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ENTREVISTA EXCLUSIVA COM

A JURADA DO SHARK TANK


CAMILA FARANI
EDIÇÃO ESPECIAL
MULHERES
EMPREENDEDORAS
O INFERNO SÃO
OS OUTROS
COMO LIDAR COM
ECO N O M I A C R I AT I VA
ASSÉDIO, VÍCIO
C A B EÇ A DIGITAL E CONFLITO
DE GERAÇÕES

NAS
NU V E N S ,
Silvia Cruz, fundadora
da distribuidora de
filmes Vitrine

P ÉS N O
CH ÃO
CRIE NEGÓCIOS
LUCRATIVOS COM
GRAFITE, FOTOGRAFIA,
MODA, MÚSICA, CINEMA
E ARTES PLÁSTICAS
SUMÁRIO MARÇO / 2018
6 CARTA DO EDITOR 30 ENTREVISTA

13 GRANDES IDEIAS CAMILA FARANI


13 A NOVA TURMA DO RH
Ela concilia sua atuação como um dos “tubarões”
16 MULHERES QUE RISCAM do Shark Tank com as atividades do Grupo Boxx
e da butique de investimentos G2 Capital.
18 CONTADORA DE HISTÓRIAS Camila está em peso nas redes sociais —
e, nos negócios, tem um mar a conquistar
20 MENTORIA DE INCLUSÃO
22 CIÊNCIA DE ALTO IMPACTO
CAPA
23 SOB NOVA DIREÇÃO
36
24 VOZES DIGITAIS
ELAS LUCRAM
26 PERFIL DAS MULHERES À
FRENTE DOS NEGÓCIOS COM ARTE
Empreendedoras que são referência
na sua área de atuação — fotografia,
grafite, música, moda, cinema e
artes plásticas — mostram como
é possível superar os desafios do
mercado e a falta de acesso ao capital.
Inspire-se nessas mulheres que
descobriram a arte de empreender

MAIS NO SITE

A estilista Jordana Donni tem uma marca


que desenvolve roupas multifuncionais.
Um vestido, por exemplo, pode ser
transformado em 5 modelos diferentes
https://glo.bo/2owahau

FOTO:
CAROL QUINTANILHA
50 PERFIL

ELA QUER MUDAR


O MUNDO DAS STARTUPS
À frente da Alice, Carolyn Rodz
lançou uma aceleradora online e uma
plataforma virtual totalmente dedicadas
às empreendedoras. Seu objetivo: criar
um ecossistema com oportunidades
iguais para homens e mulheres

FAÇA PARTE DA MAIOR E MAIS IMPORTANTE COMUNIDADE DE EMPREENDEDORISMO DO BRASIL

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4 pequenas empresas & grandes negócios MARÇO, 2018


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56 76 TECNOLOGIA
SÓ NO SITE
ARTIGO RESPEITEM MEUS
A DIFERENÇA COMEÇA NO PITCH CABELOS COR-DE-ROSA STARTUPS
Para virar o jogo e ter acesso
a capital, as empreendedoras
Como Therese Tucker venceu MODA NO LIXÃO
o preconceito e criou uma
devem adotar métricas financeiras
empresa de tecnologia
precisas e mostrar todo o potencial
avaliada em US$ 2 bilhões
de crescimento do negócio

58
INOVAÇÃO
A VOLTA AO MUNDO
EM 30 STARTUPS
As empreendedoras Adriana
Ao viajar por 24 países, duas brasileiras Tubino e Itiana Pasetti criaram
viram como a vida das empreendedoras a Revoada, que transforma
é difícil. Também identificaram que 87 COMO FAZER lixo em artigos da moda. A
uma ideia consolidada em um lugar startup usa câmaras de pneus
pode se tornar inovadora em outro 88 GESTÃO para fazer carteiras e bolsas.
Tecidos de guarda-chuvas
A NOVA ETIQUETA também ganham nova função
DO RH https://glo.bo/2FbF0D6
68 Fim das fronteiras entre
público e privado, convivência
MENTORIA entre diferentes gerações, TUDO PARA FESTAS
denúncias de assédio sexual:
DUPLAS PERFEITAS saiba como enfrentar
Do encontro entre os comportamentos que
empresárias de desafiam antigas regras
sucesso e jovens de gestão de pessoas
fundadoras
surgem lideranças
femininas
capazes de criar
os negócios de
impacto do futuro

MAIS NO SITE A Celebrar nasceu do TCC da


empreendedora Camila
Com seus mentores, os empreendedores Florentino. Ela se juntou a outras
podem aprender o que há de novo em 94 COMO EU FIZ quatro mulheres para criar uma
gestão e tirar dúvidas sobre os processos plataforma online que mostra
da empresa. Descubra as razões positivas 98 VIDA DIGITAL opções de fornecedor para
para conquistar esse tipo de orientação pessoas que organizam eventos
https://glo.bo/2CMswg3 LORRANA SCARPIONI https://glo.bo/2CqsezA

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de Pequenas Empresas & Grandes Negócios. Em
Os faturamentos publicados nas matérias são informados pelas próprias empresas. caso de dúvida, escreva para pegn@edglobo.com.br.

MARÇO, 2018 pequenas empresas & grandes negócios 5


AO LEITOR

UMA REVISTA FEITA POR MULHERES


SOBRE MULHERES
PARA HOMENS E MULHERES COLABORADORAS

Faz quase dez anos. Mas parecem cem. Em uma tar-


de especialmente gélida do santo ano de 2010, ouvi
a recomendação de um professor de empreendedo-
rismo de que não deveria colocar mulheres na capa
de Pequenas Empresas & Grandes Negócios,
sob o argumento de que elas não tinham empresas
maduras e, portanto, os reais leitores, homens, não Adriana Carvalho @adrianakomura @anamegda @anarovati
se identificariam com o título. À época, havia ainda Jornalista Ilustradora Ilustradora Fotógrafa
o estranhamento de que uma mulher estivesse à
frente de um título de negócios. Mas ninguém es-
tranhava reportagens em que fossem todos homens
os personagens, as fontes entrevistadas e a capa.
Conselho descartado, PEGN intensificou a cober-
tura de negócios fundados por mulheres, lançou a
primeira edição especial Mulheres Empreendedo-
ras, inspirou e apoiou novas comunidades, e criou
o Prêmio Grandes Mulheres, a caminho da terceira
Andressa Basílio @annafisher Beatriz Velloso Bel Moherdaui
edição. Continua forte como nunca o nosso compro- Jornalista Fotógrafa Jornalista Jornalista
misso em dar visibilidade para o trabalho de quem,
ao longo da história, ocupou papel coadjuvante ou
até invisível, dentro e fora do mundo dos negócios.
Esta edição, realizada de ponta a ponta por mãos fe-
mininas*, de repórteres a ilustradoras, de editoras
a fotógrafas, de pesquisadoras a empreendedoras,
é, portanto, mais que uma homenagem relacionada
à efeméride de março, um manifesto. Chegamos a
2018 com um movimento global sem precedentes
@bmalagoli @camilacornelsen @camisgray @carolquintanilha
por direitos, igualdade e justiça para as mulheres. Ilustradora Fotógrafa Ilustradora Fotógrafa
Meu desejo é que, daqui a pouco, não seja mais pre-
ciso explicar as razões de tê-las em todos os fronts
e editorias, como fonte de inspiração para outras
mulheres, e para os homens também.

Sandra Boccia
@danitovix @helenawolfenson @ilanabessler @jul.arodr.gues
Diretora de Redação Fotógrafa Fotógrafa Fotógrafa Fotógrafa
Sandra Boccia

* Registro aqui o meu muito obrigada a todas as meni-


nas da Redação, que têm seus nomes no expediente da
revista, e a três honrosas exceções que contribuíram,
nos bastidores, para esse número especial: Alex Var-
gas Cassalho, diretor de arte, que tem uma irmã gê-
mea, Aline, e os editores Marcelo Moura e Thomaz Go- Lara Silbiger Maria Isabel Moreira Paula Pacheco @raquelbrust
mes, pais, respectivamente, de Lucia, 7 anos, e Alice, 6. Jornalista Jornalista Jornalista Fotógrafa

6 pequenas empresas & grandes negócios MARÇO, 2018 FOTO: ACERVO PESSOAL / DIVULGAÇÃO

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EXPEDIENTE

DIRETOR GERAL: Frederic Zoghaib Kachar


DIRETORA DE MERCADO ANUNCIANTE: Virginia Any
DIRETOR EDITORIAL: Fernando Luna

DESEJA FALAR COM A


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REDAÇÃO ÉPOCA NEGÓCIOS E PEQUENAS EMPRESAS & GRANDES NEGÓCIOS 4003-9393
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www.sacglobo.com.br
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ASSISTENTES DE REDAÇÃO: Mariana Alves da Silva e Sabrina dos Santos Bezerra 3767-7889 | 3736-7205 | 3767-7557
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Laís Rigotti, Cássio Dias Pelin (revisão); Ana Rovati, Anna Fischer, Camila Cornelsen, Carol Quintanilha, Daniela Toviansky, Helena Wolfenson, Ilana Bessler,
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Horta Hashimoto; EXECUTIVOS MULTIPLATAFORMA: ESCRITÓRIOS REGIONAIS Rodrigo Girodo Andrade PROJETOS ESPECIAIS: Luiz será atendido pelo jornaleiro
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Larissa Ortiz AUDIÊNCIA de estoque. Faça seu pedido
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da Costa Juliane Ribeiro Silva, Maria Cristina Machado e Pedro Almeida e Patricia Aparecida Fachetti
Paulo Rios Vieira dos Santos
SEGMENTOS — MOBILIDADE, SERVIÇOS PÚBLICOS ESTRATÉGIA DIGITAL
E SOCIAIS, AGRONEGÓCIOS, INDÚSTRIA, SAÚDE, BRASÍLIA COORDENADOR: Santiago Carrilho
EDUCAÇÃO, TURISMO, CULTURA, LAZER, ESPORTE GERENTE MULTIPLATAFORMA: Barbara Costa Freitas DESENVOLVEDORES: Alexsandro Macedo, Fabio
DIRETOR DE NEGÓCIOS MULTIPLATAFORMA: Renato Silva; EXECUTIVOS MULTIPLATAFORMA: Jorge Bicalho Marciano, Fernando Raatz, Leandro Paixão, Marden O QUE É O G.LAB
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MULTIPLATAFORMA: Cristiane Soares Nogueira, Diego qualidade patrocinados por empresas
Fabiano, João Carlos Meyer e Priscila Ferreira da Silva OPEC OFF LINE: Carlos Roberto de Sá, Douglas Costa e ESTRATÉGIA DE CONTEÚDO DIGITAL que contratam seus serviços. Esses
DIRETORA DE NEGÓCIOS MULTIPLATAFORMA: Sandra Bruno Granja GERENTE: Silvia Balieiro conteúdos são identificados por
Regina de Melo Pepe; EXECUTIVOS DE NEGÓCIOS OPEC ONLINE: Danilo Panzarini e Rodrigo Pecoschi expressões como “apresenta”,
MULTIPLATAFORMA: Dominique Pietroni de Freitas e “apresentado por”, “oferecimento”,
Lilian de Marche Noffs EGCN “especial publicitário”, “conteúdo
CONSULTORA DE MARCAS: Olivia Cipolla Bolonha publicitário”, “publieditorial” e “promo”.

NOSSOS VALORES
Fundada há 29 anos, a Revista Acreditamos que é possível fazer Acreditamos que o empreendedorismo conhecimento produz experiências
Pequenas Empresas & Grandes aquilo que você gosta. E lucrar com isso pode e deve ser promovido e ensinado nas mais ricas
Negócios tem por missão ajudar Acreditamos que é possível ter lucro escolas de todo o país, para despertar Acreditamos que a informação precisa,
pessoas inovadoras a transformar criando um ambiente de trabalho talentos e habilitar os cidadãos a clara e de qualidade seja um instrumento
ideias em grandes realizações. As saudável, inspirador e causando um administrar seus negócios capaz de transformar e aperfeiçoar
reportagens da revista apresentam impacto positivo na sociedade Acreditamos no empreendedorismo empreendedores, empresas e relações
oportunidades de negócios para Acreditamos na inovação e na força como chave para a realização de sonhos de trabalho
micro, pequenas e médias empresas criativa que vem das novas empresas Acreditamos que o empreendedorismo Acreditamos que todas as empresas,
e têm o compromisso de informar o Acreditamos no empreendedorismo está alinhado com a visão de mundo independentemente do tamanho, devem
que há de mais moderno em conceitos como pilar essencial para uma (trabalho com diversão e senso de adotar práticas ambientalmente
de gestão, marketing, estratégia, economia equilibrada e para uma propósito) das novas gerações corretas e gerar lucro de modo
finanças e tecnologia. melhor distribuição de riquezas Acreditamos que compartilhar sustentável

O Bureau Veritas Certification, com base nos processos e procedimentos descritos no


seu Relatório de Verificação, adotando um nível de confiança razoável, declara que o
Inventário de Gases de Efeito Estufa - Ano 2011, da Editora Globo S.A., é preciso, confiável
e livre de erro ou distorção e é uma representação equitativa dos dados e informações de
GEE sobre o período de referência, para o escopo definido; foi elaborado em conformidade
com a NBR ISO 14064-1:2007 e Especificações do Programa Brasileiro GHG Protocol.

P equenas e mPresas & G randes n eGócios é uma publicação mensal da EDITORA GLOBO S.A. – Av. 9 de Julho, 5.229, Jardim Paulista, São Paulo (SP), CEP 01407-907 – Tel. 11 3767-7000. Distribuidor para todo o Brasil: Dinap -
Distribuidora Nacional de Publicações; Impressão: Plural Indústria Gráfica Ltda. – Avenida Marcos Penteado de Ulhoa Rodrigues, 700 – Tamboré – Santana de Parnaíba, São Paulo, SP – CEP 06543-001

8 pequenas empresas & grandes negócios MARÇO, 2018

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APRESENTADO POR

TECNOLOGIA
PARA O
PROGRESSO
HUMANO
A revolução digital impulsiona ideias inovadoras
que impactam positivamente a vida das
pessoas e transformam o cenário dos negócios

L
ívia queria melhorar o crônicas a lembrar o horário de Testado atualmente em cinco QUALIDADE
tratamento de pessoas tomar medicamentos, envia projetos piloto, o Pluvi.on, da DE VIDA
com doenças crônicas. alertas para médicos e familia- startup de Diogo Tolezano, O aplicativo
CUCO
Diogo não entendia a falta de res e tem ferramentas de avalia- também promete fazer a dife- Health,
um sistema eficaz de previsão ção da saúde e qualidade de vida. rença. Cruzando fatores climá- criado por
e alerta de catástrofes natu- Com lançamento ao público ticos coletados em estações Lívia Cunha,
já está nos
rais tão corriqueiras no país, previsto para este semestre, o meteorológicas portáteis com celulares de
como enchentes e deslizamen- app Woole, desenvolvido pela bases de dados históricos, o mais de 70
tos. André sonhava em indicar equipe de André Arcas, benefi- sistema produz relatórios mais mil pessoas
os melhores caminhos para ciará ciclistas indicando rotas precisos sobre possibilidades
ciclistas urbanos que, como ele, personalizadas para deslocar-se de deslizamentos e enchentes,
usam a bike como meio de trans- pelas cidades. Além de selecio- além de fornecer informações
porte e sofrem com ladeiras e nar entre três opções de caminho essenciais para empresas de
rotas perigosas. Foram essas as — priorizando segurança, rapi- setores como agricultura, cons-
forças motrizes que motivaram dez ou menor esforço físico —, trução civil e transportes faze-
esses jovens empreendedores os bikers terão acesso a informa- rem seus planejamentos.
a buscar soluções tecnológi- ções sobre bicicletários, oficinas Projetos como o CUCO
cas para problemas que afetam e lojas especializadas. Health, o Woole e o Pluvi.on
milhares de pessoas no país. provam que a tecnologia assu-
A revolução digital que esta- miu um papel transformador
mos vivendo impulsiona não na sociedade e nos negócios.
apenas a criação de projetos PORTFÓLIO DE No universo das startups, ela
disruptivos como os que eles COMPUTADORES geralmente faz parte do DNA da
idealizaram, mas também o CORPORATIVOS E companhia desde o seu nasci-
fácil acesso da população a essas RECURSOS DE mento, mas também tem papel-
ferramentas inovadoras. O apli- SEGURANÇA -chave no desenvolvimento
cativo CUCO Health, criado por CRIADOS PELA DELL do cotidiano de pequenas e
Lívia Cunha, já está nos celula- TÊM FOCO EM médias empresas tradicionais.
res de mais de 70 mil pessoas. PEQUENOS E MÉDIOS “A tecnologia é, hoje, o princi-
Ele ajuda pacientes com doenças EMPREENDEDORES pal combustível para o aumento
PREVISÃO
O sistema
Pluvi.on,
criado pela
startup de
Diego
To lezano,
cruza dados
históricos
para prever
ocorrências
climáticas

Produtos e serviços
moldados para as pequenas
MOBILIDADE
André Arcas reúne uma linha completa de e médias empresas
lançará um produtos preparada para suprir
aplicativo as demandas por produtivi- VOSTRO
para
beneficiar dade, portabilidade, segurança, A linha de
ciclistas confiabilidade e bom custo- computadores
-benefício, próprias do setor da Dell projetada
(veja quadro). especificamente
O atendimento inovador às para esse setor reúne qualidades como os
da produtividade para compa- pequenas e médias empresas é mais modernos recursos de segurança em
nhias desse patamar, pois outro diferencial. A Dell desen- hardware e software, fácil gerenciamento,
ajuda a impulsionar os negócios volveu um serviço pioneiro alto desempenho para tarefas corporativas,
rumo ao sucesso no ambiente de suporte capaz de antecipar alta resistência, além de modelos
de t r a n sfor mação d ig ita l problemas com os equipamen- de notebook com leitor biométrico para
em que vivemos”, diz Diego tos e também oferecer uma solu- entrada no sistema e proteção contra
Puerta, vice-presidente para ção proativa, antes mesmo que malware e outras ameaças virtuais.
Consumidor Final e Pequenas o caso gere qualquer prejuízo
Empresas da Dell no Brasil em produtividade. Na prática, a DELL DATA PROTECTION /
Dia nte desse contex to, Dell se transforma em um braço SECURE LIFECYCLE
surgem novos desafios às complementar de TI para essas Avançado sistema para
médias e pequenas empresas. empresas. “Esse formato de aten- proteção de dados
Elas se veem obrigadas a lidar dimento permite que o cliente para os PCs corporativos,
com questões como manuten- foque no seu negócio, enquanto que inclui criptografia, monitoramento
ção do parque de equipamentos, a Dell garante um ecossistema de e gerenciamento de acesso dos
segurança de dados e escolha equipamentos preparado para arquivos, prevenção contra vazamento
de computadores que aten- suportar o crescimento contínuo de dados e gestão de direitos digitais.
dam suas necessidades mesmo de produtividade”, diz Puerta.
trabalhando com uma estru- Livre de entraves técni- PROSUPPORT PLUS
tura de TI enxuta ou sem contar cos e com acesso a produtos Único serviço de suporte
com profissionais dedicados ao que incentivam a criatividade, do mercado a oferecer
suporte das operações. Ciente quem está à frente de startups um atendimento proativo
desse cenário, a Dell desenvol- e de pequenas e médias empre- e preditivo para prevenir
veu um portfólio de computado- sas economiza recursos impor- e resolver problemas relacionados
res corporativos, com foco em tantes, otimiza o trabalho da aos equipamentos, com atendimento
inovações práticas e recursos de sua equipe e ganha um tempo 24 horas, troca de equipamentos
FOTOS: DIVULGAÇÃO

segurança, voltado especifica- precioso para impul sionar em caso de danos acidentais e
mente ao mercado de pequenos ideias transformadoras para o soluções para problemas de software,
e médios empreendedores. A seu negócio e, por que não, para entre outros benefícios.
família de equipamentos Vostro toda a sociedade.
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MONITORE O TEMPO E
AUMENTE A PRODUTIVIDADE
DE SUA FAZENDA
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se uniram para te ajudar a acompanhar
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EMPRESAS E
PESSOAS QUE
INSPIRAM

RECURSOS HUMANOS

A NOVA
TURMA DO RH
Ao incorporar ferramentas de
tecnologia em processos de
gestão de pessoas,
as HR Techs entraram no
radar de grandes corporações
e fundos de investimento

Paula Pacheco

FOTO: GETTY IMAGES MARÇO, 2018 pequenas empresas & grandes negócios 13
GRANDES IDEIAS RECURSOS HUMANOS

D
e tempos em tempos surge um grupo de
startups que se destaca pela criação de so- HÁ VAGAS
luções para um determinado setor. Este é o
caso das HR Techs, como são chamadas as O potencial das startups
empresas focadas nas demandas de profis- de tecnologia no setor de
sionais de recursos humanos. Com soluções que au- recursos humanos
mentam a eficiência de processos de recrutamento e

US$ 140
gestão de pessoas, essa nova leva de startups desperta
o interesse de grandes corporações e fundos de inves-
timento. DeacordocomaHRTechnologyDisruptions,

BILHÕES
pesquisa realiza-
da pela consultoria
Deloitte, as HR Te-
é o valor gasto anualmente com
chs receberam US$
programas de treinamento e
1,8 bilhão em apor- desenvolvimento. Desse total,
tes nos últimos dois cerca de US$ 5 bilhões são
anos — US$ 900 mi- investidos em plataformas de
lhões injetados du- capacitação profissional
rante o primeiro se-
mestre de 2017.

US$ 1,8
Entre as startups
brasileiras que se
destacam no setor,
está a Pin People.
Fundada em 2014
por Isabella Bote- BILHÃO
foi o total de aportes recebidos
lho, 30 anos, e Fre-
derico Lacerda, 31, por HR Techs em 2017
a empresa oferece
SELEÇÃO
uma plataforma que identifica os perfis de profis-

70%
INTELIGENTE
sionais mais adequados para ocupar vagas em aber- Isabella Botelho,
to. A tecnologia tem como base o preenchimento de da Pin People:
tecnologia
questionários nos quais colaboradores, candidatos e para mapear
gestores definem o seu estilo de trabalho e a cultura profissionais é a redução do tempo gerada
organizacional da empresa. As informações são cru- alinhados à pelo uso de ferramentas de
cultura da tecnologia em processos de
zadas e transformadas em relatórios que analisam a empresa recrutamento e seleção
sinergia entre os profissionais e os perfis desejados
pelo contratante. “A maioria das empresas costuma

US$ 1,2 MIL


contratar pela competência e demitir pelo comporta-
mento. Nosso objetivo é inverter essa lógica e tornar
o processo de seleção mais assertivo”, afirma Isabella.
Em três anos de operação, a Pin People contabili-
é o valor médio que grandes
za mais de 50 mil profissionais mapeados. Segundo empresas investem na
a fundadora, o sistema reduz o tempo de processos formação de um funcionário
seletivos em até 73 horas, dependendo do volume de
candidatos analisados. O modelo de negócio é basea-

45%
do na cobrança de assinaturas — o pacote básico cus-
ta R$ 1,6 mil por ano. A lista de clientes inclui o ban-
co Santander e as consultorias Accenture e KPMG.
“Além de tornar o processo mais ágil, o uso de tecno- das corporações pretendem
logia evita que as informações se percam em fichas aumentar seus gastos com
e papéis. Isso termina gerando um banco de dados tecnologias de RH em 2018.
muito mais confiável”, afirma Isabella. O índice entre negócios de
pequeno e médio porte é de 5%

FONTE: DELOITTE - HR TECHNOLOGY DISRUPTIONS FOR 2018

14 pequenas empresas & grandes negócios MARÇO, 2018 FOTO: DIVULGAÇÃO

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RECRUTAMENTO AMIGO
Duas startups que facilitam a relação
entre candidatos e recrutadores
de grandes empresas

LOVE MONDAYS PYMETRICS

A Love Mondays desenvolveu uma plataforma que reú- Baseada em Nova York, a Pymetrics usa ferramentas
ne resenhas sobre salários e ambientes de trabalho em de inteligência artificial para identificar candidatos
grandes corporações e startups. As avaliações são fei- aptos a ocupar vagas de alto desempenho. O siste-
tas anonimamente pelos próprios funcionários das em- ma tem como base a aplicação de jogos de neuroci-
presas. Para acessar as que tratam da remuneração, os ência. As sessões duram 20 minutos e incluem análi-
usuários precisam compartilhar informações sobre os ses de inteligência cognitiva e emocional. O objetivo
próprios empregos. Lançada em 2013 por Luciana Ca- é oferecer uma solução mais assertiva do que os tra-
letti, 37 anos, a startup paulistana reúne uma base de dicionais testes de personalidade aplicados por ges-
mais de 3 milhões de profissionais cadastrados. Em- tores de recursos humanos. Fundada pela dupla de
presas como B2W, Oracle, Ambev, Buscapé e Avon fa- cientistas americanas Frida E Polli e Julie J Yoo, a star-
zem parte da carteira de clientes. “Os gestores podem tup oferece soluções para o planejamento de carrei-
acessar a plataforma para fazer correções no ambiente ras de colaboradores internos. O público-alvo são as
de trabalho a partir das críticas dos próprios colabora- grandes corporações — a consultoria Accenture e a
dores. As empresas bem avaliadas, por sua vez, podem Unilever estão entre as 50 empresas que já testaram
aumentar a sua atratividade com anúncios e avaliações o serviço. Cerca de quatro anos após o início da ope-
positivas”, afirma Luciana. No final de 2016, a Love Mon- ração, a Pymetrics levantou mais de US$ 16 milhões
days foi adquirida pela americana Glassdoor. A chegada em fundos internacionais de capital de risco. A últi-
do novo controlador deu início a uma estratégia de ex- ma rodada foi realizada em setembro do ano passa-
pansão internacional — o serviço está disponível na Ar- do, quando as fundadoras receberam US$ 8 milhões
gentina e no México desde o ano passado. do Jazz Venture Partners.

MARÇO, 2018 pequenas empresas & grandes negócios 15


GRANDES IDEIAS ECONOMIA CRIATIVA

MULHERES QUE RISCAM


Com uma proposta voltada exclusivamente para o público feminino, o estúdio Cadê Amélia
realiza até 250 sessões de tatuagem por mês

Andressa Basilio

Instalado em um edifício com vis-


ta panorâmica para o Lago Guaíba, 1.
um dos cartões-postais de Porto
Alegre (RS), o Cadê Amélia reúne
uma equipe de tatuadoras especia-
lizadas no atendimento ao público
feminino. O estúdio gaúcho é co-
mandado pela publicitária Glaura
Gonçalves, 42 anos. Ao observar o
desconforto que muitas mulheres
sentiam em estabelecimentos do
setor, Glaura investiu R$ 65 mil pa-
ra criar um ambiente mais acolhe-
dor para clientes de diversos per-
fis e faixas etárias — o local reúne
elementos como móveis coloridos,
jardim de inverno e cadeiras ergo-
nômicas. “A maioria dos estúdios
costuma ter ambientes escuros e
salas de tatuagem compartilhadas.
Isso faz com que muitas mulheres
não se sintam à vontade para tirar
uma peça de roupa, por exemplo”,
1. Glaura Gonçalves,
afirma Glaura. (ao centro),
Composta pelas artistas Karime fundadora do Cadê 2. SÓ PARA ELAS
Amélia, ao lado das
Ferran e Vitoria Lisboa, a dupla de tatuadoras Karime
Considerado um
tatuadoras do Cadê Amélia realiza Ferran (à direita) e
dos pioneiros no
Vitoria Lisboa
entre 200 e 250 sessões por mês. 2. Para dar mais atendimento exclusivo
Os estilos variam entre lettering privacidade ao público feminino,
às clientes, as o Sampa Tattoo
(baseados em palavras e frases), tatuagens do
iniciou suas atividades
aquarela e desenhos minimalistas. estúdio são feitas
em 2015. Com duas
em sessões
O tíquete médio é de R$ 300. Além individuais unidades em operação,
das tatuagens, o Cadê Amélia ofe- 3. Os estilos de o estúdio reúne uma
tatuagem do
rece serviços de piercing e micro- estúdio incluem
equipe formada
pigmentação (técnica que simula trabalhos de traços por dez tatuadoras
finos, mandalas residentes. Entre elas
efeitos de maquiagem permanen- e desenhos
3. está a fundadora,
te). De acordo com Glaura, o fluxo minimalistas
Samantha Sam, que
de clientes tende a ser reforçado criou a empresa ao
com o incremento de novos servi- lado de Yuri Muramaki,
sócio do estúdio
ços voltados exclusivamente ao pú- Shimada Tattoo.
blico feminino, como coworkings, Os estilos oferecidos
aplicativos de transporte e acade- pelo espaço incluem
mias de ginástica. “O tempo em que pontilhismo,
as mulheres tinham pouca liberda- aquarelas e retratos
realistas.
de para fazer determinadas ativida-
des está acabando. Aquela Amélia
imortalizada pela canção do Mário
Lago não existe mais”, afirma.

16 pequenas empresas & grandes negócios MARÇO, 2018 FOTOS: DIVULGAÇÃO

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GRANDES IDEIAS MARKETING

CONTADORA DE HISTÓRIAS
Uma das principais mentes por trás da programação do Farol Santander,
Tatiana Wlasek quer transformar a Storymakers em uma referência
no mercado de conteúdo e entretenimento publicitário

Andressa Basilio Helena Wolfenson

Considerado um dos cartões-postais


de São Paulo, o antigo edifício do Ba-
nespa abriu novamente suas portas
no início de janeiro. O espaço foi re-
batizado de Farol Santander e passou
iniciativas de fomento ao empreen-
dedorismo e onze andares de ativi-
dades abertas ao público — dois de-
les dedicados a exposições e projetos
culturais. O projeto leva a assinatura
da Storymakers, agência comanda-
da pela paulistana Tatiana Wlasek, 35
anos. Lançada em setembro de 2016,
a empresa tornou-se conhecida pela
criação de projetos de marketing de
experiência para marcas como Jeep
e Natura. “Em vez de trabalhar com
briefings fechados, fazemos um le-
vantamento dos assuntos e sensa-
ções que nossos clientes desejam
provocar”, afirma Tatiana.
Formada em comunicação social
pela New York University, Tatiana
despontou para o mercado publicitá-
rio em 2009, quando assumiu a direto-
ria de novos negócios da Holding Clu-
be, grupo fundado pelo empresário Jo-
sé Victor Oliva, do qual a Storymakers
faz parte. No comando da nova agên-
cia, ela deu início a uma série de aqui-
sições. A estratégia incluiu a compra
de participações na Pazetto Eventos,
especializada em mercado de luxo, e
na Panda Criativo, organizadora do
Festival Path. “A ideia é retroalimentar
nossas equipes de criação e vendas.
O cruzamento entre esses negócios é
essencial para desenvolver projetos e
conteúdo de qualidade”, diz Tatiana.

18 pequenas empresas & grandes negócios MARÇO, 2018


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GRANDES IDEIAS ACELERADORAS

MENTORIA DE INCLUSÃO
Com base em programas de aceleração e laboratórios de inovação, o programa
Blackrocks pretende aumentar a diversidade racial no mercado de tecnologia

Andressa Basilio

A diversidade racial ainda é um tema a verdade é que homens brancos, cis- Como é feita a seleção do time de
pouco discutido no ecossistema de gêneros e de alto poder aquisitivo ain- mentores?
startups brasileiro. Para tentar rever- da lideram a maior parte das iniciativas Quantos mentores negros partici-
ter esse cenário, o Blackrocks oferece de inovação que ocorrem no país. Isso pam de programas de grandes acele-
workshops e ciclos de aceleração pa- faz com que o ecossistema de tecnolo- radoras? São muito poucos. Então, a
ra profissionais negros que atuam no gia e startups fique bastante limitado. primeira coisa que fiz foi buscar pro-
mercado de tecnologia. fissionais competentes
Criado em 2016 pela psi- que estavam fora do ra-
cóloga Maitê Lourenço, dar do mercado. Estu-
33 anos, o programa já dei os currículos dos
foi responsável por pa- mentores das princi-
lestras e workshops pais aceleradoras do
em eventos realizados país e busquei profis-
por organizações como sionais negros que ti-
Google, Goldman Sachs nham características
e Sebrae. “Nossas ações similares. Em muitos
impactaram mais de casos, faltava a eles vi-
400 pessoas nos últimos vências internacionais
seis meses. Ao chamar a e diplomas de faculda-
atenção do mercado pa- des de primeira linha.
ra novas oportunidades, Mas a experiência pro-
conseguimos ampliar o fissional desses novos
alcance das soluções de nomes era praticamen-
nossos empreendedo- te a mesma dos mento-
res”, afirma Maitê. res que já atuavam no
mercado. A seleção foi
Por que você decidiu feita com base nesses
criar o Blackrocks? critérios. Já temos 35
Mais da metade dos mentores em nossa re-
empreendedores bra- de de apoio.
sileiros — 11 milhões
de pessoas — se decla- Quais são os planos
ram negros. O problema é que as ques- Qual é a principal diferença entre o para aumentar o alcance das inicia-
tões raciais do país não permitem que Blackrocks e os programas de ace- tivas oferecidas pelo Blackrocks?
esses empresários tenham acesso às leração tradicionais? Estamos começando um programa
mesmas oportunidades que o restante A maioria das aceleradoras é focada de pré-aceleração focado no desen-
da população. Nos últimos anos, parti- nas necessidades dos fundadores de volvimento da mentalidade empre-
cipei de diversos eventos que aborda- startups. Nossos programas atendem endedora. Também estamos criando
vam temas ligados à inovação. Perce- às demandas de todos os profissionais projetos de capacitação para profis-
bi que as minhas contribuições eram que trabalham no mercado de tecnolo- sões ligadas à inovação. Além disso,
particularmente valiosas nesses am- gia, como executivos e desenvolvedores. vamos intensificar a realização de
bientes. Ser a única mulher negra e da Além disso, oferecemos ciclos de men- eventos e mentorias. Queremos con-
periferia me permitia pensar em um toria mais acolhedores para pessoas tinuar a multiplicar conhecimento no
contexto de consumo mais abrangen- que estão iniciando-se no setor. Que- setor. Para que isso aconteça, preci-
te. Então, comecei a elaborar um pro- remos que os participantes tenham co- samos de mais parceiros que olhem
jeto que aproveitasse o enorme po- nhecimentos básicos sobre o mercado para a população negra como um pú-
tencial da população negra que quer de tecnologia para que possam empre- blico que precisa ser mais inserido em
acessar esses espaços. Infelizmente, ender mais e de forma mais qualificada. diversas pontas do sistema.

20 pequenas empresas & grandes negócios MARÇO, 2018 FOTO: RENATA URSAIA

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GRANDES IDEIAS INOVAÇÃO

CIÊNCIA DE ALTO IMPACTO


Promovido pela L’Oreal, o programa For Women in
Science incentiva o trabalho de mulheres que se
destacam em diferentes áreas de pesquisa científica

Maria Isabel Moreira

Ao longo de dezenove edições, o programa For Women in Scien-


ce ajudou centenas de mulheres a transformar projetos de ino-
vação científica em soluções de impacto social. Realizada pela
L’Oreal, em parceria com a Unesco, a iniciativa oferece bolsas
de até 100 mil euros para pesquisadoras que atuam em áreas
como saúde, neurociência, física e computação. Em sua ver-
são brasileira, a competição já distribuiu R$ 3,5 milhões para
mais de 80 participantes. A seguir, saiba mais sobre algumas SIMULAÇÕES QUE CURAM
das principais vencedoras da última edição — e os impactos
As chamadas doenças negligenciadas —
do FWS no desenvolvimento de suas linhas de pesquisa. enfermidades que não recebem a devida
atenção da indústria farmacêutica — são o foco
do trabalho da farmacêutica Rafaela Salgado
Ferreira, 35 anos. Baseada na Universidade
Federal de Minas Gerais, ela foi premiada pelo
projeto de combate ao vírus da Zika e à doença
de Chagas. As técnicas incluem simulações
computadorizadas de moléculas que inibem
a ação dos parasitas. Atualmente, Rafaela
passa uma temporada no Centre de Biochimie
Structurale, na França, para aprender novas
técnicas de bioinformática. “O programa foi
essencial para aumentar a visibilidade no meio
científico e na sociedade”, diz.

PRIMEIRA INFÂNCIA
MUNDO EM MINIATURA Coordenadora de um grupo de pesquisadores
A física mineira Jenaina Ribeiro Soares, 30 anos, é especializada
da Universidade Federal do Pampa, em
em pesquisa com nanomateriais (que possuem estruturas de um
Uruguaiana (RS), a neurocientista Pâmela Billig
milionésimo de milímetro). As aplicações práticas de sua linha de
Mello-Carpes, 34 anos, lidera um estudo sobre
estudo incluem sistemas de monitoramento para equipamentos
os impactos da privação de cuidados paternos.
de laboratório e detectores de vazamento de gás em processos
Os resultados indicam, por exemplo, que a falta
químicos. Após vencer a mais recente edição do For Women in
de atenção causa diminuição na plasticidade do
Science, Jenaina recebeu uma premiação adicional de R$ 50 mil
cérebro em filhotes de ratos. A pesquisa mostra
da reitoria da Universidade Federal de Lavras, onde está sediada.
os potenciais benefícios de exercícios físicos
Os recursos foram aplicados na compra de reagentes e no
e antioxidantes. “Recebemos a premiação
financiamento de trabalhos de instrumentação científica. “Estamos
quando os recursos de outras fontes estavam
incentivando os alunos da universidade a montarem os próprios
começando a se esgotar. Investimos o dinheiro
aparelhos de pesquisa. A ideia é que eles abram empresas e iniciem a
na compra e manutenção de reagentes e
produção e a manutenção dos equipamentos dos quais a comunidade
modelos experimentais”, afirma.
científica nacional tanto precisa”, diz Jenaina.

22 pequenas empresas & grandes negócios MARÇO, 2018 FOTOS: DIVULGAÇÃO

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GRANDES IDEIAS TERCEIRO SETOR

SOB NOVA DIREÇÃO


A nova diretora
geral da Endeavor
Brasil fala sobre
os planos da
organização para
criar novas políticas
públicas e melhorar
o ecossistema
empreendedor
do país

identidade mais sólida. As organizações


precisam trabalhar juntas para isso. Es-
tamos vivendo um momento de trans-
formação. As mudanças acontecerão em
uma velocidade muito maior se a comuni-
dade de negócios ficar mais unida.”

Missão e valores
“A Endeavor tem um propósito muito
definido e uma visão clara sobre como
No último ano, os empreendedores mudanças em políticas públicas tam- pretende mudar o ecossistema de em-
apoiados pela Endeavor faturaram bém estarão no nosso foco. Vamos ba- preendedorismo no Brasil. Acho que é
R$ 4 bilhões e geraram mais de 36 mil talhar para tentar destravar a burocra- isso que motiva a maioria das pessoas
empregos. Mas é possível fazer mais cia do ambiente de negócios e promo- que trabalham aqui. A organização me
pelo ecossistema de negócios brasilei- ver a simplificação tributária.” ensinou que é preciso ser sempre a me-
ro. É o que diz Camilla Junqueira, 32 anos, lhor versão de você mesmo. Sabemos
nova diretora-geral da organização. De- Alto crescimento que cada peça é fundamental para cons-
pois de atuar como gerente de comuni- “As scale-ups [empresas que registra- truir a transformação do ecossistema.”
cação e líder de cultura empreendedora, ram crescimento médio de 20% nos úl-
Camilla assumiu o comando da Endeavor timos três anos] precisam de políticas Soluções inovadoras
no início do mês passado. A seguir, ela públicas que favoreçam o acesso a ca- “Os empreendedores carregam as
compartilha sua visão sobre as oportu- pital. Esses empreendedores geram um grandes transformações que o Brasil
nidades e os desafios para os empreen- impacto gigantesco e apresentam uma precisa. Eles criam soluções que co-
dedores do país — e os planos para aju- capacidade enorme de inovação. Ima- locam à prova os modelos que já exis-
dá-los a criar empresas de alto impacto. gine o que eles conseguiriam fazer se tem. A Endeavor apoia diversas empre-
não existissem tantas barreiras impos- sas desse tipo. É o caso do Dr. Consulta
Nova gestão tas pelo nosso ambiente de negócios? A [rede de clínicas populares], que está
“Queremos intensificar o uso de tec- função da Endeavor é educar o ecossis- revolucionando a indústria da saúde.
nologia para fazer grandes transforma- tema. Temos de mostrar quem são es- A Geekie [plataforma de ensino adap-
ções no ecossistema de negócios brasi- sas scale-ups para investidores e gran- tativo] está fazendo o mesmo pela in-
leiro. A ideia é explorar mais ferramentas des empresas — e descobrir o que elas dústria da educação. Os empreendedo-
como big data e machine learning para precisam para crescer ainda mais.” res de alto crescimento mostram como
ampliar o alcance das nossas iniciativas soluções inovadoras geram valor para
de apoio. Sabemos que transformamos Ambiente de negócios um número maior de pessoas — e de
a vida dos empreendedores. Mas ain- “Nosso ecossistema está fervilhando. maneira mais veloz. Acreditamos que
da são poucos. Estamos trabalhando Existe muita coisa legal acontecendo grandes empresas são aquelas que re-
para atingir cada vez mais pessoas. As pelo país. Mas ainda precisamos de uma solvem grandes problemas.”

FOTO: DIVULGAÇÃO MARÇO, 2018 pequenas empresas & grandes negócios 23


GRANDES IDEIAS ACELERAÇÃO

VOZES
DIGITAIS
Em sua última edição, o
Launchpad Accelerator, Cristina Junqueira, cofundadora do
programa de aceleração Nubank, fintech brasileira eleita como
do Google, levou 24 uma das startups mais inovadoras do
startups para duas mundo pela revista Fast Company
semanas de imersão
no Vale do Silício. Estava grávida de sete meses [COO do Facebook]. Uma menina
Além de reunir dois quando começamos a buscar in- tem mais chances de se identifi-
potenciais unicórnios vestidores para o Nubank . O Da- car com alguém que se pareça
— as brasileiras vid Vélez, meu sócio, veio de uma com ela. No caso do Nubank, tive-
Nubank e Grupo Zap carreira sólida na indústria de ca- mos a sorte de entender o valor
VivaReal —, a quinta pital de risco [Vélez liderou a ope- da diversidade desde o início.
turma de participantes ração do fundo Sequoia Capital Mais de 40% de nossa equipe é
se destacou pela na América Latina]. Isso tornou formada por mulheres. Não esta-
presença de negócios nosso processo de captação mui- belecemos cotas para atingir esse
comandados por to mais simples. Mas não foi o su- número. Foi algo que sempre es-
mulheres. Durante um ficiente para amenizar a surpresa teve na mentalidade dos fundado-
painel realizado durante que muitos investidores sentiam res. Acho que ainda vai levar vá-
o evento, as fundadoras ao se deparar com uma gestante rios anos para que as mulheres
dessas startups — uma apresentando um pitch. Assinei tenham acesso às mesmas opor-
brasileira e três indianas os papéis da nossa primeira roda- tunidades que os homens. En-
— compartilharam da na maternidade. Acredito que quanto não chegamos lá, precisa-
suas estratégias para a falta de referências é um dos mos focar nos exemplos de em-
conquistar investidores principais obstáculos para termos presas que fomentam essa
e formar equipes mais mulheres no comando de cultura. Esse trabalho começa
conscientes sobre empresas de tecnologia. Durante dentro de nossas casas. Tenho
equidade de gênero. muito tempo eu tentei ser ‘mais uma filha de seis anos e tento
Confira ao lado os um dos caras’. Depois, percebi que mostrar para ela que não existem
melhores momentos não precisava abandonar a minha diferenças entre o que meninas e
da conversa identidade feminina. Precisamos meninos podem fazer. Outro dia
de modelos de sucesso que não escutei que o sonho dela é cons-
sejam apenas Sheryl Sandberg truir um foguete quando crescer.”

24 pequenas empresas & grandes negócios MARÇO, 2018


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Naiyya Saggi, CEO da Akanksha Hazari, fundadora Nidhi Mathur, COO da Niramai,
BabyChakra, aplicativo da m.Paani, plataforma startup indiana especializada
indiano de apoio a gestantes e indiana de análise de em soluções de diagnóstico
cuidados na primeira infância dados para o varejo de câncer de mama

Percebi que existia uma opor- Assim como muitas empreen- O mercado de tecnologia ain-
tunidade de empreender quando dedoras que buscam investimen- da é um ambiente extremamen-
a minha irmã ficou grávida. Ela to, precisei responder diversas te sexista. Quantos homens são
era uma advogada corporativa perguntas sobre o que acontece- questionados sobre planeja-
com uma postura bastante asser- ria se eu ficasse grávida e como eu mento familiar por clientes e in-
tiva. A descoberta da maternida- iria conciliar a minha vida familiar vestidores? Essa característica
de, no entanto, fez com que ela com a minha rotina profissional. fica bastante evidente no seg-
se sentisse bastante vulnerável Sempre precisei fazer um esforço mento em que atuamos. Nossa
e desorientada. Pensando nisso, extra para convencer as pessoas solução é voltada para o diag-
criei a BabyChakra para tentar sobre o potencial de minha ideia. nóstico de câncer de mama.
ajudar essas mulheres e suas fa- Trata-se de um longo trabalho de Trata-se de algo extremamente
mílias. A captação de aportes foi diálogo e convencimento. Preci- relevante para a saúde das mu-
particularmente complicada. samos encontrar mecanismos que lheres. Mas percebo que mui-
Muitos investidores me pergun- levem a um nível mais elevado de tos homens ainda não conse-
tavam o que aconteceria com a sensibilização sobre as questões guem observar uma imagem ou
empresa caso eu engravidasse. femininas. Isso passa pelo aumen- falar a palavra ‘seio’ sem um
Essas conversas geraram uma to de representação das mulheres certo constrangimento. Isso
dispersão durante a fase inicial em veículos de mídia e órgãos pú- acontece por que eles ainda não
da empresa. A diversidade de gê- blicos. O ideal é que todas as pes- conseguem enxergar as ques-
nero não é o centro do nosso ne- soas fossem simplesmente vistas tões femininas com naturalida-
gócio. Mas prezamos por uma como empreendedoras e não pre- de. Na nossa empresa, a maio-
cultura de tolerância zero a to- cisassem representar papéis ou ria da equipe é composta por
dos os tipos de sexismo. Empre- furar bolhas para chegar onde mulheres. Então, não tem jeito:
sas comandadas por mulheres querem. O apoio do ecossistema os homens que estão lá preci-
não podem dar margem para é essencial para que as mulheres sam simplesmente aprender a
qualquer tipo de atitude sexista.” reforcem suas identidades.” lidar com isso.”

FOTOS: DIVULGAÇÃO MARÇO, 2018 pequenas empresas & grandes negócios 25


GRANDES IDEIAS PESQUISA

PERFIL DAS A EMPREENDEDORA RAMO DE ATUAÇÃO


MULHERES À
FRENTE DOS
NEGÓCIOS 42
anos é a
25%
COMÉRCIO DE VAREJO
Pequenas Empresas & idade média
Grandes Negócios realizou

70%
uma pesquisa com 1.316
mulheres para revelar
quem é a empreendedora
brasileira. O estudo têm ensino
11%
exclusivo, feito com o superior ou RESTAURANTES/
núcleo de pesquisa da pós-graduação ALIMENTAÇÃO

Editora Globo, mostra em

62%
quais setores elas abrem
negócios, como obtêm
capital e de quem recebem
apoio para tocar a empresa. são casadas 10%
Na maioria dos casos, SERVIÇOS

73%
as donas de negócios
são empreendedoras de
primeira viagem e possuem

9%
ensino superior completo. têm filhos ou
“As mulheres têm buscado enteados —
qualificação e aumentado dois, em média
INDÚSTRIA
a presença no mundo dos
negócios”, afirma Maria
José Tonelli, professora
da FGV-Eaesp (Escola
de Administração de
Empresas de São Paulo, da
75%
das
7%
EDUCAÇÃO
mulheres são
Fundação Getulio Vargas).
6%
empreendedoras
de primeira
Mariana Iwakura viagem
BELEZA E ESTÉTICA
Estúdio Siamo

6%
SAÚDE

5%
COMUNICAÇÃO/MÍDIA
2%
– 2%
ia –

– 2%
%
ócio – 2%
o – 1%
Automotivo – 1%
Telecomunicações – 1%
r

Outros – 1%
Seguros – 1%
ceiro
tela

ivil – 2

3%
ltoria
o/ho
finan

da informaçã
rução c
Consu
sm

Agroneg
ade/
Turi

ENTRETENIMENTO
e const
ab i li d
Cont

3%
Tecnologia
Imóveis

ATACADO

26 pequenas empresas & grandes negócios MARÇO, 2018


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FATURAMENTO ANUAL DA EMPRESA NÚMERO DE FUNCIONÁRIOS

62% 14% 10% 11% 1% 1% 1%

26% 54% 12% 6% 1% 1%


Nenhum De 1 a 9 De 10 a 19 De 20 a 49 De 50 a 99 De 100 a 499

GÊNERO DOS FUNCIONÁRIOS

AtéR$300mil DeR$300mila DeR$500mila DeR$1milhãoa DeR$10milhões DeR$30milhões Acimade


R$500mil R$1milhão R$10milhões aR$30milhões aR$50milhões R$50milhões

LOCAL DE ATIVIDADE 30% 32% 17% 15% 6%


Todos são A maioria Metade é do A maioria São todos
do sexo é do sexo sexo feminino e é do sexo do sexo
feminino feminino metade, do sexo masculino masculino
masculino

Escritório Residência da
empreendedora
69%
ou loja
(próprio ou 28% ou de um dos 90% DAS EMPRESAS NÃO OFERECEM BENEFÍCIOS
EXCLUSIVOS ÀS FUNCIONÁRIAS MULHERES
alugado) sócios, amigo
ou familiar
“A contratação de funcionárias mulheres, na
maioria dos casos, reflete uma mudança da
sociedade: elas têm estudado mais que os homens
e aumentado a sua qualificação. Os setores de
atuação também atraem mais mulheres”
Universidade — Maria José Tonelli
1% Coworking
1% ou instituição
de ensino

SÓCIOS 13% Sócia


mulher

9 ANOS 56% 26% Sócio


homem

No cliente
1%
Não tem
É O TEMPO
MÉDIO DE
sócio
5% Sócios dos
dois gêneros

MERCADO DAS
EMPRESAS
GRAU DE PARENTESCO COM O SÓCIO

44%
Cônjuge
17%
Irmão/Irmã
14%
Filho/filha
“Boa parte das empresas fundadas por mulheres são de áreas tipicamente 13%
associadas ao universo feminino, como alimentação, saúde, beleza, educação e Pai/mãe
comunicação. Esses negócios muitas vezes são voltados para a subsistência, têm 5%
faturamento mais baixo e pouco potencial de crescimento. As mulheres precisam Outro grau de parentesco
se ver mais como empresárias e pensar de maneira estratégica para crescer”
18%
— Maria José Tonelli, professora da FGV-Eaesp Sem grau de parentesco

MARÇO, 2018 pequenas empresas & grandes negócios 27


GRANDES IDEIAS PESQUISA

PRINCIPAL RAZÃO PARA ABRIR A EMPRESA IDADE DA APOIO DE FAMILIARES PARA ABRIR A EMPRESA
EMPREENDEDORA
Até 34 anos ...............28%
35 anos ou mais.........35%
IDADE DA EMPRESA
33% Até 7 anos ...................31%
Enxerguei uma 8 anos ou mais ..........36%
oportunidade FATURAMENTO
23% Até R$ 300 mil...........32%
Era um sonho / De R$ 300 mil a
sempre quis ter R$ 1 milhão ................34%
uma empresa Acima de R$ 1 milhão 37%
9%
Queria ser minha própria chefe
7%
Decidi empreender após ser demitida
7%
Por idealismo ou uma causa
4%
Queria ter flexibilidade de horários
4%
Tive uma boa ideia
4%
Herdei o negócio da família
3% 13% 11% 15% 20% 44% 53%
Segui o exemplo de um amigo ou familiar Não tive Outros Filhos Irmãos Pais Cônjuge
apoio de parentes
3% ninguém
Queria ganhar mais da família
2%
Não conseguia ascender na carreira
1%
Decidi empreender ao me aposentar IDADE DA IDADE DA IDADE DA
EMPREENDEDORA EMPREENDEDORA EMPREENDEDORA
Até 34 anos...........9% Até 34 anos...........4% Até 34 anos........ 63%

24 ANOS
35 anos ou mais...14% 35 anos ou mais.. 19% 35 anos ou mais.. 37%
FONTE DO INVESTIMENTO INICIAL
É A IDADE MÉDIA EM QUE AS MULHERES
PENSARAM PELA PRIMEIRA VEZ EM
Recursos próprios .....................................................62% TER UM NEGÓCIO
(reservas, verbas provenientes de demissão, herança etc.)
Família ou amigos ..................................................... 18%
DIFICULDADES COMO EMPREENDEDORA
JÁ CAPTOU RECURSOS EXTERNOS?
Empréstimo bancário .................................................8%
Investidor anjo ............................................................ 2% 27% 54%
54% Sim, para Carga tributária (impostos)
Bancos de investimento ...............................................1% Não capital de
giro 41%
Linha de crédito pública .......................................... 0,3% Dificuldade para encontrar funcionários qualificados
Venture capital......................................................... 0,1% 2% 36%
17%
Universidade ou instituição de ensino...................... 0,1% Sim, para pesquisa, inovação Sim, para Dificuldade de acesso a capital
ou desenvolvimento expansão dos
Outra fonte .................................................................9% de novos produtos negócios 28%
Encargos trabalhistas
23%
“Se 33% abriram o negócio por enxergar uma oportunidade, isso significa que 67% não Falta de tempo para a vida pessoal
viram essa razão como a principal para empreender. Para o segundo grupo, isso reduz 21%
as chances de ganhar escala e crescer. Vemos que as empreendedoras de mais de Falta de conhecimento em finanças
34 anos dizem ter identificado uma oportunidade com maior frequência que as mais
novas. A maturidade, ou até ter empreendido antes, ajuda a apurar o olhar para isso” 19%
Falta de conhecimento em gestão
— Maria José Tonelli

28 pequenas empresas & grandes negócios MARÇO, 2018


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GRAU DE DIFICULDADE PARA CONCILIAR A VIDA DE MÃE COM A DE EMPREENDEDORA
69% JÁ TINHAM FILHOS QUANDO
ABRIRAM A EMPRESA

Muito fácil, sem problema algum 13% EMPRESA X MATERNIDADE


Fácil, mas com alguns problemas pontuais 23%
Médio, pois ocorrem problemas às vezes 39% 77% 15% 8%
Difícil. Os problemas são recorrentes
e tenho de me desdobrar para resolver tudo 19%
Muito difícil. Toda hora acontece
um problema e às vezes acho que
5%
não vou conseguir resolver tudo,
pois fico sobrecarregada

IDADE DA IDADE DA
EMPREENDEDORA EMPRESA
Até 34 anos.........................26% Até 7 anos ............................21%
35 anos ou mais.................. 18% 8 anos ou mais ................... 18%
A decisão de Decidi Decidi
empreender não empreender empreender,
teve a ver com a por causa da apesar da
maternidade maternidade maternidade

“Apesar de 77% das mulheres dizerem que


a decisão de empreender não teve a ver
com a maternidade, 69% já tinham filhos
quando abriram a empresa. Na busca por
maior flexibilidade, muitas deixam as grandes
empresas e se tornam empreendedoras. Então,
mesmo que indiretamente, a necessidade de
cuidar da família é um fator para a escolha”
— Maria José Tonelli

PRECONCEITO

15% Já enfrentou preconceito, enquanto Se sim, IDADE DA


Falta de conhecimento de marketing EMPREENDEDORA
empreendedora, por ser mulher? de quem?
12% ATÉ 34 ANOS
Problemas com funcionários Não.................................. 63%
7% Sim, dos sócios ................. 5%
Problemas com clientes ou fornecedores 55% 46% Sim, dos funcionários ...... 9%
5% Sim, dos clientes ............. 23%
Falta de experiência na área de atuação Clientes Fornecedores Sim, dos fornecedores..... 18%
32% 68%
5% 35 ANOS OU MAIS
Sim Não
Problemas com sócios
Não.................................. 70%
4% 24% 11%
Sim, dos sócios .................. 3%
Preconceito
Sim, dos funcionários ....... 7%
3% Funcionários Sócios Sim, dos clientes ............. 16%
Falta de apoio da família Sim, dos fornecedores..... 13%

MARÇO, 2018 pequenas empresas & grandes negócios 29


E N T R E V I S TA CAMILA FARANI

EMPREENDEDORA
DE ATITUDE
No Linkedin, 170 pessoas recomendam Ca-
mila Farani pela competência “Estratégia
de Negócios” — mais que o dobro das 80
recebidas por Paulo Veras, fundador da 99,
primeiro unicórnio brasileiro. Camila tem Nayara Fraga Ana Rovati / Editora Globo
mais seguidores no
Instagram que Luiza
Trajano, do Magazine Por que você aceitou ser
Luiza. No Facebook, “tubarão” no programa
tem mais curtidores Shark Tank?
Eu já era admiradora da ver-
que Robinson Shiba, são americana do programa.
do China in Box. Ca- Como investidora, vejo que
mila e Shiba são ju- ele é a melhor forma de edu-
rados do Shark Tank car pessoas e avaliar bons ne-
gócios. Antes de tudo, o Shark
Brasil, reality show de Tank tem um caráter educa-
empreendedorismo. cional. Como eu descobri que
Tubarão nas redes meu propósito é fazer as pes-
soas se tornarem autoras de
sociais, Camila tem suas vidas, pensei: por que
um mar de negócios não fazer isso de forma nacio-
a conquistar. Seu gru- nal? O programa casou com o
po, o Boxx, reúne um meu propósito de vida.
restaurante, quatro Um dos maiores investi-
cafés e um bufê. “Juri- dores da história, Warren
dicamente, é como se Buffett cultiva a discri-
fosse uma holding”, ção. Ele se diz “incapaz
de atender aos pedidos
afirma, sem revelar o de conselho e ainda con-
faturamento de suas seguir trabalhar”. Como
empresas. É dona ain- você concilia a exposição
pública e o trabalho de in-
da de uma consulto- vestidora?
ria de franquias que, Acho que há espaço para o
em suas palavras, “pivotou” para a área de investidor-educador. Olhe para alguns “sharks”
inovação. Em novembro de 2017, abriu a [participantes do Shark Tank nos Estados Uni-
dos] ou para grandes investidores, como Paul
butique de investimentos G2 Capital. Ela Graham ou Marc Andreessen. Eles têm blog,
orienta empreendedores em troca de par- newsletter… Também comungam desse propó-
ticipação. “Meu propósito é fazer as pesso- sito de educar. O programa de televisão talvez
as se tornarem autoras de suas vidas”, diz. seja o ápice dessa postura. Uns preferem mais
exposição, outros menos. Hoje, a gente vive a
era da curadoria. Todo mundo produz conteú-
do. Educar, para o investidor, é uma forma de di-
ferenciação. Mas, quando eu digo “educação”,
falo de educação séria, embasada em números
e principalmente em experiência.

30 pequenas empresas & grandes negócios MARÇO, 2018


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Camila Farani
Camila, 36 anos, é um dos “tubarões” do Shark Tank
Brasil. Premiada como Melhor Investidora-Anjo no
Startup Awards 2016, ela é fundadora do Grupo Boxx e da
butique de investimentos G2 Capital. Em 2014, cofundou
o Mulheres Investidoras Anjo, de incentivo a mulheres
empreendedoras. De 2016 a 2018, presidiu o Gávea Angels,
um dos primeiros grupos de investimento-anjo do Brasil

MARÇO, 2018 pequenas empresas & grandes negócios 31


E N T R E V I S TA CAMILA FARANI

Qual é a sua experiência? foram unânimes em dizer que


Como você começou? aquele restaurante não envol-
A primeira operação foi fun- via as pessoas. A comunicação
dada pela minha mãe [a cha- visual estava errada, com uma
rutaria e café Tabaco e Cia., no decoração branca e lilás. As pes-
centro do Rio de Janeiro], há 20 soas perguntavam: “Tem sorve-
anos. Um tio emergente tinha te aí?” Foi um processo doloroso
nos alertado que o charuto es- e de muito conhecimento para
tava na moda, principalmente mim. Aí, eu peguei madeira de
em Hollywood, e era o símbo- demolição e refiz a decoração.
lo do novo-rico. Como ela não Tirei um pouco da intensidade
tinha dinheiro para pagar fun- do branco. Em vez de a pessoa
cionários, eu e meu irmão fo- chegar lá e pedir salada, ela pas-
mos ajudar. Eu tinha 16 anos sou a criar o prato — sete ingre-
e estudava no Colégio Militar dientes, uma proteína, molho e
do Rio de Janeiro, um colégio base de salada. Em vez de fazer
muito rigoroso. General, né? panfletagem, comecei a distri-
Algumas pessoas dizem que buir folhetos debaixo da porta
é por isso que sou assim. Eu dos escritórios. No quarto mês
me lembro do sentimento de de operação, deu fila na porta.
ir fardada trabalhar. Quando No quinto, o negócio entrou em
entrei para a faculdade de Di- ponto de equilíbrio. No sexto, o
reito e comecei um estágio de Mundo Verde me convidou para
meio período na Caixa Econô- cuidar de um negócio de alimen-
mica, eu me vi lá fazendo coi- tação saudável que eles estavam
sas para o café, como panfle- criando. Aí, eu saí do dia a dia
tos. Era algo automático. Aí, operacional dos meus negócios descobri sentada numa cadeira,
dos 19 para os 20 anos, eu “fiz” para me tornar uma executiva. atrás de uma mesa. Eu queria ter
uma inovação e me tornei só- a rapidez e a vivência do dia a dia.
cia da minha mãe. [Camila diz Como foi a sua experiência Ficar fixada em um único negó-
que criou opções de café gelado como executiva? cio me entediava, me deixava in-
e fez o faturamento da loja su- Eu era diretora-executiva do feliz. Aí eu pedi para sair.
bir 28% em um mês.] Com 20 projeto fresh food, de fast food
para 21 anos, fui abrindo outros saudável. A gente chegou a abrir Como você virou investido-
negócios na área de alimenta- quatro unidades com a bandeira ra em startups?
ção. Na terceira loja, comecei Verdano Fresh Food. Depois de Fui convidada por um amigo
a perceber uma demanda por dois anos, vi que eu não me en- para ir a uma reunião do Gávea
comida saudável. Então deci- contrei como executiva. Não me Angels [um dos primeiros grupos
di abrir a Farani Deli Café [hoje de investidores-anjo do Brasil],
Farani Fresh Food]. Foi o pri- quando três projetos de start-
meiro negócio no qual eu entrei com 100% do meu ups seriam apresentados. Eram
capital, com 100% de risco de perder. 26 homens e eu na sala. Um am-
biente naturalmente masculino.
Deu certo? Sentia falta de falar de business
Não. Meu restaurante ficava num ponto em que no meu dia a dia. Eu queria ter
passavam mais de 100 mil pessoas por dia, num conversas sobre negócios, mas
edifício na Avenida Central [Avenida Rio Branco], minhas amigas não falavam dis-
e passava o dia vazio. Vendi R$ 1,8 mil no primei- so. Me achava uma estranha no
ro mês, R$ 1,5 mil no segundo e no terceiro voltei ninho. Então, quando vi a tercei-
ao patamar do primeiro. Ou seja, eu não era em- ra apresentação de startup, feita
presária de nada. por uma menina que havia criado
um e-commerce de cosméticos,
O que você fez para salvar a empresa? fiquei alucinada. Pensei: “Cara,
Eu criei um conselho de clientes. Oferecia a eles existe vida fora do setor de ali-
refeição gratuita, em troca de nos reunirmos uma mentação”. Fiquei principalmen-
vez por semana para pensar em questões. Eles te fascinada pelos termos, pela

32 pequenas empresas & grandes negócios MARÇO, 2018 FOTO: DIVULGAÇÃO

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CHAMA que pretende ser o maior do seu
EMPREENDEDORA
Camila Farani no início da bairro, eu não vou olhar, porque
carreira, na tabacaria ele tem escalabilidade reduzi-
da mãe (à esquerda),
e agora. “Dos 19 aos 20 da. É preciso ainda ter um bai-
anos, ‘fiz’ uma inovação xo custo de aquisição de clien-
e me tornei sócia”, diz
te. Quando você tem tecnologia,
ela muitas vezes supre a neces-
sidade de você ter mesa, cadei-
ra, espaço físico… Outro ponto:
tração de usuários. Tem de ter
tração de receita e de usuários.

Como é dar dinheiro e con-


possibilidade de capilarizar in- selhos para empreendedo-
vestimento… Aos 26 anos, eu já res de setores diferentes do
havia criado negócios e tinha vi- de alimentação, que você co-
vido uma experiência no merca- nheceu na prática?
do corporativo. Vi ali uma oportu- Empreendedorismo não é só
nidade de continuar aprendendo abrir negócio. É ter atitude. É
com outras pessoas. De extrava- fazer acontecer. Quando eu vi
sar essa vontade de ter outros ne- aqueles empreendedores com
gócios em outras áreas. Quando tantas ideias, pensei: “Por que
descobri o cenário de startups, não levar um pouco dessa mi-
eu disse: “Achei o que eu quero nha inquietude e da experiência
fazer para minha vida inteira”. que eu já tive em criar negócio,
em executar negócio, em man-
Como é ser investidora num ter negócio?” Não é só investir o
ambiente predominante- dinheiro. É investir o intelecto.
mente masculino? É investir a rede de relaciona-
Não é uma pergunta que eu me mentos. Eu descobri um senso
faça. Talvez por ter começado lá de propósito. Mesmo com a po-
na charutaria, em um ambiente pularidade proporcionada pela
90% masculino. Não é uma coisa TV, é sempre especial quando
que me incomode. O mais impor- um empreendedor ou empreen-
tante é o nível de complementa- dedora diz “você mudou a minha
“PARA ridade que o investidor tem de vida”. Para mim, empreendedo-
ter com seus pares. Mulheres rismo é isso. O investimento-an-
SALVAR MEU ou homens. jo é isso. Entendi que poderia
usar esse meio para dar mais
RESTAURANTE, Quais são seus critérios pa- senso de propósito às pessoas.
ra investir?
CRIEI UM Primeiro, avalio o modelo de Em quantas startups você já
negócios. Tem de ter tecnolo- investiu?
CONSELHO gia envolvida, seja hardware ou Sou sócia de pools [grupos de in-
software. Depois, o empreende- vestidores que fazem aportes em
DE CLIENTES. dor ou empreendedora. O negó- conjunto em startups] na ACE e
cio tem de ter um ótimo time de na Bossa Nova Investimentos. Is-
OFERECIA empreendedores. Três é sem- so me dá um pouco mais de dilui-
pre um bom número. Além dis- ção de riscos. Sou sócia de star-
REFEIÇÃO so, ele tem de ter um caixa para tups como pessoa física e, agora,
12 meses. Muitas vezes, a star- na G2 Capital [butique de investi-
EM TROCA DE tup quebra porque não tem di- mentos com 30 acionistas, criada
nheiro, não geriu bem seu flu- por Camila em novembro de 2017].
CRÍTICAS. xo de caixa. Tem de ter também Isso aí dá um total de aproxima-
um potencial de escalabilidade damente 30 empresas, incluindo
DEU CERTO” grande. Se você tem um negócio as startups do Shark Tank.

MARÇO, 2018 pequenas empresas & grandes negócios 33


E N T R E V I S TA CAMILA FARANI

“A GENTE
PRECISA
APRENDER A
CONVIVER COM
INSEGURANÇAS.
APRENDI A
POTENCIALIZAR
O QUE EU TINHA
DE FORTE”
34 pequenas empresas & grandes negócios MARÇO, 2018
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Quanto você já investiu?
R$ 1,5 milhão. O investimento
em startups não é vultoso. Se
você falasse: “Camila, você vai
ser uma investidora de ativos
acima de R$ 50 milhões”... Eu
não entraria nisso, como pes-
soa física. Não é o meu perfil. No
investimento de startups, cada
investidor entra em média com
R$ 30 mil, R$ 50 mil, R$ 60 mil…
Em grupo, você pode investir
até R$ 300 ou R$ 400 mil. Eu in-
visto meu dinheiro em duas coi-
sas: ou na construção de patri- Você se sente pronta para PEIXES GRANDES
Camila Farani (de
mônio ou em startups. Nunca orientar empreendedores vermelho), no Shark
Tank, reality show de
disse que sou uma megainves- com negócios mais robus- empreendedorismo:
tidora, uma megaempreendedo- tos que os seus? os cinco jurados,
chamados de
ra. O que eu faço é usar o dinhei- Eu me considero numa curva de “tubarões”, assistem
ro de forma inteligente, a fim de aprendizado, estou em processo às apresentações
de empreendedores
capilarizar meus investimentos, de construção. Mas já faço inves- e atacam as ideias
aumentar meu patrimônio e, no timento-anjo há sete anos. Eu me mais “apetitosas”
fim das contas, ser feliz. redescobri quando entendi que
não queria mais construir gran-
Quais são os casos bem-su- des negócios no offline e que es-
cedidos do seu portfólio? Já taria mais voltada ao investimen-
houve alguma saída? to-anjo em empresas online. Se
Houve uma saída, que foi ra- você analisa o perfil dos investi-
zoável. Eu não gostaria de fa- dores do Shark Tank, cada um tem a ver com negócios. Tem a
lar qual foi o caso bem-sucedi- tem uma habilidade diferente. ver com atitude. Quando eu en-
do. Prefiro falar na valorização Isso não me faz melhor nem pior tendi que por meio do próprio
das empresas. Por exemplo, a que nenhum outro. Eu prefiro ter investimento-anjo e por meio da
startup de Maytê Carvalho [a essa habilidade ligada à área de educação eu conseguiria chegar
b.pass, que vende uma assina- inovação, que é o que eu venho próximo a esse sonho, eu desco-
tura de serviços de beleza, como desenvolvendo. bri um propósito. Meu sonho é
manicure e depilação], valori- transformar pessoas.
zou 3 ou 4 vezes praticamente Qual é o seu propósito?
em um ano. Outra startup va- Meu sonho é tornar as pessoas O que você aprendeu na sua
le aproximadamente 12 vezes autoras das suas vidas. Isso não carreira?
o que eu investi. A coisa mais importante que eu
aprendi foi que a gente precisa
Você oferece orientação a startups em troca conviver com as inseguranças.
de participação. Como funciona isso? O investimento [de dinheiro em
Eu faço advisory. O advisor é como se fosse um startups] envolve muita decisão
conselheiro, ao passo que mentoria geralmente comportamental. Precisava en-
é gratuita. A participação é simbólica e não che- tender como eu me comportava
ga nem a 1%. Faço advisory para a Kuhlen Bier e por que tomava determinadas
[que criou uma chopeira para servir o chope o decisões. Muitas eram por me-
mais gelado possível, sem congelar] e DDID [em- do, outras eram para ter uma ba-
presa de design]. Com alguns empreendedores, se de segurança e outras eram
eu tenho um contato mais próximo. Com ou- porque eu gostava de assumir
tros, menos. Em geral, eles enviam os relató- riscos. Essa talvez tenha sido a
rios. Tem relatório mensal, bimestral, trimes- principal descoberta: aprender
tral… O investidor-anjo não microexecuta nem a potencializar o que eu tinha
microgerencia. Eu digo ao empreendedor: “Vou de forte e delegar muitas vezes
estar sempre disponível para você”. o que eu tinha de fraco.

FOTO: DIVULGAÇÃO MARÇO, 2018 pequenas empresas & grandes negócios 35


C A PA ELAS LUCRAM COM ARTE

36 pequenas empresas & grandes negócios MARÇO, 2018


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Elas
lucram
com As seis personagens desta
reportagem têm um traço em
comum. Todas elas se tornaram
referência em suas áreas de

arte
atuação: fotografia, grafite, música,
moda, cinema e artes plásticas.
Cada uma à sua maneira, elas
mostram como é possível superar
as dificuldades de um mercado que
sofre com a falta de investimentos
públicos e a dificuldade de acesso
a capital. Camila Cornelsen
desenvolve um trabalho autoral
e ao mesmo tempo acessível.
Roberta Weiand lançou um
aplicativo que se tornou campeão
de downloads. Panmela Castro
une arte e ativismo social. Juli Baldi
criou um novo nicho no mercado
musical. Silvia Cruz ajudou a
revitalizar o cinema nacional.
Fernanda Feitosa criou um evento
de alcance internacional. Inspire-se
nas histórias dessas mulheres que
descobriram a arte de empreender

Adriana Carvalho

MARÇO, 2018 pequenas empresas & grandes negócios 37


C A PA ELAS LUCRAM COM ARTE

CURADORIA NO STREAMING

J
uli Baldi, 29 anos, começou a empreender na adoles-
cência. Apaixonada por música, atuava como empre- “MUSIC BRANDING
sária de bandas de São Miguel do Oeste (SC), sua ci-
dade natal, agendando shows em diferentes casas do
oeste catarinense. Aos 18 anos, foi estudar jornalismo
AINDA É NOVIDADE
na PUC de Porto Alegre (RS). No primeiro semestre
da faculdade, conseguiu um emprego na rádio Ipa-
NO PAÍS. HÁ MUITO
nema FM. “Fiz tanto sucesso que comecei a receber
convites para discotecar nos fins de semana”, diz Juli.
ESPAÇO PARA A
Da discotecagem em festas, surgiram os pedidos pa-
ra elaborar playlists para bares e restaurantes. “Foi OFERTA DE SERVIÇOS,
o suficiente para perceber que havia ali uma oportu-
nidade”, afirma a empreendedora. Ao lado do pu- DESDE QUE
blicitário Rafael Achutti, 34 anos, ela desenvolveu
um plano de negócio para uma empresa de bran-
ding musical, estratégia de marketing ainda pouco
O EMPREENDEDOR
explorada no país. Em 2013, com um investimen-
to de R$ 10 mil, nascia a Bananas Music Branding.
SE MANTENHA
A princípio, as seleções musicais eram entregues
aos clientes em pen drives ou CDs. A solução tinha
ATUALIZADO
muitos problemas — a duração das playlists era li-
mitada e não havia como evitar que terceiros tives- COM AS ÚLTIMAS
sem acesso a elas. Para resolver o problema, inves-
tiram R$ 5 mil no desenvolvimento de um software TECNOLOGIAS”
que permitisse criptografar os arquivos e atualizar
remotamente as seleções. Na sequência, passaram
a oferecer um serviço inédito no país: conteúdo
customizado em plataformas de streaming como
Spotify e Deezer. A primeira cliente foi a Warner Mu-
sic Brasil. “Para quem trabalha com branding mu-
sical, manter-se atualizado é fundamental. A forma
como consumimos música hoje é muito diferente
da que existia há poucos anos. Era preciso investir
em streaming.” Uma outra inovação está prevista
para 2018. Em parceria com a startup Plugbuy, a
Bananas está desenvolvendo a ferramenta MusicX,
que usará big data para medir a influência da trilha
sonora no comportamento de compra. A empresa,
que tem entre seus clientes Ford, Youcom, ESPM,
Oakley e Shopping Cidade Jardim, deve chegar a
R$ 1,2 milhão de faturamento neste ano. O SOM DA
MARCA
Juli Baldi,
da Bananas
Music
Branding:
pioneira em
curadoria
musical
para clientes
corporativos

38 pequenas empresas & grandes negócios MARÇO, 2018


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FOTO: JULIA RODRIGUES MARÇO, 2018 pequenas empresas & grandes negócios 39
C A PA ELAS LUCRAM COM ARTE

“FAÇA COM O QUE


TEM À MÃO. TER
BONS EQUIPAMENTOS
É IMPORTANTE,
MAS DÁ PARA
CRIAR MUITA COISA
LEGAL, MESMO SEM
INVESTIR MUITO.
A CRIATIVIDADE
BATE FORTE
QUANDO FALTAM
FERRAMENTAS
OU DINHEIRO”

40 pequenas empresas & grandes negócios MARÇO, 2018 FOTO: CAMILA CORNELSEN

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MULHERES DA VIDA REAL

A

ndo pelo mundo buscando inspiração para criar ima-
gens”, diz Camila Cornelsen, 35 anos. “Quando estou
atrás da câmera, me vejo sorrindo.” Com uma estéti-
ca moderna e autoral, a fotógrafa conquistou clientes
no cinema, na música e na publicidade — sua cartei-
ra tem nomes como Avon, Credicard, Apple e Nike.
“Gosto de equilibrar o trabalho para o mercado publi-
citário, que garante a maior parte da receita, com pro-
jetos mais autorais, nos quais tenho mais liberdade.”
Antes de se dedicar à fotografia, chegou a estudar
engenharia civil em Curitiba. “Eu era meio nerd, mui-
to boa em matemática”, diz. Depois de se formar, ten-
tou uma vaga de trainee na IBM. Passou, mas desis-
tiu da carreira. “Percebi que não me encaixava nessa
coisa de escritório.” Em 2005, resolveu mergulhar na
fotografia, trabalhando ao lado do pai, o fotógrafo Ito
Cornelsen. De vez em quando, fotografava shows da
bandas de amigos. O amor pela música a levou a bus-
car uma carreira paralela: entre 2007 e 2011, liderou a
banda de rock indie Copacabana Club, que chegou a
tocar no festival SXSW, nos Estados Unidos. Em 2010,
abriu uma empresa, a Copacabana Club Produções
Artísticas, para cuidar dos negócios do grupo. “Mas
a música demandava muito tempo, e a paixão pela fo-
tografia falou mais forte”, diz.
Em 2012, foi a Londres e Barcelona fazer cursos de
direção de fotografia. Na volta, conheceu a diretora de
cinema Vera Egito, com quem faria parceria em víde-
os musicais e no cinema, com o longa Amores Urba-
nos. O namoro com a publicidade começou em 2014,
quando surgiram os primeiros clientes corporativos,
atraídos pelas vinhetas que fazia para a MTV. “Para
mim, era interessante entrar no mercado publicitário.
Quando você dispõe de mais recursos, pode experi-
mentar outras tecnologias.” Com seus gifs animados
em 3D, ela conquistou marcas como Adidas e Rider.
Em 2017, o faturamento chegou a R$ 600 mil.
Ano passado, foi incluída na lista “20 creatives to
watch in 2018”, elaborada pela empresa de software
Adobe. “Não vejo isso como uma realização, e sim co-
mo uma responsabilidade. Sinto que preciso ser cada
ATRÁS DAS vez mais criativa.” Entre um trabalho e outro, reser-
LENTES va tempo para projetos autorais, como a série de re-
Como diretora tratos X Real. “A nudez feminina é quase sempre re-
de fotografia,
Camila Cornelsen tratada com uma visão masculina, sexualizada. Quis
imprime sua mostrar outro olhar, mais empático, humano e real.”
marca a vídeos
musicais, filmes,
retratos e peças
publicitárias

MARÇO, 2018 pequenas empresas & grandes negócios 41


C A PA ELAS LUCRAM COM ARTE

APOSTA NO TALENTO BRASILEIRO

N
ão é à toa que a Vitrine é considerada uma das res-
ponsáveis pelo renascimento do cinema nacional. “QUEM INVESTE
Desde que a distribuidora foi fundada, em 2010,
já colocou nas salas de cinema 117 filmes brasilei-
ros — entre eles, obras consagradas como Aqua-
EM NOVOS NICHOS
rius, de Kleber Mendonça, e Hoje Eu Quero Voltar
Sozinho, de Daniel Ribeiro. Só no ano passado, a
NÃO PODE TER
empresa paulistana lançou 57 produções locais,
responsáveis por boa parte do faturamento de
AVERSÃO A
R$ 5,4 milhões. “Sinto que minha missão é reve-
lar diretores, filmes e atores brasileiros”, diz a RISCO. QUANDO
fundadora, Silvia Cruz, 35 anos.
A ligação de Silvia com o cinema começou cedo. COMECEI, NÃO
“Meu pai era cinéfilo, então aprendi a frequentar
mostras e festivais ao lado dele”, diz. Como não
acreditava ter talento para ser roteirista ou diretora,
HAVIA NINGUÉM
decidiu que estudaria administração e abriria uma
empresa na área de economia criativa. No trabalho
ESPECIALIZADO
de conclusão do curso, desenvolveu um plano de
negócio para uma sala de cinema. Para ajudá-la no
EM DISTRIBUIÇÃO
projeto, pediu ajuda a André Sturm, fundador da
Pandora Filmes e hoje secretário municipal de Cul- DE FILMES
tura de São Paulo. Quando terminou a faculdade, foi
trabalhar como assistente de marketing na distri- NACIONAIS”
buidora. Na sequência, ganhou o posto de coorde-
nadora de lançamentos na Europa Filmes.
A experiência em grandes distribuidoras ampliou
sua visão de mercado. “Percebi que havia uma nova
geração de cineastas brasileiros realizando produ-
ções de qualidade, mas que não havia uma distri-
buidora dedicada a eles.” Em 2010, abriu a Vitrine
Filmes, quase sem investimento. Um amigo cedeu
uma edícula para servir de sede; um ‘chá de escritó-
rio’ forneceu itens como telefone sem fio e impres-
sora. O passo seguinte foi oferecer seus serviços de
distribuição a produtores nacionais. Com cinco títu-
los na mão, procurou o Canal Brasil com uma pro-
posta ousada. “Disse a eles: comprem esses títulos
agora, mas só poderão exibi-los na TV depois que
saírem do cinema.” Como eram longas de qualida-
de, conseguiu fechar o contrato — com o dinheiro,
bancou a distribuição. Hoje, são os produtores que LUCRO COM
fazem fila para serem distribuídos pela Vitrine, que ORGULHO
leva produções de qualidade para as cidades mais Silvia Cruz,
da Vitrine:
distantes do interior do Brasil. “Quero que o públi- R$ 5,4 milhões
co tenha acesso à diversidade do talento nacional.” de faturamento
com foco na
distribuição de
filmes brasileiros
de qualidade

42 pequenas empresas & grandes negócios MARÇO, 2018


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FOTO: CAROL QUINTANILHA MARÇO, 2018 pequenas empresas & grandes negócios 43
C A PA ELAS LUCRAM COM ARTE

“NÃO DÁ PARA TOCAR UMA EMPRESA SÓ COM CRIATIVIDADE,


É PRECISO IR ATRÁS DE OUTRAS EXPERTISES. TIVE DE APRENDER
TUDO SOBRE APLICATIVOS PARA EMPLACAR MEU NEGÓCIO”

44 pequenas empresas & grandes negócios MARÇO, 2018 FOTO: RAQUEL BRUST

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DESIGN NA PONTA DOS DEDOS

A
liar tecnologia e moda foi a maneira encontrada pe-
la gaúcha Roberta Weiand, 35 anos, para se destacar
nesse mercado. Antes de empreender, fez cursos de
moda e design na Universidade do Minho, em Por-
tugal, e no Instituto Europeo di Design, na Itália. A
ideia para um negócio no setor surgiu quando lecio-
nava na Universidade do Vale do Taquari, em Lajea-
do (RS). “Era muito difícil ensinar desenho de moda
no quadro de giz. Sentia falta de uma ferramenta tec-
nológica que desse precisão aos traços”, diz Roberta.
Buscou aplicativos do gênero, mas achou todos defi-
cientes. Disposta a criar o próprio app, pediu ajuda à
startup gaúcha Belogik, especializada no desenvolvi-
mento de softwares. Da parceria, surgiu uma nova em-
presa, a Prêt-à-Template, mesmo nome do aplicativo.
O ano de 2013 foi gasto no desenvolvimento da fer-
ramenta. “Enquanto eu passava para eles meu co-
nhecimento de estilista, eles me ensinavam tudo so-
bre software. Aprendi muito sobre a dinâmica de uma
startup, e também sobre gestão.” Em 2014, foi lançada
a primeira versão, disponível para o iPad Pro, versão
profissional do tablet da Apple. Na sequência, o app
ganhou uma versão para iPhone. “Assim o usuário
pode esboçar seus croquis em qualquer lugar”, diz a
empreendedora. Para divulgar o app, Roberta fez uma
mala direta e a enviou a escolas de moda no Brasil e no
exterior. A primeira a responder foi a Parsons School
of Design, de Nova York. “Eles gostaram tanto que
nos convidaram para fazer uma apresentação”, diz.
Em seguida, conquistaram clientes como o Fashion
Institute of Technology, em Nova York, e a Univer-
sidade de Caxias do Sul. O app também chamou a
atenção dos profissionais de moda, que passaram a
usar as funcionalidades em suas criações.
Hoje, o Prêt-à-Template conta com mais de 2 mi-
lhões de downloads. No ano passado, o app entrou na
lista dos melhores aplicativos do ano da Apple. Tam-
bém em 2017, o programa ganhou uma segunda versão,
lançada durante a New York Fashion Week. Entre as
novas funcionalidades está a possibilidade de cocriar
e compartilhar projetos de design. “Com o primeiro
APP E modelo, alcançamos profissionais e escolas. Agora
COSTURA queremos chegar a outros pontos da cadeia, incluin-
O aplicativo de do as grandes confecções”, diz Roberta, que não re-
design de moda
Prêt-à-Template, vela o faturamento — a assinatura anual pela versão
da gaúcha completa do aplicativo custa US$ 39.
Roberta Weiand,
teve 2 milhões
de downloads
em 150 países

MARÇO, 2018 pequenas empresas & grandes negócios 45


C A PA ELAS LUCRAM COM ARTE

A DAMA DAS ARTES

C
onstruir a maior feira de artes plásticas da Améri-
ca Latina não estava nos planos de Fernanda Fei- “MESMO EM
tosa, 51 anos, quando decidiu que abriria um ne-
gócio. Amante de museus e galerias, a advogada
aproveitava suas viagens para frequentar feiras
ÉPOCA DE CRISE,
de arte pelo mundo. “E daí pensava: por que não
existe nada igual no Brasil?”, diz Fernanda. Con-
HÁ ESPAÇO PARA
vencida de que poderia ser um bom negócio, fez
um estudo de viabilidade de mercado, com a aju-
EMPREENDER COM
da do marido, Heitor Martins, sócio da consultoria
McKinsey. “Analisei qual seria o melhor local — a ARTE. O BAIXO
princípio em uma área pequena, mas com possibi-
lidade de expansão. Depois, fiz uma lista com po- DESEMPENHO
tenciais participantes, no Brasil e no exterior. Daí,
tracei um plano de negócios”, diz.
Em 2015, abriu, ao lado do irmão, Fernando
DA ECONOMIA
Feitosa, a SP-Arte Eventos Culturais. O inves-
timento inicial veio da venda de algumas obras
NÃO IMPEDIU O
de sua coleção particular. No mesmo ano, foi re-
alizada a primeira edição da feira SP-Arte, com
SURGIMENTO DE
a participação de 40 galerias, em um espaço de
4,5 mil m2. “Na época, só havia um outro evento NOVAS GALERIAS
desse tipo na América do Sul, uma feira na Ar-
gentina. Por isso, tivemos uma boa adesão ini- DE SUCESSO
cial”, afirma a empreendedora. O sucesso das
vendas convenceu outros galeristas a aderirem
à ideia. “Fomos crescendo devagarinho, ano a
NO PAÍS”
ano. Isso contribuiu para deixar o negócio sóli-
do”, diz Fernanda.
No ano passado, o evento abrigou obras de 120
galerias nacionais e internacionais e atraiu 30 mil
visitantes — as vendas movimentaram algo en-
tre R$ 220 e R$ 250 milhões. Para a edição de 2018,
programada para o mês que vem, a previsão é aco-
lher obras de 38 galerias estrangeiras e 96 nacio-
nais, além de 30 casas de design. “A novidade é que
haverá um núcleo dedicado a designers indepen-
dentes que estão despontando no mercado”, diz
Fernanda. “Mais que os números, o que me deixa
feliz é o reconhecimento de um trabalho de formi-
guinha, desenvolvido ao longo de anos”, afirma.
NEGÓCIOS
E PINTURAS
Fernanda Feitosa,
idealizadora do
evento anual
SP-Arte: maior feira
de arte da América
Latina gera negócios
no valor de R$ 250
milhões ao ano

46 pequenas empresas & grandes negócios MARÇO, 2018


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FOTO: ILANA BESSLER MARÇO, 2018 pequenas empresas & grandes negócios 47
C A PA ELAS LUCRAM COM ARTE

“GRAFITE É UMA ARTE DE RUA,


MAS ESTUDAR É IMPORTANTE. NO MEU
CASO, FIZ GRADUAÇÃO E MESTRADO.
VOCÊ NUNCA PARA DE SE APRIMORAR”

48 pequenas empresas & grandes negócios MARÇO, 2018 FOTO: ANNA FISCHER

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ATIVISMO PREMIADO

P
anmela Castro, 36 anos, teve uma educação rígida.
Criada em um bairro do subúrbio da Zona Norte do
Rio, não tinha permissão dos pais para ficar até tarde
na rua. A fim de fugir das regras estritas, começou a es-
capar com amigos à noite para pichar os muros da ci-
dade. Foi nessa época que adotou o codinome Anarkia
Boladona, que simbolizava sua recém-adquirida liber-
dade. Não deixou de pichar nem mesmo quando cur-
sava a Escola de Belas Artes da UFRJ.
Em 2004, uma tragédia pessoal mudou os rumos da
sua vida. Após sofrer com seguidos episódios de vio-
lência doméstica, decidiu se separar do marido e le-
var o caso à Justiça — sem nenhum resultado. Depri-
mida, não queria mais sair de casa. Até que aceitou o
convite de amigas para grafitar as ruas. Cercada por
um grupo que a acolhia, começou a se sentir mais se-
gura para transfomar sua história em arte. “Passei a
usar o grafite para chamar a atenção das pessoas pa-
ra os direitos das mulheres. Essa foi a forma que en-
contrei para voltar a me relacionar com a sociedade”,
afirma. Nos muros, temas como sexualidade femini-
na e igualdade de gênero se misturavam à paisagem
urbana do Rio. A repercussão fez surgirem convites
para exposições e eventos em espaços culturais. Pa-
ra administrar os negócios, criaria com a irmã, Artha
Batista, a empresa Panmela Castro Arte e Cultura. “Eu
nunca tive jeito para administrar, então precisava de
uma sócia com esse talento”, diz.
Sua atuação à frente da Rede Nami — dedicada à
conscientização de comunidades carentes do Rio —
foi premiada com o Vital Voices Global Leadership
Awards, em Washington, em 2010. Dois anos depois,
ganharia fama mundial ao entrar na lista “150 Women
Who Shake the World”, da revista Newsweek. A pre-
miação lhe rendeu convites para grafitar nas ruas de
Paris, Berlim, Praga e Nova York, entre outras.
No Brasil, foi chamada para fazer trabalhos publici-
tários para empresas como Hublot, Nike e Avon. Em
Nova York, seu trabalho está cotado em cerca de US$
8 mil dólares por metro quadrado. Além dos murais e
exposições, Panmela lucra com consultorias e pales-
tras — ela não revela o faturamento. Neste mês, em-
DIREITOS barca para uma uma temporada de eventos em Mia-
FEMININOS mi, Washington e Nova York. “O grafite foi o meu ca-
Panmela Castro,
que ganhou fama minho para a superação. Vejo outros tipos de arte no
como Anarkia meu futuro, como performances e instalações.”
Boladona: grafites
feministas e
campanhas para
Nike e Avon

MARÇO, 2018 pequenas empresas & grandes negócios 49


PERFIL CAROLYN RODZ

Ela quer mudar


o mundo
das À frente da Alice,
Carolyn Rodz lançou

startups
uma aceleradora
online e uma
plataforma virtual
totalmente dedicadas
às empreendedoras. Marisa Adán Gil
Seu objetivo: criar um
ecossistema com
oportunidades iguais
para homens
e mulheres
a escrever num caderno todas as ideias
de negócios que queria abrir quando
crescesse. Eu ia vender brinquedos
antigos por preços mais baixos. Abrir
um hospital. Construir uma escola.
Qualquer coisa que ajudasse a me-

C
lhorar o planeta.” Para bancar sua
arolyn Rodz tem uma missão: de- visão, cursou finanças na Texas
mocratizar o acesso ao ecossiste- A&M University. Formada, passou
ma de startups. “Quero construir quatro anos trabalhando na área de
um ambiente de negócios que dê investimentos do banco JP Morgan.
suporte a todos os fundadores, se- Não tinha intenção de seguir carrei-
jam eles homens ou mulheres”, diz ra. O que a atraía eram as histórias de
a empreendedora de 38 anos, natural de Hous- empresários que haviam construído
ton, no Texas. Em seus dois anos à frente da Cir- empresas de bilhões de dólares. “Eu
cular Board, aceleradora com foco em empreen- pensava: ‘Se eles conseguiram cons-
dedoras, ela captou mais de US$ 65 milhões para truir isso do zero, eu também posso’.”
286 empresas de todo o mundo. O lançamento da Em 2005, abriu sozinha a pri-
plataforma de inteligência artificial helloalice. meira empresa, uma consultoria
com, no ano passado, deve ampliar o alcance de de marketing. Sem nenhuma ex-
seu trabalho. “Sinto que, por enquanto, só arra- periência e com pouco capital,
nhei a superfície do problema. Essa é uma tarefa acabou falindo. “Basicamente, eu
para a vida inteira, ou mais.” fiz tudo errado. Eu não entendia o
Solucionar problemas é algo que atrai Carolyn des- que era ter uma pequena empresa.
de a infância. “Meu pai era um empreendedor, e uma Não acreditava na força do meu
das minhas maiores diversões era vê-lo comandar a trabalho e cobrava pouco pelos
empresa. Então, quando eu tinha 10 anos, comecei meus serviços. Achava que tinha
de crescer primeiro, para só depois
ir atrás dos grandes clientes.” A
experiência trouxe lições valiosas.

50 pequenas empresas & grandes negócios MARÇO, 2018 FOTOS: Trish Badger Photography

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SUPORTE
GLOBAL
Com sua
aceleradora Circular
Board, Carolyn
Rodz captou mais
de US$ 65 milhões
para 286 startups
em todo o planeta

MARÇO, 2018 pequenas empresas & grandes negócios 51


PERFIL CAROLYN RODZ

“Aprendi que você pode agregar muito valor se da para mulheres empreendedoras.
tiver uma compreensão real do seu negócio e fo- “Nós duas tínhamos a mesma visão
car naquilo que faz melhor do que todo mundo.” de mundo, queríamos resolver os
A falta de confiança no próprio potencial, diz, é mesmos problemas. Foi um encaixe
um erro comum entre as empreendedoras. “Vejo natural”, diz Carolyn.
muitas mulheres abrindo negócios sem ter se- A abertura da empresa, em ja-
gurança no que estão construindo. Se você não neiro de 2016, foi acompanhada por
acreditar no seu potencial, ninguém vai.” uma espécie de manifesto. Negócios
Em segunda investida, mudou de foco. O obje- comandados por mulheres, diziam
tivo da Cake Communications era ajudar grandes as fundadoras, empregam 7,8 mi-
companhias a fazer a transição para as mídias di- lhões de trabalhadores nos Esta-
gitais. Com uma solução voltada para branding e dos Unidos e geram uma receita de
lançamento de produtos nas redes sociais, con- US$ 1,3 milhão. Por que apenas 5%
quistou clientes de peso como HP. “A minha ati- dessas mulheres recebem aportes
tude havia mudado. Eu sabia quais eram os meus de venture capital? A resposta, di-
pontos fortes e como precificar o serviço.” Uma ziam, estava na falta de sintonia en-
questão familiar a levou a vender a companhia em tre o que os investidores esperam e
2012: Carolyn havia acabado de dar à luz o primeiro o que as empreendedoras costumam
filho, Luca, e queria ter mais tempo para ficar com “Vejo muitas apresentar. “Fazer a ponte entre em-
a família (que hoje inclui mais um filho, Henry, 3 preendedoras e os fundos e ajudá-
anos). “Naquele momento, achei que seria interes- mulheres abrindo -las a escalar seus negócios é o que
sante fazer pequenas consultorias, ajudar mulheres negócios sem move nossa empresa”, diz Carolyn.
que estavam apenas começando.” A proposta da aceleradora online
ter segurança é simples e altamente colaborati-
ACELERADORA ONLINE no que estão va: dez empresas participam de um
Foi das conversas com jovens empreendedoras que programa de doze semanas. Nesse
surgiu a ideia para a sua terceira — e mais bem-su- construindo. período, reúnem-se por videocon-
cedida — companhia. “Percebi que a maioria das Se você não ferência para trocar ideias, oferecer
mulheres enfrentava o mesmo tipo de problemas feedback umas às outras e fornecer
pelos quais eu havia passado. Senti que eu tinha a acreditar no relatórios sobre seu progresso. “As
responsabilidade de evitar que cometessem os mes-
mos erros.” Ao estudar o cenário de startups, en-
seu potencial, mulheres trabalham muito bem em
colaboração. Constroem modelos
trou em contato com o modelo de aceleradora, que ninguém vai” de negócios juntas, testam os pro-
bombava nos ecossistemas de São Francisco e Nova dutos com as colegas, e são as me-
York. “Uma das primeiras coisas que notei é que ha- lhores promotoras dos negócios do
via pouquíssimas mulheres entre as inscritas, e me- grupo.” Além do compartilhamento
nos ainda entre as selecionadas.” Investigando um de informações, as empreendedoras
pouco mais, Carolyn avaliou que os programas não têm acesso a cursos sobre constru-
estavam estruturados para atender às necessidades ção de marca, estruturação legal e
das fundadoras. “Ninguém estava levando em conta financeira, recrutamento de pes-
que mulheres têm filhos, estão ligadas à família, à co- soas e networking.
munidade. Perguntei a mim mesma: como criar uma Grande parte do trabalho da
aceleradora mais flexível, e que proporcione o mesmo Circular Board está em ajudar as
tipo de suporte que um programa convencional?” mulheres a cultivar a rede de re-
Para formular a resposta, foi em busca da aju- lacionamentos, entender o que é
da de uma empreendedora experiente, que ha- valorizado pelos venture capita-
via conhecido por intermédio de um amigo em lists e a melhor maneira de esta-
comum. Elizabeth Gore, 40 anos, era empreen- belecer uma relação com eles. “Na
dedora residente do DWEN (Dell Women’s En- hora de escolher, os investidores
trepreneur Network) e tinha vasta experiência costumam apostar na própria intui-
com negócios sociais. Juntas, abriram a Circular ção, e também no time certo. Se as
Board, uma aceleradora virtual totalmente volta- fundadoras não tiverem construído

52 pequenas empresas & grandes negócios MARÇO, 2018


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UMA NOVA
PLATAFORMA
Acima, Carolyn
durante o Circular
Summit, que reuniu
empreendedoras e
investidores no Texas
em 2017; à direita, ela
mostra a plataforma
helloalice.com,
ao lado da sócia,
Elizabeth Gore,
durante o Dell EMC
World, em Las Vegas

MARÇO, 2018 pequenas empresas & grandes negócios 53


PERFIL CAROLYN RODZ

uma reputação por meio de um bom networking, diz Carolyn. Em um primeiro mo-
o aporte não vai acontecer.” mento, as sócias transferiram to-
Segundo Carolyn, existe um outro motivo dos os dados adquiridos durante
pelo qual as empreendedoras não costumam ter a experiência na aceleradora pa-
tanto acesso a investimentos: a aversão ao risco ra a plataforma. Depois, fizeram
é maior do que a dos colegas do gênero masculi- parcerias com governos, entida-
no. “O problema aqui é a empatia. Enquanto os des, universidades, corporações
homens focam na sua visão, as mulheres se en- e associações do mundo inteiro,
volvem com todos à sua volta. Sentem que, se a para que compartilhassem publi-
empresa falhar, ela terá de demitir, vai levar ou- camente suas informações.
tros com ela.” Superada essa primeira barreira, O objetivo é fazer com que Alice
diz Carolyn, a empatia tende a se transformar seja capaz de responder a pergun-
na sua maior força. “Mulheres são líderes incri- tas sobre investimentos, oportu-
velmente poderosas, porque pensam no time, nidades de mercado e networking,
valorizam fornecedores e clientes, e inspiram seja qual for o país de origem da
todos à sua volta.” Se, mesmo com a ajuda da empreendedora. “Usando machi-
aceleradora, o venture capital não vier, as sócias ne learning, a plataforma é capaz
orientam as fundadores a buscar outro tipo de “Percebi que, de incorporar dados novos o tem-
recursos: linhas de financiamento para peque- po todo, o que a torna apta a dizer
nas empresas, investimentos-anjo, editais do go- se quisesse atingir quais são os recursos certos para
verno, competições que premiam com dinheiro.
“Não é o caso de desistir ou comprometer sua
mais mulheres, escalar uma empresa, seja na Aus-
trália ou no Brasil.”
visão por causa da falta de recursos. O capital teria de garantir A tecnologia da assistente vir-
está aí, e só saber onde buscar.” o acesso delas tual passa por um processo de
aprimoramento constante. “É um
NA TOCA DAS STARTUPS à informação. E projeto de longo prazo. Eu con-
Quando fundou a Circular Board, Carolyn não sidero esse o trabalho da minha
esperava tamanha repercussão. “Tivemos uma
para isso seria vida”, diz Carolyn. Enquanto pla-
tração inicial incrível, com milhares de empresas necessário usar neja as próximas funcionalidades
querendo se inscrever na Europa, na América da plataforma, a empreendedora
do Sul, na África... Em apenas dois anos, capta- tecnologia” atua em outras frentes. Conversa
mos dezenas de milhões de dólares para mais de com fundos de venture capital,
duzentas startups.” O modelo de negócio havia para ajudá-los a reconhecer e se-
funcionado. Mas, para a menina que queria fa- lecionar empresas lideradas por
zer a diferença no mundo, ainda era pouco. Era mulheres. Trabalha com gover-
preciso atingir mais mulheres, escalar mais em- nos para criar políticas de apoio às
presas, mudar as estatísticas. E, para isso, seria empreendedoras. Participa de co-
necessário tecnologia. munidades como o DWEN e atua
Entra em cena Alice. Não uma terceira sócia, como delegada na Aceleradora
mas uma assistente virtual. “O nome é inspirado Global da ONU. “Eu colaboro co-
em Alice no País das Maravilhas”, diz Carolyn. “Em mo posso”, diz. A empreendedora
uma passagem do livro, o autor Lewis Carroll diz: lamenta não ter chegado nem per-
‘Eu sou capaz de acreditar em seis coisas impos- to de realizar sua missão — con-
síveis antes do café da manhã’. Acho que isso tra- quistar a equidade de gênero no
duz bem o espírito empreendedor.” Desde maio ecossistema das startups. “Mas,
do ano passado, a plataforma de inteligência todos os dias, recebo e-mails de
artificial helloalice.com, desenvolvida em par- mulheres de todo o mundo me
ceria com a Dell e a Pivotal, está disponível para contando como seus negócios fo-
empreendedoras de todo o planeta. Também em ram impactados por algo que eu
2017, a empresa passou a se chamar Alice. fiz. Não consigo imaginar nenhu-
“Percebi que, se quisesse atingir mais mulheres, ma forma mais recompensadora
teria de garantir o acesso universal à informação”, de começar o dia.”

54 pequenas empresas & grandes negócios MARÇO, 2018


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A DIFERENÇA COMEÇA NO PITCH


Para virar o jogo e ter acesso a capital, as empreendedoras precisam adotar métricas
financeiras precisas e mostrar todo o potencial de crescimento do negócio

Maria Rita Spina Bueno Bárbara Malagoli

“Não há dúvida de que o acesso a capital empre- Para que uma startup cresça, o empreendedor
endedor é mais difícil para as mulheres do que precisa ter métricas claras e fazer um acompanha-
para os homens. Vemos isso nas conversas com mento minucioso desses indicadores. A fórmula da
investidores e empreendedoras, nas análises de startup enxuta, criada por Eric Ries, faz toda a dife-
portfólios dos fundos de venture capital e nas rença — é preciso construir, medir e aprender. Não
pesquisas realizadas sobre o tema. Nos Estados basta conhecer profundamente o mercado e cons-
Unidos, estatísticas dão conta de que 38% das truir uma proposta de valor matadora. É necessá-
startups são fundadas por mulheres, mas estas só rio acompanhar de perto os indicadores financei-
Maria Rita Spina recebem 2% de todo o capital investido. No Brasil, ros. Capital é sempre um recurso escasso para uma
Bueno é Diretora a situação não é diferente. A maioria dos inves- empresa que tem como objetivo crescer 20% ao ano
-Executiva da An- tidores e investidoras concorda por vários anos. Ou seja: para em-
jos do Brasil, rede
de investidores- que o quadro precisa mudar: di- preendedoras em busca de inves-
versidade agrega valor, aumenta timento, ter domínio de métricas e
“Investidores
-anjo com sede
em São Paulo, e a inovação e melhora os resul- finanças faz toda a diferença. Mas
fundadora da
tados das startups. A questão só isso não é suficiente.
Mulheres Investi-
doras Anjo (MIA),
movimento de
é como promover essa mudan- têm expectativas Um estudo publicado em 2017 no
ça. Não há uma única resposta Academy of Management Journal
fomento ao
investimento-an- para essa pergunta. Mas posso diferentes (http://aom.org/amj/) mostra que
dar uma pista. Para que as fun- os investidores têm expectativas
quando ouvem
jo feminino para
apoio a empre- dadoras consigam ter mais aces- diferentes quando veem pitches de
endedoras de
so a capital, é preciso mudar a empreendedores do sexo mascu-
alto potencial de
crescimento. forma como jogamos o jogo, e o pitches de lino e do sexo feminino, e isso se
anjosdobrasil.net jogo começa no pitch. expressa na forma como as per-
Durante minha trajetória, as- fundadores do guntas são feitas. Para chegar aos
sisti a muitos pitches em bus- resultados, a pesquisadora Dana
ca de investimento e conversei sexo masculino Kanze analisou mais de 140 pit-
com diversos investidores que ches que ocorreram durante uma
haviam se interessado ou não e feminino” competição de startups do Tech-
pelos projetos. Quando as mu- Crunch Disrupt, em Nova York.
lheres fazem as suas apresen- Ela dividiu as perguntas que os
tações, duas situações tendem a se repetir. A investidores faziam aos empreendedores em dois
primeira é que as empreendedoras se mostram tipos: questões de promoção (relativas ao poten-
competentes para liderar times, são detalhistas cial de crescimento) ou de prevenção (referentes
em seus projetos e entendem profundamente às possíveis perdas com o negócio). Depois, anali-
a dor que a sua startup busca solucionar. A se- sou as diferenças entre as questões feitas aos ho-
gunda é que as mulheres não apresentam os nú- mens e às mulheres. A conclusão foi surpreendente:
meros do negócio, não costumam ter métricas os homens haviam recebido mais perguntas sobre
definidas e não mostram informações financei- o potencial de ganhos, enquanto as mulheres ouvi-
ras detalhadas. ram mais questões sobre a possibilidade de perdas.

56 pequenas empresas & grandes negócios MARÇO, 2018


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Investidores-anjo e fundos de venture capital fensiva, tentando provar que sua empresa não será
estão sempre focados em empresas com alto po- um fracasso. Em vez disso, elas devem responder
tencial de crescimento. Para esse tipo de investi- de maneira inspiradora, transformando as ques-
dor, uma empresa que esteja concentrada apenas tões de prevenção em oportunidades de promo-
em atingir o equilíbrio não interessa. Dessa ma- ção. Quando um investidor perguntar como fará
neira, todas as vezes que um empreendedor do para não ser engolida pela concorrência, explique
sexo masculino responde sobre o potencial de suas estratégias para gerar valor e bater os compe-
ganho, ele tem a chance de dar respostas alinha- tidores. E, se alguém questionar quando sua em-
das com as expectativas dos investidores. No ca- presa atingirá o break even, você pode responder
so das mulheres, as questões sobre perdas fazem que, mais do que equilíbrio, está buscando um fa-
com que falem apenas sobre o que pretendem fa- turamento de tantos milhões. Mostre, com núme-
zer para que a startup não dê errado. O resultado ros, como esse faturamento fará que atinja o equi-
é que, mesmo quando as empresas lideradas por líbrio em 18 meses, e como pretende escalar a par-
homens e mulheres têm potenciais similares, os tir desse ponto. Quebre os paradigmas. Reverta as
homens conseguem levantar muito mais capital. expectativas. Dessa maneira, você estará contri-
Entender esse ponto é fundamental para que as buindo para acabar com o preconceito de gênero
mulheres possam virar o jogo. Nada de ficar na de- e transformar o ecossistema empreendedor.

MARÇO, 2018 pequenas empresas & grandes negócios 57


I N O VA Ç Ã O

58 pequenas empresas & grandes negócios MARÇO, 2018


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A volta
ao mundo
em 30
startups
Ao viajar por 24 países, duas brasileiras
viram como a vida das empreendedoras
é difícil. Também viram como uma
ideia consolidada em um lugar pode
se tornar inovadora em outro

BEM-SUCEDIDAS COMO FUNCIONÁRIAS DE


multinacionais no Brasil, Taciana Mello e Fernanda Moura
mudaram-se para a Califórnia como quem parte para uma
peregrinação. Ao trilhar o Vale do Silício, buscavam ins-
piração. Foi o que aconteceu, mas não como esperavam.
Elas encontraram anjos, encontraram unicórnios, mas
pouco encontraram empreendedoras. “A gente tinha a
ideia romântica de que o maior polo de inovação seria um
ambiente igualitário. Não é”, afirma Taciana. “Num grupo
de 20 empresários, encontramos uma mulher e, ainda assim,
na condição de herdeira”, diz Fernanda. “Ficamos genui-
namente surpresas. Onde estão as empresárias?”
Atrás dessa resposta, Taciana e Fernanda entrevistaram
300 empresárias, em 24 países, ao longo de 15 meses. Ao bus-
car empreendedoras, tornaram-se, elas mesmas, fundado-
ras de um negócio. O projeto The Girls on the Road rende
reportagens no site da PEGN, renderá um livro (aguardado
para maio) e, no segundo semestre, um documentário.
As pesquisadoras concluíram que no mundo inteiro,
por razões diversas, a mulher encontra mais dificuldades
que o homem para empreender. “O único país em que não
encontramos pressão social de gênero foi a Noruega”, diz
NA ESTRADA Fernanda. “Lá, é comum o pai ficar em casa cuidando dos
Taciana Mello e
Fernanda Moura, filhos enquanto a mãe trabalha ou estuda”. A pesquisa
no Vale do Silício: internacional traz outra lição. Diversas histórias de sucesso
elas rodaram o devem-se menos a uma invenção original e mais à aplica-
mundo em busca
de histórias de ção de uma solução já conhecida em outro lugar. Algumas
empreendedorismo dessas boas ideias ainda não foram exploradas no Brasil.

FOTOS: DIVULGAÇÃO
MARÇO, 2018 pequenas empresas & grandes negócios 59
I N O VA Ç Ã O A VOLTA AO MUNDO EM 30 STARTUPS

300 EMPREENDIMENTOS,
24 PAÍSES, 15 MESES
O projeto The Girls on the Road rodou
o mundo em busca de inovação
Noruega
Coreia
Alemanha Rússia do Sul
Canadá
Estados Unidos
França
Portugal Jordânia China Japão
Israel Líbano
México Cuba
Índia
Malásia
Quênia Cingapura
Ruanda
Brasil

Chile Austrália

Nova
Zelândia

Na Alemanha há um coworking com creche, para


pais que querem conciliar família e carreira

ALEMANHA AUSTRÁLIA
JUGGLEHUB Katja Tiede/Silvia Steude CONX Annie Slattery
Silvia e Katja queriam estar perto dos filhos pe- Annie abriu dois serviços de formação de pares. O
quenos sem abrir mão da carreira profissional. Elas Flamingo Thinking (2012), dedicado à indústria da
então fundaram em Berlim o JuggleHUB (2015), um moda, buscava apresentar estilistas a confecções de
coworking e espaço de eventos com creche para roupas. Não deu certo. Já o ConX (2014) tornou-se
crianças. A empresa oferece planos variados de cui- um sucesso. Ao apresentar empreiteiras a prestadores
dado infantil, como contratação por hora e plano de serviço, tornou-se a maior rede de contatos da
compartilhado entre pais divorciados. construção civil na Austrália.

60 pequenas empresas & grandes negócios MARÇO, 2018


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BRASIL BRASIL
FUTURISTE Raquel Molina VIA COURO Sarah Medeiros
Raquel e um colega perceberam que o mercado de Como presente de 15 anos, Sarah Medeiros pediu não
drones estava crescendo bem mais que o de centros de para ir a uma loja, mas sim para ter uma loja. Nascia
treinamento para operar drones. Era uma oportunidade. a Via Couro (2003), fábrica e comércio de calçados e
A Futuriste (2015) venceu a Batalha de Startups da Feira bolsas em Pernambuco. Com pouca experiência, não
do Empreendedor e entrou para a incubadora do Se- apenas nos negócios, Sarah aprendeu com tentativas
brae-SP. Hoje, a empresa comercializa equipamentos, e erros. Quebrou três vezes. Hoje, o perfil da marca no
oferece cursos e orienta outros negócios. Instagram tem mais de 13 mil seguidores.

No Chile, um aplicativo transforma o smartphone


em laboratório de ciências para crianças

CANADÁ CHILE
NEURESCENSE Yasaman Soudagar LAB4YOU Komal Dadlani
Nascida no Irã, na adolescência Yasaman migrou para Formada em bioquímica e integrante da ONG Empre-
o Canadá – um dos países mais férteis para o empre- endedoras do Mundo, Komal reuniu experimentos de
endedorismo. Doutora em pesquisas na área médica, Física e Química que podem ser feitos por meio de
ela fundou a Neurescense (2014) para desenvolver um smartphone. “Quero colocar um laboratório no
microscópios fluorescentes, que permitem analisar bolso de estudantes de todas as partes do mundo”,
tecidos vivos. Neurocientistas usam a ferramenta diz. Criou a Lab4you, cujo aplicativo Lab4Physics
para monitorar a atividade cerebral. tem mais de 10 mil downloads na loja Google Play.

MARÇO, 2018 pequenas empresas & grandes negócios 61


I N O VA Ç Ã O A VOLTA AO MUNDO EM 30 STARTUPS

CHINA CINGAPURA
60KOU Yang Cao FASHORY Emmy Teo
Depois de uma década trabalhando em empresas de Em 2015, Emmy Teo criou o FASHORY, aplicativo de
grande porte em Shangai, em 2016 Yang Cao criou vestuário com orientações de moda e venda de pro-
uma plataforma de microtreinamentos para funcio- dutos de mais de 200 marcas do mundo inteiro. Bem-
nários, com ensinamentos econômicos na estrutura sucedida ao ligar consumidores a empresas, em 2017
(cabem no smartphone) e na duração (levam 60 ela decidiu ligar uma empresa a outras. Com o FUSE,
segundos, daí o nome 60kou). Sobra pouco tempo lojistas podem oferecer a grifes espaços pequenos,
para o aluno se distrair durante a aula! como uma prateleira, ou encomendar grandes estoques.

Na China, uma empresa oferece cursos de capacitação


profissional com microaulas de um minuto

COREIA DO SUL CUBA


SUNSHINE APP Nicole Kim VITRIA Adriana Sanchez
Ex-engenheira da Samsung, Nicole ajudou a criar o Adriana Sanchez fundou a Vitria (2013), cooperativa
Sunshine (2009), aplicativo que permite compar- para a produção de vitrais para igrejas. Ela passou quase
tilhar e abrir arquivos grandes de vídeo de maneira um ano sem espaço para trabalhar, por depender de
instantânea. Sem upload, sem download, sem arma- decisões do departamento do escritório do patrimônio
zenamento na nuvem ou cabos: os arquivos passam histórico do governo de Cuba. Outro desafio é conseguir
de um celular para outro. O app já foi baixado mais matéria-prima, pois não há fábrica de vidros no país. Seu
de 500 mil vezes no Google Play. estoque atual de vidros lisos foi doado por americanos.

62 pequenas empresas & grandes negócios MARÇO, 2018


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ESTADOS UNIDOS ESTADOS UNIDOS
STRYPES Alexa Fleischmann GLOBALIZATION PARTNERS Nicole Sahin
Em 2015, Alexa abriu um serviço de personalização Nicole trabalhou no Caribe e no Camboja. Conhecedo-
de tênis, no qual adolescentes participavam da cria- ra das diferenças de cada país, fundou a Globalization
ção de peças exclusivas, feitas com impressora 3D. Partners (2012) para ajudar empresas a superar en-
Sem lucro, um ano depois, desistiu do empreendi- traves burocráticos no exterior. A GP foi escolhida pela
mento – mas não do empreendedorismo. Fundou a revista Inc. como uma das melhores empresas para
Strypes, que cria fotos tridimensionais de produtos se trabalhar e Nicole, eleita, pela revista Entrepreneur,
para sites de varejo. uma das melhores empreendedoras da América.

Na França, uma galeria vende cotas de investimento em obras


de arte digitais. Cada download rende dividendos

FRANÇA FRANÇA
LA PETITE CANTINE Carole Dorgler LAFFY MAFFEI GALLERY Laetitia Maffei
Arquiteta que virou chef, Carole Dorgler queria apenas Apaixonada por artes desde criança, Laetitia Maffei
ajudar um amigo que precisava fornecer refeições achou que o modelo tradicional de compra e venda de
para um set de filmagem. Culinária era um prazer, obras era inadequado à nova geração de artistas que
não um negócio. Mas os pratos foram tão elogiados produz arte digital, e a um público jovem com pouco
que ela resolveu largar a prancheta de desenho e dinheiro. Criou a Laffy Maffei (2013), galeria na qual
abrir a Le Petite Cantine (2012). Hoje, sua empresa os clientes podem comprar cotas de uma obra digital
tem quatro caminhões-cozinha. e receber dividendos conforme ela é reproduzida.

MARÇO, 2018 pequenas empresas & grandes negócios 63


I N O VA Ç Ã O A VOLTA AO MUNDO EM 30 STARTUPS

ÍNDIA ISRAEL
SARAL DESIGNS Suhani Mohan IANGELS Mor Assia
Formada em engenharia, Suhani Mohan deixou o Mor Assia foi consultora de empresas como SAP e
mercado financeiro para fundar a Saral Designs IBM. Na Unidade 8200, prestigiado departamento de
(2015). A empresa fabrica absorventes de baixo inteligência e tecnologia do governo israelense, ela
custo, a fim de atender mulheres pobres demais conheceu Shelly Moyal, avaliadora de investimentos
para consumir os tradicionais produtos de higiene em bancos como UBS e Goldman Sachs. As duas
íntima. A menstruação é um tabu na sociedade in- fundaram a iAngels (2013), agência que apresenta
diana, sobretudo nas periferias. startups a investidores.

No Japão há uma agência de empregos especializada em


mães que querem voltar ao mercado de trabalho

ISRAEL JAPÃO
TEMECH Shaindy Babad WARIS Miwa Tanaka
Shaindy Babad criou a Temech (2005), um centro No Japão (e não apenas no Japão), mulheres têm
de apoio profissional para mulheres religiosas em dificuldade de voltar ao mercado de trabalho após
Jerusalém. Na comunidade de judeus ultraortodoxos, dedicarem alguns anos ao cuidado dos filhos. Miwa
da qual faz parte, os homens se dedicam ao estudo criou a Waris (2013), consultoria especializada em
da Torá e cabe às mulheres sustentar a casa. Mais de mães com alta qualificação profissional. Além de
10 mil mulheres já usaram os serviços de treinamento, ofertas de trabalho, as clientes encontram orientação
busca de empregos e coworking da Temech. sobre carreira e maternidade.

64 pequenas empresas & grandes negócios MARÇO, 2018


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JORDÂNIA LÍBANO
MRAYTI Romouz Sadeq KAMKALIMA Siroun Shamigian
Romouz criou a Mrayti (2016), primeiro salão de Professora por mais de 20 anos, Siroun Shamigian
beleza pelo celular da Jordânia. O portal oferece notou que faltava ao ensino de Árabe um material
serviços como corte e escova de cabelo, maquiagem didático prazeroso como aquele que ela usava em
e manicure. As prestadoras de serviço são, principal- suas aulas de Ciências. Fundou a Kamkalima (2014),
mente, palestinas em situação de vulnerabilidade, plataforma de criação coletiva de textos e exercícios.
com habilidade técnica, mas com difícil acesso ao Ao registrar o desempenho de cada estudante, a
mercado profissional formal. ferramenta facilita a gestão das escolas.

Na Jordânia, um salão de beleza virtual oferece o serviço


de centenas de manicures e cabeleireiros autônomos

LÍBANO MALÁSIA
MYKI Priscila Elora TRULY LOVING COMPANY Julia Chong
Pensando em sua avó, que vivia esquecendo senhas, Aos 55 anos, quando muita gente pensa em se apo-
Priscilla Elora ajudou a fundar a Myki (2014), dedicada sentar, Julia abriu uma fábrica de produtos de limpeza
à gestão de códigos e autenticação por impressão e higiene pessoal: a Truly Loving Company (2007),
digital. Resolveu o problema da avó e de empresas algo como “Empresa Realmente Amorosa”. Para jus-
no Oriente Médio, na Europa e nos Estados Unidos. tificar o nome, a TLC não testa produtos em animais,
Priscilla foi escolhida pela revista Forbes uma das exige conduta exemplar de seus fornecedores e doa
sete maiores empreendedoras do Oriente Médio. os dividendos a entidades de apoio social.

MARÇO, 2018 pequenas empresas & grandes negócios 65


I N O VA Ç Ã O A VOLTA AO MUNDO EM 30 STARTUPS

MÉXICO MÉXICO
KIWILIMON Deborah Dana CARROT Jimena Pardo
Ex-funcionária de marketing da Procter&Gamble, Formada em engenharia, Jimena queria empreender,
Deborah ajudou a fundar a Kiwilimon (2009), maior mesmo sem saber no quê. Após estudar startups de
plataforma de vídeos de culinária do México, com outros países, ela e um sócio fundaram o primeiro car
260 mil seguidores no YouTube. Em 2017, Deborah sharing do México. A empresa oferece carros da própria
fundou a Asociación de Emprendedores de México. frota e carros de pessoas comuns, que os alugam quan-
Em menos de um ano, o grupo conseguiu mais de do não os estão usando. A Carrot está no programa de
10 mil sócios. aceleração de startups da Endeavor México.

No México, uma empresa de car sharing aluga os carros de pessoas


comuns, nas horas em que eles ficariam parados na garagem

NORUEGA NOVA ZELÂNDIA


INZPIRE.ME Marie Mostad MISPRINT Kareena Harris/Jenny Buckler
Marie Mostad fazia um curso de empreendedorismo, “O erro de impressão de alguém pode se tornar o bloco
nos EUA, quando foi recrutada por uma startup de me- de notas de outro alguém”, diz o papel de parede no
dicina. Não era sua área – tinha diploma em jornalismo LinkedIn de Jenny Buckler. Ela e uma colega de facul-
e experiência em eventos –, mas achou que poderia dade, Kareena Harris, resolveram ganhar dinheiro com
aprender com a fundadora. Voltou para a Noruega aquelas folhas abandonadas na bandeja da impressora.
e abriu a Inzpire.me (2016), que aproxima grandes Ao perceber o apelo ecológico da ideia, dedicaram-se
marcas, como a Coca-Cola, de influenciadores digitais. a recolher e reciclar páginas usadas.

66 pequenas empresas & grandes negócios MARÇO, 2018


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PORTUGAL QUÊNIA
HOMELOVERS Magda Tilli VIVO ACTIVEWEAR Wandia Gichuru
Após ser demitida de uma agência de imóveis, Magda Por mais de uma década, Wandia Gichuru ajudou o
Tilli e um sócio criaram a Homelovers (2011), uma Quênia de longe, como consultora da ONU, do Banco
imobiliária que funciona apenas no Facebook. Na Mundial e da agência de desenvolvimento internacio-
rede social, Magda deixou de ser mera intermedi- nal do governo da Inglaterra. Resolveu voltar para casa
ária para se afirmar como uma curadora de casas e promover a moda local ao abrir a Vivo Activewear
e apartamentos charmosos. A empresa opera com (2011). Wandia é investidora no programa Lion’s Den
escritórios em quatro cidades e tem 70 funcionários. (o Shark Tank queniano).

Em Portugal, uma imobiliária se reinventou no Facebook


como curadoria de casas charmosas

RUANDA RÚSSIA
RIGHT SEAT Celine Uwineza / Denise Umunyama MARC BAKERY Alexandra Shaforost
Celine Uwineza e Denise Umunyana eram amigas na Alexandra Shaforost nasceu no Leste Europeu, fez
infância, mas perderam contato no genocídio que de- faculdade nos Estados Unidos e MBA na França.
vastou o país, em 1994. Ao se reencontrar, viram que Ao perceber que faltavam empresas dedicadas à
haviam seguido a mesma carreira: recursos humanos. comida prática saudável na Rússia, criou a fábrica
Quando o governo criou um programa de estímulo ao de aperitivos Marc Bakery (2012). Estabelecida no
emprego de mulheres, fundaram a consultoria de RH mercado russo, ela planeja voltar aos Estados Uni-
Right Seat (2015). Já atenderam cerca de mil pessoas. dos, agora como empresária.

MARÇO, 2018 pequenas empresas & grandes negócios 67


MENTORIA

68 pequenas empresas & grandes negócios MARÇO, 2018


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DUPLAS PERFEITAS
Do encontro entre empresárias de sucesso
e jovens fundadoras, surgem lideranças
femininas capazes de criar os negócios
de impacto do futuro
Bel Moherdaui Camila Gray

Homens e mulheres abrem empresas com a mesma ve- formas como a Winning Women, criada pela consulto-
locidade no Brasil — de acordo com a Serasa Experian, ria Ernst & Young (EY) em 2006 nos Estados Unidos, e
dos quase 2 milhões de novos negócios abertos em 2016, que neste ano reunirá sua sexta turma no Brasil. “Nos-
47% foram fundados por mulheres. Esse equilíbrio, po- so objetivo é fomentar a liderança feminina”, afirma Ra-
rém, é abalado alguns degraus acima: entre as compa- quel Teixeira, líder dos programas de liderança feminina
nhias de alto rendimento (que tiveram crescimento de da EY no país. O Winning Women, que tem inscrições
ao menos 20% ao ano nos últimos três anos), apenas abertas até o fim deste mês, fornece às participantes ca-
30% são lideradas por empreendedoras. “Há uma sé- pacitação, troca de experiências e ampliação da rede de
rie de atributos importantes ao empreendedor de alta contatos via mentoria de um grupo de 22 empresárias.
performance: otimismo, autoconfiança, desejo de pro- No total, 46 empreendedoras já passaram pela formação,
tagonismo, apetite ao risco e resiliência. Mas, com al- que é gratuita. A Rede Mulher Empreendedora é outra
guma frequência, as mulheres enfrentam desafios jus- instituição que incentiva essa troca feminina, em proje-
tamente nessas questões. Além, é claro, de encararem tos como o Café com Mentoria. “O processo de mento-
uma questão cultural forte que dificulta o desenvolvi- ria é essencial para qualquer empreendedor. E por quê
mento dos negócios. Por isso, uma das nossas missões feminina? Porque a mentora entende a fundo as ques-
é entender esse cenário com mais clareza e trazer à tona tões que envolvem um negócio liderado por mulheres”,
mais exemplos de mulheres de sucesso que inspirem ou- diz Ana Lúcia Fontes, fundadora da Rede.
tras”, diz Camila Junqueira, diretora-geral da Endeavor. Embora não tenham programas voltados especial-
Organização que tem como meta ampliar o impacto mente para mulheres, Endeavor e InovAtiva aten-
dos empreendedores no país, a Endeavor registra, en- tam para a diferença entre as mentorias oferecidas
tre as empresas de alto impacto que apoia, uma parti- por empresários e empresárias. “Pesquisas mostram
cipação feminina de apenas 15% — embora o número que, no Brasil, embora na média tenham mais escola-
venha crescendo a cada ano. Esse desequilíbrio de gê- ridade que os homens e dediquem mais horas ao pró-
neros se repete no InovAtiva Brasil, programa de ace- prio negócio, em geral as empreendedoras se sentem
leração para startups realizado pelo Sebrae, em parce- menos preparadas do que eles. Por isso, e por com-
ria com o Ministério da Indústria, Comércio Exterior e partilharem desafios, mentoras podem ter mais faci-
Serviços. Dos 646 negócios já acelerados, apenas 14% lidade para desenvolver empatia com outras empre-
são fundados por mulheres. endedoras e podem ter mais sensibilidade para tra-
Uma ferramenta que vem sendo adotada por diversos balhar pontos necessários para crescer”, diz Renata
programas para diminuir essa discrepância de gêneros Malheiros Henriques, gerente da unidade de acesso a
é a mentoria — mais especialmente aquela em que uma mercados do Sebrae nacional. Nas próximas páginas,
empresária de sucesso orienta e apoia uma empreen- duplas de empreendedoras contam como mudaram
dedora em ascensão. É esta a principal meta de plata- para sempre as histórias umas das outras.

MARÇO, 2018 pequenas empresas & grandes negócios 69


MENTORIA

Esther e Graciele

ESTHER SCHATTAN, ...É MENTORA DE GRACIELE DAVINCE, 41 ANOS,


54 ANOS, FUNDADORA DA ORNARE... FUNDADORA DA CARIOCA ELETROFRIGOR

“Há 32 anos, abri a Ornare com o meu marido, Murilo, “Abri o meu negócio, um varejo de peças de reposição
em uma época em que não havia onde pedir ajuda. Fui para refrigeração, ar-condicionado e lavadora, em 2011.
expandindo a empresa, abrindo lojas, aprendendo na Minha proposta era montar uma loja com cara de bu-
prática a cuidar das finanças, do marketing. Eu fazia tique, voltada para um público formado de técnicos.
cursos, lia muito, mas nada que tivesse o valor de uma Parecia estranho, mas deu muito certo — só no primei-
mentoria. Naquela época, não existia nada parecido ro ano, crescemos 40%. E, em 2014, inaugurei uma loja
com o Winning Women. Participo do programa desde três vezes maior do que a primeira. No ano passado,
a primeira edição, em 2012. No ano passado, fui respon- resolvi buscar ajuda profissional para expandir, me
sável pela mentoria da Graciele Davince, da Eletrofrigor. inscrevendo no Winning Women. Foi ali que conheci
Em um primeiro momento, nossas afinidades não eram a Esther Schattan. Ao lado da equipe da EY, ela me aju-
óbvias, mas fomos percebendo que tínhamos questões dou a olhar o negócio estrategicamente e também a am-
em comum. Nas nossas conversas, costumo dizer: ‘Esse pliar minha rede de contatos. Além da Esther, a Luiza
caminho já fiz. Vou te dizer quais percalços eu encontrei’. Trajano, que também é mentora do Winning Women,
Dessa maneira, ela será capaz de escolher seu rumo, mas sempre me incentivou. Trabalho sozinha, portanto
consciente dos riscos. Já aprendi que, nessa relação de essa troca é muito rica. Saber que elas passaram pelo
mentoria, quem dá é quem mais recebe. Ao orientar a que estou passando faz toda a diferença. Sem dúvida,
Graciele, também revisito minhas questões.” estar entre mulheres fortalece.”

70 pequenas empresas & grandes negócios MARÇO, 2018


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Sônia e Milena

SÔNIA HESS, 62 ANOS, EX-PRESIDENTE DA DUDALINA E ...É MENTORA DE MILENA SATYRO, 38 ANOS,
MEMBRO DO CONSELHO DA FUNDAÇÃO DOM CABRAL... FUNDADORA DA ÚNICA, DE SÃO PAULO

“Na minha história empreendedora, não tive essa re- “Em 2005, fundei uma empresa especializada na con-
lação formal de mentoria, mas tive pessoas que me fecção de uniformes para eventos e promoções. Co-
ajudaram muito. Hoje, acho gratificante poder devol- mecei em uma sala de 65 m2 e terminei em uma fábrica
ver um pouco do que aprendi, enquanto também me de 3 mil m2. Em 2016, depois de ter passado por uma
atualizo. Conheci a Milena Satyro, da Única, em 2012, e mentoria da Endeavor, decidi que iria mudar o foco.
até hoje faço mentoria para ela, dentro de uma espécie A minha paixão por moda, comunicação e marketing
de conselho consultivo informal. O bom da Milena é fez com que criasse uma empresa de consultoria e
que ela suga a mentoria. Ela ouve com atenção, aciona design técnico de roupas de trabalho — hoje, tenho
quando tem dúvidas e também compartilha o sucesso. apenas 15 funcionários diretos. Essa transição da
Acredito que o processo funciona quando as duas pon- indústria para o serviço foi muito solitária. Eu não
tas têm uma forma parecida de olhar a vida. Já orientei sabia bem para onde ir. Precisava de alguém que es-
homens também, mas hoje me dedico somente à causa tivesse disposto a compartilhar conhecimento. Foi
das mulheres. Eu entendo os momentos difíceis pelos aí que a Sônia, uma mulher muito inspiradora, fez
quais elas passam, incluindo o que diz respeito aos a diferença. Um mentor não evita que você cometa
relacionamentos com a família. Não é fácil encaixar erros, mas a ajuda a direcionar o seu caminho. Foi o
a mentoria na minha agenda, mas faço sempre que que ela fez, munida de uma generosidade imensa e de
posso. E, no momento em que estou ali, estou inteira.” uma enorme capacidade de tirar o melhor de mim.”

MARÇO, 2018 pequenas empresas & grandes negócios 71


MENTORIA

Aline e Hermanice

ALINE FERREIRA, 37 ANOS, VICE-PRESIDENTE COMER- ...É MENTORA DE HERMANICE NOGUEIRA, 47 ANOS,
CIAL E FINANCEIRA DA AÇO CEARENSE... DA NOSSA FRUTA BRASIL, DE PEREIRO (CE)

“Antes de assumir um papel na companhia fundada “A especialidade da empresa, fundada em 2008, são as
pelo meu pai, tive meu próprio empreendimento, uma polpas e sucos de frutas congeladas. Temos uma linha
empresa de móveis para escritório — era importante tradicional, com sabores mais regionais, como caju, man-
aprender a construir um negócio com o meu suor. Em ga, goiaba e umbu-cajá. Também temos frutas exóticas,
2008, fui chamada para cuidar da área financeira da Aço como tamarindo, e outras mais básicas, como morango.
Cearense. De lá para cá, passei por vários departamen- Em 2016, participei do programa da Endeavor e recebi
tos, até chegar ao posto de vice-presidente comercial e uma série de mentorias — entre elas, a da Aline, da Aço
financeira. Em 2014, a Endeavor me chamou para ser Cearense. Com ela, aprendi a importância das métricas e
embaixadora do programa deles — a primeira no Nor- percebi o poder da inovação. Isso nos ajudou a crescer e
deste. Achei a responsabilidade grande, mas aceitei. Na chegar a um faturamento anual superior a R$ 18 milhões.
hora de oferecer a mentoria a Hermanice Nogueira, con- Além dos encontros presenciais, trocamos e-mails e ela
videi executivos da Aço Cearense para participar. Achei chegou a me indicar nomes de fornecedores. No dia a
que eles poderiam acrescentar pontos interessantes. dia, o empreendedor fica preso à gestão e esquece de
Na mentoria, o empreendedor aprende novos jeitos de cuidar da questão estratégica. A mentoria tira você da
vender, melhora processos internos e entra em contato sua rotina e faz olhar um pouco de fora para o negócio,
com novas tecnologias. Isso diminui as chances de cair a partir da experiência de outra empresa. Assim, fica
no abismo de uma falha que poderia ter sido evitada.” mais fácil mirar o horizonte à frente.”

72 pequenas empresas & grandes negócios MARÇO, 2018


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Maria Tereza e Aísa

AÍSA PEREIRA, 58 ANOS, FUNDADORA DA CONSUL- ...É MENTORA DE MARIA TEREZA PEDROSA,
TORIA ENGENHARIA DE VENDAS, DE RECIFE (PE)... 29 ANOS, CRIADORA DA BHAVE, DE RECIFE (PE)

“A primeira pergunta que faço para os empreendedores “No meu trabalho com pacientes autistas, percebi que
é: ‘O que o seu cliente vai ganhar a partir do seu negócio?’ meu relacionamento com os pacientes poderia se be-
‘Por que você?’ Esse questionamento faz parte do meu neficiar muito da análise de dados. Foi então que decidi
trabalho na Engenharia de Vendas — consultoria para criar uma ferramenta tecnológica capaz de auxiliar
empreendimentos de software —, e também da mento- nesse processo. Em 2016, estruturei o projeto. Para
ria que ofereço no programa InovAtiva. Minha função entrar no mundo das startups, foi preciso sair da minha
como mentora é fazer as perguntas certas, destacando zona de conforto, fazer cursos e participar de eventos
questões das quais o empreendedor não se deu conta. na área de tecnologia. Nesse sentido, a mentoria que
É esse olhar genuíno e profissional que tem o poder de recebemos no programa InovAtiva foi fundamental,
transformar. A Maria Tereza, da bHave, fez um workshop pois ajudou a desenvolver novas habilidades. Depois
comigo. A empresa é muito inspiradora: criou um apli- do workshop com a Aísa, continuei acompanhando a
cativo para ajudar no tratamento de autistas. Mas notei empresária em outras plataformas. Além disso, fomos
que ela tinha dificuldades para vender e apresentar o atrás de outras mentorias para acumular expertise.
projeto. Durante a mentoria, pedi a ela que vendesse o Acho que, na relação entre mentor e ‘mentorado’, a
produto para mim. Depois, inverti o jogo, e fiz a venda afinidade que surge entre as duas partes é essencial.
para ela e o sócio. Ela ficou emocionada com o resultado. Ainda estamos na fase de testes, mas nosso objetivo é
É preciso humildade para aceitar o que vem do mentor.” construir um negócio com potencial de escala.”

MARÇO, 2018 pequenas empresas & grandes negócios 73


MENTORIA

Juliana e Cristina

CRISTINA FRANCO, 55 ANOS, FUNDADORA DA BIT ...É MENTORA DE JULIANA LOUREIRO, 45 ANOS,
COMPANY E EX-PRESIDENTE DA ABF... SÓCIA DA URBAN REMEDY, DE SÃO PAULO

“Sinto que completei um ciclo. Fundei uma escola “Ao ser fundada, em 2013, a Urban Remedy lançou um
de informática, a BIT Company, no final da década conceito novo, de sucos prensados a frio, a partir de um
de 1980. Com meus dois sócios, fizemos a empresa trabalho com alimentos ultrafrescos. A aceitação do
crescer. Viramos uma rede de franquias. E em seguida mercado foi boa, mas logo vieram dezenas de concor-
vendemos. Em 2013, assumi o posto de presidente da rentes fazendo a mesma coisa. Tivemos de ir atrás de
ABF. Então, percebi que poderia usar toda a minha ex- inovação para nos diferenciar. Nos três primeiros anos,
periência em favor de outras pessoas, especialmente eu e minhas sócias não conseguíamos nem colocar a
das mulheres. É o que faço no Winning Women. Já fui cabeça para fora da água para respirar. Foi então que
mentora de quatro participantes, todas de negócios me sugeriram participar do programa Winning Women,
bem diferentes. Trabalhar com a Juliana foi intenso em 2016. Com a ajuda das nossas mentoras, dobramos o
e prazeroso. A Urban Remedy é um desses negócios número de lojas (hoje já são sete), expandimos a linha de
disruptivos típicos da nova economia. Seu propósito produtos e nos aproximamos mais dos clientes. Por ter
é oferecer uma alimentação mais saudável e melhorar uma cabeça muito comercial, a Cristina nos ajudou no
a qualidade de vida das pessoas. Acredito que orien- treinamento da equipe de vendas e também na definição
tar mulheres tem algumas peculiaridades. É muito das comissões. A mentoria foi essencial para identificar
importante para a empreendedora ver na mentora nossos pontos fortes e fracos, onde melhorar, onde focar
um espelho onde ela possa se mirar.” e como tomar decisões estratégicas.”

74 pequenas empresas & grandes negócios MARÇO, 2018


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Isabel e Dilma

ISABEL HUMBERG, 48 ANOS, FUNDADORA DA ...É MENTORA DE DILMA SOUZA CAMPOS, 42 ANOS,
OQVESTIR E DONA DA CPH CONSULTING... DA CONSULTORIA OUTRA PRAIA, DE SÃO PAULO

“Em 2009, decidi apostar na ideia de vender roupa pela “Cresci sem ter exemplos de mulheres negras de suces-
internet. Em seis anos, a OQVestir foi do vermelho para so. Não é comum ver empresários negros bem-sucedi-
R$ 100 milhões de faturamento. Então, em 2015, resolvi dos. Então, não tive em quem me inspirar. Mesmo as-
sair da empresa para investir em um novo sonho: ajudar sim, usei a experiência adquirida em grandes agências
outras mulheres. Fiz isso com a minha consultoria, dan- de propaganda e de live marketing para abrir a minha
do palestras e participando dos programas da Endeavor própria agência, a Outra Praia, em 2013. O negócio ia
e da EY. Na minha trajetória, tive figuras masculinas que bem, mas ainda tinha muitas dúvidas. Então, em 2016,
me ensinaram muito. Mas faltou uma escuta feminina, fui selecionada para o Winning Women. O processo de
que faz diferença para mulheres, porque nossa visão de mentoria não foi fácil. O programa mexe em questões
mundo é outra. Hoje, quando faço mentoria, tento ofe- internas que fazem você se questionar sobre tudo. Mi-
recer isso para as fundadoras. Também cuido da parte nhas mentoras, a Isabel Humberg e a Chieko Aoki, me
financeira. Pego todos os indicadores, faço minha análise fizeram refletir sobre a decisão de empreender. Com
e devolvo como lição de casa. Lembro de quando vi a frequência, elas pegavam na minha mão para mostrar
Dilma pela primeira vez, uma moça tímida, falando bai- os caminhos possíveis para o crescimento. Vi que era
xinho. Na mentoria, ela passou por uma transformação possível mexer na gestão financeira. Com isso, conse-
tão grande, profissional e pessoal, que, em um ano, a gui aumentar a margem de lucro e reduzir os custos.
empresa dobrou de tamanho.” Em 2017, faturei R$ 3,2 milhões.”

MARÇO, 2018 pequenas empresas & grandes negócios 75


TECNOLOGIA VALE DO SILÍCIO

76 pequenas empresas & grandes negócios MARÇO, 2018


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RESPEITEM
MEUS CABELOS
COR DE ROSA Como Therese Tucker
venceu o preconceito e
criou uma empresa
de tecnologia avaliada
em US$ 2 bilhões
Maria Aspan

T
herese Tucker, 56 anos, se lembra bem da e é considerada por analistas como a responsável
noite em que um grupo de banqueiros do pela criação de um novo mercado para softwares de
Goldman Sachs a ajudou a arrecadar recur- contabilidade. Em 2016, a companhia abriu o capital
sos de investidores para a BlackLine — em- e registrou receita de US$ 123 milhões. Suas ações ti-
presa de software da qual ela é fundadora e CEO. Foi veram desempenho superior ao de IPOs bem mais
em meados do ano passado, quando a companhia aguardados, como os da Nutanix e da Snap. Tucker
já crescia em ritmo acelerado (hoje a BlackLine vale é uma mulher inquieta, dona de uma inteligência
mais de US$ 2 bilhões). Depois de chegar a um acor- afiada. Aquela noite não foi a primeira vez em sua
do sobre o valor e fechar a operação, os banqueiros longa carreira como fundadora de empresas tecno-
acompanharam a fundadora , que vestia casaco de lógicas em que ela foi subestimada. Therese, porém,
moletom, e o CFO da empresa, um homem de ter- não está nem aí. “Pra que ter ambições modestas?”,
no, até o elevador do prédio. No caminho, cruzaram pergunta. “Se você almejar pouco, vai chegar lá muito
com um alto executivo do Goldman Sachs: “Vocês rápido. Depois vai ser um tédio danado”.
precisam conhecer o CEO da BlackLine”, disse ele. Tédio é algo que Therese certamente não sentiu
“Esses caras conseguiram captar US$ 115 milhões”. O nos últimos 17 anos, quando enfrentou praticamen-
executivo do banco parecia olhar através de Therese, te todos os obstáculos imagináveis no mundo dos
como se ela, seu moletom e seu cabelo tingido de ro- negócios. Para financiar sua startup, sacou as econo-
sa fossem invisíveis. Ele mirou o diretor financeiro mias que havia guardado para a aposentadoria. Após
e soltou um elogio: “Parabéns pelo belo trabalho”. lançar o primeiro produto, quase foi à falência. Atra-
Minutos depois, Therese já estava rindo do ocor- vessou anos de tensão, tentando convencer grandes
rido. Seu bom humor é espalhafatoso e contagiante, corporações a comprar a tecnologia que ela vendia.
e parece ser acompanhado pelos etéreos cabelos Seu projeto era reproduzir, na área de contabilidade,
cor-de-rosa. A BlackLine teve um ano excelente: fi- o que a Salesforce fez pelas vendas: transferir dados
gurou pela nona vez consecutiva na lista Inc. 5000 dos antiquados livros-razão para a nuvem.

FOTO: Ramona Rosales/AUGUST MARÇO, 2018 pequenas empresas & grandes negócios 77
TECNOLOGIA VALE DO SILÍCIO

A BlackLine ainda não é uma marca conhecida (a ela se tornou uma das únicas mulheres que fundou
não ser, é claro, que você seja um contador ou uma uma empresa desse setor e continua atuando como
contadora). Mas a empresa faz negócios com marcas CEO mesmo após a abertura de capital.
extremamente conhecidas: Coca-Cola, United Airli- Embora as mulheres tenham assumido papéis
nes e eBay estão entre os clientes. O pioneirismo da importantes nos primórdios do boom tecnológico
BlackLine é comprovado pelo termo que eles cunha- (leia na linha do tempo, abaixo), a participação delas
ram e que passou a ser usado até por gigantes como vem sofrendo uma triste erosão. Atualmente, mais
a SAP (parceira da companhia de Therese): “conta- de 75% da mão de obra contratada por titãs como
bilidade contínua”. O que isso quer dizer na prática? Apple, Facebook e Google é formada por homens.
O software da BlackLine não processa os números Os números são ainda piores quando se contam as
do cliente. Ele coleta os dados e os envia para pro- fundadoras: ainda que 30% das pequenas empresas
gramas que fazem isso. Assim, é possível enxergar sejam comandadas por mulheres, apenas 10% das
e compreender a causa de determinado comporta- empresas privadas listadas na Inc. 5000 (que reúne as
mento contábil, a qualquer hora e em qualquer lugar. que mais crescem nos Estados Unidos) foram criadas
Acabou aquela história de esperar o contador enviar por mulheres. De acordo com a Catalyst, organização
um e-mail com a planilha de Excel, anexa, no fim do sem fins lucrativos que trabalha pela ampliação do
mês. O serviço da BlackLine é vendido sobretudo espaço feminino no mundo corporativo, apenas 5,2%
para empresas com receita superior US$ 50 milhões das empresas da S&P 500 têm mulheres na direção.
(já são quase dois mil clientes). Um relatório da con- Para as mulheres que encaram o desafio de trilhar
sultoria Frost & Sullivan mostra que a empresa pode uma carreira no Vale do Silício, os últimos anos foram
atingir um mercado global de US$ 20 bilhões em 2018. pródigos em exemplos de misoginia e machismo. Em
“Poucas pessoas são capazes de fazer essa transição fevereiro de 2016, a engenheira Susan Fowler publi-
entre criar um produto novo e passar ao cargo de CEO cou um relato detalhado dos assédios que sofreu co-
de uma grande empresa”, diz Hollie Moore Haynes, mo funcionária da Uber. O depoimento levou à saída
que em 2013 comandou o investimento inicial de de Travis Kalanick, então CEO da empresa. Em junho
capital privado na BlackLine. “Therese é diferente. do mesmo ano, várias mulheres tornaram públicas
Ela sabe exatamente quando dar um passo atrás e as investidas sexuais que sofreram durante anos,
quando assumir a liderança. Ela atinge uma meta vindas de figurões do mercado de capitais (entre
atrás da outra. É o coração da BlackLine.” eles Dave McClure, fundador da incubadora 500 Star-
De certa forma, Therese tem muitas característi- tups, e Justin Caldbeck, da investidora Lightspeed
cas típicas dos fundadores de empresas de tecnolo- Venture). Em agosto de 2016, o Google demitiu um
gia. Suas perguntas são diretas e até impacientes; ela engenheiro de 28 anos, autor de um texto que dizia
está atenta aos menores detalhes; sua sala é pequena, que as mulheres são biologicamente menos aptas
atulhada de coisas — e fica estrategicamente próxima para trabalhar com programação. “O mundo tech
da equipe de programadores. Olhando de fora, porém, é masculino”, diz Therese, que estudou ciências da
ela é uma figura pouco usual: com o IPO da BlackLine, computação no início dos anos 1980. Therese não per-

As meninas
do Vale 1941 - 1945 1942 1945-1950

NOS ANOS 1940, A O FRONT BOMBSHELL PÓS-GUERRA


INFORMÁTICA SURGE O Eniac A estrela de A demanda por
COMO CARREIRA (foto), primeiro cinema Hedy computadores
computador Lamarr (foto), comerciais amplia
ABERTA A MULHERES,
americano 100% registra um o mercado de
LIVRES DO SERVIÇO
eletrônico, é sistema de rádio trabalho. “A
MILITAR. NOS ANOS programado por para orientar maioria das
1980, A INDÚSTRIA seis mulheres das torpedos e ciências era
DE COMPUTADORES Forças Armadas. proteger suas fechada às
PESSOAIS TORNA-SE No Reino Unido, bombas da mulheres”, diz
REDUTO DE HOMENS o Colossus é defesa alemã. a pesquisadora
operado por A tecnologia é Janet Abbate. “A
mulheres da aproveitada na computação era
Marinha telefonia celular bastante aberta”

78 pequenas empresas & grandes negócios MARÇO, 2018


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de o sono com os obstáculos impostos às mulheres Em 1985, abriu a primeira companhia, na qual vendia
no mundo da tecnologia, tampouco os menospreza. serviços de programação para pequenas empresas.
No momento, a CEO se concentra naquilo que pode Em seguida, trabalhou na criação de softwares para
fazer. “Quero mudar a forma como a contabilidade uma firma de financiamento imobiliário e, depois, foi
funciona”, diz. “Quando todo mundo topar fazer as programadora numa organização que seria adquirida
coisas do meu jeito, poderei me aposentar”. pela SunGard — na qual ela chegou ao posto de CTO
Quando Therese era criança (ela é a mais moça do departamento de sistemas para tesouraria. Nos
de quatro irmãs) e ajudava os pais a ordenhar vacas, anos 1980, Therese conheceu o futuro marido. Eles
muitas mulheres começavam a se dedicar ao princí- se casaram e tiveram um menino e uma menina. A
pio da indústria de programação. Ela foi a primeira separação, em 2000, coincidiu com o auge da insatis-
integrante da família a cursar uma universidade, onde fação de Therese na SunGard. Foi aí que ela decidiu
estudou administração e francês. Lá fez também um fazer uma aposta alta e criar a própria companhia.

Therese usou seu fundo de aposentadoria


para abrir a startup. Mudou de nome,
dos primeiros cursos de programação de máquinas
Apple — e se apaixonou perdidamente. “Eu me lem-
mudou de produto
bro de ter pensado: ‘É sério que tem gente disposta a
me pagar para criar uma lista de instruções que serão e não desistiu
executadas por um computador? Que demais’.” Mas
Therese teria de encarar professores (todos homens) “Meu marido não gostava de assumir riscos. Decidi
que insistiam em dizer que ela não tinha talento para jogar todas as minhas fichas nessa empresa, e sabia
programação. Felizmente, a garota tinha “um grau que ele não concordaria”, relembra. “Então, ficamos
de confiança fora do razoável”, nas próprias palavras. meus filhos, minha empresa e eu. Só isso, nada mais.”
A formatura foi em dezembro de 1983, ano em que a Aos 40 anos, com mais de quinze anos de expe-
porcentagem de mulheres com diplomas de ciências riência em programação para empresas do setor
da computação atingiu um pico de 37%. (Hoje elas financeiro, Therese tinha contatos e maturidade
são cerca de 18% dos formandos da área.) Terminada profissional necessários para enfrentar o desafio.
a faculdade, Therese arrumou emprego como enge- Mesmo assim, teve de provar reiteradas vezes que
nheira, mudou-se para a Califórnia e foi trabalhar na era capaz. “Nas primeiras reuniões com possíveis
Hughes Aircraft, que produzia um firmware capaz de clientes e investidores, ela, com frequência, ouvia
detectar falhas em sonares de navios de superfície. comentários do tipo ‘seu marido está te ajudando,

1949 1969 1985 - 2015

(O) XX SOFT NA NAVE VALE DO XY


A matemática Os computadores Na era do
Grace Hopper de bordo da computador
(foto) começa Apollo 11, primeira pessoal, a mulher
a desenvolver nave tripulada a perde espaço.
as primeiras pousar na Lua, são A parcela de
linguagens escritas programados por mulheres entre
de computação, matemáticas e os formados
que serão usadas engenheiras como em ciência da
no computador Katherine Johnson computação nos
civil Univac. (foto) e Margaret EUA cai de 40%,
Seu trabalho está Hamilton. Elas entre 1970 e 1980,
na origem da criam o conceito para 30% em 1985.
linguagem Cobol atual de software Em 2015, é de 20%.

FOTOS: Getty Images; Divulgação MARÇO, 2018 pequenas empresas & grandes negócios 79
TECNOLOGIA VALE DO SILÍCIO

né?’”, diz Charlie Gaulke, a quinta funcionária con- rendeu um problema típico dos CEOs de primeiro
tratada para a BlackLine e atual vice-presidente de mundo: o carro só lhe deu dor de cabeça. O piloto
desenvolvimento. Nos primeiros anos, o cotidiano automático não funcionava, o serviço de streaming
foi uma batalha pela sobrevivência. A empresa teve de música vivia fora do ar, o ar-condicionado empa-
de mudar tudo — dos produtos oferecidos ao nome cava. Therese decidiu devolver o automóvel, mas a
da marca. Therese havia batizado a empresa de Osa- concessionária Tesla não reembolsou a entrada paga
ba, que significa “eu ousava” em espanhol. Mas os pela compradora, no valor de US$ 2.500. Essa quan-
ataques terroristas de 11 de setembro de 2001 torna- tia é obviamente irrisória para uma mulher que vale
ram o nome excessivamente parecido com “Osama”. US$ 180 milhões. Mas Therese é defensora ferrenha
O primeiro produto oferecido foi um software para do bom atendimento ao cliente. Contratou um advo-
gestão de fortunas, um mercado já dominado pela gado, pagou-lhe honorários de US$ 3 mil e processou
bem-estabelecida Thomson Reuters. Em poucos a concessionária. Em meados do ano passado, as
partes chegaram a um acordo. A loja reembolsou a
entrada paga pelo carro, e Therese deixou registra-
As provocações de Theresa da sua crítica a um dos maiores símbolos do Vale
do Silício — a um custo de apenas US$ 500. “Va-
não são impensadas. leu cada centavo”, diz. As provocações de Therese,

Ela consultou o conselho da BlackLine


antes de pintar o cabelo de rosa
anos, Therese se viu quase sem dinheiro. Até que um porém, não são impensadas: antes de processar a
cliente pediu ajuda para automatizar o processo de montadora, ela pediu autorização da investidora
conciliação contábil. “Se alguém estava disposto a me Silver Lake. E consultou o conselho da BlackLine
pagar por alguma coisa”, diz, “É claro que eu topava”. antes de tingir o cabelo de rosa.
O pedido do cliente iluminou a oportunidade de Therese sabe bem que uma mulher numa posi-
criar softwares para digitalizar um processo extrema- ção de liderança será constante e exaustivamente
mente manual. Os departamentos de contabilidade julgada pela aparência. “Uma mulher de cabelo
ainda usavam fichários e folhas de papel. “Ela mergu- branco pode estar no chão à beira da morte que
lhou de cabeça numa área historicamente mal servida ninguém faz nada”, afirma. “Afinal de contas, quem
pela indústria de software”, diz Terry Tillman, ana- liga pra uma grisalha de meia-idade?” A ideia surgiu
lista da SunTrust Robinson Humphrey. “A BlackLine durante uma queda de braço com o departamento
está colhendo os frutos de ter sido pioneira”. de marketing da BlackLine. O pessoal da publicida-
A estrada que levou ao IPO teve início em 2013, de insistia para que a CEO aparecesse num com-
quando a executiva chegou a considerar a aposen- portado vídeo corporativo, “bem senhora, usando
tadoria. Ela estava em busca de um comprador, mas coque, tailleur e lenço no pescoço, dizendo ‘blá blá
recebeu um sopro de energia quando a investidora blá’”, relembra ela. Finalmente, Therese cedeu —
No dia 18 de março,
às 7h30, o programa Silver Lake decidiu apostar na BlackLine e fez um sob uma condição que impôs de improviso, na ho-
Pequenas Empresas & grande aporte. (Therese manteve participação acio- ra: “Tudo bem, desde que eu possa tingir o cabelo
Grandes Negócios, nária de 12%.) “Ela jamais havia recebido um grande de rosa”. Ela marcou hora num salão em Beverly
da TV GLOBO, exibe
uma reportagem sobre investimento, mas isso era irrelevante”, conta Hollie Hills e diz que não se arrepende. “Mudou meu
pessoas que perderam Moore Haynes, responsável pela aposta da Silver jeito de interagir com o mundo, virou uma marca
o emprego e resolveram Lake e hoje dona de uma empresa de private equity, registrada esquisitona”, diz. Seu cabelo, que lhe
abrir um e-commerce.
Haverá reapresentações às a Luminate Capital. “O que interessa são empresas dá um ar de menina de desenho animado, é tam-
8h30, na GLOBONEWS; com produtos excelentes”. Em dezembro de 2016, bém uma forma de desafiar o Clube do Bolinha
e no CANAL FUTURA, pouco depois da oferta inicial que gerou US$ 152 que é a indústria tecnológica — bem como todos
no dia 19, às 16h30, no
dia 20, às 5h, e no dia milhões para a BlackLine, Therese decidiu se dar aqueles que supõem que o CEO de uma empresa
25 de março, às 15h. de presente um carro elétrico Tesla. A compra lhe de software precisa ser homem.

80 pequenas empresas & grandes negócios MARÇO, 2018


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RITO DE
PASSAGEM
Therese Tucker
no IPO da
BlackLine, em
2016: passados
os desafios de
estabelecer a
empresa, surgem
novas demandas
dos investidores

A BlackLine não divulga números sobre a propor- 2016, a BlackLine tinha 600 funcionários. Hoje são
ção de raças ou gêneros na composição dos funcio- mais de 700. A BlackLine ainda não dá lucro, e as
nários, e Therese afirma que é difícil contratar tan- exigências dos investidores só aumentam. Será que
tas programadoras qualificadas quanto ela gostaria. concorrentes maiores serão capazes de tirar Therese
Entre os seis altos executivos da empresa, duas são do lucrativo mercado que ela mesma ajudou a criar?
mulheres — participação pouco mais alta do que a Se depender de Therese, não. “Você não é fácil”,
registrada entre as empresas de TI da lista S&P 500. disse Chris Murphy, diretor financeiro da BlackLi-
A luta pela igualdade de gênero é tarefa imensa, e nem ne, quando ela lhe apresentou metas ambiciosas de
Therese nem outras CEOs têm tempo para se dedi- crescimento. Therese abriu um sorriso de quem não
car integralmente à batalha. Ela tem de enfrentar as tem vergonha de estar no comando: “Se eu fosse
dificuldades de crescer rápido. À época do IPO, em fácil, você estaria morrendo de tédio”.

TRADUÇÃO: Beatriz Veloso

FOTO: Divulgação MARÇO, 2018 pequenas empresas & grandes negócios 81


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IDEIAS, ESTRATÉGIAS
E BOAS PRÁTICAS
PARA SUA EMPRESA
Edição: Marisa Adán Gil

GESTÃO
Saiba como resolver os
novos problemas que
desafiam as regras de
gestão de pessoas
88

COMO EU FIZ
A Carambola aposta na
diversidade para montar
equipes que atendam à
demanda do cliente
94

MARÇO, 2018 pequenas empresas & grandes negócios 87


G E S TÃ O FUNCIONÁRIOS DIGITAIS

A NOVA ETIQUETA DO RH
Fim das fronteiras entre público e privado, convivência entre diferentes gerações, denúncias de assédio sexual:
saiba como enfrentar os comportamentos que desafiam as antigas regras de gestão de pessoas

Lara Silbiger Adriana Komura

A revolução digital tem provocado mudanças radicais


no mercado de trabalho. O trabalho remoto, a conec-
tividade global e a mistura entre público e privado pro-
movida pelas redes sociais geraram uma nova teia de relações
profissionais, na qual gestores e funcionários trabalham em
“As denúncias de assédio sexual em Hollywood tendem a in-
centivar uma onda de denúncias pelo mundo”, afirma Laura
Kroeff, vice-presidente da Box 1824, agência de pesquisa de
tendências em consumo, comportamento e inovação. “Os
gestores precisam criar políticas específicas para sua gestão
ambientes colaborativos, diferentes gerações são obrigadas de pessoas.” Outro ponto fundamental é se manter informa-
a atuar juntas e a diversidade é a regra. Nesse novo cenário, do sobre os novos conflitos que abalam a estrutura das em-
o comportamento dos funcionários passa por uma mudança presas. Um bom exemplo disso são as demissões ocorridas
contínua, que desafia as antigas regras de recursos humanos. na Salesforce depois da festa de fim de ano da empresa, por
Não é possível lidar da mesma maneira com millennials ou in- causa de fotos publicadas nas redes sociais. O caso polêmi-
tegrantes da geração Z. Simples proibições não resolvem os co lançou novos olhares sobre o uso da tecnologia no traba-
dilemas provocados pelas milhares de publicações que pipo- lho — e quais seriam os seus limites.
cam todos os dias nas redes sociais. Não existe receita única para reger os códigos de condu-
Para o empreendedor, a grande questão é ter pernas pa- ta dos funcionários daqui para a frente. Para ajudar o em-
ra acompanhar tudo isso e se adaptar. Mais que agilidade, preendedor a posicionar sua empresa, PEGN selecionou
o momento requer atenção para reconhecer as mudanças e as principais áreas de conflito e elencou dicas para aten-
resiliência para atualizar a gestão de pessoas. É fundamen- der às novas demandas dos funcionários, minimizar o ris-
tal ficar atento às grandes tendências de comportamento. co de processos e manter intacta a reputação da empresa.

88 pequenas empresas & grandes negócios MARÇO, 2018


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DE PORTAS
ABERTAS
O código de ética e con-
duta da consultoria Crowe
Horwath, com escritórios
COMOLIDAR em São Paulo e Campinas,
O gestor deve reescrever as regras do é revisitado pelos sócios a
que é confidencial e do que pode ser re- cada seis meses. “Adota-
velado, bem como do que é pessoal mos essa regularidade faz
ou estritamente profissional. Para isso, é três anos, quando perce-
preciso contar com a colaboração da equi- bemos uma mudança ge-
pe. “As normas devem representar os valo- racional mais acelerada”,
res da empresa, o perfil (mais ou menos for- afirma a sócia Juliana
mal) do negócio e o posicionamento que se Brito, 32 anos. O objetivo
deseja transmitir, que pode ser mais flexível é manter o código sempre
ou conservador”, afirma Claudia Santos, da atualizado. Como exem-
consultoria Emovere You. plo, ela cita regras que li-
Ao criar as novas regras, leve em conside- mitam o uso da tecnologia
ração a natureza do negócio: empresas de para preservar a confiden-
bens de consumo, por exemplo, se benefi- cialidade. Não é permitido
ciam de uma maior exposição, desde que fazer selfies com o cliente,
positiva. Já negócios que lidam com segu- nem indicar a localização
rança da informação, como consultorias e dele por meio do
empresas de tecnologia, devem adotar uma check-in no Facebook.
linha mais low profile, para preservar o know Outra recomendação,

REDES SOCIAIS how e os clientes.


Avalie o perfil da força de trabalho: quanto
dessa vez voltada para o
público interno, refere-se
mais jovem a equipe, mais diretas devem ser às reuniões de trabalho.
as regras. “Jovens de até 30 anos nasceram A orientação é fazê-las de
O PROBLEMA em uma era em que tudo é compartilhado. portas abertas e, se pos-
As fronteiras entre trabalho e vida pesso- Por isso, precisam de limitações mais claras sível, com mais de duas
al nunca foram tão tênues. “A combinação sobre o que é confidencial e privado”, diz Ma- pessoas, a fim de evitar
entre mobilidade extrema e constante ati- íra, da Cia de Talentos. algum constrangimento.
vidade nas redes sociais confundiu o sen- No caso de fotos ou selfies, o funcionário “Brincadeiras aceitas no
so comum do que é público e privado”, diz deve ser orientado a deixar fora da imagem passado podem ser, hoje,
Maíra Habimorad, CEO da Cia de Talentos. o nome e o logo da empresa (e dos clien- classificadas como
A permeabilidade se estende para as rela- tes), bem como relatórios e documentos assédio, o que exige
ções com o espaço. “À medida que o colabo- confidenciais. Fotos de funcionários (da sua especial atenção dos
rador volta para casa com o celular e é aces- empresa ou de outras) só podem ser feitas sócios”, afirma.
sado pelo chefe a qualquer hora, o lar deixa e veiculadas nas redes sociais com autori-
de ser particular. Se o funcionário se identifi- zação prévia deles. Nas festas da empresa,
ca com a cultura da empresa e faz amizades a recomendação é não registrar momentos
por lá, a vida privada também invade o tra- que discriminem ou ridicularizem alguém.
balho”, diz. Nesse contexto é que se dão as O WhatsApp corporativo deve ser usa-
transgressões: posts pessoais que não con- do apenas para assuntos relativos ao ne-
dizem com a política da empresa, selfies in- gócio. Como se trata de uma ferramenta
desejadas e dados sigilosos que caem na re- usada para tomadas de decisão, é preci-
de são alguns exemplos. “Sem regras, colo- so atentar para a confidencialidade das
ca-se em risco a segurança da empresa, dos informações. A plataforma não deve ser
demais funcionários e dos clientes”, afirma usada para correntes, vídeos ou qualquer
Laura Kroeff, da Box 1824. outro conteúdo inapropriado.

MARÇO, 2018 pequenas empresas & grandes negócios 89


G E S TÃ O FUNCIONÁRIOS DIGITAIS

ASSÉDIO SEXUAL
OPROBLEMA COMOLIDAR
A exposição pública de casos de assédio sexu- Fique atento ao que diz a legislação. De acordo com
al na indústria cinematográfica americana, no ano a Constituição, o assédio sexual se caracteriza por in-
passado, deu início a um ciclo de denúncias que ga- vestidas não desejadas, marcadas por chantagem e
nhou alcance global com a viralização da hashtag abuso de poder — seja pelo superior direto ou indire-
#metoo. Com um ambiente mais favorável, vítimas to, dono da empresa ou contratante. O assédio pode
passaram a se sentir mais propensas a denunciar ca- acontecer entre pessoas de sexos opostos ou do mes-
sos de violência. Além disso, as novas plataformas mo sexo. Na esfera criminal, a pena prevista é de um a
facilitam a mobilização coletiva em torno do tema. dois anos de detenção. Na trabalhista, o juiz pode de-
“Houve um tempo em que o mercado de trabalho era terminar, por exemplo, indenização por danos morais.
tolerante com esse tipo de violação. Mas hoje qual- Desenvolva normas internas para evitar o assédio e
quer caso pode se transformar em um escândalo e conscientize o time. “O limite para definir o que caracteri-
colocar em xeque a reputação do negócio”, afirma za ou não assédio ainda é tênue, principalmente em em-
Laura, da Box 1824. “Por trás desse movimento está presas de cultura mais informal. Mas brincadeiras com
um pedido da sociedade por justiça, transparência conotação sexual devem ser tratados como inapropria-
e equidade”, diz Maíra, da Cia de Talentos. Uma das dos”, afirma Wilma Dal Col, da Right Management.
empresas que teve sua reputação comprometida por Crie canais de acolhimento às denúncias, bem como
denúncias foi a Uber — ano passado, a ex-funcioná- procedimentos para apurá-las de imediato. “Algumas
ria Susan Fowler revelou casos de assédio sexual e companhias criam hotlines, em que o assédio pode ser
maus-tratos a funcionárias. A denúncia resultou na denunciado de forma anônima. Em empresas de me-
análise interna de 215 queixas, seguida pelo desliga- nor porte, já estão sendo usados aplicativos com esse
mento de 20 executivos. mesmo fim”, diz Claudia, da Emovere You.

90 pequenas empresas & grandes negócios MARÇO, 2018


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ATENÇÃO
ÀS MINORIAS
Em outubro do ano pas-
sado, a Meu Copo Eco –
empresa de Florianópo-
lis (SC) que busca reduzir
o uso de copos descar-
táveis – recebeu o certi-
ficado de Empresa B. O
processo de certificação
analisou, entre outros cri-
térios, a cultura da empre-
sa e a política de diversi-
dade do negócio. “Desde
a fundação, em 2011, bus-
camos times complemen-
tares. Valorizamos dife-
rentes orientações sexu-
ais, raças e culturas”, diz a
sócia-fundadora, Larissa
Kroeff, 36 anos. Hoje, a
equipe é formada por 25
profissionais de três dife-
rentes gerações: X (28%),
Y (24%) e Z (48%). Do

DIVERSIDADE total, 20% são da co-


munidade LGBT e ou-
tros 12% se declaram ne-
OPROBLEMA COMOLIDAR gros ou pardos. Segundo
Larissa, a diversidade,
Homofobia, racismo, machismo e intole- Atualize o código de conduta da empresa além de ser parte integran-
rância sempre existiram no mercado de tra- – ou, caso ainda não o tenha, crie um docu- te da cultura da empre-
balho. A diferença é que, agora, a voz das mento por escrito – com base no que consta sa, gera vantagens com-
minorias se faz ouvir com muito mais for- do marco legal sobre diversidade. Consulte a petitivas. “Um time diver-
ça. “Hoje os diferentes grupos contam com legislação disponível sobre o tema, em espe- sificado traz informações
as redes sociais para fazer denúncias e sen- cial o decreto 3.298, de 1999, e as leis 11.340, de várias tribos, gera em-
sibilizar mais pessoas. Mesmo quem nun- de 2006, e 12.711, de 2012. patia com os públicos-al-
ca viveu situações de desigualdade se sen- Alinhe o código de conduta com os funcio- vo e ainda torna o negócio
te impelido a aderir à causa”, diz Maíra, da nários, a fim de que entendam a razão de ca- mais acessível”, afirma.
Cia de Talentos. O movimento obriga as em- da regra. “Se, de um lado, a diversidade ganha
presas a repensar as políticas racial, social e ares de normalidade, de outro, pode se tornar
de gênero. “A nova geração de profissionais, campo fértil para situações de preconceito e
que entende as liberdades individuais como constrangimento, caso o processo de adap-
mandatórias, é completamente intolerante tação não seja bem conduzido”, afirma Wil-
a negócios que não estejam em dia com as ma, da Right Management.
demandas de equidade”, afirma Laura, da Use a política de diversidade como uma opor-
Box 1824. Foi essa a motivação do Google tunidade de atualizar a estratégia de negócio.
para demitir, em agosto do ano passado, um A rede Marriott International, por exemplo, de-
engenheiro sênior do Vale do Silício, que pu- senvolveu a ação #LoveTravels para convidar
blicou um manifesto contra a política de di- todos os públicos a se sentirem “confortáveis
versidade da companhia. para ser quem são” nos hotéis da rede.

MARÇO, 2018 pequenas empresas & grandes negócios 91


G E S TÃ O FUNCIONÁRIOS DIGITAIS

MULTIGERAÇÕES
OPROBLEMA COMOLIDAR
Hoje, quatro gerações atuam lado a lado nas empre- Na hora de se comunicar com o funcionário, leve em
sas – os baby boomers, nascidos entre 1940 e 1959; a conta as possíveis diferenças geracionais entre vocês.
geração X (1960 a 1979), a geração Y (ou millennial, Não parta do princípio de que ele deve simplesmente
1980 a 1994) e a Z (nascidos de 1995 em diante). Pa- entender e seguir as regras. “Cheque o entendimento
ra gestores das gerações baby boomer e X, pode ser de cada situação e crie novas maneiras de avaliar seu
difícil entender as demandas dos millennials e da ge- desempenho”, diz Maíra, da Cia de Talentos.
ração Z. “Eles precisam de tempo para se adaptar aos Estabeleça um plano de metas para gerenciar a an-
novos valores, que vão contra as regras que sempre siedade e o imediatismo dos mais jovens. “Quanto
conheceram”, afirma Wilma, diretora da Right Mana- mais objetiva e concreta for a medição da performan-
gement. A geração dos millenials, que hoje já ocu- ce, melhor é o entendimento dos profissionais das ge-
pa cargos de liderança, traz como maior característica rações Y e Z sobre estarem prontos – ou não – para
a busca de propósito no trabalho. “Hoje ninguém mais serem promovidos”, afirma Maíra.
quer atuar em uma empresa que odeie ou que faça Para reter os jovens talentos, garanta que os salários
mal para o mundo”, afirma Maíra, da Cia de Talentos. e benefícios sejam compatíveis com o mercado. “Se as
Já a geração que chega agora ao mercado demonstra novas gerações não virem vantagem na remuneração
alto grau de determinação para promover mudanças nem no aprendizado, vão mudar de emprego. Elas não
nas empresas. “Para lidar com esses jovens talentos, têm muito paradeiro”, afirma Claudia, da Emovere You.
que são disseminadores de novos valores e mais sen- Considere recrutar baby boomers. “Algumas empre-
síveis às causas das minorias, a atualização dos códi- sas começam a contratar talentos da terceira da idade
gos de ética e conduta torna-se ainda mais urgente”, pela sua experiência, sua capacidade de diálogo e sua
afirma Laura, do Box 1824. representatividade no mercado consumidor”, diz Laura.

92 pequenas empresas & grandes negócios MARÇO, 2018


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COMO EU FIZ TECNOLOGIA

INOVAÇÃO DE
ALTO IMPACTO
Fundada por Juliana Glasser, 34 anos, a Carambola desenvolve projetos
que resolvem problemas de clientes e capacitam novos profissionais para
o mercado de tecnologia. Em 2018, a empresa deve faturar R$ 20 milhões

Daniela Toviansky/Editora Globo

“O mercado de tecnologia nunca apresen- Com essa classificação inicial, dividimos SOLUÇÕES QUE
TRANSFORMAM
tou tantas oportunidades. O setor tem um os times em trios de diferentes níveis de
Juliana Glasser,
potencial enorme para gerar empregos e conhecimento. A ideia inicial era distribuir da Carambola:
mudar a vida de milhões de pessoas. O os projetos entre duplas. Mas percebemos projetos para
problema é que a maioria dos profissio- que o processo ficava muito pesado para grandes clientes
e capacitação
nais que atua na área ainda faz parte do ambas as partes. A regra é que pelo me- de profissionais
topo da pirâmide social: homens bran- nos um dos membros faça parte de uma
cos, heterossexuais e de classe média al- minoria do mercado de TI. Em outras pa-
ta. As instituições de ensino formam cer- lavras, que não seja um homem branco,
ca de 20 mil pessoas com esse perfil por hétero e de classe média alta. Nosso pro-
ano — e o mercado brasileiro de TI tem grama é baseado nas necessidades específi-
mais de 460 mil vagas em aberto. Então, cas de aprendizado de cada pessoa. O ciclo
não se trata apenas de uma questão de di- de formação dura seis meses. Durante es-
versidade. A conta simplesmente não fe- se período, os participantes são contrata-
cha. Temos poucas startups fundadas por dos e trabalham em projetos reais. Ao final
negros e mulheres, por exemplo. Quantos do processo, eles podem ser contratados
problemas essas pessoas poderiam resol- pelos próprios clientes. Entendemos que
ver se recebessem mais apoio e fossem nem todas as pessoas recebem as mesmas
mais empoderadas? oportunidades na vida. Isso não quer dizer
que um indivíduo seja menos qualificado
TEORIA E PRÁTICA do que outro. O que existe são bons pro-
“Já havia trabalhado na área de tecnologia fissionais que não tiveram acesso a ferra-
de um grande banco. Tocava grandes pro- mentas de capacitação técnica.”
jetos e liderava equipes. Depois de um pe-
ríodo afastada por motivos de saúde, per- ESTRATÉGIA ORGÂNICA
cebi que gostaria de construir uma empre- “Não recebemos nenhum tipo de inves-
sa que desenvolvesse soluções inovadoras, timento externo para fundar a Carambo-
mas que também entregasse algo de volta la. A operação inicial foi estruturada com
para a sociedade. Pensando nisso, fundei nossos recursos. Num primeiro momento,
a Carambola em 2011. Nossa missão é criar a empresa foi instalada num coworking. A
projetos que gerem resultados de impacto ideia era ter contato com outros empreen-
e formem pessoas capazes de atuar dentro dedores e aperfeiçoar o nosso método de
dos novos conceitos de mercado de tec- trabalho. Daí, comecei a expandir a mi-
nologia. Para isso, criamos uma metodo- nha rede de contatos. Marquei reuniões,
logia de trabalho que une essas duas pon- comecei a participar de eventos de star-
tas. A Carambola desenvolveu um método tups e apresentei a ideia para potenciais
de formação de equipes que começa pela compradores. Quando conquistamos os
avaliação do nível técnico de cada pessoa. nossos primeiros clientes, o crescimen-
O processo leva em conta candidatos que to veio naturalmente. A maioria dos no-
apresentam noções básicas de tecnologia. vos contratos veio de recomendações da

94 pequenas empresas & grandes negócios MARÇO, 2018


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MARÇO, 2018 pequenas empresas & grandes negócios 95
COMO EU FIZ TECNOLOGIA

nossa base. O principal desafio foi consoli-


dar a imagem da Carambola como uma re-
ferência no ecossistema de tecnologia. Po-
sicionar-se em um novo mercado pode ser
uma tarefa particularmente difícil. Princi-
palmente para uma mulher jovem e assu-
midamente homossexual. Fomos coloca-
dos à prova em diversos momentos. O que
fez a diferença foi manter a autenticidade.
A combinação entre capacidade de en-
trega e impacto social sempre foi um dos
principais diferenciais da Carambola. Es-
se posicionamento, no entanto, ainda ge-
ra uma certa confusão. Muitas pessoas
acham que somos algum tipo de ONG
ou instituto sem fins lucrativos. Preci-
samos nos esforçar para mostrar que
somos um negócio que gera resultados.
Criamos aplicativos e plataformas que ro foi aplicado no aperfeiçoamento de NOVOS TALENTOS
Baseados em ciclos
encontram muita aderência no mercado. nossas estratégia e estrutura de traba- de seis meses,
Atendemos grandes clientes, como ins- lho. Precisávamos de fôlego financeiro os programas da
tituições financeiras, empresas de tec- para reorganizar a casa e rever nossos startup devem
capacitar mais
nologia e grupos industriais. Nosso fo- processos. Essa pausa foi essencial pa- de 180 profissionais
co está em inteligência artificial, block- ra criar uma operação mais eficiente. até o fim do ano
chain e internet das coisas. A qualidade Faturamos mais de R$ 5 milhões entre
dos nossos projetos foi essencial para janeiro e março. A expectativa é chegar
o mercado entender que lucro e impac- ao fim do ano com uma receita de mais
to social não estão em polos opostos. A de R$ 20 milhões.”
formação e capacitação de profissionais
interessa a todos. Estamos remando na OS PRÓXIMOS PASSOS
mesma direção.” “Atualmente, a Carambola é composta
apenas pelo escritório de São Paulo. A
ROTA DE CRESCIMENTO ideia é lançar uma operação em Fortale-
“O modelo de negócios inicial era ba- za até o fim de setembro. Nossos planos
seado em uma consultoria de software incluem a abertura de uma unidade em
mais tradicional. A Carambola come- Nova York, em 2019. Estamos buscando
çou a ganhar tração quando passamos um novo aporte para viabilizar o nosso
a focar no desenvolvimento de ações de próximo ciclo de expansão. Por outro la-
impacto social. Esse aspecto começou do, estamos trabalhando para continuar
a chamar ainda mais a atenção quando a crescer de maneira sólida e orgânica.
o mercado percebeu que entregávamos Vejo muitos fundadores de startups preo-
plataformas e aplicativos de alta quali- cupados apenas em levantar capital pa-
dade. Em 2013, já estávamos com mais ra escalar a operação e gerar um retorno
de 60 pessoas na equipe. Então deci- para os investidores. Isso termina geran-
dimos sair do coworking e investir em do negócios que podem até ser rentáveis,
um espaço próprio. Também construí- mas que não resolvem problemas reais.
mos um pequeno laboratório maker pa- Eu ainda não sei o tamanho que a em-
ra equipes que trabalham em projetos presa vai ter, mas quero que as pessoas
ligados à internet das coisas. No ano que passem por aqui se sintam acolhi-
passado, já estávamos bastante conhe- das. O meu sonho é que elas saiam da-
cidos no setor e captamos nossa primei- qui e multipliquem o que aprenderam
ra rodada de investimentos. O dinhei- nas comunidades ao seu redor.”

96 pequenas empresas & grandes negócios MARÇO, 2018


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Seleções Saúde Boa Forma Orlando Em Revista Viva Saúde Caça-Palavras Mundi +
Pais&Filhos Motor Show Car And Driver Vegetarianos Malu + Guia da TV Bem-Estar + Natureza
Glamour Astral Anual Mundo Estranho Aventuras na História Viagem e Turismo Coquetel Cripto Joia +
Tititi Corpo a Corpo Isto É Dinheiro Marie Claire Women’s Health Letrão Médio + Cata Palavra
Venda Mais Viaje Mais Manequim Auto Esporte Pense Leve Sudoku Desafios +
Playstation Bons Fluidos AnaMaria Todateen Números Desafios + Hiper
Edição
AMIGO(A) JORNALEIRO(A), ENTREGuE ESTE CuPOM à DISTRIBuIDORA NO RECOLHIMENTO DA REVISTA ASSINALADA.

regulamento
1. Esta campanha promocional é instituída na modalidade “JuNTE E TROQuE”. 2. Para participar da promoção e realizar a troca é necessário que o leitor complete a cartela colando 3 selos de cores diferentes,
sendo obrigatoriamente um laranja, um verde e um azul. 3. O objeto da troca, brinde, é uma das revistas disponibilizadas no cupom de troca em que o leitor poderá escolher uma das opções assinalando no
cupom. Caso determinado brinde se esgote em bancas, o leitor deverá optar por outro título dentre os disponíveis no cupom de troca. 4. A troca poderá ser realizada somente com o leitor portando o cupom
com os 3 selos colados e formulário completo no período de 1/1/18 até 31/3/18 exclusivamente nas bancas de jornais em território brasileiro. 5. Fica esclarecido que alguns títulos promocionados podem não estar
disponíveis em todas as regiões do país. Consulte o regulamento completo em www.juntoutrocou.com.br ou 4007-2950, de segunda a sexta, das 8h às 17h.

realização apoio participação


V I D A D I G I TA L

@ Lorrana Scarpioni
Fundadora do Bliive, rede social de troca de conhecimentos, a empreendedora tem buscado uma
postura mais equilibrada entre as demandas das redes sociais e as atividades da vida real

DETOX DE REDES
2,7mil
SEGUIDORES
MULTITELAS

“Gosto muito do Instagram.


Mas comecei uma espécie
de detox no mês passado.
Apaguei o app do celular.
A meta é ficar 30 dias
sem acessar a rede.
Quero começar a usar
a plataforma com mais
consciência, sem checar o
feed apenas por que estou
sem mais nada para fazer.”

HEADSPACE
“O aplicativo é bastante
simples de usar e tem
boas ferramentas
para quem gosta de
fazer meditação”

AMIGOS
4,5 mil
“Faz mais de um ano que
removi a minha foto de
perfil e parei de usar o
Facebook. Mantenho a STRAVA
conta apenas para trocar “Baixei no Apple Watch
mensagens com alguns para monitorar sessões
amigos e pessoas que me de bike e corridas. Estou
chamam no inbox. Quando pensando em voltar
estava mais ativa, chegava para o Fitbit [pulseira de
a receber 200 mensagens atividades esportivas].
por dia. Não conseguia Além de incluir natação,
dar a atenção que elas o aparelho é mais
mereciam. Estou vivendo simples de usar.”
um momento de repensar
o tempo e o espaço
que as redes sociais
QUAL É O NOME
ocupam na minha vida.”
DAQUELA BANDA?
“As ‘Descobertas da
S2 MEDIUM Semana’ do Spotify
“O Medium é EM DIA NOS GRUPOS são muito legais. Gosto
uma espécie de versão STREAMING DA VIDA REAL “Participo de um grupo de Global de ouvir quando vou
melhorada do Twitter. “Sou meio viciada em documentários. Shapers [rede global de jovens pedalar e correr. O difícil
A plataforma permite Procuro assistir pelo menos um por inovadores]. O WhatsApp é uma ótima é reconhecer os artistas
acompanhar temas e semana. Acho que é um jeito rápido ferramenta para manter contato com que gosto. Antigamente,
pessoas que te interessam e eficiente de me aprofundar em amigos pelo mundo. Sou bastante a gente ouvia álbuns e
de maneira mais profunda. determinado assunto e expandir ativa em discussões sobre blockchain conhecia bem as bandas.
Tenho lido muita coisa a consciência. Entre os seriados, e startups. Tenho grupos no Telegram Hoje você ouve 800
sobre blockchain, startups Mr. Robot é um dos meus favoritos.” sobre esses assuntos.” artistas diferentes e não
e produtividade.” lembra os nomes deles.”

98 pequenas empresas & grandes negócios MARÇO, 2018 FOTOS: ANNA CAROLINA NEGRI / EDITORA GLOBO / DIVULGAÇÃO, THINKSTOCK E REPRODUÇÃO

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Fonte: leitores impresso Kantar Ibope Media Target Group Index BR TG 2017 II (2016 2s + 2017 1s) v1.0 - Pessoas, leitores impresso 7 dias jornal e 30 dias versão lido via Midia Online, com projeção Brasil
base IVC. Leitores Digital comScore Inc., MMX Multi-Platform, Desktop 6+ Mobile 18+, Home & Work, dezembro17, Brasil | *Total Leitores = Somados digital + impresso com sobreposição de leitores.