A Virtual Bookstore apresenta mais uma grande obra de: Lima Barreto

Marginália
Virtual Bookstore (www.vbookstore.com.br), a verdadeira livraria virtual da Internet Brasileira. Texto scanneado e passado por processo de reconhecimento óptico de caracteres (OCR) por Renato Lima ( Precisamos de você! Visite nossa página de ajuda em e saiba como contribuir com o nosso projeto. Esse arquivo pode ser redistribuído livremente, desde que mantidas as informações acima. Prefácio da edição online. Se em todos os livros de Lima Barreto sempre há um pouco de personalismo, Marginália é talvez a obra em que estamos mais perto do mestre. Reúne-se nesse livro a sua intensa atividade jornalística, suas denúncias, suas pesquisas populares e seu maior amor: a literatura. Marginália é um verdadeiro amálgama de Lima Barreto. Temos todas as suas facetas em um compêndio. É possível identificar o Lima Barreto incentivador de novos escritores, sempre disposto a ajudar aqueles que escreviam com a “qualidade superior de escritor: a sua sinceridade.” O Lima Barreto da literatura militante, contra o helenismo pedante e ridículo, muito em voga no seu tempo. O folclorista, retomando as superstições, credos e sonhos do seu povo e compilando canções populares. Há até o Lima Barreto criador da Liga Brasileira Contra o Futebol... A obra está dividia em três partes: Marginália, Impressões de Leituras, Mágoas e Sonhos do Povo. É importante também destacar a sua conferência “O Destino da Literatura”, onde reafirma os princípios que nortearam a sua produção, e se não lhe deram a glória efêmera do seu tempo, o ascendeu para a glória da história. Renato Lima www.vbookstore.com.br

A QUESTÃO DOS "POVEIROS"

Essa questão dos pescadores originários de Póvoa do Varzim, em Portugal, que, desde muitos anos, se haviam especializado, entre nós, na pesca em alto mar, e como que a tinham monopolizado, por parecer terminada, merece ser epilogada, pois muitas são as notas que se lhe podem apor à margem. De parte a parte, nas afirmações e atos de um e outro adversário, um espírito imparcial encontra o que observar e material para reflexões. Os defensores lastimosos dos "poveiros", que não se quiseram naturalizar brasileiros e, por isso, se repatriaram, encarniçaram-se contra os japoneses, entre outros motivos, porque eles se insulam na massa da população nacional, com a qual parece não quererem ter senão rápidos contatos, os indispensáveis para os seus negócios. Curioso é que encontrem, unicamente nos japoneses, essa repugnância pela imitação com o geral da população brasileira, quando os tais "poveiros" a possuem ou possuíam também, a ponto de não permitirem que, entre eles, houvesse outra gente, empregada nas suas pescarias, senão os naturais de Póvoa do Varzim. Quando menino e adolescente, devido à ocupação de meu pai, na ilha do Governador, andei enfronhado nessas coisas de pesca e sabia bem desse exclusivismo dos "poveiros", extensivo até aos outros seus patrícios portugueses, oriundos de outras localidades de Portugal. Pessoa de toda a confiança, há dias, informou-me que dos estatutos de uma sociedade de tais pescadores naturais de Póvoa do Varzim constava, em letra redonda, não poder fazerem parte dela senão os nascidos naquele lugarejo de Portugal. Os portugueses de Outra origem, que possuíam canoas, redes, "currais" e outros petrechos de pesca em escala mais ou menos desenvolvida, e a exerciam no interior da baía, empregavam na sua indústria indiferentemente auxiliares quaisquer, fossem ou não seus patrícios. Os "poveiros" não; quem não é de Póvoa não pesca com eles; e a sua vida é toda feita à parte dos outros portugueses e dos demais de outra qualquer nacionalidade, brasileira ou não. Por aí, vê-se bem que eles levavam o seu isolamento do resto dos habitantes do Brasil mais longe que os japonêses. Estes fazem - estou disposto a crer - uma colônia confinada em si mesma, ferozmente isolada do grosso da nossa população; mas os "poveiros" só faziam uma colônia dentro da própria colônia de naturais do país de origem, com os quais pouco ou quase nada se misturavam. As minhas idéias e os meus princípios são inteiramente infensos a esse prurido de nacionalização quê anda por aí, e do qual os "poveiros" foram vitimas, tanto mais que, no caso desses homens, se trata de uma profissão humilde, tendo ligações muito tênues e remotas com a administração, a política e coisas militares do Brasil, não exigindo, portanto, o tal "fogo sagrado do patriotismo", a fim de apurar-lhe o exercício, junto a excelentes vencimentos. A verdade, porém, deve ser dita; e não foi senão isto que fiz. A desorientação a esse respeito é tal que estamos vendo como essa questão se vai desdobrando em lamentáveis espetáculos de violências inauditas. O inspetor de pesca, a quem não atribuo móveis subalternos - longe de mim tal coisa! - não contente de exercer draconianamente as atribuições que as leis e os regulamentos conferem a seu cargo, sobre redes e outras coisas próprias ao ofício de pescar, meteu-se também a querer regular o comércio do pescado. Com a sua educação militar, que só vê solução para os problemas que a sociedade põe na violência, não trepidou em empregá-la, violando os mais elementares princípios constitucionais. Com auxílio da marinhagem do cruzador sob seu comando e de sequazes paisanos, talvez mais brutais e ferozes do que as próprias praças de marinha, apesar de estarem habituadas estas, desde tenra idade, nas Escolas de Aprendizes, a ver, num oficial de marinha, um ente à parte, um semideus arquipoderoso, cujas ordens são ditames celestiais - com semelhante gente, violentamente, pôs-se a apreender as "marés" nas canoas de pescaria, para vendê-las ao preço que entendesse, deduzir percentagem arbitrariamente calculada, e, ainda por cima, a intimar os pescadores isolados a

se matricularem em umas famosas colônias de pesca, improvisadas do pé para a mão. Tudo isto consta de jornais insuspeitos e não houve quem contestasse. Essa subversão das mais comezinhas garantias constitucionais, levada a efeito por um oficial que, por mais distinto que seja, não pode possuir autoridade para tanto, como ninguém a tem, leva-nos a pensar como as nossas instituições republicanas vão respondendo muito mal aos intuitos dos seus codificadores e legisladores. Seja qual for a emergência, pouco a pouco, não só nos Estados longínquos, até mesmo nos mais adiantados, e no próprio Rio de Janeiro, capital da República, a autoridade mais modesta e mais transitória que seja procura abandonar os meios estabelecidos em lei e recorre à violência, ao chanfalho, ao chicote, ao cano de borracha, à solitária a pão e água, e outros processos torquemadescos e otomanos. É o regímen de "villayet" turco em que estamos; é o governo de beis, paxás e cádis o que temos. Isto é um sintoma de moléstia generalizada. A época que atravessamos parece ser de loucura coletiva em toda a humanidade. Havia de parecer que a gente de juízo e de coração, com responsabilidade na direção política e administrativa dos povos, depois dessa chacina horrorosa e inútil que foi a guerra de 1914, e das conseqüências de miséria, fome e doença que, acabada, acarretou ainda como contrapeso procurasse afugentar, por todos os meios, dos seus países, os germens desse aterrador flagelo da guerra; entretanto não é assim. Em vez de propugnarem uma aproximação mais fraternal entre os povos do mundo, um mútuo, sincero e leal entendimento entre todos eles, como que timbram em mostrar desejarem mais guerra, pois estabelecem iníquas medidas fiscais que isolam os países uns dos outros; tentam instalar artificialmente indústrias que só são possíveis em certas e determinadas regiões do globo, devido às condições naturais, e isto ainda no fito de prescindirem da cooperação de outra nação qualquer, amiga ou inimiga; e - o que é pior - todos se armam até os dentes, mesmo à custa de empréstimos onerosíssimos ou da depreciação das respectivas moedas, originada por emissões sucessivas e inúmeras, de papel-moeda. Estamos no tempo da cegueira e da violência. Max-Nordau, em artigo que uma revista desta cidade traduziu, cujo título é Loucura Coletiva, - observa muito bem, após examinar os despropósitos de toda a sorte que se seguiram à terminação oficial da grande guerra: "Dizia-se antigamente: "Todo o homem tem duas pátrias, a própria e depois a França". Pois esta mesma França, tão hospitaleira, tão carinhosa, mostra agora a todos os estrangeiros um semblante hostil e, durante a maior parte do tempo, torna-se impossível a estada em seu solo. As relações entre, povo e povo, entre homem e homem, quebraram-se violentamente e cada país encerra-se por detrás das suas fronteiras, opondo-se a tôda a, infiltração humana do exterior. "Esperava-se que à guerra sucedesse a reconciliação. Pelo contrário, procura-se por todos os lados atiçar os ódios, exasperar os rancores, excitar a sede de vingança. Mais adiante, ele acrescenta esta observação que pode ser verificada por qualquer: "Também se esperava um desarmamento geral, mas em toda a parte se reorganizam os exércitos e as marinhas, com mais impetuosidade que nunca. O militarismo torna-se mais forte e vai imperando em países onde anteriormente era desconhecido." Essa mania militar que se apossou de quase todos os países do globo, inclusive o nosso, levou todos eles a examinar e a imitar a poderosa máquina guerreira alemã. Os seus códigos e regulamentos militares vão sendo mais ou menos estudados e imitados, quando não são copiados. Não se fica só nisso. A tendência alemã, ou melhor, prussiana, de militarizar tudo, os mais elementares atos da nossa vida civil, por meio de códigos, regulamentos, penas e multas, vai-se também apossando dos cérebros dos governantes que, com afã, adotam tão nociva prática de asfixiar o indivíduo num "batras" legislativo.

O ideal dos militares atuais não é ser um grande general, ao jeito dos passados, que, aos seus predicados guerreiros, sabiam unir vistas práticas de sociólogo e de político. O ideal deles é o cabeçudo Ludendorff, cujas memórias denunciam uma curiosa deformação mental, obtida pelo ensino de uma multidão de escolas militares que o militarismo prussiano inventou, as quais têm de ser freqüentadas pelos oficiais que ambicionam altos postos. Tais escolas tiram-lhes toda e qualquer faculdade crítica, todo o poder de observação pessoal, fazendo-os perder de vista as relações que tem a guerra com outras manifestações de atividade social, para só ver a guerra, só a guerra com os seus petrechos, suas divisões, seus corpos, etc., citados pelo "Cabeçudo", cabalisticamente, pelas iniciais de suas denominações. Esqueceu-se ele que seu livro era destinado, por sua natureza, a ser lido pelo mundo inteiro, e o mundo inteiro não podia viver enfronhado nas coisas pasmosas da burocracia militar alemã, para decifrar tais hieróglifos. Ludendorff não é um general; é uma consolidação viva das leis e regulamentos militares da Alemanha. Não foi à toa que o célebre jornalista alemão Maximiliano Harden, falando do livro do general francês Buat sobre esse famigerado Ludendorff, a mais alta expressão da lamentável limitação do espírito militar em todos os tempos, disse: "... é uma obra -prima, de clara psicologia latina, dominada em toda sua extensão por um espírito cavalheiresco e uma forte consciência de justiça, que fornecerá ao leitor alemão uma relação maior de verdades que as execráveis e copiosas banalidades editadas por quase todos os generais alemães". Houve quem chamasse o Sr. general Ludendorff, autor também de "execráveis e copiosas banalidades", de César. Sim, ele pode ser César; mas um César que não escreverá nunca a Guerra das Gálias e não transformará nenhuma sociedade. O mundo todo, porém, está fascinado pelos métodos alemães. Pode-se dizer que a Alemanha, depois de vencida, é vencedora pela força hipnótica de sua mania organizadora, até as menores minúcias. O brutal e odioso Estados Unidos, com a Alemanha aparentemente vencida, é outro país modelo para os que estão sofrendo de mal de imitação e maluquice organizadora, concomitantemente. Foi talvez nas coisas peculiares do país de "Uncle Sam" que, certamente, o Sr. Norton de Matos, ministro de Estado de Portugal, buscou inspirar-se para estabelecer a seguinte cláusula, a que se deviam obrigar os "poveiros" repatriados, no caso de quererem estabelecer-se nas colônias portuguesas da África. Ei-la, como vem estampada na Pótria, de 28 de novembro último: "...que evitem (os "poveiros") a comunicação e as relações de ordem sexual com o elemento nativo da África, de cor". Uma cláusula destas é por demais pueril e ridícula. Não é preciso dizer por quê; e seria escabroso. Mas, à vista dela, nós nos podemos lembrar de dois casos célebres que deviam incidir na punição do Sr. Norton de Matos, se ele fosse ministro ou coisa que o valha, no grande século das descobertas e conquistas portuguesas. Um é com Camões, cuja glória universal é um dos mais justos orgulhos de Portugal. Pois bem: o grande épico andou lá, pelo ultramar, de gorra, com uma rapariga de côr. Creio até que se chamava Bárbara e o autor dos Lusiadas fez-lhe versos, aos quais intitulou se não me falha a memória "Pretidão do Amor". Li isto há bastantes anos no Cancioneiro Alegre, de Camilo Castelo Branco. O outro caso dessa espécie de comunicações e relações que o Sr. Norton de Matos divinamente proíbe, ao jeito da nação do Paraíso, passou-se com o Albuquerque terríbil. Ele mandou matar sumariamente um seu soldado ou homem d'armas (parece que se chamava Rui Dias), por suspeitá-lo amoroso de uma escrava, da qual o extraordinário Afonso d'Albuquer

que não desprezava totalmente os encantos secretos, segundo tudo leva a crer. Camões, no seu maravilhoso poema, alude ao fato; e Teófilo Braga, no seu Camões o elucida. E assim que o vate lusitano comenta o caso, no - Canto X, XLVII. Vou transcrever os quatro primeiros versos da oitava. Ei-los: Não será a culpa abominoso incesto, Nem violento estupro em virgem pura Nem menos adultério desonesto Mas cuma escrava vil, lasciva, e escura. Vejam bem como Camões diz quem foi a causa do terríbil Albuquerque por na sua "fama alva, nódoa negra e feia". Estou vendo daqui o Sr. Norton de Matos, quando foi aos embarques, para a Índia, de Albuquerque, em 1503 (primeira vez), e de Camões, em 1553. E preciso supor que o Sr. Matos pudesse ser ministro durante tão dilatado lapso de tempo. Admitido isso, certamente o ministro havia de recomendar a cada um deles ter sempre presente à lembrança, a sua prescrição mais ou menos de Deus que larga um qualquer Adão no Paraíso. E falaria assim: - Olhe, Sr. d'Albuquerque, V.M. foi estribeiro-mor del-Rei D. João lI, a quem Deus tenha em sua santa guarda; V.M. é um grande fidalgo e deu mostras em Nápoles de ser um grande guerreiro - não vá V.M. meter-se lá nas Índias com as negras. Cuide V.M. nisto que lho digo, para a salvação de su'alma e prestígio da nação portuguêsa. Ao cantor inigualável das proezas e feitos do Portugal glorioso, ele aconselharia desta forma: - Sr. Luís de Camões, V.S. é um poeta, ao que se diz, de bom e valioso engenho; V.S. freqüentou o paço dei-Rei; V.S. versejou para as damas e açafatas da côrte. Depois de tudo isto, não vá V.S. meter-se lá, nas índias, com as negras. Tome VS. tento nisso. Não há dúvida alguma que a providência do Sr. Matos é muito boa; mas a verdade é que os tais Amon, Lapouge, Gobineau e outros trapalhões antropólogos e etnográficos, tão do paladar dos antinipões, não admitem como lá muito puros os portugueses. Oliveira Martins também. Dá-lhes uma boa dose de sangue berbere. Isto não vem ao caso e só tratei de tal por mera digressão, mesmo porque este modesto artigo não passa de um ajustamento da marginália que fiz às notícias lidas por mim, nos quotidianos, enquanto durou a questão dos "poveiros". Era tal a falta de uma segura orientação nos que se digladiavam, que só tive um remédio para estudá-la mais tarde: cortar as notícias dos jornais, colar os retalhos num caderno e anotar à margem as reflexões que esta e aquela passagem me sugerissem. Organizei assim uma Marginália a esses artigos e notícias. Uma parte vai aqui; a mais importante, porém, que é sobre os Estados Unidos, omito por prudência. Hei de publicá-la um dia. Contudo, explico por que entram os Estados Unidos nela. O motivo é simples. Os defensores dos "poveiros" atacam os japonêses e se servem dos exemplos da grande república da América do Norte no seu proceder com os nipões. Fui estudar alguma coisa da história das relações yankees com outros Estados estrangeiros; é deplorável, é cheia de felonias. Lembrei-me também como lá se procede com os negros e mulatos. Pensei. Se os doutrinários que querem que procedamos com os japonêses, da mesma forma com que os Estados Unidos se comportam com eles, forem vitoriosos, com a sua singular teoria, não faltará quem proponha que também os imitemos, no tocante aos negros e mulatos. É lógico. Então, meus senhores, ai de mim e de... muita gente! Gazeta de Notícias, 2-1-1921.

HOTEL 7 DE SETEMBRO Li nos jornais que um grupo de senhoras da nossa melhor sociedade e gentis senhoritas inauguraram, com um chá dançante, a dez mil-réis a cabeça, o Hotel do Sr. Carlos Sampaio, nas encostas do morro da Viúva. Os resultados pecuniários de semelhante festança, segundo diziam os jornais, reverteriam em favor das crianças pobres, das quais as referidas senhoras e senhoritas, agremiadas sob o título de "Pequena Cruzada", se fizeram espontâneas protetoras. Ora, não há nada mais belo que a Caridade; e, se não cito aqui um profundo pensamento a respeito, motivo é não ter ao alcance da mão um dicionário de "chapas". Se o tivesse, os leitores veriam como eu ia além do esteta Antônio Ferro, que saltou no cais Mauá, para nos ofuscar, com os seus trapos de José Estêvão, Alexandre Herculano e outros que tais! Felizmente não o tenho e posso falar simplesmente - o que já é uma vantagem. Quero dizer que semelhante festa, a dez mil-réis a cabeça, para proteger crianças pobres, é uma injúria e uma ofensa, feita a essas mesmas crianças, num edifício em que o governo da cidade gastou, segundo ele próprio confessa, oito mil contos de réis. Pois é justo que a municipalidade do Rio de Janeiro gaste tão vultosa quantia para abrigar forasteiros ricos e deixe sem abrigo milhares de crianças pobres ao léu da vida? O primeiro dever da Municipalidade não era construir hotéis de luxo, nem hospedarias, nem zungas, nem quilombos, como pensa o Sr. Carlos Sampaio. O seu primeiro dever era dar assistência aos necessitados, toda a espécie de assistência. Agora, depois de gastar tão fabulosa quantia, dar um bródio para minorar o sofrimento da infância desvalida, só uma coisa resta dizer à edilidade: passem bem! Um dia é da caça e outro é do caçador. Digo assim, para não dizer em latim: "Hodie mihi, cras tibi". Nada mais ponho na carta. Adeus. Careta, 5-8-1922.

15 DE NOVEMBRO Escrevo esta no dia seguinte ao do aniversário da proclamação da República. Não fui à cidade, e deixei-me ficar pelos arredores da casa em que moro, num subúrbio distante. Não ouvi nem sequer as salvas da pragmática; e, hoje, nem sequer li a notícia das festas comemorativas que se realizaram. Entretanto, li com tristeza a notícia da morte da princesa Isabel. Embora eu não a julgue com o entusiasmo de panegírico dos jornais, não posso deixar de confessar que simpatizo com essa eminente senhora. Veio, entretanto, a vontade de lembrar-me o estado atual do Brasil, depois de trinta e dois anos de República. Isso me acudiu porque topei com as palavras de compaixão do Sr. Ciro de Azevedo pelo estado de miséria em que se acha o grosso da população do antigo Império Austríaco. Eu me comovi com a exposição do Dr. Ciro, mas me lembrei ao mesmo tempo do aspecto da Favela, do Salgueiro e outras passagens pitorescas desta cidade. Em seguida, lembrei-me de que o eminente Sr. Prefeito quer cinco mil contos para

e não tinha a empáfia da atual. O antigo poeta é por demais sabido. os tristes. A minha alma é de bandido tímido. mais acessível.reconstrução da Avenida Beira-Mar. de abrigar uma casa de instrução. recentemente esborrachada pelo mar. olho-os.o 15 de Novembro é uma data gloriosa. como um burro. Quase todas elas estavam cheias de artigos e tópicos. Sal pelas ruas do meu subúrbio longínquo a ler as folhas diárias. Ninguém compreende que se subam as escadas de Versalhes senão de calção. e não sei por quê. assim mesmo. Pois é possível que. Entretanto . Careta. mas vi. num dizer. quando vejo desses monumentos. para consultar uma obra rara. do falso brilho e luxo de "parvenu". com cujo manuseio. leio-lhe sempre as notícias. 26-11-1921. Por exemplo: hoje. mulheres sem decote e colares de brilhantes. . nos fastos da nossa história. para liquidar a sua dolorosa vida. mas. mais acolhedora. sobretudo depois que se mudou para a Avenida e ocupou um palácio americano. por cima de tudo. do Garnier. Quero crer que sejam tristes homens desempregados. Lia-as. Pouco freqüento a Biblioteca Nacional.a espórtula! O Estado tem curiosas concepções. Mas. A estatística dos seus leitores é sempre provocadora de interrogações. marcando um grande passo na evolução política do pais. para a escolha do Chefe de uma Nação. para consultar . Afora o capítulo descomposturas. medroso de entrar na vila do patrício. têm a sensação de estar pregando à mulher do seu amor? A velha biblioteca era melhor. Vi em tudo isso a República. não se pode compreender subindo os degraus da Ópera. Quem serão elas? Não acredito que seja o Múcio. aí das ruas. Não será. A BIBLIOTECA A diretoria da Biblioteca Nacional tem o cuidado de publicar mensalmente a estatística dos leitores que a procuram. os que não tem livros caros. talvez. sinais certos da sua felicidade ou infelicidade. É ficar assim. como o meu amigo Juvenal. tratando das candidaturas presidenciais. conforme o gosto antigo e roceiro.eu o sei bem . e esta. que treze pessoas consultaram obras de ocultismo. diz a notícia. Não se discutia uma questão econômica ou política. das classes de obras que eles consultam e da língua em que as mesmas estão escritas. de que era cliente. espadim e meias de sêda. como é que o Estado quer que os mal vestidos. que a República é o regímen da fachada. o mais importante era o de falsidade. da ostentação. em casa. é das mais curiosas. amo a biblioteca e. em um palácio intimidador. destinada aos pobres-diabos.obras de sua profissão. numa "venda" de que minha família é freguesa. como uma pessoa que se estarrece de admiração diante de suntuosidades desnecessárias. o mais importante objeto de discussão seja esse? Voltei melancolicamente para almoçar. se não vou lá. mas um título do Código Penal. pensei de mim para mim. pensando. que fossem procurar no invisível. de mil francos. tendo como "repoussoir" a miséria geral? Não posso provar e não seria capaz de fazê-lo. como devia qualificar perfeitamente a República. um pouco. para pedir a meia dúzia de sestércios que lhe matasse a fome . cá com os meus botões. os maltrapilhos "fazedores de diamantes" avancem por escadarias suntuosas.

que em geral nunca em arte foram criadoras . que só duas pessoas procurassem ler obras na língua que. As suas sacerdotisas agora querem um anel. Limita-se a repetir. É muito justo. é a única arte em que raramente aparece uma tentativa de criação. uma espécie de dote. O ANEL DOS MUSICISTAS As meninas do Instituto de Música escreveram aos jornais. a que tem maiores possibilidades entre nós é a de professora de música. porque. dos bacharéis do Pedro II... Para todos os que têm um curso qualquer. na nossa cidade. Cherchez l'argent. na lógica da nossa sociedade. e certamente. não dá nenhuma demonstração superior da nossa emoção. Em grego. A música. Quando uma moça. são doentes de manias. Alberto Nepomuceno. na frente. dos engenheiros. dos cônegos. só podem ser atribuidas à ganância dos professores e acólitos na caça e disputa de discípulos. melhor. eles não lêem mais grego. o que ele rende. Arnaud Gouveia. dos dentistas. quando acabam o seu curso secundário. tudo o que possa concorrer para que elas o cumpram.Leio mais que houve quatro pessoas a consultar obras em holandês. que foram um instante lembrar-se na língua amiga das amizades que deixaram lá longe. entre nós. A exemplo dos médicos.a arte musical. quando garantidas pelo Instituto do largo da Lapa. De tal modo é rendoso o oficio de professora de música e de seus instrumentos. O anel à mostra. ficará sendo assim.estudam unicamente para o professorado . a mulheres. a moças. é a dos verdadeiros brasileiros. talqualmente as senhorinhas da Escola Normal. das raparigas da Escola Normal. trilhando os caminhos batidos. não há distintivo? Como não cabe o mesmo direito às talentosas executoras do Instituto de Música? . do Sr. deve merecer o nosso apoio entusiástico. pois se o destino da mulher é o casamento. elas querem também um distintivo que as extreme do vulgo. as obras consultadas foram unicamente duas. Ela garantirá a "zona" e o marido futuro ficará sossegado quanto às despesas da casa. tal e qual como no guarani. entretanto. Se a medida não trouxer progressos à arte de Euterpe. seja a casa em bairro rico ou pobre. uma moça que andou aos cuidados do Sr. nos fundos. Deolinda Daltro? Será algum abnegado funcionário da inspetoria de caboclos? É de causar aborrecimento aos velhos patriotas. Não é possível que num pais democrático. isto é. porque de todas as profissões femininas. nos lados. que escreve óperas para exportação. dos anseios e sonhos peculiares a nós. ao fim da viagem não esperará muito que um namoro se transforme em noivado. como está. Não há invento nem novidade.. Para mim. for de anel no dedo pelos bondes a fora. Será a D. 13-1-1915. Correio da Noite. possa ser confundida com qualquer rapariga aí. Richard.. dos advogados. esses dois leitores não foram os nossos professores de grego. Os motivos disto estão entrando nos olhos de todos os que residem no Rio de Janeiro e vivem sitiados por pianos ou violinos. que as brigas vergonhosas que há de vez em quando no Conservatório. no entender deles. às claras. lembrando a criação de um anel que as marcasse ao fim do curso ou dos cursos daquela casa sonora. doutora do Instituto.. no Rio. do Sr. desde muito.. Decididamente este país está perdido. entra. Entregue. O guarani foi procurado por duas pessoas.

na Escola Politécnica. A covardia mental e moral do Brasil não permite movimentos de independência. a vida deve ser uma vitória. é inútil estar vivendo para sofrer os vexames que não merecemos. As pedras. A vida não pode ser uma dor. Tudo . uma humilhação de contínuos e burocratas idiotas. muito comumente. De passagem seja-me permitido lembrar à futurosa Cellini acadêmica. Ficaria a senhora Dra. se algum dia passar além do trânsito ou do nível. 25-1-1918. A esse respeito. para isto. Faço uma observação. É ela que faz todas as consolações das nossas desgraças. é dela que nós esperamos a nossa redenção. Em vida. e. e pode deixar de lado o nome pomposo da matemática. para bem poupar e fazer render o que ganhar nas suas lições. A Lanterna. é ela a quem todos os infelizes pedem socorro e esquecimento. é assim como o latim para um grande número de padres: eles sabem só pronunciá-lo.Certamente. A moça que projetou o anel tem certamente um namorado aos cuidados dos Srs. que os doutores também poderiam usar. a matemática que entrar nelas pouco além irá daquela que se aprende nas escolas primárias. ocupa um dos primeiros lugares. Aritmética. e uma pedra tão dura não fica bem para emblema de uma arte tão doce e tão pouco rígida. ELOGIO DA MORTE Não sei quem foi que disse que a Vida é feita pela Morte. em certas partes dos corpos femininos. É a destruição contínua e perene que faz a vida. não se pode conseguir isto. desde já estariam usando o berloque simbólico. A matemática. "moisir parmi les ossementes. ela só quer acompanhadores de procissão. que tanto a engenharia dele como a música da sua deidade. minha senhora. Ortiz ou Villiot. e.justificam . a conta de juros da Caixa Econômica. Gosto da Morte porque ela é o aniquilamento de todos nós. querem elas que sejam de safira. Seria mais um. entre nós. há um processo seguro: É a tatuagem. todos nós só somos conhecidos pela calúnia e maledicência. pelas nossas boas qualidades. e a safira é a pedra dos anéis de engenheiros. que só visam lucros ou salários nos pareceres. extremar-se do vulgo feminino.a música tem muita coisa com a matemática. por exemplo. imagino eu. eu quero crer que a Morte mereça maiores encômios. se dependesse do meu voto. porém. iria magnificamente. Seria melhor que a menina que ideou o anel. porque . É inútil estar vivendo. para a maioria dos engenheiros. Pense em outras. unicamente. nós somos conhecidos (a repetição é a melhor figura de retórica). animo-me a lembrar a ambos. tem os "handbooks" que lhe suprirão as falhas na sabedoria. depois que Ela nos leva. Quando. sous l'herbe et les fioraisons grassées". Contudo. Se o fito é distinguir-se. no fim quando ambos forem se servir de uma coisa e da outra. E. Não amesquinho seu noivo ou namorado. fosse a gentil senhorinha formada. Não há. basta o Viana. desde já estudasse as divisões da nossa moeda. campo para as grandes batalhas de espírito e inteligência. até que. porém. Procure na Une Charogne isso. que elas tem toda a razão. que a safira. em música. mas. na escala da dureza. gosto da Morte porque ela nos sagra. a Morte é que deve vir em nosso socorro. no colo. Além de tudo. Quanto ao seu futuro marido. minha senhora. como nós todos. pois nunca foi do meu temperamento amesquinhar um doutor ou futuro doutor. como diz Baudelaire. para ser dependente dos outros. é indelével.

no Brasil. mas que procurem desmerecer os seus concorrentes. tidas por doidos. para própria felicidade da espécie humana. Não há nada mais justo e justificável. os honestos burgueses ali da esquina ou das secretarias "chics" que fizeram as grandes reformas no mundo. é muito justo. e não há Chanceler falsificado e secretária catita que o possa contestar. nunca mendiguei elogios. as batatas! A MINHA CANDIDATURA Vou escrever um artigo perfeitamente pessoal. sou autor de cinco volumes.aqui é feito com o dinheiro e os títulos. na vaga do Sr. Sou candidato à Academia de Letras. creio que a minha candidatura é perfeitamente legítima. são eles que trazem as grandes idéias. para só deixar em campo os desejos dos poderosos e prepotentes. que não confiam nos seus próprios méritos. eu a sagro. nasceu pobre e não quer ceder uma linha da sua independência de espírito e inteligência. Todas elas têm sido feitas por homens. Estou cansado de dizer que os malucos foram os reformadores do mundo. só tem que fazer elogios à Morte. e. para que desse choque surja o esclarecimento do nosso destino. A agitação de uma idéia não repercute na massa e quando esta sabe que se trata de contrariar uma pessoa poderosa. são eles os iludidos.. quem. Dessa forma. trata o agitador de louco. Ao vencedor. às vezes mesmo mulheres. Que eles sejam candidatos. com toda a razão. Se nós tivéssemos sempre a opinião da maioria. por isso mesmo podem ver mais longe do que os outros. Ela nos resgata e nos leva à luz de Deus.. são fechados e não aceitam nada que os possa lesar. tenho direito a pleitear as recompensas . Nunca foram os homens de bom senso. O que é preciso. é uma injustiça contra a qual eu me levanto com todas as armas ao meu alcance. Eu sou escritor e. são eles os reformadores. estaríamos ainda no Cro-Magnon e não teríamos saído das cavernas. Nunca lhes solicitei semelhantes favores. Entretanto. A divisa deles consiste em não ser panurgianos e seguir a opinião de todos. que têm títulos literários equívocos e vão para os jornais e abrem uma subscrição em favor de suas pretensões acadêmicas. na minha desgraça e na minha honestidade. seja grande ou pequeno. é que cada qual respeite a opinião de qualquer. para melhoria das condições da existência da nossa triste Humanidade. Paulo Barreto. Le Bon dizia isto a propósito de Maomé. muito bem recebidos pelos maiores homens de inteligência de meu país. Se não disponho do Correio da Manhã ou do O Jornal. Os órgãos de publicidade por onde se podiam elas revelar. Portanto. sou alguma coisa nas letras brasileiras e ocultarem o meu nome ou o desmerecerem. Além de produções avulsas em jornais e revistas. Sendo assim. é coisa contra a qual eu protesto. antes que ela me sagre na minha pobreza. para me estamparem o nome e o retrato. não se quer isto. São eles os heróis. e é preciso. portanto. como eu. na sua Civilisation des Arabes. não tem nada de indecente. na minha infelicidade. Procura-se abafar as opiniões. Ela é a grande libertadora que não recusa os seus benefícios a quem lhe pede. chegam certos sujeitos absolutamente desleais. Mas.

tal não se deu e a Alemanha confessa que não tinha esse poder esmagador. custosos maquinismos e gastar as fabulosas somas que gastou. Entretanto. concordemos. ela não pôde evitar que tal se desse. tirava o sono ao mundo. a dotá-lo de material aperfeiçoado. poderão agir. não encontrarão na massa de camponeses homens em que se apóiem. Obrigou todos os países a estabelecerem esse crime contra a liberdade. tão cheio de ff e rr. essa violência aos temperamentos individuais que é o serviço militar obrigatório.que o Brasil dá aos que se distinguem na sua literatura. O seu sábio preparo anterior. Apesar de não ser menino. A orgia militar. quase toda acumulada diante das costas germânicas. de sítios e trincheiras. e violou a neutralidade belga para derrotar o país de Joana d'Arc. quando deixou de invadir a França pelas fronteiras que tinha com esse país. faziam esperar que ele esmagasse facilmente a França. não valia a pena. por sua vez ficou imobilizada. Eu não temo abaixo-assinados em matéria de Letras. não é essa formidável máquina de guerra que os nossos militaristas queriam que imitássemos. apesar do mata-mouros do canhão 42. penso eu. se ela imobilizou a frota germânica. e os homens que criam o futuro. a superioridade esmagadora que era de esperar possuísse. não estou disposto a sofrer injúrias nem a me deixar aniquilar pelas gritarias de jornais. era o seu constante pesadelo. parece. Um exército tão famoso. contra a independência. que chega a poucos quilômetros de Paris e tem que recuar precipitadamente. levar a Alemanha tantos anos a adestrar um exército numeroso. automatismo que adquiriu com manobras. Com esse procedimento deu sobejas mostras de que não se fiava muito na eficiência do seu exército. as suas constantes manobras não lhe deram. diante dos fortes franceses de Saona e Belfort. 18-8-1921. Agora. O seu violento efetivo. a que a Alemanha desde muito se vinha entregando. Careta. Correio da Noite. De resto. SOBRE A GUERRA As últimas proezas de cruzadores alemães bombardeando as costas da Inglaterra é de molde a provocar a seguinte reflexão: a esquadra inglesa não é lá essas coisas. Da mesma forma. exercícios e trenagens constantes. 19-12-1914 ATÉ MIRASSOL . com auxilio de amuletos patrióticos. Numerosíssima. o exército alemão até agora tem andado muito abaixo de sua fama. Para fazer a velha guerra lenta. a Alemanha ficará por muito tempo diminuída e os seus idiotas partidos guerreiros que se crêem eleitos e com a missão de dominar o mundo. há ainda a notar que. tão poderoso. para ter a vitória assim duvidosa. não podendo fazer nada de eficiente para o aniquilamento dos vasos alemães. com o poder numérico.

É o meu lugar. a contrariedade com semelhante vizinhança. alemães. Até automóveis com malas postais e medas de jornais e revistas penetram nela. mal vestidos. portanto. Põem-se a conversar. carregando um grande saco. Consolo-me. aparece-me o G. antes de 1914. Tomei logo lugar no vagão de 1. a mulher. O amigo "descoberto" e o mais animado no falar. . o vis-à-vis é obrigatório. italianos. É o Mário. embarquei para ela. leva na mão esquerda um saco e. Tem ar de ser de origem italiana. Envergonho-me da minha pobreza e dos meus humildes cigarros. Há. O meu é novo em folha. Paulo. Olho a plataforma.uma hora antes da partida. fôssem tão ricos como aquele poderoso senhor que fala mal dos cigarros.a classe . de um louro sujo. talvez. Isto me faz rir interiormente da sua presunção e do seu fumo. mostra incômodo com a mala. eu tão tímido! Chegam amigos e meu irmão. Não se sentam logo. erguida. tanto mais que não se aborrece com a mala. Ei-lo que chega. em 1 de abril. Possui mesmo uma forte cabeça romana. guardando a escala de crescimento e da hierarquia doméstica. Na portinhola. Sentam-se. Invejo-o. que também tem horror aos "mata-ratos". Ainda bem. por causa do tropêço que ela lhe vai causar às pernas. O trem põe-se em movimento. entretanto. seguem-se os filhos e filhas. Parece pessoa poderosa e rica. ainda dois lugares disponíveis.. Tratam com o "romano" a troca do lugar dele com o do amigo descoberto. antes. curvado. satisfeito. Pergunta -me por que não a ponho debaixo do banco. O que me ficou defronte. etc. É um rapaz simpático. vi que. depois. que. de não ter tomado a segunda classe. Ranulfo Prata. alegre. clínico nessa localidade de Mirassol. Entretanto. Arrependo-me da viagem ou. Procuram com o olhar um amigo no carro. uma criança de seis anos. na direita. O último.. Alegria. para ela. uma garrafa quebrada. Prevejo que terei que viajar com o azedume do companheiro de defronte. Um dos meus amigos conhece o vizinho de vis-à-vis. se dirigiam tantos russos. Fala mal dos cigarros pobres e alude a altos negócios de contos de réis. que fica nos confins de S. Encontram-no. Fico contente. na Central. Tendo eu ficado nos bancos que estão imediatamente próximos à porta. Na frente o pai. Vão-se. barbados. Já me olha o fronteiro com mais simpatia e não mostra tanto aborrecimento com a mala. muito confiante em si. carregando sacos. É meu primeiro aborrecimento não caber o meu calhambeque de mala debaixo do banco. Explico-lhe a razão. Os meus vizinhos desandam a conversar vivamente. está coberto com um encardido chapéu de palha. Que será? Mete-me pena aquilo. atraído também pelo seu nome pitoresco. com um bebê ao colo. Por que deixaram a sua aldeia ou cidade? Foi a guerra. bacharel da Bahia. ele não esconde. Vejo passar uma família de imigrantes em fila índia. cigarros dos outros. Maldita seja a guerra! Estes meus pensamentos são interrompidos pela chegada de dois outros passageiros para os lugares restantes que me cercam.(Notas de viagem) I A CONVITE de meu amigo e confrade Dr. Estou encostado à portinhola e o viajante da esquerda. Devem ser russos ou polacos. Há uma agitação que não é do meu gosto. na ordem da idade.

Explica por que o Maurício. de onde em onde. A conversa se generaliza. pelos carros de passageiros. o de Lacerda. cuja profissão não é denunciada à primeira vista. desapareceram os guarda-pós. por demais disposto a fornecer aos viajantes o que eles quiserem. como se tudo isso fosse a coisa mais natural deste mundo.O de defronte. Tratam de coisas eleitorais. pelo menos é tomado como roceiro ou coisa parecida. a capacidade comercial das gentes ribeirinhas à Estrada de Ferro Central do Brasil consistia em vender frutas. certamente venceria o Henrique. mesmo que seja de sêda. É que o fogoso tribuno quis abarcar o mundo com as pernas. não foi diplomado. Quem não podia comprar um. do conservador para o liberal. Veio o progresso. viajei com meu pai em trem de ferro. Se os tivesse concentrado no seu município. Fala de coisas de capangas. tal qual fiz eu com o calhambeque da mala que levei e tantos dissabores me fez passar. os outros dois. mas fico a pensar: como é que gente tão rica. que aprecia os cigarros caros. não levar guarda-pó era sinal de lamentável pobreza ou de mau gosto sem igual. Dois dos meus vizinhos. percebo que é um velho politicão da roça que tem passado de partido para partido. no carro. as coisas mudaram. por mais caro que seja. deste para Bertoldo. Matou o rudimentar comércio dos camaradas do interior. queijos e café aos viajantes dos comboios que atravessavam as suas terras. é o mais velho dos três. . Dividiu os esforços por três Estados. o bacharel da Bahia. de falsificações de atas. porém. quem se apresentar no trem com um guarda-pó. porém. A viagem continua. Hoje. me parece médico. como uma vestimenta chinesa ou japonesa. segundo me parece. atravessa um empregado dele. para Barbacena. viajavam com caríssimos ternos de linho imaculadamente lavados e passados a ferro. Todos o olham com inveja e eu também invejo a sua despreocupação. Percebo que é coletor federal. sem conseguir ser ao menos deputado de Niterói. II Até bem pouco. passar com uma graúda italiana muito clara. Quando a primeira vez. o que agora me olha com simpatia. Hoje. O de chapéu de palha encardida. Careta. em menino. com essa morte. Da maneira que fala de coisas de urna. 23-4-1921. poderosa e influente. Vejo o bacharel G. As tricas e os truques de tão odiosa instituição são explicados. Já há o carro-restaurante e. secunda-o nas suas apreciações. pode conversar tanto tempo e não ter uma idéia. Olho a plataforma da estação. não sei se devido ao progresso ou à moda. Chega um outro chefe eleitoral. Não compreendo nada dessa conversa de influências da roça. de distúrbios eleitorais. de Fagundes para Bernardes. se não levar vaia. nem mesmo de patente da Guarda Nacional. A conversa eleitoral toma novo alento. uma reflexão sobre o atual estado angustioso do mundo? Chegamos a Belém. Vai falando alto italiano. O vizinho. pedia-o emprestado. A moda pede que não se os use e exige até que se viaje com roupas caras e finas. mesmo. políticos. e.. Esse parece não ter título algum.

O pó das estradas de ferro continua a existir. Pinto da Rocha. de que sou. deve ser coletor federal É um tipo atarracado. ela fabrica necessidades. pelo que dele ouvi. O trem partiu e os meus companheiros de viagem voltaram a tomar assento e a discutir política que. vi agachada. A alguém. naturalmente das autoridades do trem. os tripeiros. em compensação faz nascer outras profissões. os "chauffeurs".Se o progresso traz miséria. em compensação. segundo Bossuet. passando instantes em uma estação. O Sr. III O trem corre e se aproxima dos limites dos Estados do Rio e São Paulo.É porque é moda. e. em certa ocasião ao meio de uma grave sessão da Academia Brasileira. trouxe a supressão do guarda-pó. quando. graças à sua capacidade de criar profissões miseráveis. Por ventura existiam essas profissões antigamente? Não há motivo para maldizer o estado atual da sociedade. com grande simplicidade de meios e palavras. a organização da atual sociedade que me fazia tão rico e àquela criança tão miserável e pobre. Mário de Alencar. com o Sr. Mário de Alencar. etc. peões e camaradas. e a transparência venusina de seus vestidos que tanto indigna o Sr. sem aviso algum. para criar trabalho e profissões. respondeu-me: . Os meus vizinhos voltam do carro-restaurante. Careta. porém. uso que constituiria um sinal de má educação antigamente. é a arte de dar felicidade aos povos e tornar a vida cômoda. aliás. Eis um forte motivo que justifica os trejeitos de andadura que fazem as nossas melindrosas. a questão social. os motorneiros. a quem perguntei por que usava o paletó aberto com a camisa à mostra. cujo fino talento tanta admiração me causa. acompanhados agora de um outro cidadão que. ainda dentro do Estado do Rio. Eduardo Ramos. Almachio Dinis e outros. Dei-lhe um cruzado e bendisse. membro virtual. uma pobre criança que me lustrava. da Liga Pela Moralidade. etc. Essa grande arte de dirigir os povos e as nações é ali reduzida à mais simples expressão de modestas cifras. a meus pés. mesmo à noite . e com pressa e mêdo. Lembrei-me dessa frase do meu conspícuo amigo e confrade Mário de Alencar.deusa.coisa que não aumentou nem diminuiu o meu valor. já resolveu. sem suprimir o pó das estradas de ferro. os massagistas. os "pedicures". assassinos e simples caipiras chamam pomposamente política. que é fértil em absurdos. os engraxates. Elas não vão além de mil e é freqüente que os palestradores repitam o milheiro de várias formas: "porque o Maurício não podia contar com os mil votos que o Fábregas deu ao . introduziu nos trens o lustrador de botinas dos graúdos do meu estofo que conseguem viajar na primeira classe.por que então suprimir o capote de brim que resguardava as nossas roupas dele? Por que tornar chique viajar com roupas impróprias que muito mal se defendem da poeira? É difícil encontrar razões para os preceitos da moda. Peixoto Fortuna. 30-4-1921. para viajar . achei absurdo semelhante moda .Eu tinha posto uma roupa nova naquele dia. Veja você só os "manicures". é muito entendido nesse negócio que os doutores e coronéis do interior. pela conversa. como já disse. Entretanto. foi ele que me observou o seguinte: . O progresso. as minhas modestas botinas. quase quadrado e. com os Srs.

depois se abraçarem. tão natural. mas descarregou-os no Brandão". que lhe enviara em auxílio um veterinário com uma lata de creolina. por modelo o patriarcado bíblico. É verdade que eu a estudei nas "public-houses" de New-York e Londres. muito diferente dos amigos que o acompanham. meu colega também.Borges. professor de agricultura. as damas e moças. Sabem por quê? Porque ele. 7-5-1921. e o Mário fez seus estudos com o avisado Miguel Calmon. que perdeu o trem ou fêz qualquer traquinada e não saltou na estação devida. é também o intermediário mais perfeito entre o mistério da nossa alma e aquele que nos cerca. Dentro em breve. Careta. sem nenhum ralho na voz ou no olhar. É a bênção que ainda hoje eu. o pai. Percebo que é filho do médico. dissera que a sua fazenda era só de criação. para assustar os contos de réis daquele insolente Mário que despreza os meus cigarros. tal e qual faziam. sobre coisas do Ministério Simões Lopes. Nessa despedida encontrei um problema nacionalista que rogo aos meus amigos Álvaro Bomilcar e Jackson de Figueiredo a resolverem-no quanto antes. exclama com terno espanto: ." Ainda mais simpatizo com esse meu companheiro de viagem. ah! não fosse isso e a intervenção do "centro". desculpa este também: "ele tem muito que fazer. antigamente. na rua da Alfândega.. O pai recebe com bonomia as explicações do filho. foi porque ele não soube trazer para o seu lado o Assunção. Infelizmente não é o de Lacerda.Olha o Maurício! Penso que é o de Lacerda e antegozo uma disputa de alta política eleitoral em que o meu Maurício de Lacerda certamente não deixará de pontilhá-la com algumas sentenças comunistas. na Sociedade de Agricultura. é natural que se esquecesse . por ser agora. para sossego da "brasilidade". Há alguma diferença. ao se encontrarem. etc. . que. nesses momentos.. com quase quarenta anos. apelara para o Ministério vizinho do Hospício. mas. ligeiro e alegre. etc. Ao chegar a uma estação qualquer. com o mútuo tratamento de tu e você entre pais e filhos. Acontece que ultimamente foi introduzido o uso estrangeiro de se beijarem pai e filho. também. tomo a meu pai. ao lhe aparecer não sei que peste no seu gado. que dispõe de outros tantos. É tradicional que. graças à doutrinação da Igreja. A isto acode um outro: "não foi tanto pelos mil votos do Fábregas. ao ser apresentado ao tal coletor. se é mãe do Crime e do Vício.. em ocasiões solenes. porém. um afrouxamento do uso da nacionalidade. o médico que viajava em frente a mim desde a Central. Não sou autoridade no assunto. e continuamos a correr sobre os rails da Central. e que. sob o doce e longo olhar paterno. A política naquela palestra de influências eleitorais reduz-se a números. ele ganharia".. nas faces. nos telhados velhos do edifício. como eu já era. e ainda mais desejo conversar com ele sobre febre aftosa. onde este último possui um campo experimental da cultura do fumo ou tabaco bravio. é um menino fardado de colegial. Não há nisto e. com o eminente Mark Twain. dentro da escuridão da noite. e toma parecenças com os discursos parlamentares do meu simpático Cincinato Braga ou com os artigos do Mário Guedes. e acompanha a conversa política dos seus amigos. O pequeno quer descarregar a culpa para o chefe de trem.estou certo . tão simples. uma injúria irrogada aos manes dos nossos avós? Penso que há ai alguma coisa como que uma diminuição da forte constituição católica da família brasileira que sempre teve.a questão a contento de todos e com rara sabedoria escolástica O menino saíra. o filho leve aos lábios a mão direita do pai e a beije no dorso. o filho se despede.. os meus amigos católico-nacionalistas resolverão .

a crescer sobre as recentes derrubadas. autor do formoso Rosas e Espinhos. Pois. Imagina tu que estou aqui há bem um mês e ainda não pude ler convenientemente. não faço nada. faz . Um curioso tipo de plantador.dirá o amigo . depois. me perguntou o que faço nestas paragens que não te mando o manuscrito prometido. a de soldado. Merece ou não o Jornal do Comércio? Espero que ela será muito apreciada pelos conspícuos acadêmicos Afrânio Peixoto e Hélio Lôbo. apesar de médico. se é que tenho algumas. Um é do Mário Sete. Aqui só se fala em conto de réis. não tem em grande conta a terra e as suas árvores.DIAS DE ROÇA (Carta) Meu caro amigo. escreve como eu ou como o Cardim do Jornal do Comércio. Sente-se que o "rush" da população para aqui. com ar tímido de criança sonsa. Essas complicações. converso com este ou aquele e me edifico. deixando das derrubadas e das queimadas conseqüentes. Sem propósito algum. de dois e três anos. disse-me um dia destes: .que não escreve ao menos isso? Passeio e converso. a pedido de "várias famílias". mas se revela um temperamento complexo de pensador-homem de letras. a que chamam . é o de Gastão Cruís Coivara.. Este pequeno de fisionomia verde-chumbo vai ser o diabo. com a sua natural mescla de imigrantes de várias proveniências.. é um gozo observá-la em todas as camadas. embora. tenham ambos dos fins da literatura. é a de oficial de justiça. Ela corre atrás desse demônio do café que vejo pequenino. como para significar o seu protesto e clamar. Mirassol não é uma paisagem. É um livro de Contos que todos aí conhecem. É este o título do romance de Mário Sete. Tem ela por tema "O destino da Literatura". não só paulista. aos céus de dia e de noite. altos troncos carcomidos e enegrecidos pelo fogo. as grandes notas de cem. idéias muito diferentes das minhas. para convenientemente dar noticia de dois livros.. e até a conta de pares o é. e as florestas de perobeiras já fugiram para longe do povoado. Faltam-lhe água e montanha. em pé.. É muito pobre a esse respeito. como já disse a V. entretanto. já escrevi uma conferência literária que. a mais baixa profissão desta vida é a de advogado. a não sei que propósito. ainda não dei começo ao trabalho que tratei contigo fazer. Letras. Há aqui intermináveis questões de terras. não pude ler o Senhora de Engenho. Um outro livro que. contra a violência que sofreram. hipotecas e anticreses são termos e instrumentos de créditos familiares a todos. ao que parece. O caboclo passa por eles. mas. para aqui trouxe.Moço: a pior. Ele marcha para o conto. quanto mais os ouve."grilos". sem discordarem. A bem dizer. V. Constituída assim a povoação do lugar. Mas que diabo V. devido à falsificação de títulos de posse. O horizonte é igual e unido. duzentos e quinhentos mil-réis são comuns. desse livro em que o autor. Quero muito falar . apesar de ser a negação para o gênero. e nem os olha. por isso mesmo.. pela circunspeção e seriedade. para o conto de réis. sem cessar. abandona o pseudo clássico de Aloísio. a fim de estudá-lo convenientemente. fazem as delicias dos advogados e . é um romance que tem andado aqui de mão em mão e não sai de uma delas sem os maiores gabos e sem sugerir aos leitores reflexões sobre os encantos da vida roceira sobre a da cidade. mas brasileira. depois. vou pedir ao meu Félix Pacheco que a publique no Jornal do Comércio. ainda.

. E outra atitude ele não merecia. Evite os protestos. São os meus dias de roça. como representante da imprensa carioca. a opinião do fazendeiro que ouvi Há coisas dolorosas provocadas por essa história de "grilo" que sociólogos da escola do super-homem já elogiaram no Rio de Janeiro. cheios de dinheiro. Os prefeitos. porém. é que o observador imparcial logo concluiu que nenhum dos grupos que se digladiavam falava a verdade. etc.. Pus-me de parte e tive razão. A verdade. De V. PALAVRAS DUM SIMPLES Nunca me meti em política. desta nossa leal e heróica cidade do Rio de Janeiro. No caso não havia isto e eu. que vejo a "política" do Brasil ser justamente o contrário. por exemplo.. levei-o de troça. mais ou menos com isto. Só admito que se morra em matéria de política quando se o faça por uma idéia que interesse um grande grupo humano. mas eles devem ser muito baixos e vagabundos. Ultimamente. Dai. meu caro amigo. Qualquer modalidade de hipocrisia política. É. De forma que. para. Não havia nessa agitação nada de ideal. Deixemos isso para mais tarde. as autoridades municipais se encarregavam do bem-estar do seu povo. O intuito dos opositores à candidatura do Sr. o que se chama política no Brasil. atualmente eleito presidente da República. ver bobagens de uma "Exposição" de aterrado. impedir a posse do mesmo senhor pela força. no Rio. que me ocupo aqui onde estou. Desde menino. com a nossa democracia. como se dizia antigamente. vetá-la e... 14-5-1921. Toda a gente sabe que isso tem sido um flagelo. baseados nas referidas missivas. isto é. À noite. tem por fim tornar a vida cômoda e os povos felizes. Por estas e outras eu sou completamente avesso a negócios de política. tanto para elas como para nós. aqui e ali. pobre e oprimido. Havia nisto um apelo declarado ao que se chama nas repúblicas espanholas "o pronunciamento". porque não acredito nela e muito menos nos políticos. O dever nosso é evitá-lo de qualquer forma. Tais cartas continham insultos ao Exército e os adversários do Sr. atribuidas ao Sr. no tempo de el-rei Nosso Senhor. etc. é melhor do que o . Ela tende para tornar a vida incômoda e os povos infelizes. Não sei os pródromos de semelhante barulheira. caso fosse possível. Estes tinham direito a certo número de línguas e "mãos de vaca" das reses abatidas no matadouro. Artur Bernardes. coisa que não fazia aí. hoje porém. de superior. de que se revista o provimento deste ou daquele cargo de eleição..são o pesadelo dos agricultores. Todas as medidas de que os políticos lançam mão são nesse intuito. vou ao cinema. A questão versava sobre uma falsificação de cartas. e vou de graça. Bernardes excitaram os brios da força armada contra ele. hospedar estrangeiros. conforme Bossuet. os edis de hoje mandam construir hotéis de oito mil contos. Bernardes era mover o Exército contra esta. entre nós houve uma barulheira política que quase sacudiu o pais. Careta. Para mim a política. são atualmente piores que os almotacés do conde de Resende. essas mesmas autoridades se encarregam do bem-estar dos ricaços displicentes que vêm a passeio.

a não ser polcas adoidadas e violentamente sincopadas. que vimos. São causas que nós. se insurgiram contra a intromissão. A não ser umas barcarolas cantadas em italiano. que servem para dançar o tango. Ao menor sopro de "mazorca" foram todos pelos ares e eles todos debandaram.. O que apreciam os dançarmos de hoje. não há mal nenhum. não há muitos anos. são músicas apolcadas. . na minha vizinhança. durante todo esse tempo. Ele é rico ou enriquecido e pode agüentar o repuxo: mas o povo não deve ir atrás dessa gente. Penso assim porque estou convencido de que seja Paulo. O dia veio se fazer inteiramente. dentro em breve. quadrilhas ou quadras.perguntei. mas a informação me fez lembrar do .Ainda não se dança. nem nada de sincero e de sério. escafederam-se. mas a favor de Fagundes ou de Brederodes não dou um pingo do meu sangue. rang-time. . humildes. tocadas "a la diable". há tanta incoerência nesses políticos que nos azucrinam os ouvidos com velhos tropos quando querem satisfazer as suas ambições. Seria capaz de deixar-me matar. Sancho ou Martinho que governe. 22-7-1922. quando acabou o sarau. Às 2 e meia. nos últimos acontecimentos. houve um baile. por aí assim. para a sua fôrça e o seu prestígio. Às 9 horas. Hoje. O baile já havia começado e ainda com algumas polcas repinicadas ao piano. BAILES E DIVERTIMENTOS SUBURBANOS Há dias. interrompi o sono e estive acordado até às 4 da madrugada. quase em frente à minha casa. esta vida será sempre uma miséria. apelarem para eles. está aparecendo um tal de "shimmy".. mas agora. para implantar aqui o regímen maximalista."Cake-walk"? . provocado pela monótona musicaria do baile da vizinhança. Justifiquei-lhe o motivo da pergunta. mas mudar só de nomes de governantes nada adianta para a felicidade de todos nós. .. a fim de tornar vencedora a própria causa. como sempre faço quando me resolvo a descansar a sério. as entradas das caixas de doces. fox-trot. porque elas não representam nenhum ideal elevado. não devemos esposar.Não se gosta mais disso. tomava o café matinal em companhia de meus irmãos. ou já se dançou. a ida dos assados para a padaria. mazurcas. não ouvi outra espécie de música. sujeitos que. deixando o chefe sozinho Que este fique só.assassinato e a violência. . Demais. e. nem me tenta vê-lo. a pressão dos militares nas causas políticas. Na noite do baile. pude perceber todos os preparativos da festa doméstica: a matança de leitões. Os pobres-diabos que se apaixonam por essas especulações de políticos é que levam o "chanfalho" da polícia e sofrem perseguições. Como tinha passado um mês enfurnado na minha modesta residência. Levantei-me da cama e. estava dormindo a sono solto. etc. se nos dias presentes não se dançavam mais valsas.disse-me ela. fui deitar-me cedo.. que para enfezar Copacabana denominei "Vila Quilombo". Perguntei a minha irmã. Vimos em que deu a coisa. etc. Tenho para mim que se deve experimentar uma "tábua rasa" no regímen social e político que nos governa. Nunca vi dançar tal coisa.Qual! .

Ou moram em cômodos ou em casitas de avenidas.verde é sempre uma espécie de argot .refere-se à licenciosidade das danças modernas.mas o tal de futebol pos tanta grosseria no ambiente. que são um pouco mais amplas do que a gaiola dos passarinhos. na gente pobre. mas pelo que me informam. na capacidade dos seus aposentos e cômodos. a coisa piora. no seu interessante livro . no Rio de Janeiro. não sei se é. que era também suburbano. que dançam "one-step" e o tango argentino. cabe só uma observação. de frases e de gestos. com um chôro. Pode haver exagero . mas tenho certeza de que era profundamente carioca. fora os extraordinários. era ou foi. estão ameaçadas de morrer asfixiadas com as janelas abertas. em que dançavam dúzias de pares? Evidentemente. perdem o que significavam primitivamente e se tornam intencionalmente lascivas. que é bem possível não ser ele isento de culpa no recrudescimento geral. Os construtores das casas já sabiam disso e sacrificavam o resto da habitação à sala nobre. entre esses retardados exemplares da nossa humanidade. mas de que forma. acentuadas na direção de um apelo claro à atividade sexual. não nos interessa.sempre mutável e variável de ano para ano. e especialmente. onde as moças vigiadas pelas mães possam pirutear em salão vasto. incluídos os Democráticos e o Music-Club das Laranjeiras. Antônio Leão Veloso achou isso exagerado. e havia também cavalheiros e damas que não faltavam a eles. Mendonça alude ao que se passa no "set" carioca. porém. e nessas bárbaras danças se nivelam. essa gente verde das nossas elegâncias . porém. Meia dúzia de pessoas. porque a melhor peça dela era destinada a estranhos. Hoje. Eram célebres nos subúrbios. tanto desdém pelas coisas de gosto. O meu amigo Sussekind de Mendonça. dessas danças luxuriosas que os hipócritas estadunidenses foram buscar entre os negros e os apaches. presidia sempre a capacidade da sala de visitas para a comemoração coreográfica das datas festivas da família. Convém notar que. e com elas invocam a sua proteção nas vésperas de guerras e em outras ocasiões solenes. Passando para os pés dos civilizados. veio deste para aquela.desdenhava o subúrbio e acusava-o falsamente de dançar maxixe. não topasse no caminho com um baile. não há diferença: todo o Rio de Janeiro. Nas salas de visitas das atuais mal cabem o piano e uma meia mobília. quando em estado selvagem. de alto a baixo. o subúrbio não lhe fica atrás. Havia famílias que davam um por mês.O Esporte está deseducando a mocidade brasileira . como tipos de dançarinos . não. Por isso entre a gente média os bailes estão quase desaparecendo dos seus hábitos. Houve quem dissesse que nós fazíamos casa. adquirida a prestações. porque não interessa tanto ao subúrbio como ao "set" carioca. Isto. O Sr. porém. as casas minguam em geral. Na escolha da casa. O subúrbio civiliza-se. O baile. especialmente suburbano. . Como é que elas podem comportar um baile à moda antiga. Hei de falar mais detidamente sobre esse vigoroso livro: agora. o dança.não ponho em dúvida tal coisa . como se dizia na gíria do tempo. semelhantes danças não têm a significação luxuriosa e lasciva que se julga. e. Isto acontece com as famílias remediadas. elas são deturpadas. tanta brutalidade de maneiras. provocantes e imorais. numa delas. ao contrário. e reveladoras de cultura. além de irem a outros de famílias diferentes. eles ficaram reduzidos ao mínimo de um concerto de violão ou a um recibo de sócio de um clube dançante na vizinhança. ou as tínhamos para os outros. Há uma coisa a notar: é que esse maxixe familiar não foi dos "Escorregas" de Cascadura para o Acchilleon do Flamengo. com as verdadeiramente pobres. Fazem parte dos rituais dos seus Deuses. diria o saudoso Figueiredo Pimentel. O meu estimado Mendonça atribui o "andaço" dessas danças desavergonhadas ao futebol.que era um baile familiar há vinte anos passados. hoje. certos rapazes e moças. Nos tempos idos. uma instituição nacional. santo Deus? Quando fui morar naquelas paragens não havia noite em que voltando tarde para casa.

com dois ou três filhos que lhe dão um imenso trabalho para acomodar nos bondes. para entrar nos bailes penetrar. Em geral. ainda existiam os penetras. Se algumas nada diziam. Além destes subconvidados. e tinha uma notoriedade digna de um poeta de "Amor" ou de um gatimanhas de cinematógrafo. sem comunicarem mutuamente quais os seus anelos.. atualmente ainda encontro. sem terem ocasião de trocar impressões. apesar da multidão dos convidados.a única cuja família tinha relações com a do Seu Nepomuceno. por acaso. usavam deste ou daquele truque. dançando ou não. lhes causou. O "pendant" masculino de Santinha era o seu Gastão.. Chamavam-na Santinha. Quase sempre era formado de pessoas das vizinhanças e outras que não haviam sido convidadas e lá se postavam para ter assunto em que baseassem a sua despeitada crítica. A sua testa era alta e reta. essas festas domésticas tinham um grande cunho de honestidade e respeito. De fato. para uma ceia modesta. numa vasta casa. de divindade aérea. de feições miúdas. Santinha valsava até de madrugada. Nesses bailes suburbanos. era chamado o agrupamento de curiosos que ficavam na rua a espiar o baile. simpático. Tinha. porque Cacilda trazia Nenê e esta o irmão que era namorado daquela . e o resto do vestuário de acordo. Dançou para a vida inteira e também pelos filhos e filhas. Era um rapaz de boa altura. Dizia a todos que. se prolongavam até o clarear do dia sem que o mais arguto do sereno pudesse notar uma discrepância nas atitudes dos pares. calavam-se. Em todos os mais. sempre requestada para esta e aquela contradança. Outras até elogiavam. a encontro atrapalhada com os filhos. pela bôca de adeptos autorizados. um traço próprio. até hoje não escondem a profunda impressão que a moça. que acabava não vendo nenhum ou não firmando a fisionomia de nenhum. sem nenhuma espécie de convite. mas a valsa era a sua especialidade. mora em Conde de Bonfim. vaporosa e adquiria um ar esvoaçante de visão extra-real. Esses bailes burgueses não eram condenados pela religião. mas raramente dá bailes. via tantos e tantos cavalheiros. valsando ficava outra. cabelos abundantes e sedosos. Seu Gastão ainda existe.domésticos. penso de mim para mim: para que essa moça se cansou tanto? Chegou afinal ao ponto em que tantas outras chegam com muito menos esforço. Conheci alguns. não dançava. pouco vulgar nas moças. e ouvi muitos falar neles. Se não era bela na rua. cuja vida particular a cada um deles se fazia isoladamente. só nos dias de luto da semana santa e no de finados. e quando hoje. de uma delicadeza exagerada. a casa se enchia de desconhecidos. era o "pas-de-quatre". Lembro-me bem.. Sereno. tomava um ar de sílfide. transitoriamente. Quando rei suburbano do "pas-de-quatre" era empregado de um banco ou de um grande escritório comercial. assim. Afirmava ele. grandes e bastos bigodes. Fugia ao solo e como que pairava no espaço. Hoje é diretor-gerente de uma casa bancária. às vezes. que essas reuniões facilitavam a aproximação dos moços de dois sexos. com o intervalo de um hora. Não' era bonita na rua. O puritanismo era francamente favorável a eles. Eram raros os excessos e as danças. ao valsar. testa de deusa a pedir um diadema. o mártir era o dono da casa: Seu Nepomuceno começava por não conhecer mais da metade da gente que. Não desdenhava as outras contradanças. Só dançava de "smoking". Os que a viram dançar e me falam dela. em atitude comum de passeio. quais os . dentre eles. de minueto ou de coisa parecida. Era estimada como discipula de Terpsícore burguesa. sem grande relevo. A sua especialidade não era a valsa. Baile em que não aparecia seu Gastão. abrigava. gordinha.. porém. que dançava com ademanes de dança antiga. Fazia cumprimentos hieráticos e dava os passos com a dignidade e convicção artística de um Vestris. Dos trezentos e sessenta e cinco dias do ano. tem filhos. de uma moça que. por tanto dançar não tinha tempo de namorar. longe disso. e. Chamava-se assim certos rapazes que. A sua aparência era de uma moça como muitas outras. não merecia consideração. A sua especialidade estava na valsa americana que dançava como ninguém. está casado. e prosperou na vida.

porém. pelas causas apontadas. ele arrebatou e monopolizou.Revelação: . e. um cavaquinho e violão ou sob o compasso de um prestativo gramofone. Vi isto só uma vez e não garanto que essa hibridação do samba. Nada tem. Quase todas as estações tinham mantido um Clube. O pequeno povo porém ainda não sabe o "fox-trot". A única novidade que notei. com o seu talento e a sua obediência cega a um grande ideal. mais ou menos africano com o futebol anglo-saxônio. pondo de parte o Mafuá semi-eclesiástico. É o caso de imitar o outro e escrever: O Código Penal e a inutilidade das leis. se haja hoje generalizado nos subúrbios. a exigüidade das casas atuais e a imitação da alta burguesia desfiguraram-no muito e tendem a extingui-lo. ao subúrbio dar-lhe alguma coisa de original. o célebre pianista de bailes.. enfim. A vida é cara e as apreensões muitas. Há por lá monstros desses que contam tais proezas às dezenas. favorecendo tudo isso os saraus familiares. em matéria de diversão. como em Maxambomba. não permitindo prazeres simples e suaves. sob todos os pontos de vista.Os homens são jograis. mas não tenho documentos para tanto afiançar. as mesmas músicas indigestas e. nos subúrbios. Os clubes pululam e os há em cada terreno baldio de certa extensão. a sua proeza homérica com letra e música da escola dos cordões carnavalescos. O cinema absorveu todas elas e. com sua tenacidade. mas sei que as suas regras de bom-tom em nada ficam a dever às dos congêneres dos bairros elegantes. doces diversões familiares. "anathema sit". ao som do piano ou de estridulantes charangas.seus desgostos. teve a sua meia hora de celebridade. Precisa-se de ruído. hoje. antigamente. O futebol flagela também aquelas paragens como faz ao Rio de Janeiro inteiro. as mulheres. são os mesmos cordões. como em todo este Brasil inteiro. para espançar as trevas que em . atualmente. nem o "shimmy". e. possuía um edifício de razoáveis proporções. que foi impossível. É pena que para um Catulo. Uma outra diversão que. haja uma dezena de Casanovas disponíveis. de zambumba. julgariam que os atuais bailes aproximam por demais os sexos. se servem da arte reabilitada pelo autor de Sertanejo. e essa mesma não me parece ser grave. levarem a desgraça a lares pobres e perder moças ingênuas e inexperientes. segundo tudo faz crer. por intermédio de horríveis cantarolas. foi transformado em escola municipal. Resta-nos o Carnaval.. pode-se dizer que o baile familiar e burguês. democrático e efusivo. era a do teatrinho de amadores. pouco ou quase nada existe mais. no seu último livro . O violão e a modinha que Catulo. maus de natureza e sem talento algum. Lá. de cansaço. entretanto. O subúrbio não se diverte mais. grupos. tão igual por toda a parte. foi a de festejarem a vitória sobre um rival. os mesmos versos indignos de manicômio. dignificou e tornou capaz da atenção dos intelectuais. dança ainda à antiga. A carestia da vida. O que havia de característico na vida suburbana. ainda volteia a sua valsa ou requebra uma polca. porém. a fim de. Nunca lhes vi uma partida. cantando os vencedores pelas ruas. como na Avenida. de próprio ao lugar. O do Riachuelo. os suburbanos apreciavam muito e hoje está quase morta. blocos. mas desapareceu. bacantes. para esquecer. o Carnaval em que como lá diz Gamaliel de Mendonça. Pode ser. Estou certo de que os positivistas. como em Niterói. é ele. Até o pianista. Sem receio de errar. com gambitos nus. Nos seus clubes. está fora da moda. artista honesto. é o maior divertimento popular da gente suburbana. equilibradas e plácidas. vão sendo mais prezados e já se fazem encantos dos saraus burgueses em que. é tal e qual outro e qualquer cinema do centro ou qualquer parte da cidade em que haja pessoas cujo gosto de se divertir no escuro arrasta a ver-lhes as fitas durante hora e tanto. as danças mínguam. no recesso do lar com um terno de flauta. que. extraordinariamente honesta em comparação com os tais "steps" da moda. e.

criou esse seu paraíso artificial. Nada justifica semelhante aristocracia. só em milho. admira Rondon porque sabe andar léguas a pé. O general Rondon nunca venceu batalhas. diz-se caboclo ou descendente de caboclo. Entretanto. contudo. sobretudo quando fala da morte de Lindóia em cujo rosto a Morte era mais bela. só há a Sra. para catequizar caboclos. Aí não é o sabre que cede à toga. porquanto o caboclo. percorreu o Brasil. Toda a gente. porque o seu talento é telegráfico. Nunca se viu pessoa tão conspícua no caboclismo. Em matéria de caboclismo. Até hoje. Quando Rondon foi chefe da Comissão das Linhas Telegráficas. o subúrbio se atordoa e se embriaga não só com o álcool. Rondon. inebria-se minutos. o grande José de Alencar. durante horas. Vê-se nele a sua vocação de ditador e ditador mexicano. é a batina que se vê vencida pelo sabre. quando um sujeito se quer fazer nobre. Ele não mais se diverte inocentemente. O NOSSO CABOCLISMO Uma das manias mais curiosas da nossa mentalidade é o caboclismo. . acompanhando "pari-passu" as suntuosidades republicanas. atualmente. Muito influíram para isso os poetas indianistas e. que nada tinha de tupinambá. dia para dia. mais densas se fazem. Gazeta de Notícias. e. dão-lhe um destaque excepcional. há uns caboclistas muito engraçados. que tem um ar feroz de quem vai vencer a batalha de Austerlitz. o tupi. sobretudo. porém. Rondon catequista é um grande general e o general Rondon é um grande catequista. Depois de tão excepcional caboclista. ele gastava mais de quinhentos contos por ano. além de outras qualidades e artefatos. só gosto do Uruguai de Basílio da Gama. e não as vencerá. Um deles é o Sr. porquanto tinha intensificado a agricultura entre os Nhambiquaras. nas nossas origens. A seriedade do seu ideal. a raça mais atrasada. 7-2-1922. essa missão estava reservada aos religiosos de toda a espécie. mas foi preciso que o Brasil se fizesse republicano para que tal coisa coubesse aos oficiais do Exército. A mania. O que o general Rondon tem de mais admirável. Tudo o está levando para isso. era. Sei disto porque nesse tempo era eu empregado da Secretaria da Guerra e vi os papéis a tal respeito. acho eu que essa virtude não é das mais humanas. coisa pouco sabida e conhecida. hoje general. Deolinda Daltro. Para as dificuldades materiais de sua precária existência. em cujas delícias transitórias mergulha. mas não há também general como ele.torno da nossa vida. com a lascívia das danças novas que o esnobismo foi buscar no arsenal da hipocrisia norte-americana.. porém. para esperar. um aumentozinho de vencimentos. é a sua fisionomia de crueldade.. Não há general como ele para estender linhas de telégrafo. além do Guarani de José de Alencar. dias e meses. inclusive as suas descobertas já descobertas e a sua determinação de coordenadas de certos lugarejos pelo telégrafo. o primeiro romancista do Brasil. o desinteresse que ela põe nele. Chama-se isto a cisma que tem todo o brasileiro de que é caboclo ou descende de caboclo. no Brasil. contudo toda a gente quer ser caboclo.

eu só tentava ler Rousseau. e mesmo a vagabundíssima Educação de Spencer nunca li. de absorção de todas atividades que o futebol vinha trazendo à quase totalidade dos espíritos nesta cidade. Nada teria a opor. e até a política do Conselho Municipal.D. publicando-a sob a forma de 'livro e com o título . apesar de tudo. Nas segundas-feiras. a mim e ao falecido Dr. nos cafés. não tinha. Percebi logo existir um grande mal que a atividade mental de toda uma população de uma grande cidade fosse absorvida para assunto . em que ele me fala da "Carta Aberta" que o meu amigo também Dr. se não me parecesse que ela se enganava. era de alguma aldeia de índios. indo a bola partir a perna direita de Francisco dos Reis. só se tratava do jogo de pontapés. Nunca fui dado a essas sabedorias infusas e confusas entre as quais ocupa lugar saliente a chamada Pedagogia. no noticiário policial. qualquer erudição especial no assunto. a fundar a Liga foi o espetáculo de brutalidade. o que não acontece com o Dr. como ainda não tenho. Careta. Mário Valverde. de intrigas de sociedades. meu saudoso amigo. nas quais os sábios e virtuosos cronistas esportivos teimam em encaixar o esporte. Confesso que. Mendonça. nos trens não se discutia senão futebol. como se ele fosse nacional. não sou selvagem. o seu célebre Émile. foi. 11-10-1919. TENDO recebido de Porto Alegre. Carlos Sussekind de Mendonça me dirigiu. senão esquecido. ontem. os jornais.O Esporte está deseducando a mocidade brasileira . nada sabia sobre educação física. como resposta ao veemente e ilustrado trabalho do Dr. e. Páginas e colunas deles eram ocupadas com histórias de "matches". Os jornais não falavam em outra coisa. uma terna missiva do Dr. Comecei a observar e a tomar notas. assistir ao jogo de futebol. A minha cidade já de há muito deixou de ser taba. em suas. por intermédio desta revista. A respeito. etc. Nos bondes. no campo do Seleto Clube. traziam notícias de conflitos e rolos nos campos de tão estúpido jogo. Em meio do "match" o jogador Jadir Brás deu um formidável "shoot". Não se tratava de outra coisa no Rio de Janeiro. O que me moveu. Rio-Jornal. de 16-1-1922. Não era do Rio de Janeiro que ela devia ser intendente. Nas famílias. mas. COMO RESPOSTA O foguista da Armada. Sussekind. por isso. Francisco dos Reis. etc.lembrei-me de escrever estas linhas. nas seções especiais. quando fundei a Liga Brasileira Contra o Futebol. conversas íntimas.até isso era relegado para segundo plano. As moças eram conhecidas como sendo torcedoras de tal ou qual clube.. procuravam epítetos e entoavam toscas odes aos vencedores dos desafios. e eu. e suas teorias. Afonso de Aquino. desse nosso engraçado Conselho que teima em criar teatro nacional. a fim de subvencionar regiamente graciosas atrizes . à rua São Gabriel. afiavam a pena. Deolinda acaba de se apresentar candidato a intendente da cidade do Rio de Janeiro.

o governo não deu não sei que favor aos jogadores de futebol e um pequenote de um clube qualquer saiu-se dos seus cuidados e veio pelos jornais dizer que o futebol tinha levado longe o nome do Brasil. Quando a fundamos. Os seus autores falam do assunto como se tratassem de saúde pública ou de instrução. Ela não foi avante.tão fútil e se absorvesse nele. como o meu amigo Sussekind. Ela é uma emanação do governo. pela sua feição própria. em todo o mundo. não admito críticas a meus livros e aos meus escritos senão aquelas provindas de escritores que como eu não dispõem de força. então. fosse de que constituição fosse. que o "sport" é o "primado da ignorância e da imbecilidade". Sou escritor e. ela apela para a ordem e para a moralidade. pela A Notícia. Dai o perigo que há em se entregar à polícia. Quando se os critica. Careta. e é da natureza dos governos não admitirem crítica.. tivesse as lesões que tivesse. Mendonça escreve no seu livro. semanário que o ilustre poeta Humberto de Campos publica com um sal que. nem medida. nem de chanfalho.o que julgo essencial em ajuda da maior felicidade da comunhão humana. percebi também que não concorria tal jogo para o desenvolvimento físico dos rapazes. O meu caro Dr. se permitia tão horripilante coisa. o cronista esportivo censurou asperamente essa autoridade que procedera tão sabiamente apresentou como único argumento que. se mérito outro não tenho. é incapaz desse papel de censura de qualquer manifestação de pensamento.1922. 'Risum teneatis". Fazendo-a. Coelho Neto citou Spencer e eu. E acrescento mais: da pretensão. eu fui alvejado com os mais soezes insultos e indelicadas referências. Ora. É ler uma crônica esportiva para nos convencermos disso. Esquecem totalmente da insignificância dele. Admitir que um simples delegado de polícia ou uma praça de pré do meu amigo coronel Badaró esteja nos casos de julgar os meus escritos. ao contrário. feito sem regra. Sussekind pode ficar certo de que se a minha Liga morreu. bolas! Certa vez. se não é de azedas. A polícia. 8. qualquer poder que incida sobre a liberdade de pensamento. anda a vigiar a A Maçã. é abdicar do meu esforço silencioso e doloroso durante vinte anos. Combaterei sempre o tal de futebol. porque estou convencido. Ameaçaram-me com vigorosos polemistas. ele me disse todos os inconvenientes de tal divertimento. Sendo assim. partidários de futebol e uma récua de nomes desconhecidos cujo talento só é conhecido na tal Liga Metropolitana. que me insurgi. Dai em diante. eram sempre os mesmos a jogar. não somente pelos motivos que o Dr. mostrei que. Falando nisso a Valverde. escrevi também que eles cultivam preconceitos de toda a sorte. eu não morri ainda. Fundamos a Liga. deve ser ático. ela faz obra dos governos e em qualquer trecho do escrito. me gabo de ser independente. Spencer era inimigo do futebol. ela encontra atentados à . mas também porque nos faltava dinheiro. foi. Um dia destes o Chefe de Policia proibiu um encontro de "box".4. tenho voltado ao assunto com todo o vigor que posso. em todas as estações e por todo e qualquer sujeito. até numa sociedade.. para dizer o meu pensamento sincero . porque verifiquei que. "A MAÇÃ" E A POLÍCIA Noticiam os jornais que a polícia por intermédio de seus agentes e prepotentes.

Há os "grileiros" fabricantes de títulos falsos de propriedades de terras. no bom ou mau sentido. confins desse Estado. nos quais andei graças à sua generosidade. A criança se salvou e não podia ver bilhete de loteria que não pedisse ao pai que o comprasse. disfarçando-se e escondendo-se. para não me deixar ficar por aquelas bandas. Conto-lhes o caso. É um abridor de estradas. que usa da liberdade de crítica que as leis lhe facultam.moral. Perguntarei aos policiais: o que é moral? Eles não saberão dizer. a família do pequeno ou da pequena não a podia pagar. Feriu-me. Lá. 1 1-3-1922. e. creio que de trepano. em nome da liberdade de pensamento e tendo em vista a incompetência literária da polícia para fazer censura de escritos e a sua falta de autoridade moral. O Dr. e. Ele as abre pelo deserto e faz por elas trafegar automóveis. que é um portento de energia e honestidade. sob qualquer ponto de vista. É justo que essa gente se mova para o interior do Brasil. conquanto esteja iniciando a carreira. um escritor celebrizado. é ponta de trilhos e para lá vão ter toda a espécie de aventureiros. Polícia foi feita para prender gatunos e assassinos e nunca para fazer crítica literária. próximo a Goiás e a Mato-Grosso. se o souberem. formado na Suíça. mesmo com um simples nível de pedreiro e uma trena. admito. Ele se prontificou a fazê-la gratuitamente. . mas há também os que querem horizontes novos para a sua atividade e para o seu trabalho. cuja competência em tal assunto não tem nenhuma base na lei e nos costumes. Era cara. Muitas figuras como essa lá conheci de energia e de combate. mas que tem o nome portuguesíssimo de Barros. inclusive do da polícia. na cabeça. o Francisco de Sales. no bom sentido. ultimamente. não posso conceber. Humberto de Campos escreve na sua revista é do conhecimento de todos nós. há os advogados. dirão que é a homenagem que o vício presta à virtude. em Rio Preto. Que "pataqueiros". intoxicado de Rio de Janeiro. A criança precisava de uma operação difícil. o faça. se ele edita o que edita. Conforme se diz em estilo diplomático. Tive lá um amigo. fabricantes de "revistas" e "peças" de duvidoso mérito a ela se sujeitem. O que o Sr. GENEROSIDADE Quando estive agora. tive muita coisa a observar e muita coisa a meditar. eu protesto contra a censura policial feita à revista de Humberto de Campos. mas. Eu lá senti muito que já estivesse desfibrado. Cenobelino foi chamado para ver uma criança que tinha levado um coice de um cavalo. Se ainda tivesse energia para recordar esse estudo elementar. muito a de um médico. embora eu fosse incapaz de fazer o mesmo. onde ganhou um ar severo de alemão. e. Careta. Ele as traça por gosto e prazer. ficaria lá para ajudá-lo no seu mister. a responsabilidade dele não pode ser diante de simples apitos de polícia e delegados. porém. no interior de São Paulo. e tive um grande desgosto em não saber mais nada de topografia para auxiliá-lo. é de uma generosidade fidalga. "cavando" e espalhando a graça e a harmonia da Guanabara que estão na minha alma.Para quê? . O seu primeiro é Cenobelino.

infelizmente. a fim de que não pareça que há medo em dar. entretanto. e. Era. como todo o povo a vê. para que não haja divergências. pouco se incomodariam com os proventos da "indústria política" A República. que muitos que passaram pelas maiores posições morreram pobríssimos e a sua descendência só tem de fortuna o nome que recebeu. ser estabelecidas pelos poderosos do dia. há a "verba secreta". A gente do Brasil. por isso mesmo. "comem" os médicos. A POLÍTICA REPUBLICANA Não gosto. e quem não sabe lutar. a pobreza da nossa paisagem moral e a desgraça que se nota no geral da nossa população. havia desinteresse. nem trato de política. "comem" os filósofos. o pai satisfez o pedido do filho e tirou a sorte. tanto assim. A vida. sem ofício nem benefício. com toda a . não era a ambição de dinheiro. mas a minha obrigação de escritor leva-me a dizer alguma coisa a respeito. A República no Brasil é o regime da corrução. certamente. Ninguém quer discutir. mas o que não acho razoável é que eles queiram modelar todas as almas na forma das suas próprias. "comem" os jornalistas: o Brasil é uma vasta "comilança". a nossa falta de originalidade intelectual. transformou completamente os nossos costumes administrativos e todos os "arrivistas" se fizeram políticos para enriquecer. Escusado é dizer que recompensou generosamente o médico do filho. Todos querem "comer". por esta ou aquela paga. Até este ponto eu perdôo toda a espécie de revolucionários e derrubadores de regimes. Não é mentira isto.Para pagar ao doutor que me salvou. pensa que a existência nossa deve ser a submissão aos Acácios e Pachecos. As fórmulas eram mais ou menos respeitadas. acabou morrendo milionário. os homens tinham elevação moral e mesmo. O que havia neles. "comem" os romancistas. Todas as opiniões devem. ninguém quer dar a emoção íntima que tem da vida e das coisas. Fouché. atravessando todas as vicissitudes da Grande Crise. "comem" os advogados. ela tinha alguma grandeza e beleza. que era um pobretão. No Império. não é homem. Não há assunto que mais me repugne do que aquilo que se chama habitualmente política. para obter ajudas de custo e sinecuras. um ajuntamento de piratas mais ou menos diplomados que exploram a desgraça e a miséria dos humildes. "Comem" os juristas. Nunca quereria tratar de semelhante assunto. ninguém quer agitar idéias. deve ser uma luta. Certo dia. Ninguém admite que se divirja deles e.. 25-6-1921. porém. Já na Revolução Francesa a coisa foi a mesma. "comem" os engenheiros. sobre a questão. Vem disto a nossa esterilidade mental. apesar de tudo. muitos outros que não cito aqui para não ser fastidioso. a bôrra do Brasil. a de glória e de nome. trazendo tona dos poderes públicos. Como ele. qualquer opinião. "comem" os poetas. Eu a encaro. em alguns. os reservados deste ou daquele Ministério e os empreguinhos que os medíocres não sabem conquistar por si e com independência. Careta. Esse aspecto da nossa terra para quem analisa o seu estado atual. isto é.

porquanto tu és inteligente. Não se admite mais independência de pensamento ou de espírito. quando passei em tua companhia cerca de oito dias no Júri. Lucílio e outros. etc. Tudo fazia que te encaminhasses por esse campo de Histologia e coisas parecidas. em antiguidades americanas! Quem o diria! Enfim.independência de espírito. É a política da corrução. naquele famoso Júri em que tu foste presidente e eu fui perseguido por causa dele e tu homenageado. Eu mesmo tive ocasião de verificar isso. Bruno. Que pensou? Fez-se sabichão em Belas-Artes. Quiseste mais. etc. escultura. em breve trataste de pontificar sobre elas. por três batalhões. cabalaste e acabaste te fazendo presidente da Sociedade de Belas-Artes. Michel. O mundo dá muitas voltas e tem muitas surpresas. sem ler Winckelmann. Não o quiseste. em arqueologia egípcia. porém. que tudo fazia crer que tu continuasses pelo campo da Histologia. Assombrei-me. Tal.. não se deu. Quando não se consegue. quando não é a do arrocho. gravura. Viva a República! A. e nessa Academia adquiristes profundos conhecimentos de artes plásticas. num belo dia.. porém. Conheci-te ainda estudante quando não tinhas tido a honra e glória de escrever a famosa brochura sobre a A Estrutura do Cilindro-Eixo. e. para sugar os cofres públicos. li que tu eras nomeado Diretor do Museu Nacional. freqüentaste Helios Seilinger.B. O sábio histologista precisava mostrar que era capaz de maiores espantos. Hegel e mesmo Morales de los Rios. Bruno sabichão em História Natural. porque vens revelar que o Brasil possui um Pico de Mirandola ou um Leonardo da Vinci. Tu. Feito diretor do Museu. graças à "reclame" que aqueles te fizeram. meu caro Bruno. Parecia que o Império reprimia tanta sordidez nas nossas almas. quando estiveste em Paris. por dinheiro. arquitetura. a tua brochura tão especial teve grande repercussão. Pleiteaste. Era justo. arvorando-te em Congresso Nacional. mas. proclamada que foi a República. Como tu tinhas fartas relações com jornalistas e aderentes. no Campo de Santana. É verdade que.C. Bruno. 19-10-1918. nasceu-lhe depois da República. Taine. ali. Não chegava. Não ficaram aí as que me reservaram o meu amigo Bruno. Está aí como o meu amigo Bruno Lobo de "olhador" de microscópio passou a ser crítico de arte e pontífice em pintura. .. achastes que esse campo era estreito demais para os teus méritos intelectuais. Confiante neles. desta ou daquela forma. Dizia. tu.. mas um caixão. Foi o novo regime que lhe deu tão nojenta feição para os seus homens públicos de todos os matizes. abafa-se. o Brasil perdeu a vergonha e os seus filhos ficaram capachos. emancipaste a mulher e nomeaste a inefável Berta Lutz secretário do referido Museu. Ele tinha a virtude da modéstia e implantou em nós essa mesma virtude. BILHETE Meu caro Bruno Lôbo: Lembra-te Bruno que sou teu velho conhecido de há muitos anos. Dou-te parabéns. que não é uma caixa delas.

ele já não se contenta com o tímpano. por aqueles capinzais que já foram canaviais. a pastar pelas suas margens.. como diz o povo. junto ao motorneiro. feio. o passado é um veneno... A usina do Gás fica ali e olho aquelas chaminés. O bonde se enche de moças de todas as cores com os vestuários de todas as cores. . etc. para a direita e para a esquerda. Veio a Estrada de Ferro e matou-a. como todas as outras. a Prefeitura Municipal vai melhorando. Assim aconteceu com Inhomerim. embora os bacorinhos. Em grande trecho. por ela toda. e as cabras. as suas cabras. dos seus galos. nem assovia. aquele amontoado de carvão de pedra. ainda lhe dêem muito do seu primitivo ar rural de antanho. É de manhã. e eu vejo delinear-se uma nova e irregular cidade. E o bonde corre. das suas cabras. 17-6-1922. a fuçar a lama. com o seu bonde de "Cascadura" descobriu-a de novo e hoje. No passado! Mas.Minh'alma é triste como a rôla aflita. assovia como os cocheiros dos tempos dos bondes de burro. Penetro pela rua do Ouvidor.um crioulo forte. Ele percorre uma parte da cidade que até agora era completamente desconhecida. Fujo dele. Ele vai manobrando com as manivelas e deitando pilhérias. Estrela e outros "portos" do fundo da baía. essa trilha lamacenta que. e penso no passado. "Titio Arrelia". de pensar nele e o bonde entra com toda a força na embocadura do Mangue. dos seus porcos. sob um céu ingratamente nevoento.É pau! Esse estribilho tornou-o conhecido em todo o longo trajeto desse interessante bonde que é o Cascadura. Limita-se muito civilizadamente a tanger o tímpano regulamentar. Entretanto. preguiçosamente. dos capinzais. há um sopro de renascimento. mas "Titio Arrelia" não diz mais pilhérias. Onde os seus bácoros. aqueles guindastes. cujas palmeiras farfalham mansamente. trepam no bonde e dizem uma chalaça ao 'Titio". Mais adiante.. Então de novo me lembro da Estrada Real. Vou ocupar o banco da frente. com o estribilho: ... o bonde de Cascadura corre. que me recita: . DE CASCADURA AO GARNIER Embarco em Cascadura. uma palpitação de vida urbana. contemplo aquelas velhas casas de fazenda que se erguem no cimo das meias-laranjas. de príncipes e imperadores. É o "Titio Arrelia" . mas simpático.Ainda bem! Careta. Mas. meus olhos topam com medas de manganês. viu carruagens de reis. para um lado e para outro. perlustra a velha Estrada Real de Santa Cruz. que até bem pouco vivia esquecida. zombando da velocidade do veículo. Quem é ele? É o mais popular da linha. porém. graças a uma graçola que sublinha. Estamos no Largo de São Francisco. Os garotos. Estamos em pleno Mangue. Entro na Garnier e logo topo um poeta. Ele os faz descer sem bulha nem matinada. os seus galos e os seus capinzais? Não sei ou esqueci-me. Desço. manejando o "controle". vai deitando pilhérias.. espadaúdo. A Light..

nós fazemos uma idéia da Grécia. É preciso acabar com essa história da Grécia e de imaginar que os gregos tinham uma única concepção da beleza e que foram belos. triste e saudoso da minha mocidade que se foi infecunda. verdadeiras colchas de retalhos. o cão nos dá. elas. não somos nós os homens. está no seu direito em persegui-los. 20-9-1919. O espetáculo mais curioso é o da carroça dos cachorros. Ela me lembra a antiga caleça dos Ministros de Estado. mais ou menos esbodegado. . Amo os animais e todos eles me enchem do prazer da natureza. e Coelho Neto tem. Diz D. eu bendigo a humanidade em nome daquelas pobres mulheres que se apiedam pelos cães. E todos os homens. . certamente. no tempo do Império. quando vejo semelhante espetáculo. Careta. como os mármores que nos legaram. Sainte-Beuve já dizia que. saio da minha casa. Esse espetáculo tão curioso e especial mostra bem de que forma profunda nós homens nos ligamos aos animais. Marocas a D. desço a rua e vejo. pela manhã. Era no tempo da minha meninice e eu me lembro disso com as maiores saudades. A CARROÇA DOS CACHORROS Quando de manhã cedo. Eugênia: . porém. 29-7-1922. Sozinho. entretanto. Todas as manhãs. com a sua cavalaria e guardas municipais. Nada de útil. uma para uso próprio. Eu quisera saber se Neto tem a concepção da beleza dos mármores obesos ou das estatuetas de Tanagra e se aplaudiria as vestes gregas. os tristes e desgraçados cães que andam por aí à toa. com que os arqueólogos vestiram há pouco a "Djanira". A lei.dizem. de Saint-Saens. são elas que amam os cães sem dono. Quem os ama mais. na rua eu vejo o espetáculo mais engraçado desta vida.Lá vem a carrocinha! .o Amor. estão no seu dever em acoitá-los. Esse negócio de gregos e de beleza é coisa muito engraçada. depositárias por excelência daquilo que faz a felicidade e infelicidade da humanidade . São elas que defendem os cachorros das praças de policia e dos guardas municipais. na verdade.Careta. de tempos em tempos. nós o amamos e nós o queremos. quando eram seguidas por duas praças de cavalaria de polícia. eu.Vizinha! Lá vem a carrocinha! Prenda o Jupi! E toda a "avenida" se agita e os cachorrinhos vão presos e escondidos. para justificar a retirada das grades. mulheres e crianças se agitam e tratam de avisar os outros. A DERRUBADA Fala-se muito na remoção das grades do Passeio Público e até Coelho Neto já exumou os gregos com o seu cânon de beleza. mas são as mulheres e as mulheres pobres.

saindo de meu subúrbio. Era uma espécie de oásis. muito preto. Hesito. A venerável árvore não impedia coisa alguma e dava sombra aos pobres animais. Mas. que. arrastavam pelo calçamento pesadas "andorinhas". tudo isso não vem ao caso. ainda outra vestia uma saia patriótica verde e amarelo. era um dia verdadeiramente dedicado a Momo. É que sinto uma grande volúpia em comparar os requintes de aperfeiçoamentos na indumentária. plantadas há meio século. entretanto. Há dias. Nunca fui ao clube dos Democráticos. que foram plantadas mais com o pensamento nas gerações futuras. outra. vetustas fruteiras. não restarão senão uns exemplares dessas frondosas árvores. Nos subúrbios. vim à Avenida e à rua do Ouvidor e pus-me a olhar os trajes das damas. pelo Engenho Novo. Correio da Noite. a ganância e a imbecilidade vão pondo abaixo com uma inconsciência lamentável. vi que tinham derrubado um velho tarnarineiro que ensombrava urna rua sem trânsito nem calçamento. Olhei. as velhas chácaras. que a aridez. do que mesmo para atender às necessidades justas dos que lançaram as respectivas sementes à terra. mesmo quando os fazem humanos. como diz não sei que clássico que o Costa Rego citou outro dia. que resignadamente ajudam a nossa vida. Careta. uma coisa que ninguém vê e nota é a contínua derrubada de árvores velhas. vão sendo ceifados pelo machado impiedoso do construtor de avenidas Dentro em breve. Isto acontece principalmente nos dias em que estou sujo e barbado. cheias de anosas mangueiras piedosos tamarineiros. VESTIDOS MODERNOS Nunca foi da minha vocação ser cronista elegante. Uma dama passava com um casaco preto.Convém não esquecer que tais mármores são imagens religiosas e sempre os homens fizeram os seus deuses mais belos. os seus salões não se apresentam tão carnavalescos como a Avenida e adjacências nas horas que correm. 22-7-1922. mas estou disposto a apostar que em dias de bailes entusiásticos nesses templos de folia. sob o sol inclemente. tanto cuidado de tecidos caros que mal encobrem o corpo das "nossas castas esposas e inocentes donzelas". A razão é simples. e mangas vermelhas. Mas. enfim. caminhões. quando venho à Avenida. . Eu não me atrevo mesmo a dar opinião sobre a retirada das grades do Passeio Público. com o meu absoluto relaxamento. para as pobres alimárias. às vezes. 31-12-1914. tinha uma espécie de capote que parecia asas de morcego. me dá na telha olhar os vestidos e atavios das senhoras e moças. notei e concluí: estamos em pleno Carnaval. Passando hoje. nem ao dos Tenentes. nem ao dos Fenianos. que demandavam o subúrbio longínquo.

Pergunta-me um se deve assentar praça na Brigada. árvore de futuro com a qual o Sr. às vezes mesmo. Cincinato Braga. Ultimamente. depois de salvar o café.Já sei. as laranjas. mas. Comprou um cesto. olhei os Órgãos ainda fumarentos nestas manhãs de cerração e pensei que o meu destino era ser vigário de uma pequena freguesia. consultam-me sobre casos embaraçosos. vejo bem a miséria que vai por este Rio de Janeiro. deixaram-no com a roupa do corpo. poderosa. o que lhe dava trabalho por três dias.O "MOAMBEIRO" Quando saio de casa e vou à esquina da Estrada Real de Santa Cruz. capaz de arranjar empregos e solver dificuldades. Notem bem: depois. pois há oito meses não trabalha no seu ofício de carpinteiro. que os compradores na porta não lhe davam o preço devido. porém. veio ao meu encontro um homem com quem conversei alguns minutos. Ele me contou a sua desdita com todo o vagar de popular. encheu-o de laranjas e saiu a gritar: .. Vendo. mas ficou-lhe o sítio. IMPRESSÕES DE LEITURA O DESTINO DA LITERATURA Minhas senhoras e meus senhores: . Quando. com as suas tangerineiras. ou se devia comprar o canastra por cinqüenta mil-réis e revendê-lo aos quilos pela redondeza. 7-8-1915. ficara sem emprego. Moro há mais de 10 anos naquelas paragens e não sei por que os humildes e os pobres têm-me na conta de pessoa importante. que nunca fui versado em coisas de matadouro.Vai laranja boa! Uma a vintém! Foi feliz e pelo caminho apurou uns dois mil-réis. Você é "moambeiro". tratou de valorizar o produto. com a salga e o fabrico de lingüiças. esperar o bonde. vai salvar o Brasil. Este ano foi particularmente abundante em laranjas e o nosso homem teve a feliz idéia de vendê-las. como tinha um pequeno sítio lá para as bandas do Timbó e algumas economias. porém. intimou o guarda. Tomaram-lhe o cesto. as suas bananeiras. com as suas laranjeiras. o dinheiro e. Eis aí como se protege a pomicultura. Eu. mas sem empréstimo a 30%. saiu-lhe ao encontro a lei. Fulano. e.Que dê a licença? . não se atrapalhou em começo. na esquina. pergunta-me outro se deve votar no Sr. Vamos para a Agência. Careta. As economias foram-se.Que licença? . a muito custo. na pessoa de um guarda municipal: . Houve um matador de porcos que pediu a minha opinião sobre este caso curioso: se devia aceitar dez mil-réis para matar o cevado do capitão M. chegou a Todos os Santos. Era operário não sei de que ofício.

que. quase de nenhum valor. para o sucesso. e de estar convencido de que. solicitado por isto ou por aquilo. pelo fato de conhecer a minha cidade natal. porque. desde a simples desculpa de doença até à fuga covarde diante do inimigo. É um verdadeiro pesadelo. a minha organização literária tinha falhas. O meu belo camarada Olegário Mariano canta as cigarras com voz melhor.quem sabe lá? . É verdade também que assisti conferências concorridas de Anatole France e do professor George Dumas. elegância na exposição. no julgar de todos ou de todas da cidade brasileira em que nasci. caixinhas. empregando para isto todos os subterfúgios. De resto. foi proibido de continuar a fazê-las. grande poeta nacional e parlamentar conceituado. me eximi de experimentar fazê-las. É o critério nacional de que tenho muitas provas nas torturas por que têm passado aqueles meus amigos e confrades aos quais Deus galardoou com tão raras virtudes. mas é que. homens bonitos e chiques. se não tem ou não teve a beleza de moço. e não eram eles. É opinião geral da gente carioca. que é excepcionalmente lindo e louro. para elas fui atraído. em alto grau. quase menino. Ele possui. ainda imperfeitamente conhecedor da minha verdadeira personalidade. nas salas do bom-tom do Rio de Janeiro. menos estridente e mais suavemente amorosa do que aquela com que esses insetos o fazem quando inspirados pelos crepúsculos aloirados do estio. habilidade no tratar o assunto. Não é só essa a opinião de Botafogo. ela é partilhada pelas minhas vizinhas do Méier e também pelas deidades do morro da Favela e da Gamboa. lá para que se diga. lhe mandam insistentemente.beleza física e sedução pessoal. caixas. nas demais modalidades de atividade literária. achamos eu e alguns amigos um belo homem. mas também porque impõe outras qualidades ao conferencista. Conhecedor desse feitio característico que tomaram entre nós. todas as excusas. de Copacabana ou Laranjeiras. embora da Terra do Sol. caixões de cigarras secas que as suas admiradoras. do Amazonas ao Prata. Quando bem moço. mas não da beleza que fere as mulheres. Augusto de Lima. possui hoje a imaterial da idade madura. Um outro meu amigo.É a primeira vez que faço o que nós brasileiros convencionamos chamar conferência literária. atrevia-me a freqüentar festas familiares e quase sempre delas saia fortemente despeitado com os oradores dos brindes de aniversário. no tocante a elas. esta não viu no auditório um só homem. Na forma que nós o naturalizamos é um gênero de literatura fácil e ao mesmo tempo difícil e isto porque ele não só exige de quem o cultiva saber nas letras. o discurso nunca foi o meu forte e desde bem cedo me convenci disso. faz conferências com sucesso. a esta parte atrapalhado para guardar em casa. capitais e indispensáveis para nele se obter um bom resultado. de alto a baixo. capricho no vestuário e . O auditório de suas conferências é monopolizado pelas moças e senhoras. a segunda série de qualidades do bom conferencista. Pede tal gênero ao expositor desembaraço e graça distinção de pessoa. belo "diseur" de sólidas conferências. de casamento ou mesmo com aquele eloqüente conviva que erguera solenemente sua taça (era um simples copo. por este ou por aquele. a que acima aludi. Estão bem a ver que nunca quis fazer uma ou mais conferências. Explico-me. sempre que. pelo menos no Rio de Janeiro. as conferências literárias. pela respectiva esposa. são. entretanto. E esta é a qualidade fundamental para se fazer uma excelente conferência. em uma das vezes. Em Anatole. mas. só e cinicamente. em . palestras ou conferências. Sabem o que lhe tem acontecido? Olegário Mariano vê-se de tempos. de batizado. Tudo eram moças e senhoras. não por orgulho nem por pretender ser mais profundo do que os meus confrades que as fazem. É verdade que o Sr.

uma única vez na sua existência. Certas delicadezas de sofrer me acobardam mais diante dela do que os calabouços da ilha das Cobras. que é o grande Camões. é através de artigo ou de carta. mas. Tenho. de vós para vós mesmos. haveis de formular intimamente. porque estou encerrando o que prontamente se chama carreira literária. entretanto. diretamente ao público.que fica um pouco acima do jogo de prendas e muito abaixo de um step qualquer. com um soneto ou um artigo. perguntas como estas: para que serve "isto"? por que se honram os homens que fazem essas coisas. e uma rebeldia. que. mais de quatorze na rua. arroubos outros e tropos de toda sorte. antigamente tão bem catalogados pela defunta retórica. a minha adolescência vaidosa tentava explicar por que razão a minha relativa superioridade sobre tais oradores não permitia fazer os brilharetes de eloqüência que eles faziam. mais do que outros motivos. anotando anedotas da vida de grandes homens que não conseguiram falar. ao topardes. uma manifestação de cansaço. da minha parte contra ela. . quando esquartejavam esse nobre mártir dos gramáticos e professores de português de todos os tempos. No presente caso. através de fórmulas de polidez. naqueles tempos. nunca fui homem de sociedade: sou um bicho-do-mato. nem doméstico-festivo. conversando com pessoas de todas as condições e classes. por ter pisado em terras de iniciativa e de audácia. nem parlamentar. animando-me a falar-vos. ainda sentia medo da conferência porque há nela um elemento que a relaciona com o discurso. foi este pavor do auditório que me fez até hoje fugir às conferências. conforme me hão dito confrades autorizados. sobre este ou aquele assunto. como já vos disse. É. quando o censor é educado. tanto mais que conferência literária não é bem discurso. e Gomes de Sousa. este gênero de literatura e uma arte de sociedade. onde a desaprovação vem filtrada. e só a título de amenidade pode ser explicável que aqui viesse aparecer. Embora convencido disso.geral) ao belo sexo. qualidades que este próspero município de São Paulo vai me emprestar por instantes. o maior geômetra brasileiro. um artigo. e eu. a crítica fica longe e se ela se manifesta. nem judiciário. nem mesmo mitingueiro. Muitos mais grandes homens tinha eu a meu lado e. as mais das vezes. as soberbas metáforas de Rui Barbosa. cônscio da minha obscuridade e a pesar da minha natural timidez. enfim. era outro. é a palestra aliteratada o mais proveitoso gênero de literatura que se possa cultivar no Brasil. me orgulhava. não vem ao caso. Quando se publica um livro. Quase com lágrimas. um esto de impaciência mal sopitado. me põe sempre canhestro quando sou obrigado a mergulhar no seu seio. um cochicho. quando. despretensiosa. Afinal. a primeira que faço e talvez seja a última. quando se fala. para mim. o menor sinal de reprovação do auditório desnorteia quem expõe e se atreveu a amolar pessoas de boa vontade e que tem mais que fazer do que ouvir uma xaropada qualquer. mas. Tudo isto. os quais tanto assustavam os nossos avós. Procurava então desculpar essa minha incapacidade para orador de sobremesa. aliás inocente. Muitas vezes todos vós que me ouvis. em um jornal ou em uma revista. sem o qual ambos não teriam existência: é o auditório. não tenham medo. quando não é o de também supor-se um verdadeiro gênio. era menino e é próprio de menino não achar grande diferença entre um simples mortal e um grande homem. Tem sido para mim desvantajoso esse proceder. todos os temores. perante qualquer auditório. se as suas vidas não são cheias de torpes episódios. serei breve. . desde já vos aviso. certamente fui levado a isto. Newton era um deles. com isso. que dispensa os estos demostênicos. e a muito custo. das vinte e quatro horas do dia. pois. são. Venço agora. em uma revista ou num jornal. É antes uma digressão leve e amável. apesar de ser um sujeito sociável e que passo.

e jornalecos que nasciam. em conjunto. ou tão-somente a Literatura. e nos esquecemos do inventor da utilíssima máquina de costura? em que pode a Literatura. . minhas senhoras e meus senhores. os abstratores de quinta-essência. para os filósofos. relaxados e distraídos. não deixava de ser também um grande poeta. há cerca de vinte anos. Como os senhores sabem perfeitamente. as de verdadeiros vagabundos? como é que todos lhes guardam os nomes e muitos se honram com a sua amizade? como é que nós os cercamos de honrarias. para essa multidão de senhores sombrios. contribuir para a felicidade de um povo. ou a Arte. constituem em súmula o resumo do problema da importância e do destino da Literatura que se contém no da Arte em geral. com o assunto da indicação. Deixo de citar muitas. me pus juvenilmente a escrever para o público. percebido pelos sentidos e tem por destino deleitar e excitar este ou aquele desejo nosso.o fundador dessa absconsa ciência foi o filósofo alemão Baumgarten. Em redor dele. porque uma parte dessa célebre rua. um determinado critério do que seja Belo. eram lidos e morriam na rua do Ouvidor. que fogem das recepções e dos chás dançantes. há uma que pretende ser a da teoria geral da Arte. e de que. quando a tradicional clareza dos franceses é fascinada pela proverbial névoa germânica. me sirvo aqui. para resolvê-lo. tendo cada uma delas. Essas definições de arte. de uma nação. mas. como todos vós sabeis. entre as muitas ciências ocultas e destinadas a iniciados que ultimamente tem surgido. do que seja Beleza. Às vezes. de estátuas. nas proximidades do velho Mercado. e os franceses mais do que aqueles. sugerem logo a interrogação: o que é a Beleza? Eis aí uma pergunta que às senhoras e às senhoritas. sendo que esta é o perfeito ou o absoluto. para não dizer sociológico. Segundo Tolstoi. por estarem muito familiarizadas. os estetas profundos que doutrinam sobre o Amor e o Belo sem nunca terem amado. enfim. entre as quais a de Hegel. mais nevoentamente. mais rebarbativamente. enfim? São perguntas naturais e espontâneas que não há um homem que as não tenha feito no seu fôro íntimo e que eu mesmo as fiz. de Guyau. para não me tornar fastidioso. de Brunetière e outros. meus senhores e senhoras. que é muito interessante. explica de seu modo o que seja Beleza e cada um deles o faz mais incompreensivelmente. não em toda ela. Cada um desses doutos. com o ser grande filósofo. quando. se algum dos ouvintes quiser ter o trabalho de ler muitas delas. aquela gabada qualidade gaulesa capricha em se fazer densa. Os alemães mais do que os ingleses. que a definia como tendo por objeto o conhecimento da Beleza. em revistas. como os de Taine. O debate a esse respeito não está encerrado e nunca ficará encerrado enquanto não concordarem os sábios e as autoridades no assunto que o fenômeno artístico é um fenômeno social e o da Arte é social. da humanidade. isto acontece e a literatura e os literatos ficam valorizados no seio da finança cautelosa. Platão que. na beleza. às vezes. na sua sólida e acessível obra .O que é a arte? . em virtude de não tê-los à mão. Muitos.entretanto. com mais ou menos liberdade. mas que. mais se ocupa em coisas sérias que dizem respeito ao nosso estômago. em que se inclui a Literatura. porque. desprezando tais caprichos literários. para toda essa gente livresca constitui tal pergunta objeto de apaixonadas discussões que. não admitia artistas do verso na sua República ideal. baixam até à troca de soezes insultos. pode procurá-las no livro de Tolstoi que citei. para exaltá-la. tanto mais que estou longe dos meus livros e dos meus apontamentos. no famoso Hotel do Minho. parecerá ociosa. enquanto a verdadeira Beleza foge deles com a velocidade do aeroplano. a menos que eles se traduzam em fartos ágapes. segundo Tolstoi. muito se há debatido e as mais contrárias teorias tem sido construídas. para condenar a Arte. de bustos. sociólogos e doutrinários de toda a sorte têm-no discutido. Filósofos e moralistas. Tais perguntas. outros. como esta. por sua vez. Uma porção de definições da ciência estética se baseia.

é a mais interessante parte dele. fetiches de amor. vem a conhecer uma velha sórdida. É a substância da obra. mas intrínseco. há muito da alma e dos sonhos dos que os levam a penhor. para lançar a sua obra generosa que fará a felicidade de muitos. profundo e autorizado. talvez. hoje universal .. É. É um crime. de ritmo vocabular. para a plena realização de sua obra? Napoleão não foi um deles e. é honesto. para responder à pergunta que angustia os filósofos e que a metade do gênero humano. ensopadas de ternuras de mãe e afetos de irmãs.. em outras palavras. diretamente ou indiretamente. é inteligente. então? Só matando-a. no encanto plástico. mas. jornais e revistas. Sendo assim. sabendo perfeitamente que os objetos serão resgatados. de um mês. Não é um caráter extrínseco da obra. para Taine.Crime e Castigo. de correção gramatical. de obter unidade na variedade. como ele. porque.pergunta ele de si para si . ele não o tem. que fale do problema angustioso do nosso destino em face do Infinito e do Mistério que nos cerca. Relíquias de família. a fim de esclarecer esse pensamento. de estilo. A Beleza. a importância da obra literária que se quer bela sem desprezar os atributos externos de perfeição de forma. por meio de livros. Trata-se de um estudante que curte as maiores misérias em São Petersburgo. indo em transação à casa da tal velha. de jogo e equilíbrio das partes em vista de um fim. mas como se apoderar dele? Furtá-lo? Não podia porque a imunda agiota não arredava o pé da pocilga de seus imundíssimos negócios.. precisa dinheiro. em geral. Não os seguirei nas suas nebulosidades de procurarei um autor claro. um livro famoso. é a manifestação. na proporção e harmonia das partes. não são as suas aparências. tudo ela recebe. Obrigado pela sua vida miserável. por meio dos elementos artísticos e literários. Precisa dinheiro para estudar. É bom. tanto assim que o sacodem idéias para acabar com as misérias dos homens. dizia eu.todos os benfeitores da humanidade e os seus grandes homens em geral. a ignóbil onzenária possui naturalmente o dinheiro de que ele precisa para realizar.que deveis conhecer. neles. Um dia. A descoberta fere-o profundamente. senão a de todo o gênero humano. e aluda às questões de nossa conduta na vida. não praticaram ou não autorizaram a prática de crimes. Lembrem-se bem que se trata de miséria russa e de um estudante russo. enriquecidos de beijos de noivas e de amantes. no fim de uma quinzena e. ela já não está na forma.mais densa ainda do que. o parecer de Brunetière. a neblina germânica. O estudante chama-se Raskolnikoff. por muito favor. como querem os helenizantes de última hora e dentro de cuja concepção muitas vezes não cabem as grandes obras modernas e. não suspeita até que possa ser formulada. Como obtê-lo. perante o qual aquele pouco vale. As que passa não o fazem sofrer tanto. uma tal importância. deve residir na exteriorização de um certo e determinado pensamento de interesse humano. Isto leva-o a meditar teimosamente sobre os erros da nossa organização social. Como há de ser? Eis o problema. sem alma e sem piedade. compreende melhor as dos outros. por sofrê-las. Raskolnikoff. do caráter essencial de uma idéia mais completamente do que ela se acha expressa nos fatos reais. tantos outros? . que emprestava níqueis sobre objetos de pequeno valor intrínseco. cobrando juros despropositados. para transmitir as suas idéias aos outros. algumas antigas. mesmo.. mas . de Dostoiewsky . percebe que ela tem na gaveta uma grossa quantia em notas de banco. Portanto. dando miseráveis vinténs para recebê-los triplicados. A velha onzenária não tem o mínimo remorso de explorar a miséria dos que a procuram. Tomo como exemplo. Mas. segundo a opinião geral.

mas poucos se afirmam com aptidões para alinhavar o Rocambole. resumida e palidamente. Está na manifestação sem auxílio dos processos habituais do romance. Depois de consumado o crime. Quer o castigo. mais do que isso. a literatura salutar tem o poder de fazê-lo. com auxílio de sua técnica. só como idéia. de concorrer para o estabelecimento de uma harmonia entre eles. nem mesmo quando é perpetrado no mais ínfimo e repugnante dos nossos semelhantes e tem por destino facilitar a execução de um nobre ideal. segundo a minha humilde opinião. e ele conclui que. a obra do grande escritor russo. a qual. não há nada de comum com o que os escritores mais ou menos helenizantes chamam belo. em face dele e dos augustos destinos da humanidade. e pensado no assunto. Insisto neste ponto porque ele me . Toda a gente se julga capaz de escrever o D. É preciso que esse argumento se transforme em sentimento. executado que seja o crime. mas os pretensiosos dizem logo: "Isto! Também eu fazia!" Tal fato se dá mais comumente com as grandes obras de que com as medíocres. o Robinson.Ocorrem raciocínios dessa natureza a Raskolnikoff. etc. portanto. porém. foi escrever "a história". o Crainquebille. aparentemente mais diferentes. tinha. Mata-a. pois nem dinheiro tivera para comprar outra arma mais própria e capaz. dizem uns. como este. É verificado por todos nós que quando acabamos de ler um livro verdadeiramente artístico. Estes são os modestos. Passemos além: mais do que nenhuma outra arte.generoso e alto. Quixote. que entrava quando ele acabava de perpetrar o assassínio. direito a matar aquela vilíssima velha. O testemunho da consciência o persegue sempre e Raskolnikoff se torna. É por aí. possuidor de um ideal . a ela e também à irmã.não é ele mesmo. Além.pergunto eu. torná-lo assimilável à memória. que devemos orientar a nossa atividade literária e não nos ideais arcaicos e mortos. se assim é.. Mata a ambas da forma mais cruel e horrorosa que se pode imaginar. e a arte. convencemo-nos de que já havíamos sentido a sensação que o outro nos transmitiu. tendo deixado apagar-se-lhe na consciência todos os nobres sentimentos humanos. tem por hábito atribuir à Grécia. as Viagens de Gulliver. tem fraco poder sobre a nossa conduta. de transformar a idéia. que a nossa poesia. como semelhantes no sofrimento da imensa dor de serem humanos. em sentimento. e ainda mais no ressumar de toda a obra que quem o pratica. mais fortemente possuindo essa capacidade de sugerir em nós o sentimento que agitou o autor ou que ele simplesmente descreve. não pode sentir-se bem na vida sem o sofrer. O que não soubemos. embora obedecendo a generalizações aparentemente verdadeiras. variável e inexato. porque as suas relações com o resto da humanidade já são outras e ele se sente perfeitamente fora da comunhão humana. a arte literária se apresenta com um verdadeiro -poder de contágio que a faz facilmente passar de simples capricho individual. logo se sente outro . é em vão que procura fugir dele. por elas. orientada para um ideal imenso em que se soldem as almas. como que se havia posto fora da espécie e se feito menos que um verme asqueroso. mas. com o furor homicida de bandido consumado. cujos laços ele mesmo rompera. tanto velha. a regra. do caráter saliente da idéia. sendo capaz. o remorso dele mesmo. dos cantos dos Lusíadas. Mas esta pura idéia. como nova. Não há lógica nem rigor de raciocínio que justifiquem perante a nossa consciência o assassinato. com auxílio dos seus recursos próprios. por assim dizer. em força de ligação entre os homens. o preceito. o Nick Carter ou outro qualquer romance-folhetim. Mata as duas mulheres com uma embotada machadinha de rachar lenha que encontrara no quintal do casarão da sua residência. incorporá-lo ao leitor. assim expressa sob essa forma seca que os antigos chamavam de argumentos e os nossos Camões escolares dessa forma ainda chamam aos resumos. em prosa ou verso. reveladas. Nisso tudo que é. e. em traço de união. onde está a beleza dessa estranha obra? .

critica muito justamente semelhante opinião. para nós. e outros fatores mais.colchas de retalhos. Reinach lia. o prazer. Não é este o único detalhe. um drama lírico de Saint-Saens . Houve escândalo. insuficientes talvez para recompô-la como foi em vida. pouco sabemos de arqueologia antiga. os brasileiros. segundo Max Collignon. e o que nos tinha a dar já nos deu e vive em nós inconscientemente. Em geral. O meu simpático missivista (sic) pode ver por aí como a sua Grécia é. entre muitos. já tive ocasião de observar isto. pois se tratava deles no drama. esse ideal não podia ser o nosso. Ainda mais: "Se dissermos que o fim de uma certa atividade humana é unicamente o prazer. Para isto fazer. vivo no fundo de nós mesmos. hoje. com as seguintes palavras: "Quando se quer definir todo um ramo de atividade humana. na dependência de suas causas e efeitos. as obras esculturais não podiam ser pintadas. Tolstoi. com as descobertas modernas que alargaram o mundo e a consciência do homem. instável. de cinqüenta em cinqüenta anos. Teodoro Reinach. para procurar a beleza em uma carcaça cujos ossos já se fazem pó. vinha dizer que Safo não era nada disso que nós dela pensamos. se representou na Ópera. aqui e ali. tanto assim que. mas.apaixona. pode concluir. Em matéria de escultura grega. as idéias que a animavam. que nada autoriza a admitirmos um certo e exato ideal de arte helênica. entretanto. no dizer de Plutarco. o que o diálogo de Platão é em relação ao homem. Atemo-nos a ela. P. o deleite dos sentidos. fazíamos da Grécia uma idéia nova. Sabem os leitores (sic) como vinham vestidos os personagens? Sabem? Com o que nós chamamos nas casas das nossas famílias pobres . o resultado das suas investigações sobre Safo.Djanira. Esta modificação no trajar tradicional dos heróis gregos. que era assim como Mme. no livro de que me venho servindo e a cujo título mais atrás aludi. tenho combatido esse ideal grego que anda por aí. Tinha razão. com o acúmulo de idéias que trouxe o tempo. podia eu. nas seguintes palavras: "Sainte-Beuve disse algures que. É que eles tinham visto os mármores gregos lavados pelas chuvas. está admitido que as frisas do Pártenon eram coloridas. obedecia a injunções das últimas descobertas arqueológicas. Ela não nos pode mais falar. de acordo com os preceitos gregos. Devia-se interpretar a sua linguagem misturada de fogo. no Temps. Creio que. com o muito pouco que sei sobre ela. e não exclusivamente nas suas relações com os prazeres que ela nos proporciona. Lalo. quem curiosamente os segue. e só . epilogar bastamente. a sua alma. é necessário procurar-lhe o seu sentido e o seu alcance. que deve entender bem dessas coisas de Grécia. e totalmente incapazes para nos mostrar ela viva. sempre que posso. em relação à mulher. Li isto em um folhetim do Sr. e nem lhe acompanhamos os estudos feitos nessa língua. segundo os seus pensamentos religiosos. para ser coisa muito diversa. É suficiente lembrar que era regra admitida pelos artistas da Renascença que. é primeiramente indispensável estudar tal atividade em si mesma. aquele que está na nossa consciência. A nossa Grécia varia muito e o que nos resta dela são ossos descarnados. de Sevigné. pela mesma época em que o Sr. porque. como sáfica séria.o que não é verdade . Ainda há bem pouco o Sr. talvez nem mesmo balbuciar. para mostrar de que maneira podem variar as nossas idéias sobre a velha Grécia." Mesmo que a Grécia . na sessão das cinco Academias de França reunidas. os sonhos que queria ver realizados na Terra. assim variável e fugidia. Em outra parte.tivesse por ideal de arte realizar unicamente a beleza plástica. estamos na infância. de Paris. é impedir que realizemos o nosso ideal. com rápidas leituras. o destino da Literatura e da Arte deixou de ser unicamente a beleza. nós.

teve. dispondo de um meio quase perfeito de comunicação. para o seu acréscimo de inteligência e de felicidade.A Arte sob o ponto de vista sociológico . mas que preenchem perfeitamente o fim da nutrição. em virtude mesmo do seu poder de contágio." Mais do que qualquer outra atividade espiritual da nossa espécie. as palavras desta formosa divisa: "Ama tudo para tudo compreender. Ela ergue o homem de sua vida pessoal à vida universal. Portanto. a consciência mais profunda da existência. incluindo nela a literatura. quanto mais perfeito for esse poder de associação. esteta. a Arte. ela explicou e explica a dor dos humildes aos poderosos e as angustiosas dúvidas destes. tudo compreender para tudo perdoar. concorre. e evoca em nós ao mesmo tempo. Quer dizer: o homem. portanto. será ela evidentemente falsa. as almas dos homens dos mais desencontrados nascimentos. mas também ainda pelos sentimentos profundamente humanos que exprime". ela faz compreender. especialmente a Literatura. mais intensa será a ligação entre os homens. mais diferentes. de sua pátria. mais longe que pode. Com efeito. de Jean Marie Guyau. àqueles. continua Guyau "e a expressão da vida refletida e consciente. tem e terá um grande destino na nossa triste Humanidade. tão profundo quanto claro . moralista e poeta. num curioso livro. ganhando com isso a nossa inteligência. das abstrações da Filosofia e das inacessíveis revelações da Fé. que não são nutritivos. que não vêem na alimentação outro alcance que não seja o da satisfação agradável que lhes proporciona a ingestão de alimentos. e há outros que não são lá muito saborosos. digo agora eu. as verdades que interessavam e interessam à perfeição da nossa sociedade. É o que se dá com a definição de Arte assim concebida. e mais nos amaremos mutuamente. de sua raça. meus senhores. não só pela sua participação nas idéias e crenças gerais." Há muitos que são agradáveis. sob a forma de sentimentos. assim trabalhando. tendo o poder de transmitir sentimentos e idéias. da família. ela é. e. por exemplo. que é o de conservar a vida do nosso corpo. antes são prejudiciais à economia do nosso organismo. é imitar os homens de uma moralidade primitiva. Os homens só dominam os outros animais e conseguem em seu proveito ir captando as forças naturais porque são inteligentes. das mais diversas épocas. o destino de qualquer arte no prazer que ela nos proporciona. no fim de contas. São ainda dele. Toda a gente compreende que a satisfação do nosso paladar não pode servir de base à nossa definição de mérito dos nossos alimentos. são dele. das nações e das raças. os sentimentos mais elevados. graças à escrita e à tradição oral que guardam as cogitações e conquistas mentais delas e as ligam às subseqüentes. Ela sempre fez baixar das altas regiões. quanto mais compreendermos os outros que nos parecem. mais do que ela nenhum outro qualquer meio de comunicação entre os homens. que é a linguagem. os pensamentos mais sublimes. o genial filósofo. Ver o fim. como os selvagens. A arte. das mais divergentes . não só a coletiva como a individual. meus senhores e minhas senhoras. até. examinando-se as questões de nutrição. não fica adstrito aos preceitos e preconceitos de seu tempo.ensinou "que beleza não é uma coisa exterior ao objeto: que ela não pode ser admitida como uma excrescência parasítica na obra de arte. mesmo. morto prematuramente aos trinta e três anos. trabalha pela união da espécie. para torná-las sensíveis a todos. Guyau. umas às outras. e o progresso e o desenvolvimento desta decorrem do fato de sermos nós animais sociáveis. das gerações passadas.sobre ele fizermos repousar a nossa definição. A sua verdadeira força é a inteligência. à primeira vista. com a qual nos é permitido somar e multiplicar a força de pensamento do indivíduo. ninguém se atreverá a afirmar que o prazer de comer é a função principal da nutrição. por intermédio da Arte. para alcançar a vida total do Universo e incorporar a sua vida na do Mundo. a verdadeira floração da planta em que aparece A arte. de seu nascimento. ele vai além disso. a que me dediquei e com que me casei.

estas palavras que ouso fazê-las minhas: "Porventura sei eu se viverei amanhã. empreendo. conquanto a opinião externada em contrário cubra-nos de ridículo. cercada pelo Desconhecido.raças. a Terra. o heroísmo dos homens de letras. ela se apieda tanto do criminoso. a quem não me canso de citar. nós nos chegaremos a amar mais perfeitamente na superfície do planeta que rola pelos espaços sem fim. possam elas na sua imensa beleza de força e de esperança atenuar o mau efeito que vos possa ter causado as minhas palavras desenxavidas. dizia Carlyle. ela. Todavia executo. umas às outras. pede que todos os que manejam uma pena não esmoreçam no propósito de pregar esse ideal. não cansada de ligar as nossas almas. Deus e o Mistério que nos cerca e para o qual abre perspectivas infinitas de sonhos e de altos desejos. explicando-lhes os defeitos. Conquanto não se saiba quando ele será vencedor. tendo diante dos olhos o exemplo de seus antecessores. O meu pensamento vai adiante dela. 58-59. E o destino da Literatura é tornar sensível. por aí. e não é à toa que Dante diz que ele move o Céu e a alta Estrela. estende-se ao futuro. de chufas e baldões. Eu consumo a minha energia sem recear que este consumo seja uma perda estéril. A minha atividade excede em cada minuto o instante presente. contando que o futuro as resgatará . Que me importa o presente! No futuro é que está a. ao rio. seja como for. disse em uma de suas obras. Talvez isso faça que eu mereça perdão pelo aborrecimento que vos acabo de causar. e em todos os meus atos. e de justiça entre os homens e um sincero entendimento entre eles. Ela tende a obrigar a todos nós a nos tolerarmos e a nos compreendermos. Atualmente. A literatura é um sacerdócio. daqui e de acolá . em todos os meus pensamentos. Fazendo-nos assim tudo compreender. assimilável. Esta incerteza que me comprime de todos os lados equivale. por todos os lados. realçando-lhes as qualidades e zombando dos fúteis motivos que nos separam uns dos outros. se a minha mão poderá terminar esta linha que começo? A vida está. ns. O Amor sabe governar com sabedoria e acerto. à flor. ao mar e à estrela inacessível. mas uma coisa garanto-vos: pronunciei-as com toda a sinceridade e com toda a honestidade de pensar. ainda nos liga à árvore. nesta hora de tristes apreensões para o mundo inteiro. trabalho. a Literatura reforça o nosso natural sentimento de solidariedade com os nossos semelhantes. imponho-me privações. a uma certeza e torna possível a minha liberdade .é o fundamento da moral especulativa com todos os risos. de prepara o mundo. não devemos deixar de pregar. com a minha atividade. outubro e novembro de 1921. LIVROS Recebo-os às pencas. eu pressuponho este futuro com o qual nada me autoriza a contar. e. ela nos faz compreender o Universo. Revista Sousa Cruz. dispõe do futuro. porque o meu poder não é equivalente a nenhuma quantidade determinada. para que ela cumpra ainda uma vez a sua missão quase divina. Possam estas palavras de grande fé. entrando no segredo das vidas e das coisas. existência dos verdadeiros homens. o ideal de fraternidade. Parece-me que sou senhor do infinito. vulgar esse grande ideal de poucos a todos. quanto de Napoleão prisioneiro ou de Maria Antonieta subindo à guilhotina.e sigo o meu caminho. É que eu não soube dizer com clareza e brilho o que pretendi. Guyau. do vagabundo. quanto mais trabalho mais espero. para mim. ao cão. se viverei mais uma hora.

no Recife. de forma que não é uma leitura meditada. Acreditava-o um literato janota. que ele não leve a mal uns reparos que vou fazer sobre um seu recente artigo no O País intitulado .coisa rara em mulher . Falou-se muito naturalmente e o homem que eu pensava ter todo o escrúpulo em trocar quatro palavras comigo.Chico Ângelo. Débora do Rego Monteiro. Débora requeria.. e o notável romancista que aprecio e admiro. há bastante tempo. é tumultuária e irregular." . e. pareceu-me querer que me demorasse com ele a conversar. militantes e honorários. Careta. isto é. se não é afanosa. Encantou-me pela sua simplicidade. e tinha por título . porque seria prova de inépcia imaginar que as centenas de milhares de volumes das suas obras foram exclusivamente adquiridas pelos literatos aprendizes. Espero. que não há como os homens conversarem. mas foi uma leitura cheia de simpatia e boa vontade. depois de tê-los lido e refletido sobre o que eles dizem. Diz o autor da Paixão de Maria do Céu: "A aura gloriosa e nos nossos tempos incomparável de Anatole France servirá grandemente aos historiadores futuros para comporem uma opinião judiciosa sobre o bom gosto das élites sociais nossas contemporâneas e digo sociais. A vida tem dessas coisas.recebi o romance de meu amigo Ranulfo Prata Dentro da Vida . e a vou levando assim como Deus quer. para se entenderem.coisa que muito me honra. Carlos Malheiro (eu queria por o s) há dias. Há mais de um mês .vejam só! . surgiu-me como a pessoa mais simples deste mundo. justamente. Jackson de Figueiredo. Há dias veio ter-me às mãos um volumezito editado em Pernambuco.e pela maravilhosa meiguice em tratar os personagens e a paisagem. quer fosse nesta ou naquela revista. mas quando se lembrar que a vida tem terríveis imperativos. 12-8-1922.da qual ainda não pude falar como ela merece. Trata-se de contos e curioso pus-me a lê-lo com açodamento. por apresentação de João Luso. A minha vida. mas fi-lo de bonde.À margem do último livro de Anatole France. Carlos M. Dias pode ficar certo de que a idéia que eu fazia dele era muito diferente. uma obra sua recente . Tive a mais bela impressão e o Sr. em plena via pública. LITERATURA MILITANTE Conheci O Sr.e ainda não escrevi sobre ele uma linha. diz o povo. desses das montras para uso das damas alambicadas. A ilustre autora há de desculpar-me isso. Agradecido. devido à falta de método na minha vida. Infelizmente não posso fazer isso com a presteza que a ansiedade dos autores pede.. Era assinado por uma senhora: D. mas também o meu intuito era noticiá-los honestamente. Tenho também. de outro amigo.Pascal e a Inquietação moderna .O meu desejo era dar notícia deles. como a obra de D. pela despretensão no escrever da autora . Entretanto os livros chovem sobre mim . O que me feriu logo nele foi o primeiro período. mas com a qual me vejo atrapalhado.

e a solidariedade humana. A velha terra lusa tem um grande passado. enquanto as portuguesas limitavam-se às preocupações da forma. pois já tenho publicado livros. um português ou um italiano se podem entender e se podem amar. se não visam a propaganda de um credo social. empregou-o. Ele mostrou que desde muito as letras francesas se ocuparam com o debate das questões da época. creio que nas Prosas Bárbaras. mas. precisamos nos compreender uns aos outros. tem por mira um escopo sociológico. Hoje. Eles nada têm de contemplativos. na ordem social econômica. Isto em geral dentro daquele preceito de Guyau que achava na obra de arte o destino de revelar umas almas às outras. à proporção que essas feras desaparecem. E é dele que a nossa literatura deve tratar. Antero de Figueiredo não mereciam esse "engagement" que estamos tendo por eles é que eles não mereciam. Malheiro Dias não sei por que despreza os aprendizes literatos. Júlio Dantas ou o Sr. A obra de arte. devemos mostrar nas nossas obras que um negro. de restabelecer entre elas uma ligação necessária ao mútuo entendimento dos homens. Nós não temos nenhum. no seu próprio destino. O Brasil é mais complexo. O Eça. Creio que temo não amar. interessa o destino da humanidade. A começar por Anatole France. não foi pela primeira vez empregado por mim. se bem me julgando aprendiz. os Bergeret. . Não sei como o Sr. às obras de arte que têm semelhante escopo. Pode-se lê-lo lá e lá o encontrei. Malheiro Dias que a grande força da humanidade é a solidariedade. e mais alguns livros do grande mestre francês. Brunetière diz em um seu estudo sobre a literatura que ela tem por fim interessar.Pelo que aí diz o Sr. militantes e honorários.militantes. dos casos sentimentais e amorosos e da idealização da natureza Aquelas eram . de plásticos. O termo "militante" de que tenho usado e abusado. mas não honorário. ou quase todas as suas obras. Como eu sempre falei em literatura militante. os homens. quando comparou o espírito da literatura francesa com o da portuguesa. para bem suportarmos o fardo da vida e dos nossos destinos. Um doido que andou na moda e cujo nome não cito. mais do que nenhuma outra coisa. Nós nos precisamos ligar. pela virtude da forma. tigres e jaguares. do que Portugal. de incolores. enquanto estas eram contemplativas e de paixão. por quem não cesso de proclamar a minha admiração. Em vez de estarmos aí a cantar cavalheiros de fidalguia suspeita e damas de uma aristocracia de armazém por atacado. Eu chamo e tenho chamado de militantes. cheio dessa concepção. Quando disse que o Sr. quando as religiões estão mortas ou por morrer. só temos futuro. à mão. disse Taine. tendo por ideal de arte essa concepção. no Brasil. Todas. senão dessa maneira. o estímulo para elas é a arte. Militam. os bois e os carneiros conquistam o mundo com a sua solidariedade entre eles. venho para as letras disposto a reforçar esse sentimento com as minhas pobres e modestas obras. da maneira literária. precisamos dizer as qualidades que cada um de nós tem. a influência que vão tendo. no interesse comum de todos nós. um índio. Eles estão aí. Eu me atrevo a lembrar ao Sr. tem por fim dizer o que os simples fatos não dizem. a grande literatura tem sido militante. Malheiro Dias poderá classificar a Ilha dos Pingüins. para nós fazermos grandes obras de arte. tudo o que pertence ao destino de todos nós. porque moram em Botafogo ou Laranjeiras. proclamou a sua grande admiração pelos leões. tomei o pião na unha. eu como literato aprendiz que sou. Sendo assim.

da Pátria. e sempre fascinado por uma Grécia que talvez não seja a que existiu mas. Por mais que não queiram. em um século deste. sociais. poderia ter apresentado muita medida útil e original. fazendo todas as citações de memória. Glorioso. por fás e por nefas. tendo conseguido. com as suas chinesices de estilo. as suas obras.. o Sr. talvez. religiosas. em um catolicismo singular e oportunista que. Tenho para mim que o Sr. Coelho Neto é daqueles a afirmar que Clotilde de Vaux foi uma rameira . eu também sou literato e o que toca a coisas de letras não me é indiferente. das bases das nossas instituições. pintar com a palavra escrita. problema que interessava todas as inteligências de quaisquer naturezas que fossem. e o prestígio do seu nome. Coelho Neto. um contemplativo. O Sr. O mundo é hoje mais rico e mais complexo.C. de renovação latente. com o talento que tem. Coelho Neto ficou sendo unicamente um plástico. em um século que levou a sua análise até os fundamentos da geometria. não deu para o estudo das soluções apresentadas um pouco do seu grande talento. quando uma outra sua obra recebe gabos da mais alta autoridade eclesiástica do Rio de Janeiro. LITERATURA E POLÍTICA Conforme resolveram os chefes políticos do Maranhão. a simpatia ativa e incansável de gregos e troianos . pedindo que não vejam nestas considerações a mínima hostilidade ao conhecido escritor. Se ele estivesse ao par dos males do seu tempo. deram-lhe.. em religião.. Em um século de crítica social. A coisa tem levantado tanta celeuma nos arraiais literários. morais. uma cadeira de deputado pelo seu Estado natal. Vamos ao que serve. o faz orgulhar-se..É de Fouillée a segunda parte do período. para chegar aos seus elementos primordiais de superstições grosseiras e coações sem justificações nos dias de hoje. fez "forfait". que viu pouco a pouco desmontar-se o mecanismo do Estado. As cogitações políticas. magnetizado pelo Flaubert da Mme. que surgiu para as letras nas últimas décadas do século XIX. O Sr. mesmo que fosse. quando é excomungado por um arcebispo do Chile (vide Magda) e exultar. é o que posso dizer sobre o que seja literatura militante. Não descubro razão para tanto barulho.B. O grande romancista.os políticos seus conterrâneos. não se impressionou com as mais absorventes preocupações contemporâneas que lhe estavam tão próximas. que me julgo obrigado a tratar do escandaloso acontecimento. mesmo ligeiramente. deputados federais por aquele Estado. era uma reforma social e moral. Neto não se deteve jamais em examinar esta trágica angústia do seu tempo. 7-9-1918. só nos deve interessar arqueologicamente. do seu século. querendo como os Goncourts. embora os seus projetos morressem nas . Isto é explicável muito facilmente para quem conhece. o nome do Sr. e muito justamente pelo seu poder verbal. durante duas legislaturas. ficaram-lhe inteiramente estranhas. por conta e risco deles. da Legislação. o Sr. Coelho Neto não foi incluído na lista dos que. Ligeiramente. Coelho Neto como literato-político. A. Bovary. e nelas descobre as suas tendências literárias e espirituais. devem ser aproximadamente sufragados nas urnas. Em tais anos. nem mesmo tratou de conhecer o positivismo que lhe podia abrir grandes horizontes.. cujo máximo problema mental. ficou num corriqueiro deismo ou. muito curiosamente.

morais e sociais. de uma literatura militante. sucessos externos e internos trouxeram ao nosso país. a fim de estabilizar a sua situação e o futuro de sua descendência. por sua vez. REFLEXÕES E CONTRADIÇÕES À MARGEM DE UM LIVRO De uns tempos a esta parte.contentava-se em converter o genro ambicioso. uma utopia ou ajudar a solapar a construção social que já encontrou balançando. porque o Sr. com o abalo que. do seu honesto trabalho e da grandeza da sua glória. Coelho Neto ficou sendo puramente contemplativa. porém. que um Fulgêncio ou um Marcelino tenham eles escolhido para substituí-lo. vergonha e orgulho de si mesmo. Até bem pouco. sem cogitações outras que não as da arte poética. Indo para a Câmara. com a mais sinistra amoralidade para também edificar. e a crueldade sem nome do espetáculo e a amplitude da inútil carnificina levaram inteligências honestas e desinteressadas a pensar mais maduramente sobre o mistério da nossa existência e o sentido dela. portanto. só dando um ar de sua graça para justificar votos de congratulações a Portugal. A Lanterna. Neto tem senso comum. Quem não quer ser lôbo não lhe veste a pele. no intuito de defender as suas cobiçadas fortunas.Deus sabe como! . não pôde ser o que um literato deve ser quando logra pisar em tais lugares: um semeador de idéias. consagrada no círculo dos grandes burgueses embotados pelo dinheiro. prosperaram ainda mais. essa gente superenriquecida . estilizante. cheia de preocupações políticas. em quem não repercutiram as ânsias de infinita justiça dos seus dias. Para os literatos. Mas. ele ficou sendo um qualquer Fulgêncio ou Marcelino. para os políticos. sobretudo a religião católica. esses gananciosos que simulam caridade e temor aos mandamentos da Santa Madre Igreja. usados atualmente. 18-1-1918. dizia. e eis os . onde não podia ser poético ao jeito do Sr. com a paisagem. mete-lhes medo e pedem auxílio à religião. resolveram apelar para a religião. empregando nos discursos vocábulos senis ou caducos. nada fez. isto foi uma decepção. em quem não encontrou eco nem revolta o clamor das vítimas da nossa brutalidade burguesa. os fartamente enriquecidos. Em anos como os que estão correndo. com o vocabulário. Muitas dessas inteligências voltaram um pouco ao catolicismo romano.pastas das comissões. O que vai acontecer. a literatura do Sr. que isto não bastava e muito pouco podia impedir que se avolumasse a sincera onda de revolta que crescia em todos os corações contra o atroz despotismo da riqueza e os miseráveis e torpes processos de enriquecimento. A última guerra foi-lhes favorável em dois sentidos: eles. o grande romancista sem estar saturado dos ideais da época. Neto tem talento. mediante o dote das filhas que tinham passado pelos colégios de irmãs de caridade. Viram. O deputado ficou sendo o romancista que só se preocupou com o estilo. fonte de consolação para os humilhados e oprimidos. manteve-se mudo. um batedor do futuro. Urbano Santos. feita de avidez de ganho. Fausto Ferraz. por isto ou por aquilo. na ordem econômica. mas que não fez do seu instrumento artístico um veículo de difusão das grandes idéias do tempo. indo para a Câmara. Não é de admirar. porque o Sr. onde também não podia ser político à guisa do Sr..

. etc. os que ele nos dá. do banco e da indústria. é a sua veemência apaixonada e. que o nosso interesse artístico ou a nossa angustiosa perquirição intelectual. Entre eles. Algumas vezes é proveitoso que o nosso exame e as nossas faculdades pensantes se dirijam e repousem no evidente. Perilo Gomes. já por ser escrito superiormente. já pela erudição que demonstra. em geral. a sua simplicidade no dizer e a sua total ausência de pedantismo. Já houve. para o desconhecido ou para o debatido. no intuito. de religião enfim.S.. nos quais o saber de detalhes e a pouca familiaridade com a língua tiram as indispensáveis qualidades de escritor de combate: a atração e a veemência. mas também a filhos e netos. pois. não devem tão-somente ser encaminhados para o obscuro. em substância. entre nós. senão de convencê-los. É. isso de lado. é dirigida aos que pensam. é a sua clareza. tem visado fins políticos. Ele tende à reforma da Constituição. forte. Há uma segunda parte que podia ser dispensada. o autor quis provar. ao menos de abalá-los no seu volterianismo ou agnosticismo. porém. no sentido mais alto da palavra. não é uma confissão. ele é um escritor para toda a gente. Entre nós. e a humanidade passou ou está passando por uma das mais duras privações de sua existência. no respeitado e no que está claro como água. não só no que toca a eles.Penso e Creio . para considerar somente o escritor e o pensador do Penso e Creio. é militante. Andava bem o catolicismo de Petrópolis necessitado de um espírito como esse que põe a serviço dele a sua fé sincera e o seu talento. uma obra política e o catolicismo de Petrópolis. o homem nunca deixou de ser um animal religioso e a religião é uma necessidade fundamental de sua natureza. Essa revivescência religiosa é muito natural. Aparece agora como uma brilhante revelação o Sr. que aduziu à parte principal de sua obra. até agora. com grande "élan" de paixão e soberbos toques de poesia. diversos moços. O seu livro . contentara-se com disfarces na violação dos . não é um ato de contrição de sua irreligiosidade passada. de férvida esperança no futuro. sobretudo. telefone ou teléfono. por todos os meios. Digo catolicismo de Petrópolis porque o Sr. Ao que me parece. cedendo a esse impulso que a crise guerreira acelerou. Perilo não se pode furtar em confessar que a sua obra não é de pura contemplação. claro. são jesuítas alemães ou italianos e irmãos leigos da Companhia.é deveras notável. sorrateiramente.. de mãos dadas ao inacismo. Seja com que fito for. cantando vitória e contentes porque tinham esmagado os adversários que lhes ameaçavam o pleno gozo e uso das fortunas. Deixemos. escondendo com pudor o seu real saber. sobressai por todos os títulos Jackson de Figueiredo. o pedantismo dos gramáticos que andou esterilizando a inteligência nacional com as transcendentes questões de saber se era necrotério ou necroteca. porque o que encanta nele é o escritor. etc. científica e teológica.magnatas do comércio. é o seu poder de expressão. aos condutores do pensamento nacional. se hão dedicado à apologética católica. de quem muito sinto andar em tal matéria afastado. Todo o livro não é ocupado somente com a parte apologética propriamente. com os artigos de sua lavra. já houve o pedantismo dos positivistas que aterrava toda a gente com a matemática. pacientemente. hoje há ou está aparecendo um outro: o pedantismo católico que se entrincheira atrás de São Tomás de Aquino e outros respeitáveis e sutis doutores da Igreja. os grandes acontecimentos da humanidade sempre se revestiram de aspecto de crença mística. Perilo Gomes não parece nada com esses senhores respeitáveis que hão de ser camareiros de S. Não há como a provação das dores profundas para nos impor indagações sobre as coisas do Além. De mais. pois nenhum parentesco tem com a primeira.

em matéria que muito pouco tenho meditado e muito menos pensado. que ela parte do mistério e acaba no mistério. Sem que nada me autorize a tal explicitamente. há muitas razões de crer em Deus e de obedecer à revelação da voz divina na nossa consciência. dos simples deístas. O culto à brasilidade que ele prega. aproveitando o momento de angústias que atravessamos. como: o casamento civil e o ensino oficial inteiramente leigo. quando afirma que a ciência não satisfaz. talvez com um pouco de farinha a mais. mas também à riqueza e às regras sociais vigentes. remotamente. já que se me oferece pretexto para fazê-las. de que a maioria dos homens eminentes em toda a sorte de atividades teóricas e práticas. me causa apreensões e. e nao é difícil ver nisso o desejo de riscar da carta de 24 de Fevereiro a separação do poder temporal do espiritual e suas conseqüências. mas as idéias estrangeiras de reivindicações sociais que são dirigidas contra os cresos de toda a ordem. baseada na nossa necessidade fundamental de Deus e impregnada do cesarismo romano. se ligam a elas algumas das suas afirmações. É minha desautorizada opinião. incorporando-as ao seu patrimônio. por parte da massa que nem sempre está com a razão .preceitos dela que interessam ao Catolicismo. pelos seus órgãos mais autorizados. Mas tal culto tende a excomungar. O Jeca deve continuar Jeca. e que. também conseqüência dela. o Sr. dai a aliança da jovem fortuna. nos dias atuais. só nos pode levar ao catolicismo. definindo de vez o meu humilde pensamento em face da agitação católico-nacionalista que está empolgando todos que no Brasil tem alguma responsabilidade mental. não pode deixar de revoltar um liberal como eu. No argumento. mesmo toleradas outras seitas. dos protestantes. mas sei bem que ela é uma criação social. de argumentos dos seus inimigos contra ela. é muito natural que voltem a ela. quer obter a vitória completa. não o estrangeiro. nasceu no islamismo ou na igreja grega voltaria para o catolicismo ou para o maometismo ou para a igreja ortodoxa? A resposta não se faz esperar: ele voltaria para a doutrina religiosa em que foi educado. sei bem disso tudo. Perilo. aliás muito antigo. Mas. e a recrudescência exaltada do sentimento de pátria. não só à religião. representada pelos improvisados ricaços de Petrópolis. por isto ou aquilo. é evidente que há em semelhante ato uma violência inqualificável contra a consciência individual. no Brasil. Dado que a maioria dos brasileiros seja verdadeiramente de católicos. dos religiosos de qualquer espécie. sei que ela tem sabido aproveitar as conquistas de toda a ordem obtidas por este ou aquele homem. está sempre a apelar para as tradições católicas de nossa terra. crê ou têm crido em Deus. como fato consumado. Por isso. Entretanto. O tal partido. como já disse. Perilo Gomes não trata dessas questões claramente. eu filio Penso e Creio à ação do partido que se esboça aí com o título de nacionalismo.coisa que. Estaria e estou de acordo com o Sr. Admiro muito a religião católica. o autor não faz entre eles a separação dos católicos. julgo não ser demais fazer as observações que acima ficam. Perilo. porém. se o convertido ou arrependido de irreligiosidade. e até aproveitou-se em seu favor. fora dela. decretada como oficial a Igreja Romana. em seu favor aqui. A Igreja quer aproveitar ao mesmo tempo a revivescência religiosa que a guerra trouxe. que a anima e a sustém no seu velho sonho de domínio universal. mas não Deus mesmo. é em afirmar ele que essa revelação de Deus em nós. ao se sentirem tocados pela graça divina. Não sei por quê! Para os que nasceram na religião católica e a abandonaram. mas. Estas reformas me parecem odiosas e sobremodo retrógradas. com a Igreja. no que não estou de acordo com o Sr. . é o apego à herança do passado de respeito. As religiões são expressões humanas de Deus. como ameaça. mas.

não me lembro onde. que não é preciso aqui mostrar de quanto é credora a humanidade ao catolicismo. É por isso que Macaulay diz. senão citaria integralmente esse famoso trecho do grande escritor inglês. como sendo patrimônio dele. como a França. Penso e Creio é luxuriante e há tanta riqueza de idéias nele que a gente se perde querendo escolher as que deseja discutir. A Convenção extinguiu-a nas colônias francesas. Esse serviço. especialmente Condorcet. Perilo. deve-se pela primeira vez. Há exemplos isolados de eclesiásticos que a combateram. Não fossem os filósofos do século XVIII. através de quase dois mil anos de existência. Guiraud. estava a tal ponto identificado que os seus filósofos mais eminentes. se tal tentou.Origines de la France Contemporaine).Augusto Comte. a Espanha e Portugal.nessa questão há um argumento em desfavor do papel social da Igreja moderna. entretanto. que ela instituindo o dogma da fraternidade humana matava a escravatura. talvez. sob a benéfica influência da Igreja. É fato. foi a de reconhecer-lhe. Não creio. onde. nessa questão do acabamento dessa odiosa instituição na Europa. e essa grande Convenção Francesa. a demonstrar que tem havido. tivesse verdadeira erudição pois não tenho nenhuma. durante o século XVII. mas nunca um ato solene da igreja que a condenasse. ela. quem conseguiu a vitória de extinguir semelhante infâmia. Taine . mesmo quando essa ambição desenfreada de dinheiro e de lucro se faça em troca da dignidade moral da pessoa humana. apesar dos Evangelhos. segundo tudo faz crer. dizia eu. a que o mundo antigo. conforme tudo leva a crer. dá a entender que ela não tem mais força para reprimir no coração dos seus fiéis a ganância. afinal. como diz o Sr. os Evangelhos tinham passado das mãos dos religiosos para a dos filósofos. senão a legalidade. já se esvaneceu ou vai se esvanecendo. e no final desaparecimento desta última forma de elementar trabalho humano. chamando-os ao bom caminho da paz e da concórdia. . que. desde o édito de Milão. e os filantropos ingleses. Entretanto. não foi um concílio muito ortodoxo. a cupidez. quem acabou com esta infame instituição. portanto. Seria certamente um capítulo de uma espécie de geologia religiosa em que. Perilo. no assunto. Mas. poderia tentar a outro. talvez ainda a escravatura negra estivesse admitida como legal. todos nós que conhecemos os homens bebemos inspiração. a um filósofo que a Igreja mais combate . desaparecimento que só se fez total com a Grande Revolução (Vid. A força moral da Igreja é toda aparente. Vou me deter alguns instantes no que toca à extinção da escravidão antiga. várias igrejas superpostas com os afloramentos fatais das mais antigas através das mais modernas. essa admirável plasticidade da Igreja. foi repelido. A sua atitude perante a nefanda instituição foi a dos filósofos antigos de que fala o Sr. até hoje. Estou a muitas centenas de quilômetros dos meus modestos livros. a classificação dos termos não fosse difícil de estabelecer. citando o Sr. amoldando-se a cada idade e cada transformação social.Porém. Esta incapacidade que a Igreja demonstrou para abolir a escravidão negra nas colônias dos países catolicíssimos. ou mesmo antes. não soube ou não pôde impedir a moderna escravidão negra nem propagou a sua abolição. ateus ou não. A última guerra mostrou a fraqueza do ascendente do Papado que não quis francamente experimentar o seu prestígio sobre os povos em luta. para Napoleão criminosamente a restabelecer. e. pelo menos a necessidade. que. a força. na sua transformação em selvagem. mesmo o virtuoso Sócrates. no acertado dizer do Sr. Perilo. que a Igreja possa resolver a questão social que os nossos dias põem para ser solucionada urgentemente. mesmo o quase divino Platão e o conciso Aristóteles reconheciam a sua legalidade. .

encontra diante de si campeão contrário de tão raro valor e estranha bizarria. Nota-se nele que o autor ama muito a vida da roça. para escrever daí a dias uma chôcha memória que certamente morrerá na vala comum das revistas especiais. nas mãos. Admitindo a velha definição dos dicionários. Digo isso de um modo geral. a vida de fazenda. Escreve como toda a gente. DE GASTÃO CRULS Dizem os dicionários que "coivara" e uma fogueira de gravetos.C. mas. mas.P. de cuja ação e de cuja crença quisera partilhar para sossego de sua alma. por assim dizer. Por exemplo: no G. Despertou-me refletir um pouco.coisa singular .Se os socialistas. é em nome dela .que ele protesta contra os brutais processos da nossa atual medicina que só vê no doente. não escreve no calão pedante dos seus colegas.B. Gastão Cruís é médico. o que ele ama é. a dissecar. e . anarquistas. À MARGEM DO "COIVARA". Não é só à paisagem.o 13 . mas . assistentes e enfermeiros e faz discursos mirabolantes (é do autor) diante do doente. sindicalistas. não são delgados galhos secos. sobre certas ficções do atual ensino médico. positivistas. não é tudo que existe. As relações do fazendeiro com os colonos. os seus negócios.C. após a leitura desse magistral conto do Sr. principalmente no seu cadáver. sem querer de forma alguma diminuir o mérito do autor. as suas cerimônias domésticas. mas quase sempre essa sua singular feição de escritor nacional se trai aqui e ali.. não há positivamente "coivara".O Noturno n.sem ter diante dos olhos o redundante padre Vieira e o enfático Herculano. a vida social da roça. tão-somente humilde homenagem de um adversário que. mas tal coisa não vem ao caso. Gastão Cruls. um caso a estudar. há "atrás" do que se vê muitas e muitas coisas. Que o que se vê. Queimam-se grossas perobeiras e duros jacarandás. Nestas reflexões que o vibrante livro do Sr. Não há nele um toque distinto que denuncie esse amor. pois nele não se queimam só gravetos. O Sr.esse amor que ama a vida da roça não ama a natureza. ensina ele alguma .. aos carneiros. inesperadamente. Perilo Gomes me provocou fazer. É delicioso de naturalidade e precisão. Os contos que o compõem. Gastão Cruls. no livro do Sr. há alguns que são verdadeiras toras de cerne. mas escreve sem o Elucidário de Viterbo e o Blutteau. É possível que o professor Assis Cintra tenha outra opinião. que tem como título essa palavra de origem tupaica. 23-4-1921. graças a Deus. não há o menor sinal de má vontade ou de hostilidade.que concubinato! . etc. não a podem resolver estou muito disposto a crer que o catolicismo não a resolverá também.espiritualidade . Esse professor Rodrigues que vai seguido de uma récua de estudantes. aos bois.A. naturalmente procurando os efeitos artísticos da arte de escrever. etc. mas que dará a seu autor mais fama. Vale a pena ler seu livro.é estranho e como que o autor quis manifestar nele que a sua concepção da vida não é rígida nem mecânica. O seu primeiro conto . É a indústria clínica que se ceva nos cadáveres dos pobres desgraçados que morrem nos hospitais. e é contra este que se dirige toda a guerra dos revolucionários. A. mas mesmo aos bichos. portanto mais clientes e mais dinheiro. Nem sempre os seus contos mantêm na aparência esse tom de transcendente espiritualidade. tanto mais que nunca foram tão íntimas as relações do clero com o capital. tanto mais que não me preocupo com essas coisas transcendentes de gramática e deixo a minha atividade mental vagabundar pelas ninharias do destino da Arte e das categorias do pensamento.

vamos ver no . que são animais exclusivamente laterigrados.pelo auditório numérico que o cerca. é que todo esse nosso ensino médico é malvado e improdutivo. é possível? Penso bem que não. queixando-se muito da marcha propulsiva. isto é. começando por lhe citar um aforismo latino: "Cancri nunquam recte ingrediuntur". Lembro agora um caso que se passou há tempos. Eis aí como narra o arguto autor do Coivara: "A um indivíduo que o fora consultar enfermado pela moléstia de Friedreich. Clark acaba de afirmar que há pelo Brasil inteiro quatro mil médicos que não sabem medicina. Compreendes agora por que lhe receitei os crustáceos? Ora. se esse indivíduo tem uma desordem do equilíbrio que o impele a correr e cair para a frente. porém. De forma que um pobre-diabo que cai num hospital.A Neurastenia do professor Filomeno . terrível. A sua lógica é de uma inflexibilidade aristotélica e ele a aplica largamente na sua clínica. "Como Raul não compreendesse o latinório e se mostrasse um tanto atrapalhado. Esse Wilde que se intitulava a si mesmo . por exemplo.coisa? É possível transmitir a outrem o que se sabe.não é um suplício para um doente grave estar a ouvir palavras campanudas sobre a sua moléstia durante uma hora? Poderá isso concorrer para a sua cura? Não. Ela tinha razão sob todos os pontos de vista. vai para morrer. Beijos de uma morfética. Valha-me Deus! Eu me alonguei nestes dois contos em que se tratam de coisas do ensino médico. De resto . Oh! que horror! O que estranho no autor de um livro tão digno. essa. no João de Barros e outros cacêtes. Os jornais falaram e não sei como as coisas ficaram. nos contos do Sr. Mas era preciso. é a admiração que parece ter por Oscar Wilde e se traduz em frases quentes no seu conto "A Noiva de Oscar Wilde". Filomeno logo traduziu: . tal qual o autor nos conta e conforme expõe o grande Filomeno. fantástico e doloroso. Ela se revoltou e houve escândalo. talvez demais um pouco. Cruís. ao invés de qualquer prescrição medicamentosa. agora. Mais tarde ele explicara a Raul por que assim procedera. dentro da noite escura. porém. seguindo na esteira do Sr. um lente de partos quis fazê-la sujeitar-se ao "toque" por toda uma turma de estudantes. como é Coivara. no Diogo do Couto. .o que o autor também nota . diante do doente. tendo-se recolhido à Santa Casa. só sabem andar para os lados. ele soube conquistar a alta sociedade de sua terra. é a principal. quanto menos palavras arrevesadas.maneira que é exigida "malgré-tout" ." Filomeno chama isto opoterapia. "Noites Brancas". Quanto mais reduzido for o número de alunos. Vimos já esse professor Rodrigues. Filomeno é um sábio em medicina porque conhece o léxico antigo da nossa língua. Dr. a fazer hipóteses mirabolantes e ousadas. dessa maneira afetada e oratória . Há. melhor ele poderia iniciá-los. Vejamos este caso. É tão importante a medicina na nossa vida que toda a crítica deve ser feita por todos. o Dr.outra feição do nosso ensino médico. lido no "Thinherabos". Cruís muita coisa outra que não a pura preocupação das coisas de sua profissão. "Rei da Vida" . entre nós. no Rui de Pina. no frei Luís de Sousa. àqueles que nos têm de curar. O Dr. em vez de ir para tratar-se. preferira recomendar uma alimentação intensiva pelos siris e caranguejos. Uma parturiente. sobretudo àqueles que isso ensinam. que já o fizera levar várias quedas. A verdade.não passou antes de "Reading" de nada mais do que o "Rei dos Cabotinos". porém. é conto fora dos nossos moldes. nada mais natural do que neutralizar essa força propulsora por meio dos gânglios nervosos dos siris e caranguejos. melhor eles compreenderiam o lente. o professor Filomeno. As nossas escolas de grande freqüência devem ser condenadas. Com uma singular sagacidade."Os caranguejos nunca andam em linha reta". Tem outras manias. por experiência ou estudo."King of Life". tanto assim que o Sr.

embora escreva e seja ilustrado. não é o bordel. ele é um egoísta simulador de talento que uma sociedade viciosa e fútil impeliu até ao "hard labour". A. entre as quais. e essa análise é feita . durante muito tempo. O derivativo para essa tortura. a de ostentar o porco vício que o levou ao cárcere. é que afirmei sobre ele o que acima fica dito.A mulher e a sociogenia .expondo-lhe os vícios e. Às vezes até. até esse imundo vício que o levou à prisão de "Reading". menos da das bodegas.desse malogrado escritor. ele despe-se do peplo. Não tenho todo o processo a que foi submetido. e não se abateu.. para fazer sucesso.C. na miséria e na humildade. Enéias Ferraz . a sua jactância. Enéias Ferraz. As suas obras são medíocres e sem valimento. Sabe qual é. com uma originalidade duvidosa. ao mesmo tempo. como qualifica Sílvio Romero. Aí. Cruls? É tê-lo feito escrever o De Profundis.. A edição do Coivara é primorosa. para essa moléstia especial.aparecido recentemente. na desgraça. Toda a sua jactância. a grandeza da concepção e a força de execução. não é a arte. É livro de um tipo só. Adquiriu-a para chamar a atenção sobre si. embora não hesite em freqüentar o mais baixo que seja. desta cidade. Para isso. A vida é coisa séria e o sério na vida está na dor. Não é um artista.História de João Crispim .. ele em si não era portador de tal tara.pode-se dizer sem favor algum . embora seja ele um estudioso.talvez tenha dado um bom resultado. a sua falta de profundo sentimento moral. mesmo nos paradoxos. meu caro Dr. nem sempre de bom quilate. 23-7-1921. mais longamente estudado. no prefácio que escreveu para .. tira o anel da múnia do dedo. apesar de umas ousadias fáceis que a sua mocidade desculpa. como todas da Livraria Castilho. a frescura e a ingenuidade do verdadeiro talento. entre os mais inumanos bandidos que se possa imaginar. Pelas leituras deles. os justificando com paradoxos. mas possuo grandes extratos que vem na obra do Dr. Trata-se de um rapaz de cor. o seu narcisismo imoral obrigaram-no a simular tudo que ferisse e espantasse a massa. todo o seu cinismo em mostrar-se possuidor de vícios refinados e repugnantes. Ele é um mascarado que enganou e explorou toda uma sociedade.B. trejeitos e "poses" de artista requintado. nem pequeno. nem grande. sentimento do alto destino do homem. A sua vaidade. ficam apagados diante da força com que o autor analisou o seu personagem central. com arremedos.tudo isso que o arrastou à desgraça. Faltou a Wilde sempre o senso da vida. tascas e prostíbulos reles. HISTÓRIA DE UM MULATO O livro do Sr. Tudo nele é factício e destinado a causar efeito. não é o estudo. Laups . Era elegante. num atroz presídio. é o . . toda a sua vaidade .Perversion et perversité sexuelles . Ao que parece. põe fora o cravo verde. mesmo o do poeta Afonso Pina. o seu egoísmo.. lançou mão das mais ignominiosas ousadias. tratando de Tito Lívio de Castro. perde toda a basófia e abate-se. de grande cultura. egresso de toda e qualquer sociedade.prefaciada por Zola. Dostoiewsky passou alguns anos na Sibéria.é feita com grande cuidado e rara lucidez. É um caso de "moléstia da cor". Queria distinções sociais e dinheiro. porque os outros. no personagem do Sr. é obra de mérito que merece ser lida.

o dia pela noite. Ferraz são. Cercado de amigos. embora mulato. tanto mais que os que a sorte aquinhoa e o Estado estimula. . Crispim. bem cedo. nos lábios de um rapaz. como a do personagem do Sr. o autor da História de João Crispim é o primeiro que o faz. cachaça. Entretanto. Há nessas almas. tão comuns entre nós. de fel contra as injustiças que o obrigaram a sofrer. uma das mais belas do livro. leva uma vida solta de boêmio.. mas educado e com instrução superior à vulgar. que é. após os folguedos de Momo . Redator de jornal. "whisky". perde a sua significação e trai o seu destino. na parte estática. de dedicações de toda a sorte e espécie.. De resto. trocando. mal sabia ele. sorvidos. por todo o mundo. para eles. com o sofrimento. o marmorista. e ninguém percebe naquela alma e naquela inteligência.como se diz nos jornais . Temperamentos como este que o Sr. excelentes. pois há. ou pelo governo. comparada com os demais semelhantes que os cercam. porém. por sua vez. o motivo de tão estranho viver quando. a sôldo de um poderoso qualquer. deixar de observar que um tipo como esse João Crispim devia ser conhecido. porém. Ao que me conste. completamente. porém. donde a caridade do Estado. Morre. de necessidade de simpatizar com todos. limites tacitamente impostos e intransponíveis para a sua expansão em qualquer sentido. como ninguém. com honrarias e cargos. neste vasto Rio de Janeiro. após os trabalhos de redação. nunca tentou a pena de um romancista. onde sujeitos menos originais que Crispim são apontados por toda a gente. nesses homens assim alanceados. de suas várias partes e de seus vários aspectos.como diz o vulgar "podia ser muita coisa". Orgulho que lhes vem da consciência da sua superioridade intrínseca. Não quero epilogar sobre essa cena. encontrando por toda a parte uma afeição e uma simpatia. Isto. e ele possui. mesmo. por toda a parte. quem o levava . uma vida. de afetuosidade. que se não fôsse o "copito" . Como o Sr.leva-lhe o cadáver para [a] sepultura. se assim se pode dizer. possuidor de uma pequena fortuna. não posso. sobre a qual não vale a pena insistir. pois acaba. O marmorista que lhe fez o túmulo da mãe simpatiza com ele. de forma que. a não ser inofensivamente em palestras e na platônica insurreição do cálice de cachaça. é uma nuga sem importância. e sofrimento por perceber que essa superioridade não se pode manifestar plenamente. mas a gratidão e as amizades fazem-no recalcar a revolta. é estimado. está ele cheio de amizades. Enéias Ferraz estuda. debaixo das rodas de um automóvel. a explosão de ódio. Ferraz. quando corre lugares suspeitos. A sua dor íntima. pelo menos. na verdade. toda a gente pode vê-lo com a leitura de seu interessante e atraente livro. para não ferir os amigos. mais ou menos. aliás. Ferraz se saiu da tentativa. muito orgulho e muito sofrimento. a ninguém revela. em diversas horas do dia e da noite. mas lastima que gostasse tanto do "copito". se insurgiu. pois não foi reconhecido. João Crispim é assim: por toda a parte. como indigente. em geral.talvez o fabricante de túmulos não amasse o moço mulato. compreendendo a dor dos outros. ou ser assassinado por um bandido.álcool. álcool forte. e o seu destino seria a apoteose. num sábado de carnaval. seja em que for. nem de leve. A sua significação era a insurreição permanente contra tudo e contra todos.expansão da dor íntima de Crispim . nas nossas sociedades democraticamente niveladas. não têm nenhuma espécie de superioridade essencial sobre ele. um homem que possui uma alma dessa natureza enche-se de bondade. nela dormindo. Os detalhes da obra do Sr. o sentimento da cidade. é querido. que lhe tiram o direito de uma completa e total revolta contra a sociedade que o cerca. às vezes. A orgia carnavalesca não permitiu que o fosse. vai para o necrotério.

Quase sempre, nós nos esquecemos muito dos aspectos urbanos, do "ar" das praças, das ruas, lojas etc., das cidades que descrevemos em nossos livros, conforme as horas em que eles nos interessam em nossos escritos. A Balzac e a Dickens, os mestres do romance moderno, não escapa isso; e ao Sr. Ferraz também interessou essa feição do romancear do nosso tempo, tanto assim que nos dá belas descrições de trechos e coisas da cidade. Não citarei senão aquele das imediações do Teatro Municipal, alta noite; e também a da tradicional livraria do velho Martins, na rua General Câmara - um Daumier! No final de contas, a estréia do Sr. Enéias Ferraz não é uma simples promessa; vai muito além disso, sem que se possa dizer que seja uma afirmação, mesmo porque nós só nos afirmamos com o conjunto de nossas obras, e o Sr. Ferraz ainda pode e deve compor muitas outras. Sobra-lhe talento e vocação para isso; o que é preciso, porém, é não esmorecer, não perder o entusiasmo, nem embriagar-se com os louros colhidos. É o que espero, como amigo que sou dele. O País, 17-4-1922.

VÁRIOS AUTORES E VÁRIAS OBRAS Nós nunca somos senhores do rumo que deve tomar a nossa vida. Nos primeiros anos, com os exemplos familiares, com os conselhos paternos, pensamos que ela deve seguir este ou aquele caminho e orientar-se segundo tal ou qual estrela. Os acontecimentos supervenientes, porém, chegam e, aos poucos, devido aos embates deles, a nossa existência toma outro rumo muito diferente daquele que traçamos na carta do viver neste mundo. É vão delinear todo e qualquer projeto de vida nesta terra ou em outra, porque nós não somos senhores dos acontecimentos, não podemos dominá-los nem evitar que eles nos levem para onde não queríamos ir. Quando, há cerca de vinte anos, época em que já devia estar formado, me pus a escrever em pequenos jornais chamados humorísticos, nunca imaginei que tais ensaios, quase infantis, meros brincos de quem acabava de sair da meninice, viessem um dia me pôr em colisões mais atrozes do que as que passei, ao ser examinado em Mecânica Racional e Cálculo das Variações pelo Sr. Licínio Cardoso. Perdi o respeito infundado que tinha desse meu antigo lente, no que fiz muito bem; mas, hoje, com a minha incipiente literatura, à vista das atrapalhações que ela, de onde em onde, me traz, sou obrigado a recordar-me dele e da sua mecânica. A oferta de livros não cessa de me ser feita. É coisa que muito me desvanece; mas muito me embaraça também. Às vezes, são poetas que me oferecem as suas "plaquettes" e mesmo os seus livros. Sou obrigado, por delicadeza e para não parecer presunçoso, a dar uma opinião sobre eles. Ora, nunca estudei, mesmo nos seus menores elementos, a arte de fazer versos; não conheço as suas escolas, nem sei bem como elas se distinguem e diferenciam; entretanto, segundo as praxes literárias, tenho, ou por carta ou em artigo, que dar uma opinião sobre as obras poéticas que me são enviadas. É daí que me vem uma das complicações dolorosas que a literatura trouxe à minha existência. Se, de antemão, tivesse eu adivinhado que havia de escrevinhar livros e artigos de jornais, pelo que havia de merecer a atenção dos poetas, teria

logo, nos meus primeiros anos de vida, tratado de estudar o Castilhos, porquanto, ao que parece, esse negócio de fazer versos, como a música e a geometria, só se aprende bem aí pelos quinze anos e mesmo antes. Nessa idade, porém, não tinha a mínima preocupação literária, havia até abandonado o meu Júlio Verne e todo eu era seduzido para o positivismo e coisas correlatas. Vieram, porém, os fatos duros e fatais que o destino guarda secretos, e eles me empurraram para as letras, sem nada saber de versificação. Não é só ai que a minha humilde literatura complica a minha vida e me causa incômodos. Há outros pontos em que ela me põe abarbado. Ainda há dias, recebi de S. Paulo, com uma lisonjeira dedicatória da autora, D. Maria Teresa de Abreu Costa, um curioso livro: Noções de Arte Culinária. A autora pede-me justiça e eu que já escrevi sobre a sua obra, fiz o que estava em minhas mãos fazer. Sou incompetente para dizer sobre o assunto que tanto interessa a todos os homens; mas, consultei minha irmã que, nessas coisas de Culinária, deve ser mais autorizada do que eu, e ela me afirmou que o livro de D. Maria Teresa é excelente como método e exposição; é muito claro e não tem as obscuridades daquele curioso Cozinheiro Imperial, edição do Laemmert, em 1852, a terceira, em cujas páginas fui buscar algum chiste para alegrar meus artiguetes de vários números da Careta, desta cidade. Diz-me, por carta, o Sr. J. N. Pereira, que a Sra. D. Maria Teresa dirigiu um curso anexo à Escola Normal da capital paulista, onde as respectivas alunas aprendiam a ser donas de casa. Esse curso, por economias mal entendidas, foi extinto. Longe de mim querer censurar este ou aquele governo, daqui ou de S. Paulo. Tenho um medo "brabo" de todos eles, nestes tempos que correm, de violência e pavor, governamentais, mas uma coisa, sem perigo, posso notar, à vista da criação desses cursos de coisas domésticas e similares: é a decadência da família; é o enfraquecimento das tradições domésticas. Há cinqüenta anos ninguém admitiria que uma moça, fosse qual fosse a sua condição, aprendesse essas artes familiares, senão no seu lar, ou no dos parentes ou no dos amigos de sua família. Não era só a culinária, incluindo os doces, que dessa forma se aprendia; era a renda de almofada, o "crochet", o "filet", o bordado, etc., etc. Hoje, não; as famílias não sabem ensinar mais essas coisas às suas filhas ou às dos amigos e parentes; e quando as moças querem aprendê-las, tem que se dirigir a escolas especiais. Se é bom ou não, não sei. O tempo dirá. À oferta deste livro tão curioso da professora paulista, seguiu-se uma outra a mim feita pelo coronel Ivo do Prado, da sua sólida obra: A Capitania de Sergipe e as suas ouvidorias. É uma obra de erudição e de pensamento. O Sr. Ivo do Prado não é unicamente um cartógrafo, nem um compilador de cartas de sesmarias e outros documentos rebarbativos. É também um observador das coisas sociais, dos movimentos das populações, das razões naturais e sociais por que elas preferiram tais ou quais caminhos, para o povoamento do interior. Não tenho espaço nem competência para acompanhar de perto o seu valioso trabalho; entretanto, uma observação sua me traz algumas reflexões que, talvez, não sejam de todo minhas, mas cujo contexto me apaixona. Trata-se de nossa nomenclatura topográfica. O coronel Ivo do Prado nota, e com muita razão, que é difícil identificar os nossos acidentes da terra e mesmo os potamográficos, porque eles estão, a toda hora e a todo momento, a mudar de nomes, por mero capricho

vaidoso das autoridades a que tal coisa incumbe. É uma grande verdade. Basta ver o que se passa na Estrada de Ferro Central, onde a vaidade ou a bajulação dos engenheiros, que isso podem, faz mudar, em curto prazo de tempo, os nomes tradicionais das estações, batizando-as com os apelidos de figurões e poderosos do momento. Podia citar exemplos; mas creio não ser necessário. No Ministério da Marinha, um ministro, usurpando as atribuições da respectiva Câmara Municipal, mudou o nome da enseada da Tapera, em Angra dos Reis, para o pomposo de almirante doutor Batista das Neves. Decididamente não é o bom senso e o sentimento do equilíbrio que dominam os nossos atos. Para prestar homenagem à memória do desditoso almirante Batista das Neves, há, havia e haverá outros meios que não este, onde não se encontra uma razão qualquer que o explique. A observação do coronel Ivo do Prado, sobre essa nossa mania de estar, a toda a hora, mudando a denominação das nossas localidades, rios., etc, provocou-me lembrar um artigo de Gaston Boissier, tratando de saber onde exatamente ficava Alésia, a célebre cidadela em que César encurralou Vercingétorix e foi cercado também, mas derrotou os que o sitiavam, e acabou ornando o seu "triunfo" com aquele infeliz chefe gaulês. Um dos elementos para identificar Alésia foram as denominações locais que, com alguma corrução, desde quase dois mil anos, guardavam mais ou menos a fisionomia da primitiva denominação. Entre nós um tal meio de pesquisa seria impossível... Estão em moda os Estados Unidos; mas acredito que, apesar do amor histérico dos "yankees" pela novidade, lá as coisas não se passam desse modo. O livro que o Sr. Carlos Vasconcelos me ofereceu e é de sua autoria, dá-me a entender isso. Em Casados... na América, tal é o titulo da obra, aqui e ali nos apelidos de lugares, vê-se que há ainda lá muita coisa de huron e pele-vermelha. Os americanos mataram-nos sem dó nem piedade; mas os nomes que eles deram às regiões de que se apossaram os seus algozes foram conservados por estes e passaram até aos seus couraçados e cruzadores. O livro do Sr. Carlos de Vasconcelos é livro de um grande escritor. O que me parece diminuir o seu valor, é a preocupação do autor em encaixar, a força, os Estados Unidos nas suas novelas. Não sei se é porque tenho uma rara antipatia por semelhante país, não sei se é por outra qualquer causa; o certo, porém, é que a sua mania americana me dá a impressão de que a sua obra não é sincera, não nasceu do seu fundo íntimo. Estou convencido de que se a sua frase quente e ondeante, colorida e musical, fosse aplicada a assuntos mais nossos, o seu trabalho ganharia muito e muito! Esse "engouement" pelos Estados Unidos há de passar, como passou o que havia pela Alemanha, e da mesma forma. Não dou cinqüenta anos para que todos os países da América do Sul, Central e o México se coliguem a fim de acabar de vez com essa atual opressão disfarçada dos "yankees", sobre todos nós; e que cada vez mais se torna intolerável. Quem viver, verá! Um outro escritor que, com raras qualidades, parece ainda estar à procura do seu caminho, é o Sr. Adelino Magalhães. Há nele uma grande capacidade de observação até ao mínimo detalhe, à minúcia; é vivo e ligeiro; tem grande originalidade no dizer; mas lá vem o "mas"! - o Sr. Adelino Magalhães não quer ver nada além dos fatos concretos, atém-se às aparências, pretende ficar impassível diante do Tumulto da vida (é o título de sua última obra) e não o perfuma de sonho, de dor, de piedade e de amor.

o Sr. Nestor é a cautela em pessoa . requer vagar e tempo.autor pernambucano muito justamente apreciado. encarregada de dirigir os nossos destinos. o trabalho do Sr. que.é sobre todos os aspectos notável. É com estas palavras da mais pura satisfação que fecho esta crônica. Nestor as mandou para o livro tal qual elas saíram do primeiro jacto da sua pena ou do seu lápis. desdobrando-se aqueles em outros diferentes. os seus contos ou antes. Não há doutrinação alguma. Se Adelino é todo arremesso. Há falta de espontaneidade. nele. não deixa a obra de sugerir comentários que me parecem oportunos. porque. depois de Deus. céticas.. tal qual se nos apresenta o Sr. de pensamentos contíguos ao do autor. É vezo hoje dos nossos economistas. O autor da A Crítica de Ontem é muito filósofo para não fazer semelhante tolice. Nestor Vítor dá-lhe um lugar à parte nas nossas letras. o seu livro tem um grande merecimento: é próprio. procurar ele demonstrar pela ficção e com auxílio dos recursos da novela a necessidade.deve provir desse seu feitio de ser. apesar do abuso da onomatopéia . Há algumas profundas e irônicas. Nestor Vítor. As suas reflexões e observações são pensadas e repensadas. faz também meditar e provoca inevitavelmente o aparecimento..A sua estética é muito cruel e primitiva. muito legitimamente e brilhantemente explana e discute essa questão de urbanismo que os nossos autorizados sociólogos práticos têm posto e semeado pelos jornais em fora. na inteligência do leitor. Há muitas morais e muitas sociais. a reflexão sobre o "Marimbondo metafísico" é de uma ironia acerada e do melhor quilate. Adelino Magalhães. e assim é quase todo o livro. as suas "tranches de vie" têm alguma coisa de bárbaro. de selvagem. A observação sobre o nosso "doutor" é aguda e perfeita. Gazeta de Notícias. Se há defeito no seu último livro . Contudo. como é o Sr. Espécie de obra muito rara na nossa produção literária. com a qual me desobrigo dos compromissos que contraí com tantos autores e amigos."Um prego! Mais outro prego! . sob a forma de romance. Ninguém pense que o Sr. Mário Sete .Pan! Pan! É uma dificuldade passar de autor tão impulsivo. cauteloso.Senhora de Engenho . prudente. outras. O trabalho com que o abre . É um livro de reflexões esparsas a que o autor tentou coordenar em várias partes. para um escritor laborioso. Possam todos eles crer que a leitura de suas obras foi nesta minha quinzena de "férias" o máximo encanto do meu voluntário recolhimento.Folhas que ficam . 6-12-1920. de abandonarmos a cidade pela roça. amargas. mas mesmo pelo fato de ser assim. se ele faz sorrir.o que bem condiz com o seu nome. outras. aconselhar aos que se queixam das . isto é. de maldade inconsciente." . mas que só ele mesmo poderá justificar semelhante coordenação. URBANISMO E ROCEIRISMO Acabo de ler o novo livro do Sr. políticos e outra espécie de gente que está. até perder-se a origem de que eles provieram. Não é possível lê-lo de um hausto. é original.

dá-se o oposto: há sempre uma ebulição de idéias. o filho do senhor de engenho pernambucano. se faça capinador de cafezais. Nestor e Hortênsia. a um grande surto industrial.duras condições da vida nas cidades: . Até no irônico . também. dos palácios e das avenidas . No começo. O campo é a estagnação. porquanto a característica dos nossos governos é fazer e desfazer. Não há nada mais pueril do que semelhante conselho. casado. fez a estatística da necessidade de braços nas fazendas paulistas e repetiu o conceito do seu colega de bancada. e muitos deles são devidos aos governos. lá está a tal história de Petrópolis. realizam. fascinado pela cidade. o espetáculo daquela vida encanta e seduz Hortênsia.de Leo Vaz. quer voltar.Vão para a lavoura! O mirabolante aritmético Cincinato assim fala. começa a afeiçoar-se àquela vida e ambos. como a chamam os paulistas. antigamente célebre pela sua feira de muares. com um conterrâneo desenraizado. Maria da Betânia. se faça motorneiro. Essa fascinação pelo Rio.coisa muito favorável ao desenvolvimento humano. de comum acordo. mas os há. a bordo. pouco depois de formado. Tem uma filha moçoila. Na cidade. pula de praticante do Ministério da Praia Vermelha para o de chefe de seção do Ministério da Justiça. é o mesmo que exigir que um médico. de modo a fazer da longínqua Sorocaba. Tinha travado conhecimento. a cidade é a evolução. no que toca aos rotos. não há nada disso. Sete. do pé para mão. O governo fez isso e agora quer desfazer. Nestor e a mulher. Mais ainda: nas cidades. Aproximando-se as bodas de ouro dos pais. a carioca. necessidade maior ainda é. Como todo bom nortista. pouco depois de casado. como dizia acima. Um verdadeiro milagre administrativo que só os nortistas conseguem realizar. que o leva à sua casa. ela se aborrece. por meio de tarifas proibitivas. para estar bem perto de um Ministro. Nestor. De resto. Vão para Águas Claras. vem para o Rio de Janeiro acabar os estudos começados no Recife. há bem pouco. Mostra-nos o Sr. embarcam para Pernambuco. de uma hora para outra. ele consegue a sinecura. um moço filho de fazendeiros pernambucanos . maus é verdade. especialmente os do Norte. há hospitais. Veiga Miranda. . A carioca foi vencida e o carioca adotivo que é o seu marido Nestor. Há ainda mais. Na cidade. o urbanismo foi criado pelo próprio governo da República. inclusive Petrópolis. Não é de admirar.lá se chamam senhores de engenho . às vezes. resolvem estabelecer definitivamente residência no engenho de Águas Claras. A cidade é uma necessidade. Como todo bom nortista. o engenho dos velhos.o que atraiu para as cidades milhares e milhares de trabalhadores rurais. aos pobres-diabos. Só energias raras podem de uma hora para outra mudar de profissão e de hábitos. Veio depois a megalomania dos melhoramentos apressados. Querer que um tecelão. vem para o Rio acabar os estudos. Ela fica. Na roça. ei-lo namorado. bem depressa. O campo. de sentimentos . dando nascimento. Não leio um romance provinciano em que não note isto.O Professor Jeremias . Uma porção de fatores têm concorrido para o êxodo das populações dos campos para as cidades. Hortênsia.que. é coisa verificada em todos os moços mais ou menos bacharéis deste Brasil imenso. eles tem mais garantia. sobretudo por Botafogo e seus complementos. tanto mais que nota no marido certa inclinação por uma moça da casa. não estão sujeitos a mandões tirânicos e caprichosos e as autoridades são mais escrupulosas. antiga namorada dele e que é uma das figuras mais curiosas e mais bem estudadas do livro. e o Sr. Chega a gravidez a carioca. uma pequena Manchester. trata de cavar um emprego e o quer numa Secretaria de Estado. no seu magnífico romance. e. e uma grande cidade. a roça é um depósito de preconceitos e superstições sociais. mas.

de modo que o lendo eu. com reservas. as concussões. como prospera. A OBRA DO CRIADOR DE JECA-TATU O criador de Jeca-Tatu é um caso muito curioso nas nossas letras. a vê de pronto diante dos olhos. o criador de Jeca-Tatu. qualquer que a leia. Não está no seu primeiro ano. Ela se publica na cidade de São Paulo e é a Revista do Brasil. Não sofro da horrível mania da certeza.tudo isto leva a prever para nossa organização política. que as coisas continuem no pé em que estão. salte logo da cabeça para o papel. dos seus muxoxos e dengues. como já se disse sobre alguém. sabia como ninguém aliar a uma atividade literária pouco comum. que o uso. Por isso. cuja execução é soberba. Não há nele nenhum arroubo. um ativo diretor de uma revista sem igual no Brasil de hoje. Sete não é um escritor nervoso. Com uma clarividência difícil de se encontrar em brasileiro. aquele que dá o nome ao livro. A criação principal de um dos seus contos. mas. de singeleza. os crimes.Eis aí o entrecho do livro.coisa rara entre nós. tudo é como em Águas Claras. fez Jeca-Tatu andar. mas há. Lobato. em Pernambuco. pelo menos de nome. o famoso Jeca-Tatu. Dizia eu. dirigindo com sucesso uma revista sem igual na nossa terra. Publicando há dois ou três anos um volume de contos . no bom sentido. de que falava Renan. enquanto o personagem propriamente assanhou a crítica dos quatro pontos cardeais destas terras de Santa Cruz. porém. como diz a canção patriótica. já bem conhecida aqui. o Sr. uma grande fidelidade na reprodução do que observa. em bem pouco tempo.B. sem favor algum. no Rio de Janeiro. um desastre irremediável. Monteiro Lobato. rápido. e ele mesmo o sancionou. Supondo por absurdo. dos seus arrebiques. 10-9-1921.por muito tempo não subsistirá. tudo é feliz. de graça. fico a pensar que. toda a festa por inteiro. em todas as bocas. Monteiro Lobato conseguiu atrair para ela a atenção de todas as atividades intelectuais deste vasto país. Ele é amoroso de moças. logrou ver o seu nome conhecido no Brasil todo e as edições de sua obra se esgotarem umas sobre as outras.Urupês. ele é ainda por cima um administrador excelente. mesmo a linda Maria da Betânia. a inabilidade. o Sr. ele excele na descrição das cenas familiares. sejam quais forem as transformações políticas e sociais que o mundo venha a passar. um editor avisado. A. e isto num lapso de tempo bem curto. no narrar os mínimos detalhes das coisas domésticas. a expressão político-administrativa . e muita simpatia pelos lares felizes e ricos. de ontem e não sei se de amanhã. que. nenhuma abertura para o Mistério da Vida e o Infinito do Universo.Brasil . e fazê-la prosperar. a falta de escrúpulos de toda a ordem dos nossos dirigentes de norte a sul do país . dos seus atavios. que o Sr.C. está no quinto de sua útil existência . . um espírito comercial. não está no terceiro.. A descrição da festa das bodas de ouro dos pais de Nestor é tão cheia de naturalidade. O Sr. Tendo uma forte capacidade de trabalho propriamente literário. admito que. cujo pensamento. em contraposição.

mas há. Loiola. daqueles que conheço e tenho notícia. Julgo que haveria tenacidade. Leônidas de Loiola. alguma coisa mais. nem de outra parte do Brasil. se não me falha a memória. .que denuncia bem esse seu feitio de sentir. Todos os nortistas. é a sua mágoa por não vê-los prósperos. o Timóteo. que tanto escandalizou o patriotismo indígena. senão esforçados "preux". amaldiçoando aqueles bárbaros: "deixa estar"! O que o Sr. A secura dos desertos da Ásia Central fez descer para as margens do mar Negro e outras paragens hordas e hordas. especialmente os cearenses. brincou lá com aqueles Jecas. do Ceará. com ela. então. e mais filhos d'Aymon das gestas tupaicas. porém. para os anos maus. O humilde negro despede-se e deixa-se morrer na porteira da fazenda. é a sua simpatia. de fato. flores-de-noiva. Ao que me parece. Daí a celeuma. mas o holandês. pois só epistolarmente conheço o autor do Urupês. É ela que ele descreve com tanta ternura e emoção contida nos seus livros de ficção. Li o Sr.há um conto . do nosso sertanejo . do Paraná. quando chegam as secas. que esses senhores se sangraram em saúde. No seu último livro . com a sua tenacidade e diques. mas na constância em lutar com o flagelo climatérico que assola aquele Estado e os circunvizinhos. não na emigração. amores-perfeitos. e o Sr. as fúrias do mar do Norte. o Sr. construindo obras ditadas pela própria iniciativa daquelas gentes. ele não tem a pretensão de encaixar no seu Jeca-Tatu. Certamente. Monteiro Lobato não quis simbolizar em Jeca-Tatu. o seu Guaratinguetá. crisântemos. que era jardineiro de uma fazenda daquelas regiões. em compensação. estão dispostos a fazer deles. Trata-se de um preto. de modo a captar as águas meteóricas e outras. muito de índio. Ildefonso Albano. Mandam destruir o jardim. aos poucos. e. Rolandos de Uruburetama.Negrinha . Tais pretensões são cabíveis nos transcendentes autores que ninguém lê. Lobato viveu ou nasceu na região a que chamam "norte paulista". e. Mané Chique-Chique. existissem. que fez pintá-los como pintou. Não acredito absolutamente nas miríficas virtudes dos sertanejos do norte. Isto está a ver-se nas suas Cidades Mortas. no seu charco desafiou. porquanto nele há. nem o sertanejo. livro seu. no êxodo. palmas-de-santa-rita etc."O jardineiro Timóteo" ."o caboclo" como se diz por eufemismo. e os novos donos implicam com as "esporinhas”e "perpétuas" do Timóteo. Timóteo não dá por isto e continua a plantar as suas flores humildes e modestas: esporinhas. De resto. mas não li a contradita do Sr. sempre-vivas. se. Surgiram contraditores de toda a parte e os mais notáveis. Mas tal não se dá. crisandálias. por isso ou por aquilo. Creio. que se intitula. Deve-se lê-lo para bem perceber o pensamento geral que domina a produção do autor da Bucólica. pois querem nele flores raras e caras: camélias. ao menos tipos de uma energia excepcional. encontram as populações desarmadas. Ele viu a sua decadência. Citam. de uma capacidade de trabalho extraordinária e não sei o que mais. o Sr. Monteiro Lobato vê e sente é o seu Taubaté. energia no trabalho. essa tenacidade se faria constante. o Acre. o vale da parte de São Paulo do Paraíba do Sul. foram o Sr. criação do cearense exul. esta vai decaindo. nem Reinaldos bororós. para aproveitar os bons anos de chuvas. como nunca tiveram os grandes mestres da literatura. Não me convence.Quiseram ver nela o símbolo do nosso roceiro. nem coisa alguma. Albano. Essa energia. e é a sua saudade. talvez mais curioso que o famoso Urupês. quando menino. Os azares da fortuna dos seus proprietários determinam a venda da propriedade agrícola a pessoas da cidade. ele relembra seu esplendor passado. etc. de fato. Ele não tem pretensões simbolistas. os antigos senhores e patrões.

inclusive a deliciosa . que se acha e que se vai além dela. é a idéia que se procura. seja ela pobre ou farta. MADAME POMMERY Na sua Viagem ao Araguaia.. vendo tudo. nossa mãe comum. Lomendo cambuquira.com que intitula o seu último livro. o general Couto de Magalhães conta como causou um grande rôlo. sem piedade e sem ódio. há um grande sonho íntimo de obter a harmonia entre todos os homens e destes com a Terra. por ocasião de uma festa de 7 de Setembro. A sua visualidade artística e literária. animada pela poesia da sua terra. para nos impregnarmos da sua alma compassiva. Vive a afamada gente paulistana E aquelas a que chamam caipira. seja agreste ou risonha: mas é cheia de sadia verdade a sua literatura.. descobrir a sua entranhada afeição pelos que sofrem e pensam neste mundo. O café ainda não tinha pulado do vale do Paraíba para o do Tietê. a existência toda num plano só no plano da nossa integral miséria humana. entendimento tem com as coisas mudas. que começava assim: Comendo içá. também paulista. É um clássico de alma. apesar da limitação do campo. é amor. acompanhado de gargalhadas dos colegas. além de ser dedicado a várias sociedades sábias. O livro. Gazeta de Noticias. ainda apregoado à noitinha nos bairros pobres deste Rio de Janeiro. sendo guloseima apreciada como o nosso mindobi torrado. pelas ruas. em pleno teatro de gala. apesar da ironia e da troça. não é desprezo. o fato de um certo colega seu. relembra isso quando acaba a leitura dessa estranha. editadas pela Revista do Brasil. não é rancor. Basta ler este conto .Toda a sua obra é simples e boa.Negrinha . todos os acontecimentos. em uma espécie de preâmbulo. se vendia. mas sempre brilhante obra. por vezes desordenada. Não há no Sr. dá um grande realce à modéstia e pacatez daqueles tempos de São Paulo. A natureza não o interessa e nenhum. transbordamentos de vocabulário e de imagens. torrada. por aquelas priscas eras em que o general era estudante. sem paixão pró ou contra. O seu autor . que ele cita a cada passo. em tabuleiros ou cestos. todos os fatos. Pommery.é um filósofo risonho.que não sei verdadeiramente quem seja . Içá é o que chamamos formiga tanajura. e lá. sob o sugestivo título de Mme. A ostentação de hoje que este livro nos revela. ou pouco. 1 1-5-1921. como quer Hegel. se a Arte. Monteiro Lobato nenhuma das exterioridades habituais dos escritores: pompa de forma. E. um soneto satírico. O que se evola de suas palavras não é ódio. é tristeza de não ver o Jeca em condições melhores. discípulo de Montaigne. Que parecem não ser da raça humana. abrange um arco de horizonte muito mais amplo do que o do comum dos nossos escritores. que é a crônica ou romance ou as duas coisas juntas. Monteiro Lobato é um grande e nobre artista. recitar. ao que parece. quando ele era ainda estudante de direito. Quem leu a Viagem desse curioso tipo de brasileiro que foi o general Couto de Magalhães. é piedade. original.

chegou cheia da "centelha divina". com auxílio de um "coronel" camarada. hereditário. de Ivã do mesmo nome. chamou-a "Au Paradis Retrouvé". à força de regimentos. citar Spencer. Resultante: atração. Resistência inicial . Abandonou. viu que entre elas. ao Rio de Janeiro. o autor. autor de um apreciado tratado . tinham dado em droga."Eugência".30$OOO. na mãe. Pommery vem logo uma grande transformação no opulento "mundo" do grande Estado cafeeiro. é aquela em que se trata do Herói-Divindade. isto é. como um pendor natural para tudo disciplinar no seu colégio à imitação das ordens monacais. pelo menos em estado latente. na Polônia ou adjacências. até o dia em que repontou na filha. . onde ela empregava toda a foôrça e capacidade de disciplina e rigor monacais da sua ascendência. com grande cópia de considerações filosóficas sobre o valor da história.lOO$OOO. embora moça ainda. porém. mas eu mostrarei em termos gerais como esse "a natural luminary shining by the gift of Heaven" a operou.que. Kant e Pedro Lessa e o resto da ferragem de erudição que não se dispensa em conjunturas semelhantes. descendente do famoso padre Sanchez. a rua Paissandu. coronel. noviça espanhola. se o quisesse desenvolver. champanha. Dessa "radiance" celestial de Mme. gordunchuta.. creio que jesuíta. Pommery. as vãs histórias.Cocotte engrena coronel. Consuelo fugiu com o lambe-feras de um convento de Córdova e foram dar nascimento à futura heroína da crônica. Podia. afirma ele. se fosse posto em vulgar. claro e forte. O autor mesmo diz: "E ficou.o que não é possível. cuja teoria geral convém pedir emprestada ao autor. havia muita coisa com que não se sonhava. teria grande sucesso nos colégios de adolescentes púberes. Pommery. porém.. no seio da nossa trevosa Humanidade. E a "Lecture". por demais. Hilário Tácito. Fase C . Pommery em Santos. Iniciava a sua missão heróica nas terras do Tietê. que. a descendente polaca do teólogo conjugal vem dar com o costado em Santos. de fato. avelhantadas. com que chegou a este paradoxo de regulamentar os desregramentos de alto bordo por um sistema tão completo e tão adequado ao nosso caso. além de cocotte. segundo regras de uma particular mecânica aplicada. a 30$OOO a garrafa. donde emitiu a sua irradiação e baniu daí a cerveja. começou a funcionar. substituindo-a pela champanha.Coronel engrena cocotte. é a de Odin." Era uma espécie de Abbaye de Theléme. Fase B Cocotte engrena champanha. A operação executa-se em três fases: Fase A . tal propósito e desembarcou logo Mme. Após muitas aventuras. que nunca mais necessitou de aperfeiçoamentos. foi suscitado pelo atual movimento nacionalista. mas que nela haviam ficado como um estigma. Tratou de escrever o relato da vida de Mme. sem nenhuma força a mais. farto das vás histórias da marquesa de Santos e da Pompadour. A usina. diz-se simplesmente fiel cronista dos feitos e proezas de Mme. Resistência ao rolamento . "abbaye" ou coisa que o valha. champanha engrena coronel.De Matrimônio . movimento giratório cerebral. se possível fosse. adequada a São Paulo e. e de Consuelo Sanchez. domador de feras de profissão. Mme. Pommery montou uma usina central produtora e transformadora. "née" Ida Pomerikowsky. Ela aí chegou como um herói de Carlyle. movimento retardado. justificar o seu asserto. donde o autor tira essa comparação. Resultante: contração. nem de emendas. regras e etiquetas. para fazer arder os gravetos da sociedade paulista. praxes. não muito igual à de Pantagruel e muito menos à dos pândegos de Paris. Segui-la seria repetir o autor . Hilário Tácito. nem de propósito. Ei-la num exemplo: "Trata-se de aliviar dito indivíduo (um coronel) dos seus 1 35$OOO por um processo automático mecânico. A usina era uma espécie de convento ou colégio. nem de retoques.

Certo doudivanas "pronto". pois.Há. Pommery. Hilário Tácito obedece a esse espírito e é esse o seu encanto máximo: tem de tudo. Bebe-se muita champanha em casa de Mme. Cursar o "Paradis Retrouvé" ficou sendo. sem ser tão bela. em afinadora de maneira dos rapazes ricos. para variar e atrair. naturalmente sobre os paulistas. empolga e faz pensar. movimento ascensional acelerado. . "A sociedade de Ninon de Lenclos gozou da mesma opinião favorável do seu século. em toda a comunhão brasileira. Pommery transcendeu desmesuradamente.perguntou um dos outros que queria "morder".Resistência final 100$000. apesar da intemperança de citações. porém. nem escreveu.. Realizando esta obra portentosa. no conceito geral da gente fina. Gazeta de Notícias. Resultante: convulsão. exceto sobre os literatos. É tempo." Assim. É rico e sem modelo. embora ainda pudesse dizer muito e ele o merece." Diz Hilário Tácito que esse mecanismo é o mais perfeito que se possa imaginar. Pommery influiu sobre as várias e todas as partes da sociedade. nada! . que vai da simples malícia ao mais profundo "humour" em que assenta afinal o fundo de sua inspiração geral. a Valorização. Beberam champanha.Como? Não há mais dinheiro? .fez o "pagante". de falar de um modo geral de tão curioso livro. Vale sobretudo pela suculenta ironia de que está recheado. jogou na "centena" e ganhou. a Política recebiam o seu influxo e a ele obedeciam.Nada. não lhe sendo bastante isto. à moda de Flaubert ou mesmo de Balzac. Nós não temos mais tempo nem o péssimo critério de fixar rígidos gêneros literários. por estes efeitos indiretos o prestígio de Mme. . a se enxertar.. . Mme. à moda dos retóricos clássicos com as produções do seu tempo e anteriores. sobre os daqui. Encontrou uns amigos e convidou-os a beber.Vamos tomar uma "lambada". estou informado de gente limpa que ela influiu dadivosamente. porque. o Bar Municipal. o Carnaval. transformaram-na em educadora. ironia muito complexa. e eu me lembro de um caso de boêmia que um camarada me contou. de 135 mil-réis de combustível. Não quero mais tratar dele. aproveita 130 em trabalho útil. pois.. indiretamente. Pommery granjeou igual estima por meios muitíssimo mais práticos. Pommery rapidamente começou a influir nos destinos da sociedade paulista e. Pommery. um titulo de merecimento e remate indispensável de toda a educação aprimorada.É que não se devem deixar os amigos velhos pelos novos. Pommery. e. num belo dia. Seria estulto querer encarar semelhante obra pelo modelo clássico de romance. como diz o autor: "Ora. 2-6-1920. . como na casa de Mme. Num dado momento. Bebe-se muita champanha em casa de Mme. E. pois nem filosofou. a Moda. segundo a fama. dando até a certo e determinado um principado em Zanzibar. de uma certa falta de coordenação. Mas devemos reconhecer que Mme. O livro do Sr. por ocasião da assinatura do Tratado de Versalhes. A Finança. o anfitrião levantou-se e convidou: . . e.Então? . Os gêneros que herdamos e que criamos estão a toda a hora a se entrelaçar.. além de favores que prestou a outros para escrever futuramente as suas magníficas obras. alcançou contudo um grau de superioridade superior ao de Ninon. e só se perdem cinco na gorjeta. Mme.

O último livro da Sra. A autora há de me desculpar essa rudeza. para seu uso e gozo. Depois de Balzac. que são muitos. as aias. sem ver os criados.A Sra. que é muito plástica. bastam estas palavras da autora. explicando a moral do "Super-Homem". Albertina Berta é um dos mais perturbadores temperamentos literários que. O que. o próprio excesso."não" . entretanto. essa franqueza. a tal Hélade. construiu um castelo de encantos.por menos que conheça a concepção do Paraíso. o cinismo. de uns tempos a esta parte.é talvez mais do que o seu romance de estréia demonstrativo da originalidade do seu temperamento e do seu curioso talento. o constante borbotar de idéias. etc. a amoralidade. que sabem governar-se. D. sob sua pena. Ela não lhe adivinha os obscuros alicerces robustos.. a impiedade. linda e inteligente. O drama da rainha dos cabos fazia apologia do amor livre. falou tão mal da caridade e da . desconhecendo do edifício da vida muitos dos seus vários andares de misérias. lhe dão mais parentesco com os luxuriantes poetas hindus do que com os helenos cediços. de Daudet. se não uma certa difusão de idéias. tenho por ele ojeriza pessoal. desviar as reações. D. a ele e ao Esporte. Aparece-nos como uma novela de grande dama. o seu equilíbrio na vida universal: aventuras. têm aparecido entre nós. a duplicidade. Dos meus vícios. Não gosto de Nietzsche. sonhos e angústias. lembrei-me do drama que a milhardária americana Clarence Mackay leu a Jules Huret. que se o pudesse fazer. Nenhum outro homem. para quem a existência só tem o merecimento e mesmo é o seu principal fim o de terminar o amor de um casal. na leitura. Os termos não se prestam a que se estabeleça qualquer comparação. Neste seu último livro. Albertina é. Mme. artistas do pensamento e da ação. apesar de todo o seu apêlo à Grécia. compara o "Super-Homem" deste ao Nirvana búdico e ao Paraíso cristão. de clareza e coerência de idéias. o vago e o impreciso de suas concepções. Albertina Berta . ela percebe as casas dos peões e homens d'armas. embora extremamente abstrata. que lá não são ou não eram monopólio do Estado. ela (a tal moral dos Super-Homens) tudo permite para a sua existência. rasas com o solo. D. Albertina Berta. às naturezas plenas (os "Super-Homens"). mas suficientemente principal. Ei-las: "Aos primeiros. a inumanidade e. sobre o amor platônico.Estudos . quando ele andou em alta reportagem pelos Estados Unidos. a eloqüência torrencial e tumultuosa do seu escrever. Albertina.. Quando li o seu romance. a rudeza". muito ilustrada mesmo. para mostrar o absurdo de tal coisa. Do alto do seu castelo. nos surge cheio de um delicioso anacronismo. no seu excelente estudo sobre Nietzsche. lá embaixo. pelo seu nascimento e educação. tanto mais curioso quando se trata de uma mulher brasileira. caracteriza o pensamento de D. movendo-se nele soberanamente. Eu me permitiria dizer-lhe se não temesse desagradar-lhe. como causadores do flagelo que vem sendo a guerra de 1914. a Sra. a autora do Exaltação com auxílio de leituras de poetas e filósofos. senão de condição real. repouso. talvez. mas seria hipocrisia não lhe falar assim. mesmo em tom de ironia. e só a flecha da igreja do burgo se ergue um pouco acima dele. e a do Nirvana. manejar as paixões em proveito próprio (tomem nota). admitindo. uma falta de nitidez. os pajens e os guardas. Acuso-o. creio não ter o da hipocrisia. É possível admitir sujeito de tal moral digno do Paraíso ou do Nirvana? Não há quem hesite em dizer . que se emaranham e se tecem inextrincavelmente. a esses seres privilegiados. Muito inteligente. Clarence era casada com o rei dos telégrafos americanos. incredulidades.. o romance Exaltação de D. que. Exaltou a brutalidade. do "amor integral". Ele deu à burguesia rapace que nos governa uma filosofia que é a expressão de sua ação. de Maupassant.

como já foi notado. O seu estudo sobre a "Evolução do Romance" é magistral. quando Nietzsche. em geral. Albertina. essa alma extraordinária da epístola a Filemon. especialmente o Sr. a sua admiração se encaminhava para o pior. em 1902. Entretanto. à força. de 1914. mais confusos do que ele. cruel. têm procurado extrair das elocubrações de Nitzsche um sistema de filosofia. a engendrar guerras. que eu queria exprimi-las com mais serenidade. sobretudo o futebol. só podia dar em resultado essa guerra brutal. entretanto. se depreende deles é um apelo à violência. Ele inspirou essa guerra monstruosa de 1914 e o esporte a executou. Não se compreende que a humanidade. só podendo subsistir pela associação. mas uma espécie de vinho de bacantes em festas dionisíacas. D. de dureza de coração. mas. claro e harmônico. Jules Gaultier. no artigo "Regresso à Barbaria". Nietzsche. tornam-se. São eles sem educação e sem gosto algum. para ele. cujo único propósito consistia em derrubar o Império Romano. Nietzsche. Não vejo por quê. porém. D'Annunzio é um retrógrado. o grande filósofo dizia muito bem que todo o espetáculo violento há de sugerir imagens violentas que determinarão sentimentos violentos. devido à convivência em Bale com Burckhardt. diz em alguma parte do seu livro que é cristã.piedade. com a crueza dos "condottieri". anarquista. Admiro-me muito que pessoa tão inteligente. O seu espírito nietzschista (vá lá!) levou a autora do Exaltação a exaltar o coronel Rapagneta ou Rapagneto. quando ele pregava a caridade e o amor com a sua palavra de fogo e o seu coração cheio de fé nos destinos da humanidade. Condenando-os. combinando-se com uma massa habituada à luta ou a espetáculos de lutas. previa esse papel retrógrado que o atletismo havia de representar no mundo. catecismo da burguesia dirigente. que continua ainda e não resolveu coisa alguma. Eu lha dou. do "make-money" seja como for. embora lhe faltem referências ao romance russo. talvez. certamente fratricida e. tinha uma grande admiração por essa espécie de gente. até pelo amor que. De novo. no seu Anti. para César Bórgia. Creio que a autora do Estudos não desconhece a influência dele sobre a novela francesa dos anos próximos. pela bondade. com a sua habitual falta de senso histórico. da minha parte. pela piedade. não têm como estes o senso da beleza e da arte. mas este último é tão cheio de idéias e opiniões a ponto de sugerir outras idéias e outras opiniões. Os seus comentadores. pede piedade para ele. o que. estúpida. de bom grado. possa fazer semelhante profissão de fé. como sempre. chama S. à pág. ele . apesar de não se poder tirar dos seus livros um pensamento nítido. Nietzsche é bem o filósofo do nosso tempo de burguesia rapinante. incestuoso. possa prescindir de sentimentos que reforçam essa associação e a embelezam. dessecando a simpatia humana. Até em Maupassant é bem sensível a influência de Tourgueneff. não é mais um grande sentimento de resgate e um anelo à perfeição. Spencer. no seu último livro: Fatos e Comentários. que parece não ter percebido essa influência nefasta do filósofo de que é admiradora. cuja delicadeza da oferta de ambos os seus livros muito me tem desvanecido. mas continuo. 35 do seu soberbo livro.Cristo. O Sr. enfraquecendo a solidariedade entre os homens. os seus ideais não são os dos nossos tempos. que já estava em adiantado estado de putrefação. o engenhoso descobridor do Bovarismo. do nosso tempo de brutalidade. mas não posso. sem escrúpulos. dos banqueiros e industriais que não trepidam em reduzir à miséria milhares de pessoas. um desprezo pelo refreamento moral. Albertina. cuja cultura eu desejaria ter. Paulo. para ganhar alguns milhões mais. peço desculpas à ilustre autora. o ignóbil César Bórgia. D.

. Ser homem. escreve e lê isto. O melhor é darmos a palavra ao autor. em prol dos outros.. A pirataria em paroxismo. aqui ou ali. da volúpia e da crueldade. que foi publicada há dois anos. fez o mesmo diante de Carlos VIII. por entre a dentuça. José Saturnino de Brito já é digna de exame. A OBRA DE UM IDEÓLOGO A obra do Sr.. Estudos é um livro de fragmentos e livros desses não podem ser analisados. O fundo de cena é todo neblina. já pelo mistério do aparecimento. um trecho de bosque à D. Há de me perdoar qualquer observação menos bem dita. Vem de não saber forrar-se de egoísmo. ele encheu as prisões e. a fim de que ele mesmo descreva o cenário: "Stélio se acha no terraço das Paineiras. César Bórgia. Duque de Fiume. é bem doloroso! O tormento do Sr.. ela já conta cerca de Oito trabalhos. Esta última. o terrível. Não há nele nenhuma simpatia pelos homens. que. surge a seus olhos uma verdadeira visão de divindade florestal. naquele desconhecido. O que eu quis fazer foi caracterizar o espírito da autora e se.. houve alguma aspereza. além das peças: Amor. Saturnino vem daí. É Ema que adivinha o sonhador. que são: Socialismo progressivo. anunciado no trecho acima. pregando. abrindo-se no meu caminho como cloacas humanas. e muito poeticamente se passa nas Paineiras. sentado a uma mesa. sabe bem qual é a armadura que nos pode proteger. A esse sonhador solitário. se não faz execuções. o pavilhão envidraçado à E. foices de salafrários. quando se tem opiniões sinceras. 26-10-1920.. Escreve. não tardará em transformar-se em desânimo. cujo desespero. são muito opostas às da ilustrada autora do Exaltação. Pensa nos homens. e a autora melhor do que eu sabe. se tem paixão. que é poeta. correu parelhas com a difamação promovida pelos perversos e o silêncio pretensioso dos falsos críticos. por vários motivos. vence! e Entre neblinas. Vê-se uma parte do hotel. Gazeta de Notícias. com um machado medieval. é deveras interessante. felizmente. mas sabe também que é daquelas armaduras divinas ou infernais dos romanos de cavalaria que os gênios bons e maus davam aos seus protegidos mas que estes não sabiam forjá-las e nem qualquer outro mortal. imprecando. pois penso. responde. se as tenho. é porque teme o inimigo mais poderoso que o vigia. cujo saber admiro muito e não cesso de preconizar. do destino e sentido da nossa vida. em tão perturbado momento. A Escravidão dos pequenos lavradores e Socialismo pátrio. nesta cavalgata de sombras do abismo social.sempre sonhou com um ducadozinho italiano da Idade Média. amaldiçoando e . A musicalidade da língua italiana ilude muito. Entre pequenos e maiores. em que ele pudesse dar expansão aos seus infrenes pendores para a volúpia e a crueldade. me julgando rico. artista e revolucionário. parte por parte. expeliram sobre mim o insulto soez. tirado a algum museu italiano. isto é. rei de França. A cooperação é um Estado. e ei-lo a ceder à fatalidade do seu temperamento. e pergunta-lhe o que faz. sem que o artigo que se escreva sobre ele tome proporções que um jornal não comporta. Não me alargarei mais. por isso acodem-lhe maus pensamentos. é porque é um livro de idéias e as minhas." Stélio. a sua arte não é uma interrogação diante do angustioso mistério da nossa existência. depois de escrito: "A hipocrisia dos que me acolheram entre lisonjas. é uma apologia do sangue. e isso ela o é já pela beleza que há de por força ter (o que é sempre indispensável em deuses e deusas seja de que religião for).

Ele. segundo a filha. O autor se apaixona. embora outros também o denunciem. as afirmações de sua obra . no teu gesto.. Nesta coletânea de contos. e este é grande. por meio da educação racional das massas mourejantes e da propaganda geral contra os preconceitos e os abusos do bronco capitalismo. e convencer os poderosos de que devem trabalhar. não pode nunca esquecer a sua missão de sociólogo e apóstolo social. ao contrário. aqui. dá-se a conhecer pela seguinte forma arrebatada: "Mestre. o ideal do sangue que só palpita pela Liberdade culta nesse gelo da Sibéria social cm que farejam os lôbos monetários e vaidosos. enquanto dotado esplendidamente de outros dotes.. a sua paixão não procura diques. e o mundo. de imprecar. porém. O mundo dele e das suas criaturas não é este. não cessa de sonhar. No teu olhar. em nome de um sonho que não toma corpo. Bendito seja tão nobre e desinteressado escritor! Ele vale pelo que vale o seu pensamento. O seu sonho grandioso de cooperativismo destinado a melhorar as condições de nossa vida. é um muito outro que se entrevê entre névoas. Aqui as feras que devoram as vítimas do trabalho fecundo são também inúmeras e de todos os matizes. Saturnino de Brito têm sido dominados por esse pensamento que ele põe na boca do seu Stélio. O ardor do seu gênio não lhe permite que as suas produções tenham a serenidade de expor fatos. o Sr. Saturnino de Brito. e prega com força e eloqüência o seu credo. ao ancião. "foi simplesmente o terror dos maus que dominam a Beócia". pertenço ao número dos teus mais veneradores discípulos. O Sr. vibra e arde o ideal rubro. o autor do Socialismo Progressivo afirma completamente as tendências principais e superiores da sua atividade intelectual. é que ele vive e faz viver os seus personagens. tiveram também a sua influência entre nós. Saturnino fica prosaico e mostra-se logo o escritor que não pode falar em tom familiar e em coisas familiares. tão enamorado da natureza como é.. o herói do Sr. o aborrece.vêm diluídas nas suas novelas a todo o propósito.A Cooperativa é um estado . Inunda tudo. Tanto nas suas obras de ficção como nas de propaganda. como que se compraz em extravasar por todos os lados.maldizendo. Saturnino de Brito. Continua a ser o apóstolo disfarçado no literato. venha a ser uma festa perene. Surpreendido em colóquio com a druideza. mas também é denúncia da sua qualidade superior de escritor: a sua sinceridade. aliado à política de rapina. delata poderosamente essa feição primordial do artista que. que. não se deleita unicamente com o choque de umas nas outras. Será defeito. ele quer contribuir um pouco para encher de esperança os que sofrem e não podem. É só lê-los para o verificar. para que essa esperança seja um fato. O seu conto "Ana"." Todos os trabalhos do Sr. longe de ser a geena que é hoje. não ama as almas pelas almas. O real. Querendo baixar até nós. e não tem o dom da ironia e da sátira. A sua obra é de profeta da Bíblia e ninguém como ele obedece ao clamor que a injustiça do nosso estado social provoca da indignação dos bons corações. e só me basta a honra de o ser sinceramente. de exortar.. que entrevê rapidamente e logo se esvai entre neblinas. de ordená-los artisticamente. de modo que digam ao leitor mais do que dizem. declama e abandona-se à eloqüência. que é a sua última obra e a que intitulou Da Volúpia ao Ideal. como já disse alguém. pelo pai desta. no seu ideal. e é belo! . e. Os apóstolos da regeneração. Ama a metáfora e a alegoria.

mas duvido que seja assim.. a fim de tirar da nossa vida brasileira obras de arte dignas da imortalidade dos séculos. recebendo uma grande bofetada. Já possui a sobriedade de dizer. A Angelina do Sr. que resistia tenazmente. . Tais são as qualidades do livro. a naturalidade do diálogo e não limalha a frase estafadamenente. de carmim nos lábios. O drama encerrava um poderoso exemplo de moral. que não o faça. Ranulfo Prata venha a ser . Os protagonistas eram a mulher de um pintor. uma novela em que o autor revela grandes qualidades para o gênero. de cabeleira. fácil. Eu o li com o interesse e o cuidado de todos os livros de moços que me caem nas mãos. é nitidamente examinado e explicado. apesar do ouro oferecido. de joelhos. alucinado. 5-2-1921.o triunfador . que o meu dever de escritor e justiceiro é animar o confrade. que ele se esforce mais. Ei-la: "Entrava o terceiro ato. é de esperar que o Sr. o pintor e um conde. tais são as promessas que ele encerra. O conde era um rapaz alto. "O papel de pintor coube ao Paiva. penetrou audaciosamente no humilde lar do artista e quis forçá-la. Teimam todos os romancistas que tratam de tais cenas. gravata preta e olhar romântico. e raivoso. Compraz-se o Sr. vertendo lágrimas de emoção. nunca encontrei uma moça que a tivesse. num teatrinho do interior. aprendiz de alfaiate. É um romance." Com tantas e superiores qualidades. em atribuir às moças dessas cidadezinhas. tudo isso são nugas sobre as quais não quero insistir. não podendo sufocar o seu desejo. que o encarnou muito bem. pois não quero que um só de talento me passe despercebido. de meninota da roça. a sua pintura de Anápolis sai muito viva e original. passa logo a "coquette" do Rio. beleza.B. apesar desse gênero de estudo ser por demais comum. Ranulfo Prata no detalhar uma pequena cidade do interior da Bahia e. O seu caráter amoldável. O pintor casualmente entra no momento. Algumas vezes que tenho visitado tais vilarejos. Ranulfo Prata teve a bondade e a gentileza de me oferecer um exemplar de seu livro de estréia . Uma noite. Contudo. e capaz de todas as dedicações. O conde. A minha experiência a esse respeito é infelizmente nula e não posso apresentar objeção de preço.é estudado com toda a minúcia e exatidão.A. O Triunfo está cheio de cenas de costumes cativantes. humilhado. pedindo que ele continue. A rivalidade das bandas de música é uma delas e eu não posso deixar de transcrever aqui a descrição da representação de um drama. "Quando o pano caiu a platéia aplaudia delirantemente. Prata é linda. cheia de amantes. o último.o que o Paiva fez muito bem quer estrangular o fidalgo. O personagem principal .C. antes.O Triunfo. A mulher fiel pede-lhe. O TRIUNFO O Sr. Ele queria à viva força possuir a fresca mulher do pintor. ali mesmo saca do revólver e suicida-se. é bela e.

mais ou menos mundanos. de Descartes.a edição. Com o tempo. ele nos dará. ao citá-las aqui. e é então que se desenrola toda aquela lancinante tragédia do Ceará e proximidades. com os nossos costumes de Assembléias e Câmaras Legislativas. deputado Ildefonso Albano mandou-nos a 2. e o Discours sur la méthode. Ildefonso Albano. dos franceses.C. Ildefonso Albano é. deviam ter seguido outra orientação mais ampla e audaciosa. para elucidar o que afirmo.um grande romancista.. em todos os pontos do nosso território. quase anualmente. isto é. A. por serem mofinos e mesquinhos. na sua distribuição de águas ou na correção da declividade de seus rios. A obra do Sr. festivais de caridade. organizarmos bandos precatórios. oferecer terra e trabalho aos "retirantes". quando a chuva é escassa. sobram-lhe outras qualidades de escritor que suprem aquela falta. creio. exigindo só uma correção. a quem aconselho abandonar toda a preocupação de elegâncias para só atender o que é propriamente de sua arte: a alma humana e os costumes. Os trabalhos dos ingleses no Egito. menos do que um "tratado". mostram que nós podíamos seguir no Ceará e proximidades esse mesmo rumo de audácia eficaz que tem dado tão bons resultados àqueles. do seu excelente discurso sobre O Secular problema do nordeste. de quando em quando. por que não temos outro tanto para tornar fecunda uma grande região do país que é das mais férteis. Tive com a leitura do seu livro o máximo prazer e espero que se repita em um segundo livro que. como explica o Sr. para povoar ou encher de necessitados outras. como já mandara a primeira. Se ainda lhe falta. merecidamente. o jovem escritor corrigirá os defeitos e nós teremos um grande romancista digno das nossas letras e dos destinos da nossa língua. Todas as que têm aparecido já deviam ter nos ensinado que o caminho era outro e os trabalhos que lá se têm feito e não têm resultado palpável. quando elas aparecem. pois. de Bossuet. uma profunda e sagaz visão da vida. o café. dos americanos no Colorado. conjuntamente com a fraca espessura do seu solo permeável.B. que de há muito deviam ter preocupado todos nós brasileiros. . já nos deviam também ter ensinado que tais trabalhos. na Argélia. É aquilo que os antigos chamavam por esse nome. Se nós temos tido não sei quantas centenas de mil contos para valorizar. um quadro muito vasto desse atroz problema das secas chamadas do Ceará. Não é bem o que nós. e creio não haver a mínima exibição de sabença. De forma que. Dr. para que venha a sê-lo de fato? Devido à inclinação do seu solo. o Ceará vê o seu subsolo pouco infiltrado e os seus rios correrem somente três ou quatro meses no ano. O SECULAR PROBLEMA DO NORDESTE O Sr. É desejo de quem escreve estas ligeiras notas e o faz ardente e sinceramente. de norte a sul. o Discours sur 1'histoire universelie. a terra fica ressequida e os rios tão secos. Nós não podemos estar limitados a. 28-9-1918. mas que toca em todos os pontos do tema presente. talvez. Ambas essas obras são clássicas e conhecidas de todos. uma dissertação. de leste a este. em breve. E eu me atrevo a lembrar. relativamente mínima. chamamos discurso. despovoando uma grande região do Brasil. estou certo.

homem nobre." Mais outro: O vigário de Ipueiras. Ildefonso Albano. Sendo assim. acusa a recepçao de 400$ e diz: "Como é grande a necessidade do povo.Como em geral nos fenômenos meteorológicos não se pode determinar o seu período de sucessão. todos nós brasileiros. tem sido assolado pelas secas e mal convalesce de uma. os habitantes daquelas flageladas regiões são tomados de surpresa. É preciso que façamos cessar. como já no começo do século XVII foram também os primeiros conquistadores do Ceará. tanto de engenheiros. resolvi socorrê-las e empregar o resto do dinheiro em sementes. como de outra profissão. onde no Siará ajuntou a si todos aqueles índios moradores. que expulsaram do Ceará o primeiro civilizado. e deu-lhe Deus grandes vitórias. que ainda está por encerrar. apesar das nossas pretensões de termos decifrado a natureza. demais acha-se alojada aqui uma grande porção de emigrantes de outras freguesias." Eu poderia tirar do livro do Dr. parte dos quais pereceram de fome. Teimoso que é de continuar a mostrar nos seus constantes renascimentos que é capaz das maiores possibilidades. cai-lhe outra em cima. Albano queria fossem reproduzidas. como é dos nossos costumes. que esse vale do Jaguaribe. se veio deixando tudo miseramente a pé com sua mulher e filhos pequenos. Em data de 16 de fevereiro de 1916 o padre Raimundo Bezerra. para comover o coração dos mais duros. Por falta de provimento e socorro. depois de lhe arrebatar os inocentes filhinhos. lista longa e interminável. hoje. não me furto ao dever. ele continua a pedir sábios trabalhos hidráulicos. com Diogo Campos Moreno. Ildefonso Albano ilustra com os mais dolorosos documentos tanto iconográficos. esse horrível espetáculo. Como isto aqui é uma simples notícia de vulgarização de um trabalho que precisa ser divulgado e não uma crítica que não tenho competência nem estudos especiais para fazer. mas com largueza qualquer e audácia. Pêro Coelho de Sousa. em data de 26 de agosto de 1915. 80 brancos e 800 índios. marchou até o Jaguaribe. mas os que aí vão já bastam para que todos procurem na sua obra uma imagem bem viva do que ela é. que este pequeno escrito tem unicamente por escopo chamar para ela toda a atenção dos brasileiros. "Daí para cá se têm sucedido com cruel periodicidade os tétricos fenômenos. voltou ao Jaguaribe. para produzir o melhor algodão do mundo. Ildefonso Albano mais outros depoimentos simples e tocantes do que é uma seca. na impossibilidade de também reproduzir as gravuras que um amigo do Dr. "Rezam as crônicas antigas que em 1603. foi até a serra de Buapava e teve grandes recontros com os tabajaras de Mel Redondo. Ipueiras sempre foi um município pobre. escrevia: "Os famintos aqui se acham em extrema miséria. ainda uma vez. Desde essa primeira notícia. não só aí. Tomo a citação do Sr. de modo que nunca se pode prever quando é o ano de chuvas escassas e o ano de chuvas abundantes. Registro. padre J. . morador na Praiva (?) do Estado do Brasil. de transcrever algumas cartas e outros documentos particulares. vigário de Jaguaribe-mirim. de Lima Ferreira. De volta para Pernambuco. não timidamente. Muitos estão quase completamente nus. agradecendo a remessa de 300$. por meio da ciência. onde fundou uma povoação com o nome de Nova Lisboa. mas em todas as partes que eles forem precisos. cujos nomes encimam a lista fúnebre das vítimas da seca. encontrando-se pessoas caídas de fome. como literais. O povo não pode mais resistir e nesses dias morrerão muitos de fome. que o Sr. É preciso que eles se façam. sem que o seja em prazo de tempo regular.

escrito de colaboração com o Sr. porém. dos dois outros. do saudoso José Veríssimo. Teo. tenho em mãos. nada havia lido em livro.tinha. mas que.Mme.. Nada de paliativos. de quem eu tinha lido um artigo de jornal ou outro. de gente que perdeu a alma ou nunca teve uma. que fica distante oito quilômetros daquela pequena cidade do sul de Minas. tanto no que toca às almas. enfim. também. de patifes de toda a sorte e origem.. Confesso que a leitura deste não me deixou tão forte impressão quanto a do outro. Alberto Torres. Li-os lá. são menos cínicos. ninguém as lê ou procura. O meu bom amigo era o Emílio Alvim. A. à espera de uma nova revolução francesa com os seus desdobramentos inevitáveis. É o Anita e Plomark . por uma crônica de Patrocínio. Agora. Quem vive neles pode logo imaginar em que consistem elas. em geral do Ministério da Agricultura. Júlia Lopes . Para isso toda a propaganda é pouca.aventureiros. um novo livro seu. uma pintura da vida pernambucana com todos os aspectos de fidelidade. uma espécie de Sieyès. ANITA E PLOMARK AVENTUREIROS No ano passado. como secretário.Todos nós nos devemos interessar por esse problema e de interessa todos nós.. e. à Willy. como no que se refere ao ambiente em que elas se moviam. mas que me é visceralmente antipática. Achei o seu romance raro. a . O par de aventureiros agita-se em um meio de "rastas" parvos. Alberto Torres me pareceu um fabricante de constituições. milhares de patrícios a morrer miseravelmente. que havia sido durante anos secretário de jornais de péssima fortuna. grandes obras para que elas cessem ou sejam atenuadas antes que aquilo lá fique um Saara. Perdôo os criminosos declarados. em que me surgiu como um aprendiz de Casanova . O Sr. Oliveira Lima. Se se pode compreender . perfumado de graça. mas.Correio da Roça . formando uma corja que pode ser "sui-generis". tive ocasião de ler pela primeira vez um livro de Teo Filho. Bifteck-Paff.é como um laço moral e esse laço não nos pode permitir que deixemos à míngua. a quem desde menino. Alvim tinha além de exemplares das edições dos Srs.Teo me surpreendeu. passando tempos em casa de um amigo. vivo. desde a Revista Brasileira. Não posso compreender nem perdoar semelhantes vagabundos de caso pensado. que deve ser um autor extraordináriamente novo. Eu fiz aqui o que pude.C. de "plaquetes" de versos ou de discursos laudatórios.Pátria . mal lhe conhecendo a feição literária. Todas chegam aos jornais por oferecimento dos editores e autores. de obras de autores gabadas. e acabo de ler. de épocas em épocas. e tudo isto sem pedantismo de frase ou exibições de uma sabedoria de empréstimo. sem oásis. Robert de Bedarieux. em geral. empregado na colônia federal Inconfidentes. inclusive aquele famoso tratado de agricultura da Sra. Rodolfo de Miranda e Toledo. Oliveira Lima e. Dos três. um romance do nosso Teo Filho .B. só conhecia bem o Sr. Constam de publicações oficiais. tinha organizado uma econômica biblioteca característica dos secretários de jornal. dizia eu. obras de Sr. me habituei a ler com interesse e carinho. 21-9-1918. do Sr. muito natural. estando eu nos arredores de Ouro Fino.

para vencer certas dificuldades. sem nada de sério na cabeça. nós poderíamos muito bem estabelecer o funcionamento normal da mentalidade feminina na nossa sociedade. é de uma estupidez assombrosa e sem nenhum traço superior de coração ou inteligência. a cortesã eivada de arte. A "Nouvelle" seria menos gentil. meu caro. "convênios. e a desgraça só merece compaixão quando é total. desses estéreis de todos os modos. no novo romance de Teo Filho. dir-me-á Teo. são eles muito fáceis. a mulher só se prostitui por estupidez. seguem-se outros equivalentes. Ao contrário. das falsificações e. nas modestas classes. das intrujices. e olha. estados que as mais atiladas aproveitam muitas vezes para sair da prostituição declarada. isto é. são acidentes na carreira das hetairas. quando ela sabe com resignação e sofrimento arcar declaradamente com a sua tristíssima condição. São espíritos perversos demais e o cansaço da vida não lhes vem do trabalho próprio. A prostituição na mulher é a expressão de sua maior desgraça. Não. talvez. mas o luxo e a riqueza.. com tanto respeito. Para os machos como tais.vida desses inúteis sem desculpa alguma. só lhes desejo a guilhotina. quando verdadeiros e francos. nem dos seus ancestrais. auxílios às usinas de açúcar" e outros sutis expedientes honestos da gente progressista de São Paulo. uma hetaira "onesta". em geral. Anita. não é mesmo o que os venezianos da Renascença chamavam. Não será tanto assim. por Anitas e outras. homens medíocres sabem sacar de oportunidades. em bloco. dirão. Não gosto dos disfarces. a não ser por defeito orgânico. dos seus recursos. por exemplo. mas há muitos estados intermediários entre a senhora de família e a meretriz. pois. É da camada delas. um aspecto que o torna notável e muito me interessou. mais ou menos. Não é assim a heroína do romance de Teo Filho. Os homens têm tais recursos. e e "sorte grande" o amásio rico e gastador constante. Creio que foi Maxime du Camp quem demonstrou isto em um estudo sobre a prostituição em Paris. É verdade que a riqueza e o luxo tentam. mas de uma inata maldade aliada a uma perfeita incompreensão das altas coisas da natureza e da humanidade. com certo desinteresse natural e. sem se intimidarem diante do mistério da vida e sem uma ingenuidade sequer. valorizações. Mas. para elas. nada perde com isto. Há. sem uma paixão. o "gato de nove caudas" ou a roda das penitenciárias. que Teo parece querer exaltar. senão idiota. defesas. as mulheres públicas da nossa sociedade burguesa. sem uma mania.o que é coisa bastante impertinente. uma tal e qual generosidade espontânea. para as fêmeas como essa Anita. Tenho que aceitá-lo tal qual é. como em geral. vi que aí seria discutir o livro no meu ponto de vista . O assassínio que ela pratica tem tanto de útil quanto de estupidamente executado. quando ela o é em toda a força do seu deplorável estado. É como ele mostra o mecanismo espiritual . sobretudo. o primeiro amante não é o velho rico da lenda. Anita faz isto. A prostituta só é digna da piedade e respeito dos homens de coração.. e as raparigas do prazer se recrutam. e talvez o próprio autor não tenha percebido. ensopada de poesia. quando é fatal e nua. para ludibriar os outros. E depois deste primeiro amante. Há mesmo quem diga que. mas as mulheres? Que procurem tais homens. sem necessidade de tal. estudam de preferência o órgão doente para lhe descobrir a função em estado normal. Os fisiologistas às vezes. ela mata e rouba. do aproveitamento dessa sagrada marca do destino. Não é pois admirável que uma inteligência lúcida espere retirar de tão degradante estado as fortunas que. Geralmente.

de damas "chics" e gatunos de alto coturno. um livro: e basta isto. retratando a estupidez de recentes ricos. a análise é sagaz no livro de Teotônio. amante ou mesmo cáften. pelo simples motivo de que o Velho Testamento está recheado de exemplos de alguma coisa análoga e são conhecidos de nós todos. que não atinamos para que roubam. Sob este aspecto. e sempre pela vivacidade dos matizes que o autor emprega nas breves e firmes descrições de que está cheio. na de um homem. pois há quem diga que ele é tão geral entre judeus.. é Plomarck. capaz de dedicações e sacrifícios.. com dados atuais. por mais que ela possua força de amor em uma delas. Só lhe resta o cáften. cheio de sentenças. Tudo nela é mistério.. essa abdicação da vontade da mulher. pululamento de vida. Estranha Cavalaria. Nesse tempo. e sempre araucárias. está certa que o resfriamento virá. aventureiros . desenrolando-se quase todo nas paisagens delambidas e ajeitadas... Anita e Plomarck. espiritual e sentimental. mas as araucárias são de uma tristeza impassível e sem .pelo qual se dá esse estranho fenômeno do caftinismo. Nestor é uma floresta do Paraná. Não tem entrelaçamentos dos nossos cipós nem as surpresas de variedades de essências que a nossa mata tropical ou subtropical oferece. abandonada no vício. quase sempre unicamente determinado por laços psicológicos. não pode existir sem o apoio de um homem qualquer. são como as do Paraná. Descrevendo esse meio de "parvenus" e "toquées". A. só são mantidas graças à ignorância do seu verdadeiro estado. perdida. já meio-criminosa. esse domínio de corpo e alma do rufião sobre a meretriz. evidenciando o sáfaro de todos eles . Correm os tempos e aquele homem que me parecia seco.C.B. seja como for. ELOGIO DO AMIGO Não sei como possa dizer bem da atividade literária de Nestor Vítor. 16-2-1918. interrogação. e. e eu não gostava dele. ao que parece. Ele não é efusivo e revolto. dos seus antecedentes.é um livro singular e curioso por todos os aspectos que se o encare. É ele o seu único apoio moral. Nestor era vice-diretor do Internato. "ad usum Delphini". mas grandiosa e impressionadora. sem indagação. mas precisa dele no mundo. Não terá mais afeições. desde que o afeiçoado saiba quem ela é. Há nelas alguma coisa daquela secura que lhe notei em menino. e a aceita como ela é. são araucárias. pai. da Côrte D'Azur. por ela. em que não entra a mínima violência. quando fazia preparatórios no Ginásio Nacional. toda inteira.a novela nos prende pela estranheza do assunto. Teotônio analisa muito bem como uma mesquinha alma de mulher. dogmático. Não há árvore mais monótona e mais fácil de explorar do que ela. surge-me deliciosamente como uma grande alma. Ela o ama? A bem dizer. A nossa floresta tropical ou subtropical é triste. de fato. onde uma mulher. seja ele marido. creio eu. Comecei a ler-lhe as obras. a única alma que se interessa. No caso. Eu o conheci menino. irmão. de todos os países e côres. Não afirmo que seja peculiar à época atual. e as que vai obtendo aqui e ali. o livro é notável como análise de um dos mais curiosos fenômenos da psicologia mórbida dos nossos tempos. filho. na vida. para torná-lo digno de atenção. As árvores de sua floresta são quase sempre de uma mesma espécie. Ah! Essa solidão. esse ascendente. É. mas. sente o vazio ao redor dela e tem medo desse vácuo moral. não.

B. homens d'armas. só não cunhava moeda para vir a ser um verdadeiro príncipe soberano. nos transes mais dolorosos da minha vida. É mais completa que muitas outras que não fornecem o pano. pelo de São Francisco. É por isso que gostei muito do livro que o meu amigo Nestor Vítor me ofereceu e que me deu extraordinária satisfação intelectual. 5-8-1922. a querer atingir um outro que lhe fica bem distante. classificarei de sociológica a sua interessante novela. daquele rio Grande que. a fazenda era como um feudo em que o seu dono governava. Neste Elogio do Amigo mais do que em nenhuma obra. Não há na literatura brasileira. tropeiros e vagabundos. Entretanto.C. pelos afluentes e confluentes destes dois grandes rios. solitário. Não há barbacãs. ditava leis. Carreiros. Nunca amei. ou raramente. nas suas obras.. graças ao atrativo do contraste. Li este seu livro. repito. Paulo. Segundo Guyau e pelas suas intenções. mas sempre tive amigos. forma o grande Paraná. ameias. por ela mesmo. próxima à serra da Canastra. com as suas escassas ramagens. pontes levadiças. Não se fixa. eu vejo Nestor meditativo. como um pinho do Paraná. A "Boa Esperança" é um perfeito tipo de fazenda: e ela fornece aos proprietários. distribuía justiça. UM ROMANCE SOCIOLÓGICO A fazenda "Boa Esperança" está situada no vale do rio Grande. das de Goiás e Mato-Grosso. A "casa grande" não o possui como o tinha o castelo antigo. no romance do Sr. Essa espécie de "bravi" está sempre à mão. para ter uma completa semelhança com o senhorio medieval. em que nasce tanto aquele rio. a não ser a amizade de Sílvio Romero por Tobias Barreto. A. nunca tive amor. do norte. boiadeiros. fossos.eloqüência. Esse tipo curioso da nossa antiga propriedade agrícola. o São Francisco. agregados e escravos todo o necessário à vida. cheio de embevecimento e entusiasmo. Nestor é bem um amigo dessa forma. como se neste país todos nós não fôssemos mais ou menos pretos e todos nós não fizéssemos versos. chegam ao auge. a sua força de amar o camarada. como. li-o. já não contando com ciganos e índios mansos. ao alcance do primeiro chamado. porque ele o soube ser de um pobre preto que teve audácia de fazer versos. Mau Olhado. pelo vale do Paraná. Veiga Miranda. a grande propriedade agrícola sofre o influxo e a influência de gentes do sul do Brasil. mas que a do alferes . dos quatro pontos cardeais do sertão do Brasil passam pelas proximidades e. Falta-lhe também o aspecto militar do feudo antigo. que a todos descreve e analisa soberbamente. Colocada nesse vale e nas divisas de Minas e S. que é a fazenda. em que Nestor tão bem retrata o seu íntimo de amigo. pinta-o e descreve-o o autor com minúcia e carinho. recebendo o Paranaíba. eu aprecio Nestor. vizinhos. outro exemplo de tão forte amizade literária que esta de Nestor por Cruz e Sousa. assim como. mediante boa paga. quando ele revela as modalidades naturais do seu temperamento. na vertente oposta. exceto o sal. e mesmo a nossa capangada só aparece no latifúndio quando as rixas entre senhores de fazenda. e foi excomungado por ser preto e fazer versos. a seu talante. Isolada na sua vastidão.

acabada a leitura da excelente obra do Sr. ao jeito artístico da alma do escravo. bem depressa ouvi elevar-se nos ares o hino que cantam em coro os negros no momento de começar o trabalho. algumas décadas antes da ereção daquela que é o cenário do Mau Olhado. ergue o feiticeiro Lelé às culminâncias de guia de multidão e aniquila o padre Olívio. nos arredores do Rio de Janeiro. Veiga Miranda tratou. O jovem e talentoso autor paulista só se ocupa dele na cena do batuque e. Lá. dentro do seio. E. protestando tragicamente contra a sua infecundidade imposta e criada pelas regrinhas da sociedade. sagaz e ilustrado. O padre ficou entre a madrasta (Maria Isolina) e a Placidina. em torno do mundo. atmosfera essa em que morre de amor por este a interessante Maria Isolina. o banzo. que é inegavelmente um escritor moderno. compete-nos falar do que o foi. filho de fazendeiro) à sua direita e à esquerda. se bem que ligeiramente. não me parece valiosa. porém. envolvendo as rapaduras. creio eu. não devia ter esquecido esse ponto que o tema do seu romance como que torna primordial e requeria ser estudado à luz das modernas correntes de pensamento superior. as duas orelhas ainda sangrentas. nesta passagem e em algumas outras. nome ou alcunhas interessantes. explicaria melhor aquela atmosfera de crendice e abusão que desde o começo cerca os personagens do drama. tão profundamente nela se está separado e independente do resto do mundo. À grande tela em que o autor trabalhou com ciência e vigor. pelo Sr. os antebraços das mulheres agitavam-se. alude a eles. as das indústrias agrícolas próprias à fazenda. A antiga propriedade agrícola de um tipo geral. e trazendo para a casa. É a fazenda. castigos. mas. A justificativa que não havia nela. o Sr. Veiga Miranda. na fazenda. mas. se traem no propósito e no desenvolvimento de sua novela. alguma coisa deliciosa na sua vida patriarcal. de mangas arregaçadas. não escapou o fenômeno social da nossa escravatura e o Sr. propriedade do Sr. No seu livro em que narra a viagem que fez. Manuel Figueiredo. dando os nós fortes..Malaquias. a bordo da corveta. ele. o objeto do livro. A boa compreensão. Mais adiante. de dizer quanto ao que não foi feito no seu livro. cardada e tecida. sociológicas. à minha vontade. à . É o escravo. O eito. a vida da senzala.. no mais." Ao grande naturalista inglês. filha do Laurindo Bravo. que o Sr. Veiga Miranda. A impressão que se tem é magnífica. Vejam só este trecho que trata do empalhamento de rapaduras: "Ao longo da mesa. a descrição de sua vida total. A fazenda do "Sossêgo". não podia existir sem o escravo que ela supõe. Não me lembro de autor moderno nosso que seja tão cuidadoso nesse ponto como o autor do Mau Olhado. dá. inacabado. cujas vistas sociais. a destemida virgem selvagem que se entregara por um ímpeto carnal ao mais valente tropeiro do sertão. tinha. dos seus grandes rebanhos de ovinos. por intermédio da lã. e por sê-lo. Ele as acaba e as arredonda suavemente. etc. Nessa parte a obra é de uma rara virtuosidade de execução que às vezes peca pela exuberância do detalhe.. Nada temos. Veiga Miranda não se limita a esboçá-las rapidamente. à sua frente (do padre Olívio. seria melhor dizer. só se compra o sal. "Beagle". não deixou de vê-los e senti-los. Darwin que visitou uma. o leitor menos comum procura alguma coisa que lhe falta. Não só os personagens principais e secundários. deixa-o como simples. não faltou nenhuma pincelada para o seu bom acabamento. como as abelhas rainhas. o solene silêncio da paisagem. fazem-lhe falta e como deixam o estudo desse elemento da fixação da nossa população rural. ali pelas bandas de Maricá. Veiga Miranda. matando-o pouco depois. conta o autor da Origem das Espécies: "Uma madrugada fui passear uma hora antes de sair o sol para admirar. pondo de parte a idéia de escravatura. enlaçando as embiras. diz Darwin. mas as cenas domésticas.

uma medicina de pajé. E guardar a vida inteira Esse amor como um segredo. num pouso de caminho. onde vai freqüentemente para arranjar o desimpedimento de matrimônios entre parentes próximos. de fato. "Olívio adestrou-se em pouco tempo no mister que lhe designaram. por uns alheamentos esquisitos. letrado a seu modo. a madrasta. mistura e combina. Feiticeiro e sacristão. (a filha. Um tanto crente e um tanto impostor.sua frente. mais velha do fazendeiro) não tomava parte na tarefa noturna. ao descobrir que o padre estava fornecendo embiras a Placidina. rábula de câmaras eclesiásticas. apossa-se de Isolina uma raiva súbita que a leva a expulsar. etc. e o nariz acarneirado. com cuidado. Uma quadrinha que há no romance. cozimentos. a pobre agregada." Maria Isolina. os olhos brilhantes. desempenhada ainda com grande exibição de atividade e meticulosos zelos. É médico e sacerdote. ajudando-a até a enlaçar com elas os molhos já formados. sem motivo nem causa. do seminário de Mariana. parecendo mais largos sob a luz forte do lampião belga. Nessa mesma passagem do empacotamento de rapaduras. ficavam as duas primas mais velhas. . sardento. Mandava logo ao começo uma bandeja de café. do serão. A figura central e mais original do romance é o Lelé. Veiga Miranda põe todo o seu talento de observação e de psicólogo dos indivíduos e das multidões para o estudo e a ação desse personagem. pelo defeito de uma palha. O autor. com a sua terapêutica de ervas silvestres. esse Lelé confunde. feio e cheio de espinhas. Olívio. com o seu rosto comprido. que saíra padre. por uma demora. para vingar-se do padre e realizar a sua estulta e bronca ambição de pontificar como um bispo autêntico na capela branca da fazenda "Boa Esperança". "Iaiá. um todo de traços meio masculinos. receando que o contato das outras a arrepiasse. rezas e exorcismos. E daí a pouco mandava colocar sobre a mesa. tímido e triste. Continuava a caber-lhe a mordomia da casa. em vários pontos. tenta dizer o indefinido mal dessa parada de sentimento: Sina do meu coração. gradua esse sentimento da sinhá dona da "Boa Esperança" e o marca por gestos e palavras muito expressivos. emprega o seu ascendente sobre o povo e também sobre os senhores de fazenda em cujo espírito o seu prestígio se tinha infiltrado. brincalhona. desembaraçava as embiras. puxando muito aos do pai. Alia a isso. a moça alquebrantada se apaixonara secretamente por ele. Ele percorre o livro todo e é como que a alma da obra. falando-lhe com vivacidade infantil. se deixava apoderar. e depois transitado ao longo da mesa pelas empalhadeiras. violento e animal.. com muito relevo e habilidade. com intermitências. ladeando como sempre a figura alegre de Ismênia. transforma a todos em fanáticos obedientes ao seu mando. uma a uma. O Sr. se tomara de uma invencível repugnância pelo marido e viera a adoecer duradoura e inexplicavelmente depois do primeiro e único parto mal sucedido. depois do primeiro contato matrimonial. o alferes Malaquias. Após a chegada do enteado. Maria Isolina repreendia-o de quando em quando. aproveitando-se de epidemias e desgraças climatéricas. travessas e peneiras cheias de pipocas. depois que os convencera de que salvara Maria Isolina). "Olívio. as crenças superiores da Igreja Católica com as primitivas do animismo fetichista dos negros e índios. Fui aprender a amar bem cedo. Escolhia para a madrasta as palhas mais macias. que casara muito moça com o fazendeiro. cercado cada vez de maior consideração. etc. Leonor e Gabriela. servido primeiro aos dois compadres e a Lelé (que andava agora nas boas graças de ambos.

termos. que cada um pronunciava a seu modo. Noronha Santos. À vontade para falar dessas questões de limites estaduais. Diz o autor. até o ponto do banquete. detalhe por detalhe. sem lhe fazer uma crítica de mestre-escola. são todos bem característicos e as concepções familiares e domésticas do Zamundo Bravo. por ordem e conta da respectiva Prefeitura. não militam tais causas. capitanias. que. como argumento decisivo da validade de tal ou qual linha divisória entre as antigas províncias. em 1833.. onde todos. fastidioso e fatigante. traquinas e desenvolta. filhas e noras. quanto aqui. milhares. podiam alterá-las quando quisessem. A precisão era-lhes então absolutamente indiferente. Não há tal. o Distrito Federal. não nos despedimos do Sr. Lê-lo será melhor para travar conhecimento com um autor nacional que. criar nele nacionalidades. põem a máxima pureza e moralidade. Analisar o livro. entretanto. avisos e outros atos administrativos. para mim e para os leitores. e há outras causas que agora me escapam. tinham em mira." Será mesmo espiral?. decretos. Riamo-nos um pouco como bons camaradas que somos. Todos eles querem ir buscar. Um trabalho desses. diretor do Arquivo Municipal desta cidade. por muitas razões. acaba de imprimir e publicar. agora que queremos organizar pequenas pátrias. e iam baixando numa espiral invertida. uma excelente memória sobre os limites desta leal e heróica "urbs" com o Estado do Rio. a propósito de sua curiosa obra. Não se trata de linhas rígidas e imobilizadas no tempo. às qualidades exigidas a um simples romancista. muito menos. por meio de delegados seus. O Amazonas e o Paraná nasceram ontem. quando a Regência criou. Até logo! Revista Contemporânea. por falar nisto. 26-4-1919. Uma delas é que eles. e de seus filhos. seria. pág. Veiga Miranda e do seu belo livro. portarias. comarcas.Os personagens secundários. tem. o Município Neutro. porquanto sou carioca. O seu trabalho. para dar a tais documentos um valor muito relativo e sem valor para nós outros. a começar pelos de lá. lugar -tenente de Malaquias. Era o . segundo a terminologia republicana. 241: "Pairavam (os corvos) primeiro no alto. que revela esforço e paciência. neles prepostos. Nós podemos bem imaginar o que era tudo isto.. são documentos preciosos para o estudo dos nossos costumes do interior. há cerca de cem anos. quando dividiram e subdividiram o Brasil. aproveito a ocasião para o fazer de um modo geral. permitissem ser mais bem dirigidas estas terras. Podem objetar que.. o pequeno defeito de esquecer que nem o Império e.. se não inteligência e capacidade. sobretudo a Borginha. ambos os governos. o governo colonial. a filha mais moça do fazendeiro.. sofre do mesmo erro de visão que os demais referentes a tais questões. uma outra é que a topografia do interior brasileiro devia ser mal conhecida.. os documentos oficiais. que é exaustivo e minucioso. E. baralhada de denominações e corruptelas de denominações tupaicas. LIMITES E PROTOCOLO O Sr. O seu fito era outro: era obter províncias. alia as de um psicólogo da nossa curiosa "multidão" roceira e as de um sociólogo que veio a sê-lo passando pela geometria. quase imperceptíveis.

e intensa. é maravilhosa.Rogério . Isto ele o faz com o pensamento geral da peça. que demandam tantas qualidades de inteligência e caráter. generoso e sincero. Chama-se Rogério e é um drama em três atos. Noronha Santos. e não quero com isso de forma alguma diminuir-lhe o trabalho e o mérito. O autor não esconde a sua antipatia pelos revolucionários não só russos. entretanto. As que não se adquirem são as que ele têm: poder de imaginar. a quem aqui muito conheci. como também nos detalhes. Os limites do atual Distrito Federal. o autor. Admirei muito a peça. originado pelo choque e luta entre a violência e a brandura. para mim. entretanto. *** Temo muito transformar esta minha colaboração no A.espécie de Thervigne.a outra. Orris Soares. Aprendi tudo isto na obra do amigo Noronha Santos (o da Prefeitura). O Sr.foi aqui muito elogiada.Estas questões não têm. senão uma importância mínima. como os de todo o jaez. me vejo na contingência de fazê-lo por este modo.B. onde e por que influíram os índios e as suas denominações locais.indistinto. o Conselheiro Chichorro da Gama. podiam ser mais bem empregados para um mais perfeito conhecimento da fisionomia do nosso povoamento. a ponto de atingir as minhas próprias algibeiras.A Cisma . o estudo dos personagens. é que semelhantes trabalhos. mas que me chega da atualmente benfazeja Paraíba. pela leitura . das razões de fixação da população aqui e ali. . não esquecendo as pequenas localidades onde todos estes três elementos se misturaram. Considerações ligeiras sobre trabalho de tanta monta. Na atual o autor intenta o estudo do drama íntimo que se deve passar no peito de um revolucionário. na impossibilidade de acusar logo o recebimento das obras. onde e por que aconteceu tal coisa com os negros e onde e por que se deu tal com os portugueses. com os respectivos cortejos de sentimentos derivados. quando publicada. porque o dramaturgo não tem tido a felicidade de obter a representação das suas produções teatrais. elas só têm por fim justificar ao meu ilustre amigo. aludindo a obras do canal da Pavuna relatou-as à Assembléia Geral do Império. Soares é autor de mais quatro outras peças. embora me parecesse ela não possuir uma certa fluidez. E é pena.julgando-se rei e coroando-se com uma caixa de papelão. Ele. A cena final da loucura do terrível revolucionário . Isto nada quer dizer. Dr. nas atitudes governamentais e imperiais que eles tomam quando assumem o mando. A barafunda devia ter sido a mesma. dos seus caminhos.C. tanto assim que um Ministro de Estado. porquanto. as palavras que lhe disse. que. inspirada nos acontecimentos da atual revolução russa o que se denuncia por alusões veladas e claras no decorrer dela. Está neste caso o trabalho do Sr. já haviam sido fixados no ano anterior. simbolizava uma em Débora . das quais três consideráveis. mas recebo tantas obras e a minha vida é de tal irregularidade.. É uma peça revolucionária.estou julgando por esta do Rogério . principalmente no cerimonial. Deviam ser resolvidas por amigável acordo. como nas outras partes do Brasil. de criar situações e combiná-las. como estando sendo efetuados na Província do Rio de Janeiro e no Município do Iguaçu. da protagonista. . em Malvina. . porque é qualidade que se adquire. O que me parece. em crônica literária. no Arquivo Municipal.elas deviam ser merecedoras dessa experiência. a fim de não parecer inteiramente grosseiro. sendo que uma destas. há dias: .

não é preciso ser muito . mas o motivo é porque os julgamos fora do seu tempo ou longe dele. para sentir como me julgo com razão e para encontrar o motivo por que.te. se apresentou na sala de espetáculo. Calvinistas. Católicos. Walfrido logo demonstra que este não é o seu primeiro. no dia da inauguração. Esses homens podem ser para nós ridículos. sem linhas nem contornos e como que tinha a forma de uma pêra. Eu não aconselharia a Orris Soares a leitura das Origines de Taine nem o recentíssimo Les Dieux ont soif. para inaugurar um teatro feito por ele e construído por um literato espanhol. deixa o teu leito. na Revista do Brasil.Não é só com os de hoje que tal se dá.hoje uma das mais procuradas pelos nossos intelectuais de todos os matizes. e a citação eu a tiro de artigos que o ilustrado Sr. Versifica com muita facilidade e abundância. A leitura do poema do Sr. mas dois casos curiosos conheço fora dos revolucionários. Carlos Antônio Lopez. eles não se parecem assim. que. que esteve em Assunção. Cobria-a colossal chapéu de palha. mas são plantas imponentes e grandiosas. e os mais grotescos.B. "LEVANTA-TE E CAMINHA" Pois para que saibais que o Filho do Homem tem poder sobre a terra de perdoar os pecados. Quando nos transportamos à efervescência das idéias do meio que os criou. Um é o do ditador do Paraguai. verdadeiramente carnavalesco na sua feição de quiosque. disforme de gordura. os há de muitas espécies. S. disse ele então ao paralítico: Levanta. eles nos aparecem medíocres. ainda se pode repetir: cá e lá más fadas há. mamútico. outros. Sou de todo incompetente em matéria de versificação. Compreendo muito mal as "Cruzadas" e seus barões e ainda menos as guerras de religião de Luteranos. Portanto.. sob esse título. mas. A cabeça completamente unida ao rosto prosseguia numa imensa papada. Heitor Varela. com o título "Álbum de Elisa Lynch". Não tenho à mão nenhum exemplar de livro que me informe dos que os reis do Haiti se fizessem cercar. até ao ponto dessa facilidade traí-lo. acaba de publicar um poema. e vai para a tua casa. que lembra todo o poder divino de Jesus e a suave e ingênua poesia dos Evangelhos. Quem conta isto é um escritor argentino. os de certos magnatas sul-americanos vaidosos que se fazem escoltar por navios de guerra quando dão passeios pelos lagos azuis e plácidos do país. porém.C. E assim é sempre quando se trata de grandes movimentos de sentimentos e de idéias que apaixonam as multidões. mas com os de sempre. Quanto ao cerimonial e ao protocolo de que se fazem cercar os recém-chegados ao poder. depois de passada a borrasca. Afonso de Taunay publicou. A. Mateus.Revista dos Tribunais . etc. 2-5-1920. O Sr. no tempo. São talvez plantas de estufa. Há. deixando perpetrar pequenos desleixos. impresso na conhecida tipografia . Walfrido Souto Maior. mesmo aquecidas artificialmente. com quase um metro de alto.

e se aniquila. Souto Maior está familiarizado com a técnica do verso. porque. demonstra estudo e uma visão particular do autor. que o Sr. desalogadamente Florir. Debelar num sorriso os golpes de agonias Que trazem sempre o luto ao nosso coração! Uma dessas sentinelas perdidas que é preciso despertar. e morre. Fazendo-os da razão ouvir sempre o tambor! Precisamos trazer de pé as energias Que vivem dentro da alma inertes. Apenas puro sol aquece onde ela esteja. farão que se realize esse milagre a célebre ordem de Jesus a um paralítico: "surge et ambula". Rebenta. para sentir no Sr. Porém. Procurando como um cego . e o heptassílabo. mostra os outros da nossa elevação. O tema do poema é todo espiritual. que. como todas do livro. por aí e por outras partes do seu poema. numa formosa poesia. talvez a mais bela parte do seu poema. se a planta enxertam.que. É que a fonte da vida. Ei-lo: Deve ser como a planta o pensamento humano: Livre deve nascer. sem ação. se a mesma planta ou tronco. diz muito bem o autor: Trazemos dentro de nós sentinelas perdidas Que devem gritar sempre e muito forte: alerta! Porém. Para que o milagre se opere. essência que se asila Na própria Natureza) arrefece e se estiola. enchê.los de valor. é o pensamento que. que vão passando a vida adormecidas. Pospontar.lhes na farda alguns galões dourados. nem um ano Conserva o seu vigor. Passo para aqui esta que é típica: Vi Lamarck nesse pego Da camada subterrânea. Souto Maior a luz e a sombra de seu talento poético. levanta-te e caminha. cujos alexandrinos tem uma grande ressonância e maravilhosa amplitude sonora. e muito lentamente Perdendo a vida vai. Deixando a porta da alma inteiramente aberta! Devemos despertar depressa esses soldados. depois de mostrar os fatores de nossa queda moral.lhes disciplina. Não posso deixar de ceder à tentação de transcrever o final desse trecho do poema. se a mesma hera. à moda de Castro Alves. alegre. ele aconselha como agir. vencendo aqueles. O autor.forte nela. Sem nunca precisar das bênçãos de uma igreja! Percebe-se bem. Na primeira parte. e vai saudando a primavera. mas ama sobretudo o alexandrino. E dar. à Junqueiro. logo na segunda poesia ."Anatomia Ideal" . há décimas de fino gosto do grande poeta baiano. a verdadeira mola (A sua essência enfim.

mas também um singular poeta. Souto Maior. o espinho em que te feres Criaste-o mesmo tu: Quem a túnica rasga. apesar de conhecer eu homem há tantos anos..! Herschel sustinha o astrolábio. sob o aspecto orográfico. outubro e novembro de 1919. Se quis mesmo andar nu! Pelo pouco que citei. baseada sobre fortes leituras que se tocam aqui e ali.o sábio . se não temesse parecer que queria assinar trabalho alheio. não só um bom poeta. por um espiritualismo fluídico que perpassa por toda a obra. é transfigurada de um materialismo genuíno. n. Vi. Não pode maldizer o frio que o regela. O trabalho do Sr. é uma poesia lírica de raro valor e apreço. aí pelos meus doze ou treze anos. vai da lagoa Manguaba até a do Norte. encobre uma originalidade sempre latente do autor. segundo o prefaciador. etc. primeiro volume de urna série de três. tão sentida e tão profunda. e nunca te exasperes Contra a dor que te oprime. Daria toda ela aqui. no qual. que os leitores ficarão admirados de não ter eu tido ânimo de pôr também nesta notícia as outras. Contudo. cuja visão do mundo e da vida. . me surpreendeu encontrar. mineralógico. extremo. não só dá a capacidade de pensador.0 9-10. Discutindo o valor teu. como Laplace. ela me passou completamente desapercebida. de uma curiosa região de Alagoas.A Geração espontânea! Estava lá Goethe . vai aqui o preito da minha admiração por tão raro poeta. é o estudo. embora a mais singela. Querendo falar ao Sol. que parece ter sido a primeira crença do autor. potamográfico. Walfrido Souto Maior. poderão avaliar os leitores do raro valor do livro do Sr. e isto deve ter acontecido a muitos outros. Quando estudei corografia do Brasil. pela Livraria Jacinto Ribeiro dos Santos. por assim dizer. "Coração-Alma" com que abre a segunda parte do poema. Linneu. Era meu desejo alongar-me mais na análise do poema: mas. Com muitos sábios de escol! Isto não diminui em nada o valor da obra. Otávio Brandão. CANAIS E LAGOAS Com este título. geológico. assoberbado como ando com pequenos trabalhos que me forneçam o necessário para as despesas imediatas da vida. mas não posso deixar de citar esta estrofe. Vejamo-la: Não te maldigas nunca. É uma curiosidade corográfica que só pode ser bem conhecida por especialistas ou pelos naturais da região. para tanto não me sobra tempo. O objeto do livro. acaba de ser editado um curioso volume da autoria do Sr. como também mostra todas as feições íntimas do seu estro e do seu temperamento literário. crivada de canais e lagoas. que. Argos. pois esse aspecto.

que tantas qualidades de observador demonstra. como diz o autor estudado. enfim. Brandão diz uma parecida no seu livro. então? Concebida com uma largueza de vistas muito notável na sua idade. O Sr. costumes e folclore devia abandonar a visão literária de altas regiões clímicas. tal qual são. comarquense ou distrital. dragando. um "croquis" topográfico. diz mesmo que muito lhe custou compreender tanta complicação de lagoas e canais. num dos primeiros pontos do mundo! Há evidentemente exagero de bairrista nessa hidráulica papeleira e rápida. O Nilo é ele e só ele. quando vem a força das águas dos lagos. pesquisar rochas com o microscópio próprio e fazer. publicando o seu interessante livro. inundando e adubando o velho país dos Faraós. que ao menos marcasse. se mostrou capaz de profundos estudos de geologia. em forma de lodo em suspensão nas águas para o verdadeiro Nilo. como o Egito e o Nilo. para examinar a terra diretamente com o maçarico e o bico de Bunsen. aqui e ali. numa obscura lagoa. até agora somente sulcada por canoas. o Bahr-el-Gagol. onde durante meses apodrecem ao sol inclemente toda a sorte de matérias orgânicas. e o próprio Oiticica. no capítulo que intitula . entretanto. É ideante e diversa. por parte do Governo de Alagoas. sem lamentar e lavrar o meu protesto pelos tormentos e perseguições que sofreu. de climatologia e. que é de uma minúcia extraordinária e feito com uma exaltação místico-lírica. vilas. o que aconselha aos letrados. no prefácio. por assim dizer. não direi todos os acidentes topográficos. porque tem entre ele mesmo e suas nascentes. na África do Sul. perdendo a diretriz científica que sempre devia obedecer. Ele os compara. Otávio Brandão. não se encontra em nenhum rio da terra. e as enchentes arrastam em certas épocas do ano. que uma rara capacidade de estudo revela. aprofundando canais e construindo muros protetores. a execução do seu trabalho ressente-se. cidades. devia fazê-lo acompanhar da carta respectiva. são compelidas. Uma tal disposição geográfica. Otávio Brandão que. No Brasil se encontra o diamante de uma forma. para uma mais perfeita compreensão de seu trabalho. que tão entusiasmado se mostra pelas belezas.O Sr. Otávio Brandão perturbada por tão infantil sentimento de um patriotismo. de húmus que se reserva anualmente. mundos."Uma síntese". O seu estudo. . irá. O autor que percorreu esse pedaço de terra brasileira. uma planície de imersão. de mineralogia. Que diremos nós. e o Sr. aqui e ali. aldeias. à Holanda.. de outra. Não me quero despedir do Sr. os termos geológicos. Otávio Brandão. uma planta. os seus leitores. de certas efusões pessoais inoportunas e de uma exagerada avaliação do merecimento e valor dos lugares. há de abandonar os processos de um otimismo livresco sobre a nossa Natureza que lhe inoculou Euclides da Cunha. Brandão que. irá. a força de estudioso do Sr. Com o avanço da idade o Sr. da corografia. em instantes. A Natureza apresenta frescos aspectos semelhantes e muitos menos iguais. com a balança de Jolly. etc. denuncia um etnógrafo de valor. singularidades e possibilidades daquela parte do seu Estado natal. tantas qualidades de escritor apresenta neste livro. transforma-a no papel. e também a situação dos povoados. nenhum deles tem um reservatório de adubo. ao que me consta. ressente-se da falta de um mapa. donde ele se origina. mas as linhas gerais da potamografia. e eu não queria ver a alta capacidade do observador. um analista de usanças. com os seus canais. as quais. à Caldéia. para unicamente ver o seu Cadiz e o seu humilíssimo Paraíba. por parte dos estranhos à região que fossem ler a sua original obra. no art. irá à Amazônia. 19. com tão poucos recursos.

Daí por diante. não me considerando de todo velho. pois é campo pouco explorado. Machado de Assis. mas hoje. Um tal estado de coisas não pode continuar. e não há lei que permita essa indigna opressão ao pensamento nacional. arrastarem para enxovias nauseabundas. por ser assim como herói anônimo da Academia. apesar de não serem ricas em amadores de qualquer ordem. Eram. poema de Araripe Júnior. paternalmente. como toda a gente. Mendes Leal. Castro Alves. como se costuma dizer. n. Argos. sem instrução nenhuma e muito menos cultura. Gonçalves Dias. Muito moços. eles ressuscitaram o crime de lesa-majestade e a razão de Estado. ao menos com a máxima boa vontade. como este bom Otávio Brandão. Poucos deles têm merecido esse estudo. encontram na mais leve crítica às teorias governamentais vigentes manifestações de doutrinas perversas. DOIS MENINOS De há muito queria eu dizer publicamente todo o bem que me merecem o esforço e o ardor intelectual desses dois meninos que se assinam Tasso da Silveira e Andrade Murici. em que se acham. Nossas letras. . ensaios dos Srs. uma biografia do Sr. posso fazê-lo. entre os quais avultam o de Alcides Maia e o do Sr. por todos os meios adequados. tanto mais que a Constituição dá a cada um a mais ampla liberdade de pensar e exprimir as suas idéias. com "plaquettes" de versos. Motivos de toda ordem me têm impedido. felizmente. mas não tenho dúvida nenhuma em aceitar como verdade. etc. contudo. O governante do Brasil. não se trata desse ou daquele. José de Alencar. mas que parece fecundo. ensaios sobre autores notáveis. a par de pequenos defeitos próprios à pouca idade dos signatários. dezembro de 1919. mas de todos. não denunciavam. tendentes a matar. Daí vem que bacharéis ou não. simpático. publicam.0 11. sereno. cedendo a uma incoercível vocação íntima. fundaram uma excelente revista . Na sua imbecilidade nativa e na sua ignorância total de doutores que fizeram os seus estudos em cadernos. Com a violência dos antigos processos do governo dos reis absolutos. para o despotismo espiritual. à boa crítica do estudo profundo. se não havia remígios. de quando em quando. os posso tratar assim familiarmente. qualidades de penetração e discernimento artístico. difíceis de encontrar em inteligências tão moças. estrearam. investidos de funções policiais. resvalam pelo caminho perigoso da coação ao pensamento alheio. de meninos. tanto assim que eu. lançaram-se à crítica literária. monografias dos seus melhores representantes.É incrível o que ele narra. que nem ao menos tem um vício. de autores e de obras. os seus cartões de visita. Alfredo Pujol. produção suficiente para exigir o estudo isolado. entretanto. até que ponto não pode pensar. apresentando-os ao complicado mundo das letras. Não contentes com isso. pontos. nas quais. doces sonhadores. Mostraram essa aptidão aqui e ali. e esses estudos devem tentar as jovens inteligências operosas. violar e estuprar. apostilas.. se não completa.que vai prosperando com o vagar com que prosperam essas nobres tentativas entre nos. mereceu diversos. Ninguém sabe até que ponto pode pensar desta ou daquela maneira. quedas irremediáveis. este.América Latina . roubar. já têm. Xavier Marques e Afrânio Peixoto.

Esse atroz acontecimento pô-lo em foco. por isso nada posso dizer da justeza dos conceitos que. Emiliano Perneta.ambiência. Há de haver. em dois desenvolvidos estudos literários. pois surgem. suas amizades. Tasso da Silveira e Andrade Murici. os desgostos. Era este autor pouco conhecido entre nós antes da guerra de 1914. Essa ambiência sutil nos faz falta. tradicional. é ver que há nesses dois meninos. um pouco. é verificar a capacidade que tem Tasso. para nos apurarmos com o autor. isto se me afigura de uma indeclinável necessidade. feito de uma junção de nadinhas. pode-se dizer que é definitivo e completo.autor que está exigindo justiça dos seus envergonhados admiradores e imitadores. penso que isto já foi dito não sei por quem. compreende-o inteiramente. quando. não era bem esse. adivinha as obscuridades e justifica as contradições do seu pensamento. a sua obra. lacunas. O que me alvoroça. além do que. "sentir" o imponderável da ambiência nacional. como já disse. porque acho abolutamente ilógica uma crítica segunda. nesse seu estudo de autor francês. sua correspondência. o Jean Christophe. enfim. evanescentes . de Nestor Vítor. de pronto. Tasso da Silveira e Andrade . devido à atitude de desassombro e independência que tomou. por força. completamente. sente-se bem. o impulso que me fez escrever estas ligeiras e despretensiosas linhas. Não me deterei na análise das duas obras. porquanto a nós. porém. externa Tasso da Silveira. fez-me julgar de outra forma o poeta da terra dos pinheirais. Entretanto. não me recordo de outros autores nacionais que tenham sido tomados como objeto de trabalhos especiais sobre as suas vidas e suas obras. em toda a parte onde se lê francês. de focar um autor e estudá-lo em todas as suas faces. seus estudos. monografias especiais sobre autores de monta e sobre outros assuntos relativos às letras nacionais. para bem se aquilatar afinal do valor e do alcance do nosso pensamento total. senão impossível. a fim de julgá-lo perfeitamente. de onde em onde. Farias Brito tem merecido diversas. será muito difícil. O que me interessa. seus começos. tendo de julgá-los numa única obra geral. penetra por ele todo e perpassa na sua obra. se não tiver à mão esses estudos e outras achegas. a atividade da nossa critica literária parece ter compreendido isto. Desautorizadamente. O seu estudo sobre o autor da Ilusão. em face da cegueira delirante do patriotismo francês. ilumina-lhe as sombras. confesso. era já estimada discretamente no seu país e. de Almeida Magalhães. histórica. mas. não se concebe possa ser feito por um só autor. de Veiga Lima e outros. Pesquisas sobre as suas vidas. não vem isso ao caso. que versa sobre o Sr. apesar disso. mas. Ainda não tive a ventura de ler nenhum dos volumes.Assim. Além de ser conterrâneo desse notável poeta paranaense. estrangeiros. Agora. atmosfera que cerca o autor estranho no seu meio natural. por mais esforços que façamos. ao escrever estas linhas. um longo romance que ele vinha compondo e publicando os volumes lentamente. um único erudito. quanto a mim. não é o meu intuito fazer crítica da crítica. com os elementos que lhe são fornecidos pela obra do mesmo. Creio também que Nestor Vítor escreveu uma sobre Cruz e Sousa . seus amores. O de Tasso é um ensaio sobre Romain Rolland. Ultimamente. há de por força falhar e ser incompleto. sob todos os aspectos valiosos e dignos de nota. é preciso também participar dela. e. e. aparecem esses dois meninos. entretanto. Não se dá isso com o trabalho de Murici. Se não estou de todo esquecido. Murici foi seu discípulo. sobre o Jean Christophe. por mais ativo e diligente que seja. porque. tudo isso que pode esclarecer o pensamento e a tenção de suas obras. e excelentes. desde há anos. de Jackson de Figueiredo. julgo eu que nenhuma história da nossa literatura poderá se aproximar da perfeição enquanto não houver de sobra esses estudos parciais dos seus autores.

cheio de assassinatos e outros matadores da velha escola. Antero de Quental. não passa de um dramalhão de capa e espada. Antônio Nobre. sem concepção própria da vida. de algum modo originais. provocando um mútuo entendimento entre elas. mas que não aventam uma idéia. para não falar em alguns outros mais. como Arnaldo Gama. por serem valiosos pelo fulgor do seu desenvolvimento. pelos resumos por mim lidos nos jornais. embora. de Oliveira Martins. A Folha. mantém-se ainda no cartaz. Júlio Dantas. Antero de Figueiredo. sabendo-se-lhes unicamente os nomes e os títulos dos seus livros. mas. sem uma emoção mais distinta. por uma lamentável incompreensão do pensamento deles. mas a regra não é tão absoluta como querem por aí certos doutores artísticos cujas asserções trazem o vício de origem do interesse próprio ou dos seus chegados. Sei bem que é de bom alvitre não julgarmos uma obra literária pelo seu resumo. VOLTO AO CAMÕES Raramente vou ao teatro. de quando em quando. do mundo e da história do seu país. de Alexandre Herculano. mais plasticidade. Todos estes. ativa. inventaram muitas formas de dizer. em que o palco e o livro são tribunas para as discussões mais amplas de tudo o que interessa o destino da humanidade. Pinheiro Chagas. que não revelam uma alma. entretanto. mas. As suas peças históricas não têm um julgamento original de acordo com qualquer . estofo para realizar os sérios estudos que os nossos autores notáveis estão exigindo sejam feitos.obra que não é senão um superficial "lever de rideau". que não interpretam mais sagazmente um personagem histórico. não podem ser resumidos e o resumo nada diz deles. o Sr. muitos deles concorreram para reformar a música do período português. pelo rigor das cenas. que não põem em comunicação as várias partes da sociedade. deram-lhe mais números. dois inócuos fazedores de frases bimbalhantes. "verroterie" poética que fascinou toda a gente aqui e. É curioso observar o "engouement" que o nosso público vai tendo por esses autores portugueses de uma mediocridade evidente que a disfarçam com um palavreado luxuriante. Encontram-se trabalhos literários que. 1-6-1920. Júlio Dantas .Murici. Há dias li o "compte-rendu" de uma peça do Sr. No nosso tempo de literatura militante. sem um pensamento superior. pela largueza de vistas do autor. O Sr. Júlio Dantas e o Sr. Portugal manda para aqui. também em Portugal. Ramalho Ortigão. Júlio Dantas não passa de um Rostanzinho de Lisboa que fez A Ceia dos Cardeais . para gáudio das professoras públicas aliteratadas. Esse drama do Sr. a fim de que não fiquemos nós outros. sobretudo em se tratando de peças portuguesas. esses dois senhores a que aludi mais acima. Que nós tivéssemos sofrido a ascendência e a influência de Garrett. mas há outros em que diz muito. admite-se. todos esses dizia são criadores. em junção da época em que floresciam. pela percuciente análise dos personagens. com grande sucesso. gosto de ler as notícias que os jornais dão das "premières". não vêm fazendo mais do que repetir o que já foi dito com tanta força de beleza pelos velhos mestres em glosar episódios de alcova da história anedótica portuguêsa. um barulho de frase. às vezes passe noites inteiras em claro a perambular pelas ruas e botequins. de Eça de Queirós e mesmo de Camilo Castelo Branco.O Reposteiro Verde. creio.

de rigor psicológico nada têm os seus personagens. e que campo vasto está aí para uma grande literatura. não politicamente que nada adianta. médico do Regimento de Cavalaria 7. São glosas dialogadas de tradições e crônicas suspeitas. Jehan Bojer e quantos mais! O caminho que devemos seguir. Compará-lo a Rostand é uma grande injustiça. pois nada temos com essas alcouvitices históricas que o Sr. Mas. uma perna. Nos saudosos campos do Mondego. Que Portugal faça isto. a hora de reformarmos a sociedade. mas que o Brasil o siga em semelhante choradeira não vejo por que. no mundo. e às ervinhas. a humanidade. Antero de Figueiredo? Este senhor me parece um marmorista canhestro que fizesse uma "fouille" na Grécia. sociais e econômicas. da família. a imortal literatura dos Tourgueneffs. George Eliot. como se não tivessem batina. mesmo. De teus olhos o pranto nunca enxuto. ágil do passado. um braço de um mármore antigo e dele fizesse um "bibelot". abro o meu "Lusíadas". mas esta obra é. Júlio Dantas. políticas. o Rostanzinho de Lisboa. Dos teus anos colhendo o doce fruito. ou que outro nome tenha. O nome que no peito escrito tinhas. que direi então desse Sr. discreteia pelos palcos com o chamariz da sua elegância e das suas lindas feições tratadas cuidadosamente. lêdo e cego. Que a fortuna não deixa durar muito. tal e qual nos deu a Rússia. e. da Mouraria. onde vai retirar os episódios mais perfeitos e belos que as oitavas do poema esculpiram para fazer romances edulçorados que a transcendência estética do Sr. Pedro. vá! Que lá ele se console em rever a grandeza passada dos Lusíadas em um marquês que tem por amante uma fadista. de lá extraisse um tronco. concebe-se. muito melhores". Temos que rever os fundamentos da pátria. do gigantesco Dostoiewsky. edição pobre. O campo de suas escavações é o grande Camões. Entretanto. do Estado. ainda poderia falar em outros de outras nacionalidades como Ibsen. posta em sossêgo. Malheiro Dias talvez ache superiores aos decassílabos de Camões e um assombro literário. Carlos Dias eu volto ao Camões. sem um comentário que denuncie o pensador. Aos montes ensinando. linda Inês. pois a peça do autor francês que fascina o autor português é o Cyrano de Bergerac. o Cruel. não traem um avaliador sagaz. não é um simples bródio de prelados cínicos que comem glutonicamente a fartar e falam de amor. ainda assim mesmo. dos Tolstois. Se digo isto do Sr. da propriedade. além do anúncio das suas imagens sonoras de carrilhão com que atrai as devotas. É chegada. em que. nós nos estamos deixando arrastar por esses maçantes carpidores do passado que bem me parecem ser da raça desses velhos decrépitos que levam por aí a choramingar a toda a hora e a todo o tempo: "Isto está perdido! No meu tempo as coisas eram muito outras. do Gorki! E só falo nestes. em que pese ao Sr. num país como o Brasil. sem uma vista original do autor. Naquele engano da alma.ideal estético ou filosófico. e leio: Estavas. e sempre que quero ter a emoção poética dos amores de Dona Inês de Castro e D. por suas condições naturais. se devem debater tantas questões interessantes e profundas. temos que rever os fundamentos da arte e da ciência. uma bela e forte peça no fundo e idéia. igual a Shakespeare. . Júlio Dantas. mas socialmente que é tudo. E citam uma porção de patifarias e baixezas de toda a ordem.

Não tenho nenhuma autoridade para contestar tal opinião. tenho grande prazer em ler romances.alguns contos em que cenas do nordeste brasileiro são apanhados num flagrante feliz. Qualquer dos contos do Sr. é uma das suas funções normais. eles fazem com que nós brasileiros que vivemos tão afastados. como diz a canção. Há quem veja nisto um mal. contos. novelas. a paisagem. habitaram. As almas também são aquelas rudes e agrestes daquelas regiões adustas e calcinadas. Sempre os li com agrado e surpresa. preconceitos das gentes das regiões que. A literatura é de alguma forma um meio de nos revelar uns aos outros. A. deveria tocar no assunto. mas faço uma observação simples. Mário Hora compreendeu isto e acaba de enfeixar. crenças.B. 24-6-1922.. neste "vasto pais".Lido todo o episódio. às vezes. A língua. Ultimamente. TABARÉUS E TAIBAROAS Pouco viajado pelo interior do Brasil. nos entendamos melhor e melhor nos compreendamos. tal foi a força de beleza com que seu gênio animou a história e a lenda de tão desgraçado amor. o Sr. tratando os conhecedores de costumes. sentindo bem que li grande poeta e ninguém. carioca da gema. O autor dos Tabaréus e Tabaroas conseguiu isto e realizou com rara felicidade uma obra honesta. fecho o livro. não esquecendo de que ele bem pode servir para estudos de mais vulto. simples e sincera. se não o seu principal destino. É de esperar que ele não fique nisso e continue o trabalho a que se dedicou. sem profanar. Em boa ocasião. . depois dele. em que a vida ameiga o clima ingrato e a faca está sempre a sair da bainha para ensangüentar as caatingas. Aspectos desses de tão chocante contraste só podem ser colhidos por um artista de raça em que preocupações gramaticais e estilísticas não deturpem a naturalidade da linguagem dos personagens nem transformem a paisagem rala daquelas paragens em florestas da Índia. onde a crueldade se mistura com o cavalheirismo e o banditismo com a mais feroz honestidade. 27-4-1918. Admitido isto. determinada pela estranheza de certos hábitos. a nossa produção literária tem se comprazido em cultivar tal gênero de literatura. sem esquecer a própria indumentária são de uma propriedade. Careta. Mário Hora é um epítome da vida curiosa daquelas regiões. tudo enfim. pelo nascimento ou por outra circunstância qualquer. opiniões e crendices das gentes do nosso interior. sob o título de Tabaréus e Tabaroas .C. crônicas que tratam de costumes dos nossos sertões. de uma cor local que atrai e encanta.

Muitas outras há dignas de nota. com o título acima. Não é que nessa obra haja grandes pontos de vista. é a mais equilibrada e pode e deve ser a mais popular. afirmando porém. senador e redator-chefe do Jornal do Comércio. as suas injustiças nos seus julgamentos. me aborrece. muito original pelo seu programa. muitos outros da minha têmpera. que aqui esteve a exercer atos de soberania na nossa baía . O Sr. Grieco. tem certas reservas diplomáticas e discertas atitudes que não de gosto do leitor comum. Agripino. Há no volume do Sr. No meu amigo Grieco se manifesta esse pequeno defeito. procurando os seus editores reproduzir pela gravura quadros nacionais notáveis ou desenhos de antigas usanças e costumes do nosso país. A Revista do Brasil. Ele vê longe e largo. e os senões que se lhe podém notar. de Tasso da Silveira e Andrade Murici. Como muitas de suas congêneres estrangeiras. A primeira. é péssimo. Félix Pacheco.FETICHES E FANTOCHES O Sr. uma larga visão da Arte e da Vida. quando é mau. grandes qualidades e grandes defeitos. Félix Pacheco. É do Félix. Agripino Grieco é merecedor de toda a atenção pelo livro que. assuntos para os paladares de todos os leitores. acaba de publicar a Livraria Schettino. conforme meu fraco juízo. A publicação de Araújo Jorge é ela mesma. A América Latina. quase meninos. Agripino tivesse meditado mais. mas há nele uma desenvoltura de dizer e um poder de expressão que bem denunciam as origens do autor. é hoje sem dúvida nenhuma publicação verdadeiramente revista. tanto mais que já tive a honra de ocupar suas páginas com coisa minha. e. Sainte-Beuve. vontades e energias que merecem todo o nosso aplauso. representa um esforço de moços. quando faz o exame e crítica de certos vultos da nossa atividade intelectual. é algo distante. conquanto seja um homem culto. como eu. certa idéia geral do Mundo e do Homem. porém. é fartamente ilustrada. que um grupo de moços de iniciativa e talento vem aqui mantendo. Não vai nisso nenhuma censura da minha parte. falta-lhe. para o paladar comum. entretanto. como também porque tudo o que cheira a cópia. corno a América Latina. quando examinava um autor. Daí. que existe no Brasil. de quem falo. advêm disso e de mais nada. 2-9-1922. Tem os seus números. é ótimo. Pode-se dizer dele o que alguém disse de Rabelais: quando ele é bom. Isto é indispensável para aquilatar um autor. . Um exemplo que cito com amargor é a análise do Sr. protetor dos escritores desprezíveis ou desprezados a quem me refiro e de quem só tenho recebido homenagens.coisa a que se habituara em São Domingos e a Americana nos informou. Careta. O PROFESSOR JEREMIAS A Revista do Brasil. Se o Sr. Não é do Sr. mesmo quando publica as proezas do almirante Caperton. Nunca me despedi dessa lição do mestre das "Causeries du Lundi". havia de ver que um homem como o Félix é uma necessidade na nossa literatura. entretanto. de São Paulo. procurava saber qual tinha sido a sua educação primeira. feita pelo autor do Fetiches e Fantoches.

Acontecimento sem-par no Brasil de que a obra é perfeitamente merecedora. Quando bambeio o cordel da minha lata. Com a sua atual futilidade e recente ligeireza que veio. . sem me referir aos préstimos da publicação de Monteiro Lobato. Não há vida mais doce do que a de quem não tem opiniões.. a adquirir com as mágicas avenidas frontinas. dizendo: . se é que os tenho. Leo Vaz que sinceramente me deslumbrou. animada de um meio sorriso. aos poucos. entretanto estou certo de que poucos saberão que se trata do personagem de um conto desse mesmo Monteiro Lobato. entre nós é uma publicação sui-generis e digna de todo o apreço. o apelido de Jeca-Tatu a este ou àquele. no seu magnífico livro Urupês. monótona. Jeremias escreve o livro para seu filho. mas da qual se extrai uma filosofia amarga da vida e da sociedade. mas a massa nem do nome deste terá notícia. que a mulher por ocasião da separação. Muitos dos meus leitores. é certo. dentro de um círculo menor. de acordo com o seu gênio birrento. O professor não sabe onde ela anda. filosofia. assim como nos seus sumários se encontram nomes de autores que nasceram ou residem nos quatro cantos dessa terra brasileira. É uma obra toda ela escrita com uma candura aparente. Rixas. inclusive o seu casamento. Embora possa parecer parcialidade de minha parte. Editada pela Revista do Brasil. D. a quem fizeram sonhar ou sonhou grandes posições. Restringe-se o círculo dos meus movimentos. impôs fosse com ela. é um passo fora do círculo: é a lata a chiar atrás de mim. interpretações. Livra-te das opiniões. A mulher era birrenta.Aconselha-me. Os mais conscientes hão de se lembrar que foi o Sr... embora seu livro tenha tido excepcional tiragem. a Revista do Brasil. Chama-se O Professor Jeremias. pois lá escrevi e ela me imprimiu um despretensioso calhamaço.. não me era possível tratar de uma bela obra. chega-me às mãos uma novela de grande mérito do Sr. nem seu filho. sistemas.A bambear o cordel. talvez mais. Um modesto mestre-escola. como o faz. enervante. pois também o era de um lugarejo de São Paulo. quem lançou à popularidade a inimitável criação de Monteiro Lobato. no Lírico. certamente por uma criança traquinas. não se conformava com o seu destino de professora pública.o que é uma injustiça. assim se chamava a esposa de Jeremias. e ficarás imediatamente livre de uma série de coisas aborrecidas: política. por ela editada. de tudo o que acontecia. Espera que o acaso ponha sob os olhos do Joãozinho as reflexões que lhe ocorreram. calos. levaram os dois esposos a pedir o desquite. é como se não tivesse: não me vexa. A esse quietismo singular chegou o novo Lao-Tsé do professorado paulista. implicâncias.Publicada em São Paulo. Rui Barbosa. mas fico livre.000 exemplares. justamente. . em sucessivas edições de 10.. a marquesa de Sapopemba. infelizmente. a aconselhar o professor. com ou sem propósito. a sua meia mulher. depois de muita observação e transtornos de vida. como diz a canção patriótica. o Joãozinho. levando o seu espírito para a resignação e para a indiferença por tudo o que lhe acontece e arrasta os outros. o Rio de Janeiro mal a conhece . têm visto aplicar. ranzinza e mais birrenta ficou quando a irmã veio a casar rica e fixar-se em Petrópolis com a sua sogra.. por consentimento mútuo. constante e permanente. pois?. Não me cabe dizer mais a respeito dela. num seu discurso.Olha: começa pelas opiniões. pois todos nós somos como aquele cão que aparece no fim do livro com uma lata no rabo atada. caixeiros-viajantes. era o contrário do marido. e é fácil de verificar. Ao passo que a primeira opinião adotada. Antoninha. interpretando os fatos . ela não se inspirou pelo espírito e pela colaboração ao Estado em que surge. impostos. Nela são tratados assuntos que interessam a todo este vasto país. Não tenha opiniões. mas que o desenvolvimento ulterior de sua vida foi. pelo que acabo de dizer. porquanto.

Leo Vaz. ou melhor. o Vaticano: "O peignoir. azul. de receitas de namoros. Paulo Gardênia é um moço cheio de elegâncias. tanta observação fina que é singular gozo ler a obra do Sr. seu Bonifácio: como é que essa senhora é esgalga e ao mesmo tempo tem os quadris largos? Como é que essa senhora é "fausse maigre" e tem curvas opulentas e ancas calipígias? O senhor sabe o que se chama Vênus calipígia? O Sr. como gosto de romances e nunca fui dado a modernismos. fino e leve. Paulo Gardênia. Se os tivesse lido. maravilhosamente róseos e macios. em perfeição de formas. de coisas decentes. o corpo venusino que era esgalgo. Tenho medo de ir a São Paulo. eram rematados em unhas polidas. numa surpresa de curvas opulentas. certo de que havia de regalar-me com alguns conceitos melhores do que aqueles que o professor Jeremias emitiu no livro do Sr. em Grécia. Vaz.. E os seus dedos. um Digesto de coisas preciosas. e que por elas o filho governe o seu futuro. para julgar com acerto esta nossa vida tormentosa? Não sei dizer. deparei um capítulo de um seu romance na Gazeta de Notícias. Na corrente argentina. tão intensa. Mas. Gardênia ficou tanto tempo diante do "dia" que acabou vendo-o ao mesmo tempo louro e azul. na alegria iluminada do sol. acompanha e respeita tanto os conselhos que Flaubert deu a Guy de Maupassant. cobria-lhe. O Estado. nas ancas calipígias. o Louvre. O que não aprenderia eu com o risinho irônico do autor do Professor Jeremias. como pérolas. revelador de homem que conhece mármores. exaltar a cultura literária e estética das meninas de Botafogo. neste pedacinho de estilo de calouro de academia: "E o dia louro. Vejam só este pedacinho tão cheio de perfeição escultural.. UM ROMANCISTA O Sr.. Parece nada. 13-2-1920. Ontem. fui ler o Sr. Niterói. Li e gostei. poderoso e fecundo. Não conheço absolutamente o autor. que acabou achando essa coisa magnífica. e.triviais da vida de uma vila obscura do interior de São Paulo. A sua visualidade é tão perfeita. luziam esmeraldas. os quadris largos. louros como mel. tão nova. mas nunca leu os livros da Biblioteca do Ensino de Belas-Artes." Diga-me uma coisa. que se vendem ali no Garnier. em pregas moles. o busto flexível.. não conheço grandes damas e preciso conhecê-las para exprimir certas idéias nas rimas que imagino. não vivia a dizer tais barbaridades para extasiar. "fausse maigre autêntica arredondavam-se-lhe as linhas. mas nesse gênero há tanta coisa. que lhe prendia os cabelos. Bonifácio Costa.. Bonifácio fala muito em Hélade. voluptuoso e quente. entrou pelo quarto. as galerias de Munique. mas se o conhecesse e privasse com ele. nos braços torneados. Coelho Neto gostou? . indolentemente. deixá-lo-ia falar à vontade. que apareceu aí nos jornais e sucedeu a Figueiredo Pímentel no Binóculo.

quando a freqüentei ali. intitulada Gazeta Literária. no dizer dos entendidos. O jornalzinho literário era. e outros que. 1-3-1915. Araripe Júnior. tinha um aspecto muito simpático e uma leitura variada. foi publicado em volume. neste Rio de Janeiro. me pareceu ser de alemão. Teixeira de Melo. tanto dos derivados de línguas conhecidas como daqueles cuja origem é ignorada. como Capistrano de Abreu. De nós que andamos hoje nessas coisas de jornais e revistas. de forte cunho intelectual. não obstante.0 74. alguns cheios hoje de glória inesquecível. bem feito e curioso. cujo nome. Não tinha o nome do diretor ou redator-chefe. embora pouco conhecidos do grande público. a pequena revista quinzenal. publicou-se aqui. Raul Pompéia. publicou na revistinha literária a sua famosa memória sobre a questão das Missões. ainda são. Como estes dois glossários de brasileirismos. mas havia no cabeçalho a indicação que se assinava e se vendia na livraria de Faro & Lino. há muitos outros.. que tanto devia ajudar o renome de Rio Branco. Valentim Magalhães. embora não saiba agora escrevê-lo (o que lastimo).Vozes de Petrópolis . MÁGOAS E SONHOS DO POVO I RECORDAÇÕES DA "GAZETA LITERÁRIA" Em 1884. poucos terão notícia dessa livraria e da Gazeta talvez nenhum. Urbano Duarte. Os salões do século XVIII não dariam coisa melhor. e Beaurepaire Rohan dava nas suas colunas as primeiras páginas do seu Glossário de vocábulos brasileiros. à rua do Ouvidor n. na Lapa. mas que constituem um bom manancial para o famoso Dicionário . ainda bem pouco tempo. muito estimados pelos que se interessam com as etapas do nosso acanhado desenvolvimento intelectual. que eu conheci velho e diretor da Biblioteca Nacional. tem sido seguido de outros semelhantes e. Colaboravam nele nomes conhecidos. menos gerais talvez. entretanto. Esse trabalho que. o amigo e êmulo de Casimiro de Abreu. muito cuidado na revisão. Correio da Noite. vi em uma revista católica .A roda da rua do Roso deve orgulhar-se de semelhante rebento. João Ribeiro. entre os meus 16 e os 20 anos.um semelhante da autoria de um sacerdote dessa religião. ao que parece.. Impresso em bom papel e nas oficinas Leuzinger.

se tentavam publicações da mesma natureza que ainda hoje se tentam. Sei bem que há em Couto Magalhães. Nas suas notícias sobre o "Movimento Artístico e Literário". Tenho esses números da Gazeta Literária desde a minha meninice e desde a minha meninice que os leio. mas há também nos viajantes estrangeiros outras coisas mais e. está se vendo que. Múcio Teixeira. entre nós novas. João Ribeiro. mas que acaba na comodidade das linhas de tiro de classes e repartições e deixa para as funções árduas do verdadeiro soldado a pobre gente que sempre as exerceu. Moncorvo. que. Não era o do nacionalismo dos nossos dias. veio para ensinar disciplinas. à Gazeta Literária. Voltando. não se poderia nunca adivinhar que. em 1874.o jogo de guerra . Uma coisa. tantas outras que o meu precário viver não me permite consultar e estudar. Domingos Freire. Uma delas foi o conhecimento das coisas do folclore nacional e esse desejo até hoje não pude cumprir honestamente. também. de Moura. em virtude desse próprio entendimento mútuo. professor contratado de uma espécie de Missão. há. era de um grande nacionalismo. do Sr. podemos dizer que. Todo brasileiro julga-se um inovador. Alexandre Gasparoni Filho e Américo Guimarães . a alma das suas populações. porém. e transmitir tudo isto aos outros. Sílvio Romero. O que é curioso observar na interessante publicação dos livreiros Faro & Lino é que."ex-redatares do Cometa". ainda não havia despertado o amor pela fotogravura ultramundana. em francês. o Sr. porém. e um parecer do professor Rebourgeon a respeito dos trabalhos sobre a febre amarela do Dr. Capistrano de Abreu.num artigo do Sr. a ambos. no O Imparcial. que não tinha uma finalidade guerreira e pretendia tão-somente conhecer as coisas da nossa terra. Nas suas "Publicações recebidas" há notícia de uma União Médica. A. ainda há bem pouco tempo. espingardeiro. mas de que até hoje nada ou quase nada fez. há a notícia de uma Fôlha Literária dos Srs. na Escola Politécnica do Rio de Janeiro. há trinta anos. como os leitores estão vendo. tudo e todos. e do Dr. com artigos do Dr.. através das páginas da revistinha de 1884. coisas velhas e notar a transformação espiritual dos homens. com sorteio ou sem ele. Muita sugestão lhes devo e muito desejo eles me despertaram. no outro. Osvaldo Cruz fez esquecer totalmente. como a vida mudou! Pelos títulos de suas publicações de 1884. João Ribeiro muita coisa a ler. Era um patriotismo mais espiritual. grande poeta que ele era. guerreiro.de Brasileirismos que a Academia Brasileira de Letras se propôs a organizar. deixam de ter alguma força e são destinadas a morrer no esquecimento como as anteriores. além de outra revista. a "da Liga do Ensino". para nos ligarmos mais fortemente no tempo e no espaço. há também a de uma Revista Literária. há muita coisa curiosa e muita informação surpreendente. com um artigo desse espírito inquieto e de tudo curioso que foi o Dr. sem nome de diretor. Pacífico Pereira. se nota: é que as nossas tentativas de hoje têm pouca novidade e se nós não as encadearmos com as que nos precederam. Rui Barbosa". e. com o espírito dos anos que o tempo vai-me pondo às costas. que o sucesso do Sr. enumerar. sem talvez um programa definido (não tenho o número inicial). em modestos outros provincianos. deu a tradução de um conto popular amazonense que vem no livro de viagem de . viesse a ser o Barão Ergonte dos dias atuais. o seu passado. Muita coisa há sobre o assunto. o espírito que a animava. Dos viajantes estrangeiros. por aí assim. em português. F. "cantativo". mas anda esparsa em obras tão difíceis de encontrar que me resignei ao acaso das leituras para ganhar uma noção mais ou menos exata da poesia e outras criações da imaginação anônima da nossa terra. há também de uma Revista do Exército Brasileiro que já trata do que hoje parece novidade . Seria um nunca acabar. "redigida pelo Sr. Múcio e Gasparoni quem os não conhece hoje? Mas.. em um. Luís Conty. No número de 20 de maio de 1884.

etc. só até então conhecidas pelos pacientes eruditos. é para matar saudades e lembrar os meus bons tempos de menino que leio: Menina. cheia de força. de princípios de física. Dos dentes. tirando as que Perrault registra e dando-lhes forma. Nas asas dum passarinho. Mas não as guardei e pouco retive de cor dessa arte oral e anônima. Se. com precisas informações sobre os primeiros livros nela impressos. dos meus pobres sete anos de idade. foi funcionário da Biblioteca Nacional e um dos mais ativos reveladores de coisas da nossa história. dos nossos defeitos e qualidades morais. Era tão interessante que eu imaginei que messe de fábulas e narrativas. há um artigo de Vale Cabral. que suponho terem sido publicados por ele. para deixar emergir nela as histórias humildes do Compadre Macaco. O macaco é o símbolo da malignidade. intitulado Algumas canções populares da Bahia. com o mesmo método que os seus hábitos científicos lhes tinham imposto à inteligência. etc. afora essas quadrinhas e outros versos como o do famoso "chula": Onde vai. muito me comoveram e comovem e ainda as guardo na memória. mas traiçoeira e ingrata. letras miúdas. etc. Este Vale Cabral. As mulatinhas ficam dando aism. não vem cá mais. pouco conhecido e muito menos lembrado atualmente. fazei tinteiro. anedotas. e nos números da Gazeta que possuo há trechos das famosas Memórias de Drummond sobre o primeiro reinado. Hoje. Não me fio nas . como as retive. por exemplo. estas quadrinhas. senhor Pereira de Morais? Você vai. poderia fazer um volumezito bem aproveitável. de teorias de química. No número 11 da Gazeta Literária. anexins. Dos olhos carta fechada. como a "Gata Borralheira". algo originais e denunciadoras do nosso gênio. quando tu fôres Escreve-me pelo caminho. sondavam a alma e a inteligência do povo. que.Wallace. do Mestre Simão e da Comadre Onça. Da bôca. Embora o passarinho da canção fosse um pouco extravagante com os seus dentes. da pessoa "boa na língua". pela primeira vez. Falando baixo. Todas essas coisas ingênuas de contos. O seu artigo sobre as canções populares da Bahia muito me impressionou e há maia de vinte anos que não folheio a coleção mutilada da Gazeta que não o leia com este ou outro espírito. que os via catar pedras e ervas. disto e daquilo. aos poucos. nós poderíamos encontrar nas obras desses sábios pesquisadores que. Ele publicou as cartas do padre Nóbrega. os Anais da Imprensa Nacional. me vão morrendo na lembrança. Nessas confusas recordações que tenho das fábulas e "histórias" populares que me contaram entram animais. tivesse retido as "histórias" que me contavam naquela idade. quadrinhas. Da língua pena aparada. que é datado de 20 de março de 1884. que sempre ouvi e recitei em criança. sem deixarem de ser profundos nas suas especialidades de ciências naturais. foram soterradas na minha memória por uma avalanche de regras de gramática. lendas. de temas. José Bonifácio.. Se não tiveres papel. em luta com a onça. da esperteza.

Athalie -. de todas as línguas. nasci. onde se vem resumir todas as mágoas. Há mesmo em todas elas. revelado tudo isso na sua arte anônima e popular. pois. quase toda ela. sobre o sonho. SONHEI COM ISTO: O QUE É? O sonho sempre representou na nossa atribulada vida terrena. não havendo. contos. portanto. todas as dores dos brasileiros. . Não me recordo nitidamente de nenhum. Os livros antigos. e Plutarco. Não tenho certeza. em que ele aparece mais ou menos com essa feição. uma grande simpatia por ele. foi um contínuo da Secretaria da Guerra. ao que me parece. A onça aí figura perfeitamente com o feitio moral a que aludi. pessoa bastante autorizada para condenar a crença que. nele. e o intuito dessas linhas não é esse. que infelizmente já não tenho. Em todas as pequenas crenças religiosas de toda parte. todos os sonhos. Pode ser que ela tenha razão. que tenho dessas coisas de folclore. para não errar. a origem. mas também a espiritual. Antônio Higino. eu não me animo a asseverar que a minha generalização possa ser de qualquer forma certa. Sou homem da cidade. e. segundo me parece. é explicar as razões por que fui levado a procurar. Em uns dos meus modestos livros.minhas lembranças. Queira Deus que leve avante o meu inquérito! Amém. a natureza e o mecanismo do sonho continuam mais ou menos inexplicados à luz dos estudos mais modernos. Os estrangeiros. um grande papel profético. na conversa com homens e raparigas do povo. de origem popular. ou. tão cheios de alusões a sonhos divinatórios. em que se encontra gente de todo o Brasil. socorre-se da cumplicidade do Cágado ou Jabuti. obter narrações. Apesar das manhas. e quase todos os agrupamentos humanos organizaram e organizam uma tábua para a sua interpretação. e dar nesta revista o resultado das minhas conversações com gente de toda a parte. Não sei se ele figura em alguns dos nossos florilégios e estudos desses assuntos de folclore. sem mesmo indagar se eles foram publicados. para vencê-lo. tenham alguma razão quando nos chamam de "macaquitos" ou "little monkeys". Quem me contou. de alguma forma o faz o seu herói epônimo. o povo tem. Os estudiosos dessas coisas que verifiquem se a minha generalização é cabível. criei-me e eduquei-me no Rio de Janeiro. Agora de pronto lembro-me de muita poucas obras literárias que o aproveitem. não sei de que localidade: o Sr. Hoje. Contudo. está convencida de que o sonho é um aviso por parte do Mistério. como me ensinou esse singular "totalista" que é o meu amigo Tigre. A humanidade. os contos populares lhe emprestam também alguma generosidade e alguma graça e uma filosofia de matuto "tinguejador". talvez. mas sempre me pareceu assim. de coisas boas e más que vão acontecer. mas leituras semi-esquecidas me dizem mais ou menos isso. em que se mostre que a nossa cidade não é só a capital política do país. etc. cuja regra é a insegurança de tudo. O que elas visam. Se o nosso povo não o fez o seu "totem". entre elas. ele tomou uma atitude oracular indiscutida. As literaturas de todos os quilates. mas a manha do macaco. onde fui empregado. já confessada. mas creio não me ter enganado redondamente. devido à ignorância. 20-3-1919. planos e esperteza do macaco. e. vale a pena fazer um trabalho destes. aquela de que me recordo mais é a . eu transcrevo uma das "histórias do macaco". ex-praça do Exército e natural do Rio Grande do Norte. têm usado e abusado do sonho. não narram a vida de um herói que não se refira a eles.

Por fim o seu furor dramático já era muito menor. o bom Dr. e não seria eu quem havia de censurá-los por isso. quando não é com seus autores. m'a-t-elle dit. havia menos ênfase nela. era o prato de resistência da nossa tradução em aula. esse nosso professor. e Machado de Assis. É um efeito de que grandes e pequenos autores. De mes prospérités interrompre le cours. o famoso sonho da heroína dessa tragédia. que. e declamava-o com entusiasmo eclesiástico de um patético sermão de Páscoa: Je jouissois en paix du fruit de ma sagesse. Mais un trouble importun vient. se aproxima do seu leito. se não digo. tirava os óculos de aros de ouro. no Brás Cubas. essa sobriedade e esse vigor. mas nem sempre os sonhos literários têm essa grandeza. não tomou ordens definitivas de sacerdote devido à exigência canônica de um bom resultado no processo de "puritate sanguinis". tenho. que prediziam os acontecimentos pelo modo de voar dos pássaros.je inquiéter d'un songe?) Quando o Dr. e. bons e maus. e nem mesmo exclamava . Todos nós já sonhamos e sabemos bem que uma das regras gerais do sonho é a falta de nitidez de plano. Quase todos os heróis e heroínas de romances e poemas sonham. A interpretação dos sonhos tem merecido desde muito tempo sacerdotes especiais. Santo Tomás de Aquino. Proféticos ou não. depuis quelques jours. etc. que ela é uma ilusão . não observava a sua teologia monoteica a heresia de haver um deus especial para os judeus. com a Summa. é por conta própria. certamente aborrecido com a nossa leitura arrastada e indiferente. mesmo porque. Frutuoso atingia à imprecação de Jezabel: Tremble. senão nas partes. é a confusão de coisas disparatadas. como se depreende dela. descreveu um com muita coerência para o destino literário que ele tinha. no sonho. chegava bem perto dos olhos esse trecho da tragédia bíblica de Racine. quando ela tenta abraçar a sombra da mãe. que a vida é um sonho. Le cruel dieu des Juifs l'emporte aussi sur toi. que talvez se picasse de realista. seria um nunca acabar estar relembrando os sonhos registrados nas grandes obras literárias. fille digne de moi. Por aí assim. se têm socorrido. aproximava-se mais do natural e dizia: Mais je n'ai plus trouvé qu'un horrible mélange D'os et de chair meurtris. vivo e desenhado em breves e poucas linhas fortes. deste ou daquele país. O trecho é poderoso. tem na A Relíquia uma visão ou um sonho muito pouco verossímil. mas particulares quase clandestinos não eram como aqueles áugures e arúspices de Roma. antigo seminarista. . já lá vão vinte e seis anos. no todo. muito para mim. ele me ficou quase inteiramente de cor. longo e cheio de pitoresco e pinturesco. que. punha toda força de voz que lhe restava. O nosso professor. respeitados e oficializados.Quando estudei francês. Eça de Queirós.. o hipopótamo. ao recitar o final dessa fala de Athalie. Un songe (me devrois . para acentuar bem a fala. dizem e resumi mais acima. entretanto. mas ambos são sonhos muito pouco comuns. ao que parece. como as namoradas desprezadas. certamente por causa de um tal esforço. Frutuoso da Costa.Grand Dieu! . et trainés dans la fange Des lambeaux pleins de sang et des membres affreux Que des chiens dévorants se disputeient entre eux. Nessa passagem a sua voz era menos retumbante.frase com que Abner remata essa parte da narração do sonho profético da filha de Jezabel.o que talvez não fique muito aquém do que as garotas desta ou daquela classe. como dizia. Parava nesse ponto infalivelmente. agarrava o Théâtre Classique.

aquele verdadeiro. não há mais disto."Burra sou eu. enfim com tudo aquilo com que havia de se revestir para ir à festa da Glória no Outeiro. "Sinhá" Maria sonhou um dia com um burro em cima do telhado de uma casa. Onde foi o povo descobrir essas equivalências? Não há ainda para os sonhos aplicados ao jogo do bicho uma teoria interpretativa e segura. cobra. impediu essa nossa pobreza de deuses que a guerra última permitisse à Discórdia levar a sua obra até ao céu e. essa maravilha que é o Dicionário dos Sonhos. Pediu cinco mil-réis adiantados à patroa e jogou-os no burro. Seria um belo espetáculo . se este fosse Deus. entretanto. sabemos ler e. as rendas. tenho a lembrar que. acertamos. Wilsons e Clemenceaus (não! estes últimos viriam do inferno). os sapatos. Já folheei um e observei que a maioria das predições se encaminha para o amor e para a fortuna. Veio a tarde."Filha! Credo! Reza um Padre Nosso e uma Ave Maria para as almas". foi sonhando com o vestido. chegando a esta conclusão: . Ficou triste. Digo São José porque é patrono dos nossos bancos católicos..sonho. e assim por diante. tenho conhecidos que me afirmam que só se ama para ter dinheiro. é gato. entretanto. Hidenburgos. .. Hoje. a "Sinhá" Maria. além de tal fato atrapalhá-lo com pedidos contraditórios. sonhar com carne crua. é gato. que o nosso Panteon seja reduzido a um único Deus. aquele que não sabe ler e escrever.. 17-7-1919. O que quer dizer?" pergunta uma lavadeira à outra. se a nossa época não possui sacerdotes destinados à interpretação de sonhos.. é saúde. todos eles divinos para combater pró e contra Mercúrio ou São José. sonhar com defunto. porém. Só não ama quem não tem dinheiro. Voz do povo. É pena. Eu não sei. Pobre "Sinhá" Maria! Ela não tem motivos para se amaldiçoar! Todos nós vemos muitos burros nos telhados e afirmamos logo que é bicho muito inteligente. um deles é ao jeito da analfabeta e simples "Sinhá" Maria. Eis aí! Há muitos modos de nos enganarmos com os nossos sonhos. e são mandadas rezar por cada um dos partidos em briga. as missas solenes.." Desde tal descoberta da "Sinhá" Maria ficou assentado entre os jogadores de bicho que burro. Quem anda em telhado. no telhado. é crime. porque. é fortuna. voz de Deus. o Empírio fazer descer Fochs.pela maneira com que as galinhas e outras aves sagradas comiam os grãos. ressoam. Está aí uma afirmação que o Dicionário desmente: o Amor é irmão do Dinheiro. para isto ou para aquilo. mas. coelho e qualquer outro animal. cheios de "manicolas". de lá. Lloyds Georges."Inácia! Sonhei hoje que estava arrancando um dente. Passam-se anos e nos convencemos de que nem burros eram. porém. . mas já se esboça uma. Conto um caso. apesar das dificuldades. à vista disso. precisamos de auto-ilusões. responde a companheira e continua: "Sonhar com dente é defunto na família". Durante o tempo em que preparava os seus quitutes. o povo. nunca burro andou em telhado. correu a loteria e saiu o gato.não acham? Reatando. um outro é ao nosso.. nem por isso. criou. mas deve haver.. a narração. Os poetas dizem que o Amor é irmão da Morte. pedindo-se que Deus favoreça com a vitória cada um dos inimigos. . Sonhar com excremento. avestruz. Nunca pude atinar com a relação que há entre uma coisa e outra. tem uma regra muito diferente para interpretar os seus sonhos.. Contam os cronistas que não havia general que prescindisse de tal horóscopo antes de entrar em batalha. e pôs-se a analisar o seu . Eram bonecos de papelão. porém. livro barato e portátil. Hoje.

consentiu e Simão voltou à rua extremamente contente. O macaco insistiu e ameaçou-o de furtar-lhe a navalha. O último desses macacos antropóides é até tido como bem próximo parente do "Pitecanthropus" do Sr. Dubois. porém. é bem miúdo. A assuada das crianças. mostrou-lhe que era impossível. mas a que possuo. que passa por ser o avô desaparecido do gênero humano. as suas semelhanças com o homem não são bastante flagrantes como as dos grandes macacos da África e da Ásia. O nosso macaquinho não tem esse aspecto de força estúpida. por mais forte que seja.Olha o macaco cotó! Olhem só como ele está rabicó! E tudo isso seguido de assovios e outras chufas! O macaco tomou o alvitre de procurar novamente o barbeiro para que lhe recolocasse a cauda.HISTÓRIAS DE MACACO O nosso macaco. Minerva Correia da Costa.. é exemplo disto que acabo de dizer e é intitulada: HISTÓRIA DO MACACO QUE ARRANJOU VIOLA Um macaco saiu à rua muito bem vestido. são fortíssimos e de uma robustez muito acima da do homem. com as suas parecenças humanas. o gorila. D. mas de astúcia e malignidade curiosa.deixem-me ir sossegado pelo meu caminho.Homessa! Que pergunta! Porque não tenho faca. o macaco resolveu dirigir-se a um barbeiro e pedir-lhe que amputasse a sua cauda.. o povo o representa nas suas histórias. o macaco indagou: . porém. da simpatia de nossa gente humilde.dizia o mestre Simão. não estiveram pelos autos e. apesar de vê-lo bem vestido. caso não fizesse a operação que solicitava.Por que você "concerta" o peixe com a mão? . Estado do Rio. é de ferocidade e bestialidade. Todos esses macacões africanos. não o atendiam e continuavam de surriada: . O barbeiro.Meninos. mas tem tal ar de inteligência. às vezes. muito instado e ameaçado. começaram a troçá-lo: . o orangotango e o gibo. Feito o que. é tão solerte e inquieto. natural de Valença. Essa história que ai vai e me foi contada pela minha vizinha. onde ele é fecundo em ardis e variadas manhas. para vencer dificuldades e evitar lutas desvantajosas. possuem mais fortes traços comuns a eles e ao homem. O chimpanzé.Olha o rabo do macaco! Olha o rabo dele! . O "fígaro" recalcitrou e não quis atendê-lo. porém. O macaco furtou-lhe então a navalha. pelas gravuras dos compêndios. são mais simples e as narrativas populares procuram fazer ressaltar unicamente o pendor "planista" do símio. asiáticos e javaneses. Não sei qual será a impressão que se tem deles. continuou o seu caminho e veio a encontrar uma mulher que escamava peixe com as unhas. por não ter faca ou outro instrumento cortante adequado. Ao ver tal coisa. continuou: . tal e qual o vemos nas gaiolas e preso a correntes. O barbeiro. ao natural. . quando não de esperteza e malandragem. . que o povo não podia deixar de impressionar-se com ele e dar-lhe a máxima importância nas suas histórias de animais. porém. . porém.Olha o rabo! Olha o rabo dele! Olha o rabo do macaco! Aborrecido e incomodado com a vaia da petizada. As crianças. As crianças. Assim. sobretudo este. muito naturalmente. Certamente.

bem cedo. quando encontrou um tipo que.. então. prontos que eles foram. Continuou o caminho que. A professora aceitou e. com farinha. a onça pediu imediatamente: .Ah! então tu não sabes. que tem travado um duelo de morte interminável. encontrava um obstáculo que a sua manha e a sua astúcia não podiam vencer. pelo curial motivo de lhe ter dado a comer peixe e farinha. Um belo dia. com toda a razão. arrependeu-se e voltou sobre os seus passos para reclamar a farinha. Ofereceu-lhe a farinha para fazer bolos que substituíssem os de pau. A professora . arranjou farinha. . tangia uma viola. mas.perguntou a onça. a mulher.não a tinha mais. A mulher recusou. com peixe. compadre macaco? . deu-lho a comer com farinha.Macaco com seu rabo arranjou navalha. Seguiu adiante.. resolveu cantar as suas proezas com acompanhamento de viola.. Esta história de um final pessimista para as manobras e espertezas do macaco. Viu bem que era impossível vadeá-lo. Desesperado atirou-se nele para morrer.. porém. arrebatou uma das crianças. arranjou viola. como sempre. natural do Rio Grande do Norte. foi indo. não a podia restituir. o que estou fazendo? Trato da minha salvação. Tem você aqui uma navalha. continuava a correr mansamente em toda a sua largura intransponível. .Não seja por isso. com menina. . O rio. Foi-se o macaco após o almoço.. no romancear do povo. A onça é sempre o seu inimigo natural e é com ela. O macaco. Não havia lábia ou astúcia que lhe valesse. depois de tantas aventuras.Pois não tens notícias de que Nosso Senhor vai mandar um pé de vento muito forte e só se salvará quem estiver bem amarrado? Amedrontada e por não ter mão com que ela própria se atasse. depois de preparar o peixe. apesar da gritaria da mestra e das outras discípulas. O Sr. não é das comuns. arranjou menina. Ei-lo: "O MACACO E A ONÇA Andava o macaco. Agradecida. em troca. Despediu-se logo após e.. comadre onça. o macaco não se fez de rogado e entrou também nos bolos. há anos. que ele não podia atravessar. vencidas com facilidade. e a onça com o macaco. Propôs a troca da menina pelo instrumento. a tirar cipós. era cortado por um largo rio. O macaco não teve dúvidas: carregou-lhe um bom bocado de farinha. Com ela às costas. Pela primeira vez. as mais espalhadas dão sempre a vitória final ao símio sobre todos os obstáculos inimigos que encontre na vida e nas florestas. com a navalha.o que era naturalmente ele esperar . arrependido. e. arranjou peixe.. o felino veio a encontrar o símio trepado em um galho de pau. de implicância com a onça. que é hoje contínuo do gabinete do Ministro da Guerra e foi praça do exército. o que foi aceito pelo sujeito. tendo andado um pouco. Antônio Higino. portanto.Como? .Que fazes aí.. Assim cantou: .. Para consolar-se. vindo a topar com uma professora que dava bolos de pau às alunas. deu-lhe na telha de retomar a navalha. narrou-me um conto passado entre os dois dos mais expressivos. caminhando.

de Wells.Comadre. você pode se mexer? A onça fazia esforços para desvencilhar-se. perguntava: . Todos os animais iam até ali desalterar-se. mas não saiu da tocaia. que se lhe grudaram aos pêlos. que bebia tanta água.Admiraste-te! Pois desde que surra te meti.. limitando-se a perguntar: . Tem pena de mim que não tenho mãos! Amarra-me também pelo amor de Deus! O macaco obteve todas as juras e promessas que a comadre não lhe faria nenhum mal e desceu para atá-la num tôco de pau. e exclamou admirada: . Comadre onça começou a desconfiar de tal bicho. no que se demorou muito.Então. possuo escritas mais algumas. respondeu: . pudesse fazer o mínimo movimento. encaminhou-se para o bebedouro. espojou-se num monte de folhas secas. entretanto. a onça desconfiou daquele animal. deu na onça uma valente surra e fugiu em seguida. por mais que quisesse. Como esta. não foi. o macaco apanhou um cipó bem grosso. amarra-me também para eu não morrer. e o macaco atava mais fortemente o lugar que lhe parecia mais frouxo. UM DOMINGO DE PÁSCOA Na Guerra dos Mundos. para pilhar o símio e cevar nele o seu ódio recolhido. adivinhando o que o esperava. acudiu escarninho: . Disfarçado desse modo.Que sede! O macaco precavidamente afastou-se e. que não reproduzo agora para não me tornar fastidioso. mas segura. em uma das praças da cidade. depois. com o qual a onça não tem implicância alguma.. e esta jurou a seus deuses vingar-se do macaco. As outras onças conseguiram soltar a irmã. compadre macaco. À proporção que a ia amarrando. água jamais bebi! A vingança da onça foi mais uma vez adiada.Quem vem lá? O macaco com voz simulada. Apertando-lhe a sede. quando os marcianos já estão de posse de quase toda Londres. Assim pôde conseguir amarrar a comadre.. besuntou todo o seu corpo com ele e. sem que esta. O suposto ouriço muito calmamente abeirou-se do poço e pôs-se a beber água a fartar. sem serem incomodados pelo felino: mas o macaco. logo que se pôs fora do alcance da terrível comadre. Hoje. Ará é o que nós chamamos ouriço-caixeiro. 16-4-1919. Tendo encontrado um pote de melaço. muito atilado e esperto. Veio uma seca muito grande e a onça. eles topam com um estranho espetáculo que os .É o ará. ideou um ardil para ir até à cacimba saciá-la. muitas outras passagens desta curiosa luta são contadas pelas pessoas do povo e eu tenho ouvido diversas. pôs-se de alcatéia num único lugar em que havia água. Além da que aí vai. Vendo-a bem amarrada.

até as marquesas faziam-no. eu me lembro dessa passagem do extraordinário Wells. passei eu o dia com um amigo. creio que fazendo roda. e outras para os meus descendentes. as boas maneiras de um perfeito namorado não pedem tanto e as ingenuidades são mais apreciadas. o que raras vezes faço e fiz. cuja casa fica em uma das estações dos subúrbios mais consideradas pela posição social dos seus habitantes e muito conhecida pelos namoradores. e. No século XVIII. porém. algumas para mim unicamente. porém. De noite. portanto. segundo Fontenelle. que uns versos postos em baixo da gravura de um seu retrato. dizem que ela "s'élève dans les airs et le but de ses travaux est d'éclairer les hommes". as meninas e infantes emendam: O anel que tu me deste Era vidro e se quebrou. um troço de vagabundos. brincando de roda. Não são já as de dinheiro. tudo o que percebi nas fisionomias estranhas. A cantoria das crianças. parece que era "chic". faz-me sempre olhá-lo e é então que me aborreço de não saber o nome das estrelas e das constelações. Flammarion andava em moda e todo "almofadinha" daquele tempo sabia essa carta de nomes celestes. tudo o que ouvi. Preferi sempre encarregar-me do cronômetro que repousava no chão. esta sobretudo. entretanto. para as quais devia ter o transcendente desprezo e a superior despreocupação que aquela meninada tem e manifesta com seu brinquedo pueril e inocente. então eu me lembro de ver o céu. Volta e meia vamos dar! Para ouvi-las. de falidos sociais de toda espécie. Arturo. com o seu terrível raio de calor. No último domingo de Páscoa. continuando a voltear. Não é toa. nunca quis observar estrelas pela luneta do teodolito. dá fundos . e houve uma mesmo. Lira. pondo-me a pensar na importância de tanta coisa fútil que me encheu o dia. pelas primeiras horas de treva. despreocupadamente.. hoje. O amor que tu me tinhas Era pouco e se acabou! Parado ainda. Já houve tempo.faz parar de admiração. tudo o que conversei. quando me recolho à casa e subo a ladeira que é a rua em que ela está. Durante as cinco ou seis horas que passei no centro da cidade. Subo a ladeira e logo dou com uma roda de crianças a cantar: Ciranda. se encontro crianças. É que encontram no largo. que isto fazia parte do manual do namorado elegante. que traduziu Newton e ensinou Física e Astronomia a Voltaire. a du Chatelet. Se faz lua. Quando andei fingindo que estudava astronomia. Atualmente. Meu pensamento vem pejado de questões importantes. não é tanto o maximalismo que amedronta os pobretões. paro um pouco. não está em moda olhar o céu. foram graves preocupações. enquanto todos fogem diante dos habitantes de Marte.. não é também a fórmula Rui-Epitácio que abala o povo e faz cansar os lindos lábios das mulheres. que não terei. Era poético mostrar à amada o Cão. nas varandas ou sentado o casal nos bancos do jardim. as suas máquinas de guerra e o seu asfixiante fumo negro. folgam e riem. a Vega. considero aquela dúzia de crianças de várias origens e diversa pigmentação. em cima de suas máquinas que a nossa mecânica não saberia nem conceber. cirandinha! Vamos todos cirandar! Vamos dar a meia-volta. não há muito amor às coisas do céu e todos estão preocupados com as terrenas. que cantam. Hoje mesmo. A residência do meu amigo fica longe da estação.

um monumento da língua de priscas eras. que estavam na roda. Tive curiosidade de perguntar onde o Walter a tinha aprendido a cantar. entoavam as suas canções que devemos chamar infantis. Estive a ouvi-las. para poetizar o quadro. precisamos ir ao dicionário e saber que "Ciranda" é uma peneira de junco. ao lado da habitação. Domingo de Páscoa.para uma montanha que cai quase abruptamente e deixa adivinhar o granito de que é formada. Fernandes Pinheiro. usada na Europa para joeirar cereais. foi suprida pela presença de um bando de crianças. e podia observá-lo nas modernas que agora ouvia naquele domingo. Acontecia isso nas antigas. Quando há luar e ele dá de chapa nesse costão. que me parece chamar-se "O Marinheiro": Não me namore meus olhos Nem meus brincos das orelhas.Tinherabos. que fora em Lorena. e disse-me ele. o Sr. pelas grandes massas dessa rocha que salpicam a sua vegetação escassa e rala.. que. aquela paisagem pobre de horizonte fica magnífica. pela estrada de ferro. Só me namore meus olhos Debaixo das sobrancelhas. dançando aos pares alguns passos da valsa chamada . deixo. mas ouçam cantada e dançada por crianças. imponente e grande. Não é de hoje que muitas canções populares não querem exprimir nada. cujo nome tupi quer dizer "rio mau". e todas elas me pareceram muito modernas.à americana . que é rei. pois nenhuma era dos meus tempos de menino. que é tão comum. tinham nascido em vários pontos do Brasil. A seguir. Na própria "Ciranda". deve sê-lo desse rio inspirador de poetas. A falta de luar. Não é de hoje que essas canções infantis são mais ou menos amorosas e tratam de casamentos e namorados. e ela toda riu-se muito à custa do sábio cônego e doutor. No domingo de Páscoa. Com toda certeza esse "marinheiro" da canção.com balouço característico que o título da canção lembra: Sou marinheiro! Sou rei! Sou rei! Adorador! Adorador! Hei de amar! Amar! És meu amor! Amor! Amor! Ninguém me peça a significação disso tudo. em plena sessão pública da Academia de Letras. nas proximidades do Paraíba. A famosa "relíquia" .. porém. porque nada percebo aí. mas os seus outros irmãos e irmãs. talvez não chegasse um volume razoável. para conhecer-lhe o sentido e significação. non tinherabos . Sílvio Romero citou essa interpretação. em resposta. que a interpretou assim: "tinhas rabos. Walter Borba Pinto. por onde seu pai andara cumprindo deveres de sua profissão militar. as estrelas palpitavam de amor pela terra distante. A roda era de seis ou oito crianças e o chefe era um menino. não tinhas rabos" etc. Eis uma delas. não houve luar. portanto. no céu. acompanhadas de gestos e meneios adequados. Guardei diversas cantigas e me pareceu interessante dar alguns exemplos aqui. Cônego Dr. na sessão que as crianças me deram de seus brincos . que hão de ficar embevecidos e encantados como eu fiquei com essa canção. com nove anos de idade. Era carioca. Se todas fosse eu transcrever. há um estribilho que as crianças cantam. tem desafiado a sagacidade dos eruditos para traduzi-la: e houve um. Como toda a gente sabe é uma cidadezinha que fica a meio caminho daqui para São Paulo. de parte muitas. entretanto.

E a pontinha de fora. Pesei a minha vida passada.. ao tempo que a voz fraca de um menino entoava: Todos me chamam de feio. com outros meninos e meninas. O PRÍNCIPE TATU . e vendo aquelas crianças cantar tais coisas. que é acompanhado de palmas e sapateados. diz assim: bis / \ Pisa! Pisa! Pisa! Ó mulato! Pisa na barra da saia! Ó mulato! Depois continua a cantiga: Ô mulata bonita! Onde é que você mora? Moro na Praia Formosa. Sambalelê precisava Uma dúzia de palmada.. Logo mais vou-me embora. Onde estão eles? Onde estão elas? Não sei. É inútil lembrar que muitas outras canções de roda ouvi nesse domingo da Ressurreição. Trata-se do "Sambalelê". O estribilho. cujo texto é assim: Sambalelê está doente. há uma cantiga que é própria para desafiar a paciência de um sábio investigador. a fim de explicar-nos o seu sentido e objeto. Segue-se o estribilho e por fim esta última quadra: Minha mulata bonita! Como é que se namora? Bota o lencinho no bôlso. olhei o céu que não me pareceu vazio. Está com a cabeça quebrada. com sua voz fanhosa e indecisa. Quanto mais se vocês vissem O nariz de meu irmão. recordei-me que tinha cantado na minha infância canções semelhantes... 21-4-1919.peculiares. De nariz de pimentão. E a cantoria continuava sem eco algum na "quebrada" próxima Hoje.

Realizaram-se elas. que não a verdadeira. mostrou desejos de casar-se com a segunda filha do conde. É uma história complicada e longa. nesta cidade. com muita pompa e brilho como se fosse o enlace comum de um príncipe normal e uma princesa qualquer. foi ele criado com todos os cuidados de um príncipe e educado e instruído. pois vais ver! Morre já e já! Em seguida. e que o recebia como um verdadeiro noivo da .caçador com . Abstenho-me de discutir se essa generalização é segura e se é útil. À hora de recolherem-se ao quarto nupcial. conforme a sua hierarquia em nascimento. de histórias. que já encontrara a mulher no leito. contos. conforme me contavam nos azares dos passeios e dos encontros.Ah! Quiseste que o nosso casamento fosse de luto. estrangulou a mulher. mesmo que fosse como aquele tatu! Os seus desejos foram satisfeitos. A moça aceitou o pedido com repugnância e impôs que o seu palácio e residência fosse decorado e guarnecido como se se tratasse de um luto e o casamento se fizesse de preto. Apesar de ser assim. ditos. Não é caso para isso. o povo parece não dar aos primeiros matéria para que os segundos organizem livros da Carochinha dignos e de acordo com os ideais da nossa atual sociedade. A publicação foi feita em dois números e ambos perdi-os eu. viram passar um . Tendo crescido e chegado a época própria ao casamento. Foi ela uma senhora da minha vizinhança. porém. guardei uma: "História do Príncipe Tatu".. o Príncipe Tatu. portanto. Ao fim de alguns anos o Príncipe Tatu. a vez da terceira. foi avisada de que devia desejar que as cerimônias do casamento fôssem as mais festivas possível. não tivera a felicidade de dar à luz um filho. disse: . que não deixa de ter aquele fundo de todos os contos para crianças.Das notas que andei tomando há anos. de abnegação. numa revista de inferiores do Exército. Publiquei-a. Houve espanto e mesmo sua mãe quis dissuadi-lo desta sua tenção. A rainha. para afinal obter-se a felicidade completa. Minerva Correia da Costa. até então. Aconteceu-lhe a mesma coisa que à primeira noiva. com muitos erros de revisão.. cuja morte foi atribuída a outra qualquer causa. mas. que tinha por madrinha uma boa fada. que parecia ter esquecido todos os propósitos matrimoniais. e esta. em Todos os Santos. um tatu às costas. guardei as notas e agora as colijo da maneira que se segue: Estando uma vez o rei e a rainha à janela do seu palácio. pois não sou nem folclorista nem educador. A condição foi aceita e assim os esponsais foram realizados. demonstrou desejo de desposar a filha de um conde. entendeu a segunda que o casamento fosse feito de luto e as salas do palácio em que ele se realizasse tivessem aspecto funéreo. a quem já aludi nestas rápidas notas e cujo nome talvez tenha demais vezes citado. que nunca vi escrita nem nunca ouvi narrada senão pela pessoa que ma pronunciara pela primeira vez. cujo nome me escapa agora. que era um tatu perfeito.Ah! meu Deus! Vês tu!. crendices de povo. convém notar que já dei uma redação minha a essa história do Príncipe Tatu. Da mesma forma que a primeira. Quando o Príncipe Tatu entrou nos aposentos conjugais encontrou a mulher com a fisionomia mais natural que se pode imaginar. O príncipe parecia teimar em escolher esposa sempre entre as filhas do conde. e por isso disse para o rei: . Antes de tudo. que tinha três. Trata-se de D. Chegou. natural de Valença e residente à rua Piauí. de sacrifício primeiro. e dentro de menos de um ano a rainha veio a ter um filho. Quem me dera ter um filho. cheia de peripécias fantásticas e intervenções misteriosas. portanto. infelizmente.

Passaram-se meses e anos e ela. e o príncipe não a recriminava. não pudesse mais retomar as formas do animal que aparentava a todos ser a sua. a Lua.. Espera. quem o saberá.Minha velha. despertando ele e não a encontrando. não se deu. . mas continuava a falar com muito queixume na voz: .Ah! ingrata! Fôste revelar o meu segredo! Faltavam-me só cinco dias para desencantar. quer na anônima. ela. é ela que nos ama. com voz macia e pausada: . o príncipe despertou e falou assim dolorosamente: . junto da qual estava uma velhinha. Tal. à beira da estrada. o Príncipe Tatu sumiu-se dos seus olhos totalmente. seu marido de poucos dias. . sem que ela pudesse perceber como. sempre cheia de saudades. Desde muito cedo que os homens se associaram aos animais para fazer a sua jornada na vida. leitores amigos. que os jornais trazem para o gáudio dos seus leitores artísticos. .Minha netinha. E ela. que a aurora vem rompendo. Dito isso. deve ser. não pôde a mãe conter a curiosidade e veio ver. é ela quem percorre todos os descampados. e.onde ficam as terras dos Campos Verdes? A velhinha abandonou um instante a renda que estava fazendo sobre a almofada. Julgando que lhe fizessem bem e viesse ele a ter sempre a forma da nossa espécie. contou-o à mãe. Como nas clássicas histórias da Princesa Scheherazade. partiu em procura das tais terras que ninguém sabia em que canto do mundo ficavam. . quer na popular. Arrumou a trouxa e. esperava que o seu marido voltasse da mesma forma misteriosa como a que envolvera o seu desaparecimento. porém. porém. mas sem deixar de contar dentro de uma semana como se chega ao país dos Campos Verdes. mas que o encantamento fizera animal. pois não tardará. não satisfeita de saber-lhe o segredo. quem deve saber disso é minha filha. Deixamos de pôr aqui o habitual "continua" dos romances-folhetins. Hoje. 8-5-1919. cheia de saudades. tens que ir às terras dos Campos Verdes. e respondeu ternamente. se tu me quiseres ver. sem norte e sem guia. domesticados e selvagens. a mãe e mais a sua nora lembraram-se de queimar a casca óssea do tatu na persuasão que. não pôde por mais tempo suportar a ausência do Príncipe Tatu. e topou afinal com uma casinha. A moça ficou exuberante de alegria. quer na pessoal e cultivada. muito e muito por esse mundo de Cristo. completamente. que ela venha.. portanto. Seja .espécie humana. o Príncipe Tatu retirou o casaco e veio a ser o homem bonito que era. certa noite. CONTOS E HISTÓRIAS DE ANIMAIS Os animais domésticos. parece.. Muito contente com isto. Sabedora que foi do caso. Sentindo o cheiro de osso queimado. a rainha. o príncipe seu filho com a forma humana. A princesa nada dizia. sempre entraram em toda e qualquer literatura. Andou muito. de grande velhice e largo olhar de bondade. não se deu. Tal. minha netinha.perguntou a princesa. devemos por isso interromper a narração para continuá-la na noite seguinte.. é ela que nos beija.só chorava.Agora.

Além deste animal. discreteando. sob a presidência do elefante. de Minerva. com aquela sua generosidade de filósofo pobre. os "clercs". sob pena de morte em caso de desobediência. eles sempre viveram entrelaçados aos sonhos e devaneios da humanidade. seja com qualquer outro sentido. e as conservaram para a nossa atual edificação. há o burro. Reinaud de Montauban. quem não se lembra do irrequieto e falador papagaio de Robinson Crusoé? Dessa ave doméstica. Comte incorporou. como era de esperar. para que o cavalo entrasse na literatura com a posse de sua alma individual. que não é das mais naturalistas e zoomórficas. rei dos animais. a quebrar o isolamento que oprime o seu companheiro da ilha deserta. os altissonantes de alma e couraça. Quixote. mas não nos deram as suas qualidades irredutíveis de caráter. com os quais se comemora o nascimento de Jesus Cristo. A mistura dos animais com os deuses. A que reproduzo aqui. Rolando. "A conferência teve lugar. dos poemas hindus. Van Gennep. exceto o caramujo. a minorar. de coração e inteligência . um dos quatro filhos d'Aymon. convocou um dia todos os seus súditos para uma assembléia. os pombos. batizavam os seus ginetes de guerra com nomes flamejantes e significativos que ainda vivem na literatura e na memória dos homens. os "preux" esforçados das batalhas. o cavalo é animal de Netuno. narrando. das fábulas. como toda gente sabe. das justas e torneios medievais. mais abaixo. é originária da África. esse hipogrifo cheio de candura que suportava candidamente os arrebatamentos do sonho generoso de justiça do seu amo e amigo. na espontânea atividade literária de todos os povos. quando os animais se puseram a gritar: . que lhes contaram as façanhas nas festas. A transcendente imaterialidade do Divino Espírito Santo é representada na iconografia católica por um pombo. ora com esta intenção. crônicas e romances. certos animais à própria Humanidade. Ei-la: "O elefante. os trovadores. os animais que os cercam figuram humanizados. tem Neillantif. Os paladinos. no seu conhecidíssimo livro. a águia. etc. de ímpeto. e nos presepes. não admitia o sacrifício de nenhum para sustento do homem. ora com aquela moralidade ou aquela outra filosofia. de ardor. a vaca. seja como atributos de sua força e do seu poder. e ia já pelo fim. Os troveiros. O Sr. os aspectos de bravura. ele é unicamente o corcel de D. a fim de obter alimento. é figurado com um carneiro ao lado. mas que no livro de Crusoé nos parece tão simpática. sentenciando. certos santos têm o acompanhamento de animais. dando-lhe a larga visão da sociedade e dos homens . Pode-se dizer que. em geral maçante. Na nossa religião católica. Na greco-romana. de Júpiter. é coisa fácil de verificar em todas as religiões. orgulhoso e bom. para exibir leituras ou erudição. tem Bayard. dos combates singulares. o iluminado Çakia-Muni. São João Batista. Foi preciso que Cervantes nos pintasse o doce e resignado Rocinante. traz uma narrativa de animais que me parece típica para o gênero e que me atrai entre todas. Rocinante não se parece com outro qualquer cavalo. o paladino dos paladinos. galinhas. de Vênus e assim por diante. e todos os outros guerreiros de antanho possuem os seus "destriers" bem crismados e extremados da turbamulta dos cavalos anônimos. o melhor corcel da cristandade.como simples companheiros. só lhes viram as aparências. mas meu propósito é outro e não convém perdê-lo de vista. e Buda. É aquela em que se explica a origem de certas deformidades ou melhor singularidades morfológicas de determinados animais. o "bon cheval courant" da sua imortal gesta.a sua alma. Todos compareceram. seja para sacrificá -los. falando. a serpente. enfim. galos.quem não se lembra dela? Podia ainda falar no "Roman de Renard". para esclarecer o meu pensamento.

Todos conhecem esse peixe que tem a boca numa disposição especial e anormal.Donde vens? perguntou-lhe o elefante. Mas. não procederam os nossos severos e terríveis deuses mais ou menos judaicos com o linguado. tendo morrido há pouco tempo. Passaram homens.Vem aí o caramujo! Está aí o caramujo! "O caracol aproximou-se todo trêmulo." Diz o Sr. Depois. a fazer não sei o quê. para punir-te de ter faltado à conferência. nos nossos dias. passeando. sim. que ele assim ficou por ter tomado a liberdade de caçoar com Nossa Senhora. bichos e ele pedia água. ". logo que os ramos das árvores os ameacem. depois de Pöe e Baudelaire. assim disse: ". Em todo o caso. muito fiel e dedicado. a maré enche ou vaza? O peixe que devia ser. um negro velho. Doravante. ". estão em moda entre os literatos poetas.. a fim de pronunciá-los. Não havia meio de atinar se o mar estava enchendo ou vazando.Tu falaste claro. Manuel de Oliveira.". tu e toda a tua geração. O linguado não sabia com quem estava falando. É bicho que Nosso "Sinhô" não gosta. Contava-me. durante toda a vida.. porquanto o caramujo não precisou trabalhar mais para ter casa. levando naturalmente o filho ao colo. gato é bicho do diabo. É corrente. Nossa Senhora não encontrava ninguém que a tirasse da perplexidade. cabinda de nação. Cachorro. Não é só esse animal que mereceu dos nossos deuses católicos punição ou maldição pelo seu mau proceder em relação a eles. Passou.Recebi-a. por esse tempo. e eu temo muito o frio e a chuva. contam as nossas velhas. que. Ninguém se importou e não lha trouxe. tu só me deste um pé para andar. a tua casa nas costas. respondeu-lhe o caramujo. então. à mesa do almoço ou do jantar. quando Nossa Senhora lhe disse: . nós lhe vemos o estigma. então. porém. Perguntou com toda doçura e delicadeza: .. damas de sociedade e outras pessoas dignas de verem o seu "interior" estampado nos jornais catitas e revistas de elegância. mas veio a sabê-lo. entre nós. Assim.Ficarás com a boca torta."Seu Lifonso". meu saudoso preto velho o motivo por que ficaram malditos os gatos. carregarás sempre. arremedou-a nas palavras e exagerou para melhor debicar o modo por que Nossa Senhora tinha articulado os lábios. torta. e poderás escondê-los. até a consumação dos séculos! Assim foi e ainda hoje. pai elefante. Foram esses os motivos que me fizeram voltar e me decidiram a carregar a minha casa nas costas. de um natural mofador e grosseiro. Van Gennep que certa tribo africana acrescenta a esta história a consideração de que o castigo não foi grande. é bicho "madiçuado" por Deus. pai caramujo. que como castigo lhe deixou no seu corpo o justo ressentimento de nossa Mãe Santíssima. Nosso Senhor Jesus Cristo estava na cruz e teve sede. sem lhe responder à pergunta. Andava a mãe de Jesus por uma praia. mulheres. os ramos me cegavam. quando os animais ouviam e falavam. não gostava de gatos e não me cessava de explicar essa sua ojeriza: . como diz o povo. ". "O elefante-rei riu-se muito e durante longo tempo com essa explicação..Da minha aldeia. e me pus logo em caminho. que viveu com a minha família e me viu menino de sete ou oito anos. mesmo no prato.Linguado. quando se aproximou mais das águas e viu um linguado que andava próximo. terás teus olhos na ponta dos chifres. um gato que Nosso Senhor julgou ser capaz de fazer a obra de caridade que o Homem-Deus suplicava lhe .E por que tardaste? Não recebeste a ordem? ".

É sobre o seu sofrimento. Os livros conhecidos. sobre as suas próprias vidas que nós erguemos a nossa.Gato. ". que chorou.E o cachorro. entram mais na nossa vida do que supomos. seja qual for a razão. lembrei-me daquele "Manel Capineiro". citados e estimados. É coisa muito sabida o horror que os judeus e muçulmanos têm ao porco e a tudo que a ele se refere. Muitos autores querem ver nessa ojeriza. Na sua manifestação ingênua.Antes fosse eu! ai mô gado!" disseram-me que ele pronunciara ao chorar. podemos afirmar que os animais irracionais. uma prescrição com fim higiênico feita religiosamente pela Biblia. . quando certa vez. Por suporem ser de porco a graxa com que deviam umedecer os cartuchos de umas certas espingardas antigas. porém. infelizmente. é bicho que tem parte com o “capeta”. mas outras personalizam-nos francamente. . para pesquisas bacteriológicas. levantaram-se em uma formidável revolta que pôs em perigo a dominação britânica nas terras do Ganges. julgam encontrar em tal coisa uma singular deformação de um totemismo primitivo e esquecido. a locomotiva matou-lhe os burros. outros. tendo de mordiscá-los antes de enfiá-los na culatra das carabinas. a serviço da Inglaterra. ao atravessar a linha da Estrada de Ferro com o seu carro. há meses. . Algumas não personificam o Deus ou o Santo que os castigou. 17-4-1919. VII HISTÓRIA DE UM SOLDADO VELHO A literatura nacional possui obras maravilhosas que pouca gente conhece. por isso ele é bicho de Deus.Cachorro não fez isso. as suas deformidades. A história de Manuel de Oliveira é muito conhecida e familiar entre nós. Num caso ou noutro. Manuel? . coelhos de olhar meigo e cobaias de grande esperteza. em gaiolas. . desta ou daquela forma. português carreiro de capinzais da minha vizinhança. estive no Hospital Central do Exército. e vi em uma sua dependência. agora não me acodem. Quando. Buscou água fresca e deu a "Nosso Sinhô". "Nosso Sinhô" mardiçuô ele pra sempre e até hoje "ele" é "mardiçuado" por Deus.fizessem. tão poderosa sobre as almas duma grande parte da humanidade. Há muitos dessa literatura subjacente que talvez nem tenham chegado aos depósitos oficiais de livros e permaneçam nos desvãos poeirentos dos "sebos". a "Jupepa" e o "Garoto".. Rogou ao gato que lhe trouxesse um pouco d'água para lhe abrandar a ardência dos seus lábios ressecados. havendo outras muitas que explicam a maldição de certos animais. Hoje. mas que.que é bicho mau e do "demônho". os cipaios muçulmanos da Índia.. sem . nada valem à vista dos que ficaram esquecidos e à mercê das traças das bibliotecas. sabe o que fez? Pois fez isto: "mixô" numa caneca e deu a "bebê" a "Nosso Sinhô". o pobre português mostrava como aquelas humildes alimárias interessavam o seu destino e o seu viver. "Seu Lifonso" .fala o Manuel de Oliveira.perguntava eu.

no prefácio. senão fesceninas. nos leilões das livrarias das velhas famílias portuguêsas. original brasileiro. A sua leitura. como diz na capa. Há um muito conhecido. quatro atos e quatro quadros. porque.o que não impede de chamar o seu único filho varão de "unigênito"." . e. A antiga escola da Praia Vermelha. porém. Almeida Júnior é preciosa porque foi onde pela primeira vez vi grafado. do 15 de Novembro. havia de andar pelas lojas de livros usados. à rua Uruguaiana. Não é meu propósito. Imagino que tal se desse. nasceram lá. mas tenho muitas razões para acreditar que tivesse passado pela legendária Escola Militar da Praia Vermelha. Bote. Fernando Pinto de Almeida Júnior. tinha. oferece o seu drama a Saldanha Marinho. esse encouraçado literário é precedido por uma porção de "vedetas" explicativas e contratorpedeiras de ofertórios significativos. e aprovado pelo Conservatório Dramático. por longas páginas. o verbo "engrossar". Como este. com divisas adequadas e outras coisas. pode bem ser que fosse da Polícia ou da Guarda Nacional. apesar de muito expressivo e curioso. ela pode fornecer ao exegeta arguto e ágil de espírito vasta documentação do sentir dos heróicos cadetes de 1889. pois há uma indeterminada dedicatória . capitão do Exército. Lopes Trovão e mais sete próceres republicanos. um sentimento desses ou de qual.encontrarem mão amiga que os traga para aquela forte luz da grande publicidade a que eles foram destinados ao nascer.quer admiração por esse senhor só pode existir nos que passaram por aquele estabelecimento de ensino militar. denuncia uma admiração filial pelo Sr. histórica. tenho uma brochura desconhecida. que interessem a qualquer período da nossa história. manuscritos e "in-fólios". a fazer descobertas dessas relíquias. na antiga casa Mont'Alverne. terrestre ou flutuante. trata-o sempre de Sr. dela se propagou pela cidade inteira e chegou até aos jornais e à literatura escrita. tem ou terá. muitos termos da nossa geringonça. capitão Almeida Júnior.. pelo Sr. Toda a gente sabe que esse verbo de jargão nasceu na velha Escola Militar. Para mim. 47. a diversas pessoas de sua família. é sincera..."Às minhas filhas. mas que não me atrevo a escrever aqui. crítica. eu a fiz em anos passados. e agora não estou disposto a repeti-la.lho de Magalhães.. analisar a peça singular do capitão Almeida Júnior. Em falta de cronicons e códices manuscritos de antanho.A redenção de Tiradentes. ditos e outras formas de dizer que se tomaram populares. nunca! É um drama histórico. entre os meus poucos livros. O Sr. isto é. além destes. Se me sobrasse fortuna e lazer tivesse eu. tanto mais que na Academia Francesa já se tratou há tempos do "argot" parisiense. Não tenho documento para afirmar que fosse do Exército. A sua obra que. cuja conta não se pode bem fazer. ou parece ter sido. republicana e cívica. era muito favorável à formação de termos de gíria. em um prólogo. com todas as letras. o quase isolamento dos seus alunos . Ninguém mais a teve. cujo valor é para mim inestimável. Trata-se de uma obra filosófica. mais cívica do que as recentes canções militares que o carnaval fez esquecer. de anedotas picarescas. Os estudiosos dessas coisas que procurem determinar a sua origem. havia de encontrar muita brochura curiosa e reveladora de novos predicados intelectuais de seus autores. Figueiredo Coimbra. Prefaciado pelo falecido Figueiredo Coimbra. tendo o "visto" da polícia. Além de suas singularidades dramáticas e cênicas. além de abracadabrante e cívica. como processo de formação de palavras novas. Lauro Müller e Lauro Sodré. Todos os bibliófilos ricos do Rio de Janeiro podem comprar. O autor. de anexins e sentenças de sainete peculiar. a peça do Sr. O seu autor era. como toda a caserna. A sua segregação parcial do total da sociedade. de que nós temos a cortante e eloqüente imagem viva nos Srs. Rui Barbosa. em 1893. Foi impresso nesta cidade do Rio de Janeiro. mas a minha .

embora por fragmentos e alusões figure no falar familiar. no Ceará. sobre os seus superiores civis ou militares. as conhecendo. Voltemos ao assunto. há histórias. Talvez sem fundamento. Entre os soldados propriamente. pois a sua vida. mas tenho alguns. Alberto Rangel é o único que assim é apontado. de homem de ciência que despreza o simples escritor. etc. A sua história. a monotonia da vida que exige conversas. certamente. Nessas historietas e anedotas. eu creio mais literária do que simples e espontânea amizade de colegas de mocidade a que existia entre eles. até ao rebuscamento dos vocábulos raros. Sinais dos tempos? Não me compete examinar tal coisa. algumas qualidades e atributos que vieram encontrar a sua expressão máxima em Euclides da Cunha. os seus alunos muito adequados a trazer para a massa os modismos que o quartel criava. e os consola da sua pobreza e do seu estado de obediência e inferioridade. Era corrente até bem pouco. "bancou o trouxa". nos seus escritos. Euclides da Cunha manifestou. há sempre como moralidade a vingança ou a vitória da praça com seu espírito. suaves esbatimentos nas transições. No seu escrever. a influência do seu primeiro meio intelectual e o seu orgulho mental devia tê-lo tomado muito cedo. justificava essa crença. mas literato até à medula. e também nas anedotas e "casos" contados pelos seus ex-discípulos. não registra a existência de fortes amizades de moço. talvez. com o seu cômico reduzido. de proveniências familiares as mais diferentes. portanto. e com um pensamento diretor que lhes acaricia a sua desfavorável situação social. além do calão quarteleiro. modificações e derivações na linguagem comum. em que a rigidez de certo positivismo estreito e pedante não domina mais. para ele sempre um ignorante. devia aparecer algum que colhesse da boca dos soldados exemplares dessa literatura plebéia. a demonstração das recriminações dos soldados. e todo ele cheio de um orgulho intelectual desmedido. no seu estilo. tanto mais interessante quanto desconhecida do grande público. quanto à exigüidade dos vencimentos de suas reformas. de criança. que me foi fornecido pela ex-praça Francisco José dos Santos. A sua alma era seca e árida. de grande sociabilidade. devia levar os cadetes a criar. uns modos de linguagem própria e literatura oral sua. desejo de esconder a colaboração do inconsciente sob a crosta espessa das leituras. sem o sentir. Não se nota. e ter tido ela influência decisiva nos nossos motins políticos. . natural de Aracati. que a tornava ainda mais seca e mais árida. a Escola Militar era de fortes camaradagens. cambiantes. Não possuo muitos. Participando da sociedade em geral e sendo habitantes de uma caserna estavam. de dedicações de uns alunos pelos outros. O Sr. criados com os elementos que lhes estão à mão. Tendo estudado difíceis disciplinas e. há sempre a preocupação de demonstrar saber universal. é. que entre nós são em geral originários das mais humildes camadas da sociedade. essa capacidade de criar gíria. que aquele instituto de ensino era o primeiro estabelecimento científico do mundo. contos. pode-se notar esse modo de espírito peculiar a ela. Atualmente é contínuo ou servente da Secretaria da Guerra. entretanto. Nas pequenas revistas da velha escola da Praia Vermelha. pejado de metáforas e comparações científicas. o encontro forçado ali de gente oriunda de vários lugares. pândegas adequadas entre eles. levadas ao extremo. que talvez não tenha muito de original para o comum. seus ardis ou esperteza de meios destros. Entretanto. além dessa feição peculiar à sua natureza. Entre os nossos jovens oficiais. abandonos. com estes ou aqueles elementos. Daí. de menino.do resto dos homens de outras profissões e ofícios. entre seus alunos. que anda contada de boca em boca. esses dizeres pitorescos saem das casas de jogo: "deu o suíte". até à tortura de procurar um estilo original e inconfundível. Uma carta do doutor Audiffrent. desdém pelas impressões do primeiro instante. Hoje. dos quais publico hoje um. tinha a pretensão de filósofo. discípulo de Augusto Comte. que sempre foi uma criação do pendor dos homens para o seu agregamento. Aquele estabelecimento tinha.

vendo que todos já estavam dormindo. O frade logo perguntou quanto era. mas praças de certa graduação. Deu-lhe o frade mais outro conto de réis ficando sem vintém. além do mais. Era o dono da casa. mas sem saber o que devia fazer. Após certo espaço de tempo chega um frade para penetrar na casa e pergunta-lhe o que estava ali fazendo. a mulher tranca o frade e o soldado em uma alcova. mas imediatamente continuou a dizer que no dia que comia pato não podia ficar calado. representantes das classes que antigamente disputavam o domínio da sociedade. Eu a dou mais abaixo quase como o ex-cabo ma forneceu por escrito. acompanhado por aquele homem desconhecido. pois. A dona da casa continuava furiosa. "Soldado Velho" que bispou alguma coisa no caso disse que estava à espera do pagamento de um pato que vendera à família. nem com coragem para perguntar ao frade que homem era aquele. Estava tudo perdido. fazendo das tripas coração. a criada. O frade não tinha dado até ali uma palavra. quando eu era efetivamente oficial da Secretaria da Guerra. A dona da casa vendo o frade entrar. portanto. um dos estafetas para entrega da correspondência. ele disse o custo de dois cruzados. Vamos. O soldado. O seu companheiro. quando foi aí pelas 10 horas. o que fez ele? Comprou um pato e saiu a revendê-lo. que parecia peculiarmente muito íntimo da casa. manda pagá-lo. vencendo uma minguada diária. Santos. que manda vir o pato e. puxou uma cadeira e sentou-se. O frade já lhe pedia pelo amor de Deus que não falasse mais. Chegando na sala. "Soldado Velho" teimou em afirmar que no dia em que comia pato não podia estar calado. Recebeu o dinheiro o "Soldado Velho". mas. ao qual não faltou o pato de cabidela. tem aquele velho espírito de antagonismo entre o padre e o soldado. não cessou de falar. porém. pois. mas aceitava silenciosamente a situação. Ele disse que o custo era de dois cruzados. quando me contou a história do "Soldado velho" era ainda cabo efetivo do exército. que lá não são civis como nas outras secretarias. À vista disto. por sua vez. Ora. Chega a noite. porém. ficou interiormente furiosa. O marido não saiu mais e a mulher cada vez mais ficava amedrontada. não saiu mais do portão. o soldado o acompanha. dizendo uma coisa é outra sem relação com ele. lê-la: "HISTÓRIA DE UM SOLDADO VELHO "Soldado Velho" deu baixa do serviço do Exército. deu-lhe a batina de sêda. o militar fez o mesmo. O frade gratificou-o com um conto de réis para que ele nada mais dissesse. O frade tomou lugar na mesa. o "Soldado Velho" também. isto é. servindo na Secretaria como "correio". O eclesiástico não lhe explicava o fato. O soldado que recebia em recompensa de muitos anos de serviço era um cruzado. Já estava a terminar o jantar quando bateram à porta. vai falar à patroa. a praça reformada. por não servir mais para o trabalho. e o "Soldado Velho" também. O religioso puxa do bolso da batina o dinheiro e paga. para ver se ele se calava. Dispõe-se depois a entrar na casa. se tal fizesse. Chegando perto de uma casa saiu-lhe uma criada a comprar o pato. e ambos entram. mas o outro continuou a falar.Não parece muito recente. ela. e assim vão os três até à hora de jantar. Pediu-lhe este que não falasse ali. eles . "Soldado Velho". provocou uma conversação com o frade. o frade. .

soldado. cantigas. O frade. as superstições abundam. pois ele. O Sr Van Gennep diz que da Cendrillon de Perrault. vendo a resolução do "Soldado Velho" e que tinha mesmo de ir à presença das autoridades. o "Soldado Velho" ouviu e respondeu com outro formidável brado. na cadeia. o seu desejo era só falar. Isto não quer dizer que todos os homens. fábulas. "Soldado Velho" pula em seguida ao dono e o prende. a batina de sêda do frade e todos os seus panos menores. se ele o soltasse. Quem pagou o pato? Hoje. não as tenham também. de todos os tempos e todos os países.ficariam desgraçados. O homem. Na Europa. Dá-se lá o que se dá entre nós. quanto às origens das nossas crendices e abusões. É uma atividade fundamental do nosso espírito que se traduz de vários modos desde os samoiedas e esquimós até os araucânios e patagões. O dono da casa. não quis logo sujeitar-se à prisão. tanto mais que o preso tinha dado um tiro num homem. conhecida por nós como A Gata Borralheira. "Soldado Velho". mas "Soldado Velho" não queria saber de nada. a maquia. que. propôs ao militar. em qualquer parte dela. O homem chamou a mulher e mandou que ela contasse os contos de réis com toda a pressa e os trouxesse. onde os sociólogos profundos atribuem as nossas. ali e acolá. Este pulou uma janela mas o dono da casa pula atrás dele e dá-lhe um tiro. desta ou daquela seita ou fé religiosa. 10-4-1919. "Soldado Velho" aceitou o trato. Já sendo meia-noite. mas é idéia feita que só os italianos o sejam e um pouco os espanhóis. que ainda não estava vestido com a batina. que era pessoa de grande reputação. vendo nos seus contos. "Soldado Velho" não queria saber de nada. despiu-se de toda a roupa e entregou ao tagarela para que ele não falasse mais. É própria da nossa fraqueza mental essa pressa em explicar com criações arbitrárias o que não podemos cabalmente elucidar de outra forma. meteu as mãos na porta e saiu nu. cheio de mistério e cercado de mistério. as mulheres principalmente. O frade. ele que era muito conhecido e respeitado por todos. sempre procura nas coisas externas sinais seguros do seu destino e marcos certos para o seu roteiro na vida. às vezes são bem européias. . VIII SUPERSTIÇÕES DOMÉSTICAS Houve quem dissesse que a superstição é a religião do homem que a não tem. "Soldado Velho". quatro cruzados. a depósitos na nossa consciência de crendices africanas. saiu da aventura com 14:OOO$. O homem. vivendo aqui. O dono da casa certamente despertaria e era capaz de matá-los. Estava o "grosso" preso e bem preso. com medo. Assim foi feito. que só vencia um pobre cruzado por mês. Os estudiosos de folclore já têm observado essa unidade espiritual da raça humana. daí essas simplistas generalizações de nossos falsos sábios. dar-lhe doze contos. mas com a condição do dono da casa mandar a sua mulher contar e trazer ali onde estavam. percebendo que não tinha mais o que dar. desde a Europa até ao Extremo-Oriente e à nossa América. há mais de quatrocentas variantes. Não podia de maneira alguma soltá-lo. quando não tupaicas. vexado. era o rondante e tinha que cumprir o serviço. acompanhou o frade. ritos particulares e superstições uma relativa analogia substancial de temas a se manifestar com aparências narrativas de formas variadas. a sentinela soltou o brado de alerta. Todos nós sabemos disso.

perdas de emprego e outros acontecimentos nefastos à vida satisfeita do lar. e perde o poder de locomoção desde que a mulher dê três voltas no cordão que lhe amarra as saias.O que se dá com a conhecidíssima Gata Borralheira dá-se com quase toda a produção literária coletiva e anônima cujas manifestações são encontradas em todas e as mais diversas partes da Terra e na boca de raças diferentes. uma das mais curiosas é a superstição caseira que se transmite de pais a filhos. Nas manifestações da psicologia popular. e. indicam que as coisas vão desandar. Desde menino. entretanto. mas disso a afirmar que seja devido ao "magnetismo" da cobra a atraí-lo. não distingo no objeto deles o que é de luxo ou o que é comum. dar o meu depoimento individual. pelo menos nos países europeus e os que surgiram deles. ouvido à noite. tem a virtude. algumas. um modo particular de gemer dos passarinhos. Tento unicamente com o que tenho observado e ouvido. por essa abusão familiar de nossa gente pobre. pousados nas árvores. O autor que citei diz que a conquista da Argélia. em um caixão de sabão. gosto muito de pombos. vaticina grandes desgraças domésticas. entre os matutos a recomendação de que se deve visá-la bem quando se a quer matar a tiro. e o bramanismo simboliza nela o infinito. . e cheguei mesmo a projetar. quando se reproduzem muito. nada tem de maléfico. tão cheia de legendas aterradoras e de habilidades cruéis. a coruja é tida como uma ave de mau agouro e o seu pio. É artigo de fé entre a nossa gente roceira que ela não morde mulher grávida. a nossa cobra. mortes. Os pombos. desde que comecem a fugir. ou eram no meu tempo de menino. Os roceiros dizem que a cobra salta para morder o indivíduo que a afronta. errando este. quando a representa mordendo a própria cauda. Já o notei. mas para a qual será muito difícil achar uma razoável explicação. é consagrada a Minerva. É uma crendice geral que qualquer observador pode colher entre as famílias pobres e remediadas. determinar o foco de sua irradiação. quis. porém. são perseguidos. mas os sábios negam isso. não se podendo. arrulhantes pombos das beiras das casas. Negam observadores autorizados essas proezas da cobra. possuir um casal. sem nenhuma outra pretensão mais elevada. porém. como negam também que ela atraia o passarinho que quer engolir. a Atena grega. Todas elas se dirigem contra o Azar. com o estudo dos árabes e berberes. dizem. com os níqueis que ajuntava em um cofre. o pombal. de trazer a satisfação para a casa que a possui. sinal de prosperidade no lar. mas. A serpente também. entretanto. Em toda a parte. que eram na antiguidade consagrados a Vênus e cuja posse no regime feudal constituía um privilégio de senhor. A minha tenção. das forças. Há até. como sempre com os meus gostos. apanhada ainda quente dos pés do cavalo quando a perde. demonstrou a existência na África do Norte de múltiplos temas. O certo é que quem tem vivido na roça ouve. gozando de uma extensa voga na Europa Central. vai uma grande distância. mesmo porque não me sobra nem a competência nem a vasta leitura que ele exige. têm por fim invocar a felicidade e pedir a prosperidade para ele. misteriosas contrárias à nossa felicidade. Nunca em casa me permitiram que eu os tivesse. atravessando gerações e as situações mais diversas de fortuna das respectivas famílias. pregada atrás da porta da entrada. a cobra vem certa pela fumaça do deflagrar da carga da espingarda e morde o atirador. segundo a minha fraca lembrança. não é a de fazer um estudo mais amplo sobre o assunto. pois. Todas as superstições caseiras ou familiares têm quase sempre por base o temor dos gênios. registrar impressões. que não é o vulgar. às vezes. que acarreta moléstias. Muitas vezes. essa ave é na mitologia consagrada a um Deus ou Deusa que. É crença familiar entre nós que os pombos são. A ferradura. nas minhas conversas com pessoas do povo e gente humilde.

pendurados no pescoço. ninguém deixe um calçado com a sola voltada para cima. tendo como fito perturbar a felicidade da nossa existência.Na sua generalidade. Além desse amuleto e dos santinhos. há a figa-de-guiné. à reza.. e elas nos guiem na nossa vida e nos desculpem. que nos voltamos para que a obscuridade do viver não nos cegue de todo. Hoje. afastar o "mau olhado".. ninguém vista uma meia ou outra peça de roupa pelo avesso. 27-3-1919. que é como caminhamos na nossa breve existência. com a recomendação de repeti-las tantas vezes e passá-las adiante. perante o que vier. mas mesmo nas centrais. Para evitar tais coisas. nascida da convicção de que a nossa sorte é insegura e que somos cercados de entidades superiores e pouco amigas da nossa felicidade e repouso.. e assim são inúmeras as superstições que procuram evitar o azar e todas elas são obedecidas cegamente. Há as que são destinadas a fins de cura. se não as transcrevo aqui. para afastar desgraças e feitiços. a nossa mais urgente necessidade é estar bem com o mistério. sem marcos. contra a incerteza do dia seguinte. as crendices populares visam evitar. Ninguém derrame tinta ou azeite no chão. o "azar" . é porque não as encontro à mão. porque traz azar. porque traz azar. devem-se trazer. coisas misteriosas. porque traz azar.. Tenho nos meus papéis um espécime dessas. e. à custa de regrarem a nossa sede e fome de Infinito e de Deus. A luta contra o azar. às vezes mesmo orações com a invocação de certos santos ou palavras cabalísticas. quando as religiões não nos satisfazem. Nesse debater nas trevas da nossa vida terrena. a "coisa feita". é para essas pequenas e ingênuas crendices que ficaram guardadas na nossa memória. e. Eu não deixo nunca o meu chinelo virado com a sola para o ar. do que somos e do que seremos. . IX REZAS E ORAÇÕES A oração. espontâneo e inexplicável ou provocado pela inveja de inimigos e desafetos. ninguém quebre um espelho. porém. sem certeza do que fomos. quando elas. os "breves". há as que se empregam em conjuração de moléstias. não só nas freguesias afastadas. porque traz azar. que os indivíduos usam. há outras para a proteção contra feitiços e "coisas feitas" de qualquer origem. desde a meninice mais tenra. No que toca a orações. o povo atribui poderes superiores e miraculosos de várias aplicações. mas os lares também têm. Chamam a isto pequenos saquinhos. ninguém ponha uma vassoura "de pernas para o ar". leva-nos às mais curiosas e inesperadas superstições domésticas. há também o costume de escrevê-las e enviar pelo correio aos amigos. nos abarrotam de tolices e patranhas manhosas a enfarar. porque traz azar. mesmo por aqueles que se julgam livres de tais crendices. depois da nossa morte.

atualmente. creio que a primeira sexta-feira do mês. exerce poderes maravilhosos e extraordinários sobre a causa da nossa vida e da nossa consciência. pitonisa Os sucessos políticos. Passeando nos subúrbios. há algum tempo: "MISTÉRIOS DA VIDA . Volta . na crença da nossa gente. nas primeiras horas da manhã." Os "barbadinhos". Nas tricas galantes mesmo. aparecido. que vivem acorrentados aos seus caprichos. da igreja mais antiga da cidade. já ouvi o seguinte diálogo. em ruas sombrias e pouco transitadas.Desvio das correntes adversas que surgem na vida ."ela" disse! . onde está o túmulo de Estácio de Sá e no cunhal da qual existe o marco quinhentista da fundação da cidade. mas as antigas não passavam sem elas e a crença geral e popular é que as feiticeiras. São cínicos demais e os seus anúncios de extremada publicidade. Outra missa muito curiosa é a chamada das "arrependidas". que se encontram. professores-cartomantes-feiticeiros. a frase: "Você anda caipora. não. É o "rezador" ou "rezadeira". Não sei em que dias é a assim chamada. para lavar-se de culpas e pecados peculiares a seu sexo. sobretudo. e uma das suas missas. Nunca me foi dado ler uma oração destas. cujo convento é no morro do Castelo. ."Ele" volta.Procurai o Professor Baçu. médiuns femininos. moças e velhas.portanto do sacerdote católico que a oração. são os capuchinhos italianos. como toda a gente sabe. é tida entre os supersticiosos como possuindo a virtude de afastar o azar. em um dos nossos jornais. distribuídas pelas cartomantes-feiticeiras. . Vejam só este. etc. Não é unicamente. o caiporismo.A CONCÓRDIA . mas as mulheres da cidade a freqüentam. mas as mulheres. como chamam hoje os namoradores profissionais: . Nunca a ela fui. tem entrevista com os repórteres. nas freguesias rurais. Há a cartomante quase licenciada que anuncia nas gazetas.É corrente.O PROFESSOR BAÇU .Volta. com as quinas do velho reino lusitano. que se diz na Igreja da Cruz dos Militares. que há por aí e vivem com favor dos seus poderes sobre-humanos de unir corações e fazer toda a sorte de felicidades. Todas as esperanças daqueles e daquelas que o amor abrasa. Os homens são quase todos de idade. e não sei como explicá-la. Hadjina. nos feiticeiros machos. sim! O que é preciso é você rezar a oração. em que se maranham raparigas e senhoras. A religião católica não quis sacerdotisas nas suas cerimônias. é na cartomante. precisa ir aos "barbadinhos" ou rezar nos "barbadinhos".Ide vos casar? Quereis vos casar? Tendes dificuldade de obter noivo ou de realizar vosso enlace? Não sois feliz com o casamento? . com o auxílio da missa .A FELICIDADE! Ele é o único que possui os MIMOS NUPCIAIS. mas há também as particulares. que são procuradas pelas informações de boca em boca. de todas as condições. mas muitos que lá foram me contam que tem uma freqüência segura de jogadores de todas as classes.Qual! fez a outra lacrimejante. o povo prescinde do sacerdote ungido regularmente e escolhe um outro que ele mesmo sagra e consagra. Ele vos fará um trabalho rápido e perfeito para que nesta reunião "reinem" A PAZ . entre duas pequenas ou garotas. porém. "rezadeiras" são mais poderosas que os homens no seu comércio com a Divindade e com o Mistério. muito pouca fé têm os amantes e namorados nos hierofantes. Os que anunciam nos periódicos não me merecem interesse. detentores. desafiando a polícia são a mais segura demonstração do seu charlatanismo explorador. por aqueles que querem vaticínios certos de vida amorosa. de raparigas de vida airada e outros devotos do Acaso. Muitas vezes. Os "barbadinhos do Castelo" entram sempre em tudo que se alude a benzeduras.

fazendo roças de aipins. que tenazmente se batiam contra a implacável formiga. como ia eu dizendo. Reside com sua família à RUA 5. não tem fundo. Essa usurpação de atributos sacerdotais por particulares é feita. Benzem outrossim as plantações. acompanhado de envelope selado ao Capitão José Leão. ameaçando mesmo matá-la de todo. que teve uma fazendola. Rezam tudo. com a mais luxuosa publicidade. preparadas com as pedras "Natal". quase sem comunicações diárias com o centro urbano. em toda a localidade. anéis e outros objetos de metal. aspergindo os cantos com uma certa água "rezada". diagnósticos e prognósticos. Peçam prospectos. oração ou quer que seja.. CLEMENTE N. Têm fé no seu mister e a sua sinceridade comunica essa fé aos outros. e a insistência com que este e outros apregoam. os seus poderes e as suas virtudes excepcionais. com os quais. recentemente fundadas pelo governo republicano. mostra bem que a clientela não lhes falta. porém. aproximações de pessoas afastadas e realização de qualquer negócio considerado irrealizável. As "rezadeiras" são ajudadas por facas. de melancias. Horóscopos. isolada do Rio de Janeiro. exercendo um pequeno emprego nas Colônias de Alienados. usadas pelas mais formosas mulheres da celeste Jerusalém." Leram? Há tanto cinismo e tanta desfaçatez que aquilo que um mago anunciante nos fornecer em "breve". apesar das perseguições da polícia. Botafogo. pela eficácia dos seus exorcismos. entre as cruzes que havia na "cabeceira". Chamam a isto "cortar" a dor ou a moléstia. devido à decadência de suas culturas perseguidas atrozmente pela saúva. por assim dizer. Mas as suas especialidades são para curar certas moléstias particulares às senhoras: "cobreiros". e dores vagabundas e sem explicação. pelas bandas de Guaratiba. É morta a pessoa que me contou. peço nome. não pode merecer um pingo de atenção.. acompanham o balbuciar da oração adequada. de quiabos. obtendo reconciliações. e muitas vezes narrou-me esse surpreendente espetáculo. em amuleto. de batatas-doces. Também possui as fórmulas em "líquidos e sólidos". pôs-se nos pés e começou a rezar. fazendo sucessivas cruzes ou outros sinais cabalísticos sobre os pontos afetados do corpo do paciente. e até de melões. idade. Essa espécie de "enclave" que era a ilha do Governador naquele . estava toda ela entregue a moradores pobres.Aos que sofrem. contou-me um caso a que já aludi no meu Policarpo Quaresma. de abóboras. Tendo dado as lagartas em uma sua plantação de feijão. NOTA . abandonada pelos seus grandes proprietários.verdadeiras relíquias. Na roça carioca. Combate todos os males físicos e morais e todos os malefícios. em larga escala. Horácio. há entre o ceu e a terra. Ela veio e colocou cruzes de graveto nas bordas da plantação deixando na "cabeceira". Disse-me a pessoa que as lagartas se foram enfileirando militarmente e saindo processionalmente pela abertura. Benzem ou rezam também as casas. ou era. Rio de Janeiro. pescadores e alguns roceiros portugueses. e pessoa digna de fé. como tendo visto com os seus próprios olhos. e era muito digna de fé. apanhadores de suas frutas semi-silvestres. o que atrairá para vós . a fartura e os ensejos de feliz ventura". isto em 1890. uma abertura maior. lenhadores e carvoeiros. Vivendo.o 183. a ilha não era o Petrópolis de quinta classe que o meu amigo Pio Dutra está fazendo ou dela já fez. sendo doutor em medicina. como caju. dia de nascimento e sintomas. erisipelas. há alguns anos. Quando meu pai foi para a ilha do Governador. os "benzedores" e "rezadeiras" não são desse quilate. A credulidade humana. aspersão que se faz com o auxílio de um ramo de alecrim ou arruda. desesperado consentiu ele que chamassem uma "rezadeira" famosa. Faz todo e qualquer trabalho."a fortuna. de pesquisas e investigações para a descoberta de fatos de caráter mais ou menos íntimo. mesmo a distância.

fazendo desocupar aquele lugarejo do alto Nilo. com uma ovação. Em Jesus a bem dizer que quem não fizer caso desta oração sofrerá um castigo grave perda em família. porém. na reza. Ainda é da memória de todos a repercussão que. no Galeão. ainda me lembro do nome do respectivo capelão: . e. eu e a minha família. um verdadeiro triunfo ao comandante Marchand. entre os meus papéis. X RESTOS DO "TABU" ANCESTRAL O comandante Baratier. tendo como adestrados disputadores das sortes. pintor. o obscuro .tempo. próprias ao divertimento. mas é sempre tocante e penetrante por isso mesmo. confesso que não creio. Do lugar em que morávamos. Ela não abandona a nossa gente humilde na sua obscura luta contra a miséria.o de janeiro de 1913. no mundo inteiro. A ilha não tinha vigário e o culto da população aos santos de sua fé era feito por intermédio de certos capelães rústicos.que pobres cavalhadas! . intimamente. para mais eficazmente agir no perímetro urbano da nossa cidade. Jesus Cristo Senhor Nosso. pelas tropas francesas. sem nada mudar ou omitir. Não as segui porque." Aos leitores que têm fé. Quem tiver esta oração deve distribuir durante nove dias a nove pessoas cada dia uma e no fim dos nove dias terá uma alegria em sua casa. contra a política e contra a moléstia. quando chegou a Paris. muito infelizmente mesmo. citei esse ato de distribuir. foi encarregado por Marchand de abrir a sua marcha através das origens ocidentais do Nilo. pediu auxílio ao Correio. infelizmente. e o povo francês quis mostrar a sua reprovação ao ato do seu governo. próximo da venda do Joaquim. Encontrei-a. em número determinado. Elevado assim na estima popular. o "Minhoto". "rezadores" ingênuos e ignorantes. Hoje. 3-4-1919. que diante de toscos oratórios.o Apolinário. orações escritas que devem ser lidas um certo número de vezes e enviadas a outras pessoas amigas. Amém. eu peço que sigam as prescrições que essa oração recomenda. acompanhados pela assistência. profundamente rural e pobre. No artigo anterior. Jesus Cristo rogamos a vós por nossos pecados e vosso sangue derramado na Cruz por nós. transcrevo abaixo: "Oração S. no ano de graça de 1913. Conforme a recebi. Senhor Jesus Cristo. Não a tinha encontrado. que deve ser hoje general. isto é. foi que me deu uma reduzida visão de roça e de hábitos e costumes roceiros. que buscamos como alívio para as nossas dores morais e como uma súplica à Divindade para que intervenha na nossa vida. apesar da minha vaga e imponderável religiosidade. entoavam nas cabanas ladainhas e outras orações. por intermédio do carteiro. favorecendo-nos nos nossos propósitos. A guerra quase estalou entre a França e a Inglaterra. Esta oração foi enviada pelo Bispo Rio l. aqui e ali. rogamos a Deus que se contemple de compaixão e misericórdia e perdoai-nos por vossa Mãe santíssima. em demanda de Fáchoda. e aqui a dou tal e qual. aqui pertinho da capital do Brasil. Que fim terá levado? Essa forte crença na oração. agente do Correio. no Sudão egípcio. hoje e sempre eternamente por todos os séculos dos séculos. Cheguei a ver lá cavalhadas . o Jorge Martins e outros. toma este ou aquele aspecto bárbaro e tosco. teve a ocupação desse lugarejo desconhecido.na esplanada defronte à ilha da Freguesia.

a religião do amor ao próximo. do próprio Czar. que são brancos. se assustaram e ele viu bem que. mas logo os seus guias locais. retomando o meu primitivo propósito. tenha por causa um motivo qualquer higiênico. a crescer numa ilhota. entre os quais Moribah. com o correr dos anos.Ne tire pas". Não só os negros. ela vai buscar seus condes. para demonstrar a força e o poder dessa crença do totem sobre as almas infantis desses povos retardados. dizer para os seus companheiros que vão encontrá-lo numa altura em que estava sepultado um chefe "maori". Assim ele descreve a emoção de tão auspicioso encontro: "A leur vue tous les regards se sont allumés: ces fleurs sont vivants. São seis atiradores senegaleses da tribo Keita. Baratier ia apontar a carabina para abatê-los.soldado colonial convenceu-se de seu excepcional heroísmo e desandou em delirar de orgulho. essa raça atroz do capitalista moderno onde. Naquele banquete repugnante em que há fome de feras. no seu manto de linho néo-zelandês. segue o conselho do seu sargento. em horror. Isto aqui é tabu! E não vieram. . às dentadas. certa vez. não permitiria haver entre nós. Os leitores de Jules Verne. Os homens impacientes de fome apanham os bocados de carne apenas sapecado e. dez auxiliares de outra proveniência e um intérprete árabe. Emaranhado numa teia espessa de ervas aquáticas o "umsuf" (ounun-souf). que habitava aquelas paragens. por isso fica tabu. O "marabut" era tabu. Acredita o sábio francês que esse ódio de Mafoma ao toucinho provém paradoxalmente de um totem que se obliterou em ódio. Ainda estou a ver o meu amigo Paganel. Tantas fez. O legislador mosaico não podia ter cogitações dessa natureza. que acabou pedindo demissão do Exército francês. empreendeu a viagem com vinte e cinco atiradores senegaleses. A fome continua e eles acabam abatendo um hipopótamo. Após um instante de reflexão. avistou uma porção de grandes "marabuts" empoleirados nos galhos de uma árvore.. navegando em águas quase livres. a convite. Essa aventura não é das mais eloqüentes. Convém dizer. Há um outro mais estranho. não tomam parte nele. apesar de me parecer inútil.Não tenham medo! Subam! Eles não virão até aqui. "Djingues". de quando em quando. ces feurs sont de la viande". embora não fosse. dizia ele. Moribah: . também. ocidentais. como eu o fui apaixonado em menino. e todos encontravam na morte seguro asilo. e totem diz-se do animal que é tido como parente. os perderia irremediavelmente e toda a nação "Djingue" declarar-lhe-ia guerra sem tréguas. O fogo crepita. por ser totem da tribo "Djingue". contesta que o horror que os judeus e muçulmanos tem à carne do porco. ela. só poucos da expedição. a qual tem o hipopótamo por totem. devem lembrar-se de que forma o encantador romancista da infância tirou partido dessa curiosa superstição. Reinach. ainda na infância da civilização. da pobreza e da humildade. que tabu quer dizer que certa coisa é de tal forma sagrada que ninguém pode tocá-la sem chamar a maldição dos Deuses sobre si e sua tribo. no último volume de Os filhos do Capitão Grant. A sua viagem é muito interessante e dela ele próprio publicou uma viva narração. a sua parada teve um retardamento imprevisto e os viveres se esgotaram. para ir servir no russo. . Com fome. Se a religião católica tivesse esse poder sobre as almas. fazendo tal coisa. avoengo da tribo. embrulhado até ao pescoço. ele e o intérprete. referindo-se aos selvagens que os perseguiam na sua fuga. O gigantesco paquiderme jaz no chão meio decepado. num dos seus interessantes livros de vulgarizaçao.. os devoram caninamente. oriunda de uma prescrição da Bíblia. Baratier.

Não sei toda a cantiga. a ponto de viver entre a criação. empurrando-os para a praia. tabu até hoje. como eu que não tenho nenhuma competência. porém. os orçamentos praieiros. Se não se presta para alimento. Aventurando em mar ignoto.Não sei dançar! Urubu veio de cima Com parte de homem sério. nenhuma antipatia contra a ave carniceira. Todos conhecem esta canção que as crianças entoam por aí: Urubu veio de cima Com parte de dançador. os senegaleses de Baratier esfomeados preferiram alimentar-se com a carne imunda de aves semelhantes a servirem-se do seu hipopótamo totêmico. mas entretanto o povo não o persegue. com o urso de Berna.Sem procurar os outros vestígios do antigo totemismo nos costumes atuais. Por que não se o mata? É um pássaro repugnante. as ruas. estou certo. sobre o porco. ela o é no dizer do povo. com o bôto. ficando. como fazem com tudo que bóia nas suas águas sem medida. mas. há uma crença semelhante a esta do urubu. Com o bôto. Ave assim sagrada. eu faço essa consideração porque entre nós. a impotência das leis. Entre os pescadores. e quem leu. pergunta de si para si. apesar de quase nunca se lhe ver a cauda e a cabeça. mas não ressuma dela. não leva muito a sério a última explicação. Entretanto. dois terços mergulhados. girando como se fosse uma roda. É muito conhecido esse peixe que vive à flor d'água. à extração de azeite que poderia aliviar um pouco.urubu malandro. podemos na nossa vida vulgar aventurar que certas usanças se enraízam naquela crendice do totem. O urubu é absolutamente inútil para qualquer fim alimentício ou outro por ser repugnante e nauseabundo. Ora! Dança urubu! . porque limpa os arredores das casas. as estradas das carniças putrefatas. Chegando no palácio. muito ao contrário do que se dá com o porco entre os judeus e muçulmanos. que é aí mais troçada amigavelmente do que mesmo debochada com azedume. Organizou ministério. devido a obsoletas posturas municipais. como todos nós. por isso. Os pescadores não os matam porque. porém. o urubu não é odiado. por ser gorduroso. Todos que viajam na nossa baía conhecem-no. nenhum deles se lembra disso e o bôto vive na segurança sob um tabu . socorrem os náufragos. na verba iluminação. nos quintais de certas pequenas cidades do interior. se o urubu não foi totem para os nossos afastadíssimos avós. dizem que o urubu é protegido dessa maneira. é o do urubu. Um caso muito corriqueiro que deve ter chamado a atenção dos observadores para ele. tendo eles por ofício limpar a superfície do mar. Os eruditos. a opinião de Reinach. assim mesmo. prestar-se-ia. não se dá o mesmo.há cantigas e várias peças de folclore em que o urubu entra com relativa simpatia. Quem conhece. Há frases . Vemos só o seu dorso azulado a revolver-se nas águas azuis ou verdes do mar e é dos grandes prazeres das crianças que tomam a barca de Niterói. .

a insetos parasitas. Li algumas.que suga moscas. a dezena e a centena que dariam à tarde deste ou qualquer dia. Era tão rendosa essa parte de sua indústria tipográfica que ele destacava um único tipógrafo para executá-la. por exemplo. a fazer isto ou aquilo. além de compor os jornais. mantendo estreitas relações com o proprietário de uma tipografia.o meirinho . ele me deu inúmeras informações sobre os seus periódicos "zoológicos". todos vinte e cinco animais da rifa do Barão. 50 mil-réis por dia. nefasta ao gado. de homens em todas as posições. sob este ou aquele disfarce de seções. em breve. tinha ocasião de passar por ela toda a tarde. com o cuidado indispensável em tais jornais-oráculos de por. naqueles anos. mas aquela é por ser uma ave azarenta que nenhuma criança quer ver no seu alçapão.que desapareceu. de senhoras de todas as condições. na média. o tipo de compras era este: um tostão de café. auxiliar de bruxas e bruxedos. como esse quase doméstico . pus-me a observar. se não forneciam um lucro tão avultado. tem levado os sábios a amaldiçoar certos animais e a abençoar outros. Há outras aves. nas mais das vezes conversar unicamente. pela manhã. Este é naturalmente por ser útil. que os vencimentos de um chefe de seção de secretaria. na rua da Alfândega. como também certos insetos. O Bicho. redigia-os também. perseguido pelas crianças. que não são perseguidas. o que se via pela redação. é bendito pelos higienistas. XI COISAS DO JOGO DO "BICHO" Há alguns anos. 10-8-1919. Mostrou-me pacotes de cartas de toda a sorte de gente. A Mascote e O Talismã. A extensão que os nossos atuais estudos médicos têm levado ao exame de certas moléstias. as mais das vezes. Conversando mais detalhadamente com o tipógrafo dos jornalecos de bicho. por devorar as larvas dos mosquitos. O urubu tão sagrado pelo povo. O tipógrafo tinha razão e ele mesmo se encarregava de fortificar a minha convicção do império excepcional que o "Jogo do Jardim" exercia sobre a população carioca.. a cambaxirra. É mais um conflito entre a religião e a ciência. por mês. rendiam mais. um ou dois de açúcar e um Bicho ou Mascote. em setecentos e poucos mil-réis. A tipografia do meu amigo tinha a especialidade de imprimir jornais de "bicho" e ele mesmo editava um . dava de lucro. de chapinhas. o sapo. cuja transmissibilidade é atribuida. quase o subsídio diário de um deputado naquele tempo..imemorial. era de todos camarada. Aos poucos fui tomando conhecimento com o pessoal. Atualidade. nas vendas da minha vizinhança que. Todas ressumavam esperança na sua clarividência transcendente para dizer o bicho. O encarregado dessa obra. tido corno diabólico. o mais famoso e conhecido. e. a regular por aí assim. demorar-me. pois propaga a epizoetia. de palpite deste ou daquela. Solicitado pelas informações do jornalista "animaleiro". algumas eram . que inoculam no nosso organismo não sei quantas doenças. é maldito para os sábios.O Talismã .

um palpite. é muito triste vergonhoso. Apesar da relutância do redator-tipógrafo de tão curiosos exemplares da nossa imprensa cotidiana. Senhor. e que neste longo período. etc. porque aos Espíritos bem formados ele proteje a fim de poderem espalhar com aqueles menos favorecidos as Sorte. saber de antemão os algarismos da felicidade. vós que Sois um bondoso. eu a transcrevo aqui. vós que Deus dotou Com tanta doçura. das quais uma.Rio de Janeiro. além do fervoroso agradecimento. Dig. e sem poder pagar. terá vós um Criado para qualquer Serviço que estiver em minhas fracas força e me apresentarei diante da vossa nobre pessoa. Julgavam-no capaz de adivinhar de fato o número a ser premiado na "Loteria". Não era só em cartas que se revelava total e poderosa fé de pessoas de todas as condições nos poderes divinatórios do Dr. era certo.. uma gratificação qualquer. apalavrado com os homens dela. jóias. Bico-Doce. . por me parecer a mais típica e mostrar de que maneira a situação desesperada de um pobre homem. Lembro-me de uma assinada por certa adjunta de um colégio municipal. só omitindo a assinatura e o número da residência do signatário. Padeiro. no mínimo. e lhe dê boa inspiração e força para minorar as aflições dos pobres. Com o Quitandeiro. "E Se vós me libertar deste jugo pode Contar que eu saberei reconhecer o meu bemfeitor. pode Ser que Se vós Condoer-se das minhas misérias em breve me libertarei desta vergonha que estou passando.mo Snr. Peixeiro. O prestígio da letra de forma. ou. eu pude conseguir algumas cartas...mo Redator-Chefe do Jornal O "Talismã" Rua da Alfândega n.. Recordo-me ainda do nome da moça. por todos os aspectos. o meu senhorio já está Com a cara ruvinhaso comigo. É um documento humano de impressionar e de comover.. "Bicho" e o "Talismã" e nunca Sou capaz de acertar em um Bicho ou numa Dezena que me liberte deste jugo que tanto tem me morteficado o espírito e já me acho desanimado da Sorte que me tem Sido tão tirana. . e a ingênua crença de que o redator do jornaleco de palpites seria capaz de indicar o número a ser premiado. Dr. do jornal. Deus lhe dê Saúde e felicidade pra Si e toda vossa família. pode reforçar a fé no "Jogo do Bicho". Bico-Doce. em nome de Deus vos peço Dê-me uma Dezena ou Centena num destes dias em que a Natureza lhe der inspiração. Rua Senador Pompeu. . plumas. . etc e só neste ou deve 200$. posso vos dizer que tenho passado os dias bem acerbos. "Ilmo. já meio tuberculoso. .. e estou tão oberado.O vosso Abedê." .F. a ir almoçar ou jantar com ela e a família. vamos passando uma vida penosa. em oferecimentos. e possa fruir os mais esplendorosos gozos. Ele as recebia a toda a hora do dia e de pessoas de todos os sexos e idade. pois um pobre que deve 1:OOO$600.. operavam sobre as imaginações de uma forma verdadeiramente inacreditável. etc. Havia uma senhora de Paquetá.. redator-tipógrafo de O Talismã. 20-12-911. Se ganhava. que convidava o pobre tipógrafo. e o mistério de que se cercava o "palpitador". tal e qual. e Compro todos os dias: "Mascote". "Enquanto eu minha família. "Aqui aguardo a vossa proteção. e que Sois uma alma bem formada!. "Deus que lhe queira ajudar. Nas visitas.agradecidas e se alongavam em palavras efusivas. Sr. tenha Compaixão deste pobre Sofredor que a 2 anos está desempregado.Em primeiro que tudo muito estimarei que esta inesperada Carta vos encontrem Com perfeita Saúde Conjuntamente a toda vossa família. também. que não vinha ao Rio que não fosse ao Dr. Ei-lo: (cliché de um envelope selado e subscritado: "Ilmo... mas não o ponho aqui. Vosso humilde Criado e Obrigado. por terem os missivistas acertado com o auxílio dos "palpites" do Dr. "Pois bem. Bico-Doce para obter de viva voz. no Engenho de Dentro. na centena.0 182 Sobrado"). por motivos fáceis de adivinhar. podendo. Bico-Doce. bem trajada. como salvação. vós que Sois tão caridoso. portanto. peço dinheiro emprestado. e poder utilizar-se em qualquer mister que vos aprouver. Bico-Doce Muito Dig.

um valentão.. . Ai de nós se não fosse assim. ou outro qualquer. mas a deixou com um colega do Dr. distribuiu o seu império entre os seus generais.. Bico-Doce meio amigável e meio ameaçador. . mesmo quando a Esperança é representada pelo jogo do bicho e o palpite de um humilde tipógrafo como o Dr. dizia-me o pobre jornalista do Talismã. mal ganha para a sua vida! A Esperança.. Livros novos. O destemido não teve o prazer de dar-lhe a propina em mão. abril 1919. É fácil de supor a atrapalhação do "profeta-bicheiro". Para sair-se da entalação. normalmente. e navalha a adivinhar-se nas algibeiras ou em qualquer dobra das roupas. O valente falou ao Dr. de chapéu de abas largas.. general? O macedônio logo respondeu: A esperança. Bico-Doce. Plutarco. Bico-Doce que lha entregou no dia seguinte. O bicho deu e a centena também. calças bombachas. nas vésperas de morrer. O povo afirma que quem espera sempre alcança. foi a de um capoeira da Saúde. indicou uma centena qualquer e safou-se logo.0 2. Será verdade? Parece que aí a voz do povo não é a voz de Deus. que. conta que Alexandre. o homem não quis voltar mais.Felizmente. Um deles lhe perguntou: Que te fica. temendo não acertar e levar uns pescoções.A mais curiosa e assustadora visita que ele recebeu. n.

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