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Boaventura de Sousa Santos

Construindo as Epistemologias do Sul

Antologia esencial
volume i

ROSA
LUXEMBURG COLEÇÃO ANTOLOGIAS DO PENSAMENTO
STIFTUNG SOCIAL LATINO-AMERICANO E CARIBENHO
Construindo as
Epistemologias do Sul
De Sousa Santos, Boaventura
Construindo as Epistemologias do Sul: Antologia Esencial. Volume
I: Para um pensamento alternativo de alternativas / Boaventura de
Sousa Santos; compilado por Maria Paula Meneses... [et al.]. - 1a ed.
- Ciudad Autónoma de Buenos Aires: CLACSO, 2018.
V. 1, 688 p.; 20 x 20 cm - (Antologías del Pensamiento Social
Latinoamericano y Caribeño / Gentili, Pablo)

ISBN 978-987-722-382-8

1. Análisis Sociológico. 2. Ensayo Sociológico. 3. Antología. I.


Meneses, Maria Paula, comp. II. Título.
CDD 301

Otros descriptores asignados por la Biblioteca virtual de CLACSO:


Sociología / Teoría Social / Periferia / Globalización / Colonialismo /
Movimientos Sociales / América Latina / Derechos humanos / Democracia /
Epistemología
Coleção
Antologias do Pensamento Social
Latino-americano e Caribenho

Boaventura de Sousa Santos

Construindo as
Epistemologias do Sul
Para um pensamento alternativo
de alternativas

Volume I
Organização e apresentação: Maria Paula Meneses, João Arriscado Nunes,
Carlos Lema Añón, Antoni Aguiló Bonet e Nilma Lino Gomes
Antologías del Pensamiento Social Latinoamericano y Caribeño
Director de la Colección Pablo Gentili

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CONOCIMIENTO ABIERTO, CONOCIMIENTO LIBRE.

Primera edición
Boaventura de Sousa Santos: Construindo as Epistemologias do Sul. Volume I (Buenos Aires: CLACSO, noviembre de 2018)

ISBN Obra completa: 978-987-722-376-7


ISBN Vol. 1: 978-987-722-382-8
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firmantes, y su publicación no necesariamente refleja los puntos de vista de la Secretaría Ejecutiva de CLACSO.
Sumário

Pablo Gentili
Prefácio: Inventar outras ciências sociais............................................................................... 13

Maria Paula Meneses, João Arriscado Nunes,


Carlos Lema Añón, Antoni Aguiló Bonet e Nilma Lino Gomes
Prólogo......................................................................................................................................... 17

VOLUME I

Parte I
Pensando desde o Sul e com o Sul

Maria Paula Meneses


Apresentação.............................................................................................................................. 23

Um discurso sobre as ciências.................................................................................................. 31


Não disparem sobre o utopista................................................................................................. 71
O Norte, o Sul e a utopia.......................................................................................................... 145
As ecologias dos saberes......................................................................................................... 223
Tradução intercultural: Diferir e partilhar con passionalità.............................................. 261
Introdução às epistemologias do Sul..................................................................................... 297
Parte II
Teoria social para outro mundo possível

João Arriscado Nunes


Apresentação: Reinventando a
imaginação sociológica para rebeldias competentes.......................................................... 339

O Estado e a sociedade na semiperiferia do sistema mundial:


O caso português...................................................................................................................... 347
Os processos da globalização................................................................................................. 397
A queda do Angelus Novus: Para além da equação
moderna entre raízes e opções............................................................................................... 485
Nuestra América: Reinventar um paradigma subalterno
de reconhecimento e redistribuição...................................................................................... 541
Entre Próspero e Caliban: Colonialismo,
pós-colonialismo e inter-identidade....................................................................................... 573
Para além do pensamento abissal: Das linhas globais
a uma ecologia de saberes....................................................................................................... 639
As identidades das crises......................................................................................................... 677

Sobre o autor.......................................................................................................................... 685

Sobre os organizadores....................................................................................................... 687


VOLUME II

Pablo Gentili
Prefácio: Inventar outras ciências sociais............................................................................... 13

Maria Paula Meneses, João Arriscado Nunes, Carlos Lema Añón,


Antoni Aguiló Bonet e Nilma Lino Gomes
Prólogo......................................................................................................................................... 17

Parte III
Direito para outro mundo possível

Carlos Lema Añón


Apresentação: Sociologia crítica para um outro direito possível ....................................... 23

O direito dos oprimidos: A construção e reprodução do direito em Pasárgada................ 33


Uma ilustração: O pluralismo jurídico na Colômbia.............................................................. 59
O Estado heterogéneo e o pluralismo jurídico em Moçambique......................................... 65
Para uma concepção intercultural dos direitos humanos................................................... 111
Sociologia crítica da justiça.................................................................................................... 139
O pluralismo jurídico e as escalas do direito: O local, o nacional e o global.................... 197
Os direitos humanos: Uma hegemonia frágil........................................................................ 211
O Estado, o direito costumeiro e a justiça popular.............................................................. 225
Quando os excluídos têm direito: Justiça indígena,
plurinacionalidade e interculturalidade................................................................................ 243
Para uma teoria sociojurídica da indignação: É possível ocupar o direito?..................... 277
A resiliência das exclusões abissais em nossas sociedades:
Em direção a uma legislação pós-abissal.............................................................................. 315

Parte IV
Democracia para outro mundo possível

Antoni Aguiló Bonet


Apresentação: Democracia para um outro mundo possível............................................... 343

A crise do contrato social da modernidade e a emergência do fascismo social.............. 351


O Estado e os modos de produção de poder social............................................................. 383
A refundação do Estado e os falsos positivos...................................................................... 405
Catorze cartas às esquerdas.................................................................................................... 455
As concepções hegemónicas e contra-hegemónicas de democracia................................ 501

Parte V
Educação para outro mundo possível

Nilma Lino Gomes


Apresentação: Educação para um outro mundo possível................................................... 515

Para uma pedagogia do conflito............................................................................................. 525


Da ideia de universidade à universidade de ideias............................................................... 547
A universidade no século XXI: Para uma reforma democrática
e emancipadora da universidade............................................................................................ 601
A encruzilhada da universidade europeia............................................................................. 667
Rumo a uma universidade polifônica comprometida:
Pluriversidade e subversidade................................................................................................ 681
O Fórum Social Mundial como epistemologia do Sul.......................................................... 715

Anexo: Lista dos livros e artigos publicados em português


por Boaventura de Sousa Santos...................................................................................... 733

Sobre o autor.......................................................................................................................... 743

Sobre os organizadores....................................................................................................... 745


Prefácio
Inventar outras ciências sociais
Pablo Gentili*

B oaventura de Sousa Santos é muito mais


do que um sociólogo português empenha-
do em interpretar —de um modo extraordiná-
contrahegemônica; a construção de um novo
tipo de pluralismo jurídico que contribua com
a democratização de nossas sociedades; a re-
rio e original— os assuntos mais urgentes do forma criativa, democrática e emancipadora
nosso tempo. Seu nome é a referência e a ins- do Estado e a defesa irredutível dos direitos
piração sempre fecunda de um amplo coletivo humanos; a criação de universidades popula-
de cientistas e ativistas espalhados por todo o res que promovam diálogos interculturais, en-
mundo, organizados em redes ou trabalhando tendidos como uma forma de combate contra
sozinhos, comprometidos com a construção a uniformidade e a favor de uma ecologia de
de umas ciências sociais a serviço das grandes saberes emancipatórios e libertários. Seus ar-
causas da humanidade, das lutas pela igualda- gumentos se aglutinam em torno a uma prer-
de e dos direitos dos oprimidos. rogativa fundamental: a melhor via para cons-
Os trabalhos de Boaventura enlaçam um truir estratégias de resistência locais e globais
conjunto de temas e preocupações que se ins- requer pôr em prática um exercício de justiça
crevem na melhor das tradições do pensamen- cognitiva em que todas as vozes possam se
to social e crítico: a emergência e as lutas dos expressar em um mesmo pé de igualdade, por
movimentos sociais; os olhares alternativos meio do interconhecimento, da mediação e da
que produzem os processos de globalização celebração de alianças coletivas.
Os cinco blocos que estruturam esta antolo-
gia, cuja confecção foi realizada coletivamen-
* Secretário Executivo de CLACSO. te por destacados/as colegas conhecedores e
14 Pablo Gentili

conhecedoras do trabalho do pensador portu- articula uma pedagogia do deslocamento e da


guês, reúnem os principais temas que atraves- escuta: aprender a viajar em direção ao Sul,
sam a sua obra. Recorrer estas páginas é ler o indo ao encontro dos numerosos e heterogê-
projeto político-intelectual de Boaventura de neos espaços analíticos e modos de construir
Sousa Santos em toda a sua amplidão. conhecimento, e deixar o Sul falar, à medida
Como bom artesão, Boaventura não só ex- em que o Sul foi submetido a um processo de
plora cada um dos tópicos abordados com ma- silenciamento exercido pelo conhecimento
estria. Também é o criador de potentes ferra- científico produzido no Norte.
mentas conceituais que permitem ser combina- Em sua bagagem não estão ausentes as lu-
das com liberdade, exercitando outros modos netas nem os microscópios. De fato, o desloca-
de explorar e interpretar as realidades que ha- mento é condição para se distanciar da tradição
bitamos (e queremos transformar). O repertó- eurocêntrica e para dar lugar a outros espaços
rio de ferramentas conceituais que Boaventura analíticos que tornem observáveis realidades
generosamente coloca à disposição pode ser novas ou que foram ignoradas e invisibilizadas
pensado sob a figura de uma teoria da retaguar- pela tradição epistêmica eurocêntrica.
da: recursos que se inscrevem mais na linhagem Diante das geografias do conhecimento, Bo-
do trabalho artesanal e singular do que em um aventura nos convoca a cruzar a linha abissal:
modelo sistêmico e abrangente de interpretar uma fronteira que divide tão profundamente a
o mundo. Instrumentos que foram desenhados realidade social que tudo o que fica do outro
para desfazer uma aproximação a conhecimen- lado dela permanece invisível ou é considerado
tos e experiências que podem representar uma irrelevante. Certamente cruzá-la sem renunciar
novidade para alguns e remeter a um ecossiste- em bloco ao conhecimento produzido a partir
ma de saberes ancestrais para outros. dos centros de poder, mas fazendo uma forte
Se todo saber é um saber situado, o gesto opção por recuperar, reivindicar e legitimar
epistemológico que distingue a obra deste outros modos de saber que permitam gestar
imenso intelectual português está marcado outras ciências sociais: “A finalidade do deslo-
pela viagem. Diante das políticas dominantes camento —sustenta— é permitir uma visão te-
do conhecimento, Boaventura propõe confec- lescópica do centro e uma visão microscópica
cionar outros inventários do saber. Para isso, de tudo o que foi recusado pelo centro”.
Prefácio: Inventar outras ciências sociais 15

O convite cursado não consiste em sair para extrativismo, o epistemicídio e a eliminação


buscar um Sul essencializado. O Sul que emer- física com a qual, muitas vezes, a racionalida-
ge da obra do autor está plurilocalizado nas de moderna contribuiu. Daí que a recupera-
expressões e formas de produção do conhe- ção das experiências seja um dos elementos
cimento que cifram as Epistemologias do Sul mais valorizados.
(entre as quais se destacam a realidade portu- Os dois volumes que formam esta iniciativa
guesa, os contextos latinoamericanos, africa- da CLACSO serão, sem lugar a dúvidas, um ma-
nos e asiáticos). São os saberes nascidos e for- terial de consulta indispensável para todas as
jados ao calor das lutas contra o capitalismo, leitoras e leitores comprometidos com pensar
o colonialismo e o patriarcado o que integra o o mundo por meio de uma perspectiva origi-
índice da sua obra e se coloca em destaque por nal construída durante 40 anos de trabalho. E
meio de seus textos (muitos deles traduzidos ainda que os materiais que conformam estes
pela primeira vez ao espanhol). dois grandes volumes estejam potencialmente
Se a grande escola de Boaventura é o Sul, dirigidos a todos e todas, nos veios do texto
sua caixa curricular está organizada sobre um emerge e se percebe uma preferência pelas es-
princípio de convivialidade irredutível: a ecolo- querdas, as quais Boaventura caracteriza como
gia dos saberes. Olhares que não impõem, mas “os partidos e movimentos que lutam contra o
que solicitam outras perspectivas para questio- capitalismo, o colonialismo, o racismo, o sexis-
nar e questionar-se; perspectivas que procuram mo e a homofobia, e toda a cidadania que, sem
credibilidade e reconhecimento para os conhe- estar organizada, compartilha os objetivos e as
cimentos elaborados, mais além dos espaços aspirações daqueles que se organizam para lu-
e das lógicas acadêmicas, sem que isso leve a tar contra estes fenômenos”.
desacreditar o conhecimento científico. O ter- Esta antologia é uma merecida homenagem
mo também remete, de um modo certeiro, ao do Conselho Latinoamericano de Ciências So-
indispensável diálogo que deve ser produzido ciais a quem, com suas ideias e compromisso,
entre as ciências da vida e as ciências sociais. contribuiu de maneira decisiva para o desen-
Nenhuma mudança social pode ser promo- volvimento das ciências sociais, um intelectual
vida a partir das ciência sociais sem levar em público que peregrinou pelo Sul global, acom-
conta a devastação ecológica, a predação, o panhando-nos em numerosos espaços e mo-
16 Pablo Gentili

mentos, ajudando-nos a pensar os problemas e


os desafios do nosso tempo. E, ainda que seja
verdade que o maior temor de um explorador
consiste em se deter, esse sociólogo andarilho
que é Boaventura de Sousa Santos nos deixa
nesta obra a grata sensação de que aqui falta
o que amanhã, em seu percurso criativo pela
vida, pelo pensamento e pela luta em defesa
da dignidade humana, continuará produzindo
para nos surpreender e nos ajudar a sonhar.
Prólogo
Maria Paula Meneses, João Arriscado Nunes,
Carlos Lema Añón, Antoni Aguiló Bonet e Nilma Lino Gomes

C onstruindo as Epistemologias do Sul:


Para um pensamento alternativo de alter-
nativas é o título que dá corpo a um estimulan-
Centro de Estudos Sociais, CES (Universidade
de Coimbra), para nos fazer uma apresentação
exclusiva sobre o seu percurso e discutir, em
te exercício — apresentar os principais traba- conjunto, as várias possibilidades de organiza-
lhos de um dos mais importantes intelectuais ção da Antologia.
do nosso tempo, Boaventura de Sousa Santos. A presente Antologia apoia-se nas opções e
Esta Antologia, organizada em dois volumes, debates que, como grupo, fomos mantendo ao
é fruto de um trabalho coletivo, realizado por longo de vários meses. Foi um processo estimu-
Maria Paula Meneses, João Arriscado Nunes, lante que nos revelou, paralelamente, as interli-
Antoni Aguiló Bonet, Carlos Lema Añón e Nil- gações entre os textos e nos obrigou a repensar
ma Lino Gomes. Contámos ainda com o apoio opções temáticas e os limites de páginas. Quer
imprescindível de Margarida Gomes e Lassale- pela inovação teórica, quer pelos desafios me-
te Paiva, colaboradoras próximas de Boaven- todológicos, a obra de Boaventura de Sousa
tura de Sousa Santos, e que o têm apoiado na Santos não deixa ninguém indiferente. Nestes
organização e publicação de manuscritos. dois volumes procuramos identificar textos que
Selecionar os textos a integrar esta antologia permitam aos leitores conhecer em maior deta-
não foi tarefa fácil. Para dar conta da diversi- lhe o percurso académico e político deste autor,
dade temática que tem tratado e que procurou cujos textos refletem a sua opção inequívoca
encontrar espelhada na antologia, Boaventura por uma análise das sociedades contemporâ-
de Sousa Santos, fazendo jus ao seu espírito neas a partir da perspectiva dos oprimidos. A
colegial, convidou-nos para um encontro no sua obra, extensa e publicada em várias línguas
18 M. P. Meneses, J. Arriscado Nunes, C. Lema Añón, A. Aguiló Bonet e N. Lino Gomes

(português, espanhol, francês, inglês, alemão, que, de facto, não têm direitos, dos que vivem
romeno, e mandarim, entre outras), cobre mais do “outro lado da linha abissal”.
de quatro décadas de análises e reflexões. Do ponto de vista metodológico, esta Anto-
No seu conjunto, o trabalho de Boaventu- logia reflete também uma mudança paradig-
ra de Sousa Santos aqui recolhido debruça-se mática, de escrever sobre para escrever com,
sobre alguns dos principais tópicos e proble- dando voz a sujeitos e lutas a partir do reco-
mas do mundo contemporâneo: movimentos nhecimento da validade desses saberes nasci-
sociais, globalização contra-hegemónica, de- dos nas lutas. Esta Antologia revela igualmente
mocratização, pluralismo jurídico, reforma do que desde cedo Boaventura de Sousa Santos
Estado, epistemologia, direitos humanos, in- manifestou o desconforto com a equivalência
terculturalidade e a universidade. O seu grande epistemológica entre objetividade e neutralida-
desafio tem sido, nos últimos anos, centrado na de, o que o leva a optar for um conhecimento
reconstrução sociológica a partir das epistemo- ancorado nas práticas e nas lutas sociais que
logias do Sul, concebida como um pensamento em algum momento designou como conheci-
alternativo de alternativas, de que resultam no- mento prudente para uma vida decente.
vas propostas conceituais como, por exemplo, Ir para Sul, aprender com o Sul e desde o
as articulações entre a dominação capitalista, Sul é o lema que estrutura esta antologia, com-
colonial e patriarcal, o pensamento abissal, a binando trabalho teórico com análises empíri-
sociologia das ausências e das emergências, a cas específicas. O Sul com que pretende par-
ecologia de saberes, a tradução intercultural e tilhar a voz não é o Sul geográfico. É antes o
a artesania das práticas. As sementes desta ino- Sul epistémico.
vação assentam em trabalhos anteriores, onde Em termos de organização, e porque os tex-
conceitos como a sociedade civil íntima, socie- tos que integram cada parte foram alvo de um
dade civil estranha, ou o fascismo social permi- escrutínio ponderado de cada um de nós, op-
tem dar conta de exclusões radicais nas socie- támos por apresentar, no início de cada parte,
dades supostamente democráticas, sociedades uma curta introdução escrita individualmente.
onde a violência, a apropriação, a persistência Este roteiro apresenta o tema, justifica a opção
do trabalho escravo, do colonialismo sob no- dos textos e procura dialogar com o pensamen-
vas formas que continuam a marcar a vida dos to de Boaventura de Sousa Santos.
prólogo19

Os dois volumes que compõem a antologia tem a educação e a possibilidade de um outro


do pensamento de Boaventura de Sousa Santos projeto universitário, distinto da moderna uni-
estão organizados de forma autónoma (incluin- versidade de matriz eurocêntrica.
do o prólogo, o índice geral e, no final de cada Esta divisão temática ampla serviu de refe-
volume, a lista de trabalhos publicados pelo au- rência para a organização geral dos textos, ape-
tor em espanhol). sar de vários deles serem, muitas vezes, signifi-
A antologia está estruturada em torno a cativos para diferentes partes da antologia. Do
cinco eixos, que refletem os temas a que Bo- ponto de vista geopolítico, os textos seleciona-
aventura de Sousa Santos tem dedicado mais dos para integrar esta antologia traduzem uma
importância, nomeadamente: os desafios epis- experiência rica e diversificada, que percorre a
temológicos que o Sul global coloca, agrupa- realidade portuguesa, contextos latino-ameri-
dos na primeira parte, intitulada “Pensando canos, experiências africanas e asiáticas, num
desde o Sul e com o Sul”. A segunda parte, com permanente exercício de pensar de que lado se
o título de “Teoria social para outro mundo está quando se analisam questões sociais fra-
possível” incide sobre a teorização sociológi- turantes. Este conhecimento informado leva
ca de Boaventura de Sousa Santos. Estas duas Boaventura de Sousa Santos a acreditar que
partes compõem o primeiro volume da Anto- um conhecimento do Sul e para o Sul, se de-
logia. O segundo volume, composto de três senvolve potenciando alternativas emergentes,
partes, integra os textos do autor que apontam já que as sociedades não podem prescindir da
para uma proposta alternativa, plural, de um capacidade de pensar em alternativas. É este
outro mundo possível a partir do Sul global. desafio que está presente no subtítulo desta
Os principais temas são “Direito para outro antologia, a construção de um conhecimento
mundo possível”, correspondendo aos textos que sustente “um pensamento alternativo de
mais representativos da sociologia do direito. alternativas”, um pensamento necessariamen-
Os escritos de teoria política estão agregados te pós-abissal.
na parte intitulada “Democracia para outro Pretendemos com este trabalho oferecer
mundo possível” e finalmente, a quinta e últi- ao/à leitor/a uma panorâmica geral da obra de
ma parte, sob o título “Educação para outro Boaventura de Sousa Santos. É com o desafio
mundo possível”, agrupa os textos que deba- de pensar o mundo de forma situada, reco-
20 M. P. Meneses, J. Arriscado Nunes, C. Lema Añón, A. Aguiló Bonet e N. Lino Gomes

nhecendo a diversidade potencialmente infini-


ta de saberes e experiências, que desejamos
que esta antologia seja lida e, acima de tudo,
vivida. Cabe agora ao leitor/a avaliar se tive-
mos êxito neste nosso propósito, o propósito
de dar a conhecer a riqueza e a amplitude do
horizonte analítico de um cientista social que
consideramos ser um dos mais importantes
do nosso tempo.
Parte I

Pensando desde o Sul e com o Sul


Apresentação
Maria Paula Meneses

“Uma Epistemologia do Sul se baseia sultante da heterogeneidade do mundo? Como


em três orientações: reconhecer outras epistemologias e gerar diá-
aprender que existe o Sul; logos entre elas? Como ré-significar o sentido
aprender a ir em direção ao Sul; da utopia?
aprender do Sul e com o Sul.”
Nesta parte da antologia, intento caracteri-
Boaventura de Sousa Santos (1995) zar em traços gerais o percurso de Boaventura
de Sousa Santos, identificando as principais in-
tervenções teóricas e políticas no campo dos

O desafio de Boaventura de Sousa Santos


de ir ao Sul para trabalhar com o Sul,
acompanha-o há muito tempo. Este desafio se
debates e das (ré)construções epistêmicas.
Sendo uma antologia uma seleção de textos de
referência do autor, qualquer seleção é neces-
desdobra em várias perguntas: Por que razão, sariamente parcial, e reflete, necessariamente,
nos últimos dois séculos, a epistemologia do- as opções de quem escolhe os textos.
minante tem eliminado da reflexão epistemoló- Esta apresentação está dividida em dois par-
gica o contexto cultural e político da produção tes. Na primeira parte, aponto as principais li-
e reprodução do conhecimento? Quais são as nhas da construção teórica das Epistemologias
raízes da crise do paradigma racional-científi- do Sul, uma alternativa proposta por Boaventu-
co? Será que a “desunião” e a diversidade da ra ao paradigma epistêmico da ciência moder-
ciência são o resultado dum pluralismo episte- na, procurando identificar os rasgos principais
mológico? O será que a razão desta diversidade de cada trabalho, e fundamentando as opções
tem origens ontológicos, uma diversidade re- da sua inclusão nesta antologia. Na segunda
24 Maria Paula Meneses

parte, procuro de forma sucinta chamar a aten- sentido da vida e das práticas sociais, a uma
ção sobre alguns dos conceitos chave para pen- visão eurocêntrica. Nas palavras do autor, o
sar o Sul e do Sul, a partir de uma leitura das aprofundamento do paradigma dominante —
propostas de Boaventura. da racionalidade científica — “permitiu ver a
Uma das características do pensamento de fragilidade dos pilares nos quais se funda”, ou
Boaventura reside na sua solidariedade com seja, um saber que não responde a muitos dos
as lutas por um mundo melhor, mais solidário, anelos científicos e sociais contemporâneos.
onde as mudanças sociais se beneficiam de A caraterização detalhada que Boaventura faz
um saber comprometido com a emancipação do paradigma dominante permite delinear o
social. Estes elementos, aliados a um sentido perfil do paradigma emergente. Este paradig-
profundo de humanidade, de pensar e de sentir, ma emergente que Boaventura ampliará pos-
“corazonando” com os que o rodeiam, marcam teriormente com as Epistemologias do Sul,
o caminho de Boaventura como pesquisador, propõe “um conhecimento prudente para uma
como ativista e como homem envolvido nas vida decente” que está estruturado em torno
causas sociais do seu tempo. a quatro princípios: 1) todo conhecimento
Em 1987, Boaventura publica Um discur- científico-natural é científico-social, 2) todo
so sobre as ciências, trabalho de referência conhecimento é local e total, 3) todo conhe-
que abre esta antologia (Santos, 1987). O texto cimento é autoconhecimento, 4) todo conhe-
está estruturado em torno a três pontos prin- cimento científico pretende se constituir em
cipais: a caraterização do paradigma domi- senso comum. A crescente transdisciplinarie-
nante da ciência moderna; a argumentação ao dade, condição ressaltada pelo autor, ao apro-
redor do que vivemos em um período de crise ximar a sugestão de ré-subjetivação do conhe-
do paradigma atual; e a indignação da transi- cimento científico, abre as portas à tradução
ção em direção a um paradigma emergente. O deste saber em um saber prático que ensina
modelo hegemônico da ciência moderna pro- a viver, promovendo a reabilitação do senso
vém da racionalidade imposta pela Ilustração. comum e das suas virtualidades. Em resumo,
Este modelo foi responsável por uma tradição o desafio é de transformar o conhecimento-
de dominação política e cultural que someteu -como-emancipação em um senso comum
a diversidade do conhecimento no mundo, do emancipatório, tema que também será reto-
Parte I: Apresentação 25

mado nas apresentações dos outros textos imaginar o novo está parcialmente constituída
que integram esta antologia. por novas combinações e por escalas do que
Em Não disparem sobre o utopista, amplia existe, e que são, na realidade, quase sempre
suas reflexões sobre a transição paradigmáti- meros detalhes, pequenos e obscuros, do que
ca que caracteriza ao mundo contemporâneo, realmente existe”. Neste sentido, conforme
destacando a existência de vestígios duma a proposta de Boaventura, a utopia requere,
modernidade inacabada que estão ligados à além de imaginação, um profundo conheci-
solidariedade e à participação em perspectiva mento da realidade. Em tempos de vertigem
utópica. Para pensar alternativas ao tempo de e de desassossego, fruto da desorientação dos
desencanto e à atual autonomia isolacionista e mapas na contemporaneidade, Boaventura su-
derrotista, urge recorrer a um modo de pensa- gere uma utopia que recuse o conformismo,
mento suprimido ou marginado pelas concep- construída a partir de outra leitura destes ma-
ções hegemônicas da modernidade, a saber, a pas, recorrendo a outras escalas e perspecti-
utopia, como ressalta Boaventura. Nas pala- vas, do centro à margem.
vras do autor, a utopia é imaginar futuros pos- Como explica, “a finalidade do deslocamen-
síveis, “a exploração por meio da imaginação to é permitir uma visão telescópica do centro
de novas possibilidades humanas e de novas e uma visão microscópica de todo o recusado
formas de vontade, e a oposição da imaginação pelo centro para reproduzir sua credibilidade
à necessidade do existente, só porque existe, como tal. O objetivo é experimentar a fronteira
em seu nome, uma coisa radicalmente melhor da sociabilidade como forma de sociabilida-
pela qual vale a pena lutar e à qual a humanida- de”, ou seja, viver “entre espaços”, o que é a
de tem direito”. fronteira, ou seja, viver fora de qualquer forta-
Para Boaventura, a utopia presenta dois ras- leza, aberto a aprender do mundo. Neste texto,
gos fundamentais: por um lado, chama a aten- é possível detectar já as sementes da ecologia
ção sobre o que pode ser criado, imaginado de saberes, quando apela a um engrandecimen-
como alternativa ao que a contemporaneidade to e a um amparo do emergente, e da utopia
oferece, propondo soluções aos problemas como projeto “ainda não”, mas possível. A uto-
contemporâneos; por outro lado, a utopia é pia realista que Boaventura propõe recusa “o
desigualmente utópica, já que “sua forma de fechamento do horizonte de expectativas e de
26 Maria Paula Meneses

possibilidades”. Esta perspectiva é um desafio ma baseado nos princípios da solidariedade e


epistemológico e ontológico fundamental para da comunidade, o horizonte utópico ao qual
lutar por novas formas de expectativas, possi- o autor aponta. A decisão de ir em direção
bilidades e alternativas, uma visão trágica, mas ao Sul implica um itinerário emancipatório e
mais otimista do que a realidade. uma utopia do aqui e do agora. Retomando a
Consciente da impossibilidade de responder discussão que abre esta antologia, Boaventu-
ao paradigma dominante com um outro, em ra aprofunda a análise da crise do paradigma
particular, Boaventura nos propõe em O Nor- moderno, cujo origem ele situa na ruptura
te, o Sul e a Utopia, destronar a centralidade entre os pilares fundamentais da normativa e
da racionalidade científica para, posteriormen- dos da emancipação. Sob o véu do progresso,
te, construir utopia(s). Seu objetivo concorda a experiência social dos grandes grupos so-
com a criação de um novo senso comum que ciais deixou de responder a suas expectativas
permita transformar a ordem ou a desordem futuras. Esta ruptura entre o presente (expe-
existente. Esta tarefa — que o autor adverte riência) e o futuro (expectativa) é geradora
que não é simples nem possível de ser realizada de desconforto e, também, Boaventura alerta,
individualmente — requere de perseverança, o pode levar ao desperdiço da experiência.
que não surpreende, já que como ele afirma, “a A constituição mutua do Norte e do Sul, e
paciência da utopia é infinita”. a natureza hierárquica das relações Norte-Sul
Aqui está o caminho do Sul, onde a dico- permanecem presas à persistência das rela-
tomia Norte-Sul expressa fronteiras que são ções capitalistas e coloniais. No Norte global,
uma das principais linhas abissais que legi- os “outros” saberes, além da ciência e da téc-
timam um pensamento político imperial, o nica, foram produzidos como não existentes
sustento das desigualdades em que se apoia ou reduzidos a dados locais, sendo deste modo
o sistema mundial. Aqui, a fronteira constitui radicalmente excluídos da racionalidade mo-
uma metáfora, uma figura que, se por um lado derna. Em um momento no qual a tecnocracia
pode legitimar a racionalidade dominante, procura substituir a produção de conhecimen-
por outro reconhece a existência de subjeti- to, quando a sociometria é apontada como um
vidades e de sociabilidades alternativas que dos principais indicadores da qualidade da
permitem a construção de um novo paradig- produção científica, o pensamento de Boaven-
Parte I: Apresentação 27

tura é inspirador por desafiar a centralidade tência. Somos muitos, e usamos nossas novas
do tecno-conhecimento científico moderno. aprendizagens de maneiras diferentes. Não
Nesse sentido, não há conhecimento abstrato, sempre concordamos entre nós, [mas] compar-
sem práticas e atores sociais. Em suas relações tilhamos os problemas que temos com nossos
mais extensas, as relações sociais são também inimigos” (Santos, 2014). E este retorno não é
culturais e políticas, o que significa que todo só epistêmico, é também ontológico.
conhecimento é sempre contextual. Boaven- Teorizar política e epistemicamente a hete-
tura defende que, para combater o desperdiço rogeneidade que compõe o Sul global está na
de experiência, não é suficiente propor outro base das Epistemologias do Sul. Em um dos
tipo de ciência. Pelo contrário, é urgente cons- seus trabalhos mais recentes, Boaventura ca-
truir uma nova postura epistemológica para racteriza as Epistemologias do Sul como um
recuperar as experiências e saberes relegados conjunto de indagações sobre a construção e
ou inclusive destruídos pela lógica colonial- validação do conhecimento nascido na luta,
-capitalista, pelo que ele designa como episte- de formas de saber desenvolvidas por grupos
micídio. Desafiando esta realidade, Boaventu- e movimentos sociais como parte da sua resis-
ra avança com a ideia de que, para defender a tência contra as injustiças e as opressões siste-
diversidade do mundo, para resgatar saberes máticas causadas pelo capitalismo, o colonia-
silenciados pelo capitalismo, pelo colonialis- lismo e o patriarcado.
mo e pelo patriarcado, é urgente construir uma Pensar do Sul passa pelo reconhecimento
teoria alternativa de alternativas que considere da dicotomia Norte-Sul, pela problematização
a diversidade e a complexidade das lutas dos desta dicotomia, e pelo retorno dos sujeitos
oprimidos e subalternizados, dos que não são que compõem a diversidade do Sul global. Nes-
considerados humanos pela força do pensa- ta análise crítica é iniludível o conceito do pen-
mento abissal. samento abissal, uma característica de nosso
Uma das pedras angulares deste pensamen- tempo, dum tempo refém de formas coloniais
to é o conceito de Sul global que Boaventura de interpretação do mundo. O pensamento
caracteriza como o momento do retorno dos abissal é constituído a partir dum sistema de
humilhados e subalternizados: “Não somos distinções visíveis e invisíveis, as invisíveis fun-
vítimas; fomos vitimados e oferecemos resis- damentando as visíveis. As distinções invisí-
28 Maria Paula Meneses

veis se estabelecem por meio de linhas radicais sobre as sociedades contemporâneas. O reco-
que dividem a realidade social em dois univer- nhecimento da persistência do pensamento
sos distintos: o universo “deste lado da linha”, abissal é a condição para pensar e para atuar
o da metrópole, e o universo “do outro lado da além do mesmo. Neste sentido, e aprofundan-
linha”, o do espaço colonizado. Esta divisão do a análise crítica da transição paradigmá-
abissal gerada pela epistemologia imperial faz tica, Boaventura defende uma transição que
o “outro lado da linha” insignificante, residual inclua novas relações entre epistemologia e
em quanto realidade, e é produzida como ine- política, e entre epistemologia e subjetivida-
xistente. Este pensamento abissal, fundacional de. Aprender através duma Epistemologia do
da modernidade, constrói os sujeitos do Sul Sul faz possível lutar por um cosmopolitismo
como objetos sobre os quais se fala (se os reco- insurgente subalterno, baseado em uma razão
nhece como humanos) ou, muitas vezes, nem cosmopolita subalterna, como o autor ressal-
sequer os reconhece como tais, como Boaven- ta. Ao dar igual peso aos princípios de igual-
tura refletiu ao questionar o “sentido de huma- dade e de reconhecimento da diferença, o cos-
nidade” nos discursos contemporâneos sobre mopolitismo insurgente corresponde a uma
os direitos humanos. emergência global, fruto da fusão de lutas pro-
A racionalidade científica eurocêntrica, ao gressistas em vários lugares, com o objetivo
se autoconsiderar mais desenvolvida, assume de maximizar seu potencial emancipatório in
que não precisa aprender nada do Sul global. loco (em função de definições locais) por meio
A característica fundamental do pensamento de conexões translocais/locais.
abissal é a impossibilidade da co-presença O resultado do pensamento abissal é a sepa-
dos dois lados da linha, a impossibilidade ração radical entre o mundo metropolitano e o
duma tradução entre realidades e saberes mundo colonizado; esta linha abissal continua
que as conformam. Esta posição de arrogân- sendo estruturante do pensamento moderno
cia ignorante impede que a epistemologia de eurocêntrico, estando na origem das relações
raiz eurocêntrica — a epistemologia do Norte políticas e culturais excludentes mantidas no
— aprenda do mundo, dum campo fascinante sistema mundial contemporâneo. A injustiça
de inovação, de alternativas e de criatividade social global está estreitamente associada à
que permitem produzir diagnósticos radicais injustiça cognitiva global, de modo que a luta
Parte I: Apresentação 29

pela justiça social global requere a construção entre os conhecimentos científicos produzidos
dum pensamento pós-abissal, a partir das pre- pela modernidade eurocêntrica e outros co-
missas programáticas da ecologia de saberes. nhecimentos não-científicos.
A ecologia de saberes é a proposta com a A tradução intercultural é a alternativa de
qual Boaventura avança para confrontar a ló- Boaventura ao universalismo abstrato no qual
gica da monocultura do conhecimento cientí- são assentadas as teorias gerais eurocêntricas
fico e do rigor do saber, identificando outros e a ideia de incomensurabilidade entre cultu-
conhecimentos e critérios de rigor e validez ras. Como o autor elabora, a tradução inter-
que operam de forma crível em práticas sociais cultural consiste em buscar preocupações e
pronunciadas inexistentes através da razão suposições isomórficas subjacentes a distintas
metonímica. Como o autor ressalta, a cada pas- culturas. Este processo de tradução inclui a
so da ecologia dos saberes, é fundamental se identificação de diferenças e similitudes, e o
perguntar se o que está se perdendo é válido, desenvolvimento, quando for apropriado, de
e se o que já se sabe tem de ser questionado e novas formas híbridas de compreensão e in-
inclusive olvidado, e por que. Na ecologia de tercomunicação cultural. Estas novas formas
saberes, a obtenção de credibilidade para os híbridas são importantes, como ressalta o au-
conhecimentos não-científicos não implica de- tor, para favorecer interações e para fortalecer
sacreditar o conhecimento científico. Implica, alianças entre os movimentos envolvidos nas
pelo contrário, utilizá-lo em um contexto mais lutas, em diferentes contextos culturais, contra
amplo de diálogo com outros conhecimen- o capitalismo, o colonialismo e o patriarcado,
tos. Neste sentido, esse uso do conhecimento pela justiça social e pela dignidade.
científico é contra-hegemônico. O objetivo da Para Boaventura, a tradução é um processo
ecologia de saberes é, por um lado, explorar vivo, concretado com argumentos e com emo-
concepções alternativas internas ao conheci- ções derivadas de compartir e diferenciar sob
mento científico, situação que foi visibiliza- uma axiologia do cuidado. Por isso, o trabalho
da por meio de epistemologias pluralistas em de tradução está longe de ser um mero exer-
várias práticas científicas (em particular, por cício intelectual. É um instrumento pragmáti-
meio das epistemologias feministas), e por co de mediação e de negociação. Seu objetivo
outro lado, continuar com a interdependência é superar a fragmentação inerente à extrema
30 Maria Paula Meneses

diversidade de experiências sociais do mundo ção, apontam em direção a projetos utópicos


reveladas pelas diferentes ecologias saberes. emancipadores, desafiando o imobilismo su-
Não surpreende que Boaventura dedique seu postamente esclarecido que fomenta razões
tempo por igual à atividade de pesquisa e ao indolentes. Esperamos estes textos servirem
trabalho com grupos e movimentos sociais, de inspiração para ampliar e aprofundar o co-
aplicando a tradução na procura por uma nhecimento do Sul global a partir do Sul global.
maior solidariedade e um maior apoio entre lu-
tas. É assim que se autoconstrói como intelec- Bibliografia
tual da retaguarda, termo cunhado por ele. As Santos, B. de Sousa 1987 Um Discurso sobre
traduções interculturais devem ser convertidas as Ciências (Porto: Afrontamento).
em modelos de alianças para práticas coletivas Santos, B. de Sousa 1995 Towards a New
transformadoras, como respostas possíveis e Common Sense: Law, Science and Politics
adequadas às experiências de epistemicídio e in the Paradigmatic Transition (Nova
de pensamento pós-abissal. Iorque: Routledge).
Pensar do Sul e com o Sul se assenta em uma Santos, B. de Sousa 2014 Epistemologies of
capacidade para imaginar e para se indignar the South: Justice against Epistemicide
com os males do mundo, condição “capaz de (Boulder: Paradigm).
fundamentar uma nova teoria, inconformista, Santos, B. de Sousa 2017 “The Resilience
desestabilizadora e, de fato, rebelde e prática”. of Abyssal Exclusions in Our Societies:
Boaventura de Sousa Santos, em um texto re- Toward a Post-Abyssal Law” in Tilburg Law
cente, afirmou: “há mais de 40 anos que ensino Review (Países Baixos: Tilburg University)
nas universidades onde muitas vezes passamos Nº 22, pp. 237-258.
muito tempo treinando incompetentes confor-
mistas. Agora precisamos treinar os rebeldes
competentes” (Santos, 2017: 237-258).
Neste esboço dos principais rasgos das
obras desta primeira parte, não quedam dúvi-
das: Boaventura nos convida a lutas que, em
suas distintas genealogias, prometem libera-
Um discurso sobre as ciências*

Introdução qua. Mas se fecharmos os olhos e os voltarmos


a abrir, verificamos com surpresa que os gran-
V ivemos num tempo atónito que ao debru-
çar-se sobre si próprio descobre que os
seus pés são um cruzamento de sombras, som-
des cientistas que estabeleceram e mapearam
o campo teórico em que ainda hoje nos mo-
bras que vêm do passado que ora pensamos já vemos viveram ou trabalharam entre o século
não sermos, ora pensamos não termos ainda XVIII e os primeiros vinte anos do século XX,
deixado de ser, sombras que vêm do futuro que de Adam Smith e Ricardo a Lavoisier e Darwin,
ora pensamos já sermos, ora pensamos nunca de Marx e Durkheim a Max Weber e Pareto,
virmos a ser. Quando, ao procurarmos analisar de Humboldt e Planck a Poincaré e Einstein.
a situação presente das ciências no seu conjun- E de tal modo é assim que é possível dizer que
to, olhamos para o passado, a primeira imagem em termos científicos vivemos ainda no século
é talvez a de que os progressos científicos dos XIX e que o século XX ainda não começou, nem
últimos trinta anos são de tal ordem dramáti- talvez comece antes de terminar. E se, em vez
cos que os séculos que nos precederam — des- de no passado, centrarmos o nosso olhar no
de o século XVI, onde todos nós, cientistas mo- futuro, do mesmo modo duas imagens contra-
dernos, nascemos, até ao próprio século XIX ditórias nos ocorrem alternadamente. Por um
— não são mais que uma pré-história longín- lado, as potencialidades da tradução tecnológi-
ca dos conhecimentos acumulados fazem-nos
crer no limiar de uma sociedade de comunica-
ção e interactiva libertada das carências e inse-
* Extraído de Santos, B. de Sousa 1988 Um discurso
sobre as ciências (Porto: Afrontamento). guranças que ainda hoje compõem os dias de
32 Boaventura de Sousa Santos

muitos de nós: o século XXI a começar antes nho comigo uma criança que há precisamente
de começar. Por outro lado, uma reflexão cada duzentos e trinta e cinco anos fez algumas per-
vez mais aprofundada sobre os limites do rigor guntas simples sobre as ciências e os cientis-
científico combinada com os perigos cada vez tas. Fê-las no início de um ciclo de produção
mais verosímeis da catástrofe ecológica ou da científica que muitos de nós julgam estar agora
guerra nuclear fazem-nos temer que o século a chegar ao fim. Essa criança é Jean-Jacques
XXI termine antes de começar. Rousseau. No seu célebre Discours sur les
Recorrendo à teoria sinergética do físico te- Sciences et les Arts (1750) Rousseau formu-
órico Hermann Haken, podemos dizer que vive- la várias questões enquanto responde à que,
mos num sistema visual muito instável em que também razoavelmente infantil, lhe fora posta
a mínima flutuação da nossa percepção visual pela Academia de Dijon (Rousseau, 1971: 52).
provoca rupturas na simetria do que vemos. Esta última questão rezava assim: o progresso
Assim, olhando a mesma figura, ora vemos um das ciências e das artes contribuirá para puri-
vaso grego branco recortado sobre um fundo ficar ou para corromper os nossos costumes?
preto, ora vemos dois rostos gregos de perfil, Trata-se de uma pergunta elementar, ao mes-
frente a frente, recortados sobre um fundo mo tempo profunda e fácil de entender. Para
branco. Qual das imagens é verdadeira? Ambas lhe dar resposta — do modo eloquente que lhe
e nenhuma. É esta a ambiguidade e a comple- mereceu o primeiro prémio e algumas inimiza-
xidade da situação do tempo presente, um tem- des — Rousseau fez as seguintes perguntas não
po de transição, síncrono com muita coisa que menos elementares: há alguma relação entre a
está além ou aquém dele, mas descompassado ciência e a virtude? Há alguma razão de peso
em relação a tudo o que o habita. para substituirmos o conhecimento vulgar que
Tal como noutros períodos de transição, di- temos da natureza e da vida e que partilhamos
fíceis de entender e de percorrer, é necessário com os homens e mulheres da nossa socieda-
voltar às coisas simples, à capacidade de for- de pelo conhecimento científico produzido por
mular perguntas simples, perguntas que, como poucos e inacessível à maioria? Contribuirá a
Einstein costumava dizer, só uma criança pode ciência para diminuir o fosso crescente na nos-
fazer mas que, depois de feitas, são capazes de sa sociedade entre o que se é e o que se apa-
trazer uma luz nova à nossa perplexidade. Te- renta ser, o saber dizer e o saber fazer, entre
Um discurso sobre as ciências 33

a teoria e a prática? Perguntas simples a que se escondem as novas abundâncias da nossa


Rousseau responde, de modo igualmente sim- vida individual e colectiva. Mas mesmo aí volta
ples, com um redondo não. a perplexidade de não sabermos o que abunda-
Estávamos então em meados do século rá em nós nessa abundância.
XVIII, numa altura em que a ciência moderna, Daí a ambiguidade e complexidade do tem-
saída da revolução científica do século XVI po científico presente a que comecei por aludir.
pelas mãos de Copérnico, Galileu e Newton, Daí também a ideia, hoje partilhada por muitos,
começava a deixar os cálculos esotéricos dos de estarmos numa fase de transição. Daí final-
seus cultores para se transformar no fermen- mente a urgência de dar resposta a perguntas
to de uma transformação técnica e social sem simples, elementares, inteligíveis. Uma per-
precedentes na história da humanidade. Uma gunta elementar é uma pergunta que atinge o
fase de transição, pois, que deixava perplexos magma mais profundo da nossa perplexidade
os espíritos mais atentos e os fazia reflectir individual e colectiva com a transparência téc-
sobre os fundamentos da sociedade em que nica de uma fisga. Foram assim as perguntas de
viviam e sobre o impacto das vibrações a que Rousseau; terão de ser assim as nossas. Mais
eles iam ser sujeitos por via da ordem cientí- do que isso, duzentos e tal anos depois, as nos-
fica emergente. Hoje, duzentos anos volvidos, sas perguntas continuam a ser as de Rousseau.
somos todos protagonistas e produtos dessa Estamos de novo regressados à necessidade
nova ordem, testemunhos vivos das transfor- de perguntar pelas relações entre a ciência e
mações que ela produziu. Contudo, não o so- a virtude, pelo valor do conhecimento dito or-
mos, em 1985, do mesmo modo que o éramos dinário ou vulgar que nós, sujeitos individuais
há quinze ou vinte anos. Por razões que alinho ou colectivos, criamos e usamos para dar sen-
adiante, estamos de novo perplexos, perdemos tido às nossas práticas e que a ciência teima
a confiança epistemológica; instalou-se em nós em considerar irrelevante, ilusório e falso; e
uma sensação de perda irreparável tanto mais temos finalmente de perguntar pelo papel de
estranha quanto não sabemos ao certo o que todo o conhecimento científico acumulado no
estamos em vias de perder; admitimos mesmo, enriquecimento ou no empobrecimento práti-
noutros momentos, que essa sensação de per- co das nossas vidas, ou seja, pelo contributo
da seja apenas a cortina de medo atrás da qual positivo ou negativo da ciência para a nossa
34 Boaventura de Sousa Santos

felicidade. A nossa diferença existencial em re- sua emergência. Este percurso analítico será
lação a Rousseau é que, se as nossas perguntas balizado pelas seguintes hipóteses de trabalho:
são simples, as respostas sê-lo-ão muito me- primeiro, começa a deixar de fazer sentido a
nos. Estamos no fim de um ciclo de hegemonia distinção entre ciências naturais e ciências so-
de uma certa ordem científica. As condições ciais; segundo, a síntese que há que operar en-
epistémicas das nossas perguntas estão ins- tre elas tem como polo catalisador as ciências
critas no avesso dos conceitos que utilizamos sociais; terceiro, para isso, as ciências sociais
para lhes dar resposta. É necessário um esfor- terão de recusar todas as formas de positivis-
ço de desvendamento conduzido sobre um fio mo lógico ou empírico ou de mecanicismo
de navalha entre a lucidez e a ininteligibilidade materialista ou idealista com a consequente
da resposta. São igualmente diferentes e muito revalorização do que se convencionou chamar
mais complexas as condições sociológicas e humanidades ou estudos humanísticos; quarto,
psicológicas do nosso perguntar. É muito dife- esta síntese não visa uma ciência unificada nem
rente perguntar pela utilidade ou pela felicida- sequer uma teoria geral, mas tão-só um conjun-
de que o automóvel me pode proporcionar se to de galerias temáticas onde convergem li-
a pergunta é feita quando ninguém na minha nhas de água que até agora concebemos como
vizinhança tem automóvel, quando toda a gen- objectos teóricos estanques; quinto, à medida
te tem excepto eu ou quando eu próprio tenho que se der esta síntese, a distinção hierárquica
carro há mais de vinte anos. entre conhecimento científico e conhecimento
Teremos forçosamente de ser mais rousse- vulgar tenderá a desaparecer e a prática será o
aunianos no perguntar do que no responder. fazer e o dizer da filosofia da prática.
Começarei por caracterizar sucintamente a or-
dem científica hegemónica. Analisarei depois O paradigma dominante
os sinais da crise, dessa hegemonia, distinguin- O modelo de racionalidade que preside à ci-
do entre as condições teóricas e as condições ência moderna constituiu-se a partir da revolu-
sociológicas da crise. Finalmente especularei ção científica do século XVI e foi desenvolvido
sobre o perfil de uma nova ordem científica nos séculos seguintes basicamente no domínio
emergente, distinguindo de novo entre as con- das ciências naturais. Ainda que com alguns
dições teóricas e as condições sociológicas da prenúncios no século XVIII, é só no século XIX
Um discurso sobre as ciências 35

que este modelo de racionalidade se estende às Descartes. Esta preocupação em testemunhar


ciências sociais emergentes. A partir de então uma ruptura fundante que possibilita uma e só
pode falar-se de um modelo global de raciona- uma forma de conhecimento verdadeiro está
lidade científica que admite variedade interna bem patente na atitude mental dos protagonis-
mas que se distingue e defende, por via de fron- tas, no seu espanto perante as próprias desco-
teiras ostensivas e ostensivamente policiadas, bertas e a extrema e ao mesmo tempo serena
de duas formas de conhecimento não científico arrogância com que se medem com os seus
(e, portanto, irracional) potencialmente pertur- contemporâneos. Para citar apenas dois exem-
badoras e intrusas: o senso comum e as cha- plos, Kepler escreve no seu livro sobre a Har-
madas humanidades ou estudos humanísticos monia do Mundo publicado em 1619, a propó-
(em que se incluíram, entre outros, os estudos sito das harmonias naturais que descobrira nos
históricos, filológicos, jurídicos, literários, filo- movimentos celestiais: “Perdoai-me mas estou
sóficos e teológicos). feliz; se vos zangardes eu perseverarei; […] O
Sendo um modelo global, a nova racionali- meu livro pode esperar muitos séculos pelo seu
dade científica é também um modelo totalitá- leitor. Mas mesmo Deus teve de esperar seis
rio, na medida em que nega o carácter racional mil anos por aqueles que pudessem contemplar
a todas as formas de conhecimento que se não o seu trabalho”. Por outro lado, Descartes, nes-
pautarem pelos seus princípios epistemológi- sa maravilhosa autobiografia espiritual que é o
cos e pelas suas regras metodológicas. É esta a Discurso do Método e a que voltarei mais tarde,
sua característica fundamental e a que melhor diz, referindo-se ao método por si encontrado:
simboliza a ruptura do novo paradigma cien-
tífico com os que o precedem. Está consubs- Porque já colhi dele tais frutos que embora no
tanciada, com crescente definição, na teoria juízo que faço de mim próprio procure sempre
heliocêntrica do movimento dos planetas de inclinar-me mais para o lado da desconfiança
Copérnico, nas leis de Kepler sobre as órbitas do que para o da presunção, e embora, olhando
com olhar de filósofo as diversas acções e em-
dos planetas, nas leis de Galileu sobre a queda
preendimentos de todos os homens, não haja
dos corpos, na grande síntese da ordem cósmi-
quase nenhuma que não me pareça vã e inútil,
ca de Newton e finalmente na consciência fi- não deixo de receber uma extrema satisfação
losófica que lhe conferem Bacon e sobretudo
36 Boaventura de Sousa Santos

com o progresso que julgo ter feito em busca da desconfia sistematicamente das evidências da
verdade e de conceber tais esperanças para o nossa experiência imediata. Tais evidências,
futuro que, se entre as ocupações dos homens, que estão na base do conhecimento vulgar, são
puramente homens, alguma há que seja solida- ilusórias. Como bem salienta Einstein no pre-
mente boa e importante, ouso crer que é aquela
fácio ao Diálogo sobre os Grandes Sistemas
que escolhi (1984: 6).
do Mundo (1970: XVII), Galileu esforça-se de-
nodadamente por demonstrar que a hipótese
Para compreender esta confiança episte-
dos movimentos de rotação e de translação
mológica é necessário descrever, ainda que
da terra não é refutada pelo facto de não ob-
sucintamente, os principais traços do novo
servarmos quaisquer efeitos mecânicos desses
paradigma científico. Cientes de que o que os
movimentos, ou seja, pelo facto de a terra nos
separa do saber aristotélico e medieval ainda
parecer parada e quieta. Por outro lado, é total
dominante não é apenas nem tanto uma melhor
a separação entre a natureza e o ser humano.
observação dos factos como sobretudo uma
A natureza é tão-só extensão e movimento; é
nova visão do mundo e da vida, os protago-
passiva, eterna e reversível, mecanismo cujos
nistas do novo paradigma conduzem uma luta
elementos se podem desmontar e depois rela-
apaixonada contra todas as formas de dogma-
cionar sob a forma de leis; não tem qualquer
tismo e de autoridade. O caso de Galileu é par-
outra qualidade ou dignidade que nos impeça
ticularmente exemplar, e é ainda Descartes que
de desvendar os seus mistérios, desvendamen-
afirma: “Eu não podia escolher ninguém cujas
to que não é contemplativo, mas antes activo,
opiniões me parecessem dever ser preferidas
já que visa conhecer a natureza para a dominar
às dos outros, e encontrava-me como que obri-
e controlar. Como diz Bacon, a ciência fará da
gado a procurar conduzir-me a mim próprio”
pessoa humana “o senhor e o possuidor da na-
(1984: 16). Esta nova visão do mundo e da vida
tureza” (1933)1.
reconduz-se a duas distinções fundamentais,
entre conhecimento científico e conhecimento
do senso comum, por um lado, e entre natu- 1 Para Bacon “a senda que conduz o homem ao po-
reza e pessoa humana, por outro. Ao contrá- der e a que o conduz à ciência estão muito próximas,
rio da ciência aristotélica, a ciência moderna sendo quase a mesma” (1933: 110). Se o objectivo da
ciência é dominar a natureza não é menos verdade que
Um discurso sobre as ciências 37

Com base nestes pressupostos o conheci- As ideias que presidem à observação e à ex-
mento científico avança pela observação des- perimentação são as ideias claras e simples a
comprometida e livre, sistemática e tanto quan- partir das quais se pode ascender a um conhe-
to possível rigorosa dos fenómenos naturais. O cimento mais profundo e rigoroso da nature-
Novum Organum opõe a incerteza da razão za. Essas ideias são as ideias matemáticas. A
entregue a si mesma à certeza da experiência matemática fornece à ciência moderna, não só
ordenada (1981: 30). Ao contrário do que pen- o instrumento privilegiado de análise, como
sa Bacon, a experiência não dispensa a teoria também a lógica da investigação, como ainda
prévia, o pensamento dedutivo ou mesmo a o modelo de representação da própria estrutu-
especulação, mas força qualquer deles a não ra da matéria. Para Galileu, o livro da nature-
dispensarem, enquanto instância de confirma- za está inscrito em caracteres geométricos2 e
ção última, a observação dos factos. Galileu só Einstein não pensa de modo diferente3. Deste
refuta as deduções de Aristóteles na medida
em que as acha insustentáveis e é ainda Eins-
tein quem nos chama a atenção para o facto 2 Entre muitos outros passos do Diálogo sobre os
de os métodos experimentais de Galileu serem Grandes Sistemas, ver a seguinte fala de Salviati: “No
que respeita à compreensão intensiva e na medida em
tão imperfeitos que só por via de especulações que este termo denota a compreensão perfeita de al-
ousadas poderia preencher as lacunas entre os guma proposição, digo que a inteligência humana com-
dados empíricos (basta recordar que não ha- preende algumas delas perfeitamente, e que, portanto,
via medições de tempo inferiores ao segundo) a respeito delas tem uma certeza tão absoluta quanto
a própria natureza. Tais são as proposições das ciên-
(Enstein, 1970: XIX). Descartes, por seu turno,
cias matemáticas, isto é, da geometria e da aritmética
vai inequivocamente das ideias para as coisas nas quais a inteligência divina conhece infinitamente
e não das coisas para as ideias e estabelece a mais proposições porque as conhece todas. Mas no
prioridade da metafísica enquanto fundamento que respeita àquelas poucas que a inteligência humana
último da ciência. compreende, penso que o seu conhecimento é igual ao
Divino em certeza objectiva porque, nesses casos, con-
segue compreender a necessidade para além da qual
“só podemos vencer a natureza obedecendo-lhe” (1933: não há maior certeza”. Ver Galilei, 1970: 103.
6), o que nem sempre tem sido devidamente salientado 3 A admiração de Einstein por Galileu está bem ex-
nas interpretações da teoria de Bacon sobre a ciência. pressa no prefácio referido anteriormente, ver Einstein,
38 Boaventura de Sousa Santos

lugar central da matemática na ciência moder- as que estabelecem as condições relevantes


na derivam duas consequências principais. Em dos factos a observar; as leis da natureza são
primeiro lugar, conhecer significa quantificar. o reino da simplicidade e da regularidade onde
O rigor científico afere-se pelo rigor das me- é possível observar e medir com rigor. Esta dis-
dições. As qualidades intrínsecas do objecto tinção entre condições iniciais e leis da nature-
são, por assim dizer, desqualificadas e em seu za nada tem de “natural”. Como bem observa
lugar passam a imperar as quantidades em que Eugene Wigner, é mesmo completamente arbi-
eventualmente se podem traduzir. O que não é trária (1970: 3). No entanto, é nela que assenta
quantificável é cientificamente irrelevante. Em toda a ciência moderna.
segundo lugar, o método científico assenta na A natureza teórica do conhecimento cientí-
redução da complexidade. O mundo é compli- fico decorre dos pressupostos epistemológicos
cado e a mente humana não o pode compreen- e das regras metodológicas já referidas. É um
der completamente. Conhecer significa dividir conhecimento causal que aspira à formulação
e classificar para depois poder determinar rela- de leis, à luz de regularidades observadas, com
ções sistemáticas entre o que se separou. Já em vista a prever o comportamento futuro dos fe-
Descartes uma das regras do Método consiste nómenos. A descoberta das leis da natureza as-
precisamente em “dividir cada uma das dificul- senta, por um lado, e como já se referiu, no iso-
dades… em tantas parcelas quanto for possí- lamento das condições iniciais relevantes (por
vel e requerido para melhor as resolver” (1984: exemplo, no caso da queda dos corpos, a posi-
17). A divisão primordial é a que distingue en- ção inicial e a velocidade do corpo em queda) e,
tre “condições iniciais” e “leis da natureza”. As por outro lado, no pressuposto de que o resul-
condições iniciais são o reino da complicação, tado se produzirá independentemente do lugar
do acidente e onde é necessário seleccionar e do tempo em que se realizarem as condições
iniciais. Por outras palavras, a descoberta das
leis da natureza assenta no princípio de que a
1970. O modo radical (e instintivo) como Einstein “vê” posição absoluta e o tempo absoluto nunca são
a natureza matemática da estrutura da matéria explica condições iniciais relevantes. Este princípio é,
em parte a sua longa batalha sobre a interpretação da
segundo Wigner, o mais importante teorema da
mecânica quântica (especialmente contra a interpreta-
ção de Copenhague). Ver Hoffmann, 1973: 173 e ss. invariância na física clássica (1970: 226).
Um discurso sobre as ciências 39

As leis, enquanto categorias de inteligibili- determinar exactamente por meio de leis físi-
dade, repousam num conceito de causalidade cas e matemáticas, um mundo estático e eterno
escolhido, não arbitrariamente, entre os ofere- a flutuar num espaço vazio, um mundo que o
cidos pela física aristotélica. Aristóteles distin- racional ismo cartesiano torna cognoscível por
gue quatro tipos de causa: a causa material, a via da sua decomposição nos elementos que o
causa formal, a causa eficiente e a causa final. constituem. Esta ideia do mundo-máquina é de
As leis da ciência moderna são um tipo de cau- tal modo poderosa que se vai transformar na
sa formal que privilegia o como funciona das grande hipótese universal da época moderna,
coisas em detrimento de qual o agente ou qual o mecanicismo. Pode parecer surpreendente e
o fim das coisas. É por esta via que o conhe- até paradoxal que uma forma de conhecimen-
cimento científico rompe com o conhecimento to, assente numa tal visão do mundo, tenha
do senso comum. É que, enquanto no senso co- vindo a constituir um dos pilares da ideia de
mum, e portanto no conhecimento prático em progresso que ganha corpo no pensamento eu-
que ele se traduz, a causa e a intenção convi- ropeu a partir do século XVIII e que é o gran-
vem sem problemas, na ciência a determinação de sinal intelectual da ascensão da burguesia4.
da causa formal obtém-se com a expulsão da Mas a verdade é que a ordem e a estabilidade
intenção. É este tipo de causa formal que per- do mundo são a pré-condição da transforma-
mite prever e, portanto, intervir no real e que, ção tecnológica do real.
em última instância, permite à ciência moderna O determinismo mecanicista é o horizonte
responder à pergunta sobre os fundamentos do certo de uma forma de conhecimento que se
seu rigor e da sua verdade com o elenco dos pretende utilitário e funcional, reconhecido
seus êxitos na manipulação e na transforma- menos pela capacidade de compreender pro-
ção do real. fundamente o real do que pela capacidade de o
Um conhecimento baseado na formulação dominar e transformar. No plano social, é esse
de leis tem como pressuposto metateórico a também o horizonte cognitivo mais adequado
ideia de ordem e de estabilidade do mundo, a aos interesses da burguesia ascendente que
ideia de que o passado se repete no futuro. Se-
gundo a mecânica newtoniana, o mundo da ma-
téria é uma máquina cujas operações se podem 4 Ver, entre muitos, Pollard, 1971: 39.
40 Boaventura de Sousa Santos

via na sociedade em que começava a dominar pelo homem, e as leis inescapáveis da natureza
o estádio final da evolução da humanidade (o (1950). No século XVIII este espírito precursor
estado positivo de Comte; a sociedade indus- é ampliado e aprofundado e o fermento intelec-
trial de Spencer; a solidariedade orgânica de tual que daí resulta, as luzes, vai criar as condi-
Durkheim). Daí que o prestígio de Newton e ções para a emergência das ciências sociais no
das leis simples a que reduzia toda a comple- século XIX. A consciência filosófica da ciência
xidade da ordem cósmica tenham convertido moderna, que tivera no racionalismo cartesia-
a ciência moderna no modelo de racionalidade no e no empirismo baconiano as suas primeiras
hegemónica que a pouco e pouco transbordou formulações, veio a condensar-se no positivis-
do estudo da natureza para o estudo da socie- mo oitocentista. Dado que, segundo este, só há
dade. Tal como foi possível descobrir as leis duas formas de conhecimento científico — as
da natureza, seria igualmente possível desco- disciplinas formais da lógica e da matemática
brir as leis da sociedade. Bacon, Vico e Mon- e as ciências empíricas segundo o modelo me-
tesquieu são os grandes precursores. Bacon canicista das ciências naturais — as ciências
afirma a plasticidade da natureza humana e, sociais nasceram para ser empíricas. O modo
portanto, a sua perfectibilidade, dadas as con- como o modelo mecanicista foi assumido foi,
dições sociais, jurídicas e políticas adequadas, no entanto, diverso. Distingo duas vertentes
condições que é possível determinar com rigor principais: a primeira, sem dúvida dominante,
(1933). Vico sugere a existência de leis que go- consistiu em aplicar, na medida do possível, ao
vernam deterministicamente a evolução das estudo da sociedade todos os princípios epis-
sociedades e tornam possível prever os resul- temológicos e metodológicos que presidiam ao
tados das acções colectivas. Com extraordiná- estudo da natureza desde o século XVI; a se-
ria premonição Vico identifica e resolve a con- gunda, durante muito tempo marginal mas hoje
tradição entre a liberdade e a imprevisibilidade cada vez mais seguida, consistiu em reivindicar
da acção humana individual e a determinação para as ciências sociais um estatuto epistemo-
e previsibilidade da acção colectiva (1953). lógico e metodológico próprio, com base na
Montesquieu pode ser considerado um precur- especificidade do ser humano e sua distinção
sor da sociologia do direito ao estabelecer a polar em relação à natureza. Estas duas con-
relação entre as leis do sistema jurídico, feitas cepções têm sido consideradas antagónicas, a
Um discurso sobre as ciências 41

primeira sujeita ao jugo positivista, a segunda necessário reduzir os factos sociais às suas di-
liberta dele, e qualquer delas reivindicando o mensões externas, observáveis e mensuráveis.
monopólio do conhecimento científico-social. As causas do aumento da taxa de suicídio na
Apresentarei adiante uma interpretação dife- Europa do virar do século não são procuradas
rente, mas para já caracterizarei sucintamente nos motivos invocados pelos suicidas e deixa-
cada uma destas variantes. dos em cartas, como é costume, mas antes a
A primeira variante — cujo compromis- partir da verificação de regularidades em fun-
so epistemológico está bem simbolizado no ção de condições tais como o sexo, o estado
nome de “física social” com que inicialmente civil, a existência ou não de filhos, a religião
se designaram os estudos científicos da socie- dos suicidas (Durkheim, 1973).
dade — parte do pressuposto que as ciências Porque essa redução nem sempre é fácil e
naturais são uma aplicação ou concretização nem sempre se consegue sem distorcer gros-
de um modelo de conhecimento universalmen- seiramente os factos ou sem os reduzir à quase
te válido e, de resto, o único válido. Portanto, irrelevância, as ciências sociais têm um longo
por maiores que sejam as diferenças entre os caminho a percorrer no sentido de se compa-
fenómenos naturais e os fenómenos sociais é tibilizarem com os critérios de cientificidade
sempre possível estudar os últimos como se das ciências naturais. Os obstáculos são enor-
fossem os primeiros. Reconhece-se que essas mes, mas não são insuperáveis. Ernest Nagel,
diferenças actuam contra os fenómenos so- em The Structure of Science, simboliza bem o
ciais, ou seja, tornam mais difícil o cumprimen- esforço desenvolvido nesta variante para iden-
to do cânone metodológico e menos rigoroso tificar os obstáculos e apontar as vias da sua
o conhecimento a que se chega, mas não há superação. Eis alguns dos principais obstácu-
diferenças qualitativas entre o processo cien- los: as ciências sociais não dispõem de teorias
tífico neste domínio e o que preside ao estudo explicativas que lhes permitam abstrair do real
dos fenómenos naturais. Para estudar os fe- para depois buscar nele, de modo metodolo-
nómenos sociais como se fossem fenómenos gicamente controlado, a prova adequada; as
naturais, ou seja, para conceber os factos so- ciências sociais não podem estabelecer leis
ciais como coisas, como pretendia Durkheim universais porque os fenómenos sociais são
(1980), o fundador da sociologia académica, é historicamente condicionados e culturalmente
42 Boaventura de Sousa Santos

determinados; as ciências sociais não podem cias, ao contrário das ciências naturais, essas
produzir previsões fiáveis porque os seres hu- sim, paradigmáticas. Enquanto, nas ciências
manos modificam o seu comportamento em naturais, o desenvolvimento do conhecimento
função do conhecimento que sobre ele se ad- tornou possível a formulação de um conjun-
quire; os fenómenos sociais são de natureza to de princípios e de teorias sobre a estrutu-
subjectiva e como tal não se deixam captar pela ra da matéria que são aceites sem discussão
objectividade do comportamento; as ciências por toda a comunidade científica, conjunto
sociais não são objectivas porque o cientista esse que designa por paradigma, nas ciências
social não pode libertar-se, no acto de obser- sociais não há consenso paradigmático, pelo
vação, dos valores que informam a sua prática que o debate tende a atravessar verticalmente
em geral e, portanto, também a sua prática de toda a espessura do conhecimento adquirido.
cientista (Nagel, 1961: 447). O esforço e o desperdício que isso acarreta é
Em relação a cada um destes obstáculos, simultaneamente causa e efeito do atraso das
Nagel tenta demonstrar que a oposição entre ciências sociais.
as ciências sociais e as ciências naturais não A segunda vertente reivindica para as ciên-
é tão linear quanto se julga e que, na medida cias sociais um estatuto metodológico próprio.
em que há diferenças, elas são superáveis ou Os obstáculos que há pouco enunciei são, se-
negligenciáveis. Reconhece, no entanto, que a gundo esta vertente, intransponíveis. Para al-
superação dos obstáculos nem sempre é fácil guns, é a própria ideia de ciência da sociedade
e que essa é a razão principal do atraso das ci- que está em causa, para outros trata-se tão-só
ências sociais em relação às ciências naturais. de empreender uma ciência diferente. O ar-
A ideia do atraso das ciências sociais é a ideia gumento fundamental é que a acção humana
central da argumentação metodológica nesta é radicalmente subjectiva. O comportamento
variante, é, com ela, a ideia de que esse atraso, humano, ao contrário dos fenómenos naturais,
com tempo e dinheiro, poderá vir a ser reduzi- não pode ser descrito e muito menos explicado
do ou mesmo eliminado. com base nas suas características exteriores e
Na teoria das revoluções científicas de Tho- objectiváveis, uma vez que o mesmo acto ex-
mas Kuhn o atraso das ciências sociais é dado terno pode corresponder a sentidos de acção
pelo carácter pré-paradigmático destas ciên- muito diferentes. A ciência social será sempre
Um discurso sobre as ciências 43

uma ciência subjectiva e não objectiva como a distinção natureza/cultura e a distinção ser
as ciências naturais; tem de compreender os humano/animal, para no século XVIII se poder
fenómenos sociais a partir das atitudes men- celebrar o carácter único do ser humano. A
tais e do sentido que os agentes conferem às fronteira que então se estabelece entre o estu-
suas acções, para o que é necessário utilizar do do ser humano e o estudo da natureza não
métodos de investigação e mesmo critérios deixa de ser prisioneira do reconhecimento
epistemológicos diferentes dos correntes nas da prioridade cognitiva das ciências naturais,
ciências naturais, métodos qualitativos em pois, se, por um lado, se recusam os condicio-
vez de quantitativos, com vista à obtenção de nantes biológicos do comportamento humano,
um conhecimento intersubjectivo, descritivo pelo outro, usam-se argumentos biológicos
e compreensivo, em vez de um conhecimento para fixar a especificidade do ser humano.
objectivo, explicativo e nomotético. Pode, pois, concluir-se que ambas as concep-
Esta concepção de ciência social reconhe- ções de ciência social a que aludi pertencem
ce-se numa postura antipositivista e assenta ao paradigma da ciência moderna, ainda que a
na tradição filosófica da fenomenologia e nela concepção mencionada em segundo lugar re-
convergem diferentes variantes, desde as mais presente, dentro deste paradigma, um sinal de
moderadas (como a de Max Weber) (1968) até crise e contenha alguns dos componentes da
às mais extremistas (como a de Peter Winch) transição para um outro paradigma científico.
(1970). Contudo, numa reflexão mais aprofun-
dada, esta concepção, tal como tem vindo a ser A crise do paradigma dominante
elaborada, revela-se mais subsidiária do mo- São hoje muitos e fortes os sinais de que o
delo de racionalidade das ciências naturais do modelo de racionalidade científica que acabo
que parece. Partilha com este modelo a distin- de descrever em alguns dos seus traços princi-
ção natureza/ser humano e tal como ele tem da pais atravessa uma profunda crise. Defenderei
natureza uma visão mecanicista à qual contra- nesta secção: primeiro, que essa crise é não só
põe, com evidência esperada, a especificidade profunda como irreversível; segundo, que es-
do ser humano. A esta distinção, primordial na tamos a viver um período de revolução cientí-
revolução científica do século XVI, vão-se so- fica que se iniciou com Einstein e a mecânica
brepor nos séculos seguintes outras, tal como quântica e não se sabe ainda quando acabará;
44 Boaventura de Sousa Santos

terceiro, que os sinais nos permitem tão-só es- problema lógico a resolver é o seguinte: como
pecular acerca do paradigma que emergirá des- é que o observador estabelece a ordem tempo-
te período revolucionário mas que, desde já, se ral de acontecimentos no espaço? Certamente
pode afirmar com segurança que colapsarão as por medições da velocidade da luz, partindo
distinções básicas em que assenta o paradigma do pressuposto, que é fundamental à teoria de
dominante e a que aludi na secção precedente. Einstein, que não há na natureza velocidade su-
A crise do paradigma dominante é o resul- perior à da luz. No entanto, ao medir a veloci-
tado interactivo de uma pluralidade de condi- dade numa direcção única (de A a B), Einstein
ções. Distingo entre condições sociais e condi- defronta-se com um círculo vicioso: a fim de de-
ções teóricas. Darei mais atenção às condições terminar a simultaneidade dos acontecimentos
teóricas e por elas começo. A primeira obser- distantes é necessário conhecer a velocidade;
vação, que não é tão trivial quanto parece, é mas para medir a velocidade é necessário co-
que a identificação dos limites, das insuficiên- nhecer a simultaneidade dos acontecimentos.
cias estruturais do paradigma científico moder- Com um golpe de génio, Einstein rompe com
no é o resultado do grande avanço no conhe- este círculo, demonstrando que a simultaneida-
cimento que ele propiciou. O aprofundamento de de acontecimentos distantes não pode ser
do conhecimento permitiu ver a fragilidade dos verificada, pode tão-só ser definida. É, portan-
pilares em que se funda. to, arbitrária e daí que, como salienta Reichen-
Einstein constitui o primeiro rombo no pa- bach (1970: 60), quando fazemos medições não
radigma da ciência moderna, um rombo, aliás, pode haver contradições rios resultados uma
mais importante do que o que Einstein foi sub- vez que estes nos devolverão a simultaneidade
jectivamente capaz de admitir. Um dos pen- que nós introduzimos por definição no sistema
samentos mais profundos de Einstein é o da de medição. Esta teoria veio revolucionar as
relatividade da simultaneidade. Einstein distin- nossas concepções de espaço e de tempo. Não
gue entre a simultaneidade de acontecimentos havendo simultaneidade universal, o tempo e o
presentes no mesmo lugar e a simultaneidade espaço absolutos de Newton deixam de existir.
de acontecimentos distantes, em particular Dois acontecimentos simultâneos num sistema
de acontecimentos separados por distâncias de referência não são simultâneos noutro siste-
astronómicas. Em relação a estes últimos, o ma de referência. As leis da física e da geome-
Um discurso sobre as ciências 45

tria assentam em medições locais. “Os instru- ção das partículas; o que for feito para reduzir
mentos de medida, sejam relógios ou metros, o erro de uma das medições aumenta o erro da
não têm magnitudes independentes, ajustam- outra (Heisenberg, 1971 e s/d). Este princípio,
-se ao campo métrico do espaço, a estrutura do e, portanto, a demonstração da interferência
qual se manifesta mais claramente nos raios de estrutural do sujeito no objecto observado,
luz” (1970: 68). tem implicações de vulto. Por um lado, sendo
O carácter local das medições e, portanto, estruturalmente limitado o rigor do nosso co-
do rigor do conhecimento que com base nelas nhecimento, só podemos aspirar a resultados
se obtém vai inspirar o surgimento da segun- aproximados e por isso as leis da física são tão-
da condição teórica da crise do paradigma -só probabilísticas. Por outro lado, a hipótese
dominante, a mecânica quântica. Se Einstein do determinismo mecanicista é inviabilizada
relativizou o rigor das leis de Newton no do- uma vez que a totalidade do real não se reduz
mínio da astrofísica, a mecânica quântica fê-lo à soma das partes em que a dividimos para ob-
no domínio da microfísica. Heisenberg e Bohr servar e medir. Por último, a distinção sujeito/
demonstram que não é possível observar ou objecto é muito mais complexa do que à pri-
medir um objecto sem interferir nele, sem o meira vista pode parecer. A distinção perde os
alterar, e a tal ponto que o objecto que sai de seus contornos dicotómicos e assume a forma
um processo de medição não é o mesmo que de um continuum.
lá entrou. Como ilustra Wigner, “a medição da O rigor da medição posto em causa pela me-
curvatura do espaço causada por uma partícu- cânica quântica será ainda mais profundamen-
la não pode ser levada a cabo sem criar novos te abalado se se questionar o rigor do veículo
campos que são biliões de vezes maiores que o formal em que a medição é expressa, ou seja, o
campo sob investigação” (1970: 7). A ideia de rigor da matemática. É isso o que sucede com
que não conhecemos do real senão o que nele as investigações de Gödel e que por essa razão
introduzimos, ou seja, que não conhecemos do considero serem a terceira condição da crise
real senão a nossa intervenção nele, está bem do paradigma. O teorema da incompletude (ou
expressa no princípio da incerteza de Heisen- do não completamento) e os teoremas sobre a
berg: não se podem reduzir simultaneamente impossibilidade, em certas circunstâncias, de
os erros da medição da velocidade e da posi- encontrar dentro de um dado sistema formal a
46 Boaventura de Sousa Santos

prova da sua consistência vieram mostrar que, e que, como tal, tem um lado construtivo e um
mesmo seguindo à risca as regras da lógica lado destrutivo.
matemática, é possível formular proposições A quarta condição teórica da crise do pa-
indecidíveis, proposições que se não podem radigma newtoniano é constituída pelos avan-
demonstrar nem refutar, sendo que uma des- ços do conhecimento nos domínios da micro-
sas proposições é precisamente a que postula física, da química e da biologia nos últimos
o carácter não-contraditório do sistema5. Se vinte anos. A título de exemplo, menciono
as leis da natureza fundamentam o seu rigor as investigações do físico-químico Ilya Prigo-
no rigor das formalizações matemáticas em gine. A teoria das estruturas dissipativas e o
que se expressam, as investigações de Gödel princípio da “ordem através de flutuações” es-
vêm demonstrar que o rigor da matemática tabelecem que em sistemas abertos, ou seja,
carece ele próprio de fundamento. A partir em sistemas que funcionam nas margens da
daqui é possível não só questionar o rigor da estabilidade, a evolução explica-se por flutua-
matemática como também redefini-lo enquan- ções de energia que em determinados momen-
to forma de rigor que se opõe a outras formas tos, nunca inteiramente previsíveis, desenca-
de rigor alternativo, uma forma de rigor cujas deiam espontaneamente reacções que, por
condições de êxito na ciência moderna não via de mecanismos não lineares, pressionam
podem continuar a ser concebidas como natu- o sistema para além de um limite máximo de
rais e óbvias. A própria filosofia da matemáti- instabilidade e o conduzem a um novo estado
ca, sobretudo a que incide sobre a experiência macroscópico. Esta transformação irreversí-
matemática, tem vindo a problematizar criati- vel e termodinâmica é o resultado da interac-
vamente estes temas e reconhece hoje que o ção de processos microscópicos segundo uma
rigor matemático, como qualquer outra forma lógica de auto-organização numa situação de
de rigor, assenta num critério de selectividade não-equilíbrio. A situação de bifurcação, ou
seja, o ponto crítico em que a mínima flutu-
ação de energia pode conduzir a um novo es-
5 O impacto dos teoremas de Gödel na filosofia da ci- tado, representa a potencialidade do sistema
ência tem sido diversamente avaliado. Ver, por exemplo,
em ser atraído para um novo estado de menor
Ladrière, 1967: 312 e ss.; Jones, 1982: 158; Parain-Vial,
1983: 52 e ss.; Thom, 1985: 36; Briggs e Peat, 1985: 22. entropia. Deste modo a irreversibilidade nos
Um discurso sobre as ciências 47

sistemas abertos significa que estes são pro- ções, entre outras, na teoria de Prigogine, na
duto da sua história6. sinergética de Haken (1977 e 1985: 205), no
A importância desta teoria está na nova con- conceito de hiperciclo e na teoria da origem
cepção da matéria e da natureza que propõe, da vida de Eigen7, nó conceito de autopoiesis
uma concepção dificilmente compaginável de Maturana e Varela (1973 e 1975)8. na teoria
com a que herdámos da física clássica. Em vez das catástrofes de Thom (1985: 85), na teoria
da eternidade, a história; em vez do determi- da evolução de Jantsch9 na teoria da “ordem
nismo, a imprevisibilidade; em vez do meca- implicada” de David Bohm (1984) ou na teoria
nicismo, a interpenetração, a espontaneidade da matriz-S de Geoffrey Chew e na filosofia do
e a auto-organização; em vez da reversibilida- “bootstrap” que lhe subjaz10. Este movimento
de, a irreversibilidade e a evolução; em vez da científico e as demais inovações teóricas que
ordem, a desordem; em vez da necessidade, a atrás defini como outras tantas condições te-
criatividade e o acidente. A teoria de Prigogine óricas da crise do paradigma dominante têm
recupera inclusivamente conceitos aristotéli- vindo a propiciar uma profunda reflexão epis-
cos tais como os conceitos de potencialidade e temológica sobre o conhecimento científico,
virtualidade que a revolução científica do sécu- uma reflexão de tal modo rica e diversificada
lo XVI parecia ter atirado definitivamente para que, melhor do que qualquer outra circunstân-
o lixo da história. cia, caracteriza exemplarmente a situação inte-
Mas a importância maior desta teoria está lectual do tempo presente. Esta reflexão apre-
em que ela não é um fenómeno isolado. Faz senta duas facetas sociológicas importantes.
parte de um movimento convergente, pujante Em primeiro lugar, a reflexão é levada a cabo
sobretudo a partir da última década, que atra- predominantemente pelos próprios cientistas,
vessa as várias ciências da natureza e até as
ciências sociais, um movimento de vocação
transdisciplinar que Jantsch designa por pa- 7 Ver Eigen e Schuster, 1979.
radigma da auto-organização e que tem aflora- 8 Ver também, Benseler, Hejl e Koch (orgs.) 1980.
9 Ver Jantsch, 1980 e 1981: 83 e ss.
6 Ver Prigogine e Stengers, 1979; Prigogine, 1980; Pri- 10 Ver Chew, 1968: 762 e ss. e 1970: 23 e ss; Capra,
gogine, 1981: 73 e ss. 1979: 11 e ss.
48 Boaventura de Sousa Santos

por cientistas que adquiriram uma competên- razoavelmente pequeno de condições (as con-
cia e um interesse filosóficos para problemati- dições iniciais) cuja interferência é observada
zar a sua prática científica. Não é arriscado di- e medida. Esta ideia, reconhece-se hoje, obriga
zer que nunca houve tantos cientistas-filósofos a separações grosseiras entre os fenómenos,
como actualmente, e isso não se deve a uma separações que, aliás, são sempre provisórias
evolução arbitrária do interesse intelectual. e precárias uma vez que a verificação da não
Depois da euforia cientista do século XIX e interferência de certos factores é sempre pro-
da consequente aversão à reflexão filosófica, duto de um conhecimento imperfeito, por mais
bem simbolizada pelo positivismo, chegámos perfeito que seja. As leis têm assim um carácter
a finais do século XX possuídos pelo desejo probabilístico, aproximativo e provisório, bem
quase desesperado de complementarmos o expresso no princípio da falsificabilidade de
conhecimento das coisas com o conhecimento Popper. Mas acima de tudo, a simplicidade das
do conhecimento das coisas, isto é, com o co- leis constitui uma simplificação arbitrária da
nhecimento de nós próprios. A segunda faceta realidade que nos confina a um horizonte míni-
desta reflexão é que ela abrange questões que mo para além do qual outros conhecimentos da
antes eram deixadas aos sociólogos. A análise natureza, provavelmente mais ricos e com mais
das condições sociais, dos contextos culturais, interesse humano, ficam por conhecer. Na bio-
dos modelos organizacionais da investigação logia, onde as interacções entre fenómenos e
científica, antes acantonada no campo separa- formas de auto-organização em totalidades não
do e estanque da sociologia da ciência, passou mecânicas são mais visíveis, mas também nas
a ocupar papel de relevo na reflexão epistemo- demais ciências, a noção de lei tem vindo a ser
lógica. Do conteúdo desta reflexão respigarei, parcial e sucessivamente substituída pelas no-
a título ilustrativo, alguns dos temas principais. ções de sistema, de estrutura, de modelo e, por
Em primeiro lugar, são questionados o concei- último, pela noção de processo. O declínio da
to de lei e o conceito de causalidade que lhe hegemonia da legalidade é concomitante do de-
está associado. clínio da hegemonia da causalidade. O questio-
A formulação das leis da natureza funda- namento da causalidade nos tempos modernos
-se na ideia de que os fenómenos observados vem de longe, pelo menos desde David Hume
independem de tudo excepto de um conjunto e do positivismo lógico. A reflexão crítica tem
Um discurso sobre as ciências 49

incidido tanto no problema ontológico da cau- O segundo grande tema de reflexão epis-
salidade (quais as características do nexo cau- temológica versa mais sobre o conteúdo do
sal?; esse nexo existe na realidade?) como no conhecimento científico do que sobre a sua
problema metodológico da causalidade (quais forma. Sendo um conhecimento mínimo que
os critérios de causalidade?; como reconhecer fecha as portas a muitos outros saberes sobre
um nexo causal ou testar uma hipótese cau- o mundo, o conhecimento científico moder-
sal?). Hoje, a relativização do conceito de cau- no é um conhecimento desencantado e triste
sa parte sobretudo do reconhecimento de que que transforma a natureza num autómato, ou,
o lugar central que ele tem ocupado na ciência como diz Prigogine, num interlocutor terrivel-
moderna se explica menos por razões ontológi- mente estúpido12. Este aviltamento da natureza
cas ou metodológicas do que por razões prag- acaba por aviltar o próprio cientista na medida
máticas. O conceito de causalidade adequa-se em que reduz o suposto diálogo experimental
bem a uma ciência que visa intervir no real e ao exercício de uma prepotência sobre a na-
que mede o seu êxito pelo âmbito dessa inter- tureza. O rigor científico, porque fundado no
venção. Afinal, causa é tudo aquilo sobre que rigor matemático, é um rigor que quantifica e
se pode agir. Mesmo os defensores da causali- que, ao quantificar, desqualifica, um rigor que,
dade, como Mário Bunge, reconhecem que ela ao objectivar os fenómenos, os objectualiza e
é apenas uma das formas do determinismo e os degrada, que, ao caracterizar os fenómenos,
que por isso tem um lugar limitado, ainda que os caricaturiza. É, em suma e finalmente, uma
insubstituível, no conhecimento científico. A forma de rigor que, ao afirmar a personalidade
verdade é que, sob a égide da biologia e tam- do cientista, destrói a personalidade da nature-
bém da microfísica, o causalismo, enquanto ca- za. Nestes termos, o conhecimento ganha em
tegoria de inteligibilidade do real, tem vindo a rigor o que perde em riqueza e a retumbância
perder terreno em favor do finalismo11. dos êxitos da intervenção tecnológica esconde

11 Bunge, 1979: 353: “The causal principle is, in short, domain”. Em Portugal é justo salientar neste domínio
neither a panacea nor a myth: it is a general hypothe- a notável obra teórica de Armando Castro. Ver 1975,
sis subsumed under the universal principle of determi- 1978, 1980, 1982 e 1987.
nacy, and having an approximate validity in its proper 12 Ver Prigogine e Stengers, 1979: 13.
50 Boaventura de Sousa Santos

os limites da nossa compreensão do mundo e é limitada porque, se é verdade que o conheci-


reprime a pergunta pelo valor humano do afã mento só sabe avançar pela via da progressiva
científico assim concebido. Esta pergunta está, parcelização do objecto, bem representada nas
no entanto, inscrita na própria relação sujeito/ crescentes especializações da ciência, é exac-
objecto que preside à ciência moderna, uma re- tamente por essa via que melhor se confirma
lação que interioriza o sujeito à custa da exte- a irredutibilidade das totalidades orgânicas ou
riorização do objecto, tornando-os estanques e inorgânicas às partes que as constituem e, por-
incomunicáveis. Os limites deste tipo de conhe- tanto, o carácter distorcivo do conhecimento
cimento são, assim, qualitativos, não são supe- centrado na observação destas últimas. Os fac-
ráveis com maiores quantidades de investiga- tos observados têm vindo a escapar ao regime
ção ou maior precisão dos instrumentos. Aliás, de isolamento prisional a que a ciência os sujei-
a própria precisão quantitativa do conhecimen- ta. Os objectos têm fronteiras cada vez menos
to é estruturalmente limitada. Por exemplo, no definidas; são constituídos por anéis que se en-
domínio das teorias da informação o teorema trecruzam em teias complexas com os dos res-
de Brillouin demonstra que a informação não é tantes objectos, a tal ponto que os objectos em
gratuita (1959)13. Qualquer observação efectua- si são menos reais que as relações entre eles.
da sobre um sistema físico aumenta a entropia Ficou dito no início desta parte que a crise
do sistema no laboratório. O rendimento de do paradigma da ciência moderna se explica
uma dada experiência deve assim ser definido por condições teóricas, que acabei ilustrati-
pela relação entre a informação obtida e o au- vamente de apontar, e por condições sociais.
mento concomitante da entropia. Ora, segundo Estas últimas não podem ter aqui tratamento
Brillouin, esse rendimento é sempre inferior à detalhado14. Referirei tão-só que, quaisquer que
unidade e só em casos raros é próximo dela. sejam os limites estruturais de rigor científico,
Nestes termos, a experiência rigorosa é irrea- não restam dúvidas que o que a ciência ganhou
lizável pois que exigiria um dispêndio infinito em rigor nos últimos quarenta ou cinquenta
de actividades humanas. Por último, a precisão anos perdeu em capacidade de auto-regulação.

13 Ver também, Parain-Vial, 1983: 122 e ss. 14 Sobre este tema ver Santos, 1978: 11 e ss.
Um discurso sobre as ciências 51

As ideias da autonomia da ciência e do desinte- zação do trabalho científico, a industrialização


resse do conhecimento científico, que durante da ciência produziu dois efeitos principais. Por
muito tempo constituíram a ideologia espon- um lado, a comunidade científica estratificou-
tânea dos cientistas, colapsaram perante o fe- -se, as relações de poder entre cientistas torna-
nómeno global da industrialização da ciência a ram-se mais autoritárias e desiguais e a esma-
partir sobretudo das décadas de trinta e qua- gadora maioria dos cientistas foi submetida a
renta. Tanto nas sociedades capitalistas como um processo de proletarização no interior dos
nas sociedades socialistas de Estado do leste laboratórios e dos centros de investigação. Por
europeu, a industrialização da ciência acarre- outro lado, a investigação capital-intensiva (as-
tou o compromisso desta com os centros de sente em instrumentos caros e raros) tornou
poder económico, social e político, os quais impossível o livre acesso ao equipamento, o
passaram a ter um papel decisivo na definição que contribuiu para o aprofundamento do fos-
das prioridades científicas. so, em termos de desenvolvimento científico e
A industrialização da ciência manifestou-se tecnológico, entre os países centrais e os paí-
tanto ao nível das aplicações da ciência como ses periféricos.
ao nível da organização da investigação cien- Pautada pelas condições teóricas e sociais
tífica. Quanto às aplicações, as bombas de Hi- que acabei de referir, a crise do paradigma da
roshima e Nagasaki foram um sinal trágico, a ciência moderna não constitui um pântano cin-
princípio visto como acidental e fortuito, mas zento de cepticismo ou de irracional ismo. É
hoje, perante a catástrofe ecológica e o peri- antes o retrato de uma família intelectual nu-
go do holocausto nuclear, cada vez mais visto merosa e instável, mas também criativa e fas-
como manifestação de um modo de produção cinante, no momento de se despedir, com al-
da ciência inclinado a transformar acidentes guma dor, dos lugares conceituais, teóricos e
em ocorrências sistemáticas. epistemológicos, ancestrais e íntimos, mas não
“A ciência e a tecnologia têm vindo a revelar- mais convincentes e securizantes, uma despe-
-se as duas faces de um processo histórico em dida em busca de uma vida melhor a caminho
que os interesses militares e os interesses eco- doutras paragens onde o optimismo seja mais
nómicos vão convergindo até quase à indistin- fundado e a facionalidade mais plural e onde
ção” (Santos, 1978: 26). No domínio da organi- finalmente o conhecimento volte a ser uma
52 Boaventura de Sousa Santos

aventura encantada. A caracterização da crise segundo tipo”, Erich Jantsch do paradigma da


do paradigma dominante traz consigo o perfil auto-organização16, Daniel Bell da sociedade
do paradigma emergente. É esse o perfil que pós-industrial (1976), Habermas da sociedade
procurarei desenhar a seguir. comunicativa (1982). Eu falarei, por agora, do
paradigma de um conhecimento prudente para
O paradigma emergente uma vida decente. Com esta designação quero
A configuração do paradigma que se anuncia significar que a natureza da revolução científi-
no horizonte só pode obter-se por via especula- ca que atravessamos é estruturalmente diferen-
tiva. Uma especulação fundada nos sinais que a te da que ocorreu no século XVI. Sendo uma
crise do paradigma actual emite mas nunca por revolução científica que ocorre numa socieda-
eles determinada. Aliás, como diz René Poirier de ela própria revolucionada pela ciência, o
e antes dele disseram Hegel e Heidegger, “a coe- paradigma a emergir dela não pode ser apenas
rência global das nossas verdades físicas e me- um paradigma científico (o paradigma de um
tafísicas só se conhece retrospectivamente”15. conhecimento prudente), tem de ser também
Por isso, ao falarmos do futuro, mesmo que seja um paradigma social (o paradigma de uma vida
de um futuro que já nos sentimos a percorrer, decente). Apresentarei o paradigma emergente
o que dele dissermos é sempre o produto de através de um conjunto de teses seguidas de
uma síntese pessoal embebida na imaginação, justificação.
no meu caso na imaginação sociológica. Não
espanta, pois, que ainda que com alguns pontos Todo o conhecimento científico-
de convergência, sejam diferentes as sínteses natural é científico-social
até agora apresentadas. Ilya Prigogine (1970), A distinção dicotómica entre ciências na-
por exemplo, fala da “nova aliança” e da meta- turais e ciências sociais deixou de ter sentido
morfose da ciência. Fritjof Capra (1976 e 1983) e utilidade. Esta distinção assenta numa con-
fala da “nova física” e do Taoismo da física, Eu- cepção mecanicista da matéria e da natureza
gene Wigner (1970: 215 e ss.) de “mudanças do a que contrapõe, com pressuposta evidência,

15 Ver Poirier, prefácio a Parain-Vial, 1983: 10. 16 Ver Jantsch, obs. cits.
Um discurso sobre as ciências 53

os conceitos de ser humano, cultura e socieda- tura de conhecer os objectos mais distantes e
de. Os avanços recentes da física e da biologia diferentes de si próprios, para, uma vez aí che-
põem em causa a distinção entre o orgânico e gados, se descobrirem reflectidos como num
o inorgânico, entre seres vivos e matéria iner- espelho. Já no princípio da década de sessenta
te e mesmo entre o humano e o não huma- e extrapolando a partir da mecânica quântica,
no. As características da auto-organização, Eugene Wigner (1970: 271) considerava que o
do metabolismo e da auto-reprodução, antes inanimado não era uma qualidade diferente
consideradas específicas dos seres vivos, são mas apenas um caso limite, que a distinção
hoje atribuídas aos sistemas pré-celulares de corpo/alma deixara de ter sentido e que a físi-
moléculas. E quer num quer noutros reconhe- ca e a psicologia acabariam por se fundir numa
cem-se propriedades e comportamentos antes única ciência. Hoje é possível ir muito além da
considerados específicos dos seres humanos mecânica quântica. Enquanto esta introduziu a
e das relações sociais. A teoria das estruturas consciência no acto do conhecimento, nós te-
dissipativas de Prigogine, ou a teoria sinergé- mos hoje de a introduzir no próprio objecto do
tica de Haken já citadas, mas também a teoria conhecimento, sabendo que, com isso, a distin-
da “ordem implicada” de David Bohm, a teoria ção sujeito/objecto sofrerá uma transformação
da matriz-S de Geoffrey Chew e a filosofia do radical. Num certo regresso ao pan-psiquismo
“bootstrap” que lhe subjaz e ainda a teoria do leibniziano, começa hoje a reconhecer-se uma
encontro entre a física contemporânea e o mis- dimensão psíquica na natureza, “a mente mais
ticismo oriental de Fritjof Capra, todas elas de ampla” de que fala Bateson, da qual a mente
vocação holística e algumas especificamente humana é apenas uma parte, uma mente ima-
orientadas para superar as inconsistências en- nente ao sistema social global e à ecologia pla-
tre a mecânica quântica e a teoria da relativida- netária que alguns chamam Deus (1985). Geo-
de de Einstein, todas estas teorias introduzem ffrey Chew postula a existência de consciência
na matéria os conceitos de historicidade e de na natureza como um elemento necessário à
processo, de liberdade, de autodeterminação e autoconsistência desta última e, se assim for,
até de consciência que antes o homem e a mu- as futuras teorias da matéria terão de incluir
lher tinham reservado para si. É como se o ho- o estudo da consciência humana. Convergen-
mem e a mulher se tivessem lançado na aven- temente, assiste-se a um renovado interesse
54 Boaventura de Sousa Santos

pelo “inconsciente colectivo”, imanente à hu- gadas por nexo de causalidade. São antes duas
manidade no seu todo, de Jung. Aliás, Capra projecções, mutuamente envolventes, de uma
pretende ver as ideias de Jung — sobretudo a realidade mais alta que não é nem matéria nem
ideia da sincronicidade para explicar a relação consciência. O conhecimento do paradigma
entre a realidade exterior e a realidade inte- emergente tende assinta ser um conhecimento
rior — confirmadas pelos recentes conceitos não dualista, um conhecimento que se funda na
de interacções locais e não locais na física das superação das distinções tão familiares e ób-
partículas17. Tal como na sincronia jungiana, as vias que até há pouco considerávamos insubs-
interacções não locais são instantâneas e não tituíveis, tais como natureza/cultura, natural/
podem ser previstas, em termos matemáticos artificial, vivo/inanimado, mente/matéria, ob-
precisos. Não são, pois, produzidas por causas servador/observado, subjectivo/objectivo;” co-
locais e, quando muito, poder-se-á falar da cau- lectivo/individual, animal/pessoa. Este relativo
salidade estatística. Capra vê em Jung uma das colapso das distinções dicotómicas repercute-
alternativas teóricas às concepções mecanicis- -se nas disciplinas científicas que sobre elas se
tas de Freud e Bateson afirma que enquanto fundaram. Aliás, sempre houve ciências que se
Freud ampliou o conceito de mente para den- reconheceram mal nestas distinções e tanto
tro (permitindo-nos abranger o subconsciente que se tiveram de fracturar internamente para
e o inconsciente) é necessário agora ampliá-lo se lhes adequarem minimamente. Refiro-me à
para fora (reconhecendo a existência de fenó- antropologia, à geografia e também à psicolo-
menos mentais para além dos individuais e hu- gia. Condensaram-se nelas privilegiadamente
manos). Semelhantemente, a teoria da “ordem as contradições da separação ciências natu-
implicada”, que, segundo o seu autor, David rais/ciências sociais. Daí que, num período de
Bohm, pode constituir uma base comum tanto transição entre paradigmas, seja particular-
à teoria quântica como à teoria da relativida- mente importante, do ponto de vista epistemo-
de, concebe a consciência e a matéria como lógico, observar o que se passa nessas ciências.
interdependentes sem, no entanto, estarem li- Não basta, porém, apontar a tendência para
a superação da distinção entre ciências natu-
rais e ciências sociais, é preciso conhecer o
17 Ver também Bowen, 1985: 213 e ss. sentido e conteúdo dessa superação. Recor-
Um discurso sobre as ciências 55

rendo de novo à física, trata-se de saber qual Prigogine quer a teoria sinergética de Haken
será o “parâmetro de ordem”, segundo Haken, explicam o comportamento das partículas
ou o “atractor”, segundo. Prigogine, dessa su- através dos conceitos de revolução social, vio-
peração, se as ciências naturais, se as ciências lência, escravatura, dominação, democracia
sociais. Precisamente porque vivemos um es- nuclear, todos eles originários das ciências so-
tado de turbulência, as vibrações do novo pa- ciais (da sociologia, da ciência política, da his-
radigma repercutem-se desigualmente nas — tória, etc.). O mesmo sucede, ainda no campo
várias regiões do paradigma vigente e por isso da física teórica, com as teorias de Capra sobre
os sinais do futuro são ambíguos. Alguns lêem a relação entre física e psicanálise, os padrões
neles a emergência de um novo naturalismo da matéria e os padrões da mente concebidos
centrado no privilegiamento dos pressupostos como reflexos uns dos outros. Apesar de estas
biológicos do comportamento humano. Assim teorias diluírem as fronteiras entre os objectos
Konrad Lorenz ou a sociobiologia. Para estes, da física e os objectos da biologia, foi sem dú-
a superação da dicotomia ciências naturais/ci- vida no domínio desta última que os modelos
ências sociais ocorre sob a égide das ciências explicativos das ciências sociais mais se enrai-
naturais. Contra esta posição pode objectar- zaram nas décadas recentes. Os conceitos de
-se que ela tem do futuro a mesma concepção teleomorfismo, autopoiesis, auto-organização,
com que as ciências naturais auto-justificam, potencialidade organizada, originalidade, indi-
no seio do paradigma dominante, o seu prestí- vidualidade, historicidade atribuem à natureza
gio científico, social e político e, por isso, só vê um comportamento humano. Lovelock (1987),
do futuro aquilo em que ele repete o presente. escrevendo sobre as ciências da vida, afirma
Se, pelo contrário, numa reflexão mais apro- que os nossos corpos são constituídos por co-
fundada, atentarmos no conteúdo teórico das operativas de células.
ciências que mais têm progredido no conhe- Que os modelos explicativos das ciências
cimento da matéria, verificamos que a emer- sociais vêm subjazendo ao desenvolvimento
gente inteligibilidade da natureza é presidida das ciências naturais nas últimas décadas pro-
por conceitos, teorias, metáforas e analogias va-se, além do mais, pela facilidade com que as
das ciências sociais. Para não irmos mais lon- teorias físico-naturais, uma vez formuladas no
ge, quer a teoria das estruturas dissipativas de seu domínio específico, se aplicam ou aspiram
56 Boaventura de Sousa Santos

aplicar-se no domínio social. Assim, por exem- fenomenológica, interaccionista, mito-simbóli-


plo, Peter Allen (1980: 25 e ss.), um dos mais ca, hermenêutica, existencialista, pragmática,
estreitos colaboradores de Prigogine, tem vin- reivindicando a especificidade do estudo da
do a aplicar a teoria das estruturas dissipativas sociedade mas tendo de, para isso, pressupor
aos processos económicos e à evolução das ci- uma concepção mecanicista da natureza. A pu-
dades e das regiões. E. Haken (1985: 205 e ss.) jança desta segunda vertente nas duas últimas
salienta as potencialidades da sinergética para décadas é indicativa de ser ela o modelo de ci-
explicar situações revolucionárias na socieda- ências sociais que, numa época de revolução
de. É como se o dito de Durkheim se tivesse científica, transporta a marca pós-moderna
invertido e em vez de serem os fenómenos do paradigma emergente. Trata-se, como refe-
sociais a ser estudados como se fossem fenó- ri também, de um modelo de transição, uma
menos naturais, serem os fenómenos naturais vez que define a especificidade do humano por
estudados como se fossem fenómenos sociais. contraposição a uma concepção da natureza
O facto de a superação da dicotomia ci- que as ciências naturais hoje consideram ul-
ências naturais/ciências sociais ocorrer sob trapassada, mas é um modelo em que aquilo
a égide das ciências sociais não é, contudo, que o prende ao passado é menos forte do que
suficiente para caracterizarão modelo de co- aquilo que o prende ao futuro. Em resumo, à
nhecimento no paradigma emergente. É que, medida que as ciências naturais se aproximam
como disse atrás, as próprias ciências sociais das ciências sociais estas aproximam-se das
constituíram-se no século XIX segundo os mo- humanidades. O sujeito, que a ciência moder-
delos de racionalidade das ciências naturais na lançara na diáspora do conhecimento irra-
clássicas e, assim, a égide das ciências sociais, cional, regressa investido da tarefa de fazer
afirmada sem mais, pode revelar-se ilusória. erguer sobre si uma nova ordem científica.
Referi contudo que a constituição das ciên- Que este é o sentido global da revolução cien-
cias sociais teve lugar segundo duas vertentes: tífica que vivemos, é também sugerido pela re-
uma mais directamente vinculada à epistemo- conceptualização em curso das condições epis-
logia e à metodologia positivistas das ciências temológicas e metodológicas do conhecimento
naturais, e outra, de vocação anti-positivista, científico social. Referi acima alguns dos obs-
caldeada numa tradição filosófica complexa, táculos à cientificidade das ciências sociais, os
Um discurso sobre as ciências 57

quais, segundo o paradigma ainda dominante, catórias (o esoterismo nefelibata e a erudição


seriam responsáveis pelo atraso das ciências balofa). O ghetto a que as humanidades se re-
sociais em relação às ciências naturais. Sucede meteram foi em parte uma estratégia defensiva
contudo que, também como referi, o avanço do contra o assédio das ciências sociais, armadas
conhecimento das ciências naturais e a refle- do viés cientista triunfalmente brandido. Mas
xão epistemológica que ele tem suscitado têm foi também o produto do esvaziamento que
vindo a mostrar que os obstáculos ao conheci- sofreram em face da ocupação do seu espaço
mento científico da sociedade e da cultura são pelo modelo cientista. Foi assim nos estudos
de facto condições do conhecimento em geral, históricos com a história quantitativa, nos es-
tanto científico-social como científico-natural. tudos jurídicos com a ciência pura do direito
Ou seja, o que antes era a causa do maior atra- e a dogmática jurídica, nos estudos filológicos,
so das ciências sociais é hoje o resultado do literários e linguísticos com o estruturalismo.
maior avanço das ciências naturais. Daí tam- Há que recuperar esse núcleo genuíno e pô-
bém que a concepção de Thomas Kuhn (1962) -lo ao serviço de uma reflexão global sobre o
sobre o carácter pré-paradigmático (isto é, me- mundo. O texto sobre que sempre se debruçou
nos desenvolvido) das ciências sociais, que eu, a filologia é uma das analogias matriciais com
aliás, subscrevi e reformulei noutros escritos que se construirá no paradigma emergente o
Santos, 1978: 29 e ss.) tenha de ser abandonada conhecimento sobre a sociedade e a natureza.
ou profundamente revista. A concepção humanística das ciências so-
A superação da dicotomia ciências naturais/ ciais enquanto agente catalisador da progres-
ciências sociais tende assim a revalorizar os siva fusão das ciências naturais e ciências so-
estudos humanísticos. Mas esta revalorização ciais coloca a pessoa, enquanto autor e sujeito
não ocorrerá sem que as humanidades sejam, do mundo, no centro do conhecimento, mas, ao
elas também, profundamente transformadas. contrário das humanidades tradicionais, colo-
O que há nelas de futuro é o terem resistido à ca o que hoje designamos por natureza no cen-
separação sujeito/objecto e o terem preferido- tro da pessoa. Não há natureza humana porque
-a compreensão do mundo à manipulação do toda a natureza é humana. É pois necessário
mundo. Este núcleo genuíno foi, no entanto, descobrir categorias de inteligibilidade globais,
envolvido num anel de preocupações mistifi- conceitos quentes que derretam as fronteiras
58 Boaventura de Sousa Santos

em que a ciência moderna dividiu e encerrou pós-moderna é promover a “situação comuni-


a realidade. A ciência pós-moderna é uma ci- cativa” tal como Habermas a concebe. Nessa
ência assumidamente analógica que conhece situação confluem sentidos e constelações de
o que conhece pior através do que conhece sentido vindos, tal qual rios, das nascentes das
melhor. Já mencionei a analogia textual e jul- nossas práticas locais e arrastando consigo as
go que tanto a analogia lúdica como a analogia areias dos nossos percursos moleculares, in-
dramática, como ainda a analogia biográfica, fi- dividuais, comunitários, sociais e planetários.
gurarão entre as categorias matriciais do para- Não se trata de uma amálgama de sentido (que
digma emergente: o mundo, que hoje é natural não seria sentido, mas ruído), mas antes de in-
ou social e amanhã será ambos, visto como um teracções e de intertextualidades organizadas
texto, como um jogo, como um palco ou ainda em torno de projectos locais de conhecimento
como uma autobiografia. Clifford Geertz (1983: indiviso. Daqui decorre a segunda característi-
19 e ss.) refere algumas destas analogias hu- ca do conhecimento científico pós-moderno.
manísticas e restringe o seu uso às ciências so-
ciais, enquanto eu as concebo como categorias Todo o conhecimento é local e total
de inteligibilidade universais. Não virá longe o
Na ciência moderna o conhecimento avança
dia em que a física das partículas nos fale do
pela especialização. O conhecimento é tanto
jogo entre as partículas, ou a biologia nos fale
mais rigoroso quanto mais restrito é o objecto
do teatro molecular ou a astrofísica do texto
sobre que incide. Nisso reside, aliás, o que hoje
celestial, ou ainda a química da biografia das
se reconhece ser o dilema básico da ciência
reacções químicas. Cada uma destas analogias
moderna: o seu rigor aumenta na proporção
desvela uma ponta do mundo. A nudez total,
directa da arbitrariedade com que espartilha o
que será sempre a de quem se vê no que vê,
real. Sendo um conhecimento disciplinar, ten-
resultará das configurações de analogias que
de a ser um conhecimento disciplinado, isto é,
soubermos imaginar: afinal, o jogo pressupõe
segrega uma organização do saber orientada
um palco, o palco exercita-se com um texto e
para policiar as fronteiras entre as disciplinas e
o texto é a autobiografia do seu autor. Jogo,
reprimir os que as quiserem transpor. É hoje re-
palco, texto ou biografia, o mundo é comuni-
conhecido que a excessiva parcelização e disci-
cação e por isso a lógica existencial da ciência
Um discurso sobre as ciências 59

plinarização do saber científico faz do cientista nuseáveis, como sejam os testes, que reduzi-
um ignorante especializado e que isso acarreta ram a riqueza da personalidade às exigências
efeitos negativos. Esses efeitos são sobretudo funcionais de instituições unidimensionais.
visíveis no domínio das ciências aplicadas. As Os males desta parcelização do conheci-
tecnologias preocupam-se hoje com o seu im- mento e do reducionismo arbitrário que trans-
pacto destrutivo nos ecossistemas; a medici- porta consigo são hoje reconhecidos, mas as
na verifica que a hiperespecialização do saber medidas propostas para os corrigir acabam
médico transformou o doente numa quadrícula em geral por os reproduzir sob outra forma.
sem sentido quando, de facto, nunca estamos Criam-se novas disciplinas para resolver os
doentes senão em geral; a farmácia descobre o problemas produzidos pelas antigas e por essa
lado destrutivo dos medicamentos, tanto mais via reproduz-se o mesmo modelo de cientifici-
destrutivos quanto mais específicos, e procura dade. Apenas para dar um exemplo, o médico
uma nova lógica de combinação química atenta generalista, cuja ressurreição visou compensar
aos equilíbrios orgânicos; o direito, que redu- a hiperespecialização médica, corre o risco de
ziu a complexidade da vida jurídica à secura ser convertido num especialista ao lado dos de-
da dogmática, redescobre o mundo filosófico e mais. Este efeito perverso revela que não há so-
sociológico em busca da prudência perdida; a lução para este problema no seio do paradigma
economia, que legitimara o reducionismo quan- dominante e precisamente porque este último
titativo e tecnocrático com o pretendido êxito é que constitui o verdadeiro problema de que
das previsões económicas, é forçada a reco- decorrem todos os outros.
nhecer, perante a pobreza dos resultados, que a No paradigma emergente o conhecimento
qualidade humana e sociológica dos agentes e é total, tem como horizonte a totalidade uni-
processos económicos entra pela janela depois versal de que fala Wigner ou a totalidade in-
de ter sido expulsa pela porta; para grangear o divisa de que fala Bohm. Mas sendo total, é
reconhecimento dos utentes (que, públicos ou também local. Constitui-se em redor de temas
privados, institucionais ou individuais, sempre que em dado momento são adoptados por gru-
estiveram numa posição de poder em relação pos sociais concretos como projectos de vida
aos analisados) a psicologia aplicada privile- locais, sejam eles reconstituir a história de um
giou instrumentos expeditos e facilmente ma- lugar, manter um espaço verde, construir um
60 Boaventura de Sousa Santos

computador adequado às necessidades locais, que concebe através da imaginação e genera-


fazer baixar a taxa de mortalidade infantil, liza através da qualidade e da exemplaridade.
inventar um novo instrumento musical, erra- O conhecimento pós-moderno, sendo to-
dicar uma doença, etc., etc. A fragmentação tal, não é determinístico, sendo local, não é
pós-moderna não é disciplinar e sim temática. descritivista. É um conhecimento sobre as
Os temas são galerias por onde os conheci- condições de possibilidade. As condições de
mentos progridem ao encontro uns dos ou- possibilidade da acção humana projectada no
tros. Ao contrário do que sucede no paradig- mundo a partir de um espaço-tempo local. Um
ma actual, o conhecimento avança à medida conhecimento deste tipo é relativamente ime-
que o seu objecto se amplia, ampliação que, tódico, constitui-se a partir de uma pluralidade
como a da árvore, procede pela diferenciação metodológica. Cada método é uma linguagem
e pelo alastramento das raízes em busca de e a realidade responde na língua em que é per-
novas e mais variadas interfaces. guntada. Só uma constelação de métodos pode
Mas sendo local, o conhecimento pós-mo- captar o silêncio que persiste entre cada língua
derno é também total porque reconstitui os que pergunta. Numa fase de revolução científi-
projectos cognitivos locais, salientando-lhes a ca como a que atravessamos, essa pluralidade
sua exemplaridade, e por essa via transforma- de métodos só é possível mediante transgres-
-os em pensamento total ilustrado. A ciência do são metodológica18. Sendo certo que cada mé-
paradigma emergente, sendo, como deixei dito todo só esclarece o que lhe convém e quando
acima, assumidamente analógica, é também esclarece fá-lo sem surpresas de maior, a ino-
assumidamente tradutora, ou seja, incentiva os vação científica consiste em inventar contex-
conceitos e as teorias desenvolvidos localmen- tos persuasivos que conduzam à aplicação dos
te a emigrarem para outros lugares cognitivos, métodos fora do seu habitat natural. Dado que
de modo a poderem ser utilizados fora do seu a aproximação entre ciências naturais e ciên-
contexto de origem. Este procedimento, que é cias sociais se fará no sentido destas últimas,
reprimido por uma forma de conhecimento que caberá especular se é possível, por exemplo,
concebe através da operacionalização e gene-
raliza através da quantidade e da uniformiza-
18 Sobre o conceito de transgressão metodológica ver
ção, será normal numa forma de conhecimento Santos, 1981: 275 e ss.
Um discurso sobre as ciências 61

fazer a análise filológica de um traçado urba- movimento no sentido da maior personaliza-


no, entrevistar um pássaro ou fazer observação ção do trabalho científico. Isto conduz à ter-
participante entre computadores. ceira característica do conhecimento científi-
A transgressão metodológica repercute-se co no paradigma emergente.
nos estilos e géneros literários que presidem
à escrita científica. A ciência pós-moderna não Todo o conhecimento é
segue um estilo unidimensional, facilmente autoconhecimento
identificável; o seu estilo é uma configuração
A ciência moderna consagrou o homem en-
de estilos construída segundo o critério e a
quanto sujeito epistémico mas expulsou-o, tal
imaginação pessoal do cientista. A tolerância
como a Deus, enquanto sujeito empírico. Um
discursiva é o outro lado da pluralidade me-
conhecimento objectivo, factual e rigoroso não
todológica. Na fase de transição em que nos
tolerava a interferência dos valores humanos
encontramos são já visíveis fortes sinais deste
ou religiosos. Foi nesta base que se construiu
processo de fusão de estilos, de interpenetra-
a distinção dicotómica sujeito/objecto. No en-
ções entre cânones de escrita. Clifford Geertz
tanto, a distinção sujeito/objecto nunca foi tão
(1983: 20) estuda o fenómeno nas ciências
pacífica nas ciências sociais quanto nas ciên-
sociais e apresenta alguns exemplos: investi-
cias naturais e a isso mesmo se atribuiu, como
gação filosófica parecendo crítica literária no
disse, o maior atraso das primeiras em rela-
estudo de Sartre sobre Flaubert; fantasias bar-
ção às segundas. Afinal, os objectos de estudo
rocas sob a forma de observações empíricas (a
eram homens e mulheres como aqueles que os
obra de Jorge Luís Borges); parábolas apresen-
estudavam. A distinção epistemológica entre
tadas como investigações etnográficas (Car-
sujeito e objecto teve de se articular metodo-
los Castaneda); estudos epistemológicos sob
logicamente com a distância empírica entre su-
a forma de textos políticos (a obra Against
jeito e objecto. Isto mesmo se torna evidente se
Method de Paul Feyerabend). E como Geertz,
compararmos as estratégias metodológicas da
podemos perguntar se Foucault é historiador,
antropologia cultural: e social, por um lado, e
filósofo, sociólogo ou cientista político. A
da sociologia, por outro. Na antropologia, a dis-
composição transdisciplinar e individualizada,
tância empírica entre o sujeito e o objecto era
para que estes exemplos apontam sugere um
62 Boaventura de Sousa Santos

enorme. O sujeito era o antropólogo; o europeu bros de pleno direito da Organização das Na-
civilizado, o objecto era o povo primitivo, ou ções Unidas, e tinham de ser estudados segun-
selvagem. Neste caso, a distinção sujeito/ob- do métodos-sociológicos. As vibrações destes
jecto aceitou ou mesmo exigiu, que a distância movimentos na distinção sujeito/objecto nas
fosse relativamente encurtada através do uso ciências sociais vieram a explodir no período
de metodologias que obrigavam a uma maior pós-estruturalista.
intimidade com o objecto, ou seja, o trabalho No domínio das ciências físico-naturais, o
de campo etnográfico, a observação partici- regresso do sujeito fora já anunciado pela me-
pante. Na sociologia, ao contrário, era peque- cânica-quântica ao demonstrar que o acto de
na ou mesmo nula a distância empírica entre conhecimento e o produto do conhecimento
o sujeito e objecto: eram cientistas europeus eram inseparáveis. Os avanços da microfísica,
â estudar os seus concidadãos. Neste caso, a da astrofísica e da biologia das últimas décadas
distinção epistemológica obrigou a que esta restituíram à natureza as propriedades de que
distancia fosse aumentada através do uso de a ciência moderna a expropriara. O aprofunda-
metodologias de distanciamento: por exemplo, mento do conhecimento conduzido segundo a
o inquérito sociológico, a análise documentar e matriz materialista veio a desembocar num co-
a entrevista estruturada. nhecimento idealista. A nova dignidade da na-
A antropologia, entre a descolonização e o tureza mais se consolidou quando se verificou
pós-guerra e a guerra do Vietname, e a socio- que o desenvolvimento tecnológico desordena-
logia, a partir do final dos anos sessenta, foram do nos tinha separado da natureza em vez de
levadas a questionar este status quo metodo- nos unir a ela e que a exploração da natureza
lógico e as noções de distância social em que tinha sido o veículo da exploração do homem.
ele assentava. De repente, os selvagens foram O desconforto que a distinção sujeito/objecto
vistos dentro de nós, nas nossas sociedades; e sempre tinha provocado nas ciências sociais
a sociologia passou a utilizar com mais inten- propagava-se assim às ciências naturais. O su-
sidade métodos anteriormente quase monopo- jeito regressava na veste do objecto. Aliás, os
lizados pela antropologia (a observação parti- conceitos de “mente imanente”, “mente mais
cipante), ao mesmo tempo que nesta última os ampla” e “mente colectiva” de Bateson e outros
objectos passavam a ser concidadãos, mem- constituem notícias dispersas de que o outro
Um discurso sobre as ciências 63

foragido da ciência moderna, Deus, pode estar nómeno central da nossa contemporaneidade.
em vias de regressar. Regressará transfigura- A ciência é, assim, autobiográfica.
do, sem nada de divino senão o nosso desejo A consagração da ciência moderna nestes
de harmonia e comunhão com tudo o que nos últimos quatrocentos anos naturalizou a ex-
rodeia e que, vemos agora, é o mais íntimo de plicação do real, a ponto de não o podermos
nós. Uma nova gnose está em gestação. conceber senão nos termos por ela propostos.
Parafraseando Clausewitz, podemos afirmar Sem as categorias de espaço, tempo, matéria
hoje que o objecto é a continuação do sujeito e número — as metáforas cardeais da física
por outros meios. Por isso, todo o conhecimen- moderna, segundo Roger Jones — sentimo-nos
to científico é autoconhecimento. A ciência incapazes de pensar, mesmo sendo já hoje ca-
não descobre, cria, e o acto criativo protago- pazes de as pensarmos como categorias con-
nizado por cada cientista e pela comunidade vencionais, arbitrárias, metafóricas. Este pro-
científica no seu conjunto tem de se conhecer cesso de naturalização foi lento e, no início, os
intimamente antes que conheça o que com ele protagonistas da revolução científica tiveram a
se conhece do real. Os pressupostos metafísi- noção clara que a prova íntima das suas con-
cos, os sistemas de crenças, os juízos de valor vicções pessoais precedia e dava coerência as
não estão antes nem depois da explicação cien- provas externas que desenvolviam. Descartes
tífica da natureza ou da sociedade. São parte mostra melhor que ninguém o carácter auto-
integrante dessa mesma explicação. A ciência biográfico da ciência. Diz, no Discurso do Mé-
moderna não é a única explicação possível da todo: “Gostaria de mostrar, neste Discurso, que
realidade e não há sequer qualquer razão cien- caminhos segui; e de nele representar a minha
tífica para a considerar melhor que as explica- vida como num quadro, para que cada qual a
ções alternativas da metafísica, da astrologia, possa julgar, e para que, sabedor das opiniões
da religião, da arte ou da poesia. A razão por que sobre ele foram expendidas, um novo meio
que privilegiamos hoje uma forma de conheci- de me instruir se venha juntar àqueles de que
mento assente na previsão e no controlo dos costumo servir-me” (1984: 6). Hoje sabemos ou
fenómenos nada tem de científico. É um juízo suspeitamos que as nossas trajectórias de vida
de valor. A explicação científica dos fenóme- pessoais e colectivas (enquanto comunidades
nos é a autojustificação da ciência enquanto fe- científicas) e os valores, as crenças e os pre-
64 Boaventura de Sousa Santos

juízos que transportam são a prova íntima do dia a precaridade do sentido da nossa vida
nosso conhecimento, sem o qual as nossas in- por mais segura que esteja ao nível da sobre-
vestigações laboratoriais ou de arquivo, os nos- vivência. A ciência do paradigma emergente é
sos cálculos ou, os nossos trabalhos de campo mais contemplativa do que activa. A qualidade
constituiriam um emaranhado de diligências do conhecimento afere-se menos pelo que ele
absurdas sem fio nem pavio. No entanto, este controla ou faz funcionar no mundo exterior
saber, suspeitado ou insuspeitado, corre hoje do que pela satisfação pessoal que dá a quem
subterraneamente, clandestinamente, nos não- a ele acede e o partilha. A dimensão estética
-ditos dos nossos trabalhos científicos. da ciência tem sido reconhecida por cientis-
No paradigma emergente, o carácter auto- tas e filósofos da ciência, de Poincaré a Kuhn,
biográfico e auto-referenciável da ciência é de Polanyi a Popper, Roger Jones (1982: 41)
plenamente assumido. A ciência moderna le- considera que o sistema de Newton-é tanto
gou-nos um conhecimento funcional do mun- uma obra de arte como uma obra de ciência.
do que alargou extraordinariamente as nossas A criação científica no paradigma emergente
perspectivas de sobrevivência. Hoje não se assume-se como próxima da criação literária
trata tanto de sobreviver como de saber viver. ou artística, porque à semelhança destas pre-
Para isso é necessária uma outra forma de co- tende que a dimensão activa da transformação
nhecimento, um conhecimento compreensivo do real (o escultor a trabalhar a pedra) seja
e íntimo que não nos separe e antes nos una subordinada a contemplação do resultado (a
pessoalmente ao que estudamos. A incerteza obra de arte). Por sua vez, o discurso científi-
do conhecimento, que a ciência moderna sem- co aproximar-se-á cada vez mais do discurso
pre viu como limitação técnica destinada a su- da crítica literária. De algum modo, a crítica
cessivas superações, transforma-se na chave literária anuncia a subversão da relação sujei-
do entendimento de um mundo que mais do to/objecto que o paradigma emergente — pre-
que controlado tem de ser contemplado. Não tende operar. Na crítica literária, o objecto do
se trata do espanto medieval perante uma rea- estudo, como se diria em termos científicos,
lidade hostil possuída do sopro da divindade, sempre foi, de facto, um super-sujeito (um po-
mas antes da prudência perante um mundo eta, um romancista, um dramaturgo) face ao
que, apesar de domesticado, nos mostra cada qual o crítico não passa de um sujeito ou autor
Um discurso sobre as ciências 65

secundário. É certo que, em tempos recentes, especializado faz do cidadão comum um igno-
o crítico tem tentado sobressair no confronto rante generalizado.
com o escritor estudado a ponto de se poder Ao contrário, a ciência pós-moderna sabe
falar de uma batalha pela supremacia trava- que nenhuma forma de conhecimento é, em
da entre ambos. Mas porque se trata de uma si mesma, racional; só a configuração de to-
batalha, a relação é entre dois sujeitos e não das elas é racional. Tenta, pois, dialogar com
entre um sujeito e um objecto. Cada um é a outras formas de conhecimento deixando-se
tradução do outro, ambos criadores de textos, penetrar por elas. A mais importante de todas
escritos em línguas distintas ambas conheci- é o conhecimento do senso comum, o conheci-
das e necessárias para aprender a gostar das mento vulgar e prático com que no quotidiano
palavras e do mundo. orientamos as nossas acções e damos sentido
Assim ressubjectivado, o conhecimento à nossa vida. A ciência moderna construiu-se
científico ensina a viver e traduz-se num saber contra o senso comum que considerou super-
prático. Daí a quarta e última característica da ficial, ilusório e falso. A ciência pós-moderna
ciência pós-moderna. procura reabilitar o senso comum por reconhe-
cer nesta forma de conhecimento algumas vir-
Todo o conhecimento científico visa tualidades para enriquecer a nossa relação com
constituir-se em senso comum o mundo. É certo que o conhecimento do senso
comum tende a ser um conhecimento mistifica-
Já tive ocasião de referir que o fundamento
do e mistificador mas, apesar disso e apesar de
do estatuto privilegiado da racionalidade cien-
ser conservador, tem uma dimensão utópica e
tífica não é em si mesmo científico. Sabemos
libertadora que pode ser ampliada através do
hoje que a ciência moderna nos ensina pouco
diálogo com o conhecimento científico. Essa
sobre a nossa maneira de estar no mundo e que
dimensão aflora em algumas das característi-
esse pouco, por mais que se amplie, será sem-
cas do conhecimento do senso comum.
pre exíguo porque a exiguidade está inscrita na
O senso comum faz coincidir causa e inten-
forma de conhecimento que ele constitui. A ci-
ção; subjaz-lhe uma visão do mundo assente
ência moderna produz conhecimentos e desco-
na acção e no princípio da criatividade e da
nhecimentos. Se faz do cientista um ignorante
responsabilidade individuais. O senso comum
66 Boaventura de Sousa Santos

é prático e pragmático; reproduz-se colado às racionalidade feita de racionalidades. Para que


trajectórias e às experiências de vida de um esta configuração de conhecimentos ocorra é
dado grupo social e nessa correspondência se necessário inverter a ruptura epistemológica.
afirma fiável e securizante. O senso comum é Na ciência moderna a ruptura epistemológica
transparente e evidente; desconfia da opacida- simboliza o salto qualitativo do conhecimento
de dos objectivos tecnológicos e do esoterismo do senso comum para o conhecimento cientí-
do conhecimento em nome do princípio da fico; na ciência pós-moderna o salto mais im-
igualdade do acesso ao discurso, à competên- portante é o que é dado do conhecimento cien-
cia cognitiva e à competência linguística. O sen- tífico para o conhecimento do senso comum.
so comum é superficial porque desdenha das O conhecimento científico pós-moderno só se
estruturas que estão para além da consciência, realiza enquanto tal na medida em que se con-
mas, por isso mesmo, é exímio em captar a pro- verte em senso comum. Só assim será uma ci-
fundidade horizontal das relações conscientes ência clara que cumpre a sentença de Wittgens-
entre pessoas e entre pessoas e coisas. O senso tein, “tudo o que se deixa dizer deixa-se dizer
comum é indisciplinar e imetódico; não resulta claramente” (1973: 4.116). Só assim será uma
de uma prática especificamente orientada para ciência transparente que faz justiça ao desejo
o produzir; reproduz-se espontaneamente no de Nietzsche ao dizer que “todo o comércio en-
suceder quotidiano da vida. O senso comum tre os homens visa que cada um possa ler na
aceita o que existe tal como existe; privilegia a alma do outro, e a língua comum é a expressão
acção que não produza rupturas significativas sonora dessa alma comum” (1971: 139).
no real. Por último, o senso comum é retórico A ciência pós-moderna, ao senso comuni-
e metafórico; não ensina, persuade. zar-se, não despreza o conhecimento que pro-
À luz do que ficou dito atrás sobre o paradig- duz tecnologia, mas entende que, tal como o
ma emergente, estas características do senso conhecimento se deve traduzir em autoconhe-
comum têm uma virtude antecipatória. Deixa- cimento, o desenvolvimento tecnológico deve
do a si mesmo, o senso comum é conservador traduzir-se em sabedoria de vida. É esta que
e pode legitimar prepotências, mas interpene- assinala os marcos da prudência à nossa aven-
trado pelo conhecimento científico pode estar tura científica. A prudência é a insegurança as-
na origem de uma nova racionalidade. Uma sumida e controlada. Tal como Descartes, no
Um discurso sobre as ciências 67

limiar da ciência moderna, exerceu a dúvida Bacon, F. 1933 Novum Organum (Madrid:
em vez de a sofrer, nós, no limiar da ciência Nueva Biblioteca Filosófica) Preparada e
pós-moderna, devemos exercer a insegurança traduzida por Gallach Palés.
em vez de a sofrer. Bateson, G. 1985 Mind and Nature (Londres:
Na fase de transição e de revolução cientí- Fontana).
fica, esta insegurança resulta ainda do facto Bell, D. 1976 The Coming Crisis of Post-
de a nossa reflexão epistemológica ser muito Industrial Society (Nova Iorque: Basic
mais avançada e sofisticada que a nossa prática Books).
científica. Nenhum de nós pode neste momento Benseler, F.; Hejl, P. e Koch, W. (orgs.) 1980
visualizar projectos concretos de investigação Autopoiesis. Communication and Society.
que correspondam inteiramente ao paradigma The Theory of Autopoietic Systems in the
emergente que aqui delineei. E isso é assim pre- Social Sciences (Frankfurt: Campus).
cisamente por estarmos numa fase de transição. Bohm, D. 1988 Wholeness and the Implicate
Duvidamos suficientemente do passado para Order (Londres: Ark Paperbacks).
imaginarmos o futuro, mas vivemos demasiada- Bowen, M. 1985 “The Ecology of Knowledge:
mente o presente para podermos realizar nele o Linking the Natural and Social Sciences” in
futuro. Estamos divididos, fragmentados. Sabe- Geoforum, V. 16, pp. 213 e ss.
mo-nos o caminho mas não exactamente onde Briggs, J. e Peat, F. D. 1985 Looking Glass
estamos na jornada. A condição epistemológica Universe. The Emerging Science of
da ciência repercute-se na condição existencial Wholeness (Londres: Fontana).
dos cientistas. Afinal, se todo o conhecimento é Brillouin, L. 1959 La Science et la Théorie de
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68 Boaventura de Sousa Santos

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70 Boaventura de Sousa Santos

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Não disparem sobre o utopista*

Introdução o direito modernos. Quer um, quer outro, re-


clamam-se de uma eficácia e de uma coerên-
N a transição paradigmática, a emancipação
social é uma aspiração tão óbvia quanto
inverossímil. Óbvia, porque a regulação social,
cia que, de facto, não têm nem nunca tiveram.
Contudo, a consagração política e cultural de
sendo exercida ineficaz e incoerentemente, pa- que beneficiaram nestes últimos duzentos anos
rece estar sempre à mercê de quem lhe resista. faz com que, na primeira fase de transição pa-
Inverossímil, porque, tendo absorvido em si a radigmática, a sua legitimidade se reproduza
emancipação social considerada possível no independentemente da qualidade dos seus de-
paradigma ainda dominante, a regulação social sempenhos práticos.
pode credivelmente ocultar a sua ineficácia e Em face disto, os grupos sociais interessa-
incoerência, atribuindo-as às alternativas e dos na emancipação não podem, hoje, começar
resistências por boas razões fracassadas. Isto por defender a coerência e a eficácia das alter-
é tanto mais assim quanto a regulação social nativas emancipatórias, sob pena de confirma-
continua neste período a dispor de dois for- rem e aprofundarem a sua inverosimilhança.
tíssimos factores de legitimação: a ciência e Nestas condições, não resta outra saída senão
a utopia. No trilho aberto por ela o conheci-
mento emancipatório irá consolidando a sua
trajectória epistemológica, do colonialismo
* Extraído de Santos, B. de Sousa 2000 “Não dispa-
rem sobre o utopista” in A crítica da razão indolente.
para a solidariedade. Assim se irá criando uma
Contra o desperdício da experiência (Porto: Afronta- nova bitola de coerência e eficácia que torne
mento) pp. 305-354. a emancipação menos óbvia e mais verosímil.
72 Boaventura de Sousa Santos

Neste trabalho, revisito e amplio muito as mesmo e de pensar, de forma credível, a tran-
propostas utópicas apresentadas em Pela Mão sição para um outro paradigma transforma-os
de Alice (1994: 243 e ss.). A pulsão utópica é num problema fundamental adicional.
a mesma que então me guiou, mas o aprofun- O segundo pressuposto é que, à medida que
damento da análise da regulação social entre- a canibalização da emancipação social pela
tanto conseguido torna hoje possível avançar regulação social se converteu no mega-senso
um pouco mais na identificação de novos cami- comum do fim do século XX, a regulação so-
nhos emancipatórios e, sobretudo, na constru- cial não tem de ser efectiva para florescer: ela
ção das subjectividades capazes e desejosas de floresce simplesmente porque a subjectividade
os percorrer. é incapaz de conhecer e de desejar saber como
Antes de apresentar as novas propostas, conhecer e desejar para além da regulação.
convirá recapitular os pressupostos que então Resulta daí que a nossa necessidade radi-
e hoje subjazem ao momento utópico da minha cal seja dupla: por um lado, a necessidade de
reflexão. O primeiro pressuposto é que, quase reinventar um mapa emancipatório que, con-
cento e sessenta anos depois de ter sido formu- trariamente aos desenhos de Escher, não se
lada, continua a ser válida a acusação feita aos converta gradual e insidiosamente em mais um
cientistas sociais por Fourier em 1841 de que mapa de regulação; por outro lado, a necessi-
estes tendem a descurar sistematicamente os dade de reinventar uma subjectividade indivi-
problemas fundamentais das ciências de que dual e colectiva capaz de usar e de querer usar
se ocupam (1967: 181). Em trabalhos anterio- esse mapa. Esta é a única maneira de delinear
res, atribuí esse facto ao modo como a ciência um trajecto progressista através da dupla tran-
e o direito modernos destruiram a tensão entre sição, epistemológica e societal, que começa
regulação e emancipação. O excesso de regula- agora a emergir.
ção daí decorrente transformou-se, ele próprio, Nos trabalhos anteriores, referi alguns dos
num problema fundamental. Hoje em dia, são princípios orientadores deste vasto proces-
problemas fundamentais os problemas para os so de reinvenção e reconstrução. Salientei a
quais não existe uma solução no paradigma da necessidade de criar novas formas de conhe-
modernidade. O facto de a ciência e o direito cimento baseadas numa novíssima retórica,
modernos serem incapazes de reconhecer isso uma retórica dialógica empenhada em cons-
Não disparem sobre o utopista 73

tituirse como tópica emancipatória, ou seja, Estes princípios orientadores permitiramme


como tópica de novos sensos comuns eman- interrogar as concepções hegemónicas de co-
cipatórios. Tenho em mente formas de conhe- nhecimento, de direito, de poder e de política, e,
cimento que progridam do colonialismo para assim, desenhar novos campos analíticos mais
a solidariedade e que sejam tolerantes relati- vastos e mais incompletos, e, simultaneamen-
vamente ao caos, por ele ter potencialidades te, menos ocidental-cêntricos e menos Norte-
para criar uma ordem emancipatória capaz de -cêntricos. Mostrei como os novos campos ana-
facilitar uma resolução progressista da transi- líticos realçam as várias formas de opressão
ção paradigmática. nas sociedades capitalistas, ao mesmo tempo
Sustentei ainda que deveríamos tomar como que abrem novos espaços para uma política
ponto de partida para essa tarefa algumas re- cosmopolita, para diálogos interculturais, para
presentações inacabadas da modernidade, su- a defesa da autodeterminação e da emancipa-
blinhando particularmente duas delas: o prin- ção, espaços possibilitados pela globalização
cípio da comunidade, assente nas ideias de das práticas sociais. Na análise destas últimas,
solidariedade, de participação, e o princípio é crucial distinguir entre as práticas sociais que
estéticoexpressivo, assente nas ideias de pra- resultam directa ou indirectamente da transna-
zer, de autoria e de artefactualidade. Considero cionalização do capital (localismos globaliza-
estes dois princípios cruciais para definir os dos e globalismos localizados) e aquelas que
parâmetros progressistas da transição paradig- representam novas oportunidades para lutas
mática, quer na vertente epistemológica, quer emancipatórias paradigmáticas (cosmopolitis-
na vertente societal. A respeito da transição pa- mo e património comum da humanidade).
radigmática societal, insisti, contudo, que a es- O objectivo deste percurso analítico foi
cavação de algumas das representações inaca- formular um conjunto de interrogações ra-
badas da modernidade deveria também incluir dicais sobre as sociedades capitalistas con-
a separação do direito moderno relativamente temporâneas e o sistema mundial que as in-
ao Estado e a sua rearticulação com a política tegra, de forma a abrir caminho para a dupla
e a revolução, ambas entendidas de forma bem reinvenção, exigida pela própria transição
diferente da que tem dominado na modernida- paradigmática, de um novo senso comum
de ocidental. emancipatório e de uma nova subjectividade
74 Boaventura de Sousa Santos

individual e colectiva com capacidade e von- A minha versão de utopia é, portanto, dupla-
tade de emancipação. O presente texto é de- mente relativa. Por um lado, chama a atenção
dicado a essa dupla reinvenção. para o que não existe enquanto (contra)parte
O terceiro pressuposto é que a definição do integrante, mesmo que silenciada, daquilo que
paradigma emergente é uma tarefa tão impor- existe, ou seja, para aquilo que pertence a uma
tante quanto difícil. É uma tarefa difícil porque determinada época pelo modo como está ex-
a modernidade tem uma maneira peculiar de cluído dela. Por outro lado, a utopia é sempre
combinar a grandeza do futuro com a sua mi- desigualmente utópica, dado que a sua forma
niaturização, isto é, de classificar e fragmentar de imaginar o novo é parcialmente constituída
os grandes objectivos do progresso infinito em por novas combinações e escalas daquilo que
soluções técnicas que se distinguem essencial- existe, e que são, na verdade, quase sempre me-
mente pelo facto de a sua credibilidade trans- ros pormenores, pequenos e obscuros, do que
cender aquilo que a técnica pode garantir. As realmente existe. A utopia requer, portanto, um
soluções técnicas, que são parte integrante da conhecimento da realidade profundo e abran-
cultura instrumental da modernidade, têm um gente como meio de evitar que o radicalismo
excesso de credibilidade que oculta e neutra- da imaginação colida com o seu realismo.
liza o seu défice de capacidade. Daí que tais O quarto pressuposto é que, apesar da ur-
soluções não nos incentivem a pensar o futu- gência com que é reclamado, o pensamento
ro, até porque elas próprias já deixaram de o utópico é hoje um pensamento desacreditado,
pensar há muito tempo. mesmo quando se vão multiplicando no mun-
Perante isto, o único caminho para pensar do experiências que, à luz das concepções do-
o futuro parece ser a utopia. E por utopia en- minantes, surgem como “utopias realistas”. O
tendo a exploração, através da imaginação, de desenvolvimento da racionalidade científica e
novas possibilidades humanas e novas formas da ideologia cientista a partir do século XIX
de vontade, e a oposição da imaginação à ne- e a sua expansão do estudo da natureza para
cessidade do que existe, só porque existe, em o estudo da sociedade foram criando um am-
nome de algo radicalmente melhor por que vale biente intelectual hostil ao pensamento utópi-
a pena lutar e a que a humanidade tem direito. co. Daí que o nosso século tenha sido relativa-
Não disparem sobre o utopista 75

mente pobre em pensamento utópico1, como actual perda de confiança epistemológica na


se a utopia se tivesse tornado obsoleta com o ciência moderna obriganos a questionar esta
progresso da ciência e a subsequente raciona- explicação. Não será que a morte do futuro,
lização global da vida social2. Contudo, a nossa que hoje receamos tão profundamente, foi há
muito anunciada pela morte da utopia? Com
esta pergunta em mente, Margaret Mead apela
1 Apesar disso, a utopia tem sido uma importante para “utopias fortes”:
corrente subterrânea do pensamento moderno no sécu-
lo XX. Na década de sessenta, dominaram as erotopias É, no entanto, através das visões de um mundo,
(Norman O. Brown; Marcuse), e, nos anos setenta, as de um lugar ou de um estado melhor que o ho-
ecotopias (Reich, Schumacher, Callenbach, LeGuin). mem faz esforços positivos […]. Como, aparente-
Os elementos utópicos nas recentes profecias de gran- mente, a imaginação humana é tão deficiente na
des investigadores no domínio da genética, da bioenge- criação dessas visões […], precisamos de utopias
nharia e da inteligência artificial foram eloquentemente
mais fortes (1971: 46).
analisados em Martins (1993). A propósito de concep-
ções alternativas da sociedade baseadas em culturas
não ocidentais, ver Masini (1983). A verdade é que, como tem sido frequente-
2 Em 1922, Hertzler concluiu a sua história do pen- mente sublinhado, o pensamento utópico prece-
samento utópico afirmando: “Nós hoje, milénios ou de, às vezes em séculos, a antiutopia (Hertzler,
séculos depois, com o nosso conhecimento mais com- 1965: 268-300). Como Mumford afirmou: “Ne-
pleto da sociedade e com a nossa filosofia social mais nhures pode ser um país imaginário, mas as no-
sólida, conseguimos discernir nos esquemas dos utó-
picos debilidades e limitações de que eles não tinham
tícias de nenhures são notícias reais” (1922: 24).
consciência” (1965: 301). Uma reconstrução criativa O quinto pressuposto é que a utopia assenta
do pensamento utópico énos dada por Mumford, numa em duas condições: uma nova epistemologia e
obra publicada no mesmo ano (Mumford, 1922). Este uma nova psicologia. Enquanto nova epistemo-
autor, embora crítico quanto às “falsas utopias e mitos logia, a utopia recusa o fechamento do horizon-
sociais que provaram ser ou estéreis ou desastrosos ao
longo dos últimos séculos” (p. 300), reconheceu que te de expectativas e de possibilidades, e cria
“no entanto, [se] o nosso conhecimento sobre o com- alternativas; enquanto nova psicologia, a uto-
portamento humano tem algum peso, não devemos pôr pia recusa a subjectividade do conformismo e
de lado mitos antigos sem criar mitos novos” (p. 301). cria a vontade de lutar por alternativas. A nova
76 Boaventura de Sousa Santos

epistemologia e a nova psicologia anunciadas capacidade e vontade de os usar. Nenhuma


pela utopia residem na arqueologia virtual do transformação paradigmática será possível
presente. Entendo esta arqueologia em sentido sem a transformação paradigmática da subjec-
literal, pois encara o presente como um campo tividade. Começarei pelos mapas de emancipa-
de escavações. Mas entendoa também em sen- ção, passando depois para as subjectividades.
tido virtual, pois o seu objectivo é escavar ape- Concentrar-me-ei nestas últimas, uma vez que,
nas onde nada foi realizado e descobrir porquê, quanto aos mapas de emancipação, há apenas
ou seja, por que razão as alternativas deixaram que complementar as propostas apresentadas
de o ser. Neste caso, a escavação interessase em Pela Mão de Alice.
pelos silêncios, pelos silenciamentos e pelas
questões que ficaram por perguntar. Mapas da transição
Finalmente, o sexto pressuposto é que não paradigmática: emancipações
pretendo propor uma utopia propriamente dita,
Nesta secção prossigo, amplio e comple-
mas antes uma heterotopia. Em vez da inven-
mento as propostas desse livro. A ampliação
ção de um lugar situado algures ou nenhures,
mais significativa é a que decorre de o mapa
proponho uma deslocação radical dentro do
de estrutura-acção comportar agora seis espa-
mesmo lugar: o nosso. Partir da ortotopia para
ços estruturais e não quatro, como acontecia
a heterotopia, do centro para a margem. A fina-
anteriormente. Serão inevitáveis algumas re-
lidade deste deslocamento é permitir uma visão
petições. Para as evitar tanto quanto possível,
telescópica do centro e uma visão microscópica
resumirei ao máximo o que nesta secção se re-
de tudo o que o centro é levado a rejeitar para
fere às articulações das novas propostas com
reproduzir a sua credibilidade como centro. O
as que são já conhecidas.
objectivo é experienciar a fronteira da sociabi-
À luz do que tenho vindo a defender, é ób-
lidade enquanto forma de sociabilidade.
vio que só por uma simplificação grosseira
Antes de passar à apresentação de algu-
poderemos falar de emancipação social. Na
mas propostas utópicas, volto a referir que, na
prática, a transição paradigmática irá tradu-
transição paradigmática, o pensamento utópi-
zirse em emancipações sociais. Distingo seis
co tem um duplo objectivo: reinventar mapas
formas particularmente importantes, porquan-
de emancipação social e subjectividades com
Não disparem sobre o utopista 77

to correspondem às seis formas de regulação cipação. A razão pela qual prefiro falar de
social identificadas em outro lugar3. Essas seis emancipações e não apenas de emancipação
formas de emancipação, e as correspondentes é que essa transformação assume caracterís-
lutas emancipatórias, em lugar de serem um ticas diferentes, requer diferentes coligações
ponto de chegada, constituem antes um ponto progressistas e está sujeita a diferentes ritmos
de partida para pensar a transição paradigmá- nos diferentes espaços estruturais. Em cada
tica. Dado que combatem a regulação social um deles, porém, a transformação resulta da
existente, as lutas emancipatórias devem ne- substituição gradual da dinâmica de desenvol-
cessariamente opor-se-lhe nos campos sociais vimento dominante pela dinâmica emergente
em que ela actualmente se reproduz. Seja como e, portanto, da contradição e da competição
for, à medida que a transição paradigmática paradigmáticas entre os paradigmas defendi-
progredir, as lutas emancipatórias deixarão dos pelas respectivas unidades de prática so-
de combater as formas de regulação social cial e pelas coligações transformativas em que
que agora existem para combaterem as novas elas se organizam. Na prática, a contradição e
formas de regulação entretanto surgidas das a competição paradigmáticas implicam a expe-
próprias lutas emancipatórias paradigmáticas. rimentação com formas alternativas de socia-
Esta permanente vigilância sobre si própria e bilidade. Daí que um dos principais objectivos
a sua auto-reflexividade distingue a emancipa- das coligações emancipatórias na transição
ção pós-moderna da emancipação moderna. paradigmática consista em garantir que a ex-
Em cada um dos espaços estruturais, o perimentação ocorra em condições tais que o
paradigma emergente constróise a si mesmo paradigma emergente não seja desvalorizado
através de uma tripla transformação: a trans- ou desacreditado logo à partida. Conseguir
formação do poder em autoridade partilhada; essa garantia é, em si, uma luta política que,
a transformação do direito despótico em di- embora travada em todos os espaços estrutu-
reito democrático; a transformação do conhe- rais, é sobretudo desenvolvida no espaço da
cimento-regulação em conhecimento-eman- cidadania e centrada em torno do Estado.
O Estado, graças à forma cósmica do seu po-
der (a dominação) e à forma cósmica do seu
3 Ver Santos, 2000: 257-284. direito (o direito territorial), tem uma grande
78 Boaventura de Sousa Santos

capacidade para condicionar as constelações las. Essa avaliação é uma atribuição exclusiva
de práticas sociais. Essa capacidade é o factor das forças sociais activas nos campos sociais.
principal por detrás das formas hegemónicas Esses campos são comunidades interpretati-
de sociabilidade nas sociedades capitalistas vas ou campos de argumentação cuja vontade
contemporâneas. Assim, um dos objectivos e capacidade emancipatórias aumentarão na
fundamentais das lutas conduzidas pelas for- medida em que a argumentação seja orientada
ças sociais emancipatórias na transição para- pela retórica dialógica: a novíssima retórica que
digmática consiste em transformar essa capa- descrevi noutro lugar4. Ao contrário do que su-
cidade cósmica do Estado numa capacidade cede actualmente, este Estado-Providência não
caósmica: em vez de impor uma forma de so- é uma forma política específica dos Estados dos
ciabilidade, o Estado deve ser constituído de países centrais. Pode ser constituído em todos
modo a criar as condições para a experimen- os Estados que integram o sistema mundial e é
tação social, isto é, as condições necessárias até crível que a sua constituição seja mais fácil
para que as sociabilidades alternativas possam nos países da periferia do sistema.
ser credivelmente experimentadas em cada um A contradição e a competição gerais entre o
dos seis espaços estruturais. Ora isto implica paradigma dominante e o paradigma emergente
uma profunda transformação, senão mesmo desdobram-se em contradições e competições
uma radical reinvenção, do Estado. específicas ao nível de cada um dos espaços es-
Na transição paradigmática, o EstadoPro- truturais. Tal como acontece com o paradigma
vidência é a forma estatal que garante a expe- dominante e com as formas de regulação em
rimentação social, sendo composto por seis que ele se traduz, as formas emancipatórias de
diferentes dimensões de providência social, sociabilidade emergentes nos diferentes espa-
correspondentes aos seis campos estruturais de ços estruturais consolidam-se e expandem-se
experimentação social. Um aspecto importante na medida em que se articulam umas com as
desta reconstrução do EstadoProvidência na outras em constelações de práticas e de conhe-
transição paradigmática é o facto de a função do cimentos emancipatórios.
Estado se centrar em garantir as condições de
experimentação de sociabilidades alternativas,
não lhe competindo avaliar o desempenho de- 4 Ver Santos, 2000: 53-111.
Não disparem sobre o utopista 79

Passarei agora a apresentar, sucintamente, mente como crítica das experiências de vida
os termos da contradição e da competição comunitária nos anos sessenta6. Quase pode
paradigmáticas em cada um dos seis espaços dizerse o mesmo sobre o espaço do merca-
estruturais. Concentrarme-ei no paradigma do. Quanto ao espaço mundial, o pensamento
societal emergente, no senso comum eman- utópico floresceu até à 1ª Grande Guerra, al-
cipatório a ser construído por uma tópica tura em que foi brutalmente esmagado para
retórica dialógica e no novo EstadoProvidên- nunca mais se recompor.
cia enquanto garante da experimentação so- À luz da tradição realista ainda predominan-
cial de sociabilidades alternativas. Nas notas te nas ciências sociais, o que a seguir vou ex-
de rodapé, indicarei algumas das propostas por parecerá pouco mais do que moralização
de sociabilidades alternativas para cada um bem-intencionada. Não importa. O realismo é
dos espaços estruturais formuladas nas três o filho epistemológico predilecto do paradig-
últimas décadas. Tornar-se-á então eviden- ma dominante e, como tal, particularmente
te uma curiosa e importante assimetria. A revelador da transformação perversa das ener-
maioria das visões ou utopias alternativas gias emancipatórias em instrumentos regula-
concentrouse nos espaços da produção e da tórios. Passo a passo, o realismo conduziu-nos
cidadania. O espaço doméstico e o espaço da a uma situação em que a emancipação só pode
comunidade que, no século XIX, inspiraram ser pensada de modo não-realista e moralista.
tanta modelização utópica, são hoje em dia
praticamente um deserto em matéria de alter- Comunidades domésticas cooperativas
nativas radicais5. Quando muito, a utopia está
No espaço doméstico, a contradição e a
presente como crítica da utopia, designada-
competição ocorrem entre o paradigma da
família patriarcal e o paradigma das comuni-
dades domésticas cooperativas. O paradigma
5 Para um fascinante relato dos projectos feminis- emergente inclui todas as formas alternativas
tas para o trabalho doméstico (espaço colectivizado de
trabalho doméstico, trabalho doméstico cooperativo,
casas sem cozinhas) no século XIX e início do século
XX, ver Hayden (1981). 6 Ver, entre outros, Tipton (1982).
80 Boaventura de Sousa Santos

de sociabilidade doméstica e de sexualidade, vas de domesticidade, tanto quanto possível


baseadas na eliminação dos estereótipos dos em igualdade de circunstâncias. Por exemplo,
papéis de cada sexo, na autoridade partilha- deve ser garantido, desde já, igual acesso ao
da (quer nas relações entre os sexos, quer en- direito social e, nomeadamente, à segurança
tre gerações) e na democratização do direito social, às famílias patriarcais e às comunida-
doméstico (conflitos cooperativos, prestação des domésticas cooperativas.
mútua de cuidados, vida partilhada)7. O novo
senso comum emancipatório do espaço do- Produção ecosocialista
méstico baseiase numa tópica retórica orien-
No espaço da produção, a contradição e a
tada pelos topoi da democracia, da coopera-
competição ocorrem entre o paradigma do ex-
ção e da comunidade afectivas8 e, ainda, pelo
pansionismo capitalista e o paradigma ecoso-
menos na fase preliminar da transição para-
cialista. Desenrolam-se através da contradição
digmática, pelo topos da libertação da mulher.
e competição entre unidades de produção capi-
No espaço doméstico, a dimensão de provi-
talista e unidades de produção ecosocialistas.
dência social do Estado consiste em garantir
Estas últimas abrangem organizações muito
que se possam experimentar formas alternati-
diferentes, de certo modo semelhantes a al-
gumas unidades produtivas actualmente exis-
7 Como atrás afirmei, a concepção de formas alter- tentes nas periferias da produção capitalista,
nativas de domesticidade, que não sejam sexualmente tais como unidades de produção cooperativa
estereotipadas, tem sido, em tempos recentes, um do- e autogerida, pequena agricultura, agricultura
mínio particularmente emprobrecido do pensamento orgânica, produção controlada pelos traba-
utópico. Mesmo assim, no nosso século existe uma
lhadores, unidades de produção de utilidade
corrente importante de utopismo feminista sob a for-
ma de ficção científica, cobrindo não apenas o espaço social, redes de produção comunitária9. Estas
doméstico, mas todos os outros espaços estruturais.
Ver Sargent (1974, 1976 e 1978). Ver também Piercy
(1976), e Moylan (1986). 9 Podemos encontrar em Dahl (1985) uma argumen-
8 Num sentido convergente, mas mais amplo, Wolff tação vigorosa a favor da democracia no espaço da
referese à comunidade afectiva como “a consciência produção. Ver, também, Bowles e Gintis (1986); Bow-
recíproca de uma cultura partilhada” (1968: 187). les, Gordon e Weisskopf (1983 e 1990). Roemer (1992)
Não disparem sobre o utopista 81

organizações têm em comum o facto de todas O novo senso comum emancipatório do es-
elas serem associações voluntárias de produ- paço da produção baseia-se numa tópica re-
tores direccionadas para a produção democrá- tórica orientada pelos topoi da democracia e
tica de valores de uso, sem degradarem a na- do socialismo e antiprodutivismo ecológicos.
tureza (substituindo a natureza capitalista pela No espaço da produção, a dimensão de provi-
natureza ecosocialista)10. dência social do Estado consiste em garantir
a coexistência dos dois modos de produção
alternativos, com o âmbito necessário para
apresentou um modelo de socialismo de mercado par- avaliar os resultados e as formas de sociabili-
tindo de uma reorganização radical dos direitos de pro- dade deles decorrentes. O fomento do sector
priedade das empresas e da igualização da distribuição privado não lucrativo, o chamado terceiro sec-
dos lucros. A ideia de democracia económica assente na
participação e na autogestão tem, como é sabido, uma
tor (os outros sectores são o sector estatal e o
longa tradição no pensamento socialista. Em finais dos sector privado lucrativo), na área da produção
anos vinte, Naphtali concebeu um modelo bastante sofis- de bens e serviços constitui uma das primei-
ticado de democracia económica para a Federação Geral ras formas de promoção da experimentação
dos Sindicatos Alemães (Naphtali, 1977). Dentro desta social a empreender pelo Estado-Providência.
tradição, Széll (1988 e 1990) é, actualmente, um dos mais
consistentes defensores da democracia económica. Ver,
também, Lamers e Széll (1989); Greenberg (1986), sobre
a produção cooperativa (o caso de Mondragon); e Linn
(1987), a propósito da “produção de utilidade social” (as 1980, 1987, 1990), O’Connor (1973, 1987, 1991a, 1991b) e
experiências feitas pelo Conselho da Grande Londres). do grupo da revista Capitalism Nature Socialism. Ver,
10 A literatura sobre democracia económica (ver Nota também, Daly e Cobb (1989). De formas muito diversas,
anterior) tem tradicionalmente ignorado a dimensão todas estas propostas ligam explicitamente o espaço da
ecológica e antiprodutivista do espaço da produção produção ao espaço do mercado e ao espaço da comu-
emergente. Isto devese, em parte, à orientação produ- nidade: as versões alternativas abrangem a produção, o
tivista do marxismo clássico. Recentemente, porém, consumo e, em geral, “le monde vécu”. De facto, “le front
o pensamento utópico ecosocialista tem florescido de est partout”. Em 1947, Goodman e Goodman apresen-
várias formas. As propostas mais sofisticadas derivam taram os seus “modelos para pensar” a eliminação da
dos trabalhos de Illich (1970; 1971; 1973; 1976; 1977; diferença entre produção e consumo na nova comunida-
1978; 1981), Bahro (1978) e movimento alemão dos de (Goodman e Goodman, 1960). Para uma panorâmica
Verdes, Gorz (1980, 1982, 1992), Bookchin (1970, 1974, global, ver Frankel (1987). Ver também Goodin (1992).
82 Boaventura de Sousa Santos

Necessidades humanas O novo senso comum emancipatório do es-


e consumo solidário paço do mercado baseia-se numa tópica retó-
No espaço do mercado, a contradição e a rica orientada pelos topoi da democracia, das
competição ocorrem entre o paradigma do necessidades radicais e dos meios de satisfa-
consumismo individualista e o paradigma das ção genuínos. No espaço do mercado, a dimen-
necessidades humanas, da satisfação decente são de providência social do Estado consiste
e do consumo solidário. No paradigma emer- em garantir a experimentação de formas alter-
gente, os meios de satisfação estão ao serviço nativas de consumo, tanto quanto possível em
das necessidades — sendo as necessidades si- igualdade de circunstâncias. Esta dimensão
multaneamente privação e potencialidade —, o de providência social é mais difícil de atingir,
mercado é apenas uma de entre muitas formas dado que contradiz, a um nível particularmen-
de organização do consumo, e as necessidades te profundo, a actual lógica global do Estado-
são concebidas como experiências subjectivas Providência que, tal como o conhecemos, foi
que podem ser expressas de variadíssimas for- criado para garantir a integração das classes
mas, de acordo com os contextos e as culturas, trabalhadoras no tipo de consumo organiza-
ora como objectos de desejo, ora como desejos do de acordo com o paradigma dominante do
de intersubjectividade. A noção de necessida- consumismo individualista. Uma das primeiras
des radicais é central no paradigma emergente. medidas de experimentação social consiste em
Segundo Heller, as necessidades radicais são criar condições para que grupos de consumi-
qualitativas e não quantificáveis; não podem dores se associem na produção de alguns bens
ser satisfeitas num mundo assente na subordi- de consumo (sobretudo alimentares). Esta me-
nação e na superordenação; impelem as pesso-
as para ideias e práticas que eliminam a subor-
dinação e a superordenação (Heller, 1976)11. narrativa” (1993: 33). Esta alteração torna a teoria de
Heller ainda mais concordante com a minha principal
tese neste livro. Tenho vindo a insistir na ideia de que
11 Recentemente, Heller (1993) revisitou a sua teoria o paradigma emergente é, na verdade, um conjunto de
das necessidades radicais. Embora ainda acredite que paradigmas que, muito provavelmente, carecem da co-
há necessidades radicais, rejeita a “temporalização erência e da ambição totalizante que caracteriza o para-
das necessidades radicais no projecto de uma grande digma da modernidade.
Não disparem sobre o utopista 83

dida implicará uma nova reforma agrária, a res- cludentes quer ao nível externo (intercomuni-
truturação do uso e posse da terra nas cinturas tário), quer ao nível interno (intracomunitário).
agrícolas das grandes cidades. No paradigma das comunidades-amiba,
pelo contrário, a identidade é sempre múltipla,
Comunidades-amiba inacabada, sempre em processo de reconstru-
ção e reinvenção: uma identificação em curso.
No espaço da comunidade, a contradição e a
A comunidade é, neste paradigma, vorazmen-
competição ocorrem entre o paradigma das co-
te inclusiva e permeável, alimentando-se das
munidades-fortaleza e o paradigma das comu-
pontes que lança para outras comunidades e
nidades-amiba. As comunidades-fortaleza são
procurando comparações interculturais que
comunidades exclusivas, isto é, comunidades
confiram o significado mais profundo à sua
que, agressiva ou defensivamente, baseiam a
concepção própria de dignidade humana,
sua identificação interna numa clausura em re-
sempre ávida de encontrar formas de estabe-
lação ao exterior. As comunidades agressivas-
lecer coligações de dignidade humana com
-exclusivas, cujo exemplo arquetípico é a “so-
outras comunidades. Os movimentos popu-
ciedade colonial”, são constituídas por grupos
lares latinoamericanos, as comunidades ecle-
sociais dominantes que se fecham numa preten-
siais de base, os movimentos de defesa dos
sa superioridade para não serem corrompidas
direitos humanos em todo o sistema mundial,
por comunidades supostamente inferiores. As
tendem a estar mais próximos do paradigma
comunidades defensivas-exclusivas são o re-
das comunidades-amiba do que, por exemplo,
verso das anteriores, mas seguemlhes o exem-
os sindicatos e os movimentos feministas dos
plo ao enclausurarem-se para defender os pou-
países do centro.
cos resquícios de dignidade que conseguiram
O paradigma das comunidades-amiba visa
escapar à pilhagem colonial. Aqui, o exemplo
construir um novo senso comum emancipa-
arquetípico encontrase nas comunidades indí-
tório orientado por uma hermenêutica demo-
genas. A consequência deste processo de auto-
crática, cosmopolita, multicultural e diató-
-enclausuramento recíproco é a tendência das
pica. No espaço da comunidade, a dimensão
comunidades-fortaleza para gerarem fortes hie-
de providência social do Estado consiste em
rarquizações internas. Com isto tornam-se ex-
garantir a proliferação de comunidades-amiba.
84 Boaventura de Sousa Santos

Uma das primeiras medidas de experimenta- de democracia correspondentes aos seis espa-
ção social neste domínio consiste em arvorar o ços estruturais13.
multiculturalismo em princípio informador de A democratização do espaço da cidadania é
toda a actividade estatal (sistema educativo, emancipatória apenas na medida em que esteja
saúde pública, segurança social, administra- articulada com a democratização de todos os
ção pública)12. restantes espaços estruturais, e a cidadania só
é sustentável na medida em que se dissemine
Socialismo como democracia sem fim para além do espaço da cidadania. Cada forma
democrática representa uma articulação es-
No espaço da cidadania, a contradição e a
pecífica entre a obrigação política vertical e a
competição ocorrem entre o paradigma da de-
obrigação política horizontal, e cada uma tem
mocracia autoritária e o paradigma da demo-
a sua própria concepção de direitos e de cida-
cracia radical. Ao longo deste volume, analisei,
dania, de representação e de participação. Em
com alguma demora, as principais característi-
todas elas, porém, o processo democrático é
cas do paradigma dominante numa perspectiva
aprofundado pela transformação das relações
crítica, salientando os limites da sociabilidade
de poder em relações de autoridade partilha-
democrática tornada possível por ele. O para-
digma emergente é o paradigma da democracia
radical, isto é, da democratização global das re- 13 O espaço da cidadania é, sem dúvida, o espaço es-
lações sociais assentes numa dupla obrigação trutural que inspirou o pensamento utópico mais rico
política: a obrigação política vertical entre o no nosso século. Partindo de uma tradição da moder-
nidade, excêntrica e não hegemónica, que remonta
cidadão e o Estado, e a obrigação política ho- a Rousseau, Wollstonecraft, Marx, Engels e J. Stuart
rizontal entre cidadãos e associações. Em ter- Mill, as ideias de democracia directa e de democracia
mos do paradigma emergente, a transição para- participativa foram reelaboradas numa miríade de pro-
digmática consiste nas lutas por seis formas de postas que incluem a democracia radical (Mouffe, 1992;
Laclau e Mouffe, 1985), a democracia unitária (Mans-
sociabilidade democrática, isto é, seis formas
bridge, 1983), a democracia forte (Barber, 1984), a auto-
nomia democrática e o socialismo liberal (Held, 1987),
a comunidade democrática (Berry, 1989), a democracia
12 Há que distinguir entre multiculturalismo progres- associativa (Cohen e Rogers, 1992) e o socialismo de-
sista e reaccionário. mocrático (Cunningham, 1988).
Não disparem sobre o utopista 85

da, do direito despótico em direito democrá- sociedade. A expansão da democracia a que o


tico, e do senso comum regulatório em senso paradigma emergente aspira deve, assim, ser
comum emancipatório. entendida em termos de estrutura, escala e
O paradigma emergente constitui, portanto, tempo: em termos de estrutura, porque abran-
uma ampla expansão e dispersão do direito ge todos os espaços estruturais e não apenas
democrático, dos direitos humanos14 e da ci- o da cidadania; em termos de escala, porque
dadania. Por exemplo, os direitos e os deveres abrange os espaçostempo local, nacional e
consagrados pelo direito do espaço doméstico transnacional e não apenas o espaçotempo
não se confundem com os direitos e os deve- nacional; e, por fim, em termos temporais,
res consagrados pelo direito estatal da família, porque a democracia do presente depende, em
mas o potencial democrático de cada um dos parte, da garantia de uma vida decente para as
tipos de direitos e deveres resulta da articula- gerações futuras. O senso comum emancipató-
ção entre eles15. Da mesma maneira, ser cida- rio da cidadania baseia-se no topos do socialis-
dão no espaço da produção não é a mesma coi- mo como democracia sem fim.
sa do que ser cidadão no espaço do mercado, A dimensão de providência social do Esta-
mas é da constelação de diferentes cidadanias do no espaço da cidadania é particularmente
que deriva o valor democrático de uma dada complexa, porque a contradição e a competi-
ção entre paradigmas se, por um lado, devem
ser asseguradas pelo Estado, por outro, reper-
14 Em matéria de direitos e de política de direitos, o cutem-se no interior deste, tornando-o contra-
paradigma emergente alarga e aprofunda as concep-
ditório. A experimentação paradigmática, que
ções contrahegemónicas que nesse domínio foram
propostas por A. Hunt (1993) e P. Williams (1991). Ver, o Estado deve promover na sociedade, trans-
também, Laclau e Mouffe (1985). forma o Estado num Estado experimental, um
15 Sen (1990) chama a nossa atenção para a especifi- Estado-piloto. No espaço da cidadania, a di-
cidade dos “conflitos cooperativos” no agregado fami- mensão de providência social reside no modo
liar, acrescentando que as dificuldades de eliminar as como o Estado redistribui os seus recursos
predisposições desfavoráveis às mulheres relacionam- materiais e simbólicos de modo a promover a
-se com as “evidentes dificuldades de alargar a análise
experimentação social com formas alternati-
dos direitos ao problema da distribuição no interior do
agregado familiar” (140). vas de democracia, de direito e de cidadania.
86 Boaventura de Sousa Santos

Por outras palavras, a dimensão de providência direitos humanos no mundo de hoje. A prin-
social realizase, em parte, pela transferência cipal função do sistema inter-estatal, na sua
das prerrogativas do Estado para associações presente forma, é fazer com que essa violação
e instituições nãoestatais sempre que estas, pe- seja, ao mesmo tempo, possível e politicamen-
las suas virtualidades democráticas e participa- te tolerável.
tivas, contribuam para a proliferação de espa- De acordo com o paradigma emergente, a
ços públicos não-estatais. Significa isto que, na hierarquia NorteSul só pode ser abolida na me-
transição paradigmática, o Estado é um Estado dida em que se for impondo um novo padrão
dual, ou seja, em cada domínio social há um de sociabilidade transnacional democrática e
conjunto de leis e de instituições que garantem ecosocialista, a qual, por sua vez, pressupõe
a reprodução das formas de sociabilidade do- um novo sistema de relações internacionais e
minante, e um outro conjunto de leis e institui- transnacionais orientado pelos princípios da
ções que garantem a experimentação com as globalização contra-hegemónica: o cosmopoli-
formas emergentes de sociabilidade. tismo e o património comum da humanidade.
No novo modelo, a soberania deixa de ser ex-
Sustentabilidade democrática e clusiva e absoluta, tornandose recíproca e de-
soberanias dispersas mocraticamente permeável16. Com base nesta
Finalmente, no espaço mundial, a contra-
dição e a competição paradigmáticas ocorrem
entre o paradigma do desenvolvimento desi- 16 As concepções alternativas do espaço mundial sur-
giram no contexto da análise da crise final do sistema
gual e da soberania exclusiva, por um lado, e mundial e do sistema inter-estatal. Wallerstein (1991a)
o paradigma das alternativas democráticas ao tem vindo a promover um debate sobre o novo paradig-
desenvolvimento e da soberania reciprocamen- ma. Centrado especificamente no sistema inter-estatal,
te permeável, por outro. Do ponto de vista do Falk (1975, 1987, 1992a, 1992b, 1992c), juntamente com
outros autores, tem vindo a propor novos modelos de
paradigma emergente, a hierarquia NorteSul e
governo mundial. Os novos movimentos sociais (eco-
o desenvolvimento capitalista, expansionista e lógicos, pacifistas, comunitários, de defesa de alterna-
desigual, em que essa hierarquia assenta, cons- tivas ao desenvolvimento) têm originado, nos últimos
tituem a maior e mais implacável violação dos anos, uma profusão de propostas utópicas, centradas
sobre a acção social à escala mundial. Ver, por exem-
Não disparem sobre o utopista 87

nova noção de soberania, tornase concebível adas em conceitos alternativos de soberania


que os Estados partilhem entre si a sua sobera- que visam a criação de instâncias parciais de
nia e o façam também com novas instituições governação transnacional (incluindo gover-
não-governamentais transnacionais, democrá- nos locais transnacionalmente articulados
ticas e participativas, embriões de um espaço em rede). Também neste caso, o Estado assu-
público global nem estatal nem inter-estatal. me na transição paradigmática uma natureza
No paradigma emergente, o princípio da au- dual: um número crescente de relações que o
todeterminação interna é tão importante quan- paradigma dominante concebe como relações
to o princípio da autodeterminação externa. externas será reconceptualizado como rela-
Tenderão a desaparecer as distinções entre ci- ções internas.
dadãos e não cidadãos, entre emigrantes e na-
cionais, e, com isto, as cidadanias, tal como as Lutas paradigmáticas e
nacionalidades, tenderão a ser plurais. A tópica subparadigmáticas
retórica do espaço mundial está orientada para
À luz da proposta utópica aqui apresentada,
a hermenêutica diatópica e para o diálogo in-
as contradições e as competições paradigmá-
tercultural, e assenta nos topoi da democracia,
ticas traduzemse, na transição paradigmática,
do cosmopolitismo e do património comum
por um extenso campo de experimentação so-
da humanidade. Durante as primeiras fases da
cial com formas alternativas de sociabilidade.
transição paradigmática, deverá também privi-
Em vez de serem eliminadas por um acto de
legiarse uma tópica do Sul nãoimperial17.
ruptura revolucionária, as formas dominantes
No espaço mundial, a dimensão de provi-
de sociabilidade podem continuar a reprodu-
dência social do Estado consiste em garantir
zirse, perdendo, no entanto, o monopólio so-
a experimentação com novas formas de socia-
bre as práticas epistemológicas e sociais. Isto
bilidade internacional e transnacional, base-
significa que têm de competir com formas de
sociabilidade alternativa às quais devem ga-
plo, Pieterse (1989); Walker (1988); Daly e Cobb (1989); rantir-se condições adequadas, não só para so-
Addo et al. (1985). Ver também Stauffer (1990). breviverem, mas também para florescerem. Ao
17 Sobre a noção do Sul nãoimperial, ver, mais adian- Estado compete assegurar a experimentação,
te, a discussão sobre a subjectividade do Sul.
88 Boaventura de Sousa Santos

residindo nessa função a sua natureza de pro- lado, se recusam a aceitar o que existe só por-
vidência social. que existe e, por outro, estão convictos que o
Na transição paradigmática, as lutas polí- que não existe contém um amplíssimo campo
ticas em que o alvo é o Estado tornamse ex- de possibilidades. Na transição paradigmática,
tremamente importantes. Enquanto as lutas o inconformismo é, em si mesmo, uma mera
políticas subparadigmáticas visam reproduzir semi-legitimidade que se vai completando com
uma forma dominante de sociabilidade, as a ampliação do círculo do inconformismo.
lutas políticas paradigmáticas anseiam pela A luta pela avaliação é tão crucial como a
experimentação social com formas de socia- luta pelas garantias de experimentação. Isto
bilidade alternativa. Na concepção aqui pro- significa que, ao contrário do que acontece
posta, a avaliação da experimentação social com a luta política subparadigmática, a luta
está confiada às diferentes forças sociais en- política paradigmática não pode escolher en-
volvidas em formas alternativas de sociabili- tre lutar dentro e lutar fora do Estado: tem de
dade. A luta pela avaliação é, em parte, uma ser travada dentro e fora do Estado. As garan-
luta pelos critérios de avaliação. Pelo menos, tias de experimentação são sempre resultado
nas primeiras fases da transição paradigmáti- de uma luta, pois são conquistadas dentro de
ca não pode deixar de ser incluído, entre os um Estado constituído pelo paradigma domi-
vários critérios, o critério quantitativo: a ava- nante, precisamente com o objectivo de evitar
liação só pode ser positiva na medida em que a a experimentação social. A luta é, por isso,
experiência com alternativas de sociabilidade, extremamente difícil, as garantias são sempre
uma vez concluída, se torna mais credível para precárias e têm de ser objecto de uma vigilân-
grupos sociais mais amplos, conquista mais cia política constante.
adeptos dispostos a renová-la e ampliá-la, em A avaliação da experimentação social será
suma, amplia o seu auditório relevante. Deve efectuada pelas forças sociais no interior das
ter-se sempre em mente que a experimentação comunidades interpretativas através da retóri-
social não é levada a cabo por vanguardas que ca dialógica. Cada um dos espaços estruturais
representem algo mais para além de si pró- desenvolve a sua própria tópica retórica. No
prias. É antes levada a cabo por grupos sociais entanto, o topos da democracia é comum a to-
inconformados e inconformistas que, por um dos eles. O facto de este topos se constelar em
Não disparem sobre o utopista 89

diferentes espaços estruturais com diferentes recusada pelos grupos sociais que, em teoria,
topoi revela a variedade de democracias que a mais beneficiariam dela. O direito de recusa é,
transição paradigmática irá gerar para corres- porém, um dos direitos incondicionais na tran-
ponder ao seu potencial emancipatório. Con- sição paradigmática.
tudo, como uma das características fundamen- Nos termos aqui apresentados, a contradição
tais do conhecimento argumentativo é a sua e a competição paradigmática significam uma
natureza não-fundacional, inacabada e reversí- confrontação no campo social entre regulação
vel, não há qualquer garantia de que os parâ- e emancipação. Mas enquanto, na luta política
metros da retórica dialógica sejam cumpridos, subparadigmática, a emancipação pela qual se
nem de que os resultados da argumentação e luta é a que é possível dentro do paradigma do-
da avaliação sejam duráveis. De facto, a expe- minante — e que, portanto, não questiona fun-
rimentação social é também uma autoexperi- damentalmente a regulação social instituída —,
mentação, residindo aí a sua autoreflexividade. na luta política paradigmática, a confrontação
A luta política paradigmática é, no seu con- ocorre entre a regulação socialmente construí-
junto, altamente arriscada. Embora assente da pelo paradigma dominante e a emancipação
na contradição e na competição entre o domi- imaginada pelo paradigma emergente. Entre as
nante e o emergente, o velho e o novo, tal não duas lutas, há uma total incomensurabilidade.
significa que os opressores estejam necessária Efectivamente, para a luta social paradigmáti-
e exclusivamente do lado do dominante e do ca, a experimentação social só existe enquanto
velho, nem que as vítimas se encontrem neces- tal na medida em que a emancipação resista
sária e exclusivamente do lado do emergente e a ser absorvida pela regulação. Contudo, por
do novo. Além disso, a maior parte dos opres- razões tácticas, as coligações transformativas
sores e das vítimas estará no lado do paradigma podem ser levadas a combinar lutas subpara-
dominante nas relações sociais concentradas à digmáticas nalguns campos sociais com lutas
volta de alguns espaços estruturais, e do lado paradigmáticas noutros.
do paradigma emergente nas relações sociais Concebida deste modo, a transição para-
concentradas à volta de outros espaços estru- digmática é, no seu conjunto, uma sociabi-
turais. Assim, a experimentação social com lidade altamente arriscada que só pode ser
formas alternativas de sociabilidade pode ser levada a cabo por uma subjectividade capaz
90 Boaventura de Sousa Santos

de correr riscos e disposta a corrêlos: a sub- despóticas em ordens jurídicas democráticas.


jectividade emergente. Em suma, há que inventar uma subjectividade
constituída pelo topos de um conhecimento
Viajantes paradigmáticos: prudente para uma vida decente.
subjectividades Disse atrás que cada grande período da his-
A transição paradigmática é dupla: epistemo- tória intelectual é caracterizado por uma rela-
lógica e societal. As duas transições são autó- ção íntima e específica entre subjectividade e
nomas, mas intimamente relacionadas. Formas conhecimento ou, se se preferir, entre psicolo-
alternativas de conhecimento geram práticas gia e epistemologia, uma relação já analisada
sociais alternativas e viceversa. A unir as duas por Cassirer (1960, 1963) e Toulmin (1990) a
transições, existe o conceito de subjectividade propósito do Renascimento e do Iluminismo18.
— simultaneamente individual e colectiva —, No tocante ao Iluminismo, o ensaio de Locke
o grande mediador entre conhecimentos e prá- (1956) sobre o “entendimento humano” viria a
ticas. Dado que, neste trabalho, adoptei a he- revestir-se de uma enorme influência, e ainda
terotopia como lugar de escrita, é-me legítimo hoje nos interessa aqui. São de Voltaire estas
centrar a análise no lado emergente e emanci- palavras admiráveis sobre Locke:
patório da competição paradigmática, isto é, na
construção paradigmática do tipo de subjecti- Depois de tantos e tão variados pensadores terem
formado o que poderíamos chamar o romance
vidade capaz de explorar, e de querer explorar,
da alma, surge um sábio que modestamente nos
as possibilidades emancipatórias da transição
apresentou a história dela. Locke revelou a ra-
paradigmática. Tal é a subjectividade emergen- zão humana ao homem, tal como um anatomista
te: por um lado, tem de se conhecer a si mesma competente explica as origens e a estrutura do
e ao mundo através do conhecimento-emanci- corpo humano (Voltaire, 1950: 177).
pação, recorrendo a uma retórica dialógica e a
uma lógica emancipatória; por outro lado, tem O motivo deste entusiasmo foi o facto de
de ser capaz de conceber e desejar alternativas Locke ter aberto uma nova perspectiva segun-
sociais assentes na transformação das relações
de poder em relações de autoridade partilha-
da e na transformação das ordens jurídicas 18 Ver também Lima (1988).
Não disparem sobre o utopista 91

do a qual a investigação da função da expe- pondência instável entre dois extremos: um


riência devia preceder qualquer determinação conhecimento que se posicionava nos alvores
do seu objecto, e o conhecimento exacto do de um futuro mais promissor que todos os fu-
carácter específico do entendimento humano turos passados só podia ser desejado por uma
não poderia ser atingido a não ser que se tra- subjectividade que representasse o culminar
çasse todo o percurso do seu desenvolvimen- de uma longa evolução ascendente.
to desde os primeiros elementos até às formas Hoje, tal como Locke, também nós devemos
mais elevadas. Para Locke, a origem do pro- suscitar a questão da subjectividade de forma
blema crítico era genética, sendo que a histó- radical, embora de uma forma radicalmente
ria da mente humana fornecia uma explicação diferente, já que duas diferenças marcantes
adequada do mesmo19. nos separam de Locke. Por um lado, estamos
Escrevendo num momento crucial da cons- a entrar numa fase de transição paradigmática
tituição do paradigma da modernidade, Locke em que o paradigma emergente é ainda pouco
fez perguntas e deu respostas que hoje são nítido e pouco motivador, visto que tem de en-
para nós de pouca utilidade, agora que chegá- frentar a oposição de um amplo leque de forças
mos à última fase do paradigma que ele ajudou sociais, políticas e culturais interessadas em
a consolidar. O que poderá ter utilidade para reproduzir o paradigma dominante muito para
nós, porém, é a arqueologia das suas pergun- além dos limites da sua própria criatividade re-
tas e das suas respostas. Locke foi capaz de generadora. Por outro lado, quanto ao futuro,
exigir radicalmente um tipo de subjectivida- sabemos muito melhor o que não queremos do
de capaz de criar e de querer criar um novo que o que queremos. Os mecanismos modernos
conhecimento científico cujas possibilidades de confiança, centrados no Estado, que, como
infinitas assomavam no horizonte, um tipo de hoje sabemos, significavam confiança no futu-
subjectividade que, de facto, desejava também ro, começaram a desvanecerse, deixando-nos
reconhecer-se nas suas próprias criações. Viu face a face com um futuro de que desconfia-
a resposta para a sua questão numa corres- mos. Por isso a nossa Sorge é hoje uma dupla
Sorge: o objecto dela é o futuro que desejamos
e, sobretudo, o futuro que não desejamos. As-
19 Ver também Cassirer (1960: 93133). sim, o paradigma emergente manifestase como
92 Boaventura de Sousa Santos

a “inquietude” de que falava Condillac, essa in- uma questão de vida ou de morte. Para a sub-
quietação que ele considerava ser o ponto de jectividade paradigmática, o passado é uma
partida, não apenas dos nossos desejos e an- metonímia de tudo o que fomos e não fomos.
seios, mas também do nosso pensar e julgar, do E o passado que nunca foi exige uma reflexão
nosso querer e agir (Condillac, 1984: 288). especial sobre as condições que o impediram
Neste contexto, o problema central é o de de alguma vez ser. Quanto mais suprimido,
como imaginar uma subjectividade suficien- mais presente. A subjectividade emergente é
temente apta para compreender e querer a tão radicalmente contemporânea de si própria
transição paradigmática, para transformar que, tratando o passado como se ele fosse pre-
a “inquietude” em energia emancipatória, sente, chega a parecer anacrónica. Podemos
ou seja, uma subjectividade que queira em- falar de anacronismo virtual: o passado que é
penharse nas competições paradigmáticas, transformado em presente é o passado que não
quer ao nível epistemológico, quer ao nível foi autorizado a existir. Contudo, o passado é
societal, que hão de conferir uma credibili- tornado presente, não como uma solução já
dade crescente ao novo paradigma, por mui- pronta, conforme acontece na subjectividade
to provisória e reversível que ela seja. Ao reaccionária, mas como um problema criativo
contrário de Locke, perguntamos por uma susceptível de abrir novas possibilidades. O im-
subjectividade que, em vez de culminar uma perativo é, pois, o de desfamiliarizar a tradição
evolução, tem a sua génese no futuro. Ela é, canónica sem ver nisso um fim em si mesmo,
pois, intrinsicamente problemática. A sua como se essa desfamiliarização fosse a única
autoreflexividade deve ser exercida ex ante, familiaridade possível ou legítima. Por outras
por assim dizer. Deve ser autoreflexiva parti- palavras, a subjectividade paradigmática não
cularmente a respeito daquilo que ainda não pode cair nos extremos de Nietzsche quando,
é, o que implica seguir muito de perto as con- na Genealogia da Moral, afirma: “Só o que não
sequências dos seus actos. Tal é a prudência tem história pode ser definido” (1973: 453). Só
subjacente ao novo conhecimento. através da arqueologia virtual poderá a subjec-
A subjectividade da transição paradigmáti- tividade da transição paradigmática empenhar-
ca é aquela para quem o futuro é uma questão -se numa crítica radical da política do possível
pessoal. De facto, num sentido muito literal, sem cair numa política impossível.
Não disparem sobre o utopista 93

A construção de uma subjectividade indivi- que entendo por viver na fronteira20. Utilizo os
dual e colectiva, suficientemente apta para en- seus conhecimentos à maneira da vida na fron-
frentar as futuras competições paradigmáticas teira, ou seja, de forma muito selectiva e instru-
e disposta a explorar as possibilidades emanci- mental. A exactidão ou inexactidão histórica
patórias por elas abertas, deve ser guiada, em das suas descrições concretas não é relevante
meu entender, por três grandes topoi: a frontei- para o meu argumento. Interessame apenas
ra, o barroco e o Sul. Analisarei, a seguir, cada construir o tipo-ideal da sociabilidade de fron-
um deles separadamente. teira. Passarei agora a analisar, com algum de-
talhe, cada uma das características da fronteira.
A fronteira O Uso Selectivo e Instrumental das Tradi-
ções — Viver na fronteira é viver em suspensão,
A subjectividade emergente compraz-se em
num espaço vazio, num tempo entre tempos. A
viver na fronteira. Num período de transição
novidade da situação subverte todos os planos
e de competição paradigmáticas, a fronteira
e previsões; induz à criação e ao oportunismo,
surge como uma forma privilegiada de sociabi-
como quando o desespero nos leva a recorrer
lidade. Quanto mais à vontade se sentir na fron-
ansiosamente a tudo o que nos pode salvar. A
teira, melhor a subjectividade poderá explorar
tradição deve, portanto, ser imaginada para se
o potencial emancipatório desta. De entre as
converter naquilo de que precisamos, ainda
principais características da vida na fronteira
que a definição daquilo de que precisamos seja,
que são pertinentes para a tese que aqui defen-
em parte, determinada por aquilo que temos à
do, distingo as seguintes: uso muito selectivo e
mão. Cronon, Miles e Gitlin, na sua recente re-
instrumental das tradições trazidas para a fron-
avaliação crítica das análises críticas de Turner
teira por pioneiros e emigrantes; invenção de
sobre a fronteira, sustentam que a colonização
novas formas de sociabilidade; hierarquias fra-
do oeste norte-americano foi semelhante a ou-
cas; pluralidade de poderes e de ordens jurídi-
tras formas de colonização geradas pela expan-
cas; fluidez das relações sociais; promiscuidade
são europeia. Como sucedeu noutras partes do
entre estranhos e íntimos; misturas de heranças
e invenções. Recorro aos historiadores da vida
e da sociabilidade fronteiriça para clarificar o 20 Inspireime sobretudo em Cronon, Miles e Gitlin
(1992), para o desenvolvimento do topos da fronteira.
94 Boaventura de Sousa Santos

mundo, os euro-americanos, quando chegavam uma inesperada sensação de poder (Cronon, Mi-
à fronteira, escolhiam do seu passado aquilo les e Gitlin, 1992: 910).
que desejavam reter e o que desejavam esque-
cer ou modificar, quer se tratasse do estilo das A Invenção de novas formas de sociabilida-
casas, da agricultura ou das formas de convi- de — Viver na fronteira significa ter de inventar
vialidade e de religião: tudo, ou quase tudo, incluindo o próprio acto
de inventar. Viver na fronteira significa conver-
Contar a história do Oeste sem procurar estes la- ter o mundo numa questão pessoal, assumir
ços com o Velho Mundo é esquecer uma verdade uma espécie de responsabilidade pessoal que
simples, mas poderosa: as ligações são impor- cria uma transparência total entre os actos e
tantes. Delas provém o grande dilema com que as suas consequências. Na fronteira, vivese da
se deparam todas as comunidades de fronteira: sensação de estar a participar na criação de
reproduzir os modos de vida do velho mundo um novo mundo. As reservas de experiência
ou substituílos por outros novos. As áreas onde
e de memória que cada pessoa ou grupo so-
os euro-americanos só recentemente tinham en-
trado possuíam uma fluidez peculiar que carac-
cial leva consigo para a situação da fronteira
terizava as comunidades de fronteira em todo o transformamse profundamente quando aplica-
mundo. Os recursos, a riqueza e o poder, embora das num contexto completamente novo, mas
dificilmente ao alcance de todos, eram, no en- a liberdade quase incondicional com que são
tanto, mais fáceis de obter aí do que nas socie- transformadas pela primeira vez condiciona a
dades mais rigidamente hierarquizadas que os liberdade de futuras transformações. Ao faze-
invasores tinham deixado para trás. Quando os rem escolhas sobre o tipo de comunidade em
emigrantes criavam lares em áreas de fronteira, que pretendem viver, os emigrantes estão, as-
tentavam agarrar-se ao mundo familiar que re- sim, a reduzir o âmbito da liberdade de escolha
cordavam do passado, mas também procuravam que será posteriormente possível: “O acto de
mudá-lo e melhorá-lo. O seu esforço por escolher
exercer a liberdade de transformar os velhos
entre o conhecido e o desconhecido, à medida
que moldavam os novos povoados, foi um dos
modos de vida estabeleceu as fundações para
traços mais comuns da vida na fronteira, e a ex- a criação de novos velhos modos de vida que
periência de ser capaz de escolher — para quem acabariam por limitar a própria liberdade que
tinha essa oportunidade — pôde trazer consigo os criou” (Cronon, Miles e Gitlin, 1992: 10).
Não disparem sobre o utopista 95

Hierarquias fracas — A construção das iden- lealdade por diferentes fontes de poder e apli-
tidades de fronteira é sempre lenta, precária e di- cam a sua energia em diferentes formas de luta
fícil; depende de recursos muito escassos, dada contra os poderes. Promovem assim a existên-
a grande distância entre a fronteira e o centro, cia de múltiplas fontes de autoridade:
seja o centro do poder, do direito ou do conheci-
mento. Volto aqui a citar Cronon, Miles e Gitlin: As fronteiras norte-americanas eram tradicio-
nalmente áreas onde a autoridade do Estado era
As áreas de fronteira eram locais remotos, muito fraca, onde o direito era o resultado de práticas
distantes dos centros de riqueza e de poder. Isto costumeiras ou de uma invenção expedita. As po-
sugere uma maneira importante de definir a co- líticas índias eram, geralmente, menos burocráti-
munidade de fronteira: periferias cuja dependên- cas e institucionalizadas do que as dos europeus,
cia da metrópole imperialista ajudou a definir a de modo que os encontros dos invasores com os
sociedade local […] Por mais abertos que os seus nativos eram também encontros com novas for-
sistemas sociais pudessem parecer, os seus habi- mas de governação política (Cronon, Miles e Gi-
tantes nunca podiam atingir um estatuto idêntico tlin, 1992: 16).
ao das elites na metrópole.
Fluidez das relações sociais — A fronteira,
Contudo, pela mesma razão, a grande dis- enquanto espaço, está mal delimitada, física
tância em relação ao centro contribuiu, por sua e mentalmente, e não está cartografada de
vez, para minar a hierarquia: modo adequado. Por esse motivo, a inovação
e a instabilidade são, nela, as duas faces das
Viver na margem do império significava, geral- relações sociais. É claro que esse é também
mente, viver onde o poder do Estado central era um espaço provisório e temporário, onde as
fraco, onde a actividade económica estava pouco raízes se deslocam tão naturalmente como o
regulamentada e onde a inovação cultural encon- solo que as sustenta:
trava poucos obstáculos (Cronon, Miles e Gitlin,
1992: 10). Nas áreas de fronteira, povos de culturas diferen-
tes defrontavamse como nações politicamente
Pluralidade de poderes e de ordens jurídi- independentes, mas só durante algum tempo.
cas — Os povos da fronteira repartem a sua Sempre que os povos nativos constatavam que
96 Boaventura de Sousa Santos

a sua liberdade de acção estava efectivamente europeus não foram, de modo algum, os únicos
constrangida pelas leis de outro Estado, a sua responsáveis pela mistura de culturas. Os povos
independência de fronteira dava lugar à depen- que iam encontrando ao longo das suas viagens,
dência política (Cronon, Miles e Gitlin, 1992: 17). e aqueles entre quem acabaram por se fixar, fo-
ram também responsáveis por terem alterado os
Promiscuidade de estranhos e íntimos, de seus próprios mundos de maneira a acomodar
herança e invenção — Viver na fronteira sig- os novos vizinhos. […] Tal como os colonialistas
nifica viver fora da fortaleza, numa disponibi- colhiam informações sobre os “novos” territórios
da fronteira e os seus habitantes, também os ín-
lidade total para esperar por quem quer que
dios depressa se aperceberam das oportunidades
seja, incluindo Godot. Significa prestar atenção
e dos perigos que os invasores representavam.
a todos os que chegam e aos seus hábitos di- […] Veio por fim uma altura em que a coerção
ferentes, e reconhecer na diferença as oportu- euroamericana lhes reduziu drasticamente as op-
nidades para o enriquecimento mútuo. Essas ções, mas mesmo aí os povos índios encontraram
oportunidades facilitam novos relacionamen- formas de afirmar a sua autonomia e o direito de
tos, novas invenções de sociabilidade que, de- escolher o tipo de mundo que queriam habitar
vido ao seu valor paradigmático, se convertem (Cronon, Miles e Gitlin, 1992: 10-11)21.
instantaneamente em herança. Dela se alimen-
tam sucessivas identificações que, agrupadas A sociabilidade mental que constitui a sub-
por uma memória mais ou menos traiçoeira, jectividade emergente possui as principais
constituem o que designamos por identidade. características da sociabilidade de fronteira.
Mais uma vez me remeto à opinião de Cronon, Como já afirmei, não interessa à minha argu-
Miles e Gitlin: mentação saber se Cronon, Miles e Gitlin des-
creveram com exactidão o oeste americano,
Longe de apresentarem a marca indelével do nomeadamente no que respeita às relações
império, muitas comunidades de fronteira fo- entre euroamericanos e nativos americanos. O
mentaram uma verdadeira mescla, ou, pelo me-
nos, uma coexistência de tradições europeias e
nativas (e, posteriormente, também africanas 21 Tenho seriíssimas reservas em relação a esta con-
e asiáticas) onde nenhum dos lados gozava de cepção do “direito de escolha” dos índios. Pressinto
uma clara superioridade cultural. Os emigrantes nela a arrogância Yankee.
Não disparem sobre o utopista 97

que importa é captar a fenomenologia geral da assente em limites, bem como na constante
vida de fronteira, a fluidez dos seus processos transgressão dos limites. Na fronteira, todos
sociais, a criação constante de mapas mentais somos, por assim dizer, migrantes indocumen-
semelhantes aos portulanos medievais, e, aci- tados ou refugiados em busca de asilo. O po-
ma de tudo, a instabilidade, a transitoriedade e der que cada um tem, ou a que está submetido,
a precaridade da vida social na fronteira. tende a ser exercido no modo abertura-de-
Segundo os autores cujas ideias tenho vindo -novos-caminhos, mais do que no modo fixa-
a usar para ilustrar o meu raciocínio, a frontei- ção-de-fronteiras. Nas constelações de poder,
ra foi um momento social relativamente breve os diferentes tipos de poder competem entre
que desapareceu assim que o espaço da fron- si para serem activados num modo de alta-
teira se transformou em diferentes regiões e -tensão, o que torna as constelações instáveis,
territórios incorporados nos Estados Unidos: imprevisíveis e atreitas a explosões, ora destru-
“A extensão do poder estatal era a indicação tivas, ora criativas. O carácter imediato das re-
mais clara possível de uma invasão bem suce- lações sociais, a vertigem da ahistoricidade e a
dida e de uma fronteira em retracção” (Cronon, superficialidade das raízes tornam preciosos os
Miles e Gitlin, 1992: 17). A partir daí, as hierar- laços que é possível estabelecer na fronteira,
quias fortaleceram-se, as diferenças tornaram- preciosos justamente pela sua raridade, preca-
se nítidas, a violência organizada aumentou. “A ridade e utilidade vital.
passagem de fronteira a região”, escrevem os A criação de obrigações horizontais sobre-
citados autores, “foi a mudança de uma relati- põe-se à criação de obrigações verticais, o que
va novidade para uma relativa antiguidade, do significa que a subjectividade é participativa e
fluxo para a fixidez”. E concluem: “[…] Talvez o que geralmente permite que a sua participação
sinal mais eloquente dessa transição tenha sido seja orientada pelo princípio da comunidade.
a sensação, entre os habitantes de um lugar, de O topos da fronteira é, na verdade, o metato-
que já não estavam a inventar um mundo, mas pos subjacente à criação de um novo senso co-
a herdar um mundo” (1992: 23). mum político, um senso comum participativo
A sociabilidade da fronteira é também, em concebido como parte da tópica para a eman-
certo sentido, a fronteira da sociabilidade. Daí cipação. Na fronteira, o valor de uso da parti-
a sua grande complexidade e precaridade. Está cipação raramente se traduz em valor de tro-
98 Boaventura de Sousa Santos

ca. A participação não é um capital simbólico pela indescritível destruição da Segunda Guer-
que, com facilidade, aumente ou seja investido ra Mundial, Adorno observou, na sua Minima
fora do campo social em que é gerado. Se me moralia, que “faz parte da moralidade que uma
é permitido utilizar uma expressão da agricul- pessoa não se sinta em casa na sua própria
tura ecológica, diria que, na fronteira, a partici- casa” (1985: 39). Seguir Adorno, escreve Said, é
pação cresce organicamente. Daí que seja, ao ficar longe de “casa” a fim de poder olhála com
mesmo tempo, mais honesta no seu processo o distanciamento do exílio:
de criação e mais perecível no seu consumo.
As identificações que tornam possível a partici- Tomamos a casa e a língua por garantidas. Elas
pação comunitária raramente conseguem cris- tornam-se natureza e os seus pressupostos subja-
talizarse em identidades. Por outras palavras, centes degeneram em dogma e ortodoxia. O exi-
a fronteira vive simultaneamente a prática da lado sabe que, num mundo secular e contingente,
as casas são sempre provisórias. As fronteiras e
utopia e a utopia da prática.
as barreiras, que nos fecham na segurança do ter-
Disse atrás que, na fronteira, todos somos,
ritório familiar, podem também transformarse em
simbolicamente e em certa medida, migrantes prisões e são muitas vezes defendidas para além
indocumentados, deslocados ou refugiados em do razoável e do necessário. Os exilados atraves-
busca de asilo. No entanto, embora apresente sam as fronteiras e derrubam as barreiras do pen-
algumas semelhanças com o exílio, a frontei- samento e da experiência (Said, 1990: 365).
ra não é exílio. Comentando as relações entre
exílio e literatura, Said define exílio como “o A vida na fronteira partilha com a vida no exí-
perigoso território da não-pertença […], uma lio algumas características importantes: tende a
solidão experienciada fora do grupo: as priva- ser uma vida instável e perigosa, na qual nada
ções sentidas ao não se estar com os outros na ou quase nada é certo ou garantido; existe fora
habitação comum” (Said, 1990: 359). E acres- dos esquemas convencionais dominantes de
centa: “O pathos do exílio reside na perda de sociabilidade, tornandose, por isso, particular-
contacto com a solidez e o conforto da terra: mente vulnerável; reproduzse, sempre de forma
voltar a casa está fora de questão” (361). Ator- provisória, atravessando fronteiras e ultrapas-
mentado pelo exílio, e particularmente pelo sando limites. Em todo o caso, a fronteira não
exílio interior a que se considerava condenado é, de forma alguma, exílio. No que diz respeito
Não disparem sobre o utopista 99

à fronteira, a presença do centro não é tão forte Para uma caracterização adicional da sub-
que permita distinguir clara e indiscutivelmente jectividade de fronteira, devemos distinguir,
entre “nós” e “eles”, como é típico das situações com maior precisão, entre centro e periferia,
de exílio. Pelo contrário, a fronteira é promís- centro e margem. A precisão aqui é importan-
cua e abrangente, e tende a incluir os estranhos te, porque a transição paradigmática poderia
como membros. De facto, a fronteira prospera ser entendida como uma competição entre
na ausência de uma demarcação nítida entre dois centros: o dominante e o emergente.
ser e não ser membro, e é na base dessa mes- Na verdade, a situação é muito mais comple-
ma ambiguidade que ela se esmera por ser uma xa. O reconhecimento da existência de uma
casa para os que nela vivem: um lar confortável, transição paradigmática implica um distan-
embora talvez não muito duradouro. ciamento em relação ao centro, ou seja, em
Ao contrário do exílio, na fronteira a “casa relação ao paradigma dominante. Ainda que
comum” não é um lugar de onde se tenha sido não se transforme em margem, o paradigma
expulso ou do qual se viva afastado. É antes dominante perde eficácia enquanto centro,
a tarefa de um constante fazer e desfazer que o que não significa, porém, que o paradigma
constitui a vida na fronteira. Assim, a vida na emergente ascenda, pelo mesmo processo, à
fronteira obedece ao preceito de Adorno, mas condição de centro. Se fosse esse o caso, en-
complementa-o com outro, que deve ser segui- tão ele não seria, talvez, um paradigma verda-
do de modo igualmente fiel: a outra parte da deiramente alternativo.
moralidade é uma pessoa sentirse em casa na- O paradigma emergente manifestase sobre-
quilo que não é a sua casa própria. A privação tudo na proliferação das margens, na multipli-
abissal de comunidade na transição paradig- cação das escalas que as definem e na varieda-
mática é a força impulsionadora que encoraja de de cartografias que guiam os nossos passos.
a subjectividade de fronteira a viver do desejo Em lugar de uma competição entre centros, a
de comunidade e a aproveitar avidamente cada transição paradigmática é, poderíamos dizê-lo,
fragmento de comunidade que conseguir. A uma competição entre margens. O centro que
subjectividade de fronteira é conduzida mais é possível na transição paradigmática resulta
pelo anseio do falanstério de Fourier do que de acoplamentos ou de constelações de mar-
pelo anseio do exílio de Adorno. gens. A cumplicidade simbiótica entre a fron-
100 Boaventura de Sousa Santos

teira e a transição paradigmática reside nesta Havia leis que asseguravam esse regresso. Não
escassez de centros e na abundância de mar- regressar significava correr o risco de ser punido.
gens. Viver na fronteira é viver nas margens Vivendo como vivíamos — na margem —, desen-
sem viver uma vida marginal. volvemos uma maneira particular de ver a reali-
dade. Olhávamos quer de fora para dentro, quer
Reflectindo sobre a sua experiência de afro-
de dentro para fora. Focávamos a nossa atenção
americana, residente numa pequena cidade de
no centro, bem como na margem. Comprendía-
Kentucky, bell hooks dános informações pre- mos ambos. Este modo de olhar recordavanos a
ciosas sobre a fenomenologia da vida na mar- existência de todo um universo, um corpo princi-
gem. O tipo de vida descrito por hooks, longe pal feito de margens e de centro. A nossa sobre-
de ser uma vida de fronteira, pois o centro não vivência dependia de uma constante consciência
se encontra aqui certamente num lugar remoto, pública da separação entre margem e centro e de
permite-nos, contudo, entender esse carácter um constante reconhecimento privado de sermos
capacitante, próprio da margem, que é tão cru- uma parte necessária e vital desse todo.
cial na vida da fronteira: Esta noção de totalidade, impressa nas nossas cons-
ciências pela estrutura das nossas vidas diárias,
Estar na margem é fazer parte de um todo, mas proporcionounos uma cosmovisão de oposição, um
fora do corpo principal. Para nós, americanos ne- modo de ver desconhecido da maioria dos nossos
gros vivendo numa pequena cidade do Kentucky, opressores, um modo que nos sustentou, que nos
a linha do caminho de ferro recordavanos todos ajudou na nossa luta para superar a pobreza e o de-
os dias a nossa marginalidade. Para lá da linha, sespero, que reforçou o sentido da nossa identidade
havia ruas pavimentadas, lojas onde não podía- e a nossa solidariedade (hooks, 1990: 341)22.
mos entrar, restaurantes onde não podíamos co-
mer e pessoas que não podíamos olhar directa-
mente na face. Para lá da linha, havia um mundo 22 Num sentido semelhante, Gilroy (1993) retirou de
onde podíamos trabalhar como criadas, como Du Bois o conceito de “dupla consciência” para expri-
porteiras, como prostitutas, desde que fosse mir a especificidade da moderna experiência cultural
numa função subordinada. Podíamos entrar nes- negra, a experiência de “estar simultaneamente dentro
se mundo, mas não podíamos lá viver. Tínhamos e fora do Ocidente”, o que conduz às “inevitáveis plu-
sempre de regressar à margem, de atravessar a ralidades envolvidas nos movimentos negros de África
linha e voltar às barracas ou às casas abandona- e do exílio”, em que as reivindicações de identidade
das nos limites da cidade. nacional são ponderadas em comparação com outras
variedades contrastantes de subjectividade (30).
Não disparem sobre o utopista 101

Ao deslocar o centro, a subjectividade de tras actividades ao longo do trajecto, como a


fronteira colocase em melhor posição para pesca ou o comércio. Quanto mais longe se es-
compreender a opressão que o centro repro- tiver e mais pequenos, porque vistos de longe,
duz e oculta através de estratégias hegemóni- forem os limites, maiores serão as oportunida-
cas. Sem dúvida que a margem é, muitas vezes, des de autonomia. Mas um passo a mais, que
um produto da marginalização operada pelo faça perder totalmente de vista esses limites,
centro, mas, paradoxalmente, ao enfraquecer pode transformar uma autonomia estimulante
o que o rodeia, o centro tornase, ele próprio, num caos destrutivo. A navegação de frontei-
mais fraco. Não menos do que hooks, também ra cabota entre dois limites: um de cada lado
não é minha intenção romantizar a margem. do barco. A trajectória raramente é guiada por
Trata-se tão-só de identificar nela a vontade de ambos ao mesmo tempo: se, num determinado
maximizar as oportunidades de liberdade e au- momento, um dos limites está mais próximo e
tonomia que se obtêm através de uma observa- serve de orientação, no momento seguinte é o
ção telescópica do centro e da sua consequente limite oposto que fica mais perto e que passa a
trivialização e descanonização. A subjectivida- princípio orientador.
de de fronteira floresce na base dessa vontade. Na transição paradigmática, a subjectivida-
O relativo acentrismo da vida de fronteira de de fronteira navega por cabotagem, guian-
resulta de uma constante definição e redefini- dose ora pelo paradigma dominante, ora pelo
ção dos limites: experienciar os limites sem os paradigma emergente. E se é verdade que o seu
sofrer. Embora os limites possam ser experien- objectivo último é aproximarse tanto quanto
ciados de muitas formas diferentes, duas delas possível do paradigma emergente, ela sabe que
parecem-me particularmente relevantes para a só ziguezagueando lá poderá chegar e que, mais
constituição da subjectividade de fronteira: a do que uma vez, será o paradigma dominante a
cabotagem e a hibridação. A cabotagem foi a continuar a guiála. Cabotando assim ao longo
forma de navegação dominante desde tempos da transição paradigmática, a subjectividade
imemoriais até à expansão europeia do sécu- de fronteira sabe que navega num vazio cujo
lo XV e ainda hoje é a forma usual de navega- significado é preenchido, pedaço a pedaço, pe-
ção de muitas populações costeiras em todo o los limites que ela vai vislumbrando, ora pró-
mundo. Implica navegar fora dos limites, mas ximos, ora longínquos. Avistados, desse modo,
em contacto físico com eles, e ir realizando ou- pela subjectividade de fronteira, os limites são,
102 Boaventura de Sousa Santos

eles mesmos, transformados de maneira sig- nasceu em Einsiedeln em 1493 e morreu em


nificativa, isto é, tal como a subjectividade de Salzburgo em 21 de setembro de 1541. O que
fronteira vive dos limites, os limites vivem da me parece notável em Paracelso é o facto de
subjectividade de fronteira. De facto, os limites ele ter reconhecido não uma, mas duas fontes
só existem na medida em que a subjectividade de autoridade — a Ecclesia e a Mater Natura
de fronteira se deixa guiar por eles. —, e ter podido cabotar com toda a seguran-
Na transição paradigmática, os paradigmas ça, ora guiado por uma, ora guiado por outra.
em competição perdem a fixidez sólida para Como não conseguia encontrar designações
se tornarem líquidos e navegáveis. Mais do adequadas para as tremendas descobertas que
que nunca, tornam-se o produto das acções fez, Paracelso foi um prolífico criador de neo-
individuais e colectivas que dependem deles. logismos. No entanto, para ele não havia con-
É este o grande privilégio dos limites e das flito entre, por um lado, a alquimia e a magia,
margens na transição paradigmática. Os cen- e por outro, a experiência da natureza. Jung,
tros ficam inteiramente dependentes do que também ele um hábil navegador costeiro, ob-
acontece nos limites exteriores da sua juris- servou uma vez que Paracelso não tinha escrú-
dição e, na verdade, tornamse eles próprios pulos em considerar que o conhecimento das
consideravelmente acêntricos. Esse acentris- doenças era pagão pelo facto de a sua origem
mo favorece a desierarquização e a horizonta- ser a natureza e não a revelação. A cabotagem
lização das práticas de conhecimento típicas está paradigmaticamente expressa numa con-
da transição paradigmática. fissão do próprio Paracelso: “Confesso que es-
Em períodos de transição paradigmática, crevo como um pagão e, no entanto, sou cris-
são muitos os exemplos de subjectividades de tão” (Jung, 1983: 113)23.
fronteira que navegam à vista. Foi o que acon- Outra forma de experienciar limites na tran-
teceu com Copérnico e Galileu, e também com sição paradigmática é a hibridação. Trata-se de
Montaigne e Paracelso. Umas breves palavras uma actuação sobre os próprios limites, quer
sobre Paracelso, um médico e mago do século os limites do paradigma dominante, quer os li-
XVI a quem ainda não me referi. De seu ver-
dadeiro nome Philippus Aureolus Theophras-
23 Ver o estudo de Jung (1983: 109 e ss.) sobre Para-
tus Bombastus von Hoehenheim, Paracelso celso enquanto fenómeno espiritual.
Não disparem sobre o utopista 103

mites do paradigma emergente, desestabilizan- existencial intensa. Na fronteira, essa experi-


do-os até ao ponto de poder ir para além deles ência, seja individual ou colectiva, é vivida de
sem ter de os superar. Consiste em atrair os um modo comunitário. Nem mesmo as grandes
limites para um campo argumentativo que ne- individualidades, como Paracelso ou Venturi,
nhum deles, em separado, possa definir exaus- experienciam os limites a não ser em relação
tivamente. Esta incompletude torna os limites a uma comunidade particular, real ou imagi-
vulneráveis à ideia dos seus próprios limites e nária (doentes, censores, clientes, público), e
abertos à possibilidade de interpenetração e no contexto dela. O que caracteriza a subjec-
combinação com outros limites. No campo da tividade de fronteira é conseguir combinar a
hibridação, quanto mais limites, menos limites. participação comunitária com a autoria, ul-
Na hibridação, contrariamente à cabota- trapassando assim a distinção entre sujeito e
gem, o percurso da subjectividade de fronteira objecto. Semelhante combinação é intrinseca-
orientase ao desorientar os limites, obrigan- mente problemática, pois vive dos êxitos difí-
doos a confrontaremse reciprocamente fora do ceis com que as identificações dinâmicas resis-
seu terreno próprio e, portanto, vulneráveis e tem à cristalização em identidades estáticas.
facilmente desfiguráveis. Na hibridação, os li- A cristalização, neste caso, implica o regresso
mites são transformados em retalhos avulsos da distinção entre sujeito e objecto, emergindo
de uma manta em que eles próprios já se não subreptícia e perversamente da distinção entre
reconhecem. Entre muitos exemplos de hibri- sujeito individual e colectivo. Na fronteira, esta
dação, escolho um cujo protagonista é uma combinação de comunidade e autoria, embora
notável subjectividade de fronteira, o arqui- sem dúvida problemática, é, apesar de tudo,
tecto americano Robert Venturi. Refirome ao possível, porque o outro elemento do princí-
“billdingboard”, o famoso projecto de Venturi pio estéticoexpressivo — a artefactualidade
— que nunca chegou a ser construído — desti- — também está presente. Construir um mundo
nado ao National Football Hall of Fame, parte novo, inventar novas formas de sociabilidade,
edifício (building ) e parte placard (billboard) atravessar terras-de-ninguém entre limites va-
para afixar cartazes (Merkel, 1987: 27). riáveis — tais são as experiências de artefactu-
Seja qual for a forma que possa assumir, a alidade mais fortes que podemos imaginar.
experiência dos limites é uma experiência
104 Boaventura de Sousa Santos

O Barroco transição paradigmática. Contudo, para descre-


A subjectividade da transição paradigmáti- ver este tipo de subjectividade e de sociabili-
ca é também uma subjectividade barroca. De- dade, recorro selectivamente aos três sentidos
vido aos vários contextos semânticos em que do conceito de barroco já mencionados. Quer
o termo barroco é utilizado no discurso con- como estilo artístico, quer como época históri-
temporâneo, devo precisar o sentido que aqui ca, quer ainda como ethos cultural, o barroco
lhe atribuo. Não uso o termo “barroco” para é, essencialmente, um fenómeno latino e me-
designar um estilo pósclássico na arte e na ar- diterrânico, uma forma excêntrica de moderni-
quitectura24, nem para identificar uma época dade, o Sul do Norte, por assim dizer27. A sua
histórica — o século XVII europeu25 —, nem excentricidade decorre, em grande parte, do
tãopouco para designar o ethos cultural que al- facto de ter ocorrido em países e em momen-
guns países latinoamericanos (México e Brasil) tos históricos em que o centro do poder estava
desenvolveram do século XVII em diante26. Tal enfraquecido e tentava esconder a sua fraqueza
como aconteceu com o conceito de fronteira, dramatizando a sociabilidade conformista.
utilizo o barroco enquanto metáfora cultural A relativa ausência de poder central confe-
para designar uma forma de subjectividade e re ao barroco um carácter aberto e inacabado
de sociabilidade, o tipo de subjectividade e de que permite a autonomia e a criatividade das
sociabilidade capaz de explorar e de querer margens e das periferias. Devido à sua excen-
explorar as potencialidades emancipatórias da tricidade e exagero, o próprio centro reprodu-
zse como se fosse margem. Trata-se uma ima-
ginação centrífuga, que confere centralidade
24 Ver, entre muitos outros, Wölfflin (1979); Manrique às margens e se torna mais forte à medida que
(1981); Tapié (1988). Para uma panorâmica mais vasta nos deslocamos das periferias internas do po-
da estética barroca, ver Buci-Glucksmann (1984); Ha-
therly et al. (1990); Roy e Tamen (1990).
25 Ver Maravall (1990); Roy e Tamen (1990); Sarduy 27 Curiosamente, segundo Tapié (1988, I: 19) a pala-
(1989); Mendes (1989). vra barroco tem origem no termo português utilizado
26 Ver Echeverria et al. (1991-1993); Pastor et al. para designar uma pérola imperfeita, por exemplo,
(1993); Barrios (1993); Coutinho (1968, 1990); Ribeiro nos Colóquios dos Simples e Drogas da Índia de Gar-
(1990); Kurnitzky e Echeverria (1993). cia da Orta.
Não disparem sobre o utopista 105

der europeu para as suas periferias externas na do Norte, é no Sul desse Sul que o barroco
América Latina. latinoamericano se desenvolve.
Tanto o Brasil como os outros países lati- Como época na história da Europa, o bar-
no-americanos foram colonizados por cen- roco é um período de crise e de transição.
tros fracos, respectivamente Portugal e Es- Refirome à crise económica, social e política,
panha. Portugal foi um centro hegemónico que é particularmente evidente no caso das
durante um breve período, entre os séculos potências que promoveram a primeira fase
XV e XVI, e a Espanha começou a declinar um da expansão europeia. No caso de Portugal, a
século mais tarde. A partir do século XVII, as crise chegou mesmo a implicar a perda da in-
colónias ficaram mais ou menos entregues a dependência, quando, por razões de sucessão
si próprias, uma marginalização que possibili- dinástica, Portugal foi anexado à Espanha em
tou uma criatividade cultural e social especí- 1580, para só reconquistar a independência em
fica, diversificadamente elaborada em múlti- 1640. A monarquia espanhola, sobretudo sob
plas combinações, ora altamente codificadas, o reinado de Filipe IV (16211665), atravessou
ora caóticas, ora eruditas, ora populares, ora uma grave crise financeira que, na realidade,
oficiais ora ilegais. Uma tal mestiçagem está era também uma crise política e cultural. Como
tão profundamente enraizada nas práticas so- diz Maravall, começa com uma certa consciên-
ciais desses países que acabou por ser con- cia de inquietação e desassossego, que “piora
siderada a base de um ethos cultural tipica- à medida que o tecido social vai ficando grave-
mente latinoamericano e que tem prevalecido mente afectado” (1990: 57)28. Por exemplo, os
desde o século XVII até hoje. Interesso-me valores e os comportamentos são postos em
por esta forma de barroco porque, enquan- causa, a estrutura de classes altera-se, o bandi-
to manifestação de um exemplo extremo da tismo aumenta, como aumentam, em geral, os
fraqueza do centro, constitui um campo privi- comportamentos desviantes e as revoltas e os
legiado para o desenvolvimento de uma ima- motins passam a ser ameaças permanentes. É,
ginação centrífuga, subversiva e blasfema. de facto, uma época de crise, mas é também
Por se formar nas margens mais extremas, o
barroco coadunase surpreendentemente bem
28 Ver também o notável ensaio de Fidelino Figueire-
com a fronteira. Se o barroco europeu é o Sul do sobre as duas Espanhas (1932).
106 Boaventura de Sousa Santos

uma época de transição para novos modos de dem e dos cânones. Enquanto subjectividade
sociabilidade, possibilitados pelo capitalismo de transição, depende, ao mesmo tempo, do
emergente e pelo novo paradigma científico, esgotamento dos cânones e do desejo deles. A
bem como para novos modos de dominação sua espacialidade privilegiada é o local, a sua
política, baseados não só na coerção, mas tam- temporalidade privilegiada, o imediato. A sua
bém na integração cultural e ideológica. experiência de vida implica, contudo, algum
A cultura barroca é, em grande medida, um desconforto, já que carece das certezas evi-
desses instrumentos de consolidação e legiti- dentes das leis universais — tal como o estilo
mação do poder. O que, apesar disso, me pare- barroco carecia do universalismo clássico do
ce inspirador na cultura barroca é o seu lado de Renascimento. Por ser incapaz de planear a
subversão e de excentricidade, a fraqueza dos sua própria repetição ad infinitum, a subjecti-
centros de poder que nela buscam legitimação, vidade barroca investe no local, no particular,
o espaço de criatividade e de imaginação que no momentâneo, no efémero e no transitório.
ela abre, a sociabilidade turbulenta que ela pro- Mas o local não é vivido de uma forma localis-
move num período que, por ser de transição, ta, ou seja, não é experienciado como ortoto-
tem alguma semelhança com o nosso próprio pia. O local aspira antes a inventar um outro
tempo. A configuração da sujectividade barro- lugar, uma heterotopia, se não mesmo uma
ca que aqui apresento é uma colagem de diver- utopia. Fruto de uma profunda sensação de
sos materiais históricos e culturais, alguns dos vazio e de desorientação, provocada pelo esgo-
quais não se podem considerar tecnicamente tamento dos cânones dominantes, o conforto
pertencentes ao período barroco, mas antes a que o local oferece não é o conforto do descan-
períodos que têm apenas algumas afinidades so, mas um sentido de direcção. Mais uma vez,
com ele, como o Romantismo. Proponho o podemos observar aqui um contraste com o
topos do barroco como um metatopos para a Renascimento, como Wölfflin nos ensinou: “Ao
construção de um novo senso comum estético, contrário do Renascimento, que procurava per-
o senso comum reencantado como parte inte- manência e repouso em tudo, o barroco teve,
grante da tópica para a emancipação. desde o início, um claro sentido de direcção”
A subjectividade do barroco vive conforta- (Wölfflin, 1979: 58). No que respeita à subjec-
velmente com a suspensão temporária da or- tividade barroca, o sentido de direcção desen-
Não disparem sobre o utopista 107

volve-se de dentro para fora e parte do que está deve ser dado com prudência. A surpresa, por
mais próximo para o mais longínquo, seja ele o seu lado, é realmente suspense: ela provém da
transcendente, o eterno, o inferno. suspensão que a interrupção produz. Suspen-
Por essa mesma razão, a subjectividade bar- dendo-se momentaneamente a si própria, a
roca é contemporânea de todos os elementos subjectividade barroca intensifica a vontade e
que a integram e, portanto, desdenhosa do desperta a paixão. Segundo Maravall, “a técni-
evolucionismo modernista. Longe de cair no ca barroca [consiste] em suspender a solução
imobilismo, a temporalidade horizontal da sub- de maneira a encorajá-la, após esse provisório
jectividade barroca é o seu modo próprio de e transitório momento de paragem, a ir mais
se ultrapassar, de viajar de um momento para longe e melhor com o auxílio dessas forças
o momento seguinte: cada momento é eterno, contidas e concentradas” (1990: 445).
enquanto dura, como diria o poeta Vinícius A interrupção provoca admiração e novida-
de Morais. Não sendo o gosto pelo provisório de, e impede o fechamento e o acabamento.
nada mais do que o gosto por uma sucessão de Daí o carácter inacabado e aberto da subjecti-
eternidades, as eternidades nunca duram tan- vidade e da sociabilidade barrocas, e daí tam-
to que não possam ser vividas intensamente. bém a sua disponibilidade para lutar por um
Assim, poderemos dizer que a temporalidade novo acabamento: o paradigma emergente
barroca é a temporalidade da interrupção. Sen- que, em todo o caso, só como aspiração pode
do ela própria o resultado de uma interrupção imaginar-se. O paradigma emergente é um
inter-paradigmática, a temporalidade barroca processo feito de continuidades e desconti-
interrompese a si própria frequentemente. nuidades. A capacidade de admiração, de sur-
A interrupção é importante em duas ins- presa e de novidade é a energia que promove
tâncias: permite a reflexividade e a surpresa. a luta por uma aspiração tanto mais convin-
A reflexividade é a autoreflexividade exigida cente quanto nunca pode ser completamente
pela falta de mapas (sem mapas que nos guiem, realizada. O objectivo do estilo barroco, diz
temos de caminhar com redobrado cuidado). Wölfflin, “não é representar um estado per-
Sem autoreflexividade, num vazio de cânones, feito, mas sugerir um processo inacabado e
é o próprio vazio que se torna canónico. O pa- um momento em direcção ao seu acabamen-
radigma emergente é uma vertigem, cada passo to” (1979: 67). Por se sentir confortavelmente
108 Boaventura de Sousa Santos

em casa na transição paradigmática, a sub- tética (das ästhetische Schein) nas suas cartas
jectividade barroca tira o máximo partido da sobre A Educação Estética do Ser Humano,
suspensão da ordem. No entanto, suspensão publicadas em 1795 (Schiller, 1983). Dado que
da ordem não significa mera suspensão dos ele representa (como a arte barroca, poderí-
cânones: implica também a suspensão das amos acrescentar) uma dimensão excêntrica
formas. A subjectividade barroca tem uma da modernidade, Schiller é bem compatível
relação muito especial com as formas. A ge- com a nova inteligibilidade a que a subjecti-
ometria da subjectividade barroca não é eu- vidade barroca aspira. A sua crítica radical
clideana: é fractal. A suspensão das formas da ciência moderna, e da especialização pro-
resulta das utilizações extremas que lhes são fissional e desumanização administrativa que
dadas: a extremosidad de que fala Maravall ela promove, é, de resto, muito semelhante à
(1990: 412). de Rousseau. Tal como Rousseau, Schiller não
A subjectividade barroca rejeita a distin- é movido por qualquer veleidade retrógrada,
ção entre aparência e realidade, sobre a qual mas por um desejo de reconstruir uma subjec-
assenta a ciência moderna, principalmente tividade completa (a totalidade da subjectivi-
porque essa distinção esconde uma hierar- dade) nas condições criadas pela modernida-
quização. Tendo em conta que, no paradigma de. Segundo Schiller, essa totalidade não pode
dominante, a aparência é o oposto da realida- ser atingida nem pelas forças da natureza, sob
de, a forma epistemológica dominante capaz a égide da ciência, nem pelas leis ou a moral
de reconhecer a realidade tem também poder que o Estado promulga, mas por uma terceira
para declarar como aparência tudo o que não entidade mediadora — a forma estética, o Es-
consegue ou não quer conhecer. Contra este tado estético:
autoritarismo, que tende a rotular como apa-
rência todas as práticas que não sejam fami- No meio do temível reino das forças e do reino
liares, a subjectividade barroca privilegia a sagrado das leis, o impulso estético para a forma
aparência enquanto medida transitória e com- está, imperceptivelmente, a trabalhar na constru-
pensatória. Neste aspecto, segue de perto a li- ção de um terceiro reino jubiloso do lúdico e da
aparência, onde o homem é solto dos grilhões das
ção de Friedrich Schiller, o poeta alemão que
circunstâncias e é libertado de tudo o que poderí-
tão eloquentemente nos fala da aparência es-
Não disparem sobre o utopista 109

amos chamar constrangimento, tanto no domínio de barroca é também uma subjectividade do


físico como no moral (Schiller, 1983: 215)29. Sul, a observação de Schiller é aqui particular-
mente importante para se compreender quão
Embora a subjectividade barroca descon- fundo deverá ir e em que direcção deverá ser
fie das totalidades, mesmo quando rebeldes e levada a escavação estética.
contrahegemónicas, a natureza utópica da pro- No que concerne à subjectividade barroca,
posta de Schiller é aliciante. O atractivo resi- as formas são, por excelência, o exercício da
de na sua tentativa de recuperar uma das mais liberdade. A grande importância do exercício
inacabadas representações da modernidade, a da liberdade justifica que as formas sejam tra-
representação estéticoexpressiva, de um modo tadas com uma seriedade extrema, embora o
simultaneamente utópico e pragmático. Segun- extremismo possa redundar na destruição das
do Schiller, o ästhetisches Schein só se tornará próprias formas. Segundo Wölfflin, a razão pela
universal quando a cultura impedir o seu abu- qual Miguel Ângelo é considerado, muito justa-
so. Por enquanto, afirma Schiller, “a maioria mente, um dos pais do barroco é “porque tra-
dos homens está demasiado cansada e exausta tou as formas com uma violência, uma terrível
com a luta pela vida para se lançar numa luta seriedade que só poderia encontrar expressão
nova e ainda mais dura contra o erro” (1983: na ausência de forma” (1979: 82). Foi a isso
51)30. Dado que, como veremos, a subjectivida- que os contemporâneos de Miguel Ângelo cha-
maram terribilità. Este extremismo, assente
numa vontade de grandeza e intenção de ma-
29 O Schein a que Schiller se refere, longe de ser
ravilhar, está bem expresso no dito de Bernini:
uma mera ilusão, constitui uma realidade mais elevada
(höhere Wirklichkeit) e, como tal, possui uma clara di- “Que ninguém me fale do que é pequeno” (Ta-
mensão utópica. Sobre o conceito de Schein em Schil- pié, 1988, II: 188)
ler, ver, por exemplo, Wilkinson (1955). O extremismo pode ser exercido de mui-
30 Começando pelo estudo de Schiller feito, em 1905, tas maneiras diferentes para fazer sobressair
por Franz Mehring — Schiller, ein Lebensbild für
deutsche Arbeiter —, as análises marxistas de Schiller
(Schiller como pequeno-burguês, como revolucionário Ver uma compilação dessas análises em Dahlke, 1959.
idealista) são sintomáticas do carácter subparadigmá- Para uma perspectiva crítica, ver Witte, 1955. Ver tam-
tico da crítica marxista da modernidade capitalista. bém Lukács, 1947.
110 Boaventura de Sousa Santos

a simplicidade, bem como a exuberância e a também as devora31. Essa voracidade assume


extravagância, conforme Maravall observou dois aspectos: o sfumato e a mestiçagem. Na
(1990: 426). O extremismo barroco é o dispo- pintura barroca, o sfumato é uma técnica que
sitivo que permite criar rupturas a partir de consiste em esbater os contornos e as cores
aparentes continuidades e manter o devir das entre os objectos, como, por exemplo, entre
formas em estado de permanente bifurcação as nuvens e as montanhas, ou entre o céu e
prigoginiana. Um dos exemplos mais eloquen- o mar. O sfumato permite à subjectividade
tes deste extremismo é o “Êxtase Místico de barroca criar o próximo e o familiar entre in-
Santa Teresa”. Nesta escultura de Bernini, a teligibilidades diferentes, tornando assim os
expressão de Teresa d’Ávila é de tal modo dra- diálogos interculturais possíveis e desejáveis.
matizada que a representação de uma Santa Por exemplo, só por recurso ao sfumato é
em transe místico se transmuta na represen- possível dar forma à dignidade da comunida-
tação de uma mulher gozando um orgasmo de humana, simultaneamente em termos de
fundo. A representação do sagrado desliza um conceito ocidental (direitos humanos), de
subrepticiamente para a representação do sa- um conceito hindu (dharma) e de um conceito
crílego. Esta mutação imprevista e imprevisí- islâmico (umma). Na transição paradigmática,
vel, ao mesmo tempo que retira o descanso às a coerência das construções monolíticas de-
formas, torna impensável a forma do descan- sintegrase, e os fragmentos que pairam livre-
so. Só o extremismo das formas permite que a mente mantêmse abertos a novas coerências
subjectividade barroca mantenha a turbulên- e a invenções de novas formas multiculturais.
cia e a excitação necessárias para continuar a O sfumato é como um íman que atrai as for-
luta pelas causas emancipatórias, num mundo mas fragmentárias para novas constelações e
onde a emancipação foi subjugada ou absorvi- direcções, apelando aos contornos mais vulne-
da pela regulação. Falar de extremismo é falar ráveis, inacabados e abertos que essas formas
de escavação arqueológica no magma regula- apresentam. O sfumato é, em suma, uma mili-
tório a fim de recuperar a chama emancipató- tância anti-fortaleza.
ria, por muito enfraquecida que esteja.
O mesmo extremismo que produz as formas, 31 Wölfflin (1979: 64) fala da ausência de forma.
Não disparem sobre o utopista 111

A mestiçagem, por sua vez, é uma maneira O extremismo com que as formas são vi-
de levar o sfumato ao extremo. Enquanto o vidas pela subjectividade barroca acentua a
sfumato opera através da desintegração das artefactualidade retórica das práticas, dos
formas e da recuperação dos fragmentos, a discursos e dos modos de inteligibilidade. O
mestiçagem opera através da criação de novas artifício (artificium) é a base de uma subjec-
formas de constelações de sentido que, à luz tividade suspensa entre fragmentos, ou seja,
dos seus fragmentos constitutivos, são ver- uma subjectividade em transição paradigmá-
dadeiramente irreconhecíveis e blasfemas. A tica. O artifício permite que a subjectividade
mestiçagem é uma das manifestações da hibri- barroca se reinvente a si própria sempre que
dação referida na secção anterior. Consiste na as sociabilidades a que conduz tendam a trans-
destruição da lógica que preside à formação de formarse em microortodoxias. Só o artifício
cada um dos seus fragmentos, e na construção nos permite imaginar a engenharia (um termo
de uma nova lógica. Este processo produtivo- curiosamente em voga desde o século XVII) da
destrutivo tende a reflectir as relações de poder emancipação, e só através dele podemos ava-
entre as formas culturais originais (ou seja, en- liar a consistência e a intensidade da vontade
tre os grupos sociais que as sustentam através emancipatória da subjectividade barroca. O ar-
de práticas sociais), e é por isso que a subjec- tifício é onde a subjectividade não se desenca-
tividade barroca favorece as mestiçagens em minha, mesmo quando se disfarça a si própria.
que as relações de poder são substituídas pela Através do artifício, a subjectividade barroca é,
autoridade partilhada (autoridade mestiça). A ao mesmo tempo, lúdica e subversiva, como a
América Latina tem sido um terreno particular- festa barroca tão bem o ilustra.
mente fértil para a mestiçagem, sendo por isso
um dos mais importantes locais de escavação
“Atlântico negro”, usado por Gilroy (1993) para expri-
para a construção da subjectividade barroca32. mir a mestiçagem característica da experiência cultural
negra, uma cultura que não é especificamente africa-
na, americana, caraíba ou britânica, mas tudo isto em
32 Ver, entre outros, Pastor et al. (1993); Leon (1993); conjunto. No espaço de língua portuguesa um dos mais
Alberro (1992). Coutinho (1990: 16) fala de “uma com- notáveis arautos da mestiçagem é o Manifesto Antro-
plexa mestiçagem barroca”. Ver, por fim, o conceito de pófago de Oswald de Andrade (1990 [1928]: 47-52).
112 Boaventura de Sousa Santos

A importância da festa na cultura barroca, são usados meios abundantes e dispendiosos, é


tanto na Europa como na América Latina, está empregue um esforço considerável, são realiza-
bem documentada (Maravall, 1990: 487)33. A dos amplos preparativos, é montada uma máqui-
festa converteu a cultura barroca no primeiro na complicada, tudo isso apenas para se obter
efeitos extremamente breves, seja na forma do
exemplo de cultura de massas da modernida-
prazer ou da surpresa (1990: 488)34.
de. O seu carácter ostentatório e celebratório
era utilizado pelos poderes político e eclesiá-
No entanto, a desproporção gera uma inten-
tico para dramatizar e espectacularizar a sua
sificação especial que, por sua vez, dá origem à
grandeza e para reforçar o seu controle sobre
vontade de movimento, à tolerância para com
as massas. É evidente que este uso manipula-
o caos e ao gosto pela turbulência, sem o que
dor da festa não tem qualquer interesse para
a luta pela transição paradigmática não pode
a subjectividade na transição paradigmática.
ter lugar.
O que importa é escavar a festa barroca para
A desproporção da festa é o reverso da ci-
redescobrir o seu potencial emancipatório, um
ência moderna. A ciência moderna depende da
potencial que reside na desproporção, no riso
crescente separação entre a acção e as suas
e na subversão.
consequências, o que equivale a uma crescente
A festa barroca é um exercício de despro-
discrepância entre a capacidade de agir e a ca-
porção: exige um investimento extremamente
pacidade de prever. Assim, a intensificação das
grande que, no entanto, é consumido num ins-
consequências tende a ficar relativamente des-
tante extremamente fugaz e num espaço extre-
ligada da intensificação da acção. Na festa bar-
mamente limitado. Como nos diz Maravall,
roca, pelo contrário, como a acção está muito

34 Sobre a festa barroca do Triunfo Eucarístico em


33 Sobre a festa barroca no México (Vera Cruz), ver Minas Gerais, diz Ávila: “a encenação impregnava-se de
Leon (1993); sobre a festa barroca no Brasil (Minas Ge- requinte, acrescido pela exuberância dos adornos de
rais), ver Ávila (1994). A relação entre a festa, e espe- ouro, prata, diamantes, pedraria, sedas, plumas, tanto
cialmente a festa barroca, com o pensamento utópico na indumentária dos figurantes quanto nas suas mon-
está ainda por explorar. Sobre a relação entre o fourie- tarias ou demais peças componentes do espectáculo”
rismo e a société festive, ver Desroche (1975). (1994: 55).
Não disparem sobre o utopista 113

próxima das suas consequências e como as nos modernos movimentos sociais anticapi-
consequências se desvanecem num instante, a talistas (partidos operários, sindicatos e até
intensificação das consequências é um produ- nos novos movimentos sociais), que baniram
to transparente da intensificação da acção. Daí o riso, o divertimento e a ludicidade com re-
que, ao contrário do que sucede com a ciência ceio de subverterem a seriedade da resistência.
moderna, a capacidade de agir e a capacidade Particularmente interessante é o caso dos sin-
de prever se mantenham em equilíbrio. dicatos, cujas actividades começaram por ter
A desproporção possibilita a admiração, a um cunho fortemente lúdico e festivo (a festa
surpresa, o artifício e a novidade35. Mas, acima operária), o qual foi sendo gradualmente sufo-
de tudo, permite a distância lúdica e o riso36. cado até o sindicalismo se tornar, por fim, mor-
Como o riso não é facilmente codificável, a talmente sério e profundamente antierótico.
modernidade capitalista declarou guerra à ale- A proscrição do riso, do divertimento e da
gria e o riso passou a ser considerado frívolo, ludicidade faz parte daquilo a que Max Weber
impróprio, excêntrico e até blasfemo. Passou chama a Entzäuberung, o desencantamento do
a ser apenas admitido nos contextos altamen- mundo moderno. Ora, como sabemos, um dos
te codificados da indústria do entretenimento. grandes pilares da tópica da emancipação é o
Este fenómeno pode igualmente observar-se senso comum encantado que não se dispensa da
carnavalização das práticas sociais emancipató-
rias e do erotismo do riso, do divertimento e da
35 Segundo Ávila, “depreende-se da coordenação das ludicidade. A carnavalização das práticas sociais
danças (de turcos e cristãos, de romeiros, de músicos),
emancipatórias tem uma importante dimensão
dos carros triunfais, das figuras alegóricas e das repre-
sentações mitológico-cristãs, a existência de uma direc- autoreflexiva: possibilita a descanonização e a
ção que sabia jogar com recursos e efeitos de ritmo e subversão dessas práticas. Uma prática descano-
contraste, inclusive elementos de surpresa” (1994: 54). nizadora (e assim deve ser a prática emancipa-
36 Leon (1993: 4) caracteriza a cultura popular de Vera tória na transição paradigmática) que não saiba
Cruz no século XVII como “o império do riso”. Na análi- como descanonizarse a si mesma, cai facilmente
se deste autor, sobressaem eloquentemente as ligações na ortodoxia. Do mesmo modo, uma actividade
locais-transnacionais da cultura popular deste porto
subversiva que não saiba como subverterse a si
negreiro plenamente integrado na economia mundial
do século XVII. mesma cai facilmente na rotina reguladora.
114 Boaventura de Sousa Santos

Por fim, a terceira característica da festa em gestos e atavios, provocando desse modo o
barroca: a subversão. Ao carnavalizar as práti- riso e a folia entre os espectadores39.
cas sociais, a festa barroca revela um potencial Esta inversão simétrica do princípio e do
subversivo que aumenta na medida em que a fim da procissão é uma metáfora cultural do
festa se distancia dos centros de poder, mas mundo às avessas — el mundo al revés — tí-
que está sempre presente, mesmo quando os pico da sociabilidade de Vera Cruz nessa épo-
promotores da festa são os próprios centros do ca: mulatas vestidas de rainhas, escravos com
poder. Não admira, portanto, que este carácter trajes de seda, prostitutas fingindo ser mulhe-
subversivo fosse mais visível nas colónias. Es- res honradas e mulheres honradas fingindo
crevendo sobre o carnaval nos anos 20, o gran- ser prostitutas, portugueses africanizados e
de intelectual peruano Mariátegui (1974: 127) espanhóis indianizados. Na festa, a subversão
afirmou que, apesar de ter sido apropriado pela está codificada, na medida em que transgride
burguesia, o carnaval era verdadeiramente re- a ordem conhecendo o lugar da ordem e não o
volucionário porque, ao transformar o burguês questionando radicalmente, mas o próprio có-
em guarda-roupa, constituía uma impiedosa pa- digo é subvertido pelos sfumatos entre a festa
ródia do poder e do passado37. Garcia de Leon e a sociabilidade diária. Nas periferias, a trans-
(1993) descreve a dimensão subversiva das gressão é quase uma necessidade. É transgres-
festas barrocas e das procissões religiosas do sora porque não sabe como ser ordem, ainda
porto mexicano de Vera Cruz no século XVII38. que saiba que a ordem existe. É por isso que a
Na frente seguiam os mais altos dignitários do subjectividade barroca privilegia as margens e
vicereinado com todas as insígnias — políticos, as periferias como campos para a reconstrução
clérigos e militares —, no fim da procissão se-
guia a populaça, imitando os seus superiores
39 No mesmo sentido, Ávila salienta a mistura de mo-
tivos religiosos e motivos pagãos: “Entre negros tocan-
37 Originalmente publicado no Mundial de 24 de feve- do charamelas, caixas de guerra, pífaros, trombetas,
reiro de 1925 e de 27 de fevereiro de 1928. aparecia, por exemplo, um exímio figurante alemão
38 As procissões eram, como Maravall sublinha devi- ‘rompendo com sonoras vozes de hum clarim o silêncio
damente, um instrumento privilegiado de massificação dos ares’ enquanto os fiéis piedosamente carregavam
da cultura barroca (1990: 507). estandartes ou imagens religiosos” (1994: 56).
Não disparem sobre o utopista 115

das energias emancipatórias. Mas, como vere- ses das pessoas e dos grupos começaram a con-
mos, esta preferência pelas margens e perife- vergir em torno das vantagens económicas, os
rias tem outras razões. interesses que antes haviam sido considerados
Todas estas características transformam a paixões tornaramse o oposto das paixões e até
sociabilidade gerada pela subjectividade bar- os domesticadores destas. A partir daí, afirma
roca numa sociabilidade subcodificada. De Hirschman, “esperouse ou assumiu-se que os
algum modo caótico, inspirado por uma ima- homens, na prossecução dos seus interesses,
ginação centrífuga, situado entre o desespero seriam firmes, decididos e metódicos, em con-
e a vertigem, este é um tipo de sociabilidade traste total com o comportamento estereotipa-
que celebra a revolta e revoluciona a celebra- do dos homens dominados e cegos pelas suas
ção. Uma tal sociabilidade não pode deixar de paixões” (1977: 54). O objectivo era, evidente-
ser emotiva e apaixonada, a característica que mente, criar uma personalidade humana “uni-
mais distingue a subjectividade barroca em re- dimensional”. E Hirschman conclui: “[…] Em
lação à hegemonia moderna. A racionalidade suma, supunhase que o capitalismo realizasse
moderna, sobretudo depois de Descartes, con- exactamente o que em breve seria denunciado
dena as emoções e as paixões por constituírem como a sua pior característica” (1977: 132).
obstáculos ao progresso do conhecimento e da As receitas cartesianas e capitalistas de pou-
verdade. A racionalidade cartesiana, escreve co servem para a reconstrução de uma perso-
Toulmin, pretende ser “intelectualmente per- nalidade humana com a capacidade e o desejo
feccionista, moralmente rigorosa e humana- que a transição paradigmática exige. O signi-
mente impiedosa” (1990: 199). ficado da luta pela transição paradigmática e
Pouco da vida humana e da prática social se das possibilidades emancipatórias que ela abre
ajusta a uma tal concepção de racionalidade, não pode ser deduzido nem do conhecimento
mas ela é, mesmo assim, bastante atraente para demonstrativo, nem de uma estimativa de in-
os que prezam a estabilidade e a hierarquia das teresses. Assim, a escavação efectuada pela
regras universais. Hirschman mostrou convin- subjectividade barroca neste domínio, mais do
centemente as afinidades electivas entre esta que em qualquer outro, deve concentrarse nas
forma de racionalidade e o capitalismo emer- tradições suprimidas ou excêntricas da moder-
gente (1977: 32). Na medida em que os interes- nidade, representações que ocorreram nas pe-
116 Boaventura de Sousa Santos

riferias físicas ou simbólicas onde o controle de realização, tanto a nível pessoal como colec-
das representações hegemónicas foi mais fraco tivo. Eis o que escreveu na Oitava Carta:
— as Vera Cruzes da modernidade —, ou nas
representações mais antigas e mais caóticas A razão realizou o que lhe cabe realizar quando
da modernidade, surgidas antes do fechamen- encontra e formula a lei; executá-la é obra da
to cartesiano. Por exemplo, a subjectividade vontade corajosa e do sentimento vivo. Se a ver-
barroca procura inspiração em Montaigne e na dade há-de atingir a vitória na luta com forças
antagónicas, terá ela própria de transformar-se
inteligibilidade concreta e erótica da sua vida.
primeiro em força e constituir um instinto como
No seu ensaio Sobre a Experiência, depois de
seu representante no mundo dos fenómenos;
declarar que detesta remédios que incomodem pois que os instintos são as únicas forças moto-
mais do que a doença, Montaigne prossegue: ras no mundo sensível. Se ela até agora provou
tão pouco a sua força vitoriosa, isso não está na
Ser vítima de uma cólica e sujeitarme a prescin- razão, que não foi capaz de a revelar, mas no co-
dir do prazer de comer ostras são dois males em ração, que se fechou a ela, no instinto, que não
vez de um. A doença apunhalanos de um lado e actuou em favor dela (1983: 49).
a dieta do outro. Já que corremos o risco de um
engano, mais vale arriscarmonos pelos caminhos E o grande poeta alemão conclui um pouco
do prazer. O mundo faz o contrário e só acha útil
mais adiante:
o que é penoso: a facilidade levanta suspeitas
(1958: 370).
Não basta assim que todo o esclarecimento da ra-
zão só mereça respeito na medida em que reflui
O exercício do gosto e do prazer é essencial no carácter; de certo modo, ele brota também do
para a subjectividade barroca, pois nele reside carácter, porque o caminho para a cabeça tem de
a paixão pela utopia. A incredibilidade das al- ser aberto através do coração. A exigência mais
ternativas é o reverso da indolência da vontade. premente da nossa época é a formação da capaci-
A este respeito, Schiller e Fourier fornecemnos dade de sentir, não só porque se transforma num
instrumentos retóricos inestimáveis. No final meio de tornar actuante um melhor conhecimen-
do século XVIII, o receio de Schiller era que o to da vida, mas também porque desperta para
ídolo da utilidade acabasse por matar a vontade uma melhoria desse conhecimento (1983: 53).
Não disparem sobre o utopista 117

O “impulso” de que fala Schiller é levado A transformação capitalista da modernidade


ao extremo por Fourier, quando identifica a ocorreu sob uma dupla dicotomia — NorteSul
atracção apaixonada (“l’attraction passion- e OcidenteOriente — que é também uma du-
née”) como o princípio fundador do “nouveau pla hierarquia: o Sul subordinado ao Norte, o
monde amoureux” (Fourier, 1967: 79 e 114). Oriente ao Ocidente. Devido ao modo como foi
Os fantásticos e complicados “cálculos geo- construído pelo orientalismo (Said, 1985; San-
métricos” de Fourier ao serviço da utopia são tos, 1999), o Oriente acabou por ficar ligado à
um brilhante exemplo da desproporção do ideia de subordinação sócio-cultural como sua
barroco. Na subjectividade barroca, a “atrac- conotação semântica dominante, enquanto o
ção apaixonada” adquire um novo sentido, o Sul tem sugerido predominantemente a ideia de
sentido de uma solidariedade que se entende subordinação sócio-económica. Mas, à medida
melhor à luz do terceiro aspecto deste tipo de que se foram transformando gradualmente em
subjectividade: o Sul. regiões periféricas do sistema mundial, tanto o
Oriente como o Sul passaram a ser vítimas tan-
O Sul to da dominação cultural como da dominação
económica. Assim, enquanto metáfora funda-
O Sul é o terceiro topos que proponho para
dora da subjectividade emergente, o Sul é aqui
a constituição da subjectividade da transição
concebido de modo a sugerir os dois tipos de
paradigmática. Vejo o Sul como o metatopos
dominação. Como símbolo de uma construção
que preside à constituição do novo senso co-
imperial, o Sul exprime todas as formas de su-
mum ético enquanto parte integrante da tópi-
bordinação a que o sistema capitalista mundial
ca para a emancipação. Tal como a fronteira
deu origem: expropriação, supressão, silencia-
e o barroco, o Sul também é aqui usado como
mento, diferenciação desigual, etc. O Sul está
uma metáfora cultural, isto é, como um lugar
espalhado, ainda que desigualmente distribuí-
privilegiado para a escavação arqueológica
do, pelo mundo inteiro, incluindo o Norte e o
da modernidade, necessária à reinvenção das
Ocidente. O conceito de “Terceiro Mundo inte-
energias emancipatórias e da subjectividade da
rior”, que designa as formas extremas de desi-
pósmodernidade. O Sul, tal como o Oriente, é
gualdade existentes nos países capitalistas do
um produto do império.
centro, designa também o Sul dentro do Norte.
118 Boaventura de Sousa Santos

O Sul significa a forma de sofrimento humano ças poderiam ser úteis às lutas pelo socialismo
causado pela modernidade capitalista. democrático nos países desenvolvidos, Haber-
A subjectividade emergente é uma subjecti- mas respondeu: “Estou tentado a responder que
vidade do Sul e floresce no Sul. Onde quer que não, em ambos os casos. Tenho consciência do
se constitua, constituise sempre como subjec- facto de que esta é uma visão limitada e euro-
tividade do Sul. Contudo, devido às assimetrias cêntrica. Preferia não ter de responder” (1985:
do sistema mundial, a constituição da subjecti- 104). O que esta resposta significa é que a racio-
vidade do Sul varia conforme as regiões do sis- nalidade comunicativa de Habermas, apesar da
tema mundial em que surge. Assim, nos países sua pretensa universalidade, começa logo por
do centro, a subjectividade do Sul constituise, excluir da participação no discurso cerca de
acima de tudo, através da desfamiliarização re- quatro quintos da população mundial. Ora, essa
lativamente ao Norte imperial. Este processo exclusão é declarada em nome de critérios de
de desfamiliarização é muito difícil, porque, inclusão/exclusão cuja legitimidade reside na
sendo uma constituição original e não tendo, universalidade que lhes é atribuída. Daí que a
portanto, outra memória de si mesmo que não declaração de exclusão possa ser feita simulta-
seja imperial, o Norte é experienciado simulta- neamente com a máxima honestidade (“Tenho
neamente como único e como universal. consciência do facto de que esta é uma visão li-
Ilustro esta dificuldade com o exemplo de mitada e eurocêntrica”) e com a máxima ceguei-
Jürgen Habermas. A sua teoria da acção comu- ra quanto à sua insustentabilidade (ou talvez a
nicativa como novo modelo universal de racio- cegueira não seja afinal extrema, se considerar-
nalidade discursiva é bem conhecida. Haber- mos a saída estratégica que é adoptada: “Prefe-
mas entende que essa teoria constitui um telos ria não ter de responder”). Portanto, vemos que
de desenvolvimento para toda a humanidade, o universalismo de Habermas acaba por ser um
na base do qual é possível rejeitar o relativis- universalismo imperial, controlando plenamen-
mo e o eclecticismo. No entanto, interrogado te a decisão sobre as suas próprias limitações,
sobre se a sua teoria, nomeadamente a sua teo- impondo-se, assim, de forma ilimitada, quer
ria crítica do capitalismo avançado, poderia ter àquilo que inclui, quer àquilo que exclui.
alguma utilidade para as forças socialistas do Nos países centrais, a desfamiliarização re-
Terceiro Mundo e se, por outro lado, essas for- lativamente ao Norte imperial implica todo
Não disparem sobre o utopista 119

um processo de desaprendizagem das ciências quer no agressor, o que significa que deixar de
sociais que constituíram o Sul como “o outro” ser o agressor é colocar-se do lado da vítima
(principalmente a antropologia e o orientalis- (aprender a ir para o Sul). Finalmente, é pre-
mo), bem como das restantes ciências sociais ciso pôr fim à relação imperial destruindo to-
que constituíram o Norte como “nós”. Dada a das as suas ligações, simultaneamente a nível
natureza originária desta distinção imperial mundial e a nível pessoal, o que significa dei-
feita pelas ciências sociais modernas entre xarmos de estar do lado da vítima para nos tor-
“nós” e “eles”, não é possível destruíla nos seus narmos na própria vítima em luta contra a sua
próprios termos, ou mesmo nos termos da sua vitimização (aprender a partir do Sul e com o
crítica, sem correr o risco de a reproduzir sob Sul). A desfamiliarização do Norte imperial é,
outras formas. Como não há memória de uma portanto, uma epistemologia complexa, feita
tradição nãoimperial representável em termos de sucessivos actos de desaprendizagem nos
modernos, não é possível invocála sem cair no termos do conhecimento-regulação (da ordem
reaccionarismo. De facto, a forma mais comum ao caos), e de reaprendizagem nos termos do
de reaccionarismo é criticar o império fora da conhecimento-emancipação (do colonialismo
relação imperial, como se o império fôssemos à solidariedade).
só “nós” e não “nós e eles”. Não é, pois, de ad- Se Habermas é um bom exemplo do fra-
mirar que, como Slater sublinhou, o Terceiro casso da construção, no Norte do sistema
Mundo esteja, em grande medida, ausente do mundial, de uma subjectividade do Sul, Noam
pensamento pósmoderno dominante, a come- Chomsky é um bom exemplo de como tal cons-
çar por Foucault (Slater, 1992). trução é possível, apesar das dificuldades. Com
Devido à sua dificuldade, a crítica da rela- Chomsky, damos os dois primeiros passos: não
ção imperial deve proceder por fases. Em pri- só aprendemos que o Sul existe, mas também
meiro lugar, é preciso compreendê-la como aprendemos a ir para o Sul. Só a nós cabe dar o
imperial, o que, nos países centrais, significa passo seguinte e aprender, de facto, a partir do
reconhecer que se é o agressor (aprender que Sul e com o Sul. Sendo indiscutivelmente um
existe um Sul). Depois, é preciso identificá- dos mais brilhantes críticos radicais do Norte
-la como profundamente injusta, e como ten- imperial, Chomsky é o que mais se aproxima,
do um efeito desumanizante, quer na vítima, nos países centrais, de representar a subjecti-
120 Boaventura de Sousa Santos

vidade do Sul. Desde que se tornou, nos anos a causa do silêncio ou do descrédito a que fo-
sessenta, um dos porta-vozes mais eloquentes ram votados nos círculos profissionais. Quan-
da oposição à guerra do Vietname, Chomsky do muito, esses textos apenas foram nomeados
nunca deixou de ser um dos mais coerentes para serem duramente criticados. “Os escritos
activistas antiimperialistas da segunda metade políticos de Chomsky”, observa Wolin,
do século. O seu activismo é acompanhado por
um grande número de publicações que denun- são curiosamente ateóricos, o que é surpreenden-
ciam vigorosamente as políticas imperiais dos te num autor conhecido pelos seus contributos
Estados Unidos e a cumplicidade dos intelectu- para a teoria da linguística. O seu pressuposto
ais e da comunicação social40. aparente é que a política não é um tema teórico.
[…] Ao ler Chomsky, ficase com a impressão de
No intuito de desmantelar o imperialismo,
que, se não fosse urgentemente necessário des-
Chomsky desenvolve uma crítica radical ao
mascarar as mentiras, a imoralidade e os abusos
papel desempenhado pelas ciências sociais na de poder, a política não exerceria um apelo sério
“naturalização” da relação imperial. Rejeitando sobre a sua mente teórica (19811994: 103).
o conhecimento-regulação construído pelas
ciências sociais modernas, os textos políticos Eu, pelo contrário, diria que é precisamente
de Chomsky assumem um carácter claramen- do carácter ateórico dos escritos políticos de
te ateórico que é tanto mais surpreendente Chomsky que a subjectividade do Sul retira
quanto estamos perante um dos teóricos da uma lição fundamental: a de que a regulação
linguística mais conhecidos mundialmente. Na social não pode ser superada se o conheci-
verdade, há quem considere a sua teoria da gra- mento-regulação não o for igualmente. Sobre
mática gerativa transformacional como uma o domínio profissional das ciências sociais,
revolução tão importante na linguística quanto Chomsky diz o seguinte:
a teoria de Einstein o foi na física. A natureza
ateórica dos seus escritos políticos é, em parte, A meu ver, a estrutura corporativa profissional
das ciências sociais tem servido, muitas vezes,
como um excelente instrumento para as proteger
40 Entre outros textos políticos de Chomsky, ver do discernimento e da compreensão, para excluir
1969, 1970, 1975, 1982, 1983, 1985, 1987, 1989. Chomsky
aqueles que levantem questões inaceitáveis, para
e Herman (1979, 1988), Chomsky e Zinn (1972).
Não disparem sobre o utopista 121

restringir a investigação — não pela força, mas específica, Chomsky prossegue o argumento,
por toda a espécie de meios mais subtis — a pro- afirmando que essa destreza intelectual e essa
blemas que não constituam uma ameaça. Dêem capacidade de compreensão podiam ser usadas
uma olhadela para qualquer sociedade e, assim o em áreas realmente importantes para a vida
creio, descobrirão que, onde haja uma corpora-
humana em sociedade. Sublinha mesmo que,
ção mais ou menos profissionalizada de pessoas
sob outros sistemas de governo que envolves-
que analisam os processos sociais, haverá cer-
tos tópicos que elas terão grande relutância em sem a participação popular em importantes
investigar. Haverá tabus surpreendentes naquilo áreas de decisão, as capacidades cognitivas dos
que elas estudam. Em particular, uma das coisas cidadãos comuns poderiam, sem dúvida, ser
que é muito improvável que estudem é a forma utilizadas de forma relevante. Regressando ao
como o poder é efectivamente exercido na sua seu metaexemplo — a guerra do Vietname —,
própria sociedade, ou a própria relação que elas Chomsky escreve:
têm com esse poder. São tópicos que não serão
entendidos e que não serão estudados (1987: 30). Quando falo, por exemplo, de senso comum car-
tesiano, o que quero dizer é que não são precisos
A conclusão é que as ciências sociais mo- conhecimentos muito complexos ou especializa-
dernas são de muito pouca utilidade para a dos para se perceber que os Estados Unidos esta-
construção do conhecimento-emancipação. vam a invadir o Vietname. E, de facto, desmontar
Chomsky propõe, portanto, a criação de um o sistema de ilusões e de logros que funciona para
novo senso comum a que chama “senso comum evitar que se compreenda a realidade contempo-
rânea não é uma tarefa que exija uma capacidade
cartesiano”. A ideia de Chomsky é que as pes-
ou um entendimento extraordinários. Exige o tipo
soas comuns têm uma enorme quantidade de de cepticismo normal e de disponibilidade para
conhecimentos em muitas áreas distintas. O aplicar as capacidades analíticas que quase todas
seu exemplo particular são as conversas e as as pessoas têm e que podem exercer (1987: 35).
discussões sobre desporto na nossa socieda-
de. Depois de observar que as pessoas comuns Na perspectiva da subjectividade do Sul,
aplicam a sua inteligência e as suas capacida- a proposta de desteorização avançada por
des analíticas para acumularem um conside- Chomsky é um contributo importante para a
rável conjunto de conhecimentos nesta área criação de uma tópica de emancipação, mas
122 Boaventura de Sousa Santos

apresenta algumas limitações. Em primeiro emancipatório. Se o não fizermos, corremos o


lugar, ao admitir a separação total entre a sua risco do pirronismo, isto é, submeter o conhe-
actividade académica e a sua actividade políti- cimento-regulação a uma crítica tão radical que
ca, Chomsky aceita acriticamente uma das di- acabemos por anular a vontade de construir o
cotomias básicas do paradigma da ciência mo- conhecimento-emancipação. Com excepção
derna: a dicotomia entre ciência e política. A do anarquismo, Chomsky dá pouca atenção às
crítica radical de Chomsky às ciências sociais tradições excêntricas e periféricas suprimidas
modernas não reconhece o facto de que elas pela modernidade ocidental, e nenhuma aten-
participam num paradigma epistemológico ção ao conhecimento produzido no Sul a par-
mais vasto que inclui toda a ciência moderna e, tir de uma perspectiva nãoimperial. Por outras
por conseguinte, também a linguística. Assim, palavras, com Chomsky não aprendemos como
não consegue ver que a dicotomia entre ciência aprender a partir do Sul e com o Sul.
e política não é uma questão académica, mas Para se aprender a partir do Sul, devemos,
política, e, por isso, constitutiva da política do antes de mais, deixar falar o Sul, pois o que me-
Norte imperial41. Além disso, Chomsky parece lhor identifica o Sul é o facto de ter sido silen-
não ter plena consciência da necessidade de ciado. Como o epistemicídio perpetrado pelo
uma dupla ruptura epistemológica, ou seja, a Norte foi quase sempre acompanhado pelo
necessidade de explorar até ao fim as contra- linguicídio, o Sul foi duplamente excluído do
dições internas da ciência moderna, tendo em discurso: porque se supunha que ele não tinha
mente a construção de um novo senso comum nada a dizer e nada (nenhuma língua) com que
o dissesse42. Perante as assimetrias do siste-
ma mundial, a construção da subjectividade
41 A aceitação acrítica, por parte de Chomsky, da dis-
tinção moderna entre ciência e política explica algumas
das eventuais contradições entre o seu activismo po-
lítico antiimperialista e a sua política científica e pro- 42 Sobre o epistemicídio, ver Nencel e Pels (1991), e
fissional. Uma posição progressista, no primeiro caso, sobre o linguicídio, ver Phillipson, 1993, e Skutnabb-
pode, assim, coexistir com uma posição conservadora -Kangas, 1993. Sobre línguas em vias de extinção, ver
no segundo. Sobre a política da linguística e, em par- Language 68(1) e, especialmente, Krauss (1992) e Craig
ticular, sobre a política da concepção de Chomsky de (1992). Ver também o debate entre Ladefoged (1992) e
“linguística autónoma”, ver Newmeyer (1986). Dorian (1993).
Não disparem sobre o utopista 123

do Sul, como já disse, deve desenvolver-se por centa: “O outro é reduzido a um objecto mudo”
processos parcialmente distintos no centro e (Tucker, 1992: 20)43.
na periferia do sistema mundial. O epistemicídio e o linguicídio cometidos
Detiveme atrás sobre as dificuldades que mais ou menos sistematicamente durante toda
esse processo de construção encontra no cen- a trajectória histórica da modernidade capi-
tro. Na tentativa de aprender a partir do Sul e talista rasuraram os conhecimentos e as lín-
com o Sul, importa também sublinhar as difi- guas locais e criaram, em seu lugar, um vasto
culdades que o processo da sua construção terreno de não-conhecimento onde a língua e
encontra na periferia. À primeira vista, não de- o conhecimento imperial se foram implantado
veria haver dificuldades, já que, neste caso, a progressivamente. Foi assim que o colonialis-
subjectividade do Sul habita um lugar que lhe é mo se converteu numa forma de conhecimen-
familiar: o próprio Sul. Nada poderia estar mais to, na forma do conhecimento-regulação. Co-
longe da verdade. Como produto do império, nhecendo apenas através das lentes do Norte
o Sul é a casa do Sul onde o Sul não se sente imperial, a periferia não podia senão reconhe-
em casa. Por outras palavras, a construção da cerse a si própria como o Sul imperial. É por
subjectividade do Sul tem de seguir um proces- isso que hoje é muito mais fácil para a periferia
so de desfamiliarização, tanto em relação ao reconhecer-se como vítima do Norte imperial
Norte imperial, como em relação ao Sul impe- do que como vítima do Sul imperial, ou seja,
rial. No que respeita ao segundo, a desfamilia- vítima do epistemicídio e do linguicídio que a
rização é, paradoxalmente, muito mais difícil, converteram na vítima que facilitou ou desejou
mesmo na periferia. A verdade é que, como a própria opressão44.
Said (1985) justamente sublinha, a epistemolo-
gia imperial representou o outro como incapaz
de se representar a si próprio. Tucker também 43 No mesmo sentido, Jameson (1986: 85) afirma que
frisou que “escolas de pensamento como o “a perspectiva do topo é epistemologicamente mutila-
dora e reduz os sujeitos à ilusão de uma miríade de sub-
orientalismo e disciplinas como a antropologia
jectividades fragmentadas”.
falam em nome do ‘outro’, afirmando muitas
44 Os romancistas e os poetas do Sul têm estado na
vezes conhecer melhor o ‘outro’ que estuda do
vanguarda da luta por um Sul nãoimperial. Jameson
que o ‘outro’ se conhece a si próprio”. E acres- afirma que, no romance do Terceiro Mundo, as alego-
124 Boaventura de Sousa Santos

Para ultrapassar esta dificuldade, há que ter e profeta visionário da não-violência45. Gan-
em conta uma outra diferença entre a consti- dhi simboliza a rejeição mais radical do Norte
tuição da subjectividade do Sul no centro e na imperial no nosso século. Quando, em 1909,
periferia do sistema mundial. Na periferia, é lhe perguntaram o que diria aos britânicos
possível reimaginar uma tradição préimperial a propósito da dominação colonial da Índia,
de resistência à dominação imperial, tradição
com base na qual se poderia reconstruir um Sul
nãoimperial ou antiimperial. Essa reconstru- 45 No que se segue, irei concentrarme em Gandhi,
sem esquecer, porém, que, à medida que a crise da
ção pode não ser necessariamente progressis- modernidade se aprofunda e que o seu carácter im-
ta, mas tãopouco tem de ser reaccionária. Para perialista se torna mais evidente, tem vindo a emergir
ser progressista, tem de assumir que a plena recentemente, no Sul, um novo fermento intelectual e
afirmação do nãoimperialismo ou do antiimpe- político, inspirado por uma concepção do Sul nãoimpe-
rialismo implica a própria eliminação do con- rial que tenta desenvolver uma política emancipatória
fora dos moldes ocidentais. Entre muitos exemplos, re-
ceito de Sul. Aprender plenamente a partir do firase Wamba dia Wamba, que apela para uma nova po-
Sul implica, pois, eliminar o Sul por completo. lítica emancipatória em África, informada por um novo
Na medida em que for possível ao Sul pensarse paradigma filosófico capaz de refutar e de desalojar a
noutros termos que não os do Sul, também será “epistemologia social da dominação” (1991a, 1991b).
possível ao Norte pensarse noutros termos que Sobre o debate a que deu origem, ver, por exemplo,
Ramose (1992). Relativamente à Ásia, partindo da ideia
não os do Norte. de que um aspecto significativo das estruturas pósco-
Um dos mais ilustres mestres deste pro- loniais de conhecimentos no Terceiro Mundo é uma
cesso de aprendizagem com o Sul foi Gandhi, forma peculiar de “imperialismo das categorias”, Nan-
eminente dirigente do nacionalismo indiano dy começa por estabelecer uma base para a tolerância
étnica e religiosa que seja independente da linguagem
hegemónica do secularismo popularizado por intelec-
tuais ocidentalizados e pelas classes médias expostas
à linguagem globalmente dominante do EstadoNação
rias são muito mais nacionais do que individuais (como no sul da Ásia (1988: 177). Ver, também, Nandy (1987a).
no romance do Primeiro Mundo): “a história do destino Por último, Gilroy (1993) defende vigorosamente uma
individual privado é sempre uma alegoria da situação “cultura negra atlântica” como contracultura da mo-
conflitual da cultura e da sociedade públicas do Tercei- dernidade, incitando-nos a aprender com o sul dentro
ro Mundo” (1986: 79). do Norte imperial.
Não disparem sobre o utopista 125

Gandhi respondeu que, entre outra coisas, di- um mundo alternativo onde seja possível recu-
ria o seguinte: perar a humanidade do humano. Diz Gandhi:

Tomamos a civilização que vós apoiais como sendo Na nossa situação actual, somos metade ho-
o oposto da civilização. Consideramos que a nossa mens, metade animais, e na nossa ignorância e
civilização é muito superior à vossa. […] Conside- até arrogância dizemos que cumprimos plena-
ramos que as vossas escolas e os vossos tribunais mente os desígnios da nossa espécie sempre que
são inúteis. Queremos recuperar as nossas antigas a um ataque respondemos com outro ataque e
escolas e os nossos tribunais. A língua comum da que, para tal, desenvolvemos o necessário grau
Índia não é o inglês mas o hindi. Por isso, deveríeis de agressividade (1951: 78).
aprendêlo. Podemos comunicar convosco apenas
na nossa língua nacional (1956: 118). Como se vê, para Gandhi a desfamiliarização
relativamente ao Norte imperial é, do mesmo
Como Nandy muito bem sublinha, modo, uma desfamiliarização relativamente ao
Sul imperial. Referindo-se, em 1938, à prática
a perspectiva de Gandhi desafia a tentação de da satyagraha, Gandhi advertiu: “A nãocoo-
igualar o opressor em violência e de recuperar a peração, sendo um movimento de purificação,
autoestima competindo dentro do mesmo siste-
está a trazer à superfície todas as nossas fra-
ma. A perspectiva assenta numa identificação com
quezas e também os excessos até dos nossos
o oprimido que exclui a fantasia da superioridade
do estilo de vida do opressor, tão profundamente pontos fortes” (1951: 80).
entranhada nas consciências dos que afirmam fa- Para Gandhi, o marxismo e o comunismo
lar em nome das vítimas da história (1987b: 35). europeus, embora representando indiscutivel-
mente uma crítica profunda do Norte imperial,
A ideia e a prática da nãoviolência e da não- estão ainda demasiado comprometidos com
cooperação, a que Gandhi dedicou toda a sua ele para funcionarem como modelos para a
vida, são as características mais notáveis da construção de um Sul nãoimperial:
desfamiliarização política e cultural relativa-
mente ao Norte imperial. O objectivo não é con- Não fiquemos obcecados com os lemas e as pala-
quistar poder num mundo corrupto, mas criar vras de ordem sedutoras importados do Ociden-
te. Não temos nós as nossas próprias tradições
126 Boaventura de Sousa Santos

orientais? Não seremos nós capazes de encon- 110). E, numa outra ocasião, declara: “A mi-
trar a nossa própria solução para o problema do nha nãoviolência exige amor universal” (1956:
capital e do trabalho? […] Estudemos as nossas 100). Por isso, Pantham tem razão quando afir-
instituições orientais com esse espírito de pesqui- ma que “a satyagraha de Gandhi é um modo
sa científica e desenvolveremos um socialismo e
integral de praxis política vedada ao raciocí-
um comunismo mais genuínos do que o mundo
nio crítico”. E acrescenta energicamente que
alguma vez sonhou. É sem dúvida errado presu-
mir que o socialismo ou o comunismo ocidentais “a satyagraha de Gandhi começa a partir do
são a última palavra sobre a questão da pobreza ponto onde a argumentação racional e o racio-
das massas. […] A luta de classes é estranha ao cínio crítico se detêm” (Pantham, 1988: 206)47.
espírito essencial da Índia, que é capaz de desen- Em segundo lugar, a “pesquisa científica” de
volver uma forma de comunismo amplamente ba- Gandhi não reivindica qualquer privilégio
seada nos direitos fundamentais de todos e numa epistemológico. O conhecimento já estava lá,
justiça igual para todos46. por assim dizer, e a única coisa que ele tinha
de fazer era “experiências”:
A desfamiliarização relativamente ao Norte
e ao Sul imperiais não é, para Gandhi, um fim Nada tenho a ensinar ao mundo. A verdade e a
em si mesmo, mas sim um meio de criar um nãoviolência são tão antigas como as montanhas.
mundo alternativo, uma forma nova de univer-
salidade capaz de libertar, ao mesmo tempo,
47 As ideias e a política de Gandhi continuam a ser
a vítima e o opressor. Neste aspecto, o con- objecto de grande debate. Nandy (1987) sublinha que,
traste flagrante entre Gandhi e Habermas é ni- por ter escapado à dominação cultural colonial, Gan-
tidamente favorável a Gandhi. Para começar, dhi formulou um autêntico e efectivo nacionalismo
o seu conceito de racionalidade é muito mais indiano. Partindo de um enquadramento gramsciano,
Chatterjee considera que a ideologia de Gandhi, sub-
abrangente do que o de Habermas. Gandhi re-
vertendo, no essencial, o pensamento nacionalista
cusase a distinguir entre verdade, amor e ale- de elite, propiciou, ao mesmo tempo, a oportunidade
gria: “A força do amor é igual à força da alma histórica para a apropriação política das classes popu-
ou da verdade”, escreve a dada altura (1956: lares dentro das formas em evolução do novo Estado
indiano (1984: 156). Fox (1987) acentua os dilemas da
resistência cultural de Gandhi num sistema mundial de
46 Citado por Pantham (1988: 207208). dominação cultural.
Não disparem sobre o utopista 127

Tudo o que fiz foi tentar realizar experiências em mente arriscada. Cada um, à sua maneira, tra-
ambas numa escala tão vasta quanto me foi pos- va um combate de vida ou de morte contra a
sível. Ao fazê-lo, errei por vezes e aprendi com arregimentação, empenhando-se numa crítica
os erros. A vida e os seus problemas tornaramse, radical do conhecimento profissional hegemó-
para mim, outras tantas experiências na prática
nico, uma crítica que exige a desteorização da
da verdade e da nãoviolência (1951: 240).
realidade como única forma de a reinventar.
Acresce ainda que cada um deles parte de uma
A proposta de Gandhi é uma contribuição
interpelação radical da sua própria cultura, a
decisiva para um novo senso comum emanci-
fim de compreender o que a poderá aproximar
patório. A nova universalidade da aspiração de
de outras culturas, e está disposto a envolver-
Gandhi baseia-se explicitamente numa herme-
-se (diatopicamente, por assim dizer) em diálo-
nêutica diatópica, isto é, num questionamento
gos interculturais. Chomsky desenterra as ra-
exigente da sua própria cultura hindu, de modo
ízes mais profundas do liberalismo europeu e
a aprender como entrar em diálogo com outras
descobre um novo comunitarismo e uma nova
culturas munido da máxima tolerância dis-
solidariedade na forma política do anarquismo.
cursiva, e a reconhecer que as outras culturas
Em sua opinião, a sociedade anarquista, assen-
também têm aspirações emancipatórias seme-
te na livre associação de todas as forças pro-
lhantes: “A nãoviolência, na sua forma activa,
dutivas e no trabalho cooperativo, satisfaria
é, portanto, boa vontade para com toda a vida.
as necessidades de todos os seus membros, de
É puro amor. Leioo nas escrituras hindus, na
uma forma adequada e justa:
Bíblia, no Corão” (1951: 77).
Se, por um lado, o contraste entre Gandhi Numa tal sociedade, não há motivo para que as
e Habermas é perfeitamente óbvio, por outro, recompensas dependam de um determinado con-
há uma convergência entre Gandhi e Chomsky junto de atributos pessoais, por mais selecciona-
que me parece importante salientar. Ainda que dos que sejam. Desigualdade de dons é simples-
Chomsky faça uma distinção entre ciência e mente a condição humana — facto que devemos
política que seria inaceitável para Gandhi, am- agradecer; uma visão do inferno é uma sociedade
bos tentam alicerçar um novo senso comum composta de elementos intermutáveis. Isto nada
emancipatório numa prática exigente e alta- implica no que respeita às recompensas sociais
128 Boaventura de Sousa Santos

[…]. Sem laços de solidariedade, de simpatia e seu único objectivo é o progresso material […].
de preocupação com os outros, uma sociedade Eu quero liberdade para exprimir totalmente a
socialista é impensável. Só nos resta esperar que minha personalidade. Devo ser livre de construir
a natureza humana seja constituída de tal forma uma escada até Sírius se me apetecer. Isto não
que esses elementos da nossa natureza essencial significa que queira fazer tal coisa. No outro so-
possam desenvolverse e enriquecer as nossas cialismo, não há liberdade individual. Não se é
vidas, uma vez que as condições sociais que os dono de nada, nem do próprio corpo (1956: 327).
suprimem tenham sido ultrapassadas. Os socia-
listas são fiéis à convicção de que não estamos O facto de a convergência entre Chomsky e
condenados a viver numa sociedade baseada na Gandhi partir de posições tão distantes é, em si
ganância, na inveja e no ódio. Não sei como pro- mesmo, um facto significativo. Ao escavarem
var que eles têm razão, mas também não há fun-
profundamente na sua própria cultura, cada
damentos para a convicção comum de que eles
um deles chega diatopicamente à cultura do
devem estar errados (1987: 192).
outro. Mas isso é ainda mais significativo se
considerarmos que o modelo político que pa-
O elogio da comunidade e da solidariedade
rece captar melhor as afinidades entre ambos
feito por Chomsky ajustase perfeitamente às
é o anarquismo. Na verdade, o que Gandhi tem
preocupações expressas por Gandhi na pers-
a dizer sobre o anarquismo não difere muito
pectiva da sua cultura. Mas, curiosamente, na
daquilo que há pouco vimos Chomsky afirmar:
sua interpelação radical do comunitarismo hin-
du, Gandhi descobre o valor da autonomia e da
Poder político significa governar a vida nacional
liberdade do indivíduo. Pouco tempo antes de através de representantes nacionais. Se a vida
morrer, quando alguém lhe perguntou o que ele nacional se tornar tão perfeita ao ponto de se
entendia por socialismo, dado que insistia em auto-governar, nenhuma representação será ne-
distinguir a sua noção de socialismo da varian- cessária. Haverá, então, um Estado de anarquia
te europeia, Gandhi respondeu: iluminada. Num tal Estado, cada um será o seu
próprio governante. E governarse-á a si mesmo
Não quero caminhar sobre as cinzas dos cegos, de uma maneira tal que nunca constituirá um
dos surdos e dos mudos. No socialismo deles [eu- obstáculo para o seu vizinho. No Estado ideal,
ropeu] é provável que estes não tenham lugar. O portanto, não haverá poder político porque não
Não disparem sobre o utopista 129

haverá Estado. Mas o ideal nunca é totalmente trar. A desteorização da realidade como con-
realizado na vida. Daí a afirmação clássica de dição prévia para a sua reinvenção, que tanto
Thoreau de que o melhor governo é o que menos Chomsky como Gandhi desejam, encontra no
governar (1951: 244). anarquismo um terreno apropriado.
A meu ver, porém, o que mais aproxima estes
Talvez não seja coincidência que a conver- dois pensadores e activistas é que, para além
gência entre Chomsky e Gandhi encontre no de contribuírem para a construção da subjecti-
anarquismo uma das suas formulações. Na vidade do Sul, ambos contribuem também para
verdade, de todas as tradições políticas eman- a construção das subjectividades de fronteira
cipatórias da modernidade ocidental, o anar- e do barroco. Ambos defendem a sociabilida-
quismo é, sem dúvida, uma das mais desacre- de de fronteira como um meio de criatividade
ditadas e marginalizadas pelo discurso político social capaz de resistir à arregimentação, à
hegemónico, seja ele convencional ou crítico. naturalização das rotinas e à homogeneização
Como representação relativamente inacabada, das diferenças. Por outro lado, o extremismo
o anarquismo mostrase, assim, mais disponível que ambos conferem às suas ideias e práticas
para a fertilização intercultural. Além disso, evidencia também a sua subjectividade bar-
enquanto prática política, o anarquismo só flo- roca. Relativamente a Gandhi, pode parecer
resceu no Sul do Norte, e teve a sua concreti- surpreendente considerar barroca uma subjec-
zação mais plena na Espanha republicana dos tividade que prega a simplicidade e a repressão
anos trinta. Por outras palavras, desenvolveuse das paixões. Recordemos, porém, que o extre-
nas margens do sistema de dominação, onde mismo barroco (la extremosidad de Maravall)
as hegemonias se afirmavam com maior fragili- afirma-se quer pela exaltação da exuberância,
dade. Por último, como Chomsky observa cor- quer pela exaltação da simplicidade. O extre-
rectamente, o anarquismo é o único projecto mismo da simplicidade e do autodespojamento
político emancipatório que não confere um pri- de Gandhi é barroco.
vilégio particular aos intelectuais e ao conheci- A subjectividade do Sul constitui o momento
mento profissional, representando, assim, um de solidariedade na construção de uma tópica
elo fraco no paradigma da modernidade por para a emancipação. O objectivo é construir
onde a hermenêutica diatópica se poderá infil- um círculo de reciprocidade muito mais vasto
130 Boaventura de Sousa Santos

do que aquele que a modernidade propõe, ou vencionais que se constituíram e prosperaram


seja, uma Sorge que não pode deixar de ser si- com base na relação imperial. Haverá que pro-
multaneamente local e transnacional, imediata curar uma análise convincente dos momentos
e inter-geracional. A subjectividade do Sul sig- de rebelião na investigação realizada como re-
nifica a capacidade e a vontade para um vasto sistência à relação imperial. Um bom exemplo,
exercício de solidariedade. O seu objectivo é a vindo também da Índia, é a gigantesca colectâ-
construção de um Sul não-imperial como uma nea de estudos sobre a sociedade indiana reu-
tarefa que precede a eliminação da dicotomia nidos por Ranajit Guha nos vários volumes de
imperial entre o Norte e o Sul e a sua substi- Subaltern Studies48. Comentando este formi-
tuição por outras formas, muitas e variadas dável empreendimento no âmbito dos estudos
como seria desejável, de diferenciação iguali- históricos, Veena Das afirma que os Subaltern
tária, isto é, de diferença sem subordinação. Na Studies “fundamentaram um ponto importan-
construção de um Sul nãoimperial, o momento te na determinação da centralidade do mo-
da solidariedade desdobrase em três grandes mento histórico da rebelião ao encararem os
momentos que são outras tantas perspectivas subalternos como sujeitos das suas próprias
privilegiadas para captar os elos fracos da do- histórias” (1989: 312).
minação imperial: o momento da rebelião, o O momento da rebelião é o momento de
momento do sofrimento humano e o momento desafio em que uma nova ordem emergente
da continuidade entre vítima e agressor. confronta a ordem da representação. A ques-
O momento da rebelião surge quando a or- tionação da ordem da representação produz o
dem imperial é destruída, pelo menos momen- caos epistemológico que permite às energias
taneamente, e dá lugar ao caos, de cujo ponto emancipatórias reconhecerem-se como tais. O
de vista o colonialismo pode ser concebido momento da rebelião é, portanto, um momento
como uma forma de ignorância e a solidarie-
dade como uma forma de conhecimento. Se
o momento de rebelião dos oprimidos corres- 48 Um conjunto de ensaios sobre a história e a socie-
ponde ao elo fraco da dominação imperial, não dade do sul da Ásia publicados, nos anos oitenta, numa
colectânea dirigida por Ranajit Guha. Dos vários estu-
surpreende que a análise desse momento seja
dos aí incluídos, ver um do próprio Guha sobre a histo-
também um elo fraco das ciências sociais con- riografia colonialista na Índia: Guha (1989).
Não disparem sobre o utopista 131

de suspensão que converte o Norte imperial em cação do sofrimento humano requer, por isso,
poder alienante e o Sul imperial em impotência um grande investimento na representação e na
alienante. No momento da rebelião, a força do imaginação oposicionistas. Como Nandy afir-
opressor só existe na medida em que a fraque- ma, “[…] a nossa sensibilidade ética limitada
za da vítima o permite: a capacidade do opres- não é uma prova da hipocrisia humana; é, so-
sor é uma função da incapacidade da vítima; a bretudo, um produto do conhecimento limita-
vontade de oprimir é uma função da vontade do que temos da situação humana” (1987b: 22).
de ser oprimido. Esta reciprocidade momen- No outro lugar49 foi minha intenção desenhar
tânea entre opressor e vítima torna possível a o mapa mental de um vasto campo social de
subjectividade rebelde. Esta subjectividade foi opressão nas sociedades capitalistas, produzi-
memoravelmente formulada por Gandhi, quan- da em seis grandes espaços estruturais: o espa-
do se imaginou a dirigirse aos Britânicos nestes ço doméstico, o espaço da produção, o espaço
termos: “Não somos nós que temos de fazer o do mercado, o espaço da comunidade, o espa-
que vocês querem, mas vocês que têm de fazer ço da cidadania e o espaço mundial. As seis for-
o que nós queremos” (1956: 118). mas de opressão geram seis formas principais
O momento do sofrimento humano é o de sofrimento humano. A fenomenologia do
momento de contradição entre a experiência sofrimento humano é um ingrediente essencial
de vida do Sul e a ideia de uma vida decente. da criação da vontade de transição paradigmá-
É o momento em que o sofrimento humano é tica. A subjectividade do Sul experiencia pes-
traduzido em sofrimento-feito-pelo-homem. É soalmente todo o sofrimento do mundo como
um momento crucial, porquanto a dominação um sofrimento feito pelo homem, e não, de
hegemónica reside, primordialmente, na ocul- modo algum, como necessário ou inevitável.
tação do sofrimento humano ou, sempre que Sendo constituído pelo sofrimento humano, o
isso não é possível, na sua naturalização como carácter radical da vontade emancipatória da
fatalidade ou necessidade ou na sua trivializa- subjectividade do Sul reside no facto de esta
ção como espectáculo mediático. É precisa- nada ter a perder, a não ser as suas cadeias.
mente através da ocultação, da naturalização
e da trivialização do sofrimento que a domina-
ção oculta e naturaliza a opressão. A identifi- 49 Ver Santos, 2000: 243-303.
132 Boaventura de Sousa Santos

Quanto ao momento de continuidade entre alternativo que não produza a brutalização re-
opressor e vítima, ninguém o exprimiu melhor cíproca. Por outras palavras, libertar o opres-
do que Gandhi, quando sublinhou claramente sor da desumanização só é concebível como
que qualquer sistema de dominação brutaliza resultado da luta emancipatória travada pela
simultaneamente a vítima e o opressor, e que vítima contra a opressão. Um proeminente teo-
também o opressor necessita de ser liberta- rizador da teologia da libertação, Gustavo Gu-
do. “Durante toda a sua vida”, escreve Nandy, tierrez, exprime eloquentemente esse aparente
“Gandhi procurou libertar os Britânicos, tan- paradoxo e assimetria:
to quanto os Indianos, das garras do imperia-
lismo; e procurou libertar as castas hindus, Amamos os opressores, libertandoos deles pró-
tanto quanto os intocáveis, da intocabilidade” prios. Mas isso só se pode conseguir optando de-
(1987b: 35). Gandhi acreditava que o sistema cididamente pelos oprimidos, ou seja, combaten-
de dominação compele a vítima a interiorizar do as classes opressoras. Tem de ser um combate
real e efectivo, não ódio (Gutierrez, 1991).
as regras do sistema de tal maneira que nada
garante que, uma vez derrotado o opressor, a
dominação não continue a ser exercida pela Constelações tópicas
antiga vítima, ainda que de formas diferentes. A Os topoi da fronteira, do barroco e do Sul
vítima é um ser profundamente dividido quanto presidem à reinvenção de uma subjectivida-
à identificação com o opressor ou à diferencia- de com capacidade e vontade de explorar as
ção relativamente a este. Volto a citar Nandy: potencialidades emancipatórias da transição
paradigmática. Nenhum destes três topoi ga-
O oprimido nunca é uma pura vítima: uma par- rante, por si só, a criação de uma tópica para a
te dele colabora, comprometese e adaptase, e a emancipação ou de uma subjectividade capaz
outra desafia, “não coopera”, subverte ou destrói, de a traduzir em formas concretas de socia-
muitas vezes em nome da colaboração e sob a
bilidade. Pelo contrário, cada topos separada-
roupagem da obsequiosidade (1987b: 43).
mente pode sancionar formas excêntricas de
regulação que, por seu turno, podem contribuir
Ao descobrir os segredos do desafio à opres-
para desacreditar os projectos emancipatórios
são, a subjectividade do Sul luta por um mundo
e liquidar a vontade de emancipação. Abando-
Não disparem sobre o utopista 133

nado a si próprio, o topos da fronteira pode dar pelo topos do Sul. O fundamental, contudo, é
azo a uma subjectividade e a uma sociabilidade que os três topoi estejam sempre presentes e
libertinas que sejam indulgentes para com cria- que nenhum deles tenha uma presença trivial
tividades destrutivas: daí pode resultar uma ou irrelevante. Constituídas desta forma, a sub-
turbulência que, em vez de possibilitar novas jectividade e a sociabilidade emergentes resul-
formas de solidariedade, abre novos espaços tam em práticas sociais e epistemológicas de
para o colonialismo. Do mesmo modo, deixa- contradição e competição paradigmáticas em
do a si próprio, o topos do barroco pode ser cada um dos seis espaços estruturais. É evi-
a fonte de formas manipulativas de subjectivi- dente que existem na sociedade muitos outros
dade e de sociabilidade propensas a recorrer campos sociais de contradição e competição
ao artifício e ao extremismo a fim de excitar as paradigmáticas, mas creio que os seis espaços
paixões e promover a adesão acrítica a formas estruturais que identifiquei são particularmen-
de caos disfarçadas de ordem e a formas de co- te relevantes: dado que se trata de campos so-
lonialismo disfarçadas de solidariedade. Final- ciais privilegiados de regulação social, é neles
mente, o topos do Sul, actuando isoladamente, que as emancipações mais importantes e dura-
pode resultar em subjectividades golpistas e douras devem ser conquistadas.
autoritárias que, nos seus esforços para abolir Em cada um dos seis espaços estruturais, a
o colonialismo, acabam por abolir também as subjectividade emergente provoca a contradi-
possibilidades de solidariedade. ção e a competição paradigmáticas dentro de
A subjectividade e a sociabilidade emergen- uma unidade específica de prática social: dife-
tes são, portanto, constelações destes três to- rença sexual e gerações no espaço doméstico;
poi, ainda que as constelações possam variar classes e natureza capitalista no espaço da pro-
de acordo com a intensidade variável dos três dução; consumo no espaço do mercado; etnici-
topoi intervenientes. Quer isto dizer que uma dade, raça e povo no espaço da comunidade; ci-
constelação dominada pelo topos da fronteira dadania no espaço da cidadania; EstadoNação
(com o topos da fronteira actuando em modo no espaço mundial. Isto significa que, no inte-
de alta-tensão e os restantes topoi em modo de rior de cada um dos seis espaços estruturais, a
baixa-tensão) difere de outra dominada pelo prática social emergente é constituída por uma
topos do barroco, ou de uma terceira dominada constelação específica dos topoi da fronteira,
134 Boaventura de Sousa Santos

do barroco e do Sul. Em termos de práticas so- cipatórias dependem da intensidade com que
ciais e epistemológicas concretas, a fronteira, interiorizam as constelações tópicas da fron-
o barroco e o Sul significam coisas diferentes teira, do barroco e do Sul: quanto mais intensa
em relação, por exemplo, às lutas de sexos, de for a interiorização, maior será a proximidade
classes ou de etnias. Mas, em qualquer prática entre as práticas sociais e epistemológicas e o
desse género, a marca e a força emancipatória paradigma emergente.
dos grupos sociais que lutam pelo paradigma Ao nível dessas práticas, as subjectivida-
emergente sãolhes conferidas pela constelação des individuais e colectivas nunca se esgotam
de topoi específica que alimenta a subjectivida- numa única unidade de prática ou de organiza-
de desses grupos. O potencial emancipatório e ção social. Somos sempre configurações de di-
a primazia das lutas sociais não são determina- ferentes práticas sociais e participamos em di-
dos pela sua posição estrutural — em termos ferentes tipos de organizações. De acordo com
estruturais, não é possível estabelecer qualquer o contexto, agimos predominantemente como
primazia entre sexo, classe, cidadania, etc. —, subjectividade de sexo, de classe, de consumi-
mas pela intensidade com que se deixam guiar dor, étnica, de cidadão ou nacional. Mas, em
pelas constelações tópicas da fronteira, do bar- qualquer contexto, somos constituídos por to-
roco e do Sul. das as restantes subjectividades parciais. Dado
De maneira idêntica, a questão das formas que, na transição paradigmática, a constelação
organizacionais da prática social emancipató- tópica da fronteira, do barroco e do Sul tende
ria é secundária, embora de modo algum irrele- a distribuirse desigualmente pelas diferentes
vante. Em termos abstractos, e no respeitante formas de prática social, resulta que as nossas
à eficácia emancipatória, não é possível esta- configurações de subjectividade são, elas pró-
belecer primazias ou hierarquias entre parti- prias, internamente contraditórias e rivais. Se,
dos políticos, sindicatos, novos movimentos nalgumas das subjectividades parciais, nos en-
sociais, movimentos populares, ONGs, etc. A contramos mais próximos do paradigma emer-
adequação de cada uma destas formas às as- gente, noutras, encontramonos mais próximos
pirações, capacidades e desejos dos grupos do paradigma dominante. As configurações de
sociais progressistas depende de condições subjectividade são tanto mais emancipatórias
concretas. Mas as suas potencialidades eman- quanto mais organizadas forem pelas subjecti-
Não disparem sobre o utopista 135

vidades parciais constituídas pela constelação to de uma nova ordem, mas tãosó mostar que o
tópica emergente. O mesmo pode dizer-se das colapso da ordem ou da desordem existente —
formas de organização social e política em que que Fourier designou, significativamente, por
essas subjectividades participam. Na transição “ordem subversiva” — não implica, de modo
paradigmática, é impossível erradicar a contra- nenhum, a barbárie. Significa, sim, a oportuni-
dição e a competição entre o paradigma domi- dade de reinventar um compromisso com uma
nante e o paradigma emergente, isto é, entre a emancipação autêntica, um compromisso que,
regulação e a emancipação. Ambas operam no além do mais, em vez de ser o produto de um
interior, quer das subjectividades individuais, pensamento vanguardista iluminado, se revela
quer das colectivas, bem como no interior dos como senso comum emancipatório.
campos sociais em que elas intervêm. Construir uma tal utopia — não num ne-
nhures imaginário, e menos ainda num irónico
Conclusão “seruhnen”50, mas simplesmente aqui, num aqui
Neste texto, o meu objectivo foi concentrar- heterotópico —, construir, na verdade, uma
-me no paradigma emergente. Daí que tenha utopia tão pragmática quanto o próprio senso
decidido combinar duas tradições marginaliza- comum, não é uma tarefa fácil, nem uma tare-
das da modernidade, nomeadamente a tópica fa que alguma vez possa concluir-se. É este re-
retórica e a utopia. Descrevi sumariamente as conhecimento, à partida, da infinitude que faz
tarefas emancipatórias envolvidas na transi- desta tarefa uma tarefa verdadeiramente digna
ção paradigmática e esbocei o perfil geral das dos humanos.
subjectividades individuais e colectivas com
capacidade e vontade de as realizar. A minha
intenção não foi, de modo algum, formular uma
nova teoria social das sociedades capitalistas
do sistema mundial neste final de século. Pelo
contrário, tentei desteorizar a realidade social
para a tornar mais flexível e receptiva ao pen- 50 Esta inversão entre “nenhures” e “serunhen” foi,
samento e ao desejo utópicos. O meu objectivo obviamente, inspirada por Samuel Butler: nowhere e
principal não foi, portanto, apresentar o projec- erehwon (Butler: 1998).
136 Boaventura de Sousa Santos

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O Norte, o Sul e a utopia*

Introdução prática, esquecem-se de investigar as medidas


opressivas da burla, do açambarcamento e da
E m 1841, Charles Fourier, o grande pensa-
dor da utopia, invectivava os cientistas so-
ciais — que ele designava como “os filósofos
agiotagem que são a espoliação dos proprietá-
rios e os entraves diretos à circulação; se tra-
das ciências incertas” — por sistematicamente tam da moral, esquecem-se de reconhecer e de
se esquecerem dos problemas fundamentais reclamar os direitos da mulher cuja opressão
das ciências de que se ocupam. Assim, dizia, destrói as bases da justiça; e, finalmente, se
se tratam da economia industrial, esquecem- tratam dos direitos do homem, esquecem-se de
-se de estudar a associação entre os homens reconhecer o direito ao trabalho que, em ver-
que é a base de toda a economia; se tratam dade, não é possível na sociedade atual, mas
da política, esquecem-se de tratar da taxa de sem o qual todos os outros direitos são inúteis
população cuja medida justa está na base do (Fourier, [1841], 1967: 181). Concluía assim que
bem-estar do mundo; se tratam da administra- os cientistas sociais tinham essa “propriedade
ção não especulam sobre os meios de operar bizarra”, essa “étourderie méthodique”, de se
a unidade administrativa do globo sem a qual esquecerem dos problemas fundamentais, das
não pode existir nem ordem fixa nem garantia questões primordiais.
do futuro dos impérios; se tratam da indústria Em retrospecto, as razões e os exemplos
invocados por Fourier são bastante convin-
* Extraído de Santos, B. de Sousa 2013 “O Norte, o Sul
centes, pelo que cabe perguntar se hoje, cen-
e a utopia” in Pela mão de Alice. O social e o político na to e cinquenta anos depois, a situação mudou
pós-modernidade (Coimbra: Almedina) pp. 235-305. significativamente ou não. Será que as ciências
146 Boaventura de Sousa Santos

sociais estão hoje mais bem equipadas para técnicos e matemáticos e muito menos quando
não se esquecerem dos problemas fundamen- estes se arrogaram, pela imaginação de Fourier,
tais ou, pelo contrário, continuam a esquecê- conferir precisão e rigor aos prodígios da uto-
-los sistematicamente? Será que são hoje me- pia e às extravagâncias do desejo e da paixão.
nos ou mais incertas que o eram há cento e Por outro lado, a incerteza decorreu da extrema
cinquenta anos? E verdade que alguns dos pro- diversidade e da conflitualidade internas das
blemas que Fourier considerava então funda- correntes científicas, que aumentaram expo-
mentais foram mais tarde reconhecidos e tra- nencialmente de Fourier até aos nossos dias. O
tados pelas ciências sociais, mas será que os segundo pressuposto é que, em resultado dessa
problemas fundamentais com que hoje nos de- diversidade e conflitualidade, se é verdade que
frontamos são diferentes desses e continuam a algumas correntes científicas continuam a es-
ser esquecidos por nós? Formulada assim, esta quecer-se dos problemas fundamentais, outras
pergunta contém uma dupla armadilha. Se os primam em tentar identificá-los. Os cientistas
problemas continuam a ser os mesmos, isso sociais que omitem tratar dos problemas funda-
significa que não têm provavelmente solução mentais fazem-no quase sempre com a justifica-
e nessa medida não há que culpar por isso as ção de que a ciência tem um campo cognitivo
ciências sociais; se, ao contrário, os proble- próprio e privilegiado e que tudo o que não cabe
mas fundamentais são hoje diferentes, o fato nele, longe de ser fundamental, não é sequer
de nos lembrarmos de os ter esquecido signifi- relevante. Pelo contrário, os cientistas sociais
ca que não estão de todo em todo esquecidos, que se afadigam na identificação dos problemas
pelo que algum progresso ocorreu neste do- fundamentais partem da ideia de que a dificul-
mínio. Em ambos os casos, as ciências sociais dade destes, longe de lhes ser imputada, deve
surgem a uma luz mais favorável do que aquela ser imputada à inadequação dos meios científi-
que Fourier lhes dirigiu. cos e políticos que têm sido adotados para a sua
Neste trabalho parto de três pressupostos. O identificação ou solução. Entre eles, é grande
primeiro pressuposto é que as ciências sociais a divisão quanto à identificação dos problemas
são hoje mais incertas que o eram ao tempo de julgados fundamentais e ainda maior quan-
Fourier. Por um lado, a certeza a que ele aspi- to às soluções para eles propostas. O terceiro
rava não foi obtível através de refinamentos pressuposto é que hoje, em final do século, os
O Norte, o Sul e a utopia 147

cientistas sociais não podem deixar de se posi- na sua versão hegemônica moderna, se terem
cionar num ou noutro campo. Pela minha parte, especializado na produção do conhecimento
coloco-me no campo daqueles que sentem uma adequado à engenharia de soluções de curto
dupla obrigação científica e política de não se prazo, estreitas no âmbito e superficiais na es-
furtarem ao tratamento dos problemas funda- pessura. Este tipo de conhecimento científico,
mentais, de o fazerem conhecendo os limites do e mais do que isso, uma cultura dominada por
conhecimento que mobilizam e aceitando a di- este tipo de cientismo deslegitimou, à partida,
versidade e a conflitualidade de opiniões como a ideia de alternativas globais e, sempre que o
sendo a um tempo reflexo desses limites e meio não conseguiu, deslegitimou a vontade coleti-
da sua sempre incompleta superação. va de lutar por elas. Talvez, por isso, o nosso
O que são problemas fundamentais? Como século tenha sido tão pobre em pensamento
se pode ver pelos exemplos dados por Fou- utópico. Mesmo o socialismo, sempre que se
rier, são problemas que estão na raiz das nos- pretendeu como uma alternativa global, apre-
sas instituições e das nossas práticas, modos sentou-se como científico.
profundamente arreigados de estruturação e É notório que a ciência moderna em geral
de ação sociais considerados por alguns como e as ciências sociais em particular atravessam
fontes de contradições, antinomias, incoerên- hoje uma profunda crise de confiança episte-
cias, injustiças que se repercutem com inten- mológica. Paradoxalmente, uma maior consci-
sidade variável nos mais diversos sectores ência dos limites do conhecimento científico
da vida social. Tais repercussões são cumu- veio criar uma maior disponibilidade para a
lativas, pelo que são vistas em processo de abordagem dos problemas fundamentais, das
agravamento contínuo e com a possibilidade questões primordiais. Os antolhos que antes
de desenlaces mais ou menos graves a médio orientavam o olhar científico têm vindo a per-
ou a longo prazo. A profundidade e a amplitu- der opacidade e progressivamente tudo o que
de deste tipo de problemas suscitam soluções dantes ficava na obscuridade ilumina-se agora
também profundas e amplas e aí reside a di- e revela-se afinal como possivelmente muito
ficuldade específica deste tipo de problemas. importante. Esta perda de confiança epistemo-
As aporias que eles levantam às ciências so- lógica está certamente relacionada com pro-
ciais resultam em boa medida do fato de estas, cessos de transformação social que não só ces-
148 Boaventura de Sousa Santos

saram de agravar os problemas fundamentais modernidade — sejam elas o direito estatal, o


identificados por Fourier, como deram origem fordismo, o Estado-Providência, a família he-
a muitos outros cuja turbulência nos processos terossexual excluída da produção, o sistema
societais é cada vez mais sentida e sofrida, se educativo oficial, a democracia representativa,
não por toda a humanidade, pelo menos pela o sistema crime-repressão, a religião institu-
esmagadora maioria dela. cional, o cânone literário, a dualidade entre a
Desta convergência entre dinâmicas episte- cultura oficial baixa e a cultura oficial alta, a
mológicas e societais resulta não só a maior vi- identidade nacional — parecem hoje cada vez
sibilidade dos problemas fundamentais, como mais precárias e questionáveis, não é menos
também a maior urgência no encontrar solu- verdade que estão igualmente fragilizadas e
ções para eles. É por esta razão que alguns, en- desacreditadas as formas de emancipação so-
tre os quais me incluo, entendem que estamos cial que lhes corresponderam até agora, sejam
a entrar num período de transição paradigmáti- elas o socialismo e o comunismo, os partidos
ca, tanto no plano epistemológico — da ciência operários e os sindicatos, os direitos cívicos,
moderna para um conhecimento pós-moderno políticos e sociais, a democracia participativa,
— como no plano societal — da sociedade ca- a cultura popular, a filosofia crítica, os modos
pitalista para outra forma societal que tanto de vida alternativos, a cultura de resistência e
pode ser melhor como pior. Para quem assim de protesto. Perante isto, perfila-se uma dupla
pense, a época em que entramos é uma época responsabilidade e uma dupla urgência. Por
de grande turbulência, de equilíbrios particu- um lado, ir às raízes da crise da regulação so-
larmente instáveis e regulações particular- cial e, por outro, inventar ou reinventar não só
mente precárias, uma época de bifurcações o pensamento emancipatório como também a
prigoginianas em que pequenas alterações de vontade de emancipação.
estado podem dar origem a convulsões incon- É nesta postura que me proponho analisar de
troláveis, em suma, uma época fractal com seguida alguns dos vectores dos problemas que,
mudanças de escala imprevisíveis e irregulari- em minha opinião, são já hoje fundamentais e
dades difíceis de conceber dentro dos nossos sê-lo-ão, e muito mais, nas próximas décadas
parâmetros ainda euclidianos. No entanto, se para, na última parte, traçar o mapa do terreno
é verdade que as formas de regulação social da onde podem ser queridas e buscadas algumas
O Norte, o Sul e a utopia 149

alternativas emancipatórias em nada envergo- antes de todos o problema de não ser possível
nhadas ou ofendidas por serem ditas utópicas. pensar os problemas fundamentais. A socieda-
de de consumo, a cultura de massas e a revolu-
Os problemas fundamentais nos ção da informação e da comunicação superfi-
diferentes espaços-tempo cializou tanto as condições de existência como
os modos de a pensar. Isto não é necessaria-
O espaço-tempo mundial
mente um mal. É um facto, e pode até ser mais
Entre os cientistas sociais que se não têm auspicioso que o contrário. Muitas das concep-
furtado à abordagem dos problemas fundamen- ções ditas pós-modernas, que eu designo por
tais da sociedade contemporânea são muitas as pós-modernismo reconfortante, perfilham esta
diferenças e, com algum risco de simplificação, posição, e nela cabem Baudrillard, Lyotard,
são discerníveis as seguintes posições prin- Vattimo, etc.
cipais, apresentadas sem qualquer ordem de Um terceiro grupo de cientistas sociais
hierarquia. A primeira é a dos que reconhecem tem vindo a privilegiar o questionamento dos
que a sociedade liberal moderna tem vindo a pressupostos epistemológicos da moderni-
defrontar-se com alguns problemas fundamen- dade, mantendo que foram eles, bem como o
tais, o mais fundamental dos quais tem sido a tipo de racionalidade cognitivo-instrumental
oposição radical que nos últimos cem anos lhe e de conhecimento técnico-científico em que
foi movida pelos movimentos socialista e comu- desembocaram, os grandes responsáveis pelo
nista. Concluem que, no entanto, a sociedade abandono da reflexão sobre os problemas
liberal moderna não só acabou por neutralizar fundamentais. A distinção sujeito-objecto, a
esta oposição como resolveu todos os grandes separação total entre meios e fins, a concep-
problemas que lhe foram postos. Por essa razão ção mecanicista da natureza e da sociedade,
é legítimo admitir que estamos perante o fim da o cisma entre fatos e valores e a objetividade
história, uma posição a que Fukuyama (1992) concebida como neutralidade, uma ideia do
deu recentemente grande notoriedade. rigor quantitativo e euclidiano inimiga da com-
Segundo outra posição, se a sociedade con- plexidade e insensível à fractalidade dos fe-
temporânea, sobretudo a capitalista avançada, nômenos, uma teorização pretensamente uni-
defronta algum problema fundamental, ele é versalista, mas na realidade androcêntrica e
150 Boaventura de Sousa Santos

etnocêntrica — tudo isto conspirou para criar centram-se em alternativas ecológicas (entre
um buraco negro epistemológico à volta dos muitos exemplos, as correntes de ecologia radi-
grandes problemas da vida coletiva e das rela- cal à volta da revista Capitalism, Nature, and
ções interculturais. Trata-se de um grupo mui- Socialism ou Lester Brown e o grupo do Sta-
to heterogéneo onde é possível incluir Haber- te of the World), outros em alternativas sócio-
mas, Toulmin, Hirschman, Murray, Bookchin, -políticas, corno Alain Touraine, André Gorz,
Wallerstein e Giddens, por um lado, Foucault e Ernest Laclau, (Chantal de Mouffe, Joshua
Derrida e a epistemologia feminista, por outro, Cohen, Joel Rogers, e outros ainda em alter-
e talvez um terceiro grupo, Fredric Jameson, nativas socioeconômicas, como Alain Lipietz,
Edward Said e G. Spivak. Michel Aglietta, John Roemer, e finalmente ou-
Por último, o grupo de longe mais heterogé- tros, em alternativas de governo transnacional,
neo é o dos cientistas para quem o problema como Richard Falk e Saul Mendlowitz.
fundamental da sociedade contemporânea, que Estas diferentes posições, diferem, entre
uns concebem como industrial e outros como outras coisas, quanto ao elenco dos problemas
capitalista, reside no esgotamento das virtuali- fundamentais que estabelecem, ainda que se-
dades de desenvolvimento societal. Assiste-se, jam muitas e, por vezes, fastidiosas as sobre-
por um lado, à erosão dramática dos mecanis- posições. Por outro lado, diferentes diagnós-
mos institucionais e culturais que até agora ticos suscitam diferentes ênfases analíticas e
corrigiam e compensavam os excessos e os interesses prospectivos. Como se tornará claro
déficits sociais do desenvolvimento capitalista adiante, a análise e a prospectiva que apresen-
— do que resulta uma sensação de desregula- tarei a seguir estão próximas das duas últimas
ção global — e, por outro lado, é visível um to- posições, ou seja, da posição dos que proce-
tal bloqueamento de soluções para o impasse, dem a uma crítica epistemológica da moderni-
não apenas de soluções mais radicais como de dade e dos que se centram no bloqueamento
soluções relativamente moderadas. Daí que os societal e na busca de alternativas.
cientistas sociais incluídos neste grupo tentem Parto de um modelo analítico que identifi-
combinar a análise do bloqueamento com o de- ca os principais processos de estruturação e
senho, a discussão ou a especulação de possí- da prática social, constelações de relações so-
veis alternativas. Alguns autores ou correntes ciais que asseguram no conjunto o sentido e o
O Norte, o Sul e a utopia 151

ritmo da transformação social ou o bloquea- blema fundamental do espaço-tempo mundial


mento desta. Ao contrário de outros modelos, é a crescente e presumivelmente irreversível
como, por exemplo, o que distingue entre o polarização entre o Norte e o Sul, entre países
Estado e a sociedade civil, este modelo pode centrais e países periféricos no sistema mun-
aplicar-se tanto a sociedades nacionais como dial. Este problema comporta uma grande plu-
a sociedades subnacionais e sociedades trans- ralidade de vectores. Salientarei apenas três
nacionais. Distingo quatro constelações de re- deles: a explosão demográfica, a globalização
lações sociais que designo por espaços-tempo da economia e a degradação ambiental.
estruturais: o espaço-tempo doméstico, o es-
paço-tempo da produção, o espaço-tempo da A explosão demográfica
cidadania e o espaço-tempo mundial. Em re-
Em primeiro lugar, o vetor da explosão
lação a cada um deles, passo a identificar os
demográfica. Entre 1825 e 1925 a população
problemas que se me afiguram fundamentais,
mundial duplicou de 1 bilhão de pessoas para
advertindo, no entanto, desde já, que a proble-
2 bilhões. Nos cinquenta anos seguintes voltou
maticidade do tempo presente e a das próxi-
a duplicar para 4 bilhões e entre 1975 e 1990
mas décadas (digamos até 2025) não advêm de
passou de para 5,3 bilhões de pessoas. As pro-
nenhum desses problemas em separado, mas
jeções para as próximas décadas variam, mas,
da conjunção entre eles.
a fazer jus a uma projeção moderada, em 2025
Começarei pelo espaço-tempo mundial, o
a população mundial será de 8,5 bilhões de
espaço-tempo das relações sociais entre so-
pessoas. O fato mais decisivo desta explosão
ciedades territoriais, nomeadamente entre
é que ela terá lugar em esmagadora medida
Estado-Nação no interior do sistema mundial
nos países periféricos. A média do crescimen-
e da economia-mundo. A intensificação da glo-
to populacional mundial esconde diferenças
balização da economia e das interações trans-
abissais e é por isso que a população de África,
nacionais em geral nas duas últimas décadas
que era em 1985 cerca de metade da população
tem vindo a conferir a este espaço-tempo uma
da Europa, será provavelmente em 2025 três
relevância crescente em virtude do poder con-
vezes maior que a população da Europa. Nou-
formador das suas vibrações no interior de
tras partes do Sul o crescimento populacional
cada um dos restantes espaços-tempo. O pro-
152 Boaventura de Sousa Santos

será do mesmo teor. A Índia poderá passar no população da Inglaterra, da França e da Amé-
mesmo período dos 853 milhões atuais para 1,5 rica seria cada vez maior que o poder da terra
bilhões, uma população semelhante à que terá para assegurar a sua subsistência e que, em
então a China; o México poderá passar de 88 consequênciadisso, a intervenção da natureza
milhões para 150 milhões; o Irão de 56 milhões para reduzir a população envolveria fatalmente
para 122 milhões; e o Brasil de 154 milhões a fome, a guerra e a doença.
para 245 milhões. Acresce que mais de 50% des- Provou-se que ele estava enganado; a popu-
ta população viverá em cidades congestiona- lação continuou a aumentar, mas os recursos
das, sem habitação nem saneamento adequa- para assegurar a sua subsistência aumentaram
dos, sem serviços sociais mínimos, a braços também. Não se poderá hoje voltar a repetir
com a fome e o desemprego de vastas massas a história? Tudo leva a crer que não. Segundo
de população, com o colapso ecológico e pro- Paul Kennedy, três fatores principais contri-
vavelmente a violência. Segundo as melhores buíram para infirmar a previsão pessimista de
projeções, no final do século, 11 das 20 maiores Malthus: a emigração maciça dos ingleses e dos
cidades do mundo (com 11 milhões ou mais de europeus em geral; o aumento da produtividade
pessoas) serão cidades dos países periféricos da terra com a revolução agrícola; e o aumento
ou semiperiféricos: Cidade do México com 24,4 da produtividade do trabalho com a revolução
milhões, São Paulo com 23,6 milhões, Calcutá industrial (1993: 6 e ss.). Ora, destes fatores, só
com 16 milhões, Xangai com 14,7 milhões. o primeiro parece estar hoje ao alcance dos paí-
A explosão demográfica torna-se um pro- ses periféricos. O aumento da produtividade da
blema quando produz um desequilíbrio entre a terra ou do trabalho parece estar-lhes em grande
população e os recursos naturais e sociais para medida vedado e em qualquer caso tudo indica
a sustentar adequadamente, e é um problema que não poderá acompanhar o aumento da po-
tanto mais sério quanto mais grave for esse de- pulação. A diferença entre o tempo de Malthus
sequilíbrio. Sendo assim, cabe perguntar se ao e o nosso reside em que no século XVIII e XIX a
fazer previsões tendencialmente desastrosas explosão demográfica e a explosão tecnológica
não estaremos no final do século XX a cometer tiveram lugar na mesma região do sistema mun-
o mesmo erro que Thomas Malthus cometeu no dial, enquanto hoje a primeira ocorre no Sul e a
final do século XVIII ao prever que o poder da segunda ocorre no Norte. Aliás, a disparidade
O Norte, o Sul e a utopia 153

entre o Norte e o Sul é tão grande que, enquanto mo, o racismo e a xenofobia serão obstáculos
o Sul se debate com o problema da explosão de- poderosos à busca de uma vida melhor. Tudo
mográfica, o Norte começa a preocupar-se com leva, pois, a crer que os elevados padrões de
o crescimento negativo da população e com o vida e de consumo vigentes no Norte não serão
envelhecimento desta. partilhados com o Sul.
Estas disparidades ilustram um fenômeno Por outro lado, é hoje generalizado o consen-
mais vasto, que consiste no fato de o âmbito so de que esses padrões não podem ser alarga-
transnacional de alguns problemas emergentes dos à população mundial no seu conjunto, sob
não eliminar, e antes pelo contrário agravar, a pena de os recursos naturais e os equilíbrios
polarização entre o Norte e o Sul. Disso acima ecológicos sofrerem a curto prazo desgastes
que das três vias históricas de solução positiva fatais para a sobrevivência da vida na terra tal
da explosão demográfica, os países do Sul têm como a conhecemos. Isto será assim, mesmo
à sua disposição apenas a emigração. A verdade que a população não aumente tanto quanto se
é que, na prática, essa via está quase totalmen- prevê. Apesar de uma desaceleração global no
te bloqueada. Entre 1820 e 1930, 50 milhões de crescimento anual da população desde 1970
Europeus emigraram para o Ultramar e quase — no período 1965-1970 o crescimento era de
sempre (com exceção dos EUA) para países 2,06, no período 1985-1990 era de 1,73 — as dis-
menos desenvolvidos e sujeitos ao domínio co- paridades entre o Norte e o Sul agravaram-se
lonial ou pós-colonial. Hoje nenhum movimen- (Derluguian, 1992a). Só um exemplo: no perí-
to de âmbito proporcional poderá ocorrer. Não odo de 1965-1970 o crescimento anual em Áfri-
esqueçamos que o movimento é agora do Sul ca era de 2,63 e na Europa de 0,67, enquanto
para o Norte, para a Europa, a América do Nor- no período 1985-1990 a cifra africana disparou
te e a Austrália, e os países centrais têm meios para 3,00 e a europeia baixou para 0,22. Com-
eficazes para se defender da emigração maciça. binadas com o aumento global da população,
É certo que há milhões de pessoas em processo o qual, apesar de desacelerado, continua ele-
de deslocação e cerca de 15 milhões aguardam vado, estas disparidades entre o Norte e o Sul
em campos de internamento a oportunidade de tornam ainda mais questionável a universaliza-
poderem vir a refazer noutro lugar a sua vida, ção, do modelo de desenvolvimento capitalis-
mas o controlo das fronteiras, o protecionis- ta. Este modelo parece de fato confrontar-se
154 Boaventura de Sousa Santos

com uma situação dilemática: por um lado, ele Kondratieff significou o início da fase B do
pretende-se hoje, sobretudo depois do colapso ciclo que se tinha iniciado em 1945. Mesmo
do regime comunista, universalmente válido; assim, a economia mundial cresceu mais do
por outro lado, é cada vez mais claro que ele pós-guerra até hoje do que em toda a história
não pode ser aplicado universalmente ou, o mundial anterior (Kennedy, 1993: 48).
que é ainda mais dilemático, quanto mais uni- Dos traços desta evolução sobretudo nas
versal for a sua aplicação, maior desigualdade duas últimas décadas seleciono os mais impor-
criará entre os poucos que ganham com isso e tantes para a minha tese. O primeiro traço é a
os muitos Perdem, isto é, entre o Norte e o Sul. deslocação da produção mundial para a Ásia
consolidando-se esta como uma das grandes
A globalização da economia regiões do sistema mundial, constituída, como
todas as outras regiões, por uni centro (o Ja-
Isto me conduz ao segundo vetor da desi-
pão), uma semiperiferia (os novos países in-
gualdade Norte/Sul no espaço técnico mundial:
dustriais: a Coreia do Sul, Taiwan, Hong Kong
a globalização da economia. Mesmo admitindo
e Singapura) e uma periferia (o resto da Ásia).
que existe uma economia-mundo desde o sé-
Esta deslocação é tanto maior quanto mais ele-
culo XVI, é inegável que os processos de glo-
vado é o teor tecnológico da produção medida
balização se intensificaram enormemente nas
pelo investimento em investigação e desenvol-
últimas décadas. Isto é reconhecido mesmo
vimento. Assim, no domínio da indústria de alta
por aqueles que pensam que a economia inter-
tecnologia, dois exemplos são particularmente
nacional não é ainda uma economia global, em
significativos: a produção de transistores e a
virtude da continuada importância dos meca-
produção de televisões (Irwan, 1992). No que
nismos nacionais de gestão macroeconômica e
respeita à produção de transistores, incluindo
da formação de blocos comerciais. Entre 1945
semicondutores, a distribuição regional da per-
e 1973 a economia mundial teve uma enorme
centagem da produção mundial teve uma alte-
expansão: uma taxa de crescimento anual do
ração dramática entre 1965 e 1989. A quota da
produto industrial de cerca de 6%. A partir de
Ásia, que era em 1965 de 28,8%, passou cm 1989
1973 esse crescimento abrandou significati-
para 95%; a quota da América do Norte, que era,
vamente, o que para os adeptos dos ciclos de
na mesma altura, de 64,3%, passou para 1,1%; e
O Norte, o Sul e a utopia 155

a quota da Europa, que era de 6%, passou para O segundo traço da globalização da econo-
3,9%. No que respeita à produção de televiso- mia é a primazia total das empresas multi-
res, a quota da Ásia era em 1965 de 14,2% (qua- nacionais, enquanto agentes do “mercado glo-
se só o Japão) e passou em 1989 para 58,2%, bal”. A própria evolução do nome por que são
enquanto a quota da América do Norte passou conhecidas assinala a constante expansão das
no mesmo período de 37,2% da produção mun- atividades destas empresas com actividades
dial para 16,4% e a quota da Europa passou de em mais que um Estado nacional: de empresas
34,5 para 16,1%. multinacionais para empresas transnacionais
No domínio da indústria de média tecnolo- e, mais recentemente, para empresas globais.
gia como, por exemplo, na indústria de auto- Quaisquer que sejam os indicadores utiliza-
móvel, a deslocação foi também significativa: dos — investimento destas empresas enquanto
a Ásia, que produzia 14,2% dos automóveis em percentagem do investimento total; percen-
1965 passou a produzir 28,6% em 1989, enquan- tagem da produção mundial; percentagem do
to a América do Norte que produzia 54,3% em comércio intra-empresas no total do comércio
1965 passou a produzir apenas 25,8% em 1989 mundial; número de filiais no estrangeiro — é
e a Europa manteve e mesmo melhorou ligei- evidente o aumento da importância das em-
ramente a sua quota (de 39,5% em 1965 para presas multinacionais. Entre as muitas causas
41,2% em 1989). A importância desta desloca- deste fato, duas são de salientar: a desregula-
ção não pode ser subestimada. Pela primeira ção dos mercados financeiros e a revolução
vez, depois de cinco séculos, o motor do capi- nas comunicações transcontinentais (Kenne-
talismo parece ter passado do Ocidente para dy, 1993: 50). Por vias diferentes, funcionaram
o Oriente. As condições únicas do Ocidente, ambas com um grande incentivo à internacio-
que segundo Weber explicaram a emergência nalização das empresas ao mesmo tempo que
do capitalismo, deixaram de ter grande sig- contribuíram para a separação entre fluxos
nificado, uma vez consolidado este modo de financeiros, por um lado, e comércio de mer-
produção e quando muito haveria agora de cadorias e serviços, pelo outro. Calcula-se, por
averiguar as condições únicas do Oriente para exemplo, que os fluxos mundiais de moeda
o desenvolvimento pujante do capitalismo no estrangeira — transações, de resto, exclusi-
final do século. vamente eletrônicas — rondam um trilhão de
156 Boaventura de Sousa Santos

dólares por dia. É difícil determinar o número outro lado, as multinacionais, dotadas de um
exato de empresas multinacionais, mas apesar poder de intervenção global e se beneficiando
de serem certamente largos milhares, é notável da mobilidade crescente dos processos de pro-
o grau de concentração que faz com que o valor dução podem facilmente pôr em concorrência
anual das vendas de algumas destas empresas dois ou mais Estados ou duas ou mais regiões
seja superior ao produto doméstico bruto de dentro do mesmo Estado sobre as condições
muitos países periféricos. A título de exemplo, que decidirão da localização do investimento
as 10 maiores empresas do sector químico fo- por parte da empresa multinacional. Entre par-
ram responsáveis por 21% do total das vendas tes com poder tão desigual — atores globais,
de produtos químicos em 1990 e as 15 maiores por um lado, e atores nacionais ou subnacio-
empresas do sector farmacêutico concentra- nais por outro — a negociação não pode deixar
ram cerca de 30% do comércio mundial de pro- de ser desigual.
dutos farmacêuticos (Ikeda, 1992). O outro traço de globalização da economia
Concomitantemente com a primazia das fortemente vinculado à proeminência das mul-
multinacionais, dois outros traços de globa- tinacionais é o avanço tecnológico das últimas
lização da economia devem ser mencionados décadas quer na agricultura com a biotecno-
pela importância que têm para a polarização da logia, quer na indústria com a robótica, a
desigualdade entre o Norte e o Sul. O primei- automação e também a biotecnologia. Os au-
ro é a erosão da eficácia do Estado na gestão mentos de produtividade com que são propa-
macroeconômica. A transnacionalização da gandeadas estas novas tecnologias escondem
economia significa, entre outras coisas, pre- frequentemente o fato de que elas contribuem
cisamente tal erosão e não seria possível sem para a polarização entre o Norte e o Sul, dados
ela. A desregulação dos mercados financeiros os investimentos de capital, os recursos cien-
e a revolução das comunicações reduziram a tíficos, a mão-de-obra qualificada e a escassez
muito pouco o privilégio que até há pouco o Es- de mão-de-obra que pressupõem. Aliás, con-
tado detinha sobre quis aspectos da vida nacio- tribuem igualmente para o aprofundamento
nal — a moeda e a comunicação considerados das assimetrias dentro do Norte, entre as suas
atributos da soberania nacional e vistos como várias regiões. Em 1988, dos 280.000 robots
peças estratégicas da segurança nacional. Por industriais existentes no mundo, 257.000 es-
O Norte, o Sul e a utopia 157

tavam concentrados no Japão, na Europa oci- wn et al., 1990: 65). As explicações naturalistas
dental e nos EUA. Mas o mais notável é que, desta discrepância não são convincentes, pois,
desses, o Japão detinha 176.000, ou seja, mais doutro modo, mal se justificaria que o Norte
do dobro da soma dos robots da Europa e dos estivesse a braços com uma crise de sobrepro-
EUA, cerca de 70% da população mundial de dução e o Sul com uma crise de subprodução.
robots industriais (Kennedy, 1993: 88). As con- Que as razões devem ser outras ilustra-o a
dições que levaram o Japão a esta liderança biotecnologia agrícola que nos últimos anos tem
tornam difícil a competição dos outros países vindo a ser promovida como a grande solução
centrais e impossível a dos países periféricos e para o problema alimentar mundial. Enquanto
semiperiféricos do sistema mundial. anteriormente a melhoria da produção agrícola
No que respeita à biotecnologia, o quadro se baseou em boa medida na seleção de semen-
é semelhante, pelo menos quanto às relações tes e de castas, do que se trata agora, na era da
Norte/Sul. Entre 1950 e 1984, a produção agrí- biotecnologia, é de recorrer a técnicas que usam
cola mundial cresceu mais rapidamente que organismos e processos vivos com vista a fazer
em qualquer período anterior e a produção de ou modificar produtos ou a melhorar plantas
cereais cresceu mais que a população. Desde ou animais. Está ainda por avaliar cabalmente
1984, uma série de fatores, desde a degradação o impacto da biotecnologia agrícola na saúde
dos solos, ao abuso dos fertilizantes e à mer- ou no meio ambiente. Se a produção pode au-
cadorização crescente da alimentação, con- mentar exponencialmente, fa-lo-á à custa da
vergiram para que esse crescimento desacele- biodiversidade. Se plantas e animais podem ser
rasse. É difícil de prever se estamos perante sujeitos à engenharia genética para se tornarem
o início de uma tendência de longo prazo. É, mais resistentes às doenças, à seca, ou aos her-
de qualquer modo, significativo que, apesar de, bicidas, isso é no fundo um incentivo a tolerar e
segundo as previsões do Worldwatch Institu- até a promover a degradação ecológica. Mas o
te, ser necessário aumentar anualmente a pro- aspecto mais saliente da biotecnologia agrícola
dução de cereais de 28 milhões de toneladas do ponto de vista das relações Norte/Sul é que
para acompanhar o aumento da população, nos ela certamente agravará tanto a sobreprodução
anos mais recentes o crescimento não tenha do Norte como a subprodução do Sul. A grande
sido superior a 15 milhões de toneladas (Bro- novidade da biotecnologia é que ela é levada a
158 Boaventura de Sousa Santos

cabo por grandes empresas multinacionais que grandes empresas multinacionais, o que já se
sujeitam as patentes às descobertas biotécnicas designa por “imperialismo biológico” (Kloppen-
e que, por isso, privam dos seus benefícios to- burg, 1988).
dos os que não puderem pagar os direitos auto- Todos estes traços da globalização da econo-
rais (royalties). Como diz Paul Kennedy, o DNA mia ajudam a compreender as razões por que
é o novo recurso industrial das grandes empre- nas últimas décadas as desigualdades entre o
sas, que não só pode vir a substituir matérias- Norte e o Sul aumentaram significativamente.
-primas usualmente fornecidas pelos países É já um lugar-comum afirmar que a década de
periféricos, como pode conduzir à integração oitenta foi uma década negra para os países pe-
vertical da produção agrícola, colocando vastas riféricos. É menos comumente conhecido que
regiões do mundo sob a alçada de umas poucas as agências internacionais não esperam que a
empresas multinacionais do ramo agroquímico década de noventa seja melhor. Segundo a Sou-
e biotecnológico (Kennedy, 1993: 73). Tal como th Commission, “a década de noventa trará
sucede com a robótica e a automação, são tam- ainda mais privações para os povos do Sul, ain-
bém visíveis conflitos entre os países centrais da maior instabilidade para estes países” (Ihon-
neste domínio, dado o diferente peso que neles vbere, 1992: 999). Os dados são efetivamente
têm a agricultura e sobretudo os agricultores alarmantes. Enquanto a África esta a atingir um
(enquanto o Japão importa produtos alimenta- ponto de colapso, na América Latina o nível de
res, a Europa e os EUA têm grandes exceden- vida no início da década de noventa era mais
tes). Mas é no domínio das relações Norte/Sul baixo que o da década de setenta. Dos 84 pa-
que o impacto da biotecnologia mais se fará íses menos desenvolvidos, 54 tiveram quebras
sentir. É que se, por um lado, o uso de patentes no rendimento nacional per capita na década
visa criar rendas que funcionam como transfe- de oitenta. Em 14 países, o rendimento per ca-
rências líquidas do Sul para o Norte, por outro pita caiu cerca de 35% (Ihonvbere, 1992: 989).
lado, essas transferências ocorrem desde logo Em treze anos, a dívida externa dos países do
na própria engenharia dos produtos, pois, como Sul passou de 170 bilhões de dólares em 1975
bem salienta Kloppenburg, dado que a maioria para 1.200 bilhões em 1988.
dos recursos genéticos se encontram nos paí- Perante isto não admira que o cisma global
ses do Sul, estes estão já a ser espoliados pelas entre os ricos e os pobres se tenha aprofunda-
O Norte, o Sul e a utopia 159

do. Calcula-se que 1 bilhão de pessoas — mais e, por essa via, absorver a ameaça que inicial-
de 14 da população mundial — viva em pobre- mente lhes pôs a OPEP, e depois também que
za absoluta, ou seja, dispondo de um rendimen- os governos conservadores chegaram ao poder
to inferior a cerca de 365 dólares por ano. Do nos EUA, na Inglaterra e na Alemanha, inflama-
outro lado do abismo, 15% da população mun- dos do fogo neoliberal da desregulamentação,
dial produziu e consumiu 70% do rendimento do corte da ajuda externa e dos subsídios, da
mundial. Enquanto a ajuda externa dos países abertura das economias do Sul empurradas
centrais aos países periféricos caiu de 0,37% do para a exportação a fim de cumprir com os
PNB em 1980 para 0,33% em 1989, as taxas de encargos da dívida externa em que entretanto
juro da dívida externa dos países do Sul subi- foram armadilhados.
ram 172% entre 1970 (3,7%) e 1987 (10%), o que Para além dos poucos países do Sul que
leva alguns autores a calcular em 40 bilhões nesta década conseguiram beneficiar das
de dólares o montante anual de transferências transformações da economia mundial, a es-
líquidas do Sul para o Norte, sendo esse pois magadora maioria perdeu, e uma parte dela
literalmente o valor da contribuição de um Sul atingiu uma situação de colapso que se mani-
mirrado de fome para a abastança do Norte. O festa de múltiplas formas: na perda da pouca
aumento da dívida externa, combinado com a soberania efetiva dos Estados periféricos, que
queda do preço mundial de alguns dos produ- ficaram mais e mais sujeitos aos programas
tos exportáveis pelo Sul, levou alguns países ao de ajustamento estrutural do Banco Mundial
colapso. Devido à continuada quebra do preço e do FMI; na conturbação interna, na violên-
do cobre, o serviço da dívida externa da Zâm- cia urbana, nos motins dos esfomeados, na má
bia correspondia a 95% do total das exporta- nutrição; e finalmente na degradação do am-
ções (Ihonvbere, 1992: 994). biente que, se não foi originada pela dívida ex-
O programa da Nova Ordem Econômica In- terna, foi quase sempre agravada pela neces-
ternacional lançado pela ONU em 1975, com sidade de aumentar as exportações de modo
vista a criar uma maior solidariedade entre o a fazer face aos encargos da dívida. A fome e
Norte e o Sul, redundou num total fracasso, so- a má nutrição aumentaram significativamente
bretudo depois que os países do Norte conse- nas duas últimas décadas e a economia políti-
guiram reciclar os excedentes de petrodólares ca internacional da alimentação é talvez, mais
160 Boaventura de Sousa Santos

que nenhuma outra, reveladora das trocas de- los menos no longo prazo. Muitas das culturas
siguais entre o Norte e o Sul. tradicionais foram negligenciadas ou substitu-
Antes de 1945, o chamado terceiro mun- ídas e estes países passaram a depender cada
do exportava cereais e nos anos cinquenta vez mais da importação de cereais, para além
era auto-suficiente em produtos alimentares, de as suas populações se terem de reduzir a
apesar de a seca e outros fatores produzirem uma dieta menos variada e estranha em rela-
períodos de fome, como, por exemplo, na Ín- ção aos seus hábitos alimentares ancestrais.
dia, nos anos cinquenta e sessenta e em África Este processo foi particularmente notório em
(Pelizzon, 1992: 7). Em 1954 os EUA iniciaram África, mas ocorreu noutras regiões, como
o programa de vendas subsidiadas de produ- por exemplo na Coreia do Sul, que no final da
tos alimentares designado Alimentação para década de sessenta tinha passado de um país
a Paz. Sendo conhecido do público como um consumidor de arroz para um país consumidor
programa para combater a fome no mundo, a de trigo. O mesmo enviesamento de objetivos a
verdade é que, na lei que o estabeleceu, esse favor do aumento do comércio internacional e
objetivo é referido em quarto lugar, sendo os em detrimento do consumo real de alimentos
três outros vinculados aos interesses econômi- por parte dos pobres verificou-se igualmente
cos dos EUA: aliviar os excedentes agrícolas, na Índia com a revolução verde, ainda que esta
desenvolver mercados de exportação para as tenha permitido à Índia transformar-se num
mercadorias agrícolas americanas e expandir país exportador de cereais.
o mercado internacional. Não restam dúvidas Nas duas últimas décadas a condição ali-
que esse programa foi eficaz como mecanismo mentar das massas empobrecidas do Sul
de desemprego: entre 1954 e 1964 a ajuda ali- agravou-se significativamente. A dependência
mentar constituiu 34% do total das exportações alimentar que o Food for Peace tinha criado
de cereais dos EUA e 57% das importações to- nos países periféricos revelou toda a sua ne-
tais de cereais pelos países do Terceiro Mundo gatividade quando a partir de 1972 os EUA eli-
(Pelizzon, 1992: 8). É muito mais duvidoso que minaram quase totalmente esse programa e o
este programa tenha efetivamente beneficiado substituíram por vendas comerciais (Pelizzon,
os países do Sul e muitos dados convergem no 1992: 15). Esta mudança de política surgiu num
sentido de que, ao contrário, os prejudicou pe- momento particularmente difícil para o tercei-
O Norte, o Sul e a utopia 161

ro mundo. A Índia e os países do Norte de Áfri- de carne entre 1950 e 1970, o consumo de car-
ca viviam períodos de grande seca, a produção ne per capita baixou nesse período de 49 libras
mundial de cereais abrandou e os preços de para 33 libras (Pelizzon, 1992: 20). Num con-
fertilizantes subiu em resultado da crise do pe- texto internacional cada vez mais dominado
tróleo. Se, por um lado, o preço dos produtos pelas empresas agro-alimentares, a produção
alimentares subiu, por outro lado, os países do alimentar está cada vez mais vinculada à pro-
Sul viram-se forçados a prosseguir o abandono cura efectiva. A queda do rendimento dos pa-
das culturas de subsistência a fim de promover íses periféricos, sobretudo a partir da década
as culturas de exportação como solução par- de setenta, contribuiu fortemente para que na
cial para a crise produzida pela dívida externa. década seguinte a produção mundial de produ-
A subida dos preços dos produtos alimentares tos agrícolas começasse a desacelerar. É esta
foi ainda provocada pela expansão para o ter- a situação presente e por isso não surpreende
ceiro mundo do mercado de produtos alimen- que as estimativas da má nutrição no mundo
tares processados e enlatados controlado por estejam constantemente a ser corrigidas e sem-
grandes empresas multinacionais, uma subida pre para pior.
de preços articulada com a perda de valor nu- O que há de mais novo na situação presen-
tritivo dramaticamente ilustrada pela promo- te é que a má nutrição e a fome aumentaram
ção dos substitutos da amamentação materna nos próprios países centrais e muito particular-
por parte da Nestlé com as consequências que mente nos EUA. O que prova à sociedade que
são conhecidas. a fome e a má nutrição não dependem tanto
A exportação agrícola para fazer face à dí- do nível de produção agrícola ou do nível ge-
vida assumiu proporções dramáticas nalguns ral da prosperidade do país, como das assime-
países. No Brasil, por exemplo, a produção de trias sociais, do abismo crescente entre ricos
feijão preto, base da alimentação brasileira, foi e pobres. Estará certamente relacionada com
negligenciada em favor da produção de soja. O isto a ênfase recente por parte das instituições
aumento da produção de carne nos países da internacionais na recuperação, da agricultura
América Latina tão-pouco significou a melhoria tradicional. Reconhece-se que uma parte signi-
da alimentação dos seus habitantes. Apesar de ficativa da população mundial estará nas próxi-
a Costa Rica ter aumentado muito a produção mas gerações abaixo do nível de solvência que
162 Boaventura de Sousa Santos

lhes permita serem consumidores da agricul- é apenas o exemplo mais dramático. Em cada
tura comercial. Mas há também quem suspeite década, desde 1950, perderam-se 30 milhões
— com alguma razão, em vista do que mencio- de hectares de floresta na África tropical, 40
nei acima — que o interesse na recuperação milhões na América Latina e 25 milhões na
da agricultura tradicional pode estar também Ásia meridional (Pelizzon, 1992: 2). Em Áfri-
relacionado com a manutenção da biodiversi- ca é plantada apenas 1 árvore por cada 29 que
dade e do germ plasm de que os países do Sul são cortadas (Kennedy, 1993: 115). Mas a de-
são o grande depósito. Como já aconteceu no gradação ambiental provocada por esta via é
passado noutras circunstâncias, não é absurdo apenas um aspecto muito parcial de um fenó-
pensar que os agricultores do Terceiro Mundo meno muito mais amplo — a crise ecológica
venham a fornecer às empresas de biotecnolo- — tão amplo que, em meu entender, constitui
gia recursos genéticos a partir dos quais estas o terceiro vetor, juntamente com a explosão
produzam bio-produtos a que os agricultores demográfica e a globalização da economia, do
do Terceiro Mundo só terão acesso se tiverem espaço-tempo mundial. Far-lhe-ei de seguida
recursos para pagar os elevados preços que uma breve referência.
elas cobrarão por eles. De todos os problemas enfrentados pelo sis-
tema mundial, a degradação ambiental é talvez
A degradação ambiental o mais intrinsecamente transnacional e, por-
tanto, aquele que, consoante o modo como for
Disse acima que os fatores da transnaciona-
enfrentado, tanto pode redundar num conflito
lização do empobrecimento, da fome e da má
global entre o Norte e o Sul, como pode ser a
nutrição tiveram entre muitas consequências
plataforma para um exercício de solidariedade
adversas a da degradação ambiental. A pres-
transnacional e intergeracional. O futuro está,
são para intensificação das culturas de expor-
por assim dizer, aberto a ambas as possibilida-
tação combinada com técnicas deficientes de
des, embora só seja nosso na medida em que a
gestão de solos levaram à desertificação, à sa-
segunda prevalecer sobre a primeira. As pers-
linização e à erosão. A destruição das florestas
pectivas não são, no entanto, animadoras. Por
tropicais, sobretudo no Brasil e na América La-
um lado, o Norte não parece disposto a aban-
tina, mas também na Indonésia e nas Filipinas,
donar os seus hábitos poluidores e muito me-
O Norte, o Sul e a utopia 163

nos a contribuir, na medida dos seus recursos no final do século XIX, princípios do século
e responsabilidades, para uma mudança dos XX, com o corte de madeira para exportação
hábitos poluidores do Sul, que são mais uma e para construção dos caminhos de ferro (Rao,
questão de necessidade que uma questão de 1991: 14). Trata-se, pois, de uma agressão que,
opção. Por outro lado, os países do Sul tendem apoiada em vários cálculos econômicos, tem-
a não exercer a favor do equilíbrio ecológico o -se mantido décadas a fio. Em julho de 1991,
pouco espaço de manobra que neste domínio num apelo dirigido aos presidentes das repúbli-
lhes resta. Para além de muitas outras razões, e cas da América Latina, denunciava-se que, ao
por absurdo que pareça, depois do colapso do ritmo da destruição atual, no ano 2000 3/4 das
comunismo, a capacidade de poluição é talvez florestas tropicais da América Latina — que de-
a única ameaça credível com que os países do tém 60% do total mundial de florestas tropicais
Sul podem confrontar os países do Norte e ex- — terão sido destruídos e com eles 50% das
trair deles algumas concessões. espécies perdidas para sempre. Entre muitos
Cerca de um terço do solo do planeta é cons- outros efeitos, a desflorestação e a erosão do
tituído por desertos e cidades em que pouca solo traz consigo a rarificação da água potável,
atividade biológica é gerada, um terço é cons- o que sucede tanto nos países centrais como
tituído por florestas e savanas e um terço por nos periféricos. Calcula-se que 40 milhões de
terrenos de agricultura e pastorícia (Brown et camponeses chineses sofrem de escassez de
al., 1990: 5). Os dois últimos terços têm, por as- água potável devido à poluição agrícola e, por
sim dizer, vindo a diminuir e obviamente que outro lado, os resíduos de fertilizantes têm sido
não apenas por razões diretamente ligadas, no detectados nas reservas de água da França, da
caso dos países do Sul, à dívida externa. En- Alemanha, da Holanda, da Inglaterra e da Di-
tre 1950 e 1980 perderam-se 50% das reservas namarca (Pelizzon, 1992: 26). Em trinta anos,
florestais dos Himalaias devido à duplicação o mar Aral transformou-se num mar fantasma
da população e à procura que ela gerou, quer com menos 40% de área e com menos 60% de
de solo agrícola, quer de pastos, quer de lenha volume e, em menos de uma década, a Arábia
(Kennedy, 1993: 99). A verdade, porém, é que Saudita reduziu em 1/5 os lençóis aquáticos
a destruição maciça das florestas dos sopés acumulados em milhares de anos (World Re-
dos Himalaias começou com o colonialismo sources, 1990: 171-177).
164 Boaventura de Sousa Santos

Os países do Norte “especializaram-se” na do petróleo mundial —, o ecossistema mundial


poluição industrial e em tempos mais recentes dificilmente se poderá continuar a renovar na
têm conseguido exportar parte dessa poluição forma que nos é conhecida.
para os países do Sul, quer sob a forma de ven- Qual o impacto da degradação ambiental nas
da de lixo tóxico, quer por transferência de al- relações Norte/Sul? O fato de esse impacto ser
gumas das indústrias mais poluentes por ser aí crescentemente global parece indicar que não
menor a consciência ecológica e serem menos há face a ele a possibilidade de uns só retira-
eficazes (se de todo existentes) os controles rem vantagens e outros só desvantagens, pelo
antipoluição. De todos os efeitos da poluição que será “natural” a solidariedade internacio-
e da degradação ambiental em geral, os mais nal para o enfrentar. Na verdade, nada parece
ameaçadores são hoje em dia o efeito estufa e mais difícil que a construção da solidariedade
a degradação da camada de ozono, com conse- neste domínio. Em primeiro lugar, a gravidade
quências para o ecossistema da terra difíceis de do problema ambiental reside antes de mais no
prever em toda a sua extensão. As emissões de modo como afetará as próximas gerações, pelo
CO2, os clorofluorocarbonetos, a desfloresta- que a sua resolução assenta forçosamente num
ção e acidificação das florestas, a poluição dos princípio de responsabilidade intergeracional e
rios, tudo isso tem contribuído para o efeito numa temporalidade de médio e longo prazo.
estufa. Neste século a concentração atmosfé- Sucede, porém, que tanto os processos políti-
rica de CO2 aumentou de 70 partes por milhão cos nacionais, como os processos políticos in-
para cerca de 350 partes por milhão. Atualmen- ternacionais são hoje, talvez mais do que nunca
te são lançados na atmosfera 6 bilhões de to- neste século, dominados pelas exigências a cur-
neladas de carbono. Os Estados Unidos são o to prazo. Acresce que no Norte a proeminência
maior emissor mundial de gases que produzem dos mercados financeiros e de capitais atua no
o efeito estufa com 17,6% do total de emisso- mesmo sentido, penalizando qualquer estraté-
res, seguidos pela ex-União Soviética com 12% gia empresarial, assumida ou imposta, que di-
e o Brasil com 10,5%, a China com 6,6%, a Índia minua a lucratividade no presente, mesmo que
com 3,9% e o Japão com 3,9%. Se nenhuma cor- em nome de uma lucratividade maior, mas ne-
reção for introduzida — a começar nos EUA, cessariamente incerta, no futuro. Nos países do
onde 4% da população mundial consome 1/4 Sul os processos político-econômicos são ainda
O Norte, o Sul e a utopia 165

mais complexos. Por um lado, a industrializa- as próximas gerações. Mas os países periféri-
ção de muitos países periféricos e semiperiféri- cos argumentam por vezes ao contrário, isto
cos nas duas últimas décadas ocorreu na mira é, em nome do bem-estar das próximas gera-
de força de trabalho abundante e barata e de ções para justificar as políticas poluidoras do
uma maior tolerância social e política da polui- presente. A Índia e a China, por exemplo, não
ção. Nestas condições, qualquer medida pró- admitem ser privadas de tentar para as suas
-ambiente seria contra a lógica do investimento gerações futuras um nível de vida semelhante
efetuado com as consequências previsíveis. ao que hoje usufruem os habitantes dos países
O dilema do México face ao tratado de co- centrais, mesmo que para isso seja necessário
mércio livre com os EUA e o Canadá é bem agravar o efeito de estufa. Por sua vez, o Bra-
ilustrativo. A posição do México no tratado sil, apesar de estar a mudar de política no que
pressupôs sempre que a industrialização a sul respeita à Amazônia, ressente que lhe sejam
do Rio Grande estaria sujeita a muito pouco postas restrições à desflorestação por países
controlo ecológico. Era sabido que o México cujos habitantes gastam 15 vezes mais energia
tinha excelentes leis de proteção do meio am- que os brasileiros e sem que sejam evidentes
biente mas sabia-se igualmente que não havia as contrapartidas para compensar os custos de
nem condições técnicas nem vontade política tais restrições no caso de elas serem levadas
para as aplicar eficazmente. Antes pelo con- a cabo. Por seu lado, a Indonésia propõe-se
trário. Hoje, com uma nova administração na eliminar 20% das suas florestas para que, nos
Casa Branca, mais preocupada com as ques- termos dos anúncios governamentais, “os seus
tões ambientais mas acima de tudo preocu- 170 milhões de habitantes tenham as mesmas
pada com o aumento do desemprego no país, aspirações que os habitantes dos EUA” (World
o governo mexicano vê com preocupação a Resources, 1990: 106).
possibilidade de o tratado não trazer as “van- Perante isto, tornou-se difícil imaginar medi-
tagens” esperadas por falta de salvaguardas das preventivas globais, apesar de reconhecida
ambientais na indústria mexicana. De fato, a a sua urgência. Mas mesmo que algumas sejam
lógica desta e do investimento estrangeiro que adotadas, são muito desiguais os recursos dos
a criou assentou desde o início na transferên- diferentes países para que possam ser levadas
cia dos custos da degradação ambiental para a cabo coerentemente e de modo global. Acres-
166 Boaventura de Sousa Santos

ce que, perante a concretização de um desastre Em segundo lugar, e em aparente contra-


ambiental, as medidas de proteção ou de con- dição com isto, os problemas mais sérios
tenção adequadas envolverão eventualmente com que se confronta o sistema mundial são
custos que só alguns países podem assumir. Se, globais e como tal exigem soluções globais,
em consequência do efeito de estufa, aumen- marcadas não só pela solidariedade dos ri-
tar ligeiramente o nível das águas do mar, tanto cos para com os pobres do sistema mundial,
a Holanda como o Bangladesh deverão tomar como pela solidariedade das gerações pre-
medidas protectivas contra o avanço do mar, sentes para com as gerações futuras. No en-
mas obviamente o Estado de Bangladesh não tanto, os recursos económicos, sociais, políti-
disporá para isso de recursos comparáveis aos cos e culturais que tais medidas pressupõem
do Estado holandês. não parecem disponíveis no sistema mundial
Analisado à luz dos três sectores seleciona- e, em verdade, parecem hoje menos disponí-
dos — o aumento da população, a globalização veis que antes. Por um lado, a globalização da
da economia e a degradação ambiental — o es- economia deu uma proeminência sem prece-
paço-tempo mundial parece defrontar-se com dentes a sujeitos econômicos poderosíssimos
uma situação dilemática a vários níveis. Em que não se sentem devedores de lealdade ou
primeiro lugar, o modelo de desenvolvimen- de responsabilidade para com nenhum país,
to capitalista assume uma hegemonia global região ou localidade do sistema mundial. Le-
no momento em que se torna evidente que os aldade e responsabilidade, só as assumem pe-
benefícios que pode gerar continuarão confina- rante os acionistas e, mesmo assim, dentro de
dos a uma pequena minoria da população mun- alguns limites. Por outro lado, os processos
dial, enquanto os seus custos se distribuirão políticos dos Estados que compõem o sistema
por uma maioria sempre crescente. Se bem que interestatal estão cada vez mais dominados
a lógica e a ideologia do consumismo se glo- por lógicas, cálculos e compromissos de cur-
balizará, cada vez mais, a prática do consumo to prazo, avessos, por natureza, a objetivos
continuará inacessível a vastas massas popula- intergeracionais ou de longo prazo. Acresce
cionais. As desigualdades sociais entre o cen- que a própria globalização da economia e dos
tro e a periferia do sistema mundial tenderão, problemas que ela gerou minou a eficácia dos
pois, a agravar-se. dispositivos institucionais que lhe poderiam
O Norte, o Sul e a utopia 167

fazer face e nisto reside o terceiro dilema do cio de um novo ciclo de colonialismo ou, pelo
espaço-tempo mundial. menos, de neocolonialismo. Paradoxalmente,
A perda de centralidade institucional e de o colapso do “grande inimigo” da democra-
eficácia reguladora dos Estados nacionais, por cia ocidental, o comunismo, traduz-se não em
todos reconhecida, é hoje um dos obstáculos maior mas antes em menor poder democrático
mais resistentes à busca de soluções globais. internacional por parte dos países periféricos
É que a erosão do poder dos Estados nacionais e semiperiféricos. As próprias Nações Unidas,
não foi compensada pelo aumento de poder de que foram durante décadas uma das platafor-
qualquer instância transnacional com capaci- mas de concorrência entre as duas superpotên-
dade, vocação e cultura institucional viradas cias e com isso granjearam um certo poder de
para a resolução solidária dos problemas glo- arbitragem e uma cultura de imparcialidade,
bais. De fato, o caráter dilemático da situação estão hoje crescentemente prisioneiras dos in-
reside precisamente no fato de a perda de eficá- teresses geo-estratégicos dos Estados Unidos
cia dos Estados nacionais se manifestar antes da América (sem, no entanto, serem capazes
de mais na incapacidade destes para construí- de os servir de acordo com as “expectativas”
rem instituições internacionais que colmatem e norte-americanas).
compensem essa perda de eficácia. Perante uma situação multiplamente dile-
O quarto e último dilema do espaço-tempo mática, há quem não cruze os braços e procu-
mundial reside em que, no momento em que os re saídas. Não é fácil porque, como já referi, a
países centrais e as instituições internacionais erosão recente dos processos de regulação so-
sob seu controle impõem aos países periféri- cial, quer a nível nacional, quer a nível trans-
cos e semiperiféricos a adoção de regimes de nacional, acarretou consigo a erosão — e não
democracia representativa e de defesa dos di- o fortalecimento, como muitos esperavam —
reitos humanos, as relações entre Estados no dos projetos emancipatórios e da vontade po-
interior do sistema interestatal são cada vez lítica de transformação social. Mesmo assim,
menos democráticas, na medida em que os temos vindo a assistir à emergência de lutas
países do Sul têm cada vez menos autonomia que pretendem ser como que a negação dia-
interna e estão sujeitos a imposições externas lética dos dilemas acima referidos. Os seus
de toda a ordem, por vezes indiciadoras do iní- promotores são sociologicamente muito hete-
168 Boaventura de Sousa Santos

rogêneos, tanto quanto o são os seus modos da humanidade e tratados como a lei do mar
de organização e os seus objetivos. São os ou o tratado da Antártida.
movimentos ecológicos, os movimentos dos Disse acima que a prática social está estru-
direitos humanos, os movimentos dos povos turada em quatro espaços-tempo. Até agora
indígenas, os movimentos de mulheres, os debrucei-me exclusivamente sobre o espaço-
movimentos de operários de vários países a -tempo mundial, mas não porque ele detenha
trabalhar em diferentes filiais da mesma em- alguma primazia apriorística na explicação dos
presa multinacional, etc., etc. O que há de co- processos sociais da nossa contemporaneida-
mum entre estes grupos é a tentativa de dar de. É, sem dúvida, um espaço-tempo com cres-
espessura política transnacional a problemas cente poder conformador, mas a sua eficácia
transnacionais por natureza (como, por exem- depende em última instância das articulações
plo, o buraco de ozono) ou a problemas trans- que entretece com os restantes espaços-tempo.
nacionalizáveis por via das ligações entre as Por sua vez, estes têm uma autonomia própria
suas múltiplas manifestações locais em dife- que lhes advém das relações sociais de âmbito
rentes partes do globo (como, por exemplo, local ou nacional que os constituem. Referirei a
os movimentos de operários dos vários países seguir muito brevemente os problemas funda-
onde opera a mesma multinacional, ou os mo- mentais com que cada um destes espaços-tem-
vimentos dos povos indígenas pelo controlo po se debate no presente e provavelmente se
dos recursos naturais existentes nos seus ter- debaterá nas próximas décadas e o modo como
ritórios ancestrais de que foram espoliados no tais problemas se articulam com os problemas
período colonial). Muitos destes movimentos dilemáticos do espaço-tempo mundial que aca-
deram origem ou estão ligados a organizações bei de mencionar.
não-governamentais transnacionais. Tam-
bém não podem deixar de ser mencionados O espaço-tempo doméstico
os esforços da comunidade internacional no
O espaço-tempo doméstico é o espaço-tem-
sentido de dar uma resposta transnacional a
po das relações familiares, nomeadamente en-
alguns problemas do espaço-tempo mundial,
tre cônjuges e entre pais e filhos. As relações
procurando renovar o direito internacional
sociais familiares estão dominadas por urna for-
com doutrinas como a do patrimônio comum
O Norte, o Sul e a utopia 169

ma de poder, o patriarcado, que está na origem significativamente segundo a classe social


da discriminação sexual de que são vítimas as (Wright et al., 1992). Fourier estava provavel-
mulheres. Obviamente, tal discriminação não mente a ser bom sociólogo ao afirmar que a
existe apenas no espaço-tempo doméstico e é igualdade dos sexos só seria possível numa
aliás visível no espaço-tempo da produção ou sociedade que abolisse a família e permitisse
no espaço-tempo da cidadania, como terei oca- o amor livre. A ideologia patriarcal do espaço-
sião de referir. Mas o patriarcado familiar é em -tempo doméstico tende, de fato, a influenciar
meu entender a matriz das discriminações que a subordinação da mulher no mercado de tra-
as mulheres sofrem mesmo fora da família, ain- balho, sendo apropriada tanto pelo capital no
da que atue sempre em articulação com outros espaço-tempo da produção, como pelo Estado
fatores. Esse caráter matricial manifesta-se, no espaço-tempo da cidadania que a institucio-
por exemplo, no facto, frequentemente notado, naliza, nomeadamente no domínio do direito
de que a divisão sexual do trabalho no espaço- penal, direito de família e da segurança social.
-tempo doméstico tende a ser homogênea e re- Como de resto noutros domínios, a distinção
lativamente estável em formações sociais com entre o espaço-tempo doméstico e o espaço-
diferentes divisões sexuais do trabalho noutros -tempo da produção, por exemplo, é tão impor-
espaços-tempo. tante quanto as profundas articulações entre
Um pouco por toda a parte a mulher tem a eles. Por exemplo, I. Wallerstein e outros têm
seu cargo, para além da reprodução biológica, chamado a atenção para a importância crucial
a preparação dos alimentos, as compras para do trabalho não pago realizado pelas mulheres
consumo doméstico e o trabalho de organiza- no espaço-tempo doméstico, na determinação
ção e de execução que permite a reprodução capitalista dos custos do trabalho produtivo e,
funcional da unidade familiar. De uma outra portanto, na rentabilidade do capital (Wallers-
perspectiva, essa homogeneidade e estabili- tein, 1983; Chase-Dunn, 1991: 233). Trata-se
dade da divisão sexual do trabalho doméstico de uma forma não-salarial de exploração do
foi recentemente defendida por E. O. Wright trabalho feminino que indiretamente facilita
ao demonstrar que, entre as famílias norte- a exploração salarial do trabalho masculino.
-americanas e suecas, o montante de trabalho Este mecanismo funciona amplamente quando
doméstico realizado por homens não variava a mulher entra no mercado do trabalho, o que
170 Boaventura de Sousa Santos

vem a acontecer com cada vez mais intensida- é de mencionar o fato de o aumento do nível
de nas últimas décadas. educacional tornar mais amplas e exigentes as
A articulação das relações sociais do es- perspectivas de vida ativa, profissional ou não,
paço-tempo doméstico com o espaço-tempo das mulheres e de, portanto, seu comportamen-
mundial é complexa. Refiro alguns dos seus to reprodutivo tender a ser uma resposta à fal-
aspectos tendo em mente os três grandes sec- ta de condições sociais de apoio à maternidade
tores analisados: o aumento populacional, a que lhe permitam compatibilizar a maternida-
globalização da economia e a degradação do de com outros aspectos da vida ativa. A maior
meio ambiente. Dado o papel primacial das ou menor realização destas condições explica
mulheres na reprodução biológica da humani- diferenças de comportamento reprodutivo das
dade, a posição delas na família e na sociedade, mulheres em diferentes países centrais, por
a sua maior ou menor autonomia para tomar exemplo, na Suécia e no Japão.
decisões, a sua educação e os seus valores, as A globalização da economia tem vindo a ter
suas atitudes perante o controlo da natalidade um impacto significativo e multifacetado no es-
e a educação dos filhos são fatores cruciais em paço-tempo doméstico e, também neste caso, a
qualquer política coerente de controlo popula- posição das mulheres neste espaço é um ângu-
cional. Por exemplo, as estatísticas das Nações lo privilegiado de análise. O impacto tem a ver
Unidas mostram que, salvo algumas exceções, com o crescente emprego da mulher no sector
a taxa de fertilidade está intimamente relacio- industrial, com os efeitos do investimento mul-
nada com o nível educacional das mulheres, tinacional no trabalho das mulheres, com a for-
baixando à medida que este aumenta. Assim, te participação do trabalho feminino no sector
segundo o World Resources Institute, a ferti- desregulamentado ou informal da economia e,
lidade das mulheres analfabetas em Portugal finalmente, com a intensificação do trabalho
é de 3,5 enquanto a das mulheres com sete doméstico à medida que a dívida externa de
ou mais anos de escolaridade é de 1,8 (World muitos países do Sul provoca a queda dos salá-
Resources, 1990: 266). Em geral, a taxa total rios reais e do nível de vida da grande maioria
de fertilidade varia na razão direta da taxa de da população.
analfabetismo das mulheres. A explicação des- Sobretudo depois do trabalho de Esther Bo-
ta correlação é complexa. Entre outros fatores serup intitulado Women’s Role in Economic
O Norte, o Sul e a utopia 171

Development, publicado em 1970, tem prevale- tivos a situação das mulheres operárias do Nor-
cido a tendência para distinguir entre as posi- te e do Sul1. É certo que a grande maioria das
ções das mulheres — tanto no espaço-tempo mulheres ativas no Terceiro Mundo trabalham
doméstico, como no espaço-tempo da produ- na agricultura, uma percentagem que ronda os
ção — nos países do Norte e nos países do Sul. 70% na Ásia, na África e no Médio Oriente. Mas,
São três os argumentos principais apresenta- em geral, tem-se verificado unia feminização
dos por Boserup. Em primeiro lugar, a transi- da força de trabalho assalariado e a presença
ção da chamada sociedade tradicional para a das mulheres tende a ser particularmente forte
chamada sociedade moderna tem envolvido nas áreas e sectores de exportação onde o in-
sempre a queda do status social das mulheres. vestimento multinacional se tem concentrado,
Em segundo lugar, o aumento do nível tecno- ainda que, segundo Lourdes Benaria, tais áre-
lógico da produção agrícola e da produção in- as e sectores não representem mais que 3% do
dustrial afeta negativamente a taxa de empre- emprego multinacional global. No entanto, esta
go das mulheres relativamente à dos homens. percentagem oculta as extremas desigualdades
Em terceiro lugar, em toda a parte há certas de distribuição. Em certos países, as mulheres
tarefas, nomeadamente as relacionadas com chegam a atingir 80% a 90% da força de traba-
a subsistência, que são quase exclusivamente lho nas zonas e sectores de exportação. Por
desempenhadas por mulheres. outro lado, esta percentagem subestima o total
Apesar da validade geral destes argumen- do trabalho feminino para as empresas multi-
tos, eles correm o risco de criar uma imagem nacionais, uma vez que muito desse trabalho é
abstrata da “mulher do Terceiro Mundo”, per- indireto, realizado através das empresas locais
dendo de vista as diferenças da situação das por elas subcontratadas.
mulheres em diferentes países do Terceiro Mais importante ainda é o fato de as mulheres
Mundo e as diferenças de classe das mulheres serem sistematicamente vítimas de discrimina-
no interior de cada país. Para além disso, tais
argumentos podem estar parcialmente desa-
tualizados pelos processos de globalização da 1 Uma apreciação crítica do livro de Boserup em
face das transformações sociais ocorridas nos dez anos
economia nas duas últimas décadas, os quais
seguintes à sua publicação pode ler-se em Benaria e
fizeram convergir em alguns aspectos significa- Sen (1981).
172 Boaventura de Sousa Santos

ção salarial, sendo-lhes na prática negada a frui- dimentos reais da família e o impacto negati-
ção do princípio do salário igual para trabalho vo disso no espaço-tempo doméstico tende a
igual consagrado na legislação da maior parte ser suportado majoritariamente pelas mulhe-
dos países. A segmentação do mercado do tra- res. As múltiplas estratégias de sobrevivência
balho ocorre por outros fatores que não o sexo, exercitadas pelas mulheres têm uma aura de
por exemplo, pela raça e pela etnicidade. Mas a imaginação desesperada e muitas vezes trans-
segmentação pelo sexo é talvez um dos fatores bordam do espaço-tempo doméstico para a co-
mais universais e a globalização da economia munidade como, por exemplo, nos “comedores
em nada tem contribuído para o atenuar. Pelo populares” dos bairros de lata de Lima no Peru
contrário, a existência de um vasto potencial de ou nas “ollas comunes” da Bolívia (cozinhas
força de trabalho feminino a nível mundial tor- comunitárias sediadas na vizinhança).
na a prática da discriminação mais fácil. Aliás, a As transformações do espaço-tempo domés-
crescente internacionalização do capital contri- tico sob o impacto da internacionalização dos
bui por uma outra via para a transferência, para processos produtivos podem vir a ser no futu-
o espaço-tempo da produção, da dominação pa- ro ainda mais profundas, tanto no Norte, como
triarcal organizada no espaço-tempo doméstico. no Sul. Como se sabe, uma das transformações
Trata-se da prostituição e do chamado turismo históricas da família por parte do capitalis-
sexual, de que é principal cliente a classe execu- mo consistiu na conversão da família numa
tiva internacional. Nas Filipinas, as “hospedei- unidade de reprodução social (habitação, ali-
ras” (hospitality girls) registadas no Ministério mentação, socialização, reprodução biológica)
do Trabalho e do Emprego ascendem a 100.000, separada da unidade de produção que, com a
enquanto os cálculos para Banguecoque eram, primeira revolução industrial, passou a ser a fá-
em 1977, de 500.000 e para a Tailândia em ge- brica, um fenómeno analisado com particular
ral de 700.000. Estes números não cessaram de detalhe por Max Weber. Hoje em dia as novas
crescer na última década. tecnologias da informação, da comunicação,
Como em muitos países periféricos a globa- da automação estão a atuar no sentido de supe-
lização da economia e a crise da dívida externa rar esta distinção e fazer de novo convergir na
são dois fenômenos gêmeos, a proletarização família as funções de produção e de reprodu-
da família corre de par com a queda dos ren- ção. Sob diferentes formas, que, mais uma vez,
O Norte, o Sul e a utopia 173

tendem a reproduzir as hierarquias do sistema É sabido que a “modernização” e comercializa-


mundial, este fenómeno está a ocorrer tanto no ção da agricultura na periferia e semiperiferia
Norte como no Sul, e de tal modo que muitos do sistema mundial foi em geral feita em pre-
milhares de pessoas trabalham hoje em casa. juízo dos camponeses e em especial das mu-
No Norte, trata-se sobretudo de trabalhadores lheres camponesas. Para além da expulsão dos
altamente qualificados que, munidos do seu camponeses das terras mais férteis, selecio-
computador pessoal integrado em múltiplas nadas para culturas comerciais e de exporta-
redes, fazem em casa e com relativa autono- ção, os projetos de desenvolvimento agrícola
mia o trabalho que antes os fazia deslocar-se à (grandes barragens, projetos de irrigação)
empresa, perder horas nos congestionamentos têm vindo a produzir múltiplos desequilíbrios
de trânsito e trabalhar segundo horários mecâ- ecológicos, tais como desertificação e saliniza-
nicos e estandardizados. No Sul, o trabalho em ção, que tornam mais difíceis a sobrevivência
casa é quase sempre feito por mulheres e crian- diária e a vida doméstica dos camponeses. A
ças; é o trabalho realizado à peça, em geral nas desflorestação e a comercialização da flores-
indústrias trabalho-intensivas do sector têxtil ta, por exemplo, têm produzido a escassez de
e do calçado. Em conclusão, o problema fun- lenha para cozinhar os alimentos nos campos.
damental do espaço-tempo doméstico em con- Apanhar a lenha é em quase todas as partes
dições da crescente globalização da economia do sistema mundial uma tarefa feminina e os
reside em que, por um lado, a entrada no mer- dados revelam que o tempo despendido nessa
cado permite às mulheres transcender a domi- tarefa não tem parado de aumentar (Rao, 1991:
nação patriarcal do espaço-tempo doméstico, 13). Segundo Agarwal, na Gâmbia as mulheres
por outro lado, esta dominação transborda des- despendem mais de meio dia a apanhar lenha
te espaço para o espaço-tempo da produção e, (Agarwal, 1988). Por outro lado, a exploração
por essa via, reproduz, se não mesmo amplia, a desordenada dos lençóis aquáticos e a deserti-
discriminação sexual contra as mulheres. ficação tornam mais difícil a obtenção da água,
O impacto da degradação ambiental no es- outra tarefa que está em geral a cargo da mu-
paço-tempo doméstico faz-se sentir com mais lher no Terceiro Mundo.
intensidade no Sul, onde as tarefas domésticas Em conclusão, pode dizer-se que espaço-
são feitas em íntima relação com a natureza. -tempo doméstico está a passar por profundas
174 Boaventura de Sousa Santos

transformações sob o impacto do espaço-tem- Os movimentos de mulheres, quer autônomos,


po mundial. (como referi atrás, o problema fun- quer integrados noutros movimentos popula-
damental em verdade, dilemático — que tais res, como, por exemplo, o movimento operário
transformações suscitam é que se, por um lado, e o movimento ecológico, dão testemunho das
elas criam condições para unha maior emanci- possibilidades de reconstrução da subjetivida-
pação da mulher, por exemplo, através da en- de, tanto individual, corno coletiva.
trada desta no mercado de trabalho, o qual em
alguma medida a liberta da dominação patriar- O espaço-tempo da produção
cal doméstica, por outro lado, permitem que a
O espaço-tempo da produção é o espaço-
lógica desta dominação transborde do espaço-
-tempo das relações sociais através das quais
-tempo doméstico para o espaço-tempo da pro-
se produzem bens e serviços que satisfazem as
dução, por vias tão variadas quanto a discrimi-
necessidades tal como elas se manifestam no
nação sexual e o assédio sexual, reproduzindo
mercado enquanto procura efetiva. Caracte-
assim e até ampliando a discriminação contra
riza-se por uma dupla desigualdade de poder:
as mulheres. Acresce que, como ao entrar no
entre capitalistas e trabalhadores, por um lado,
espaço da produção não são aliviadas das ta-
e entre ambos e a natureza, por outro. Esta du-
refas no espaço-tempo doméstico, as mulheres
pla desigualdade assenta numa dupla relação
tendem a ser duplamente vitimizadas com os
de exploração: do homem pelo homem e da
efeitos negativos da globalização da economia.
natureza pelo homem. A importância do espa-
A consciência deste problema, apesar da sua
ço-tempo da produção reside em que nele se
natureza dilemática, não tem impedido e, pelo
gera a divisão de classes que juntamente com
contrário, tem motivado a emergência de im-
a divisão sexual e a divisão étnica constitui um
portantes movimentos de mulheres em luta por
dos grandes fatores de desigualdade social e
melhores condições de igualdade e de dignida-
de conflito social. É também nele que se cons-
de, tanto no espaço-tempo doméstico, como no
tituem as relações sociais básicas que geram,
espaço-tempo da produção. Nada mais errôneo
legitimam e tornam inevitável a degradação do
que transformar as mulheres em vítimas abstra-
meio ambiente. A conversão instrumentaliza-
tas e irrecuperáveis nas teias que a dominação
dora da força de trabalho em fator de produção
sexual e a dominação de classe entre si tecem.
O Norte, o Sul e a utopia 175

e a conversão da natureza em condição da pro- operária. São cada vez mais determinados por
dução são processos concomitantes que con- práticas sociais fora do espaço-tempo da pro-
juntamente tornaram possível uma exploração dução na esfera privada ou esfera pública e
sem precedentes na história da humanidade, com isto a categoria matricial da sociabilidade
tanto da energia humana, como dos recursos deixa de ser o trabalho para passar a ser a in-
naturais. Por último, a importância deste espa- teração. O terceiro argumento, formulado pela
ço-tempo advém-lhe por ter sido nele que se ge- primeira vez pelo movimento estudantil no fi-
raram as lutas sociais que durante décadas no nal da década de sessenta, é que a importância
nosso século ameaçaram por fim à (des)ordem do espaço-tempo da produção para a transfor-
social capitalista, o movimento operário comu- mação social decaiu a partir do momento em
nista e socialista. que o movimento operário, os sindicatos e os
A importância estrutural do espaço-tempo partidos operários se renderam à lógica capi-
da produção tem vindo a ser questionada nas talista a troco de aumentos salariais, seguran-
três últimas décadas. Três argumentos princi- ça no emprego e de outros benefícios sociais,
pais, de algum modo contraditórios, têm sido os quais se, por um lado, representaram con-
apresentados. O primeiro argumento é que a cessões importantes por parte do capital, por
sociedade capitalista evoluiu gradualmente outro lado, consolidaram a hegemonia deste,
para uma sociedade de lazer. O desenvolvi- transformando-o no único horizonte possível
mento tecnológico tem permitido ganhos tais de transformação social. Este argumento con-
de produtividade que o nível de vida e o tempo vergiu com outros nas décadas de setenta e de
livre podem aumentar conjuntamente. A ro- oitenta no sentido de relativizar o valor expli-
bótica e automação representam talvez a fase cativo das classes sociais e das lutas de classe
mais avançada deste desenvolvimento e even- nas práticas sociais e, em especial, nos proces-
tualmente libertarão o homem do trabalho pro- sos de transformação social.
dutivo. O segundo argumento, de algum modo Como facilmente se vê, estes argumentos ti-
ligado ao anterior, é que a pauta de valores e veram sempre em mente mais as realidades dos
os dispositivos culturais que orientam a ação países do Norte do que as realidades dos países
e constituem a subjetividade já não são, como do Sul, onde afinal vive 4/5 da população mun-
eram dantes, determinados pela experiência dial. Faz, pois, sentido, antes de avaliar estes
176 Boaventura de Sousa Santos

argumentos, passar em revista brevemente as de que o capital emigrou para o Sul, também é
transformações do espaço-tempo da produção verdade que, pelo menos na América, houve al-
nas duas últimas décadas em resultado da glo- guma emigração do trabalho do Sul para o Nor-
balização da economia. Aliás, algumas delas já te, onde se instalaram indústrias explorando
foram mencionadas acima ao analisar as articu- mão-de-obra barata e dócil, em modos muito
lações entre o espaço-tempo doméstico e o es- semelhantes aos que dominaram a industriali-
paço-tempo mundial. A perda da lucratividade zação do Sul. A emergência em Nova Iorque de
capital a partir da década de setenta foi um dos fábricas de vestuário empregando trabalhado-
fatores da transnacionalização da produção. A res imigrantes clandestinos levou a falar-se da
agudização da concorrência criou uma dupla “periferização do centro” (Chase-Dunn, 1991:
exigência com impacto direto na relação sala- 80). Por outro lado, tanto na periferia, como no
rial. Por um lado, a busca da redução dos custos centro, alastraram a subcontratação e a infor-
do trabalho e, por outro, o aumento da disciplina malização da relação salarial à margem da ne-
sobre o trabalho. Esta dupla exigência conduziu gociação coletiva e da legislação laboral (quan-
à maciça industrialização de alguns países peri- do existentes) com justificações semelhantes:
féricos e a uma certa desindustrialização, com a flexibilidade, adaptação ao mercado e redução
consequente perda postos de trabalho, nos paí- de custos. Por último, o crescimento acelerado
ses centrais onde, entretanto, o crescimento dos dos serviços nos países centrais esconde enor-
serviços aumentou significativamente. mes assimetrias internas: serviços altamente
O processo de globalização da economia remunerados ao lado de novos serviços muito
afetou assim tanto o centro como a periferia mal pagos, sem qualquer segurança nem pers-
do sistema mundial. Afetou-os de modo dife- pectiva de promoção.
rente, é certo, mas a hierarquia entre o centro e Sem dúvida que a globalização da economia
a periferia não se alterou muito. Mesmo assim, representou maior prosperidade para alguns
as transformações são importantes e legitimam países, mas não só manteve intactas, se não
que as “questões do desenvolvimento” tenham mesmo agravou, as assimetrias globais no sis-
deixado de ser um “privilégio” do Sul para se tema mundial, como agravou claramente as de-
aplicarem também, ainda que de forma modifi- sigualdades sociais, tanto nos países do centro,
cada, no Norte. Em primeiro lugar, se é verda- como nos países do Sul. O que este processo
O Norte, o Sul e a utopia 177

suscita do ponto de vista analítico é a necessi- escravos de um ciclo infernal do ganhar-gastar


dade de pensarmos globalmente as transforma- e os levou a aceitar como natural que os ga-
ções sociais sem contudo perdermos de vista nhos da produtividade se traduzissem sempre
as especificidades locais e nacionais com que em aumentos de rendimento, e não em meno-
se articulam. E é à luz desta exigência que deve- res horas de trabalho, como teria sido possível.
mos confrontar os argumentos acima referidos Assim, segundo os seus cálculos, os trabalha-
sob a perda de centralidade do espaço-tempo dores americanos trabalhavam cm 1987 mais
da produção. Ao fazê-lo, procurarei dar conta 163 horas por ano do que em 1969, ou seja, o
dos problemas fundamentais das relações so- equivalente a um mês adicional de trabalho
ciais deste espaço-tempo. (Schor, 1991: 79 e ss.). Este aumento não foi
Quanto ao argumento da produtividade en- distribuído igualmente pelos sexos: enquanto o
quanto geradora de lazer, os dados estão lon- aumento de horas de trabalho dos homens foi
ge de o confirmar. Pelo contrário, Juliet Schor, de 98 horas, o das mulheres foi de 305.
num livro recente e importante, significativa- A autora contrasta a situação dos trabalha-
mente intitulado The Overworked American: dores americanos com a dos trabalhadores de
The Unexpected Decline of Leisure, vem de- alguns países da Europa, onde os aumentos da
monstrar que, ao contrário do senso comum produtividade levaram de fato a uma diminui-
dos economistas e sociólogos, o lazer dos ção do tempo de trabalho, fato que ela atribui
trabalhadores americanos tem vindo a dimi- predominantemente à força do movimento
nuir consistentemente nos últimos trinta anos sindical. Julgo, contudo, que este contraste re-
(Schor, 1991). É evidente que neste período a sultará atenuado se analisarmos a evolução do
produtividade aumentou dramaticamente, mas tempo real de trabalho de 1987 para cá e, so-
o contexto social em que ela ocorreu fez com bretudo, se incluirmos nesse cálculo os países
que, em vez de reduzir as horas de trabalho, da semiperiferia europeia, como Portugal, Es-
as aumentasse. Esse contexto foi, segundo a panha, Grécia e Irlanda. Mas o mais importante
autora, caracterizado pela grande fraqueza do a reter é que as reduções do tempo de traba-
movimento sindical, incapaz de lutar pela redu- lho que foram sendo obtidas destes meados do
ção do tempo de trabalho, e pela compulsão do século XIX até à segunda guerra mundial são
consumo, que transformou os americanos em reduções de um longuíssimo tempo de traba-
178 Boaventura de Sousa Santos

lho, imposto, pela primeira vez, com a primei- a legítima — o consumismo. Através delas, o
ra revolução industrial, e que representa uma crescimento infinito da produção ocorre sime-
ruptura total com o tempo de trabalho e de la- tricamente com o crescimento infinito do con-
zer nas sociedades pré-capitalistas, onde, aliás, sumo e cada um deles alimenta-se do outro.
a distinção entre trabalho e lazer é bem mais Talvez, por isto, o segundo argumento sobre a
difícil de fazer. A investigação recente sobre perda da centralidade do espaço-tempo da pro-
o tempo medieval europeu ou sobre o tempo dução tenha uma ponta de verdade. A maior
nas sociedades ditas primitivas põe em causa a presença da prática do trabalho na vida das
ideologia da libertação do trabalho, propalada pessoas pode, em certas condições, ocorrer
pelo capitalismo. Em verdade, não só o ritmo, o de par com a inculcação de formas de sociali-
tempo e a monotonia do trabalho aumentaram, zação e de universos culturais e éticos em que
como aumentou a disciplina sobre o trabalho. o trabalho e a experiência operaria têm muito
Hoje em dia, se alargarmos o nosso ângulo de pouca importância ou são até substituídos pela
visão para além da comparação entre países do cultura do consumo e da cidadania.
Norte, e tivermos em conta a duração do traba- A dispersão social do trabalho obtida nas
lho nos países da periferia e da semiperiferia duas últimas décadas por processos tão dife-
do sistema mundial, onde a industrialização rentes como a transnacionalização dos siste-
das duas últimas décadas ocorreu, estou certo mas produtivos, a precarização e informaliza-
de que a conclusão será aí também de um sig- ção da relação salarial, o aumento do trabalho
nificativo aumento do trabalho e do controlo autônomo e ao domicílio, ao mesmo tempo
sobre o trabalho. E, à luz do que disse acima que dificulta a mobilização sindical, margina-
sobre o espaço-tempo doméstico, este aumen- liza a experiência do trabalho nos processos
to foi, por certo, particularmente pronunciado de construção da subjetividade, quer do não
no caso do trabalho feminino. trabalhador, quer do trabalhador. No que diz
Em vista disto, a centralidade do trabalho e respeito a este último, tal marginalização cor-
da produção, ao invés de diminuir, tem de fato responde a um processo de supressão e de
aumentado. E a razão para isto reside na cres- silenciamento ideológicos semelhante ao que
cente mercadorização da satisfação das neces- ocorre na experiência prisional. Especulo
sidades e na cultura que lhe está associada e mesmo se, para a esmagadora maioria dos tra-
O Norte, o Sul e a utopia 179

balhadores não qualificados do sistema mun- dominantes não se traduz em capacidade cole-
dial, o recente e crescente aumento do ritmo tiva para as transformar. Este é, para mim, um
e controlo sobre o trabalho não aproxima ar- dos problemas fundamentais com que se con-
quetipicamente, pela sua penosidade, o tempo fronta o espaço-tempo da produção.
produtivo do tempo prisional. Quando vistas de uma perspectiva do siste-
Estes processos de dispersão social e de ma mundial as concessões do capital perante
disjunção entre práticas e ideologias ajudam a força do movimento sindical — designadas
a situar o terceiro argumento sobre a perda da em geral por fordismo, compromisso histórico,
importância do espaço-tempo da produção, ou Estado-Providência, social-democracia, etc.
seja, a ideia de que o operariado deixou de ser — correspondem a um período relativamente
uma força privilegiada de transformação social. limitado do desenvolvimento do capitalismo e
Esta ideia parece hoje amplamente confirmada. abrangem um pequeno número de países e uma
O colapso do regime soviético e dos partidos pequena percentagem da força do trabalho glo-
comunistas, o abandono de alternativas socia- bal. Tais concessões foram muito importantes
listas por parte dos partidos socialistas, a inte- e, à luz delas, é compreensível, em retrospec-
gração dos sindicatos nos sistemas neocorpora- to, que elas tenham conduzido à cooptação e
tivos de concertação social, a queda dos níveis à desradicalização do movimento sindical. O
de sindicalização e o enfraquecimento global que é talvez menos compreensível é que a ero-
do movimento sindical no controlo efetivo das são atual dessas concepções decorrente da
condições de trabalho, tudo isto aponta no sen- crise do fordismo, do Estado-Providência e do
tido de retirar ao operariado qualquer privilégio enfraquecimento dos sindicatos não esteja a
nos processos de transformação social. No en- provocar nenhuma reanimação da capacidade
tanto, à luz do que disse atrás, não se pode de- emancipatória do operariado. De algum modo,
duzir daqui que o trabalho, a produção e as clas- a cooptação e a desradicalização prosseguem
ses sociais que neles se geram tenham deixado por inércia muito para além dos factores que as
de ser centrais para compreender e explicar a originaram. O dilema reside em que, mini con-
sociedade tal qual ela existe. Pelo contrário, o texto ideológico, saturado pelo consumismo, a
que é preciso é compreender ou explicar por erosão das concessões e o aumento da discipli-
que é que esta centralidade nas práticas sociais na e dos ritmos de trabalho que a acompanham
180 Boaventura de Sousa Santos

eliminam, em vez de promover, a vontade de lo é o ter invertido as expectativas de interna-


lutar por uma vida diferente e mesmo a capaci- cionalização formuladas no seu início: em vez
dade de a imaginar. da internacionalização do operariado, deu-se
Inconformados com este problema dilemá- a internacionalização do capital. Apesar de al-
tico, um pouco por toda a parte surgem movi- guma migração, o trabalho é hoje uma realida-
mentos, organizações, redes operárias muito de sitiada às ordens de um capital que circula
diferentes entre si, mas partilhando a caracte- global e incessantemente. A equação abstrata
rística de assumirem plenamente as condições entre trabalho e capital esconde uma profun-
pósfordistas. Por exemplo, emergem redes de da assimetria: é que enquanto o trabalho é uma
trabalhadores trabalhando para a mesma em- abstração tão-só de pessoas físicas, o capital é
presa multinacional em diferentes países com urna abstração de pessoas físicas e de títulos,
o objectivo de fazer frente comum a problemas decisões e documentos. Se os empresários e
comuns. Por outro lado, alguns sindicatos e seus representantes passaram a mobilizar-se
movimentos operários começam a expandir muito mais facilmente com o desenvolvimento
o horizonte das suas expectativas, das suas dos transportes aéreos, os títulos, as decisões e
exigências e também das suas solidariedades os documentos passaram a mobilizar-se instan-
para além do espaço-tempo da produção, para taneamente com a revolução eletrônica. Dada
o consumo e para a qualidade de vida, para a esta assimetria estrutural, quanto mais fácil é
habitação e para a degradação ambiental, para ao capital organizar transnacionalmente o tra-
a fome e para os desempregados, para os sem balho a seu favor, mais difícil é ao trabalho or-
abrigo, etc., etc. As dificuldades destas iniciati- ganizar-se transnacionalmente contra o capital.
vas que procuram romper o bloqueio são enor- O espaço-tempo da produção compreende
mes. Duas delas merecem especial referência. ainda, como uma dimensão relativamente au-
Em primeiro lugar, se são muito diferentes as tônoma, o núcleo das relações sociais de troca
condições de produção de país para país, são- mercantil2. Abrange, portanto, as relações so-
-no ainda mais as condições de vida, pelo que
uma ação concertada e transnacional é difícil
2 O mercado constitui um conjunto de relações so-
de organizar e muito mais de manter. Em se-
ciais cuja autonomia em relação ao espaço-tempo da
gundo lugar, uma das ironias deste fim de sécu- produção não cessa de crescer. É possível que, cm futu-
O Norte, o Sul e a utopia 181

ciais de consumo. Não todas, como está bem dentes que o espaço-tempo do mercado tem
de ver. Há, pelo menos, dois tipos de relações vindo a adquirir uma importância crescente. O
sociais de consumo que nau são feitas através problema da saturação do mercado com que o
do mercado. Por um lado, os bens e serviços capitalismo recorrentemente se confronta tem
fornecidos pelo Estado no âmbito das suas po- sido resolvido pelo desenvolvimento de novos
líticas redistribuitivas (o Estado-Providência); produtos, pela abertura de novos mercados,
por outro lado, os bens e serviços transaciona- pela promoção do consumo ligada à publicida-
dos nas redes de solidariedade, de ajuda mútua, de e ao crédito ao consumo.
de reciprocidade, o que em geral designamos É debatível a medida em que a globalização
por sociedade-providência. Em suma, cabem da economia das últimas décadas contribuiu
no nosso âmbito analítico tão-só as relações para a expansão do consumo na periferia do
sociais de consumo mercadorizado, isto é, as sistema mundial O aumento da pobreza e a
relações mediadas pelo mercado. permanência de formas de subsistência tradi-
Nas sociedades capitalistas este espaço- cional revelam que uma larga maioria da popu-
-tempo é habitado por uma forma de poder, lação mundial tem ainda muito pouco contacto
o feiticismo das mercadorias, que estabelece com o consumo mercadorizado e que, portan-
uma desigualdade estrutural entre produtores to, a maior parte da produção multinacional
e distribuidores, por um lado, e consumido- nos países periféricos não se destina obvia-
res, pelo outro. Esta forma de poder consis- mente ao mercado interno. É difícil generalizar
te no processo pelo qual a satisfação das ne- neste domínio, mas as disparidades de consu-
cessidades por via do mercado se transforma mo entre o centro e a periferia estão certamen-
numa dependência em relação a necessidades te relacionadas com o fato de a expansão do
que só existem como antecipação do consu- consumo dos trabalhadores do centro ter sido
mo mercantil e que, como tal, são a um tempo feita à custa da exploração e da contração do
plenamente satisfeitas por este e infinitamente consumo dos trabalhadores da periferia. Sid-
recriadas por ele. Resulta das análises prece- ney Mintz, no seu trabalho sobre o consumo do
açúcar no século XIX, mostra como o açúcar
produzido pelo trabalho escravo nas Caraíbas
ras revisões deste modelo analítico, o mercado passe a
constituir um espaço-tempo estrutural especifico. permitiu aos trabalhadores ingleses o acesso a
182 Boaventura de Sousa Santos

um produto alimentar e fonte de calorias que Por isso, a globalização da ideologia consumis-
antes era considerado de luxo e privilégio das ta oculta o fato de que o único consumo que
elites (Mintz, 1985). E de algum modo aconte- essa ideologia torna possível é o consumo de
ceu o mesmo com o consumo do chá e de ou- si própria. Por outro lado, esta ideologia é ver-
tros produtos, hoje de consumo corrente. No dadeiramente uma constelação de ideologias
domínio da produção de carnes, o aumento da onde se incluem a perda da auto-estima pela
produção na Costa Rica foi de par com a dimi- subjetividade não alienada pelas mercadorias,
nuição do consumo interno de carne. a deslegitimação dos produtos e dos processos
O que parece ser novo neste domínio é o au- tradicionais de satisfação das necessidades, o
mento exponencial da exportação da cultura privatismo e o desinteresse pelas formas de
de massas produzida no centro para a perife- solidariedade e de ajuda mútua ou o seu uso
ria e com ela das “estruturas de preferências” instrumentalista. Por esta via, a alienação capi-
pelos objetos de consumo ocidental. Está-se a talista pode chegar muito mais longe que o fei-
criar assim uma ideologia global consumista ticismo das mercadorias. Processos de incul-
que se propaga com relativa independência em cação ideológica, aparentemente os mesmos
relação às práticas concretas de consumo de e recorrendo a dispositivos semelhantes — os
que continuam arredadas as grandes massas mesmos anúncios da Coca Cola ou da Pepsi
populacionais da periferia. Estas são dupla- mostrados em todas as televisões do mundo,
mente vitimizadas por este dispositivo ideoló- 600 milhões segundo os cálculos —, podem es-
gico: pela privação do consumo efetivo e pelo tar, em contextos diferentes, ao serviço de prá-
aprisionamento no desejo de o ter. Pior que ticas de dominação também diferentes. Esta
reduzir o desejo ao consumo é reduzir o consu- dupla armadilha coloca uma grande parte da
mo ao desejo do consumo. população mundial numa situação dilemática:
Esta dupla vitimização é também uma dupla não está dentro da sociedade de consumo e
armadilha. Por um lado, nem o desenvolvimen- tão-pouco está fora dela.
to desigual do capitalismo, nem os limites do Algumas iniciativas e movimentos popula-
eco-sistema planetário permitem a generaliza- res nos países periféricos têm vindo a tentar
ção a toda a população mundial dos padrões de romper este dilema reinventando processos e
consumo que são típicos dos países centrais. conhecimentos locais para a satisfação de ne-
O Norte, o Sul e a utopia 183

cessidades, transformando-os e adaptando-os to-realização e as desvia das relações interpes-


a novas necessidades, relegitimando solidarie- soais para as relações entre pessoas e objetos.
dades e produtos tradicionais, tudo isto com
o objetivo de criarem espaços de autonomia O espaço-tempo da cidadania
prática ideológica onde seja possível pensar
Finalmente, o espaço-tempo da cidadania é
formas de transformação social alternativas
constituído pelas relações sociais entre o Esta-
à do consumismo capitalista, assente na desi-
do e os cidadãos, e nele se gera uma forma de
gualdade, no desperdício e na destruição do
poder, a dominação, que estabelece a desigual-
meio ambiente. No entanto, estas iniciativas e
dade entre cidadãos e Estado e entre grupos
movimentos, para serem verdadeiramente efi-
e interesses politicamente organizados. Muito
cazes, deveriam estabelecer uma ligação entre
do que ficou dito atrás tem implicações diretas
o seu âmbito local e o âmbito global em que
com as transformações por que tem passado
se desenrola a ideologia do consumismo. Essa
nas três últimas décadas este espaço-tempo
ligação exigiria, por um lado, a articulação com
que tão crucial foi para a implantação social e
outras iniciativas e movimentos locais noutras
política da modernidade.
partes da periferia do sistema mundial e, por
O Estado tem sido desde o século XVII e
outro lado, a articulação com as iniciativas e
sobretudo desde o século XIX a unidade polí-
movimentos de consumidores nos países cen-
tica fundamental do sistema mundial, e o seu
trais. No entanto, se a primeira articulação é
impacto nos demais espaços-tempo foi sempre
difícil, ainda o é mais a segunda. Esta última se-
decisivo. O espaço mundial, se é espaço da eco-
ria de importância particular porque, de todas
nomia mundial, é também o espaço do sistema
as disparidades entre o Norte e o Sul, as dispa-
interestatal, assente na soberania absoluta dos
ridades no consumo são, sem dúvida, as mais
Estados e nos consensos entre eles obtidos
evidentes e, como tal, potencialmente as mais
como meio de prevenir a guerra. O espaço-
adequadas a traduzirem-se em representações
-tempo doméstico começou a ser fortemente
sociais de injustiça e em energias solidaristas.
regulado pelo Estado a partir do século XIX
A verdade é que tal possibilidade se encontra
num crescendo que atingiu o seu clímax no Es-
em grande medida bloqueada pela própria lógi-
tado-Providência. Por sua vez, o espaço-tempo
ca consumista que privatiza as energias de au-
184 Boaventura de Sousa Santos

da produção viveu sempre dependente da “mão Entre eles, as Filipinas, o Camboja, o Myanniar,
visível” do Estado e a regulamentação cresceu a Tailândia, o Sri Lanka, a Índia, o Afeganistão,
com o crescimento das relações mercantis. o Líbano, o Chad, o Uganda, Moçambique, An-
Este estado de coisas tem, no entanto, vindo gola, a Somália, a Libéria, o Sudão, a Etiópia, a
a mudar desde a década de sessenta, e de al- Colômbia, El Salvador, a Guatemala, o México
gumas das mudanças já dei conta atrás. Tanto e agora, na Europa, os Estados que resultaram
no plano internacional como no plano interno, do colapso da União Soviética e da Jugoslávia.
muitas dessas mudanças são o reverso das que Mas se no plano interno o Estado está a ser
têm ocorrido nos outros espaços. No plano cada vez mais confrontado com forças subes-
interno, tanto as privatizações e a desregula- tatais, no plano internacional confronta-se com
mentação do mercado, como a reemergência as forças supra-estatais que já acima assinalei
das identidades étnicas e religiosas são, cada ao falar nas transformações do espaço-tempo
uma a seu modo, manifestações de uma certa mundial. A erosão da soberania de que tanto
retração do Estado. A mesma retração se ob- hoje se fala não é de fato um fenómeno novo.
serva com a crise da função providencial com Ao contrário, tem caracterizado desde sempre
a devolução aos espaços doméstico e da produ- a experiência dos Estados periféricos e semi-
ção dos serviços sociais, antes prestados pelo periféricos nas suas interações com Estados
Estado. Tal retração é ainda observável quando centrais. O que é novo é o fato de essa erosão e
o Estado perde o monopólio da violência legí- de essa permeabilidade da soberania estar hoje
tima que durante dois séculos foi considerada a ocorrer nos Estados centrais.
a sua característica mais distintiva. Calcula-se Este processo de erosão da soberania, que
que hoje, nos EUA, 1 em cada 3 polícias é priva- faz desta menos um valor absoluto do que um
do; no ano 2000 a proporção será de 1 em cada título negociável, apesar de ocorrer globalmen-
2 (Delurgian, 1992a: 18). Em geral os Estados te, não elimina, e, pelo contrário, agrava as dis-
periféricos nunca atingiram na prática o mo- paridades e as hierarquias no sistema mundial.
nopólio da violência, mas parecem estar hoje Como referi acima, este fato torna urgente uma
mais longe de o conseguirem do que nunca. São nova ordem trans-nacional adaptada a novas
muitos os países em que partes do território condições, a qual, no entanto, parece estar a ser
são controladas por forças paralelas ao Estado. bloqueada precisamente pelas condições que a
O Norte, o Sul e a utopia 185

tornam urgente: a erosão da soberania do Es- poder que designo por diferenciação desigual e
tado e a perda de centralidade do Estado em que produz desigualdades, tanto no interior do
face de forças subestatais e supra-estatais. E grupo ou comunidade, como nas relações in-
se a democratização das relações entre os Es- tergrupais ou intercomunitárias. Tais desigual-
tados parece estar longe, tão-pouco está perto dades podem ser abissais ou mínimas; corres-
da democratização interna dos Estados, apesar pondentemente, o espaço-tempo comunitário
das proclamações e injunções em sentido con- pode ser despótico ou convivencial. É enorme
trário. A perda de eficácia dos Estados, combi- a diversidade de relações sociais que compre-
nada com a erosão da soberania no interior de endem este espaço-tempo. Tendo em vista a
um sistema interestatal muito hierárquico, e a perspectiva analítica aqui adoptada de tentar
ausência de condições que tornem efetiva a de- identificar os problemas fundamentais deste
mocracia na grande maioria dos países do siste- espaço-tempo a partir das transformações por
ma mundial, não augura um futuro risonho para que passaram nas duas últimas décadas, em
o sistema interestatal tal como o conhecemos. articulação com as transformações do espaço-
O espaço-tempo da cidadania compreen- -tempo mundial e, em especial, com a globali-
de ainda, como uma dimensão relativamente zação da economia, farei uma menção breve
autônoma, a comunidade, ou seja, o conjunto a dois tipos de relações sociais — as relações
das relações sociais por via das quais se criam étnicas e as relações religiosas.
identidades coletivas de vizinhança, de região, Curiosamente, qualquer destas relações so-
de raça, de etnia, de religião, que vinculam os ciais e, em verdade, todas as que constituem o
indivíduos a territórios físicos ou simbólicos e espaço-tempo comunitário, foram declaradas
a temporalidades partilhadas passadas, presen- em declínio irreversível pela modernidade. O
tes ou futuras3. As relações sociais que consti- racionalismo iluminista, em conexão com o ca-
tuem este espaço-tempo geram uma forma de pitalismo liberal e individualista, por um lado,
e o Estado moderno, democrático, por outro,
pareceram capazes de destronar para sempre,
3 A comunidade tem vindo a conquistar uma autono- tanto na Europa, corno no mundo por ela co-
mia crescente cm relação ao espaço-tempo da cidadania.
lonizado, as identidades ditas tradicionais, re-
E possível que em futuros trabalhos a comunidade passe
a constituir um espaço-tempo estrutural autónomo. trógradas, primitivas que sustentavam tais re-
186 Boaventura de Sousa Santos

lações, e o Estado foi o dispositivo privilegiado Estados mais e mais se descumprem à medida
para levar a cabo essa tarefa. Enquanto Estado que a globalização da economia elimina todas
nacional, assente num princípio de cidadania, as veleidades de autonomia por parte dos paí-
criava uma nova comunidade, a comunidade ses periféricos, é talvez de esperar que as mas-
nacional, que substituiria a comunidade étnica; sas populares voltem a revalorizar e a recriar
enquanto Estado secular, assente num princí- identidades ancestrais que afinal asseguraram
pio de separação entre a igreja e o Estado, cria- a sobrevivência e a dignidade coletivas durante
va uma cultura pública específica, o secularis- séculos, as “comunidades humanas, naturais e
mo, que a prazo tornaria a identidade religiosa imediatas” de que fala Ernest Wamba Dia Wam-
obsoleta. A verdade é que nas últimas décadas ba (1991: 221).
este projeto modernista foi posto drasticamen- Se as fronteiras nacionais têm sempre algo
te em causa quando, para surpresa de muitos, de artificial, em alguns casos esse artificialis-
as identidades e as lealdades primordiais da et- mo é particularmente acentuado. Isto acontece
nia e da religião ganharam nova força, ao mes- mesmo na Europa, no caso da Europa do Leste,
mo tempo que o caráter nacional do Estado e o onde as fronteiras foram marcadas e desmarca-
secularismo entravam em crise. das recorrentemente ao longo de uma história
A reemergência das identidades étnicas está muito conturbada. Os acontecimentos recen-
a ocorrer um pouco por toda a parte e é certa- tes e aí em curso são indicativos de que só ago-
mente incorreto atribuí-la a uma só causa. No ra se está a pôr fim, e de maneira novamente
entanto, uma das mais importantes é certamen- dolorosa, aos três últimos impérios da Europa:
te o próprio processo histórico da constituição o Otomano, o dos Habsburgos e o Russo. Fora
de muitos dos Estados modernos, tanto na da Europa o problema acentua-se ainda mais
Europa, como no contexto pós-colonial. Ape- em virtude da imposição colonial que está na
sar de assentes na equação entre Estado e na- base de muitas fronteiras estatais. Aliás, alguns
ção, muitos desses Estados são multi-étnicos dos Estados da periferia mundial são quase
e assentam na imposição de uma dada etnia imperiais, na medida em que incluem grupos
sobre as restantes existentes no mesmo espa- populacionais importantes com identidades
ço geopolítico. Num momento em que as pro- diferentes da que é oficialmente reconhecida,
messas de progresso e bem-estar feitas pelos como, por exemplo, a Índia, o Paquistão, a Chi-
O Norte, o Sul e a utopia 187

na, a Nigéria ou a Etiópia. Mas para além deles identidades e lealdades étnicas e, em algumas
existem muitos outros e para tanto basta ver a situações, as duas sobrepõem-se. A partir da
lista de Estados com “minorias muito amplas” Revolução Francesa, o Estado moderno as-
organizada por Anthony Smith (1988). sumiu gradualmente muitas das tarefas e po-
A crise do Estado e das ideologias desen- sições sociais que eram antes ocupadas pela
volvimentistas abre neste domínio uma caixa Igreja, um processo que se designou em geral
de Pandora donde podem sair, lado a lado, e por secularização e que, pelo seu papel crucial,
às vezes misturados, o racismo, o chauvinismo passou a ser considerado como um dos traços
étnico e mesmo o etnocídio, por um lado, e a principais da modernidade. Se no espaço co-
criatividade cultural, a autodeterminação, a to- lonial a relação entre o Estado e a religião foi
lerância pela diferença e a solidariedade, por mais complexa devido à coexistência de reli-
outro. A dificuldade dilemática neste domínio giões europeias, não europeias e de novas re-
reside precisamente em que à partida é difícil ligiões sincréticas, e devido também à relação
prever qual destes processos prevalecerá ou se- de suporte mútuo entre o Estado colonial e a
quer se qualquer deles pode em dadas circuns- religião europeia, no período pós-colonial, os
tâncias transmutar-se no outro. Os termos em novos Estados assumiram o mesmo papel de
que se deu e continua a dar a globalização do modernizadores colocando, também eles, a re-
sistema mundial origina recorrentemente pro- ligião numa posição defensiva de resistência e
cessos de fragmentação e de localização. Nas de adaptação semelhante à que ela assumiu no
condições presentes, a articulação entre estes quadro europeu.
é fundamental para potenciar o que há de pro- A verdade é que, durante estes quase dois
gressivo e emancipatório neles e para neutrali- séculos, nenhuma das grandes religiões colap-
zar o que há neles de retrógrado e mesmo rea- sou e algumas delas expandiram-se enorme-
cionário. No entanto, dado que tal articulação mente, como é o caso do Islão, cuja expansão,
implica em si mesmo um processo de globaliza- depois ele correr a África e o Sudeste Asiático,
ção, como é que se podem globalizar as diferen- alastrou à Europa Ocidental e à América do
ças sem esmagar, no processo, algumas delas? Norte. Há hoje 1,5 milhão de muçulmanos na
As identidades e lealdades religiosas têm Inglaterra, mais que os metodistas e batistas
vindo a ter um ressurgimento paralelo ao das juntos, e na França esse número atinge cerca
188 Boaventura de Sousa Santos

de 7 milhões (Delurgian, 1992b: 7). Por outro social e da orientação política. De um lado, a
lado, as primeiras décadas do século XX pre- teologia da libertação dos bairros da lata e da
senciaram, tanto no centro, como na periferia selva indígena na América Latina, do outro, a
do sistema mundial, um surto de fundamenta- direita religiosa nos EUA. Em geral, este re-
lismo religioso. Movimentos evangélicos nos nascimento religioso tem provocado alguma
EUA, o integralismo e a Opus Dei na Europa, perturbação no interior das hierarquias das re-
o culto dos milagres em Fátima e mais tarde ligiões históricas, sobretudo quando se traduz
em Medjugorie, na Croácia, são manifestações em práticas e objetivos não sancionados pelas
de fundamentalismo no centro e na semiperi- instituições religiosas.
feria que ocorrem quase simultaneamente com Longe de significar um regresso ao passado,
movimentos paralelos e igualmente fundamen- o novo surto da religiosidade exprime, acima
talistas na periferia, como, por exemplo, a Ir- de tudo, um ressentimento perante as promes-
mandade islâmica fundada no Egito em 1988 sas modernizadoras e progressistas não cum-
(Delurgian, 1992b: 11). pridas e, portanto, uma grande desconfiança
Apesar disto, durante os anos cinquenta e face às instituições que se proclamaram arau-
sessenta, o secularismo parecia haver triunfa- tos dessas promessas, sobretudo o Estado e
do e o fundamentalismo parecia ter sido redu- o mercado. Na periferia do sistema mundial,
zido à ínfima expressão. A partir da década de o revivalismo fundamentalista, sobretudo do
setenta, no entanto, o secularismo começou a fundamentalismo islâmico, deve ser visto em
regredir ou, pelo menos, assim foi interpreta- geral como uma resposta ao fracasso do na-
do o revivalismo religioso que então emergiu cionalismo e do socialismo, e como uma alter-
e que em boa verdade tem vindo a crescer até nativa que, ao contrário do que sucedeu com
ao presente sob múltiplas formas: novas reli- estes dois últimos, não assenta na imitação do
giões, movimentos fundamentalistas dentro Ocidente e na rendição ao imperialismo cul-
das religiões históricas, aumento da prática tural deste, e antes se baseia na possibilidade
religiosa de camadas sociais anteriormente de um projeto social, político e cultural autô-
tidas por secularizadas (por exemplo, os jo- nomo. Nos países centrais, alguns movimentos
vens). Trata-se de um fenómeno internamente protagonizados por minorias étnicas partilham
muito diferenciado em termos de composição alguns dos traços desta postura cultural com o
O Norte, o Sul e a utopia 189

objetivo de denunciarem o colonialismo inter- pelo separatismo e pela incomunicação e, afi-


no de que são vítimas, enquanto outros, com nal, pela intolerância.
forte composição de classe média, assumem a
postura de autonomia e separação a partir do As dificuldades fundamentais
pólo oposto, traduzindo-a em retórica e práti- Os problemas com que as sociedades con-
cas racistas e xenofóbicas dirigidas sobretudo temporâneas e o sistema mundial se confron-
contra imigrantes do Terceiro Mundo. tam no fim do século são complexos e difíceis
Tal como sucede com as identidades e le- de resolver. São fundamentais, na designação
aldades étnicas e, como vimos, muitas vezes de Fourier, a exigir soluções fundamentais.
interpenetradas por elas, as identidades e leal- Eis um breve resumo dos problemas que iden-
dades religiosas constituem uma caixa de Pan- tifiquei na análise precedente. Emergiram ou
dora de que podem jorrar tanto energias des- agravaram-se nas duas últimas décadas uma sé-
trutivas, como energias construtivas. O dilema rie de problemas transnacionais, alguns trans-
reside em que a crítica radical que, sobretudo nacionais por natureza e outros transnacionais
os países periféricos dirigem às promessas da pela natureza do seu impacto. São os proble-
modernidade e do capitalismo eurocêntricos, mas da degradação ambiental, do aumento da
ocorre num momento de crise profunda do população e do agravamento das disparidades
paradigma da modernidade e, portanto, num de bem-estar entre o centro e a periferia, tan-
momento em que se começa a reconhecer que to ao nível do sistema mundial, como ao nível
essas promessas tão-pouco foram cumpridas de cada um dos Estados que o compõem. Há
nos países centrais e tão pouco podem vir a quem prefira, como Paul Kennedy, conceber es-
sê-lo dentro deste paradigma. Este reconhe- tes problemas como grandes desafios e especu-
cimento, na medida em que relativiza e ques- le sobre os países que, com base nas soluções
tiona as realizações do paradigma ocidental, técnicas disponíveis, mais ou menos bem pre-
cria condições para uma nova tolerância dis- parados para os defrontar (os vencedores e os
cursiva, para uma interação mais horizontal vencidos). A verdade é que em relação a mui-
entre alternativas epistemológicas, culturais e tos destes desafios temos razões de sobra para
sociais. No entanto, este potencial de tolerân- suspeitar que as chamadas soluções técnicas
cia manifesta-se paradoxalmente e, por agora, não produzirão senão vencidos; e em relação
190 Boaventura de Sousa Santos

a outros desafios, aceitar a ideia de que inevi- sobre parte do território nacional. Esta crise do
tavelmente uns países vencerão e outros serão sujeito significa que o sistema mundial capita-
vencidos equivale a subscrever uma solução lista, ao mesmo tempo que transnacionaliza os
malthusiana, o que, nas condições presentes e problemas, localiza as soluções e, efetivamen-
perante os riscos em jogo, pode significar abrir te, dada a crise do Estado, faz baixar o patamar
mão de preciosos recursos naturais, humanos de localização para o nível subnacional. Aliás,
e morais em todo o sistema mundial. é possível argumentar que, sobretudo nos pa-
Os desafios são, de fato, problemas funda- íses centrais, o horizonte social das soluções,
mentais a reclamar soluções fundamentais, no mais do que localizado, está privatizado. O ca-
fundo, uma nova ordem transnacional e uma pitalismo é hoje menos um modo de produção
nova ordem nacional com as linhas entre am- que um modo de vida. O individualismo e o con-
bas cada vez mais difíceis de estabelecer. Como sumismo transferiram para a esfera privada a
vimos, as dificuldades de uma tal nova ordem equação entre interesse e capacidade. É nessa
são enormes. Em resumo, são três as principais. esfera que hoje os indivíduos identificam me-
Em primeiro lugar, a dificuldade do sujeito. Nas lhor os seus interesses e as capacidades para
condições presentes, os Estados nacionais te- lhes dar satisfação. A redução à esfera privada
rão de ser forçosamente um sujeito privilegia- desta equação faz com que muitas das desigual-
do, ainda que complementado por movimentos dades e opressões que ocorrem em cada um
sociais e organizações não governamentais dos espaços-tempo estruturais sejam invisíveis
transnacionais e organizações internacionais, ou, se visíveis, trivializadas.
etc. Vimos, porém, que a crise de Estado, que A segunda dificuldade diz respeito à tempo-
potencia a urgência de uma nova ordem inter- ralidade própria de uma solução fundamental.
nacional, é afinal a crise do sujeito dessa or- Essa temporalidade é intergeracional, portan-
dem. No plano interno, parece que essa crise to, de médio e longo prazo. Mas, como vimos,
se vai traduzir nos próximos anos no aumento tudo parece conspirar contra tal temporalida-
das convulsões sociais, no fundamentalismo re- de. Durante décadas, o comunismo manteve
ligioso, na criminalidade, nos motins motivados viva essa temporalidade, ainda que a pratica
pelas iniquidades do consumo, na guerra civil dos regimes comunistas a negasse grosseira-
e, nalguns casos, na perda de controle político mente sobretudo no domínio ecológico. Hoje,
O Norte, o Sul e a utopia 191

a classe política vive atascada nos problemas e mente. Por isso, os problemas que elas criam
nas soluções de curto prazo, segundo a tempo- no presente cm nome do futuro tendem a ser
ralidade própria dos ciclos eleitorais, nos paí- mais visíveis e certos que os problemas futuros
ses centrais, ou dos golpes e contra-golpes, nos que elas pretendem resolver no presente. Isto
países periféricos. Por outro lado, uma parte me conduz à terceira e última dificuldade das
significativa da população nos países centrais soluções fundamentais: a questão do inimigo.
vive dominada pela temporalidade cada vez Ao contrário do que se poderia pensar, a globa-
mais curta e obsolescente do consumo, en- lização dos problemas não torna os seus cau-
quanto uma grande maioria da população dos sadores mais visíveis ou mais facilmente iden-
países periféricos vive dominada pelo prazo tificáveis. De algum modo, a globalização dos
imediato e pela urgência da sobrevivência diá- problemas globaliza o inimigo e se o inimigo
ria. As condições e os sujeitos do pensamento está em toda a parte, não está em parte nenhu-
estratégico, de longo prazo, parecem cada vez ma. Esta é uma dificuldade verdadeiramente
menos presentes no sistema mundial. De fato, dilemática, porque as coligações revolucioná-
hoje em dia apenas um sujeito tem condições rias ou reformistas foram sempre organizadas
para pensar estrategicamente: um grupo redu- contra um inimigo bem definido. Se, como dis-
zido de empresas multinacionais dominantes. se acima, há certos problemas em relação aos
Mais do que os Estados hegemônicos, é este quais ninguém poderá a prazo ganhar com a
grupo que amarra os países periféricos e semi- sua irresolução, parece ser impossível, nesses
periféricos à urgência dos ajustamentos estru- casos pelo menos, determinar o inimigo con-
turais (que têm, em verdade, muito pouco de tra o qual seja preciso organizar uma solução
estrutural) e as classes políticas, ao curto pra- do problema. É certo que mencionei acima o
zo político que em parte deles decorre. Mais do papel das empresas multinacionais na criação
que os Estados hegemônicos, é este grupo que dos nossos problemas pelo simples facto de se-
amarra uma parte do mundo à compulsão do rem elas hoje os únicos titulares de pensamen-
consumo imediatista e outra ao imediatismo da to estratégico no sistema mundial. Mas é evi-
luta pela sobrevivência. dente que não são o único inimigo identificável
O problema das soluções intergeracionais é nem tão-pouco me parece que o inimigo possa
que elas têm de ser executada. intrageracional- ser identificado apenas ou sobretudo ao nível
192 Boaventura de Sousa Santos

institucional. Os nossos problemas são mais tre Estados e a democracia interna, respecti-
fundos, e as instituições só podem resolvê-los vamente. O quarto e último axioma é a crença
depois de transformadas e reinventadas ao ní- no progresso entendido como um desenvolvi-
vel a que os problemas ocorrem. mento infinito alimentado pelo crescimento
Quatro axiomas fundamentais da moder- econômico, pela ampliação das relações e pelo
nidade estão, em meu entender, na base dos desenvolvimento tecnológico.
problemas com que nos confrontamos. O pri- Estes axiomas moldaram a sociedade e a
meiro, deriva da hegemonia que a raciona- subjetividade, criaram una epistemologia e
lidade científica veio a assumir e consiste na uma psicologia, desenvolveram uma ordem de
transformação dos problemas éticos e polí- regulação social e, à imagem desta, uma von-
ticos em problemas técnicos. Sempre que tal tade de desordem e de emancipação. Daí que
transformação não é possível, uma solução o inimigo das soluções fundamentais tenha
intermédia é buscada: a transformação dos de ser buscado em múltiplos lugares, inclusi-
problemas éticos e políticos em problemas ju- vamente em nós mesmos. Daí também que a
rídicos. O segundo axioma é o da legitimidade crise da ordem social torne mais difícil, e não
da propriedade privada independentemente da mais fácil, pensar a desordem verdadeiramente
legitimidade do uso da propriedade. Este axio- emancipadora.
ma gera ou promove uma postura psicológica Perante isto, que fazer?
e ética — o individualismo possessivo — que,
articulada com a cultura consumista, induz o A utopia e os conflitos
desvio das energias sociais da interação com paradigmáticos
pessoas humanas para a intração com objetos “O futuro já não é o que era”, diz um graffitti
porque mais facilmente apropriáveis que as numa rua de Buenos Aires. O futuro prometi-
pessoas humanas. O terceiro axioma é o axio- do pela modernidade não tem, de fato, futuro.
ma da soberania dos Estados e da obrigação Descrê dele, vencida pelos desafios, a maioria
política vertical dos cidadãos perante o Estado. dos povos da periferia do sistema mundial,
Por via deste axioma, tanto a segurança inter- porque em nome dele negligenciaram ou recu-
nacional, como a segurança nacional adquirem saram outros futuros, quiçá menos brilhantes
“natural” precedência sobre a democracia en- e mais próximos do seu passado, mas que ao
O Norte, o Sul e a utopia 193

menos asseguravam a subsistência comunitá- tarefa, que é de longe a mais importante, é


ria e uma relação equilibrada com a natureza, também de longe a mais difícil. É-o sobretudo
que agora se lhes deparam tão precárias. Des- porque o paradigma dominante, a modernida-
crêem dele largos sectores dos povos do centro de, tem um modo próprio, ainda hoje hegemô-
do sistema mundial, porque os riscos que ele nico, de combinar a grandeza do futuro com a
envolve — sobretudo os ecológicos — come- sua miniaturização. Consiste na classificação
çam a ser mais ilimitados que ele próprio. Não e fragmentação dos grandes objetivos em so-
admira que em face disto muitos tenham assu- luções técnicas que têm de característico o se-
mido uma atitude futuricida; assumir a morte rem credíveis para além do que é tecnicamen-
do futuro para finalmente celebrar o presente, te necessário. Este excesso de credibilidade
como sucede em certo pós-modernismo, ou das soluções técnicas, que é parte intrínseca
mesmo para celebrar o passado, como sucede da cultura instrumental da modernidade, ocul-
com o pensamento reacionário. A verdade é ta e neutraliza o déficit de futuro delas. Por
que, depois de séculos de modernidade, o vazio isso, tais soluções não deixam pensar o futu-
do futuro não pode ser preenchido nem pelo ro, mesmo quando elas próprias já deixaram
passado nem pelo presente. O vazio do futuro é de o pensar.
tão-só um futuro vazio. Perante isto, como proceder? Penso que só
Penso, pois, que, perante isto, só há uma saí- há uma solução: a utopia. A utopia é a explora-
da: reinventar o futuro, abrir um novo horizon- ção de novas possibilidades e vontades huma-
te de possibilidades, cartografado por alterna- nas, por via da oposição da imaginação à ne-
tivas radicais às que deixaram de o ser. cessidade do que existe, só porque existe, em
Com isto assume-se que estamos a entrar nome de algo radicalmente melhor que a huma-
numa fase de crise paradigmática, e portanto, nidade tem direito de desejar e por que merece
de transição entre paradigmas epistemológi- a pena lutar. A utopia é, assim, duplamente re-
cos, sociais, políticos e culturais. Assume-se lativa. Por um lado, é uma chamada de atenção
também que não basta continuar a criticar o para o que não existe como (contra)parte inte-
paradigma ainda dominante, o que, aliás, está grante, mas silenciada, do que existe. Pertence
feito já à saciedade. É necessário, além disso, à época pelo modo como se aparta dela. Por
definir o paradigma emergente. Esta última outro lado, a utopia é sempre desigualmente
194 Boaventura de Sousa Santos

utópica, na medida em que a imaginação do tífico, como se as leis da evolução da sociedade


novo é composta em parte por novas combina- pudessem prever um futuro radicalmente dife-
ções e novas escalas do que existe. Uma com- rente do presente. No caso de Fourier, o impac-
preensão profunda da realidade é assim essen- to do cientismo é mais complexo, pois em vez
cial ao exercício da utopia, condição para que de negar a utopia por via da ciência procura
a radicalidade da imaginação não colida com o criar uma utopia científica. Daí que, para ele,
seu realismo. Na fronteira entre dentro e fora, a as leis de Newton sejam apenas uma aplicação
utopia é tão possuída pelo Zeitgeist como pela local de um princípio muito vasto, o princípio
Weltschmerz. da atração passional, de que se pretende arau-
Não é fácil hoje defender ou propor a uto- to; daí também a sua compulsão pelos cálculos
pia, apesar de o pensamento utópico ser uma matemáticos, as simetrias e as analogias, pela
constante da cultura ocidental, se não mesmo determinação do número preciso de pessoas
de outras culturas. A dificuldade não deixa, no em cada falanstério ou do número preciso de
entanto, de ser, à primeira vista, surpreenden- anos de vida dos harmonianos.
te, pois a modernidade é uma época fértil em Por esta razão, o nosso século tem sido
utopias, a começar com a Utopia que criou a paupérrimo em pensamento utópico, o que
designação comum, a de Thomas More, escrita durante muito tempo foi pensado como sen-
em 1515 e 1516, e a culminar nas utopias socia- do um efeito normal do progresso da ciência
listas do século XIX. A verdade é que a expan- e do processo de racionalização global da vida
são da racionalidade científica e da ideologia social por ela tornada possível. No entanto, a
cientista a partir de meados do século XIX e a crise da ciência moderna, hoje bem evidente,
sua expansão do estudo da natureza para o es- obriga a questionar esta avaliação e esta expli-
tudo da sociedade foram criando um ambiente cação. Não será que a morte do futuro que hoje
intelectual cada vez mais hostil ao pensamento tememos foi anunciada há muito pela morte da
utópico, e isso é bem evidente, ainda que de utopia? Não será que a perda da inquietação
modo muito diferente, no pensamento de Fou- e busca de uma vida melhor contribui para a
rier e no pensamento de Marx. No caso deste emergência da subjetividade conformista que
último, a dimensão utópica da sociedade co- considera melhor, ou pelo menos inevitável,
munista é suprimida sob o determinismo cien- tudo o que for ocorrendo só porque ocorre e
O Norte, o Sul e a utopia 195

por pior que seja? Diz Sartre que “uma ideia de possibilidades e cria alternativas; enquanto
antes de ser realizada se parece estranhamen- nova psicologia, a utopia recusa a subjetivida-
te com a utopia”. Será que a recusa da utopia de do conformismo e cria a vontade de lutar
não acabou por redundar na recusa das ideias por alternativas. Como Ernst Cassirer mostrou
por realizar? A verdade é que, como tem sido magistralmente no caso da Renascença e do
frequentemente assinalado, as utopias anteci- Iluminismo, uma transição paradigmática im-
pam, por vezes em séculos, a anti-utopia. Num plica sempre uma nova psicologia e uma nova
período particularmente fértil em utopias, o sé- epistemologia (Cassirer, 1960; 1963). O conhe-
culo XVII, Fontenelle, depois de divagar sobre cimento sem reconhecimento nem a si mesmo
como das tábuas postas a flutuar num regato se se conhece.
chegou aos grandes navios que dão a volta ao A nova epistemologia e a nova psicologia
mundo, acrescenta num dos seus célebres En- anunciadas e testemunhadas pela utopia assen-
tretiens com a Marquise de G. publicados em tam na arqueologia virtual presente. Trata-se
1686, o da segunda noite, “e a arte de voar só de uma arqueologia virtual porque só interessa
agora está a nascer; aperfeiçoar-se-á e um dia o escavar sobre o que não foi feito e, porque não
homem irá à lua” (1955: 92). foi feito, ou seja, porque é que as alternativas
Apesar de algumas ideias utópicas serem deixaram de o ser. Neste sentido, a escavação
eventualmente realizadas, não é da natureza é orientada para os silêncios e para os silen-
da utopia ser realizada. Pelo contrário, a utopia ciamentos, para as tradições suprimidas, para
é a metáfora de uma hipercarência formulada as experiências subalternas, para a perspectiva
ao nível a que não pode ser satisfeita. O que é das vítimas, para os oprimidos, para as mar-
importante nela não é o que diz sobre futuro, gens, para a periferia, para as fronteiras, para
mas a arqueologia virtual do presente que a o Sul do Norte, para a fome da fartura, para a
torna possível. Paradoxalmente, o que é impor- miséria da opulência, para a tradição do que
tante nela é o que nela não é utópico. As duas não foi deixado existir, para os começos antes
condições de possibilidade de utopia são uma de serem fins, para a inteligibilidade que nun-
nova epistemologia e uma nova psicologia. ca foi compreendida, para as línguas e estilos
Enquanto nova epistemologia, a utopia recusa de vida proibidos, para o lixo intratável do
o fechamento do horizonte de expectativas e bem-estar mercantil, para o suor inscrito no
196 Boaventura de Sousa Santos

pronto-a-vestir lavado, para a natureza nas to- as consequências disso. Todas ou algumas,
neladas de CO2 imponderavelmente leves nos pois também se reconhece que este período
nossos ombros. Pela mudança de perspectiva de transição está ainda no começo e portanto
c de escala, a utopia subverte as combinações não apresenta ainda todos os seus traços. Em
hegemônicas do que existe, destotaliza os sen- Pasárgada 2 estuda-se com muita atenção o
tidos, desuniversaliza os universos, desorienta século XVII porque foi um século em que cir-
os mapas. Tudo isto com um único objetivo de cularam vários paradigmas científicos. Por
descompor a cama onde as subjetividades dor- exemplo, conviveram a par e par o paradigma
mem um sono injusto. ptolomaico e o paradigma copernicanogalilai-
O que proponho a seguir não é uma utopia. co. Talvez por isso se aceitou neste século a re-
É tão-só uma heterotopia. Em vez da inven- lativização do conhecimento, a distância lúdica
ção de um lugar totalmente outro, proponho em relação às verdades adquiridas e se viveu o
uma deslocação radical dentro de um mesmo fascínio por outros mundos, outras formas de
lugar, o nosso. Uma deslocação da ortotopia pensar e agir, enfim, outras formas de vida.
para a heterotopia, do centro para a margem. Fontenelle, já citado, é um bom exemplo dis-
O objetivo desta deslocação é tornar possível to mesmo. A sua obra mais conhecida intitula-
uma visão telescópica do centro e, do mesmo -se significativamente Entretiens sur la Plura-
passo, uma visão microscópica do que ele ex- lité des Mondes e nela disserta o autor sobre a
clui para poder ser centro. Trata-se, também, possibilidade de a lua e de outros planetas se-
de viver a fronteira da sociabilidade como for- rem habitados. Segundo ele, se a diferença de
ma de sociabilidade. costumes e de aparência física são tão grandes
A heterotopia que proponho chama-se Pa- entre a Europa e a China, não nos devemos sur-
sárgada 2. Não é um lugar inventado, é o nome preender que sejam ainda maiores entre os ha-
inventado de um lugar da nossa sociedade, de bitantes da terra e os habitantes da lua. Como
qualquer sociedade onde vivamos, a uma dis- exercício, convida-nos a entrar na pele dos Ín-
tância subjectivamente variável do lugar onde dios Americanos, os quais, ao verem Colombo,
vivemos. Em Pasárgada 2 vigora a ideia de que devem ter tido a mesma surpresa que nós terí-
estamos efectivamente num período de transi- amos se contactássemos os habitantes da lua.
ção paradigmática e que é preciso tirar todas E sobre o nosso conhecimento afirma que ele
O Norte, o Sul e a utopia 197

tem limites para além dos quais nunca pode- mente representados os diferentes paradig-
rá conhecer e que de outros planetas ou pers- mas em competição através dos seus adeptos
pectivas é possível ver coisas que não vemos eleitos pela comunidade educacional. Con-
do nosso planeta ou das nossas perspectivas. vém dizer uma palavra sobre a origem desta
Aliás, especula que as nossas peculiaridades Câmara. Convencida pelos argumentos de al-
não serão menores que as dos lunares e con- guns filósofos, cientistas e humanistas de que
clui, com a distância lúdica que nos recomen- o paradigma da modernidade estava a entrar
da, “estarmos reduzidos a dizer que os deuses numa crise final e que a competição com um
estavam bêbados quando fizeram os homens e paradigma emergente estava de facto aberta, a
que quando olharam a sua obra, já sóbrios, não comunidade educacional de Pasárgada 2 verifi-
puderam deixar de rir” (1955: 90). cou que as suas instituições educacionais não
É inspirado nesta atitude que Pasárgada 2 davam qualquer sinal de que essa crise existia
decidiu adotar o princípio da transição para- e suprimiam de vários modos, uns mais subtis
digmática. Pasárgada 2 é, para já, apenas uma que outros, a ideia de que um novo paradigma
comunidade educacional: os estudantes são to- poderia estar no horizonte e de que era do in-
dos os cidadãos enquanto trabalham, descan- teresse dos cidadãos-estudantes conhecê-lo.
sam e estudam. É pautada por um duplo objec- A simples hipótese de uma alternativa radical
tivo: ampliar o conhecimento dos paradigmas deixava-os nervosos e escondiam os nervos si-
em presença e promover a competição entre lenciando ou ridicularizando os que admitiam
eles de modo a expandir as alternativas de tal hipótese. Os nervos e a sua ocultação eram
prática social e pessoal e as possibilidades de tanto maiores quanto maiores eram as respon-
lutar por elas. Ao contrário das outras utopias, sabilidades profissionais das instituições. Por
Pasárgada 2 não está organizada em detalhe, exemplo, ao nível universitário, as Faculdades
pelo que não cabe aqui senão referir os seus de Economia, Direito, Medicina e Engenharia
princípios de organização e o perfil geral dos eram particularmente notadas por esta atitude.
paradigmas em competição. Perante isto, a comunidade de cidadãos-
Quanto à organização, o princípio institucio- -estudantes decidiu formar uma Câmara Para-
nal mais importante é a constituição de uma digmática com o objectivo de criar um fórum
Câmara Paradigmática em que estão igual- alternativo de discussão sobre os paradigmas.
198 Boaventura de Sousa Santos

Esta Câmara não tem qualquer poder delibera- tica, corresponderia a falar como ignorante
tivo sobre os processos e conteúdos de ensino diplomado. Falo como sociólogo membro da
nas instituições, mas está em permanente diá- Câmara que nela defende o paradigma emer-
logo com eles. A única deliberação que tomou gente tal qual ele, e outros, o concebem. Daí
foi suspender temporariamente a concessão de que, no que se segue, eu analise os termos da
diplomas. Como as instituições continuam, por transição e da competição paradigmática tal
agora, a ensinar apenas o paradigma até agora qual eu a vejo e, portanto, sem que isso vincule
vigente, a Câmara entendeu que, como os diplo- a Câmara. Apenas espero que as análises e os
mas certificam conhecimento apenas desse pa- argumentos que apresento sejam persuasivos e
radigma, do ponto de vista do paradigma emer- nessa medida conquistem adeptos.
gente os diplomas correspondem a diplomas de O diagnóstico da condição presente que
ignorância. Como seria embaraçoso que no futu- apresentei na primeira parte deste trabalho dá
ro os cidadãos-estudantes tivessem um diploma indicações bastantes sobre o modo como vejo
de ignorância, e como de pouco lhes servia um a transição paradigmática e sobre a concepção
diploma que tanto podia ser considerado de co- que tenho e a avaliação que faço do paradigma
nhecimento como de ignorância, a Câmara de- ainda dominante, embora decadente — o para-
cidiu suspendê-los temporariamente, admitindo digma da modernidade. Concentrar-me-ei agora
mesmo poder aboli-los mais tarde e para sem- no paradigma emergente. Em boa verdade não
pre. A suspensão dos diplomas deu muito mais há um paradigma emergente. Há antes um con-
liberdade aos cidadãos-estudantes e criou um junto de “vibrações ascendentes”, como diria
incentivo para as instituições se abrirem discus- Fourier, de fragmentos pré-paradigmáticos que
são paradigmática. Desprovidas do privilégio de têm em comum a ideia de que o paradigma da
certificação, se não se abrirem à discussão, cor- modernidade exauriu a sua capacidade de rege-
rem o risco de perder os estudantes. neração e desenvolvimento e que, ao contrário
Procurarei agora analisar, em traços largos, do que ele proclama — modernidade ou barbá-
o conteúdo das discussões paradigmáticas que rie —, é possível (e urgente) imaginar alterna-
a Câmara Paradigmática está a promover. Não tivas progressivas. Têm também em comum o
falo com sociólogo independente, pois que saberem que só é possível pensar para além da
isso, do ponto de vista da Câmara Paradigmá- modernidade a partir dela, ainda que na forma
O Norte, o Sul e a utopia 199

das suas vítimas ou das tradições que ela pró- ca, cartesiana, newtoniana, durkheimiana,
pria gerou e depois suprimiu ou marginalizou. weberiana, marxista — e o que tenho vindo a
Neste sentido, pode dizer-se que a modernidade designar por ciência pós-moderna e que outros
fornece muitos dos materiais para a construção designam por “nova ciência”. E porque todo o
do novo paradigma. Só não fornece o plano de conhecimento é autoconhecimento, o confli-
arquitetura nem a energia necessária para o con- to epistemológico desdobra-se num conflito
cretizar; se, por hipótese, visitasse o edifício, psicológico entre a subjetividade moderna e a
não saberia como entrar e, se entrasse, morreria subjetividade pós-moderna.
instantaneamente com as correntes de ar. Analisei noutro lugar as diferentes dimen-
Os fragmentos pré-paradigmáticos são por sões do conflito epistemológico, pelo que me
enquanto um paradigma virtual e nem sequer limitarei a breves referências, detendo-me um
é seguro que à modernidade se seguirá um ou- pouco mais nas que representam desenvolvi-
tro paradigma com a mesma coerência global mentos posteriores ao que já está publicado
e pretensão totalizadora que ela teve. Pode ser (Santos, 1990; 1991a; 1991b). Para o velho pa-
que os paradigmas emergentes sejam vários e radigma, a ciência é uma prática social mui-
permaneçam vários e conflituem tanto entre si to específica e privilegiada porque produz a
corno, cm conjunto, conflituam com a moder- única forma de conhecimento válido. Essa
nidade. Considero que são hoje identificáveis validade pode ser demonstrada e a verdade a
três grandes áreas de conflitualidade paradig- que aspira é intemporal, o que permite fixar
mática: conhecimento e subjetividade, padrões determinismos e formular previsões. Este co-
de transformação social, poder e política. Em nhecimento é cumulativo e o progresso cien-
relação a cada unia destas áreas identifico a tífico assegura, por via do desenvolvimento
seguir os traços em meu entender mais carac- tecnológico que torna possível, o progresso
terísticos do paradigma emergente. da sociedade. A racionalidade cognitiva e ins-
trumental e a busca permanente da realidade
Conhecimento e subjetividade para além das aparências fazem da ciência
uma entidade única, totalmente distinta de ou-
Nesta área o conflito é já bem evidente e
tras práticas intelectuais, tais como as artes
tem lugar entre a ciência moderna — galilai-
ou as humanidades.
200 Boaventura de Sousa Santos

O novo paradigma constitui uma alternativa quanto a capitalista); e também porque ocorreu
a cada um destes traços. Em primeiro lugar, tanto no espaço periférico, extra-europeu e ex-
nos seus termos não há uma única forma de tra-norte-americano do sistema mundial, como
conhecimento válido. Há muitas formas de co- no espaço central europeu e norte-americano,
nhecimento, tantas quantas as práticas sociais contra os trabalhadores, os índios, os negros,
que as geram e as sustentam. A ciência moder- as mulheres e as minorias em geral (étnicas,
na é sustentada por uma prática de divisão téc- religiosas, sexuais).
nica profissional e social do trabalho e pelo de- O novo paradigma considera o epistemi-
senvolvimento tecnológico infinito das forças cídio como um dos grandes crimes contra a
produtivas de que o capitalismo é hoje único humanidade. Para além do sofrimento e da
exemplar. Práticas sociais alternativas gerarão devastação indizíveis que produziu nos povos,
formas de conhecimento alternativas. Não re- nos grupos e nas práticas sociais que foram
conhecer estas formas de conhecimento impli- por ele alvejados, significou um empobreci-
ca deslegitimar as práticas sociais que as sus- mento irreversível do horizonte e das possibili-
tentam e, nesse sentido, promover a exclusão dades de conhecimento. Se hoje se instala um
social dos que as promovam. O genocídio que sentimento de bloqueamento pela ausência de
pontuou tantas vezes a expansão europeia foi alternativas globais ao modo como a socieda-
também um epistemicídio: eliminaram-se po- de está organizada, é porque durante séculos,
vos estranhos porque tinham formas de conhe- sobretudo depois que a modernidade se redu-
cimento estranho e eliminaram-se formas de ziu à modernidade capitalista, se procedeu à li-
conhecimento estranho porque eram sustenta- quidação sistemática das alternativas, quando
das por práticas sociais e povos estranhos. Mas elas, tanto no plano epistemológico, como no
o epistemicídio foi muito mais vasto que o ge- plano prático, não se compatibilizaram com as
nocídio porque ocorreu sempre que se preten- práticas hegemônicas.
deu subalternizar, subordinar, marginalizar, ou Contra o epistemicídio, o novo paradigma
ilegalizar práticas e grupos sociais que podiam propõe-se revalorizar os conhecimentos e as
constituir uma ameaça à expansão capitalista práticas não hegemônicas que são afinal a es-
ou, durante boa parte do nosso século, à ex- magadora maioria das práticas de vida e de
pansão comunista (neste domínio tão moderna conhecimento no interior do sistema mundial.
O Norte, o Sul e a utopia 201

Como medida transitória propõe que apren- lidade como ponto de partida, e não necessa-
damos com o Sul, sendo neste caso o Sul uma riamente como ponto de chegada. Entendida
metáfora para designar os oprimidos pelas di- assim, a horizontalidade é a condição sine qua
ferentes formas de poder, sobretudo pelas que non da concorrência entre conhecimentos. Só
constituem os espaços-tempo estruturais aci- haveria relativismo se o resultado da concor-
ma descritos, tanto nas sociedades periféricas, rência fosse indiferente para a comparação dos
como nas sociedades semiperiféricas, como conhecimentos, o que não é o caso, dado haver
ainda nas sociedades centrais. Esta opção pe- um ponto de chegada que não é totalmente de-
los conhecimentos e práticas oprimidas, mar- terminado pelas condições do ponto de partida.
ginalizadas, subordinadas, não tem qualquer Esse ponto de chegada depende do proces-
objetivo museológico. Pelo contrário, é crucial so argumentativo no interior das comunidades
conhecer o Sul para conhecer o Sul nos seus interpretativas. O conhecimento do novo para-
próprios termos, mas também para conhecer o digma não é validável por princípios demons-
Norte. É nas margens que se faz o centro e é no trativos de verdades intemporais. E, pelo con-
escravo que se faz o senhor. trário, um conhecimento retórico cuja validade
O que se pretende é, pois, uma concorrên- depende do poder de convicção dos argumen-
cia epistemológica leal entre conhecimentos tos em que é traduzido. Daí que o novo para-
como processo de reinventar as alternativas digma preste particular atenção à constituição
de prática social de que carecemos ou que afi- das comunidades interpretativas e considere
nal apenas ignoramos ou não ousamos desejar. seu objetivo) principal garantir e expandir a
Esta concorrência não significa relativismo no democraticidade interna dessas comunidades,
sentido que a epistemologia moderna tem dele. isto é, a igualdade do acesso ao discurso argu-
Segundo ela, é relativismo e portanto fonte de mentativo. Daí também a preferência pelo Sul
obscurantismo — toda a atitude epistemológi- como uma espécie de discriminação positiva
ca que recuse reconhecer o acesso privilegiado que aumenta o âmbito da diversidade e dá al-
à verdade que ela julga possuir por direito pró- guma garantia de que o silenciamento, ou seja,
prio. A possibilidade de uma relação horizontal a expulsão das comunidades argumentativas,
entre conhecimentos é-lhe totalmente absurda. que foi o timbre da ciência moderna, não ocor-
Ora o novo paradigma propõe tal horizonta- ra ou ocorra o menos possível. Por isso o novo
202 Boaventura de Sousa Santos

conhecimento, sendo argumentativo, tem um Sendo um conhecimento argumentativo, o


interesse especial pelo silêncio para averiguar novo paradigma recusa totalmente duas outras
até que ponto ele é um silêncio genuíno, ou características da ciência moderna — a intem-
seja, o resultado de uma opção argumentati- poralidade das verdades científicas e a distin-
va e até que ponto ele é um silenciamento, ou ção absoluta entre aparência e realidade — por
seja, o resultado de uma imposição não argu- achar que cada uma delas, a seu modo, tem
mentativa. Porque o Sul é o campo privilegiado uma vocação totalitária. O conhecimento no
do silêncio e do silenciamento, é esta outra das novo paradigma é tão temporal como as prá-
razões por que o novo paradigma lhe confere ticas e a cultura a que se vincula. Assume ple-
uma atenção particular. namente a sua incompletude, pois que sendo
Um dos princípios reguladores da validação um conhecimento presente só permite a inte-
é, pois, a democraticidade interna da comu- ligibilidade do presente. O futuro só existe en-
nidade-interpretativa. O outro princípio é um quanto presente, enquanto argumento a favor
valor ético intercultural, o valor da dignidade ou contra conhecimentos e práticas presentes.
humana. O novo paradigma não distingue entre Esta radical contemporaneidade dos conheci-
meios e fins, entre cognição e edificação. O co- mentos tem consequências fundamentais para
nhecimento, estando vinculado a uma prática e o diálogo e a concorrência entre eles. É que se
a uma cultura, tem um conteúdo ético próprio. todos os conhecimentos são contemporâneos,
Esse conteúdo assume diferentes formas em são igualmente contemporâneas as práticas so-
diferentes tipos de conhecimento, mas entre ciais e os sujeitos ou grupos sociais que nelas
elas é possível a comunicabilidade e a perme- intervêm. Não há primitivos nem subdesenvol-
abilidade, na medida em que todas as culturas vidos, há, sim, opressores e oprimidos. E por-
aceitam um princípio de dignidade humana. que o exercício do poder é sempre relacional,
Por exemplo, na cultura ocidental tal princípio todos somos contemporâneos. Para dar um
é hoje expresso através do princípio de direitos exemplo caseiro, o conhecimento dos campo-
humanos. Outras culturas exprimem-se nou- neses portugueses não é menos desenvolvido
tros termos, mas a tradução recíproca é possí- que o dos engenheiros agrônomos do Ministé-
vel a partir da inteligibilidade intercultural as- rio da Agricultura; é lhe contemporâneo, ainda
segurada pelo princípio da dignidade humana. que subordinado. Do mesmo modo que a agri-
O Norte, o Sul e a utopia 203

cultura familiar portuguesa não é mais primiti- processos de conhecimento tornaram possível
va que a agroindústria. É-lhe contemporânea, o epistemicídio, a desclassificação de todas as
mas subordinada. formas de conhecimento estranhas ao para-
A intemporalidade da verdade científica per- digma da ciência moderna sob o pretexto de
mitiu à ciência moderna autoproclamar-se con- serem conhecimento tão-só de aparências. A
temporânea de si mesma e, do mesmo passo, distribuição da aparência aos conhecimentos
descontemporaneizar todos os outros conheci- do Sul e da realidade ao conhecimento cientí-
mentos, nomeadamente os que dominaram na fico do Norte está na base do eurocentrismo.
periferia do sistema mundial no momento do E dada a vinculação mútua de conhecimentos
contacto com a expansão europeia. Assim nas- e práticas, esta mesma distribuição permitiu
ceram os selvagens, pelo mesmo processo por eliminar ou marginalizar, por ilusórias e misti-
que hoje se continuam a reproduzir compor- ficatórias, as práticas do Sul que discrepavam
tamentos racistas e xenófobos. A ideia da su- com as práticas do Norte, ditas reais por coin-
perioridade biológica da raça ariana não teria cidirem, aos olhos de quem as olhava, com as
sido possível sem a ideia da superioridade tem- aparências familiares.
poral da atitude e do comportamento racistas. Para o novo paradigma, a distribuição entre
Com a mesma prevenção antitotalitária, o aparência e realidade nem sempre faz sentido
novo paradigma suspeita da distinção entre e quando faz é sempre relativa e a aparência
aparência e realidade. Nos termos em que ela não é necessariamente o lado inferior do par.
foi feita pela ciência moderna, trata-se muito O novo paradigma prevalece-se neste domínio
mais de uma hierarquização do que de uma dis- de Schiller e da sua defesa da aparência estéti-
tinção. A aparência é a não-realidade, a ilusão ca (das aesthetische Schein) nas Cartas sobre
que cria obstáculos à inteligibilidade do real a Educação Estética do Homem, publicadas
existente. Daí que a ciência tenha por objetivo em 1795 (Schiller, 1967). Alias, Schiller repre-
identificar-denunciar a aparência, e ultrapassá- senta, para o novo paradigma, uma das tradi-
-la para atingir a realidade, a verdade sobre a ções suprimidas da modernidade e, como tal,
realidade. Esta pretensão de saber distinguir susceptível de contribuir para a configuração
e hierarquizar entre aparência e realidade e o da nova intelegibilidade. Schiller faz uma críti-
fato de a distinção ser necessária em todos os ca radical da ciência e da desumanizarão admi-
204 Boaventura de Sousa Santos

nistrativa e especialização profissional que ela centralidade da forma estética enquanto trans-
promove, uma crítica, de resto, bastante seme- formação radical da matéria que, no entanto,
lhante à feita por Rousseau. E tal como aconte- tem uma dimensão lúdica e não está sujeita ao
ce cone Rousseau, não anima Schiller nenhu- ídolo da utilidade, Schiller propõe uma nova re-
ma veleidade passadista, mas antes o desejo lação entre a ciência e a arte, uma combinação
de reconstruir a totalidade da personalidade dinâmica de gêneros, em que a realização plena
nas novas condições criadas pela modernida- da ciência é também a sua dissolução no reino
de. Tal totalidade não é obtível, nem pelo do- mais vasto da arte, do sentimento estético e da
mínio das forças da natureza que a ciência pos- vivência lúdica. Semelhantemente, segundo o
sibilita, nem pelas leis ou a moral que o Estado novo paradigma, a ciência é um conhecimento
promulga, mas por uma mediação entre eles, discursivo, cúmplice de outros conhecimen-
por urna terceira entidade, a forma estética, o tos discursivos, literários nomeadamente. A
Estado estético: “no meio do terrível reino das ciência faz parte das humanidades. Enquanto
forças da natureza e do reino sagrado das leis, narrativa não ficcional, tem um grau de cria-
o impulso estético da forma trabalha para criar tividade menor, mas, precisamente, é apenas
o reino do lúdico e da aparência” (Carta 27 §8). uma questão de grau o que a distingue da fic-
Mas Schiller está consciente que a aparência ção criativa. Nestas condições, está preludida
estética só será universal quando a cultura tor- qualquer possibilidade de demarcações rígidas
nar o seu abuso impossível. Por enquanto, diz entre disciplinas ou entre gêneros, entre ciên-
Schiller, “a maioria das pessoas humanas está cias naturais, sociais e humanidades, entre arte
demasiado cansada e exausta pela luta pela e literatura, entre ciência e ficção.
existência para poder envolver-se numa luta Mas Schiller tem importância para o novo
nova e mais dura contra o erro” (Carta 8 §6). paradigma por uma outra razão. Pelo modo
E por isso que, com tantas razões, que ele enu- como reabilita os sentimentos e as paixões en-
mera, para a sociedade se considerar ilumina- quanto forças mobilizadoras da transformação
da, faz sentido perguntar: “porquê então ainda social. Como vimos, uma das preocupações
permanecemos bárbaros?”. centrais do novo paradigma é criar alternativas
A importância de Schiller para o novo para- e a concorrência entre elas. A outra preocupa-
digma é dupla. Em primeiro lugar, ao afirmar a ção é a de criar uma subjectividade que queira
O Norte, o Sul e a utopia 205

lutar por elas. Efetivamente, a síndrome de blo- capacidade de revolta e de surpresa, a vontade
queamento global que hoje se vive talvez não se de transformação pessoal e coletiva e que, por
deva tanto à falta de alternativas (porque elas isso, a tarefa de reconstrução dessa capacidade
existem) como à falta de vontade individual e e dessa vontade é, em finais do século XX, mui-
coletiva para lutar por elas. to mais urgente do que era em finais do século
A incredibilidade das alternativas é o rever- XVIII. De resto, para além de Schiller, outros
so da indolência da vontade. Escrevendo no criadores culturais, cujas ideias e utopias fo-
final do século XVIII, Schiller teme que o ídolo ram ainda mais suprimidas ou marginalizadas
da utilidade venha a matar a vontade de reali- que as de Schiller, podem ser convocados para
zação pessoal e coletiva. Por isso afirma no § 3 levar a cabo tal tarefa. Refiro-me muito parti-
da Carta 8: cularmente a Fourier, ao lugar central que as
paixões ocupam no seu pensamento — ele que
[A] razão realizou tudo o que pode realizar ao na vida prática foi, tal como Fernando Pessoa,
descobrir e ao apresentar a lei. A sua execução um fiel servidor da monótona vida comercial —
pressupõe uma vontade resoluta e o ardor do e ao princípio da atração apaixonada por ele
sentimento. Para a verdade vencer as forças que concebido como o grande motor do movimen-
conflituam com ela, tem ela própria de tornar-se
to universal.
uma força […] pois os instintos são a única força
Como referi acima, o novo paradigma epis-
motivadora no mundo sensível.
temológico aspira igualmente a uma nova psi-
cologia, à construção de uma nova subjetivi-
E conclui no §7 da mesma carta: “o desen-
dade. Não basta criar um novo conhecimento,
volvimento da capacidade do homem para sen-
é preciso que alguém se reconheça nele. De
tir é, portanto, a necessidade mais urgente da
nada valerá inventar alternativas de realiza-
nossa época”.
ção pessoal e coletiva, se elas não são apro-
O novo paradigma entende que o racionalis-
priáveis por aqueles a quem se destinam. Se o
mo estreito, mecanicista, utilitarista e instru-
novo paradigma epistemológico aspira a um
mental da ciência moderna, combinado com a
conhecimento complexo, permeável a outros
expansão da sociedade de consumo, obnubi-
conhecimentos, local e articulável em rede
lou, muito para além do que previra Schiller, a
com outros conhecimentos locais, a subjetivi-
206 Boaventura de Sousa Santos

dade que lhe faz jus deve ter características é igualmente multidimensional: os obstáculos
similares ou compatíveis. à construção de uma tal subjetividade não es-
A subjetividade engendrada pelo velho para- tão localizados num dado espaço-tempo, mas
digma é o indivíduo unidimensional, maximi- estão antes disseminados por todos eles. Tais
zador da utilidade que escolhe racionalmente obstáculos constituem quatro habituses de
segundo o modelo arquetípico do homo econo- regulação, subordinação, e conformismo, aos
micus. As alternativas credíveis perante uma quais é necessário opor quatro habituses de
tal subjetividade têm de se medir por ela e por emancipação, insubordinação e revolta.
isso não surpreende que a equação entre inte- Esta multidimensionalidade exige que as
resse e capacidade tenha sido completamente energias emancipatórias sejam simultanea-
privatizada à medida que se aprofundou o en- mente muito amplas e muito concretas. No
laço entre modernidade e capitalismo. Ao con- paradigma da modernidade, foi, ao contrário,
trário, o novo paradigma aspira a uma resso- a unidimensionalidade que tornou possível to-
cialização da equação interesse-capacidade e, mar amplitude por abstração: o indivíduo abs-
portanto, a uma subjetividade que seja capaz trato pode aspirar a uma amplitude universal,
dela. A multidimensionalidade da subjetividade mas obtida à custa do esvaziamento total de
no novo paradigma está já indicada no modelo atributos contextuais. A amplitude no novo
dos espaços tempo estruturais. Efetivamente, paradigma significa, antes de mais, o alarga-
cada espaço tempo cria uma forma ou dimen- mento das razões com que se podem justificar
são de subjetividade, pelo que os indivíduos as condutas, um alargamento da racionalidade
e os grupos sociais são, de fato, constelações cognitivo-instrumental para uma racionalidade
de subjetividades, articulações particulares, mais ampla onde caiba, além dela, a racionali-
variáveis de contexto para contexto, entre as dade moral-prática e a racionalidade estético-
diferentes formas ou dimensões. Isto significa -expressiva, um alargamento da demonstração
que a construção da vontade das alternativas e racional para a argumentação racional, em
da concorrência entre elas tem de ser feita em suma, um alargamento da racionalidade para a
relação a cada uma das dimensões e, portan- razoabilidade, do conhecimento epidítico para
to, em cada um dos espaços-tempo estruturais. a phronesis. Paradoxalmente, quanto mais am-
Não é, pois, tarefa fácil, uma vez que a fricção pla é, melhor a racionalidade conhece os seus
O Norte, o Sul e a utopia 207

limites. Neste domínio, as paixões de Schiller e quanto ser humano — com a problematização
dos românticos e a atração apaixonada de Fou- mais ampla do sentido da vida e da sociedade.
rier são dois campos privilegiados de escava- Montaigne escreveu sobre si próprio porque,
ção arqueológica da modernidade. como costumava dizer, esse era o tema de que
Mas esta ampliação das energias emanci- tinha algum conhecimento seguro e concreto.
patórias só faz sentido se a sua extensão for Mas não o fez de modo narcisista, fechado so-
igualada pela sua intensidade, se a energia bre si próprio; pelo contrário, soube, a partir
emancipatória se souber condensar nos atos do mais profundo de si, buscar a intelegibilida-
concretos de emancipação protagonizados por de do mais amplo e também mais profundo da
indivíduos ou grupos sociais. A desconfiança vida coletiva. Para isso, rompeu radicalmente
das abstrações é fundamental no novo paradig- com a distinção sujeito/objecto em que assen-
ma. Não que elas não possam ser aceites, mas ta a ciência moderna, antecipando assim de
que só o sejam quando os contextos da sua re- muitos séculos o que hoje é pretendido pelo
alização lhes fazem jus. Por exemplo, o concei- novo paradigma. Como Montaigne viu muito
to abstrato de direitos humanos começa hoje, bem, o problema da distinção sujeito/objeto é
dois séculos depois da sua formulação, a fazer que induz a abstração não só do objeto como
verdadeiro sentido na medida em que por todo também do próprio sujeito. A arrogância epis-
o sistema mundial grupos sociais estão a orga- temológica deste último é o resultado de um
nizar lutas de emancipação guiadas por ele. auto-esquecimento. Esse auto-esquecimento,
Para a construção da amplitude concreta da oculto no esquecimento do outro, foi eloquen-
subjetividade, dois outros campos de escava- temente denunciado por Frantz Fanon quando,
ção arqueológica se me afiguram fundamen- num dos seus desabafos irônicos, se pergun-
tais: Montaigne e Kropotkin, outros dois cria- tava porque é que os europeus falavam tanto
dores culturais cujas ideias foram suprimidas do indivíduo em geral e não eram capazes de o
ou marginalizadas pela concepção hegemôni- reconhecer quando o encontravam (1974: 230).
ca da modernidade capitalista. A importância Se Montaigne insistiu na necessidade de não
de Montaigne reside em ter desenvolvido um perder de vista o indivíduo concreto, Kropotkin
dispositivo intelectual que combinava a inteli- insistiu na solidariedade concreta, nos laços de
gibilidade mais concreta — a dele próprio en- ajuda mútua que ligam os indivíduos uns aos
208 Boaventura de Sousa Santos

outros e sem os quais a vida individual, e não de cada uni deles se aproximam de tal modo
apenas a coletiva, não seria possível. Contra o que parecem constituir uma zona cinzenta,
individualismo possessivo e o darwinismo so- imitei surdia, mista. No entanto, defendo que
cial da época, Kropotkin procurou reivindicar esta zona, longe de negar a existência do con-
a evidência que as pessoas são capazes de soli- flito paradigmático, é pressuposta por ele e é
dariedade e, na prática, têm-na vindo a exercer por isso que põe limites à própria possibilidade
através da história (1955 [1902]). Não procurou de combinação e intermediação entre os para-
sequer abstratizar essa capacidade como de digmas. São as diferenças inegociáveis que tor-
algum modo o fez Marx ao centrá-la na classe nam o conflito paradigmático.
operária. Procurou antes dar-lhe voz onde quer A segunda nota e alue o conflito paradigmá-
que a viu e a viu violentada pelo paradigma psi- tico não é apenas terçado a nível intelectual,
cológico dominante. como tini acontecido, pelo menos até agora,
com o conflito epistemológico; é, além disso, e
Padrões de transformação social cada vez mais, um conflito social e político sus-
tentado por grupos e interesses organizados,
A conflitualidade paradigmática no domínio
ainda que com poder e organização muito de-
dos padrões de transformação social é talvez
siguais. De algum modo, este conflito paradig-
mais recente que a que ocorre na epistemolo-
mático funciona como charneira entre os dois
gia e na subjetividade, mas adquiriu nas duas
outros conflitos: porque se traduz em práticas
ultimas décadas uma enorme acuidade. Neste
sociais alternativas, aspira também a práticas
domínio, a conflitualidade tem lugar entre dois
epistemológicas alternativas e está por isso
grandes paradigmas de desenvolvimento so-
profundamente interlaçado com o paradigma
cial, que designo simplesmente por paradigma
epistemológico; porque essas práticas sociais
capital-expansionista e paradigma eco-socialis-
têm lugar num campo político e, de fato, aspi-
ta. Duas notas preliminares sobre este conflito.
ram a uma redefinição global desse campo, o
A primeira é que, tal como sucede no caso da
conflito entre o paradigma capital-expansionis-
conflitualidade epistemológica, cada um dos
ta e o paradigma eco-socialista tem profundas
paradigmas cm conflito e internamente muito
vinculações ao conflito paradigmático sobre o
diferenciado, e tanto que algumas das versões
poder e a política, descrito brevemente a seguir.
O Norte, o Sul e a utopia 209

O paradigma capital-expansionista é o para- deve haver um estrito equilíbrio entre três for-
digma dominante e tem as seguintes caracterís- mas principais de propriedade: a individual, a
ticas gerais: o desenvolvimento social é medido comunitária, e a estatal; cada uma delas deve
essencialmente pelo crescimento econômico; operar de modo a atingir os seus objetivos com
o crescimento econômico é contínuo e assen- o mínimo de controlo do trabalho de outrem.
ta na industrialização e no desenvolvimento O paradigma eco-socialista enquanto cons-
tecnológico virtualmente infinitos; é total a trução intelectual decorre de um diálogo inter-
descontinuidade entre a natureza e a socieda- cultural muito amplo e, tanto quanto possível,
de: a natureza é matéria, valorizável apenas horizontal. A base desse diálogo é dupla. Por
enquanto condição de produção; a produção um lado, as necessidades humanas fundamen-
que garante a continuidade da transformação tais não variam muito no sistema mundial, o
social assenta na propriedade privada e especi- que varia são os meios para as satisfazer (os
ficamente na propriedade privada dos bens de satisfactores). Daí que se deva partir de uma
produção, a qual justifica que o controlo sobre inteligibilidade intercultural das necessidades
a força de trabalho não tenha de estar sujeito para, através dela, se atingir a inteligibilidade
a regras democráticas. O modelo de transfor- intercultural dos satisfactores. Por outro lado,
mação social proposto por Marx partilha as todas as culturas têm um valor de dignidade
três primeiras características, pelo que se pode humana, o qual, sendo único, permite uma her-
considerar um modelo subparadigmático, situ- menêutica transvalorativa e multicultural. Tal
ado na zona cinzenta, intermédia. hermenêutica constitui o desafio central do pa-
O paradigma eco-socialista é o paradigma radigma emergente.
emergente e, tal como eu o concebo, tem as O paradigma eco-socialista assenta em tra-
seguintes características: o desenvolvimento dições muito variadas. No que respeita às tra-
social afere-se pelo modo como são satisfei- dições europeias, são de mencionar a tradição
tas as necessidades humanas fundamentais e é comunitarista, o organicismo leibniziano, o
tanto maior, a nível global, quanto mais diverso movimento romântico, o socialismo utópico,
e menos desigual; a natureza é a segunda na- marxismo, e, no que respeita às tradições não-
tureza da sociedade e, como tal, sem se con- -europeias, as culturas Indos, chinesas e africa-
fundir com ela, tão-pouco lhe é descontínua; nas, a cultura islâmica e as culturas dos povos
210 Boaventura de Sousa Santos

nativos americanos. O paradigma eco-socialista base sólida, mas em permanente retificação, à


alimenta-se das margens e do Sul e, como se medida que vai sendo credível para grupos so-
calcula, elas são muitas, muito plurais e mesmo ciais cada vez mais amplos. Pela mesma razão,
babélicas. São como que o outro do centro, eu- o paradigma emergente busca a competição e
rocêntrico, moderno, capitalista, o qual faz pro- a concorrência com o paradigma capital-expan-
liferar as margens e o Sul na exata medida do sionista. O objetivo fundamental é, de fato, de-
seu autoritarismo e do seu caráter excludente. senhar várias formas de sociabilidade em que a
Esta babel de raízes é convocada e ativada por concorrência entre os paradigmas seja prática,
uma enorme diversidade, igualmente babélica controlável e avaliável.
de movimentos sociais e organizações não go- Na transição paradigmática, o Estado será
vernamentais locais e transnacionais, ecológi- dito Estado-Providência quando assegurar a
cos, feministas, operários, pacifistas, de defesa concorrência em igualdade de circunstâncias
dos direitos humanos, dos direitos dos consu- entre os paradigmas rivais. A concorrência
midores, e dos direitos históricos dos povos in- entre os paradigmas tem uma dimensão de
dígenas, de luta contra o ajustamento estrutural contradição e uma dimensão de competição.
ou a violência urbana, de luta pelos direitos dos A primeira visa esclarecer analítica e normati-
imigrantes ilegais, dos refugiados, das minorias, vamente o que separa os paradigmas; a segun-
das sexualidades alternativas, etc., etc. Muitos da dirige-se à articulação dos paradigmas com
destes movimentos têm muito pouco ou mes- a experiência subjetiva dos indivíduos e dos
mo nada a ver com as características que aci- grupos e visa, por isso, criar a subjetividade
ma atribuí ao paradigma eco-socialista. Têm de adequada a cada um deles, a energia e a pai-
comum serem um campo de experimentação xão necessárias para lutar por eles. A concor-
social vastísssimo onde se vão temperando as rência entre os paradigmas terá de ter lugar no
energias e a subjetividade necessária para uma interior de cada um dos quatro espaços-tempo
luta civilizacional como aquela que o paradig- estruturais e em cada um deles assume uma
ma emergente propõe. A experimentação tem forma particular. No espaço-tempo domésti-
de ser a mais vasta, tão vasta quanto a tradição co, o conflito é entre a divisão sexual patriar-
em que assenta, para que o paradigma, que é cal do trabalho e a comunidade eco-feminista
apenas emergente, se vá construindo numa doméstica, entre a família reprodutiva da força
O Norte, o Sul e a utopia 211

do trabalho e a família produtora de satisfac- rista. É neste espaço-tempo que verdadeira-


tores de necessidades, organizadora do lazer e mente se moldam os estilos e os modos de
do convívio com a natureza. A segurança social vida porque é nele que a equação entre neces-
prestada pelo Estado às famílias deve ser pres- sidades e satisfactores é decidida. Enquanto
tada, em igualdade de circunstâncias, às duas no primeiro paradigma as necessidades es-
organizações da domesticidade. tão ao serviço dos satisfactores, no segundo
No espaço-tempo da produção, o conflito e paradigma os satisfactores estão ao serviço
a concorrência será entre unidades capitalis- das necessidades. Enquanto para o primeiro
tas de produção e unidades eco-socialistas de paradigma o mercado é a única instituição
produção. Nestas últimas cabem organizações organizadora do consumo e as necessidades
de muito diferente tipo, mas que partilham o são convertidas em preferências objetivadas
fato de não serem orientadas, nem exclusiva- em objetos, para o segundo, o mercado é uma
mente, nem primordialmente, para a obtenção instituição entre outras e as necessidades são
de lucros: unidades de produção cooperativa, experiências subjetivas que podem expressar-
pequena agricultura familiar, serviços comu- -se de muitos modos diferentes, consoante os
nitários, instituições particulares de solidarie- contextos e as culturas, umas vezes através de
dade social, organizações não governamentais, objetos desejados, outras vezes através de de-
produção autogestionária, etc., etc. A segunda sejos de intersubjetividade.
dimensão providencial do Estado reside em Finalmente, para o primeiro paradigma as
apoiar em igualdade de circunstâncias unida- necessidades são uma privação, enquanto para
des produtivas de ambos os tipos para que pos- o segundo são simultaneamente uma privação
sam em igualdade de circunstâncias mostrar o e um potencial. A terceira dimensão providen-
que valem, quer pelo resultado da produção, cial do Estado consiste em promover e assegu-
quer pelos valores da subjetividade que susci- rar a conflitualidade intelectual e social destes
tam e promovem. dois paradigmas dando a ambos iguais condi-
Neste espaço-tempo promove-se ainda um ções para testarem as suas virtualidades e con-
outro conflito: o conflito entre o paradigma quistarem adeptos.
consumista, individualista e o paradigma das Ao nível do espaço-tempo da cidadania, a
necessidades humanas e do consumo solida- confrontação entre os paradigmas é particu-
212 Boaventura de Sousa Santos

larmente crucial e difícil de manter, uma vez como a obrigação horizontal e por essa razão a
que, sendo o Estado a forma institucional des- cidadania não tem de ser nem individual, nem
te espaço-tempo, tem de promover o conflito nacional; pode ser individual ou coletiva, na-
paradigmático no interior de si mesmo e é por cional, local ou transnacional. A eficácia inter-
isso que a quarta dimensão providencial do na do Estado reside no modo como negoceia
Estado em Pasárgada 2 é a autoprovidência e perde o poder de império interno a favor de
do Estado para consigo mesmo. Neste espaço- outras organizações sociais. Para essa negocia-
-tempo, o conflito paradigmático ocorre entre ção e essa partilha é funcional a larga escala e
o paradigma da obrigação política vertical e o o centralismo organizativos do Estado, mas a
paradigma da obrigação política horizontal. O função que desempenham consiste na criação,
primeiro preside à constituição do Estado libe- na promoção de estruturas organizativas de
ral, e tem as seguintes características: o Esta- menor escala, descentralizadas, locais. O cará-
do tem o monopólio da violência legítima e do ter providencial e redistributivo do Estado re-
direito, para o que dispõe de uma organização side antes de mais no modo como redistribui as
burocrática de larga escala, centralizada e cen- suas próprias prerrogativas, e um dos veículos
tralizadora; a cidadania é atribuída a indivíduos privilegiados é, como tenho vindo a defender, a
pelo Estado de que são nacionais, pelo que em promoção da competição entre os paradigmas
princípio não há cidadania sem nacionalidade e em cada um dos espaços-tempo estruturais. É
vice-versa; os cidadãos são formalmente iguais esta a quarta dimensão providencial do Estado
e estão todos igualmente sujeitos ao podre de na transição paradigmática.
império do Estado. No espaço-tempo da cidadania, a contradi-
O paradigma da obrigação horizontal confe- ção e a concorrência paradigmáticas ocorrem
re ao Estado o monopólio da violência legíti- ainda a um outro nível, ao nível da dimensão
ma, mas não o monopólio da produção do di- comunitária do espaço público. Aqui a concor-
reito. Pelo contrário, existe na sociedade uma rência é entre o paradigma das comunidades-
pluralidade de ordens jurídicas, com diferentes -fortaleza e o paradigma das comunidades de
centros de poder a sustentá-los, e diferentes fronteira. O paradigma capital expansionista
lógicas normativas. Na constituição da cida- sempre que não destruiu os espaços identitá-
dania, é tão importante a obrigação vertical rios colectivos privilegiou a constituição de
O Norte, o Sul e a utopia 213

comunidades identitários excludentes, quer lecer coligações de dignidade humana com ou-
excludentes-agressivas, quer excludentes- tras comunidades identitárias. Os movimentos
-defensivas. As primeiras, as excludentes- populares da América Latina, as comunidades
-agressivas, de que o exemplo arquetípico é a eclesiais de base, os movimentos dos direitos
“sociedade colonial”, são constituídas por gru- humanos em todo o sistema mundial, alguns
pos sociais dominantes que se fecharam na sua movimentos ecológicos e feministas, tendem
superioridade para não serem conspurcados a estar habitados pelo paradigma das comuni-
pelas comunidades inferiores. As segundas, ex- dades de fronteira. Ao contrário, o movimento
cludentes defensivas, são o reverso das primei- sindical tradicional no Norte, algumas correntes
ras. Historicamente, emergiram do contacto do movimento feminista e muitos movimentos
com as comunidades excludentes-agressivas, de homossexuais e lésbicas tendem a prefigurar
fechando-se para defender o pouco de digni- o paradigma das comunidades-fortaleza. Sobre-
dade que pôde escapar à pilhagem colonial. tudo estes últimos tendem a constituir comuni-
O exemplo arquetípico destas últimas são as dades excludentes-defensivas.
comunidades indígenas. A consequência deste Para o paradigma emergente, o objetivo
processo de fechamento recíproco é que as co- central é lutar contra o apartheid identitário e
munidades-fortaleza tendem a ser internamen- cultural que o paradigma dominante pressupõe
te muito hierárquicas, ou seja, são excludentes e tem vindo a desenvolver constantemente. A
para o exterior, mas também no interior. quinta dimensão providencial do Estado em
Para o paradigma das comunidades de frontei- Pasárgada 2 consiste em promover a plurali-
ra, a identidade é sempre multímoda, inacabada, dade e a permeabilidade das identidades pelo
em processo de reconstrução e de reinvenção, incentivo à confrontação entre os dois para-
é, cm verdade, um processo de identificação em digmas, com base na ideia de que o apartheid
curso. Por isso, a comunidade para que aponta é se reproduz incessantemente na sociedade, e a
vorazmente inclusiva, permeável, alimentando- muitos mais níveis do que vulgarmente se jul-
-se das fontes que lança para outras comunida- ga, sendo, de resto, um dos recursos estratégi-
des, buscando na comparação e na tradução cos do paradigma capital-expansionista.
intercultural o sentido mais profundo da digni- Por último, no espaço-tempo mundial o
dade humana que a habita e os modos de estabe- conflito paradigmático é entre o paradigma do
214 Boaventura de Sousa Santos

desenvolvimento desigual e da soberania ex- democraticamente permeáveis. O princípio da


cludente e o paradigma do desenvolvimento soberania exclusiva, tal como foi desenvolvido
democraticamente sustentável e da soberania pelo paradigma dominante, torna na prática
reciprocamente permeável. O primeiro para- possível que os Estados mais fortes, invocando
digma, dominante, foi acima descrito com al- interesses nacionais, nomeadamente de segu-
gum detalhe, pelo que me dispenso de o carac- rança nacional, possam exercer as suas prerro-
terizar aqui. O segundo paradigma, emergente, gativas de soberania à custa da soberania dos
convoca um novo sistema mundial organizado Estados mais fracos. Efetivamente, a soberania
segundo princípios eco-socialistas. É, de algum dos Estados periféricos e semiperiféricos tem
modo, um sistema mais globalizador que o atu- sido tradicionalmente muito permeável às pre-
al, porque a globalização ocorre sob o signo da tensões dos Estados hegemônicos. O que é ne-
identificação transnacional das necessidades cessário é assumir a permeabilidade como um
humanas fundamentais e do princípio da dig- processo recíproco e democrático por via do
nidade humana. Depois de séculos de moderni- qual os Estados negoceiam a perda da sua so-
dade capitalista, a hierarquia Norte/Sul tornou- berania a favor de organizações internacionais
-se uma mega-fricção, uma marca profunda e de organizações não governamentais trans-
das experiências sociais no interior do sistema nacionais mais bem equipadas que o Estado
mundial, e como tal não pode ser erradicada de para realizar as tarefas eco-socialistas trans-
um momento para o outro. Mas deve, a partir nacionais. Tal como no espaço-tempo da cida-
de agora, ser posta sob suspeita sistemática. dania o Estado negoceia democraticamente a
O princípio da acção social neste espaço- perda de soberania interna a favor de grupos
-tempo passa a ser que tudo o que contribui e organizações que passam, por transferência,
para aumentar a hierarquia Norte/Sul é uma a exercer algumas prerrogativas de autogover-
prática de lesa-humanidade, como tal devendo no, no espaço-tempo mundial os Estados nego-
ser avaliada. O sistema interestatal tem um pa- ceiam entre si e organizações internacionais e
pel importante na promoção dessa suspeita sis- transnacionais a perda de soberania externa de
temática, mas para o exercer cabalmente tem modo a que estas disponham de um conjunto
ele próprio que se transformar profundamen- de prerrogativas de soberania que lhes permi-
te. Daí, o princípio das soberanias recíproca e ta criar formas de governação transnacional
O Norte, o Sul e a utopia 215

para os temas e problemas que não podem ser plo, civilizacional, em que efetivamente esti-
adequadamente resolvidos, nem a nível estatal, veram integrados na sua origem, mas que, a
nem sequer a nível interestatal. pouco e pouco, foi perdido. Se analisarmos o
movimento operário revolucionário desde o
Poder e política início do século XIX até à Comuna de Paris, ve-
rificamos que os seus objetivos, mais que uma
A terceira grande área de contradição e com-
luta de classes, implicavam uma luta civiliza-
petição paradigmática é o poder e a política.
cional. Assim, as suas lutas não tinham por ob-
Esta área é talvez mais importante que as de-
jetivo uma mera mudança das relações de pro-
mais na medida em que nela se concebem e for-
dução. Aspiravam a uma nova sociabilidade, à
jam as coligações capazes de conduzir a transi-
transformação radical da educação e do consu-
ção paradigmática. A dificuldade de tal tarefa
mo, à eliminação da família, à emancipação da
está em que a transição paradigmática reclama,
mulher e ao amor livre. É só no último quartel
muito mais que uma luta de classes, uma luta
do século XIX, e em boa medida devido à as-
de civilizações, e reclama-o num momento em
cendência do marxismo no movimento operá-
que nem sequer a luta de classes parece estar
rio, que os objetivos civilizacionais vão ceder
na agenda política. No entanto, do ponto de vis-
o passo aos meros objetivos de classe. É nesse
ta do paradigma emergente, tal situação longe
processo que o movimento operário passa a ser
de ser paradoxal ou dilemática, exprime a um
integrado na modernidade capitalista, no mes-
nível muito profundo as potencialidades para-
mo processo em que Marx desenha a estratégia
digmáticas que o tempo presente encerra e que
para a superar. Uma estratégia que, à partida,
é preciso fazer desabrochar.
estava votada ao fracasso, uma vez que, nesse
Na verdade, o definhamento da luta de clas-
momento, a modernidade estava já reduzida,
ses ou, para sermos mais exatos, a derrota
enquanto projecto social, à modernidade capi-
global do movimento operário organizado sig-
talista e não era por isso, possível eliminar a
nifica, não que os objetivos desta luta estejam
última salvaguardando a primeira.
cumpridos — provavelmente nunca estiveram
O objetivo de um pensamento heterotópico
tão longe de o estar — mas antes que eles só
é exatamente o de repor, no final do século XX
são obtíveis dentro de um contexto mais am-
e em moldes radicalmente diferentes, a luta
216 Boaventura de Sousa Santos

civilizacional por que mereceu a pena lutar no nizativa ou recursos embora estes também es-
princípio do século XIX. Esta luta civilizacional casseiem — mas antes a legitimidade e muitas
é sem dúvida uma luta epistemológica e psico- vezes a autolegitimidade para a partir de espa-
lógica e uma luta por padrões alternativos de ços sociais tão circunscritos propor transfor-
sociabilidade e de transformação social, mas é mações que só são eficazes se forem globais.
acima de tudo uma luta entre paradigmas de O objetivo central da Câmara Paradigmática
poder e de política. As lutas estão obviamente de Pasárgada 2 na área do poder e da política
interligadas porque, em cada uma delas, tanto consiste precisamente em elevar o nível crítico
o paradigma dominante, como o paradigma de legitimidade dos grupos em luta pelo para-
emergente recebem o apoio cúmplice dos pa- digma emergente, através da explicitação das
radigmas correspondentes em competição nas mediações entre o local e o global.
outras lutas. É esta sobreposição de lutas que O conflito paradigmático nesta área é entre
confere o âmbito e a intensidade específicos de o paradigma da democracia autoritária e o pa-
uma luta civilizacional. E se esta sobreposição radigma da democracia eco-socialista. O para-
cria o potencial de uma transformação radical, digma da democracia autoritária está inscrito
torna também particularmente difícil, sobretu- na matriz do Estado moderno liberal e já referi
do numa fase inicial de transição paradigmáti- algumas das suas características. Acrescenta-
ca, a criação e a consolidação das coligações rei agora apenas as que têm diretamente a ver
e das organizações portadoras de uma nova com o seu caráter autoritário. Tal caráter con-
equação entre interesses e capacidades. siste, em primeiro lugar, em conceber como
Contra tais coligações e organizações mili- política apenas uma das formas de poder que
ta a eficácia multiplicadora da sobreposição circulam na sociedade e limitar a ela o disposi-
dos paradigmas dominantes em cada uma das tivo democrático. Consiste, em segundo lugar,
áreas de sociabilidade. Isto explica que, como em limitar este dispositivo democrático a um
notei acima, sejam fracos, fragmentados e lo- princípio mono-organizativo, a democracia re-
calizados os grupos e as lutas que um pouco presentativa, supostamente o único isomórfico
por toda a parte tentam romper com os dilemas com a forma de poder que pretende democrati-
que descrevi e propor uma saída civilizacional. zar. Consiste, em terceiro lugar, em conferir ao
O que lhes falta não é tanto a capacidade orga- Estado o monopólio de poder político através
O Norte, o Sul e a utopia 217

do princípio da obrigação política vertical en- tal (a relação cidadão-cidadãos) nos termos do
tre Estado e cidadão. Consiste, finalmente, em qual a fraqueza deste segundo eixo potencia
esse monopólio estatal ser exercido na depen- em geral o autoritarismo do eixo vertical, ao
dência financeira e ideológica dos interesses mesmo tempo que permite que ele se exerça
econômicos hegemônicos que, na sociedade desigualmente em relação a diferentes gru-
capitalista, são os que se afirmam como tal a pos de cidadãos, tanto mais autoritariamente
luz do princípio do mercado. quanto socialmente mais vulneráveis forem
Do ponto de vista do paradigma da democra- tais grupos. Por último, e ligado ao que acabei
cia eco-socialista, estas características são au- de dizer, o autoritarismo deste paradigma resi-
toritárias porque a sua eficácia social confere de em que o Estado moderno, sendo o Estado
aos poderosos, aos grupos e classes dominan- que historicamente maior exterioridade em re-
tes, uma enorme legitimidade, que não só re- lação ao poder econômico revela, é, de fato,
produz, como aprofunda a hierarquia e a injus- muito mais dependente dele, quer porque os
tiça social. Assim, ao considerar como apenas governantes deixaram de ter fortuna pessoal,
política uma das formas de poder, a do espaço- quer porque o Estado assumiu novas funções
-tempo da cidadania, o paradigma dominante que exigem a mobilização de vastos recursos.
demite-se da exigência de democratização das Daí a necessidade de o Estado ter de manter
restantes formas do poder. Em segundo lugar, uma relação de diálogo cúmplice com o poder
esta demissão acarreta o fechamento do po- econômico ou, em casos extremos, ter de rom-
tencial democrático num modelo institucional per o diálogo para garantir a sua sobrevivência
e organizativo (a democracia representativa) (as nacionalizações).
especificamente vocacionado para funcionar O potencial autoritário do paradigma do-
setorial e profissionalmente sem perturbar o minante é enorme e os regimes distinguem-se
despotismo com que outras formas de poder pelo maior ou menor grau com que o realizam.
são socialmente exercidas e sem também se Daí que os regimes ditos autoritários ou mes-
deixar perturbar por elas. Em terceiro lugar, a mo totalitários não sejam uma aberração total,
democracia representativa assenta num dese- estranha ao paradigma. Pelo contrário, perten-
quilíbrio estrutural entre o seu eixo vertical (a cem-lhe genuinamente e apenas representam
relação Estado-cidadãos) e o seu eixo horizon- as formas extremas que ele pode assumir. O
218 Boaventura de Sousa Santos

fascismo, por um lado, e o comunismo, por ou- de poder em causa. Ou seja, para o paradigma
tro, são, cada um a seu modo formas extremas emergente, não há uma, mas quatro formas es-
do Estado liberal moderno e da democracia au- truturais de democracia e cada uma permite
toritária que lhe é constitutiva. Este autoritaris- variação interna.
mo reproduz-se hoje sob novas formas, menos A concentração exclusiva do paradigma
visíveis e por isso talvez unais perigosas e difí- dominante apenas numa forma, a democracia
ceis de erradicar, sob a forma da destruição do representativa, adequada ao espaço-tempo
meio ambiente, do consumismo compulsivo, da cidadania, significou um empobrecimen-
da dívida externa e da hierarquia do sistema to dramático do potencial democrático que a
mundial, do ajustamento estrutural e das leis modernidade trazia no seu projecto inicial. É,
de imigração e do imperialismo cultural. pois, necessário reinventar esse potencial, o
O paradigma emergente, o paradigma da que pressupõe inaugurar dispositivos institu-
democracia eco-socialista, é radicalmente de- cionais adequados a transformar as relações
mocrático, no sentido em que visa instaurar a de poder em relações de autoridade partilhada.
democracia a partir das diferentes raízes do Nisso consiste o processo global de democra-
autoritarismo e sob as múltiplas formas por tização. Este paradigma envolve uma enorme
que ele se manifesta. Para este paradigma são expansão do conceito da democracia e em vá-
quatro as fontes principais de autoritarismo na rias direções, uma delas está já explicitada no
nossa sociedade, correspondendo aos quatro que acabei de descrever. Como vimos, a demo-
espaços-tempo estruturais que tenho vindo a cracia deve ser expandida do espaço-tempo da
referir. Como notei a seu tempo, as relações cidadania — onde aliás vigora com fortes limi-
sociais destes espaços-tempo são relações de tações, como vimos — aos restantes espaços-
poder e de desigualdade e como tal fontes de -tempo estruturais. Isto significa que a demo-
autoritarismo. O projeto democrático tem, cracia não é uma especificidade normativa da
pois, para ser consequente, de alvejar cada instituição do Estado nacional. Pelo contrário,
uma destas formas de poder no sentido de o a democracia é, por assim dizer, específica de
democratizar. E deve fazê-lo de modo a maxi- todos os espaços estruturais e de todos os ní-
mizar o uso eficaz de processos de democra- veis de sociabilidade. A especificidade reside
tização especificamente adequados à forma no modo variado como ela é institucionalizada.
O Norte, o Sul e a utopia 219

Em cada um dos espaços-tempo, o paradigma que as gerações presentes. Aliás, a democracia


emergente está vinculado à transformação das das relações interestatais visa sobretudo a de-
relações sociais, de relações de poder em rela- mocracia das relações intergeracionais e é em
ções de partilha da autoridade, mas tal trans- nome desta que a cooperação entre os Estados
formação assume necessariamente formas é mais imprescindível e urgente.
diferentes nas unidades eco-socialistas de con- Esta tripla expansão da democracia — es-
sumo e nas unidades eco-socialistas de produ- trutural, escalar e intergeracional — pressupõe
ção, por exemplo. um enorme investimento de inovação institu-
A expansão estrutural da democracia en- cional. Como todas as formas estruturais de
volve também uma diversificação da escala. poder são políticas e como em todas elas a
O pensamento democrático da modernidade transformação paradigmática visa constituir,
concebeu a escala nacional como a “escala a partir delas, formas de partilha de autorida-
natural” de institucionalização da democracia. de, a democracia eco-socialista é internamente
Trata-se efetivamente de uma redução arbitrá- muito diversa. Na sua definição mais simples, o
ria porque, por um lado, existiu sempre uma eco-socialismo é democracia sem fim. Tal obje-
tradição de democracia local que a modernida- tivo utópico pode funcionar eficazmente como
de teve de suprimir para poder instaurar a sua critério dos limites da democracia na moderni-
originalidade. E porque, por outro lado, com o dade capitalista. Não se trata de obter a trans-
conceito de soberania impermeável, suprimiu parência total nas relações sociais, mas antes
preventivamente um futuro de relações demo- de lutar sem limites contra a opacidade que as
cráticas internacionais que ela tornava contra- despolitiza e desingulariza.
ditoriamente urgente e impossível. Uma luta democrática com esta amplitude
O paradigma da democracia eco-socialista não pode confiar num sujeito privilegiado nem
expande a democracia ainda numa terceira contentar-se com um conceito unívoco de direi-
direcção: a duração intertemporal e interge- tos. São quatro as posições subjetivas estrutu-
racional. Segundo este paradigma, a proximi- rais que se combinam e articulam de diferente
dade do futuro é hoje tão grande que nenhum forma na prática social dos sujeitos, tanto in-
presente é democrático sem ele. Por assim di- dividuais, como coletivos. A família, a classe,
zer, as gerações futuras votam com igual peso a cidadania e a nacionalidade são dimensões
220 Boaventura de Sousa Santos

ou posições de subjetividade que se combinam diferentes dimensões da subjetividade dos indi-


nos indivíduos e nos grupos sociais de modos víduos e dos grupos sociais.
diferentes segundo os contextos e as culturas, Concluo assim um percurso telescópico
segundo as práticas e as tradições, segundo os sobre as formas que assume a confrontação
objetivos e os obstáculos. Dada esta multiplici- entre o paradigma dominante e o paradigma
dade de posições subjetivas e das combinações emergente nos domínios do conhecimento e
a que dão azo, são recorrentes as constelações subjetividade, dos padrões de transformação
contraditórias de subjetividades parciais, ou social e do poder e política. A imaginação de
seja, a articulação no mesmo indivíduo ou gru- tal debate na Câmara Paradigmática de Pasár-
po social de posições de subjetividade incon- gada 2 destina-se a desenvolver o campo das
gruentes, do que resultam padrões de acção que alternativas sociais práticas e a convocar as
a racionalidade moderna considera tortuosos, instituições educacionais a participar ativa-
ineficazes, contraditórios ou mesmo absurdos. mente nessa tarefa ensinando e investigando
São precisos critérios de racionalidade mais por igual os paradigmas em confronto. O reco-
amplos para compreender a complexidade de nhecimento do conflito paradigmático tem por
tais constelações de subjetividades e os obstá- objetivo precisamente reconstituir o nível de
culos à sua mobilização no sentido da transição complexidade a partir do qual é possível pen-
paradigmática. A luta pelo paradigma emergen- sar e operacionalizar alternativas de desenvol-
te avança tanto mais quanto mais dimensões vimento societal. Era já contra o reducionismo
da subjetividade o adotam como princípio de que Fourier se revoltava no princípio do século
razão prática. Trata-se de um objetivo difícil, XIX ao referir-se aos economistas como “essa
pois o mais normal é que, numa situação de seita de repente saída da obscuridade” (1967).
transição paradigmática, o indivíduo, tal como Na ciência moderna em geral, a perfetibilida-
a sociedade, esteja dividido, com algumas das de das palavras e dos cálculos tem coexistido
suas dimensões de subjetividade próximas do com o absurdo das ações e das consequências.
paradigma dominante e outras, próximas do Daí que na transição paradigmática se tolere a
paradigma emergente. As coligações a favor imperfetibilidade das palavras e dos cálculos
do paradigma emergente são possíveis na exa- se ela se traduzir numa maior razoabilidade e
ta medida em que a ele aderem, uma a unta, as equidade das ações e das consequências.
O Norte, o Sul e a utopia 221

Não me propus neste trabalho formular uma Cassirer, E. 1960 The Philosophy of the
nova teorização da realidade no final do século. Enlightenment (Boston: Beacon Press).
Procurei, pelo contrário, desteorizá-la para a Cassirer, E. 1963 The Individual and the
poder depois utopizar com o objetivo de contri- Cosmos in Renaissance Philosophy
buir para a criação de um novo senso comum (Oxford: Blackwell).
que nos permita transformar a ordem ou desor- Chase-Dunn, C. 1991 Global Formation.
dem existente que Fourier significativamente Structures of the World-Economy
designava por “ordem subversiva”. (Cambridge: Blackwell).
Não é tarefa fácil nem é uma tarefa individu- Derluguian, G. 1992a “State Cohesion” in
al. Mas se é verdade que a paciência dos concei- Trajectory of the World-System 1945-1990
tos é grande, a paciência da utopia é infinita. (s/d: Working Papers, Nº 35).
Derluguian, G. 1992b “Religion” in Trajectory
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222 Boaventura de Sousa Santos

Ikeda, S. 1992 “TNC’S” in Trajectory of the Santos, B. de Sousa 1991a Um Discurso sobre
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Uma Ciência Pós-Moderna (Porto:
Afrontamento).
As ecologias dos saberes*

A partir de diferentes posições, o pensamen-


to abissal e o conhecimento como eman-
cipação (que vai de um ponto de ignorância
ra não existentes. Neste sentido, a ideia central
da sociologia das ausências é que não existem
a ignorância nem o conhecimento em geral.
chamado colonialismo a um ponto de conhe- Toda ignorância é de um determinado tipo de
cimento chamado solidariedade) e também a conhecimento, e todo conhecimento é a supe-
razão cosmopolita subalterna, convergem na ração de uma ignorância particular. Aprender
busca de epistemologias do Sul baseadas em um determinado conhecimento pode implicar
aprender do Sul anti-imperial. As epistemo- esquecer outros tipos de saberes ou, na reali-
logias do Sul se constroem com dois procedi- dade, ignorá-los. Em outras palavras, do ponto
mentos principais: as ecologias dos saberes e a de vista da ecologia dos saberes, a ignorância
tradução intercultural. Neste texto, ocupo-me não é necessariamente nem uma fase anterior
das ecologias dos saberes. nem um ponto de partida. Pode ser perfeita-
A ecologia dos saberes se opõe à lógica da mente um ponto de chegada, resultado do es-
monocultura do conhecimento e do rigor cien- quecimento ou do desaprender que o processo
tíficos, e identifica outros saberes e critérios de de aprender implica. Assim, em cada passo da
rigor e validez que operam de forma crível em ecologia dos saberes é fundamental perguntar-
práticas sociais que a razão metonímica decla- -se se o que aprendemos é válido e se o que sa-
bemos se deve esquecer ou desaprender e por
* Tradução portuguesa de Santos, B. de Sousa 2017
quê. A ignorância é desqualificada quando o
“La ecología de los saberes” in Justicia entre saberes que aprendemos tem maior valor do que o que
(Madrid: Morata) pp. 237-263. se esquece. Ou, se não, a ignorância equivale à
224 Boaventura de Sousa Santos

docta ignorância de Nicolas de Cusa. A utopia ça cognitiva nunca terá sucesso se só se baseia
do interconhecimento consiste em aprender na ideia de uma distribuição mais equitativa do
conhecimentos novos e menos familiares sem conhecimento científico. Mais além do fato de
ter que esquecer necessariamente dos antigos que tal distribuição é impossível nas condições
nem dos próprios. Tal é a ideia de prudência do capitalismo global, o conhecimento científi-
que subjaz na ecologia dos saberes. Esta con- co tem uns limites intrínsecos no que se refere
sidera óbvio que todas as práticas racionais às intervenções que promove na prática1.
em que intervêm os seres humanos, e seres Na ecologia dos saberes, buscar credibilida-
humanos e natureza, têm mais de um tipo de de para os conhecimentos não científicos não
saber e, por conseguinte, também mais de um leva a desacreditar o conhecimento científico.
tipo de ignorância. Do ponto de vista epistemo- Implica, pelo contrário, utilizá-lo em um con-
lógico, as sociedades capitalistas modernas se texto mais amplo de diálogo com outros co-
caracterizam por favorecer as práticas em que nhecimentos. Nas condições atuais, tal uso do
prevalecem as formas de conhecimento cientí- conhecimento científico é contrahegemônico.
fico. Isto significa que só se considera desqua- Trata-se, por um lado, de explorar concepções
lificadora a ignorância destas formas. Como alternativas que estejam no interior do conhe-
consequência deste status privilegiado que se cimento científico e que tenham se tornado vi-
outorga às práticas científicas, a intervenção síveis por meio de epistemologias pluralistas
destas na realidade humana e social é favore- de diversas práticas científicas (em particular,
cida. Qualquer erro ou desastre que possam as epistemologias feministas) e, por outro lado,
provocar são aceitos socialmente e considera- de promover a interdependência entre os sabe-
dos um custo inevitável que se deve superar ou res científicos produzidos pela modernidade
compensar com novas práticas científicas. ocidental e saberes diferentes não científicos.
O conhecimento científico não está distribu- Este princípio de incompletude de todos os
ído de forma equitativa, motivo pelo qual suas saberes é a condição prévia dos diálogos e de-
intervenções na prática tendem a servir os gru- bates epistemológicos entre diferentes conhe-
pos sociais que têm maior acesso a ele. Em úl-
tima instância, a injustiça social se baseia na
injustiça cognitiva. No entanto, a luta pela justi- 1 Véase Harding, 1996.
As ecologias dos saberes 225

cimentos. O que cada conhecimento traz a esse assentar a ideia de que os saberes não cientí-
diálogo é como consegue que certa prática aca- ficos são alternativas ao conhecimento cientí-
be com uma determinada ignorância. Confron- fico. A ideia de alternativas pressupõe a ideia
tação e diálogo entre saberes é confrontação e de normalidade, e esta, a ideia de norma, de
diálogo entre os diferentes processos por meio modo que, se não se especifica nada mais, a
dos quais as práticas que forem diversamente designação de algo como alternativo tem uma
ignorantes se transformam em práticas que conotação latente de condição subalterna. Se
sejam também diversamente conhecedoras. tomamos como exemplo a biomedicina e a
Todos os conhecimentos têm limites internos medicina tradicional africana, não tem sentido
e externos. Os internos se referem às restri- considerar que a segunda, que predomina com
ções que são consequência do que ainda não muita diferença na África, seja alternativa à pri-
se sabe, mas no final, por um determinado tipo meira. O que importa é identificar os contextos
de conhecimento, pode-se saber. Os limites ex- e as práticas em que ambas operam, como con-
ternos se referem ao que não se sabe nem se cebem a saúde e a doença, e como superam a
pode saber mediante um determinado tipo de ignorância (como doença não diagnosticada)
conhecimento. Do ponto de vista da ecologia mediante o conhecimento aplicado (como cura
dos saberes, os limites externos implicam re- ou como sanação)2.
conhecer intervenções alternativas que só são A ecologia dos saberes não implica aceitar
possíveis com outros tipos de conhecimento. o relativismo. Pelo contrário, do ponto de vista
Uma das características específicas do conhe- de uma pragmática da emancipação social, o
cimento hegemônico é que só reconhece os relativismo, entendido como ausência de cri-
limites internos. O uso contra hegemônico da térios de hierarquia entre os conhecimentos,
ciência moderna constitui uma exploração pa- é uma posição insustentável, porque torna im-
ralela e simultânea de seus limites internos e possível qualquer relação entre o conhecimen-
externos. Por esta razão, o uso contrahegemô- to e o significado da transformação social. Se
nico da ciência não pode se limitar só à ciência.
Só tem sentido dentro da ecologia dos saberes.
2 Ainda existem contextos e práticas que expressam
Tal ecologia dos saberes permite superar
“terceiros” conhecimentos médicos gerados pela com-
a monocultura do conhecimento científico e plementariedade entre os dois tipos de medicina.
226 Boaventura de Sousa Santos

todos os diferentes tipos de conhecimento são nidade, como disse John Dewey, colabore com
igualmente válidos como conhecimento, todo a ideia que tenha de “outro mundo possível”; o
projeto de transformação social é igualmente debate assim concebido tem pouco a ver com
válido, ou igualmente não válido. O objetivo os meios alternativos para alcançar os mesmos
da ecologia dos saberes é criar um novo tipo fins; trata-se de falar de fins alternativos.
de relação, uma relação pragmática, entre o A ecologia dos saberes se centra nas relações
conhecimento científico e outros tipos de co- concretas entre os saberes e nas hierarquias e
nhecimento. Consiste em assegurar a “igual- forças que se geram entre eles. Na realidade,
dade de oportunidades” aos distintos tipos de nenhuma prática concreta seria possível sem
conhecimento que intervêm nas cada vez mais tais hierarquias. O que a ecologia dos saberes
amplas epistemologias, com a ideia de maximi- questiona são as hierarquias e forças abstratas
zar suas respectivas contribuições com a cons- que a história, por meio deles, naturalizou.
trução de “outro mundo possível”, ou seja, uma As hierarquias concretas devem emergir da
sociedade mais justa e democrática, e também validação de uma determinada intervenção
uma sociedade mais equilibrada em suas rela- na prática com respeito a outras intervenções
ções com a natureza. Não se trata de outorgar alternativas. Entre os diferentes tipos de inter-
a mesma validez a todos os tipos de conheci- venção pode haver complementaridades ou
mento, mas de fazer possível um debate prag- contradições; em todo caso, o debate entre eles
mático entre critérios alternativos válidos sem deve estar presidido tanto por juízos cognitivos
desqualificar de forma imediata tudo o que não quanto por juízos éticos e políticos. A objetivi-
encaixe no cânon epistemológico da ciência dade que preside o juízo cognitivo de uma de-
moderna. A igualdade de oportunidades que terminada prática não choca necessariamente
se deve garantir aos diferentes tipos de conhe- com a avaliação ético-política de dita prática.
cimento não se deve tomar em sentido literal, O impulso que move a ecologia dos saberes
ou seja, como uma igualdade de oportunidades está no fato de que as lutas sociais, particular-
para conseguir uns objetivos predeterminados. mente no Sul global, tornam visíveis realida-
Tal como aqui se entende, a igualdade de opor- des sociais e culturais em que a fé na ciência
tunidades implica que cada tipo de conheci- moderna é frágil, e são mais visíveis os laços
mento que participe da conversação da huma- entre a ciência moderna e os objetivos da do-
As ecologias dos saberes 227

minação colonial e imperial, ao mesmo tempo ser membro da humanidade histórica —ou
em que nas práticas sociais de grandes setores seja, ser grego e não bárbaro no século V a.C.,
da população persistem outros tipos de conhe- cidadão romano e não grego nos primeiros sé-
cimento não científico e não ocidental. Estas culos de nossa era, cristão e não judeu na Ida-
lutas não descartam necessariamente o co- de Média, europeu e não “selvagem” do Novo
nhecimento científico nem a cultura ocidental Mundo no século XVI e, no século XIX, euro-
hegemônica, mas que os interrogam, gerando peu (incluído o europeu deslocado da América
assim interpretações possivelmente mais ricas do Norte) e não asiático, que está congelado
do que as que oferecem as epistemologias do na história, nem africano, que nem sequer for-
Norte. A isto se refere Roberto Retamar quan- ma parte da história—. O contexto cultural em
do diz: “Não há mais que um tipo de pessoa que que emerge a ecologia dos saberes é ambíguo.
conheça de verdade, em seu conjunto, a litera- Por um lado, a ideia da diversidade sociocul-
tura europeia: o colonial” (1989: 28). tural do mundo foi ganhando aceitação nos
No que se segue, analiso com maior detalhe movimentos sociais nas três últimas décadas,
algumas das considerações anteriores. o qual deveria favorecer o reconhecimento da
diversidade e da pluralidade epistemológicas
A ecologia dos saberes e a como uma das dimensões dessa pluralidade.
inesgotável diversidade da Por outro lado, se todas as epistemologias
experiência do mundo compartilham as premissas culturais de seu
A ecologia dos saberes se baseia na ideia da tempo, é possível que uma das premissas mais
copresença radical. Copresença radical signifi- assentadas do pensamento abissal seja hoje a
ca que as práticas e os agentes de ambos lados crença na ciência como a única forma válida e
da linha abissal são contemporâneos sempre e exata de conhecimento. Ortega y Gasset (1942)
quando houver mais de um tipo de contempo- propõe uma distinção radical entre crenças e
raneidade. Copresença radical significa equipa- ideias, e as segundas significam ciência ou fi-
rar simultaneidade com contemporaneidade, o losofia. A distinção se baseia no fato de que as
qual só se pode conseguir caso se abandone a crenças formam parte integral da nossa iden-
concepção linear do tempo. Só assim será pos- tidade e subjetividade, enquanto as ideias são
sível ir mais além de Hegel (1970), para quem externas a nós. A origem de nossas ideias está
228 Boaventura de Sousa Santos

nas incertezas e permanecem associadas a dem utilizar para validá-lo. Neste sentido, o que
elas, ao mesmo tempo em que, a das crenças é válido para a teoria é válido também para a
está na ausência da dúvida. Em essência, é uma epistemologia. No período transicional em que
distinção entre ser e ter: somos o que cremos, estamos entrando, onde ainda prevalecem as
mas temos ideias. Uma característica típica do versões de totalidade e da unidade do conheci-
nosso tempo é o fato de que a ciência moderna mento, provavelmente precisamos de uma pos-
pertence tanto ao reino das ideias como ao das tura epistemológica geral residual ou negativa
crenças. A crença na ciência está muito acima para avançar: uma epistemologia geral da im-
de qualquer coisa que possamos conseguir com possibilidade de uma epistemologia geral.
as ideias científicas. Portanto, a relativa perda Dois fatores principais explicam a emergên-
de confiança epistemológica na ciência que im- cia da ecologia dos saberes. O primeiro é a forte
pregnou toda a segunda metade do século XX, presença política de povos e de visões do mun-
esteve acompanhada do auge da crença popu- do do outro lado da linha que juntos participam
lar na ciência. A relação entre crenças e ideias da resistência global ao capitalismo, ou seja,
no que se refere à ciência deixou de ser uma re- como importantes agentes da globalização con-
lação entre duas entidades diferentes, para se trahegemônica. O segundo fator é a confron-
tornar uma relação entre duas formas de expe- tação inédita entre concepções radicalmente
rimentar a ciência. Esta dualidade significa que diferentes de sociedade alternativa, tão diferen-
o reconhecimento da diversidade cultural do tes que não se podem juntar no âmbito de uma
mundo não significa necessariamente reconhe- única Alternativa totalizadora. Basta mencionar
cer a diversidade epistemológica do mundo. a luta dos camponeses pobres de todo o mundo
Neste contexto, a ecologia dos saberes é contra o monopólio de terras e os monocultivos
basicamente uma contraepistemologia. Isto agroindustriais; ou as lutas dos povos indígenas
implica renunciar a qualquer epistemologia ge- de toda a América Latina contra os megaproje-
ral. Em todo o mundo, não só há formas mui- tos como represas e estradas que cruzam os par-
to diferentes de conhecimento da matéria, da ques nacionais e os territórios em que vivem, ou
sociedade, da vida e do espírito, mas também contra a exploração mineradora a céu aberto a
muitos e muito diversos conceitos do que conta uma escala sem precedentes. Frequentemente
como conhecimento e dos critérios que se po- eles enfrentam governos progressistas ou or-
As ecologias dos saberes 229

ganizações de operários e mineiros para quem nem poderia estar, porque em suas origens o
os benefícios que trazem tal “desenvolvimento sujeito do conhecimento foi desenhado para
das forças produtivas” podem possibilitar uma tornar deste lado da linha, e do outro lado da
riqueza compartilhada e melhores serviços so- linha está o objeto do conhecimento. As in-
ciais. Ou as novas presenças coletivas na esfera tervenções práticas que favorecem costumam
pública como a dos indignados da Europa ou ser aquelas que servem aos grupos sociais que
as pessoas do movimento okupa dos Estados têm maior acesso ao conhecimento científico.
Unidos, que em suas lutas (muito diferentes) Enquanto continuarem sendo traçadas linhas
enfrentam não só os governos conservado- abissais, a luta pela justiça cognitiva não triun-
res que estão a serviço do grande capital, mas fará caso se baseie exclusivamente na ideia de
também a partidos de esquerda e organizações uma distribuição mais equitativa do conheci-
sociais progressistas para quem essas lutas são mento científico. Além do fato de que a distri-
utópicas, contraproducentes e terminam por buição equitativa é impossível nas condições
ser um instrumento das estruturas de poder do capitalismo e do colonialismo, o conheci-
dominantes. A globalização contrahegemônica mento científico tem umas limitações intrínse-
destaca pela ausência de uma única alternativa cas no que se refere aos tipos de intervenção
globalmente válida. A ecologia dos saberes pre- prática que possibilita.
tende dar consistência epistemológica ao pen-
sar e agir plural e proposicionalmente. A pluralidade interna das
Tudo isto convida a uma reflexão mais pro- práticas científicas3
funda sobre a diferença entre a ciência como
A questão da pluralidade interna colocou,
conhecimento monopolista e a ciência como
no Ocidente, sobretudo as epistemologias fe-
parte da ecologia dos saberes.
ministas4, os estudos sociais e culturais da
A ciência moderna como parte da
ecologia dos saberes 3 Nesta sessão me baseio em Santos, Meneses e Nu-
Como dizia antes, o conhecimento científico nes (2007).
como produto do pensamento abissal não está 4 As epistemologias feministas — o plural tem a in-
distribuído socialmente de forma equitativa, e tenção de abordar a diversidade de posições sobre esta
230 Boaventura de Sousa Santos

ciência, e as correntes da história e da filoso- dos interesses dominantes, e o agudo contras-


fia que estes últimos incluem5. Em geral, cha- te entre avanço tecnológico e estancamento,
mamos estes processos de epistemologias da quando não retrocesso, no relativo ao desen-
pluralidade das práticas científicas. Buscam volvimento ético da humanidade. A terceira via
uma terceira via entre a epistemologia con- dá por contado que estas duas posturas, ainda
vencional da ciência moderna e outras formas que suponham uma polarização, em última
alternativas de saber. Da sua perspectiva, com instância compartilham a mesma concepção
independência das novas ciências emergentes da ciência: o essencialismo científico, o excep-
(as ciências da complexidade), a epistemolo- cionalismo científico, a autorreferencialidade e
gia dominante continua dependendo muito do o representacionalismo. A terceira via emerge
positivismo e de sua crença na neutralidade da oposição a tal concepção e da tentativa de
da ciência moderna, sua indiferença diante da salvaguardar as coisas positivas que a ciência
cultural, seu monopólio do conhecimento váli- moderna criou (Harding, 1998: 92).
do, sua suposta excepcional capacidade para As epistemologias da terceira via mostrou
gerar o progresso da humanidade. No extremo que a pesquisa depende de uma complexa mis-
oposto estão os críticos radicais da ciência mo- tura de construtos da ciência e da não ciência:
derna, de que têm uma visão distópica, e subli- a seleção de temas, problemas, modelos teóri-
nham a sua natureza destrutiva e antidemocrá- cos, metodologias, linguagens, imagens e for-
tica, sua pseudoneutralidade posta a serviço mas de debate; através da pesquisa histórica e
etnográfica, estudam as culturas materiais das
ciências (Galison, 1997; Kohler, 2002; Keating e
matéria dentro do feminismo — foram centrais na crí-
tica dos dualismos “clássicos” da modernidade, como a Cambrosio; 2003), as diferentes formas em que
natureza/cultura, o sujeito/objeto e o humano/não hu- os cientistas se relacionam com os contextos,
mano, assim como a naturalização das hierarquias de instituições, com seus iguais, com o Estado,
classe, sexo/gênero e raça (Soper, 1995). com as agências e entidades que os financiam,
5 Veja-se, por exemplo, a prolífica literatura de San- e com os interesses econômicos ou o interes-
tos (1995, 2000, 2007b, 2009); Pickering (1992); Lynch se público destacam a importância capital da
(1993); Jasanoff e cols. (1995); Galison e Stump (1996);
ideia de conhecimento como uma construção,
Latour (1999); Kleinman (2000); Nunes e Gonçalves
(2001); Stengers (2007). como a interação, mediante práticas social-
As ecologias dos saberes 231

mente organizadas, de atores humanos, mate- diversas formas de indagação que se identifica-
riais, instrumentos, formas de fazer as coisas e riam com a ciência moderna não só tratavam
habilidades, para criar algo que antes não exis- de uma ampla diversidade de temas e objetos
tia, com novos atributos, não reduzíveis à soma ainda não vinculados a disciplinas ou especia-
dos heterogêneos elementos mobilizados para lidades diferentes, mas que também permitiam
a sua criação; e, por último, escudrinharam as diferentes procedimentos: a observação natu-
condições e os limites da autonomia das ativi- ralista, a descrição e classificação de animais e
dades científicas, e com isso revelaram suas minerais, a experimentação controlada, os re-
conexões com os contextos sociais e culturais cursos matemáticos, a especulação filosófica.
em que se realizam. Com suas análises da hete- A diferença e a especialização dentro das ci-
rogeneidade das práticas e dos relatos científi- ências é, portanto, o resultado de um processo
cos, estas colocações arrebentaram a suposta histórico que se deve entender no contexto da
unidade epistemológica e praxiológica da ciên- distinção entre ciência e tecnologia, uma dis-
cia, e transformaram a oposição das “duas cul- tinção que se continua utilizando com frequên-
turas” (ciências e humanidades) como elemen- cia para defender a neutralidade intrínseca da
to estruturador do campo do conhecimento em ciência e situar as consequências da pesquisa
uma pluralidade mais bem instável de culturas científica —desejáveis ou indesejáveis— com
científicas e epistêmicas, e de configurações suas aplicações. Estas mudanças que, nas úl-
dos conhecimentos6. timas décadas, experimentaram a organização
Nos séculos XVI e XVII, já havia posturas de- do conhecimento científico e de suas relações
ferentes sobre o que se entendia por ciência e
fatos científicos7. No entanto, curiosamente, as
historiadores feministas da ciência como Londa Schie-
binger (1989) ou Paula Findlen (1995) demonstraram
que a diversidade de temas, métodos e concepções do
6 Para diferentes enfoques sobre este tema, veja Ga- conhecimento nos séculos XVI e XVII incluía o prota-
lison e Stump (1996); Nunes (1998/1999, 2001); Wallers- gonismo das mulheres. À medida em que as ciências se
tein (2007); Wagner (2007); Stengers (2007). institucionalizaram, muitos dos conhecimentos criados
7 Este tema atraiu a atenção de autores particu- pelas mulheres deviam ser apropriados por uma comu-
larmente interessados na historiografia da revolução nidade científica abrumadoramente masculina ou sim-
científica (por exemplo, Shapin, 1996, Osler, 2000). Tais plesmente descartados como formas de conhecimento.
232 Boaventura de Sousa Santos

com a inovação e o desenvolvimento tecnológi- 1996/97), que albergava um modelo episte-


cos em campos como a física de altas energias mológico distintivo, mas vinculado também a
e a biologia molecular, conduziram a impor- espaços e tempos específicos. Durante mais
tantes reavaliações do registro histórico desta de três décadas, os estudos sociais da ciência
divisão, que trouxeram provas da existência produziram um amplo conjunto de estudos
de muitas situações no passado em que a ino- empíricos e reflexões teóricas e epistemo-
vação e o desenvolvimento tecnológicos eram lógicas sobre as características situadas da
inseparáveis da atividade da própria pesquisa produção do trabalho científico. O reconheci-
científica. O tão utilizado termo “tecnociência” mento dos princípios que davam legitimidade
foi proposto como uma forma de descrever a às diferentes práticas constituídas como ciên-
impossibilidade de uma diferenciação radical cias se traduziu não só na afirmação de uma
da ciência e da tecnologia8. diversidade de modelos de cientificidade,
A tentativa de reduzir a ciência a um único mas também em tensões entre estes modelos
modelo epistemológico inspirado na mecâni- dentro das próprias ciências.
ca de Newton e baseado na matematização Insistir nas fronteiras frequentemente
como ideal de cientificidade9, foi recebido supôs impedir a consolidação de novas dis-
por uma diversificação de práticas situadas ciplinas ou campos científicos. No entanto,
que coexistiam ou estavam interrelacionadas a realidade é que alguns dos novos avanços
com uma “ecologia das práticas” (Stengers, mais inovadores no conhecimento científico
nas últimas décadas foram produzidos pre-
cisamente “entre fronteiras”. Não me refiro
8 Sobre a relação entre ciência e tecnologia, veja La-
tour (1987) e Stengers (1996/1997, 1997), assim como o à “interdisciplinaridade”, uma espécie de co-
trabalho citado na nota 5 sobre ciência e cultura mate- laboração entre as disciplinas que pressupõe
rial. Os ensaios em Santos (2007a) mostram como a im- respeitar as fronteiras. A diferença da vigi-
possibilidade de distinguir a ciência da tecnologia é um lância típica da interdisciplinaridade, o “tra-
fator crucial para a compreensão da dinâmica global do
balho de fronteira” a qual me refiro pode, no
conhecimento e de suas concomitantes desigualdades,
tensões e conflitos. melhor dos casos, gerar novos objetos, novas
perguntas e novos problemas e, no pior caso,
9 O modelo foi sacudido pela física quântica e outros
desenvolvimentos convergentes. conduzir à “colonização” de novos espaços,
As ecologias dos saberes 233

presas do conhecimento submetido aos “ve- nos lembram os filósofos pragmáticos, é uma
lhos” modelos10. intervenção no mundo, uma intervenção que
É possível que esta “desunidade” e diversi- nos situa dentro dele como participantes ativos
dade da ciência seja simplesmente consequên- em sua produção. Diferentes modos de conhe-
cia de um pluralismo epistemológico, ou seja, cimento, por ser irremediavelmente parciais e
de várias formas de ver e de manipular o mun- situados, terão diferentes consequências para
do, ainda que este seja em si mesmo único e o mundo e o afetarão de diferente modo. A pró-
homogêneo (a hipótese do universo)? Ou tal- pria capacidade das ciências modernas de criar
vez existam causas de tal diversidade, uma di- novas entidades e, deste modo, sancionar uma
versidade que deriva da própria heterogeneida- política ontológica (Mol, 2002) —cujo efeito,
de do mundo (a hipótese do pluriverso)? Seja intencionado ou não, é aumentar a heteroge-
como for, a diversidade epistemológica não é neidade do mundo— parece que reforça esta
o simples reflexo ou epifenômeno da diversi- ideia. Configura um realismo robusto e uma
dade ou da heterogeneidade ontológica. Não sólida objetividade, uma clara consciência da
existe uma forma essencial nem definitiva de necessidade de identificar de forma exata e
descobrir, ordenar e classificar os processos, precisa as condições em que se produz o co-
as entidades e as relações do mundo. A pró- nhecimento e como se avalia sobre a base de
pria ação de conhecer, como repetidamente suas consequências observadas ou previstas.
Deste modo, pode-se dar uma explicação rigo-
rosa do caráter situado, parcial e construído de
10 Um exemplo particularmente interessante deste todos os conhecimentos, ao mesmo tempo em
processo se refere à história da biologia durante o sé- que se recusa o relativismo como postura epis-
culo passado, sobretudo no que se refere à genética, à
temológica e moral11.
biologia molecular e ao desenvolvimento e biologia da
evolução. Sobre as implicações epistemológicas e teóri-
cas desta história, veja, por exemplo, Lewontin (2000);
Keller (1995, 2000); Oyama (2000); Oyama, Griffiths e 11 Veja, a este respeito, a proposta de Dupré de um
Gray (2001); Nunes (2001); Singh e col. (2001); Robert “realismo promíscuo” (1993, 2003), que tem fortes
(2004). Sobre os desafios teóricos e as práticas cientí- afinidades com enfoques pragmatistas (o de John
ficas em biologia, veja J. Ramalho-Santos (2007) e M. Dewey em particular) explorado anteriormente por
Ramalho-Santos (2003). Santos (1989).
234 Boaventura de Sousa Santos

Neste sentido, o conceito de construção é fun- Desta perspectiva, as práticas de produção


damental como recurso para caracterizar o pro- de conhecimento implicam trabalhar nos ob-
cesso de formação tanto do conhecimento quan- jetos, seja para transformá-los em objetos do
to dos objetos tecnológicos. Desta perspectiva, conhecimento reconhecíveis no âmbito do
construir significa colocar em relação e intera- que já existe, ou para redefini-los como parte
ção, no âmbito de práticas organizadas social- de uma redefinição mais ampla do próprio co-
mente, materiais, ferramentas, formas de fazer nhecimento. Alguns objetos se transformam
e competências para criar algo que não existia ao colocá-los em situações novas, seja porque
antes, algo que tenha propriedades novas e que adquirem novas propriedades sem perder as
não se possa reduzir à soma total dos heterogê- próprias, ou porque assumem novas identida-
neos elementos mobilizados para conseguir sua des, que tornam possível sua reapropriação
criação. Assim, pois, a oposição entre o real e o em novas condições. Outros objetos mantêm
construído, tão frequentemente invocada para sua própria identidade e estabilidade, mas são
arremeter contra os estudos sociais e culturais apropriados de forma diferente em situações
da ciência e da tecnologia, não tem nenhum sen- porque assumem novas identidades, que tor-
tido. O que existe —o conhecimento, os objetos nam possível a sua reapropriação em novas
tecnológicos, os edifícios, as estradas, os obje- condições. Outros objetos mantêm sua própria
tos culturais— existe porque está construído identidade e estabilidade, mas são apropriados
mediante práticas situadas. Como nos lembra de forma diferente em situações e contextos di-
Latour, a diferença relevante não é entre o real e ferentes —como é o caso, por exemplo, de de-
o construído, mas entre o que está bem construí- terminados objetos que a pesquisa biomédica e
do, que resiste bem às situações em que se colo- a prática clínica “compartilham”—. No entanto,
cam à prova sua consistência, solidez e robustez, ao tratar do desconhecido e com ignorância a
e o que está mal construído e, por conseguinte, é respeito das propriedades e do comportamen-
vulnerável à crítica ou à erosão. Esta é a diferen- to futuro dos novos objetos —por exemplo,
ça que permite distinguir entre fatos (bem cons- os organismos modificados geneticamente, os
truídos) e artefatos (mal construídos)12.

se utiliza nos estudos sociais e culturais da ciência, há


12 Sobre este tema, ver as contribuições incluídas em abundante bibliografia. Para duas discussões esclarece-
Santos ed. (2007a). No conceito de construção como doras, veja P. Taylor (1995) e Latour (1999).
As ecologias dos saberes 235

príons ou as mudanças climáticas— a relação cartar a relação intersubjetiva e o uso “comum”


com o desconhecido e com a ignorância implí- da linguagem, nem as competências interacio-
cita no que se sabe e se pode contar contrasta nais que cientistas e leigos compartilham como
com o cauteloso respeito devido ao que não se membros de coletivos ou sociedades. As ten-
sabe (Santos, 1989). Invocar a precaução (da ções internas características da história das
qual falo mais adiante) ao ocupar-se de fenô- ciências humanas —incluídas a medicina e a
menos apenas conhecidos não supõe recusar o psicanálise— também têm a ver com a defi-
conhecimento nem a intervenção, mas assumir nição da fronteira entre os sujeitos e os obje-
um determinado risco: questionar as nossas tos. Outras oposições, como as de explicação/
próprias convicções e a nossa ignorância sem compreensão, tentam cimentar uma dualidade
reduzir o que se sabe ao que já se sabe, e sem epistemológica que, como hoje sabemos, não
proclamar a irrelevância do que não se pode concorda bem com os sujeitos/objetos híbridos
descrever porque não o conhecemos. das ciências humanas.
A definição do que é um objeto e a distin- Por último, e seguindo a Sandra Ardem
ção entre o sujeito e o objeto aparecem como (1998, 2006), dentro da terceira via entre a epis-
um fator mais da diferenciação interna entre temologia convencional da ciência moderna e
as ciências. Algumas práticas científicas estão outros sistemas alternativos de conhecimento,
obrigadas a tratar diretamente das dificuldades são possíveis dois enfoques do estudo da ciên-
relacionadas com a distinção entre sujeitos e cia e da tecnologia: o enfoque pós-kuhniano,
objetos. Da biomedicina às ciências sociais, desenvolvido no Norte, e os estudos pós-colo-
e incluída a psicanálise, a definição dos obje- niais, realizados sobretudo no Sul. Os primei-
tos do conhecimento não se distingue de uma ros podem ser caracterizados de acordo com
relação com os sujeitos constituídos como os seguintes temas: os postulados históricos
os objetos daquele. De modo que traçar uma e culturais configuraram a história da ciência
fronteira entre o sujeito e o objeto se torna um ocidental moderna; a ciência avança através de
passo que nos leva a trabalhar simultaneamen- descontinuidades conceituais; o núcleo cogni-
te sobre as diversas fronteiras que delimitam tivo e técnico da ciência moderna não pode se
os territórios e a história do conhecimento. Se isolar da cultura nem da política; as ciências
devemos constituir a “matéria prima” para a estão desunificadas, como deve ser; conceber
produção de conhecimento, não podemos des- a ciência como uma série de representações
236 Boaventura de Sousa Santos

oculta a dinâmica da intervenção e da intera- Estes enfoques, que designei como episte-
ção; todo momento da história da ciência mo- mologias plurais das práticas científicas, estão
derna compartilha os postulados da diferença imersos na Weltanschauung da diversidade
sexual de seu tempo. O enfoque pós-colonial, e da pluralidade que caracteriza a transição
por sua vez, compartilha as características paradigmática. No entanto, acho que não são
pós-kuhnianas, mas acrescenta outras duas: no suficientes no reconhecimento da diversidade
Norte, considera-se que a ciência produzida no e da pluralidade. Exceção feita, em parte, dos
Norte é toda a que se produz no mundo; existe enfoques pós-coloniais, estas epistemologias
uma relação causal entre a expansão europeia, confinaram-se nas ciências; quando se referem
o colonialismo e o desenvolvimento da ciên- a outros sistemas de conhecimento, sempre
cia moderna. A ciência moderna, apoiada pelo fazem isso do ponto de vista da ciência moder-
direito moderno, foi a grande desenhadora da na, porque não se leva devidamente em conta
linha abissal e da conseguinte invisibilidade de o outro componente sociocultural da transição
tudo o que estava do outro lado da linha. paradigmática: a globalização hegemônica.
Estes dois enfoques concebem a ciência de Agora, do mesmo modo que na ciência clássica
forma não essencialista e reconhecem que as a unidade da realidade e do conhecimento ca-
fronteiras que os separam de outros sistemas de minhava junto do universalismo, hoje a diversi-
conhecimento são ambíguas; consideram que to- dade e a pluralidade estão acompanhadas pela
dos os sistemas de conhecimento são sistemas globalização hegemônica.
de conhecimento local; valorizam a diversidade Diferentemente do universalismo, que era a
cognitiva da ciência entendida mais em termos força de uma ideia que se representa a si mes-
de virtualidade tecnológica do que em termos ma como imposta sem a ideia de força, a glo-
representacionais; por último, acreditam que o balização hegemônica é a força de uma ideia
sujeito do conhecimento científico, longe de ser que se reivindica a si mesma pela própria ideia
abstrato, homogêneo e culturalmente indiferen- de força, ou seja, por imperativos de livre mer-
te, é um conjunto muito diversificado de sujeitos, cado, tais como as agências de classificação,
com diferentes histórias, trajetórias e culturas, e as condicionalidades impostas por agências
produz conhecimento científico tendo objetivos financeiras multilaterais como o Banco Mun-
igualmente diversificados (Harding, 1998: 104). dial ou o FMI, a deslocalização das empresas,
As ecologias dos saberes 237

o monopólio de terras, as oficinas clandestinas práticas científicas à diferenciação entre co-


repartidas por todo o Sul global, etc. Em outras nhecimentos científicos e não científicos.
palavras, as relações de poder, a resistência,
a dominação e as alternativas de hegemonia A pluralidade externa:
e contrahegemonia, são elementos constitu- a ecologia dos saberes
tivos da globalização. E é assim porque hoje
Os enfoques intercultural e pós-colonial tor-
a globalização é o marcador hegemônico dos
naram possível o reconhecimento da existência
termos do conflito histórico-social criado pelo
de sistemas plurais de conhecimento que são
capitalismo. A globalização é simultaneamente
alternativos à ciência moderna ou que com ela
conflito (a ideia de força) e os termos do con-
se dedicam a novas configurações do conheci-
flito (a força da ideia). No final do século XIX e
mento. A acessibilidade a diversas formas de
começos do século XX, a luta contra o capita-
saber e novos tipos de relações entre elas está
lismo no Norte se dava aceitando acriticamen-
aberta há certo tempo com férteis resultados,
te a unidade de conhecimento e universalismo
sobretudo no Sul global, onde o encontro entre
—como testemunham Marx e Einstein— ao
os conhecimentos hegemônicos e não hegemô-
contrário, hoje as lutas contra o capitalismo e o
nicos é mais desigual, e são mais evidentes os
colonialismo colocam em primeiro plano o de-
limites entre ambos. É nestas regiões onde os
bate sobre o significado da diversidade e sobre
conhecimentos não hegemônicos, concebidos
as contradições internas da globalização. Atu-
como formas de autoconhecimento, mobili-
almente as lutas contra o capitalismo e o colo-
zam-se para organizar a resistência contra as
nialismo avançam à medida em que mudam os
relações desiguais provocadas pelo capitalis-
termos do conflito. Há, pois, uma diversidade
mo, pelo colonialismo e pelo patriarcado13.
capitalista e colonialista, e uma diversidade
anticapitalista e descolonial, uma globalização
hegemônica e uma contrahegemonia. A marca 13 Os debates epistêmicos ao redor da produção de
dos conflitos entre elas percorre todos os de- conhecimentos são extremamente diversos e férteis.
bates epistemológicos do nosso tempo. Daí a Veja as análises de Mudimbe (1988); Alvares (1992);
Hountondji (1983, 2002); Dussel (2000, 2001); Vishva-
importância de ir da pluralidade interna à plu-
nathan (1997, 2007); Mignolo (2000, 2003); Chakrabarty
ralidade externa, da diferenciação interna das (2000); Lacey (2002); Meneses (2007); Xaba 2007.
238 Boaventura de Sousa Santos

Esta auto-reflexividade subalterna sugere priada para o desenvolvimento de aplicações


uma dupla pergunta: por que todos os conhe- construtoras de conhecimento, também de co-
cimentos não científicos se consideram locais, nhecimento científico14.
tradicionais, alternativos ou periféricos?; por A diferença epistemológica que não reco-
que continua existindo a relação de domina- nhece a existência de outros tipos de conheci-
ção, ainda que mudem as ideologias em que se mento, além do científico, contém e oculta ou-
baseia (o progresso, a civilização, a moderniza- tras diferenças, umas diferenças capitalistas,
ção, a globalização, as governanças)? Assim, as coloniais e sexistas. O pensamento pós-abissal
metamorfoses da hierarquia relativa ao que é e e a razão cosmopolita subalterna recusam a
não é científico variaram, e incluem as seguin- mímese —entendida como a imitação servil
tes dicotomias: monocultural/multicultural, da cultura metropolitana— como mecanismo
moderno/tradicional, global/local, desenvolvi- fundamental da construção da cultura (SAID,
do/subdesenvolvido, avançado/atrasado, etc. 1978, 1980), ao mesmo tempo em que promove
Cada dicotomia revela certa dominação. Como formas inovadoras e subversivas de saber, ba-
disse antes, a dicotomia entre o conhecimento seadas na reconstrução permanente tanto dos
moderno e o conhecimento tradicional se ba- discursos da identidade como dos repertórios
seia na ideia de que o conhecimento tradicional da emancipação social. A interculturalidade
é prático e coletivo, está profundamente enrai- emancipadora pressupõe o reconhecimento de
zado no local e reflete experiências exóticas. uma pluralidade de conhecimentos e diferen-
Mas caso se considere óbvio que todo conhe-
cimento é parcial e situado, é mais adequado
comparar todo tipo de conhecimento (incluído 14 Sobre isto, veja Santos (2009). Neste ensaio, inspi-
rado no pragmatismo de William James e John Dewey,
ou científico) em termos de sua capacidade
defendo uma espécie de ciência orientada às aplica-
para cumprir determinadas tarefas em contex- ções edificantes, em oposição a técnicas (veja também
tos sociais configurados por lógicas particula- Toulmin, 2001, 2007). Pratt (2002) argumentou a origem
res (incluídas as que presidem o conhecimento multicultural e a capacidade de incorporação de dife-
científico). Esta é a perspectiva que, desde o rentes contribuições culturais e cognitivas como carac-
terísticas da filosofia pragmática. Este tipo de filosofia
final do século XIX, informou a filosofia prag-
poderia gerar uma gama mais ampla de reciprocidade
mática, e que hoje parece especialmente apro- no pensamento filosófico e epistemológico ocidental.
As ecologias dos saberes 239

tes concepções de mundo e de dignidade hu- na realidade, não o conhecimento como repre-
mana. Evidentemente deve-se avaliar a validez sentação da realidade. A credibilidade da cons-
dos diferentes conhecimentos e concepções, trução cognitiva se mede pelo tipo de interven-
mas não sobre a base da desqualificação abs- ção no mundo que permite ou impede. Toda
trata de alguns. avaliação desta intervenção combina sempre
Durante os séculos, conhecimentos muito o cognitivo com o ético-político, pelo que a
diferentes desenvolveram formas de articula- ecologia dos saberes estabelece uma distinção
ção mútua. Hoje é mais importante que nunca entre a objetividade analítica e a neutralidade
construir uma autêntica articulação dialógica ético-política. Hoje em dia, ninguém questiona
entre os conhecimentos considerados ociden- o valor geral das intervenções práticas que a
tais, científicos e modernos, e os conhecimen- produtividade tecnológica da ciência moderna
tos considerados tradicionais, nativos e locais. fez possíveis. Mas isto não deve impedir que
Não se trata de voltar a velhas tradições, por- reconheçamos o valor de outras intervenções
que o que está em jogo é o fato de que cada práticas que outras formas de conhecimento
tecnologia leva consigo o peso de um modo de permitem. Em muitas áreas da vida social, a
ver e de ser na natureza e com outros seres hu- ciência moderna demonstrou uma superiorida-
manos (Nandy, 1987). Portanto, o futuro pode de inquestionável em relação com outras for-
ser encontrado no cruzamento de diferentes mas de conhecimento. No entanto, há outras
conhecimentos e diferentes tecnologias. intervenções no mundo real que hoje nos são
A diversidade epistêmica do mundo é aberta, muito valiosas em que a ciência moderna to-
porque todos os conhecimentos são situados. mou parte. Está, por exemplo, a preservação
A afirmação do caráter universal da ciência da biodiversidade que as formas rurais e indí-
moderna se mostra cada vez mais como tão só genas de conhecimento tornam possível, umas
uma forma de particularismo, cuja especificida- formas de conhecimento que paradoxalmente
de consiste em ter o poder de definir todos os estão ameaçadas pelas crescentes interven-
conhecimentos que são seus rivais como parti- ções impulsionadas pela ciência (Santos, Nu-
cularistas, locais, contextuais e situacionais. nes e Meneses, 2007). E não é surpreendente a
Para uma ecologia dos saberes, a medida do quantidade de conhecimentos, formas de vida,
realismo é o conhecimento como intervenção universos simbólicos e saberes para sobreviver
240 Boaventura de Sousa Santos

em condições hostis que se conservaram gra- rentes escalas (interescala) e a submissão à


ças exclusivamente à tradição oral? Nada nos articulação de tempos e durações diferentes
diz sobre a ciência o fato de que nada de tudo (intertemporalidade). A maioria das experiên-
isso teria sido possível por meio dela? cias subalternas de resistência são locais e o
Aqui radica o impulso da copresença e da conhecimento abissal moderno as transformou
incompletude. Não existe um único tipo de co- em locais e, portanto, em irrelevantes ou inexis-
nhecimento que possa explicar todas as inter- tentes. No entanto, dado que a resistência con-
venções possíveis no mundo, motivo pelo qual tra as linhas abissais deve ter lugar em escala
todos os tipos de conhecimento são incomple- global, é imperativo desenvolver algum tipo de
tos em diferentes formas. A incompletude não articulação das experiências subalternas me-
se pode erradicar porque qualquer descrição diante vínculos local-globais. Para ter sucesso,
completa das variedades de conhecimento ne- a ecologia dos saberes deve ser transescalar.
cessariamente não incluiria o tipo de conheci- Além do mais, a coexistência de diferentes
mento responsável pela descrição. Não existe temporalidades ou durações das diferentes
conhecimento que não seja conhecido por al- práticas do conhecimento exige uma amplia-
guém com algum fim. Todas as formas de co- ção do âmbito temporal. As tecnologias mo-
nhecimento sustentam práticas e constituem dernas tenderam a favorecer o âmbito tempo-
sujeitos. Todos os conhecimentos são teste- ral e a duração da ação do Estado, entendido
munhais porque o que sabem da realidade (sua como a administração pública e como a vida
dimensão ativa) sempre passa a se refletir no política (por exemplo, o ciclo eleitoral); ao
que revelam sobre o sujeito deste conhecimen- contrário, as experiências subalternas do Sul
to (sua dimensão subjetiva). global estiveram obrigadas a responder tanto
No âmbito da ecologia dos saberes, a busca à duração mais curta das necessidades imedia-
da intersubjetividade é tão importante quanto tas de sobrevivência, quanto à longa duração
complexa. As diferentes práticas do conheci- do capitalismo e do colonialismo. Mas inclusi-
mento dão lugar a diferentes escalas espaciais ve nas lutas subalternas pode haver durações
e de acordo com durações e ritmos diferentes, muito diferentes. Um exemplo: a mesma luta
motivo pelo qual a intersubjetividade implica pela terra que travam os camponeses empobre-
também a disposição a saber e a agir em dife- cidos da América Latina pode incluir a duração
As ecologias dos saberes 241

do Estado moderno quando, por exemplo, no observamos com maior detenimento a reali-
Brasil, o Movimento dos Trabalhadores Rurais dade, percebemos que estas epistemologias,
Sem Terra (MST) por uma reforma agrária, ou por mais diversas que sejam, estão confinadas
a duração do comércio de escravos, quando os nas práticas científicas modernas e contempo-
povos afrodescendentes lutam por recuperar râneas. Quando as comparamos com a ciência
os quilombos, a terra dos escravos fugitivos, chinesa estudada por Joseph Needham (1954)
seus antepassados; ou uma duração ainda mais ou com a ciência árabe ou islâmica da idade de
longa, quando os povos indígenas lutam por re- ouro do Islã (ca. 750 e.c.-ca. 1258 e.c.) estuda-
cuperar seus territórios históricos, que os con- das por Seyyed Hossein Nasr (1976) e tantos
quistadores lhes arrebataram. outros, ou inclusive com a ciência ghandiana
ou kahdi, nós nos ocupamos da pluralidade in-
Relativizar a distinção entre terna ou da externa?
a pluralidade interna e a Um exemplo tomado de um campo diferen-
pluralidade externa dos saberes: o te de conhecimento nos ajuda a ver que, para
caso da filosofia africana captar a diversidade epistemológica do mundo,
A distinção anterior entre a pluralidade in- não devemos atribuir um valor absoluto à dis-
terna e a pluralidade externa dos saberes, ape- tinção entre pluralidade interna e externa dos
sar de seu valor heurístico, propõe alguns pro- conhecimentos. Comecemos com uma pergun-
blemas. A distinção se baseia na ideia de que ta: um diálogo entre a filosofia ocidental e a
podem ser definidos, inequivocadamente, os filosofia africana é um caso de pluralidade in-
limites de cada tipo de conhecimento. Esta se- terna ou externa?15 Dado que estão em questão
ria a única forma de saber se estamos diante de as duas filosofias, pareceria que estamos diante
uma pluralidade entre saberes distintos (plu- de um caso de pluralidade interna. No entan-
ralidade externa) ou diante variações dentro to, muitos filósofos ocidentais e africanos por
do mesmo tipo de conhecimento (pluralidade igual, acham que não se pode falar de uma filo-
interna). Como vimos antes, as epistemologias sofia africana porque só há uma filosofia, cuja
das práticas científicas ampliaram muitíssimo
o campo da pluralidade interna. A pluralidade 15 O mesmo argumento pode ser utilizado em relação
interna alcançou o seu máximo possível? Se com o diálogo entre religiões.
242 Boaventura de Sousa Santos

universalidade não fica deslustrada pelo fato de problemas da incomensurabilidade, a incom-


que até hoje tenha se desenvolvido principal- patibilidade ou a ininteligibilidade recíproca.
mente no Ocidente. Portanto, qualquer coisa No entanto, acham que a incomensurabilidade
que se possa designar como filosofia africana não impede necessariamente a comunicação, e
não é, de fato, filosofia, e só se poderia compa- que inclusive pode conduzir a formas insuspei-
rar com a filosofia sobre a base da pluralidade tadas de complementariedade. Tudo depende
externa. Na África, é a postura que assumem do uso de adequados procedimentos de tradu-
os denominados filósofos modernistas. Para ção intercultural. Mediante a tradução é possí-
outros filósofos africanos, os tradicionalistas, vel identificar preocupações comuns, enfoques
existe uma filosofia africana que, ao estar inte- complementários e também, claro está, contra-
grada na cultura africana, é incompatível com dições inextricáveis17. Segundo esta terceira
a filosofia ocidental e, portanto, deve seguir sua posição, é possível reconhecer a pluralidade
particular linha de desenvolvimento16. Segundo interna entre saberes que se distinguem por
os autores, a comparação ou o diálogo, à medi- profundas diferenças, o tipo de diferenças que
da que forem possíveis, implicam uma plurali- normalmente exigem reconhecer a pluralidade
dade externa, porque com eles estamos diante externa. Quanto mais amplo for o exercício de
dos corpos de conhecimento completamente tradução intercultural, mais provável é que a
diferentes. No entanto, o que resta por explicar comparação se torne interna.
é por quê, apesar de todas as diferenças feitas, Dois exemplos servem de ilustração. O filó-
ambos são chamados de filosofia. sofo ganês Kwasi Wiredu (1990, 1996) susten-
Uma explicação é a que dão aqueles que de-
fendem uma terceira postura. Dizem que não
17 Nesta área, os problemas costumam estar asso-
há uma filosofia, mas muitas, e acham que são
ciados com a linguagem, e a linguagem é, de fato, um
possíveis o diálogo e o enriquecimento mútu- instrumento chave para conseguir uma ecologia dos
os. São os que frequentemente enfrentam os saberes. Como resultado, a tradução deve operar em
dois níveis, o linguístico e o cultural. A tradução cultu-
ral será uma das tarefas mais difíceis que os filósofos,
16 Sobre este tema, veja Eze (1997); Karp e Masolo os cientistas sociais e os ativistas sociais enfrentam no
(2000); Hountondji (2002); Coetzee e Roux (2003) e século XXI. Trato este tema com mais detalhe em San-
Brown (2004). tos (2000, 2006).
As ecologias dos saberes 243

ta que a filosofia e a língua dos Akan, o grupo na proposta por Odera Oruka (1990, 1998) e
étnico ao que pertence, não pode traduzir a outros19. Reside em uma reflexão crítica sobre
ideia cartesiana de cogito ergo sum. A razão é o mundo cujos protagonistas são os que Odera
que não existem palavras para expressar esta Oruka denomina sábios, sejam poetas, curan-
ideia. “Pensar”, em akan, significa “medir algo”, deiros tradicionais, contadores de histórias,
o qual não tem sentido caso se una à ideia de músicos ou autoridades tradicionais. Segun-
ser. Além do mais, também é muito difícil expli- do Odera Oruka, a filosofia sagaz consiste nos
car o “ser” de sum, porque o equivalente mais pensamentos expressos de homens e mulheres
próximo é algo assim como “estou aí”. Segundo sábios de uma determinada comunidade, e é
Wiredo, o locativo “aí” “seria suicida do ponto uma forma de pensar e explicar o mundo que
de vista tanto da epistemologia quanto da me- flutua entre a sabedoria popular (máximas co-
tafísica do cogito”. Em outras palavras, a língua munais bem conhecidas, aforismos e verdades
permite que se expliquem certas palavras, mas gerais de sentido comum) e a sabedoria didá-
não outras. No entanto, isto não significa que a tica, uma sabedoria exposta e um pensamento
relação entre a filosofia africana e a ocidental racional de uns determinados indivíduos de
deve terminar aqui. Como tentou demonstrar uma comunidade. A sabedoria popular costu-
Wiredo, é possível desenvolver argumentos au- ma ser conformista, ao mesmo tempo em que,
tônomos assentados na filosofia africana, não a sabedoria didática às vezes é crítica sobre a
só referentes à razão de que não se pode ex- disposição comunal e a sabedoria popular. Os
pressar o cogito ergo sum, mas também refe- pensamentos podem ser expressos por escrito
rentes a muitas ideias alternativas que a filoso- ou como ditos e argumentações não escritos
fia africana pode expressar e a ocidental não18. relacionados com um(uns) determinado(s)
O segundo exemplo é o de H. Odera Oruka. indivíduo(s). Na África tradicional, a maior
Situa-se entre a filosofia ocidental e o conceito parte do que se consideraria filosofia sagaz
africano de sagacidade filosófica. A segunda é continua sem estar escrita por razões que hoje
uma colaboração inovadora da filosofia africa- devem ser evidentes para todos. É possível que

18 Veja Wiredu (1997) e uma discussão de seu traba- 19 Sobre a filosofia da sabedoria, veja também Ose-
lho em Osha (1997). ghare (1992); Presbey (1997).
244 Boaventura de Sousa Santos

algumas destas pessoas tenham estado par- reza que os diferentes saberes podem oferecer.
cialmente influenciadas pela inevitável cultura Centra-se nas relações entre os saberes e nas
moral e tecnológica do Ocidente. No entanto, hierarquias que se geram entre eles, já que ne-
sua atitude e seu bem estar cultural continuam nhuma prática concreta seria possível sem es-
sendo basicamente os da África rural tradicio- tas hierarquias. No entanto, mais do que convir
nal. Salvo um punhado delas, a maioria destas com uma hierarquia universal e abstrata entre
pessoas são “analfabetas” ou “semianalfabe- os conhecimentos, a ecologia dos saberes pre-
tas” (Odera Oruka, 1990: 28). fere hierarquias dependentes do contexto, le-
Em outras palavras, a ideia de sagacidade fi- vando em conta os resultados concretos que as
losófica africana é uma forma de conhecimen- diferentes práticas do conhecimento se propu-
to tão diferente da filosofia convencional, que serem ou conseguirem. As hierarquias concre-
não podemos senão estar diante de um caso de tas emergem do valor relativo das intervenções
pluralidade externa. No entanto, ao reclamar práticas alternativas. Entre os diferentes tipos
uma redefinição do que entendemos por filo- de intervenção podem existir complementa-
sofia, também se pode entender que aponta a riedade ou contradições. Sempre que houver
uma pluralidade interna dentro do campo hoje intervenções práticas que, em teoria, possam
extremamente ampliado da filosofia. ser implementadas por diferentes sistemas de
conhecimento, a escolha concreta da forma de
A ecologia dos saberes, a conhecimento deve estar informada pelo prin-
hierarquia e a pragmática cípio de precaução que, no contexto da ecolo-
Uma epistemologia pragmática se justifica gia dos saberes, deve ser formulada como se
sobretudo porque as experiências vitais dos segue: deve-se dar preferência à forma de co-
oprimidos se tornam inteligíveis principalmen- nhecimento a garantir o maior nível de parti-
te como uma epistemologia das consequências. cipação dos grupos sociais implicados no seu
Em seu mundo vital, primeiro são as consequ- desenho, sua execução e seu controle, e nos
ências e, depois, as causas. benefícios da intervenção.
A ecologia dos saberes se baseia na ideia Neste sentido, convém distinguir duas situa-
pragmática de que é necessário reavaliar as in- ções diferentes. A primeira se refere à escolha
tervenções concretas na sociedade e na natu- entre intervenções alternativas no mesmo âm-
As ecologias dos saberes 245

bito social quando chocam diferentes saberes. cisamente pelos juízos abstratos (baseados na
Neste caso, o princípio de precaução não deve validez universal da ciência moderna) sobre
levar a juízos baseados em hierarquias abstra- o valor relativo dos diferentes saberes. Anos
tas entre os saberes, mas devem ser produtos mais tarde, os modelos computacionais —um
de deliberações democráticas sobre os custos dos campos das ciências da complexidade—
e os benefícios. O seguinte exemplo demons- demonstraram que as sequências de água ges-
tra a importância deste princípio. Nos passa- tionadas pelos sacerdotes de Dewi-Danu eram
dos anos sessenta, os sistemas milenares de muitíssimo mais eficazes que os sistemas cien-
regado dos campos de arroz de diversos paí- tíficos de regado (Callicott, 2001: 94).
ses asiáticos foram substituídos por sistemas O outro caso de intervenções alternativas
científicos, tal como defendiam os profetas baseadas em corpos diferentes de conhecimen-
da Revolução Verde. Em Bali, Indonésia, os to é o das que não têm lugar no mesmo âmbito
sistemas de regado tradicionais se baseavam social. Neste caso, a decisão entre saberes di-
em ancestrais saberes religiosos, agrários e ferentes e que estejam em conflito não obriga
hidrológicos que eram supervisionados pelos necessariamente a substituir um tipo de inter-
sacerdotes de DewiDanu, a deusa hindu da venção por outra. Só requer decidir o âmbito
água (Callicott, 2001: 89-90). Foram substitu- social sobre o qual se deve intervir e o tipo de
ídos porque se considerava que eram supers- prioridade que se deve estabelecer. Como di-
ticiosos, produto do que os antropólogos cha- zia anteriormente, não é razoável questionar
maram de “culto ao arroz”. A realidade é que hoje o valor geral das intervenções no mundo
a substituição teve consequências nefastas que foram possíveis graças à produtividade
para o cultivo do arroz, tão desastrosas que foi tecnológica da ciência. Poderiam ser questio-
necessário abandonar os sistemas científicos nadas muitas de suas opções concretas, como
e recuperar os tradicionais. Mas a autêntica as bombas lançadas sobre Hiroshima e Naga-
tragédia foi que a suposta incompatibilidade saki, ou a exploração destrutiva dos recursos
entre os dois sistemas de conhecimento dese- naturais. Por exemplo, ninguém questiona a ca-
nhados para realizar a mesma intervenção — pacidade da ciência moderna de levar homens
regar os arrozais— era consequência de uma e mulheres à Lua, ainda que se possa colocar
avaliação incorreta da situação provocada pre- em dúvida o valor social de tal empresa. Nes-
246 Boaventura de Sousa Santos

te âmbito, a ciência moderna demonstra uma em prática estas relações? Como devemos dis-
superioridade inapelável a respeito de outros tinguir, nas lutas sociais concretas e práticas,
tipos de conhecimento. No entanto, há outras a perspectiva e o conhecimento dos oprimidos
formas de intervir na realidade que para nós da perspectiva e o conhecimento dos opresso-
são hoje de sumo valor com as quais a ciên- res? Não existem respostas inequívocas para
cia não contribuiu de modo algum, e que são, nenhuma destas perguntas. Uma característica
melhor dizendo, resultado de outros tipos de da ecologia dos saberes é que se constitui a si
conhecimento. É o caso, como dizia antes, da mesma mediante perguntas constantes e res-
preservação da biodiversidade que os saberes postas incompletas. Daí que seja um conheci-
de camponeses e indígenas tornam possível. mento prudente. A seguir, resumo algumas das
conclusões a que até hoje se chegou. Podem
Orientações para o saber prudente ser entendidas como possíveis orientações so-
A construção epistemológica de uma ecolo- bre como proceder com um conhecimento pru-
gia dos saberes não é tarefa fácil. Basta pensar dente e como avançar nessa direção.
nas muitas perguntas que se colocam. Como se 1. Não existe justiça social global sem justi-
deve distinguir o conhecimento científico do ça cognitiva. Não haverá sucesso se tudo
conhecimento não científico? Como se cons- depender exclusivamente de uma distri-
trói o interconhecimento? Como distinguir buição mais equitativa do conhecimento
entre muitos saberes não científicos? Qual é científico. O conhecimento científico tem
a diferença entre o conhecimento ocidental e uns limites intrínsecos no que se refere à
não ocidental? Se há vários saberes ocidentais, intervenção social que possibilita. Dada a
como distinguir entre eles? hegemonia da epistemologia convencional
De que perspectivas se deve identificar os di- e a conseguinte monocultura do conheci-
ferentes saberes? Quais são as possibilidades e mento científico, da presença e do possível
os limites de reconhecer um determinado tipo valor de saberes diferentes só se podem
de conhecimento do ponto de vista de outro? recuperar mediante uma sociologia das au-
Que tipos de relações ou articulações são pos- sências e uma sociologia das emergências.
síveis entre os diferentes saberes? Com que 2. As crises e os desastres provocados pelo
tipos de procedimentos poderiam se colocar uso imprudente e exclusivo da ciência
As ecologias dos saberes 247

são muito mais graves do que a episte- que um conhecimento dado não sabe ain-
mologia científica dominante reconhece. da da realidade social nem de sua possí-
As crises e os desastres poderiam ser evi- vel intervenção nela. Os limites externos
tados, caso se valorizem os saberes cien- afetam as intervenções na realidade social
tíficos que, de forma subordinada, entram que só são possíveis sobre a base de ou-
e saem das práticas científicas, e que va- tros tipos de conhecimento. Os saberes
lorizam também as práticas que estes sa- hegemônicos se caracterizam por conhe-
beres sustentam. Na ecologia dos saberes, cer só os seus limites internos. O uso con-
reconhecer os saberes não científicos não trahegemônico da ciência moderna con-
implica desacreditar o conhecimento cien- siste na exploração paralela dos limites
tífico. Simplesmente leva consigo o uso internos e externos.
contrahegemônico do segundo. Trata-se, 5. A ecologia dos saberes é construtivista
por um lado, de explorar as práticas cien- no que se refere à representação, e rea-
tíficas alternativas e, por outro lado, de lista no que se refere à intervenção. Não
valorizar a interdependência dos saberes temos acesso direto à realidade porque
científicos e não científicos. realmente não a conhecemos mais do que
3. Não existe nenhum conhecimento social através de conceitos, de teorias, de valores
que não seja conhecido por algum grupo e da linguagem que empregamos. Mas, por
social com um determinado objetivo so- outro lado, o conhecimento que construí-
cial. Todos os saberes sustentam práticas mos sobre a realidade intervém nela e tem
e constituem sujeitos. Todos os saberes suas consequências. O conhecimento não
são testemunhais porque o que sabem da é representação, é intervenção. O realismo
realidade social (a dimensão ativa dos sa- pragmático se centra na intervenção mais
beres) também revela o tipo de sujeitos do do que na representação. A credibilidade
conhecimento que agem sobre a realidade da construção cognitiva se mede pelo tipo
social (sua dimensão subjetiva). de intervenção no mundo que contribui,
4. Todos os saberes têm limites internos e favorece ou dificulta. A avaliação desta in-
externos. Os limites internos afetam ao tervenção sempre combina o cognitivo e o
ético-político, motivo pelo qual a ecologia
248 Boaventura de Sousa Santos

dos saberes parte da compatibilidade en- pelo princípio da precaução. Dentro da


tre os valores cognitivos e os éticos-políti- ecologia dos saberes, a formulação deste
cos. Aí reside a distinção entre a objetivi- princípio deve ser assim: em igualdade de
dade e a neutralidade. circunstâncias, deve-se privilegiar o tipo
6. A ecologia dos saberes se centra nas rela- de conhecimento que garanta mais parti-
ções entre os saberes, nas hierarquias e cipação aos grupos sociais implicados na
nas forças que emergem entre eles. Iniciar concepção, na execução, no controle e no
a conversação entre os saberes sobre a desfrutar da intervenção.
premissa de garantir a igualdade de opor- 8. A diversidade do conhecimento não se
tunidades a todos eles, não é incompatível limita ao conteúdo nem ao tipo de sua
com hierarquias concretas no contexto intervenção privilegiada na realidade
de práticas concretas de conhecimento. social. Também inclui as formas em que
A ecologia dos saberes só combate a hie- se formula, em que se expressa e se co-
rarquia estabelecida pelo poder cognitivo munica. A ecologia dos saberes convida a
universal e abstrato, naturalizado pela epistemologias polifônicas e prismáticas.
história e justificado por epistemologias Polifônicas porque os diferentes conhe-
reducionistas. As hierarquias concretas cimentos têm desenvolvimentos autôno-
surgem da avaliação de intervenções al- mos, diferentes formas de produzir e de
ternativas na realidade social. Entre os di- comunicar conhecimento. Isto explica por
ferentes tipos de intervenção pode existir que determinar a relação entre eles costu-
complementaridade ou contradição. ma ser uma tarefa muito complexa. Pris-
7. A ecologia dos saberes se rege pelo prin- máticas porque a relação entre os conhe-
cípio de precaução. Sempre que houver cimentos muda segundo o tipo de práticas
intervenções na realidade que, em teoria, sociais em que intervém.
possam ser realizadas por diferentes sis- 9. O problema da incomensurabilidade
temas de conhecimento, as decisões con- não só é relevante quando os saberes em
cretas sobre os tipos de conhecimento que questão procedem de diferentes culturas;
se deve favorecer devem estar informadas também é um problema dentro da mes-
As ecologias dos saberes 249

ma cultura. No que se refere às culturas que intervenham a poesia e a ciência. Da


ocidentais, um dos temas mais polêmicos mesma forma, o conhecimento religioso
foi como a ciência se autodelimita com tem a sua própria epistemologia que, em
respeito a outras formas de se relacionar geral, considera-se incomensurável a res-
com o mundo, umas formas consideradas peito do conhecimento científico. O tema
não científicas e até irracionais, como da relação entre os saberes religiosos e os
as artes, as humanidades, a religião, etc. de outro tipo adquire relevância quando
Inclusive aqueles que criticam a ideia de muitos movimentos sociais que hoje lutam
que o conhecimento científico vai se libe- contra a opressão baseiam a sua militância
rando progressivamente dos elementos no conhecimento religioso e na espirituali-
“irracionais” —como Thomas Kuhn (1970, dade (Santos, 2014).
1977), Gaston Bachelard (1971, 1972, 10. A ecologia dos saberes pretende ser uma
1975, 1981), Georges Canguilhem (1988) luta docta contra a ignorância ignorante.
ou, em certa medida, Michel Foucault Uma característica distintiva do conheci-
(1980— sempre baseiam seus paradigmas mento hegemônico é a sua capacidade de
ou epistemes em descontinuidades entre impor seus critérios de conhecimento e
a ciência ou outros saberes. A afirmação ignorância ao resto dos saberes. A ecolo-
de tais descontinuidades exige, como de- gia dos saberes nos permite ter uma visão
monstra Thomas Gieryn (1999), um cons- mais ampla tanto do que sabemos quanto
tante trabalho de fronteira que implica um do que não sabemos. O que não sabemos é
permanente controle das mesmas e uma produto de nossa ignorância, não da igno-
persistente vigilância epistemológica, rância em geral.
para conter e repelir os iminentes e insis-
11. A história da relação entre diferentes
tentes “ataques de irracionalidade”.
saberes é fundamental na ecologia dos
Podemos perguntar, por exemplo, pelas saberes. A longa duração histórica do
possíveis relações entre a poesia e a ciên- capitalismo, o colonialismo e o patriarca-
cia. Não me refiro à ciência como poesia, do explica um passado de relações desi-
mas ao valor epistemológico da poesia e guais entre os saberes. Em muitos casos,
uma possível epistemologia polifônica em
250 Boaventura de Sousa Santos

essas relações conduziram ao epistemi- safio construtivo, e consiste em dar nova


cídio. O não exercício da ecologia dos vida às possibilidades culturais e históri-
saberes, por vasto e profundo que este cas do legado africano interrompido pelo
fosse, pôde apagar o passado. Em com- colonialismo e pelo neocolonialismo. O
pensação, na ecologia dos saberes, a his- trabalho de tradução tenta englobar es-
tória é uma sólida parte constituinte do tes dois movimentos: as relações hege-
presente. Como afirma T. Banuri (1990), mônicas entre as experiências e o que há
o que mais negativamente afetou o Sul mais além dessas relações. Neste duplo
desde o começo do colonialismo é ter movimento, reconstroem-se as experiên-
que concentrar as suas energias em adap- cias sociais reveladas pela sociologia das
tar-se e opor-se às imposições do Norte20. ausências, para entregar-se a relações de
Na mesma linha, Tsenay Serequeberhan inteligibilidade mútua sem cair na cani-
(1991: 22) identifica os dois desafios a balização recíproca.
que hoje se enfrenta a filosofia africana. 12. A ecologia dos saberes pretende facilitar
O primeiro é um desafio desconstrutivo, a constituição de sujeitos individuais e
e consiste em identificar os resíduos eu- coletivos, combinando a sobriedade na
rocêntricos herdados do colonialismo e análise dos fatos com a intensificação da
que estão presentes em diversos setores vontade contra a opressão. Reinvidica-se a
da vida coletiva, da educação à política, sobriedade pela multiplicidade de perspec-
do direito à cultura. O segundo é um de- tivas cognitivas sobre a realidade da opres-
são. Esta é sempre produto de uma mul-
20 Banuri sustenta que o desenvolvimento do “Sul” foi
tidão de saberes e forças. As hierarquias
desvantajoso “não devido a maus conselhos de política também atuam de acordo com as redes. A
ou intenção maliciosa dos assessores, nem pelo des- intensificação da vontade, por sua vez, é re-
conhecimento da sabedoria neoclássica, mas porque o sultado de um conhecimento mais profun-
projeto obrigou os indígenas constantemente a desviar do das possibilidades humanas. A ecologia
suas energias da busca positiva da mudança social defi-
nida pelo povo até o objetivo negativo de resistir à do-
dos saberes permite combinar saberes que
minação cultural, política e econômica pelo Ocidente” privilegiam a força interior e a natura na-
(Banuri, 1990: 66, ênfase no original).
As ecologias dos saberes 251

turata21. A ecologia dos saberes permite, poucas palavras, de recuperar a harmonia que
pois, assentar uma imaginação da vontade Paracelso, no Renascimento, destacou entre
que é incompreensível para o entendimen- Arqueo, o elemento da vontade da semente e
to convencional da ciência moderna22. do corpo, e Vulcano, a força natural da matéria.
A intensificação da vontade deriva de uma
A ecologia dos saberes não se produz só no potencialidade que só se pode conhecer me-
âmbito do logos. Também se dá no âmbito do diante a sociologia das emergências. Na eco-
mythos, o das pressuposições tácitas que tor- logia dos saberes, a vontade se orienta com
nam possível o horizonte de possibilidades de diversas bússolas. Não existem critérios abso-
cada conhecimento e os diálogos entre elas. lutos nem monopólios da verdade. Em termos
Neste sentido, é fundamental a ideia de fer- de Nicolás DE CUSA, orientar-se com uma só
mento —vinculado ao de “ímpeto vital”, o cam- bússola seria uma manifestação de ignorância
po de forças da energia humana que William ignorante. É necessário avaliar de forma regu-
James e Henri Bergson chamam de espontanei- lar a contribuição de cada bússola. A distância
dade tecnológica (Bloch, 1995, vol. 2, pág, 683), relativa a respeito das orientações e vanguar-
ou de espiritualidade, como simplesmente cha- das exclusivistas é um fator da consolidação da
mam os povos originários—. Com a natureza vontade. A existência de muitas bússolas torna
polifônica da ecologia dos saberes se pretende a vigilância epistemológica um profundo ato de
fomentar subjetividades rebeldes competen- auto-reflexividade.
tes. O que está em jogo é a formação de uma es- A ecologia do saber destaca o passar de
pontaneidade que cimente uma vontade consti- uma política de movimentos a uma política
tuinte sobre uma atitude de suspeita a respeito de intermovimentos. Os interesses que moti-
da realidade social já constituída. Trata-se, em vam o exercício da ecologia dos saberes devem
ser compartilhados pelos diversos grupos que,
em um determinado contexto, convergem na
ideia de que só podem lutar com sucesso por
21 Sobre a tecnologia da vontade, veja Bloch (1995:
2-675). suas aspirações e interesses se colaborarem
com outros grupos, integrando formas de co-
22 Sobre a imaginação e a encruzilhada dos saberes,
veja Visvanathan (1997, 2007). nhecer de outros grupos sociais. Os tempos e
252 Boaventura de Sousa Santos

lugares desta integração devem ser adequados parecido a um cavalo atado ao presépio com
para os diferentes grupos ou movimentos. o cabresto e comendo só o que lhes derem. O
Neste sentido, surge à mente outro dos fru- seu conhecimento se alimenta da autoridade
tíferos ensinamentos de Nicolás de Cusa. Em daqueles que escrevem, está limitado a um pas-
1450, De Cusa escreveu três diálogos —De Sa- to alheio, não natural” (2002: 79). E acrescen-
pientia, De Mente e De Staticis Experimen- ta: “Mas digo a vocês que a sabedoria grita nos
tis— cujo protagonista é o Idiota, um homem mercados e o seu clamor ressoa nas praças”
simples e iletrado, um pobre artesão que faz (2002: 79). A sabedoria se manifesta no mundo
colheres de madeira. Em seus diálogos com e nas tarefas mundanas, especialmente naque-
o acreditado filósofo (o humanista, o orador), las que são o mundo da razão e implicam ope-
o Idiota se torna o sábio capaz de resolver os rações de cálculo, medida e peso (2002: 81).
mais complexos problemas da existência a par- Nestes diálogos sumamente irônicos, o Idiota
tir da experiência de sua vida ativa, a qual se dá não é mais do que o postulante da docta ignorân-
prioridade sobre a via contemplativa. Como diz cia de Nicolás de Cusa. Os diálogos demonstram
Leonel Santos (2002: 73): “Contrapõe-se o Idio- que os grandes argumentos das escolas de co-
ta ao homem lido e erudito, que possui conhe- nhecimento erudito perdem importância se não
cimentos baseados em autores e autoridades, demonstram plenamente sua relevância para a
dos que obtém sua competência, mas que per- vida e a experiência práticas. Esta descentraliza-
deu o sentido do uso e do cultivo autônomo de ção das formas de saber tem outra dimensão. O
suas próprias faculdades”. O Orador provoca campo das interações práticas (ou seja, as inte-
o Idiota: “Que presunçoso você, pobre Idiota, rações que têm uns objetivos práticos) em que
para dispensar assim o estudo das letras, sem tem lugar a ecologia dos saberes exige que o lu-
as quais ninguém progride!” (2002: 78). O Idio- gar em que se interroga as formas de saber e se
ta responde: “Não é presunção, grande Orador, intercambiam não seja um lugar exclusivo para
o que me impede permanecer calado, mas sim o conhecimento, por exemplo, as universidades
a caridade. Na realidade, vejo vocês entregues ou os centros de pesquisa. O lugar da articulação
à busca da sabedoria com grande e vão dese- da ecologia dos conhecimentos é todo aquele
jo... A opinião da autoridade os tornou, a você em que o objetivo do conhecimento for tornar-se
que é um homem livre por natureza, algo mais uma experiência transformadora. Ou seja, é todo
As ecologias dos saberes 253

lugar situado mais além do conhecimento como in the Development of the Third World”
atividade separada. É significativo que os diálo- in Apfel Marglin, F. e Marglin, S. A. (eds.)
gos de Nicolás de Cusa tenham lugar na barbe- Dominating Knowledge: Development,
aria ou na humilde oficina do artesão. Assim se Culture and Resistance (Oxford:
obriga o filósofo a argumentar em um território Clarendon Press) pp. 29-72.
que não lhe é familiar para o qual não se formou: Bloch, E. 1995 The Principle of Hope
o território da vida prática. Este é o território (Cambridge: MIT Press).
onde se planejam todas as relações práticas, Brown, M. 2005 “‘Setting the Conditions’ for
onde se avaliam as oportunidades, onde se me- Abu Ghraib: The Prison Nation Abroad”
dem os riscos, onde se pesam os prós e os con- in American Quarterly, V. 57, Nº 3, pp.
tras. É o território do artesanato das práticas, o 973-997.
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Tradução intercultural:
Diferir e partilhar con passionalità*

A s ecologias de saberes são um dos pro-


cedimentos centrais que estruturam as
epistemologias do Sul. No centro das ecolo-
de ocidental com culturas não ocidentais: a
destruição e a assimilação forçada1. Trata-se
de “não relacionamentos” na medida em que
gias de saberes está a ideia de que os diferen- ambas se recusam a considerar as culturas
tes tipos de saberes são incompletos de dife- não ocidentais como alternativas culturais
rentes formas e que a criação da consciência relevantes em qualquer sentido concebível.
desta incompletude recíproca (em vez de Estas são localizadas do outro lado da linha
procurar a completude) constitui a condição abissal podendo assim ser descartadas como
prévia para alcançar a justiça cognitiva. A tra- incompreensíveis ou transformadas em ob-
dução intercultural é uma alternativa tanto ao jectos de apropriação e violência (Santos,
universalismo abstracto no qual se baseiam 2009). Como a entendo aqui, a tradução inter-
as teorias gerais ocidentalocêntricas como à cultural consiste na busca de preocupações
ideia da incomensurabilidade entre culturas. isomórficas e de premissas subjacentes entre
As duas estão ligadas e são responsáveis por as diferentes culturas, identificando diferen-
dois “não-relacionamentos” da modernida-

1 Conquista militar, conversão forçada, endoutrina-


* Tradução portuguesa de Santos, B. de Sousa ção ideológica, repressão linguística, e profanação de
2016 “Intercultural translation: Differing and sharing espaços sagrados são algumas das muitas versões da
con passionalità” in Epistemologies of the South. negação do outro são algumas das muitas versões de
Justice against Epistemicide (Londres / Nova Iorque: negação do outro através do unilateralismo imperial.
Routledge) pp. 212-235. Ver Dallmayr (2006: 76).
262 Boaventura de Sousa Santos

ças e similitudes, e desenvolvendo, sempre tradução intercultural2. A emergência da globa-


que apropriado, novas formas de entendimen- lização contra-hegemónica e dos movimentos
to cultural e intercomunicação que pode ser sociais ancorados em premissas culturais do
útil no favorecimento de interacções e forta- Sul global, o consequente distanciamento em
lecimento das alianças entre os movimentos relação à tradição crítica e imaginação política
sociais, organizações, grupos de resistência ocidental, o colapso do internacionalismo que
que, em diferentes contextos culturais lutam ao longo do século XX privilegiou a classe ope-
contra o capitalismo, colonialismo e patriar- rária como sujeito histórico, a diversidade das
cado e pela justiça social, dignidade humana, lutas nacionalistas no Sul global e a crise as-
ou decência humana. A tradução intercultural sociada do universalismo abstracto e das teo-
questiona tanto as dicotomias reificadas en- rias gerais — todos estes factores convergiram
tre saberes alternativos (por exemplo, saber num apelo à tradução intercultural. A tradução
indígena versus saber científico) como as hie- intercultural levanta uma série de questões.
rarquias abstractas entre diferentes saberes Que tipos de relacionamento são possíveis en-
(por exemplo, o saber indígena como uma rei- tre os diferentes saberes? Como distinguir in-
vindicação válida de identidade versus saber comensurabilidade, incompatibilidade, contra-
científico como uma reivindicação válida de dição e complementaridade? De onde provém
verdade). Em suma, o trabalho de tradução o impulso para traduzir? Quem são os tradu-
capacita-nos para lidar com a diversidade e tores? Como escolher parceiros e assuntos de
o conflito na ausência de uma teoria geral e tradução? Como formar decisões partilhadas e
de uma política de comando. Como veremos como distingui-las das que são impostas? Qual
adiante, trata-se de um processo vivo que a diferença entre tradução intercultural e tra-
deve ser levado a cabo tanto com os argu- dução entre-línguas, e como se relacionam?
mentos como com as emoções derivadas de Como garantir que a tradução intercultural não
partilhar e diferir segundo uma axiologia de se torna na mais nova versão do pensamento
cuidado. Numa expressão de Antonio Grams-
ci, con passionalità (ver abaixo).
Em trabalhos anteriores descrevi o clima po-
lítico e intelectual que justifica a necessidade da 2 Ver Santos, 2006a e 2014.
Tradução intercultural: Diferir e partilhar com Passionalità263

abissal3 ou da razão metonímica e proléptica, da emancipação social e para a imaginação


ou seja, numa nova versão do imperialismo e política insurgente. Vista da perspectiva das
do colonialismo?4 Como podemos identificar epistemologias do Sul, a tradução intercultu-
a perspectiva do oprimido em termos cogniti- ral é também uma tradução inter-política, um
vos? Como podemos traduzir esta perspectiva procedimento que promove a política inter-
para outros saberes e línguas? Na busca de al- -movimentos sociais na origem da globalização
ternativas à dominação e à opressão, como po- contra-hegemónica. Como parte integrante de
demos distinguir entre alternativas ao sistema um projecto político, deve ser conduzido de
de opressão e dominação e alternativas den- modo a maximizar o sucesso deste último. A
tro do sistema? Mais especificamente, como tradução intercultural é uma ferramenta para
distinguir entre alternativas ao colonialismo e minimizar os obstáculos à articulação política
neocolonialismo e alternativas que mascaram entre os diferentes grupos sociais e os movi-
a perpetuação do capitalismo? Em suma, como mentos que lutam em todo o mundo pela jus-
podemos lutar contra as linhas abissais usando tiça social e a dignidade humana quando estes
instrumentos políticos e conceptuais que não obstáculos são devidos à diferença cultural e à
as reproduzam? Qual será o impacto de uma ininteligibilidade recíproca. Além de frequente-
concepção pós-abissal de saber ou de uma ra- mente falarem diferentes línguas e provirem de
zão cosmopolita subalterna tanto nas lutas so- diferentes trajectórias históricas, estes grupos
ciais como nas instituições educacionais? e movimentos formulam os seus repertórios de
Não pretendo responder a todas estas ques- luta baseados não apenas em contextos sociais
tões neste texto. Limito-me a tecer algumas e políticos específicos nos quais operam, mas
considerações que as podem esclarecer. Mas também em diferentes premissas culturais e
antes disso, começo por referir brevemente universos simbólicos. Nesta última instância,
o que entendo por tradução intercultural e o apenas os significados culturais partilhados
porquê da sua importância para a reinvenção transformam demandas em objectivos dignos
de luta. Como parte de um projecto inter-polí-
tico, a tradução intercultural interessa-se tan-
3 Sobre o pensamento abissal, ver Santos, 2009: 23-71. to com o porquê da importância da tradução
4 Ver Santos, 2014. como com as relações de poder envolvidas no
264 Boaventura de Sousa Santos

trabalho de tradução. A tradução intercultural, normativo à luz do qual as práticas concretas


tal como a concebo neste texto, não é um ges- da tradução devem ser avaliadas. Como um
to de curiosidade intelectual ou diletantismo processo vivo, a tradução intercultural aspira
cultural. É antes um imperativo ditado pela à reciprocidade em vez de se preocupar com
necessidade de ampliar a articulação política as culturas de partida e as culturas de chegada.
para além dos limites daquilo que é muitas ve- Quando me refiro a um entendimento mais am-
zes percebido como um dado local ou cultura5.
Esta necessidade pode ser inicialmente sentida
nho em mente. Todorov afirma que um tal diálogo de-
e vocalizada por um dado grupo ou movimen- pende de uma relação “em que ninguém tem a última
to, mas de modo a conduzir a um trabalho con- palavra” e em que “nenhuma voz é reduzida ao estatuto
creto de tradução, terá de ser partilhado por de um simples objecto ou de uma mera vítima” (1984:
um outro grupo ou movimento. Idealmente, 247-251). Dallmayr (2006: 79) distingue três modalida-
apenas relações de poder igualitárias, ou seja, des básicas de diálogo transcultural: (1) comunicação
pragmtico-estratégica, (2) discurso moral-universal, e
relações de autoridade partilhada, se encaixam (3) discurso ético-hermenêutico; e como subcategoria:
nos propósitos da tradução intercultural, uma diálogo agonal ou contestação. O diálogo ético-her-
vez que apenas nestas condições poderá haver menêutico é o mais próximo da minha concepção de
reciprocidade entre grupos sociais ou movi- tradução intercultural. Neste tipo de diálogo, “os par-
mentos6. Estas funções ideais como padrão ceiros procuram compreender e apreciar as histórias
de vida e os antecedentes culturais mútuos, incluindo
tradições culturais e religiosas (ou espirituais), reposi-
tórios de expressões literárias e artísticas, e angústias
5 Como projecto político, o trabalho da tradução e aspirações existenciais” (Dallmayr, 2006: 79). No en-
deve confrontar o tipo de questões políticas que, de tanto, existe uma grande diferença entre a abordagem
acordo com Lydia Liu, constitui o âmago da tradução de Dallmayr e a minha. O meu interesse não tem a ver
intercultural: “Nos termos de quem, para que circulo com a ética ou a hermenêutica per se mas antes com
linguístico, e em nome de que tipos de saber ou auto- as políticas inter-movimentos, isto é, com a criação
ridade intelectual realizamos actos de tradução entre de condições para alianças concretas e agregações de
culturas?” (1995: 1). interesses políticos. Também assim se explica porque
6 A concepção de diálogo transcultural de Tzvetan prefiro o conceito de tradução ao conceito de diálogo.
Todorov, embora não esteja preocupado com o tipo Na tradução recíproca o objectivo é trabalhar as dife-
de política inter-movimentos em que me centro aqui, renças de modo a identificar o propósito e as limita-
aproxima-se do tipo de tradução intercultural que te- ções na construção de alianças.
Tradução intercultural: Diferir e partilhar com Passionalità265

plo da tradução intercultural, pretendo ilustrar temporaneidade, uma metáfora central do nosso
as condições para uma tradução inter-política e tempo. (2004)
sublinhar os obstáculos à sua realização7.
Do mesmo modo, Michaela Wolf escreve que
Tradução intercultural como “há muito que a tradução abandonou o casulo
tradução viva protector da cultura filológica da tradução, e
Não é meu propósito envolver-me nos nu- está a tornar-se numa categoria cada vez mais
merosos debates que rodeiam a tradução, a tra- central da teoria cultural e das políticas da cul-
dução cultural, a traduzibilidade, e a tradução tura” (2008).
como cultura que explodiu nas humanidades e Partindo do conceito de “filologia viva” de
nas ciências sociais desde os anos 80 do século Gramsci8, concebo a tradução intercultural
passado, dando origem a programas de inves- como um processo vivo de interacções com-
tigação completamente novos e a disciplinas plexas entre artefactos heterogéneos, tanto
como os estudos de tradução. Nas palavras de linguísticos como não linguísticos, combina-
António Sousa Ribeiro, dos com intercâmbios que excedem em muito
os enquadramentos logocêntricos ou discurso-
Na verdade, se em todas as épocas há conceitos -cêntricos. Segundo Giorgio Baratta, a filolo-
que, em determinado momento, atingem uma gia viva de Gramsci vai para além dos textos
circulação tão ampla que parecem, por si só, ser e centra-se nas condições sociais e políticas
capazes de nomear tudo o que constitui as de- concretas com as quais os textos supostamen-
terminantes dessa época, um desses conceitos, te se relacionam e sobre as quais terão im-
nos nossos dias, é, sem dúvida, o de tradução. pacto9. Refiro a riqueza dos debates recentes
Pode dizer-se sem qualquer reserva que a tradu- sobre a tradução apenas pela sua relevância
ção se tornou uma palavra-chave da nossa con-

7 No meu livro The End of the Cognitive Empire: The 8 Ver Gramsci (1975: 857 e 1430).
Coming of Age of Epistemologies of the South (Durham: 9 “Um movimento circular do empírico e do indivi-
Duke University Press, 2018) apresento alguns exercí- dual para o universal e para o total, e vice-versa, sem
cios de tradução intercultural que podem facilitar e for- nunca fechar o círculo ou alcançar uma conclusão defi-
talecer as políticas inter-movimentos no futuro. nitiva ou peremptória” (Baratta 2004: 18).
266 Boaventura de Sousa Santos

para o desenvolvimento do meu argumento dução intercultural é muito mais abrangente


neste texto. Algumas clarificações: falo de tra- porque abrange fenómenos linguísticos e ex-
dução intercultural e não de tradução cultural tralinguísticos. De seguida enumero os tópicos
porque as diferenças culturais encontradas dos debates da tradução cultural que são mais
na globalização contra-hegemónica são mais relevantes para o tipo de zona de contacto
interculturais do que intraculturais. Mas es- translacional a que me refiro aqui.
tou plenamente consciente de que em muitas A língua constitui, obviamente, um tópico
instâncias pode não ser fácil distinguir entre central. Para os meus propósitos analíticos,
as duas situações. Além disso, as diferenças refiro-me sobretudo a dois tópicos principais.
intraculturais podem por vezes levar a confli- O primeiro diz respeito às diferenças de lin-
tos mais complexos que as interculturais. A guagem, competências linguísticas desiguais,
tradução é normalmente concebida como uma e os seus impactos sobre o trabalho de tra-
metáfora10, enquanto que a tradução linguísti- dução. O segundo tem a ver com o lugar da
ca se refere ao sentido tradicional e literal de linguagem na tradução intercultural, uma vez
tradução de uma língua para outra. Sabemos, que o trabalho de tradução depende também
contudo, que com o uso extensivo e repetido, de formas de comunicação não-linguísticas e
as metáforas se tornam literais. Por outro lado, para linguísticas, linguagem corporal, gestos,
a tradução entre-línguas não pode deixar de riso, expressões faciais, silêncios, a organi-
implicar tradução cultural. No entanto, a tra- zação e arquitectura do espaço, a gestão do
tempo e do ritmo, etc. O segundo tópico tem
a ver com a traduzibilidade, que Walter Benja-
10 Ver Birgit Wagner (2011). Ver o capítulo de Fabrice min (2002: 254) considerava “a lei que governa
Schurmans neste volume. O texto deste meu capítulo
a tradução” e Gramsci via como a diferença
foi escrito antes de ter lido o de Fabrice, não podendo,
por isso tomar em conta os muito pertinentes comen- que poderia esbater ou meramente interferir
tários que me faz e a que espero poder responder em na suposta contradição universal da dialéctica
textos futuros. Fabrice, concordando em geral com o marxista. Traduzibilidade é o reconhecimento
meu argumento, lamenta que eu não tenha fortalecido da diferença e a motivação para lidar com ela.
com o diálogo com os teóricos da tradução linguística.
Ignorar a traduzibilidade equivale a impossibi-
A verdade é que não considerei importante fazê-lo em
face dos meus propósitos analíticos. litar a hegemonia. A hegemonia baseia-se no
Tradução intercultural: Diferir e partilhar com Passionalità267

consentimento de ideias que vão para além do como estas podem ser reduzidas ou mesmo
limite imediato da experiência de vida de cada eliminadas à medida que o trabalho de tradu-
um (e podem mesmo contradizê-la). Contudo, ção progride. Como criar uma comunicação
este consentimento, só é possível através de não hierárquica e alcançar significados parti-
um acto de apropriação cultural e existencial lhados? Este tópico é especialmente relevan-
que aproxima ideias e experiências de vida ou te para os tipos de tradução a que me dedico
torna a ilusão desta proximidade mais credí- aqui, por exemplo, traduções de projectos po-
vel. A apropriação é a activação da diferença líticos destinadas a criar capacitação recípro-
num movimento da estranheza para a familia- ca. A policentralidade raramente constitui um
ridade. Esta activação é traduzibilidade em ponto de partida. Na melhor das hipóteses,
acção. Nascido no sul de Itália, na Sardenha, será um ponto de chegada. O quarto tópico,
Gramsci tinha plena consciência da diferen- igualmente relevante, diz respeito às mudan-
ça linguística e cultural no seu próprio país ças que o trabalho de tradução provoca na
e estava preocupado com o facto de o pen- identidade dos participantes à medida que o
samento e o discurso político, muitas vezes trabalho avança. Partilhar significados impli-
dependentes do saber académico e de teorias ca também partilhar ideias, posicionamentos,
universais como o marxismo, correrem o ris- paixões, sentimentos e emoções. Do mesmo
co de não serem inteiramente compreendidos modo, as diferenças na comunicação ou mes-
pelos seus destinatários. mo “a encenação da diferença” como diria
Ao longo dos seus Quaderni del carcere, faz Homi Bhabha (1994: 227), possuem dimen-
várias críticas severas aos discursos isotéricos sões de comunicação e performatividade que
da academia, que Gramsci (1975: 353) denomi- afectam a subjectividade do tradutor como
nou de “esperanto científico e filosófico”. Se- um todo. A marcação como a desmarcação
gundo ele, tudo o que não fosse passível de ser de diferenças, inscrevem-se num processo de
expresso neste esperanto, era considerado um intersubjectivação e interidentificação. À me-
mero preconceito ou superstição, senão mes- dida que os sujeitos da tradução mudam, mu-
mo um puro delírio. dam também as polaridades que os separam.
O terceiro tópico diz respeito às assime- Reformulação e interpenetração são tradução
trias envolvidas no trabalho de tradução e em acção. Um quinto tópico, menos debatido
268 Boaventura de Sousa Santos

pelos estudos de tradução, mas crucial aqui, é sublinha a ideia de relacionamento cultural.
a motivação por detrás da tradução. De onde Conceitos como equivocação, ambivalência,
provém o pathos que gera o impulso para mestiçagem ou hibridismo, e mimetismo são
iniciar a tradução? Quão quente é a corren- centrais para a tradução intercultural. Sendo
te quente da razão que junta estranhos sem que este último é aqui analisado e valorizado
qualquer certeza de que, no final do trabalho pela sua possível contribuição para as políti-
de tradução, serão menos estranhos uns para cas inter-movimentos, é imperativo elucidar
os outros e a possibilidade de poderem ser as relações históricas entre as diferentes cul-
mais estranhos ainda? A filologia viva de Gra- turas envolvidas, assim como as desigualda-
msci implica um esforço colectivo para tra- des políticas e culturais por elas criadas, e
duzir com “uma partilha activa e consciente” ter presente que estas desigualdades fazem
isto é con passionalità11. Este conceito é da parte do presente, mesmo quando a neces-
maior importância por sublinhar as emoções sidade de tradução é recíproca e igualmente
que encarnam o envolvimento e a partilha de sentida por ambas as partes. Em trabalhos
sentidos e afectos à medida que o trabalho de anteriores abordo as relações de poder in-
tradução progride. tervenientes na mestiçagem, distinguindo
A tradução é o procedimento que permite entre mestiçagem colonial e descolonizado-
criar inteligibilidade recíproca entre as expe- ra12. A ambivalência do mimetismo reside na
riências do mundo, tanto as disponíveis como sua afirmação da diferença no próprio pro-
as possíveis, tal como são reveladas pela so- cesso de identificação do outro. Na maioria
ciologia das ausências e pela sociologia das dos contextos coloniais modernos, a raça é
emergências. Sublinhado a possibilidade de um símbolo desta diferença e é, de facto, a
comunicação cultural, a tradução enfraque- causa do fracasso do mimetismo, uma vez
ce a ideia de culturas originais ou puras e que não possibilita mais que uma presença
incompleta. Bhabha tendo em mente a Índia
escreve “ser anglicizado é empaticamente
11 Gramsci (1975). Segundo Birgit Wagner (2011),
Joseph Buttigieg, editor dos primeiros dois volumes
da edição americana de The Prison Notebooks, planeia
usar “empatia” para traduzir con passionalità. 12 Ver Santos, 2006a: 179-211.
Tradução intercultural: Diferir e partilhar com Passionalità269

não ser inglês” (1994: 87). E o mesmo argu- Traduzir é situar-se num espaço de equivocação14
mento pode encontrar-se em outros textos e permanecer aí, ao invés de desfazê-lo ou supor
coloniais13. Ao contrário de Bhabha, não que ele nunca existiu. Traduzir é enfatizar e po-
penso que desacreditar as representações tencializar a equivocação, abrindo e alargando o
espaço que era imaginado como inexistente entre
hegemónicas e deslocar o antagonismo seja
as duas linguagens conceptuais em contato, pre-
inerente à mestiçagem ou que o “terceiro es-
cisamente o espaço que a equivocação esconde.
paço” aberto por ela seja automaticamente A equivocação não é um impedimento para a re-
emancipador. Este “terceiro espaço” pode de lação, mas antes aquilo que a funda e impulsiona:
facto ser muito (des)emancipador, como as uma diferença na perspectiva. Traduzir, portanto,
frustrações dos movimentos indígenas latino seria presumir que a equivocação sempre existe,
americanos demonstraram eloquentemente ou seja, comunicar-se pelas diferenças ao invés
nas últimas décadas. Em trabalho anterior de silenciá-las presumindo uma univocalidade ou
(2006a: 179-211) ao analisar a subjectividade uma similaridade essencial entre o que nós e o
barroca, chamo a atenção para os limites da
subversão da dominação que representa. As
“virtudes” do terceiro espaço dependem das 14 “A equivocação, não é apenas uma ‘falha no enten-
relações sociais concretas que o constituem. dimento’, mas uma falha em entender que os entendi-
O terceiro espaço é o domínio da mediação e mentos não são necessariamente os mesmos e que não
estão relacionados com formas imaginárias de ‘ver o
da negociação que são constitutivos da tra- mundo’, mas com mundos reais que estão a ser vistos…
dução intercultural. O seu potencial político O Outro e os Outros são sempre o outro. Dessa forma,
depende de condições específicas de media- uma equivocação não é um erro, um engano ou uma
ção e negociação. O terceiro espaço é aquilo fraude, pois estes pressupõem premissas homogêneas,
enquanto ela suporia a heterogeneidade das premissas.
a que Viveiros de Castro chama o espaço de
E se a equivocação não é um erro, uma ilusão ou uma
equivocação. Segundo ele, mentira, mas a própria forma da positividade relacio-
nal da diferença, seu oposto não é a verdade, mas sim
o unívocal como pretensão à existência de um signifi-
cado único e transcendente. O erro ou ilusão persiste,
precisamente, em imaginar que o unívocal existe sob
o equívocal, e que o antropólogo é o seu ventríloquo
13 Para o contexto português, ver Santos, 2011. (Viveiros de Castro, 2004: 12).
270 Boaventura de Sousa Santos

Outro dizemos. Assim, “a incomensurabilidade sos simbólicos e agências normativas e rivais


entre as “noções” conflituantes, longe de ser um se encontram em condições desiguais e resis-
impedimento à sua comparabilidade, é precisa- tem, rejeitam, assimilam, imitam, traduzem e
mente o que a permite e justifica. (2004: 10) se subvertem umas às outras de modo a dar
origem a constelações culturais híbridas onde
Prefiro conceber o espaço intermédio que a desigualdade das trocas pode ser reforçada
torna a tradução possível como zona de con- ou reduzida. A complexidade é intrínseca à
tacto, uma zona traduzível. Em geral, as zo- própria definição de zona de contacto. Quem
nas de contacto são campos sociais em que define quem ou o quê pertence à zona de con-
diferentes mundos da vida cultural se encon- tacto e quem ou o quê não? Como definir a li-
tram, medeiam, negoceiam e confrontam15. nha que delimita a zona de contacto? Será a
Zonas de contacto são, portanto, zonas em diferença entre culturas ou mundos da vida
que ideias, saberes, formas de poder, univer- normativos tão profunda que os torna inco-
mensuráveis? Como aproximar os universos
culturais e normativos de modo a trazê-los a
15 Pratt, define as zonas de contacto como “espaços uma distância “de contacto visual”, por assim
sociais em que culturas distintas se encontram, chocam dizer? Paradoxalmente, devido à multiplici-
entre si e se envolvem umas com as outras muitas vezes dade de códigos culturais presente, a zona de
em relações de dominação e subordinação altamente
assimétricas — como o colonialismo, a escravatura e contacto descodificada e desclassificada, uma
as suas sequelas que sobrevivem hoje pelo mundo fora” zona de experimentação e inovação normati-
(1994: 4). Nesta formulação as zonas de contacto pa- va e cultural. Além disso, a determinação da
recem implicar encontros entre totalidades culturais. igualdade de desigualdade de trocas na zona
Não tem de ser este o caso. A zona de contacto pode
de contacto nunca é uma tarefa simples, uma
envolver diferenças culturais seleccionadas e parciais,
as diferenças que, num espaço-tempo determinado se vez que estamos em presença de conceitos
encontram em concorrência para dar sentido a uma alternativos e muitas vezes conflituantes de
determinada linha de acção. Além disso, hoje em dia, igualdade. Nas zonas de contacto, o ideal da
as trocas desiguais vão muito além do colonialismo e igualdade é o ideal da igualdade de diferenças.
das suas sequelas, embora o colonialismo continue a
No meu entendimento, as zonas de contacto
desempenhar um papel muito importante do que esta-
mos dispostos a admitir. produzidas pela tradução intercultural são
Tradução intercultural: Diferir e partilhar com Passionalità271

tempos-espaço de mediação e negociação nos ferentes culturas. A hermenêutica diatópica ou


quais a desigualdade das relações de tradução pluritópica é baseada na ideia de que os topoi16
constitui o principal factor condicionante do de uma dada cultura individual, por mais for-
trabalho de tradução. O trabalho de tradução tes que pareçam, são tão incompletos como a
actua reduzindo esta desigualdade quando própria cultura a que pertencem. Tal incomple-
tem êxito e aumenta-a quando fracassa. As tude não é visível do interior da própria cultura
constelações culturais emergentes do traba- uma vez que a aspiração à totalidade induz a
lho de tradução podem ser mais ou menos ins- que se tome a parte pelo todo. O objectivo da
táveis, provisórias e reversíveis hermenêutica diatópica não é, porém, atingir
Como parte da política inter-movimentos, a completude — um objectivo intangível — e
o trabalho de tradução diz respeito tanto aos sim ampliar ao máximo a consciência de in-
saberes como às práticas, e também aos seus completude mútua através de um diálogo que
agentes. Existem diferentes tipos de trabalho se desenrola, por assim dizer, com um pé numa
de tradução. Alguns centram-se especificamen- cultura e outro, noutra. Aqui reside o seu carac-
te em conceitos ou mundovisões, outros em ter diatópico.
modos alternativos de construir práticas ou Procurando, entre outras coisas, quebrar o
agentes colectivos. Mas em cada instância, os círculo hermenêutico criado pelos limites de
saberes, as práticas, e os agentes, trabalham uma cultura única, a hermenêutica diatópica
conjuntamente. Quando o foco incide especi- ou pluritópica tenta “colocar em contacto hori-
ficamente sobre conceitos e mundovisões, de- zontes humanos radicalmente distintos, tradi-
nomino o trabalho de tradução, seguindo uma ções ou localizações culturais (topoi) de modo
expressão de Raymond Panikkar (1979: 9), her- a alcançar um diálogo verdadeiramente dialó-
menêutica diatópica. Consiste no trabalho de gico que tem em conta as diferenças culturais.
interpretação entre duas ou mais culturas com É a arte de alcançar o entendimento “atraves-
vista a identificar preocupações isomórficas
entre elas e as diferentes respostas que forne-
cem para elas. Por exemplo, a preocupação e a 16 O Topos é um conceito chave da retórica aristotéli-
ca. Significa “lugar comum”, a noção ou a ideia daquilo
aspiração à dignidade humana parecem estar
que — dada a sua evidência — não é discutível. Ao con-
presentes, embora de formas distintas, em di- trário, funcionam como premissas de argumentação.
272 Boaventura de Sousa Santos

sando diferentes localizações” (dia-topos) (Pa- completude cultural. No período de transição


nikkar, 1979: 9). que atravessamos, ainda dominado pela razão
Admitir a relatividade das culturas não im- metonímica e pela razão proléptica, a melhor
plica adoptar sem mais o relativismo como ati- formulação para o universalismo negativo tal-
tude filosófica. Implica, sim, conceber o univer- vez seja designá-lo como uma teoria geral resi-
salismo como uma particularidade ocidental dual: uma teoria geral sobre a impossibilidade
cuja supremacia como ideia não reside em si de uma teoria geral. A ideia e a sensação da
mesma, mas antes na supremacia dos interes- carência e da incompletude criam a motivação
ses que a sustentam. A crítica do universalismo para o trabalho de tradução. Ocorre-me neste
decorre da crítica da possibilidade da teoria ponto a descrição de Mikhail Bakhtin do diálo-
geral17. A hermenêutica diatópica pressupõe, go transcultural:
pelo contrário, o que designo por universa-
lismo negativo, a ideia da impossibilidade da Um significado apenas revela a sua profundidade
quando encontra e contacta um outro significado,
estrangeiro: encetam uma espécie de diálogo…
17 Uma variação do universalismo tem sido recente-
Procuramos respostas para as nossas perguntas
mente apresentada na forma de transversalismo. Pa- na [cultura estrangeira]; e [esta] responde reve-
lencia-Roth (2006) afirma que os valores universais são lando-nos novos aspectos e uma nova profundida-
antitéticos dos valores transversais. Em termos axioló- de semântica… Este encontro dialógico de duas
gicos, os valores transversais são valores transversais a culturas não resulta em fusão ou mistura. Cada
uma ou mais culturas e lhes são comuns sem se torna- uma retém a sua unidade e totalidade aberta, mas
ram valores universais. Se uma cultura transversal qui- ambas se enriquecem mutuamente. (1986: 7)
ser permanecer transversal, deverá conservar a sua es-
pecificidade. Do meu ponto de vista, é apenas um modo
mais elegante (e também mais insidioso) de difundir a Para frutificar, a tradução tem de ser o cru-
velha pretensão do universalismo. Não existem valores zamento de motivações convergentes origina-
que, por si mesmos, sejam comuns a diferentes cultu- das em diferentes culturas. De onde provém
ras. Isso só poderá acontecer através da tradução inter- esta motivação? É imperativo distinguir entre
cultural cosmopolita, isto é, através de procedimentos
as motivações políticas e intelectuais. Ao longo
que, pelo seu caracter recíproco e horizontal, oferecem
garantias contra as imposições de cima para baixo e, do período moderno existem numerosos exem-
afinal, contra o epistemicídio. plos de intelectuais, sábios, filósofos, e cientis-
Tradução intercultural: Diferir e partilhar com Passionalità273

tas, tanto no Norte global como no Sul global, (2000: 12). Se, imaginariamente, um exercício
que tentam alcançar outras culturas em busca de hermenêutica diatópica fosse conduzido
de respostas que a sua cultura não fornece. entre Vishvanathan e um cientista europeu ou
Por vezes trata-se de um exercício intelectual norte-americano é possível imaginar que a mo-
destinado a contestar verdades estabelecidas tivação para o diálogo, por parte deste último,
em relação à singularidade ou precedência de fosse formulada assim: “como posso manter
uma dada cultura. O exemplo mais brilhante do vivo em mim o melhor da cultura ocidental
século XX é seguramente o gigantesco esforço moderna e democrática e, ao mesmo tempo,
de tradução intercultural de Joseph Needham reconhecer o valor da diversidade do mundo
(1954) destinado a provar o atraso e a deriva- que ela designou autoritariamente como não
ção da ciência moderna e da civilização ociden- civilizado, ignorante, residual, inferior ou im-
tal vis-à-vis a ciência e à civilização chinesa. produtivo?” (2000: 12).
Com maior frequência, esta busca é um acto O segundo tipo de anseio e motivação é po-
de introspecção, um exercício de autoreflexi- lítico, e é este que me ocupa aqui. A sua irre-
vidade profunda plena de ansiedade na medida dutível componente intelectual está ao serviço
em que tudo o que pode ser aprendido com as de um intento ou projecto político. Que tipo de
outras culturas tem de ser digerido18, desfigu- intento ou projecto produz uma vontade que
rado, e transfigurado de modo a encaixar em por si gera a motivação para se aproximar de
novas constelações de significado. O sociólogo outra cultura? A um nível pragmático, ao lon-
indiano Shiv Vishvanathan formulou de uma go da década passada o Fórum Social Mundial
maneira incisiva a noção de carência e a mo- (FSM) forneceu provas inequívocas do carac-
tivação que eu aqui designo como motivação ter parcial, local ou provincial de projectos po-
para o trabalho de tradução: “o meu problema líticos anteriormente considerados universais
é como ir buscar o melhor que tem a civiliza- e suscetíveis de inteligibilidade universal e de
ção indiana e, ao mesmo tempo, manter viva formulações aceites e validadas19. Ao mesmo
a minha imaginação moderna e democrática” tempo que revelou a extrema diversidade (po-

18 Recordo aqui o movimento antropofágico dos inte-


lectuais de Nuestra America. Ver Santos, 2006a: 179-211. 19 Sobre o Fórum Social Mundial, ver Santos, 2006b.
274 Boaventura de Sousa Santos

litica, cultural, semântica, linguística) dos mo- ção envolvem práticas, bem como agentes20.
vimentos sociais que combatem a globalização O trabalho de tradução visa clarificar o que
neoliberal em todo o mundo, o FSM apela à une e o que separa os diferentes movimentos
necessidade de articulação e agregação entre e práticas, de modo a determinar as possibili-
todos estes movimentos e organizações. Na au- dades e os limites de articulação e agregação
sência de uma agregação imposta de cima para entre eles. Dado que não há uma única prática
baixo por uma grande teoria ou um actor social social universal ou sujeito coletivo para con-
privilegiado, isto implica um gigantesco traba- ferir sentido e direção à história, o trabalho
lho de tradução. O que há de comum entre o or- de tradução torna-se decisivo para definir, em
çamento participativo, hoje praticado em mui- cada momento ou contexto histórico concreto,
tas cidades latino-americanas, e o planeamento quais as constelações de práticas subalternas
democrático participativo dos panchayats em com maior potencial contra-hegemónico. En-
Kerala e Bengala Ocidental na Índia? O que po- quanto o Fórum Social Mundial gerou o poten-
dem aprender um com o outro? Em que tipos cial para a tradução intercultural, no México, o
de atividades globais contra-hegemónicas po- movimento indígena zapatista agiu sob a forma
dem cooperar? As mesmas perguntas podem de um exemplo muito concreto do trabalho de
fazer-se a respeito do movimento pacifista e do tradução. Tratou-se de um exemplo efémero,
movimento anarquista, ou do movimento indí- mas revelador da capacidade ir para além das
gena e dos movimentos dos indignados ou Oc- diferenças culturais e traduzir entre elas. Em
cupy, ou mesmo do Movimento dos Sem Terra março de 2001, na sua marcha para a capital
no Brasil e do movimento contra as barragens do país, o Movimento Zapatista transformou-se
no rio Narmada, na Índia, e assim por diante. momentaneamente numa prática contra-hege-
Ao lidar mais especificamente com práticas mónica privilegiada e foi-o tanto mais quanto
e agentes, o trabalho de tradução visa criar in- soube realizar o trabalho de tradução entre os
teligibilidade recíproca entre formas de orga- seus objetivos e práticas e os objetivos e práti-
nização e entre objetivos de ação. Mas, como
já referi, todos os tipos de trabalho de tradu-
20 O trabalho de tradução entre a biomedicina moder-
na e a medicina tradicional constitui um bom exemplo
disto. Ver Meneses (2004 e 2009).
Tradução intercultural: Diferir e partilhar com Passionalità275

cas de outros movimentos sociais mexicanos, de tradução, distingo dois tipos principais de
do movimento cívico e do movimento operário tradução intercultural. O primeiro é a tradução
autónomo ao movimento feminista. Desse tra- entre concepções ou práticas ocidentais e não
balho de tradução resultou, por exemplo, que o ocidentais; o segundo é a tradução entre dife-
dirigente zapatista escolhido para se dirigir ao rentes concepções e práticas não-ocidentais23.
Congresso Mexicano tenha sido uma mulher, a A meu ver, ambos almejam a aprendizagem
comandante Esther. Com essa escolha, os za- com o Sul anti-imperial, entendido como uma
patistas quiseram significar a articulação entre metáfora do sofrimento humano global, sisté-
o movimento indígena e o movimento de liber- mico e injusto causado pelo capitalismo, colo-
tação das mulheres e, por essa via, aprofundar nialismo e patriarcado e pela resistência contra
o potencial contra-hegemónico de ambos. as causas desse sofrimento. Como mencionei
anteriormente, o Sul anti-imperial existe tanto
Aprender com o Sul com a no Sul global como no Norte global. O forta-
tradução intercultural lecimento do Sul anti-imperial fundamenta o
Em trabalhos anteriores explico as razões impulso para aprender através da tradução in-
que justificam o meu empenho em conseguir tercultural, tanto de saberes e práticas distin-
distanciamento em relação à teoria crítica eu- tas em todo o Sul global, como com saberes e
rocêntrica Ocidental. Estabelecer um tal dis- práticas das zonas de contacto entre o Norte
tanciamento implica démarches desconstru- global e o Sul global. Trata-se de dois tipos mui-
tivas21 e reconstrutivas22. Neste texto procedo to diferentes de aprendizagem porque tanto a
à reconstrução a um nível mais profundo, o sociologia das ausências como a sociologia das
nível da tradução intercultural. Dependendo emergências actuam de modo muito distinto
do tipo de parceiros intervenientes no trabalho sobre cada uma delas. A história moderna de

23 Existe também a possibilidade de tradução entre


21 Para as démarches desconstrutivas ver Santos, diferentes concepções e práticas ocidentais. Em que
2014: 48-163. medida esta tradução é inter ou intracultural poderá
22 Para as démarches reconstrutivas ver Santos, 2014: constituir um tópico para um debate a que não preten-
164-235. do dedicar-me aqui.
276 Boaventura de Sousa Santos

relações desiguais entre o Norte global e o Sul correctamente, a epistemologia imperial re-
global tem um peso tal que questionar e desa- presentou o outro como incapaz de auto-repre-
fiar a zona de contacto tal como esta se apre- sentação. Vincent Tucker assinala também que
senta terá de ser a primeira tarefa do trabalho “escolas de pensamento como o Orientalismo e
de tradução. Aqui reside a natureza descoloni- disciplinas como a antropologia falam do ‘ou-
zadora dos encontros a promover. tro’ referindo muitas vezes conhecerem os seus
Por se tratar de um trabalho de mediação e objectos de estudo melhor que eles próprios”;
negociação, o trabalho de tradução requer que e acrescenta, “O outro é reduzido a um objecto
os participantes no processo de tradução se sem voz” (1992: 20). Vendo apenas através das
desfamiliarizem até certo ponto dos seus res- lentes do Norte imperial, o Sul não pode deixar
pectivos antecedentes culturais. No caso das de se reconhecer como Sul imperial. É por isso
traduções Norte/Sul, que tendem a ser também que hoje o Sul global é capaz de se reconhecer
traduções ocidente/não-ocidente, a tarefa de como uma vítima do Norte imperial muito mais
desfamiliarização é especialmente difícil por- facilmente que do Sul imperial24. Existe contu-
que o Norte imperial não tem de si outra me- do, uma diferença, que importa mencionar. No
mória que não a imperial e, portanto, tão única Norte global, a aspiração a um posicionamento
quanto universal. À primeira vista poderia pa- anti-imperial só pode ser imaginada como um
recer que as traduções Sul/Sul não teriam estas posicionamento pós-imperial, uma vez que no
dificuldades. Nada poderia estar mais longe da período moderno o imperialismo constituiu
verdade. Como produto do império, o Sul é a uma condição original para o Norte global.
casa do Sul onde o Sul não está em casa. Isto Ao contrário, no caso do Sul global, é possí-
é, a construção das epistemologias do Sul pela vel construir um posicionamento anti-imperial
tradução intercultural deve submeter-se a um imaginando uma condição pré-colonial, pré-
processo de desfamiliarização em relação quer
ao Norte imperial, quer ao Sul imperial. O Sul
imperial é a forma como o Sul abdica da possi- 24 Os romancistas e poetas do Sul têm estado na pri-
bilidade de auto-representação a não ser como meira linha da luta por um Sul não imperial produzindo
aquilo que Fanon (1963: 173) descreveu como uma lite-
facilitadora e desejosa da opressão do Norte
ratura de combate: o corpus oral e escrito forjado nas
imperial. Como Edward Said (1978) sublinha lutas nacionalistas anti-imperiais.
Tradução intercultural: Diferir e partilhar com Passionalità277

-imperial real ou inventada. Em diferentes con- ciais do mundo reveladas pelas ecologias dos
textos — África, Ásia e América Latina —, as di- saberes. O objectivo global das epistemologias
ferentes lutas ilustram o potencial anti-colonial, do Sul é a construção de um Sul anti-imperial
anti-imperial da reivindicação da memória pré- sólido, consistente e competente. Neste pro-
-colonial25. Uma tal reconstrução não tem de ser cesso, é possível distinguir três momentos:
necessariamente progressiva, nem necessaria- rebelião, sofrimento humano, e continuidade
mente reaccionária. Para ser progressiva deve vítima-agressor26. Em cada um deles, a tradu-
considerar-se provisória no sentido em que a ção intercultural intervém de modo específico.
afirmação plena do anti-imperialismo implica a O momento da rebelião sucede quando a
própria eliminação quer do Norte imperial, quer ordem imperial é abalada, pelo menos mo-
do Sul imperial. Na medida em que é possível mentaneamente. O momento da rebelião dos
para o Sul pensar-se em termos outros que não oprimidos constitui o elo mais fraco da domi-
os do Sul, também é possível para o Norte pen- nação imperial. À luz disto, não é surpresa que
sar-se em termos outros que não os do Norte. a sua análise constitua também um elo fraco
Aprender com o Sul é um processo de tradu- das ciências sociais colonizadoras convencio-
ção intercultural através do qual o Sul anti-im- nais que se constituíram e prosperaram na re-
perial é construído tanto no Norte global como lação imperial. Para uma análise convincente
no Sul global. Como tenho vindo a sublinhar, a dos momentos de rebelião, devemos recorrer,
construção de um Sul anti-imperial é parte in- por exemplo, à colecção gigantesca de estudos
tegrante da globalização contra-hegemónica; e sobre a sociedade indiana reunida por Ranajit
por isso, o trabalho de tradução, longe de ser Guha nos diversos volumes dos Subaltern Stu-
um exercício intelectual, é um instrumento dies27. Comentando este feito formidável de
pragmático de mediação e negociação. O seu
propósito é ultrapassar a fragmentação ineren-
te à extrema diversidade das experiências so- 26 Não são fases, estágios, ou passos, uma vez que
podem existir simultaneamente. Representam dife-
rentes perspectivas de resistência contra a opressão
25 Ver, entre outros, Galeano, 1971; Dioup, 1976; Wa e a dominação.
Thiong’o, 1986; Mudimbe, 1988; Bonfil Batalla, 1996; 27 Uma colecção de recolhas de ensaios sobre a histó-
Martí, 2002. ria e a sociedade do Sul da Ásia publicados durante os
278 Boaventura de Sousa Santos

erudição histórica, Veena Das afirma precisa- e a vítima possibilita a subjectividade rebelde,
mente que os Subaltern Studies “marcam um por esta última estar, pelo menos momentane-
ponto importante ao estabelecer a centralidade amente, no controlo da sua própria represen-
do momento histórico da rebelião na compre- tação. Esta subjectividade foi formulada de
ensão dos subalternos como sujeitos das suas modo memorável por Gandhi quando este se
próprias histórias” (1989: 312)28. Refiro-me aos imaginou a dirigir-se aos britânicos nos seguin-
momentos de desafio em que a ordem repre- tes termos: “Não somos nós que temos de fazer
sentacional dominante se confronta com uma como vocês querem, mas são vocês que devem
nova ordem emergente. O questionamento da fazer como nós queremos” (1956: 118)29.
ordem constituída é o primeiro impulso para as O momento do sofrimento humano é o mo-
epistemologias do Sul, permitindo às energias mento da contradição entre as experiências de
emancipadoras reconhecerem-se como tal. vida do oprimido e a ideia de uma vida decen-
Assim, o momento da rebelião é um momento te. É também o momento em que o sofrimento
de suspensão que transforma o Norte imperial humano se traduz no sofrimento provocado
num poder alienatório e o Sul imperial numa pelo homem. É um momento crucial, porque
(im)potência alienatória. Nesse momento, a adominação capitalista, colonialista e patriar-
força do opressor começa a existir apenas na cal assenta na naturalização do sofrimento
medida em que a fraqueza da vítima o permi- humano como uma fatalidade ou necessidade.
ta: a capacidade do opressor é uma função da A transformação do sofrimento humano em
incapacidade da vítima; a vontade de oprimir é sofrimento injusto provocado pela dominação
uma função da vontade de ser oprimido. Esta requer, portanto, um grande investimento na
reciprocidade momentânea entre o opressor representação e imaginação oposicional. Nas
palavras de Ashis Nandy, “a nossa sensibilida-
de ética limitada não é uma prova da hipocri-
anos 80 do século passado, editados por Ranajit Guha. sia humana; é sobretudo um produto da nossa
Entre muitos outros estudos, ver o ensaio do próprio
percepção limitada da situação humana” (1987:
Guha (1989) sobre a historiografia colonialista na Índia.
28 Para uma perpectiva diferente dos Subaltern Stu-
dies como um todo por alguém que a eles pertencia, ver 29 Publicado originalmente em 1909 sob o título “In-
Chakrabarty (1992). dian Home Rule”.
Tradução intercultural: Diferir e partilhar com Passionalità279

22). A perspectiva fundadora das epistemolo- oprimido nunca é uma vítima pura. Uma par-
gias do Sul tem a ver com o sofrimento humano te dele colabora, compromete-se e ajusta-se,
injusto conjugado com o pathos da vontade de outra parte desafia, não-coopera, subverte ou
lhe resistir. destrói, muitas vezes em nome da colaboração
Em relação ao momento da continuidade e sob as vestes do servilismo” (1987: 43)30.
vítima-agressor, o discurso colonial foi certa- Mais recentemente, Frantz Fanon e Albert
mente baseado na polaridade entre o coloniza- Memmi apresentam as formulações mais elo-
dor e o colonizado, mas é importante sublinhar quentes e poderosas a este respeito. De acordo
a continuidade e a ambivalência entre os dois, com Fanon e Memmi, a ligação entre o coloni-
uma vez que não são independentes um do ou- zador e o colonizado é dialeticamente destruti-
tro; nem são pensáveis individualmente. Gan- va e criativa. Destrói e recria os dois parceiros
dhi foi provavelmente o primeiro a formular da colonização. O elo que liga o colonizador e o
o momento de continuidade quando afirmou colonizado é o racismo; o elo, contudo, é uma
claramente que qualquer sistema de domina- forma de agressão para o colonizador e uma
ção brutaliza tanto a vítima como o opressor e forma de defesa para o colonizado31 (Memmi,
que o opressor também precisa de ser liberta- 1965: 131). A ambivalência mais notória do es-
do. “Toda a sua vida,” escreve Nandy, “Gandhi
procurou libertar os britânicos tanto como os
indianos das garras do imperialismo; a casta 30 Referindo-se a Gandhi, Rudolph (1996: 42) mostra
hindu tanto como os intocáveis da intocabilida- que o efeito des emancipador do encontro colonial para
o colonizado, pode no entanto, ser subvertido por este.
de” (1987: 35). Gandhi acreditava que o sistema
Segundo ele, o sujeito colonial, demonstra com frequên-
de dominação compelia a vítima a interiorizar cia ser mais do que massa sob a qual a faca do bolo im-
as regras do sistema de tal modo que não existe perial opera para criar mentalidades recheadas de cate-
garantia de que, uma vez derrotado o opressor, gorias imperiais. Quando o encontro estimula o sujeito
o domínio não continuasse a ser exercido pela colonial as possibilidades culturais do contexto dele ou
dela, pode actuar como um estímulo, mesmo como uma
antiga vítima, ainda que sob diferentes formas.
ferroada, para a criatividade cultural e inovação.
A vítima é um ser muito dividido no que toca à
31 Sobre esta questão, ver a interessante colecção de
identificação com ou diferenciação de em re-
ensaios de Fanon (1967). Ver, também Maldonado-Tor-
lação ao seu opressor. Volto a citar Nandy: “O res (2010); Lewis Gordon (1995 e 2015).
280 Boaventura de Sousa Santos

tereótipo do colonizado como selvagem é o fac- visibilidade e credibilidade aos saberes e prá-
to de ser também constituído pelo oposto dos ticas não ocidentais colocadas do outro lado
seus elementos negativos: o negro é simultane- da linha pelo pensamento abissal. Deste modo,
amente o selvagem e o servo mais obediente e o Sul anti-imperial pode emergir. Como men-
dignificado; a incarnação da sexualidade des- cionei acima, distingo entre traduções Norte/
controlada, mas inocente como uma criança; Sul e Sul/Sul e analisarei algumas instâncias
místico, primitivo, rústico e ao mesmo tempo de possível tradução para cada caso. Nenhu-
engenhoso, mentiroso, e um manipulador das ma destas instâncias descarta simplesmen-
forças sociais (Bhabha 1994: 82). te as concepções ocidentais, mesmo quando
Descobrir os segredos do desafio contra questiona a sua universalidade, abrindo assim
a opressão, torna possível luta por um mun- espaço para outras concepções existentes nas
do alternativo que não produz a brutalização culturas não ocidentais. Antes, as coloca numa
recíproca. Por outras palavras, a libertação zona de contacto onde a mediação, confronta-
do opressor da desumanização só é possível ção, e negociação se tornam possíveis e são le-
como resultado da luta emancipadora da ví- vadas a cabo. O objectivo é o desenvolvimento
tima contra a opressão. Gustavo Gutierrez, o de constelações mais ricas de significado em
proeminente teórico da teologia da libertação, que o Sul anti-imperial se capacita na sua luta
expressa esta aparente simetria e paradoxo contra o capitalismo global, o colonialismo e o
com grande eloquência: “Amamos os nossos patriarcado.
opressores libertando-os de si mesmos. Mas Antes de iniciar o trabalho de tradução,
não podemos conseguir isto sem uma opção abordo, ainda que brevemente a questão das
resoluta dos oprimidos, id est combatendo as condições e procedimentos da tradução inter-
classes opressoras. Deve ser um combate real cultural.
e efectivo, e não de ódio” (1991: 276).
Em The End of the Cognitive Empire: The Condições e procedimentos
Coming of Age of Epistemologies of the South da tradução
(Duke University Press, 2018), exploro o po- A tradução é, simultaneamente, um trabalho
tencial da tradução intercultural para aprender intelectual e um trabalho político. E é também
com o Sul de modo capacitador, isto é, dando um pathos, um trabalho emocional porque pres-
Tradução intercultural: Diferir e partilhar com Passionalità281

supõe o inconformismo perante uma carência -colonial que se afirme. Uma vez garantido esse
decorrente do carácter incompleto ou deficien- pressuposto, as condições e procedimentos do
te de um dado saber ou de uma dada prática e a trabalho de tradução podem ser elucidados a
disposição para a surpresa e para a aprendiza- partir das respostas às seguintes questões: o
gem mútua de modo a construir acções colabo- que traduzir? Entre quê e o quê? Quem traduz?
rativas mutuamente vantajosas. As ecologias de Quando traduzir? Traduzir com que objectivos?
saberes e a tradução intercultural são dois pro-
cedimentos centrais do pensamento pós-abissal O que traduzir?
(Santos: 2014: 188-235). Juntos procuram criar
A zona de contacto cosmopolita parte do
co-presença ao longo das linhas abissais. Não
principio de que cabe a cada sujeito (individual
podem por isso depender das zonas de contac-
ou coletivo) de saber ou prática decidir o que
to produzidas pelo pensamento abissal uma vez
pôr em contacto com quem. As zonas de con-
que estas partem da premissa de uma lógica de
tacto são sempre selectivas porque os saberes
apropriação/violência. As ecologias de saberes
e práticas dos movimentos excedem sempre o
e a tradução intercultural podem apenas ocor-
que uns e outras estão dispostos a pôr em con-
rer e florescer nas zonas de contacto cosmopo-
tacto. Na verdade, o que é posto em contacto
litas subalternas, isto é, nas zonas de contacto
não é necessariamente o mais relevante ou cen-
descolonizadoras. O impulso para a criação
tral. Ao contrário, as zonas de contacto consti-
destas zonas provém dos movimentos sociais
tuem zonas de fronteira, raianas, ou terras de
e das organizações que, no contexto da globa-
ninguém, onde as periferias e as margens dos
lização contra-hegemónica, se empenham em
saberes e práticas são os primeiros a emergir. À
políticas inter-movimentos, isto é, numa articu-
medida que avançar o trabalho de tradução e a
lação política entre saberes, práticas, e agentes
competência intercultural se aprofundar, será
com o propósito de fortalecer as lutas contra o
possível ir trazendo para a zona de contacto os
capitalismo, o colonialismo e o patriarcado.
aspectos de saber ou de prática considerados
Já referi que o trabalho de tradução assen-
mais centrais e relevantes.
ta na ideia da impossibilidade de uma teoria
Nas zonas de contacto interculturais, cabe
geral. Sem este universalismo negativo, a tra-
a cada prática cultural decidir que aspectos
dução é um trabalho colonial, por mais pós-
282 Boaventura de Sousa Santos

devem ser seleccionados para o confronto in- A questão da traduzibilidade é simultanea-


tercultural. Em todas as culturas há aspectos mente menos e mais complexa do que assumem
considerados demasiado fundamentais ou os estudos de tradução. É menos complexa no
essenciais para poderem ser expostos e tor- sentido em que a traduzibilidade não constitui
nados vulneráveis pelo confronto na zona de uma característica intrínseca do que está dispo-
contacto, e há, por outro lado, aspectos que se nível para tradução. É antes de mais, um acto
considera serem intrinsecamente intraduzíveis de vontade, um impulso que traça a linha entre
noutra cultura. Estas decisões fazem parte do aquilo que está ou não disponível para tradução.
próprio trabalho de tradução e são susceptíveis Pelo contrário, é mais complexa porque, mudan-
de revisão à medida que o trabalho progride. Se do a vontade de tradução de acordo com razões
o trabalho de tradução avançar, é de esperar políticas, por exemplo, o ponto de encontro é
que mais e mais aspectos sejam trazidos à zona inerentemente instável, precário e reversível.
de contacto, o que, por sua vez, contribuirá A questão do que é traduzível não se limita
para novos progressos na tradução. Em muitos ao critério de selecção adoptado por cada gru-
países da América Latina, sobretudo naqueles po na zona de contacto. Para além da selecti-
em que está consagrado o constitucionalismo vidade activa, há o que poderíamos designar
intercultural ou plurinacional32, os povos indí- como selectividade passiva. Consiste naquilo
genas têm vindo a travar uma luta pelo direi- que numa dada cultura se tornou impronun-
to de controlarem a decisão sobre o quais dos ciável devido à opressão extrema de que foi
seus saberes e práticas devem ser objecto do vítima durante longos períodos. Trata-se de
trabalho de tradução na zona de contacto com ausências profundas, feitas de um vazio que
os saberes e práticas da “sociedad mayor”33.

(s). A este respeito é prudente seguir a recomendação


32 Sobre esta questão, ver Santos e Exeni (2012); San- de Theo Hermans: “Recomendo um reconhecimento
tos e Grijalva (2012). pragmático da impossibilidade de uma descrição total,
33 Seria errado assumir que, uma vez acordado o âm- e a substituição da quimera do entendimento comple-
bito do reportório das questões traduzíveis, o impulso to pela inspecção crítica dos vocabulários empregues
para a tradução cruzada conduziria a interacções trans- para conduzir o exercício hermenêutico transcultural”
parentes e a representações exactas de outras cultura (2003: 385).
Tradução intercultural: Diferir e partilhar com Passionalità283

não é possível preencher. No caso de ausên- construção do Estado islâmico em Medina. O


cias de longa duração, é provável que nem a mesmo sucede com as muitas concepções de
sociologia das ausências as possa tornar pre- dharma no hinduísmo34. Variam, nomeadamen-
sentes. Os silêncios que produzem são dema- te, de casta para casta. As versões mais inclusi-
siado insondáveis para virem a ser objecto do vas, as que contêm um círculo mais amplo de
trabalho de tradução. reciprocidade, são as que geram as zonas de
A questão sobre o que traduzir suscita ain- contacto mais promissoras. São elas as mais
da um outro problema, que é particularmente adequadas para aprofundar o trabalho de tradu-
importante em zonas de contacto entre grupos ção e a hermenêutica diatópica.
oriundos de universos culturais diferentes. As
culturas só são monolíticas quando vistas de Entre quê e o que traduzir?
fora ou de longe. Quando vistas de dentro ou de
A selecção dos saberes e práticas entre os
perto, é fácil ver que são constituídas por várias
quais se realiza o trabalho de tradução é sempre
versões, algumas vezes conflituais, da mesma
resultado de uma convergência ou conjugação
cultura. Por exemplo, quando falo de um pos-
de sensações, de experiências de carência, de
sível diálogo intercultural sobre concepções de
inconformismo, e da motivação para as superar
dignidade humana, facilmente verificamos que,
de uma forma específica. Pode surgir como reac-
na cultura ocidental, não existe apenas uma
ção a uma zona de contacto colonial ou imperial.
concepção de direitos humanos. Podemos dis-
Por exemplo, a biodiversidade e a etnobotânica
tinguir pelo menos duas: uma concepção liberal
constituem hoje uma zona de contacto imperial
que privilegia os direitos cívicos e políticos em
entre o saber biotecnológico e o saber dos xa-
detrimento dos direitos sociais e económicos, e
mãs, médicos tradicionais, ou curandeiros nas
uma concepção marxista ou socialista que pri-
comunidades indígenas e rurais da América Lati-
vilegia os direitos sociais e económicos como
na, África e Ásia. Os movimentos indígenas e os
condição de todos os demais. Do mesmo modo,
no Islão é possível identificar várias concepções
de umma, umas mais inclusivas, reconduzíveis
34 Sobre o conceito de umma, ver, Faruki (1979); An-
ao período em que o profeta viveu em Meca, e
-Na’im (1995, 2000); Hassan (1996); sobre o conceito de
outras, menos inclusivas, desenvolvidas após a dharma, ver Gandhi (1929/1932); Zaehner (1982).
284 Boaventura de Sousa Santos

grupos jurídicos internacionais que os apoiam, tivos. Embora o trabalho de tradução aqui pro-
contestam esta zona de contacto e os poderes posto seja um trabalho descolonizador, carrega
que a constituem e a lutam pela construção de sobre os ombros um longo passado de relações
outras zonas de contacto não imperiais onde as desiguais entre as culturas metropolitanas e co-
relações entre os diferentes saberes e práticas loniais. Nas palavras de Michael Palencia-Roth
seja mais horizontal. Esta luta deu à tradução (2006: 38), a história comparativa das civilizações
entre saberes biomédicos e saberes médicos é quase sempre pouco mais que uma história de
tradicionais uma acuidade que não tinha antes. exploração, conquista, colonização, e exercício
Para dar outro exemplo, num campo totalmen- de poder, onde a possibilidade de um diálogo
te distinto, o movimento operário, confrontado transcultural que não aponte para ou termine na
com uma crise sem precedentes, tem vindo a hegemonia monológica de uma única voz (dialó-
abrir-se a zonas de contacto com outros movi- gico), é relativamente rara. Anular este passado é
mentos sociais, nomeadamente com movimen- uma tarefa de gerações, e o melhor que podemos
tos cívicos, feministas, ecologistas e de trabalha- fazer num dado momento é estar plenamente
dores imigrantes. Nessa zona de contacto, está conscientes deste passado e vigilantes em rela-
a ser efectuado um trabalho de tradução entre ção aos seus labores insidiosos para neutralizar o
as práticas, reivindicações e aspirações operá- impulso descolonizador e boicotar projectos de
rias e os objectivos de cidadania, de protecção emancipação. Sob este prima, é útil termos em
do meio ambiente e de anti-discriminação contra mente as quatro hipóteses de Richard Jacque-
mulheres, minorias étnicas ou imigrantes. Tais mond sobre “os problemas de traduzir em pre-
traduções têm vindo a transformar lentamente o sença de diferenciais de poder” (2004: 125): uma
movimento operário e os outros movimentos so- cultura dominada traduz invariavelmente muito
ciais, tornando assim possíveis constelações de mais da cultura hegemónica do que o inverso;
luta que há uns anos seriam impensáveis. quando a cultura hegemónica traduz obras pro-
Seria imprudente assumir que este impulso re- duzidas pela cultura dominada, estas são perce-
cíproco para a criação de uma zona de contacto bidas e apresentadas como difíceis, misteriosas,
de tradução conduziria “naturalmente” à hori- inescrutáveis, exotéricas, e pendentes da inter-
zontalidade e reciprocidade na maneira como as pretação de um pequeno grupo de intelectuais,
culturas se comportam enquanto fontes e objec- enquanto a cultura dominada traduz as obras da
Tradução intercultural: Diferir e partilhar com Passionalità285

cultura hegemónica tentando torná-las acessíveis Quando traduzir?


às massas; a cultura hegemónica traduz apenas Também aqui a zona de contacto cosmopo-
obras de autores da cultura dominada que encai- lita tem de ser o resultado de uma conjugação
xem nas suas noções preconcebidas sobre esta; de tempos, de ritmos, desejos, carências e de
os autores de uma cultura dominada que sonhem oportunidades37. Sem essa conjugação, a zona
alcançar uma audiência mais vasta tenderão a es- de contacto torna-se imperial e o trabalho de
crever tendo em mente a sua tradução para uma tradução torna-se uma forma de canibaliza-
língua hegemónica, e esta aspiração requer sem- ção. Nas três últimas décadas, a modernidade
pre algum grau de adequação aos estereótipos35. ocidental descobriu as possibilidades e as vir-
Embora Jacquemond se centre nos textos es- tudes do multiculturalismo. Habituada à rotina
critos, as suas hipóteses podem ser vistas como da sua própria hegemonia, a modernidade oci-
marcadores da vigilância epistemológica para dental pressupôs que, estando disposta a dia-
relações de tradução de outros tipos36. logar com as culturas que antes oprimira, estas
últimas estariam naturalmente prontas e dis-
poníveis para esse diálogo e, de facto, ansiosas
por ele. Este pressuposto tem redundado em
35 Ver também Aveling (2006). novas formas de imperialismo cultural, mes-
36 Jacquemond refere-se à cultura dominante como mo quando assumem a forma de multicultura-
uma cultura estável que “tende a integrar textos impor- lismo ou tolerância. É o que designo por mul-
tados impondo sobre eles as suas convenções” (2004:
118). Uma tal cultura conduz àquilo que Berman cha-
ma tradução etnocêntrica, baseada em dois axiomas:
“Devemos traduzir os trabalhos estrangeiros de modo 37 Como refiro em trabalhos anteriores (Santos,
a não “sentir” a tradução, devemos traduzir de modo a 2007), para a ecologia de saberes é central a distinção
dar a impressão de que seria aquilo que o autor escre- entre a acção conformista e aquilo que propus chamar-
veria se escrevesse na língua da tradução” (1985: 53). -se acção-com-clinamen. Ao contrário do que acontece
Trata-se de outro modo de tornar uma cultura invisível, na acção revolucionária, a criatividade da acção-com-
ou estática, privada da sua capacidade para se transfor- -clinamen não se baseia numa ruptura dramática mas
mar activamente. Nestes casos, a tradução intercultural antes num ligeiro desvio cujos efeitos cumulativos tor-
é um monólogo em vez de um diálogo, uma conquista nam possível as combinações complexas e criativas en-
em vez de uma tradução. tre seres vivos e grupos sociais.
286 Boaventura de Sousa Santos

ticulturalismo reaccionário. Contrariamente as relações de poder, por serem extremamente


a isto, a emergência no seio dos movimentos desiguais, conduziram à produção maciça de
sociais de uma consciência, difundida e ex- ausências. É que, nestas situações, uma vez tor-
perienciada reciprocamente, de que o avanço nados presentes um dado saber ou uma dada
das lutas contra-hegemónicas assenta na pos- prática, antes ausentes, há o perigo de se pen-
sibilidade de partilhar as práticas e os saberes sar que a história desse saber ou dessa prática
de maneira global e intercultural. Com base começa com a sua presença na zona de contac-
nesta experiência partilhada, torna-se possível to. Este perigo tem estado presente em muitos
construir a conjugação horizontal de tempos a diálogos multiculturais, sobretudo naqueles
partir da qual pode emergir uma zona de con- em que têm intervindo os povos colonizados
tacto cosmopolita e o trabalho emancipatório depois das políticas de reconhecimento que se
da tradução. desenvolveram a partir da década de 1950. A
No domínio das zonas de contacto intercul- zona de contacto tem de ser vigiada para que
turais, há ainda a considerar as diferentes tem- a simultaneidade do contacto não signifique o
poralidades que nelas intervêm. Como afirmei colapso da história.
acima, um dos procedimentos da sociologia
das ausências consiste em contrapor à lógica Quem traduz?
da monocultura do tempo linear uma constela-
Os saberes e as práticas só existem na medi-
ção pluralista de tempos e durações de modo
da em que são usados ou exercidos por grupos
a libertar as práticas e os saberes que nunca
sociais. Por isso, o trabalho de tradução é sem-
se pautaram pelo tempo linear do seu estatuto
pre realizado entre representantes desses gru-
residual. O objectivo é, tanto quanto possível,
pos sociais e os intelectuais de retaguarda que
converter em contemporaneidade a simulta-
com eles trabalham. Os intelectuais cosmopo-
neidade que a zona de contacto proporciona.
litas terão de ter um perfil semelhante ao do
Isto não significa que a contemporaneidade
sábio filosófico identificado por Odera Oruka
anule a história, mas antes que a história é feita
(1990) na busca da sageza africana. Trata-se de
de diferentes contemporaneidades. Esta con-
intelectuais fortemente enraizados nas práti-
sideração é importante, sobretudo nas zonas
cas e saberes que representam, tendo de uns e
de contacto entre saberes e práticas em que
Tradução intercultural: Diferir e partilhar com Passionalità287

de outras uma compreensão profunda e crítica. Como traduzir?


Esta dimensão crítica, que Oruka designa O trabalho de tradução é, basicamente, um
por “sabedoria didáctica” (1990: 28), funda a ca- trabalho argumentativo, assente na emoção
rência, o sentimento de incompletude e a moti- cosmopolita de partilhar o mundo com quem
vação para buscar noutros saberes ou noutras não partilha o nosso saber ou a nossa experi-
práticas as respostas que não se encontram ência. As dificuldades do trabalho de tradução
dentro dos limites de um dado saber ou de uma são múltiplas. A primeira dificuldade diz res-
dada prática. Os tradutores de culturas devem peito às premissas da argumentação. Toda a ar-
ser intelectuais cosmopolitas subalternos38. gumentação assenta em postulados, axiomas,
Podem encontrar-se tanto entre os dirigentes regras, ideias que não são objecto de argumen-
de movimentos sociais ou grupos organizados tação porque são aceites como evidentes por
como entre os activistas das bases. No que toca todos os que participam no círculo argumen-
aos intelectuais de retaguarda, treinados no tativo. Designam-se, em geral, por topoi ou lu-
conhecimento académico, mas solidariamente gares comuns e constituem o consenso básico
envolvidos com os actores sociais, a sua tarefa que torna possível o dissenso argumentativo39.
consiste em re-treinar-se de tal modo que seja O trabalho de tradução não dispõe à partida de
capazes de traduzir constantemente conheci- topoi, porque os topoi que estão disponíveis
mento académico em conhecimento não aca- são os que são próprios de um dado saber ou
démico e vice-versa, e fazê-lo, como diria Gra- de uma dada cultura e, como tal, não são acei-
msci, con passionalità, No futuro próximo, a tes como evidentes por outro saber ou outra
decisão sobre quem traduz irá, provavelmente, cultura. Por outras palavras, os topoi que cada
tornar-se uma das mais decisivas deliberações saber ou prática traz para a zona de contacto
democráticas na construção da globalização deixam de ser premissas da argumentação e
contra hegemónica. transformam-se em argumentos. À medida que
o trabalho de tradução avança, vai construindo

38 Sobre o conceito de cosmopolitismo subalterno 39 Sobre os topoi e a retórica em geral, veja-se Santos,
ver Santos, 2002: 458-466. 1995: 7-55.
288 Boaventura de Sousa Santos

os topoi que são adequados à zona de contacto substituição desta por uma zona de contacto
e à situação de tradução. É um trabalho exigen- cosmopolita pode, assim, ser boicotada pelo
te, sem seguros contra riscos e sempre à beira uso da língua anteriormente dominante. Não
de colapsar. A capacidade de construir topoi é se trata apenas de os diferentes participantes
uma das marcas mais distintivas da qualidade no discurso argumentativo poderem ter um do-
do intelectual ou sage cosmopolita subalterno. mínio desigual dessa língua. Trata-se outrossim
A segunda dificuldade diz respeito à língua do facto de a língua em questão ser responsá-
em que a argumentação é conduzida. É pouco vel pela própria impronunciabilidade de algu-
vulgar que os saberes e as práticas em presen- mas aspirações centrais dos saberes e práticas
ça nas zonas de contacto tenham uma língua que foram oprimidos na zona colonial. Se não
comum ou dominem do mesmo modo a língua for explicitamente questionada, a supremacia
comum. Acresce que, quando a zona de contac- linguística pode implicar a prevalência concep-
to cosmopolita é multicultural, uma das línguas tual e normativa, boicotando assim o trabalho
em presença é frequentemente a que dominou de tradução41.
a zona de contacto imperial ou colonial40. A A terceira dificuldade reside nos silêncios.
Não se trata do impronunciável, mas dos dife-
rentes ritmos com que os diferentes saberes e
40 “O uso do inglês como língua franca pode, é cer- práticas sociais articulam as palavras com os
to, significar, como acontece, por exemplo, em tantas
reuniões internacionais, a criação de um espaço “neu-
tro” de comunicação, na linha daquela lógica instru-
mental que ecoa no lugar-comum do inglês como espe- o inglês temos hoje o espanhol e o mandarim, línguas
ranto do nosso tempo. Mas o inglês é a língua franca que atingiram de facto o estatuto de “línguas glocais”,
da globalização por ser uma língua imperial, a língua, trazendo de volta a importância da tradução (ver <ht-
presentemente, do único império que subsiste na cena tps://en.wikipedia.org/wiki/List_of_languages_by_to-
mundial. E a lógica do império, que é a de um centro tal_number_of_speakers>).
universalmente englobante, conduzido pelo objectivo 41 D. A. Masolo (2003) sugere que o intelectual cujas
da assimilação integral, é essencialmente monológi- raízes estão em línguas e culturas subalternas pode ser
ca e monolingue. De uma tal perspectiva unificadora, forçado a recorrer ao que designa de “poliracionalida-
para a qual a diferença não tem que ser tida em conta e, des,” que consiste na capacidade de formular os mesmos
portanto, no fundo, não existe, a tradução, de facto, é conceitos básicos de diferentes modos e em diferentes
irrelevante.” (Ribeiro, 2004). Contudo, competindo com línguas, bem como em diferentes contextos culturais.
Tradução intercultural: Diferir e partilhar com Passionalità289

silêncios e da diferente eloquência (ou signifi- fase de transição em que nos encontramos, e
cado) que é atribuída ao silêncio por parte das como tenho vindo a insistir, confrontamo-nos
diferentes culturas. A gestão do silêncio, a tra- com problemas modernos para os quais não te-
dução do silêncio, e as emoções físicas a elas mos soluções modernas.
associadas, são das tarefas mais exigentes do O trabalho de tradução feito com base na
trabalho de tradução. sociologia das ausências e na sociologia das
emergências é um trabalho de imaginação
Para quê traduzir? epistemológica e de imaginação política com
o objectivo de construir novas e plurais con-
Esta última pergunta compreende todas as
cepções de emancipação social sobre as ruínas
outras. Tanto as ecologias de saberes como a
da emancipação social automática do projecto
tradução intercultural são procedimentos adap-
moderno. Não há nenhuma garantia de que um
tados ao cumprimento da ideia central das epis-
mundo melhor seja possível e muito menos de
temologias do Sul: não é possível uma justiça
que todos os que não desistiram de lutar por
social global sem uma justiça cognitiva global.
ele o concebam do mesmo modo. A oscilação
O trabalho de tradução é o procedimento que
entre a banalidade e o horror, que tanto angus-
nos resta para dar sentido ao mundo depois de
tiou Horkheimer e Adorno (1969) transformou-
ele ter perdido o sentido e a direcção automá-
-se hoje na banalidade do horror, como nos
ticos que a modernidade ocidental pretendeu
lembra Chinua Achebe (2012). A possibilidade
conferir lhes ao planificar a história, a socieda-
do desastre começa hoje a ser óbvia.
de e a natureza. Se não sabemos se um mundo
A situação de bifurcação de que falam Pri-
melhor é possível, o que nos legitima ou motiva
gogine (1997) e Wallerstein (1999) é a situação
a agir como se soubéssemos? A necessidade
estrutural em que ocorre o trabalho de tradu-
da tradução reside em que os problemas que o
ção. O objectivo do trabalho de tradução é criar
paradigma da modernidade ocidental procurou
constelações de saberes e de práticas suficien-
solucionar (liberdade, igualdade, fraternidade)
temente fortes para fornecer alternativas credí-
continuam por resolver e não tem resolução
veis à fase presente do capitalismo global, que
dentro dos limites políticos e culturais da mo-
se caracteriza tanto por ameaçar a uma esca-
dernidade ocidental. Por outras palavras, na
la sem precedentes os ciclos de renovação da
290 Boaventura de Sousa Santos

natureza, como por sujeitar domínios cada vez catárticas de uma sociedade melhor. A episte-
mais amplos da interação social à lógica mer- mologia abissal e o direito abissal policiam as
cantil. O trabalho de tradução opera sobre um mentes e as instituições de modo a empurrar o
presente expandido pela sociologia das ausên- futuro para fora do presente. O absurdo deste
cias e sobre um futuro contraído pela sociologia artefacto moderno emerge claramente no traba-
das emergências. Pelo reforço do interconheci- lho de tradução. Os intervenientes no trabalho
mento, mediação, e negociação, o campo das de tradução, perguntam-se, tal como Ernst Blo-
experiências políticas e sociais com que contar ch (1995), porque é que o presente é tão fugaz se
e agir é alargado, oferecendo assim uma visão vivemos sempre nele. Nas zonas interculturais,
mais ampla e realista das alternativas que hoje é possível entrar em contacto visual e existen-
estão disponíveis e são possíveis. A possibilida- cial com as diferentes categorias de presente,
de de um futuro melhor não está, assim, num experienciadas por diferentes actores sociais.
futuro distante, mas na reinvenção do presen- Para alguns, o passado é o mesmo que o futu-
te, ampliado pela sociologia das ausências (que ro dos outros, e vice-versa. E todos se encon-
traz o passado para o presente) e pela sociolo- tram no presente trabalhando na construção de
gia das emergências (que traz o futuro para o um novo presente capacitante e intercultural.
presente) e tornado coerente pelo trabalho de As mudanças urgentes chamadas a intervir no
tradução. Através da tradução, a tensão entre presente são também mudanças civilizacionais.
experiências e expectativas é recreada de uma Operando através do pensamento pós-abissal, o
forma não modernista, sendo que a expansão do trabalho de tradução treina e capacita aqueles
presente já tem em si a contração do futuro. Em que se encontram na zona de contacto para se
lugar de um presente orientado para o futuro, tornarem actores pós-institucionais e subjecti-
um futuro orientado para o presente. O novo in- vidades desestabilizadoras competentes.
conformismo resulta da verificação de que hoje O trabalho de tradução permite criar sentidos
seria possível viver num mundo muito melhor. e direcções precários, mas concretos, de curto
O presente capitalista e colonialista é feito de alcance, mas radicais nos seus objectivos, incer-
emergências suprimidas e da invisibilização de tos, mas partilhados. O objectivo da tradução
ausências activamente produzidas. Deste modo entre saberes é criar justiça cognitiva a partir
o futuro fica livre e disponível para imaginações da imaginação epistemológica. O objectivo da
Tradução intercultural: Diferir e partilhar com Passionalità291

tradução entre práticas e seus agentes é criar as Bibliografia


condições para uma justiça social global a par- Achebe, C. 2012 There Was a Country: A
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expande, a vastidão deste desperdício torna-se Islamic Identity in France and Uzbekistan:
mais visível, mais absurda, e mais revoltante. Mediation of the Local and Global” in
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292 Boaventura de Sousa Santos

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