Está en la página 1de 57

UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO

CENTRO DE CIÊNCIAS JURÍDICAS


FACULDADE DE DIREITO DO RECIFE
COORDENAÇÃO DE GRADUAÇÃO
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
UMA ANÁLISE DA VIABILIDADE DO USO DA LÓGICA DE DEFAULTS DE
RAYMOND REITER NA FORMALIZAÇÃO DE UM FRAGMENTO DO CÓDIGO CIVIL
DE 2002
!
!
!
!
ALUNO: Victor Lacerda Botelho
ORIENTADOR: Prof. Dr. Torquato da Silva Castro Júnior
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
RECIFE - 2016
VICTOR LACERDA BOTELHO
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
UMA ANÁLISE DA VIABILIDADE DO USO DA LÓGICA DE DEFAULTS DE
RAYMOND REITER NA FORMALIZAÇÃO DE UM FRAGMENTO DO CÓDIGO CIVIL
DE 2002
!
!
!
Projeto de Monografia Final de Curso
apresentado como requisito para obtenção do
título de Bacharelado em Direito pelo CCJ/
UFPE.
!
Área do saber: Lógica e Direito, Inteligência
Artificial e Direito, Representação do
Conhecimento Jurídico, Lógica jurídica.
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
RECIFE - 2016
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
À Tiá e Donda (in memoriam).
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
“If you use a trick in logic, whom can you be tricking other than yourself?”
Ludwig Wittgenstein
RESUMO

Com esta monografia pretendi investigar a hipótese de utilizar a lógica de defaults de Reiter
como linguagem lógica apta a ser base de uma representação de conhecimento da legislação
por meio da formalização de um fragmento do Código Civil de 2002. Elegi como marco
teórico o trabalho do lógico canadense Raymond Reiter, que iniciou uma tradição do uso de
defaults na pesquisa sobre inteligência artificial simbólica. Como o objetivo de Reiter era
capturar um aspecto geral do raciocínio humano, apoiei-me no trabalho de Henry Prakken
para estabelecer a ligação entre raciocínio default e o mundo do direito. A pesquisa foi focada
estritamente no método bibliográfico, em que foi estudada a bibliografia sobre lógica e
representação do conhecimento. Pretendi traduzir um fragmento do Código Civil de 2002,
mais precisamente seus oito primeiros artigos, bem como seus respectivos incisos e
parágrafos, para a linguagem da lógica de defaults. O trabalho aborda preliminarmente certos
argumentos contra a utilização da lógica para se estudar o direito, e depois apresenta uma
linguagem de primeira ordem LPO, esquematiza o funcionamento formal dos defaults e
desenvolve a Teoria CC8, o produto da tradução lógica acima referida. Por fim, o trabalho
conclui que a lógica de defaults de Reiter por si só é incapaz de lidar com o objeto de estudo
proposto, mas que seu estudo pode oferecer insights para pesquisas posteriores no campo.

!
Palavras-chave: Inteligência Artificial & direito, lógica não-monotônica, lógica jurídica,
inteligência artificial simbólica, lógica de defaults.

!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
SUMÁRIO

!
INTRODUÇÃO 7
1. DESFAZENDO A NÉVOA: O QUE FORMALIZAR NÃO É 10
1.1. A lógica moderna não é silogística 10
1.1.1. O que é o silogismo? 11
1.2. ‘Formalizar é definir completamente e não deixar espaço para a interpretação judicial’15
1.3. Considerações finais 19
2. REPRESENTAÇÃO DE CONHECIMENTO E LÓGICA DE DEFAULTS 21
2.1. O que é uma lógica? O que é a representação de conhecimento? 21
2.1.1. Apresentando a linguagem LPO 23
2.2. A lógica de defaults 31
2.2.1.: Os defaults 33
3. A TEORIA CC8 40
3.1. Defaults da Teoria CC8 41
4. ANÁLISE DA TEORIA CC8 46
4.1 Semelhança estrutural 46
4.2. Modularidade 48
4.3. Exclusividade da especificação 48
4.4. Implementação 49
4.5. Expressividade 50
5. CONCLUSÃO 52
!
!
!
!
!
!
!
INTRODUÇÃO

“A lógica é um saber necessário aos juristas!” Dificilmente tal afirmação seria


contestada caso fosse direcionada a alunos ou profissionais que lidam com o direito. No
entanto, experimente dizer a seguinte frase em voz alta para uma audiência composta por
juristas: “A lógica matemática é um saber que pode ser muito útil na atividade do direito”. A
adjetivação ‘matemática’ causaria, sem dúvidas, certo embaraço em parte da audiência.
Aqueles que antes não ofereceram qualquer antagonismo à lógica mudariam sua postura.
Pediriam para que o orador qualificasse melhor sua fala, que ele especificasse aquilo que quis
dizer. Indagações como “Você está dizendo que a atividade jurídica pode ser reduzida a meros
silogismos?” ou “Essa tal lógica nunca poderá substituir a atividade dos profissionais do
direito” dificilmente não ocorreriam.

Apesar de ter sido apresentada como sendo uma cena imaginária, ela é mais real e
imediata do que se pode imaginar. Já presenciei cenas semelhantes desde que comecei a me
interessar pelo estudo do direito através da lógica. Pouquíssimas foram as situações em que
qualquer fala sobre automatização de decisões jurídicas, modelização do raciocínio jurídico
através da lógica, conexões filosóficas entre lógica e direito, verificação de consistência
lógica de textos normativos (entre outros temas) não resultaram em um antagonismo prévio,
uma rejeição de plano da própria possibilidade de se estudar o fenômeno jurídico através da
lógica matemática. Curiosamente, este embaraço nunca ocorreu enquanto eu conversava com
lógicos ou com cientistas da computação. A aproximação entre suas disciplinas e outras
(como a do direito) lhes parece tão natural que não deixa espaço para que se forme um
ceticismo apriorístico.

A existência desse ambiente normalmente hostil requer do presente trabalho o maior


rigor técnico, precisão e clareza possíveis. Poderia parecer estranho que, diante de tais
exigências, ele esteja escrito em primeira pessoa. Fiz essa escolha conscientemente, sem medo
de passar a impressão de parcialidade ou de anti-cientificidade. É que a própria natureza do
tema escolhido impede que ocorra um descontrole metodológico. Pretendo construir uma
teoria default customizada de modo a servir como modelo de um fragmento do Código Civil
de 2002 (mais especificamente de seus oito primeiros artigos e respectivos incisos e
parágrafos). Chamarei essa teoria de ‘CC8’ em referência ao seu objeto. Após construir CC8,
verificarei seu desempenho em lidar com situações simples do mundo jurídico.O objetivo é

!7
analisar os resultados de se utilizar uma lógica default como linguagem formal na qual se
traduzirão enunciados jurídicos. A conclusão consistirá em apontamentos de acertos e de
dificuldades em criar um sistema de representação de conhecimento baseado na lógica default
de Reiter.

O trabalho tem dois marcos teóricos bem definidos: a) o paper ‘A Logic for Default
Reasoning’ do lógico canadense Raymond Reiter e b) os escritos de Henry Prakken sobre
lógica e direito. A escolha da lógica de Reiter não foi aleatória. O autor, que escrevia sobre
Inteligência Artificial em geral, preocupava-se com um aspecto do raciocínio humano: o fato
de que muitas vezes trabalhos com crenças derrotáveis. Isso quer dizer o seguinte: muitas
vezes supomos que uma determinada proposição é verdadeira, mas estamos dispostos à
retratá-la caso alguma evidência aponte o contrário. Isto pode se traduzir do seguinte modo:
tendo em mãos um conjunto de premissas Δ podemos, através de um conjunto de regras de
inferência F, chegar a uma certa conclusão P.1 No entanto, caso nosso conjunto de premissas
Δ seja enriquecido por premissas adicionais, como um conjunto Γ de novas premissas2, nossa
conclusão P poderia ser retraída diante dessas novas informações. Esse aspecto da lógica de
defaults em que partimos de generalizações que podem ser derrotadas por exceções parece ser
bastante apropriada para o direito. Nessa esteira entra o trabalho de Henry Prakken, que vem
explorando o uso de lógicas não-monotônicas (e a lógica de defaults é essencialmente não-
monotônica (REITER, 1980, p. 81) ) para modelar o raciocínio jurídico e representação de
conhecimento legal. Parto então da hipótese de que um modelo do direito deve operar de
maneira não-monotônica e realizo o estudo da lógica de defaults como passível de capturar o
modo como juristas lidam com a legislação.

O estudo terá a seguinte estrutura: o primeiro capítulo será dedicado a enfrentar alguns
questionamentos que, caso fossem verdadeiros, apresentariam dificuldades à própria
possibilidade de se utilizar uma linguagem lógica para criar um modelo de representação de
conhecimento para o direito. O segundo capítulo será composto por duas explicações. A
primeira delas servirá para definir o que se entende por uma linguagem lógica; a segunda será
uma apresentação da lógica de defaults e uma definição formal do que significa dizer que uma
lógica é não-monotônica. No terceiro capítulo haverá a construção da teoria CC8, baseada nos

1 Ou seja, P |- Δ. Lê-se: ‘P é uma consequência lógica de Δ’


2 Ou seja, Δ ∪ Γ.
!8
conceitos abordados no segundo capítulo. Serão apresentados os defaults que devem ser
contidos na teoria CC8. O quarto capítulo consistirá em por o funcionamento da teoria CC8
sob análise.

O paradigma de investigação que se adota neste trabalho é o de representação de


conhecimento (knowledge representation). O objetivo é tentar exprimir, mediante uma
linguagem lógica, um modelo de como se deve raciocinar seguindo

Estudar lógica e direito no cenário acadêmico nacional não é tarefa fácil. Excetuando-se
alguns polos de pesquisa — como o grupo de pesquisa da Universidade de São Paulo,
liderado por Juliano Maranhão, e o da Universidade Federal do Paraná, liderado por César
Serbena — houve pouca penetração do tema nas faculdades de direito brasileiras. Esse fato
revela-se nas referências bibliográficas desse estudo, que são em sua maioria oriundas de
publicações internacionais escritas em inglês. Nesse sentido, o presente estudo também tem o
objetivo mais geral de ser uma adição ao acervo bibliográfico em língua portuguesa sobre
lógica e direito. É importante que sejam feitos esforços para produzir conteúdo acessível
sobre lógica e direito. Irei prezar, sobretudo, pela acessibilidade. O assunto será tratado de
modo compreensível, escrito em uma linguagem concisa e direta — sem floreios —, ainda
que tecnicamente precisa e séria.

!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!

!9
1. DESFAZENDO A NÉVOA: O QUE FORMALIZAR NÃO É
1.1. A lógica moderna não é silogística

A asserção que dá nome a esta seção poderia ser considerada trivial em círculos que
lidam diretamente com a lógica simbólica moderna. No entanto, entendo ser necessário
dedicar todo uma seção deste trabalho à esta questão para afastar certas pré-concepções do
que viria a ser um modelo lógico do raciocínio jurídico, objeto de estudo desta pesquisa. Este
tópico não lida com a questão maior sobre a lógica simbólica moderna ser ou não ser
aristotélica; a discussão proposta diz respeito tão somente a saber se a utilização da lógica
como ferramenta de construção de um modelo jurídico pode ser reduzida à aplicação de
silogismos.

É comum nos depararmos com formulações informais do que seria o silogismo jurídico
clássico: tem-se uma premissa maior, que seria o texto normativo; uma premissa menor que é
preenchida com as nuances do caso concreto; e, através da concatenação entre termos
maiores, médios e menores, uma conclusão logicamente necessária seria alcançada.
(STONE, 2004, p.56) Esta noção de silogismo jurídico é tão difundida na literatura que é
provável que seja fonte de ao menos dois mal-entendidos quando se fala em formalização do
direito.

O primeiro mal-entendido é o de que formalizar o direito significaria resolver os


problemas interpretativos que permeiam a linguagem jurídica e que gera infinitas contendas
na áreas de teoria geral do direito e da filosofia do direito. O segundo nasce em razão da
natureza informal em que é utilizado o vocábulo ‘silogismo’ na expressão ‘silogismo
jurídico’, o que pode passar a impressão de que a lógica a ser utilizada em uma formalização
seria a da doutrina do silogismo. Irei lidar precisamente com este segundo mal-entendido nas
páginas seguintes.

Como dito, a expressão ‘silogismo jurídico’ é um tanto informal e não está,


tecnicamente, de acordo com a doutrina do silogismo de Aristóteles. É um uso quase
metafórico da palavra silogismo, um uso sem qualquer precisão formal. Para dissipar o mal-
entendido, então, é necessário requalificar o conceito de silogismo através de uma
comparação entre o texto aristotélico presente no terceiro livro do Organon, o Analíticos
Anteriores (chamado por vezes de Analíticos Primeiros) e as técnicas de formalização

!10
utilizadas por pesquisadores da área de lógica. Assim, deve ficar claro que as investigações
entre direito e lógica prescindem de qualquer menção ou uso da doutrina do silogismo.

1.1.1. O que é o silogismo?

As discussões que versam sobre os fundamentos filosóficos que levaram Aristóteles a


criar a disciplina da lógica e a doutrina do silogismo são vastas. Todavia, não há necessidade
de que tais questões sejam abordadas aqui, já que não me preocupo em analisar o porquê de
Aristóteles ter definido o silogismo desta ou daquela maneira, e sim em extrair e estudar as
regras que regem a construção de silogismos, entendidos aqui como estruturas sintáticas.
Portanto, propriedades formais — não-filosóficas — serão levadas em consideração. Além
disso, discutirei ao fim da seção problemas de anacronismo na tradução dos silogismos para a
lógica simbólica moderna.

A definição textual do que é um silogismo é exposta no Analíticos Anteriores e, a partir


dela, já é possível observar elementos essenciais da composição sintática dos silogismos
diretos:
O silogismo é uma locução em que, dadas certas proposições, algo distinto delas resulta
necessariamente, pela simples presença das proposições dadas. Por ‘simples presença das
proposições dadas’ entendo que é mediante elas que o efeito se obtém; por sua vez, a
expressão ‘é mediante elas que o efeito se obtém’ significa que não se carece de qualquer
outro termo a elas estranho, para obter esse necessário efeito.3 (Aristóteles, p. 11, 1986)

Vê-se de pronto que a matéria constituinte do silogismo são as proposições, e que


somente a partir da afirmação de certas proposições obtém-se um resultado (que é também
uma proposição), que deve ser distinto das proposições previamente afirmadas. A noção de
proposição em Aristóteles é esta: “uma proposição é uma afirmação em que uma única coisa é
predicada de uma única coisa” (WOODS & IRVINE, 2004, p. 39) (ARISTÓTELES, 2004, p.
3). A questão, então, torna-se a de saber que tipo de coisa pode ser predicada, ou seja, quais
devem ser os termos que compõem o silogismo.

O exemplo mais comum — e enfadonho — de silogismo é este: “Se todo homem é


mortal e Sócrates é um homem, então Sócrates é mortal.” Vemos que a palavra ‘mortal’ serve
de predicado à palavra ‘homem’ na premissa maior; que a palavra ‘homem’ serve de

3 Em outra tradução, a mesma passagem lê: “A syllogism is an argument in which certain things being posited,
something other than what was laid down results by necessity because these things are so. By ‘because these
things are so’ I mean that it results through these, and by ‘resulting through these’ I mean that no term is required
from outside for the necessity to come about.” (Aristóteles, p. 2, 2009)
!11
predicado à palavra ‘Sócrates’ na premissa menor; e que ‘mortal’ predica ‘Sócrates’ na
conclusão. ‘Homem’, ‘mortal’ e ‘Sócrates’ seriam os termos, as coisas a serem predicadas e a
predicarem. No entanto, esta construção está errada. Segundo Aristóteles, “De tudo quanto há,
temos coisas que são de uma natureza tal que não podem ser afirmadas universalmente de
outra coisa, por exemplo, ‘Cléon’ e ‘Cálias’ […]”. (ARISTÓTELES, 1986, p. 102) É fácil
perceber que o nome próprio ’Sócrates’, assim como ‘Cléon’ e ‘Cálias’, jamais poderia fazer
parte de um silogismo, posto que é um termo que designa um particular e que, portanto, na
visão aristotélica não poderia servir de predicado a outra coisa.4 (BOCHENSKI, 1961, p.58)
(PATZIG, 1968, p. 4) Este tipo de restrição não existe na lógica clássica5.

No cálculo de predicados existem dois tipos de expressões básicas: os símbolos


individuais e as constantes de predicado. (MORTARI, 2001, p. 67-73) Os símbolos
individuais (que podem ser constantes, variáveis ou function letters) são definidos
formalmente como as estruturas que servem de argumentos a predicados, não podendo eles
mesmos servirem de predicados a outros símbolos individuais. Em uma interpretação para a
linguagem natural, é comum dizer que os símbolos individuais são análogos formais dos
nomes próprios das línguas naturais (HAACK, 2002, p. 91) como ‘Sócrates’, ‘Cléon’ e
‘Cálias’. Então, o silogismo apontado acima poderia ser formalizado em FOL da seguinte
maneira (em que ‘H’ é interpretado como ‘é homem’; ‘M’ como ‘é mortal’; e ’s’ como
‘Sócrates’):

(∀x.((Hx → Mx) ∧ Hs) → Ms)

Esta fórmula bem formada, correta do ponto de vista do cálculo de predicados, não
poderia ser construída silogisticamente pelo emprego errôneo de um termo individual.6 Diante
do exposto, pode-se fazer uma pergunta: como poderia o silogismo aristotélico tocar um caso
concreto jurídico se não se pode utilizar nomes próprios, justamente a construção linguística
que designa sujeitos de direito (pessoa física ou jurídica)? Este é um primeiro obstáculo ao

4Devo meu primeiro contato com esta observação sobre os termos de um silogismo ao professor Torquato
Castro Jr., que sempre tem o cuidado de fazê-la em suas aulas.
5Trabalho aqui com a noção de lógica clássica como encontrado em (HAACK, p. 28, 2002). Desta forma, tanto
o cálculo proposicional (cálculo sentencial) quanto a lógica de primeira ordem (cálculo de predicados; FOL) são
chamadas de ‘lógicas clássicas’.
6 Para mais informações sobre a rejeição de Aristóteles pelos nomes próprios e elementos singulares, v.
(ŁUKASIEWICZ, 1957, pp. 5-7)
!12
uso do silogismo como ferramenta de investigação do mundo jurídico; um obstáculo que não
existe na lógica simbólica moderna.

Seguindo a definição dada por Aristóteles, é importante observar o uso do plural em


‘proposições’. Isto exclui de plano deduções feitas a partir de uma única premissa. (WOODS
& IRVINE, 2004, p. 55) argumentam que é uma propriedade dos silogismos aristotélicos
terem premissas múltiplas, ou seja, no mínimo duas delas. Tal restrição, mais uma vez,
inexiste seja na lógica clássica, nas extensões da lógica clássica e nas lógicas não-clássicas. A
impossibilidade de se construir deduções a partir de uma única proposição seria uma restrição
dracônica e teria efeitos indesejáveis em uma formalização do direito, impedindo a utilização
de certas regras de inferência (que serão discutidas posteriormente).

Uma outra característica do silogismo é a de que a implicação silogística não é


reflexiva. Extrai-se esta característica a partir da seção “dadas certas proposições, algo
distinto delas resulta necessariamente” da definição de silogismo do Analíticos Anteriores.
(WOODS & IRVINE, 2004, p. 54) estabelecem a propriedade de não-circularidade desta
maneira: “Eles [os silogismos] são fundamentalmente não-circulares; ou seja, suas conclusões
não repetem nenhuma premissa.”

Matematicamente, uma relação reflexiva é definida como sendo uma relação binária em
um conjunto, para o qual cada elemento deste conjunto está em relação consigo mesmo.
Formalmente, a definição dada é esta: uma relação é reflexiva se para todo x ∈ A temos que
xRx. (SCHEINERMAN, 2013, p. 75) Onde ‘A’ é um conjunto e ‘R’ é uma relação binária.7
Esta limitação dos silogismos impediria a construção de uma consequência lógica do tipo A ⊨
A, que diz que é válido inferir uma coisa a partir dela mesma. Note que nesta construção
básica não há nada sendo predicado de nada, e há apenas uma premissa; três regras de
construção de silogismos foram quebradas em uma relação de validade que, do ponto de vista
da lógica clássica, a construção está absolutamente correta. Apesar de este ponto parecer um
tecnicismo, a propriedade de reflexividade é comumente tida como um dos princípios centrais
das lógicas não-monotônicas (STRASSER & ANTONELLI, 2015), o que a torna relevante no
presente trabalho.

7 Para maior clareza, alguns exemplos de relações reflexivas são as de igualdade e a de ser divisor. Todo número
é igual a si, e todo número é divisível por si próprio.
!13
Pode-se também analisar o status dos quantificadores e dos conectivos lógicos,
presentes na lógica moderna, na doutrina do silogismo. Anteriormente, fiz a tradução de um
pretenso silogismo — que, como vimos, não está de acordo com as regras de construção
silogística — para a linguagem da lógica de primeira ordem (FOL). Tratou-se, claro, de um
anacronismo, uma visão moderna de como se expressar um silogismo. Aristóteles, no
Analíticos Primeiros, não chega a esboçar de fato uma linguagem formal. Seu único passo em
direção a uma formalização é o uso de letras como substitutos para termos, os outros
elementos que compõem as proposições, a ligação entre proposições e a conclusão do
silogismos são expressos em linguagem natural. Outro ponto interessante é que toda
proposição é expressa em termos de “A é predicado de todo B”; “A não é predicado de algum
B”; “A é predicado de algum B”; e “A não pertence a algum B”. Do ponto de vista de um
lógico moderno, poderia parecer que Aristóteles tinha em mente o que hoje entendemos como
sendo os quantificadores lógicos, o quantificador universal ‘∀’ e o quantificador existencial
‘∃’, bem como o conectivo de negação ‘¬’. No entanto, esta é uma interpretação moderna de
como os silogismos são construídos. (BÉZIAU, 2016) Segundo (ŁUKASIEWICZ, 1957, pp.
83-84), Aristóteles não tinha uma ideia clara dos quantificadores lógicos, e não os utilizou em
seus trabalhos. A ideia de “A ser predicado de todo B”, por exemplo, parece ser melhor
capturada pela noção de que B ⊆ A (de que B é um subconjunto próprio de A); não como uma
quantificação universal do tipo ∀x(Bx → Ax), que além de ter o uso do quantificador
universal como necessário, também tem que contar com a presença do conectivo de
implicação material. (BÉZIAU, 2016)

É importante que eu lembre ao leitor que não pretendi, ao longo desta seção, fazer
pouco ou de maneira alguma deprecar o trabalho empreendido por Aristóteles, que é, sem
dúvidas, o criador da disciplina. Meu intuito foi o de demonstrar, através do contraste entre a
silogística aristotélica e as técnicas de formalização da lógica clássica (não usei um
vocabulário lógico que tenha ultrapassado a lógica de Frege, em sua obra Conceitografia, de
1879) diferenças de ordem sintática que provam cabalmente a impropriedade em se achar que
formalizar o direito através da lógica implicaria em uma utilização da silogística. Também foi
proposital o fato de eu ter usado um vocabulário lógico disponível já no fim do século XIX. A
lógica, de fato, progrediu ao longo de todo o século XX e começo do século XXI. Houve a
criação de extensões da lógica clássica, de novas lógicas não-clássicas e de todo um aparato

!14
matemático e formal para aumentar a expressividade das linguagens lógicas e acomodar
discussões sobre lógica e computabilidade (aqui no sentido de Turing-computável). Não se
pode imaginar que, diante de todo esse progresso, apenas as ferramentas da silogística
estariam disponíveis aos lógicos modernos para empreender trabalhos de formalização. Desta
forma, a batida expressão “silogismo jurídico” não diz respeito nem ao silogismo aristotélico,
nem às modernas técnicas de formalização da lógica moderna. É um erro partir da ideia de
silogismo jurídico como algo verdadeiramente relevante para a discussão aqui posta. Tal
conceito não tem nenhum base formal, não lida com as relações lógicas, não se preocupa com
sintaxe, não nos dá uma semântica, nem nos fornece regras de inferência válidas e/ou axiomas
a serem levados em consideração. Não há qualquer compromisso direto entre a ideia de usar a
lógica como ferramenta para a criação de um modelo legal e algum ideal “iluminista” de
silogismo jurídico.

1.2. ‘Formalizar é definir completamente e não deixar espaço para a interpretação


judicial’

Algumas vezes argumenta-se que dar uma formalização lógica de textos normativos
seria uma tentativa de dar uma definição completa de todos os conceitos jurídicos.
(PRAKKEN, p. 16, 1997) Posto de outra forma, alguns críticos dizem que em uma
formalização simbólica a linguagem geral e abstrata dos enunciados jurídicos se tornaria
específica; e que dessa maneira o grupo de lógicos responsável por conduzir a formalização
daria sua própria interpretação aos enunciados normativos. e que não sobraria espaço para a
interpretação jurídica por parte do juiz, já que a interpretação ficaria à cargo da máquina
responsável por computar as inferências lógicas. Posso chamar de fraca a objeção que ataca a
formalização porque esta seria uma tentativa de negar à linguagem a propriedade de textura
aberta (HART, p. 137, 2007); e de fraquíssima a objeção fundada na ideia de que haveria
alguma pretensão de automatização total no processo de decisão judicial através de uma
formalização computável.

Seguindo a ordem de apresentação das críticas, lidarei primeiro com a objeção fraca.
Devo conceder que, caso a crítica fosse procedente, o projeto de formalização teria que lidar
com dois sérios problemas: o primeiro seria o de capturar em sua totalidade o significado de
todos os conceitos jurídicos e, na impossibilidade de realizar tal captura, decidir exatamente a

!15
extensão de cada um dos conceitos jurídicos a serem formalizados. Felizmente, nenhum dos
dois problemas precisa ser enfrentado.

(PRAKKEN, 1997, pp. 16-17) pede que seja considerada uma determinada norma que
impede a entrada de veículos em um parque. Tal norma poderia ser formalizada da seguinte
maneira:

• (v → ¬p)

Onde v substitui a afirmação ‘o objeto é um veículo’ e ¬p substitui ‘o objeto não pode


entrar no parque’. De acordo com a objeção levantada, seria necessário que o lógico
qualificasse a palavra veículo, determinando de antemão todos os objetos que deveriam ser
subsumidos dentro deste conceito. Eu poderia, a título de exemplo, adicionar tais proposições
para melhor definir o conceito de veículo:

• (c → v)

• (m → v)

Onde v permanece em sua interpretação inicial e c substitui a sentença ‘o objeto é um carro’ e


m, ‘o objeto é uma motocicleta’. Ou seja, teríamos que se um objeto é uma moto ou um carro
então ele é um veículo. É fácil visualizar que minha definição de veículo estaria incompleta,
já que eu não falei nada sobre o status de carretas, bicicletas, patins, tratores e outros objetos
relevantes para o conceito de veículo. Para tentar fechar a definição, seria possível reformulá-
la da seguinte maneira:

• (¬c ∧ ¬m) → ¬v

Mantidas as respectivas interpretações de cada uma das letras sentenciais, teríamos que
se um objeto não é um carro, e não é uma motocicleta, então o objeto não é um veículo. Essa
“cláusula de fechamento de conceito”, iria dizer que as únicas coisas que estão na extensão do
conceito de veículo são carros e motocicletas. É evidente que isso em nada nos ajudaria em
mais uma variedade de casos, pois como eu poderia criar uma definição que determinasse a
extensão dos conceitos de motocicleta e carro? Com efeito, caso os lógicos necessitassem
empreender este esforço de definição, virariam Sísifos modernos, teriam caído em um
problema de regressão infinita. Definições no mundo jurídico têm a péssima característica de
empurrar o problema da definição para os termos em que um determinado conceito foi
definido. (FINKELSTEIN, 2010, pp. 651-652)

!16
No entanto, nada disso tem qualquer relevância crítica contra o projeto de formalização.
No primeiro caso, o da definição de um determinado conceito de veículo, o lógico buscaria
transformar em linguagem formal apenas aquilo que aparece na legislação. Ou seja, a
definição dada a este ou aquele conceito jurídico cabe apenas ao legislador, e esta definição é
a que deve ser formalizada. Para (PRAKKEN, 1997, p. 17), a validade de uma “cláusula de
fechamento de conceito” não depende da formalização:
Que uma fórmula como a (4) seja verdadeira depende completamente em como a norma é
formulada pelo legislador ou interpretada pelo judiciário; ela não se torna verdadeira por
causa da formalização lógica. Isto mostra que um conceito formalizado ainda pode ser
parcialmente indefinido em um mundo ‘lógico’8

Perelman, como expoente de uma abordagem retórica do direito (sua “nova retórica”)
utiliza a expressão “lógica jurídica” não com qualquer conotação referente a aplicações do
campo da lógica ao direito. Pergunta (PERELMAN, 2000, p.5) se “deveríamos inclinar-nos ao
uso [da expressão “lógica jurídica”] dos lógicos ou ater-nos ao dos juristas que sabem muito
bem do que se trata quando falam de lógica jurídica?” Em sua concepção, “lógica jurídica” se
relaciona mais com a noção mais vaga de como os juristas lidam com seus problemas. Sua
rejeição da utilidade da lógica na representação do direito o levou a formular um argumento
que tem, em seu núcleo, a objeção fraca.

Em (PERELMAN, 1990, pp. 636-648)9, o autor belga argumenta que em alguns casos é
necessário que seja feito um escrutínio da “intenção do legislador” para que seja possível
realizar uma formalização lógica da legislação.

Para ilustrar seu ponto, diz Perelman:


Se, por exemplo, uma lei submete todos os jovens de uma certa idade ao serviço militar
obrigatório, a inevitável conclusão, por aplicação do argumento a simili, é a de que também
estão submetidas ao mesmo dever as jovens do sexo feminino da mesma idade. De sua
parte, mediante o argumento a contrario, elas estarão isentas deste mesmo dever.
Para reduzir estes argumentos a esquemas puramente formais, é indispensável que sua
aplicação, caso a caso, seja precedida de uma argumentação em torno da intenção do
legislador.
!
8 “[…]whether a formula like (4) is true depends completely on how the norm is formulated by the legislator or
interpreted by the judiciary; it does not become true because of the logical formalization. This shows that a
formalized concept can be partially undefined, that a ‘logical’ world can be open.
9 O texto original foi publicado em francês. Neste trabalho utilizo, para fins de inclusão de citações em
vernáculo, a tradução feita por Cassio Scarpinella Bueno. Disponível em: http://www.scarpinellabueno.com.br/
Textos/Perelman1.pdf (Acesso: 12/11/15)
!17
Acredito que esteja bastante claro ao leitor exatamente onde está o erro de Perelman.
Como já argumentei acima, o lógico não precisaria entrar no mérito dessa questão, pois ele
não estaria obrigado a tentar definir completamente o conceito de ‘jovens’. O responsável por
criar a base de conhecimento10 (a contrapartida formal da legislação) deveria apenas tornar
formal aquilo que está posto na legislação; não haveria necessidade de que ele, de alguma
forma, decidisse a questão posta por Perelman.

Este tipo de crítica explica, sem dúvidas, o que leva os juristas à levantarem a objeção
fraquíssima.

Esta consiste em afirmar que seria subtraída do magistrado a capacidade de formar


juízos quanto ao caso concreto, pois ele estaria preso ao que uma máquina decidisse. Chamo
esta objeção de fraquíssima pois ela é fundada em um emaranhado de suposições e premissas
que estão longe de muitas das discussões que ocorrem no campo de pesquisa do direito &
Inteligência Artificial.

Devo começar esclarecendo que os atuais esforços no sentido de criar sistemas


especialistas em direito ou bases de conhecimento aplicadas à legislação não visam criar uma
Inteligência Artificial forte.11 De modo que não há no horizonte próximo a visão de uma
máquina que possa nos fornecer, acuradamente, informações sobre como um determinado
caso deve ser decidido sem a presença de um ser humano realizando inputs. Ou seja, uma
base de conhecimentos aplicada ao direito — em seus moldes atuais — necessita de alguém
que analise um caso concreto, e após observar os aspectos relevantes do caso, alimente a
máquina com os dados a serem computados, de modo que o ser humano é o responsável por
realizar o processo de interpretação. Imagine um cenário em que alguém deve decidir se uma
bicicleta motorizada que entrou em um parque (em um local onde vigora a norma imaginada
por Prakken que determina a proibição da entrada de veículos em parques) o fez de maneira
lícita ou ilícita. Seria necessário que alguém, analisando o caso, decidisse se uma bicicleta
motorizada deve — ou não — contar como sendo um veículo; usar esta premissa como input,

10 No original, knowledge base. (KB)


11 Deve-se entender, aqui, “IA forte” (também chamada, por vezes, de “IA completa”) como o projeto geral de
criar uma máquina que possa imitar, por completo, a mente humana. (HAUGELAND, 1985, p. 2) dá uma boa
definição do conceito: “The fundamental goal of this research is not merely to mimic intelligence or produce
some clever fake. Not at all. “AI” wants only the genuine article: machines with minds, in the full and literal
sense. This is not science fiction, but real science, based on a theoretical conception as deep as it is daring:
namely, we are, at root, computer ourselves.”
!18
e só então receberia uma resposta acerca da proibição. Este tipo de aplicação está muito mais
ligada ao desenvolvimento de sistemas especialistas suficientemente robustos para que sirvam
propósitos estreitos, que se preocupam apenas com uma pequena área do conhecimento.

O caso da bicicleta, apesar de ser bastante simples, ilustra como funcionaria na prática
um sistema de automatização de decisões jurídicas. Parece-me também que esta linha de
ataque faz parecer com que os lógicos do direito neguem o papel primordial da argumentação
e das estratégias de persuasão e convencimento empregadas por advogados. Nada mais longe
da verdade, já que a própria comunidade de inteligência artificial e direito reconhece que na
prática jurídica a argumentação tem papel central. (PRAKKEN & SARTOR, 2015, p. 16)

Sinto-me também na obrigação de destacar outro ponto. Já há experiências fortuitas no


emprego destes sistemas, mormente na área de direito previdenciário. O uso destes sistemas
foi capaz de reduzir duas grandes fontes de erros no processamento da legislação
previdenciária por funcionários públicos: o conhecimento incompleto das normas e a
incapacidade demonstrada por alguns funcionários em lidar com situações complexas.
(PRAKKEN, 2014, p. 3)

1.3. Considerações finais

É necessário enfatizar que o uso da lógica na investigação do direito é bastante


ramificado. Divido as aplicações em aplicações práticas e aplicações teóricas. A primeira é
ligada a discussões de como melhor formalizar a legislação; se o conceito de semelhança
estrutural12 deve ser levado em consideração na criação de bases de conhecimento; qual a
linguagem lógica a ser utilizada; se deve-se sacrificar eficiência computacional em favor de
maior complexidade; se devem ser levados em conta precedentes judiciais na confecção da
KB; enfim, todo tipo de discussão que esteja diretamente ligada à implementação de um
sistema computacional que possa servir de auxílio a magistrados, advogados, funcionários
públicos em geral e cidadãos. Pesquisas teóricas, em geral, versam sobre como (e se)
podemos formalizar o raciocínio jurídico (v. HAAGE, 2005); maneiras de se formalizar
diálogos judiciais (v. PRAKKEN, 2008a & PRAKKEN, 2008b); contribuições da teoria da
argumentação formal (v. PRAKKEN & SARTOR, 2009); e outros campos da interseção entre
direito, lógica, argumentação e inteligência artificial. É manifesto que a separação entre

12 No original, “structural resemblance”. Este conceito será abordado com mais profundidade no capítulo
seguinte.
!19
investigação prática e teórica não é total, e que há pesquisas que navegam pelos dois lados.
No entanto, acredito que essa divisão seja bastante didática e que ela demonstre a necessidade
de se qualificar melhor exatamente o que se pretende criticar quando se fala em uso da lógica.

!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!

!20
2. REPRESENTAÇÃO DE CONHECIMENTO E LÓGICA DE DEFAULTS

Neste capítulo trato de definir o que deve ser entendido pelo vocábulo ‘lógica’.
Apresento as características formais que devem ser encontradas em uma linguagem formal
para que esta seja considerada uma linguagem lógica. Trato, em seguida, de apresentar as
regras sintáticas e semânticas que nos permitem construir fórmulas bem formadas para uma
lógica de primeira ordem. Será feita uma breve explicação acerca do funcionamento das
constantes lógicas, dos quantificadores lógicos, dos símbolos de predicados, das variáveis e
das constantes individuais. Apresento, posteriormente, a noção de consequência lógica
(semântica); seguida da definição e exposição da lógica de defaults de Reiter e da
contraposição entre consequência lógica monotônica e consequência lógica não-monotônica.

2.1. O que é uma lógica? O que é a representação de conhecimento?

No primeiro capítulo deste trabalho apontei algumas confusões que ocorrem quando
falamos sobre a lógica sem ter em mente uma definição precisa do que é a lógica. Nossas
intuições sobre o que é uma lógica podem ser usadas para criar metáforas, figuras de
linguagem e outros artifícios importantes para narrativas literárias ou conversas informais. No
entanto, a única maneira de falar cientificamente sobre lógica é tendo em mente precisamente
quais são os componentes de uma linguagem lógica. O leitor deve estar preparado para
trabalhar com definições precisas, que não admitem traços de ambiguidade. Para atingir tal
meta, faz-se necessário do uso de notação matemática. Quando necessário, darei uma
explicação sobre o significado dos símbolos matemáticos e incluirei o modo como se deve ler
por extenso certos símbolos. Antes de responder à pergunta ‘O que é uma linguagem lógica?’
faço a ressalva de que não pretendo, obviamente, tentar resolver problemas filosóficos acerca
da natureza da lógica. A resposta dada à pergunta tem um caráter meramente pedagógico.

Então, o que é uma linguagem lógica? Qual a diferença entre um sistema formal
qualquer e um sistema formal ao qual chamamos de ‘uma lógica’? Uma caracterização usual
que pode ser feita para distinguir sistemas formais lógicos de sistemas formais não-lógicos é
esta: a lógica estuda os modos de raciocínio (ou argumentos) válidos. (LEMMON, 1987, p. 1)
(HAACK, 2002, p. 28) (MENDELSON, 2015, p. xv) . Esse critério dado por Haack está em
consonância com uma ideia básica sobre o objeto de estudo da lógica: os modos de raciocínio
válidos. [MOSSAKOWSKI et tal., 2007, p. 111] A ideia de validade (seja de ‘argumentos’,
seja de ‘raciocínios’) está intimamente conectada com a noção de consequência lógica, um

!21
aspecto central do estudo da disciplina. [SIDER, 2010, p. 2] Tal caracterização é, sem
dúvidas, vaga. A imprecisão de uma caracterização informal do que é a lógica dissipa-se
quando apresentamos uma linguagem formal lógica e a interpretamos. Precisamos, então,
saber sobre o que estamos raciocinando, e como podemos nos assegurar de que nosso
raciocínio é, de fato, válido; que ele está livre de vícios.

Como esta caracterização da lógica pode servir como ponto de partida para os
propósitos deste estudo? Lembre-se que, aqui, o entrelaçamento entre lógica e direito não se
dá para explicar os mecanismos que levam alguém (um juiz, um advogado, um estudante de
direito) a escolher certo conjunto de normas para justificar uma determinada decisão. Não
trabalho na dimensão da argumentação jurídica, ainda que muitos dos esforços atuais no
campo de lógica e direito se dêem no sentido de acomodar as considerações de filósofos do
direito como Robert Alexy e Ronald Dworkin sobre valoração, ponderação e uso de regras e
princípios. (MARANHÃO, 2013, p. 221) Como já foi estabelecido, meu propósito neste
estudo é apenas explorar uma representação de regras jurídicas (lembre-se de que princípios
estão fora do escopo deste trabalho) utilizando a lógica de defaults. Esta representação
consiste em três pontos: a) traduzir as regras jurídicas, escritas em linguagem natural, para
uma linguagem lógica; b) fornecer uma linguagem lógica para que juízos relevantes à
aplicação de certas regras jurídicas possam ser representados formalmente de forma
declarativa; e c) criar um motor de inferência para que seja possível derivar as conclusões de
se adotar certos juízos como nosso conjunto de premissas e relacioná-los com as regras
jurídicas.

Estes três objetivos estão em alinhamento com a definição de Representação de


Conhecimento (RC) dada por (DAVIS et al, 1993, pp. 2-17). Davis fornece cinco critérios que
caracterizam o que é essencial em um sistema de Representação de Conhecimento:

I) Uma RC é um substituto para a coisa representada;

II) Uma RC é um conjunto de compromissos ontológicos13;

III) Uma RC é uma teoria fragmentária de raciocínio;

IV) Uma RC é um meio para computação eficiente; e

V) Uma RC é um modo de expressão humana.

13 Não se deve confundir o sentido de compromisso ontológico aqui utilizado com o estudo das ontologias em
filosofia.
!22
O primeiro critério diz que quando lidamos com uma RC não estamos, de fato, lidando
com a coisa representada. Criamos uma representação e manipulamos esta representação
como se estivéssemos lidando com a coisa representada.14 O segundo critério revela que é
impossível escolher uma certa representação e não admitir a existência (dentro dessa
representação) de que certas coisas existem. No caso de uma RC do fragmento do Código
Civil, tem-se que conceder a existência de pessoas, de que as pessoas podem ser divididas
quanto a certos predicados como ‘é maior de idade’, ‘é menor de idade’, ‘é incapaz’ etc. Essas
escolhas não refletem uma escolha filosófica sobre o estudo da ontologia, apenas denotam as
categorias que devem ser levadas em consideração ao se criar uma RC. O terceiro critério
aproxima-se do que caracterizamos como o estudo da lógica. Uma RC sempre contém um
motor de inferências que são sancionadas dentro deste sistema (DAVIS et al, 1993, p. 11). O
motor de inferências de uma RC deve ser desenhado tendo-se em mente o objeto que está
sendo representado. O quarto critério é mais técnico e aponta que deve haver sempre uma
ponderação sobre eficiência computacional e utilidade de um sistema. Há sempre um trade-off
entre a expressividade de um sistema e sua eficiência computacional. (DAVIS et al, 1993, p.
16) Por fim, uma RC é um modo de expressão humana já que uma RC é um modo de
comunicação para o uso de humanos. Quando nos deparamos com uma RC, devemos sempre
nos perguntar: ‘Essa RC efetivamente cumpre sua função?’, ‘Ela é expressiva o suficiente?’
etc. (DAVIS et al, 1993, p. 17).

Após essas breves considerações sobre o que constitui uma linguagem lógica e uma
estrutura de RC, passo a descrever uma linguagem lógica de primeira ordem sobre a qual irão
operar os defaults.

2.1.1. Apresentando a linguagem LPO

Uma linguagem lógica é sempre composta de um vocabulário e de um conjunto de


regras gramaticais que irão determinar sua sintaxe. O vocabulário de uma lógica de primeira
ordem (a qual irei utilizar até o final deste trabalho) é usualmente composto por constantes
lógicas, letras de predicados, letras funcionais15, variáveis, constantes individuais, parênteses

14 (DAVIS et al, 1993, p. 3) Concede que toda representação é uma aproximação imperfeita da realidade. “At a
minimum we must omit some of the effectively limitless complexity of the natural world; our descriptions may
in addition introduce artifacts not present in the world.”
15 A inclusão de letras funcionais na linguagem utilizada neste trabalho iria aumentar demasiadamente sua
complexidade, sem que este aumento de complexidade fosse acompanhado de um aumento de expressividade da
linguagem. Por este motivo, não tornarei a falar sobre letras funcionais.
!23
e os quantificadores de universalidade e existência. As regras de formação de fórmulas (às
quais chamei de ‘gramática’) estipulam um procedimento para a composição de fórmulas bem
formadas (doravante ‘FBFs’). Essas regras asseguram que as fórmulas não sejam ambíguas,
ou seja, que uma determinada FBF não pode ser lida de duas maneiras diferentes. Com um
vocabulário e uma gramática em mãos, é possível criar todas as proposições (que são infinitas
em número) da nossa linguagem. No entanto, o leitor há de concordar que com tais elementos
acima descritos não podemos ir muito longe. Eles nos fornecem um modo de como gerar
fórmulas, mas ainda não sabemos como relacionar fórmulas diferentes. Ainda nos falta um
método para tirar conclusões a partir de um conjunto de FBFs, de decidir se uma fórmula é
ou não é uma consequência lógica de um conjuntos de premissas.

Antes de passar a este assunto, apresento o vocabulário de uma linguagem de primeira


de ordem16 (que chamarei genericamente de LPO), bem como suas regras de formação.

!
DEFINIÇÃO 1.1: O ALFABETO DE LPO

• Constantes lógicas: →, ∧, ∨, ⇔, ~;17


• Letras de predicado: serão denotadas pelas letras maiúsculas do alfabeto: A, B, C…X, Y,
Z. Como é necessário um número infinito de letras de predicado, deve-se utilizar também
números subscritos para que possamos gerar quantas letras de predicado forem necessárias:
A1, A2, …, An e assim sucessivamente para as outras letras;18

• Variáveis: x, y, z (que podem ser acrescidas de números subscritos para gerar um número
infinito de variáveis);

• Constantes individuais: a, b, c, d, e (que podem ser acrescidas de números subscritos para


gerar um número infinito de variáveis);

• Quantificadores: ∀, ∃;

16(BESNARD, 1989, p. 29) diz que: “Whatever we may expect from a nonmonotonic logic, its language should
encompass a first order language.” Isso se dá porque as linguagens de primeira ordem têm um poder de
expressão muito forte, bem como um apelo intuitivo em seu modo de construção de proposições. O próprio
Reiter utiliza uma linguagem de primeira ordem para tratar de defaults. Mais, muitos livros introdutórios sobre
RC, como (BRACHMAN & LEVESQUE, 2004), e trabalhos científicos em geral também elegem uma lógica de
primeira ordem como a base de suas discussões sobre defaults. Deste modo, sigo a recomendação de Besnard de
que uma lógica de primeira ordem deve ser utilizada.
17 Para acessar as tabelas-de-verdade das constantes lógicas, v. Apêndice I.
18 Note que o predicado A é diferente do predicado A1 e assim sucessivamente.
!24
• Parênteses: (, ).
!
As constantes lógicas →, ∧, ∨, ⇔, ~ representam as expressões em linguagem natural
‘se… então’; ‘e’ (conjunção); ‘ou’; ‘se e somente se’, e ‘não é verdade que’, respectivamente.
Os quantificadores ∀x, ∃x representam ‘para todo x’ e ‘existe ao menos um x’,
respectivamente.

As letras de predicado representam relações. Uma relação é, usualmente, definida a


partir da noção de conjuntos. Poderíamos dizer que o casamento, por exemplo, é uma relação
binária entre duas pessoas. Apesar de não haver limite ao número de termos que podem
figurar em uma relação, neste trabalho serão usadas apenas relações unárias (de aridade 1) e
binárias (de aridade 2). A existência de relações unárias pode despertar alguma estranheza,
pois parece natural pensar que algo sempre está em relação com ao menos outra coisa. No
entanto, como a definição formal de relação é estritamente matemática, faz perfeito sentido
falar em uma relação unária.

As regras de formação de nossa linguagem de primeira ordem (LPO) são:

!
DEFINIÇÃO 1.2: GRAMÁTICA DE LPO

• Fórmulas atômicas: se ϕ é uma letra de predicado de aridade19 n, para algum número


natural n, e t1,…, tn são termos, então ϕ(t1,…,tn) é uma fórmula atômica. Além disso, ϕ(t1,
…,tn) é também uma FBF.

• Fórmulas moleculares: se ϕ e ψ são FBFs (seguindo o esquema apresentado


anteriormente), então ~ϕ, ϕ → ψ, ϕ ∧ ψ, ϕ ∨ ψ, ϕ ⇔ ψ, ∀αϕ, ∃αϕ são FBFs.

• Nada mais é uma FBF de LPO.


!
Esta é uma definição indutiva do conjunto de FBFs de nossa linguagem LPO. Note que
os símbolos ϕ e ψ20 não fazem parte do vocabulário da linguagem LPO. ϕ e ψ são

19A aridade de um predicado pode ser intuitivamente explicada como sendo o número de termos que ‘cabem’ em
um predicado. Por exemplo, se P é um predicado de aridade 1 correspondente à asserção ‘é um jurista’, podemos
escrever Px para dizer que ‘x é um jurista’. Se, por exemplo, i denota Ítalo, w denota Waldo e F denota ‘é fã de’,
escrevemos Fiw para dizer que ‘Ítalo é fã de Waldo’. É preciso ter em mente que a ordem em que os termos
aparecem importa. Se escrevo Fwi, quero dizer ‘Waldo é fã de Ítalo’. Além disso, um predicado de aridade n
deve ser necessariamente preenchido por um número n de termos.
20 Lêem-se: “Phi” e “Psi”, respectivamente.
!25
metavariáveis que têm como contradomínio o conjunto de FBFs. Isto quer dizer, em outras
palavras, que você pode substituir ϕ e ψ por qualquer FBF e, seguindo as regras acima, a
fórmula resultante também será uma FBF.

A partir desta exposição temos a sintaxe da nossa linguagem LPO. No entanto, o leitor
atento perceberá que ainda não se pode fazer nada com nossa linguagem. Precisamos, antes de
definir o que é um default, definir uma semântica para a nossa linguagem.21 Para que
possamos fazer isso, é preciso definir as noções de estrutura e de modelo.

!
DEFINIÇÃO 1.3: ESTRUTURA

• Uma estrutura A de LPO é um par ordenado (A, IA ), onde A é um domínio não-vazio


contável22 e IA é uma função interpretação.

!
O domínio de uma estrutura é um conjunto (em sentido matemático) que especifica as
entidades que existem nessa estrutura. Esse conjunto deve seguir uma regra de formação: ele
não pode ser vazio. Isto é, é necessário que haja ao menos um elemento pertencente ao
domínio da estrutura. Informalmente, pode-se definir o domínio de uma estrutura como sendo
o conjunto de todos os cidadãos brasileiros; o conjunto de estrangeiros em solo nacional; o
conjunto de todas as pessoas jurídicas registradas em cartório no Brasil; ou até mesmo o
conjunto unitário composto pelo requerido de um processo qualquer. É importante apenas que
o conjunto tenha seus membros unicamente especificados. Lembre-se sempre que ‘conjunto’
deve ser entendido em sua acepção matemática.

A função interpretação IA atribui, para cada constante individual de LPO um elemento


do domínio, chamado sua interpretação. Além disso, ela também atribui a cada letra de
predicado de LPO uma interpretação em A (ou seja, no domínio da estrutura A). A
interpretação de uma letra de predicado denota uma propriedade.

Antes de prosseguir com a definição da função interpretativa, dou uma explicação


intuitiva de como ela funciona. Imagine uma linguagem LPO*, consistindo das constantes

21
A semântica modelo-teórica não é única. Para um exemplo de abordagem prova-teórica v., p. ex., (MARTIN-
LÖF, 1996).
22 O requerimento de o domínio ser não-vazio garante que haja ao menos um elemento no conjunto; o
requerimento de que o número de elementos seja enumerável garante, ainda que o número de elementos do
domínio seja infinito, que possa ser feita uma bijeção entre
!26
individuais ‘j’, ‘v’, e ‘r’; dos símbolos de predicado ‘A’, ‘R’, e ‘M’; e de todos os outros
símbolos especificados na definição 1.1 do alfabeto de LPO. Imagine que estamos falando
sobre um processo qualquer, onde há um autor e dois réus, de modo que o domínio P de nossa
estrutura consiste desses três indivíduos. O autor chama-se Jorge e os réus chamam-se Vitor e
Raphael. O papel da função interpretação I é atribuir a cada uma das constantes individuais de
LPO* um elemento do domínio P. Nesse caso, podemos dizer o seguinte de I:

I(j) = Jorge

I(v) = Vitor

I(r) = Raphael

Isso quer dizer apenas que nossa função interpretativa cumpriu seu papel, e agora
podemos usar as constantes individuais ‘j’, ‘v’, e ‘r’ para nos referir a cada um dos indivíduos
de nosso domínio utilizando uma letra do alfabeto de LPO*. Agora que os indivíduos foram
unicamente especificados23, pode-se falar sobre como I lida com as letras de predicado.
Imagine que queremos dizer coisas como ‘x é autor do processo’, ‘x é réu do processo’, e que
‘x é irmão de y’. Nos dois primeiros casos, tem-se um predicado unário. No terceiro caso, o
predicado é binário.24 O que a função I faz é associar à cada propriedade (os predicados) um
subconjunto do domínio da estrutura, e as letras de predicados fazem referência a este
subconjunto. Podemos dar a interpretação em LPO das expressões acima utilizando as letras
‘A’, ‘R’, e ‘M’ da seguinte maneira:

I(A) = {Jorge}

I(R) = {Vitor, Raphael}

I(M) = {(Vitor, Raphael), (Raphael, Vitor)}

Note que I(A) ⊆ P, I(R) ⊆ P, e I(M) ⊆ C. Ou seja, todos são subconjuntos do domínio C.
Além disso, como o predicado M é binário, o subconjunto designado por I(M) tem pares
ordenados como seus elementos. Resumindo, a função interpretação atribui à cada constante
individual um elemento singular no domínio, e à cada letra de predicado um subconjunto do

23 Lembre-se que uma função é uma relação entre um elemento de seu domínio e um elemento do
contradomínio, de modo que ela estabelece uma relação de 1 para 1. Não há nada impedindo que duas constantes
individuais diferentes refiram-se ao mesmo indivíduo, mas uma constante individual nunca poderá referir-se à
dois ou mais indivíduos.
24Não há limite quanto a aridade de um predicado. No entanto, irei utilizar apenas predicados unários e binários
durante este trabalho.
!27
domínio. Evidentemente tais subconjuntos têm como elementos ou indivíduos pertencentes ao
domínio da estrutura, ou nenhum indivíduo.25

Agora que todas as constantes individuais e letras de predicado de nossa estrutura foram
interpretadas, posso introduzir o que significa verdade (em uma estrutura) na linguagem LPO,
bem como a noção de modelo:

!
DEFINIÇÃO 1.4: VERDADE E FALSIDADE EM UMA ESTRUTURA

• Uma fórmula ϕ é verdadeira em uma estrutura A se o seu valor semântico for V; uma
fórmula ϕ é falsa em uma estrutura A se o seu valor semântico for F.26

!
DEFINIÇÃO 1.5: VALOR SEMÂNTICO DE UMA FBF

• A(Pt1…tn) = V sse (I(t1),…,I(tn)) ∈ I(P), em que P é um símbolo de predicado n-ário n > 0, e


t1,…,tn são parâmetros27;

• A(~ϕ) = V sse A(ϕ) = F;

• A(ϕ ∨ ψ) = V sse A(ϕ) = V ou A(ψ) = V;

• A(ϕ ∧ ψ) = V sse A(ϕ) = V e A(ψ) = V;

• A(ϕ → ψ) = V sse A(ϕ) = F ou A(ψ) = V;

• A(ϕ ⇔ ψ) = V sse A(ϕ) = A(ψ);

• A(∀αϕ) = V sse A(α[x/i]) = V, para todo parâmetro i;

• A(∃αϕ) = V sse A(α[x/i]) = V, para algum parâmetro i.28

DEFINIÇÃO 1.6: MODELO

• Uma estrutura A é modelo de um conjunto de fórmulas Γ se, para toda fórmula ϕ ∈ Γ, A(ϕ)
= V.

!
25 O fato de que o subconjunto vazio, ø, pode ser designado por uma função interpretação não deve causar
espanto. O único requerimento que se faz é que o domínio da estrutura contenha ao menos um elemento. Além
disso, recorde que øé um subconjunto de todo e qualquer conjunto.
26 Esta definição segue a de (MORTARI, 2002, p. 164).
27 Um parâmetro é uma constante individual que toma o lugar de uma variável.
28Esta definição de verdade foi retirada de (MORTARI, 2001) que, por sua vez, fez uma adaptação da definição
de verdade de Alfred Társki, criador da teoria dos modelos.
!28
A partir destas definições pode-se, finalmente, demonstrar o caráter monotônico das
linguagens de primeira ordem através da noção de consequência lógica a partir de um ponto
de vista semântico. As duas primeiras definições nos permitem construir o conceito de
verdade para nossa linguagem LPO. Uma fórmula é verdadeira dentro de uma estrutura se e
somente suas condições de verdade forem atingidas. Uma afirmação universal do tipo
‘∀x(Px)’ é verdadeira se e somente se todos os elementos que fazem parte do domínio de uma
estrutura estão no subconjunto ao qual o predicado ‘P’ se refere, através da função
interpretação; uma afirmação existencial como ‘∃x(Ax)’ é verdadeira em uma estrutura caso
haja um elemento qualquer no domínio da estrutura em questão que faça parte do subconjunto
ao qual o predicado ‘A’ se refere e assim por diante para todos os outros tipos de FBF de LPO,
seguindo a definição 1.5.

E como isso se relaciona com a ideia de consequência lógica? Voltemos ao nosso


exemplo de Jorge, Vitor e Raphael. Suponha que desejássemos adicionar um novo predicado,
e que esse predicado tivesse na frase ‘x faz parte do processo’ sua representação em
linguagem natural. A função interpretação iria, evidentemente, reunir tanto Jorge quanto Vitor
e Raphael em seu escopo, e poderia ser representada assim: I(P) = {Jorge, Vitor, Raphael}.
Temos, então que nesta estrutura A do nosso exemplo, uma sentença do tipo (∀x(Px)) é
verdadeira, visto que seu valor semântico é V, e que se o valor semântico de uma fórmula é V
em uma estrutura, então tal fórmula é verdadeira. O mesmo é verdadeiro de uma fórmula
como (Aj ∧ Rv). Ora, na estrutura A que compõe o nosso exemplo, tanto Aj quanto Rv têm o
valor semântico V e, portanto, as condições-de-verdade do operador de conjunção foram
atendidas.

Tome agora o conjunto Γ = {(∀x(Px)), (Aj ∧ Rv)}. Pela definição 1.6, temos que a
estrutura A de nosso exemplo é um modelo de Γ já que todas as fórmulas que pertencem a Γ
têm o valor semântico V. Agora, veja bem: se dentro da nossa estrutura A as fórmulas
(∀x(Px)) e (Aj ∧ Rv) têm o valor semântico V, podemos deduzir, a partir destas fórmulas,
outras fórmulas que necessariamente têm que ter o valor semântico V. Por exemplo, se ∀x(Px)
= V, então para todo elemento x da estrutura A, substituir x por uma constante individual
interpretada em A resultará em uma afirmação de valor semântico V. Isto quer dizer que tanto
Pr, Pv, e Pj também têm que ser verdadeiras. Da mesma forma, como Pr, Pv, e Pj = V, a
fórmula ∃x(Px) também tem o valor semântico V e é, portanto, verdadeira. Podemos dizer,
!29
informalmente, que Pr, Pv, Pj e ∃x(Px) são consequências lógicas de ∀x(Px). Isto é, se
∀x(Px) for verdadeira em uma estrutura A, Pr, Pv, Pj e ∃x(Px) também têm que ser
verdadeiras em A. Dito isto, a definição formal de consequência lógica é:

!
DEFINIÇÃO 1.7: CONSEQUÊNCIA LÓGICA

• Seja Γ um conjunto de fórmulas, e ϕ uma FBF, dizemos que Γ ⊨ ϕ (ϕ é uma consequência


lógica de Γ, Γ acarreta ϕ) se e somente se todo modelo de Γ também é modelo de ϕ.

!
Isto quer dizer, de forma mais intuitiva, que é impossível que todas as fórmulas de Γ
sejam verdadeiras e que, em tal interpretação, ϕ seja falsa. A noção de consequência lógica de
LPO conserva o valor de verdade de suas fórmulas. Observe que esta construção de
consequência lógica é monotônica. Para entender melhor o que isto significa, voltemos ao
nosso exemplo anterior. Afirmei no parágrafo anterior à definição de consequência lógica que
{∀x(Px)} ⊨ {Pr, Pv, Pj, ∃x(Px)}29. Perceba que meu conjunto de premissas consiste em

apenas uma fórmula, a afirmação universal ∀x(Px). No entanto, posso adicionar quantas
premissas forem necessárias no antecedente da relação de consequência lógica. Digamos que
eu queira verificar quais FBFs são acarretadas por {∀x(Px), (rMv → vMr), (rMv)}. Se (rMv
→ vMr) é verdadeira, e rMv é verdadeira então, necessariamente, vMr também é verdadeira.
Note que estas novas premissas em nada afetam a nossa premissa ∀x(Px). Logo, {∀x(Px),
(rMv → vMr), rMv} ⊨ {Pr, Pv, Pj, ∃x(Px), vMr}. A adição de uma nova premissa ao nosso

conjunto anterior não reduziu o nosso conjunto de conclusões; Pr, Pv, Pj, ∃x(Px) continuam
sendo consequência lógica de ∀x(Px). Informalmente, uma relação de consequência lógica é
monotônica se a partir de um conjunto de premissas podemos derivar uma fórmula ϕ, então a
partir de este conjunto de premissas mais quaisquer outras premissas ϕ continua sendo uma
consequência lógica do novo conjunto de premissas.

!
DEFINIÇÃO 1.8: RELAÇÃO DE CONSEQUÊNCIA MONOTÔNICA

• Se Γ ⊨ ϕ, então Γ ∪ Γ’ ⊨ ϕ.

!
29 As chaves denotam que tratam-se de conjuntos.
!30
É interessante notar que não há qualquer observação quanto à consistência do novo
conjunto de premissas.30 Isto se dá pelo fato de que em lógica clássica adota-se o princípio da
não-contradição, que implica o princípio da explosão (ex falso sequitur quodlibet). Pelo
princípio da explosão tudo se segue a partir da afirmação de uma contradição.31 Logo, se a
partir de Γ obtemos ϕ, a partir de Γ ∪ ~Γ (a negação de todas as fórmulas de Γ) ⊨ ϕ. Como

será explicado, na lógica de defaults adota-se uma relação de consequência não-monotônica


por motivos que serão expostos na seção seguinte.

2.2. A lógica de defaults

Se eu lhe disser que um sujeito qualquer, digamos ‘Ednaldo’, é menor de idade, é


razoável que você conclua, a partir deste dado, que Ednaldo não é plenamente capaz de
exercer todos os atos da vida civil regulados pelo direito nacional. No entanto, como bom
estudioso do direito, você sabe que essa informação é insuficiente para decidir se Ednaldo é
absolutamente incapaz ou apenas relativamente incapaz. Em seguida, eu lhe digo que apesar
da pouca idade, Ednaldo se casou há alguns dias. Diante deste novo dado é natural que você
retraia seu juízo sobre a incapacidade do sujeito. Você sabe que, diante dos termos do Art. 5º,
inciso II, do Código Civil de 2002, ao se casar, Ednaldo tornou-se plenamente capaz para
exercer todos os atos da vida civil.

Este pequeno exemplo demonstra duas características próprias do raciocínio jurídico: a)


que é possível tirarmos certas conclusões jurídicas a partir de uma exposição incompleta dos
fatos concernentes a um caso concreto; b) que estamos dispostos a modificar nossas
conclusões caso novas informações relevantes nos sejam apresentadas. A primeira
característica pode ser formulada de outra maneira: em direito, muitas vezes fazemos juízos
da forma “na ausência de qualquer informação contrária, suponha que…”. (REITER, 1980, p.
81) diz que “padrões de raciocínio deste tipo representam uma forma plausível de inferência e
são tipicamente necessários quando conclusões devem ser tomadas apesar da ausência de um
conhecimento completo sobre o mundo”.32 Voltando ao exemplo do início da seção, você

30Um conjunto de premissas é consistente se e somente se não há fórmulas que, tomadas em conjunto, formam
uma contradição. Por exemplo, o conjunto {Pj, rMv, (Aj ∨ Rr)} é consistente, mas o conjunto {~Pj, vRm, ~Aj,
(Aj ∨ Pj)} não é, já que é impossível que Pj e Aj sejam falsas e (Aj ∨ Pj) verdadeira.
31Isto pode ser expresso da seguinte maneira ⊥ ⊨ ϕ (⊥ denota uma fórmula contraditória, isto é, uma fórmula
logicamente inválida).
32
No original: “Reasoning patterns of this kind represent a form of plausible inference and are typically required
whenever conclusions must be drawn despite the absence of total knowledge about a world.”
!31
sabia que o fato de Ednaldo ser menor de idade não é uma garantia de que ele não é
plenamente capaz; mas caso você estivesse de posse de somente esta informação, é razoável
inferir tentativamente que Ednaldo é relativamente ou absolutamente incapaz. A segunda
característica apenas complementa a primeira. Se você chegou à uma conclusão ciente de que
à luz de novas informações esta conclusão não se sustentaria, e novas informações tornam sua
conclusão inconsistente com o conjunto de premissas adotadas, então você deve (idealmente)
retirar sua conclusão e substituí-la.

A intuição inicial de Reiter no desenvolvimento da lógica de defaults não lhe ocorreu


por considerações acerca do mundo jurídico. Reiter preocupou-se com situações observadas
no quotidiano, em que raciocinamos sem recorrer à regras apresentadas em um texto
legislativo dotado de autoridade. O exemplo clássico é o de Tweety (REITER, 1980, p. 82).
Se alguém sabe que Tweety é um pássaro, é razoável inferir que Tweety é capaz de voar. No
entanto, quando se descobre que Tweety é, na verdade, um pinguim, deve-se dizer que Tweety
não é capaz de voar. Os defaults foram criados para modelar este tipo de raciocínio. Note que
o problema com o qual Reiter tentou lidar é mais complexo e aparentemente intratável do que
caso ele estivesse preocupado apenas com enunciados jurídicos. Quando raciocinamos no dia-
a-dia não temos, como no direito, um livro de regras à nossa disposição que sirva (ao menos)
como ponto de partida para que tiremos conclusões. Diferentemente do exemplo dado no
início desta seção, não chegamos à conclusão de que Tweety não é capaz de voar porque
checamos uma regra escrita em linguagem natural que nos informa que pinguins não voam.
Como consequência, um engenheiro que deseje criar uma máquina capaz de lidar com todas
as situações que encontramos no dia-a-dia não terá um conjunto condensado de fontes do qual
possa criar seus defaults.

Em direito, por outro lado, há um tal conjunto de fontes: a legislação. Apesar de haver
uma miríade de códigos, portarias, leis ordinárias, leis extraordinárias, leis municipais, leis
estaduais etc, alguém que deseje apresentar um modelo de RC de como certos problemas
jurídicos devem ser resolvidos inevitavelmente utilizará textos legislativos como fonte para
seu sistema (isto é especialmente verdadeiro em países alinhados à tradição de civil law).

Isto não quer dizer, evidentemente, que não há inúmeros problemas relacionados ao
modo como juristas raciocinam e chegam a conclusões sobre casos concretos. No entanto, as
considerações do parágrafo anterior apontam que há disponível, no mundo jurídico, um

!32
acervo de regras que pode servir de base imediata a um sistema de representação do
conhecimento. Caso alguém aponte que um sistema baseado apenas neste acervo é um
sistema incompleto, terá dito uma verdade, isto não está em discussão. No entanto, disto não
segue que não há qualquer interesse em se fazer estudos do direito a partir de técnicas de
formalização que foquem apenas em um dos aspectos do fenômeno jurídico. Como exemplo,
em um estudo relativamente recente, pesquisadores do Centro de Informática da Universidade
Federal de Pernambuco, da Agência Estadual de Tecnologia da Informação de Pernambuco e
da Universidade de Mannheim utilizaram técnicas de engenharia de ontologias para
demonstrar a existência de inconsistências na legislação brasileira de trânsito (FREITAS,
CANDEIAS JR, STUCKENSCHMIDT, 2011). É preciso ter em mente que nem sempre uma
abordagem holista, capaz de dar conta de todos os problemas apresentados por um assunto, é
possível de ser feita sem que antes alguns problemas em escala micro tenham sido resolvidos.

2.2.1.: Os defaults

A exposição acima foi necessária para que eu possa começar a definir o que é um
default, e de como essa noção servirá para representar normas no modelo de RC do fragmento
do Código Civil. Antes de entrar nas definições formais, adianto que os defaults
corresponderão à regras jurídicas (artigos, incisos, parágrafos). É através dos defaults que a
teoria CC8 irá se materializar. Outra observação: para aumentar a compreensão da leitura, irei
substituir o uso de letras de predicado A, B, C, …, Z, A1, A2 etc por palavras em português
que lembrem em parte ou em todo a propriedade a ser formalizada. Por exemplo, ao invés de
especificar que P é uma letra de predicado que significa ‘x é um pássaro’, direi algo como
Pássaro(x). O uso da fonte Courier serve para enfatizar que aquela expressão pode ser
plenamente traduzida usando o alfabeto de LPO.33

Passo então, a introduzir a noção de defaults.

Volte a considerar o exemplo de Tweety, apresentado acima. Como seria possível dar
uma interpretação em uma linguagem de primeira ordem do raciocínio ‘Se x é um pássaro,
então x pode voar exceto se x for um pinguim, um avestruz etc’? A formalização se pareceria,
provavelmente, com algo assim:

∀x(((Pássaro(x)∧~Pinguim(x))∧~Avestruz(x))∧ … ! Voa(x))"

33 A mesma técnica é utilizada em (PRAKKEN, 1997) e (BRACHMAN & LEVESQUE, 2004).


!33
É fácil visualizar que essa construção nos impede de concluir que pássaros, em geral,
voam. (REITER, 1980, p. 82) Caso quiséssemos estabelecer que Voa(tweety), apenas a
partir da premissa de que Pássaro(tweety), não poderíamos fazê-lo. Teríamos que
estabelecer primeiro a verdade de todas as outras propriedades (as exceções) que aparecem no
antecedente da implicação; algo impossível, já que não dispomos de qualquer informação
adicional que nos permita determinar a espécie de Tweety.

Para sanar esta dificuldade, (REITER, 1980, p. 82) propôs a construção de uma regra
default do tipo:

Pássaro(x): Voa(x)

! Voa(x)

Tal construção representa a essência do que é um default. Ele poderia ser rescrito da
seguinte forma Pássaro(x): M Voa(x)/Voa(x). As duas construções representam a
mesma regra default. (REITER, 1980, p. 82) afirma que esta regra deve ser lida (interpretada)
da seguinte maneira: “Se x é um pássaro e é consistente supor que x possa voar, então pode-se
acreditar que x voa”. Pense agora em uma regra default mais próxima ao direito:

SujeitoDir(x): Inocente(x)
! Inocente(x)
!
Isto não é nada mais do que o familiar princípio de que todos são inocentes até que se
prove o contrário. Ela pode ser lida: se x é um sujeito de direito e é consistente supor que x é
inocente, então x é inocente.

Apesar de estes exemplos nos darem um entendimento intuitivo de como se comportam


os defaults, ainda é preciso que eles sejam definidos formalmente:

!
DEFINIÇÃO 2.1:

• Um default é qualquer expressão da forma


! ϕ(x): ψ1(x),…,ψn(x)

! α(x)

!34
Em que ϕ(x), ψ(x), e α(x) são fórmulas bem-formadas de LPO, cujas variáveis livres estão
entre aquelas de x = x1,…,xn. ϕ(x) é chamado de pré-requisito, ψ1(x),…,ψn(x) são chamados
de justificativas e α(x) de consequente.

• Diz-se que um default é fechado se nenhum ϕ(x), ψ(x), e α(x) contém uma variável livre.34
!
DEFINIÇÃO 2.2:

• Uma teoria default é um par ordenado (W, D) em que D é um conjunto de defaults e W um


conjunto de FBFs fechadas (ou seja, fórmulas sem variáveis livres).

!
A definição 2.2 estabelece que qualquer teoria default consiste de dois elementos: um
conjunto W contendo fórmulas de LPO, fechadas, e um conjunto D contendo defaults. O
conjunto W pode ser pensando intuitivamente como sendo nossa knowledge base, nossa base
de conhecimento. Por exemplo, para que possamos derivar as consequências jurídicas de uma
certa situação do mundo, devemos inserir no conjunto W todas as informações que sabemos
sobre o caso. Pense em W como sendo o conjunto de todos os fatos descritos sobre uma
situação juridicamente relevante. O conjunto D, então, representa o que podemos
dedutivamente afirmar acerca dos fatos descritos em W. Observe que, tecnicamente, uma
teoria default é unicamente determinada pelos elementos contidos tanto em D quanto em W.
Isto implica dizer que para cada caso concreto sobre o qual aplicarmos nosso sistema há uma
teoria default correspondente, já que o conjunto W conterá informações diferentes em cada
caso.

Pode-se ver, a partir da definição 2.1, que para que uma regra default qualquer seja
acionada (e a partir disto, uma nova crença possa ser derivada) o seu pré-requisito deve ser
atendido. Para que o pré-requisito de uma regra default seja atendido, é preciso que haja uma
fórmula fechada de LPO contida no conjunto W de fórmulas que corresponda à fórmula que
aparece no pré-requisito da regra default. Considere o default apresentado como
correspondendo ao princípio da presunção de inocência. Para que aquela regra possa ser
aplicada para obtermos que x é inocente, é preciso que tenhamos, em W, uma fórmula

34 Perceba que nenhum dos exemplos de defaults dados até agora eram fechados.
!35
fechada35 que atribua a propriedade de ser inocente a alguém. Se há uma fórmula do tipo
SujeitoDir(Thiago) contida em W, então o pré-requisito do default foi atendido e
agora podemos checar se ele pode gerar uma nova fórmula ou não. Nesta etapa, deve-se olhar
para o que chamamos de justificativas. Se o resultado (a fórmula obtida através da aplicação
do default) de se aplicar uma regra default é consistente com o conjunto de justificativas da
regra, então o default pode ser utilizado, e seu consequente pode passar a constituir uma
crença.

Neste ponto é importante definir precisamente o que significa dizer que a derivação de
uma fórmula ϕ através da aplicação de um default é válida. Dizemos que ϕ é uma derivação
válida em uma teoria default qualquer se ϕ faz parte da extensão de uma teoria.

!
DEFINIÇÃO 2.3: EXTENSÃO

I. Seja Δ = (W, D) uma teoria default fechada, tal que todo default pertencente a D tem a
forma — ϕ(x): ψ1(x),…,ψn(x)/α(x) — onde ϕ(x), ψ1(x),…,ψn(x), e α(x) são FBFs fechadas
de LPO.

II. Seja ThL(S), para qualquer S ⊆ LPO, o conjunto {w | w ∈ LPO, w é fechada e S ⊨ w}

III. Para qualquer conjunto de FBFs fechadas S ⊆ LPO, seja Γ(S) o menor conjunto possível
que satisfaça as três seguintes condições:

IV. I) W ⊆ Γ(S);

V. II) ThL(Γ(S)) = Γ(S);

VI. III) Se ϕ(x): ψ1(x),…,ψn(x)/α(x) ∈ D e ϕ(x) ∈ Γ(S), e ~ψ1(x),…,~ψn(x) ∉ S,


então α(x) ∈ Γ(S)

VII. Um conjunto de FBFs fechada E ⊆ LPO é uma extensão de Δ se e somente Γ(E) = E, ou


seja, se E é um ponto fixo do operador Γ.

• Considere as definições anteriores, e seja E um conjunto de FBFs fechadas e (W, D) uma


teoria default. (REITER, 1980, p. 89) prova o seguinte teorema:

• Defina uma sequência de conjuntos E0, …, E1,… tal que E0 = W e, para cada i ≥
0;

35Ou seja, uma fórmula cujas variáveis estejam todas no escopo de um quantificador ou que não contenha
variáveis. Fórmulas chamadas também são comumente chamadas de sentenças.
!36
• Para qualquer conjunto de FBFs fechadas S

• Ei+1 = { Th(Ei) ∪ { α(x) | ϕ(x): ψ1(x),…,ψn(x)/α(x) ∈ D onde α(x) ∈ Ei, e


~ψ1(x),…,~ψn(x) ∉ E}

• Então, E é uma extensão de (W, D) se e somente se E = ∪∞i=o Ei.

!
Trato de “descompactar” a definição formal acima e revestir-lhe de um caráter mais
intuitivo e acessível. Sabemos que uma teoria default Δ é um par ordenado (W, D), que W é
um conjunto de fórmulas fechadas e que D é um conjunto de defaults. A extensão de uma
teoria default consistirá em todas aquelas fórmulas que podem são derivadas pelas regras de
acarretamento descritas na seção anterior, e as fórmulas que podem ser obtidas não-
monotonicamente através da aplicação de defaults à fórmulas de W.

Para que este resultado seja obtido, defina um conjunto ThL(S) tal que ele seja o
conjunto de todas as fórmulas w tal que w pertence à LPO (obedece às regras de formação de
LPO), w é fechada e pode-se mostrar que w é acarretada pelas fórmulas de S. (Linha II da
definição de extensão).

Em seguida, a partir de qualquer conjunto S que seja um subconjunto de LPO, defina


Γ(S) como o conjunto formado pelas três seguintes condições: I) todas as fórmulas que
pertencem ao conjunto W de Δ devem estar contidas em Γ(S); II) que o conjunto ThL(Γ(S))
seja igual ao conjunto Γ(S) (ou seja, Γ(S) é dedutivamente fechada); e III) se ϕ(x): ψ1(x),
…,ψn(x)/α(x) é um default que pertence a Δ; ϕ(x) pertence a Γ(S); e ~ψ1(x),…,~ψn(x) não
pertence a Γ(S); então α(x) pertence a Γ(S). Isto quer dizer que se o pré-requisito do default a
ser aplicado pertence a Γ(S) e a negação das justificativas do default não pertencem ao default
em questão, então a conclusão do default pertence a Γ(S). (Linhas III-VI da definição de
extensão)

Por fim, têm-se que um conjunto E ⊆ LPO é uma extensão de Δ no caso de E ser igual
à Γ(E). (Linha VII da definição de extensão).

O teorema provado por Reiter apenas demonstra como se pode construir recursivamente
uma extensão de uma teoria default Δ a partir da repetida aplicação de defaults ao conjunto
inicial W (definido como sendo E0). Por sua vez, o conjunto E1 consistirá de todas as fórmulas
pertencentes a Th(E0) unidas com o resultado de se aplicar um default a E0 e assim por diante,

!37
até que não haja mais defaults aplicáveis. O resultado deste procedimento chama-se de
extensão de Δ.

Chamo a atenção para algumas propriedades da definição de extensão dada por Reiter
que terão impacto direto no modo como a Teoria CC8 irá se comportar. Em primeiro lugar,
não há nenhuma garantia de que haja somente uma extensão para a teoria. Isto equivale a
dizer que dado um conjunto de inputs (pertencentes a nossa base de conhecimento, o conjunto
W de Δ) e um conjunto D de defaults, podemos derivar extensões que tenham não somente
um número diferente de fórmulas, como também pode ser que as extensões contenham
fórmulas que, caso estivessem na mesma extensão, criariam uma contradição, elas seriam
mutuamente inconsistentes.36 Acoplada a esta propriedade, está outra que decorre
necessariamente da definição de Reiter: extensões não são construtivas. Isto é, Reiter não
definiu nenhum procedimento automático para que as extensões sejam formadas a partir de
um roteiro pré-programado, causando uma indesejável (como será discutido no último
capítulo deste trabalho) situação para a utilização da lógica de defaults para formalizar
fragmentos de legislação.

Além destas duas propriedades, é preciso reforçar o caráter não-monotônico das


derivações de fórmulas que pertencem a extensão de uma teoria default e que foram obtidas
não através de uma relação de consequência semântica, mas sim através da aplicação de
defaults. Todas as fórmulas que forem obtidas a partir desta aplicação serão chamadas de
crenças, já que elas são ditas derrotáveis. Isto quer dizer que há um subconjunto das fórmulas
que pertencem a uma certa extensão E que desapareceriam caso adicionássemos certas
fórmulas a nossa base de conhecimento inicial. Lembre-se que o objetivo deste trabalho é não
somente formalizar um fragmento do CC/02 mas também verificar seu funcionamento, ou
seja, até que ponto a nossa formalização pode ser utilizada para derivar, a partir de uma
quantidade limitada de informações, certas conclusões jurídicas. A possibilidade de derivar
crenças que podem ser derrotadas por novas informações é desejável no caso do direito já que
no decorrer do processo novos dados são trazidos a apreciação do juiz, e tais dados podem
servir para que certas conclusões tomadas até então possam ser descartadas.

!
36Para um exemplo de teoria default com extensões mutuamente inconsistentes ver (ANTONIOU, 1999, p.
353-355)
!38
DEFINIÇÃO 2.4: NÃO-MONOTONICIDADE

• Uma lógica é não-monotônica se Γ ⊨ ϕ, então não necessariamente Γ ∪ ψ ⊨ ϕ.

!
Agora que todas as preliminares formais foram apresentadas e todos os conceitos
lógicos foram precisamente definidos, passo a construir a teoria CC8.

!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!

!39
3. A TEORIA CC8

No capítulo anterior expus todos os elementos necessários à criação de nossa teoria


CC8. Como já foi discutido, seria mais preciso dizer que CC8 não é uma teoria, mas sim um
esquema de uma teoria default, já que CC8 é apenas um conjunto de defaults que depende da
adoção de um conjunto D de fórmulas bem fechadas que contém informações sobre um caso
concreto. Lembre-se que uma teoria default é um par ordenado (W, D), e que qualquer
diferença entre os elementos de W ou D

O fragmento do Código Civil a ser representado em forma default é formado pelos oito
primeiros artigos (e seus respectivos parágrafos e incisos) do Código Civil de 2002.
Reproduzo-os integralmente para que o leitor tenha agilidade na visualização dos enunciados
jurídicos em linguagem natural, encontrados no Código:

!
ARTIGOS DO CÓDIGO CIVIL DE 2002

• Art. 1º Toda pessoa é capaz de direitos e deveres na ordem civil.

• Art. 2º A personalidade civil da pessoa começa do nascimento com vida; mas a lei põe a
salvo, desde a concepção, os direitos do nascituro.

• Art. 3º São absolutamente incapazes de exercer pessoalmente os atos da vida civil os


menores de 16 (dezesseis) anos.

• Art. 4º São incapazes, relativamente a certos atos ou à maneira de os exercer:


I - os maiores de dezesseis e menores de dezoito anos;

II - os ébrios habituais e os viciados em tóxico;

III - aqueles que, por causa transitória ou permanente, não puderem exprimir sua
vontade;

IV - os pródigos.

Parágrafo único. A capacidade dos indígenas será regulada por legislação


especial.

• Art. 5º A menoridade cessa aos dezoito anos completos, quando a pessoa fica habilitada à
prática de todos os atos da vida civil.

Parágrafo único. Cessará, para os menores, a incapacidade:

!40
I - pela concessão dos pais, ou de um deles na falta do outro, mediante
instrumento público, independentemente de homologação judicial, ou por
sentença do juiz, ouvido o tutor, se o menor tiver dezesseis anos completos;

II - pelo casamento;

III - pelo exercício de emprego público efetivo;

IV - pela colação de grau em curso de ensino superior;

V - pelo estabelecimento civil ou comercial, ou pela existência de relação de


emprego, desde que, em função deles, o menor com dezesseis anos completos
tenha economia própria.

• Art. 6º A existência da pessoa natural termina com a morte; presume-se esta, quanto aos
ausentes, nos casos em que a lei autoriza a abertura de sucessão definitiva.

• Art. 7º Pode ser declarada a morte presumida, sem decretação de ausência:


I - se for extremamente provável a morte de quem estava em perigo de vida;

II - se alguém, desaparecido em campanha ou feito prisioneiro, não for encontrado


até dois anos após o término da guerra.

Parágrafo único. A declaração da morte presumida, nesses casos, somente poderá


ser requerida depois de esgotadas as buscas e averiguações, devendo a sentença
fixar a data provável do falecimento.

• Art. 8º Se dois ou mais indivíduos falecerem na mesma ocasião, não se podendo averiguar
se algum dos comorientes precedeu aos outros, presumir-se-ão simultaneamente mortos.

!
3.1. Defaults da Teoria CC8

d3: Pessoa(x)∧ <16(x) : AbsInc(x) !


AbsInc(x)

d4.1: Pessoa(x)∧≥16<18(x) : RelInc(x) !


! RelInc(x)
!
!
!41
d4.2: Pessoa(x)∧(Ébrio(x)∨ ViciadoTóx(x)) : RelInc(x)
RelInc(x)
!
d4.3: Pessoa(x)∧~ExprVontade(x) : RelInc(x)

RelInc(x)
!
d4.4: Pessoa(x)∧ Pródigo(x) : RelInc(x)
RelInc(x)
!
d5: Pessoa(x)∧≥18(x) : Capaz(x)
Capaz(x)
!
d5.1: Pessoa(x)∧≥16(x)∧Permissão5º : Capaz(x)

! Capaz(x)

d5.2: Pessoa(x)∧Casado(x) : Capaz(x)


Capaz(x) !
d5.3: Pessoa(x)∧EmpregoPúbEfet(x): Capaz(x)

Capaz(x) !
!
d5.4: Pessoa(x)∧GrauSuperior(x) : Capaz(x)
! Capaz(x)

d5.5: Pessoa(x)∧GrauSuperior(x) : Capaz(x)


!
Capaz(x) !
d6: Pessoa(x)∧Ausente(x)∧AberturaSucessãoDef(x) : Capaz(x)
! Capaz(x)

d7.1: Pessoa(x)∧ProvávelMorte(x) : Morte(x)


Morte(x) !
!42
d7.2: Pessoa(x)∧(Prisioneiro(x)∨Desaparecido(x))∧~Encontrado(x):

Morte(x)


 Morte(x)

d8: MorteMesmaOcasião(x,y)∧ImposAveriguar(x,y) : SimultanMorte(x,y)


SimultanMorte(x,y)

Estes defaults formam a totalidade do conjunto D pertencente à Teoria CC8, que faz
parte da base de conhecimento do sistema. Cada um destes defaults está associado ao que
Henry Prakken chama de unidade-fonte (source unit) da legislação. Uma unidade-fonte é,
para o autor holandês, “a menor unidade identificável da qual uma norma pode ser
extraída” (PRAKKEN, 1990, p.35). Na construção dos defaults da Teoria CC8 tive o cuidado
de tentar manter a mesma estrutura da legislação, para que o leitor possa verificar de imediato
a correspondência entre um default qualquer e uma unidade-fonte do fragmento escolhido do
CC8. Os subscritos servem para facilitar ainda mais neste processo de identificação.

O leitor atento perceberá que, em regra, os defaults contém em seu pré-requisito o


predicado “Pessoa”, ainda que a legislação não deixe explícito que é indispensável que haja o
reconhecimento da personalidade à pessoa natural. Isso ocorre menos por necessidade de
explicitar algo que fico implícito no modo como os enunciados foram escritos, mas mais por
uma necessidade técnica. Como o objetivo da formalização não é apenas o de fazer uma
tradução de enunciados em lingua natural para enunciados lógicos, mas sim de verificar a
possibilidade de o sistema lógico ser capaz de chegar a conclusões jurídicas acerca de
indivíduos diversos em situações diversas. Para alcançar tal objetivo, levando em
consideração o escopo restrito deste estudo (que lida primariamente com a atribuição de
personalidade jurídica às pessoas naturais e a atribuição de capacidade jurídica a elas) resolvi
utilizar o predicado “Pessoa” para assegurar que apenas aqueles indivíduos aos quais
possamos atribuir personalidade jurídica possam ser objeto de ativação dos “gatilhos” dos
defaults. É evidente que estas últimas observações são um tanto óbvias, e que de certa
maneira eu poderia ter prescindido da inserção deste predicado, mas ele serve para dar
contornos bastante limitados ao escopo da aplicação dos defaults.

O leitor atento também notará de imediato que faltam alguns dispositivos legais em
nossa lista de defaults. Isto não é um acidente. Da mesma maneira, pelo modo como foram
!43
escritos os defaults, a Teoria CC8 — até o momento — não poderia derivar resultados que são
óbvios para nós. Refiro-me a raciocínios como: “se alguém tem ao menos 16 anos completos
mas ainda não tem 18 anos de idade, então este alguém não tem menos de 16 anos de idade e
não tem 18 ou mais anos de idade”, “se alguém é relativamente capaz, então este alguém não
é absolutamente incapaz e este alguém não é plenamente capaz”, etc. É desejável que
adicionemos tais fatos à nossa base de conhecimento, já que eles impedem que o pré-requisito
de defaults cujos resultados seriam contraditórios não possam ser aplicados na mesma
situação. No entanto, tais juízos não são meramente defaults: que espécie de evidência faria
com que mudássemos de ideia quanto ao fato de que alguém que tem mais de 18 anos de
idade necessariamente não tem menos de 16 anos de idade? Desta forma, tais juízos serão
adicionados não ao conjunto D da Teoria CC8, mas sim ao conjunto W. Eles formarão um
ponto imutável em W, não sujeito a modificação pelo usuário final. Com exceção do
parágrafo único do art. 4º, relativo à capacidade dos indígenas, e do texto sobre os direitos do
nascituro, as unidades-fonte que não foram traduzidas em regras default serão traduzidas
como fórmulas comuns de LPO, e pertencerão a W.

!
DEFINIÇÃO 3.2: AS FÓRMULAS FIXAS DE W

• ∀(x) (≥16<18(x) → (~ <16(x) ∧ ~ ≥18(x)))

• ∀(x) (<16(x) → (~ ≥16<18(x) ∧ ~ ≥18(x)))

• ∀(x) (≥18(x) → (~ <16(x) ∧ ~ ≥16<18(x)))

• ∀(x)∀(y) (MorteMesmaOcasião(x,y) ⇔ MorteMesmaOcasião(y,x))

• ∀(x) (Morte(x) → ~Vivo(x))


• ∀(x) (Vivo(x) → ~Morte(x))
• ∀(x) (Vivo(x) ⇔ Pessoa(x)) [Esta fórmula equivale ao art. 2º do CC/02]

• ∀(x) (Pessoa(x) ⇔ (AbsInc(x) ∨ RelInc(x) ∨ Capaz(x))) [Esta fórmula equivale ao art. 1º do

CC/02]
• ∀(x) Capaz(x) → (~ RelInc(x) ∧ ~ AbsInc(x))

• ∀(x) AbsInc(x) → (~ RelInc(x) ∧ ~ Capaz(x))

• ∀(x) RelInc(x) → ( ~ Capaz(x) ∧ ~ AbsInc(x))

Agora que todas as fórmulas que necessariamente fazem parte da Teoria CC8 foram
explicitadas, dou a definição final, em termos lógicos, da Teoria CC8.
!44
!
DEFINIÇÃO 3.3: TEORIA CC8

• A Teoria CC8 é um par (W, D) em que D = {d3, d4.1, d4.2, d4.3, d4.4, d5, d5.1, d5.2, d5.3, d5.4, d5.5,
d6, d7.1, d7.2, d8} e W = {Γdef3.2 ∪ Γinputs}.

!
Como dito no começo deste capítulo, deve-se ver a definição acima como o esquema de
uma família de “teorias” CC8. Isto ocorre porque apesar de o conjunto D não variar, e o
conjunto Γdef3.2 (ao qual pertencem todas as fórmulas da Definição 3.2) também não variar, o
conjunto Γinputs varia. E, a rigor, cada variação de Γinputs implicaria a existência de uma teoria
default correspondente a cada variação. Escolhi chamar minha definição de “teoria” por
conveniência e para destacar que existe um núcleo de regras default e de fórmulas fechadas
que servem de base para a criação de diversas outras teorias (entendidas aqui em sua acepção
técnica).

!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!45
4. ANÁLISE DA TEORIA CC8

Finalmente, passo a analisar a viabilidade do uso da lógica de defaults de Reiter como


uma linguagem lógica para representar o conhecimento jurídico. É evidente que toda análise
deve ser guiada por certos parâmetros, por certos padrões, que possam indicar os pontos
fracos e os pontes fortes de uma formalização. O debate acerca de que parâmetros devem ser
utilizados para derivar conclusões sobre sistemas de representação de conhecimento jurídico é
vasto, e seria impossível fazer jus a todas as sugestões e críticas encontradas na literatura.
(SUSSKIND, 1986, p.183), por exemplo, sugere que sistemas especialistas devem seguir ao
menos três características: (1) eles devem ser transparentes, isto é, que “eles devem ser
capazes de gerar explicações sobre a linha de raciocínio seguida que resultou em uma
conclusão”; (2) eles devem ser heurísticos, isto é, eles devem ser intuitivos o bastante para
que operadores do domínio ao qual o sistema será aplicado possam utilizá-lo sem que saibam
os aspectos técnicos do sistema; e (3) eles devem ser flexíveis, ou seja, os engenheiros
responsáveis pela manutenção da base de conhecimento do sistema devem ser capazes de
alterá-la facilmente. Apesar de tais recomendações serem úteis, elas são ainda incompletas.
Elejo como parâmetros de análise, além daqueles apontados por Susskind, aqueles apontados
por (PRAKKEN, 1990, pp. 104-105): semelhança estrutural; modularidade; exclusividade de
especificação, implementação e expressividade.37

É importante lembrar, antes de passar à analise da Teoria CC8, que não tratei de criar
de fato um sistema especialista. Não se pode confundir a representação simbólica do domínio
de conhecimento que está sendo traduzido com o sistema computacional que vai lidar com a
implementação ao usuário final. O sistema simbólico dá somente uma base sobre a qual um
sistema deve ser criado, como seus elementos devem se comportar e quais as derivações que
devem ser feitas. Eu não lidei, em momento algum do trabalho, com questões relativas à
programação do sistema, os aspectos de hardware, ou qualquer outra consideração de
natureza técnica acerca dos campos de ciência da computação ou engenharia de
computadores.

Sem mais delongas, passo a considerar cada um dos parâmetros citados acima.

4.1 Semelhança estrutural

37Os termos, no original: Structural Resemblance, Modularity, Exclusiveness of Specificity, Implementation,


Expressiveness.
!46
O que se entende por semelhança estrutural (já aludida no primeiro capítulo deste
trabalho) é uma relação entre unidades-fonte e unidades-KB (unidades da base de
conhecimento). Diz-se que um sistema de representação de conhecimento apresenta a
propriedade de semelhança estrutural em relação ao seu domínio de aplicação se há uma
correspondência forte entre unidades-fonte e unidades-KB. Isto pode ser trazido para o debate
acerca da formalização de peças legislativas através de duas preocupações: há um
distanciamento da semelhança estrutural em uma base de conhecimento jurídico se uma única
unidade-fonte é traduzida em mais de uma unidade-KB; e se uma unidade-KB contém
conceitos de mais de uma unidade-fonte, excetuando-se casos em que uma unidade-fonte se
refere a uma outra. Este segundo caso pode ser melhor visto através de um exemplo.
Considere o caso do art. 28, §1º do Código Civil: “Findo o prazo a que se refere o art. 26, e
não havendo interessados na sucessão provisória, cumpre ao Ministério Público requerê-la ao
juízo competente.”. Note que este artigo faz referência a um artigo anterior, qual seja, o art. 26
do próprio Código. Neste caso, a formalização deste artigo teria que necessariamente conter
um conceito encontrado em outra unidade-fonte e, portanto, não haveria uma quebra de
semelhança estrutural.

Há de se dizer que a busca por semelhança estrutural não é consenso na comunidade de


IA & Direito. (PRAKKEN, 1990, p. 36) adverte que há autores como J. H. Nieuwenhuis que
defendem que “ao nos distanciarmos da busca por semelhança estrutural, podemos tornar
explícita a estrutura lógica da legislação”. No que pese argumentos neste sentido, ainda há
bons motivos para se buscar estabelecer uma correspondência coesa entre unidades-fonte e
unidades-KB. É que este tipo de construção permite manter uma separação entre regras e
exceções. Demonstrei, em minha exposição sobre os defaults, que em certos casos uma
aplicação direta de uma linguagem de primeira ordem faz com que tenhamos que tornar
explícitas todas as exceções dentro de uma mesma fórmula por meio do exemplo de Tweety.
Em códigos legais e textos normativos em geral, não somente exceções podem estar em
unidades-fonte diferentes da regra a qual se aplicam, como podem também até mesmo
aparecer em um texto normativo diverso. Isto faz com que, toda vez que uma nova unidade-
fonte seja adicionada, seja necessário verificar se esta nova unidade carrega em si uma
exceção a uma regra existente. Desse modo, deve-se encontrar a unidade-KB correspondente
e atualizá-la, tendo certeza de que essa atualização não vá gerar conflito com outras unidades-

!47
KB existentes. Esta possibilidade de criação de conflitos toda vez que novas unidades-fonte
são adicionadas ao mundo jurídico fazem com que aumentem as chances de erros serem
cometidos ao se atualizar uma KB. Neste quesito a lógica de defaults de Reiter parece ser
bastante adequada, ao menos em vista do fragmento utilizado. Foram criados 15 defaults e 2
fórmulas de LPO para dar conta de cerca de 21 unidades-fonte. Como excluí de minha
formalização o parágrafo único do art. 4º, temos que 20 unidades-fonte transformaram-se em
17 unidades-KB. No entanto, as cabeças de certos artigos na verdade não contém conteúdo
normativo independente de seus incisos (é o caso do art. 4º e do art. 7º) e que o parágrafo
único do art. 5º não pode servir de unidade-fonte. Logo, foram traduzidas 17 unidades-fonte
em 17 unidades-KB, uma correspondência perfeita. É evidente que trabalhei apenas com um
fragmento bastante diminuto da legislação, de modo que não se pode chegar à conclusão de
que sempre será possível utilizar a lógica de defaults para obter uma correspondência tão
precisa. Observe que a propriedade de não-monotonicidade da relação de consequência lógica
introduzida pelos defaults é o que garante a possibilidade fazer traduções que preservam a
semelhança estrutural. O uso de uma linguagem inteiramente monotônica implicaria a perda
de semelhança estrutural até no caso simples aqui considerado.

!
4.2. Modularidade
É comum confundir a propriedade de semelhança estrutural com a de modularidade. A
primeira refere-se ao produto da formalização, enquanto a última refere-se ao processo. Dizer
que um certo sistema lógica permite a adição modular de novas unidades-KB é o mesmo que
dizer que é possível fazer alterações na KB sem ter que se preocupar com o resto do domínio,
isto é, que pode-se tratar a adição de novas unidades-KB de maneira mais ou menos
independente. (PRAKKEN, 1990, p. 251) mostra que há casos em que a tentativa de manter a
propriedade de semelhança estrutural de maneira ‘pura’ (ou seja, mantendo sempre uma
correspondência de um-para-um) faz com que a adição de certas unidades-KB seja não-
modular, de modo que deve-se analisar o trade-off entre semelhança estrutural e
modularidade, ainda mais quando se quer formalizar técnicas de interpretação como
recorrência a hierarquias normativas e dar preferência a leis mais novas em detrimento das
mais velhas.

4.3. Exclusividade da especificação

!48
(PRAKKEN, 1990, p. 105) pergunta se o critério de lex specialis derogat generali é
suficiente para que um certo sistema lógico possa lidar com diferentes hierarquias de normas
e chegar a um resultado correto. Apesar de esta dificuldade não haver aparecido em razão de
apenas um fragmento do Código Civil de 2002 ter sido eleito como objeto de formalização,
pode-se dizer com convicção que não é possível utilizar a lógica de defaults de Reiter como
construída neste trabalho para construir relações de prioridade. Na linguagem LPO não foi
definida uma relação de ordenamento por meio do operador “≻”38, necessária para construir a
noção de prioridade. Isto não quer dizer que uma lógica de defaults enriquecida (Reiter criou
a lógica de defaults mas ao longo dos anos ela veio sendo aprimorada) não possa lidar com
prioridades. Na verdade, (PRAKKEN, 1990, p. 105) confirma que é possível criar teorias
default ordenadas que são, consequentemente, capazes de expressarem prioridades entre
defaults.

!
4.4. Implementação

Deixei claro no início deste capítulo que não pretendi criar um sistema especialista de
fato, de modo que deixei de lado considerações acerca de dificuldades técnicas de se utilizar a
lógica de defaults de Reiter como base para um sistema especialista. No entanto, há dois
pontos que precisam ser abordados. O primeiro deles é quanto à complexidade computacional
da lógica de defaults. O próprio (REITER, 1980, p.129) reconhece que o modo como os
defaults se comportam apresenta problemas de implementação. (PRAKKEN, 1990, pp. 72-73)
apresenta o problema de maneira didática:
Apesar de sua claridade intuitiva ser bastante atraente, a lógica de defaults também possui
algumas inconveniências reconhecidas. Uma delas é sua complexidade computacional, cuja
fonte é a definição de consistência que, como vimos acima, não é construtiva. O problema
consiste no fato de que, ao checar se um certo default pode ser utilizado para aumentar a
extensão, temos que conferir sua consistência, e não é suficiente inspecionar a extensão até

38Ordenações constituem um importante campo de estudos em teoria dos conjuntos. v. (DAVEY & PRIESTLEY,
2002)
!49
o ponto em que esta foi construída por outros defaults; deve-se adivinhar o todo o conteúdo
da extensão antecipadamente, e isto não pode ser facilmente mecanizado.39

O fato de a definição de extensão não ser construtivo ainda tem outro problema muito
sério. Como não há uma ordem a ser seguida na aplicação dos defaults, o próprio usuário deve
escolher que defaults utilizar. Um exemplo pode ser retirado da própria Teoria CC8.

Observe, como exemplo, os defaults d5 Pessoa(x)∧≥18(x) : Capaz(x)/ Capaz(x) e


d4.4.Pessoa(x)∧Pródigo(x) : RelInc(x)/ RelInc(x). Observe que caso as fórmulas
Pessoa(Fulano), ≥18(Fulano) e Pródigo(Fulano) pertencessem ao conjunto de fórmulas
fechadas W da Teoria CC8, poderíamos ter duas extensões diferentes. Caso utilizássemos d5
primeiro, poderíamos derivar Capaz(Fulano), e deste modo a aplicação de d4.4 ficaria
bloqueada, já que a fórmula ∀(x) Capaz(x) → (~ RelInc(x) ∧ ~ AbsInc(x)) faz parte do
conjunto Γdef3.2 e a partir dela teríamos que ~ RelInc(Fulano). No entanto, caso aplicássemos
d4.4 primeiro, derivaríamos a conclusão RelInc(Fulano), o que bloquearia a utilização de d5 já
que a fórmula ∀(x) RelInc(x) → ( ~ Capaz(x) ∧ ~ AbsInc(x)) faz parte do conjunto Γdef3.2 e
poderíamos derivar ~Capaz(Fulano), e assim d5 falharia no requerimento de consistência.

É óbvio que esta situação causa grandes problemas para a utilização da lógica de Reiter
como base para a criação de um sistema especialista para o direito. É imediatamente visível
que a possibilidade de haver duas extensões contraditórias entre si, em virtude de uma
deficiência técnica da linguagem, é altamente indesejável. Este caso poderia ser facilmente
remediado ao criar uma ordenação ao conjunto de defaults, obrigando que os defaults que dão
como resultado a propriedade de incapacidade absoluta tivesse precedência em relação aos
defaults que dão como resultado a propriedade de incapacidade relativa, que por sua vez
teriam precedência em relação aos defaults que dão como resultado a propriedade de
capacidade plena. No entanto, criar este tipo de ordenação iria requerer uma redefinição do
conceito de extensão, e isto seria um enriquecimento bastante forte da teoria de Reiter.

!
4.5. Expressividade

39 No original: “Although its intuitive clarity is very appealing, default logic also has some recognized
drawbacks. One of them is its computational complexity, a main source of which is the fact that the definition of
an extension is, as explained above, not constructive. The problem is that in applying the consistency check to
see whether a default can be used to enlarge an extension, it is not sufficient to inspect the extension as it has
been constructed so far by the other defaults; instead the content of the entire extension has to be guessed
beforehand, and this cannot easily be mechanized.”
!50
O critério de expressividade é bastante útil para analisar diferentes linguagens lógicas
rivais que estão dispostas a se tornarem modelo de um determinado modo de raciocínio.
(PRAKKEN, 1990, p. 105) afirma que perguntas como “Todas as distinções entre tipos de
exceção podem ser feitas?”, “A conclusão derivada da cláusula de exceção é a mais
desejável?”, “É possível que existam respostas alternativas no caso de conflitos não-
resolvidos?” e outras caem sob as preocupações relacionados ao critério de expressividade.
No entanto, como não foram abordados outros sistemas lógicos no presente trabalho, seria um
tanto presunçoso compará-lo a outras linguagens. O sistema de Reiter, por si só, tem uma
expressividade limitada. Suas formas de raciocínio resumem-se à utilização de defaults, que
podem ser normais, semi-normais ou não-normais. Todas as conclusões derivadas a partir do
sistema podem apenas fazer uso de tais artifícios para expressar todos os tipos de exceção que
podem ocorrer dentro de um sistema legal, e é incapaz de lidar (como já vimos) até mesmo
com simples relações de prioridade entre a aplicação de um default ou outro.

Outro ponto importante em que a lógica de defaults de Reiter apresenta um resultado


indesejável é o da impossibilidade de se raciocinar sobre os defaults. Prakken ilustra este
ponto com um exemplo. Imagine uma teoria default δ cujo elemento de W é
{MenorIdade(João) ∨ DeficMental(João)} e o conjunto D contém dois defaults:

d1: Menor(x) : ~ Capaz(x) / ~ Capaz(x)

d2: DeficMental(x) : ~ Capaz(x) / ~ Capaz(x)

Seria bastante intuitivo que pudéssemos inferir que ~ Capaz(João), mas não é o caso.
Note que o nosso conjunto W contém apenas uma fórmula disjuntiva, cujo valor-de-verdade é
V se e somente se ao menos um dos dois disjuntos é verdadeiro. No entanto, não há como
saber qual dos dois disjuntos é verdadeiro, e por isso não é possível derivar a conclusão de
que João não tem capacidade. Os defaults d1 e d2 não podem ser unidos por meio de um
operador de disjunção para criar o default

Menor(x) ∨ DeficMental(x): ~ Capaz(x) / ~ Capaz(x)

por si mesmo. Este terceiro default teria que ser adicionado pelos encarregados de
manter a base de conhecimento antes mesmo de ela poder ser aplicada. Perceba que este
default implicaria a perda de semelhança estrutural a menos que uma contrapartida em
linguagem natural dele esteja presente na legislação pertinente.

!
!51
5. CONCLUSÃO

À primeira vista, a partir da análise dos cinco parâmetros apontados por Prakken
como cruciais para qualquer representação de conhecimento jurídico, pode parecer que a
conclusão deste trabalho é bastante negativa quanto à possibilidade de se utilizar a lógica de
defaults de Reiter como alternativa de formalização ao direito. Esta visão é correta, mas
incompleta. Como mostrei em repetidos pontos do texto, muitos dos problemas apresentados
pela lógica de defaults não ocorrem pelos defaults em si, mas apenas pelo modo inicial como
eles foram apresentados no paper “A logic for default reasoning” de Reiter. O lógico
canadense, apesar dos pontos fracos de suas linguagem, deu um salto enorme na área de
pesquisa de inteligência artificial simbólica. Se seu sistema original era um tanto incompleto,
muitas das lacunas foram preenchidas por trabalhos posteriores, como (BREWKA, 1991) e
(LUKASZSEWICZ, 1990), que produz um método construtivo de definir a extensão de uma
teoria default. A pesquisa mostra que a versão “vanilla” dos defaults é, de fato, incapaz de
produzir resultados satisfatórios quanto à sua utilização prática. No entanto, mesmo sem que a
teoria seja enriquecida, seu estudo pode ser de grande valia especialmente para interessados
na interseção entre lógica e direito que estão apenas começando seus estudos. A linguagem de
Reiter é bastante intuitiva em sua construção, e a partir dela podem ser definidos e
apresentados programas de pesquisa que sejam capazes de sanar as dificuldades da própria
lógica de defaults de Reiter e dar insight para novas abordagens.

Se este trabalho chegou a conclusões negativas sobre a viabilidade prática de se


utilizar o sistema de Reiter como base para a criação de um sistema especialista, espero que
tenha alcançado ao menos um outro objetivo: mostrar que se pode fazer pesquisa sobre
assuntos intimamente ligados ao direito sem que tenha que se recorrer aos temas tradicionais
de se fazer pesquisa. Espero que este trabalho tenha dado ao menos uma amostra muitíssimo
modesta de que é possível manipular ferramentas advindas das ciências exatas e utilizá-las de
modo a gerar perguntas que são do interesse da comunidade jurídica. Sim, é verdade que a
hipótese deste trabalho mostrou-se falsa. Mas também é verdade que o caminho para chegar a
esta resposta traz à luz certas perguntas a serem respondidas em pesquisas subsequentes:
como podemos formalizar as hierarquias entre as leis (lato sensu)? Devemos recorrer à
lógicas não-monotônicas ou pode-se permanecer no domínio das lógicas clássicas
monotônicas? De que maneiras podemos enriquecer os defaults para que possamos capturar

!52
mais elementos do fenômeno jurídico? Este trabalhou lidou apenas com regras formuladas de
maneira bastante clara, seria possível lidar também com princípios utilizando técnicas
formais? As respostas à tais perguntas dificilmente serão obtidas a menos que sejamos
capazes de lidar com o simbolismo. Nossas intuições não bastam para responder tais
perguntas. Um jurista que jamais estudou métodos formais e linguagens artificiais pode
facilmente dispensar para si a utilidade ou a viabilidade de usar tais métodos para estudar o
direito. Mas ele não pode dar respostas àquelas perguntas (e a muitas outras) apenas através
de suas intuições.

Espero ter mostrado também que pesquisas que fazem uso de ferramentas formais
não precisam atacar problemas de modo holista. O escopo do trabalho é bastante limitado:
estudei um fragmento diminuto de um pedaço de legislação, evitei o problema dos princípios,
do raciocínio por analogia e da relação entre legislação e jurisprudência. Evitei o conflito
entre normas de hierarquias diferente, e também evitei o problema de leis conflitantes que
foram editadas em datas diversas. O leitor pode se perguntar se esta abordagem é
reducionista. A resposta é positiva, enfaticamente positiva. Mas desta resposta não decorre
uma visão negativa deste tipo de fazer pesquisa. Pelo contrário, acredito que é bastante natural
que possamos identificar um problema complexo e dividi-lo em fragmentos mais tratáveis,
sem que seja necessário responder as perguntas mais difíceis ao mesmo tempo que as mais
fáceis e assim por diante. A atitude científica diante de problemas aparentemente hiper-
complexos não consistem em descartar o problema como insolúvel, mas sim em fragmentá-lo,
analisá-lo por diferentes ângulos e tentar encontrar “pontos fracos em sua armadura”.

Por fim, destaco a importância de que a pesquisa brasileira em direito torne-se mais
diversificada. O uso de elementos extra-jurídicos para estudar e propor soluções para
problemas eminentemente jurídicos está em alta. Do uso de data mining, inteligência artificial
baseada em redes neutrais e deep learning, automatização de pesquisas jurisprudenciais,
softwares de assistência à redação de legislação até o uso de softwares de assistência jurídica a
não-especialistas, o uso de tecnologia na área de direito tende a aumentar com o passar dos
anos (ainda que não façam uso de inteligência artificial simbólica), e se os juristas não querem
se tornar redundantes em diversas áreas de pesquisa de seu próprio campo, devem passar a
levar a sério a ideia de que devem abandonar certos preconceitos inválidos.

!
!53
BIBLIOGRAFIA

ANTONIOU, Grigoris. A Tutorial on Default Logics. ACM Computing Surveys, v. 31,


1999, pp. 337-359.

ARISTÓTELES. Analíticos Anteriores. Trad. Pinharanda Gomes. Lisboa: Guimarães


Editores, 1986.

ARISTÓTELES. Posterior Analytics. Trad. Jonathan Barnes. 2 ed.. Oxford: Clarendon Press,
2002.

BESNARD, Phillip. An Introduction to Default Logic. Nova Iorque: Springer-Verlag Berlin


Heidelberg. 1989.

BÉZIAU, Jean-Yves. Is Modern Logic Non-aristotelian? In: D. Zaitsev (ed) Nikolai


Vasiliev's Logical Legacy and Modern Logic. Dordrecht: Springer, 2016.

BOCHENSKI, J. M.. A history of formal logic. Trad. Ivo Thomas. Notre Dame: University
of Notre Dame Press, 1961.

BRACHMAN, Ronald J.; LEVESQUE, Hector J.. Knowledge Representation and


Reasoning. São Francisco: Elsevier, 2004.

BREWKA, Gerhard. Nonmonotonic Reasoning: Logical Foundations of Common Sense.


Cambridge: Cambridge University Press, 1991.

DAVEY B. A, PRIESTLEY H.A. Introduction to Lattices and Order. 2. ed. Nova Iorque:
Cambridge University Press, 2002.

DAVIS R. et al.. What is a knowledge representation? AI Magazine.

FINKELSTEIN, David M.. How to do things with Wittgenstein: the relevance of


Wittgenstein’s later philosophy to the philosophy of law. The Journal of Jurisprudence, v.
8, 2010, pp. 647-675.

FREITAS, Fred. CANDEIAS JR, Zacharias. STUCKENSCHMIDT, Heiner. Towards Checkin


Laws’ Consistency through Ontology Design: The Case of Brazilian Vehicle Laws. Journal
of Theoretical and Applied Electronic Commerce Research, v. 6, 2011, pp. 112-126.

HAACK, Susan. Filosofia das lógicas. Trad. Cezar Augusto Mortari & Luiz Henrique de
Araújo Dutra. São Paulo: UNESP, 2002.

HAGE, Jaap. Studies in legal logic. Dordrecht: Springer, 2005.

HAUGELAND, John. Artificial Intelligence: the Very Idea. Cambridge: MIT Press, 1989.

HART, H. L. A.. O Conceito de Direito. Trad. A. Ribeiro Mendes. 5 ed. Lisboa: Fundação
Calouste Gulbenkian, 2007.

LEMMON, E. J.. Beginning Logic. 2. ed. Nova Iorque: Chapman & Hall/CRC, 1987.

!54
ŁUKASIEWICZ, Jan. Aristotle’s Syllogistic: from the point of view of modern formal logic.
2. ed. Londres: Oxford University Press, 1957.

ŁUKASZEWICZ, Witold. Non-monotonic reasoning. Formalization of Commonsense


Reasoning. Chichester: Ellis Horwood. 1990.

MARANHÃO, Juliano S. de A.. A lógica no direito: grandes expectativas e algumas


desilusões. In: Estudos sobre lógica e direito. São Paulo: Marcial Pons, pp. 213-253, 2013.

MARTIN-Löf, Per. On the meanings of the logical constants and the justifications of the
logical laws. Nordic Journal of Philosophical Logic, v. 1, n. 1, pp. 11-60.

MENDELSON, Elliot. Introduction to mathematical logic. 6. ed.. Boca Raton: CRC Press,
2015.

MORTARI, Cezar A.. Introdução à lógica. São Paulo: UNESP. 2001.

MOSSAKOWSKI et tal.. What is a logic?. In: Jean-Yves Béziau (ed.) Logica Universalis:
Towards a General Theory of Logic. Basel: Birkhäuser Basel, 2007. pp. 111-133.

PATZIG, Günther. Aristotle’s theory of the syllogism: a logico-philosophical study of book


A of the Prior Analytics. Trad. Jonathan Barnes. Dordrecht: Springer, 1968.

PERELMAN, Chaïm. Lógica Jurídica: nova retórica. Trad. Vergínia K Pupi. São Paulo:
Martins Fontes, 2000.

PRAKKEN, Henry. Logical Tools for Modeling Legal Reasoning. Dordrecht: Springer,
1997.

PRAKKEN, Henry. A Formal Model of Adjudication Dialogues. Artificial Intelligence and


Law. Springer Netherlands. v. 16, n. 3, pp. 305-328. 2008a.

PRAKKEN, Henry. Formalising Ordinary Legal Disputes: a Case Study. Artificial


Intelligence and Law. Springer Netherlands. v. 16, n. 4, pp. 333-359. 2008b.

PRAKKEN & SARTOR, H. Kaptein. Legal Evidence and Proof: Statistics, Stories, Logic.
H. Prakken & B. Verheij (eds.) Farnham: Ashgate Publishing, Applied Legal Philosophy
Series, 2009. pp. 223- 253.

PRAKKEN & SARTOR, Law and Logic: a Review from an Argumentation Perspective.
Artificial Intelligence. Elsevier. v. 227, pp. 214-245. 2015.

SIDER, Theodore. Logic for philosophers. Oxford: Oxford University Press. 2010.

SCHEINERMAN, Edward R.. Mathematics: a Discrete Introduction. 3. ed.. Boston:


Cengage Learning.

STRASSER, Christian. ANTONELLI, G. Aldo. Non-monotonic Logic. In: Edward Zalta


(ed.), The Stanford Encyclopedia of Philosophy. Disponível em: http://plato.stanford.edu/
archives/fall2015/entries/logic-nonmonotonic/ (Acesso 16/11/2015)

!55
SUSSKIND, Richard E.. Expert Systems in Law: A Jurisprudential Approach to Artificial
Intelligence and Legal Reasoning. The Modern Law Review: v. 49, pp. 168-194, 1986.

WOODS, John. IRVINE, Andrew. Aristotle’s Early Logic. In: GABBAY, Dov M., WOODS,
John. (Eds.) Handbook of the History of Logic: Volume 1: Greek, Indian and Arabic Logic.
Amsterdam: Elsevier, 2004, pp. 27-100.

!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!56
ANEXO I: TABELAS DE VERDADE DOS CONECTIVOS LÓGICOS

1) Conjunção

P Q P∧Q

V V V

V F F

F V F

F F F

2) Disjunção

P Q P∨Q !
V V V

V F V
!
F V V
!
F F F
!
3) Implicação material →, ∧, ∨, ⇔, ~

P Q P→Q
!
V V V !
V F F

F V V
!
F F V
!
4) Bi-implicação material (equivalência) 5) Negação

P Q P Q

V V V P ~P

V F F V F

F V F F V

F F V

!57