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ISTITUTO MISSIONI CONSOLATA

PUBBLICAZIONI DELL’UFFICIO STORICO


STUDI E TESTI – 25

DIAMANTINO GUAPO ANTUNES

A SEMENTE
CAIU EM TERRA BOA
OS MISSIONÁRIOS DA CONSOLATA EM MOÇAMBIQUE
75 ANOS DE EVANGELIZAÇÃO
AO SERVIÇO DA IGREJA LOCAL (1925-2000)

EDIZIONI MISSIONI CONSOLATA


A SEMENTE CAIU EM TERRA BOA
OS MISSIONÁRIOS DA CONSOLATA EM MOÇAMBIQUE
75 ANOS DE EVANGELIZAÇÃO
AO SERVIÇO DA IGREJA LOCAL (1925-2000)
“Osuwela sa khalai
t’osuwela sa nanano tho”
Conhecer o passado
é conhecer também
o presente (provérbio macua).

Sem história,
somos analfabetos
incapazes de ler o presente (Y. Congar)

Dedico esta obra


a todos os semeadores
da Palavra de Deus
-Missionários/as e catequistas-
que lançaram e lançam
a Palavra de Deus
em Moçambique
INTRODUÇÃO

As razões deste estudo

Um interesse "humano" e "apostólico"

Iniciei o meu serviço missionário no Niassa, Moçambique, em 1992. Recordo que me causou
profunda impressão o primeiro impacto com as missões destruídas pela incúria e pela guerra.
Caíram os muros, mas ficou de pé uma Igreja local que se manteve viva e missionária, fruto do
trabalho da geração de missionários que nos precedeu.
Com o tempo fui indagando junto de alguns cristãos da primeira geração, testemunhos da
fundação destas missões, que com orgulho me falaram daqueles tempos heróicos e tão sofridos. Por
outro lado, pude colaborar no trabalho, sério e difícil, com que os missionários estão actualmente
recuperando a memória dos pioneiros da evangelização católica: a sua herança pastoral, intelectual
e material. Não por saudosismo ou curiosidade arqueológica, mas pelo vivo interesse que isso em
nós desperta.
Este trabalho de investigação histórica quer ser, nos seus limites, um contributo para este
importante trabalho de recuperação da sua/nossa memória, que é, basicamente, a “memória” desta
igreja local que queremos continuar a servir.

Necessidade de um confronto para uma nova evangelização

Confrontado com esta situação, motivado pelo facto de muitos desconhecerem a história e o
método de evangelização dos missionários da Consolata em Moçambique, decidi-me a investigar e
a escrever este estudo para ajudar os leitores a conhecer um pouco melhor a origem do presente
eclesial de que somos hoje protagonistas. O amor exige conhecimento. Não podemos amar aquilo
que não conhecemos. Se amamos esta Igreja local, devemos conhecer a Igreja das origens. Se
queremos realizar uma “nova evangelização” não podemos esquecer a primeira evangelização.
Celebram-se, este ano, os 75 anos da chegada dos missionários da Consolata a Moçambique.
Em várias ocasiões se falou de balanço, de dificuldades e de prospectivas para o futuro. Considerei
então oportuno um confronto sério e aprofundado com a experiência concreta vivida em
Moçambique nestes 75 anos de presença e acção missionária.

A estrutura e o conteúdo

O objectivo deste estudo é apresentar, depois de um breve introdução histórica (1ª parte), a
actividade dos missionários da Consolata em Moçambique no período de 1925-2000, enquadrando-
a no ambiente eclesial, cultural, político e sócio-económico do tempo em questão (2ª parte); a
terceira parte incidirá sobre a maneira como os missionários organizaram e concretizaram a
evangelização, ou seja, o seu método missionário.
A partir da documentação e escritos, far-se-á uma reconstrução histórica da evangelização
protagonizada pelos missionários da Consolata no Niassa, Inhambane e Lourenço Marques/Maputo
para, na segunda parte, apresentar o método missionário por eles utilizado.

As fontes e a metodologia

Apresentamos as fontes de que nos servimos para o presente estudo. O núcleo documental
principal é constituído pelos diários, relatórios e cartas que os Superiores locais mandavam para o
Conselho Geral e para a Santa Sé; pelos escritos de alguns missionários (Pedro Calandri, Gabriel
Quaglia, Luís Bosio, Mário Casanova, Domingos Ferrero, etc.), em que descrevem o ambiente –
geográfico e etnológico - onde estava inserida a Missão; e ainda pelos relatos das excursões
apostólicas. Toda esta documentação, conservada no Arquivo do Instituto dos Missionários da
Consolata, em Roma, e no Arquivo Regional IMC de Moçambique, no Maputo, foi por nós
pessoalmente consultada.
Para além dos documentos e escritos que acabámos de mencionar, consultei alguma
literatura referente à época em que se insere o período estudado. Foram sobretudo estudos
históricos, políticos e missiológicos. São imprescindíveis para uma verdadeiro enquadramento
histórico dos factos e a sua correcta interpretação.
Com o suporte da minha experiência pessoal pude compreender melhor os acontecimentos que
aqui apresento. Em primeiro lugar, o facto de ter conhecido pessoalmente alguns dos protagonistas
principais dos factos que descrevo. No Niassa, sobretudo na missão de Mepanhira, tive a ocasião de
conhecer, falar e trabalhar com alguns cristãos da primeira geração e evangelizadores da primeira
hora. A todos eles o meu obrigado.
Agradeço também àqueles que me motivaram a realizar este trabalho e nele colaboraram. Um
agradecimento especial ao P.e Manuel Tavares e P.e Adelino Francisco (Maputo), ao casal de
Leigos missionários IMC, Ricardo e Elisabete, (Mapinhane), ao P.e Darci Vilarinho (Roma), ao P.e
Igino Tubaldo (Turim) e ao P.e Norberto Ribeiro Louro e P.e Francisco Lerma (Roma), que com
paciência leram e corrigiram o texto e apresentaram oportunas sugestões.

P.e Diamantino Guapo Antunes


Missão de Mepanhira, 1 de Outubro de 2000,
Festa de Santa Teresinha do Menino Jesus.
BIBLIOGRAFIA

FONTES

a)Fontes inéditas

Arquivos

Arquivo geral Instituto Missionário da Consolata AIMC


AIMC
AIMC, VII - Membros do Instituto
AIMC, VIII/7- Região (Província Religiosa) de Moçambique
AIMC, VIII/8 - Grupo do Sul do Save (Inhambane e Lourenço Marques)

AIMC X/404-423: Diários das Missões IMC de Moçambique

Niassa
AIMC X/404, n.1: Diário da Missão de Massangulo (1929-1933).
AIMC X/404, n.2: Diário da Missão de Massangulo (1933-1936).
AIMC X/404, n.3: Diário da Missão de Massangulo (1936-1939).
AIMC X/404, n.4: Diário da Missão de Massangulo (1939-1942).
AIMC X/404, n.5: Diário da Missão de Massangulo (1942-1944).
AIMC X/404, n.6: Diário da Missão de Massangulo (1945-1946).
AIMC X/404, n.7: Diário da Missão de Massangulo (1947-1948).
AIMC X/404, n.8: Diário da Missão de Massangulo (1949-1953).
AIMC X/404, n.9: Diário da Missão de Massangulo (1953-1957).
AIMC X/404, n.10: Diário da Missão de Massangulo (1958-1963).
AIMC X/404, n.11: Diário da Missão de Massangulo (1963-1971).
AIMC X/404, n.12: Diário da Missão de Massangulo (1971-1975).
AIMC X/411, n.6: Diário da Missão de Mepanhira (1938-1947).
AIMC X/411, n.7: Diário da Missão de Mepanhira (1948-1961).
AIMC X/411, n.8: Diário da Missão de Mepanhira (1961-1976).
AIMC X/405, n.17: Diário da Missão de Mitúcue (1939-1945).
AIMC X/405, n.18: Diário da Missão de Mitúcue (1946-1954).
AIMC X/405, n.19: Diário da Missão de Mitúcue (1955-1960).
AIMC X/405, n.20: Diário da Missão de Mitúcue (1960-1965).
AIMC X/405, n.21: Diário da Missão de Mitúcue (1965-1969).
AIMC X/405, n.22: Diário da Missão de Mitúcue (1969-1972).
AIMC X/406, n.6: Diário da Missão de Unango (1947-1972).
AIMC X/406, n.7: Diário da Missão de Unango (1972-1976).
AIMC X/410, n.1: Diário da Missão de Txatxe/Maiaca (1947-1962).
AIMC X/410, n.2: Diário da Missão de Maiaca (1962-1976)
AIMC X/415, n.1: Diário da Missão de Cobué (1950-1964).
AIMC X/409, n.1: Diário da Missão de Nova Coimbra (1962-1975).
AIMC X/422, n.1: Diário da Missão de Vila Cabral (1962-1978).
AIMC X/408, n.1: Diário da Missão de Nipepe (1967-1975).
AIMC X/407, n.1: Diário da Missão de Nova Esperança (1970-1975).

Inhambane
AIMC X/421, n.1: Diário da Missão de Massinga (1946-1964).
AIMC X/414, n.1: Diário da Missão de Nova Mambone (1947-1959).
AIMC X/416, n.1: Diário do Arcipreste de Vilankulo (1947-1953).
AIMC X/417, n.2: Diário da Missão de Mapinhane (1946-1956).
AIMC X/412, n.1: Diário da Missão de Maimelane (1948-1974).
AIMC X/413, n.1: Diário da Missão de Muvamba (1971-1975).

Lourenço Marques/Maputo
AIMC X/420, n.6: Diário da Missão de Liqueleva (1951-1958).
AIMC X/420, n.7: Diário da Missão de Liqueleva (1958-1966).
AIMC X/420, n.8: Diário da Missão de Machava (1956-1966).
AIMC X/420, n.9: Diário da Missão de Machava (1967-1969).
AIMC X/423, n.1: Diário da Casa regional (1968-1974).
AIMC X/423, n.2: Diário da Casa regional (1974-1975).
AIMC X/423, n.3: Diário do “Lar Missionário” (1972-1975).

Arquivo regional IMC Moçambique (ArqRegMoç)

b)Fontes editadas

Bollettino dell’Istituto Missioni Consolata (Boletim oficial IMC)


Da Casa Madre (Boletim interno do Instituto dos Missionários da Consolata)
Missioni Consolata (Periódico Missionário Mensal editado pelos Missionários da Consolata)
Encontro IMC – Moçambique (Órgão informativo do Instituto Missionário da Consolata)
PRIMEIRA PARTE

MOÇAMBIQUE: BREVE INTRODUÇÃO HISTÓRICA

1. CONTEXTO FÍSICO E HUMANO


O território moçambicano situa-se na costa oriental da África, a sul do equador. Tem 799.380
km2 de superfície e é banhado pelo oceano Índico desde a Ponta do Ouro, a sul, à foz do rio
Rovuma, no extremo norte, numa extensão de 2.500 km. O Moçambique actual é o resultado de
uma série de tratados internacionais assinados entre Portugal e a Grã-Bretanha em 1891. Confina
com a Tanzânia, Malawi, Zâmbia, Zimbabwe, Suazilândia e África do Sul, ao longo de uma
fronteira de 4.450 km, abrindo-se para o Índico numa frente de 2.470 km. É, portanto, um dos
países com “predisposição” oceânica; este facto é complementado pela suavidade da orografia ao
longo da larga faixa litoral (uma das mais largas de África), onde as extensas planícies permitem a
penetração e a difusão dos “ares marinhos” para o interior do território. Porém, na parte mais
setentrional (nas províncias de Nampula e Cabo Delgado), as planícies costeiras, que ocupam 43%
do território, são mais estreitas, uma vez que o rebordo do planalto, que domina o interior do país,
se aproxima mais do oceano. Entre esta faixa litoral e o planalto desenvolve-se uma zona de
transição com altitudes que variam entre os 200 e os 500 m; estreita e regular no sul, a norte do rio
Save alarga-se a acompanhar a zona de planaltos e montanhas cujos pontos mais elevados atingem
os 2436 m (montes Binga, junto à fronteira com o Zimbabwe) e os 2419 m (montes Namuli,
província da Zambézia). Nas regiões do norte, a paisagem é semeada de grandes blocos rochosos,
saliências mais resistentes à erosão, a que os geógrafos dão o nome de inselbergs (ilhas de pedra).
O clima, na maior parte do território, é tropical, com duas estações: a das chuvas, de
Novembro a Março, e a seca, de Abril a Outubro, com temperaturas médias nas zonas costeiras de
22 a 26 graus. No interior, especialmente em Tete, são vulgares as temperaturas de 40 a 45 graus.
Os rios correm, de modo geral, no sentido oeste-leste, para o oceano Índico. Os mais
importantes são: o Rovuma, o Lugenda, o Zambeze, o Save e o Limpopo.
Moçambique é constituído por múltiplos grupos étnico-linguísticos. Os principais são os
Makonde, Ayao e Macua-Lomwe, partindo do norte até Quelimane; ao longo do Zambeze vivem os
Asena; a sul do mesmo rio habitam os Shona; os Tsonga, Chopi e Ronga-Shangane povoam a
região a sul do rio Save1.

2. CONTEXTO HISTÓRICO (1498-1925)

2.1. A presença colonial Portuguesa em Moçambique2


O primeiro encontro dos Portugueses com os povos da costa do actual estado de
Moçambique ocorre durante a viagem de Vasco da Gama à Índia (1497-98) a qual permitiu a
abertura de uma nova rota mercantil – a rota do Cabo – entre a Europa e a Ásia.

Século XVI-XVII: ocupação da costa e primeiros contactos com o interior3


Os portugueses desde logo se aperceberam que era necessário conquistar posições-chave e
garantir uma supremacia marítima para conseguir destruir o monopólio árabe do comércio no
Índico. Estabeleceram então feitorias que se prolongaram até ao norte de Moçambique (Quíloa e

1
Cf. A. RITA-FERREIRA, Agrupamento e caracterização étnica dos indígenas de Moçambique (Lisboa 1985).
2
Para uma análise bem documentada e uma visão completa deste longo período da história de Moçambique é de
grande utilidade a seguinte obra: M. NEWITT, História de Moçambique (Mem Martins 1997).
3
As obras históricas mais importantes sobre a presença dos Portugueses na África Oriental neste período são: A.
LOBATO, Expansão portuguesa em Moçambique, 1498-1530, 3. Vol. (Lisboa 1954-1960); E. AXELSON, Portuguese in
South-East Africa 1488-1600 (Cape Town 1973).
Mombaça). O domínio da costa moçambicana foi assegurado com a construção de fortes em Sofala
(1505) e na ilha de Moçambique (1507). Estas posições costeiras ultrapassavam a simples
necessidade de apoio à navegação para a Índia. Na verdade os metais preciosos, o marfim e os
escravos despertavam o interesse dos portugueses pela exploração do litoral, desde a baía da Lagoa
(explorada por Lourenço Marques em 1544) até às de Sofala e Moçambique, no norte. Além de
Sofala e ilha de Moçambique, os portugueses constituíram logo de seguida fortalezas e feitorias
comerciais em Sena (1531), Tete e Quelimane (1544).
Nesta fase o interior de Moçambique começava a ser percorrido por aventureiros
portugueses. Estes descobriram que os grandes mercados e os seus caminhos de acesso se situavam
sobretudo nos territórios entre os rios Zambeze e Limpopo, na direcção do interior por onde se
estendiam os países ricos de oiro e marfim que eram o império Mocaranga do Monomotapa com os
reinos de Manica ou Chicanga, Quiteve e Sedanda e a sudoeste o reino Abútua. Concentraram
portanto a sua atenção nestas regiões, aproveitando, para o ordenamento do trabalhos e da
organização de forças, o dispositivo de exploração comercial montado pelos árabes. Sofala, assente
então na foz do rio Búzi, constituía a base das actividades no sul. Feitoria bem provida, a ela
desciam os indígenas com oiro, a fazer as suas compras, e dela saíam os comerciantes a correr as
feiras do interior até Manica. Outra porta de entrada para o interior era o vale do rio Zambeze em
direcção ao império do Monomotapa.
Estas possessões portuguesas no litoral e nas margens do rio Zambeze organizaram-se, na
dependência do Estado da Índia. Eram ao mesmo tempo feitorias de comércio ou resgate com os
respectivos feitores e escrivães, capitanias com presídio e capitão, e, sob o ponto de vista
eclesiástico, paróquias com o seu vigário ou pároco.

Século XVIII: período de decadência política, económica e moral4


O século XVIII foi para Moçambique um período calamitoso. A concentração dos interesses
económicos e políticos de Portugal no Brasil levou a uma marginalização das possessões africanas.
Não havia dinheiro para reparar e construir fortalezas e para o sustento dos soldados. Os
concorrentes de Portugal na região, ingleses e holandeses, aproveitaram tal situação para atacar em
Sena (1716) e Lourenço Marques (1721). Os Portugueses, na iminência de outros ataques,
abandonaram as feitorias do interior para se concentrarem em defesa nas povoações do litoral5.
A corrupção das autoridades administrativas era um dado de facto. Rendia então o tráfico de
escravos e eram muitos os que se dedicavam a procurar obtê-los para entregar a negreiros que os
exportavam para as ilhas do oceano Índico ou para o Brasil6.
Na persuasão de que, em bases novas, a situação militar e económica melhoraria na África
Oriental, um decreto real de 19 de Abril de 1752 separou do Estado da Índia a Capitania Geral de
Moçambique, dando-lhe um governo na dependência imediata de Portugal. E porque, para o
desejado ressurgimento, não bastavam as estruturas administrativas, mas eram necessárias pessoas e
meios, liberalizou-se o comércio de modo a criar rendimentos necessários às obras de fomento.

Século XIX: Moçambique e a disputa colonial da África7


A partir da independência do Brasil e da instauração do regime liberal em Portugal,
consolida-se a administração colonial. Administrativamente Moçambique foi dividido em 4 distritos

4
Cf. A. ANDRADE, Relações de Moçambique Setecentista (Lisboa 1955); F. HOPPE, A África Oriental Portuguesa
no tempo do Marquês de Pombal (1750-1777) (Lisboa 1970); A. ISAACMAN, The Prazos da Coroa 1752-1830. A
functional analysis of the political system: Studia 26 (1969) 149-178.
5
Cf. ALCÂNTARA GUERREIRO, Quadros da História de Moçambique (Lourenço Marques 1954) 2, 278.
6
Cf. J. CAPELA, Escravatura. Conceitos. A empresa do saque (Porto 1978) 93-94; F. HOPPE, A África Oriental
Portuguesa no tempo do Marquês de Pombal (1750-1777) (Lisboa 1970) 27, 229.
7
Cf. E. AXELSON, Portugal and the scramble for Africa, 1875-1891 (Johannesburg 1967); R. PÉLISSIER, História
de Moçambique. Formação e oposição (1854-1918), vol. I-II (Lisboa 1987-1988).
e a capital continuava a ser a ilha de Moçambique. Em 1891 dá-se a grande reforma administrativa,
dando ao território o título de Estado da África Oriental divido nas províncias do norte e do sul.
No século XIX concentraram-se na África as atenções europeias com propósitos
colonizadores. A concorrência inglesa em Moçambique manifestou-se logo em 1822, em Lourenço
Marques, e foi-se arrastando até à solução dada por Mac Mahon a favor da posse por Portugal em
1875. Renovou-se no fim do século na célebre questão do “mapa-cor-de-rosa” que reuniria sobre a
administração portuguesa Angola e Moçambique, incluindo o território do actual Zimbabwe,
Zâmbia e Malawi, e que encontrou pela frente o projecto inglês da linha do Cabo ao Cairo. O sonho
português evaporou-se pela eficácia de Cecil Rhodes e pela pressão do “ultimato” (1890), que dava
a vitória ao imperialismo britânico. Depois de diversas discussões, em 1891 foi assinado um tratado
que pôs fim à disputa8. Com a delimitação das fronteiras de Moçambique e Angola ficava
abandonado o projecto de ligar Angola e Moçambique.
Para consolidar a sua presença em Moçambique e pôr fim aos vários focos de rebelião
existentes um pouco por todo o lado, Portugal organizou campanhas de ocupação do território
submetendo os reinos rebeldes à sua soberania. A ocupação administrativa intensifica-se a partir da
passagem da capital para Lourenço Marques, em 1897. A ideologia e a ciência colonial adaptam-se
aos tempos com a criação da Escola Superior Colonial (1906), preparada pela Sociedade de
Geografia, fundada em 1875.

Século XX: Ocupação e organização administrativa


No princípio do séc. XX continuou-se a obra de ocupação do território moçambicano, que se
pode considerar terminada com o fim da 1ª Guerra Mundial (1918). Definiu-se em seguida uma
política de fomento e de modernização que vai marcar toda a década sucessiva. A conjuntura
económica foi propícia ao aumento das exportações de produtos como o açúcar, a copra e o sisal,
correspondendo à subida de cotação nos mercados internacionais. Este aumento de produção fez
crescer também as extorsões de mão-de-obra, agora com o Estado como agente directo9.

8
Para um maior conhecimento dos meandros deste conflito diplomático: Cf. J. ALMADA, Diligências Diplomáticas
em torno de Moçambique (1858-1890) (Coimbra 1970); PH. WARHURST, Anglo-Portuguese Relations in South-Central
Africa, 1890-1900 (1962 Londres).
9
Cf. L. VAIL, Capitalism and Colonialism in Mozambique (Londres 1980) 187-192.
2.2. CONTEXTO ECLESIAL:

As primeiras tentativas de evangelização (séc. XVI-XVII)


Em 11 de Março de 1498, o navegador português Vasco da Gama, na sua primeira viagem
marítima para a Índia, aportou na ilha de São Jorge, junto à ilha de Moçambique. Da expedição
faziam parte alguns frades que celebraram a primeira Missa em terras de Moçambique. A
evangelização propriamente dita não se verificou imediatamente. De facto, durante muitos anos,
Moçambique era apenas visitado pelos missionários que passavam rumo ao oriente. Passaram-se
alguns anos, sem haver qualquer iniciativa de evangelização10.
Nesta primeira fase a actividade missionária em Moçambique dependia da Arquidiocese de
Goa (Índia). Em seguida, devido à longa distância que separava Moçambique de Goa e com o
objectivo de relançar a evangelização, o Papa Paulo V, pela bula In supereminenti Militantis
Ecclesiae de 21 de Janeiro de 1612, desligou de Goa a província de Moçambique erigindo-a em
vigararia ou administração eclesiástica. Já se chamava prelazia e ao seu administrador, prelado,
governando com jurisdição episcopal11.

A acção evangelizadora dos missionários Jesuítas12


O primeiro evangelizador de Moçambique foi o P.e Gonçalo da Silveira. Em 1559 o vice-rei
da Índia, D. Constantino de Bragança, propôs à Companhia de Jesus o envio de um grupo de
missionários com o objectivo de evangelizar o rei de Inhambane e também o Monomotapa
(Zimbabwe). Os Jesuítas aceitaram o encargo e enviaram o P.e Gonçalo da Silveira e o P.e André
Fernandes, acompanhados pelo Ir. André da Costa. Chegaram a Moçambique em 1560 e iniciaram a
evangelização em terras de Inhambane. Em Tongue, capital do reino de Gamba (actual Mocumbi),
foram bem recebidos e sucedidos. O rei e cerca de 400 súbditos converteram-se e foram baptizados.
Em Junho de 1560 o P.e. Gonçalo da Silveira partiu para o reino do Monomotapa seguindo
o percurso do rio Zambeze e passando por Sena e Tete. Chegou à corte de Monomotapa no dia 1 de
Janeiro de 1561. Afirmou-lhe que só queria a sua salvação, convertendo-o ao cristianismo. Depois
de breve preparação, baptizou-o, com o nome de D. Sebastião, e, com ele, sua mãe e cerca de 300
vassalos. Mas por intrigas surgidas na corte, o P.e Gonçalo foi mandado assassinar pelo rei e morre
na noite de 15 para 16 Fevereiro de 1561. Em seguida os Jesuítas retiraram-se para a Índia.
No início do século XVII os Jesuítas fazem uma nova tentativa de evangelizar o reino do
Monomotapa e outros reinos. Em 1609 chegaram de Goa os padres Paulo Aleixo, Júlio César
Vertua e o superior Gaspar Soares. O P.e Paulo Aleixo dirigiu-se para Sena e o P.e Gaspar Soares
para Quelimane, seguindo, depois, Zambeze acima, até Chupanga e desde ali até Sena e Tete. Em
1612 o jesuíta P.e Diogo Rodrigues foi enviado ao reino de Inhambane. Em 1620 o P.e Júlio César
Vertua visitou o Monomotapa na sua cidade imperial. As terras que correm até aos confins do
Maravi a Nordeste de Tete foram visitadas em 1624 pelo P.e Luís Mariano. Da obra de

10
No dia 4 de Setembro 1505 o capitão Pero de Anaia, primeiro governador de Moçambique deu início à
construção de uma fortaleza e uma igreja em Sofala. Esta igreja é, provavelmente, a primeira Igreja de Moçambique e o
seu primeiro vigário, o P.e Bartolomeu Fernandes. Nessa ocasião o rei de Portugal, D. Manuel I, ordenava que os
naturais fossem doutrinados nas coisas da fé e recomendava os bons costumes aos portugueses para não causarem
escândalo. O P.e Bartolomeu começou a evangelizar os indígenas e em 1506 administrava em Sofala os primeiros
baptismos. Em seguida, fixaram-se na Ilha de Moçambique os primeiros missionários que exercitavam o culto na capela
do forte, construída em 1507. Cf. J.A. ALVES DE SOUSA-F.A. DA CRUZ CORREIA, 500 anos de evangelização em
Moçambique (Braga-Maputo 1998) 17.
11
Cf. J. GUERREIRO, A acção missionária e a sua organização canónica em Moçambique, no período filipino
(1581-1640). Actas do Congresso Internacional de História dos Descobrimentos (Lisboa 1961) (V, II parte) 179-193.
12
Para um estudo mais aprofundado da acção missionária dos Jesuítas em Moçambique durante este período, ver o
seguinte estudo: A. SILVA, Mentalidade missiológica dos Jesuítas em Moçambique antes de 1759. Esboço ideológico a
partir do núcleo documental, 2 vol. (Lisboa 1967).
evangelização de P.e Luís Mariano ao longo do Zambeze, nasceram as missões de Caborabassa e
Zumbo13.
Com os anos as missões foram-se implantando e os Jesuítas, com sede na ilha de
Moçambique, alargaram a sua actividade a outras regiões: na margem direita do Zambeze - Tete,
Maranguè, Chemba, Sena e Caia – e na margem esquerda do Zambeze (perto do litoral) - Luabo e
Santa Cruz (perto de Quelimane).
Nos finais do século XVII, a missão dos jesuítas teve um declínio progressivo. Os frutos não
correspondiam a tantos esforços: a falta de perseverança cristã, as consequências económicas
provocadas pelo aparecimento do ouro, a tolerância da escravatura, e outros factores concorreram
para o declínio da actividade missionária14.

A acção evangelizadora dos missionários Dominicanos15


Além dos jesuítas, neste período também os Dominicanos se empenharam na evangelização
de Moçambique. Ignora-se ao certo a data da chegada dos primeiros missionários da Ordem de São
Domingos a Moçambique. É certo que o rei de Portugal, D. Sebastião, em 1563 os encarregou de
paroquiar a Igreja de S. Tiago de Tete. Nesse ano os Dominicanos receberam a administração
eclesiástica das igrejas do rio Cuama (Sena). Só em 1569 se instalaram em casa própria na ilha de
Moçambique, dedicando a respectiva Igreja a Nossa Senhora do Rosário. Em 1572 evangelizavam
os reinos de Quitave e Chicanga. Nos princípios do século XVII, tinham missões ou residências em
Manica, Quiteve, Zimbaoé, Tete, Abútua, Chicova, Massapa, Machona, Macequece, Zumbo, além
de vários pontos na costa. Apesar das dificuldades, a obra de evangelização deu alguns resultados.
Em 1631 os Dominicanos tinham 13 estações missionárias em funcionamento com 25
missionários16.
Nestes primeiros anos, as missões Dominicanas de Moçambique eram directamente
dependentes de Portugal. Depois, passaram a depender do provincial da Índia, residente em Goa.
Entre os Dominicanos encontravam-se portugueses, mestiços e indianos. Os Dominicanos
adoptaram em África o mesmo sistema que haviam seguido na Índia: a admissão de locais às ordens
sacras. Aqueles que manifestavam o desejo de seguir a vida religiosa eram admitidos na ordem e
enviados para Moçambique17.

A decadência da actividade missionária e a fraqueza da presença cristã (1700-1875)


A evangelização em Moçambique estava bastante vinculada à presença portuguesa, aos
tratados com o imperador do Monomotapa, à acção dos Jesuítas e dos Dominicanos. Todos estes
suportes foram enfraquecendo durante o século XVIII. Em primeiro lugar, como vimos
anteriormente, a presença portuguesa no interior foi esmorecendo na região do Monomotapa e no
vale do rio Zambeze. As revoltas causaram a diminuição do território controlado pela influência
política e económica portuguesa. Por outro lado, a expulsão dos Jesuítas de Moçambique em 1759,
e a extinção das ordens religiosas em 1834 infligiram um forte golpe à actividade missionária. Mas
estes factores externos não foram os únicos que contribuíram para o declínio da evangelização.

13
Cf. J.A. ALVES DE SOUSA-F.A. DA CRUZ CORREIA, 500 anos de evangelização em Moçambique, 45.
14
Cf. J.A. ALVES DE SOUSA, Os Jesuítas em Moçambique, 1541-1991. No Cinquentenário do Quarto Período da
nossa Missão (Braga 1991) 64.
15
Para um estudo mais aprofundado da acção missionária dos Dominicanos em Moçambique, ver os seguintes
estudos: C.R. BOXER, A dominican account of Zambezia: Boletim da Sociedade de Estudos de Moçambique 29 n.125
(1960) 4-11; PH. DENIS, Les Dominicains dans la region du Zambéze (1577-1837) : Mémoire Dominicaine (1995/6)
185-208; Ph. DENIS, The Dominicans in the Zambezi Area (1577-1837). How to write the history of a failure?: Studia
Historiae Ecclesiasticae 19 (1993) 6-34.
16
Cf. A. DA SILVA REGO, As missões portuguesas em Moçambique, em: Curso de Missionologia (Lisboa 1956)
337.
17
Cf. Ph. DENIS, Indigenous clergy in Portuguese South-East Africa (1560-1835), em : The making of an
indigenous clergy in Southern Africa (Pietermaritzburg 1995) 26-39.
Factores internos, sobretudo a decadência religiosa, fizeram esmorecer o dinamismo missionário: os
imperadores do Monomotapa eram cristãos apenas de nome; os portugueses, militares e
comerciantes, também não primavam por um comportamento exemplar; os próprios missionários
nem sempre estavam à altura da sua missão.
Por estes motivos, em 1753, alguns anos antes da expulsão dos Jesuítas, o declínio da
actividade missionária era já evidente. A acção missionária extinguira-se quase por completo na
região do Monomotapa e no litoral norte ficando concentrada na zona de Tete e Inhambane18.
Finalmente em 1759, surgiu o decreto do Marquês de Pombal suprimindo as missões dos Jesuítas
em Moçambique. O cumprimento desta ordem, primeiro, no litoral, e, depois, no interior, arrancou
os missionários dos seus postos de evangelização. As missões ficaram entregues aos cuidados de
outras ordens e sobretudo dos Padres diocesanos de Goa19.
Em 1834, com a supressão das ordens religiosas, por Joaquim António de Aguiar, a
actividade missionária em Moçambique viu-se reduzida a bem pouco. Em 1855, apenas dez
missionários permaneciam na Prelazia de Moçambique. Vinte anos depois não permanecia nenhum
missionário no interior. A sobrevivência da presença cristã dependia do serviço prestado pelo clero
diocesano de Goa20. Em 1875, Moçambique dispunha apenas de 8 padres seculares, 7 dos quais
eram goeses21.

Renascimento da actividade missionária na segunda metade do séc. XIX: 1875-1910


A evangelização voltou a ganhar pujança entre 1875 e 1910, com resultados concretos.
Sobretudo depois da Conferência de Berlim (1885), o Governo Português começou a interessar-se
mais pelas missões, considerando-as centros de evangelização e civilização. Com esse propósito
apoiou as iniciativas de relançamento da actividade missionária em Moçambique, nomeadamente
através do contributo dado à abertura do Colégio das Missões Ultramarinas de Cernache do
Bonjardim e abrindo as portas às congregações missionárias.
O Colégio das Missões Ultramarinas abriu em 1855 com o objectivo de formar sacerdotes
seculares para as missões abandonadas com a supressão das ordens religiosas. Os primeiros
missionários formados por esta instituição chegaram a Moçambique em 1875. Além de assumir o
cuidado pastoral de paróquias já existentes fundaram também novas missões: a missão de S. José de
Muendázi e de Inhamissengo (1886). Durante o governo pastoral de D. António Barroso (1891-
1897), grande impulsionador do renascimento missionário em Moçambique, fundaram a missão de
S. José de Lhanguene (1892) e a de S. António de Macassane (1895). Simultaneamente ressurgiram,
por obra dos mesmos padres de Cernache, as antigas paróquias de S. Sebastião de Moçambique e de
Querimba (1892) e transferiram-se as de Sofala e Amiza, respectivamente para a Beira (1893) e
Mocímboa (1900)22.
Em 1881 os Jesuítas foram readmitidos em Moçambique de onde tinham sido expulsos e
desenvolveram uma intensa actividade missionária sobretudo na então chamada Zambézia inferior.
Com a sua sede em Quelimane, os missionários Jesuítas fundaram ao longo do Zambeze diversas
missões: a missão de S. Pedro Apóstolo, em Chinde, em 1901, a missão da Imaculada Conceição,
em Chupanga, em 1895, a missão de S. José, em Boroma, Tete, em 1885, a missão de S. Pedro
Claver, em Miruru, em 1892. Em 1895 iniciaram uma missão em Milange, que abandonaram
devido a uma insurreição Ayao. Na Angónia, nas margens do rio Lifidzi, fundaram a Missão de S.

18
Cf. A. A. ANDRADE, Relações de Moçambique Setecentista (Lisba 1955) 75ss.
19
Cfr. J.A. ALVES DE SOUSA, Os Jesuítas em Moçambique, 1541-1991. No Cinquentenário do Quarto Período da
nossa Missão, 66.
20
Cf. FORTUNATO DE ALMEIDA, Hstória da Igreja em Portugal, vol. III (Barcelos 1970) 188.
21
Cfr. J.A. ALVES DE SOUSA-F.A. DA CRUZ CORREIA, 500 anos de evangelização em Moçambique, 51.
22
Cf. A. LOURENÇO FARINHA, A expansão da fé na África e no Brasil. Subsídios para a história colonial, vol I
(Lisboa 1942) 356-357.
Francisco Xavier, em 1908. Os Jesuítas estenderam também a sua acção missionária a Móngue
(Inhambane) 23.
Os Franciscanos chegaram a Moçambique em 3 de Junho de 1898. Compunham o primeiro
grupo de missionários os padres António de Santa Maria (superior), Rafael Maria da Assunção e
José Rolim, e os Irmãos auxiliares Salvador Franqueira, Serafim Felisberto Ribeiro e Daniel de
Almeida. Na povoação da Beira, fundaram a Missão de Nossa Senhora do Rosário. Da Beira, os
Franciscanos irradiaram a sua acção missionária até Inhambane e Gaza fundando missões de
Chonguene (1906) e de Mocumbi (1909)24.
Na vigília da revolução republicana em Portugal (1910), a prelazia de Moçambique contava
com 71 padres: 35 do Colégio de Cernache do Bonjardim, 6 padres seculares, 15 jesuítas, 9
franciscanos, 3 salesianos e 2 trapistas. Contava também com a presença das Irmãs de S. José de
Cluny e das Irmãs Franciscanas Missionárias de Maria.

Dificuldades das missões nos primeiros anos do Governo da República (1910-1919)


Com a proclamação da República portuguesa, em 5 de Outubro de 1910, as missões de
Moçambique iriam sofrer novamente. As medidas legislativas não se fizeram esperar. O Governo,
no dia 8 de Outubro, publicou um decreto através do qual compelia os religiosos a viverem como
seculares, nacionalizando-lhes as casas e bens e dissolvendo as comunidades.
Logo de seguida foi emanado o decreto de expulsão dos Jesuítas de Moçambique (8-10-
1910). A intervenção da diplomacia internacional levou o Governo a adiar este propósito até
encontrar uma congregação religiosa que os substituísse. Os missionários alemães do Verbo Divino
ocuparam então as missões dos jesuítas (1911) na Zambézia. Todavia, a sua acção missionária, por
motivos políticos, durou pouco tempo. Com a entrada de Portugal na guerra contra a Alemanha, em
1916, os missionários Verbitas foram repatriados. Para os substituir partiu para Moçambique um
grupo de padres seculares portugueses, alguns dos quais de Goa. Assumiram as missões de
Chupanga, Tete, Boroma e Lifidzi. Apesar da sua dedicação, com o abandono forçado de tantos
missionários, a Igreja sofreu um rude golpe.
Em 20 de Abril de 1911 foi promulgada a Lei da Separação das Igrejas e do Estado. Os
artigos nº 189 e 190 desta lei afirmavam que a evangelização nas colónias era apenas confiada ao
clero secular português; que as “missões estrangeiras” deveriam ser extintas ou substituídas e que o
Estado não estava disposto a subsidiar as missões. Na tentativa de acabar com as missões, o
governo, pelo art. 12 do decreto 233 de 1913, criou as missões laicas que excluíam qualquer ensino
religioso.
A situação missionária em Moçambique foi-se deteriorando. Não chegavam novos
missionários. Dos que estavam em exercício, sobretudo padres seculares, alguns desertaram da vida
eclesiástica; outros, completada a comissão, regressavam a Portugal, num tal desalento que não
tinham mais vontade de voltar. Por fim o próprio Prelado, D. Francisco Ferreira da Silva, a 9 de
Julho de 1916, retirou-se definitivamente para Portugal completamente esgotado.
Mas, progressivamente, a situação começou a melhorar, contribuindo para isso a nova
política religiosa do consulado de Sidónio Pais (1917) e o ambiente de respeito pelas missões cristãs
que os diplomatas portugueses puderam constatar na Conferência de Paz em Versalhes (1919)25.

Reanimação e reorganização das Missões (1919-1926)


Como acabámos de ver, com a Lei da Separação (20-4-1911) e outras medidas laicizantes do
governo provisório da República, as missões católicas foram impedidas de prosseguir livremente a
sua acção evangelizadora.

23
Cf. F.A. DA CRUZ CORREIA, O método missionário dos Jesuítas em Moçambique, 1881-1910 (Braga 1990) 123-
131.
24
Cf. F. FÉLIX LOPES, Missões Franciscanas em Moçambique. 1898-1970 (Braga 1972) 51-174.
25
Cfr. A. SILVA REGO, Curso de Missionologia (Lisboa 1956) 183-184.
Por causa dos magros resultados obtidos pela Lei da Separação e da repressão da liberdade
religiosa que contrariava os sentimentos e crença do povo, as leis anti-clericais foram perdendo
força, e o Governo foi procurando novas formas de entendimento e cooperação com a Igreja. O
Decreto n. 6322, de 24 de Dezembro de 1919, de Alfredo Rodrigues Gaspar, Ministro das Colónias,
e o Decreto n. 8351, de 26 de Agosto de 1922, do mesmo ministro eram já um incentivo para
reactivar a actividade missionária.
A República enveredava assim pelo caminho da compreensão missionária, mas foi preciso
esperar até 1926 para dar início à abolição das disposições legais que contra a Igreja continuavam a
subsistir. De facto, após a revolução nacional de 28 de Maio desse ano, abria-se o caminho para um
entendimento entre a Igreja e o Estado: em particular o Estado queria aproveitar as missões
religiosas não só para a evangelização mas também para a civilização dos autóctones, enquanto
ajudava os colégios de formação missionária.
Os dois decretos do Ministro das Colónias Alfredo Rodrigues Gaspar foram o prelúdio para
a elaboração do Decreto n. 8351, de 13 de Outubro de 1926, do Ministro das Colónias, João Belo,
que promulgou o Estatuto Orgânico das Missões Católicas Portuguesas da África e Timor26. A
terceira parte do preâmbulo passa em revista toda a legislação missionária da República e decide
atribuir imediatamente um subsídio extraordinário para a obra missionária; na parte final promete
um impulso vigoroso às missões por parte do Governo. Em seguida foi extinguido oficialmente o
Instituto de Missões Coloniais (Missões laicas).
Moçambique, no final de 1926, contava cerca de 40.000 católicos. A Prelazia dispunha então
de clero secular (20 portugueses e 7 goeses) em 14 missões e 5 sucursais; de Franciscanos (12
portugueses e 1 italiano) em 5 missões e 3 sucursais; 5 padres franceses da Companhia de Maria
(Monfortinos) em duas estações missionárias; 11 missionários da Consolata italianos em 3 estações
(Miruru, Tete e Mandimba)27.

26
Cfr. A. SILVA REGO, Lições de Missionologia (Lisboa 1961) 150-153.
27
H. PINTO REMA, A actividade missionária de Portugal nos séculos XIX e XX: Itinerarium 43 (1997) 265.
SEGUNDA PARTE
ACTIVIDADE DOS MISSIONÁRIOS DA CONSOLATA EM MOÇAMBIQUE (1925-2000)

PRIMEIRO PERÍODO: (1925-1935)


DE TETE AO NIASSA: A INCERTEZA E AS DIFICULDADES DE UMA PRESENÇA
MISSIONÁRIA NÃO DESEJADA

Introdução
Os primeiros dez anos da presença dos Missionários da Consolata em Moçambique (Tete e
Niassa) foram um período conturbado, mas importante para compreender a sua acção missionária28.
As negociações para a sua entrada foram marcadas por duas atitudes: desconfiança e ambiguidade.
Por um lado, a desconfiança da parte da autoridade política e também da autoridade eclesiástica em
relação aos missionários não portugueses, bem patente durante este período. Por outro, a estratégia
escolhida pelos responsáveis do Instituto em entrar a todo o custo no Niassa, e que não foi
transparente. Foi um período difícil e árido do ponto de vista pastoral. Quem sofreu mais foram os
missionários e as missionárias, quer no corpo, quer no espírito. No meio da tempestade, houve um
missionário que conseguiu levar para a frente um projecto de evangelização e garantir a
continuidade dos Missionários da Consolata em Moçambique: o P.e Pedro Calandri (1893-1967),
pioneiro da evangelização católica do Niassa, fundador e garante da Missão de Nossa Senhora da
Consolata de Massangulo (1928). Era chamado, entre os ayao, de Bwana Cilimba, o que significa
“homem forte de coração e que aguenta com tudo”, e foi muito o que teve que enfrentar para
defender a causa missionária no Niassa durante este período.
O apostolado missionário, realizado em condições difíceis pelo P.e Calandri e restantes
missionários e missionárias na Missão de Massangulo entre o povo ayao, precedeu e preparou o
alargamento do campo de apostolado dos Missionários da Consolata a outros povos do Niassa e de
Moçambique.

1. MOÇAMBIQUE: NOVO CAMPO DE EVANGELIZAÇÃO DOS MISSIONÁRIOS DA CONSOLATA


A decisão de alargar o campo de evangelização do Instituto Missionário da Consolata a
Moçambique foi tomada pelos superiores em 1925. Nessa altura, os Missionários da Consolata,
fundados pelo Beato José Allamano em 1901, já evangelizavam vastas regiões da África Oriental a
norte de Moçambique (Quénia, Etiópia e Tanzânia). Sabendo que no Niassa não havia missionários
católicos, o superior geral de então, D. Filipe Perlo, manifestou a D. Rafael de Assunção, Prelado de
Moçambique, a disponibilidade dos Missionários da Consolata para evangelizar aquela região do
norte do país. D. Rafael aceitou a vinda deles para Moçambique, não para o Niassa, mas para a
região do Zumbo, na actual província de Tete, onde deveriam assumir o cuidado pastoral da Missão
de S. Pedro Claver de Miruru.
A actividade missionária em Moçambique atravessava, então, uma crise muito grande em
consequência da expulsão das ordens religiosas (1911) e dos obstáculos colocados pelo governo
republicano em Portugal. Ao nacionalismo e anticlericalismo juntava-se a rivalidade entre o clero
secular e os religiosos.

1.1.Chegada dos primeiros Missionários da Consolata a Moçambique

28
Para um estudo mais completo destes primeiros dez anos de actividade missionária em Moçambique ver os
seguintes estudos: G. GALLEA, Istituto Missioni Consolata. Fondazione e primi sviluppi (1923-39) Vol. III (Torino
1973), 661-708; I. TUBALDO, I Missionari della Consolata in Mozambico e l'Allamano (Torino 1977), Pro manuscripto;
C. MATIAS DOMINGOS, Os Missionários da Consolata em Moçambique: 1925-36. A sua entrada e as razões dos vários
contrastes, dissertação de Licenciatura (Roma 1993), Pro manuscripto.
Os superiores aceitaram a proposta de D. Rafael de Assunção de irem para a região de Tete,
embora o seu olhar continuasse voltado para o Niassa. No dia 29 de Agosto de 1925, comunicaram
ao bispo o nome dos missionários destinados a Moçambique. Dos oito missionários, todos italianos,
que formavam a primeira expedição, cinco já tinham experiência missionária, adquirida no Quénia:
P.e Victor Sandrone, superior do grupo, P.e Júlio Peyrani, P.e Pedro Calandri, P.e João Chiomio e
Ir. José Benedetto. Os restantes três – P.e Lourenço Sperta, P.e Paulo Borello e o seminarista
Segundo Ghiglia - partiram de Turim (Itália), depois de terem recebido o crucifixo das mãos do
Beato José Allamano. Os missionários provenientes de Itália uniram-se aos restantes no porto de
Mombaça (Quénia) e desembarcaram juntos no porto da Beira no dia 30 de Outubro de 1925. A
alegria de pisar o novo campo de evangelização foi imensa. Agora os missionários tinham pela
frente uma longa distância a percorrer até à Missão de S. Pedro Claver de Miruru (Tete), onde eram
destinados.

1.2.A viagem da Beira até à Missão de Miruru (Tete)


Após alguns dias de espera na Beira, durante os quais o P.e Sperta adoecera, tendo sido
evacuado para o Quénia acompanhado pelo P.e Calandri, os missionários partiram de comboio até
Chupanga, localidade situada nas margens do Rio Zambeze. Aqui passaram o primeiro Natal em
terras de Moçambique e no dia 28 de Dezembro embarcaram num pequeno barco a vapor, para
subirem o grande Rio Zambeze até à cidade de Tete. A viagem foi difícil. Estava-se na estação seca,
o caudal do rio diminuíra e a água corria por entre bancos de areia, ilhas e baixios.
Depois de uma longa e penosa navegação, os missionários chegaram finalmente a Tete, a 10 de
Janeiro de 1926. Após alguns dias de repouso nesta cidade, continuaram a marcha rumo a Miruru.
O P.e Peyrani, porém, ficou a trabalhar na cidade de Tete. Como o Rio Zambeze já não era
navegável, os missionários socorreram-se de outro meio de transporte, um velho camião, e lá
prosseguiram a viagem. Porém, a estrada era estreita, sinuosa e escorregadia, pois já tinham caído
as primeiras chuvas. A uma certa altura, o veículo atolou-se e já não foi capaz de sair do lamaçal.
Por sorte que a Missão de Boroma não ficava muito distante e para lá se dirigiram a pé.
Aí permaneceram quase um mês, descansando e recrutando carregadores para os
acompanharem e transportarem as bagagens até à Missão de Miruru. A partir dali, só era possível
prosseguir a pé. Depois de terem formado a caravana, no dia 4 de Fevereiro começaram a marchar
em direcção à meta final. A caminhada foi lenta e penosa. A chuva, os mosquitos, a vegetação
cerrada, a disenteria e a febre dificultaram a viagem. Foi com grande sacrifício que percorreram os
400 quilómetros até Miruru, onde chegaram a 2 de Março. Não podemos imaginar a alegria que
sentiram ao pisarem a terra prometida.

1.3.Apostolado dos Missionários da Consolata na Missão de Miruru e na paróquia de Tete


Os Missionários da Consolata encontraram a Missão de S. Pedro Claver de Miruru, outrora
florescente, num estado de semi-abandono29. Das 15 escolas-capela da missão, só duas estavam
activas. Lançaram-se com entusiasmo no trabalho de evangelização, tentando levantar religiosa e
materialmente a missão.
Entretanto, na cidade de Tete, o P.e Peyrani desenvolvia a sua acção pastoral na Igreja de
S. Tiago Maior, privilegiando a formação religiosa e escolar dos jovens. A população admirava o
seu empenho e manifestava-se disponível a colaborar com ele.

29
A Missão de S. Pedro Claver de Miruru tinha sido fundada pelos padres Jesuítas. Com a expulsão destes de
Moçambique pelo governo republicano português (1911), a missão foi confiada temporariamente aos missionários do
Verbo Divino, de nacionalidade alemã. Com o deflagrar da I Guerra Mundial (1914), estes tiveram que abandonar
Moçambique. Cfr. J.A. ALVES DE SOUSA, Os Jesuítas em Moçambique, 1541-1991. No Cinquentenário do Quarto
Período da nossa missão (Braga 1991), 83.
2. A ENTRADA DOS PRIMEIROS MISSIONÁRIOS DA CONSOLATA NO NIASSA
Em Junho de 1926, o P.e Pedro Calandri regressa a Moçambique, acompanhado pelo P.e José
Amiotti. Vinha do Quénia, onde tinha acompanhado o P.e Sperta, com a ordem explícita dos
superiores de ir para o Niassa e fixar residência na localidade de Mandimba. Para não alarmar
D. Rafael de Assunção e as autoridades políticas, que não queriam que os Missionários da
Consolata se fixassem no Niassa, esta viagem foi realizada com grande discrição. Os dois
missionários partiram da Beira, de comboio, no dia 22 de Junho com destino a Blantyre, na
Niassalândia (actual Malawi). Desta cidade, continuaram a viagem de automóvel até à fronteira de
Moçambique, tendo chegado a Mandimba, sede ocidental da Companhia do Niassa, no dia 4 de
Julho (Sábado), onde foram bem acolhidos pelas autoridades administrativas portuguesas. No dia
seguinte, Domingo, celebraram a primeira missa. Quatro dias depois, 8 de Julho, chegava a
Mandimba um outro missionário da Consolata, P.e João Chiomio, vindo da Missão de Miruru.
Tinha feito a viagem de Miruru até Mandimba a pé30.

2.1. Niassa: o território e os povos que encontraram


Alguns dias depois do ansiado e feliz encontro em Mandimba, os três missionários da
Consolata, guiados pelo P.e Chiomio, fizeram uma viagem de exploração pela “terra prometida”,
para identificar os lugares onde poderiam surgir futuras missões, conforme tinha sido programado
na agenda de viagem. Deixaram Mandimba e dirigiram-se para norte, passando por Metónia,
chegando a Metangula. Daqui, dirigiram-se para leste, visitaram Unango e foram até Litunde e
Muembe. Passando de novo por Mandimba, dirigiram-se para sul seguindo a estrada que levava até
Malakontera (Cuamba). A certo ponto, o P.e Chiomio continuou a viagem sozinho visitando o sul
do Niassa e a Zambézia, prosseguindo até à Ilha de Moçambique, onde embarcou para o Quénia,
enquanto os outros dois missionários regressavam a Mandimba.
O território que visitaram era, então, administrado pela Companhia do Niassa e fora
definitivamente ocupado, do ponto de vista militar pelos portugueses, apenas em 1912. A maior
oposição à penetração portuguesa foi feita pelo povo ayao. A população do Niassa rondava os
165.000 habitantes (densidade 1,7 habitantes por km2) e era constituida pelos anyanja, ao longo da
costa do Lago Niassa; pelos angoni e amatengo nas margens do Rovuma; pelos ayao na região entre
o Rio Rovuma e Lugenda e pelos macúa, a sul do Rio Lugenda31.
As poucas estradas existentes eram transitáveis apenas no período seco (de Julho a Dezembro).
A sede de Mandimba estava ligada, em direcção ao norte, com Metangula; para o oeste com a
Niassalândia (Malawi); para o sul com Malokontera (Cuamba) e para o litoral, passando por Maúa e
Nungo até Porto Amélia.
A presença cristã no Niassa estava reduzida apenas às missões anglicanas da University
Mission to Central Africa (U.M.C.A.) entre o povo anyanja nas margens do Lago Niassa. A missão
mais importante era a de S. Bartolomeu de Messumba, fundada pelo reverendo William Percival
Johnson em 188232.

2.2. Permanência dos Missionários em Mandimba (1926-1928)


Depois do regresso a Mandimba, os padres Calandri e Amiotti escolheram o lugar para montar
o acampamento a quatro km do Posto Administrativo, perto do rio Mandimba. Aqui construíram
uma casa com material local e uma capela toda feita de bambus. Era a primeira capela católica do
Niassa.

30
Cfr. Carta de P.e Pedro Calandri a D. Filipe Perlo, Mandimba, 11-7-1926: AIMC VII/1378, n.27.
31
Apontamentos sobre a zona oeste do território da Companhia do Nyassa-Moçambique (1926): AIMC VIII/7,
1927, n.113.
32
W.P. Johnson foi o responsável da Missão de S. Bartolomeu até 1918. Depois de 35 anos de intenso trabalho
missionário foi enviado para Tanganica e substituído pelo reverendo H. Cox. Para conhecer a vida e obra deste pioneiro
da evangelização anglicana no Niassa, ver : B.H. BARNES, Johnson of Nyassaland. A study of the life and work of
William Percival Johnson (London 1933).
Quando o Bispo D. Rafael de Assunção teve conhecimento da entrada dos Missionários da
Consolata no Niassa e da sua fixação em Mandimba, reagiu manifestando o seu desacordo.
Reafirmou em voz alta que nunca tinha autorizado a sua entrada no Niassa e intimou-os a deixarem
quanto antes aquele território. Não tendo eles obedecido às suas ordens, D. Rafael retirou-lhes a
faculdade de exercerem o ministério pastoral. Não podendo iniciar a missão, o P.e Calandri e o
P.e Amiotti, dedicaram o seu tempo ao estudo da língua, à exploração do território e ao cultivo de
tabaco. Entretanto, acolheram e tomaram a seu cuidado um grupo de crianças mestiças33.
A estratégia elaborada pelos superiores de Turim, de entrar a todo o custo no Niassa mesmo
sem a autorização explícita do bispo local, dificultava cada vez mais a acção dos missionários em
Moçambique. Os efeitos de tal estratégia foram: desconfiança de D. Rafael de Assunção quanto às
reais e leais intenções do Instituto e aumento da oposição, de alguns sectores políticos, à presença
de missionários estrangeiros em Moçambique.
Entretanto, quer no Niassa quer na Missão de Miruru, os Missionários da Consolata não
desanimavam nos seus propósitos de evangelização. No dia 18 de Setembro de 1927 chegava um
precioso reforço de pessoal: o P.e Alfredo Ponti e sete irmãs da Consolata34. Mas a situação
mantinha-se ambígua, nomeadamente no Niassa, criando um ambiente de desânimo.

2.3. Fundação da Missão de Massangulo (20-5-1928)


Esclarecida finalmente a situação entre o Prelado de Moçambique e os Superiores do Instituto,
em Abril de 1928, D. Rafael de Assunção autorizou a fundação de uma missão na zona de
Mandimba. Como esta região era pouco habitada, os missionários decidiram fundar a missão mais a
norte. Sem perder tempo, o P.e Calandri dirigiu-se para Massangulo, onde no dia 20 de Maio deu
início à primeira missão católica do Niassa: a Missão de Nossa Senhora da Consolata.
Massangulo é o nome de um monte situado a 1650 metros acima do nível do mar, em território
habitado pelo povo ayao35. Devido à sua altitude, goza de um clima salubre e temperado e as
chuvas são abundantes. Nesta época, Massangulo era floresta virgem, mato emaranhado, perigoso
para o homem. Porém, a paisagem seduziu o P.e Calandri. Desbravando mato e floresta aproximou-
se do monte, perto do qual iniciou os trabalhos de implantação da missão, construindo uma palhota
de grandes dimensões. Com ele viviam 14 crianças mestiças que trouxera de Mandimba. Enquanto

33
Algum tempo depois da chegada dos Missionários da Consolata a Mandimba, apresentou-se um italiano, Pedro
Regina, que veio expressamente de Fort-Johnston (Niassalândia/Malawi). Na sua casa em Kaliwata (a 10 km de
Mandimba) tinha um grupo de crianças mestiças, algumas suas, outras abandonadas pelos seus pais. Pediu aos
missionários que tomassem conta daquelas crianças. O P.e Calandri num primeiro momento recusou, mas passado
algum tempo, não pôde negar-se a um acto de caridade tão urgente.
34
As Missionárias da Consolata foram fundadas pelo Beato José Allamano em Turim (Itália) em 1910. As
primeiras Missionárias da Consolata destinadas a Moçambique foram as irmãs Emma Rinaudo, Valeria Melzani,
Tommasina Moretto, Ananina Tabellini, Faconda Alberti e Benedetta Mattio. Partiram de Turim no dia 3 de Julho de
1927. No dia 17 de Agosto, no porto de Mombaça (Quénia), unia-se a este grupo a Ir. Edvige Grosso e no dia 26 de
Agosto desembarcavam no porto da Beira. No dia 18 de Setembro chegavam à Missão de Miruru. Cfr. P.G. BASSI,
Cenni storici dell’Istituto Suore Missionarie della Consolata. Fascicolo III (Grugliasco 1983). Pro manuscripto, 172-
173.
35
Os ayao, também conhecidos por ajauas, são um grupo étnico oriundo do monte Yao, perto de Muembe
(Niassa), entre o Rio Lugenda e Lucheringo. Parte deles vive no Niassa e outra parte fixou-se na Tanzânia e no Malawi.
Dedicados ao comércio e afectos ao Islamismo, juntamente com os comerciantes árabes da costa, faziam incursões nos
territórios vizinhos, escravizando os anyanja e os macúa. Ofereceram grande resistência à ocupação colonial
portuguesa. Mostraram-se também pouco sensíveis à proposta evangélica, pois encontravam-se identificados com a
religião muçulmana. No século XIX, numerosos “mwalimos” (mestres muçulmanos), vindos de Zanzibar, conseguiram
islamizar a população ayao que até então praticava a região tradicional. A nova religião foi facilmente abraçada, por
melhor se adaptar aos costumes e actividades económicas deste povo. Para um maior conhecimento da cultura e história
do povo ayao, ver as seguintes obras: Y. ABDULLAH, WAyao’we (Blantyre 1952); E.A. ALPERS, Trade, State and
Society among the Yao in the 19th century: African History Studies 10 n.3 (1969) 417-435; M. GAMA AMARAL, O Povo
Yao. Subsídios para o estudo de um povo do noroeste de Moçambique (Lisboa 1990); J.C. MITCHELL, The Yao Village.
A study in the social structure of a Nyasaland tribe (Manchester 1956); L. WEGHER, Um olhar sobre o Niassa, vol. I-II
(1995-2000).
a palhota não ficou pronta, instalaram-se todos numa tenda de campanha e assim viveram de Maio a
Dezembro de 1928. Os leões rondavam a barraca ao cair da noite e pela madrugada, em todas as
direcções. Enquanto as crianças dormiam, o P.e Calandri velava por elas de espingarda em punho36.
Sete meses depois, a 31 de Dezembro de 1928, chegavam reforços: o Ir. José Benedetto,
proveniente da Missão de Miruru, o P.e Ângelo Lunati e um grupo de irmãs da Consolata37. À
medida que se aprontaram as residências provisórias dos Padres e das Irmãs foi possível iniciar a
acção evangelizadora na região. Pouco a pouco foram surgindo as primeiras construções em
alvenaria dotando assim a missão das estruturas necessárias para o seu funcionamento.

2.4. As dificuldades do apostolado: a hostilidade dos ayao


Dificuldades e lutas terríveis marcaram os primeiros anos de vida da Missão de Massangulo.
Vendo ameaçada e em perigo a sua influência, os responsáveis muçulmanos mostraram-se hostis,
fomentando na população uma desconfiança que a mantinha afastada da missão. A todos era
proibido, sob penas gravíssimas, ter qualquer contacto com os missionários. Ninguém devia
fornecer-lhes géneros alimentícios e ainda menos permitir que as crianças frequentassem a missão.
Alguns homens conseguiram ultrapassar esta proibição porque estavam interessados em receber o
salário como trabalhadores da missão. O único apostolado possível para os missionários era
ocuparem-se das crianças órfãs que viviam na missão, com a esperança de com elas formar os
primeiros núcleos de cristãos no meio do ambiente muçulmano.
As dificuldades eram tantas que a tentação de desistir era grande. Mas, porquê desanimar? A
obra, como costumava repetir o P.e Calandri, era do Coração de Jesus; seria Ele a abrir os corações
dos ayao ao Evangelho. Um dia o milagre aconteceu. Apresentou-se na missão um rapaz orfão
chamado Bociri e o P.e Calandri convidou-o a entrar. Nos dias seguintes continuou a frequentar a
missão e, sentindo-se bem, já não a queria deixar. Tendo conhecimento disto, os seus familiares,
furiosos, vieram buscá-lo. Ameaçaram-no e bateram-lhe. O rapaz, porém, tinha já tomado a decisão
de ficar com os missionários. Durante alguns dias não apareceu, até que um dia voltou novamente,
embora num estado bastante debilitado. Pediu o Baptismo ao P.e Calandri. Protegido dos maus
tratos dos familiares e das maldições que lhe tinham lançado, a sua constância foi premiada. Passou
um ano na missão e seria o primeiro católico ayao, baptizado com o nome de António Taimane.
Algum tempo depois, faleceu em consequência dos maus tratos sofridos (4-7-1931)38.

2.5. Retirada de Miruru e a permanência no Niassa (1930)


Se a situação dos Missionários da Consolata não era fácil em Moçambique, muito menos o era
em Itália. Questões de ordem administrativa e de estratégia missionária levaram a Santa Sé a
intervir na vida do Instituto nomeando um novo Superior Geral (2-1-1929). A nova Direcção
pensava até em mandar retirar os missionários e missionárias da Consolata de Moçambique. A esta
solução opôs-se com veemência o P.e Calandri. O pioneiro da evangelização católica no Niassa
concordava com a saída de Tete, mas discordava do abandono do Niassa, considerando-o uma
traição à causa missionária. Os superiores concordaram com o P.e Calandri, ordenando a retirada
dos missionários da Missão de Miruru. As irmãs da Consolata, a pedido dos padres Monfortinos,
foram transferidas para a Missão de Ibo (Cabo Delgado)39.

36
Cf. L. WEGHER, Un uomo e la sua missione. Padre Pietro Calandri, Pro manuscripto, (Lichinga 1985) 53-54.
37
No dia 4 de Outubro partiram de Itália, juntamente com o P.e Ângelo Lunati, o primeiro grupo de missionárias
da Consolata destinadas ao Niassa: Ir. Antida Castino, Daria Pavese, Caetana Goletti, Bona Magistrelli, Flaminia
Malino e Onorata Foresti. No porto de Mombaça (Quénia), embarcaram outras duas irmãs que completavam a
expedição: Ir. Anastasia Torresin e Remigia Civera. Desembarcaram em Porto Amélia no dia 5 de Dezembro. Na
companhia do P.e Amiotti, seguiram de camião até Massangulo. Depois de uma viagem desgastante, chegaram no
último dia do ano. Cfr. P.G. BASSI, Cenni storici dell’Istituto Suore Missionarie della Consolata. Fasciculo III, 188-
189.
38
Cf. L. WEGHER, Un uomo e la sua missione. Padre Pietro Calandri, 100-101.
39
No dia 25 de Outubro de 1930, D. Rafael de Assunção efectuou a visita pastoral à Missão de Miruru. Informou a
equipa missionária sobre a decisão de todos deixarem a missão. As Missionárias da Consolata estavam destinadas à Ilha
2.6. Anos difíceis (1931-1935): a expectativa de uma resposta definitiva
A missão do Niassa, como todas as obras de Deus, continuou a crescer no meio de grandes
dificuldades internas e externas. Perante a impossibilidade de evangelizar os muçulmanos, a missão
de Massangulo orientou a sua actividade para as escolas e respectivos internatos. Juntamente com
os mestiços frequentavam as escolas da missão alunos vindos de outras zonas e, pouco a pouco,
também os filhos dos muçulmanos.
Bem depressa surgiu o Colégio Pio XI. No primeiro ano de actividade (1930), 30 alunos foram
admitidos na missão; no segundo ano (1931), 350 alunos de ambos os sexos. Em 1931, foi
inaugurado o edifício da Escola de Artes e Ofícios. Iniciou-se a construção da residência dos
padres, em alvenaria, do armazém, da loja e a moagem entrou em funcionamento. No dia 28 de
Agosto, começaram a frequentar a escola os primeiros alunos externos. Na Páscoa, houve dois
baptismos de adultos e oito primeiras comunhões. No dia 27 Julho, o P.e Ângelo Lunati e a Irmã
Flamínia Malino emitiram a sua profissão perpétua.
O ano de 1931 tinha corrido bem, sem grandes sobressaltos. Para 1932 as perspectivas no
Niassa eram razoáveis, excepto quanto ao cansaço do pessoal missionário. O P.e Lunati,
encarregado do colégio, tinha de se empenhar com todas as suas forças para acompanhar os 50
rapazes e as 80 raparigas estudantes. Além disso, com o aumento dos alunos seria preciso alguém
que pudesse dar aulas de música, criar uma banda, um grupo de teatro, etc. O Ir. José Benedetto
fazia milagres, mas estava impossibilitado de atender a tanto trabalho. O P.e Calandri era incansável
e sempre activo. Com a partida definitiva do P.e Amiotti para Itália, no dia 10 de Maio, a
comunidade ficou desfalcada. Em Agosto chegou a Massangulo a nova superiora das missionárias
da Consolata, Ir. Margarida de Maria na companhia da Ir. Amabile Fagnani. Todavia, era evidente a
necessidade de mais pessoal missionário e de meios, mas em Turim os superiores recusavam-se a
reforçar a missão com novo pessoal missionário.
Em 28 de Junho de 1933, foram nomeados o novo Superior Geral dos Missionários da
Consolata, na pessoa do P.e Gaudêncio Barlassina. Os membros do novo conselho geral eram os
padres: Domingos Ferrero, João Chiomio, Victor Sandrone e João Piovano. Dois deles, os padres
Chiomio e Sandrone, tinham estado em Moçambique o que era uma boa premissa para um maior
interesse da nova Direcção Geral pelo Niassa. De facto, um dos primeiros assuntos a que a nova
Direcção Geral prestou atenção foi a situação em Moçambique. Tinha que se clarificar
definitivamente a situação dos Missionários da Consolata. O bispo e a Direcção Geral em Roma
estavam interessados ou não na sua presença e acção evangelizadora em Moçambique?

2.7. O sonho missionário de P.e Calandri: alargar o campo de apostolado aos anyanja e
macúas
Entretanto, o P.e Calandri projectava a abertura de novas missões no Niassa. A sul do Rio
Lugenda, entre a população macua, e a norte, nas margens do Lago Niassa, entre o povo anyanja.
Os macúas e os anyanja, maioritariamente pagãos, manifestavam-se abertos ao apostolado e à
escolarização. O problema é que D. Rafael de Assunção, pressionado por sectores nacionalistas da
sociedade colonial portuguesa em Moçambique, tardava em dar uma resposta positiva aos pedidos
de fundação de outras missões no Niassa, por parte de missionários estrangeiros. Parecia
inclusivamente que a sua atitude era contrária à evangelização do Niassa.
Perante este impasse, o P.e Calandri decidiu apelar para Roma. Em 1935 enviou um relatório à
Congregação de “Propaganda Fide” sobre a evangelização do Niassa, centrada em dois pontos: 1. as
limitações ao apostolado na Missão de Massangulo, 2. a necessidade de intervenção do Vaticano
para desbloquear a situação de impasse criada por D. Rafael de Assunção. Concluía o seu relatório

de Ibo (Cabo Delgado) com os Missionários Monfortinos. Três dias depois partiram para a Beira. No dia 30 de
Novembro, desembarcavam no Ibo. Nos anos que se seguiram, intensificaram a sua actividade em diversas missões de
Cabo Delgado em colaboração com os Missionários Monfortinos. Cfr. P.G. BASSI, Cenni storici dell’Istituto Suore
Missionarie della Consolata. Fasciculo III, 175-178.
lançando um apelo. Caso continuasse o impedimento na fundação de missões católicas entre as
populações macúa e anyanja, estas seriam conquistadas pela propaganda muçulmana e protestante,
e seriam irremediavelmente perdidas para Cristo e para a Igreja Católica40.
Por sua vez os superiores também prosseguiam os contactos com a Santa Sé, confiando na
possibilidade de poder resolver favoralmente a situação dos missionários no Niassa. O Instituto
insistia na importância de ter uma zona própria de acção, mas a Santa Sé queria, primeiramente,
regularizar as relações jurídicas entre a Igreja e o Estado português nos territórios ultramarinos.
Em Outubro, o superior geral, P.e G. Barlassina encontra-se com o Mons. D. Tardini, na
Secretaria de Estado do Vaticano. Este assegurou-lhe que a situação de impasse vivida em
Moçambique se resolveria, ou seja, que mais tarde ou mais cedo um território próprio seria confiado
à responsabilidade dos Missionários da Consolata. Era, então, necessário enviar novo pessoal
missionário.
Entretanto, a Santa Sé decidiu transferir D. Rafael de Assunção para a sede episcopal de Cabo
Verde e nomear Prelado de Moçambique D. Teodósio de Gouveia41.

40
AIMC VIII/7 1935, n. 2: Relazione annuale dello Stato della Missione S.S. Consolata di Massangulo (Nyassa
Portoghese), Massangulo, 30-7-1935.
41
D. Rafael de Assunção foi um grande missionário e bispo. Conseguiu solucionar parte dos enormes problemas e
dificuldades que encontrou na Prelazia de Moçambique, desde a sua tomada de posse. Encontrou hostilidade por parte
do clero secular e dos sectores políticos ligados à maçonaria. Acusavam-no de defender os interesses das congregações
religiosas e dos missionários estrangeiros em detrimento do clero secular e dos interesses nacionais. Por isso, percebe-se
a sua reserva em aceitar a presença dos missionários italianos da Consolata no Niassa. Antes de deixar Moçambique
escreveu uma longa carta ao Papa Pio XI na qual justificava a sua atitude, nomeadamente em relação aos Missionários
da Consolata, e recusava os argumentos de quem o considerava um bispo nacionalista. Cfr. Relatório de Mons. Rafael
de Assunção ao Papa Pio XI na ocasião da sua passagem da Prelazia de Moçambique para a Diocese de Cabo Verde.
AIMC VIII/8, 8, n.81. Para um maior conhecimento da pessoa e obra de D. Rafael de Assunção, ver: C. F. AZEVEDO,
Dom Rafael Maria de Assunção. Um grande Bispo Missionário Franciscano Português. Biografia e Apostolado
Missionário: 1874-1959 (Lisboa 1961).
SEGUNDO PERÍODO: (1936-1950)

ALARGAMENTO DO CAMPO APOSTÓLICO NO NIASSA E FUNDAÇÃO DAS


PRIMEIRAS MISSÕES EM INHAMBANE E LOURENÇO MARQUES (MAPUTO)

Introdução

A abertura do povo macúa ao Evangelho, o bom entendimento com as autoridades civis e


eclesiásticas, a chegada de novos missionários, foram factores que contribuíram para que o trabalho
de evangelização iniciado pelos Missionários da Consolata crescesse rapidamente e se estendesse a
outros territórios no Niassa e em Inhambane e Lourenço Marques.
Fundaram-se várias missões num ritmo impressionante. No Niassa, em 1938, os padres Gabriel
Quaglia, Oberto Abondio e Aldo Dall'Armi fundavam a missão de Mepanhira; no ano seguinte, os
padres Mário Casanova e Luís Bosio fundavam a missão de Mitúcue; em 1940, os padres Gabriel
Quaglia e João Tolosano fundavam a missão de Maúa; em 1947, os padres Mário Filippi e Luciano
Oggé fundavam a missão de Txaxe – Maiaca e em 1950, os padres Pedro Calandri e Eugénio
Menegon davam início à missão de Cobué, entre a população anyanja. No Sul do Save, Inhambane
e Lourenço Marques, onde os Missionários da Consolata iniciaram o seu apostolado em 1946, as
missões fundadas foram a seguintes: Massinga/Mangonha (1946), Nova Mambone (1946),
Mapinhane (1947), Maimelane (1948) e Liqueleva (1948).
Nesta época, o trabalho missionário é caracterizado por uma intensa evangelização. Os
missionários visitavam regularmente as aldeias, seguiam com atenção o trabalho dos catequistas, a
formação dos catecúmenos e assistiam sacramentalmente os baptizados, particularmente os doentes.
Dava-se prioridade à catequese de adultos, os quais, depois de uma razoável preparação, se
deslocavam com os catequistas e toda a comunidade à missão, para receber os sacramentos:
Baptismo, Matrimónio, Crisma.
Os primeiros missionários foram incansáveis na sua dedicação apostólica: suportaram com
tenacidade situações adversas, aprenderam a língua macúa, ciyao, cinyanja, xitshwa e cindau, e
estabeleceram um contacto directo e contínuo com a população. Sem grandes metodologias
pastorais, formaram uma válida geração de cristãos. Nos diários das missões e nos relatórios anuais
enviados aos superiores, é visível a existência de um forte sentido de comunhão entre as
comunidades cristãs, dispersas no território, e a missão.

1. A ORGANIZAÇÃO DO INSTITUTO MISSIONÁRIO DA CONSOLATA EM MOÇAMBIQUE


1.1. A escolha e alargamento do campo de evangelização
Em 1936 os superiores do Instituto Missionário da Consolata, perante a alternativa de deixar ou
continuar no Niassa e em Moçambique, optaram pela permanência. Permanecer significava alargar
a acção missionária no Niassa com a fundação de outras missões. Para melhor analisar as condições
locais e organizar a presença e a acção do Instituto, os superiores enviaram o P.e Victor Sandrone,
conselheiro geral e com experiência em Moçambique, para o Niassa e chamaram para Itália o
P.e Calandri42. Em Agosto o P.e Sandrone assume a responsabilidade da missão de Massangulo
tendo pela frente a tarefa de estabelecer uma ponte de ligação entre o período contrastado de
D. Rafael de Assunção e o novo Bispo, D. Teodósio Gouveia, com quem se esperava poder
trabalhar melhor. Nos fins do mês de Outubro, fez uma longa viagem de reconhecimento
percorrendo a região sul do Niassa e o norte da Zambézia com o objectivo de encontrar locais
favoráveis para a abertura de novas missões.
Entretanto em Turim, o P.e Calandri dava a conhecer pessoalmente aos superiores a situação
sócio-política e religiosa do Niassa e, sobretudo, os seus projectos futuros de abertura de missões no

42
Cf. AIMC, IV/4, n.282, Actas das reuniões do Conselho Geral, 6-5-1936.
sul do Niassa e ao longo das margens do rio Lúrio, entre a população macúa43. No seu relatório,
informava os superiores da existência de algumas centenas de católicos baptizados pelos Padres
Monfortinos da Niassalândia, que eram instruídos e dirigidos por catequistas. No entanto, as
restrições impostas pela autoridade eclesiástica tinham, até então, impedido o alargamento da zona
de evangelização.
Em Moçambique o P.e Sandrone entrou em diálogo com o Prelado de Moçambique. Escreveu a
D. Teodósio de Gouveia, recém-chegado, informando-o sobre a existência de um grupo de católicos
em Mepanhira. Deu-lhe a conhecer a origem daquela comunidade cristã e a sua contínua solicitação
para a fixação de missionários naquela zona, colocando-se à disposição do prelado para assistir
pastoralmente aquelas comunidades e fundar aí uma missão44. A resposta de D. Teodósio demorou
a chegar. Alguns meses depois, P.e Sandrone encontrou-o na Ilha de Moçambique, com quem teve
uma longa conversa. D. Teodósio de Gouveia pô-lo ao corrente das dificuldades por ele encontradas
desde a sua chegada a Moçambique. A situação era crítica. O governo português era contrário à
presença de missionários estrangeiros, em particular italianos, que eram considerados uma ameaça
para os interesses nacionais. Contudo, deu a entender que não era contrário à abertura da missão em
Mepanhira. Era tudo uma questão de tempo. A boa vontade e o interesse do bispo iriam contribuir
para desbloquear o impasse criado em relação à fundação de outras missões no Niassa. No início de
1938 o P.e Sandrone, depois de ter visitado os cristãos de Mepanhira, recebeu a tão suspirada carta
de D. Teodósio na qual o bispo encorajava os Missionários da Consolata a continuarem o seu
apostolado nessa região45
Em seguida, o P.e Sandrone regressou a Itália tendo deixado ao P.e Gabriel Quaglia a
responsabilidade da missão de Massangulo, a cura pastoral dos cristãos de Mepanhira e os contactos
com o Bispo. Finalmente em Julho de 1936, D. Teodósio de Gouveia autorizou os Missionários da
Consolata a fixarem residência em Mepanhira. A nova missão assistiria espiritualmente toda a
circunscrição de Amaramba (actuais distritos de Mecanhelas e Cuamba). No dia 7 de Agosto,
D. Teodósio de Gouveia visitou a missão de Massangulo e aproveitou a ocasião para apresentar em
detalhe ao P.e Quaglia os seus projectos de evangelização no Niassa46.
Finalmente renascia a esperança. Depois de tantas dificuldades enfrentadas, chegara o momento
de concretizar aquilo que os Missionários da Consolata desde sempre desejaram: diversificar a sua
presença no Niassa e evangelizar um povo que desse maiores garantias de adesão ao Evangelho.
Obtida a autorização explicita do bispo faltava apenas a chegada de novo pessoal missionário para
efectuar a abertura da missão de Mepanhira

1.2. O Acordo Missionário e as suas repercussões na evangelização


O ano de 1940 foi decisivo para a evangelização de Moçambique. A assinatura do Acordo
Missionário entre Portugal e a Santa Sé, a 7 de Maio de 1940, teve uma importância relevante para

43
Os macúas do Niassa habitam a região a sul do Rio Lugenda. Têm uma cultura tipicamente matrilinear, em
regime clânico. Os principais regulados macúa no Niassa são: Maúa, Mukwapa, Mecanhelas, Karonga, Muikuna,
Matias e Ciamba. Para um maior conhecimento da história e cultura do povo macúa no Niassa, ver as seguintes
trabalhos: M. BIANCO, I Macúa (Maúa 1951), Pro manuscripto; F. LERMA MARTINEZ, O povo Macúa e a sua cultura
(Lisboa 1989); D. COLOMBO, Mozambico: I valori religiosi del popolo Makua (Bologna 1988).
44
...A presente carta tem por fim fazer chegar a V.Excia o grito de uma incipiente cristandade que invoca o
missionário, é talvez intempestiva; o amor porém de V.Excia Rev. para com as suas ovelhas, anima-me a expor-lhe
desde agora o desejo destes cristãos... Coloco nas mãos de V.Excia esta cristandade. É-nos impossível cuidar deles de
Massangulo, afastado por 350 Km de estradas, mas estou preparado, se V.Excia o julgar conveniente, para enviar dois
missionários de Massangulo a fim de fixarem a própria habitação entre eles. Neste caso digne-se V.Excia de me
comunicar o que tenho de fazer. AIMC VIII/7, 1937, n. 10: Carta de P.e V. Sandrone a D. Teodósio de Gouveia,
Massangulo, 24/4/1937.
45
AIMC VIII/7, 1937, n.5: Carta de D. Teodósio Gouveia a P.e V. Sandrone, Lourenço Marques, 21/01/1938.
46
Aos Missionários da Consolata era confiada a evangelização da zona onde já se encontravam, a Circunscrição
de Amaramba e Mtarika. Um campo de trabalho vasto com 95.000 Km2 de território e uma população aproximada de
124.000 almas. À recém fundada Sociedade Missionária Portuguesa (actualmente Missionários da Boa Nova) era
confiada a evangelização da Circunscrição do Lago, tendo como centro de irradiação a Missão de Unango.
a regulamentação das relações entre o Estado e a Igreja no tocante à actividade missionária além de
estabelecer uma plataforma de colaboração na área da escolarização com repercussões importantes
também na evangelização. Procedeu-se à divisão eclesiástica dos territórios missionários em
dioceses. Moçambique passou a ser uma Província Eclesiástica, com a criação das dioceses de
Lourenço Marques, Beira e Nampula47.
A presença dos Missionários da Consolata em Portugal ficou ligada à acção evangelizadora dos
mesmos em Moçambique e vice-versa. Desde o início, perante as dificuldades colocadas pelas
autoridades coloniais à presença de missionários italianos em Moçambique, pensava-se que,
abrindo uma casa em Portugal, se tornaria mais fácil a aprendizagem da língua portuguesa e a
superação de tantos obstáculos burocráticos48. O Acordo Missionário abriu o caminho para a
fixação do Instituto Missionário da Consolata em Portugal. Em 17 de Dezembro de 1940, o P.e João
Chiomio, procurador do Instituto junto da Santa Sé, foi chamado ao Vaticano. Ao Instituto foi
proposto a abertura de um seminário em Portugal, que serviria também para acolhimento dos
missionários destinados a Moçambique e, no futuro, para a formação de seminaristas
moçambicanos49. Igualmente, foi-lhe dado a conhecer o conteúdo do Acordo Missionário e feitas
algumas propostas de acção para o Instituto, quer na nova diocese de Nampula, quer em Portugal50.
No dia 10 de Junho de 1943 chegou a Portugal o primeiro missionário da Consolata, o P.e João
De Marchi, que se fixou em Fátima onde abriu o seminário do Instituto (3 de Outubro de 1944). A
abertura deste seminário foi acolhida com alegria e entusiasmo pelos missionários do Niassa51.

1.3. O P.e Domingos Ferrero, novo Superior Delegado


Com o regresso em 1938 de P.e Victor Sandrone a Itália, o P.e Gabriel Quaglia ficou como
Superior Delegado interino dos Missionários da Consolata presentes em Moçambique. Em 1940 a
Direcção Geral do Instituto nomeou o P.e Domingos Ferrero52 como Superior Delegado em
substituição do P.e Quaglia. No dia 11 de Dezembro, o P.e Ferrero chegou à missão de Massangulo,
residência do Superior Delegado, e visitou logo de seguida as missões para conhecer os
missionários e verificar o seu trabalho pastoral e sócio-caritativo. Em Junho de 1941 enviou à
Secretaria de Estado do Vaticano um relatório onde descrevia a situação missionária do Niassa.
Nele o P.e Ferrero punha em relevo tanto a dedicação dos missionários e dos catequistas na obra da
evangelização como a correspondência pronta e sincera da população em determinadas zonas ao
anúncio do evangelho, especialmente naquelas onde a influência muçulmana era menor. Este era o
momento favorável e providencial para a evangelização do Niassa53.

47
Com a bula Sollemnibus Conventionibus (4-9-1940), a Santa Sé suprimiu a antiga Prelazia Nullius, sufragânea
da Igreja Metropolitana de Goa (Índia), criando a Igreja Metropolitana de Lourenço Marques. Em 18 de Janeiro de
1941, a Santa Sé nomeou D. Teodósio de Gouveia como arcebispo de Lourenço Marques, constituindo-o Administrador
Apostólico das dioceses da Beira e Nampula. Em 21 de Abril de 1941 nomeou D. Sebastião Soares Resende como bispo
da Beira, e em 12 de Maio nomeou D. Teófilo de Andrade como bispo de Nampula.
48
Em 1938, o P.e Sandrone escreveu a D. Teodósio de Gouveia em nome do P.e Barlassina, Superior Geral,
exprimindo-lhe o desejo do Instituto de abrir uma casa em Portugal e solicitando o seu interesse e apoio. Em Portugal,
os missionários destinados ao Niassa podiam estudar a língua e obter um diploma que os habilitasse a trabalhar nas
escolas das missões como professores e como directores. O outro objectivo era o recrutamento de vocações para a vida
religiosa-missionária. Cf. AIMC VIII/7 1938 n. 56: Carta de P.e Victor Sandrone a D. Teodósio Gouveia, Turim, 16-12-
1938.
49
AIMC VIII/7 1940 n. 36: Os Missionários da Consolata no Niassa à luz do Acordo Misionário, Roma, 17-12-
1940.
50
Cf. AIMC VIII/7 1940 n. 36: Carta de P.e João Chiomio a P.e Victor Sandrone: Roma, 17-12-1940.
51
Cf. AIMC X/405 n. 17: Diário da Missão de Mitúcue, 28-2-1945; AIMC VIII/7 1944, n. 4: Carta de
P.e Domingos Ferrero a P.e Gaudêncio Barlassina: Mitúcue, 18-9-1944
52
O P.e Domingos Ferrero (1891-1973) tinha terminado o seu mandato como Vice-Superior Geral do Instituto. A
nova Direcção Geral nomeou-o Superior Delegado dos Missionários da Consolata no Niassa.
53
Os números apresentados exprimiam e confirmavam este progresso. Em 1939 - Padres: 6; Irmãos: 3; Irmãs: 9;
Católicos: 1.580. Em 1940 - Padres: 11; Irmãos: 5; Irmãs: 13; Católicos: 2.326. Cfr. AIMC VIII/7 1940, n.3: Relatório
anexo ao prospecto do estado da Missão do Niassa Português, Massangulo, 30-6-1940.
Em 1941 o P.e Domingos Ferrero transferiu a sua sede da missão de Massangulo para a missão
de Mitúcue, que se tornava assim a nova sede do Superior Delegado. De Mitúcue, missão mais
central, esforçou-se por acompanhar a par e passo a acção apostólica nas várias missões. A presença
do experiente P.e Ferrero no Niassa permitiu reforçar os vínculos de comunhão entre os
missionários presentes em Moçambique e com o Instituto. Com a entrada da Itália na II Guerra
Mundial a comunicação entre Turim e Moçambique tornou-se quase impossível. Através da
correspondência mantida entre o P.e Victor Sandrone, vice-superior geral, e o P.e Ferrero os
missionários do Niassa tomaram conhecimento da difícil situação em que se encontravam muitos
colegas, quer na Europa, presentes no campo de batalha como capelães militares, quer em África,
especialmente no Quénia, onde foram afastados das missões e aprisionados54.

1.4. A chegada de novo pessoal missionário


O desenvolvimento da actividade missionária em Moçambique estava dependente da
chegada de missionários. Entre 1938 a 1939 chegaram ao Niassa sete novos missionários, número
insuficiente para responder às reais necessidades das missões apenas fundadas. A chegada de novos
reforços – P.e Oberto Abondio, P.e Mário Casanova e Ir. Bartolomeu Lorenzzato (Novembro de
1938) e os padres Luís Bosio, Luís Wegher e o Ir. José Benedetto (de regresso depois de três anos
de ausência) e três irmãs da Consolata (Junho de 1939) – permitira a abertura da missão de
Mepanhira (1939) e de Mitúcue (1939). Com guerra já iniciada, no dia 21 de Novembro de 1939,
desembarcava em Porto Amélia o último e precioso reforço missionário: o P.e Domingos Ferrero, o
P.e Guido Gobbo e o Ir. João Arneodo. Acompanhados pelo P.e Quaglia, fizeram uma longa e
atribulada viagem de 800 km, na camioneta Federal, até Massangulo. O P. Ferrero e o Ir. Arneodo
foram para Massangulo, sede do superior delegado, enquanto o P. Gobbo foi colocado na missão de
Mepanhira.
Entre 1940 e 1945 não foi possível a chegada de outros missionários por causa da guerra em
curso. Terminada a guerra a Direcção Geral preocupou-se por enviar de imediato para as missões de
Moçambique um grupo consistente de missionários de modo a reforçar as missões do Niassa e
permitir a abertura de novas missões no Sul do Save (Inhambane e Lourenço Marques). No dia 8 de
Dezembro, na Igreja de S. Alfonso de Turim, 13 missionários destinados a Moçambique receberam
o mandato com a cerimónia da entrega do crucifixo55. Os que iam trabalhar no norte do distrito de
Inhambane – o P.e José Paleari, P.e Alberto Maggiore, P.e Osvaldo Peressini, P.e José Bottacin e
Ir. Ângelo Rota – desembarcaram em Lourenço Marques no dia 1 de Julho de 1946, o resto da
expedição missionária - os padres Mário Bianco, Carlos Lazzaron, Emílio Geromet, Fernando
Stagni, André Salvini, Donato Sergi, Luciano Oggé e Ir. Lourenço Baroffio - seguiu para o Niassa,
chegando à missão de Mitúcue no dia 19 de Junho de 1946. Todos foram recebidos num clima de
grande festa pelos confrades e pela comunidade cristã. Depois de anos de isolamento, os
missionários de Moçambique podiam conhecer de viva voz as consequências nefastas da guerra em
Itália e na Europa. O P.e Ferrero pensava manter o grupo por alguns meses, na missão de Mitúcue,
para lhes facilitar a inserção e o estudo da língua, mas tal não foi possível. A partida do P.e Quaglia
e P.e Tolosano para o Sul do Save criou um vazio que era necessário preencher. Além disso, era
necessário assumir a Missão de S. António de Unango e a recém-criada Missão de S. João de
Marrere (Nampula), pelo que o P.e Ferrero fez algumas transferências. O P.e Oberto Abondio, que
estava em Maúa, regressou a Mepanhira onde substituiu o P.e Gabriel Quaglia. A esta missão foi
destinado o recém-chegado P.e Mário Bianco. Para a missão de Marrere foi enviado o Ir. João
Arneodo, que estava em Mepanhira, e o recém-chegado P.e Luciano Oggé. Os padres Fernando

54
Cf. AIMC VIII/7, 1940, nn. 17, 18, 19, 20: Cartas de P.e Victor Sandrone ao P.e Domingos Ferrero.
55
Cfr. Da Casa Madre, Janeiro, (1/1946) 15.
Stagni, André Salvini e Donato Sergi tomaram posse da missão de Unango, o P.e Carlos Lazzaron e
o Ir. Lourenço Baroffio ficaram em Mitúcue e o P.e Emílio Geromet foi para Maúa56.
No ano seguinte chegou a Moçambique um grupo de 12 missionários. Este precioso reforço iria
consentir a abertura da missão do Txaxe (Niassa) e de Mapinhane (Inhambane). Para as missões do
Niassa foram destinados os padres Camillo Ponteggia, José Valle, Mário Filippi, Adriano Severin e
os irmãos Bartolomeu Peretti, Hugo Versino, Mário Natali e Remo Cardinali e para as missões de
Inhambane os padres Pedro Quaglia e Celestino Blassuto e os irmãos José Eusébio e Sílvio Petris.
Em 1948 chegaram apenas quatro novos missionários - P.e João Vespertini, P.e Fernando Piccolo,
Ir. Bartolomeu Calleris e Ir José Chiappa -, todos destinados a trabalhar nas missões do Instituto no
Sul do Save. Nos anos seguintes a entrada de novos missionários diminuiu significativamente.

1.5. Visita canónica do Superior Geral, P.e Gaudêncio Barlassina


Entre os missionários de Moçambique, sentia-se cada vez mais a necessidade de uma visita do
Superior Geral. Adiada várias vezes, só viria a realizar-se no dia 10 de Outubro de 1948, quando o
P.e Gaudêncio Barlassina chegou a Lourenço Marques. Depois de uma breve visita às missões do
Sul do Save partiu para o Niassa. Durante todo o mês de Dezembro visitou as missões de Mitúcue,
Maúa, Massangulo, Unango, Marrere e Mepanhira, onde assistiu à cerimónia da tomada de hábito
(entrada no noviciado) do primeiro grupo de irmãs diocesanas da Imaculada Conceição, fundadas
pelo P.e Oberto Abondio. Durante este tempo, o P.e Barlassina teve a oportunidade de contactar
com os missionários e comunidades cristãs e inteirar-se, in loco, da evangelização realizada. Deu
conselhos, sugestões e resolveu alguns casos pendentes do pessoal missionário, relações com o
bispo e com as Missionárias da Consolata. Terminada a visita em 30 de Dezembro, o P.e Barlassina
foi com o P.e Ferrero e o Ir. Corrado até Limbe (Niassalândia), onde embarcou num avião para o
Quénia. Esta visita canónica foi a primeira na história dos Missionários da Consolata em
Moçambique e por isso mesmo, um evento relevante, vivido com intensidade.

2. A ACTIVIDADE MISSIONÁRIA DO INSTITUTO EM MOÇAMBIQUE


2.1. Niassa: expansão e consolidação pastoral
O período que vai de 1936 a 1950 foi um período de ouro para a evangelização no Niassa.
Gradualmente, o apostolado intensificava-se em todas as missões. Os missionários continuavam a
visitar as aldeias, fortalecendo as comunidades já existentes e fundando novas escolas-capela.
Estavam optimistas quanto ao futuro do cristianismo no Niassa. Além do trabalho pastoral,
construía-se muito em todas as missões. A formação humana e espiritual dos catequistas foi
intensificada.
Um acontecimento importante foi a criação da diocese de Nampula, em consequência da divisão
eclesiástica da Prelazia de Moçambique. As missões do Niassa, juntamente com as missões do
distrito de Nampula e Cabo delgado, foram integradas na recém-criada diocese de Nampula (4 de
Setembro de 1940)57. No dia 10 de Novembro de 1941 tomou posse o seu primeiro bispo, D.
Teófilo de Andrade, um zelante pastor que tudo fez para promover a acção missionária58.

56
Eis o quadro da distribuição do pessoal missionário do Niassa, em Agosto de 1946: Missão de Massangulo:
P.e P. Calandri (superior), A. Lunati, L. Wegher e Ir. J. Benedetto; Missão de Mepanhira: P.e O. Abondio (superior),
A. Dall'Armi, M. Bianco, Ir. B. Lorenzatto; Missão de Mitúcue: P.e D. Ferrero, L. Bosio (Superior), M. Casanova,
C. Lazzaron, Ir. B. Liberini, C. Maritano, L. Baroffio; Missão de Maúa: P.e G. Gobbo (superior), E. Geromet; Missão
de Unango: P.e F. Stagni (superior), A. Salvini, D. Sergi; Missão de Marrere: P.e L. Oggé (Superior), Ir. J. Arneodo. Cf.
AIMC VIII/7 1946 n. 2: Relatório do 1°semestre: Mitúcue, 6-8-1946.
57
Alguns dados estatísticos referentes à diocese de Nampula no momento da sua criação (1940): Território:
277.980 km2; População: 1.947.836 habitantes; Pessoal missionário: Padres: 42; Clero secular: 9; Sociedade
Missionária Portuguesa: 6; Monfortinos: 16; Consolata: 11. Irmãos: Sociedade Missionária: 6; Monfortinos: 7;
Consolata: 5. Irmãs: Consolata: 27; Vitorianas: 14. Missões-Paróquias: 19.
58
A Santa Sé nomeou como Bispo de Nampula, o Frei Teófilo de Andrade, Superior Provincial dos Franciscanos
da Província Portuguesa. Tinha 60 anos e foi sagrado bispo na Sé de Lisboa a 29 de Junho de 1941. Chegado a
Imediatamente se pôs ao trabalho, seguindo as orientações que recebera de Roma e que a realidade
lhe impunha. Organizou a diocese em arciprestados e confiou cada um deles a uma congregação
missionária. O P.e Domingos Ferrero, superior dos missionários da Consolata, foi nomeado
arcipreste do Niassa59.
A guerra, embora tenha poupado o Niassa, não deixou de afectar indirectamente a acção
missionária. Durante cinco anos não chegaram novos reforços para dar continuidade ao enorme
trabalho pastoral e material iniciado. Os poucos missionários e missionárias estavam
sobrecarregados de compromissos e, consequentemente, cansados.
O ano de 1946 foi assinalado por três acontecimentos importantes: o início da actividade dos
Missionários da Consolata no Sul do Save (diocese de Lourenço Marques); a chegada ao Niassa de
um consistente reforço de missionários com sete padres, um irmão e seis irmãs e a assunção
pastoral de duas missões já fundadas, a Missão de S. António de Unango (Niassa) e a Missão de
S. João Baptista de Marrere (Nampula). Estas novas aberturas sobrecarregaram ainda mais a já
pesada responsabilidade confiada a tão poucos evangelizadores. A área confiada à cura pastoral do
Instituto era enorme. O apostolado era dificultado pelas enormes distâncias entre as povoações e
pela contínua mobilidade da população60.
O Superior Geral, P.e Gaudêncio Barlassina, visitando em 1948 as missões do Niassa constatou
directamente todo este esforço evangelizador realizado pelos missionários e os seus resultados61.

2.1.1. A Missão de Nossa Senhora da Consolata de Massangulo


Apesar das dificuldades experimentadas durante este período, a missão de Massangulo nunca
deixou de ser aquilo que sempre fora: a missão primogénita e a referência do Instituto em
Moçambique. No dia 11 de Agosto de 1936 desembarcavam na Ilha de Moçambique os padres

Nampula, realizou-se logo o acto de posse na pequena capela de Nossa Senhora de Fátima (10-11-1941). Para um maior
conhecimento da pessoa e obra do 1º Bispo de Nampula, ver: C.F. SILVA, Diocese de Nampula e o seu primeiro Bispo
(Braga 1954).
59
Com a provisão de 25 de Março de 1942, D. Teófilo de Andrade reconheceu as divisões territoriais confiadas às
congregações missionárias (Consolata, Monfortinos, Sociedade Missionária) e incrementou a responsabilidade destas na
evangelização dessas áreas, constituindo arciprestados. O território missionário do Niassa passou a chamar-se
Arciprestado dos Padres da Consolata e o P.e Ferrero foi nomeado arcipreste (7/4/1942). Cf. Provisão de 25-3-1942,
em: Boletim da Diocese de Nampula II, n. 2 (1942-43) 55, 112.
60
AIMC VIII/7 1946 n. 2: Relatório sobre o estado das missões no Arciprestado dos Padres da Consolata na
diocese de Nampula, Mitúcue, 18-1-1947.
61
Dados estatísticos referentes às missões do Niassa (1948) que bem documentam o progresso verificado no
campo da evangelização e da promoção humana: Missão de S. José de Mitúcue - padres: M. Casanova (superior),
A. Severin, D. Ferrero; irmãos: B. Liberini, C. Maritano, L. Baroffio; irmãs: Amabile Fagnani, Valeria Melzani,
Alfonsina Della Longa, Marcellina Vuillermin, Fiorenza Maggioni. População: 23.700; pagãos: 17.000; muçulmanos:
5.000; católicos: 1.522; protestantes: 400. Estruturas: internato masculino; internato feminino; oficina mecânica; fábrica
de tijolos e telhas.
Missão do Sagrado Coração de Jesus de Maúa - padres: O. Abondio (superior), C. Lazzaron; irmãos: Remo
Cardinali; irmãs: Onorata Foresti, Daria Pavese, Assuntina Riva, Livia Caffaratti. População: 23.000; católicos: 66.
Estruturas: internato masculino; internato feminino; carpintaria; escolas-capela: 12.
Missão de Santa Teresinha do Menino Jesus de Mepanhira - padres: G. Gobbo (superior), J. Valle, M. Bianco;
irmãos: B. Lorenzatto; irmãs: Generosa Bugatti, Antida Castino, Rosangela Bresciani, Eva Negro, Dolores Cozzi.
População: 26.000; católicos: 3.805; muçulmanos: 500; protestantes: 1.000. Estruturas: internato masculino; internato
feminino; escolas-capela: 45
Missão de São Francisco Xavier de Txaxe - padres: M. Filippi (superior), L. Oggé. População: 8.000; católicos:
96. Estruturas: residência; igreja; internato; escola (todas as construções em pau-a-pique); escolas-capela: 9.
Missão Nossa Senhora da Consolata de Massangulo - padres: P.e Calandri (superior), A. Lunati, L. Wegher,
F. Stagni; irmãos: Giuseppe Benedetto, M. Natali; irmãs: Armida Quaglia, Serena Bresolin, Laurina Carminati, Franca
Cavicchi, Renata Allena, Maria Anunziata. Católicos: 400.
Missão de S. António de Unango - padres: C. Ponteggia (superior), A. Dall'Armi; irmãos: B. Peretti; irmãs:
Leonzia Bernasconi, Sira Vimercati, Gianfranca Rota, Ottaviana Trombetta. Católicos: 531.
Missão de São João Baptista do Marrere - padres: D. Sergi (superior), Geromet, A. Salvini; irmãos: G. Arneodo,
U. Versino. Cf. Distribuizione del Personale Missionario. Mitúcue, 25-11-1948: AIMC IX/5-3, n. 327; Relatório das
Missões do Niassa ao Capítulo Geral de 1949. Mitúcue, 5-9-1949: AIMC V/3, n. 282.
Victor Sandrone e João Tolosano e o Ir. Bartolomeu Liberini e duas missionárias da Consolata:
Irmã Serena Bresolin e Rosangela Bresciani. Alguns dias depois, chegavam à missão de
Massangulo, acompanhados pelo P.e Calandri, o qual partiria para Itália no início de Setembro. A
separação da sua Massangulo foi dolorosa. Esperava voltar, mas isso não aconteceu. Depois de
alguns meses de repouso em Itália, os superiores destinaram-no ao Brasil62.
Com a partida do P.e Calandri o P.e Sandrone assumiu a direcção da missão e começou logo a
actuar um programa pastoral que permitisse um tipo de presença missionária diferente daquela que
era seguida até então. Insistiu sobre a necessidade de se dedicar mais tempo à pastoral directa e
menos aos internatos e à escola. Era pessimista quanto a uma possível abertura do povo ayao ao
Evangelho. Mostrava interesse sobretudo pelo povo anyanja e macúa, mais abertos e menos
islamizados. Propunha por isso a abertura de missões entre estas populações num futuro próximo63.
No dia 6 de Dezembro de 1936 chegaram à Ilha de Moçambique mais reforços para a missão de
Massangulo, os padres Gabriel Quaglia, Aldo Dall'Armi e o Ir. Corrado Maritano. Com a chegada
de mais dois padres o P.e Sandrone começou a sondar o lugar para a abertura de uma nova missão.
As suas visitas aos núcleos de católicos existentes à volta de Mepanhira, no sul do Niassa, foi a
ocasião para concretizar este projecto. No início de 1938 o P.e Sandrone partiu para Itália. Ao P.e
Gabriel Quaglia competia, agora, reger a missão de Massangulo e seguir directamente a
comunidade cristã de Mepanhira. Ele não morria de amores por Massangulo. Não era a missão nem
o trabalho apostólico com que sonhava. Tinha tido algumas dificuldades com os alunos mestiços e
não se sentia vocacionado para trabalhar numa missão que vivia quase para si mesma, com as suas
escolas e colégios. Estava desejoso de abrir outra missão fora do povo ayao. Mepanhira era a
possibilidade mais viável.
Em 1940 regressava a Massangulo o P.e Pedro Calandri, depois de quatro anos de ausência no
Brasil. O retorno do pioneiro da evangelização católica no Niassa era muito desejado e a sua
chegada foi alegremente celebrada. Encontrou a missão um pouco em crise. Com os seus
colaboradores, sobretudo o P.e Angelo Lunati e Luís Wegher, procurou com bom resultado elevar a
“sua” missão, a qual ganhou novo dinamismo. Surgiram, contudo, desarmonias com o Superior
Delegado, o P.e Domingos Ferrero. Este queria controlar as actividades da missão, o que bloqueava
as iniciativas do P.e Calandri, superior local, para relançar a missão depois dos anos de crise vividos
durante a sua ausência (1936-1940). Com a transferência do P.e Ferrero para a missão de Mitúcue,
nova sede do superior delegado, a crise foi superada. Continuou porém a haver alguma tensão entre
os dois missionários, o que contribuiu em parte para o isolamento da missão. A missão de
Massangulo consolidou-se sobretudo no sector escolar.
Um acontecimento trágico ensombrou a missão durante este período, foi a morte da Ir. Noemi
Fantin (31/1/1942)64.

2.1.2. A Missão de Santa Teresinha do Menino Jesus de Mepanhira (1938)


2.1.2.1. As origens: os evangelizados tornaram-se evangelizadores (1927-1936)
Na origem da Igreja Católica no sul do Niassa está a acção apostólica de um grupo de
catecúmenos-catequistas emigrados na Niassalândia (actual Malawi), entre os quais emerge João
Baptista Txipinenga. Em 1925, este senhor originário de Mepanhira foi visitar os seus familiares, já
católicos, que moravam nas proximidades da Missão de S. José de Nguludi, perto de Blantyre
(Niassalândia). Na casa dos familiares tomou contacto com o catecismo usado para a instrução dos
catecúmenos. As imagens e o conteúdo do mesmo despertaram-lhe grande interesse. Levou um
exemplar consigo no regresso à sua aldeia de Mpopo, perto de Mepanhira. Chegado aí, começou a

62
Cf. L. WEGHER, Un uomo e la sua missione: Padre Pietro Calandri (Lichinga 1985) 167-168.
63
Cf. AIMC, VIII/7, 1936, n.8, Carta do P.e Victor Sandrone ao P.e Gaudêncio Barlassina, Massangulo, 10-10-
1936.
64
No dia 31 de Janeiro de 1942, depois de um longo sofrimento, faleceu na missão de Massangulo a Ir. Noemi
Fantin. Tinha 36 anos. Foi a primeira missionária da Consolata a falecer no Niassa. Cf. AIMC VIII/7 1942, n. 6: Carta
de P.e Domingos Ferrero a P.e Gaudêncio Barlassina, Mitúcue, 5-3-1942.
ler e a mostrar o catecismo a amigos e conhecidos. Visto que a nova religião suscitava interesse,
voltou mais tarde à Niassalândia para contactar com os missionários. Em 1927, apresentava-se aos
padres monfortinos da missão de Nguludi como vindo da terra da "Companhia" (Companhia do
algodão), que na boca dos macúas se tinha transformado em Mepanhira, do outro lado do Lago
Chirua65. O superior da missão interessou-se por conhecer a sua história pessoal, não perdendo a
ocasião de começar a instruí-lo na doutrina cristã. Ele passou a ser conhecido pelo catecúmeno de
Mepanhira. Regressou depois à aldeia de Mpopo, levando consigo alguns catecismos, uma medalha
e um grande crucifixo para a reunião dos catecúmenos. Começou logo a reunir à sua volta um grupo
de simpatizantes. Cada sete dias tocava a "Nipenka" (corneta indígena) e todos se lembravam que
era o "Namurungu" (Dia do Senhor). Na varanda da sua casa tinha fixado o crucifixo, e aí reunia os
catecúmenos. Nestas reuniões lia-se o catecismo e o Evangelho, rezavam-se orações e cantava-se.
Em 1929, com a criação da missão de Palombe, próxima da fronteira com Moçambique, os
contactos do catecúmeno de Mepanhira com os missionários tornavam-se mais frequentes. Na
missão de Palombe, Txipinenga encontrou no P.e Armando Michaud um interlocutor e animador.
Entretanto, continuou a sua preparação para o Baptismo e recebia conselhos sobre o modo como
instruir o grupo de catecúmenos que catequizava na região de Mepanhira, assim como instruções
para baptizar as crianças e os adultos em perigo de vida.
Na Páscoa de 1932, recebeu finalmente o baptismo. Foi-lhe dado o nome de João Baptista,
porque tinha sido o precursor de Jesus Cristo entre os macúas do Niassa. Com ele, foram baptizados
a sua esposa Teresa, os seus filhos Francisco e Maria e 30 catecúmenos de Mepanhira. Fortificado
pelo Baptismo e encorajado pelos missionários, João Baptista Txipinenga, com alguns colegas já
cristãos, começou a visitar as aldeias próximas para aí anunciar o Evangelho.
Em 1933 construía-se a primeira capela em Mpopo. Em Outubro desse ano o P.e A. Michaud da
missão de Palombe visitou pela primeira vez os cristãos de Mepanhira e celebrou a primeira missa
em Mpopo. Em 1934, o P.e Michaud visitou novamente os núcleos de cristãos que se formavam nas
várias aldeias. Visitou as capelas de Cuvinhe, Ciamba, Messossomera, Sale, Curea e Muheya.
Encontrou, nessas capelas, catecúmenos vindos até de Mutuali e Malema (actual província de
Nampula).
Em Outubro de 1936 o P.e A. Michaud encontrou-se em Limbe (sede do Vicariato do
Shire/Niassalândia), com o P.e Victor Sandrone, superior da missão de Massangulo, Como as
autoridades portuguesas não viam com bons olhos que padres estrangeiros entrassem em território
moçambicano para dar assistência religiosa aos católicos, o P.e Michaud pediu ao P.e Sandrone que
os missionários da Consolata acompanhassem esta cristandade a partir de Massangulo. Em seguida,
o P.e Michaud chamou o catequista João Txipinenga e pediu-lhe que fosse à missão de Massangulo
contactar os missionários. Entregou-lhe cartas de recomendação para o chefe do posto
administrativo de Mecanhelas e para o P.e Sandrone. Explicou-lhe que, a partir de então, os
missionários da Consolata eram os responsáveis pelos católicos de Mepanhira. João Txipinenga
partiu para Massangulo para se apresentar aos missionários e combinar com eles a forma e a data da
sua visita a Mepanhira. Manifestou, igualmente, o desejo dos católicos de Mepanhira em terem os
missionários definitivamente na sua terra. Convidou o P.e Sandrone, superior da missão, a visitá-los
e a passar o Natal com eles. A festa do Natal estava próxima e o missionário não pôde satisfazer o
pedido do catequista Txipinenga. Contudo, a sua viagem não foi inútil, pois o missionário em breve
iria visitá-los.

2.1.2.2. Os preparativos para a fundação da missão (1937-1938)


No dia 7 de Janeiro de 1937 o P.e Sandrone chegou a Mpopo onde estava situada a capela
central. Permaneceu três semanas na região, visitando algumas das 20 capelas já existentes. Teve a
oportunidade de encontrar uma comunidade cristã formada por 400 baptizados e cerca de 2000

65
A evangelização católica da região sul do actual Malawi foi iniciada em 1901 pelos Padres Monfortinos. Para
um maior conhecimento da história da evangelização e método missionário, ver: H. REIJNAERTS-A. NIELSEN-M.
SCHOFFELLEERS, Monfortians in Malawi. Ther spirituality and pastoral approach (Blantyre 1997).
catecúmenos. Entretanto, o missionário ia sondando qual o local mais propício para fundar a
missão. A sua atenção recaiu sobre Mepanhira. O próprio João Baptista Txipinenga tinha a certeza
que os Missionários da Consolata se estabeleceriam ali, no sopé dos montes Ikuru e Mikoko, não
muito distantes da estrada que ligava o posto administrativo de Mecanhelas (Niassa) ao posto
administrativo de Molumbo (Zambézia). O clima era ameno e a terra fértil66. Feitas as despedidas, o
missionário partiu para Massangulo contente. O ambiente vivido dava as melhores esperanças para
o desenvolvimento de uma cristandade numerosa e viva. O território era bastante povoado e a
população ainda não tinha recebido o influxo islâmico. A seara já estava preparada e as perspectivas
de uma boa colheita eram certas.
Na Páscoa, o P. Sandrone efectuou uma segunda visita à região de Mepanhira, passando desta
vez pela localidade de Curea. Esta visita foi um sucesso, tanto que o missionário regressou a
Massangulo ainda mais animado. Contudo, não teve o privilégio de fundar a nova missão de
Mepanhira. De facto, poucos meses depois foi transferido para Itália, tendo ficado o P.e Gabriel
Quaglia como superior. Antes de partir, visitou pela última vez a comunidade cristã de Mepanhira.
Com eles passou o Natal, tendo baptizado 120 catecúmenos.
Ao P.e Gabriel Quaglia competia, agora, seguir directamente a comunidade cristã de Mepanhira.
Em finais de Abril de 1938 visitou pela primeira vez os cristãos de Mepanhira. A recepção foi
festiva. Lá estavam João Txipinenga e Miguel Misissi e os outros catequistas com um grande grupo
de cristãos e catecúmenos. Depois desta primeira visita voltou a Massangulo determinado a fundar a
missão de Mepanhira. Faltava apenas a autorização explícita do Bispo, a qual chegou algum tempo
depois. Em Agosto o P.e Quaglia visitou de novo a comunidade de Mepanhira para comunicar aos
cristãos que brevemente a missão seria aberta. Confirmou o lugar para a implantação da missão, já
indicado pelo P.e Sandrone. No local, existira outrora uma plantação de tabaco de um colono
alemão, com algumas construções. Com o auxílio dos cristãos deu-se início aos trabalhos de
reabilitação, recuperando os armazéns de secagem do tabaco e adaptando-os como estruturas
provisórias da missão.
No fim de Setembro, o P.e Quaglia visitou novamente a região. Foi uma longa viagem apostólica
que lhe permitiu conhecer grande parte das escolas-capela do Lúrio e de Mecanhelas. No dia 15 de
Outubro reuniu-se com todos os catequistas da região em conselho, num total de 27. Discutiram
vários assuntos referentes ao funcionamento das escolas e da catequese. No dia seguinte,
acompanhado pelo catequista João Txipinenga, prosseguiu a sua visita às escolas-capela das
redondezas. Depois disso, o P.e Quaglia regressou a Massangulo. Na visita seguinte regressaria a
Mepanhira já com o pessoal missionário, para dar início à nova missão.

2.1.2.3. O desenvolvimento da actividade missionária (1938-1950)


O P.e Gabriel Quaglia escolheu dois missionários para, juntos com ele, fundarem a Missão de
Santa Teresinha do Menino Jesus de Mepanhira: o P.e Aldo Dall'Armi, que tinha chegado em 1937
e o recém-chegado P.e Oberto Abondio. No dia 24 de Novembro de 1938 os pioneiros partiram
para Mepanhira, na companhia do P.e João Tolosano e do Ir. Corrado Maritano, via Niassalândia
(Malawi). O camião ía carregado com tudo o que era essencial para iniciar a missão: ferramentas,
móveis, víveres, etc. Chegaram à terra prometida na noite do dia 26 de Novembro. Não obstante a
escuridão, o acolhimento foi festivo. A alegria era imensa. Finalmente, os missionários tinham
chegado para ficar.
No dia seguinte, Domingo, verificou-se uma grande afluência de gente. Queriam conhecer os
novos padres. Chegaram, também, as escolas de Lioma, Mpopo, Tambera, Linguni e Cuvinhe com
presentes para dar as boas-vindas aos missionários67. Começaram com entusiasmo as várias
actividades: delimitação do terreno, construções, horta, pomar, etc. No dia 18 de Dezembro
celebrou-se a primeira missa solene na missão. Participaram cerca de 250 católicos. A igreja, ainda

66
Cf. V. SANDRONE, "La missione del Niassa Portoghese": Missioni Consolata (1/1939) 6.
67
Cfr. AIMC X/411 n.6: Diário da Missão de Mepanhira, 26-11-1938.
não concluída, já era pequena para tanta gente. Após a celebração seguiu-se a catequese, deixando o
terço e a bênção do Santíssimo para a tarde. No dia seguinte chegaram os catecúmenos das várias
escolas para os escrutínios. Depois dos exames, cada um recebeu a sua medalha. O Natal estava à
porta. No dia 23, numa solene eucaristia, foram baptizados 230 adultos em dois turnos. No dia 24,
celebraram-se 25 matrimónios, e à tarde foram baptizadas 40 crianças68. O dia de Natal foi solene.
Houve três missas com muita afluência de fiéis.
Os missionários estavam contentes. A resposta da população à proposta evangélica feita pelos
catequistas nas várias aldeias era positiva. As suas 50 escolas-capela, exigiam agora uma atenção
pastoral que mantinha os missionários num trabalho constante de acompanhamento e animação das
mesmas. Empenharam-se de imediato no apostolado missionário directo, visitando com frequência
as capelas, os doentes e moribundos.
Desde a fundação da missão que se sentia a necessidade da presença de irmãs,
particularmente no sector da promoção humana. No dia 26 de Julho de 1939, chegavam a
Mepanhira as primeiras Missionárias da Consolata: Ir. Amabile Fagnani, Ir. Antida Castino, Ir.
Speranza Longhi e Ir. Rosangela Bresciani. Foram recebidas num clima de grande festa pelos
cristãos e catecúmenos que acorreram das escolas-capela da zona para ver as tão desejadas
Avirgo69. De imediato, encarregaram-se dos doentes, fazendo tratamentos no ambulatório da missão
e nas suas próprias casas, durante as visitas às aldeias. Dedicavam-se igualmente à educação das
jovens e das mulheres.
No dia 11 de Novembro de 1939 D. Teodósio de Gouveia visitou a missão de Mepanhira
tendo administrado o sacramento do crisma a 400 cristãos. Dois anos depois, um novo pastor,
D. Teófilo de Andrade, nomeado primeiro bispo de Nampula, em 19 de Junho de 1941 visitou a
missão de Mepanhira. Nesta ocasião, durante uma solene celebração, D. Teófilo administrou o
sacramento do crisma a um numeroso grupo de cristãos. A missão de Mepanhira recebeu outras
visitas ilustres. No dia 23 de Junho 1945 foi a vez do Bispo da Beira, D. Sebastião Soares Resende.
Em visita pastoral à parte norte da sua diocese (no território da actual Diocese de Gurue),
aproveitou a ocasião para se deslocar a Mepanhira. Antes da divisão da Prelazia de Moçambique em
dioceses, a missão de Mepanhira tinha aberto algumas escolas-capela para além do Lúrio. Com a
criação da diocese da Beira estas comunidades ficaram no território desta diocese. Porém, os padres
de Mepanhira continuavam a ser os responsáveis pelo acompanhamento destas comunidades até à
fundação da missão da Santa Cruz de Molumbo. Nesta visita, o bispo manifestou o seu apreço pelo
trabalho missionário aí realizado70.

2.1.3. A Missão de S. José de Mitúcue (1939)


2.1.3.1. Nova abertura missionária na região de Cuamba
O P.e Gabriel Quaglia, desde a sua chegada ao Niassa, via a utilidade de abrir uma missão no
centro do triângulo Massangulo - Mepanhira - Maúa. Durante as viagens apostólicas, o seu olhar
fixou-se no monte Mitúcue, perto do qual se situava a localidade de Cuamba. Era um lugar
estratégico, central em relação às missões de Mepanhira e Massangulo e mais próximo do litoral. A
intenção era fazer com que a futura missão se tornasse um centro de apoio às outras missões e um
pólo de irradiação missionária na povoada região, atravessada pelos rios Lúrio e Luleyo.
A nova fundação tinha sido autorizada pelo Bispo em 1938 mas o seu início teve que ser adiado
à espera que viessem outros missionários de Itália. Entretanto o P.e Quaglia, enquanto
acompanhava os padres Abondio e Dell'Armi na fundação de Mepanhira, estabeleceu contactos
com as autoridades administrativas e procurou um local para a implantação da missão. Com a
chegada ao Niassa de um novo grupo de missionários, em Abril de 1939, foi possível efectuar esta

68
Cfr. AIMC X/411 n.6: Diário da Missão de Mepanhira, 25-12-1938.
69
Cf. AIMC X/411 n.6: Diário da Missão de Mepanhira: 26/7/1939.
70
O bispo da Beira deixou escrito no diário da Missão de Mepanhira: Visitei esta missão em 23-24 de Junho de
1945. Encontrei aqui imensa satisfação, beleza natural e artística, alegria e piedade, espírito missionário na sua
genuína pureza. AIMC X/ 411 n. 6: Diário da Missão de Mepanhira, 24-6-1945.
nova abertura. Foram escolhidos para tal tarefa o recém-chegado P.e Luís Bosio e o P.e Mário
Casanova.
Na madrugada de 31 de Julho, os padres Bosio e Casanova, acompanhados pelo P.e Quaglia,
partiram da missão de Mepanhira para iniciar a nova fundação. Ao meio dia chegaram a Cuamba e,
depois de uma breve pausa, percorreram os 18 Km que os separavam de Murusso, o local provisório
escolhido para a nova missão. Foram recebidos festivamente pelo catequista Miguel Misissi que,
com alguns cristãos de Mepanhira, tinha chegado alguns dias antes, para preparar a casa onde os
missionários se instalariam. O catequista Miguel não voltou mais para Mepanhira, ficando ao
serviço da nova missão da qual se tornará uma robusta coluna. Depois da oração de agradecimento,
realizaram uma breve inspecção ao lugar. No dia seguinte celebraram a primeira missa. Logo após,
concluíram a construção da residência-palhota. Uma divisão da casa foi transformada em capela, na
qual sobressaía o quadro de S. José, padroeiro da missão. Instalaram as coisas mais urgentes: portas,
janelas e camas; a cozinha seria, por agora, ao ar livre.
O local e a casa de Murusso eram provisórios. O projecto inicial de instalar a missão no sopé do
monte Mitúcue, a 2 km de distância de Murusso, só não se concretizou devido ao obstáculo natural
que impedia o acesso: o rio Mwanda. Era necessário construir uma ponte, mas faltavam os recursos
económicos e os meios técnicos. Era preciso esperar por melhores dias.
A vida quotidiana era uma contínua e intensa preparação para uma acção apostólica fecunda. Os
missionários esforçavam-se por aprender a língua macúa, para melhor contactar com a população e
explorar a região.

2.1.3.2. Os primeiros contactos com a população local


Os primeiros contactos com a população do Murusso tiveram início imediato, todavia a recepção
inicial foi pouco calorosa devido ao facto que esta era maioritariamente muçulmana. Logo se
convenceram que, para ganhar a sua confiança, seriam necessários frequentes contactos e, antes de
mais, muita caridade. Deste modo, intensificaram as visitas, contactando os chefes e as suas gentes.
Na festa da Assunção, na qual participaram os trabalhadores e algumas crianças da aldeia
vizinha, Jesus eucarístico foi colocado no tabernáculo da capela. Nesse mesmo dia apresentou-se
um grupo de jovens recém-chegados da Niassalândia, onde tinham frequentado o catecumenado.
Tendo sabido que os missionários se tinham instalado no Murusso decidiram visitá-los e
manifestar-lhes o desejo de continuar a sua preparação para o Baptismo.
Delineava-se pouco a pouco a actividade pastoral. Os cristãos e os catecúmenos das escolas-
capela de Rapela, Cociwa, Curea, Muheya, Cumare, Muaquiua, Cuamanhira, dependentes da
missão de Mepanhira e agora cedidas à missão de Mitúcue, começavam a frequentar Murusso. No
dia 28 de Setembro, o P.e Quaglia e o P.e Bosio iniciavam a primeira viagem apostólica, visitando a
zona nordeste do monte Mitúcue. Acompanhados pelo catequista Miguel, partiram rumo a
Mwetetere, zona muito povoada. Os missionários constataram com grande alegria que o Evangelho
os tinha precedido através do testemunho de um cristão autóctone, chamado Paulo, baptizado na
Rodésia. A chegada destes foi anunciada pelo toque da nipenka (corneta indígena), ao som da qual a
população acorreu para cumprimentar as ilustres visitas. Depois das devidas saudações, os
missionários entraram na palhota que servia de capela. Uma mesa de terra batida servia de altar, na
parede estava afixado o quadro de S. Miguel Arcanjo, padroeiro da incipiente comunidade. As
paredes estavam decoradas com pinturas rudimentares71.
No dia seguinte, o P.e Bosio visitou a zona de Mwetetere, enquanto o P.e Quaglia prosseguia
viagem até à aldeia de Mukatare. Ali encontrou 15 catecúmenos guiados por um jovem catequista,
também ele catecúmeno, que tivera os primeiros contactos com a Igreja Católica na Niassalândia.
Como em outros lugares, o cristianismo nascia espontaneamente. O P.e Quaglia encorajou o
trabalho apostólico deste jovem catequista, aconselhando-o a terminar a sua preparação, para assim

71
Cf. AIMC, XIII, 629: L. BOSIO, Vida de acampamento. Notas de diário.
receber o baptismo. Alguns dias depois os missionários regressaram à missão, contentes com tudo o
que viram e confiantes quanto à adesão da população ao Evangelho.
Em Outubro iniciava-se a escola na missão. O primeiro grupo de alunos incluía 14 rapazes das
redondezas de Murusso, que começaram a aprender a ler e a escrever com o professor Romildo
Zama, um jovem formado na missão de Massangulo. O interesse suscitado pela escola superou as
expectativas dos missionários, que temiam que os pais impedissem os rapazes de a frequentar, o que
não aconteceu. O programa de estudo era integral - aprendizagem da língua portuguesa, leitura e
escrita, ginástica, canto e trabalho – com um horário bastante exigente.
No dia 10 de Novembro, D. Teodósio de Gouveia, de viagem para Mepanhira, visitou a nascente
missão. No regresso, passou novamente por Murusso e administrou o crisma a cinco cristãos, tendo
encorajado os missionários a continuarem com entusiasmo o seu empenho apostólico.
Pelo Natal realizou-se o primeiro “msunkano” (encontro de oração e formação) na missão. Na
véspera construíram-se algumas palhotas para albergar cristãos e catecúmenos. No dia 23, pela
madrugada, chegavam os primeiros vindos da capela de Muheya, seguidos, durante o dia, pelos
cristãos e catecúmenos das capelas de Mukatare, Mwitetere, Rapela e Curea. O clima era festivo.
Entre cristãos e catecúmenos eram cerca de 200 pessoas. No dia seguinte procedeu-se à
apresentação e ao registo dos candidatos ao baptismo. A selecção destes baseou-se em duas
condições: dois anos de preparação e o conhecimento, com a relativa explicação, do catecismo.
Depois do exame foram admitidos 47 catecúmenos ao baptismo. À tarde os catequistas deram as
últimas instruções aos catecúmenos e celebraram-se os baptismos. A vigília festejou-se ao som de
cânticos e orações. No dia de Natal foram abençoados 17 matrimónios. Após o almoço os cristãos
partiram para as suas casas72.

2.1.3.3. A transferência da missão do Murusso para Mitúcue


Concebida como provisória a sede da missão no Murusso, tornava-se necessário transferi-la para
a margem esquerda do rio Mwanda. O novo local, no sopé do monte Mitúcue, foi sugerido pelo
administrador de Cuamba e no dia 27 de Março de 1940, o P.e Bosio e o catequista Miguel partiram
com um grupo de trabalhadores para o lugar. Aí, celebrou-se a primeira missa e iniciaram-se os
trabalhos de construção da primeira casa provisória. A transferência definitiva para a nova sede
efectuou-se no dia 5 de Maio. Depois de três horas de viagem, os padres Bosio, Casanova e Ferrero,
chegaram ao local. Ao meio-dia colocavam num trono a imagem de S. José, trazida da capela de
Murusso. Apesar da chuva, os trabalhos de construção da casa provisória não abrandaram neste
dia73. A pouco e pouco construíram-se as estruturas essenciais para o funcionamento da missão.
As Missionárias da Consolata fixaram-se na missão de Mitúcue no dia 21 de Julho 1941 onde
prestavam um notável serviço pastoral. A primeira comunidade era formada por quatro irmãs:
Emma Rinaudo, Valeria Melzani, Onorata Foresti e Assuntina Riva74.

2.1.3.4. O desenvolvimento da actividade missionária (1941-1950)


No sopé do monte, a missão de Mitúcue passou a ser o centro religioso-educativo de um vasto
território, habitado por cerca de 30.000 pessoas. Confinando a norte com a missão de Maúa,
entretanto fundada (a 12 de Agosto de 1940), a noroeste com a missão de Massangulo e a sul com a
missão de Mepanhira, a missão de S. José tornou-se, por isso mesmo, central. Por essa razão

72
Cf. AIMC X /405, n.17: Diário da Missão de Mitúcue, pp.7-8.
73
Cf. AIMC X/405 n. 17: Diário da Missão de Mitúcue, p.16.
74
Em seguida a comunidade das missionárias foi enriquecida com a chegada da Ir. Speranza Longhi, que viria a
falecer em 1945.A morte da Ir. Speranza foi muito sentida. Tinha chegado ao Niassa em 1939 e em Mepanhira tinha
emitido a sua profissão perpétua. Um ataque de febre emoglobinúrica levou-a em poucos dias à morte. Faleceu no dia
24 de Junho e foi sepultada no cemitério da missão de Mitúcue. Cf. AIMC X/405 1945 n.1: Lutto missionario alla
Stazione di S. Giuseppe di Mitúcue, p. 2.
tornou-se, como já vimos, a sede do superior delegado dos Missionários da Consolata (P.e
Domingos Ferrero) e da superiora delegada das Missionárias da Consolata (Ir. Emma Rinaudo).
No território confiado aos missionários de Mitúcue existiam uma centena de aldeias, a maior
parte das quais concentradas nas margens dos rios Lúrio, Mwanda, Luleyo e Mpopola, e
subdivididas em três grandes regulados - Matias, Cuamba e Muikuna. Do ponto de vista pastoral-
missionário, o território da missão era constituído por três zonas distintas com características
próprias: 1) zona sul (Lúrio): que pertencia anteriormente à missão de Mepanhira e passou a
depender de Mitúcue, bem como as sete escolas-capela aí existentes; 2) zona nordeste (Luleyo):
onde já existiam alguns núcleos de catecúmenos em Mwetetere, Mukatare e Nesara; 3) zona oeste:
região pouco povoada, em que as aldeias eram dispersas, concentrando-se nas proximidades do
Lago Amaramba. A influência muçulmana era forte e só mais tarde os missionários visitariam estas
aldeias e fundariam as primeiras escolas-capela.
Para conhecer a região oeste e determinar os limites entre a missão de Mitúcue e a missão de
Mepanhira, o P.e Luís Bosio, superior da missão de Mitúcue, efectuou com o P.e Oberto Abondio,
superior da missão de Mepanhira, uma viagem de reconhecimento na região do Lago Amaramba. A
viagem tinha como finalidade contactar aldeias ainda não visitadas, estudar a possibilidade de
fundar novas escolas-capelas e demarcar os limites entre as duas missões. Partiram de Mitúcue no
dia 3 de Novembro de 1942, acompanhados pelo catequista Miguel de Mitúcue e por um grupo de
carregadores, em direcção noroeste. Passaram pelas povoações dos chefes Macawe, Napita,
Mongora, Mpomola, Nansya, Msimburaghe e depois de alguns dias chegaram finalmente às
margens do Lago Amaramba. Dali seguiram viagem para sul em direcção ao Lago Chiuta, passando
pelas aldeias dos chefes Ciwaia e Abudu. Em Chiuta, estabeleceram que o limite entre a missão de
Mepanhira e de Mitúcue passava por este lugar. Nas aldeias percorridas, os missionários visitaram
as famílias e consultaram os chefes sobre a possibilidade de abrir escolas nas suas povoações, mas a
adesão foi fraca pois a maior parte da população era muçulmana.
Terminada a visita, a comitiva separou-se e enquanto o P.e Abondio regressava a Mepanhira, o
P.e Bosio voltava para Mitúcue percorrendo outro itinerário. Passou pelas aldeias dos chefes
Mopiha, onde foi bem acolhido, Muela e por fim chegou à estrada Mecanhelas-Cuamba. Passou por
Mepesseni, onde já funcionava uma escola-capela e chegou finalmente a Mitúcue. Durante 15 dias
os padres Bosio e Abondio percorreram um longo itinerário com cerca de 250 km que os levou a
visitar pela primeira vez a zona noroeste das respectivas missões. Uma região profundamente
islamizada, nomeadamente algumas aldeias da região do Lago Amaramba e Chiuta. Foram poucos
os chefes que acolheram com agrado a proposta da criação de escolas para os seus súbditos75.
Todavia, esta viagem foi importante porque, além de contribuir para delimitar os confins entre as
duas missões, abriu uma nova fronteira de evangelização, numa zona fortemente islamizada.
A actividade missionária era acompanhada pela construção das estruturas necessárias à
consolidação da missão. Neste sentido, Mitúcue teve a honra de possuir a primeira igreja em
alvenaria do Niassa. Depois de longos meses de trabalho, a obra iniciada em Outubro de 1943, foi
consagrada no dia 8 de Setembro de 1945 por D. Teófilo de Andrade. Construída com sacrifício
devido à falta de mão-de-obra e de material, o novo templo dedicado a S. José, que imitava o estilo
românico, permitia acolher de modo condigno o Senhor e o seu rebanho. O principal artífice da
construção foi o Ir. Bartolomeu Liberini.
Em 1947 a missão de Mitúcue viu-se privada do P.e Luís Bosio, fundador e superior da missão,
destinado a Portugal para director do seminário da Consolata de Fátima. Não foi fácil para o P.e
Bosio deixar Mitúcue depois de anos de intenso trabalho, mas, por obediência, aceitou a vontade
dos superiores. No dia 25 de Setembro 1947 celebrou a última missa na missão rodeado pelos
alunos, catequistas e fiéis vindos das várias capelas. Depois da missa, despede-se com saudade da
sua missão, à qual nunca mais regressará76.

75
O P.e Luís Bosio escreveu o diário desta visita apostólica. Cfr. L. BOSIO, "Da Cuamba al Lago Amaramba",
Missioni Consolata n.20 (1947) 191-193; n.22 (1947) 223-224; n.23 (1947) 242-245.
76
Cf. AIMC VII/1263, n. 34: L. BOSIO, Dalla Missione di S. José de Mitúcue (Niassa) à Cidade Eterna.
2.1.4. A Missão do Sagrado Coração de Jesus de Maúa (1940)
No dia 11 de Julho de 1940, o P.e Gabriel Quaglia e o Ir. Bartolomeu Liberini partiram para
Maúa, para dar início à fundação da missão do Sagrado Coração de Jesus. Instalaram-se
provisoriamente numa casa na sede de Maúa e começaram a percorrer a zona à procura do lugar
indicado onde implantar a missão. Num encontro com o gerente local da Sociedade Algodoeira
(Sagal), este sugeriu-lhes o monte Mukopo, situado a 12 km da sede, como ideal para a fundação.
No dia 15 de Julho visitaram, in loco, o sopé do Mukopo. Puderam verificar com os próprios olhos
que tinham sido bem aconselhados. Os riachos Namikopo e Namissoro asseguravam água suficiente
para as necessidades da missão e a terra apresentava-se fértil. Regressando a Maúa, comunicaram
ao régulo a intenção de fundar uma missão na sua terra. Este acolheu com interesse o projecto dos
missionários e visitou com eles o lugar escolhido. No dia 23 de Julho deixaram Maúa e dirigiram-se
para o sopé do Monte Mukopo, dando início à construção das primeiras palhotas.
No dia 5 de Agosto o P.e João Tolosano, que até então tinha trabalhado em Massangulo, foi
enviado para Maúa como superior da missão e o Ir. Bartolomeu Liberini foi destinado a Mitúcue,
para acompanhar os trabalhos de construção das estruturas da missão. Os padres Quaglia e
Tolosano começaram a visitar as aldeias da região, tentando dar início às primeiras escolas. Na
missão, iniciou-se de imediato a escola, frequentada por 20 alunos.
O local escolhido para a missão era óptimo, mas, em comparação com Mepanhira e Mitúcue,
apresentava maiores dificuldades no apostolado. Enquanto na área destas duas missões tinha havido
uma pré-evangelização, consequência dos contactos da população com as missões de Niassalândia
(Malawi) e do apostolado de alguns neófitos, nesta região de Maúa o influxo cristão era nulo. Além
disso, a influência muçulmana era mais forte entre a população77.

2.1.5. A Missão de S. Francisco Xavier de Txaxe/Maiaca (1947)


A partir de 1943 começaram a dar-se os primeiros passos em vista da fundação de uma missão
intermédia entre Mitúcue e Maúa. Nesse ano o P.e Mário Casanova efectuou uma viagem de
exploração até Mpwera, extremo nordeste da missão de Mitúcue. Esta região era muito povoada e
distante. Havia condições necessárias para fundar uma missão na proximidade do Rio Massekesi, a
meio caminho entre Mitúcue e Maúa. Com esse fim o P.e Casanova efectuou uma nova viagem
exploratória. No dia 19 de Julho de 1944, viajou de camioneta até ao Rio Masekesi, percorrendo a
região até então desconhecida dos missionários e dirigindo-se para o sopé do Monte Txaxe. Durante
o percurso encontrou algumas aldeias. Contactando a população apercebeu-se que esta era
maioritariamente pagã, mas a influência muçulmana também era forte. Sondou os chefes das aldeias
sobre a possibilidade de abrir escolas e a resposta recebida foi positiva. O objectivo era o Monte
Txaxe (1300m), situado no centro de toda a região. Aí chegado, encontrou as ruínas da casa de um
alemão já morto que tivera ali uma plantação de tabaco, e os vestígios de algumas aldeias,
entretanto desaparecidas. O lugar era óptimo, mas a população escasseava.
No fim do ano, o P.e Casanova, acompanhado pelo Ir. Corrado, visitou pela segunda vez a zona.
Certificou-se mais uma vez de que aquele lugar tinha algumas das condições ideais para instalar
uma missão. A água corria em abundância mesmo na época seca e o terreno apresentava-se óptimo
para a agricultura. O problema era o povoamento escasso e disperso. De facto, as aldeias mais
próximas situavam-se a duas ou três horas de caminho a pé. No dia 2 de Dezembro voltavam
apressadamente a Mitúcue. Pesados os prós e os contras, a fundação no Txaxe foi decidida.
Após o reconhecimento, o P.e Domingos Ferrero informou o bispo de Nampula, enviando-lhe
um relatório da visita e um mapa provisório do terreno da futura missão. De imediato, D. Teófilo de
Andrade começou a fazer diligências junto do Governo da colónia para obter a concessão do
terreno.

77
Cf. AIMC VIII/7 1940, n. 35: A Missão do Niassa Português. Relatório semestral (1/8/-31/12/1940),
Massangulo 31/12/1940.
Em 1947 o P.e Mário Casanova e o recém-chegado P.e Mário Filippi foram incumbidos de
fundar a nova missão. Feitos os preparativos para a viagem, partiram em direcção ao Txaxe,
passando por Mwetetere, Mukatare, Nesara e Mpwera. No dia 31 de Maio de 1947, festa da SS.
Trindade, chegaram ao Txaxe e instalaram-se provisoriamente numa gruta78. No dia seguinte,
acompanhados pelo grupo de cristãos de Mukatare, Nesara e Mukupira, celebraram a primeira
missa em honra de S. Francisco Xavier, padroeiro da nova missão. Em seguida, ajudados pelos
cristãos, começaram os primeiros trabalhos de instalação. Entretanto, o estado de saúde do
P.e Filippi deteriorou-se com uma forte malária que o obrigou a ficar de cama alguns dias. Em sua
substituição, assumiu os trabalhos o P.e Casanova, que foi por sua vez substituído alguns dias
depois pelo Ir. Bartolomeu Liberini.

2.1.6. A Missão de S. António de Unango


Com a atribuição da Missão de S. António de Unango, em 31 de Julho de 1946, ao cuidado
pastoral dos Missionários da Consolata, a evangelização do Niassa ficava à completa
responsabilidade do Instituto. Esta missão, situada a 1200 m acima do nível do mar, distava 120 km
de Massangulo, a noroeste, e 360 km de Mitúcue. Tinha uma área de jurisdição de 25.000 Km2 e era
habitada por 44.000 pessoas. Os católicos eram poucos, cerca de 200 baptizados. A população era,
na sua grande maioria, muçulmana (30.500 ayao) e protestante (12.400 anyanja)79. Apesar das
previsíveis dificuldades de apostolado, os Missionários da Consolata aceitaram, de boa vontade, a
nova área de evangelização, que lhes dava a possibilidade de realizar o antigo projecto de fundar
uma missão nas margens do Lago Niassa e outra na proximidade do Rovuma80.
A missão de Unango tinha sido fundada em 193081. Em Junho desse ano chegavam os padres
seculares Manuel Ramos Pinto e Avelino Pereira Branco, enviados por D. Rafael de Assunção,
Prelado de Moçambique, fixando-se provisoriamente na povoação de Mtelela. Dois meses depois
partiam para Unango, onde fundaram definitivamente a missão que, em 15 de Dezembro de 1930,
era reconhecida juridicamente, com provisão do prelado 82. Os missionários seculares puseram
mãos à obra e levantaram os primeiros edifícios da escola, residência, etc. O trabalho de apostolado
era quase nulo, pois a população ayao não se interessava pela escola e, muito menos pela nova
religião. Depois de 1934, a missão viveu um período de grande crise.
Perante esta situação, o novo Prelado, D. Teodósio de Gouveia, decidiu confiar a
responsabilidade da missão à Sociedade Missionária Portuguesa, cujo novo superior, o P.e Adriano
Garcês, se empenhou em desenvolver. Abriram-se novas escolas e impulsionou-se a catequese
escolar. Em seguida, D. Teófilo de Andrade preocupou-se por incrementar e diversificar as
actividades da missão. Com a chegada das irmãs Franciscanas de N.S. das Vitórias, a 28 de Julho de
1942, iniciou-se o internato feminino. No mesmo ano foi inaugurada a Escola Normal de
Habilitação de Professores e no ano seguinte o Seminário Menor Diocesano83.
Atendendo às exigências pastorais, D. Teófilo de Andrade dividiu a extensa diocese de Nampula
em zonas de atribuição pastoral, entregando a missão de Unango aos Missionários da Consolata e

78
Cf. AIMC X/410 n. 1: Diário da Missão de S. Francisco de Xavier do Txatxe: 31-5-1947.
79
Cf. AIMC VIII/7 1946 n. 2: Relatório sobre o estado das missões no Arciprestado dos Padres da Consolata na
diocese de Nampula: Mitúcue, 18-1-1947
80
Cf. AIMC VIII/7 1946 n. 29: Carta de P.e Domingos Ferrero a P.e Victor Sandrone: Mitúcue 10-8-1946.
81
Cf. AIMC VIII/7 1934 n. 3: P. CALANDRI, Le Missioni dei 4 distretti del Nord: Massangulo, 2-8-1934.
82
AIMC X/ 406 n. 6: Cf. B. MAZULA, Missão de S. António de Unango: Traços históricos, p.1.
83
Era desejo da Santa Sé, das autoridades eclesiásticas e dos Missionários da Consolata fundar a Igreja do Niassa
sobre bases sólidas. Paralelamente à formação de catequistas para o apostolado, desde o início se pensava e trabalhava
no sentido de promover vocações para o sacerdócio e vida religiosa. Por vontade expressa de D. Teófilo de Andrade,
Bispo de Nampula, o Seminário Menor de Unango começou a funcionar em finais de Outubro de 1942. Foi confiado à
direcção dos padres da Sociedade Missionária Portuguesa. O P.e Serafim Pinto Ferreira foi o seu primeiro reitor. Até à
sua transferência para a Missão de S. João Baptista de Marrere (1947) reuniu 13 candidatos ao sacerdócio, na sua
maioria oriundos das missões de Mepanhira e Mitúcue. Dos alunos enviados pelos padres de Mitúcue, chegou um ao
sacerdócio, o P.e Miqueias Malôa, primeiro sacerdote macúa, ordenado no dia 12 de Dezembro de 1956.
colocando assm todo o Niassa nas suas mãos. No dia 31 de Julho de 1946 os padres Fernando
Stagni, André Salvini e Donato Sergi substituiram os missionários portugueses e as irmãs
Missionárias da Consolata, Ottaviana Trombetta, Amabile Fagnani e Gianfranca Rota, as irmãs
Vitorianas.

2.1.7. A paróquia de S. José de Vila Cabral (1946)


A povoação de Vila Cabral, actual Lichinga, surgiu no começo dos anos 30. Com o tempo, a
pequena localidade foi crescendo84. Para assistir espiritualmente os seus habitantes, foi construída
uma pequena capela em 1944. Os padres da missão de Unango eram os responsáveis desta
capelania, que dois anos mais tarde, a 8 de Setembro de 1946, se tornou Paróquia de S. José, em
Vila Cabral. A paróquia continuou a ser assistida pastoralmente pelos missionários de Unango.
Em 1948, visitando Vila Cabral, o P.e Domingos Ferrero encontrou-se com o intendente local.
Este fez-lhe as seguintes propostas: venda do terreno e das construções da missão de Unango ao
Governo, para a instalação de um centro experimental de agricultura; o Governo compensaria a
diocese com 700 contos, com os quais o Instituto poderia construir uma residência e um colégio
para os filhos dos europeus; abertura das missões de Maniamba e Metangula. O P.e Ferrero
agradeceu ao intendente o interesse manifestado pela causa missionária, mas também lhe
manifestou a dificuldade de ir ao encontro das suas propostas. Reafirmou a necessidade de manter
em funcionamento a missão de Unango, defendeu que o colégio deveria ser construído pelo
Governo e recordou que a fundação de novas missões dependia da disponibilidade do Governo em
autorizar a entrada de novos missionários e atribuir mais subsídios85.
A partir dos anos 50, como veremos seguidamente, a presença dos Missionários da Consolata
reforçar-se-ia no norte do Niassa, concretamente em Vila Cabral e no Lago Niassa.

2.1.8. A Missão de S. João Baptista de Marrere (1946)


A missão de S. João Baptista de Marrere foi criada por D. Teófilo de Andrade. Situada a 8 Km
de Nampula, deveria tornar-se com o tempo como que o centro de todas as missões da diocese. Para
realizar o seu projecto, o bispo pediu com insistência aos Missionários da Consolata para
assumirem a responsabilidade de tal obra. Com uma certa relutância, em 1946, o Instituto assumiu
provisoriamente a missão de Marrere86, enviando o P.e Luciano Oggé e o Ir. João Arneodo. Em
Setembro de 1947, D. Teófilo de Andrade decide transferir o Seminário Diocesano e a Escola
Normal de Professores para Marrere, pois desejava potencializar esta missão por verificar ao
mesmo tempo que Unango era uma missão muito periférica. Com o aumento das actividades em
Marrere, o P.e Domingos Ferrero, superior regional, reforçou a presença do Instituto em Setembro
de 1947, enviando os padres Carlos Lazzaron, Donato Sergi e Mário Bianco. Depois da breve
experiência na missão do Marrere, os Missionários da Consolata retiram-se desta missão em 1950 e
concentram as forças no Niassa.

2.9. A Missão dos Santos Anjos e Arcanjos do Cobué (1950)


Desde a sua chegada ao Niassa, estava no projecto dos Missionários da Consolata fundar uma
missão nas margens do lago, entre a população anyanja. Este objectivo foi sucessivamente adiado

84
Com o fim da Companhia do Niassa (1929) o território sob o seu domínio passa para a administração directa do
Estado. Tal território foi dividido em dois Distritos administrativos: Cabo Delgado, com sede em Porto Amélia, e
Niassa com sede em localidade a determinar posteriormente. Em 17 de Outubro de 1931 foi escolhido o terreno no
planalto da serra de Lichinga, junto à estrada de Mandimba a Metangula e a cerca de 146 quilómetros de Mandimba.
Assim nasce a povoação de Vila Cabral, em homenagem ao então Governador-Geral, coronel José Ricardo Pereira
Cabral. O Pe. Pedro Calandri, consultado pelas autoridades, indicou o planalto de Lichinga, bem conhecido por ele,
como o local ideal para a fundação da capital do Niassa. Cf. L. WEGHER, Um olhar sobre o Niassa, Vol.I, (Maputo
1995) 151.
85
Cf. AIMC VIII/7 1947, n. 56: Carta de P.e Domingos Ferrero a P.e Victor Sandrone: Unango, 7-11-1947.
86
Cf. AIMC VIII/7 1946 n. 7: Carta de P.e Domingos Ferrero a P.e Gaudêncio Barlassina: Mitúcue, 7-7-1946.
por dificuldades de ordem politico-eclesiástica. Nos finais dos anos 40, via-se a conveniência de
realizar, quanto antes, esta fundação. Aos interesses de ordem religiosa – dar assistência aos
católicos amatengo, fazer frente à propaganda anglicana e subdividir o imenso território da missão
de Unango – juntavam-se os de ordem política. As autoridades coloniais queriam limitar a
influência inglesa, representada pelas missões anglicanas. Depois das viagens apostólicas
efectuadas pelos padres Pedro Calandri e André Salvini, o P.e Eugénio Menegon, em 1950, deu
início efectivo à Missão dos Santos Anjos de Cobué, nas margens do Lago Niassa.

2.1.9. A evangelização católica na região do Lago Niassa (1930-1950)


Partindo da base provisória de Mandimba, os pioneiros da evangelização católica do Niassa,
padres Pedro Calandri e José Amiotti, acompanhados pelo P.e João Chiomio, exploraram o norte do
Niassa entre Julho e Agosto de 1926. Percorreram a região habitada pelos ayao e anyanja, visitando
a aldeias de Metónia, Unango e Metangula onde contactaram com os missionários anglicanos da
U.M.C.A87.
Depois desta viagem de inspecção, o P.e Calandri preparou-se para fundar uma missão em
Metangula, nas margens do Lago Niassa. Porém, o projecto não se concretizou porque o Prelado de
Moçambique, D. Rafael de Assunção, não autorizou que os Missionários da Consolata se
instalassem naquela região, devendo limitar a sua actividade a Massangulo entre o povo ayao. Nas
décadas seguintes o projecto da fundação de uma missão no Lago Niassa ficou acantonado. A
missão católica mais próxima do lago era, inicialmente, Massangulo (1928) e em seguida, Unango
(1930).
A região do lago Niassa estava teoricamente sob a jurisdição da missão de S. António de
Unango. Contudo, o projecto de fundar uma missão junto ao lago não tinha ficado arquivado. Em
1932, o administrador da região pediu ao P.e Calandri que fundasse uma missão em Metangula.
Consciente das dificuldades com a autoridade eclesiástica, este manifestou-se disponível para ali
fundar uma estação de missão, mas sob a responsabilidade do P.e Ramos Pinto, superior da Missão
de Unango, que passaria a ser o responsável perante o Governo. O administrador estava de acordo e
o P.e Ramos apoiava a ideia, mas surgiram dificuldades que impediram a concretização do projecto.
Em 1942, o P.e Celso Pinto de França, de Unango, visitou a povoação de Manhai, a norte de
Cobué, onde inaugurou uma capela dedicada a S. Teresa do Menino Jesus, construída pelos
católicos amatengos oriundos de Tanganica (actual Tanzânia). Não podendo ser assistidos
espiritualmente pelos padres Beneditinos da Missão de Nangombo, os amatengos apelaram para a
missão católica mais próxima, que era Unango88.
A partir de 1946, ano em que os Missionários da Consolata assumiram a missão de Unango,
torna-se possível realizar o antigo projecto, tão prezado, de fundar uma missão católica no lago
entre a população anyanja. Nesse ano, devido ao escasso número de pessoal, os Missionários da
Consolata não tiveram a oportunidade de visitar os católicos amatengo de Manhai. Só no ano
seguinte, em Novembro de 1947, o P.e Salvini visitou as escolas-capela da região, nomeadamente
Nova Coimbra, Metangula, Cobué e Manhai.
Com a progressiva diminuição da influência sócio-educativa anglicana, dificultada pelas
autoridades coloniais, e com o aumento da presença político-administrativa portuguesa, os anyanja
aperceberam-se da conveniência da escola católica, pelo que alguns régulos solicitaram a visita dos

87
Os missionários chegaram até Chia, sede da missão anglicana de S. Bartolomeu, que ainda tinha os seus
edifícios à beira do lago. O responsável da missão de Messsumba era o venerado P.e H. Cox. O número de cristãos
anglicanos ultrapassava já os 5.000, distribuídos por 47 escolas-capela e assistidos por uma equipa de três clérigos, 50
professores e 30 catequistas. Cerca de 2.000 crianças frequentavam as escolas da missão.
88
Os padres Beneditinos da Abadia de Ndanda (Tanzânia) tinham pedido para fundar uma missão na região do
lago, para assistir os católicos amatengo que tinham passado para o Niassa. O pedido não foi aceite. Os amatengo
tinham-se refugiado porque o régulo Manhai tinha-se recusado a aceitar a autoridade dos ingleses quando estes
procederam ao recrutamento de jovens para a guerra (1940). As autoridades decidiram puni-lo. Para escapar ao castigo
fugiu com o seu grupo para o território português, instalando-se na aldeia de Manhai (1941). Cf. AIMC VIII/7, 1935,
n.3: Carta de P.e Pedro Calandri ao Cardeal Eugénio Pacelli. Massangulo, 28-7-1935.
missionários89. Deste modo, respondendo ao pedido do Chefe Lipoche, o P.e André Salvini
efectuou uma longa viagem apostólica que o levou a percorrer as margens do lago até Chiwindi, no
extremo norte. Partiu de Unango no dia 9 de Janeiro de 1948, passou por Chia e daí continuou a pé
até Ngoo, onde foi acolhido por um padre anglicano. No dia 12 de Janeiro continuou a viagem de
canoa até Mbueka, seguindo por Cobué, Mataka e Manhai. Nesta última localidade, onde já existia
uma escola-capela católica, foi recebido pelo catequista Johannes e pelos católicos que acorreram
para acolhê-lo e participarem na Santa Missa90. No dia seguinte, o missionário reuniu-se com os
catequistas para tomar conhecimento do status animarum e para programar o trabalho pastoral
futuro. O P.e Salvini permaneceu ainda alguns dias em Manhai para tomar contacto com a
população, recolher informações etnográficas e geográficas e verificar as reais possibilidades para a
fundação de uma missão. Localizou nove aldeias que não estavam assinaladas no mapa do Niassa e
apercebeu-se que o fluxo migratório proveniente de Tanganica aumentava a população local.
Aproveitou também para conversar com Shauritanga, filho e sucessor do régulo Manhai, o qual o
informou que seu pai desejava que os missionários católicos fundassem uma missão na sua terra91.
No dia 19 de Janeiro o P.e Salvini embarcou numa canoa com direcção a Munghi, passando por
Samata, Nyanja, Nkumbili e Ngombi, onde fez escala. O mau tempo obrigou-o a prosseguir a
viagem a pé até Liúchi, onde pernoitou. No dia seguinte chegou a Munghi, onde foi recebido pelo
catequista Pedro e por um grupo de cristãos. Acompanhado pelo catequista visitou as famílias
católicas, tendo baptizado seis crianças e abençoado três matrimónios. Nesta localidade funcionava
já uma escola católica de recente fundação. Em seguida, prosseguiu a pé passando por Mpendeka,
onde existia uma escola-capela construída há pouco tempo, na qual administrou nove baptismos e
abençoou três matrimónios. No dia 22 chegou a Lipoche, aldeia sede do régulo, e daí avançou até
Chiwindi. Na região encontrou núcleos de católicos oriundos de Tanganica, ainda assistidos
religiosamente pelos padres Beneditinos. No dia seguinte, embarcou de regresso a casa, fazendo
uma breve paragem em Lipoche para conhecer o parecer do régulo sobre a proposta da construção
da escola. No dia 24 seguiu para Cobué, continuando para a ilha de Likoma, onde se concluía o
Sínodo Diocesano Anglicano, no qual participavam os padres H. Cox e H. Thomas de Messumba.
Findo o encontro, partiu com eles no barco a vapor até Messumba, onde pernoitou na missão. No
dia seguinte, o P.e Cox emprestou-lhe uma bicicleta e o P.e Salvini pôde seguir para Metangula,
onde conseguiu uma boleia de camioneta até Unango.

2.1.9.2. A fundação da Missão de Cobué (1950)


Nesse mesmo ano de 1948, funcionários enviados pelo Ministério das Colónias visitaram a
região do lago habitada pelos anyanja, acompanhados pelo P.e Calandri, e aperceberam-se da
importância estrategico-política de uma missão católica. Solicitado por D. Teófilo de Andrade, o
P.e Calandri apresentou imediatamente o projecto ao Governo, o qual incluía a construção de uma
igreja, um colégio com internato masculino e feminino, um hospital e as residências dos padres e
das irmãs. Em Outubro de 1949 o projecto foi aprovado pelo ministro das Colónias. Nomeado
executor da obra, o P.e Calandri, acompanhado pelo P.e Camilo Ponteggia, superior da missão de
Unango, deslocou-se ao lago para escolher o local onde erigir a missão. Inicialmente escolheram
Chikoa, a 40 km a norte de Metangula, mas a estação das chuvas não permitiu realizar o plano.
Depois de efectuar as práticas burocráticas D. Teófilo de Andrade, com provisão canónica, erigiu
a missão do Lago Niassa com o título de Santos Anjos e Arcanjos e encarregou o P.e Calandri de

89
Apesar das dificuldades, a presença missionária anglicana na região do Lago Niassa manteve-se activa. A
missão principal continuou a ser Messumba e as missões secundárias eram Metónia, Unango, Ngoo e Chitege, que
tinham um grande número de capelas e escolas. Existiam capelas dispersas por toda a área, lideradas por padres locais,
responsáveis pela acção pastoral no território da sua jurisdição. As escolas até então numerosas, diminuíram e viram a
sua acção dificultada. O superior era ainda o Padre H. Cox, um missionário inglês muito querido na região.
90
Cf. AIMC VII/1014, n.2: A. SALVINI, Sulle sponde del Niassa (Unango 1948) p.11.
91
Nesta região, habitada pelos amatengo, os católicos eram cerca de 350, aproximadamente um terço da
população. A. SALVINI, Sulle sponde del Niassa (Unango 1948) 12-13.
construir a nova missão. Depois de longos anos de espera e ultrapassadas as dificuldades, era
possível concretizar um antigo sonho92.
O P.e Calandri assumiu o empenho de iniciar os trabalhos preliminares. No dia 12 de Julho de
1950 deixou Massangulo, acompanhado pelo Ir. Bartolomeu Peretti, com destino ao lago.
Percorreram a região com o objectivo de escolher o local ideal para a missão, mas a tarefa não era
fácil visto que essa zona de Chikoa era pantanosa. Depois de constatarem que o lugar não reunia as
condições, foram procurar outro local mais favorável em direcção ao norte. Continuaram a pesquisa
de barco, junto à margem do lago. Depois de uma penosa navegação desembarcaram na baía de
Cobué, no dia 19 de Junho, vigília da festa de Nossa Senhora da Consolata. Finalmente tinham
encontrado o local ideal para fundar a missão do Lago Niassa.
Além da beleza natural do lugar, a proximidade da ilha de Likoma (sede da histórica missão
anglicana) foi outro factor que contribuiu decisivamente para a escolha de Cobué. A festa da
Consolata trouxe a Cobué o presente da primeira eucaristia celebrada à beira do lago. Terminada a
celebração subiram a colina para uma vista de olhos sobre a área circunstante. Não muito distante
dali encontrava-se uma escola-capela católica, dependente da missão de Unango. Procedeu-se à
escolha do local para a implantação da missão. O terreno escolhido situava-se na proximidade do
lago, a 200 m a norte da escola-capela.
Nesse ano, o P.e Calandri voltou a visitar a região do lago e iniciou os trabalhos de implantação
da missão de Cobué, com o fabrico de tijolos, abertura dos alicerces e transporte dos materiais. Em
Novembro chegou ao Niassa o P.e Eugénio Menegon. Depois de alguns dias de permanência na
missão de Massangulo, partiu com o P.e Calandri para iniciarem a fundação da missão de Cobué.
No dia 24 de Novembro chegaram a Cobué. Depois de ter instruído o P.e Menegon sobre os
trabalhos que se deveriam realizar, o P.e Calandri entregou-lhe a tarefa e partiu para Massangulo. O
P.e Menegon dedicou-se de corpo e alma aos trabalhos de implantação da missão.

92
AIMC X/415 n. 1, Diário da Missão de Cobué, p. 4.
2.2. Sul do Save: Inhambane e Lourenço Marques (Maputo)
O ano de 1946 foi assinalado por um acontecimento importante: o início da actividade dos
Missionários da Consolata no Sul do Save como resposta ao convite feito pelo Arcebispo de
Lourenço Marques um ano antes. De facto, em Junho de 1945 o Cardeal D. Teodósio Clemente de
Gouveia, de visita a Roma, teve um colóquio com o Superior Geral dos Missionários da Consolata.
Neste encontro convidou o Instituto a trabalhar na sua extensa diocese, que abrangia os distritos de
Lourenço Marques, Gaza e Inhambane, alegando que não possuía pessoal missionário suficiente.
Além disso, argumentava ainda que a propaganda protestante era muito forte, existindo várias
estações missionárias de diferentes denominações e que havia zonas onde a presença católica era
reduzida a algumas escolas-capela, muitas das quais em decadência. O P.e Gaudêncio Barlassina,
Superior Geral, respondeu positivamente ao pedido de D. Teodósio de Gouveia aceitando que o
Instituto assumisse a evangelização da parte norte do distrito de Inhambane. Regressando a Turim,
o P.e Barlassina informou o Conselho Geral sobre a proposta do Arcebispo de Lourenço Marques93.
O Conselho deu a sua aprovação e imediatamente fez a lista de mais 11 missionários para
Moçambique, cinco dos quais destinados ao Sul do Save. Em Julho de 1946 estes missionários
fundaram a Missão do Coração Imaculado de Maria de Massinga e a Missão do Sagrado Coração de
Jesus de Nova Mambone (distrito de Inhambane).
Em 1947, com a chegada de uma nova expedição de missionários, foi possível efectuar a
abertura da Missão de S. José de Mapinhane, que permitiria a assistência às populações junto à
estrada nacional e às comunidades da circunscrição de Vilankulo, e em 1948 abrir a Missão de
Santa Ana de Maimelane e alargar o campo de evangelização mais a sul até à capital, Lourenço
Marques, onde os Missionários da Consolata assumiram a cura pastoral da Missão de Santa
Teresinha do Menino Jesus de Liqueleva.

2.2.1. Inhambane: território, população e história da evangelização


O território confiado à cura pastoral dos Missionários da Consolata, na zona norte do
Distrito de Inhambane, era uma área extensa, com uma população de 125.297 habitantes94. A região
dividia-se em três zonas distintas: uma faixa litoral com dunas altas e uma largura de alguns
quilómetros; uma zona interior constituída por altitudes não superiores a 100m, com longos declives
e a margem sul do Rio Save, plana e baixa. A zona do interior era a mais extensa e a menos
povoada, especialmente as áreas de Mabote e Funhalouro. Um dos problemas mais graves era a
falta de água, devido às chuvas irregulares e à seca prolongada em determinados anos. O terreno era
quase exclusivamente arenoso.
A etnia tshwa predominava nesta região. Contudo, a norte, na região de Nova Mambone,
viviam os mandaus. As características comuns dos vatshwa são a existência de família patrilinear, o
reconhecimento de um ser supremo e o culto dos antepassados, que é variado e rico. A população
residente na região a Sul do Save formou-se pelas migrações das inúmeras comunidades de tipo
clânico e tribal que se dispersaram nesta vasta região. A sua origem é das mais variadas: shona,
tsonga, n'khosa, sotho, etc. Este confuso puzzle foi agravado no século XIX, pela migração Angoni
e pela compulsiva deslocação de largas dezenas de milhar de vandau, quando Gungunhana
transferiu a sua capital para Manjacaze em 188995.
O território que os Missionários da Consolata deviam evangelizar dependia das missões dos
padres Franciscanos da Beira e de Inhambane. Era uma zona intermédia entre estes dois grandes
centros de irradiação missionária. As distâncias enormes, as dificuldades de transporte, o clima, a

93
O D. Teodósio de Gouveia queria que os Missionários da Consolata assumissem, num primeiro tempo, a missão
de Bilene (Gaza), dirigida até então pelos padres Seculares, e posteriormente, a evangelização da parte norte do distrito
de Inhambane. Cfr. AIMC, IV/5, n.1545: Acta do Conselho Geral, reunião de 2-3 Agosto de 1945.
94
O território da zona norte do Distrito de Inhambane estava dividido em três circunscrições administrativas:
Massinga: 23.000 km2 e 43.773 habitantes; Vilankulo: 14.000 Km2 e 58.386 habitantes; Govuro: 16.910 Km2 e 23.138
habitantes.
95
Cf A. RITA-FERREIRA, Povos de Moçambique. História e Cultura (Lisboa 1975) 43.
escassez de pessoal missionário tinham impedido uma efectiva acção evangelizadora. As visitas dos
padres das missões limítrofes eram raras e o apostolado era feito pelos poucos catequistas das
escolas-capela dispersas pelo território. Por sua vez, a presença protestante era numericamente
superior e mais activa do que a católica. Havia uma rede bem organizada de centros de propaganda,
dirigidos por missionários locais, que usavam sempre a língua xitshwa e tinham livros estampados
nesta língua. Os católicos baptizados eram um pequeníssimo grupo, insignificante em termos
numéricos. A maior parte da população praticava a religião tradicional com todos os seus ritos96.

2.2.2. A chegada dos Missionários da Consolata ao novo campo de apostolado


Aceite o convite de D. Teodósio Clemente de Gouveia para colaborarem na evangelização na
diocese de Lourenço Marques, a Direcção Geral avisou o P.e Domingos Ferrero, superior do
Niassa, para enviar o P.e Gabriel Quaglia para Inhambane juntamente com outro missionário. A
escolha recaiu sobre o P.e João Tolosano. No dia 1 de Julho de 1946 desembarcou em Lourenço
Marques um grupo de missionários provenientes de Portugal e destinados a trabalhar no norte de
Inhambane: P.e José Paleari, P.e Alberto Maggiore, P.e Osvaldo Peressini, P.e José Bottacin e
Ir. Ângelo Rota. Os missionários recém-chegados foram hospedados na Missão de S. José de
Lhanguene, tendo seguido posteriormente para o novo campo de apostolado.
Partiram de Lourenço Marques no dia 6 de Junho com destino a Inhambane. Chegaram na tarde
do dia seguinte a Massinga, onde foram recebidos pelo administrador local. Ficaram aqui os padres
José Paleari e Alberto Maggiore e o Ir. Ângelo Rota. Os restantes seguiram, no dia 8, para Nova
Mambone, circunscrição do Govuro. Aí chegados, o P.e José Bottacin e o P.e Osvaldo Peressini
apresentaram-se ao administrador, tomando conhecimento do território a evangelizar.
Entretanto, no dia 25 de Julho, os padres Quaglia e Tolosano chegavam a Lourenço Marques,
provenientes do Niassa. Foram recebidos pelo Cardeal D. Teodósio Clemente de Gouveia, o qual
assinou a provisão que criava o Arciprestado de Vilankulo, nomeando o P.e Quaglia como
arcipreste. Depois de terem feito algumas compras, partiram de barco para Inharrime e daí,
continuaram de camioneta para Massinga. No dia 2 de Agosto chegavam à Escola de S. António,
Rio das Pedras, a 20 Km de Massinga, sendo bem acolhidos pelos padres Maggiore e Paleari.
Alguns dias depois, o P.e Quaglia escrevia ao Superior Geral uma longa carta, na qual descrevia
o território e a população. A realidade religiosa, cultural e socio-económica apresentava-se bastante
diferente, relativamente ao Niassa. O próprio apostolado apresentava desafios diversos. A
evangelização estava estritamente ligada às escolas e àqueles que as frequentavam. Os católicos, em
número reduzido, eram em grande parte jovens e a falta de famílias católicas tornava mais difícil a
perseverança na fé cristã. Por isso, a prioridade pastoral deveria ser a formação de catequistas e a
abertura de capelas, tarefa que se adivinhava difícil97.

2.2.3. Desenvolvimento e as dificuldades no apostolado


Em 1946, os Missionários da Consolata fundaram a missão de Massinga/Mangonha e Nova
Mambone. Nos anos seguintes fundaram-se duas missões intermédias: a missão de Mapinhane
(1947) e a missão de Maimelane (1948). Em 1948 assumiram o cuidado pastoral da Missão de
Santa Teresinha do Menino Jesus de Liqueleva, na periferia de Lourenço Marques.
No dia 16 de Outubro de 1947 chegavam preciosos reforços missionários: os padres Pedro
Quaglia, destinado a Mapinhane, Celestino Blassuto, destinado a Nova Mambone e os irmãos José
Eusébio, destinado a Massinga e Sílvio Petris, destinado a Nova Mambone. Registava-se também
troca de pessoal missionário entre as três missões. Assim, o P.e Peressini foi transferido de Nova

96
Indígenas: 246; europeus: 88; mestiços: 57. Os catecúmenos eram cerca de 1000, na sua maioria alunos das
escolas. Cf AIMC/VIII, 8, 1946, n. 2: Prospecto do Estado das Missões do Arciprestado de Vilankulo. Massinga, 16-
01-1947.
97
Cf. AIMC, VIII/8/1946, n.12: Carta de P.e Gabriel Quaglia a P.e Gaudêncio Barlassina. Massinga, 11-08-1946.
Mambone para Massinga, o P.e Maggiore deixou Massinga para ir fundar a Missão de Mapinhane e
o P.e Tolosano trocou Nova Mambone por Mapinhane.
Entretanto, surgiam os primeiros frutos do trabalho, nomeadamente o desenvolvimento da
Missão de S. José de Mapinhane, o baptismo de catecúmenos, a entrada de três seminaristas de
Massinga no seminário diocesano e a abertura de escolas. Os missionários esforçavam-se por
estudar as línguas locais e prepararam um catecismo bilingue Português-Xitshwa98.
Contudo, o apostolado no Sul do Save apresentava-se difícil, de modo particular entre a
população adulta que mostrava indiferença e até hostilidade à pregação dos missionários. As visitas
ao domicílio e a assistência aos doentes eram dificultadas pela desconfiança da população. Por isso,
os baptismos in extremis eram raros. Os católicos eram poucos e viviam distantes das sedes das
missões. A frequência aos sacramentos era baixa. Em parte, esta atitude devia-se à falta de
preparação e à raridade da presença do sacerdote nas comunidades. No passado, os próprios
professores-catequistas demonstravam um certo desinteresse em participar nos encontros de
formação a eles destinados.
A obra de evangelização continuava a realizar-se quase exclusivamente nas escolas. Mesmo
assim, durante esse ano, os frutos foram escassos por causa da falta de alunos e da pouca preparação
dos professores-catequistas. O ciclone e a seca obrigaram muitos jovens abandonar as suas aldeias,
emigrando para as cidades e, principalmente, para as minas da África do Sul. As escolas de Nova
Mambone, Maimelane e Mapinhane que prometiam bons resultados ficaram quase vazias. A missão
de Massinga foi a que teve mais movimento missionário.
As missões enfrentavam também dificuldades de ordem material, nomeadamente a escassez de
material como argila, pedra, madeira para as construções, a falta de mão-de-obra e as chuvas
irregulares. Tudo isto comportava muito trabalho e despesas enormes, absorvendo tempo e energia
que os missionários deviam dedicar ao apostolado. Estas dificuldades não impediram a implantação
das missões e o seu desenvolvimento material. O violento ciclone que em Março de 1948 percorreu
a região norte Inhambane causou graves danos materiais às missões destruindo as construções já
edificadas.

2.2.4. A Missão do Imaculado Coração de Maria de Massinga/Mangonha (1946)


Há muitos anos que se reconhecia a necessidade de instalação de uma missão católica em
Massinga, onde várias igrejas protestantes tinham uma densa rede de comunidades, e onde
dificilmente podia chegar, com alguma eficácia, a influência da missão católica mais próxima, a de
Homoíne, pois a missão de Môngue estava há muito sem missionários99 Os Franciscanos tinham
projectado fundar aí uma missão central, que exercesse a sua influência não só em Massinga, mas
também nas terras limítrofes de Morrumbene e Vilankulo. A falta de pessoal missionário e o pedido
das autoridades coloniais para fundar uma missão em Mocodoene, a fim de contrariar a forte
presença protestante, levou os Franciscanos a adiar a fundação. Construíram somente a escola-
capela de Rio das Pedras, inaugurada a 23 de Abril de 1937, que passou a depender da missão de
Mocodoene, fundada em 1936. Por provisão de 25 de Dezembro de 1943, D. Teodósio Clemente de
Gouveia criou a missão de Massinga, mas não chegou a ser provida de missionários.
A missão de Massinga foi finalmente fundada em 1946 pelos Missionários da Consolata, que aí
se instalaram no dia 7 de Junho. Os fundadores da missão do Imaculado Coração de Maria de
Massinga foram os padres José Paleari e Alberto Maggiore e o Ir. Ângelo Rota. Nos primeiros
meses a missão ficou instalada na escola-capela de Santo António, em Sota, construída há alguns

98
Cf. AIMC, XIII, n. 679: Catecismo Católico em língua Xitswa e Português (Lourenço Marques 1948)
99
A Missão de S. José de Môngue, fundada pelos Jesuítas, foi a primeira a ser criada na zona de Inhambane (5 de
Maio de 1890). Porém, não se desenvolveu muito porque em 1910 D. Francisco Ferreira da Silva propôs que passasse à
categoria de simples estação missionária e que se criasse uma nova missão em Homoíne, que viria a ser fundada pelos
padres Franciscanos em 1911. Em 1923 a Paróquia de Nossa Senhora da Conceição de Inhambane foi confiada aos
Franciscanos que a elevaram a missão. A Missão de Inhambane, além do concelho do mesmo nome, tinha a seu cargo a
evangelização da circunscrição de Massinga. Cf. F. F. LOPES, Missões Franciscanas em Moçambique 1898-1970, 336.
anos pelos padres Franciscanos. Os missionários iam tomando contacto com a população, estudando
o território e visitando as sete escolas a eles confiadas, procurando também o lugar para a fundação
da missão. Acabaram por se instalar em Mangonha, a 7 km da sede administrativa de Massinga,
onde iniciaram logo as construções provisórias da residência, capela e escola em pau-a-pique. O
P.e Gabriel Quaglia, superior do grupo dos Missionários da Consolata no Sul do Save e arcipreste
de Vilankulo, fixou em seguida residência nesta missão100.
No dia 13 de Dezembro de 1947 chegava a Massinga o primeiro grupo de irmãs da Consolata: Ir.
Tarcisia Imboldi, superiora, Floriana Jericijo, Irene Schwarz, Marchina Raineri, Gian Carla
Ferraris101. Com a sua chegada abrem-se novas perspectivas para o apostolado. Com este reforço a
missão de Massinga/Mangonha continuava a ser a missão que registava maior movimento
missionário. A pouco e pouco transformou-se num centro de intensa actividade pastoral e escolar.
Em 1948 os baptizados católicos eram 500. Funcionavam 13 escolas, frequentadas por cerca de
3000 alunos. Nessa altura, os padres chegavam já à região de Funhalouro, onde funcionava uma
escola-capela. A comunidade missionária era formada pelos padres Osvaldo Peressini e João
Vespertini e pelo Ir. José Chiappa. As Missionárias da Consolata, além do trabalho no dispensário e
das visitas às povoações, começavam a fazer apostolado directo na escola.

2.2.5. A Missão do Sagrado Coração de Jesus de Nova Mambone (1946)


Na povoação de Nova Mambone, os Franciscanos tinham criado uma escolas-capela e
projectaram a fundação de uma missão102. O projecto não se concretizou porque D. Rafael de
Assunção interveio, insistindo que era mais urgente consolidar as missões fundadas em vez de abrir
outras. Mas o propósito de fundar uma missão em Nova Mambone, que servisse de ligação entre as
missões da Beira (Manica e Sofala) e as do Distrito de Inhambane nunca foi esquecido. Tanto
insistiram que o novo Prelado, D. Teodósio Clemente de Gouveia, criou em 1940 a missão de
S. Boaventura de Nova Mambone, a qual nunca chegou a ser fundada.
Em 1946, por provisão do Arcebispo D. Teodósio Clemente de Gouveia, foi criada a Missão do
Sagrado Coração de Jesus103. Os fundadores da missão foram os padres José Bottacin e Osvaldo
Peressini que ali chegaram no dia 8 de Junho. A primeira residência dos missionários foi uma casa
emprestada pelo administrador. Poucos meses depois mudaram-se para a escola-capela de Doane, a
7 km da vila de Nova Mambone. A região era muito povoada, embora a missão fosse incipiente e
possuísse apenas cinco escolas. Logo de início os missionários depararam com a dificuldade de
encontrar terreno livre para implantar a missão, pois os terrenos estavam já ocupados. No entanto, a
diocese contactou a Companhia do Buzi para obter 30 hectares da sua concessão, enquanto pedia
100 hectares ao Governo. Porém, as práticas burocráticas foram longas. Em Agosto, o P.e Tolosano
juntou-se aos padres Bottacin e Peressini, enquanto o Ir. Ângelo Rota era transferido para Massinga.
Na noite de 21 para 22 de Março de 1948 um forte ciclone, que teve a duração de dez horas,
assolou a região a sul do Rio Save. A zona mais afectada pela tempestade foi a de Nova Mambone.
Os ventos fortes semearam morte e destruição e a missão não foi poupada. Capela, escola, oficina,

100
Cf. AIMC X/421, n.1: Diário da Missão de Massinga, pp. 1-6.
101
Cf. AIMC X/421, n.1: Diário da Missão de Massinga, pp. 3-6.
102
Já em 1926, o P.e António Ribeiro, superior da Beira, num relatório enviado aos superiores de Portugal,
manifestava o interesse de abrir em Nova Mambone uma sucursal missionária: Para tornar mais eficaz o
desenvolvimento religioso desta missão (Beira) era de grande necessidade uma sucursal ou missão na região de
Mambone. É dali que vem o maior contigente de serviços para esta cidade. Com um pouco de tradições cristãs que
ainda conservam, são os que mais se aproximam de nós. Regressando às suas terras, sem ninguém que os assista, tudo
perdem de novo. Relatório do Superior da Beira, para o Prelado Reg. corresp. expedida, em: F.F. LOPES., Missões
Franciscanas em Moçambique 1898-1970 (Lisboa 1972) 472.
103
Eis o conteúdo da Provisão: Havemos por bem criar a Missão do Sagrado Coração de Jesus, de Govuro,
coincidindo a sua área jurisdicional com os limites da Circunscrição do mesmo nome, extinta a Missão de
S. Boaventura de Mambone. Livro de Provisões do Arcebispado de Lourenço Marques, em: F. F. LOPES, Missões
Franciscanas em Moçambique 1898-1970 , 473.
armazém e casas caíram por terra. Os missionários procuraram remediar de imediato os danos, mas
a situação permanecia difícil104.
Apesar das dificuldades, trabalhava-se com entusiasmo. Na festa do Sagrado Coração de Jesus
de 1948 davam entrada no catecumenado 40 alunos. Algumas semanas depois, o P.e José Bottacin
visitou Inhassoro e escolheu o lugar para a construção da escola. No dia 16 de Agosto de 1948, a
missão de Nova Mambone acolhia o primeiro grupo de irmãs da Consolata, formado pelas irmãs
Tarcísia Imboldi, Floriana Jericijo e Marchina Raineri, provenientes de Massinga105.

2.2.6. A Missão de S. José de Mapinhane (1947)


As missões de Massinga/Mangonha e Nova Mambone eram distantes entre si (300 Km) e as
dificuldades de transporte tornavam necessária a existência de uma missão intermédia. Decidiu-se
então fundar uma missão na zona de Vilankulo. A missão foi criada por decreto em 1946, mas por
falta de pessoal missionário não foi iniciada imediatamente. Hesitou-se muito quanto à escolha do
local. A ideia era instalar a missão em Vilankulo, sede administrativa da circunscrição, mas
dificuldades várias como a escassez de terrenos cultiváveis, de água e população determinaram a
escolha de uma outra zona. Foi preferida a terra do régulo Mapinhane, a cerca de 40 km de
Vilankulo e próxima da estrada nacional. Aqui encontravam-se os requisitos que faltavam em
Vilankulo106.
No dia 24 de Março de 1947 chegavam à localidade de Mapinhane os padres Gabriel
Quaglia e Alberto Maggiore para dar início aos trabalhos de implantação da missão. Em Maio
começava a funcionar a escola da missão, tendo como seu primeiro professor o senhor Rafael Jeane,
de Massinga, que era também catequista. Em Outubro, o P.e João Tolosano deixa a missão de Nova
Mambone para ser superior da missão de Mapinhane e é ele próprio que negoceia a abertura da
escola em Muvamba e visita a região de Mabote, já no final desse ano107.
Em 1948 a missão de Mapinhane foi transferida para a actual sede, próxima da estrada nacional e
passa a ser a missão central no conjunto das missões do Instituto em Inhambane. Por esse motivo,
no dia 23 de Outubro, o P.e Gabriel Quaglia transferiu a sua sede de superior delegado de Massinga
para Mapinhane.
Em termos pastorais a região de Mapinhane revela-se inicialmente pouco prometedora. A
população estava muito espalhada e demonstrava-se pouco disponível a acolher o Evangelho. Até
ao momento ainda não existia nenhum católico e os próprios protestantes sentiam dificuldades de
penetração. Os missionários de Mapinhane davam também assistência pastoral a Vilankulo, sede da
circunscrição. Entretanto, no território da missão abriram-se três escolas, frequentadas por um total
de 150 alunos.

2.2.7. A Missão de Santa Ana de Maimelane (1948)


Para completar a presença missionária na área confiada à sua evangelização, os Missionários
da Consolata programaram a criação de uma missão intermédia entre a missão de Mapinhane e a
missão de Nova Mambone. Em resposta a esta necessidade pastoral, o Arcebispo de Lourenço
Marques já tinha emanado em 1947 o decreto de fundação da Missão de Santa Ana de Macovane,
mas a abertura não foi efectuada por falta de pessoal disponível. Em Fevereiro de 1948, o
P.e Gabriel Quaglia, de viagem para Nova Mambone, passa por Maimelane e decide a construção
de duas cabanas para um próximo início da missão. E é com a chegada de um novo grupo de
missionários que a missão pôde ser fundada nesse ano. No dia 4 de Julho, os padres José Paleari e
Pedro Quaglia dão início à Missão de Santa Ana de Maimelane. As cabanas anteriormente
construídas serviram como sede provisória da missão pois, no dia 27 de Outubro, ela é transferida
para a nova sede de Nhacolo. Pouco antes, o P.e Pedro Quaglia tinha sido transferido para Nova

104
Em: Da Casa Madre, n. 58 (Agosto 1948) 42.
105
Cf. AIMC X/414, n. 1: Diário da Missão de Nova Mambone, pp. 9-42.
106
Cf. AIMC X/416, n. 1: Diário do Arcipreste de Vilankulo, pp. 1-4.
107
Cf AIMC X/417, n. 2: Diário da Missão de Mapinhane, pp. 1-3.
Mambone, sendo substituído pelo P.e Celestino Blassuto. Em Maimelane, as dificuldades do
apostolado são as mesmas que nas outras missões. A propaganda protestante é muito forte e bem
apetrechada, possuindo a Bíblia traduzida em Xitshwa108.

2.2.8. A Missão de Santa Teresinha do Menino Jesus de Liqueleva (1948)


Em 1948 os Missionários da Consolata alargaram o seu campo de evangelização mais a sul
até à capital, Lourenço Marques, onde assumiram a cura pastoral da Missão de Santa Teresinha do
Menino Jesus de Liqueleva. Depois de propor ao P.e Gabriel Quaglia que os missionários
aceitassem o cuidado pastoral de uma missão na periferia de Lourenço Marques, o Cardeal
D. Teodósio Clemente de Gouveia fez oficialmente este pedido ao Superior Geral do Instituto109Os
Missionários da Consolata aceitaram o convite e no dia 27 de Setembro de 1948, por intermédio do
P.e João Tolosano, assumiu-se a responsabilidade da Missão de Santa Teresinha do Menino Jesus
de Liqueleva (Matola), situada a 10 km de Lourenço Marques. Em Novembro chega o P.e Fernando
Piccolo,que passaria a coadjuvar o P.e Tolosano. Esta nova sede passou a funcionar também como
casa central para os Missionários da Consolata.

108
Cf. AIMC X/417, n. 2: Diário da Missão de Mapinhane, pp. 1-6.
109
Cf. AIMC, VIII/8, 1948, n. 4: Carta do Cardeal Teodósio de Gouveia ao P.e Gaudêncio Barlassina, Superior
Geral. Lourenço Marques, 17/9/48.
TERCEIRO PERÍODO (1951-1965):
INCREMENTO DA EVANGELIZAÇÃO E PROMOÇÃO HUMANA
E ORGANIZAÇÃO DO INSTITUTO MISSIONÁRIO DA CONSOLATA EM
MOÇAMBIQUE

Introdução
Durante o período de tempo entre 1951 e 1965, que antecedeu e preparou o Concílio
Vaticano II, a Igreja Católica conseguiu implantar-se em todo o território moçambicano. Para
salvaguardar esta expansão eclesial, os bispos chamaram várias congregações missionárias para
trabalhar nas suas dioceses. Com os subsídios do Estado e a chegada de novos missionários, a
evangelização prosseguiu o seu caminho com mais entusiasmo e planificação. Fundaram-se missões
em quase todas as circunscrições administrativas, construíram-se estruturas para consolidar o
trabalho missionário, nomeadamente igrejas, escolas, internatos, hospitais, maternidades e os
primeiros seminários. Expressão deste esforço missionário foi a criação de novas dioceses:
Quelimane em 1954; Porto Amélia (actual Pemba) em 1957; Tete em 1962; Inhambane em 1962 e
Vila Cabral (actual Lichinga) em 1963.
As primeiras missões fundadas pelos Missionários da Consolata cresceram, dando por sua vez
origem a outras missões que, entretanto, foram surgindo. Neste período foram criadas seis missões
no Niassa: Nossa Senhora da Conceição de Vila Cabral (1960); Nossa Senhora da Assunção de
Nova Coimbra (1962); São Miguel de Nova Freixo (1962); Nossa Senhora do Loreto de Cureia
(1962); Rainha Santa Isabel de Esperança-Litunde (1965) e Santo Condestável de Marrupa (1965).
Na Arquidiocese de Lourenço Marques e diocese de Inhambane foram erigidas também seis
missões: S. Gabriel Arcanjo da Matola (1951); Sagrada Família da Machava (1956); Nossa Senhora
do Rosário de Muvamba (1960); Santa Teresinha do Menino Jesus de Liqueleva (1962); Santo
Condestável de Boane (1963) e Nossa Senhora de Fátima de Vilankulo (1964). Realizaram-se as
primeiras ordenações de sacerdotes locais, entre os quais o primeiro missionário da Consolata
moçambicano, o P.e Amândio Dide em 1965 (Itália). Aumentou o número de seminaristas e de
irmãs locais. Todo este enorme esforço de evangelização por parte dos Missionários da Consolata e
seus colaboradores preparou o terreno para o despontar das novas dioceses de Inhambane (1962) e
Vila Cabral (1963).
À imagem do que acontecia por todo o Moçambique, a pastoral praticada pelos Missionários da
Consolata dava um espaço cada vez maior às obras de promoção humana (escolas, hospitais,
oficinas), as quais, absorviam tempo aos agentes de pastoral. A evangelização directa, que tinha na
visita às aldeias o seu elemento metodológico fundamental, não foi abandonada, mas deixou de ser
a opção prioritária. Deu-se maior importância à formação cristã das novas gerações, através da
escola. Os baptismos passaram a ser administrados maioritariamente aos alunos e cada vez menos a
adultos, sobretudo no Sul do Save. Não se promoveu suficientemente o sentido comunitário da
celebração e da vivência da fé. A velha geração de catequistas (de João Txipinenga e companheiros)
foi acantonada e substituída por uma nova geração de professores-catequistas melhor preparados
intelectualmente, mas menos identificados cultural e religiosamente, e por isso mesmo menos
zelantes.
A exigência de mais missionários era cada vez maior. Os superiores do Instituto,
principalmente a partir de 1956, procuraram prover de pessoal missionário as missões de
Moçambique, embora houvesse solicitações de outros campos de apostolado em África e nas
Américas. Neste período, os missionários destinados a trabalhar em Moçambique foram:
Grupo do Niassa: Ir. Albino Henriques (1957); P.e Mário Teruzzi (1958); P.e Luís Fiorini, P.e
Manuel Tavares, P.e Joaquim Alves Ferreira, P.e José Lopes Pequito, Ir. Afonso José Nunes,
Ir. Vicente Dias Crisóstomo, Ir. Benjamim Prata, Ir. Miguel Domingues Santos (1959); P.e Mário
Spangaro (1961); P.e Mário Teodori, Ir. Alexandre Moura Valente (1963); P.e Vidal Moratelli
(1964); P.e Gelindo Scottini, P.e Ernesto Motta (1965).
Grupo de Inhambane e Lourenço Marques: Ir. José Cardinali (1955), P.e Lourenço Stimoli,
Ir. António dos Reis Gonçalves, Ir. Francisco Neves da Silva (1957); P.e João Merlo, P.e Aldo
Mongiano, P.e Manuel Marques, P.e Artur Rodrigues (1958); P.e António da Costa Gaspar, P.e
Francisco Marques, Ir. José Soares de Almeida (1959); P.e Henrique Da Croce (1961); P.e Silvestre
Liberini, P.e Ferdinando Piccoli (1963); P.e Silvestre Bettinsoli, P.e João Armando (1964);
P.e Joaquim Ferreira de Almeida, P.e Artur Marques (1965).
O Instituto assentava raízes sólidas em Moçambique com a chegada deste expressivo
contingente de religiosos, onde já se encontravam jovens padres e irmãos portugueses e brasileiros.
Por isso mesmo, era necessário que o Instituto se organizasse internamente para melhor responder
às exigências da vida religiosa e do apostolado. O novo Superior Geral, P.e Domingos Fiorina,
procurou acompanhar de perto a vida dos missionários através de visitas e de uma intensa
correspondência, para lhes dar orientações claras sobre uma presença evangelizadora mais
significativa. Insistiu muito sobre a importância da comunhão entre os membros, impulsionando
deste modo, a criação da Região Moçambique, com um único superior a coordenar os grupos do
Niassa e de Inhambane e Lourenço Marques. Até então, devido à distância geográfica e outros
condicionalismos, estes dois grupos formavam duas entidades independentes.
Neste período de tempo registaram-se as mortes de cinco missionários da Consolata. No dia
20 de Outubro de 1951 faleceu na missão de Mapinhane o P.e Pedro Quaglia. Tinha 38 anos de
idade e foi o primeiro missionário da Consolata a morrer em Moçambique. Cinco anos depois
falecia o P.e Gabriel Quaglia (irmão mais velho do P.e Pedro Quaglia), a 15 de Novembro de 1956,
em Joanesburgo quando viajava para Itália à procura de tratamento médico mais adequado. A sua
morte causou tristeza e deixou vazio um lugar difícil de preencher. Com a sua experiência e
entusiasmo, orientara a fundação das missões de Mepanhira, Mitúcue e Maúa. Mais tarde o Cardeal
D. Teodósio de Gouveia quis que fosse ele o responsável do grupo que iniciou as actividades dos
missionários da Consolata na Arquidiocese de Lourenço Marques. O P.e Gabriel Quaglia foi um
missionário extraordinário e completo. Num corpo frágil e doentio, vibrava um espírito forte.
Possuía muitos dons. Era bom escritor, poliglota, etnólogo, pintor, arquitecto (foi ele o autor do
projecto das igrejas de Mepanhira e Mitúcue), músico, fotógrafo, etc. Ele foi também o mestre de
uma geração de missionários no Niassa e em Inhambane. Nesse mesmo ano falecia, na Missão de
Maiaca, o Ir. Bartolomeu Lorenzatto. Em Moçambique desde 1938, colocou a sua competência
técnica ao serviço das construções das missões de Massangulo, Maúa, Mepanhira e Maiaca.
Sobrecarregado de trabalho, viria a falecer no dia 29 de Abril. A sua construção mais famosa é, sem
dúvida, a Igreja de Santa Teresinha do Menino Jesus de Mepanhira. Em 1960, viriam a falecer
outros dois beneméritos da evangelização do Niassa: o Ir. Bartolomeu Liberini e o P.e Ângelo
Lunati. O irmão faleceu em Nova Freixo no dia 26 de Novembro. Depois de uma fecunda
experiência missionária no Quénia, chegara ao Niassa em 1936, trabalhando em diferentes missões
onde, com o seu suor surgiram muitas construções. Era um homem de oração e sacrifício, o seu
testemunho religioso edificava aqueles com quem convivia. Alguns dias antes morrera em Portugal
o P.e Ângelo Lunati, outro pioneiro da evangelização do Niassa, onde chegara em 1928. Foi o fiel e
incansável colaborador do P.e Calandri na edificação da Missão de Massangulo e o organizador do
sector escolar. Depois de 30 anos de actividade em Moçambique, foi destinado a Portugal onde
faleceu pouco tempo depois da sua chegada.

1. ORGANIZAÇÃO DO INSTITUTO MISSIONÁRIO DA CONSOLATA EM MOÇAMBIQUE

3.1. As visitas canónicas do P.e Domingos Fiorina, Superior Geral


Enquanto Superior Geral, o P.e Domingos Fiorina visitou por três vezes as missões de
Moçambique. A primeira vez foi em Julho de 1951, cuja visita foi muito apreciada. Passou em
todas as missões, reunindo-se com os missionários do Niassa, em Mitúcue, e com os da
Arquidiocese de Lourenço Marques, em Massinga. Em conjunto, analisaram a situação das
comunidades e estabeleceram alguns princípios organizativos. Recomendou que o grupo de
Moçambique adoptasse a organização vigente em todo o Instituto. A vida comunitária e apostólica
devia pautar-se pelo princípio da multiplicidade de trabalho na unidade directiva. O superior
regional e local deveriam estabelecer esta unidade e multiplicar as actividades, distribuindo-as pelos
seus colaboradores num clima de diálogo e entreajuda.
Além destas indicações mais ligadas à vida interna das comunidades e da Região, o P.e Fiorina
deixou também orientações importantes para o bom andamento da acção evangelizadora. Recordou
que o Instituto não poderia aumentar muito o pessoal missionário e os meios para o
desenvolvimento de cada missão. Constatando que a população dos territórios confiados aos
Missionários da Consolata era, em algumas partes, pouca e dispersa, concluiu que a organização das
actividades deveria seguir alguns critérios gerais. Por exemplo, as missões centrais deveriam ser
apetrechadas com internatos, escolas, actividades de formação para professores-catequistas e
catecúmenos e obras de assistência. Dever-se-ía caminhar gradualmente para uma maior
descentralização das actividades e criarem-se missões sucursais, com igreja e escola, dotadas de um
bom professor-catequista e visitadas regularmente pelos missionários. Estas deveriam ser
localizadas em lugares bastante povoados e organizadas de modo que o padre ou as irmãs aí
pudessem pernoitar e visitar as escolas vizinhas. Nas aldeias deveriam abrir-se escolas rudimentares
e uma rede de postos de catequese. Nos centros urbanos habitados por brancos, o P.e Fiorina
recomendou que se fizessem escolas e uma capela para dar assistência à população110. Os padres
Domingos Ferrero e Gabriel Quaglia foram confirmados como superiores delegados do Niassa e do
Sul do Save (Inhambane e Lourenço Marques), respectivamente.
A segunda visita canónica do P.e Domingos Fiorina a Moçambique decorreu entre 13 de
Outubro e 15 de Novembro de 1955. No final da visita escreveu uma carta na qual manifestava o
seu apreço pelo trabalho realizado e apresentava algumas reflexões e conselhos para uma vida
religiosa mais intensa111. Numa outra carta dirigida ao P.e Domingos Ferrero deixou algumas
sugestões úteis para a renovação do trabalho de evangelização, exprimindo alegria em constatar que
entre a população macúa a evangelização obtivera óptimos resultados, garantia de que a influência
cristã se faria sentir no futuro sobre a população islâmica. Sugeriu que se incrementasse a
evangelização entre a população ayao, sobretudo através da escolarização, e sublinhou a
importância do catecumenado, pedindo que o organizassem em todas as escolas-capela. Referindo-
se ao clero local, recomendava a elaboração de um programa de recrutamento e formação de
candidatos ao sacerdócio112.
A terceira e última visita do P.e Fiorina aos missionários em Moçambique, decorreu de 23 de
Julho a 8 de Setembro de 1965. Tomando em consideração os bons resultados pastorais decorrentes
das novas aberturas, que levaram à descentralização das missões, facilitando deste modo o
apostolado directo, o superior geral insistiu para que este esforço fosse continuado. Para isso, era
necessário que se estabelecessem novos critérios na escolha dos superiores das missões. Não
bastava a tradicional selecção do missionário mais idoso, mas daquele que fosse mais eficaz e
dinâmico no trabalho apostólico. Recomendou também uma maior coordenação e colaboração no
trabalho pastoral entre padres, irmãos e irmãs e insistiu na necessidade de formar e responsabilizar
mais os leigos (professores e catequistas), enquanto colaboradores na evangelização. Só deste modo
poderiam surgir comunidades sólidas, capazes de se organizar para a oração e a catequese mesmo
sem a presença do missionário113.

110
Cf. Carta de P.e Domingos Fiorina, Superior Geral, aos missionários da Consolata de Moçambique (3-10-
1951): Bollettino dell’Istituto Missioni Consolata 14 (1952) 43-44.
111
Cf. Carta circular do P.e D. Fiorina, Superior Geral, aos missionários da região de Moçambique. Turim, 16-2-
1956: Bollettino dell’Istituto Missioni Consolata 29 (1956) 18-23.
112
Cf. Carta conclusiva do P.e D. Fiorina, Superior Geral, ao P.e D. Ferrero, Superior Delegado, Mitúcue,
4/11/1955: AIMC IX/6-5, n.131.
113
Cf. Carta circular do P.e D. Fiorina, Superior Geral, aos missionários da Região de Moçambique. Machava, 8-
9-1965: Bollettino dell’Istituto Missioni Consolata 29 (1965) 28-30.
1.2.Criação e funcionamento da Região de Moçambique
Depois de ter realizado um óptimo trabalho na formação de novos missionários no seminário
do Instituto, em Fátima (Portugal), o P.e Aldo Mongiano foi nomeado superior da Delegação dos
Missionários da Consolata em Moçambique pelo Conselho Geral, em 1958 114. Para as funções de
conselheiros foram escolhidos o P.e Osvaldo Peressini, vice-superior e os padres Ângelo Lunati,
Mário Casanova e Amadeu Marchiol115. O pessoal missionário do Arciprestado do Niassa,
Arciprestado de Vilankulo (Inhambane) e o grupo de missionários que trabalhava em Lourenço
Marques, passaram a depender deste novo conselho.
Apesar de ser inexperiente quanto às problemáticas de Moçambique, o P.e A. Mongiano
esforçava-se por desempenhar bem a sua função de superior. Partilhava as responsabilidades com os
seus conselheiros, estudando os vários problemas. Após a sua nomeação, visitou todas as missões e
contactou com todos os missionários, inteirando-se do seu trabalho pastoral e esclarecendo-os sobre
a nova situação jurídica criada com a erecção da Delegação de Moçambique.
No ano seguinte, os padres A. Mongiano e E. Menegon representaram os missionários de
Moçambique no IV Capítulo Geral do Instituto Missionário da Consolata (Turim, 4 de Maio a 23 de
Junho de 1959), no qual o P.e D. Fiorina foi reeleito superior geral.
Por decreto de 5 de Novembro de 1960, a nova direcção geral erigiu a Região dos
Missionários da Consolata de Moçambique, cuja padroeira passou a ser Nossa Senhora de
Fátima116. Pouco depois, foram nomeados os quatro conselheiros do superior regional,
nomeadamente os padres E. Menegon, A. Marchiol, M. Manuel Marques e J. Pequito117.
Tendo em conta a distância entre Inhambane-Lourenço Marques e o Niassa e a consistência
numérica dos missionários que trabalhavam neste último distrito foi criada a Delegação do Niassa e
para o cargo de superior delegado foi escolhido o P.e Eugénio Menegon (12 de Janeiro de 1961),
que assumiu também o cargo de arcipreste do Niassa, transferindo-se do Cobuè para Vila Cabral.
Tinha como conselheiros os padres Camilo Ponteggia e José Pequito.
Em 28 de Março de 1963 o P.e Aldo Mongiano foi reconduzido como superior da Região de
Moçambique, o mesmo acontecendo com os quatro conselheiros118.

2.ACTIVIDADE MISSIONÁRIA DO INSTITUTO EM MOÇAMBIQUE

2.1.Movimento missionário no Niassa


Em 1951, os Missionários da Consolata celebraram o 25º aniversário da sua presença e
actividade no Niassa (1926-1951). Nessa ocasião tiveram a alegria de ter entre eles o Superior
Geral, P.e D. Fiorina, o qual pôde contemplar com os seus olhos os frutos do esforço missionário
realizado. As estatísticas ilustravam a fecundidade da sementeira efectuada em 25 anos de
evangelização – católicos: 8.254; catecúmenos: 2.037; missões: 7; capelas: 185; sacerdotes: 20;
irmãos: 10; irmãs da Consolata: 24; irmãs diocesanas: 6; noviças diocesanas: 6; seminaristas: 7;

114
Cf. Carta do P.e Domingos Fiorina, Superior Geral, aos missionários da Região de Moçambique. Turim, 20-3-
1958: ArqRegMoç. B.10, n.21.
115
Cf. Carta do P.e Aldo Mongiano aos missionários da Região de Moçambique: Matola-Rio, 10-4-1958.
ArqRegMoç. B 11, n.1.
116
Decreto 162/60: Consultado o Conselho Geral do Instituto na reunião do dia 30 de agosto de 1960; visto o
Rescrito Ap. n.4296/60 do dia 7 de Setembro 1960; visto o Decreto n. 49/58 com o qual se erigia a Delegação,
entendemos erigir, e de facto erigimos a Delegação de Moçambique em Região de Moçambique do Instituto Missões
Consolata, a norma das Constituições, conferindo à mesma os deveres, direitos, faculdades, concessões, privilégios e
favores que disfrutam as outras Regiões do Instituto Missões Consolata, “servatis servandis”, e colocamo-la sob a
protecção da SS. Virgem de Fátima. Turim, 5-11-1960: Bollettino dell’Istituto Missioni Consolata 24 (1959-1960) 34.
117
Cf. Carta do P.e Aldo Mongiano, Superior Regional, aos missionários de Moçambique. Machava, 4-10-1961:
ArqRegMoç. B 10, n.41.
118
Cf. Carta de P.e Domingos Fiorina, Superior Geral, ao P.e Aldo Mongiano, Superior Regional de Moçambique.
Turim, 28-3-1963: ArqRegMoç. B 12, n.113.
professores/catequistas: 48; catequistas: 113; escolas: 60; alunos: 5.945; escolas de artes e ofícios:
7; aprendizes: 305; dispensários: 6; consultas médicas: 1.236.707 119.
Nesta ocasião, o Superior Geral sugeriu a troca de pessoal missionário entre as diferentes
missões. A mais beneficiada foi a missão de Massangulo. Depois dos constantes apelos do
P.e Calandri, o P.e Fiorina via a conveniência de investir mais nesta missão, considerando as suas
particularidades e história. O P.e Ernesto Motta chegou para colaborar com os padres Ângelo
Lunati e Luís Wegher nas escolas. Foram destinados os padres Oberto Abondio e Emílio Geromet
para o apostolado nas escolas-capela que, com o seu dinamismo missionário contribuíram para o
aumento das comunidades cristãs. A Escola de Artes e Ofícios adquiriu mais vida com a chegada
dos irmãos Hugo Versino, Bartolomeu Peretti e Lourenço Baroffio. Igualmente visitada pelo
Superior Geral, Cobuè prosseguia com os trabalhos de construção da missão em ritmo lento, por
escassez de materiais e de mão-de-obra. No entanto, o P.e Menegon, com o auxílio do experiente
P.e Calandri, levou para a frente os trabalhos com a construção da barca Consolata e da lancha
Santos Anjos, que facilitaram o transporte de materiais pelas águas do lago. Em Agosto foi
destinado a esta missão o P.e André Salvini, com o encargo de assistir as escolas-capela. Estavam
reunidas as condições para que o trabalho pastoral e material procedesse de modo mais regular,
com a presença fixa dos padres Menegon e Salvini.
O ritmo de trabalho nas outras missões era bom. A missão de Mepanhira era aquela que
apresentava maior movimento. No dia 20 de Setembro de 1951 inaugurava-se a monumental Igreja
de Mepanhira e o primeiro grupo de irmãs da Congregação da Imaculada Conceição emitia a sua
profissão religiosa.
Na festa de Nossa Senhora da Consolata, a 20 de Junho de 1953, missionários, autoridades
civis e religiosas reuniram-se à volta do P.e Calandri e companheiros para celebrar as bodas de
prata da Missão de Nossa Senhora da Consolata de Massangulo (1928-1953). Apesar das
dificuldades do apostolado, a obra missionária realizada contava nos seus registos 1.456 baptismos
e 106 matrimónios celebrados. Mais significativa, sem dúvida, era a obra realizada no campo
escolar, especialidade da missão, em termos quantitativos e qualitativos. Desde os humildes inícios
de 1928 até à data, 3.528 alunos e 973 alunas tinham frequentado a escola de Massangulo. Os
missionários constatavam com alegria que a quase totalidade destes jovens já estavam inseridos no
mundo do trabalho, de norte a sul de Moçambique, nos mais diversos sectores de actividade. Por
outro lado, a desconfiança e adversidade inicial da população ayao tinha-se atenuado. Sem
aderirem abertamente ao cristianismo, compreendiam que a religião cristã possuia um suplemento
de caridade e dinamismo. O milagre de Massangulo estava na conquista da amizade da população.
Em Julho de 1958, pouco depois da sua eleição como Superior dos Missionários de
Moçambique, o P.e Aldo Mongiano viajou para o norte em visita aos missionários do Niassa.
Depois de uma paragem em Nampula, onde se encontrou com D. Manuel Medeiros Guerreiro,
sucessor de D. Teófilo de Andrade na direcção da diocese, prosseguiu viagem para a missão de
Mitúcue onde trocou impressões com o Arcipreste, P.e Domingos Ferrero. Em Massangulo, além de
conhecer a missão, reuniu-se com os conselheiros da Região de Moçambique para o Niassa. Visitou
ainda as missões de Unango, Cobuè, Mepanhira, Maúa e Maiaca. Durante este tempo teve a
possibilidade de falar com todos os missionários e verificar, de perto, o trabalho por eles realizado.
Quer no sector pastoral, quer na promoção, constatou que todos trabalhavam seriamente e num
contexto muito difícil, devido às distâncias, escassez e mobilidade da população em algumas
regiões, diferenças de língua, islamismo, número insuficiente de missionários e problemas de saúde.
Cada missão se esforçava por se apetrechar com as estruturas necessárias, daí que o movimento de
obras e construções era grande. Em Mitúcue construía-se o internato feminino, confiado mais tarde
à direcção das irmãs diocesanas do convento de Mepanhira. Na construção das igrejas, Cobuè

119
La missione del Niassa Portoghese nel 1951: Missioni Consolata 53 (1951) 256.
avançava a bom ritmo, enquanto Massangulo dava os primeiros passos e Maúa acabava de abrir os
alicerces120.
Nos anos seguintes, sobretudo entre os macúas, os frutos recolhidos eram abundantes.
Todavia, os missionários constatavam com preocupação a diminuição do entusiasmo que a
população manifestava no passado. Com o passar dos anos diminuiu o número de catequistas e, em
compensação, aumentou o número dos professores. Esta mudança teve consequências negativas
sobre o funcionamento das comunidades cristãs nas escolas-capela mais distantes do centro da
missão. Diminuíram as conversões e a frequência aos sacramentos. As escolas enfrentavam algumas
dificuldades, sobretudo na qualidade do ensino ministrado, que não era satisfatória. Nesta altura
colocavam-se grandes esperanças nos internatos das missões onde os alunos estudavam e eram
formados à disciplina, frequentando regularmente os sacramentos. Era entre estes alunos e alunas
que se manifestavam as vocações para a vida religiosa e sacerdotal121.
Com o objectivo de relançar a actividade missionária e inserir o pessoal recém-chegado, em
Setembro de 1961, o P.e A. Mongiano e o P.e E. Menegon, Superior Delegado, procederam ao
intercâmbio do pessoal entre as missões. Assim, o P.e Casanova foi nomeado superior da missão de
Mepanhira, o P.e Geromet, superior de Maúa, o P.e Ferrero, superior de Mitúcue, o P.e Teruzzi,
superior de Cobuè, o P.e Menegon, superior de Vila Cabral, o P.e Abondio, coadjutor em Maúa, o
P.e Oggé, coadjutor em Unango, o P.e Spangaro, coadjutor em Mepanhira, o P.e Tavares, coadjutor
em Mitúcue, o P.e Joaquim Ferreira, coadjutor em Massangulo e o P.e Luís Fiorini, coadjutor de
Cobuè122.
Em Janeiro de 1965, após a criação da Diocese de Vila Cabral, foi inaugurado o Santuário de
Nossa Senhora da Consolata de Massangulo por D. Eurico Dias Nogueira. Os trabalhos iniciaram
em 1954 e foram dirigidos pelo Ir. L. Baroffio. Obra idealizada pelo P.e Calandri, é admirável a sua
original arquitectura e a quantidade de obras de arte que adornam o seu interior, grande parte delas
da autoria do próprio e dos alunos da escola de arte de Massangulo. Assistiu comovido ao acto de
inauguração do santuário, pois esta obra tinha-lhe custado muitos sacrifícios e também algumas
críticas. Já idoso e cansado, tinha passado a direcção da missão para as mãos do P.e Camílio
Ponteggia, em 1962, até então superior em Unango.

2.1.1. Chegada do novo Bispo de Nampula, D. Manuel de Medeiros Guerreiro


D. Teófilo de Andrade apresentou a sua demissão do governo pastoral da Diocese de
Nampula em Março de 1951. No dia 2, a Santa Sé nomeou o seu sucessor na pessoa de D. Manuel
de Medeiros Guerreiro. A relação de D. Teófilo com os missionários tinha sido muito boa. O novo
bispo tinha um carácter diferente e até oposto ao do seu antecessor. Fora transferido da Índia e
tinha um temperamento difícil além de ter ideias muito próprias sobre o modo de evangelizar.
Discordava abertamente de certas práticas pastorais. Defendia, por exemplo, que não eram
necessários longos anos de preparação dos adultos para o Baptismo. Era preciso baptizar o maior
número possível de pessoas para evitar a expansão do islamismo e do protestantismo123. Todavia,
foi um pastor incansável e atento. Todos os anos fazia a visita pastoral às missões e tudo
controlava com rigor e minúcia. Cultivava o gosto pelas estatísticas e durante o seu governo
tiveram grande impulso as construções e estruturas das missões.

2.1.2. Abertura de novas missões

120
Cf. Relatório da visita aos missionários do Niassa (Diocese de Nampula) apresentada pelo P.e Aldo Mongiano
ao P.e Domingos Fiorina, Superior Geral. Matola, 21-10-1958: ArqRegMoç B. 12, n.14.
121
Cf. Relatório do estado da Missão IMC do Niassa do ano 1960. Mitúcue, 29-1-1961. ArqRegMoç: A 5, n.20.
122
Cf. Carta de P.e Aldo Mongiano, Superior Regional, a P.e Domingos Fiorina, Superior Geral. Machava, 2-10-
1961: ArqRegMoç. B 12, n.82.
123
Cf. L. WEGHER, Un uomo e la sua missione. Padre Pietro Calandri, Manuscrito, (Lichinga 1985) 290.
Em 1951 concretizou-se a transferência da Missão de São Francisco Xavier, do sopé do
Monte Txaxe para o do Monte Maiaca. O isolamento, a escassez da população, a insalubridade do
lugar e outras dificuldades convenceram o P.e M. Filippi da conveniência de transferir a missão
para um local mais favorável. Escolheu o Monte Maiaca, junto ao Rio Masekesi, e aí iniciou os
trabalhos de construção124. Em 1953, a residência dos padres já estava construída e nesse ano
chegaram a Maiaca novos reforços: o P.e D. Sergi e o Ir. B. Lorenzatto. De imediato as obras se
intensificaram com a residência das irmãs, os internatos masculino e feminino e o próprio trabalho
pastoral, num local onde já funcionavam 12 escolas-capela. Em 1955 deu-se início à construção da
igreja, que foi inaugurada no dia de Natal de 1957. Nesse mesmo ano, 2 de Julho de 1957, as
missionárias da Consolata iniciaram a sua actividade na missão de Maiaca.
Os Missionários da Consolata viam a urgência de criar condições para a constituição de
uma futura diocese no território confiado à sua responsabilidade pastoral. Para isso, além de
consolidarem as missões já existentes, era necessário fundarem outras novas. Por provisão de 29 de
Dezembro de 1960, D. Manuel de Medeiros Guerreiro criou a Missão de Nossa Senhora da
Conceição. Situada na periferia da cidade de Vila Cabral (Lichinga), o seu território foi
desmembrado da Paróquia de São José de Vila Cabral e era assistida pelos padres da missão de
Unango. O primeiro superior foi o P.e E. Menegon, coadjuvado pelo P.e Joaquim Alves Ferreira.
Situada em território ayao, contava com apenas 184 católicos.
No dia 15 de Agosto de 1962, festejava-se a erecção da nova Diocese de Vila Cabral e D.
Manuel de Medeiros Guerreiro celebrava o seu 25º aniversário de ordenação episcopal, enquanto
assinava o decreto com o qual erigia as paróquias de S. Miguel de Nova Freixo (actual Cuamba), de
Nossa Senhora de Loreto de Curea (ambos os territórios desmembrados da Missão de S. José de
Mitúcue) e de Nossa Senhora do Lago de Metangula (desmembrada da missão de Cobuè).

2.1.3. A criação da Diocese de Vila Cabral


A Diocese de Vila Cabral foi criada pelo Papa Paulo VI, em 21 de Julho de 1963, pela
Constituição Apostólica Nampulensis Dioecesis. O seu território coincidia com o Distrito
Administrativo do Niassa e pertencia anteriormente à Diocese de Nampula. No dia 10 de Julho de
1964 a Santa Sé nomeou o primeiro bispo de Vila Cabral, na pessoa de D. Eurico Dias Nogueira125.
A ordenação episcopal teve lugar no dia 6 de Dezembro. O P.e E. Menegon foi nomeado vigário
geral da diocese. Foi com alegria e esperança que a Diocese de Vila Cabral, preparada durante
quase quatro dezenas de anos pela acção evangelizadora dos Missionários da Consolata, entrou na
vida da Igreja, começando a construir a sua história. Compreendia já então, duas paróquias, dez
missões, 240 escolas a cargo dos missionários com 15.000 alunos e perto de 30.000 cristãos 126.
A 2 de Janeiro de 1965, D. Eurico fez a sua entrada solene na Catedral de Vila Cabral e
apresentou a sua primeira carta pastoral Per Crucem ad Lucem. Mais tarde fez uma viagem de
reconhecimento a toda a diocese, visitando todas as missões do Niassa. Antes de partir para Roma
para participar na última sessão do Concílio Vaticano II, introduziu algumas inovações no governo
e organização da Diocese de Vila Cabral. Durante a sua ausência, o P.e A. Mongiano, Superior
Regional dos Missionários da Consolata, foi nomeado encarregado do governo da diocese. D.
Eurico Dias Nogueira nomeou como consultores diocesanos os padres P. Calandri, D. Ferrero,
E. Menegon, M. Tavares e Joel Carlos. Criou o Colégio Diocesano de S. Teotónio e apontou o

124
Cf. M. FILIPPI, Alcuni ricordi di vita missionaria in Mozambico, p. 4: AIMC VII/1498 n. 26.
125
O primeiro Bispo de Vila Cabral, D. Eurico Dias Nogueira, nasceu em Dornelas do Zêzere (Portugal) no dia 6
de Março de 1923. Ordenou-se sacerdote em Coimbra a 22 de Dezembro de 1945, tendo partido para Roma onde se
formou em Direito Canónico. Em Outubro de 1948 iniciou o exercício do seu ministério sacerdotal em Coimbra,
repartido por inúmeras actividades. Em 10 de Julho de 1964 foi escolhido pelo Papa Paulo VI para primeiro bispo da
nova Diocese de Vila Cabral, tomando posse por procuração, em 6 de Setembro. No dia 6 de Dezembro de 1964
recebeu a ordenação episcopal em Coimbra, tendo chegado à sede da sua diocese em 2 de Janeiro de 1965. Cf. Anuário
Católico de Moçambique: 1966 (Lourenço Marques 1966) 451-452.
126
Cf. CONFERÊNCIA EPISCOPAL DE MOÇAMBIQUE, Anuário Católico de Moçambique: 1966 (Lourenço Marques,
1966) 474.
P.e Joel Carlos como seu director. O P.e Manuel Tavares foi nomeado director do Lar Académico
João XXIII e professor de Moral na Escola Técnica. Indicou como pároco de Nova Freixo, o
P.e Joaquim Alves Ferreira e como pároco interino de Vila Cabral o P.e Jorge Camejo. Fundou
também as missões sucursais do Santo Condestável de Marrupa e da Rainha Santa de Esperança de
Litunde (Majune). Fez um reajustamento nas áreas das missões e das paróquias, para tornar mais
fácil a sua evangelização. Pelo mesmo motivo, fez a divisão da diocese em dois arciprestados com
sedes em Vila Cabral e Nova Freixo. O primeiro arciprestado abrangia as paróquias e missões entre
as populações anyanja e ayao e tinha como arcipreste, o P.e E. Menegon. O segundo, que
compreendia a área macúa, tinha como arcipreste, o P.e D. Ferrero127.

2.2. Movimento missionário no Sul do Save: em Inhambane e Lourenço


Marques
No período que vai de 1951 até 1965 os Missionários da Consolata desenvolveram a sua
presença e acção no Sul do Save, nomeadamente no Arciprestado de Vilankulo (Inhambane) e em
Lourenço Marques. Desde a sua chegada em 1946 e até 1962, ano da criação da Diocese de
Inhambane, os missionários do Sul do Save dependiam pastoralmente do arcebispo de Lourenço
Marques. A arquidiocese, criada em 1940, compreendia os distritos de Lourenço Marques, Gaza e
Inhambane. O seu pastor, D. Teodósio Gouveia, deu grande impulso à evangelização através da sua
acção pastoral de prover a arquidiocese com clero religioso e secular, e abrir novas missões e
paróquias, escolas, colégios, postos sanitários, asilos e creches. Possuía uma grande amizade para
com os Missionários da Consolata que bem conhecia desde 1936, quando assumiu o governo
pastoral da, então, Prelazia de Moçambique. Dada a vastidão do território no Sul do Save e o seu
débil estado de saúde, em 20 de Dezembro de 1958 a Santa Sé nomeou um bispo auxiliar na pessoa
de D. Custódio Alvim Pereira, que, depois da sua morte, assumiu a responsabilidade da
arquidiocese (8 de Agosto de 1962). Com o desmembramento do território da Arquidiocese, a 3 de
Agosto de 1962 a Santa Sé criou a nova Diocese de Inhambane e em 21 de Outubro de 1962
nomeou D. Ernesto Gonçalves Costa como seu primeiro Bispo.
A partir deste momento os Missionários da Consolata do Sul do Save passavam a trabalhar
em duas circunscrições eclesiásticas distintas, sob a direcção de pastores diferentes.

2.2.1. Arciprestado de Vilankulo (Inhambane)


O espaço de tempo que vai de 1951 até 1965 foi um período de penetração e consolidação da
actividade evangelizadora no vasto território do Arciprestado de Vilankulo. A área missionária
compreendia as circunscrições administrativas de Vilankulo, Massinga e Govuro e os postos
administrativos de Funhalouro, Mabote e Inhassoro.
Os frutos alcançados foram notáveis. Como superior religioso e arcipreste, o P.e Gabriel
Quaglia foi um grande impulsionador da acção missionária e soube orientar os seus colegas, na sua
maioria jovens, para serem eficazes na sua prática pastoral. Os resultados estavam à vista. Em
1956, décimo ano da presença e actividade evangelizadora dos Missionários da Consolata no
Arciprestado de Vilankulo, constatava-se que os sacrifícios feitos estavam a ser compensados por
uma óptima colheita. No início do trabalho de evangelização, em 1946, havia em todo o território
apenas 401 católicos, enquanto que dez anos depois eram já 17.337. Só durante o ano de 1956,
houve 3.192 baptismos, tendo sido celebrados também 111 matrimónios. O Seminário Diocesano
de Magude era frequentado por oito seminaristas provenientes do arciprestado128.

127
Cf. Carta de D. Eurico Dias Nogueira aos superiores das missões. Vila Cabral, 20-8-1965: ArqRegMoç. A 2,
n.104.
128
Cf. Relatório do estado da Missão IMC do Sul do Save do ano 1956. Mapinhane, 5-2-1957: ArqRegMoç: A 5,
n.8.
Para ter uma ideia mais completa da situação dos missionários, o P.e Aldo Mongiano visitou
em Junho de 1958 as missões do Arciprestado de Vilankulo, começando pela missão de Massinga,
onde pôde trocar impressões com o P.e J. Paleari, superior da missão e novo arcipreste, sucessor do
P.e Quaglia. A impressão captada sobre os missionários e seu trabalho era positiva. Trabalhavam
com dedicação. Na missão de Massinga/Mangonha, além do P.e José Paleari, trabalhava o
P.e Armanno Armanni. Em Mapinhane, o P.e Gerardo Gumiero, novo superior, tinha como
colaboradores o P.e Artur Rodrigues e os irmãos José Cardinali e António Gonçalves. Na missão
de Maimelane trabalhavam os padres Celeste Blasutto e Manuel Maria Marques e o Ir. José
Eusébio. Em Nova Mambone, a equipa missionária era constituída pelo P.e Amadeu Marchiol e
pelo Ir. Sílvio Petris.
Nesta data, o pessoal missionário era insuficiente para dar resposta a todos os empenhos
pastorais assumidos pelo Instituto, uma vez que o número de missionários era idêntico ao de 1949.
Nos últimos dez anos os empenhos pastorais tinham aumentado, mas não os obreiros da missão, o
que gerou lacunas na escolarização, na formação dos cristãos e dos catecúmenos, em particular. Em
Massinga/Mangonha o movimento era grande e as obras de construção da igreja já estavam
concluídas. Na missão de Mapinhane a situação era um pouco difícil, devido ao período de
incerteza que se seguiu à morte do P.e Gabriel Quaglia. No que respeita a Maimelane e Nova
Mambone os trabalhos de evangelização e promoção corriam tranquilamente129.
O apostolado continuava a percorrer a via do catecismo escolar. As escolas eram alavancas que
faziam com que a evangelização católica progredisse, em detrimento da propaganda protestante.
Muitos dos alunos que frequentavam as escolas das missões eram membros de outras igrejas e
através da escola aderiam à Igreja Católica. Outros não tinham filiação religiosa bem definida e a
escola tornava-se um autêntico catecumenado. Entre todas, a missão de Massinga/Mangonha era a
que dava frutos cristãos mais espontâneos e abundantes. No campo do ensino esta missão
apresentava também óptimos resultados. A afluência escolar era mais constante que o habitual e os
chefes locais pediam, insistentemente, escolas e professores para as suas aldeias. Nas missões de
Mapinhane e Maimelane a frequência era boa, mas mantinha um certo carácter de pressão, caso
contrário poucos frequentariam a escola.
Com o objectivo de superar os desafios pastorais e as dificuldades sentidas no apostolado, era
necessário diagnosticar as suas causas e encontrar um conjunto de soluções. Numa reunião realizada
em Massinga/Mangonha de 20 a 24 de Agosto de 1962, os missionários do Arciprestado de
Vilankulo, em conjunto com o superior regional, avaliaram e programaram a sua actividade
pastoral. Os assuntos tratados foram a formação dos cristãos ou acção evangelizadora dos
missionários, a perseverança dos cristãos e meios para os defender, o funcionamento e rendimento
das escolas e professores e a vida e acção dos religiosos. Durante este importante encontro
trocaram-se ainda impressões sobre os registos das missões, relação com as autoridades civis,
residências, economia, etc130.

2.2.1.1. Fundação das missões de Muvamba e de Vilankulo


Há bastantes anos que se sentia a necessidade de criar uma nova missão na zona norte da
circunscrição de Massinga, para permitir uma assistência mais adequada aos cristãos e
catecúmenos. O projecto desta nova abertura era apadrinhado, tanto pelos missionários, como pelo
próprio arcebispo de Lourenço Marques. Em Janeiro de 1960, o P.e Mongiano efectuou uma visita
às missões do Arciprestado de Vilankulo, tendo apresentado ao Cardeal D. Teodósio de Gouveia
um estudo sobre as possibilidades e condições para esta nova fundação. O lugar indicado para fixar
a sede da missão era Muvamba, localidade situada a 14 km de Nhacengo pelo lado do mar, e que

129
Cf. Relatório da visita aos missionários da Arquidiocese de Lourenço Marques, apresentado pelo P.e Aldo
Mongiano ao P.e Domingos Fiorina, Superior Geral. Matola, 30-6-1958: ArqRegMoç B. 12, n.8.
130
Cf. Reunião dos missionários do Arciprestado de Vilankulo: Massinga, 20-24 de Agosto de 1962. ArqRegMoç.
B11,n.16.
abrangia completamente os regulados de Mazive e Manhice. Esta zona além de muito povoada,
tinha bastantes escolas.
O cardeal erigiu a missão em honra de Nossa Senhora do Rosário em 8 de Setembro de
1960, tendo esta iniciado oficialmente as actividades em 1 de Janeiro de 1961. O seu fundador foi o
P.e Artur Rodrigues, missionário da Consolata português, grande trabalhador e que deu um forte
impulso à missão, com a colaboração do Ir. José Soares de Almeida. Construiu as primeiras
instalações provisórias, escavou um poço, abriu machambas, inaugurou em 1963 a residência dos
padres e, em seguida, os edifícios escolares, posto sanitário e maternidade. Mas nem só de obras
vivia a missão. Em 21 de Maio de 1965 chegavam a Muvamba as primeiras Missionárias da
Consolata, para colaborarem no apostolado. O movimento religioso era apreciável, expresso pelo
número de 7.578 católicos, em 1965.
A criação da Missão de Nossa Senhora de Fátima de Vilankulo foi em 1 de Julho de 1964,
erigida pelo primeiro bispo de Inhambane, D. Ernesto Gonçalves Costa, com território
desmembrado das missões de Mapinhane e Maimelane. A sede da missão foi fixada no centro da
vila, onde residia também a autoridade administrativa do concelho. A sua superfície não era muito
extensa, mas densamente povoada. Da Missão de S. José de Mapinhane, desmembrou-se a área das
escolas de Chiruala, Chaxane, Pambara, Faiquete, Machocomane, Ilhas do Bazaruto, Santa Isabel e
Cabo de S. Sebastião, e da Missão de Santa Ana de Maimelane separaram-se as áreas de S. Lucas
de Bungul, S. Carlos de Chipingamonga, Santa Filomena de Macunha e Chuambo. Por insuficiência
de pessoal, a missão de Vilankulo continuou ainda a ser assistida pastoralmente pelo superior de
Mapinhane. Finalmente, em 7 de Abril de 1965, tomou posse da missão o P.e Osvaldo Peressini, até
então pároco da Matola. Com entusiasmo deu início ao seu trabalho pastoral, assistindo a
comunidade cristã da vila que tinha como ponto de referência uma pequena capela e as oito escolas-
capela já existentes no seu território.

2.2.1.2. Criação da Diocese de Inhambane


Considerando a grande distância que separava o Distrito de Inhambane da capital Lourenço
Marques e o aumento significativo da cristandade local, procedeu-se à criação da Diocese de
Inhambane, pelo Papa João XXIII, em 3 de Agosto de 1962. A nova diocese, separada do território
da Arquidiocese de Lourenço Marques, coincidia territorialmente com o Distrito de Inhambane,
dividindo-se em dois arciprestados. Confiado aos Franciscanos, o Arciprestado de Inhambane era
constituído por 11 paróquias-missões: Nossa Senhora da Conceição de Inhambane (1761), S. José
do Môngoe (1893), S. Francisco de Assis de Mocumbi (1900), S. João de Deus de Homoíne
(1911), S. António de Mavila (1939), Nossa Senhora de Fátima de Jangamo (1951), S. Boaventura
de Panda (1951), Nossa Senhora da Conceição de Morrumbene (1956), Nossa Senhora do Amparo
de Quissico (1957), Nossa Senhora da Conceição de Inharrime (1958) e Sagrada Família de Maxixe
(1960). Confiado aos Missionários da Consolata, o Arciprestado de Vilankulo era constituído por
seis missões: Imaculado Coração de Maria de Massinga (1946), Sagrado Coração de Jesus de Nova
Mambone (1946), S. José de Mapinhane (1946), Santa Ana de Maimelane (1947), Nossa Senhora
do Rosário de Muvamba (1960) e, mais tarde, Nossa Senhora de Fátima de Vilankulo (1964).
No dia 21 de Outubro de 1962, João XXIII nomeou como primeiro Bispo de Inhambane,
D. Ernesto Gonçalves Costa, missionário franciscano que trabalhava na Diocese da Beira. Recebeu
a ordenação episcopal no dia 30 de Dezembro em Lourenço Marques e entrou na Diocese de
Inhambane a 5 de Janeiro de 1963. Os missionários nutriam grande esperança na pessoa e acção do
novo pastor, o qual começou a desenvolver com eles uma intensa actividade apostólica.

2.2.2. Lourenço Marques


A presença dos Missionários da Consolata nos subúrbios de Lourenço Marques remonta a
1948, quando assumiram o cuidado pastoral da Missão de Santa Teresinha do Menino Jesus de
Liqueleva. Entretanto, para darem uma melhor assistência pastoral à extensa e povoada
circunscrição civil da Matola-Rio, fundaram as paróquias de S. Gabriel de Matola-Rio, Sagrada
Família da Machava e Santo Condestável de Boane.
Em cada uma destas paróquias encontrava-se um núcleo significativo de europeus que viviam
agrupados numa zona urbanizada, no centro da qual se situava a sede paroquial. Nas zonas
periféricas viviam, além da população local de etnia ronga, pessoas oriundas de outras regiões do
país atraídas pelas melhores condições de vida da cidade. O trabalho missionário nestas paróquias
tinha a dupla finalidade de assistir espiritualmente os europeus e de catequizar os nativos. Não eram
muitos os europeus que tinham uma prática religiosa regular. A maioria frequentava a igreja em
algumas solenidades e um bom número era indiferente, do ponto de vista religioso. Por seu turno, o
trabalho pastoral entre a população africana seguia os métodos de evangelização usados nas
missões, valendo-se sobretudo das escolas. O apostolado não era nada fácil neste contexto, devido a
factores como a diversidade étnica da comunidade cristã, dividida entre europeus e africanos, à
concorrência de uma infinidade de seitas protestantes, às influências negativas próprias do ambiente
citadino que não favoreciam os valores religiosos, etc. Além do trabalho nas paróquias, os
Missionários da Consolata prestavam serviços específicos na cidade de Lourenço Marques,
nomeadamente na assistência espiritual aos alunos do Colégio Pio XII e dos reclusos das cadeias.
Com o decorrer dos anos, o grupo de Lourenço Marques aumentou de modo significativo. Em 1961,
no Arciprestado de Lourenço Marques já trabalhavam sete missionários da Consolata. Na paróquia
da Machava estava o P.e Aldo Mongiano, Superior Regional e pároco e o P.e Manuel Maria
Marques, coadjutor. Na paróquia da Matola estava o P.e Osvaldo Peressini, superior, o P.e
Francisco Marques, coadjutor e o Ir. José Eusebio. Por seu lado, o P.e Célio Regoli prestava
serviço como capelão das prisões de Lourenço Marques e o P.e António da Costa Gaspar era
capelão e professor do Colégio Pio XII.

2.2.2.1. Paróquia-Missão de S. Gabriel Arcanjo de Matola-Rio (1951)


Por provisão do Cardeal D. Teodósio Clemente de Gouveia criou-se a Paróquia-missão de
S. Gabriel da Matola-Rio em 2 de Julho de 1951, sendo confiada ao cuidado pastoral dos
Missionários da Consolata. O primeiro pároco foi o P.e Osvaldo Peressini. A área da nova
paróquia abrangia parte da extinta Missão de Santa Teresinha do Menino Jesus de Matola, fixando
a sua sede na vila de Matola-Rio.
O primeiro edifício inaugurado em 10 de Outubro de 1953 foi a casa dos padres, que
passou a ser a residência dos missionários que até então usavam a missão de Liqueleva. Com o
passar dos anos, os frutos foram aparecendo e o movimento paroquial aumentando através de um
perseverante trabalho pastoral. Em 1959 esta paróquia contava com 7.880 católicos. Funcionava
com 11 escolas-capela, nomeadamente Matola-Sede, S. Francisco de Assis (Ncue), S. José
Operário (Lingamo), Santa Maria (Anhana), S. Bartolomeu (Chinonanquila), Beato Nuno (Boane e
Umbelusi), S. Francisco Xavier (Mahanhana), S. Isabel (Mussumbuluco), S. João Baptista
(Wakupsa), S. António (Beluluane), Nossa Senhora de Fátima (Estevel) e S. João de Deus
(Maubo). Estas instituições eram frequentadas por 1.540 alunos131.

2.2.2.2. Missão da Sagrada Família da Machava (1956)


A Missão da Sagrada Família da Machava foi criada por provisão de 31 de Janeiro de 1956,
pelo Cardeal D. Teodósio de Gouveia e desmembrada da Missão de S. Gabriel da Matola-Rio.
Abrangia uma área aproximada de 280 km2. A população total era de 18.220 habitantes, dos quais
3.350 eram católicos. Possuía sete escolas, uma na sede, Machava, e as outras seis mais
rudimentares nas zonas limítrofes. O primeiro pároco da Machava foi o P.e Silvestre Liberini132.

131
Relevos sobre a população indígena e assistência espiritual na missão de Matola-Rio e Machava. Matola-Rio,
25 de Novembro de 1959: ArqRegMoç. B14. n.64
132
Arquidiocese de Lourenço Marques, Anuário 1957 (Lourenço Marques, 1957) 59.
Apesar das dificuldades, dois anos após a sua fundação, a Machava tinha aumentado para
4.140 católicos nativos e as escolas-capela já eram dez: Machava-sede, S. Vicente de Paulo
(Bonhiça), S. João Baptista (Anhana), S. João de Brito (Quilasse), S. Damaso (Singatela), S. José
(Slumene), S. António de Lisboa (Mochisso), S. Pedro e S. Paulo (Mulotona) e S. Gabriel das
Dores (Mualasa). Estas escolas eram frequentadas por 1.631 alunos133.
Inicialmente o lugar de culto era uma capela, que desde logo se revelou pequena e inadequada.
Em 1960 os cristãos de origem europeia organizam-se no sentido de construir uma igreja em
alvenaria, concluída e inaugurada em 1964. Em 1963 chegava a colaboração pastoral das irmãs da
Apresentação de Maria.

2.2.2.3. Reabertura da Missão de Santa Teresinha do Menino Jesus de Liqueleva (1962)


Em 1959, o Cardeal D. Teodósio de Gouveia encomendou ao P.e Aldo Mongiano um estudo
sobre as possibilidades de uma assistência pastoral mais eficaz à população da zona entre a Matola
e a Machava, em especial na área da Escola de S. João Baptista onde funcionara a Missão de Santa
Teresinha do Menino Jesus de Liqueleva.
Depois de indagar em profundidade a situação socio-religiosa daquela zona, o P.e Mongiano
apresentou as conclusões e propostas emergentes do seu estudo. Para tornar a presença católica
mais significativa seria necessária uma acção mais intensa no sector da evangelização e
escolarização, incrementando a catequese, multiplicando as escolas e melhorando a qualidade dos
professores. Além disso, era premente reactivar a antiga missão de Liqueleva para dar uma melhor
assistência pastoral à população africana. Sugeriu ainda a abertura de uma missão em Boane, a
qual abrangeria o território do posto administrativo de Boane, incluindo sete escolas da paróquia da
Matola134.
Após apreciação das propostas apresentadas, o arcebispo de Lourenço Marques decidiu reabrir a
missão de Liqueleva, concedendo-a à assistência pastoral dos padres da Machava135. Em 1 de
Janeiro de 1962, com a chegada do P.e Célio Regoli, passou a ser assistida permanentemente.
Missionário apaixonado pelos africanos, o P.e Célio iria desenvolver um notável e sofrido trabalho
pastoral entre a população daquele subúrbio.

2.2.2.4. Paróquia-Missão do Santo Condestável de Boane (1963)


Em 1959, o P.e Aldo Mongiano tinha proposto ao Cardeal D. Teodósio de Gouveia a criação de
uma paróquia na sede do posto administrativo de Boane. Porém, por falta de pessoal missionário
esta abertura não pôde verificar-se. O que já não veio a acontecer em 23 de Maio de 1963, quando
D. Custódio Alvim Pereira erigiu a Paróquia-missão do Santo Condestável de Boane,
desmembrando a paróquia da Matola. O primeiro pároco de Boane foi o P.e Manuel Maria
Marques, que acumulava também com a tarefa de capelão do quartel militar instalado na localidade.

2.2.2.5. Situação pastoral e método missionário


Os missionários que exerciam o seu ministério pastoral nas paróquias da Matola, Machava,
Liqueleva e Boane, esforçavam-se por penetrar, sempre mais, no ambiente africano e europeu.
Davam muita atenção às escolas, que eram frequentadas por um bom número de alunos. Eram os
jovens estudantes quem tinha melhores condições para absorver a formação cristã e, ao mesmo
tempo, influenciar os adultos, que deste modo sentiam a presença da Igreja. Com o tempo, as
paróquias começaram a ganhar mais vitalidade e algumas associações católicas realizavam um
excelente apostolado, com destaque para a Acção Católica, Legião de Maria e escuteiros.

133
Relevos sobre a população indígena e assistência espiritual na missão de Matola-Rio e Machava. Matola-Rio,
25 de Novembro de 1959: ArqRegMoç. B14. n.64
134
Relevos sobre a população indígena e assistência espiritual na missão de Matola-Rio e Machava. Matola-Rio,
25 de Novembro de 1959: ArqRegMoç. B14, n.64.
135
Carta do Arcebispo de Lourenço Marques ao P.e Aldo Mongiano. Lourenço Marques, 28 de Novembro de
1959. ArqRegMoç B14. n.65
Para unir forças e melhor responder aos desafios colocados, os Missionários da Consolata
presentes no Arciprestado de Lourenço Marques reuniram-se a 12 de Julho de 1965 para analisar a
situação religiosa-pastoral. Da avaliação emergiram os seguintes aspectos negativos: existência de
uma fraca prática religiosa, quer na participação na missa, quer na frequência aos sacramentos; um
baixo nível moral com uniões matrimoniais irregulares; muita instabilidade nas famílias e práticas
pagãs e supersticiosas; percepção dos deveres religiosos e morais como um peso; inexistência de
um sentimento comunitário de Igreja, sendo a religião considerada uma questão pessoal; baixo
interesse pelas actividades da Igreja, expressa na escassa colaboração dos cristãos nas festas,
construções, etc. e facilidade em passar do catolicismo às seitas protestantes, especialmente para o
sionismo. As causas indicadas para esta fraqueza religiosa eram as preocupações materiais e o
desejo de melhorar o nível de vida em detrimento da dimensão espiritual, o insuficiente contacto
dos padres com os cristãos, a falta de método missionário e a escassez de livros de cânticos e
catecismos adaptados.
Todavia, nem tudo parecia negativo na análise feita. Havia também alguns sinais de esperança.
As comunidades cristãs estavam a formar-se, alguns catequistas eram zelantes, a acção da Legião
Maria era muito positiva. A alternativa para inverter as situações negativas era que cada missionário
se deveria esforçar por levar para a frente um trabalho pastoral mais profundo do ponto de vista
espiritual e educativo136.

136
Situação espiritual dos cristãos das missões de Matola, Machava, Liqueleva e Boane. Machava, 12 de Julho de
1965. ArqRegMoç. B.13.
QUARTO PERÍODO (1966-1974)
RENOVAMENTO DA EVANGELIZAÇÃO À LUZ DO CONCÍLIO E INSTABILIDADE
POLÍTICA

Introdução
O Concílio Vaticano II criou um clima de esperança e de renovação na Igreja em Moçambique.
Vários sectores da sociedade abriram-se a uma nova visão de Igreja e de pastoral missionária, fruto
da renovação conciliar. Redescobriu-se um modelo de Igreja visto como comunhão de comunidades
responsáveis, houve um renovamento na evangelização com a introdução de novos métodos
pastorais, novo espírito ecuménico, etc. A exigência de uma evangelização autêntica e profunda fez
surgir experiências e iniciativas locais relevantes, como por exemplo a fundação de centros de
formação de animadores e catequistas, semanas nacionais de pastoral, cursos de inserção para
missionários, entre outras. Muitos missionários tentaram desfazer binómios que caracterizavam a
evangelização de então, nomeadamente escola-capela, professor-catequista ou Igreja-Governo.
No início dos anos 70, os Missionários da Consolata não podiam ficar indiferentes a tudo aquilo
que acontecia à sua volta. O avanço da luta de libertação nacional, o endurecimento da política
colonial, o silêncio comprometedor de quem deveria falar e agir, levou os missionários a unir a sua
voz àqueles que denunciavam as situações de injustiça e a aliviar a dor de quem sofria.
A revolução de 25 de Abril de 1974, que corrigiu o déficit de democracia existente em Portugal,
abriu as portas à descolonização dos territórios ultramarinos. As consequências deste acontecimento
decidiram em parte o futuro de Moçambique e da sua Igreja. Tinha chegado o momento da
liberdade que lhe permitiria construir o seu futuro.

1. ORGANIZAÇÃO DO INSTITUTO MISSIONÁRIO DA CONSOLATA EM MOÇAMBIQUE


O período de 1966 a 1974 foi muito rico em acontecimentos, alguns dos quais dramáticos. A
Igreja em Moçambique vivia horas difíceis e a situação era de tal forma complicada que não era
fácil discernir como agir. Não admira que, neste período, a caminhada tenha sido difícil e que
tenham surgido contrastes, incertezas e até solavancos. Sentia-se a necessidade de uma revisão, pois
a inquietude era colectiva e a força da renovação premia por todos os lados.
A I Conferência do Instituto em Moçambique estabeleceu a necessidade de editar uma
publicação regional com crónicas e artigos que ilustrassem as actividades das comunidades,
métodos pastorais, experiências, etc. Em Setembro de 1971 sai o primeiro número do “Encontro
IMC”, publicação bimestral da Região de Moçambique, com o objectivo de fomentar a união entre
os missionários, por meio do intercâmbio de notícias, para que todos se pudessem sentir mais perto
uns dos outros137.

1.1. Recepção do Concílio e adesão ao renovamento


No período pós-conciliar, os Missionários da Consolata tentaram fazer a renovação eclesial e
pastoral proposta pelo Vaticano II. Reflectiu-se sobre o modo de viver a missão e de ser missionário
em Moçambique. A chegada de novos missionários formados no espírito conciliar trouxe
renovação, mas também alguma contestação. O método pastoral em vigor, baseado em obras de
promoção, foi objecto de críticas. Existiam mais escolas do que capelas, mais alunos do que
catecúmenos e os cristãos não eram ajudados a formar uma consciência comunitária. Neste espírito,
nasceram novas iniciativas como a celebração da liturgia nas línguas locais, a separação dos
conceitos de escola e catequese e de professor e catequista. Recuperou-se o contacto com as
comunidades e tentou dar-se uma preparação incarnada aos agentes pastorais locais, envolvendo-os

137
A sua publicação seria suspensa em 1974 por vários motivos: restrições impostas às publicações religiosas,
diminuição do pessoal missionário na Região, dificuldades de comunicação, etc. A sua publicação seria retomada mais
tarde, em 1982. Cf. Nota explicativa: Encontro n. 15 (1982) 2.
mais na pastoral. Todavia, estas tentativas de renovação nem sempre alcançaram os resultados
propostos138.
Procedeu-se ao estudo em grupo dos documentos conciliares, quinzenalmente. Naturalmente que
a renovação conciliar não passava apenas pela leitura dos documentos, mas pressupunha uma
revisão espiritual interior a nível comunitário e individual. Para ajudar os missionários a alcançar
este objectivo, cada grupo – Niassa, Inhambane e Lourenço Marques - constituiu uma comissão
coordenadora composta por três missionários, para a renovação da vida e actividade missionária,
em conformidade com a doutrina do Concílio Vaticano II. O Superior Regional, P.e A. Mongiano
insistia na necessidade de cada missionário fazer uma leitura atenta dos documentos conciliares, no
sentido de cada qual se tornar apto para fazer esta renovação da vida religiosa e pastoral139.

1.2. O caminho da Região Moçambique rumo à unificação (1966-1974)


No V Capítulo Geral do Instituto, de 2 de Maio a 20 de Novembro de 1969, participaram quatro
delegados de Moçambique: padres A. Mongiano, J. Paleari, E. Menegon e M. Tavares. Depois do
Capítulo, no qual foi eleito o P. Mário Bianchi como Superior Geral, procedeu-se à eleição do
Superior da Região de Moçambique e do Superior da Delegação do Niassa. No dia 25 de Abril de
1970, foi escolhido como novo Superior Regional, o P. J. Paleari140.
A unidade jurídica da Região Moçambique era um dos desafios que o novo superior tinha pela
frente, pois, a par da Região, continuava a existir a Delegação do Niassa141. A união, solicitada pela
Direcção Geral do Instituto, não era fácil de alcançar, tanto mais que os missionários do Niassa,
reunidos em Mitúcue, tinham requerido a criação da Região Niassa em 15 de Abril de 1970.
Todavia, tal reivindicação não fora aceite pela Direcção Geral, que defendia a união de todos os
missionários numa única Região.
Realizada a eleição dos superiores, tratava-se agora de preparar a Iª Conferência Regional, onde
a união deveria ser formalizada. Esta reunião magna foi preparada em dois encontros, a nível de
grupo, para o estudo dos documentos capitulares, de modo a promover a renovação dos
missionários. Para ajudá-los neste trabalho e esclarecê-los sobre a conveniência da Região unida, o
Superior Geral, P. Bianchi, deslocou-se a Moçambique. A primeira reunião, para os missionários do
sul do Niassa, realizou-se em Mitúcue, a 5 de Junho de 1970 e a segunda, para os do norte, teve
lugar em Vila Cabral, a 8 de Junho. O Superior Geral falou da renovação do Instituto e dos
missionários, e da necessidade de união na Região, sublinhando que perante as dificuldades daquele
momento, dever-se-ía insistir na união e não na separação dos missionários em dois grupos142.

1.2.1. A Iª Conferência Regional (1971)


A I Conferência Regional realizou-se em 1971, em duas partes. A primeira parte da conferência
realizou-se em Nova Freixo (Niassa), de 2 a 12 de Janeiro, e teve a participação de todos os
missionários do norte e uma representação do sul. A segunda parte da conferência foi realizada na
missão de Mapinhane (Inhambane), com a presença do P. Guido Motter, Vice Superior Geral, de

138
Cf. G. FRIZZI, La missione del Niassa nel crogiuolo della rivoluzione: Documentazione IMC n. 3 (1980) 17-18.
139
Cf. Carta de P. Aldo Mongiano aos missionários da Região Moçambique. Machava, 30 de Dezembro de 1966.
ArqRegMoç. B11, circular, n. 14.
140
No dia 8 de Julho de 1970 o Conselho Geral nomeou os conselheiros da Região Moçambique nas pessoas dos
padres António Gaspar (vice-Superior Regional), Manuel Tavares, Emanuel Maggioni e Artur Marques. Cf. Carta de P.
Mário Bianchi, Superior Geral, a P. José Paleari, Superior Regional. Turim, 9-7-1970: B 10, n. 59.
141
O novo superior da Delegação do Niassa era o P.e Manuel Tavares (11-8-1970), eleito em substituição do P.e
Eugénio Menegon.
142
Cf. Actas da reunião dos missionários do sul do Niassa com o Superior Geral. Mitúcue, 6-6-1970:
Arq.RegMoç. B. 13, n. 152; Actas da reunião dos missionários do norte do Niassa com o Superior Geral. Mitúcue, 8-6-
1970: ArqRegMoç. B. 13, n. 151.
todos os missionários do sul e uma representação do norte143. Esta reunião foi um acontecimento
de grande importância para a vida da Região, pois pela primeira vez os missionários do norte e do
sul tiveram a possibilidade de se encontrar para estudarem juntos os problemas, apontarem soluções
e cimentarem a união entre si.
O resultado do trabalho realizado ficou registado nos Actos da Conferência Regional que
espelhavam o esforço feito pelos missionários para se adaptarem à situação concreta, à luz das
deliberações do Capítulo Geral de renovação, o primeiro depois do Concílio. Ficou patente o
empenho em renovar o apostolado, através da ênfase colocada nos valores africanos (n. 15),
promoção humana (n. 16) e promoção vocacional de sacerdotes diocesanos e religiosos
missionários (n. 48). Todo o espírito dos Actos da Conferência exprimia a vontade dos missionários
de permanecer em Moçambique, não obstante as dificuldades do momento e o dinamismo para
realizar uma evangelização autêntica e eficaz144.
Todavia, na I Conferência Regional não foi tomada nenhuma decisão quanto à unificação da
Região de Moçambique, o que contrariava as orientações dadas pela Direcção Geral. Este foi um
dos motivos, entre outros, que levou o Superior Geral a visitar novamente Moçambique. O P.e M.
Bianchi chegou a Lourenço Marques no dia 20 de Janeiro de 1972. Visitou em primeiro lugar as
paróquias da capital, tendo seguido depois para as missões de Inhambane e, finalmente, do Niassa.
A visita permitiu debater todas as situações e problemas sobre a união regional, apostolado,
avaliação da situação sócio-política e rumos para o futuro. Estas questões deveriam ser discutidas
em conjunto na Conferência Regional ordinária do ano seguinte.

1.2.2. A IIª Conferência Regional (1973)


No dia 22 de Janeiro de 1973, na missão de Mapinhane, começou a primeira fase da IIª
Conferência Regional. O objectivo deste primeiro encontro era encontrar uma fórmula de governo
da Região, que considerasse três necessidades fundamentais: a) a unidade regional e a realização
eficiente dos fins do Instituto, determinados pelos documentos capitulares; b) o respeito pelos
indivíduos e características de cada zona de trabalho da Região; c) a eficiência no trabalho pastoral
missionário. A conferência resumiu as suas conclusões em 11 directrizes, aprovadas depois do
debate e cujo teor foi sintetizado deste modo: 1. Para obter uma melhor organização em
Moçambique e um serviço mais eficiente nas dioceses onde se desenvolve as actividades, a
Conferência Regional determina a extinção da Delegação do Niassa, ficando o Instituto organizado
numa única Região; 2. A Região Moçambique considera-se constituída por quatro zonas de
trabalho, que são Vila Cabral, Nova Freixo, Inhambane, Lourenço Marques; 3. O Conselho
Regional será constituído por quatro conselheiros e cada zona de trabalho escolherá um conselheiro
entre os seus membros; 4. O Vice Superior Regional será eleito por todos os membros da região,
devendo ser um dos quatro conselheiros.
Determinou-se também quais seriam as funções do Superior Regional: ir ao encontro das
dificuldades dos vários grupos e de cada indivíduo, dedicando a todos e a cada um o tempo
necessário, representar o Instituto junto das dioceses e da Federação dos Religiosos, ser o promotor
da animação das comunidades, auscultar o parecer dos missionários e informá-los das deliberações
do Conselho Regional145.
Deste modo, ficava finalmente consumada a união Regional com a supressão da Delegação do
Niassa. Estabelecida a unidade jurídica da Região, procedeu-se à escolha do novo superior. Em 24
de Abril de 1973 o P.e Manuel Tavares foi eleito como Superior Regional e tinha pela frente a

143
Para conhecer o desenvolvimento dos trabalhos da I Conferência Regional dos Missionários da Consolata de
Moçambique, consultar a Acta da Conferência. I Conferência Regional de Moçambique. Nova Freixo-Mapinhane,
1971: ArqRegMoç. R. 1.
144
Cf. INSTITUTO MISSIONÁRIO DA CONSOLATA, I Conferência Regional da Região Moçambique (Nova Freixo –
Mapinhane, 1971).
145
II Conferência Regional (Mapinhane, 22 a 25-1-1973: Encontro. Orgão informativo IMC n. 8 (1973) 3-4.
tarefa de concretizar esta união. A segunda parte da Conferência Regional seria a ocasião para
tomar essas medidas.
A segunda parte da conferência foi preparada a nível dos grupos de Vila Cabral, Nova Freixo,
Inhambane e Lourenço Marques. No dia 24 de Agosto, em Nova Freixo, reuniu-se a comissão
encarregada de elaborar o esquema para os trabalhos da Conferência Regional e três dias depois,
iniciava-se em Mitúcue a segunda parte, que se iria prolongar até ao dia 1 de Setembro de 1973.
Trataram-se questões sobre a vida espiritual e as comunidades missionárias, o apostolado para a
formação de comunidades adultas e a animação missionária e vocacional. Concluída a conferência,
o novo conselho reuniu-se com o Superior Regional para tratar alguns assuntos relacionados com o
movimento de pessoal.

1.3. A expulsão do P. Célio Regoli e dos Padres Brancos: Permanecer ou sair de


Moçambique?
No início dos anos 70, existia na Igreja Católica em Moçambique uma profunda fractura interna,
por se gerarem e expressarem nela percepções diversas sobre prioridades de actuação. Tudo isto era
agravada pelo ambiente de guerra que atingia o pessoal missionário nas mais variadas formas, com
sucessivas expulsões e prisões por parte do poder policial e político, que acabaram por atingir o
próprio Bispo de Nampula, D. Manuel Vieira Pinto, em Março de 1974.
Alguns missionários da Consolata tiveram desentendimentos com a autoridade civil, causados
pela situação de guerra, nomeadamente quando denunciaram publicamente injustiças e se
colocavam ao lado dos mais sofridos. O caso que gerou mais celeuma foi, sem dúvida, a expulsão
do P. Célio Regoli, pároco de Liqueleva.
No dia 26 de Novembro de 1970, o P.e Célio Regoli foi preso na sua residência, na paróquia de
Liqueleva, por agentes da D.G.S. (Direcção Geral de Segurança), acusado de ter favorecido a Frente
de Libertação de Moçambique (Frelimo). O Arcebispo de Lourenço Marques, D. Custódio Alvim
Pereira, acompanhava a polícia. Interrogado sobre as suas actividades, o P.e Célio recusou qualquer
envolvimento político ou apoio à Frelimo. Terminado o interrogatório, D. Custódio Alvim foi
informado das conclusões, leu o processo, deu crédito a todas as acusações e admitiu a
culpabilidade do missionário, sem se preocupar em averiguar pessoalmente a veracidade dos factos.
Foi assim que, depois de 18 anos de serviço à Igreja em Moçambique, o missionário foi expulso
sem julgamento nem provas concretas, e com o consentimento da autoridade eclesiástica, só por ter
pronunciado algumas frases que foram mal interpretadas e por ter sido encontrada em sua posse
uma determinada quantidade de dinheiro. O P.e Regoli tinha chegado a Moçambique em 1952, fora
capelão do Colégio Pio XII, do Seminário Maior Pio X e das prisões de Lourenço Marques,
trabalhara nas missões de Vilankulo, Nova Mambone e na paróquia de Liqueleva. Foi expulso de
Moçambique no dia 23 de Dezembro de 1970. Do seu exílio em Itália, declarou que a única
acusação que lhe poderiam fazer era, a de ter amado e defendido os africanos. Apesar de tudo
aquilo que sofreu, renovou a declaração de perdão a quem contribuiu para o seu afastamento
forçado da missão.
Foi com imensa mágoa, compartilhada pelas diferentes congregações religiosas presentes em
Moçambique, que os Missionários da Consolata tiveram conhecimento da expulsão do P. Regoli,
com um processo de tal modo sumário, que violava os direitos mais fundamentais da pessoa
humana. A primeira reacção do Instituto, reunido em Conferência Regional em Nova Freixo, a 14
de Janeiro de 1971, foi enviar uma carta confidencial à Conferência Episcopal146. Alguns dias antes,
D. Custódio Alvim enviara uma carta a todo o clero da arquidiocese e a outras entidades, expondo a
sua versão sobre o caso P.e Célio147. Tendo tido conhecimento do conteúdo da carta, os

146
Cf. Carta dos Missionários da Consolata aos bispos de Moçambique. Nova Freixo 14-1-1971. ArqRegMoç. A.
3, n. 46.
147
Cf. Carta de D. Custódio Alvim aos padres da sua arquidiocese. Lourenço Marques, 26-12-1970. ArqRegMoç.
A. 3, n. 47.
Missionários da Consolata, reunidos em Mapinhane para a segunda parte da Conferência Regional,
prepararam uma resposta com data de 3 de Fevereiro de 1971. Enviaram a carta aos bispos e aos
superiores das congregações religiosas presentes em Moçambique, na qual discordavam do teor da
mensagem confidencial do arcebispo aos seus sacerdotes, pelas afirmações reproduzidas, por uma
certa apreciação dos acontecimentos e pela aceitação da culpabilidade do P.e Célio148. Os
Missionários da Consolata não receberam nenhuma resposta à carta confidencial dirigida à
Conferência Episcopal, mas sim uma carta defensiva de D. Custódio Alvim149. Semanas mais tarde
foi elaborada uma resposta final do Instituto, com algumas considerações à carta do arcebispo de
Lourenço Marques150. Em seguida, a 23 de Março de 1971, 24 missionários da Beira, solidários
com o Instituto, subscreveram uma carta dirigida a D. Custódio Alvim Pereira, sobre a expulsão do
P. Célio Regoli e a carta por ele enviada aos Missionários da Consolata. O bispo é acusado de
graves distorções pastorais e de traição à Igreja e ao Evangelho, em clara contradição com as
directrizes do Concílio Vaticano II151.
Maior clamor causou a expulsão de Moçambique dos Missionários de África, vulgarmente
conhecidos por Padres Brancos. Estando ao corrente da insatisfação dos seus missionários em
Moçambique, o P. Theo Van Asten, Superior Geral dos Padres Brancos, visitou-os em Fevereiro de
1971. Falou com D. Francisco Nunes Teixeira, Bispo de Quelimane e presidente da Conferência
Episcopal de Moçambique, acerca dos problemas da Igreja em Moçambique que, segundo ele,
afectavam os seus missionários e que colocavam em questão a sua permanência nas missões onde
exerciam a sua actividade152. Antes de tomar uma decisão sobre permanecer ou abandonar, o P. Van
Asten reuniu o seu conselho em Roma e consultou todos os superiores gerais das congregações
presentes em Moçambique, entre os quais o P. Mário Bianchi, Superior Geral dos Missionários da
Consolata, comunicando que, devido à situação insustentável criada entre a Igreja e o Governo, a
melhor solução seria sair.
Depois da decisão tomada pelo seu conselho geral, o P. Van Asten envia duas cartas, uma
dirigida aos próprios membros e outra aos bispos moçambicanos interessados, dando a conhecer a
deliberação de retirar todos os seus missionários de Moçambique, por dever de consciência e por aí
existir uma Igreja que aceita a mordaça do estado. Os Padres Brancos entendiam assim sair deste
estado de grande ambiguidade em nome também da africanização da Igreja, alegando ainda que os
bispos não davam sinais de querer corrigir a sua atitude em relação ao regime colonial português153.
Informaram, por fim, os bispos que deixariam as missões de Tete e da Beira, onde trabalhavam, no
final do ano lectivo, para não prejudicarem os alunos.
O Governo português reagiu à carta do Superior Geral dos Padres Brancos, considerando-a
ofensiva à dignidade nacional e contrária aos princípios e às leis constitucionais. Tratava-se de um
documento que punha em causa a política portuguesa ultramarina e abalava os conceitos de um
Portugal uno, indivisível e pluriracial. Considerando esta atitude uma intromissão nos assuntos
internos do Estado e uma injúria às leis constitucionais, o Governo antecede-se à data de saída
estabelecida pelos Padres Brancos de Moçambique e determina a sua expulsão, num prazo de 48
horas.
Perante a expulsão dos Padres Brancos, os Missionários da Consolata, reunidos na missão de
Mitúcue por ocasião dos exercícios espirituais, tomaram uma posição de solidariedade para com os

148
Cf. Carta dos Missionários da Consolata aos prelados e superiores religiosos. Mapinhane, 3-2-1971.
ArqRegMoç. A. 3, n. 48.
149
Cf. Carta de D. Custódio Alvim aos reverendíssimos padres e irmãos da Consolata. ArqRegMoç. A. 3, n. 49.
150
Cf. Carta dos Missionários da Consolata aos prelados e superiores religiosos. Lourenço Marques, 7-3-1971.
ArqRegMoç. A. 3, n. 50.
151
Carta de um grupo de padres da Beira a D. Custódio Alvim. Beira, 23-3-1971. ArqRegMoç. A. 3, n. 56.
152
F. NUNES TEIXEIRA, A Igreja em Moçambique na hora da independência (1955-1975) (Coimbra, 1994) 20-21.
153
Para um conhecimento do conteúdo das cartas ver: E. GONÇALVES COSTA, A obra missionária em Moçambique
e o poder político (Braga, 1996) 38-42; I. TUBALDO, Una Chiesa su strade difficili. Mozambico fra passato e futuro
(Bologna, 1994) 99-102.
seus colegas. Todos se manifestaram ao lado dos Padres Brancos, lembrando a posição por eles
tomada, juntamente com outros sacerdotes da Beira, na ocasião da expulsão do P.e Regoli.
Reconhecendo ser muito difícil trabalhar em tais circunstâncias, a maioria dos missionários, porém,
não era favorável à imitação do gesto dos Padres Brancos. Mesmo assim, no dia 28 de Agosto de
1971, um grupo de 17 missionários da Consolata escreveu uma carta ao Superior Geral, P.e M.
Bianchi, interrogando-se sobre a atitude do Instituto perante a saída dos Padres Brancos e sobre a
validade do trabalho missionário em Moçambique154.
A Direcção Geral respondeu com uma circular a todos os membros, na qual dava directrizes para
a permanência em Moçambique. Em primeiro lugar recusava a insinuação, feita pelos subscritores
da carta, de que a Direcção Geral teria decidido unilateralmente manter os próprios missionários em
Moçambique, sem os interrogar sobre esse facto. O P.e M. Bianchi respondia, afirmando que o
Conselho Geral não tomara nenhuma decisão sobre esse argumento, simplesmente porque nenhum
missionário de Moçambique propusera a alternativa de sair ou permanecer, nem antes, nem depois
da partida dos Padres Brancos. Acrescentava ainda que, se algum missionário, por motivos pessoais
sérios, desejasse deixar Moçambique poderia fazê-lo, não se responsabilizando o Instituto pelas
consequências pastorais daí derivantes. No final da carta, a Direcção Geral manifestava uma vez
mais a sua solidariedade para com os Padres Brancos e dava algumas recomendações necessárias
para uma presença missionária mais significativa, num momento particularmente difícil. Era
necessária prudência, unidade e menos sensacionalismo155.
Depois de ter visitado os missionários em Moçambique em 1972, o Superior Geral, P. Mário
Bianchi, explicava a decisão de permanência do Instituto da Consolata deste modo: “os
missionários permanecem em Moçambique(…) porque amam os africanos e querem trabalhar e
sofrer com eles para construir uma sociedade e uma Igreja livre, autenticamente sua”. A decisão
de permanecer fundamentava-se nas mesmas motivações eclesiais que levavam outros a partir, isto
é, o desejo de dar um contributo para a liberdade e maturidade do povo moçambicano156.
Entretanto, urgia ocupar o vazio provocado pela saída dos Padres Brancos. D. Manuel Vieira
Pinto, Bispo de Nampula e Administrador Apostólico da Beira, pediu ao Superior Geral dos
Missionários da Consolata para aceitar, pelo menos, a paróquia de Munhava (Beira)157. Depois de
ter consultado a opinião dos Missionários da Consolata de Moçambique, o P.e. M. Bianchi
respondeu que não havia possibilidade de assumir tal encargo pastoral, sobretudo pela escassez de
pessoal. Além disso, os missionários teriam dificuldade em ocupar o lugar deixado vacante pelos
Padres Brancos, se perdurassem os sinais que os tinham levado a sair de Moçambique158.

1.4. Falecimento de missionários pioneiros e jovens


Neste espaço de tempo faleceram em Moçambique quatro missionários da Consolata: P.e
Joaquim Alves Ferreira, P.e. Pedro Calandri, P.e Guerrino Pandrelli e P.e Domingos Ferrero. Vidas
tão diferentes e iguais! As vidas dos padres Joaquim Alves Ferreira e Guerrino Prandelli foram
quebradas antes que os seus sonhos evangélicos se realizassem, morrendo jovens e de modo
violento. As vidas do P.e Calandri e P.e Ferrero foram longas e, nelas, muito sofreram e muito
realizaram.
Em 1967 falecia o P.e Joaquim Alves Ferreira e, logo depois, o P.e Calandri, enlutando os
Missionários da Consolata e o próprio Niassa. O primeiro faleceu na pujança da vida, com apenas

154
Cf. Carta de um grupo de missionários da Consolata de Moçambique ao Conselho Geral. Mitúcue, 28-8-1971:
ArqRegMoç. B. 13, n. 176.
155
Cf. Carta da Direcção Geral aos Missionários da Consolata de Moçambique. Turim, 11-10-1971: ArqRegMoç.
B 12, n. 219.
156
Cf. Carta de P.e Mário Bianchi, Superior Geral, aos missionários de Moçambique (10-4-1972): Bollettino
Ufficiale 36 (1972) 64-67.
157
Cf. Carta de D. Manuel Vieira Pinto, Bispo de Nampula e Administrador Apostólico da Diocese da Beira ao
Superior Geral, P.e Mário Bianchi. Beira, 21-7-1971: ArqRegMoç. B. 13, n. 132.
158
Cf. Carta de P.e Mário Bianchi, Superior Geral, a D. Manuel Vieira Pinto, Bispo de Nampula e Administrador
Apostólico da Beira. Turim, 21-9-1971: ArqRegMoç. B 12, n. 216.
34 anos de idade e quando muito havia a esperar do seu dinamismo missionário. Um acidente de
mota truncou-lhe a existência terrena na tarde de 11 de Maio, em Nova Freixo, onde era pároco. O
P.e Pedro Calandri faleceu no dia 12 de Agosto, com 74 anos de idade, após uma longa vida
missionária, gasta quase inteiramente ao serviço do Niassa. Ele, que foi o pioneiro da evangelização
católica nesta terra. O seu funeral e sepultura, em Massangulo, foram a expressão eloquente do
quanto era considerado e amado por todos.
No dia 17 de Outubro de 1972 falecia o P. Guerrino Prandelli com apenas 29 anos, atingido pela
explosão de uma mina, na estrada entre as missões de Belém e Nova Esperança. Partia, mas ficava o
exemplo da sua generosidade, da sua maneira de ser franco e expansivo e da sua profunda visão dos
problemas africanos, fruto de um estudo feito à luz da fé. Foi sepultado na missão de Unango159.
A 26 de Outubro de 1973 falecia o P. Domingos Ferrero, na missão de Mitúcue onde fixara
residência. Tinha 82 anos de idade. Durante muitos anos, enquanto superior religioso e eclesiástico
do grupo do Niassa, dirigiu a vida religiosa e apostólica de gerações de missionários. A sua vida foi
moldada pela figura do pai fundador dos Missionários da Consolata, Beato José Allamano. Amar
Jesus sacramentado, confiar fielmente na Virgem Consolata e obedecer à Igreja e às directrizes do
Instituto. Distinguia-se na prática do axioma o bem deve ser bem feito e sem rumor. Foi sepultado
no cemitério de Mitúcue.

2. ACTIVIDADE MISSIONÁRIA DO INSTITUTO EM MOÇAMBIQUE


2.1. O movimento missionário na diocese de Vila Cabral (Lichinga)
A renovação conciliar, da qual D. Eurico Dias Nogueira fora promotor nos vários sectores da
pastoral, e a chegada de missionários jovens tornaram este período pastoralmente fecundo. O
Instituto apostou no rejuvenescimento do pessoal, tendo sido destinado um bom grupo de
missionários ao Niassa: Padres João Baptista Coelho (1966), Elísio de Assunção, João Monteiro da
Felícia (1967); Manuel Carreira, Adriano Prado, Salvador Forner, Henrique Redaelli (1968), Franco
Gioda, Guerrino Prandelli (1969), Herculano Neves da Silva, João Guidolin, Severino Bordignon,
Francisco Lerma Martinez, Ir. Tarcísio Lot (1970), Ir Pedro Bertoni, Ir. Agostinho Lanza (1971);
P.e José Martins da Rocha e P.e Norberto Ribeiro Louro (1972); P.e. Augusto Fatela, P.e José
Frizzi, P.e José Jesus Barros e P.e Adelino da Conceição Francisco (1974).
Do redobrado entusiasmo com que os Missionários da Consolata se lançaram ao trabalho nesta
nova fase da evangelização do Niassa, falam alguns dados estatísticos referentes a este período.
Criaram-se quatro novas missões. Os cristãos subiram para cerca de 50.000. Os missionários
aumentaram para 30, os professores para 300 e os alunos matriculados subiram de 15.000 para mais
de 20.000. Entraram 15 irmãs nativas da Congregação da Imaculada Conceição para o serviço
activo da diocese e iniciou-se a preparação do primeiro grupo de irmãos autóctones160. Criaram-se
instituições que muito contribuíram para organizar e impulsionar a vida eclesial da diocese, tais
como a Escola de Formação de Professores de Posto, o Colégio-Liceu S. Teotónio, a casa de
formação de irmãos auxiliares das missões e o Seminário Menor de Nova Freixo. Construíram-se
vários edifícios escolares e capelas. Procurou-se proceder ao apetrechamento das novas missões,
dotando-as do indispensável para um funcionamento eficaz e renovando ou melhorando as infra-
estruturas antigas o mais possível. Tudo isto para as tornar mais funcionais e eficientes, na sua
tarefa de serem células vivas da Igreja e instrumentos de cristianização.
Todavia este período não foi nada fácil, pois a guerra tornou-se uma realidade com que os
missionários tiveram de aprender a conviver. Além das perdas humanas e da destruição por ela
causada, ainda se viam impedidos de se movimentarem livremente. Os excessos de violência

159
Para um maior conhecimento da vida e obra deste missionário ver: Guerrino Prandelli missionario uomo di
speranza (Lamarmora-Brescia 1998)
160
Cfr. Diocese de Vila Cabral. Resumo dos dados estatísticos. Vila Cabral, 31-12-1967. ArqRegMoç A2, n. 87.
perpetrados pelos militares e colonos feriam a consciência dos missionários, tendo alguns tomado a
iniciativa de denunciar os comportamentos reprováveis. Os atritos com as autoridades também
desgastavam pelo clima de suspeita e desconfiança que suscitavam. Entre dois fogos, os
missionários procuravam ser testemunhas de paz e de justiça.

2.1.1. A luta anti-colonial e a repressão: reflexos sobre a actividade missionária


A luta anti-colonial, iniciada em 1964 e a resposta do exército português flagelaram
Moçambique, com o seu doloroso cortejo de mortos, feridos, destruição, ódio, fome e miséria. O
Niassa era a zona prioritária das acções da Frelimo por dois motivos. Por um lado, a necessidade de
criar uma zona libertada e por outro, abrir uma passagem para sul, por Mecanhelas, em direcção à
Zambézia e Tete. O primeiro grupo armado da Frelimo que entrou no Niassa era chefiado por
Daniel Polela, antigo aluno da missão de Messumba, assaltando em 24 de Setembro de 1964 a
residência e secretaria do Posto Administrativo de Cobué. A partir de 1965 a Frelimo intensificou a
ofensiva militar no Niassa, que se prolongaria por dois anos. Consequentemente, parte da população
começou a abandonar as aldeias para se refugiar em lugares seguros. A insuficiente ocupação
administrativa, as dificuldades de comunicação e as reduzidas forças militares portuguesas
permitiam, com relativa facilidade, que a Frelimo desenvolvesse uma apreciável actividade de
guerrilha e, simultaneamente, de adesão da população. Em meados de 1965, a guerrilha atingia já as
regiões de Nova Coimbra, Metangula, Maniamba e Unango e, a partir do Malawi, as regiões de
Mandimba e Mecanhelas. Durante o primeiro semestre de 1966 registaram-se ataques à linha férrea,
emboscadas às tropas, colocação de minas e atentados contra as populações da região centro, nas
zonas de Catur, Massangulo, Vila Cabral, Nova Esperança e Maúa. No decurso do segundo
semestre de 1966, a luta armada continuou a alastrar, atingindo as povoações do extremo sudoeste
do Niassa.161
A guerrilha desencadeada pela Frelimo e combatida pelo exército português afectou profunda e
seriamente a vida das missões do Niassa, as quais se vieram encontrar como que entre dois fogos.
Apesar da guerra e exceptuando Cobué, as missões permaneceram de portas abertas, sendo vigiadas
pelas forças do exército português e polícia (Pide/Dgs) e até visitadas por guerrilheiros da Frelimo.
Esta situação criou problemas à Igreja, que se via restringida na sua missão evangelizadora, o que
levou D. Eurico Dias Nogueira e os missionários a intervir junto dos responsáveis do governo da
província e do exército, em defesa da justiça e dos direitos humanos das populações.
Desde o início os Missionários da Consolata viram-se envolvidos nesta guerra. Após o ataque da
Frelimo ao posto de Cobué, a 25 de Setembro de 1964, o P.e Mário Teruzzi, superior da missão, foi
acusado de conivência com a Frelimo e de ser contrário à política colonial portuguesa. Prova disso,
segundo as autoridades, fora a sua indiferença perante o ataque à residência do Administrador do
Cobué levado a cabo por um comando da Frelimo. O Governador Geral de Moçambique exigiu ao
Bispo de Vila Cabral e aos superiores do Instituto a retirada do missionário de Cobué e a sua
substituição por um outro. Embora consciente da sua inocência, o P.e Mongiano, providenciou à
transferência do P.e. Teruzzi e colocou no seu lugar o P.e José Pequito. O Superior Regional
escreveu também uma carta aos missionários, explicando o sucedido e, ao mesmo tempo,
advertindo-os para a necessidade de serem prudentes e se manterem neutrais em questões
políticas162. A missão de Cobué acabou por ter que ser abandonada, tendo sido ocupada pelos
militares portugueses.
A pouco e pouco a guerra alastrou e quem mais sofria as suas consequências era a população.
Depois do ataque a Nova Coimbra (1965), as gentes das aldeias próximas abrigaram-se na missão,
acolhidas pelos padres Inácio Mondin e Gelindo Scottini. Devido ao medo de novos ataques, as
pessoas ficaram por ali, e assim surgiu o primeiro aldeamento junto da missão. Outros se formaram

161
Cf. A. BARROSO HIPÓLITO, A pacificação do Niassa. Um caso concreto de contra-guerrilha (Lisboa, 1970) 36-
44.
162
Cf. Carta de P.e Aldo Mongiano aos missionários da região de Moçambique. Machava, 11 de Novembro de
1964. ArqRegMoç. B. 11, circular n. 12.
mais tarde. Na constituição dos aldeamentos, os militares procuravam concentrar as populações em
áreas determinadas, para evitar que fossem contactadas pelos guerrilheiros. Porém, estes
aldeamentos, construídos de improviso e em situações de emergência, estavam longe de
corresponder às condições de respeito pela dignidade da pessoa humana. Os missionários
conviviam e sofriam com esta situação, não apenas em Nova Coimbra, mas também nas missões de
Unango, Nova Esperança e Maúa.
Por se encontrar no meio da linha de fogo entre a Frelimo que se albergava nos montes Mbemba
e o exército colonial que estava aquartelado na Cantina Dias no lado oposto da missão, em
diferentes ocasiões, também a missão de Unango sofreu com os ataques da Frelimo (25 de Maio de
1965, 13 de Dezembro de 1966, 11 de Dezembro de 1970 e Agosto de 1971) e as retaliações dos
militares portugueses, nomeadamente o cerco à missão em 11 de Agosto de 1967.
Viajar, em algumas zonas do Niassa, era algo muito arriscado. No dia 18 de Janeiro de 1966, o
carro onde viajavam o P.e Mário Teruzzi, P.e Inácio Mondin e Ir. Bartolomeu Peretti foi atacado
por um comando da Frelimo, armado de metralhadoras e bazucas, na estrada entre Vila Cabral e a
missão de Unango. Por milagre os disparos só feriram o P.e. Mondin, que foi transferido em
seguida para o hospital de Nampula, para tratamento163. Algumas semanas depois, a 31 de Março
de 1966, mais dois missionários sofreram um ataque, desta vez os Padres Eugénio Menegon e
Mário Terruzzi, tendo o primeiro ficado ferido. A missão de Unango e Nova Coimbra passaram a
estar isoladas.
A guerra e a insegurança começaram a ir para o sul e alastraram-se a todo o Niassa. Na zona de
Catur, missão de Massangulo, multiplicaram-se as infiltrações da Frelimo. Também na região de
Mecanhelas e Maúa se verificaram ataques. A pouco e pouco, Nova Esperança passou a ser a
missão mais isolada do Niassa devido, sobretudo, às minas colocadas na estrada. E viajar tornou-se
extremamente perigoso. Os missionários não se renderam ao medo e por isso decidiram ficar e
sofrer com o povo. O P.e Guerrino Prandelli encontrou a morte quando o carro em que viajava,
entre Belém e Majune, fez rebentar uma mina, a 17 de Outubro de 1972. Estava consciente do
perigo mas decidira igualmente fazer a viagem a fim de prover de mantimentos a missão onde a
fome se fazia sentir.
D. Eurico Dias Nogueira, em conjunto com os missionários, não se cansou de apelar para a
reconciliação e paz. Numa carta colectiva classificaram a guerra em curso como uma obra
diabólica, afirmando que a melhor forma de a fazer terminar, era desenvolver o progresso material
e espiritual da população. Para isso era necessário fomentar o seu bem-estar físico através da
construção de habitações condignas, assistência médica e melhoria dos salários. Mas importava
fazê-lo acompanhar de um progresso espiritual idêntico, com uma cultura de base para todos,
preparação de elites dirigentes e uma educação sólida da juventude. Era também necessário que
desaparecessem certas atitudes humilhantes e autoritárias em relação à população, substituindo-as
por uma legislação justa. A Igreja mantinha-se disposta a continuar o seu esforço de evangelização
e promoção humana, permanecendo firme na defesa da verdade e da justiça em favor de todos os
necessitados, sobretudo os mais desprotegidos e pobres164.

2.3.Novas aberturas missionárias: Nova Esperança, Mecanhelas, Belém, Nipepe, Nossa


Senhora Mãe da Igreja e Nova Madeira
Mesmo em lugares perigosos, a guerra não impediu a abertura de novas missões. Entre 1966 e
1974 foram fundadas seis missões que ocupavam as áreas geográficas onde a actividade missionária
estava menos presente.
A Missão da Rainha Santa Isabel de Nova Esperança (actual Majune) foi criada em 20 de Agosto
de 1965, em território desmembrado da missão de Massangulo, mas só a partir de 1967 a presença

163
Cf. Carta de P.e Aldo Mongiano, Superior Regional, a P.e Domingos Fiorina, Superior Geral. Machava, 31-1-
1966: ArqRegMoç. B 12, n. 175.
164
Cf. Progresso factor de paz no Niassa. Mensagem Pastoral do Bispo e demais missionários de Vila Cabral.
Vila Cabral, 6-9-1967: ArqRegMoç A2 n. 89.
missionária se tornou mais efectiva. Possuía inicialmente sete escolas-capela: Esperança-sede,
Niputa, Nova Beira, Revia, Mantiha, Vessa e Milo. O P.e José Pequito foi o fundador da missão e
com o seu zelo organizou a comunidade cristã numa região em grande parte islamizada, mas não
refractária à evangelização. A partir de 1967 iniciaram-se os ataques da Frelimo e os combates com
a tropa portuguesa em toda a área da missão. Graças ao bom trabalho do P. Pequito, a missão
tornou-se o centro de equilíbrio de toda a zona. Abriu escolas nos aldeamentos e fez chegar a
assistência médica aos mais necessitados. O trabalho pastoral também dava frutos, com um número
consolador de catecúmenos e baptizados, especialmente entre os alunos das escolas. Em Julho de
1970, o P.e Pequito foi destinado a Portugal, sendo substituído, num primeiro momento, pelo P.e
Eugénio Menegon, e a partir de 1971 pelos padres Salvador Forner e Guerrino Prandelli que
passaram a residir aí165.
No dia 13 de Maio de 1966 foi criada a Missão de Nossa Senhora de Fátima de Mecanhelas. A
localidade de Mecanhelas, situada a 45 km de Mepanhira e próxima da fronteira com o Malawi,
estava no centro de uma região muito povoada e possuía em algumas aldeias uma elevada
percentagem de baptizados.
A vasta rede de escolas-capela necessitava de uma boa assistência e parte dessa rede
desenvolvia-se na direcção oposta à de Mepanhira. Para as assistir pastoralmente não eram
suficientes as visitas regulares do missionário. Era necessária uma presença mais estável. O P.e
Mário Spangaro, que trabalhara até então na missão de Mepanhira, foi encarregado de iniciar a
implantação da missão. Fê-lo com grande sacrifício pessoal e competência. Decorridos apenas dois
anos sobre a fundação da missão, já tinha terminado a bonita e espaçosa igreja de Mecanhelas,
dedicada a Nossa Senhora de Fátima. A comunidade cristã também aumentou de modo
espectacular, pois em 1971 o número de baptizados era já de 8.651166. Pouco depois da inauguração
da igreja, o P.e Spangaro teve de se retirar para Itália por motivos de saúde. A cura pastoral da
missão ficou a cargo do P.e Eugénio Menegon e, mais tarde do P.e Guido Gobbo. Em Abril de
1974, o P. Spangaro regressou a Mecanhelas com as forças retemperadas, mas depois de um ano
teve de regressar a Itália, sempre por motivos de saúde. Todavia o seu coração continua em
Mecanhelas. Em 1970 as missionárias da Consolata iniciaram a sua presença em Mecanhelas
prestando serviço no hospital local.
Também em 1966, a 17 de Setembro, surgiu a Missão de Santa Maria de Belém. A sede era junto
à estação de caminho-de-ferro que ligava Nova Freixo a Vila Cabral e ocupava um vasto território
de 7.200 km2, desmembrado da missão de Nova Esperança. A construção da residência missionária
foi iniciada em 1970 pelo P.e João Baptista Coelho, que em Abril de 1972 voltava para Portugal.
Foi substituído pelo P.e Oberto Abondio, que assumiu a cura pastoral de Belém. Região
essencialmente “ad Gentes” em 1974 contava apenas com 561 católicos167.
A Missão de São João de Brito de Nipepe foi fundada em 1967, com território desmembrado da
missão de Maiaca. A recente fundação estava situada na localidade de Nipepe, uma região que fora
sempre promissora do ponto de vista missionário. A grande extensão territorial e a existência de
inúmeras escolas-capela da missão de Maiaca aconselhavam, desde há muito, uma nova abertura.
Durante as visitas a estas escolas-capela, o P.e Mário Filippi, fundador da missão de Txaxe-Maiaca,
costumava permanecer algum tempo em Nipepe onde tinha construído uma pequena casa, para ali
implantar uma missão. No entanto, isto só aconteceria quando a jovem missão de Maiaca se
consolidasse. Em 1967, o P.e Filippi iniciou sozinho a fundação da missão de Nipepe, tendo
recebido mais tarde a colaboração do P.e Franco Gioda. Nesta missão instalou-se também uma

165
Cf. S. FORNER-G. PRANDELLI, Esperança. Quadro panorâmico (Esperança, 1972) pp. 8. AIMC X 407/1.
166
Cf. CONFERÊNCIA EPISCOPAL DE MOÇAMBIQUE, Anuário Católico de Moçambique: 1971 (Lourenço Marques,
1972) 145.
167
Cf. CONFERÊNCIA EPISCOPAL DE MOÇAMBIQUE, Anuário Católico de Moçambique: 1974 (Lourenço Marques,
1974) 190.
comunidade de Irmãs da Imaculada Conceição, de Lichinga. Em 1974, Nipepe contava já com
5.633 baptizados168.
Em Dezembro de 1971 foi criada a Missão de Nossa Senhora Mãe da Igreja de Nova Freixo.
Estava ligada ao seminário menor sediado na cidade. As comunidades cristãs que constituíam a
nova paróquia foram desmembradas da paróquia de S. Miguel que ficou limitada ao território
urbano e seus arredores e estavam confiadas à cura pastoral dos padres do Seminário de Nossa
Senhora Mãe da Igreja. A nova paróquia contava com um total de 2.165 católicos (1974).
Em 16 de Abril de 1972 realizou-se a última abertura missionária: a paróquia de Nossa Senhora
da Paz de Nova Madeira, que foi criada para assistir os colonatos existentes nos arredores de Vila
Cabral. Era assistida pelos missionários da Missão de Nossa Senhora da Conceição de Vila Cabral
e, mais tarde, por causa da guerra, pelos missionários de Nova Freixo.

2.1.3. Novo Bispo de Vila Cabral (Lichinga): D. Luís Ferreira da Silva


Em Junho de 1972, D. Eurico Dias Nogueira deixava o Niassa e partia para Angola, para assumir
o governo pastoral da Diocese de Sá da Bandeira. Os oito anos que permanecera no Niassa tinham
sido pastoralmente fecundos. Impulsionou e dirigiu a actividade evangelizadora, foi presença de
equilíbrio e diálogo na tormenta da guerra, incrementou a escolarização e a promoção humana e
sensibilizou a diocese para o problema ecuménico.
No dia 20 de Dezembro de 1972, o seu substituto, D. Luís Gonzaga Ferreira da Silva, fez a sua
entrada na Diocese de Vila Cabral. Desde logo procurou conhecer o rebanho de que era pastor,
sobretudo através das visitas às missões169. O presbitério que encontrou na sua nova realidade
eclesial era constituído por três sacerdotes seculares, dois deles naturais do Niassa – P.e Miqueias
Maloa e P.e Estevão Mirassi – e 28 padres missionários da Consolata. Poucos operários para as
necessidades da diocese e além disso, a idade média dos missionários era bastante alta e alguns
encontravam-se já cansados e doentes. A equipa missionária possuía ainda nove irmãos que
prestavam a sua preciosa colaboração nas mais variadas actividades, 24 irmãs missionárias da
Consolata, quatro irmãs Doroteias e 30 irmãs da congregação diocesana de Nossa Senhora da
Conceição que trabalhavam nos lares, internatos, dispensários, infantários e catequese. Uma valiosa
colaboração na evangelização era prestada por seis catequistas a tempo pleno e algumas dezenas de
catequistas auxiliares. A diocese contava com 20 missões e estava dividida em dois arciprestados, o
de Nova Freixo e o de Vila Cabral. A comunidade diocesana era constituída por 65.000 fiéis e 7.723
catecúmenos. Possuía um seminário menor com cerca de 70 alunos, desde o primeiro até ao quinto
ano, e tinha três seeminaristas no seminário maior de Lourenço Marques170.
D. Luís Ferreira da Silva procurou organizar o Conselho Presbiterial, para que este fosse um
órgão de consulta para o bom governo da diocese e que expressasse mais significativamente todo o
presbitério. Estabeleceu ainda que o conselho devia possuir um secretariado permanente171. Nos
arciprestados foram constituídas zonas pastorais com sedes em Nova Freixo, Maúa e Mepanhira
(Arciprestado de Nova Freixo) e Vila Cabral, Massangulo e Metangula (Arciprestado de Vila
Cabral). Cada zona pastoral era confiada a um animador, eleito anualmente, que devia promover as
reuniões mensais com os elementos da sua zona e tratar os assuntos pastorais da área.
Além disso, foi constituído o Conselho Diocesano de Pastoral, órgão programador da pastoral
missionária na Diocese e o Secretariado Diocesano de Pastoral, órgão coordenador e executor das
deliberações do Conselho Diocesano172.

168
Cf. CONFERÊNCIA EPISCOPAL DE MOÇAMBIQUE, Anuário Católico de Moçambique: 1974, 189.
169
O novo prelado nasceu na freguesia de Rebordões (Portugal), em 2 de Abril de 1923. Pertence à Companhia de
Jesus e fora ordenado sacerdote em 11 de Julho de 1953, tendo sido missionário na China e em Moçambique. Foi eleito
bispo de Vila Cabral em 10 de Novembro de 1972.
170
Cf. Relatório sobre a situação da Diocese de Vila Cabral apresentado pelo P.e Manuel Tavares, vigário
capitular, a D. Luís Ferreira da Silva. ArqRegMoç. A 2, n. 3.
171
Cf. Carta de D. Luís Ferreira da Silva aos Missionários. Vila Cabral, 7-9-1973: ArqRegMoç. A. 2, n. 55.
172
Cf. Carta de D. Luís Ferreira da Silva aos Missionários. Vila Cabral, 7-9-1973: ArqRegMoç. A. 2, n. 55.
2.2. Movimento missionário na Diocese de Inhambane
Em 1971 os Missionários da Consolata celebravam 25 anos de presença na Diocese de
Inhambane. Tudo começara a 7 de Junho de 1946, data em que foi criada a Missão do Imaculado
Coração de Maria de Massinga, em Mangonha. Seguiu-se a fundação de outras missões. A Missão
do Sagrado Coração de Jesus de Nova Mambone, São José de Mapinhane, Santa Ana de
Maimelane, Nossa Senhora do Rosário de Muvamba, Nossa Senhora de Fátima de Vilankulo e
finalmente, Nossa Senhora da Consolata de Funhalouro. Todas elas tiveram um início duro e cheio
de dificuldades, que a tenacidade e o entusiasmo dos pioneiros levou de vencida. No começo os
missionários viviam em palhotas, mas pouco a pouco as casas em alvenaria começaram a surgir e,
nesta fase, todas as missões já estavam dotadas de sólidos edifícios.
Depois de 25 anos de intenso trabalho, os números falavam dos frutos da entrega total a Deus
por parte destes missionários, em benefício destas populações. Em 1970, o Arciprestado de
Vilankulo apresentava a seguinte estatística referente ao movimento religioso: 47.821 católicos
(47.136 africanos, 389 europeus e 296 mestiços), 1.176 baptismos de adultos, 828 baptismos de
crianças, 3.412 catecúmenos, 182 matrimónios, 14 sacerdotes, 4 irmãos e 15 irmãs.
Também nos últimos anos tinham chegado alguns missionários, nomeadamente o P.e António
Ferreira Antunes, P.e. José Alessandria, P.e Mauro Calderoni (1968), P.e Armanno Armanni (um
regresso), P.e Carlos Giannini (1969), P.e André Brevi, P.e José Tavares Matias (1971) e P.e
Alfredo Dias Ferreira Dionísio (1972).
As missionárias da Consolata alargaram neste período o campo da sua acção evangelizadora
abrindo novas comunidades nas missões já existentes. No dia 11 de Novembro de 1971 iniciaram a
sua actividade na missão de Maimelane dedicando-se preferencialmente à catequese, saúde e
promoção da mulher. No dia 1 de Novembro de 1972 deram início à sua presença na paróquia de
Vilankulo prestando serviço no hospital da vila.

2.1.1.Novas aberturas: Missão de Funhalouro e Centro de Promoção Humana do Guiúa


Na Diocese de Inhambane, os missionários quiseram dedicar uma missão à sua mãe e
inspiradora, surgindo a Missão de Nossa Senhora da Consolata de Funhalouro. Esta missão foi
fundada em 1 de Agosto de 1967 pelo P.e João Armando, com território desmembrado da missão
de Muvamba. A vasta região de Funhalouro possuía um clima de carácter desértico e pouco
propenso para a agricultura. Desde o princípio, a missão teve a preocupação de contactar com as
populações através das escolas, para incrementar a evangelização e a promoção humana. Criaram-
se centros de catequese ao lado das escolas, em localidades como Mapanzene e Chicomo. As
dificuldades mais sentidas eram a pobreza, a mobilidade da população, o forte apego às tradições
seculares, a concorrência protestante e a falta de uma sólida formação cristã nos jovens173. Em
1974, numa população que rondava os 40.000 habitantes, os católicos eram apenas 1.517.
Chamado pelo bispo de Inhambane em Julho de 1970, o P.e António Ferreira Antunes deixou a
missão de Muvamba, para dirigir os trabalhos de construção e organização do Centro Catequético
do Guiúa (Inhambane), destinado à preparação de casais catequistas das dioceses do sul de
Moçambique. Depois de um ano de intenso trabalho estavam construídas as casas para as famílias
dos catequistas, residência das irmãs, residência dos padres, salão-capela, etc. Devido às suas
características particulares, o centro catequético da zona sul, obra de grande alcance evangelizador e
social, recebeu a denominação de Centro de Promoção Humana do Guiúa174.
Em 9 de Janeiro de 1972, o centro iniciou a sua actividade formativa. Possuía várias infra-
estruturas, entre as quais uma escola onde funcionavam todas as classes primárias, um dispensário,

173
Missão de Nossa Senhora da Consolata de Funhalouro. Relação anual (1969). ArqRegMoç. B 14, n. 197.
174
O nome – Centro de Promoção Humana do Guiúa - foi inspirado na encíclica “Populorum Progressio” n. 42. O
centro pretendia proporcionar a formação integral de todo o homem, por isso escolheu-se o adjectivo humano, em vez
de social, estando também contida a formação religiosa e catequética. Cf. A. FERREIRA ANTUNES, Centro de Promoção
Humana do Guiúa: Encontro IMC-Moçambique: n. 2 (1971) 2-3.
salas de convívio e um secretariado para os catequistas. Estes recebiam uma formação
especializada, com aulas de cultura geral e outras disciplinas, de acordo com a missão em que
trabalhariam. Cada família de catequistas dispunha de um terreno para cultivar o necessário à
própria subsistência. Os cursos duravam dois anos e a equipa formativa era constituída por padres
da Consolata, franciscanos, diocesanos e pelas irmãs Franciscanas Missionárias de Maria.
Com a criação do centro catequético foi erigida, em 4 de Julho de 1973, a Missão de Santa Isabel
do Guiúa. Contava com 3.064 católicos, distribuídos por sete escolas-capela. O seu primeiro pároco
foi o P. A. Ferreira Antunes, director do centro catequético. A missão nascia para dar aos
catequistas a possibilidade de exercerem o seu ministério pastoral enquanto frequentavam o
curso175.

2.3. Movimento missionário na diocese de Lourenço Marques (Maputo)


Neste período de tempo foram destinados os padres Ernestino Venturi (1969), Jaime Marques
(1970), Alfredo Dionísio e Vítor Gatti (1972) para trabalhar nas paróquias confiadas ao Instituto, na
Arquidiocese de Lourenço Marques. Os Missionários da Consolata continuavam a servir a Igreja
local na periferia de Lourenço Marques, nas paróquias de Matola, Machava, Liqueleva, Boane e,
mais tarde, Infulene. A partir de 1969, passam a contar com a colaboração pastoral das missionárias
da Consolata na paróquia de S. Gabriel da Matola, onde no dia 20 de Setembro desse ano deram
início à comunidade religiosa.
Com a abertura da casa regional e de um centro de animação e formação missionária, o Instituto
concretizou também a sua presença no coração da cidade de Lourenço Marques.

2.3.1. Casa Regional, Lar Missionário e Paróquia de Infulene


No início dos anos 60, os Missionários da Consolata mostraram disponibilidade ao Cardeal D.
Teodósio de Gouveia Clemente para assumir uma paróquia na cidade de Lourenço Marques. Porém,
grande parte das paróquias estavam confiadas ao clero secular e, na altura, isto não foi possível.
Por outro lado, o desenvolvimento do Instituto em Moçambique requeria uma sede própria para
o Superior Regional na capital. O Superior Regional, P.e Aldo Mongiano, que residia na paróquia
da Machava, era da ideia que se deveria ter uma casa em Lourenço Marques que servisse como sede
do Superior Regional, casa procura, residência do padre capelão do Colégio Pio XII e futuro
seminário.
Depois de muito procurar encontrou-se uma casa que reunia as condições necessárias de
comodidade e preço, na central Avenida Pinheiro Chagas, nº 279. A casa foi comprada em 1968 por
1.100.000 escudos e a escritura foi feita em Setembro do mesmo ano. Para aqui se transferiu a sede
do Superior Regional e a casa procura do Instituto.
Num primeiro momento, pensava-se que esta mesma casa poderia servir como residência para os
seminaristas da Consolata. Todavia as limitações de espaço e a necessidade de ter um ambiente
reservado, apenas para a promoção vocacional e formação, aconselhou a aquisição de uma outra
casa na cidade de Lourenço Marques, que não ficasse muito distante dos centros de ensino e do
seminário diocesano. Assim, decidiu-se a compra de um prédio sito na Rua Fernão Veloso,
destinado exclusivamente à animação e formação, e inaugurado no dia 7 de Setembro de 1971. No
primeiro andar do edifício funcionava um Lar Missionário para receber os vocacionados do
Instituto do sul de Moçambique e no rés-do-chão da residência funcionava o Centro de Animação
Missionária. O primeiro director deste complexo foi o P.e. Aldo Mongiano.
A partir de 1974, os Missionários da Consolata assumiram o cuidado pastoral da Paróquia de São
Francisco de Assis de Infulene, criada em 6 de Agosto de 1972. O P.e Ernestino Venturi tomou a
responsabilidade pastoral da mesma.

175
Cf. CONFERÊNCIA EPISCOPAL DE MOÇAMBIQUE, Anuário Católico de Moçambique: 1974, p. 70.
QUINTO PERÍODO (1975-1980)
PRESENÇA E ACTIVIDADE DOS MISSIONÁRIOS DA CONSOLATA NO PÓS-INDEPENDÊNCIA:
PROVAÇÃO E PLANIFICAÇÃO PASTORAL

Introdução
No dia 7 de Setembro de 1974, o Governo português e a Frelimo assinam os acordos de Lusaka
(Zâmbia) e a partir desse momento, Moçambique passa a ter um governo de transição. Poucos
meses depois, a 25 de Junho de 1975, era celebrada a independência. Os missionários acolheram
com entusiasmo e expectativa a mudança política, e estavam dispostos a cooperar generosamente
nesta arrancada histórica.
O pós-independência, nomeadamente o período entre 1975 e 1980, foi um tempo difícil para a
Igreja, tendo sido provada no corpo e no espírito. O novo Governo procedeu à nacionalização das
escolas, hospitais e outras obras de promoção das dioceses. Um grupo consistente de missionários
deixou Moçambique. Alguns religiosos, religiosas e sacerdotes locais laicizaram-se. Muitos cristãos
deixaram a prática religiosa, por vários motivos. A maior parte dos catequistas-professores, que até
aí estavam ocupados a tempo inteiro e eram remunerados pelas dioceses, abandonaram as suas
funções para entrar no funcionalismo público.
Apesar das dificuldades e dos limites impostos não faltou o optimismo entre cristãos,
catequistas (principalmente os da primeira geração), padres e irmãs locais, missionários e todos os
que permaneceram fiéis. Mesmo com o futuro incerto, não houve tempo a perder. Investiram-se,
novamente, todas as forças na evangelização e logo surgiram iniciativas e experiências pastorais
muito significativas. Foram tentativas válidas que responderam de modo adequado aos desafios do
momento.

1.ORGANIZAÇÃO DO INSTITUTO MISSIONÁRIO DA CONSOLATA EM MOÇAMBIQUE


1.1. Medidas revolucionárias e abusos contra os Missionários
O intervalo de tempo entre 1975 e 1980 foi um período denso de acontecimentos e de provação
para a Igreja. A nacionalização dos seus bens, os abusos de autoridade e as restrições à liberdade
religiosa foram algo que os missionários e fiéis tiveram de suportar e com que tiveram de aprender
a conviver. Os missionários, em sintonia com a posição dos bispos, não quiseram entrar em
polémica com o Governo, tentando adaptar-se e responder positivamente às dificuldades e desafios.
Do ponto de vista político, a realização do III Congresso da Frelimo, em Fevereiro de 1977, teve
grandes repercussões na vida da Igreja. Neste congresso, de facto, a Frelimo deixou de ser um
movimento de libertação para passar a ser um partido de ideologia marxista-leninista, ateu e único
no país. Outro evento determinante na relação Estado-Igreja foi a realização da II Conferência
Nacional do Trabalho Ideológico do partido Frelimo, em Junho de 1978. Neste encontro analisou-se
a acção das instituições religiosas, considerada como entrave à transformação revolucionária da
sociedade moçambicana e, consequentemente, o combate contra a alienação religiosa intensificou-
se. Foi o período agudo da revolução marxista-leninista.

1.1.1. As nacionalizações e o despojamento


No dia 24 de Julho de 1975 foi anunciada, num discurso presidencial, a nacionalização do
ensino e da saúde. Esta medida atingiu gravemente as instituições da Igreja, sobretudo as missões.
As nacionalizações dos bens e obras da Igreja tinham como objectivo retirar os meios que os
missionários dispunham para contactar o povo e, especialmente, com a juventude. Restava à Igreja
pouco mais do que o espaço do culto e mesmo este estava sujeito a restrições de todo o tipo.
A aplicação da lei das nacionalizações foi realizada em diversas fases e sob vários modos. A
primeira fase, nos primeiros meses de 1976, foi marcada pela grande ofensiva de nacionalização das
missões. Estas foram transformadas em centros de educação, o seu dinheiro foi contado, as suas
contas bancárias foram congeladas e as actividades ligadas à escola (moinho, loja, horta e animais)
foram todas incluídas nas nacionalizações. A segunda fase incluiu a apropriação das residências,
com o respectivo recheio já inventariado durante a primeira fase. Aos missionários era reservado
apenas um quarto, ficando as outras divisões ocupadas pelo novo pessoal directivo, professores e
enfermeiros. As refeições eram comuns se os missionários aceitassem, caso contrário deveriam
procurar outro lugar. Esta fase durou até ao fim de 1978. Em alguns casos os missionários foram
viver nas dependências das casas ou nas proximidades da missão.
Na Província do Niassa foram cometidos diversos abusos durante as nacionalizações,
nomeadamente violação de domicílio, inventariação de bens pessoais e acusações e humilhações.
Entre diversos casos, um dos mais graves foi o da usurpação da residência paroquial de Cuamba
(ex-Nova Freixo), que foi nacionalizada mesmo não sendo anexa às estruturas escolares.
A partir de 7 de Fevereiro de 1977 acentuou-se todo o tipo de pressão para desalojar os
missionários residentes em Cuamba. Inventariação detalhada de tudo, encerramento do escritório
paroquial, selagem dos quartos vazios, residência vigiada dia e noite por soldados e polícia, que
revistavam todos os que entravam e saíam da casa. Isto durou até ao dia 10 de Março de 1977. No
dia 18 de Julho de 1977 os padres foram forçados a deixar a casa e tiveram que albergar-se uma
outra que o governo tinha nacionalizado. Do mesmo modo e no mesmo período foram usurpadas as
residências de Mecanhelas e Esperança (Majune) e os centros pastorais de Lichinga (ex-Vila
Cabral) e Cuamba.
Depois do encontro de Sérgio Vieira, membro do Comité Central, com os bispos (6 de
Dezembro de 1978), inicia-se a terceira fase da ofensiva que visava retirar à Igreja os centros de
educação, com o objectivo de isolá-los de qualquer tipo de influência religiosa. Os centros de
educação deveriam ser as escolas de formação dos continuadores da revolução. Isto já se tinha
verificado na missão de Mitúcue, transformada em centro de formação de professores, de onde tinha
sido afastado o P.e José Frizzi, a 12 de Setembro de 1977.
Assim, os missionários foram obrigados a deixar as missões para serem concentrados nas
cidades (urbanização do pessoal missionário). O P.e Oberto Abondio da missão de Nipepe (3 de
Janeiro de 1979), o P.e José Rocha Martins da missão de Curea e as irmãs da Consolata da missão
de Mitúcue (24 de Maio de 1979), o P.e Vidal Moratelli de Maúa (10 de Junho de 1979) e o P.e
Guido Gobbo de Maiaca (14 de Junho de 1979), todos eles foram concentrados em Cuamba. As
igrejas foram encerradas. Algumas, como aconteceu em Cuamba a 5 de Junho de 1979, até foram
obrigadas a deixar aí a Eucaristia. Também a igreja de Mepanhira foi fechada de modo brutal no dia
1 de Junho de 1979, sob o olhar do P.e Luís Fiorini que era o encarregado da missão.
O mesmo ambiente de tensão verificou-se no norte do Niassa, onde se procedeu ao
encerramento das igrejas de Unango (23 de Maio de 1979) e Massangulo (23 de Maio de 1979). O
próprio superior desta missão, P.e Luís Wegher, que se encontrava em Lichinga, já não pode voltar
a Massangulo. Permaneceram apenas as irmãs e o Ir. Hugo Versino que sairia no fim do ano lectivo.
No mesmo período foi fechada a igreja de Nsinje, sendo os padres Norberto Louro e Camilo
Ponteggia obrigados a sair da residência. Porém, não encontrando outra casa, permaneceram aí. As
igrejas de Nsinje e de Unango tinham sido construídas propositadamente, com a autorização das
autoridades em 1977, para substituir as igrejas dos respectivos centros educacionais já
encerrados176.
No período de Natal de 1980 verificou-se uma pequena abertura, tanto que alguns padres
puderam visitar as comunidades de Esperança, Mandimba e Metangula. No Distrito de Cuamba,
que incluia as missões de Mitúcue e Etatara (ex-Curea), os padres puderam visitar as comunidades
cristãs ao Domingo, com a guia de marcha para o culto. Contudo, a situação não era clara177.

176
Cf. Relação da Região de Moçambique para o Capítulo Geral IMC de 1981 (Maputo, 19-2-1981) 3-6.
177
Cf. Relação da Região de Moçambique para o Capítulo Geral IMC de 1981 (Maputo, 19-2-1981) 3-6.
Na Província de Inhambane, as nacionalizações de 24 de Julho de 1975 foram executadas de
modo semelhante, embora não tenham sido cometidas tantas arbitrariedades178. Todos os bens de
produção foram inventariados e nacionalizados em 1976. Em Massinga e Muvamba o inventário
incluiu as residências missionárias, que foram ocupadas entre 14 e 24 de Fevereiro de 1977. Cada
missão permaneceu apenas com uma das residências, que deveria servir padres e irmãs. Na maioria
dos casos foram ocupadas as residências das irmãs, com a excepção de Massinga, em que se
entregou a casa dos padres. Apesar da nacionalização dos bens, os missionários permaneciam na
área das respectivas paróquias e exerciam o ministério pastoral.
Em 1979, como em todo o país, as medidas repressivas contra a Igreja aumentaram. No dia 17
de Março verificou-se o sequestro e encerramento da igreja de Nova Mambone. A 11 e 13 de Junho
encerraram-se as igrejas das missões de Massinga, Muvamba, Mapinhane e Maimelane. Tudo foi
inventariado e nacionalizado. Em Massinga foi expressamente proibido rezar, mesmo na residência
dos missionários. No dia 21 de Junho foi, também, nacionalizado o catequistado que aí funcionava e
os catequistas foram mandados para as suas casas.
Na Machava (Maputo), a residência paroquial foi submetida a inventariação por duas vezes.
Em Agosto de 1975 nacionalizaram as viaturas e o material do escritório. Na Matola, a missão foi
invadida por uma multidão armada com o objectivo de expulsar os padres, pois tinha-se espalhado o
boato de que os missionários tinham ali armas escondidas. Os padres estavam impedidos de visitar
algumas escolas-capela, que eram guardadas por soldados e proibidos de frequentar as comunidades
cristãs, pelo que o ambiente era deveras tenso179.

1.1.2.Restrições à liberdade
As nacionalizações visavam retirar à Igreja o seu espaço de influência sobre a população. Não
tendo conseguido com as medidas já postas em acto, o governo decidiu tomar outras mais radicais
que dificultassem a evangelização. Assim, as actividades religiosas passaram a ser autorizadas,
apenas nas poucas igrejas e capelas que ainda permaneciam abertas ao culto. Fora desses locais, não
era permitido organizar celebrações litúrgicas ou catequese. Os missionários não estavam
autorizados a desenvolver qualquer actividade religiosa nos centros de ensino, aldeias comunais e
antigas zonas libertadas, sobretudo no Niassa. A dada altura, começou a ser obrigatória uma guia de
marcha ou salvo-conduto (autorização por escrito do responsável político, distrital ou local), para
que os missionários e bispos pudessem visitar as comunidades afastadas do seu lugar de
residência180. Esta medida visava controlar e limitar o movimento e, consequentemente, dificultar a
actividade evangelizadora da Igreja. A guia de marcha nem sempre era concedida de imediato e por
vezes era até negada.
A partir de 1978 as restrições aumentaram. Na linha das deliberações do III Congresso da
Frelimo, decidiu-se concentrar o pessoal missionário nos centros urbanos, restringir o seu
movimento, exigir uma autorização para bispos e padres celebrarem fora dos seus locais de
residência e controlar o trabalho apostólico dos catequistas e animadores. Tais decisões foram
aplicadas, sobretudo, entre 1978 e 1979 e de modo mais radical na Província do Niassa.
No Niassa, aliás, os abusos praticados contra a pessoa dos missionários foram uma constante a
partir de 1977. Foram presos os padres Eugénio Menegon (12 de Agosto de 1978), o P.e César
Cavaleiro, jesuíta, (25 de Setembro de 1978), sendo em seguida afastados do Niassa. Também
foram presos o bispo D. Luís Ferreira da Silva e os padres Norberto Louro e Severino Bordignon
(12 de Setembro de 1979) em Mepanhira e conduzidos sob escolta até Lichinga, onde foram
libertados com a proibição de sair da cidade. Da mesma forma, o P.e José Barros, deslocando-se da

178
Em 1976, as nacionalizações em Inhambane foram nas seguintes datas: missão de Massinga em 30 de Junho,
missão de Muvamba em 1 de Julho, missão de Funhalouro em 5 de Julho, missão de Nova Mambone em 8 de Julho,
missão de Mapinhane em 13 de Julho e missão de Maimelane em 14 de Julho.
179
Cf. Relação da Região de Moçambique para o Capítulo Geral IMC de 1981 (Maputo, 19-2-1981) 6-7.
180
Cf. Comunicação aos missionários da Diocese de Lichinga sobre alguns aspectos da actividade missionária.
Lichinga, 29-9-1978: ArqRegMoç. A 2, n. 20.
missão de Esperança para Lichinga, foi impedido de regressar. O P.e Estêvão Jardim, jesuíta, foi
preso em Lichinga (6 de Julho de 1978) e depois expulso. O P.e Severino Bordignon foi preso em 7
de Novembro de 1978 e permaneceu dois meses na cadeia. O P.e Estevão Mirassi, diocesano, foi
preso em Cuamba (10 de Outubro de 1978), conduzido a Lichinga e assassinado, em 6 de
Novembro de 1978, em lugar incerto enquanto era transportado para o campo de reeducação de
Mtelela.
Em 13 de Julho de 1978 ocorreu um caso que envolveu os bispos de Moçambique e o Delegado
Apostólico. Os bispos viajaram até Lichinga para celebrar o 25º aniversário de ordenação sacerdotal
de D. Luís Ferreira da Silva e foram impedidos de inaugurar a Igreja de Nsinje, sendo mandados de
volta para as suas dioceses. Por seu lado, o Delegado Apostólico, Mons. Francisco Colasuonno,
teve de permanecer em Lichinga durante três dias em residência fixa e vigiada, sem qualquer
comunicação com o exterior. O ano de 1978 foi caracterizado pela proibição, quase geral, de se
visitarem comunidades cristãs e, por isso, a actividade missionária ficou muito reduzida.
Em 1980, a população do Distrito de Mecanhelas foi aterrorizada por um grupo de soldados,
apelidados de esquadrão da morte, que pegaram fogo a diversas capelas das comunidades de
Mepanhira e Mecanhelas e praticaram vários actos de vandalismo. Os mesmos indivíduos, durante
um comício anti-religioso realizado em Mecanhelas em 21 de Junho de 1980, humilharam
publicamente o P.e Adriano Severin181.
Na Diocese de Inhambane, a maioria dos padres e das irmãs foram obrigados a viver
conjuntamente numa só residência, pois todas as outras casas lhes foram tiradas. Era uma tentativa
de impor ambiguidade e de obscurecer o modo de vida consagrada dos missionários, entre o povo.
Alguns missionários foram também humilhados e acabaram até por ser expulsos de
Moçambique. Foi o que aconteceu aos padres Armanno Armanni e Mauro Calderoni, na missão de
Massinga. No dia 16 de Maio de 1977, apresentou-se uma comissão vinda do Maputo, enviada pela
Direcção Nacional de Educação e Cultura, com a incumbência de explicar as nacionalizações ao
povo e aos missionários. Com essa finalidade foi convocado um comício, durante o qual se acusou
os missionários de resistência às nacionalizações, alienação das famílias no centro catequético da
missão e mobilização das famílias para rezar por todo o distrito. Terminado o comício e sem
qualquer explicação, os dois missionários foram presos e conduzidos até à prisão de Massinga, onde
lhes foram retirados os documentos. Logo depois, foram levados para a prisão de Inhambane, onde
passaram a noite. No dia seguinte foram libertados, mas com residência fixa na casa do bispo.
Também as irmãs foram obrigadas a sair da missão de Massinga. Algumas semanas depois, a 20 de
Junho, foram-lhes restituídos os passaportes e deixados em liberdade provisória. No dia 22 de Julho
foi comunicada oficialmente a expulsão do P.e Armanni e do P.e Calderoni, dentro de 24 horas. Os
dois missionários, depois de tudo terem tentado para anular a sentença, tiveram que abandonar
Moçambique no dia 11 de Agosto182.
A repressão registada sobre os brancos em 1974 e 1975 provocou um êxodo maciço destes. Nos
subúrbios de Maputo a revolução teve particulares consequências. Machava e Matola, dois centros
industriais habitados quase totalmente por europeus, assistiram à saída deles e a uma mudança
radical em pouco tempo de toda a população. Pastoralmente as consequências foram graves, o que
levou à dispersão da comunidade cristã. Os europeus partiram e os moçambicanos abandonaram a
prática religiosa. Em pouco tempo as escolas-capela foram reduzidas a escolas e a maioria dos
cristãos deixou de se reunir.
Nestas circunstâncias particularmente difíceis, os missionários procuraram permanecer, sofrer e
adaptar-se. Apesar do ambiente adverso e até repressivo conseguiram encontrar algum espaço para
agir. O seu comportamento contribuiu para mudar a opinião desfavorável formada a seu respeito.

181
Cf. Relação dos acontecimentos verificados em Mecanhelas: ArqRegMoç. A 3, n. 1.
182
Cf. Comunicado da Diocese de Inhambane às comunidades cristãs. Inhambane, 22-8-1977: ArqRegMoç. A 3,
n. 4.
1.2. Resposta dos Missionários aos desafios do tempo novo

1.2.1. A comunhão fraterna e o ministério de animação dos superiores


Num contexto sócio-político difícil como o que caracterizou o período entre 1975 e 1980 era
necessário, mais do que nunca, unidade e solidariedade entre os missionários. Para uma maior
comunhão, a Região Moçambique organizou-se em quatro grupos: Maputo, Inhambane, Lichinga e
Cuamba. Dada a situação complicada em que se vivia cada grupo possuía a sua própria
organização, com um conselheiro responsável do grupo, um administrador da caixa-comum e um
encarregado da pastoral. Esta estrutura permitia assegurar a comunhão e a assistência necessária
perante a Direcção Regional e, em particular, perante o Superior Regional, o único que tinha a
autorização do governo para poder visitar as várias comunidades espalhadas pelo país.
Aos mais diversos níveis, também os superiores desempenharam um precioso ministério de
consolação e de animação. Na vigília que antecedeu o dia da celebração da independência, o
Conselho Regional procurou dar linhas de orientação para uma presença activa e significativa do
Instituto no novo Moçambique. Entre outras, é de salientar as atitudes propostas de espírito de
colaboração com as autoridades, cooperação no esforço de reconstrução nacional, renovamento
pastoral, caixa-comum, etc183.
Com a eleição do P.e Manuel Tavares como Vice Superior Geral do Instituto Missões
Consolata, em 20 de Julho de 1975, a Região Moçambique escolheu uma nova Direcção
regional184. Foi escolhido o P.e Amadio Marchiol, pároco da missão de Nova Mambone, nomeado
Superior Regional por decreto de 6 de Janeiro de 1976. Como conselheiros, foram eleitos os padres
Jaime Marques (vice-superior), Norberto Louro, André Brevi e Augusto Fatela. O Padre Marchiol,
que chegara a Moçambique em 1953, era a pessoa indicada para ajudar os missionários a superar as
inúmeras dificuldades com que se deparavam neste período, quer pela sua experiência, quer pela
sua determinação.
Nesta fase, o P.e A. Marchiol manteve-se em contacto com os missionários dos grupos de
Lichinga, Cuamba, Inhambane e Maputo, procurando solucionar comunitariamente as dificuldades
que se apresentavam. Em 1976, realizou cinco visitas ao Niassa e outras tantas às comunidades de
Inhambane. Entretanto, o conselho regional só pode realizar a sua primeira reunião em Novembro
de 1976. Nesse encontro, o Superior Regional e os conselheiros dos grupos elaboraram uma
panorâmica geral das missões, pessoal missionário, problemas do momento, situação económica da
região e outras questões185.
Durante o ano de 1978 as visitas do superior continuaram a um ritmo normal, com quatro delas
feitas às comunidades do Niassa, sendo a última por ocasião da visita canónica do Superior Geral.
Durante estas visitas o P.e Marchiol registou diversos contratempos, chegando mesmo a ser preso
por duas vezes.
Terminado o primeiro mandato de 3 anos, no dia 5 de Abril de 1978, o P.e Marchiol foi
reeleito Superior Regional. Como conselheiros teve o P.e Jaime Marques (vice-superior), P.e
Camilo Ponteggia, P.e Artur Marques e P.e José Rocha Martins. Durante o ano de 1979 não foi
possível ao P.e Marchiol fazer qualquer visita ao Niassa, pois a autorização solicitada ao Ministério
do Interior foi-lhe sempre negada. Todavia, pode visitar em diversas ocasiões as comunidades de

183
Entre 1974 e 1975, a Direcção Regional teve algumas alterações: o P. Brazão Mazula substituiu o P. Manuel
Carreira, destinado a Portugal e o P. Artur Marques substituiu o P. Aldo Mongiano, nomeado Bispo de Roraima
(Brasil). O Conselho Regional reuniu-se quatro vezes: 27 de Setembro de 1974 (Mitúcue), 29 de Abril de 1975
(Mitúcue), 23 de Julho de 1975 (Lourenço Marques) e 29 de Agosto de 1975 (Unango). Cf. Acta das reuniões do
Conselho Regional: ArqRegMoç. R. 3, p. 13-25.
184
Representaram os missionários da Região Moçambique no VI Capítulo Geral do Instituto, realizado de 2 de
Junho a 8 de Agosto de 1975 (Itália), os padres Manuel Tavares e Francisco Lerma.
185
Cf. Acta das reuniões do Conselho Regional. Maputo, 10-11/11/1976: ArqRegMoç. R. 3, p. 25-31.
Inhambane. De 1 a 26 de Abril de 1980 foi novamente possível visitar o Niassa, com a autorização
do Ministério do Interior186.
A partir de Roma, a Direcção Geral do Instituto, da qual fazia parte o P.e Manuel Tavares,
seguia com atenção o desenrolar dos acontecimentos em Moçambique. Manifestava a sua
solidariedade com os missionários e sempre que possível fazia-se presente localmente, para
conhecer a situação e incutir coragem. Chamado pelo Superior Geral em Abril de 1977, o P.e
Marchiol desloca-se a Roma com a missão de informar a Direcção Geral sobre a situação que se
estava vivendo em Moçambique. Alguns meses depois a Direcção Geral retribui a visita. O segundo
conselheiro geral, P.e Luís Serna, chega a Moçambique. De 21 a 31 de Outubro visitou os
missionários do Niassa na companhia do P.e Marchiol. Uma visita marcada por um imprevisto.
Ambos foram presos no dia 28 de Outubro, durante a visita aos missionários de Cuamba. Foram
reconduzidos a Lichinga e no dia 31 de Outubro foram despachados para Maputo, sem poderem
concluir o seu programa de visita às restantes comunidades missionárias. Sem as mesmas
vicissitudes, puderam continuar a visita às comunidades de Inhambane.
Um ano depois, foi a vez do Superior Geral, P.e Mário Bianchi, visitar Moçambique para
efectuar a visita canónica aos Missionários da Consolata. Permaneceu de 12 de Dezembro de 1978
até 8 de Janeiro de 1979. Visitou em primeiro lugar os missionários presentes em Inhambane, de 15
a 20 de Dezembro. E de 23 a 31 de Dezembro visitou o grupo do Niassa, tendo chegado apenas a
Lichinga e Cuamba, onde os missionários o esperavam. De 1 a 8 de Janeiro visitou o grupo de
Maputo. Em Setembro de 1980 foi a vez do P.e Manuel Tavares, Vice Superior Geral, visitar
Moçambique. Com uma autorização do Ministério do Interior - Secção de Culto, foi possível visitar
todos os missionários nos seus locais de trabalho e fazer reuniões colectivas com os membros do
grupo do Niassa, Inhambane e Maputo187.

1.2.2. Atitudes missionárias: resistir, adaptar-se e colaborar


Resistir, adaptar-se e colaborar foram as atitudes que permitiram aos missionários conviver
com a revolução. Quem não estava disposto a esta kenosis não aguentava. Muitos missionários, por
problemas de saúde ou por incapacidade de adaptação, não aguentaram e deixaram Moçambique.
Num curto espaço de tempo houve uma diminuição acentuada de pessoal, que continuou até 1980.
Várias razões influíram nesta redução. A maior parte saiu em consequência das nacionalizações
forçadas e outros saíram pela incapacidade de adaptação às novas circunstâncias. É de salientar um
grupo de missionários veteranos que não arredou pé, casos do P.e Oberto Abondio, Luís Wegher,
Camilo Ponteggia, Guido Gobbo, Adriano Severin, Eugénio Menegon, José Eusébio, Hugo
Versino, entre outros.
Este êxodo não foi compensado com a entrada de novos missionários, pois até ao início da
década de 80 era praticamente impossível entrar no país. Em 1980 trabalhavam em Moçambique
apenas 26 missionários da Consolata: 24 sacerdotes e dois irmãos. A idade média era de 48 anos.
O grupo do Niassa foi o que teve maior desfalque de pessoal missionário e maior número de
missões fechadas. Em 1975, operavam 35 missionários da Consolata no Niassa e em 1978, o seu
número estava reduzido a metade. Este número foi descendo até atingir um mínimo de 11 elementos
em 1980. Além disso, durante algum tempo estes missionários foram concentrados em Lichinga e
Cuamba, em consequência da urbanização forçada.
Em Inhambane a situação não estava melhor. A vantagem era que quase todas as missões
permaneciam abertas pois os missionários não estavam obrigados à urbanização, podendo
movimentar-se razoavelmente dentro do seu espaço.
A distribuição do pessoal missionário estava, assim, condicionada pelos acontecimentos. Nas
dioceses de Lichinga e Inhambane trabalhavam onze e nove missionários, respectivamente. Na
Diocese de Maputo trabalhavam cinco missionários, que tinham à sua responsabilidade a paróquia

186
Cf. Relação da Região de Moçambique para o Capítulo Geral IMC de 1981 (Maputo, 19-2-1981) 8-9.
187
Cf. Relação da Região de Moçambique para o Capítulo Geral IMC de 1981 (Maputo, 19-2-1981) 8.
da Matola, paróquia de Boane, paróquia da Machava e Liqueleva. Além disso, estavam empenhados
na assistência aos doentes do Hospital Central, secretaria da Caritas Moçambicana e apoio a
paróquias desprovidas de sacerdotes, casos de Benfica e Catedral188.

1.2.2.1. Diocese de Lichinga


Em 1976, na missão de Nova Esperança (Majune), havia dificuldades na relação com as
autoridades administrativas, devido à actividade de assistência aos prisioneiros dos campos de
reeducação prestada pelos padres J. Barros e S. Bordignon. Segundo essas autoridades, os
missionários não deviam de maneira nenhuma assistir os prisioneiros. Em Massangulo
permaneciam o P.e L. Wegher, Ir. H. Versino, Ir. A. Lanza, Ir. P. Bertoni e quatro irmãs. Pouco
depois ficariam apenas o Ir. Hugo Versino, que estava inserido no ensino e nos trabalhos de
manutenção dos edifícios e o P.e Wegher, que dava assistência religiosa, sobretudo, às localidades
de Congerenge, Mandimba e Belém (Mitande). Em 1976, na missão de Metangula permanecia o P.e
E. Menegon. A sua presença era muito positiva, pois desenvolvia um grande trabalho de assistência
religiosa e humanitária, sobretudo aos deportados do sul do país. Em Lichinga trabalhavam os
padres A. Fatela e C. Ponteggia, sem grandes obstáculos. A missão de Unango era assistida a partir
de Lichinga pelo P.e Camilo Ponteggia, que lá passava os fins-de-semana, mas eram as irmãs da
Consolata que visitavam estas comunidades. Em Marrupa estava o P.e A. Prado com duas irmãs da
Imaculada Conceição. Na missão de Maúa a equipa missionária era constituída pelo P.e V.
Moratelli e por quatro irmãs da Consolata. O P.e Moratelli, que não tinha tido dificuldades de
ordem política, estava ocupado na construção do hospital, não descurando a assistência às
comunidades. Em Nipepe, a propaganda anti-religiosa tinha tido repercussões sobre o ânimo dos
cristãos, pelo que o P.e Abondio estava isolado. Na missão de Maiaca estava o P.e L. Fiorini e três
irmãs da Imaculada Conçeição. Em Mitúcue estava o P.e J. Frizzi, recém-chegado a Moçambique, e
quatro irmãs da Consolata, desenvolvendo uma intensa colaboração na pastoral. Estavam a fazer um
trabalho sistemático de visita às comunidades, permanecendo três ou quatro dias em cada uma
delas, para conhecimento da realidade e planificação pastoral. Em Cuamba, recente sede da
Comissão Diocesana de Pastoral, estava o P.e F. Lerma e o P.e Herculano Silva. Colaboravam na
paróquia o P.e Estêvão Mirassi, diocesano e as irmãs da Imaculada Conceição. Na missão vizinha
de Etatara estava o P.e José Fernando Rocha. Em Mepanhira encontravam-se os padres A. Severin,
Norberto e três irmãs da Imaculada Conceição. As instalações da missão já tinham sido absorvidas
pelo centro educacional e havia dificuldades quanto à liberdade religiosa dos alunos. Em
Mecanhelas viviam o P.e G. Gobbo, P.e A. Dall’Armi e quatro irmãs da Consolata. Nesta missão
houve bastantes dificuldades por via do julgamento público do P.e G. Gobbo.
Três anos mais tarde, em 1979, encontravam-se 18 padres e um irmão no Niassa. Vivia-se uma
fase extremamente crítica com a detenção de missionários, limitação e controlo cerrado de
movimentos, proibição de visitar comunidades, concentração forçada dos missionários em Cuamba
e Lichinga e afastamento das missões do interior. O número de missionários da Consolata foi
descendo, até atingir o mínimo de 11 em 1980: Camilo Ponteggia, Norberto Ribeiro Louro, José de
Jesus Barros e Luís Wegher (Lichinga); Oberto Abondio, José Frizzi, José Fernando da Rocha e
Vidal Moratelli (Cuamba); Guido Gobbo e Adriano Prado (Marrupa) e Adriano Severin
(Mecanhelas).

1.2.2.2. Diocese de Inhambane


Na Diocese de Inhambane, a situação dos Missionários da Consolata em 1976 era algo
problemática devido às nacionalizações e às restrições à prática religiosa; no entanto todos
permaneciam com o povo e trabalhavam na reanimação das comunidades cristãs. Na missão de
Nova Mambone estava o P.e Artur Marques e três irmãs da Consolata. As visitas às comunidades
cristãs decorriam normalmente. Tudo foi nacionalizado, com excepção das residências, igreja e a

188
Cf. Relação da Região de Moçambique para o Capítulo Geral IMC de 1981 (Maputo, 19-2-1981) 9-10.
salina. Na missão de Maimelane estava o P.e J. Alessandria e três irmãs da Consolata, que não
sentiam grandes dificuldades, nem com as estruturas, nem com o povo. Em Vilankulo residia o P.e
A. Brevi e três irmãs da Consolata. Duas irmãs estavam inseridas nos serviços de saúde e, por isso
mesmo, pouco se podia fazer na pastoral além de reanimar as comunidades cristãs. Na missão de
Mapinhane trabalhava o P.e José Matias, onde tinha sido nacionalizado o centro catequético. Em
Muvamba a equipa missionária era formada pelo P.e Adelino da Conceição e por três irmãs da
Consolata. Tinham dificuldades com a actuação do grupo dinamizador local. Na missão de
Massinga estavam o P.e Mauro Calderoni, o P.e Armanno Armanni e três missionárias da
Consolata. Toda a equipa missionária trabalhava no centro catequético, que ainda não fora
nacionalizado. A missão de Funhalouro foi fechada devido ao seu isolamento e o P.e João Armando
foi transferido para Mapinhane. As suas comunidades ficaram sem assistência religiosa.
Em 1979 o número de missionários da Consolata presentes na Diocese de Inhambane tinha
atingido um mínimo histórico. À excepção de Vilankulo que tinha um padre e um irmão, todas as
outras missões só possuíam um missionário. Em contrapartida, havia um grupo de duas ou três
irmãs da Consolata em todas as missões, que trabalhavam na evangelização e promoção. Os
missionários viviam, mais do que nunca, uma vida simples, pobre e bastante evangélica. Não
tinham propriedade própria. Tudo fora confiscado. Pastoralmente, trabalhava-se em comunhão com
toda a diocese, no sentido de constituir comunidades autosuficientes, vivas na fé e com os
ministérios essenciais.
No grupo de Inhambane havia um total de seis missões em funcionamento: Imaculado Coração
de Maria de Massinga, Nossa Senhora do Rosário de Muvamba, São José de Mapinhane, Nossa
Senhora de Fátima de Vilankulo, Santa Ana de Maimelane e Sagrado Coração de Jesus de Nova
Mambone.
Em 1979, trabalhava em Massinga o P.e André Brevi, ecónomo do grupo de Inhambane, três
irmãs da Consolata e uma equipa de catequistas. Esta missão continuava a ser uma das maiores e
mais activas comunidades cristãs da diocese, onde funcionava também uma escola para formação
de catequistas. O P.e Brevi estava impedido de se deslocar fora da sede da missão, para prestar
assistência religiosa às comunidades. Na missão de Muvamba, o P.e Adelino Francisco, que fazia
parte da equipa de formação de catequistas de Massinga, continuava a desenvolver a sua actividade
pastoral, embora com algumas dificuldades visto que não podia sair para assistir as comunidades
cristãs. Na missão de Mapinhane, desde 1974 que o P.e José Tavares Matias se mantinha como
superior, animador pastoral da zona norte da diocese e único missionário da Consolata aí residente.
O seu contributo pastoral era apreciado, colaborando com três irmãs da Consolata e uma equipa de
catequistas, obtendo ainda guias de marcha para poder visitar as comunidades. Na missão de
Vilankulo o P.e J. Armando, que tinha substituído o P.e André Brevi, fazia comunidade com o Ir.
Pedro Bertoni, que assistia as viaturas de todas as missões com a sua competência técnica. A
actividade pastoral era bastante reduzida. Na missão de Maimelane encontrava-se o P.e José
Alessandria que assistia pastoralmente as comunidades cristãs com a colaboração das missionárias
da Consolata. Em Nova Mambone estava o P.e Artur Marques, substituto do P.e Amadeu Marchiol
na direcção da missão. Na missão funcionava ainda uma salina, propriedade do Instituto, que apesar
das dificuldades, trazia ao grupo uma preciosa ajuda para estar inteiramente ao serviço do
apostolado, sem necessidade de se entregarem a tarefas estatais que limitavam a liberdade de acção
no campo religioso189.

1.2.2.3. Diocese de Maputo


Em 1976, o grupo de Maputo ficou reduzido a três padres e um irmão. Na paróquia da
Machava estava o P.e Jaime Marques, P.e Vítor Gatti e quatro irmãs da Apresentação. Tinham
também a seu cargo a paróquia de Infulene, Liqueleva e o Bairro da Liberdade, onde realizavam um
razoável apostolado em conjunto com as irmãs e de acordo com as directrizes da diocese. Na

189
Cf. Relatório do grupo de Inhambane. Maputo, 16-12-1978: ArqRegMoç. A 3, n. 37.
paróquia da Matola estava o P.e Luís Ferraz e três missionárias da Consolata, que assistiam também
a missão de Boane. O apostolado nestas paróquias era difícil devido à mudança da população. No
lar missionário estavam três aspirantes e um teólogo, que por dificuldades de horário e falta de
pessoal, não eram assistidos condignamente. Na casa regional, na Avenida Eduardo Mondlane,
residia o Ir. José Eusébio, que prestava serviços vários.
Em 1979, o grupo de Maputo era constituído por cinco missionários. O pároco da Matola era o
P.e Luís Ferraz, coadjuvado pelo P.e E. Menegon, que em 1978 fora forçado a abandonar o Niassa
pelas autoridades. À frente da paróquia da Machava continuava o P.e Jaime Marques. Ambas as
paróquias tinham visto a sua pastoral deteriorar-se. Um bom número de católicos abandonara a
prática religiosa e procurava-se, então, reorganizar a vida cristã segundo as linhas da pastoral
diocesana. Na casa regional residia o Superior Regional, P.e Amadeu Marchiol e o Ir. José Eusébio.

2. INOVAÇÃO PASTORAL: GÉNESE DAS COMUNIDADES MINISTERIAIS


Este foi um período fecundo do ponto de vista da inovação e programação pastoral. Todas as
dioceses tentaram dar uma resposta aos desafios do momento através de uma pastoral que,
continuando os esforços feitos antes da independência, tendesse para a criação de comunidades
ministeriais adultas. Cada diocese elaborou o seu programa pastoral, que apresentou na I
Assembleia Pastoral da Beira (1977), onde os representantes das dioceses confirmaram a opção por
uma Igreja ministerial.

2.1. Diocese de Lichinga


Na Diocese de Lichinga, os obstáculos colocados à actuação pastoral eram imensos. Em
comunhão com os missionários, D. Luís Ferreira da Silva continuava no seu esforço de enfrentar
todas as formas de arrogância e cinismo das autoridades políticas do Niassa, com paciência, fé e
esperança. O Plano Pastoral da Diocese de Lichinga foi traçado em 1976, na Assembleia Diocesana
de Cuamba (antiga Nova Freixo), onde foram partilhadas todas as experiências pastorais das
diversas missões. Foi igualmente elaborado um programa específico de pastoral para toda a diocese:
“Formar e estruturar comunidades cristãs de base, em ordem à sua auto-suficiência nos ministérios
e serviços eclesiais, na evangelização e sustentação”. O objectivo global era levar cada cristão e
cada comunidade a viver o Evangelho em plenitude, segundo a sua inserção na comunidade
diocesana. O objectivo concreto era criar condições para a formação de animadores de comunidades
a quem fossem entregues, gradualmente, os ministérios. Esta tarefa foi confiada ao Secretariado
Diocesano de Pastoral190.
A partir desta assembleia deu-se uma maior responsabilidade ministerial e mais autonomia
económica às comunidades cristãs, intensificando-se o trabalho de revitalização das comunidades já
existentes e criando-se outras novas191. Este processo de formação de comunidades ministeriais
evoluiu em dois momentos sucessivos. Primeiramente, a organização e formação de comunidades e
mais tarde, a formação e exercício dos ministérios. Na Assembleia Diocesana de Pastoral de 1977,
este plano foi revisto e concretizado em alguns pontos referentes à sua aplicação, na zona norte da
diocese.
Devido às limitações impostas à actividade missionária, a entrega dos ministérios aos
animadores, já antecipada em algumas comunidades a título de experiência, tornava-se cada vez
mais urgente. Assim, o Secretariado Diocesano de Pastoral passou a organizar cursos de formação
de animadores para o exercício dos ministérios, nomeadamente distribuição da Eucaristia e
administração do Baptismo solene de adultos e crianças. A partir de 1978, a formação foi orientada

190
Cf. RELATÓRIO PARA A ASSEMBLEIA NACIONAL DE PASTORAL, A Igreja em Lichinga na organização das
comunidades, 8-9.
191
Cf. G. FRIZZI, La missione del Niassa nel crogiolo della rivoluzione: Documentazione IMC n. 3 (1980) 19-26.
para a pastoral da família e preparação de animadores para assistirem à celebração do Matrimónio,
como testemunhas oficiais da Igreja segundo as normas recebidas da Santa Sé192.

2.2.Diocese de Inhambane
Guiada pelo seu novo pastor, D. Alberto Setele, a Diocese de Inhambane fez um programa
pastoral trienal como resposta aos desafios do pós-independência. Em 1975, primeiro ano do Plano
Trienal de Pastoral, tomou o propósito de “promover em todas as missões uma mentalização
eficiente sobre os temas fundamentais do cristianismo, e actuais para o Moçambique de hoje”. Este
empenho foi positivamente correspondido pelas comunidades cristãs, que se esforçaram por
descobrir os valores escondidos no seio da revolução. Em 1976, a Assembleia Diocesana de
Pastoral, reunida no Guiúa (30 de Novembro a 3 de Dezembro), analisou e constatou que o Plano
Trienal de Pastoral continuava válido na sua globalidade. Decidiu-se que todas as forças dos
agentes pastorais da diocese deveriam ser canalizadas para os objectivos de “Reestruturar a Diocese
de Inhambane a partir dos seus próprios recursos humanos e económicos; estar atentos aos dons do
Espírito Santo e comprometer-se em integrá-los na estrutura desta Igreja local”. Auscultando toda a
diocese, o Secretariado de Acção Pastoral sintetizou todas as aspirações nos seguintes objectivos: 1.
Basear a pastoral da diocese sobre os catequistas de comunidade; 2. Detectar e seleccionar líderes;
3. Estruturar equipas móveis para a formação e assistência a catequistas, para num segundo plano
dar assistência religiosa a zonas pastorais mais desfavorecidas; 4. Elaborar textos de apoio,
particularmente esquemas de homílias e rituais para sacramentos e sacramentais; 5. Incrementar a
pastoral vocacional e promover encontros de aprofundamento teológico da vida religiosa193.

2.3. Diocese de Maputo


A diocese de Maputo, sob a direcção do seu novo pastor D. Alexandre José Maria dos Santos,
foi uma das primeiras dioceses a mobilizar-se para responder de modo adequado às novas
exigências pastorais. No início de 1975 realizou um encontro de reflexão pastoral, com a
participação do clero e com representantes do laicado. Desta assembleia saiu o novo plano pastoral
arquidiocesano, com os seguintes objectivos: 1. Construção da Igreja particular, autónoma e adulta
no plano dos quadros e instituições, no plano da cultura e expressão da fé e no plano económico; 2.
Edificação de comunidades cristãs encarnadas nas comunidades humanas, conscientes da sua
missão em Cristo, enraizadas no meio cultural, responsabilizadas na sua direcção, fiéis ao sentido
de animação da sociedade, geradoras de novos cristãos e agentes dos diversos ministérios194.
Estas experiências pastorais, unidas à observação e contributo de outras dioceses de
Moçambique, foram compartilhadas na Assembleia Pastoral da Beira (1977), onde se confirmou a
opção pelas pequenas comunidades eclesiais, feita a nível diocesano. Para a Igreja local de
Lichinga, Inhambane, Maputo e de outras dioceses, a Assembleia Pastoral da Beira foi o ponto de
chegada de um caminho que agora era reconhecido e reforçado a nível nacional. A dinâmica
comunitária e a experiência ministerial consolidaram-se progressivamente e deram frutos positivos,
surgindo uma Igreja mais autónoma e incarnada. A experiência comunitária e ministerial contribuiu
para superar a crise que a revolução provocou e ajudou a criar um novo estilo de ser Igreja e de
viver a missão em Moçambique.

192
Cf. Avaliação pastoral. Relatório da Diocese de Lichinga apresentado por D. Luís Ferreira da Silva. Lichinga,
1979: ArqRegMoç. A3, n. 19.
193
Cf. Relatório da Diocese de Inhambane. Triénio de Pastoral (1974-1977). Texto apresentado na Assembleia
Nacional de Pastoral (Beira, 8-13/9/1977). Inhambane, 15-8-1977: ArqRegMoç. C. 1, n. 11.
194
Cf. Relatório do encontro de reflexão pastoral na Matola e plano-base da nova pastoral da Arquidiocese:
ArqRegMoç. B 14, n. 229.
SEXTO PERÍODO(1982-1992):
PRESENÇA DE CONSOLAÇÃO E PROFETAS DA PAZ

Introdução
Se os primeiros anos depois da independência, como acabámos de ver, foram difíceis para a
Igreja e para os missionários, a década de 80 foi-o ainda mais. À medida que diminuíam as
restrições à liberdade religiosa outros factores, sobretudo a guerra, contribuíram para que a
actividade pastoral fosse drasticamente condicionada. A guerra civil que afectou todo o país de
1982 até 1992 causou insegurança, sofrimento, destruição e morte. Neste contexto, a Igreja
mostrou-se solidária com o povo sofrido e os missionários em primeira linha compartilharam o seu
calvário. Com o passar dos anos a guerra privou sempre mais as comunidades cristãs da presença e
acompanhamento da parte dos missionários. A vida paroquial desapareceu quase por completo em
muitas missões e nesta situação valeu a assistência à distância por parte dos missionários e o zelo
apostólico dos animadores e catequistas os quais, mais uma vez, demonstraram com os factos a
maturidade cristã das suas comunidades195.
A partir de 1983, a guerra civil travada entre o exército e a Renamo, Resistência Nacional
Moçambicana, estendeu-se a todo o país. A guerrilha encontrou terreno fértil no descontentamento
generalizado que se sentia entre a população, desiludida pela falência dos planos económicos do
governo e pelo abuso da autoridade. Contudo, era a própria população que sofria com a guerra.
Cada ano que passava aumentava o número de mortos, destruição e miséria. A Renamo serviu-se
também do rapto de missionários para chamar a atenção internacional e infelizmente, alguns foram
barbaramente assassinados em consequência dos ataques.
Os missionários e as comunidades cristãs tinham pela frente um novo tipo de apostolado: a
presença, partilha do sofrimento, o martírio e a reconciliação. Embora os efeitos dramáticos da
guerra estivessem sempre diante dos seus olhos, a esperança que os movia era maior que todos os
perigos. Todavia, não procuraram fazer-se passar por heróis nem propagandear a sua coragem.
A partir de 1982 notou-se um lento mas progressivo melhoramento nas relações entre o
Estado e Igreja. Mais do que uma inversão ideológica, esta mudança foi motivada pela resistência
passiva do povo, crise de confiança na ideologia marxista-leninista, o colapso económico, as
intervenções corajosas da Igreja e o dialogo aberto dos Bispos com a autoridade e a perseverança
dos cristãos e missionários. Outro aspecto positivo do ponto de vista eclesial, em estreita conexão
com a inversão ideológica, foi o número crescente de cristãos que regressavam à Igreja e de
catecúmenos que se preparavam para receber o sacramento do Baptismo.

195
Um exemplo desta maturidade cristã das comunidades e do zelo apostólico dos seus responsáveis é
testemunhado pelo P.e Franco Gioda na sua visita à missão de Nipepe, privada de acompanhamento pastoral directo dos
missionários desde a nacionalização da missão, em 1985: Celebrei a Santa Missa na grande igreja de Nipepe despojada
de tudo mas rica de fé. Dei por mim junto do altar submerso por uma maré de gente e tive a sensação de ter junto de
mim todos os Padres que trabalharam nesta terra: P.e Mário Filippi, P.e Luís Fiorini e P.e Oberto Abondio.
Restituíram tudo, menos o moinho e a escola. ...Mas isto é secundário. O que conta é uma Igreja viva que cresceu e se
torna adulta. O isolamento tornou a comunidade cristã unida na fé e na oração. Realizei muitos encontros e cursos nos
dois meses que aqui estive. Há uma sede da Palavra de Deus que causa impressão. Mas também ali começaram as
dificuldades da guerrilha. A gente desloca-se de um lado para o outro subdividindo as comunidades, o que torna difícil
um trabalho sistemático. Fui onde me deixaram ir, mesmo aos lugares mais difíceis. É bom que sintam visívelmente que
vivemos com eles e partilhamos da sua vida. Quanto suor e quanto sangue não custou o transporte da Bíblia, do
Leccionário “Masu a Muluku” e do Catecismo, desde Chea-Chea a Maúa? E são 210 kms. Desafiando todos os
perigos para ter, junto a si, o conforto da Palavra de Deus. Tudo está nas mãos dos animadores, como aliás já há anos.
Os grupos de oração multiplicam-se e expandem-se como nódoa de azeite. Contei mais de cem! Uma vez por semana,
grupos de famílias reunem-se para rezar e ler o Evangelho. Estarei atento a este sinal do Espírito. Carta do P.e Franco
Gioda ao P.e Norberto Louro, superior regional, Maúa, 25-2-1985: Encontro: Órgão informativo I.M.C. de
Moçambique, n.31 (1986) 8-9.
1. ORGANIZAÇÃO DO INSTITUTO MISSIONÁRIO DA CONSOLATA EM MOÇAMBIQUE
Nesta década (1982-1992) muitos acontecimentos se sucederam que tocaram fortemente os
missionários da Consolata presentes em Moçambique. Além da situação sócio-politica num
contexto de guerra que fez os missionários viver momentos dramáticos, verificaram-se
acontecimentos positivos: o aumento do número de missionários e a sua internacionalização,
abertura a novos sectores pastorais, nomeadamente o serviço na formação do clero local, a
organização do seminário do Instituto para a formação de missionários moçambicanos, etc.
A figura e acção do Superior Regional nestes anos atribulados foi de grande importância.
Ele e o seu Conselho procuraram promover a comunhão dentro da Região e animar os confrades,
sobretudo nos momentos difíceis que nunca faltaram nestes anos. Os membros do Conselho
Regional representavam os três grupos de missionários: Niassa, Inhambane e Maputo. Reunia-se
duas vezes por ano: em Fevereiro e em Julho. Dadas as dificuldades de transporte e o isolamento
em que se encontravam alguns conselheiros, raramente todos os membros estavam presentes nas
reuniões.
Secretariados regionais propriamente ditos não existiam. Havia um missionário encarregado
da Pastoral e outro encarregado da formação e animação missionária. A situação de isolamento
vivida durante tantos anos não permitiu que a Região Moçambique se estruturasse nestes sectores.

1.1. A actividade da Direcção Regional e visitas dos superiores maiores


Depois do VIIº Capítulo Geral do Instituto Missões Consolata (1981), no qual participaram
como representantes dos missionários da Consolata de Moçambique o P.e Amadeu Marchiol e o P.e
José Tavares Matias, foi eleita a nova Direcção Regional. Para Superior Regional foi eleito o P.e
André Brevi e como conselheiros o P.e Adelino Francisco e o P.e José Barros. A nova Direcção
Regional, agora reduzida ao Superior Regional e a dois conselheiros, guiou os rumos da Região de
Moçambique durante quatro anos (1981-1985), um período marcado por momentos difíceis e
dolorosos196.
A primeira reunião do Conselho Regional deu-se no dia 5 de Fevereiro de 1982197. Tratou-se
do pessoal e da situação económica da Região, entre outras questões. Para fortalecer a comunhão
entre os missionários decidiu-se retomar a publicação do boletim “Encontro”198.
Durante o seu mandato como Superior Regional, o P.e André Brevi esforçou-se por estar
perto dos missionários, visitando regularmente quer o grupo de Inhambane quer o grupo do Niassa.
Este contacto frequente era mais do que nunca necessário devido à impossibilidade de reunir em
assembleia regional todos os missionários.
Com o fim do mandato da Direcção Regional (1984) colocava-se a questão da eleição da
nova Direcção. O processo foi moroso e muito complicado pela indisponibilidade dos eleitos e
pelas dificuldades de comunicação; a votação era feita por correspondência199. Perante tal impasse,

196
O Conselho Regional ficou reduzido a três missionários em consequência da diminuição do pessoal missionário
em Moçambique. No dia 2 de Novembro de 1982, numa reunião dos missionários de Inhambane e Maputo, foi
escolhido um novo conselheiro em substituição do P.e Adelino Francisco, sequestrado pela Renamo. Foi eleito o P.e
Jaime Marques. Cf. Reunião plenária dos missionários do sul: Encontro IMC-Moçambique n.15 (1982) p. 8.
197
Cf. Acta da reunião do Conselho Regional. Maputo, 5-2-1982: ArqRegMoç. R. 3, pp. 45-47.
198
O boletim “Encontro ” IMC, nascido em 1971, deixou de se publicar em 1974. Foi retomado em Dezembro de
1982. O responsável da redacção era o P.e Francisco Lerma. Cf. Encontro IMC-Moçambique n.15 (1982) p. 2.
199
Em Agosto de 1984 pediu-se aos missionários que, além de votarem para a escolha do Superior Regional, se
pronunciassem sobre a constituição do Conselho Regional. No dia 20 de Agosto de 1984, na casa regional, procedeu-se
ao escrutínio dos pareceres e votos. Sobre o número dos conselheiros do próximo Conselho Regional, a maioria votou a
favor de que fosse composto por quatro conselheiros, em vez dos anteriores dois. Para a eleição do novo Superior
Regional, primeiro escrutínio, o P.e André Brevi obteve 6 votos. Não tendo sido conseguida a maioria de dois terços
exigida no primeiro escrutínio, procedeu-se a um segundo escrutínio no dia 26 de Setembro. Dos 24 missionários
enviaram o seu voto 20. O P.e Adelino da Conceição obteve 7 votos. Também nesta segunda votação não se conseguiu
a maioria de dois terços exigida pelas Constituições, pelo que se procedeu ao terceiro escrutínio, realizado no dia 30 de
Outubro. Dos 23 votos chegados, 16 optavam pelo P.e Adelino da Conceição que estava na paróquia de Massinga. O
eleito não aceitou o cargo, apresentando os seus motivos numa carta que enviou a todos os membros da região.
o Superior Geral, P.e José Inverardi, tomou a seguinte decisão: pediu a P.e A. Brevi que continuasse
durante seis meses no cargo de Superior Regional, até à próxima Conferência Regional, na qual
seria eleito o novo superior e seriam postas as bases para o caminho futuro da região200.

1.1.1. A IIIª Conferência Regional (1985): P.e Norberto Louro, Superior Regional
A IIIª Conferência Regional teve início no dia 26 de Maio de 1985, Domingo de
Pentecostes, com a participação de 20 missionários e do P.e Rafael Lombardo, Vice-Superior Geral.
A Conferência Regional anterior realizara-se em 1973, sendo longa a expectativa: doze anos de
transformações profundas na vida de Moçambique, bem como na vida interna da região. Tal
expectativa foi satisfeita por uma Conferência Regional bem organizada, animada pelo espírito de
oração e pelo desejo activo e participante de todos os presentes. Os temas tratados foram: vida dos
missionários, pastoral, promoção vocacional, organização da região, administração, etc. O ponto
forte desta Conferência Regional foi a unidade regional. Constatou-se que desde a criação da
Região única (1973) não tinha havido verdadeira comunhão regional e que este era um dos
problemas que mais se fazia sentir. Foram apontadas as causas desta situação e as pistas para o
futuro. No dia 1 de Junho procedeu-se à renovação da Direcção Regional. Ao terceiro escrutínio
resultou eleito o P.e Norberto Ribeiro Louro. Como conselheiros foram escolhidos o P.e Jaime
Marques (Vice-Superior Regional), Henrique Redaelli, José de Jesus Barros e Artur Pereira
Marques. A Conferência terminou no dia 5 de Junho201.
No dia 8 de Junho de 1985, depois de ter dialogado com cada grupo nos dias anteriores, o
P.e Norberto Louro reuniu-se com o Conselho Regional, para analisar vários problemas da Região.
Aproveitando as indicações do Conferência Regional foram escolhidos os titulares dos vários
serviços regionais: ecónomo regional, P.e Jaime Marques; animador e formador vocacional, P.e
Adelino Francisco; responsável do Secretariado da Pastoral, P.e Francisco Lerma; Procuradoria, P.e
Luís Ferraz. Passou-se em seguida ao exame da situação e colocação do pessoal.

1.1.2. A IVª Conferência Regional (1987)


Embora a última Conferência Regional tivesse sido realizada havia relativamente pouco
tempo, era necessário celebrar uma outra logo a seguir ao Capítulo Geral do Instituto (Roma, 11 de
Maio – 19 de Junho 1987) para uma eficaz recepção das suas decisões. Numa circular de 16 de
Fevereiro de 1988, P. Norberto Louro, reeleito Superior Regional em Agosto de 1987202, convocou
os missionários da Consolata para a sua IVª Conferência Regional e deu algumas sugestões para a
sua preparação e desenvolvimento. Ela teria que captar as linhas que o Capítulo Geral traçou sob a
óptica de “comunhão e colaboração para qualificar o nosso ser e o nosso operar na missão”.
A IVª Conferência Regional realizou-se, de 14 a 21 de Junho de 1988, num cenário de um
país em guerra e de comunidades missionárias tocadas pelo isolamento. Indicou três pontos chave
sobre os quais caminhar: a comunidade, a formação permanente e o serviço à Igreja local. No
âmbito desta realidade fez-se uma escolha clara para a formação de missionários da Consolata
moçambicanos e forneceu-se uma metodologia de acção no projecto comunitário de vida (PCV)203.

1.1.3. Escolha da nova Direcção Regional (1990): P.e Franco Gioda, Superior Regional

Consultada a Direcção Geral em Roma, esta comunicou que se procedesse a uma única votação, e quem fosse
escolhido, ainda que só com maioria relativa, seria o novo Superior Regional. No dia 26 de Dezembro procedeu-se ao
quarto escrutínio. Teve a maioria dos votos o P.e André Brevi. Parecia que finalmente se tinha encontrado o Superior
Regional. Só que, perguntado se aceitava a direcção da região para mais um triénio, o P.e André Brevi respondeu que
não. Cf. Eleição do novo superior Regional: Encontro IMC-Moçambique n. 24 (1984) 2-3.
200
Cf. Eleição do novo superior Regional. 4º escrutínio: Encontro IMC-Moçambique n. 25 (1985) 3-4.
201
Cf. Terceira Conferência Regional: Encontro n.26 (1985) 7-11.
202
A reeleição do P.e Norberto Louro como Superior Regional e do respectivo Conselho verificou-se no dia 10 de
Agosto de 1987 durante a Assembleia Regional realizada no Maputo. Do novo Conselho Regional faziam parte os
padres Francisco Lerma, Adelino Francisco, Franco Gioda e José Salgueiro.
203
Cf. INSTITUTO MISSÕES CONSOLATA, 4ª Conferência Regional (Maputo 1988).
No dia 18 de Junho de 1990 foi escolhido o novo Superior Regional na pessoa do P.e Franco
Gioda, que tinha sido nomeado pároco de Cuamba. Como conselheiros foram escolhidos o P.e
Francisco Lerma, vice-superior, o P.e Salvador Forner, o P.e José Fernando da Rocha Martins e o
P.e André Brevi. Durante a segunda metade de Julho o novo Superior Regional iniciou a visita às
comunidades do Niassa e em seguida às de Inhambane para conhecer aquela zona e entrar na
realidade das comunidades que não conhecia. Escolheu como sua prioridade: ajudar todos a crescer
na unidade e na fraternidade. Tendo nos seus desejos e aspirações muito idealismo e também um
pouco de utopia, procurava concretizar quotidianamente tudo o que sonhava da realidade
missionária.
As dificuldades desses anos plasmaram a sua fé e uma caridade “concreta”, que se
manifestavam na sua presença lá onde podia chegar. Deixar-se programar por Deus e pelo próximo.
É o dom da nossa vida. Fantasia evangélica.

1.1.4. As visitas do Superior Geral, P.e José Inverardi a Moçambique


Durante este período, as visitas dos membros da Direcção Geral a Moçambique foram
frequentes e frutíferas. Contribuíram para revitalizar a comunhão entre os missionários e o Instituto
e para encorajar os mesmos no seu trabalho apostólico. Os superiores passaram pelo meio do campo
de evangelização, contactaram com o povo que não dispensava os missionários nem nos lugares de
maior risco, viram o tipo de pastoral, sem recursos e sem estruturas, feita em grande parte entre um
ataque e outro da guerrilha e vontades decididas a permanecer.
No final de 1982, o novo Superior Geral, P.e José Inverardi visitou os missionários da
Consolata de Moçambique (6-20/11/1982). Encontrou-se primeiro com os missionários do Niassa
reunidos em Lichinga (8-12 de Novembro). Depois do seu regresso a Maputo reuniu-se com os
missionários de Maputo e Inhambane. Perante tudo aquilo que viu, o Superior Geral qualificou a
presença do Instituto em Moçambique como uma presença extremamente missionária. Incentivou
os missionários a continuar numa atitude de diálogo e perseverança204.
Com o objectivo de acompanhar mais de perto os missionários, o Superior Geral, P.e José
Inverardi, efectuou uma segunda visita a Moçambique, acompanhado pelo P.e Luís Castro,
conselheiro geral (23 de Julho a 11 de Agosto de 1984). A primeira etapa da visita foi a cidade de
Lichinga, onde se reuniu com os missionários do Niassa. Em seguida encontrou-se com os
missionários de Maputo e Inhambane na capital. De facto, por motivos de dificuldades de transporte
por causa da guerra, decidiu-se que o Superior Geral não fosse a Inhambane. Durante os encontros
reflectiu-se sobre as atitudes missionárias a assumir no difícil contexto nacional. Cada missionário
deveria assumir atitudes positivas: favorecer a Igreja-comunhão, apresentar o Evangelho como Boa
Notícia. Antes de partir, o P.e J. Inverardi apresentou, em forma de conclusão, os temas abordados
na visita: comunhão, desafios da hora presente, serviços à Igreja local, animação missionária e
vocacional, inculturação, etc205.
Em 1989, o Superior Geral voltou a visitar os missionários da Consolata presentes em
Moçambique (de 18 de Julho a 16 de Agosto). Conseguiu visitar todas as comunidades; de avioneta
visitou as mais isoladas (Maúa e Mecanhelas) e de carro deslocou-se de Inhambane a Massinga
percorrendo uma estrada de alto risco.

1.2. A vida comunitária, novos reforços e internacionalização


Na situação de guerra os missionários deveriam estar unidos e solidários mais do que nunca,
para poderem enfrentar os perigos. Apesar das dificuldades de comunicação e transporte, os
missionários continuaram a reunir-se para rever e programar as actividades. A assembleia regional
anual de todos os missionários no Maputo constituía um momento de comunhão e troca de
informações. O Superior Regional, mediante as suas visitas às comunidades e contactos epistolares,

204
Cf. Visita do Padre Geral a Moçambique: Encontro n.15 (1982) pp.2-6.
205
Cf. Visita Canónica do P.e José Inverardi, Superior Geral: Encontro n.23 (1984) 5-6.
funcionava como elo de ligação entre todas as comunidades. O seu era um ministério de animação e
informação necessário para superar o isolamento das comunidades e encorajá-las na sua presença de
consolação. A acção do P.e Norberto Louro e em seguida do P.e Franco Gioda no meio dos
missionários, era sobretudo uma presença de irmãos, de orientadores que partilhavam o caminho
pessoal e comunitário de cada missionário.
A partir de 1982, depois de um longo período de espera, começaram a chegar novos
missionários a Moçambique206. Depois de uma clara diminuição, houve finalmente um pequeno
aumento207. A chegada de novos missionários veio dar mais ânimo aos compromissos pastorais
assumidos e permitiria de seguida retomar o trabalho de animação vocacional e formação de
missionários da Consolata moçambicanos. Com a chegada de novos reforços e para intensificar a
vida comunitária, optou-se por comunidades consistentes. A pouco e pouco, terminaram os casos de
missionários isolados. Incrementaram-se os valores da vida comunitária e intensificou-se a
planificação conjunta mediante a elaboração do projecto comunitário de vida em cada comunidade
missionária.
Outro aspecto positivo da vida comunitária, e que constituía uma novidade, era a
internacionalidade da maior parte das comunidades. A inserção dos missionários recém-chegados
oriundos da Europa, América e África, foi feita tentando responder às exigências da inculturação.
Realizaram-se cursos de inserção cultural e estudo da língua em Inhambane e no Niassa.
Por outro lado, a chegada de novos missionários contribuiu para insuflar nas comunidades
ideias novas, entusiasmo e zelo. A juventude e a experiência ajudaram a formar comunidades
apostólicas capazes de viver a dimensão do Pentecostes num Moçambique em guerra208.

2. A GUERRA E AS SUAS VÍTIMAS: A PARTILHA DA DOR COMUM.

2.1. O deflagrar da guerra civil


A partir de 1982 deu-se a avançada da Renamo em várias províncias de Moçambique. As
suas acções militares tornaram-se cada vez mais frequentes e violentas. Desde muito cedo, as
populações e os missionários tiveram que conviver com esta situação.
No Niassa as acções de guerra da Renamo começaram um pouco mais tarde. A partir de
1984 o território circunstante a Mepanhira-Mecanhelas começou a ser alvo dos ataques da Renamo
que das suas bases da Zambézia iniciavam a sua penetração no Niassa. A população das aldeias foi
forçada a abandonar as suas casas para se refugiar nas montanhas que circundam a missão ou então
a procurar refúgio mais seguro no vizinho Malawi ou na sede administrativa de Mecanhelas. A
comunidade cristã de Mepanhira iniciou a sua dispersão. A missão foi alvo de contínuos ataques da
Renamo por ser um centro educacional e quartel militar. A quase totalidade dos edifícios foram
destruídos tendo resistido quase por milagre a Igreja dedicada a Santa Teresinha do Menino Jesus.
A Renamo continuou a sua avançada para norte, constituindo a suas bases em lugares estratégicos,

206
A distribuição dos missionários da Consolata em Moçambique em 1982 era a seguinte. Diocese de
Lichinga: Padres José Barros, Camilo Ponteggia, Oberto Abondio, Luís Wegher (Lichinga); José Frizzi, Vidal
Moratelli, José Fernando da Rocha Martins (Cuamba); Adriano Severin (Mecanhelas); Norberto Louro, Adriano Prado
(Marrupa). Diocese de Inhambane: Padres Artur Marques, Francisco Lerma (Inhambane); José Tavares Matias
(Guiúa). Maputo: Padres André Brevi, Luís Ferraz, Eugénio Menegon, Augusto Fatela, Ir. Pedro Bertoni, Ir. José
Eusébio (Casa regional); P. Jaime Marques (Machava). Diocese da Beira: P.e Amadeu Marchiol. Encontravam-se
temporariamente fora de Moçambique os seguintes missionários: Padres Guido Gobbo e Adelino Francisco (Portugal).
207
Eis a lista dos missionários que vieram reforçar o grupo dos missionários da Consolata de Moçambique entre
1982-1990: P.e José Salgueiro da Costa, P.e Henrique Redaelli (1982); P.e Aquileu Fiorentini, Franco Gioda (1983);
P.e Ivanilson Brun, Mário De Carli, João Morando, Élio Rama, Ernestino Venturi (1984); P.e Miguel Njue, José
Rurunga (1985); P.e Salvador Forner (1986); P.e Alceu Agarez, Christian Fernandez Moores (1987); P.e Ariel Granada
Serna, Joseph Otieno, John Peter Njoroge, (1989); P.e António Rusconi, Agostinho Squizzato, José Torres Neves,
Ricardo Castro, Ir. Daniel Ndihu (1990).
208
Cf. Carta do P. Franco Gioda, Superior Regional, aos missionários: Encontro-Moçambique n. 46 (1992) 2.
algumas muito próximas das missões. A própria missão de São Francisco Xavier de Maiaca,
transformada em centro educacional pela Frelimo, foi ocupada e em seguida transformada numa
base operacional da Renamo.
Em 1985, em todo o país, a situação de guerra, fome, nudez e miséria que se vivia era fonte
de sofrimento e insegurança para toda a população. Às acções da Renamo, o Governo respondeu
com medidas repressivas: a promulgação das “leis dos crimes”, a “lei da chicotada”, públicas
punições para quem tivesse atentado contra a segurança nacional. Infelizmente, a sua aplicação foi
sujeita a abusos. Foi também colocada em prática a “operação produção” através da qual milhares
de moçambicanos das grandes cidades, sobretudo do sul, encontrados sem cartão de trabalho, foram
deportados para o Niassa. Abandonados no planalto durante o inverno e sem meios de subsistência,
muitos acabaram por morrer ou engrossar as fileiras da Renamo. Para enfrentar a guerrilha foi
decretado o serviço militar obrigatório.
O sofrimento do povo aumentava assustadoramente: fome, destruição e morte. A Igreja
Católica respondeu a esta situação de sofrimento com uma presença efectiva e afectiva entre a
população martirizada e com os apelos à paz e reconciliação entre as partes em conflito. Tiveram
grande impacto as cartas pastorais dos Bispos as quais ajudavam a tomar consciência da situação
trágica na qual Moçambique estava mergulhado e na necessidade de encontrar soluções para a
guerra.
Os Missionários da Consolata, como os demais religiosos de outras congregações,
compartilharam o calvário do povo e beberam com ele o cálice amargo do sofrimento: ataques,
viagens em coluna, fome, sequestro e morte.

2.2. …e as suas nefastas consequências: deslocados, fome e morte.


A guerra e uma das suas consequências lógicas, a fome, fizeram disparar o número dos
mortos e dos refugiados. A partir de 1986 a fome atingiu também o fértil Niassa, impossibilitado de
produzir por causa da guerra. Coisa nunca vista. Crianças morriam no hospital em consequência da
desnutrição; rapazes e raparigas iam para a escola em jejum; funcionários e trabalhadores
abandonavam o serviço porque não aguentavam trabalhar com fome209.
Fome, refugiados e guerra eram as palavras que sintetizavam igualmente a situação na qual
se encontravam as missões de Inhambane. Havia fome pela falta de chuva e porque a população se
vira forçada a abandonar as aldeias para se refugiar nas sedes administrativas, deixando assim os
campos e a comida àqueles que faziam a guerra. Em Vilankulo os refugiados contavam-se aos
milhares. A situação era grave. Diáriamente chegavam novos refugiados com os poucos haveres
que conseguiam carregar; outras vezes, tendo que fugir debaixo de fogo, conseguiam levar apenas
os filhos. Muitos refugiavam-se na missão, sentavam-se debaixo das mangueiras em frente à
cozinha e ali, em silêncio “gritante” passavam horas, até que alguém quebrasse aquele mistério
humilhante chamado fome210.
Valeu nesta situação a ajuda prestada pela Caritas diocesana através da distribuição de
milho, arroz, óleo, leite em pó, açúcar, etc.

2.3. O rapto de missionários


A Renamo serviu-se do sequestro de estrangeiros para chamar sobre si a atenção da opinião
pública internacional. Depois do rapto de cooperantes, chegou a vez dos missionários. O primeiro
grupo de religiosos sequestrados era constituído por missionários e missionárias da Consolata que
trabalhavam na diocese de Inhambane.
Coube a sorte em primeiro lugar ao P.e José Alessandria, da missão de Maimelane. No dia
16 de Julho de 1982, pela manhã, homens armados da Renamo cercaram a residência dos
missionários, onde viviam, desde o tempo das nacionalizações, padres e irmãs. Intimaram o P.e J.

209
Cf. L. WEGHER, Crónica do grupo do Niassa: Encontro-Moçambique n.32 (1987) 12.
210
Cf. F. LERMA, Vilankulo: situazione generale alla fine di 1987: Da Casa Madre n. 4 (1988) 23.
Alessandria para que preparasse as suas coisas e os acompanhasse até ao mato. Depois dos inúteis
protestos, o missionário partiu para o seu incógnito destino211. No dia 26 de Setembro juntaram-se a
ele o P.e Adelino Francisco e as Irmãs Teotina Cariolato, Bona Pischedda, Rosella Casiraghi e
Agnes Mainhardt, que tinham sido sequestradas a 16 do mesmo mês na missão de Muvamba. A
estadia na primeira base durou um mês, de 26 de Setembro até 26 de Outubro. Uma paragem que os
ajudou a recuperar as forças perdidas e que os impeliu a fazer tudo o que era possível para tornarem
menos insuportável o cativeiro. Passaram o tempo a rezar, a ler e a meditar. Pairava sobre as suas
cabeças a incógnita de quando e como acabaria esta aventura. A 26 de Outubro, escoltados pelos
guerrilheiros, deixaram o acampamento. Caminharam cerca de 200 quilómetros para noroeste em
direcção ao rio Save. Pelo caminho caíram em duas emboscadas das tropas regulares. No dia 20 de
Novembro chegaram a base. O calvário deste grupo de missionários durou até à noite de 25 de
Novembro de 1982, altura em que foram libertados na fronteira com o Zimbabwe, depois de terem
caminhado mil e duzentos quilómetros a pé, atrás dos guerrilheiros, totalmente percorridos em
ziguezague pelo meio do mato, alimentando-se como melhor puderam212.
Nessa mesma altura, no dia 20 de Novembro de 1982, a Renamo atacou a missão de Nova
Mambone com o objectivo de sequestrar os missionários. A argúcia e determinação do P.e Amadeu
Marchiol e Ir. Pedro Bertoni evitou o cativeiro, fugindo quando tiveram a primeira oportunidade213.
Todavia, por motivos de segurança, a missão foi encerrada temporariamente.
No dia 8 de Novembro de 1985, num ataque a uma coluna militar próximo de Metarica
raptaram a Ir. Luisa Amalia, missionária da Consolata, da missão de Maúa que viajava para
Cuamba. Depois da emboscada a missionária foi capturada e levada até à base. Durante meses não
se soube do seu paradeiro, circulando até a notícia de que teria sido morta. Ficou com os
guerrilheiros pelo espaço de 270 dias, sendo libertada em 13 de Agosto de 1986 devido à
intervenção do Vaticano e de várias organizações.
No dia 1 de Março de 1992, nas proximidades da missão de Massangulo, o carro no qual
viajava o P.e João Coelho Baptista, pároco de Mandimba e Mitande, foi alvo de uma emboscada de
guerrilheiros da Renamo e ele ficou ferido numa perna. Quatro pessoas que viajavam com o
missionário caíram mortas no ataque. O missionário foi transportado para a base da Muakanha,
onde ficou pelo espaço de um mês sendo em seguida libertado214.

2.4. A morte do P.e Ariel Granada em uma emboscada


Como já se tinha verificado na guerra de libertação com a morte do P.e Guerrino Prandelli,
mais uma vez os missionários da Consolata juntaram o seu sangue ao sangue do povo moçambicano
vítima de uma guerra feroz e injusta, com o assassínio do P.e Ariel Granada nas proximidades da
missão de Massangulo. De origem colombiana, chegou a Moçambique em 1988 e trabalhava na
paróquia de Mecanhelas. Em Fevereiro de 1991, chegou a notícia da morte de sua mãe. Não
obstante as dificuldades de comunicação com Mecanhelas, conseguiu-se, contudo, fazer lá chegar a
notícia. Querendo facilitar-lhe a chegada a Lichinga, a tempo de apanhar o avião para Maputo, o P.e
Fernando Rocha prestou-se para o acompanhar juntamente com a Irmã Rebeca, da Congregação das
Irmãs da Imaculada Conceição e com outras pessoas a quem deram boleia. Encontraram-se em
Mandimba, onde pernoitaram por ser bastante tarde. No dia seguinte, 15 de Fevereiro, continuaram
a viagem até Lichinga. Eram sete horas quando partiram. Além dos quatro da comitiva levavam de
boleia uma senhora com três crianças. Pelo caminho tiveram tempo de conversar, rezar, cantar e
contemplar a paisagem, que nesta altura do ano é exuberante.

211
Cf. Crónica de uns dias. Missão de Maimelane, 19 de Julho de 1982: Encontro n. 15 (1982) 9-10.
212
Para uma descrição mais detalhada do cativeiro e libertação destes missionários, ver a crónica escrita pelos
mesmos. Cf. Acordar, preparar e avançar! Cativeiro e libertação: Encontro n. 16 (1983) 3-10.
213
Cf. Mambone. Assalto à Missão (20-11-1982): Encontro n. 17 (1988) 5-6.
214
O P.e João Coelho Baptista narrou o atentado e rapto por parte da Renamo no livro que ele próprio escreveu: O
sangue que a terra bebeu (Fátima 1993).
A um certo momento, quando se encontravam a cerca de quinze quilómetros de Massangulo,
sai do mato um homem armado que os manda parar. Obedeceram prontamente e o P.e Rocha saiu
do carro e dirigiu-se para ele para ver o que queria. Nesse preciso momento, um grupo de cerca de
vinte indivíduos armados cercaram o carro e começaram a disparar, à queima-roupa, sobre o carro e
sobre as pessoas. O P.e Rocha atirou-se para o chão a gritar dizendo que eram padres. Já no chão,
foi atingido com uma bala na coxa, que o deixou a sangrar sem se poder levantar. Entretanto, uma
bala atingiu o Pe. Ariel na cabeça, no parietal direito, perto do olho. Teve morte imediata. Das
outras pessoas que seguiam no carro, ficaram feridas duas crianças com certa gravidade.
Apenas o fogo cessou, os guerrilheiros, quase todos adolescentes, correram ao assalto e
deitaram a mão a tudo o que havia. Depois da pilhagem o comandante deu ordem de retirada.
Quando os guerrilheiros se retiraram, a Irmã Rebeca, com grande dificuldade conseguiu
conduzir o carro até Massangulo. Dado que havia poucas possibilidades de prestar o necessário
socorro aos feridos, partiram de seguida para Lichinga, onde chegaram à tarde, acompanhados por
viaturas de uma empresa estatal. O P.e Rocha, com as duas crianças feridas, foi internado no
hospital, enquanto o corpo do P.e Ariel foi levado para a residência episcopal.
No dia seguinte, Sábado, dezasseis de Fevereiro, dia em que os missionários da Consolata
festejam o seu Fundador, Beato José Allamano, foi realizado o funeral. Na Catedral de Lichinga o
Sr. Bispo presidiu à Missa exequial. O corpo do P.e Ariel foi em seguida sepultado no cemitério da
missão de Santo António de Unango, Mbemba, onde jazem outros missionários e missionárias da
Consolata falecidos no Niassa215.

2.5. Os mártires do Guiúa: chacina de 23 catequistas


A insegurança que pairava pela região de Inhambane afectou a actividade formativa do
Centro Catequético do Guiúa. Em diversas circunstâncias o Centro foi alvo de ataques. O mais
grave, antes do que viria a acontecer a 22 de Março de 1992, verificou-se no dia 13 de Setembro de
1987, quando o Centro foi assaltado e pilhado por um grupo de 70 homens, fortemente armados.
Entre as 150 pessoas presentes no Centro, caiu vítima da violência o catequista Peres Manuel,
assassinado enquanto defendia a sua família. Nessa altura foram raptadas 36 pessoas.
Uma vez que o perigo era constante, as actividades do Centro foram reduzidas, a partir de
1988. Suspenderam-se os cursos de dois anos de formação de catequistas e organizaram-se apenas
pequenos cursos de 15 dias e de uma semana, segundo o plano de emergência e as necessidades
mais urgentes da diocese. Em 1991 na Assembleia Diocesana de Pastoral, apesar do risco evidente
que se corria no Guiúa, decidiu-se recomeçar os cursos de um ano para casais catequistas. No início
de 1992 o centro acolheu 12 casais de catequistas provenientes das missões de Maimelane,
Mapinhane, Vilankulo, Muvamba, Funhalouro, Morrumbene, Mocodoene, Jangamo, Guiúa e
Inhambane.
Na noite de 22 de Março de 1992, pelas 23 horas, bandos armados entraram no Centro
Catequético. Foram de casa em casa e obrigaram os catequistas, suas mulheres e filhos a segui-los.
Dois que tentaram fugir, foram mortos ali mesmo. Levaram os catequistas e as famílias até cerca de
3 km do Centro. Ali, com armas brancas, todos foram massacrados. Vinte e três pessoas. Pelas 8 da
manhã chegou a notícia trazida por uma criança de 7 anos que o bando libertou para avisar o P.e
André Brevi e as irmãs. Foram de imediato certificar-se e encontraram todos os mortos no mesmo
lugar. Os corpos, transportados para o Centro, foram preparados para uma sepultura condigna. O
funeral, precedido de Missa de corpo presente, foi impressionante pela participação de grande
número de cristãos de Inhambane e das várias Comunidades. Ficaram sepultados em campa rasa, na
encosta do Centro, na parte mais alta216.

215
Cf. J. COELHO BAPTISTA, O Sangue que a terra bebeu (Fátima 1993) 123-132.
216
Cf. F. LERMA, Mártires do Guiúa (Turim 2001) 13-17.
3. A ATITUDE E ACTIVIDA DOS MISSIONÁRIOS: PERMANECER A TODO O CUSTO

Todos os missionários fizeram a escolha corajosa de permanecer e trabalhar em lugares


perigosos e em condições de desgaste físico e psíquico. Viajar significava arriscar a própria vida em
estradas minadas e sujeitas a ataques contínuos da Renamo. A actividade missionária teve que ser
redimensionada. Mesmo assim, os apelos à prudência, lançados pelos superiores, não impediram
alguns missionários de ousar217. Esta solidariedade com o povo foi, sem dúvida, um dos aspectos
mais significativos da presença e evangelização dos missionários da Consolata no Niassa e
Inhambane.

3.1. O grupo de Lichinga


No Niassa não se fechou nenhuma missão além das que já tinham sido encerradas devido às
nacionalizações. Devido ao isolamento cada vez maior os riscos aumentaram sobretudo para os
missionários de Mecanhelas e Maúa, e o campo de acção era cada vez mais reduzido. Os
missionários não se retiraram dos seus lugares mas optaram, a custo do total isolamento e
insegurança, por permanecer entre o povo sofrido218.
Os missionários residentes em Lichinga, na paróquia de Nzinge ou na casa episcopal, davam
assistência às missões de Mbemba (antiga Unango), Metangula, Massangulo, Mandimba e Mitande.
Em coluna militar aventuravam-se por estradas de alto risco para dar assistência às sedes destas
missões e a algumas comunidades mais acessíveis. Em Maúa, os missionários e as missionárias da
Consolata optaram por permanecer apesar do risco. Em 1987, o P.e Franco Gioda e as irmãs da
Consolata, em discernimento comunitário, decidiram não arredar pé, não obstante as dificuldades e
o isolamento. O Conselho Regional, mesmo sabendo que era uma situação de alto risco, decidiu
enviar para Maúa o P.e José Frizzi, até à data pároco de Cuamba, para fazer comunidade com o P.e
Franco Gioda de modo que em conjunto pudessem dar assistência religiosa às comunidades cristãs
das paróquias de Maúa, Nipepe, Maiaca e Marrupa.
Estes dois missionários foram incansáveis na sua actividade apostólica. As estradas
passaram a ser perigosas por causa das minas e das emboscadas intermináveis da guerrilha. A
bicicleta tornou-se o meio de transporte mais comum e seguro para viajar ao encontro dos
cristãos219. Sem coluna ninguém de Maúa podia ir nem a Cuamba nem a Marrupa. A Renamo

217
Eis o testemunho de P.e Franco Gioda, pároco de Maúa, Nipepe e Maiaca, numa carta escrita ao Superior
Regional: Caro Norberto, não tenhas medo. Não me exponho ao perigo, mas não posso deixar de fazer o que a minha
vocação exige e aquilo mesmo que o Senhor faria. A fadiga nada me custa porque sei que a minha presença é
esperança e vida. Conheces o drama e a situação de tragédia da gente daqui. Já não há vontade de sobreviver, deixa-
se correr; falta até vontade de construir a própria palhota ou de cultivar a terra. O homem está destruído. Portanto,
levar a esta gente o anúncio e a esperança de Jesus justifica que se corram todos os riscos, mesmo a vida se for
necessário. Ver o Padre cansado, esfomeado, sujo, enlameado, a partilhar com eles o perigo da guerra faz
compreender concretamente que alguém os ama, os procura. Carta do P.e Franco Gioda ao P.e Norberto Louro,
Superior Regional, Maúa, 25-2-1985: Encontro n.31 (1986) 9
218
O Superior Regional, P.e Norberto Louro, após um encontro com os missionários presentes no Niassa em 1985,
comentava com estas palavras o espírito de abnegação e sacrifício dos missionários: Em Lichinga, sempre o mesmo!
Padres e Irmãs que fazem mais do que podem por serem poucos e ainda julgam que fazem pouco porque a guerrilha
não lhes deixa espaço nem estradas, Padres idosos com ganas ainda de irem para zonas de fronteira reabrir missões
impossíveis fechadas há anos; Padres recém-chegados de uma Europa consumista e farta a viverem a missão difícil e a
vida carecida de tudo, com estupendo entusiasmo, nesta martirizada terra. E todos, todos, com escrúpulos de fazerem
pouco. Muito é realmente o que fica por fazer mas nos ultrapassa. O sofrimento do povo, a guerra, a morte, as aldeias
queimadas, os “despejados” da operação produção. Tudo isso dá sensação de ineficácia do nosso trabalho. N. LOURO,
Uma pausa, três experiências: Encontro n. 23 (1984) 14.
219
A partir de 1984, o P.e Franco Gioda passou a visitar as comunidades cristãs das missões de Maúa, Nipepe e
Maiaca de bicicleta, passando as noites nas palhotas abandonadas pela gente que foge à guerra. Eis o seu testemunho
numa carta enviada ao P.e Norberto Louro, Superior Regional: Dou-me conta de que algo está a mudar. Desloco-me
sempre de bicicleta por causa do perigo das estradas minadas. Não sei quantos quilómetros terei feito nos últimos
meses, mas estou a constatar que o facto de parar e dormir nas comunidades é muito positivo em ordem a entrar nos
problemas do povo e das comunidades. Custa-me, mas tenho que aproveitar este tempo em que as zonas de Nipepe e
continuava a queimar as pontes e a colocar minas nas estradas. As viagens tornaram-se cada vez
mais difíceis. Apesar da situação lastimosa da população que tinha que fugir de um lado para o
outro, que via queimar as suas casas e roubar o pouco que tinham, e talvez por causa de tudo isto,
havia nos seus corações uma grande abertura à religião. Os baptismos e matrimónios eram
numerosos.
Em mais de uma circunstância foram testemunhas oculares da violência da guerra. No dia 8
de Dezembro de 1988, a vila de Maúa foi novamente atacada. Aos padres e irmãs nada aconteceu e
preocuparam-se em sepultar os mortos e curar os feridos. Em Nipepe surgiu em 1988 um centro
catequético no meio da guerra. Cinquenta famílias, bem aconchegadas à volta da igreja. Um centro
daqueles, naquele lugar e naquelas circunstâncias, era um desafio à bondade de Deus. Em Janeiro
de 1989 Nipepe foi atacada. O P.e Frizzi encontrava-se lá. Estava celebrando a Missa quando se deu
o ataque. Muitos dos catequistas e seus familiares foram levados. No dia 21 de Novembro de 1990 a
sede de Maúa foi outra vez atacada. Mais de 20 pessoas perderam a vida durante o ataque e muitos
foram os feridos. Também a residência dos missionários foi atingida por uma bazuka que explodiu
contra a casa abrindo um buraco na parede do quarto de um dos missionários, que felizmente estava
ausente na missão de Nipepe. Alguns dias depois, a 3 de Dezembro, a vila de Maúa foi novamente
atacada. A residência dos padres passou a ser o refúgio da população durante a noite220.
Também os missionários de Mecanhelas, a um certo momento, se encontraram isolados do
resto do país. As estradas minadas e os contínuos ataques da Renamo à linha-férrea de Entre-Lagos
a Cuamba impediram o contacto com os restantes missionários do Niassa. Contudo, podiam viajar
até ao Malawi. Foi o caso dramático que se deu com o P.e Adriano Severin. Em Fevereiro de 1986,
estando sozinho em Mecanhelas, sofreu uma embolia cerebral, tendo sido evacuado para Blantyre
(Malawi) em condições muito difíceis.
No dia 16 de Agosto 1986 falecia em Lichinga de hemorragia cerebral o P.e Camilo
Ponteggia. Um mês antes tinha celebrado as Bodas de Ouro sacerdotais juntamente com o seu
companheiro, o P.e Oberto Abondio. Tinha chegado a Moçambique em 25 de Abril de 1947.
Depois de uma breve experiência missionária na missão de Mitúcue e na incipiente missão do
Txatxe (Maiaca) foi nomeado superior da missão de Unango. Em Agosto de 1962 foi eleito superior
da missão de Massangulo em substituição do P.e Pedro Calandri. Em 1972, o P.e Ponteggia deixará
Massangulo com destino a Vila Cabral onde exerceu as funções de ecónomo, secretário e vigário
geral da diocese até à sua morte. Foi sepultado no cemitério da missão de Unango.

3.2. O grupo de Inhambane


Em consequência do sequestro dos padres José Alessandria e Adelino Francisco e das irmãs
da Consolata (16 de Julho de 1982), numa reunião plenária dos missionários da Consolata de
Inhambane e Maputo, decidiu-se dar uma certa assistência pastoral às comunidades mantendo a
presença das equipas missionárias nas sedes dos distritos: Nova Mambone, Vilankulo e
Massinga221.
De Vilanculo a equipa missionária assistia pastoralmente as missões de Maimelane e
Mapinhane. Esta missão tornou-se assim um centro de irradiação para toda a área do norte da
diocese de Inhambane. Cursos de formação, encontros, apoios através da Caritas, etc.. Em 1986,
além do empenho no objectivo pastoral “Formação da Igreja Doméstica, a Família cristã”, optou-se
por um contacto mais directo com as comunidades, visitando-as sempre que possível.

Maiaca estão abandonadas. O Administrador dá-me autorização e sou praticamente o único a deslocar-me pela zona.
Até agora o Senhor protegeu-me a 100%. Vive-se em clima de medo permanente. Ninguém viaja. Quando for possível
irei a Marrupa. A situação eclesial é boa. Há um regresso à Igreja muito forte. As aldeias foram abandonadas. As
únicas escolas são as da vila de Maúa. As nossas antigas missões de Maúa e Maiaca também foram abandonadas
definitivamente. Carta de P. Franco Gioda, Maúa, 25-2-1985: Encontro n.23 (1984) 10.
220
Cf. Carta do P. Adriano Prado ao P. Franco Gioda: Encontro n.43 (1990) 17.
221
Cf. Reunião plenária dos missionários do sul: Encontro n.15 (1982) 8.
Com grande esforço os missionários conseguiam visitar de barco as comunidades do litoral
da missão de Maimelane. A situação na região era dramática: guerra, fome e nudez. A população de
Maimelane, refugiada no litoral, foi a que mais sofreu as consequências da guerra e da fome. A
missão de Mapinhane era visitada regularmente, apesar da insegurança da estrada devido aos
ataques contínuos da Renamo. Em 1986 a vila de Vilankulo sofreu uma investida da Renamo que
causou um número elevado de vítimas.
A missão de Nova Mambone ficou sem missionário residente a partir de 28 de Novembro de
1982, em consequência do ataque da Renamo. A assistência e apoio possíveis eram prestados pelo
P.e Amadeu Marchiol que residia na Beira, onde assumiu a responsabilidade pastoral da paróquia
do Macuti. Durante o ano de 1984 ele visitou aquelas comunidades diversas vezes. Nesse ano
morreram muitas pessoas devido à seca e consequente fome. Fez o possível e o impossível para
socorrer a população com envio de leite, farinha e outros géneros alimentares222. Da cidade da
Beira, o P.e Amadeu Marchiol continuou a assistir pastoralmente a missão de Nova Mambone. Em
1987 regressou a Nova Mambone e em seguida juntaram-se-lhe outros dois missionários: o P.e
André Brevi e o Ir. P. Bertoni. Construíram uma casa a meio caminho entre a vila e a salina. O sitio
era mais seguro que a missão de Doane. Em Massinga a situação era idêntica. Os missionários
continuaram isolados com a guerra às portas da vila. Em 1988 a missão de Muvamba foi atacada
pela Renamo.
Durante a guerra os missionários da Consolata continuaram a prestar a sua colaboração pastoral
no Centro Catequético de Guiúa. Depois do seu encerramento por imposição da autoridade política
(21 de Maio de 1983), o mesmo foi reaberto em 1985 continuando a prestar um serviço qualificado
à formação dos catequistas e animadores a nível diocesano223. Todavia a guerra tornava a zona do
Guiúa insegura, tanto que o Centro Catequético acabaria por ser atacado em diversas circunstâncias.
A província de Inhambane nestes anos de guerra foi a mais atingida pela fome. Entre 1982 e
1983 na região entre Massinga e Nova Mambone morreram 50.000 pessoas em consequência da
fome224. Este triste cenário de morte esteve sempre presente nos anos da guerra e foi testemunhado
pelos missionários, os quais tentaram fazer tudo o que estava ao seu alcance para aliviar a dor das
populações225.
Apesar dos limites impostos pela guerra e suas nefastas consequências os missionários
mantiveram-se pastoralmente activos. A programação pastoral a nível paroquial e diocesano era
uma constante. Na assembleia diocesana de pastoral, realizada em Inhambane de 25 a 27 de
Novembro de 1985, foi feita a avaliação das actividades pastorais e a programação diocesana.
Optou-se por um objectivo pastoral geral: dar continuidade ao trabalho de formação de
comunidades cristãs adultas. Dentro desta linha, a assembleia achou que a concretização deste
objectivo deveria incidir sobretudo sobre a formação cristã das famílias através de acções concretas
como: campanha de regularização da vida matrimonial, baptismo dos filhos das famílias cristãs,
preparação séria dos jovens para a vida matrimonial, recuperação das famílias afastadas da prática
cristã226.

222
Cf. Relatório do ano 1984 da Missão de Mambone. Beira, 10-2-1985: ArqRegMoç. C 1, n. 17.
223
Cf. Reunião anual dos missionários. Programação diocesana de Pastoral (1986). Inhambane, 25-27/11/1985:
ArqRegMoç. C. 1, n.19.
224
Cf. Relatório da região de Moçambique para o VIIIº Capítulo Geral (1987), p.17.
225
Em 1988, viajando do Guíua para Nova Mambone, o P.e André Brevi escrevia: Tive oportunidade de rever
muita gente conhecida em Maimelane e Mapinhane e de ouvir suas notícias. Infelizmente são quase só notícias tristes.
Falam de sofrimento, de privações e da morte de parentes e irmãos das comunidades. São quase todos deslocados de
guerra à espera de regressar às próprias aldeias, mas ninguém sabe quando isso será possível. Esta realidade fere-nos
cada vez mais e faz-nos sofrer. Com muitos deles tínhamos feito, no passado uma caminhada difícil, imediatamente
depois da independência e esperávamos viver dias melhores… mas tudo parece tão sombrio! Como sombras de morte
provocadas pela fome que será terrível nos próximos meses se, entretanto não chegar a paz. A. BREVI, Vigília de Natal
de 1988: Encontro n. 39 (1989) 17.
226
Reunião anual dos missionários. Programação diocesana de Pastoral (1986). Inhambane, 25-27/11/1985:
ArqRegMoç. C. 1, n.19.
3.3. O grupo de Maputo
Na diocese de Maputo, os missionários da Consolata continuavam a prestar serviço pastoral na
zona periférica da cidade: Machava, Liberdade e Liqueleva. Entretanto em 1982, a paróquia de São
Gabriel da Matola foi entregue ao cuidado pastoral dos padres Jesuítas. Em compensação o Instituto
assumiu a responsabilidade pastoral da paróquia da Liberdade, incluída na zona pastoral da
Machava. Esta zona pastoral, confiada aos missionários da Consolata, compreendia, além da
Machava, Liqueleva, Tsalala e Bairro da Liberdade. Com o passar dos anos, assistiu-se nestas
paróquias, com satisfação, ao regresso à prática religiosa de muitos cristãos que se tinham afastado
pelo vento da revolução227.
Em 1988, nos anexos da paróquia da Machava, começou a funcionar o seminário de Nossa
Senhora da Consolata onde foi acolhido o primeiro grupo de seminaristas do Instituto228. Em 1992,
o seminário deixou as instalações provisórias da paróquia da Machava para passar a ter a sua sede
definitiva na Matola. Deste modo, os missionários voltavam novamente à Matola, dez anos depois
de terem saído.

3.4. A presença em Nampula


Um acontecimento importante para a Região de Moçambique durante este período foi a
abertura de uma comunidade missionária na diocese de Nampula. Tratava-se da comunidade
formativa do Seminário Médio Interdiocesano. Esta comunidade foi aberta a pedido do Arcebispo
de Nampula, Dom Manuel Vieira Pinto à Direcção geral, depois do exame da Assembleia Regional
de 1987 e da convenção entre o Instituto e os bispos da província eclesiástica do norte. Com esta
convenção os missionários da Consolata assumiam a direcção do seminário inter-diocesano por três
anos, período de tempo renovável com o acordo entre as partes. Compunham esta nova comunidade
os Padres Artur Marques e Mário De Carli.
Em 1992 foi decidido abrir o Seminário Méio do Instituto em Nampula. Com tal finalidade,
nesse ano comprou-se o terreno perto do seminário diocesano. O P.e Élio Rama no início de
Setembro de 1992 deixou a paróquia de Vilankulo e iniciou a construção do novo seminário, do
qual viria a ser o primeiro reitor.

4. FINALMENTE A PAZ (1992)


A paz era o bem mais suspirado por todos em Moçambique. A Igreja fez tudo o que podia
para ser sinal e protagonista da reconciliação. Os missionários foram chamados a ser mediadores
concretos no encontro, na educação para a convivência e perdão recíprocos em todo o tempo e lugar
A partir de 1982, a Igreja Católica começou gradualmente a recuperar o seu espaço de
intervenção no âmbito social. A sua força moral foi-se impondo, denunciando as arbitrariedades,
tanto do governo como da guerrilha, e apelando à paz.
Com a constituição da Caritas, estruturada a nível nacional, diocesano, paroquial e
comunitário, a Igreja começou a colaborar em projectos de assistência e de promoção humana229.
Durante os anos 80, a Caritas, orientada pelo P.e Jaime Marques, IMC, lançou uma grande acção de
emergência por todo o país para ajudar as populações mais afectadas pela guerra. Integrou nos seus
planos de acção a sensibilização para os temas da reconciliação e da paz.

227
Em 1985, o P.e Ernestino Venturi, recém-chegado a Moçambique, apercebeu-se que a aproximação dos
cristãos à Igreja era um dado de facto consolador na paróquia de Liqueleva e Machava depois da debandada geral
provocada pela revolução: Agora o clima é de regresso à Igreja. “Padre, me confiava um antigo cristão, durante o
tempo difícil da revolução em relação aos crentes até 1981, na nossa missão, ficámos muito poucos e na comunidade
apenas 4 ou 5; perseverámos e agora a igreja está cheia”. Conscientes e contentes os cristãos procuram com zelo
missionário o regresso dos seus irmãos. E. VENTURI, Crónica de Liqueleva. Encontro n. 25 (1985) 8.
228
Cfr. A. CONÇEIÇÃO FRANCISCO, O Seminário IMC: Encontro n.36 (1988) 13-17.
229
A “Caritas” Moçambicana começou a sua acção em 1977. Seu primeiro secretário geral e organizador foi o P. e
Jaime Marques, missionário da Consolata.
A pouco e pouco a Igreja emergiu como força capaz de dar esperança ao povo e consistência ao
caminho para a liberdade e para a paz. Neste sentido, a Conferência Episcopal publicou várias
cartas pastorais em que apelava à paz e à reconciliação das partes em luta (Frelimo-Renamo)230.
Lentamente as relações entre o Estado e a Igreja melhoraram. Com a visita do Papa a Moçambique
(17-19/9/1988) teve início um diálogo aberto e profícuo. A posição do governo em relação à Igreja
mudou substancialmente.
A partir de 1990 houve grandes modificações político-económicas: a revisão da constituição, o
abandono do marxismo-leninismo como ideologia do Estado, a privatização da economia, o
reconhecimento da liberdade de expressão e o pluripartidarismo. Estas medidas contribuiram para
criar o ambiente favorável à paz e reconciliação.
Finalmente, ao meio-dia do dia 4 de Outubro de 1992, o presidente da república de
Moçambique, Joaquim Alberto Chissano, e o presidente da Renamo, Afonso Dhlakama, em Roma,
assinaram o tão suspirado Acordo Geral de Paz. Este acordo, que punha cobro a 15 anos de guerra,
era fruto da habilidade dos negociadores, pacientemente orientados pela Comunidade de Santo
Egídio, e do perseverante trabalho de formação nos valores do perdão e reconciliação, efectuado
pela Igreja no terreno231.
O acordo de paz foi celebrado em toda a parte com muita alegria e algum cepticismo. Um
acontecimento importante para a nação, para a Igreja e para o Instituto pois irá obrigar a rever os
seus programas de trabalho232. No novo contexto sócio político e eclesial que está nascendo
aparecem no horizonte novos desafios: participação democrática na vida pública e inculturação da
fé.

230
CEM, Um apelo à paz; Comunicado às comunidades, (Maputo 1983); Pastoral sobre a conversão e a
reconciliação, (Maputo 1983); A urgência da Paz (Maputo 1984); A paz é possível (Maputo 1985); Um apelo à paz
(Maputo 1985); Cessem a guerra, construam a paz (Maputo 1986).
231
Cf. R. MOROZZO DELLA ROCCA, Mozambico. Dalla guerra alla pace. Storia di una mediazione insolita (Milão
1994).
232
Cf. Região de Moçambique. Pré-relatório para o Capítulo Geral (Maputo 1992) 3.
SÉTIMO PERÍODO(1993-2000):
O TEMPO DA RECONSTRUÇÃO

Introdução
A esperança cristã baseada em Deus e na bondade do coração humano continua a caracterizar o
momento presente e a suster a presença e a acção missionária. Com o acordo geral de paz entrou-se
numa nova fase da história de Moçambique a qual exige lucidez e humildade para lograr capacidade
de escuta e mudança.
Até então, a evangelização era a preocupação prioritária porque não havia espaço de liberdade
para projectos de desenvolvimento e promoção. Com o advento da liberdade e da paz, a Igreja
mobilizou-se para colaborar na reabilitação económica e moral do país.
Com a assinatura do acordo geral de paz começa um momento novo na história de
Moçambique. Depois de várias décadas de opressão e de guerra, os moçambicanos têm a
possibilidade de viver finalmente livres e em paz. É tempo de trilhar caminhos novos: um sistema
político novo (democracia, multipartidarismo, eleições livres), uma nova economia (mercado livre),
liberdade de expressão religiosa, etc. Deu-se início à reconstrução das infra-estruturas danificadas
pela guerra (estradas, escolas, hospitais, missões, etc.); o repatriamento de milhares de refugiados, a
realização das primeiras eleições livres e democráticas (1994). À estagnação de muitos anos,
sucedeu um crescimento económico devido às privatizações e ao afluir de capitais vindos de fora.
Por outro lado, antigos males persistem em sobreviver: pobreza crescente devido à inflação e à
dependência económica do exterior; corrupção generalizada; desemprego; aumento da
criminalidade e violência, sobretudo nas cidades; famílias desintegradas e crianças abandonadas. As
assimetrias no plano social são por demais notórias.
Neste contexto de reconstrução, a Igreja Católica esforçou-se por dar o seu contributo na
renovação moral e económica do país. Criou infra estruturas de promoção humana através da
criação de escolas, centros para crianças desnutridas, ajuda aos deficientes físicos, assistência aos
refugiados, doentes e velhos, etc. A Igreja empenhou-se também na recuperação das estruturas que
lhe tinham sido confiscadas pelo Governo. Ao mesmo tempo, fizeram-se escolhas significativas
para a requalificação dos agentes pastorais, sobretudo através dos seminários e dos centros pastorais
e catequéticos.
Pode-se constatar sobretudo uma Igreja que soube escolher a ministerialidade como dimensão
que lhe caracteriza a vida e cada expressão. Esta ministerialidade não foi só a resposta a um
momento de emergência, mas forjou um estilo diferente de vida e de evangelização. Ela é já uma
planta viçosa que dá frutos.

1. PRESENÇA DO INSTITUTO MISSIONÁRIO DA CONSOLATA EM MOÇAMBIQUE


A situação que se criou nestes últimos anos deu um rosto novo à presença dos missionários da
Consolata em Moçambique. A Região é formada por um grupo de missionários relativamente
jovens; existe uma opção clara “ad gentes” na linha da consolidação das comunidades cristãs; uma
aposta segura na formação de missionários da Consolata moçambicanos; o aumento de actividades
devido ao desenrolar da situação sócio-política e a abertura de zonas anteriormente ocupadas pela
Renamo.

1.1. A Vª Conferência Regional (1994)


Em Agosto de 1993, os missionários da Consolata reuniram-se pela primeira vez depois do
acordo geral de paz. Nesta ocasião procedeu-se à renovação da Direcção regional. O P.e Franco
Gioda foi reeleito Superior Regional por mais três anos. Foram eleitos seus conselheiros os padres
Ricardo Castro (Brasil), vice-superior regional, José Rurunga (Quénia), Alceu Agarez (Portugal) e o
Ir. Pedro Bertoni (Itália). A escolha dos quatro conselheiros foi feita tendo em consideração a
configuração geográfica da Região. Para uma maior corresponsabilidade de toda a direcção regional
esta passou a reunir-se mais frequentemente e cada conselheiro a nível de grupo tinha a tarefa de
informar os missionários sobre as decisões do Conselho Regional.
Alguns meses depois, de 18 a 25 de Janeiro de 1994, os missionários da Consolata voltaram a
reunir-se por ocasião da Vª Conferência Regional. Os temas debatidos eram pertinentes: a
consolidação da Igreja local; a inculturação; a formação permanente; a organização da Região. Cada
um destes temas foi analisado a nível de grupos de trabalho, que procederam à individuação dos
problemas e oportunidades e apresentaram propostas para o trabalho missionário. As conclusões
dos trabalhos de grupo foram depois analisadas e aprovadas em assembleia. O objectivo geral para
o sexénio (1994-2000) foi assim determinado: “Crescer na comunhão fraterna e apostólica para
responder profeticamente aos desafios actuais”233.

1.2. Prioridades pastorais para uma presença missionária qualificada


O estilo da presença dos missionários da Consolata em Moçambique apresenta-se ainda com
bastantes características de quem trabalha para a primeira evangelização. Todavia, estão atentos e
dispostos a responder aos novos desafios pastorais.
Em sintonia com as conclusões da IIª Assembleia Nacional de Pastoral: “Consolidar a Igreja
local” (Matola, 1991), os missionários da Consolata, nas suas diferentes actividades procuraram
actuar este lema servindo a Igreja local segundo as suas possibilidades, dando prioridade à
evangelização dos não cristãos; acompanhamento e formação dos já cristãos, sobretudo dos agentes
de pastoral; serviços qualificados à Igreja local e inserção nas novas situações/desafios
missionários: juventude, família, pobreza urbana, inculturação e diálogo inter-religioso, Justiça e
Paz, etc.

1.2.1. Uma presença missionária que evangeliza.


A razão da presença dos missionários da Consolata em Moçambique é e continuará a ser a
evangelização dos não cristãos. Para concretizar esta vocação-missão, a Direcção Regional, em
diálogo com os missionários e com os bispos, foi decidindo quais as paróquias ou obras a entregar
às dioceses e para tal procurou estabelecer um programa definindo prazos e formas de entrega.
Foram entregues à diocese de Lichinga as paróquias de Metangula e Cobué (1997), Nipepe (1998) e
Mandimba (2000) e em Inhambane a paróquia de Maimelane (2000).
A motivação principal desta escolha está na opção do Instituto da Consolata pelas situações
mais especificamente missionárias “ad gentes”, deixando ao clero local e a outros missionários as
paróquias já consolidadas234.

1.2.2. Uma presença missionária que forma


Colhendo a experiência do passado, os Missionários da Consolata consideram que o melhor
modo para consolidar e impulsionar a evangelização é tornar cada paróquia ou missão uma escola
de formação cristã. Para alcançar este objectivo foram tomadas nas diversas dioceses algumas
iniciativas, entre as quais destacamos a realização de cursos a nível inter-paroquial, a
descentralização das actividades pastorais com a realização de cursos de formação nas diversas
zonas em que as paróquias estão divididas, a criação de estruturas logísticas de acolhimento, etc.
Viu-se também a necessidade de privilegiar a formação dos agentes pastorais com cursos
prolongados. Para ajudar neste esforço formativo, neste período foi aberto o Centro de Formação de
“Lideres” Comunitários de Unango (diocese de Lichinga) e foi reforçado o Centro de Promoção
Humana do Guiúa (diocese de Inhambane). Tais centros proporcionam uma formação global
(humana, espiritual, social) a animadores de comunidade, catequistas e responsáveis dos diversos

233
Cf. INSTITUTO MISSÕES CONSOLATA, Vª Conferência Regional. Missionários da Consolata em Moçambique:
Qual Missão? Qual Missionário? Qual Espírito? (Maputo 1994).
234
Cf. INSTITUTO MISSÕES CONSOLATA, VIª Conferência Regional. Missionários da Consolata, 75 anos em
Moçambique: desafios da Missão “ad gentes” (Maputo 2000) 24.
ministérios. O Instituto da Consolata tem colaborado economicamente, sempre que necessário,
nestas iniciativas e também na publicação de material catequético e outras publicações235.
Tem-se também procurado favorecer uma pastoral sectorial que atinja os profissionais,
especialmente professores, enfermeiros e outros, de modo que possam ser objectos e sujeitos de
evangelização.
O Instituto da Consolata tem, além disso, intensificado o seu compromisso nos serviços
qualificados à Igreja local, nomeadamente na formação do clero local e dos religiosos e religiosas
dirigindo o Seminário Inter-diocesano de Nampula e ensinando noutras instituições da Igreja
(seminário S. Pio X, seminário Santo Agostinho, Instituto Maria Mãe de África, etc.)236.

1.2.3. Uma presença missionária que promove


Desde sempre, a promoção humana teve um lugar de destaque na actividade dos missionários
da Consolata em Moçambique. No tocante a este sector basilar da pastoral foram estabelecidas
prioridades em sintonia com as circunstâncias históricas. Assim, logo após o acordo geral de paz foi
considerada prioritária a ajuda imediata a situações difíceis, tais como: a situação dos deslocados, as
necessidades básicas das zonas mais isoladas, os casos de pobreza extrema. Superada a situação de
emergência, foi estabelecida como prioritária a formação sócio-política dos cristãos à luz do
Evangelho, tendo em vista uma participação mais consciente e responsável na sociedade. A situação
do pós-guerra exigiu uma maior sensibilidade para com o tema dos direitos humanos e dos valores
da democracia. Por isso, os missionários, a nível paroquial e diocesano, colaboraram activamente
com as comissões de Justiça e Paz237.
A educação foi sempre considerada como um campo privilegiado de promoção e
evangelização. Ultimamente, os missionários da Consolata orientaram-se para intervenções no
campo da educação, não apenas a nível básico, mas também secundário e universitário. Nas
diferentes dioceses onde trabalham, em colaboração com outras entidades, incrementaram as
escolas comunitárias para crianças desfavorecidas ou sem lugar na escola pública; ajudaram a criar
escolas primárias completas (Mepanhira, Majune, Namucopo, Machava, Liqueleva e Liberdade) e
escolas secundárias (Escola pré-universitária P.e Eugénio Menegon de Cuamba, o ESAM – Ensino
Secundário Aberto Moçambicano - de Mecanhelas e Maúa; a Escola Secundária P.e Gerardo
Gumiero de Mapinhane) e estão desde a primeira hora empenhados no projecto da Universidade
Católica de Moçambique.

1.2.4. Uma presença missionária incarnada


Com grande insistência se fala de inculturação e da sua necessidade. Nas últimas conferências
regionais dos missionários da Consolata em Moçambique foram reafirmados princípios
importantes, tais como: o respeito pelas culturas, o empenho em aprender as línguas locais, o
contacto com o povo e o conhecimento das várias manifestações culturais. Um tal apelo não
deparou com resistências e produziu até resultados relevantes.
Certamente que a inculturação não é um processo fácil. As dificuldades existem e não são
poucas. O facto de certas experiências provocarem tensões dentro da Igreja local não é motivo para
abandonar tudo, esperando tempos melhores. A inculturação não é uma alternativa mas um dever do
evangelizador, seja ele nacional ou estrangeiro. Na segunda evangelização as tarefas dos

235
Cf. INSTITUTO MISSÕES CONSOLATA, Vª Conferência Regional Missionários da Consolata em Moçambique:
Qual Missão? Qual Missionário? Qual Espírito? (Maputo 1994) 10.
236
INSTITUTO MISSÕES CONSOLATA, VIª Conferência Regional. Missionários da Consolata, 75 anos em
Moçambique: desafios da Missão “ad gentes” (Maputo 2000) 25.
237
Os missionários da Consolata organizararam a Comissão de Justiça e Paz em conjunto com as missionárias da
Consolata. Esta comissão tem como finalidade imprimir no modo de evangelizar uma dimensão que seja sensível aos
direitos da pessoa humana e que se comprometa a defendê-los. Cf. INSTITUTO MISSÕES CONSOLATA, VIª Conferência
Regional. Missionários da Consolata, 75 anos em Moçambique: desafios da Missão “ad gentes” (Maputo 2000) 45.
missionários e do clero local aumentaram para ambas as partes: um maior empenho missionário,
maior profundidade, autenticidade e maturidade da parte de todos238.
Elas merecem ser apoiadas e encorajadas. A VI ª Conferência regional estimulou a realização
de experiências significativas no campo da inculturação, manifestou o seu apoio às já existentes e
renovou o seu propósito de ajudar a Igreja local a assumir o papel que lhe compete neste campo239.
Neste período, o Centro de Estudos Macuas de Maúa e o Centro de Promoção Humana do Guiúa
deram um valioso contributo no âmbito da inculturação litúrgica e catequética assim como na
inserção cultural dos missionários e missionárias recém chegados.
No referente ao diálogo inter religioso, alguns missionários procuraram aprofundar o seu
conhecimento da religião tradicional e do Islamismo através do estudo e de contactos com os
responsáveis religiosos (régulos, curandeiros, mwalimos e outros), privilegiando as festas, os
acontecimentos do ciclo vital e estações do ano como momentos propícios para o diálogo.

1.3. Maior comunhão entre as comunidades missionárias IMC e com o Instituto


Depois do isolamento dos últimos anos era necessário insistir na comunhão a nível regional.
Advertiu-se a necessidade e o desejo de caminhar juntos, enriquecidos pelas significativas
experiências dos anos passados e renovados, cada vez mais, pela internacionalidade das
comunidades missionárias. Por outro lado, os encontros de programação, confraternização e a
colaboração recíproca tornaram mais fáceis os contactos. Os encontros anuais em assembleia
regional, onde se revê e se programa a vida de toda a Região, têm sido de grande ajuda para um
necessário confronto e partilha de experiências que, nos últimos anos, cada comunidade missionária
tinha desenvolvido nas diferentes dioceses. Para facilitar a comunhão a nível da diocese onde se
trabalha, a Região foi dividida em quatro grupos de trabalho: grupo do Niassa, Nampula-Beira,
Inhambane e Maputo. Os missionários destes grupos têm encontros periódicos que muito tem
contribuído para a animação espiritual e pastoral.
A comunhão com o Instituto, nomeadamente com a sua Direcção Geral, também saiu facilitada
e reforçada. Esta tem seguido de perto a actividade dos missionários em Moçambique e mostrou-se
solícita perante as necessidades de pessoal missionário e de meios. Em 1996 realizou-se a visita do
Superior Geral, P.e Pedro Trabucco, acompanhado pelo Vice-Superior, P.e Alberto Trevisiol.
Depois da independência, esta era a primeira “visita canónica” que se efectuava com serenidade.
Coincidiu com dois aniversários significativos: o 70º aniversário da chegada dos primeiros
missionários da Consolata ao Niassa e o 50º aniversário de presença em Inhambane. Foi uma visita
demorada: os quase dois meses de presença do Superior Geral permitiram encontrar-se com os
missionários nas respectivas comunidades.
Foi uma visita rica em reflexão e muito discernimento num momento em que a Igreja em
Moçambique estava atravessando um momento particularmente significativo e crucial240.

2. PANORÂMICA DA REGIÃO MOÇAMBIQUE E DAS SUAS ACTIVIDADES


Com o fim da guerra as actividades pastorais triplicaram. O aumento do número dos
missionários não tem sido suficiente para fazer frente a antigos e novos empenhos pastorais. Não
houve a coragem de reduzir a presença do Instituto nas zonas confiadas ao seu cuidado pastoral. As
áreas, outrora controladas pela Renamo, passam a ser acessíveis. Tornam-se possíveis o serviço à
Igreja local na área formativa (seminários, centro catequético), os novos empenhos formativos nos
seminários do Instituto (seminário médio, filosófico e noviciado), a recuperação material das
antigas missões destruídas. Tentaram-se convenções com os bispos para a cedência de algumas
missões mas este processo revelou-se lento pela escassez de clero diocesano e de outro pessoal

238
Cristianismo com rosto moçambicano. Intervista ao P.e José Frizzi: Fátima Missionária 45 (1999/2) 18-20.
239
INSTITUTO MISSÕES CONSOLATA, VIª Conferência Regional. Missionários da Consolata, 75 anos em
Moçambique: desafios da Missão “ad gentes” (Maputo 2000) 37.
240
Carta do P.e Pedro Trabucco, Superior Geral, aos missionários da Consolata da Região de Moçambique:
Bollettino IMC n. 71 (1996) 15-30.
missionário. O dilema destes anos foi e continua a ser: estar presentes nas antigas missões, embora
com grande custo e sacrifício, ou então abandonar. Abandonar o campo semeado e conservado com
tanto sacrifício foi considerado sempre uma traição à vocação missionária, porque, saindo, ninguém
poderia assumir tal tarefa. Com o progressivo aumento do clero local e a chegada de novas forças
missionárias foi possível entregar algumas missões.

2.1. Vida e actividade dos grupos IMC a nível diocesano


Tendo em vista uma melhor organização da Região de Moçambique, um serviço mais eficaz
nas dioceses onde o Instituto trabalha e olhando à realidade do momento, a Vª Conferência
Regional (1994) confirmou a estruturação da Região três grupos de trabalho: grupo do Norte
(Niassa e Nampula); grupo de Inhambane e o grupo de Maputo241. Com o aumento do número de
missionários em Nampula e com a criação da comunidade da Beira a partir de 1996, foi formado
um novo grupo: o grupo de Nampula-Beira.
Nos finais de 1994 os missionários reuniram-se pela primeira vez por grupos para definir um
programa e criar uma estrutura mínima para o seu funcionamento. O primeiro grupo a reunir-se foi
o grupo de Inhambane. Os missionários encontraram-se de 6 a 9 de Novembro em Mapinhane para,
entre outras coisas, estabelecer o objectivo principal: formar um grupo que, no espírito de família,
corresponsabilidade e ardor, proporcionasse o crescimento de cada indivíduo e a comunhão ao
serviço do Reino, na diocese de Inhambane. De 30 de Novembro a 2 de Dezembro, foi a vez dos
missionários da Consolata que trabalham no norte de Moçambique (Lichinga e Nampula) se
reunirem para organizar e programar as suas actividades. O objectivo geral traçado nesta ocasião
estava ligado à necessidade de desenvolver mais profundamente o espírito de família, valorizando
as capacidades de cada membro, a sua unidade, a sua formação permanente e os momentos de
reflexão e oração. Nesta ocasião, o grupo do Maputo escolheu reunir-se uma vez por mês, sendo a
parte da manhã dedicada ao retiro e a tarde à formação permanente242.
Estes encontros de grupo constituem um importante momento de formação e informação:
retiro, formação permanente e partilha e programação do trabalho pastoral.

2.1.1. O grupo do Niassa


Num primeiro momento o grupo estava dividido em duas zonas distintas: a zona de Lichinga e
a zona de Cuamba. Em 1994 os missionários da Consolata do Niassa formavam cinco comunidades:
Lichinga, Nzinje, Maúa, Cuamba e Mecanhelas, assumindo o cuidado pastoral de 18
missões/paróquias, a maior parte delas restituídas pelo governo com os edifícios em péssimas
condições de conservação. Num primeiro momento, os missionários esforçaram-se por visitar e
assistir pastoralmente as comunidades cristãs, dando prioridade àquelas que se situavam em zonas
anteriormente sob controle da Renamo e que, portanto, estiveram completamente isoladas durante
muito tempo, sem qualquer tipo de contactos com as sedes paroquiais. Num segundo houve a
preocupação de iniciar o trabalho de reconstrução das estruturas das missões.
A comunicação entre as diversas comunidades tornou-se mais fácil. A partir de meados de
1993 podia-se chegar de carro a todas as missões. Mais complicada era a comunicação para
Mecanhelas.
Na zona de Lichinga, num primeiro momento, existiam duas comunidades missionárias:
Nzinge e Lichinga. A comunidade de Nzinje prestava assistência pastoral às comunidades da
paróquia de Nzinge e à região do Lago Niassa, com as antigas missões de Metangula, Nova
Coimbra e Cobué. Programou-se com o bispo de Lichinga, D. Luís Ferreira da Silva, a cedência da
região do Lago a uma outra congregação, concretamente à sociedade missionária de Maryknoll,
para permitir aos Missionários da Consolata um trabalho pastoral mais qualificado entre o grupo

241
INSTITUTO MISSÕES CONSOLATA, Missionários da Consolata. Vª Conferência Regional: Qual Missão, qual
Missionário, qual Espírito? (Maputo 1994) 21.
242
Secretariado Regional. Encontros de grupo: Encontro n. 52 (1995) 4-5.
linguístico Ayao, à volta da cidade de Lichinga e reforçar a actividade missionária nas zonas de
Majune, Mbemba (antiga missão de Unango) e Mandimba.
Em 1996 as duas comunidades fundiram-se numa única comunidade missionária, com sede na
nova casa de Lichinga. O objectivo era de dar maior consistência à vida comunitária e maior
coordenação ao trabalho pastoral, vivido em contextos muito diferentes e periféricos. Nesse mesmo
ano foi criada a comunidade missionária de Mandimba, constituída pelos Padres João Coelho
Baptista e Rosalino Dall’Agnese.
Na zona sul do Niassa existem três comunidades missionárias: Mecanhelas, Cuamba e Maúa. A
equipa missionária de Mecanhelas tem a responsabilidade pastoral da missão de Mecanhelas e de
Mepanhira; a equipa missionária de Cuamba tem a seu cargo o cuidado pastoral das missões da
paróquia de Cuamba e da missão de Mitúcue, e a equipa missionária de Maúa tem à sua
responsabilidade as missões de Maúa, Maiaca, Nipepe (em seguida cedida à diocese) e Marrupa.
A zona sul é a região mais evangelizada de toda a diocese de Lichinga. Todas as paróquias têm
um número elevado de comunidades cristãs, que desenvolveram grandemente a dimensão
ministerial. Estas três equipas missionárias actuam cada uma com o seu próprio estilo pastoral
forjado ao longo dos anos, esforçando-se por partilhar entre si as respectivas experiências. Tem sido
um enriquecimento para o grupo a experiência formativa e pastoral dos finalistas de teologia do
Instituto que têm feito o seu estágio pastoral nas paróquias do sul do Niassa como preparação prévia
para a ordenação sacerdotal. Ultimamente, dois sacerdotes diocesanos venezuelanos, agregados ao
Instituto, prestam serviço pastoral na diocese de Lichinga: o P.e Ricardo Avila (Nzinje) e o P.e
Alberto de Jesus (Cuamba).

2.1.2. Grupo de Nampula e Beira


O grupo de Nampula é formado por duas comunidades: a comunidade do Seminário Médio
Interdiocesano e a do Seminário Médio IMC “Casa Allamano”. O serviço prestado pelo Instituto na
capital do norte do país, desde 1984, esteve desde o início ligado à formação dos seminaristas do
seminário médio das dioceses da província eclesiástica do norte de Moçambique e, desde 1993, com
a criação do Seminário “Casa Allamano”, também dos seminaristas do Instituto da Consolata. Os
missionários do seminário da Consolata prestam também serviço pastoral na paróquia de Santa
Maria na periferia da cidade de Nampula. A colaboração entre as duas comunidades missionárias é
boa; o seminário da Consolata serve também de casa procura para os missionários do Niassa.
A presença dos missionários da Consolata na cidade da Beira está intimamente ligada à criação
da Universidade Católica de Moçambique que tem a sua sede nesta cidade. Em 1993, a Conferência
Episcopal de Moçambique tornou pública a sua intenção de criar uma Universidade Católica para
oferecer ao país uma instituição de ensino superior onde, à luz dos valores evangélicos, se
pudessem preparar os quadros superiores de que Moçambique mais precisa, nos diversos sectores
da vida nacional. O Instituto da Consolata esteve envolvido desde o início, através do serviço de
alguns missionários na concretização do projecto da nova Universidade e na consequente abertura
de uma comunidade missionária na Beira. A Conferência nomeou então o P.e Francisco Ponsi,
missionário da Consolata, para os primeiros contactos com o governo moçambicano e a
Universidade Eduardo Mondlane, sobre a viabilidade de um tal projecto e, também, no exterior,
com as conferências episcopais e universidades.
A Universidade Católica abriu as suas portas em Agosto de 1996 com o ano propedêutico243.
No seu corpo directivo figuravam três missionários da Consolata: P.e Filipe Couto, Reitor
Magnífico, P.e Francisco Ponsi, Vice-Reitor e o P.e Aldo Parodi, Administrador da Universidade.
Visto que a reitoria da Universidade se situa na Beira, em 1996 o Instituto da Consolata adquiriu
uma casa na cidade onde se instalaram os padres Francisco Marques, superior da comunidade, e
Filipe Couto, reitor da Universidade Católica.

243
A Universidade Católica começou a funcionar em 1996: na Beira funciona a faculdade de Economia e Gestão
de Empresas e em Nampula a faculdade de Direito e Ciências da Educação. Em 1999 foi inaugurada em Cuamba
(Niassa) a faculdade de Agronomia.
2.1.4. Grupo de Inhambane
O grupo de Inhambane é constituído por 4 comunidades missionárias – Nova Mambone,
Vilankulo, Massinga e Guiúa – as quais assistem pastoralmente 8 missões/paróquias: Nova
Mambone, Maimelane, Vilankulo, Mapinhane, Muvamba, Massinga, Funhalouro e Guiúa.
Na missão de Nova Mambone a actividade da salina retomou o seu ritmo e deu-se início à sua
modernização. Além desta actividade realizam-se outras iniciativas de promoção e
desenvolvimento. Em 1996 chegou o P.e Francisco Lerma para o incremento da pastoral e o Ir. José
Cardinali. Em 1998 incorporaram-se nas actividades da missão as Irmãs Palotinas.
A vila de Vilankulo é a sede da comunidade missionária que presta assistência a três missões:
Vilankulo, Maimelane e Mapinhane. Em 1997 as Missionárias da Consolata despediram-se de
Vilankulo para voltar a residir na missão de Maimelane, entretanto recuperada. A missão de
Mapinhane foi também reactivada e recuperada. Pela sua posição estratégica é o lugar de reunião
para o grupo. Com essa finalidade foi recuperada a espaçosa residência dos padres. A chegada das
Irmãs Agostinianas Missionárias (31/5/1995) permitiu a abertura da Escola Secundária que tomou o
nome do P.e Gerardo Gumiero. Esta escola secundária, dedicada a este missionário da Consolata
que muito fez em prol da educação nesta região, foi inaugurada em Fevereiro de 1996 e é fruto da
colaboração das paróquias do norte da diocese. No ano 2000 chegou a Mapinhane um casal de
leigos missionários portugueses, o Ricardo e a Elisabete Sapina Santos, enviados pela Região
Portuguesa dos Missionários da Consolata no âmbito do projecto missionário laical “Sai da Tua
Terra”. Prestam um serviço qualificado na escola secundária, ensino e administração, e na
pastoral244.
A comunidade missionária de Massinga, composta por três padres, que têm à sua
responsabilidade o cuidado pastoral das comunidades cristãs da missão de Massinga, Muvamba e
Funhalouro. No Guiúa, os missionários da Consolata dedicaram-se nestes anos à restruturação do
Centro de Promoção Humana e organização pastoral do mesmo, além do cuidado pastoral das
comunidades da paróquia de Santa Isabel.

2.1.4. O Grupo do Maputo


Na Arquidiocese de Maputo existem actualmente 5 comunidades missionárias IMC: Casa
Regional, comunidade da Machava, comunidade de Liqueleva, comunidade do Seminário
Filosófico Nossa Senhora da Consolata (Matola) e a comunidade do Noviciado São Paulo
(Laulane). A presença do Instituto da Consolata na capital tem-se consolidado nestes últimos anos.
A Casa Regional, sede do Superior Regional, continua a ser a sede central do Instituto e a
comunidade que ai reside presta uma série de serviços às outras comunidades espalhadas pelo país e
às dioceses. Com o aumento do número de missionários, a antiga Casa Regional situada na avenida
Eduardo Mondlane revelou-se pequena e inadequada às novas e sempre crescentes exigências da
Região. Para responder a esta carência construiu-se uma nova casa na avenida 24 de Julho,
inaugurada em Agosto de 2000.
No Maputo existem duas comunidades missionárias situadas na paróquia da Machava e na
paróquia de Liqueleva-Liberdade. Estas comunidades, situadas na periferia da cidade,
desenvolveram nestes anos uma intensa actividade social, sobretudo no campo da educação. Em
1996, na paróquia da Machava, começou a funcionar um emissor radiofónico que transmite em FM
para a cidade de Maputo e arredores: a Rádio Maria. O projecto remonta a 1994, quando o

244
Os primeiros leigos missionários a chegar a Moçambique foram o Sr. Giancarlo Pegoraro e Paulo Deriu (1998)
destinados a trabalhar na missão de Mecanhelas. Mais tarde, no ano 2000, chegou o leigo Xavier Ramírez, venezuelano,
no seguimento de uma sugestão do P.e Sandro Faedi. A VIª Conferência regional de Moçambique (2000) pronunciou-se
sobre o tema dos leigos IMC, declarando-se aberta á sua inserção nas suas actividades, mediante a formação destes, a
apresentação de um projecto claro de trabalho, a constituição de comunidades próprias, se possível, e a assinatura de um
contrato com o Instituto. Cf. INSTITUTO MISSÕES CONSOLATA, VIª Conferência Regional. Missionários da Consolata,
75 anos em Moçambique: desafios da Missão “ad gentes” (Maputo 2000) 34.
Conselho regional deu o seu parecer positivo à criação de uma rádio local católica, que é pertença
da Arquidiocese de Maputo.
Na cidade da Matola funciona o seminário filosófico Nossa Senhora da Consolata. Os padres
encarregados da formação dos seminaristas do Instituto colaboram na pastoral das paróquias da
Machava e Liqueleva e no ensino no seminário Santo Agostinho e Pio X.
No início de 1994 deu-se a abertura de uma nova comunidade do Instituto no Maputo, a casa do
Noviciado São Paulo245. A comunidade era formada pelo P.e Norberto Louro, mestre dos noviços, e
pelo P. e Eugénio Menegon, director espiritual e pelo P.e Ernestino Venturi, ecónomo.
Provisoriamente, os 11 novíços – 6 moçambicanos e 5 congoleses – iniciaram o ano do noviciado
nas instalações do Seminário da Matola. No dia 19 de Março o noviciado transferiu-se para a sua
sede no bairro Laulane, tendo sido inaugurado oficialmente pelo Sr. Cardeal José Alexandre no dia
29 de Junho desse mesmo ano.

245
Em Junho de 1992 a Direcção Geral escolheu a região de Moçambique como a segunda sede do noviciado
inter-africano. Em resposta a esta solicitação do Instituto, o conselho regional aceitou de bom grado a projecto do
noviciado em Moçambique. Sensível a uma formação mais inserida no meio do povo, a Região de Moçambique propôs
que a sede do futuro noviciado fosse na antiga missão de Mangonha/Massinga ou Mapinhane (Inhambane). Em Agosto
a Direcção Geral respondeu afirmando que a sede do noviciado devia ser no Maputo. Em seguida procurou-se um lugar
nos arredores do Maputo. Acabou-se por adquirir um edifício ainda em construção de propriedade das Irmãs do
Calvário, situado no bairro de Laulane, um dos tantos bairros periféricos da capital.
TERCEIRA PARTE:
ALGUNS ELEMENTOS CARACTERÍSTICOS DO
MÉTODO DE EVANGELIZAÇÃO DOS
MISSIONÁRIOS DA CONSOLATA EM MOÇAMBIQUE
1. Aprendizagem da língua e cultura local
1.1. A aculturação dos Missionários da Consolata em Moçambique
O conhecimento da língua era indispensável para comunicar com o homem ayao, macua,
anyanja, vatshwa ou mandau. Perceber e falar a sua língua era conditio sine qua non para
evangelizar. Não eram suficientes os gestos, os sinais ou o recurso ao tradutor. Servindo-se de
gramáticas já existentes e sobretudo dos contactos quotidianos, houve missionários que, pouco a
pouco, conseguiram aprender e falar bem as línguas locais.
A maior parte dos pioneiros da evangelização, os padres Pedro Calandri, Gabriel Quaglia,
Mário Casanova, Oberto Abondio, Luís Bosio, Mário Fillipi, Adriano Severin, José Paleari,
Osvaldo Peressini etc., conheciam e usavam as línguas locais. Interessavam-se não só por falar e
estudar a língua para melhor evangelizar, mas dedicavam-se, inclusivamente, à investigação
filológica, na elaboração de gramáticas e dicionários para uso próprio, penetrando na estrutura da
língua e contribuindo para o seu desenvolvimento. Esta geração de missionários assumiu seriamente
o sacro dever de estudar e falar as línguas indígenas.
Com o tempo começaram a aparecer os primeiros trabalhos linguísticos e catequéticos em
língua ciyao, macua e xitshwa, nomeadamente gramáticas246, dicionários247, catecismos, livros de
oração e de cânticos248. No Niassa os padres Calandri, Casanova, Filippi e Severin deram às línguas
ciyao e macua uma nova dimensão e dignidade, passando de línguas exclusivamente orais para
línguas escritas e veículos audio-visuais da mensagem cristã249.
No Sul do Save, entre outros, distinguiram-se no conhecimento das línguas xitshwa os padres
Gabriel Quaglia, José Paleari, Armanno Armanni, José Matias. Também o P. Amadeu Marchiol, a
trabalhar desde 1956 em Nova Mambone, soube penetrar na alma do povo mandau com
persistência, conhecendo a sua cultura e língua.
A segunda geração de missionários não seguiu o exemplo destes pioneiros, com raras
excepções, quer no Niassa, quer em Inhambane. A aprendizagem das línguas locais foi relegada
para segundo plano em detrimento de outras actividades, permanecendo como um desejo
eternamente adiado. Todavia, houve missionários que se esforçaram, por retomar e dar continuidade
aos trabalhos linguísticos dos pioneiros. Estes traduziram os principais textos litúrgicos e
catequéticos, para facilitar aos fiéis a participação activa nos actos litúrgicos. Antes da
independência, no contexto ayao, o P. Guerrino Prandelli dedicou-se ao estudo da língua ciyao e à
tradução dos textos litúrgicos, mas a sua morte prematura bloqueou os trabalhos nesta língua do
norte do Niassa. No ano de 1972, em Massinga, foram impressos 1.500 exemplares do Ordinário da
Missa (2ª edição), opúsculos com o ritual do Baptismo, do Casamento e dos enterros na língua
xitshwa, cuja tradução foi coordenada pelo P.e Emanuel Maggioni250.
Para suprir a lacuna existente no que respeita à aprendizagem das línguas locais por parte dos
missionários, o Conselho Regional decidiu em 1971 que aos missionários recém-chegados deveria
ser facultada a possibilidade de estudar as línguas locais por um determinado período de tempo.

246
Cf. M. CASANOVA, Appunti di lingua Elomwe (Mitúcue 1947): AIMC XIII-472.
247
Cf. M. FARMAR FILIPPI, Dicionário elementar português-macua (Maiaca, 1963): AIMC XIII-473.
248
Mavekelo ni Itxipo (Nampula, 1950); Katekismu ya Mahusiho a Katolika (Nampula 1950); Okumi wa Apwiya
Yesu Kristu (Nampula, 1950).
249
O P.e José Frizzi deu continuidade ao trabalho linguístico iniciado pelos missionários da primeira geração.
Entre outros trabalhos, ampliou e publicou o dicionário do P.e Mário Filippi: Vd. Dicionário Emakhuwa-Português.
Português-Emakhuwa (Maúa, 1992).
250
Cf. Crónica de Massinga: Encontro n. 3 (1972) 11.
Para os missionários do Niassa optou-se pela organização de cursos de língua em Mepanhira e pela
frequência do curso de inserção e língua macua do Centro Catequético de Anchilo (Nampula), para
o qual foi enviado o P.e Francisco Lerma. Ainda em 1971 e não havendo nenhum curso organizado
para os missionários destinados a Inhambane e Lourenço Marques, cada comunidade devia
organizar semanalmente momentos de estudo da língua251. Só no ano seguinte começou a funcionar
um curso de língua Xitshwa no Centro do Guiúa, frequentado com bom aproveitamento pelo P.e
José Matias da missão de Mapinhane. De facto, este jovem missionário tornar-se-ia com o tempo
um bom conhecedor desta língua.
No contexto linguístico macua-xirima o trabalho de estudo e de tradução foi bastante
desenvolvido depois da independência pelos padres Adriano Severin e José Frizzi, de modo que
hoje os textos litúrgicos e catequéticos estão todos traduzidos e publicados. Muito deste trabalho foi
levado para a frente com tenacidade e competência pelo P.e José Frizzi, chegado ao Niassa em
1975. Desde os primeiros meses dedicou-se ao estudo da língua e cultura macua e, em 1980,
quando os missionários estavam proibidos de saír das cidades, o P.e Frizzi, então pároco de
Cuamba, começou a rever o dicionário macua. Esta obra, preparada pelo P.e Filippi, corria o risco
de se perder. Enriqueceu-a com novos vocábulos e deu-lhe uma veste ortográfica oficial. Num
segundo momento passou a recolher e a rever outras obras em macua-xirima.
Além dos trabalhos realizados no campo linguístico, salientam-se igualmente os estudos sobre
a cultura local. No contexto macua destaca-se a tese de doutoramento em Missiologia apresentada
em 1987 pelo P.e Francisco Lerma sobre a cultura macua252 e o trabalho do P.e Luís Wegher sobre
os usos e costumes do povo ayao253.

1.2. O contributo dos missionários para a inculturação do Evangelho na Igreja local


O tema da inculturação é ponto de referência para abordar, hoje em dia, a problemática da
evangelização. A mensagem cristã está aberta a todas as culturas e para isso é necessário incarnar a
vida e mensagem cristã em cada área cultural, de tal modo que esta experiência se exprima com
elementos próprios da cultura e se converta num princípio inspirador, normativo e unificador, que a
transforme.
A sensibilidade em prol de uma evangelização “inculturada” não é apanágio das novas
gerações de missionários, mas foi uma preocupação presente na mente e no coração dos
missionários da primeira geração. É evidente que muito ficou por fazer e nem sempre foi feito do
modo mais adequado. Mesmo hoje, apesar de muito se falar sobre a necessidade de uma pastoral
inculturada, fica-se mais pelas palavras do que pelos actos. O tema da inculturação está sempre
presente nos encontros e assembleias anuais dos Missionários da Consolata, mas nem sempre tem
produzido os efeitos práticos desejados.
Podem-se mencionar algumas experiências pastorais realizadas nas diversas dioceses, algumas
pela primeira vez, outras já aprovadas ao longo do tempo. São o exemplo do uso da língua local, os
cânticos, as danças e os instrumentos tipicamente locais que dão à liturgia e às celebrações um ar
festivo e de intensa participação.
No contexto da presença IMC em Moçambique, a comunidade de Maúa é aquela que ao longo
destes anos mais trabalhou no sentido de uma efectiva inculturação do Evangelho. No campo
catequético, destaca-se o método de relacionar a mensagem bíblica com o conteúdo dos provérbios
locais. No campo dos sinais, a acção redentora de Jesus é muito simbolizada pela gazela, animal
ancestral, que na tradição macua é sinónimo de inocência, de força curativa e redentora. No campo
sacramental, inovou-se pela experiência de introduzir o sacrifício tradicional macua – Makeya – no
contexto da celebração eucarística254.

251
Cf. Verbal das reuniões do Conselho Regional. Lourenço Marques, 21-23/3/1971: ArqRegMoç. R. 3, n. 2, p. 5.
252
Cf. F. LERMA MARTINEZ, O povo macua e a sua cultura (Lisboa, 1989).
253
Cf. L. WEGHER, Um olhar sobre o Niassa. Traços históricos-etnológicos. Vol. I-II (Maputo, 1995/1999).
254
G. FRIZZI, Inculturazione della “Makeya”, centro focale della religiosità Macua (Mozambico): Euntes Docete
53 (2000) 93-107.
Em 2000, a VI Conferência Regional estimulou a realização de experiências significativas no
campo da inculturação, apoiando as já existentes e renovando o propósito de ajudar a Igreja local a
assumir o papel que lhe compete neste campo.

1.3. A Escola de Arte e o Centro de Estudos Macua-Xirima (Maúa)


A Escola de Arte Macua-Xirima de Maúa tem desenvolvido, nos últimos anos, diversas
actividades no âmbito da arquitectura, pintura, escultura e música. Sectores que, através da
descoberta e valorização dos talentos artísticos locais, estão a ser progressivamente inseridos no
filão vital da evangelização. O P. José Frizzi, impulsionador destas iniciativas, está plenamente
convencido de que a evangelização só será verdadeiramente autêntica se souber acolher sempre e
melhor as mensagens e linguagens latentes e patentes que a nova fé provoca ou desperta no coração
das comunidades.
São de salientar diversas experiências que foram acolhidas positivamente no âmbito da
inculturação artística e litúrgica-catequética. No sector da arquitectura e decoração é de salientar o
uso de blocos de barro secos ao sol e a decoração das paredes das igrejas, alternando as cores das
argilas locais com efeitos cromáticos particulares. É um método que é ao mesmo tempo ecológico e
económico, porque usa os materiais de construção existentes localmente. No sector da escultura é
de salientar a originalidade dos crucifixos desta Escola de Arte, onde cruz e crucifixo são feitos do
mesmo tronco, o que cria uma grande variedade de realizações. Na pintura, os artistas usam as
várias linguagens cúbicas e abstractas por intuição e inclinação instintiva. Estão criando uma leitura
bíblica e um estudo catequético visualizado e ambientado no horizonte cultural macua, já bem
patente e conseguido na ilustração da Bíblia em língua macua-xirima. No sector da música a Escola
tem trabalhado no sentido de revelar os valores positivos da música polirítmica macua quer no
campo litúrgico quer no catequético. Os 741 cânticos, recolhidos e publicados no livro de orações e
cânticos em macua-xirima – Mavekelo ni Itxipo – são um sinal plausível neste sentido, apresentando
um catecismo praticamente cantado.
O Centro de Estudos Macua-Xirima desenvolve a sua actividade em estreita relação com o
Centro de Arte Macua-Xirima. Na sua origem está o trabalho de estudo, pesquisa e recolha do P.
Frizzi no âmbito cultural macua-xirima. Com o passar dos anos, este missionário desenvolveu uma
metodologia básica para uma pesquisa sistemática da cultura macua-xirima, sobretudo no âmbito da
iniciação, terapia tradicional e religiosidade, de modo a melhor evangelizar os pontos nevrálgicos
do quotidiano deste povo. Compilou e recolheu provérbios e adivinhas, e procurou descobrir contos
que narram a forma de viver do povo.
Posteriormente, o P. Frizzi amadureceu a ideia de utilizar os textos recolhidos no campo
educativo, promovendo cursos de alfabetização e de escolarização bilingues nas escolas
diocesanas255. Todo este processo contribuiu para a edificação do Centro de Estudos Macua-Xirima
cuja actividade se tem diversificado, prestando simultaneamente um serviço qualificado no estudo e
aprendizagem da língua e cultura macua-xirima, através da realização de cursos periódicos.
Além deste trabalho de recolha e formação, o centro também assumiu a tarefa de traduzir os
textos em macua-xirima para as celebrações, compilar os catecismos a nível diocesano e, por
último, fazer a tradução integral da Bíblia256.

1.4.O trabalho de inculturação do Centro de Promoção Humana do Guiúa


A inculturação do Evangelho é uma das tarefas do Centro de Promoção Humana do Guiúa
enquanto centro de reflexão e de pesquisa pastoral. Neste sentido é de evidenciar o trabalho de
recolha dos dados etnográficos dos quatro grupos etno-linguísticos de Inhambane: Ndau, Tshwa,
Tonga e Chope, empenho levado a cabo pela comissão diocesana de inculturação. Este trabalho é

255
Cf. Nulumo na Exirima. Olepa, osoma, osuwela ikano saya (Maúa 2000); Sohimmwa ni solempwa s’exirima.
Literatura oral e escrita Xirima (Maúa 2000).
256
Cfr. G. FRIZZI, La traduzione della Bibbia in lingua Macua-Scirima. Metodi, fasi e difficoltà di un’avventura
stimolante: Euntes Docete 51 (1998) 125-134.
fundamental em ordem a uma inculturação efectiva fundada em bases antropológicas. Neste
sentido, e em colaboração com o Secretariado de Acção Pastoral de Inhambane, está sendo
efectuado um trabalho de recolha da tradição oral (provérbios, contos, cânticos) nas missões de
Nova Mambone, Vilankulo, Mapinhane, Massinga e Guiúa.
O Centro de Guiúa realiza todos os anos o curso de inserção cultural, linguística e pastoral para
os missionários recém-chegados. No sector das traduções, o mesmo Centro promove a publicação
de textos literários (gramáticas, cursos de alfabetização e pequenos dicionários em Xitshwa.
Gitonga e Xichope), subssídios catequéticos e litúrgicos em ordem à inculturação das celebrações
nas comunidades cristãs.

2. Visitas apostólicas às aldeias


A visita sistemática às aldeias era um dos pontos essenciais da metodologia pastoral dos
Missionários da Consolata, baseada no contacto directo com a realidade sócio-cultural da população
ayao, macua, anyanja e vatswa. Os missionários nunca ficavam passivamente à espera que a
população viesse ter com eles à missão. O objectivo era conhecer e fazer-se conhecer para ganhar a
confiança da população e assim estabelecer relações de amizade. Esta foi uma das preocupações
iniciais, como se pode verificar pelas palavras do P.e Luís Bosio, fundador da missão de Mitúcue:
“Acabados os trabalhos do acampamento, era meu desejo visitar o território. Antes de estabelecer
o plano de apostolado, era necessário conhecer a nossa gente, entrar nas povoações, examinar as
tendências dos indígenas acerca da religião, averiguar a acção dos muçulmanos e dos
protestantes, enfim, apresentarmo-nos a todos, falar-lhes, usar da caridade de Cristo, para os
preparar à vinda do Senhor”257.
Não era fácil viajar naquele tempo e as dificuldades de transporte eram concretas. Animais de
transporte não existiam devido à presença da mosca tsé-tsé e o uso de bicicleta nem sempre era
possível. A alternativa mais prática era o "cavalo de S. Francisco": pedibus calcantibus (a pé).
Deste modo, o missionário tinha a possibilidade de contactar as populações e evangelizar com as
palavras e o exemplo: “A melhor solução era empreender o caminho a pé por serras e vales, com
carregadores de caravana. Esta solução, não obstante a violência do sol africano e a fadiga, tinha
também o seu lado favorável. A população veria a pobreza do missionário e, pelos caminhos, todos
poderiam avizinhar-se, falar à vontade, receber curativos e medicamentos e, o melhor de tudo, a
viagem tornava-se uma contínua catequese”258.
Com entusiasmo de apóstolos que começavam uma grande obra, os missionários
empreendiam desde o início longas viagens de exploração do território. As visitas eram
extremamente úteis pois mantinham o contacto com as escolas-capela, preparavam e administravam
os sacramentos e visitavam as autoridades tradicionais. Assim, os missionários certificavam-se do
andamento da escola e do estado de espírito da comunidade cristã. Eram momentos de intensa
catequese e de profunda celebração da fé.
Para além de todo o trabalho pastoral, o contacto com as populações era proveitoso para
conhecer o território, proporcionando, ao mesmo tempo, uma investigação sobre a gente e a sua
cultura. Este apostolado volante era essencial para evangelizar e animar as comunidades cristãs, de
modo a vencer a concorrência protestante e a resistência muçulmana259.
Durante as duas guerras, a da independência (1962-1974) e a civil (1982-1992), os
missionários, sobretudo no Niassa, tiveram que usar as pernas e a bicicleta para se poderem
deslocar sem perigo e visitar as comunidades. Os missionários de Maúa foram provavelmente
aqueles que pedalaram mais em todo o Moçambique. São famosas as viagens apostólicas dos padres
Franco Gioda e José Frizzi durante a guerra. Saíam de Maúa, cada qual com dois fiéis

257
L. BOSIO, Em busca de almas: AIMC/XIII, 270, p. 1.
258
L. BOSIO, Em busca de almas: AIMC/XIII, 270, p. 1.
259
Cf. AIMC VIII/7 1939, n. 23: Carta de P.e Gabriel Quaglia a P.e Victor Sandrone: Mepanhira, 4-4-1939.
acompanhantes, e durante semanas e até meses, percorriam centenas de quilómetros para visitar as
comunidades das paróquias de Maiaca, Nipepe, Maúa e Marrupa.
Ainda hoje, a visita sistemática às comunidades cristãs dispersas no vasto território paroquial é
um dos pontos essenciais da metodologia missionária consolatina.

3. A cura dos doentes e a solidariedade com os pobres


Contemporaneamente ao trabalho de implantação das missões e à visita às aldeias, os
missionários dedicavam-se à cura dos doentes. Estes eram muitos e era necessário socorrê-los.
Lendo os diários das missões fica-se admirado com a solicitude dos missionários para com os
doentes. Eram verdadeiramente incansáveis. Uma vez que na proximidade das missões havia
sempre aldeias, era habitual que em caso de doença grave, cristãos ou pagãos viessem chamar o
missionário para assistir um parente ou amigo doente. Alguns dos primeiros baptizados eram
doentes assistidos à última hora e baptizados in articulo mortis. Quantas caminhadas, a pé ou de
bicicleta, de dia ou de noite, não fizeram os missionários nos primeiros anos de apostolado
assistindo doentes e conquistando a confiança das populações!
A fama dos missionários começou a difundir-se e eram muitos os que acorriam aos curativos
médicos nas missões. Era o que, por exemplo, acontecia em Mitúcue, segundo o testemunho do P.e
Bosio: ...a nova Missão é agora o refúgio de todos os males. Logo de manhã cedo há gente que
espera à porta da casa. Velhos, leprosos, crianças com queimaduras, muitos atacados pela
malária. Todos para ali correm afim de encontrarem remédio, um sorriso de bondade e a doçura
da caridade. A minha mala-farmácia faz milagres, dizem-me. E esta notícia está espalhada por
toda a região. Há doentes, trazidos de maca, que chegam aqui depois de três ou quatro dias de
caminho260.
A chegada das irmãs da Consolata permitiu que a assistência sanitária ainda melhorasse
mais em qualidade e eficácia. Em todas as missões surgiram dispensários. No registo médico-
sanitário anotava-se todos os dias o número de pacientes assistidos, data, tipo de doença e
medicação. Em 1940, realizaram-se 73.814 consultas nos três dispensários já existentes261. Com os
anos a rede hospitalar ligada às missões foi aumentando em quantidade e qualidade. Todas as
missões tinham o seu dispensário e respectiva maternidade262.
Com a independência a Saúde passou à completa responsabilidade do Estado e todas as
estruturas sanitárias pertencentes às missões foram nacionalizadas. As Missionárias da Consolata
continuaram o seu trabalho no campo da saúde sob a dependência do Ministério da Saúde. Uma
presença de consolação sobretudo nos momentos mais atribulados da história recente deste país.
A cura dos doentes foi sempre associada à solidariedade para com os mais pobres, sobretudo os
órfãos e as viúvas. Neste campo social houve diversas iniciativas e obras de solidariedade actuadas
pelos missionários da Consolata. As dificuldades dos anos 70 e 80 plasmaram uma fé e uma
caridade concreta, que se manifestava no estar sempre presente em cada lugar onde existiam
pessoas a socorrer.
Muitos missionários se distinguiram na ajuda aos mais desfavorecidos. Entre todos destacamos
a figura e obra do P.e Eugénio Menegon. Em 1979, depois de 28 anos de serviço missionário no
Niassa, foi obrigado pela autoridade política a fixar residência no Maputo. É que a sua actividade
caritativa em favor dos mais desfavorecidos incomodava e não foi tolerada, sendo acusado pelas
autoridades de ter exercido o comércio ilícito por levar, semanalmente para Metangula, géneros
para ajudar os necessitados. Na capital, não perdeu tempo e a sua grande força de vontade ligada ao
amor pelos irmãos mais necessitados, bem depressa o tornaram conhecido, sobretudo pelo seu

260
L. BOSIO, Vida de acampamento. Note di Diario: AIMC/XIII-269.
261
AIMC VIII/7 1940 n.1: Prospecto do Estado da Missão no Niassa, Massangulo, 6-8-1940.
262
Nas vésperas da independência funcionavam nas missões do Niassa nove dispensários onde se fazia uma média
anual de cerca de meio milhão de curativos, oito maternidades onde nasciam cerca de 700 crianças por ano e dois
infantários com cerca de 60 crianças assistidas. Cf. Relatório sobre a situação da Diocese de Vila Cabral apresentado
pelo P.e Manuel Tavares, Vigário Capitular, a Dom Luís Ferreira da Silva: ArqRegMoç. A 2, n.3.
trabalho de assistência aos doentes do Hospital Central do Maputo, do Sanatório da Machava e dos
presos da Cadeia da Machava. A visita e o apoio aos doentes e necessitados passaram a ser a sua
principal tarefa e os hospitais e prisões passaram a ser a sua paróquia, não obstante a grande
desconfiança inicial e os entraves à presença de um padre num hospital ou na prisão. Com a sua
persistência e caridade o P.e Menegon conseguiu que todas as portas se abrissem263. Com os anos
organizou um apreciado serviço de apoio espiritual e material a doentes e presos, conseguindo
também envolver outras pessoas neste trabalho.

4. A catequese, os catequistas e os catecismos


As frequentes visitas às aldeias, com momentos de instrução religiosa e oração, a caridade para
com os doentes e moribundos, a autoridade moral e o prestígio do missionário deram credibilidade à
mensagem cristã e aos seus mensageiros. A cooperação dos catequistas e da comunidade cristã na
evangelização foi essencial. Cada baptizado estava consciente do dever de ser evangelizador. Já
durante o catecumenado, era inculcado ao candidato ao Baptismo o dever de comunicar a
familiares, amigos e conhecidos a fé que recebeu. Era frequente que simples catecúmenos se
tornassem missionários264.
Com os anos e sobretudo a partir dos anos 50, a escola foi-se tornando o meio mais comum
de recrutamento de cristãos. A sua finalidade era dupla; ensinar e contribuir, directa e
indirectamente, para a evangelização.
A partir da década de 60, a Igreja em Moçambique iniciou também a sua renovação pastoral,
segundo as orientações do Concilio Vaticano II. No que diz respeito à iniciação cristã, instituiu-se o
catecumenado para crianças e adultos e reformulou-se a formação dos catequistas, para tornar mais
fácil e eficiente a presença viva da Igreja em todas as comunidades espalhadas nos vastos territórios
das missões265.

4.1. A importância dos catequistas na evangelização


Não se pode compreender e escrever a história da Igreja local moçambicana se não se toma
em consideração o trabalho realizado por toda uma geração de missionários leigos que, apesar da
sua pobre preparação intelectual, foram e são alimentados por sólidas convicções religiosas e
motivados por um forte zelo apostólico. Os catequistas foram em alguns casos os predecessores da
evangelização e foram os primeiros colaboradores dos Missionários da Consolata266.
Os missionários sempre reconheceram a importância destes providenciais cooperadores e
inseparáveis companheiros de tantas aventuras apostólicas. A ideia de formar catequistas autóctones
na evangelização correspondia ao método missionário do Instituto da Consolata: evangelização dos
africanos por meio de africanos. Por isso, desde sempre os Missionários da Consolata deram muita
importância à escolha e formação dos catequistas. Os primeiros missionários que trabalharam em
Moçambique dedicaram-se com empenho à sua formação. Os primeiros catequistas eram definidos
pelos missionários como pais de família transformados em apóstolos. Não tinham uma formação
específica, nem eram catequistas-professores diplomados. Alguns deles, quando assumiam o
ministério apostólico, eram simples catecúmenos e outros eram até analfabetos. Mas, esta aparente
inaptidão era colmada pela boa vontade de querer dar testemunho a todo o custo de uma verdade
que os orgulhava.

263
CF. E. MENEGON, Experiências: praticando as obras de misericórdia. Encontro n. 29 (1986) 5-8.
264
No relatório enviado à Santa Sé em 1942 o P.e Domingos Ferrero sublinha, como um dado importante, o
dinamismo missionário dos catecúmenos. Cf. AIMC VIII/7 1942, n. 1: Relação enviada à S. Congregação dos Assuntos
Eclesiásticos Extraordinários, Mitúcue, 1-8-1942.
265
Cf. Conselho da primeira reunião do Conselho de Presbíteros da Diocese de Vila Cabral. Vila Cabral, 7-9-
1968. ArqRegMoç. A 2, n. 87.
266
Cf. AIMC VIII// 1938, n. 2: Relatório anual da Missão de Nossa Senhora da Consolata de Massangulo,
Massangulo: 15-7-1938.
4.2. Colégio para catequistas, centros catequéticos e centros pastorais paroquiais
Os missionários esforçaram-se desde sempre por formar os seus colaboradores pastorais. Logo
nos primeiros anos de presença dos Missionários da Consolata em Moçambique, cada missão
realizava reuniões periódicas de formação-programação-revisão para catequistas. Desde o início se
pensou em criar colégios para formar catequistas. A ideia era fundar um centro que formasse
catequistas-professores para todas as missões. Porém, este projecto inter-paroquial de formação de
catequistas só se concretizou nos anos 50, na missão de Mitúcue. Inicialmente, cada missão se
preocupou em formar os seus próprios catequistas através de encontros periódicos de formação.
Pouco a pouco, foram surgindo colégios para jovens aspirantes catequistas-professores267. Esta
instituição estava ligada ao internato, e daí, o objectivo era formar localmente os próprios
catequistas, seleccionados entre os alunos mais capazes e disponíveis da missão. A sua formação
era integral, abrangendo a componente literária, religiosa, moral e prática. O ensinamento religioso
compreendia a catequese, história da Igreja, noções da religião tradicional, etc. Os missionários
davam extrema importância à formação moral e espiritual dos candidatos.
Os catequistas recém-formados eram colocados nas escolas-capela para coadjuvar ou substituir
a primeira geração de catequistas. Alguns destes, os que mais se distinguiam pelas suas capacidades
intelectuais, eram enviados para aperfeiçoar a sua formação e obter um diploma na Escola Normal
de Habilitação de Professores de Unango, fundada em 1942.
Antes de assumir a responsabilidade de uma escola-capela, o recém-formado catequista-
professor era aconselhado a contrair Matrimónio, preferivelmente com uma rapariga formada no
internato feminino da missão a qual, possuindo uma certa formação religiosa, poderia assim
participar activamente na missão educativa do marido catequista. No fim do curso, antes de ser
enviado para uma escola-capela como catequista-professor realizava-se a cerimónia do mandato
oficial. O superior da missão, como sinal do mandato missionário, entregava ao catequista o
crucifixo ou um outro símbolo religioso.
Nos anos do pós-concílio foi realizado um grande investimento de pessoal e de meios na
formação dos catequistas a nível nacional. Os Missionários da Consolata deram a sua colaboração
no Centro Catequético Interdiocesano de Anchilo (Nampula) e, sobretudo, no Centro Catequético
do Guiúa (Inhambane). A nível diocesano, os Missionários da Consolata promoveram iniciativas de
formação para catequistas, destacando-se a criação do catequistado da missão de Curea (1973-
1975), no Niassa, fundado e dirigido pelo P.e Francisco Lerma e a criação do catequistado da
missão de Massinga/Mangonha (1973) e de Mapinhane (1974), na diocese de Inhambane.
Com a independência, a maior parte destes catequistados foram encerrados devido às
nacionalizações. Apesar das inúmeras dificuldades encontradas manteve-se activo o Catequistado
do Guiúa (Inhambane). Os Missionários da Consolata, em colaboração com os padres Franciscanos
e as irmãs Franciscanas Missionárias de Maria, prestaram um válido e qualificado serviço de
formação de gerações de catequistas e animadores. O programa formativo desdobrava-se em três
dimensões: vida litúrgica, vida comunitária (compreendia a formação propriamente dita com
tempos de aulas, estudo e tempo de trabalho) e vida pastoral (todos os catequistas apoiavam as
comunidades cristãs mais próximas do Centro aos Domingos, principalmente no que diz respeito à
evangelização e formação das mesmas)268.
Com o decorrer dos anos as paróquias tornaram-se centros formativos para os diversos
ministérios. Uma estrutura presente em todas as paróquias era o centro pastoral onde os catequistas,
animadores e responsáveis dos vários ministérios se encontravam para encontros de partilha e
cursos de formação. Paralelamente, as equipas missionárias produziam diversos subsídios de
catequese, liturgia e formação para catequistas e animadores.

267
Em 1942, nas quatro missões em funcionamento no Niassa já existiam três colégios para catequistas Cf. AIMC
VIII/7 1942 n. 1: Prospecto do estado da Missão no Niassa. Arciprestado dos Padres da Consolata: Niassa Português,
Mitúcue, 1-8-1942.
268
Cf. J. TAVARES MATIAS, Centro Catequético do Guiúa: Encontro n. 18 (1984) 8-9.
4.3. A actividade pastoral dos catequistas
Nos primeiros anos, o essencial da actividade do catequista era o contacto com os "pagãos". Ele
era o intermediário entre o missionário e a população. A sua presença era indispensável para vencer
a desconfiança em relação ao missionário europeu e para iniciar o processo de conversão da religião
dos antepassados ao cristianismo. O catequista era muito mais do que um mero repetidor. A
doutrina cristã explicada por ele, à sua maneira e na sua própria língua, era muito mais
compreensível e ganhava mais facilmente novos cristãos269.
Com a multiplicação das escolas-capela no território das missões, os missionários confiavam a
cristandade local à directa responsabilidade dos catequistas. Quando o catequista vivia e trabalhava
no mesmo local, começava a sua obra de evangelização entre a sua família e amigos. Pouco a
pouco, visitava todas as famílias da aldeia e depois de ganhar a simpatia destes e do chefe,
persuadia os pais ou os tios a deixarem que as crianças frequentassem a escola que ele dirigia. Com
a formação de um grupo de simpatizantes e de catecúmenos, o catequista dava início à instrução
religiosa. Ensinava o catecismo, explicando as principais verdades da fé cristã e esforçando-se para
convencer os catecúmenos a abandonarem as práticas não cristãs e a observarem os Dez
Mandamentos. Nas principais festas litúrgicas, o catequista deslocava-se à missão com os
baptizados e catecúmenos, para participar nas celebrações litúrgicas. Nestas ocasiões solenes os
candidatos eram inscritos no catecumenado, os catecúmenos aperfeiçoavam a sua preparação para
os sacramentos e os que terminavam a sua instrução faziam os exames de admissão aos
sacramentos. Todos participavam nas funções litúrgicas e nas múltiplas actividades que se
organizavam. Quando o número de baptizados aumentava, o catequista reunia a comunidade na
capela para as orações diárias e para a celebração da Palavra dominical. E cada missionário visitava
várias vezes ao ano a comunidade, quer para confessar e celebrar a Missa, quer para se certificar da
actividade do catequista.

4.4. Os primeiros catecismos


Para garantir a fidelidade dos catequistas ao ensinamento cristão, os Missionários da
Consolata preocuparam-se em elaborar catecismos nas diversas línguas locais. O primeiro
catecismo redigido no Niassa foi publicado em ciyao pelo P.e Pedro Calandri em Massangulo, nos
anos 30270. Em 1948, o P.e Mário Casanova, superior da missão de Mitúcue, concluiu a tradução
em macua do Katekismu ya Mahusiho Katolika, que seria publicado em 1950. Estes catecismos
usavam o método dialógico em forma de pergunta e resposta, apresentando as verdades
fundamentais da religião católica.
No Arciprestado de Vilankulo, Inhambane, os Missionários da Consolata também se
preocuparam em traduzir o catecismo em língua local. O trabalho de tradução em língua xitshwa
foi realizado pelo P.e Gabriel Quaglia271, que também preparou um catecismo para as crianças e
uma Doutrina de Cristo – Zigonzo za Kristo - para os professores-catequistas. Em 1951 traduziu e
publicou a vida de Jesus: Hosi ya Hina Jesu Kristu272.
Após a independência, os secretariados pastorais diocesanos prepararam textos para as
celebrações litúrgicas e para a catequese. Os anos 80 foram fecundos quanto à publicação de livros
litúrgicos e catecismos. No Niassa saiu uma nova e ampliada edição do livro de orações e cânticos

269
Em 1944, a missão de Mitúcue tinha ao seu serviço 21 catequistas nas povoações e dois na missão (Miguel
Misissi, catequista-mor e Dionísio Mirassi, professor da escola da missão). No relatório enviado pelo superior da missão
ao bispo, sublinhava-se deste modo a importância da colaboração dos catequistas na evangelização: O trabalho deles é
de grande auxílio à missionação porque só assim se pode entrar na alma do pagão. Muitos deles têm o espírito dos
verdadeiros discípulos do Senhor e fazem sacrifícios para ensinar à gente, às vezes em aldeias muito afastadas da
própria. AIMC X/405 1944 n. 7: Relatório anual enviado à diocese, Mitúcue: 31-12-1944.
270
Cf. P. CALANDRI, Pequeno Catecismo em Ciyao-Português de D. António Barroso (Massangulo 1934).
271
Cf. G. QUAGLIA, Catecismo Católico em língua Xitswa e Português (Lourenço Marques 1948).
272
Cf. Hosi ya Hina Jesu Kristu (Mapinhane 1951).
em língua macua (Mavekelo ni Itxipo) 273, Leccionário para Domingos e Festas (Masu a Muluku),
diversos textos sobre os ministérios e temas de catequese para a Primeira Comunhão, Crisma e
Matrimónio.
Em 1983 foi publicado o Catecismo de Adultos, coordenado pelo secretariado pastoral
diocesano. Foi um trabalho de colaboração entre as equipas missionárias do Niassa para a
evangelização. Um texto base para a catequese dos catecúmenos adultos profundamente bíblico e
dividido em sete partes e uma introdução: Deus criador e a infidelidade do Homem; Jesus Cristo; o
Povo de Israel; o Novo Povo de Deus: a Igreja; os sacramentos; os Mandamentos e Viver com
Deus. O apêndice apresenta resumidamente as grandes religiões e as principais orações cristãs. O
texto em macua foi concluído no final de 1983. Depois da primeira edição policopiada, foi
imprimido em 1987274.
Nesse mesmo ano saiu a segunda edição do Masu a Muluku, o missal festivo em língua macua
com as leituras dominicais e festivas dos três ciclos A-B-C e o Ordinário da Missa e demais
sacramentos, tudo com excelente apresentação tipográfica275. A nível diocesano prepararam-se
também textos litúrgicos e catequéticos em língua cinyanja e em ciyao.
Na Diocese de Inhambane, os Missionários da Consolata colaboraram na publicação de
material catequético e litúrgico, onde se destaca o catecismo Nza Kholwa Hosi. Tratava-se de temas
para o catecumenado, numa edição completamente revista e adaptada às exigências do Directório
do Catecumenado, baseados num texto já existente anteriormente em língua xitshwa276.

5. A administração dos Sacramentos: o Baptismo


Denota-se uma grande preocupação em baptizar nos primeiros evangelizadores. A salvação das
almas era um imperativo: Salus animarum, suprema lex! O terreno já estava preparado pelos
catequistas locais e os missionários não demoraram a semear e a recolher os frutos277.
Com os anos os baptismos aumentaram, porém, os missionários não caíram na tentação dos
baptismos fáceis. Perante a abertura e receptividade da população ao Evangelho, com o consequente
acréscimo do número de baptizados, os missionários estavam conscientes da necessidade de não
criar um catolicismo de massa278.
Para formar uma cristandade sólida e significativa tornava-se necessário aumentar a
instrução e ser mais exigentes na selecção dos candidatos ao baptismo279. Esta era uma convicção
compartilhada por quase todos os missionários280.

273
Em 1982 e 1987 saíram novas edições do livro de cânticos em macua “Mavekelo ni Itxipo”. Este devocionário,
continuação lógica do livro preparado pelo P.e Mário Casanova em 1950, já chegou à sua 3ª edição, fruto de uma
revisão dos textos e ampliação do número de orações e cânticos.
274
Cf. Ekatekismu ya Makatekumeni ni Asitokwene (Roma 1987).
275
Cf. Masu a Muluku. Sowerenka sa eyakha A.B.C, Ifesta sitokwene, Masakramenti (Roma 1987).
276
Cf. Nza Kholwa, Hosi. Secretariado da Acção Pastoral (Inhambane 1983).
277
Na véspera da fundação da missão de Mepanhira, o P.e Victor Sandrone, nas suas visitas às escolas-capela do
Lúrio, baptizou dezenas de catecúmenos já catequizados. Na primeira celebração litúrgica realizada em Mepanhira no
Natal de 1938, foram baptizados 230 adultos e 40 crianças. Cf. AIMC X/411, n. 6: Diário da Missão de Mepanhira: 23-
24/12/1938. O primeiro baptismo oficial da Missão de S. José de Mitúcue foi celebrado in articulo mortis pelo P.e
Mário Casanova no acampamento de Murusso. Cf. AIMC X/405, n.17: Diário da Missão de Mitúcue: 6-10-1939. Na
véspera de Natal desse ano, administrou-se o baptismo a 45 catecúmenos provenientes das escolas-capela cedidas pela
Missão de Mepanhira. Cf. AIMC X/405, n. 17: Diário da Missão de Mitúcue: 24-12-1939.
278
Cf. AIMC VIII/7 1939, n. 3: Relatório anexo ao prospecto do estado das missões do Niassa Português:
Massangulo, 11-12-1939.
279
Cf. AIMC VIII/7 1942, n. 2: Relação anexa ao prospecto do estado das missões no Niassa Português: Mitúcue,
1-8-1942.
280
O P.e Domingos Ferrero, numa carta escrita ao Superior Geral, reafirma a conveniência desta opção:
Poderíamos baptizar quase em massa, mas exigimos muito no que diz respeito à catequese, e este parece-me o método
mais conveniente. AIMC VIII/7 1944, n. 4: Carta de P.e Domingos Ferrero ao P.e Gaudêncio Barlassina: Mitúcue, 18-
9-1944.
Por ocasião das grandes celebrações litúrgicas os cristãos e os catecúmenos das escolas-capela
reuniam-se nas respectivas missões para aperfeiçoar a sua preparação para a recepção dos
sacramentos281. Estas grandes assembleias, além de completarem a instrução daqueles que recebiam
os sacramentos, constituíam um momento de formação para todos os cristãos. Eram dias
providenciais, densos de instruções e de momentos de oração282.

6. As Escolas-Capela e as comunidades cristãs ministeriais


As escolas-capela eram o ponto nevrálgico, o esqueleto e a força do apostolado na estratégia
evangelizadora dos primeiros missionários. Eram vários os motivos que levavam os missionários a
fundar uma escola-capela. Normalmente, tomavam-se em consideração alguns elementos como a
vontade do povo, especialmente dos chefes, o número de habitantes do local ou se estava sob
ameaça muçulmana ou protestante. Na maioria dos casos era a população local que construía a
escola-capela e a habitação para o catequista. Nas escolas-capela os alunos aprendiam a ler, a
escrever e os fundamentos do catecismo. Os missionários visitavam as escolas-capela
frequentemente para se certificarem do andamento das actividades lectivas e celebrarem os
sacramentos.
As nacionalizações vieram colocar um ponto final na experiência das escolas-capela e do
professor-catequista. As escolas foram nacionalizadas e a maior parte dos catequistas-professores,
até aí remunerados e ocupados a tempo pleno pela diocese, abandonaram as suas funções para
entrar no funcionalismo público. O binómio evangelização-escolarização foi desfeito.
Apesar das dificuldades e dos limites impostos à organização e à prática religiosa, não faltou o
optimismo entre os que permaneceram fiéis, sobretudo cristãos comprometidos, catequistas da
primeira geração, irmãs e padres locais e missionários. Nessa data, investiram-se muitas forças na
evangelização e surgiram iniciativas pastorais muito significativas. Nas aldeias onde existiam as
escolas-capela os cristãos reuniam-se para a celebração dominical e formavam comunidades cristãs
organizadas ministerialmente. Nos anos seguintes deu-se continuidade ao trabalho de revitalização
das comunidades cristãs já existentes e criaram-se novas, dando-lhes maior responsabilidade e
autonomia ministerial e económica. Este processo de formação de comunidades ministeriais foi a
resposta às dificuldades do momento e evoluiu em dois momentos sucessivos: organização e
formação de comunidades e formação e exercício dos ministérios283.

7. Desenvolvimento socioeconómico e promoção humana


O trabalho de evangelização precedeu e acompanhou desde sempre as actividades que levavam ao
desenvolvimento socioeconómico das populações evangelizadas. Para os Missionários da Consolata a
promoção humana é parte constitutiva da pastoral e tanto no passado como actualmente, cada missão é
um centro de promoção humana que ajuda as pessoas a melhorar a sua qualidade de vida com as suas
estruturas e obras sócio-caritativas. Os missionários sempre procuraram alcançar este objectivo quer
através do trabalho manual, quer através do ensino e da saúde.

7.1. A promoção através do trabalho manual


O trabalho manual, juntamente com o apostolado e os compromissos da vida religiosa, é parte
integrante do dia-a-dia do missionário, contribuindo de modo relevante para a formação dos cristãos e
servindo de complemento à formação religiosa. Nos diários das missões e nos relatórios surgem várias
referências aos trabalhos dos alunos e à colaboração da comunidade cristã nas actividades económicas

281
No Niassa esta assembleia litúrgico-catequética, na sede das missões, era denominada Msunkano. Cf. AIMC
X/411, n.6: Diário da Missão de Mepanhira: 19-12-1938.
282
Nos relatórios enviados à Santa Sé e aos superiores, o P.e Domingos Ferrero várias vezes colocou em evidência
o empenho e a generosidade demonstrada, nestas circunstâncias, por esta jovem cristandade. Cf. AIMC VIII/7 1943 n.
2. Relação anexa ao prospecto do estado das missões no "Arciprestado dos Padres da Consolata" na Diocese de
Nampula: Mitúcue, 30-1-1944.
283
Cf. G. FRIZZI, La missione del Niassa nel crogiolo della rivoluzione: Documentazione IMC n. 3 (1980) 19-26.
da missão, nomeadamente na agricultura, construções, etc. Além de contribuir para a viabilidade
económica das missões, o trabalho manual tinha como objectivo ajudar a população a adquirir hábitos
de trabalho. Ao proporem a dignidade do trabalho livre e remunerado, os missionários precaviam os
possíveis abusos de que era vítima a população, por parte das autoridades e dos colonos.
O trabalho organizado e disciplinado foi um aspecto educativo válido da acção evangelizadora.
Tanto nas missões do Niassa, como nas de Inhambane, formaram-se muitos operários em diversas artes,
desde pedreiros e carpinteiros até sapateiros e mecânicos, tipógrafos e fotógrafos. Os missionários
interessavam-se também pelo ensino da agricultura, introduzindo novas técnicas para melhorar os
métodos de cultivo e enriquecendo a dieta alimentar do povo com novos produtos.

7.2. As construções
O trabalho e as construções eram realizadas, não por divertimento, mas por necessidade e como
método formativo. A fundação de uma nova missão requeria muito trabalho, terreno desbravado,
fabricação de tijolos e telhas, madeira, estradas, etc. Os missionários começavam por dar o exemplo,
trabalhando eles mesmos, fabricando os primeiros tijolos para as construções, cortando madeira,
desbravando a terra para a agricultura. Com o seu próprio trabalho formaram gerações de pedreiros e de
carpinteiros incutindo-lhes o amor pelo trabalho e pelo ofício. A maior parte das missões cresceu
gradualmente, tomando proporções consideráveis. Depois da construção da residência dos missionários
e missionárias, edificavam-se as escolas, os internatos, os dispensários, as oficínas, as carpintarias, etc.
No Niassa as missões de Massangulo, Mitúcue e Mepanhira sobressaíam pelas suas estruturas e
grandeza. Em Inhambane eram as missões de Nova Mambone, Mapinhane e Mangonha/Massinga que
possuíam mais infra-estruturas.
O trabalho das construções cabia a todos, mas os irmãos eram os verdadeiros mestres nestas
tarefas. Os irmãos José Benedetto, Bartolomeu Liberini, Bartolomeu Lorenzatto, Corrado Maritano,
João Arneodo, Lourenço Baroffio, Hugo Versino, entre outros, foram autênticos "factotum", mestres em
todas as artes e ofícios, construção, serralharia, mecânica, carpintaria, etc.
Com a independência, as nacionalizações e os vários anos de guerra que se sucederam, a incúria
destruiu grande parte destas infra-estruturas. A partir de 1992, com o fim da guerra e após a devolução
dos bens nacionalizados às dioceses, começou o paciente trabalho de reconstrução das antigas missões.

8. O empenho para obter a auto-suficiência económica


As despesas para manter e desenvolver uma missão eram elevadas, muito embora fossem
limitadas ao necessário284. A maior fatia do orçamento estava destinada ao pagamento dos salários
dos professores, catequistas e operários e à manutenção dos internatos.
A actividade missionária dependia grandemente dos subsídios diocesanos, que por sua vez
dependiam das subvenções do Estado. A insuficiência ou diminuição destes criava dificuldades ao
desenvolvimento das missões, obrigando os missionários a fazer grandes sacrifícios para manter todos
os centros de promoção, educação e saúde. A situação económica inspirava preocupações, sobretudo
durante a IIª Guerra Mundial (1939-1945), em que os preços dos bens essenciais eram altíssimos.
Desde o princípio tentou-se criar novas fontes de entrada que assegurassem uma certa
autosuficiência através do cultivo de produtos agrícolas e da pequena indústria. Introduziram-se novas
culturas, como o trigo, verduras, café, algodão e tabaco, e intensificou-se a produção das culturas
tradicionais como o milho, feijão, mapira, etc.
Na linha do aproveitamento dos recursos locais desenvolveu-se a indústria da tecelagem, sapataria,
etc. Todas estas actividades económicas permitiram que cada missão assegurasse a sua própria auto-
suficiência.

9. A actividade no campo do ensino


9.1. A prioridade dada à escolarização .

284
Por exemplo, no ano de 1943 as despesas das quatro missões do Niassa foram de 390.649.00 escudos. A maior
entrada era constituída pelo subsídio atribuído pela diocese: 257.429.00 escudos: Cf. AIMC VIII/7 1943: Prospecto do
estado das missões no Niassa Português, Mitúcue, 31-12-1943.
Desde sempre a Igreja deu grande importância à educação escolar da juventude africana. As
escolas eram consideradas faróis de civilização e canteiros de neófitos. D. Rafael de Assunção,
Prelado de Moçambique (1920-1936), costumava afirmar que a civilização cristã em África se
preparava nas escolas e se completava na Igreja.
Os Missionários da Consolata estavam convencidos da importância da escola como meio de
promoção humana e instrumento de evangelização. Por isso, empenhavam-se de alma e coração no
trabalho de ensino da população indígena. Percorriam as aldeias sensibilizando as autoridades
tradicionais e as famílias para a importância da escola como veículo de progresso. Ao início foi
difícil, porque nem sempre os interessados compreendiam a importância do saber ler ou escrever.
Na região de Mepanhira e do Lúrio, além das escolas protestantes, os missionários que ali chegaram
encontraram algumas escolas católicas fundadas pelos Padres Monfortinos do Niassalândia
(Malawi). Preocuparam-se em reactivá-las e multiplicá-las. Este esforço debateu-se com bastantes
dificuldades, especialmente impedimentos burocráticos, escassez e pouca formação dos professores,
falta de dinheiro, etc.
Depois do Acordo Missionário de 1940, o Governo português promulgou o decreto-lei nº 31207
de 5 de Abril de 1941, vulgarmente conhecido por estatuto missionário, no qual confiava a educação à
responsabilidade das dioceses. As escolas dependiam do Governo, mas o missionário tinha liberdade de
acção como organizador e responsável pelo funcionamento geral dos programas, formação e sustentação
dos professores. Os missionários presentes no Niassa, conscientes da importância da educação para o
desenvolvimento e evangelização, não perderam a oportunidade de investir tempo e meios na promoção
da escolarização. Apesar de algumas dificuldades, surgiram escolas em todas as missões. Massangulo e
Mitúcue permaneceram aos olhos da população local, autoridades e do próprio Instituto da Consolata
285
como um exemplo bem sucedido de promoção do homem africano através da escola .
Um dos primeiros desafios foi a preparação de professores. Para lhe fazer face foi criada em
1942, na Missão de Unango, a Escola Normal de Habilitação de Professores, para onde cada missão
mandava os melhores alunos dos internatos.

9.2. Graus e tipos de escola


O ensino primário estava dividido em dois níveis: ensino de base ou rudimentar e ensino
primário. A maior parte dos alunos (cerca de 90%) frequentava o ensino de base, nas escolas
rudimentares. Estas escolas multiplicaram-se gradualmente com o decorrer dos anos e todas as aldeias
mais povoadas as possuíam. A escola rudimentar não ía além da 2ª classe da instrução primária. A sua
função era ensinar a língua portuguesa aos alunos. O programa oficial de ensino incluía também a
aprendizagem do Catecismo.
A escola primária abrangia as quatro classes tradicionais. Praticamente só existiam nas sedes das
missões e eram frequentadas pelos alunos dos internatos e por alguns alunos externos. Completada a 4ª
classe, os alunos mais dotados eram seleccionados, preparados e enviados como professores das escolas
rudimentares.
A falta de um futuro profissional para muitos dos alunos das escolas das missões levou os
missionários a criarem escolas profissionais. Estas escolas de artes e de ofícios surgiram no momento
ideal do arranque e desenvolvimento económico de Moçambique, que necessitava de mão-de-obra
qualificada. Cada missão tinha as suas oficinas e carpintarias, mas foram as missões de Massangulo e de
Mitúcue, com as suas escolas de artes e ofícios, que mais se distinguiram na formação técnica dos seus
alunos. Preparavam pessoal competente e bons profissionais, gozando da simpatia do governo
286
provincial . Após o exame da 4ª classe, na escola de artes e ofícios de Massangulo e de Mitúcue,

285
Nas vésperas da independência o sector da educação no Niassa estava praticamente na dependência da diocese
e a cargo das missões: uma escola de professores de posto em Vila Cabral com 120 alunos; 10 lares e internatos
masculinos com 790 internos; 10 lares e internatos femininos com 500 internas; duas escolas de Artes e Ofícios
(Massangulo e Mitúcue), 282 escolas e postos escolares com 17.890 alunos e 9.172 alunas. Cf. Relatório sobre a
situação da Diocese de Vila Cabral apresentado pelo P.e Manuel Tavares, Vigário Capitular, a Dom Luís Ferreira da
Silva: ArqRegMoç. A 2, n. 3.
286
Cf. AIMC VIII/7 1945, n. 2: Relatório das missões do Niassa enviado à Santa Sé: Mitúcue, 21-1-1945.
muitos alunos especializavam-se nas mais diversas profissões: carpinteiro, marceneiro, mecânico,
sapateiro, pedreiro, alfaiate, encadernador, tipógrafo, etc.
Atentos às necessidades e anseios das populações, a partir dos anos 60, os Missionários da
Consolata colaboram com as dioceses de Vila Cabral e Inhambane na introdução e incremento do
ensino secundário. Em 1965 foi criado o Colégio de São Teotónio, transferido em 1966 para Nova
Freixo. Dirigido pelas Irmãs Doroteias, o Colégio de São Teotónio era frequentado por duas
centenas de alunos do 1º até ao 5º ano do liceu. Em 1973 foi criado o Colégio Externato do Lago,
dirigido pelas Irmãs Dominicanas do Rosário e o Colégio de Mitúcue, dirigido pelas Missionárias
da Consolata. Em 5 de Julho do mesmo ano, os Missionários da Consolata criaram o Colégio de
Massinga (Inhambane), com o ciclo preparatório e liceal e externato misto. O director do colégio
era o P.e Dionísio Ferreira e com ele colaboravam os padres Armanno Armanni e Mauro Calderoni
e as Missionárias da Consolata.
Todas estas instituições de ensino foram nacionalizadas no pós-independência, passando para a
directa administração do Estado.

9.3. Os internatos
O internato era uma preocupação que estava sempre presente na mente dos missionários quando
faziam uma nova abertura. Uma infra-estrutura indispensável para alojar e formar rapazes e meninas no
ambiente característico da missão. O internato dava vida e dinamismo à missão e simultaneamente dava-
lhe uma certa regularidade devido ao horário das várias actividades. Desde sempre se investiu muito nos
internatos, por ser um meio fundamental para formar os jovens, longe da influência do ambiente
tradicional onde viviam. Sem o internato havia a forte convicção de que a escola não era suficiente para
formar uma base cristã sólida. Deles deveriam sair os jovens mais preparados para formar novos lares
287
cristãos e constituir fermento evangélico destinado a fazer levedar toda a massa .
Além da instrução escolar, o internato incutia nos alunos o amor ao trabalho, à prática das
virtudes cívicas e religiosas e a frequência aos sacramentos. A vida no internato distribuía-se entre o
estudo, a formação religiosa, exercícios de piedade, trabalho e recreio. Nem todos os alunos eram
cristãos pelo que, durante a permanência na missão, se preparavam para receber o Baptismo. Os
alunos que mostrassem aptidões e boa vontade eram escolhidos e formados para serem catequistas,
professores ou mesmo, enviados para o seminário diocesano.

10. A vida consagrada e sacerdotal comunicada: a promoção vocacional


A promoção da vida religiosa e a formação do clero local esteve sempre presente na actividade
evangelizadora dos Missionários da Consolata. Desde a primeira hora manifestaram a intenção de
formar sacerdotes, religiosos e religiosas locais. Acreditavam na necessidade e conveniência da
existência de padres e irmãs moçambicanas, capazes de incarnar a mensagem da salvação no meio
sóciocultural que eram chamados a evangelizar.

10.1. Formação do clero diocesano


Já em 1935 o P.e Pedro Calandri, escrevendo à Secretaria de Estado do Vaticano, exprimia a
sua convicção de que para converter o povo Yao era necessário ter sacerdotes ayao bem
preparados288. Um dos primeiros órfãos recolhidos por ele à sua chegada ao Niassa queria ser
sacerdote, contudo o seu ideal nunca se realizou porque faleceu prematuramente289.

287
Visto que só com os elementos formados na missão se podem realizar obras duradoiras, empregamos os nossos
esforços para educar rapazes e raparigas para serem os elementos dum povo novo, de um próximo amanhã. AIMC
X/405, n. 17: Relatório anual da missão de Mitúcue: Mitúcue, 31-12-1944.
288
AIMC VIII/7 1935 n. 2: Relação anual do estado da Missão de Nossa Senhora da Consolata de Massangulo:
Massangulo, 5-7-1935.
289
Cf. AIMC VIII/7 1935 n. 2. Relação anual do estado da Missão de Nossa Senhora da Consolata de
Massangulo: Massangulo, 5-7-1935.
Também na missão de Mepanhira, logo nos primeiros anos, surgiu um notável movimento
vocacional. Na relação do ano de 1939 o P.e Gabriel Quaglia informava a Santa Sé sobre a
existência de um grupo de vocacionados nesta missão, um dos quais até já estudava latim290. Antes
da criação do seminário menor diocesano de Unango, estes jovens que se sentiam chamados ao
sacerdócio foram acolhidos e formados na missão de Massangulo.
Em 1940, a Santa Sé sugeriu a criação de um seminário no Niassa, garantindo o seu apoio. Na
mesma altura foi proposta a abertura de um seminário em Portugal, para onde pudessem ser
enviados a terminar a sua formação os alunos provenientes do Niassa291. Em 1944, por provisão de
D. Teófilo de Andrade, primeiro Bispo de Nampula, foi criado o seminário menor da diocese, a
funcionar na missão de Unango (Niassa), onde já existia a Escola de Habilitação de Professores de
Posto Escolar. Os frutos do seminário de Unango foram os primeiros sacerdotes moçambicanos
diocesanos, os padres Miqueias Elias Maloa, originário de Mitúcue, e Leandro Feliciano da Cruz,
cuja família era originária do sul de Moçambique e residente no norte do Niassa. Ambos transitaram
para o Seminário Maior da Namaacha no ano lectivo de 1949-1950, concluindo ali o curso
filosófico e teológico. Foram ambos ordenados presbíteros em Dezembro de 1956, em Nampula.
Em 1947 o seminário de Unango foi transferido para a missão de S. João Baptista do Marere, 8
km a oeste da cidade de Nampula. Aqui, como em Unango, o seminário funcionava no mesmo
edifício da Escola de Habilitação de Professores de Posto Escolar. A direcção do seminário foi
entregue aos Missionários da Consolata, que já respondiam pela missão. Com a chegada do novo
bispo de Nampula, D. Manuel de Medeiros Guerreiro, este decidiu encerrar o seminário em 1952.
Ao encerrá-lo, prometeu erigi-lo novamente, logo que pudesse, em lugar adequado e com edifício
próprio. Os anos passavam e o bispo não se decidia a reabrir o seminário diocesano. Foi então que
os Missionários da Consolata decidiram abrir um seminário “clandestino” (seminario in
catacumbis) na missão de Massangulo, onde se formavam os jovens provenientes dos internatos que
manifestavam vocação sacerdotal. Esta iniciativa audaz, diga-se de passagem, não agradou nada a
D. Manuel de Medeiros Guerreiro292.
Só em 1959, o bispo de Nampula erigiu o Seminário Menor de Nossa Senhora de Fátima de
Nampula em lugar adequado e edifício próprio, a 6 km de Nampula, na estrada nacional Nampula-
Nacala. A direcção foi confiada aos Padres da Sociedade Missionária e na data da sua fundação, em
8 de Setembro de 1959, tinha sete alunos.
Com o aumento do número de vocações no Niassa, o primeiro Bispo da Diocese de Vila
Cabral, D. Eurico Dias Nogueira, fundou a 13 de Maio de 1967 o Seminário Menor Nossa Senhora
Mãe da Igreja de Nova Freixo (Cuamba). No ano lectivo de 1967-1968, sete jovens iniciavam ali os
estudos preparatórios e os alunos que até então se matriculavam no seminário menor de Nampula,
passaram a frequentar o seminário menor de Nova Freixo, com aulas no Colégio de São Teotónio.
O seminário foi confiado à responsabilidade dos Missionários da Consolata. O P.e Emílio Oggé foi
o primeiro responsável do seminário, sendo substituído em seguida pelo P.e Elísio da Assunção.
Com os anos a promoção vocacional aumentou e em 1968 a diocese de Vila Cabral contava 36
seminaristas: dois no curso teológico, dois na Filosofia e 32 no curso dos liceus. Em 1975, ano da
nacionalização e encerramento do seminário, o reitor era o P.e Brazão Mazula e tinha 55 alunos.
Nos inícios dos anos 70 foi ordenado o terceiro sacerdote diocesano originário do Niassa, o P.e
Estevão Paulo Mirassi.
Também na diocese de Inhambane os Missionários da Consolata se esforçaram por promover o
clero local, mas talvez com menos resultados que no Niassa. No dia 12 de Setembro de 1971, D.
Ernesto Gonçalves da Costa fundou o seminário menor diocesano de Inhambane.

290
AIMC VIII/7 1939 n. 3: Relação anexa ao prospecto do estado das missões no Niassa Português, Massangulo,
1-12-1939.
291
Cf. AIMCVIII/7 1940, n. 36: I Missionari della Consolata al Niassa alla luce dell'Acordo Misssionario (1940):
Carta de P.e João Chiomio a P.e Victor Sandrone: Roma, 17-12-1940.
292
Cfr. L. WEGHER, Un uomo e la sua missione. P. Pietro Calandri (Lichinga 1985) 291-292.
Depois da independência os seminários foram encerrados e só a partir de 1983 as condições
sócio-políticas permitiram que se concretizassem os primeiros esforços para a sua reabertura. Em
Agosto desse ano, no centro catequético de Anchilo (Nampula) realizou-se o IIIº Encontro
Interdiocesano sobre Vocações e Seminários, da zona pastoral do norte (dioceses de Pemba,
Nampula e Lichinga) e decidiu-se a abertura do Seminário Interdiocesano São Carlos Lwanga. O
P.e Norberto Louro, que trabalhava em Lichinga, foi nomeado reitor e com entusiasmo, lançou-se à
obra com os primeiros 11 seminaristas. Funcionando em instalações provisórias, com organização
frágil e sem quaisquer garantias perante a lei, o seminário arrancou e superou todos os obstáculos. O
P.e Norberto Louro assumiu a direcção do seminário durante dois anos, até à sua nomeação como
Superior Regional dos Missionários da Consolata. Depois de um breve interregno foi substituído
por um outro missionário da Consolata, o P.e Artur Marques, que até então trabalhara na Diocese de
Inhambane. Ao P.e A. Marques coube a tarefa de transferir o seminário para a estrutura do antigo
seminário de Nossa Senhora Rainha dos Apóstolos, cujo edifício acabava de ser devolvido à
diocese (1988).
Em Maputo, os Missionários da Consolata deram também o seu contributo à formação do clero
diocesano através do trabalho do P.e Augusto Fatela, como administrador na construção do
Seminário Maior de Santo Agostinho, e do P.e José Salgueiro, na campanha de recolha de fundos
para a construção do mesmo. A partir de 1990 os padres Higino Tubaldo e Francisco Ponsi,
começaram a leccionar no seminário maior. Em seguida, a colaboração dos missionários da
Consolata alargou-se ao campo do ensino com a actividade docente dos padres Francisco Lerma,
Hipólito Marandu e Jaime Patias. Na Diocese de Inhambane, a reabertura do seminário menor
diocesano foi confiada à responsabilidade do P.e André Brevi, no início dos anos 90.
Mesmo sem pessoal missionário suficiente e devidamente preparado, os Missionários da
Consolata integraram-se com boa vontade num trabalho que lhes tinha sido confiado pela Igreja
local.

10.2. A fundação da Congregação das Irmãs da Imaculada Conceição


A evangelização católica do Niassa foi iniciada por religiosos e religiosas que consagraram a
sua vida a Cristo, ao serviço do povo onde viviam. Pelo exemplo que davam, não admira que
surgissem jovens desejosos de seguir o seu testemunho abraçando a vida religiosa. Este era também
o desejo dos primeiros cristãos, que desejavam ter os seus próprios padres e irmãs (“avirgo”)293.
A iniciativa da fundação da primeira congregação religiosa moçambicana nasceu do empenho
do P. Oberto Abondio, um dos fundadores da missão de Mepanhira. A ideia desta fundação surgiu
quando ele constatou que algumas meninas do internato feminino da missão lhe manifestavam o
desejo de serem irmãs. Este desejo, provavelmente foi despertado por um acontecimento vivido
com intensidade pela cristandade de Mepanhira: a renovação da Profissão Religiosa da Ir.
Esperança Longhi, missionária da Consolata, realizada em 7 de Julho de 1940. O P.e Abondio
explicou o significado do acto da profissão durante a cerimónia e os presentes, particularmente as
meninas, ficaram muito impressionados com o rito, sendo um tema de conversa por vários dias294.
Pouco a pouco o P.e O. Abondio, superior da missão, amadureceu o seu projecto de fundação até
que obteve a autorização do Bispo de Nampula, D. Teófilo de Andrade, para tratar das formalidades
para a criação de uma futura congregação diocesana.
No dia 4 de Novembro de 1946, o P.e Abondio reunia um grupo de seis raparigas para iniciá-
las na vida religiosa, à qual já aspiravam desde algum tempo. Todos os dias, pela manhã, lhes fazia
uma conferência formativa e à tarde, uma hora de cultura geral. Embora vivessem no internato, sob
a direcção das irmãs da Consolata, as aspirantes eram preparadas para a vida religiosa pelo próprio
missionário.

293
Alguns meses depois da chegada dos missionários a Mepanhira, já o catequista João Txipinenga manifestava ao
P.e Gabriel Quaglia o seu grande desejo de ter um filho sacerdote e uma filha religiosa. Cf. G. QUAGLIA, Johannes, un
catechista d'eccezione: Missioni Consolata (1939/7) 104.
294
AIMC X/411, n.6: Diário da Missão de Mepanhira, p. 19
Na relação anual de 1946, o P.e Domingos Ferrero, superior dos Missionários da Consolata
e arcipreste para o Niassa, informava a Santa Sé da origem e primeiros passos desta importante
iniciativa295. No dia 19 de Março de 1947, mais duas jovens entravam para fazer parte do grupo das
aspirantes. Em seguida, o P.e Ferrero pediu autorização ao bispo de Nampula para iniciar esta
congregação de irmãs diocesanas nativas. D. Teófilo de Andrade autorizou-o a organizar e
acompanhar a nova congregação e aprovou as constituições que o mesmo redigira. No dia 8 de
Dezembro de 1947, sob a protecção da Imaculada Conceição, titular e padroeira, iniciou-se
oficialmente o Instituto das Irmãs da Imaculada Conceição. Depois de três anos de preparação, um
grupo de sete jovens deu entrada no postulantado. A Ir. Antida Castino foi encarregada da formação
das postulantes, sob a dependência do P.e Ferrero296.
Depois de um ano de postulantado, este primeiro grupo deu início ao noviciado. No dia 8 de
Dezembro de 1948, na Igreja provisória de S. Teresa do Menino Jesus em Mepanhira, realizou-se a
cerimónia da vestição religiosa do primeiro grupo de noviças: Teófila Mirole, Margarida Munúkua,
Maria dos Anjos Malessani, Inês Munúkua, Gaudência Palombe e Florência Mirole. Para a
cerimónia foram convidados os católicos das escolas-capela da missão e foram muitos os que
acorreram. Estava presente na celebração o Superior Geral dos Missionários da Consolata, P.e
Gaudêncio Barlassina, que efectuava a visita canónica aos missionários operantes no Niassa. As
jovens aspirantes tinham sido preparadas pelas irmãs da Consolata, responsáveis pela sua
formação297. No mesmo dia, outras cinco aspirantes iniciavam o postulantado: Madalena Mulima,
Teresa Malessani, Serafina Mape, Águeda Macengua e Bona Munúkua.
Durante o noviciado, o P.e Guido Gobbo, substituto do P.e Abondio na direcção da missão,
fazia diariamente uma conferência às noviças, tratando o tema dos votos religiosos e deixando à
irmã Antida, mestra das noviças, a explicação das constituições e do regulamento.
No dia 20 de Setembro de 1951, depois de três anos de noviciado, as seis primeiras noviças
consagram-se a Deus com a emissão da profissão religiosa. Eram as primeiras religiosas da primeira
congregação moçambicana298. A celebração foi presidida por D. Manuel de Medeiros Guerreiro,
bispo de Nampula. Como pastor, durante a homília, manifestou a sua alegria ao ver a Igreja
enriquecida com tal dom. Depois da celebração, D. Manuel elegeu a Madre Geral da nova
congregação, na pessoa da Ir. Generosa Bugatti, e as conselheiras: Ir. Antida Castino, mestra das
noviças, Ir. Rosangela Bresciani, Ir. Dolores Cozzi e Ir. Eva Negro, todas missionárias da
Consolata. Em 1954, a Ir. Generosa deixou a missão de Mepanhira e o cargo de Madre Geral, que
por vontade do bispo, passou para a Ir. Amabile Fagnani, Superiora Delegada das Missionárias da
Consolata no Niassa. Em 1955, foi a vez da Ir. Antida Castino ser substituída pela Ir. Eva Negro.
No dia 21 de Janeiro de 1952, as Irmãs da Imaculada Conceição receberam as constituições
revistas pelo ordinário diocesano. No dia 20 de Setembro de 1954, em pleno Ano Mariano, o
segundo grupo de noviças emitiu a sua profissão religiosa: Ir. Manuela Milima, Teresa Mape,
Gabriela Malessani, Angélica Mape e Carmela Munúkua. A partir de 1954, cada grupo de noviças
emitia a primeira profissão religiosa e a pouco e pouco a comunidade das Irmãs da Imaculada
Conceição cresceu e ganhou uma fisionomia própria. Pela primeira vez em 20 de Setembro de 1960
emitiram os votos perpétuos as primeiras cinco irmãs da congregação: irmãs Teófila Mirole,
Margarida Munúkua, Inês Munúkua, Gaudência Palombe e Florência Mirole.
Em 20 de Setembro de 1955, sob proposta do Superior Geral dos Missionários da Consolata,
P.e Domingos Fiorina, o bispo de Nampula confiou a formação das irmãs diocesanas,

295
AIMC VIII/7 1946 n. 47: Relatório anexo ao prospecto do estado das missões do “Arciprestado dos Padres da
Consolata" na diocese de Nampula: Mitúcue, 1-1-1947.
296
O P.e Domingos Ferrero, no relatório desse ano, informou a Santa Sé deste importante acontecimento: Cf.
AIMC VIII/7 1947: Relatório anexo ao prospecto do estado das missões do “Arciprestado dos Padres da Consolata"
na Diocese de Nampula: Mitúcue, 20-1-1948.
297
Cf. D. FERRERO, Le Prime Suore Indigene della Diocesi di Nampula: Missioni Consolata (1949/6) 123.
298
O rito da primeira Profissão foi precedida pelo rito de tomada de hábito de cinco postulantes: Manuela Milima,
Teresa Mape, Gabriela Malessani, Angélica Mape e Carmela Munúkua, as quais foram admitidas ao noviciado.
exclusivamente às Missionárias da Consolata. Em 1961 a Ir. Eva Negro foi substituída pela Ir.
Nicoletta Berrone no encargo de Mestra das Noviças e superiora do convento de Mepanhira. Em
Setembro desse ano, D. Manuel Medeiros aceitou a sugestão da Madre Geral, Ir. Amabile Fagnani,
para que as irmãs fossem destinadas a outras missões para fazerem o tirocínio pastoral. Assim, no
dia 11 de Outubro de 1961, sob a guia das Missionárias da Consolata, as primeiras quatro irmãs
foram destinadas à missão de Mitúcue para ficarem encarregues da assistência no internato
feminino, ensino e dispensário. Foi também estabelecido que durante as férias deveriam regressar,
por um mês, à Casa Mãe de Mepanhira para os exercícios espirituais e contacto com a sua
comunidade.
Com o fim genérico de colaborar na evangelização e educação, desde o início se
providenciou à sua preparação intelectual e prática de modo a desempenharem bem a sua pastoral.
Depois da criação da Escola Normal feminina, em Nampula, para a preparação de professoras, o
bispo determinou que algumas se preparassem para obter o diploma de professoras. As primeiras
quatro irmãs entraram nesta escola em 1959.
Mais tarde, o novo bispo da Diocese de Vila Cabral, Dom Eurico Dias Nogueira, procedeu
ao exame das constituições e regulamento para efectuar a sua promulgação definitiva e obter a
completa autonomia da congregação diocesana da Imaculada Conceição. Entretanto, o bispo
confiou a direcção da congregação à Ir. Nicoletta Berrone, em substituição da Ir. Amabile Fagnani,
dando-lhe como conselheiras duas irmãs moçambicanas, nomeadamente a Ir. Gaudência Palombe e
a Ir. Madalena Apili.
Na vigília da independência, entre 31 de Julho e 4 de Agosto de 1974, as Irmãs da
Imaculada Conceição reuniram-se em Nova Freixo para reflectir sobre a renovação da vida religiosa
da congregação. Estavam presentes o novo bispo, D. Luís Gonzaga Ferreira da Silva, todas as irmãs
da congregação, e a irmãs Maria Pia Tambosi e Fida Boccolari, missionárias da Consolata.
Reflectiu-se sobre a vida religiosa em geral, natureza e fim da congregação, conselhos evangélicos,
vida comum e oração, formação humana, formação religiosa e organização da congregação. Nesta
data foi eleito o novo conselho da congregação, totalmente moçambicano, com a Ir. Madalena
Apili, superiora geral, Ir. Manuela Graciano, 1ª conselheira, Ir. Cristina Jaime, 2ª conselheira e
mestra das noviças, Ir. Carmela Munúkua, 3ª conselheira, Ir. Teófila Luciano Mirole, 4ª conselheira
e Ir. Maria Domingas João, ecónoma.

10.3. A formação de missionários da Consolata moçambicanos


A sensibilidade em prol da promoção das vocações locais esteve sempre presente nos primeiros
missionários, sobretudo no Niassa, com os seminários de Unango e Massangulo. A possibilidade
de, um dia, se formarem missionários da Consolata nativos, padres e irmãos, sempre pairou no
horizonte. Já em 1937, na missão de Massangulo, se encontrava entre os vocacionados um jovem
que desejava ser missionário da Consolata. O P. Vitor Sandrone, então superior de Massangulo,
achou conveniente interpelar o Superior Geral sobre a vantagem em cultivar esta vocação para o
Instituto, manifestando o interesse em promover vocações locais e, mais tarde, enviá-las a estudar
na Europa299. A sua intuição é profética! É, certamente, um dos primeiros testemunhos de uma
possível internacionalização do Instituto, através da aceitação de vocações não italianas. É bom
recordar que, nesta data, o P. Sandrone era superior delegado do Niassa, além de ser um dos
conselheiros gerais do Instituto, o que dava mais valor e credibilidade à sua proposta.

10.3.1. Os primeiros seminaristas e ordenações sacerdotais


A concretização deste projecto teve início quando um ex-aluno da missão de Massangulo,
Filipe José Couto, foi enviado para o seminário da Consolata de Fátima (Portugal), para aí começar
a sua formação sacerdotal. Em Maio de 1958, o P. Wegher pedia autorização ao Superior Regional,
P. Aldo Mongiano, para enviar o jovem Filipe Couto para o seminário do Instituto em Fátima para

299
AIMC IV/4 1937 n. 216: Carta de P. Victor Sandrone a P. Gaudêncio Barlassina, Massangulo, 19-6-1937.
se preparar para ser missionário. Consultado, o Superior Geral, P. Fiorina, deu a sua autorização.
Depois dos estudos em Fátima, Filipe Couto seguiu para a Itália onde fez o ano de noviciado, tendo
emitido a primeira profissão religiosa em 2 de Outubro de 1963. Em seguida estudou Filosofia em
Roma e Teologia na Alemanha. Foi ordenado sacerdote no dia 21 de Dezembro de 1969, em Vila
Cabral, por D. Eurico Dias Nogueira. No dia 17 de Outubro de 1963 partiam para Portugal mais
dois jovens moçambicanos: João da Silva Viana Cossa e Carlos Machili. João Cossa tinha 23 anos,
era oriundo da paróquia da Machava e estudava na Escola Industrial de Lourenço Marques. Carlos
Machili, anglicano convertido ao catolicismo, era originário da missão de Cobué e entrara no
seminário diocesano de Nampula, porque o Instituto ainda não tinha seminário próprio em
Moçambique. Nenhum dos dois chegou ao sacerdócio.
O primeiro moçambicano a ser ordenado sacerdote missionário da Consolata foi o P.e
Amândio Dide Munguambe, natural de Inhambane. Entrou no Instituto em 1964, vindo
directamente do seminário maior de Lourenço Marques, já estudante de Teologia. Foi enviado de
seguida para a Itália onde fez o noviciado e emitiu a primeira profissão a 2 de Outubro de 1965. Um
ano depois, a 18 de Dezembro de 1966, foi ordenado sacerdote. Continuou em Itália e especializou-
se em música sagrada, com uma tese sobre a música chope. Em 1971 os superiores insistem para
que ele venha para Moçambique, para trabalhar na Diocese de Inhambane, proposta que o mesmo
não aceitou. Em seguida foi destinado pelos superiores para o Brasil.

10.3.2. A experiência dos Irmãos Oblatos da Consolata


A experiência dos Irmãos Oblatos da Consolata tem uma longa e atribulada história. Antes
de 1960, o P. Domingos Ferrero acompanhava o caminho vocacional de um jovem chamado Rafael
Ruxula, que queria ser irmão missionário da Consolata. O novo superior da delegação do Niassa, P.
Eugénio Menegon, achou interessante a ideia e favoreceu a aceitação de outros candidatos.
Entretanto, o Conselho Regional, reunido na Machava de 27 a 29 de Agosto de 1964, considerou a
incorporação dos irmãos oblatos uma iniciativa prematura, excluindo a possibilidade de iniciar uma
nova congregação. A principal razão desta decisão era o período prolongado de votos temporários,
não previsto nas constituições dos Missinários da Consolata. A solução intermédia foi criar um
grupo de pessoas associadas ao Instituto, que tinham uma participação nos bens espirituais e uma
vida privada de dedicação à causa missionária. Os Irmãos Oblatos da Consolata receberam um
regulamento próprio que definia a sua vida comunitária, com voto temporário de obediência e
dedicação ao apostolado. O período de formação passaria a ser constituído pelo postulantado,
noviciado e três anos de prova com juramento anual. Em seguida, os que se demonstrassem ter uma
vocação sólida, seriam admitidos no Instituto.
O Ir. Alexandre Moura Valente foi escolhido como formador e os primeiros vocacionados
iniciaram a sua formação na missão de Massangulo, onde era mais fácil prepará-los com estudos e
trabalho prático300. Em seguida, este grupo foi transferido para a missão de Mitúcue para fazer o
noviciado. Eram chamados Oblatos da Consolata, copiando o nome da tradição beneditina, na
expectativa que a experiência amadurecesse e se tornassem membros efectivos do Instituto
Missionários da Consolata. Dois anos após a tomada de hábito religioso, o grupo fez os três votos
de consagração a Deus com base num regulamento para isso elaborado. Para completar a
experiência, o grupo foi dividido: alguns permaneceram na missão de Mitúcue, outros foram
enviados para as missões do Niassa.
Esta iniciativa de formação de irmãos missionários não teve o sucesso esperado, sobretudo
por causa do método formativo inadequado e pelo facto de os candidatos verem frustradas as suas
expectativas. Estes jovens desejavam ser membros efectivos do Instituto enquanto se caminhava no
sentido de formar outra congregação. Parte dos irmãos oblatos acabaram por desistir e os dois que
restaram, entraram em 1971 no noviciado de Unango, onde professaram como membros do

300
Verbal da Reunião do Conselho Regional: Machava, 27-29 de Agosto de 1964: ArqRegMoç, B 12. p.2.
Instituto. Com a independência a experiência terminou, pois os irmãos professos acabaram por
abandonar a vida religiosa301.

10.3.3. O incremento da animação vocacional


A partir dos anos 60 foi amadurecendo o projecto de abertura de um seminário do Instituto
Missões Consolata, em Moçambique. O lugar mais favorável era Lourenço Marques, contudo, em
1964, o Conselho Regional adiou a realização do projecto por considerar que não estavam reunidas
as condições necessárias. Faltava, sobretudo, um padre preparado para assumir a formação de
missionários da Consolata moçambicanos. Enquanto tais premissas não fossem completadas, os
candidatos ao sacerdócio continuariam a ser enviados para o seminário de Fátima 302.
Apesar do interesse e esforço realizado em Moçambique, o Instituto era carente em meios e em
pessoal no sector da formação. Faltava uma animação vocacional propriamente dita! Por isso, em
1970, durante a sua visita canónica, o Superior Geral, P. Mário Bianchi, insistiu que fosse prestada
mais atenção à animação vocacional, admitindo e apoiando os jovens que desejassem pertencer ao
Instituto. Além da constituição do secretariado vocacional, sugeriu a abertura de uma casa de
formação em Lourenço Marques, onde a existência de escolas em todos os níveis facilitaria os
estudos303. Em 1971 foi criado o secretariado vocacional para promover as vocações locais e o seu
responsável era o P. Aldo Mongiano. O secretariado tinha a finalidade de despertar vocações entre
os jovens e constituir centros de promoção vocacional (dioceses de Vila Cabral, Inhambane e
Lourenço Marques) para assistir os jovens estudantes, até ao 5º ano do liceu, que davam esperança
de vocação. Foram nomeados promotores vocacionais para Vila Cabral, Inhambane e Nova Freixo
que, em colaboração com o P. Mongiano, acompanhariam os jovens no discernimento vocacional e
formação. A acção formativa estava orientada para a formação humana e espiritual de consagrados
e sacerdotes missionários304.

10.3.4.O Lar Missionário e o Noviciado de Unango


No dia 7 de Setembro de 1971, foi inaugurado o primeiro seminário da Consolata em
Moçambique, chamado Lar Missionário, localizado na rua Fernão Veloso (Lourenço Marques). O
P. Aldo Mongiano, director do secretariado vocacional, foi nomeado responsável do seminário305.
Eram quatro, os primeiros alunos admitidos: Albasino Notiço, Domingos António José, Gil Estevão
Nhantumbo e Mário Arnaldo Quissimuço; os três primeiros frequentavam o 4º ano no Colégio Pio
XII e o último frequentava o 3ºano no Liceu Salazar.
O Conselho Regional, em reunião de 27 de Setembro de 1974, nomeou como novo encarregado
da animação missionária o P. Norberto Louro, e como animadores vocacionais o P. Alfredo Dias
Dionísio (Inhambane) e os padres António Gaspar (Lourenço Marques) e José Rocha Martins
(Niassa)
Com o decreto de 12 de Agosto de 1971 foi canonicamente erigido o noviciado dos
Missionários da Consolata em Moçambique, na Missão de Santo António de Unango, ficando como
mestre o P. Mário Teodori, superior da missão. Nesse ano foram admitidos três postulantes ao
noviciado: o clérigo Brazão Mazula e os irmãos Fernando Laina e Alberto Manjoro306. O clérigo
Mazula terminara já os estudos teológicos no seminário de Lourenço Marques e os dois irmãos

301
Cf. E. MENEGON, Appunti relativi ad una esperienza di fratelli in Mozambico-Delegazione Niassa. Anni 1960-
1970 (Loria, 1988) 1-2.
302
Cf. Verbal da Reunião do Conselho Regional: Machava, 27-29 de Agosto de 1964: ArqRegMoç, B. 12. p. 3.
303
Cf. Actas da reunião dos missionários de Lourenço Marques com o Superior Geral. Lourenço Marques, 23-5-
1970: ArqRegMoç B. 13, n. 150; Actas da reunião dos missionários do sul do Niassa com o Superior Geral. Mitúcue,
6-6-1970: ArqRegMoç B. 13, n. 152; Actas da reunião dos missionários do norte do Niassa com o Superior Geral. Vila
Cabral, 8-6-1970: ArqRegMoç B. 13, n. 151.
304
Cf. Verbal das reuniões do Conselho Regional. Lourenço Marques, 23-30/10/1971: ArqRegMoç R. 3, pp. 7-8.
305
Cf. Carta do P. José Paleari, Superior Regional, ao P. Mário Bianchi, Superior Geral. Lourenço Marques, 4-
11-1971: ArqRegMoç B. 13, n. 167.
306
Cf. Verbal das reuniões do Conselho Regional. Lourenço Marques, 23-30/10/1971: ArqRegMoç R. 3, p. 6.
eram do grupo dos irmãos oblatos da Consolata. O noviciado teve início no dia 7 de Novembro de
1971.
Concluído o noviciado, o diácono Brazão Mazula foi ordenado sacerdote no dia 7 de Janeiro de
1973 na igreja anglicana de Messumba, onde tinha sido baptizado. Foi um acontecimento
significativo do ponto de vista missionário e ecuménico. Participaram católicos e anglicanos e o
bispo anglicano permitiu que os seus fiéis fizessem a comunhão juntamente com os católicos.

10.3.5. Reabertura dos seminários no pós-independência


Esta experiência de formação para a vida consagrada e sacerdotal foi interrompida com a
independência e consequente encerramento dos seminários. Foi necessário esperar um decénio para
retomar o trabalho de formação de missionários moçambicanos. O Superior Geral, P. José
Inverardi, na visita canónica que realizou em 1984 à Região de Moçambique, abordou os
missionários sobre a questão das vocações e a possibilidade do Instituto abrir um seminário para os
jovens que desejassem seguir a vocação missionária. A IIIª Conferência Regional (1985)
determinou que a animação vocacional voltasse a ser uma realidade para o Instituto. Deveria ser
realizada no contexto da Igreja local, dando prioridade às vocações para o clero local. Foi nomeado
o P. Adelino da Conceição como responsável da animação vocacional, com a tarefa de abrir o
seminário logo que houvesse candidatos que correspondessem às exigências. Entretanto, cada
comunidade acompanharia os jovens que manifestassem querer seguir o carisma do Instituto. Em
1987, o P. Adelino iniciou o seminário nos anexos da paróquia da Machava, onde foram acolhidos
os oito primeiros seminaristas provenientes de várias províncias. Eram as primícias da segunda
primavera vocacional IMC em Moçambique. O Seminário Nossa Senhora da Consolata da Machava
foi inaugurado no dia 16 de Fevereiro de 1988307.
Em 1990 iniciou-se a construção do novo seminário da Matola e em 1992 abandonaram-se
as instalações provisórias da paróquia da Machava, onde funcionou o seminário durante os seus
primeiros quatro anos de existência. Com esta mudança foi nomeado um novo formador, na pessoa
do P. Francisco Lerma. Nesse mesmo ano, com o objectivo de separar o seminário médio do
seminário filosófico e descentralizar a formação, iniciou-se a construção do seminário médio José
Allamano, em Nampula. Foi inaugurado em 1993, e o seu primeiro formador foi o P. Élio Rama.
Ainda em 1993, foi inaugurado o noviciado continental São Paulo de Laulane (Maputo), que
passaria a acolher os noviços moçambicanos, sul-africanos, congoleses, tanzanianos e quenianos. O
primeiro mestre de noviços foi o P. Norberto Louro, substituído em 1999 pelo P. João Nascimento.
No dia 8 de Dezembro de 1998, em Cabo Delgado, era ordenado sacerdote o primeiro
missionário da Consolata do pós-independência: o P. Inácio Saure. Seguiram-se as ordenações do P.
Jorge Guilherme Nampape (1999), P. Valentim Camale e P. Pedro Sisto Carrau (2000).

11. Relação dos missionários com as outras forças religiosas

A partir do Concílio Vaticano II, inspirando-se nos decretos Ad Gentes sobre a actividade
missionária, Unitatis Redintegratio sobre o diálogo ecuménico e na declaração Nostra Aetate sobre
o diálogo inter-religioso, os missionários tornaram-se promotores do diálogo com as outras igrejas
cristãs e com os muçulmanos. O Niassa, com o seu multifacetado contexto religioso, foi sem dúvida
a região onde se realizou o maior número de experiências e com bons resultados. Os primeiros
missionários tinham já desbravado este terreno. A credibilidade moral do P. Pedro Calandri, a quem
chamavam Bwanacilimba (homem de coração forte), teve uma grande influência sobre os
muçulmanos ayao. Defendeu-os até ao extremo, contra as injustiças das autoridades coloniais e
agentes do algodão. A sua amizade e o seu relacionamento com os missionários anglicanos também
eram bem conhecidos por todos.

307
Cf. A. CONÇEIÇÃO FRANCISCO, O Seminário IMC: Encontro n.36 (1988) 13-17.
11. 1. O Islamismo
11.1.1. A presença e influência muçulmana no Niassa
A islamização do Niassa teve início no século XIX, sobretudo através dos contactos comerciais
com a população muçulmana do litoral. De facto, os comerciantes árabes de marfim e de escravos
penetraram no Niassa e com facilidade islamizaram a população ayao e parte da população macua que,
308
seguindo o exemplo dos chefes, considerava a religião islâmica muito fácil e cómoda .
Após a chegada ao Niassa, percorrendo todo o território, os Missionários da Consolata
verificaram com os próprios olhos a crescente islamização da população ayao, anyanja e macua, até há
poucos anos ainda pagãs. Embora o islamismo tenha penetrado na cultura, assimilando os costumes,
muitos muçulmanos (sobretudo entre a população macua) só o eram aparentemente, sendo mais lógico
chamá-los islamizados. Assumiram, essencialmente, a parte litúrgico-formal do islamismo - jejum,
oração e purificações - conservando a antiga crença nos antepassados, o direito e a moral. Não houve
portanto, uma verdadeira conversão. Houve, sim, uma profunda influência que criou um sincretismo
309
religioso, uma religião híbrida .
Em oposição à religião tradicional que tem uma dimensão estritamente familiar, o triunfo do
islamismo deveu-se principalmente à sua característica de religião universal, colectiva e aglutinadora,
que interligou um povo dividido, plasmando um corpo social que os chefes políticos raramente
conseguiram estabelecer. Percebe-se assim a dificuldade que um muçulmano tem em deixar a sua
religião para se converter ao cristianismo.

11.1.2. As dificuldades no relacionamento entre missionários e muçulmanos


Os inícios da missionação católica do Niassa foram difíceis. Aquando da fundação da missão de
Massangulo (1928), os missionários experimentaram a adversidade dos muçulmanos ayao, pois não
queriam outra religião entre eles. Passados os primeiros anos, a atitude adversa da população em relação
à missão e aos missionários mudou.
Depois da fundação da missão de Massangulo, os Missionários da Consolata pretendiam fundar
outras missões entre a população macua e anyanja, de modo a bloquear a influência muçulmana. Por
questões burocráticas e conflitos de interesse político-eclesiástico, não foi possível concretizar de
310
imediato este projecto . Com a chegada do novo Bispo, Dom Teodósio Gouveia, que compreendeu as
justas motivações apostólicas dos missionários, a situação desbloqueou-se e estes puderam fundar as
primeiras missões entre o povo macua.
A primeira missão entre a população macua surgiu em Mepanhira, bem no sul do Niassa, entre
a população pagã. Em seguida foram fundadas outras missões mais para norte, em regiões onde a
presença muçulmana era consistente, casos de Mitúcue (1939), Maúa (1940), Maiaca (1947),
Marrupa (1965), Nipepe (1967), etc.
Nestas missões, as conversões de muçulmanos adultos eram raras. Sempre que os missionários
faziam a proposta do Baptismo, escutavam frequentemente o mesmo refrão “Nós já somos velhos,
continuamos na nossa religião, mas os nossos filhos que frequentam a escola católica são livres de
abraçar a vossa religião”. De facto, graças à influência da escola, alguns jovens de famílias
muçulmanas aceitaram receber o Baptismo. Na região das missões de Maúa e de Maiaca, por exemplo,
o pai reservava o primogénito para seguir a sua religião, deixando os outros filhos frequentar as escolas
311
da missão e, se desejassem, deixava-os ingressar no catecumenado e receber o Baptismo .
Embora alguns muçulmanos temessem a influência da escola sobre os jovens, considerando-a um
instrumento de propaganda católica, pode-se afirmar globalmente que a relação entre as missões e os

308
Cf. F. J. PEIRONE, A tribo Ajaua do alto Niassa e alguns aspectos da sua problemática neo-islâmica (Lisboa,
1967) 37-50; L. WEGHER, Um olhar sobre o Niassa, vol. I (Maputo, 1995) 295-317.
309
P. CALANDRI, Gli Ayao e il musulmanesimo (Massangulo, 1931) 1: AIMC XIII/389.
310
No relatório anual enviado a Roma, o P. Pedro Calandri alertava para a urgente necessidade de fundar uma
missão entre o povo macua para impedir a sua crescente islamização. AIMC VIII/7 1934, n. 2: Relatório anual do
estado da Missão de Nossa Senhora da Consolata de Massangulo à S. Congregação "Propaganda Fide": Massangulo,
5-7-1935.
311
D. FERRERO, Missioni cattoliche e Islamismo: Missioni Consolata (1956/3) 63.
muçulmanos era cordial e pacífica. Os missionários apreciavam a laboriosidade e fidelidade dos
312
trabalhadores muçulmanos e estes a sua generosidade .
Para esta relação contribuíram gestos de estima recíproca, trocados em diversas situações.
Significativo foi o gesto de Dom Eurico Dias Nogueira, primeiro bispo da Diocese de Vila Cabral, ao
dirigir uma Carta Fraterna (1966) aos muçulmanos do Niassa, na qual acentuava os traços de união
313
religiosa entre cristãos e muçulmanos, isto é, os pontos de contacto entre o Evangelho e o Alcorão . A
carta teve um bom acolhimento entre a comunidade muçulmana e foi muito apreciada. As relações
amistosas continuaram durante o seu governo pastoral e o do seu sucessor, Dom Luís Ferreira da Silva.

11. 2. Protestantes
11.2.1. Notas históricas sobre a evangelização e presença protestantes
Os primeiros evangelizadores do Niassa eram anglicanos. Em meados do século XIX, os
missionários da U.M.C.A. (Universities Mission Central Africa), seguindo os passos do pastor David
Livingstone, penetraram no Niassalândia (actual Malawi), no sul e oeste do Lago Niassa, no Zambeze e
no Shire. Mas, devido às lutas entre angones e ayaos e às febres que faziam grande mortandade, tinham-
se retirado em 1860. Mais tarde, partindo de Zanzibar, atravessaram o Rovuma, falaram com o régulo
Mataka em Muembe e chegaram ao Lago Niassa, a Chiteje. Instalaram-se na Ilha de Likoma, em frente
de Cobué (10 km), e dali evangelizaram a parte oriental do Niassa, fundando missões e escolas. Era ali
que residia o bispo anglicano com jurisdição sobre o Niassalândia, parte do Tanganica e Niassa. Os
missionários anglicanos E. Steere, A. Smythies e W. P. Johnson fundaram em 1880 a Missão de
Messumba, a 10 km de Metangula. Com o tempo surgiram as missões secundárias de Metónia, Unango,
314
Ngoo, Chiteje e um número grande de capelas e escolas .
A partir de 1920 outras igrejas não-católicas, como a Igreja Baptista e a Igreja Evangélica,
iniciaram a sua acção evangelizadora no sul do Niassa entre a população macua, a partir das missões
situadas na Zambézia e no Niassalândia.
Uma vez que os missionários protestantes de origem europeia eram considerados indesejáveis
pelas autoridades portuguesas, por serem acusados de defensores dos interesses ingleses, estes
missionários formavam pastores locais para evangelizar a população, através da abertura de escolas e
capelas nas povoações.

11.2.2. Relação dos Missionários da Consolata com os protestantes


Como em todo o continente africano, a evangelização em Moçambique é, em parte, o resultado
de uma missão disputada. Iniciada nos finais do século XIX, esta concorrência era protagonizada por
sociedades e congregações missionárias protestantes e católicas em que cada uma procurava o seu
espaço de influência. Na entrada do século XX, as missões católicas e protestantes contrapunham-se
num clima de luta de influência, marcado muitas vezes por um espírito de hostilidade e desconfiança
315
recíproca .
Só mais tarde os evangelizadores se aperceberam do contra-testemunho derivante desta
mentalidade separatista e pouco fraterna. Com os anos surgiu a necessidade de estabelecer as bases para
um diálogo e cooperação mútua a nível intereclesial e, sobretudo, depois dos anos 40, formou-se um
clima ecuménico que deu muitos frutos. Um dos principais protagonistas do ecumenismo prático-
vivencial foi o P. Eugénio Menegon, entre a população anyanja anglicana. Desbravou o terreno onde D.
Eurico Dias Nogueira, presidente da Comissão Episcopal do Ecumenismo, plantou a semente que
produziu os bons frutos da tolerância e colaboração recíproca. Foram construídas igrejas que serviam

312
D. FERRERO, Missioni cattoliche e Islamismo: Missioni Consolata (1956/3) 63.
313
E. DIAS NOGUEIRA, Carta Fraterna aos Muçulmanos: Missão em Moçambique (Vila Cabral, 1970) 70-81.
314
Cf. G. H. WILSON, The History of the Universities’ Mission to Central Africa, UMCA (London, 1936); R.
STUART, Os Nyanja, o UMCA e a Companhia do Niassa: 1880-1930: Revista Internacional de Estudos Africanos 3
(1985) 9-41.
315
No relatório enviado à Santa Sé, o P. Gabriel Quaglia informava que a recém-fundada missão de Mepanhira,
além de potencializar a acção evangelizadora católica entre o povo macua, contribuiria para neutralizar a presença
protestante. AIMC VIII/7 1938 n. 2: Relatório anual do estado da Missão de Nossa Senhora da Consolata de
Massangulo - Niassa Português à Congregação dos Negócios Eclesiásticos Extraordinários. Massangulo, 5-12-1938.
para o culto católico e anglicano (exemplo de Massengere e Luiça) e houve até retiros para
sacerdotes anglicanos e católicos, orientados pelo vigário geral da diocese.
Também os missionários presentes no sul de Moçambique tiveram que conviver com as igrejas
protestantes, que chegaram no princípio do século XX. No início dos anos 40, as relações eram
poucos fraternas, mas o ambiente mudou no pós-concílio. Em Julho de 1971, a equipa missionária
da missão de Massinga organizou um encontro ecuménico com os pastores das igrejas protestantes
das zonas limítrofes, experiência que se repetiu alguns dias depois em Anhane, sede distrital da
Igreja Metodista Episcopal Unida. No culto intervieram o P. Emanuel Maggioni com a pregação e o
P. Mauro Calderoni com a oração. Todos ficaram contentes com este momento ecuménico que
apagava tantas incompreensões e abria um caminho novo de relacionamento316.
Hoje, o diálogo e a colaboração ecuménica têm-se consolidado na dioocese de Inhambane. No
campo bíblico, por exemplo, o Centro de Promoção Humana do Guiúa colabora com a Sociedade
bíblica nas traduções da Bíblia em Gitonga e Cichope, e na revisão da tradução da Bíblia em
Xitshwa, através do trabalho dos membros da comissão diocesana de tradução.

316
Cf. Massinga. Noticiário: Encontro n. 2 (1971) 3-4.
CONCLUSÃO

RECORDAR É VIVER

Os 75 anos da presença em Moçambique dos missionários da Consolata (1925-2000)

Grande data recordamos


Com sincera gratidão:
Não se pode cancelar
Da História da Missão.

O Instituto comemora
Neste ano feliz:
“Os 75 anos
da presença no País”.

Houve rosas, houve espinhos


No caminho da Missão.
E triunfos e derrotas,
ditadura, escravidão!…

Houve guerras e guerrilhas,


terrorismo a valer…
o que hoje infelizmente,
continuamos a sofrer!

Recordar é viver
O labor dos “Pioneiros”;
os suores, até o sangue
dos gloriosos Mensageiros!

Semearam a semente
Em terrenos muito duros;
nós herdamos, nós colhemos
os seus frutos já maduros.

O exemplo luminoso
Desses nossos Pioneiros
De “Justiça, Paz e Amor”
Faz de nós os Mensageiros.

Estimulam-nos à luta
Contra o mal, a tirania;
pois lutaram e sofreram
pela Paz e harmonia.

Foi heróica caminhada


que a Missão soube fazer…
foram obras, conversões
e progressos a valer.
Nossa acção evangeliza
sem limites e fronteiras.
São os nossos fundadores
Que nos dão pistas certeiras.

Não faz mal se a gente


Tudo isto desconhece…
O Apóstolo de Cristo
nem por isso desfalece.

Meus Confrades Missionários,


demos graças ao Senhor;
continuemos as tarefas
que herdámos, com amor.

Só unidos no trabalho
Forjaremos mundo novo.
Trabalhemos sem descanso
Pelo bem do nosso povo.

Canta Niassa, Moçambique,


os que aqui por ti tombaram!
Também eles são Heróis
duma Pátria que salvaram!

Verde Niassa, não esqueças,


os seus nomes são gloriosos!
Fé te deram, Redenção:
todos bens muito preciosos!

Sempre avante, com coragem;


cantaremos a vitória;
os suores, as fadigas
tecerão coroa de glória!

Sempre avante na certeza


De que Cristo vencerá.
Cristo reina, Cristo impera,
nossa glória Ele será.

Viva, viva a Consolata


que nos sempre acompanhou!
Viva, viva o Allamano
Que seus filhos enviou!

Consolata, Virgem Santa,


és a nossa Salvadora;
dos Teus filhos és Guarida,
sempre Mãe Consoladora!

P.e Luís Wegher


APÊNDICE

DATAS PRINCIPAIS
PARA A HISTÓRIA DA EVANGELIZAÇÃO
DOS MISSIONÁRIOS DA CONSOLATA EM MOÇAMBIQUE (1925-2000).

1º Período (1925-1935): de Tete ao Niassa. A incerteza e as dificuldades de


uma presença missionária não desejada

Preparativos para a entrada em Moçambique

10-8-1924: D. Filipe Perlo, Superior Geral dos Missionários da Consolata, ordenou ao P.e
João Chiomio e ao P.e Luís Perlo, missionários no Quénia, que façam uma viagem de estudo
a Moçambique.
5-4-1925: O P.e Luís Perlo chega a Lourenço Marques (Maputo) e encontra-se com D. Rafael
Assunção, prelado de Moçambique, ao qual apresenta um plano de evangelização. Obtém do
Bispo a autorização de entrada dos Missionários da Consolata em Moçambique (6-4-1925).
3-7-1925: A Congregação de Propaganda Fide autoriza a entrada dos Missionários da
Consolata em Moçambique.
29-8-1925: D. Filipe Perlo escolhe os 8 missionários da Consolata que o Instituto enviaria
para Moçambique: P.e Vítor Sandrone (superior), Júlio Peyrani, Pedro Calandri, João
Chiomio, P.e Paulo Borello, P.e Lourenço Sperta, seminarista Segundo Ghiglia.e o Ir. José
Benedetto.
14-9-1925: O Beato José Allamano, fundador dos Missionários da Consolata, faz a entrega do
crucifixo aos três missionários que partem de Turim para Moçambique.

Missão de Miruru-Tete
30-10-1925: O primeiro grupo de Missionários da Consolata provenientes de Turim - P.e
Borello, P.e L. Sperta, seminarista S. Ghiglia, juntamente com P. G. Chiomio (vindo do
Quénia) - desembarca no porto da Beira.
23-11-1925: Os quatro Missionários provenientes do Quénia – P.e V. Sandrone, P.e G.
Peyrani, P.e P. Calandri e Ir. J. Benedetto – desembarcam no porto da Beira.
6-3-1926: Os primeiros Missionários da Consolata chegam à missão de S. Pedro Claver de
Miruru
18-9-1927: O primeiro grupo de Missionárias da Consolata (7 irmãs) chegou à missão do
Miruru.
25-10-1930: A autoridade eclesiástica decide retirar os missionários da missão de Miruru.

Missão de Massangulo
4-7-1926: Os padres Pedro Calandri e José Amiotti chegam a Mandimba (Niassa).
20-5-1928: O P.e P. Calandri funda a missão de Nossa Senhora da Consolata de Massangulo
entre o povo Ayao.
31-12-1928: Chegada à Missão de Massangulo do primeiro grupo de Missionárias da
Consolata.

2º Período (1936-1950): Alargamento do campo Apostólico e fundação das


primeiras missões no Niassa e no Sul do Save (Inhambane e Lourenço
Marques)

Evangelização IMC no Niassa (1926-1950)


31-11-1938: Fundação da Missão de Santa Teresinha do Menino Jesus de Mepanhira.
26-7-1939: Chegada do primeiro grupo de Missionárias da Consolata à Missão de Mepanhira.
31-7-1939: Os padres Luís Bosio e Mário Casanova fundam a Missão de São José de
Mitúcue.
21-11-1939: Chegada do P.e Domingos Ferrero, Superior Delegado dos Missionários da
Consolata do Niassa.
11-7-1940: O P.e Gabriel Quaglia e o Ir. Bartolomeu Liberini inicíam à fundação da missão
do Sagrado Coração de Jesus de Maúa.
10-11-1941: Tomada de posse D. Teófilo de Andrade, do primeiro bispo da diocese de
Nampula.
10-6-1943: Início da presença dos Missionários da Consolata em Portugal.
8-9-1945: Consagração da igreja de S. José de Mitúcue.
31-7-1946: Os Missionários da Consolata assumem a responsabilidade pastoral da missão de
Santo António de Unango e da missão de São João Baptista de Marrere (Nampula).
8-9-1946: Criação da paróquia de São José de Vila Cabral.
31-5-1947: O P.e Mário Filippi funda a missão de São Francisco de Xavier de Txaxe/Maiaca.
8-11-1948: O primeiro grupo de postulantes da Congregação da Imaculada Conceição, há
pouco fundada pelo P.e Oberto Abondio, entra no noviciado em Mepanhira.
24-11-1950: Os padres Pedro Calandri e Eugénio Menegon iniciam os trabalhos de fundação
da missão dos Santos Anjos e Arcanjos do Cobué entre o povo anyanja.

Evangelização IMC a Sul do Save -Inhambane e Lourenço Marques (1946-1950)


1-6-1946: Desembarca em Lourenço Marques o primeiro grupo de Missionários da Consolata
destinado a fundar as missões a Sul do Save: P.e José Paleari, P.e Alberto Maggiore, P.e
Osvaldo Peressini, P.e José Bottacin e o Ir. Angelo Rota.
7-6-1946: Os padres José Paleari e Alberto Maggiore e o Ir. Angelo Rota iniciam os trabalhos
de implantação da missão do Imaculado Coração de Maria de Mangonha/Massinga.
8-6-1946: Os padres José Bottacin e Osvaldo Peressini dão início à missão do Sagrado
Coração de Jesus de Nova Mambone.
2-8-1946: Chegada ao Sul do Save do P.e Gabriel Quaglia, Superior do grupo, e do P.e João
Tolosano provenientes do Niassa.
24-3-1947: Os padres Gabriel Quaglia e Alberto Maggiore fundam a missão de São José de
Mapinhane.
4-7-1948: Os padres José Paleari e Pedro Quaglia fundam a missão de Santa Ana de
Maimelane.
27-9-1948: Os Missionários da Consolata, na pessoa do P.e João Tolosano, assumem a
responsabilidade pastoral da missão de Santa Teresinha do Menino Jesus de Liqueleva, na
periferia de Lourenço Marques.
10-10-1948: O Superior Geral, P.e Gaudêncio Barlassina, chega a Lourenço Marques e dá
início à visita canónica às missões do Instituto em Moçambique.

3º Período (1951-1965): incremento da evangelização e promoção humana


Organização do Instituto Missionário da Consolata
Julho 1951: O Superior Geral, P.e Domingos Fiorina, visita as missões do Instituto em
Moçambique.
13-10/15-11-1955: Segunda visita do P.e Domingos Fiorina, Superior Geral, às missões do
Instituto em Moçambique.
20-3-1958: O Superior Geral nomeia o P.e Aldo Mongiano superior da Delegação dos
Missionários da Consolata em Moçambique.
5-11-1960: A direcção geral erige a Região dos Missionários da Consolata de Moçambique,
cuja padroeira é Nossa Senhora de Fátima.
12-1-1961: É criada a Delegação dos Missionários da Consolata do Niassa e eleito o P.e
Eugénio Menegon como superior.
23-7/8-9-1965: Terceira visita do P.e Domingos Fiorina, Superior Geral, às missões do
Instituto em Moçambique.

Actividade missionária no Niassa


2-4-1951: Nomeação de D. Manuel de Medeiros Guerreiro como novo bispo de Nampula.
20-9-1951: Inauguração da monumental igreja da missão de Mepanhira dedicada a Santa
Teresinha do Menino Jesus.
29-12-1960: Criação da missão de Nossa Senhora da Conceição, na periferia de Vila Cabral.
15-8-1962: Criação da paróquia de S. Miguel de Nova Freixo (Cuamba) e das missões de
Nossa Senhora do Loreto de Curea (Etatara) e de Nossa Senhora do Lago de Metangula.
21-7-1963: O Papa Paulo VI cria a diocese de Vila Cabral (Lichinga).
10-8-1964: A Santa Sé nomeia o primeiro bispo de Vila Cabral, na pessoa de D. Eurico Dias
Nogueira
20-8-1965: Fundação da missão da Rainha Santa Isabel de Nova Esperança (Majune).
6-9-1965: Fundação da missão do Santo Condestável de Marrupa.

Actividade missionária em Inhambane e Lourenço Marques


2-7-1951: Criação da paróquia-missão de S. Gabriel da Matola-Rio.
31-1-1956: Criação da missão da Sagrada Família da Machava
8-9-1960: O P.e Artur Rodrigues dá início aos trabalhos de fundação da missão de Nossa
Senhora do Rosário de Muvamba.
3-8-1962: A Santa Sé cria a nova diocese de Inhambane e nomeia D. Ernesto Gonçalves
Costa como seu primeiro Bispo (21-10-1962).
20-24/8/1962: Os missionários do arciprestado de Vilankulo, em conjunto com o Superior
Regional, reúnem-se na missão de Mangonha/Massinga para em conjunto avaliarem e
programarem a actividade pastoral.
23-5-1963: Criação da paróquia-missão do Santo Condestável de Boane.
1-7-1964: Criação da missão de Nossa Senhora de Fátima de Vilankulo.

4º Período (1966-1974): Renovamento da evangelização à luz do Concílio e


Instabilidade política

Organização do Instituto Missionário da Consolata


18-12-1966: Ordenação sacerdotal do 1º missionário da Consolata, P.e Amândio Dide
Munguambe.
25-4-1970: O P.e José Paleari é eleito Superior Regional dos Missionários da Consolata em
Moçambique.
5-6-1970: Início da visita canónica do Superior Geral, P.e Mário Bianchi, à região
Moçambique.
11-8-1970: O P.e Manuel Tavares é eleito superior da Delegação do Niassa.
12-8-1971: Erecção do Noviciado do Instituto em Moçambique (Unango)
2-12-1971: Inicia a Iª Conferência Regional dos Missionários da Consolata em Moçambique.
20-1-1972: Início da segunda visita canónica do Superior Geral, P.e Mário Bianchi, a
Moçambique.
22-25/1/1973: Realiza-se a IIª Conferência Regional dos missionários da Consolata em
Moçambique.
24-4-1973: Depois de alcançada a unificação da Delegação do Niassa com a região
Moçambique, o P.e Manuel Tavares é eleito Superior Regional da região Moçambique.

Actividade missionária no Niassa


24-9-1964: Primeira acção militar da Frelimo no Niassa: ataque ao Posto Administrativo do
Cobué.
13-5-1966: Criação da missão de Nossa Senhora de Fátima de Mecanhelas.
17-9-1966: Criação da missão de Santa Maria de Belem (Mitande).
13-5-1967: Fundação do Seminário Menor Nossa Senhora Mãe da Igreja de Nova Freixo
(Cuamba).
4-2-1967: Criação da missão de São João de Brito de Nipepe.
21-12-1969: Ordenação sacerdotal do P.e Filipe José Couto, missionário da Consolata
moçambicano (Vila Cabral).
31-12-1971: Criação da Missão de Nossa Senhora Mãe da Igreja de Nova Freixo.
16-4-1972: Criação da paróquia de Nossa Senhora da Paz de Nova Madeira.
17-10-1972: O P.e Guerrino Prandelli morre quando o carro em que viaja, entre a missão de
Belém e Majune, rebenta uma mina.
20-12-1972: D. Luís Gonzaga Ferreira da Silva, novo Bispo de Vila Cabral, assume o cuidado
pastoral da diocese.

Actividade missionária em Inhambane e Lourenço Marques


1-8-1967: Fundação da Missão de Nossa Senhora da Consolata de Funhalouro.
23-12-1970: P.e Célio Regoli, pároco da missão de Liqueleva, é expulso de Moçambique sob
a acusação de colaborar com a Frelimo.
9-1-1972: Início da actividade formativa do Centro de Promoção Humana do Guiúa.
6-8-1972: Criação da paróquia de São Francisco de Assis de Infulene.
5-7-1973: Entrada em funcionamento do Colégio de Massinga.
7-12-1971: Inauguração do “Lar Missionário” (Lourenço Marques).
4-7-1973: Criação da Missão de Santa Isabel do Guiúa.

5ºPeríodo (1975-1980): Presença e actividade dos Missionários da Consolata


no pós-independência: provação e planificação pastoral

Organização do Instituto Missionário da Consolata


20-7-1975: P.e Amadeu Marchiol é eleito Superior regional dos Missionários da Consolata
em Moçambique.
21-31/10/1977: P.e Luís Serna, conselheiro geral do Instituto dos Missionários da Consolata,
visita Moçambique.
5-4-1978: P.e Amadeu Marchiol é reeleito Superior regional dos Missionários da Consolata
em Moçambique.
12-12-1978: P.e Mário Bianchi, Superior geral dos Missionários da Consolata visita
Moçambique.
9-9-1980: P.e Manuel Tavares, Vice-superior geral dos Missionários da Consolata visita
Moçambique.

Actividade missionária no Niassa


Janeiro-Fevereiro 1976: Nacionalização das missões e a sua transformação em centros
educacionais
1976: Realiza-se em Cuamba a Assembleia Diocesana de Pastoral na qual se elabora o Plano
Pastoral da Diocese de Lichinga.
6-9-1978: O P.e Estevão Mirassi, sacerdote diocesano, depois de ter sido preso em Cuamba
(10 de Outubro) é assassinado a caminho do campo de reeducação de Mtelela.
3/1/1979: Início do afastamento dos missionários das missões e sua “urbanização” em
Cuamba e Lichinga.
23-5-1979: Encerramento das igrejas de Unango, Massangulo, Nsinje (23/5), Mepanhira
(1/6), Cuamba (5/6).
12-9-1979: Dom Luís Ferreira da Silva e os padres Norberto Louro e Severino Bordignon são
presos em Mepanhira e conduzidos sob escolta até Lichinga.

Actividade missionária em Inhambane e Maputo


27-12-1974: D. Alexandre Maria dos Santos é nomeado arcebispo de Maputo.
20-11-1975: D. Alberto Stele é eleito Bispo de Inhambane.
30-11-1976: Assembleia Diocesana de Pastoral da diocese de Inhambane (Guiúa, 30 de
Novembro a 3 de Dezembro).
11-8-1977: Expulsão de Moçambique dos padres Armanno Armanni e Mauro Calderoni.
17-3-1979: Encerramento da igreja de Nova Mambone e em seguida de Massinga, Muvamba,
Mapinhane e Maimelane (11/6).

6º Período (1982-1992): O período da provação e da “diaspora”

Organização do Instituto Missionário da Consolata


5-2-1982: Primeira reunião do Conselho Regional.
6-20/11/1982: Visita do Superior Geral dos Missionários da Consolata, P.e José Inverardi, a
Moçambique.
1-12-1982: Foi retomada a publicação do Boletim “Encontro”, órgão informativo interno dos
Missionários da Consolata.
26-5-1985: Início da IIIª Conferência Regional. O P.e Norberto Louro é eleito Superior
Regional.
10-8-1987: P.e Norberto Louro é reeleito Superior Regional de Moçambique.
16-2-1988: Abertura do Seminário Nossa Senhora da Consolata em sede provisória na
paróquia da Machava.
14-21/6/1988: Realização da IVª Conferência Regional.
18/7-16/8/1989: Visita do Superior Geral dos Missionários da Consolata, P.e José Inverardi a
Moçambique.
18-7-1990: P.e Franco Gioda é eleito novo Superior Regional.

Actividade missionária no Niassa e Nampula


8-11-1985: Rapto da Irmã Luisa Amalia, missionária da Consolata, pela Renamo próximo de
Metarica. Libertada no dia 13 de Agosto de 1986 depois de 270 de sequestro.
16-8-1986: O P.e Camilo Ponteggia falece em Lichinga e sepultado no cemitério da missão de
Unango.
10-8-1987: A Assembleia Regional decide, solicitada pelos Bispos, a abertura de uma
comunidade IMC em Nampula. P.e Artur Marques e Mário De Carli assumem a
responsabilidade do seminário interdiocesano da província eclesiástica de Nampula.
15-2-1991: O P.e Ariel Granada, pároco de Mecanhelas, é assassinado numa emboscada da
Renamo na estrada Mandimba-Lichinga.
1991: Entrega da missão de Etatara (antiga Curea) ao Padres diocesanos de Lichinga.
1-3-1992: O P.e João Baptista Coelho é alvo de uma emboscada da Renamo próximo da
Missão de Massangulo.

Actividade missionária em Inhambane e Maputo


7-7-1982: Os Missionários da Consolata passam a cura pastoral da paróquia de São Gabriel da
Matola aos Padres Jesuítas e assumem a responsabilidade pastoral da paróquia da Liberdade,
incluída na zona pastoral da Machava.
16-7-1982: Rapto do P.e José Alessandria por parte da Renamo (Maimelane).
16-9-1982: Rapto do P.e Adelino Francisco e das Irmãs Teotina Cariolato, Bona Pischedda,
Rosella Casiraghi e Agnes Mainhardt (Muvamba).
25-11-1982: Libertação dos missionários e missionários na fronteira com o Zimbabwe.
28-11-1982: A missão de Nova Mambone fica sem missionário residente em consequência do
ataque da Renamo. Os missionários da Consolata regressam em 1987.
21-5-1983: O Centro Catequético do Guiúa é encerrado por imposição da autoridade política,
o mesmo será reaberto em 1985.
25-27/11-1985: Assembleia diocesana pastoral de Inhambane: “Formação da Igreja
Doméstica, a Família cristã”.
22-3-1992: Massacre de 23 catequistas no Centro Catequético de Guiúa.

7º Período (1993-2000): O período da reconstrução

Organização do Instituto Missionário da Consolata


5-8-1993: Assembleia regional. P.e Franco Gioda é reeleito no cargo de superior regional.
18-25/1/1994: Realização da V Conferência regional.
7-3/24-4-1996: Visita canónica do Superior Geral, P.e Pedro Trabucco, aos missionários da
Consolata de Moçambique no contexto da celebração da 70º aniversário de presença no
Niassa e 50º anos de presença em Inhambane.
12-6-1996: Eleição do P.e Élio Rama como Superior Regional.
8-12-1998: Ordenação sacerdotal do P.e Inácio Saure, primeiro sacerdote da Consolata do
pós-independência.
24-8-2000: Tem início a VI Conferência regional a qual conta com a presença do Superior
geral, P.e Pedro Trabucco.

Actividade missionária no Niassa-Nampula-Beira


5-2-1993: Começa a funcionar o seminário médio “José Allamano” em Nampula.
28-1-1995: Falece em Lichinga o P.e Oberto Abôndio.
1996: Abertura da comunidade IMC da Beira como residência dos missionários que prestam
serviço na Universidade Católica.
1-12-1997: Os missionários da sociedade missionária Maryknoll assumem a responsabilidade
pastoral das missões de Metangula, Cobué e Michumwa (Nova Coimbra).
1998: Uma equipa missionária inter-congregacional brasileira assume a responsabilidade
pastoral da missão de Nipepe.
6-1-2000: Os padres diocesanos de Lichinga assumem a responsabilidade pastoral da missão
de Mandimba.

Actividade missionária em Inhambane e Maputo


19-4-1994: Abertura do comunidade do noviciado São Paulo de Laulane (Maputo).
4-2-1996: Abertura da Escola Secundária “P.e Gerardo Gumiero” na Missão de Mapinhane.
3-6-1996: Entrada em funcionamento da “Radio Maria” sediada na paróquia da Machava.
21-7-1997: O Conselho regional decide a abertura da comunidade IMC de Liqueleva.
2000: Uma equipa de missionários “fidei donum” da diocese de Vercelli assumem a
responsabilidade pastoral da missão de Maimelane.
MISSIONÁRIOS DA CONSOLATA EM MOÇAMBIQUE
(1925-2000)

1º Período: 1925 a 1935 P.e José Paleari


P.e Alberto Maggiore
1925 P.e Osvaldo Peressini
P.e Victor Sandrone P.e José Bottacin
P.e Pedro Calandri Ir. Ângelo Rota
P.e João Chiomio Lourenço Baroffio
P.e Júlio Peyrani
P.e Lourenço Sperta 1947
P.e Paulo Borello P.e Camilo Ponteggia
Sem. Segundo Ghiglia P.e José Valle
Ir. José Benedetto P.e Mário Filippi Farmar
P.e André Salvini
1926 P.e Adriano Severin
P.e José Amiotti P.e Pedro Quaglia
P.e Celestino Blassuto
1927 Ir. Bartolomeu Peretti
P.e Alfredo Ponti Ir. Hugo Versino
Ir. Mário Natali
1928 Ir.Remo Cardinali
P.e Angelo Lunati Ir. José Eusébio
Ir. Sílvio Petris
2º Período: 1936 a 1950
1948
1936 P.e João Vespertini
P.e Gabriel Quaglia P.e Fernando Piccolo
P.e João Tolosano Ir. Bartolomeu Calleris
P.e Aldo Dall’Armi Ir. José Chiappa
Ir. Bartolomeu Liberini
Ir. Conrado Maritano 1950
Ir. Bartolomeu Lorenzatto P.e Gerardo Gumiero
P.e Eugénio Menegon
1938 P.e Ernesto Motta
P.e Luís Bosio
P.e Mário Casanova
P.e Oberto Abondio 3º Período: 1951 a 1965

1939 1952
P.e Luís Wegher P.e Célio Regoli
P.e Guido Gobbo
P.e Domingos Ferrero 1954
Ir. João Arneodo P.e Amadeu Marchiol
P.e Inácio Mondin
1946
P.e Luciano Oggé 1955
P.e Emílio Geromet Ir. José Cardinali
P.e Sérgio Donato
P.e Carlos Lazzaron 1957
P.e Fernando Stagni P.e Lourenço Stimoli
P.e Mario Bianco Ir. Albino Henriques Rosa
Ir. António dos Reis Gonçalves P.e João Monteiro da Felícia
Ir. Francisco Neves da Silva P.e Elísio Ferreira da Assunção

1958 1968
P.e Aldo Mongiano P.e António Ferreira Antunes
P.e Manuel Maria Marques P.e Manuel Carreira
P.e Artur Luís Rodrigues P.e José Alessandria
P.e João Merlo P.e Adriano Prado
P.e Manuel Carreira Junior
1959 P.e Mauro Calderoni
P.e Luís Fiorini
P.e Joaquim Alves Ferreira 1969
P.e Manuel Tavares P.e Armanno Armanni
P.e António da Costa Gaspar P.e Carlos Gianini
P.e Mário Teruzzi P.e Franco Gioda
Ir. José Nunes Afonso P.e Guerrino Prandelli
Ir. José Soares de Almeida P.e Ernestino Venturi
P.e Henrique Redaelli
1960 P.e Salvador Forner
P.e José Lopes Pequito
Ir. Vicente Dias Crisostomo 1970
Ir. Benjamim Prata P.e Severino Bordignon
Ir. Miguel Domingos Santos P.e João Guidolin
P.e Herculano Neves da Silva
1961 Diac. Armindo Ferreira Vaz
P.e Mário Spangaro Ir. Tarcisio Lot
P.e Luís Fiorini
P.e Silvestre Liberini 1971
P.e Henrique Da Croce P.e Francisco Lerma Martinez
P.e André Brevi
1963 P.e Jaime Marques
P.e Mário Teodori P.e José Tavares Matias
Ir. Alexandre Moura Valente Ir. Pedro Bertoni
Ir. Agostinho Lanza
1964
P.e Silvestre Bettinsoli 1972
P.e João Armando P.e Alfredo Dias Ferreira Dionísio
P.e Vidal Moratelli P.e Victor Gatti
P.e José Fernando da Rocha Martins
1965
P.e Gelindo Scottini 1974
P.e Joaquim Ferreira de Almeida P.e Augusto Fatela
P.e Artur Marques P.e José Jesus Barros

4º Período: 1966 a 1975 5º Período: 1976 a 1981

1966 1975
P.e José Capelo P.e José Frizzi
P.e Luís Ferraz
P.e João Baptista Coelho 6º Período: 1982 a 1992

1967 1982
P.e José Salgueiro da Costa
7º Período: 1993 e 2000
1983
P.e Aquiléo Fiorentini 1993
P.e Franco Gioda P.e Hipólito Marandu

1984 1994
P.e Ivanilson Brun P.e Jaime Patias
P.e Mário De Carli Sem. José Ricardo Bocanegra
P.e João Morando Sem. Domingos Forte Oliveira
P.e Élio Rama Sem. Joaquim Guiza Pinzón
Ir. Carlos Manuel Margato da Ponte
1985
P.e Miguel Njue 1995
P.e José Rurunga P.e Luís Andriolo
P.e Henrique Córdoba
1987 P.e Vasco Campos Gomes
P.e Alceu Agarez
P.e Christian Fernández Moores 1996
P.e Rosalino Dall’Agnese
1989 P.e Aldo Parodi
P.e Ariel Granada Serna P.e Filipe José Couto
P.e José Torres Neves P.e Rogelio Alarcón
P.e Joseph Otieno Ir. Ayres Osmarin
P.e Agostinho Squizzato
P.e Francisco Ponsi 1997
P.e John Peter Njoroge P.e Felix Odongo
Ir. Daniel Ndihu Ir. Raimundo Ayieko

1990 1998
P.e António Rusconi P.e Giancarlo Sandro Faedi
P.e Ricardo Castro P.e Ricardo Guillén (agregado)
Ir. Martinho Kirimi Sem. Guilherme Pinilla

1991 1999
P.e João Franco Graziola P.e Carlos Alberto Gaspar Pereira
P.e José Vinci P.e Bruno Pepino
P.e Henry de Jesus Taborda Sem. Valentim Camale
Diácono João Carlos Nascimento
2000
1992 P.e Alberto Jesus (agregado)
Ir. Agostinho Bonetti P.e Manuel Domingos Magalhães
Sem. Carlos Alessio Biella Sem. Fábio Malesa
Sem. Diamantino Guapo Antunes
LISTA DOS SUPERIORES E RESPECTIVOS CONSELHOS

Missão de Miruru-Tete
Superior do grupo dos Missionários da Consolata (1925-1929): P.e Victor Sandrone

Missão de Massangulo
Superior da Missão de Massangulo-Niassa (1928-1936): P.e Pedro Calandri
Superior da Missão de Massangulo-Niassa (1936-1938): P.e Victor Sandrone

Grupo do Niassa
Superior Delegado do grupo do Niassa (1938-1940): P.e Gabriel Quaglia
Superior Delegado do grupo do Niassa (1940-1949): P.e Domingos Ferrero
Superior Delegado do grupo do Niassa (1949-58): P.e Domingos Ferrero.

Grupo do Sul do Save (Inhambane e Lourenço Marques)


Superior Delegado do grupo do Sul do Save (1946-49): P.e Gabriel Quaglia
Superior Delegado do grupo do Sul do Save (1949-56): P.e Gabriel Quaglia
Superior Delegado do grupo do Sul do Save (1956-1958): P.e José Paleari

Delegação de Moçambique (1958-1960):


P.e Aldo Mongiano: Superior Regional
P.e Osvaldo Peressini: Vice-superior
P.e Angêlo Lunati: 1º Conselheiro
P.e Mário Casanova: 2º Conselheiro
P.e Amadeu Marchiol: 3º Conselheiro

Região de Moçambique (1961-1970)


P.e Aldo Mongiano: Superior Regional
P.e Eugénio Menegon: Vice-superior
P.e Amadeu Marchiol: 1º Conselheiro.
P.e Manuel Maria Marques: 2º Conselheiro
P.e José Pequito: 3º Conselheiro

Delegação do Niassa (1961-1970)


P.e Eugénio Menegon: Superior da Delegação
P.e Camilo Ponteggia: Vice-superior
P.e José Pequito: 1º Conselho

Região de Moçambique (1970-75)


P.e José Paleari: Superior Regional
P.e António Gaspar: Vice-superior
P.e Manuel Tavares: 1º Conselheiro
P.e Emanuel Maggioni: 2º Conselheiro
P.e. Artur Pereira Marques: 3º Conselheiro

Delegação do Niassa (1970-1973)


P.e Manuel Tavares: Superior Delegado
P. Manuel Carreira: Vice-superior
P.e Ernesto Motta: 1º Conselheiro

revisto:ok 139
Região de Moçambique (1973-1975)
P.e Manuel Tavares: Superior Regional
P.e Aldo Mongiano, Vice-superior
P.e Armanno Armanni: 1º Conselheiro
P.e Manuel Carreira: 2º Conselheiro
P.e Mário Teodori: 3º Conselheiro

Direcção regional de Moçambique (1975-1978)


P.e Amadeu Marchiol: Superior Regional
P.e Jaime Marques: Vice-superior
P.e Norberto Ribeiro Louro: 1º Conselheiro
P.e André Brevi: 2º Conselheiro
P.e Augusto Fatela: 3º Conselheiro

Direcção regional de Moçambique (1978-1981)


P.e Amadeu Marchiol: Superior Regional
P.e Jaime Marques: Vice-superior
P.e Camilo Ponteggia: 1º Conselheiro
P.e Artur Pereira Marques: 2º Conselheiro
P.e José Rocha Martins: 3º Conselheiro

Direcção regional de Moçambique (1981-1985)


P.e André Brevi: Superior Regional
P.e Adelino da Conceição Francisco: Vice-superior
P.e José de Jesus Barros: 1º Conselheiro

Direcção Regional de Moçambique (1985-1990)


P.e Norberto Ribeiro Louro: Superior Regional
P.e Jaime Marques: Vice-superior
P.e Henrique Redaelli: 1º Conselheiro
P.e José de Jesus Barros: 2º Conselheiro
P.e Artur Pereira Marques: 3º Conselheiro

Direcção Regional de Moçambique (1987-1990)


P.e Norberto Ribeiro Louro: Superior Regional
P.e Adelino da Conceição Francisco: Vice-superior
P.e Francisco Lerma Martinez: 1º Conselheiro
P.e Franco Gioda: 2º Conselheiro
P.e José Salgueiro da Costa: 3º Conselheiro

Direcção Regional de Moçambique (1990-1993)


P.e Franco Gioda: superior regional
P.e Francisco Lerma Martinez: Vice-superior
P.e Salvador Forner: 1º Conselheiro
P.e José Fernando da Rocha Martins: 2º Conselheiro
P.e André Brevi: 3º Conselheiro

Direcção Regional de Moçambique (1993-1996)


P.e Franco Gioda: Superior Regional
P.e Ricardo Castro: Vice-superior

revisto:ok 140
P.e José Rurunga: 1º Conselheiro
P.e Alceu Agarez: 2º Conselheiro
Ir. Pedro Bertoni:3º Conselheiro

Direcção Regional de Moçambique (1996-1999)


P.e Elio Rama: Superior Regional
P.e Manuel Tavares: Vice-superior
P.e Ricardo Gonçalves Castro: 1º Conselheiro
P.e Francisco Lerma Martinez: 2º Conselheiro
P.e José Rurunga: 3º Conselheiro

Direcção Regional de Moçambique (1999-2002)


P.e Elio Rama: Superior Regional
P.e Manuel Tavares: Vice-superior
P.e Franco Gioda: 1º Conselheiro
P.e Jaime Patias: 2º Conselheiro
P.e Artur Pereira Marques: 3º Conselheiro

revisto:ok 141
OS MISSIONÁRIOS DA CONSOLATA EM MOÇAMBIQUE (2000)
Membros da Região Moçambique
Descrição 2000
Padres 38
Irmãos 9
Estudantes Professos 1
Padres Agregados 2
Leigos Missionários 5
Total 55

Faixas Etárias
Faixas Etárias Padres Irmãos Estudantes/Leigos
30 - 39 anos 6 6 6
40 – 49 anos 10
50 – 59 anos 10 1
60 – 69 anos 10 1
70 – 79 anos 3
80 – 89 anos 1 1
A Média das idades na região é de 56 anos

Distribuição por Nacionalidades


País Padres Irmãos Estudantes/Leigos
Brasileiros 6 2
Colombianos 2
Espanhóis 1
Italianos 13 3 3
Moçambicanos 2
Portugueses 13 1 2
Quenianos 2 3
Tanzanianos 1
Venezuelanos 2 1
Padres naturais de Moçambicanos: 5
Estudantes professos naturais de Moçambique: 9

Presença/actividade em Moçambique
Presença em Moçambique Distribuição dos Missionários por
actividades
Comunidades 17 Pastoral 33
Paróquias 25 Formação 9
Seminários 3 Universidade Católica 3
Noviciado 1 Centro Catequético 2
Universidade Católica 1 Direcção Regional 3
Centro Catequético 1 Promoção Humana 2
Serviços religiosos 1

revisto:ok 142
O CONTRIBUTO DOS MISSIONÁRIOS DA CONSOLATA
PARA O CONHECIMENTO E EVANGELIZAÇÃO DE MOÇAMBIQUE
NO CAMPO LINGUÍSTICO, ETNOLÓGICO, HISTÓRICO E PASTORAL

Para o conhecimento do contributo cultural e pastoral dos missionários da Consolata em


Moçambique, apresentamos um elenco temático desta bibliografia:

1. BÍBLIA (traduções)

Língua Macua:
Watana wa Nanano (Roma 1997). Tradução em língua Macua-Xirima do Novo Testamento.
A Bíblia integral em Macua-Xirima já está traduzida sendo a sua publicação prevista para o ano 2002.
Masalmu. Eyinlo y’ekristu (Roma 1997). Tradução e comentário em língua Macua-Xirima do livro dos
Salmos.

2. CATECISMOS

Língua Ciyao:
CALANDRI P., Pequeno Catecismo em Ci-yao-Português. Tradução do Catecismo de D.
António Barroso (Massangulo 1934).
CALANDRI P., Majiganyo ga Egreja Katolika (Massangulo sd).
CALANDRI P., Masomo ga M’malembo Gamaswela. Cilangano cakala (Unango sd).
CALANDRI P., Umi wa Ambuje wetu Yesu Kristu. Tradução em Ci-yao da vida de Nosso
Senhor Jesus Cristo da obra de São Francisco de Sales (Massangulo 1945)
CALANDRI P., Katekismo ja Akatolica (Massangulo 1950).

Língua Macua:
CASANOVA M., Katekismu ya Mahusiho Katolika(Pinerolo 1950).
CASANOVA M., Okumi wa Apwiy’ahu Yezu Kristu (Nampula 1950).
Ekatekismu ya Makatekumeni ni Asitokwene (Roma 1987)
Muluku onnakitthana miyo (Braga 1987).

Língua Xitshwa
QUAGLIA G., Catecismo Católico em língua Xitswa e Português (Lourenço Marques 1948).
QUAGLIA G., Hosi ya Hina Jesu Kristu (Mapinhane 1951). Vida de Jesus traduzida do Cinyanja.
QUAGLIA G., Zigonzo za Kristo (Mapinhane 1951)
SECRETARIADO DA ACÇÃO PASTORAL, Nza Kholwa Hosi (Inhambane 1983): Catecismo/temas
para o catecumenado de adultos.
SECRETARIADO DA ACÇÃO PASTORAL, Missal em Xitshwa (Inhambane 1998): Policopiado.
SECRETARIADO DA ACÇÃO PASTORAL, Ha Khozela (Inhambane 2000): Ritual do catecumenado,
dos Sacramentos e Funerais.

3. LITURGIA

Língua Ciyao:
CALANDRI P., Mabuku ga Mapopelo ni ga Nyimbo (Massangulo sd).
Missale Romanum in vernaculo “Yao” (Unango 1971).
Nymbo ya Ci-yao (Massangulo 1958). Livro de cânticos.
Twapopele Mlungu (Unango 1971). Ritual dos Sacramentos.

Língua Macua

revisto:ok 143
Buku a Mavekelo (Nampula 1950).
Mavekelo ni Itxipo (Roma 1987).
FILIPPI, M., Evangelho dos Domingos e dias festivos em língua Elomwé (Maiaca 1960).
Masu a Muluku. Sowerenka sa eyakha A.B.C, Ifesta sitokwene, Masakramenti (Roma 1987).

Língua Xitshwa
Muphahlo wa Missa (Inhambane 1968): Ordinário da Missa.
Ha Kombela (Inhambane 1986): Devocionário.
Yimbelelelani (Inhambane 1994): recolha de cânticos em língua Tshwa.

Língua Cindau
Missal em cindau (Nova Mambone 1996): Policopiado.
Cânticos em cindau (Nova Mambone 1976): Policopiado.

4. DICIONÁRIOS E GRAMÁTICAS

Língua Ciyao:
CALANDRI P., Dicionário Ciyao-Português e Português-Ciyao (Massangulo sd). Pro
manuscripto.
CALANDRI P., Gramática de língua Ciyao (Massangulo-sd) Pro manuscripto.

Língua Macua
CASANOVA M., Appunti di lingua Elomwe (Mitúcue 1947): policopiado.
FILIPPI M., Dicionário elementar Português-Macua (Maiaca 1963).
FRIZZI G., Dicionário Emakhuwa-Português; Português-Emakhuwa (Maúa 1992).
FRIZZI G., Gramática de língua Macua-Xirima (Maúa 1992).

Língua Xitshwa
AA.VV., Dicionário Português-Xitshwa e Xitshwa-Português (Inhambane 2000).
PALEARI G., Note di Grammatica Xitswa (sl 1955).

5. ANTROPOLOGIA-ETNOGRAFIA

BIANCO M., I Macua (Maúa 1951) Pro manuscripto.


DIDI MUNGUAMBE D., La Musica dei Chopi (Roma 1972). Pro manuscripto
FRIZZI G., Miruku sa Makholo. Conselhos e Sabedoria Macua (Maúa 1995).
FRIZZI G., Emwali. Iniciação feminina Macua (Maúa 1995). Pro manuscripto.
FRIZZI G., Olukhu. Iniciação Masculina Macua (Maúa 1995). Pro manuscripto.
LERMA MARTINEZ F., O povo Macua e a sua cultura (Lisboa 1989)
LERMA MARTINEZ F., Antropologia Cultural (Matola 1994).
LERMA MARTINEZ F., Religiões Africanas Hoje (Matola 1994).
PERESSINI O., Appunti di Etnologia: Mambone, Massinga (sl-sd): Policopiado.
PERESSINI O., La vita in Mozambico (Udine 1983).
WEGHER L., Um olhar sobre o Niassa. Traços histórico-etnológicos, vol.I-II (Maputo
1995/1999).

6. LIVROS DE LEITURA E CONVERSAÇÃO

FRIZZI G. ,Nulumo na Exirima. Olepa, osoma, osuwela ikano saya (Maúa 2000).
FRIZZI G., Sohimmwa ni solempwa s’exirima. Literatura oral e escrita Xirima (Maúa 2000).

revisto:ok 144
FRIZZI G., Miruku ni Ethale. Sohimmwa sa Makholo (Maúa 1993).

7. LITERATURA

CALANDRI P., Piero e Pierino. Storia di una Missione (Massangulo 1959).


BOSIO L., Alvorada missionária no Ultramar Português (Lisboa 1951).
LERMA MARTINEZ F., Caminhos: recolha de poesias sobre a situação da guerra (Maputo
1994).
QUAGLIA G., Tamburi e Campane (Pinerolo 1951).

8. HISTÓRIA

ANTUNES D., História e método de Evangelização dos missionários da Consolata no Niassa


(1936-1948): Um contributo para a história das Missões de Mepanhira, Mitúcue, Maúa, Txaxe
(Roma 1996) Pro manuscripto.
BOSIO L., Due mani per Dio. Bartolomeo Liberini, Coadiutore Missionario (Turim 1965).
LERMA MARTINEZ F., Mártires do Guiúa (Inhambane 2000).
MATIAS DOMINGOS, C., Os missionários da Consolata em Moçambique: 1925-1936. A sua
entrada e as razões dos vários contrastes, dissertação de Licenciatura (Roma 1993), Pro
manuscripto
PERESSINI O., Una Chiesa tra i marxisti (Bolonha 1980).
PONTI A., Appunti di Diario sulla “Zambezia”, vol.1-2 (Turim 1983-84) Pro manuscripto.
TUBALDO I., I missionari della Consolata in Mozambico e l’Allamano (Torino 1977), Pro
manuscripto.
TUBALDO I., Una Chiesa su strade difficili. Mozambico fra passato e futuro (Bolonha 1994).
WEGHER L., Un uomo e la sua missione. P. Pietro Calandri (Lichinga 1985) Pro manuscripto.

9. TEOLOGIA-PASTORAL

CALANDRI P., Gli Ayao e il musulmanesimo (Massangulo 1931) Pro manuscripto.


FRIZZI G., Muru-Mirusi. Evangelizar a doença Bantu-Macua. Estudo comparativo de uma
doença e respectiva cura no horizonte cultural bantu-macua (Cuamba 1985). Pro manuscripto.
FRIZZI G., La traduzione della Bibbia in lingua Macua-Scirima. Metodi, fasi e difficoltà di
un’avventura stimolante: Euntes Docete 51 (1988) 125-134.
FRIZZI, G., Inculturazione della “Makeya”, centro focale della religiosità Macua
(Mozambico): Euntes Docete 53 (2000) 93-107.
LERMA MARTINEZ F., Preparação para o Matrimónio (Maputo 1995).
PEIRONE F., A tribo Ajaua do Alto Niassa (Moçambique) e alguns aspectos da sua
problemática néo-islâmica (Lisboa 1967).

revisto:ok 145
ÍNDICE DE NOMES
LUGARES317
Abudu Doane Lugenda (rio)
África do Sul Dornelas do Zêzere Luiça
Amaramba Estevel Luleyo (rio)
Anchilo (Nampula) Etatara Lúrio (rio)
Anhane Etiópia Lusaka ( Zâmbia)
Bazaruto (Inhambane) Faiquete Mabote (Inhambane)
Beira Fátima (Portugal) Macawe
Belém (Mitande) Fort-Johnston (Malawi) Machava (Maputo)
Beluluane Funhalouro Machocomane
Benfica (Maputo) Gaza Macovane (Inhambane)
Bilene (Gaza) Govuro Macunha
Blantyre (Malawi) Guiúa Magude
Boane (Maputo) Gurue (Zambézia) Mahanhana
Bonhiça Homoíne Maiaca
Boroma (Tete) Ibo (Cabo Delgado) Maimelane
Brasil Ikuru Majune
Bungul Ilha de Moçambique Malakontera
Cabo de S. Sebastião Índia Malawi
Cabo Delgado Infulene Malema (Nampula)
Cabo Verde Inhambane Mandimba
Cantina Dias Inharrime Mangonha
Catur Inhassoro Manhai
Chaxane Itália Manhice
Chia Jangamo Maniamba
Chicomo Joanesburgo (África do Manica
Chikoa Sul) Manjacaze (Gaza)
Chinonanquila Kaliwata Mantiha
Chipingamonga Laulane Mapanzene
Chirua (Lago) Lhanguene Mapinhane
Chiruala Liberdade Maputo
Chiteje Lichinga Marrere (Nampula)
Chiwindi Likoma (Malawi) Marrupa
Chuambo Limbe (Malawi) Masekesi (rio)
Chupanga (Beira) Lingamo Massangulo
Ciamba Linguni Massinga
Ciwaia Lioma Mataka
Cobué Lipoche Matias
Cociwa Liqueleva Matola (Maputo)
Cuamanhira Lisboa Maúa
Cuamba Litunde Maubo
Cumare Liúchi Mavila
Curea Lourenço Marques ( Maxixe (Inhambane)
Cuvinhe Maputo) Mazive
Cya Lucheringo (rio) Mbemba

317
Foram omitidos os nomes: Moçambique, Niassa, devido ao facto de aparecerem inúmeras vezes.

revisto:ok 146
Mbueka Munghi Quelimane
Mecanhelas Munhava Quénia
Mepanhira Murusso Quilasse
Mepesseni Mussumbuluco Quissico (Inhambane)
Messalo (rio) Mutuali (Nampula) Rapela (Nampula)
Messossomera Muvamba Rebordões (Portugal)
Messumba (missão) Mwanda (rio) Revia
Metangula Mwetetere Rio das Pedras
Metónia Namikopo (monte) (Inhambane)
Mikoko (monte) Namissoro (rio) Roma (Itália)
Milo Nampula Roraima (Brasil)
Miruru (Tete) Namucopo Rovuma (rio)
Mitúcue Nangombo Sá da Bandeira (Angola)
Mochisso Nansya Sagal
Mocodoene (Inhambane) Napita Samata
Mocumbi (Inhambane) Ncue Save (rio)
Mogora Ndanda Shauritanga
Molumbo (Zambézia) Nesara Shire (rio e vicariado)
Mombaça (Quénia) Ngombi Singatela
Môngoe Ngoo Slumene
Mopiha Nguludi (Malawi) Sofala
Morrumbene (Inhambane) Nhacengo Tambera
Mpendeka Nhacolo Tanganica (Tanzânia)
Mpomola Niassalândia (Malawi) Tanzânia
Mpopo Nipepe Tete
Mpwera Niputa Tsalala
Msimburaghe Nkumbili Turim (Itália)
Mtelela Nova Coimbra Txaxe
Muakanha Nova Esperança (Majune) Umbelusi
Mualasa Nova Freixo (Cuamba) Unango
Muaquiua Nova Madeira Vessa
Muela Nova Mambone Vila Cabral (Lichinga)
Muembe Nsinje Vilankulo
Muheya Nungo Wakupsa
Muikuna Palombe (Malawi) Zambeze (rio)
Mukatare Pambara Zambézia
Mukopo Panda (Inhambane) Zanzibar (Tanzânia)
Mukupira Pemba (Cabo Delgado) Zumbo (Tete)
Mukwapa Porto Amélia (Pemba)
Mulotona Portugal

revisto:ok 147
PESSOAS318
A. Barroso Hipólito António Ribeiro Christian Fernández
A. Smythies António Rusconi Moores
A. Lunati Aquiléo Fiorentini Companhia de Jesus
A. Rita-Ferreira Ariel Granada Serna Conferência Episcopal de
Adelino Francisco Armando Michaud Moçambique
Adriano Garcês Armanno Armanni Congregação da
Adriano Prado Armida Quaglia Imaculada Conceição
Afonso Dhlakama Artur Marques Corrado Maritano
Afonso José Nunes Artur Rodrigues Cristina Jaime
Agnes Mainhardt Assuntina Riva D. Alberto Setele (Bispo
Agostinho Bonetti Augusto Fatela de Inhambane)
Agostinho Lanza Avelino Pereira Branco D. Alexandre José Maria
Agostinho Squizzato Ayres Osmarin dos Santos (Arcebispo do
Agueda Macengua B.H. Barnes Maputo)
Albasino Notiço Bartolomeu Calleris D. Custódio Alvim Pereira
Alberto de Jesus Bartolomeu Liberini (Arcebispo de Lourenço
Alberto Maggiore Bartolomeu Lorenzatto Marques)
Alberto Manjoro Bartolomeu Peretti D. Ernesto Gonçalves
Alberto Trevisiol Beato José Allamano Costa (Bispo de
Albino Henriques Benedetta Mattio Inhambane)
Alceu Agarez Benjamim Prata D. Eurico Dias Nogueira
Aldo Dall'Armi Bociri (António Taimane) (Bispo de Vila Cabral)
Aldo Mongiano Bona Magistrelli D. Filipe Perlo (Superior
Aldo Parodi Bona Munúkua Geral dos Missionários da
Alexandre Moura Valente Bona Pischedda Consolata)
Alfonsina Della Longa Brazão Mazula D. Francisco Ferreira da
Alfredo Dionísio Bruno Pepino Silva (Bispo da Prelazia de
Alfredo Ponti Caetana Goletti Moçambique)
Amabile Fagnani Camilo Ponteggia D. Francisco Nunes
Amadeu Marchiol Cardeal Eugénio Pacelli Teixeira (Bispo de
Amândio Dide Cardeal Maglione Quelimane)
Ananina Tabellini Carlos Alberto Gaspar D. João Evangelista de
Anastasia Torresin Pereira Lima Vidal (bispo de
André Brevi Carlos Biella Aveiro)
André Salvini Carlos Giannini D. Luís Ferreira da Silva
Angélica Mape Carlos Lazzaron (Bispo de Vila
Ângelo Lunati Carlos Machili Cabral/Lichinga)
Ângelo Rota Carlos Margato da Ponte D. Manuel de Medeiros
Antida Castino Carlos Matias Domingos Guerreiro (Bispo de
António da Costa Gaspar Carmela Munúkua Nampula)
António dos Reis Celestino Blassuto D. Manuel Vieira Pinto
Gonçalves Célio Regoli (Bispo de Nampula)
António Ferreira Antunes Celso Pinto de França
António Gonçalves César Cavaleiro

318
Foram omitidos os nomes: Missionários da Consolata, Missionárias da Consolata devido ao facto que
aparecem inúmeras vezes.

148
D. Teodósio de Gouveia Fiorenza Maggioni Irmãs do Calvário
(Arcebispo de Lourenço Flamínia Malino Irmãs Dominicanas do
Marques) Florência Mirole Rosário
D. Rafael de Assunção Floriana Jericijo Ivanilson Brun
(Bispo da Prelazia de Franca Cavicchi J.A. Alves de Sousa
Moçambique) Franciscanas de N.S. das J.C. Mitchell
D. Sebastião Soares Vitórias Jaime Marques
Resende (Bispo da Beira) Franciscanas Missionárias Jaime Patias
D. Teófilo de Andrade de Maria João Armando
(Bispo de Nampula) Francisco Lerma João Arneodo
Dalmácia Colombo Francisco Marques João Baptista Coelho
Daniel Ndihu Francisco Neves da Silva João Chiomio
Daniel Polela Francisco Ponsi João da Silva Viana Cossa
Daria Pavese Franco Gioda João De Marchi
David Livingstone Frelimo João Guidolin
Diamantino Guapo G. H. Wilson João Merlo
Antunes José Gallea João Monteiro da Felícia
Dionísio Ferreira Gabriel Quaglia João Morando
Dolores Cozzi Gabriela Malessani João Nascimento
Domingos António José Gaudência Palombe João Piovano
Domingos Ferrero Gaudêncio Barlassina João Tolosano
Domingos Fiorina Gelindo Scottini João Txipinenga
Domingos Forte Oliveira Generosa Bugatti João Vespertini
Donato Sergi Gerardo Gumiero João XXIII
Eduardo A. Alpers Gian Carla Ferraris Joaquim Alberto Chissano
Edvige Grosso Giancarlo Pegoraro Joaquim Alves Ferreira
Eduardo Steere Giancarlo Sandro Faedi Joaquim Ferreira de
Élio Rama Gianfranca Rota Almeida
Elisabete Santos Gil Estevão Nhantumbo Joaquim Guiza Pinzon
Elísio de Assunção Guerrino Prandelli Joel Carlos
Emanuel Maggioni Guido Gobbo John Peter Njoroge
Emílio Geromet Guido Motter Jorge Guilherme Nampape
Emma Rinaudo Guilherme Pinilla José Alessandria
Ernestino Venturi Gungunhana José Amiotti
Ernesto Motta H. Cox José Benedetto
Estêvão Jardim H. Thomas José Bottacin
Estevão Mirassi Henrique Córdoba José Cardinali
Eugénio Menegon Henrique Da Croce José Chiappa
Eva Negro Henrique Redaelli José Eusébio
Federico J. Peirone Herculano Neves da Silva José Frizzi
F. Nunes Teixeira Hipólito Marandu José Inverardi
F.F. Lopes Hugo Versino José Jesus Barros
Fabio Malesa Inácio Mondin José Lopes Pequito
Faconda Alberti Inácio Saure José Martins da Rocha
Felix Odongo Inês Munúkua José Otieno
Fernando Laina Irene Schwarz José Paleari
Fernando Piccolo Irmãs Agostinianas José Ricardo Bacanegra
Fernando Stagni Missionárias José Rurunga
Fida Boccolari Irmãs da Apresentação de José Salgueiro da Costa
Filipe José Couto Maria José Soares de Almeida

149
José Tavares Matias Mário Natali Ricardo Avila
José Torres Neves Mário Spangaro Ricardo Castro
José Valle Mário Teodori Ricardo Guillén
Júlio Peyrani Mário Teruzzi Ricardo Sapina
Laurina Carminati Martinho Kirimi Rogelio Alarcón
Leonzia Bernasconi Mauro Calderoni Romildo Zama
Livia Caffaratti Miguel Msissi Rosalino Dall’Agnese
Lourenço Baroffio Miguel Domingues Santos Rosangela Bresciani
Lourenço Sperta Miguel Njiue Rosella Casiraghi
Lourenço Stimoli Miqueias Maloa Salvador Forner
Luciano Oggé Mons. Domingos Tardini Segundo Ghiglia
Luís Andriolo Mons. Francisco Serafim Pinto Ferreira
Luís Bosio Colasuonno Serafina Mape
Luís Castro Noemi Fantin Serena Bresolin
Luís Fiorini Oberto Abondio Sérgio Vieira
Luís Perlo Onorata Foresti Severino Bordignon
Luís Perlo Osvaldo Peressini Silvestre Bettinsoli
Luís Wegher Ottaviana Trombetta Silvestre Liberini
Luisa Amalia P.G. Bassi Sílvio Petris
M. Gama Amaral Padres Beneditinos Sira Vimercati
Madalena Apili Padres Brancos Sociedade Missionária
Madalena Mulima Padres Franciscanos Speranza Longhi
Manuel Carreira Padres Jesuítas Tarcísia Imboldi
Manuel Domingos Padres Monfortinos Tarcísio Lot
Magalhães Palotinas Teófila Mirole
Manuel Maria Marques Papa Paulo VI Teotina Cariolato
Manuel Ramos Pinto Paulo Borello Teresa Malessani
Manuel Tavares Paulo Deriu Teresa Mape
Manuela Graciano Pedro Bertoni Theo Van Asten
Manuela Milima Pedro Calandri Tommasina Moretto
Marcellina Vuillermin Pedro Sisto Carrau Valentim Camale
Marchina Raineri Pedro Trabucco Valéria Melzani
Margarida Maria Pio XII Vasco Campos Gomes
Margarida Munúkua R. Morozzo della Rocca Vaticano
Maria Anunziata R. Stuart Vicente Dias Crisóstomo
Maria Domingas João Rafael Jeane Victor Gatti
Maria dos Anjos Malessani Rafael Lombardo Victor Sandrone
Maria Pia Tambosi Rafael Ruxula Vidal Moratelli
Mário Arnaldo Raimundo Ayieko William Johnson
Quissimuço Ramos Pinto Xavier Ramírez
Mário Bianchi Rebeca Julião Y. Abdullah
Mário Casanova Remigia Civera
Mário De Carli Remo Cardinali
Mário Filippi Renata Allena

150