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Arte come tpi 4 Reequilibrio Raros sdo os que tém pleno equilibrio. Nossa biografia psicolégica, as relagdes ¢ rotinas de trabalho fazem com que as emogdes se incline, seriamente mais para um lado do que para outro. Podemos, por exemplo, tender a ser presungosos ou inseguros demais, confiantes ou desconfiados demais, frivolos ou sérios demais. A arte pode nos por em contato com doses concentradas das inclinagSes que nos faltam, devolyendo um grat de equilibrio ao nosso ser interior que pende demais para um lado. Imagine que tenhamos adotado um modo de vida que padece de excesso de intensidade, estimulo e distragio. Trabalhamos freneticamente em trés continentes. A caixa de mensagens fica entupida com uns duzentos e-mails por hora. Quando a semana comeca, mal da tempo para pensar em qualquer coisa. Mesmo assim, no fim do dia as vezes podemos voltar a.uma casa de um sé dormitério, toda simétrica ¢ muito bem organizada, nos subtirbios de Chicago.” Olhando pelas amplas vidragas um carvalho © a noite que se aproxima, temos a chance de retomar 0 contato com um eu mais solitério ¢ meditativo que, de outra mancira, nos escaparia. Nossas facetas tranquilas podem reemergir, encorajadas pelos ritmos regulares das esquadrias de ago. A suavidade ganha ainda mais valor com as pregas delicadas de uma cortina gigantesca que envolve toda a clegante area de convivéncia. O nosso interesse por uma felicidade afével € modesta ¢ reforcado pela simplicidade despretensiosa de um terrago revestido com piso cerimico. Uma obra de arte nos ajuda @ retornar 3s partes faltantes da nossa personalidade. Como nao sio as mesmas coisas que faltam a todos nés, as obras de arte com capacidade de restaurar nosso equilibrio e, portanto, de nos despertar entusiasmo variaro muito. Imagine que somos funcionérios ‘numa das repartiges mais soporiferas do servigo publico da Noruegs, situada na cidadezinha de Trondheim, idilica mas bastante parada, perto do Circulo Artico. Altima vez que sentimos uma emogio intensa foi muitos anos atrés, talvez na universidade. Os dias passam com a regularidade de um relégio, Sempre chegamos em casa as 17h15 ¢ fazemos palavras cruzadas antes de deitar. Nessas condigdes, a ultima ~ coisa de que precisamos ¢ morar numa casa de Mies van der Rohe, com sua ordem impecivel. Pelo contrario, talvez nos recomendem uma boa miisica lamenca, os quadros de Frida Kahlo e a arquitetura da Catedral de Santa Prisca y San Sebastidn, no México" — variedades de arte que ajudariam a reinjetar vida em nossa alma modorrenta 2 mh Newodologis Arte como teropia A ideia de que a arte ajuda a nos reequilibrar emocionalmente talvez, responda ao velho debate sobre as grandes diferengas de gosto estético das pessoas. Por que alguns gostam da arquitetura minimalista ¢ outros dda barroca? Por que alguns se entusiasmam com paredes de concreto ‘vas ¢ outros com as estampas florais de William Mortis? Nossos gostos dependerio do leque de nossa constituigdo emocional que fica & sombra ¢, portanto, precisa de estimulo ¢ reforco. Toda obra de arte vem imbuida de certa atmosfera moral ¢ psicolégica: um quadro pode ser tranquilo ‘0u agitado, arrojado ou cauteloso, modesto ou confiante, masculino ou feminino, burgués ou aristocratico, e a preferéncia por um ou por outro reflete lacunas psicolgicas variadas. Queremos obras que compensem nossas fiagilidades internas € nos ajudem a voltar a um meio-termo viavel. Dizemos que uma obra ¢ bela quando prové as virtudes que nos faltam € dizemos que ¢ feia quando nos impée temas ou estados de espitito que nos ameagam ou jé nos dominam. A arte promete a completude interior. ‘Nio sio s6 os individuos que podem usar a arte para suprir 0 que falta & vida. Grupos e até sociedades inteiras podem recorrer 8 arte para equilibrar sua existéncia. O poeta, dramaturgo e Fldsofo alemio Friedrich Schiller desenvolveu essa ideia em “Sobre a poesia ingénua € sentimental”, ensaio publicado em 1796, Chamava-lhe a atencio que os artistas e dramaturgos na Grécia antiga pouco se importassem com a paisagem. Schiller argumentou que isso fazia sentido, por causa da mancita como viviam. Passavam os dias ao ar livre, moravam em. cidadezinhas cercadas de mares ¢ montanhas. Ele disse que “os gregos nio tinham perdido a natureza dentro de si”. Por isso, refletiu, ‘no sentiam nenhuma grande vontade de criar objetos externos nos quais pudessem recupert-la”. Conclui-se, entio, que a arte muito voltada para 0 mundo natural s6 seria valorizada quando houvesse alguma necessidade especial. “Quando a natureza comeca a desaparecer gradualmente da vida humana como experiéncia direta, nds a vemos emergir no mundo do poeta como ideia.” Quando a vida se torna mais complexa ¢ artificial, quando nio se vive tanto 20 ar livre, aumenta o desejo por uma simplicidade natural que compense. Schiller conclui: “E de se esperar {que a nagio que mais avangou para o no natural seja a mais tocada pelo fendmeno do naif: Essa nagio é a Franca.” Como que confirmando sua hipétese, poucos anos antes a finada rainha Maria Antonieta da Franga mandara construir uma imitagio de chicara perto do palicio de Versalhes, onde podia se entreter assistindo & ordenha das vacas.” Podemos entender os desequilibrios especificos de um periodo histérico vendo quais obras de arte voltam a ganhar popularidade na época. Quando se renova o interesse pelas pinturas italianas de Thomas Jones? u