Se pudéssemos eleger uma palavra de peso necessária e relevante para a
educação deste século, eu diria que essa palavra é “colaboração”. Iria até mais longe: falaria logo em “cooperação”. São palavras muito próximas no sentido, mas
com algumas diferenças sutis. Quando colaboramos para a construção de algo, nem sempre desenvolvemos as etapas juntos, pois entregamos nossa parte para
a construção de um todo, ao passo que “cooperação” pressupõe uma troca, uma
mescla entre o que cada um faz cooperativamente, um envolvimento nas etapas. Nesse caso, essas partes somadas são maiores que o todo construído colaborativamente. Pode ser bastante filosófico o que estou descrevendo, mas ao longo desta aula vamos analisar com calma os conceitos e compreender como o meio digital pode contribuir para a escrita coletiva, promovendo a colaboração e a cooperação entre os pares e, por que não, uma aprendizagem cooperativa. Iniciaremos a conversa relacionando o hipertexto aos conceitos de interatividade. Veremos como o hipertexto digital deve ser tema das aulas de línguas e como o uso dele no processo educativo proporciona um intercâmbio maior entre os sujeitos. Vamos conferir como isso acontece na prática e os desafios que precisam ser discutidos, revistos e pensados quando planejamos
qualquer aula. Para finalizar, vamos desmistificar alguns aspectos relacionados à Wikipedia e trazer para o planejamento de nossas atividades alguns de seus recursos. Além disso, fecharemos com um tópico polêmico e necessário: a linguagem da internet e seu papel nas aulas de línguas.
É impossível ensinar qualquer língua, seja materna ou estrangeira, sem passar pela temática da leitura e da produção textual. É comum que façamos aulas específicas sobre leitura e interpretação de textos e também sobre redação de textos nos mais variados gêneros. Apresentamos aos nossos alunos a estrutura que deve ter um bom texto e como buscar elementos para sua interpretação. Indentificou alguma das suas aulas? Essa é uma excelente prática, e não podemos negar que são momentos importantes para nossas aulas, mas precisamos colocar elementos novos nessa dinâmica, pois há novos textos e formatos a serem trabalhados. Do que estou falando? Do hipertexto!
Talvez você já tenha estudado o hipertexto, até mesmo antes das novas tecnologias digitais, e isso é perfeitamente possível, já que esse termo é utlizado
pelo menos desde 1991, quando Theodore Nelson o criou. Entretanto, foi com a chegada da internet que esse conceito passou a ganhar força, forma e uma série de pesquisas sobre a temática. Afinal, o que é um hipertexto? “Por hipertexto, entendo um forma híbrida, dinâmica e flexível de linguagem que dialoga com outras interfaces semióticas,
adiciona e acondiciona à sua superfície formas outras de textualidade” (Xavier,
2010).
O que isso significa para nossas aulas de línguas? Bem, representa uma mudança no que muitas vezes entendemos por texto, aquele com uma estrutura linear e construído por palavras escritas. Quando falamos de hipertexto, esse conceito cresce; trazemos para as palavras escritas novas estruturas textuais compostas por vídeos, sons, imagens e animações, mas, além disso, falamos em links, aberturas para novos caminhos que podemos percorrrer nesse texto. Está muito abstrato o raciocínio? Pense em um blog ou em qualquer site, até em redes sociais. Você começa a ler um texto em qualquer formato e logo se depara com um link; nesse ponto, decide se irá ou não trocar a página atual pela nova página que se abrirá com este link. Se for como eu, abrirá a nova página sem se desfazer da anterior, criando abas e mais abas para leitura futura; se for mais organizado, lerá na medida do seu interesse. Há um jeito certo para navegar pelo hipertexto? Penso que não, depende do leitor e até da forma como foi contruído o hipertexto. Por exemplo, se estamos navegando por uma rede social, não há um texto principal; são dezenas de links para vídeos ou sites externos, além de imagens e mensagens que não têm relação entre si, afinal, são vários os autores em uma mesma timeline, não é mesmo? Nesse caso, não há uma ordem na leitura. Você escolherá o que interessa e pronto. Contudo, imagine que está em um site de receitas culinárias pesquisando como se faz empadão; no “modo de fazer”, há um trecho dizendo “abra a massa podre”, e o termo “massa podre” está linkado (que é o nome dado a termos que possibiltam a abertura de outra página por meio de um link). Nesse caso, você tem duas opções: se não sabe ou não lembra de como fazer a tal da massa, pode clicar no termo e abrir uma página específica com as explicações; se já tem experiência com essa massa, simplesmente ignora esse passo e segue adiante. Perceba que há certa ordem determinada pelo autor do
texto, mas dependerá do leitor seguir ou não. Nesse mesmo texto poderiam exisitir vídeos ou animações com explicações sobre as formas de fazer o empadão, o que faz com que o texto seja considerado um hipertexto, ou seja, uma forma não linear de texto. Os professores de espanhol podem estar se manifestando, afinal, Cortazar já fez um texto não linear em 1963, muito antes da internet: Rayuela. Sim, essa obra de Júlio Cortazar pode ser lida de diferentes formas, inclusive sugeridas pelo autor; no entanto, com as tecnologias digitais, o conceito é ainda mais amplo que a belíssima proposta do autor. O hipertexto apoiado pela hipermídia possibilita a inclusão de sons, imagens, vídeos e, principalmente, com a web 2.0, passou a abrir espaço para a contribuição do leitor, o que no texto impresso não é possível. É exatamente com essa possibilidade que trabalharemos. Quer saber mais sobre o assunto? Então me acompanhe!
Aproximamos dois termos que podem não ter uma relação tão óbvia se observados pela primeira vez, mas que, veremos, têm uma profunda e necessária relação. Já vimos o que entenderemos como hipertexto nesta aula – trata-se de um texto não linear composto de diferentes recursos de multimídia; por isso, trataremos dos textos específicos para o meio digital. Como exemplo, temos Gomes (2011) da área da linguística, que defende a ideia de um hipertexto que exitiria apenas no meio virtual. Acompanhe o que ele apresenta sobre o tema:
O hipertexto pode ser entendido como um texto exclusivamente virtual que possui como elemento central a presença de links. Esses links, que podem ser palavras, imagens, ícones etc., remetem o leitor a outros textos, permitindo percursos diferentes de leitura e de construção de sentidos a partir do que for acessado e, consequentemente, pressupõe certa autonomia de escolha dos textos a serem alcançados através dos links. É um texto que se atualiza ou se realiza, se concretiza, quando clicado, isto é, quando percorrido pela seleção de links. (Gomes, 2011, p. 15)
Castells (2003) problematiza a questão do hipertexto argumentando que as visões dos autores têm sido muito materialistas para o termo, ao passo que cada leitor individualmente teria o seu próprio hipertexto. Ele continua seu posicionamento da seguinte forma: “Assim, por causa da internet, e apesar da multimídia, temos de fato um hipertexto: não o hipertexto, mas meu hipertexto, seu hipertexto e o hipertexto de todos os demais. Por enquanto, porém, esses
hipertextos, são limitados, porque a largura da banda e o acesso são limitados”
(Castells, 2003, p. 166). Embora seja completamente coerente o que Castells apresenta, podemos nos apoiar em outros estudos que tratam da materialidade desse texto para além dessa limitação.
Para cada uma das grandes modalidades do signo, texto alfabético, música ou imagem, a cibercultura faz emergir uma nova forma ou maneira de agir. O texto dobra-se, redobra-se, divide-se e volta a colar- se pelas pontas e fragmentos: transmuta-se em hipertextos e os hipertextos conectam-se para formar o plano hipertextual indefinidamente aberto e móvel da web. (Lévy, 2010, p. 151-152)
Para concluir essa definição do objeto de estudo da aula, citarei um autor da área da comunicação que estuda amplamente a interatividade. Alex Primo elabora uma discussão muito interessante sobre o hipertexto e apresenta três de seus tipos possíveis segundo seus estudos (adaptado de Primo, 2003, p. 9-13).
Hipertexto potencial: neste tipo de hipertexto, os caminhos e movimentos possíveis estão pré-definidos e não abrem espaço para o interagente visitante incluir seus próprios textos e imagens. Hipertexto colaborativo: aqueles que se cadastram no site e modificam as imagens produzidas anteriormente por outro artista envolvem-se em um hipertexto. A colaboração constitui-se uma colagem, sem discussões durante o processo criativo. Hipertexto cooperativo: oferece possibilidades de criação coletiva, mas chama por uma discussão contínua que modifica o produto à medida que é desenvolvido. Diferentemente da colagem colaborativa, o hipertexto cooperativo depende do debate.
Diante disso, perceba que nessa classificação o hipertexto cooperativo é aquele que permite a contribuição do leitor – e quero tratar mais especificamente sobre esse assunto com você! Além de ser uma linguagem híbrida de características peculiares, o hipertexto também é uma oportunidade de trabalho com textos coletivos, afinal, ao abrir caixas de diálogo no texto, possibilita-se a contribuição de mais leitores, fundindo seus papéis com os autores e coautores desse mesmo texto. Portanto, o hipertexto exige mais do leitor, que precisa decifrar mais que palavras – o que deve ser tema das aulas de línguas, mas também é fonte de construção, de produção e de trabalho cooperativo entre os estudantes. Essa possibilidade de
contribuição é o que faz do hipertexto algo interativo, podendo ser mais ou menos interativo de acordo com a classificação que apresentamos anteriormente, isto é, caso seja um hipertexto potencial, apenas estarão disponíveis caminhos pelos quais o leitor vai seguir já definidos pelos autor, ao passo que o hipertexto colaborativo aumenta a interatividade quando recebe de vários autores as contribuições, embora não haja a construção coletiva do texto, que será o próximo nível do hipertexto cooperativo. Diante disso, o hipertexto cabe nas aulas de línguas tanto como um recurso para a construção de textos cooperativos como um dos conteúdos a serem tratados nas reflexões com os estudantes. E você? Como abordaria essa temática?
Como trabalhar com os hipertextos na prática? Claro que não há uma única forma de fazer isso, mas podemos discutir e verificar algumas pistas para o encaminhamento dessa atividade. Vamos falar sobre algumas características do hipertexto que você poderá trabalhar com seus alunos na análise dessa linguagem e, especialmente, no planejamento dessa produção.
Não linearidade – Como já vimos, o hipertexto tem uma característica não linear, o que pode ser vantajoso, já que faz do texto mais interessante e dá liberdade para o leitor escolher o caminho a ser percorrido, mas ao mesmo tempo pode deixar o leitor inexperiente perdido, portanto, é preciso sempre apresentar para o leitor como será a trajetória e as opções que encontrará pelo caminho. Nossa fala é hipertextual – Você já percebeu que, quando conta uma história para um grupo de amigos, ou mesmo na apresentação de um novo assunto nas suas aulas, abre vários links para explicar certas partes da história, ora descrevendo alguém, ora um local ou algum acontecimento paralelo ao momento relatado? Nossa fala é bastante hipertextual, o que faz do hipertexto digital mais interessante ainda, pois, se bem construído, cria uma estrutura nada monótona de texto e bastante intuitiva, já que, na oralidade, é bem explorada.
Suporte multimídia – Sabe quando escrevemos um texto para explicar alguma situação, mas somente por escrito parece não ser o suficiente? Parece que teríamos de ligar para a pessoa ou explicar pessoalmente. Pois é, o grande suporte do hipertexto é a hipermídia, que permite a inclusão de qualquer recurso, ou seja, se faltaram argumentos por escrito, criamos um vídeo, gravamos um áudio e, com isso, tornamos o conteúdo mais compreensível e interessante também. Autoria coletiva – O hipertexto não só apresenta links ou os chamados “nós” para a livre navegação e escolha do leitor, mas também, na web 2.0,
permite a coautoria, uma vez que cria um espaço para criação coletiva de textos, como nas wikis, desenvolvidas exatamente para esse fim. Dessa
forma, o texto e a autoria são ressignificados. Xavier (2010, p. 218) ainda alerta para a morte da autoria, já que o conceito de autor estaria
“obscurecido”.
Portanto, compreendendo essas características principais, convido você a
buscar outras e até mesmo a criar uma listagem delas com os seus alunos. Você pode propor uma atividade comparativa com o texto impresso e pedir que os
estudantes investiguem o hipertexto e apresentem as “regras” que compõem sua
construção. Também podem trabalhar na construção coletiva de textos em formato de multimídia em língua materna ou estrangeira, despertando, dessa forma, o interesse dos estudantes
Você já sabe o que são os links, mas o que são os chamados hiperlinks? Trata-se dos nós que, nos hipertextos, levam o leitor a outros caminhos, sejam eles outros textos ou mesmo imagens, sites, vídeos ou outros recursos. Assim, hiperlinks podem ser considerados sinônimos de links. O problema é que o uso desses hiperlinks pode trazer alguns desafios. Vamos analisar com calma a principal acusação do senso comum aos hipertextos: “O leitor se perderá na leitura”. Será? Analise as figuras a seguir.
Figura 1 – Estilos de texto
Fonte: Disponível em: <http://ldc.usb.ve/~abianc/hipertexto.html>.
Repare que o primeiro modelo, intitulado “estilo sequencial”, trata do
formato do livro como o conhecemos, página atrás de página. Já o estilo reticulado
e o hierárquico são formatos que, embora ainda sejam sequenciais, apresentam conexões entre textos e possibilidades de leitura em outros sentidos – encontramos livros assim ou até algumas revistas digitais nesses formatos. O último estilo, no entanto, é o hipertexto, no qual há amplas ligações entre os temas. Veja que as páginas se unem em diferentes direções, o que significa que algumas delas podem ser acessadas por diversas outras páginas, e não somente uma delas. Será que esse seria um fator determinante para o leitor se perder? Já foram realizadas pesquisas em torno dessa problemática. Cito duas considerações interessantes sobre essa afirmação quanto ao hipertexto que considero chaves para compreender o seu uso:
1. Se o leitor tiver conhecimento da “gramática digital” por trás desse hipertexto, não terá grandes dificuldades, pelo contrário, terá à sua disposição um texto recheado de conteúdo, conexões e respostas para suas perguntas (Riberio, 2016, p. 31). 2. O conhecimento e a linguagem humana têm naturalmente um formato hipertextual, portanto, após a familiarização desse formato de texto escrito, seria natural sua apropriação e uso corrente.
Para finalizar este tema, reproduzo aqui um trecho do texto “Histórias interactivas: para que la queremos?”, da obra Teoría del hipertexto: la literatura en la era electrónica, (Aarseth et al., 2006, p. 238) – recomendo a leitura na íntegra:
Agora chegamos, por fim, a uma questão importante, a que tem nos perseguido da mesma maneira que me aconteceu quando um membro de um público para o qual eu estava fazendo uma palestra sobre o hipertexto me seguiu timidamente até a rua: “Me deu vergonha fazer uma pergunta tão tonta ali dentro, mas é mais forte que eu. Por que iríamos querer que as coisas fossem interativas?”. É claro que essa pergunta formulamos quase todos nós, às vezes com desprezo quando descobrirmos uma última inovação, alguma invenção desenhada para permitirmos fazer coisas que sequer nos ocorreu fazer. Provavelmente ninguém concebia a necessidade de um aparelho telefônico quando as pessoas poderiam comunicar-se perfeitamente por um sistema de correios eficiente. [ ] ...
Diante dessas questões, fica claro que não estamos apenas falando de uma invenção da modernidade, mas de uma realidade que, anos após esse texto, já se concretiza e, mesmo diante de desafios, representa um potencial que promete modificar no mínimo os conceitos de materiais didáticos, de aulas e especialmente do nosso conhecimento sobre os textos.
A famosa Wikipédia já sofreu muito preconceito. Acusaram-na de pouco confiável e até mesmo de inútil, mas será que ela é culpada de todos esses
“crimes”?
Se você não a conhece, apresentarei neste momento a Wikipédia, que pode ser acessada no seguinte link: <https://pt.wikipedia.org/>. O slogan da Wikipédia é: “A enciclopédia livre que todos podem editar”. O mais curioso é que o termo “livre” e a expressão “todos podem editar” são hiperlinks que nos levam à explicação quanto às formas de editar as páginas. O texto procura encorajar o leitor a ser autor da enciclopédia, mas pede que não sejam feitos vandalismos na ferramenta. E é justamente esse espaço aberto para interações que gera as críticas quanto à confiabilidade dos textos contidos nela. Mas vamos analisar do ponto de vista educativo: Seria mesmo um problema? Eu chamaria de excelente oportunidade! Acompanhe-me! Imagine um trabalho de pesquisa no qual os estudantes poderiam fazer a escolha de uma página da Wikipédia e, em seguida, buscariam em fontes confiáveis (científicas)
a confirmação das informações desse espaço ou, ainda melhor, poderiam fazer um trabalho de complementação da informação citando as fontes confiáveis para dar crédito àquela página trabalhada? Vamos imaginar como isso pode contribuir nas aulas de línguas. É uma língua estrangeira? A Wikipédia está disponível em diversos idiomas, portanto, as mesmas atividades podem e devem acontecer em idioma estrangeiro. Você vai notar que é possível fazer centenas de links em um só texto referenciando outras páginas da própria Wikipédia ou de outras páginas. E a autoria da página, como fica? Como já vimos, a autoria da Wikipédia é coletiva e, nesta era digital, fica difícil continuar pensando em autorias únicas ou ideias com propriedades de um único indivíduo. É justamente a coautoria da Wikipédia que chama mais a atenção para o seu uso. Alguns AVAs, também chamamos de LMS (Learning Management System) 1 , possuem recursos intitulados de “Wiki” em seus ambientes. São ferramentas como os fóruns, chats ou bibliotecas, mas com o objetivo de comportar propostas de textos construídos coletivamente entre alunos. Já vivenciei pessoalmente alguns usos desse recurso e os resultados foram animadores. Um deles foi o trabalho de criação de um glossário da disciplina. Como se tratava de tecnologia na educação, vários termos foram sendo utilizados e propusemos a construção coletiva desse glossário. O interessante era verificar que alguns termos já criados foram recebendo melhorias em sua descrição, chegando a um conceito muito bem construído. Arrisco até dizer que não seria tão perfeito caso fosse desenvolvido por uma só pessoa. Outro exemplo do uso de Wiki no processo educativo se deu em uma disciplina de metodologia científica na qual propusemos a criação de um texto coletivo em formato de resenha sobre um dos textos trabalhados. Essa proposta foi mais desafiadora, afinal, demandava a interpretação do texto, mas foi nessa dificuldade que veio a melhor parte. Como as dúvidas surgiam na elaboração do texto, isso gerou bastante debate, o que enriqueceu mais ainda a resenha desenvolvida.
1 Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Learning_Management_System>. Acesso em: 13 abr. 2018.
Como você pôde verificar, há inúmeros usos para essa concepção de texto coletivo. Pode ser na própria Wikipédia, em outra wikis ou não. Até mesmo um arquivo eletrônico com liberação de acessos simultâneos pode ser recurso para esse formato de aula. O importante é dar a vez para a ação discente, sem a qual o processo ensino-aprendizagem ficará sem significado para o estudante.
Vimos que estamos diante de muito mais do que novos recursos tecnológicos. Há uma mudança na linguagem humana que encontra nas tecnologias digitais novas formas de existência. A comunicação tem a possibilidade de ampliação dos discursos que, de forma ágil, se fundem entre diferentes autores e seus pontos de vista. Com isso, não só o léxico ganha novas nuanças, mas a própria composição dos textos passa por mutações, nas quais são inseridas imagens, animações, vídeos, áudios – e até a linguagem de games passa a fazer parte dessa estrutura. Durante muito tempo as aulas de língua portuguesa tinham como único objetivo o ensino da norma culta padrão. Utilizava-se a gramática normativa, que é descritiva, pautada na gramática do português europeu, e até mesmo a oralidade era trabalhada com base nesses critérios. Hoje, entendemos a língua escrita como representação da linguagem, sem descartar as regras da escrita; entendemos que a língua é mutável, portanto, fica mais fácil compreender que a era tecnológica também representa mudanças na língua, das quais precisamos nos apropriar e trazer para a discussão em sala de aula. Ainda assim, você já deve ter questionado o uso de certos estrangeirismos que a internet trouxe para a nossa língua ou já deve ter se deparado com um texto produzido por seus alunos cheio de abreviações próprias das redes sociais, não é mesmo? Será que tudo isso representa uma perda irreparável? Já vivemos outros momentos em que modismos fizeram parte da língua, mas você sabe que esse não é um evento restrito da língua portuguesa, não é mesmo? Precisamos trabalhar com essa linguagem, seu vocabulário, ícones e abreviações a nosso favor. Mas como fazemos isso? Coloque seu aluno como protagonista nesse desafio e certamente colherá bons frutos dessa escolha. Uma ideia seria identificar com os alunos esses neologismos e buscar opções para eles; além disso, vale a pena conhecer outras palavras que já foram empréstimos linguísticos e que hoje fazem parte da língua.
É importante ressaltar que os termos que emprestamos, atualmente quase sempre do inglês, podem não ter o mesmo sentido que seu uso na língua de origem. Caso você seja professor de língua estrangeira, será interessante um trabalho específico sobre essas mudanças de sentido. Você pode ainda estar sentindo certa angústia quanto ao uso da linguagem abreviada nos textos dos seus alunos, mas essa é a parte mais desafiadora e ao mesmo tempo instigante do tema. Ao constatarem juntos que há um léxico específico desse gênero textual, os alunos passarão a diferenciar a escrita de um trabalho escolar/acadêmico da escrita dos meios digitais. Também verificarão a diferença que há entre distintos meios e a linguagem da internet, pois já existem estudos demonstrando a vulgarização ou banalização de vocábulos com a difusão da informática. Nesse trabalho, seja com o vocabulário, seja com as multimídias, é sempre interessante promover a ampla exploração desses recursos e deixar o espaço educativo aberto para reflexões e questionamentos. Em qualquer etapa da Educação Básica, ou mesmo no Ensino Superior, nossos alunos são capazes de perceber as mudanças e refletir sobre elas; no entanto, é fundamental que as aulas sejam sempre bem planejadas e com objetivos definidos, o que não quer dizer que ao longo do percurso não possam se modificar. Elas devem ter um “norte”, um destino a chegar por meio da construção do conhecimento. A palavra-chave é ousadia! Portanto, ouse fazer uma aula diferente, e depois me conte como foi o resultado. Quero saber!
Nesta aula, aprofundamos o conceito de hipertexto, listamos suas características e verificamos quais são suas aplicações nas aulas de língua. Discutimos a relação do hipertexto com a interatividade e como a polêmica Wikipédia ou seus recursos podem apoiar nossas aulas nessa construção hipertextual. Debatemos as dificuldades que podem surgir na leitura e interpretação dos hipertextos e verificamos que as principais pesquisas sobre a temática rechaçam essa visão. Também trabalhamos com o conceito de autoria e vimos que, no processo de autoria coletiva, a própria concepção de autoria que conhecemos se modifica significativamente. Verificamos algumas práticas possíveis e necessárias para trabalhar com essa temática e fechamos nossa conversa discutindo o surgimento de uma nova
linguagem com as tecnologias digitais; procuramos esclarecer alguns mitos que rondam nossas aulas de línguas e estudamos algumas estratégias para que as mudanças favoreçam as nossas aulas, tornando-as mais interessantes para os estudantes em cada momento histórico. Não podemos parar no tempo, não é mesmo? Espero que tenha sido proveitosa essa trajetória e que você esteja motivado(a) a inovar mais um pouco nas suas aulas, fazendo das tecnologias digitais suas novas aliadas. Até breve!
Leia esta entrevista com LiAnna Davis, diretora de programas da Wiki Education Foundation, sobre o uso dessa ferramenta no processo de ensino e aprendizagem.
PAIVA, T. A Wikipedia é uma ferramenta de ensino eficaz? Carta Educação, São
Paulo,
15
mar.
2017.
Disponível
em:
<http://www.cartaeducacao.com.br/entrevistas/a-wikipedia-e-uma-ferramenta-de-
ensino-eficaz>. Acesso: 10 abr. 2018.
Este artigo apresenta resultados de uma investigação sobre o uso de hipertextos nas aulas de língua portuguesa. Vale a pena conferir:
CAPELOCI, E. M. P.; GARCIA, D. M. de N. A retextualização digital nas aulas
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de |
língua |
portuguesa: |
a |
utilização |
de |
hipertextos |
na |
escola. |
In: |
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INTERNATIONAL CONGRESS OF CRITICAL APPLIED LINGUISTICS, 2015, |
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Brasília. |
Disponível |
em: |
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<http://www.uel.br/projetos/iccal/pages/arquivos/ANAIS/PRATICA(S)/A%20RET
EXTUALIZACAO%20DIGITAL%20NAS%20AULAS%20DE%20LINGUA%20PO
RTUGUESA%20A%20UTILIZACAO%20DE%20HIPERTEXTOS%20NA%20ESC
OLA.pdf>. Acesso: 10 abr. 2018.
AAERSETH, E. et al. Teoría del hipertexto: la literatura en la era electrónica. Madrid: Arco Lbros, 2006.
COSCARELLI, C. V. Tecnologias para aprender. 1. ed. São Paulo: Parábola Editorial, 2016.
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(Org.) Hipertextos na teoria e na prática. Belo Horizonte: Autêntica,
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PRIMO, A. Quão interativo é o hipertexto? Da interface potencial à escrita coletiva. Fronteiras: Estudos Midiáticos, São Leopoldo, v. 5, n. 2, p. 125-142, 2003.
Interação mediada por computador: a comunicação e a educação a
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Interação mediada por computador: comunicação, cibercultura,
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PINTO, A. C. A formação de professores para a modalidade de Educação a Distância: por uma criação e autoria coletiva. Tese (Doutorado em Educação). Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2004.
SANTOS, C. N. Produção de materiais didáticos e suas implicações
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