-lhe os órgãos, enfiar-lhe outros novos e enviá-lo porta fora com
manifestações de gratidão. Sabe que mais? Isso não funciona. Já referi a
personagem de Obi no romance No Longer at Ease, de Chinua Achebe, que faz
as seguintes reflexões acerca dos Ingleses:
«Deixem-nos vir, e verão homens, mulheres e crianças que sabiam como
haviam de viver, cuja alegria de viver ainda não tinha sido destruída por aqueles
que pretendiam ensinar outros países a viver.» Outra personagem é um
administrador colonial britânico chamado Mr. Green, que, ao longo do
romance, emite julgamentos arrogantes sobre os Nigerianos, o que termina com
as seguintes palavras: «Toda a gente se perguntava porquê. O douto juiz, como
vimos, não conseguia entender como um jovem instruído, et cetera e tal. O
homem do British Council, e até os homens de Umuofia, não sabiam. E nós
temos de pressupor que, apesar das suas certezas, Mr. Green também não
sabia.»
Talvez esteja de acordo com algumas destas observações e discorde de
outras. Algumas talvez lhe pareçam evidentes, e outras perversamente erradas.
Elas não se inserem claramente em nenhum campo político actual; algumas
parecem liberais e outras conservadoras. O que eu digo é que todas partem da
teoria da evolução a um nível tão básico que é pouco provável estarem erradas.
Além disso, estão longe da justificação de desigualdade social que passou a estar
associada ao darwinismo social no século XIX. Eu podia estar a incorrer num
erro grave, iludido pelos meus próprios preconceitos. Todas as afirmações
factuais, incluindo as minhas, têm de ser justificadas por métodos científicos.
Anseio pelo dia em que a teoria da evolução se torne parte da formação básica
de todas as pessoas que estudam os nossos governos e economias ou que são
responsaveis dentro deles. Talvez isso nos ajude a aumentar a nossa inteligência
social colectiva de modo que no futuro possamos gerir os nossos assuntos com
mais êxito do que no passado.

52
O Sr. Pager

Os últimos quinze capítulos conduziram-nos numa longa viagem, da


origem da vida e do comportamento social dos micróbios até à natureza da
religião e ao destino das nações. Este tipo de integração é aquilo que Darwin
tinha em mente ao referir-se à sua teoria como «um longo argumento». Gosto
de pensar de uma perspectiva evolutiva nas grandes questões, como aquelas em
que os filósofos gostam de reflectir, por exemplo a natureza da religião ou a
nossa capacidade de compreender a realidade. Todavia, também há qualquer
coisa de pouco satisfatório em questões tão elevadas; é como fazer uma viagem
pelo espaço e querer regressar à Terra. É com saudades que olho para trás, para
esses tempos recuados em que estudava questões mais terra-a-terra, por
exemplo a maneira como os escaravelhos-necrófagos regulam o tamanho da sua
descendência, ou como os peixes-sol altamente sensíveis conseguem sobreviver
e reproduzir-se. Não há nada como ajoelharmo-nos no chão de uma floresta a
escavarmos a câmara de um escaravelho-necrófago, ou flutuar à superfície de
um lago com uma máscara e um tubo para observar os seus habitantes lá em
baixo. Além do puro prazer de estar ao ar livre, há o prazer de ter a certeza de
qualquer coisa pequena, ou mesmo humilde, em vez de nos sentirmos inseguros
sobre algo de grande, ou mesmo de grandioso. Anne, que ainda faz este tipo de
trabalho, nunca me perdoou por completo tê-lo abandonado para me sentar à
mesa do filósofo. Onde está o homem com quem ela casou?
Quando nos mudámos da nossa quinta no Michigan para a Universidade
de Binghamton, decidimos viver na cidade, mas continuámos a querer um
terreno no campo. Por sorte, os preços das propriedades na nossa zona
permitiram-nos ter as duas coisas com os nossos salários de professores. O
nosso terreno fica a trinta quilómetros da nossa casa e dá- me a possibilidade de
deambular por florestas, campos, pântanos, um lago e um lindo rio, sem estudar
nada em particular. Depois de estarmos aqui há algum tempo, saiu um artigo na
revista Smithsonian acerca das maravilhosas casas nas árvores que foram
construídas em todo o mundo. Michelle Berger, uma das alunas de pós-
graduação de Anne, tinha um companheiro chamado Kevin Bach (agora marido
dela), que é construtor. Kevin sempre quisera construir uma casa numa árvore,
por isso mostrou-nos o artigo e nós não conseguimos resistir. É por esse motivo
que neste momento estou sentado numa árvore, seis metros acima do solo, ou
antes, numa cabina construída num triângulo de árvores e equipada com um
fogão a lenha, um espaço mais elevado para dormir e duas varandas. Estamos
em Janeiro, por isso o rio é perfeitamente visível à minha direita, sem estar
obscurecido pela vegetação. À minha esquerda estende-se um pântano onde os
coiotes caçam perus selvagens. O sítio é surpreendentemente despovoado,
apesar da proximidade de uma estrada, porque praticamente ninguém vem até
aqui a não ser durante a estação da caça. Os animais parecem sempre
genuinamente admirados por nos verem, como se não estivessem acostumados
a ser incomodados.
Este é o meu sítio favorito para escrever e pensar. Gostaria de poder dizer
que escrevi o meu livro inteiro aqui, mas o facto é que consigo escrever em
qualquer parte, e é isso que faço, uma aptidão que cultivei enquanto pai. Este
livro foi escrito ao longo de um ano, em casa, no meu gabinete, em aeroportos,
aviões e quartos de hotel, em bares e cafés, em meia dúzia de estados e em três
continentes. Quem tem um portátil, pode viajar. Mas sempre que possível venho
para aqui escrever, actividade que intercalo com passeios. Nesses passeios
encontro um dos meus animais favoritos, a tartaruga-do-bosque (Clemmys
insculpta), que vive perto dos cursos de água, mas passa a maior parte do tempo
em terra. Algumas das tartarugas que existem aqui têm mais de 50 anos, como
eu, e esses animais já habitavam a Terra antes do tempo dos dinossauros. Sinto-
me fortemente tentado a estudar as tartarugas do bosque para conhecer melhor
a vida na faixa de circulação lenta. Seria fácil equipá-las com radiotransmissores
para as encontrar sempre que quisesse. Elas acostumar-se-iam à minha
presença, da mesma maneira que se habituaram a outros animais que não
representam uma ameaça, como os veados. Podia ir até junto delas com um
portátil e uma cadeira de lona e registar o seu comportamento nos intervalos do
meu outro trabalho. Podíamos envelhecer juntos. Já li umas coisas sobre estas
tartarugas e tenho a certeza de que elas têm histórias para contar. O autor de
uma delas afirma que quando esses animais caminham têm uma maneira de
pisar o solo que atrai as minhocas, fazendo-as aparecer à superfície para serem
devoradas.
Há uns anos descobri uma oportunidade de estudar as pessoas da mesma
maneira terra-a-terra que usei para estudar os peixes-sol e que gostaria de usar
para estudar as tartarugas-do-bosque. Fui convidado para um workshop
patrocinado pela Fundação Templeton sobre o elevado conceito filosófico de
desígnio. Poder-se-á afirmar que a evolução, para além de adaptar os
organismos aos seus ambientes imediatos, tem uma orientação a longo prazo? A
localização era uma estância turística nas Baamas, onde Sir John Templeton
tinha uma das suas residências. Os participantes seriam poucos e o próprio Sir
John planeava estar presente. Como poderia eu resistir?
Sempre que parto para um lugar como as Baamas, levo máscara, tubo e
barbatanas para me divertir. Por esse motivo cheguei com um saco ao ombro e a
minha pasta no outro a uma das estâncias mais luxuosas que vi ou de que ouvi
falar. Acho que isso tem qualquer coisa a ver com o facto de as Baamas serem
um paraíso fiscal. Além da estância turística com quartos de hóspedes em
terrenos perfeitamente cuidados junto à praia, havia enormes mansões
construídas em redor, com um ar deslocado e demasiado juntas, como que
levadas até ali por qualquer nave espacial alienígena, uma da Inglaterra Tudor,
outra do Sul da América anterior à Guerra Civil, para serem armazenadas
naquela faixa de areia. Nessas mansões viviam pessoas extremamente ricas, que
utilizavam as instalações da estância. Na sua maioria tratava-se de pessoas
extremamente ricas já idosas. Enquanto fazia o registo na recepção, calculei que
a média de idades devia ser de 65 anos. Todo o pessoal era negro e toda a
clientela era branca. Não sou um agitador no que se refere a problemas sociais,
mas não conseguia deixar de me sentir culpado quando a empregada me abria a
cama e fechava a porta (tão de mansinho!), deixando-me no meu quarto
principesco com uma varanda a deitar para o mar.
A ideia de que a evolução nos está a conduzir para um destino final tem
uma longa história e surge em muitas variantes, mas hoje em dia está mais
estreitamente associada a Pierre Teilhard de Chardin, uma das figuras mais
interessantes da história do pensamento evolutivo. Este padre jesuíta era
paleontólogo, uma combinação que pode parecer estranha até recordarmos que
a ligação entre ciência e religião era muito mais estreita no passado do que nos
nossos dias. Teilhard de Chardin participou em algumas expedições para
procurar fósseis, incluindo aquela em que se descobriu o primeiro espécime
hominídeo conhecido como homem de Pequim, em 1929. Talvez influenciado
pela sua experiência como maqueiro durante a Primeira Guerra Mundial e por
ter presenciado a morte e o sofrimento de milhares de homens, Teilhard de
Chardin tinha sentimentos e pensamentos profundos sobre a condição humana.
Inventou um sistema de crenças difícil de classificar em termos de ciência e
religião. Aceitava plenamente a evolução e rejeitava aspectos da doutrina cristã
que considerava superficiais, mas sentia que a evolução ia ao encontro da
doutrina cristã num sentido mais profundo e mais abstracto. A frase final da sua
obra mais famosa, O Fenómeno Humano, é a seguinte: «De qualquer modo,
continua a ser verdade que, mesmo na perspectiva de um simples biólogo, a
epopeia humana se assemelha, acima de tudo, a uma via--sacra. » Infelizmente,
a Igreja Católica não via as coisas dessa maneira e censurou as opiniões radicais
do autor. O Fenómeno Humano só foi publicado depois da sua morte, em 1955.
Teilhard de Chardin pensava que a consciência humana representa um
novo nível da vida, a que ele chamava a noosfera. No passado, os seres
humanos, juntamente com todos os outros seres, eram um produto passivo da
evolução, mas no presente podiam controlar essa mesma evolução: «O homem
não é o centro do universo, como outrora pensávamos na nossa simplicidade,
mas algo muito mais maravilhoso — a flecha que aponta o caminho para a
unificação final do mundo. Esta é simplesmente a visão fundamental, e mais
não direi.» A unificação final, o alvo para o qual a flecha se dirigia, era
designada por ponto Ómega e era uma espécie de consciência global difusa:
«Estamos confrontados com uma colectividade harmonizada de consciências
orientada para uma espécie de superconsciência, ficando a Terra não só coberta
por uma miríade de grãos de pensamento, mas encerrada num único invólucro
de pensamento, numa única reflexão unânime.»
Seja o que for que possamos decidir sobre os méritos científicos destas
ideias, elas têm a qualidade inspiradora de uma religião que leva o leitor a sentir
que faz parte de um plano cósmico com um futuro grandioso. O ponto Ómega
assemelha-se um pouco ao estado de desapego do nirvana no pensamento
budista, mas a visão de Teilhard de Chardin tem o atractivo adicional de possuir
uma base científica, ou pelo menos ele pretendia que assim fosse. Não admira
que O Fenómeno Humano, tal como os romances de Ayn Rand, ainda seja lido e
comentado. Ambos se destinam a atingir o leitor como flechas disparadas pelos
arcos da inspiração dos autores, embora em direcções muito diferentes. Não é
de espantar que a Fundação Templeton estivesse ansiosa por explorar os
méritos da visão de Teilhard de Chardin de uma perspectiva científica actual.
O grupo que se havia reunido para debater este tema de tão grande
importância era composto por estrelas. Incluía Francis Fukuyama, o teórico
político cujo livro O Fim da História e o Último Homem tinha um toque de
ponto Ómega, Martin Seligman, pai do movimento da psicologia positiva, e
Robert Wright, o jornalista científico, cujo novo livro, Nonzero, era sobre este
mesmo tema e que ajudara a organizar a conferência. Pegue-se num assunto
como este, acrescente-se uma dúzia de intelectuais de primeira água e é como
deitar fogo a um rastilho. Uns instantes depois de nos termos apresentado uns
aos outros no primeiro encontro já estávamos a planar, imponderáveis e
estonteados. Será a consciência humana uma coincidência feliz ou um resultado
inevitável da evolução? Que significa para um grupo ter uma consciência
colectiva? A única pessoa que permaneceu em silêncio foi Sir John Templeton,
na altura com 80 e tal anos mas ainda muito lúcido, que escutava sem
manifestar grande emoção. Se não estou enganado, o que ele estava a pensar
era: «Agora já posso dizer que assisti a uma discussão sobre o sexo dos anjos.»
Sir John é, acima de tudo, um homem prático, como eu sabia depois de ter lido
os seus livros e recolhas de máximas de religiões de todo o mundo. Não fez os
seus milhões a especular sobre o ponto Ómega. Finalmente, perdeu a paciência
e interrompeu a conversa com o seu sotaque nasalado do Tennessee:
«O que eu quero saber é o seguinte: como podemos inspirar os nossos
jovens?»
O silêncio abateu-se sobre a sala perante esta questão terra-a-terra,
enquanto o fitávamos, sem saber o que dizer. Depois a barulheira recomeçou
quando continuámos a explorar o cosmos.
Mal houve um intervalo na acção intelectual, corri até ao meu quarto,
enfiei os calções de banho e precipitei-me para a praia, que estava vazia, apesar
da tarde maravilhosa. Era evidente que os clientes idosos da estância não se
entregavam aos banhos de sol nem aos desportos aquáticos.
À excepção de um nadador salvador enfastiado, de olhos postos no
horizonte, não havia jovens a quem inspirar. Não importava. Eu tinha um
encontro marcado com os peixes. Como adoro nadar com o tubo na água pouco
profunda, a bater as barbatanas, ir até ao fundo para ver mais de perto e
regressar à superfície com uma grande explosão de ar e água através do tubo!
Mas, na realidade, observar os animais foi um desapontamento. A água estava
turva e a areia em movimento não é muito propícia à vida. Porém, ao nadar ao
longo da margem, encontrei uma saliência rochosa, a pulular com cinco ou seis
espécies de pequenos peixes e muitas outras espécies de seres ainda mais
diminutos, cheios de vida, como se eu não existisse. Mantive-me a flutuar por
cima deles, embalado pela ondulação, até chegar a hora de regressar para jantar.
Eles tinham sem dúvida histórias para contar e se eu soubesse os seus nomes
podia lê-las nos artigos dos meus colegas evolucionistas que ainda viviam desse
tipo de investigação terra-a-terra.
Um dos meus incentivos para assistir àquele workshop foi conhecer outro
participante, chamado Mihaly Csikszentmihalyi, que costuma dizer «Tratem-me
por Mike» aos seus amigos americanos para quem o seu nome é um desafio. Eu
conhecia alguma coisa da sua obra e arranjei maneira de me sentar ao lado dele
ao jantar para ficar a saber mais. Mike é mais conhecido pelo público em geral
devido ao seu livro Flow, cujo tema é a experiência psicológica de mergulhar por
completo no que se está a fazer, como um atleta que está completamente
concentrado ou eu quando estou a escrever um livro. O modo como ele estuda o
fluxo e outros assuntos é equipando as pessoas com instrumentos que apitam
em momentos aleatórios durante o dia. Antigamente eram pagers, do tipo que
os médicos usavam, mas actualmente são relógios electrónicos pré-
programados. As pessoas que participam na investigação levam um pequeno
bloco, que preenchem cada vez que ouvem um apito. Em cada folha do bloco é-
lhes perguntado a que horas ouviram o apito e que horas são nesse momento (as
pessoas nem sempre conseguem responder imediatamente), onde estavam, o
que estavam a fazer, com quem estavam e no que estavam a pensar. Em seguida,
preenchem uma lista de estados mentais e emocionais numa escala numérica.
Gostavam do que estavam a fazer? Estavam concentradas? Sentiam-se a
controlar a situação? Sentiam-se felizes, activas, animadas, sozinhas,
preocupadas, zangadas, responsáveis, irritadas, orgulhosas, afáveis, e por aí
fora? Estavam a sofrer? A resposta às perguntas leva cerca de dois minutos e
fornece um retrato instantâneo da experiência externa e interna da pessoa. O
dia está dividido em blocos de duas horas e dentro de cada bloco elas ouvem um
apito uma vez ao acaso, de modo que há uma cobertura relativamente uniforme
do dia, mas nenhuma maneira de prever exactamente quando o apito vai soar.
Na maioria das experiências, as pessoas participam durante uma semana, o que
fornece mais de cinquenta retratos instantâneos da sua experiência pessoal. Foi
assim que Mike estudou o quem, o como, o porquê, o onde e o quando da
experiência psicológica.
Mike é um homem afável, que faz lembrar um urso e que ainda fala com
um forte sotaque húngaro. Gostei dele imediatamente e esqueci tudo sobre o
meu jantar quando ele me falou mais do seu método do pager. Ele chamava-lhe
o seu «método de amostragem da experiência», mas era exactamente aquilo a
que eu e os meus colegas evolucionistas chamamos «amostragem de pontos» na
investigação do comportamento animal. Se eu fosse estudar tartarugas do
bosque na minha propriedade, verificá-las-ia a determindas alturas do dia,
escolhidas de forma aleatória, para ter a certeza de que a minha amostra e o
comportamento delas era representativo, tal como tive o cuidado de obter uma
amostragem aleatória das religiões no capítulo 28.
O método do pager de Mike tinha características adicionais que faziam
perfeito sentido de uma perspectiva evolutiva. Permitia examinar pessoas de
todos os extractos sociais, por contraposição aos alunos da faculdade que
funcionam como cobaias para grande parte da investigação psicológica.
Examinava-as no «meio ambiente natural» das suas vidas quotidianas, e não
em experiências de laboratório convencionais. Recolhia uma amostra da sua
experiência no momento em que esta estava a acontecer, em vez de confiar na
memória. Quem entre nós consegue lembrar-se do que estava a fazer, a pensar e
a sentir ainda ontem, ou há uma semana ou há um mês?
Depois havia a abrangência dos estudos que Mike havia realizado ao longo
dos anos. Literalmente milhares de pessoas tinham participado, tantas que
estavam representados mesmo acontecimentos estatisticamente raros, como
ataques cardíacos, quedas de janelas e suicídios. É verdade, algumas pessoas
preenchiam os blocos até ao fim. Além disso, grande parte dos dados de estudos
anteriores estava guardada em computador e era acessível a pessoas como eu
com a formação conveniente. Mike tinha transformado a experiência do pager
num verdadeiro instituto com pessoal para manter a montanha de informação
que havia sido criada.
O método do pager parecia-me de longe mais interessante do que o
elevado tema do desígnio que nos tinha levado até ali, precisamente por ser tão
terra-a-terra. Quando o espectáculo intelectual foi retomado na manhã seguinte,
eu só conseguia pensar na maneira de utilizar a informação das experiências
passadas de Mike para fazer as minhas perguntas sobre o comportamento
humano de uma perspectiva evolutiva. Quando voltei para a água e me pus a
flutuar por cima dos peixinhos naquela plataforma rochosa imaginei-me a
pairar por cima de pessoas que tinham tomado parte nas experiências de Mike,
ocupadas com as suas vidas e sem se preocuparem com a minha presença.
O fim da conferência coincidiu com um banquete de gala que a estância
turística realizava periodicamente para os seus clientes e para os habitantes das
mansões circundantes. O sentimento de culpa que me dominara à chegada
intensificou-se quando entrei na sala de jantar com uma orquestra de músicos
negros e um exército de criados também negros a servirem uma multidão de
pessoas de idade brancas. Pequei num prato, dirigi-me à zona onde se
encontrava a comida e estaquei. Nunca até então tinha visto uma tal abundância
de mariscos, artisticamente dispostos de modo a serem tão agradáveis à vista
como ao palato. Havia pirâmides coloridas de camarões e caranguejos com a
casca. Os peixes encontravam-se dispostos em filas paralelas, como se ainda
estivessem a nadar em cardumes. Teria ficado entusiasmado por encontrar
alguns deles enquanto nadava na praia. Estou certo de que teriam histórias para
contar. Vê-los ali, sem vida, em tal abundância e dispostos com tão bom gosto,
fez-me pensar nos imperadores chineses que, segundo consta, se regalavam com
pratos feitos de línguas de beija-flor. Ali estava um ponto Ómega que Pierre
Teilhard de Chardin não havia previsto. Perdi o apetite e voltei para o meu
quarto.
Depois do workshop li tudo o que consegui encontrar sobre o método do
pager. Além do fluxo, Mike e os colegas tinham estudado diversos assuntos,
incluindo os efeitos de ver televisão, o que acontece às crianças que são
identificadas como sobredotadas na escola e o que acontece a uma relação
conjugal quando a mulher tem uma carreira. Havia uma frase que não me saía
da cabeça para descrever Mike e o seu trabalho — «génio do senso comum»,
sem que a expressão «senso comum» tenha seja o que for de depreciativo. O
conceito de óbvio nada tem de óbvio e, como já referi, a vitória máxima para
uma ideia científica é tornar-se o novo senso comum. Admirei particularmente a
confiança que podia depositar nos resultados dos estudos com pagers. Muitos
estudos científicos são como um andaime vacilante, que se pode aguentar, mas
que também pode cair sob o nosso peso. Por esse motivo, uma pessoa hesita em
ficar em cima dele para o aumentar. Os estudos com pagers eram tão sólidos
que eu podia manter-me sobre eles com toda a confiança. Quando Mike e os
colegas concluíram que os alunos sobredotados têm de gostar do que estão a
fazer, numa base quotidiana, a fim de desenvolverem as suas capacidades a
longo prazo, ou que os dois membros de um casal médio passam menos de dez
minutos por dia juntos a fazer seja o que for que possa ser designado por tempo
de qualidade, acreditei neles.
Mal acabei de analisar a literatura, redigi uma proposta de bolsa que enviei
a um ramo da Fundação Templeton chamado Instituto para a Investigação do
Amor Ilimitado (IRUL). O título da minha proposta era «Amor Altruísta,
Evolução e Experiência Individual». Iria estudar diferenças individuais no
comportamento altruísta usando os estudos com pagers de Mike e dos seus
colegas e alguns novos estudos com pagers da minha responsabilidade. Posso
garantir que este tipo de investigação nunca poderia ser realizado sem
fundações pouco convencionais que ajudam cientistas pouco convencionais
como eu. A bolsa foi concedida e parti para Chicago a fim de receber formação
de Barbara Schneider uma colega de Mike, e da sua equipa, que zela pelos
ficheiros de computador dos estudos com pagers realizados no passado, como
os monges do passado que mantinham e transcreviam os textos sagrados. Uns
dias depois do meu regresso, recebi pelo correio um CD que continha os
resultados de um estudo com pagers que exigira cinco anos e sete milhões de
dólares para poder ser terminado, completamente gratuito. Se isto não é um
acto de amor ilimitado, o que será?

33
A ecologia do bem e do mal

O objectivo original do estudo com pagers que chegou pelo correio era
responder a uma pergunta terra-a-terra, um pouco à maneira do «Como
podemos inspirar os nossos jovens?» de Sir John Templeton. Mike e os colegas
tinham obtido uma bolsa choruda da Fundação Alfred P. Sloan para estudar
como os jovens se preparam para entrar no mundo do trabalho. Foram
escolhidas doze localizações geográficas dos Estados Unidos para representar o
meio rural, urbano e suburbano, diferentes composições raciais e étnicas,
diferentes características da mão-de-obra e diferentes níveis de estabilidade
económica. Dentro de cada localização geográfica participaram no estudo
algumas escolas básicas e secundárias, num total de trinta e três escolas para a
totalidade do estudo. Participaram mais de mil alunos, não uma mas três vezes
com dois anos de intervalo, cobrindo todo o seu percurso da escola básica e
secundária. Além de serem contactados por pager durante uma semana,
também responderam a centenas de perguntas feitas uma única vez. Como se
isto não bastasse, milhares de outros alunos responderam a perguntas feitas
uma só vez sem serem contactados por pager. Toda esta informação foi
codificada num único disco compacto, um milagre moderno semelhante à
codificação da própria vida num filamento de ADN.
Quando introduzi o disco no meu portátil e examinei os ficheiros, comecei
a apreciar a tremenda quantidade de trabalho exigida para adquirir aquela
amostra da vida americana. Contactar as escolas e fazer os alunos preencherem
milhares e milhares de folhas de bloco ao longo de um período de cinco anos foi
uma tarefa árdua, mas depois as respostas tinham de ser introduzidas
manualmente no computador. As respostas a perguntas em escalas numéricas
podiam ser rápidas de introduzir, mas as respostas escritas a perguntas como
«Onde estava?» e «Que estava a pensar?» tinham de ser organizadas em
centenas de códigos numéricos. Uma equipa de pessoas tinha de ler
comentários escritos à mão como «a discutir com a minha mulher», decidir que
isso devia corresponder ao código 335 («a falar com namorada/namorado») e
depois repetir o exercício até ao infinito. Os ficheiros no CD tinham centenas de
colunas de largura e milhares de linhas de comprimento. Se eu quisesse
imprimir uma delas em papel, seria precisa uma grande parede para a expor.
Foi necessário um grande caderno para as organizar e tudo isto apenas para um
dos três períodos de amostragem.
Os resultados do estudo já tinham sido publicados em livro por Mike e
Barbara e a obra intitulava-se Becoming Adult: How Teenagers Prepare for the
World of Work. O meu desafio era usar a mesma informação para fazer
perguntas sobre o altruísmo — o quem, como, porquê, onde e quando de
pessoas que se ajudavam mutuamente, usando a teoria da evolução como guia.
Tal como para a palavra «egoísmo», também não há uma definição única para o
termo «altruísmo». Como vimos no capítulo 29, a ideia do auto-sacrifício é
alheia à imaginação religiosa. Para os objectivos do meu estudo, centrei-me na
dimensão do altruísmo orientado para o outro, incluindo tudo o que contribua
para o bem-estar dos outros ou da sociedade como um todo. Utilizo muitas
vezes o termo «pró-social» em vez de «altruísta» a fim de evitar a ideia do auto-
sacrifício necessário.
Examinando as centenas de perguntas que foram feitas apenas uma vez,
descobri dezassete que estavam estreitamente relacionadas com a minha
definição lata de altruísmo, como «Para o trabalho que esperas ter no futuro,
qual a importância de ajudar as pessoas?» e «Entre os amigos com quem andas,
qual a importância de fazer trabalho comunitário ou voluntário?». Cada
pergunta tinha de ser respondida numa escala numérica, de modo que os
números pudessem ser combinados a fim de fornecer uma pontuação única
para cada indivíduo. Em princípio, isto era bastante fácil, mas na realidade fazê-
lo envolvia manipular os ficheiros de uma maneira que achei enervante.
Algumas perguntas foram respondidas numa escala de um a três, outras de um
a cinco e outras ainda de zero a quatro. Para as tornar comparáveis, tive de as
converter numa única escala. Para algumas perguntas como «Acha que ajudar
desconhecidos é uma perda de tempo?», um número elevado a indicar
concordância implica um grau baixo de altruísmo, pelo que esta pontuação teve
de ser invertida. Quando um aluno, por engano, marcou mais de um número
para uma dada pergunta, foi-lhe atribuído um código arbitrário de «96», o que
iria aparecer como uma forma de super-altruísmo, a menos que eu o retirasse
da análise. Estas modificações foram feitas com comandos de computador que
modificaram milhares de números com um único toque na tecla «Enter». Eu
vivia no receio constante de cometer qualquer erro colossal e de converter todos
os números em lixo. Pior ainda, podia não me dar conta do meu erro e passar o
resto da vida à procura de padrões que já não existiam! Comecei a pensar que a
perturbação obsessivo-compulsiva não é necessariamente uma perturbação,
mas exactamente o tipo de personalidade necessária para uma tarefa como esta.
Por fim consegui combinar os dezassete números numa pontuação única
para cada indivíduo, a que chamei a pontuação PRO, de «pró-socialidade». A
distribuição da pontuação PRO descrevia uma bela curva de Gauss, com a
maioria dos alunos a ocuparem uma posição intermédia e uma cauda de
pontuações altas e baixas nas extremidades. Os psicólogos passam o tempo a
construir escalas como esta e desenvolveram métodos para determinar a sua
validade. Como estes métodos podem ser muito complexos, pedi a ajuda de um
especialista, chamado Jack Berry, que descreveu o que ia fazer da seguinte
maneira: imagina um teste de Latim que inclui perguntar fáceis e difíceis. A
maioria dos alunos de Latim vai responder às perguntas fáceis, mas só alguns
irão responder às perguntas difíceis. O mesmo será válido para um teste de
Grego que inclua perguntas fáceis e difíceis. Agora imagina combinar os dois
testes num único teste. Já não há um gradiente que vá de «fácil» a «difícil». Um
aluno de Latim capaz de responder a uma pergunta difícil de Latim não será
capaz de responder a uma pergunta fácil de Grego, e vice-versa, O teste não é
válido, porque aglomera inadequadamente diferentes capacidades (neste caso o
conhecimento de línguas diferentes). Jack avaliou a minha escala PRO e
determinou que as perguntas se inseriam num gradiente fácil a difícil. Parecia
estar a medir uma única capacidade (neste caso, uma orientação para ajudar os
outros e a sociedade), e não a aglomerar inadequadamente diferentes
capacidades.
A tarefa seguinte consistiu em compreender por que motivo os indivíduos
têm pontuações PRO diversas. É um mantra científico afirmar que as
correlações não implicam causalidade, mas elas fornecem um ponto de partida
para descobrir a teia de causalidade subjacente. Por conseguinte, passei a pente
fino as centenas de perguntas feitas apenas uma vez para encontrar aquelas que
se correlacionam de forma mais estreita com a pontuação PRO. Um método
estatístico chamado «análise de regressão múltipla» identificou catorze
perguntas que, colectivamente, eram responsáveis por quarenta por cento de
variação na pontuação PRO e que podiam ser agrupadas nas categorias que se
seguem.
A primeira categoria é o género. O homem médio é mais pró-social do que
a mulher média. Esta foi só para ter a certeza de que está acordado. A mulher
média é mais pró-social do que o homem médio, por uma margem muito vasta.
A segunda categoria é o apoio social. Em comparação com os PRO baixos,
os PRO elevados têm mais professores que se preocupam com eles, vizinhos
mais dispostos a ajudar e famílias mais propensas a evitar magoar sentjmentos.
A terceira categoria é o amor-próprio. Em comparação com os PRO
baixos, os PRO elevados têm mais esperança no futuro, tentam alcançar os seus
objectivos com mais energia e sentem-se pessoas de valor.
A quarta categoria é a planificação do futuro. Em comparação com os PRO
baixos, os PRO elevados passam mais tempo a fazer os trabalhos de casa depois
da escola, pensam mais que é importante ter filhos e proporcionar-lhes
oportunidades, e esperam confrontar-se com obstáculos (que também esperam
superar). Por outro lado, os PRO baixos valorizam mais do que os PRO elevados
a gratificação imediata, como ir a festas com amigos.
A quinta categoria é a religião. Em comparação com os PRO baixos, os
PRO elevados são mais propensos a indicar que a religião afecta as suas decisões
e que ela é importante entre os seus amigos.
Como podem estes resultados ser interpretados de uma perspectiva
evolutiva? No capítulo 5 descrevi as experiências imaginárias com a minha ilha
deserta para ilustrar os custos e benefícios dos traços associados ao bem e ao
mal, ao PRO elevado e ao PRO baixo. Quando são colocados juntos numa única
ilha, os PRO baixos ficam numa posição vantajosa. Quando existem em ilhas
diferentes, são os PRO elevados a ficar numa posição vantajosa. Quando a
separação não é completa, há uma combinação confusa de custos e benefícios,
com grupos de PRO elevados a saírem-se bem, ajudando-se uns aos outros,
apesar do grau de exploração dos PRO baixos que se encontram no meio deles.
O destino das estratégias comportamentais depende inteiramente da forma
como eles estão agrupados.
Os resultados sugerem que as interacções sociais nos Estados Unidos estão
muito agrupadas. Os adolescentes com PRO elevados podem dar mais (pelo
menos segundo eles próprios referem), mas também recebem mais, de
professores, vizinhos e família. A maioria dos indivíduos com PRO elevados está
abrigada no seio de um ambiente social com PRO elevado. Protegidos por um
sistema de apoio estável e reconfortante, os indivíduos com PRO elevados são
capazes de desenvolver o seu potencial e de planificar para atingir objectivos a
longo prazo, em vez de estarem na defensiva e de se preocuparem com a
refeição seguinte. O apoio social, o amor-próprio e a planificação a longo prazo
existem em concomitância.
Contudo, isto só é verdadeiro num sentido estatístico, e não para cada
indivíduo isoladamente. As experiências da ilha deserta tornam claro que um
indivíduo com um PRO elevado que se encontra numa ilha de PRO baixo tem
problemas. De igual modo, um indivíduo de PRO baixo numa ilha de PRO
elevado pode levar uma vida regalada, pelo menos até ser apanhado. Eu devia
conseguir encontrar exemplos destes resultados na minha amostragem da vida
americana. Passando de novo em revista as centenas de perguntas feitas apenas
uma vez encontrei algumas que se debruçavam sobre acontecimentos
significativos que pudessem ter ocorrido durante os últimos dois anos. Tinham-
se mudado para uma casa nova? Os pais tinham-se divorciado ou tornado a
casar? Eles ou um membro da família tinham estado doentes? Tinham
presenciado um crime violento? Alguém os tinha ameaçado ou agredido? Eram
tantos os adolescentes envolvidos no estudo que mais de uma centena
respondeu sim à pergunta «Alguém disparou contra si durante os últimos dois
anos?».
Cada uma destas perguntas era seguida por uma segunda pergunta para
aqueles que respondiam com um sim: «Qual o grau de stresse que o
acontecimento lhe provocou?» Quando correlacionei as respostas com a
pontuação PRO, deparou-se-me um resultado fascinante. Os indivíduos com um
PRO elevado eram menos propensos a experimentar acontecimentos adversos,
como serem agredidos ou assistirem a crimes violentos. Isto faz sentido, pois,
como já mostrei, a maioria deles estão no seio de um ambiente com um PRO
elevado. Todavia, quando os indivíduos com um PRO elevado se confrontavam
com estes acontecimentos, ficavam com mais stresse do que os indivíduos com
um PRO baixo. Chamo a isto o efeito do «peixe fora de água». Um tudo-nada de
pensamento evolutivo informa-nos de que nenhum comportamento é vantajoso
em todos os ambientes sociais. Um indivíduo com um PRO elevado num
ambiente social com um PRO baixo encontra-se no habitat errado, como um
peixe fora de água, e só tem quatro opções: partir, modificar o seu
comportamento, tentar modificar o ambiente social ou sofrer as consequências
de ser explorado.
No capítulo 5, tive o cuidado de falar de comportamentos, e não de
indivíduos, bons e maus. Todas as espécies têm flexibilidade para modificar os
seus comportamentos segundo regras estabelecidas pelo seu passado evolutivo,
e nós somos a mais flexível de todas as espécies. Isto conduz a uma previsão a
que chamo «mais maneiras de ser mau do que bom». Uma pessoa que tenha
uma pontuação baixa na escala PRO pode ser genuinamente centrada em si à
procura de PRO elevados para explorar. Por outro lado, pode ser uma pessoa
perfeitamente bem-intencionada que se está a confrontar com um ambiente
social de PRO baixo «desligando» a sua pró-socialidade ou restringindo-a a uns
poucos associados em quem confia. Para alguém que foi muitas vezes
maltratado no passado e está a esforçar-se por resolver o problema sozinho,
uma pergunta como «Para o trabalho que espera ter no futuro, qual a
importância de trabalhar para melhorar a sociedade?» pode parecer
ridiculamente ingénua. No que diz respeito a comportamentos com PRO baixo
(ou a qualquer comportamento), temos de avaliar o ambiente social pelo menos
tanto como o indivíduo. Quando Leão Tolstoi começou o seu romance Anna
Karenina com a frase «Todas as família felizes se parecem; as infelizes não»,
quis dizer que a felicidade exige um determinado número de ingredientes e a
ausência de qualquer deles pode fazer falhar a receita. O que se aplica às
famílias felizes também se pode aplicar à pró-socialidade em geral.
Para testar a minha hipótese de «mais maneiras de ser mau do que bom»,
comparei as extremidades superior e inferior da minha distribuição PRO. Claro
que os PRO baixos eram mais variáveis do que os elevados na sua resposta a
dezenas de perguntas feitas uma única vez relacionadas com o amor-próprio, o
vazio emocional, os objectivos a longo prazo, a eficácia, a confiança, o desvio e o
stresse. Os PRO baixos constituíam uma mistura heterogénea que tinha
alcançado a sua baixa pró-socialidade — ou sido reduzida a ela — de diversas
maneiras. Os PRO elevados eram mais homogéneos, excepto no que se referia à
religião. Para sete perguntas sobre a religião, os PRO elevados mostraram-se
mais variáveis que os PRO baixos para cada indivíduo. Se uma pessoa tem um
PRO baixo, provavelmente não é religiosa. Se tem um PRO elevado, pode ser ou
não ser religiosa. Eu sou um bom exemplo de um PRO elevado não religioso.
Enquanto grupo, os PRO baixos parecem ser um monte de oprimidos.
Sofrem de falta de amor-próprio, são pessimistas em relação ao futuro e
acreditam que a sorte é mais importante que o trabalho árduo. As suas
pontuações são significativamente mais altas nos items «Em geral sinto-me
stressado», «Em geral sinto-me maldisposto» e «Em geral sinto-me cansado».
Este perfil é muito diferente da imagem de um egoísta cheio de auto-suficiência
(muito amor-próprio), que está a fazer planos para arranjar uma casa nos
Hamptons (optimista quanto ao futuro) e não deixa nada ao acaso (acredita que
o trabalho árduo é mais importante que a sorte). O motivo pelo qual os egoístas
pretensiosos não dão mais nas vistas na análise de regressão é constituírem só
uma parte da mistura heterogénea de PRO baixos. Mal comecei a estabelecer a
distinção entre diferentes tipos de PRO baixos com uma técnica estatística
chamada «análise de agrupamentos», os egoístas pretensiosos emergiram em
toda a sua glória. A minha escolha do sexo masculino é adequada porque oitenta
por cento são homens.
Também pude usar a análise de agrupamentos para explorar diferenças
entre PRO elevados religiosos e não religiosos. Apesar de partilharem valores
pró-sociais, os PRO elevados religiosos têm mais amor-próprio, parecem
trabalhar mais para construir o futuro e submetem-se a um maior controlo
social (relativamente a coisas como tarefas domésticas e limites para verem
televisão), mas na realidade sentem que têm mais domínio das suas vidas do
que os PRO elevados não religiosos. Estes resultados afirmam os benefícios
práticos da religião, que também sublinhei nos capítulos 28 e 29.
Todos estes resultados se baseiam nas centenas de perguntas a que os
alunos responderam apenas uma vez, Os indivíduos com PRO elevado e com
PRO baixo também respondem de maneira diferente quando são contactados
por pager, aleatoriamente, durante as suas vidas quotidianas? Na realidade,
sim. Os PRO elevados referem que se estão a concentrar melhor, estão a
corresponder às expectativas, de si e dos outros, que se sentem melhor em
relação a si mesmos, são mais felizes, mais activos, com vidas sociais mais
activas, estão mais envolvidos e entusiasmados, sentem um maior desafio
perante as actividades mais importantes e difíceis, o que estão a fazer é mais
interessante e relevante para os seus objectivos futuros e estão a fazer melhor
uso do seu tempo. Não resta sombra de dúvida de que, se o leitor for um
adolescente americano, ser um PRO elevado é altamente benéfico, mas só se
estiver num ambiente social de PRO elevado. Estes resultados são fiáveis, graças
à enorme quantidade de trabalho realizado por Mike, Barbara e os seus
colaboradores, ao apoio financeiro de instituições como a Fundação Alfred P.
Sloan e a Fundação John Templeton e à beleza do método do pager.
Os resultados são descritos de forma mais pormenorizada num artigo que
escrevi em colaboração com Mike intitulado «Health and the Ecology of
Altruism», que pode encontrar no meu site. Muito mais resta por descobrir, mas
até agora estou duplamente feliz com a nossa análise. Em primeiro lugar, ela
mostra como as pessoas podem ser estudadas exactamente da mesma maneira
que os ecologistas estudam outras espécies nos seus ambientes naturais. Em
segundo lugar, as previsões evolutivas mais básicas sobre o altruísmo enquanto
estratégia social, que pode ser bem sucedida ou fracassar consoante o ambiente
social, estão a revelar o seu valor — não só em relação a assuntos elevados como
a natureza da religião, mas também em assuntos terra-a-terra, como a
experiência quotidiana da juventude americana. Ainda não é comum pensar na
diversidade comportamental humana como diversidade biológica, mas talvez
isso se vá tornar um novo senso comum.

34
Mosquitos debaixo da cama

O Canal do Panamá foi o maior projecto de engenharia da sua época e


quase fracassou devido à febre-amarela e à malária. Na sua ignorância, os
Franceses e os Americanos atribuíram essas doenças à fraqueza moral. Segundo
David McCullough, na sua obra The Path Between the Seas, «Quase toda a
gente ficava profundamente abalada sempre que a morte de qualquer pessoa
honesta parecia ridicularizar essa maneira de ver as coisas. ‘Sem dúvida, as suas
qualidades morais estavam acima de toda a crítica’, escreveu um engenheiro
francês perplexo e desgostoso a respeito de outro que tinha morrido de febre-
amarela no primeiro ano».
Por fim descobriu-se que ambas as doenças eram transmitidas por
mosquitos. Na realidade, os mosquitos reproduziam-se debaixo das camas dos
doentes nos hospitais, em bacias com água que eram colocadas sob os pés da
cama para deter as formigas. Uma vez compreendidas as verdadeiras causas
destas doenças, foi possível tomar medidas práticas para as controlar.
A mensagem desta história é que alguns problemas exigem soluções
práticas. Nem toda a moral do mundo seria capaz de impedir a febre-amarela e
a malária. E bastou um pouquinho de conhecimento factual para resolver o
problema.
Hoje, mais do que nunca, precisamos de conhecimento factual. Além de
continuarmos a travar uma batalha contra organismos causadores de doença,
temos de combater novos problemas que nós próprios criámos, desde
compostos de plásticos que mimetizam hormonas até alterações climáticas
globais. Em todos os casos há qualquer coisa comparável a mosquitos debaixo
da cama que não tem nada a ver com fraqueza moral e tem de ser descoberta
para chegar a uma solução prática. No entanto, seria ingénuo descrever o
conhecimento factual como bom sem qualquer ambiguidade. Além da solução,
essa é também a causa dos nossos problemas. No romance de Kurt Vonnegut
Cat’s Cradle, um tudo-nada de conhecimento factual na forma de uma
configuração de água estável recém-descoberta associa-se à loucura humana
para produzir o fim do mundo.
Quer isso nos agrade, quer não, a caixa de Pandora da tecnologia moderna
já foi aberta e temos de lidar com as consequências disso. Agora que este livro se
está a aproximar do fim, vale a pena reflectir em termos gerais na ciência, nos
valores morais e na evolução.
Há pelo menos três problemas que tornam o conhecimento factual uma
bênção contraditória. O primeiro são as consequências imprevistas. O plástico
parecia bom sem qualquer ambiguidade quando foi inventado e ninguém fazia a
mais pequena ideia de que pudesse libertar no ambiente imitações de
hormonas. O segundo é o uso não ético. Os factos são poderosos e podem ser
usados como armas por alguns contra outros, além de terem usos mais
benignos. O terceiro é a erosão dos valores morais. É fácil sorrir perante a ideia
da malária como valor moral, mas alguns problemas são causados por fraqueza
moral e resolvidos implementando uma forte comunidade moral, como vimos
nos capítulos anteriores.
Estes problemas poderão ser tremendamente difíceis de resolver na
prática, mas a maneira de começar é relativamente simples, pelo menos tanto
quanto me é dado ver. Para resolver o problema das consequências imprevistas,
precisamos de ser adequadamente humildes acerca do que sabemos, cautelosos
a implementar novas tecnologias e diligentes a descobrir consequências
imprevistas. A solução definitiva para o conhecimento parcial é o conhecimento
mais completo.
Para resolver o problema do uso não ético, precisamos de sistemas sociais
éticos a fim de impedir a exploração de uns pelos outros. Não há nada de
especial no conhecimento factual em si no que diz respeito à conduta ética. Se
conseguirmos criar sistemas sociais éticos, o uso do conhecimento factual
tornar-se-á mais benéfico juntamente com tudo o resto.
Para impedir a erosão de valores morais, temos de pensar cuidadosamente
na relação entre realismo prático e factual. Haverá necessariamente uma
relação de compromisso entre crenças que permitem às pessoas prosperar em
comunidades sustentáveis e conhecimento factual? Conhecemos essas relações
para sistemas de crenças particulares, mas haverá uma relação de compromisso
mais geral que não poderá ser evitada? Foi perturbador saber que a Terra não
era o centro do universo, mas, tanto quanto sei, essa descoberta não destruiu em
permanência os nossos sistemas morais. Uma relação de compromisso mais
geral criaria um dilema mais sério.
A teoria da evolução é profundamente relevante para cada um destes três
problemas e para as respectivas soluções. Comecemos por perguntar se a teoria
conduz a um conhecimento factual que possa ser usado para resolver os
problemas práticos da vida. Se eu fizesse esta pergunta a um biólogo, pode
imaginar o olhar incrédulo que receberia em troca. O mantra «Nada na biologia
faz sentido excepto à luz da evolução» foi usado pela primeira vez há mais de
trinta anos. Porém, se eu fosse fazer a mesma pergunta num bar ou num
supermercado, receberia outro tipo de olhar incrédulo. Alguns resmungariam
qualquer coisa sobre resistência aos antibióticos, mas a grande maioria não faria
a menor ideia do que havia de responder. O facto mais extraordinário no que diz
respeito à consciência que o público tem da evolução não é que cinquenta por
cento não acredite na teoria, mas que quase cem por cento não a relacione com
coisa nenhuma importante das suas vidas.
Se este livro teve algum impacto na sua maneira de pensar, espero que ele
demonstre a enorme importância da teoria da evolução em aspectos relevantes
dos assuntos humanos. Para escolher apenas um de muitos exemplos dos
capítulos anteriores, nós, tal como outros mamíferos, estamos concebidos de
forma a avaliar o nosso ambiente nutricional muito cedo e a adoptar uma
estratégia metabólica que dure o resto da nossa vida. Esta resposta «adaptativa
preditiva», ou PAR, tornou-se maladaptativa nos ambientes modernos (um
exemplo de «dança com fantasmas»), com complicações médicas que causam
tanto desespero e morte como a malária ou a febre-amarela. Isto só foi
descoberto há muito pouco tempo porque é impossível sequer imaginá-lo a
menos que estejamos a pensar como evolucionistas. Esta e muitas outras
descobertas baseadas no pensamento evolutivo são puramente benéficas e
essenciais para resolver problemas comparáveis a mosquitos debaixo da cama.
A razão por que acreditamos tão firmemente nas ciências físicas não é elas
estarem mais bem documentadas que a evolução, mas sim serem tão essenciais
para as nossas vidas quotidianas. Sem elas não podemos construir pontes,
conduzir carros ou pilotar aviões. Em minha opinião, a teoria da evolução
revelar-se-á igualmente essencial para o nosso bem-estar e perguntar-nos-emos
retrospectivamente como vivemos na ignorância durante tanto tempo. Se pensa
que estou a exagerar, lembre-se da minha metáfora de uma pessoa a tentar
explicar uma escultura sem fazer ideia do que é um artista. Agora imagine que a
escultura é todo o mundo vivo, incluindo a nossa própria espécie. O
conhecimento do «artista» é essencial, e temos a sorte de as suas intenções
serem discerníveis, ao contrário das intenções insondáveis dos agentes
sobrenaturais e de outros «criadores inteligentes» que têm sido imaginados ao
longo das décadas e dos milénios. Em resumo, se valorizamos o conhecimento
factual, temos de atribuir um valor muito alto à teoria da evolução e de
trabalhar muito a fim de a expandir para além dos limites das ciências
biológicas, às quais esteve limitada durante a maior parte do século XX.
Relativamente ao uso ético do conhecimento factual, a teoria da evolução
tem muitas vezes sido mal utilizada, como tive o cuidado de reconhecer no
capítulo 2. No entanto, será ela mais propensa a ser mal utilizada do que outras
teorias científicas? Um livro fascinante de Rebecca Lemov intitulado World as
Laboratory: Experiments with Mice, Mazes and Men, relata a história das
ciências sociais nos Estados Unidos, incluindo a tradição da «tábua rasa» do
behaviorismo. Este também foi mal utilizado, o que sugere que o problema real
é como evitar a má utilização de qualquer teoria, e não apenas da teoria da
evolução.
Em retrospectiva, as ciências sociais na sua fase inicial nos Estados Unidos
são surpreendentes devido às suas expectativas grandiosas, como se a
compreensão e o domínio plenos do homem e da natureza estivessem ali ao
virar da esquina. Jacques Loeb, que forneceu o modelo para o herói cientista do
romance Arrowsmith, de Sinclair Lewis, escrito em 1925, disse a um repórter:
«Queria tomar a vida nas mãos e brincar com ela. Pô-la a funcionar, pará-la,
modificá-la, estudá-la em todas as condições.» John B. Watson, o protegido de
Loeb, fazia eco do mesmo sentimento: «Creio que podemos escrever uma
psicologia [...] e nunca usar as expressões ‘consciência’, ‘estados mentais’,
‘mente’, ‘conteúdo’, ‘introspectivamente verificável’ e coisas semelhantes [...j
Isso pode ser feito em termos de estímulo e de resposta [...j A minha razão
última para isto é aprender os métodos gerais e particulares através dos quais
posso controlar o comportamento.» Prosseguindo com a tradição, Clark HulI
alcançou notoriedade não devido aos seus contributos científicos (que foram
completamente esquecidos), mas agindo como uma espécie de profeta da
maleabilidade e do controlo do comportamento. Como afirma Lemov, «ele
apresentou o seu ultrabehaviorismo como salvação». O behaviorismo radical de
HuIl fez a evolução parecer irrelevante. Se o comportamento é assim tão
maleável, a quem interessa o que aconteceu na Idade da Pedra?
Estas expectativas grandiosas estavam associadas a uma fé cega na
autoridade, como se pudéssemos esperar que os cientistas, os políticos e os
patrões da indústria fizessem o que está certo sem qualquer supervisão. A
descrição de Lemov da Laura Spelman Rockefeller Memorial Foundation, que
encarregou Beardsley Rumi de, praticamente sem ajuda, definir as ciências
sociais, capta o espírito de uma época passada.
Os documentos da política da fundação desses anos (1922-1926) empregavam a
expressão «bem-estar social» em grande medida como sinónimo de «engenharia social»,
de «inteligência social» e de «tecnologia social». Quando a nova ciência social tivesse
explorado e cartografado o domínio humano e social de uma maneira convenientemente
replicável e tão objectiva quanto possível, uma modificação sucederia necessariamente.
Sob a bandeira da razão científica, até os elementos irracionais da sociedade eram
susceptíveis de ser dominados. O crime, a delinquência e o funcionamento sexual ou
familiar anormal podiam ser corrigidos através de uma redefinição das relações
ambientais e sociais; talvez os cientistas conseguissem mesmo ocupar-se da descrença e
dos males provocados pela falta de normas do século XX — o que, em 1915, Ezra Pound
tinha designado por «uma civilização arruinada», na qual multidões, massas, populações
inteiras habitavam um mundo sem grande sensibilidade nem bom senso — introduzindo
novas normas de comportamento e formas alternativas de fé. A consequência lógica disto
era o controlo da tecnologia social ser uma tarefa para cientistas sociais e outros
especialistas, pois quem estava em melhor posição para traduzir o conhecimento como
técnica? Confrontados com a monumentalidade da sua tarefa, os engenheiros humanos e
sociais recordaram a si próprios que eram simples servos ou tecnocratas a trabalhar para
aqueles que apresentavam os objectivos últimos do controlo social: os funcionários
democraticamente eleitos. Sem especialistas de controlo social, esses líderes poucos
resultados podiam esperar sem adoptarem métodos autoritários. Por este motivo, as
ciências sociais eram a maior esperança para o controlo social democrático: eram a
própria esperança.
Finalmente, as expectativas grandiosas e a confiança cega na autoridade
estavam associadas a uma disposição de infligir sofrimento a indivíduos para
beneficiar a sociedade como um todo que hoje nos parece chocante. Os piores
excessos tiveram lugar durante a Segunda Guerra Mundial e a Guerra da Coreia,
sob o disfarce de segurança nacional. Harold George Wolff, uma importante
autoridade na dor que, financiado pela CIA, empreendeu investigação
dissimulada sobre o controlo da mente, vangloriava-se de ser capaz de fornecer
a chave da maneira «como se pode fazer um homem pensar, sentir e comportar-
se de acordo com os desejos de outros e, inversamente, como um homem pode
evitar ser influenciado desta maneira». Algumas das experiências conduzidas
durante a Guerra da Coreia por importantes autoridades científicas, envolvendo
lobotomia com picador de gelo, que não deixava cicatriz, ou a total destruição de
uma pessoa anterior à «reconstrução», são tão diabólicas como tudo o que pode
ser imaginado na ficção ou nos recessos sombrios de um estado totalitário. A
maioria dos cientistas sociais desconhecia estas experiências e estava disposta a
receber financiamento militar para a sua investigação. Como um cientista da
CIA afirmou durante uma audição no Congresso: «Não fique com a ideia de que
todos esses cientistas comportamentais eram impecáveis e puros, não queriam
mudar nada e estavam isolados de tudo o resto a fazer as suas pesquisas
científicas. Estavam metidos até ao pescoço no projecto de mudar pessoas. O
que se passou foi que as coisas em que eles estavam interessados nem sempre
eram as mesmas que nos interessavam a nós.»
A galeria de cientistas sociais de Lemov encerra com Timothy Leary, que
tinha ideias bastante diferentes sobre a maneira de alterar o comportamento
humano. Em 1961, enquanto jovem professor de Harvard prestes a ser
despedido, obteve autorização para se drogar com detidos de uma prisão local a
fim de quebrar a barreira entre cientista e sujeito experimental. Leary recorda
que a sua primeira tripe com um escroque polaco chamado John teve um
começo difícil
Porque tens medo de mim, Doc?, perguntou ele Tenho medo de ti, John, respondi
eu, porque és um criminoso. Ele fez um gesto de assentimento. E tu, porque tens medo de
mim, John, perguntei eu? Tenho medo de ti, Doc, porque és um cientista louco. Então as
nossas retinas ficaram presas uma à outra e eu deslizei para o túnel dos seus olhos e senti-
o às voltas no meu cérebro e começámos ambos a rir. E lá estava ele, o momento sombrio
do medo e da desconfiança, que se podia ter transformado num segundo em ódio e terror.
Mas fizemos a ligação do amor. A luz na escuridão. De súbito, o sol rompeu na sala, eu
senti-me optimamente e soube que ele também sentia o mesmo.

O tratamento de Leary teve um efeito profundo nos prisioneiros, mas só


enquanto a relação deles durou. Embora dificilmente se possa chamar científica
à «experiência» dele, ela sugere um ingrediente vital para a aplicação ética do
conhecimento — a confiança mútua. As pessoas receiam ser dominadas pelos
outros sem o seu consentimento, pela melhor das razões. Quando concordam no
que diz respeito às suas prioridades sociais por consenso, a aplicação prática do
conhecimento científico torna-se benéfica. Quando o conhecimento é usado sem
consentimento mútuo, torna-se sinistro. Não interessa se o conhecimento se
baseia na teoria da evolução ou no seu oposto, no behaviorismo radical.
A questão converte-se então na seguinte: como podemos construir laços de
confiança mútua mais duradouros do que o estado induzido pelas drogas de
Timothy Leary? A teoria da evolução tem muito a dizer sobre este assunto, como
já referi em capítulos anteriores. As ciências sociais estão repletas de cenários
sobre as vidas e mentes dos nossos antepassados, anteriores ao advento da
civilização. Rousseau imaginou um nobre selvagem corrompido pela civilização.
Hobbes imaginou um selvagem animalesco que tem de ser domesticado pela
sociedade. Freud imaginou um selvagem culpado cujo acto parricida ficou de
algum modo incrustado na memória racial. Os economistas imaginam um
selvagem egoísta, por vezes referido como o Homo economicus, que só se torna
civilizado fazendo apelo ao seu interesse pessoal. Vale a pena perguntar por que
motivo estes mitos da origem são necessários quando na realidade não têm mais
fundamento que o Jardim do Éden. Suspeito que desempenham um papel
prático nos sistemas de crenças que os criam e lhes servem de base, à
semelhança das versões distorcidas da história nos quatro Evangelhos. De
qualquer modo, estamos prestes a substituir estes mitos científicos da criação
por conhecimentos mais autênticos sobre a nossa espécie como produto da
evolução genética e cultural. É quase certo que este conhecimento nos pode
ajudar a construir laços de confiança mútua, que por sua vez podem ajudar a
promover a aplicação benéfica de todo o conhecimento por consentimento
mútuo.
Finalmente, há a questão de saber se o sistema de crenças pode combinar
o melhor da religião e da ciência, permitindo às pessoas atingirem um
desenvolvimento pleno em comunidades sustentáveis, ao mesmo tempo que
permanecem profundamente empenhadas no realismo factual. É importante
compreender que isto seria uma nova adaptação cultural, nunca antes vista à
face da Terra. O realismo factual tem sido sempre o servo do realismo prático,
exibindo-se quando isso é útil e desaparecendo nos outros casos. Isto tem sido
sempre verdade, a começar pelos sistemas perceptivos das bactérias. As nossas
mentes estão geneticamente concebidas para codificar instruções relativas à
maneira de nos comportarmos, sob a forma de declarações factuais. Para nós
isso é tão natural como sexo e demonizarmos os nossos inimigos. Só agora, nas
sociedades modernas altamente diferenciadas, se tornou importante criar um
grande corpo de conhecimento factual em que é possível confiar para resolver
problemas práticos a uma escala social, espacial e temporal sem precedentes.
Afortunadamente, os sistemas morais humanos são suficientemente flexíveis
para encarnarem o que quer que seja considerado bom e justo, ainda que isso
exija disciplina e autodomínio, como em geral acontece. O primeiro passo é
decidir que o conhecimento factual é uma virtude — sagrada, se quiser — e que
os sistemas de valores têm de tratar as declarações de facto com mais respeito
no futuro do que no passado. Sua Santidade o Dalai Lama aponta o caminho
quando afirma que «desafiar a autoridade dos dados empíricos é desqualificar-
se, não se mostrar alguém digno de participação crítica num diálogo».

36
O regresso do cientista amador

Considera-se que a ciência é a actividade intelectual por excelência, fora do


alcance de todos à excepção de uma escassa elite. Mesmo os que nela participam
têm de estudar durante anos para além da formação universitária a fim de
adquirirem as suas competências avançadas, tornando-se tão especializados que
só alguns dos seus pares conseguem falar a mesma linguagem e compreender o
significado da sua obra.
Como que para afirmar a superioridade dos cientistas, a população em
geral parece estar a tornar-se cada vez mais estúpida. As crianças nos Estados
Unidos lêem e escrevem com grande esforço, fogem dos cursos de Ciências
como da peste e interessam-se mais pelas suas vidas sociais do que pelo que
quer que se possa chamar intelectual. Os adultos do país trabalham em
empregos embrutecedores e distraem-se nas horas de lazer com todo o tipo de
diversões, a maioria das quais oferece prazer a curto prazo sem vantagens a
longo prazo.
É difícil imaginar que ainda há 150 anos a ciência era em grande medida
uma actividade a que os amadores se dedicavam no seu tempo livre. Alguns
eram homens abastados, mas outros eram párocos, professores primários ou
médicos. Alfred Russel Wallace, que autonomamente chegou ao princípio da
selecção natural, fornece um belo contraste com o cavalheiro rural que era
Darwin. Wallace tinha de lutar pela vida e começou a interessar-se pela história
natural do que o rodeava quando se dedicou à profissão de agrimensor. Beatrix
Potter, que hoje em dia é adorada devido aos seus livros infantis, era uma
socióloga ocupada e uma reformadora social que também encontrava tempo
para ser uma micologista de mérito. Foi ela que descobriu que os líquenes são
uma associação simbiótica e não uma única espécie.
É fácil concluir que esses tempos desapareceram para sempre e que hoje
em dia a ciência se restringe aos cientistas profissionais com uma especialização
de âmbito restrito. No entanto, este livro conta uma história muito diferente. Os
meus irmãos evolucionistas e eu escapámos ao destino dessa especialização
restrita. Mesmo aqueles que se especializam, como Doug Emien com os seus
escaravelhos-bosteiros e Tom Seeley com as suas abelhas produtoras de mel,
abordam questões fundamentais que podem ser comunicadas aos demais sem
um jargão complicado. Não são necessários anos de formação. Um único curso é
suficiente para iniciar os meus alunos e este livro foi escrito para prestar o
mesmo serviço à distância. O clube não se restringe às elites. Trabalho numa
universidade estatal que não exige uma fortuna aos estudantes para a
frequentarem. Os meus alunos provêm de todos os grupos étnicos, de todas as
camadas sociais e, cada vez mais, de todas as partes do mundo. É certo que têm
de ser excepcionais nos estudos parachegarem aqui, mas não penso que a
localização de uma pessoa na curva de Gauss esteja determinada à nascença. Há
diferenças inatas, mas, independentemente dos genes que possuímos, a nossa
trajectória ao longo da vida assemelha-se mais à de uma bola numa máquina de
flippers do que à de uma bala. Enquanto escrevia este livro, perguntei aos meus
alunos e colegas como se tornaram cientistas. Eles vêm de toda a parte, são de
ambos os sexos, de famílias operárias e de quadros técnicos, e chegaram à
ciência devido a um livro em que pegaram num alfarrabista, a uma pequena
parcela de terreno ao lado da sua casa, à sua ligação a um periquito de
estimação. O seu avanço parece mais baseado nos seus motivos e no prazer que
tiram do que estão a fazer do que na inteligência pura.
Talvez seja conveniente terminar este livro descrevendo a minha própria
trajectória precoce através da máquina de flippers da vida. Não é a história de
um sujeito que subiu a partir do nada, mas reflecte outra transformação que
pode ajudar-nos a compreender a diferença entre ciência e não ciência,
profissional e amador, inteligente e estúpido. Já disse que o meu pai era Sloan
Wilson, cujos romances incluíram dois êxitos, O Homem do Fato Cinzento e A
Summer Place. O primeiro tornou-se um ícone para a geração dos anos 50 e o
segundo tornou-se um ícone da transformação dos costumes sexuais. Ambos
deram origem a filmes de êxito [O Homem do Fato Cinzento e Escândalo ao
Sol] e ainda hoje se ouve o tema de Escândalo ao Sol na rádio.
O Homem do Fato Cinzento foi publicado em 1955, tinha eu 6 anos. Antes
disso, o meu pai publicara histórias em revistas como a New Yorker e um
romance do tempo da guerra intitulado Voyage to Somewhere, mas estava
longe de conseguir sobreviver como autor profissional. Um documentário em
vídeo intitulado The Fifties, baseado no livro de David Halberstam com o
mesmo título, contém uma entrevista com o meu pai a descrever esse período da
sua vida. Ele trabalhava como assistente de Henry R. Luce, director da revista
Time e um dos homens mais poderosos dos Estados Unidos. Um dia, outro
assistente tentou adular Mr. Luce oferecendo-se para lhe segurar o chapéu. O
meu pai, que tinha capitaneado navios de abastecimentos durante a guerra,
apercebeu-se de súbito de que o tinham reduzido ao papel de mordomo. «Posso
segurar o chapéu do meu amo?», perguntou ele numa voz lamentosa, sem que
ninguém notasse a ironia do pedido. No dia seguinte despediu-se do emprego.
O seu emprego seguinte ainda foi mais humilde. Trabalhava na equipa de
relações públicas da Universidade de Buffalo, a organizar actividades sociais e
visitas ao campus para os pais dos potenciais alunos. Numa visita ao dormitório
das raparigas, uma mãe perguntou se a filha estaria a salvo dos avanços sexuais
dos alunos do sexo masculino (repare-se que isto aconteceu nos anos 50). Mal o
meu pai tinha acabado de a tranquilizar quando baixou os olhos e viu no chão
um preservativo usado. Que faz alguém que trabalha em relações públicas? Está
claro que lhe põe o pé em cima.
Com um trabalho tão pouco compensador, o que acima de tudo dava
significado à vida do meu pai era a escrita. Pouco importava se chegava cansado
ao fim do dia à casa onde o esperava uma mulher e três filhos. Mesmo assim,
dirigia-se ao seu escritório na cave para começar a dactilografar à primeira
oportunidade. Recordo-me de adormecer ao som da máquina de escrever dele,
da mesma maneira que as outras crianças adormecem ao som do fogão de lenha
que têm no quarto.
A paixão do meu pai por dar sentido à vida através da escrita não é
invulgar. Para cada autor de sucesso, há centenas de autores aspirantes à fama a
martelarem nas suas máquinas de escrever ou em computadores. Alguns são
impelidos pelo desejo de fama e de fortuna, mas outros principalmente pelo
desejo de darem sentido à vida. Para cada pretenso autor, há milhares de
pessoas que escrevem em jornais ou revistas puramente pela satisfação que isso
lhes dá, sem pensarem em fama nem em fortuna. A busca de significado é um
desejo humano primordial, como sublinhou na sua obra Viktor E. Frankl, o
grande psiquiatra e sobrevivente do Holocausto. É uma sorte ser pago por isso,
mas, por outro lado, é uma coisa que se paga para fazer. No que diz respeito à
escrita, é esta a diferença principal entre um profissional e um amador.
O meu pai foi um dos felizardos que conseguiram viver da escrita. Não só
O Homem do Fato Cinzento mudou a sua vida, mas também mudou a minha.
Tente imaginar como é para um rapazinho ter um pai que é o centro das
atenções aonde quer que vá. Nos restaurantes era abordado por raparigas que
lhe pediam autógrafos. A aristocracia local convidava-o para festas e por vezes
eu tinha autorização para o acompanhar. Íamos de carro até uma mansão num
terreno cuidado com esmero, muito acima do nosso meio. Os outros convidados
mostravam-se tão deferentes como os criados, e, não sei bem como, o meu pai
superava mesmo os donos da casa. Fosse o que fosse que ele tinha, sobrepunha-
se ao dinheiro e à origem social.
O meu pai era um rei, o que devia fazer de mim um príncipe, embora não
me sentisse como tal. Nem sequer me parecia com o meu pai. Ele tinha uma
aparência leonina, com uns olhos cinzentos penetrantes e o cabelo penteado
para trás como uma juba. Eu parecia mais uma gazela esguia. Uma
peculiaridade da genética é os homens por vezes parecerem-se mais com o avô
materno do que com o pai. Fisicamente eu parecia-me com o pai da minha mãe,
um caixeiro-viajante que vendia roupa interior antes de casar com uma rapariga
de uma família rica de Boston.
A auto-análise é traiçoeira, mas quando olho para trás, para a minha
juventude, parece-me que tudo o que fazia se destinava a evitar a comparação
directa com o meu pai. Ele adorava barcos e em rapaz foi campeão de vela no
Lake George, nas montanhas Adirondack, onde a família dele tinha um hotel.
Nós ainda passámos férias no terreno desse hotel, que foi destruído durante a
Segunda Guerra Mundial mas reconstruído pela imaginação do meu pai em A
Summer Place. Mal tive idade para isso, ele comprou-me um pequeno barco à
vela vermelho. Deve estar a pensar que isso era a prenda perfeita para um rapaz
e a oportunidade de estar com o pai, mas o stresse de tentar equiparar-me a
qualquer coisa que ele fazia tão bem era insuportável para mim. Por outro lado,
quando, um ano mais tarde, me ofereceu o caiaque, com dois lugares, mas
demasiado estreito para a sua figura corpulenta, este tornou-se o meu
companheiro constante. Também adquiri a paixão da pesca, para a qual o meu
pai não tinha paciência. Pergunto-me o que pensaria quando me via patrulhar
incansavelmente o grande molhe de madeira, que havia muito recebera os
hóspedes do hotel quando estes chegavam num barco a vapor que ainda andava
por ali a chocalhar como uma atracção para os turistas, enviando a ondulação
que se formava na sua esteira para a nossa praia. Eu tornava-me literalmente
inacessível, não fosse ele assustar os peixes.
Ainda muito pequeno, eu já encarava as opções da vida com uma seriedade
que em geral não está associada à infância. Brincar com as crianças da minha
idade e pôr-me à prova entre elas pouco me atraía. Tinha de estar à altura do
meu pai, mas a perspectiva de me equiparar a ele naquilo em que ele era tão
bom era demasiado assustadora. Precisava de fazer qualquer coisa que ele
admirasse, mas que ele próprio não soubesse fazer, de preferência algo que ele
não pudesse avaliar. Tornar-me-ia cientista, embora não soubesse o que isso
significava. Tudo o que sabia é que, quando a conversa se virava para o que eu
queria fazer quando crescesse e eu dizia qualquer coisa como «neurocirurgião»
os olhos dos meus pais se iluminavam.
Sem que eu disso tivesse consciência, os meus pais estavam à beira do
divórcio e enviaram-me para um colégio interno com a tenra idade de 11 anos.
Mais tarde a minha mãe contou-me que eu andava atrás do meu pai a dizer
«Desculpa, desculpa», o que ela achou muito pouco saudável, embora eu não
me recorde disso. Mandaram-me para a North Country School, perto de Lake
Placid, no estado de Nova Iorque, não longe da nossa casa de Verão em Lake
George. Ainda é uma boa escola e recomendo-a a quem possa dar-se a esse luxo,
independentemente da qualidade da sua vida familiar. Proporciona a vida
saudável, ao ar livre, de uma verdadeira quinta, e recordo-me mais disso do que
dos meus estudos académicos. Apanhávamos os ovos ainda quentes e
matávamos as galinhas e os porcos que comíamos ao jantar. Nas manhãs de
Inverno, tão frias que os pelos do nariz me congelavam, subia para a gigantesca
pilha de estrume e recebia o fertilizante ainda a fumegar, trazido pela carroça do
estrume que passava pelos estábulos das vacas e dos cavalos, o que tornava a
pilha ainda mais alta. Ao entardecer misturava lavadura para os porcos com os
restos do dia, despejava-a na manjedoura e recuava rapidamente, para deixar os
porcos precipitarem-se sobre ela com uma alegria genuína. Depois saltava para
cima de um, como num rodeo, e aguentava-me até ele me derrubar do seu corpo
rijo e coberto de cerdas. Que estranho a minha família ter de ser rica para me
proporcionar a vida de um rapaz de quinta!
Depois de terminar a North Country School, no oitavo ano, tentei
encontrar um estabelecimento de ensino exactamente igual na Woodstock
Country School, perto de Woodstock, no Vermont. Infelizmente, esta era
frequentada por adolescentes enlouquecidos pelas hormonas, e não por
adoráveis criancinhas, o que fazia uma grande diferença. Além disso, a filosofia
permissiva da escola colocava-a directamente na senda do furacão de sexo,
drogas e rock-and-roll dos anos 60. Todos, excepto eu, que seguia o meu
caminho para me tornar um grande cientista. Uma vez que era um dos poucos
alunos com ambições académicas, o meu professor de Biologia, cheio de
gratidão, autorizou-me a usar uma salinha adjacente à aula como laboratório.
Um laboratório meu! Andava de um lado para o outro, todo orgulhoso, de bata
branca, a remexer no antigo equipamento que havia ali guardado. Li algures a
descrição de uma experiência em que havia ratos treinados para ficarem na
expectativa de comida quando ouviam um som agudo e de água quando ouviam
um som grave. Gradualmente, o som agudo tornava-se mais baixo e o som grave
mais agudo até o seu significado se tornar ambíguo, o que, supostamente, faria
enlouquecer os ratos. Eu queria repetir a experiência e liguei uma bomba de ar
eléctrica a uma harmónica para criar os sons agudos e graves. Infelizmente,
mesmo regulada ao nível mais baixo, a harmónica produzia um som penetrante
que podia ser ouvido por todo o campus. A experiência exigia que se
sacrificassem os ratos no final e que se pesassem as suas glândulas supra-renais
para medir o stresse. Corno a escola não dispunha de instrumentos adequados
de dissecação, o meu professor comprou uma bela tesoura cirúrgica de aço
inoxidável. Nunca saberei qual a sua intenção — talvez só precisasse de uma
peça de equipamento para a aula —, mas para mim foi como um presente
pessoal quando ele ma estendeu no seu elegante estojo protector revestido de
feltro.
Não sei o que os meus colegas pensavam de mim, mas recebi um indício de
uma rapariga que partilhava o meu interesse pela biologia e por quem eu tive
uma paixoneta terrível. Ela comparou-me com dois outros rapazes da seguinte
maneira: a um, que era louro e a fazia rir, ela descreveu como o dia; a outro, que
era moreno e pouco atinado, descreveu como a noite. «E tu, David», concluiu
ela, a rir da sua esperteza, «és o lusco-fusco.»
No meu ano de finalista candidatei-me às melhores universidades da Ivy
League e fiquei chocado por não me aceitarem. Acabei por frequentar a
Universidade de Rochester, que eu encarava como a minha «solução de
recurso». O currículo era tão rigoroso como o das minhas escolhas principais,
embora não tivesse o prestígio por que eu ansiava. De certo modo, soprar ar
através de uma harmónica e o resto da minha formação progressista não me
tinham preparado para os rigorosos cursos de Ciências e para as filas de alunos
decididos a tornarem-se médicos. A Física, a Química, a Biologia, e
especialmente o Cálculo, eram difíceis de aprender e fáceis de esquecer. Mesmo
depois de dar o meu melhor, a minha classificação média foi um miserável C+
no final do primeiro semestre. Só com uma dose muito forte de ilusões consegui
manter o meu sonho de fazer algo de memorável.
Sentia-me terrivelmente só e, quando finalmente consegui conhecer uma
rapariga chamada Mary, na biblioteca, persegui-a como um aborígene
esfomeado no encalço de um coelho. Ela frequentava um curso nocturno e já
tinha um namorado, mas nada podia deter-me. Uma vez, na Primavera, quando
ela estava prestes a partir no carro do namorado, arranquei um ramo inteiro de
um lilaseiro em flor e atirei-o para o banco de trás. Mais tarde ela disse-me que
aquele acto impetuoso, associado ao perfume estonteante dos lilases que
enchiam o carro, acabou por lhe conquistar o coração.
Nesse Verão arranjei trabalho como assistente de armazém do Laboratório
de Biologia Marinha (MBL) em Woods Hole, no Massachusetts. Woods Hole é
uma cidadezinha pitoresca em Cape Cod onde se situam dois estabelecimentos
científicos de renome mundial: o Instituto Oceanográfico de Woods Hole
(WHOI) e o MBL. Todos os anos no Verão a cidade enche-se de cientistas e
estudantes de pós-graduação para trabalhar a sério e se divertirem à grande.
Era difícil ver a diferença entre trabalho e divertimento para aquelas pessoas.
Longas horas no laboratório e nas salas de aula, entremeadas com tempo na
praia ou nos bares que se estendiam ao longo do porto, salpicado de pequenos
barcos à vela — mas o tema das conversas era sempre a ciência. Nunca paravam
de falar sobre o assunto porque nada mais lhes parecia tão interessante. À parte
o meu pai, eu nunca vira ninguém tão orientado para um só assunto, embora
não percebesse o que os entusiasmava tanto.
Eu era o assistente do armazém do curso de Fisiologia, que era leccionado
por uma dezena de cientistas eminentes a uma elite de cerca de trinta alunos de
pós-graduação. Pagavam-me para me ocupar do equipamento, mas eu estava ali
para aprender, por isso assistia às aulas sempre que possível. Aquelas pessoas
estavam ocupadas a dissecar a vida para ver como ela funcionava. Quanto mais
se disseca a vida, mais pequenos se tornam os pedacinhos que a compõem, até
que finalmente não se consegue ver nem manipular esses pedacinhos sem a
ajuda de instrumentos complicados. São necessários anos de trabalho árduo
para descobrir como esses pedaços interagem a essa escala diminuta, como, por
exemplo, as fibras dos músculos deslizam umas ao longo das outras para se
contraírem, ou como o cálcio é bombeado através das membranas das células
nervosas. As aulas pareciam-me interessantes, mas difíceis de compreender tal
como as disciplinas na universidade. Foi então que, por acaso, passei pela aula
de Ecologia Marinha no edifício adjacente. O professor que a estava a dar não se
parecia com os fisiologistas e não usava bata. Na realidade, parecia-se com Walt
Whitman e tinha umas calças de couro à tirolês. Falava sobre animais que eu
podia ver e de como eles interagem uns com os outros e com o seu meio
ambiente. De súbito, apercebi-me de que poderia ser um cientista daquele
género e fazer ao ar livre as coisas que já fazia pelo prazer que isso me dava.
Decidi imediatamente ser ecologista.
Quando o trabalho acabou, no fim de Julho, levei Mary para conhecer o
meu pai e Betty, a sua segunda mulher que estavam a passar o Verão em Lake
George. Nunca vi duas pessoas odiarem-se tão rapidamente como o meu pai e
Mary. Ela fumava cigarros e ele, de vez em quando, fumava charutos, além do
cachimbo. No primeiro encontro, ele acendeu um charuto e Mary disse, talvez
numa débil tentativa de fazer humor: «Detesto charutos. Não passam de um
grande símbolo fálico.» Não se podia dizer uma coisa daquelas ao meu pai. Ele
esboçou um sorriso malévolo e retorquiu: «Pois, mas o que é um cigarro senão
um pequeno símbolo fálico?»
Prosseguindo com a metáfora da vida como máquina de flippers, durante
os dias que se seguiram senti-me como aquela bola prateada a ser arremessada
de um lado para o outro entre duas molas electrificadas. Andava literalmente
para cá e para lá entre o meu pai e Mary, pois eles evitavam encontrar-se.
Alguma coisa tinha de ceder por isso, em vez de passar o mês de Agosto em Lake
George, a Mary e eu subimos para o caiaque à prova do meu adorado pai e
remámos 400 milhas de regresso à universidade, primeiro pelo Champlain
Canal até Albany e depois pelo Erie Canal até Rochester, a acampar ao longo das
margens ou a ficar em motéis de pequenas cidades que encontrávamos pelo
caminho.
De regresso a Rochester, dediquei-me imediatamente à minha nova
ambição de me tornar ecologista frequentando o curso de Ecologia leccionado
pelo professor Conrad Istock. Consegui entender alguma coisa mas, tal como as
outras disciplinas científicas, grande parte da matéria era difícil de aprender e
fácil de esquecer. Fiquei mesmo surpreendido quando se me depararam
equações matemáticas que representavam a maneira como os animais
interagiam uns com os outros e com o seu ambiente. Por sorte, o curso incluía
uma opção para fazer um projecto independente da minha escolha. Isso parecia-
se mais com o que eu estava acostumado a fazer em Woodstock. Passei a dedicar
todos os momentos livres ao meu projecto. Não sei bem como, mas tinha
começado a interessar-me pelo facto de o zooplâncton — os animais minúsculos
que vivem nas águas abertas — migrarem verticalmente no decurso do dia,
passando a noite à superfície e descendo ao romper da manhã. Decidi estudar a
migração vertical no rio que corria junto ao campus e diverti-me imenso
inventando maneiras de recolher zooplâncton de diferentes profundidades com
uma mangueira de jardim e uma bomba manual. Também frequentava uma
disciplina de computadores. Nesse tempo, os computadores enchiam salas
inteiras e os programas eram escritos em pilhas de cartões perfurados e tinham
de ser submetidos à apreciação de uma equipa de assistentes só para serem
devolvidos com os erros inevitáveis. A aula de computadores também exigia um
projecto, de modo que escrevi uma simulação computacional da migração
vertical, que pouco mais fazia do que pôr plâncton imaginário a subir e a descer.
Ao olhar para trás, consigo imaginar Conrad a ler o meu relatório, pelo menos
cinco ou seis vezes mais grosso que os outros, e a sorrir da intensidade do meu
desejo e da pobreza da minha capacidade.
Apesar das minhas classificações baixas e da minha escassa preparação,
Conrad decidiu aceitar-me no programa para alunos com distinção do
Departamento de Biologia, o que significava que eu podia trabalhar no seu
laboratório e fazer disciplinas baseadas num estudo independente em vez de ter
de assistir a aulas. Já começava a encontrar o meu equilíbrio. Os livros e os
artigos que os cientistas escreviam uns para os outros eram mais interessantes
que os manuais escritos para os alunos, embora houvesse partes que eu não
entendia. Ajudar Conrad com a sua investigação sobre uma espécie de mosquito
que vive nas folhas cheias de água da Sarracenia, uma planta carnívora, levava-
nos até pântanos cobertos por uma vegetação flutuante. Num bom pântano, o
solo ondula por baixo dos nossos pés, como se estivéssemos a caminhar sobre a
superfície de uma cama de água gigantesca. Às vezes pode-se cair e ir ao fundo
e, num caso desses, não podemos esquecer-nos de pôr os braços de fora! Depois
de visitar os pântanos, no caminho de regresso ao campus, parávamos muitas
vezes em casa de Conrad para bebermos uma cerveja e termos uma conversa
descontraída. Estas facetas da ciência eram fáceis de apreciar.
Continuei a trabalhar na migração vertical no zooplâncton com uma
supervisão mínima por parte de Conrad. Construí outra engenhoca para
recolher amostras de água a diversas profundidades. Sonhava publicar uma
descrição daquilo e saber que era usada por outros cientistas. Para mim, isso
seria tão emocionante como escrever um best seller. O meu caiaque passara a
ser o meu navio hidrográfico, a partir do qual eu testava o meu dispositivo para
recolher amostras de água. Infelizmente, a engenhoca parecia-se ridiculamente
com um acordeão subaquático e nunca funcionaria bem. A dada altura descobri
que se colocarmos um único zooplâncton numa gota de água sobre papel
encerado a gota assume a forma de uma conta, como um minúsculo aquário
com o zooplâncton lá dentro. Se também pusermos algas na água, os apêndices
de filtragem do zooplâncton fazem as algas girar à volta da gota como sob a
acção de um batedor de ovos. Pensei poder usar este método para estudar o
comportamento alimentar do zooplâncton sem me aperceber de que a sua
prisão aquática era tão pequena que não se podia ter a certeza de que nada do
que lhe acontecia iria ocorrer no seu ambiente aquático natural. Nada do que eu
fazia no laboratório de Conrad se aproximava, remotamente que fosse, de uma
publicação científica, pelo que o meu sonho de me tornar um autor dentro do
meu próprio domínio continuava por realizar.
Um dos muitos cientistas que tentavam explicar por que motivo o
zooplâncton migra verticalmente propôs que os adultos descem até ao fundo
pobre em alimento para evitar competir com os mais novos, que permanecem
na superfície, rica em alimento. Outros referiam que isto devia constituir uma
espécie de altruísmo, uma vez que os adultos estariam a proporcionar alimento
à descendência de todos e não apenas à sua. Esta foi a primeira noção que tive
de que um comportamento como o altruísmo, que parece tão singularmente
humano, pode também ser praticado por um ser tão pequeno e humilde como o
zooplâncton.
A minha relação com Mary ia-se deteriorando de dia para dia, mas eu
estava convencido de que, com esforço, era possível fazer funcionar qualquer
relação. Tínhamos longas conversas ao telefone, durante as quais ela ia ficando
cada vez mais irritada, fazendo lembrar a maneira como o Bolero de Ravel se vai
tornando cada vez mais retumbante. Depois animava-se e parava de falar, como
se tivesse ocorrido qualquer tipo de catarse, deixando-me completamente
esgotado. O meu companheiro de quarto, um rapaz com humor e com bom
feitio, ouvia essas conversas e acabou por me dar um conselho.
«David», disse ele certo dia, «admiro o teu esforço para manter essa
relação. És como um homem forte num circo, a erguer o elefante acima da
cabeça. Mas olha que o elefante está a cagar-te em cima!» Infelizmente, nem
sequer aquela análise lúcida alterou a minha convicção de que a força de
vontade permitiria manter a relação.
Quando chegou a altura de me inscrever no curso de pós-graduação, mais
uma vez candidatei-me ao melhor do país, vindo a ser rejeitado por todos à
excepção da minha «solução de recurso», a Michigan State University. A minha
relação com Mary estava a tornar-se mais tensa de dia para dia, mas mesmo
assim decidimos casar. Toda a minha família, incluindo o meu pai, compareceu
com bravura na cerimónia, que teve lugar na capela da universidade no mesmo
fim-de-semana da minha formatura.
Durante o Verão, antes de começar a pós-graduação, regressei com Mary a
Woods Hole, desta vez enquanto aluno do curso de Ecologia Marinha que havia
decidido o meu destino três anos antes. Realizei um projecto que consistia em
alimentar o zooplâncton com contas de plástico coloridas do tamanho de algas,
desta vez num recipiente de tamanho adequado. Determinados tamanhos de
contas seriam adicionados à água e, após alguns minutos a alimentar-se, o
zooplâncton seria sacrificado e montado numa lâmina de microscópio.
Observadas ao microscópio, as contas que o zooplâncton tinha comido podiam
ser vistas e medidas através das paredes dos seus corpos e comparadas com o
tamanho das contas que tinham sido adicionadas à água. Ainda me parece estar
a ver ao microscópio aqueles aglomerados de contas de cores vivas dentro dos
estômagos do zooplâncton, semelhantes a cachos de balões de crianças. Os
resultados mostraram claramente que o zooplâncton não se estava a alimentar
ao acaso, que seleccionava as contas maiores. Quando fiz a minha apresentação
no final da aula, um dos cientistas que estavam a assistir era Ed Wilson, cujo
nome tem sido um fio que percorre toda a tapeçaria deste livro. Quando
terminei, ele ergueu a mão e comentou: «Isto é novo, não é?» Foi como se estas
cinco palavras me fizessem sair disparado de um canhão de júbilo, e nessa noite
celebrei apanhando uma bebedeira. Um facto! Tinha documentado o meu
primeiro facto! Esse estudo tornou-se a minha primeira publicação científica e
significou tanto para mim como se tivesse publicado um best seller.
O complexo de apartamentos da universidade destinado a casais jovens
chamava-se Spartan Village e fazia jus ao seu nome. Não só os edifícios faziam
lembrar uma caserna, mas eram tão numerosos e semelhantes uns aos outros
que estava sempre a perder-me quando voltava para casa. O nosso apartamento
ficava mesmo ao lado de uma linha de caminho-de-ferro com quatro vias que
ligava Chicago a Detroit. Os comboios faziam um barulho ensurdecedor antes de
o ruído se desvanecer à distância, mas a intensidade do som dependia de o
comboio passar pela via que ficava mesmo por baixo da nossa janela ou pela via
mais afastada, a vinte metros de distância. No entanto, apesar da nossa vida
espartana, a Michigan State revelou-se uma boa opção para mim, embora não
para Mary. O programa de pós-graduação em Ecologia era pequeno, mas
interessante, e encorajava a independência, o que nunca representou um
problema para mim. Comecei a construir outra engenhoca, desta vez para fazer
a recolha de uma amostra de distribuição horizontal de zooplâncton. Tinha
sonhos de fazer outros usarem o meu dispositivo — o instrumento de recolha de
amostras Wilson —, embora o total de pessoas do planeta eventualmente
interessadas coubessem num barco a remos. Um homem chamado Jim,
encarregado do armazém do departamento de Biologia, também tinha jeito para
construir coisas e quando lhe fui pedir ajuda ficámos amigos. Jim tinha idade
suficiente para ser meu pai, mas tinha uma estabilidade e uma ausência de
sentido crítico que era o pólo oposto do meu pai. Em rapaz dera maus passos e
haviam-lhe dito que podia acabar mal. Deixou-se convencer por esta simpática
admoestação e tornou-se profundamente religioso até ao fim da vida. Quando
jovem trabalhara como missionário em África e contou-me histórias
maravilhosas da sua experiência. Um dia perguntou se podia ir visitar-me ao
meu apartamento na companhia de um amigo para falar sobre as Escrituras. Eu
não podia recusar e passei uma tarde de sábado sentado com eles à mesa da
cozinha. Depois ele perguntou se eu gostaria de o acompanhar a uma grande
reunião religiosa que ia realizar-se na cidade. Mais uma vez não podia recusar e
dei comigo num auditório cavernoso com música de órgão e pregadores
tonitruantes. O clímax teve lugar no final, quando as pessoas tinham de
caminhar até à frente para nascerem de novo. Fiquei atónito quando os que me
rodeavam se levantaram e encheram as coxias. Deitei uma olhadela a Jim pelo
canto do olho e vi-o olhar-me de relance, mas nada podia ser tão alheio à minha
experiência e maneira de pensar.
Mary não tinha absolutamente nada que fazer na Spartan Village e acabou
por arranjar trabalho como vendedora no Kmart local. Eu ia buscá-la ao fim da
tarde e comprava uma grande sanduíche de pão mal cozido, muito barata, para
o meu almoço do dia seguinte. Quando a mandaram para a secção de máquinas
fotográficas começou a interessar-se por fotografia. Ao princípio isso era apenas
um passatempo, mas dentro em pouco começou a olhar para os anúncios de
emprego e arranjou trabalho numa pequena empresa de publicidade. Ali estava
um mundo que lhe permitia expandir-se, tal como eu me expandia no mundo da
ciência. Daí a um ano a corda gasta da nossa relação quebrou e pedimos o
divórcio. Depois disso ela tornou-se uma fotógrafa profissional de sucesso. Foi
um grande alívio seguirmos caminhos separados, mas isso também me deixou
sozinho, não contando com alguns alunos meus amigos. Que iria eu fazer?
Abordar uma rapariga num bar e dizer-lhe: «Olá! Chamo-me David e passo
todos os meus momentos livres a estudar o zooplâncton?» Era como se eu fosse
continuar para sempre o lusco-fusco aos olhos das mulheres, mas tudo o que
podia fazer era continuar a trabalhar.
Na altura surgiu-me a oportunidade de fazer um curso de Ecologia
Tropical oferecido por um consórcio de universidades chamado Organização
para os Estudos Tropicais (OTS). Os estudantes de pós-graduação das
universidades participantes viajavam com uma equipa de professores pelo
paraíso tropical da Costa Rica, a visitar habitats tão diversos como florestas
tropicais das terras baixas, repletas de humidade, florestas tropicais das regiões
altas, envoltas em nevoeiro, regiões com estações secas acentuadas, ressequidas
pelo sol, e praias em ilhas rodeadas por recifes de coral. O curso era de dois
meses e a permanência em qualquer local durava de alguns dias a duas
semanas. A maioria dos locais eram estações biológicas com cientistas
residentes que faziam conferências e organizavam passeios com a equipa de
professores que acompanhava os alunos. Aquilo fazia lembrar uma versão
itinerante de Woods Role.
Candidatei-me ao curso e aceitaram-me para o Inverno do meu segundo
ano de pós-graduação. Era uma boa altura para escapar à soturnidade de East
Lansing, que a minha solidão e o processo de divórcio ainda tornavam mais
soturna. Os alunos e professores convergiram de toda a América para um motel
em San José, a capital da Costa Rica, a fim de travarem conhecimento antes de
partirem para o primeiro local de trabalho de campo no dia seguinte. Todos os
meus sentidos estavam alerta quando me apresentei à primeira reunião social
no motel. Não só o local era exótico, com lagartos a deslizarem entre grandes
folhas de bananeira caídas e o cheiro adocicado de uma destilaria das
imediações a pairar no ar húmido, mas eu estava prestes a conhecer as pessoas
com que iria passar os dois meses seguintes. Longe de corresponderem ao
estereótipo dos totós da ciência, a maioria gostava de conviver e algumas das
mulheres eram muito atraentes, como reparei logo às primeiras impressões. No
entanto, eu era demasiado tímido para me aproximar ou para mergulhar de
cabeça no alvoroço social, e devo ter-lhes parecido o típico totó da ciência.
O nosso primeiro destino foi uma estação biológica chamada La Selva na
costa leste da Costa Rica, que exigiu primeiro uma longa viagem de camioneta
até um rio, que subimos em canoas primitivas talhadas em troncos de árvore,
embora propulsionadas por motores fora de borda. Tudo aquilo tinha um ar de
aventura, com uma profusão de plantas e animais como eu e a maioria dos
outros alunos nunca tínhamos visto na vida. Para aqueles que adoram a
natureza como eu, o que incluía a maior parte dos meus novos companheiros, os
trópicos são infinitamente mais interessantes que qualquer atracção feita pelo
homem, como o Disney World, pode alguma vez pretender ser. Poucos minutos
depois de começarmos a subir o rio já todos estavam a gritar com o pasmo
espontâneo das crianças: «Olhem para aquilo!», «Oh! Uau!», «É incrível!». Os
professores sorriam, uma vez que nós estávamos apenas a repetir as
exclamações de grupos anteriores e o primeiro contacto que eles próprios
tinham tido com a vida tropical. Iguanas gigantes, que pareciam dragões,
refasteladas nas árvores, borboletas com asas como vitrais a adejarem ao longo
das margens, papagaios de cores vivas a cortarem o ar como balas aladas,
macacos que soltavam guinchos do dossel das copas das árvores tão altas e com
os ramos tão cobertos de trepadeiras e de outras plantas que cada centímetro
quadrado parecia ocupado.
A manhã seguinte começou com uma aula depois do pequeno-almoço
sobre um tópico que podia ser ilustrado pela fauna e pela flora locais. Depois
dividimo-nos em grupos que realizavam experiências, recolhendo e analisando
dados que seriam transmitidos e discutidos quando os grupos se voltassem a
reunir no final do dia. Não estávamos ali apenas para observar, mas para testar
as últimas hipóteses científicas sobre o modo como os organismos evoluem e
interagem uns com os outros no seu ambiente natural. A gama de questões era
avassaladora. Um grupo colocava diversos tipos de isco no solo da floresta para
ver que espécies de formigas eram atraídas, enquanto outro partia para um
lugar onde uma árvore gigante tinha caído para ver que espécies de plantas
eram as primeiras a responder ao súbito aumento da luz. Um terceiro grupo
abria frascos que continham produtos químicos de odor intenso e observava o
aparecimento de abelhas de cores vivas e metálicas, enquanto um quarto grupo
estudava ácaros que vivem nas flores e se dispersam no bico dos beija-flores. O
dia seguinte trouxe mais questões, mais experiências, mais organismos
surpreendentes. Aquilo era ciência em movimento rápido e era quase tão
inebriante para mim e para os meus novos companheiros como os próprios
trópicos.
Pela primeira vez estava com um grupo de pessoas que eram como eu.
Terminado o trabalho do dia, continuávamos a conversar noite fora, a beber
cerveja atrás de cerveja. A conversa derivava da ciência para outros tópicos,
como se não houvesse fronteira entre os dois domínios. Estávamos
especialmente interessados nas vidas que podíamos esperar vir a ter como
cientistas. Eu não era o único que tinha a experiência da solidão de me
empenhar naquilo que os que me rodeavam não podiam compreender. Para
meu grande espanto, descobri que as minhas fraquezas se tinham convertido em
forças. Durante um debate que teve lugar a altas horas da noite alguém
perguntou quem continuaria a trabalhar na ciência sabendo que isso o tornaria
infeliz. Nem precisei de pensar para levantar a mão, mas de algum modo isso fez
aumentar a consideração dos outros por mim, em vez de a diminuir.
Os trópicos, a ciência e o companheirismo que acabávamos de descobrir
produziram um sentimento de intimidade que era uma novidade para todos
nós. Na nossa primeira viagem até ao oceano demos connosco numa praia que
se estendia até onde a vista alcançava em ambas as direcções sem outras
pessoas à vista. O céu era de um azul sem mácula, o vento acariciava-nos os
corpos e a ondulação convidava-nos a entrar no mar. Duas das mulheres
trocaram olhares de relance, riram-se, despiram-se e saltaram para a água como
se fosse a coisa mais natural do mundo. Não tardou que toda a gente seguisse o
seu exemplo, a rir perante essa perfeita expressão de liberdade que estavam a
sentir em tantos outros aspectos. Era mais libertador do que sexual, mas para
mim o espectáculo de tantas mulheres nuas a brincarem na rebentação era
como se eu tivesse morrido e ido para o Céu. Tirei tudo menos os óculos, a fingir
absurdamente que era tão cego que nem sequer podia nadar sem eles.
Enquanto viajávamos de um lado para o outro, uma mulher chamada
Anne atraía-me cada vez mais a atenção. Não se contava entre as primeiras em
quem eu tinha reparado, mas era divertida e era interessante conversar com ela.
Quanto mais a observava mais gostava dela. Tinha uma maneira de ver o que
era preciso fazer e de ajudar sem uma pontinha de ostentação. Ela encaixava na
minha imagem de Ana dos Cabelos Ruivos, uma rapariga do campo com uma
trança e um rosto que a maquilhagem não iria favorecer. Para minha surpresa,
quanto mais gostava dela, mais fisicamente atraente ela se tornava, enquanto as
mulheres que inicialmente me tinham chamado a atenção se tornavam mais
feias. Anne não era apenas bonita; era linda. Essa experiência foi a inspiração
para a minha investigação sobre a beleza que descrevi no capítulo 16.
Outros homens do grupo também se sentiram atraídos por ela e ocuparam
o centro da cena com um à-vontade que eu só podia invejar enquanto os
observava dos bastidores. Desesperado, imaginava-a a comparar-me com o
lusco-fusco enquanto ela saía com a noite ou o dia; mas uma tarde ela foi até ao
meu quarto, onde eu estava a descansai e sentou-se na ponta da minha cama
desmontável. A nossa conversa tornou-se mais profunda, ela começou a
acariciar-me o peito com os dedos e eu puxei-a para mim ao mesmo tempo que
dizia: «Oh, Anne!»
Não há palavras para descrever o resto do curso, em que as peças da minha
vida se encaixaram como um puzzle até então insolúvel. Maravilhosa natureza,
maravilhosa ciência, maravilhosos amigos, maravilhosa Anne! Num dia típico
era possível encontrarem-me de manhã junto de um riacho numa zona árida da
Costa Rica a estudar formigas-leões. Estes insectos fascinantes parecem
libélulas na sua forma adulta, mas as suas larvas cavam buracos na areia para
capturar formigas e outros insectos que lá caem. Cavam os buracos usando as
suas mandíbulas enormes como se fossem uma pá, atirando a areia por cima da
cabeça. Ficam escondidas no fundo do buraco e quando uma formiga tenta sair
dele a formiga-leão desloca mais areia de modo a criar avalanchas em ponto
pequeno que fazem as vítimas cair nas suas mandíbulas, que as aguardam.
Depois de chupar os sucos da presa, a formiga-leão atira a carcaça para fora do
buraco. Bastava-me apanhar as carcaças acumuladas à volta da borda para
medir o êxito alimentar de cada formiga-leão.
Quando o dia aquecia, eu fazia uma pausa e caminhava junto ao rio até
este passar por um túnel feito de gigantescas formações rochosas, semelhantes a
lajes, apoiadas umas nas outras. Os morcegos que revestiam o tecto batiam as
asas quando eu atravessava o túnel para chegar a uma maravilhosa piscina
natural do outro lado. Despia-me, mergulhava na água cristalina e nadava até ao
ponto onde ela transbordava, no cimo de uma catarata tão alta que os falcões
descreviam círculos por baixo de mim. Estava-se na estação seca e só um fio de
água passava por cima da cachoeira, de modo que eu podia deitar-me de barriga
para baixo em segurança mesmo à sua beira, enquanto alguns peixes
minúsculos, sem medo nenhum, mordiscavam os pelos das minhas pernas.
Aquilo era verdadeiramente o paraíso na terra e a vista inacreditável lá em baixo
parecia o panorama que se tinha aberto na minha vida. À noite havia grandes
quantidades de feijão com arroz para satisfazer a minha fome voraz, cerveja e
sumo de frutos tropicais para saciar a minha sede, magníficas conversas e a
busca nocturna de um lugar discreto onde Anne e eu pudéssemos beijar-nos e
conversar até o sono nos vencer.
Quando, durante uma das nossas conversas nocturnas, perguntei a Anne o
que a havia atraído em mim, ela respondeu que era a minha paixão pela ciência,
o que me permitiu compreender a sua. Além disso, ela apreciava o facto de eu
não ocupar o centro da cena nas interacções sociais. Embora ela soubesse
participar no jogo social e, enquanto mulher, fosse muitas vezes posta no centro
da cena, quer isso lhe agradasse, quer não, em geral preferia estar sozinha ou
com alguns bons amigos. Como por milagre, mais fraquezas minhas tinham-se
convertido em forças. Era disso que ela gostava, de estar com uma pessoa a falar
do que era importante.
Anne e eu não falávamos de ficar juntos depois do curso. Eu estava a meio
de um divórcio e ela estava a meio de uma relação difícil que a aguardava
quando regressasse. Em vez disso, na minha eterna patetice, pensei que tinha
descoberto um elixir do amor que resultaria numa eterna sucessão de Annes.
Infelizmente, o que funcionava na Costa Rica não funcionava em East Lansing,
mas eu tinha descoberto um elixir da ciência que continuou a funcionar. Já não
era um ecologista especializado no estudo do zooplâncton; era um ecologista de
tudo, interessado em toda a diversidade da vida. Tinha descoberto o poder do
pensamento evolutivo que transmiti neste livro.
Na Costa Rica reparara numa coisa relativa às formigas-leões que era
semelhante ao zooplâncton que havia estudado em Woods Role. Em ambos os
casos, os pequenos pedaços de comida podiam ser ingeridos tanto por
indivíduos grandes como pequenos, enquanto os grandes pedaços de comida só
podiam ser ingeridos por indivíduos grandes. Esta relação assimétrica entre o
tamanho da presa e o tamanho do predador era geral, como descobri quando li
estudos sobre outros predadores e as suas presas. Algo de semelhante se
aplicava mesmo aos instrumentos humanos: uma pinça grande pode pegar
numa coisa pequena quase tão bem como uma pinça pequena, mas uma pinça
pequena não consegue pegar numa coisa grande.
Por muito simples que esta observação possa parecer, ela tinha sido
ignorada por evolucionistas que tentavam explicar como diferentes espécies
coexistem umas com as outras. A teoria preponderante é que as espécies podiam
coexistir tornando-se diferentes no tamanho, com cada uma delas a ter acesso a
recursos que não eram acessíveis às outras. Muitas vezes, as descobertas mais
importantes são também as mais simples e parecia que a minha singela
observação podia ter implicações importantes para teorias de como as espécies
coexistem.
Estas teorias eram expressas em forma matemática. Na faculdade eu tinha
tido dificuldades com a Matemática, mas ia-me apercebendo lentamente de que
as ideias podem ser expressas com muito maior exactidão sob a forma
matemática do que verbalmente. Havia muito que a teoria da evolução se tinha
tornado matemática e eu tinha de conhecer a linguagem para me tornar
membro do clube. Desencantei o meu velho manual, bem como novos livros
com títulos tão tranquilizadores como Cálculo para Totós. Tinha um enorme
bloco de folhas de papel do tamanho de um jornal em cima da minha secretária
e enchia-o com equações a representarem a minha observação simples de que os
animais grandes comem coisas grandes e pequenas e os animais pequenos só
comem coisas pequenas. As equações pareciam impressionantes para aqueles
que não as compreendiam, mas na realidade as minhas aptidões nunca
ultrapassaram o que devia ter aprendido na disciplina de Cálculo do meu
primeiro ano de curso. Não importa; o que contava era a ideia, e não a
matemática. Se dermos uma má ideia a um bom matemático, ele acel