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Revista Latino-americana de Estudos do Trabalho, Ano 18, nº 30, 2013, 211-248

Tripartismo e participação
social: potencialidades e
desafios do encontro
entre dois processos na
I Conferência Nacional de
Emprego e Trabalho Decente
Laís Abramo, Andrea Araújo, Andréa Bolzon

I•••••• !•
Em novembro de 2010, o Presidente da República, Luiz Inácio
Lula da Silva, lançou o decreto de convocação da I Conferência Na-
cional de Emprego e Trabalho Decente (I CNETD), cujo objetivo foi
definido como a promoção de uma ampla discussão sobre o tema em
todo o território nacional, visando à formulação de diretrizes para a ela-
boração de uma Política Nacional de Emprego e Trabalho Decente, bem
como a atualização do Plano Nacional de Emprego e Trabalho Decente
(PNETD) lançado pelo Governo Federal, por meio do Ministério do Tra-
balho e Emprego, em 2010.
A I CNETD foi realizada em agosto de 2012, em Brasília, pre-
cedida por um processo de preparação que envolveu aproximadamente
20 mil pessoas em mais de 280 eventos preparatórios. Foram realizadas
mais de 200 conferências municipais, intermunicipais ou regionais, além
de 25 conferências estaduais 1 e uma distrital (Distrito Federal).2 Nas
conferências estaduais/distrital foram eleitos os/as delegados/as para a
Conferência Nacional, na seguinte proporção: 30% de delegados/as do
Governo, 30% de delegados/as empregadores/as, 30% de delegados/as
trabalhadores/as e 10% de delegados/as representando organizações da
sociedade civil comprometidas com os temas do mundo do trabalho.
A I CNETD, portanto, baseou-se em uma estrutura tripartite
ampliada, uma vez que, por se tratar de um processo de conferência
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nacional cujas características discutiremos mais adiante, incorporou a


participação de organizações da sociedade civil vinculadas ao mundo
do trabalho. Pode ser considerada o mais amplo exercício de diálogo
social já ocorrido no Brasil em torno aos temas do mundo do trabalho.
Além disso, mostrou-se uma oportunidade ímpar de incorporar, na dis-
cussão sobre o trabalho decente, a diversidade de temas e as diferentes
situações existentes nas diversas regiões do país.
A Conferência pode ser pensada como o ponto de convergência de
dois processos diferentes de diálogo social que se desenvolvem de forma
paralela no Brasil a partir de 2003: a) o fortalecimento e ampliação do
diálogo social triparte, vinculado à trajetória de promoção da Agenda
Nacional de Trabalho Decente (ANTD) no país; e b) a intensificação de
conferências de políticas públicas enquanto espaços de consulta cidadã e
democracia participativa. O objetivo deste artigo é explorar a dinâmica,
as potencialidades e os desafios do encontro entre esses dois processos
na I CNETD, analisando sua contribuição, por um lado, no contexto da
política de gestão participativa promovida pelo Governo Federal e, por
outro, na trajetória de construção e promoção de uma agenda de trabalho
decente no Brasil.
As perguntas centrais que orientam a elaboração dessa reflexão
são as seguintes: quais são as especificidades da I CNETD no contexto
da realização das conferências nacionais de políticas públicas intensi-
ficado no Brasil a partir de 2003? De que forma ela contribui ao forta-
lecimento do modelo de participação social e ao fortalecimento da de-
mocracia participativa proposto pelo Governo Federal? O que significa
nesse processo uma conferência cujos protagonistas são os atores típicos
do tripartismo promovido pela OIT ao longo de sua história, além de ou-
tras organizações da sociedade civil, ainda que em uma proporção mais
reduzida? Que potencialidades e novos desafios são introduzidos nesse
processo pelos mecanismos de diálogo social tripartite? Até que ponto
é possível compatibilizá-los? Quais foram os principais resultados da
Conferência e em que medida eles contribuem para o fortalecimento do
diálogo social tripartite, a ampliação da participação social em torno às
políticas públicas no âmbito do emprego e do trabalho, e a promoção do
trabalho decente no país?
Esse artigo é o primeiro produto de uma pesquisa que possui uma
dimensão quantitativa (um questionário aplicado durante a I CNETD e
respondido por mais de 80% dos seus 1.200 participantes) e qualitativa
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(entrevistas em profundidade realizadas com mais de 40 atores que par-


ticiparam do processo) e que também inclui um trabalho de observação
participativa das autoras, que conduziram e participaram diretamente da
assistência técnica prestada pelo Escritório da Organização Internacio-
nal do Trabalho (OIT) no Brasil ao Governo Federal e às organizações
de empregadores e trabalhadores durante o processo de organização e
realização da Conferência.
O artigo está estruturado em três partes, além da Introdução e da
Conclusão:
a) modalidades de diálogo social, abordando tanto o diálogo social
tripartite na perspectiva da OIT, como o que caracteriza as con-
ferências nacionais; b) relato de caso da I Conferência Nacional
de Emprego e Trabalho Decente; c) especificidades e significados
da I CNETD.

M••••••••• •• D•"••#• • P•$%•&•'•()• S•&•••


Diálogo Social e Tripartismo na Perspectiva da OIT

Diálogo Social e Tripartismo


Em 1999 a Organização Internacional do Trabalho estabeleceu o
conceito de “trabalho decente” como síntese de sua missão histórica de
promover o trabalho produtivo e de qualidade, realizado em condições
de liberdade, igualdade, segurança e dignidade humana. O trabalho de-
cente passa a ser entendido como o ponto de convergência de quatro
objetivos estratégicos da OIT: a promoção e o cumprimento dos direitos
e princípios fundamentais no trabalho, a criação de mais e melhores em-
pregos com igualdade de oportunidades, a extensão da proteção social e
o fortalecimento do tripartismo e do diálogo social. Este último objetivo,
ao mesmo tempo em que tem um valor em si mesmo, é também um meio
fundamental para alcançar e ampliar os demais.
Os três atores clássicos do tripartismo, na visão da OIT, são os
governos, as organizações de empregadores e as organizações de tra-
balhadores – os três atores centrais do mundo do trabalho. Nessa visão,
esses atores são sujeitos e objetos de direitos e obrigações nos processos
de tomada de decisão do qual participam, no âmbito de seus respectivos
espaços de liberdade, autonomia e soberania. Trata-se de uma modalida-
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de de participação social na qual as partes não perdem suas identidades


nem abandonam os seus objetivos particulares (OIT, 2007).
Não existe uma definição única para diálogo social, pois o mesmo
adquire diferentes formas em diferentes países e em diferentes conjun-
turas históricas. A OIT adota uma definição ampla, que tem como base o
tripartismo. O diálogo social, assim, inclui todos os tipos de negociação,
consultas ou simplesmente troca de informações entre representantes
dos governos, empregadores e trabalhadores em assuntos de interesse
comum relacionados às políticas econômicas e sociais (ILO, 2007). Por-
tanto, este conceito compreende desde processos mais básicos de troca
de informações e de consultas, até as negociações macrossociais, acor-
dos sociais e a negociação coletiva. (Femenía et al, 2007).
Ao incorporar o tripartismo e o diálogo social como elementos
centrais de sua governança, a OIT passa a ser a única instituição in-
tergovernamental na qual o direito ao voto na elaboração de normas e
políticas não é exclusivo dos governos, mas é exercido também pelas
organizações de trabalhadores e empregadores.
O princípio do tripartismo está fundamentado no Artigo 3 da
Constituição da OIT, que define que as delegações dos países que parti-
cipam na Conferência Internacional do Trabalho – CIT e no Conselho de
Administração serão compostas por quatro membros: dois do governo,
um dos trabalhadores e um dos empregadores (Rodgers et al, 2009: p.
13). Apesar de tripartite, a representação, portanto, não é feita de manei-
ra paritária, cabendo ao governo um número maior de delegados.
Todas as convenções, recomendações, declarações e resoluções
adotadas durante a CIT são fruto de um debate tripartite. A promoção
do tripartismo é especificamente mencionada em alguns instrumentos
importantes da OIT 3 . O mais emblemático desses instrumentos, por
ser uma das quatro convenções de governabilidade da Organização, é a
Convenção no. 144, que tem como objetivo a promoção do tripartismo
e do diálogo social em âmbito nacional por meio de consultas triparti-
tes entre representantes dos governos, empregadores e trabalhadores em
cada etapa da atividade normativa da OIT. (OIT, 2007).4
Apesar de que o procedimento de consulta pode ter como objetivo
chegar a um consenso entre as partes, esta não é uma condição neces-
sária. Após a expressão das distintas posições – e em caso de impossibi-
lidade de chegar-se a um consenso – a decisão final cabe ao governo. Por
Tripartismo e participação social... 215

sua vez, as organizações de empregadores e de trabalhadores não são


obrigadas a acatar a decisão ou postura definitiva que o governo possa
adotar e podem fazer chegar as suas opiniões e comentários sobre o as-
sunto em questão diretamente ao Secretariado Internacional do Trabalho
da OIT (OIT, 2012).
A Convenção no. 144 estabelece uma ampla margem de ação dos
governos para determinar as formas de consulta que considerem mais
apropriadas, de comum acordo com as organizações de empregadores e
de trabalhadores (OIT, 2012).
Por outro lado, é importante observar que, apesar da busca de
acordos por consenso ser sempre um objetivo, os mecanismos de vo-
tação (e, portanto, de definição de posições por maioria) estão previstos
em todas as instâncias deliberativas da OIT, incluindo as reuniões anuais
da Conferência Internacional do Trabalho.
A importância do diálogo social foi reafirmada também na Me-
mória do Diretor Geral da OIT do ano de 1999 que lança o conceito de
Trabalho Decente e na sua proposta de uma Agenda Global de Trabal-
ho Decente que, em 2006, foi incorporada à Declaração Ministerial do
Conselho Econômico e Social das Nações Unidas (ECOSOC), sobre a
geração de emprego produtivo e pleno e trabalho decente para todos e
todas (OIT, 2007).
Por sua vez, na Agenda Hemisférica 2006-2015, lançada pelo Di-
retor Geral da OIT durante a XV Reunião Regional Americana, reali-
zada em Brasília em maio de 2006, o fortalecimento do tripartismo e
do diálogo social, associados aos processos de participação cidadã que
consolidam e fortalecem a democracia, foram apresentados como um
dos cinco principais desafios para a promoção do trabalho decente no
continente americano (OIT, 2007).

Os atores do tripartismo
Além de uma vontade política que priorize o diálogo, as partes
que dialogam devem ter confiança no processo de diálogo e se compro-
meter a dele participar com lealdade, boa fé, e disposição para chegar a
acordos e compromissos em torno a certos objetivos comuns e priorida-
des. Também supõe o respeito à diversidade dos interlocutores sociais,
seus diferentes pontos de vista, objetivos e visões (OIT, 2007).
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A participação do governo pode se dar em diferentes intensida-


des e modalidades (bipartite, tripartite ou “quadripartite”, ou seja, em
uma forma de “tripartismo ampliado” ou tripartismo “plus”). Também
pode assumir diferentes papéis: a) como empregador no diálogo biparti-
te na administração pública; b) como sujeito de diálogo social bipartite
com organizações de empregadores ou de trabalhadores em processos
de diálogo independentes em sua natureza; c) como sujeito de diálogo
social bipartite com organizações de empregadores e de trabalhadores
separados, mas que levam à modalidade de diálogo tripartite por agre-
gação; e d) como sujeito do diálogo social tripartite ou quadripartite.
Os representantes de governo também tem um papel na acolhida e im-
plementação dos acordos entre interlocutores sociais diretos, derivados
de diálogos nos quais o Estado não participou, dando lugar a acordos
“por adesão”. Nessas modalidades o governo pode assumir um caráter
promotor, facilitador, condicionador, financiador ou de proporcionar ga-
rantias (OIT, 2007).
Para Ishikawa (2004), o governo desempenha um papel funda-
mental de estabelecer o entorno jurídico e político para que se produza
o diálogo social nacional. O governo deve também zelar para que os
resultados do diálogo, seja sob a forma de recomendações ou de pactos
sociais, se traduzam em políticas concretas. Os membros do governo
que participam dos processos de diálogo devem estar abertos ao desafio
de compartilhar parte de seu poder normativo e decisório com os atores
sociais.
Um fator fundamental para o diálogo social tripartite é a exis-
tência de organizações sindicais e de empregadores em pleno gozo da
liberdade sindical em todas suas expressões, autônomas, representativas
e fortes, com presença nos diversos níveis de atividade e capacidade
e vontade de dialogar e cumprir o acordado. Também é muito impor-
tante a legitimidade e a gestão responsável dessas representações que,
assim como os governos, devem ser democráticas ao participar nos pro-
cessos de tomada de decisão relativos a políticas nacionais. Por outro
lado, é importante que tenham a capacidade de ir além dos seus inte-
resses imediatos e pensar em termos mais gerais, adotando um foco
orientado a chegar a soluções aceitáveis mediante o compromisso.
Dessa forma, a eficácia do diálogo e de seus resultados está vincula-
da estreitamente com a apropriada representação e representatividade
dos coletivos sociais que dialogam (Rodgers et all, 2009; OIT, 2007;
Ishikawa, 2004).
Tripartismo e participação social... 217

Em síntese, os pré-requisitos básicos para um diálogo social efe-


tivo incluem: vontade política expressa de todas as partes; existência
de bases democráticas; organizações de empregadores e trabalhadores
legítimas, independentes, reconhecidas, autônomas e com capacidades
técnicas adequadas e acesso à informação; o respeito aos direitos fun-
damentais de liberdade de associação e negociação coletiva; apoio ins-
titucional apropriado e aceitação social do diálogo tripartite; além de
respeito entre todos os representantes e capacidade de cumprir o que é
pactuado (Ilo, 2007).
Apesar da persistência do tripartismo nos termos definidos pela
OIT já há quase um século, é importante refletir sobre as suas limitações
e as necessidades de adaptação de seus mecanismos e práticas em um
mundo em plena globalização, marcado por grande heterogeneidade e
desigualdades entre e intra países e caracterizado por grandes transfor-
mações das estruturas produtivas e dos mercados de trabalho, que têm
como uma das suas características a fragmentação dos processos pro-
dutivos e cujas formas de expressão e de representação se diversificam
(Rodgers et al, 2009: p. 20).
Esse autor argumenta que as organizações de trabalhadores e em-
pregadores representam principalmente o setor formal da economia e
muitas vezes têm dificuldades para representar os interesses de grupos
específicos, como povos indígenas, trabalhadores informais ou as micro
e pequenas empresas, que representam a maior parte do emprego na
maioria dos países (Rodgers et al, 2009: p. 18-19).
Outros autores, como Fashoyin (2004), consideram que, mesmo
que o tripartismo continue sendo o núcleo do diálogo social, o entorno
no qual funcionam as instituições do mercado de trabalho tem se modi-
ficado, como também a estratégia e a maneira de atuar das mesmas. A
estrutura e a composição dessas instituições têm sofrido mudanças sig-
nificativas, e têm surgido novas formas de diálogo que incluem outros
atores não tradicionais. Esses processos têm sido denominados diálogo
social “tripartite ampliado” ou “tripartite plus”.
A Resolução de 2002 sobre o Tripartismo e o Diálogo Social da
OIT reconhece essas novas tendências, ao afirmar que: “os parceiros
sociais estão abertos ao diálogo e (...) trabalharão no campo com ONGs
que compartilham os mesmos valores e objetivos de maneira construtiva
(...)” (Ilo, 2004). Em conexão com essa Resolução e a modo de exemplo,
as discussões realizadas no âmbito da CIT, sobre a economia informal
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(2001) e sobre o trabalho doméstico (2011), que deram origem à adoção


de normas internacionais sobre esses temas, abriram espaço para organi-
zações que não faziam parte do tripartismo clássico.
É importante que essa complexidade de atores seja vista como
algo enriquecedor. Apesar das frequentes tensões e dos diversos con-
flitos que muitas vezes permeiam o diálogo, este pode resultar no alin-
hamento de propósitos, em troca de informações, em novas agendas de
possibilidades não planejadas, fortalecendo a governança democrática e
a sustentabilidade das instituições envolvidas.

Tipologia do Diálogo Social


As diversas formas de diálogo social estão profundamente liga-
das ao contexto cultural, histórico, econômico e político das sociedades
em que ocorrem. A determinação sobre a natureza do diálogo social e a
identificação dos sujeitos que dele participam estão relacionadas com
os temas objetos do diálogo, assumindo diferentes intensidades: infor-
mação, consulta e negociação (OIT, 2007).
O intercâmbio de informação é o processo mais básico do diálogo
social e não envolve uma discussão real nem requer ações posteriores.
Na consulta, os interlocutores trocam informações e se comprometem
a realizar um diálogo mais aprofundado sobre as questões em pauta. A
negociação coletiva e a concertação política, por sua vez, são os tipos
predominantes de negociação.
A tipologia elaborada por Casey e Gold (2000), citada por Ishi-
kawa (2004), propõe uma maneira simplificada de entender diferentes
formas e modelos de diálogo social. A tipologia apresenta duas variáveis
básicas: a) a representação: quem participa do processo de diálogo; e b)
as questões debatidas: quais são os problemas abordados. Na interseção
de ambas variáveis, surgem os tipos de diálogo social.
Na primeira dimensão (atores do diálogo social), existem duas
possibilidades: a) quando o processo engloba apenas os atores tradicio-
nais ou clássicos do tripartismo (representações do governo, dos em-
pregadores e dos trabalhadores), e nesse caso se trataria de um “diálogo
social tradicional”; e b) quando, além desses atores, participam outros,
como por exemplo, organizações da sociedade civil ou de outras instân-
cias do Estado, tais como juízes, magistrados ou procuradores do trabal-
ho; nesse caso, tratar-se-ia de um “diálogo social ampliado”.
Tripartismo e participação social... 219

Na segunda dimensão (questões abarcadas pelos processos de


diálogo), teríamos duas possibilidades: a) temas restritos às relações de
trabalho, como por exemplo, fixação dos salários, legislação laboral,
condições do mercado do trabalho, etc.; nesse caso estaríamos frente a
um “diálogo social restrito”; e b) temas políticos e sociais mais amplos,
como por exemplo, o marco das políticas macroeconômicas e de cresci-
mento econômico, mudanças estruturais e de transformação econômica,
política monetária, produtividade e competitividade econômica, etc.,
e nesse caso se trataria de um “diálogo social abrangente” (Ishikawa,
2004).
Do cruzamento dessas quatro categorias, agrupadas nessas duas
dimensões, chega-se à seguinte tipologia:
a. Diálogo social tradicional/restrito: quando os temas tratados
são exclusivos do mundo do trabalho e os atores são tripartites
clássicos; essa forma de diálogo social se dá em fóruns nos quais
governos, empregadores, trabalhadores e suas entidades represen-
tativas tratam de temas característicos das relações trabalhistas
como salários, condições de trabalho, direitos laborais ou seguri-
dade social;
b. Diálogo social tradicional/abrangente: quando os temas in-
corporados extrapolam as questões laborais e incluem questões
econômicas e sociais; essa forma de diálogo social acontece em
fóruns onde representantes dialogam sobre questões que afetarão
não somente a quem representam, mas também a outros atores
que não estão ali representados. Desse modo, as pessoas ativas
no mercado de trabalho podem defender os interesses daqueles
que não estão presentes, como desempregados, aposentados e es-
tudantes;
c. Diálogo social ampliado/restrito: quando o tripartismo incor-
pora outros atores, transformando-se em um “tripartismo plus” e
são discutidos temas que tem a ver com as relações de trabalho;
aqui são tratadas as questões do mundo do trabalho com outros
atores da sociedade civil que possam ter interesse nessas ques-
tões, como por exemplo, grupos ou associações de pessoas com
deficiência, grupos indígenas, movimento de mulheres, de negros,
de jovens, etc. Apesar de não serem atores diretos do tripartismo,
representam o interesse de grupos específicos que podem estar
preocupados com questões de melhor representação, igualdade de
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oportunidades e acessibilidade para grupos de trabalhadores e tra-


balhadoras, por exemplo.
d. Diálogo social ampliado/abrangente: quando incorpora outros
atores além do tripartismo tradicional e se refere a questões am-
plas de política e economia. Este tipo de diálogo social se realiza
em fóruns onde são debatidos temas sociais e econômicos amplos
de interesse e impacto para todos os atores.

Tipologia do Diálogo Social

Temas referentes às
relações de trabalho

Diálogo Social Diálogo Social


Tradicional / Restrito Ampliado / Restrito

Diálogo Social Diálogo Social


Tradicional / Abrangente Ampliado / Abrangente

Políticas Econômicas e Sociais

Fonte: Adaptação livre de Casey e Gold (2000) em Ishikawa (2004)

Podemos localizar em diferentes quadrantes algumas importan-


tes instâncias de diálogo no Brasil. O Conselho de Desenvolvimento
Econômico e Social (CDES), por exemplo, em função dos temas dis-
cutidos, e à característica dos seus integrantes, poderia ser classificado
no quadrante do diálogo social ampliado/abrangente. A Comissão Tri-
partite de Relações Internacionais (CTRI), criada em 2004 pelo Minis-
tério do Trabalho e Emprego (MTE) como um dos desdobramentos da
ratificação pelo Brasil da Convenção no. 144, poderia se encaixar no
quadrante de diálogo social tradicional/restrito, assim como o Conselho
Tripartismo e participação social... 221

Nacional de Relações do Trabalho (CNRT), criado em setembro de 2010


com a finalidade de promover a democratização das relações do trabalho
e o tripartismo, entre outras.

D•••••• • P!"#•$•%!&'• S•$•!• (!)


C•(*•"+($•!) N!$••(!•) ,• P••-#•$!) P./••$!)
A proposta da I Conferência Nacional de Emprego e Trabalho De-
cente (CNETD) se insere na estratégia que caracterizou os dois manda-
tos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2006 e 2007-2010),
e que continua vigente no governo da Presidenta Dilma Roussef (2011-
2014), de instituir amplos processos de consulta e participação social
nas mais diversas áreas das políticas públicas, como parte de uma nova
proposta de relação entre o Estado e a sociedade.
Essas consultas, consubstanciadas nas conferências nacionais,
envolveram, entre 2003 e 2012, mais de 7 milhões de pessoas. Foram
realizadas nesse período 86 conferências nacionais, abrangendo mais de
40 áreas setoriais das políticas públicas (BRASIL, 2013a). Apesar de
diversos aspectos relativos ao emprego e ao trabalho terem sido discuti-
dos em várias delas, a I CNETD foi a primeira oportunidade para que o
tema fosse abordado de forma abrangente e integral, o que foi facilitado
e estimulado pela adoção da noção de trabalho decente como referência
central para o debate.
O dado é ainda mais significativo se consideramos que essas con-
ferências não constituem um evento pontual (uma reunião de alguns
dias), mas sim um processo que se desenvolve ao longo do tempo, envol-
vendo etapas preparatórias (na maioria dos casos no âmbito municipal/
intermunicipal, estadual/regional, mas também no âmbito setorial, temá-
tico e em espaços livres e virtuais) que via de regra incluem a eleição de
delegados/as para as etapas seguintes.
A quantidade e amplitude das conferências nacionais realizadas
a partir de 2003 representam o fortalecimento do marco participativo
presente na Constituição de 1988 (Souza, 2012:7). Com efeito, a Carta
Magna de 1988, que foi resultado de uma Assembleia Nacional Cons-
tituinte que refletiu a mobilização social desenvolvida no processo de
luta contra o autoritarismo e pela redemocratização do país nos anos 70
e 80 da década passada, e ficou conhecida como a “constituição cidadã”,
consagrou o princípio da participação social como forma de afirmação
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da democracia 5 . Ela contém uma série de dispositivos que ampliam os


direitos políticos e sociais e preveem a descentralização administrativa
e a incorporação da participação da cidadania e de organizações da so-
ciedade civil na gestão de políticas públicas, em especial nas áreas de
seguridade social (art. 194), saúde (art. 198), assistência social (art. 203)
e educação (art. 206), criança e adolescente, políticas urbanas e meio
ambiente.
Mas as conferências nacionais não nasceram no governo Lula, ou
após a promulgação da Constituição de 1988. Na verdade, elas são uma
instituição que existe no país há décadas, mas que só a partir de 2003
ganhou expressão pela diversificação temática e amplitude de mobili-
zação. Os números apresentados a seguir expressam essa dinâmica: das
127 conferências nacionais realizadas entre 1941 e 2012, 41 tiveram lu-
gar nos primeiros 61 anos desse período (1941 e 2002) e 86 nos últimos
10 anos (2003 e 2012) (BRASIL, 2013). Ainda considerando que du-
rante 25 anos do período inicial o país viveu sob regimes autoritários, a
diferença continua sendo muito expressiva. Entre 1941 e 2002, a média
anual de realização de conferências nacionais foi de 1,5. Considerando
apenas os anos em que o país vivia em regimes democráticos (36 desses
61 anos), a média sobe para 1,7. No período 2003-2012, por sua vez, a
média foi de 8,6/ano.
Além disso, até 2003 as conferências estavam limitadas apenas
a algumas áreas, entre as quais se destacavam saúde e assistência so-
cial. Após essa data, os temas se ampliam significativamente. Predo-
minam temas inéditos, ainda não pautados, como, por exemplo, políticas
para as mulheres, promoção da igualdade racial, segurança alimentar,
economia solidária, trabalho decente, orientação sexual, pessoas com
deficiência.
Segundo Avritzer (2012:8), as conferências nacionais que vêm
sendo realizadas no Brasil podem ser definidas como instituições par-
ticipativas (resultado, como já assinalado, da ação da sociedade civil
brasileira durante o processo constituinte, que resultou em um conjunto
de dispositivos constitucionais prevendo a participação social em di-
versas áreas das políticas publicas), convocadas pelo governo federal
e organizadas nos 3 níveis da federação. O autor ressalta que algumas
das conferências estão previstas em lei e sua convocação pelo governo
federal é obrigatória, como é o caso das áreas da saúde, assistência so-
cial e o recém-criado sistema de segurança alimentar. As conferências
Tripartismo e participação social... 223

nacionais podem ser definidas também como processos participativos


que reúnem, com certa periodicidade, representantes do estado e da so-
ciedade civil para a formulação de propostas para determinada política
pública (Souza, 2012). São espaços de discussão nos quais o Governo e
a sociedade, por meio de suas mais diversas representações, travam um
diálogo de forma organizada e pública.
Para o Governo Federal, as conferências fazem parte de um mo-
delo de gestão pública participativa que permite a construção de espaços
de negociação, consensos, compartilhamento de poder e co-responsabi-
lidade entre o Estado e a sociedade civil. São um elemento fundamental,
ainda que não exclusivo, de um novo modelo de relação entre o Estado
e a sociedade, que inclui o fortalecimento da democracia participativa
como complemento da democracia representativa 6 . O objetivo do Go-
verno, ressaltando seu papel de “agente garantidor do direito à partici-
pação social”, é “a transformação da participação social em política de
Estado e em método de governo”. Nesse contexto, está em curso um
debate no país, com organizações da sociedade civil e no âmbito do
próprio governo, sobre as diretrizes para a construção de uma Política e
de um Sistema Nacional de Participação Social (BRASIL, 2013b).
A proposta de Política Nacional de Participação Social estabelece
o papel do Estado como agente promotor do direito humano à partici-
pação. Diretamente, estará voltada ao governo federal (administração
pública direta e indireta), mas indiretamente (por fomento e articulação)
pretende alcançar estados, municípios, entidades e movimentos sociais
que, no âmbito de sua autonomia, optarem por integrar o Sistema Nacio-
nal (BRASIL, 2013b).
Entre os objetivos propostos para essa Política, se destacam: pro-
mover e/ou concretizar a garantia do direito humano à participação; es-
timular a cultura de participação social; fortalecer e aperfeiçoar a parti-
cipação social como método de governo e gestão; construir uma prática
de democracia, na qual os cidadãos possam intervir cotidianamente na
agenda pública, no processo decisório e nos fóruns de deliberação pú-
blica; promover a participação social na formulação, acompanhamento,
monitoramento e avaliação das políticas públicas; estabelecer canais de
articulação entre gestores de participação social das três instâncias de
governo: federal, estadual e municipal; instituir uma rede nacional de
participação social, integrando as instâncias governamentais às entida-
des e movimentos sociais de atuação nacional, regional e local; con-
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solidar a relação com a sociedade civil, apoiar suas iniciativas, contri-


buir para seu fortalecimento, reconhecendo, integrando e consolidando
canais institucionais de participação social; consolidar o diálogo social
entre entidades representativas dos movimentos sociais com o governo
federal; incentivar e promover programas de formação e capacitação de
gestores públicos e lideranças da sociedade civil, em torno da temática
da gestão participativa; promover a interlocução com instituições e en-
tidades, ligadas a outros poderes de Estado, sobre a temática da partici-
pação social (BRASIL, 2013a).

Finalidades e tipos de Conferências


Devido ao fato das Conferências – com essa amplitude e signifi-
cado acima descritos – serem um fenômeno relativamente novo na rea-
lidade social e política brasileira, a bibliografia existente a seu respeito
ainda é limitada, e há muitos pontos de registro, análise e discussão
ainda em aberto.7
Além de reunir atores diversos, conforme o caso e o histórico da
mobilização social e da relação entre o Estado e a sociedade em cada
uma das diferentes esferas de políticas públicas que são objeto das
conferências, suas finalidades também podem variar. Dentro do obje-
tivo geral de trazer os diversos sujeitos políticos para a discussão no
espaço público e conectar essa instância de participação com outras
(tais como conselhos, comissões tripartites, etc), as finalidades espe-
cíficas das conferências, segundo o Instituto Polis (2005), citado por
Souza (2012), podem ser: a) definir princípios e diretrizes das políticas
setoriais; b) avaliar programas em andamento, identificar problemas e
propor mudanças para garantir o acesso universal aos direitos sociais;
c) dar voz e voto aos diversos segmentos da sociedade que pensam o
tema em questão; d) discutir e deliberar sobre os conselhos; e) avaliar e
propor instrumentos de participação popular na concretização das dire-
trizes na discussão orçamentária, em uma determinada área da política
pública.
A categorização de Souza (2012:20), a partir das “finalidades de-
claradas” pelas conferências nacionais realizadas entre 2003 e 2010,
também pode ajudar a elucidar as suas distintas naturezas:
a) Agendamento: difusão de ideias na perspectiva de construção de
agendas; afirmação de compromissos e colocação de (novos) te-
Tripartismo e participação social... 225

mas na agenda pública; articulação entre atores, fortalecimento


de redes e espaço de troca de experiências; pode ser base para a
proposição de políticas. Segundo o autor, essa característica es-
taria presente em 26 das 74 conferências analisadas no período
(35,1% do total);
b) Avaliação: diagnóstico de uma situação ou da implementação de
uma política pública já existente; pode envolver repactuação des-
sa política. Segundo o autor, essa característica estaria presente
em 30 das 74 conferências analisadas (40,5% do total);
c) Participação: quando o foco é a criação, ampliação ou fortaleci-
mento de espaços participativos para a gestão das políticas públi-
cas (presente em 31 das 74 conferências, ou 41,9% do total);
d) Proposição de diretrizes: quando incluem aspectos de formu-
lação de estratégias ou políticas para garantia de direitos; arti-
culação entre entes federados e financiamento de ações; identifi-
cação de prioridades de ação para órgãos governamentais, além de
intenções de criação ou reformulação de planos, programas, polí-
ticas e sistemas (característica presente em 56 das 74 conferências
analisadas, ou 75,7% do total).

Conferências nacionais: espaços efetivos de participação?


As avaliações sobre o tema até agora disponíveis, como a de
Avritzer (2012:22), destacam que as conferências vêm se constituindo
de fato como espaços de diálogo entre o governo e a sociedade civil
para definir elementos bastante amplos da agenda de uma determinada
política publica. O debate que se produz na maioria delas é significativo
e nem sempre as posições do governo são as que predominam.
O autor considera, portanto, que se produz uma participação efe-
tiva nas conferências nacionais, dando continuidade às formas de parti-
cipação que surgiram no Brasil durante a redemocratização, e que essas
formas de participação têm começado a influenciar o comportamento
dos atores da sociedade civil. No entanto, ainda não está claro como as
decisões são tomadas nas conferências e como elas pautam, de fato, o
comportamento do governo (Avritzer, 2012:16). Destacam-se os casos
das conferências das mulheres e da igualdade racial, que foram funda-
mentais para pautar esses temas inclusive no interior do próprio gover-
no, fortalecendo as recém-criadas Secretaria de Políticas para as Mul-
226 Revista Latino-americana de Estudos do Trabalho

heres (SPM) e Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial


(SEPPIR).
Em termos de tipos de resultados alcançados pelas conferências,
destacam-se: a) novos programas, políticas e/ou planos nacionais (ex:
Planos Nacionais de Políticas para as Mulheres, de Políticas de Pro-
moção da Igualdade Racial, de Direitos Humanos, contra a Homofobia,
etc.); b) proposições legislativas que podem mudar o escopo das polí-
ticas públicas já existentes; c) criação de sistemas (Sistema Único de
Saúde -SUS, Sistema Único de Assistência Social - SUAS, Seguridade
Alimentar); d) mudanças na forma de gestão das políticas públicas. Vale
acrescentar que Avritzer (2012:8) considera que as conferências tem
tido um importante impacto nas políticas públicas “para as minorias” e
na ampliação das formas deliberativas de tomada de decisões sobre um
conjunto muito mais amplo delas.

A I C•••••••!"# N#!"••#$ %• E&'••(• • T•#)#$*•


D•!••+•
O caminho que levou à realização da I Conferência Nacional de
Emprego e Trabalho Decente teve seu início em junho de 2003, quando o
Diretor-Geral da OIT e o Presidente da República assinaram um Memo-
rando de Entendimento que previa o estabelecimento de um programa
especial de cooperação técnica para a promoção da Agenda Nacional de
Trabalho Decente (ANTD) no Brasil, em consulta com as organizações
de empregadores e de trabalhadores.
Em maio de 2006, a ANTD foi lançada em Brasília por ocasião
da XVI Reunião Regional Americana da OIT, durante a qual também
foi lançada, pelo Diretor Geral da OIT, a Agenda Hemisférica do Tra-
balho Decente (AHTD). Elaborada por um grupo de trabalho intermi-
nisterial coordenado pelo MTE, com assistência técnica permanente da
OIT, e submetida à consulta no âmbito da Comissão Tripartite de Re-
lações Internacionais (CTRI), a ANTD se estrutura em torno a 3 prio-
ridades, estabelecendo resultados esperados e linhas de ação em cada
uma delas: a) a geração de mais e melhores empregos com igualdade
de oportunidades; b) a erradicação do trabalho escravo e do trabalho in-
fantil, em especial em suas piores formas; e c) o fortalecimento dos ato-
res tripartites e do diálogo social como instrumento de governabilidade
democrática.
Tripartismo e participação social... 227

O processo de implementação da ANTD ganhou novo impulso no


final de 2007, com a constituição de um Grupo Técnico Tripartite (GTT)
de consulta e monitoramento. Também se avançou, nesse período, na
discussão sobre os indicadores para monitorar os avanços nas diversas
dimensões do trabalho decente e na experiência pioneira de elaboração
de agendas estaduais (Bahia, Mato Grosso) e intermunicipais (região do
ABC Paulista) de trabalho decente.
O passo seguinte foi a elaboração do Plano Nacional de Emprego
e Trabalho Decente (PNETD), a partir de uma proposta construída por
um grupo interministerial mais amplo que o anterior, também coorde-
nado pelo MTE. O Plano foi concebido como um instrumento de im-
plementação da ANTD, tendo sido intensamente discutido por diversas
áreas do Governo Federal e pelo Grupo de Trabalho Tripartite (GTT),
em um importante processo de diálogo social.
Como resultado, foi construído um consenso tripartite em torno
às prioridades e resultados do PNETD, referendado por um documento
assinado por representantes de governo, empregadores e trabalhadores
durante a 98ª Reunião da Conferência Internacional do Trabalho (junho
de 2009). Na ocasião, uma Declaração Conjunta assinada pelo Presiden-
te da República e pelo Diretor Geral da OIT reafirmou o compromisso
entre o Governo brasileiro e a OIT em relação ao tema.
Ainda em 2009 foi formalizado, por Decreto Presidencial, o Co-
mitê Executivo Interministerial (CEI), formado por 18 ministérios e se-
cretarias vinculadas à Presidência da República, encarregado da imple-
mentação da ANTD, bem como foi instituído o Subcomitê da Juventude,
com o objetivo de elaborar uma Agenda Nacional de Trabalho Decente
para a Juventude (ANTDJ) 8 .
Em maio de 2010, o Ministro do Trabalho e Emprego lançou o
PNETD, com as prioridades e resultados acordados de forma tripartite,
além de metas e indicadores para 2011 e 2015. O PNETD consolidava
os avanços e consensos já obtidos, ao mesmo tempo em que registrava
as divergências e observações expressas pelas organizações de emprega-
dores e de trabalhadores.
A ANTDJ foi elaborada ao longo de 2010, por meio de um amplo
e produtivo processo de diálogo tripartite. Ela se organiza em torno de
quatro prioridades: (i) mais e melhor educação; (ii) conciliação entre
estudos, trabalho e vida familiar; (iii) inserção digna e ativa no mundo
do trabalho; (iv) diálogo social.
228 Revista Latino-americana de Estudos do Trabalho

A convocação da I CNETD, por meio de decreto presidencial, no


final de 2010, abriu a oportunidade para um processo de convergên-
cia entre a trajetória tripartite de promoção do Trabalho Decente e o
processo em curso no país de realização de conferências nacionais.
Os principais objetivos da I CNETD eram o de rever o PNETD e pro-
por diretrizes para a elaboração de uma Política Nacional de Empre-
go e Trabalho Decente. Para dar início à sua organização, foi elabo-
rada, pelo GTT, uma proposta de Regimento Interno da Conferência e
foi criada a sua Comissão Organizadora, por meio de uma portaria do
MTE.
A partir de maio de 2011, a recém-instalada Comissão Organiza-
dora Nacional (CON) da I CNETD, instância tripartite e paritária, com-
posta por 21 membros representantes do Governo Federal, das Centrais
Sindicais e das Confederações Nacionais de Empregadores (7 de cada
bancada), além da OIT como assistência técnica e do Fórum Nacional
de Secretarias do Trabalho (FONSET) como convidado, reuniu-se com
periodicidade crescente, discutindo e definindo os diversos aspectos po-
líticos e técnicos relacionados com a futura Conferência.
Entre as prioridades da CON nesse período se destacam o acom-
panhamento do processo de realização das etapas preparatórias nos esta-
dos e a definição dos marcos temáticos e regulatórios que seriam adota-
dos durante a I CNETD.
As Conferências Estaduais de Emprego e Trabalho Decente foram
realizadas em 26 das 27 unidades da Federação entre setembro e dezem-
bro de 2011. Os estados montaram suas Comissões Organizadoras Es-
taduais nos moldes da CON e, na grande maioria dos casos, realizaram
eventos preparatórios em nível municipal e/ou regional/intermunicipal.
Em muitos desses estados, foi a primeira vez em que os atores triparti-
tes, ou parte deles, tomaram contato e discutiram o conceito de trabalho
decente. Foi também a primeira vez que muitas das secretarias esta-
duais de trabalho organizaram e participaram ativamente da preparação
de uma conferência nacional.
Os temas definidos pela CON a serem tratados na I CNETD fo-
ram agrupados em quatro eixos principais, cada um deles com diversos
subtemas.9 A CON também elaborou um texto base que continha um
reordenamento das prioridades, resultados e metas do PNETD segun-
do os eixos temáticos da Conferência (Brasil, 2011a). Além desse reor-
denamento do Plano, que tinha como objetivo facilitar sua apreciação
Tripartismo e participação social... 229

nas Conferências Estaduais e na I CNETD, o texto base trazia ainda


três capítulos produzidos de maneira independente pelo Governo, pelos
Empregadores e pelos Trabalhadores, expressando suas visões sobre os
principais desafios do mundo do trabalho, que deveriam orientar os po-
sicionamentos das respectivas bancadas nos debates. Foi elaborado tam-
bém pelo MTE, com a assistência técnica da OIT, um texto de subsídios
que cobriu o conjunto dos temas a serem tratados durante a I CNETD
(BRASIL, 2011b).
Do ponto de vista do marco regulatório da I CNETD, a CON dis-
cutiu e aprovou o Regimento Interno da I CNETD, elaborou um Ma-
nual de Orientação para a Realização das Conferências Preparatórias,
bem como o Regulamento Interno da I CNETD, que foi apresentado
para aprovação aos participantes da mesma em seu primeiro dia de
instalação.
Dentre os muitos aspectos sobre os quais se deliberou nesses
instrumentos de regulação, vale destacar que o Regimento Interno, o
Manual de Orientação e o Regulamento Interno da Conferência defi-
niam que todas as propostas com pelo menos 30% de aprovação nos
grupos de trabalho e nas plenárias deveriam integrar o relatório final
correspondente àquelas etapas. A única instância na qual estava prevista
a aprovação de propostas por maioria simples era a plenária final da I
CNETD. Assim, todas as propostas com no mínimo 30% de aprovação
nas conferências preparatórias integraram o relatório final das mesmas,
que foi enviado para a apreciação da CON. De igual maneira, durante a
etapa nacional da Conferência, todas as propostas com no mínimo 30%
de aprovação nos grupos de trabalho e nas plenárias por eixo deveriam
seguir adiante rumo à sua plenária final.
O ano de 2011 encerrou-se com resultados muito melhores do que
os esperados. Apenas o estado do Acre não realizou sua Conferência Es-
tadual. Como já dito na introdução desse artigo, mais de 20 mil pessoas
discutiram o tema em todo o país, em 286 eventos preparatórios. Mais de
8 mil delegados participaram das conferências estaduais/distrital. Quase
quatro mil propostas foram recolhidas e enviadas à CON para sistemati-
zação e posterior apreciação durante a I CNETD.
Um dos maiores desafios da CON, já no início de 2012, consistiu
na análise da grande quantidade de propostas aprovadas nas etapas ante-
riores, bem como na sua transformação em um conjunto mais reduzido
e passível de ser discutido em 4 dias de Conferência, por um conjunto
230 Revista Latino-americana de Estudos do Trabalho

de 2.007 pessoas, entre delegados estaduais, delegados nacionais e con-


vidados10.
O desafio foi enfrentado por uma Subcomissão de Sistematização
e Relatoria criada no âmbito da CON, com a ajuda de consultores exter-
nos. Ao final, foram consolidadas 639 propostas, que refletiam as 3.966
que resultaram das Conferências Estaduais. Superado o problema com a
sistematização das propostas, a CON voltou-se para a definição de ques-
tões logísticas e metodológicas.
A I CNETD iniciou-se no dia 8 de agosto de 2012. Foram cre-
denciadas 2.007 pessoas, sendo 1.058 delegados, 130 observadores e
156 convidados. Do total de delegados/as credenciados/as, 33.5% re-
presentavam organizações de trabalhadores, 31,6% representavam or-
ganizações de empregadores, 28,5% representavam o Governo (Federal
e estaduais) e 6,4% organizações da sociedade civil. O que significa
que, na prática, as representações dos trabalhadores e dos empregadores
ficaram levemente acima dos 30% estipulados, a do governo levemente
abaixo, e a da sociedade civil significativamente abaixo dos 10% a que
tinha direito.
Os homens corresponderam a 60% dos participantes e as mulheres
a 40%. Mesmo assim foi possível cumprir e superar a recomendação
do Regimento Interno de presença de pelo menos 30% de mulheres
nas delegações. A bancada com a distribuição de gênero mais equili-
brada foi a da sociedade civil (50% de homens e mulheres) e a ban-
cada menos equilibrada foi a dos empregadores (70% homens e 30%
mulheres)11.
Aproximadamente 80% dos participantes da I CNETD eram adul-
tos com idade entre 30 e 59 anos. A bancada da sociedade civil apre-
sentou a maior proporção de jovens: 19%; a bancada dos trabalhadores,
por sua vez, contou com o menor contingente de jovens entre os seus
delegados/as: apenas 2,7%.
Em termos de raça/cor, registrou-se a seguinte composição: 54%
brancos/as e 41,8% negros/as. Chama a atenção o alto grau de escolari-
dade dos participantes: mais de 80% tinham acessado o ensino superior.
No entanto, a presença de pessoas com esse nível de escolaridade era
maior na bancada dos empregadores e do governo; entre os trabalhado-
res a maior frequência (34%) era de pessoas cujo maior grau de escola-
ridade era o ensino médio.
Tripartismo e participação social... 231

A programação da I CNETD previa quatro dias de evento. O pri-


meiro dia seria destinado ao credenciamento dos participantes, à aber-
tura oficial da I CNETD e à aprovação do Regulamento Interno. O se-
gundo dia seria destinado aos trabalhos em 12 grupos temáticos, nos
quais seriam apreciadas e votadas as 639 propostas sistematizadas. No
terceiro dia, as propostas aprovadas nos grupos deveriam ser discutidas
e votadas em quatro plenárias por eixos temáticos12. No último dia, as
propostas aprovadas nas plenárias por eixo seriam submetidas à votação
na plenária final. As propostas aprovadas na plenária final comporiam
o relatório final da Conferência e seriam consideradas indicativas dos
temas prioritários a serem abordados em uma Política Nacional de Em-
prego e Trabalho Decente.
O primeiro dia transcorreu como previsto na programação. A so-
lenidade de abertura foi prestigiada com a presença de ministros/as e di-
rigentes importantes das organizações de empregadores e trabalhadores.
A OIT também se fez presente através da Diretora do Escritório da OIT
para a América Latina e o Caribe13.
No segundo dia houve dificuldades para conformar os 12 grupos
de trabalho, bem como para assegurar o bom andamento das discussões
nos mesmos14. Em consequência, alguns grupos não conseguiram con-
cluir o debate e a votação do conjunto das propostas previstas, transfe-
rindo a discussão das mesmas para as respectivas plenárias temáticas.
Em outros casos, as discussões avançaram e um número considerável
de propostas foi aprovado (Brasil, 2013d). No terceiro dia, a discussão
nas plenárias por eixos foi prejudicada devido a novos atrasos relacio-
nados aos problemas operacionais e à falta de resultados de vários dos
grupos de trabalho. Na tarde desse dia, a bancada dos empregadores
decidiu reunir-se em ambiente à parte, o que inviabilizou a continuação
das plenárias por eixo. Nenhum pronunciamento oficial explicou aos de-
mais conferencistas o que estava ocorrendo, o que aumentou as tensões
acumuladas desde o final insatisfatório das discussões no dia anterior.
Os empregadores protocolaram uma moção de repúdio, expres-
sando o seu entendimento de que estaria havendo descumprimento do
regulamento interno da conferência, e sua insatisfação em relação a uma
série de problemas (estariam sendo apresentadas propostas novas que
não resguardavam a essência do texto original, emissão tardia de passa-
gens, hospedagem, credenciamento nos grupos de trabalho, problemas
nos aparelhos de votação e falta de controle dos participantes nos grupos,
232 Revista Latino-americana de Estudos do Trabalho

entre outros). Esses problemas, no entender da bancada dos empregado-


res, comprometiam a qualidade do diálogo e a garantia das proporções
de representação estabelecidas no Regimento Interno da Conferência.
Por esses motivos, decidiram suspender sua participação na I CNETD
até que, no seu entender, “houvesse condições mínimas para a retomada
dos trabalhos” (Brasil, 2013d).
Informada dessa decisão, a CON organizou uma reunião extraor-
dinária com o intuito de tentar resolver esse impasse. As bancadas dos
trabalhadores e da sociedade civil expressaram sua discordância em re-
lação ao posicionamento dos empregadores, afirmando que todas as de-
cisões haviam sido tomadas por consenso tripartite e que as propostas
que estavam sendo apresentadas não eram novas, “tendo havido apenas
casos de propostas modificativas permitidas pelo regulamento” (Brasil,
2013d).
Em um esforço por buscar o consenso e viabilizar a Plenária Final,
a CON realizou um grande esforço de diálogo, definindo que: a) as pro-
postas de consenso dos GTs e das plenárias temáticas passariam à ple-
nária final; b) seria constituído um grupo de trabalho composto por re-
presentantes de cada bancada para revisar as propostas que não haviam
sido discutidas e definir quais outras seriam consensuais; e c) que, além
disso, cada bancada poderia escolher algumas propostas prioritárias, não
consensuais (5 de cada bancada dos atores tripartites e 1 da bancada da
sociedade civil), dentre as que estavam em discussão. As negociações
de estenderam durante toda a noite e a manhã do quarto dia.
Apesar de todo esse esforço, a bancada dos empregadores delibe-
rou em assembleia pela manutenção da suspensão da sua participação na
Conferência por entender que continuava sendo descumprido o processo
de negociação previsto no regulamento interno15.
Finalmente, representantes dos trabalhadores e do governo que
integravam a CON chegaram a um acordo sobre algumas propostas prio-
ritárias de cada bancada a serem apresentadas na Plenária Final. Os re-
presentantes da sociedade civil também selecionaram um conjunto de
propostas prioritárias a serem apreciadas na Plenária. Dessa forma, op-
tou-se por instalar a Plenária Final na tarde do último dia, mesmo sem
a presença dos empregadores. Algumas propostas aprovadas nos grupos
de trabalho foram apresentadas e aprovadas, assim como as propostas
prioritárias das bancadas do governo, dos trabalhadores e da sociedade
civil. Uma comissão representando a bancada dos empregadores se fez
Tripartismo e participação social... 233

presente na Plenária Final, com o objetivo de explicar a sua posição e


expressar que a atitude assumida não representava uma ruptura com o
processo da Conferência, mas sim uma suspensão da sua participação.
Reafirmou também a disposição da bancada dos empregadores para
“continuar participando do diálogo social destinado à promoção do tra-
balho decente no país” (Brasil, 2013d), indicando que a sua permanência
no local do evento até o final da I CNETD era uma demonstração desse
compromisso.
No encerramento da Plenária, representantes do governo, dos tra-
balhadores e da OIT afirmaram a importância do processo da I CNETD
e a necessidade da continuidade do diálogo visando à construção de uma
Política Nacional de Emprego e Trabalho Decente. Apesar de todos os
problemas, foram aprovadas 225 propostas por consenso ou maioria
qualificada (acima de 80% dos votos dos presentes), perfazendo 35% do
total de propostas apresentadas para a discussão (Brasil, 2013d).

E••••••••• ! •• • S•#$••••! % ! I CNETD


A realização da I Conferência Nacional de Emprego e Trabalho
Decente representou, sem dúvidas, uma mudança de escala no compro-
misso que o país vinha assumindo com a promoção do trabalho decente
desde 2003.
A análise do significado da Conferência e os seus possíveis des-
dobramentos futuros será feita a partir de uma reflexão que terá como
referência três dimensões: i) a tipologia de diálogo social e tripartismo
apresentada na seção 1 deste artigo; ii) a tipologia das conferências na-
cionais de políticas públicas; iii) as potencialidades e desafios que se
apresentaram na convergência entre esses dois processos.

Tipologia de diálogo social e tripartismo


A primeira questão a ser considerada na discussão sobre o signi-
ficado da I CNETD diz respeito ao tipo de diálogo social e de configu-
ração do tripartismo que a caracterizou. Sugerimos nessa análise que
o conceito de trabalho decente, devido à sua multidimensionalidade e
abrangência, introduz no diálogo social tripartite que se produz em tor-
no a ele elementos que vão além das relações de trabalho entendidas no
seu sentido mais estrito. Incorpora temas e dimensões mais abrangentes,
como, por exemplo, aquelas relativas aos direitos humanos (que cons-
234 Revista Latino-americana de Estudos do Trabalho

tituem elementos centrais dos direitos fundamentais no trabalho) e às


condições macroeconômicas e sociais e políticas de investimento que
podem propiciar a geração de mais e melhores empregos. Nesse senti-
do, a articulação dos atores em torno à promoção do trabalho decente
no Brasil, que vinha se produzindo desde o a elaboração da ANTD até
o início da organização da I CNETD – e que poderíamos caracterizar
como de uma pactuação progressiva – poderia ser definido como um
processo de diálogo social tradicional (porque centrado nos atores tí-
picos do tripartismo) e abrangente.16 Com a CNETD, esse tripartismo
clássico se amplia: apesar de constituir o eixo do seu sistema de repre-
sentação (composição das delegações) e decisão (composição da CON),
a presença regimental de representantes das organizações da sociedade
civil nas delegações, ainda que em uma proporção minoritária (10%),
introduz outros atores na equação, apontando para a constituição de um
“tripartismo ampliado”17.
Entendemos por pactuação progressiva o processo de ampliação
progressiva da discussão, consulta e consensos tripartites alcançados
entre 2003 e 2011, e que se expressam nas diferentes experiências de
construção da ANTD, do PNETD e da ANTDJ. Com efeito, no caso da
ANTD, as discussões se concentraram em um grupo de trabalho intermi-
nisterial, coordenado pelo MTE, com a assistência técnica da OIT; ape-
nas na sua fase final o texto foi submetido à consulta tripartite no âmbito
da CTRI. No caso do PNETD, o processo de diálogo tripartite foi muito
mais intenso, e embora as discussões tenham se realizado a partir de
uma proposta apresentada pelo Governo Federal (também coordenada
pelo MTE e elaborada com a assistência técnica da OIT), as discussões
sobre as prioridades, resultados, metas e indicadores foram intensas e
prolongadas, envolvendo um importante processo de negociação tanto
entre os diversos ministérios que compunham o SAT 18 quanto entre o
governo e as representações de empregadores e trabalhadores. No final
do processo se obteve consenso tripartite em relação às prioridades e
resultados, mas não sobre as metas e indicadores. No entanto, devido
ao fato das divergências terem sido registradas no texto do Plano, esse
passou a ser uma referência assumida pelo conjunto dos atores. No caso
da ANTDJ, por sua vez, o processo foi similar ao do PNETD, com a
diferença de que foi possível chegar a um consenso sobre o conjunto da
Agenda.
Tripartismo e participação social... 235

Temas referentes a
Temas referentes às
Eixos questões Econômicas e So-
relações de trabalho
ciais mais amplas

• Negociação Coletiva; • Igualdade de oportunidades


• Saúde e Segurança no e de tratamento, especial-
Eixo I: Direitos mente para jovens, mulhe-
Fundamentais Trabalho;
res e população negra
no Trabalho • Política de valorização
do salário mínimo.

• Prevenção e erradicação do
trabalho infantil;
• Prevenção e erradicação
Eixo II: Prote- do trabalho escravo e do
ção Social tráfico de pessoas;
• Informalidade;
• Migração para o Trabalho.

• Sistema Público de • Políticas macroeconômicas


Emprego, Trabalho de crédito e investimento
e Renda e educação para a geração de mais e
profissional melhores empregos
• Emprego rural e agri- • Inclusão produtiva de gru-
cultura familiar pos vulneráveis
• Empresas sustentáveis • Micro e pequenas empre-
Eixo III:
sas, empreendedorismo
Trabalho e
e Políticas Públicas de
Emprego
Microcrédito
• Cooperativas e empreen-
dimentos de economia
solidária;
• Empregos verdes e de-
senvolvimento territorial
sustentável
• Mecanismos e instân- • Conselhos Nacionais de
cias de Diálogo Social, Políticas Públicas
Eixo IV: Forta-
em especial a negocia-
lecimento dos
ção coletiva
Atores Tripar-
tites • Comissões tripartites
de trabalho e emprego.
236 Revista Latino-americana de Estudos do Trabalho

Voltando ao tema da sociedade civil: vale notar que a sua parti-


cipação na I CNETD foi limitada, em especial se comparada à parti-
cipação que costuma caracterizar as outras conferências nacionais que
vêm sendo realizadas no país. Isso pode ser explicado pela ênfase dada à
representação tripartite paritária durante todo o processo de organização
da I CNETD e que se refletiu, entre outros aspectos, na composição da
Comissão Organizadora Nacional, das Comissões Organizadoras Esta-
duais (COEs) e das mesas coordenadoras dos GTs e das Plenárias Te-
máticas.
Por sua vez, ao considerar o escopo dos temas discutidos durante
a Conferência, podemos considerar que a maior parte dos que constituí-
ram os Eixos I e IV localizavam-se no âmbito de um diálogo social res-
trito. Já os Eixos II e III tratavam principalmente de temas mais amplos
(diálogo social abrangente).
Considerando que o objetivo central da CNETD era o de formu-
lar diretrizes para uma Política Nacional de Emprego e Trabalho De-
cente que ultrapassava o âmbito estrito das relações de trabalho e que,
como vimos, isso estava refletido no seu temário (e também nas propos-
tas discutidas no âmbito estadual e consolidadas no documento base da
Conferência) essa se aproximaria do tipo diálogo social ampliado e
abrangente .

Tipologia das conferências nacionais de políticas públicas


A I CNETD, devido à sua natureza multifacetada e à abrangên-
cia de sua temática e objetivos por um lado e, por outro, ao ineditis-
mo e complexidade da experiência (justamente por se propor como um
ponto de convergência entre os processos mais clássicos do diálogo
social tripartite e os processos de participação social que caracterizam
as conferências nacionais) poderia se encaixar em vários elementos das
duas tipologias apresentadas neste artigo (Souza, 2012; Instituto Pólis,
2005).
Analisando suas similaridades com as demais conferências, a I
CNETD também tinha como objetivo específico definir princípios e di-
retrizes de uma política setorial (no caso a Política Nacional de Empre-
go e Trabalho Decente), avaliar programas em andamento (no caso o
PNETD), identificar problemas e propor mudanças e dar voz e voto aos
diversos segmentos da sociedade vinculados ao tema em questão.
Tripartismo e participação social... 237

Ela teve, sem dúvida, uma marcada característica de agendamento


do tema do trabalho decente, conforme a categoria definida por Souza
(2012) (difusão de ideias na perspectiva de construção de agendas, afir-
mação de compromissos e colocação de novos temas na agenda pública;
articulação entre atores, fortalecimento de redes e espaço de troca de
experiências), em especial no âmbito estadual e municipal. Em vários
estados e municípios nas quais as etapas preparatórias da CNETD foram
realizadas, foi a primeira vez que o tema do trabalho decente foi incorpo-
rado à agenda pública. Como parte das deliberações de 11 conferências
estaduais, foram assumidos compromissos de elaboração de Agendas
Estaduais de Trabalho Decente. Somados às duas agendas estaduais já
existentes anteriormente (Bahia e Mato Grosso) e três estados que logo
após a conferência também decidiram colocar em prática esforços para
a elaboração de suas agendas, temos como resultado desse processo que
16 estados, em um total de 26 que realizaram conferências, assumiram
esse compromisso.
A I CNETD também cumpriu um papel importante de trazer/am-
pliar a presença de diversos sujeitos políticos para a discussão no es-
paço público e conectar essa instância de participação com outras já
existentes em relação aos temas do mundo do trabalho (como as diversas
comissões tripartites e tripartites “plus” em funcionamento no país), tal
como definido na tipologia do Instituto Pólis 19; nesse sentido, também
teve uma marcada característica de participação, segundo a tipologia de
Souza (2012).
Quanto ao tema da avaliação (diagnóstico de uma situação ou
de políticas e programas em andamento e proposição de mudanças),
categoria de análise também proposta nas duas tipologias relativas às
conferências nacionais, a questão é mais complexa. O “diagnóstico da
situação”, entendido como a análise da evolução do perfil do trabalho
decente no país, seus avanços e principais desafios (tanto no âmbito na-
cional quanto no das Unidades da Federação), foi um elemento impor-
tante na grande maioria das conferências estaduais 20. Por sua vez, a ava-
liação do PNETD também era um dos objetivos da I CNETD, expresso
no seu Regimento Interno, e com esse objetivo foi elaborado o texto
base da Conferência. No entanto, no decorrer do processo, a Comissão
Organizadora Nacional decidiu substituir a discussão de avaliação do
Plano por uma discussão mais geral de proposição de diretrizes para
uma futura Política Nacional de Emprego e Trabalho Decente; essa ava-
liação, portanto, acabou não sendo realizada.
238 Revista Latino-americana de Estudos do Trabalho

Potencialidades e desafios da convergência entre o diálogo


social tripartite e os processos mais amplos de participação
social.
A maioria das conferências de políticas públicas que vem sendo
realizadas no país caracteriza-se por uma díade entre o governo e a so-
ciedade civil, com a presença, em alguns casos (como nas conferências
de saúde e assistência social) dos beneficiários/as das políticas ou ser-
viços públicos. A I CNETD, como sabemos, foi a primeira que definiu
o tripartismo paritário entre governos, empregadores e trabalhadores
como seu eixo central de representação e decisão.
A experiência da CNETD evidencia que essa convergência de
processos foi extremamente rica, mas não esteve isenta de desafios e
complexidades.
A primeira questão a ser pensada é que quando a distribuição de
poder entre o governo, a sociedade civil e os usuários/beneficiários/as
de uma política pública é modificada com a presença de três partes orga-
nizadas e representadas em forma paritária, produz-se uma mudança da
dinâmica da participação do governo, que passa a ter que atuar, em inú-
meros casos, ora como mediador entre as outras duas partes, ora como
tomador de decisão.
No caso da I CNETD, o governo participou como sujeito do
diálogo, colocando suas posições; mas também, ao mesmo tempo, co-
locou-se no papel de facilitar, mediar e acolher acordos e ser seu ga-
rantidor. Isso foi importante no decorrer do processo e uma evidência
de que um dos papéis centrais dos governos nos processos de diálogo
social é justamente o de zelar para que os seus resultados, sob a forma
de recomendações ou acordos, se traduzam na aplicação de políticas
concretas.
O papel do poder público torna-se ainda mais complexo em um
processo, como o da I CNETD, que se propôs regimentalmente a incor-
porar pelo menos duas das três instâncias da Federação (federal e esta-
dual) e que, no seu decorrer, acabou por assumir também uma dinâmica
municipal, além da esperada. Destaca-se a importância da mobilização
das secretarias estaduais de trabalho e do Fórum Nacional de Secretarias
de Trabalho (FONSET) como elementos fundamentais na etapa prepa-
ratória da CNETD. Sem o seu envolvimento ativo, o processo não teria
tido a abrangência e a amplitude que adquiriu.
Tripartismo e participação social... 239

A dinâmica da relação estados-âmbito nacional, tanto do lado do


governo quanto dos trabalhadores e empregadores, tampouco foi isenta
de complexidades e desafios. Entre os elementos que podem explicar
essa complexidade, destacamos dois: a) o fato das experiências esta-
duais se caracterizarem, mais que a nacional, pela participação de atores
que iam além do tripartismo clássico; b) a dificuldade da representação
efetiva das organizações centrais de empregadores e trabalhadores, prin-
cipalmente dos primeiros, em muitos casos, no âmbito estadual e princi-
palmente municipal (dificuldade de “chegar na ponta”).
Apesar das dificuldades, observa-se um fortalecimento importante
dos estados durante o processo da Conferência e com a perspectiva de
elaboração de Agendas de Trabalho Decente. As Secretarias do Trabal-
ho e o FONSET ganharam visibilidade e foram fortalecidas através da
interação mais frequente com as organizações de trabalhadores e empre-
gadores e com a realização das conferências estaduais.
O outro tema importante a ser considerado se refere às formas de
garantir o protagonismo dos atores tripartites, ao mesmo tempo em que
se abria a possibilidade de espaços mais amplos de participação social,
característica básica das conferências nacionais realizadas até então. A
forma regimental definida por consenso, em um processo de discussão
tripartite e paritária que teve lugar no âmbito da CON, para a compo-
sição das delegações e os mecanismos de votação (decisão) da Conferên-
cia, descritas no corpo desse artigo, foram uma tentativa de equacionar
esses temas. A definição do quórum de 30% para a aprovação das pro-
postas em todas as instâncias das conferências municipais e estaduais,
assim como nos grupos de trabalho e plenárias temáticas da CNETD,
tinha o objetivo explícito de garantir a expressão das posições de cada
uma das bancadas tripartites até a última fase do processo, mesmo que
elas fossem minoritárias em relação às outras. Por sua vez, a definição
do quórum de 50% + 1 na Plenária Final tinha o objetivo de possibilitar
a definição de posições majoritárias ao final do processo.
Como também descrito no corpo deste artigo, esse mecanismo,
apesar de haver sido discutido e acordado durante todo o processo de
preparação da CON, não conseguiu efetivar-se como previsto e resolver
adequadamente o tema acima enunciado. Isso prejudicou a discussão das
propostas em vários dos GTs e na totalidade das plenárias (temáticas e
final), criando um importante grau de frustração entre as delegações, que
representavam e se sentiam muito comprometidas com os processos de
240 Revista Latino-americana de Estudos do Trabalho

discussão desenvolvidos no âmbito estadual, e provocando um desequi-


líbrio entre os diversos temas que compunham a agenda da Conferência
no que se refere ao o nível de discussão e deliberação alcançados.
Da mesma forma que é necessário reconhecer esses problemas
e debilidades do processo, é importante assinalar também que, apesar
dos empregadores terem suspendido a sua participação nas Plenárias
Temáticas e na Plenária Final da Conferência, eles não se retiraram do
recinto do evento e nem romperam com a Conferência. E é extremamen-
te relevante registrar também que os três atores tripartites reafirmaram
oficialmente sua avaliação positiva, assim como seu compromisso com
o processo e com a sua continuidade em reunião de avaliação realizada
pela CON no começo de 2013, e no Relatório Final da Conferência pu-
blicado em agosto de 2013 (Brasil, 2013d).
Mas os problemas experimentados durante a Conferência colo-
cam, entre outras, a seguinte questão: com um temário tão abrangente
como o da I CNETD e com o pioneirismo da Conferência, teria sido mais
desejável uma outra modalidade de discussão e decisão que apontasse
para a construção de consensos progressivos em torno a temas priori-
tários, com a garantia do direito de registro das posições minoritárias
em outros temas? Essa é uma questão que permanece em aberto para a
reflexão futura.

C•••••• !"#•• F••!••


Como discutido ao longo deste artigo, a realização da I CNETD se
insere em uma tendência que se acentua no país desde 2003, de instituir
amplos processos de consulta e participação social nas mais diversas
áreas das políticas públicas, e que, ao longo dos últimos anos, envolveu
milhões de pessoas. A sua realização foi um passo muito importante para
o fortalecimento da promoção do trabalho decente como uma política
de Estado, definida e monitorada através de mecanismos de consulta
tripartite.
A realização da I CNETD faz parte de uma trajetória de apro-
priação e pactuação progressiva entre os atores tripartites no Brasil em
relação ao tema do trabalho decente e estabelece um ponto de encontro
entre essa trajetória e o processo de realização de conferências nacio-
nais de políticas públicas.
A realização da Conferência envolveu grandes desafios e represen-
Tripartismo e participação social... 241

tou uma inovação em termos da trajetória do trabalho decente no Brasil,


constituindo-se em um ponto de inflexão: através dela a discussão sobre
o trabalho decente no país experimentou uma mudança de escala, diver-
sificou-se, penetrou em novos territórios e mobilizou novos atores. A I
CNETD ampliou a discussão sobre o trabalho e ampliou os espaços de
participação tripartite, fortalecendo-os no âmbito estadual e chegando
até os municípios. Nesse processo, as discussões em torno do trabalho
decente ganharam maior legitimidade e institucionalidade.
A realização de mais de 280 eventos subnacionais preparatórios
da I CNETD, envolvendo mais de 20 mil pessoas em todo o território na-
cional, evidenciou o poder mobilizador do conceito de trabalho decente
e de sua Agenda. Também se observam avanços no âmbito subnacio-
nal, com a perspectiva de elaboração de Agendas Estaduais de Trabalho
Decente em vários outros estados da federação, além da Bahia e Mato
Grosso, que já vinham construindo suas respectivas agendas desde, res-
pectivamente, 2007 e 2009, e alguns municípios. Assim como um forta-
lecimento das Secretarias Estaduais de Trabalho e do FONSET.
A I CNETD foi uma experiência inédita, e está prevista a sua
continuidade, tanto através do processo de elaboração de uma Política
Nacional de Emprego e Trabalho Decente, quanto da intenção expres-
sa pelo Governo Federal de convocá-la periodicamente, estando a sua
segunda edição prevista para 2016. No entanto, não há previsão consti-
tucional para a realização da mesma, o que cria uma incerteza quanto à
sua existência futura.
Ainda é cedo para avaliar se esse processo de pactuação progres-
siva em torno ao trabalho decente no país produzirá, ao mesmo tem-
po, um fortalecimento do tripartismo e sua ampliação no sentido de
um diálogo social mais amplo e abrangente. A I CNETD foi expressão
desses dois movimentos e, apesar dos problemas e desafios enfrenta-
dos, seu saldo foi positivo nesses dois aspectos. Consistiu, sem dúvida,
uma importante aprendizagem para todos os atores que dela participa-
ram. A construção da Política Nacional de Emprego e Trabalho Decen-
te é a próxima etapa que, até 2016, ditará de que forma esse proces-
so de ampliação da participação e de fortalecimento do tripartismo se
desdobrará.
(Recebido para publicação em agosto de 2013)
(Aprovado em novembro de 2013)
(Versão final em novembro de 2013)
242 Revista Latino-americana de Estudos do Trabalho

B••••••• !•
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Tripartismo e participação social... 245

N••••
1 Apenas o Estado do Acre não realizou a conferência estadual preparatória
prevista no Regimento Interno da I CNETD.
2 Segundo o Boletim n. 33 da I CNETD, do MTE (http://portal.mte.gov.br/
data/fi les/8A7C812D33EF459C01345D4ACBCA3D28/33%C2%BA%20
Boletim%20da%20I%20CNETD.pdf) foram realizados 286 eventos. Além
das conferências estaduais e distrital, ocorreram 140 conferências munici-
pais, 111 conferências intermunicipais, 5 conferências microrregionais, 2
conferências territoriais, uma videoconferência envolvendo mais de 100
municípios e um fórum preparatório.
3 Como por exemplo: Recomendação no. 113 sobre a Consulta (ramos de ativi-
dade econômica e âmbito social) (1960); Convenção no. 135 sobre Proteção
de Representantes de Trabalhadores (1971); Convenção no. 144 sobre Con-
sulta Tripartite (normas internacionais do trabalho) (1976); Recomendação
no. 152 sobre Consulta Tripartite (atividades da Organização Internacional
do Trabalho) (1976); Convenção no. 151 sobre o Direito de Sindicalização e
Relações de Trabalho na Administração Pública (1978); Convenção no. 154
sobre Fomento à Negociação Coletiva (1981).
4 A Convenção 144 trata dos seguintes temas: define o conceito de organi-
zações representativas de empregadores e de trabalhadores; introduz proce-
dimentos para garantir a celebração de consultas efetivas que se concretizam
de acordo com a prática nacional; dispõe sobre a participação de repre-
sentantes das organizações de empregadores e de trabalhadores em pé de
igualdade; prevê apoio administrativo e formação para os participantes nas
consultas; determina as questões que devem ser tratadas nas consultas (as
normas internacionais do trabalho); e estabelece a possibilidade de apresen-
tação de relatórios sobre o funcionamento dos procedimentos (OIT, 2012).
5 É importante assinalar que a Declaração Universal dos Direitos Humanos
define a participação social como um direito humano fundamental (BRA-
SIL, 2013b).
6 Outro elemento desse proposto Sistema Nacional de Participação são os
Conselhos, definidos como espaços permanentes de participação social na
administração pública. Compostos por representantes do governo e da so-
ciedade civil, os Conselhos têm desempenhado um papel importante de in-
corporar pautas e interesses dos setores sociais que buscam a melhoria da
qualidade e a universalização da prestação de serviços, destacando-se como
instâncias de construção de direitos ainda não reconhecidos pelo Estado.
Existem hoje no Brasil diversos conselhos em funcionamento no nível fe-
deral, regional, estadual e municipal, em várias áreas das políticas públicas.
Eles variam muito em termos de composição, atribuições, estrutura e vincu-
lação, mas guardam em comum o propósito de controle social das políticas
públicas e o fortalecimento da democracia participativa. Entre 2003 e 2010
foram criados dezenove Conselhos e outros dezesseis foram reformulados
com o objetivo de ampliar os espaços de participação (BRASIL, 2013c).
246 Revista Latino-americana de Estudos do Trabalho

7 É necessário assinalar a importância dos estudos, diagnósticos e avaliações


sobre o tema produzidos no âmbito do programa de pesquisa sobre Demo-
cracia e Participação desenvolvido na Diretoria de Estudos e Políticas do
Estado, das Instituições e da Democracia (Diest) do Instituto de Pesquisas
Econômicas Aplicadas (IPEA), em parceria estratégica com a Secretaria
Nacional de Articulação Social da Secretaria Geral da Presidência da Repú-
blica, o Projeto Democracia Participativa (PRODEP) do Departamento de
Ciência Política da UFMG, o Instituto Pólis, o Instituto de Estudos Sócioe-
conômicos (INESP) e o Instituto de Estudos Sociais e Políticos da UERJ.
8 Para mais detalhes a respeito desse processo, ver Abramo (2010).
9 Os temas e subtemas que compuseram ao temário da I CNETD foram os
seguintes: a) Eixo I (Princípios de Direitos Fundamentais no Trabalho):
Igualdade de oportunidades e de tratamento, especialmente para jovens,
mulheres e população negra; Negociação Coletiva; Saúde e Segurança no
Trabalho; Política de valorização do salário mínimo; b) Eixo II ( Proteção
Social): Prevenção e erradicação do trabalho infantil; Prevenção e erradi-
cação do trabalho escravo e do tráfico de pessoas; Informalidade; Migração
para o Trabalho; c) Eixo III (Trabalho e Emprego): Políticas macroeconô-
micas de crédito e investimento para a geração de mais e melhores empre-
gos; Inclusão produtiva de grupos vulneráveis; Sistema Público de Empre-
go, Trabalho e Renda e educação profissional; Micro e pequenas empresas,
empreendedorismo e Políticas Públicas de Microcrédito; Cooperativas e
empreendimentos de economia solidária; Emprego rural e agricultura fami-
liar; Empresas sustentáveis; Empregos verdes e desenvolvimento territorial
sustentável; d) Eixo IV (Fortalecimento dos Atores Tripartites): Mecanis-
mos e instâncias de Diálogo Social, em especial a negociação coletiva.
10 Além de Delegados (com direito a voz e voto) e Convidados (com direito a
voz), a I CNETD também contou com a participação de Observadores (sem
direito a voz ou voto).
11 Os dados a seguir sobre a composição por sexo, raça/cor, escolaridade e
idade dos participantes são provenientes do questionário aplicado pela OIT
durante a I CNETD.
12 Conforme descrito no marco temático da Conferência.
13 Para mais detalhes relativos à descrição da Conferência ver BRASIL
(2013d).
14 As listas contendo a relação dos delegados indicados pelas coordenações
das bancadas em cada grupo não estavam disponíveis no começo da manhã.
Uma vez disponibilizadas, deu-se o processo, lento, de credenciamento dos
participantes em seus grupos. Iniciados os trabalhos nos grupos, os proble-
mas foram variados. Para mais detalhes ver 2013d.
15 Para mais detalhes sobre esse processo ver Brasil (2013d).
16 No caso dos processos de constituição das agendas estaduais de trabalho
decente (Bahia e Mato Grosso), é necessário assinalar que, desde o seu iní-
cio, foram incorporados outros atores, o que introduziu nessas experiências
elementos de um tripartismo ampliado.
Tripartismo e participação social... 247

17 É necessário assinalar que a presença da sociedade civil foi objeto de muita


discussão e polêmica durante a elaboração e definição do Regimento Interno
da I CNETD.
18 Subcomitê de Asessoramento Técnico do Comitê Executivo Interministerial
da ANTD.
19 Para uma relação e análise das diversas instâncias de diálogo tripartite e
tripartite “plus” em funcionamento no país, ver Brasil (2011).
20 Tanto a partir do diagnóstico realizado pelo Escritório da OIT no Brasil
(OIT, 2012) quanto de diagnósticos específicos realizados nos Estados pelos
organizadores das CEETDs, como foi o caso de Sergipe. Vale notar que,
com o objetivo de contribuir à realização de diagnósticos estaduais sobre
o trabalho decente como parte do processo de preparação das CEETDs, e
tendo em vista também o objetivo de construção de agendas estaduais de
trabalho decente – que, como já observado, acabou sendo assumido como
um compromisso tripartite em 11 CEETDs –, foram realizadas, por solici-
tação do FONSET, 6 oficinas regionais de capacitação, abarcando todas as
grandes regiões do país, voltadas à construção e análise de indicadores de
trabalho decente, como parte da assistência técnica prestada pela OIT ao
processo da CNETD.
248 Revista Latino-americana de Estudos do Trabalho

R•••••
A I Conferência Nacional de Emprego e Trabalho Decente (I
CNETD) pode ser pensada como um ponto de convergência entre dois
processos diferentes de diálogo social que se desenvolvem de forma pa-
ralela no Brasil a partir de 2003: o fortalecimento e ampliação do diálo-
go social triparte vinculado à promoção da Agenda Nacional de Trabal-
ho Decente e a intensificação da realização de conferências de políticas
públicas enquanto espaços de democracia participativa. O artigo explora
a dinâmica do encontro desses dois processos na I CNETD, analisando
seus pontos de convergência e desafios. Conclui que essa experiência,
na complexidade e ineditismo que a caracterizou, constituiu uma contri-
buição importante tanto para o modelo de democracia participativa que
vem sendo promovido pelo Governo Federal, quanto para o processo
que se desenvolve em torno à promoção do trabalho decente no Brasil.
Palavras chave: diálogo social, tripartismo, conferências de polí-
ticas públicas, trabalho decente

A!•"#$%"
The I National Conference on Employment and Decent Work (I
NCEDW) may be thought as a convergence point between two different
social dialogue processes that have been developed in parallel in Brazil
since 2003: the strengthening and expansion of tripartite social dialogue
linked to the promotion of the National Agenda on Decent Work; and
the intensification of conferences on public policies, as spaces for parti-
cipatory democracy. The article explores the dynamics of the encounter
of these two processes in the I NCEDW, analyzing their convergence
points and challenges. It concludes that this experience, given its com-
plexity and uniqueness, constitutes an important contribution both to the
participatory democracy model that has been promoted by the Federal
Government, and to the process that develops around the promotion of
decent work in Brazil.
Key words: social dialogue, tripartism, public policies conferen-
ces, decent work.