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12/09/2018 O Estatuto da Metrópole e seu financiamento

O Estatuto da Metrópole e
seu financiamento

Ilustração: Luisa Moritz Kon.

Por Luciana Royer*

O arranjo tripartite que caracteriza a federação brasileira tem gerado questões
que parecem de difícil resolução para as nossas cidades. É sabido que os
limites administrativos municipais não correspondem aos limites físicos das
metrópoles e algumas soluções no sentido de fortalecer jurídica e
administrativamente as chamadas regiões metropolitanas e aglomerações
urbanas vêm sendo objeto de discussão desde a Constituição Federal de 1988.
O Estatuto da Metrópole, lei federal 13.089/2015 aprovada em janeiro,
insere-se nesse debate.

Um ponto importante que o estatuto traz é a obrigação de promover a
governança interfederativa (art. 3º, parágrafo único), por meio de instâncias
executiva e colegiada deliberativa e de um sistema integrado de alocação de
recursos. Essa estrutura de governança é inclusive colocada como requisito
para a instituição de novas regiões metropolitanas. Outro ponto importante do
estatuto é a previsão de um plano de desenvolvimento urbano integrado que
visa estimular o planejamento de ações, a gestão e a execução das funções
públicas de interesse comum.

A questão do financiamento das ações e projetos metropolitanos, no entanto,
continua não solucionada. Ainda que o repasse de recursos não onerosos para
consórcios públicos já tenha um caminho trilhado (por meio de programas de
aplicação de recursos da União), uma fonte estável de recursos fiscais e mesmo
o financiamento com recursos onerosos ainda são lacunas legais e políticas.
Quais são as garantias para concessão de financiamento aos entes
metropolitanos? Como se dará a partição de receitas tributárias entre os
municípios integrantes desses entes? Haverá um regime jurídico próprio para
https://observasp.wordpress.com/2015/03/24/o-estatuto-da-metropole-e-seu-financiamento/ 1/5

são 51 regiões metropolitanas e 3 regiões integradas de desenvolvimento (RIDE).com/2015/03/24/o-estatuto-da-metropole-e-seu-financiamento/ 2/5 . Após essa data. quem declarava se um aglomerado de municípios poderia ou não ser denominado legalmente como região metropolitana era a União. O Estatuto da Metrópole. Para esse fim. parece ser questionável a competência que o Estatuto da Metrópole confere aos estados para dispor sobre instrumentos regulatórios dos municípios. é importante refletir sobre a possibilidade de aprovação de operações urbanas por lei estadual. em detrimento da dinâmica intertemporal de prioridades políticas. 24 do Estatuto da Metrópole). Salvador. Implantar um federalismo cooperativo democrático é uma das razões de ser do Estado brasileiro após a Constituição de 1988. fundos não asseguram a eficiência. Como resolver o ponto cego do financiamento das ações que não são prioritárias para os prefeitos. a definição do funding do desenvolvimento urbano integrado é primordial e desafia as boas intenções da lei. Assim. modificando o antigo artigo 34 da lei 10. portanto. Na esteira do Estatuto da Cidade. Fortaleza. Os critérios técnicos e geográficos para a criação dessas regiões não foram equivalentes entre os estados e algumas disfunções surgiram dessa denominação. Tratando-se de operação estruturada de financiamento de projetos alicerçada em venda de potencial adicional de construção e. Histórico – Até a Constituição de 1988. no entanto. Curitiba. muitas regiões metropolitanas foram formalmente criadas após 1988: atualmente. aliado ao potencial elevado de captura de recursos públicos escassos. Belém. Além de críticas consistentes ao real efeito redistributivo desses instrumentos. podem ser executadas regularmente por meio de dotações orçamentárias consignadas no Orçamento Geral da União. que já consagrava essa lógica. Entre 1973 e 1974. o Estatuto da Metrópole aponta. sujeitas aos contingenciamentos usuais para a composição do superávit primário? A pretensa solução. parcelamento e ocupação do solo urbano. às voltas com a insuficiência de recursos próprios para os desafios locais. como instrumentos de promoção do desenvolvimento urbano integrado. apontada como uma das razões do veto aos artigos do fundo metropolitano. não são prioritárias para os governadores. e que precisam contar exclusivamente com as dotações consignadas no Orçamento Geral da União.12/09/2018 O Estatuto da Metrópole e seu financiamento esse agrupamento ou apenas para a entidade encarregada de administrar (vinculada ao estado)? Qual é a capacidade de endividamento desse agrupamento ou região? Em um quadro de austeridade fiscal permanente para a gestão pública. Ao vetar um fundo metropolitano e autorizar a execução de parcerias público- privadas e operações urbanas interfederativas. “a criação de fundos cristaliza a vinculação a finalidades específicas. recai na atual panaceia dos males fiscais da gestão pública: as parcerias público-privadas. as programações relativas ao apoio da União ao Desenvolvimento Urbano Integrado. as parcerias público-privadas e as operações urbanas consorciadas interfederativas. presentes nas diretrizes que regem o processo orçamentário atual. então. a Constituição delegou aos estados essa prerrogativa.257/2001 (ver art. com estados https://observasp.” A “dinâmica intertemporal das prioridades políticas”. o veto presidencial aos dispositivos que criavam justamente um fundo nacional de desenvolvimento urbano integrado provoca dúvidas sobre a possível efetividade do estatuto.wordpress. pode ser recebido como mais um capítulo na disputa por políticas regionais que diminuam as desigualdades e promovam a efetivação de direitos individuais e coletivos na federação e não como solução para essas questões. dada a competência municipal para promover o controle do uso. Por fim. o estatuto parece abrir um flanco perigoso para um aprofundamento das desigualdades metropolitanas. o Estatuto da Metrópole fez uma única alteração pontual no Estatuto da Cidade. Recife. São Paulo e Rio de Janeiro. é justamente um dos pontos críticos da questão metropolitana. A questão de um funding estável para as regiões metropolitanas e de seu financiamento com recursos onerosos permanece sem solução e desafia a efetividade do estatuto. foram instituídas nove regiões metropolitanas: Belo Horizonte. Além disso. Conforme as razões de veto publicadas no Diário Oficial da União. Por esse motivo. que deve pautar a gestão de recursos públicos. Porto Alegre.

24. que analisa a realidade brasileira à luz da visão conceitual. O Estatuto da Metrópole busca preencher parte da lacuna federal no ordenamento das metrópoles brasileiras. dada pelos estudos do IBGE. Dinâmicas Territoriais da População: Primeiros Resultados do Censo 2010.[i] Para uma melhor compreensão do fenômeno metropolitano e das regiões metropolitanas é necessário. Metrópoles e Regiões Metropolitanas no Brasil: conciliação ou divórcio? In FURTADO. atuando como porta de entrada dos fluxos globais no território nacional e na qual se ancoram interesses internacionais. o planejamento e a execução de funções públicas de interesse comum” (Art. B. também: FIRKOWSKI. ao mesmo tempo que emite.C.C. a compreensão institucional de região metropolitana. § 3º).” * Luciana Royer é arquiteta e urbanista. para o território nacional. e critérios para o apoio da União a ações que envolvam governança interfederativa no campo do desenvolvimento urbano. motivadas pela necessidade de ordenamento do território na escala regional e cuja cidade-polo não é necessariamente uma metrópole. definida por força de leis estaduais. muitas dessas funções foram desestimuladas ao longo das décadas de 1980 e 1990 por conta da crise fiscal dos estados da federação. 2013.).B.com/2015/03/24/o-estatuto-da-metropole-e-seu-financiamento/ 3/5 . Cf. no § 3º do art. K.wordpress. regiões metropolitanas formadas por um único município (Manaus).C. FRANÇA. Nota Técnica nº 22 IPARDES.). normas gerais sobre o plano de desenvolvimento urbano integrado e outros instrumentos de governança interfederativa. políticas municipais: por soluções conjuntas de problemas urbanos no âmbito metropolitano. não pode ser confundido com a definição legal de região metropolitana. (eds. https://observasp. KRAUSE. CINTRA. Brasília: Ipea. 25 e no art. que possui funções superiores de comando e gestão articulada à economia global.F. com o objetivo de integrar a organização. a compreensão oficial de metrópole.. Brasília: Ipea. ou ainda 39 municípios formando uma única região metropolitana (São Paulo). 25. Curitiba: IPARDES. —— [i] Ver MOURA.F. Olga L. [ii] FIRKOWSKI. No entanto. FRANÇA.B. Rosa.A. 2. K. Olga L. segundo Firkowski:[ii] 1. KRAUSE. com base nos incisos XX do art. B.. ou o ‘fenômeno metropolitano’. 2013. Território metropolitano.C.. vetores de modernidade e complexidade.. Não são todas as regiões metropolitanas do Brasil que se caracterizam como aglomerados metropolitanos no sentido fenomenológico. 182 da Constituição Federal. A Constituição de 1988 define regiões metropolitanas como “constituídas por agrupamentos de municípios limítrofes. 21. a compreensão teórico-conceitual de metrópole como uma grande cidade. Território metropolitano. relacionadas aos interesses políticos. (eds. Assim. a gestão e a execução das funções públicas de interesse comum em regiões metropolitanas e em aglomerações urbanas instituídas pelos Estados. 2011.12/09/2018 O Estatuto da Metrópole e seu financiamento instituindo diversas regiões metropolitanas (Santa Catarina). Contém diretrizes e normas gerais para “o planejamento. IX do art. Metrópoles e Regiões Metropolitanas no Brasil: conciliação ou divórcio? In FURTADO. Anael. 23 e I do art. Mas o processo de metropolização.A. C. professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. também utilizando metodologia própria e particularizando a classificação para a escala nacional. C. as regiões metropolitanas acabaram relegadas muitas vezes a um simples ajuntamento formal que não necessariamente conta com órgãos próprios de gestão. por vezes. políticas municipais: por soluções conjuntas de problemas urbanos no âmbito metropolitano.

São Paulo: Annablume. C.. experiências e perspectivas.B. IBGE – INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Fernando L. Rio de Janeiro: IBGE.P. Radiografia do associativismo territorial brasileiro: tendências.net/download/estatuto_metropole_artigo_rosa. KRAUSE. desafios e impactos sobre as regiões metropolitanas. 2008. Municípios “Autárquicos” e Região Metropolitana: a questão habitacional e os limites administrativos In FURTADO. HOSHINO. Rosa. Acesso em 30 jan 2015. Cristina T. IBGE – INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. SANO. Anúncios Report this ad Report this ad Share this: https://observasp.observatoriodasmetropoles. Disponível em: <http://biblioteca. K. Brasília: Ipea..A.).com/2015/03/24/o-estatuto-da-metropole-e-seu-financiamento/ 4/5 .) Governança das metrópoles: conceitos. Thiago A. Rio de Janeiro: IBGE. B. Jeroen (Org..C. Luciana O.gov..pdf&gt. Censo Demográfico 2010 – aglomerados subnormais: primeiros resultados. In KLINK. ROYER. Território metropolitano. 2013.wordpress. Estatuto da metrópole: Enfim.ibge. (eds.br/visualizacao/periodicos/92/cd_2010_aglomerados_subnormais. 2010. aprovado! Mas o que oferece à metropolização brasileira? Disponível em http://www. políticas municipais: por soluções conjuntas de problemas urbanos no âmbito metropolitano.12/09/2018 O Estatuto da Metrópole e seu financiamento —— *Sugestões de leitura: ABRUCIO. SYDOW. FRANÇA. Região de Influência das Cidades 2007. MOURA. Hinoboru. 2010.pdf.

com/2015/03/24/o-estatuto-da-metropole-e-seu-financiamento/ 5/5 . quando o último foi elaborado pelo saudoso Jorge Wilheim. mas infelizmente foi engavetado. A crise da água. A Região Metropolitana de São Paulo não tem um Plano Metropolitano desde 1994. https://observasp. que entre outros temas requerem um tratamento integrado são exemplos da dificuldade em gerir as nossas grandes regiões metropolitanas.12/09/2018 O Estatuto da Metrópole e seu financiamento Twitter Facebook 316 Google Relacionado Produção de HIS no Porto As (im)possibilidades de se Maravilha: quantas moradias.wordpress. a possibilidade do Estado promover Operações Urbanas e a governança metropolitana. Questões polêmicas permanecem em aberto: O fundo pra financiar o Plano Metropolitano Integrado. os problemas de mobilidade urbana e habitação e a questão ambiental. produzir habitação social na OUC onde e para quem? Água Branca Em "Direito à moradia" Em "OUC Água Branca" Estatuto da Metrópole: o gargalo do financiamento Em "Política urbana" ANTERIOR PRÓXIMO 2 comentários sobre “O Estatuto da Metrópole e seu financiamento” Republicou isso em ivanmaglioe comentado: Uma boa reflexão sobre o recente aprovado Estatuto da Metrópole.