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FACULDADE NATALENSE PARA O DESENVOLVIMENTO DO RIO GRANDE DO NORTE

CURSO DE GRADUAÇÃO EM DIREITO


DISCIPLINA: DIREITO PROCESSUAL CIVIL V (PROCEDIMENTOS ESPECIAIS)
PROFESSOR: ANDERSON BRITO (andersonbrito@tjrn.jus.br)

ROTEIRO DE AULA Nº 09

AÇÕES DE DIVISÃO E DEMARCAÇÃO DE TERRAS PARTICULARES

1. GENERALIDADES:

 As ações de divisão e demarcação, disciplinadas pelo Código de Processo Civil (arts. 946 a
981), referem-se exclusivamente aos imóveis particulares. Quanto às terras devolutas,
cabível será a ação discriminatória, disciplinada pela Lei nº 6.383/76.

 Segundo ANTONIO CARLOS MARCATO, “caso envolvam terras devolutas, adequada será
a aludida ação discriminatória, ajuizada pelo Poder Público e processada no rito sumário,
com os objetivos de (a) reconhecer o domínio público, ainda incerto, em relação a imóvel
não suficientemente extremado do domínio particular, e (b) demarcar a área discriminada”.

 Disposições gerais acerca de ambas as ações: arts. 946 a 949 do CPC.

 Normas acerca da ação demarcatória: arts. 950 a 966 do CPC.

 Normas acerca da ação divisória: arts. 967 a 981 do CPC.

2. PRETENSÃO DEMARCATÓRIA:

 Art. 1297 do Código Civil: “O proprietário tem o direito a cercar, murar, valar ou tapar de
qualquer modo o seu prédio, urbano ou rural, e pode constranger o seu confinante a
proceder com ele à demarcação entre os dois prédios, a aviventar rumos apagados e a
renovar marcos destruídos ou arruinados, repartindo-se proporcionalmente entre os
interessados as respectivas despesas”.

 O art. 946, inciso I, do CPC, dispõe que é cabível “a ação de demarcação ao proprietário
para obrigar o seu confinante a estremar os respectivos prédios, fixando-se novos limites
entre eles ou aviventando-se os já apagados”.

 Por óbvio, tem-se que só será cabível a ação demarcatória se os confinantes não
realizarem a demarcação em comum acordo e extrajudicialmente, repartindo
proporcionalmente entre os interessados as despesas pela fixação dos limites novos ou
pelo aviventar dos rumos apagados.

 Para ORLANDO GOMES, a pretensão demarcatória tem por objeto a “sinalização de


limites incontroversos, como acontece quando a linha divisória passa a ser assinalada com
marcos. No caso de controvérsia ou confusão, torna-se necessário determinar os limites, o
que se faz em conformidade com a posse. Visa, pois, a ação de demarcação a fixar ou
restabelecer os marcos da linha divisória de dois prédios confinantes. Seu objeto é a
fixação de rumos novos ou aviventação dos existentes”.
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Roteiro de aula 09: Ações de Divisão e Demarcação de Terras Particulares
 Classificação da pretensão demarcatória:
 Simples: Pretende-se apenas a demarcação de terras particulares;
 Qualificada: Quanto se pretende a demarcação, com queixa de esbulho ou turbação,
pedidos estes que serão tratados mais adiante;
 Total: Demarcação de todo o perímetro do imóvel do autor;
 Parcial: Demarcação de parte dos limites do imóvel do autor.

3. PRETENSÃO DIVISÓRIA:
 A ação divisória pressupõe a existência de um condomínio (várias pessoas,
simultaneamente, titulares de direito real sobre o mesmo bem), deixando a coisa de ser
comum e indivisa.

 Art. 1.320 do Código Civil: “A todo tempo será lícito ao condômino exigir a divisão da coisa
comum, respondendo o quinhão de cada um pela sua parte nas despesas da divisão”.

 O art. 946, inciso II, do CPC, dispõe que é cabível “a ação de divisão, ao condômino para
obrigar os demais consortes, a partilhar a coisa comum”.

 Assim, a ação de divisão pretende a extinção do condomínio, com a divisão da coisa


comum entre os condôminos, toda vez que a divisão amigável tornar-se inviável.

 A ação de divisão não será cabível quando objeto for coisa que não possa ser dividida ou
que a sua divisão a torne imprópria aos fins que se destina, devendo haver a venda da
coisa comum ou a adjudicação por um dos condôminos, aplicando-se as normas dos arts.
504 e 1.322 do Código Civil.

4. NATUREZA DÚPLICE DAS AÇÕES DIVISÓRIA E DEMARCATÓRIA:

 Para que o réu deduza pretensão demarcatória ou divisória contra o autor, deverá valer-se
da própria contestação, de modo que a rejeição da pretensão autoral será suficiente para
garantir resultado favorável ao réu.
 Assim, não se admite reconvenção nas ações demarcatória e divisória para dedução
de tais pretensões, em razão da ausência de interesse processual (interesse-adequação).

5. FORO COMPETENTE PARA AS AÇÕES DIVISÓRIA E DEMARCATÓRIA:


 Art. 95 do CPC – foro da situação do imóvel (forum rei sitae) – competência absoluta.
 Situando-se o imóvel em mais de uma Comarca ou Estado, define-se a competência pela
prevenção, tornando-se prevento o juízo que primeiro efetuar a citação válida (art. 219 do
CPC), estendendo-se a sua competência à totalidade do imóvel (art. 107 do CPC).
 Mesma regra de competência aplicável às ações possessórias e à usucapião de imóveis,
bem como à nunciação de obra nova.

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6. CUMULAÇÃO DE DEMANDAS:
 O art. 947 CPC, permite que um condômino pretenda, em um mesmo processo, demarcar o
imóvel objeto do condomínio em relação a seus confinantes e, ao mesmo tempo, extinguir o
condomínio, através da divisão da coisa comum. Todavia, para evitar tumulto processual,
primeiro será processada a pretensão demarcatória e, só depois, a divisória.
 Eis a redação do dispositivo legal mencionado acima: “É lícita a cumulação destas ações;
caso em que deverá processar-se primeiramente a demarcação total ou parcial da coisa
comum, citando-se os confinantes e condôminos”.

 Para PAULO CEZAR PINHERO CARNEIRO, trata-se, na realidade, de cumulação de


procedimentos em caráter sucessivo num mesmo processo, e não propriamente uma
cumulação de pedidos.
 Deverão ser citados os confinantes da linha demarcatória do imóvel em condomínio, em
razão da pretensão demarcatória, assim como os demais condôminos, estes em virtude da
pretensão divisória.
 A divisão, em regra, supõe clara e conhecida a linha perimétrica do imóvel dividendo, de
modo a ficarem os confrontantes estranhos ao processo divisório (art. 948 do CPC).

 Se, porém, a linha perimétrica do imóvel dividendo não estiver assinalada no terreno, por
meio de rumos certos e incontestes, mas, no todo ou em parte, se achar confusa ou por
falta de anterior constituição de divisas certas, ou por invasão de terrenos, ou por qualquer
outro motivo, deve-se ao processo divisório cumular o demarcatório, a fim de serem
preliminarmente estabelecidas as várias linhas separativas do imóvel em relação aos
imóveis confinantes, por meio de demarcação, na qual intervirão os confrontantes. E,
somente depois de definitivamente constituída a linha perimétrica demarcatória, no todo ou
nas partes duvidosas, é que se procederá à divisão dos quinhões.

AÇÃO DEMARCATÓRIA

1. LEGITIMIDADES ATIVA E PASSIVA:


 Quando o CPC (art. 946) e o CC (art. 1297) falam em proprietário não tiveram a
preocupação de distinguir o proprietário pleno do proprietário limitado (nu-proprietário,
usufrutuário, co-proprietário, entre outros), de modo que também estes têm legitimidade
para propor a ação de demarcação do prédio sobre o qual incide o seu direito real.
 OVÍDIO BAPTISTA DA SILVA informa que é necessário observar que as demarcações
promovidas pelos titulares de direitos reais limitados somente produzirão efeito de coisa
julgada entre aqueles que houverem integrado a relação processual como litisconsortes.
 Espólio é a universalidade patrimonial deixada pelo “de cujus” enquanto não ultimada a
partilha entre os herdeiros e sucessores. Não resta dúvida de que o co-herdeiro, enquanto
não ultimada a partilha, é comunheiro no imóvel integrante da herança e, nesta qualidade,
pode requerer e promover tudo o que for a bem da comunhão, como o é a demarcação de
seus limites.
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 Salienta-se que a representação do espólio se dá pelo inventariante (CPC, art.12, IX),
razão pela qual se torna desnecessária a citação de todos os herdeiros para a ação
demarcatória promovida contra o espólio, a qual terá curso normal apenas com a
presença do inventariante.

 Admite-se a legitimidade ativa do promitente-comprador de imóvel, desde que o


compromisso de compra e venda encontre-se registrado/averbado no Cartório de Registro
Imobiliário.
 A demarcação de domínio só cabe ao proprietário, carecendo dela o simples possuidor.
Entretanto, os possuidores têm ação de demarcação de posse. Assim, percebe-se que a
disputa de limites não é privilégio dos proprietários, pois podem perfeitamente dois
possuidores vizinhos se deparar com a necessidade de demarcar as suas posses. Trata-se
de questão possessória e deve ser solucionada em juízo como tal. Ressalta a
jurisprudência (TJRS – AgInstr nº 70001651249 – 19ª Câmara Cível – Relator: Des. Luís
Augusto Coelho Braga. Julgado em 12/06/2001).
 Como se resolve a questão da legitimidade passiva? Certo é que a demarcação não tem a
característica de ser um procedimento entre proprietários. O problema que surge em casos
de imóveis tidos por meros possuidores está na eficácia da sentença.
 Digamos que o promovente apenas cite o possuidor, este estará obrigado a respeitar a
autoridade da coisa julgada no que diz respeito à linha demarcada. Mas se o verdadeiro
dono recuperar a posse, a ele não será oponível a coisa julgada por não ter participado no
processo demarcatório.

 Assim, sempre que o promovente de uma ação demarcatória encontrar uma situação difícil
de posse e domínio na área vizinha à linha demarcada, propugna a doutrina que seja
requerida a citação tanto do possuidor em nome próprio como do titular do domínio que
figura no Registro de Imóveis. Só assim a sentença prevalecerá perante todos os possíveis
interessados.

2. PETIÇÃO INICIAL:

 Além dos requisitos do art. 282 do CPC, a petição inicial da ação demarcatória deve
obedecer às disposições do art. 950 do CPC, devendo conter obrigatoriamente:
 Descrição do imóvel pela situação e denominação (por exemplo, Fazenda São José,
Granja Nova Esperança, Solar Natal, etc);
 Descrição dos limites (não precisa ser minuciosa, já que a descrição minuciosa é
função da perícia que será necessariamente realizada na ação demarcatória) do imóvel
a demarcar (lembre-se de que nem sempre a demarcação será total);
 Inclusão dos confinantes da linha demarcatória (que não necessariamente serão
todos os confinantes do imóvel, pois a pretensão demarcatória pode ser parcial) no pólo
passivo da demanda;
 Instruirá a petição inicial a Certidão do Registro Imobiliário (não basta a Escritura
Pública de compra e venda) referente ao imóvel cujos limites se pretende demarcar, a

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fim de que se constate a condição de proprietário (ou de condômino, o qual também é
proprietário, só que de coisa comum) do autor e, por conseguinte, a sua legitimidade
para propor a ação demarcatória.
 O art. 951 do CPC possibilita a pretensão demarcatória com queixa de esbulho ou de
turbação, podendo o autor formular, também, pedido de restituição do imóvel invadido,
além dos rendimentos dele oriundos, ou a indenização dos danos decorrentes da
usurpação verificada.

 Para ERNANE FIDÉLIS DOS SANTOS, com quem concordamos, não se trata de
cumulação de pretensões demarcatória e possessória. Até porque a legitimidade ativa
para a ação demarcatória é do proprietário, ao passo que na possessória é do
possuidor e sabemos que proprietário e possuidor nem sempre são a mesma pessoa.
Ademais, a restituição do imóvel buscada pelo autor não se dá com fundamento na
posse, mas sim na propriedade.

 Todavia, a doutrina não é uníssona. CLÓVIS DO COUTO E SILVA e HAMILTON DE


MORAIS E BARROS afirmam que se trata de cumulação das pretensões demarcatória
e possessória, seguindo-se o procedimento previsto para a primeira.

 Em razão do caráter dúplice da ação demarcatória, poderá o réu apresentar queixa de


esbulho ou turbação na pretensão que venha a deduzir contra o autor na própria
contestação.

3. CITAÇÕES E RESPOSTAS DOS RÉUS:

 Serão citados os confinantes da linha demarcatória (art. 950 do CPC) e, quando a ação for
ajuizada por um condômino, também serão citados os demais condôminos, estes para
integrarem litisconsórcio ativo necessário (art. 952 do CPC).
 Art. 953 do CPC: “Os réus que residirem na comarca serão citados pessoalmente; os
demais, por edital”.

 Critica-se a redação de tal dispositivo legal, haja vista que a citação por edital somente
deve ser utilizada em relação aos réus em lugar incerto e não sabido. Assim, ainda que
os réus não residam na Comarca, mas tenham endereço certo, a doutrina entende que
devem ser citados por Carta Precatória ou até por mandado (caso a Comarca seja
contígua).

 Há dois casos em que a citação inicial é desnecessária, quais sejam: (a) quando, antes de
receber a convocação para o processo, os réus comparecem, espontaneamente, e se
manifestam sobre o pedido do promovente (CPC, art. 214, §1º) e (b) quando todos os
interessados na demarcação formulam o pedido em conjunto, não havendo a quem citar.

 No procedimento demarcatório, a citação válida produz os mesmos efeitos do arts. 219 e


264 do CPC.
 No Código de Processo Civil não há dispositivo especial a respeito da participação do
conjuge no procedimento em exame. Mas, em se tratando a demarcatória de típica ação
real imobiliária, necessário se faz a intervenção de ambos os cônjuges, tanto na propositura

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(litisconsórcio ativo ou outorga uxória/marital) como na citação, em razão do litisconsórcio
passivo necessário (CPC, art. 10, §1º).
 Art. 954 do CPC: “Feitas as citações, terão os réus o prazo comum de vinte dias para
contestar”.
 O prazo para defesa é de vinte (20) dias, contados a partir da juntada aos autos do
último mandado cumprido ou finda a dilação quando a citação por edital (vide art. 241
do CPC).
 Nesse particular, há uma controvérsia: parte da doutrina, incluindo PONTES DE
MIRANDA, CLÓVIS DO COUTO E SILVA e HAMILTON DE MORAES E BARROS,
acredita que só tem aplicação o prazo dilatado de 20 dias quando houver mais de um
réu, pois o adjetivo “comum” inserido no art. 954 indicaria que a lei estaria abrindo uma
exceção à regra geral somente quando houvesse mais de um réu. Assim, havendo
apenas um réu o prazo seria de 15 (quinze) dias. Particularmente, discordamos do
doutrinador.
 Por outro lado, há os que entendem que não se pode presumir que o legislador haja
pretendido abrir tal exceção, dentre os quais OVIDIO BAPTISTA DA SILVA, ERNANE
FIDÉLIS DOS SANTOS e ANTONIO CARLOS MARCATO, a cujo entendimento nos
filiamos. De acordo com tal corrente doutrinária, o prazo será de 20 (vinte) dias, ainda
que só haja um réu.
 Admite-se, outrossim, a possibilidade de apresentação das exceções de impedimento e
suspeição como respostas do réu, não sendo possível a reconvenção para as
pretensões divisória e demarcatória (mas é possível para queixa de esbulhou ou
turbação e para pedido de perdas e danos), dado o caráter dúplice da ação. A exceção
de incompetência, a qual serve à alegação de incompetência relativa, também não teria
aplicabilidade à espécie, haja vista que a competência para a ação demarcatória (foro
da situação do imóvel – art. 95 do CPC) tem caráter absoluto, devendo a incompetência
ser arguida pelo réu, preferencialmente, em preliminar da contestação (art. 301, inciso
II, do CPC).
 Todavia, diverge a doutrina quanto ao prazo para apresentar as exceções processuais.
HAMILTON DE MORAES E BARROS interpreta o art. 954 do CPC restritivamente, de
modo a considerar que, para contestar, a parte ré dispõe de 20 (vinte) dias, mas para
excepcionar só dispõe de 15 (quinze) dias. ERNANE FIDÉLIS DOS SANTOS e
ANTONIO CARLOS MARCATO, a cujo entendimento nos filiamos, entendem que o
prazo de 20 (vinte) dias mencionado no art. 954 do CPC é para a parte ré apresentar
resposta (contestar e excepcionar), e não só para contestar a pretensão autoral.
 Outra controvérsia doutrinária diz respeito à aplicabilidade do art. 191 do CPC (prazo
em dobro para contestar quando houver litisconsortes passivos com diferentes
procuradores) à ação demarcatória. Segundo ANTONIO CARLOS MARCATO e
DANIEL AMORIM ASSUMPÇÃO NEVES, como o prazo é “comum”, não há que se falar
na aplicação do prazo em dobro para contestar, previsto no art. 191 do CPC, quando os
réus tiverem advogados diferentes. Todavia, há quem entenda aplicável à ação

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demarcatória a regra do art. 191 do CPC, com destaque para OVÍDIO BAPTISTA DA
SILVA.

4. INSTRUÇÃO E PROCEDIMENTO ORDINÁRIO:


 O CPC determina que, havendo contestação, a ação deve prosseguir pelo rito ordinário
(art. 955 do CPC), impondo-se ao juiz, contudo, o dever de nomear agrimensor e
arbitradores para o levantamento da linha demarcanda, antes de proferir a sentença
definitiva.
 No caso da demarcatória não contestada, o artigo em exame manda aplicar o art. 330,
inciso II, do CPC, que trata do julgamento antecipado da lide, tornando-se dispensável a
dilação probatória porque a não-contestação do réu importa a presunção de veracidade dos
fatos afirmados pelo autor (CPC, art. 319).
 Ocorre que, mesmo no caso de revelia, o processo demarcatório exige conhecimentos
técnicos para que a linha seja levantada com precisão, através de perícia por meio de
agrimensor e dois arbitradores a fim de levantar-se o traçado da linha demarcanda (CPC,
art. 956).
 Assim sendo, não pode, o juiz, de plano, julgar procedente o pedido e determinar, desde
logo, o exato traçado da linha. É de se concluir que o efeito da revelia é o de dispensar a
prova dos fatos alegados pelo autor e de todas as circunstâncias arroladas por ele que
possam influir na definição da linha por ele pretendida.

 Encerrada a fase da resposta do réu, o juiz ordenará a prova pericial tendente a obter o
traçado da linha demarcanda (CPC, art.956). Trata-se de diligência indispensável, cuja
inobservância acarreta a nulidade da sentença.
 A perícia é realizada por um agrimensor e dois arbitradores, nomeados livremente pelo
juiz, oportunizando-se às partes a indicação de assistentes técnicos e formulação de
quesitos, em cinco dias.

 A perícia é dividida da seguinte forma: a) aos arbitradores compete os estudos de todos


os elementos materiais e documentais que possam contribuir para a definição do
traçado da linha, cujo resultado constará de um laudo. Pode haver divergência entre os
arbitradores, ficando a cargo do juiz a decisão final. b) ao agrimensor compete a
elaboração da planta da região em que se levantou a linha demarcanda, bem como o
memorial descritivo das operações de campo, onde se descreverá o traçado
investigado. Esses dois documentos devem ser anexados ao laudo pericial.(CPC, art.
957, parágrafo único).

 Após a juntada aos autos do laudo pericial, planta e memorial, terão as partes o prazo
comum de 10 dias para apresentar as alegações que julgarem convenientes. A ouvida
das partes é regra geral que deve ser observada tanto nos casos de demarcatória
contestada ou não. Se o juiz entender razoável alguma impugnação mandará ouvir os
peritos antes de decidi-la. Não havendo impugnação, o juiz julgará imediatamente (art.
958 do CPC).

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5. JULGAMENTO, EXECUÇÃO DA DEMARCAÇÃO E SENTENÇA HOMOLOGATÓRIA:
 Sentença de encerramento e coisa julgada: A sentença do art. 958 tem o sentido de
“sentença parcial de mérito”, adverte OVÍDIO BAPTISTA DA SILVA, a ser complementada
pela segunda sentença – igualmente de mérito- prevista no art. 966 do CPC. Portanto, o
traçado da linha demarcanda deverá ser determinado justamente na sentença que encerra
a primeira fase da ação julgada procedente, podendo o juiz aceitar ou não as conclusões
dos peritos.

 Obviamente, a sentença também pode ser negativa, ou seja, de extinção do processo,


quer por falta de condições da ação ou quando o pedido, no mérito, for improcedente.
 Se o promovente houver cumulado o pedido das indenizações previsto no art.951 do
CPC, a sentença do art. 958 deverá decidir a respeito, procedendo-se, tão logo passe
em julgado, a execução por quantia certa, com prévia liquidação do dano, se necessário
for.
 Resumindo, a primeira sentença (a do art.958), deve solucionar todas as dúvidas sobre o
traçado da linha demarcanda, tornando-se impossível discutir-se sobre ele após o trânsito
em julgado da decisão. O que sobra para a fase executiva é apenas a marcação material
da linha sobre o terreno, ou seja, a efetiva colocação dos marcos sobre o solo, situação
essa regulada por uma sentença homologatória de natureza eminentemente declaratória
(CPC, art. 966).
 Segunda fase (executiva): Os arts. 960 a 964 do CPC cuidam de dar disciplina legal aos
trabalhos dos peritos, impondo-lhes a observância de regras técnicas que a ciência e a
experiência recomendam. Eventuais controvérsias porventura existentes na aplicação de
tais dispositivos legais deverão ser resolvidas pelo juiz, observando-se, no que couber, o
parecer dos técnicos.
 Relatório dos arbitradores, manifestações das partes e auto de demarcação: Depois de
anexos o relatório dos arbitradores, o juiz ouvirá as partes sobre a conclusão pericial.
Havendo ou não contestação, a sentença se baseará na delimitação da linha
demarcanda conforme os resultados constantes do laudo dos arbitradores. Corrigindo-
se o que for necessário, determinará o juiz que o escrivão lavre o auto de demarcação.
O auto de demarcação, assim como a planta e o memorial descritivo são peças
fundamentais do processo demarcatório.
 Sentença homologatória final: A sentença final do art. 966 não tem força preponderante
nem de condenação, nem de constituição, embora tais cargas eficaciais possam existir.
Torna-se evidente, pois, que sua natureza marcante é, sem dúvida, a de declarar, a de dar
certeza jurídica àquilo que já se procedeu anteriormente em presença das partes e sob a
fiscalização da Justiça. É comum, portanto, tratá-la como declaratória.
 Isto, porém, não retira do procedimento demarcatório o caráter executivo lato sensu,
pois embora a sentença final tenha a função predominantemente declarativa, certo
também é que foi precedida de atos materiais que fizeram da primeira sentença uma
realidade fática concreta com notável alteração no mundo exterior com a eliminação da
confusão de limites.

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 É uma sentença homologatória porque o seu conteúdo principal não é ditado pelo juiz
no ato de decidir, mas é tomado de empréstimo ao trabalho dos peritos sintetizado no
auto de demarcação.
 A apelação é admissível, contudo, sem efeito suspensivo (CPC, art. 520, inciso I). A
modificação será transcrita no Registro de Imóveis (Lei nº 6.015/73).
 A sentença do art. 966 faz coisa julgada material a respeito das linhas assinaladas e
homologadas, então pode ser rescindida (CPC, art.485).

AÇÃO DIVISÓRIA

1. LEGITIMIDADES ATIVA PASSIVA:

 São ativa e passivamente legitimados os co-titulares do direito real sobre a coisa comum,
quer a comunhão se refira a propriedade (comproprietários), quer a qualquer outro direito
real (por exemplo, usufruto e uso, ocasião em que deverá ser citado o proprietário do
imóvel).

 A divisão da posse comum entre os compossuidores também é admitida pela doutrina, com
base no art. 1.199 do Código Civil.

 O autor, se casado, deverá formar litisconsórcio ativo com o cônjuge ou dele obter outorga
uxória/marital. Da mesma forma, os cônjuges dos réus casados também deverão ser
incluídos no pólo passivo, em litisconsórcio passivo determinado pelo art. 10, § 1º, do CPC.

 A eficácia da divisão só ocorre se todos os condôminos participarem do processo ou forem


cientificados regularmente da sua existência, sob pena de nulidade do processo, pois trata-
se, na hipótese, de litisconsórcio passivo necessário previsto no art.47 do CPC.
 Embora alguns entendam que o litisconsórcio passivo necessário seja unitário, como pensa
Ernani Fidélis do Santos, entendemos não ser o caso, pois pode haver eficácia diferenciada
para os participantes da lide.
 Os terceiros confrontantes: Somente deverão ser citados os terceiros confrontantes se
houver cumulação da ação de divisão com a demarcação (CPC, art.947), pois, caso
contrário, serão estranhos ao procedimento em questão.

2. PETIÇÃO INICIAL:

 Além dos requisitos do art. 282 do CPC, a petição inicial da ação divisória deve obedecer
às disposições do art. 967 do CPC, devendo ser instruída com a comprovação do título de
domínio ou de direito real limitado (inexigível na composse) e da condição de condômino do
autor, e conter obrigatoriamente:

 Descrição do imóvel pela situação, denominação, limites e características, além da


origem do condomínio;

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 Nome, qualificação e residência de todos os condôminos, especificando qual deles
possui benfeitorias e culturas no imóvel comum;

 A indicação das benfeitorias comuns a todos os condôminos.

3. CITAÇÕES, RESPOSTAS DOS RÉUS E JULGAMENTO DA PRETENSÃO DIVISÓRIA:

 O procedimento da ação divisória, na primeira fase, obedece às regras prescritas pelo CPC
para a ação demarcatória, inclusive quanto ao procedimento das citações que o art. 968
limita-se a remeter ao art. 953, sobre o qual já rendemos críticas anteriormente.

 O prazo para contestar é de 20 (vinte) dias, estabelecido pelo art. 954, com todas as
discussões doutrinárias citadas acima.
 Aspecto importante a ser salientado é que o art. 968 CPC recomenda que se aplique à
ação divisória o disposto nos artigos 953, 954 e 955 do CPC, deixando de fora, portanto, a
regra contida no art. 956 (realização de perícia pelos arbitradores e pelo agrimensor antes
da prolação da sentença intermediária) do mesmo diploma legal. Há portanto similitudes
das ações de demarcação e divisão ( primeira fase).
 Contudo, as suas sentenças diferenciam-se, pois na demarcatória a sentença deve
determinar o traçado da linha demarcanda tendo em vista o trabalho pericial já realizado. E
a da ação de divisão, os trabalhos de campo somente ocorrerão com o trânsito em julgado
da sentença que encerrar a primeira fase.
 O contencioso da divisão, por assim dizer, termina, necessariamente, por sentença que,
não sendo o caso de extinção do processo – por deficiência de pressupostos processuais
ou por falta das condições da ação – terá sempre de solucionar o mérito da causa,
acolhendo ou rejeitando o pedido de divisão.
 Diante da aplicabilidade do art. 955, irrelevante a revelia ou falta de resposta do réu, pois a
falta deles só tem o efeito processual de abreviar a solução da primeira fase, eliminando-se
a audiência de instrução e julgamento por não ser o caso de produção de prova oral.
 Da sentença de procedência, na qual é reconhecida pretensão divisória, caberá apelação,
nos efeitos devolutivo e suspensivo (art. 520, caput, do CPC).

4. EXECUÇÃO MATERIAL DA DIVISÃO:

 Na fase executiva do procedimento divisório realizam-se as operações técnicas e jurídicas:


a cargo dos peritos e do juiz, respectivamente.
 Marco inicial: O art. 972 do CPC menciona que à medição nada mais é do que a operação
por meio da qual o agrimensor levanta sua linha perimetral e calcula a área do imóvel.

 Pelo parágrafo único do art. 971, em não havendo colidência de interesses entre os
condôminos na escolha de seus quinhões, nem impugnação de algum título, determinará o
juiz que se proceda à imediata divisão geodésica do imóvel. Pode ocorrer, entretanto, que
dois ou mais condôminos manifestem suas preferências por um mesmo quinhão, por

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exemplo. Nesses casos, deverá o juiz decidir segundo alguns princípios básicos do
processo divisório e que estão contidas no art. 978 CPC.

 Havendo litígio quanto aos títulos ou quanto ao modo de serem interpretados, caberá ao
juiz investigar a natureza, origem e qualidade de cada um deles para que possa compará-
los entre si, atribuindo-lhes o valor que lhe parecer justo, agravável.

 Tudo obedece às regras contidas nos arts. 960 a 963 do CPC, mas a marcação da linha
divisória não força a demarcatória, justamente porque os vizinhos não são parte no
processo e assim não podem sofrer as conseqüências jurídicas de atos processuais que só
interessam aos condôminos em litígio.

 Cumpre lembrar que, no levantamento da linha perimétrica, o agrimensor deverá ater-se ao


que ficou decidido na sentença que encerrou a primeira fase do procedimento divisório.
 Levantamentos e benfeitorias: Estão reguladas no CPC as eventuais repercussões
causadas pelo processo divisório sobre as propriedades limítrofes. As disposições visam
evitar o nascimento de uma lide paralela ao processo divisório eventualmente instaurada
pelo possuidor de tais benfeitorias, pois estaria o mesmo legitimado a intervir no processo
de divisão com a ação de embargos de terceiro, medidas cautelares etc.

 No CPC, art. 974, diz que o confinante do imóvel dividendo poderá demandar a restituição
dos terrenos que lhes foram usurpados é confirmar a regra geral de proteção ao direito de
propriedade contida no art.1228 do Código Civil.

 E se o lindeiro atingido pelo processo divisório não for o proprietário? Diante do preceito do
art.1228 acima comentado, a reivindicação estaria afastada, devendo o confrontante valer-
se dos embargos de terceiros ou dos interditos possessórios se a ofensa viesse a juízo.
 Trabalhos técnicos e o plano de divisão: O CPC nos artigos 975 a 978 trata sobre as
regras técnicas a serem observadas pelos peritos, agrimensor e arbitradores. Tudo no
intuito de orientar os técnicos na elaboração de seus laudos.

 Já o art. 978 contém matéria importante para determinar a natureza executiva do


procedimento divisório. É que o cálculo correspondente a cada título a que se refere o
artigo, somente deverá ser feito no momento em que os peritos passarem ao estudo do
plano de divisão, após concluídos os trabalhos preliminares. Esse cálculo consiste numa
das operações mais importantes no procedimento de execução do processo divisório. Daí é
que tirará se houve um aumento ou uma redução das áreas correspondentes a cada título.
 Manifestação das partes e a partilha: O do CPC ressalta a fase executória da ação de
divisão. Principalmente o art, 979. Depois de ouvidas as partes o juiz pronunciar-se-á sobre
a partilha, nesse momento é que ele vai decidir sobre o destino de certas benfeitorias e
acessões que, em não comportando divisão cômoda, deverão ser adjudicadas a um ou
mais condôminos.
 Trata-se de decisão interlocutória, contra a qual caberá recurso de agravo.
 Memorial descritivo, auto de divisão, sentença homologatória da divisão e coisa
julgada: Compete ao agrimensor o memorial descritivo (art. 980 do CPC) e ao escrivão a
lavra do auto de divisão, seguido de uma folha de pagamento para cada condômino, que
deverá ser assinado pelo juiz, agrimensor e arbitradores sendo ao final, por sentença,
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homologada a divisão, contra a qual caberá apelação, apenas no efeito devolutivo (art. 520,
inciso I, do CPC).

5. SENTENÇA HOMOLOGATÓRIA DA DIVISÃO E REGISTRO IMOBILIÁRIO:


 Ao final do procedimento acima mencionado, por sentença, será homologada a divisão,
contra a qual caberá apelação, apenas no efeito devolutivo (art. 520, inciso I, do CPC).
 OVÍDIO BAPTISTA DA SILVA propugna que a sentença que homologa a divisão é
preponderantemente executiva, com relevante eficácia constitutiva e declaratória a ponto
de produzir coisa julgada e só poder ser desconstituída por ação rescisória.
 De outra banda, HUMBERTO THEODORO JUNIOR diz que a sentença que homologa a
divisão é, no plano essencial do procedimento divisório, de natureza constitutiva, pois faz a
extinguir a comunhão, substituindo-se por uma nova situação jurídica para os ex-
comunheiros. Contudo, concorda o autor com o OVÍDIO BAPTISTA ao declarar que em
sendo a homologatória uma sentença de mérito, ela faz coisa julgada material somente
podendo ser desconstituída mediante ação rescisória.
 Já PONTES DE MIRANDA afirma que, se não se discutiu na fase contenciosa do
procedimento divisório, por exemplo: questões dominiais; a invalidade ou validade dos
títulos dos comunheiros etc., a “eficácia da coisa julgada será somente quanto à declaração
dos quinhões, e,não, sobre o direito de propriedade”.
 Título e inscrição no Registro Imobiliário: Serve como título declaratório da propriedade
a folha de pagamento que resultou do processo divisório. A folha juntamente com a
sentença que homologou a divisão e a certidão do seu trânsito em julgado, constituem
verdadeiro formal de partilha para os efeitos de transcrição no Registro Imobiliário.

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