A Virtual Bookstore apresenta mais uma grande obra de: Lima Barreto

Marginália
Virtual Bookstore (www.vbookstore.com.br), a verdadeira livraria virtual da Internet Brasileira. Texto scanneado e passado por processo de reconhecimento óptico de caracteres (OCR) por Renato Lima ( Precisamos de você! Visite nossa página de ajuda em e saiba como contribuir com o nosso projeto. Esse arquivo pode ser redistribuído livremente, desde que mantidas as informações acima. Prefácio da edição online. Se em todos os livros de Lima Barreto sempre há um pouco de personalismo, Marginália é talvez a obra em que estamos mais perto do mestre. Reúne-se nesse livro a sua intensa atividade jornalística, suas denúncias, suas pesquisas populares e seu maior amor: a literatura. Marginália é um verdadeiro amálgama de Lima Barreto. Temos todas as suas facetas em um compêndio. É possível identificar o Lima Barreto incentivador de novos escritores, sempre disposto a ajudar aqueles que escreviam com a “qualidade superior de escritor: a sua sinceridade.” O Lima Barreto da literatura militante, contra o helenismo pedante e ridículo, muito em voga no seu tempo. O folclorista, retomando as superstições, credos e sonhos do seu povo e compilando canções populares. Há até o Lima Barreto criador da Liga Brasileira Contra o Futebol... A obra está dividia em três partes: Marginália, Impressões de Leituras, Mágoas e Sonhos do Povo. É importante também destacar a sua conferência “O Destino da Literatura”, onde reafirma os princípios que nortearam a sua produção, e se não lhe deram a glória efêmera do seu tempo, o ascendeu para a glória da história. Renato Lima www.vbookstore.com.br

A QUESTÃO DOS "POVEIROS"

Essa questão dos pescadores originários de Póvoa do Varzim, em Portugal, que, desde muitos anos, se haviam especializado, entre nós, na pesca em alto mar, e como que a tinham monopolizado, por parecer terminada, merece ser epilogada, pois muitas são as notas que se lhe podem apor à margem. De parte a parte, nas afirmações e atos de um e outro adversário, um espírito imparcial encontra o que observar e material para reflexões. Os defensores lastimosos dos "poveiros", que não se quiseram naturalizar brasileiros e, por isso, se repatriaram, encarniçaram-se contra os japoneses, entre outros motivos, porque eles se insulam na massa da população nacional, com a qual parece não quererem ter senão rápidos contatos, os indispensáveis para os seus negócios. Curioso é que encontrem, unicamente nos japoneses, essa repugnância pela imitação com o geral da população brasileira, quando os tais "poveiros" a possuem ou possuíam também, a ponto de não permitirem que, entre eles, houvesse outra gente, empregada nas suas pescarias, senão os naturais de Póvoa do Varzim. Quando menino e adolescente, devido à ocupação de meu pai, na ilha do Governador, andei enfronhado nessas coisas de pesca e sabia bem desse exclusivismo dos "poveiros", extensivo até aos outros seus patrícios portugueses, oriundos de outras localidades de Portugal. Pessoa de toda a confiança, há dias, informou-me que dos estatutos de uma sociedade de tais pescadores naturais de Póvoa do Varzim constava, em letra redonda, não poder fazerem parte dela senão os nascidos naquele lugarejo de Portugal. Os portugueses de Outra origem, que possuíam canoas, redes, "currais" e outros petrechos de pesca em escala mais ou menos desenvolvida, e a exerciam no interior da baía, empregavam na sua indústria indiferentemente auxiliares quaisquer, fossem ou não seus patrícios. Os "poveiros" não; quem não é de Póvoa não pesca com eles; e a sua vida é toda feita à parte dos outros portugueses e dos demais de outra qualquer nacionalidade, brasileira ou não. Por aí, vê-se bem que eles levavam o seu isolamento do resto dos habitantes do Brasil mais longe que os japonêses. Estes fazem - estou disposto a crer - uma colônia confinada em si mesma, ferozmente isolada do grosso da nossa população; mas os "poveiros" só faziam uma colônia dentro da própria colônia de naturais do país de origem, com os quais pouco ou quase nada se misturavam. As minhas idéias e os meus princípios são inteiramente infensos a esse prurido de nacionalização quê anda por aí, e do qual os "poveiros" foram vitimas, tanto mais que, no caso desses homens, se trata de uma profissão humilde, tendo ligações muito tênues e remotas com a administração, a política e coisas militares do Brasil, não exigindo, portanto, o tal "fogo sagrado do patriotismo", a fim de apurar-lhe o exercício, junto a excelentes vencimentos. A verdade, porém, deve ser dita; e não foi senão isto que fiz. A desorientação a esse respeito é tal que estamos vendo como essa questão se vai desdobrando em lamentáveis espetáculos de violências inauditas. O inspetor de pesca, a quem não atribuo móveis subalternos - longe de mim tal coisa! - não contente de exercer draconianamente as atribuições que as leis e os regulamentos conferem a seu cargo, sobre redes e outras coisas próprias ao ofício de pescar, meteu-se também a querer regular o comércio do pescado. Com a sua educação militar, que só vê solução para os problemas que a sociedade põe na violência, não trepidou em empregá-la, violando os mais elementares princípios constitucionais. Com auxílio da marinhagem do cruzador sob seu comando e de sequazes paisanos, talvez mais brutais e ferozes do que as próprias praças de marinha, apesar de estarem habituadas estas, desde tenra idade, nas Escolas de Aprendizes, a ver, num oficial de marinha, um ente à parte, um semideus arquipoderoso, cujas ordens são ditames celestiais - com semelhante gente, violentamente, pôs-se a apreender as "marés" nas canoas de pescaria, para vendê-las ao preço que entendesse, deduzir percentagem arbitrariamente calculada, e, ainda por cima, a intimar os pescadores isolados a

se matricularem em umas famosas colônias de pesca, improvisadas do pé para a mão. Tudo isto consta de jornais insuspeitos e não houve quem contestasse. Essa subversão das mais comezinhas garantias constitucionais, levada a efeito por um oficial que, por mais distinto que seja, não pode possuir autoridade para tanto, como ninguém a tem, leva-nos a pensar como as nossas instituições republicanas vão respondendo muito mal aos intuitos dos seus codificadores e legisladores. Seja qual for a emergência, pouco a pouco, não só nos Estados longínquos, até mesmo nos mais adiantados, e no próprio Rio de Janeiro, capital da República, a autoridade mais modesta e mais transitória que seja procura abandonar os meios estabelecidos em lei e recorre à violência, ao chanfalho, ao chicote, ao cano de borracha, à solitária a pão e água, e outros processos torquemadescos e otomanos. É o regímen de "villayet" turco em que estamos; é o governo de beis, paxás e cádis o que temos. Isto é um sintoma de moléstia generalizada. A época que atravessamos parece ser de loucura coletiva em toda a humanidade. Havia de parecer que a gente de juízo e de coração, com responsabilidade na direção política e administrativa dos povos, depois dessa chacina horrorosa e inútil que foi a guerra de 1914, e das conseqüências de miséria, fome e doença que, acabada, acarretou ainda como contrapeso procurasse afugentar, por todos os meios, dos seus países, os germens desse aterrador flagelo da guerra; entretanto não é assim. Em vez de propugnarem uma aproximação mais fraternal entre os povos do mundo, um mútuo, sincero e leal entendimento entre todos eles, como que timbram em mostrar desejarem mais guerra, pois estabelecem iníquas medidas fiscais que isolam os países uns dos outros; tentam instalar artificialmente indústrias que só são possíveis em certas e determinadas regiões do globo, devido às condições naturais, e isto ainda no fito de prescindirem da cooperação de outra nação qualquer, amiga ou inimiga; e - o que é pior - todos se armam até os dentes, mesmo à custa de empréstimos onerosíssimos ou da depreciação das respectivas moedas, originada por emissões sucessivas e inúmeras, de papel-moeda. Estamos no tempo da cegueira e da violência. Max-Nordau, em artigo que uma revista desta cidade traduziu, cujo título é Loucura Coletiva, - observa muito bem, após examinar os despropósitos de toda a sorte que se seguiram à terminação oficial da grande guerra: "Dizia-se antigamente: "Todo o homem tem duas pátrias, a própria e depois a França". Pois esta mesma França, tão hospitaleira, tão carinhosa, mostra agora a todos os estrangeiros um semblante hostil e, durante a maior parte do tempo, torna-se impossível a estada em seu solo. As relações entre, povo e povo, entre homem e homem, quebraram-se violentamente e cada país encerra-se por detrás das suas fronteiras, opondo-se a tôda a, infiltração humana do exterior. "Esperava-se que à guerra sucedesse a reconciliação. Pelo contrário, procura-se por todos os lados atiçar os ódios, exasperar os rancores, excitar a sede de vingança. Mais adiante, ele acrescenta esta observação que pode ser verificada por qualquer: "Também se esperava um desarmamento geral, mas em toda a parte se reorganizam os exércitos e as marinhas, com mais impetuosidade que nunca. O militarismo torna-se mais forte e vai imperando em países onde anteriormente era desconhecido." Essa mania militar que se apossou de quase todos os países do globo, inclusive o nosso, levou todos eles a examinar e a imitar a poderosa máquina guerreira alemã. Os seus códigos e regulamentos militares vão sendo mais ou menos estudados e imitados, quando não são copiados. Não se fica só nisso. A tendência alemã, ou melhor, prussiana, de militarizar tudo, os mais elementares atos da nossa vida civil, por meio de códigos, regulamentos, penas e multas, vai-se também apossando dos cérebros dos governantes que, com afã, adotam tão nociva prática de asfixiar o indivíduo num "batras" legislativo.

O ideal dos militares atuais não é ser um grande general, ao jeito dos passados, que, aos seus predicados guerreiros, sabiam unir vistas práticas de sociólogo e de político. O ideal deles é o cabeçudo Ludendorff, cujas memórias denunciam uma curiosa deformação mental, obtida pelo ensino de uma multidão de escolas militares que o militarismo prussiano inventou, as quais têm de ser freqüentadas pelos oficiais que ambicionam altos postos. Tais escolas tiram-lhes toda e qualquer faculdade crítica, todo o poder de observação pessoal, fazendo-os perder de vista as relações que tem a guerra com outras manifestações de atividade social, para só ver a guerra, só a guerra com os seus petrechos, suas divisões, seus corpos, etc., citados pelo "Cabeçudo", cabalisticamente, pelas iniciais de suas denominações. Esqueceu-se ele que seu livro era destinado, por sua natureza, a ser lido pelo mundo inteiro, e o mundo inteiro não podia viver enfronhado nas coisas pasmosas da burocracia militar alemã, para decifrar tais hieróglifos. Ludendorff não é um general; é uma consolidação viva das leis e regulamentos militares da Alemanha. Não foi à toa que o célebre jornalista alemão Maximiliano Harden, falando do livro do general francês Buat sobre esse famigerado Ludendorff, a mais alta expressão da lamentável limitação do espírito militar em todos os tempos, disse: "... é uma obra -prima, de clara psicologia latina, dominada em toda sua extensão por um espírito cavalheiresco e uma forte consciência de justiça, que fornecerá ao leitor alemão uma relação maior de verdades que as execráveis e copiosas banalidades editadas por quase todos os generais alemães". Houve quem chamasse o Sr. general Ludendorff, autor também de "execráveis e copiosas banalidades", de César. Sim, ele pode ser César; mas um César que não escreverá nunca a Guerra das Gálias e não transformará nenhuma sociedade. O mundo todo, porém, está fascinado pelos métodos alemães. Pode-se dizer que a Alemanha, depois de vencida, é vencedora pela força hipnótica de sua mania organizadora, até as menores minúcias. O brutal e odioso Estados Unidos, com a Alemanha aparentemente vencida, é outro país modelo para os que estão sofrendo de mal de imitação e maluquice organizadora, concomitantemente. Foi talvez nas coisas peculiares do país de "Uncle Sam" que, certamente, o Sr. Norton de Matos, ministro de Estado de Portugal, buscou inspirar-se para estabelecer a seguinte cláusula, a que se deviam obrigar os "poveiros" repatriados, no caso de quererem estabelecer-se nas colônias portuguesas da África. Ei-la, como vem estampada na Pótria, de 28 de novembro último: "...que evitem (os "poveiros") a comunicação e as relações de ordem sexual com o elemento nativo da África, de cor". Uma cláusula destas é por demais pueril e ridícula. Não é preciso dizer por quê; e seria escabroso. Mas, à vista dela, nós nos podemos lembrar de dois casos célebres que deviam incidir na punição do Sr. Norton de Matos, se ele fosse ministro ou coisa que o valha, no grande século das descobertas e conquistas portuguesas. Um é com Camões, cuja glória universal é um dos mais justos orgulhos de Portugal. Pois bem: o grande épico andou lá, pelo ultramar, de gorra, com uma rapariga de côr. Creio até que se chamava Bárbara e o autor dos Lusiadas fez-lhe versos, aos quais intitulou se não me falha a memória "Pretidão do Amor". Li isto há bastantes anos no Cancioneiro Alegre, de Camilo Castelo Branco. O outro caso dessa espécie de comunicações e relações que o Sr. Norton de Matos divinamente proíbe, ao jeito da nação do Paraíso, passou-se com o Albuquerque terríbil. Ele mandou matar sumariamente um seu soldado ou homem d'armas (parece que se chamava Rui Dias), por suspeitá-lo amoroso de uma escrava, da qual o extraordinário Afonso d'Albuquer

que não desprezava totalmente os encantos secretos, segundo tudo leva a crer. Camões, no seu maravilhoso poema, alude ao fato; e Teófilo Braga, no seu Camões o elucida. E assim que o vate lusitano comenta o caso, no - Canto X, XLVII. Vou transcrever os quatro primeiros versos da oitava. Ei-los: Não será a culpa abominoso incesto, Nem violento estupro em virgem pura Nem menos adultério desonesto Mas cuma escrava vil, lasciva, e escura. Vejam bem como Camões diz quem foi a causa do terríbil Albuquerque por na sua "fama alva, nódoa negra e feia". Estou vendo daqui o Sr. Norton de Matos, quando foi aos embarques, para a Índia, de Albuquerque, em 1503 (primeira vez), e de Camões, em 1553. E preciso supor que o Sr. Matos pudesse ser ministro durante tão dilatado lapso de tempo. Admitido isso, certamente o ministro havia de recomendar a cada um deles ter sempre presente à lembrança, a sua prescrição mais ou menos de Deus que larga um qualquer Adão no Paraíso. E falaria assim: - Olhe, Sr. d'Albuquerque, V.M. foi estribeiro-mor del-Rei D. João lI, a quem Deus tenha em sua santa guarda; V.M. é um grande fidalgo e deu mostras em Nápoles de ser um grande guerreiro - não vá V.M. meter-se lá nas Índias com as negras. Cuide V.M. nisto que lho digo, para a salvação de su'alma e prestígio da nação portuguêsa. Ao cantor inigualável das proezas e feitos do Portugal glorioso, ele aconselharia desta forma: - Sr. Luís de Camões, V.S. é um poeta, ao que se diz, de bom e valioso engenho; V.S. freqüentou o paço dei-Rei; V.S. versejou para as damas e açafatas da côrte. Depois de tudo isto, não vá V.S. meter-se lá, nas índias, com as negras. Tome VS. tento nisso. Não há dúvida alguma que a providência do Sr. Matos é muito boa; mas a verdade é que os tais Amon, Lapouge, Gobineau e outros trapalhões antropólogos e etnográficos, tão do paladar dos antinipões, não admitem como lá muito puros os portugueses. Oliveira Martins também. Dá-lhes uma boa dose de sangue berbere. Isto não vem ao caso e só tratei de tal por mera digressão, mesmo porque este modesto artigo não passa de um ajustamento da marginália que fiz às notícias lidas por mim, nos quotidianos, enquanto durou a questão dos "poveiros". Era tal a falta de uma segura orientação nos que se digladiavam, que só tive um remédio para estudá-la mais tarde: cortar as notícias dos jornais, colar os retalhos num caderno e anotar à margem as reflexões que esta e aquela passagem me sugerissem. Organizei assim uma Marginália a esses artigos e notícias. Uma parte vai aqui; a mais importante, porém, que é sobre os Estados Unidos, omito por prudência. Hei de publicá-la um dia. Contudo, explico por que entram os Estados Unidos nela. O motivo é simples. Os defensores dos "poveiros" atacam os japonêses e se servem dos exemplos da grande república da América do Norte no seu proceder com os nipões. Fui estudar alguma coisa da história das relações yankees com outros Estados estrangeiros; é deplorável, é cheia de felonias. Lembrei-me também como lá se procede com os negros e mulatos. Pensei. Se os doutrinários que querem que procedamos com os japonêses, da mesma forma com que os Estados Unidos se comportam com eles, forem vitoriosos, com a sua singular teoria, não faltará quem proponha que também os imitemos, no tocante aos negros e mulatos. É lógico. Então, meus senhores, ai de mim e de... muita gente! Gazeta de Notícias, 2-1-1921.

HOTEL 7 DE SETEMBRO Li nos jornais que um grupo de senhoras da nossa melhor sociedade e gentis senhoritas inauguraram, com um chá dançante, a dez mil-réis a cabeça, o Hotel do Sr. Carlos Sampaio, nas encostas do morro da Viúva. Os resultados pecuniários de semelhante festança, segundo diziam os jornais, reverteriam em favor das crianças pobres, das quais as referidas senhoras e senhoritas, agremiadas sob o título de "Pequena Cruzada", se fizeram espontâneas protetoras. Ora, não há nada mais belo que a Caridade; e, se não cito aqui um profundo pensamento a respeito, motivo é não ter ao alcance da mão um dicionário de "chapas". Se o tivesse, os leitores veriam como eu ia além do esteta Antônio Ferro, que saltou no cais Mauá, para nos ofuscar, com os seus trapos de José Estêvão, Alexandre Herculano e outros que tais! Felizmente não o tenho e posso falar simplesmente - o que já é uma vantagem. Quero dizer que semelhante festa, a dez mil-réis a cabeça, para proteger crianças pobres, é uma injúria e uma ofensa, feita a essas mesmas crianças, num edifício em que o governo da cidade gastou, segundo ele próprio confessa, oito mil contos de réis. Pois é justo que a municipalidade do Rio de Janeiro gaste tão vultosa quantia para abrigar forasteiros ricos e deixe sem abrigo milhares de crianças pobres ao léu da vida? O primeiro dever da Municipalidade não era construir hotéis de luxo, nem hospedarias, nem zungas, nem quilombos, como pensa o Sr. Carlos Sampaio. O seu primeiro dever era dar assistência aos necessitados, toda a espécie de assistência. Agora, depois de gastar tão fabulosa quantia, dar um bródio para minorar o sofrimento da infância desvalida, só uma coisa resta dizer à edilidade: passem bem! Um dia é da caça e outro é do caçador. Digo assim, para não dizer em latim: "Hodie mihi, cras tibi". Nada mais ponho na carta. Adeus. Careta, 5-8-1922.

15 DE NOVEMBRO Escrevo esta no dia seguinte ao do aniversário da proclamação da República. Não fui à cidade, e deixei-me ficar pelos arredores da casa em que moro, num subúrbio distante. Não ouvi nem sequer as salvas da pragmática; e, hoje, nem sequer li a notícia das festas comemorativas que se realizaram. Entretanto, li com tristeza a notícia da morte da princesa Isabel. Embora eu não a julgue com o entusiasmo de panegírico dos jornais, não posso deixar de confessar que simpatizo com essa eminente senhora. Veio, entretanto, a vontade de lembrar-me o estado atual do Brasil, depois de trinta e dois anos de República. Isso me acudiu porque topei com as palavras de compaixão do Sr. Ciro de Azevedo pelo estado de miséria em que se acha o grosso da população do antigo Império Austríaco. Eu me comovi com a exposição do Dr. Ciro, mas me lembrei ao mesmo tempo do aspecto da Favela, do Salgueiro e outras passagens pitorescas desta cidade. Em seguida, lembrei-me de que o eminente Sr. Prefeito quer cinco mil contos para

talvez. das classes de obras que eles consultam e da língua em que as mesmas estão escritas. num dizer. de que era cliente. tratando das candidaturas presidenciais. olho-os.reconstrução da Avenida Beira-Mar. em casa. Entretanto . mais acessível. como devia qualificar perfeitamente a República. tendo como "repoussoir" a miséria geral? Não posso provar e não seria capaz de fazê-lo. A estatística dos seus leitores é sempre provocadora de interrogações. os que não tem livros caros. de mil francos. mais acolhedora. não se pode compreender subindo os degraus da Ópera. sobretudo depois que se mudou para a Avenida e ocupou um palácio americano.obras de sua profissão. Não se discutia uma questão econômica ou política. aí das ruas. e não tinha a empáfia da atual. mas vi. A BIBLIOTECA A diretoria da Biblioteca Nacional tem o cuidado de publicar mensalmente a estatística dos leitores que a procuram. espadim e meias de sêda. como uma pessoa que se estarrece de admiração diante de suntuosidades desnecessárias. Sal pelas ruas do meu subúrbio longínquo a ler as folhas diárias. Vi em tudo isso a República. pensando. Não será. nos fastos da nossa história. do Garnier. quando vejo desses monumentos. amo a biblioteca e. mas um título do Código Penal. numa "venda" de que minha família é freguesa.a espórtula! O Estado tem curiosas concepções. Ninguém compreende que se subam as escadas de Versalhes senão de calção. leio-lhe sempre as notícias. como é que o Estado quer que os mal vestidos. Por exemplo: hoje. e não sei por quê. assim mesmo. marcando um grande passo na evolução política do pais. Pois é possível que. Quase todas elas estavam cheias de artigos e tópicos. pensei de mim para mim. 26-11-1921. para consultar . que fossem procurar no invisível. Careta. e esta. para a escolha do Chefe de uma Nação. um pouco. Afora o capítulo descomposturas. É ficar assim. para liquidar a sua dolorosa vida. Pouco freqüento a Biblioteca Nacional. da ostentação. Mas. recentemente esborrachada pelo mar. com cujo manuseio. como um burro. têm a sensação de estar pregando à mulher do seu amor? A velha biblioteca era melhor. os tristes. que treze pessoas consultaram obras de ocultismo. cá com os meus botões. Quero crer que sejam tristes homens desempregados. para pedir a meia dúzia de sestércios que lhe matasse a fome . o mais importante era o de falsidade. para consultar uma obra rara. mas. A minha alma é de bandido tímido.eu o sei bem . como o meu amigo Juvenal. que a República é o regímen da fachada. os maltrapilhos "fazedores de diamantes" avancem por escadarias suntuosas. destinada aos pobres-diabos. medroso de entrar na vila do patrício. o mais importante objeto de discussão seja esse? Voltei melancolicamente para almoçar. O antigo poeta é por demais sabido. diz a notícia. mulheres sem decote e colares de brilhantes. conforme o gosto antigo e roceiro. Lia-as. sinais certos da sua felicidade ou infelicidade. se não vou lá. . por cima de tudo. de abrigar uma casa de instrução. do falso brilho e luxo de "parvenu". em um palácio intimidador. Quem serão elas? Não acredito que seja o Múcio. é das mais curiosas.o 15 de Novembro é uma data gloriosa.

isto é. Será a D. uma espécie de dote. do Sr. Decididamente este país está perdido. trilhando os caminhos batidos. dos engenheiros. e certamente. É muito justo. dos cônegos. no entender deles. Ela garantirá a "zona" e o marido futuro ficará sossegado quanto às despesas da casa. tal e qual como no guarani. não há distintivo? Como não cabe o mesmo direito às talentosas executoras do Instituto de Música? . doutora do Instituto. que só duas pessoas procurassem ler obras na língua que. melhor. às claras. talqualmente as senhorinhas da Escola Normal. no Rio. Deolinda Daltro? Será algum abnegado funcionário da inspetoria de caboclos? É de causar aborrecimento aos velhos patriotas.a arte musical. Quando uma moça. O ANEL DOS MUSICISTAS As meninas do Instituto de Música escreveram aos jornais. Não é possível que num pais democrático.. que em geral nunca em arte foram criadoras . Alberto Nepomuceno. a que tem maiores possibilidades entre nós é a de professora de música. na frente. a moças. do Sr. nos fundos. nos lados. seja a casa em bairro rico ou pobre. Não há invento nem novidade. uma moça que andou aos cuidados do Sr.estudam unicamente para o professorado . não dá nenhuma demonstração superior da nossa emoção. De tal modo é rendoso o oficio de professora de música e de seus instrumentos.. deve merecer o nosso apoio entusiástico. pois se o destino da mulher é o casamento. Para mim. o que ele rende. que as brigas vergonhosas que há de vez em quando no Conservatório. na nossa cidade. Arnaud Gouveia. ficará sendo assim. tudo o que possa concorrer para que elas o cumpram. porque. Em grego. são doentes de manias.. entre nós. dos advogados. dos dentistas. como está. Se a medida não trouxer progressos à arte de Euterpe. as obras consultadas foram unicamente duas. elas querem também um distintivo que as extreme do vulgo. na lógica da nossa sociedade. ao fim da viagem não esperará muito que um namoro se transforme em noivado. que escreve óperas para exportação. possa ser confundida com qualquer rapariga aí. Richard. desde muito.. quando garantidas pelo Instituto do largo da Lapa. eles não lêem mais grego. A exemplo dos médicos. entra. O guarani foi procurado por duas pessoas. Para todos os que têm um curso qualquer. entretanto. só podem ser atribuidas à ganância dos professores e acólitos na caça e disputa de discípulos. a mulheres. 13-1-1915. As suas sacerdotisas agora querem um anel. Cherchez l'argent. Correio da Noite. dos bacharéis do Pedro II. O anel à mostra. for de anel no dedo pelos bondes a fora. esses dois leitores não foram os nossos professores de grego. Entregue. A música. quando acabam o seu curso secundário.Leio mais que houve quatro pessoas a consultar obras em holandês. Os motivos disto estão entrando nos olhos de todos os que residem no Rio de Janeiro e vivem sitiados por pianos ou violinos. dos anseios e sonhos peculiares a nós. Limita-se a repetir. é a dos verdadeiros brasileiros.. lembrando a criação de um anel que as marcasse ao fim do curso ou dos cursos daquela casa sonora. porque de todas as profissões femininas. das raparigas da Escola Normal.. que foram um instante lembrar-se na língua amiga das amizades que deixaram lá longe. é a única arte em que raramente aparece uma tentativa de criação.

nós somos conhecidos (a repetição é a melhor figura de retórica). a conta de juros da Caixa Econômica. A esse respeito. iria magnificamente. se dependesse do meu voto. Quanto ao seu futuro marido. Não amesquinho seu noivo ou namorado.justificam . uma humilhação de contínuos e burocratas idiotas.Certamente. Gosto da Morte porque ela é o aniquilamento de todos nós. e pode deixar de lado o nome pomposo da matemática. extremar-se do vulgo feminino. Pense em outras. e. minha senhora. é dela que nós esperamos a nossa redenção. desde já estariam usando o berloque simbólico. tem os "handbooks" que lhe suprirão as falhas na sabedoria. a Morte é que deve vir em nosso socorro. porém. mas. Aritmética. como nós todos. A covardia mental e moral do Brasil não permite movimentos de independência. É ela que faz todas as consolações das nossas desgraças. em certas partes dos corpos femininos. Ficaria a senhora Dra. animo-me a lembrar a ambos. que os doutores também poderiam usar. para a maioria dos engenheiros. imagino eu. se algum dia passar além do trânsito ou do nível. entre nós. pelas nossas boas qualidades. na Escola Politécnica. Faço uma observação. e a safira é a pedra dos anéis de engenheiros. pois nunca foi do meu temperamento amesquinhar um doutor ou futuro doutor. a vida deve ser uma vitória. ELOGIO DA MORTE Não sei quem foi que disse que a Vida é feita pela Morte. Em vida. Além de tudo. É inútil estar vivendo. para isto. todos nós só somos conhecidos pela calúnia e maledicência. basta o Viana. em música. A vida não pode ser uma dor. na escala da dureza. Tudo . que tanto a engenharia dele como a música da sua deidade. Procure na Une Charogne isso. campo para as grandes batalhas de espírito e inteligência. no colo. ela só quer acompanhadores de procissão. no fim quando ambos forem se servir de uma coisa e da outra. Seria mais um. minha senhora. depois que Ela nos leva. sous l'herbe et les fioraisons grassées". fosse a gentil senhorinha formada. porém. e uma pedra tão dura não fica bem para emblema de uma arte tão doce e tão pouco rígida. até que. As pedras. Ortiz ou Villiot. E. Se o fito é distinguir-se. 25-1-1918. para ser dependente dos outros. Contudo. que só visam lucros ou salários nos pareceres. ocupa um dos primeiros lugares. desde já estudasse as divisões da nossa moeda. há um processo seguro: É a tatuagem. porque .a música tem muita coisa com a matemática. De passagem seja-me permitido lembrar à futurosa Cellini acadêmica. é indelével. querem elas que sejam de safira. que elas tem toda a razão. A moça que projetou o anel tem certamente um namorado aos cuidados dos Srs. Não há. a matemática que entrar nelas pouco além irá daquela que se aprende nas escolas primárias. que a safira. A matemática. é ela a quem todos os infelizes pedem socorro e esquecimento. "moisir parmi les ossementes. A Lanterna. unicamente. eu quero crer que a Morte mereça maiores encômios. muito comumente. para bem poupar e fazer render o que ganhar nas suas lições. Quando. É a destruição contínua e perene que faz a vida. é inútil estar vivendo para sofrer os vexames que não merecemos. gosto da Morte porque ela nos sagra. é assim como o latim para um grande número de padres: eles sabem só pronunciá-lo. Seria melhor que a menina que ideou o anel. e. como diz Baudelaire. por exemplo. não se pode conseguir isto.

Além de produções avulsas em jornais e revistas. são eles os iludidos. para melhoria das condições da existência da nossa triste Humanidade. tidas por doidos. Le Bon dizia isto a propósito de Maomé. São eles os heróis. para só deixar em campo os desejos dos poderosos e prepotentes. trata o agitador de louco. Todas elas têm sido feitas por homens. Eu sou escritor e. Se não disponho do Correio da Manhã ou do O Jornal. é coisa contra a qual eu protesto. Nunca foram os homens de bom senso. que têm títulos literários equívocos e vão para os jornais e abrem uma subscrição em favor de suas pretensões acadêmicas. e. Os órgãos de publicidade por onde se podiam elas revelar. Paulo Barreto. seja grande ou pequeno. muito bem recebidos pelos maiores homens de inteligência de meu país.. Portanto. A agitação de uma idéia não repercute na massa e quando esta sabe que se trata de contrariar uma pessoa poderosa. Sou candidato à Academia de Letras. mas que procurem desmerecer os seus concorrentes. nasceu pobre e não quer ceder uma linha da sua independência de espírito e inteligência. são eles os reformadores. Não há nada mais justo e justificável. Procura-se abafar as opiniões. e não há Chanceler falsificado e secretária catita que o possa contestar. estaríamos ainda no Cro-Magnon e não teríamos saído das cavernas. nunca mendiguei elogios. os honestos burgueses ali da esquina ou das secretarias "chics" que fizeram as grandes reformas no mundo. é muito justo. na vaga do Sr. são eles que trazem as grandes idéias. para que desse choque surja o esclarecimento do nosso destino. Sendo assim. antes que ela me sagre na minha pobreza. para me estamparem o nome e o retrato. são fechados e não aceitam nada que os possa lesar. na minha desgraça e na minha honestidade. Ao vencedor. às vezes mesmo mulheres. tenho direito a pleitear as recompensas . portanto. creio que a minha candidatura é perfeitamente legítima. é que cada qual respeite a opinião de qualquer. Ela nos resgata e nos leva à luz de Deus. A divisa deles consiste em não ser panurgianos e seguir a opinião de todos.aqui é feito com o dinheiro e os títulos.. Dessa forma. na sua Civilisation des Arabes. com toda a razão. na minha infelicidade. no Brasil. só tem que fazer elogios à Morte. Mas. para própria felicidade da espécie humana. quem. Nunca lhes solicitei semelhantes favores. e é preciso. não tem nada de indecente. Ela é a grande libertadora que não recusa os seus benefícios a quem lhe pede. que não confiam nos seus próprios méritos. como eu. as batatas! A MINHA CANDIDATURA Vou escrever um artigo perfeitamente pessoal. sou alguma coisa nas letras brasileiras e ocultarem o meu nome ou o desmerecerem. Se nós tivéssemos sempre a opinião da maioria. não se quer isto. por isso mesmo podem ver mais longe do que os outros. Que eles sejam candidatos. sou autor de cinco volumes. chegam certos sujeitos absolutamente desleais. Estou cansado de dizer que os malucos foram os reformadores do mundo. Entretanto. eu a sagro. é uma injustiça contra a qual eu me levanto com todas as armas ao meu alcance. O que é preciso.

essa violência aos temperamentos individuais que é o serviço militar obrigatório. SOBRE A GUERRA As últimas proezas de cruzadores alemães bombardeando as costas da Inglaterra é de molde a provocar a seguinte reflexão: a esquadra inglesa não é lá essas coisas. que chega a poucos quilômetros de Paris e tem que recuar precipitadamente. era o seu constante pesadelo. por sua vez ficou imobilizada. com o poder numérico. a que a Alemanha desde muito se vinha entregando. Correio da Noite. com auxilio de amuletos patrióticos. Com esse procedimento deu sobejas mostras de que não se fiava muito na eficiência do seu exército. custosos maquinismos e gastar as fabulosas somas que gastou. levar a Alemanha tantos anos a adestrar um exército numeroso. Obrigou todos os países a estabelecerem esse crime contra a liberdade. A orgia militar. as suas constantes manobras não lhe deram. diante dos fortes franceses de Saona e Belfort. De resto.que o Brasil dá aos que se distinguem na sua literatura. parece. a superioridade esmagadora que era de esperar possuísse. quando deixou de invadir a França pelas fronteiras que tinha com esse país. contra a independência. de sítios e trincheiras. Apesar de não ser menino. O seu violento efetivo. Agora. Entretanto. a dotá-lo de material aperfeiçoado. Para fazer a velha guerra lenta. concordemos. se ela imobilizou a frota germânica. automatismo que adquiriu com manobras. Da mesma forma. O seu sábio preparo anterior. faziam esperar que ele esmagasse facilmente a França. Eu não temo abaixo-assinados em matéria de Letras. Um exército tão famoso. para ter a vitória assim duvidosa. não encontrarão na massa de camponeses homens em que se apóiem. e os homens que criam o futuro. 19-12-1914 ATÉ MIRASSOL . poderão agir. não estou disposto a sofrer injúrias nem a me deixar aniquilar pelas gritarias de jornais. não é essa formidável máquina de guerra que os nossos militaristas queriam que imitássemos. o exército alemão até agora tem andado muito abaixo de sua fama. penso eu. apesar do mata-mouros do canhão 42. tão poderoso. tão cheio de ff e rr. exercícios e trenagens constantes. não podendo fazer nada de eficiente para o aniquilamento dos vasos alemães. e violou a neutralidade belga para derrotar o país de Joana d'Arc. Careta. Numerosíssima. ela não pôde evitar que tal se desse. não valia a pena. a Alemanha ficará por muito tempo diminuída e os seus idiotas partidos guerreiros que se crêem eleitos e com a missão de dominar o mundo. quase toda acumulada diante das costas germânicas. tirava o sono ao mundo. há ainda a notar que. tal não se deu e a Alemanha confessa que não tinha esse poder esmagador. 18-8-1921.

O meu é novo em folha. que fica nos confins de S. etc. Envergonho-me da minha pobreza e dos meus humildes cigarros. seguem-se os filhos e filhas. alemães. Maldita seja a guerra! Estes meus pensamentos são interrompidos pela chegada de dois outros passageiros para os lugares restantes que me cercam.. que. Fala mal dos cigarros pobres e alude a altos negócios de contos de réis. em 1 de abril. embarquei para ela. Um dos meus amigos conhece o vizinho de vis-à-vis. erguida. uma criança de seis anos. carregando sacos. O amigo "descoberto" e o mais animado no falar. Encontram-no. atraído também pelo seu nome pitoresco. Sentam-se. que também tem horror aos "mata-ratos". satisfeito. depois. Paulo. para ela. Parece pessoa poderosa e rica. portanto. curvado. cigarros dos outros. Devem ser russos ou polacos. Tendo eu ficado nos bancos que estão imediatamente próximos à porta. Arrependo-me da viagem ou. na direita. Não se sentam logo. mal vestidos. entretanto. o vis-à-vis é obrigatório. carregando um grande saco. alegre. antes de 1914. Prevejo que terei que viajar com o azedume do companheiro de defronte.. de um louro sujo. se dirigiam tantos russos. por causa do tropêço que ela lhe vai causar às pernas.a classe . Há. guardando a escala de crescimento e da hierarquia doméstica. a contrariedade com semelhante vizinhança. Vão-se. Que será? Mete-me pena aquilo. . de não ter tomado a segunda classe. Procuram com o olhar um amigo no carro. está coberto com um encardido chapéu de palha. barbados. uma garrafa quebrada. a mulher. Vejo passar uma família de imigrantes em fila índia. Consolo-me. O trem põe-se em movimento. Há uma agitação que não é do meu gosto. É o Mário. É meu primeiro aborrecimento não caber o meu calhambeque de mala debaixo do banco.(Notas de viagem) I A CONVITE de meu amigo e confrade Dr. O último. antes. Entretanto. É um rapaz simpático.uma hora antes da partida. muito confiante em si. Fico contente. na Central. Na frente o pai. Até automóveis com malas postais e medas de jornais e revistas penetram nela. leva na mão esquerda um saco e. ele não esconde. vi que. mostra incômodo com a mala. ainda dois lugares disponíveis. Tem ar de ser de origem italiana. clínico nessa localidade de Mirassol. Tratam com o "romano" a troca do lugar dele com o do amigo descoberto. Possui mesmo uma forte cabeça romana. É o meu lugar. bacharel da Bahia. eu tão tímido! Chegam amigos e meu irmão. Por que deixaram a sua aldeia ou cidade? Foi a guerra. Os meus vizinhos desandam a conversar vivamente. Na portinhola. Ranulfo Prata. Alegria. na ordem da idade. O que me ficou defronte. talvez. italianos. Pergunta -me por que não a ponho debaixo do banco. aparece-me o G. fôssem tão ricos como aquele poderoso senhor que fala mal dos cigarros. com um bebê ao colo. Ainda bem. Tomei logo lugar no vagão de 1. Explico-lhe a razão. Põem-se a conversar. tanto mais que não se aborrece com a mala. Ei-lo que chega. Invejo-o. Já me olha o fronteiro com mais simpatia e não mostra tanto aborrecimento com a mala. Olho a plataforma. Isto me faz rir interiormente da sua presunção e do seu fumo. Estou encostado à portinhola e o viajante da esquerda.

Explica por que o Maurício. de onde em onde. As tricas e os truques de tão odiosa instituição são explicados. Chega um outro chefe eleitoral. de distúrbios eleitorais. Hoje.O de defronte. certamente venceria o Henrique. Esse parece não ter título algum. II Até bem pouco. porém. os outros dois. queijos e café aos viajantes dos comboios que atravessavam as suas terras. não levar guarda-pó era sinal de lamentável pobreza ou de mau gosto sem igual. segundo me parece. Quem não podia comprar um. do conservador para o liberal. poderosa e influente. tal qual fiz eu com o calhambeque da mala que levei e tantos dissabores me fez passar. Da maneira que fala de coisas de urna. como uma vestimenta chinesa ou japonesa. É que o fogoso tribuno quis abarcar o mundo com as pernas. Olho a plataforma da estação. Tratam de coisas eleitorais. desapareceram os guarda-pós. A conversa se generaliza. Já há o carro-restaurante e. a capacidade comercial das gentes ribeirinhas à Estrada de Ferro Central do Brasil consistia em vender frutas. A conversa eleitoral toma novo alento. Fala de coisas de capangas. Percebo que é coletor federal. porém. Todos o olham com inveja e eu também invejo a sua despreocupação. A moda pede que não se os use e exige até que se viaje com roupas caras e finas. é o mais velho dos três. por demais disposto a fornecer aos viajantes o que eles quiserem. mesmo. Se os tivesse concentrado no seu município. não foi diplomado. Careta. A viagem continua. Vai falando alto italiano. O de chapéu de palha encardida. percebo que é um velho politicão da roça que tem passado de partido para partido. que aprecia os cigarros caros. 23-4-1921. políticos. como se tudo isso fosse a coisa mais natural deste mundo. Vejo o bacharel G. pelos carros de passageiros. secunda-o nas suas apreciações. pode conversar tanto tempo e não ter uma idéia. as coisas mudaram. pelo menos é tomado como roceiro ou coisa parecida. nem mesmo de patente da Guarda Nacional. me parece médico. pedia-o emprestado. viajei com meu pai em trem de ferro. o bacharel da Bahia. de falsificações de atas. de Fagundes para Bernardes. Não compreendo nada dessa conversa de influências da roça. em menino. e. quem se apresentar no trem com um guarda-pó. não sei se devido ao progresso ou à moda. Quando a primeira vez. com essa morte.. Dois dos meus vizinhos. para Barbacena. se não levar vaia. mesmo que seja de sêda. deste para Bertoldo. o de Lacerda. Hoje. O vizinho. Matou o rudimentar comércio dos camaradas do interior. no carro. passar com uma graúda italiana muito clara. Dividiu os esforços por três Estados. atravessa um empregado dele. . por mais caro que seja. Veio o progresso. o que agora me olha com simpatia. viajavam com caríssimos ternos de linho imaculadamente lavados e passados a ferro. cuja profissão não é denunciada à primeira vista. uma reflexão sobre o atual estado angustioso do mundo? Chegamos a Belém. sem conseguir ser ao menos deputado de Niterói. mas fico a pensar: como é que gente tão rica.

com os Srs. Almachio Dinis e outros. etc. membro virtual. introduziu nos trens o lustrador de botinas dos graúdos do meu estofo que conseguem viajar na primeira classe. para criar trabalho e profissões. a quem perguntei por que usava o paletó aberto com a camisa à mostra. Eis um forte motivo que justifica os trejeitos de andadura que fazem as nossas melindrosas. cujo fino talento tanta admiração me causa. em compensação faz nascer outras profissões. e a transparência venusina de seus vestidos que tanto indigna o Sr. os "pedicures". pela conversa. já resolveu. a questão social. A alguém. em compensação. a meus pés.por que então suprimir o capote de brim que resguardava as nossas roupas dele? Por que tornar chique viajar com roupas impróprias que muito mal se defendem da poeira? É difícil encontrar razões para os preceitos da moda. peões e camaradas. III O trem corre e se aproxima dos limites dos Estados do Rio e São Paulo. que é fértil em absurdos. achei absurdo semelhante moda . passando instantes em uma estação. a organização da atual sociedade que me fazia tão rico e àquela criança tão miserável e pobre. em certa ocasião ao meio de uma grave sessão da Academia Brasileira. Mário de Alencar. para viajar . as minhas modestas botinas. uma pobre criança que me lustrava. 30-4-1921. pelo que dele ouvi. graças à sua capacidade de criar profissões miseráveis. e com pressa e mêdo. Pinto da Rocha. etc. Por ventura existiam essas profissões antigamente? Não há motivo para maldizer o estado atual da sociedade. O trem partiu e os meus companheiros de viagem voltaram a tomar assento e a discutir política que. com grande simplicidade de meios e palavras. os engraxates. sem aviso algum. Lembrei-me dessa frase do meu conspícuo amigo e confrade Mário de Alencar. os tripeiros. trouxe a supressão do guarda-pó. ainda dentro do Estado do Rio. Dei-lhe um cruzado e bendisse. Peixoto Fortuna. Os meus vizinhos voltam do carro-restaurante. os motorneiros. O progresso.deusa. aliás.Eu tinha posto uma roupa nova naquele dia. de que sou. Elas não vão além de mil e é freqüente que os palestradores repitam o milheiro de várias formas: "porque o Maurício não podia contar com os mil votos que o Fábregas deu ao . é a arte de dar felicidade aos povos e tornar a vida cômoda. respondeu-me: . vi agachada. como já disse. e. Entretanto.Se o progresso traz miséria. mesmo à noite . Essa grande arte de dirigir os povos e as nações é ali reduzida à mais simples expressão de modestas cifras. uso que constituiria um sinal de má educação antigamente. sem suprimir o pó das estradas de ferro. com o Sr.coisa que não aumentou nem diminuiu o meu valor. Careta. acompanhados agora de um outro cidadão que. Eduardo Ramos. deve ser coletor federal É um tipo atarracado. O Sr. segundo Bossuet. ela fabrica necessidades. foi ele que me observou o seguinte: .É porque é moda. os "chauffeurs". quando. O pó das estradas de ferro continua a existir. quase quadrado e. os massagistas. porém. naturalmente das autoridades do trem. da Liga Pela Moralidade. Veja você só os "manicures". assassinos e simples caipiras chamam pomposamente política. é muito entendido nesse negócio que os doutores e coronéis do interior. Mário de Alencar.

Há alguma diferença. depois se abraçarem. Acontece que ultimamente foi introduzido o uso estrangeiro de se beijarem pai e filho. É verdade que eu a estudei nas "public-houses" de New-York e Londres. tão natural.a questão a contento de todos e com rara sabedoria escolástica O menino saíra. etc. nas faces." Ainda mais simpatizo com esse meu companheiro de viagem. na rua da Alfândega. é também o intermediário mais perfeito entre o mistério da nossa alma e aquele que nos cerca. É tradicional que. Nessa despedida encontrei um problema nacionalista que rogo aos meus amigos Álvaro Bomilcar e Jackson de Figueiredo a resolverem-no quanto antes. . Ao chegar a uma estação qualquer. ao ser apresentado ao tal coletor. em ocasiões solenes. o filho se despede. e toma parecenças com os discursos parlamentares do meu simpático Cincinato Braga ou com os artigos do Mário Guedes. sem nenhum ralho na voz ou no olhar. O pequeno quer descarregar a culpa para o chefe de trem. antigamente. professor de agricultura.Olha o Maurício! Penso que é o de Lacerda e antegozo uma disputa de alta política eleitoral em que o meu Maurício de Lacerda certamente não deixará de pontilhá-la com algumas sentenças comunistas.. com o eminente Mark Twain. mas descarregou-os no Brandão". tal e qual faziam. A isto acode um outro: "não foi tanto pelos mil votos do Fábregas. as damas e moças. e continuamos a correr sobre os rails da Central. é natural que se esquecesse . e o Mário fez seus estudos com o avisado Miguel Calmon. com o mútuo tratamento de tu e você entre pais e filhos. ele ganharia". ligeiro e alegre. Percebo que é filho do médico.estou certo . exclama com terno espanto: . para assustar os contos de réis daquele insolente Mário que despreza os meus cigarros. 7-5-1921. que perdeu o trem ou fêz qualquer traquinada e não saltou na estação devida..Borges. como eu já era. ao lhe aparecer não sei que peste no seu gado. na Sociedade de Agricultura. tão simples. apelara para o Ministério vizinho do Hospício. e que.. Não há nisto e. sob o doce e longo olhar paterno. sobre coisas do Ministério Simões Lopes. graças à doutrinação da Igreja.. um afrouxamento do uso da nacionalidade. porém. por ser agora. dissera que a sua fazenda era só de criação. é um menino fardado de colegial. com quase quarenta anos. uma injúria irrogada aos manes dos nossos avós? Penso que há ai alguma coisa como que uma diminuição da forte constituição católica da família brasileira que sempre teve.. desculpa este também: "ele tem muito que fazer. o médico que viajava em frente a mim desde a Central. ao se encontrarem. e acompanha a conversa política dos seus amigos. o filho leve aos lábios a mão direita do pai e a beije no dorso. É a bênção que ainda hoje eu. para sossego da "brasilidade". ah! não fosse isso e a intervenção do "centro". mas. que. Sabem por quê? Porque ele. onde este último possui um campo experimental da cultura do fumo ou tabaco bravio. foi porque ele não soube trazer para o seu lado o Assunção. etc. os meus amigos católico-nacionalistas resolverão . Careta. nesses momentos. dentro da escuridão da noite. o pai. que dispõe de outros tantos. e ainda mais desejo conversar com ele sobre febre aftosa. tomo a meu pai. meu colega também. Infelizmente não é o de Lacerda. se é mãe do Crime e do Vício. que lhe enviara em auxílio um veterinário com uma lata de creolina. Dentro em breve. nos telhados velhos do edifício. por modelo o patriarcado bíblico. O pai recebe com bonomia as explicações do filho. também. Não sou autoridade no assunto. muito diferente dos amigos que o acompanham. A política naquela palestra de influências eleitorais reduz-se a números.

a pedido de "várias famílias". Imagina tu que estou aqui há bem um mês e ainda não pude ler convenientemente. fazem as delicias dos advogados e . mas. Faltam-lhe água e montanha. em pé. Um curioso tipo de plantador.. pela circunspeção e seriedade. ao que parece... Quero muito falar . a de soldado. para o conto de réis. Um é do Mário Sete. para convenientemente dar noticia de dois livros. as grandes notas de cem. idéias muito diferentes das minhas. entretanto. ainda. não tem em grande conta a terra e as suas árvores. Constituída assim a povoação do lugar. aos céus de dia e de noite. Um outro livro que. autor do formoso Rosas e Espinhos. deixando das derrubadas e das queimadas conseqüentes. Este pequeno de fisionomia verde-chumbo vai ser o diabo. é um romance que tem andado aqui de mão em mão e não sai de uma delas sem os maiores gabos e sem sugerir aos leitores reflexões sobre os encantos da vida roceira sobre a da cidade. devido à falsificação de títulos de posse. e até a conta de pares o é. com a sua natural mescla de imigrantes de várias proveniências.que não escreve ao menos isso? Passeio e converso. O caboclo passa por eles. depois. é a de oficial de justiça. mas brasileira. sem discordarem. Sem propósito algum. não só paulista."grilos". a fim de estudá-lo convenientemente. Merece ou não o Jornal do Comércio? Espero que ela será muito apreciada pelos conspícuos acadêmicos Afrânio Peixoto e Hélio Lôbo. vou pedir ao meu Félix Pacheco que a publique no Jornal do Comércio. É este o título do romance de Mário Sete. a não sei que propósito. Tem ela por tema "O destino da Literatura". contra a violência que sofreram. embora. como já disse a V. duzentos e quinhentos mil-réis são comuns..DIAS DE ROÇA (Carta) Meu caro amigo. Essas complicações. sem cessar. ainda não dei começo ao trabalho que tratei contigo fazer. de dois e três anos. hipotecas e anticreses são termos e instrumentos de créditos familiares a todos. já escrevi uma conferência literária que. com ar tímido de criança sonsa. como para significar o seu protesto e clamar. a crescer sobre as recentes derrubadas. a mais baixa profissão desta vida é a de advogado. apesar de ser a negação para o gênero. Ela corre atrás desse demônio do café que vejo pequenino. tenham ambos dos fins da literatura. se é que tenho algumas. escreve como eu ou como o Cardim do Jornal do Comércio. a que chamam . Sente-se que o "rush" da população para aqui. V. É um livro de Contos que todos aí conhecem. por isso mesmo. não pude ler o Senhora de Engenho. não faço nada. disse-me um dia destes: .dirá o amigo . e as florestas de perobeiras já fugiram para longe do povoado. Mirassol não é uma paisagem. desse livro em que o autor. Mas que diabo V. abandona o pseudo clássico de Aloísio. quanto mais os ouve.. é o de Gastão Cruís Coivara. O horizonte é igual e unido. e nem os olha.Moço: a pior. É muito pobre a esse respeito. altos troncos carcomidos e enegrecidos pelo fogo. Ele marcha para o conto. Aqui só se fala em conto de réis. converso com este ou aquele e me edifico. Há aqui intermináveis questões de terras. Pois. para aqui trouxe. apesar de médico. mas se revela um temperamento complexo de pensador-homem de letras. Letras. A bem dizer. é um gozo observá-la em todas as camadas. faz . me perguntou o que faço nestas paragens que não te mando o manuscrito prometido. depois.

etc. que me ocupo aqui onde estou. impedir a posse do mesmo senhor pela força. são atualmente piores que os almotacés do conde de Resende. E outra atitude ele não merecia. Por estas e outras eu sou completamente avesso a negócios de política. hospedar estrangeiros.. como representante da imprensa carioca. tem por fim tornar a vida cômoda e os povos felizes. Careta. Deixemos isso para mais tarde. Evite os protestos. Dai. Desde menino. Qualquer modalidade de hipocrisia política. que vejo a "política" do Brasil ser justamente o contrário. etc. de superior. conforme Bossuet. O dever nosso é evitá-lo de qualquer forma. caso fosse possível. PALAVRAS DUM SIMPLES Nunca me meti em política. A verdade. De forma que. Não sei os pródromos de semelhante barulheira. De V. com a nossa democracia. desta nossa leal e heróica cidade do Rio de Janeiro. Os prefeitos. e vou de graça. os edis de hoje mandam construir hotéis de oito mil contos. pobre e oprimido. São os meus dias de roça. entre nós houve uma barulheira política que quase sacudiu o pais. isto é. porque não acredito nela e muito menos nos políticos. A questão versava sobre uma falsificação de cartas. Bernardes excitaram os brios da força armada contra ele. coisa que não fazia aí.. mais ou menos com isto. Ela tende para tornar a vida incômoda e os povos infelizes. porém. Artur Bernardes. baseados nas referidas missivas. ver bobagens de uma "Exposição" de aterrado. É.. Toda a gente sabe que isso tem sido um flagelo. 14-5-1921. Tais cartas continham insultos ao Exército e os adversários do Sr. de que se revista o provimento deste ou daquele cargo de eleição. as autoridades municipais se encarregavam do bem-estar do seu povo. no Rio. Não havia nessa agitação nada de ideal. por exemplo. tanto para elas como para nós. essas mesmas autoridades se encarregam do bem-estar dos ricaços displicentes que vêm a passeio. Pus-me de parte e tive razão. atualmente eleito presidente da República. Havia nisto um apelo declarado ao que se chama nas repúblicas espanholas "o pronunciamento". hoje porém. é que o observador imparcial logo concluiu que nenhum dos grupos que se digladiavam falava a verdade. é melhor do que o ... aqui e ali. mas eles devem ser muito baixos e vagabundos. vou ao cinema. o que se chama política no Brasil. Ultimamente. cheios de dinheiro. À noite. vetá-la e. Todas as medidas de que os políticos lançam mão são nesse intuito. Para mim a política.. Bernardes era mover o Exército contra esta. no tempo de el-rei Nosso Senhor. a opinião do fazendeiro que ouvi Há coisas dolorosas provocadas por essa história de "grilo" que sociólogos da escola do super-homem já elogiaram no Rio de Janeiro. levei-o de troça. No caso não havia isto e eu. O intuito dos opositores à candidatura do Sr. como se dizia antigamente. atribuidas ao Sr. para. Só admito que se morra em matéria de política quando se o faça por uma idéia que interesse um grande grupo humano. Estes tinham direito a certo número de línguas e "mãos de vaca" das reses abatidas no matadouro.são o pesadelo dos agricultores. meu caro amigo.

tocadas "a la diable". a fim de tornar vencedora a própria causa. Nunca vi dançar tal coisa. se insurgiram contra a intromissão. Penso assim porque estou convencido de que seja Paulo. nos últimos acontecimentos. Tenho para mim que se deve experimentar uma "tábua rasa" no regímen social e político que nos governa.. Vimos em que deu a coisa.assassinato e a violência.. que vimos. Às 2 e meia. Na noite do baile. para a sua fôrça e o seu prestígio. Ele é rico ou enriquecido e pode agüentar o repuxo: mas o povo não deve ir atrás dessa gente. estava dormindo a sono solto. a pressão dos militares nas causas políticas. na minha vizinhança. Sancho ou Martinho que governe. Perguntei a minha irmã. Às 9 horas. que para enfezar Copacabana denominei "Vila Quilombo". dentro em breve. etc. não ouvi outra espécie de música. como sempre faço quando me resolvo a descansar a sério. . pude perceber todos os preparativos da festa doméstica: a matança de leitões. mas agora. A não ser umas barcarolas cantadas em italiano. houve um baile.Qual! . fox-trot. humildes. quadrilhas ou quadras.Ainda não se dança. escafederam-se. BAILES E DIVERTIMENTOS SUBURBANOS Há dias. São causas que nós. ou já se dançou. apelarem para eles.perguntei. mas a informação me fez lembrar do . . nem nada de sincero e de sério. mazurcas. O que apreciam os dançarmos de hoje.Não se gosta mais disso. rang-time. por aí assim.. Demais. sujeitos que. não devemos esposar. tomava o café matinal em companhia de meus irmãos. Ao menor sopro de "mazorca" foram todos pelos ares e eles todos debandaram. Hoje. esta vida será sempre uma miséria. etc. porque elas não representam nenhum ideal elevado. O baile já havia começado e ainda com algumas polcas repinicadas ao piano. Justifiquei-lhe o motivo da pergunta. quase em frente à minha casa. deixando o chefe sozinho Que este fique só. Seria capaz de deixar-me matar. são músicas apolcadas. Como tinha passado um mês enfurnado na minha modesta residência. nem me tenta vê-lo. Levantei-me da cama e. a ida dos assados para a padaria. não há mal nenhum. para implantar aqui o regímen maximalista. fui deitar-me cedo. . se nos dias presentes não se dançavam mais valsas. há tanta incoerência nesses políticos que nos azucrinam os ouvidos com velhos tropos quando querem satisfazer as suas ambições. está aparecendo um tal de "shimmy". O dia veio se fazer inteiramente. mas mudar só de nomes de governantes nada adianta para a felicidade de todos nós. não há muitos anos. Os pobres-diabos que se apaixonam por essas especulações de políticos é que levam o "chanfalho" da polícia e sofrem perseguições. provocado pela monótona musicaria do baile da vizinhança. quando acabou o sarau. a não ser polcas adoidadas e violentamente sincopadas. . interrompi o sono e estive acordado até às 4 da madrugada. mas a favor de Fagundes ou de Brederodes não dou um pingo do meu sangue."Cake-walk"? . e. 22-7-1922. que servem para dançar o tango. as entradas das caixas de doces. durante todo esse tempo.disse-me ela..

porém. diria o saudoso Figueiredo Pimentel.não ponho em dúvida tal coisa . as casas minguam em geral. Isto acontece com as famílias remediadas. e havia também cavalheiros e damas que não faltavam a eles. a coisa piora. adquirida a prestações. Convém notar que. O subúrbio civiliza-se. o dança. Por isso entre a gente média os bailes estão quase desaparecendo dos seus hábitos.sempre mutável e variável de ano para ano. Passando para os pés dos civilizados. Isto. numa delas. na capacidade dos seus aposentos e cômodos. como se dizia na gíria do tempo. onde as moças vigiadas pelas mães possam pirutear em salão vasto. fora os extraordinários. Na escolha da casa. não sei se é. porém. O meu estimado Mendonça atribui o "andaço" dessas danças desavergonhadas ao futebol. elas são deturpadas. estão ameaçadas de morrer asfixiadas com as janelas abertas. de frases e de gestos. Nas salas de visitas das atuais mal cabem o piano e uma meia mobília. Meia dúzia de pessoas. presidia sempre a capacidade da sala de visitas para a comemoração coreográfica das datas festivas da família. uma instituição nacional. além de irem a outros de famílias diferentes. Hei de falar mais detidamente sobre esse vigoroso livro: agora. com as verdadeiramente pobres. provocantes e imorais.verde é sempre uma espécie de argot . . acentuadas na direção de um apelo claro à atividade sexual. Há uma coisa a notar: é que esse maxixe familiar não foi dos "Escorregas" de Cascadura para o Acchilleon do Flamengo. Hoje. e. Eram célebres nos subúrbios. perdem o que significavam primitivamente e se tornam intencionalmente lascivas. que dançam "one-step" e o tango argentino. em que dançavam dúzias de pares? Evidentemente.mas o tal de futebol pos tanta grosseria no ambiente. tanto desdém pelas coisas de gosto. certos rapazes e moças.desdenhava o subúrbio e acusava-o falsamente de dançar maxixe. com um chôro. no seu interessante livro . Como é que elas podem comportar um baile à moda antiga. porque a melhor peça dela era destinada a estranhos. e nessas bárbaras danças se nivelam. que são um pouco mais amplas do que a gaiola dos passarinhos. Nos tempos idos. dessas danças luxuriosas que os hipócritas estadunidenses foram buscar entre os negros e os apaches. ao contrário. Mendonça alude ao que se passa no "set" carioca. e especialmente. Os construtores das casas já sabiam disso e sacrificavam o resto da habitação à sala nobre. o subúrbio não lhe fica atrás. era ou foi. O meu amigo Sussekind de Mendonça. Houve quem dissesse que nós fazíamos casa. Fazem parte dos rituais dos seus Deuses. quando em estado selvagem. mas pelo que me informam. que era também suburbano. e reveladoras de cultura. de alto a baixo. ou as tínhamos para os outros. essa gente verde das nossas elegâncias .que era um baile familiar há vinte anos passados. Antônio Leão Veloso achou isso exagerado. no Rio de Janeiro.refere-se à licenciosidade das danças modernas. mas de que forma. O Sr. e com elas invocam a sua proteção nas vésperas de guerras e em outras ocasiões solenes. veio deste para aquela. eles ficaram reduzidos ao mínimo de um concerto de violão ou a um recibo de sócio de um clube dançante na vizinhança. santo Deus? Quando fui morar naquelas paragens não havia noite em que voltando tarde para casa. semelhantes danças não têm a significação luxuriosa e lasciva que se julga. incluídos os Democráticos e o Music-Club das Laranjeiras.O Esporte está deseducando a mocidade brasileira . porque não interessa tanto ao subúrbio como ao "set" carioca. Havia famílias que davam um por mês. entre esses retardados exemplares da nossa humanidade. que é bem possível não ser ele isento de culpa no recrudescimento geral. Pode haver exagero . O baile. cabe só uma observação. não topasse no caminho com um baile. porém. na gente pobre. Ou moram em cômodos ou em casitas de avenidas. tanta brutalidade de maneiras. não nos interessa. não há diferença: todo o Rio de Janeiro. como tipos de dançarinos . especialmente suburbano. não. hoje. mas tenho certeza de que era profundamente carioca.

sem terem ocasião de trocar impressões. gordinha. valsando ficava outra. não dançava. Chamavam-na Santinha. Se não era bela na rua. por tanto dançar não tinha tempo de namorar. às vezes. Não desdenhava as outras contradanças. apesar da multidão dos convidados. A sua testa era alta e reta. pouco vulgar nas moças. Lembro-me bem.. para entrar nos bailes penetrar. o mártir era o dono da casa: Seu Nepomuceno começava por não conhecer mais da metade da gente que. de uma moça que. Era um rapaz de boa altura. transitoriamente. Quase sempre era formado de pessoas das vizinhanças e outras que não haviam sido convidadas e lá se postavam para ter assunto em que baseassem a sua despeitada crítica. de uma delicadeza exagerada. penso de mim para mim: para que essa moça se cansou tanto? Chegou afinal ao ponto em que tantas outras chegam com muito menos esforço. Baile em que não aparecia seu Gastão. e quando hoje. e tinha uma notoriedade digna de um poeta de "Amor" ou de um gatimanhas de cinematógrafo. de divindade aérea. não merecia consideração. Outras até elogiavam. O puritanismo era francamente favorável a eles. atualmente ainda encontro. ao valsar. Se algumas nada diziam. O "pendant" masculino de Santinha era o seu Gastão. e o resto do vestuário de acordo. de feições miúdas..a única cuja família tinha relações com a do Seu Nepomuceno.. A sua especialidade não era a valsa. essas festas domésticas tinham um grande cunho de honestidade e respeito. e prosperou na vida. Sereno. mora em Conde de Bonfim. Nesses bailes suburbanos. e ouvi muitos falar neles. porém. Fazia cumprimentos hieráticos e dava os passos com a dignidade e convicção artística de um Vestris. lhes causou. que acabava não vendo nenhum ou não firmando a fisionomia de nenhum. usavam deste ou daquele truque. A sua especialidade estava na valsa americana que dançava como ninguém.domésticos. só nos dias de luto da semana santa e no de finados. era o "pas-de-quatre". cabelos abundantes e sedosos. Dizia a todos que. Dos trezentos e sessenta e cinco dias do ano. a encontro atrapalhada com os filhos. quais os . dentre eles. um traço próprio. Eram raros os excessos e as danças. Os que a viram dançar e me falam dela. De fato. calavam-se. mas raramente dá bailes. simpático. Esses bailes burgueses não eram condenados pela religião. Seu Gastão ainda existe. vaporosa e adquiria um ar esvoaçante de visão extra-real. Tinha. Não' era bonita na rua. Afirmava ele. Só dançava de "smoking". tem filhos. Era estimada como discipula de Terpsícore burguesa. por acaso. Além destes subconvidados. que essas reuniões facilitavam a aproximação dos moços de dois sexos. sem comunicarem mutuamente quais os seus anelos. Em geral. dançando ou não. Santinha valsava até de madrugada. cuja vida particular a cada um deles se fazia isoladamente. testa de deusa a pedir um diadema. sempre requestada para esta e aquela contradança. porque Cacilda trazia Nenê e esta o irmão que era namorado daquela . que dançava com ademanes de dança antiga. até hoje não escondem a profunda impressão que a moça. Conheci alguns. tomava um ar de sílfide. numa vasta casa. A sua aparência era de uma moça como muitas outras. e. era chamado o agrupamento de curiosos que ficavam na rua a espiar o baile. se prolongavam até o clarear do dia sem que o mais arguto do sereno pudesse notar uma discrepância nas atitudes dos pares. Fugia ao solo e como que pairava no espaço. Quando rei suburbano do "pas-de-quatre" era empregado de um banco ou de um grande escritório comercial. mas a valsa era a sua especialidade. está casado. ainda existiam os penetras. Em todos os mais. abrigava. via tantos e tantos cavalheiros. com o intervalo de um hora. grandes e bastos bigodes. Hoje é diretor-gerente de uma casa bancária. de minueto ou de coisa parecida. sem grande relevo.. Chamava-se assim certos rapazes que. com dois ou três filhos que lhe dão um imenso trabalho para acomodar nos bondes. a casa se enchia de desconhecidos. em atitude comum de passeio. sem nenhuma espécie de convite. pela bôca de adeptos autorizados. para uma ceia modesta. assim. longe disso. Dançou para a vida inteira e também pelos filhos e filhas.

Os homens são jograis.seus desgostos. Lá. como em Maxambomba. extraordinariamente honesta em comparação com os tais "steps" da moda. A vida é cara e as apreensões muitas. Nos seus clubes. e essa mesma não me parece ser grave. se servem da arte reabilitada pelo autor de Sertanejo. vão sendo mais prezados e já se fazem encantos dos saraus burgueses em que. democrático e efusivo. e. como em todo este Brasil inteiro. segundo tudo faz crer. levarem a desgraça a lares pobres e perder moças ingênuas e inexperientes. Pode ser. ao som do piano ou de estridulantes charangas. e. É o caso de imitar o outro e escrever: O Código Penal e a inutilidade das leis. de cansaço. blocos. os suburbanos apreciavam muito e hoje está quase morta. um cavaquinho e violão ou sob o compasso de um prestativo gramofone. é tal e qual outro e qualquer cinema do centro ou qualquer parte da cidade em que haja pessoas cujo gosto de se divertir no escuro arrasta a ver-lhes as fitas durante hora e tanto. mas sei que as suas regras de bom-tom em nada ficam a dever às dos congêneres dos bairros elegantes. dignificou e tornou capaz da atenção dos intelectuais. mais ou menos africano com o futebol anglo-saxônio. doces diversões familiares. Os clubes pululam e os há em cada terreno baldio de certa extensão. as mulheres. bacantes. favorecendo tudo isso os saraus familiares. as mesmas músicas indigestas e. Nada tem. foi transformado em escola municipal.Revelação: . A carestia da vida. que. para espançar as trevas que em . O subúrbio não se diverte mais. antigamente. Estou certo de que os positivistas. O pequeno povo porém ainda não sabe o "fox-trot". Vi isto só uma vez e não garanto que essa hibridação do samba. está fora da moda. sob todos os pontos de vista. O cinema absorveu todas elas e. com o seu talento e a sua obediência cega a um grande ideal. por intermédio de horríveis cantarolas. era a do teatrinho de amadores. O violão e a modinha que Catulo. ele arrebatou e monopolizou. o Carnaval em que como lá diz Gamaliel de Mendonça. entretanto. de zambumba. ao subúrbio dar-lhe alguma coisa de original. pondo de parte o Mafuá semi-eclesiástico. pouco ou quase nada existe mais. para esquecer. foi a de festejarem a vitória sobre um rival. enfim. as danças mínguam. artista honesto. mas desapareceu. Sem receio de errar.. em matéria de diversão. pode-se dizer que o baile familiar e burguês. com gambitos nus. Até o pianista. O do Riachuelo. É pena que para um Catulo. não permitindo prazeres simples e suaves. julgariam que os atuais bailes aproximam por demais os sexos. Nunca lhes vi uma partida. haja uma dezena de Casanovas disponíveis. equilibradas e plácidas. que foi impossível. porém. com sua tenacidade. Há por lá monstros desses que contam tais proezas às dezenas. pelas causas apontadas. Precisa-se de ruído. como na Avenida. e. dança ainda à antiga. Uma outra diversão que. atualmente. a sua proeza homérica com letra e música da escola dos cordões carnavalescos. ainda volteia a sua valsa ou requebra uma polca. mas não tenho documentos para tanto afiançar. Quase todas as estações tinham mantido um Clube. se haja hoje generalizado nos subúrbios. O futebol flagela também aquelas paragens como faz ao Rio de Janeiro inteiro. porém. são os mesmos cordões. no recesso do lar com um terno de flauta. os mesmos versos indignos de manicômio. tão igual por toda a parte. como em Niterói. possuía um edifício de razoáveis proporções. A única novidade que notei. é ele. a exigüidade das casas atuais e a imitação da alta burguesia desfiguraram-no muito e tendem a extingui-lo. é o maior divertimento popular da gente suburbana. nem o "shimmy". "anathema sit". de próprio ao lugar. grupos.. maus de natureza e sem talento algum. cantando os vencedores pelas ruas. teve a sua meia hora de celebridade. O que havia de característico na vida suburbana. no seu último livro . nos subúrbios. a fim de. hoje. Resta-nos o Carnaval. o célebre pianista de bailes.

inclusive as suas descobertas já descobertas e a sua determinação de coordenadas de certos lugarejos pelo telégrafo. a raça mais atrasada. o primeiro romancista do Brasil. que tem um ar feroz de quem vai vencer a batalha de Austerlitz. Sei disto porque nesse tempo era eu empregado da Secretaria da Guerra e vi os papéis a tal respeito. O general Rondon nunca venceu batalhas. Até hoje. Ele não mais se diverte inocentemente. no Brasil. Muito influíram para isso os poetas indianistas e. o tupi. dia para dia. atualmente. sobretudo quando fala da morte de Lindóia em cujo rosto a Morte era mais bela. Entretanto.torno da nossa vida. Nunca se viu pessoa tão conspícua no caboclismo. para catequizar caboclos. durante horas. acompanhando "pari-passu" as suntuosidades republicanas. essa missão estava reservada aos religiosos de toda a espécie. é a sua fisionomia de crueldade. em cujas delícias transitórias mergulha. ele gastava mais de quinhentos contos por ano. contudo toda a gente quer ser caboclo. coisa pouco sabida e conhecida. só em milho. Rondon catequista é um grande general e o general Rondon é um grande catequista. o subúrbio se atordoa e se embriaga não só com o álcool. porquanto o caboclo. admira Rondon porque sabe andar léguas a pé. para esperar. Depois de tão excepcional caboclista. nas nossas origens. A mania. além de outras qualidades e artefatos. hoje general. e não as vencerá. Quando Rondon foi chefe da Comissão das Linhas Telegráficas. só há a Sra. porque o seu talento é telegráfico. é a batina que se vê vencida pelo sabre. Tudo o está levando para isso. criou esse seu paraíso artificial. Em matéria de caboclismo. mas não há também general como ele. porquanto tinha intensificado a agricultura entre os Nhambiquaras. contudo. Gazeta de Notícias. Toda a gente. que nada tinha de tupinambá. percorreu o Brasil. dão-lhe um destaque excepcional. . sobretudo. Vê-se nele a sua vocação de ditador e ditador mexicano. O NOSSO CABOCLISMO Uma das manias mais curiosas da nossa mentalidade é o caboclismo. diz-se caboclo ou descendente de caboclo. porém. quando um sujeito se quer fazer nobre. Chama-se isto a cisma que tem todo o brasileiro de que é caboclo ou descende de caboclo. mas foi preciso que o Brasil se fizesse republicano para que tal coisa coubesse aos oficiais do Exército. Deolinda Daltro. porém. inebria-se minutos. só gosto do Uruguai de Basílio da Gama. Aí não é o sabre que cede à toga. Para as dificuldades materiais de sua precária existência. há uns caboclistas muito engraçados. A seriedade do seu ideal. Não há general como ele para estender linhas de telégrafo. com a lascívia das danças novas que o esnobismo foi buscar no arsenal da hipocrisia norte-americana. mais densas se fazem. dias e meses. o grande José de Alencar.. o desinteresse que ela põe nele. além do Guarani de José de Alencar. um aumentozinho de vencimentos. acho eu que essa virtude não é das mais humanas.. Um deles é o Sr. Nada justifica semelhante aristocracia. e. Rondon. O que o general Rondon tem de mais admirável. era. 7-2-1922.

nos trens não se discutia senão futebol. Carlos Sussekind de Mendonça me dirigiu. por intermédio desta revista. publicando-a sob a forma de 'livro e com o título . apesar de tudo. eu só tentava ler Rousseau. e até a política do Conselho Municipal. desse nosso engraçado Conselho que teima em criar teatro nacional. a fundar a Liga foi o espetáculo de brutalidade. etc.D. Confesso que. Os jornais não falavam em outra coisa. no campo do Seleto Clube. 11-10-1919.lembrei-me de escrever estas linhas. Careta. por isso. Nas segundas-feiras.. à rua São Gabriel. nos cafés. como ainda não tenho. Sussekind. no noticiário policial. uma terna missiva do Dr. não sou selvagem. TENDO recebido de Porto Alegre. o que não acontece com o Dr. Em meio do "match" o jogador Jadir Brás deu um formidável "shoot". como se ele fosse nacional. de 16-1-1922. de intrigas de sociedades. Nas famílias. a fim de subvencionar regiamente graciosas atrizes . A minha cidade já de há muito deixou de ser taba. indo a bola partir a perna direita de Francisco dos Reis. qualquer erudição especial no assunto. Nada teria a opor. Não se tratava de outra coisa no Rio de Janeiro. Afonso de Aquino.até isso era relegado para segundo plano. Francisco dos Reis. COMO RESPOSTA O foguista da Armada. de absorção de todas atividades que o futebol vinha trazendo à quase totalidade dos espíritos nesta cidade. Nunca fui dado a essas sabedorias infusas e confusas entre as quais ocupa lugar saliente a chamada Pedagogia. só se tratava do jogo de pontapés. não tinha. Mário Valverde. A respeito. Páginas e colunas deles eram ocupadas com histórias de "matches". meu saudoso amigo. se não me parecesse que ela se enganava. Rio-Jornal. Mendonça.O Esporte está deseducando a mocidade brasileira . Nos bondes. traziam notícias de conflitos e rolos nos campos de tão estúpido jogo. e. assistir ao jogo de futebol. em suas. nas quais os sábios e virtuosos cronistas esportivos teimam em encaixar o esporte. em que ele me fala da "Carta Aberta" que o meu amigo também Dr. senão esquecido. o seu célebre Émile. As moças eram conhecidas como sendo torcedoras de tal ou qual clube. nas seções especiais. Não era do Rio de Janeiro que ela devia ser intendente. e eu. O que me moveu. como resposta ao veemente e ilustrado trabalho do Dr. afiavam a pena. procuravam epítetos e entoavam toscas odes aos vencedores dos desafios. Deolinda acaba de se apresentar candidato a intendente da cidade do Rio de Janeiro. os jornais. etc. nada sabia sobre educação física. a mim e ao falecido Dr. ontem. e mesmo a vagabundíssima Educação de Spencer nunca li. era de alguma aldeia de índios. mas. e suas teorias. Percebi logo existir um grande mal que a atividade mental de toda uma população de uma grande cidade fosse absorvida para assunto . foi. conversas íntimas. quando fundei a Liga Brasileira Contra o Futebol. Comecei a observar e a tomar notas.

tivesse as lesões que tivesse. 'Risum teneatis". mostrei que. não somente pelos motivos que o Dr. Combaterei sempre o tal de futebol.tão fútil e se absorvesse nele. escrevi também que eles cultivam preconceitos de toda a sorte.. se permitia tão horripilante coisa. se não é de azedas. Careta. percebi também que não concorria tal jogo para o desenvolvimento físico dos rapazes. o cronista esportivo censurou asperamente essa autoridade que procedera tão sabiamente apresentou como único argumento que. ele me disse todos os inconvenientes de tal divertimento. Fundamos a Liga. é incapaz desse papel de censura de qualquer manifestação de pensamento. ao contrário. "A MAÇÃ" E A POLÍCIA Noticiam os jornais que a polícia por intermédio de seus agentes e prepotentes. Dai o perigo que há em se entregar à polícia. nem medida.1922. É ler uma crônica esportiva para nos convencermos disso. até numa sociedade. eu fui alvejado com os mais soezes insultos e indelicadas referências. O meu caro Dr. ela encontra atentados à . Admitir que um simples delegado de polícia ou uma praça de pré do meu amigo coronel Badaró esteja nos casos de julgar os meus escritos.o que julgo essencial em ajuda da maior felicidade da comunhão humana. E acrescento mais: da pretensão. Sussekind pode ficar certo de que se a minha Liga morreu. para dizer o meu pensamento sincero . Spencer era inimigo do futebol. eu não morri ainda. qualquer poder que incida sobre a liberdade de pensamento. deve ser ático. foi. Quando a fundamos. em todas as estações e por todo e qualquer sujeito. porque estou convencido. mas também porque nos faltava dinheiro. Ela é uma emanação do governo. bolas! Certa vez. ela apela para a ordem e para a moralidade. Mendonça escreve no seu livro. que me insurgi. pela A Notícia. nem de chanfalho. ela faz obra dos governos e em qualquer trecho do escrito. 8. eram sempre os mesmos a jogar. o governo não deu não sei que favor aos jogadores de futebol e um pequenote de um clube qualquer saiu-se dos seus cuidados e veio pelos jornais dizer que o futebol tinha levado longe o nome do Brasil.4. então. porque verifiquei que. em todo o mundo. me gabo de ser independente. que o "sport" é o "primado da ignorância e da imbecilidade". Os seus autores falam do assunto como se tratassem de saúde pública ou de instrução. A polícia. feito sem regra. e é da natureza dos governos não admitirem crítica. Falando nisso a Valverde. partidários de futebol e uma récua de nomes desconhecidos cujo talento só é conhecido na tal Liga Metropolitana. anda a vigiar a A Maçã. Dai em diante. Ela não foi avante. Ora. Quando se os critica. como o meu amigo Sussekind. Fazendo-a. Sendo assim.. tenho voltado ao assunto com todo o vigor que posso. Sou escritor e. não admito críticas a meus livros e aos meus escritos senão aquelas provindas de escritores que como eu não dispõem de força. Coelho Neto citou Spencer e eu. semanário que o ilustre poeta Humberto de Campos publica com um sal que. é abdicar do meu esforço silencioso e doloroso durante vinte anos. Um dia destes o Chefe de Policia proibiu um encontro de "box". se mérito outro não tenho. fosse de que constituição fosse. Esquecem totalmente da insignificância dele. pela sua feição própria. Ameaçaram-me com vigorosos polemistas.

mas que tem o nome portuguesíssimo de Barros. ficaria lá para ajudá-lo no seu mister. há os advogados. Ele as abre pelo deserto e faz por elas trafegar automóveis. que usa da liberdade de crítica que as leis lhe facultam. a família do pequeno ou da pequena não a podia pagar. tive muita coisa a observar e muita coisa a meditar. inclusive do da polícia.moral. nos quais andei graças à sua generosidade. Conto-lhes o caso. dirão que é a homenagem que o vício presta à virtude. Careta. se ele edita o que edita. Ele se prontificou a fazê-la gratuitamente. GENEROSIDADE Quando estive agora. Tive lá um amigo. muito a de um médico. no bom ou mau sentido. O que o Sr. e. O seu primeiro é Cenobelino. conquanto esteja iniciando a carreira. na cabeça. confins desse Estado. o Francisco de Sales. ultimamente. intoxicado de Rio de Janeiro. Polícia foi feita para prender gatunos e assassinos e nunca para fazer crítica literária. em Rio Preto. fabricantes de "revistas" e "peças" de duvidoso mérito a ela se sujeitem. mas. creio que de trepano. formado na Suíça. no interior de São Paulo. 1 1-3-1922. eu protesto contra a censura policial feita à revista de Humberto de Campos. O Dr. para não me deixar ficar por aquelas bandas. Há os "grileiros" fabricantes de títulos falsos de propriedades de terras. próximo a Goiás e a Mato-Grosso. A criança se salvou e não podia ver bilhete de loteria que não pedisse ao pai que o comprasse. . que é um portento de energia e honestidade. Muitas figuras como essa lá conheci de energia e de combate. mesmo com um simples nível de pedreiro e uma trena. e. é ponta de trilhos e para lá vão ter toda a espécie de aventureiros. onde ganhou um ar severo de alemão.Para quê? . é de uma generosidade fidalga. no bom sentido. o faça. não posso conceber. Era cara. mas há também os que querem horizontes novos para a sua atividade e para o seu trabalho. Se ainda tivesse energia para recordar esse estudo elementar. e tive um grande desgosto em não saber mais nada de topografia para auxiliá-lo. Humberto de Campos escreve na sua revista é do conhecimento de todos nós. Feriu-me. É justo que essa gente se mova para o interior do Brasil. Lá. se o souberem. a responsabilidade dele não pode ser diante de simples apitos de polícia e delegados. Ele as traça por gosto e prazer. A criança precisava de uma operação difícil. disfarçando-se e escondendo-se. Cenobelino foi chamado para ver uma criança que tinha levado um coice de um cavalo. "cavando" e espalhando a graça e a harmonia da Guanabara que estão na minha alma. Eu lá senti muito que já estivesse desfibrado. admito. e. em nome da liberdade de pensamento e tendo em vista a incompetência literária da polícia para fazer censura de escritos e a sua falta de autoridade moral. sob qualquer ponto de vista. embora eu fosse incapaz de fazer o mesmo. Perguntarei aos policiais: o que é moral? Eles não saberão dizer. cuja competência em tal assunto não tem nenhuma base na lei e nos costumes. Que "pataqueiros". É um abridor de estradas. porém. Conforme se diz em estilo diplomático. um escritor celebrizado.

Certo dia. "comem" os filósofos. pensa que a existência nossa deve ser a submissão aos Acácios e Pachecos. com toda a . ninguém quer agitar idéias. o pai satisfez o pedido do filho e tirou a sorte. os homens tinham elevação moral e mesmo. pouco se incomodariam com os proventos da "indústria política" A República. As fórmulas eram mais ou menos respeitadas. isto é. Fouché. porém. a fim de que não pareça que há medo em dar. Como ele. Já na Revolução Francesa a coisa foi a mesma. havia desinteresse. Ninguém quer discutir. No Império. tanto assim. "comem" os advogados. "comem" os médicos. a bôrra do Brasil. ela tinha alguma grandeza e beleza. e. para obter ajudas de custo e sinecuras. "Comem" os juristas.Para pagar ao doutor que me salvou. Todas as opiniões devem. nem trato de política. e quem não sabe lutar. por esta ou aquela paga. A gente do Brasil. que muitos que passaram pelas maiores posições morreram pobríssimos e a sua descendência só tem de fortuna o nome que recebeu. A POLÍTICA REPUBLICANA Não gosto. Até este ponto eu perdôo toda a espécie de revolucionários e derrubadores de regimes. muitos outros que não cito aqui para não ser fastidioso. Careta. mas o que não acho razoável é que eles queiram modelar todas as almas na forma das suas próprias. Não há assunto que mais me repugne do que aquilo que se chama habitualmente política. apesar de tudo. acabou morrendo milionário. A República no Brasil é o regime da corrução. por isso mesmo. os reservados deste ou daquele Ministério e os empreguinhos que os medíocres não sabem conquistar por si e com independência. "comem" os jornalistas: o Brasil é uma vasta "comilança". Não é mentira isto. Esse aspecto da nossa terra para quem analisa o seu estado atual. ninguém quer dar a emoção íntima que tem da vida e das coisas. entretanto.. não é homem. atravessando todas as vicissitudes da Grande Crise. a de glória e de nome. transformou completamente os nossos costumes administrativos e todos os "arrivistas" se fizeram políticos para enriquecer. certamente. trazendo tona dos poderes públicos. em alguns. sobre a questão. Eu a encaro. ser estabelecidas pelos poderosos do dia. O que havia neles. infelizmente. Nunca quereria tratar de semelhante assunto. "comem" os poetas. Vem disto a nossa esterilidade mental. deve ser uma luta. a nossa falta de originalidade intelectual. A vida. Escusado é dizer que recompensou generosamente o médico do filho. que era um pobretão. não era a ambição de dinheiro. Todos querem "comer". "comem" os engenheiros. "comem" os romancistas. há a "verba secreta". sem ofício nem benefício. Era. para que não haja divergências. como todo o povo a vê. 25-6-1921. Ninguém admite que se divirja deles e. qualquer opinião. a pobreza da nossa paisagem moral e a desgraça que se nota no geral da nossa população. mas a minha obrigação de escritor leva-me a dizer alguma coisa a respeito. um ajuntamento de piratas mais ou menos diplomados que exploram a desgraça e a miséria dos humildes.

Era justo. e. Não se admite mais independência de pensamento ou de espírito. porém. mas. a tua brochura tão especial teve grande repercussão. Michel. Como tu tinhas fartas relações com jornalistas e aderentes. Quiseste mais. Feito diretor do Museu. porquanto tu és inteligente. O sábio histologista precisava mostrar que era capaz de maiores espantos. no Campo de Santana. É verdade que. meu caro Bruno. etc. Pleiteaste.. emancipaste a mulher e nomeaste a inefável Berta Lutz secretário do referido Museu. Hegel e mesmo Morales de los Rios. em arqueologia egípcia. proclamada que foi a República. Ele tinha a virtude da modéstia e implantou em nós essa mesma virtude. 19-10-1918. O mundo dá muitas voltas e tem muitas surpresas. Tudo fazia que te encaminhasses por esse campo de Histologia e coisas parecidas. num belo dia. Lucílio e outros. nasceu-lhe depois da República. Conheci-te ainda estudante quando não tinhas tido a honra e glória de escrever a famosa brochura sobre a A Estrutura do Cilindro-Eixo. Que pensou? Fez-se sabichão em Belas-Artes. achastes que esse campo era estreito demais para os teus méritos intelectuais.C. não se deu. Não chegava. para sugar os cofres públicos. quando estiveste em Paris. em breve trataste de pontificar sobre elas. Tu. cabalaste e acabaste te fazendo presidente da Sociedade de Belas-Artes. Não o quiseste. e nessa Academia adquiristes profundos conhecimentos de artes plásticas. em antiguidades americanas! Quem o diria! Enfim. que tudo fazia crer que tu continuasses pelo campo da Histologia.B. freqüentaste Helios Seilinger. desta ou daquela forma. abafa-se. quando passei em tua companhia cerca de oito dias no Júri. mas um caixão. por dinheiro. porém. Confiante neles. naquele famoso Júri em que tu foste presidente e eu fui perseguido por causa dele e tu homenageado. li que tu eras nomeado Diretor do Museu Nacional. Parecia que o Império reprimia tanta sordidez nas nossas almas. Dizia. quando não é a do arrocho. Taine. . Eu mesmo tive ocasião de verificar isso.independência de espírito. graças à "reclame" que aqueles te fizeram. etc. Dou-te parabéns. Está aí como o meu amigo Bruno Lobo de "olhador" de microscópio passou a ser crítico de arte e pontífice em pintura. gravura. BILHETE Meu caro Bruno Lôbo: Lembra-te Bruno que sou teu velho conhecido de há muitos anos... arvorando-te em Congresso Nacional. Não ficaram aí as que me reservaram o meu amigo Bruno. ali. porque vens revelar que o Brasil possui um Pico de Mirandola ou um Leonardo da Vinci. Quando não se consegue. escultura. o Brasil perdeu a vergonha e os seus filhos ficaram capachos. arquitetura. Bruno. tu. Assombrei-me. Foi o novo regime que lhe deu tão nojenta feição para os seus homens públicos de todos os matizes.. Bruno sabichão em História Natural. por três batalhões. que não é uma caixa delas. Bruno. Viva a República! A. É a política da corrução. Tal. sem ler Winckelmann.

sob um céu ingratamente nevoento. os seus galos e os seus capinzais? Não sei ou esqueci-me. A usina do Gás fica ali e olho aquelas chaminés. Veio a Estrada de Ferro e matou-a.. mas "Titio Arrelia" não diz mais pilhérias.. com o estribilho: . espadaúdo. Ele percorre uma parte da cidade que até agora era completamente desconhecida. das suas cabras.É pau! Esse estribilho tornou-o conhecido em todo o longo trajeto desse interessante bonde que é o Cascadura. dos seus galos. que me recita: . zombando da velocidade do veículo. e as cabras. embora os bacorinhos. Estamos em pleno Mangue. preguiçosamente. que até bem pouco vivia esquecida. há um sopro de renascimento. É o "Titio Arrelia" .um crioulo forte.. Então de novo me lembro da Estrada Real. assovia como os cocheiros dos tempos dos bondes de burro. por ela toda. Quem é ele? É o mais popular da linha. e eu vejo delinear-se uma nova e irregular cidade. as suas cabras. Entretanto. O bonde se enche de moças de todas as cores com os vestuários de todas as cores. e penso no passado. 17-6-1922. etc. Limita-se muito civilizadamente a tanger o tímpano regulamentar. . meus olhos topam com medas de manganês. como diz o povo. Ele vai manobrando com as manivelas e deitando pilhérias. ainda lhe dêem muito do seu primitivo ar rural de antanho. ele já não se contenta com o tímpano. a Prefeitura Municipal vai melhorando. dos capinzais. Assim aconteceu com Inhomerim. Onde os seus bácoros. No passado! Mas. aquele amontoado de carvão de pedra. perlustra a velha Estrada Real de Santa Cruz.. para a direita e para a esquerda. uma palpitação de vida urbana. Fujo dele. aqueles guindastes. a fuçar a lama. contemplo aquelas velhas casas de fazenda que se erguem no cimo das meias-laranjas. viu carruagens de reis. Entro na Garnier e logo topo um poeta. dos seus porcos. cujas palmeiras farfalham mansamente. Desço. feio. o passado é um veneno. junto ao motorneiro. Mas. Vou ocupar o banco da frente. É de manhã. A Light. nem assovia. por aqueles capinzais que já foram canaviais.. Mais adiante. Estamos no Largo de São Francisco. graças a uma graçola que sublinha. vai deitando pilhérias. Penetro pela rua do Ouvidor..Minh'alma é triste como a rôla aflita. trepam no bonde e dizem uma chalaça ao 'Titio". de príncipes e imperadores. como todas as outras. DE CASCADURA AO GARNIER Embarco em Cascadura. o bonde de Cascadura corre. para um lado e para outro. porém. a pastar pelas suas margens. E o bonde corre.. manejando o "controle". essa trilha lamacenta que. mas simpático.Ainda bem! Careta. Os garotos. "Titio Arrelia". de pensar nele e o bonde entra com toda a força na embocadura do Mangue. Em grande trecho.. com o seu bonde de "Cascadura" descobriu-a de novo e hoje. Estrela e outros "portos" do fundo da baía. Ele os faz descer sem bulha nem matinada.

e Coelho Neto tem. o cão nos dá. Esse espetáculo tão curioso e especial mostra bem de que forma profunda nós homens nos ligamos aos animais. Todas as manhãs. verdadeiras colchas de retalhos. O espetáculo mais curioso é o da carroça dos cachorros.Vizinha! Lá vem a carrocinha! Prenda o Jupi! E toda a "avenida" se agita e os cachorrinhos vão presos e escondidos. Sozinho. É preciso acabar com essa história da Grécia e de imaginar que os gregos tinham uma única concepção da beleza e que foram belos. Nada de útil. certamente. para justificar a retirada das grades. os tristes e desgraçados cães que andam por aí à toa. eu. como os mármores que nos legaram. uma para uso próprio. na rua eu vejo o espetáculo mais engraçado desta vida. são elas que amam os cães sem dono.Lá vem a carrocinha! . não somos nós os homens. no tempo do Império. de tempos em tempos. pela manhã. depositárias por excelência daquilo que faz a felicidade e infelicidade da humanidade . está no seu direito em persegui-los. com que os arqueólogos vestiram há pouco a "Djanira". Eu quisera saber se Neto tem a concepção da beleza dos mármores obesos ou das estatuetas de Tanagra e se aplaudiria as vestes gregas. . Diz D. estão no seu dever em acoitá-los. nós o amamos e nós o queremos.Careta. Marocas a D. . Careta. Era no tempo da minha meninice e eu me lembro disso com as maiores saudades. mulheres e crianças se agitam e tratam de avisar os outros. São elas que defendem os cachorros das praças de policia e dos guardas municipais. quando vejo semelhante espetáculo. Esse negócio de gregos e de beleza é coisa muito engraçada. eu bendigo a humanidade em nome daquelas pobres mulheres que se apiedam pelos cães. 29-7-1922. entretanto. com a sua cavalaria e guardas municipais. mas são as mulheres e as mulheres pobres.o Amor. Amo os animais e todos eles me enchem do prazer da natureza. elas. porém. E todos os homens. nós fazemos uma idéia da Grécia. na verdade. saio da minha casa. Ela me lembra a antiga caleça dos Ministros de Estado. A DERRUBADA Fala-se muito na remoção das grades do Passeio Público e até Coelho Neto já exumou os gregos com o seu cânon de beleza.dizem. de Saint-Saens. Sainte-Beuve já dizia que. desço a rua e vejo. triste e saudoso da minha mocidade que se foi infecunda. Quem os ama mais. Eugênia: . quando eram seguidas por duas praças de cavalaria de polícia. A lei. A CARROÇA DOS CACHORROS Quando de manhã cedo. 20-9-1919. mais ou menos esbodegado.

Convém não esquecer que tais mármores são imagens religiosas e sempre os homens fizeram os seus deuses mais belos. Careta. vim à Avenida e à rua do Ouvidor e pus-me a olhar os trajes das damas. vi que tinham derrubado um velho tarnarineiro que ensombrava urna rua sem trânsito nem calçamento. Mas. ainda outra vestia uma saia patriótica verde e amarelo. que a aridez. os seus salões não se apresentam tão carnavalescos como a Avenida e adjacências nas horas que correm. vetustas fruteiras. Nunca fui ao clube dos Democráticos. às vezes. com o meu absoluto relaxamento. não restarão senão uns exemplares dessas frondosas árvores. pelo Engenho Novo. cheias de anosas mangueiras piedosos tamarineiros. arrastavam pelo calçamento pesadas "andorinhas". É que sinto uma grande volúpia em comparar os requintes de aperfeiçoamentos na indumentária. outra. muito preto. Olhei. mesmo quando os fazem humanos. que. Passando hoje. Há dias. A venerável árvore não impedia coisa alguma e dava sombra aos pobres animais. Nos subúrbios. plantadas há meio século. Eu não me atrevo mesmo a dar opinião sobre a retirada das grades do Passeio Público. nem ao dos Tenentes. as velhas chácaras. Era uma espécie de oásis. vão sendo ceifados pelo machado impiedoso do construtor de avenidas Dentro em breve. a ganância e a imbecilidade vão pondo abaixo com uma inconsciência lamentável. . VESTIDOS MODERNOS Nunca foi da minha vocação ser cronista elegante. Correio da Noite. 22-7-1922. tudo isso não vem ao caso. Uma dama passava com um casaco preto. e mangas vermelhas. Isto acontece principalmente nos dias em que estou sujo e barbado. saindo de meu subúrbio. que resignadamente ajudam a nossa vida. Hesito. mas estou disposto a apostar que em dias de bailes entusiásticos nesses templos de folia. quando venho à Avenida. como diz não sei que clássico que o Costa Rego citou outro dia. A razão é simples. uma coisa que ninguém vê e nota é a contínua derrubada de árvores velhas. notei e concluí: estamos em pleno Carnaval. me dá na telha olhar os vestidos e atavios das senhoras e moças. sob o sol inclemente. entretanto. Mas. tanto cuidado de tecidos caros que mal encobrem o corpo das "nossas castas esposas e inocentes donzelas". 31-12-1914. era um dia verdadeiramente dedicado a Momo. que demandavam o subúrbio longínquo. enfim. caminhões. do que mesmo para atender às necessidades justas dos que lançaram as respectivas sementes à terra. tinha uma espécie de capote que parecia asas de morcego. nem ao dos Fenianos. que foram plantadas mais com o pensamento nas gerações futuras. para as pobres alimárias.

Que licença? . Cincinato Braga. Houve um matador de porcos que pediu a minha opinião sobre este caso curioso: se devia aceitar dez mil-réis para matar o cevado do capitão M. chegou a Todos os Santos. ou se devia comprar o canastra por cinqüenta mil-réis e revendê-lo aos quilos pela redondeza. Ele me contou a sua desdita com todo o vagar de popular. saiu-lhe ao encontro a lei. Pergunta-me um se deve assentar praça na Brigada. Quando. Moro há mais de 10 anos naquelas paragens e não sei por que os humildes e os pobres têm-me na conta de pessoa importante. o que lhe dava trabalho por três dias. intimou o guarda. pois há oito meses não trabalha no seu ofício de carpinteiro. com as suas laranjeiras. a muito custo. Ultimamente. que nunca fui versado em coisas de matadouro. Fulano. Vendo. as suas bananeiras.Já sei. na esquina. porém. vai salvar o Brasil. que os compradores na porta não lhe davam o preço devido. esperar o bonde. as laranjas. com as suas tangerineiras. o dinheiro e. encheu-o de laranjas e saiu a gritar: .. pergunta-me outro se deve votar no Sr. porém. consultam-me sobre casos embaraçosos. capaz de arranjar empregos e solver dificuldades. Comprou um cesto. Eu. mas sem empréstimo a 30%. e. mas ficou-lhe o sítio.O "MOAMBEIRO" Quando saio de casa e vou à esquina da Estrada Real de Santa Cruz. IMPRESSÕES DE LEITURA O DESTINO DA LITERATURA Minhas senhoras e meus senhores: . como tinha um pequeno sítio lá para as bandas do Timbó e algumas economias. Eis aí como se protege a pomicultura. Careta. vejo bem a miséria que vai por este Rio de Janeiro. tratou de valorizar o produto. Notem bem: depois. mas. Vamos para a Agência. As economias foram-se. Você é "moambeiro". olhei os Órgãos ainda fumarentos nestas manhãs de cerração e pensei que o meu destino era ser vigário de uma pequena freguesia.Que dê a licença? . Era operário não sei de que ofício. Este ano foi particularmente abundante em laranjas e o nosso homem teve a feliz idéia de vendê-las. ficara sem emprego. na pessoa de um guarda municipal: . árvore de futuro com a qual o Sr. veio ao meu encontro um homem com quem conversei alguns minutos. não se atrapalhou em começo.Vai laranja boa! Uma a vintém! Foi feliz e pelo caminho apurou uns dois mil-réis. com a salga e o fabrico de lingüiças. depois de salvar o café. poderosa. às vezes mesmo. 7-8-1915. Tomaram-lhe o cesto. deixaram-no com a roupa do corpo.

Quando bem moço. entretanto. capricho no vestuário e . a que acima aludi. É o critério nacional de que tenho muitas provas nas torturas por que têm passado aqueles meus amigos e confrades aos quais Deus galardoou com tão raras virtudes. pelo fato de conhecer a minha cidade natal. quase menino. embora da Terra do Sol. homens bonitos e chiques. que. lá para que se diga. de casamento ou mesmo com aquele eloqüente conviva que erguera solenemente sua taça (era um simples copo. grande poeta nacional e parlamentar conceituado. habilidade no tratar o assunto. Não é só essa a opinião de Botafogo. Estão bem a ver que nunca quis fazer uma ou mais conferências. Explico-me. Tudo eram moças e senhoras. pela respectiva esposa. É um verdadeiro pesadelo. nas salas do bom-tom do Rio de Janeiro. É verdade que o Sr. O meu belo camarada Olegário Mariano canta as cigarras com voz melhor. desde a simples desculpa de doença até à fuga covarde diante do inimigo. se não tem ou não teve a beleza de moço. Sabem o que lhe tem acontecido? Olegário Mariano vê-se de tempos. É verdade também que assisti conferências concorridas de Anatole France e do professor George Dumas.beleza física e sedução pessoal. as conferências literárias. em . Ele possui. É opinião geral da gente carioca. a minha organização literária tinha falhas. foi proibido de continuar a fazê-las. elegância na exposição. de alto a baixo. Conhecedor desse feitio característico que tomaram entre nós. a esta parte atrapalhado para guardar em casa. Pede tal gênero ao expositor desembaraço e graça distinção de pessoa. e de estar convencido de que. achamos eu e alguns amigos um belo homem. por este ou por aquele. belo "diseur" de sólidas conferências. no julgar de todos ou de todas da cidade brasileira em que nasci. empregando para isto todos os subterfúgios. solicitado por isto ou por aquilo. em uma das vezes. esta não viu no auditório um só homem. Augusto de Lima. caixas. faz conferências com sucesso. mas é que. ainda imperfeitamente conhecedor da minha verdadeira personalidade. Em Anatole. menos estridente e mais suavemente amorosa do que aquela com que esses insetos o fazem quando inspirados pelos crepúsculos aloirados do estio. a segunda série de qualidades do bom conferencista. E esta é a qualidade fundamental para se fazer uma excelente conferência. nas demais modalidades de atividade literária. o discurso nunca foi o meu forte e desde bem cedo me convenci disso. lhe mandam insistentemente. no tocante a elas.É a primeira vez que faço o que nós brasileiros convencionamos chamar conferência literária. porque. Um outro meu amigo. Na forma que nós o naturalizamos é um gênero de literatura fácil e ao mesmo tempo difícil e isto porque ele não só exige de quem o cultiva saber nas letras. que é excepcionalmente lindo e louro. todas as excusas. em alto grau. e não eram eles. O auditório de suas conferências é monopolizado pelas moças e senhoras. caixões de cigarras secas que as suas admiradoras. para o sucesso. são.quem sabe lá? . para elas fui atraído. de batizado. ela é partilhada pelas minhas vizinhas do Méier e também pelas deidades do morro da Favela e da Gamboa. não por orgulho nem por pretender ser mais profundo do que os meus confrades que as fazem. De resto. mas também porque impõe outras qualidades ao conferencista. do Amazonas ao Prata. me eximi de experimentar fazê-las. caixinhas. só e cinicamente. sempre que. de Copacabana ou Laranjeiras. quase de nenhum valor. possui hoje a imaterial da idade madura. capitais e indispensáveis para nele se obter um bom resultado. palestras ou conferências. mas não da beleza que fere as mulheres. pelo menos no Rio de Janeiro. mas. atrevia-me a freqüentar festas familiares e quase sempre delas saia fortemente despeitado com os oradores dos brindes de aniversário.

perante qualquer auditório. em um jornal ou em uma revista. nem mesmo mitingueiro. e só a título de amenidade pode ser explicável que aqui viesse aparecer. conforme me hão dito confrades autorizados. que. Tudo isto. este gênero de literatura e uma arte de sociedade. Newton era um deles. aliás inocente. a crítica fica longe e se ela se manifesta. quando. apesar de ser um sujeito sociável e que passo. quando o censor é educado. Venço agora. os quais tanto assustavam os nossos avós. onde a desaprovação vem filtrada. tanto mais que conferência literária não é bem discurso. foi este pavor do auditório que me fez até hoje fugir às conferências. diretamente ao público. quando não é o de também supor-se um verdadeiro gênio. enfim. e eu. me põe sempre canhestro quando sou obrigado a mergulhar no seu seio. conversando com pessoas de todas as condições e classes. ao topardes. são. despretensiosa. No presente caso. cônscio da minha obscuridade e a pesar da minha natural timidez. Embora convencido disso. e uma rebeldia. porque estou encerrando o que prontamente se chama carreira literária. naqueles tempos. mais do que outros motivos. É. Muitos mais grandes homens tinha eu a meu lado e. mas. uma manifestação de cansaço. Muitas vezes todos vós que me ouvis. é através de artigo ou de carta. . com isso. não tenham medo. me orgulhava. Afinal. as soberbas metáforas de Rui Barbosa. como já vos disse. haveis de formular intimamente. em uma revista ou num jornal. se as suas vidas não são cheias de torpes episódios. sobre este ou aquele assunto. era menino e é próprio de menino não achar grande diferença entre um simples mortal e um grande homem. da minha parte contra ela. um artigo. todos os temores. as mais das vezes. o menor sinal de reprovação do auditório desnorteia quem expõe e se atreveu a amolar pessoas de boa vontade e que tem mais que fazer do que ouvir uma xaropada qualquer. . não vem ao caso. para mim. sem o qual ambos não teriam existência: é o auditório. nem parlamentar. desde já vos aviso. que é o grande Camões. e Gomes de Sousa. uma única vez na sua existência. a minha adolescência vaidosa tentava explicar por que razão a minha relativa superioridade sobre tais oradores não permitia fazer os brilharetes de eloqüência que eles faziam. que dispensa os estos demostênicos. arroubos outros e tropos de toda sorte. pois. anotando anedotas da vida de grandes homens que não conseguiram falar. nunca fui homem de sociedade: sou um bicho-do-mato. certamente fui levado a isto. era outro. é a palestra aliteratada o mais proveitoso gênero de literatura que se possa cultivar no Brasil. o maior geômetra brasileiro. entretanto. Procurava então desculpar essa minha incapacidade para orador de sobremesa. por ter pisado em terras de iniciativa e de audácia. a primeira que faço e talvez seja a última. Quase com lágrimas. É antes uma digressão leve e amável. mais de quatorze na rua. com um soneto ou um artigo. qualidades que este próspero município de São Paulo vai me emprestar por instantes. mas. nem doméstico-festivo. Certas delicadezas de sofrer me acobardam mais diante dela do que os calabouços da ilha das Cobras. um esto de impaciência mal sopitado.geral) ao belo sexo. quando esquartejavam esse nobre mártir dos gramáticos e professores de português de todos os tempos. Tenho. ainda sentia medo da conferência porque há nela um elemento que a relaciona com o discurso. um cochicho. nem judiciário. quando se fala. antigamente tão bem catalogados pela defunta retórica.que fica um pouco acima do jogo de prendas e muito abaixo de um step qualquer. Tem sido para mim desvantajoso esse proceder. Quando se publica um livro. através de fórmulas de polidez. serei breve. e a muito custo. perguntas como estas: para que serve "isto"? por que se honram os homens que fazem essas coisas. de vós para vós mesmos. animando-me a falar-vos. das vinte e quatro horas do dia.

relaxados e distraídos. de Brunetière e outros. sociólogos e doutrinários de toda a sorte têm-no discutido. entre as quais a de Hegel.entretanto. como esta. mas que. às vezes. e de que. para exaltá-la.o fundador dessa absconsa ciência foi o filósofo alemão Baumgarten. Em redor dele. as de verdadeiros vagabundos? como é que todos lhes guardam os nomes e muitos se honram com a sua amizade? como é que nós os cercamos de honrarias. Essas definições de arte. não em toda ela. com mais ou menos liberdade. enfim. contribuir para a felicidade de um povo. por sua vez. Tais perguntas. com o ser grande filósofo.O que é a arte? . enfim? São perguntas naturais e espontâneas que não há um homem que as não tenha feito no seu fôro íntimo e que eu mesmo as fiz. Deixo de citar muitas. em revistas. me pus juvenilmente a escrever para o público. que é muito interessante. na beleza. quando a tradicional clareza dos franceses é fascinada pela proverbial névoa germânica. de estátuas. para essa multidão de senhores sombrios. quando. como todos vós sabeis. Cada um desses doutos. há cerca de vinte anos. por estarem muito familiarizadas. e jornalecos que nasciam. que a definia como tendo por objeto o conhecimento da Beleza. Às vezes. tanto mais que estou longe dos meus livros e dos meus apontamentos. Segundo Tolstoi. como os de Taine. constituem em súmula o resumo do problema da importância e do destino da Literatura que se contém no da Arte em geral. ou tão-somente a Literatura. pode procurá-las no livro de Tolstoi que citei. muito se há debatido e as mais contrárias teorias tem sido construídas. para não me tornar fastidioso. tendo cada uma delas. se algum dos ouvintes quiser ter o trabalho de ler muitas delas. porque uma parte dessa célebre rua. porque. meus senhores e senhoras. e nos esquecemos do inventor da utilíssima máquina de costura? em que pode a Literatura. e os franceses mais do que aqueles. isto acontece e a literatura e os literatos ficam valorizados no seio da finança cautelosa. me sirvo aqui. um determinado critério do que seja Belo. da humanidade. minhas senhoras e meus senhores. Como os senhores sabem perfeitamente. Filósofos e moralistas. em virtude de não tê-los à mão. com o assunto da indicação. mas. outros. sendo que esta é o perfeito ou o absoluto. de bustos. os estetas profundos que doutrinam sobre o Amor e o Belo sem nunca terem amado. Uma porção de definições da ciência estética se baseia. no famoso Hotel do Minho. para não dizer sociológico. baixam até à troca de soezes insultos. há uma que pretende ser a da teoria geral da Arte. enquanto a verdadeira Beleza foge deles com a velocidade do aeroplano. aquela gabada qualidade gaulesa capricha em se fazer densa. de Guyau. do que seja Beleza. na sua sólida e acessível obra . para resolvê-lo. Os alemães mais do que os ingleses. eram lidos e morriam na rua do Ouvidor. a menos que eles se traduzam em fartos ágapes. Muitos. mais se ocupa em coisas sérias que dizem respeito ao nosso estômago. O debate a esse respeito não está encerrado e nunca ficará encerrado enquanto não concordarem os sábios e as autoridades no assunto que o fenômeno artístico é um fenômeno social e o da Arte é social. explica de seu modo o que seja Beleza e cada um deles o faz mais incompreensivelmente. ou a Arte. para toda essa gente livresca constitui tal pergunta objeto de apaixonadas discussões que. que fogem das recepções e dos chás dançantes. em conjunto. sugerem logo a interrogação: o que é a Beleza? Eis aí uma pergunta que às senhoras e às senhoritas. mais rebarbativamente. para condenar a Arte. em que se inclui a Literatura. entre as muitas ciências ocultas e destinadas a iniciados que ultimamente tem surgido. nas proximidades do velho Mercado. mais nevoentamente. percebido pelos sentidos e tem por destino deleitar e excitar este ou aquele desejo nosso. não admitia artistas do verso na sua República ideal. desprezando tais caprichos literários. os abstratores de quinta-essência. segundo Tolstoi. de uma nação. Platão que. não deixava de ser também um grande poeta. parecerá ociosa. para os filósofos. .

É bom. a importância da obra literária que se quer bela sem desprezar os atributos externos de perfeição de forma. Lembrem-se bem que se trata de miséria russa e de um estudante russo. de estilo. Não os seguirei nas suas nebulosidades de procurarei um autor claro.. Trata-se de um estudante que curte as maiores misérias em São Petersburgo. de jogo e equilíbrio das partes em vista de um fim. mas como se apoderar dele? Furtá-lo? Não podia porque a imunda agiota não arredava o pé da pocilga de seus imundíssimos negócios. para lançar a sua obra generosa que fará a felicidade de muitos. A Beleza. que fale do problema angustioso do nosso destino em face do Infinito e do Mistério que nos cerca. ensopadas de ternuras de mãe e afetos de irmãs. Sendo assim. fetiches de amor. percebe que ela tem na gaveta uma grossa quantia em notas de banco. precisa dinheiro.mais densa ainda do que. sem alma e sem piedade. e aluda às questões de nossa conduta na vida. não suspeita até que possa ser formulada. A velha onzenária não tem o mínimo remorso de explorar a miséria dos que a procuram. de ritmo vocabular. em geral.que deveis conhecer. para Taine. Portanto. indo em transação à casa da tal velha. Mas. para transmitir as suas idéias aos outros. Raskolnikoff. de um mês. Obrigado pela sua vida miserável. por meio dos elementos artísticos e literários. sabendo perfeitamente que os objetos serão resgatados. Um dia. não praticaram ou não autorizaram a prática de crimes. é honesto. então? Só matando-a. no encanto plástico. para a plena realização de sua obra? Napoleão não foi um deles e. deve residir na exteriorização de um certo e determinado pensamento de interesse humano. de correção gramatical. uma tal importância. mesmo. no fim de uma quinzena e. cobrando juros despropositados. como ele. Como há de ser? Eis o problema. o parecer de Brunetière. ela já não está na forma. É um crime.pergunta ele de si para si . mas intrínseco. há muito da alma e dos sonhos dos que os levam a penhor. É a substância da obra.. Tomo como exemplo. na proporção e harmonia das partes. Precisa dinheiro para estudar. não são as suas aparências. hoje universal . dizia eu. senão a de todo o gênero humano. talvez.. por sofrê-las. do caráter essencial de uma idéia mais completamente do que ela se acha expressa nos fatos reais. é a mais interessante parte dele.. enriquecidos de beijos de noivas e de amantes. a fim de esclarecer esse pensamento.todos os benfeitores da humanidade e os seus grandes homens em geral. é a manifestação. jornais e revistas. perante o qual aquele pouco vale. tudo ela recebe. algumas antigas. por muito favor. dando miseráveis vinténs para recebê-los triplicados. para responder à pergunta que angustia os filósofos e que a metade do gênero humano.Crime e Castigo. a ignóbil onzenária possui naturalmente o dinheiro de que ele precisa para realizar. Isto leva-o a meditar teimosamente sobre os erros da nossa organização social. em outras palavras. segundo a opinião geral. mas. por meio de livros. compreende melhor as dos outros. diretamente ou indiretamente. neles. vem a conhecer uma velha sórdida. mas . porque. um livro famoso. A descoberta fere-o profundamente. O estudante chama-se Raskolnikoff. As que passa não o fazem sofrer tanto. de obter unidade na variedade. tanto assim que o sacodem idéias para acabar com as misérias dos homens. que emprestava níqueis sobre objetos de pequeno valor intrínseco. é inteligente. É. profundo e autorizado. Relíquias de família. de Dostoiewsky . ele não o tem. como querem os helenizantes de última hora e dentro de cuja concepção muitas vezes não cabem as grandes obras modernas e. tantos outros? . a neblina germânica. Não é um caráter extrínseco da obra. Como obtê-lo.

e a arte. com auxílio dos seus recursos próprios. torná-lo assimilável à memória. Depois de consumado o crime. a arte literária se apresenta com um verdadeiro -poder de contágio que a faz facilmente passar de simples capricho individual. cujos laços ele mesmo rompera. não há nada de comum com o que os escritores mais ou menos helenizantes chamam belo. Mata a ambas da forma mais cruel e horrorosa que se pode imaginar. o Robinson. foi escrever "a história". a obra do grande escritor russo. assim expressa sob essa forma seca que os antigos chamavam de argumentos e os nossos Camões escolares dessa forma ainda chamam aos resumos.não é ele mesmo. Mata as duas mulheres com uma embotada machadinha de rachar lenha que encontrara no quintal do casarão da sua residência. o preceito. executado que seja o crime. o remorso dele mesmo. por elas. O testemunho da consciência o persegue sempre e Raskolnikoff se torna. e ainda mais no ressumar de toda a obra que quem o pratica. mas poucos se afirmam com aptidões para alinhavar o Rocambole. como semelhantes no sofrimento da imensa dor de serem humanos. resumida e palidamente. a ela e também à irmã. Está na manifestação sem auxílio dos processos habituais do romance. em face dele e dos augustos destinos da humanidade. do caráter saliente da idéia. tendo deixado apagar-se-lhe na consciência todos os nobres sentimentos humanos. direito a matar aquela vilíssima velha. tem fraco poder sobre a nossa conduta. porque as suas relações com o resto da humanidade já são outras e ele se sente perfeitamente fora da comunhão humana. Toda a gente se julga capaz de escrever o D. que devemos orientar a nossa atividade literária e não nos ideais arcaicos e mortos. Quixote. não pode sentir-se bem na vida sem o sofrer. mais fortemente possuindo essa capacidade de sugerir em nós o sentimento que agitou o autor ou que ele simplesmente descreve. mais do que isso. É verificado por todos nós que quando acabamos de ler um livro verdadeiramente artístico. O que não soubemos. como nova. tem por hábito atribuir à Grécia. a literatura salutar tem o poder de fazê-lo. é em vão que procura fugir dele. variável e inexato. Insisto neste ponto porque ele me . Estes são os modestos. convencemo-nos de que já havíamos sentido a sensação que o outro nos transmitiu. de transformar a idéia. em traço de união. dos cantos dos Lusíadas. possuidor de um ideal . em prosa ou verso. com o furor homicida de bandido consumado. orientada para um ideal imenso em que se soldem as almas. tinha. a regra. Nisso tudo que é. logo se sente outro . embora obedecendo a generalizações aparentemente verdadeiras. Mas esta pura idéia. mas. com auxílio de sua técnica. etc. só como idéia. portanto. e pensado no assunto. que entrava quando ele acabava de perpetrar o assassínio. se assim é. Mata-a. o Nick Carter ou outro qualquer romance-folhetim. pois nem dinheiro tivera para comprar outra arma mais própria e capaz. nem mesmo quando é perpetrado no mais ínfimo e repugnante dos nossos semelhantes e tem por destino facilitar a execução de um nobre ideal. Além. Passemos além: mais do que nenhuma outra arte. e ele conclui que. onde está a beleza dessa estranha obra? . tanto velha. incorporá-lo ao leitor. em sentimento. por assim dizer. segundo a minha humilde opinião. as Viagens de Gulliver. como que se havia posto fora da espécie e se feito menos que um verme asqueroso. e. como este. que a nossa poesia. aparentemente mais diferentes. a qual. porém.Ocorrem raciocínios dessa natureza a Raskolnikoff.. É por aí. mas os pretensiosos dizem logo: "Isto! Também eu fazia!" Tal fato se dá mais comumente com as grandes obras de que com as medíocres. de concorrer para o estabelecimento de uma harmonia entre eles. reveladas.pergunto eu. Quer o castigo. em força de ligação entre os homens. o Crainquebille.generoso e alto. É preciso que esse argumento se transforme em sentimento. Não há lógica nem rigor de raciocínio que justifiquem perante a nossa consciência o assassinato. sendo capaz. dizem uns.

os brasileiros. epilogar bastamente. e não exclusivamente nas suas relações com os prazeres que ela nos proporciona. e outros fatores mais. para procurar a beleza em uma carcaça cujos ossos já se fazem pó. e o que nos tinha a dar já nos deu e vive em nós inconscientemente. insuficientes talvez para recompô-la como foi em vida. Ela não nos pode mais falar." Mesmo que a Grécia . com as seguintes palavras: "Quando se quer definir todo um ramo de atividade humana. o prazer. Tolstoi. nas seguintes palavras: "Sainte-Beuve disse algures que. Devia-se interpretar a sua linguagem misturada de fogo. no livro de que me venho servindo e a cujo título mais atrás aludi. quem curiosamente os segue. aqui e ali. Lalo. tenho combatido esse ideal grego que anda por aí. hoje. Para isto fazer. o resultado das suas investigações sobre Safo. que nada autoriza a admitirmos um certo e exato ideal de arte helênica. com o acúmulo de idéias que trouxe o tempo. Reinach lia. é primeiramente indispensável estudar tal atividade em si mesma. em relação à mulher. Em geral. O meu simpático missivista (sic) pode ver por aí como a sua Grécia é. o que o diálogo de Platão é em relação ao homem. de acordo com os preceitos gregos. pela mesma época em que o Sr. com o muito pouco que sei sobre ela. Atemo-nos a ela. o deleite dos sentidos. para nós. Houve escândalo. assim variável e fugidia. é impedir que realizemos o nosso ideal. porque. para ser coisa muito diversa. Em matéria de escultura grega. pouco sabemos de arqueologia antiga. estamos na infância. no Temps. Li isto em um folhetim do Sr. o destino da Literatura e da Arte deixou de ser unicamente a beleza. no dizer de Plutarco. A nossa Grécia varia muito e o que nos resta dela são ossos descarnados. pois se tratava deles no drama. na dependência de suas causas e efeitos. instável. de Paris. obedecia a injunções das últimas descobertas arqueológicas.apaixona. vivo no fundo de nós mesmos. P. vinha dizer que Safo não era nada disso que nós dela pensamos. de Sevigné. as idéias que a animavam. talvez nem mesmo balbuciar. com as descobertas modernas que alargaram o mundo e a consciência do homem. e só . É que eles tinham visto os mármores gregos lavados pelas chuvas. na sessão das cinco Academias de França reunidas. Creio que. mas. segundo os seus pensamentos religiosos. pode concluir. que deve entender bem dessas coisas de Grécia.colchas de retalhos. com rápidas leituras. nós. Esta modificação no trajar tradicional dos heróis gregos. sempre que posso. Teodoro Reinach. esse ideal não podia ser o nosso. Ainda mais: "Se dissermos que o fim de uma certa atividade humana é unicamente o prazer. e totalmente incapazes para nos mostrar ela viva. Ainda há bem pouco o Sr.o que não é verdade . entre muitos. Não é este o único detalhe. os sonhos que queria ver realizados na Terra. se representou na Ópera. tanto assim que. entretanto. Sabem os leitores (sic) como vinham vestidos os personagens? Sabem? Com o que nós chamamos nas casas das nossas famílias pobres . que era assim como Mme. a sua alma. as obras esculturais não podiam ser pintadas. está admitido que as frisas do Pártenon eram coloridas.Djanira.tivesse por ideal de arte realizar unicamente a beleza plástica. como sáfica séria. podia eu. e nem lhe acompanhamos os estudos feitos nessa língua. critica muito justamente semelhante opinião. aquele que está na nossa consciência. Tinha razão. fazíamos da Grécia uma idéia nova. um drama lírico de Saint-Saens . É suficiente lembrar que era regra admitida pelos artistas da Renascença que. para mostrar de que maneira podem variar as nossas idéias sobre a velha Grécia. já tive ocasião de observar isto. Em outra parte. é necessário procurar-lhe o seu sentido e o seu alcance. segundo Max Collignon. de cinqüenta em cinqüenta anos.

por intermédio da Arte. mas que preenchem perfeitamente o fim da nutrição. Guyau. e o progresso e o desenvolvimento desta decorrem do fato de sermos nós animais sociáveis. Toda a gente compreende que a satisfação do nosso paladar não pode servir de base à nossa definição de mérito dos nossos alimentos. sob a forma de sentimentos. quanto mais perfeito for esse poder de associação. ganhando com isso a nossa inteligência. ninguém se atreverá a afirmar que o prazer de comer é a função principal da nutrição. no fim de contas. com a qual nos é permitido somar e multiplicar a força de pensamento do indivíduo. não só a coletiva como a individual. das abstrações da Filosofia e das inacessíveis revelações da Fé." Mais do que qualquer outra atividade espiritual da nossa espécie. das mais divergentes .sobre ele fizermos repousar a nossa definição. ele vai além disso. ela é. e. mais do que ela nenhum outro qualquer meio de comunicação entre os homens. as verdades que interessavam e interessam à perfeição da nossa sociedade. meus senhores e minhas senhoras. tudo compreender para tudo perdoar. e evoca em nós ao mesmo tempo. à primeira vista. de Jean Marie Guyau. tendo o poder de transmitir sentimentos e idéias. mais longe que pode. que é o de conservar a vida do nosso corpo. continua Guyau "e a expressão da vida refletida e consciente. as almas dos homens dos mais desencontrados nascimentos. morto prematuramente aos trinta e três anos. de sua raça. assim trabalhando. meus senhores. é imitar os homens de uma moralidade primitiva. para o seu acréscimo de inteligência e de felicidade. Portanto. que não são nutritivos. trabalha pela união da espécie. àqueles. que não vêem na alimentação outro alcance que não seja o da satisfação agradável que lhes proporciona a ingestão de alimentos. portanto. a verdadeira floração da planta em que aparece A arte. tão profundo quanto claro . da família. Com efeito. não só pela sua participação nas idéias e crenças gerais. ela explicou e explica a dor dos humildes aos poderosos e as angustiosas dúvidas destes. a consciência mais profunda da existência. mas também ainda pelos sentimentos profundamente humanos que exprime". e há outros que não são lá muito saborosos. antes são prejudiciais à economia do nosso organismo. São ainda dele. mais intensa será a ligação entre os homens. e mais nos amaremos mutuamente. para torná-las sensíveis a todos. mesmo. os sentimentos mais elevados. Ela sempre fez baixar das altas regiões. como os selvagens. quanto mais compreendermos os outros que nos parecem. A arte." Há muitos que são agradáveis. digo agora eu. que é a linguagem. É o que se dá com a definição de Arte assim concebida. especialmente a Literatura. o genial filósofo.ensinou "que beleza não é uma coisa exterior ao objeto: que ela não pode ser admitida como uma excrescência parasítica na obra de arte. a que me dediquei e com que me casei. em virtude mesmo do seu poder de contágio. será ela evidentemente falsa. esteta. os pensamentos mais sublimes. de seu nascimento. até. das nações e das raças. concorre. graças à escrita e à tradição oral que guardam as cogitações e conquistas mentais delas e as ligam às subseqüentes. examinando-se as questões de nutrição. Ela ergue o homem de sua vida pessoal à vida universal. A sua verdadeira força é a inteligência. moralista e poeta. para alcançar a vida total do Universo e incorporar a sua vida na do Mundo. num curioso livro. incluindo nela a literatura. das gerações passadas. Quer dizer: o homem. a Arte. umas às outras. de sua pátria. Os homens só dominam os outros animais e conseguem em seu proveito ir captando as forças naturais porque são inteligentes. teve. Ver o fim. não fica adstrito aos preceitos e preconceitos de seu tempo. ela faz compreender. por exemplo. as palavras desta formosa divisa: "Ama tudo para tudo compreender. das mais diversas épocas. o destino de qualquer arte no prazer que ela nos proporciona.A Arte sob o ponto de vista sociológico . mais diferentes. são dele. tem e terá um grande destino na nossa triste Humanidade. dispondo de um meio quase perfeito de comunicação.

Talvez isso faça que eu mereça perdão pelo aborrecimento que vos acabo de causar. Esta incerteza que me comprime de todos os lados equivale. nós nos chegaremos a amar mais perfeitamente na superfície do planeta que rola pelos espaços sem fim. porque o meu poder não é equivalente a nenhuma quantidade determinada. a uma certeza e torna possível a minha liberdade . a quem não me canso de citar. estende-se ao futuro. possam elas na sua imensa beleza de força e de esperança atenuar o mau efeito que vos possa ter causado as minhas palavras desenxavidas. eu pressuponho este futuro com o qual nada me autoriza a contar.raças. Guyau. por todos os lados. ela nos faz compreender o Universo. entrando no segredo das vidas e das coisas. e não é à toa que Dante diz que ele move o Céu e a alta Estrela. à flor. A minha atividade excede em cada minuto o instante presente. dizia Carlyle. vulgar esse grande ideal de poucos a todos. imponho-me privações. ao rio. se a minha mão poderá terminar esta linha que começo? A vida está. Ela tende a obrigar a todos nós a nos tolerarmos e a nos compreendermos. O meu pensamento vai adiante dela. ela. Eu consumo a minha energia sem recear que este consumo seja uma perda estéril. Todavia executo. quanto mais trabalho mais espero. o heroísmo dos homens de letras. Revista Sousa Cruz. e de justiça entre os homens e um sincero entendimento entre eles. o ideal de fraternidade. disse em uma de suas obras. outubro e novembro de 1921. empreendo. existência dos verdadeiros homens. seja como for. tendo diante dos olhos o exemplo de seus antecessores. nesta hora de tristes apreensões para o mundo inteiro. e em todos os meus atos.e sigo o meu caminho. estas palavras que ouso fazê-las minhas: "Porventura sei eu se viverei amanhã. umas às outras. a Terra. quanto de Napoleão prisioneiro ou de Maria Antonieta subindo à guilhotina. de prepara o mundo. O Amor sabe governar com sabedoria e acerto. cercada pelo Desconhecido. 58-59. Fazendo-nos assim tudo compreender. É que eu não soube dizer com clareza e brilho o que pretendi. em todos os meus pensamentos. Atualmente. ela se apieda tanto do criminoso. Conquanto não se saiba quando ele será vencedor. Possam estas palavras de grande fé. realçando-lhes as qualidades e zombando dos fúteis motivos que nos separam uns dos outros. por aí. se viverei mais uma hora. A literatura é um sacerdócio. E o destino da Literatura é tornar sensível. explicando-lhes os defeitos. a Literatura reforça o nosso natural sentimento de solidariedade com os nossos semelhantes. ao mar e à estrela inacessível. assimilável. Que me importa o presente! No futuro é que está a. ainda nos liga à árvore. Parece-me que sou senhor do infinito. ao cão. não cansada de ligar as nossas almas. e. mas uma coisa garanto-vos: pronunciei-as com toda a sinceridade e com toda a honestidade de pensar. LIVROS Recebo-os às pencas. do vagabundo. trabalho. conquanto a opinião externada em contrário cubra-nos de ridículo.é o fundamento da moral especulativa com todos os risos. daqui e de acolá . com a minha atividade. contando que o futuro as resgatará . para mim. não devemos deixar de pregar. pede que todos os que manejam uma pena não esmoreçam no propósito de pregar esse ideal. de chufas e baldões. Deus e o Mistério que nos cerca e para o qual abre perspectivas infinitas de sonhos e de altos desejos. ns. dispõe do futuro. para que ela cumpra ainda uma vez a sua missão quase divina.

como a obra de D. e. LITERATURA MILITANTE Conheci O Sr. Carlos M. Carlos Malheiro (eu queria por o s) há dias.da qual ainda não pude falar como ela merece. Trata-se de contos e curioso pus-me a lê-lo com açodamento." . Agradecido.coisa que muito me honra.O meu desejo era dar notícia deles. diz o povo.recebi o romance de meu amigo Ranulfo Prata Dentro da Vida .e pela maravilhosa meiguice em tratar os personagens e a paisagem. Falou-se muito naturalmente e o homem que eu pensava ter todo o escrúpulo em trocar quatro palavras comigo.À margem do último livro de Anatole France. O que me feriu logo nele foi o primeiro período. no Recife. Encantou-me pela sua simplicidade. em plena via pública. que não há como os homens conversarem. A ilustre autora há de desculpar-me isso. e o notável romancista que aprecio e admiro. mas também o meu intuito era noticiá-los honestamente. Jackson de Figueiredo. pareceu-me querer que me demorasse com ele a conversar. desses das montras para uso das damas alambicadas. se não é afanosa. Débora do Rego Monteiro. e tinha por título . de forma que não é uma leitura meditada. militantes e honorários. Espero.. isto é.Pascal e a Inquietação moderna . A minha vida. por apresentação de João Luso. Débora requeria. Tenho também.Chico Ângelo. depois de tê-los lido e refletido sobre o que eles dizem.vejam só! . Tive a mais bela impressão e o Sr. porque seria prova de inépcia imaginar que as centenas de milhares de volumes das suas obras foram exclusivamente adquiridas pelos literatos aprendizes. mas com a qual me vejo atrapalhado. surgiu-me como a pessoa mais simples deste mundo.e ainda não escrevi sobre ele uma linha. Entretanto os livros chovem sobre mim . mas quando se lembrar que a vida tem terríveis imperativos. A vida tem dessas coisas. de outro amigo. Era assinado por uma senhora: D. mas fi-lo de bonde. para se entenderem. 12-8-1922. há bastante tempo. Diz o autor da Paixão de Maria do Céu: "A aura gloriosa e nos nossos tempos incomparável de Anatole France servirá grandemente aos historiadores futuros para comporem uma opinião judiciosa sobre o bom gosto das élites sociais nossas contemporâneas e digo sociais. Infelizmente não posso fazer isso com a presteza que a ansiedade dos autores pede. é tumultuária e irregular.coisa rara em mulher . devido à falta de método na minha vida. que ele não leve a mal uns reparos que vou fazer sobre um seu recente artigo no O País intitulado . Há mais de um mês . mas foi uma leitura cheia de simpatia e boa vontade. Há dias veio ter-me às mãos um volumezito editado em Pernambuco. e a vou levando assim como Deus quer. Careta. Dias pode ficar certo de que a idéia que eu fazia dele era muito diferente. pela despretensão no escrever da autora . Acreditava-o um literato janota. justamente. uma obra sua recente . quer fosse nesta ou naquela revista..

Malheiro Dias não sei por que despreza os aprendizes literatos. e a solidariedade humana. tendo por ideal de arte essa concepção. Um doido que andou na moda e cujo nome não cito. Pode-se lê-lo lá e lá o encontrei. disse Taine. A obra de arte. proclamou a sua grande admiração pelos leões. Malheiro Dias poderá classificar a Ilha dos Pingüins. tudo o que pertence ao destino de todos nós. O termo "militante" de que tenho usado e abusado. um índio. de restabelecer entre elas uma ligação necessária ao mútuo entendimento dos homens. Não sei como o Sr. A velha terra lusa tem um grande passado. para bem suportarmos o fardo da vida e dos nossos destinos. . Ele mostrou que desde muito as letras francesas se ocuparam com o debate das questões da época. porque moram em Botafogo ou Laranjeiras. e mais alguns livros do grande mestre francês. de plásticos. Quando disse que o Sr. O Eça. venho para as letras disposto a reforçar esse sentimento com as minhas pobres e modestas obras. os homens. no seu próprio destino. Malheiro Dias que a grande força da humanidade é a solidariedade. tomei o pião na unha. a influência que vão tendo. Militam. por quem não cesso de proclamar a minha admiração. Brunetière diz em um seu estudo sobre a literatura que ela tem por fim interessar. mas. creio que nas Prosas Bárbaras. Eles nada têm de contemplativos. no Brasil. dos casos sentimentais e amorosos e da idealização da natureza Aquelas eram . o estímulo para elas é a arte. Hoje. não foi pela primeira vez empregado por mim. militantes e honorários. enquanto estas eram contemplativas e de paixão. senão dessa maneira. um português ou um italiano se podem entender e se podem amar. quando as religiões estão mortas ou por morrer. para nós fazermos grandes obras de arte. ou quase todas as suas obras. Todas. Antero de Figueiredo não mereciam esse "engagement" que estamos tendo por eles é que eles não mereciam. do que Portugal. quando comparou o espírito da literatura francesa com o da portuguesa. da maneira literária. só temos futuro. Júlio Dantas ou o Sr. Nós nos precisamos ligar. interessa o destino da humanidade. a grande literatura tem sido militante. à mão. tem por mira um escopo sociológico. A começar por Anatole France. eu como literato aprendiz que sou. às obras de arte que têm semelhante escopo. Isto em geral dentro daquele preceito de Guyau que achava na obra de arte o destino de revelar umas almas às outras. na ordem social econômica. precisamos nos compreender uns aos outros. O Brasil é mais complexo. no interesse comum de todos nós. Eu chamo e tenho chamado de militantes. tem por fim dizer o que os simples fatos não dizem. Nós não temos nenhum. se bem me julgando aprendiz. E é dele que a nossa literatura deve tratar.Pelo que aí diz o Sr. se não visam a propaganda de um credo social. os Bergeret. Sendo assim. de incolores. pela virtude da forma. os bois e os carneiros conquistam o mundo com a sua solidariedade entre eles. mas não honorário. tigres e jaguares.militantes. Creio que temo não amar. devemos mostrar nas nossas obras que um negro. Em vez de estarmos aí a cantar cavalheiros de fidalguia suspeita e damas de uma aristocracia de armazém por atacado. Eles estão aí. cheio dessa concepção. mais do que nenhuma outra coisa. Eu me atrevo a lembrar ao Sr. Como eu sempre falei em literatura militante. empregou-o. precisamos dizer as qualidades que cada um de nós tem. enquanto as portuguesas limitavam-se às preocupações da forma. pois já tenho publicado livros. à proporção que essas feras desaparecem.

As cogitações políticas. Por mais que não queiram.C. Bovary. e o prestígio do seu nome. Coelho Neto é daqueles a afirmar que Clotilde de Vaux foi uma rameira . deputados federais por aquele Estado. fez "forfait". Tenho para mim que o Sr. A. que surgiu para as letras nas últimas décadas do século XIX. com o talento que tem. mesmo ligeiramente. embora os seus projetos morressem nas . querendo como os Goncourts. Em tais anos. e muito justamente pelo seu poder verbal. cujo máximo problema mental. por conta e risco deles. Coelho Neto ficou sendo unicamente um plástico. por fás e por nefas. em um século que levou a sua análise até os fundamentos da geometria. eu também sou literato e o que toca a coisas de letras não me é indiferente. das bases das nossas instituições. pintar com a palavra escrita. com as suas chinesices de estilo. devem ser aproximadamente sufragados nas urnas. só nos deve interessar arqueologicamente. as suas obras. fazendo todas as citações de memória. Se ele estivesse ao par dos males do seu tempo..É de Fouillée a segunda parte do período. que viu pouco a pouco desmontar-se o mecanismo do Estado. a simpatia ativa e incansável de gregos e troianos . poderia ter apresentado muita medida útil e original. magnetizado pelo Flaubert da Mme. O Sr. quando uma outra sua obra recebe gabos da mais alta autoridade eclesiástica do Rio de Janeiro. Coelho Neto. Vamos ao que serve. LITERATURA E POLÍTICA Conforme resolveram os chefes políticos do Maranhão. talvez.. Em um século de crítica social. ficaram-lhe inteiramente estranhas. o Sr. Ligeiramente. e nelas descobre as suas tendências literárias e espirituais.. O mundo é hoje mais rico e mais complexo. da Legislação. Neto não se deteve jamais em examinar esta trágica angústia do seu tempo. problema que interessava todas as inteligências de quaisquer naturezas que fossem. Coelho Neto não foi incluído na lista dos que. religiosas. A coisa tem levantado tanta celeuma nos arraiais literários. o faz orgulhar-se.B.. 7-9-1918. Não descubro razão para tanto barulho. mesmo que fosse. não deu para o estudo das soluções apresentadas um pouco do seu grande talento. para chegar aos seus elementos primordiais de superstições grosseiras e coações sem justificações nos dias de hoje. um contemplativo. de renovação latente.os políticos seus conterrâneos.. uma cadeira de deputado pelo seu Estado natal. da Pátria. o nome do Sr. deram-lhe. ficou num corriqueiro deismo ou. o Sr. era uma reforma social e moral. Isto é explicável muito facilmente para quem conhece. sociais. em um século deste. não se impressionou com as mais absorventes preocupações contemporâneas que lhe estavam tão próximas. morais. que me julgo obrigado a tratar do escandaloso acontecimento. tendo conseguido. O Sr. O grande romancista. nem mesmo tratou de conhecer o positivismo que lhe podia abrir grandes horizontes. quando é excomungado por um arcebispo do Chile (vide Magda) e exultar. Coelho Neto como literato-político. do seu século. em um catolicismo singular e oportunista que. muito curiosamente. pedindo que não vejam nestas considerações a mínima hostilidade ao conhecido escritor. Glorioso. durante duas legislaturas. é o que posso dizer sobre o que seja literatura militante. e sempre fascinado por uma Grécia que talvez não seja a que existiu mas. em religião.

fonte de consolação para os humilhados e oprimidos. empregando nos discursos vocábulos senis ou caducos. que um Fulgêncio ou um Marcelino tenham eles escolhido para substituí-lo. usados atualmente. Quem não quer ser lôbo não lhe veste a pele. na ordem econômica. e a crueldade sem nome do espetáculo e a amplitude da inútil carnificina levaram inteligências honestas e desinteressadas a pensar mais maduramente sobre o mistério da nossa existência e o sentido dela. em quem não repercutiram as ânsias de infinita justiça dos seus dias. resolveram apelar para a religião.Deus sabe como! . com o vocabulário. portanto. Muitas dessas inteligências voltaram um pouco ao catolicismo romano. por isto ou por aquilo. Indo para a Câmara. Neto tem talento. com o abalo que. um batedor do futuro. esses gananciosos que simulam caridade e temor aos mandamentos da Santa Madre Igreja. onde não podia ser poético ao jeito do Sr.contentava-se em converter o genro ambicioso. não pôde ser o que um literato deve ser quando logra pisar em tais lugares: um semeador de idéias. mete-lhes medo e pedem auxílio à religião. cheia de preocupações políticas. Não é de admirar. porque o Sr. mediante o dote das filhas que tinham passado pelos colégios de irmãs de caridade. em quem não encontrou eco nem revolta o clamor das vítimas da nossa brutalidade burguesa. onde também não podia ser político à guisa do Sr. Mas. Viram. Urbano Santos. porque o Sr. nada fez. para os políticos. vergonha e orgulho de si mesmo. consagrada no círculo dos grandes burgueses embotados pelo dinheiro. com a paisagem. no intuito de defender as suas cobiçadas fortunas. isto foi uma decepção. a literatura do Sr. feita de avidez de ganho. a fim de estabilizar a sua situação e o futuro de sua descendência. REFLEXÕES E CONTRADIÇÕES À MARGEM DE UM LIVRO De uns tempos a esta parte. o grande romancista sem estar saturado dos ideais da época. sucessos externos e internos trouxeram ao nosso país. Até bem pouco. morais e sociais. os fartamente enriquecidos. sobretudo a religião católica. Fausto Ferraz. manteve-se mudo.. A última guerra foi-lhes favorável em dois sentidos: eles. do seu honesto trabalho e da grandeza da sua glória. indo para a Câmara. que isto não bastava e muito pouco podia impedir que se avolumasse a sincera onda de revolta que crescia em todos os corações contra o atroz despotismo da riqueza e os miseráveis e torpes processos de enriquecimento. Neto tem senso comum. Para os literatos. Coelho Neto ficou sendo puramente contemplativa. estilizante. uma utopia ou ajudar a solapar a construção social que já encontrou balançando. de uma literatura militante. O que vai acontecer. com a mais sinistra amoralidade para também edificar. sem cogitações outras que não as da arte poética. por sua vez. 18-1-1918. dizia. mas que não fez do seu instrumento artístico um veículo de difusão das grandes idéias do tempo. essa gente superenriquecida .pastas das comissões. O deputado ficou sendo o romancista que só se preocupou com o estilo. A Lanterna. Em anos como os que estão correndo. ele ficou sendo um qualquer Fulgêncio ou Marcelino. só dando um ar de sua graça para justificar votos de congratulações a Portugal. prosperaram ainda mais. porém. e eis os .

Andava bem o catolicismo de Petrópolis necessitado de um espírito como esse que põe a serviço dele a sua fé sincera e o seu talento. É. por todos os meios. até agora. Seja com que fito for. pois. não é uma confissão. cantando vitória e contentes porque tinham esmagado os adversários que lhes ameaçavam o pleno gozo e uso das fortunas. em geral. escondendo com pudor o seu real saber. diversos moços.. porém. para o desconhecido ou para o debatido. Já houve. de mãos dadas ao inacismo. Algumas vezes é proveitoso que o nosso exame e as nossas faculdades pensantes se dirijam e repousem no evidente. é militante. é a sua clareza. que aduziu à parte principal de sua obra. pacientemente. é a sua veemência apaixonada e. não devem tão-somente ser encaminhados para o obscuro. se hão dedicado à apologética católica. é dirigida aos que pensam. científica e teológica. do banco e da indústria. já houve o pedantismo dos positivistas que aterrava toda a gente com a matemática.S. Todo o livro não é ocupado somente com a parte apologética propriamente. o pedantismo dos gramáticos que andou esterilizando a inteligência nacional com as transcendentes questões de saber se era necrotério ou necroteca. Perilo Gomes. de férvida esperança no futuro. porque o que encanta nele é o escritor. claro.magnatas do comércio. Perilo não se pode furtar em confessar que a sua obra não é de pura contemplação. e a humanidade passou ou está passando por uma das mais duras privações de sua existência. no sentido mais alto da palavra. de religião enfim. telefone ou teléfono. com os artigos de sua lavra. hoje há ou está aparecendo um outro: o pedantismo católico que se entrincheira atrás de São Tomás de Aquino e outros respeitáveis e sutis doutores da Igreja. não só no que toca a eles. Ele tende à reforma da Constituição. mas também a filhos e netos. Ao que me parece. Entre eles. Não há como a provação das dores profundas para nos impor indagações sobre as coisas do Além. Entre nós. ao menos de abalá-los no seu volterianismo ou agnosticismo. os grandes acontecimentos da humanidade sempre se revestiram de aspecto de crença mística. Digo catolicismo de Petrópolis porque o Sr. entre nós. o autor quis provar. nos quais o saber de detalhes e a pouca familiaridade com a língua tiram as indispensáveis qualidades de escritor de combate: a atração e a veemência. os que ele nos dá. senão de convencê-los. no intuito.. cedendo a esse impulso que a crise guerreira acelerou. de quem muito sinto andar em tal matéria afastado. etc. sobressai por todos os títulos Jackson de Figueiredo. em substância. Deixemos. no respeitado e no que está claro como água.. aos condutores do pensamento nacional.Penso e Creio . sobretudo. ele é um escritor para toda a gente. já pela erudição que demonstra. pois nenhum parentesco tem com a primeira. para considerar somente o escritor e o pensador do Penso e Creio. Aparece agora como uma brilhante revelação o Sr. sorrateiramente. não é um ato de contrição de sua irreligiosidade passada. O seu livro . que o nosso interesse artístico ou a nossa angustiosa perquirição intelectual. é o seu poder de expressão. tem visado fins políticos. o homem nunca deixou de ser um animal religioso e a religião é uma necessidade fundamental de sua natureza. Essa revivescência religiosa é muito natural.é deveras notável. já por ser escrito superiormente. a sua simplicidade no dizer e a sua total ausência de pedantismo. isso de lado. De mais. contentara-se com disfarces na violação dos . com grande "élan" de paixão e soberbos toques de poesia. são jesuítas alemães ou italianos e irmãos leigos da Companhia. Há uma segunda parte que podia ser dispensada. uma obra política e o catolicismo de Petrópolis. etc. Perilo Gomes não parece nada com esses senhores respeitáveis que hão de ser camareiros de S. forte.

só nos pode levar ao catolicismo. dos protestantes. e até aproveitou-se em seu favor. é em afirmar ele que essa revelação de Deus em nós. mas não Deus mesmo. sei bem disso tudo. nos dias atuais. A Igreja quer aproveitar ao mesmo tempo a revivescência religiosa que a guerra trouxe. definindo de vez o meu humilde pensamento em face da agitação católico-nacionalista que está empolgando todos que no Brasil tem alguma responsabilidade mental. baseada na nossa necessidade fundamental de Deus e impregnada do cesarismo romano. dos religiosos de qualquer espécie. é muito natural que voltem a ela. decretada como oficial a Igreja Romana. porém. fora dela. não o estrangeiro. se o convertido ou arrependido de irreligiosidade. aproveitando o momento de angústias que atravessamos. Estas reformas me parecem odiosas e sobremodo retrógradas. e a recrudescência exaltada do sentimento de pátria. Entretanto. representada pelos improvisados ricaços de Petrópolis. crê ou têm crido em Deus. também conseqüência dela. mas. Por isso. No argumento. O culto à brasilidade que ele prega. ao se sentirem tocados pela graça divina. como fato consumado. Sem que nada me autorize a tal explicitamente. talvez com um pouco de farinha a mais. é evidente que há em semelhante ato uma violência inqualificável contra a consciência individual. As religiões são expressões humanas de Deus. se ligam a elas algumas das suas afirmações. me causa apreensões e. É minha desautorizada opinião. nasceu no islamismo ou na igreja grega voltaria para o catolicismo ou para o maometismo ou para a igreja ortodoxa? A resposta não se faz esperar: ele voltaria para a doutrina religiosa em que foi educado. quer obter a vitória completa. mesmo toleradas outras seitas. o Sr. quando afirma que a ciência não satisfaz. não só à religião. Dado que a maioria dos brasileiros seja verdadeiramente de católicos. no que não estou de acordo com o Sr. . não pode deixar de revoltar um liberal como eu. como: o casamento civil e o ensino oficial inteiramente leigo. no Brasil. o autor não faz entre eles a separação dos católicos. aliás muito antigo. que ela parte do mistério e acaba no mistério.coisa que. remotamente. Perilo Gomes não trata dessas questões claramente. que a anima e a sustém no seu velho sonho de domínio universal. mas sei bem que ela é uma criação social. eu filio Penso e Creio à ação do partido que se esboça aí com o título de nacionalismo. julgo não ser demais fazer as observações que acima ficam. Não sei por quê! Para os que nasceram na religião católica e a abandonaram. de argumentos dos seus inimigos contra ela. está sempre a apelar para as tradições católicas de nossa terra. mas as idéias estrangeiras de reivindicações sociais que são dirigidas contra os cresos de toda a ordem. Mas tal culto tende a excomungar. há muitas razões de crer em Deus e de obedecer à revelação da voz divina na nossa consciência. Mas. dai a aliança da jovem fortuna. incorporando-as ao seu patrimônio. Admiro muito a religião católica. Estaria e estou de acordo com o Sr. O tal partido. em seu favor aqui. como ameaça. mas. e nao é difícil ver nisso o desejo de riscar da carta de 24 de Fevereiro a separação do poder temporal do espiritual e suas conseqüências. em matéria que muito pouco tenho meditado e muito menos pensado. como já disse.preceitos dela que interessam ao Catolicismo. por isto ou aquilo. Perilo. sei que ela tem sabido aproveitar as conquistas de toda a ordem obtidas por este ou aquele homem. já que se me oferece pretexto para fazê-las. é o apego à herança do passado de respeito. O Jeca deve continuar Jeca. Perilo. com a Igreja. mas também à riqueza e às regras sociais vigentes. e que. de que a maioria dos homens eminentes em toda a sorte de atividades teóricas e práticas. pelos seus órgãos mais autorizados. por parte da massa que nem sempre está com a razão . dos simples deístas.

sob a benéfica influência da Igreja. para Napoleão criminosamente a restabelecer. ateus ou não. A Convenção extinguiu-a nas colônias francesas. e essa grande Convenção Francesa. essa admirável plasticidade da Igreja. mesmo o virtuoso Sócrates. mesmo quando essa ambição desenfreada de dinheiro e de lucro se faça em troca da dignidade moral da pessoa humana. quem conseguiu a vitória de extinguir semelhante infâmia. tivesse verdadeira erudição pois não tenho nenhuma. A sua atitude perante a nefanda instituição foi a dos filósofos antigos de que fala o Sr. a que o mundo antigo. como a França. a força. talvez. foi a de reconhecer-lhe. se tal tentou. Entretanto. poderia tentar a outro. ou mesmo antes. não foi um concílio muito ortodoxo. Perilo. amoldando-se a cada idade e cada transformação social. Seria certamente um capítulo de uma espécie de geologia religiosa em que. várias igrejas superpostas com os afloramentos fatais das mais antigas através das mais modernas.Porém. conforme tudo leva a crer. citando o Sr. que ela instituindo o dogma da fraternidade humana matava a escravatura. até hoje. desaparecimento que só se fez total com a Grande Revolução (Vid. no assunto. já se esvaneceu ou vai se esvanecendo. É fato. talvez ainda a escravatura negra estivesse admitida como legal. quem acabou com esta infame instituição. Esta incapacidade que a Igreja demonstrou para abolir a escravidão negra nas colônias dos países catolicíssimos. deve-se pela primeira vez. estava a tal ponto identificado que os seus filósofos mais eminentes. Não creio. afinal. nessa questão do acabamento dessa odiosa instituição na Europa. e os filantropos ingleses. e. Esse serviço. segundo tudo faz crer. Guiraud. Taine . portanto. entretanto. Não fossem os filósofos do século XVIII. dizia eu. no acertado dizer do Sr. chamando-os ao bom caminho da paz e da concórdia. a cupidez. não soube ou não pôde impedir a moderna escravidão negra nem propagou a sua abolição. que. desde o édito de Milão. senão a legalidade. Vou me deter alguns instantes no que toca à extinção da escravidão antiga. Estou a muitas centenas de quilômetros dos meus modestos livros. que não é preciso aqui mostrar de quanto é credora a humanidade ao catolicismo. . na sua transformação em selvagem. durante o século XVII. a um filósofo que a Igreja mais combate . mas nunca um ato solene da igreja que a condenasse.Augusto Comte. É por isso que Macaulay diz. A última guerra mostrou a fraqueza do ascendente do Papado que não quis francamente experimentar o seu prestígio sobre os povos em luta. e no final desaparecimento desta última forma de elementar trabalho humano. Penso e Creio é luxuriante e há tanta riqueza de idéias nele que a gente se perde querendo escolher as que deseja discutir. a demonstrar que tem havido. que a Igreja possa resolver a questão social que os nossos dias põem para ser solucionada urgentemente. como diz o Sr. ela. os Evangelhos tinham passado das mãos dos religiosos para a dos filósofos. dá a entender que ela não tem mais força para reprimir no coração dos seus fiéis a ganância. especialmente Condorcet. .Origines de la France Contemporaine). Perilo.nessa questão há um argumento em desfavor do papel social da Igreja moderna. A força moral da Igreja é toda aparente. como sendo patrimônio dele. Há exemplos isolados de eclesiásticos que a combateram. onde. a Espanha e Portugal. apesar dos Evangelhos. todos nós que conhecemos os homens bebemos inspiração. foi repelido. que. através de quase dois mil anos de existência. mesmo o quase divino Platão e o conciso Aristóteles reconheciam a sua legalidade. Perilo. senão citaria integralmente esse famoso trecho do grande escritor inglês. a classificação dos termos não fosse difícil de estabelecer. Mas. pelo menos a necessidade. não me lembro onde.

e . Vale a pena ler seu livro.. um caso a estudar. Nestas reflexões que o vibrante livro do Sr. A. anarquistas. positivistas. as suas cerimônias domésticas. Gastão Cruls. Admitindo a velha definição dos dicionários. mas escreve sem o Elucidário de Viterbo e o Blutteau.que ele protesta contra os brutais processos da nossa atual medicina que só vê no doente.Se os socialistas. há "atrás" do que se vê muitas e muitas coisas. Esse professor Rodrigues que vai seguido de uma récua de estudantes. mas. mas que dará a seu autor mais fama. o que ele ama é. É possível que o professor Assis Cintra tenha outra opinião. Despertou-me refletir um pouco.O Noturno n. mas . É delicioso de naturalidade e precisão. há alguns que são verdadeiras toras de cerne. assistentes e enfermeiros e faz discursos mirabolantes (é do autor) diante do doente. Nem sempre os seus contos mantêm na aparência esse tom de transcendente espiritualidade.P. os seus negócios. As relações do fazendeiro com os colonos. não a podem resolver estou muito disposto a crer que o catolicismo não a resolverá também. Por exemplo: no G.espiritualidade . é em nome dela . Os contos que o compõem. principalmente no seu cadáver. mas tal coisa não vem ao caso. não são delgados galhos secos. O Sr. para escrever daí a dias uma chôcha memória que certamente morrerá na vala comum das revistas especiais.B. pois nele não se queimam só gravetos. etc.que concubinato! .C. aos bois. nas mãos. graças a Deus. encontra diante de si campeão contrário de tão raro valor e estranha bizarria. tão-somente humilde homenagem de um adversário que. etc. Que o que se vê.A.é estranho e como que o autor quis manifestar nele que a sua concepção da vida não é rígida nem mecânica. inesperadamente. sindicalistas. mas quase sempre essa sua singular feição de escritor nacional se trai aqui e ali. a vida de fazenda. mas. O seu primeiro conto . a dissecar. portanto mais clientes e mais dinheiro.. Gastão Cruls. É a indústria clínica que se ceva nos cadáveres dos pobres desgraçados que morrem nos hospitais. não é tudo que existe.o 13 . e é contra este que se dirige toda a guerra dos revolucionários.sem ter diante dos olhos o redundante padre Vieira e o enfático Herculano.coisa singular .esse amor que ama a vida da roça não ama a natureza. DE GASTÃO CRULS Dizem os dicionários que "coivara" e uma fogueira de gravetos. que tem como título essa palavra de origem tupaica. tanto mais que não me preocupo com essas coisas transcendentes de gramática e deixo a minha atividade mental vagabundar pelas ninharias do destino da Arte e das categorias do pensamento. Não é só à paisagem. aos carneiros. Gastão Cruís é médico. À MARGEM DO "COIVARA". mas mesmo aos bichos. por assim dizer. a vida social da roça. de cuja ação e de cuja crença quisera partilhar para sossego de sua alma.C. não escreve no calão pedante dos seus colegas. ensina ele alguma . no livro do Sr. Perilo Gomes me provocou fazer. tanto mais que nunca foram tão íntimas as relações do clero com o capital. sobre certas ficções do atual ensino médico. naturalmente procurando os efeitos artísticos da arte de escrever. não há positivamente "coivara". Nota-se nele que o autor ama muito a vida da roça. sem querer de forma alguma diminuir o mérito do autor. Não há nele um toque distinto que denuncie esse amor. Queimam-se grossas perobeiras e duros jacarandás. Escreve como toda a gente. não há o menor sinal de má vontade ou de hostilidade. 23-4-1921. após a leitura desse magistral conto do Sr. Digo isso de um modo geral.

. porém. sobretudo àqueles que isso ensinam.o que o autor também nota . dentro da noite escura. Mais tarde ele explicara a Raul por que assim procedera. vamos ver no . tendo-se recolhido à Santa Casa. lido no "Thinherabos". preferira recomendar uma alimentação intensiva pelos siris e caranguejos. tal qual o autor nos conta e conforme expõe o grande Filomeno. Vimos já esse professor Rodrigues. porém. É tão importante a medicina na nossa vida que toda a crítica deve ser feita por todos. a fazer hipóteses mirabolantes e ousadas. Os jornais falaram e não sei como as coisas ficaram. essa."King of Life". Eis aí como narra o arguto autor do Coivara: "A um indivíduo que o fora consultar enfermado pela moléstia de Friedreich. é a principal. terrível. Ela tinha razão sob todos os pontos de vista. no João de Barros e outros cacêtes. isto é. Clark acaba de afirmar que há pelo Brasil inteiro quatro mil médicos que não sabem medicina. diante do doente. Cruís muita coisa outra que não a pura preocupação das coisas de sua profissão. "Rei da Vida" . o Dr.não passou antes de "Reading" de nada mais do que o "Rei dos Cabotinos". Vejamos este caso."Os caranguejos nunca andam em linha reta".maneira que é exigida "malgré-tout" . Esse Wilde que se intitulava a si mesmo . "Como Raul não compreendesse o latinório e se mostrasse um tanto atrapalhado. um lente de partos quis fazê-la sujeitar-se ao "toque" por toda uma turma de estudantes. se esse indivíduo tem uma desordem do equilíbrio que o impele a correr e cair para a frente. Dr." Filomeno chama isto opoterapia. Mas era preciso. que já o fizera levar várias quedas. entre nós. A sua lógica é de uma inflexibilidade aristotélica e ele a aplica largamente na sua clínica. Filomeno logo traduziu: . melhor eles compreenderiam o lente. por experiência ou estudo. no Rui de Pina. começando por lhe citar um aforismo latino: "Cancri nunquam recte ingrediuntur". Compreendes agora por que lhe receitei os crustáceos? Ora. A verdade. dessa maneira afetada e oratória . Tem outras manias. àqueles que nos têm de curar. seguindo na esteira do Sr. é possível? Penso bem que não. talvez demais um pouco.outra feição do nosso ensino médico. como é Coivara. Beijos de uma morfética. só sabem andar para os lados. que são animais exclusivamente laterigrados. é conto fora dos nossos moldes. no Diogo do Couto. quanto menos palavras arrevesadas. vai para morrer. melhor ele poderia iniciá-los.A Neurastenia do professor Filomeno . no frei Luís de Sousa. tanto assim que o Sr. Oh! que horror! O que estranho no autor de um livro tão digno. é a admiração que parece ter por Oscar Wilde e se traduz em frases quentes no seu conto "A Noiva de Oscar Wilde". em vez de ir para tratar-se. o professor Filomeno.pelo auditório numérico que o cerca. queixando-se muito da marcha propulsiva. Ela se revoltou e houve escândalo. Há. fantástico e doloroso. nos contos do Sr. Com uma singular sagacidade.coisa? É possível transmitir a outrem o que se sabe. ao invés de qualquer prescrição medicamentosa. As nossas escolas de grande freqüência devem ser condenadas. porém. Lembro agora um caso que se passou há tempos. ele soube conquistar a alta sociedade de sua terra. De forma que um pobre-diabo que cai num hospital.não é um suplício para um doente grave estar a ouvir palavras campanudas sobre a sua moléstia durante uma hora? Poderá isso concorrer para a sua cura? Não. Uma parturiente. "Noites Brancas". Cruís. Filomeno é um sábio em medicina porque conhece o léxico antigo da nossa língua. De resto . agora. é que todo esse nosso ensino médico é malvado e improdutivo. nada mais natural do que neutralizar essa força propulsora por meio dos gânglios nervosos dos siris e caranguejos. Quanto mais reduzido for o número de alunos. O Dr. Valha-me Deus! Eu me alonguei nestes dois contos em que se tratam de coisas do ensino médico. por exemplo.

desta cidade. Era elegante. a de ostentar o porco vício que o levou ao cárcere. entre as quais. não é o estudo. As suas obras são medíocres e sem valimento. apesar de umas ousadias fáceis que a sua mocidade desculpa.é feita com grande cuidado e rara lucidez.História de João Crispim . ficam apagados diante da força com que o autor analisou o seu personagem central. no personagem do Sr. O derivativo para essa tortura. Pelas leituras deles.expondo-lhe os vícios e. porque os outros. mais longamente estudado. mesmo o do poeta Afonso Pina. Sabe qual é. na miséria e na humildade. A. A sua vaidade. põe fora o cravo verde. Enéias Ferraz . ele é um egoísta simulador de talento que uma sociedade viciosa e fútil impeliu até ao "hard labour".. o seu narcisismo imoral obrigaram-no a simular tudo que ferisse e espantasse a massa. nem sempre de bom quilate. Para isso. é obra de mérito que merece ser lida. sentimento do alto destino do homem. ao mesmo tempo. embora não hesite em freqüentar o mais baixo que seja. . Aí. Dostoiewsky passou alguns anos na Sibéria. Adquiriu-a para chamar a atenção sobre si. ele em si não era portador de tal tara.talvez tenha dado um bom resultado.. 23-7-1921. todo o seu cinismo em mostrar-se possuidor de vícios refinados e repugnantes.. toda a sua vaidade . lançou mão das mais ignominiosas ousadias.. para fazer sucesso. Ao que parece. Faltou a Wilde sempre o senso da vida. e essa análise é feita . durante muito tempo. com uma originalidade duvidosa. o seu egoísmo.aparecido recentemente. Ele é um mascarado que enganou e explorou toda uma sociedade. ele despe-se do peplo. os justificando com paradoxos. menos da das bodegas. tascas e prostíbulos reles. como qualifica Sílvio Romero. meu caro Dr. Trata-se de um rapaz de cor. É um caso de "moléstia da cor". nem grande. tira o anel da múnia do dedo. perde toda a basófia e abate-se. é o .Perversion et perversité sexuelles . como todas da Livraria Castilho. a grandeza da concepção e a força de execução.prefaciada por Zola. embora seja ele um estudioso. trejeitos e "poses" de artista requintado. tratando de Tito Lívio de Castro. É livro de um tipo só.pode-se dizer sem favor algum . a frescura e a ingenuidade do verdadeiro talento.. embora escreva e seja ilustrado. com arremedos.tudo isso que o arrastou à desgraça. não é o bordel. Queria distinções sociais e dinheiro. mesmo nos paradoxos. Não é um artista. Às vezes até. de grande cultura. Tudo nele é factício e destinado a causar efeito. Não tenho todo o processo a que foi submetido. num atroz presídio. não é a arte. Toda a sua jactância. mas possuo grandes extratos que vem na obra do Dr. até esse imundo vício que o levou à prisão de "Reading". a sua falta de profundo sentimento moral. e não se abateu. Laups . HISTÓRIA DE UM MULATO O livro do Sr. para essa moléstia especial. nem pequeno.A mulher e a sociogenia . egresso de toda e qualquer sociedade.desse malogrado escritor. A edição do Coivara é primorosa.C. Enéias Ferraz. A vida é coisa séria e o sério na vida está na dor. é que afirmei sobre ele o que acima fica dito. entre os mais inumanos bandidos que se possa imaginar. na desgraça. Cruls? É tê-lo feito escrever o De Profundis. no prefácio que escreveu para . a sua jactância.B.

tanto mais que os que a sorte aquinhoa e o Estado estimula. . onde sujeitos menos originais que Crispim são apontados por toda a gente. Entretanto. Orgulho que lhes vem da consciência da sua superioridade intrínseca. possuidor de uma pequena fortuna. Redator de jornal. toda a gente pode vê-lo com a leitura de seu interessante e atraente livro. O marmorista que lhe fez o túmulo da mãe simpatiza com ele.como se diz nos jornais . num sábado de carnaval. bem cedo. Ao que me conste. muito orgulho e muito sofrimento. o sentimento da cidade. após os folguedos de Momo . mesmo. perde a sua significação e trai o seu destino. às vezes. João Crispim é assim: por toda a parte. e o seu destino seria a apoteose. para eles. A sua significação era a insurreição permanente contra tudo e contra todos. nela dormindo. leva uma vida solta de boêmio. trocando. com honrarias e cargos. nesses homens assim alanceados. de necessidade de simpatizar com todos. seja em que for. completamente. e ele possui. para não ferir os amigos. "whisky". encontrando por toda a parte uma afeição e uma simpatia.talvez o fabricante de túmulos não amasse o moço mulato. um homem que possui uma alma dessa natureza enche-se de bondade. Não quero epilogar sobre essa cena. mas lastima que gostasse tanto do "copito". como indigente. ou ser assassinado por um bandido. Temperamentos como este que o Sr.. se assim se pode dizer. por todo o mundo. por toda a parte. nem de leve. porém. em geral. Há nessas almas. e sofrimento por perceber que essa superioridade não se pode manifestar plenamente. pois há. em diversas horas do dia e da noite. como ninguém.álcool. mais ou menos. pois não foi reconhecido. debaixo das rodas de um automóvel. o marmorista. é uma nuga sem importância. Ferraz são. nas nossas sociedades democraticamente niveladas. se insurgiu. Isto. mas a gratidão e as amizades fazem-no recalcar a revolta. deixar de observar que um tipo como esse João Crispim devia ser conhecido. aliás. embora mulato. o motivo de tão estranho viver quando. excelentes. como a do personagem do Sr. de fel contra as injustiças que o obrigaram a sofrer. quem o levava . Como o Sr.leva-lhe o cadáver para [a] sepultura. pois acaba. Morre. pelo menos. comparada com os demais semelhantes que os cercam.expansão da dor íntima de Crispim . uma vida. está ele cheio de amizades. tão comuns entre nós. de dedicações de toda a sorte e espécie. com o sofrimento. que se não fôsse o "copito" . Enéias Ferraz estuda. é querido. Os detalhes da obra do Sr. após os trabalhos de redação. de forma que. uma das mais belas do livro. A sua dor íntima. nunca tentou a pena de um romancista. cachaça. neste vasto Rio de Janeiro. a ninguém revela. porém. que é. compreendendo a dor dos outros. ou pelo governo. a explosão de ódio. quando corre lugares suspeitos. A orgia carnavalesca não permitiu que o fosse. vai para o necrotério. sobre a qual não vale a pena insistir. de suas várias partes e de seus vários aspectos. Ferraz.. o dia pela noite. sorvidos. na verdade. por sua vez. que lhe tiram o direito de uma completa e total revolta contra a sociedade que o cerca. De resto. a não ser inofensivamente em palestras e na platônica insurreição do cálice de cachaça. de afetuosidade. nos lábios de um rapaz.como diz o vulgar "podia ser muita coisa". não têm nenhuma espécie de superioridade essencial sobre ele. donde a caridade do Estado. mas educado e com instrução superior à vulgar. álcool forte. limites tacitamente impostos e intransponíveis para a sua expansão em qualquer sentido. a sôldo de um poderoso qualquer. mal sabia ele. Crispim. é estimado. na parte estática. Cercado de amigos. o autor da História de João Crispim é o primeiro que o faz. Ferraz se saiu da tentativa. porém. não posso. e ninguém percebe naquela alma e naquela inteligência.

Quase sempre, nós nos esquecemos muito dos aspectos urbanos, do "ar" das praças, das ruas, lojas etc., das cidades que descrevemos em nossos livros, conforme as horas em que eles nos interessam em nossos escritos. A Balzac e a Dickens, os mestres do romance moderno, não escapa isso; e ao Sr. Ferraz também interessou essa feição do romancear do nosso tempo, tanto assim que nos dá belas descrições de trechos e coisas da cidade. Não citarei senão aquele das imediações do Teatro Municipal, alta noite; e também a da tradicional livraria do velho Martins, na rua General Câmara - um Daumier! No final de contas, a estréia do Sr. Enéias Ferraz não é uma simples promessa; vai muito além disso, sem que se possa dizer que seja uma afirmação, mesmo porque nós só nos afirmamos com o conjunto de nossas obras, e o Sr. Ferraz ainda pode e deve compor muitas outras. Sobra-lhe talento e vocação para isso; o que é preciso, porém, é não esmorecer, não perder o entusiasmo, nem embriagar-se com os louros colhidos. É o que espero, como amigo que sou dele. O País, 17-4-1922.

VÁRIOS AUTORES E VÁRIAS OBRAS Nós nunca somos senhores do rumo que deve tomar a nossa vida. Nos primeiros anos, com os exemplos familiares, com os conselhos paternos, pensamos que ela deve seguir este ou aquele caminho e orientar-se segundo tal ou qual estrela. Os acontecimentos supervenientes, porém, chegam e, aos poucos, devido aos embates deles, a nossa existência toma outro rumo muito diferente daquele que traçamos na carta do viver neste mundo. É vão delinear todo e qualquer projeto de vida nesta terra ou em outra, porque nós não somos senhores dos acontecimentos, não podemos dominá-los nem evitar que eles nos levem para onde não queríamos ir. Quando, há cerca de vinte anos, época em que já devia estar formado, me pus a escrever em pequenos jornais chamados humorísticos, nunca imaginei que tais ensaios, quase infantis, meros brincos de quem acabava de sair da meninice, viessem um dia me pôr em colisões mais atrozes do que as que passei, ao ser examinado em Mecânica Racional e Cálculo das Variações pelo Sr. Licínio Cardoso. Perdi o respeito infundado que tinha desse meu antigo lente, no que fiz muito bem; mas, hoje, com a minha incipiente literatura, à vista das atrapalhações que ela, de onde em onde, me traz, sou obrigado a recordar-me dele e da sua mecânica. A oferta de livros não cessa de me ser feita. É coisa que muito me desvanece; mas muito me embaraça também. Às vezes, são poetas que me oferecem as suas "plaquettes" e mesmo os seus livros. Sou obrigado, por delicadeza e para não parecer presunçoso, a dar uma opinião sobre eles. Ora, nunca estudei, mesmo nos seus menores elementos, a arte de fazer versos; não conheço as suas escolas, nem sei bem como elas se distinguem e diferenciam; entretanto, segundo as praxes literárias, tenho, ou por carta ou em artigo, que dar uma opinião sobre as obras poéticas que me são enviadas. É daí que me vem uma das complicações dolorosas que a literatura trouxe à minha existência. Se, de antemão, tivesse eu adivinhado que havia de escrevinhar livros e artigos de jornais, pelo que havia de merecer a atenção dos poetas, teria

logo, nos meus primeiros anos de vida, tratado de estudar o Castilhos, porquanto, ao que parece, esse negócio de fazer versos, como a música e a geometria, só se aprende bem aí pelos quinze anos e mesmo antes. Nessa idade, porém, não tinha a mínima preocupação literária, havia até abandonado o meu Júlio Verne e todo eu era seduzido para o positivismo e coisas correlatas. Vieram, porém, os fatos duros e fatais que o destino guarda secretos, e eles me empurraram para as letras, sem nada saber de versificação. Não é só ai que a minha humilde literatura complica a minha vida e me causa incômodos. Há outros pontos em que ela me põe abarbado. Ainda há dias, recebi de S. Paulo, com uma lisonjeira dedicatória da autora, D. Maria Teresa de Abreu Costa, um curioso livro: Noções de Arte Culinária. A autora pede-me justiça e eu que já escrevi sobre a sua obra, fiz o que estava em minhas mãos fazer. Sou incompetente para dizer sobre o assunto que tanto interessa a todos os homens; mas, consultei minha irmã que, nessas coisas de Culinária, deve ser mais autorizada do que eu, e ela me afirmou que o livro de D. Maria Teresa é excelente como método e exposição; é muito claro e não tem as obscuridades daquele curioso Cozinheiro Imperial, edição do Laemmert, em 1852, a terceira, em cujas páginas fui buscar algum chiste para alegrar meus artiguetes de vários números da Careta, desta cidade. Diz-me, por carta, o Sr. J. N. Pereira, que a Sra. D. Maria Teresa dirigiu um curso anexo à Escola Normal da capital paulista, onde as respectivas alunas aprendiam a ser donas de casa. Esse curso, por economias mal entendidas, foi extinto. Longe de mim querer censurar este ou aquele governo, daqui ou de S. Paulo. Tenho um medo "brabo" de todos eles, nestes tempos que correm, de violência e pavor, governamentais, mas uma coisa, sem perigo, posso notar, à vista da criação desses cursos de coisas domésticas e similares: é a decadência da família; é o enfraquecimento das tradições domésticas. Há cinqüenta anos ninguém admitiria que uma moça, fosse qual fosse a sua condição, aprendesse essas artes familiares, senão no seu lar, ou no dos parentes ou no dos amigos de sua família. Não era só a culinária, incluindo os doces, que dessa forma se aprendia; era a renda de almofada, o "crochet", o "filet", o bordado, etc., etc. Hoje, não; as famílias não sabem ensinar mais essas coisas às suas filhas ou às dos amigos e parentes; e quando as moças querem aprendê-las, tem que se dirigir a escolas especiais. Se é bom ou não, não sei. O tempo dirá. À oferta deste livro tão curioso da professora paulista, seguiu-se uma outra a mim feita pelo coronel Ivo do Prado, da sua sólida obra: A Capitania de Sergipe e as suas ouvidorias. É uma obra de erudição e de pensamento. O Sr. Ivo do Prado não é unicamente um cartógrafo, nem um compilador de cartas de sesmarias e outros documentos rebarbativos. É também um observador das coisas sociais, dos movimentos das populações, das razões naturais e sociais por que elas preferiram tais ou quais caminhos, para o povoamento do interior. Não tenho espaço nem competência para acompanhar de perto o seu valioso trabalho; entretanto, uma observação sua me traz algumas reflexões que, talvez, não sejam de todo minhas, mas cujo contexto me apaixona. Trata-se de nossa nomenclatura topográfica. O coronel Ivo do Prado nota, e com muita razão, que é difícil identificar os nossos acidentes da terra e mesmo os potamográficos, porque eles estão, a toda hora e a todo momento, a mudar de nomes, por mero capricho

vaidoso das autoridades a que tal coisa incumbe. É uma grande verdade. Basta ver o que se passa na Estrada de Ferro Central, onde a vaidade ou a bajulação dos engenheiros, que isso podem, faz mudar, em curto prazo de tempo, os nomes tradicionais das estações, batizando-as com os apelidos de figurões e poderosos do momento. Podia citar exemplos; mas creio não ser necessário. No Ministério da Marinha, um ministro, usurpando as atribuições da respectiva Câmara Municipal, mudou o nome da enseada da Tapera, em Angra dos Reis, para o pomposo de almirante doutor Batista das Neves. Decididamente não é o bom senso e o sentimento do equilíbrio que dominam os nossos atos. Para prestar homenagem à memória do desditoso almirante Batista das Neves, há, havia e haverá outros meios que não este, onde não se encontra uma razão qualquer que o explique. A observação do coronel Ivo do Prado, sobre essa nossa mania de estar, a toda a hora, mudando a denominação das nossas localidades, rios., etc, provocou-me lembrar um artigo de Gaston Boissier, tratando de saber onde exatamente ficava Alésia, a célebre cidadela em que César encurralou Vercingétorix e foi cercado também, mas derrotou os que o sitiavam, e acabou ornando o seu "triunfo" com aquele infeliz chefe gaulês. Um dos elementos para identificar Alésia foram as denominações locais que, com alguma corrução, desde quase dois mil anos, guardavam mais ou menos a fisionomia da primitiva denominação. Entre nós um tal meio de pesquisa seria impossível... Estão em moda os Estados Unidos; mas acredito que, apesar do amor histérico dos "yankees" pela novidade, lá as coisas não se passam desse modo. O livro que o Sr. Carlos Vasconcelos me ofereceu e é de sua autoria, dá-me a entender isso. Em Casados... na América, tal é o titulo da obra, aqui e ali nos apelidos de lugares, vê-se que há ainda lá muita coisa de huron e pele-vermelha. Os americanos mataram-nos sem dó nem piedade; mas os nomes que eles deram às regiões de que se apossaram os seus algozes foram conservados por estes e passaram até aos seus couraçados e cruzadores. O livro do Sr. Carlos de Vasconcelos é livro de um grande escritor. O que me parece diminuir o seu valor, é a preocupação do autor em encaixar, a força, os Estados Unidos nas suas novelas. Não sei se é porque tenho uma rara antipatia por semelhante país, não sei se é por outra qualquer causa; o certo, porém, é que a sua mania americana me dá a impressão de que a sua obra não é sincera, não nasceu do seu fundo íntimo. Estou convencido de que se a sua frase quente e ondeante, colorida e musical, fosse aplicada a assuntos mais nossos, o seu trabalho ganharia muito e muito! Esse "engouement" pelos Estados Unidos há de passar, como passou o que havia pela Alemanha, e da mesma forma. Não dou cinqüenta anos para que todos os países da América do Sul, Central e o México se coliguem a fim de acabar de vez com essa atual opressão disfarçada dos "yankees", sobre todos nós; e que cada vez mais se torna intolerável. Quem viver, verá! Um outro escritor que, com raras qualidades, parece ainda estar à procura do seu caminho, é o Sr. Adelino Magalhães. Há nele uma grande capacidade de observação até ao mínimo detalhe, à minúcia; é vivo e ligeiro; tem grande originalidade no dizer; mas lá vem o "mas"! - o Sr. Adelino Magalhães não quer ver nada além dos fatos concretos, atém-se às aparências, pretende ficar impassível diante do Tumulto da vida (é o título de sua última obra) e não o perfuma de sonho, de dor, de piedade e de amor.

apesar do abuso da onomatopéia . de selvagem.deve provir desse seu feitio de ser. 6-12-1920. Não é possível lê-lo de um hausto. tal qual se nos apresenta o Sr.autor pernambucano muito justamente apreciado. Se Adelino é todo arremesso.é sobre todos os aspectos notável. depois de Deus. que. aconselhar aos que se queixam das . Mário Sete . As suas reflexões e observações são pensadas e repensadas. Há algumas profundas e irônicas. O autor da A Crítica de Ontem é muito filósofo para não fazer semelhante tolice. O trabalho com que o abre . Contudo. para um escritor laborioso.Pan! Pan! É uma dificuldade passar de autor tão impulsivo. céticas. desdobrando-se aqueles em outros diferentes. Nestor as mandou para o livro tal qual elas saíram do primeiro jacto da sua pena ou do seu lápis. isto é. Nestor Vítor dá-lhe um lugar à parte nas nossas letras. sob a forma de romance. É um livro de reflexões esparsas a que o autor tentou coordenar em várias partes. Nestor é a cautela em pessoa . mas mesmo pelo fato de ser assim. se ele faz sorrir. É com estas palavras da mais pura satisfação que fecho esta crônica. e assim é quase todo o livro. o trabalho do Sr. nele. o seu livro tem um grande merecimento: é próprio. na inteligência do leitor. Gazeta de Notícias. Nestor Vítor. procurar ele demonstrar pela ficção e com auxílio dos recursos da novela a necessidade. os seus contos ou antes. Há muitas morais e muitas sociais. porque." .A sua estética é muito cruel e primitiva. de abandonarmos a cidade pela roça. prudente. o Sr. é original. muito legitimamente e brilhantemente explana e discute essa questão de urbanismo que os nossos autorizados sociólogos práticos têm posto e semeado pelos jornais em fora. de maldade inconsciente. requer vagar e tempo. políticos e outra espécie de gente que está. amargas. outras. É vezo hoje dos nossos economistas. faz também meditar e provoca inevitavelmente o aparecimento.Senhora de Engenho . a reflexão sobre o "Marimbondo metafísico" é de uma ironia acerada e do melhor quilate. cauteloso. URBANISMO E ROCEIRISMO Acabo de ler o novo livro do Sr. Adelino Magalhães. não deixa a obra de sugerir comentários que me parecem oportunos. Se há defeito no seu último livro ..o que bem condiz com o seu nome. Espécie de obra muito rara na nossa produção literária. Há falta de espontaneidade. encarregada de dirigir os nossos destinos. Possam todos eles crer que a leitura de suas obras foi nesta minha quinzena de "férias" o máximo encanto do meu voluntário recolhimento.Folhas que ficam . Não há doutrinação alguma. com a qual me desobrigo dos compromissos que contraí com tantos autores e amigos. as suas "tranches de vie" têm alguma coisa de bárbaro. como é o Sr. mas que só ele mesmo poderá justificar semelhante coordenação. até perder-se a origem de que eles provieram. A observação sobre o nosso "doutor" é aguda e perfeita. de pensamentos contíguos ao do autor. Ninguém pense que o Sr. outras."Um prego! Mais outro prego! ..

Como todo bom nortista. inclusive Petrópolis. Não há nada mais pueril do que semelhante conselho. Sete. vem para o Rio de Janeiro acabar os estudos começados no Recife. especialmente os do Norte. com um conterrâneo desenraizado. quer voltar. a cidade é a evolução. é coisa verificada em todos os moços mais ou menos bacharéis deste Brasil imenso.O Professor Jeremias . Na cidade. antiga namorada dele e que é uma das figuras mais curiosas e mais bem estudadas do livro. e uma grande cidade. do pé para mão. de modo a fazer da longínqua Sorocaba. Há ainda mais. O governo fez isso e agora quer desfazer. Mais ainda: nas cidades.duras condições da vida nas cidades: . pouco depois de casado. e o Sr. fez a estatística da necessidade de braços nas fazendas paulistas e repetiu o conceito do seu colega de bancada. Na cidade. como a chamam os paulistas. pouco depois de formado. há hospitais. De resto. Essa fascinação pelo Rio. lá está a tal história de Petrópolis. por meio de tarifas proibitivas. ei-lo namorado. Nestor e a mulher. necessidade maior ainda é. A carioca foi vencida e o carioca adotivo que é o seu marido Nestor. dá-se o oposto: há sempre uma ebulição de idéias. há bem pouco. vem para o Rio acabar os estudos. Chega a gravidez a carioca. se faça motorneiro. dando nascimento. Só energias raras podem de uma hora para outra mudar de profissão e de hábitos. às vezes. de uma hora para outra. Como todo bom nortista. uma pequena Manchester. Até no irônico . e muitos deles são devidos aos governos. dos palácios e das avenidas . se faça capinador de cafezais. Mostra-nos o Sr. Não leio um romance provinciano em que não note isto.coisa muito favorável ao desenvolvimento humano. Veio depois a megalomania dos melhoramentos apressados. casado. para estar bem perto de um Ministro. mas. a um grande surto industrial. um moço filho de fazendeiros pernambucanos . eles tem mais garantia. Querer que um tecelão. resolvem estabelecer definitivamente residência no engenho de Águas Claras. no que toca aos rotos.o que atraiu para as cidades milhares e milhares de trabalhadores rurais. Uma porção de fatores têm concorrido para o êxodo das populações dos campos para as cidades. Maria da Betânia. e. não estão sujeitos a mandões tirânicos e caprichosos e as autoridades são mais escrupulosas. A cidade é uma necessidade. Veiga Miranda. O campo é a estagnação. aos pobres-diabos. Tem uma filha moçoila. a bordo.de Leo Vaz. Nestor. sobretudo por Botafogo e seus complementos. a carioca. também. antigamente célebre pela sua feira de muares. de sentimentos . ele consegue a sinecura. o filho do senhor de engenho pernambucano. no seu magnífico romance. o espetáculo daquela vida encanta e seduz Hortênsia. a roça é um depósito de preconceitos e superstições sociais. Ela fica. o engenho dos velhos. como dizia acima. é o mesmo que exigir que um médico. Hortênsia. embarcam para Pernambuco. que o leva à sua casa. . ela se aborrece.que. mas os há. O campo. não há nada disso. trata de cavar um emprego e o quer numa Secretaria de Estado. Não é de admirar. o urbanismo foi criado pelo próprio governo da República. Nestor e Hortênsia. tanto mais que nota no marido certa inclinação por uma moça da casa. fascinado pela cidade. Aproximando-se as bodas de ouro dos pais. porquanto a característica dos nossos governos é fazer e desfazer. Tinha travado conhecimento.Vão para a lavoura! O mirabolante aritmético Cincinato assim fala. começa a afeiçoar-se àquela vida e ambos. realizam. de comum acordo. Na roça. pula de praticante do Ministério da Praia Vermelha para o de chefe de seção do Ministério da Justiça. maus é verdade. bem depressa. Um verdadeiro milagre administrativo que só os nortistas conseguem realizar. No começo.lá se chamam senhores de engenho . Vão para Águas Claras.

e fazê-la prosperar. mas. Ela se publica na cidade de São Paulo e é a Revista do Brasil.. A OBRA DO CRIADOR DE JECA-TATU O criador de Jeca-Tatu é um caso muito curioso nas nossas letras. tudo é feliz. Não sofro da horrível mania da certeza. aquele que dá o nome ao livro. dos seus muxoxos e dengues. ele excele na descrição das cenas familiares. em todas as bocas. a inabilidade. uma grande fidelidade na reprodução do que observa. qualquer que a leia. Tendo uma forte capacidade de trabalho propriamente literário.tudo isto leva a prever para nossa organização política. com reservas. como diz a canção patriótica. A criação principal de um dos seus contos. Supondo por absurdo. sejam quais forem as transformações políticas e sociais que o mundo venha a passar. Sete não é um escritor nervoso. um desastre irremediável. que. um editor avisado. Ele é amoroso de moças. A descrição da festa das bodas de ouro dos pais de Nestor é tão cheia de naturalidade. nenhuma abertura para o Mistério da Vida e o Infinito do Universo. o criador de Jeca-Tatu. Lobato. de singeleza. as concussões. Publicando há dois ou três anos um volume de contos . em contraposição. e isto num lapso de tempo bem curto. toda a festa por inteiro. enquanto o personagem propriamente assanhou a crítica dos quatro pontos cardeais destas terras de Santa Cruz. dirigindo com sucesso uma revista sem igual na nossa terra.por muito tempo não subsistirá. em Pernambuco. Por isso. Dizia eu. de modo que o lendo eu. Não está no seu primeiro ano. mas há. de que falava Renan. dos seus arrebiques. mesmo a linda Maria da Betânia. sabia como ninguém aliar a uma atividade literária pouco comum. porém.coisa rara entre nós. . A. dos seus atavios. o Sr. que o Sr. Com uma clarividência difícil de se encontrar em brasileiro. admito que. rápido. Monteiro Lobato. fez Jeca-Tatu andar. no narrar os mínimos detalhes das coisas domésticas. logrou ver o seu nome conhecido no Brasil todo e as edições de sua obra se esgotarem umas sobre as outras. está no quinto de sua útil existência . e ele mesmo o sancionou. como prospera.Urupês.Eis aí o entrecho do livro. a expressão político-administrativa . Não há nele nenhum arroubo. ele é ainda por cima um administrador excelente. no bom sentido. e muita simpatia pelos lares felizes e ricos. o famoso Jeca-Tatu. como já se disse sobre alguém. Monteiro Lobato conseguiu atrair para ela a atenção de todas as atividades intelectuais deste vasto país. O Sr. em bem pouco tempo. a vê de pronto diante dos olhos. os crimes. que o uso. salte logo da cabeça para o papel. a falta de escrúpulos de toda a ordem dos nossos dirigentes de norte a sul do país . cuja execução é soberba.B. que as coisas continuem no pé em que estão. um espírito comercial. o Sr. 10-9-1921. sem favor algum. já bem conhecida aqui.C. de graça. um ativo diretor de uma revista sem igual no Brasil de hoje. não está no terceiro. no Rio de Janeiro. pelo menos de nome.Brasil . de ontem e não sei se de amanhã. cujo pensamento. fico a pensar que. tudo é como em Águas Claras.

nem Reinaldos bororós. crisântemos. quando menino. Ele viu a sua decadência. Todos os nortistas. amaldiçoando aqueles bárbaros: "deixa estar"! O que o Sr. que esses senhores se sangraram em saúde. Mas tal não se dá. do Paraná. as fúrias do mar do Norte. Mané Chique-Chique. Citam. que era jardineiro de uma fazenda daquelas regiões. nem de outra parte do Brasil. existissem.Negrinha . o Acre. se não me falha a memória. com ela. o Sr. de fato. porém."O jardineiro Timóteo" . porquanto nele há. em compensação. Loiola. Daí a celeuma. alguma coisa mais. Leônidas de Loiola. amores-perfeitos. pois querem nele flores raras e caras: camélias. o Timóteo. A secura dos desertos da Ásia Central fez descer para as margens do mar Negro e outras paragens hordas e hordas. para aproveitar os bons anos de chuvas. e. se. talvez mais curioso que o famoso Urupês. e os novos donos implicam com as "esporinhas”e "perpétuas" do Timóteo. e é a sua saudade. encontram as populações desarmadas. Isto está a ver-se nas suas Cidades Mortas. especialmente os cearenses. Timóteo não dá por isto e continua a plantar as suas flores humildes e modestas: esporinhas. mas há.Quiseram ver nela o símbolo do nosso roceiro. de uma capacidade de trabalho extraordinária e não sei o que mais. livro seu. e o Sr. sempre-vivas. Os azares da fortuna dos seus proprietários determinam a venda da propriedade agrícola a pessoas da cidade. nem coisa alguma. do nosso sertanejo . o vale da parte de São Paulo do Paraíba do Sul. Tais pretensões são cabíveis nos transcendentes autores que ninguém lê. Li o Sr. palmas-de-santa-rita etc. no êxodo. Não acredito absolutamente nas miríficas virtudes dos sertanejos do norte. nem o sertanejo. é a sua mágoa por não vê-los prósperos. do Ceará. criação do cearense exul. brincou lá com aqueles Jecas. para os anos maus. Rolandos de Uruburetama. foram o Sr. como nunca tiveram os grandes mestres da literatura. com a sua tenacidade e diques. Monteiro Lobato vê e sente é o seu Taubaté. ele não tem a pretensão de encaixar no seu Jeca-Tatu. crisandálias. o Sr. senão esforçados "preux". mas o holandês. de modo a captar as águas meteóricas e outras. Ildefonso Albano. construindo obras ditadas pela própria iniciativa daquelas gentes. que fez pintá-los como pintou. No seu último livro . Albano. É ela que ele descreve com tanta ternura e emoção contida nos seus livros de ficção. Mandam destruir o jardim. ele relembra seu esplendor passado. essa tenacidade se faria constante. O humilde negro despede-se e deixa-se morrer na porteira da fazenda. muito de índio. estão dispostos a fazer deles. é a sua simpatia. Monteiro Lobato não quis simbolizar em Jeca-Tatu. que tanto escandalizou o patriotismo indígena. . por isso ou por aquilo. pois só epistolarmente conheço o autor do Urupês. quando chegam as secas. não na emigração. Creio. no seu charco desafiou.há um conto . Surgiram contraditores de toda a parte e os mais notáveis. esta vai decaindo. que se intitula. Lobato viveu ou nasceu na região a que chamam "norte paulista". Julgo que haveria tenacidade. Essa energia. mas não li a contradita do Sr. ao menos tipos de uma energia excepcional. os antigos senhores e patrões. e mais filhos d'Aymon das gestas tupaicas. então. Ele não tem pretensões simbolistas. flores-de-noiva. energia no trabalho. daqueles que conheço e tenho notícia. de fato. o seu Guaratinguetá. etc."o caboclo" como se diz por eufemismo. Certamente. Ao que me parece. Trata-se de um preto. Não me convence. Deve-se lê-lo para bem perceber o pensamento geral que domina a produção do autor da Bucólica.que denuncia bem esse seu feitio de sentir. e. aos poucos. mas na constância em lutar com o flagelo climatérico que assola aquele Estado e os circunvizinhos. De resto.

pelas ruas. como quer Hegel. acompanhado de gargalhadas dos colegas. abrange um arco de horizonte muito mais amplo do que o do comum dos nossos escritores.é um filósofo risonho. transbordamentos de vocabulário e de imagens. dá um grande realce à modéstia e pacatez daqueles tempos de São Paulo. o fato de um certo colega seu. que começava assim: Comendo içá. também paulista. relembra isso quando acaba a leitura dessa estranha. O livro. sem piedade e sem ódio. apesar da ironia e da troça. que se acha e que se vai além dela. sob o sugestivo título de Mme. é a idéia que se procura. Basta ler este conto . que é a crônica ou romance ou as duas coisas juntas. Monteiro Lobato é um grande e nobre artista.Negrinha . ainda apregoado à noitinha nos bairros pobres deste Rio de Janeiro. o general Couto de Magalhães conta como causou um grande rôlo. animada pela poesia da sua terra. todos os acontecimentos. é piedade. apesar da limitação do campo. ao que parece. O que se evola de suas palavras não é ódio. por vezes desordenada. Não há no Sr. é tristeza de não ver o Jeca em condições melhores. Que parecem não ser da raça humana. E. por ocasião de uma festa de 7 de Setembro. discípulo de Montaigne. não é desprezo.Toda a sua obra é simples e boa. todos os fatos. Gazeta de Noticias. em uma espécie de preâmbulo. mas sempre brilhante obra.. Monteiro Lobato nenhuma das exterioridades habituais dos escritores: pompa de forma. O café ainda não tinha pulado do vale do Paraíba para o do Tietê. nossa mãe comum. seja ela pobre ou farta. recitar. descobrir a sua entranhada afeição pelos que sofrem e pensam neste mundo.. por aquelas priscas eras em que o general era estudante. 1 1-5-1921. para nos impregnarmos da sua alma compassiva. se a Arte. sendo guloseima apreciada como o nosso mindobi torrado.com que intitula o seu último livro. Vive a afamada gente paulistana E aquelas a que chamam caipira. torrada. vendo tudo. ou pouco. MADAME POMMERY Na sua Viagem ao Araguaia. inclusive a deliciosa . original. seja agreste ou risonha: mas é cheia de sadia verdade a sua literatura. não é rancor.que não sei verdadeiramente quem seja . A ostentação de hoje que este livro nos revela. Quem leu a Viagem desse curioso tipo de brasileiro que foi o general Couto de Magalhães. que ele cita a cada passo. quando ele era ainda estudante de direito. Lomendo cambuquira. um soneto satírico. há um grande sonho íntimo de obter a harmonia entre todos os homens e destes com a Terra. Pommery. a existência toda num plano só no plano da nossa integral miséria humana. O seu autor . entendimento tem com as coisas mudas. é amor. em tabuleiros ou cestos. em pleno teatro de gala. Içá é o que chamamos formiga tanajura. sem paixão pró ou contra. e lá. A sua visualidade artística e literária. A natureza não o interessa e nenhum. editadas pela Revista do Brasil. se vendia. É um clássico de alma. além de ser dedicado a várias sociedades sábias.

Abandonou. Pommery vem logo uma grande transformação no opulento "mundo" do grande Estado cafeeiro. Mme. a 30$OOO a garrafa. hereditário. à força de regimentos. Pommery."Eugência". sem nenhuma força a mais.Cocotte engrena coronel. Após muitas aventuras. E a "Lecture". donde o autor tira essa comparação. creio que jesuíta. na Polônia ou adjacências. Kant e Pedro Lessa e o resto da ferragem de erudição que não se dispensa em conjunturas semelhantes. coronel. ao Rio de Janeiro. onde ela empregava toda a foôrça e capacidade de disciplina e rigor monacais da sua ascendência. A operação executa-se em três fases: Fase A . noviça espanhola. como um pendor natural para tudo disciplinar no seu colégio à imitação das ordens monacais. mas eu mostrarei em termos gerais como esse "a natural luminary shining by the gift of Heaven" a operou. até o dia em que repontou na filha. Pommery montou uma usina central produtora e transformadora. as vãs histórias. Podia. chegou cheia da "centelha divina". O autor mesmo diz: "E ficou. a descendente polaca do teólogo conjugal vem dar com o costado em Santos.. A usina. Fase C . Dessa "radiance" celestial de Mme. se fosse posto em vulgar. Hilário Tácito. movimento giratório cerebral. que nunca mais necessitou de aperfeiçoamentos. se possível fosse. regras e etiquetas.Coronel engrena cocotte. e de Consuelo Sanchez. teria grande sucesso nos colégios de adolescentes púberes. nem de retoques. Tratou de escrever o relato da vida de Mme. claro e forte. começou a funcionar.o que não é possível. nem de emendas. de Ivã do mesmo nome. para fazer arder os gravetos da sociedade paulista. havia muita coisa com que não se sonhava. o autor.De Matrimônio . com grande cópia de considerações filosóficas sobre o valor da história. justificar o seu asserto.. donde emitiu a sua irradiação e baniu daí a cerveja. movimento retardado. de fato. substituindo-a pela champanha. Fase B Cocotte engrena champanha. "abbaye" ou coisa que o valha. "née" Ida Pomerikowsky. descendente do famoso padre Sanchez. viu que entre elas. avelhantadas. tal propósito e desembarcou logo Mme. Iniciava a sua missão heróica nas terras do Tietê. farto das vás histórias da marquesa de Santos e da Pompadour. Consuelo fugiu com o lambe-feras de um convento de Córdova e foram dar nascimento à futura heroína da crônica. isto é. se o quisesse desenvolver. que. no seio da nossa trevosa Humanidade. tinham dado em droga. gordunchuta." Era uma espécie de Abbaye de Theléme. segundo regras de uma particular mecânica aplicada. Resultante: contração. .30$OOO. pelo menos em estado latente. na mãe. Resistência inicial . além de cocotte. com que chegou a este paradoxo de regulamentar os desregramentos de alto bordo por um sistema tão completo e tão adequado ao nosso caso. diz-se simplesmente fiel cronista dos feitos e proezas de Mme. autor de um apreciado tratado . nem de propósito.lOO$OOO. é aquela em que se trata do Herói-Divindade. champanha engrena coronel. não muito igual à de Pantagruel e muito menos à dos pândegos de Paris. praxes. Resistência ao rolamento . por demais. chamou-a "Au Paradis Retrouvé". Pommery. domador de feras de profissão. cuja teoria geral convém pedir emprestada ao autor. Ei-la num exemplo: "Trata-se de aliviar dito indivíduo (um coronel) dos seus 1 35$OOO por um processo automático mecânico. porém. A usina era uma espécie de convento ou colégio. citar Spencer. embora moça ainda. porém. é a de Odin. com auxílio de um "coronel" camarada. Ela aí chegou como um herói de Carlyle. adequada a São Paulo e. Segui-la seria repetir o autor . Pommery em Santos. mas que nela haviam ficado como um estigma. foi suscitado pelo atual movimento nacionalista. a rua Paissandu. Hilário Tácito.que. champanha. afirma ele. Resultante: atração.

a Moda. de falar de um modo geral de tão curioso livro. de 135 mil-réis de combustível. Beberam champanha. por estes efeitos indiretos o prestígio de Mme. indiretamente. e só se perdem cinco na gorjeta. dando até a certo e determinado um principado em Zanzibar. nem escreveu. pois nem filosofou. exceto sobre os literatos. Pommery influiu sobre as várias e todas as partes da sociedade. 2-6-1920. para variar e atrair.perguntou um dos outros que queria "morder". . . Resultante: convulsão." Assim. . pois.Resistência final 100$000. a Política recebiam o seu influxo e a ele obedeciam. um titulo de merecimento e remate indispensável de toda a educação aprimorada. A Finança. alcançou contudo um grau de superioridade superior ao de Ninon. Mas devemos reconhecer que Mme. sobre os daqui.. E. no conceito geral da gente fina. jogou na "centena" e ganhou. o anfitrião levantou-se e convidou: .Então? . que vai da simples malícia ao mais profundo "humour" em que assenta afinal o fundo de sua inspiração geral. Não quero mais tratar dele. . Realizando esta obra portentosa. transformaram-na em educadora.. à moda de Flaubert ou mesmo de Balzac. embora ainda pudesse dizer muito e ele o merece.Como? Não há mais dinheiro? . Seria estulto querer encarar semelhante obra pelo modelo clássico de romance.fez o "pagante". porque... nada! . Pommery granjeou igual estima por meios muitíssimo mais práticos. e. Bebe-se muita champanha em casa de Mme. movimento ascensional acelerado. ironia muito complexa. além de favores que prestou a outros para escrever futuramente as suas magníficas obras. a Valorização. porém. Num dado momento. Os gêneros que herdamos e que criamos estão a toda a hora a se entrelaçar. Encontrou uns amigos e convidou-os a beber. num belo dia. e. sem ser tão bela.Nada. a se enxertar. Mme. Pommery rapidamente começou a influir nos destinos da sociedade paulista e. Pommery transcendeu desmesuradamente. . Mme. pois. empolga e faz pensar.É que não se devem deixar os amigos velhos pelos novos. Hilário Tácito obedece a esse espírito e é esse o seu encanto máximo: tem de tudo. estou informado de gente limpa que ela influiu dadivosamente. aproveita 130 em trabalho útil. Certo doudivanas "pronto"." Diz Hilário Tácito que esse mecanismo é o mais perfeito que se possa imaginar. de uma certa falta de coordenação. Nós não temos mais tempo nem o péssimo critério de fixar rígidos gêneros literários. É tempo. Vale sobretudo pela suculenta ironia de que está recheado. Pommery. em toda a comunhão brasileira.Há. Pommery. à moda dos retóricos clássicos com as produções do seu tempo e anteriores. Cursar o "Paradis Retrouvé" ficou sendo. não lhe sendo bastante isto. O livro do Sr. o Carnaval. como diz o autor: "Ora. Bebe-se muita champanha em casa de Mme. o Bar Municipal. como na casa de Mme. em afinadora de maneira dos rapazes ricos. É rico e sem modelo. e eu me lembro de um caso de boêmia que um camarada me contou. segundo a fama.Vamos tomar uma "lambada". Pommery. naturalmente sobre os paulistas. Gazeta de Notícias. apesar da intemperança de citações. "A sociedade de Ninon de Lenclos gozou da mesma opinião favorável do seu século. por ocasião da assinatura do Tratado de Versalhes.

Mme. Albertina Berta. que são muitos. a duplicidade. sobre o amor platônico. a esses seres privilegiados. O que. a inumanidade e. tenho por ele ojeriza pessoal. pelo seu nascimento e educação. artistas do pensamento e da ação. Nenhum outro homem. Não gosto de Nietzsche."não" . ela percebe as casas dos peões e homens d'armas. que se emaranham e se tecem inextrincavelmente. Do alto do seu castelo.. falou tão mal da caridade e da . tanto mais curioso quando se trata de uma mulher brasileira. rasas com o solo. a tal Hélade. nos surge cheio de um delicioso anacronismo. construiu um castelo de encantos. mas seria hipocrisia não lhe falar assim. Albertina. o seu equilíbrio na vida universal: aventuras. que sabem governar-se. que lá não são ou não eram monopólio do Estado. mas suficientemente principal. Neste seu último livro. para quem a existência só tem o merecimento e mesmo é o seu principal fim o de terminar o amor de um casal. Clarence era casada com o rei dos telégrafos americanos. o vago e o impreciso de suas concepções. e a do Nirvana.. que é muito plástica. no seu excelente estudo sobre Nietzsche. D. de clareza e coerência de idéias. Albertina Berta . incredulidades.é talvez mais do que o seu romance de estréia demonstrativo da originalidade do seu temperamento e do seu curioso talento. a impiedade. quando ele andou em alta reportagem pelos Estados Unidos. lhe dão mais parentesco com os luxuriantes poetas hindus do que com os helenos cediços. mesmo em tom de ironia. para mostrar o absurdo de tal coisa. de Maupassant. A autora há de me desculpar essa rudeza. Muito inteligente. O drama da rainha dos cabos fazia apologia do amor livre. O último livro da Sra. Ela não lhe adivinha os obscuros alicerces robustos. de Daudet. do "amor integral". etc.. e só a flecha da igreja do burgo se ergue um pouco acima dele. as aias. ela (a tal moral dos Super-Homens) tudo permite para a sua existência. têm aparecido entre nós. Dos meus vícios. a rudeza". o romance Exaltação de D. Ei-las: "Aos primeiros. senão de condição real. essa franqueza. D. sem ver os criados. os pajens e os guardas. Exaltou a brutalidade. admitindo. o cinismo. entretanto. para seu uso e gozo. a Sra. Albertina Berta é um dos mais perturbadores temperamentos literários que. sob sua pena. o próprio excesso. explicando a moral do "Super-Homem". a amoralidade. desviar as reações. apesar de todo o seu apêlo à Grécia. D. que se o pudesse fazer. É possível admitir sujeito de tal moral digno do Paraíso ou do Nirvana? Não há quem hesite em dizer . sonhos e angústias. se não uma certa difusão de idéias. creio não ter o da hipocrisia. muito ilustrada mesmo.por menos que conheça a concepção do Paraíso. Depois de Balzac. desconhecendo do edifício da vida muitos dos seus vários andares de misérias. lembrei-me do drama que a milhardária americana Clarence Mackay leu a Jules Huret. movendo-se nele soberanamente. bastam estas palavras da autora.A Sra. a ele e ao Esporte. Ele deu à burguesia rapace que nos governa uma filosofia que é a expressão de sua ação. embora extremamente abstrata. Quando li o seu romance. o constante borbotar de idéias. na leitura. Albertina é. compara o "Super-Homem" deste ao Nirvana búdico e ao Paraíso cristão. uma falta de nitidez. que. lá embaixo. Acuso-o.Estudos . como causadores do flagelo que vem sendo a guerra de 1914. de uns tempos a esta parte. manejar as paixões em proveito próprio (tomem nota). talvez. Eu me permitiria dizer-lhe se não temesse desagradar-lhe. Aparece-nos como uma novela de grande dama. a autora do Exaltação com auxílio de leituras de poetas e filósofos. linda e inteligente. a eloqüência torrencial e tumultuosa do seu escrever. repouso. caracteriza o pensamento de D. às naturezas plenas (os "Super-Homens"). Os termos não se prestam a que se estabeleça qualquer comparação.

diz em alguma parte do seu livro que é cristã. Spencer.Cristo. D. como sempre. O seu estudo sobre a "Evolução do Romance" é magistral. 35 do seu soberbo livro. só podia dar em resultado essa guerra brutal. mas continuo. Nietzsche. possa fazer semelhante profissão de fé. peço desculpas à ilustre autora. no seu Anti. ele . que eu queria exprimi-las com mais serenidade. São eles sem educação e sem gosto algum. se depreende deles é um apelo à violência. Jules Gaultier. Até em Maupassant é bem sensível a influência de Tourgueneff. porém. dessecando a simpatia humana. possa prescindir de sentimentos que reforçam essa associação e a embelezam. mas não posso. sem escrúpulos. tornam-se. D'Annunzio é um retrógrado. O Sr. têm procurado extrair das elocubrações de Nitzsche um sistema de filosofia. quando Nietzsche. cujo único propósito consistia em derrubar o Império Romano. a sua admiração se encaminhava para o pior. da minha parte. não têm como estes o senso da beleza e da arte. a engendrar guerras. Entretanto. devido à convivência em Bale com Burckhardt. Os seus comentadores. que continua ainda e não resolveu coisa alguma. essa alma extraordinária da epístola a Filemon. tinha uma grande admiração por essa espécie de gente. mas uma espécie de vinho de bacantes em festas dionisíacas. os seus ideais não são os dos nossos tempos. o grande filósofo dizia muito bem que todo o espetáculo violento há de sugerir imagens violentas que determinarão sentimentos violentos. mais confusos do que ele. enfraquecendo a solidariedade entre os homens. D. do "make-money" seja como for. como já foi notado. embora lhe faltem referências ao romance russo. para ele. um desprezo pelo refreamento moral. do nosso tempo de brutalidade. dos banqueiros e industriais que não trepidam em reduzir à miséria milhares de pessoas. mas este último é tão cheio de idéias e opiniões a ponto de sugerir outras idéias e outras opiniões. o que. pela piedade. chama S. à pág. sobretudo o futebol. catecismo da burguesia dirigente. cuja delicadeza da oferta de ambos os seus livros muito me tem desvanecido. Nietzsche. para César Bórgia. no artigo "Regresso à Barbaria". claro e harmônico. certamente fratricida e. o ignóbil César Bórgia. Albertina. em geral. Ele inspirou essa guerra monstruosa de 1914 e o esporte a executou. o engenhoso descobridor do Bovarismo. Não se compreende que a humanidade. De novo. apesar de não se poder tirar dos seus livros um pensamento nítido. com a sua habitual falta de senso histórico. Nietzsche é bem o filósofo do nosso tempo de burguesia rapinante. mas. só podendo subsistir pela associação. anarquista. talvez. O seu espírito nietzschista (vá lá!) levou a autora do Exaltação a exaltar o coronel Rapagneta ou Rapagneto. para ganhar alguns milhões mais. até pelo amor que. não é mais um grande sentimento de resgate e um anelo à perfeição. Creio que a autora do Estudos não desconhece a influência dele sobre a novela francesa dos anos próximos. incestuoso. no seu último livro: Fatos e Comentários. entretanto. de dureza de coração. com a crueza dos "condottieri". que parece não ter percebido essa influência nefasta do filósofo de que é admiradora. de 1914. cruel. de bom grado. em 1902. Albertina. especialmente o Sr. pede piedade para ele. Paulo. estúpida. Não vejo por quê. Eu lha dou. que já estava em adiantado estado de putrefação. à força. Admiro-me muito que pessoa tão inteligente. cuja cultura eu desejaria ter. Condenando-os. previa esse papel retrógrado que o atletismo havia de representar no mundo. quando ele pregava a caridade e o amor com a sua palavra de fogo e o seu coração cheio de fé nos destinos da humanidade. pela bondade.piedade. combinando-se com uma massa habituada à luta ou a espetáculos de lutas.

Duque de Fiume. tirado a algum museu italiano. naquele desconhecido.. e muito poeticamente se passa nas Paineiras. é deveras interessante. e a autora melhor do que eu sabe. a sua arte não é uma interrogação diante do angustioso mistério da nossa existência. são muito opostas às da ilustrada autora do Exaltação. Vem de não saber forrar-se de egoísmo. artista e revolucionário. e pergunta-lhe o que faz. sem que o artigo que se escreva sobre ele tome proporções que um jornal não comporta. Esta última. se as tenho.. sabe bem qual é a armadura que nos pode proteger. O fundo de cena é todo neblina. da volúpia e da crueldade. e ei-lo a ceder à fatalidade do seu temperamento.sempre sonhou com um ducadozinho italiano da Idade Média. 26-10-1920. aqui ou ali. O que eu quis fazer foi caracterizar o espírito da autora e se. que. é porque teme o inimigo mais poderoso que o vigia. A musicalidade da língua italiana ilude muito. isto é. é bem doloroso! O tormento do Sr. Vê-se uma parte do hotel. mas sabe também que é daquelas armaduras divinas ou infernais dos romanos de cavalaria que os gênios bons e maus davam aos seus protegidos mas que estes não sabiam forjá-las e nem qualquer outro mortal. houve alguma aspereza. depois de escrito: "A hipocrisia dos que me acolheram entre lisonjas. Gazeta de Notícias. A pirataria em paroxismo. ele encheu as prisões e. felizmente. sentado a uma mesa. O melhor é darmos a palavra ao autor. responde. parte por parte. o pavilhão envidraçado à E.. Pensa nos homens. rei de França. quando se tem opiniões sinceras. do destino e sentido da nossa vida. é porque é um livro de idéias e as minhas. em tão perturbado momento. a fim de que ele mesmo descreva o cenário: "Stélio se acha no terraço das Paineiras. que foi publicada há dois anos.. anunciado no trecho acima. É Ema que adivinha o sonhador. já pelo mistério do aparecimento. por isso acodem-lhe maus pensamentos. além das peças: Amor. nesta cavalgata de sombras do abismo social. imprecando. e isso ela o é já pela beleza que há de por força ter (o que é sempre indispensável em deuses e deusas seja de que religião for). Há de me perdoar qualquer observação menos bem dita. César Bórgia. escreve e lê isto. surge a seus olhos uma verdadeira visão de divindade florestal. cujo desespero. A esse sonhador solitário. Não há nele nenhuma simpatia pelos homens. se tem paixão. Escreve. ela já conta cerca de Oito trabalhos. que é poeta. pregando. fez o mesmo diante de Carlos VIII. Não me alargarei mais.. Ser homem. se não faz execuções. Estudos é um livro de fragmentos e livros desses não podem ser analisados. pois penso. Saturnino vem daí. não tardará em transformar-se em desânimo. abrindo-se no meu caminho como cloacas humanas. um trecho de bosque à D. Entre pequenos e maiores. me julgando rico. cujo saber admiro muito e não cesso de preconizar. vence! e Entre neblinas. é uma apologia do sangue. correu parelhas com a difamação promovida pelos perversos e o silêncio pretensioso dos falsos críticos. por vários motivos. com um machado medieval. foices de salafrários. por entre a dentuça. A Escravidão dos pequenos lavradores e Socialismo pátrio. amaldiçoando e . que são: Socialismo progressivo. em prol dos outros. José Saturnino de Brito já é digna de exame. o terrível." Stélio. A cooperação é um Estado. em que ele pudesse dar expansão aos seus infrenes pendores para a volúpia e a crueldade. expeliram sobre mim o insulto soez. A OBRA DE UM IDEÓLOGO A obra do Sr..

ao ancião. pertenço ao número dos teus mais veneradores discípulos. A sua obra é de profeta da Bíblia e ninguém como ele obedece ao clamor que a injustiça do nosso estado social provoca da indignação dos bons corações. O seu conto "Ana". É só lê-los para o verificar. no seu ideal. o autor do Socialismo Progressivo afirma completamente as tendências principais e superiores da sua atividade intelectual. O Sr. venha a ser uma festa perene. ele quer contribuir um pouco para encher de esperança os que sofrem e não podem.A Cooperativa é um estado . Bendito seja tão nobre e desinteressado escritor! Ele vale pelo que vale o seu pensamento. Aqui as feras que devoram as vítimas do trabalho fecundo são também inúmeras e de todos os matizes. de modo que digam ao leitor mais do que dizem. delata poderosamente essa feição primordial do artista que. no teu gesto. as afirmações de sua obra . mas também é denúncia da sua qualidade superior de escritor: a sua sinceridade. Nesta coletânea de contos. aliado à política de rapina. Será defeito. e este é grande. O mundo dele e das suas criaturas não é este.maldizendo. pelo pai desta. e prega com força e eloqüência o seu credo. "foi simplesmente o terror dos maus que dominam a Beócia". porém. não se deleita unicamente com o choque de umas nas outras. ao contrário. tiveram também a sua influência entre nós. que é a sua última obra e a que intitulou Da Volúpia ao Ideal. tão enamorado da natureza como é. em nome de um sonho que não toma corpo. O autor se apaixona. como já disse alguém. o herói do Sr. para que essa esperança seja um fato. de imprecar. a sua paixão não procura diques. declama e abandona-se à eloqüência. e o mundo.. embora outros também o denunciem. Inunda tudo. Saturnino de Brito. No teu olhar. que entrevê rapidamente e logo se esvai entre neblinas. Ama a metáfora e a alegoria. Saturnino fica prosaico e mostra-se logo o escritor que não pode falar em tom familiar e em coisas familiares.. Saturnino de Brito. é que ele vive e faz viver os seus personagens. e. o ideal do sangue que só palpita pela Liberdade culta nesse gelo da Sibéria social cm que farejam os lôbos monetários e vaidosos. e é belo! . O seu sonho grandioso de cooperativismo destinado a melhorar as condições de nossa vida. e só me basta a honra de o ser sinceramente. Saturnino de Brito têm sido dominados por esse pensamento que ele põe na boca do seu Stélio. não cessa de sonhar.. não pode nunca esquecer a sua missão de sociólogo e apóstolo social. e não tem o dom da ironia e da sátira. Continua a ser o apóstolo disfarçado no literato. como que se compraz em extravasar por todos os lados. Surpreendido em colóquio com a druideza. de exortar. longe de ser a geena que é hoje." Todos os trabalhos do Sr. enquanto dotado esplendidamente de outros dotes. não ama as almas pelas almas. Tanto nas suas obras de ficção como nas de propaganda. que. segundo a filha.. por meio da educação racional das massas mourejantes e da propaganda geral contra os preconceitos e os abusos do bronco capitalismo. O ardor do seu gênio não lhe permite que as suas produções tenham a serenidade de expor fatos. de ordená-los artisticamente. Os apóstolos da regeneração. e convencer os poderosos de que devem trabalhar. dá-se a conhecer pela seguinte forma arrebatada: "Mestre. vibra e arde o ideal rubro. aqui. é um muito outro que se entrevê entre névoas.vêm diluídas nas suas novelas a todo o propósito. Querendo baixar até nós. O real. o aborrece. o Sr. Ele.

apesar do ouro oferecido. humilhado. de cabeleira. tudo isso são nugas sobre as quais não quero insistir. cheia de amantes. e capaz de todas as dedicações.C. e raivoso. apesar desse gênero de estudo ser por demais comum.. O TRIUNFO O Sr. de meninota da roça. Contudo. em atribuir às moças dessas cidadezinhas. a fim de tirar da nossa vida brasileira obras de arte dignas da imortalidade dos séculos. 5-2-1921. é nitidamente examinado e explicado. que o meu dever de escritor e justiceiro é animar o confrade. antes. Prata é linda.B. Ranulfo Prata no detalhar uma pequena cidade do interior da Bahia e. ali mesmo saca do revólver e suicida-se. nunca encontrei uma moça que a tivesse. O seu caráter amoldável. Os protagonistas eram a mulher de um pintor. aprendiz de alfaiate. Ei-la: "Entrava o terceiro ato. beleza. Uma noite.o que o Paiva fez muito bem quer estrangular o fidalgo. é de esperar que o Sr. O conde. O personagem principal . Tais são as qualidades do livro. Ranulfo Prata venha a ser . a sua pintura de Anápolis sai muito viva e original. Eu o li com o interesse e o cuidado de todos os livros de moços que me caem nas mãos.O Triunfo. A rivalidade das bandas de música é uma delas e eu não posso deixar de transcrever aqui a descrição da representação de um drama. uma novela em que o autor revela grandes qualidades para o gênero. Compraz-se o Sr. o último. que o encarnou muito bem. O conde era um rapaz alto. alucinado. Ele queria à viva força possuir a fresca mulher do pintor. gravata preta e olhar romântico. O drama encerrava um poderoso exemplo de moral. recebendo uma grande bofetada. pois não quero que um só de talento me passe despercebido. que ele se esforce mais. mas duvido que seja assim. a naturalidade do diálogo e não limalha a frase estafadamenente. tais são as promessas que ele encerra. de carmim nos lábios.A. A Angelina do Sr. vertendo lágrimas de emoção. O Triunfo está cheio de cenas de costumes cativantes. passa logo a "coquette" do Rio. Já possui a sobriedade de dizer. o pintor e um conde. Ranulfo Prata teve a bondade e a gentileza de me oferecer um exemplar de seu livro de estréia . de joelhos." Com tantas e superiores qualidades. é bela e. É um romance. que não o faça.é estudado com toda a minúcia e exatidão. Teimam todos os romancistas que tratam de tais cenas. O pintor casualmente entra no momento. Algumas vezes que tenho visitado tais vilarejos. "O papel de pintor coube ao Paiva. que resistia tenazmente. pedindo que ele continue. num teatrinho do interior. A mulher fiel pede-lhe. . "Quando o pano caiu a platéia aplaudia delirantemente. fácil. penetrou audaciosamente no humilde lar do artista e quis forçá-la.o triunfador . não podendo sufocar o seu desejo. A minha experiência a esse respeito é infelizmente nula e não posso apresentar objeção de preço.

um quadro muito vasto desse atroz problema das secas chamadas do Ceará. a quem aconselho abandonar toda a preocupação de elegâncias para só atender o que é propriamente de sua arte: a alma humana e os costumes. exigindo só uma correção.C. quando elas aparecem. Os trabalhos dos ingleses no Egito. 28-9-1918. ele nos dará. organizarmos bandos precatórios. o café.um grande romancista.. merecidamente. a terra fica ressequida e os rios tão secos. O SECULAR PROBLEMA DO NORDESTE O Sr. dos franceses. já nos deviam também ter ensinado que tais trabalhos. chamamos discurso. de quando em quando. de leste a este. mas que toca em todos os pontos do tema presente. Tive com a leitura do seu livro o máximo prazer e espero que se repita em um segundo livro que. Dr. Com o tempo. para povoar ou encher de necessitados outras. oferecer terra e trabalho aos "retirantes". A. creio. quando a chuva é escassa. deputado Ildefonso Albano mandou-nos a 2. para elucidar o que afirmo. deviam ter seguido outra orientação mais ampla e audaciosa. Ildefonso Albano. festivais de caridade. de norte a sul. e é então que se desenrola toda aquela lancinante tragédia do Ceará e proximidades. de Bossuet. A obra do Sr. É aquilo que os antigos chamavam por esse nome. em breve. por que não temos outro tanto para tornar fecunda uma grande região do país que é das mais férteis. relativamente mínima. sobram-lhe outras qualidades de escritor que suprem aquela falta. o jovem escritor corrigirá os defeitos e nós teremos um grande romancista digno das nossas letras e dos destinos da nossa língua. o Ceará vê o seu subsolo pouco infiltrado e os seus rios correrem somente três ou quatro meses no ano. com os nossos costumes de Assembléias e Câmaras Legislativas. por serem mofinos e mesquinhos. menos do que um "tratado". E eu me atrevo a lembrar. o Discours sur 1'histoire universelie. É desejo de quem escreve estas ligeiras notas e o faz ardente e sinceramente. para que venha a sê-lo de fato? Devido à inclinação do seu solo. conjuntamente com a fraca espessura do seu solo permeável. pois. despovoando uma grande região do Brasil. Se nós temos tido não sei quantas centenas de mil contos para valorizar. do seu excelente discurso sobre O Secular problema do nordeste. em todos os pontos do nosso território. estou certo. e creio não haver a mínima exibição de sabença. dos americanos no Colorado. mostram que nós podíamos seguir no Ceará e proximidades esse mesmo rumo de audácia eficaz que tem dado tão bons resultados àqueles. De forma que. como explica o Sr. Se ainda lhe falta. quase anualmente. Nós não podemos estar limitados a. como já mandara a primeira.a edição. uma profunda e sagaz visão da vida. ao citá-las aqui. Não é bem o que nós. Ildefonso Albano é. isto é. uma dissertação. que de há muito deviam ter preocupado todos nós brasileiros. de Descartes. Todas as que têm aparecido já deviam ter nos ensinado que o caminho era outro e os trabalhos que lá se têm feito e não têm resultado palpável. na Argélia.B. Ambas essas obras são clássicas e conhecidas de todos. . mais ou menos mundanos. talvez. na sua distribuição de águas ou na correção da declividade de seus rios. e o Discours sur la méthode.

para comover o coração dos mais duros. De volta para Pernambuco. agradecendo a remessa de 300$. Ildefonso Albano. Muitos estão quase completamente nus. escrevia: "Os famintos aqui se acham em extrema miséria. Desde essa primeira notícia. Sendo assim.Como em geral nos fenômenos meteorológicos não se pode determinar o seu período de sucessão. Albano queria fossem reproduzidas. para produzir o melhor algodão do mundo. que o Sr. acusa a recepçao de 400$ e diz: "Como é grande a necessidade do povo. cujos nomes encimam a lista fúnebre das vítimas da seca. e deu-lhe Deus grandes vitórias. por meio da ciência. Ildefonso Albano ilustra com os mais dolorosos documentos tanto iconográficos. Em data de 16 de fevereiro de 1916 o padre Raimundo Bezerra. morador na Praiva (?) do Estado do Brasil. não só aí. cai-lhe outra em cima. Registro. demais acha-se alojada aqui uma grande porção de emigrantes de outras freguesias. O povo não pode mais resistir e nesses dias morrerão muitos de fome. lista longa e interminável. que expulsaram do Ceará o primeiro civilizado. vigário de Jaguaribe-mirim. como é dos nossos costumes. ." Eu poderia tirar do livro do Dr. hoje. ainda uma vez. em data de 26 de agosto de 1915. com Diogo Campos Moreno. resolvi socorrê-las e empregar o resto do dinheiro em sementes. de transcrever algumas cartas e outros documentos particulares. Por falta de provimento e socorro. É preciso que façamos cessar. os habitantes daquelas flageladas regiões são tomados de surpresa. padre J. Como isto aqui é uma simples notícia de vulgarização de um trabalho que precisa ser divulgado e não uma crítica que não tenho competência nem estudos especiais para fazer. não timidamente. se veio deixando tudo miseramente a pé com sua mulher e filhos pequenos. encontrando-se pessoas caídas de fome. de modo que nunca se pode prever quando é o ano de chuvas escassas e o ano de chuvas abundantes. Pêro Coelho de Sousa. como literais. como já no começo do século XVII foram também os primeiros conquistadores do Ceará. tem sido assolado pelas secas e mal convalesce de uma. É preciso que eles se façam. mas em todas as partes que eles forem precisos. voltou ao Jaguaribe. onde fundou uma povoação com o nome de Nova Lisboa. parte dos quais pereceram de fome. foi até a serra de Buapava e teve grandes recontros com os tabajaras de Mel Redondo. como de outra profissão. mas com largueza qualquer e audácia. mas os que aí vão já bastam para que todos procurem na sua obra uma imagem bem viva do que ela é. Tomo a citação do Sr. esse horrível espetáculo. depois de lhe arrebatar os inocentes filhinhos. ele continua a pedir sábios trabalhos hidráulicos. Ildefonso Albano mais outros depoimentos simples e tocantes do que é uma seca. "Daí para cá se têm sucedido com cruel periodicidade os tétricos fenômenos. que esse vale do Jaguaribe. "Rezam as crônicas antigas que em 1603. sem que o seja em prazo de tempo regular. tanto de engenheiros. todos nós brasileiros. apesar das nossas pretensões de termos decifrado a natureza. não me furto ao dever. homem nobre. de Lima Ferreira." Mais outro: O vigário de Ipueiras. Ipueiras sempre foi um município pobre. que este pequeno escrito tem unicamente por escopo chamar para ela toda a atenção dos brasileiros. que ainda está por encerrar. na impossibilidade de também reproduzir as gravuras que um amigo do Dr. marchou até o Jaguaribe. 80 brancos e 800 índios. Teimoso que é de continuar a mostrar nos seus constantes renascimentos que é capaz das maiores possibilidades. onde no Siará ajuntou a si todos aqueles índios moradores.

Oliveira Lima e. empregado na colônia federal Inconfidentes. tenho em mãos.Mme. O Sr. É o Anita e Plomark . de obras de autores gabadas. do saudoso José Veríssimo.C. de épocas em épocas. Eu fiz aqui o que pude. de quem eu tinha lido um artigo de jornal ou outro.Teo me surpreendeu. que fica distante oito quilômetros daquela pequena cidade do sul de Minas. Achei o seu romance raro. mas. do Sr. Robert de Bedarieux. mas que me é visceralmente antipática. Li-os lá. ninguém as lê ou procura. à Willy. mas que. Alvim tinha além de exemplares das edições dos Srs.B. O par de aventureiros agita-se em um meio de "rastas" parvos. inclusive aquele famoso tratado de agricultura da Sra. um romance do nosso Teo Filho .Correio da Roça . e acabo de ler. Júlia Lopes . O meu bom amigo era o Emílio Alvim. que deve ser um autor extraordináriamente novo. Se se pode compreender . Não posso compreender nem perdoar semelhantes vagabundos de caso pensado. Confesso que a leitura deste não me deixou tão forte impressão quanto a do outro. dos dois outros. formando uma corja que pode ser "sui-generis". e. Dos três. estando eu nos arredores de Ouro Fino.. como secretário. um novo livro seu. Quem vive neles pode logo imaginar em que consistem elas. Alberto Torres.tinha.. Constam de publicações oficiais. perfumado de graça. me habituei a ler com interesse e carinho. obras de Sr. uma espécie de Sieyès.. Para isso toda a propaganda é pouca. por uma crônica de Patrocínio. a . são menos cínicos. Rodolfo de Miranda e Toledo. desde a Revista Brasileira. em geral do Ministério da Agricultura.Pátria . Bifteck-Paff. passando tempos em casa de um amigo. à espera de uma nova revolução francesa com os seus desdobramentos inevitáveis. a quem desde menino. Alberto Torres me pareceu um fabricante de constituições.é como um laço moral e esse laço não nos pode permitir que deixemos à míngua. de "plaquetes" de versos ou de discursos laudatórios. uma pintura da vida pernambucana com todos os aspectos de fidelidade. enfim. e tudo isto sem pedantismo de frase ou exibições de uma sabedoria de empréstimo. em geral. tinha organizado uma econômica biblioteca característica dos secretários de jornal. dizia eu. de patifes de toda a sorte e origem.Todos nós nos devemos interessar por esse problema e de interessa todos nós. grandes obras para que elas cessem ou sejam atenuadas antes que aquilo lá fique um Saara. Perdôo os criminosos declarados. milhares de patrícios a morrer miseravelmente. Agora. 21-9-1918. Oliveira Lima. só conhecia bem o Sr.aventureiros. que havia sido durante anos secretário de jornais de péssima fortuna. de gente que perdeu a alma ou nunca teve uma. muito natural. em que me surgiu como um aprendiz de Casanova . Teo. Todas chegam aos jornais por oferecimento dos editores e autores. Nada de paliativos. porém. tanto no que toca às almas. como no que se refere ao ambiente em que elas se moviam. também. nada havia lido em livro. mal lhe conhecendo a feição literária. vivo. sem oásis. ANITA E PLOMARK AVENTUREIROS No ano passado. escrito de colaboração com o Sr. A. tive ocasião de ler pela primeira vez um livro de Teo Filho.

E depois deste primeiro amante. auxílios às usinas de açúcar" e outros sutis expedientes honestos da gente progressista de São Paulo. a não ser por defeito orgânico. sem uma mania. A prostituição na mulher é a expressão de sua maior desgraça. senão idiota. em bloco. mais ou menos. por exemplo. Não será tanto assim.. ela mata e rouba. sem se intimidarem diante do mistério da vida e sem uma ingenuidade sequer. do aproveitamento dessa sagrada marca do destino. Há. homens medíocres sabem sacar de oportunidades. mas há muitos estados intermediários entre a senhora de família e a meretriz. no novo romance de Teo Filho. valorizações. nas modestas classes. mas as mulheres? Que procurem tais homens. quando é fatal e nua. "convênios. em geral. Não é pois admirável que uma inteligência lúcida espere retirar de tão degradante estado as fortunas que. A "Nouvelle" seria menos gentil. para as fêmeas como essa Anita. sem nada de sério na cabeça. Anita. com tanto respeito. O assassínio que ela pratica tem tanto de útil quanto de estupidamente executado. Não gosto dos disfarces. estudam de preferência o órgão doente para lhe descobrir a função em estado normal. nem dos seus ancestrais. Tenho que aceitá-lo tal qual é.o que é coisa bastante impertinente. mas o luxo e a riqueza. Não. desses estéreis de todos os modos..vida desses inúteis sem desculpa alguma. defesas. A prostituta só é digna da piedade e respeito dos homens de coração. meu caro. as mulheres públicas da nossa sociedade burguesa. quando ela sabe com resignação e sofrimento arcar declaradamente com a sua tristíssima condição. nós poderíamos muito bem estabelecer o funcionamento normal da mentalidade feminina na nossa sociedade. não é mesmo o que os venezianos da Renascença chamavam. É verdade que a riqueza e o luxo tentam. talvez. para elas. a mulher só se prostitui por estupidez. só lhes desejo a guilhotina. Anita faz isto. É da camada delas. dirão. e as raparigas do prazer se recrutam. que Teo parece querer exaltar. um aspecto que o torna notável e muito me interessou. Os fisiologistas às vezes. são eles muito fáceis. para vencer certas dificuldades. com certo desinteresse natural e. das intrujices. uma tal e qual generosidade espontânea. o "gato de nove caudas" ou a roda das penitenciárias. uma hetaira "onesta". e e "sorte grande" o amásio rico e gastador constante. e a desgraça só merece compaixão quando é total. é de uma estupidez assombrosa e sem nenhum traço superior de coração ou inteligência. vi que aí seria discutir o livro no meu ponto de vista . por Anitas e outras. dos seus recursos. É como ele mostra o mecanismo espiritual . pois. seguem-se outros equivalentes. a cortesã eivada de arte. Geralmente. Para os machos como tais. são acidentes na carreira das hetairas. Mas. nada perde com isto. dir-me-á Teo. e talvez o próprio autor não tenha percebido. e olha. Creio que foi Maxime du Camp quem demonstrou isto em um estudo sobre a prostituição em Paris. o primeiro amante não é o velho rico da lenda. isto é. estados que as mais atiladas aproveitam muitas vezes para sair da prostituição declarada. sem uma paixão. sem necessidade de tal. como em geral. quando verdadeiros e francos. para ludibriar os outros. São espíritos perversos demais e o cansaço da vida não lhes vem do trabalho próprio. Os homens têm tais recursos. ensopada de poesia. das falsificações e. mas de uma inata maldade aliada a uma perfeita incompreensão das altas coisas da natureza e da humanidade. sobretudo. quando ela o é em toda a força do seu deplorável estado. Não é assim a heroína do romance de Teo Filho. Há mesmo quem diga que. Ao contrário.

onde uma mulher. mas. por mais que ela possua força de amor em uma delas. essa abdicação da vontade da mulher. amante ou mesmo cáften. Não tem entrelaçamentos dos nossos cipós nem as surpresas de variedades de essências que a nossa mata tropical ou subtropical oferece. Nestor era vice-diretor do Internato. de todos os países e côres. sente o vazio ao redor dela e tem medo desse vácuo moral.. na vida.. pois há quem diga que ele é tão geral entre judeus. 16-2-1918. seja ele marido. Ele não é efusivo e revolto. só são mantidas graças à ignorância do seu verdadeiro estado. Sob este aspecto. e eu não gostava dele. abandonada no vício. não pode existir sem o apoio de um homem qualquer. creio eu. Há nelas alguma coisa daquela secura que lhe notei em menino. não. pululamento de vida. "ad usum Delphini". e. Nesse tempo. evidenciando o sáfaro de todos eles . está certa que o resfriamento virá. Correm os tempos e aquele homem que me parecia seco. Comecei a ler-lhe as obras. mas as araucárias são de uma tristeza impassível e sem . que não atinamos para que roubam. e as que vai obtendo aqui e ali. Não há árvore mais monótona e mais fácil de explorar do que ela. interrogação. seja como for.B. e sempre araucárias.a novela nos prende pela estranheza do assunto. mas grandiosa e impressionadora. A nossa floresta tropical ou subtropical é triste. espiritual e sentimental. ao que parece. retratando a estupidez de recentes ricos. desenrolando-se quase todo nas paisagens delambidas e ajeitadas. perdida. para torná-lo digno de atenção. com dados atuais. a única alma que se interessa. Eu o conheci menino. e sempre pela vivacidade dos matizes que o autor emprega nas breves e firmes descrições de que está cheio. são araucárias. mas precisa dele no mundo. É ele o seu único apoio moral. filho. sem indagação. e a aceita como ela é. irmão. quase sempre unicamente determinado por laços psicológicos. a análise é sagaz no livro de Teotônio. já meio-criminosa. quando fazia preparatórios no Ginásio Nacional. Nestor é uma floresta do Paraná. são como as do Paraná. esse ascendente. pai. É. esse domínio de corpo e alma do rufião sobre a meretriz. surge-me deliciosamente como uma grande alma.. No caso. aventureiros . Ah! Essa solidão. em que não entra a mínima violência..é um livro singular e curioso por todos os aspectos que se o encare. um livro: e basta isto. As árvores de sua floresta são quase sempre de uma mesma espécie. Teotônio analisa muito bem como uma mesquinha alma de mulher. de damas "chics" e gatunos de alto coturno. de fato. Ela o ama? A bem dizer. dos seus antecedentes. é Plomarck. A. Descrevendo esse meio de "parvenus" e "toquées". Só lhe resta o cáften. Não afirmo que seja peculiar à época atual. Não terá mais afeições. desde que o afeiçoado saiba quem ela é.pelo qual se dá esse estranho fenômeno do caftinismo..C. dogmático. capaz de dedicações e sacrifícios. por ela. Tudo nela é mistério. na de um homem. toda inteira. pelo simples motivo de que o Velho Testamento está recheado de exemplos de alguma coisa análoga e são conhecidos de nós todos. Estranha Cavalaria. o livro é notável como análise de um dos mais curiosos fenômenos da psicologia mórbida dos nossos tempos. Anita e Plomarck. cheio de sentenças. ELOGIO DO AMIGO Não sei como possa dizer bem da atividade literária de Nestor Vítor. da Côrte D'Azur.

já não contando com ciganos e índios mansos. fossos. Falta-lhe também o aspecto militar do feudo antigo. porque ele o soube ser de um pobre preto que teve audácia de fazer versos. vizinhos. É por isso que gostei muito do livro que o meu amigo Nestor Vítor me ofereceu e que me deu extraordinária satisfação intelectual. classificarei de sociológica a sua interessante novela. a seu talante. Não se fixa. por ela mesmo. ditava leis. outro exemplo de tão forte amizade literária que esta de Nestor por Cruz e Sousa. solitário. Colocada nesse vale e nas divisas de Minas e S. nos transes mais dolorosos da minha vida. A. a grande propriedade agrícola sofre o influxo e a influência de gentes do sul do Brasil.C. ameias. Neste Elogio do Amigo mais do que em nenhuma obra. como um pinho do Paraná. do norte. mas sempre tive amigos. assim como. agregados e escravos todo o necessário à vida. exceto o sal. eu aprecio Nestor. que a todos descreve e analisa soberbamente. como. a fazenda era como um feudo em que o seu dono governava. recebendo o Paranaíba. só não cunhava moeda para vir a ser um verdadeiro príncipe soberano. como se neste país todos nós não fôssemos mais ou menos pretos e todos nós não fizéssemos versos. pelo vale do Paraná. pelo de São Francisco. a sua força de amar o camarada. Paulo. boiadeiros. Veiga Miranda. repito. Li este seu livro. Segundo Guyau e pelas suas intenções. e mesmo a nossa capangada só aparece no latifúndio quando as rixas entre senhores de fazenda. em que Nestor tão bem retrata o seu íntimo de amigo. para ter uma completa semelhança com o senhorio medieval. distribuía justiça. o São Francisco. ao alcance do primeiro chamado.. quando ele revela as modalidades naturais do seu temperamento. Essa espécie de "bravi" está sempre à mão. das de Goiás e Mato-Grosso. É mais completa que muitas outras que não fornecem o pano. Não há barbacãs. nunca tive amor. na vertente oposta. Carreiros. mas que a do alferes . que é a fazenda. com as suas escassas ramagens. nas suas obras. A "casa grande" não o possui como o tinha o castelo antigo. Entretanto. eu vejo Nestor meditativo. próxima à serra da Canastra. pelos afluentes e confluentes destes dois grandes rios. Esse tipo curioso da nossa antiga propriedade agrícola. a querer atingir um outro que lhe fica bem distante. Nestor é bem um amigo dessa forma. 5-8-1922. no romance do Sr.eloqüência. Nunca amei. homens d'armas.B. em que nasce tanto aquele rio. Isolada na sua vastidão. daquele rio Grande que. mediante boa paga. A "Boa Esperança" é um perfeito tipo de fazenda: e ela fornece aos proprietários. Não há na literatura brasileira. ou raramente. e foi excomungado por ser preto e fazer versos. dos quatro pontos cardeais do sertão do Brasil passam pelas proximidades e. li-o. Mau Olhado. a não ser a amizade de Sílvio Romero por Tobias Barreto. pontes levadiças. cheio de embevecimento e entusiasmo. forma o grande Paraná. chegam ao auge. pinta-o e descreve-o o autor com minúcia e carinho. graças ao atrativo do contraste. UM ROMANCE SOCIOLÓGICO A fazenda "Boa Esperança" está situada no vale do rio Grande. tropeiros e vagabundos.

A fazenda do "Sossêgo". de dizer quanto ao que não foi feito no seu livro. filho de fazendeiro) à sua direita e à esquerda. Não me lembro de autor moderno nosso que seja tão cuidadoso nesse ponto como o autor do Mau Olhado. sagaz e ilustrado. pelo Sr. fazem-lhe falta e como deixam o estudo desse elemento da fixação da nossa população rural. as duas orelhas ainda sangrentas. dando os nós fortes. filha do Laurindo Bravo. À grande tela em que o autor trabalhou com ciência e vigor. inacabado. se bem que ligeiramente. tão profundamente nela se está separado e independente do resto do mundo. Veiga Miranda. explicaria melhor aquela atmosfera de crendice e abusão que desde o começo cerca os personagens do drama. sociológicas. matando-o pouco depois. etc. cujas vistas sociais. atmosfera essa em que morre de amor por este a interessante Maria Isolina. tinha. E. de mangas arregaçadas. algumas décadas antes da ereção daquela que é o cenário do Mau Olhado. a descrição de sua vida total. e por sê-lo.. que o Sr. a bordo da corveta. ali pelas bandas de Maricá. porém. o leitor menos comum procura alguma coisa que lhe falta. Vejam só este trecho que trata do empalhamento de rapaduras: "Ao longo da mesa. ao jeito artístico da alma do escravo. mas as cenas domésticas. Mais adiante. cardada e tecida. Veiga Miranda tratou. à sua frente (do padre Olívio. alguma coisa deliciosa na sua vida patriarcal. dos seus grandes rebanhos de ovinos. não deixou de vê-los e senti-los. Darwin que visitou uma. enlaçando as embiras. É o escravo. e trazendo para a casa. Não só os personagens principais e secundários. não faltou nenhuma pincelada para o seu bom acabamento.Malaquias. não devia ter esquecido esse ponto que o tema do seu romance como que torna primordial e requeria ser estudado à luz das modernas correntes de pensamento superior. na fazenda. "Beagle". à minha vontade. não escapou o fenômeno social da nossa escravatura e o Sr. por intermédio da lã. em torno do mundo. o solene silêncio da paisagem. Nessa parte a obra é de uma rara virtuosidade de execução que às vezes peca pela exuberância do detalhe. só se compra o sal. mas. diz Darwin. o objeto do livro. alude a eles. Manuel Figueiredo. A antiga propriedade agrícola de um tipo geral. se traem no propósito e no desenvolvimento de sua novela. A boa compreensão. pondo de parte a idéia de escravatura. não podia existir sem o escravo que ela supõe. conta o autor da Origem das Espécies: "Uma madrugada fui passear uma hora antes de sair o sol para admirar. que é inegavelmente um escritor moderno. os antebraços das mulheres agitavam-se. A impressão que se tem é magnífica. à . nome ou alcunhas interessantes.. A justificativa que não havia nela. nos arredores do Rio de Janeiro. seria melhor dizer. mas. protestando tragicamente contra a sua infecundidade imposta e criada pelas regrinhas da sociedade. dá. nesta passagem e em algumas outras. deixa-o como simples. Veiga Miranda não se limita a esboçá-las rapidamente. as das indústrias agrícolas próprias à fazenda. compete-nos falar do que o foi. É a fazenda. ele. o Sr. No seu livro em que narra a viagem que fez. propriedade do Sr. O jovem e talentoso autor paulista só se ocupa dele na cena do batuque e. o banzo. bem depressa ouvi elevar-se nos ares o hino que cantam em coro os negros no momento de começar o trabalho. não me parece valiosa. Veiga Miranda.. ergue o feiticeiro Lelé às culminâncias de guia de multidão e aniquila o padre Olívio." Ao grande naturalista inglês. Veiga Miranda. como as abelhas rainhas. Lá. a vida da senzala. creio eu. O padre ficou entre a madrasta (Maria Isolina) e a Placidina. dentro do seio. no mais. castigos. Ele as acaba e as arredonda suavemente. envolvendo as rapaduras. Nada temos. acabada a leitura da excelente obra do Sr. a destemida virgem selvagem que se entregara por um ímpeto carnal ao mais valente tropeiro do sertão. O eito.

sardento. que casara muito moça com o fazendeiro. cercado cada vez de maior consideração. brincalhona. Leonor e Gabriela. "Olívio adestrou-se em pouco tempo no mister que lhe designaram. por uma demora. rábula de câmaras eclesiásticas. com o seu rosto comprido. aproveitando-se de epidemias e desgraças climatéricas. tímido e triste. num pouso de caminho.. servido primeiro aos dois compadres e a Lelé (que andava agora nas boas graças de ambos.sua frente. A figura central e mais original do romance é o Lelé. O Sr. as crenças superiores da Igreja Católica com as primitivas do animismo fetichista dos negros e índios. os olhos brilhantes. Uma quadrinha que há no romance. É médico e sacerdote." Maria Isolina. com a sua terapêutica de ervas silvestres. o alferes Malaquias. que saíra padre. uma medicina de pajé. apossa-se de Isolina uma raiva súbita que a leva a expulsar. Após a chegada do enteado. Veiga Miranda põe todo o seu talento de observação e de psicólogo dos indivíduos e das multidões para o estudo e a ação desse personagem. desempenhada ainda com grande exibição de atividade e meticulosos zelos. mistura e combina. E daí a pouco mandava colocar sobre a mesa. em vários pontos. depois que os convencera de que salvara Maria Isolina). Continuava a caber-lhe a mordomia da casa. O autor. "Olívio. ajudando-a até a enlaçar com elas os molhos já formados. puxando muito aos do pai. do seminário de Mariana. falando-lhe com vivacidade infantil. por uns alheamentos esquisitos. com cuidado. emprega o seu ascendente sobre o povo e também sobre os senhores de fazenda em cujo espírito o seu prestígio se tinha infiltrado. Fui aprender a amar bem cedo. e o nariz acarneirado. Um tanto crente e um tanto impostor. feio e cheio de espinhas. tenta dizer o indefinido mal dessa parada de sentimento: Sina do meu coração. violento e animal. gradua esse sentimento da sinhá dona da "Boa Esperança" e o marca por gestos e palavras muito expressivos. Ele percorre o livro todo e é como que a alma da obra. travessas e peneiras cheias de pipocas. se tomara de uma invencível repugnância pelo marido e viera a adoecer duradoura e inexplicavelmente depois do primeiro e único parto mal sucedido. receando que o contato das outras a arrepiasse. com muito relevo e habilidade. um todo de traços meio masculinos. e depois transitado ao longo da mesa pelas empalhadeiras. parecendo mais largos sob a luz forte do lampião belga. sem motivo nem causa. a madrasta. a moça alquebrantada se apaixonara secretamente por ele. Escolhia para a madrasta as palhas mais macias. cozimentos. pelo defeito de uma palha. Maria Isolina repreendia-o de quando em quando. transforma a todos em fanáticos obedientes ao seu mando. ao descobrir que o padre estava fornecendo embiras a Placidina. depois do primeiro contato matrimonial. uma a uma. rezas e exorcismos. onde vai freqüentemente para arranjar o desimpedimento de matrimônios entre parentes próximos. Alia a isso. Feiticeiro e sacristão. desembaraçava as embiras. de fato. para vingar-se do padre e realizar a sua estulta e bronca ambição de pontificar como um bispo autêntico na capela branca da fazenda "Boa Esperança". (a filha. do serão. ladeando como sempre a figura alegre de Ismênia. letrado a seu modo. Nessa mesma passagem do empacotamento de rapaduras. ficavam as duas primas mais velhas. etc. Mandava logo ao começo uma bandeja de café. mais velha do fazendeiro) não tomava parte na tarefa noturna. E guardar a vida inteira Esse amor como um segredo. Olívio. "Iaiá. a pobre agregada. . esse Lelé confunde. etc. com intermitências. se deixava apoderar.

tinham em mira.. Analisar o livro.. 241: "Pairavam (os corvos) primeiro no alto. entretanto. Não se trata de linhas rígidas e imobilizadas no tempo.. o pequeno defeito de esquecer que nem o Império e. fastidioso e fatigante. e há outras causas que agora me escapam. Não há tal. Um trabalho desses. quando dividiram e subdividiram o Brasil. criar nele nacionalidades. permitissem ser mais bem dirigidas estas terras. comarcas. que. os documentos oficiais. uma outra é que a topografia do interior brasileiro devia ser mal conhecida. decretos. ambos os governos. baralhada de denominações e corruptelas de denominações tupaicas. a propósito de sua curiosa obra. À vontade para falar dessas questões de limites estaduais. se não inteligência e capacidade. Uma delas é que eles. termos. agora que queremos organizar pequenas pátrias. para mim e para os leitores. Podem objetar que. a começar pelos de lá. porquanto sou carioca. o Município Neutro. 26-4-1919. sem lhe fazer uma crítica de mestre-escola. milhares. o Distrito Federal. quase imperceptíveis. por muitas razões. seria. Noronha Santos. não militam tais causas.Os personagens secundários. muito menos. para dar a tais documentos um valor muito relativo e sem valor para nós outros. tem. lugar -tenente de Malaquias. que é exaustivo e minucioso. traquinas e desenvolta. em 1833. onde todos. não nos despedimos do Sr. A precisão era-lhes então absolutamente indiferente. põem a máxima pureza e moralidade. O seu fito era outro: era obter províncias. acaba de imprimir e publicar. avisos e outros atos administrativos. Todos eles querem ir buscar. Riamo-nos um pouco como bons camaradas que somos. filhas e noras. capitanias. uma excelente memória sobre os limites desta leal e heróica "urbs" com o Estado do Rio. Lê-lo será melhor para travar conhecimento com um autor nacional que. por ordem e conta da respectiva Prefeitura. quando a Regência criou. por meio de delegados seus. pág. Era o . sofre do mesmo erro de visão que os demais referentes a tais questões." Será mesmo espiral?. que revela esforço e paciência. neles prepostos. há cerca de cem anos.. detalhe por detalhe. às qualidades exigidas a um simples romancista. O Amazonas e o Paraná nasceram ontem. alia as de um psicólogo da nossa curiosa "multidão" roceira e as de um sociólogo que veio a sê-lo passando pela geometria. até o ponto do banquete. como argumento decisivo da validade de tal ou qual linha divisória entre as antigas províncias. segundo a terminologia republicana. que cada um pronunciava a seu modo. quanto aqui. O seu trabalho. LIMITES E PROTOCOLO O Sr. sobretudo a Borginha. aproveito a ocasião para o fazer de um modo geral. portarias. a filha mais moça do fazendeiro.. diretor do Arquivo Municipal desta cidade. Veiga Miranda e do seu belo livro. Até logo! Revista Contemporânea. Nós podemos bem imaginar o que era tudo isto. são documentos preciosos para o estudo dos nossos costumes do interior.. o governo colonial. E. podiam alterá-las quando quisessem. Diz o autor. e de seus filhos. e iam baixando numa espiral invertida. são todos bem característicos e as concepções familiares e domésticas do Zamundo Bravo. por falar nisto.

. Isto nada quer dizer. originado pelo choque e luta entre a violência e a brandura. onde e por que aconteceu tal coisa com os negros e onde e por que se deu tal com os portugueses. generoso e sincero. A cena final da loucura do terrível revolucionário . onde e por que influíram os índios e as suas denominações locais. da protagonista. Ele. Os limites do atual Distrito Federal. entretanto. Dr. Noronha Santos. quando publicada. mas que me chega da atualmente benfazeja Paraíba.julgando-se rei e coroando-se com uma caixa de papelão. já haviam sido fixados no ano anterior. A barafunda devia ter sido a mesma.espécie de Thervigne. Isto ele o faz com o pensamento geral da peça.a outra. O que me parece. das quais três consideráveis.estou julgando por esta do Rogério . Admirei muito a peça.A Cisma . *** Temo muito transformar esta minha colaboração no A. o estudo dos personagens. senão uma importância mínima. é que semelhantes trabalhos. e não quero com isso de forma alguma diminuir-lhe o trabalho e o mérito. o Conselheiro Chichorro da Gama. sendo que uma destas. há dias: . para mim. O autor não esconde a sua antipatia pelos revolucionários não só russos. Soares é autor de mais quatro outras peças. na impossibilidade de acusar logo o recebimento das obras.B.. embora me parecesse ela não possuir uma certa fluidez. principalmente no cerimonial. de criar situações e combiná-las. as palavras que lhe disse. mas recebo tantas obras e a minha vida é de tal irregularidade. O Sr. a quem aqui muito conheci. que demandam tantas qualidades de inteligência e caráter. como estando sendo efetuados na Província do Rio de Janeiro e no Município do Iguaçu.C. simbolizava uma em Débora . elas só têm por fim justificar ao meu ilustre amigo. dos seus caminhos. em crônica literária. das razões de fixação da população aqui e ali. como também nos detalhes.Rogério . como nas outras partes do Brasil. no Arquivo Municipal. . Deviam ser resolvidas por amigável acordo. em Malvina. me vejo na contingência de fazê-lo por este modo. Orris Soares. como os de todo o jaez. o autor. inspirada nos acontecimentos da atual revolução russa o que se denuncia por alusões veladas e claras no decorrer dela.Estas questões não têm. e intensa.indistinto. pela leitura .elas deviam ser merecedoras dessa experiência. nas atitudes governamentais e imperiais que eles tomam quando assumem o mando. não esquecendo as pequenas localidades onde todos estes três elementos se misturaram. aludindo a obras do canal da Pavuna relatou-as à Assembléia Geral do Império. Aprendi tudo isto na obra do amigo Noronha Santos (o da Prefeitura). podiam ser mais bem empregados para um mais perfeito conhecimento da fisionomia do nosso povoamento. a ponto de atingir as minhas próprias algibeiras. que. Chama-se Rogério e é um drama em três atos. é maravilhosa. É uma peça revolucionária. E é pena. porque o dramaturgo não tem tido a felicidade de obter a representação das suas produções teatrais. porquanto. tanto assim que um Ministro de Estado. As que não se adquirem são as que ele têm: poder de imaginar. Considerações ligeiras sobre trabalho de tanta monta. Na atual o autor intenta o estudo do drama íntimo que se deve passar no peito de um revolucionário. porque é qualidade que se adquire. com os respectivos cortejos de sentimentos derivados. Está neste caso o trabalho do Sr. entretanto. .foi aqui muito elogiada. a fim de não parecer inteiramente grosseiro.

os há de muitas espécies. e a citação eu a tiro de artigos que o ilustrado Sr.te. sem linhas nem contornos e como que tinha a forma de uma pêra. depois de passada a borrasca. mas são plantas imponentes e grandiosas. Walfrido logo demonstra que este não é o seu primeiro. e os mais grotescos. até ao ponto dessa facilidade traí-lo. que esteve em Assunção.B. Quando nos transportamos à efervescência das idéias do meio que os criou. ainda se pode repetir: cá e lá más fadas há. Walfrido Souto Maior. Portanto. acaba de publicar um poema. eles não se parecem assim. com o título "Álbum de Elisa Lynch". Não tenho à mão nenhum exemplar de livro que me informe dos que os reis do Haiti se fizessem cercar. Compreendo muito mal as "Cruzadas" e seus barões e ainda menos as guerras de religião de Luteranos. "LEVANTA-TE E CAMINHA" Pois para que saibais que o Filho do Homem tem poder sobre a terra de perdoar os pecados. Esses homens podem ser para nós ridículos.C. A cabeça completamente unida ao rosto prosseguia numa imensa papada. Católicos. mas. O Sr. S. 2-5-1920. E assim é sempre quando se trata de grandes movimentos de sentimentos e de idéias que apaixonam as multidões. outros. Afonso de Taunay publicou. mas dois casos curiosos conheço fora dos revolucionários. não é preciso ser muito . Um é o do ditador do Paraguai. para inaugurar um teatro feito por ele e construído por um literato espanhol. impresso na conhecida tipografia . etc. Eu não aconselharia a Orris Soares a leitura das Origines de Taine nem o recentíssimo Les Dieux ont soif. mas o motivo é porque os julgamos fora do seu tempo ou longe dele. no tempo. Calvinistas. se apresentou na sala de espetáculo. disforme de gordura. sob esse título. porém. e vai para a tua casa. Carlos Antônio Lopez. mamútico. com quase um metro de alto. mesmo aquecidas artificialmente. A leitura do poema do Sr. os de certos magnatas sul-americanos vaidosos que se fazem escoltar por navios de guerra quando dão passeios pelos lagos azuis e plácidos do país.Revista dos Tribunais . Sou de todo incompetente em matéria de versificação. Versifica com muita facilidade e abundância. na Revista do Brasil. que lembra todo o poder divino de Jesus e a suave e ingênua poesia dos Evangelhos. Quem conta isto é um escritor argentino. eles nos aparecem medíocres. A. Mateus. Cobria-a colossal chapéu de palha.. deixando perpetrar pequenos desleixos. disse ele então ao paralítico: Levanta. Heitor Varela. que. deixa o teu leito. no dia da inauguração. Quanto ao cerimonial e ao protocolo de que se fazem cercar os recém-chegados ao poder. Há. mas com os de sempre. verdadeiramente carnavalesco na sua feição de quiosque.Não é só com os de hoje que tal se dá. São talvez plantas de estufa.hoje uma das mais procuradas pelos nossos intelectuais de todos os matizes. para sentir como me julgo com razão e para encontrar o motivo por que.

a verdadeira mola (A sua essência enfim. alegre. à moda de Castro Alves.lhes disciplina. ele aconselha como agir. é o pensamento que. Para que o milagre se opere. demonstra estudo e uma visão particular do autor. que o Sr. cujos alexandrinos tem uma grande ressonância e maravilhosa amplitude sonora. Deixando a porta da alma inteiramente aberta! Devemos despertar depressa esses soldados. É que a fonte da vida. mostra os outros da nossa elevação. sem ação. desalogadamente Florir. como todas do livro. e se aniquila.los de valor. Passo para aqui esta que é típica: Vi Lamarck nesse pego Da camada subterrânea. Sem nunca precisar das bênçãos de uma igreja! Percebe-se bem. logo na segunda poesia . por aí e por outras partes do seu poema. há décimas de fino gosto do grande poeta baiano. numa formosa poesia. Rebenta. Ei-lo: Deve ser como a planta o pensamento humano: Livre deve nascer. essência que se asila Na própria Natureza) arrefece e se estiola."Anatomia Ideal" . O autor.forte nela. e muito lentamente Perdendo a vida vai. que. Não posso deixar de ceder à tentação de transcrever o final desse trecho do poema. enchê. Pospontar. à Junqueiro. Souto Maior a luz e a sombra de seu talento poético. Souto Maior está familiarizado com a técnica do verso. para sentir no Sr. se a mesma planta ou tronco. se a planta enxertam. se a mesma hera. que vão passando a vida adormecidas. e morre.lhes na farda alguns galões dourados. nem um ano Conserva o seu vigor. Porém. talvez a mais bela parte do seu poema. O tema do poema é todo espiritual. farão que se realize esse milagre a célebre ordem de Jesus a um paralítico: "surge et ambula". diz muito bem o autor: Trazemos dentro de nós sentinelas perdidas Que devem gritar sempre e muito forte: alerta! Porém. E dar. e o heptassílabo. Debelar num sorriso os golpes de agonias Que trazem sempre o luto ao nosso coração! Uma dessas sentinelas perdidas que é preciso despertar. vencendo aqueles. depois de mostrar os fatores de nossa queda moral. levanta-te e caminha. e vai saudando a primavera. Apenas puro sol aquece onde ela esteja.que. porque. Procurando como um cego . Na primeira parte. mas ama sobretudo o alexandrino. Fazendo-os da razão ouvir sempre o tambor! Precisamos trazer de pé as energias Que vivem dentro da alma inertes.

Quando estudei corografia do Brasil. crivada de canais e lagoas. não só um bom poeta. Não pode maldizer o frio que o regela. embora a mais singela. É uma curiosidade corográfica que só pode ser bem conhecida por especialistas ou pelos naturais da região. O trabalho do Sr. como Laplace. Se quis mesmo andar nu! Pelo pouco que citei.0 9-10. e nunca te exasperes Contra a dor que te oprime. por assim dizer. Querendo falar ao Sol. e isto deve ter acontecido a muitos outros. . n. O objeto do livro. de uma curiosa região de Alagoas. primeiro volume de urna série de três. para tanto não me sobra tempo. me surpreendeu encontrar. cuja visão do mundo e da vida. apesar de conhecer eu homem há tantos anos.o sábio . etc. Walfrido Souto Maior. poderão avaliar os leitores do raro valor do livro do Sr. Argos. Linneu. é o estudo. Contudo.A Geração espontânea! Estava lá Goethe . aí pelos meus doze ou treze anos. Otávio Brandão.. Vi. extremo. por um espiritualismo fluídico que perpassa por toda a obra. baseada sobre fortes leituras que se tocam aqui e ali. Vejamo-la: Não te maldigas nunca. se não temesse parecer que queria assinar trabalho alheio. outubro e novembro de 1919. acaba de ser editado um curioso volume da autoria do Sr. como também mostra todas as feições íntimas do seu estro e do seu temperamento literário. geológico. é transfigurada de um materialismo genuíno. Era meu desejo alongar-me mais na análise do poema: mas. Com muitos sábios de escol! Isto não diminui em nada o valor da obra. segundo o prefaciador. assoberbado como ando com pequenos trabalhos que me forneçam o necessário para as despesas imediatas da vida. que os leitores ficarão admirados de não ter eu tido ânimo de pôr também nesta notícia as outras. pois esse aspecto. vai aqui o preito da minha admiração por tão raro poeta. vai da lagoa Manguaba até a do Norte. não só dá a capacidade de pensador. encobre uma originalidade sempre latente do autor.! Herschel sustinha o astrolábio. mineralógico. pela Livraria Jacinto Ribeiro dos Santos. Daria toda ela aqui. que. sob o aspecto orográfico. mas também um singular poeta. potamográfico. mas não posso deixar de citar esta estrofe. o espinho em que te feres Criaste-o mesmo tu: Quem a túnica rasga. é uma poesia lírica de raro valor e apreço. Discutindo o valor teu. no qual. que parece ter sido a primeira crença do autor. ela me passou completamente desapercebida. "Coração-Alma" com que abre a segunda parte do poema. CANAIS E LAGOAS Com este título. tão sentida e tão profunda. Souto Maior.

perdendo a diretriz científica que sempre devia obedecer. O autor que percorreu esse pedaço de terra brasileira. e eu não queria ver a alta capacidade do observador. porque tem entre ele mesmo e suas nascentes. e o próprio Oiticica. da corografia. quando vem a força das águas dos lagos.O Sr. são compelidas. tantas qualidades de escritor apresenta neste livro. por assim dizer. por parte dos estranhos à região que fossem ler a sua original obra. A Natureza apresenta frescos aspectos semelhantes e muitos menos iguais. não se encontra em nenhum rio da terra. os termos geológicos. mas as linhas gerais da potamografia. Com o avanço da idade o Sr. enfim. inundando e adubando o velho país dos Faraós. É ideante e diversa. na África do Sul. mundos. aqui e ali. cidades. de outra. O seu estudo. . vilas. irá. O Sr. as quais. uma planície de imersão. para uma mais perfeita compreensão de seu trabalho. por parte do Governo de Alagoas. o Bahr-el-Gagol. denuncia um etnógrafo de valor. então? Concebida com uma largueza de vistas muito notável na sua idade. com os seus canais. com a balança de Jolly. que é de uma minúcia extraordinária e feito com uma exaltação místico-lírica. um "croquis" topográfico. no prefácio. um analista de usanças. como o Egito e o Nilo. sem lamentar e lavrar o meu protesto pelos tormentos e perseguições que sofreu. donde ele se origina. diz mesmo que muito lhe custou compreender tanta complicação de lagoas e canais. que ao menos marcasse. uma planta. Não me quero despedir do Sr. de húmus que se reserva anualmente. transforma-a no papel. em instantes. a execução do seu trabalho ressente-se. Otávio Brandão. e também a situação dos povoados. no capítulo que intitula . ressente-se da falta de um mapa. irá. pesquisar rochas com o microscópio próprio e fazer. singularidades e possibilidades daquela parte do seu Estado natal. O Nilo é ele e só ele. de mineralogia. etc. ao que me consta. aqui e ali. a força de estudioso do Sr. nenhum deles tem um reservatório de adubo. não direi todos os acidentes topográficos. que tão entusiasmado se mostra pelas belezas. aldeias. que tantas qualidades de observador demonstra. costumes e folclore devia abandonar a visão literária de altas regiões clímicas. que uma rara capacidade de estudo revela. e o Sr. até agora somente sulcada por canoas. como diz o autor estudado. Ele os compara. e as enchentes arrastam em certas épocas do ano. se mostrou capaz de profundos estudos de geologia. tal qual são. num dos primeiros pontos do mundo! Há evidentemente exagero de bairrista nessa hidráulica papeleira e rápida. os seus leitores. de climatologia e. Que diremos nós. Brandão diz uma parecida no seu livro. 19. No Brasil se encontra o diamante de uma forma. Otávio Brandão. o que aconselha aos letrados. entretanto. dragando. no art. aprofundando canais e construindo muros protetores. para unicamente ver o seu Cadiz e o seu humilíssimo Paraíba. de certas efusões pessoais inoportunas e de uma exagerada avaliação do merecimento e valor dos lugares. com tão poucos recursos. devia fazê-lo acompanhar da carta respectiva. publicando o seu interessante livro. onde durante meses apodrecem ao sol inclemente toda a sorte de matérias orgânicas. Otávio Brandão perturbada por tão infantil sentimento de um patriotismo. comarquense ou distrital. à Caldéia. Brandão que. numa obscura lagoa. Uma tal disposição geográfica. Otávio Brandão que. para examinar a terra diretamente com o maçarico e o bico de Bunsen. em forma de lodo em suspensão nas águas para o verdadeiro Nilo. à Holanda. há de abandonar os processos de um otimismo livresco sobre a nossa Natureza que lhe inoculou Euclides da Cunha.."Uma síntese". irá à Amazônia.

posso fazê-lo. com "plaquettes" de versos. felizmente. à boa crítica do estudo profundo. eles ressuscitaram o crime de lesa-majestade e a razão de Estado.. arrastarem para enxovias nauseabundas. não me considerando de todo velho. os seus cartões de visita. Machado de Assis. Gonçalves Dias. nas quais.É incrível o que ele narra. tanto mais que a Constituição dá a cada um a mais ampla liberdade de pensar e exprimir as suas idéias. os posso tratar assim familiarmente. encontram na mais leve crítica às teorias governamentais vigentes manifestações de doutrinas perversas. de meninos. Na sua imbecilidade nativa e na sua ignorância total de doutores que fizeram os seus estudos em cadernos. como se costuma dizer. Motivos de toda ordem me têm impedido. em que se acham. entre os quais avultam o de Alcides Maia e o do Sr.América Latina . uma biografia do Sr. n. Um tal estado de coisas não pode continuar. simpático. quedas irremediáveis. mas hoje. como toda a gente. José de Alencar. Muito moços. por todos os meios adequados. tanto assim que eu. se não havia remígios. pontos. DOIS MENINOS De há muito queria eu dizer publicamente todo o bem que me merecem o esforço e o ardor intelectual desses dois meninos que se assinam Tasso da Silveira e Andrade Murici. Eram. dezembro de 1919. sem instrução nenhuma e muito menos cultura. paternalmente. mas de todos. qualidades de penetração e discernimento artístico. apresentando-os ao complicado mundo das letras. fundaram uma excelente revista . não denunciavam. Não contentes com isso. cedendo a uma incoercível vocação íntima. Poucos deles têm merecido esse estudo. Daí vem que bacharéis ou não. estrearam. se não completa. Mendes Leal. já têm. não se trata desse ou daquele. até que ponto não pode pensar. por ser assim como herói anônimo da Academia. Alfredo Pujol. produção suficiente para exigir o estudo isolado. mas não tenho dúvida nenhuma em aceitar como verdade. violar e estuprar. monografias dos seus melhores representantes. contudo. apostilas. roubar. de quando em quando. resvalam pelo caminho perigoso da coação ao pensamento alheio. Nossas letras. Daí por diante. investidos de funções policiais. e não há lei que permita essa indigna opressão ao pensamento nacional. mas que parece fecundo. Argos. etc. que nem ao menos tem um vício. publicam. como este bom Otávio Brandão. Mostraram essa aptidão aqui e ali. ensaios sobre autores notáveis. apesar de não serem ricas em amadores de qualquer ordem. de autores e de obras. Xavier Marques e Afrânio Peixoto. ao menos com a máxima boa vontade. lançaram-se à crítica literária. ensaios dos Srs. a par de pequenos defeitos próprios à pouca idade dos signatários. Com a violência dos antigos processos do governo dos reis absolutos. para o despotismo espiritual. . mereceu diversos. difíceis de encontrar em inteligências tão moças. Ninguém sabe até que ponto pode pensar desta ou daquela maneira. doces sonhadores. este. Castro Alves. poema de Araripe Júnior.que vai prosperando com o vagar com que prosperam essas nobres tentativas entre nos. sereno. e esses estudos devem tentar as jovens inteligências operosas. tendentes a matar.0 11. entretanto. pois é campo pouco explorado. O governante do Brasil.

O de Tasso é um ensaio sobre Romain Rolland. de Jackson de Figueiredo. de onde em onde. histórica. é preciso também participar dela. confesso. a atividade da nossa critica literária parece ter compreendido isto. feito de uma junção de nadinhas. atmosfera que cerca o autor estranho no seu meio natural. sua correspondência. isto se me afigura de uma indeclinável necessidade. não vem isso ao caso. O que me interessa. quanto a mim. a sua obra. por mais esforços que façamos. Tasso da Silveira e Andrade Murici. porquanto a nós. enfim. Farias Brito tem merecido diversas. suas amizades. Emiliano Perneta. Não se dá isso com o trabalho de Murici. não era bem esse. e. mas. que versa sobre o Sr. porém. aparecem esses dois meninos. em face da cegueira delirante do patriotismo francês. Creio também que Nestor Vítor escreveu uma sobre Cruz e Sousa . e excelentes.autor que está exigindo justiça dos seus envergonhados admiradores e imitadores. Pesquisas sobre as suas vidas. mas. de focar um autor e estudá-lo em todas as suas faces. julgo eu que nenhuma história da nossa literatura poderá se aproximar da perfeição enquanto não houver de sobra esses estudos parciais dos seus autores. sente-se bem. não se concebe possa ser feito por um só autor. Desautorizadamente. Entretanto. "sentir" o imponderável da ambiência nacional. Ainda não tive a ventura de ler nenhum dos volumes.Assim. lacunas. um pouco. penso que isto já foi dito não sei por quem. nesse seu estudo de autor francês. por força. Se não estou de todo esquecido. monografias especiais sobre autores de monta e sobre outros assuntos relativos às letras nacionais. apesar disso. com os elementos que lhe são fornecidos pela obra do mesmo. completamente. em dois desenvolvidos estudos literários. é ver que há nesses dois meninos. adivinha as obscuridades e justifica as contradições do seu pensamento. um longo romance que ele vinha compondo e publicando os volumes lentamente. há de por força falhar e ser incompleto. os desgostos. Agora. ao escrever estas linhas. ilumina-lhe as sombras. evanescentes . o Jean Christophe. um único erudito. de Veiga Lima e outros. era já estimada discretamente no seu país e. Tasso da Silveira e Andrade . para bem se aquilatar afinal do valor e do alcance do nosso pensamento total. penetra por ele todo e perpassa na sua obra. Essa ambiência sutil nos faz falta. devido à atitude de desassombro e independência que tomou. Esse atroz acontecimento pô-lo em foco. de pronto. não me recordo de outros autores nacionais que tenham sido tomados como objeto de trabalhos especiais sobre as suas vidas e suas obras. em toda a parte onde se lê francês. seus amores. porque acho abolutamente ilógica uma crítica segunda. se não tiver à mão esses estudos e outras achegas. pois surgem. externa Tasso da Silveira. a fim de julgá-lo perfeitamente. senão impossível. sob todos os aspectos valiosos e dignos de nota. Não me deterei na análise das duas obras. O que me alvoroça. estrangeiros. fez-me julgar de outra forma o poeta da terra dos pinheirais. por mais ativo e diligente que seja. quando. Era este autor pouco conhecido entre nós antes da guerra de 1914. O seu estudo sobre o autor da Ilusão. pode-se dizer que é definitivo e completo. tradicional. seus começos. como já disse. não é o meu intuito fazer crítica da crítica. será muito difícil. desde há anos. tudo isso que pode esclarecer o pensamento e a tenção de suas obras. e. sobre o Jean Christophe. Além de ser conterrâneo desse notável poeta paranaense. de Nestor Vítor. o impulso que me fez escrever estas ligeiras e despretensiosas linhas. tendo de julgá-los numa única obra geral. seus estudos. de Almeida Magalhães. por isso nada posso dizer da justeza dos conceitos que. compreende-o inteiramente. porque.ambiência. é verificar a capacidade que tem Tasso. para nos apurarmos com o autor. além do que. Ultimamente. entretanto. Há de haver. Murici foi seu discípulo.

provocando um mútuo entendimento entre elas. O Sr. de algum modo originais. sem um pensamento superior. que não interpretam mais sagazmente um personagem histórico. mas há outros em que diz muito. em junção da época em que floresciam. não podem ser resumidos e o resumo nada diz deles. para não falar em alguns outros mais. estofo para realizar os sérios estudos que os nossos autores notáveis estão exigindo sejam feitos.O Reposteiro Verde. mas que não aventam uma idéia.obra que não é senão um superficial "lever de rideau". cheio de assassinatos e outros matadores da velha escola. por serem valiosos pelo fulgor do seu desenvolvimento. entretanto. como Arnaldo Gama. Júlio Dantas. sem concepção própria da vida. do mundo e da história do seu país. As suas peças históricas não têm um julgamento original de acordo com qualquer . Júlio Dantas . "verroterie" poética que fascinou toda a gente aqui e. No nosso tempo de literatura militante. Há dias li o "compte-rendu" de uma peça do Sr.Murici. sabendo-se-lhes unicamente os nomes e os títulos dos seus livros. Pinheiro Chagas. Encontram-se trabalhos literários que. não vêm fazendo mais do que repetir o que já foi dito com tanta força de beleza pelos velhos mestres em glosar episódios de alcova da história anedótica portuguêsa. que não põem em comunicação as várias partes da sociedade. pela percuciente análise dos personagens. mas a regra não é tão absoluta como querem por aí certos doutores artísticos cujas asserções trazem o vício de origem do interesse próprio ou dos seus chegados. não passa de um dramalhão de capa e espada. mas. o Sr. VOLTO AO CAMÕES Raramente vou ao teatro. também em Portugal. todos esses dizia são criadores. ativa. pelos resumos por mim lidos nos jornais. muitos deles concorreram para reformar a música do período português. mais plasticidade. pelo rigor das cenas. por uma lamentável incompreensão do pensamento deles. de Alexandre Herculano. inventaram muitas formas de dizer. pela largueza de vistas do autor. 1-6-1920. esses dois senhores a que aludi mais acima. sem uma emoção mais distinta. para gáudio das professoras públicas aliteratadas. Todos estes. de quando em quando. A Folha. mas. Portugal manda para aqui. de Eça de Queirós e mesmo de Camilo Castelo Branco. deram-lhe mais números. gosto de ler as notícias que os jornais dão das "premières". dois inócuos fazedores de frases bimbalhantes. um barulho de frase. admite-se. em que o palco e o livro são tribunas para as discussões mais amplas de tudo o que interessa o destino da humanidade. a fim de que não fiquemos nós outros. que não revelam uma alma. Júlio Dantas e o Sr. creio. de Oliveira Martins. Que nós tivéssemos sofrido a ascendência e a influência de Garrett. às vezes passe noites inteiras em claro a perambular pelas ruas e botequins. Júlio Dantas não passa de um Rostanzinho de Lisboa que fez A Ceia dos Cardeais . É curioso observar o "engouement" que o nosso público vai tendo por esses autores portugueses de uma mediocridade evidente que a disfarçam com um palavreado luxuriante. Antero de Figueiredo. com grande sucesso. Ramalho Ortigão. Sei bem que é de bom alvitre não julgarmos uma obra literária pelo seu resumo. Antônio Nobre. mantém-se ainda no cartaz. sobretudo em se tratando de peças portuguesas. Esse drama do Sr. Antero de Quental. embora.

a hora de reformarmos a sociedade. ou que outro nome tenha. Temos que rever os fundamentos da pátria. O nome que no peito escrito tinhas. de lá extraisse um tronco. igual a Shakespeare. em que pese ao Sr.ideal estético ou filosófico. e leio: Estavas. ainda poderia falar em outros de outras nacionalidades como Ibsen. linda Inês. dos Tolstois. Se digo isto do Sr. de rigor psicológico nada têm os seus personagens. não politicamente que nada adianta. São glosas dialogadas de tradições e crônicas suspeitas. por suas condições naturais. onde vai retirar os episódios mais perfeitos e belos que as oitavas do poema esculpiram para fazer romances edulçorados que a transcendência estética do Sr. da Mouraria. edição pobre. George Eliot. De teus olhos o pranto nunca enxuto. médico do Regimento de Cavalaria 7. a humanidade. concebe-se. mesmo. o Rostanzinho de Lisboa. Antero de Figueiredo? Este senhor me parece um marmorista canhestro que fizesse uma "fouille" na Grécia. nós nos estamos deixando arrastar por esses maçantes carpidores do passado que bem me parecem ser da raça desses velhos decrépitos que levam por aí a choramingar a toda a hora e a todo o tempo: "Isto está perdido! No meu tempo as coisas eram muito outras. E citam uma porção de patifarias e baixezas de toda a ordem. pois a peça do autor francês que fascina o autor português é o Cyrano de Bergerac. ágil do passado. temos que rever os fundamentos da arte e da ciência. uma perna. políticas. sem uma vista original do autor. Jehan Bojer e quantos mais! O caminho que devemos seguir. ainda assim mesmo. discreteia pelos palcos com o chamariz da sua elegância e das suas lindas feições tratadas cuidadosamente. Carlos Dias eu volto ao Camões. É chegada. mas socialmente que é tudo. num país como o Brasil. e às ervinhas. lêdo e cego. tal e qual nos deu a Rússia. Nos saudosos campos do Mondego. como se não tivessem batina. Dos teus anos colhendo o doce fruito. Malheiro Dias talvez ache superiores aos decassílabos de Camões e um assombro literário. que direi então desse Sr. abro o meu "Lusíadas". Naquele engano da alma. mas que o Brasil o siga em semelhante choradeira não vejo por que. e sempre que quero ter a emoção poética dos amores de Dona Inês de Castro e D. não é um simples bródio de prelados cínicos que comem glutonicamente a fartar e falam de amor. pois nada temos com essas alcouvitices históricas que o Sr. um braço de um mármore antigo e dele fizesse um "bibelot". e. do gigantesco Dostoiewsky. a imortal literatura dos Tourgueneffs. Entretanto. da propriedade. Aos montes ensinando. se devem debater tantas questões interessantes e profundas. o Cruel. Pedro. e que campo vasto está aí para uma grande literatura. vá! Que lá ele se console em rever a grandeza passada dos Lusíadas em um marquês que tem por amante uma fadista. no mundo. sem um comentário que denuncie o pensador. Júlio Dantas. Que Portugal faça isto. muito melhores". da família. sociais e econômicas. O campo de suas escavações é o grande Camões. Compará-lo a Rostand é uma grande injustiça. Que a fortuna não deixa durar muito. . uma bela e forte peça no fundo e idéia. além do anúncio das suas imagens sonoras de carrilhão com que atrai as devotas. Mas. não traem um avaliador sagaz. Júlio Dantas. do Gorki! E só falo nestes. mas esta obra é. do Estado. em que. posta em sossêgo.

determinada pela estranheza de certos hábitos. crônicas que tratam de costumes dos nossos sertões. novelas. TABARÉUS E TAIBAROAS Pouco viajado pelo interior do Brasil. crenças. sentindo bem que li grande poeta e ninguém. como diz a canção. Em boa ocasião. o Sr. 27-4-1918. A. a nossa produção literária tem se comprazido em cultivar tal gênero de literatura. se não o seu principal destino. deveria tocar no assunto. tenho grande prazer em ler romances. tratando os conhecedores de costumes. O autor dos Tabaréus e Tabaroas conseguiu isto e realizou com rara felicidade uma obra honesta. Aspectos desses de tão chocante contraste só podem ser colhidos por um artista de raça em que preocupações gramaticais e estilísticas não deturpem a naturalidade da linguagem dos personagens nem transformem a paisagem rala daquelas paragens em florestas da Índia. Qualquer dos contos do Sr.Lido todo o episódio. nos entendamos melhor e melhor nos compreendamos. não esquecendo de que ele bem pode servir para estudos de mais vulto. preconceitos das gentes das regiões que. Há quem veja nisto um mal. depois dele. contos. carioca da gema. Sempre os li com agrado e surpresa. mas faço uma observação simples. pelo nascimento ou por outra circunstância qualquer. A literatura é de alguma forma um meio de nos revelar uns aos outros. a paisagem. é uma das suas funções normais. A língua. Ultimamente. Mário Hora é um epítome da vida curiosa daquelas regiões. às vezes. Mário Hora compreendeu isto e acaba de enfeixar. Careta. eles fazem com que nós brasileiros que vivemos tão afastados. em que a vida ameiga o clima ingrato e a faca está sempre a sair da bainha para ensangüentar as caatingas..B. Admitido isto. sem profanar. tal foi a força de beleza com que seu gênio animou a história e a lenda de tão desgraçado amor.alguns contos em que cenas do nordeste brasileiro são apanhados num flagrante feliz. sem esquecer a própria indumentária são de uma propriedade. habitaram. opiniões e crendices das gentes do nosso interior. Não tenho nenhuma autoridade para contestar tal opinião. de uma cor local que atrai e encanta. . 24-6-1922.C. tudo enfim. fecho o livro. É de esperar que ele não fique nisso e continue o trabalho a que se dedicou. simples e sincera. onde a crueldade se mistura com o cavalheirismo e o banditismo com a mais feroz honestidade. As almas também são aquelas rudes e agrestes daquelas regiões adustas e calcinadas. sob o título de Tabaréus e Tabaroas . neste "vasto pais".

de quem falo. Grieco. O Sr. A primeira. porém. Nunca me despedi dessa lição do mestre das "Causeries du Lundi". protetor dos escritores desprezíveis ou desprezados a quem me refiro e de quem só tenho recebido homenagens. senador e redator-chefe do Jornal do Comércio. Agripino tivesse meditado mais. A publicação de Araújo Jorge é ela mesma. uma larga visão da Arte e da Vida. entretanto. muitos outros da minha têmpera. falta-lhe. mesmo quando publica as proezas do almirante Caperton. Muitas outras há dignas de nota. que um grupo de moços de iniciativa e talento vem aqui mantendo. feita pelo autor do Fetiches e Fantoches. as suas injustiças nos seus julgamentos. é hoje sem dúvida nenhuma publicação verdadeiramente revista. mas há nele uma desenvoltura de dizer e um poder de expressão que bem denunciam as origens do autor. é péssimo. corno a América Latina. acaba de publicar a Livraria Schettino. muito original pelo seu programa. de São Paulo. como eu. é algo distante. Ele vê longe e largo. O PROFESSOR JEREMIAS A Revista do Brasil. É do Félix. Agripino. quando é mau. quando faz o exame e crítica de certos vultos da nossa atividade intelectual. quando examinava um autor. me aborrece. que aqui esteve a exercer atos de soberania na nossa baía . tanto mais que já tive a honra de ocupar suas páginas com coisa minha. entretanto. e. Careta. e os senões que se lhe podém notar. Sainte-Beuve. com o título acima. é a mais equilibrada e pode e deve ser a mais popular. Não é que nessa obra haja grandes pontos de vista. como também porque tudo o que cheira a cópia. advêm disso e de mais nada. Um exemplo que cito com amargor é a análise do Sr. procurando os seus editores reproduzir pela gravura quadros nacionais notáveis ou desenhos de antigas usanças e costumes do nosso país. Se o Sr. Félix Pacheco. de Tasso da Silveira e Andrade Murici. Isto é indispensável para aquilatar um autor. conforme meu fraco juízo. conquanto seja um homem culto. Pode-se dizer dele o que alguém disse de Rabelais: quando ele é bom. Félix Pacheco. Como muitas de suas congêneres estrangeiras. quase meninos. . Daí. vontades e energias que merecem todo o nosso aplauso. 2-9-1922. procurava saber qual tinha sido a sua educação primeira. grandes qualidades e grandes defeitos. Não vai nisso nenhuma censura da minha parte. No meu amigo Grieco se manifesta esse pequeno defeito. representa um esforço de moços. Tem os seus números. havia de ver que um homem como o Félix é uma necessidade na nossa literatura. assuntos para os paladares de todos os leitores. é ótimo. A Revista do Brasil.coisa a que se habituara em São Domingos e a Americana nos informou. afirmando porém. que existe no Brasil. Não é do Sr. para o paladar comum. Há no volume do Sr. A América Latina. certa idéia geral do Mundo e do Homem. tem certas reservas diplomáticas e discertas atitudes que não de gosto do leitor comum.FETICHES E FANTOCHES O Sr. Agripino Grieco é merecedor de toda a atenção pelo livro que. é fartamente ilustrada.

interpretações.. Chama-se O Professor Jeremias. ranzinza e mais birrenta ficou quando a irmã veio a casar rica e fixar-se em Petrópolis com a sua sogra. Restringe-se o círculo dos meus movimentos. É uma obra toda ela escrita com uma candura aparente.. é um passo fora do círculo: é a lata a chiar atrás de mim. mas a massa nem do nome deste terá notícia. a aconselhar o professor. o Joãozinho. monótona. é como se não tivesse: não me vexa. por consentimento mútuo. calos. Nela são tratados assuntos que interessam a todo este vasto país. a quem fizeram sonhar ou sonhou grandes posições. interpretando os fatos . entre nós é uma publicação sui-generis e digna de todo o apreço. depois de muita observação e transtornos de vida. mas fico livre. Não tenha opiniões. embora seu livro tenha tido excepcional tiragem. Antoninha.Olha: começa pelas opiniões. inclusive o seu casamento. a sua meia mulher. Não me cabe dizer mais a respeito dela.Publicada em São Paulo. não me era possível tratar de uma bela obra. como diz a canção patriótica. Rui Barbosa. como o faz. no seu magnífico livro Urupês. quem lançou à popularidade a inimitável criação de Monteiro Lobato. Rixas. por ela editada. pois?. Muitos dos meus leitores.. o Rio de Janeiro mal a conhece . Leo Vaz que sinceramente me deslumbrou. filosofia. e é fácil de verificar. Jeremias escreve o livro para seu filho. impôs fosse com ela. Não há vida mais doce do que a de quem não tem opiniões. A esse quietismo singular chegou o novo Lao-Tsé do professorado paulista. . implicâncias. de tudo o que acontecia. porquanto. mas que o desenvolvimento ulterior de sua vida foi. era o contrário do marido. pois todos nós somos como aquele cão que aparece no fim do livro com uma lata no rabo atada. levando o seu espírito para a resignação e para a indiferença por tudo o que lhe acontece e arrasta os outros. Ao passo que a primeira opinião adotada. Os mais conscientes hão de se lembrar que foi o Sr. O professor não sabe onde ela anda. mas da qual se extrai uma filosofia amarga da vida e da sociedade. impostos. Um modesto mestre-escola. sistemas. talvez mais. em sucessivas edições de 10.. que a mulher por ocasião da separação.Aconselha-me. pelo que acabo de dizer. caixeiros-viajantes. nem seu filho. certamente por uma criança traquinas. Embora possa parecer parcialidade de minha parte. animada de um meio sorriso. não se conformava com o seu destino de professora pública. com ou sem propósito. assim como nos seus sumários se encontram nomes de autores que nasceram ou residem nos quatro cantos dessa terra brasileira. no Lírico. levaram os dois esposos a pedir o desquite. Espera que o acaso ponha sob os olhos do Joãozinho as reflexões que lhe ocorreram. é certo.000 exemplares. aos poucos. ela não se inspirou pelo espírito e pela colaboração ao Estado em que surge. constante e permanente. sem me referir aos préstimos da publicação de Monteiro Lobato. . a adquirir com as mágicas avenidas frontinas. o apelido de Jeca-Tatu a este ou àquele. infelizmente. num seu discurso. chega-me às mãos uma novela de grande mérito do Sr. enervante. pois lá escrevi e ela me imprimiu um despretensioso calhamaço. pois também o era de um lugarejo de São Paulo. Livra-te das opiniões. a marquesa de Sapopemba. Com a sua atual futilidade e recente ligeireza que veio. assim se chamava a esposa de Jeremias. justamente. entretanto estou certo de que poucos saberão que se trata do personagem de um conto desse mesmo Monteiro Lobato. dizendo: ... Quando bambeio o cordel da minha lata. A mulher era birrenta. se é que os tenho. de acordo com o seu gênio birrento. têm visto aplicar.o que é uma injustiça.A bambear o cordel. Acontecimento sem-par no Brasil de que a obra é perfeitamente merecedora. a Revista do Brasil. Editada pela Revista do Brasil. dentro de um círculo menor. e ficarás imediatamente livre de uma série de coisas aborrecidas: política. D.

Vaz. cobria-lhe. mas nesse gênero há tanta coisa. tanta observação fina que é singular gozo ler a obra do Sr. 13-2-1920.. Paulo Gardênia. maravilhosamente róseos e macios. em Grécia. seu Bonifácio: como é que essa senhora é esgalga e ao mesmo tempo tem os quadris largos? Como é que essa senhora é "fausse maigre" e tem curvas opulentas e ancas calipígias? O senhor sabe o que se chama Vênus calipígia? O Sr. deparei um capítulo de um seu romance na Gazeta de Notícias. Tenho medo de ir a São Paulo. A sua visualidade é tão perfeita. voluptuoso e quente. Ontem. deixá-lo-ia falar à vontade. Bonifácio Costa. para julgar com acerto esta nossa vida tormentosa? Não sei dizer. Na corrente argentina. de coisas decentes. fui ler o Sr. neste pedacinho de estilo de calouro de academia: "E o dia louro. na alegria iluminada do sol. Não conheço absolutamente o autor. ou melhor. Li e gostei.. e que por elas o filho governe o seu futuro. as galerias de Munique. mas se o conhecesse e privasse com ele." Diga-me uma coisa. Paulo Gardênia é um moço cheio de elegâncias. nos braços torneados. o Vaticano: "O peignoir. os quadris largos. Bonifácio fala muito em Hélade. nas ancas calipígias. "fausse maigre autêntica arredondavam-se-lhe as linhas. o corpo venusino que era esgalgo. louros como mel. como pérolas. UM ROMANCISTA O Sr. de receitas de namoros. revelador de homem que conhece mármores. entrou pelo quarto.. indolentemente. O que não aprenderia eu com o risinho irônico do autor do Professor Jeremias. O Estado. certo de que havia de regalar-me com alguns conceitos melhores do que aqueles que o professor Jeremias emitiu no livro do Sr. mas nunca leu os livros da Biblioteca do Ensino de Belas-Artes. Coelho Neto gostou? . que acabou achando essa coisa magnífica.. exaltar a cultura literária e estética das meninas de Botafogo. que se vendem ali no Garnier. acompanha e respeita tanto os conselhos que Flaubert deu a Guy de Maupassant. numa surpresa de curvas opulentas. eram rematados em unhas polidas. que apareceu aí nos jornais e sucedeu a Figueiredo Pímentel no Binóculo. Niterói. Parece nada. o Louvre.. que lhe prendia os cabelos. tão nova. como gosto de romances e nunca fui dado a modernismos. luziam esmeraldas. não vivia a dizer tais barbaridades para extasiar.triviais da vida de uma vila obscura do interior de São Paulo. poderoso e fecundo. em perfeição de formas. o busto flexível. Leo Vaz. um Digesto de coisas preciosas. E os seus dedos. não conheço grandes damas e preciso conhecê-las para exprimir certas idéias nas rimas que imagino. e. Mas. fino e leve. azul. tão intensa. Gardênia ficou tanto tempo diante do "dia" que acabou vendo-o ao mesmo tempo louro e azul. Vejam só este pedacinho tão cheio de perfeição escultural. em pregas moles. Se os tivesse lido.

0 74. Como estes dois glossários de brasileirismos. neste Rio de Janeiro. O jornalzinho literário era. alguns cheios hoje de glória inesquecível. não obstante. Teixeira de Melo. publicou na revistinha literária a sua famosa memória sobre a questão das Missões. a pequena revista quinzenal. Araripe Júnior. há muitos outros. de forte cunho intelectual. tinha um aspecto muito simpático e uma leitura variada. como Capistrano de Abreu. Raul Pompéia. Esse trabalho que. o amigo e êmulo de Casimiro de Abreu.um semelhante da autoria de um sacerdote dessa religião. no dizer dos entendidos.A roda da rua do Roso deve orgulhar-se de semelhante rebento. entre os meus 16 e os 20 anos. menos gerais talvez. mas havia no cabeçalho a indicação que se assinava e se vendia na livraria de Faro & Lino. ao que parece. que eu conheci velho e diretor da Biblioteca Nacional. 1-3-1915. Correio da Noite. foi publicado em volume. mas que constituem um bom manancial para o famoso Dicionário . Colaboravam nele nomes conhecidos. tanto dos derivados de línguas conhecidas como daqueles cuja origem é ignorada. tem sido seguido de outros semelhantes e. vi em uma revista católica . e outros que. muito cuidado na revisão. publicou-se aqui. ainda são. me pareceu ser de alemão. entretanto. Urbano Duarte. quando a freqüentei ali. João Ribeiro. De nós que andamos hoje nessas coisas de jornais e revistas.. embora pouco conhecidos do grande público. na Lapa. e Beaurepaire Rohan dava nas suas colunas as primeiras páginas do seu Glossário de vocábulos brasileiros. embora não saiba agora escrevê-lo (o que lastimo). MÁGOAS E SONHOS DO POVO I RECORDAÇÕES DA "GAZETA LITERÁRIA" Em 1884. intitulada Gazeta Literária. Os salões do século XVIII não dariam coisa melhor. Impresso em bom papel e nas oficinas Leuzinger. muito estimados pelos que se interessam com as etapas do nosso acanhado desenvolvimento intelectual. à rua do Ouvidor n.. que tanto devia ajudar o renome de Rio Branco. cujo nome. Valentim Magalhães. Não tinha o nome do diretor ou redator-chefe. poucos terão notícia dessa livraria e da Gazeta talvez nenhum.Vozes de Petrópolis . bem feito e curioso. ainda bem pouco tempo.

em modestos outros provincianos. Sei bem que há em Couto Magalhães. "cantativo". podemos dizer que. Alexandre Gasparoni Filho e Américo Guimarães .. não se poderia nunca adivinhar que. também. mas há também nos viajantes estrangeiros outras coisas mais e. porém. Uma delas foi o conhecimento das coisas do folclore nacional e esse desejo até hoje não pude cumprir honestamente. o Sr. grande poeta que ele era. em 1874. No número de 20 de maio de 1884. em francês. Múcio Teixeira. e. há. Capistrano de Abreu. o espírito que a animava. a "da Liga do Ensino". era de um grande nacionalismo. sem talvez um programa definido (não tenho o número inicial). que. Pacífico Pereira. com um artigo desse espírito inquieto e de tudo curioso que foi o Dr. Luís Conty. tantas outras que o meu precário viver não me permite consultar e estudar. com o espírito dos anos que o tempo vai-me pondo às costas. ainda há bem pouco tempo. além de outra revista. por aí assim. com sorteio ou sem ele. veio para ensinar disciplinas. A. F. ainda não havia despertado o amor pela fotogravura ultramundana. a alma das suas populações. mas que acaba na comodidade das linhas de tiro de classes e repartições e deixa para as funções árduas do verdadeiro soldado a pobre gente que sempre as exerceu. Sílvio Romero.. espingardeiro. Osvaldo Cruz fez esquecer totalmente. João Ribeiro muita coisa a ler. está se vendo que. guerreiro. que não tinha uma finalidade guerreira e pretendia tão-somente conhecer as coisas da nossa terra. em um. se nota: é que as nossas tentativas de hoje têm pouca novidade e se nós não as encadearmos com as que nos precederam. a ambos. Voltando. no outro. professor contratado de uma espécie de Missão.de Brasileirismos que a Academia Brasileira de Letras se propôs a organizar. viesse a ser o Barão Ergonte dos dias atuais. há também de uma Revista do Exército Brasileiro que já trata do que hoje parece novidade . mas anda esparsa em obras tão difíceis de encontrar que me resignei ao acaso das leituras para ganhar uma noção mais ou menos exata da poesia e outras criações da imaginação anônima da nossa terra. à Gazeta Literária. deu a tradução de um conto popular amazonense que vem no livro de viagem de . "redigida pelo Sr. há também a de uma Revista Literária. Não era o do nacionalismo dos nossos dias. Muita sugestão lhes devo e muito desejo eles me despertaram. há a notícia de uma Fôlha Literária dos Srs. Nas suas notícias sobre o "Movimento Artístico e Literário". o seu passado. Rui Barbosa". Dos viajantes estrangeiros. e um parecer do professor Rebourgeon a respeito dos trabalhos sobre a febre amarela do Dr."ex-redatares do Cometa". que o sucesso do Sr. há muita coisa curiosa e muita informação surpreendente. Tenho esses números da Gazeta Literária desde a minha meninice e desde a minha meninice que os leio. Muita coisa há sobre o assunto. com artigos do Dr. em virtude desse próprio entendimento mútuo. Domingos Freire. deixam de ter alguma força e são destinadas a morrer no esquecimento como as anteriores.o jogo de guerra . como a vida mudou! Pelos títulos de suas publicações de 1884. como os leitores estão vendo. do Sr. Múcio e Gasparoni quem os não conhece hoje? Mas. coisas velhas e notar a transformação espiritual dos homens. se tentavam publicações da mesma natureza que ainda hoje se tentam. Todo brasileiro julga-se um inovador. entre nós novas. Nas suas "Publicações recebidas" há notícia de uma União Médica. tudo e todos.num artigo do Sr. e do Dr. sem nome de diretor. em português. e transmitir tudo isto aos outros. Era um patriotismo mais espiritual. porém. de Moura. enumerar. para nos ligarmos mais fortemente no tempo e no espaço. Seria um nunca acabar. Uma coisa. através das páginas da revistinha de 1884. mas de que até hoje nada ou quase nada fez. Moncorvo. no O Imparcial. há trinta anos. João Ribeiro. O que é curioso observar na interessante publicação dos livreiros Faro & Lino é que. na Escola Politécnica do Rio de Janeiro.

etc. tirando as que Perrault registra e dando-lhes forma. tivesse retido as "histórias" que me contavam naquela idade. Embora o passarinho da canção fosse um pouco extravagante com os seus dentes. não vem cá mais.Wallace. Mas não as guardei e pouco retive de cor dessa arte oral e anônima. por exemplo. Hoje. que suponho terem sido publicados por ele. Não me fio nas . Dos olhos carta fechada. O macaco é o símbolo da malignidade. os Anais da Imprensa Nacional. que sempre ouvi e recitei em criança. em luta com a onça. anedotas. quando tu fôres Escreve-me pelo caminho. Se não tiveres papel. que é datado de 20 de março de 1884. pouco conhecido e muito menos lembrado atualmente. etc. cheia de força. é para matar saudades e lembrar os meus bons tempos de menino que leio: Menina. intitulado Algumas canções populares da Bahia. mas traiçoeira e ingrata. pela primeira vez. que os via catar pedras e ervas. com precisas informações sobre os primeiros livros nela impressos. Da língua pena aparada.. letras miúdas. aos poucos. poderia fazer um volumezito bem aproveitável. de temas. Nas asas dum passarinho. No número 11 da Gazeta Literária. só até então conhecidas pelos pacientes eruditos. Dos dentes. lendas. estas quadrinhas. quadrinhas. como as retive. etc. muito me comoveram e comovem e ainda as guardo na memória. da esperteza. Ele publicou as cartas do padre Nóbrega. anexins. senhor Pereira de Morais? Você vai. nós poderíamos encontrar nas obras desses sábios pesquisadores que. dos nossos defeitos e qualidades morais. com o mesmo método que os seus hábitos científicos lhes tinham imposto à inteligência. de teorias de química. Todas essas coisas ingênuas de contos. da pessoa "boa na língua". As mulatinhas ficam dando aism. Este Vale Cabral. Falando baixo. foram soterradas na minha memória por uma avalanche de regras de gramática. de princípios de física. há um artigo de Vale Cabral. afora essas quadrinhas e outros versos como o do famoso "chula": Onde vai. fazei tinteiro. como a "Gata Borralheira". do Mestre Simão e da Comadre Onça. sem deixarem de ser profundos nas suas especialidades de ciências naturais. e nos números da Gazeta que possuo há trechos das famosas Memórias de Drummond sobre o primeiro reinado. Nessas confusas recordações que tenho das fábulas e "histórias" populares que me contaram entram animais. me vão morrendo na lembrança. O seu artigo sobre as canções populares da Bahia muito me impressionou e há maia de vinte anos que não folheio a coleção mutilada da Gazeta que não o leia com este ou outro espírito. algo originais e denunciadoras do nosso gênio. Se. sondavam a alma e a inteligência do povo. dos meus pobres sete anos de idade. Era tão interessante que eu imaginei que messe de fábulas e narrativas. Da bôca. José Bonifácio. foi funcionário da Biblioteca Nacional e um dos mais ativos reveladores de coisas da nossa história. que. disto e daquilo. para deixar emergir nela as histórias humildes do Compadre Macaco.

todas as dores dos brasileiros. SONHEI COM ISTO: O QUE É? O sonho sempre representou na nossa atribulada vida terrena. Em todas as pequenas crenças religiosas de toda parte. está convencida de que o sonho é um aviso por parte do Mistério. em que ele aparece mais ou menos com essa feição. mas sempre me pareceu assim. tão cheios de alusões a sonhos divinatórios. Os estrangeiros. As literaturas de todos os quilates. tenham alguma razão quando nos chamam de "macaquitos" ou "little monkeys". uma grande simpatia por ele. todos os sonhos. talvez. já confessada. Sou homem da cidade. Agora de pronto lembro-me de muita poucas obras literárias que o aproveitem. que tenho dessas coisas de folclore. Pode ser que ela tenha razão. a origem. socorre-se da cumplicidade do Cágado ou Jabuti. como me ensinou esse singular "totalista" que é o meu amigo Tigre. . que infelizmente já não tenho. e Plutarco. ou. sem mesmo indagar se eles foram publicados. Quem me contou. obter narrações.Athalie -. segundo me parece. de todas as línguas. de coisas boas e más que vão acontecer. nele. cuja regra é a insegurança de tudo. sobre o sonho. aquela de que me recordo mais é a . onde se vem resumir todas as mágoas. 20-3-1919. devido à ignorância. é explicar as razões por que fui levado a procurar. em que se mostre que a nossa cidade não é só a capital política do país. e o intuito dessas linhas não é esse. portanto. mas também a espiritual. mas a manha do macaco. não narram a vida de um herói que não se refira a eles. para vencê-lo.minhas lembranças. Hoje. de origem popular. nasci. revelado tudo isso na sua arte anônima e popular. etc. vale a pena fazer um trabalho destes. Não tenho certeza. Há mesmo em todas elas. na conversa com homens e raparigas do povo. para não errar. em que se encontra gente de todo o Brasil. contos. Antônio Higino. e dar nesta revista o resultado das minhas conversações com gente de toda a parte. pessoa bastante autorizada para condenar a crença que. criei-me e eduquei-me no Rio de Janeiro. Contudo. eu não me animo a asseverar que a minha generalização possa ser de qualquer forma certa. ex-praça do Exército e natural do Rio Grande do Norte. O que elas visam. ao que me parece. a natureza e o mecanismo do sonho continuam mais ou menos inexplicados à luz dos estudos mais modernos. têm usado e abusado do sonho. Apesar das manhas. Se o nosso povo não o fez o seu "totem". Os livros antigos. ele tomou uma atitude oracular indiscutida. e. e quase todos os agrupamentos humanos organizaram e organizam uma tábua para a sua interpretação. planos e esperteza do macaco. os contos populares lhe emprestam também alguma generosidade e alguma graça e uma filosofia de matuto "tinguejador". foi um contínuo da Secretaria da Guerra. não havendo. pois. mas leituras semi-esquecidas me dizem mais ou menos isso. quase toda ela. Em uns dos meus modestos livros. mas creio não me ter enganado redondamente. eu transcrevo uma das "histórias do macaco". onde fui empregado. o povo tem. um grande papel profético. não sei de que localidade: o Sr. Não me recordo nitidamente de nenhum. e. A humanidade. Queira Deus que leve avante o meu inquérito! Amém. Os estudiosos dessas coisas que verifiquem se a minha generalização é cabível. de alguma forma o faz o seu herói epônimo. entre elas. A onça aí figura perfeitamente com o feitio moral a que aludi. Não sei se ele figura em alguns dos nossos florilégios e estudos desses assuntos de folclore.

Todos nós já sonhamos e sabemos bem que uma das regras gerais do sonho é a falta de nitidez de plano. no Brás Cubas. chegava bem perto dos olhos esse trecho da tragédia bíblica de Racine. . senão nas partes. no sonho. deste ou daquele país. Le cruel dieu des Juifs l'emporte aussi sur toi. bons e maus.Grand Dieu! . Quase todos os heróis e heroínas de romances e poemas sonham. e declamava-o com entusiasmo eclesiástico de um patético sermão de Páscoa: Je jouissois en paix du fruit de ma sagesse. fille digne de moi.o que talvez não fique muito aquém do que as garotas desta ou daquela classe. que. esse nosso professor. et trainés dans la fange Des lambeaux pleins de sang et des membres affreux Que des chiens dévorants se disputeient entre eux. para acentuar bem a fala. ele me ficou quase inteiramente de cor. com a Summa. Un songe (me devrois . muito para mim. dizem e resumi mais acima. entretanto. certamente por causa de um tal esforço. não tomou ordens definitivas de sacerdote devido à exigência canônica de um bom resultado no processo de "puritate sanguinis". o bom Dr. Santo Tomás de Aquino. que. Proféticos ou não. havia menos ênfase nela. essa sobriedade e esse vigor. é por conta própria. como as namoradas desprezadas. é a confusão de coisas disparatadas. aproximava-se mais do natural e dizia: Mais je n'ai plus trouvé qu'un horrible mélange D'os et de chair meurtris. mas nem sempre os sonhos literários têm essa grandeza. agarrava o Théâtre Classique.je inquiéter d'un songe?) Quando o Dr. É um efeito de que grandes e pequenos autores. De mes prospérités interrompre le cours. ao que parece. Por fim o seu furor dramático já era muito menor. era o prato de resistência da nossa tradução em aula. respeitados e oficializados. vivo e desenhado em breves e poucas linhas fortes. ao recitar o final dessa fala de Athalie. Frutuoso atingia à imprecação de Jezabel: Tremble. e.. Nessa passagem a sua voz era menos retumbante. o hipopótamo. que ela é uma ilusão . que prediziam os acontecimentos pelo modo de voar dos pássaros. mas ambos são sonhos muito pouco comuns. se têm socorrido. Frutuoso da Costa. Parava nesse ponto infalivelmente. seria um nunca acabar estar relembrando os sonhos registrados nas grandes obras literárias. se não digo. como dizia. A interpretação dos sonhos tem merecido desde muito tempo sacerdotes especiais. e não seria eu quem havia de censurá-los por isso. não observava a sua teologia monoteica a heresia de haver um deus especial para os judeus. certamente aborrecido com a nossa leitura arrastada e indiferente. que talvez se picasse de realista. O nosso professor. tenho. etc. e nem mesmo exclamava . descreveu um com muita coerência para o destino literário que ele tinha. se aproxima do seu leito. mas particulares quase clandestinos não eram como aqueles áugures e arúspices de Roma. antigo seminarista. tem na A Relíquia uma visão ou um sonho muito pouco verossímil. Eça de Queirós. como se depreende dela. tirava os óculos de aros de ouro. depuis quelques jours. o famoso sonho da heroína dessa tragédia. já lá vão vinte e seis anos. e Machado de Assis.frase com que Abner remata essa parte da narração do sonho profético da filha de Jezabel. punha toda força de voz que lhe restava. m'a-t-elle dit. que a vida é um sonho. O trecho é poderoso. quando não é com seus autores. Mais un trouble importun vient.Quando estudei francês. Por aí assim. mesmo porque. longo e cheio de pitoresco e pinturesco. no todo. quando ela tenta abraçar a sombra da mãe.

"Filha! Credo! Reza um Padre Nosso e uma Ave Maria para as almas". Pobre "Sinhá" Maria! Ela não tem motivos para se amaldiçoar! Todos nós vemos muitos burros nos telhados e afirmamos logo que é bicho muito inteligente. Durante o tempo em que preparava os seus quitutes. entretanto. 17-7-1919. e são mandadas rezar por cada um dos partidos em briga. apesar das dificuldades. que o nosso Panteon seja reduzido a um único Deus. Pediu cinco mil-réis adiantados à patroa e jogou-os no burro. entretanto.." Desde tal descoberta da "Sinhá" Maria ficou assentado entre os jogadores de bicho que burro. precisamos de auto-ilusões.. avestruz. um deles é ao jeito da analfabeta e simples "Sinhá" Maria. um outro é ao nosso. Ficou triste. sonhar com defunto. tenho conhecidos que me afirmam que só se ama para ter dinheiro. Seria um belo espetáculo . se este fosse Deus. o povo. os sapatos. porém.. Wilsons e Clemenceaus (não! estes últimos viriam do inferno). de lá. cobra. Só não ama quem não tem dinheiro. responde a companheira e continua: "Sonhar com dente é defunto na família".. porém. a narração.. Digo São José porque é patrono dos nossos bancos católicos. foi sonhando com o vestido. nunca burro andou em telhado. o Empírio fazer descer Fochs. . Os poetas dizem que o Amor é irmão da Morte. cheios de "manicolas". as rendas. Veio a tarde. a "Sinhá" Maria. Eram bonecos de papelão. no telhado. Quem anda em telhado. e pôs-se a analisar o seu . as missas solenes. Já folheei um e observei que a maioria das predições se encaminha para o amor e para a fortuna. é gato. Contam os cronistas que não havia general que prescindisse de tal horóscopo antes de entrar em batalha. à vista disso. mas deve haver."Inácia! Sonhei hoje que estava arrancando um dente. criou. "Sinhá" Maria sonhou um dia com um burro em cima do telhado de uma casa. impediu essa nossa pobreza de deuses que a guerra última permitisse à Discórdia levar a sua obra até ao céu e. mas já se esboça uma. acertamos.não acham? Reatando. Conto um caso. é saúde.. todos eles divinos para combater pró e contra Mercúrio ou São José. voz de Deus. Hoje. além de tal fato atrapalhá-lo com pedidos contraditórios."Burra sou eu. aquele verdadeiro. Eis aí! Há muitos modos de nos enganarmos com os nossos sonhos. Onde foi o povo descobrir essas equivalências? Não há ainda para os sonhos aplicados ao jogo do bicho uma teoria interpretativa e segura. Hidenburgos. mas.. Sonhar com excremento. é fortuna.. porque. tem uma regra muito diferente para interpretar os seus sonhos. correu a loteria e saiu o gato. aquele que não sabe ler e escrever. e assim por diante. pedindo-se que Deus favoreça com a vitória cada um dos inimigos. . É pena. ressoam. enfim com tudo aquilo com que havia de se revestir para ir à festa da Glória no Outeiro. Nunca pude atinar com a relação que há entre uma coisa e outra. coelho e qualquer outro animal. . Hoje. para isto ou para aquilo. Eu não sei. tenho a lembrar que.pela maneira com que as galinhas e outras aves sagradas comiam os grãos. livro barato e portátil. sabemos ler e. é gato. Passam-se anos e nos convencemos de que nem burros eram. chegando a esta conclusão: . porém. sonhar com carne crua. Está aí uma afirmação que o Dicionário desmente: o Amor é irmão do Dinheiro. não há mais disto. Lloyds Georges. nem por isso. essa maravilha que é o Dicionário dos Sonhos. Voz do povo. é crime. se a nossa época não possui sacerdotes destinados à interpretação de sonhos.sonho. O que quer dizer?" pergunta uma lavadeira à outra.

com as suas parecenças humanas. As crianças. o gorila. o orangotango e o gibo. começaram a troçá-lo: . que passa por ser o avô desaparecido do gênero humano. porém.Meninos. por não ter faca ou outro instrumento cortante adequado. natural de Valença.dizia o mestre Simão. D. quando não de esperteza e malandragem. Ao ver tal coisa. onde ele é fecundo em ardis e variadas manhas.. porém. Não sei qual será a impressão que se tem deles. que o povo não podia deixar de impressionar-se com ele e dar-lhe a máxima importância nas suas histórias de animais. continuou o seu caminho e veio a encontrar uma mulher que escamava peixe com as unhas. é exemplo disto que acabo de dizer e é intitulada: HISTÓRIA DO MACACO QUE ARRANJOU VIOLA Um macaco saiu à rua muito bem vestido. possuem mais fortes traços comuns a eles e ao homem. sobretudo este. mostrou-lhe que era impossível. para vencer dificuldades e evitar lutas desvantajosas. mas a que possuo. O chimpanzé. não estiveram pelos autos e. Feito o que. não o atendiam e continuavam de surriada: . O nosso macaquinho não tem esse aspecto de força estúpida. o macaco resolveu dirigir-se a um barbeiro e pedir-lhe que amputasse a sua cauda. caso não fizesse a operação que solicitava. Assim.. o povo o representa nas suas histórias. Dubois.Olha o rabo do macaco! Olha o rabo dele! . Estado do Rio. Todos esses macacões africanos.Por que você "concerta" o peixe com a mão? . O "fígaro" recalcitrou e não quis atendê-lo.Olha o macaco cotó! Olhem só como ele está rabicó! E tudo isso seguido de assovios e outras chufas! O macaco tomou o alvitre de procurar novamente o barbeiro para que lhe recolocasse a cauda. O macaco insistiu e ameaçou-o de furtar-lhe a navalha.HISTÓRIAS DE MACACO O nosso macaco. . o macaco indagou: . A assuada das crianças. mas de astúcia e malignidade curiosa. Minerva Correia da Costa. O último desses macacos antropóides é até tido como bem próximo parente do "Pitecanthropus" do Sr. da simpatia de nossa gente humilde. são fortíssimos e de uma robustez muito acima da do homem. As crianças. continuou: . às vezes. porém. apesar de vê-lo bem vestido. consentiu e Simão voltou à rua extremamente contente. O macaco furtou-lhe então a navalha. . porém. Certamente. tal e qual o vemos nas gaiolas e preso a correntes. O barbeiro. mas tem tal ar de inteligência. muito naturalmente. por mais forte que seja. O barbeiro. porém. muito instado e ameaçado. asiáticos e javaneses. é bem miúdo. é tão solerte e inquieto.deixem-me ir sossegado pelo meu caminho.Homessa! Que pergunta! Porque não tenho faca.Olha o rabo! Olha o rabo dele! Olha o rabo do macaco! Aborrecido e incomodado com a vaia da petizada. são mais simples e as narrativas populares procuram fazer ressaltar unicamente o pendor "planista" do símio. pelas gravuras dos compêndios. . é de ferocidade e bestialidade. ao natural. as suas semelhanças com o homem não são bastante flagrantes como as dos grandes macacos da África e da Ásia. Essa história que ai vai e me foi contada pela minha vizinha.

Ofereceu-lhe a farinha para fazer bolos que substituíssem os de pau. A mulher recusou. Tem você aqui uma navalha.. encontrava um obstáculo que a sua manha e a sua astúcia não podiam vencer.Não seja por isso. foi indo. deu-lho a comer com farinha. Seguiu adiante. Desesperado atirou-se nele para morrer. bem cedo.. pelo curial motivo de lhe ter dado a comer peixe e farinha. resolveu cantar as suas proezas com acompanhamento de viola. a tirar cipós. comadre onça. Um belo dia. com toda a razão. Assim cantou: .. . no romancear do povo. e. vencidas com facilidade. Agradecida. que é hoje contínuo do gabinete do Ministro da Guerra e foi praça do exército. que ele não podia atravessar. arrependido.. depois de preparar o peixe.Que fazes aí. O Sr. mas. vindo a topar com uma professora que dava bolos de pau às alunas. A professora . a onça pediu imediatamente: . com peixe. Viu bem que era impossível vadeá-lo. O rio. com farinha. arrebatou uma das crianças.perguntou a onça.não a tinha mais.o que era naturalmente ele esperar . Continuou o caminho que. A onça é sempre o seu inimigo natural e é com ela. natural do Rio Grande do Norte. o macaco não se fez de rogado e entrou também nos bolos. compadre macaco? . Propôs a troca da menina pelo instrumento.. A professora aceitou e.. Para consolar-se. era cortado por um largo rio. depois de tantas aventuras. tendo andado um pouco. porém. o felino veio a encontrar o símio trepado em um galho de pau. que tem travado um duelo de morte interminável. quando encontrou um tipo que. e a onça com o macaco. as mais espalhadas dão sempre a vitória final ao símio sobre todos os obstáculos inimigos que encontre na vida e nas florestas. em troca. com menina. narrou-me um conto passado entre os dois dos mais expressivos.Como? . arranjou viola. Com ela às costas. com a navalha. Ei-lo: "O MACACO E A ONÇA Andava o macaco. Foi-se o macaco após o almoço. caminhando. Não havia lábia ou astúcia que lhe valesse. como sempre. portanto. há anos. continuava a correr mansamente em toda a sua largura intransponível. não é das comuns. arranjou menina. arrependeu-se e voltou sobre os seus passos para reclamar a farinha. apesar da gritaria da mestra e das outras discípulas. Despediu-se logo após e. arranjou farinha. . ..Pois não tens notícias de que Nosso Senhor vai mandar um pé de vento muito forte e só se salvará quem estiver bem amarrado? Amedrontada e por não ter mão com que ela própria se atasse. o que foi aceito pelo sujeito. deu-lhe na telha de retomar a navalha. arranjou peixe. tangia uma viola. O macaco não teve dúvidas: carregou-lhe um bom bocado de farinha. prontos que eles foram. Antônio Higino. Esta história de um final pessimista para as manobras e espertezas do macaco. o que estou fazendo? Trato da minha salvação. O macaco.Macaco com seu rabo arranjou navalha. de implicância com a onça... a mulher. Pela primeira vez. não a podia restituir. então.Ah! então tu não sabes.

Disfarçado desse modo. O suposto ouriço muito calmamente abeirou-se do poço e pôs-se a beber água a fartar. logo que se pôs fora do alcance da terrível comadre. sem serem incomodados pelo felino: mas o macaco. quando os marcianos já estão de posse de quase toda Londres. À proporção que a ia amarrando.Comadre. depois. UM DOMINGO DE PÁSCOA Na Guerra dos Mundos. você pode se mexer? A onça fazia esforços para desvencilhar-se. 16-4-1919. muitas outras passagens desta curiosa luta são contadas pelas pessoas do povo e eu tenho ouvido diversas. sem que esta. Além da que aí vai. que se lhe grudaram aos pêlos. e esta jurou a seus deuses vingar-se do macaco. Apertando-lhe a sede. respondeu: .É o ará. eles topam com um estranho espetáculo que os . Tem pena de mim que não tenho mãos! Amarra-me também pelo amor de Deus! O macaco obteve todas as juras e promessas que a comadre não lhe faria nenhum mal e desceu para atá-la num tôco de pau. não foi. com o qual a onça não tem implicância alguma. besuntou todo o seu corpo com ele e. amarra-me também para eu não morrer.Admiraste-te! Pois desde que surra te meti. ideou um ardil para ir até à cacimba saciá-la. adivinhando o que o esperava. que não reproduzo agora para não me tornar fastidioso. água jamais bebi! A vingança da onça foi mais uma vez adiada.Então. limitando-se a perguntar: . entretanto.Quem vem lá? O macaco com voz simulada. Todos os animais iam até ali desalterar-se. pudesse fazer o mínimo movimento. no que se demorou muito. Comadre onça começou a desconfiar de tal bicho. mas não saiu da tocaia. que bebia tanta água. o macaco apanhou um cipó bem grosso. Hoje. Vendo-a bem amarrada. para pilhar o símio e cevar nele o seu ódio recolhido. por mais que quisesse. As outras onças conseguiram soltar a irmã. acudiu escarninho: . mas segura. pôs-se de alcatéia num único lugar em que havia água. de Wells.. e exclamou admirada: . Assim pôde conseguir amarrar a comadre... e o macaco atava mais fortemente o lugar que lhe parecia mais frouxo. encaminhou-se para o bebedouro. em uma das praças da cidade. espojou-se num monte de folhas secas. Veio uma seca muito grande e a onça. compadre macaco. possuo escritas mais algumas. a onça desconfiou daquele animal. Tendo encontrado um pote de melaço. perguntava: . muito atilado e esperto.Que sede! O macaco precavidamente afastou-se e. Ará é o que nós chamamos ouriço-caixeiro. deu na onça uma valente surra e fugiu em seguida. Como esta.

até as marquesas faziam-no. Quando andei fingindo que estudava astronomia. não é também a fórmula Rui-Epitácio que abala o povo e faz cansar os lindos lábios das mulheres. com o seu terrível raio de calor. cirandinha! Vamos todos cirandar! Vamos dar a meia-volta. as boas maneiras de um perfeito namorado não pedem tanto e as ingenuidades são mais apreciadas. quando me recolho à casa e subo a ladeira que é a rua em que ela está. paro um pouco. dizem que ela "s'élève dans les airs et le but de ses travaux est d'éclairer les hommes". faz-me sempre olhá-lo e é então que me aborreço de não saber o nome das estrelas e das constelações. porém. pelas primeiras horas de treva. as suas máquinas de guerra e o seu asfixiante fumo negro. passei eu o dia com um amigo. No século XVIII. Não é toa. De noite. tudo o que ouvi. um troço de vagabundos. portanto. a du Chatelet. segundo Fontenelle. Era poético mostrar à amada o Cão. então eu me lembro de ver o céu. as meninas e infantes emendam: O anel que tu me deste Era vidro e se quebrou.. foram graves preocupações. algumas para mim unicamente. não está em moda olhar o céu. tudo o que percebi nas fisionomias estranhas. hoje. que cantam. Lira. Se faz lua. creio que fazendo roda. não há muito amor às coisas do céu e todos estão preocupados com as terrenas. enquanto todos fogem diante dos habitantes de Marte. brincando de roda. folgam e riem. nas varandas ou sentado o casal nos bancos do jardim. entretanto. de falidos sociais de toda espécie. cuja casa fica em uma das estações dos subúrbios mais consideradas pela posição social dos seus habitantes e muito conhecida pelos namoradores. em cima de suas máquinas que a nossa mecânica não saberia nem conceber. tudo o que conversei. pondo-me a pensar na importância de tanta coisa fútil que me encheu o dia. Volta e meia vamos dar! Para ouvi-las.. Flammarion andava em moda e todo "almofadinha" daquele tempo sabia essa carta de nomes celestes. Subo a ladeira e logo dou com uma roda de crianças a cantar: Ciranda. que não terei. e. Já houve tempo.faz parar de admiração. esta sobretudo. dá fundos . para as quais devia ter o transcendente desprezo e a superior despreocupação que aquela meninada tem e manifesta com seu brinquedo pueril e inocente. Preferi sempre encarregar-me do cronômetro que repousava no chão. Durante as cinco ou seis horas que passei no centro da cidade. não é tanto o maximalismo que amedronta os pobretões. que isto fazia parte do manual do namorado elegante. se encontro crianças. porém. considero aquela dúzia de crianças de várias origens e diversa pigmentação. O amor que tu me tinhas Era pouco e se acabou! Parado ainda. É que encontram no largo. e houve uma mesmo. parece que era "chic". que uns versos postos em baixo da gravura de um seu retrato. Hoje mesmo. Não são já as de dinheiro. Meu pensamento vem pejado de questões importantes. o que raras vezes faço e fiz. Atualmente. a Vega. A residência do meu amigo fica longe da estação. nunca quis observar estrelas pela luneta do teodolito. A cantoria das crianças. continuando a voltear. Arturo. e outras para os meus descendentes. que traduziu Newton e ensinou Física e Astronomia a Voltaire. eu me lembro dessa passagem do extraordinário Wells. despreocupadamente. No último domingo de Páscoa.

dançando aos pares alguns passos da valsa chamada . porém. Eis uma delas. Cônego Dr. Sílvio Romero citou essa interpretação. Só me namore meus olhos Debaixo das sobrancelhas. deixo. que é rei. Tive curiosidade de perguntar onde o Walter a tinha aprendido a cantar.para uma montanha que cai quase abruptamente e deixa adivinhar o granito de que é formada.à americana . non tinherabos . precisamos ir ao dicionário e saber que "Ciranda" é uma peneira de junco. Acontecia isso nas antigas.um monumento da língua de priscas eras. Estive a ouvi-las.. Fernandes Pinheiro. ao lado da habitação. para poetizar o quadro. que a interpretou assim: "tinhas rabos. o Sr. há um estribilho que as crianças cantam. foi suprida pela presença de um bando de crianças. Se todas fosse eu transcrever. Era carioca. e ela toda riu-se muito à custa do sábio cônego e doutor. A famosa "relíquia" . Domingo de Páscoa. mas os seus outros irmãos e irmãs.. Não é de hoje que essas canções infantis são mais ou menos amorosas e tratam de casamentos e namorados. e podia observá-lo nas modernas que agora ouvia naquele domingo. tinham nascido em vários pontos do Brasil. nas proximidades do Paraíba. entretanto. não tinhas rabos" etc. Como toda a gente sabe é uma cidadezinha que fica a meio caminho daqui para São Paulo. talvez não chegasse um volume razoável. não houve luar. no céu. A seguir. entoavam as suas canções que devemos chamar infantis. Quando há luar e ele dá de chapa nesse costão. mas ouçam cantada e dançada por crianças. na sessão que as crianças me deram de seus brincos . que é tão comum. Não é de hoje que muitas canções populares não querem exprimir nada. que me parece chamar-se "O Marinheiro": Não me namore meus olhos Nem meus brincos das orelhas. aquela paisagem pobre de horizonte fica magnífica. com nove anos de idade. e disse-me ele. Guardei diversas cantigas e me pareceu interessante dar alguns exemplos aqui. deve sê-lo desse rio inspirador de poetas. que estavam na roda. Walter Borba Pinto.com balouço característico que o título da canção lembra: Sou marinheiro! Sou rei! Sou rei! Adorador! Adorador! Hei de amar! Amar! És meu amor! Amor! Amor! Ninguém me peça a significação disso tudo. pelas grandes massas dessa rocha que salpicam a sua vegetação escassa e rala. e todas elas me pareceram muito modernas. que. em plena sessão pública da Academia de Letras. que fora em Lorena. pela estrada de ferro. usada na Europa para joeirar cereais. de parte muitas. para conhecer-lhe o sentido e significação. que hão de ficar embevecidos e encantados como eu fiquei com essa canção. as estrelas palpitavam de amor pela terra distante. em resposta. tem desafiado a sagacidade dos eruditos para traduzi-la: e houve um. imponente e grande. acompanhadas de gestos e meneios adequados. porque nada percebo aí. pois nenhuma era dos meus tempos de menino.Tinherabos. portanto. Na própria "Ciranda". A roda era de seis ou oito crianças e o chefe era um menino. No domingo de Páscoa. por onde seu pai andara cumprindo deveres de sua profissão militar. Com toda certeza esse "marinheiro" da canção. cujo nome tupi quer dizer "rio mau". A falta de luar.

a fim de explicar-nos o seu sentido e objeto. Está com a cabeça quebrada. Quanto mais se vocês vissem O nariz de meu irmão. Pesei a minha vida passada. 21-4-1919. com sua voz fanhosa e indecisa.. E a pontinha de fora. que é acompanhado de palmas e sapateados. cujo texto é assim: Sambalelê está doente. Trata-se do "Sambalelê". Segue-se o estribilho e por fim esta última quadra: Minha mulata bonita! Como é que se namora? Bota o lencinho no bôlso. O estribilho. com outros meninos e meninas. olhei o céu que não me pareceu vazio.. e vendo aquelas crianças cantar tais coisas. É inútil lembrar que muitas outras canções de roda ouvi nesse domingo da Ressurreição. Logo mais vou-me embora... O PRÍNCIPE TATU . Onde estão eles? Onde estão elas? Não sei. E a cantoria continuava sem eco algum na "quebrada" próxima Hoje. De nariz de pimentão. ao tempo que a voz fraca de um menino entoava: Todos me chamam de feio. recordei-me que tinha cantado na minha infância canções semelhantes. Sambalelê precisava Uma dúzia de palmada. diz assim: bis / \ Pisa! Pisa! Pisa! Ó mulato! Pisa na barra da saia! Ó mulato! Depois continua a cantiga: Ô mulata bonita! Onde é que você mora? Moro na Praia Formosa.peculiares. há uma cantiga que é própria para desafiar a paciência de um sábio investigador.

O príncipe parecia teimar em escolher esposa sempre entre as filhas do conde. de sacrifício primeiro.. e que o recebia como um verdadeiro noivo da . convém notar que já dei uma redação minha a essa história do Príncipe Tatu. A moça aceitou o pedido com repugnância e impôs que o seu palácio e residência fosse decorado e guarnecido como se se tratasse de um luto e o casamento se fizesse de preto. Trata-se de D. Da mesma forma que a primeira. Aconteceu-lhe a mesma coisa que à primeira noiva. guardei uma: "História do Príncipe Tatu". até então. contos. Realizaram-se elas. que nunca vi escrita nem nunca ouvi narrada senão pela pessoa que ma pronunciara pela primeira vez.Das notas que andei tomando há anos. Apesar de ser assim. que não a verdadeira. porém. que era um tatu perfeito. demonstrou desejo de desposar a filha de um conde. À hora de recolherem-se ao quarto nupcial. Houve espanto e mesmo sua mãe quis dissuadi-lo desta sua tenção. Minerva Correia da Costa. não tivera a felicidade de dar à luz um filho. um tatu às costas. foi avisada de que devia desejar que as cerimônias do casamento fôssem as mais festivas possível. natural de Valença e residente à rua Piauí. de histórias. conforme me contavam nos azares dos passeios e dos encontros. nesta cidade. cujo nome me escapa agora. Ao fim de alguns anos o Príncipe Tatu. com muitos erros de revisão. que não deixa de ter aquele fundo de todos os contos para crianças. e por isso disse para o rei: . pois não sou nem folclorista nem educador. infelizmente.Ah! meu Deus! Vês tu!. A publicação foi feita em dois números e ambos perdi-os eu. pois vais ver! Morre já e já! Em seguida. numa revista de inferiores do Exército. Chegou. disse: . É uma história complicada e longa. que já encontrara a mulher no leito. conforme a sua hierarquia em nascimento. que parecia ter esquecido todos os propósitos matrimoniais. para afinal obter-se a felicidade completa. que tinha por madrinha uma boa fada. mostrou desejos de casar-se com a segunda filha do conde. Quem me dera ter um filho. a vez da terceira. portanto. o Príncipe Tatu. entendeu a segunda que o casamento fosse feito de luto e as salas do palácio em que ele se realizasse tivessem aspecto funéreo. Não é caso para isso. e esta.Ah! Quiseste que o nosso casamento fosse de luto. Antes de tudo. cheia de peripécias fantásticas e intervenções misteriosas. Publiquei-a. guardei as notas e agora as colijo da maneira que se segue: Estando uma vez o rei e a rainha à janela do seu palácio. e dentro de menos de um ano a rainha veio a ter um filho. portanto. ditos. estrangulou a mulher.caçador com . cuja morte foi atribuída a outra qualquer causa. a quem já aludi nestas rápidas notas e cujo nome talvez tenha demais vezes citado. com muita pompa e brilho como se fosse o enlace comum de um príncipe normal e uma princesa qualquer. em Todos os Santos. A condição foi aceita e assim os esponsais foram realizados. crendices de povo. Abstenho-me de discutir se essa generalização é segura e se é útil. Quando o Príncipe Tatu entrou nos aposentos conjugais encontrou a mulher com a fisionomia mais natural que se pode imaginar. mesmo que fosse como aquele tatu! Os seus desejos foram satisfeitos. foi ele criado com todos os cuidados de um príncipe e educado e instruído. viram passar um . mas. que tinha três. de abnegação. Tendo crescido e chegado a época própria ao casamento. A rainha. Foi ela uma senhora da minha vizinhança.. o povo parece não dar aos primeiros matéria para que os segundos organizem livros da Carochinha dignos e de acordo com os ideais da nossa atual sociedade.

sempre entraram em toda e qualquer literatura. completamente. e respondeu ternamente. que ela venha. Como nas clássicas histórias da Princesa Scheherazade. porém. 8-5-1919. se tu me quiseres ver. Tal. de grande velhice e largo olhar de bondade.Minha velha. . Sentindo o cheiro de osso queimado. não pudesse mais retomar as formas do animal que aparentava a todos ser a sua. a Lua. não pôde por mais tempo suportar a ausência do Príncipe Tatu. despertando ele e não a encontrando.Agora. junto da qual estava uma velhinha. Tal.só chorava. à beira da estrada. Desde muito cedo que os homens se associaram aos animais para fazer a sua jornada na vida. esperava que o seu marido voltasse da mesma forma misteriosa como a que envolvera o seu desaparecimento. A moça ficou exuberante de alegria. mas sem deixar de contar dentro de uma semana como se chega ao país dos Campos Verdes. Andou muito. mas que o encantamento fizera animal.onde ficam as terras dos Campos Verdes? A velhinha abandonou um instante a renda que estava fazendo sobre a almofada. quem deve saber disso é minha filha. o Príncipe Tatu sumiu-se dos seus olhos totalmente. muito e muito por esse mundo de Cristo.perguntou a princesa.Ah! ingrata! Fôste revelar o meu segredo! Faltavam-me só cinco dias para desencantar. Dito isso. e o príncipe não a recriminava. A princesa nada dizia. Passaram-se meses e anos e ela. seu marido de poucos dias.. Julgando que lhe fizessem bem e viesse ele a ter sempre a forma da nossa espécie.espécie humana. portanto. ela. e. e topou afinal com uma casinha.. Muito contente com isto. não se deu. . quer na pessoal e cultivada. cheia de saudades. sem que ela pudesse perceber como. . é ela quem percorre todos os descampados. devemos por isso interromper a narração para continuá-la na noite seguinte. sem norte e sem guia. não se deu. é ela que nos ama. com voz macia e pausada: . Seja . mas continuava a falar com muito queixume na voz: . o príncipe seu filho com a forma humana. é ela que nos beija. Espera. contou-o à mãe. leitores amigos. Hoje. que a aurora vem rompendo. porém. quer na anônima. quem o saberá. pois não tardará. domesticados e selvagens.Minha netinha. deve ser. . sempre cheia de saudades. parece. não satisfeita de saber-lhe o segredo.. partiu em procura das tais terras que ninguém sabia em que canto do mundo ficavam. Deixamos de pôr aqui o habitual "continua" dos romances-folhetins. quer na popular. E ela. minha netinha. que os jornais trazem para o gáudio dos seus leitores artísticos. o príncipe despertou e falou assim dolorosamente: . a mãe e mais a sua nora lembraram-se de queimar a casca óssea do tatu na persuasão que. Sabedora que foi do caso. a rainha. Arrumou a trouxa e. CONTOS E HISTÓRIAS DE ANIMAIS Os animais domésticos.. o Príncipe Tatu retirou o casaco e veio a ser o homem bonito que era. não pôde a mãe conter a curiosidade e veio ver. tens que ir às terras dos Campos Verdes. certa noite.

seja como atributos de sua força e do seu poder. e Buda. rei dos animais. ora com esta intenção. na espontânea atividade literária de todos os povos. os aspectos de bravura. e as conservaram para a nossa atual edificação. Pode-se dizer que. é figurado com um carneiro ao lado. a vaca. "A conferência teve lugar. das fábulas. Quixote. a quebrar o isolamento que oprime o seu companheiro da ilha deserta. dos combates singulares. os "clercs". sob pena de morte em caso de desobediência. ora com aquela moralidade ou aquela outra filosofia. traz uma narrativa de animais que me parece típica para o gênero e que me atrai entre todas. quem não se lembra do irrequieto e falador papagaio de Robinson Crusoé? Dessa ave doméstica. Van Gennep. falando. discreteando. os "preux" esforçados das batalhas. em geral maçante. Os paladinos. e ia já pelo fim. galinhas. Todos compareceram. o paladino dos paladinos. sob a presidência do elefante. Além deste animal. seja com qualquer outro sentido. Na nossa religião católica. Os troveiros. só lhes viram as aparências. tem Neillantif. Reinaud de Montauban. a águia. um dos quatro filhos d'Aymon. enfim. narrando. o "bon cheval courant" da sua imortal gesta. batizavam os seus ginetes de guerra com nomes flamejantes e significativos que ainda vivem na literatura e na memória dos homens. das justas e torneios medievais. para esclarecer o meu pensamento. É aquela em que se explica a origem de certas deformidades ou melhor singularidades morfológicas de determinados animais.a sua alma. o iluminado Çakia-Muni. e todos os outros guerreiros de antanho possuem os seus "destriers" bem crismados e extremados da turbamulta dos cavalos anônimos. de Vênus e assim por diante. seja para sacrificá -los. a fim de obter alimento. quando os animais se puseram a gritar: . de coração e inteligência . sentenciando. etc. ele é unicamente o corcel de D. a serpente.como simples companheiros. A transcendente imaterialidade do Divino Espírito Santo é representada na iconografia católica por um pombo. Comte incorporou. como toda gente sabe. que lhes contaram as façanhas nas festas.quem não se lembra dela? Podia ainda falar no "Roman de Renard". os trovadores. galos. com aquela sua generosidade de filósofo pobre. o melhor corcel da cristandade. Na greco-romana. de Júpiter. eles sempre viveram entrelaçados aos sonhos e devaneios da humanidade. que não é das mais naturalistas e zoomórficas. A mistura dos animais com os deuses. como era de esperar. crônicas e romances. para que o cavalo entrasse na literatura com a posse de sua alma individual. com os quais se comemora o nascimento de Jesus Cristo. São João Batista. no seu conhecidíssimo livro. é originária da África. Rocinante não se parece com outro qualquer cavalo. de ímpeto. a minorar. exceto o caramujo. há o burro. mas não nos deram as suas qualidades irredutíveis de caráter. certos animais à própria Humanidade. certos santos têm o acompanhamento de animais. e nos presepes. mais abaixo. de ardor. Rolando. esse hipogrifo cheio de candura que suportava candidamente os arrebatamentos do sonho generoso de justiça do seu amo e amigo. Ei-la: "O elefante. para exibir leituras ou erudição. tem Bayard. os pombos. é coisa fácil de verificar em todas as religiões. o cavalo é animal de Netuno. O Sr. de Minerva. convocou um dia todos os seus súditos para uma assembléia. dos poemas hindus. mas que no livro de Crusoé nos parece tão simpática. A que reproduzo aqui. dando-lhe a larga visão da sociedade e dos homens . mas meu propósito é outro e não convém perdê-lo de vista. os animais que os cercam figuram humanizados. não admitia o sacrifício de nenhum para sustento do homem. orgulhoso e bom. Foi preciso que Cervantes nos pintasse o doce e resignado Rocinante. os altissonantes de alma e couraça.

de um natural mofador e grosseiro. contam as nossas velhas.Recebi-a. então. arremedou-a nas palavras e exagerou para melhor debicar o modo por que Nossa Senhora tinha articulado os lábios. mesmo no prato. torta. Todos conhecem esse peixe que tem a boca numa disposição especial e anormal. e poderás escondê-los.. Contava-me. e me pus logo em caminho. entre nós. estão em moda entre os literatos poetas. os ramos me cegavam. a tua casa nas costas. ". então. quando se aproximou mais das águas e viu um linguado que andava próximo. É corrente.Vem aí o caramujo! Está aí o caramujo! "O caracol aproximou-se todo trêmulo.Da minha aldeia. a fim de pronunciá-los. que. sem lhe responder à pergunta.". É bicho que Nosso "Sinhô" não gosta. muito fiel e dedicado. Mas. depois de Pöe e Baudelaire. pai caramujo.E por que tardaste? Não recebeste a ordem? ". carregarás sempre. que como castigo lhe deixou no seu corpo o justo ressentimento de nossa Mãe Santíssima. Doravante.Ficarás com a boca torta. não procederam os nossos severos e terríveis deuses mais ou menos judaicos com o linguado. não gostava de gatos e não me cessava de explicar essa sua ojeriza: . ". passeando. gato é bicho do diabo. porém. pai elefante. Nosso Senhor Jesus Cristo estava na cruz e teve sede."Seu Lifonso". Depois.. e eu temo muito o frio e a chuva. terás teus olhos na ponta dos chifres. meu saudoso preto velho o motivo por que ficaram malditos os gatos. Cachorro. logo que os ramos das árvores os ameacem. damas de sociedade e outras pessoas dignas de verem o seu "interior" estampado nos jornais catitas e revistas de elegância. Não é só esse animal que mereceu dos nossos deuses católicos punição ou maldição pelo seu mau proceder em relação a eles. Em todo o caso. durante toda a vida. um negro velho. Não havia meio de atinar se o mar estava enchendo ou vazando. como diz o povo. para punir-te de ter faltado à conferência. ". um gato que Nosso Senhor julgou ser capaz de fazer a obra de caridade que o Homem-Deus suplicava lhe . porquanto o caramujo não precisou trabalhar mais para ter casa. mas veio a sabê-lo. quando Nossa Senhora lhe disse: . levando naturalmente o filho ao colo. que ele assim ficou por ter tomado a liberdade de caçoar com Nossa Senhora. Passaram homens.Tu falaste claro. sim. Passou. Manuel de Oliveira. que viveu com a minha família e me viu menino de sete ou oito anos. por esse tempo.Linguado. Andava a mãe de Jesus por uma praia. nos nossos dias. tu só me deste um pé para andar. até a consumação dos séculos! Assim foi e ainda hoje. a maré enche ou vaza? O peixe que devia ser. Ninguém se importou e não lha trouxe. cabinda de nação. é bicho "madiçuado" por Deus. quando os animais ouviam e falavam. à mesa do almoço ou do jantar. tu e toda a tua geração. O linguado não sabia com quem estava falando. Assim. Nossa Senhora não encontrava ninguém que a tirasse da perplexidade. assim disse: ".. Van Gennep que certa tribo africana acrescenta a esta história a consideração de que o castigo não foi grande. Perguntou com toda doçura e delicadeza: ." Diz o Sr. a fazer não sei o quê. tendo morrido há pouco tempo.. Foram esses os motivos que me fizeram voltar e me decidiram a carregar a minha casa nas costas. "O elefante-rei riu-se muito e durante longo tempo com essa explicação. nós lhe vemos o estigma. mulheres.Donde vens? perguntou-lhe o elefante. respondeu-lhe o caramujo. bichos e ele pedia água.

nada valem à vista dos que ficaram esquecidos e à mercê das traças das bibliotecas. uma prescrição com fim higiênico feita religiosamente pela Biblia. a "Jupepa" e o "Garoto". infelizmente. Hoje.que é bicho mau e do "demônho".Antes fosse eu! ai mô gado!" disseram-me que ele pronunciara ao chorar. entram mais na nossa vida do que supomos. Os livros conhecidos.fala o Manuel de Oliveira. É sobre o seu sofrimento. as suas deformidades. o pobre português mostrava como aquelas humildes alimárias interessavam o seu destino e o seu viver. "Nosso Sinhô" mardiçuô ele pra sempre e até hoje "ele" é "mardiçuado" por Deus. havendo outras muitas que explicam a maldição de certos animais. levantaram-se em uma formidável revolta que pôs em perigo a dominação britânica nas terras do Ganges. Algumas não personificam o Deus ou o Santo que os castigou. Muitos autores querem ver nessa ojeriza. É coisa muito sabida o horror que os judeus e muçulmanos têm ao porco e a tudo que a ele se refere. Na sua manifestação ingênua. . . agora não me acodem. lembrei-me daquele "Manel Capineiro".fizessem. em gaiolas. sobre as suas próprias vidas que nós erguemos a nossa.Gato. outros. Quando. seja qual for a razão. . quando certa vez. os cipaios muçulmanos da Índia. julgam encontrar em tal coisa uma singular deformação de um totemismo primitivo e esquecido. podemos afirmar que os animais irracionais. "Seu Lifonso" . e vi em uma sua dependência. sabe o que fez? Pois fez isto: "mixô" numa caneca e deu a "bebê" a "Nosso Sinhô". sem . VII HISTÓRIA DE UM SOLDADO VELHO A literatura nacional possui obras maravilhosas que pouca gente conhece. que chorou. Por suporem ser de porco a graxa com que deviam umedecer os cartuchos de umas certas espingardas antigas. a serviço da Inglaterra. por isso ele é bicho de Deus.perguntava eu. 17-4-1919. estive no Hospital Central do Exército. para pesquisas bacteriológicas.Cachorro não fez isso. é bicho que tem parte com o “capeta”. há meses. desta ou daquela forma. Rogou ao gato que lhe trouxesse um pouco d'água para lhe abrandar a ardência dos seus lábios ressecados.. tão poderosa sobre as almas duma grande parte da humanidade. Buscou água fresca e deu a "Nosso Sinhô". A história de Manuel de Oliveira é muito conhecida e familiar entre nós. tendo de mordiscá-los antes de enfiá-los na culatra das carabinas. Num caso ou noutro. Manuel? . porém. ao atravessar a linha da Estrada de Ferro com o seu carro.E o cachorro. mas que. Há muitos dessa literatura subjacente que talvez nem tenham chegado aos depósitos oficiais de livros e permaneçam nos desvãos poeirentos dos "sebos".. citados e estimados. mas outras personalizam-nos francamente. a locomotiva matou-lhe os burros. ". português carreiro de capinzais da minha vizinhança. . coelhos de olhar meigo e cobaias de grande esperteza.

histórica. Todos os bibliófilos ricos do Rio de Janeiro podem comprar. cujo valor é para mim inestimável. Os estudiosos dessas coisas que procurem determinar a sua origem. e. é sincera. nos leilões das livrarias das velhas famílias portuguêsas. porque.. ela pode fornecer ao exegeta arguto e ágil de espírito vasta documentação do sentir dos heróicos cadetes de 1889. que interessem a qualquer período da nossa história.encontrarem mão amiga que os traga para aquela forte luz da grande publicidade a que eles foram destinados ao nascer. Lopes Trovão e mais sete próceres republicanos. entre os meus poucos livros.. como toda a caserna. pois há uma indeterminada dedicatória . na antiga casa Mont'Alverne. de anexins e sentenças de sainete peculiar. com todas as letras. nunca! É um drama histórico. a diversas pessoas de sua família. original brasileiro. Rui Barbosa.quer admiração por esse senhor só pode existir nos que passaram por aquele estabelecimento de ensino militar. ditos e outras formas de dizer que se tomaram populares. Trata-se de uma obra filosófica. Para mim. de anedotas picarescas. tendo o "visto" da polícia. a fazer descobertas dessas relíquias. muitos termos da nossa geringonça. tenho uma brochura desconhecida. senão fesceninas.lho de Magalhães. tinha. tanto mais que na Academia Francesa já se tratou há tempos do "argot" parisiense. trata-o sempre de Sr. Figueiredo Coimbra. Fernando Pinto de Almeida Júnior. porém. Imagino que tal se desse. isto é. do 15 de Novembro. Além de suas singularidades dramáticas e cênicas.A redenção de Tiradentes. capitão Almeida Júnior. ou parece ter sido. analisar a peça singular do capitão Almeida Júnior. tem ou terá. Bote."Às minhas filhas.o que não impede de chamar o seu único filho varão de "unigênito". com divisas adequadas e outras coisas. apesar de muito expressivo e curioso. quatro atos e quatro quadros. Como este. Em falta de cronicons e códices manuscritos de antanho. denuncia uma admiração filial pelo Sr. A sua segregação parcial do total da sociedade. Não é meu propósito. Toda a gente sabe que esse verbo de jargão nasceu na velha Escola Militar. além de abracadabrante e cívica. em um prólogo. mas tenho muitas razões para acreditar que tivesse passado pela legendária Escola Militar da Praia Vermelha. a peça do Sr." . oferece o seu drama a Saldanha Marinho. A sua leitura. nasceram lá. mais cívica do que as recentes canções militares que o carnaval fez esquecer. de que nós temos a cortante e eloqüente imagem viva nos Srs. Não tenho documento para afirmar que fosse do Exército. cuja conta não se pode bem fazer. Há um muito conhecido. mas a minha . além destes. como processo de formação de palavras novas. O seu autor era. havia de encontrar muita brochura curiosa e reveladora de novos predicados intelectuais de seus autores. Se me sobrasse fortuna e lazer tivesse eu. A sua obra que. O autor. esse encouraçado literário é precedido por uma porção de "vedetas" explicativas e contratorpedeiras de ofertórios significativos. Foi impresso nesta cidade do Rio de Janeiro. o verbo "engrossar". havia de andar pelas lojas de livros usados. em 1893. e agora não estou disposto a repeti-la. o quase isolamento dos seus alunos . republicana e cívica. manuscritos e "in-fólios". Ninguém mais a teve. à rua Uruguaiana. capitão do Exército. e aprovado pelo Conservatório Dramático. como diz na capa. no prefácio. pelo Sr. 47.. Prefaciado pelo falecido Figueiredo Coimbra. eu a fiz em anos passados. mas que não me atrevo a escrever aqui. O Sr.. um sentimento desses ou de qual. Almeida Júnior é preciosa porque foi onde pela primeira vez vi grafado. pode bem ser que fosse da Polícia ou da Guarda Nacional. Lauro Müller e Lauro Sodré. era muito favorável à formação de termos de gíria. terrestre ou flutuante. crítica. dela se propagou pela cidade inteira e chegou até aos jornais e à literatura escrita. por longas páginas. A antiga escola da Praia Vermelha.

essa capacidade de criar gíria. além dessa feição peculiar à sua natureza. modificações e derivações na linguagem comum. com estes ou aqueles elementos. há sempre a preocupação de demonstrar saber universal. em que a rigidez de certo positivismo estreito e pedante não domina mais. Talvez sem fundamento. que sempre foi uma criação do pendor dos homens para o seu agregamento. e ter tido ela influência decisiva nos nossos motins políticos. dos quais publico hoje um. e com um pensamento diretor que lhes acaricia a sua desfavorável situação social. discípulo de Augusto Comte. até ao rebuscamento dos vocábulos raros. a Escola Militar era de fortes camaradagens. Sinais dos tempos? Não me compete examinar tal coisa. é. algumas qualidades e atributos que vieram encontrar a sua expressão máxima em Euclides da Cunha. pândegas adequadas entre eles. A sua história. Hoje. de grande sociabilidade. há histórias. de homem de ciência que despreza o simples escritor. pejado de metáforas e comparações científicas. esses dizeres pitorescos saem das casas de jogo: "deu o suíte". desejo de esconder a colaboração do inconsciente sob a crosta espessa das leituras. Nas pequenas revistas da velha escola da Praia Vermelha. justificava essa crença. Entre os soldados propriamente. tinha a pretensão de filósofo. certamente. no seu estilo. Entretanto. eu creio mais literária do que simples e espontânea amizade de colegas de mocidade a que existia entre eles. mas tenho alguns. não registra a existência de fortes amizades de moço. e todo ele cheio de um orgulho intelectual desmedido. . desdém pelas impressões do primeiro instante. Era corrente até bem pouco. seus ardis ou esperteza de meios destros. Participando da sociedade em geral e sendo habitantes de uma caserna estavam. tanto mais interessante quanto desconhecida do grande público. Nessas historietas e anedotas. que entre nós são em geral originários das mais humildes camadas da sociedade. os seus alunos muito adequados a trazer para a massa os modismos que o quartel criava. portanto. etc. Tendo estudado difíceis disciplinas e. que talvez não tenha muito de original para o comum. para ele sempre um ignorante. e os consola da sua pobreza e do seu estado de obediência e inferioridade. Uma carta do doutor Audiffrent. pode-se notar esse modo de espírito peculiar a ela. pois a sua vida. embora por fragmentos e alusões figure no falar familiar. que a tornava ainda mais seca e mais árida. com o seu cômico reduzido.do resto dos homens de outras profissões e ofícios. no Ceará. Aquele estabelecimento tinha. uns modos de linguagem própria e literatura oral sua. há sempre como moralidade a vingança ou a vitória da praça com seu espírito. talvez. devia aparecer algum que colhesse da boca dos soldados exemplares dessa literatura plebéia. sem o sentir. que anda contada de boca em boca. criados com os elementos que lhes estão à mão. a monotonia da vida que exige conversas. levadas ao extremo. abandonos. natural de Aracati. sobre os seus superiores civis ou militares. as conhecendo. Não possuo muitos. O Sr. quanto à exigüidade dos vencimentos de suas reformas. Euclides da Cunha manifestou. o encontro forçado ali de gente oriunda de vários lugares. Voltemos ao assunto. entretanto. Não se nota. a influência do seu primeiro meio intelectual e o seu orgulho mental devia tê-lo tomado muito cedo. devia levar os cadetes a criar. nos seus escritos. até à tortura de procurar um estilo original e inconfundível. cambiantes. suaves esbatimentos nas transições. de proveniências familiares as mais diferentes. contos. Entre os nossos jovens oficiais. entre seus alunos. de dedicações de uns alunos pelos outros. No seu escrever. mas literato até à medula. Daí. Alberto Rangel é o único que assim é apontado. "bancou o trouxa". Atualmente é contínuo ou servente da Secretaria da Guerra. de menino. e também nas anedotas e "casos" contados pelos seus ex-discípulos. que me foi fornecido pela ex-praça Francisco José dos Santos. de criança. além do calão quarteleiro. a demonstração das recriminações dos soldados. que aquele instituto de ensino era o primeiro estabelecimento científico do mundo. A sua alma era seca e árida.

Já estava a terminar o jantar quando bateram à porta. Pediu-lhe este que não falasse ali. puxou uma cadeira e sentou-se. pois. "Soldado Velho" teimou em afirmar que no dia em que comia pato não podia estar calado. ela. O soldado. Deu-lhe o frade mais outro conto de réis ficando sem vintém. provocou uma conversação com o frade. o que fez ele? Comprou um pato e saiu a revendê-lo. e assim vão os três até à hora de jantar. O religioso puxa do bolso da batina o dinheiro e paga. Dispõe-se depois a entrar na casa. dizendo uma coisa é outra sem relação com ele. um dos estafetas para entrega da correspondência. O seu companheiro. . ficou interiormente furiosa. "Soldado Velho". deu-lhe a batina de sêda. ao qual não faltou o pato de cabidela.Não parece muito recente. porém. mas o outro continuou a falar. quando eu era efetivamente oficial da Secretaria da Guerra. que parecia peculiarmente muito íntimo da casa. mas. o frade. portanto. a praça reformada. que lá não são civis como nas outras secretarias. a mulher tranca o frade e o soldado em uma alcova. Santos. A dona da casa vendo o frade entrar. isto é. O soldado que recebia em recompensa de muitos anos de serviço era um cruzado. não saiu mais do portão. vai falar à patroa. Ele disse que o custo era de dois cruzados. o militar fez o mesmo. "Soldado Velho" que bispou alguma coisa no caso disse que estava à espera do pagamento de um pato que vendera à família. o "Soldado Velho" também. além do mais. eles . O eclesiástico não lhe explicava o fato. O frade não tinha dado até ali uma palavra. representantes das classes que antigamente disputavam o domínio da sociedade. O frade já lhe pedia pelo amor de Deus que não falasse mais. quando foi aí pelas 10 horas. O frade gratificou-o com um conto de réis para que ele nada mais dissesse. Era o dono da casa. Vamos. por não servir mais para o trabalho. Chegando na sala. pois. lê-la: "HISTÓRIA DE UM SOLDADO VELHO "Soldado Velho" deu baixa do serviço do Exército. não cessou de falar. mas imediatamente continuou a dizer que no dia que comia pato não podia ficar calado. fazendo das tripas coração. porém. vendo que todos já estavam dormindo. À vista disto. Após certo espaço de tempo chega um frade para penetrar na casa e pergunta-lhe o que estava ali fazendo. por sua vez. manda pagá-lo. tem aquele velho espírito de antagonismo entre o padre e o soldado. para ver se ele se calava. Recebeu o dinheiro o "Soldado Velho". Chegando perto de uma casa saiu-lhe uma criada a comprar o pato. A dona da casa continuava furiosa. O frade logo perguntou quanto era. O marido não saiu mais e a mulher cada vez mais ficava amedrontada. e o "Soldado Velho" também. ele disse o custo de dois cruzados. se tal fizesse. Chega a noite. a criada. que manda vir o pato e. o soldado o acompanha. nem com coragem para perguntar ao frade que homem era aquele. Eu a dou mais abaixo quase como o ex-cabo ma forneceu por escrito. mas praças de certa graduação. e ambos entram. vencendo uma minguada diária. servindo na Secretaria como "correio". quando me contou a história do "Soldado velho" era ainda cabo efetivo do exército. acompanhado por aquele homem desconhecido. Ora. mas sem saber o que devia fazer. mas aceitava silenciosamente a situação. Estava tudo perdido. O frade tomou lugar na mesa.

às vezes são bem européias. a maquia. Não podia de maneira alguma soltá-lo. que só vencia um pobre cruzado por mês. O frade. vivendo aqui. vendo nos seus contos. vendo a resolução do "Soldado Velho" e que tinha mesmo de ir à presença das autoridades. Quem pagou o pato? Hoje. 10-4-1919. dar-lhe doze contos. Dá-se lá o que se dá entre nós. Já sendo meia-noite. O homem chamou a mulher e mandou que ela contasse os contos de réis com toda a pressa e os trouxesse. o seu desejo era só falar. O dono da casa certamente despertaria e era capaz de matá-los. Este pulou uma janela mas o dono da casa pula atrás dele e dá-lhe um tiro. "Soldado Velho" aceitou o trato. sempre procura nas coisas externas sinais seguros do seu destino e marcos certos para o seu roteiro na vida. desde a Europa até ao Extremo-Oriente e à nossa América. vexado. daí essas simplistas generalizações de nossos falsos sábios. era o rondante e tinha que cumprir o serviço. O homem. Na Europa. se ele o soltasse. despiu-se de toda a roupa e entregou ao tagarela para que ele não falasse mais. meteu as mãos na porta e saiu nu. O dono da casa. Os estudiosos de folclore já têm observado essa unidade espiritual da raça humana. conhecida por nós como A Gata Borralheira. as superstições abundam. soldado. que ainda não estava vestido com a batina. É própria da nossa fraqueza mental essa pressa em explicar com criações arbitrárias o que não podemos cabalmente elucidar de outra forma. saiu da aventura com 14:OOO$. Todos nós sabemos disso. "Soldado Velho" não queria saber de nada. pois ele. na cadeia. mas com a condição do dono da casa mandar a sua mulher contar e trazer ali onde estavam. ritos particulares e superstições uma relativa analogia substancial de temas a se manifestar com aparências narrativas de formas variadas. O frade. não as tenham também. acompanhou o frade. quando não tupaicas. em qualquer parte dela. quatro cruzados. onde os sociólogos profundos atribuem as nossas. fábulas. tanto mais que o preso tinha dado um tiro num homem. mas é idéia feita que só os italianos o sejam e um pouco os espanhóis. quanto às origens das nossas crendices e abusões. a sentinela soltou o brado de alerta. ele que era muito conhecido e respeitado por todos. ali e acolá. "Soldado Velho". "Soldado Velho". mas "Soldado Velho" não queria saber de nada. Assim foi feito. o "Soldado Velho" ouviu e respondeu com outro formidável brado. cantigas. . não quis logo sujeitar-se à prisão. É uma atividade fundamental do nosso espírito que se traduz de vários modos desde os samoiedas e esquimós até os araucânios e patagões. que era pessoa de grande reputação. a depósitos na nossa consciência de crendices africanas. desta ou daquela seita ou fé religiosa. de todos os tempos e todos os países. propôs ao militar. Estava o "grosso" preso e bem preso.ficariam desgraçados. há mais de quatrocentas variantes. com medo. "Soldado Velho" pula em seguida ao dono e o prende. VIII SUPERSTIÇÕES DOMÉSTICAS Houve quem dissesse que a superstição é a religião do homem que a não tem. as mulheres principalmente. Isto não quer dizer que todos os homens. cheio de mistério e cercado de mistério. O Sr Van Gennep diz que da Cendrillon de Perrault. percebendo que não tinha mais o que dar. O homem. a batina de sêda do frade e todos os seus panos menores. que.

vaticina grandes desgraças domésticas. nas minhas conversas com pessoas do povo e gente humilde. ouvido à noite. quis. às vezes. a coruja é tida como uma ave de mau agouro e o seu pio. essa ave é na mitologia consagrada a um Deus ou Deusa que. A ferradura. Os pombos. não é a de fazer um estudo mais amplo sobre o assunto. dizem. têm por fim invocar a felicidade e pedir a prosperidade para ele. pregada atrás da porta da entrada. É crença familiar entre nós que os pombos são. Nunca em casa me permitiram que eu os tivesse. mas os sábios negam isso. algumas. é consagrada a Minerva. quando se reproduzem muito. Negam observadores autorizados essas proezas da cobra. porém. Tento unicamente com o que tenho observado e ouvido. com os níqueis que ajuntava em um cofre. entre os matutos a recomendação de que se deve visá-la bem quando se a quer matar a tiro. tem a virtude. que acarreta moléstias. entretanto. sinal de prosperidade no lar. errando este. entretanto. em um caixão de sabão. mas. ou eram no meu tempo de menino. É uma crendice geral que qualquer observador pode colher entre as famílias pobres e remediadas. pois. determinar o foco de sua irradiação. Nas manifestações da psicologia popular. gozando de uma extensa voga na Europa Central. por essa abusão familiar de nossa gente pobre. registrar impressões. Todas elas se dirigem contra o Azar. sem nenhuma outra pretensão mais elevada. como negam também que ela atraia o passarinho que quer engolir. O autor que citei diz que a conquista da Argélia. desde que comecem a fugir. Muitas vezes. pousados nas árvores. a Atena grega. uma das mais curiosas é a superstição caseira que se transmite de pais a filhos. demonstrou a existência na África do Norte de múltiplos temas. apanhada ainda quente dos pés do cavalo quando a perde. mas disso a afirmar que seja devido ao "magnetismo" da cobra a atraí-lo. misteriosas contrárias à nossa felicidade. pelo menos nos países europeus e os que surgiram deles. atravessando gerações e as situações mais diversas de fortuna das respectivas famílias. a cobra vem certa pela fumaça do deflagrar da carga da espingarda e morde o atirador. Há até. tão cheia de legendas aterradoras e de habilidades cruéis. Já o notei. que eram na antiguidade consagrados a Vênus e cuja posse no regime feudal constituía um privilégio de senhor. Em toda a parte. gosto muito de pombos. Os roceiros dizem que a cobra salta para morder o indivíduo que a afronta. não se podendo.O que se dá com a conhecidíssima Gata Borralheira dá-se com quase toda a produção literária coletiva e anônima cujas manifestações são encontradas em todas e as mais diversas partes da Terra e na boca de raças diferentes. e perde o poder de locomoção desde que a mulher dê três voltas no cordão que lhe amarra as saias. Todas as superstições caseiras ou familiares têm quase sempre por base o temor dos gênios. como sempre com os meus gostos. perdas de emprego e outros acontecimentos nefastos à vida satisfeita do lar. indicam que as coisas vão desandar. nada tem de maléfico. são perseguidos. vai uma grande distância. É artigo de fé entre a nossa gente roceira que ela não morde mulher grávida. a nossa cobra. e cheguei mesmo a projetar. mortes. que não é o vulgar. O certo é que quem tem vivido na roça ouve. e. dar o meu depoimento individual. segundo a minha fraca lembrança. o pombal. possuir um casal. e o bramanismo simboliza nela o infinito. A serpente também. não distingo no objeto deles o que é de luxo ou o que é comum. arrulhantes pombos das beiras das casas. mas para a qual será muito difícil achar uma razoável explicação. das forças. . de trazer a satisfação para a casa que a possui. quando a representa mordendo a própria cauda. Desde menino. A minha tenção. mesmo porque não me sobra nem a competência nem a vasta leitura que ele exige. com o estudo dos árabes e berberes. um modo particular de gemer dos passarinhos. porém.

espontâneo e inexplicável ou provocado pela inveja de inimigos e desafetos. e. há também o costume de escrevê-las e enviar pelo correio aos amigos. Hoje. os "breves". Ninguém derrame tinta ou azeite no chão. porque traz azar. é para essas pequenas e ingênuas crendices que ficaram guardadas na nossa memória. o "azar" . não só nas freguesias afastadas. Há as que são destinadas a fins de cura. perante o que vier. sem marcos. é porque não as encontro à mão. IX REZAS E ORAÇÕES A oração. devem-se trazer. sem certeza do que fomos.Na sua generalidade. nos abarrotam de tolices e patranhas manhosas a enfarar. e. 27-3-1919. Nesse debater nas trevas da nossa vida terrena. depois da nossa morte. às vezes mesmo orações com a invocação de certos santos ou palavras cabalísticas. mas os lares também têm. com a recomendação de repeti-las tantas vezes e passá-las adiante. e elas nos guiem na nossa vida e nos desculpem. coisas misteriosas. mesmo por aqueles que se julgam livres de tais crendices. as crendices populares visam evitar. a nossa mais urgente necessidade é estar bem com o mistério... leva-nos às mais curiosas e inesperadas superstições domésticas. Além desse amuleto e dos santinhos. No que toca a orações. porque traz azar. Eu não deixo nunca o meu chinelo virado com a sola para o ar. nascida da convicção de que a nossa sorte é insegura e que somos cercados de entidades superiores e pouco amigas da nossa felicidade e repouso. tendo como fito perturbar a felicidade da nossa existência.. há a figa-de-guiné. porque traz azar. porque traz azar. Para evitar tais coisas. A luta contra o azar. a "coisa feita". se não as transcrevo aqui. que nos voltamos para que a obscuridade do viver não nos cegue de todo. e assim são inúmeras as superstições que procuram evitar o azar e todas elas são obedecidas cegamente. ninguém deixe um calçado com a sola voltada para cima. quando as religiões não nos satisfazem. contra a incerteza do dia seguinte. há as que se empregam em conjuração de moléstias. há outras para a proteção contra feitiços e "coisas feitas" de qualquer origem. ninguém ponha uma vassoura "de pernas para o ar". que os indivíduos usam. porém. . afastar o "mau olhado". Tenho nos meus papéis um espécime dessas. à reza. do que somos e do que seremos.. porque traz azar. que é como caminhamos na nossa breve existência. o povo atribui poderes superiores e miraculosos de várias aplicações. ninguém quebre um espelho. desde a meninice mais tenra. Chamam a isto pequenos saquinhos. mas mesmo nas centrais. quando elas. pendurados no pescoço. à custa de regrarem a nossa sede e fome de Infinito e de Deus. para afastar desgraças e feitiços. ninguém vista uma meia ou outra peça de roupa pelo avesso.

Procurai o Professor Baçu. Outra missa muito curiosa é a chamada das "arrependidas". . na crença da nossa gente. Vejam só este. a frase: "Você anda caipora. É o "rezador" ou "rezadeira". Nunca a ela fui. etc. médiuns femininos."Ele" volta.A FELICIDADE! Ele é o único que possui os MIMOS NUPCIAIS. Os homens são quase todos de idade. porém. creio que a primeira sexta-feira do mês. Há a cartomante quase licenciada que anuncia nas gazetas. nas freguesias rurais. em que se maranham raparigas e senhoras. desafiando a polícia são a mais segura demonstração do seu charlatanismo explorador.Desvio das correntes adversas que surgem na vida ."ela" disse! . mas as mulheres da cidade a freqüentam. aparecido. atualmente. mas muitos que lá foram me contam que tem uma freqüência segura de jogadores de todas as classes. por aqueles que querem vaticínios certos de vida amorosa. pitonisa Os sucessos políticos. São cínicos demais e os seus anúncios de extremada publicidade. é tida entre os supersticiosos como possuindo a virtude de afastar o azar. Nas tricas galantes mesmo.Volta. exerce poderes maravilhosos e extraordinários sobre a causa da nossa vida e da nossa consciência. e não sei como explicá-la. de todas as condições. há algum tempo: "MISTÉRIOS DA VIDA . distribuídas pelas cartomantes-feiticeiras. nos feiticeiros machos. que são procuradas pelas informações de boca em boca. que há por aí e vivem com favor dos seus poderes sobre-humanos de unir corações e fazer toda a sorte de felicidades. moças e velhas. cujo convento é no morro do Castelo. sim! O que é preciso é você rezar a oração. Volta . e uma das suas missas. da igreja mais antiga da cidade. Não sei em que dias é a assim chamada. para lavar-se de culpas e pecados peculiares a seu sexo." Os "barbadinhos". detentores. Passeando nos subúrbios. Nunca me foi dado ler uma oração destas. onde está o túmulo de Estácio de Sá e no cunhal da qual existe o marco quinhentista da fundação da cidade.A CONCÓRDIA . mas as antigas não passavam sem elas e a crença geral e popular é que as feiticeiras. em um dos nossos jornais. é na cartomante. . que se diz na Igreja da Cruz dos Militares. com as quinas do velho reino lusitano. muito pouca fé têm os amantes e namorados nos hierofantes. que se encontram. em ruas sombrias e pouco transitadas. entre duas pequenas ou garotas. "rezadeiras" são mais poderosas que os homens no seu comércio com a Divindade e com o Mistério. Todas as esperanças daqueles e daquelas que o amor abrasa.O PROFESSOR BAÇU .portanto do sacerdote católico que a oração. com o auxílio da missa . de raparigas de vida airada e outros devotos do Acaso. como toda a gente sabe. Ele vos fará um trabalho rápido e perfeito para que nesta reunião "reinem" A PAZ . Os "barbadinhos do Castelo" entram sempre em tudo que se alude a benzeduras.Ide vos casar? Quereis vos casar? Tendes dificuldade de obter noivo ou de realizar vosso enlace? Não sois feliz com o casamento? . o caiporismo. não. o povo prescinde do sacerdote ungido regularmente e escolhe um outro que ele mesmo sagra e consagra. já ouvi o seguinte diálogo.Qual! fez a outra lacrimejante. A religião católica não quis sacerdotisas nas suas cerimônias. precisa ir aos "barbadinhos" ou rezar nos "barbadinhos".É corrente. Não é unicamente. como chamam hoje os namoradores profissionais: . professores-cartomantes-feiticeiros. mas as mulheres. que vivem acorrentados aos seus caprichos. Muitas vezes. são os capuchinhos italianos. tem entrevista com os repórteres. nas primeiras horas da manhã. Os que anunciam nos periódicos não me merecem interesse. sobretudo. mas há também as particulares. Hadjina.

Rezam tudo. de melancias. Tendo dado as lagartas em uma sua plantação de feijão. e a insistência com que este e outros apregoam. dia de nascimento e sintomas. anéis e outros objetos de metal. os "benzedores" e "rezadeiras" não são desse quilate. sendo doutor em medicina. devido à decadência de suas culturas perseguidas atrozmente pela saúva. ou era. Quando meu pai foi para a ilha do Governador. por assim dizer." Leram? Há tanto cinismo e tanta desfaçatez que aquilo que um mago anunciante nos fornecer em "breve". com os quais. Têm fé no seu mister e a sua sinceridade comunica essa fé aos outros. Ela veio e colocou cruzes de graveto nas bordas da plantação deixando na "cabeceira". não pode merecer um pingo de atenção. Também possui as fórmulas em "líquidos e sólidos".verdadeiras relíquias. com a mais luxuosa publicidade. É morta a pessoa que me contou. que teve uma fazendola. apesar das perseguições da polícia. aspergindo os cantos com uma certa água "rezada". isto em 1890. mesmo a distância. de quiabos."a fortuna. obtendo reconciliações. como tendo visto com os seus próprios olhos. usadas pelas mais formosas mulheres da celeste Jerusalém. ameaçando mesmo matá-la de todo. há entre o ceu e a terra. idade. em toda a localidade. Peçam prospectos. Faz todo e qualquer trabalho. de batatas-doces. preparadas com as pedras "Natal". Na roça carioca. quase sem comunicações diárias com o centro urbano. exercendo um pequeno emprego nas Colônias de Alienados. isolada do Rio de Janeiro. As "rezadeiras" são ajudadas por facas. abandonada pelos seus grandes proprietários. a ilha não era o Petrópolis de quinta classe que o meu amigo Pio Dutra está fazendo ou dela já fez.o 183. e dores vagabundas e sem explicação. erisipelas. acompanham o balbuciar da oração adequada. porém. contou-me um caso a que já aludi no meu Policarpo Quaresma. A credulidade humana. Rio de Janeiro. NOTA . fazendo sucessivas cruzes ou outros sinais cabalísticos sobre os pontos afetados do corpo do paciente.Aos que sofrem. desesperado consentiu ele que chamassem uma "rezadeira" famosa. em amuleto. e muitas vezes narrou-me esse surpreendente espetáculo. há alguns anos.. Horácio. Benzem ou rezam também as casas. lenhadores e carvoeiros. CLEMENTE N. diagnósticos e prognósticos. pela eficácia dos seus exorcismos. estava toda ela entregue a moradores pobres. mostra bem que a clientela não lhes falta. a fartura e os ensejos de feliz ventura". oração ou quer que seja. Horóscopos. Vivendo. Mas as suas especialidades são para curar certas moléstias particulares às senhoras: "cobreiros". uma abertura maior. aspersão que se faz com o auxílio de um ramo de alecrim ou arruda. Benzem outrossim as plantações. como ia eu dizendo. o que atrairá para vós . como caju. que tenazmente se batiam contra a implacável formiga. Reside com sua família à RUA 5. Combate todos os males físicos e morais e todos os malefícios. e pessoa digna de fé. não tem fundo. Essa espécie de "enclave" que era a ilha do Governador naquele . pescadores e alguns roceiros portugueses. pôs-se nos pés e começou a rezar. Disse-me a pessoa que as lagartas se foram enfileirando militarmente e saindo processionalmente pela abertura. aproximações de pessoas afastadas e realização de qualquer negócio considerado irrealizável.. pelas bandas de Guaratiba. os seus poderes e as suas virtudes excepcionais. Essa usurpação de atributos sacerdotais por particulares é feita. fazendo roças de aipins. Chamam a isto "cortar" a dor ou a moléstia. e até de melões. acompanhado de envelope selado ao Capitão José Leão. recentemente fundadas pelo governo republicano. Botafogo. e era muito digna de fé. entre as cruzes que havia na "cabeceira". de abóboras. em larga escala. peço nome. apanhadores de suas frutas semi-silvestres. de pesquisas e investigações para a descoberta de fatos de caráter mais ou menos íntimo.

tendo como adestrados disputadores das sortes. quando chegou a Paris. fazendo desocupar aquele lugarejo do alto Nilo. profundamente rural e pobre. agente do Correio. no Sudão egípcio. porém. foi que me deu uma reduzida visão de roça e de hábitos e costumes roceiros. com uma ovação. um verdadeiro triunfo ao comandante Marchand. por intermédio do carteiro. mas é sempre tocante e penetrante por isso mesmo. transcrevo abaixo: "Oração S. A ilha não tinha vigário e o culto da população aos santos de sua fé era feito por intermédio de certos capelães rústicos. entoavam nas cabanas ladainhas e outras orações. Jesus Cristo Senhor Nosso. muito infelizmente mesmo. sem nada mudar ou omitir. aqui e ali. que deve ser hoje general. Em Jesus a bem dizer que quem não fizer caso desta oração sofrerá um castigo grave perda em família. Conforme a recebi. Jesus Cristo rogamos a vós por nossos pecados e vosso sangue derramado na Cruz por nós. confesso que não creio. infelizmente. Não as segui porque. Encontrei-a. e o povo francês quis mostrar a sua reprovação ao ato do seu governo." Aos leitores que têm fé.o de janeiro de 1913. Ainda é da memória de todos a repercussão que. foi encarregado por Marchand de abrir a sua marcha através das origens ocidentais do Nilo. contra a política e contra a moléstia. Hoje. Esta oração foi enviada pelo Bispo Rio l. em demanda de Fáchoda. No artigo anterior. X RESTOS DO "TABU" ANCESTRAL O comandante Baratier. Elevado assim na estima popular. Quem tiver esta oração deve distribuir durante nove dias a nove pessoas cada dia uma e no fim dos nove dias terá uma alegria em sua casa. Do lugar em que morávamos. acompanhados pela assistência. "rezadores" ingênuos e ignorantes.na esplanada defronte à ilha da Freguesia. teve a ocupação desse lugarejo desconhecido. A guerra quase estalou entre a França e a Inglaterra. aqui pertinho da capital do Brasil. intimamente. Que fim terá levado? Essa forte crença na oração.tempo. apesar da minha vaga e imponderável religiosidade. próprias ao divertimento. Amém. eu e a minha família. citei esse ato de distribuir. próximo da venda do Joaquim. ainda me lembro do nome do respectivo capelão: .o Apolinário. o obscuro . que buscamos como alívio para as nossas dores morais e como uma súplica à Divindade para que intervenha na nossa vida. e aqui a dou tal e qual. e. Ela não abandona a nossa gente humilde na sua obscura luta contra a miséria. Senhor Jesus Cristo. na reza. em número determinado. pintor. o Jorge Martins e outros. entre os meus papéis. o "Minhoto".que pobres cavalhadas! . favorecendo-nos nos nossos propósitos. pediu auxílio ao Correio. Cheguei a ver lá cavalhadas . pelas tropas francesas. toma este ou aquele aspecto bárbaro e tosco. que diante de toscos oratórios. orações escritas que devem ser lidas um certo número de vezes e enviadas a outras pessoas amigas. para mais eficazmente agir no perímetro urbano da nossa cidade. 3-4-1919. no ano de graça de 1913. no Galeão. Não a tinha encontrado. rogamos a Deus que se contemple de compaixão e misericórdia e perdoai-nos por vossa Mãe santíssima. hoje e sempre eternamente por todos os séculos dos séculos. no mundo inteiro. eu peço que sigam as prescrições que essa oração recomenda. isto é.

navegando em águas quase livres. O legislador mosaico não podia ter cogitações dessa natureza. para ir servir no russo. dizia ele. referindo-se aos selvagens que os perseguiam na sua fuga. Baratier.soldado colonial convenceu-se de seu excepcional heroísmo e desandou em delirar de orgulho. entre os quais Moribah. a qual tem o hipopótamo por totem. ainda na infância da civilização. Os leitores de Jules Verne. Assim ele descreve a emoção de tão auspicioso encontro: "A leur vue tous les regards se sont allumés: ces fleurs sont vivants. A fome continua e eles acabam abatendo um hipopótamo. O fogo crepita. Com fome. embora não fosse. mas logo os seus guias locais. Reinach. avoengo da tribo. a crescer numa ilhota. "Djingues". Os homens impacientes de fome apanham os bocados de carne apenas sapecado e. da pobreza e da humildade. Emaranhado numa teia espessa de ervas aquáticas o "umsuf" (ounun-souf). essa raça atroz do capitalista moderno onde. empreendeu a viagem com vinte e cinco atiradores senegaleses. contesta que o horror que os judeus e muçulmanos tem à carne do porco. às dentadas. do próprio Czar.. também. que acabou pedindo demissão do Exército francês. Se a religião católica tivesse esse poder sobre as almas. Há um outro mais estranho. com o correr dos anos. os perderia irremediavelmente e toda a nação "Djingue" declarar-lhe-ia guerra sem tréguas. se assustaram e ele viu bem que. avistou uma porção de grandes "marabuts" empoleirados nos galhos de uma árvore. como eu o fui apaixonado em menino. Não só os negros. e totem diz-se do animal que é tido como parente. Acredita o sábio francês que esse ódio de Mafoma ao toucinho provém paradoxalmente de um totem que se obliterou em ódio. embrulhado até ao pescoço. a religião do amor ao próximo.. só poucos da expedição. em horror. Convém dizer. ela vai buscar seus condes. num dos seus interessantes livros de vulgarizaçao. . a sua parada teve um retardamento imprevisto e os viveres se esgotaram. apesar de me parecer inútil. de quando em quando. Após um instante de reflexão. ela. ele e o intérprete. ces feurs sont de la viande". certa vez. não permitiria haver entre nós. no seu manto de linho néo-zelandês. São seis atiradores senegaleses da tribo Keita. ocidentais. os devoram caninamente. não tomam parte nele. Ainda estou a ver o meu amigo Paganel. O gigantesco paquiderme jaz no chão meio decepado. dizer para os seus companheiros que vão encontrá-lo numa altura em que estava sepultado um chefe "maori". Baratier ia apontar a carabina para abatê-los. que habitava aquelas paragens. por isso fica tabu. dez auxiliares de outra proveniência e um intérprete árabe. oriunda de uma prescrição da Bíblia. A sua viagem é muito interessante e dela ele próprio publicou uma viva narração. tenha por causa um motivo qualquer higiênico. retomando o meu primitivo propósito. por ser totem da tribo "Djingue". Tantas fez. para demonstrar a força e o poder dessa crença do totem sobre as almas infantis desses povos retardados. no último volume de Os filhos do Capitão Grant. devem lembrar-se de que forma o encantador romancista da infância tirou partido dessa curiosa superstição. Naquele banquete repugnante em que há fome de feras. . a convite. e todos encontravam na morte seguro asilo. segue o conselho do seu sargento.Não tenham medo! Subam! Eles não virão até aqui. O "marabut" era tabu. Essa aventura não é das mais eloqüentes. Isto aqui é tabu! E não vieram. fazendo tal coisa. que tabu quer dizer que certa coisa é de tal forma sagrada que ninguém pode tocá-la sem chamar a maldição dos Deuses sobre si e sua tribo.Ne tire pas". que são brancos. Moribah: .

a opinião de Reinach. se o urubu não foi totem para os nossos afastadíssimos avós. o urubu não é odiado. Aventurando em mar ignoto. Vemos só o seu dorso azulado a revolver-se nas águas azuis ou verdes do mar e é dos grandes prazeres das crianças que tomam a barca de Niterói. na verba iluminação. Organizou ministério. . Todos que viajam na nossa baía conhecem-no. ficando. tendo eles por ofício limpar a superfície do mar. Quem conhece. Se não se presta para alimento. com o urso de Berna. Entre os pescadores. Com o bôto. Ave assim sagrada. as estradas das carniças putrefatas. devido a obsoletas posturas municipais. tabu até hoje. e quem leu. porém. não leva muito a sério a última explicação. é o do urubu. podemos na nossa vida vulgar aventurar que certas usanças se enraízam naquela crendice do totem. dois terços mergulhados. à extração de azeite que poderia aliviar um pouco. pergunta de si para si. mas. É muito conhecido esse peixe que vive à flor d'água. os senegaleses de Baratier esfomeados preferiram alimentar-se com a carne imunda de aves semelhantes a servirem-se do seu hipopótamo totêmico. Não sei toda a cantiga. porém. como fazem com tudo que bóia nas suas águas sem medida. nenhuma antipatia contra a ave carniceira. Chegando no palácio. socorrem os náufragos. O urubu é absolutamente inútil para qualquer fim alimentício ou outro por ser repugnante e nauseabundo. apesar de quase nunca se lhe ver a cauda e a cabeça.urubu malandro. as ruas.Sem procurar os outros vestígios do antigo totemismo nos costumes atuais. como todos nós. ela o é no dizer do povo. Um caso muito corriqueiro que deve ter chamado a atenção dos observadores para ele. que é aí mais troçada amigavelmente do que mesmo debochada com azedume. estou certo. Entretanto. sobre o porco. a ponto de viver entre a criação. como eu que não tenho nenhuma competência. eu faço essa consideração porque entre nós. muito ao contrário do que se dá com o porco entre os judeus e muçulmanos.há cantigas e várias peças de folclore em que o urubu entra com relativa simpatia. dizem que o urubu é protegido dessa maneira. por ser gorduroso. por isso. girando como se fosse uma roda. mas não ressuma dela. com o bôto. porque limpa os arredores das casas. Ora! Dança urubu! . a impotência das leis. mas entretanto o povo não o persegue. não se dá o mesmo.Não sei dançar! Urubu veio de cima Com parte de homem sério. empurrando-os para a praia. Há frases . Os pescadores não os matam porque. assim mesmo. os orçamentos praieiros. nos quintais de certas pequenas cidades do interior. Os eruditos. Por que não se o mata? É um pássaro repugnante. há uma crença semelhante a esta do urubu. prestar-se-ia. nenhum deles se lembra disso e o bôto vive na segurança sob um tabu . Todos conhecem esta canção que as crianças entoam por aí: Urubu veio de cima Com parte de dançador.

auxiliar de bruxas e bruxedos. nefasta ao gado. O encarregado dessa obra. o sapo. pois propaga a epizoetia. a regular por aí assim.. 50 mil-réis por dia. o tipo de compras era este: um tostão de café. tido corno diabólico. o que se via pela redação. demorar-me. rendiam mais. Todas ressumavam esperança na sua clarividência transcendente para dizer o bicho. tem levado os sábios a amaldiçoar certos animais e a abençoar outros. que inoculam no nosso organismo não sei quantas doenças. dava de lucro. a cambaxirra. mas aquela é por ser uma ave azarenta que nenhuma criança quer ver no seu alçapão. é bendito pelos higienistas. com o cuidado indispensável em tais jornais-oráculos de por.O Talismã . É mais um conflito entre a religião e a ciência. se não forneciam um lucro tão avultado. ele me deu inúmeras informações sobre os seus periódicos "zoológicos". sob este ou aquele disfarce de seções. O Bicho. naqueles anos. Li algumas. 10-8-1919. cuja transmissibilidade é atribuida. Conversando mais detalhadamente com o tipógrafo dos jornalecos de bicho. Atualidade. é maldito para os sábios. mantendo estreitas relações com o proprietário de uma tipografia. na média. todos vinte e cinco animais da rifa do Barão. na rua da Alfândega. e. em setecentos e poucos mil-réis. nas mais das vezes conversar unicamente. que não são perseguidas. o mais famoso e conhecido.que suga moscas. A Mascote e O Talismã. O tipógrafo tinha razão e ele mesmo se encarregava de fortificar a minha convicção do império excepcional que o "Jogo do Jardim" exercia sobre a população carioca.que desapareceu.o meirinho . a fazer isto ou aquilo. Aos poucos fui tomando conhecimento com o pessoal. por exemplo. em breve. de palpite deste ou daquela. a insetos parasitas. Era tão rendosa essa parte de sua indústria tipográfica que ele destacava um único tipógrafo para executá-la. como também certos insetos. pus-me a observar. por devorar as larvas dos mosquitos. por mês. de chapinhas. Há outras aves. A extensão que os nossos atuais estudos médicos têm levado ao exame de certas moléstias. além de compor os jornais. nas vendas da minha vizinhança que. pela manhã.imemorial. de homens em todas as posições. O urubu tão sagrado pelo povo. quase o subsídio diário de um deputado naquele tempo. Solicitado pelas informações do jornalista "animaleiro". como esse quase doméstico . as mais das vezes. Este é naturalmente por ser útil. a dezena e a centena que dariam à tarde deste ou qualquer dia. algumas eram . um ou dois de açúcar e um Bicho ou Mascote. XI COISAS DO JOGO DO "BICHO" Há alguns anos. perseguido pelas crianças. de senhoras de todas as condições. A tipografia do meu amigo tinha a especialidade de imprimir jornais de "bicho" e ele mesmo editava um . que os vencimentos de um chefe de seção de secretaria.. redigia-os também. tinha ocasião de passar por ela toda a tarde. Mostrou-me pacotes de cartas de toda a sorte de gente. era de todos camarada.

e a ingênua crença de que o redator do jornaleco de palpites seria capaz de indicar o número a ser premiado.mo Redator-Chefe do Jornal O "Talismã" Rua da Alfândega n. "Deus que lhe queira ajudar. "Pois bem. Bico-Doce. no Engenho de Dentro. Bico-Doce para obter de viva voz. eu a transcrevo aqui.. . É um documento humano de impressionar e de comover. e que Sois uma alma bem formada!.. Padeiro. que convidava o pobre tipógrafo.. .. o meu senhorio já está Com a cara ruvinhaso comigo. Dr. como salvação. Bico-Doce. mas não o ponho aqui. eu pude conseguir algumas cartas. Dig. ou. era certo. por terem os missivistas acertado com o auxílio dos "palpites" do Dr. pode reforçar a fé no "Jogo do Bicho". no mínimo. bem trajada. e que neste longo período. etc. "Bicho" e o "Talismã" e nunca Sou capaz de acertar em um Bicho ou numa Dezena que me liberte deste jugo que tanto tem me morteficado o espírito e já me acho desanimado da Sorte que me tem Sido tão tirana. e possa fruir os mais esplendorosos gozos.. Ele as recebia a toda a hora do dia e de pessoas de todos os sexos e idade. das quais uma. terá vós um Criado para qualquer Serviço que estiver em minhas fracas força e me apresentarei diante da vossa nobre pessoa. na centena. porque aos Espíritos bem formados ele proteje a fim de poderem espalhar com aqueles menos favorecidos as Sorte. Sr. "E Se vós me libertar deste jugo pode Contar que eu saberei reconhecer o meu bemfeitor. "Enquanto eu minha família.. e lhe dê boa inspiração e força para minorar as aflições dos pobres. podendo. um palpite. e o mistério de que se cercava o "palpitador". do jornal. redator-tipógrafo de O Talismã. Não era só em cartas que se revelava total e poderosa fé de pessoas de todas as condições nos poderes divinatórios do Dr. só omitindo a assinatura e o número da residência do signatário. vós que Sois tão caridoso. já meio tuberculoso. etc e só neste ou deve 200$. . pois um pobre que deve 1:OOO$600... em nome de Deus vos peço Dê-me uma Dezena ou Centena num destes dias em que a Natureza lhe der inspiração." . apalavrado com os homens dela. Nas visitas. pode Ser que Se vós Condoer-se das minhas misérias em breve me libertarei desta vergonha que estou passando. em oferecimentos. Se ganhava. por motivos fáceis de adivinhar. jóias. plumas. "Aqui aguardo a vossa proteção.O vosso Abedê. por todos os aspectos. Senhor. "Ilmo. . a ir almoçar ou jantar com ela e a família.Rio de Janeiro. também. e estou tão oberado. vós que Sois um bondoso. tal e qual. saber de antemão os algarismos da felicidade. Bico-Doce. Apesar da relutância do redator-tipógrafo de tão curiosos exemplares da nossa imprensa cotidiana. vós que Deus dotou Com tanta doçura. portanto. peço dinheiro emprestado.Em primeiro que tudo muito estimarei que esta inesperada Carta vos encontrem Com perfeita Saúde Conjuntamente a toda vossa família.mo Snr. Recordo-me ainda do nome da moça. Peixeiro. etc.0 182 Sobrado"). Bico-Doce Muito Dig. uma gratificação qualquer. Lembro-me de uma assinada por certa adjunta de um colégio municipal. Com o Quitandeiro. . tenha Compaixão deste pobre Sofredor que a 2 anos está desempregado. posso vos dizer que tenho passado os dias bem acerbos. Julgavam-no capaz de adivinhar de fato o número a ser premiado na "Loteria". vamos passando uma vida penosa. que não vinha ao Rio que não fosse ao Dr.. Rua Senador Pompeu.. 20-12-911. O prestígio da letra de forma. além do fervoroso agradecimento. Havia uma senhora de Paquetá. Deus lhe dê Saúde e felicidade pra Si e toda vossa família. é muito triste vergonhoso. Vosso humilde Criado e Obrigado. e sem poder pagar. e Compro todos os dias: "Mascote". por me parecer a mais típica e mostrar de que maneira a situação desesperada de um pobre homem. e poder utilizar-se em qualquer mister que vos aprouver.agradecidas e se alongavam em palavras efusivas. Ei-lo: (cliché de um envelope selado e subscritado: "Ilmo. operavam sobre as imaginações de uma forma verdadeiramente inacreditável.F.

Plutarco. Para sair-se da entalação. Ai de nós se não fosse assim. dizia-me o pobre jornalista do Talismã. O bicho deu e a centena também. É fácil de supor a atrapalhação do "profeta-bicheiro". general? O macedônio logo respondeu: A esperança. O destemido não teve o prazer de dar-lhe a propina em mão. que. e navalha a adivinhar-se nas algibeiras ou em qualquer dobra das roupas. foi a de um capoeira da Saúde. Um deles lhe perguntou: Que te fica.Felizmente. nas vésperas de morrer. abril 1919. normalmente. mal ganha para a sua vida! A Esperança.. . o homem não quis voltar mais. Livros novos. mas a deixou com um colega do Dr. Bico-Doce meio amigável e meio ameaçador. Bico-Doce. Será verdade? Parece que aí a voz do povo não é a voz de Deus. O povo afirma que quem espera sempre alcança. de chapéu de abas largas. conta que Alexandre.A mais curiosa e assustadora visita que ele recebeu. distribuiu o seu império entre os seus generais. um valentão. O valente falou ao Dr. . indicou uma centena qualquer e safou-se logo.. ou outro qualquer. calças bombachas. Bico-Doce que lha entregou no dia seguinte. temendo não acertar e levar uns pescoções. mesmo quando a Esperança é representada pelo jogo do bicho e o palpite de um humilde tipógrafo como o Dr.. n..0 2.

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