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SUSTENTABILIDADE E

RESPONSABILIDADE
SOCIAL

Professora Me. Marie Eliza Zamberlan da Silva


Professor Me. Paulo Pardo
Professor Me. Tiago Ribeiro da Costa

GRADUAÇÃO

Unicesumar
Reitor
Wilson de Matos Silva
Vice-Reitor
Wilson de Matos Silva Filho
Pró-Reitor de Administração
Wilson de Matos Silva Filho
Pró-Reitor de EAD
Willian Victor Kendrick de Matos Silva
Presidente da Mantenedora
Cláudio Ferdinandi

NEAD - Núcleo de Educação a Distância


Direção Operacional de Ensino
Kátia Coelho
Direção de Planejamento de Ensino
Fabrício Lazilha
Direção de Operações
Chrystiano Mincoff
Direção de Mercado
Hilton Pereira
Direção de Polos Próprios
James Prestes
Direção de Desenvolvimento
Dayane Almeida
Direção de Relacionamento
Alessandra Baron
Head de Produção de Conteúdos
Rodolfo Encinas de Encarnação Pinelli
Gerência de Produção de Conteúdos
Gabriel Araújo
Supervisão do Núcleo de Produção de
Materiais
Nádila de Almeida Toledo
Supervisão de Projetos Especiais
Daniel F. Hey
Coordenador de Conteúdo
Paulo Pardo
Design Educacional
Camila Zaguini Silva, Nádila de Almeida Toledo,
C397 CENTRO UNIVERSITÁRIO DE MARINGÁ. Núcleo de Educação a
Distância; SILVA, Marie Eliza Zamberlan da; PARDO, Paulo; COSTA,
Fernando Henrique Mendes, Rossana Costa
Tiago Ribeiro da. Giani
Iconografia
Sustentabilidade e Responsabilidade Social. Marie Isabela Soares Silva
Eliza Zamberlan da Silva; Paulo Pardo; Tiago Ribeiro da Costa.
Reimpressão Projeto Gráfico
Maringá - Pr.: UniCesumar, 2018. Jaime de Marchi Junior, José Jhonny Coelho
184 p. Arte Capa
“Graduação - EaD”.
Arthur Cantareli Silva

1. Sustentabilidade. 2. Responsabilidade Social. 3. Desenvolvimento Editoração
Sustentável. 4. EaD. I. Título. Humberto Garcia da Silva
Thayla Daiany Guimarães Cripaldi
ISBN 978-85-8084-717-8
CDD - 22 ed. 658 Qualidade Textual
CIP - NBR 12899 - AACR/2 Hellyery Agda, Jaquelina Kutsunugi, Keren
Pardini, Maria Fernanda Canova Vasconcelos,
Ficha catalográfica elaborada pelo bibliotecário Nayara Valenciano, Rhaysa Ricci Correa e
João Vivaldo de Souza - CRB-8 - 6828 Susana Inácio
Ilustração
Nara Emi Tanaka Yamashita
Viver e trabalhar em uma sociedade global é um
grande desafio para todos os cidadãos. A busca
por tecnologia, informação, conhecimento de
qualidade, novas habilidades para liderança e so-
lução de problemas com eficiência tornou-se uma
questão de sobrevivência no mundo do trabalho.
Cada um de nós tem uma grande responsabilida-
de: as escolhas que fizermos por nós e pelos nos-
sos farão grande diferença no futuro.
Com essa visão, o Centro Universitário Cesumar –
assume o compromisso de democratizar o conhe-
cimento por meio de alta tecnologia e contribuir
para o futuro dos brasileiros.
No cumprimento de sua missão – “promover a
educação de qualidade nas diferentes áreas do
conhecimento, formando profissionais cidadãos
que contribuam para o desenvolvimento de uma
sociedade justa e solidária” –, o Centro Universi-
tário Cesumar busca a integração do ensino-pes-
quisa-extensão com as demandas institucionais
e sociais; a realização de uma prática acadêmica
que contribua para o desenvolvimento da consci-
ência social e política e, por fim, a democratização
do conhecimento acadêmico com a articulação e
a integração com a sociedade.
Diante disso, o Centro Universitário Cesumar al-
meja ser reconhecido como uma instituição uni-
versitária de referência regional e nacional pela
qualidade e compromisso do corpo docente;
aquisição de competências institucionais para
o desenvolvimento de linhas de pesquisa; con-
solidação da extensão universitária; qualidade
da oferta dos ensinos presencial e a distância;
bem-estar e satisfação da comunidade interna;
qualidade da gestão acadêmica e administrati-
va; compromisso social de inclusão; processos de
cooperação e parceria com o mundo do trabalho,
como também pelo compromisso e relaciona-
mento permanente com os egressos, incentivan-
do a educação continuada.
Seja bem-vindo(a), caro(a) acadêmico(a)! Você está
iniciando um processo de transformação, pois quan-
do investimos em nossa formação, seja ela pessoal
ou profissional, nos transformamos e, consequente-
Pró-Reitor de
Ensino de EAD
mente, transformamos também a sociedade na qual
estamos inseridos. De que forma o fazemos? Criando
oportunidades e/ou estabelecendo mudanças capa-
zes de alcançar um nível de desenvolvimento compa-
tível com os desafios que surgem no mundo contem-
porâneo.
O Centro Universitário Cesumar mediante o Núcleo de
Diretoria de Graduação
e Pós-graduação Educação a Distância, o(a) acompanhará durante todo
este processo, pois conforme Freire (1996): “Os homens
se educam juntos, na transformação do mundo”.
Os materiais produzidos oferecem linguagem dialó-
gica e encontram-se integrados à proposta pedagó-
gica, contribuindo no processo educacional, comple-
mentando sua formação profissional, desenvolvendo
competências e habilidades, e aplicando conceitos
teóricos em situação de realidade, de maneira a inse-
ri-lo no mercado de trabalho. Ou seja, estes materiais
têm como principal objetivo “provocar uma aproxi-
mação entre você e o conteúdo”, desta forma possi-
bilita o desenvolvimento da autonomia em busca dos
conhecimentos necessários para a sua formação pes-
soal e profissional.
Portanto, nossa distância nesse processo de cres-
cimento e construção do conhecimento deve ser
apenas geográfica. Utilize os diversos recursos peda-
gógicos que o Centro Universitário Cesumar lhe possi-
bilita. Ou seja, acesse regularmente o AVA – Ambiente
Virtual de Aprendizagem, interaja nos fóruns e en-
quetes, assista às aulas ao vivo e participe das discus-
sões. Além disso, lembre-se que existe uma equipe de
professores e tutores que se encontra disponível para
sanar suas dúvidas e auxiliá-lo(a) em seu processo de
aprendizagem, possibilitando-lhe trilhar com tranqui-
lidade e segurança sua trajetória acadêmica.
AUTORES

Professora Me. Marie Eliza Zamberlan da Silva


Graduada em Ciências Biológicas pela Universidade Estadual de Maringá
- UEM (2002) e mestre em Microbiologia pela Universidade Estadual de
Londrina - UEL (2005). Possui especialização em Educação. Atualmente é
consultora ambiental e tutora em educação a distância no curso de Ciências
Biológicas pela UEM. Também é professora no curso de Gestão Ambiental na
UNICESUMAR. Tem experiência na área de Microbiologia Ambiental, atuando
principalmente nos seguintes temas: qualidade microbiológica de àgua,
controle qualidade microbiológica em alimentos, e biologia geral.

Professor Me. Paulo Pardo


Doutorando em Engenharia da Produção pela Universidade Metodista de
Piracicaba - UNIMEP. Mestre em Administração pela Universidade Estadual
de Londrina - UEL. Atualmente é coordenador dos cursos de Gestão Pública,
Negócios Imobiliários e Gestão Hospitalar do Núcleo de Educação a Distância
da Unicesumar. Tem experiência na área de Administração, com ênfase em
Administração de Empresas, atuando principalmente nos seguintes temas:
sistema financeiro nacional, bolsa de valores, mercado de ações, logística. É
professor de pós-graduação na área de Administração da Unicesumar.

Professor Me. Tiago Ribeiro da Costa


Graduado em Agronomia pela Universidade Estadual de Maringá - UEM
(2007), em Engenharia de Segurança do Trabalho pela Universidade Estadual
de Maringá - UEM (2010) e mestre na área de Genética Quantitativa e
Melhoramento Vegetal pela Universidade Estadual de Maringá - UEM. Atua
como Professor Assistente da UniCesumar, no curso presencial de Agronomia
e nos cursos de Tecnologia em Agronegócios, Tecnologia em Gestão
Ambiental, Tecnologia em Segurança do Trabalho e Gestão Comercial, na
modalidade de Educação à Distância.
APRESENTAÇÃO

SUSTENTABILIDADE E RESPONSABILIDADE SOCIAL

SEJA BEM-VINDO(A)!
Prezado(a) aluno(a),
Seja muito bem-vindo(a) a esta obra, intitulada SUSTENTABILIDADE E RESPONSABILI-
DADE SOCIAL. É um imenso prazer recebê-lo(a) para discutirmos e ampliarmos nossos
conhecimentos e visões acerca de um tema bastante atual no que tange às relações
humanas, considerando as relações entre os seres humanos propriamente ditos e entre
estes e o meio que os cerca.
Falar sobre sustentabilidade e sua aplicabilidade em nível empresarial, embora simples,
encontra-se muito longe do simplório. Aliás, é um tema bastante amplo e complexo,
que exige, acima de tudo, uma mudança em nossas reflexões e em nossa lógica. Mudan-
ças que nos façam entender que não estamos acima ou à frente dos demais elementos
deste organismo chamado Planeta Terra. Somos apenas uma célula e cada ação desta
célula reflete na saúde do organismo como um todo.
Não pense com isso que estamos nos diminuindo enquanto seres humanos. Afinal, his-
toricamente, temos a capacidade de refletir e promover mudanças em nosso meio. Esta
capacidade é traduzida por nossa inteligência, a mesma que estudou o corpo humano e
criou a medicina, ou a mesma que estudou a forma de reprodução dos vegetais e criou a
Agricultura, base de nossa alimentação. Por fim, a mesma inteligência que criou a ética,
as obrigações sociais e a responsabilidade de se desenvolver de maneira sustentada,
considerando todas as dimensões da sustentabilidade.
Partindo desta premissa, esta obra apresenta-se como uma humilde contribuição aos
seus estudos e evolução, uma vez que por nossas cinco unidades abordaremos as dife-
rentes matizes da sustentabilidade e de que forma este conceito se aplica nas relações
humanas e nas relações empresariais.
Para cumprir com este objetivo faremos, em nossa primeira unidade, uma abordagem
histórica sobre a Sustentabilidade e a Responsabilidade Social Corporativa – RSC (tam-
bém referida como Sustentabilidade Empresarial – RSE), apresentando seus conceitos
básicos e principais argumentos de sustentação.
Após isso, por meio da segunda e terceira unidades, faremos uma análise crítica sobre
a dinâmica da RSC, apresentando quais são suas principais estratégias de valoração e
quais são os impactos desta responsabilidade considerando ações afirmativas em par-
ceria com públicos específicos.
Já em nossa penúltima unidade, faremos uma abordagem aplicada sobre a Sustentabilida-
de e Responsabilidade Social Corporativa do ponto de vista das principais metodologias
que garantem a transparência em sua execução. Trataremos sobre os principais indicado-
res de sustentabilidade empresarial, ao mesmo tempo em que discutiremos as principais
e mais atualizadas informações sobre modelos de Relatórios de Sustentabilidade e Balan-
ços Sociais. Estes últimos, apenas para adiantar, representam as principais formas de divul-
gação à sociedade sobre os resultados físicos e financeiros mais relevantes derivados das
ações sociais e projetos de desenvolvimento sustentável conduzidos pelas empresas.
APRESENTAÇÃO

Por fim, em nossa última unidade, faremos um apanhado dos principais conceitos e
práticas relacionados à Responsabilidade Corporativa e Cidadã, ideia bastante apli-
cada nos dias atuais pelas empresas que possuem visão sistêmica e antecipada das
preocupações da sociedade na qual elas se inserem.
Você perceberá que a estrutura desta obra encontra-se embasada no diálogo e na
fluidez dos assuntos, de maneira que, em muitos momentos, recuperaremos assun-
tos que foram dialogados em unidades anteriores. Da mesma forma, disponibiliza-
mos algumas atividades que lhe auxiliarão na formação do conhecimento e na com-
plementação das informações. Tais atividades serão identificadas oportunamente
ao longo da obra.
Uma última informação para os mais observadores: será que você percebeu que
nesta introdução, todo o discurso foi feito em terceira pessoa? Quais são as pessoas
que produziram esta obra, com muito esmero, para você? Nós somos os Professores
Me. Marie Eliza Zamberlan da Silva, Me. Paulo Pardo e Me. Tiago Ribeiro da Costa.
A bióloga Marie Eliza Zamberlan da Silva é graduada pela Universidade Estadual
de Maringá (UEM), com especialização em Educação e mestrado pela Universidade
Estadual de Londrina (UEL). Trabalhou em diversas consultorias ambientais e vem
se dedicado há anos a variados tipos de projetos ambientais, prestando serviços a
diversas empresas, e atuando como gerente de projetos ambientais. Também se de-
dicou à pesquisa, principalmente no setor de microbiologia, área onde desenvolveu
seu projeto de mestrado. Com isso, tem amplo conhecimento da área ambiental,
principalmente por ter vivenciado na prática o lado científico-acadêmico, adminis-
trativo e técnico da execução de projetos ambientais.
O professor Paulo Pardo é mestre em Administração pela Universidade Estadual de
Londrina, com linha de pesquisa em Políticas Socioambientais, sendo autor de li-
vros de graduação e pós-graduação nas áreas de administração, finanças, logística
e marketing. É consultor organizacional nas áreas de marketing e logística. Seu foco
de pesquisa acadêmica são políticas públicas com impactos na sustentabilidade so-
cial e ambiental.
Por fim, o Professor Me. Tiago Ribeiro da Costa também é colaborador da Unice-
sumar, sendo professor titular dos cursos de Tecnologia em Agronegócios, Gestão
Ambiental e Gestão Comercial (modalidades a distância) e dos cursos presenciais
de Agronomia e Tecnologia em Agronegócios. Também é professor colaborador do
curso de especialização lato sensu em Engenharia de Segurança do Trabalho, ofe-
recido pela Universidade Estadual de Maringá – UEM. É formado como Engenheiro
Agrônomo, Engenheiro de Segurança do Trabalho e possui mestrado na área de
Genética Quantitativa e Melhoramento Vegetal, também pela Universidade Estadu-
al de Maringá – UEM. Possui larga experiência em projetos de sustentabilidade e
desenvolvimento regional, coordenando projetos junto a Agricultores Familiares e
Urbanos da Região Noroeste do Paraná.
Esperamos que esta obra lhe possa ser proveitosa. Uma ótima leitura e bons estudos!
09
SUMÁRIO

UNIDADE I

TRAJETÓRIA DA SUSTENTABILIDADE E DA RESPONSABILIDADE


SOCIAL

13 Introdução

13 Traçando os Caminhos do Desenvolvimento Sustentável à 


Sustentabilidade

26 Responsabilidade Social

28 Argumentos Contra e a Favor Da Responsabilidade Social Empresarial

37 O Papel das Organizações e a Responsabilidade Social

39 Considerações Finais

UNIDADE II

PRÊMIOS E INCENTIVOS À RESPONSABILIDADE SOCIAL

45 Introdução

46 Prêmios e Incentivos à Responsabilidade Social Organizacional

56 Certificações Nacionais E Internacionais De Sustentabilidade Empresarial

74 O uso das Ferramentas do Marketing Social e Societal: Uma Abordagem


Crítica

79 Considerações Finais

UNIDADE III

AÇÕES AFIRMATIVAS, DIVERSIDADE E RESPONSABILIDADE SOCIAL

85 Introdução

85 Relações Étnico-Raciais e Responsabilidade Social


SUMÁRIO

96 O Multiculturalismo, as Ações Afirmativas e a Diversidade

105 Políticas de Reparações e Compensações e a Responsabilidade Social

109 Considerações Finais

UNIDADE IV

BALANÇO SOCIAL E AS DIMENSÕES DA SUSTENTABILIDADE

115 Introdução

116 A Sustentabilidade e a Responsabilidade Social Corporativa Sob o 


Enfoque da Ética

122 Balanço Social e os Relatórios de Sustentabilidade

128 Modelos IBASE, GRI, CEBDS, ISE, Dow Jones e Ethos

141 Dimensões da Sustentabilidade

143 Considerações Finais

UNIDADE V

RESPONSABILIDADE SOCIAL CORPORATIVA E CIDADANIA


EMPRESARIAL

149 Introdução

150 Responsabilidade E Cidadania Social Empresarial

170 Considerações Finais

177 CONCLUSÃO
179 REFERÊNCIAS
Professora Me. Marie Eliza Zamberlan da Silva

I
TRAJETÓRIA DA

UNIDADE
SUSTENTABILIDADE E DA
RESPONSABILIDADE SOCIAL

Objetivos de Aprendizagem
■■ Compreender o conceito e os pilares do desenvolvimento
sustentável.
■■ Conhecer o histórico do desenvolvimento sustentável.
■■ Compreender o conceito e os pilares da responsabilidade social.
■■ Entender os argumentos contra e a favor da responsabilidade social
empresarial.
■■ Entender o papel das organizações no processo de responsabilidade
social.

Plano de Estudo
A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade:
■■ Traçando os caminhos do desenvolvimento sustentável à
sustentabilidade
■■ Responsabilidade social
■■ Argumentos contra e a favor da responsabilidade social empresarial
■■ O papel das organizações e a responsabilidade social
13

INTRODUÇÃO

Atualmente, discute-se muito sobre sustentabilidade, e por ser um tema tão fre-
quente, corre o risco de ser banalizado. Se deixarmos isso acontecer, será muito
prejudicial, pois esse assunto é de extrema relevância para a continuidade da
vida no nosso planeta. Portanto, um dos nossos objetivos com esta unidade é
de que você, caro(a) estudante, possa compreender seu verdadeiro significado,
bem como suas particularidades.
Assim, iniciamos essa leitura buscando conceituar meio ambiente e sustenta-
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

bilidade, e depois iremos resgatar o contexto no qual foi concebido o conceito de


sustentabilidade. Nosso objetivo também, nesta unidade, é introduzir o assunto
deste livro didático, ou seja, a responsabilidade social! Para isso, vamos analisar
os pilares do desenvolvimento sustentável e, com isso, vamos ver que um desses
pilares é justamente a responsabilidade social.
Vamos conhecer alguns fundamentos da responsabilidade social, buscando
entender sua filosofia, conceito e os argumentos que existem contra e a favor de
sua aplicação. Pretendemos despertar em você o interesse pelo aprofundamento
do tema, pois não conseguiremos esgotar todo esse assunto nesta unidade. E
para concluir essa unidade, estudaremos sobre o papel das organizações na res-
ponsabilidade social.

TRAÇANDO OS CAMINHOS DO DESENVOLVIMENTO


SUSTENTÁVEL À SUSTENTABILIDADE

MEIO AMBIENTE

Antes de falarmos sobre desenvolvimento sustentável, devemos entender pri-


meiramente a expressão meio ambiente, tendo em vista a emergência da questão
ambiental no cenário mundial.

Introdução
14 UNIDADE I

Essa expressão meio


ambiente (milieu ambiance)
foi utilizada pela primeira
vez por Geoffrey de Saint-
Hilaire, naturalista francês,
dando a milieu o signifi-
cado de lugar onde está ou
se movimenta um ser vivo,
e ambiance designa o que

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
rodeia esse ser.
Há uma grande dis-
cussão, no Brasil, em torno
da redundância do termo
meio ambiente por conter
duas palavras com signifi-
cados similares.
Entretanto, em nosso
país, o conceito legal de meio ambiente encontra-se disposto no art. 3º, I, da
Lei nº. 6.938/81, que dispõe sobre a Política Nacional do Meio Ambiente, que
o define como sendo: “o conjunto de condições, leis, influências e interações de
ordem física, química e biológica, que permite, abriga e rege a vida em todas as
suas formas”.
Analisando esse conceito, nos remetemos ao meio ambiente natural, entre-
tanto, atualmente, o conceito de meio ambiente é mais global, e segundo Silva
(2004), o conceito de meio ambiente deve ser “abrangente de toda a natureza,
o artificial e original, bem como os bens culturais correlatos, compreendendo,
portanto, o solo, a água, o ar, a flora, as belezas naturais, o patrimônio histórico,
artístico, turístico, paisagístico e arquitetônico” (2004, p. 20).
Segundo o mesmo autor, o conceito de meio ambiente compreende três
aspectos: Meio ambiente natural, ou físico, constituído pelo solo, a água, o ar
atmosférico, a flora, enfim, pela interação dos seres vivos e seu meio, onde se dá
a correlação recíproca entre as espécies e as relações destas com o ambiente físico
que ocupam; Meio ambiente artificial, constituído pelo espaço urbano construído;

TRAJETÓRIA DA SUSTENTABILIDADE E DA RESPONSABILIDADE SOCIAL


15

e Meio ambiente cultural, integrado pelo patrimônio histórico, artístico, arqueoló-


gico, paisagístico, turístico, que, embora artificial, difere do anterior pelo sentido
de valor especial que adquiriu ou de que se impregnou.
A Constituição Federal de 5 de Outubro de 1988 possui outra classificação
interessante, que separa o ambiente em: natural (físico), artificial, cultural e do
trabalho. No quadro abaixo, temos a distinção desses tipos de ambientes.

FÍSICO CULTURAL ARTIFICIAL TRABALHO


Flora Patrimônios: Conjunto de edifi- Conjunto de
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Fauna • Cultural cações particulares condições exis-


ou públicas, princi- tentes no local de
Solo • Artístico
palmente urbanas. trabalho relativo à
Água • Arqueológico qualidade de vida
Atmosfera • Paisagístico do trabalhador.
Ecossistemas Manifestações cul-
turais e populares.
(Art. 225, § 1°, (Art. 5°, XXIII, art. (Art. 7°, XXXIII, e
(Art. 225, § 1° e § 2 º)
I e VII) 21, XX e art. 182) art. 200)
Quadro 1: Tipos de ambiente
Fonte: Alencastro (2012)

De acordo com Alencastro (2012), a humanidade depende do meio ambiente,


que é essencial para o desenvolvimento e para o bem-estar humanos. Os recur-
sos naturais, que estão presentes no ambiente natural, são a base sobre a qual
se constrói grande parte das riquezas do país. Portanto, uma falência ambien-
tal traria sérias consequências para a segurança, saúde, para as relações sociais
e necessidades materiais humanas.
Não podemos nos esquecer de que os recursos naturais podem ser dividi-
dos em dois grupos: renováveis e não renováveis. Para Barbieri (2007), os não
renováveis são recursos que possuem quantidade finita, e se forem continua-
mente explorados, irão se esgotar, pois sua velocidade de renovação é lenta. São
exemplos desse recurso: a argila, areia, minérios, carvão mineral, petróleo, gás
natural. Já os renováveis, para o mesmo autor, são aqueles que podem ser obtidos
indefinidamente de uma mesma fonte e compreendem a energia solar e eólica,
e a água. Entretanto, devemos ressaltar que esses recursos podem ser esgota-
dos pelo homem, passando a fazer parte da outra categoria, de não renováveis,

Traçando os Caminhos do Desenvolvimento Sustentável à Sustentabilidade


16 UNIDADE I

se tiver uma taxa de utilização


superior à da sua renovação por
processos naturais.
De acordo com Gilding
(2011), para sustentar o atual
consumismo e crescimento eco-
nômico, até 2030 precisaríamos
de dois planetas Terras, três ou
quatro em 2050. E conclui que

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
a humanidade está destruindo
a infraestrutura sobre a qual a
economia foi construída.
Sampaio e colaboradores
(2013), afirmam que economia
e meio ambiente estão inti-
mamente conectados, pois a
economia é dependente dos recursos naturais, e quanto mais desequilibrado
fica o meio ambiente, teoricamente maior o custo para se manter um padrão de
qualidade de vida para humanidade.
Os mesmos autores esclarecem que, estando cientes de toda essa dependên-
cia da humanidade com os recursos naturais, é bastante evidente que manter o
funcionamento de toda a estrutura ecossistêmica tem um alto valor econômico.

O que seria estrutura ecossistêmica?


O conceito de estrutura ecossistêmica é o que engloba indivíduos e co-
munidades da flora e da fauna, o que comumente chamamos de recursos
bióticos, assim como sua idade e distribuição espacial; juntamente com os
recursos abióticos: combustíveis fósseis, minerais, terra e energia solar. Tudo
isso junto em uma determinada área fornece as fundações sobre as quais os
processos ecológicos ocorrem.
Fonte: Turner; Daily (2008); Daly; Farley (2004).

TRAJETÓRIA DA SUSTENTABILIDADE E DA RESPONSABILIDADE SOCIAL


17

Para se valorar os serviços ecossistêmicos, é importante separar em categorias


as funções dos ecossistemas e também os serviços ao bem-estar da humanidade
a que essas funções ficam atreladas.
De Groot et al. (2002) separou as funções dos ecossistemas em quatro
categorias:
■■ Funções de Regulação – relacionadas à capacidade dos ecossistemas de
regularem processos ecológicos essenciais de suporte à vida. Todos esses
processos são mediados pelos fatores abióticos e bióticos de um ecossis-
tema. Essas funções são responsáveis por manter a saúde dos ecossistemas,
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

e têm impactos diretos e indiretos sobre as populações humanas. Exemplos:


regulação de gás, de oferta de água, climática, nutrientes do solo e forma-
ção do solo e controle biológico.
■■ Funções de hábitat – são essenciais para a conservação biológica e
genética e para a preservação de processos evolucionários. Podem ser
nominadas como função e refúgio, ou seja, espaços naturais onde a vida
vegetal e animal possa se abrigar; e função de berçário, espaços natu-
rais ideais para a reprodução de determinadas espécies, muitas vezes
endêmicas de uma região, ou migratórias que possuem certas exigên-
cias para sua reprodução.
■■ Funções de produção – ligadas à capacidade dos ecossistemas de for-
necerem alimentos e uma série de produtos para o consumo humano, a
partir da produção de uma variedade de hidrocarbonatos, obtidos por
meio de processos como a fotossíntese, sequestro de nutrientes e por meio
de ecossistemas seminaturais, como as terras cultivadas. Exemplos: pro-
dução de frutos, madeira, produtos farmacêuticos, cera, tinta, borracha,
ornamentação, entre outros.
■■ Funções de informação – relacionadas à capacidade dos ecossistemas natu-
rais de contribuírem para a manutenção da saúde humana, fornecendo
reflexão, inspiração artística, enriquecimento espiritual, desenvolvimento
cognitivo, recreação e experiência estética. Nesta categoria, incluem-se
conhecimento estético, recreação e (eco)turismo, inspiração cultural e
artística, informação histórica e cultural, além de informações culturais
e científicas.

Traçando os Caminhos do Desenvolvimento Sustentável à Sustentabilidade


18 UNIDADE I

Existem diversas classificações de categorias de funções, determinadas segundo


vários autores, mas na exposta aqui, De Groot (2002) demonstra categorias de
forma didática e funcional.

DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL

Após entender os fundamentos do meio ambiente, podemos começar a conver-


sar sobre desenvolvimento sustentável. Seguindo nosso roteiro, primeiramente

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
vamos conceituar esse termo.
O Relatório de Brundtland, produzido por meio da Organização das Nações
Unidas, de 1987, conceitua sustentabilidade da seguinte forma: “A sustentabi-
lidade, representada pelo desenvolvimento sustentável, é aquela que aborda o
atendimento das necessidades das gerações atuais sem comprometer a capa-
cidade das gerações futuras de atenderem a suas necessidades e aspirações”
(ONU, 1987).

Para aprofundar seu conhecimento sobre o conceito de desenvolvimen-


to sustentável, acesse o texto intitulado “Sustentabilidade: Tentativa de
definição”, de Leonardo Boff, em entrevista para a Revista On-Line Plura-
le, em Janeiro de 2012. Disponível em: <http://leonardoboff.wordpress.
com/2012/01/15/sustentabilidade-tentativa-de-definicao/>.
O autor afirma que o conceito supracitado de sustentabilidade é correto,
mas possui duas limitações: é antropocêntrico (só considera o ser humano)
e nada diz sobre a comunidade de vida (outros seres vivos que também pre-
cisam da biosfera e de sustentabilidade).
Muito interessante, concorda?

TRAJETÓRIA DA SUSTENTABILIDADE E DA RESPONSABILIDADE SOCIAL


19

Esse conceito surgiu da necessidade de cria-


ção de um modelo de desenvolvimento
que levasse em consideração a ques-
tão ambiental, devido ao aumento
da intervenção da sociedade
humana na natureza para extração
dos recursos naturais, visando
ao crescimento econômico
aliado à igualdade social
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

e ao equilíbrio ecológico.
Vamos analisar o histórico
do desenvolvimento sustentá-
vel logo a seguir.
Essa intervenção da sociedade
humana ocorreu por meio de transformações do processo produtivo com a intro-
dução de novas tecnologias, além da intensificação do processo de globalização.
Aspectos esses que, além de resultar em avanços, resultaram também em efeitos
negativos consequentes da atividade industrial, como a degradação da qualidade
de vida, o desemprego em massa, o crescimento das relações precárias de traba-
lho e a degradação do meio ambiente (TEIXEIRA, 2014).
E, além disso, as empresas inseridas na aldeia global se depararam
com diversas possibilidades e desafios, pois num mundo globali-
zado sem fronteiras dos Estados nacionais, elas passaram a não ter
um local fixo e puderam buscar novos locais para instalação e novos
mercados. Entretanto, realizaram essa busca de forma desordenada,
desrespeitando as noções internacionais dos direitos humanos e as
legislações, gerando consequências negativas para a vida humana e
para o meio ambiente em nome da maximização do lucro a qualquer
preço (TEIXEIRA, 2014, p. 7).

Para Oliveira e Guimarães (2004), os princípios de vida sustentável são os


seguintes: respeitar e cuidar da biosfera, melhorar a qualidade da vida humana,
conservar a vitalidade e a diversidade do planeta Terra, minimizar o esgotamento
dos recursos não renováveis, permanecer nos limites da capacidade de suporte
do planeta, modificar atitudes e práticas pessoais, permitir que as comunidades

Traçando os Caminhos do Desenvolvimento Sustentável à Sustentabilidade


20 UNIDADE I

cuidem do seu próprio ambiente, gerar uma estrutura nacional para a integra-
ção de desenvolvimento e conservação e constituir uma aliança global.
Para Sampaio e colaboradores (2013), o estabelecimento do sistema capi-
talista, no qual vivemos e que funciona por meio da degradação ambiental, se
fez em cima de teorias neoclássicas, que procuraram legitimar cientificamente a
convicção de que o crescimento econômico e tecnológico é capaz de solucionar
problemas de degradação ambiental com o passar do tempo. A teoria econômica
que melhor embasa esse pensamento é a chamada Curva Ambiental de Kuznets
(CAK). Kuznets (1955) estabeleceu uma relação entre a distribuição individual

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
de renda e a degradação ambiental. Por meio de dados de crescimento e distri-
buição de renda dos Estados Unidos, Inglaterra e Alemanha, o autor formulou
uma curva em “U invertido”, que teoricamente indica que a distribuição indivi-
dual da renda tende a ser pior nos primeiros estágios do crescimento econômico,
mas fatores como mudanças na composição da produção e consumo, aumento
do nível educacional e de consciência ambiental, bem como sistemas políticos
mais abertos, em teoria, a partir de determinado ponto, concebam tendências de
melhoras, fazendo um crescimento da renda per capita, ou seja, melhor distribui-
ção de renda e teoricamente um consumo mais racional dos recursos naturais.

Figura 1: Curva de Kuznets


Fonte: <http://www.ecodebate.com.br/2012/12/19/curva-ambiental-de-kuznets-mais-desenvolvimento-e-a-
solucao-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/>

A CAK tem sido usada pelas pessoas que defendem o desenvolvimento econô-
mico como uma prioridade em relação ao meio ambiente. A ideia básica é que
o desenvolvimento só causa grandes problemas ambientais em suas etapas ini-
ciais. Porém, a partir de um certo ponto, o aumento da renda per capita e da

TRAJETÓRIA DA SUSTENTABILIDADE E DA RESPONSABILIDADE SOCIAL


21

educação levaria a uma menor degradação ambiental. Portanto, segundo o oti-


mismo kuznetiano, altas doses de desenvolvimento seriam úteis não só para
reduzir as desigualdades sociais, mas também para salvar a natureza.
Os mesmos autores, baseados em Andrade e Romeiro (2009), esclarecem
que não existe um consenso sobre a sustentação empírica das relações sugeridas
pela Curva Ambiental de Kuznets. Existe uma infinidade de trabalhos analisando
as relações entre o crescimento econômico e a degradação ambiental ou a qua-
lidade dos ecossistemas, o que demonstra uma enorme lacuna a ser preenchida
sobre a compreensão dos impactos de fatores econômicos sobre os ecossistemas.
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Os inúmeros trabalhos científicos sobre o tema apontam para uma unani-


midade científica sobre a necessidade de maior harmonia entre o crescimento
econômico e os ecossistemas, ou seja, entre a natureza e o meio ambiente (NEW
SCIENTIST, 2008).

Histórico do Desenvolvimento Sustentável


É importante que você possa compreender todo o histórico do desenvolvimento
sustentável, pois esse conceito tão discutido atualmente foi formulado a partir de
discussões que evoluíram ao longo de décadas. Segundo Beskow (2014), o termo
desenvolvimento sustentável surgiu de um arcabouço de movimentos ambien-
talistas a partir de meados da década de 1960.
O início das preocupações do homem com o meio ambiente aconteceu em
1968 com o Clube de Roma, que foi o primeiro grupo a discutir sustentabilidade,
meio ambiente e limites de desenvolvimento, 44 anos antes da Conferência das
Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, que ocorreu em
2012. Segundo Beskow (2014), concluiu-se nessa reunião que, se as atuais ten-
dências de crescimento da população mundial, industrialização, contaminação,
produção de alimentos e exploração dos recursos continuarem sem modificações,
os limites do crescimento no planeta serão alcançados em algum momento den-
tro dos próximos cem anos. O resultado mais provável seria uma redução súbita
e incontrolável tanto da população como da capacidade industrial.
Outro ponto importante para a questão ambiental foi a elaboração, em 1970,
pelos Estados Unidos, do NEPA (National Environmental Policy Act), uma legis-
lação que determinava considerações ambientais no planejamento e nas decisões

Traçando os Caminhos do Desenvolvimento Sustentável à Sustentabilidade


22 UNIDADE I

sobre projetos de grande escala, também conhecida por “Constituição Ambiental”


dos EUA. Outra ação efetiva nos EUA foi a formação, na mesma época, da Agência
de Proteção Ambiental Norte-Americana (EPA), encarregada de proteger a saúde
humana e o meio ambiente, ação esta que foi seguida por outros países.
Em 1972, ocorreu a Conferência de Estocolmo, que foi a primeira reunião
oficial a tratar das questões ambientais em nível mundial e é um marco para essa
área no mundo. Para Alencastro (2012), essa conferência marcou uma etapa muito
importante na política ambiental internacional contemporânea, sendo que mui-
tas das várias questões que foram debatidas, dentre elas a dicotomia entre meio

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
ambiente e desenvolvimento, continuam a influenciar as relações entre os atores
internacionais no domínio da questão ambiental e fomentam ainda importantes
discussões no campo das políticas ambientais a nível mundial.
A conferência produziu a “Declaração sobre o Meio Ambiente Humano”,
que é uma declaração de princípios e responsabilidades que deveriam nortear
as decisões concernentes ao meio ambiente (ALENCASTRO, 2012).
A partir da Conferência de Estocolmo, as nações iniciaram o processo de
estruturação de órgãos ambientais nacionais e estabeleceram suas legislações, obje-
tivando o controle da poluição ambiental (TOMMASIELLO; FERREIRA, 2001).
Uma das consequências desta conferência no nosso país foi a criação, em
1973, da Secretaria Especial de Meio Ambiente (SEMA), que se fundamentava
nos compromissos assumidos em Estocolmo (JATOBÁ et al., 2009).
Outra consequência direta foi a criação do PNUMA (Programa das Nações
Unidas para o Meio Ambiente), no mesmo ano, que tem por objetivo manter
o estado do meio ambiente global sob contínuo monitoramento; alertar povos
e nações sobre problemas e ameaças ao meio ambiente e recomendar medidas
para melhorar a qualidade de vida da população sem comprometer os recursos
e serviços ambientais das gerações futuras.
Como já vimos anteriormente, o conceito de desenvolvimento sustentável
surgiu somente na década de 80 com o Relatório de Brundtland.
Na década de 90, a ONU preparou a maior conferência sobre meio ambiente
desde Estocolmo: a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e o
Desenvolvimento, conhecida como Cúpula da Terra, ou Rio 92, e é outro impor-
tante marco na história política da área ambiental. O objetivo desta reunião foi

TRAJETÓRIA DA SUSTENTABILIDADE E DA RESPONSABILIDADE SOCIAL


23

constituir acordos internacionais que serviriam para mediar as ações do ser


humano no meio ambiente, buscando-se a conciliação entre a conservação e o
desenvolvimento. Segundo Jatobá et al. (2009), foi o evento mundial que selou
politicamente o ambientalismo moderado, fundamentado na proposta concei-
tual do desenvolvimento sustentável.
Durante a Eco-92, foram aprovados cinco documentos oficiais: três conven-
ções (Biodiversidade, Desertificação e Mudanças Climáticas), uma declaração
de princípios e a Agenda 21 (MAZZEI, 2012). A Agenda 21 conta com diversos
princípios globais e locais que cada país, de acordo com sua realidade, utilizaria
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

como instrumento de planejamento para a construção do desenvolvimento sus-


tentável, constitui-se como uma estratégia de sobrevivência para o século XXI.
Ela estabelece compromissos e intenções para a preservação e melhoria da qua-
lidade ambiental, visando à sustentabilidade da vida na Terra (TOMMASIELLO;
FERREIRA, 2001).
A partir da Eco-92, iniciou-se um ciclo de conferências sobre desenvolvi-
mento e meio ambiente na esfera da ONU, com destaque para a Conferência
sobre população e desenvolvimento realizada no Cairo em 1994, Conferência
sobre desenvolvimento social (Copenhague) e sobre mudança climática (Berlin),
ambas realizadas em 1995, e sobre assentamentos urbanos (Habitat II) realizada
em Istambul em 1996 (MAZZEI, 2012).
Durante a Cúpula da Terra da ONU sobre Meio Ambiente, mais de 200 países
adotaram a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas,
que entrou em vigor em 1994. Outras conferências anuais das Partes se seguiram,
culminando com a assinatura do Protocolo de Kyoto em 1997 (SILVA, 2009), que
caracteriza-se como um acordo internacional que estabelece metas para limi-
tar a poluição pela queima de combustíveis fósseis, causadora do efeito estufa.
Dez anos depois da Rio-92, no ano de 2002, ocorreu em Johanesburgo, na
África do Sul, a Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável ou Cúpula
da Terra 2, mais conhecida como Rio + 10, e teve o objetivo de avaliar os com-
promissos firmados na Rio 92. Produziu um plano de implementação visando
alcançar três objetivos principais: a erradicação da pobreza, a mudança nos
padrões insustentáveis de produção e consumo e a proteção dos recursos natu-
rais (ALENCASTRO, 2012).

Traçando os Caminhos do Desenvolvimento Sustentável à Sustentabilidade


24 UNIDADE I

E para finalizar esse histórico, devemos destacar a Rio + 20, ocorrida no Rio
de Janeiro em junho de 2012. Teve o objetivo de renovar o compromisso dos
líderes mundiais com o desenvolvimento sustentável do planeta. O documento
final produzido pela conferência, que recebeu o nome de “O Futuro que Nós
Queremos”, cita as principais ameaças ao planeta: desertificação, esgotamento
dos recursos pesqueiros, contaminação, desmatamento, extinção de milhares de
espécies e aquecimento global, e deverá ser adotado pelas principais lideranças
mundiais (ALENCASTRO, 2012).

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Pilares do Desenvolvimento Sustentável
Segundo Barbieri e Cajazeira (2009), o desenvolvimento sustentável se apoia
nos seguintes pilares:
■■ Sustentabilidade social – equidade na distribuição dos bens e da renda
para melhorar os direitos e condições da população e reduzir as distân-
cias entre os padrões de vida das pessoas.
■■ Sustentabilidade econômica – distribuição e gestão eficiente dos recursos
produtivos, bem como fluxo regular de investimentos público e privado.
■■ Sustentabilidade ecológica – busca pelo aumento da capacidade de carga
do planeta e para evitar danos ao meio ambiente, principalmente os cau-
sados pelos processos do crescimento econômico.
■■ Sustentabilidade espacial – refere-se ao equilíbrio do assentamento humano
rural/urbano.
■■ Sustentabilidade cultural – respeito pela pluralidade de soluções particu-
lares específicas a cada ecossistema, cada cultura e cada local.
Considerando esses cinco pilares do desenvolvimento sustentável, é comum que
eles sejam apresentados divididos em três dimensões essenciais: social, econô-
mica e ambiental. Para o economista John Elkington (1997), a sustentabilidade
é formada sobre um tripé, chamado por ele como Triple Bottom Line, ou Tripé
da Sustentabilidade, e se expressa em três dimensões: gente ou capital humano,
planeta ou capital natural e benefício econômico, que devem relacionar-se para
que o desenvolvimento sustentável seja atingido.

TRAJETÓRIA DA SUSTENTABILIDADE E DA RESPONSABILIDADE SOCIAL


25

Viável Meio
Econômico
Ambiente
Sustentável

Justo Tolerável
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Social

Figura 2: O tripé da sustentabilidade


Fonte: <http://noteadote.blogspot.com.br/2012_10_01_archive.html>

Segundo Alencastro (2012), esse tripé é formado por:


■■ Social: refere-se ao capital humano de uma empresa ou sociedade: é sua
responsabilidade social. Envolve aspectos como salários justos, adequação
à legislação trabalhista, ambiente de trabalho saudável e bom relaciona-
mento com a sociedade no geral.
■■ Meio Ambiente: é o capital natural de uma empresa ou sociedade, que
deve pensar em formas de diminuir e compensar seus impactos ambien-
tais negativos.
■■ Econômico: é o nosso velho conhecido resultado econômico positivo
(lucro) de uma empresa, sem o qual ela não sobrevive, mas que agora
deve levar em conta, também, os outros dois aspectos.

Toda essa introdução feita até agora foi para que você entendesse o papel da res-
ponsabilidade social dentro do desenvolvimento sustentável! Espero que esteja
claro que, por meio da perspectiva do desenvolvimento sustentável, existe a res-
ponsabilidade social.
Para Alencasto (2012):

Traçando os Caminhos do Desenvolvimento Sustentável à Sustentabilidade


26 UNIDADE I

Hoje em dia, questões como desenvolvimento econômico, social e am-


biental passaram a ter grande relevância e os cidadãos começaram a
exigir ações empresariais comprometidas com a ética e com a cidada-
nia. Para atender a essas novas demandas, as organizações precisam
oferecer produtos socialmente corretos e estabelecer um relaciona-
mento ético com seus clientes, fornecedores e funcionários, bem como
preocupar-se com as questões ambientais e com a qualidade de vida da
sociedade (p. 48).

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
RESPONSABILIDADE SOCIAL

Dentro do que foi discutido até aqui sobre sustentabilidade, a responsabilidade


social é um forte instrumento de atuação.
Para o Instituto Ethos (2009), responsabilidade social empresarial é:
como a forma de gestão que se define pela relação ética e trans-
parente da empresa com todos os públicos com os quais ela se re-
laciona e pelo estabelecimento de metas empresariais que impul-
sionem o desenvolvimento sustentável da sociedade, preservando
recursos ambientais e culturais para as gerações futuras, respei-
tando a diversidade e promovendo a redução das desigualdades
sociais (INSTITUTO ETHOS, 2009).

Acesse o endereço eletrônico do Instituto Ethos de Empresas e Responsa-


bilidade Social, que é uma Oscip cuja missão é mobilizar, sensibilizar e aju-
dar as empresas a gerir seus negócios de forma socialmente responsável,
tornando-as parceiras na construção de uma sociedade justa e sustentável.
<http://www3.ethos.org.br/>.

TRAJETÓRIA DA SUSTENTABILIDADE E DA RESPONSABILIDADE SOCIAL


27

No Capítulo 30 do texto
da Agenda 21, já temos a
presença da perspectiva
de uma responsabilidade
empresarial. Mas antes
disso, nos EUA, anos 60,
esse movimento deu seu
passo inicial. Na Europa,
surgiu na década de 1970
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

e se consolidou na América
Latina em 2001, com a rea-
lização da I Conferência de
Responsabilidade Social
nas Américas.
Aflalo (2012) ressalta
que a emergência do con-
ceito de responsabilidade social e as práticas que criaram e consolidaram o
discurso socialmente responsável determinam hoje novas expectativas em rela-
ção à conduta empresarial. As novas práticas esperadas das empresas em relação
à sociedade e ao meio ambiente começam a configurar um novo tipo de empresa
que se diferencia das empresas das décadas anteriores.
A empresa social, predominante nos anos 1960, se definia por uma atitude
filantrópica: os investimentos sociais eram separados das atividades lucrativas
da empresa e significavam a abdicação de fração do lucro em prol de um bem
social. Esta concepção deu lugar a um novo tipo de empresa, a partir dos anos
1990, que passa a incorporar práticas socialmente responsáveis a suas atividades
sem que isso signifique a redução de seus lucros, mas de modo a permitir, acima
de tudo, sua maximização. Tais empresas são chamadas empresas cidadãs e bus-
cam exercer sua cidadania por meio da participação ao seguirem os padrões da
conduta socialmente responsável (AFLALO, 2012).
Agora que já entendemos o conceito de responsabilidade social, iremos nos
aprofundar nas páginas seguintes nesse assunto. Vamos continuar nossa viagem
ao conhecimento?

Responsabilidade Social
28 UNIDADE I

ARGUMENTOS CONTRA E A FAVOR DA


RESPONSABILIDADE SOCIAL EMPRESARIAL

Para Charnov et al. (2012), nas últimas décadas tem-se observado o aumento
com a preocupação das obrigações sociais da empresa, impulsionado pelos
movimentos de defesa do meio ambiente e do consumidor. Declarações de que
a empresa deve destinar parte de seus recursos econômicos a ações que benefi-
ciem a sociedade nem sempre têm sido bem recebidas. Para os mesmos autores,
há divergências quanto ao nível apropriado de ação social e quanto a se a empresa

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
tem motivos legítimos para destinar recursos a ações sociais.
Temos nesse embate dois grandes estudiosos do assunto, Dr. Milton Friedman
(1931) e o também Dr. Keith Davis (1918). De um lado, temos uma visão clás-
sica de que a única responsabilidade social da administração é maximizar os
lucros. Do outro lado, está a posição socioeconômica de que a responsabilidade
da administração vai muito além da obtenção de lucros e inclui a proteção e a
melhoria do bem-estar da sociedade.
Vamos conhecer um pouco mais sobre as reflexões desses importantes autores.

Argumentos contra a responsabilidade social da empresa


Os argumentos contra a responsabilidade social das empresas têm sido mais
amplamente articulados por Milton Friedman, ganhador do prêmio Nobel
em economia.
Charnov et al. (2012) defendem a ideia de que a tarefa da empresa é otimizar o
lucro do acionista (proprietário) por meio do bom uso dos recursos organizacionais.
Muitos acusam Friedman e seus seguidores de não se preocuparem com a justiça
social e com aqueles que estão em dificuldades econômicas. No entanto, não é esse
o caso, Friedman e seus seguidores baseiam a tese de que a empresa não deve assu-
mir responsabilidade social direta.
Friedman e seus muitos adeptos argumentam que a empresa deveria apenas bus-
car a otimização do lucro dentro das regras da sociedade. Afirmam que uma empresa
lucrativa beneficia a sociedade ao criar novos empregos, dar boas condições de tra-
balho e pagar salários justos, que melhoram a vida de seus funcionários, além de
contribuir para o bem-estar público pagando seus impostos (CHARNOV et al., 2012).

TRAJETÓRIA DA SUSTENTABILIDADE E DA RESPONSABILIDADE SOCIAL


29

Segundo Montana e Charnov (2003, p. 8), os argumentos teóricos contra a


responsabilidade social, na visão de Friedman, são:
1. Essa é função maior do governo; ao vincular empresa ao governo, criará
uma força poderosa demais na sociedade e, em última instância, com-
prometerá o papel do governo na regulamentação da empresa.
2. A empresa precisa medir o desempenho, e os programas de ação social
muitas vezes não conseguem medir índices de sucesso. Geralmente há
um conflito inerente entre o modo como a empresa funciona e o modo
como operam os programas sociais.
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

3. A função da empresa é maximizar lucros. Assim, exigir que recursos


sejam destinados a programas de ação social viola essa meta empresa-
rial, uma vez que ela reduz os lucros.
4. Não há razão para supor que os líderes empresariais tenham a capacidade
de determinar o que é de interesse social. Cientistas sociais e administra-
dores do governo muitas vezes não conseguem chegar a um acordo sobre
metas de interesse social. Por que supor que os líderes empresariais pos-
sam fazer um trabalho melhor de definir o interesse social?

Para Charnov et al. (2012, p. 13), os argumentos práticos contra a responsabili-


dade social, na visão de Friedman, são:
1. Os gerentes têm uma responsabilidade fiduciária no sentido de maxi-
mizar o lucro do patrimônio líquido; utilizar os recursos financeiros da
empresa para realizar objetivos sociais pode ser uma violação dessa res-
ponsabilidade, portanto, ilegal.
2. O custo dos programas sociais seria um ônus para a empresa e teria de
ser repassado aos consumidores na forma de aumento de preços.
3. O público pode querer que o governo tenha programas sociais, mas há
pouco apoio, por parte do governo, para a empresa assumir tais progra-
mas sociais.
4. Os líderes empresariais não dispõem de habilidades especializadas neces-
sárias para alcançar metas de interesses sociais.

Argumentos Contra e a Favor da Responsabilidade Social Empresarial


30 UNIDADE I

Argumentos a favor da responsabilidade social da empresa


Os argumentos favoráveis à participação de organizações em atividades de res-
ponsabilidade social partem, principalmente, da área acadêmica. Para Montana
e Charnov (2003), Keit Davis, professor da Universidade Estadual do Arizona,
defende a participação das organizações em atividades de responsabilidade social.
Ele argumenta que a responsabilidade social anda de mãos dadas com o poder
social e, já que a organização é a maior potência do mundo contemporâneo, ela
tem a obrigação de assumir uma responsabilidade social correspondente. Por
sua vez, a sociedade que deu esse poder às organizações, pode chamar a organi-

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
zação para prestar contas pelo uso desse poder.
Montana e Charnov (2003, p. 40) trazem que os argumentos teóricos em
favor da responsabilidade social, na visão de Keith Davis, são:
1. Teoricamente é do interesse da empresa melhorar as comunidades nas
quais estão inseridas e nas quais fazem negócios. A melhoria nos ambien-
tes comunitários, em última instância, reverterá em benefício da empresa.
2. Programas de responsabilidade social ajudam a evitar que pequenos pro-
blemas possam se tornar grandes problemas. Em última análise, isso será
benéfico à sociedade e à empresa.
3. Ser socialmente responsável é a coisa ética ou correta a fazer.
4. Demonstrar sensibilidade a questões sociais ajudará a evitar intervenção
governamental na empresa.
5. O sistema de valores mais generalizado, a tradição judaico-cristã, incen-
tiva fortemente os atos de caridade e a preocupação social.

Para Charnov et al. (2012, p. 14), os argumentos práticos em favor da responsa-


bilidade social, na visão de Keith Davis, são:
1. Ações que demonstram sensibilidade social, se efetivadas dentro de um
modelo econômico sustentável, podem, de fato, ser lucrativas para a
empresa. Novas máquinas de poluição ambiental, por exemplo, podem
ser mais eficientes e econômicas.
2. Ser socialmente responsável melhora a imagem de relações públicas da
empresa em termos de cidadania.

TRAJETÓRIA DA SUSTENTABILIDADE E DA RESPONSABILIDADE SOCIAL


31

3. Se nós mesmos não o fizermos, nem a opinião pública, nem o governo


exigirão que o façamos.
4. Ela pode ser boa para os acionistas já que tais medidas obterão apro-
vação pública e levarão a empresa a ser vista pelos analistas financeiros
como menos exposta à crítica social e produzirão um aumento no preço
das ações.

Segundo Campos (1992), uma organização honesta só pode sobreviver dentro


da sociedade se contribuir para a satisfação das expectativas e necessidades das
pessoas. “Este é o seu objetivo principal. Se este fato é tomado como premissa,
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

a primeira preocupação da administração da empresa deve ser a satisfação das


necessidades das pessoas afetadas pela sua existência”. Nesse sentido, as organi-
zações devem satisfazer aos consumidores, clientes, colaboradores, acionistas e
os vizinhos da empresa, ou seja, seus stakeholders (internos e externos).
Em cada uma dessas visões relativas ao grau desejado de sensibilidade
social, existe acordo de que a empresa deve empenhar todas as ações
socialmente responsáveis exigidas por lei. A maior divergência encon-
tra-se nos níveis das ações socialmente responsáveis que ultrapassam as
exigências legais, e a diferença de opiniões relativas a ir acima e além do
dever tem suscitado várias abordagens diferentes de responsabilidade
social (CHARNOV et al., 2012, p. 14).

STAKEHOLDERS

São chamados de stakeholders todos aqueles grupos que tenham algum interesse
na organização, que por sua vez também se interessa pela imagem que repre-
senta a eles. Podem ser chamados de stakeholders os trabalhadores, os acionistas,
o Estado em suas diversas esferas, os fornecedores, os consumidores, a comuni-
dade do entorno organizacional, entre outros.
Para Alencastro (2012), é um conceito que amplia o campo das tarefas da
empresa e, por outro lado, amplia o papel desses stakeholders, considerando-os
como parte da comunidade inerente ao contexto organizacional, sendo capa-
zes, inclusive, de ter o poder para determinar a adoção de posturas moralmente
mais corretas na condução de seus negócios.

Argumentos Contra e a Favor da Responsabilidade Social Empresarial


32 UNIDADE I

Na figura a seguir, temos uma representação da organização e de todos os


agentes que fazem parte de seu raio de ação e que se envolvem direta ou indire-
tamente com as consequências das decisões da empresa, segundo Carroll (1999).
Grupos
Local
Ambientalistas
Público Estadual
em geral Federal
Comunidade Governo
Potenciais
Compradores

Investidores Acionista
Empresa Empregados

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Individuais
Minorias
Investidores Consumidor
Institucionais

Consumidores Ameaças de
Ativistas defeitos nos produtos

Figura 3: Empresa e Principais Stakeholders


Fonte: Carroll (1999, p. 9)

RESPONSABILIDADE SOCIAL CORPORATIVA

As empresas variam em muitos aspectos, tais como: tamanho, setor de atuação,


recursos utilizados, impacto causado na sociedade e nos stakeholders. Em con-
sequência disto, as formas como elas adotam e praticam responsabilidade social
também variam (CARROLL, 1999).
Carroll (1999) apresenta uma definição de Responsabilidade Social
Corporativa (RSC), que foca nos tipos de responsabilidade social que podem
ser atribuídos à empresa:
A responsabilidade social corporativa engloba as expectativas eco-
nômicas, legais, éticas e filantrópicas por parte da sociedade em re-
lação às organizações em determinado ponto do tempo (CARROLL,
1999, p. 35).

TRAJETÓRIA DA SUSTENTABILIDADE E DA RESPONSABILIDADE SOCIAL


33

O autor procura desmembrar os diversos componentes da RSC, relacionando as


expectativas legais e econômicas às preocupações de cunho mais social, como as
responsabilidades ética e filantrópica, criando uma pirâmide. Na figura a seguir,
poderemos observar esquematicamente essa pirâmide.
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Figura 4: A Pirâmide de Responsabilidade Social Corporativa


Fonte: Carroll (1999, p. 39)

Para Alencastro (2012), é um modelo que contempla a responsabilidade eco-


nômica da empresa em ser produtiva e rentável – sem a qual ela não sobrevive
– com seu envolvimento social.
Vamos conhecer melhor cada um dos componentes citados por Carrol:
■■ Responsabilidade Econômica

Para Carroll (1999), a responsabilidade econômica é definida como uma respon-


sabilidade social primária das empresas. A empresa deve atuar como organização
econômica cuja orientação básica é produzir bens e serviços que a sociedade
deseja e vendê-los a preços justos, que permitam a perpetuação da empresa e a
remuneração de seus investidores. Ao exercitar esta responsabilidade, a empresa
emprega diversos conceitos de gestão, objetivando a maximização do seu valor

Argumentos Contra e a Favor da Responsabilidade Social Empresarial


34 UNIDADE I

no longo prazo. No entanto, a responsabilidade econômica não é suficiente para


que a empresa seja socialmente responsável.
Para Alencastro (2012), a dimensão econômica é a base da pirâmide, isso
ocorre, pois a atividade econômica é indispensável na geração de empregos,
investimentos e pagamentos de taxas e impostos. Portanto, ela pode influen-
ciar diretamente os outros critérios, sem ela, nada acontece, por isso, é a base
da pirâmide!

■■ Responsabilidade Legal

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Como parte do contrato social, a sociedade estabelece uma legislação e espera
que as empresas operem dentro deste conjunto de leis. A responsabilidade legal
corresponde ao cumprimento destas leis, as quais representam noções básicas
de convivência dentro de uma sociedade. Entretanto, as leis geralmente não con-
templam comportamentos, expectativas e desejos mais recentes da sociedade,
além de, devido à racionalidade limitada do ser humano, não englobar todos os
tópicos, áreas e temas possíveis de serem enfrentados pela empresa, uma vez que
a sociedade está continuamente desenvolvendo novos valores.

■■ Responsabilidade Ética

A responsabilidade ética incorpora conceitos, comportamentos e práticas que são


esperadas ou proibidas pelos membros da sociedade, mas que ainda não estão
codificadas na forma de lei. A responsabilidade ética incorpora padrões, costu-
mes, normas sociais, tradições e expectativas que refletem o que a sociedade e
os diversos constituintes da empresa acreditam ser justo e correto.
Veremos um pouco mais sobre essa responsabilidade na Unidade V.

■■ Responsabilidade Filantrópica

A responsabilidade filantrópica ou discricionária representa expectativas cor-


rentes da sociedade com relação à atuação das empresas. Estas ações não são
obrigatórias nem requeridas por lei, e não são esperadas por parte da empresa
mesmo em termos éticos: trata-se de iniciativas voluntárias da empresa buscando
a qualidade de vida e a sustentabilidade socioambiental.

TRAJETÓRIA DA SUSTENTABILIDADE E DA RESPONSABILIDADE SOCIAL


35

Para Alencastro (2012), responsabilidade social é diferente de filantropia,


pois a primeira deve estar vinculada à estratégia empresarial, fazendo parte
do planejamento da empresa e compreendendo ações proativas, inseridas
na cultura da organização como um todo. Já a segunda está relacionada
apenas às ações, quase sempre pontuais, da instituição com a comunidade.
São práticas assistenciais que surgem normalmente por iniciativa pessoal
(voluntariado) dos empregados e/ou dirigentes da empresa. Apesar de con-
ceitualmente diferentes, a filantropia geralmente é o primeiro passo para a
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

responsabilidade social.
Você seria capaz de citar alguma empresa que realiza filantropia e divulga
como se fosse uma empresa com responsabilidade social?

Segundo Kono (2006), um dos objetivos da pirâmide é demonstrar que a res-


ponsabilidade social corporativa engloba aspectos econômicos, legais, éticos e
filantrópicos, e que ela não pode ser atingida cumprindo-se apenas alguns dos
seus componentes, portanto, as quatro dimensões têm de ser atendidas simul-
taneamente. Outra função importante do modelo é auxiliar os executivos a
identificar os diversos tipos de responsabilidade. O mesmo autor destaca tam-
bém que o modelo de Carroll fornece uma ferramenta útil na conceituação dos
principais problemas ligados à RSC. Entretanto, as fronteiras entre os quatro
componentes são tênues e muitas vezes sobrepostas, de forma que muitas vezes
surgem tensões entre dois ou mais componentes.

Graus de Envolvimento de Responsabilidade Social da Organização


Sensibilidade social é a medida na qual uma organização é sensível à percepção
de suas obrigações sociais, e é medida pela avaliação da eficácia e eficiência da
organização em seus esforços de empreender ações que satisfaçam as obrigações
sociais (CHARNOV et al., 2012).
As organizações sociais têm assumido diferentes graus de sensibilidade
social, apresentando 3 abordagens que serão apresentadas a seguir, de acordo
com Charnov et al. (2012).

Argumentos Contra e a Favor da Responsabilidade Social Empresarial


36 UNIDADE I

■■ Abordagem da Obrigação Social

Essa abordagem supõe que os objetivos principais da organização são de natu-


reza econômica, principalmente a maximização dos lucros e o patrimônio dos
acionistas, não o cumprimento de obrigações sociais. Assim, os adeptos dessa
abordagem afirmam que a empresa deve meramente cumprir as obrigações sociais
mínimas impostas pela legislação em vigor. Os administradores que aceitam essa
abordagem afirmam que a empresa cumpre obrigação social, maximizando lucros
e mantendo os trabalhadores empregados. Dessa maneira, esses administradores,
enquanto cumprirem a lei, respondem apenas perante os proprietários da orga-

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
nização (acionistas) por ações que consomem recursos organizacionais – não
perante a sociedade. Esses administradores selecionam as ações que resultarão no
melhor resultado econômico para a organização, e/ou as que são exigidas pela lei.
Hoje, as organizações defrontam inúmeras leis e decretos que as obrigam
a controlar a poluição, a criar e manter locais seguros de trabalho, a tratar com
igualdade os colaboradores etc. Os administradores, que se limitavam apenas
às obrigações legais, agora se confrontam com a necessidade de se manter atu-
alizados com as mudanças nas obrigações sociais.

■■ Abordagem da Responsabilidade Social

Essa abordagem supõe que a organização não tem apenas metas econômicas,
mas também responsabilidade social. Os administradores que assumem essa
abordagem tomam decisões organizacionais com base não apenas nos ganhos
econômicos projetados e na conformidade legal, mas também no critério do
benefício social. Há uma predisposição para que sejam usados recursos organi-
zacionais para projetos de bem-estar social, embora não seja seguido nenhum
curso de ação que possa trazer danos econômicos para a organização. Nesse
tipo de abordagem, existe uma preocupação em otimizar os lucros e o patri-
mônio líquido dos acionistas, mas existe também consideração por aqueles que
supervisionam programas de ação social. As organizações adeptas ao método
da responsabilidade social buscam ativamente a aprovação da comunidade por
seu envolvimento e comprometimento social, e desejam ser vistas como politica-
mente corretas. Essas organizações fazem um grande esforço na área de relações
públicas, direcionando-a para a obtenção desse reconhecimento público.

TRAJETÓRIA DA SUSTENTABILIDADE E DA RESPONSABILIDADE SOCIAL


37

■■ Abordagem da Sensibilidade Social

Essa abordagem supõe que a organização não tem apenas metas econômicas e
sociais, mas que também precisa se antecipar aos problemas sociais do futuro e
agir agora em resposta a esses problemas. A abordagem da sensibilidade social
é o método que mais exige das organizações: exige que a organização se ante-
cipe aos problemas sociais e que lide com eles antes que se tornem evidentes;
ao lidar com problemas sociais do futuro, a organização pode precisar fazer uso
de recursos organizacionais agora, criando um impacto negativo na otimização
de lucros do presente.
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Montana e Charnov (2003) salientam que:


a empresa que adota esse método acredita que a boa cidadania corpora-
tiva implica assumir um papel verdadeiramente proativo na sociedade,
o de fazer uso do poder que lhe é conferido para a melhoria da socie-
dade. Isso, no final, produzirá um efeito benéfico na empresa já que
ela faz negócios no interior dessa sociedade (MONTANA; CHARNOV,
2003, p. 45).

A organização que adota o método da sensibilidade social procura ativamente


por envolvimento e comprometimento, esforço à conscientização social, espe-
cialmente com a comunidade, e encoraja seus colaboradores a fazerem o mesmo.
Enquanto o método da responsabilidade social prega o envolvimento indivi-
dual e empresarial em causas sociais já estabelecidas, o método da sensibilidade
social tem uma visão mais ampla ao se preocupar com o futuro da sociedade.

O PAPEL DAS ORGANIZAÇÕES E A


RESPONSABILIDADE SOCIAL

Segundo Cimbalista (2001), as empresas são construções sociais, portanto, sujeito


e objeto da realidade da qual fazem parte. São participantes dos problemas sociais
e, nos dias de hoje, uma das instituições mais influentes nos rumos da sociedade.
O mesmo autor pontua que, sob o ponto de vista conceitual, a empresa que, além
do seu negócio, também efetiva a colaboração corporativa na construção de uma

O Papel das Organizações e a Responsabilidade Social


38 UNIDADE I

sociedade mais justa e ambientalmente sustentável exerce o que se convencio-


nou chamar de cidadania corporativa e que, portanto, esse tipo de organização
que exerce a responsabilidade social conduz seus negócios de tal maneira que
se torna parceira e corresponsável pelo desenvolvimento social.
A empresa socialmente responsável é aquela que possui a capacidade
de ouvir os interesses das diferentes partes (acionistas, funcionários,
prestadores de serviço, fornecedores, consumidores, comunidade, go-
verno e meio-ambiente) e conseguir incorporá-los no planejamento de
suas atividades, buscando atender às demandas de todos e não apenas
dos acionistas ou proprietários (CIMBALISTA, 2001, p. 1).

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Hoje, um dos grandes desafios das empresas está na conquista de níveis cada vez
maiores de competitividade e produtividade, atrelados à preocupação crescente
com a legitimidade social de sua atuação. Como resposta, as empresas têm pas-
sado a investir em qualidade e, inicialmente, preocupam-se com os produtos,
evoluem para a abordagem dos processos, até chegar ao tratamento abrangente
das relações da atividade empresarial com os empregados, os fornecedores, os con-
sumidores, a comunidade, a sociedade e o meio ambiente (CIMBALISTA, 2001).
Para o mesmo autor, uma das formas de a empresa demonstrar responsa-
bilidade social é envolver-se com programas sociais voltados para o futuro da
comunidade e da sociedade. O investimento em conservação ambiental e no
uso racional dos recursos naturais é valorizado por atender ao interesse tanto da
empresa como da coletividade. Esse tipo de iniciativa revela à sociedade a pre-
ocupação da empresa e demonstra que só uma sociedade saudável pode gerar
empresas saudáveis.
Para Charnov (2012), a responsabilidade social se torna mais eficaz com
ações que promovam as potencialidades de cada região, das comunidades locais,
fortalecendo, dessa forma, os aspectos sociais, econômicos e ambientais, pro-
movendo uma elevação real na qualidade de vida local. Isso se dá por meio de
ações que estejam organizadas para descobrir as potencialidades locais, fortale-
cendo os atores sociais locais, contribuindo para o desenvolvimento sustentável.
Vamos finalizar essa Unidade com a frase do microbiologista francês René
Dubos, citada nos anos 70, “pense globalmente, aja localmente”! Vamos pensar
na importância de desenvolver a economia sem comprometer os recursos locais.

TRAJETÓRIA DA SUSTENTABILIDADE E DA RESPONSABILIDADE SOCIAL


39

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Na sociedade pós-industrial, passou-se a valorizar o aumento da qualidade de


vida, a valorização do ser humano, o respeito ao meio ambiente, a pluralidade
dos objetivos empresariais e a valorização das ações sociais, tanto das empresas
quanto dos indivíduos. Dessa forma, esses são os valores da sociedade pós-in-
dustrial que passam a direcionar a responsabilidade social.
É por isso que as empresas passam a adotar um novo papel na sociedade,
mais comprometido com seu entorno, não apenas focado no crescimento
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

econômico, mas também nos aspectos sociais e ambientais, o que forma o


desenvolvimento sustentável.
Essa nova postura empresarial acontece em função de uma mudança no
mercado, que no período pós-revolução industrial se torna cada vez mais
competitivo, obrigando as empresas a se tornarem cada dia mais atrativas aos
seus consumidores.

“Qualidade de vida não significa apenas a quantidade e a qualidade dos


bens e serviços de consumo, mas também a qualidade do meio ambiente.”
Armstrong Kotler (2007)

Considerações Finais
1. Pesquise, citando a fonte, sobre o modelo Triple bottom line e discuta sua ideia
central e suas principais vantagens e desvantagens.
2. A partir da definição do Instituto Ethos de que a responsabilidade social está
plantada sobre o tripé da ética, da transparência e do desenvolvimento sus-
tentável, relacione as principais dificuldades para se implementar a respons-
abilidade social em uma organização atual. Além disso, apresente alternativas
para resolvê-las.
3. Destaque os princípios da responsabilidade social empresarial de Milton Fried-
man e Keith Davis. Há algo em comum entre os argumentos desses dois autores?
4. Faça uma pesquisa levantando as críticas sobre o modelo da pirâmide das 4 re-
sponsabilidades sociais.
5. Diferencie de forma objetiva a abordagem da obrigação social, da aborda-
gem da responsabilidade social e da abordagem da sensibilidade social. En-
quadre a sua empresa, ou a empresa em que você trabalha, dentro de uma
dessas abordagens.
MATERIAL COMPLEMENTAR

Sustentabilidade e responsabilidade social


Bruce H. Charnov et al.
Editora: Saraiva
Organizado pela Professora Bianca Burdini Mazzei, o livro Sustentabilidade e Responsabilidade
Social conta com autores renomados na área e aborda os seguintes temas: administração e
responsabilidade social, globalização, abordagem crítica da responsabilidade social, o papel da
empresa-cidadã e a sustentabilidade empresarial associada à responsabilidade social.

Sustentabilidade, responsabilidade social e meio


ambiente
Adriana Camargo Pereira
Gibson Zucca Silva
Maria Elisa Ehrhardt Carbonari.
Editora: Saraiva
Sinopse: Em “Sustentabilidade, responsabilidade social e meio
ambiente”, o leitor encontrará uma abordagem simples, clara e
essencial sobre os diversos temas referentes às mudanças climáticas
que vivenciamos. Além de proporcionar uma reflexão sobre o
assunto, esta obra também propõe soluções objetivas que estimulam
atitudes e práticas capazes de beneficiar o coletivo e que podem ser concretizadas a partir do
empenho de cada cidadão.

Material Complementar
MATERIAL COMPLEMENTAR

Desenvolvimento e Meio Ambiente. As estratégias de


mudanças da Agenda 21.
José Carlos Barbieri
Editora: Vozes
Sinopse: O autor aborda as principais temáticas acerca da
promoção de um desenvolvimento sustentável dos países. Assim,
Barbieri realiza um histórico das Conferências Internacionais sobre
meio ambiente e analisa um dos principais documentos produzidos
nestas conferências: a Agenda 21.

Entrevista com o cientista Kevin Noon, que esclarece a questão dos Limites da Terra.
Disponível em: <http://www.oeco.com.br/multimidia/videos/24515-entrevista-com-kevin-noon>.
Professor Me. Paulo Pardo

II
PRÊMIOS E INCENTIVOS

UNIDADE
À RESPONSABILIDADE
SOCIAL

Objetivos de Aprendizagem
■■ Prêmios e incentivos à responsabilidade social organizacional.
■■ Certificações Nacionais e Internacionais de Sustentabilidade
Empresarial.
■■ O uso das ferramentas do Marketing Social e Societal: abordagem
crítica.
■■ Conhecer os principais prêmios e incentivos à Responsabilidade
Social Organizacional.
■■ Apresentar as certificações nacionais e internacionais de
Sustentabilidade Organizacional.
■■ Compreender o uso de ferramentas do Marketing Social e Societal
com uma visão crítica.

Plano de Estudo
A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade:
■■ Prêmios e incentivos à responsabilidade social organizacional
■■ Certificações nacionais e internacionais de sustentabilidade
empresarial
■■ O uso das ferramentas do marketing societal: uma abordagem crítica
45

INTRODUÇÃO

Caro(a) estudante,
Você sabe muitíssimo bem que as organizações da atualidade estão cada vez
mais envolvidas em processos de intensa competição, cujo objetivo é aumentar
sua participação no mercado e, como consequência, seus lucros. Não podemos
ser ingênuos em pensar que as organizações se converterão em benfeitoras da
humanidade e abrirão mão de seus lucros, pois isso seria uma utopia e uma ação
simplesmente impraticável. Uma organização sem lucros também não pode inves-
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

tir um centavo sequer em ações de responsabilidade social e ambiental.


Sobre este assunto, gostaria de trazer à sua atenção um episódio da vida do
destacado empresário Henry Ford, citado sempre quando o assunto é produ-
ção industrial. Após o estrondoso sucesso do seu modelo T, os lucros da empresa
eram tão expressivos que Ford – então acionista majoritário – decidiu que parte
dos lucros seria reinvestida na empresa, visando a sua expansão, e uma parte seria
destinada para a redução do valor dos automóveis. Seus sócios não gostaram nada
dessa iniciativa, e deram inicio a um processo na justiça, que teve seu mérito jul-
gado pela Suprema Corte americana. O resultado? Ford perdeu a ação, pois os
juízes entenderam que a função primária de uma empresa é a geração de lucro para
seus acionistas. Ou seja, antes de pensar em qualquer ação em benefício de outros,
a empresa deve remunerar seus donos, seus acionistas, pois foi por este motivo
que eles investiram seus recursos na companhia. O que acha disso? Parece cruel?
Independente do que você possa concluir do relato acima, saiba que as empre-
sas, ao visarem o lucro de seus proprietários, estrategicamente devem pensar que
estes lucros só advirão se os clientes continuarem a comprar os produtos e servi-
ços destas empresas. E os clientes nos últimos anos – pelo menos uma parte deles
– passaram a valorizar os produtos e serviços que são oferecidos por empresas
que se preocupam com o bem-estar de todos que são afetados por suas ativida-
des. Assim, quando verificamos uma empresa com alto grau de envolvimento
social e boas práticas ambientais, saiba que seus dirigentes entenderam que isso
é um requisito de mercado e é o mercado que mantém as empresas funcionando.
Por isso, nesta Unidade, analisaremos como as empresas, na prática, demons-
tram que valorizam a opinião do mercado, procurando exibir em suas ações

Introdução
46 UNIDADE II

promocionais suas conquistas em relação às certificações e prêmios concedidos


por entidades nacionais e internacionais que avaliam as boas práticas empresa-
rias nos campos da responsabilidade social e ambiental.
Bons estudos!
Prof. Me. Paulo Pardo

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
“As pedras vão se desfazendo em forma de dinheiro. Esta serra tem dono.
Não mais a natureza a governa” – Carlos Drummond de Andrade.

PRÊMIOS E INCENTIVOS À RESPONSABILIDADE


SOCIAL ORGANIZACIONAL

Na Introdução desta Unidade, comentamos que as empresas têm um dever


corporativo de remunerar o acionista, pois foram originários dele os recursos
necessários à implantação da própria atividade empresarial. Comentamos tam-
bém a respeito do famoso caso de Henry Ford, que perdeu uma causa judicial
em que desejava socializar parte do lucro da empresa, em razão de um entendi-
mento da Suprema Corte americana que considerava na época que a principal
função social da empresa é gerar riqueza para os acionistas.
Porém, felizmente, com o passar do tempo, mesmo o entendimento jurídico
americano – berço do capitalismo ocidental – foi aos poucos se alterando e con-
siderando que a empresa deve também contemplar e até direcionar recursos para
ações e projetos que não tenham no lucro seu objetivo primário. Ilustrativo disso
foi um caso julgado na década de 1950 (Barlow versus A.P. Smith Manufacturing
Company), em que a Suprema Corte de New Jersey declarou ser
[...] favorável à doação de recursos para a Universidade Princeton, con-
trariamente aos interesses dos acionistas. A justiça determinou, então,
que uma corporação pode buscar o desenvolvimento social, estabele-
cendo em lei a filantropia corporativa (ASHLEY, 2005, p. 46).

PRÊMIOS E INCENTIVOS À RESPONSABILIDADE SOCIAL


47

Exemplos como esse passaram a ser vistos com maior frequência, ensejando que
as companhias formassem uma imagem corporativa perante o mercado de uma
empresa que tem preocupação com os interesses dos stakeholders (conceito que
você estudou na Unidade I deste livro).
Mais do que isso, as empresas começaram a perceber que os stakeholders
representados por algumas entidades de elevada reputação buscavam “pre-
miar”, por assim dizer, por meio de diversos mecanismos, aquelas companhias
que tivessem práticas reconhecidamente benéficas para a sociedade de acordo
com critérios específicos de análise. Temos então montado o cenário para uma
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

busca por premiações de reconhecimento de boas práticas socioambientais: por


um lado, os stakeholders desejam destacar as empresas social e ambientalmente
responsáveis por meio da concessão de premiações e incentivos e, por outro, as
próprias companhias vislumbraram com isso uma maneira de apresentarem ao
mercado uma imagem superior aos concorrentes em relação as suas estratégias
de atuação social e ambiental.
Mas, para um melhor entendimento, vamos analisar essas premiações – pelo
menos as mais conhecidas e mais relevantes – e, ao fazer isso, gostaria que você
usasse seu senso crítico em relação a este assunto. Em sua opinião, são válidas
essas premiações e incentivos às empresas?

PREMIAÇÕES NO BRASIL

Como você poderá comprovar no Caso apresentado na Leitura Complementar desta


Unidade, existem diversas premiações em nível nacional, promovidas por entidades
diversas, cujo objetivo é ratificar, perante o público, ações e projetos nas áreas de
Responsabilidade Social Empresarial (RSE) que se alinhem a determinados critérios.
O Quadro 2, a seguir, traz alguns destes prêmios brasileiros, porém, cabe
ressaltar que a lista não é exaustiva, isto é, você pode – e certamente o fará –
encontrar outros prêmios que em sua avaliação também são relevantes e que
poderiam ser incluídos neste rol. Como o objetivo é ilustrativo, fique à vontade
para pesquisar na internet, em revistas especializadas e em outras publicações
de seu interesse, outras iniciativas da mesma natureza.

Prêmios e Incentivos à Responsabilidade Social Organizacional


48 UNIDADE II

INFORMAÇÕES
AÇÕES OBJETO DA QUEM PODE QUEM
PRÊMIO SOBRE O
PREMIAÇÃO RECEBER CONCEDE
PRÊMIO
Prêmio Pró- Atuação no de- Empresas privadas Instituto Pró- <www.institu-
-Cidadania senvolvimento de e organizações -Cidadania. toprocidadania.
de Respon- programas inclusi- sem fins lucrativos. org.br>.
sabilidade vos de pessoas so-
Social: cialmente excluídas
e em idade laboral,
em especial pessoas
com deficiência e
também pessoas

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
com marca-passo,
safenadas, quei-
madas, obesas,
ex-pacientes de
câncer, com vitiligo,
acima de 45 anos,
sem qualificação
profissional e outros
(denominados 4º
setor).
Prêmio Melhores práticas Empresas distribui- ABRADEE – <http://www.
ABRADEE em temas como doras de energia Associação abradee.com.
Gestão Econômico- elétrica. Brasileira dos br/abradee/ati-
-Financeira, Gestão Distribuidores vidades/premio-
Operacional e de Energia -abradee>.
Responsabilidade Elétrica
Social.
Prêmio Melhores práticas Empresas, funda- Editora Refe- <http://www.
Marketing de sustentabilidade ções, institutos e rência (Revista marketingbest.
Best Susten- que se traduzem em associações que Marketing) e a com.br/susten-
tabilidade iniciativas e ações tenham desenvol- Madia Marke- tabilidade/o-
de inclusão social, vido ações e pro- ting School. -premio/>.
de incentivo à jetos de susten-
cultura, de respeito tabilidade, tanto
ao meio ambiente e para seus públicos
na direção de uma internos como
economia verde. para as comunida-
des com as quais
se relacionam.

PRÊMIOS E INCENTIVOS À RESPONSABILIDADE SOCIAL


49

INFORMAÇÕES
AÇÕES OBJETO DA QUEM PODE QUEM
PRÊMIO SOBRE O
PREMIAÇÃO RECEBER CONCEDE
PRÊMIO
Prêmio Exemplos de Instituições pú- Instituto <www.institu-
Socioam- solução de conflitos blicas e privadas Internacional tochicomendes.
biental Chico entre desenvol- que apresentem de Pesquisas org.br>.
Mendes vimento, justiça gestão socioam- e Respon-
social e equilíbrio biental respon- sabilidade
ambiental. sável, cases e Socioam-
ações de natureza biental Chico
socioambiental, Mendes.
empreendimentos
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

que utilizem téc-


nicas ecológicas,
desenvolvimento
de produtos
comprometidos
com os conceitos
de sustentabilida-
de, especialmente
no que se refere
à redução de im-
pactos ambientais
e que demonstrem
responsabilidade
com o bem-estar
das pessoas e a
melhoria da qua-
lidade de vida da
comunidade local
e global Fonte:
<http://institu-
tochicomendes.
org.br/site/?pa-
ge_id=87>.

Prêmios e Incentivos à Responsabilidade Social Organizacional


50 UNIDADE II

INFORMAÇÕES
AÇÕES OBJETO DA QUEM PODE QUEM
PRÊMIO SOBRE O
PREMIAÇÃO RECEBER CONCEDE
PRÊMIO
Prêmio Ética Destacar e divulgar Empresas em Instituto Bra- <www.premioe-
nos Negó- as empresas com as atuação em todo o sileiro de Ética ticanosnegocios.
cios Melhores Práticas e, território nacional nos Negócios. org.br>.
portanto, com reco- e integrantes de
nhecida excelência qualquer segmen-
nos principais temas to de mercado:
que envolvem a indústria, comér-
atuação responsável cio e do setor de
empresarial. Cate- serviços.

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
gorias: Responsabi-
lidade Social, Meio
Ambiente, Ética e
Compliance, Comu-
nicação e Transpa-
rência, Sustentabili-
dade, Voluntariado
e Cadeia Produtiva.
Prêmio Beti- Valorizar, dar visibi- Pessoas e organi- COEP – <http://www.co-
nho – Atitu- lidade a iniciativas zações que atuam Comitê de epbrasil.org.br/
de Cidadã sociais desenvolvi- nas áreas definidas Entidades no premiobetinho/
das em todo o país e como foco do Combate à Publico/premio.
reconhecer o traba- prêmio. Fome e pela aspx>.
lho de pessoas que, Vida.
em seu dia a dia, se
dedicam à promo-
ção da cidadania.
Quer, também, dar
rosto, voz e reco-
nhecimento a quem
acredita que cada
um(a) – a seu jeito
– pode fazer a sua
parte para construir
um Brasil melhor e
mais justo Fonte:
COEP.

PRÊMIOS E INCENTIVOS À RESPONSABILIDADE SOCIAL


51

INFORMAÇÕES
AÇÕES OBJETO DA QUEM PODE QUEM
PRÊMIO SOBRE O
PREMIAÇÃO RECEBER CONCEDE
PRÊMIO
Prêmio Boas práticas em Empresas dos se- Federação do <http://www.
Fecomercio princípios defini- tores de comércio Comércio de fecomercio.com.
de Sustenta- dos pelo prêmio: e serviços, empre- Bens, Serviços br/sustentabili-
bilidade ética nos negócios, sas varejistas ou e Turismo do dade/>.
procedência dos atacadistas que Estado de São
produtos, cadeia exerçam atividade Paulo (Feco-
de suprimentos, comercial, em- merciosp).
empregados, ope- presas de turismo
rações do negócio, e prestadoras de
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

logística, atributos serviços em geral,


de qualidade de indústrias inseri-
produtos e servi- das na cadeia de
ços, atendimento, valor do setor e as
marketing, con- entidades empre-
sumo consciente, sariais (sindicatos
crédito responsá- e entidades de
vel, concorrência, classe). Fonte:
interatividade com FECOMERCIO.
as comunidades,
mercados inclusivos,
autorregulação e
interatividade com
o poder público,
meio ambiente.

Prêmios e Incentivos à Responsabilidade Social Organizacional


52 UNIDADE II

INFORMAÇÕES
AÇÕES OBJETO DA QUEM PODE QUEM
PRÊMIO SOBRE O
PREMIAÇÃO RECEBER CONCEDE
PRÊMIO
Prêmio ECO® Distinguir e reco- Todas as empresas AMCHAM - <http://www.
nhecer as melhores que atuam no (American premioeco.com.
práticas de gestão Brasil, tanto as de Chamber of br/>.
empresarial para a iniciativa privada, Commerce for
sustentabilidade no quanto as públicas Brazil) – Tra-
Brasil que contri- e as de economia dução: Câma-
buam de forma mista. ra Americana
exemplar, e simul- de Comércio
taneamente, para o para o Brasil

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
sucesso econômico
da empresa, para a
construção de uma
sociedade mais jus-
ta e próspera e para
a preservação do
meio ambiente em
nosso país. Fonte:
Prêmio ECO®
Quadro 2: Premiações brasileiras de responsabilidade social e ambiental
Fonte: o autor

Além destes prêmios em âmbito nacional, existem publicações renomadas, com


grande penetração principalmente entre um público conhecido como “forma-
dores de opinião”, que promovem um ranking de empresas com boas práticas
socioambientais. Na prática, ser listado entre as primeiras colocadas – especial-
mente na primeira colocação – equivale a um prêmio de reconhecimento.
Entre essas publicações e seus respectivos rankings, destaca-se o Guia Exame
da Sustentabilidade.
Promovido pela Revista Exame da Editora Abril, considerada uma das mais
influentes publicações sobre negócios no Brasil, este guia foi concebido em 1970
com o nome de Guia Exame de Boa Cidadania Corporativa. Logo no início, o
objetivo deste guia era apontar as empresas-modelo em relação às melhores prá-
ticas de responsabilidade social no Brasil, utilizando como modelo o conjunto
de indicadores do Instituo Ethos de Empresas e Responsabilidade Social.
Com o tempo, este Guia aperfeiçoou sua metodologia, utilizando como
parceiro para mapeamento e análise dos dados e informações o Centro de

PRÊMIOS E INCENTIVOS À RESPONSABILIDADE SOCIAL


53

Estudos em Sustentabilidade (GVces) da


Escola de Administração de Empresas da
Fundação Getúlio Vargas (FGV-EAESP).
Desde 2007, o Guia passou a escolher a
Empresa Sustentável do ano. A participa-
ção é voluntária e a empresa candidata deve
responder a um questionário composto de
140 perguntas, agrupadas em quatro partes.
Na primeira, são abordadas questões sobre
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

compromissos, transparência e governança


corporativa. As demais tratam das dimensões
econômico-financeira, social e ambiental da
sustentabilidade empresarial (Fonte: Guia
Exame de Sustentabilidade). Além do óbvio
reconhecimento no mercado, as empresas
também têm um ganho “colateral” de um
diagnóstico de desempenho, apontando seus
pontos fortes e oportunidades de melhoria
© abril

em relação às empresas-modelo e às demais


empresas participantes do processo.
Voltando nosso foco para premiações internacionais, o desafio de elaborar
um elenco de prêmios de responsabilidade socioambiental é ainda maior, pois
diversos países ao redor do globo possuem premiações para empresas que atuam
em seus territórios, sendo empresas nativas ou estrangeiras.
Para ilustrar premiações relevantes nesta área, destaco o World Business and
Development Awards (WBDA).
Este prêmio internacional tem como objetivo reconhecer modelos inovadores
de empresas que proporcionam sucesso comercial e, ao mesmo tempo, ajudam a
melhorar as condições social, econômica ou ambiental com companhias envol-
vidas em iniciativas diversas. Demonstra como as empresas podem, por meio de
suas atividades principais, ajudar a alcançar os Objetivos de Desenvolvimento
do Milênio (ODM) – oito metas acordadas internacionalmente para reduzir a
pobreza e a degradação ambiental e melhorar as condições de educação, saúde
e igualdade de gênero até 2015 (Fonte: PNUD).
Prêmios e Incentivos à Responsabilidade Social Organizacional
54 UNIDADE II

Quem pode se candidatar: empresas que oferecem modelos inclusivos, ou


seja, iniciativas empresariais sustentáveis e comercialmente viáveis que expan-
dem o acesso de pessoas de baixa renda a bens e serviços, ou melhoram seus
meios de subsistência por meio do envolvimento no processo empresarial, como
colaboradores diretos, fornecedores ou distribuidores. Ao mesmo tempo, geram
vendas e o crescimento do lucro (Fonte: PNUD).
Quem concede: Fórum Internacional de Líderes Empresariais (IBLF, sigla
em inglês), Câmara Internacional de Comércio (ICC, sigla em inglês) e Programa
das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Para mais informações, acesse o endereço eletrônico:
<http://www.iccwbo.org/>.

Fonte: <http://www.iccwbo.org/training-and-events/competitions-and-awards/institute-of-world-business-
law/world-business-and-development-awards/>

PRÊMIOS E INCENTIVOS À RESPONSABILIDADE SOCIAL


55

CASO

Prêmios concedidos às empresas com cos mais importantes para a economia


boas práticas de RSO são destaque nacional, o da Indústria da Constru-
na imprensa nacional. Alguns seto- ção. Este setor instituiu o Prêmio CBIC
res são altamente organizados e se de Responsabilidade Social. A CBIC é a
autorregulamentam, com a intenção Câmara Brasileira da Indústria da Cons-
de identificar entre seus participan- trução, com sede em Brasília-DF. Veja
tes, aqueles que merecem, de acordo um extrato do que é e o que envolve
com os critérios estabelecidos, rece- esta premiação abaixo. Este trecho foi
ber um reconhecimento público. Veja extraído do portal do prêmio disponí-
o caso de um dos segmentos econômi- vel na Internet (<www.cbic.org.br>):

O PRÊMIO

O Prêmio CBIC de Responsabilidade os atuantes no setor da Indústria da


Social é aplicável aos projetos sociais Construção e do Mercado Imobiliário e
desenvolvidos por entidades e empre- promover intercâmbio de informações
sas atuantes no setor da Indústria da com as organizações dedicadas ao tema
Construção. Os objetivos da premiação da Responsabilidade Social, construindo
são: fortalecer e estimular o desenvol- uma fonte permanente de informações e
vimento de ações sociais no setor da notícias das ações sociais do setor.
Indústria da Construção e do Mercado
Imobiliário, criando um mecanismo de Podem concorrer entidades de classe
reconhecimento dos esforços conjun- ligadas ao setor da Indústria da Cons-
tos do setor na busca por uma sociedade trução e do Mercado Imobiliário e filiadas
com melhor qualidade de vida; dissemi- à CBIC e empresas filiadas às estas enti-
nar a cultura da Responsabilidade Social dades de classe, sediadas no Brasil, de
no setor, por meio do debate sobre o qualquer porte, ou que estejam desen-
tema, ressaltando sua importância para volvendo ações, projetos ou programas
toda a sociedade, especialmente entre de responsabilidade social.
Disponível em: <http://www.cbic.org.br/premioresponsabilidadesocial/>. Acesso em:
19 fev. 2014.
56 UNIDADE II

As compras governamentais de produtos e serviços estão entre os maiores


negócios do mercado. O governo, no entanto, nas três esferas (federal, esta-
dual e municipal) está cada vez mais exigente com respeito às práticas socio-
ambientais de seus fornecedores. Um exemplo muito interessante pode ser
visto na licitação da trens que levam turistas ao Corcovado, no Rio de Janeiro.
Veja a reportagem completa em: <http://exame.abril.com.br/economia/noticias/
edital-para-trens-cobrara-responsabilidade-ambiental>. Acesso em: 19 fev. 2014.

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
CERTIFICAÇÕES NACIONAIS E INTERNACIONAIS DE
SUSTENTABILIDADE EMPRESARIAL

Conforme vimos no início desta Unidade, as empresas estão envolvidas em uma


competição pela conquista de mercado cada vez mais intensa. As grandes corpo-
rações e até mesmo companhias menores, mas que são bem estruturadas, além
de buscar conquistar e manter mercados onde possuem suas matrizes, também
expandem essa guerra para além de suas fronteiras, em um processo de globa-
lização já bastante estabelecido.
Evidentemente, os governos dos países onde essa competição se intensi-
ficou desejam que suas empresas conquistem mercados estrangeiros, mas, ao
mesmo tempo, impõem medidas protecionistas para suas próprias empresas
e mercados. Os governos buscam, mediante essas medidas, conseguir preser-
var empregos em seus respectivos países. Entre essas medidas está a imposição
de barreiras aos produtos estrangeiros que não atendam a normas de qualidade
tanto de processos como de atendimento a requisitos de responsabilidade social,
ambiental, trabalhista e de riscos.
O Reino Unido é um grande exemplo de nação que tem seu mercado muito
bem protegido contra a entrada de produtos concorrentes, e somente aqueles que
atendam a sua rígida legislação têm espaço para comercialização. É digno de nota
que o Reino Unido tem sido pioneiro no estabelecimento de normas gerenciais,

PRÊMIOS E INCENTIVOS À RESPONSABILIDADE SOCIAL


57

pela British Standard Institution (BSI). Como exemplo, temos a norma BS 5750
sobre gestão da qualidade, que provocou um movimento em vários outros paí-
ses no sentido de também estabelecerem suas próprias normas neste campo.
O fato é que essa imposição de barreiras diversas pelos países prejudica o
fluxo de produtos e divisas entre os mesmos, penalizando especialmente os paí-
ses mais pobres. O comércio entre países é uma condição importante para o
desenvolvimento, e algumas nações, visando promover essas transações, asso-
ciam-se a outros países na forma de blocos econômicos, como é o caso da União
Europeia, Mercosul e o NAFTA.
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Porém, embora promovam o comércio entre os países participantes do bloco,


para aqueles que não fazem parte dos tratados, as barreiras persistem.
Em uma análise simples, você pode concluir quão difícil é para uma empresa
que quer exportar, vencer barreiras comerciais de naturezas diversas, cada país
impondo seu extenso conjunto de regras. Por outro lado, precisamos entender
que os países precisam ter garantias mínimas de que os produtos comercializa-
dos em seus territórios atendam a requisitos de qualidade, de responsabilidade
social e ambiental, entre outros. Legislações sérias, nesse sentido, barrando a
entrada de produtos nocivos, produzidos por indústrias poluidoras ou manu-
faturados sob condições desumanas, são inibidores dessas práticas deletérias
por parte de nações cujo único objetivo é a geração de lucro. Então, como ven-
cer esses desafios?
Principalmente capitaneadas pela OMC (Organização Mundial do Comércio),
buscou-se estabelecer padrões internacionais que possam servir de referência aos
países quanto a como atender requisitos em diferentes mercados. Na prática, um
produto que não atenda a uma norma internacional não tem sua comercialização
proibida, mas é praticamente impossível sua colocação no mercado internacional.
A adoção dessas normas facilitou em muito a vida das empresas, pois pas-
sou-se a ter um referencial de produção, de práticas organizacionais que, se
atendidas, podem proporcionar a entrada de seus produtos em mercados com
altos níveis de proteção legal.
As normas reguladoras, em boa parte, eram uma certificação que tem vali-
dade nacional e internacional, reconhecida por mecanismos certificadores aceitos
internacionalmente. Isso significa dizer que as normas reguladoras tornam-se

Certificações Nacionais e Internacionais de Sustentabilidade Empresarial


58 UNIDADE II

um instrumento gerencial e estratégico para as empresas que querem expandir


e manter seus mercados.
Mas que certificações a empresa pode buscar e quais são os organismos
envolvidos?
Ao contrário do que muitos pensam, existem vários organismos certificado-
res, dependendo do campo que considerarmos. Por exemplo, temos para a área
elétrica e eletrônica a IEC (International Electrotechnical Commission), para a área
de telecomunicação temos a ITU (International Telecommunication Union) e, sem
dúvida a mais conhecida, a ISO (International Organization for Standardization).

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Embora todos esses organismos tenham grande relevância, nos concentra-
remos especialmente, neste momento, na ISO. Esta entidade foi criada em 1947
com o objetivo de
Desenvolver a normalização e atividades relacionadas para facilitar as
trocas de bens e serviços no mercado internacional e a cooperação en-
tre países nas esferas científicas, tecnológicas e produtivas. Historica-
mente, a ISO esteve direcionada ao desenvolvimento de normas técni-
cas sobre produtos, processos produtivos e métodos de testes e ensaios.
Foi somente no final da década de 1970 que começou a produzir as
primeiras normas de gestão, as conhecidas normas da série ISO 9000,
todas relacionadas com a implementação e a operação de sistemas de
gestão da qualidade (BARBIERI; CAJAZEIRA, 2012, p. 168).

Relacionado às questões socioambientais, seguindo a iniciativa de alguns países


– novamente o Reino Unido como exemplo, por meio da norma BS 7750 que
normaliza o sistema de gestão ambiental no território britânico – a ISO insti-
tuiu no final dos anos 1980 Comitês Técnicos (especificamente o Comitê 207)
para elaboração de uma norma de certificação ambiental internacional. O resul-
tado é que em 1996 são editadas as primeiras normas sobre sistemas de gestão
ambiental, que foram editadas na série ISO 14001 e ISO 14004 (BARBIERI;
CAJAZEIRA, 2012).
De acordo com Dias (2011, p. 105),
as normas ISO 14000 são uma família de normas que buscam estabe-
lecer ferramentas e sistemas para a administração ambiental de uma
organização. Buscam a padronização de algumas ferramentas-chave de
análise, tais como a auditoria ambiental e a análise do ciclo de vida.

PRÊMIOS E INCENTIVOS À RESPONSABILIDADE SOCIAL


59

Veja no Quadro 3, a seguir, a especificação das diversas normas da série ISO


14000, que no Brasil receberam a classificação de NBR ISO 14000.

NORMA
DETALHAMENTO
ISO
14001* Sistema de Gestão Ambiental (SGA) – Especificações para implantação e guia
14004 Sistema de Gestão Ambiental – Diretrizes Gerais
14010 Guias para Auditoria Ambiental – Diretrizes Gerais
14011 Diretrizes para Auditoria Ambiental e Procedimentos para Auditorias
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

14012 Diretrizes para Auditoria Ambiental – Critérios de Qualificação


14020 Rotulagem Ambiental – Princípios Básicos
14021 Rotulagem Ambiental – Termos e Definições
14022 Rotulagem Ambiental – Simbologia para Rótulos
14023 Rotulagem Ambiental – Testes e Metodologias de Verificação
14024 Rotulagem Ambiental – Guia para Certificação com Base em Análise Multicriterial
14031 Avaliação da Performance Ambiental
14032 Avaliação da Performance Ambiental dos Sistemas de Operadores
14040* Análise do Ciclo de Vida – Princípios Gerais
14041 Análise do Ciclo de Vida – Inventário
14042 Análise do Ciclo de Vida – Análise dos Impactos
14043 Análise do Ciclo de Vida – Migração dos Impactos
* Normas passíveis de certificação
Quadro 3: Detalhamento das normas NBR ISO 14000
Fonte: Dias (2011)

Aplicando este conceito especificamente em nossos estudos de responsabilidade


socioambiental, teríamos a seguinte proposta para as fases do PDCA, de acordo
com Barbieri e Cajazeira (2012):
■■ Planejar (Plan): estabelecer os objetivos e processos necessários para pro-
duzirem resultados em conformidade com a política de responsabilidade
social das organizações;
■■ Fazer (Do): implementar os processos;

Certificações Nacionais e Internacionais de Sustentabilidade Empresarial


60 UNIDADE II

■■ Verificar (Check): monitorar e medir os processos em relação à política de


responsabilidade social e aos objetivos, metas, requisitos legais e outros,
e reportar os resultados; e
■■ Atuar (Act): tomar ações para melhorar continuamente o desempe-
nho ambiental, econômico e social do sistema de gestão (BARBIERI;
CAJAZEIRA, 2012, p. 170).

Veja que a ideia básica é bastante simples, porém poderosa. Nada se faz sem pla-
nejamento, sem o envolvimento e comprometimento das pessoas (desde a Alta
Direção até os níveis operacionais). Nada se consegue sem mensuração, ou seja,

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
medidas de desempenho que reflitam a situação atual e sua conformidade (ou
não) com o planejado. E ainda mais interessante é que a última fase (Atuar – Act),
preconiza que a empresa deve sempre buscar a melhoria, o que os japoneses conhe-
cem como kaizen, a filosofia da melhoria contínua, que tudo pode ser melhorado.

Por que as normas ISO são consi-


deradas instrumentos gerenciais?
Definir
Todas as normas da série ISO são Ação: meta
baseadas no que ficou conhe- Corretiva
Preventiva Definir
cido como ciclo PDCA (em seus Melhoria método
primórdios também conhecido
como Ciclo de Deming ou ciclo Checar
Educar e
treinar
de Shewhart, em homenagem RESULTADOS
X
aos seus criadores e desenvolve- METAS Executar

dores). Esse ciclo traz um ordena- Coletar


dados
mento lógico que deve guiar as
ações de um gestor, em qualquer
área de atuação. PDCA é uma si- Figura 5 – Ciclo PDCA
gla em inglês para as palavras
Plan, Do, Check, Act (ou, em português: Planejar, Fazer, Verificar e Agir).
Veja na Figura 5 acima o princípio de funcionamento do Ciclo PDCA:

PRÊMIOS E INCENTIVOS À RESPONSABILIDADE SOCIAL


61

APLICANDO A TEORIA NA PRÁTICA

Você pode ter achado os princípios da série tia da qualidade, da séria ISO 9000, ou um
ISO muito interessantes e talvez até esteja sistema de gestão ambiental, como os da
pensando em implantar sistemas de gestão série ISO 14000, ou algum outro relevante
em sua empresa (seja um sistema de garan- para sua organização).

MAS COMO FUNCIONA O PEDIDO DE CERTIFICAÇÃO?

A adesão a uma certificação da série ISO é princípio básico neste assunto é: “escre-
voluntária, ou seja, deve ser uma decisão ver o que se faz e fazer o que está escrito”.
da empresa, após uma análise dos possíveis Simples, não?
benefícios (inclusive financeiros) que essa
certificação poderá proporcionar. Saiba que Caso a empresa que busca a certifica-
há custos envolvidos e, dependendo do ção seja de pequeno porte, pode-se
porte da organização, esses custos podem dispensar a contratação de uma consul-
ser bastante significativos. Por isso, a deci- toria (que envolve custos), neste caso,
são de adotar ou não uma certificação deve todas as adequações ficarão ao encargo
ser uma decisão estratégica, visando a um de seus gestores.
resultado maior em termos de retorno de
investimento e ganhos de mercado, além, é Uma vez que a empresa tenha adequado
claro, de um intangível, mas valioso ganho seus processos ao que preconiza a norma
em termos de imagem corporativa. certificadora, é preciso contratar um orga-
nismo certificador (conhecido como
Depois da tomada a decisão, o passo organismo de terceira parte, por não ter
seguinte é buscar uma empresa espe- qualquer vínculo com a organização a ser
cializada em consultorias de certificação. certificada). Esse organismo certificador
Essa consultoria auxiliará a organização a deve estar acreditado por um órgão oficial
adequar seus processos às normas, promo- que lhe dê poderes para emitir a certifi-
vendo os treinamentos necessários e, uma cação. No Brasil, o órgão acreditador dos
parte importante, orientando a “colocar no organismos certificadores é o INMETRO
papel” o que a empresa de fato faz. Isto por- (mais especificamente sua Coordenação
que as certificações respeitam as estruturas Geral de Acreditação – CGCRE), cujos pode-
e os processos da organização, desde que res executivos foram estabelecidos por lei
estes estejam alinhados aos princípios da (Decreto 6.275 de 28/11/2007).
norma que se buscará a certificação, ou
seja, as normas dizem o que fazer, mas não Uma vez realizada a auditoria pelo orga-
a maneira como se deve fazer. Então, um nismo certificador e estando os processos
em conformidade com os princípios da demanda, com custos acessíveis até para
norma, a organização passa a ser certifi- pequenas empresas. Porém, se o objetivo
cada, podendo exibir o selo de certificação for o mercado internacional, uma recomen-
perante o mercado. dação é que a entidade certificadora tenha
representação nos países para os quais se
Um alerta importante: se a intenção da pretenda exportar ou que seja de tal modo
empresa é somente comprovar suas boas reconhecida internacionalmente, para que
práticas no mercado local, um organismo não seja questionada a legitimidade da cer-
certificador nacional dará conta de sua tificação obtida.
63

NORMAS DE GERENCIAMENTO DA RESPONSABILIDADE SOCIAL

Vimos no item anterior que um dos campos de atuação empresarial responsável,


sem dúvida, está focado na dimensão ambiental. Várias normas são aplicáveis a
este objetivo, tanto regulamentadoras como orientadoras.
Interessa-nos muito de perto, sem dúvida, também a dimensão social.
Conforme vimos ao longo desta Unidade, o mercado está se tornando cada
vez mais exigente e crítico em relação à atuação empresarial, e a dimensão
da responsabilidade social empresarial ficou na berlinda nas últimas déca-
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

das e certamente continuará na agenda de requisitos do mercado de forma


permanente.
As empresas que pretendem estabelecer e manter suas marcas como as mais
lembradas por seus produtos e serviços de qualidade agora também se preocu-
pam em não ter essa imagem maculada por questões de desrespeito a princípios
éticos e sociais convencionados pela sociedade.
Um caso que ilustra essa preocupação em nível mundial foi o da Nike, uma
das maiores empresas de artigos esportivos do mundo.
No final da década de 1970, a Nike amargou seu primeiro prejuízo em 13 anos.
O motivo? O mercado passou a rejeitar suas ações comercializadas em Bolsa de
Valores por denúncias de trabalho desumano em países como Indonésia, Vietnã
e China. Para se ter ideia do que estava envolvido, relata-se que um trabalhador
indonésio na época cumpria jornada de 60 horas semanais, sendo remunerado à
razão de US$1,60 por dia de trabalho, valor inferior ao salário mínimo local. Um
trabalhador indonésio precisaria trabalhar o equivalente a 44.492 anos para rece-
ber o que a empresa pagava de patrocínio publicitário ao astro do basquete Michael
Jordan, um de seus garotos-propaganda. No Vietnã, o problema também envolvia
as péssimas condições de trabalho e na China havia denúncia de trabalho forçado.
Quando o caso chegou à imprensa, a reação imediata dos investidores foi
livrar-se de suas ações, causando uma queda no preço de mercado da compa-
nhia, gerando o prejuízo relatado. Os dirigentes da empresa tentaram se justificar,
afirmando que as operações nestes países eram terceirizadas, mas a explicação
só causou um mal-estar ainda maior, pois comprovou que a empresa não se pre-
ocupava e não gerenciava seus contatos com seus fornecedores.

Certificações Nacionais e Internacionais de Sustentabilidade Empresarial


64 UNIDADE II

Para consertar este estrago em sua imagem, a Nike contratou uma organiza-
ção chamada Business for Social Responsibility, da Califórnia, que oferece soluções
para a responsabilidade social de organizações.
Este caso, relatado por Barbieri e Cajazeira (2012), certamente fez você
recordar episódios idênticos no Brasil, com marcas tradicionais como a Zara
e M.Office, que subcontratam seus serviços a fornecedores que, por sua vez,
empregam mão de obra (na maioria cidadãos bolivianos) em condições análo-
gas à escravidão, pagando centavos por peça produzida.
Fica evidente que a empresa socialmente responsável deve ter controle sobre

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todo o processo, e não apenas de partes isoladas. Para auxiliar na condução destas
ações empresariais, várias certificações e normas foram desenvolvidas ao longo
dos anos. No Quadro 4 abaixo, você tem detalhadas essas normas.

NORMA DIMENSÃO DA PRINCÍPIO ANO DE


ESCOPO
GERENCIAL SUSTENTABILIDADE GERENCIAL LANÇAMENTO

SA 8000 Regulamenta as rela- Social Adequação a 1997


ções entre as organi- regulamentos e
zações e seu ambiente legislação
interno

OHSAS Orienta a melhoria Social Melhoria con- 1999


18001 contínua do desem- tínua
penho da saúde e
segurança por meio da
minimização de riscos

AA 1000 Regulamenta as rela- Social Relacionamento 1999


ções entre as organi- com as partes
zações e seu ambiente interessadas
externo

SD 21000 Guia para a implanta- Social, ambiental e Relacionamento 2003


ção de modelos liga- econômico com as partes
dos à responsabilidade interessadas
social em linha com a
sustentabilidade

PRÊMIOS E INCENTIVOS À RESPONSABILIDADE SOCIAL


65

NORMA DIMENSÃO DA PRINCÍPIO ANO DE


ESCOPO
GERENCIAL SUSTENTABILIDADE GERENCIAL LANÇAMENTO

NBR 16001 Gestão da responsabi- Social, ambiental e Melhoria con- 2004


lidade social: orienta a econômico tínua
melhoria contínua por
meio da eliminação ou
mitigação dos impac-
tos socioambientais
adversos

ISO 26000 Diretrizes sobre res- Social, ambiental e Accountability 2010


Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

ponsabilidade social econômico Transparência


Comportamen-
to ético
Respeito às par-
tes interessadas
Respeito ao es-
tado de direito
Respeito pelas
normas inter-
nacionais de
comportamento
Respeito pelos
direitos huma-
nos

IQNet SR Sistema de gestão da Social, ambiental e 2011


10 responsabilidade social econômico
– requisitos

Quadro 4: Normas de gerenciamento da responsabilidade social


Fonte: Barbieri e Cajazeira (2012)

Merece destaque a norma SA 8000, criada em 1998 pela Social Accountability


International (SAI), que nasce justamente após o episódio Nike, relatado ante-
riormente. Os objetivos desta norma é estabelecer princípios de tratamento aos
empregados e terceirizados, obedecendo às legislações nacionais e convenções
trabalhistas, especialmente aquelas emitidas pela Organização Internacional do
Trabalho (OIT), dando especial atenção a tópicos como o trabalho infantil, tra-
balho forçado, saúde e segurança, direito à negociação coletiva, discriminação
no trabalho, jornadas, remuneração e sistemas de gestão de responsabilidade

Certificações Nacionais e Internacionais de Sustentabilidade Empresarial


66 UNIDADE II

social (BARBIERI; CAJAZEIRA, 2012). A norma SA 8000, como todas as outras,


é voluntária e certificável.
Lembre-se de que a empresa tem diversos stakeholders, ou partes interessa-
das, então, vários processos internos e externos, como o nome sugere, interessam
aos seus vários públicos.
Assim, temos a norma AA 1000, que trata da conformidade contábil e rela-
tórios financeiros, e a norma OHSAS 18001, que trata dos sistemas de gestão da
segurança e da saúde ocupacional.
De acordo com Barbieri e Cajazeira (2012), vários países editaram e publica-

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
ram normas relacionadas à responsabilidade social, como é o caso da SD 21000,
francesa, que visa “ajudar a adaptar, técnica e culturalmente, um sistema de
gerenciamento para que ele venha a integrar gradualmente os objetivos do desen-
volvimento sustentável dentro de uma organização” (BARBIERI; CAJAZEIRA,
2012, p. 177). Em sua essência, a SD 21000 é um guia não certificável, à seme-
lhança da ISO 14004 e 9004.
E no Brasil? A ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas), entidade
que representa o Brasil nos comitês da ISO, também elaborou em 2004 uma
norma de responsabilidade social, que recebeu o cadastro de NBR 16001. Na
nova versão desta norma, publicada em 2012, incluiu recomendações da inter-
nacional norma ISO 26000.
Que tipo de organizações pode adotar a NBR 16001?
São candidatas organizações que desejam:
1. Implantar, manter e aprimorar um sistema de gestão da responsabi-
lidade social;

2. Buscar confirmação de sua conformidade por partes com interesse


na organização;

3. Buscar confirmação de sua autodeclaração por uma parte externa da


organização;

4. Buscar certificação do seu sistema de gestão por uma organização


externa (BARBIERI; CAJAZEIRA, 2012, p. 178).

PRÊMIOS E INCENTIVOS À RESPONSABILIDADE SOCIAL


67

O princípio de aplicação da NBR 16001 segue o padrão do PDCA, conforme


ilustrado na Figura 6, abaixo:

Melhoria contínua
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Medição, análise Política da


e melhoria responsabilidade social

Requisitos de
Planejamento
Documentação

Implementação
e Operação

Figura 6: Princípio de Aplicação da NBR 16001


Fonte: Barbieri e Cajazeira (2012)

Vale aqui mais um adendo na questão das normas de gerenciamento. Embora


seja um requisito qualificador para vários mercados, principalmente mercados
no exterior, o atendimento à norma não é garantia de que a organização é de
fato socialmente responsável. Parece estranho dizer isso, não acha? Mas lembre-
-se de que a norma é um mecanismo para aferir se a empresa possui sistemas de
gestão e uma política de responsabilidade social. Não significa que este sistema
e esta política sejam eficientes e eficazes. Em última instância, quem julgará isso
é o mercado e todas as outras partes interessadas na empresa.

Certificações Nacionais e Internacionais de Sustentabilidade Empresarial


OS FUNDAMENTOS DA NBR 16001 – NORMA DE RESPONSABILIDADE
SOCIAL BRASILEIRA

Para ter acesso ao texto integral de uma norma, segue um extrato de seu texto,
NBR, é preciso adquiri-la no portal da ABNT, extraído do portal do INMETRO, organismo
<www.abnt.org.br>. Para que você conheça acreditador das entidades certificadoras.
os principais fundamentos e o escopo da

ESCOPO

A Norma estabelece os requisitos míni- a organização formule e implemente uma


mos relativos a um sistema de gestão de política e objetivos que levem em conta
responsabilidade social, permitindo que seus compromissos com:
■■ a responsabilização (accountability) com a transparência;
■■ o comportamento ético;
■■ o respeito pelos interesses das partes interessadas;
■■ o atendimento aos requisitos legais e outros requisitos subscritos pela organização;

■■ o respeito às normas internacionais de comportamento;


■■ o respeito aos direitos humanos e
■■ a promoção do desenvolvimento sustentável.

A norma é passível de integração com critérios que se aplicam a qualquer tipo e


outros requisitos de gestão e estabelece porte de organização que deseje:
■■ implantar, manter e aprimorar um sistema de gestão da RS;
■■ assegurar-se de sua conformidade com a legislação aplicável e com a sua polí-
tica da RS;
■■ apoiar o engajamento das partes interessadas;
■■ demonstrar conformidade com a Norma, seja realizando autoavaliação e emitindo
autodeclaração da conformidade, seja buscando confirmação de sua conformi-
dade por partes interessadas ou partes externas à organização; seja buscando a
certificação do seu sistema de gestão da responsabilidade social por uma orga-
nização externa.
69

POLÍTICA DA RS

A alta direção da organização deve defi- • Respeito pelos interesses das par-
nir a sua política da RS, que deve ser tes interessadas (stakeholders): ouvir,
documentada, implementada e man- considerar e responder aos interesses
tida, bem como comunicada para todas das pessoas ou grupos que tenham
as pessoas que trabalham para, ou em interesse em qualquer decisão ou
nome da organização; e deve estar aces- atividade da organização ou por ela
sível às partes interessadas. possam ser afetados.

A política deve estar apropriada aos obje- • Atendimento aos requisitos legais
tivos estratégicos, à natureza, escala e e outros requisitos subscritos pela
impactos da organização. Deve assegu- organização: cumprimento da lei e
rar seu compromisso com a promoção do outros requisitos.
desenvolvimento sustentável e incluir seus
comprometimentos com os seguintes prin- • Respeito pelas Normas Internacionais
cípios da responsabilidade social: de Comportamento: comportamento
organizacional socialmente responsá-
• Responsabilização (accountability): vel, oriundo do direito internacional
condição de responsabilizar-se por consuetudinário, dos princípios geral-
decisões e atividades e de prestar mente aceitos de leis internacionais e/
contas destas decisões e atividades ou de acordos intergovernamentais
aos órgãos de governança, autorida- que sejam universalmente ou pratica-
des legais e às partes interessadas da mente universalmente reconhecidos.
organização.
• Direito aos humanos: reconhecer a
• Transparência: franqueza sobre importância e a universalidade dos
decisões e atividades que afetam direitos humanos, cuidando para que
a sociedade, a economia e o meio as atividades da organização não os
ambiente, e a disposição de comunicá- agridam direta ou indiretamente,
-las de forma clara, precisa, tempestiva, zelando pelo ambiente econômico,
honesta e completa. social e natural que necessitam.

• Comportamento ético: comporta- A política da responsabilidade social deve


mento que esteja de acordo com os ainda incluir o comprometimento da alta
princípios aceitos de uma conduta direção com a melhoria contínua e com
moral e correta no contexto de uma a prevenção de impactos adversos. Deve
situação específica e que seja consis- fornecer a estrutura para o estabeleci-
tente com as normas internacionais mento e a revisão dos objetivos e metas
de comportamento. da responsabilidade social.
A política deve ser:
■■ documentada, implementada e mantida;
■■ comunicada para todas as pessoas que trabalham para, ou em nome da
organização; e
■■ estar acessível às partes interessadas.

PLANEJAMENTO
A organização deve:
■■ estabelecer, implementar e manter procedimentos documentados para identifi-
car e priorizar as partes interessadas, bem como as suas expectativas e interesses;
■■ identificar as questões pertinentes a sua responsabilidade social, considerando
os seguintes temas centrais:
■■ governança organizacional;
■■ direitos humanos;
■■ meio ambiente;
■■ práticas leais de operação;
■■ questões relativas ao consumidor;
■■ envolvimento e desenvolvimento da comunidade.
■■ realizar uma due dilligence visando prevenir, evitar e mitigar os impactos nega-
tivos significativos, reais e potenciais das suas decisões e atividades no meio
ambiente, economia, sociedade e partes interessadas e deve avaliar a significân-
cia destes impactos;
■■ identificar oportunidades de melhoria e inovação (ao avaliar a pertinência e sig-
nificância das questões da RS a organização deve considerar as oportunidades de
reforçar as ações em curso relativas à RS e identificar oportunidades de melho-
ria. A Norma fornece um anexo onde apresenta várias ações e expectativas que
se constituem em oportunidades);
71

■■ estabelecer, implementar e manter procedimentos para identificar e ter acesso à


legislação aplicável e outros requisitos por ela subscritos;
■■ estabelecer, implementar e manter objetivos e metas documentados da RS, em
funções e níveis relevantes dentro da organização.
Disponível em: <http://www.inmetro.gov.br/qualidade/responsabilidade_social/norma_na-
cional.asp>. Acesso em: 20 fev. 2014.

Recomendo que você leia o texto na íntegra no endereço eletrônico fornecido.


72 UNIDADE II

Após essa leitura, entendemos a importância de a organização projetar, implan-


tar e realmente utilizar-se de um sistema de gestão da responsabilidade social,
não é verdade?
Importante também frisar que, embora a adesão a uma norma certificável
seja voluntária, a partir do momento em que a organização a adota, os requisitos
exarados na norma devem ser cumpridos. Ou seja, os processos da organização
devem estar em conformidade com os requisitos da norma. Quando isso não
acontece, utilizamos a expressão “não conformidade” para esta não aderência. É
assim no caso das normas certificáveis da ISO 9001, 14001 e 16001.

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Porém, um fato novo muito importante em relação a certificações interna-
cionais ocorreu em 2010.

A NORMA ISO 26000

Conforme vimos, o Brasil, seguindo a tendência de diversos países, emitiu


uma norma certificável de responsabilidade social empresarial, a NBR 16001.
Globalmente, no entanto, discutia-se a necessidade de os países terem uma norma
orientadora sobre responsabilidade social, que pudesse ser aplicável em qualquer
nação, independente se desenvolvida ou não. Várias demandas e sugestões neste
sentido foram encaminhadas a ISO (que tem sede em Genebra, Suíça), que, por
sua vez, constituiu um comitê para estudar o assunto. Após várias rodadas de
negociação, onde, ao longo do tempo, foram consultados e ouvidos representan-
tes de 66 países, sendo 33 deles países em desenvolvimento, além de institutos de
normalização, instituições de ensino e pesquisa, governos, sindicatos, represen-
tantes de consumidores, ONGs, e outros representantes da sociedade, constitui-se
um grupo de trabalho presidido também de forma inédita por um brasileiro,
membro da ABNT (o professor Jorge Emanuel Reis Cajazeira) e por um mem-
bro da Suécia como secretário, para conduzir os trabalhos de produção de uma
norma internacional sobre o tema responsabilidade social.
No final de 2010 estava pronta e publicada a norma ISO 26000, adotada
imediatamente por vários países, inclusive pelo Brasil, onde ganhou a classifi-
cação NBR ISO 26000.

PRÊMIOS E INCENTIVOS À RESPONSABILIDADE SOCIAL


73

Esta norma é muito importante e um verdadeiro marco na história da respon-


sabilidade social. Isto porque é internacional, ou seja, contemplou a possibilidade
de adoção por países com características distintas, e ainda por outra razão: foi
uma norma discutida e gestada por representantes legítimos de toda a sociedade.
Outra característica desta norma é que ela não é certificável, ou seja, não é uma
norma onde o adotante é obrigado a atender aos requisitos, sob pena de incor-
rer em uma não conformidade. Ao contrário, a ISO 26000 é orientativa, fazendo
recomendações entendidas como apropriadas, mas de modo algum obrigatórias.
Conforme Barbieri e Cajazeira (2012), o fato de não ser uma norma certificá-
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

vel em nada denigre a força da ISO 26000, pois entende-se que a responsabilidade
social é um assunto complexo e deve ser integrável aos sistemas gerenciais exis-
tentes na organização.
Na ISO 26000 encontram-se orientações sobre:
■■ Conceitos, termos e definições referentes à responsabilidade social;

■■ O histórico, tendências e características da responsabilidade social;

■■ Princípios e práticas relativas à responsabilidade social;

■■ Os temas centrais e as questões referentes à responsabilidade social;

■■ Integração, implementação e promoção de comportamento social-


mente responsável em toda a organização e por meio de suas políticas
e práticas dentro de sua esfera de influência;

■■ Identificação e engajamento das partes interessadas;

■■ Comunicação de compromissos, desempenho e outras informações


referentes à responsabilidade social (BARBIERI; CAJAZEIRA, 2012,
p. 210).

Sobre a aplicabilidade da norma, ela é perfeitamente adequada às organizações


que já possuem um sistema de gestão da responsabilidade social ou que preten-
dam avançar neste respeito.

Certificações Nacionais e Internacionais de Sustentabilidade Empresarial


74 UNIDADE II

O USO DAS FERRAMENTAS DO MARKETING SOCIAL


E SOCIETAL: UMA ABORDAGEM CRÍTICA

Caro(a) aluno(a), a partir de agora, vamos mergulhar em outro assunto muito


importante quando falamos de responsabilidade social.
Já discutimos ao longo desta Unidade que as empresas possuem um inte-
resse de mercado em ser reconhecidas como praticantes de ações positivas
de responsabilidade social e ambiental. Deve-se considerar que os investi-
mentos realizados no sentido de adequar processos, treinamento e, muitas

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
vezes, a obtenção de uma certificação são elevados. Qualquer empresário
com um mínimo de capacidade gerencial faz uma análise pelo lado do ROI
(sigla em inglês para Retorno sobre o Investimento), ou seja, é necessário
saber quanto a empresa pode receber como retorno financeiro a cada uni-
dade monetária investida.
Assim, o mercado precisa saber que a empresa investe na área socioambien-
tal, compreender esses esforços e recompensar a empresa com sua preferência
de compra. Mais uma vez saliento que, se a empresa não tiver resultados finan-
ceiros positivos, ela entrará em dificuldades e fechará suas portas. Neste caso,
nenhum benefício social poderá ser produzido.
Como dar ciência ao mercado dessas ações?
Neste ponto, o Marketing é um poderoso aliado das organizações. O que
você entende por marketing? Infelizmente, muitos confundem marketing com
publicidade e propaganda. Embora seja uma parte importante do marketing, é
somente isso, uma parte. O marketing é muito mais abrangente.
Vamos pontuar como os principais autores sobre o tema conceituam marke-
ting. Para Kotler (2012, p. 3), marketing “envolve a identificação e a satisfação das
necessidades humanas e sociais”. Logo na sequência desta mesma obra, Kotler
afirma que uma das mais sucintas e melhores definições de marketing é a de
“suprir necessidades gerando lucros” (KOTLER, 2012, p. 3).
Dias (2010, p. 10) defende o conceito de marketing como “função empre-
sarial que cria continuamente valor para o cliente e gera vantagem competitiva
duradoura para a empresa, por meio da gestão estratégica das variáveis contro-
láveis de marketing: produto, preço, comunicação e distribuição”.

PRÊMIOS E INCENTIVOS À RESPONSABILIDADE SOCIAL


75

Ogden (2002) afirma que:


O conceito de marketing vai além da satisfação do cliente. Repensar con-
tinuamente sua definição do conceito de marketing ajuda a organização a
expandi-lo, com a substituição da expressão “satisfazer” as necessidades
do cliente por “superar” as expectativas do cliente (OGDEN, 2002, p. 2).

Veja que o conceito expresso por Ogden (2002) alinha-se ao desejo da organização,
que é superar as expectativas do cliente. Essas expectativas, com certeza, têm a ver
com a qualidade do produto ou serviço, porém o cliente, como ser social, tem outras
expectativas em relação à organização, como sua postura socioambiental correta.
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Relacionando então essa ideia, podemos avançar o conceito de marketing com


nossa proposta para a RSE utilizando uma definição de Meneghetti (2003), para quem
O êxito das atividades de marketing e comunicação social está direta-
mente relacionado à capacidade de conhecer as motivações e os desejos
dos agentes sociais para envolvê-los e mobilizá-los efetivamente com o
projeto de transformação social (MENEGHETTI, 2003, p. 27).

Estamos então diante de um conceito ampliado de marketing, que chamaremos


de MARKETING SOCIAL.
Tornou-se comum a utilização deste termo, que surgiu por volta do início
da década de 1970. De acordo com Meneghetti (2003, p. 27), marketing social se
refere “ao planejamento detalhado de programas e projetos de natureza reconhe-
cidamente social”. Pimenta et al. (2006) afirmam que este termo está relacionado
às ações promovidas por uma organização visando promover uma causa, uma
ideia ou comportamento social. Quando a organização engaja-se em uma causa,
buscando, por exemplo, a aceitação de uma ideia ou prática social, dizemos que
ela está praticando marketing social.
Isso significa que as ações da organização, ao promover estratégias de marke-
ting social, não são voltadas primariamente à venda de produtos e serviços
– embora isso possa acabar acontecendo naturalmente – mas sim a promover um
conceito que, do ponto de vista da organização, deve ser aceito pela sociedade.
Este conceito pode estar relacionado a evitar um comportamento potencialmente
danoso para a sociedade ou a natureza e seus componentes, ou ainda, promover
a prática de comportamentos saudáveis.

O Uso das Ferramentas do Marketing Social e Societal: Uma Abordagem Crítica


76 UNIDADE II

Kotler e Roberto (1992, p. 26) propõem uma definição de Marketing Social


nos seguintes termos:
É a gestão estratégica do processo de mudança social a partir da adoção
de novos comportamentos, atitudes e práticas, no âmbito individual e
coletivo, orientados por preceitos éticos, fundamentados nos direitos
humanos e na equidade social.

Alinhado a isso, você talvez consiga pensar em várias ações promovidas por orga-
nizações diversas relacionadas a este propósito. Por exemplo, uma das maiores
redes de televisão do país promove todos os anos uma campanha visando mover

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as pessoas a doarem para uma associação de assistência a crianças portadoras de
necessidades especiais. Milhões de reais são arrecadados e repassados para essa
entidade, considerada meritória.

A AACD
Sobre entidades que prestam assistência a pessoas portadoras de necessidades especiais,
é interessante conhecer mais de perto alguns trabalhos com excelente reputação entre a
população. Conheça um pouco mais sobre a Associação de Assistência à Criança Deficiente, no
link abaixo:
<http://www.aacd.org.br/conheca-a-aacd.aspx>.

Veja também um exemplo de campanha publicitária de marketing


social da mesma entidade em:
<http://youtu.be/bcRnsgFa834>.

Estudar a evolução do marketing nos traz algumas constatações muito interessan-


tes. Nos primórdios de seu desenvolvimento, o marketing focava no atendimento
aos desejos dos clientes, independentemente se o produto que este cliente fosse
consumir oferecesse algum dano a ele ou à sociedade como um todo. Por exem-
plo, se você tem mais de 40 anos, talvez se lembre de que um segmento que foi
um dos maiores patrocinadores da mídia em todas as esferas (TV, Rádio, Jornais
e Revistas) além de eventos esportivos e de entretenimento era a indústria do

PRÊMIOS E INCENTIVOS À RESPONSABILIDADE SOCIAL


77

cigarro. Eram investidos milhões de reais incentivando as pessoas a satisfaze-


rem um desejo – fumar – que lhes era extremamente danoso. Outro caso que
também se tornou bastante emblemático foi a ocupação de terras em estados
brasileiros, visando ao avanço da agropecuária, desmatando-se trechos imen-
sos de floresta nativa para a ocupação humana.
Você percebe que isso tudo mudou. E por que mudou? Porque a sociedade
passou a encarar esses comportamentos como inaceitáveis. Veja que o compor-
tamento de uma pessoa individual, embora ela tenha sua própria liberdade, não
deve prejudicar o restante da sociedade. O próprio indivíduo, embora tenha o
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

direito de fazer muitas coisas, tem restrições que a sociedade, por vários meca-
nismos, inclusive legais, lhe impõe.
Assim, estamos diante do fato de que, embora as empresas desejem ven-
der seus produtos e serviços, elas não podem ter uma visão míope de vender
qualquer coisa, com o propósito de ter um retorno de curto prazo, prejudi-
cando no longo prazo os consumidores e a própria sociedade. Estamos diante
de um conceito em que o benefício para a sociedade e para o indivíduo não
deve ser utilizado apenas para satisfazer imediatismos, mas sim o seu benefício
em longo prazo. Isso é o que se convencionou denominar como o conceito de
MARKETING SOCIETAL, ou seja, o bem-estar da sociedade como um todo
influencia o marketing tradicional.
Ratificando essa ideia, Kotler (1992, p. 62), define que marketing societal
é uma orientação para as necessidades dos consumidores, apoiados
pelo marketing integrado, objetivando gerar a satisfação dos consumi-
dores e o bem-estar dos consumidores a longo prazo, como o meio para
se atingir os objetivos organizacionais.

Veja então que o retorno para a empresa deve ser vislumbrado não apenas
em resultados imediatos, mas no longo prazo. Conforme Kotler e Armstrong
(1998) enfatizam, o conceito de marketing societal se equilibra em três pilares no
momento da empresa definir sua política de mercado: 1) os lucros da empresa;
2) os desejos do consumidor; 3) os interesses da sociedade.
Na figura 7 a seguir, você tem uma visão destas questões:

O Uso das Ferramentas do Marketing Social e Societal: Uma Abordagem Crítica


78 UNIDADE II

Sociedade
(bem-estar do homem)

Conceito de
Marketing societal

Consumidores Empresa

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
(satisfação de desejos) (lucros)
Figura 7: Pilares do marketing societal
Fonte: Kotler e Armstrong (1998)

Ainda nos aproveitando de conceitos de Kotler e Armstrong (1998), esses auto-


res afirmam que
O marketing societal sustenta que a organização deve determinar as
necessidades, desejos e interesses dos mercados-alvo, e então propor-
cionar aos clientes um valor superior de forma a manter ou melhorar o
bem-estar do cliente e da sociedade (KOTLER; ARMSTRONG, 1998,
p. 11).

Não há mais espaço para as empresas buscarem o lucro


pelo lucro, resultado a qualquer custo. É necessário, sim,
satisfazer as necessidades do cliente, porém levando
em consideração os interesses coletivos legítimos e
de longo prazo, que devem sobrepor-se às vonta-
des individuais. O produto (seja físico ou serviço)
e a marca devem poder ser avaliados pela socie-
dade e aprovados em sua essência, ou seja, devem
ser produtos e serviços que atendam às pessoas
individualmente, mas levem em conta os valo-
res da sociedade.

©shutterstock

PRÊMIOS E INCENTIVOS À RESPONSABILIDADE SOCIAL


79

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Nesta Unidade, tivemos a oportunidade de verificar a importância que as orga-


nizações atribuem ao reconhecimento de sua imagem perante o público. Esse
reconhecimento advém, entre outras formas, pela obtenção de certificações
aceitas nacional e internacionalmente e pela candidatura a certas premiações
reconhecidas pelo mercado como de empresas com boas práticas de responsa-
bilidade social empresarial.
É importante que você tenha uma visão crítica deste assunto, pois a simples
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

obtenção de uma certificação não garante que a empresa tenha ações eficazes
de responsabilidade social, porém, assegura ao menos que existe uma polí-
tica e um sistema de gestão (se a norma for a NBR 16001). Tornar-se-á mais
comum daqui para frente que as empresas não certifiquem sistemas, mas ado-
tem as recomendações da ISO 26000 (que não é certificável) como princípios
norteadores de seu sistema de garantia da qualidade, que neste caso sim é cer-
tificável pela ISO 9001.
Foi muito interessante saber também que a responsabilidade social pode
ser estimulada com ações de marketing social e que a política mercadológica
das empresas deve ter como preceitos o respeito pelos valores sociais no longo
prazo, pois isso também garantirá a sustentabilidade financeira da empresa, que
poderá manter-se no mercado por muito mais tempo.
Espero que você aprofunde-se nestes temas considerados e entenda que
todos nós, como consumidores, gestores ou empreendedores, como seres huma-
nos de forma geral, temos que ter bem em mente que somos responsáveis por
nossas ações e que há repercussões das nossas decisões pessoais e empresariais
sobre outros.
Sucesso!
Prof. Paulo Pardo

Considerações Finais
1. Pesquise na Internet sobre as Certificações da ISO 14001 e NBR 16001. Segundo
você estudou nesta Unidade, muitas empresas buscam essas certificações no
Brasil, sendo que estas organizações são de diversos segmentos econômicos.
Procure encontrar a evolução no número de empresas certificadas nestas duas
normas nos últimos 10 anos. Responda: por que você acredita que as empresas
estão buscando cada vez mais por essas certificações?
2. Entre as ações de marketing social, notamos que o governo faz diversas campa-
nhas visando mudar hábitos, como não dirigir após ingestão de bebidas alcoó-
licas, prevenção da exploração sexual de crianças, entre outras. Especificamente
no tocante às campanhas de prevenção à direção sob efeito de bebidas alcoó-
licas, opine: você entende que essas campanhas são válidas? Você tem algum
amigo ou familiar que mudou seus hábitos neste assunto decorrente das cam-
panhas veiculadas na mídia?
MATERIAL COMPLEMENTAR

Marketing Social - Influenciando Comportamentos Para o


Bem - 3ª Edição
Phillip Kotler
Editora: Bookman
Sinopse: Este livro, de autoria de um dos mais respeitados autores
de Marketing, demonstra como trabalhar com o marketing social,
apresentando soluções em detalhes que podem ser muito úteis para
organizações que desejam empreender estratégias neste campo. Aborda
pontos como o processo de planejamento do marketing social, análise
do ambiente de marketing e estratégias de pesquisa, como estabelecer
públicos-alvo, objetivos e metas.

Quanto Vale ou é por Quilo, 2005.


Diretor: Sérgio Bianchi
Sinopse: Uma analogia entre o antigo comércio de escravos e a atual
exploração da miséria pelo marketing social, que forma uma solidariedade
de fachada. No século XVII, um capitão-do-mato captura uma escrava
fugitiva, que está grávida. Após entregá-la ao seu dono e receber sua
recompensa, a escrava aborta o filho que espera. Nos dias atuais, uma
ONG implanta o projeto de informática na periferia em uma comunidade
carente. Arminda, que trabalha no projeto, descobre que os computadores
comprados foram superfaturados e, por causa disto, precisa agora ser
eliminada. Candinho, um jovem desempregado cuja esposa está grávida,
torna-se matador de aluguel para conseguir dinheiro para sobreviver.

Material Complementar
Professora Me. Marie Eliza Zamberlan da Silva

III
AÇÕES AFIRMATIVAS,

UNIDADE
DIVERSIDADE E
RESPONSABILIDADE SOCIAL

Objetivos de Aprendizagem
■■ Compreender os conceitos de raça, etnicidade, nação, racismo,
preconceito e discriminação.
■■ Conhecer como ocorrem as relações étnico-raciais nas empresas.
■■ Compreender como se dá o multiculturalismo, a diversidade e as
ações afirmativas no Brasil.
■■ Apresentar as principais políticas relacionadas às reparações e
compensações sociais importantes para a responsabilidade social das
empresas.

Plano de Estudo
A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade:
■■ Relações étnico-raciais e responsabilidade social
■■ O multiculturalismo, as ações afirmativas e a diversidade
■■ Políticas de reparações e compensações e a responsabilidade social
85

INTRODUÇÃO

A Declaração dos Direitos Humanos proclama que todos nascem livres e iguais
em dignidade e direito, portanto, há a promoção do respeito universal e efetivo
pelos direitos humanos e liberdades fundamentais para todos, sem discrimi-
nação de raça, sexo, idioma ou religião e a eliminação de todas as formas de
preconceito e discriminação racial através do mundo. No nosso país, há muita
desigualdade social, e devido à heterogeneidade de nossa sociedade, falar das
relações Étnico-Raciais é de grande importância.
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

A responsabilidade social empresarial no Brasil envolve a questão racial e


a implantação da promoção da diversidade no ambiente de trabalho. Por isso
é importante, para a sociedade brasileira, a reflexão sobre a importância de as
empresas abordarem o racismo, além de implantarem ações e redefinirem suas
estratégias, evitando que isso venha a ocorrer. É importante notar que com o
movimento de responsabilidade social empresarial, as questões sociais não são
mais um objeto específico do governo brasileiro, cabe também às empresas inse-
rirem esse tema em suas agendas.
Vamos conhecer alguns fundamentos da responsabilidade social, buscando
entender sua filosofia, conceito e os argumentos que existem contra e a favor de
sua aplicação. Pretendemos despertar em você o interesse pelo aprofundamento
do tema, pois não conseguiremos esgotar todo esse assunto nesta unidade. E
para concluir essa unidade, estudaremos sobre o papel das organizações na res-
ponsabilidade social.

RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS E RESPONSABILIDADE


SOCIAL

Conforme o conceito de responsabilidade social, que já estudamos na Unidade


I, ela está plantada sobre o tripé da ética, da transparência e do desenvolvimento
sustentável. Para o Instituto Ethos (2009), as organizações precisam adotar a

Introdução
86 UNIDADE III

postura de compor uma economia praticada segundo padrões éticos elevados,


que implicam em, além de outros, “respeito aos direitos das diferentes comuni-
dades, etnias e grupos sociais de se aproximar em seu próprio ritmo do estilo
de vida contemporâneo”.
Como iremos aprofundar nosso conhecimento sobre ética na Unidade V,
consideramos importante dedicar um espaço para entendermos sobre as rela-
ções étnico-raciais, já que as mesmas estão inseridas dentro da responsabilidade
social. Sendo assim, vamos iniciar esse assunto definindo alguns termos que são
fundamentais para o entendimento dessas relações.

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
O que esses termos significam? Como são utilizados em nossa sociedade?

RAÇA

Para Munanga (2012, p. 12),


Etmologicamente, o conceito de raça veio do italiano razza, que por
sua vez veio do latim ratio, que significa sorte, categoria, espécie. Na
história das ciências naturais, o conceito de raça foi primeiramente
usado na Zoologia e na Botânica para classificar as espécies animais
e vegetais. Foi neste sentido que o naturalista sueco, Carl Von Linné
conhecido em Português como Lineu (1707 - 1778), o usou para classi-
ficar as plantas em 24 raças ou classes.

Para o mesmo autor, como a maioria dos conceitos, o de raça tem seu campo
semântico e uma dimensão temporal e espacial. Para entendermos o histórico
desse conceito, Munanga nos explica que, no latim medieval, o conceito de raça
passou a designar descendência/linhagem, ou seja, um grupo de pessoas que

AÇÕES AFIRMATIVAS, DIVERSIDADE E RESPONSABILIDADE SOCIAL


87

possuem um ancestral comum e consequentemente possuem também algumas


características físicas em comum. Em 1684, o francês François Bernier emprega
o termo no sentido moderno da palavra, para classificar a diversidade humana
em grupos fisicamente contrastados, denominados raças. Nos séculos XVI-XVII,
o conceito de raça passa efetivamente a atuar nas relações entre classes sociais
da França da época, pois a nobreza local se identificava como Francos (origem
germânica), enquanto a população local era identificada como Plebe (Gauleses).
Assim, os Francos, além de se considerarem uma raça distinta dos Gauleses, con-
sideravam-se de sangue “puro”, insinuando suas habilidades especiais e aptidões
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

naturais para dirigir, administrar e dominar os Gauleses, que segundo imagina-


vam, poderiam até ser escravizados.
Com esse histórico, Munanga conclui que o conceito de raças “puras” foi
transferido da origem biológica da Botânica e da Zoologia para legitimar as rela-
ções de dominação e de sujeição entre classes sociais (Nobreza e Plebe), sem que
houvesse diferenças morfobiológicas notáveis entre os indivíduos pertencentes
a ambas as classes.
A noção de raça diz respeito a certo conjunto de atributos biológicos comuns
a um determinado grupo humano. Entretanto, biologicamente, raças humanas
não existem.
Para Pena (2006 apud AZEREDO, 1991), no passado, a crença de que raças
humanas possuíam diferenças biológicas substanciais e bem demarcadas con-
tribuiu para justificar discriminação, exploração e atrocidades. Entretanto,
os recentes avanços da genética molecular e o sequenciamento do genoma
humano permitiram um exame minucioso da correlação entre a variação
genômica humana, a ancestralidade biogeográfica e a aparência física das
pessoas, e concluíram que a distinção de raças não tem significado biológico!
Podemos conseguir distinguir fenotipicamente um europeu de um africano,
de um asiático, mas não existe essa distinção no genoma dessas pessoas. Muito
interessante, não é? Leia o artigo de Sérgio D. J. Pena e Telma S. Birchal para
entender melhor isso.

Relações Étnico-Raciais e Responsabilidade Social


88 UNIDADE III

Leia a reportagem da Folha de São Paulo, de Hélio Schwartsman, publicada


em Maio de 2009, com o seguinte título: Conceito biológico de raça gera
polêmica entre pesquisadores.
Disponível em:

<http://www1.folha.uol.com.br/fsp/equilibrio/eq2805200908.htm>.

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Leia também o artigo de Sérgio D. J. Pena e Telma S. Birchal, intitulado: A
inexistência biológica versus a existência social de raças humanas:
pode a ciência instruir o etos social? para conhecer um pouco mais sobre
o conceito de raça humana do ponto de vista biológico.
Disponível em: <http://www.usp.br/revistausp/68/02-sergio-telma.pdf>.

O que é fenótipo?
O fenótipo são as características observáveis ou caracteres de um organismo,
como morfologia, desenvolvimento, propriedades bioquímicas ou fisiológicas e
comportamento. Portanto, resulta da expressão dos genes do organismo (genó-
tipo), da influência de fatores ambientais e da possível interação entre os dois.

Barros e colaboradoras (2011) lançam a seguinte reflexão:


A rejeição ao conceito biológico de raça se justifica, mas uma dúvida persis-
te: se descartarmos o conceito de raça, como poderemos explicar a existên-
cia do racismo? Como o racismo se mantém?

AÇÕES AFIRMATIVAS, DIVERSIDADE E RESPONSABILIDADE SOCIAL


89

ETNICIDADE

O conceito do termo “etnicidade” está


associado à pertença cultural.
Para Silva e Silva (2009, p. 125):

Etnia, em sentido restrito, designa, o conjunto de indivíduos perten-


centes à mesma língua materna e, em sentido amplo, compreende uma
comunidade de indivíduos ligados por traços comuns linguísticos, an-
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

tropológicos, históricos, políticos, culturais e religiosos (SILVA; SILVA,


2009, p. 125).

Para Munanga (2012, p. 12):


O conteúdo da raça é morfo-biológico e o da etnia é sociocultural, his-
tórico e psicológico. Um conjunto populacional dito raça “branca”, “ne-
gra” e “amarela”, pode conter em seu seio diversas etnias. Uma etnia é
um conjunto de indivíduos que, histórica ou mitologicamente, têm um
ancestral comum; têm uma língua em comum, uma mesma religião ou
cosmovisão; uma mesma cultura e moram geograficamente num mes-
mo território. Algumas etnias constituíram sozinhas nações. Assim o
caso de várias sociedades indígenas brasileiras, africanas, asiáticas, aus-
tralianas etc., que são ou foram etnias nações (MUNANGA, 2012, p. 12).

Para o mesmo autor, tanto o conceito de raça quanto o de etnia são hoje ideolo-
gicamente manipulados. É esse duplo sentido que cria confusão na mente dos
pesquisadores iniciantes. A ambiguidade está justamente no uso não claro dos
conceitos de raça e etnia. Podemos observar isso nas seguintes expressões: “iden-
tidade racial negra”, “identidade étnica negra”, “identidade étnico-racial negra” etc.
Grupos étnicos seriam os:
[...] agrupamentos que resultam da reunião de elementos de raças
distintas que se encontram submissos, sob o efeito de acontecimen-
tos históricos, a instituições, a uma organização política, a costumes
ou ideias comuns. [...] a solidariedade assim constituída subsiste
para além da fragmentação do grupo que a produziu. Uma vez que
este desaparece como entidade sociopolítica, permanece sempre
uma certa atração entre as partes disjuntas e uma antipatia particu-
lar para com os grupos sociais de outras origens (PHOUTIGNAT;
STREIFF-FENART, 1998, p. 34).

Relações Étnico-Raciais e Responsabilidade Social


90 UNIDADE III

Vale lembrar ainda que tanto a concepção atual de raça quanto a de etnia são
conceitos que buscam dar conta da multiplicidade de culturas, de hábitos e cren-
ças que a humanidade apresenta, e das implicações políticas dessas diferenças
(SILVA; SILVA, 2009).

NAÇÃO

Para Silva e Silva (2009, p.

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
308), “A Nação, em seu sig-
nificado mais simples, é uma
comunidade humana, esta-
belecida neste determinado
território, com unidade
étnica, histórica, linguística,
religiosa e/ou econômica”.
Renan (1823-1892),
filósofo francês, opõe etnia
à nação, sendo que etnia
está do lado objetivo e da
fatalidade e nação do lado
subjetivo e voluntarista.
Assim, nação difere de etnia
ou raça, porque para exis-
tir como entidade política
ela necessita da afirmação
de um passado comum, que
não se refere à pertença a um grupo racial ou étnico específico.
Poutgnat e Streiff-Fenart (1998, p. 37-38) nos traz uma síntese muito inte-
ressante desses conceitos que vimos:

AÇÕES AFIRMATIVAS, DIVERSIDADE E RESPONSABILIDADE SOCIAL


91

• Grupos étnicos: são grupos que alimentam uma crença subjetiva


em uma comunidade fundada nas semelhanças de aparência exter-
na ou de costumes, ou dos dois, ou nas lembranças da colonização
ou da migração, de modo que esta crença torna-se importante para
a propagação da comunalização, pouco importando que uma co-
munidade de sangue exista ou não objetivamente.

• Nação: as relações comerciais entre a pátria de origem e a colônia


representam fatores decisivos de subsistência de um sentimento co-
munitário entre os colonos e seus compatriotas de origem, apesar
da divergência dos patrimônios culturais e dos tipos hereditários. O
fator decisivo continua sendo a comunidade política. Corresponde
ao que ele designa como a forma “mais artificial” de origem da cren-
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

ça no parentesco étnico, aquela pela qual uma associação (tal como


uma atividade comum de defesa do território ou de conquista, ou
mesmo de uma simples subdivisão administrava), transforma-se em
comunalização étnica, atraindo um simbolismo para a comunidade
de sangue e favorecendo a emergência de uma consciência tribal ou
eclosão de um sentimento de dever moral ligado à defesa da pátria.

• A raça: enquanto “aparência exterior” herdada e transmitida pela


hereditariedade, não interessa por si mesma ao sociólogo. Na So-
ciologia, ela só adquire importância quando entra na explicação do
comportamento significativo dos homens em relação aos outros, ou
seja, quando ela é sentida subjetivamente como uma característi-
ca comum e constitui por isso uma fonte de atividade comunitária.
Mesmo nesse caso, não são apenas o simples parentesco ou simples
diferença antropológica (física) que fundam a atração ou a repulsa
mútua, mas a tomada em consideração de relações de dominação.
Do ponto de vista da sociologia compreensiva não existe, portanto
distinção fundamental a operar entre as disposições raciais (heredi-
tariamente transmissíveis) e as disposições adquiridas pelos hábitos
de vida (transmitidas pela tradição) já que tanto um como outro
dão lugar a uma comunidade de relações sociais. A raça (patrimô-
nio hereditário) não deve então ser situada, no mesmo nível que
o grupo étnico, mas no mesmo nível que o costume (patrimônio
cultural), como uma das forças possíveis da formação das comu-
nidades. A língua e a religião desempenham um papel importante,
talvez porque elas autorizam a comunidade de compreensão entre
aqueles que compartilham o código linguístico comum.

Relações Étnico-Raciais e Responsabilidade Social


92 UNIDADE III

RACISMO

De acordo com Munanga


(2012), os conceitos relaciona-
dos ao racismo apareceram por
volta de 1920, e é geralmente
abordado a partir da raça e,
com efeito, com base nas rela-
ções entre “raça” e “racismo”.

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Para Munanga (2012, p. 7-8):
[...] o racismo seria teoricamente uma ideologia essencialista que pos-
tula a divisão da humanidade em grandes grupos chamados raças con-
trastadas que têm características físicas hereditárias comuns, sendo
estas últimas suportes das características psicológicas, morais, inte-
lectuais e estéticas e se situam numa escala de valores desiguais. Visto
deste ponto de vista, o racismo é uma crença na existência das raças
naturalmente hierarquizadas pela relação intrínseca entre o físico e o
moral, o físico e o intelecto, o físico e o cultural. O racista cria a raça no
sentido sociológico, ou seja, a raça no imaginário do racista não é ex-
clusivamente um grupo definido pelos traços físicos. A raça na cabeça
dele é um grupo social com traços culturais, lingüísticos, religiosos etc.,
que ele considera naturalmente inferiores ao grupo a qual ele pertence.
De outro modo, o racismo é essa tendência que consiste em considerar
que as características intelectuais e morais de um dado grupo, são con-
seqüências diretas de suas características físicas ou biológicas.

Portanto, para o mesmo autor, as pessoas:


[...] fogem do conceito de raça e o substituem pelo conceito de etnia
considerado como um lexical mais cômodo que o de raça, em termos
de “fala politicamente correta”. Essa substituição não muda nada à re-
alidade do racismo, pois não destruí a relação hierarquizada entre cul-
turas diferentes que é um dos componentes do racismo. Ou seja, o ra-
cismo hoje praticado nas sociedades contemporâneas não precisa mais
do conceito de raça ou da variante biológica, ele se reformula com base
nos conceitos de etnia, diferença cultural ou identidade cultural, mas
as vítimas de hoje são as mesma de ontem e as raças de ontem são as
etnias de hoje. O que mudou na realidade são os termos ou conceitos,
mas o esquema ideológico que subentende a dominação e a exclusão
ficou intato. É por isso que os conceitos de etnia, de identidade étni-
ca ou cultural são de uso agradável para todos: racistas e anti-racistas.

AÇÕES AFIRMATIVAS, DIVERSIDADE E RESPONSABILIDADE SOCIAL


93

Constituem uma bandeira carregada para todos, embora cada um a


manipule e a direcione de acordo com seus interesses (MUNANGA,
2012, p. 12-13).

E para finalizar este assunto, vamos estudar mais dois importantes conceitos,
definidos no trabalho de Barros e colaboradores (2011).
Preconceito
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Barros e colaboradores (2011) lançam a seguinte reflexão:


Toda pessoa que utiliza o termo raça é racista? Os(as) ativistas antirracistas
que usam este termo também são racistas?

O preconceito é um julgamento negativo e prévio dos membros de um


grupo racial de pertença, de uma etnia ou de uma religião ou de pesso-
as que ocupam outro papel social significativo. Esse julgamento prévio
apresenta como característica principal a inflexibilidade, pois tende a
ser mantido sem levar em conta os fatos que o contestem. Trata-se do
conceito ou opinião formados antecipadamente, sem maior pondera-
ção ou conhecimento dos fatos. O preconceito inclui a relação entre
pessoas e grupos humanos. Ele inclui a concepção que o indivíduo tem
de si mesmo e também do outro (GOMES, 2007, p. 54 apud BARROS
et al., 2011, p. 24).

Relações Étnico-Raciais e Responsabilidade Social


94 UNIDADE III

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
DISCRIMINAÇÃO

A palavra discriminar significa “distinguir”, “diferençar”, “discernir”.


A discriminação racial pode ser considerada como a prática do ra-
cismo e a efetivação do preconceito. Enquanto o racismo e o precon-
ceito encontram-se no âmbito das doutrinas e dos julgamentos, das
concepções de mundo e das crenças, a discriminação é a adoção de
práticas que os efetivam (GOMES, 2007, p. 55 apud BARROS et al.,
2011, p. 24).

E você, se considera preconceituoso(a)? Já sofreu algum tipo de preconceito?


Já discriminou ou foi discriminado(a)?

AÇÕES AFIRMATIVAS, DIVERSIDADE E RESPONSABILIDADE SOCIAL


95

RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS E A RESPONSABILIDADE SOCIAL


DAS EMPRESAS

Conforme já estudamos na primeira Unidade, e reafirmado por Gonçalves (2006),


o sucesso e a sustentabilidade de uma empresa dependem não somente de produ-
tividade e competitividade, mas também do compromisso social da empresa com
seus públicos. Um dos aspectos mais visíveis desse compromisso é o fomento da
diversidade e também da equidade, que implica na representação proporcional
nos quadros da empresa de todos os grupos presentes na sociedade e oportuni-
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

dades iguais para todos e todas!


A questão racial é um tema pouco discutido nas empresas do Brasil, embora
ocorram situações de discriminação no meio empresarial. As empresas, como
são as grandes promotoras de oportunidades de emprego e também de ascensão
profissional no nosso país, estão mais subordinadas às práticas discriminatórias
nas relações de trabalho (GONÇALVES, 2006).
Esse quadro justifica a importância de alertar os responsáveis para esse pro-
blema nas empresas e também alertá-los para a implantação da diversidade racial,
um dos princípios da responsabilidade social empresarial.
Para Gonçalves (2006), no mundo do trabalho há uma inércia cultural no
que diz respeito às mulheres, aos negros, às pessoas com deficiência, aos idosos
e outras categorias no nosso país. Entretanto, trata-se de grupos particulares,
com características particulares que não devem ser misturadas. Para o mesmo
autor, contudo, deve-se promover a transversalidade dessas categorias, pois uma
única pessoa pode absorver mais de uma dessas variáveis.
E como lidar com isso? Para Gonçalves (2006):
As empresas, para enfrentar de forma adequada a inercialidade vigen-
te, deverão adotar programas de diversidade bem estruturados, e para
tanto não há como deixar de cumprir um roteiro que contém quatro
estágios básicos: sensibilização, diagnóstico, estabelecimento de metas
e treinamento.

Sem tais providências, tem-se apenas uma manifestação de mera boa


vontade, sem que a organização se beneficie das vantagens provocadas
pela adoção da diversidade.

Relações Étnico-Raciais e Responsabilidade Social


96 UNIDADE III

As empresas brasileiras, ao se manterem nesse modelo, desconsideram


a opinião de Peter Drucker, para quem “uma força de trabalho diver-
sificada é fator obrigatório para uma empresa ser bem-sucedida no
terceiro milênio” (GONÇALVES, 2006, p. 22).

O MULTICULTURALISMO, AS AÇÕES AFIRMATIVAS E


A DIVERSIDADE

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
AÇÕES AFIRMATIVAS

Gonçalves (2006) define as ações afirmativas dentro das organizações empresa-


riais da seguinte forma:
Ações afirmativas podem ser medidas de caráter especial e são neces-
sariamente temporárias. Podem ser espontâneas, adotadas voluntaria-
mente por uma organização, ou compulsórias, impostas por uma polí-
tica, norma ou lei.

Seu objetivo é superar iniquidades históricas e persistentes que têm


motivos variados e consequentes desvantagens concretas e simbólicas
para determinados segmentos da população. Essas desvantagens de-
vem ser demonstradas, sempre que possível, em dados que vão além da
identificação do segmento, base pela qual é possível perceber a traje-
tória das pessoas que compõem esse segmento e as condições de equi-
dade em relação a aspectos fundamentais do exercício da cidadania,
como acesso à saúde, educação, emprego, renda, postos ou posições
(GONÇALVES, 2006, p.79).

Após a leitura do conceito de ação afirmativa, podemos perceber que o seu


público-alvo são os grupos que enfrentam evidentes desvantagens históricas e
persistentes, como mulheres, negros, pessoas com deficiência, homossexuais,
índios, entre outros (GONÇALVES, 2006).
Alguns exemplos dessas ações são: política de cotas para acesso ao ensino superior,
reserva de vagas para mulheres em partidos políticos, lei de violência doméstica e fami-
liar contra a mulher, e programas de apoio à formação de pós-graduandos indígenas.

AÇÕES AFIRMATIVAS, DIVERSIDADE E RESPONSABILIDADE SOCIAL


97

Você deve estar se questionando: mas essas ações não geram discriminações?
Gonçalves (2006) afirma que as ações afirmativas são discriminações positivas
porque se utilizam do mesmo mecanismo para identificar e escolher delibera-
damente determinado segmento da sociedade, reconhecendo suas desvantagens
ou vulnerabilidades para realizar com seus membros ações não universais, isto
é, que não sejam para todos. Sendo assim, a discriminação é considerada posi-
tiva, pois objetiva reparar uma ação negativa anterior.
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

A ação afirmativa é embasada no princípio da igualdade, porém, é necessá-


rio o incentivo da sociedade para que se possa eliminar as desigualdades!

Segundo Almeida (2007), o Direito Internacional dos Direitos Humanos começa


a se desenvolver a partir da Declaração Universal, de 1948, buscando a adoção
de tratados de nível internacional destinados à proteção de direitos fundamen-
tais. É baseado nesse fundamento que inicia-se a criação de políticas e demais
iniciativas públicas (ou privadas) de inclusão, sob a forma de ações afirmativas.
Para o mesmo autor, esses tipos de ações consolidaram-se no final do século
XX. As primeiras experiências implementadas foram para os norte-americanos a
partir da década de 60, dirigidas inicialmente à população negra e depois esten-
dida às mulheres e minorias étnicas, e estrangeiros. Além dos Estados Unidos,
atualmente as ações afirmativas já se espalharam para vários países da Europa
Ocidental, Índia, Malásia, Nigéria, Israel, Peru e Argentina, entre outros.
No Brasil, a Constituição Federal de 1988 dispõe em seu artigo 5º, caput,
sobre o princípio constitucional da igualdade, perante a lei, nos seguintes termos:
Artigo 5º. Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer
natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no
País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segu-
rança e à propriedade, nos termos seguintes.

O Multiculturalismo, as Ações Afirmativas e a Diversidade


98 UNIDADE III

Para Barreto (2010), o princípio da igualdade prevê a igualdade de aptidões e de


possibilidades virtuais dos cidadãos de gozar de tratamento isonômico pela lei.
Por meio desse princípio, são vedadas as diferenciações arbitrárias e absurdas,
não justificáveis pelos valores da Constituição Federal, e tem por finalidade limi-
tar a atuação do legislador, do intérprete ou autoridade pública e do particular. O
princípio da igualdade na Constituição Federal encontra-se representado, exem-
plificativamente, no artigo 4º, inciso VIII, que dispõe sobre a igualdade racial;
do artigo 5º, I, que trata da igualdade entre os sexos; do artigo 5º, inciso VIII,
que versa sobre a igualdade de credo religioso; do artigo 5º, inciso XXXVIII,

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
que trata da igualdade jurisdicional; do artigo 7º, inciso XXXII, que versa sobre
a igualdade trabalhista; do artigo 14, que dispõe sobre a igualdade política ou
ainda do artigo 150, inciso III, que disciplina a igualdade tributária.
Com isso, podemos perceber que as ações afirmativas são necessárias para
buscar a igualdade e a dignidade da pessoa humana, previstas pela Constituição
Federal do nosso país.
Para Almeida (2007, p. 467), de forma resumida, as ações afirmativas
pretendem:
■■ Concretizar a igualdade de oportunidades.
■■ Transformar cultural, psicológica e pedagogicamente.
■■ Implantar o pluralismo e a diversidade de representatividade dos gru-
pos “minoritários”.
■■ Eliminar barreiras artificiais e invisíveis que emperram os avanços dos
negros, das mulheres e de outras minorias.
■■ Criar as personalidades emblemáticas, exemplos vivos da mobilidade
social ascendentes para as gerações mais jovens.
■■ Aumentar a qualificação.
■■ Promover melhoria de acesso ao mercado de trabalho.
■■ Apoiar empresas e outros atores sociais que promovam a diversidade.
■■ Garantir visibilidade e participação nos distintos meios de comunicação.

AÇÕES AFIRMATIVAS, DIVERSIDADE E RESPONSABILIDADE SOCIAL


99

Portanto, alterar as desigualdades, mudar hábitos e comportamentos, além de


quebrar as barreiras do preconceito, são os focos da ação de promoção da igual-
dade de oportunidades por meio da ação afirmativa.
De acordo com Gonçalves (2006), as ações afirmativas atuam como ferra-
menta para a promoção de direitos humanos e, portanto, de desenvolvi-
mento sustentável, ao beneficiar de forma diferenciada grupos ou segmen-
tos sociais discriminados negativamente, concretamente identificados,
quando possível, para permitir que, no médio e longo prazo, eles possam
alcançar condições iguais de tratamento ou de acesso a oportunidades.
As ações afirmativas têm papel importante dentro da responsabilidade
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

social, visando à expressão de um país mais justo, com melhores índi-


ces de desenvolvimento para todos os setores da nação, pois suas ações
não são direcionadas apenas ao segmento da população a ser beneficia-
do, mas também aos outros públicos com os quais esse segmento se re-
laciona. Portanto, ao direcionar para um segmento específico, as ações
afirmativas impõem que as organizações tenham abertura para rever
seus processos de gestão, postura e conduta, com o intuito de destruir
as barreiras que discriminam (GONÇALVES, 2006).

Ficou clara para você a importância de se trabalhar esse quesito nas


empresas?

MULTICULTURALISMO

Não há um consenso sobre o conceito de multiculturalismo, pois é uma palavra


de semântica variada dependendo do seu contexto. Vamos adotar a definição de
Boaventura de Sousa Santos, citada por Pereira (2011):
A expressão multiculturalismo designa originalmente a coexistência
de formas culturais ou de grupos caracterizados por culturas diferentes
no seio de sociedades “modernas”. Rapidamente, contundo, o termo se
tornou um modo de descrever as diferenças culturais em um contexto
transnacional e global (SANTOS, 2003, p. 26 apud PEREIRA, 2011, p. 4).

No mesmo contexto, Santos (2003) continua o seu pensamento e divide em três


premissas os significados da palavra multiculturalismo:

O Multiculturalismo, as Ações Afirmativas e a Diversidade


100 UNIDADE III

Enquanto descrição é possível falar de: 1 - a existência de uma multi-


plicidade de culturas no mundo; 2 - a co-existência de culturas diversas
de um mesmo Estado-nação; 3 - a existência de culturas que se interin-
fluenciam tanto dentro como além do Estado-nação (SANTOS, 2003,
p. 28 apud PEREIRA, 2011, p. 4).

Podemos deduzir então que os mais variados grupos praticam uma forma pró-
pria e, portanto, única de pensar a cultura. De modo que, se multiculturalismo
designa a existência múltipla de culturas ou tradições dentro de um país, logo o
Brasil é por excelência um exemplo típico de multiculturalismo (PEREIRA, 2011)!
Arbache (2013) pontua que o multiculturalismo:

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
[...] pode ser importante guia de orientação para a discussão no campo
empresarial, uma vez que tal contexto não está isento da diversidade
cultural e identitária decorrente desta realidade, tanto a nível global,
quanto a nível local. A empresa deve estar atenta para lidar com as
novas situações trazidas para o seu cotidiano, entre elas está a valori-
zação da diversidade cultural e identitária em suas instalações. Exem-
plo disso é expor, deste a definição de sua missão, o ponto de vista da
empresa com relação à diversidade cultural, as formas de inclusão de
diferentes grupos no seu quadro de pessoal, as orientações quanto ao
recrutamento, programas de acompanhamento e assistência àqueles
que necessitam de condições de trabalho diferenciadas como é o caso
dos deficientes físicos, a discussão e regulamentação de convenções e
condutas que possam orientar as relações entre os diversos funcioná-
rios, o estabelecimento de canais de comunicação para que os diversos
segmentos presentes em seu tecido empresarial possam se expressar,
entre outras ações (ARBACHE, 2013, online).

Para o mesmo autor, o multiculturalismo não admite que as normas e con-


venções sejam ditadas sem a participação simétrica dos diferentes segmentos
envolvidos e sem a discussão crítica entre os mesmos. Não admite também que
as ações fiquem somente na teoria, estas devem ser postas em prática e divulga-
das a todos que fazem parte daquele contexto, a fim de que sejam vivenciadas,
constantemente avaliadas e repensadas por todo o grupo. Além disso, deve gerar
possibilidades permanentes de inclusão, desafiar formas de assédio, discrimina-
ção e preconceito em seu contexto, e contribuir para a valorização da diferença
como porta para novas e criativas interações e possibilidades, fortalecendo a
integração entre equipes plurais estando inseridas nelas sujeitos de diferentes
crenças, orientações sexuais, situações econômicas, de forma a contribuir para
um agir legítimo e respeitoso em favor de uma sociedade melhor.
AÇÕES AFIRMATIVAS, DIVERSIDADE E RESPONSABILIDADE SOCIAL
101

É nesse sentido que instala-se a contribuição dos estudos multicultu-


rais críticos fazendo das questões identitárias dos grupos marginaliza-
dos e do debate em torno das políticas de ação afirmativa, uma porta
de entrada para sociedade menos excludente e preconceituosa. Desta
forma, a empresa tendo às premissas do multiculturalismo crítico para
orientar suas ações quanto a valorização da diversidade cultural e iden-
titárias dos diferentes grupos, pode fazer desta uma aliada no processo
de competência organizacional (ARBACHE, 2013, online).

DIVERSIDADE
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Oliveira e Rodriguez (2004) citam Maria Tereza Leme Fleury, que afirma que
muitos aspectos devem ser considerados ao se pensar no significado de diversi-
dade: sexo, idade, grau de instrução, grupo étnico, religião, origem, raça e língua.
A autora define diversidade como sendo um mix de pessoas com identidades
diferentes interagindo no mesmo sistema social.
Para Thomas (1991), há uma definição mais ampla sobre o tema:
A diversidade inclui todos, não é algo que seja definido por raça ou
gênero. Estende-se a idade, história pessoal e corporativa, formação
educacional, função e personalidade. Inclui estilo de vida, preferência
sexual, origem geográfica, tempo de serviço na organização, status de
privilégio ou de não-privilégio e administração ou não-administração
(THOMAS, 1991 apud OLIVEIRA, 2004, p. 3834).

Enfim, Oliveira e Rodriguez (2004), definem diversidade como:


[...] um misto de pessoas com identidades grupais diferentes dentro do
mesmo sistema social, a heterogeneidade de culturas, crenças, metodo-
logias, idade, tempo de serviço, orientação sexual, modo de pensar e agir,
vícios e criatividade em solucionar problemas, reportando esse conceito
para um estudo dentro das organizações. Além disso, a diversidade deve
ser distinguida de conceitos relacionados, única e exclusivamente, à pes-
quisa de gênero e de raça (OLIVEIRA; RODRIGUES, 2004, p. 3834).

Vamos conhecer um pouco sobre o histórico da diversidade?


O conceito de gestão da diversidade nasceu nos Estados Unidos quando
o AFFIRMATIVE ACTION foi promulgado no final da década de 60
como resposta à discriminação racial observada nas empresas e institui-
ções de ensino. Por regulamento federal, as empresas que tinham con-
tratos com o governo ou que dele recebiam recursos e benefícios deviam

O Multiculturalismo, as Ações Afirmativas e a Diversidade


102 UNIDADE III

avaliar a diversidade existente em seu corpo de funcionários e procurar


balancear sua composição em face da diversidade existente no mercado
de trabalho. Esses grupos incluíam mulheres, hispânicos, asiáticos e ín-
dios, sendo que os deficientes físicos foram incluídos em 1991.

Na década de 80 a diversidade possuía um pano de fundo de cunho


legalista, porém a partir dos anos 90 a diversidade começou a ser consi-
derada parte da estratégia dos negócios, a ser divulgada como um valor
importante para toda a empresa. Ganhou tamanha importância que,
atualmente, consta como um dos fatores a serem levados em considera-
ção por diversos prêmios de qualidade, dos quais destacamos o Prêmio
da Fundação para o Prêmio Nacional da Qualidade (2003) e o Prêmio
The Malcolm Baldrige National Quality Award Program (2003). Além

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
desses, também consta como um dos indicadores de responsabilidade
social do “Indicadores Ethos de Responsabilidade Social Empresarial
2003” (OLIVEIRA; RODRIGUES, 2004, p. 3836).

A valorização da diversidade pelas empresas é uma forma de combater a discri-


minação e buscar relações sustentáveis em todos os níveis. As organizações que
promovem a diversidade estão abertas à discussão sobre o que é “melhor”, quali-
dade, competência, eficiência, resultado, entre outras questões, que parecem estar
fechadas para discussão em empresas que não adotam essa postura. Valorizar a
diversidade é procurar sempre os melhores candidatos, mas sem esquecer-se de
reconhecer a competência como um conjunto de conhecimentos, habilidades e
atitudes individuais e coletivas (GONÇALVES, 2006).
Temos que lembrar sempre que as diferenças enriquecem uma equipe, pois
uma organização precisa de conhecimentos, habilidades e atitudes variadas para
conseguir acompanhar a realidade do mercado.
Para Roosevelt Thomas, citado por Silva (2005, p. 77), alguns pontos são
importantes na valorização da diversidade, tais como:
■■ Promover a consciência e a aceitação das diferenças individuais.
■■ Auxiliar os participantes a compreenderem seus próprios sentimentos e
atitudes a respeito das pessoas que são diferentes.
■■ Explorar como as diferenças podem ser transformadas em pontos posi-
tivos no ambiente de trabalho.
■■ Estreitar as relações de trabalho entre pessoas que são diferentes umas
das outras.

AÇÕES AFIRMATIVAS, DIVERSIDADE E RESPONSABILIDADE SOCIAL


103

Você está lembrado(a) do conceito de responsabilidade social, dado pelo Instituto


Ethos (2009), que vimos na primeira Unidade? Nele está definido que se trata
de uma forma de gestão que preserva os recursos ambientais e culturais para as
gerações futuras, respeitando a diversidade e promovendo a redução das desi-
gualdades sociais. Portanto, a diversidade é um dever das organizações que
desenvolvem a responsabilidade social.
Oliveira e Rodrigues (2004) comentam que desde a década de 90 diversas
pesquisas vêm sendo desenvolvidas sobre a gestão da diversidade cultural, onde
os números comprovam que essa prática contribui para o bom desempenho das
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

organizações. Segundo o Instituto Ethos de Responsabilidade Social, em “um


estudo de 1997 da Universidade de Houston, nos Estados Unidos, constatou-se
que as empresas com programas de diversidade tiveram melhor performance
do que aquelas que não os possuíam”.
E como gerir de forma eficiente a diversidade nas organizações?
Gerir a Diversidade significa considerar as diferenças das pessoas que
compõem uma organização, criando uma unidade, de forma a que os vá-
rios indivíduos se possam identificar nela, apoiando um sistema organiza-
cional que permita gerir os recursos humanos existentes de modo a ma-
ximizar a sua habilidade para perceber e contribuir para a concretização
dos objetivos da empresa, atingindo o seu potencial máximo sem haver
discriminação de sexo, nacionalidade, idade etc. Para atingir este objetivo
deve ser feito um reajuste da cultura organizacional, valores, sistemas e
processos de forma a utilizar o capital humano da melhor forma possível
(ULRICH, 2003 apud OLIVEIRA; RODRIGUES, 2004, p. 3837).

Os mesmos autores nos trazem algumas indicações para garantir um processo


de diversidade bem-sucedido, vamos conhecê-las?
■■ Se já existir a crença de que as pessoas são o recurso mais valioso das orga-
nizações, o processo de diversidade avança mais rapidamente.
■■ A visão, o compromisso e a participação do líder são mais poderosos do
que qualquer declaração por escrito.
■■ A sustentação da diversidade se assenta sobre valores que incluem a liber-
dade, a igualdade e a justiça.
■■ O envolvimento de gerentes de todos os níveis é determinante para a
implementação de um plano de diversidade.

O Multiculturalismo, as Ações Afirmativas e a Diversidade


104 UNIDADE III

■■ A diversidade deve ser integrada aos processos principais, pois isso asse-
gurará o sucesso em longo prazo.
■■ Todos os funcionários devem estar devidamente informados e cons-
cientes da diversidade, sua importância e o papel de cada um para seu
funcionamento.
■■ A avaliação permanente dos resultados é um componente imprescindí-
vel para um programa de diversidade.
■■ Investimento em treinamento e capacitação com o objetivo de sensibi-
lizar e motivar as pessoas da empresa para a valorização da diversidade.

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
■■ Contratação e promoção de pessoas com experiências e perspectivas dife-
rentes, recrutando pessoal de formas e fontes diversificadas.
■■ Incluir na avaliação de desempenho dos gestores o avanço do processo
de mudança quanto à evolução da gestão da diversidade.
■■ Portanto, podemos concluir após essa leitura que, com a implementa-
ção da diversidade nas empresas, é gerada uma organização com alto
desempenho, desempenho esse que pode ser comprovado por um apro-
veitamento melhor dos colaboradores e pelo favorecimento da formação
de um ambiente de trabalho com altas taxas de inovação e criatividade!

São muitos os fatores que se somam para fazer de cada um de


nós um ser único, e, ao mesmo tempo, parte de uma comuni-
dade interdependente - experiências profissionais, bagagem
educacional, estilo de trabalho, aspirações de carreira, valores
familiares, comunidades da infância, os livros que lemos, as
pessoas que conhecemos, etc. Muitos fatores contribuem para
moldar as nossas perspectivas individuais. Juntar todas essas
perspectivas para resolver um problema, criar algo ou agarrar
uma oportunidade é o que julgamos ser gerenciar a diversi-
dade entre as pessoas (OLIVEIRA; RODRIGUES, 2004, p. 3834).
Será que as organizações estão preparadas para isso?

AÇÕES AFIRMATIVAS, DIVERSIDADE E RESPONSABILIDADE SOCIAL


105

Com o objetivo de contribuir para a discussão da diversidade no âmbito


das empresas e estimulá-las a adotar iniciativas em favor da inclusão de
segmentos usualmente discriminados no mercado de trabalho, o Instituto
Ethos de Empresas e Responsabilidade Social traz algumas publicações so-
bre o tema.
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Acesse e aprofunde seu conhecimento sobre a diversidade:


■■ Como as Empresas Podem (e Devem) Valorizar a Diversidade, 2000.
Disponível em: <http://www3.ethos.org.br/cedoc/como-as-empresas-podem-e-devem-valorizar-
a-diversidade-setembro2000/#.Uvz67_ldWSo>.

■■ Perfil Social, Racial e de Gênero das 500 maiores empresas do Brasil e


suas Ações Afirmativas, 2010.
Disponível em: <http://www1.ethos.org.br/EthosWeb/arquivo/0-a-eb4perfil_2010.pdf>.

■■ O que as empresas podem fazer pela inclusão das pessoas com


deficiência, 2002.
Disponível em: <http://www.uniethos.org.br/_Uniethos/Documents/manual_pessoas_
deficientes.pdf>.

■■ O Compromisso das Empresas com a Valorização da Mulher, 2004.


Disponível em: <http://www.uniethos.org.br/_Uniethos/Documents/valoriz_mulher.pdf>.

POLÍTICAS DE REPARAÇÕES E COMPENSAÇÕES E A


RESPONSABILIDADE SOCIAL

Há muitas políticas de reparações e compensações sociais implantadas em nosso


país, pois o combate à discriminação tem sido um fator constante em nossa legis-
lação. Como já estudamos, a Constituição Federal de 1988 dispõe no caput do
artigo 5º sobre o princípio constitucional da igualdade, ou seja, “Todos são iguais
perante a lei, sem distinção de qualquer natureza”.
Vamos citar aqui apenas algumas que estão vinculadas à responsabilidade
social das organizações.

Políticas de Reparações e Compensações e a Responsabilidade Social


106 UNIDADE III

Gonçalves (2006), Chilante e Noma (2009), Coutinho (2002) e Coelho (2007)


elencam as principais leis e convenções nacionais e internacionais que regula-
mentam a discriminação no trabalho, vamos conhecê-las?
■■ A Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH), de 1948, da ONU,
é o primeiro grande marco institucional para o debate sobre a responsabili-
dade social. Com 30 artigos, a Declaração traz o direito reconhecido como
o ideal a ser atingido por todos os povos, reunindo, basicamente, uma série
de direitos políticos e civis e de direitos econômicos, sociais e culturais.
■■ Após o primeiro documento de caráter global, na categoria “justiça social”,

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
o DUDH continua-se com a Convenção Internacional sobre Todas as
Formas de Discriminação Racial, da ONU, de 21 de dezembro de 1965.
Em seu Art. V preconiza que os Estados-Partes comprometem-se a proibir
e a eliminar a discriminação racial sob todas as suas formas e a garan-
tir o direito de cada um à igualdade perante a lei, sem distinção de raça,
cor ou de origem nacional ou étnica, com o gozo dos seguintes direitos:
e) direitos econômicos, sociais e culturais, nomeadamente:

(i) direitos ao trabalho, à livre escolha do trabalho, a condições equita-


tivas e satisfatórias de trabalho, à proteção contra o desemprego, a um
salário igual para um trabalho igual, a uma remuneração equitativa e
satisfatória (ONU, 1965).

■■ Internacionalmente tivemos, em 2001, o Programa de Ação da Conferência


de Durban, que em seu Parágrafo 107 convoca os Estados e incentiva os
representantes de associações sindicais e o setor empresarial a avançar nas
práticas antidiscriminatórias no local de trabalho e a proteger os direitos
dos trabalhadores, em particular das vítimas de racismo, discriminação
racial, xenofobia e intolerância correlata. Em seu Parágrafo 155, incentiva
a realização de atividades e programas de combate às práticas discrimina-
tórias no mundo do trabalho e apoia as ações dos Estados, organizações
patronais e sindicais nesse campo.
■■ Na América Latina, temos a Declaração Sócio-Laboral do Mercosul, de
1998, que em seu Art. 1º preconiza que todo trabalhador tem garantida
a igualdade efetiva de direitos, tratamento e oportunidades no emprego
e ocupação, sem distinção ou exclusão por motivo de raça, origem nacio-
nal, cor, sexo, ou orientação sexual, idade, credo, opinião política ou

AÇÕES AFIRMATIVAS, DIVERSIDADE E RESPONSABILIDADE SOCIAL


107

sindical, ideologia, posição econômica ou qualquer outra condição social


ou familiar, em conformidade com as disposições legais vigentes. E que
os Estados-Partes comprometem-se a garantir a vigência deste princípio
de não discriminação. Em particular, comprometem-se a realizar ações
destinadas a eliminar a discriminação no que tange aos grupos em situ-
ação desvantajosa no mercado de trabalho.
■■ No nosso país, a Constituição da República Federativa do Brasil, em seu
Art. 7°, inciso XXX, preconiza a proibição de diferença de salários, de
exercício de funções e de critério de admissão por motivo de sexo, idade,
cor ou estado civil.
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

O inciso XX, do mesmo artigo, trata de proteção do mercado de trabalho


da mulher, mediante incentivos específicos. E o art. 37º, VII, determina
que a lei reserve percentual de cargos e empregos públicos para pessoas
portadoras de deficiência.
No Capítulo VIII, artigo 231, temos a questão indígena: são reconhecidos
aos índios sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e
os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, com-
petindo à União demarcá-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens.
■■ A Lei n° 7.716, de 5 de Janeiro de 1989 (Lei Caó) – define os crimes resultan-
tes de preconceito de raça ou de cor, etnia, religião ou procedência nacional.
Art. 3° - Impedir ou obstar o acesso de alguém, devidamente habilitado,
a qualquer cargo da administração direta ou indireta, bem como das
concessionárias de serviços públicos. Pena de reclusão de 2 a 5 anos.

Art. 4° - Negar ou obstar emprego em empresa privada. Pena de reclu-


são de 2 a 5 anos.

Só lembrando que já estudamos que biologicamente não há distinção racial entre


os homens, pois somos todos da mesma espécie, Homo sapiens!
■■ A Lei n.º 9.029, de 13 de abril de 1995, em seu Art. 1° - proíbe a adoção
de qualquer prática discriminatória e limitativa no que tange à relação de
emprego, ou sua manutenção, por motivo de sexo, raça, cor, estado civil, situ-
ação familiar ou idade, ressalvadas, neste caso, as hipóteses de proteção ao
menor. O Art. 2º trata de práticas discriminatórias na admissão da mulher
ao trabalho. No Art. 4º, temos que o rompimento da relação de trabalho por
ato discriminatório, nos moldes desta lei, faculta ao empregado optar entre:

Políticas de Reparações e Compensações e a Responsabilidade Social


108 UNIDADE III

I - a readmissão com ressarcimento integral de todo o período de afas-


tamento, mediante pagamento das remunerações devidas, corrigidas
monetariamente, acrescidas dos juros legais;

II - a percepção, em dobro, da remuneração do período de afastamento,


corrigida monetariamente e acrescida dos juros legais.

■■ O Decreto de 20 de março de 1996 cria, no âmbito do Ministério do Trabalho,


o Grupo de Trabalho para a Eliminação da Discriminação no Emprego e
na Ocupação (GTEDEO), com a finalidade de definir programa de ações
que visem ao combate à discriminação no emprego e na ocupação.

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Como política compensatória, temos:
■■ Parecer CNE/CEB 11/2000 e a Resolução CNE/CEB 1/2000, que instituem
as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação de Jovens e Adultos
(EJA), atribuem a essa modalidade da educação básica a função de repara-
ção da dívida social resultante da história excludente do nosso país. Esses
documentos legais, ao adotarem a ideia da inclusão educacional, fazem a
defesa do atendimento de alunos que não tiveram, na idade própria, acesso
ou continuidade de estudo. Mais do que um direito, a EJA é considerada
a chave para o século XXI, por ser resultante do exercício da cidadania e
condição para a participação plena na sociedade, incluindo aí a qualifi-
cação e a requalificação profissional (CHILANTE; NOMA, 2009, p. 225).
■■ A implementação da Lei nº. 10.639/2003, que estabelece a obrigatorie-
dade do ensino de história e cultura afro-brasileira e africana na educação
básica brasileira.
■■ Para os indígenas, temos: Diretrizes Para a Política Nacional de Educação
Escolar Indígena (MEC, 1993); Diretrizes Nacionais Para o Funcionamento
das Escolas Indígenas (MEC/CEB,1999); Política Nacional de Atenção à
Saúde dos povos Indígenas (MS, 2002).
■■ Decreto-Lei n. 5.452/43 (CLT), que estabelece em seu artigo 373-a, a
adoção de políticas destinadas a corrigir as distorções responsáveis pela
desigualdade de direitos entre homens e mulheres.
■■ Lei n. 8.112/90, que determina, no artigo 5o, § 2º, reserva de até 20% para
os portadores de deficiências no serviço público civil da União, e a Lei n.
8.213/91, que fixou, em seu artigo 93, reserva para as pessoas portadoras
de deficiência no setor privado.

AÇÕES AFIRMATIVAS, DIVERSIDADE E RESPONSABILIDADE SOCIAL


109

■■ Lei n. 9.504/97, que preconiza, em seu artigo 10, § 3º, “reserva de vagas”
para mulheres nas candidaturas partidárias.
■■ Lei n. 11.645/2008, que altera a Lei n. 10.639/93, incluindo também a
obrigatoriedade do ensino da história e cultura indígena, junto com a
inclusão e valorização dos conteúdos sobre história e cultura afro-brasi-
leira e africana nos currículos escolares.
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Pudemos ver que o Estado brasileiro pensa e age sobre o tema do racismo ao
propor legislações inclusivas, que promovem direitos e reparam os históricos
e persistentes prejuízos aos cidadãos. As empresas não estão tão ativas como o
Estado, e diante desse atraso, terão que realizar mais esforços em prol da igual-
dade racial. As empresas, dessa forma, precisam se capacitar urgentemente para
compreender melhor a situação e agir sobre essa realidade.
Sabemos que a educação é um fator determinante para o sucesso no mundo
do trabalho. Entretanto, a educação sozinha, sem políticas de ações afirmativas,
não tem sido capaz de promover para os grupos discriminados a mesma ascen-
são e benefícios. Para reverter esse quadro, as ações afirmativas precisam adquirir
maior amplitude e efetividade dentro das organizações, ou seja, precisam ser ava-
liadas para que se encontrem os problemas e que se implantem eficazes medidas.
As empresas devem aprimorar os seus programas de ações afirmativas porque
esses programas, na maioria das empresas, funcionam de maneira paralela às práticas
de gestão, não geram aprendizados para a organização e revelam baixa efetividade
no aproveitamento dos colaboradores em seus quadros, entre outros problemas.
Devemos nos lembrar de que não há valorização da diversidade sem a rea-
lização de ações afirmativas! Também não é possível implementar essas ações
afirmativas sem se posicionar contra a discriminação racial. Portanto, é fun-
damental que uma organização promova a igualdade racial e, com isso, esteja
cumprindo com as exigências da sociedade civil e do Estado brasileiro.

Considerações Finais
110 UNIDADE III

“Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem
ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se po-
dem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar”.
Nelson Mandela (2008)

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

AÇÕES AFIRMATIVAS, DIVERSIDADE E RESPONSABILIDADE SOCIAL


111

1. A mensuração dos custos do racismo em uma sociedade como a brasileira é pos-


sível, ainda que envolva um conjunto considerável de pressupostos (GONÇAL-
VES, 2006). Após a leitura dos conceitos relacionados ao racismo, faça um levan-
tamento de como podem ocorrer as formas de racismo no mundo corporativo.
2. Todas as pessoas nascem iguais, ou seja, somos todos da espécie humana, po-
rém, a sociedade dá um tratamento diferencial a algumas pessoas desde o iní-
cio, como se fossem diferentes, proporcionando muito mais oportunidades para
umas do que para outras. Baseado(a) nessa afirmação, discuta formas de promo-
ver a diversidade cultural nas organizações.
3. Pesquise e cite, no mínimo, 2 (duas) ações afirmativas, diferentes das citadas
na Unidade, aplicadas às mulheres, aos negros, as pessoas com deficiência e
aos índios.
4. Para Oliveira e Rodrigues (2004), ao levar em conta a complexidade existente
no mundo, a prática da valorização da diversidade estimula a interação entre
pessoas diferentes, proporcionando a troca de experiências e enriquecimento
de cada indivíduo que constitui o grupo. Baseado(a) nesse pensamento, como as
organizações podem ser beneficiadas com a implantação da diversidade?
5. Pesquise e cite, no mínimo, 1 (uma) política reparadora ou compensatória, dife-
rente das citadas na Unidade, que deva ser conhecida por empresas que aplicam
a responsabilidade social.
MATERIAL COMPLEMENTAR

Viagens ao multiculturalismo: o comitê para a eliminação


da discriminação racial, das Nações Unidas, e seu
funcionamento.
Lindgren Alves
Editora: FUNAG
Sinopse: O autor, após comprovação efetuada ao longo de oito anos,
descreve sobre o desconhecimento generalizado do que é e do que
faz esse mecanismo internacional antidiscriminatório, oriundo de
convenção da década de 60. Assim, tem a intenção de oferecer, a quem
interessar possa, uma visão minimamente orgânica de seu funcionamento.

Desenvolvimento humano e relações raciais.


Marcelo J. P. Paixão
Editora: DP&A
Sinopse: A década de 1980 inaugurou na Academia, com
Carlos Hasenbalg e Nelson do Valle e Silva, uma nova
perspectiva teórico-metodológica nos estudos sobre
relações raciais: as estatísticas e indicadores incorporaram-
se a estes estudos sobre relações raciais. A riqueza
advinda dessa abordagem inovadora municiou militantes
e intelectuais ligados ao movimento antirracista. A obra
“Desenvolvimento Humano e Relações Raciais” faz parte desta perspectiva. O
livro é uma coletânea de quatro artigos, no campo das relações raciais, escritos
entre 2000 e 2002 pelo professor Marcelo J. P. Paixão. Estes estudos cobrem o
debate sobre as desigualdades sociais e raciais no Brasil, com especial destaque
para a pesquisa pioneira que desagregou o IDH de negros e brancos; um marco
no aprofundamento da compreensão do abismo que separa as condições de
vida de negros(as) e brancos(as) deste país.
MATERIAL COMPLEMENTAR

Quilombo, 1984
Diretor: Cacá Diegues
Comemora-se o Dia da Consciência Negra no dia 20 de novembro no
Brasil porque foi neste dia que, em 1695, morreu Zumbi dos Palmares,
um dos maiores ícones da luta contra a escravidão. Quilombo mostra
como o personagem, interpretado por Antônio Pompêo, liderou uma
das maiores revoluções do período colonial e entrou para a história
como ícone da luta pela igualdade racial.

Malcolm X, 1992
Diretor: Spike Lee
Malcolm Little, conhecido historicamente como Malcolm X, fez
história nas décadas de 50 e 60 como um dos principais líderes de
movimentos de defesa à igualdade racial nos Estados Unidos. O
diretor Spike Lee fez da trajetória do ícone uma de suas principais
obras em Malcolm X, que rendeu ainda uma indicação ao Oscar ao
ator Denzel Washington.

O compromisso das empresas com a promoção da


igualdade racial
Editora: INSTITUTO ETHOS
Sinopse: O manual, elaborado por vários especialistas em diversidade
e representantes de organizações relacionadas ao movimento negro,
levanta as desigualdades de gênero e raça no Brasil, apresenta dados
sobre a população brasileira e apresenta a legislação antirracista e
antissexista, além de defender as ações afirmativas como forma de
promover os direitos humanos.
Disponível em: <http://www.uniethos.org.br/_Uniethos/Documents/
Inclusao_racial_empresas.pdf>.

Material Complementar
Professor Me. Tiago Ribeiro da Costa

IV
BALANÇO SOCIAL E

UNIDADE
AS DIMENSÕES DA
SUSTENTABILIDADE

Objetivos de Aprendizagem
■■ Ampliar o conhecimento sobre sustentabilidade e sua relação com
as empresas (Responsabilidade Social Corporativa), inserindo e
discutindo novos aspectos relacionados às temáticas.
■■ Apresentar e discutir as diferentes dimensões da sustentabilidade.
■■ Demonstrar os principais aspectos relacionados ao controle social
das estratégias de Responsabilidade Social Corporativa.
■■ Ilustrar o histórico, as gerações, modelos e as diretrizes dos Relatórios
de Sustentabilidade.
■■ Exemplificar as ações organizacionais que podem ser desencadeadas
no sentido de estabelecer a sustentabilidade como um princípio de
desenvolvimento corporativo.

Plano de Estudo
A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade:
■■ A Sustentabilidade e a Responsabilidade Social Corporativa sob o
enfoque da Ética
■■ Balanço social e os relatórios de sustentabilidade
■■ Modelos IBASE, GRI, CEBDS, ISE, Dow Jones e Ethos
■■ Ações organizacionais e as dimensões da sustentabilidade
117

INTRODUÇÃO

Prezado(a) acadêmico(a),
Torna-se interessante neste momento de sua caminhada rumo ao conheci-
mento sobre a sustentabilidade estabelecer o seguinte questionamento: “O que
é sustentabilidade?”.
Parece-lhe estranho ou óbvio demais este questionamento após três unidades
de discussão? Se isto lhe parecer estranho, peço-lhe gentilmente que reveja seu
posicionamento quanto ao tema e lhe explicarei o porquê por meio desta unidade.
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Eu mesmo tive que reavaliar meu posicionamento frente ao tema. Até pouco
tempo, explicava aos meus alunos que a sustentabilidade era apenas um “grãozi-
nho de areia” na história do ser humano no planeta Terra, afinal, a arqueologia
evidenciava que os seres humanos atuais (Homo sapiens sapiens) iniciaram sua
saga neste planeta por volta de 200.000 anos antes da data atual. Por sua vez,
as primeiras discussões sobre sustentabilidade foram iniciadas em 1972, em
Estocolmo, na Suécia, ou seja, há apenas 42 anos.
Agora, minha percepção (e creio que você terá a mesma percepção) é de que
as discussões sobre sustentabilidade não são mais um “grãozinho de areia”, mas
talvez um “átomo” nesta história.
Segundo Ashton e colaboradores (2014), pesquisadores do University College
London (Inglaterra) evidenciaram movimentações humanas com padrões seme-
lhantes ao Homo sapiens por meio de fósseis encontrados a 220 quilômetros de
Londres, os quais acredita-se ter uma idade aproximada de 900.000 anos, era na
qual tigres dente de sabre ainda caminhavam pela Terra1. Isto significa que uti-
lizamos apenas 0,00047% deste tempo para discutirmos sobre sustentabilidade.
Ademais, ainda é comum notarmos que muitas pessoas focam apenas no
aspecto (ou dimensão) ambiental da sustentabilidade. Até mesmo a definição
clássica sobre o tema, trazida a nós pelo Relatório do Brundtland (ONU, 1987)
está intimamente ligada à questão dos recursos naturais, quando versa que a

1 Maiores informações sobre esta publicação podem ser acessadas por meio da revista eletrônica PLOS
ONE: ASHTON, N.; LEWIS, S. G.; DE GROOTE, I.; DUFFY, S. M.; BATES, M., et al. (2014). Hominin
Footprints from Early Pleistocene Deposits at Happisburgh, UK. PLoS ONE 9(2): e88329. doi:10.1371/
journal.pone.0088329.

Introdução
118 UNIDADE IV

sustentabilidade, definida pelo desenvolvimento sustentável, é a ação de se desen-


volver de acordo com os recursos naturais disponíveis, não os comprometendo a
ponto das gerações futuras não terem a possibilidade de se desenvolver igualmente.
Por acaso são somente os seres humanos e os “recursos” que importam? Será
que não existem outras questões e dimensões a serem consideradas, as quais ten-
tam dar a resposta para o posicionamento do ser humano no “organismo global”?
Veja que já começamos a problematizar o tema de nossa quarta unidade sem
que você perceba. Só que ainda quero te provocar mais um pouco, claro que no
bom sentido: a sustentabilidade também é abordada como temática de grande

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
importância ao desenvolvimento empresarial, sendo representada, em grande
parte do tempo, pelas políticas de responsabilidade social corporativa.
Em tese, até este momento, creio que você já teve uma boa ideia do que seja
este conceito de “Responsabilidade Social Corporativa”, mas, na prática, como
isto funciona? Existem indicadores comparativos de sustentabilidade os quais
servem de base para se afirmar que uma empresa, de fato, é responsável? E de
que forma isto é apreciado pela sociedade, considerando que “sociedade” é um
conceito que também considera os colaboradores das empresas?
Nossa! Quantas perguntas, não é mesmo? Mas sem estas perguntas, certa-
mente eu não iria lhe convencer a continuar conosco nesta jornada, afinal, são as
perguntas que movem nosso conhecimento. E com coragem lhe digo que as res-
postas que discutiremos nesta unidade não são definitivas e nem esgotam tudo
aquilo que poderia ser discutido sobre o tema. Trata-se de uma humilde contribui-
ção para que você possa, por si só e com a ajuda de todos que lerem este material,
estabelecer novos questionamentos e novas respostas. Assim sendo, vamos adiante?

A SUSTENTABILIDADE E A RESPONSABILIDADE
SOCIAL CORPORATIVA SOB O ENFOQUE DA ÉTICA

Nas unidades anteriores nos deparamos com uma série de discussões acerca do
conceito de sustentabilidade. Partindo do conceito básico de que a sustentabilidade

BALANÇO SOCIAL E AS DIMENSÕES DA SUSTENTABILIDADE


119

pode ser considerada como a ação de desenvolver-se de maneira ponderada em


relação aos recursos naturais, considerando a repartição dos mesmos em tempo
e espaço (para as atuais e futuras gerações), podemos destrinchá-lo e criar outras
visões associadas a outros conceitos pertinentes à atividade humana.
Um destes conceitos pertinentes à atividade humana é a Ética. Certamente
você já deve ter ouvido falar neste termo e também já deve ter tido algumas
abstrações sobre o que ele significa, assim como eu tive. De fato, academica-
mente falando, existem diversas definições e conceitos sobre o tema (Foucault,
Moore, Valls, Tugendhat, Clotet etc.), mas um em especial resume de maneira
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

brilhante o que vem a ser Ética, e este conceito é trazido à luz pelo econo-
mista Paul Singer:
A Ética pode ser um conjunto de regras, princípios ou maneiras de
pensar que guiam, ou chamam a si a autoridade de guiar, as ações de
um grupo em particular (moralidade), ou é o estudo sistemático da ar-
gumentação sobre como nós devemos agir (filosofia moral) (SINGER,
1994, p. 4-6).

Parafraseando a ideia de Singer, pode-se dizer que a Ética é um conjunto de dire-


trizes socialmente aceitas, criadas a partir do senso comum dos membros de uma
sociedade. Em tese, a partir de nossos conhecimentos, crenças e caráter, somos
capazes de distinguir ações promotoras e engrandecedoras do ser humano de
ações que denigrem o mesmo ou depauperem sua imagem e capacidade de con-
vivência. Em outras palavras, criamos a consciência daquilo que é certo e errado.
A partir disso, é conveniente relacionar a ética à sustentabilidade de acordo
com a premissa de que “ser sustentável é ser ético”, uma vez que ser sustentável
é ser correto perante o senso social, ou ainda, ser sustentável facilita a convivên-
cia entre os seres humanos e entre estes e o meio natural, uma vez que se torna
possível a ponderação no uso deste último pelos primeiros.
Em princípio, parece fácil assimilar esta ideia. E é tão fácil que você mesmo
já deve ter se dado conta de tal fato, ao ter falado, ao menos uma vez em sua vida,
a seguinte frase: “Se todos fizerem sua parte...”. Eis que, com base em sua ética,
você clama, por meio desta frase, que todos sejam éticos, que todos sejam sus-
tentáveis, ou ainda, que todos sigam o padrão pactuado.

A Sustentabilidade e a Responsabilidade Social Corporativa Sob o Enfoque da Ética


120 UNIDADE IV

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
“Professor, a conversa está muito boa, mas não estou entendendo onde você quer chegar?!?”

Será que você está se fazendo esta pergunta neste momento? Creio que sim, mas
o esclarecimento de suas dúvidas atuais poderá ser feito a partir de uma nova
pergunta, ou melhor, a partir de uma reflexão:

Você conhece um país chamado Nepal? Este país fica no continente asiáti-
co, próximo da China, encravado na cordilheira do Himalaia. Se você conhe-
cesse alguém daquele país, será que ele teria a mesma formação moral e o
mesmo caráter que você tem? Ou ainda, será que uma empresa instalada
naquele país possuiria a ética empresarial de uma empresa daqui do Brasil?

Obviamente que uma pessoa ou uma empresa de Nepal estaria em uma sociedade
com princípios e diretrizes morais guiados por uma sociedade que possui diferenças
em relação à nossa. Assim, o que pode ser ético às pessoas daquele país a nós soaria
como algo estranho, ou vice-versa.
Da mesma forma, estes princípios morais, diretrizes e diferenças culturais fazem
com que a noção de sustentabilidade para aquele país seja algo diferente de nossa com-
preensão e esta é uma das principais dificuldades que justificam o fato de que é muito

BALANÇO SOCIAL E AS DIMENSÕES DA SUSTENTABILIDADE


121

difícil estabelecer a sustentabilidade em nível global. Em suma, nem todas as pessoas


têm os mesmos princípios éticos e, por consequência, nem todas as pessoas possuem
uma ideia nivelada do que seja a sustentabilidade, ou mesmo de suas dimensões.
Outro problema é a falta de padrões quantitativos para definir o que seja
sustentável. Não existe um consenso sobre a eficiência dos atuais indicadores de sus-
tentabilidade, uma vez que ainda não somos capazes de mensurar, com total acurácia,
todos os impactos que geramos dia após dia.
Não sabemos, por exemplo, quantas toneladas de Gases do Efeito Estufa – GEEs
nós emitimos ao longo de um ano, nem quantos Quilowatts/Hora de energia elétrica
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

gastamos com todas as nossas atividades residenciais e profissionais. Da mesma forma,


não temos o costume de acompanhar a influência do tempo de nossos banhos sobre
o gasto mensal de água, ou mesmo se nosso orçamento é contemplado por meio de
nossos ganhos. Ou seja, sem ter ideia exata do quanto precisamos compensar, em
termos de impactos, não se pode falar sobre sustentabilidade.
O que temos apenas são ideias baseadas em médias ligadas ao uso dos recursos
disponíveis. Se estivermos orbitando perante estas médias, podemos dizer que não
estamos distantes da sustentabilidade, mas somente isso.
Por exemplo, temos a ideia de que para uma pessoa sobreviver de maneira digna
com o recurso água, ela precisará de aproximadamente 200 litros por dia. Já quando o
recurso é a umidade do ar, a média preconizada pela Organização Mundial de Saúde
– OMS é de 60%. Por sua vez, quando falamos sobre o recurso renda, o Departamento
Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos – DIEESE (DIEESE apud
VERONESI, 2014) preconiza que o mínimo salário que o brasileiro deveria receber
para sustentar todas as suas necessidades básicas deveria ser de R$ 2.748,22.

“A sustentabilidade para ser plena, em nível global, exigiria que todos os


seres humanos tivessem o mesmo conceito sobre o tema e suas dimensões,
ao mesmo tempo em que soubessem mensurar, com 100% de confiança, os
impactos a serem compensados.”

A Sustentabilidade e a Responsabilidade Social Corporativa Sob o Enfoque da Ética


122 UNIDADE IV

Se estas dificuldades estão


presentes em nível de
“microcosmo”, consi-
derando o ser humano
apenas como uma uni-
dade, imagine em que grau
estas dificuldades se ele-
vam quando consideramos
“Então a sustentabilidade é uma utopia???”
as formas organizacionais

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
destas unidades (seres humanos), traduzidas nas corporações.
Em alguns aspectos sim, uma vez que a sustentabilidade é um tema “mutante”,
com padrões modificáveis de acordo com o tempo e com a sociedade. Mas nem tudo
é desespero, e o ser humano em sua ampla capacidade inventiva, a mesma que fez
com que o Aipim, a Macaxeira, a Manioca e a Mandioca fossem conhecidas como
uma só (Manihot esculenta Crantz), criou padrões e normas amplamente aceitas e
reconhecidas no mundo, as quais são traduzidas pelo conceito da Responsabilidade
Social Corporativa - RSC.
Apenas para relembrar, podemos dizer que uma empresa é socialmente res-
ponsável quando ela atinge indicadores e cumpre metas. Geralmente estas metas e
indicadores encontram-se representados em normas, como é o caso da ISO 26000.
Além destes conteúdos, as diretrizes desta e de outras padronizações a respeito
da RSC preconizam a formulação de projetos, a gestão empresarial sustentável e,
em especial, a transparência na comunicação dos resultados dos projetos sociais,
tanto aos colaboradores quanto às comunidades influenciadas pelas empresas.
Para uma melhor compreensão sobre a RSC e a ISO 26000, vamos assistir
a um vídeo?

ISO 26000: Maior qualidade na produção com Responsabilidade Social


Sinopse: A ISO, uma organização mundial que certifica a qualidade dos serviços e produtos,
vai lançar um guia chamado ISO 26000. Mais que um selo, a publicação vai propor maior
transparência e responsabilidade nas relações entre as empresas e o consumidor.
<http://youtu.be/pp_ERQAaEko>

BALANÇO SOCIAL E AS DIMENSÕES DA SUSTENTABILIDADE


123

Se você é um(a) bom(a) observador(a), deve ter notado que um dos termos
que utilizamos em nosso discurso foi “transparência”. Esta transparência, como
já evidenciado, está relacionada principalmente às ações de sustentabilidade e
responsabilidade social que as empresas executam, no sentido de compensar
seus impactos frente à sociedade e ao meio o qual ela influencia. Mas de que
forma isto é realizado? Ademais, de que forma a sociedade participa do con-
trole destas ações?
Para responder a estas perguntas, prossigamos à nossa próxima seção, a qual
nos trará novas informações sobre as formas de controle social e a transparência
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

pertinente às empresas, relacionada à RSC e à sustentabilidade.


Todavia, torna-se interessante, antes de prosseguirmos, darmos uma pequena
pausa em nossas discussões. Que tal lermos algo bem interessante para fixar nos-
sos conhecimentos? Assim, segue uma sugestão de leitura.

A importância da Responsabilidade Social Corporativa como fator de


diferenciação
Silvo Luiz Tadeu Bertoncello
Joáo Chang J[unior
Sinopse: A responsabilidade social das empresas é um tema atual e, nos últimos anos, vem
sendo consolidada a crença que as empresas devem assumir um papel mais amplo perante a
sociedade que não somente o de maximização de lucro e criação de riqueza. Como visto nesse
artigo, o crescente aumento da complexidade dos negócios, o avanço de novas tecnologias
e o incremento da produtividade levou a um aumento significativo da competitividade entre
as empresas e, desta forma, elas tendem a investir mais em processos de gestão de forma a
obter diferenciais competitivos. Para as empresas, a responsabilidade social pode ser vista
como uma estratégia a mais para manter ou aumentar sua rentabilidade e potencializar o seu
desenvolvimento. Isto é explicado ao se constatar maior conscientização do consumidor o qual
procura por produtos e práticas que gerem melhoria para o meio ambiente e a comunidade. Já
que a responsabilidade social corporativa tem se apresentado como um tema cada vez mais
importante no comportamento das organizações e tem exercido impactos nos objetivos e
nas estratégias das empresas, este artigo tem como proposta apresentar um ensaio teórico
sobre o entendimento da Responsabilidade Social e se esta prática pode trazer benefícios de
diferenciação às empresas que praticam este conceito.
Fonte: BERTONCELLO, S.L.T.; CHANG JUNIOR, J. A importância da Responsabilidade Social
Corporativa como fator de diferenciação. FACOM, 17:1, 2007. pp: 70-76. Disponível em: <http://
www.faap.br/revista_faap/revista_facom/facom_17/silvio.pdf>. Acesso: 02 fev. 2014.

A Sustentabilidade e a Responsabilidade Social Corporativa Sob o Enfoque da Ética


124 UNIDADE IV

BALANÇO SOCIAL E OS RELATÓRIOS DE


SUSTENTABILIDADE

De maneira geral, os gestores empresariais têm absorvido as recentes demandas


e preocupações da sociedade com relação às suas formas de desenvolvimento.
Logicamente, o cenário real das corporações ainda está longe de uma visão de
futuro onde todas as empresas se desenvolvem considerando princípios de sus-
tentabilidade e atendendo devidamente às suas políticas socioambientais e às
normas internacionais.

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Contudo, estamos em um momento de inflexão, onde as empresas que visam
somente a aspecto financeiro da sustentabilidade têm perdido espaço em relação
às empresas que adotam estratégias de RSC e a sustentabilidade propriamente dita.
Em especial, devemos considerar o importante papel dos mercados amadu-
recidos (a exemplo do mercado europeu) e de consumidores das gerações X, Y
e Z, os quais por sua consciência ligeiramente desenvolvida em relação às gera-
ções anteriores e pela facilidade na lida com informações em multimeios, têm
pressionado as empresas ao cumprimento de metas e indicadores de sustenta-
bilidade. Os consumidores estão ávidos por produtos e empresas ecoecifientes.
De olho nesta sociedade em transformação e por força das normas e polí-
ticas de sustentabilidade, os empresários têm adotado formas de disseminação
dos resultados de suas estratégias, sejam elas formalizadas em projetos solo ou
mesmo institucionalizadas nas ações sociais em parceria com empresas de outros
setores, em especial, as do primeiro setor (empresas públicas) e as do terceiro
setor (organizações não governamentais).
Neste sentido, o Balanço Social e os Relatórios de Sustentabilidade Corporativa
apresentam-se como importantes instrumentos de aferição da eficiência empre-
sarial em termos de planejamento e de execução.
Lembra-se que comentamos há dois parágrafos sobre as estratégias de
sustentabilidade? Chamo-lhe a atenção, caro(a) aluno(a), para o fato de que
não é incomum que as empresas, além de se utilizarem de recursos próprios,
em projetos solo, se utilizem de recursos de terceiros, em especial, os acessa-
dos por meio de editais e chamadas públicas emitidas pelo primeiro setor em
suas ações sociais.

BALANÇO SOCIAL E AS DIMENSÕES DA SUSTENTABILIDADE


125

Especialmente para este último caso (ações sociais em parceria) é que se


torna, além de necessário, urgente que os resultados sejam divulgados e dis-
cutidos com os beneficiários das ações. Corroborando com este pensamento,
Zarpelon (2006) afirma que um dos objetivos do Balanço Social é justamente
prestar contas do seu desempenho sobre o uso de recursos próprios e a apro-
priação e o uso de recursos que originalmente não lhe pertenciam.
Tal balanço, portanto, além da função destacada, visa estabelecer uma pro-
posta de diálogo com os diferentes públicos envolvidos no negócio da empresa
que o adota: público interno, fornecedores, consumidores/clientes, comunidade,
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

meio ambiente, governo e sociedade. A proposta é de que o balanço social conte-


nha informações sobre o perfil do empreendimento, histórico da empresa, seus
princípios e valores, governança corporativa, diálogo com partes interessadas
e indicadores de desempenho econômico, social e ambiental (ETHOS, 2014).
Contudo, a execução de um balanço social ou mesmo de um relatório de
sustentabilidade encontra-se preso ao paradigma da complexidade ligada à pró-
pria sustentabilidade, algo que discutimos na seção anterior. “- A empresa é
sustentável?”, “- O quanto a empresa é sustentável?”, “- Como mensurar a sus-
tentabilidade empresarial e os benefícios voltados à sociedade?”: são perguntas
que tornam difícil a execução de tais propostas.
Para exemplificar este caso, vamos abordar suscintamente uma das metodo-
logias existentes para o controle social das ações de RSC. Trata-se da abordagem
da avaliação das ações sociais por meio de auditorias. A Figura 8 ilustra a hie-
rarquia desta abordagem:

ANÁLISE DE CUSTO-BENEFÍCIO
listagem + custos + sucesso + benefícios

ABORDAGEM DA ADMINISTRAÇÃO DE PROGRAMA


listagem + custos + sucesso

ABORDAGEM DO CENTRO DE CUSTOS


listagem + custos

ABORDAGEM DO INVENTÁRIO
listagem

Figura 8: Hierarquia do controle social na abordagem de avaliação das ações sociais por meio de auditorias
Fonte: Mazzei (2009)

Balanço Social e os Relatórios de Sustentabilidade


126 UNIDADE IV

Em um primeiro momento, as empresas simplesmente adotam a estratégia


de listagem das metas e etapas que foram realizadas em seus projetos e ações
sociais, e esta listagem pode vir acompanhada de indicadores quantitativos (por
exemplo, número de mudas de árvores plantadas para compensação das emissões
dos GEEs2, ou número de adolescentes atendidos em contra turno escolar para
atividades profissionalizantes). Esta é a Abordagem do Inventário, limitada por
sua natureza meramente descritiva, sem quaisquer associações das ações com os
recursos investidos ou com os benefícios auferidos pela execução das mesmas.
Na medida em que se avança na hierarquia para as próximas abordagens, novos

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
elementos são associados ao Balanço Social e ao Relatório de Sustentabilidade.
Por exemplo, a Abordagem do Centro de Custos já nos traz a associação das
atividades com os recursos empregados, o que traz à luz várias análises e con-
clusões sobre as demandas executadas e o quanto foi gasto por demanda, algo
muito utilizado, por exemplo, em editais públicos dos Ministérios que já fixam
qual o valor que deve ser investido por meta/etapa, rubrica3 ou por beneficiário4.
A terceira abordagem (administração do programa), já relaciona o inven-
tário, com os custos atrelados a cada atividade inventariada e seu percentual de
sucesso. Assim, é comum observarmos em planilhas de controle social a ativi-
dade programada, os recursos destinados e sua porcentagem de execução. Eis
que aqui a atenção dos envolvidos deve ser total, uma vez que há uma proporcio-
nalidade entre porcentagem executada e recurso financeiro consumido. Seria no
mínimo estranho que a atividade programada não esteja concluída e seu recurso
destinado tenha sido totalmente utilizado.
Por fim, dentre as quatro, a mais difícil e a que merece maior atenção é a abor-
dagem da Análise de Custo-Benefício. Existem dois tipos básicos de benefício:
os mensuráveis (os quais apresentam indicadores conhecidos e quantificáveis) e
os não tangíveis (geralmente abstratos, ligados ao psicológico dos beneficiários,

2
Gases de Efeito Estufa.
3
Aqui o significado de rubrica é relacionado à destinação do recurso e cada recurso possui um código
específico. Por exemplo, 3390xxxx significa que o recurso poderá ser utilizado pelo proponente para
custeio (materiais de expediente, serviços de terceiros etc.). Já a rubrica 4490xxxx significa que o
recurso deverá ser utilizado para investimento, ou recursos de capital (aquisição de máquinas, materiais
permanentes, equipamentos etc.).
4
Geralmente algo em torno de R$ 800,00 por família, dependendo do objeto do projeto.

BALANÇO SOCIAL E AS DIMENSÕES DA SUSTENTABILIDADE


127

às relações entre os beneficiários e entre estes e o meio, e ligados ao próprio


meio, mas que não possuem indicadores conhecidos). Este é o principal limi-
tante desta abordagem, tendo em vista que muitos aspectos da sustentabilidade
encontram-se ainda em um plano abstrato e fora do conhecimento de grande
parte da sociedade.
Mesmo com esta limitação, é inegável que esta abordagem de avaliação das
ações sociais, por meio de auditorias, traz grande contribuição ao entendimento
de como e quanto as empresas estão em dia com a Sustentabilidade e a RSC.
Outra limitação que merece ser comentada (não restrita ao modelo discutido,
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

mas relacionada a todos os modelos disponíveis e que serão comentados adiante) é


relacionada à falta de capacitação dos sujeitos de ação5 quanto à aquisição e compi-
lação de dados, e mesmo na apresentação e discussão dos resultados e inferências
frente aos demais envolvidos. Acredito que esta falta de capacitação é relacionada
à complexidade do próprio
tema “Sustentabilidade”,
densamente explorada neste
material, e ainda, pela falta
de conhecimento sobre os
modelos, ainda que limitados.
Isto, somado a uma per-
cepção enviesada sobre a
sustentabilidade por parte
dos envolvidos, faz com
que o principal objetivo e os
resultados do Balanço Social,
ou mesmo dos Relatórios
de Sustentabilidade, sejam,
no mínimo, questionáveis,
mas como já abordado, não
deixam de ser importantes “Ok, professor, mas será que eu consigo fazer um Balanço Social ou mesmo
um Relatório de Sustentabilidade?”
contribuições.

Neste contexto, “sujeitos da ação” são considerados como proponentes da proposta de RSC, embora, em
5

outras abordagens, o termo em destaque faça menção a todos os indivíduos que se encontram ligados à
proposta (colaboradores, proponentes, agentes de fomento e beneficiários).

Balanço Social e os Relatórios de Sustentabilidade


128 UNIDADE IV

Felizmente sim, aliás, o ser humano tem uma grande capacidade de apren-
dizado e o que nos ajuda é que existem modelos nos quais podemos embasar
nossa prática. Mas antes de ilustrá-los, creio que é necessário entender a correta
diferença entre o Balanço Social e o Relatório de Sustentabilidade, este último
mais complexo. Para isso, analise as considerações do Quadro 5:

ELEMENTO RELATÓRIO DE
BALANÇO SOCIAL
AVALIADO SUSTENTABILIDADE

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Prestação de Contas por parte das empresas para com a sociedade,
Finalidade quanto à forma como os recursos humanos e naturais são utilizados
em seu cotidiano.
Demonstrativo Contábil, voltado Análise descritiva das ações de
exclusivamente para dados sustentabilidade, a qual obedece
Natureza
quantitativos (investimentos não a diretrizes consolidadas por
mercantis). organismos terceiros.
Nem sempre se evidencia um alinhamento de informações entre o
Alinhamento
Balanço Social e o Relatório de Sustentabilidade.
Não existe uma regulamentação em nível nacional que estabeleça
um modelo fixo para ambos os casos. Entretanto, alguns estados e
municípios já demonstram suas próprias regulamentações, em es-
Princípios Legais pecial para os Balanços Sociais. É válido dizer que um dos elementos
do Balanço Social, qual seja, o Demonstrativo de Valor Adicionado
– DVA, já é obrigatório às Sociedades que possuem ações de capital
aberto (BRASIL, 2007).
Quantas unidades monetárias Quais os resultados práticos das
Qual a principal
retornaram à sociedade a partir ações e dos projetos sociais e de
informação do
da aplicação de uma unidade sustentabilidade desenvolvidos
documento?
monetária em ações sociais. pela empresa.
Por não haver um modelo
padronizado e por se utilizar de
Por ser embasado em metodo- dados qualitativos, ainda existem
logias contábeis consolidadas, a muitas dúvidas sobre como
Complexidade
tendência é de que sua execu- elaborar e quais dados explorar
ção seja mais clara e evidente. na composição destes relatórios,
o que torna sua execução mais
complexa.

BALANÇO SOCIAL E AS DIMENSÕES DA SUSTENTABILIDADE


129

ELEMENTO RELATÓRIO DE
BALANÇO SOCIAL
AVALIADO SUSTENTABILIDADE

A tendência principal é de que o Balanço Social seja englobado pelo


Relatório de Sustentabilidade, tornando-se seu braço quantitati-
Tendências
vo, embora nem todas as informações contábeis sejam elegíveis à
publicação neste último documento.
Quadro 5: Elementos diferenciadores entre o Balanço Social e o Relatório de Sustentabilidade
Fonte: Adaptado de Igarashi et al. (2010)

De acordo com os dados demonstrados por meio do Quadro 5, verifica-se que a


Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

principal diferença entre os dois documentos está centrada no fato de o primeiro


(Balanço Social) ser fortemente vinculado a metodologias contábeis as quais
auxiliam na demonstração do fluxo de recursos, que são utilizados no desenvol-
vimento das ações sociais ou mesmo de projetos de RSC pelas empresas. Muitas
vezes, segundo Igarashi et al. (2010), trata-se de recursos não mercantis, ou seja,
sem a necessária função de produzir lucro à empresa, uma vez investidos.
Todavia, é válido lembrar que, nos dias atuais, os recursos investidos para esta
finalidade também são uma forma de capitalizar a empresa, de maneira indireta
e, em especial, por parte dos consumidores e de outros investidores que com-
põem a carta de acionistas destas empresas.
Ademais, Dias, Soekha e Souza (2008) complementam que o Balanço Social
possui a especificidade de englobar, ao menos, quatro vertentes que, de forma
complementar, evidenciam o relacionamento da empresa com a sociedade e o
meio ambiente, quais sejam:
a. Balanço Ambiental, que se refere a todos os gastos e investimentos que
envolvam recursos naturais ou estejam voltados para esta área.
b. Balanço de Recursos Humanos, que demonstra o perfil da força de tra-
balho, remuneração e benefícios concedidos, bem como gastos com a
comunidade que cerca a organização.
c. Demonstração do Valor Adicionado – DVA – que visa demonstrar o valor
da riqueza gerada pela organização e como ela foi distribuída à sociedade.
d. Benefícios e Contribuições à Sociedade em geral, que evidenciam o que a
organização tem feito em termos de benefícios sociais (DIAS; SOEKHA;
SOUZA, 2008, p. 87).

Balanço Social e os Relatórios de Sustentabilidade


130 UNIDADE IV

Por sua vez, o Relatório de Sustentabilidade possui caráter descritivo, ou seja,


por meio deste documento, a sociedade possui acesso às informações sobre as
atividades que foram desenvolvidas por determinada empresa e que possuam
ligações com áreas específicas, dependendo do modelo adotado.
Para se ter uma ideia, existem modelos de relatórios que abordam a chamada
Tripple Bottom Line (SAVITZ, 2006). Este modelo aborda a sustentabilidade
corporativa de maneira clássica, segmentando as ações realizadas nos campos
econômico, social e ambiental e seus respectivos retornos. Da mesma forma, exis-
tem modelos de relatórios que exigem informações mais detalhadas e complexas,

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
a exemplo da descrição sobre Missão, Visão, Valores, Governança Corporativa
e Indicadores de Desempenho (IGARASHI et al., 2010).

MODELOS IBASE, GRI, CEBDS, ISE, DOW JONES E


ETHOS

De maneira geral, os modelos destacados acima servem como base para elaboração
dos Relatórios de Sustentabilidade e/ou Balanços Sociais das empresas. Contudo, é
importante destacar que a aplicabilidade dos mesmos depende da corporação em
questão, do grau de conhecimento dos atores envolvidos e, ainda, das iniciativas locais.
É de se destacar que, em muitos casos, as empresas já possuem iniciativas
próprias no sentido de levantar, avaliar, demonstrar ações executadas e planejar
as ações futuras ligadas à sustentabilidade, de maneira que sempre será válido
determinar se estas metodologias correntes são efetivas ao seu propósito e se elas
podem fornecer bases para melhorias.

“Impor iniciativas incomuns a uma realidade não é uma ação recomendada.”

BALANÇO SOCIAL E AS DIMENSÕES DA SUSTENTABILIDADE


131

MODELO IBASE

O Instituto Brasileiro de Análises Econômicas e Sociais – Ibase foi fundado em


1981, por uma iniciativa do sociólogo Herbert de Sousa, mais conhecido como
“Betinho”. Este personagem da história brasileira fora exilado na época da dita-
dura militar, retornando ao Brasil em 1979, dois anos antes da fundação do Ibase.
De cunho ideológico esquerdista, em especial em uma época onde a demo-
cracia brasileira encontrava-se abalada, o Ibase foi fundamental no lançamento
de estudos e campanhas pela promoção da cidadania, dos direitos sociais, da
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

segurança alimentar e nutricional, e da ética nas relações entre poder público


e sociedade.
Mais recentemente, em 1997, pós-morte de seu fundador, o Ibase desenvol-
veu uma metodologia própria para análise da cidadania empresarial, representada
pela divulgação de seus balanços sociais.
Nos primeiros anos da iniciativa, o projeto conseguiu apoios importan-
tes. Realizaram balanços sociais anuais a Inepar, a Usiminas, a Companhia
Energética de Brasília (CEB) e a Light. A Agência Nacional de Energia Elétrica
(aneel) recomendou a realização do balanço e o modelo do Ibase a todas as
empresas do setor. A Câmara Municipal de São Paulo criou um selo com base
no modelo Ibase. Houve parcerias com a Federação das Indústrias do Estado do
Rio de Janeiro (firjan), o Serviço Social da Indústria (sesi), a Fundação Instituto
de Desenvolvimento Empresarial e Social (fides), a Associação dos Analistas e
Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais (Apimec), o jornal Gazeta
Mercantil, além de algumas universidades (IBASE, 2014).
As justificativas apresentadas pelo Ibase para a realização do Balanço Social
são as seguintes (IBASE, 2014b):
■■ Porque é ético... Ser justo, bom e responsável já é um bem em si mesmo.
■■ Porque agrega valor... O balanço social traz um diferencial para a imagem
da empresa que vem sendo cada vez mais valorizado por investidores e
consumidores no Brasil e no mundo.
■■ Porque diminui os riscos... Num mundo globalizado, onde informações
sobre empresas circulam mercados internacionais em minutos, uma

Modelos IBASE, GRI, CEBDS, ISE, DOW JONES e ETHOS


132 UNIDADE IV

conduta ética e transparente tem que fazer parte da estratégia de qual-


quer organização nos dias de hoje.
■■ Porque é um moderno instrumento de gestão... O balanço social é uma
valiosa ferramenta para a empresa gerir, medir e divulgar o exercício da
responsabilidade social em seus empreendimentos.
■■ Porque é instrumento de avaliação... Os analistas de mercado, investido-
res e órgãos de financiamento (como BNDES, BID e IFC) já incluem o
balanço social na lista dos documentos necessários para se conhecer e
avaliar os riscos e as projeções de uma empresa.

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
■■ Porque é inovador e transformador... Realizar e publicar balanço social
anualmente é mudar a antiga visão, indiferente à satisfação e ao bem-estar
dos funcionários e clientes, para uma visão moderna em que os objetivos
da empresa incorporam as práticas de responsabilidade social e ambiental.

Até 2008, cada empresa que divulgava seu balanço social de acordo com a meto-
dologia proposta pelo Ibase era reconhecida por meio de um selo, representado
na Figura 9. Contudo, este selo encontra-se descontinuado desde aquele ano e
atualmente encontra-se em fase de reformulação.

Figura 9: Selo Balanço Social Ibase/Betinho 2007


Fonte: IBASE (2014c)

Em si, a metodologia é bastante simples e não exige necessariamente a ação de


profissionais especializados na área de contabilidade, uma vez que o próprio
Ibase fornece a planilha com todos os formulários para serem preenchidos com
os dados da empresa que deseja realizar seu balanço social. O Quadro 6 ilustra
o conteúdo básico desta planilha:

BALANÇO SOCIAL E AS DIMENSÕES DA SUSTENTABILIDADE


133
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Quadro 6: Modelo de Balanço Social Ibase/Betinho


Fonte: IBASE (2014).

Modelos IBASE, GRI, CEBDS, ISE, DOW JONES e ETHOS


134 UNIDADE IV

Observa-se que este modelo possui algumas tratativas de análise de indicadores


que abordam dimensões estratégicas da empresa, como indicadores econômi-
cos, sociais, ambientais (até aqui observa-se a tríade clássica da sustentabilidade),
além de indicadores sobre os colaboradores e quanto ao exercício da cidadania
empresarial, este último com análises de cunho qualitativo.
De certa maneira, esta metodologia permite uma leitura e uma análise crítica
sobre as ações empresariais voltadas à sustentabilidade e à Responsabilidade Social
Corporativa. Contudo, ainda possui limitações relacionadas aos indicadores pro-
postos, uma vez que a leitura é muito mais voltada à situação interna da empresa,

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
faltando indicadores que permitam visualizar com um maior grau de entendimento
como os recursos são aplicados em ações realizadas na interface empresa-sociedade.
Levando-se em conta estas limitações e a publicação de modelos de balanço
social, e relatórios de sustentabilidade vinculados a tratativas internacionais, os
registros e a concessão dos selos às empresas que publicaram seus balanços sob
este modelo estão suspensos desde 2008, sem perspectivas de reformulação.

Para melhor entendimento sobre o preenchimento do Balanço Social modelo Ibase/Betinho,


acesse o endereço a seguir:
<http://www.balancosocial.org.br/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=162&sid=12>.

MODELO GRI

A sigla GRI no contexto da Sustentabilidade e da Responsabilidade Social Corporativa


significa Global Reporting Initiative. Trata-se de uma organização não governamen-
tal fundada em 1997 por iniciativa do Programa das Nações Unidas para o Meio
Ambiente (PNUMA) e pela ONG norte-americana CERES, esta última podendo
ser caracterizada como uma iniciativa de empresários e investidores locais para a
promoção da sustentabilidade corporativa e da solidariedade no mercado global.
Em 2002, a GRI mudou-se para Amsterdã, onde atualmente está sediada. Ela
conta também com os representantes regionais, os Pontos Focais (Focal Points)
nos países: Austrália, Brasil, China, Índia e Estados Unidos e uma rede mundial
de 30.000 stakeholders (GRI, 2014).

BALANÇO SOCIAL E AS DIMENSÕES DA SUSTENTABILIDADE


135

A organização em questão defende que sua plataforma apresenta “a mais


abrangente estrutura para relatórios de sustentabilidade” (sic.), o que contri-
bui para maior transparência corporativa. Ao contrário do modelo de Balanço
Social Ibase, descontinuado em 2008, o modelo de relatório de sustentabilidade
GRI encontra-se em sua quarta geração de diretrizes.
As Diretrizes para Elaboração de Relatórios de Sustentabilidade da GRI
consistem de princípios para a definição do conteúdo do relatório e da garantia
da qualidade das informações relatadas. Incluem também o conteúdo do rela-
tório, composto de indicadores de desempenho e outros itens de divulgação,
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

além de orientações sobre temas técnicos específicos e relativos à elaboração


do relatório (GRI, 2014b). A figura 10 ilustra uma visão geral sobre as diretri-
zes do relatórios GRI:

Opções para Elaborar o Relatório


ENTRADA

Orientações para definir


o conteúdo do relatório
Princípios e Orientações

ENTRADA

Princípios para definir


o conteúdo do relatório
ENTRADA

Princípios para assegurar


a qualidade do relatório

Orientações para
ENTRADA

estabelecer o limite
do relatório
Conteúdo do Relatório

Desempenho
Indicador de
Forma de
Gestão
Perfil

RESULTADO RESULTADO RESULTADO

Relatório de Sustentabilidade com Foco

Figura 10: Visão geral sobre as diretrizes dos relatórios GRI


Fonte: GRI (2014b)

Modelos IBASE, GRI, CEBDS, ISE, DOW JONES e ETHOS


136 UNIDADE IV

Não é nossa intenção, caro(a) aluno(a), esgotar as discussões sobre este modelo,
mas são relevantes as seguintes informações:
■■ As diretrizes para os relatórios GRI estão em sua quarta geração, lan-
çada em 2013. Todavia, ainda não foi concluída a tradução para o idioma
Português. Para sua formulação, em vários países foram realizadas audi-
ências junto ao poder público e aos empresários, os quais puderam propor
modificações à terceira versão destas diretrizes. Ainda no Brasil, em 2010,
os resultados destas audiências ratificaram boa parte destas diretrizes e
inseriram, na forma de anexos, novas diretrizes que refletiam singularida-
des territoriais. O texto preliminar com estes anexos foi lançado em 2011.

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
■■ A formulação das diretrizes não coube somente aos membros efetivos
do GRI. Existe o chamado GRI Consortium, um consórcio formado por
empresas de representatividade internacional as quais, além de auxiliar
na formulação das diretrizes, também financiam o processo. São exem-
plos: General Eletrics, Alcoa, Shell, Goldman Sachs e a brasileira Natura.
■■ Uma organização autodeclara um nível de relato baseada em sua própria
avaliação do conteúdo de seu relatório, segundo os critérios dos níveis de
aplicação da GRI (GRI, 2014b). Isto significa que todos os dados inseri-
dos no relatório são de responsabilidade das empresas, sendo validados
posteriormente por meio de auditorias externas (realizadas pelo GRI inter-
nacional ou por meio dos parceiros locais, nos Focal Points).
■■ Por ser um relatório, o GRI possui tendência de abranger informações
qualitativas. Contudo, os termos quantitativos do GRI são satisfatórios em
exprimir o desempenho da empresa no que tange à sustentabilidade e às
formas de gestão. Tais indicadores podem ser observados em GRI (2014c).
■■ A abrangência destas diretrizes e relatórios é reconhecida mundial-
mente, e isto se deve a uma complexa estrutura, a qual obedece ao
princípio de materialidade, ou seja, somente os fatos mais importantes
e que realmente refletem na descrição dos impactos econômicos, sociais
e ambientais são relatados, deixando-se de lado questões menos rele-
vantes. Isto reflete na própria decisão sobre o que relatar, sugerida pelo
próprio GRI por meio da figura 11:

BALANÇO SOCIAL E AS DIMENSÕES DA SUSTENTABILIDADE


137

Não A organização
exerce controle sobre
a entidade?

Não A organização
exerce inuência Sim
signi cativa?

Não A organização
Sim Esse controle causa Não
exerce inuência? impacto signi cativo?

Exclua Sim Esse controle causa Não Sim Não é


impacto signi cativo?
necessário
relatar
Não Esse controle causa Não é
impacto signi cativo? Sim necessário
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

relatar

Não é
necessário Sim
relatar
Dados sobre desempenho

Divulgação sobre a Forma de Gestão

Descrição de questões e dilemas

Figura 11: Árvore de Decisões sobre relatos pertinentes ao GRI


Fonte: GRI (2014b)

Descrevemos apenas alguns fatos relevantes sobre esta metodologia, mas você
deve estar se perguntando: “Como eu posso fazer um relatório de sustentabili-
dade semelhante?”. O melhor jeito é entender como as principais empresas fazem
seus relatórios de sustentabilidade com base nesta metodologia, para isso, acesse
os endereços a seguir6:

Todas as sugestões do item “Saiba Mais” datam de 2012. Não foram sugeridos relatórios mais recentes,
6

uma vez que durante a produção do livro (fevereiro de 2014), não haviam sido publicados os relatórios de
sustentabilidade com base no ano de 2013.

Modelos IBASE, GRI, CEBDS, ISE, DOW JONES e ETHOS


138 UNIDADE IV

Acesse os modelos de relatórios de sustentabilidade executados por empresas


brasileiras:
Phillips do Brasil:
<http://www.philips.com/philips1/shared/assets/br/Company_profile/Philips_
RelatoriodeSustentabilidade_2011-2012.pdf>.
Vale S.A.
<http://www.vale.com/PT/aboutvale/sustainability/links/LinksDownloadsDocuments/relatorio-
de-sustentabilidade-2012.pdf>.

MODELO CEBDS

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
O Conselho Empresarial Brasileiro de Desenvolvimento Sustentável – CEBDS
é uma associação civil, fundada em 1997, que lidera os esforços do setor empre-
sarial para a implementação do desenvolvimento sustentável no Brasil, com
efetiva articulação junto aos governos, empresas e sociedade civil. Reunindo
os maiores grupos empresariais do país, o CEBDS é o representante no Brasil
da rede do World Business Council for Sustainable Development (WBCSD), que
conta com quase 60 conselhos nacionais e regionais em 36 países e de 22 setores
industriais, além de 200 grupos empresariais que atuam em todos os continen-
tes (CEBDS, 2014).
O CEBDS foi responsável pelo primeiro Relatório de Sustentabilidade do
Brasil, em 1997, e ajudou a implementar, em parceria com a FGV (Fundação
Getúlio Vargas) e o WRI (World Resources Institute), a partir de 2008, a princi-
pal ferramenta de medição de emissões de gases de efeito estufa, o GHG Protocol
(CEBDS, 2014).
Entre 1997, data de sua fundação, até 2007, o CEBDS utilizava um modelo
próprio de Relatório de Sustentabilidade. Contudo, com o advento da meto-
dologia GRI (já abordada nesta unidade), em especial em sua terceira geração,
verifica-se uma aproximação entre os modelos em questão, de maneira que nos
dias atuais, o modelo CEBDS compartilha a plataforma do modelo GRI, consi-
derando estrutura e conteúdo.
São três partes básicas que compõem este modelo:
a. Descrição do perfil empresarial, desempenho organizacional e ações rea-
lizadas.

BALANÇO SOCIAL E AS DIMENSÕES DA SUSTENTABILIDADE


139

b. Descrição de boas práticas realizadas pelos stakeholders.


c. Descrição das práticas em andamento, que possuem por característica
antecipar tendências.
De acordo com os dados mais recentes do CEBDS, 46% das empresas a ele
associadas fazem seus relatórios já nos moldes do GRI (CEBDS, 2014b). Uma
conclusão que podemos evidenciar a partir deste dado é que, aos poucos, as
empresas estão optando pela adoção dos padrões internacionais em seus rela-
tórios (padrões mais completos, complexos e abrangentes), abandonando as
iniciativas nacionais, as quais tiveram relevante importância quando da não
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

existência dos primeiros.


Veja a seguir um exemplo de Relatório de Sustentabilidade no modelo CEBDS
e compare-o com os modelos GRI. Certamente você encontrará grandes seme-
lhanças entre os modelos:

INDICADOR ISE

Você notou que não nos referimos ao ISE como modelo, mas sim como indi-
cador? De fato, o ISE, ou Indicador de Sustentabilidade Empresarial, não é um
modelo de Relatório de Sustentabilidade e tampouco um modelo de Balanço
Social, mas se trata de um índice que mede o retorno médio de uma carteira teó-
rica de ações de empresas de capital aberto e listadas na BM&F Bovespa com as
melhores práticas em sustentabilidade.
Assim, uma empresa que possui seu capital aberto a investidores e que tam-
bém possui por característica executar ações no entorno da sustentabilidade
tem a sua leitura financeira analisada por este índice, e quanto mais alto for este
índice, mais sustentável é a empresa e maior será o seu retorno em ações (desem-
penho no mercado financeiro).
O ISE foi criado em 2005 pela BM&F Bovespa e atualmente é o quarto
maior indicador de seu gênero no mundo. Atualmente, a BM&F Bovespa
preside o Conselho Deliberativo do ISE, o qual é composto por outras dez
instituições brasileiras e internacionais (Figura 12), as quais analisam os
índices, publicam os prospectos e tendências das empresas encarteiradas e

Modelos IBASE, GRI, CEBDS, ISE, DOW JONES e ETHOS


140 UNIDADE IV

realizam revisões metodológicas para adequar o cálculo do índice às pecu-


liaridades do mercado.

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Figura 12: Instituições pertencentes ao Conselho Deliberativo do ISE
Fonte: BM&F Bovespa (2014)

Atualmente, são 37 empresas encarteiradas pelo ISE, com 51 ações no mercado


(Figura 13), totalizando R$ 1.072.108.893.294,44, ou 44,81% do valor de mer-
cado total.

Figura 13: Empresas encarteiradas pelo ISE em 2013


Fonte: BM&F Bovespa (2014)

Isto significa que do total de ações operadas pela BM&F Bovespa, quase metade
é referente às empresas com boas práticas de sustentabilidade. Tal fato é con-
firmado pela análise publicada pela BM&F Bovespa (2014), a qual afirma que:
■■ 100% das empresas encarteiradas elaboraram relatórios de sustentabili-
dade em 2013, sendo 92% destas sob os moldes GRI.

BALANÇO SOCIAL E AS DIMENSÕES DA SUSTENTABILIDADE


141

■■ 100% das empresas encarteiradas possuem formalmente o desenvolvi-


mento sustentável inserido em sua estratégia de negócios.
■■ 97% das empresas encarteiradas possuem ações de sensibilização e edu-
cação sobre o tema.
■■ 92% das companhias aderiram formal e publicamente a compromissos
voluntários amplamente legitimados, relacionados ao desenvolvimento
sustentável, comprometendo todas as suas unidades, bem como todas as
suas subsidiárias ou controladas.
■■ 89% das empresas possuem diretoria que se reporta diretamente ao pri-
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

meiro escalão para discutir sobre o tema sustentabilidade.

A tendência, em médio prazo, é de que a maior parte do mercado possa aderir,


de alguma forma e por alguma metodologia, às análises de mercado relacio-
nadas à sustentabilidade e por elas possam ser reconhecidas e auferir lucros
pela valorização de suas ações, o que possibilitaria a ampliação de investimen-
tos em sustentabilidade e cidadania corporativa, fazendo-se cumprir o papel
social das organizações.

ÍNDICADOR DJSI

O Dow Jones Sustainability Indexes (Bolsa de Valores de Nova Iorque – EUA),


ou Índice Dow Jones de Sustentabilidade, possui as mesmas características do
índice ISE apresentado anteriormente. Todavia, o DJSI é precursor do ISE, sendo
criado em 1999 com o mesmo objetivo, de orientar os gestores internacionais a
alocar recursos em ações de empresas de capital aberto que sejam reconhecidas
como responsáveis, do ponto de vista social, ambiental e econômico.
Apenas para comparação, enquanto o ISE apresenta atualmente 31 empresas
encarteiradas, o DJSI apresenta 333 empresas, espalhadas em 59 setores industriais
de 25 países, segundo Barbosa (2013). Esta mesma autora se refere às empresas
encarteiradas pelo DJSI como a “ecoelite da Bolsa de Valores de Nova Iorque”.
Encontram-se participando desta “ecoelite” oito empresas brasileiras:
Bradesco, Cemig, Embraer, Itaú Unibanco, Itaú S.A., Petrobrás, Fíbria e Banco

Modelos IBASE, GRI, CEBDS, ISE, DOW JONES e ETHOS


142 UNIDADE IV

do Brasil. Assim como no ISE, o DJSI pode ser uma via para incrementos de
valores nas ações de empresas socialmente responsáveis, contribuindo signifi-
cativamente para expansão de suas políticas de sustentabilidade, ao passo em
que seu sucesso também pode ser encarado como um elemento propulsor para
novas inserções nesta seleta carteira.

INDICADORES ETHOS PARA NEGÓCIOS SUSTENTÁVEIS E


RESPONSÁVEIS

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
A missão do Instituto Ethos é mobilizar, sensibilizar e ajudar as empresas a gerir
seus negócios de forma socialmente responsável, tornando-as parceiras na cons-
trução de uma sociedade sustentável e justa (ETHOS, 2014b).
Para cumprir com esta missão, o Instituto Ethos propõe-se a disseminar
a prática da responsabilidade social empresarial, ajudando as instituições a
(ETHOS, 2014b):
a. Compreender e incorporar de forma progressiva o conceito do compor-
tamento empresarial socialmente responsável.
b. Implementar políticas e práticas que atendam a elevados critérios éti-
cos, contribuindo para o alcance do sucesso econômico sustentável em
longo prazo.
c. Assumir suas responsabilidades com todos aqueles que são atingidos por
suas atividades.
d. Demonstrar a seus acionistas a relevância de um comportamento social-
mente responsável para o retorno em longo prazo sobre seus investimentos.
e. Identificar formas inovadoras e eficazes de atuar em parceria com as comu-
nidades na construção do bem-estar comum.
f. Prosperar, contribuindo para um desenvolvimento social, econômico e
ambientalmente sustentável.

Em parte, este auxílio materializado na forma dos objetivos do instituto é oferecido


por meio da construção do Relatório de Sustentabilidade Ethos. Este relatório

BALANÇO SOCIAL E AS DIMENSÕES DA SUSTENTABILIDADE


143

também é embasado na estrutura GRI, mas possui a inovação de permitir que as


empresas preencham os dados do Relatório por meio de um questionário online
o qual, após preenchido, gera os indicadores necessários à composição do relató-
rio. Tais indicadores são denominados como “Indicadores de Terceira Geração”,
inspirados na ISO 26.000 (Gestão da Responsabilidade Social Corporativa).
Maiores detalhes sobre estes indicadores podem ser acessados por meio do
seguinte endereço: <http://www3.ethos.org.br/conteudo/iniciativas/indicadores/
estrutura-do-questionario/>.
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

DIMENSÕES DA SUSTENTABILIDADE

Caro(a) aluno(a), estamos nos aproximando do final desta quarta Unidade, a qual
espero que tenha sido bastante útil no entendimento de como a sustentabilidade tem
se inserido no dia a dia das corporações, seja por meio de seus princípios ou por
estratégias específicas, como o Balanço Social ou os Relatórios de Sustentabilidade.
Contudo, ainda precisamos evidenciar a existência de outras dimensões
da sustentabilidade além da clássica tríade do Desenvolvimento Sustentável.
Evidenciamos, no início desta Unidade, que muitas das respostas à pergunta
“O que sei sobre sustentabilidade?” são vinculadas ao seu elemento ambiental.
É valido salientar que o “Ambientalmente Correto” deve ser o discurso, uma
vez que não estamos, enquanto seres humanos, cumprindo com o básico do con-
ceito de sustentabilidade, no que tange à preservação dos recursos para as atuais
e futuras gerações.
Da mesma forma, os demais elementos da tríade da sustentabilidade, quais
sejam, o “Socialmente Justo e Includente” e o “Economicamente Viável”, também
são velhos conhecidos e, de fato, nenhum processo de desenvolvimento se sus-
tenta sem considerar a inclusão, em especial, das camadas mais desfavorecidas da
sociedade e sua apropriação da capacidade de se manter auferindo lucros justos
por seu labor. Entretanto, nos esquecemos de elementos fundamentais, sem os
quais qualquer proposta de desenvolvimento sustentável é meramente efêmera.

Dimensões da Sustentabilidade
144 UNIDADE IV

Você se lembra de que em um momento desta Unidade eu lhe chamei a aten-


ção por meio da seguinte frase: “Impor iniciativas incomuns a uma realidade
não é uma ação recomendada”? Veja que ela novamente se aplica a esta Unidade
ao considerarmos que muitas propostas de Desenvolvimento Sustentável, ou
mesmo projetos de RSC, são impostas de maneira vertical, sem considerar cul-
turas e saberes locais, ou ainda, distantes do senso comum de uma comunidade.
Igualmente, aplicá-las [as propostas] de maneira impositiva, sem transfor-
mar os beneficiários em sujeitos da ação, fazendo com que os mesmos não se
apropriem do processo, negociando politicamente as ações, também faz com que

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
seus resultados sejam questionáveis e abaixo de quaisquer perspectivas.
Assim, além da tríade clássica, existem mais duas dimensões que precisam
ser consideradas para o desenvolvimento de propostas ligadas à sustentabili-
dade: a dimensão política e a dimensão cultural.
Logicamente que esta é uma divisão particular que não visa confrontar visões
de outros autores, afinal, um dos maiores pesquisadores sobre o tema, Ignacy
Sachs (2002, pp. 85-89) afirma em sua obra “Caminhos para o Desenvolvimento
Sustentável” que existem oito dimensões, as quais tomo a liberdade para dividi-
-las em convergentes (social e econômica) e deriváveis (política, derivando-se
em política nacional e internacional; ambiental, derivando-se em ambiental e
ecológica; e cultural, derivando-se em cultural e territorial).
Não obstante, independente do autor em discussão, um fato é verdadeiro: O
desenvolvimento sustentável não se explica mais por meio das dimensões clás-
sicas e, cada vez mais, com o aumento da complexidade das relações humanas,
seja entre os seres humanos ou entre estes e o meio; verifica-se também uma
renovação no enfoque e nos estudos sobres estas dimensões.
Tal fato promove uma reação em cadeia e, se acaso eu tiver a oportunidade
de reescrever esta Unidade daqui vinte anos, ou mesmo se tiver a oportunidade
de encontrar você em alguma curva de nossos caminhos, conversaríamos sobre
este mesmo tema, mas com um enfoque diferenciado e com bases em outras
dimensões. Por consequência, todos os índices, modelos de relatórios de susten-
tabilidade e balanços sociais, e mesmo conceitos sobre a RSC, também seriam
encarados sob um novo enfoque, dado o dinamismo do tema.

BALANÇO SOCIAL E AS DIMENSÕES DA SUSTENTABILIDADE


145

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Infelizmente, caro(a) aluno(a), chegamos ao final de nossa quarta Unidade. Creio


que foi uma rica experiência para todos nós desenvolver novos olhares sobre a
sustentabilidade e entender, de maneira mais aprofundada, como este conceito
se aplica às empresas.
Verificamos, por meio de nossas discussões, a materialização da sustentabi-
lidade não somente por meio das ações sociais e projetos de RSC, mas também
a materialização de seus resultados, por meio dos Relatórios de Sustentabilidade
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

e Balanços Sociais.
Analisamos as diferenças entre os dois tipos de metodologias e tivemos a
oportunidade de apresentar os diferentes modelos disponíveis para sua execução.
Passamos pelos modelos mais famosos, quais sejam, o Ibase e o GRI, respectiva-
mente voltados ao Balanço Social e ao Relatório de Sustentabilidade.
Não obstante, analisamos também os indicadores de desempenho econô-
mico das empresas encarteiradas nas bolsas de valores, por meio dos indicadores
ISE e DJSI, e concluímos que se trata de uma estratégia valiosa para a dissemi-
nação dos princípios de sustentabilidade e RSC.
Entretanto, tornou-se necessário esclarecer sobre a “sustentabilidade”, a qual
nós discutimos e para isso, ao final da Unidade, abrimos uma breve discussão
sobre as dimensões da sustentabilidade. Esta discussão teve por objetivo desmis-
tificar a ultrapassada visão de Desenvolvimento Sustentável representada pela
clássica tríade “Sociedade – Ambiente – Economia”.
Verificamos que, nos dias atuais, a sustentabilidade deve ser entendida por
diferentes matizes, as quais evoluem de acordo com o aumento de complexidade
do tema. Assim, concluímos que existem ao menos cinco dimensões, além da
clássica tríade: Ambiental, Social, Econômica, Cultural e Política.
Certamente estas dimensões evoluirão, assim como todo o conteúdo que
discutimos ao longo da Unidade. Espero que você tenha entendido boa parte
daquilo que nos propomos a explicar e também espero que isto possa ter lhe ser-
vido de elemento encorajador para que você também participe desta construção
contínua que se chama sustentabilidade.

Considerações Finais
1. Você seria capaz de identificar alguma proposta sustentável em sua cidade, a
qual é executada por alguma empresa? Caso consiga, aponte quais os principais
fatores que fazem com que esta proposta seja sustentável. Aponte ainda quais
são os principais atores sociais que promovem esta proposta.
2. Caso você não consiga identificar alguma proposta levantada pela questão 1,
levante os principais motivos que fazem com que propostas sustentáveis não
sejam levadas a cabo, ou ainda, sejam de difícil execução.
3. Nesta Unidade, verificamos que somente empresas de capital aberto encon-
tram-se encarteiradas nos índices de sustentabilidade das principais bolsas de
valores, inclusive a BM&F Bovespa e a Dow Jones. O que significa este termo
“capital aberto”?
4. Faça a leitura e análise crítica do livro a seguir:
MATERIAL COMPLEMENTAR

Caminhos para o desenvolvimento sustentável


Resumo (adaptado): O livro “Caminhos para o Desenvolvimento
Sustentável”, segundo volume da coleção Ideias Sustentáveis, da
Editora Garamond, publicado em 2002 (reeditado em 2008), é
uma excelente introdução às ideias de Sachs sobre a eco-sócio-
economia, uma ciência nova que interliga três disciplinas - a
ecologia política, a sociologia e a economia - e propõe uma nova
maneira de enxergar o desenvolvimento.
Mais do que os três artigos de Sachs publicados no livro,
por iniciativa do Centro de Desenvolvimento Sustentável da
Universidade de Brasília (CDS/UnB), é o Prefácio, escrito pelo ex-reitor
da UnB e atual senador Cristovam Buarque, que mostra o homem por trás do teórico, dando ainda
maior credibilidade à obra do economista. Ex-aluno de Sachs, a quem define como o professor
humanista para o século XXI, Buarque mostra como foi influenciado pelo mestre na descoberta
do valor da natureza, no entendimento do papel da tecnologia e na maneira de fazer ciência e
lidar com a vida.
Trata-se de três artigos que demonstram uma reflexão sobre os processos de desenvolvimento
sustentável, o desenvolvimento da sociedade frente aos novos paradigmas de sustentabilidade
e os atuais conceitos de ecodesenvolvimento, considerando uma utilização mais racional de
recursos pela sociedade brasileira.
O livro traz, ainda, um anexo com os critérios de sustentabilidade social, cultural ecológica,
ambiental, territorial, econômica, política nacional e política internacional, além de uma pequena
biografia e bibliografia do autor.
Fonte: SACHS, I. Caminhos para o desenvolvimento sustentável – Ideias Sustentáveis. 3ª. ed. Rio de
Janeiro: GARAMOND, 2008. 96p.

Material Complementar
Professor Me. Paulo Pardo

V
RESPONSABILIDADE SOCIAL

UNIDADE
CORPORATIVA E CIDADANIA
EMPRESARIAL

Objetivos de Aprendizagem
■■ Conhecer os principais aspectos da responsabilidade e cidadania
social empresarial.
■■ Apresentar os conceitos de responsabilidade social sob a ótica da
governança corporativa e ética empresarial.
■■ Compreender os fundamentos da sustentabilidade corporativa.

Plano de Estudo
A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade:
■■ Responsabilidade e Cidadania Social Empresarial
■■ Governança Corporativa e ética
■■ Sustentabilidade Corporativa
151

INTRODUÇÃO

Caro(a) estudante,
Você já pensou como somos dependentes das organizações? Desde que
você se levanta pela manhã, se desloca para o trabalho, o seu próprio trabalho,
quando você retorna para sua casa e até quando você se deita, você depende de
organizações.
Elas estão presentes na energia nas tomadas e nos móveis de sua casa (o seu
confortável colchão foi produzido por uma organização!), nos veículos que você
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

utiliza, o computador em que você acessa suas aulas, no alimento que te nutre,
enfim, você não sobreviveria no mundo moderno sem as organizações.
Imaginar isso nos dá realmente em que pensar, não é mesmo? As organi-
zações modificam a natureza, mudam os hábitos sociais, ditam nossa rotina,
cuidam até da nossa saúde e da morte das pessoas! Quanta responsabilidade
têm as organizações!
Você se sente confortável com essa realidade? Confesso que isso me incomoda
e, como eu, muitas outras pessoas pensam neste papel vital das organizações e, no
mínimo, querem pensar que as organizações desempenharão suas atividades pen-
sando no bem-estar das pessoas e nos biossistemas que compõem nosso planeta.
Infelizmente, nem sempre é assim. Conforme você viu ao longo deste livro,
as organizações empresariais têm por finalidade o lucro em primeiro lugar. Não
que isso seja ilegal, afinal, sem lucro elas não podem existir e cumprir outros
papéis que se esperam delas. Mas como elas estão cumprindo esses papéis que
vão além do simples lucro?
Esse é o objetivo desta Unidade final, onde avaliaremos conceitos importan-
tes, como governança corporativa, ética e cidadania empresarial. Veremos como
a responsabilidade social deve se alinhar aos objetivos estratégicos das organi-
zações modernas.
Bons estudos!
Prof. Me. Paulo Pardo

Introdução
152 UNIDADE V

“Chego à sacada e vejo a minha serra,


a serra de meu pai e meu avô [...]
Esta manhã acordo e
não a encontro.
Britada em bilhões de lascas

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Deslizando em correia transportadora [...].”
– Carlos Drummond de Andrade

RESPONSABILIDADE E CIDADANIA SOCIAL


EMPRESARIAL

Vimos na Introdução desta Unidade que as organizações estão presentes de forma


permanente em nossas vidas, do nosso nascimento até a morte. Além desta pre-
sença, muitas pessoas não fazem ideia do poder econômico das organizações.
Para ilustrar essa afirmação, pesquisei em alguns sites o faturamento de algumas
empresas mundiais e brasileiras e montei um quadro comparativo com o PIB
(Produto Interno Bruto) de alguns países. O resultado é surpreendente.

EMPRESA FATURAMENTO 2010 PAÍS PIB 2010


Wal Mart 422 Noruega 414
Exxon Mobil 355 Tailândia 319
Chevron 196 República Checa 192
Conoco Phillips 185 Paquistão 174
Fannie Mae 154 Peru 153
General Electric 152 Nova Zelândia 140
Berkshire Hathaway 136 Hungria 129
General Motors 135,5 Bangladesh 105

RESPONSABILIDADE SOCIAL CORPORATIVA E CIDADANIA EMPRESARIAL


153

EMPRESA FATURAMENTO 2010 PAÍS PIB 2010


Bank of America 134,2 Vietnã 103,5
Ford 129 Marrocos 103,5
Quadro 7: Comparativo do faturamento de empresas mundiais com o PIB de países
Fonte: o autor, baseado em Juliboni (2011)

Se você acha que isso é exclusividade de empresas estrangeiras, saiba que em


nosso país existem empresas mais poderosas em termos de geração de rique-
zas que muitos países latino-americanos. Veja no Quadro 8 um comparativo
de empresas nacionais ou multinacionais com operações no Brasil (conside-
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

rando apenas, neste caso, o faturamento em solo brasileiro) com o PIB de nações
latino-americanas.

EMPRESA COM FATURAMENTO MAIOR QUE O PAÍS


EMPRESA PAÍS
BB Argentina
Itaú Unibanco Colômbia
Bradesco Venezuela
Petrobrás Chile
Santander Brasil Peru
Vale Equador
BTG Pactual Costa Rica
Oi Panamá
Telefônica Brasil Bolívia
Gerdau Paraguai
Quadro 8: Comparativo de empresas brasileiras com faturamento maior que países latinos
Fonte: o autor, baseado em Barbosa (2012)

Chega a ser assustador, não é? Saber que uma companhia pode gerar mais riqueza
que um país e que é o país responsável por prover educação, segurança, saúde,
moradia etc., aos seus habitantes, e não as empresas, faz pensar que o capita-
lismo promove distorções que são difíceis de remediar. Esse poder econômico
das grandes corporações pode desestabilizar uma nação inteira. Mesmo empre-
sas médias têm poder de influência sobre a sociedade.

Responsabilidade e Cidadania Social Empresarial


154 UNIDADE V

Veja o que acontece, por exemplo, em pequenos municípios, onde os pre-


feitos locais se esforçam em promover programas de industrialização com a
ideia de fixar a população local com oferta de emprego e renda. Estes progra-
mas, para serem bem-sucedidos, são ofertados com um “pacote” de benefícios,
como a isenção temporária de impostos, cessão de terrenos e outras benesses.
Lembro-me de um caso de uma pequena cidade que havia ofertado há alguns
anos um terreno e isenção de impostos para uma fábrica para que se instalasse
no município. A empresa realmente fez isso, empregando mais de uma centena
de pessoas. Quando os benefícios expiraram, a empresa simplesmente “fez as

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
malas”, por assim dizer, fechou suas portas e deixou de operar na cidade, provo-
cando um desemprego muito grande entre famílias locais.
Todos esses fatos relatados mostram que a empresa deve ser mais que um
registro oficial, um CNPJ. Ela tem obrigações morais, sociais e ambientais. Isso
porque uma empresa, se compararmos com um sistema aberto, recebe, transforma
e devolve para seu entorno seus processos. Este conceito é muito importante e
está ilustrado na Figura 14 abaixo:

Entradas Saídas
Ma
tér
ia-
pri AMBIENTE
ma ns
Be
Insum
os
Processos de
Serviços
Transformação
as
Pesso Rej
eito
etc s
ital
ca
p AMBIENTE
gia,
er
En

Figura 14: Organização como sistema aberto


Fonte: o autor

Observe – e é assim com todas as organizações – que uma organização empresarial


se relaciona com seu meio, é suprida em suas necessidades para seus processos de
transformação por entradas do meio, como pessoas, matérias-primas, insumos,

RESPONSABILIDADE SOCIAL CORPORATIVA E CIDADANIA EMPRESARIAL


155

capital, energia, entre tantos outros. Após sofrerem transformação, os recur-


sos a serem transformados tornam-se produtos e serviços que são consumidos
pelo ambiente. Também é para o ambiente que são direcionados os rejeitos de
produtos e do próprio processo produtivo. E o que compõe o meio? Além dos
complexos biossistemas, não se esqueça de que é no meio que se encontram
todos os stakeholders da organização. Portanto, os stakeholders afetam e são afe-
tados pelas operações organizacionais.
Gostaria de lembrá-lo(a) que a responsabilidade corporativa perante a socie-
dade já havia sido discutida desde o início do século XX, quando Henry Ford
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

planejou ações para beneficiar funcionários e consumidores (assunto que discu-


timos na Unidade II). Também vimos na Unidade II que, com o tempo, a própria
justiça americana favoreceu as ações de filantropia empresarial, considerando
que os dirigentes das organizações poderiam reduzir o lucro dos acionistas dire-
cionando parte desses lucros para ações beneméritas.
Porém, essa discussão se ampliou. Justamente porque ações de filantropia
empresarial são um tipo de ajuda que a empresa pode prestar eventualmente e
não de forma sistemática. Os estudos acadêmicos e a discussão social voltaram-
-se para ações mais sistêmicas, onde houvesse um aspecto normativo maior, ou
seja, as ações da organização voltadas à sociedade deveriam, sob esta perspec-
tiva, fazer parte dos processos empresariais. Estudos importantes fizeram parte
desta discussão, destacando-se o de Carroll (1979), Wartick e Cochran (1985) e
Wood (1991). Cada trabalho tem sua importância dentro de seu escopo de pes-
quisa, porém, vamos dar atenção especial ao trabalho de Carroll (1979).
Archie B. Carroll é professor emérito da Universidade da Geórgia, EUA, e
é, com certeza, um dos mais citados pesquisadores na área de Responsabilidade
Social Corporativa. Conforme Barbieri e Cajazeira (2012), a definição que Carroll
propôs para a Responsabilidade Social Corporativa em um artigo em 1979 é
uma das mais utilizadas em estudos acadêmicos. Por essa definição, responsabi-
lidade social corporativa compreende as expectativas econômicas, legais, éticas e
discricionárias que a sociedade tem para com as organizações. O termo “discri-
cionária” foi substituído pelo próprio Carroll posteriormente para “filantrópica”.
Para Carroll, a empresa como sistema aberto, como vimos, tem a obrigação
de promover ações filantrópicas como uma espécie de restituição à sociedade de

Responsabilidade e Cidadania Social Empresarial


156 UNIDADE V

parte das entradas que recebeu. Carroll propôs então um modelo em formato
de pirâmide, que auxilia a compreender a Responsabilidade Social Empresarial,
conforme a Figura 15 abaixo:

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Figura 15: Pirâmide da Responsabilidade Social Empresarial de Carroll
Fonte: Barbieri e Cajazeira (2012)

No Quadro 9 abaixo, temos uma explanação de cada uma das dimensões retra-
tadas na pirâmide de Carroll:

DIMENSÃO DETALHAMENTO
Empresa deve ser lucrativa. O lucro advém dos produtos e serviços
Responsabilidade
demandados pela sociedade. As demais dimensões estão condi-
econômica
cionadas pelo lucro. É, portanto, a base da RSE.
Empresa deve atuar dentro dos limites legais impostos pela pró-
Responsabilidade
pria sociedade, que permite a existência do sistema econômico no
legal
qual a empresa opera.
Representa a expectativa de que a empresa faça o que é bom
Responsabilidade e justo, evitando ou minimizando danos às pessoas e ao meio
ética ambiente. Não necessariamente as ações éticas são prescritas por
uma lei específica.
Atende às expectativas da sociedade para com a empresa para
Responsabilidade
que ela se comporte como uma boa cidadã. Envolve o comprome-
filantrópica
timento em ações e programas que promovam o bem-estar social.
Quadro 9: Dimensões da RSE de Carroll
Fonte: o autor, baseado em Barbieri e Cajazeira (2012)

RESPONSABILIDADE SOCIAL CORPORATIVA E CIDADANIA EMPRESARIAL


157

A sociedade espera que a organização cumpra com todas as dimensões de sua


responsabilidade social simultaneamente e não de forma linear, ou seja, que uma
ação se suceda a outra.
Sobre este tema, Toldo (2002, p. 84) afirma que Responsabilidade social
São estratégias pensadas para orientar as ações das empresas em con-
sonância com as necessidades sociais, de modo que a empresa garanta,
além do lucro e da satisfação de seus clientes, o bem-estar da sociedade.
A empresa está inserida nela e seus negócios dependerão de seu desen-
volvimento e, portanto, esse envolvimento deverá ser duradouro. É um
comprometimento.
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

A UNCTAD (sigla em inglês para Conferência das Nações Unidas para o Comércio
e Desenvolvimento), em 2003, expressou que
A responsabilidade social da empresa vai além da filantropia. Na maio-
ria das definições se descreve como as medidas constitutivas pelas
quais as empresas integram preocupações da sociedade em suas polí-
ticas e operações comerciais, em particular, preocupações ambientais,
econômicas e sociais. A observância da lei é o requisito mínimo que
deverão cumprir as empresas (DIAS, 2011, p. 174).

Na Rio+10, realizada em Johannesburgo em 2002, o WBCSD (sigla em inglês


para Conselho Mundial Empresarial para o Desenvolvimento Sustentável) res-
gatou o conceito de Responsabilidade Social Empresarial nos seguintes termos:
O compromisso da empresa de contribuir ao desenvolvimento econô-
mico sustentável, trabalhando com os empregados, suas famílias, a co-
munidade local e a sociedade em geral para melhorar sua qualidade de
vida (DIAS, 2011, p. 174).

Perceba que todos esses conceitos são convergentes. Entende-se a empresa ao


mesmo tempo como sistema aberto, que interage com seu meio, e como orga-
nismo vivo, com direcionamentos (embora ditados em última instância por
pessoas). Portanto, como uma pessoa dotada de direitos, mas também de deve-
res, a empresa tem direitos de exercer suas atividades, concedidos pelo próprio
sistema econômico adotado pela sociedade, porém tem deveres e deve ser cum-
pridora de leis e exercer, como qualquer pessoa, uma boa cidadania.

Responsabilidade e Cidadania Social Empresarial


158 UNIDADE V

CIDADANIA EMPRESARIAL

O conceito de cidadania empresarial tem sido colocado em pauta nos últimos


anos, porém, a maioria dos autores acaba por utilizar cidadania empresarial como
sinônimo de responsabilidade social empresarial. No entanto, principalmente
a partir do final dos anos 1990 e início dos anos 2000, o conceito de cidadania
empresarial foi reforçado sob alguns aspectos mais particulares.
Por exemplo, Ashley, Coutinho e Tomei (2000) relembram que foi nos EUA,
em um discurso do então presidente Bill Clinton para uma audiência composta

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
por empresários, líderes trabalhistas, estudantes e outros representantes da socie-
dade que o tema foi abordado com mais ênfase, citando Clinton cinco princípios
da cidadania empresarial:
Ambientes de trabalho favoráveis à vida familiar dos empregados, se-
guro saúde e plano de previdência, segurança no trabalho, investimen-
to nos empregados e parceria com os empregados (ASHLEY; COUTI-
NHO; TOMEI, 2000, p. 7).

Essa abordagem é muito maior do que a simples filantropia empresarial, fato


reconhecido inclusive por empresários brasileiros. Por exemplo, em um evento
promovido pela Câmara Americana de Comércio em São Paulo, os empresá-
rios destacaram que filantropia empresarial dá conotação de um paternalismo
das empresas para com a sociedade, enquanto que cidadania empresarial seria
um termo mais adequado porquanto a empresa-cidadã “não foge aos compro-
missos de trabalhar para a melhoria da qualidade de vida de toda a sociedade”
(ROHDEN, 1996 apud ASHLEY; COUTINHO; TOMEI, 2000, p. 9).
Esta evolução conceitual foi pontuada por Martinelli (1997), que a classifi-
cou em 3 estágios, demonstrados a seguir:
a. A empresa unicamente como um negócio, instrumento de interesses
para o investidor, que em geral não é um empresário, e sim um “ho-
mem de negócios” com uma visão mais imediatista e financeira dos
retornos de seu capital;

RESPONSABILIDADE SOCIAL CORPORATIVA E CIDADANIA EMPRESARIAL


159

b. A empresa como organização social que aglutina os interesses de


vários grupos de stakeholders – clientes, funcionários, fornecedores,
sociedade (comunidade) e os próprios acionistas – e mantém com eles
relações de interdependência. Estas relações podem estar refletidas em
ações reativas (resolução de conflitos) ou pró-ativas, tendo para cada
grupo de stakeholders uma política clara de atuação.

c. A empresa-cidadã que opera sob uma concepção estratégica e um


compromisso ético, resultando na satisfação das expectativas e respeito
dos parceiros (MARTINELLI, 1997 apud ASHLEY; COUTINHO; TO-
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

MEI, 2000, p. 9).

Neste conceito ampliado, embora a empresa possa colher resultados financeiros


positivos pela sua atuação como empresa-cidadã, na forma de uma preferência
de compra por parte de consumidores conscientes, este não seria o foco prin-
cipal. A empresa-cidadã, na verdade, empregaria “os mesmos recursos de seu
negócio em prol da transformação da sociedade e do desenvolvimento do bem
comum” (ASHLEY; COUTINHO; TOMEI, 2000, p. 10).
Martinelli (1997 apud ASHLEY; COUTINHO; TOMEI, 2000) elenca ganhos
substanciais que a empresa poderia colher por sua postura cidadã:
■■ valor agregado à sua imagem;

■■ desenvolvimento de lideranças mais conscientes e socialmente res-


ponsáveis;

■■ melhoria do clima organizacional e da satisfação e motivação decor-


rentes de aumento de auto-estima;

■■ reconhecimento e orgulho pela participação em projetos sociais,


entre outras vantagens (MARTINELLI, 1997 apud ASHLEY; COUTI-
NHO; TOMEI, 2000, p. 9).

Esses ganhos, como frisado, embora não sejam o objetivo principal, sem dúvida
são bastante atrativos, incentivando os gestores a pensarem seriamente na ado-
ção desta postura cidadã.

Responsabilidade e Cidadania Social Empresarial


160 UNIDADE V

Várias iniciativas da sociedade civil organizada têm alinhamento com os


princípios da cidadania empresarial. Grupos de empresários têm se mobili-
zado para investir de forma planejada em negócios sociais e outras iniciati-
vas que possam resultar em benefícios concretos às populações assistidas.
Sobre iniciativas desta natureza, conheça o ICE – Instituto de Cidadania Em-
presarial, entidade fundada no final da década de 1990 por um grupo de
empresários que têm como missão “articular líderes transformadores para o

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
desenvolvimento social”.
Disponível em: <www.ice.org.br>.
No link indicado acima, você terá mais detalhes sobre o interessante traba-
lho desenvolvido por este Instituto. Vale a pena conferir!

GOVERNANÇA CORPORATIVA E ÉTICA

No decorrer desta Unidade, tratamos da responsabilidade social empresarial e


do conceito de empresa cidadã, porém, sabemos que muitos empresários têm
boas intenções com relação as suas empresas, até promovem algumas ações
filantrópicas (como doação de cobertores no inverno, brinquedos no dia das
Crianças e Natal e outras ações pontuais). No entanto, muitas vezes não se passa
desse degrau, não se avançando concretamente em internalizar a responsabili-
dade social e cidadania empresarial no DNA da empresa, na sua missão e visão
de longo prazo.
Por que isso acontece? Um dos maiores problemas de fato é transformar
intenções em ações. Ou, dito de outra forma, falta o poder de fazer acontecer.
Esse ponto nos remete a um conceito importante para nosso entendimento de
responsabilidade social e cidadania empresarial que é o de GOVERNANÇA
CORPORATIVA.

Afinal, o que vem a ser isso?


De acordo com Barbieri e Cajazeira (2012, p. 196), o conceito de governança
refere-se às relações de poder no interior de uma organização, “o modo como

RESPONSABILIDADE SOCIAL CORPORATIVA E CIDADANIA EMPRESARIAL


161

diferentes agentes resolvem conflitos relativos à direção da empresa. Pode-se


dizer, grosso modo, que se trata da forma de exercer o poder”.
Veja que essa ideia é muito forte: nem sempre quem detém o poder consegue
de fato exercê-lo em sua plenitude, devido a diversas variáveis, sendo a resistên-
cia de setores organizados dentro da organização uma delas.
O termo Governança Corporativa ganhou os meios econômicos de uma
forma mais intensa quando se considera as companhias de capital aberto (aquelas
que têm ações comercializadas em bolsa de valores). Essas empresas, para finan-
ciarem suas operações, contam com o ingresso de recursos de investidores, que,
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

acreditando que a empresa possui bons fundamentos de gestão, aceitam aportar


recursos em suas atividades, tornando-se, dessa forma, “donos” da empresa, na
medida do número de ações que possuem. Veja que, para um investidor acre-
ditar nos fundamentos da gestão de uma empresa, essa gestão deve ser feita de
forma transparente, obedecendo às normas da própria organização, bem como
regulamentos legais e de mercado.
Não é por acaso que o Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC)
define o termo Governança Corporativa como:
Governança Corporativa é o sistema pelo qual as organizações são di-
rigidas, monitoradas e incentivadas, envolvendo as práticas e os rela-
cionamentos entre proprietários, conselho de administração, diretoria
e órgãos de controle. As boas práticas de Governança Corporativa con-
vertem princípios em recomendações objetivas, alinhando interesses
com a finalidade de preservar e otimizar o valor da organização, fa-
cilitando seu acesso ao capital e contribuindo para a sua longevidade
(IBGC, online).

Essa é uma premissa clara. Imagine que você, como possuidor de uma reserva
financeira, decida investir em uma empresa, acreditando que ela possa crescer,
dar lucros e, dessa forma, remunerar seu investimento de forma justa. É claro
que você gostaria que essa empresa tivesse uma gestão correta, livre de desvios
ou corrupção, que tomasse decisões que levassem em conta os interesses de todas
as partes interessadas, sendo incluídos nessas partes interessadas, evidentemente,
seus investidores! Isso é, em essência, o princípio da boa governança corporativa.
O mercado reconhece a importância dessas boas práticas e costuma premiar
aquelas empresas que têm ações de governança mais intensas e transparentes.

Responsabilidade e Cidadania Social Empresarial


162 UNIDADE V

Para você ter noção de como isso é importante para o mercado, a própria Bolsa
de Valores de São Paulo, desde o ano 2000 instituiu uma classificação de empre-
sas que possuem ações comercializadas em seus pregões, compondo níveis
diferenciados de listagem de acordo com as práticas de governança corpora-
tiva apresentadas. O nível máximo são as empresas classificadas no chamado
Novo Mercado. Se você consultar o portal da BMFBovespa, verá esta classifica-
ção desta forma:
Lançado no ano 2000, o Novo Mercado estabeleceu desde sua criação
um padrão de governança corporativa altamente diferenciado. A partir

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
da primeira listagem, em 2002, ele se tornou o padrão de transparên-
cia e governança exigido pelos investidores para as novas aberturas de
capital. Na última década, o Novo Mercado firmou-se como uma seção
destinada à negociação de ações de empresas que adotam, voluntaria-
mente, práticas de governança corporativa adicionais às que são exigi-
das pela legislação brasileira. A listagem nesse segmento especial im-
plica na adoção de um conjunto de regras societárias que ampliam os
direitos dos acionistas, além da adoção de uma política de divulgação
de informações mais transparente e abrangente. O Novo Mercado con-
duz as empresas ao mais elevado padrão de Governança Corporativa
(BMFBovespa, online).

Esse tipo de governança acaba por trazer vantagens acessórias, como a confiança
perante o mercado, o que conduz à facilitação de captação de recursos quando a
empresa lança novas ações para serem comercializadas, visando financiar seus
projetos. Este “prêmio” da confiança dos investidores não é por acaso. Conforme
salientam Barbieri e Cajazeira (2012),
A crescente demanda por parte da sociedade de boas práticas empresa-
riais, e que não raro se transformam em novas leis, tem levado muitos
investidores a dar preferência para as empresas que se mostram res-
ponsáveis em termos econômicos, sociais e ambientais, pois, em tese,
seriam as que irão acumular menos passos ao longo do tempo e que po-
derão ser exigidos algum dia (BARBIERI; CAJAZERIA, 2012, p. 197).

Assim, o mercado espera práticas de governança nesses três níveis (econômi-


cos, sociais e ambientais) não só por uma questão de boa cidadania empresarial,
mas, em última instância, por questões econômicas. Os investidores avaliam
que uma empresa assim se perpetuará no mercado por muito mais tempo. Uma
empresa com práticas oportunistas, como a exploração do trabalho infantil ou

RESPONSABILIDADE SOCIAL CORPORATIVA E CIDADANIA EMPRESARIAL


163

com condições de trabalho análogas à escravidão, será, mais cedo ou mais tarde,
punida pelo próprio mercado, que detrairá seus produtos em relação às empre-
sas com prática de governança corporativa eticamente responsável.

Ética empresarial
Como vimos, os stakeholders (em especial, os acionistas) desejam que a orga-
nização apresente bons níveis de governança corporativa, pois isso tende a
favorecer a perenidade dessa organização. Vimos também que as empresas com
boa governança corporativa são eticamente responsáveis. Mas o que vem a ser
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

ética empresarial?
Este conceito é muito importante em um estudo sobre responsabilidade
social empresarial. Uma definição oferecida para ética empresarial é o “compor-
tamento da empresa entendida como lucrativa quando age em conformidade
com os princípios morais e as regras do bem proceder aceitas pela coletividade
(regras éticas) (MOREIRA, 1999 apud ALENCASTRO, 2010, p. 62).
Essa ética empresarial começou a ser discutida mais fortemente na Alemanha
nos anos 1960, quando os trabalhadores passaram a ter uma participação mais
ativa nos rumos das empresas, participando em seus conselhos de administração.
A partir daí começou-se a debater mais seriamente questões como corrupção,
liderança e responsabilidades corporativas (ALENCASTRO, 2010).
A preocupação com ética empresarial ganha força à medida que o impacto
das ações da organização sobre a coletividade também aumenta. Quanto maior
a organização e mais intensas suas atividades, mais influência tomam suas ações
sobre as pessoas afetadas de diversas formas. A organização, no entanto, é uma
instituição social e, portanto, as pessoas que a compõem têm interesses que nem
sempre se alinham com as diretrizes corporativas. Quando esse desalinhamento é
posto em prática, todos saem perdendo. Por exemplo, trabalhadores que somente
defendem seus interesses podem ter vantagens no curto prazo, porém, em longo
prazo, podem sair perdendo caso a empresa entre em dificuldades. Executivos
que são remunerados por performance tendem a tomar decisões visando ao
aumento da lucratividade no curto prazo, pois terão ganhos em seus salários
variáveis. Considerando o longo prazo, porém, todos perderão. Ou, como afir-
mam Sung e Silva (1995 apud ALENCASTRO, 2010, p. 64),

Responsabilidade e Cidadania Social Empresarial


164 UNIDADE V

dois problemas levaram os executivos e os teóricos da administração a


se debruçar sobre questões éticas. Perceberam que a ausência de ética e
a simples defesa do interesse próprio põem em perigo a sobrevivência
das empresas e, portanto, de seus próprios empregos. É o instinto de
sobrevivência falando mais alto que as teorias aprendidas na escola.

Um exemplo notório sobre esta preocupação com a ética foi a crise finan-
ceira internacional originada nos EUA em 2008. No final desta Unidade,
recomendo que você assista ao documentário Trabalho Interno (Inside Job)
de 2010, que relembra os motivos reais por trás desta crise. Naquela ocasião,
motivados por polpudos bônus por performance, executivos de grandes ban-

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
cos e seguradoras fizeram malabarismos financeiros com papéis “podres”,
engordando seus contracheques com milhões de dólares, porém, lançando
o sistema financeiro internacional em uma crise profunda, que afeta econo-
mias de países até hoje.
Em um mundo globalizado, onde as empresas precisam fechar parcerias em
diversos pontos do planeta, a ética torna-se fundamental, pois a empresa não
pode mais eximir-se de responsabilidade em relação à atuação de seus parcei-
ros. Toda a cadeia produtiva deve estar alinhada aos mesmos princípios éticos
da principal organização. Comentamos ao longo deste livro os casos da Nike no
mundo e de empresas no Brasil que, por não se atentarem às suas responsabili-
dades, acabaram por macular sua imagem, efeito difícil de remediar.
Alencastro (2010) pontua as considerações de Linda Starke, que compara a
evolução da ética empresarial ao desenvolvimento de uma criança em seu ama-
durecimento emocional.
Para Starke (1999 apud ALENCASTRO, 2010), a empresa passa por cinco
etapas em sua evolução moral, retratadas no Quadro 10 a seguir:

ETAPA DESCRIÇÃO
Persegue o lucro a qualquer custo; encara os
empregados como meras unidades de produ-
Etapa 1: Corporação amoral ção. Frequentemente viola normas e legislação.
Não tem nenhuma preocupação social ou
ambiental.

RESPONSABILIDADE SOCIAL CORPORATIVA E CIDADANIA EMPRESARIAL


165

ETAPA DESCRIÇÃO
Adota leis, mas não entende seu espírito. Volta-
Etapa 2: Corporação legalista da ao cumprimento de legislação e uma postura
“ética” apenas para evitar problemas legais.
Mostra-se responsável por conveniência; já pos-
sui códigos de conduta que parecem códigos de
ética. Forçada a essa posição por acontecimen-
Etapa 3: Corporação receptiva tos externos (receio de perda de mercado). Está
no estágio inicial de entender que as posições
éticas podem ser de interesse no longo prazo,
mesmo com perdas econômicas imediatas.
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Reconhece a existência de um contrato social


entre os negócios e a sociedade, procurando
generalizar essa atitude ao longo da corporação.
Etapa 4: Corporação ética que
Está disposta a sofrer prejuízos financeiros para
aflora
reparar qualquer dano causado por suas ativida-
des (ou de um parceiro que opera parte de suas
operações) à sociedade.
Equilibra lucros e ética tão completamente que
os empregados são recompensados por se afas-
tarem de ações comprometedoras. Inclui pro-
Etapa 5: A corporação ética
blemas éticos na educação. Dispõe de mentores
para dar orientação moral aos novos emprega-
dos. A instância moral permeia sua cultura.
Quadro 10: Fases da evolução moral de uma organização
Fonte: o autor, com base em Alencastro (2010)

Se você já fez um estudo profundo sobre ética, verá que existem vertentes filo-
sóficas bem distintas que teorizam de diversas formas o próprio termo e sua
aplicação na vida em sociedade. Por isso, para fins acadêmicos, e principalmente
para um estudante de teorias e práticas de gestão, convém reforçar que a pers-
pectiva da ética que consideramos neste texto é a perspectiva da ética aplicada,
ou seja, aquela que contribui para o funcionamento da sociedade na forma em
que se estruturou e validou atualmente, de uma economia de mercado, de livre
empreendimento, de perspectiva capitalista. Não é o caso, no escopo de nossos
estudos neste momento, adentrar em outras perspectivas, até porque isso requer
uma pesquisa maior de outros paradigmas de conhecimento.

Responsabilidade e Cidadania Social Empresarial


A JOHNSON E JOHNSON E O CASO TYLENOL

Imagine um mercado de US$1 bilhão! Esse buidores e revendedores para retirarem


era o tamanho do mercado de analgésicos mais de US$100 milhões em produtos
nos EUA em 1981, do qual o medicamento Tylenol das prateleiras, estivessem eles
Tylenol da Johnson e Johnson detinha 35%. contaminados ou não.
Uma autêntica “galinha dos ovos de ouro”.
Até que, em 1982, começaram a ocorrer Essa pronta resposta da Johnson e John-
inesperados casos de morte por envene- son – que custou ao final mais de US$ 1
namento por cianeto e por estriquinina, bilhão em indenizações, retirada de pro-
em pontos diversos do país, provocados duto, mudança nos processos de produção
pela ingestão de Tylenol Extra-Forte. A cre- – foi um exemplo de gerenciamento de
dibilidade e a imagem da empresa e do crise e que a empresa, embora não cul-
medicamento estavam em cheque! pada diretamente pelo ocorrido (havia
sido um maníaco que envenenou os lotes
O que fazer? A Johnson e Johnson agiu do produto) não se eximiu de sua respon-
rápido. Enviou imediatamente seus distri- sabilidade perante o público.
Leia o caso em detalhes no link:
<http://www.portal-rp.com.br/bibliotecavirtual/relacoespublicas/administracaodecri-
ses/0089.htm>.
167

Atualmente, no campo das Ciências Sociais, incluindo o Direito, entende-se que


uma empresa só pode ser de fato ética se, nas suas atividades empresariais, con-
siderar o bem comum, incluindo os seus empregados, que devem ser tratados
de forma justa e serem remunerados de tal forma que lhes proporcione condi-
ções satisfatórias de vida, assim como respeitar os ditames legais de respeito aos
mercados, às regras de concorrência, ao pagamento de impostos e outras obri-
gações entendidas como morais pela sociedade.
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

SUSTENTABILIDADE CORPORATIVA

Um dilema presente para todos os gestores é como perenizar a organização


no tempo, ou seja, como proceder para que a organização continue existindo
e prestando seus serviços à sociedade na forma de produtos e serviços que são
demandados, ao mesmo tempo devolvendo a essa mesma sociedade aquilo que
dela foi utilizado, na forma de entradas nos processos produtivos, conforme já
estudamos neste livro.
As teorias de gestão oferecem diversas respostas, mas uma que nos interessa
particularmente e que vem tomando a agenda dos administradores modernos
é o conceito de sustentabilidade corporativa.
Ao longo deste livro, você foi apresentado(a) ao conceito de sustentabili-
dade, e especialmente a partir de uma definição de sustentabilidade oferecida
pelo relatório Nosso Futuro Comum, entende-se que as atividades humanas do
presente (principalmente falando em termos de uso de recursos para explora-
ção econômica) não podem comprometer as gerações futuras de atenderem a
suas necessidades.
A organização que pensa em termos de sustentabilidade, imaginaria suas
atividades atendendo às gerações presentes e também às futuras gerações, per-
petuando-se no tempo. Essa visão de longo prazo realmente não cabe para as
organizações imediatistas, que focam no resultado de curto prazo com a filoso-
fia do “lucro pelo lucro”.
Você já viu conceitos de sustentabilidade ao longo deste livro, mas gostaria de
apresentar-lhe este conceito importante, conforme entendido por Philippi (2001):

Responsabilidade e Cidadania Social Empresarial


168 UNIDADE V

Sustentabilidade é a capacidade de se auto-sustentar, de se auto-manter.


Uma atividade sustentável qualquer é aquela que pode ser mantida por
um longo período indeterminado de tempo, ou seja, para sempre, de
forma a não se esgotar nunca, apesar dos imprevistos que podem vir a
ocorrer durante este período. Pode-se ampliar o conceito de sustenta-
bilidade, em se tratando de uma sociedade sustentável, que não coloca
em risco os recursos naturais como o ar, a água, o solo e a vida vegetal e
animal dos quais a vida (da sociedade) depende (PHILIPPI, 2001 apud
ARAÚJO et al., 2006, p. 9).

Veja que a definição apresentada vem ao encontro do desejo dos administradores


de perenizar as atividades de sua empresa no tempo, por um período indeter-

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
minado, porém, presumidamente longo.
A sustentabilidade é entendida como um equilíbrio entre sustentabilidade
econômica, ambiental e social, conforme já vimos. Essa visão nos é apresentada
na Figura 16 abaixo:

SUSTENTABILIDADE

SUSTENTABILIDADE
ECONÔMICA + SUSTENTABILIDADE
AMBIENTAL + SUSTENTABILIDADE
SOCIAL

• Tecnologias limpas
• Vantagem competitiva • Reciclagem • Assumir responsabilidade
social
• Qualidade e custo • Utilização sustentável
de recursos naturais • Suporte no crescimento
• Foco da comunidade
• Atendimento a legislação
• Compromisso com o
• Mercado • Tratado de efluentes e desenvolvimento dos RH
resíduos
• Resultado • Promoção e participação
• Produtos ecologicamente em projetos de cunho
• Estratégias de negócios corretos social
• Impactos ambientais

Figura 16: Fundamentos da sustentabilidade empresarial


Fonte: Araújo et al. (2006)

Essa forma de pensar compõe, conforme a Figura 16 indica, um chamado tripé


da sustentabilidade que, conforme Pereira, Silva e Carbonari (2011, p. 156), “na

RESPONSABILIDADE SOCIAL CORPORATIVA E CIDADANIA EMPRESARIAL


169

prática significa a criação de produtos e serviços que contribuam efetivamente


para a melhoria da performance socioambiental dos seus públicos internos e exter-
nos, finalmente percebidos como relevantes para os seus resultados operacionais”.
As grandes corporações têm buscado alinhar seus negócios à luz deste tripé
da sustentabilidade, adotando em suas políticas as diretrizes internacionais da
GRI (Global Reporting Initiative) que, conforme você viu na Unidade IV, é uma
Organização Não Governamental (ONG) internacional que desenvolve e dis-
semina diretrizes úteis para que as empresas possam utilizar em seus relatórios
de sustentabilidade.
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Nas diretrizes da GRI, as organizações fornecem informações sobre o seu


perfil, sua forma de gestão e seus indicadores de desempenho. Sobre estes indi-
cadores de desempenho, Pereira, Silva e Carbonari (2011, p. 157) informam que
o objetivo é mensurar os impactos da organização em quesitos como:
Os sistemas sociais nos quais opera: para isso são aferidos os aspectos
de desempenho fundamentais referentes a suas práticas trabalhistas,
seus direitos humanos, sociedade e responsabilidade por produtos e/
ou serviços.

As condições econômicas de seus stakeholders: aferindo o seu de-


sempenho em nível local, nacional e global. Por exemplo, sua presença
no mercado e suas responsabilidades indiretas.

Os sistemas naturais vivos e não vivos: incluem ecossistemas, terra, ar


e água. Abrangem o desempenho da organização relacionado a insu-
mos, matéria-prima, energia e água (e a emissões de efluentes e de re-
síduos), bem como aqueles relativos à biodiversidade, à conformidade
ambiental, aos gastos com a preservação do meio ambiente e como os
seus produtos e/ou serviços o afetam (PEREIRA; SILVA; CARBONA-
RI, 2011, p. 157).

As empresas podem fazer uma autoavaliação constante utilizando-se de instru-


mentos de medição, que são ferramentas gerenciais poderosas. Essa avaliação
deve permear toda a cadeia de valor da empresa, ou seja, todas as operações
envolvendo todos os parceiros, tanto pelo lado do fornecimento como pelo lado
da distribuição e tratamento final dos produtos pós-consumo.

Responsabilidade e Cidadania Social Empresarial


170 UNIDADE V

O QUE É UMA CADEIA DE VALOR?


É um conceito criado por Michael Porter, professor da Harvard Business
School. Consiste no conjunto de atividades realizadas por uma organi-
zação: relações com os fornecedores, ciclos de produção e de venda e
distribuição. Para Porter, a cadeia de valores de uma empresa e o modo
como executa suas atividades refletem a história, a estratégia, o método
de implementação de sua estratégia e a economia básica de suas ativida-
des. A cadeia de valor envolve, então, a sequência de atividades iniciadas
com a origem dos recursos até o descarte do produto pelo consumidor
final – abrange então, os usuários, o reciclador, entre outros intermedi-

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
ários, até serem destruídos (PEREIRA; SILVA; CARBONARI, 2011, p. 158).

Atingir a sustentabilidade corporativa não é fruto da aplicação de uma única técnica


ou forma de gestão: na verdade, é um conjunto de políticas e estratégias, aliadas a
métodos e ferramentas que podem trazer o resultado desejado. Ao longo deste livro,
vimos várias dessas técnicas, como a RSE (Responsabilidade Social Empresarial),
a Governança Corporativa, os Sistemas de Gestão Certificáveis, os relatórios com
base no GRI. A estes métodos e ferramentas, podemos ainda acrescentar a Produção
Mais Limpa (P+L), a Análise do Ciclo de Vida (ACV), a Emissão Zero.
Cada uma dessas técnicas e métodos merece, é claro, uma análise mais aprofun-
dada de sua aplicação prática nas organizações. Algumas técnicas são basicamente
gerenciais, outras envolvem a Engenharia da Produção (como é o caso da Emissão
Zero, da Produção Mais Limpa, da Análise do Ciclo de Vida). Porém, as organi-
zações modernas, conscientes de sua responsabilidade, têm uma visão sistêmica,
ou seja, em todas as frentes e retaguarda onde afetam e são afetadas pelo seu meio,
existem controles, acompanhamento e gerenciamento de suas atividades.
Somente desta forma as organizações podem realmente ser classificadas
como sustentáveis.
Como afirmamos nesta Unidade, o mercado avalia o desempenho das orga-
nizações quanto à sua governança corporativa. Também o faz em relação à sua
sustentabilidade empresarial. Já apresentamos que a Bolsa de Valores de São
Paulo classifica no chamado Novo Mercado as empresas com bons índices de
governança corporativa. Também ocorre que na BMFBovespa há um índice de
Sustentabilidade Empresarial, o ISE.

RESPONSABILIDADE SOCIAL CORPORATIVA E CIDADANIA EMPRESARIAL


171

Sobre o ISE, veja o que a BMFBovespa esclarece sobre sua aplicabilidade:


Iniciativa pioneira na América Latina, o Índice de Sustentabilidade
Empresarial (ISE) busca criar um ambiente de investimento compa-
tível com as demandas de desenvolvimento sustentável da sociedade
contemporânea e estimular a responsabilidade ética das corporações.
Iniciado em 2005, foi originalmente financiado pela International Fi-
nance Corporation (IFC), braço financeiro do Banco Mundial, e seu
desenho metodológico é responsabilidade do Centro de Estudos em
Sustentabilidade (GVCes) da Escola de Administração de Empresas de
São Paulo da Fundação Getúlio Vargas (FGV-EAESP).
O ISE é uma ferramenta para análise comparativa da performance das
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

empresas listadas na BM&FBOVESPA sob o aspecto da sustentabilidade


corporativa, baseada em eficiência econômica, equilíbrio ambiental, justi-
ça social e governança corporativa. Também amplia o entendimento sobre
empresas e grupos comprometidos com a sustentabilidade, diferenciando-
-os em termos de qualidade, nível de compromisso com o desenvolvimento
sustentável, equidade, transparência e prestação de contas, natureza do pro-
duto, além do desempenho empresarial nas dimensões econômico-finan-
ceira, social, ambiental e de mudanças climáticas (BMFBOVESPA, online).

As empresas listadas no ISE são bem vistas pelos investidores preocupados na manu-
tenção das operações da organização em longo prazo, ao mesmo tempo transmitindo
uma imagem que se vincula ao desejo individual daqueles que desejam aportar
recursos em empreendimentos que tenham bons fundamentos sociais e ambientais.

Conheça mais a respeito da governança corporativa no Brasil. Visite o portal do


Instituto Brasileiro de Governança Corporativa e veja sua missão, valores e contri-
buições para a prática da boa governança por parte de empresas de capital aberto.
O endereço eletrônico é: <www.ibgc.org.br>.

Iniciativas que visam promover o desenvolvimento sustentável através de ações empresariais


e projetos junto à sociedade civil organizada têm se tornado mais comuns nos últimos anos.
Conheça a iniciativa do Fórum Internacional pelo Desenvolvimento Sustentável. Visite a página:
<www.sustentar.net>.

Responsabilidade e Cidadania Social Empresarial


172 UNIDADE V

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Prezado(a) estudante,
Nesta Unidade, tivemos oportunidade de estudar os conceitos de
Responsabilidade e Cidadania Empresarial. Também abordamos os conceitos
de governança e ética corporativa e sustentabilidade empresarial.
Os temas abordados nesta Unidade não são, nem de longe, unanimidade entre os
pesquisadores. Como afirmei ao longo do texto, existem correntes teóricas bastante
conflitantes sobre o assunto. Confesso que, no passado, quando fui apresentado a

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
estas correntes, fiquei um pouco confuso, pois sempre imaginei que o modelo eco-
nômico vigente é o correto, o bom, o que funciona. Essa minha visão foi bastante
alterada com o tempo e pessoalmente, após extensas pesquisas, vislumbro mode-
los bastante interessantes não baseados exclusivamente no paradigma capitalista
predominante. Mas isso é uma discussão para outro momento, em outro contexto.
Por ora, convém que você saiba que as organizações de fato afetam o seu
entorno, muitas vezes de forma definitiva, alterando sua configuração natural e
social. Esse impacto pode ser positivo, com a geração de alternativas de renda e
desenvolvimento das condições de vida das populações. Outras vezes pode ser
extremamente danoso, com o esgotamento de recursos naturais não renováveis,
com a contaminação da água, do ar e do solo e com a consequente deterioração
dos sistemas de manutenção da vida inclusive dos seres humanos.
O agigantamento das corporações chega a ser assustador, com empresas
gerando mais riquezas que nações inteiras. A globalização faz cruzar continen-
tes insumos, produtos, matérias-primas, pessoas. A concentração de riqueza nas
mãos de poucos pode ser um fator de instabilidade com consequências ainda
pouco conhecidas. O que o futuro trará? Só nos resta alimentar nosso senso crí-
tico, nosso acompanhamento das atividades e operações das organizações e saber
que elas, apesar de imensas, são constituídas por pessoas, que são as derradeiras
responsáveis pelos impactos no planeta Terra.
Foi um prazer trabalhar estes temas com você! Continue em suas pesquisas
e cresça como um cidadão do mundo.
Sucesso!
Prof. Me. Paulo Pardo

RESPONSABILIDADE SOCIAL CORPORATIVA E CIDADANIA EMPRESARIAL


173

1. Nesta Unidade, vimos que os investidores valorizam ações de empresas que


possuem bons índices de governança corporativa, preferindo estas empresas
quando vão aplicar seus recursos no mercado. Pesquise na Internet o volume de
recursos movimentados em bolsa de valores das empresas do chamado Novo
Mercado (pegue como exemplo as 5 maiores). De que segmentos são essas em-
presas? Você considera que essas empresas realmente são bons exemplos de
governança corporativa?
2. Na questão da sustentabilidade empresarial, vimos que as grandes corpora-
ções preocupam-se com sua imagem corporativa, aplicando ferramentas e
métodos para mensurar seus impactos sociais e ambientais. Tudo fica mais
obscuro quando falamos de médias e pequenas empresas. Pesquise na Inter-
net sobre governança corporativa e sustentabilidade empresarial para esses
portes de empresas. Você considera que suas práticas são exemplares? Que as-
pectos positivos e negativos você encontrou quanto à responsabilidade social
e ambiental nestas empresas?
MATERIAL COMPLEMENTAR

Ética Empresarial na prática: liderança, gestão e


responsabilidade corporativa
Mario Sérgio Cunha Alencastro
Editora: IBPEX
Sinopse: O que é moral? O que é correto? O que é humano?
O que é ético? Estas são algumas das provocações que
esta obra traz ao leitor, contextualizando situações reais do
mundo corporativo, numa abordagem que busca evidenciar o
compromisso ético das empresas para com a sociedade e, de
forma mais direta, para com as pessoas que nela trabalham. Ao
longo destas páginas, você vai entender a importância do papel que as organizações deste século
XXI terão que construir para realmente fazer a diferença e construir um universo empresarial mais
ético em conjunto com clientes, fornecedores, funcionários e até mesmo com a concorrência.
Afinal, mais do que nunca, precisamos de uma nova mentalidade produtiva, capaz de oferecer
para a sociedade mais do que tira dela e, em contrapartida, voltada ao entendimento de que o
lucro, o reconhecimento e o sucesso podem ser consequência de ações focados na preservação
do meio ambiente, da vida, da cultura dos povos e, sobretudo, de seus valores éticos.
Fonte: <www.eticaempresarial.com.br>. Acesso em: 20 fev. 2014.
Este livro você tem disponível na Biblioteca Virtual Pearson, em seu Ambiente Virtual de
Aprendizagem.
MATERIAL COMPLEMENTAR

Primavera Silenciosa
Rachel Carson
Editora: Gaia
Sinopse: Para quem não sabe ou nunca ouviu falar, o planeta Terra
deve muito a Rachel Carson, uma cientista norte-americana que, no
início da década de 1960, publicou Primavera Silenciosa, obra que,
mesmo tendo no título uma expressão poética, foi o estopim que
deu forma a um novo e poderoso movimento social que alterou o
curso da História.
Carson, pesquisadora rigorosa com talento de romancista, causou
uma verdadeira revolução em defesa do meio ambiente a partir
do lançamento de seu livro, em 1962. A obra, escrita em pouco mais de quatro anos, apresenta
inúmeros documentos científicos de diferentes fontes, comprovando as afirmações da autora
que desencadearam uma investigação no governo Kennedy. De imediato, inspirou a rede de tevê
CBS a produzir um documentário, assistido por 15 milhões de telespectadores, que mostrava os
efeitos nocivos do DDT à saúde, fato que poderia, inclusive, alcançar mais de uma geração, uma
vez que resíduos dessa substância tóxica podem ser encontrados no leite humano.
O clamor que se seguiu à publicação de Primavera Silenciosa forçou o governo a proibir o uso
de DDT e instigou mudanças revolucionárias nas leis que preservam o ar, a terra e a água, com
a criação, em 1970, da Agência de Proteção Ambiental Norte-Americana. A paixão de Rachel
Carson pela questão do futuro do planeta refletiu poderosamente por todo mundo e seu livro foi
determinante para o lançamento do movimento ambientalista. [...]
Em 2000, a Escola de Jornalismo de Nova York consagrou Primavera Silenciosa como uma das
maiores reportagens investigativas do século XX. Em dezembro de 2006, premiando a memória e
o legado de Rachel Carson, o jornal britânico The Guardian conferiu a ela o primeiro lugar na lista
das cem pessoas que mais contribuíram para a defesa do meio ambiente de todos os tempos.
Fonte: <www.observatorioeco.com.br>. Acesso em: 20 fev. 2014.

Material Complementar
MATERIAL COMPLEMENTAR

Trabalho Interno (Inside Job), 2010


Diretor: Charles H. Ferguson
Este documentário, premiado em diversos festivais de cinema, relata
a origem da crise financeira internacional de 2008, apontando os seus
verdadeiros culpados: manipuladores de mercado, sem escrúpulos,
cuja única intenção era obter bônus de perfomance milionários. Estes
gestores e suas empresas embrenharam-se em arriscadas pirotecnias
financeiras visando multiplicar rapidamente ativos que não tinham
lastro, lançando o sistema financeiro internacional em uma crise com
precedentes somente na quebra da Bolsa de Nova York em 1929. Você
precisa assistir!

Revolução em Dagenham (Made in Dagenham) – 2010


Direção: Nigel Cole
Este filme conta a real história de trabalhadoras em uma fábrica
da Ford na Inglaterra, que, em 1968, empreenderam uma greve
buscando igualdade de condições de trabalho – e remuneração –
com os trabalhadores homens. Na Ford na Grã-Bretanha, em 1968,
havia 55 mil trabalhadores homens e apenas 187 mulheres. Porém,
essas 187 mulheres conseguiram parar a Ford.
Veja como isso se relaciona à responsabilidade social da empresa, os
interesses dos seus stakeholders, a ética empresarial assistindo esse
filme muito bom!

Recomendo fortemente que você assista a entrevista com o professor Genebaldo Freire Dias, da
Universidade Católica de Brasília, no link abaixo:
<http://youtu.be/K4IH83gRBJU>.
Nesta entrevista, o professor Genebaldo defende com firmeza uma mudança de visão social sobre
as questões econômicas mundiais, sob pena de não haver solução para os graves problemas
ambientais que nos confrontamos.
177
CONCLUSÃO

Prezado(a) acadêmico(a),
Nesta obra, procuramos levá-lo(a) à reflexão de temas importantes, tanto do ponto
de vista teórico como prático, sobre as questões com que a humanidade se confron-
ta neste século.
Estamos diante de uma realidade que, se por um lado aponta perspectivas anima-
doras em termos de desenvolvimento tecnológico, aproximação das pessoas pelas
Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC), por outro nos leva a refletir o preço
que pagamos por este desenvolvimento. É certo que todos nós queremos prosperi-
dade econômica, conforto, facilidades. Mas muitas vezes não paramos para pensar
que a conta por estes desenvolvimentos todos está batendo às nossas portas. “A
terra é azul”, como disse o cosmonauta russo Yuri Gagarin em 1961 ao contemplar
do espaço nosso planeta, parece ter perdido um pouco seu brilho, não por um pro-
cesso natural, mas por um processo social de autoaniquilamento.
Os seres humanos chegaram a tal ponto de desenvolvimento tecnológico que de-
senvolveram os meios de ameaçar a sua própria sobrevivência, dando origem ao
que o sociólogo alemão Ulrich Beck chama de Sociedade de Risco. Não há atalhos
para encarar o desafio de preservar a vida. Temos que entender que a responsabili-
dade é de todos nós.
As organizações, muitas vezes vistas como monólitos inquebráveis, na verdade são
arranjos sociais, ou seja, são constituídas por pessoas e, portanto, voltamos ao pon-
to que são as pessoas que habitam neste planeta as principais responsáveis por sua
preservação ou por sua extinção.
Como pessoas que desenvolvem um senso crítico apurado, independente de sua
posição em uma organização – e é certo que você faz parte de uma organização –
você, como eu, tem obrigações para com o meio em que vive. Se porventura ocupar
uma posição de direção, essa responsabilidade aumenta ainda mais.
Existem diversos mecanismos e ferramentas hoje discutidos e implementados por
empresas que dão direcionamentos efetivos às práticas de gestão, visando que as
atividades de produção de bens e serviços sejam consideradas sustentáveis por cri-
térios pré-estabelecidos. Ao longo deste livro, fomos apresentados a diversos con-
ceitos e exemplos dessas ferramentas.
Esperamos que você tenha aproveitado dessas considerações para pensar em que
pontos exatamente sua atuação pode fazer a diferença.
Vamos recordar um pouco do que vimos ao longo destas cinco Unidades:
Na Unidade I, vimos a trajetória da sustentabilidade e responsabilidade social e o
papel das organizações com respeito à responsabilidade social.
Na Unidade II, consideramos alguns prêmios e certificações que as empresas bus-
cam para marcar sua atuação social e ambiental, criando uma imagem positiva pe-
rante o mercado.
CONCLUSÃO

Na Unidade III, notamos que a responsabilidade social estende-se pela com-


preensão da diversidade étnico-cultural que compõe as organizações. No Brasil
essa é uma característica de nosso povo e, portanto, também deve ser de nossas
organizações.
Na Unidade IV, estudamos os conceitos de Balanço Social e alguns modelos de me-
dição da responsabilidade socioambiental das organizações.
Finalmente, na Unidade V, consideramos os conceitos de responsabilidade social
e cidadania empresarial, passando pelos conceitos de ética e sustentabilidade
empresarial.
Ao longo do livro, você foi convidado(a) a fazer leituras adicionais, visitar portais
na internet, acessar livros da biblioteca virtual, assistir filmes e documentários que
apresentam uma visão ampla sobre todos os temas abordados.
Esperamos sinceramente que você faça isso. Não é possível mais um profissional de
qualquer atividade passar ao largo desta discussão tão importante para a sociedade
e para o planeta em geral.
Saiba que, para nós, pesquisadores e professores dessa área, é muito prazeroso pro-
vocar em nossos estudantes o espírito crítico quanto às questões socioambientais
e despertar neles o desejo de conhecer mais sobre os desafios que enfrentamos no
presente e que certamente enfrentaremos no futuro.
Fique certo(a) de que estamos torcendo por você, por sua geração e pela geração de
nossos filhos. Que eles possam ter um planeta em que a vida seja tida como precio-
sa, que possam ainda olhar para a Terra e dizer “Ela é azul!”.

Sucesso!

Professora Me. Marie Eliza Zamberlan da Silva


Professor Me. Paulo Pardo
Professor Me. Tiago Ribeiro da Costa
179
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