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2º Seminário Internacional “Realidades e Desafios da Proclamação da América Latina e Caribe como Zona de Paz”

Havana, Cuba | 19 a 21 de setembro de 2018 Discurso de Socorro Gomes, Presidenta do Conselho Mundial da Paz

Estimadas companheiras e companheiros na luta pela paz e por uma América Latina e Caribe livre e soberana,

É com muita honra e esperança que me dirijo a vocês, nesta conjuntura de

encruzilhadas e graves ameaças, mas também de muita resistência e luta pela democracia,

a justiça social, a soberania e o progresso compartilhado. Quero saudar o Movimento

Cubano pela Soberania dos Povos e a Paz (MovPaz), as companheiras e os companheiros envolvidos na organização deste brilhante seminário e, especialmente, ao nosso amigo

Silvio Platero, presidente do MovPaz e coordenador da Região América do Conselho Mundial da Paz, que exerce com brilhantismo a sua responsabilidade. Quero igualmente saudar os companheiros do Conselho Mundial da Paz dedicados à promoção deste seminário, que realizamos em conjunto.

Amigos e amigas,

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A Humanidade atravessa um período difícil, em que a conjuntura política, econômica e

social é marcada por graves instabilidades, insegurança generalizada, seríssimas ameaças

à paz e profundas crises econômicas e sociais.

A natureza opressora, exploradora e espoliadora do sistema econômico imperante acarreta inauditos sofrimentos aos povos e a deterioração de sua soberania nacional.

Num quadro como este, os nossos esforços pela paz estão associados às lutas dos povos por seus direitos, justiça, progresso social e soberania nacional.

Como sabemos, nestes quatro anos desde a valente e altaneira proclamação da América Latina e Caribe como Zona de Paz pelos chefes de Estado e Governo da Comunidade de Estados Latino-americanos e Caribenhos (CELAC) nesta mesma cidade rebelde de Havana, uma sucessão de contraofensivas por parte das forças reacionárias, conservadoras e crescentemente fascistas nos coloca em uma posição diferente na região.

Não somos partidários da tese do fim do ciclo progressista nem nos resignaríamos facilmente com a derrota de um avanço recente histórico e transformador na região, a exemplo e inspirados pela gloriosa e resistente Revolução Cubana. Desde que assumiu o

governo na Venezuela o comandante Hugo Chávez, outros países conquistaram avanços havia séculos ansiados, através da força do voto popular e o compromisso patriótico e internacionalista dos governos progressistas. Além do empenho com a transformação da vida de tantos e tantas pessoas privadas das riquezas de seus próprios países, riquezas historicamente concentradas nas mãos de uns poucos oligarcas ou rendidas ao capital estrangeiro, a soberania nacional e a integração regional solidária também são marcos dos governos que se alçaram através da soberania popular na Venezuela, Bolívia, Argentina, Equador, Honduras, El Salvador, Nicarágua, Chile, Brasil, entre outros, com as limitações e insuficiências que todos conhecemos, mas que não podem obscurecer as conquistas históricas que alcançamos. Por isso mesmo, como temos denunciado reiterada e enfaticamente, é que a maior parte destes países passou e passa por graves crises políticas, sociais e econômicas derivadas não apenas dos fatos conjunturais e cíclicos da economia mundial, mas principalmente devido à promoção, pelo imperialismo estadunidense e aliados regionais, da sua desestabilização, para propiciar a derrubada dos governos progressistas.

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Com ultrajante prepotência, no início do ano, o então secretário de Estado dos EUA Rex Tillerson visitou nossa região para trazer a ameaça contra a Venezuela bolivariana, referindo-se até mesmo aos golpes militares do passado como uma opção para derrubar o presidente Nicolás Maduro. Com grande cinismo, o secretário de Defesa dos Estados Unidos James Mattis visitou há algumas semanas o Brasil, Argentina, Chile e Colômbia para, como a águia que sobrevoa seu território, monitorar o desenrolar dos acontecimentos na região que os EUA ainda consideram o seu quintal. À imprensa norte-americana Mattis disse que as relações estadunidenses com esses países, hoje governados ou por forças ilegítimas e golpistas ou por fiéis à agenda neoliberal agressiva ditada pelo patrão do norte, são de uma proximidade tal que os EUA podem prescindir do destacamento de grandes forças militares na região.

Além de tal abordagem revelar com nitidez o raciocínio que sempre fundamentou a política externa da potência imperialista para a nossa e para outras regiões, segundo a qual com aqueles países que não se vergam aos seus ditames a ameaça é a solução, tal retórica convenientemente encobre o fato de que os EUA mantêm quase 80 bases militares na América Latina e Caribe, reativaram a Quarta Frota da sua Marinha de guerra em 2008 e continuam negociando acordos militares com seus parceiros/lacaios regionais.

O jornal cubano Granma publicou em sua edição de 9 de agosto do ano em curso um esclarecedor artigo de autoria de Raúl Capote Fernández, intitulado "Bases militares

dos Estados Unidos na América Latina e Caribe; o Plano América do Sul”. Trata-se de um valioso estudo para compreender este aspecto da estratégia do imperialismo estadunidense para a região.

O artigo ressalta que os Estados Unidos têm cerca de 800 bases militares em todo

o mundo. Destas, 76 são na América Latina. Entre as mais conhecidas destacam-se 12 no

Panamá, 12 em Porto Rico, 9 na Colômbia e 8 no Peru, concentrando-se a maior quantidade na América Central e no Caribe.

Capote Fernández cita que o Comando Sul dos Estados Unidos publicou em março de 2018 uma informação sobre sua estratégia para a América Latina e o Caribe nos próximos dez anos, referindo-se aos principais "perigos" ou "ameaças", segundo a ótica do império. O informe menciona nesta categoria países como Cuba, Venezuela, Bolívia, e fenômenos como "a luta contra o narcotráfico", redes ilícitas regionais e transnacionais e a maior presença da China, Rússia e Irã na região.

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O artigo destaca que o atual comandante do Comando Sul, almirante Kurt Tidd,

expôs em fevereiro de 2018 perante o Congresso estadunidense os cenários planejados para o continente, objetivos, meios e estratégias, de acordo com a Estratégia de Defesa Nacional em 2018 e a Estratégia de Segurança Nacional do biênio 2017-2018. E cita as palavras do almirante: "Em termos de proximidade geográfica, comércio, imigração e cultura - diz - não há outra parte do mundo que afete mais a vida cotidiana dos Estados Unidos do que a América Central, a América do Sul e o Caribe".

O almirante afirma ainda que os desafios para a hegemonia estadunidense serão

enfrentados por meio de uma "Rede de Redes", operada pelo Comando Sul em conjunto com as agências estadunidenses e os aliados. Três Forças-tarefa Conjunta atuarão neste plano: Força-tarefa Conjunta Bravo (Base Aérea de Soto Cano, em Honduras), Força-tarefa Conjunta de Guantánamo, Força-tarefa Interagências e Conjunta - Sul (de Cayo Hueso, na

Flórida).

Capote Fernández chama a atenção ainda que a resposta estadunidense em casos de contingências inclui: Defesa do Canal do Panamá e da área do Canal do Panamá; Operações de controle de migração; Assistência humanitária e Resposta ante desastres; Operações militares unilaterais, bilaterais ou multilaterais levadas a cabo pelas forças em resposta a qualquer crise.

Esses devem ser elementos presentes em nossa campanha global contra bases militares estrangeiras, cujo último encontro tivemos a honra de manter nesta capital

revolucionária, em maio de 2017, no V Seminário Internacional pela Paz e pela Abolição das Bases Militares Estrangeiras. Naquela ocasião denunciamos “que o objetivo dos Estados Unidos é saquear e controlar os recursos naturais dos países, além de intimidar os povos e assegurar governos submissos ao imperialismo. Por isso, é imprescindível a nossa denúncia da instalação da base militar dos Estados Unidos em Guantánamo ainda em 1903 e a imposição da Emenda Platt, através das quais o império impulsionou sua política de dominação sobre a América Latina e Caribe, estendida para todo o mundo.

Ao longo do século 20, a política intervencionista do imperialismo estadunidense varreu as democracias nascentes e implantou, através de golpes, as ditaduras militares e

o terrorismo de Estado no continente. Ferramentas dessa política foram coordenados pela

Agência Central de Inteligência (CIA), o Tratado Interamericano de Assistência Recíproca

(TIAR) e outros instrumentos, como a Escola das Américas e a Operação Condor, responsáveis pela tortura e assassinato de milhares e milhares de patriotas e revolucionários latino-americanos.”

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Os Estados Unidos dividem o mundo em nove comandos. Para a América Latina e

o Caribe opera o Comando sul, com sua rede de bases militares, incluída a Quarta Frota, que é em si mesma um conjunto de bases bastante operativas e com capacidade de deslocamento.

Estas bases não são apenas militares, embora em essência todas o sejam. Há bases que funcionam como centros para a guerra midiática e a chamada ciberguerra, o Comando Sul trabalha em conjunto com a Nasa, a Agência de Inteligência Geoespacial e as Forças Armadas brasileiras e de outros países em um projeto para a criação de um satélite para a South Cyber-Container Initiative: análise de redes para detectar atividades maliciosas na rede, desenvolvido em conjunto com o Departamento de Segurança Nacional, o Departamento da Defesa e o Birô Federal de Investigações (FBI).

Esta diversidade de táticas soma-se à própria e incessante guerra midiática e financeira contra países como a Venezuela no âmbito da promoção de golpes de estado através do patrocínio das forças mais obscurantistas da nossa região, como ficou evidente tanto na própria Venezuela como no Brasil. O fato de tais golpes não serem mais promovidos prioritariamente pelo aparato militar tem confundido alguns analistas que ou negam que tais processos se caracterizam como golpes, ou buscam nuances para explicá- los, como o chamado “golpe suave”. Fato é que para os povos vítimas de tais descalabros não é preciso matizar a virulência dos golpes, que não significam apenas a violação da soberania popular expressa no voto, mas que tolhem direitos civis e políticos de forma

generalizada, para além de objetivamente imporem um retrocesso histórico face às conquistas alcançadas pelos governos progressistas derrubados ou sucedidos por forças de direita e reacionárias eleitas em momento de grande confusão e crise fomentada pelas próprias táticas a que me referi há pouco.

No Brasil, como têm certamente acompanhado, o golpe se dá através das próprias instituições que deveriam ser as garantidoras do estado democrático de direito e da soberania popular, quais sejam: o poder Judiciário e o Legislativo. Contudo, setores majoritários desses poderes, em conluio com os meios de comunicação empresariais monopolizados, atuaram contra o regime democrático e depuseram o governo eleito com o voto de mais de 54 milhões de brasileiros. A mídia é a porta-voz do capital financeiro internacional e dos interesses mesquinhos da elite conservadora, privilegiada, antipatriótica e antidemocrática do país. A maior parte do poder Judiciário, por sua vez, tem atuado como carrasco das forças de esquerda e quase abertamente alega responder a um clamor popular inflamado contra a “corrupção” – mal a que as forças de esquerda sempre combateram, mas cujo combate é instrumentalizado para atacar a própria esquerda por forças que são inerentemente corruptas. Não há imparcialidade nem respeito ao devido processo legal, como ficou claro no caso do presidente Lula, feito prisioneiro político desde abril, num processo viciado e arbitrário que tem sido denunciado por juristas e personalidades de todo o mundo. No caso do Parlamento, um comportamento virulento ficou claro durante o processo falsário de impeachment da presidenta Dilma Rousseff, perseguida por um fascismo e uma misoginia cada vez mais abertos.

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Como em tantos países no mundo, com ênfase para a Europa, vemos as forças de extrema-direita e abertamente fascistas ganharem espaço neste caldo cultivado pela mídia conservadora e massiva. É o caso também da Argentina e do Equador, onde a ex- presidenta Cristina Kirchner e o ex-presidente Rafael Correa, sucedidos por forças de direita cultivadas neste caldo, são acusados e condenados antes mesmo da condução de quaisquer procedimentos de direito.

Ademais, seguimos na luta por superar desafios e conflitos históricos persistentes por precisamente representarem portas de entrada do imperialismo estadunidense na região e meios privilegiados das oligarquias de alimentar seu poder. O conflito na Colômbia, apesar do acordo de paz alcançado entre as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia e o governo de Juan Manuel Santos, não está encerrado. As forças populares seguem demandando uma paz com justiça social e por isso lideranças de diversas entidades e comunidades continuam sendo perseguidas e assassinadas, sobretudo pela persistente

atuação das forças paramilitares e da lógica agressiva promovida pelo ex-presidente Álvaro Uribe.

Em Cuba, o chauvinista presidente Donald Trump busca anular as conquistas alcançadas pelo estabelecimento de relações diplomáticas entre o governo cubano e o de Barack Obama após anos de campanhas contra a ingerência estadunidense em sua política contrarrevolucionária anacrônica, uma política levada a cabo inclusive contra a vontade de grande parte da população estadunidense, evidenciada quando a esperança de reaproximação entre as duas nações ficou palpável. Seguimos demandando, após quase seis décadas, o fim do bloqueio a Cuba imposto pelos EUA e a devolução do seu território de Guantánamo, ainda ocupado pela base militar e o centro de torturas estadunidenses contra a vontade do povo cubano.

Companheiros e companheiras,

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Nossos desafios na América Latina e Caribe vão muito além da gravíssima militarização da região, do saque dos nossos recursos e do cerco geoestratégico promovidos pelas forças imperialistas e neocolonialistas. O fomento da desunião nacional e da desintegração regional pela ingerência estrangeira é precisamente a prova de que a nossa unidade é a nossa força. A clareza sobre os nossos desafios, que exercitamos em necessários seminários como este, é essencial por uma América Latina e Caribe de Paz, de progresso compartilhado, de amizade entre os povos e de integração soberana, onde a nossa diversidade também é a nossa fortaleza. Pela definitiva independência da Nossa América, cujos povos têm vocação para a paz, seguimos juntos!