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Clássicos & Conzentadores

ARISTÓTELES E A POLÍTICA
FRANCIS WOLFF

tradução de
Thereza Christina Ferreira Stummer
e Lygia Araujo Watanabe

Cl'f ouvragt, puhlié dan.1· !e cadre d11 programme de participation à la


puh!ication, bénéjici1: du .1·0111ien d11 Mini.~ti':re Ji-cmçai.1· de.1· Ajfaire.1· Étrangi':res.
de !'Ambas.widl' dl' Fro11ce au Bré.l"il. de la Mai.wn fmnçai.1·e de Rio de Janeiro
et du Con.rnfm Général de Franc1' à Slio Paulo.

Este livro, publicado 1rn âmbito do programa de participação à publicação,


contou com o apoio do Ministério françê.s das Rclaçôcs Exteriores, da
Embaixada da França no Brasil, da Maison fnmçaisc do Rio de Janeiro
e <ln Consulado Geral da França cm São Paulo.

CONSULADO GERAL
DAFRANÇA/SP
MINISTÉRIO
DA CULTURA
!r 1
discurso editorial
Copyrigh t© hy Prcsscs Univcrsit aircs de Fram:c, 1991
Título original cm francês: Ari.1·tote et la polirique .

Copyrigh t© da tradução brasileira : Discurso Editorial , 1999 SUMÁRIO


Nenhuma pane desta publicaçã o pode ser gravada, 7 Da polític a até a Polític a de Aristót eles
armazena da cm sistemas eletrônic os, fotocopia da,
reproduz ida por meios mecânico s ou outros quaisque r
sem a autorizaç ão pr(:via ela editora.
35 A felicid ade de se vi ver junto
Andlis e dos dois primei ros capitul as da Polític a
Projeto (•diwrial: Departam ento <lc Filosofia da FFLCH-U SP O PRIMEIR O CAPfTU LO, 35
Dirt-çüo editorial: Milton Meira do Nascimen to
Proj,:to grâjko e editoraçl io: Guilherm e Rodrigue s Neto
Tese geral, 3 5
Copt.J: Christian Biancard iní Primeira premissa: 'A. cidade é uma comunidade': 36
Revi.Hio: José Teixeira Neto
Tiragem: 1.00() exemplar es
Segunda premissa: "Toda comuni dade
visa um certo bem': 42
Terceira premissa: '.í1 comuni dade política é aquela
que é soberana entre todas,
Ficha catalográ fica: Sonia Maria Luchetti CRB/8-4 664
e inclui todas as outras", 44
W853 Wolff, Francis O direcionamento polêmico da tese, 4 5
Aristótel es e a política / Francis Wolff; tradução,
Thereza Christina Ferreira Stumme r, Lygia Arnujo Um método: a andlise, 48
Watanab e. - São Paulo: Discurso Editorial , 1999.
O SEGUND O CAPfTU LO, 49
156 p. - (Clássico s e Comenta dores.Ed ição de Bolso}
A comuni dade de base da cidade: O lar, 50
Tradução de: Aristote et la politique
ISBN: 85-86590 -1 i-8 A comuni dade do vilarejo, 66
A comuni dade política (cidade), 68
1. Aristótel es 2. Filosofia política 3. Política I.
Título. II. Stummer , Thereza Christina Ferreira. III. Observação ética, lógica e cosmológica, 7 4
Watanab e, Lygia Araujo. IV. Série.
NOTA SOBRE A ESCRAV IDÃO, 96
CDD (l 9.ed) 185 103 Em busca do justo regime. Andlis e do Livro III
320
320.5 Estrutura de conjunto, 103
A classificação dos regimes (caps. 6 a 8), 105
Precisões prévias (caps. 1-5), 113
Em busca do regime mais justo (caps. 9-13), 118
O Capítulo 9, 123

hl
discurso editorial
Av. Prof. Luciano Gualocno , 315 ("ala l033)
A intenção dos capítulos 10-11, 129
Aristóteles e a democracia, 131
A defesa da soberania popula r no Capítulo 11, 13 5
05508-90 0 - Sâ\, Paul11 - SP Os capítulos 12-13, 143
TcJ./Fax: (Oxxl 1) 814-5383
discursn@ l org. usp. br
A realeza (caps. 14-17) , 148
www.disc urs1i.c(im .hr
153 Refer!n cias bibliog rdficas
Este pequeno livro não tem outra pretensã o além de preparar
ou acompan har a leitura da Política de Aristótel es. O Capítulo 1 é
uma apresenta ção geral desta obra, a partir da história - ou antes, da
pré-histó ria - do pensame nto político grego, seguida de um resumo
Da política até
analítico destinad o a facilitar seu acesso. O Capítulo 2 propõe um
comentá rio dos dois primeiro s capítulos da Política, ressaltan do seus
a Política de Aristóteles
objetivos próprios e ressituan do-os no quadro mais geral da filosofia
de Aristótel es; segue-se um breve apêndice sobre a teoria da escravi-
dão, exposta nos capítulos 4 a 7 do mesmo livro. O Capítulo 3 é con-
sagrado à análise do Livro III: é o livro fundame ntal, do ponto de Já se conseg uiu dizer que a filosofi a fala grego. É·
vista político, porque ali Aristótel es classifica e compara os diferente s possíve l. Em todo caso, é certo que a política , sim, fala
regimes. Veremos que daí se depreend e, em particula r, uma defesa sin- grego. Não se pode, com efeito, falar acerca de política
gular do regime "democr ático". sem a língua grega: "tirania '', "monar quia", "oligarq uia"·,
A escolha das passagen s em que nos concentr amos evidente - "anstocr
. " ", "pl utocrac 1a
ac1a .,,,(d
, .,, ... to do o nos-
emocra c1a
mente não esgota o interesse da Política: o sociólogo ou o historiad or,
so vocabu lário político saiu dela. E, em primeir o lugar, a
até mesmo o "politólo go", teriam sem dúvida privilegi ado o urros li-
vros. Escolhem os abordar a Política de Aristótel es por onde ela mais própria palavra política . A palavra tanto quanto a coisa.
marcou a história da filosofia política e por onde ela pode continua r a A política , de fato, a própria idéia de política , é o produ-
alimentá -la. to de um momen to singula r em que se cruzara m, em nossa
Depreen de-se uma cerra lição geral: a de que só há política história , dois frutos da história grega: um novo modo de
determin ada por aqueles aos quais ela é destinada . pensar surgido · por volra do século VI antes de Cristo,
As referências à Política são dadas, conform e o uso, da seguinte fundad o no livre exame e na interrog ação sobre o funda-
maneira. O número em algarism os romanos indica o livro; é seguido mento de todas as coisas, encontr ou um modo livre e novo
de um número em algarism os arábicos, indicand o o capítulo, e de-
de viver juntos, surgido no século VIII antes de Cristo,
pois do número da página da edição Bekker (a edição moderna do
texto de Aristótel es a cuja paginaçã o se referem todas as edições e
chamad o polis. Produto desse cruzam ento, a política é a
traduçõe s disponív eis), em seguida, da letra (a ou b), indicand o a prática da polis que se tornou conscie nte de si própria ,
coluna, e, finalmen te, da linha, dessa mesma edição. A tradução que ou, inversa mente, a investig ação sistemá tica aplicad a à
utilizamo s é a de P. Pellegrin, Aristote, Les Politique s, Coleção GF, polis. É, numa palavra , o livre pensam ento de uma vids-
Flammar ion, Paris, 1990. As referênci as aos outros textos de Aristó- livre. "Polític à' é, com efeito, uma dessas palavra s curio-
teles são dadas segundo essa mesma convençã o, utilizand o-se as se-
sas (como a palavra "histór ià') que designa m ao mesmo
guintes abreviações: Fís. para Física (edição francesa: Physique, trad.
de H. Carteron , ed. Les Belles Lettres); Met., para a Metafisica; Et. tempo uma "ciênci à' e o seu objeto: entende -se efetiva-
Nic., para a Etica a Nicôrnaco (Métaphy sique e Ethique à Nicomaq ue, mente por ela um conjun to de práticas às quais os ho-
ambas na edição francesa traduzida s por J. Tricor, Vrin). mens se dedicam para coexisti r, e também o estudo obje-
tivo dessas mesmas práticas . (Da mesma forma, a história
,---- --------

8 FRANCIS WOLFF
Da política até a Política de Aristóteles 9

é ao mesmo tempo o devir das socied ades e o seu estudo .)


viver de outro modo) . Se a polític a é aquilo que depen de
Ora, de cerra maneir a, um não anda sem o outro: enqua n-
de nós, depen de de nós també m que ela seja outra, e, por
to o políric o não se deu ao olhar dos homen s como um
que não?, perfeit a. O pensam ento polític o clássic o se deu
objeto que se possa estuda r e interro gar por ele própri o,
sempr e esses três objetiv os: pensar o que é a vida polític a,
os homen s "não fizeram " polític a. Sem dúvida , antes do
o que ela poderi a ser e o que ela deveri a ser. Tracem os en-
aparec imento da polític a, já existia m socied ades, e os ho-
tretant o de definir melho r o assunt o.
mens se acomo davam a elas, bem ou mal, para vivere m
Em sentid o estrito , a polític a são os negóci os da
juntos . Mas, enqua nto não pensaram aquilo que viviam
polis. Esta palavr a grega design a a urbe (ville} (por oposi-
como algo que perten cia a um domín io que chama mos
ção ao campo ), mas també m a civiliza ção (por oposiç ão à
de políric o, isto é, como algo que dependia deles, eles não nature za selvag em ou à barbár ie), e finalm ente, e sobret u-
poderi am, especi ficame nte faland o, fazer polític a (e are-
do, a cidade [cité}, entida de comun itária autôno ma, à qual
cíproc a, a fortiori, é verdad eira): subme tiam-s e a um po-
algum as dezena s de milhar es de habita ntes têm consci ên-
der como a um destino , contra o qual nada se pode fazer,
cia de perten cer (os atenien ses, ou os esparta nos, ou os
uma vez que não existe enqua nto tal, tão próxim o está
corínti os ... ), reconh ecendo nela algo como sua "pátria '.
daquil o que se é; um poder, frágil ou rodo-p oderos o, mas
A cidade tem seu territó rio - que ultrapa ssa ampla mente
sempr e vindo do alto, no qual mal se disting uem a auto-
os limites da "urbe" - e se abriga por detrás de seu "regi-
ridade do chefe, a irrecus abilida de da tradiçã o e o temor
me" própri o. Cada uma delas saiu de diversa s tribos,
aos deuses . E assim como um povo sem memó ria históri - federa das sob institu ições polític as e religio sas comun s,
ca não tem verdad eirame nte históri a, uma vez que não mas os particu larism os "tribais " foram logo digerid os, a
pode agir sobre ela, da mesm a forma um povo sem a cons- cal ponto que no século V o sentim ento de perten cer à
ciência de um domín io própri o das coisas da cidade não sua cidade é para rodos primor dial e vence até mesmo o_
pode agir politic ament e, uma vez que não sabe que a po- enraiz ament o no heleni smo (marca do, entreta nto, por
lítica é aquilo que lhe perten ce. Aquilo que a própri a exis- uma comun idade étnica, lingüís tica e de culto).
tência da polis permit iu, na verten te das prática s (a políti-
Portan to, em certo sentido , a polític a tem, para um
ca que se faz), a existên cia do pensam ento racion al o
grego, um terreno mais estreit o do que para nós, pois
permit iu, na verten te da consci ência reflexi va (a polític a concer ne aos negóci os da cidade , no sentid o bem parti-
que se estuda ). E esta foi desde logo descrit iva e norma tiva: cular do termo. Não viver numa cidade é, para um grego
pois poder pensar a manei ra pela qual se vive politic amen- da época clássica, não viver politic ament e (isto é, de ma-
te, poder distanc iar-se dela para tomá-l a como objeto , já neira civilizada). É bem verdad e que, após a conqu ista
é simple smente pensar que se poderi a não viver assim (mas
alexan drina, quand o rodos depend erão do mesmo rei da
10 FRANCIS WOLFF
Da política até a Política de Aristóteles 11

Mac edôn ia, e as cida des terão perd ido sua auto
nom ia, os
é, que não deve m ser o privi légio exclu sivo de ning
greg os, num certo sent ido, já não "farã o" mais
polít ica. uém " 1,
Em todo caso , as gran des obra s do pens ame nto "tod as as ativi dade s relat ivas a um mun do com
polít ico um" , por
greg o (entr e as quai s, a de Aris tótel es) são aind opos ição àquelas "que conc erne m a· man uten çao - d a v1.da"2 .
a cont em- Assi m, "faze r políc icà', isto é, parti cipa r da vida
porâ neas da polis, a desp eito de certo s desc omp com um,
assa s cro-
noló gico s aos quai s volta remo s adia nte. não é, na époc a clássica, uma ativi dade entre
outr as pos-
Mas a polít ica não é apen as uma reflexão sobr e síveis: é a ativi dade nobr e por exce lênci a, a únic
uma a que vale
form a histo ricam ente data da ou uma sing ulari o sacri fício de sua vida . (Des prez a-se o nego cian
dade etno - te, o ho-
gráfi ca, a cida de: ela tem um esco po univ ersal mem que "faz negó cios" , isto é, negó cios priva
ou, ao me- dos. ) O
nos, gera l. E os "neg ócio s da cida de", para além dest ino de um jove m aten iens e só pode ria ser
das part i- a "carr eira"
cula ridad es da polis, têm uma exte nsão bem maio polít ica - que justa men te nada cem de uma carre
r do que ira. Po.r
para nós, mod erno s. Com efeit o, dize r "polí cicà' que uma cal valo rizaç ão? Há crês tipos de razão
, para nós, para isso ..
é asso ciar algu mas imag ens (cam panh as eleit Aco ntec e, em prim eiro luga r, que a idéia de
orais , lucas "su-
parti dária s, amb içõe s pesso ais) e algu ns aspe ctos cesso priva do" seria uma cont radiç ão num a civil
bem de- izaçã o que
finid os da vida socia l: há "hom ens polít icos" iden tific a o suce sso com os seus signo s: o hom
(pro fissi o- em supe ri-
nais) e outr os que não o são, assim com o há or é aque le reco nhec ido com o tal. A língu a greg
cléri gos e a desi gna
leigos; mom ento s polít icos e outr os que o são men com uma únic a pala vra os valo res reconhecidos,
os; even - justa men -
tos polít icos e outr os que abso lutam ente não te enqu anto eles se ofere cem ao reco nhec imen
o são, etc. to: kaios (=
Para os greg os, toda a esfer a da vida públ ica é, belo ) é dito de uma coisa , de uma ação ou de um
num certo hom em
sent ido, polít ica, e a esfer a priv ada é mui to mais que seja obje to de adm iraçã o, seja no plan o "mo
estre ita ral", seja
do que para nós: nem a "mo ral", nem a relig no "esté tico" . Civi lizaç ão da visib ilida de: a estat
ião, nem a uária gre-
educ ação das crian ças, por exem plo, estão fora ga leva ao seu apog eu a arte de ofere cer aos olha res de
do cam po to-
da polít ica. Não que "tud o seja polít ico" , isco dos uma form a adm iráve l que seja seu cent ro.
equi vale ria Na mes ma
a dize r que "nad a é polít ico", isto é, seria nega da époc a, os greg os inve ntam o teatr o ( tragé dia,
sua espe - com~d_ia),
cific idad e: o "eco nôm ico" , por exem plo, que que perm anec e o arqu étipo do espe tácul o: nele
para nós é tudo e visco
altam ente polít ico, perte nce para eles à esfer por todo s os lado s, tudo está man ifest o, e reves
a priv ada e te-se dos
conc erne à gestã o do patr imôn io (a pala vra vem sinai s exte riore s da visib ilida de; nele, o "pen same
de oikos, nto" está
que sign ifica "casa", prop rieda de). O terre no polít
ico per-
tenc e, para os greg os, ao koinon, o com um, e
"aba rca to-
1 J.-P. Vern ant, L'individu,
la mort, l'amour. Paris, Gal1imard, l 98~,
das as ativi dade s e práti cas que deve m ser parti p. 218,
lhad as, isto
2 H. Arendt. La condi tion de f½om me moder ne, p.
66.
12 FRANCIS WOLFF
Da política até a Política de Aristóteles 13

totalm ente volta do para o exteri or, como o espaç o do te-


A grand e cisão entre home ns livres e escra vos distin gue
atro se repro duz no espaç o da cidad e. Pois o deus de pe-
aquel es que têm quase todos os poder es sobre outro s ho-
dra ou o ator se acham no centr o de uma ordem organ
i- mens . As crian ças devem natur alme nte obed iênci a aos
zada por eles, no ponto de conve rgênc ia de todos os ponto
s adult os, e as mulh eres aos home ns, ainda que estas tenha
de vista possív eis. Este é o lugar ideal do herói arcaic o m
(o pode r sobre a casa famil iar (espa ço priva do). Estes , os ci-
guerr eiro homé rico) , ou, na idade clássi ca, do home
m dadão s, const ituem o conju nto da comu nidad e cham ada
políti co, um e outro , no centr o do círcu lo comu m.
O cidad e (espa ço públi co). A políti ca é, porta nto, ocupa ção
orado r da assem bléia do povo , que "acon selha a sua cida-
exclu siva daque les que a prior i já estão cheio s de poder es:
de", atrai todos os olhar es e brilh a por sua doxa, no duplo
mais do que uma ocupa ção, trata- se de um privil égio,
senti do do ponto de vista que ele tem sobre as coisa s (opi- e,
por isso, de uma obrig ação. Mas é tamb ém ocupa ção para
nião) e do ponto de vista que se tem sobre ele (repu ta-
todos , colet ivam ente, e, bem ou mal, de todos , distri bu-
ção). O suces so políti co, dito de outra forma , públi co por
tivam ente, ou ao meno s daque les que se most rem, aos
seu domí nio e publi came nte sanci onad o, é porta nto
o olhos de rodos , os melh ores entre os iguais .
único possív el.
Afina l, se a prátic a políti ca reves te-se de um valor
A políti ca é, por outro lado, o único lugar em que
tão eleva do, é porqu e a excel ência políti ca totali za de al-
se decid e o poder : o que defin e a polis é que, contr aria-
gum modo todas as outra s excel ência s. Em prime iro lu-
ment e à tribo ou às grand es mona rquia s, contr ariam ente
gar, porqu e o terren o políri co recob re todas as comp etên,-
à comu nidad e famil iar, ali ningu ém possu i a prior i o po-
cias partic ulare s e exige uma comp etênc ia unive rsal: na
der. Não se trata do objet o de um "ter" reserv ado, mas
o assem bléia delib erativ a de uma demo craci a direta , com
lugar de uma luta pelo recon hecim ento públi co, princ
i- efeito , todos os cidad ãos devem se pronu nciar a respe ito
palm ente - mas não exclu sivam ente -, quan do a polis
é de todos os assun tos, pelo meno s todos os assun tos de
demo crátic a (caso de Atena s). Reco nheci ment o-riv alida
- intere sse geral (ver Platã o, Protágoras, 219 b-d). Além do
de que conce rne aos cidad ãos, defin idos pelos poder es que
mais, o home m políti co deve demo nstra r o mais eleva do
já possu em por outra parte , lá onde o pode r já não é um
grau de todas as quali dades mora is: justiç a, pieda de, sen-
objet o de dispu ta, mas um atrib uto que se possu i por na-
so de honr a e de sacrif ício. Por fim, e simp lesme nte,
turez a, pelo que se é um home m livre, adult o e mach o 3 o
. home m comp leto só pode ser o cidad ão, porqu e seu grau
de comp letud e se mani festa pelo pode r que ele tem sobre
seus pares . Com o Mêno n indic a, no diálo go Mêno n, de
3 Lembremos que estão excluídos da cidadania os estrangeiros
, os uma mane ira geral, a virtu de do home m "é a capac idade
escrav os, as crianç as e as mulhe res.
de coma ndar home ns" (73 b); e, no Górgias, Górg ias re-
14 FRANCIS WOLFF
Da política até a Política de Aristóteles 15

pete, fazen do eco: o dom ínio polít ico recob re "as mais
im- ouro da polis é o sécul o V; a da filoso fia, é o sécul
porta ntes e as melh ores coisa s hum anas " (451 d), o IV A
e não polít ica, no senti do de vida sob o teto da polis, porta
há bem maio r para o hom em do que conv ence r os nto,
outro s não coinc ide exata ment e com a polít ica, no senti
em qual quer reun ião de cidad ãos (452 d). Num a civili do de
za- refle xão sobre a polis: a filoso fia polít ica é a cons
ção do prest ígio, roda qual idad e (indi vidu al) é tradu ciênc ia
zida de uma form a que se acha no crepú sculo , como Hege
em supe riori dade (sobr e os outro s), e num a socie dade l já
sem indic ava. Em Aten as, no sécul o V, desco nfia- se das
mon arca (a polis), toda supe riori dade recon hecid a deve espe-
ser culaç ões teóri cas dos "filós ofos" sobre a Natu reza
tradu zida em pode r. É preci so inver ter a idéia mod e sobre
erna o Ser, e o prim eiro filóso fo da cidad e, Sócr ates, foi
segu ndo a qual o públ ico é o priva do posto em com con-
um, den~ do por ela à mort e. Tudo se passa como se, na
ou a polít ica do singu lar quan do coloc ado no plura idade
l. A cláss ica da cidad e, as exigê ncias da polít ica se opus
cidad e não é uma soma de indiv íduo s, é antes o essem
indiv í- às da filoso fia. A prese rvaçã o da cidad e não requ er
duo priva do que a prior i é pens ado como "redo bram outra
ento espe culaç ão além dos velho s princ ípios de uma
sobre si mesm o" do públ ico. A polít ica não passa da mora l
reali- prag máti ca, e, por cons eguin te, proíb e a do "livr e-pen
zação de si, uma vez que o "si" é relaç ão com o outro sa-
. dor" , o filóso fo: pens ar dema is, os deuse s da cidad e
A polít ica, cruz amen to do "pen same nto racio nal" o pro-
íbem ; pens ar bem dema is, é uma amea ça para o
e da polis, tem final ment e um terre no tão ampl o, que equil í-
seus brio entre cidad ãos (veja-se a instit uição do "ostr acism
limit es conf unde m-se com os limit es do hum ano, o");
e um pens ar difer ente dema is, é uma amea ça para a harm
valor tão emin ente, que de certo mod o engl oba todo onia
s os da cidad e (veja m-se os nume rosos proce ssos "anti intel
outro s valor es. Pode ríam os esper ar então que, do ec-
enco n- mais " do sécul o V). Os pouc os pens ador es polít icos
tro da form a mais livre do pens amen to, a filoso fia do
(que sécul o, como Protá goras , são "estr ange iros" em Aren
não tem de dar satisf ações a nenh um mest re, a não as,
ser a si onde são perse guido s e indic iados por "imp iedad e";
mesm a), com a form a mais livre da vida com um, como
a polis tamb ém o são algun s filóso fos da natur eza, que, a
(que por sua vez tamb ém não dá. satisf ações a nenh exem -
um plo de Anax ágora s, tenta m fazer carre ira em Aten as.
mest re, a não ser a si mesm a), nasc eu a filosofia polít Com
ica, Sócr ates, num certo senti do, tudo mud a, e, num
que teria sido afina l a realiz ação idílic a de uma e da outro
outra senti do, a contr adiçã o filos ofia- polít ica torna -se extre
em sua união . ma.
Tudo mud a, porq ue ele é, ao mesm o temp o, cidad
Não foi bem assim . De fato, entre filoso fia e polí- ão ate-
niens e e filóso fo, e mesm o filóso fo por excel ência ,
tica, tudo se passo u, ao contr ário, como se tives se havid e, por
o, excel ência , o filóso fo da cidad e. Mas o divór cio filóso
desd e o início , um imen so mal- enten dido . O desco fo-
mpas so cidad e ating e seu pont o máxi mo: não some nte pela
das datas de seus apog eus respe ctivo s o atest a: a idad con-
e do dena ção de Sócr ates à mort e, mas por sua vida, cuja
no-
16 FRANCIS WOLFF
Da política até a Política de Aristóteles 17

táve l orig inal idad e, aos olho s de seus cont emp


orân eos, re-
sidia just ame nte no fato de a polí tica ter fica qua nto poss ível; a vida de Plat ão é pon
pou co espa ço tuad a por suas
nela . O que não o imp edia , segu ndo Plat ão tent ativ as de fund ar em Sira cusa uma cida
(Górgias), de de conf orm e
se proc lam ar "o únic o hom em polí tico verd ao idea l filos ófico . Num a pala vra, para Plat
adei ro de seu ão, a cida de
tem po" (isto é, o únic o preo cupa do com a dign a dess e nom' e era filos ófica , e a filos ofia
just iça abso lu- era inte ira e
ta), e de se orgu lhar , segu ndo Xen ofon te prof und ame nte polí tica; mas é tam bém a razã
(Memoráveis), o pela qual
por form ar hom ens de Esta do. Mas a dist não há filosofia polí tica prop riam ente dita em
ânci a entr e o Platão. En-
hom em e a cida de é aind a gran de dem ais. tend a-se : refle xão sobr e a cida de enq uan to
O que ela que r tal, enga jada
é o opo sto daqu ilo que ele lhe ofer ece: nas vicis situd es impr evis íveis da histó ria.
ela exig e não uma
dedu ção univ ersa lme nte válid a, mas uma adap É pois a Política de Aris tóte les que inau gura
tação às cir- a filo-
cunstâncias, não uma inte rrog ação sobr e a essê sofia polí tica, just ame nte no mom ento em
ncia , mas o que a polis clás-
senso das oportunidades, não o enun ciad o de sica está se acab ando . Em que sent ido'
uma verd ade
sem conc essõ es, mas a soma de pont os de vista Prim eira men te, no sent ido de que, com Aris
múlt iplo s e tóte -
discordantes. A esse títul o, os sofis tas são os les, a expr essã o "filo sofia polí ticà ' deix a de
verd adei ros ser taut ológ ica
pens ador es polí tico s do sécu lo V, e Prot ágor ou cont radi tória . Aqu ilo que sem pre fora ,
as é o verd a- em cert o sent i-
deir o repr esen tant e da polis. Qua nto ao filós do, até ele. Para Piar ão, por exem plo, não há
ofo, sua con - filos ofia polí -
dena ção à mor te pela cida de acab a por con tica porq ue a polí tica prat icad a no dia- a-di a
sum ar o di- da cida de não
vórc io e con sign a a imp ossi bilid ade de é da cont a do filósofo; que a filos ofia se torn
uma "filo sofi a e polí tica nest e
polí ticà ' no gran de sécu lo da cida de. sent ido, que ela se pon ha na med ida das cont
ingê ncia s da
Inve rsam ente , o sécu lo segu inte será o da filos cida de, 'seri a algo cont radi tório . Mas é ao
ofia. mes mo tem po
Pois Plat ão fará dest e divó rcio a sua razã o porq ue esta polí tica não é ,ver dade iram ente
de ser, e a ma- polí tica: a
téria -pri ma de sua refle xão. Rea bilit ar Sócr verd adei ra cida de não seria nad a mais do que
ates e a filos o- a verd adei -
fia, elim inar o espe ctro da cicu ta, é, em prim ra filos ofia; a prát ica polí tica real, não a cari
eiro luga r, catu ra que ele
para Plat ão, torn ar a filos ofia tota lme nte polí estim a ter dian te de si, dom inad a pelo s reto
tica: sua obra res e dem ago-
maio r, a República (Politeia), abar ca assim gos, é uma ques tão de perf eito conh ecim ento
a tota lida de do , exau stivo e
pensável ("moral", "metafísicà', "conhecimen eter no. Se é prec iso pôr o filós ofo à fren te
to", "arte") da soci edad e
- e não apen as "os negó cios da cida de" - a (República, 473 c), é porq ue ele é o únic o a
fim de lanç ar pod er atin gir
as bases de uma cida de idea l na qual os filós o ser imu táve l (484 6), isto é, a ser capa z de
ofos seria m se elev ar aci-
reis. Mas , para Plat ão, tent ar reco ncil iar a poli ma das vicis situd es do devi r (485 b). A deci
s e a filos o- são polí tica
fia é tam bém , sime trica men te, torn ar a cida sábi a (euboulía) é, com efeit o, um sabe r, rese
de tão filos ó- rvad o aos ra-
ros indi vídu os susc etíve is de esta bele cere m
para si com o
18 FRANCIS WOLFF
Da política até a Política de Aristóteles 19

obje to "a cida de em seu rodo , tant o em


sua orga niza ção
inte rna, qua nto em suas rela ções com as Mas a filosofia de Aristóteles perm itirá just ame
outr as cida des" nte pen-
(428 b-d) , pois a ciên cia d;i. just iça é nece sar essa auto nom ia. Pois ela não subo rdin
ssár ia à prát ica a a prát ica polí tica
polí tica (Górgias, 459 d); "a ciên cia do polí à poss e de um sabe r imu táve l, mas de qual
tico " exig e com idad es part icul ar-
efei to que ele man tenh a seus olho s fixo men te rebeldes ao conc eito , a uprudêncià'
s na idéi a de Bem e a "experiência".
e é por essa razã o que ele poss ui a ciên cia Esta é apan ágio daqu eles que sabe m não por
sup rem a. Este s tere m apre ndi-
traç os mar can tes do pen sam ento polí do, mas por tere m vivido, pois ela não nasc
tico de Plat ão só e da tran smis são
pod em ser esqu ema tica men te leva ntad os do universal, mas da repe tição do part icul ar.
aqu i. Mas bas- Ao con trár io da
tam para mos trar que com Plat ão real iza- ciên cia que con cern e ao que é necessário
se uma tend ên- e ao que não de-
cia da filos ofia que desd e sua orig em é pen de de nós, a "pru dên cià' (isto é, a sabe
dom inan te: atin - dori a na orde m da
gir a resp eito da tota lida de das cois as um ação) con cern e ao que é con tihg ente , e se
pon to de vist a adap ta à variabili-
que as aba rque num sabe r tota l, imu táve dad e de indi vídu os e de circ unst ânci as; dess
l e perf eito , que e mod o, está na
poss a pôr fim a roda s as con trad içõe s e, med ida da cida de, na qual se deli bera sobr
por tant o, guia :, e aqui lo que pod e
de uma vez por roda s, as prát icas hum ana ser dife rent e do que é, já que isto dep end e
s. Apo lts, e mai s de nós (ao con trá-
gera lme nte as "coi sas hum ana s", não pod rio do mov ime nto dos astros, que só pod emo
e con stitu ir um s adm irar, sem
mun do dist into ou autô nom o em rela ção pod er fàzer nada ), e na qua l nos defr onta mos
ao mun do do com a histó ria,
céu e, mai s gera lme nte, da natu reza imu isto é, com a sucessão de even tos particul
táve l: uma ord em ares. Ana lisan do o
únic a regu la o mun do e harm oniz a o sent ido e o luga r desse conc eito de "pru dênc
con junt o das coi- ia" na filosofia
sas, e o hom em que está em con diçõ es de Aris tóte les, P. Aub enq ue dem onst rou o
de dom inar pelo qua nto ele é soli-
seu sabe r essa unid ade rota i é a que m cabe dári o de toda a cosm olog ia do filósofo, que
con duz ir a ci- dist ingu e a or-
dad e, essa cois a entr e as cois as. Lon ge de dem imu táve l e necessária do "mu ndo cele
ser, nest e pon to ste" ("su pral unar ")
de vista , um pen sado r "dua lista ", a que e a orde m con ting ente do mun do "terrestre
é freq üen tem ente " ("su blun ar") . O
redu zido , é enq uan to pen sado r da unid ade acaso, a tem pora lida de, a circ unst ânci a não
e da unic idad e têm nela um lu-
do mun do - da natu reza até o hom em, gar mar gina l, más sim essencial, e, de cerr
do céu até a terr a, o mod o, o mai s
da cida de até o indi vídu o - que Plat ão elev ado, pois são a cond ição de existência
põe o prob lem a da libe rdad e dest e
da cida de. E ele é reso luto ao recu sar à mun do: este mun do que, na falta de ser
idéi a de auto no- divi no, é hum ano ;
mia do polí tico qua lque r per tinê ncia - dem asia do hum ano , sem dúv ida, tend o em
seja com relação_à vista o ideal con -
mat emá tica , à astr ono mia ou à dial étic a. tem plat ivo, mas bem hum ano mes mo, para
Esta auto nom ia que se poss a agir
con sign aria a derr ota do pen sam ento , assi e escolher. É nest e mun do que a polis, a cida
m com o sign i- de real, não um
fico u a mor te do filós ofo (Sóc rate s). son ho de cida de celeste, existe, e é ela que
o filósofo pod erá
enfi m esrudar.
20 FRANCIS WOLFF
Da política até a Política de Aristóteles 21

Há, por tant o, para Aris tóte les, uma espe


cific idad e senc ial da étic a, até mes mo a mai s elev ada,
das "coi sas hum ana s". E, nest a esfe ra, há é apo lític a. A
uma auto nom ia vida mai s elev ada, para o Sáb io, é, com
da polí tica , espe cial men te em rela ção à efei to, a vida con -
étic a. A "filo sofi a tem plat iva daq uele que con hece (Ét. Nic.
das cois as hum ana s", segu ndo a expr essã , X, 7-8) , que
o de Aris tóte les disp ensa qua lque r part icip ação na ação
(Ét. Nic., X, 1 O, 118 1 b 15), tem segu ram polí tica ; o Sáb io
ente um obje to vive só, à mar gem da cida de, e dela espe
uno , o hum ano enq uan to tal, mas que ra apen as silên -
pod e ser foca liza - cio. Inve rsam ente , uma part e imp orta
do de dois pon tos de vist a dist into s, que nte da polí tica é
são resp ecti va- amo ral. A "ciê ncia polí tica ", com efei to,
men te ado tado s pela s dua s obra s que con tem com o obje -
hec emo s com o to, entr e outr os, estu dar fria men te as caus
nom e de Ética a Nicômaco e de Política. as da gran deza
A con duta dos e da deca dên cia dos dife rent es regi mes ,
indi vídu os con stitu i a mat éria -pri ma da e pod e-se utili zar
étic a, e a hist ória tal con hec ime nto para elab orar polí tica
das cida des com seus regi mes con stitu i s de man uten ção
a da polí tica . De da ord em, ou para aux iliar qua lque r pod
uma para outr a, há múl tipl os laço s, com er, mes mo tirâ-
sent ido dup lo: a nico , a se salv agu arda r5 . Em sum a, com
polí tica con tinu a send o, para Aris tóte les Aris tóte les, a po-
- é ao men os o lític a não é inde pen den te da étic a, mas
que ele afir ma no iníc io de sua Ética -, adq uiri u sua au-
a sup rem a ciên - tono mia : dize r "a polí ticà ' dora van te tem
cia, da qua l dep end em o estu do e a efet ivaç sent ido. Com a
ão do "sob era-
1 no bem "; o hom em só pod e realizar sua natu reza de ho-
Política de Aris tóte les, a filos ofia pôs- se fina
lme nte à al-
i mem na e pela cida de. Inve rsam ente , a cida de, qua ndo
tura da cida de, de seu luga r pro pria men
te hum ano no
dign a dess e nom e, tem uma fina lida de mun do, e de seu luga r próp rio no mun do
alta men te mor al, das "coi sas hu-
man as". Prim eiro livro de "filo sofi a polí
com o Aris tóte les não pára de repe tir na
Política. Alé m do rica " 6 , em que se
mai s, a con duta indi vidu al som ente pod cruz am entã o, pela prim eira e últi ma vez,
eria ser boa em esta s dua s rota s
gera l com o auxí lio das leis da cida de, que greg as que até entã o perm ane ciam para
mos tram per- lelas : a filos ofia e
man ente men te qua l é a regr a e disp õem a cida de.
de um pod er co-
erci tivo qua ndo falta virt ude ; reci proc ame
nte, são nece s-
sári os mui tos legi slad ores virt uoso s para polít ica. A esse respeito, poderão ser lidos
dar boa s leis à os artigos de P. Aub enqu e,
cida de4. A étic a, por tant o, não é inde pen "Política e ética em Aristóteles", in Ktem a,
Universidade de Estras:-
den te da polí ti- burg o, nº 5, 1980 ; e a respo sta de P. Pelle
ca. E a polí tica dep end e da étic a em seu grin, na Intro duçã o de
dire cion ame nto sua ediçã o de Les Politiques, p. 24-3 0. Pode
tant o qua nto em seus mei os. No enta nto, rá ser consultada tam-
uma part e es- bém a obra de R. Bodé üs (cf. Refe rênci as
bibliográficas).
5 O que é obje to do final do Livro
V (caps. 8 a 11). Sobr e o cons e-
4 lho dado aos tiran os para se resguardarem
Ét. Nic., X, 10, 1180 a 21. Esse Capi tulo de pertu rbaç ões e sedi-
X, 10 da Ét. Nic. trata ções, ver V, I 1, 1313 a 34 e ss.
das relações tão cont rove rtida s, em Aris
tótel es, entre a ética e a 6 A próp
ria expressão "filosofia polít ica' surge em III,
12, 1282 b 23.
22 FRAN CIS WOLFF
Da política até a Política de Aristóteles 23

Mas o que isso quer dizer? O que há para se dizer


Adem ais, há tamb ém dois grand es tipos de proce -
sobre a cidad e? Tudo depe nde da pergu nta que se fizer,
e dime ntos possív eis: "espe culati vo" e "posi tivo". Por um
da mane ira pela qual se interr oga. Eis por que, se é que há
lado, pode -se busca r, como um teóric o, a partir das ques-
mesm o uma filoso fia políti ca de Arist óteles , esta não
é tões gerais que se ponh am a respe ito da cidad e, disce rnir
redut ível a um único proje to.
os funda ment os da vida políti ca, recua r até seu princ ípio
A filoso fia políti ca é desde logo descr itiva e pres-
{ critiv a, como disse mos. ideal ou absol uto, preoc upan do-se essen cialm ente com
Pois não se pode procu rar saber o
rigor racion al, a rique za conce ituai e a sistem aticid ade. Esta
como vivem os home ns, sem previ amen te se ter toma do
é, aliás, a imag em clássi ca do traba lho filosó fico. Pode-
distân cia da própr ia mane ira de viver, para pode r desse se
tamb ém, e mais "posi tivam ente" , partir de realid ades emº
modo objet ivá-la , ou sem conce ber que se pode ria viver
pirica ment e const atáve is (esta ou aquel a cidad e, este ou_
de outro modo , e busca r como viver melh or. Da políti
ca aquel e regim e, este ou aquel e acont ecim ento histó rico),
que se faz até aquel a que se dever ia fazer há uma passa e
- tenta r pensa r suas relaçõ es, evita ndo qualq uer julga men-
gem neces sária. Inver same nte, não se pode busca r qual seja
to ou hipót ese que ultrap asse os dados da prátic a real. Ora,
o melh or regim e políti co sem ter previ amen te recen sea-
a filoso fia políti ca de Arist óteles é ora "espe culat ivà', ora
do, organ izado e classi ficado todos os regim es possí veis.
"posi tivà', do mesm o modo que ela está anim ada por uma
Não há presc rição sem descr ição. Acres cente mos que, na
dupla preoc upaçã o, descr itiva e presc ritiva . E, uma vez
ordem das "coisa s huma nas", não se pode ter diant e de
que pode mos comb inar as duas inten ções e os dois pro-
seu objet o o dista nciam ento que tem um astrô nomo :
a cedim entos , são quatr o os projetos de filosofia políti ca que
ética não é puram ente espec ulativ a,visa o agir bem (Ét.
pode m ser discernidos na Políti ca de Aristóteles: pois pode
Nic., II, 2, 1103 b 26), como a políti ca visa o bem viver -
mos nos interr ogar sobre os funda ment os da políti ca com
junto s. Amb as as preoc upaçõ es, descr itiva e presc ritiva
, finali dades desc~itivas (perg untar -nos, por exem plo, o que
são porta nto solidá rias, e muita s vezes são difíce is de
se é iJ. cidad e em sua· essên cia); ou presc ritiva s (perg untar
distin guir uma da outra . São mesm o insep aráve is, numa -
nos, por exem plo, o que é, em termo s absol utos, a cidad
filoso fia que, como a de Arist óteles , ident ifica aquil o que e
ideal) ; pode mos tamb ém nos ater posit ivam ente aos da-
é um ser em sua essên cia, e o bem na direç ão do qual ele
dos da exper iênci a políti ca com finali dades descr itivas
tende . (perg untar -nos, por exem plo, quais são os tipos de regi-
Não obsta nte, é inegá vel que haja, em termo s abso- . mes políti cos), ou presc ritiva s (perg untar -nos, por exem
lutos , duas grand es quest ões de "filos ofia políti cà': "Com -
o plo, o que é precis o ser feito para prese rvar contr a a ruína
são as coisas da cidad e?" e "Com o elas dever iam ser?" '
cada regim e existe nte).
24 FRANCIS WOLFF
Da política até a Política de Aristóteles
25

Por con seg uin te, pro por em os o qua


dro aba ixo , no
qua l estã o clas sifi cad as as ten dên cias • O qua dro sud este cor resp ond e aos
dom ina nte s dos oito estu dos mai s "ma qui a-
livr os da Política de Ari stót eles : véli cos " de Ari stót eles : aco nse lha r
o prín cip e, qua lqu er
que seja ele; esta bele cer e pre serv ar
os reg ime s, qua is-
INT ENÇ ÃO INT ENÇ ÃO que r que seja m eles.
DES CRI TIVA PRESCRITIWI. • O qua dro nor des te cor resp ond e aos
estu dos mai s "ide a-
PRO CED IME NTO lista s" da Política: refl exã o foc aliz ada
ESP ECU LAT IVO na bus ca da cida -
LIVROS I e III LIVROS II, VII e Vlll de per feit a, ou do me lho r reg ime , con
stru ção teór ica fre-
PRO CED IME NTO qüe nte me nte feit a a prio ri. Co m freq
üên cia sur ge um a
POS ITIV O LIVRO IV inv esti gaç ão, um a pre ocu paç ão, com
LIVROS Ve VI o que um tom que
evo cam os d~ Pla tão da República.

Des se mo do, os oito livr os apa rec em Vê- se ent ão que a Política é um con
em qua tro qua dro s jun to de estu -
situ ado s em dua s linh as: dos var iado s nos qua is os gên ero s
se mis tura m, em que
• O con jun to dos livr os rea gru pad mu itas disc ipli nas (filo sofi a ou "ciê
os na linh a sup erio r ncia s pol ític as", soc io-
con stit ui um a teo ria dos fun dam ent log ia ou hist ória , eco nom ia ou ant
os da polí cica . rop olo gia soc ial) po-
•A lin ha infe rior rea gru pa os livr os dem enc ont rar sua s orig ens , e nas
que con stit uem o que qua is pod erã o mu ito
se den om ina ger alm ent e com o "bl bem ter- se insp irad o Mo nte squ ieu
oco real ista ''. ou Rou ssea u, Ma rx ou
• O qua dro nor oes te cor resp ond e Ma qui ave l, M. We ber ou H. Are ndt
aos livr os de "fil oso fia . Os hist oria dor es do
pol ític a" no sen tido estr ito do term pen sam ent o gre go pro cur ara m com
o. Con stit uem a me - freq üên cia dar con ta
lho r intr odu ção à pol ícic a aris toté lica des sa div ersi dad e pelo esti lo das obr
e, até mai s gen e- as de Ari stót eles que
rica men te, aos pro ble mas da filo sofi che gar am até nós (sab e-se que não
a pol ític a. Um de- são trat ado s des tina -
les (o Liv ro I) trat a dos dife ren tes tipo dos à pub lica ção , mas nor as de aula
s de vid a soc ial, o s, mai s ou me nos
out ro (Liv ro III) trat a dos dife ren red igid as e sem fÍÚvida reto mad as em
tes tipo s de reg ime s mo me nto s dife ren -
polí cico s. É prin cip alm ent e ao con tes do ens ina me nto de Ari stót eles
teú do des ses livr os no Lic eu) e por um a
que con sag rare mo s o rest ant e des tas evo luçã o do pró prio pen sam ent o de
pág inas . Ari stót eles : é um a das
• No qua dro sud oes te, no cru zam ten dên cias dom ina nte s da crít ica do
ent o de um dire cio na- séc ulo XX , apó s os
me nto des crit ivo e de um mé tod o infl uen tes trab alh os de W. Jaeger. A
pos itiv o, ach a-se .o reu niã o des ses livr os,
Liv ro IV, que rea gru pa estu dos que na ord em que con hec emo s hoj e, dar
cha mar íam os, em a pro vav elm ent e da
term os mo der nos , de soc ioló gico s. edi ção tard ia do Cor pus aris toté lico
três séc ulo s apó s sua
mo rte, e com isso era ten tad or par
a os eru dito s pro por
26 FRANCIS WOLFF
Da política até a Política de Aristóteles 27

reor gan izaç ões dess a ord em trad icio nal,


de aco rdo com o lare s imp orta ntes pon tuam a seqü ênc ia
que cad a um dele s estim asse ser a ord em do livro , nota da-
cron ol6g ica. Esse men te a deso rien tant e defe sa da escr avid
proc edim ento este ve por mui to tem po na ão (cap s. 4 a 7),
mod a, mas seus ou as fam osas anál ises de "eco nom ia polí
resu ltad os fora m logo con test ado s; hoje tica " dos caps . 8
, a ince rtez a dele s a 11, que serã o reto mad as por Mar x no
acab ou por emp ana r a fé no outr o. Con Livr o Ide O capi-
tent amo -no s em . tal, reco nhe cen do sua dívi da para com
con stat ar a dive rsid ade e o esri lhaç ame nto "o gran de pen sa-
"da" Política de dor que foi o prim eiro a anal isar a form a
Aris r6re les. A "cla ssifi caçã o" que n6s mes valor, bem com q
mos acab amo s tant as outr as form as, seja de pen sam
de pro por não tem qua lque r outr o obje ento , seja de so-
tivo , para além da cied ade, seja da natu reza ". Eis o plan o gera
dem asia do sim ples opo siçã o entr e "rea l do livro :
lism o" e "ide alis -
mo" , do que loca liza r as tend ênci as, isto A) A cidade, a mel hor das com unid ade s
é, as tens ões, dest e hum ana s
livro , e até mes mo de qua lque r escr ito (cap s. 1-2)
filos 6fic o sob re a
polí tica .
B) A fam ília (cap s. 3-13 )
É prec iso, no enta nto, com plet ar esta tent
ativ a de 1. As rela ções de pod er que con stitu em
reco rte da Política em qua tro gran des orie a fam í-
ntaç ões poss í- lia (Ca p. 3)
veis, por mei o de um resu mo anal ítico
de seu con teúd o, 2. A escr avid ão (cap s. 4-7)
que dará uma idéi a mel hor de sua vari edad
e. 3. A gest ão fam iliar ("ec ono mia '') (caps
. 8-11 )
4. As outr as rela ções fam iliar es (cap s. 12-1
3)
Livro J- A cidade e a fom ília 7

Qua lque r que seja a dara de sua com pos Livro II Estudo crítico das melhores constitu
ição , este ições
livr o, situ ado em prim eiro luga r em noss
as ediç ões, está Este livro som ente se liga ao prec ede nte
no seu dev ido luga r, pois disc erne o fun por algu -
dam ento e a es- mas linh as fina is do Livr o I (126 0 b 20-4
sênc ia de toda vida polí tica , reco loca ndo ), que talv ez te-
-a no inte rior de nha m sido acre scen tada s pelo s edit ores
outr as form as, mai s elem enta res, de vida anti gos, preo cu-
soci al. Os dois pad os em dar a imp ress ão de con tinu idad
prim eiro s capí tulo s, que são esse ncia is, e entr e dois livros
serã o anal isad os tão opo stos em espí rito com o em con teúd
em noss o próx imo capí tulo . Ent reta nto, o. Des ta vez,
estu dos part icu- Aris r6re les con cen tra suas anál ises na mel
hor man eira de
vive r poli tica men te, isto é, sobr e a mel hor
politeia, a me
lhor "con stitu ição ". Nes te livr o, con tent
7 Prop omo s estes títul os de capítulos e de
a-se com uma
livros para facilitar sua anál ise críti ca de con stitu içõe s exis tent es,
leitu ra. Evid ente men te, não são de Aris aqu elas que exis-
tótel es. tem em teor ia nos proj etos dos gran des
refo rma dore s po-
28 FRANCIS WOLFF
Da política até a Política de Aristóteles 29

lícicos, na primeir a fila dos quais está Platão 8 , e aquelas


B) As constituições reais reputadas como as melhores
que estão efetivam ente em vigor nas cidades reputad as co-
(caps. 9-l;n
mo as mais bem governa das. Mas existem , aqui e ali, es-
1. Esparta (Cap. 9)
tudos particul ares, bem como outras tantas inserçõ es que
2. Creta (Cap. 10)
merece m nossa atenção . Por exempl o, a passage m do Cap.
3. Cartago (Cap. 11)
8 (1268 b 25-126 9 a 28), tão estimul ante, e em certos
4. Alguns grandes legislad ores (Cap. 12)
aspecto s tão modern a, em que Aristóte les pergun ta-se se
é "melho r mudar as leis, quando se vê - ou quando se
acredit a ver - um meio de melhorá -las", ou se é "preferí - Livro III: A cidade, o cidadão
vel deixá-la s como são, ainda que pelo fato de que são e os diferentes regimes político s possíveis
leis" 9 .
Dedica remos nosso Capítul o 3 à análise detalha da
Eis o plano geral do livro:
deste Livro III. Eis o seu plano de conjun to:
A) Questões prévias ao exame dos regimes (caps. 1-5)
A) As constituições ideais em teoria (caps. 1-8)
1. O que é um cidadão ? (caps. 1 e 2)
1. A da República de Platão (caps. 1-5)
2. O que é a cidade? (Cap. 3)
2. A das Leis de Platão (Cap. 6)
3. A virtude política (Cap. 4)
3. A de Faléias (Cap. 7)
4. Limites da cidadan ia (Cap. 5)
4. A de Hipóda mo (Cap. 8)
B) Os difarentes regimes (c;aps. 6-8)
1. Princíp io de classificação dos regimes (Cap. 6)
2. Classifi cação dos regimes (Cap. 7)
3. Definiç ão da oligarquia e da democr acia (Cap. 8)
8 Que seja lembrado o fato de que a obra principal de Platão, que
traduzim os por República, em grego se denomin a Politeia, e que C) O problem a da justiça política (caps. 9-13)
sua última obra, As leis, recoma sobre novas bases seu projeto de 1. O fim da cidade (Cap. 9)
constitui ção ideal.
2. Os diverso s pretend entes ao governo (Cap. 1O)
9 Esta passagem foi analisada por J. de Romilly, La /oi dans la pensée
grecque, Les Belles Lettres, Paris, 1971, p. 220-5, e principa lmen-
3. O governo do povo é justo? (Cap. 11)
te por]. Brunsch wig, responde ndo ao texto preceden te, em "Do 4. Sobre a justiça política (caps. 12-13)
movimen to e da imobilid ade da lei", artigo publicad o na Revue
Internati onale de Philosophie (La méthodo logie d' Aristote, nº 133- D) O problem a da realeza (caps. 14 a 17)
4, 1980) e do qual tomamos empresta da a formulação do problema .
Recapitulação (Cap. 18)
30 FRANCIS WOLFF
Da política até a Política de Aristóteles 31

Livr o IV Tipos de regime


2. Anál ise da demo craci a e da oliga rquia
Com o Livro IV, entra mos naqu ilo que tradi cio- (caps . 4-6)
nalm ente é cham ado de "bloc o realis ta'' (livro s IV-V 3. Anál ise da aristo craci a e do regim e cons tituc io-
-VI)
da Política de Arist ótele s, em que pred omin a a obsti nal (caps . 7-9)
nada
adve rtênc ia quan to à diver sidad e dos fatos . Aqui o 4. A tiran ia (Cap . 10)
biólo -
go ganh a do meta físico . W Jaege r e outro s depo
is dele C) O melhor regime acessível (Cap . 11)
viram nesta mud ança de persp ectiv a a cons eqüê ncia
das
pesq uisas fome ntada s por Arist ótele s no Liceu , que D) O regime adaptado ao tipo de cidade (caps. 12-1 3)
lhe
perm itiram inven taria r e descr ever 158 "con stitui ções" E) Os três "poderes" constÍ/iucionais (caps. 14-1 6)
, das
quais some nte uma cheg ou até nós, a de Aten as. É 1. O pode r delib erati vo (Cap . 14)
desse
mod o que, na classificação comp letam ente conc eptua 2. O pode r exec utivo (Cap . 15)
l dos
regim es, no Capí tulo III, 7, opõe m-se as prec 3. O pode r judic iário (Cap . 16)
isões
empí ricas do Capí tulo IV, 3. Os crité rios a prior i
do Ca-
pítul o III, 8 dão lugar , quan do se trata de retom ar
uma
análi se comp arad a da oliga rquia com a demo craci Livr o V Aqu ilo que preserva e que destrói os regimes
a (em
IV, 4-6), a critér ios econ ômic os, socia is ou étnic os.
O con-
junto do livro , aliás, preo cupa -se com nuan ces socio Este livro é a seqü ência lógic a do prece dente . Abor -
lógi-
cas, o que muit as vezes lhe confe re um tom relati da o últim o pont o do prog rama anun ciado em IV,
vista , e 2: "Ex-
uma de suas conc lusõe s é que o melh or regim e varia por quais são os mod os de corru pção e de salva guard
de a das
acord o com os povo s cons idera dos (Cap . 12). O cons tituiç ões, tanto aque les que lhes são comu ns,
plan o quan to
de conj unto do livro é anun ciado no final do Capí os que são próp rios a cada uma delas , e por quais
tulo 2 causa s
(128 9 b 12-2 6), e proje ta um prog rama em cinco ocor rem da mane ira mais natur a1"(1 289 b 22-6 ). Para
pon- tan-
tos, os quatr o prim eiros dos quais são suces sivam ente to, pulu lam os exem plos histó ricos , as refer ência s geog
abor- rá-
dado s neste livro , fican do o quin to reser vado para ficas, detal hes biogr áfico s conc retos . Além do mais
o livro , Aris-
segu mte. tótel es adot a aqui uma liber dade de pens amen to,
uma
segu ranç a afas tada de qual quer prec once ito,
um
A) Objetivos do estudo dos regimes (caps. 1-2) amor alism o tranq üilo verd adeir amen te único s. "Este
Li-
vro V se torna assim ", como escre ve J. Aubo nnet , na
B) A variedade dos tipos de regimes ( caps. 3-1 O) Nota
de sua ediçã o, "aqu ele manu al práti co do hom em
1. Fund amen tos dessa varie dade (Cap . 3) de Es-
tado, no qual Maq uiave l prov avelm ente se inspi rou
para
32 FRANCIS WOLFF
Da política até a Política de Aristóteles 33
'
O prín cipe e para qs Discursos sobre a prim eira
década de Livr o VI: Com o estab elece r os difer ente s regim
Tito Lívio. "Co m freqü ênci a apar enta ndo indif eren es
ça para
com a natu reza do regim e cuja salva guar da se Este livro , que pare ce com plem enta r mais as anál
trata de as- i-
segu rar, Aris tótel es mult iplic a os cons elho s dest ses do Livr o IV do que as do Livr o V, supõ e, no
inad os aos enta nto,
dirig ente s, para se prot eger em cont ra sediç ões que o estu do do livro prec eden te, sobr e as caus
e revo lu- as da mor -
ções, na segu nda parte deste livro. Sórd ido cinis te dos regim es, tenh a sido feito , uma vez que agor
mo de con- a se pre-
selhe iro merc enár io? Con serv antis mo pasc alian ocup a em com o fund á-los da melh or man eira.
o de quem , Aqu i, o
por duvi dar que se poss a forta lecer a justi ça, a dest inatá rio dessa s pági nas será men os o dirig
torn a for- ente ou o
çosa, a fim de que haja paz, "que é o sobe rano bem hom em de Esta do do que o "legi slado r", isto
'' (Pascal, é, o fund a-
Pensées, Art. V, Laf. 81, Br. 299) ? Nem um nem dor da cida de, enca rreg ado de lhe conf erir as insti
o outr o. tuiçõ es
O tom é difer ente : é o tom do natu ralis ta que . . . . .
calm ame n- 1111c1a1s mais segu ras.
te cons idera com olho s tamb ém fasci nado s roda
s as cons - Introdução: Generalidades sobre a variedade de
titui ções que pôde colet ar. Tend o long ame nte consti-
obse rvad o
o mod o pelo qual os regim es e os seres vivo tuições e as constituições mistas (Cap . 1)
s nasc em e
mor rem, pode tirar dess a expe riênc ia uma sabe A) As democracias: o que são elas (caps . 2-4) e como
dori a de esta-
vete rinár io que não se preo cupa mais em sabe belecê-las (Cap . 5)
r se trata de
cuid ar de um sapo , de uma gaze la, de uma serp
ente , ou B) As oligarquias e como estabelecê-las (caps . 6-7)
de um cava lo.
C) As magistraturas (Cap . 8)
A) Causas gerais das sedições (caps . 1-4)
B) Causas das sedições de acordo com o regime e Livr o VII: A cida de "ide al"
a ma-
neira de se resguardar contra elas (caps . 5-12 )
Os livro s VII e VIII , que form am um todo , gera
1. Com o mor rem as dem ocra cias (Cap . 5) l-
men te cons idera do com o a parte mais antig a
2. 11 11 as oliga rquia s (Cap . 6) da Política,
supõ em uma funç ão do discu rso polít ico que
3. 11 11 as arist ocra cias (Cap . 7) é opos ta à:
dos três livro s prec eden tes, mas que é com um a
4. Com o prese rvar os difer entes regim es (caps. 8-9) num eros os
auro res da Anti guid ade: a desc rição da cida de "idea
5. Com o mor rem as mon arqu ias (real eza e tira- l". Vere-
mos dura nte a leitu ra dess e livro que não se trata
nia) e com o pres ervá -las (caps . 10-1 1) de uma
"utopia", se ente nder mos por isso um país imag
6. Exam e críti co da conc epçã o platô nica das inár io em
re- que tudo exist e para o melh or, mas, ante s, do
volu ções (Cap . 12) mod elo de
uma cida de poss ível para um "legi slado r" emp
reen dedo r.
34 FRANCIS WOLFF

A) A vida melhor (caps. 1-3)

B) Descrição da melhor cidade (caps. 4-7) A felicidade de se viver junto


1. Densi dade demo gráfic a (Cap. 4)
2. Exten são territo rial (Cap. 5) Andlise dos dois primeiros capítulos da Política
3. Acess o ao mar (Cap. 6)
4. Povoa mento e nacio nalida de (Cap. 7)
C) Organização da melhor cidade (caps. 8 a 17)
1. As classes sociai s e suas funçõ es (caps. 8-10) O PRIM EIRO CAPÍT ULO
2. Urban ismo (caps. 11-12 )
3. Educa ção (caps. 13 a 15)
4. Contr ole dos casam entos, nascim entos e da pri- Tese geral
meira idade ( caps. 16-17 )
Os capítu los 1 e 2 da Política de Aristó teles esrabe-.
lecem os funda mento s de roda sua filosof ia polític a. Cons-
Livro VIII- A educação na cidad e ideal tituem um rodo, e este rodá já está de algum modo contid o
na prime ira frase: esta esboç a um racioc ínio cujos supor tes
Este livro é a seqüê ncia do tratad o sobre a educa - e conse qüênc ias serão desen volvid os no conju nto dos dois
ção inicia do no Capít ulo 13 do livro prece dente . Como capítu los, e, além disso, anunc ia a sua conclu são, que é a
obser va J. Aubo nner, "comp õe-se essen cialm ente de res- tese domin ante da Política. Ei-la: "A cidad e tem por fina-
postas dadas às três questõ es coloca das no final do Livro lidade o so beran.o bem".
VII ... , a saber: 1) A educa ção das crianç as deve ser objeto Esta conclu são funda menta -se em três premi ssas:
de uma regula menta ção?, 2) Essa educa ção deve ser pú-
1. "A cidad e é uma (um certo tipo de) comu nida-
blica ou privad a?, 3) Sob que forma deve ser feira?"
de" (1252 a 1).
A) A educação em geral (caps. 1 a 3) 2. "Toda comu nidad e é const ituída em vista de um
B) A ginástica (Cap. 4) certo bem" (1252 a 2).
3. "De rodas as comu nidad es, a cidad e é a mais so-
C) A música (caps. 5 a 7) beran a e aquela que inclui rodas as outras " (1252 ,
a 3-5).
Abram os agora a Política.
Prime iro livro, prime ira frase ... Disso se depre ende facilm ente que o bem próprio
visado por essa comunidade soberana é o bem soberano.

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