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REVOLUCIÓN EN EL HEARTLAND: GEOPOLÍTICA DEL GOBIERNO EVO MORALES

Rafael Regiani

Eduardo Fiorentini Votta

Resumen:

Seguidor de la Teoría del Heartland de Halford Mackinder, Mário Travassos busca


adaptar las ideas del geógrafo británico a la realidad de la Sudamérica para llegar a la
conclusión de que quien controla el triángulo estratégico formado por las ciudades de
Santa Cruz, Sucre, y Cochabamba, controla la Sudamérica. Setenta años después,
¿Travassos aún es válido? Este trabajo pretende revisitar Travassos y utilizar su teoría para
comprender la geopolítica de la Bolivia actual.

Elegido presidente concurriendo por el Movimiento al Socialismo, Evo Morales ha


se destacado como una de las principales figuras de la izquierda latinoamericana, solo
perdiendo en protagonismo tal vez para Hugo Chavez y Luis Inácio Lula da Silva. Después
de la muerte del primero y el fin de la presidencia del segundo, Morales tornase el mayor
líder de la izquierda hoy a dirigir los esfuerzos de los pueblos por la liberación nacional.
Para comprender el gobierno de Evo Morales utilizamos la teoría del Eurasianismo del
sociólogo ruso Aleksandr Dugin.

El modelo económico de Evo Morales priorizó la estatización de los recursos


naturales como fuente de divisas para el estado realizar inversiones sociales,
ejemplificado en la Guerra del Gas en 2003. Además de la nacionalización de la industria
del gas, otras iniciativas económicas en que se incluye la Bolivia son su posible adhesión al
Mercosur, y la construcción del ferrocarril bioceánica Santos-Arica, pasando por la Bolivia,
como un camino para la integración continental.

Reuniendo de una vez ubicación estratégica, liderazgo político, y desempeño


económico, nuestra análisis llega a conclusión que la Bolivia de Morales presenta todas las
condiciones favorables para exportar los valores de su revolución por el continente, en
principal por su aspecto plurinacional y su lucha contra el colonialismo y el
neoliberalismo.

Palabras-clave: Geopolítica, Bolivia, Mário Travassos, Evo Morales, Eurasianismo

1. Travassos e a Bolívia

Nos anos 30, Brasil e Argentina competiam pela hegemonia regional na América
do Sul. A economia argentina vivia da exportação de carne e couro para a Europa através
do porto de Buenos Aires, enquanto que a brasileira era movida pela exportação de café
pelo porto de Santos. O sistema ferroviário argentino irradiava-se a partir da capital e
avançava rapidamente pelas planícies do Prata para os países vizinhos, enquanto que as
ferrovias brasileiras, concentradas no estado de São Paulo, enfrentavam mais dificuldades
em atravessar os terrenos do planalto brasileiro. Essa situação deixava a Argentina em
vantagem na disputa hegemônica. O Coronel Mário Travassos (1891 – 1973), preocupado,
escreve o Projeção Continental do Brasil (1930) com o objetivo de alertar o país e alterar
esse quadro de dianteira argentina na disputa por influência sobre a Bolívia, vista como
fundamental para se alcançar a hegemonia sulamericana.

O pensamento geográfico travassiano, como o que estava em voga na época, era


fortemente influenciado pelo determinismo naturalista que tendia a ver nas bacias
hidrográficas regiões objetivas e existentes de facto: “O fatalismo geográfico das bacias
hidrográficas é ainda um dos preconceitos da velha geografia em compartimentos
estanques – a física, a política, a econômica, etc.” (TRAVASSOS, 1935, p. 125-126). Daí a
instabilidade geográfica que ele via na Bolívia, país que se insere em três sistemas
hidrográficos diferentes: a Bacia do Amazonas, Bacia do Prata e Cordilheira dos Andes
(TRAVASSOS, 1935, p. 62). Perdido seu porto de Antofagasta após a Guerra do Pacífico, à
Bolívia só restava o Atlântico como saída para o mar, o que significava ter de escolher
entre chegar ao Atlântico pelo Rio da Prata, sob jurisdição argentina, ou pelo Rio
Amazonas, sob domínio brasileiro. E como as comunicações do Brasil com a Bolívia
estavam atrasadas, a Argentina era a melhor escolha possível. (Ibid., p. 63).

Para contrabalançar a vantagem argentina na disputa pelo escoamento da


produção econômica boliviana, concentrada num triângulo formado pelas cidades de
Cochabamba, Sucre e Santa Cruz, Travassos defende a extensão da Ferrovia do Noroeste
paulista até Corumbá, na fronteira com a Bolívia, e posteriormente até Santa Cruz, para
dar acesso ao altiplano boliviano ao porto de Santos, que levava vantagem sobre Buenos
Aires por estar localizado mais ao norte e próximo dos feixes de circulação principal do
Atlântico. Ou, então, estendendo-se a ferrovia Madeira-Mamoré de Guajará-Mirim até
Santa Cruz, e dando acesso ao interior da Bolívia ao rio Amazonas, que desemboca no
Atlântico num ponto ainda mais ao norte do que Santos. (Figura 1)

A importância estratégica do triângulo Cochabamba-Sucre-Santa Cruz para a


geopolítica da América do Sul era que cada vértice desse triângulo apontava para uma das
três diferentes regiões que compõe a Bolívia. Cochabamba estava sob influência andina
de Arica, Sucre sob a influência platina de Buenos Aires, e Santa Cruz sob a influência
amazônica (Ibid., p. 164). O sistema ferroviário que conseguisse capturar esta zona, que
produzia boa parte da riqueza nacional da Bolívia, por extensão conseguiria capturar a
própria Bolívia. E do controle sobre os pasos e nudos da Bolívia, a potência de origem das
ferrovias monopolizaria o acesso ferroviário aos demais países da América do Sul, como
Peru e Chile, conquistando virtualmente a hegemonia continental.

À época da escrita do livro o centro de gravidade econômica estava deslocado no


vértice de Cochabamba, então o mais importante do triângulo. Conectada ao sistema
ferroviário argentino, Cochabamba fazia o eixo da balança política pender para o lado da
Argentina. A solução para alterar o ponto de equilíbrio geopolítico em favor do Brasil era
conectar Santa Cruz à rede ferroviária brasileira. Nas palavras de Travassos:

“Se trata apenas de deslocar o centro de atração da região de


Cochabamba para Santa Cruz, inclusive, porque a atração exercida
por Cochabamba é por assim dizer artificial, produto das
facilidades de comunicações de que se tem desfrutado, ao passo
que Santa Cruz representa realmente o verdadeiro centro de
gravidade da economia do planalto”. (Ibid., p. 45)
A ideia de um triângulo estratégico capaz de alterar o centro de gravidade da
América do Sul só adquire real sentido se acompanhado da ideia da Bolívia como o centro
geográfico do continente. E Travassos endossa esta ideia afirmando que “o planalto
boliviano [...] muito bem se pode considerar o centro geográfico de nossa massa
continental, se admitirmos esses termos em sua mais simples acepção”. (Ibid., p. 163).
Uma rápida olhada em um mapa da América do Sul nos permite observar isto: o triângulo
estratégico é o centro econômico de uma entidade política que ocupa o centro geográfico
do continente.

“Para a política brasileira a Bolívia deste século é o Uruguai do século passado. E


[...] o território paraguaio, sorte do prolongamento de toda a angustia concentrada no
território boliviano”. (Ibid., p. 168). O Uruguai é um Estado-tampão criado no século XIX
para afastar da capital argentina Buenos Aires a região sul do Brasil, e estabelecer a
hegemonia portenha no Rio da Prata. Bolívia e Paraguay adquiriam ao longo do século XX
a função de proteger o flanco oeste do território brasileiro, já sobrecarregado em ter que
defender sua fronteira sul e sudoeste, do contato com a Argentina.

Contudo, substituída a rivalidade argentino-brasileira pela cooperação e integração


econômica via Mercosul, que papel assumem Bolívia e Paraguay na nova realidade política
da América do Sul no século XXI? Este é o mesmo dilema enfrentado por outros Estados-
tampões que perderam sua função de amortecimento na era da globalização, como
Afeganistão e Bélgica. A resposta que chegamos é: ou o Estado-tampão se torna em
Estado-integração mudando de função geopolítica, ou se desmembra em vários Estados-
nações e modifica suas fronteiras. (REGIANI, pp. 15-16)

No caso da Bolívia, a resposta varia conforme o autor. Sua geografia pode ser
encarada de diferentes maneiras dependendo do enfoque teórico de quem a vê.

Carlos de Badia y Malagrida (1890 - 1937), diplomata espanhol e contemporâneo


de Travassos, era comprometido com um projeto de reconstrução do Vice-Reino do Prata
na forma de uma Confederação do Prata. Ele adotava um modelo imperial de fronteira do
mesmo tipo da apregoada por Lorde Curzon (1859 – 1925) no Vice-Reino da Índia. Curzon
defendia que uma fronteira científica era aquela que misturava ‘força natural’ com ‘força
estratégica’ (Ibid., p. 4). Por ‘força natural’ ele entendia um marco geográfico da paisagem
que funcionasse como uma barreira real entre dois Estados, e que poderia ser o mar, um
deserto, uma montanha, uma floresta, etc.

Uma vez que a Bolívia não tem mar – apesar do Lago Titicaca, que delimita uma
parte da fronteira com o Peru –, nem um deserto de grande extensão, e a Amazônia é
uma floresta de grande dimensão e não apenas uma faixa florestal, só restam as
montanhas como forma de fronteira, o que a Bolívia tem. Estando em cima das cristas do
divisor de águas entre as bacias do Prata e do Amazonas, Malagrida via as serras do
território boliviano como uma fronteira ‘natural’, ‘real’ e ‘científica’ a separar as unidades
políticas naturais da América do Sul, que eram a Confederação do Prata (Argentina,
Uruguai, Paraguay e Chaco boliviano) a Confederação do Pacífico (Peru, Chile, e oeste
boliviano), a Confederação Colombiana e a Confederação Brasileira (MARTINS, 38-39)

Já Travassos, influenciado por Mackinder, via a Bolívia como um heartland dotado


de uma força centrípeta sobre a América do Sul, que apenas não exercia plenamente essa
força porque a precariedade do Estado boliviano o impedia de repetir o sucesso expansivo
do Estado russo em seu heartland na Eurásia. Mas a existência de um centro geográfico a
partir do qual a Bolívia seria capaz de projetar poder garantia ao território dela uma certa
coesão que a impediria de se desmembrar como pensava Malagrida.

Disto deduz-se que se Travassos e Malagrida estivessem vivos ainda hoje,


Travassos, que via na Bolívia um potencial Estado-pivô, apoiaria a mudança de sua função
geopolítica de tampão para integração, enquanto que Malagrida, que via a Bolívia como
um Estado geograficamente inviável, seria a favor de seu desmembramento em Estados-
nações (Ibid., p. 127): um Estado hispânico platino em Santa Cruz, outro Estado quíchua e
aimará nos Andes, e um terceiro Estado amazônico no Beni e Pando.

Figura 1 – A Bolívia de Mário Travassos e a de Evo Morales. Fonte: elaboração própria.

2. Ferrovia Interoceânica

Em meio às limitações do Canal do Panamá, incapaz de permitir a passagens dos


maiores cargueiros de última geração, às dificuldades de se construir um canal novo e
maior na Nicarágua, e à penetração cada vez maior da China na América do Sul em busca
de matérias-primas, surgem iniciativas de projetos de infraestrutura viária que deem cabo
de estabelecer ligações entre a costa do Atlântico e do Pacífico, como o IIRSA, que tem um
total de dez eixos de integração e desenvolvimento. Destacamos a Ferrovia Bioceânica,
cruzando a Bolívia e podendo conectar Santos com Arica ou Antofagasta no Chile ou Ilo no
Peru, e a Ferrovia Brasil-Peru. (Figura 2)

A Ferrovia Bioceânica, embora não fosse a primeira ferrovia transcontinental da


América do Sul, sem dúvida era a de maior impacto político, econômico e militar para a
região caso fosse inteiramente construída. Com um total de 3.954 quilômetros, passaria
por três países, sendo 1.924 quilômetros de trilhos no Brasil, 1.828 na Bolívia e 202 no
Chile (AZEVEDO, p. 185), podendo beneficiar cinco com a construção de um ramal para o
Paraguay, passando por Ponta Porã no Mato Grosso, e de outro para o porto de Ilo, no
Peru. De fato o Eixo Interoceânico Central do IIRSA, o qual a ferrovia faz parte, inclui estes
cinco países. (ZIBECHI, p. 232)

Já a ferrovia Brasil-Peru, com três opções de traçados, percorrerá uma distância maior,
de quase 5.000 quilômetros1 a um custo de US$ 30 bilhões2, contornando a Bolívia através
da Região Norte do Brasil. Qualquer que seja o caminho adotado, o fato é que grande
parte da Ferrovia Brasil-Peru estará dentro do Brasil. Por isso seu caráter é pouco
integrador da América do Sul, beneficiando apenas dois países, sendo o Brasil o maior
ganhador. Na prática é muito mais uma ferrovia brasileira que termina no Peru do que
uma legítima ferrovia de integração transcontinental.

Do ponto de vista internacional, ambas servem para dar acesso para os chineses aos
recursos naturais do continente. De fato, Pequim é a maior interessada numa ferrovia
transcontinental que reduza sua dependência do Canal do Panamá, sob influência
americana, e permita um escoamento maior e mais rápido de mercadorias para a China.
Só muda a região de importação: a Bioceânica daria acesso à soja e aos minérios
bolivianos; a Brasil-Peru, aos produtos brasileiros.

A diferença é que do ponto de vista brasileiro, enquanto a Bioceânica permite trazer


ao país minério e hidrocarbonetos bolivianos, possibilitando seu processamento no Brasil
e beneficiando a indústria nacional, a Brasil-Peru mantém o país na condição de
exportador de matéria-prima agromineral. À época de Travassos, a Santos-Arica
corresponderia “exatamente à passagem de nosso país da era cafeeira à da policultura e à
do nascimento da indústria nacional” (AZEVEDO, p. 185). Hoje, mesmo com o país mais
industrializado, o argumento do impulso à indústria de base ainda é válido, pois poderia
dar acesso, por exemplo, às minas de lítio boliviano, material muito utilizado na indústria
eletrônica.

A Brasil-Peru também não valoriza plenamente a importância de Mato Grosso no


heartland da América do Sul, pois o transforma basicamente num corredor entre as
regiões Sudeste e Norte do Brasil. Essas conexões de Mato Grosso com a Bolívia e o
Paraguay são melhores exploradas pela Santos-Arica através da ativação de outro
triângulo estratégico composto pelas cidades de Corumbá, Campo Grande e Ponta Porã.
(TRAVASSOS, pp. 169-170)

Há que se pesar também questões ambientais na implantação das ferrovias. A Santos-


Arica passa pelas planícies de Mato Grosso e Santa Cruz, terreno de fácil avanço até o
início dos Andes. A Brasil-Peru, penetra na Floresta Amazônica, o que exige
desmatamento, além de ter que se enfrentar o desgastante clima quente e úmido da

1
FERROVIA bioceânica, para ligar o Brasil ao Pacífico, é viável, indica estudo. Folha de São
Paulo. 11 de julho de 2016.
2
MEGAFERROVIA que liga oceanos entra no plano de Dilma. Folha de São Paulo. 12 de
maio de 2015
floresta e suas doenças, vide a construção da Ferrovia Madeira-Mamoré, cujas condições
de trabalho na selva provocaram a morte de milhares de trabalhadores, além de solos
muito instáveis e com custo muito maior de construção, e longos trechos sem presença de
rochas como insumo de construção.

3. Bolívia e o Mercosul

O Mercosul, ou Mercado Comum do Sul, foi fundado em conjunto pelos


presidentes do Brasil, Argentina, Paraguay e Uruguai em 1991, como um bloco de
cooperação econômica que juntava as duas principais economias do continente. Marcava
o fim de um cenário de rivalidade entre os regimes militares brasileiro e argentino pela
hegemonia da América do Sul, e iniciava uma nova era associada com globalização
econômica e livre comércio.

A primeira expansão do Mercosul se deu em 2012, com o ingresso da Venezuela. A


Bolívia, em processo de adesão, será a segunda expansão do bloco. O que criticamos aqui
é que a entrada da Bolívia deveria ter sido feita antes da Venezuela, num ponto de vista
travassiano.

Ocorre que naturalmente a economia se desenvolve acompanhando os feixes


naturais e artificiais de circulação do território e absorvendo outros espaços do seu
entorno geográfico mais próximo (ZIBECHI, p. 239). A União Europeia, por exemplo,
incorporou novos membros em função da distância em relação a Alemanha, motor
econômico do bloco. E as comunicações do Brasil com a Venezuela são fracas.
Basicamente se restringe a rodovia BR-174 que conecta Manaus e Boa Vista com o sul da
Venezuela. Se ao menos o oleoduto norte-sul conectando a Venezuela com Brasil e
Argentina existisse, haveria um fluxo comercial entre os países que justificasse o ingresso
no bloco, mas ele nunca foi concretizado.

Ainda sem uma saída para o Pacífico, e oscilando historicamente entre solicitações
do Brasil e Argentina, uma vez que ambos os países estão agora no mesmo bloco
comercial, a Bolívia passa a ser inteiramente dependente do Mercosul para acessar o
Atlântico, e em grande parte de sua economia, que vive principalmente da exportação de
hidrocarbonetos para estes dois países.

Tomando o parque industrial de São Paulo como referência, o dínamo do


Mercosul, que gera da riqueza do bloco, os membros originais do bloco estão localizados
ao sul desta zona industrial e imersos na Bacia do Prata (Figura 2). Seguindo uma lógica
orgânica de expansão econômica, o candidato natural a primeira adesão seria a Bolívia,
país que também se insere na Bacia do Prata, e cujas exportações de gás natural garantem
um fluxo de relação econômica, além da existência da comunidade dos brasivianos, uma
importante minoria que, apesar de formada por cerca de 200 famílias, controla 40% da
produção de soja boliviana e 700 mil hectares de terras férteis da província de Santa Cruz.
(ZIBECHI, p. 261)

Absorvido os países da Bacia do Prata, o passo seguinte seriam aqueles


atravessados pelos Andes: Peru, Chile, oeste da Bolívia. Estes, localizados a ocidente de
São Paulo, poderiam ser alcançados pela economia paulista através de vias de integração,
como ferrovias, rodovias, dutovias e aerovias cortando a barreira dos Andes pelas zonas
de menor resistência representada pelos Pasos e Nudos.
O cenário atual é oportuno, pois apesar de banhados pela bacia oceânica do
Pacífico, a reemergência do regionalismo econômico com a eleição de Donald Trump nos
EUA pondo fim a acordo da Parceria do Trans-Pacífico (TPP), volta a tornar o regionalismo
econômico sulamericano do Mercosul numa opção vantajosa para o conjunto destes
países encaixotados entre os Andes e o Pacífico.

Só em último lugar viriam os países da antiga Grã-Colômbia, ou do canto noroeste


como chama TRAVASSOS (1935, p. 64): Venezuela, Colômbia e Equador. Localizados ao
norte da zona industrial de São Paulo, são os mais distantes e separados pela enorme
fronteira natural da Floresta Amazônica, além da barreira dos Andes. Para atingi-los, se
teria que antes haver integrado plenamente o Peru ou a Amazônia.

As dificuldades com esses países ainda seria maior porque, além de estarem em
duas bacias independentes e que correm para o norte – Orinoco e Madalena,
respectivamente –, estão inseridos no Mar das Antilhas, o Mediterrâneo americano,
região sensível para a segurança de Washington, havendo uma sobreposição das zonas de
influência brasileira e americana. Tanto a Venezuela quanto a Colômbia, por causa disso,
estão sob forte solicitação americana (Ibid., p. 71). A Venezuela, dependente
economicamente da venda de petróleo aos EUA busca compensar sua proximidade
geográfica dos EUA com o distanciamento ideológico do bolivarianismo e dependência
militar russa. A Colômbia, sem ideologia própria para se contrapor, cede sua soberania ao
permitir a presença de tropas americanas em seu território sob o Plano Colômbia, e
contrair dependência militar de equipamentos americanos.

Figura 2 – Ferrovias Interoceânicas, Mercosul e o Parque Industrial Paulista.

Fonte: elaboração própria

4. Geopolítica do Governo Evo Morales


4.1 Eurasianismo e Arqueomodernidade

Além de afetada por um divorcio aquário, a Bolívia também sofre de um divorcio


antrópico entre as populações de origem indígena e hispânica. Ainda que em quase todos
os países da América Latina ambas as raças estejam presentes, e geralmente misturadas,
na Bolívia a demografia possui uma realidade singular devido ao fato que as
concentrações das populações indígena e hispânica estão fortemente associadas a
respectiva região do país. Indígenas povoam as montanhas; hispânicos, a planície. E mais,
a Bolívia é o único país em que os indígenas formam a maioria da população, com 65% do
total, contra, por exemplo, 25% no Peru, 15% no Equador e 5% no Paraguay, de acordo
com as estatísticas do World Factbook (CIA). Travassos é consciente desse quadro
demográfico peculiar da Bolívia e, como um leitor da Antropogeografia de Ratzel, sabe
que a geografia humana influi tanto a geopolítica quanto as bacias hidrográficas:

[...] quanto vale o homem como fator geográfico de primeira


grandeza. [...] prova, de modo perfeito, a elasticidade da geografia
política como cupola da antropogeografia, a gama de suas
variações, desde a mais racional das hipóteses até o mais absurdo
dos fatos.

[...] a geografia política não é, em verdade, senão outra qualquer


geografia animada pelo homem. [...] sem o homem como fator
geográfico, toda geografia se torna verdadeiro corpo sem alma. É
que o sentido político, em toda a amplitude de suas acepções, é
bem a alma das realidades geográficas para as quais a atuação do
homem é tudo.” (TRAVASSOS, 1935, pp. 27-28)

Isto porque este divorcio antrópico não é marcado meramente por uma diferença
linguística entre indígenas e hispânicos, mas também por uma diferença cultural, mental,
entre eles, e que é fonte de diferentes costumes, hábitos, valores e visões de mundo, as
quais impactam no comportamento político e social dessas populações, e por
consequência, alimentam a instabilidade geopolítica da Bolívia. À Bolívia andina, cujo
litoral original era o Pacífico, “corresponde um interior caracteristicamente montanhoso
pela altitude, tão bem pela produção mineira dos tratos e a mentalidade estática das
populações”, enquanto que na Bolívia oriental, cujos rios deságuam no Atlântico,
predominam “atividades pastoril e agrícola, espírito dinâmico. Não há duvida que estamos
diante bem marcado antagonismo.” (Ibid., p. 22)

Este antagonismo entre indígenas e hispânicos parece ser a tônica da história


boliviana. Os diversos governos da elite hispânica foram incapazes historicamente de
construir um sistema econômico capaz de abrigar povos de mentalidade, de
temporalidade cultural diversa. O branco adota um tempo linear, progressista, rápido,
dinâmico, enquanto que o indígena segue um tempo circular, de eterno retorno, lento,
estático. A formação social resultante dessas temporalidades diversas presentes no seio
da sociedade boliviana é o que Zavaleta MERCADO chama de abigarrada (apud URQUIDI,
p. 44).

Vivian URQUIDI (2007, p. 42) desenvolve a tese de que a imbricação de


temporalidades é o resultado da falta de vontade e de esclarecimento de suas elites
dominantes para pensar um processo de unificação da dimensão nacional que articule a
diversidade local com objetivos estatais modernos. Nossa tese é que a falta de
esclarecimento de suas elites dominantes é devido à falta de instrumental teórico do
liberalismo, do socialismo ou do fascismo, as teorias políticas clássicas da ciência social
ocidental em resolver os desafios bolivianos, e que só o Eurasianismo seria capaz de
respondê-los. URQUIDI reconhece esta deficiência, mas ainda insiste no marxismo em sua
análise. (2007, p. 34)

O Eurasianismo é um sistema filosófico caracterizado por ser: a) Histórica e


geograficamente é o mundo inteiro excetuando o setor ocidental; b) Estratégica e
militarmente é a união de todos os países que não aprovam as políticas expansionistas
dos EUA e da OTAN; c) Culturalmente representa a preservação das tradições culturais,
nacionais, étnicas e religiosas orgânicas; d) Socialmente representa formas diferentes de
vida econômica e a ‘sociedade socialmente justa’. (DUGIN, p. 39)

E seus princípios são os seguintes: 1) Diferencialismo, o pluralismo de sistema de


valores contra a convencional dominação obrigatória de uma dada ideologia: a
democracia liberal americana em primeiro e mais importante lugar; 2) Tradição contra a
supressão de culturas, dogmas e descobertas das sociedades tradicionais; 3) Os direitos
das nações contra os “bilhões de ouro” e a hegemonia neocolonial do “norte rico”; 4) As
etnias como valores e sujeitos da história contra a despersonalização das nações,
aprisionadas em construções sociais artificiais; 5) Justiça social e solidariedade humana
contra a exploração e humilhação do homem pelo homem. (Ibid., p. 36)

Ao contrário dos demais países latino-americanos, que costumam ser


homogêneos, como um típico Estado-nação ocidental, na Bolívia são reconhecidas 37
idiomas, o que dá a ela um perfil mais parecido com os grandes Estados eurasiáticos,
como Rússia, China e Índia, do que qualquer outro do mundo ocidental. Por isso não seria
estranho que o Eurasianismo, filosofia criada pelo russo Aleksandr Dugin inicialmente
para analisar e compreender a sociedade russa e os demais povos eurasiáticos, fosse
replicado também na Bolívia.

Aproximamos o governo de Evo Morales do conceito de Arqueomodernidade, que


Dugin utiliza para caracterizar um tipo de modernização conservadora em que se
combinam os aspectos positivos da modernidade burguesa, como os avanços na parte
econômica e tecnológica, mas ao mesmo tempo rejeitando seus aspectos negativos como
a dissolução das identidades e a degradação moral, porque vemos as políticas de Morales
estando de acordo com os princípios do Eurasianismo. Exemplos de projetos
arqueomodernizantes podem ser os do Presidente russo Vladimir Putin, e o do Primeiro-
Ministro indiano Narendra Modi. Putin recuperou economicamente uma Rússia destruída
pelo neoliberalismo de Ieltsin reestatizando os recursos energéticos e tornando a Rússia
numa economia reemergente e competitiva dentro do capitalismo global. Mas no campo
político e cultural rejeitou a democracia liberal em favor de uma democracia dirigida ao
modo russo, fez renascer a fé na Igreja Ortodoxa Russa, e rejeitou as bandeiras pós-
modernas de movimentos feministas, gays, dos direitos humanos, e ambientalistas. Já
Modi, instruído nas fileiras do movimento fundamentalista hindu do RSS, após eleito
continuou a abertura econômica que tornaram a Índia no país de maior crescimento
econômico do mundo, buscou modernizar as cidades indianas transformando-as em
smart cities, mas no campo cultural fez valer os costumes hindus, como a adoção do
sânscrito no currículo escolar, a promoção da prática milenar do yoga em dia
internacional na ONU, além de falar apenas em hindí, e não em inglês, em encontros com
outros líderes mundiais.

Em uma sociedade de temporalidades diversas, a Arqueomodernidade é a melhor


resposta ao desafio do desenvolvimento nacional, pois concilia as demandas tanto do
índio, estático, tradicional, ‘archeo’ quanto do setor hispânico, progressista, racionalista,
‘moderno’. Mesmo porque essa temporalidade não se reflete apenas na cultura, mas
também nas formas de organização social e econômica.

Indígenas se ocupam mais da mineração, organizada na forma de sindicatos, e da


agricultura tradicional, como o plantio da coca, cultivada em pequenas propriedades e
colhida de modo manual. Apesar da organização sindical ser um tipo moderno, a
consciência do proletariado mineiro boliviano não é classista, mas étnica e adota a
simbologia indígena, por exemplo a Wiphala, como seus signos de luta ao invés da usual
foice e martelo comunista (URQUIDI, p. 204). Isto revela o quanto a filosofia do
Eurasianismo é adequada a análise da realidade social boliviana, posto que no
Eurasianismo o sujeito empírico são os povos, as etnias, as raças. Por outro lado na porção
oriental da Bolívia, povoada por povos de origem europeia, como cruceños hispânicos e
brasivianos, se pratica uma economia capitalista moderna alicerçada na agricultura
mecanizada em vastas propriedades, como a soja, e a extração de hidrocarbonetos,
controlada por grandes empresas, como Petrobrás e Repsol.

4.2 Evo Morales e Tradicionalismo Indígena

Evo Morales Ayma, filho de pai aimará e mãe quíchua, foi o primeiro indígena a ser
eleito na história da Bolívia, concorrendo pelo MAS em 2005 com 53,74% dos votos,
quase o dobro de segundo colocado com 28,59%. Apesar de sua ideologia socialista, seu
socialismo pode ser considerado atípico e diferente do marxista, pois o socialismo do MAS
busca não apenas a inclusão social do indígena, mas também a preservação de sua
identidade e o reconhecimento de seus direitos nacionais. Inicialmente propunha o
Socialismo Comunitario, porém agora fala em Complementaridad de Opuestos. (URQUIDI,
p. 29)

Entre as mudanças implantadas por Morales que estão de acordo com os


princípios da teoria política do Eurasianismo incluem-se a transformação da Bolívia em um
Estado Plurinacional, e o reconhecimento das 36 línguas indígenas como oficiais, sendo os
governos provincianos e municipais a adotar pelo menos uma delas junto ao espanhol,
conforme a nova Constituição boliviana, adotada em 2009 3, e que a partir de 2017 serão
ensinadas nas escolas4.

Morales fez sua carreira política no movimento cocaleiro, movimento que emergiu
entre os anos 80 e 90, em decorrência das reformas neoliberalizantes da economia,
provocando desemprego no tradicional setor de mineração. Muitos trabalhadores
migraram para o plantio de coca movido pelo preço que o tráfico internacional pagava.
3
CONSTITUCIÓN Política del Estado. 7 de Fevereiro de 2009
4
BOLIVIA alfabetizará en 36 lenguas originarias desde 2017. Canal Telesur. 9 de Setembro
de 2016
O movimento cocaleiro se constituiu com uma identidade entre a tradição nativa
do uso da coca e a modernidade representada pela economia do tráfico. Nada mais
natural que a ascensão política de Morales, cuja trajetória de vida o torna numa síntese
representativa da totalidade social boliviana: ele falava as três línguas mais utilizadas no
país, e liderava um movimento social heterogêneo que se relacionava tanto com modos
de vida tradicionais quanto com setores modernos.

A ‘Guerra Contra as Drogas’, que substituía a ‘ameaça comunista’ na América


Latina, vitimava sobretudo os cocaleiros, o elo mais frágil da cadeia do tráfico, porque as
políticas neoliberais cegas de repressão não distinguiam o plantio cultural do plantio
ilegal. A causa dos cocaleiros ia, portanto, desde a defesa da tradição milenar do uso da
folha de coca, até a resistência aos efeitos perniciosos da modernidade – o tráfico – e ao
‘imperialismo antidroga’. A eleição de Evo Morales foi, portanto, a resposta das massas
populares empobrecidas pelo neoliberalismo, seja na forma de enfraquecimento do
movimento mineiro, seja na forma da perda de cultivo dos cocaleiros, num contexto de
ruptura política da América Latina, com a eleição de vários governos de esquerda na
região. (ANDRADE, p. 177)

A refundação do Estado boliviano, sob as bases indígenas da nova Constituição de


2009, seguiu essas mesmas determinações dos cocaleiros. A ideologia estatal da Bolívia
de Morales é o indigenismo, que inclusive tornou a bandeira aimará do Wiphala como
símbolo oficial do Estado Plurinacional boliviano de acordo com a nova Constituição. Num
encontro indígena em Oaxtepec, no México, Evo Morales sugeriu a unidade das ‘nações
clandestinas’:

Não se trata somente de uma luta de cocaleiros, mas dos astecas,


guaranis, guaraios, aimarás e quíchuas. Nos levantamos porque
não queremos seguir sendo uma nação clandestina, desejamos ser
reconhecidos pelos Estados, mantendo nossos valores nacionais e
culturais. Buscamos nossa autodeterminação [...] e temos as
reivindicações imediatas de dignidade e soberania, terra e
território, defesa da sagrada folha de coca e direito à saúde e
educação. (URQUIDI, p. 181)

4.3 Geografia da Resistência

Dependendo da relação que os povos estabelecem com a terra e o mar, duas


abordagens geopolíticas são possíveis: o atlantismo e o eurasianismo. Por trás de cada
uma, há uma série de implicações político-filosóficas. A primeira representa o ‘primado da
economia sobre a política’; a segunda, da ‘política sobre a economia’. O atlantismo
carrega os valores do individualismo, do liberalismo econômico, e da democracia
protestante; o eurasianismo, os da autoridade, da hierarquia, e do comunitarismo.
(DUGIN, 2010, pp. 21-23)

No caso da Bolívia, sem saída para o mar, o tradicionalismo de Evo Morales nada
mais é do que a expressão da condição telúrica da Bolívia. Quem mais se ressentiu da
perda do mar foram as oligarquias hispânicas, que viviam da exportação agromineral, e
ficaram isoladas do contato com o mundo exterior civilizado das demais elites ocidentais.
O racismo foi a maneira que encontraram de compensar com distanciamento ideológico a
proximidade geográfica do mar de índios primitivos que a cercava.

Sua localização central na América do Sul a permite difundir sua revolução nas
quatro direções do continente. Foi por isso que Che Guevara, após lutar pela Revolução
Cubana, veio guerrear pela revolução socialista na Bolívia em 1967, esperando que um
eventual triunfo do foquismo tivesse um efeito dominó sobre o restante do continente. O
mesmo vale para o Congo, outro país que Che Guevara lutou em 1965, e sua localização
central na África.

Além do privilégio da centralidade, essa mesma localização da Bolívia, escondida


atrás dos Andes, isolada do mar, perdida no meio da América do Sul, a protege das
influências nocivas atlantistas dos EUA, o que outros países da costa do Pacífico falharam
em se manter, vindo a cair na órbita dos EUA, como o Chile, Colômbia e Peru. Esse
distanciamento natural e maior da Bolívia em relação aos EUA a permite adotar uma
retórica revolucionária que não seja caracterizada por um discurso de conteúdo negativo
antiamericano, senão apresentar um conteúdo positivo de afirmação da identidade
indígena, representando uma vantagem em relação a Cuba e Venezuela, tradicionais polos
de poder do esquerdismo latino-americano, pois nestes países o antiamericanismo foi o
modo de compensar ideologicamente a proximidade geográfica com os EUA para
manterem sua independência. A proposta da revolução boliviana, ao contrário, não é
apenas resistir, mas construir um Estado moderno utilizando as referências tradicionais
indígenas.

Por fim, o relevo de montanha é a terceira força geográfica da Bolívia. Povos


montanheses são conhecidos por seu notável valor que a vida nas montanhas lhes
imprime. Corajosos por caminhar entre desfiladeiros altos, vigorosos por resistirem ao frio
da altitude, e duros por viverem em condições austeras, se tornam em povos guerreiros
habitando um território inexpugnável, fonte de resistência, independência e liberdade.

Não faltam exemplos no planeta Terra. A pequenina Suíça, incrustada nas


montanhas dos Alpes, se manteve independente frente a Estados mais poderosos como
Alemanha, França, Itália e Áustria. Suíços eram famosos por serem empregados como
mercenários nas guerras do Renascimento Europeu, e até hoje tem a exclusividade de
servirem na Guarda Papal do Vaticano. Malagrida chega até a comparar a situação da
Suíça na Europa com a da Bolívia na América do Sul:

A posição cêntrica da Bolívia no mapa americano lhe outorga um


papel preponderante na política internacional daqueles países,
que em certos pontos recorda a missão particularíssima que
corresponde à Suíça na vida européia. Como a Suíça, ocupa uma
zona continental que atua como nexo como vários países
heterogêneos e acaso rivais. Como a Suíça, vive privada do acesso
ao mar vivendo condenada a convergência de alheias vontades.
Como na Suíça seu solo é montanhoso e carece de coerência e
unidade (MALAGRIDA apud MARTINS, p. 128).

Também multilinguístico, o Estado suíço teve sucesso em sua administração


democrática na forma de uma confederação de cantões. Maior, a Bolívia poderia
descentralizar o poder de seu Estado aparente, na expressão de Zevala Mercado, para se
tornar uma confederação de nações indígenas. Um passo nesse sentido foi a criação do
primeiro governo autônomo indígena do país: o Autogoverno da Autonomia Indígena
Guarani Charagua Iyambae, na província de Santa Cruz, a ser conduzido mediante
costumes ancestrais.5

Os pashtuns do Afeganistão também servem com exemplo de povo guerreiro das


montanhas. Dois gêneros de vida prevalecem dependendo da região do país. Os pashtuns
dos vales e planícies adotam o gênero de vida ‘qalang’, caracterizado pela produção de
um excedente econômico apropriado por meio da cobrança de taxas pelo Estado, ou da
renda fundiária pelos grandes proprietários de terra. Enquanto que os pashtuns das
montanhas do Hindu Kush praticam o gênero de vida ‘nang’, marcado pela produção de
subsistência necessária para a manutenção da honra, liberdade e independência da tribo.
Nos vales predomina a autoridade do Estado, regiões chamadas de ‘hukumat’, enquanto
que nas montanhas o poder do conselho tribal é mais forte, territórios chamados de
‘yaghistan’, ou ‘terra de rebeldes’ (REGIANI, 2015, p. 5454-5455), razão pelo qual
historicamente as tribos pashtuns resistiam, e ainda resistem, a todos que tentam
subjugar suas terras: Império Britânico, União Soviética, Estados Unidos pós-11/09, e
Paquistão nos territórios tribais. As semelhanças entre os casos afegão e boliviano ainda
se estendem para a multi-etnicidade de ambos os Estados, a forte influência dos laços
tribais na sociedade, e o uso cultural de plantas que também possuem valor narcótico:
respectivamente a papoula e a folha de coca.

Outros exemplos de povos guerreiros montanheses incluem os curdos, que lutam


pela criação de seu Estado nas cadeias de montanhas Zagros e Taurus; os nepaleses
gurkhas do Himalaia, que impressionaram em batalhas contra os britânicos pela sua
coragem, sendo transformados posteriormente numa tropa especial do exército imperial;
os etíopes, que sob a liderança de Menelik, foram os únicos a derrotarem um exército
colonial europeu e manterem sua independência; os iemenitas, que rechaçaram
intervenções de estados muito mais poderosos como o Egito e agora a Arábia Saudita.

Conclusão

Numa época marcada pela ascensão do regionalismo político na Bolívia, que divide
o país em duas metades opostas e alimenta o separatismo de Santa Cruz, agora não mais
com base no quadro hidrográfico como pensava Malagrida, mas por resistência
econômica e ideológica das elites bolivianas orientais, Travassos continua atual. O divorcio
étnico não é algo muito explorado por Travassos, porém, como mostramos, ele sabia da
realidade antropogeográfica peculiar da Bolívia.

A solução travassiana para superar a instabilidade geográfica era a construção de


ferrovias conectando os centros econômicos das diferentes regiões do país – Cochabamba
nos Andes, Sucre no Prata, e Santa Cruz no Amazonas –, os quais formariam um triângulo
estratégico que revelaria o alinhamento externo da Bolívia em determinado momento. A
Ferrovia Bioceânica Santos-Arica colocaria a Bolívia, e demais países andinos, na órbita de
influência brasileira. Hoje, exatamente o trecho que passaria dentro do referido triângulo

5
ETNIA guarani forma primeiro governo autônomo indígena da Bolívia. Portal Bol. 13 de
Setembro de 2016
é o que falta ser construído, colaborando para o regionalismo do país. Pois Santa Cruz,
que depende do gás natural exportado para países do Mercosul, inclina-se para o
Atlântico, enquanto que La Paz, inserida nos Andes, continua voltada para obter um
acesso ao Pacífico.

A Ferrovia Bioceânica Santos-Arica não só permitiria uma maior integração entre a


porção ocidental e oriental do país, contrabalanceando as tendências separatistas, como
também a integração continental sulamericana por meio da Bolívia, que deixaria de ser
um Estado-tampão entre Brasil e Argentina para se tornar num Estado-integração. Suas
vantagens em relação à Ferrovia Brasil-Peru são claras, não só para a Bolívia, como
também para o Brasil.

Evo Morales, primeiro índio eleito do país, vem conduzindo uma verdadeira
revolução graças a um programa de governo que rompeu com o paradigma neoliberal
adotado por sucessivos e fracassados governos da oligarquia hispânica. Embora governe
sob uma sigla socialista, sua ideologia é indigenista ao mesmo tempo que visa
desenvolver o país através da nacionalização dos recursos naturais, no que consideramos
um exemplo de Arqueomodernidade, e de que o Eurasianismo, como nova teoria política,
pode ser válido para a América Latina.

A política equilibrada de Morales, combinando tradição indígena com


modernização, vem obtendo resultantes expressivos, com a Bolívia sendo um dos países
da América Latina mais prósperos. Embora a economia boliviana seja pequena, o fato de
ser a economia que mais cresce na América Latina, serve como uma injeção de ânimo no
Mercosul, um bloco cujas economias líderes de Brasil e Argentina passam por uma
recessão. O fortalecimento econômico aliado a sua geografia central devem dar
protagonismo ao líder indígena entre os governos de esquerda da região, aproveitando o
momento nem tão bom vivido por Cuba e Venezuela, e protegido de uma eventual
agressão imperialista ianque pela fortaleza natural que são as montanhas.

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