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UNIVERSIDADE FEDERAL DO TRIÂNGULO MINEIRO

INSTITUTO DE EDUCAÇÃO, LETRAS, ARTES, CIÊNCIAS HUMANAS E


SOCIAIS

DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA

Guilherme de Oliveira Junior

Avaliação de História de Minas Gerais

Profa. Dra. Elisa Maria Verona

UBERABA, 2018
A arte poética do Rap brasileiro na aplicação da lei 10.639 em sala de
aula: o uso da música Negro Não Nego no ensino de cultura afro-brasileira

1. Objetivos

Esta atividade propõe a abordagem de questões pertinentes ao ensino de


história e cultura afro-brasileiras ​nas escolas por meio da arte poética encontrada no
Rap brasileiro. Utilizando-se da música Negro Não Nego, do MC Mestiço, na
aplicação da lei 10.639 de 9 de janeiro de 2013, que diz o seguinte:

Art. 26-A. Nos estabelecimentos de ensino fundamental e médio,


oficiais e particulares, torna-se obrigatório o ensino sobre História e
Cultura Afro-Brasileira.

§ 1​o O conteúdo programático a que se refere o ​caput deste artigo


incluirá o estudo da História da África e dos Africanos, a luta dos
negros no Brasil, a cultura negra brasileira e o negro na formação da
sociedade nacional, resgatando a contribuição do povo negro nas
áreas social, econômica e política pertinentes à História do Brasil.

§ 2​o Os conteúdos referentes à História e Cultura Afro-Brasileira


serão ministrados no âmbito de todo o currículo escolar, em especial
nas áreas de Educação Artística e de Literatura e História Brasileiras.

Por conseguinte, a atividade cumpre dois objetivos intrínsecos à disciplina de


História, segundo a versão preliminar do CBC - Currículo Básico Comum - de Minas
Gerais: formar a consciência histórica; desenvolver a autonomia. Isto é, fornecer às
ferramentas adequadas para o aluno se reconhecer como parte integrante da
História, consequentemente, agente de transformação na mesma e auxiliá-lo no seu
movimento de autonomia através do pensamento crítico. Trabalhando com as
turmas do ensino fundamental, de sexto ano ao nono ano, conforme os preceitos
elaborados pelo CBC, que estão em consonância com às BNCC’s - Base Nacional
Curricular Comum. De acordo com o CBC de História:

O ensino de História ao privilegiar a dimensão temporal da


existência humana no permite identificar, analisar e compreender os
significados de diferentes objetos, lugares, circunstâncias,
temporalidades, movimento de pessoas, coisas e saberes. Estudar
História é buscar analisá-la de maneira crítica buscando assim sentir
e agir enquanto sujeitos dela. O estudo de História é necessário para
a formação de nossos estudantes na medida em que contribui para
se pensar e problematizar questões do tempo presente. Quando
somos capazes de perceber nosso passado histórico, temos
condições de agir sobre a realidade, dessa forma, o passado deve
impulsionar a dinâmica do ensino-aprendizagem no Ensino
Fundamental é aquele que dialoga com o presente.

O Rap brasileiro, notoriamente, conhecido por seu resgate da ancestralidade,


sua conduta militante e sua escrita engajada, pode ser uma ferramenta construtora
de saberes e de fomento ao pensamento crítico dentro de sala de aula. Para mais, o
movimento conhecido por Hip-Hop - nascido na década de 80 no EUA e hoje
difundido pelo mundo - é o berço da música Rap, que nutrida de consciência
empodera os seus membros e simpatizantes. Levando em consideração o
público-alvo desta atividade, alunos de sexto ao nono anos das escolas públicas
brasileiras, temos uma realidade de raça, gênero e classe que precisa ser entendida
e atendida. Em um país majoritariamente composto por mulheres, negros e pardos,
e pessoas de média e baixa renda, temos nas escolas públicas a carência de se
discutir temáticas que representam esses grupos. Observamos no Rap, justamente,
essa representatividade de temas pertinentes aos grupos majoritários de nossa
população. É através da reflexão e discussão desses temas que podemos
desenvolver uma consciência social dos educandos. Podemos compreender, essa
consciência desenvolvida por meio do rap, no trabalho do sociólogo e professor
adjunto da UNB, Breitner Luiz Tavares:

O hip-hop expresso pelos jovens rappers costuma veicular, através


da música, a construção de uma consciência política. Eles falam em
nome de uma geração sem voz, periférica, estigmatizada. Nesse
caso, a prática cultural do rap propicia a emergência de uma
consciência social dos indivíduos em termos de diversas
perspectivas, relacionadas a gênero, raça/etnia.

Dessa forma, o Rap e sua verve poética são ferramentas essenciais na


constituição do indivíduo enquanto protagonista da sua história, tal como na
constituição de identidade. Esta atividade, portanto, se fundamenta nessa premissa
para utilizar-se da letra da música Negro Não Nego em sala de aula. Por meio de,
recursos didáticos disponíveis - é preciso levar em consideração a realidade
específica de cada escola - e de fácil acesso, a atividade pode ser desenvolvida,
apenas, com o quadro e material adequado para escrever nele.

Por fim, esta atividade propõe reflexões acerca das questões estabelecidas
no livro ​Pedagogia do Oprimido,​ do reverenciado Paulo Freire. A exemplo da
problemática de se ter uma pedagogia própria para o oprimido, que possa auxiliá-lo
na compreensão de sua condição e, consequentemente, na sua busca por
autonomia. Abaixo, um trecho que exemplifica esse problema:

O grande problema está em como poderão os oprimidos, que


'hospedam' o opressor em si, participar da elaboração, como seres
duplos, inautênticos, da pedagogia de sua libertação. Somente na
medida em que se descubram 'hospedeiros' do opressor poderão
contribuir para o partejamento de sua pedagogia libertadora.
Enquanto vivam a dualidade na qual ser é parecer e parecer é
parecer com o opressor, é impossível fazê-lo. A pedagogia do
oprimido, que não pode ser elaborada pelos opressores, é um dos
instrumentos para esta descoberta crítica - a dos oprimidos por si
mesmos e a dos professores pelos oprimidos, como manifestações
da desumanização.

2. Metodologia

Esta atividade é desenvolvida por meio de três etapas: apresentação da


proposta temática e produção de atividade que estimule os participantes a expor
suas impressões acerca do tema; desenvolvimento da proposta com a dissecação
da letra da música Negro Não Nego, utilizando-se de versos chaves que dialoguem
com as carências de cada turma, essas colhidas nas atividade produzidas durante a
primeira etapa; finalização da proposta por meio de atividade de produção artística,
que revele o processo de absorção do tema pelos alunos.

Por primeiro, a realização de uma aula introdutória expondo brevemente o


tema e deixando por conta dos alunos a exposição de suas impressões sobre ele.
Uso de aula expositiva, breve panorama sobre a situação das populações negras na
história do Brasil e atividade sobre o que os alunos pensam a respeito, que de forma
crítica possa contribuir para a discussão. É importante que os alunos entendam a
seriedade da proposta e que discursos preconceituosos não serão tolerados.

Em seguida, a dissecação de versos da letra de Negro Não Nego que


dialoguem com os anseios dos alunos sobre o tema. Utilização de partes da letra da
música para compreensão do tema propondo aos alunos recitar trechos da letra e
refletir sobre elas.

Por fim, uma aula para produção de uma atividade artística baseada no que
foi discutido durante as duas etapas anteriores. Primordial que os alunos sejam
estimulados a produzir materiais que reflitam sobre o conhecimento aprendido. A
produção pode ser, por meio de redações, poesias, músicas, desenhos, etc.

Além de tudo, é recomendado o uso de uma bibliografia auxiliar que trabalhe


às formas de resistência dos povos negros escravizados. Os trabalhos de
Russel-Wood e Schwartz são, essencialmente, obras que dialogam com a atual
historiografia e, portanto, obras que podem ser utilizadas pelo professor a fim de
enriquecer seu repertório historiográfico. É de extrema importância que ocorra um
diálogo entre a música, a bibliografia e os alunos. Para tal, uma outra orientação
pedagógica é que exista uma comunicação acessível, que fuja da linguagem
acadêmica e explore às estratégias de linguagem disponíveis. Portanto, não
somente a letra da música, mas também a historiografia precisa ser compreendida
pelos alunos de forma aproximável.
3. Referências Bibliográficas

BRASIL. Congresso Nacional. Constituição da República Federativa do Brasil.


Brasília: Imprensa Oficial. 2003.

FREIRE, Paulo. ​Pedagogia do Oprimido​, 17ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra
S/A. 1987.

MC Mestiço. Negro Não Nego. Uberaba: Abençoado Seja o Que Acredita em


Si Mesmo, 2015. Disponível em:
<https://www.letras.mus.br/mc-mestico/negro-nao-nego/>. Acesso em 16 out.
2018.

RUSSELL-WOOD, A.J.R. A outra escravidão: a mineração do ouro e a


“instituição peculiar”. In: Escravos e libertos no Brasil colonial. Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 2005

RUSSELL-WOOD, A.J.R. Os caminhos da Liberdade. In: ​Escravos e libertos


no Brasil colonial​. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005".

SCHWARTZ, Stuart B. ​Mocambos, quilombos e Palmares; a resistência


escrava no Brasil colonial.​ Estudos Econômicos. São Paulo, v. 1, especial, 1987.

SECRETARIA DE ESTADO DE EDUCAÇÃO DE MINAS GERAIS. Versão


preliminar do Currículo de Minas Gerais – História. Belo Horizonte. p. 660-684. 2018

TAVARES, Breitner. Geração hip-hop e a construção do imaginário na


periferia do Distrito Federal. Brasília: Revista Sociedade e Estado - v. 25, n. 2, p.
309-327. 2010.
4. Anexos

MC Mestiço - Negro Não Nego

Minha pele é parda Foram anos de ódio, não existe só um dia


Meu cabelo é enrolado Um feriado é muito pouco, não cura quem
Eu digo que sou negro discrimina
Eles dizem que sou mulato Somos todos iguais, não na fila do banco
Mulato vem de mula A porta sempre trava quando um preto tá
E eu não sou bicho passando
Eu repito que sou negro Somos todos iguais, não pra polícia
Eles insistem que sou mestiço Que adora sumir com jovens negros da
periferia
Olhe nos olhos daquela criança o que você Eles me odeiam pela minha cor, dedo em riste
vê? Tenho orgulho do que eu sou, eles não, são
Eu vejo o reflexo do que tá na TV infelizes
Olhe nos olhos daquela criança, o que você Meu cabelo enrolado é bom, aceita isso aí
acha? No fim das contas, só seu preconceito que é
Ela é feliz, aprendendo que seu cabelo não se ruim
enquadra?
Olhe pra ela, querendo ser que nem a modelo Negro não nego
Diz porque uma criança de 10 anos alisa o Negro não nego
cabelo? Negro não nego
A única negra em destaque chamam de Negro não nego
mulata
E quando falam da minha cor, eles chamam Me falaram que cabelo ruim é cabelo crespo
de raça Falou quem acha que a princesa libertou os
Aquela criança vai crescer com as novela negro
Onde só tem preto nas senzala e nas favela Me falaram que dia da consciência negra é
Aquela criança não vai querer ser negra em regresso
nada Falou o cara que sofre de racismo inverso
E o IBGE adora colocar pessoas negras como Senhor de engenho porque me odeia tanto?
pardas Eu construí esse País e quem ficou com a
País multiétnico só nas pesquisas glória foi um branco
Porque quando olho pra TV, brancos ainda Nas minhas costas que os pilares se ergueram
são maioria Cotas? nunca pedi pra ser escravo,
Onze mortos na França, dois mil em Baga esqueceram?
Je suis Charlie? Não, eu sou África Cota não é segregação, é inclusão, aí irmão
Se você é branco, não vai perder sua vaga pra
Negro não nego mim não
Negro não nego Não precisa esconder a bolsa com seu celular
Negro não nego 400 anos de escravidão dinheiro nenhum pode
Negro não nego pagar
E se eu não quero ter que ouvir suas piada
Não é complexo esse seu preconceito, caô Não é vitimismo é só que eu não vejo graça
É complexo esse teu medo de se ver inferior E se você acha o Gentili engraçado
Marcado na pele, o que eu sou, a minha Desculpa aí, mas eu não sou obrigado
índole
O seu racismo idiota, não é a minha síndrome
Navios negreiros roubaram nossa auto estima
Capitães do mato traíram a nossa melanina