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Manual de Técnicas em

NECROPSIA
MÉDICO-LEGAL
Editores

Luiz Carlos L. Prestes Jr.


Graduado em Medicina pela Escola de Medicina Souza Marques, RJ.

Pós-Graduado em Medicina do Trabalho pela Escola de Medicina Souza Marques, RJ.

Mestre em Medicina pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

Medicai Scholar in Forensic P a t h o l o g y - Medicai Examiner Departament Miami Dade County.

Perito-Legista do Instituto Médico-Legal Afrânio Peixoto (IMLAP) - Polícia Civil, RJ.

Coordenador da Câmara Técnica de Medicina Legal do Conselho Regional de Medicina do

Estado do Rio de Janeiro ( C R E M E R J ) .

Coordenador Didático e Professor do Curso de Pós-Graduação em Medicina Legal da

Universidade Castelo Branco, RJ.

Roger Ancillotti
Perito-Legista do Instituto Médico-Legal Afrânio Peixoto (IMLAP) - Polícia Civil, RJ.

Professor de Medicina Legal do Curso de Direito e do Curso de Especialização em Medicina

Legal da Universidade Cândido M e n d e s ( U C A M ) , RJ.

Mestre em Ciências (Administração Hospitalar) pela Universidade de Brasília (UnB), DF.

Diretor do IMLAP - Polícia Civil, RJ (2003-2007).

Diretor do Departamento de Polícia Técnico-Científica - Polícia Civil, RJ (2003-2005).

M e m b r o Relator da Câmara Técnica de Medicina Legal do Conselho Regional de Medicina do

Estado do Rio de Janeiro ( C R E M E R J ) .

Doutorando em Ciências Forenses pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Revisão Técnica
Reginaldo Franklin

RUBIO
Manual de Técnicas em Necropsia Médico-Legal

Copyright © 2009 Editora Rubio Ltda.

I a reimpressão 2010

ISBN 978-85-7771-003-4

Todos os direitos reservados.


É expressamente proibida a reprodução
desta obra, no todo ou em partes,
sem a autorização por escrito da Editora.

Produção
Equipe Rubio

Editoração Eletrônica
EDEL

Capa
Bernard Design

Prestes Jr., Luiz Carlos Leal (ed.)


Manual de técnicas em necropsia médico-legal. - Rio de Janeiro: Editora
Rubio, 2009.

Bibliografia
ISBN 978-85-7771-003-4

1. Necropsia. 2. Medicina Legal. 3. Conservação de cadáveres. 4. Instituto


Médico-Legal Afrânio Peixoto. I. Ancillotti, Roger Vinicius (ed.). II. Título.

CDD 614-19


RUBIO
Editora Rubio Ltda.
Av. Churchill, 97/203 - Castelo
20020-050 - Rio de Janeiro - RJ
Telefax: (21) 2262-3779 - 2262-1783
E-mail: rubio@rubio.com.br
www.rubio.com.br

Impresso no Brasil
Printed in Brazil
Colaboradores

Ademar Ferreira
Auxiliar Policial de Necropsia do Instituto Médico-Legal Afrânio Peixoto (IMLAP), RJ.
Técnico de Necropsia e Auxiliar de Ensino do Curso de Graduação em Medicina da
Universidade Gama Filho (UGF), RJ.

Edson Galhardo de Almeida


Bacharel em Administração de Empresas pela Universidade Gama Filho (UGF), RJ.
Técnico Policial de Necropsia e Instrutor do Curso de Formação de Auxiliares e Técni-
cos Policiais de Necropsia (2005).

Hélio Huguenin
Graduado em Fisioterapia pelo Centro Universitário Augusto Motta (UNISUAM), RJ.
Técnico em Tanatopraxia pela Universidade Estadual Paulista (UNESP), SP.
Técnico em Tanatopraxia Avançada pela Faculdade de Ciências Médicas de Minas
Gerais.
Técnico em Tanatopraxia da Casa Bom Pastor - Serviços Funerários, RJ.

Juarez Uchoa Carrasco


Papiloscopista Policial.
Instrutor do Curso de Formação em Papiloscopia e Técnica de Necropsia Policial da
Academia de Polícia Sylvio Terra, RJ.

Luciana Barroso
Perita Odonto-Legista do Instituto Médico-Legal Afrânio Peixoto (IMLAP), RJ.

Meire Cristine Ferreira de Souza


Inspetora da Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro.
Pós-Graduada em Políticas e Gestão em Segurança Pública.
Priscilla Moutella Barroso Araújo
Bacharel em Enfermagem pela Universidade Estácio de Sá (UESA), RJ.
Pós-Graduada em Cuidados Intensivos de Enfermagem pela UESA, RJ.
Auxiliar Policial de Necropsia Lotada no Instituto Médico-Legal Afrânio Peixoto (IMLAP -
Sede), RJ.

Reginaldo Franklin
Perito-Legista do Instituto Médico-Legal Afrânio Peixoto (IMLAP), RJ.
Professor de Medicina Legal do Curso de Direito do Centro Universitário Plínio Leite -
Niterói, RJ.
Professor de Medicina Legal do Curso de Pós-Graduação em Medicina Legal da Uni-
versidade Castelo Branco, RJ.

Vanderleia Brandão Alves Cruz


Bacharel em Fonoaudiologia pela Universidade Veiga de Almeida (UVA), RJ.
Técnica de Enfermagem pela Cruz Vermelha Brasileira.

Virgínia Rosa Rodrigues Dias


Perita-Legista do Instituto Médico-Legal Afrânio Peixoto (IMLAP), RJ.
Professora Auxiliar de Medicina Legal e Deontologia Médica da Universidade Gama
Filho (UGF), RJ.
Especialista em Medicina Legal pela Associação Brasileira de Medicina Legal (ABML) e
Associação de Medicina Brasileira (AMB).
Dedicatória

À minha companheira Célia Regina, presente em todos os momentos, sempre


com apoio e sabedoria.

A minha filha Juliana, sempre alegre e perseverante com o sucesso que a acom-
panha.

Aos meus verdadeiros amigos, que se orgulham ao ver a minha estrela brilhar.

Luiz Carlos L Prestes Jr.

Aos meus pais, pela educação e pelos preceitos morais, e à minha esposa, pelo
amor e pela inesgotável paciência.
Roger Ancillotti
l ^ l Prefácio

Ao ser convidado por Luiz Carlos Leal Prestes Jr. e Roger Vinicius Ancillotti para
prefaciar a presente obra, senti-me honrado e feliz, uma vez que os autores represen-
tam a nova geração da Medicina Legal em nosso País, sendo, ambos, médicos-legis-
tas competentes e dedicados ao ensino do tema.
Muito bem ilustrado e didaticamente elaborado, o livro, composto de oito capítu-
los, conta com a colaboração de renomados legistas que desenvolveram as diversas
unidades de maneira articulada e harmoniosa.
O primeiro capítulo. História da necropsia no Brasil, explana o desenvolvimento
histórico da matéria médico-legal, no tocante à necropsia. É interessante acompa-
nhar a evolução e o desenvolvimento da técnica do exame cadavérico, com o intuito
de facilitar o entendimento da rotina atual aplicada aos exames periciais do cadáver,
principalmente para os iniciantes. É descrita, também, a evolução da medicina legal
no Brasil e a criação do Instituto Médico-Legal Afrânio Peixoto.
Análise aprofundada do balizamento legal e ético que envolve o ato de necropsiar,
ressaltando as necropsias médico-legais, está contida no capítulo seguinte -Aspectos
legais e éticos da necropsia -, que é complementado pelo Decálogo ético do perito,
estatuto considerado como suporte à prática médico-legal.
O Capítulo 3, Instrumental utilizado em necropsia, fartamente ilustrado, estabele-
ce a relação entre os instrumentos de necropsia e os principais tempos de abertura e
fechamento das cavidades do corpo tecnicamente examinado.
Quanto à Biossegurança, são expostos seus princípios, bem como abordagem es-
pecial para o atuar em necropsias de cadáveres de vítimas contaminadas por material
radioativo.
Em Técnicas de necropsia, o texto, ricamente ilustrado e relevante para o aprendi-
zado, acompanha a evolução da informática e apresenta a técnica da virtopsia.
A odontologia forense, que exerce papel determinante no campo da identificação
de cadáveres, é o tema do Capítulo 6, Vias de acesso para o exame odonto-legal.
No capítulo seguinte. Técnicas de conservação de cadáveres, assunto comumente
não abordado em obras de Medicina Legal, são elucidadas as técnicas de embalsama-
mento e tanatopraxia, bem como os modelos de documentos necessários à execução
dessas práticas.
O último capítulo. Rotina de funcionamento do Instituto Médico-Legal Afrânio
Peixoto, apresenta, por sua vez, o fluxograma dos procedimentos de necropsia foren-
se, com os parâmetros legais, éticos e administrativos que devem orientá-la.
Uma imagem é mais valiosa do que mil palavras. Neste livro, é possível perceber
o valor de tal afirmação, pois o farto material ilustrativo que o compõe atesta sua
grande utilidade não somente ao iniciante como a todos os profissionais que utilizam
o conhecimento médico-legal na elucidação das questões jurídicas e no alcance da
desejada perfeita Justiça.
Parabéns aos autores, assim como a seus colaboradores, pelo lançamento de obra
tão oportuna e útil a todos que militam na Medicina Legal.

Talvane M. de Moraes
Ex-Professor de Medicina Legal da Faculdade de Direito da Univercidade, RJ.
Médico-Legista do Instituto Médico-Legal Afrânio Peixoto (IMLAP), RJ.
| Apresentação

Durante os longos anos de minha formação, sempre fui um apaixonado pela Me-
dicina Legal e, freqüentando os Congressos da especialidade no Brasil e no exterior,
sempre procurei por livros que abordassem a necropsia forense, suas técnicas, seu
estudo e os aspectos práticos. A literatura internacional é muito rica nesse tema, com
publicações de atlas e livros específicos referentes à prática da necropsia médico-lé-
gal, porém, no Brasil, a literatura é escassa.
Dessa maneira, mostra-se indispensável uma abordagem prática acerca do as-
sunto, tão palpitante e fundamental ao dia-a-dia do médico-legista e do técnico de
necropsia.
Vale a lembrança do ano de 2005, no qual fui coordenador do Curso de Formação
Profissional de Auxiliares e Técnicos de Necropsia realizado no Instituto Médico-Legal
Afrânio Peixoto, no Rio de Janeiro. A falta de literatura especializada, bem como a
necessidade de divulgação do tema para os alunos em formação foram os principais
óbices encontrados.
Foi exatamente nessa época, durante as atividades do curso, que surgiu a idéia de
elaborarmos um manual técnico. A necessidade de ministrar aulas teóricas e práticas
a respeito dos aspectos técnicos, administrativos e éticos peculiares às atividades liga-
das ao necrotério forense nos motivou muito a desenvolver este trabalho.
A necropsia forense é uma atividade que exige do profissional muita dedicação e
empenho, pois é tarefa árdua, requerendo destreza, habilidade e espírito de equipe.
Espero que esta obra venha preencher essa lacuna e oferecer, de maneira objetiva,
os principais tópicos para os estudiosos do tema.
Agradeço aos colaboradores e aos alunos do Curso de Formação Profissional de
Auxiliares e Técnicos de Necropsia formados em 2005 e atuando, hoje, nas mais
diversas áreas da Polícia Técnica, que, direta ou indiretamente, transformaram esse
projeto em realidade.
Minha gratidão especial à equipe da Editora Rubio, que, com muita determinação
e profissionalismo, incentivou a elaboração desta obra.
Sou grato, também, a Deus e aos espíritos protetores que iluminaram minha tra-
jetória profissional e pessoal, permitindo que todo o trabalho fosse concluído com
sucesso.
Luiz Carlos L. Prestes Jr.
Apresentação

Atendendo ao interesse de alunos e profissionais da especialidade, resolvi, junta-


mente ao amigo e professor Luis Carlos Prestes Jr., editar a presente obra, tendo em
vista não haver, até o momento, na prática do magistério da medicina legal, respaldo
técnico-científico, em língua portuguesa, para ministrar aulas desta disciplina.
Este texto pretende ser uma fonte de consulta útil ao estudo das técnicas de ne-
cropsia e ao preparo para concursos neste campo, além de constituir fundamental
auxílio àqueles que militam nas áreas da medicina, do direito e das ciências criminais
conexas.
Composto de oito capítulos, abrange, de maneira clara e concisa, a história da
necropsia no País, os aspectos legais e éticos referentes à necropsia, o instrumental
necessário, as normas de biossegurança, a execução das técnicas, as vias de acesso
odonto-legais, as técnicas de conservação de cadáveres, bem como a rotina de fun-
cionamento do Instituto Médico-Legal Afrânio Peixoto, no Rio de Janeiro.
Foi listado o maior número possível de referências organizadas pelos autores e
colaboradores, levando-se em consideração sua relevância, principalmente para os
que pretendem realizar concursos na área de medicina legal.
Somos gratos a Deus, pela proteção; a cada um dos colaboradores desta obra,
pelo empenho e pela valiosa contribuição; e à equipe da Editora Rubio, pela atenção,
pelo apoio e pelas sugestões de muita valia.
Esperamos que este livro possa contribuir para a formação de novos profissionais
e, também, para enriquecer e aperfeiçoar o conhecimento daqueles que já atuam na
especialidade - nossa meta principal.
Roger Ancillotti
| Sumário

1. História da Necropsia no Brasil, 1

2. Aspectos Legais e Éticos da Necropsia, 15

3. Instrumental Utilizado em Necropsia, 25

4. Biossegurança, 45

5. Técnicas de Necropsia, 71

6. Vias de Acesso para o Exame Odonto-Legal, 111

7. Técnicas de Conservação de Cadáveres, 123

8. Rotina de Funcionamento do Instituto Médico-Legal Afrânio Peixoto, 137

Anexos, 165

índice, 171
I -
H

Caderno em Cores

Figura 3.24 Fechamento em sutura contínua da parede abdominal do tipo Schmieden

Figura 4.4 (A e B) Disposição das luvas


Figura 4.9 Profissional usando capote, avental e todo o equipamento de segurança. (A) Fren-
te. (B) Perfil.

Figura 5.3 Técnica de incisão do couro cabeludo


Figura 5.4 (A a M) Seqüência da técnica demonstrando a abertura do crânio ( continua)
Figura 5.4 (A a M) Seqüência da técnica demonstrando a abertura do crânio ( continua)
Figura 5.4 (A a M) Seqüência da técnica demonstrando a abertura do crânio ( continua)
Figura 5.4 (A a M) Seqüência da técnica demonstrando a abertura do crânio (continua)
Figura 5.4 (A a M) Seqüência da técnica demonstrando a abertura do crânio

Figura 5.6 Incisão submentoxifopubiana pela


técnica de Virchow
Figura 5.7 (A a E) Seqüência demonstrando a técnica de abertura da cavidade toracoabdo-

minal ( continua)
Figura 5.7 (A a E) Seqüência demonstrando a técnica de abertura da cavidade toracoabdo-
minal

Figura 5.8 (A a G) Seqüência demonstrando a técnica de fechamento do couro cabeludo


(continua)
Figura 5.8 (A a G) Seqüência demonstrando a técnica de fechamento do couro cabeludo
(continua)
Figura 5.8 (A a G) Seqüência demonstrando a técnica de fechamento do couro cabeludo
Figura 5.9 (A a E) Seqüência demonstrando a técnica de fechamento das cavidades torácica
e abdominal ( continua)
Figura 5.9 (A a E) Se-
qüência demonstran-
do a técnica de fecha-
mento das cavidades
torácica e abdominal

Figura 5.10 Incisão para abertura das cavida-


des torácica e abdominal no recém-nascido
Figura 6.1 Técnica de Luntz. (A) Linhas tracejadas mostram os locais das incisões. (B) Reba-
timento do tecido. (C) Rebatimento dos tecidos moles e de toda a musculatura, inclusive do
soalho bucal. (D) Remoção dos ligamentos e inserções musculares para desarticular a ATM.
(E) Desarticulação da mandíbula. (F) Corte da maxila
Figura 6.2 Técnica submandibular. (A) Local da incisão mos
trado por linha tracejada. (B) Tecidos e musculatura rebatidos
(C) Região da mandíbula onde é feita a disjunção com a serra
(D) Disjunção e remoção do maxilar

Figura 7.1 Aspecto interno de um tanatório (Tanatório da Casa Bom Pastor - Serviços Fune-
rários, Rio de Janeiro)
Figura 7.2 Bomba aspiradora e injetara de fluidos

Figura 7.3 Bomba portátil aspiradora Figura 7.4 Frasco para injeção de fluidos cavitá-
de fluidos e trocarte de aspiração rios por gravidade e trocarte de injeção
História da Necropsia no Brasil

INTRODUÇÃO

A prática necroscópica teve início na Antiguidade - provavelmente para diagnosticar


causas de morte - mas, sem dúvida, a manipulação de cadáveres surgiu pela necessi-
dade de conservação de corpos.
Em razão de interferências política e religiosa, existem várias lacunas acerca do
desenvolvimento da necropsia. É notório que o instrumental aos poucos foi se depu-
rando, bem como a profissionalização dos trabalhadores da área para a aplicação dos
instrumentos e equipamentos tanto na necropsia clínica como na médico-legal.
Particularmente, a necropsia médico-legal exige treinamento específico para sua
aplicação nas ciências forenses, resultando na formação de técnicos policiais e peri-
tos-legistas.
Esses fatos são significativos e nos levam a traçar a história da necropsia acom-
panhando a história da própria medicina legal. Ao fazer isso daremos ênfase aos
momentos em que a prática da necropsia se manifesta.
A história da medicina legal brasileira teve origem com a aplicação da medicina à
justiça. Segundo Pataro, a medicina nasceu em razão da necessidade de tratar a dor
e, por isso, confunde-se com a idade da existência do homem no mundo.1 Contudo,
é importante ressaltar os marcos históricos da medicina legal no Brasil que, ao longo
dos séculos, conquistou sua importância, auxiliando as ciências jurídicas, principal-
mente, quando da elaboração de leis.
Os primeiros registros médico-legais documentados no Brasil apareceram no fim do
período colonial. De acordo com Gomes, a primeira publicação médico-legal apareceu
no Estado de Minas Gerais em 1814, e era um documento em que Gonçalves Gomide,
médico e senador do Império, contestava um parecer dado por dois outros médicos,
Antônio Pedro de Sousa e Manuel Quintão da Silva, no qual afirmavam ser santa uma
rapariga da comarca de Sabará na capela de Nossa Senhora da Piedade da Serra.2
2 Manual de Técnicas em Necropsia Médico-Legal

EVOLUÇÃO DA MEDICINA LEGAL NO BRASIL

A evolução da medicina legal no Brasil divide-se em três fases:

- Estrangeira, até 1877.


• De transição, com Sousa Lima.
- De nacionalização, com Nina Rodrigues.

Fase estrangeira
A medicina legal nacional é reconhecida mundialmente, conforme ficou patenteado
(1985) na perícia de determinação da identidade, por especialistas do IML de São
Paulo e da Unicamp, do carrasco nazista Joseph Mengele, conhecido pelos prisionei-
ros de Auschwitz como o "Anjo da Morte", cuja ossada foi encontrada sepulta em
Embu, São Paulo.3
Na época colonial, a medicina legal no Brasil foi decisivamente influenciada pelos
franceses e, em menor escala, pelos italianos e alemães, sendo praticamente nula a
participação portuguesa.3
Nos séculos XVIII e XIX, os físicos e cirurgiões, convocados pela Justiça ou pelo ca-
pitão-general das capitanias ou pelo presidente da província, realizavam perícias mé-
dico-legais, exames de corpo de delito, redigiam laudos e acompanhavam os castigos
de açoites para verificar se o estado do condenado permitia continuar a vergastada.4
O cirurgião-de-partido era estipendiário pelas Câmaras das cidades e vilas para
exercer suas atividades médicas rotineiras, além de exames de corpo de delito e perí-
cias médico-legais.4
No século XVII, o físico Willem Piso, da administração de Nassau, efetuou as pri-
meiras necropsias no Brasil.4 No século XIX, poucas teses de doutoramento e mono-
grafias relativas a temas de medicina legal foram defendidas e escritas na Bahia. Até
a promulgação do Código Penal de 1830 os juízes brasileiros não eram obrigados a
ouvir peritos antes de lavrar a sentença.
A regulamentação do processo penal, em 1832, estabeleceria as regras a serem
adotadas nos exames de corpo de delito, criando a perícia profissional. Naquele mes-
mo ano, ocorre outro fato importante que contribuiria para a medicina legal brasilei-
ra: as antigas escolas médico-cirúrgicas fundadas por Dom João VI em 1808, na Bahia
e no Rio de Janeiro, foram transformadas, por decreto, em faculdades de medicina
oficiais, sendo, assim, criada uma cadeira de medicina legal em ambas. A exigência
de defesa de tese para a obtenção do grau de doutor em medicina levou alguns gra-
duandos para a produção de trabalhos na área médico-legal, ampliando o número de
pesquisas nesse tempo.
Em 1835 ocorreu a primeira publicação de necropsia médico-legal no Brasil, reali-
zada por Hércules Otávio Muzzi, cirurgião da família imperial brasileira, que publicou
História da Necropsia no Brasil 3

a "Autópsia do Exmo. Sr. Regente João Bráulio Moniz, feita segunda-feira, 21 de


setembro de 1835, às 14 horas, 22 horas depois da morte".
Em 1847, começam a aparecer as primeiras especializações dos médicos-legistas.
O conselheiro José Martins da Cruz Jobim, do Rio de Janeiro, foi o primeiro professor
de medicina legal.
A inexistência de peritos oficiais, mesmo depois da criação da cadeira de medicina
legal nas faculdades de medicina, fazia com que as perícias fossem realizadas por
pessoas nomeadas segundo a preferência das autoridades.
O conselheiro Jobim, em 1854, foi incumbido pelo ministro da Justiça de nor-
matizar a prática dos exames médico-legais, sendo presidido por uma comissão que
organizaria uma tabela das lesões segundo sua natureza e localização anatômica. O
objetivo era obter uma padronização nos trabalhos periciais procurando satisfazer as
necessidades da Justiça.
Foi criada então, em 1856, a assessoria médica junto à Secretaria de Polícia da
Corte, constituída por quatro médicos, dois encarregados do exame de corpo de
delito e os outros dois incumbidos de ministrar aulas de medicina legal na faculdade,
responsável também por exames toxicológicos. O sucessor de Jobim na cadeira de
medicina legal foi Francisco Ferreira de Abreu, que passou a fazer perícias toxicológi-
cas nos laboratórios da faculdade.
Também em 1856 foi criado o primeiro necrotério do Rio de Janeiro, para atender
o documento da demanda, situado no depósito de mortos da Gamboa, que era usa-
do para armazenar cadáveres de escravos, presidiários e indigentes.2

Fase de transição
Em 1877, o ensino da medicina legal assume caráter prático com Agostinho José de
Sousa Lima e seu assistente Borges da Costa. Dois anos depois, ambos receberam
autorização para dar um curso prático de tanatologia forense no necrotério oficial,
feito que Brouardel, já havia conseguido na França um ano antes.
No gabinete Ouro Preto, pouco antes da Proclamação da República em 1889 foi
criado outro necrotério da Polícia no prédio da Santa Casa da Misericórdia do Rio de
Janeiro. Já na vigência do primeiro governo da República, em 1891, ocorreram novas
modificações no ensino superior. Também nas faculdades de direito passaram a ser
obrigatórias as disciplinas medicina legal e higiene. Já a faculdade de medicina aca-
bou perdendo a disciplina Toxicologia, que passou para Química Analítica.2

Fase de nacionalização
Em 1895, tomou posse Raimundo Nina Rodrigues, quando começa a terceira fase da
evolução da medicina legal no Brasil. Nina Rodrigues tornou-se catedrático de medi-
cina legal da Faculdade de Medicina da Bahia, sendo considerado o maior professor
4 Manual de Técnicas em Necropsia Médico-Legal

brasileiro de medicina legal do século XIX. Suas obras voltaram-se para o campo da
antropologia criminal e psiquiatria forense. 0 célebre criminalista italiano Lombroso o
chamava de "apóstolo da antropologia criminal no Novo Mundo".
Afrânio Peixoto atribuiria tal sucesso ao fato de Raimundo Nina Rodrigues estudar
as correlações dos elementos étnicos e sociais com a criminalidade de sua terra. Entre
outras propostas, advogava a obrigatoriedade de realização de concursos para peritos
oficiais, a fim de tornar a Justiça mais bem servida de informações e imune aos erros
de interpretação e avaliação comuns à atividade pericial daquela época.
Em 1900, a assessoria médica da polícia transformou-se em gabinete médico-
legal, que passou a fazer também exames psiquiátricos. Um ano depois, ocorrem
alterações lamentáveis no ensino da medicina legal. As provas práticas deixam de ser
obrigatórias nas faculdades de medicina e os alunos deixam de freqüentar as aulas,
medida contestada em vâo por Sousa Lima.2 Ainda em 1900, entra para a história da
medicina legal brasileira o Dr. Carlos Halfeld então designado para realizar todas as
necropsias de crime no Estado do Rio de Janeiro.5
Afrânio Peixoto, já amplamente reconhecido, propõe em 1902 uma reformulação
do gabinete médico-legal com base no que observara na Alemanha.2 No mesmo ano,
Sousa Lima se viu forçado a abandonar o cargo por motivo de doença, passando a
ministrar cursos apenas teóricos e pesquisas laboratoriais.6
Sob sua influência, o governo federal baixa o Decreto n2 4.864, de 15 de junho
de 1903, que estabelecia normas detalhadas para a conclusão das perícias médicas.
Entre outros avanços, sugeria um protocolo de necropsias semelhante ao do alemão
Virchow, o pai da patologia celular. Esse avanço foi elogiado por Locard e Lombroso,
que o consideravam tâo grande e importante que seus próprios países, França e Itália,
deveriam imitar o modelo brasileiro. Houve manifestações, naquele mesmo ano, da
Academia Nacional de Medicina e do Instituto dos Advogados, pela aplicação prática
da lei a fim de se evitar a produção e o envio de laudos imperfeitos para os tribunais.
Mesmo assim, a situação vigente continuava calamitosa. Médicos nâo-especializados
eram nomeados para realizar perícias apenas por serem aparentados ou amigos dos
magistrados. Como resultado dessa condição, o Decreto 6.440, de 30 de março de
1907, transformou o gabinete em Serviço Médico-Legal e ampliou ainda mais o pro-
tocolo de necropsias, passando a incluir técnicas de Orth, da Alemanha. Apesar de
terem sido criadas especialidades dentro da medicina legal, continuava a dificuldade
de acesso dos professores às perícias oficiais. Na mesma época, Afrânio Peixoto foi
nomeado diretor do serviço Médico-Legal do Rio de Janeiro.
Também em 1907, no Rio de Janeiro, foi organizado e instalado o primeiro Gabi-
nete Médico-Legal oficial do Estado, pelo Dr. Francisco de Paula Pereira Faustino, na
então chefatura de polícia, já contando com dois médicos-legistas.5
Enquanto isso, na Bahia, Oscar Freire lutava por transformações em seu Estado.6
Finalmente, em 1906 foi criado pelo Prof. Oscar Freire o Instituto Médico-Legal Nina
História da Necropsia no Brasil 5

Rodrigues (IMLNR), o mais antigo dos quatro órgãos que compõfem a estrutura do
Departamento de Polícia Técnica (DPT), tendo sido intitulado Nina Rodrigues pela
Congregação da Faculdade de Medicina da Bahia, em homenagem ao catedrático
professor Raimundo Nina Rodrigues, falecido naquele mesmo ano aos 44 anos de
idade. O IMLNR passou mais de 60 anos funcionando junto ao prédio dessa tradicio-
nal escola, localizada na época no Terreiro de Jesus. Em 1911, Oscar Freire tornou-se
diretor do Serviço de Medicina Legal da Bahia, atualmente chamado de Instituto Mé-
dico-Legal Nina Rodrigues.7
Após acordo firmado em 31 de dezembro de 1907, o IMLNR passou a funcionar
de forma conveniada com a União.7 O museu do IMLNR, hoje chamado Museu An-
tropológico Estácio de Lima, em homenagem ao homem que durante 41 anos esteve
à frente de sua direção, nasceu das aberrações que chegavam à instituição e eram
colecionadas pelo professor Oscar Freire. Atualmente, o museu do IMLNR é um dos
mais freqüentados de Salvador, recebendo mais de mil visitantes por mês. Nele ficam
expostas 520 peças que, divididas em grupos, facilitam a interação com o visitante.7
Com a Lei Maximiliano, de 1915, que outorgou aos professores de medicina legal
o direito de fazerem perícias em suas aulas práticas, bem como reconheceu a validade
de seus laudos, foi obtida autorização para que os professores de medicina legal, que
não eram peritos oficiais, fizessem os laudos dos casos mostrados em sala de aula.
Ajustava-se a prática à norma legal.8
Em 1917, Oscar Freire vai para São Paulo e estrutura um grande Instituto de Me-
dicina Legal que até hoje tem seu nome.8 Dois anos depois, no Rio de Janeiro, foi
reorganizado e elaborado um regulamento do serviço médico-legal, pelo Dr. Faria
Júnior, com um laboratório, um arquivo e um museu do crime, com a nomeação de
três médicos-legistas e seu primeiro diretor, Dr. Manuel Ferreira de Figueiredo.5
Em 1922, sob a direção do Dr. Faria Júnior, que publicou naquele ano o livro No-
ções de medicina legal e laboratório, foi organizado, no Rio de Janeiro, o Laboratório
de Toxicologia, o primeiro a ser instalado no Estado.5
Nesse mesmo ano, no Rio de Janeiro, como parte das comemorações do centená-
rio da proclamação da Independência do Brasil, foram construídas várias edificações
entre a Esplanada do Castelo e a Praça XV, incluindo o Instituto Médico-Legal, onde,
hoje, funciona o Museu da Imagem e do Som (Figura 1.1).
Em 1924, o chamado Serviço Médico-Legal passou a denominar-se Instituto Mé-
dico-Legal, órgão subordinado diretamente ao Ministério da Justiça.8
Um novo necrotério foi construído na Praça XV. No final do governo de Washing-
ton Luís, o Instituto Médico-Legal retorna à subordinação da Chefia da Polícia do
Distrito Federal.
Em 1931, houve a ampliação do Serviço Médico-Legal, com aumento do quadro
de legistas e auxiliares e instalações do Posto Médico-Legal do município de Cam-
pos, no norte do Estado do Rio de Janeiro.5 No ano seguinte, em pleno Governo
6 Manual de Técnicas em Necropsia Médico-Legal

Figura 1.1 Prédio do IML, em estilo art-noveau construído em 1922, na Praça XV, onde,
atualmente, funciona o Museu da Imagem e do Som

Provisório, construiu-se um anfiteatro no IML para a realização das aulas práticas das
Faculdades oficiais.8
Em 1933, foi construído em Niterói um necrotério, onde as necropsias passaram
a ser realizadas e que funciona até a presente data. No mesmo ano, mudou-se a
denominação do então Serviço Médico-Legal para Instituto Médico-Legal, com nova
reorganização e ampliação de seus serviços e aumento do quadro de médicos e au-
xiliares.5
Em 1934, novas modificações surgiram com o decreto governamental que criava
o Departamento de Polícia Técnica, que constitui a Polícia Científica do Estado e foi
composto de três órgãos: Instituto Médico-Legal, Instituto de Identificação e Escola
de Polícia.5
No Estado Novo, foi construído em 1937 um prédio no qual passaram a funcionar
os órgãos do Departamento de Polícia Técnica.5 No ano seguinte, o Instituto de Identi-
ficação, que havia sido extinto, reaparece com o nome de Instituto de Criminologia.5
De 1939 em diante foram criados diversos postos médico-legais no interior do
Estado do Rio de Janeiro. Citam-se, entre outros, Nova Iguaçu, Friburgo, Barra do
Pirai, Pádua e Petrópolis.5
Entra em cena o Código de Processo Penal, criado pelo Decreto-Lei nQ 3.689,
de 3/10/1941, cujo artigo 159 determina que as perícias deverão ser realizadas por
História da Necropsia no Brasil 7

peritos oficiais. Os professores de faculdade, embora altamente qualificados, não po-


deriam mais dar aulas práticas no IML.
Em 1944, o então Instituto de Criminologia passa a se chamar Instituto de Polícia
Técnica.5 Em 1949, a sede do IML do Rio de Janeiro é deslocada para a Rua dos Invá-
lidos, n fi 152, na Lapa (Figuras 1.2 a 1.5).

Figura 1.2 Croqui do novo edifício do IML do Rio de Janeiro, inaugurado em 1949: fachada
da Rua dos Inválidos, 152, Centro, Rio de Janeiro

Figura 1.3 Croqui do edifício inaugurado em 1949: fachada da Rua M e m de Sá, 152, Centro,
Rio de Janeiro
8 Manual de Técnicas em Necropsia Médico-Legal

Figura 1.4 Presidente Eurico Gaspar Dutra descerra placa de inauguração do prédio do
IMLAP, em 1949

Figura 1.5 IMLAP: hall de entrada na Rua dos Inválidos, 152, Centro, Rio de Janeiro

Nos anos 1950 surgem especialistas na área de medicina legal, nas disciplinas
anatomia patológica, hematologia, radiologia e neuropsiquiatria. Nos anos 1960, a
média de necropsias do IML do Rio de Janeiro atingiu 15 a 20 por dia, o que fez com
que a instituição ampliasse seus quadros (Figuras 1.6 a 1.8).
Figura 1.6 IMLAP: aula da turma de 1958 do curso de formação de médicos-legistas

Figura 1.7 Frigoríficos no 4 a andar, lado direito (1962)

Figura 1.8 Câmara frigorífica sem ventilação feita pelo Pr. Vicente Lopes no 3a andar (1960)
10 Manual de Técnicas em Necropsia Médico-Legal

Em 1967, em Niterói, fundou-se a Sociedade Brasileira de Medicina Legal, na sede


do Instituto Médico-Legal.8 Um ano depois, foi realizado em outubro o I Congresso
Brasileiro de Medicina Legal, na cidade de Petrópolis. Também em 1968 foram inau-
guradas em Niterói novas e modernas instalações do Instituto Médico-Legal.5
Em 1969, surge a Revista do Instituto Médico-Legal (Figura 1.9), periódico cujos
números foram indexados em resenhas internacionais (tais como a Escerpta Medica
de Basiléia) e distribuídos entre a toda comunidade científica do seu campo de atua-
ção, tamanha a qualidade dos trabalhos nele publicados. Contudo, a falta cie verba
inviabilizou a continuação da publicação, e a Revista do IML foi interrompida após
poucos anos de atividade.
Fatos de natureza política e econômica, a mudança da capital federal para Brasília
e a fusão dos antigos Estados da Guanabara e do Rio de Janeiro em 1975 marcam o
início da decadência da instituição. 0 último encontro se deu em 1994, no XIII Con-
gresso Brasileiro de Medicina Legal, realizado em Brasília.

REVISTA DO

INSTITUTO MEDICO-LEGAL
DO ESTADO DA GUANABARA

(ÒRQAO OFICIAL DO CENTRO DE ESTUDOS)

ANO 1 o i r r i n a o MCMLXIX VOL I - N.» i


KIO DI J AN Kl KO ODANABABA WUSIL

Figura 1.9 Capa da 1 a edição da Revista do Instituto Médico-Legal, publicada em outubro


de 1969
História da Necropsia.no Brasil 11

A fachada do prédio na Rua Mem de Sá e outras dependências do IMLAP podem


ser vistas nas Figuras 1.10 a 1.13.

Figura 1.10 Instituto Médico-Legal


Afrânio Peixoto: fachada da Rua M e m
de Sá, 152, Centro, Rio de Janeiro

Figura 1.11 Sala dos frigoríficos, no 4 2 andar, com câmaras do lado esquerdo (1949)
12 Manual de Técnicas em Necropsia Médico-Leqal

Figura 1 , 2 ,MLAP, (A) Capela mortuária centra, e (B) capelas mortuárias centra,s, no térreo
História da Necropsia no Brasil 13

Figura 1.13 Sala de necropsia, no 3 2 andar (1949)

Com arquitetura moderna e funcional, o novo prédio do IMLAP, a ser inaugurado


em 2009, propiciará nova fase da perícia médico-legal no Estado do Rio de Janeiro.
Inovações tecnológicas aplicadas às ciências forenses estarão presentes nessa nova
sede (Figura 1.14).

Figura 1.14 Nova sede do IMLAP no Rio de Janeiro


14 Manual de Técnicas em Necropsia Médico-Legal

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1. PATARO, O. Medicina legal e prática forense. São Paulo: Editora Saraiva, 1976.
2. GOMES, H. Medicina legal. 33. ed., revista e atualizada. Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 2004.
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Medicina e do Hospital Universitário da UFRJ], v. 2, n. 2, p. 53-58, 1988. ,
7. http://www.bahia.ba.gov.br/ssp/imlnrorgvinc.htm
8. BLANCO, R. Medicina legal. Curso em DVD, 1996.
9. SANTOS FILHO, L. História geral da medicina brasileira, volumes I e II. São Paulo: Edusp,
1991.
10. FRANÇA, G.V. Medicina legal, 6. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2001.
11. PRESTES, L.C.L. 0 resgate da medicina legal. Jornal do CREMERJ, out. 2002, p. 4.
Aspectos Legais e Éticos da Necropsia

OBJETIVOS

Este trabalho tem por objetivo apontar os aspectos éticos e legais relacionados com
a necropsia, fundamentados no decálogo ético de Genival França e na normatiza-
ção penal, respectivamente. Seguindo este caminho, a perícia da necropsia se faz de
forma ética, respeitando os preceitos legais e dando ênfase à importância da prova
técnica como elemento de demonstração do fato, auxiliando a atividade judiciária na
condução processual.

INTRODUÇÃO

Ao longo da história da humanidade, ocorreram fatos, tais como o aumento da


densidade demográfica, guerras, crises econômicas, que abalaram a estrutura da
sociedade. Contudo, sempre foi possível manter a convivência entre os homens. A
convivência se tornou possível graças às normas que costumam validar os costumes
vigentes e consagrar valores de ordem moral, estabelecendo as normas morais em
um contexto social.
Quando comparamos o passado com o presente, ou territórios diferentes, obser-
vamos que essas normas sofreram algumas variações. Assim, poderíamos afirmar que
cada região e cada época obedecem ao que é ditado (ou imposto) como correto ou
moralmente válido.
A transgressão das normas morais deixa o indivíduo constrangido e com noção de
culpa, porém nâo o priva de sua liberdade e nem lhe retira bens materiais.
Há, entretanto, um conjunto de normas - ditas jurídicas - que protegem bens de
maior relevância para a sociedade e, quando violadas, sâo passíveis de sanções que
16 Manual de Técnicas em Necropsia Médico-Legal

variam da simples prestação pecuniária à restrição da liberdade. Portanto, as ações


humanas que estejam fora desses campos são consideradas imorais e ilegais.
Quando ocorre violação das normas morais, o indivíduo passa a ser rejeitado,
ficando à margem da sociedade. Na violação das normas jurídicas, ele também é
alvo da rejeição e da marginalização imposta pela sociedade, tornando-se também
necessário um conjunto de medidas prescritas pelo direito processual para que seja
verificada e sanada a lesão de direito e a reparação do dano. A esse conjunto de me-
didas dá-se o nome de processo.
No processo, os fatos registrados devem ser comprovados por meio de testemu-
nhos ou análises periciais. As testemunhas, em seus depoimentos, comprovam fatos'
transitórios, como, por exemplo, uma ofensa verbal. Nas análises periciais são com-
provados elementos materiais, tais como vestígios de pólvora, comparações balísticas,
lesões deixadas em conseqüência de abusos sexuais etc. Para isso se faz necessário o
uso de pessoas qualificadas e habilitadas na realização dessas perícias, os chamados
peritos.
De acordo com os vestígios deixados, indicam-se profissionais com diferentes for-
mações, tais como médicos, odontólogos, biólogos, para a realização dos exames
específicos. Outro profissional muito atuante na perícia é o técnico-como, por exem-
plo, o de necropsia, que fornece as condições para que o perito legista visualize com
clareza as lesões, descreva-as de forma detalhada e possa então tirar conclusões que
serão apresentadas no laudo pericial.

ASPECTOS LEGAIS DA NECROPSIA

Conceituação
A necropsia, entre outras perícias médico-legais, é definida como ato médico, que,
como tal, envolve um conjunto de procedimentos técnico-científicos e tem como
finalidade o esclarecimento de um fato de interesse da Justiça. Isto porque o estudo
da causa da morte se justifica não somente pela necessidade médica - no intuito
de poder declará-la com máxima precisão, para o preenchimento e expedição da
declaração de óbito -, como também pela necessidade jurídica, no intuito de dirimir
dúvidas, quando se trata de morte suspeita ou violenta.
É importante salientar que o escopo deste texto é a explanação de aspectos legais
concernentes às necropsias médico-legais, as quais se diferenciam das necropsias ana-
tomopatológicas ou clínicas. As necropsias clínicas devem ser realizadas no Serviço de
Verificação de Óbitos dos hospitais ou serviços de anatomia patológica, e destinam-se
à investigação da causa médica da morte natural. As necropsias anatomopatológicas
são executadas por um médico patologista. As necropsias médico-legais outrora reali-
zadas por dois médicos-legistas têm atualmente - diante das mudanças do Código
Aspectos Legais e Éticos da Necropsia 17

de Processo Penal -, a exigência de pelo menos um médico-legista para subscrever o


laudo. Devem ser sempre requisitadas pela autoridade competente, ou seja, o juiz de
direito, o delegado de Polícia (que preside o inquérito policial), o oficial da organiza-
ção militar que preside inquérito policial-militar etc.
Ainda que as diferenças entre ambas as modalidades sejam nítidas, alguns casos
podem, à luz da necropsia clínica, apresentar vestígios de ação suspeita ou violenta,
devendo mediante requisição de autoridade competente, ser encaminhados para a
necropsia forense.

Dispositivos legais da necropsia médico-legal


As necropsias médico-legais estão disciplinadas especificamente no artigo 162 do
capítulo 2 (Do Exame de Corpo de Delito e das Perícias em Geral) do Código de
Processo Penal (Decreto-Lei 3.689, de 3 de outubro de 1941), embora outros artigos
desse mesmo capítulo também disciplinem a respeito dos exames de corpo de delito
em geral.
A finalidade da necropsia médico-legal, assim como de qualquer outra perícia, é
produzir a prova, e esta não é outra coisa senão o elemento demonstrativo do delito
que auxilia na convicção do juiz sobre os elementos necessários para a decisão da
causa.
0 artigo 162 do Código de Processo Penal estabelece que, respeitado o tempo
mínimo de 6 horas a partir do momento do óbito, o corpo a ser necropsiado per-
manecerá á inteira disposição do estudo médico-legal, ressalvando que poderá ser
realizado antes daquele tempo a critério dos peritos, em face dos sinais evidentes de
morte, o que deverão obrigatoriamente declarar no laudo.
É interessante reafirmar que a necropsia médico-legal se dá por determinação
da autoridade, e não necessita, uma vez ordenada a sua realização, da anuência, da
autorização ou da recusa de algum familiar ou de qualquer outra pessoa relacionada
com o morto. A disponibilidade jurídica do corpo determina que, nos casos de morte
violenta ou suspeita, os despojos mortais, temporariamente, não pertençam à família,
mas ao Estado, pelo menos até que a autoridade requisitante veja satisfeitas todas as
indagações sobre a causa da morte.
Aos familiares ou a quem couber tal responsabilidade será permitido o velório e/ou
a inumação somente após a liberação oficial do corpo necropsiado.
A necropsia se materializa através de laudo, conforme definido no artigo 160 do
Código de Processo Penal. O laudo é a peça escrita, cujas informações médicas têm
por base o material em exame - ou seja, o cadáver. Os laudos são relatórios escritos
e elaborados com todos os elementos necessários para a elucidação médica do caso.
Embora conceitualmente existam diferenças entre laudo e auto, na prática esses ter-
mos vêm sendo utilizados, muitas vezes, indistintamente. O auto é definido por um
tipo de relatório simples e imediato, ditado pelo médico-legista ao escrivão. Diferen-
18 Manual de Técnicas em Necropsia Médico-Legal

temente, o laudo é confeccionado pelo perito-legista após a realização do exame


pericial, de forma escrita e bem elaborada, respondendo a quesitos específicos, po-
dendo ser acrescido de esquemas, desenhos, fotografias etc.
Com a nova redação alterada pela Lei 11.690, de 2008, o artigo 159 do Códi-
go de Processo Penal estabelece que as necropsias, incluídas nas demais perícias de
corpo de delito, devem ser feitas, em regra, por perito oficial. Peritos são profissio-
nais especialistas, qualificados e que fornecem à autoridade requisitante da perícia
esclarecimento a respeito de assuntos próprios de sua especialidade. Seguindo esse
entendimento, qualquer um poderá ser designado para tal fim, desde que atenda às
qualidades exigidas, embora, na prática, a preferência seja por peritos oficiais. Nas
necropsias médico-legais, os peritos são médicos-legistas e fazem parte dos deno-
minados peritos-legistas. A lei também prevê a situação em localidades nas quais
não haja peritos oficiais, preconizando que o exame seja realizado por duas pessoas
idôneas, portadoras de diploma de curso superior, escolhidas, de preferência, na área
específica e entre as que tiverem habilitação técnica relacionada com a natureza do
exame: são os chamados "peritos ad hoc".
No Código de Ética Médica (Resolução CFM n2 1.246/88, capítulo XI) fica vedado
ao médico-legista:

a) Deixar de atuar com absoluta isenção, assim como ultrapassar os limites de


suas atribuições e competência.
b) Assinar laudos periciais ou de verificação médico-legal que não tenha realizado
ou de cujo exame não tenha participado pessoalmente.
c) Periciar um paciente seu, pessoa de sua família ou qualquer pessoa que tenha
relações capazes de influir em seu laudo.
d) Interferir nos atos profissionais de outros peritos ou fazer qualquer apreciação
em presença do examinado, reservando suas observações para o relatório.

Finalidades da necropsia médico-legal


As necropsias médico-legais devem atender basicamente a quatro objetivos:

• Identificação do cadáver: na prática, esta função não é exercida diretamente


pelo perito-legista, mas por outros profissionais especializados, tais como papilos-
copistas ou odonto-legista.
• Determinação da causa médica da morte: verificar a existência de outros esta-
dos patológicos preexistentes no momento da morte e estabelecer, ou não, nexo
de causalidade com o óbito.
• Dar subsídios para a determinação da causa jurídica da morte: em tese,
não é responsabilidade do perito-legista tipificar a causa mortis jurídica. Entretan-
to, ele tem o dever de reunir e oferecer todos os elementos técnicos sugestivos
que possibilitem a reconstituição da dinâmica dos fatos, seja como acidente, seja
como suicídio ou homicídio.
Aspectos Legais e Éticos da Necropsia 19

• Determinação da data provável da morte: embora não seja o objetivo prin-


cipal da necropsia e, em muitas circunstâncias, tecnicamente difícil, a cronotana-
tognose poderá ser aplicada em alguns casos cujos vestígios possibilitem a estima-
tiva da data provável da morte.

Necropsias no Instituto Médico-Legal Afrânio Peixoto


No Brasil, as necropsias, assim como outras perícias médicos-legais, são atividades
oficiais e públicas, exercidas nos Institutos Médico-Legais (IML). A maioria dos IML
das 27 capitais permanece vinculada às suas respectivas Secretarias de Segurança,
mesmo após a nova redação da Constituição Federal de 1988, que institui a auto-
nomia dos institutos. Entretanto, somente em alguns Estados os IML passaram a ser
desvinculados das Secretarias de Segurança, usufruindo de autonomia administrativa
e orçamentária.
No Estado do Rio de Janeiro, a Secretaria de Segurança Pública estabelece que o
Instituto Médico-Legal Afrânio Peixoto é o órgão responsável pelas necropsias médi-
co-legais. A Lei estadual 3.586, de 21 de junho de 2001, dispõe que "ao perito-le-
gista, que deverá ser portador de diploma de médico, responsável pelas necropsias,
caberá determinar o dia e a hora das mesmas, fazendo a supervisão direta do exame
executado pelo técnico policial de necropsia".
O Decreto 4.229, de 13 de maio de 2002, que dispõe sobre o Programa Nacional
de Direitos Humanos - PNDH, faz referência à questão da autonomia pericial ao tratar
das ações governamentais de médio prazo, nos seguintes termos: "Fortalecer os Ins-
titutos Médico-Legais ou de Criminalística, adotando medidas que assegurem a sua
excelência técnica e progressiva autonomia".

ASPECTOS ÉTICOS DA NECROPSIA

Conceituação
A ética é uma ciência difícil de conceituar, pois baseia-se nos costumes, nos valores e
nos princípios que diferem de pessoa para pessoa. Se nos detivermos no significado
restrito da palavra, veremos que muitas vezes ética se confunde com moral, pois suas
raízes têm o mesmo significado. Ética deriva da palavra grega ethos, que significa
caráter, costumes, modo de conduta. Moral deriva do latim mos, ou mores, que
significa costumes. Analisando dessa forma, podemos dizer que ética é a ciência dos
costumes.
A ética é a ciência que busca os modelos de conduta dos seres humanos. Mas
como definir quais são esses modelos? Como bem explica Nalini (1997), a ética se
fundamenta em valores, que em geral são designados valores do bem, estabelecendo
20 Manual de Técnicas em Necropsia Médico-Legal

que existe uma conexão entre dever e o que é valioso. Desta forma, para que saiba-
mos o que fazer precisamos antes refletir sobre o que é valioso na vida.
Assim como existem modelos de conduta na vida em sociedade, existem também
modelos para a vida profissional, os quais se tornam deveres profissionais, já que o
exercício da profissão não é um ato isolado, mas uma seqüência de ações objetivando
a prestação de um serviço à sociedade. Esses deveres, conforme afirma Lopes (2000),
recaem sobre o profissional que se vê comprometido com todo um conjunto de nor-
mas éticas, compatíveis com as atividades desempenhadas. Tal conjunto de normas é
geralmente reunido em um código, emitido pelos órgãos fiscalizadores da profissão,
que se denomina Código de Ética.
A discussão em torno da utilização de cadáveres nunca cessou. Inicialmente usados
para fins de aprendizagem sobre o corpo humano, posteriormente foram utilizados
como recurso para abordagem terapêutica, e também como objeto de investigação
criminal. Todas as instituições que lidam com cadáveres devem seguir normas éticas
para essa utilização. Incluem-se aí as instituições com fins de ensino. Valores como a
dignidade da pessoa humana e a utilização correta e respeitosa são imprescindíveis,
devendo estar bem fundamentados e enraizados na mente de todos os profissionais
que lidam com cadáveres. Conforme afirma ainda o mesmo autor, a sociedade tem
o dever de atentar para esses valores de modo a impedir sua transgressão, não só
propondo uma legislação eficaz para a prevenção e solução de conflitos que possam
surgir, como também por meio de uma formação moral dos indivíduos.

Decálogo ético do perito


França (2001) propõe um decálogo como orientação ética na condução da arte peri-
cial, baseado na tradição moral que fez dessa atividade uma inestimável contribuição
nas conquistas da cidadania e do respeito aos interesses mais justos da sociedade.

1. Evitar conclusões intuitivas e precipitadas: convencer-se de que a prudência


é tão necessária quanto a produção da melhor e mais inspiradora perícia. Jamais
se firmar no subjetivismo e na precipitada presunção para concluir sobre fatos
que são importantes e decisivos para os interesses dos homens e da sociedade.
2. Falar pouco e em tom sério: conscientizar-se de que a discrição é o meio pelo
qual o indivíduo deve se proteger dos impulsos da vaidade, sobretudo quando
a verdade que ainda se procura provar está sub judice ou quando ainda não se
apresenta nítida e isenta de contestação. O profissional deve evitar declarações
precipitadas e sensacionalistas em entrevistas. Deve falar o imprescindível, sem-
pre com a noção da exata oportunidade.
3. Agir com modéstia e sem vaidade: aprender a ser humilde. O sucesso deve vir
de um processo lento e como resultado da boa conduta ética, e nunca da pre-
sença ostensiva do nome ou do retrato do profissional nas colunas dos jornais.
Aspectos Legais e Éticos da Necropsia 21

Não há desmerecimento no fato de as atividades periciais serem realizadas no


anonimato, delas apenas tendo conhecimento as partes interessadas e a admi-
nistração judiciária.
4. Manter o sigilo exigido: deve ser mantido o segredo pericial na sua relativa ne-
cessidade e na sua compulsória solenidade. Nos seus trâmites mais graves, deve
o perito manter a discrição, a sobriedade, evitando que suas declarações sejam
transformadas em catastróficos pronunciamentos com nocivas repercussões.
5. Ter autoridade para ser acreditado: ao que se afirma e conclui, exige-se tam-
bém uma autoridade capaz de se impor fazendo calar com sua palavra as insi-
nuações oportunistas. Decidir com firmeza. A incerteza é sinal de insegurança
e afasta a confiança que se deve impor. Se uma decisão é vacilante, a arte e a
ciência tornam-se fracas e duvidosas.
6. Ser livre para agir com isenção: comparando os fatos entre si, concluir com
acerto, através da convicção, relacionando-os e chegando a conclusões sempre
claras e objetivas. Não permitir de maneira alguma que suas crenças, suas ideo-
logias e suas paixões venham influenciar em um resultado para o qual se exige
absoluta isenção e imparcialidade.
7. Não aceitar a intromissão de ninguém: sendo autoridade ou não, o profissio-
nal não deve permitir a intromissão ou a insinuação de ninguém que pretenda
modificar sua conduta ou dirigir o resultado para um caminho diverso das suas
legítimas e reais conclusões, com a finalidade de não trair os objetivos da justiça
e o interesse da sociedade.
8. Ser honesto e ter vida pessoal correta: é preciso ser honesto para ser impar-
cial. Só a honestidade confere um cunho de respeitabilidade e confiança. Ser
íntegro e sensato. Convém evitar certos hábitos, mesmo da vida íntima, pois
podem macular a confiabilidade de uma atividade.
9. Ter coragem para decidir: coragem para afirmar ou para dizer não. Coragem
para concluir ou confessar que não sabe. Ter a altivez de assumir a dimensão da
responsabilidade dos atos e nunca deixar que decisões tenham seu rumo torcido
por interesses alheios.
10. Ser competente para ser respeitado: manter-se permanentemente atualiza-
do, aumentando a cada dia o saber. Para isso, é preciso obstinação, devoção
e dedicação apaixonada, pois só assim os laudos terão a elevada consideração
pelo rigor com que são elaborados e pela verdade que carregam.

Utilizando a ética e evitando problemas


No que tange à avaliação da responsabilidade do perito diante de um ato pericial que
suscite dúvidas, França (2001) evidencia alguns aspectos a serem considerados, tais
como: o dever da informação, baseando-se no princípio da transparência, que fala
da imprescindibilidade dos esclarecimentos necessários para a boa execução da pe-
22 Manual de Técnicas em Necropsia Médico-Legal

rícia; o dever da atualização profissional, que fala da necessidade do perito dfe, além
da habilitação profissional, buscar sempre a atualização de conhecimentos; o dever
de abstenção de abusos, que prega que o perito deve cercar-se de cautela e evitar
a precipitação; e o dever de vigilância, que reza pela necessidade do perito de evitar
qualquer ato que possa ser caracterizado como omissão ou descaso.
Esses valores são importantes para assegurar o bom trabalho e evitar problemas.
Em 2000, conforme matéria do jornalista Renato Antônio Henrichs, publicada em um
periódico de Caxias do Sul - RS, ocorreu um caso em que a má conduta profissional
acarretou problemas. Um cadáver deu entrada no IML da cidade às 23:30h de um
domingo, mas a médica perita de plantão encontrava-se em Porto Alegre. A ausência
da profissional acarretou demora na necropsia, que terminou às 8:00h da manhã do
dia seguinte, causando revolta nos familiares que comunicaram o fato à imprensa
local. Um desvio de conduta que trouxe problemas para a médica perita.
Outro fato digno de nota e que vem causando polêmica na Europa é a utiliza-
ção de cadáveres para exposição pública, como ocorreu em 2001, na Alemanha. O
médico alemão Von Haegens criou uma exposição a que chamou de Kõperwelten
- Mundo dos Corpos - na qual exibiu cerca de 200 cadáveres submetidos à técnica
denominada plastinação, por ele desenvolvida. Muitos foram os protestos de institui-
ções religiosas e de pessoas que visitaram a exposição. Da mesma forma houve quem
aprovasse.
Posteriormente, esse médico, em um canal da televisão inglesa, exibiu uma "au-
topsia ao vivo", em que dissecou diante dos telespectadores um cadáver de um idoso.
Segundo o telespectador Antônio Brasil, a transmissão apresentou-se com requintes
dramáticos:

[...] Tenho que reconhecer que o médico alemão é um verdadeiro show-


man\ Faria o maior sucesso na tevê brasileira. As câmeras ágeis mostravam
tudo em detalhes a uma platéia cada vez mais curiosa e atenta. "Senhoras
e senhores, aqui está o coração do morto." Aplausos! Com um bisturi em
close-up, fazia incisões e explicava que aquele pobre homem provavelmente
teria sido um alcoólatra e fumava muito. A platéia em tom de exclamação
reage: Oh! [...].

Em meio a tanta discussão, o Dr. Von Haegens defende-se alegando que sua inten-
ção, além de educativa, foi desmitificar a morte. "Temos que desmitificar a prática e a
profissão médica. Todos têm o direito de saber como vivemos e como morremos."
Fins educativos? Desmitificar a morte? Onde fica a ética em tudo isso? Será que
todos os valores já mencionados devem ser sacrificados em nome da ciência? Será
que a perda desses valores não acabará levando a uma banalização da morte? Tudo
deve ser bem pesado e pensado antes de uma decisão, mas o fato é que uma socie-
dade sem valores e sem ética não consegue subsistir, pois o que é valioso tem caráter
Aspectos Legais e Éticos da Necropsia 23

subjetivo, varia de indivíduo para indivíduo, e se cada um colocar em prática aquilo


que acha válido, sem considerar o bem comum, o caos se instalará.

CONCLUSÃO

Desde a Antiguidade até os nossos dias, sucederam-se os povos, cresceu a população,


houve conflitos que mudaram as relações entre as classes sociais, mas sempre a convi-
vência do homem em sociedade continuou, e se mantém até hoje, regida por normas
que validam os costumes vigentes, consagrando valores morais e éticos.
Quando ocorrem condutas contrárias às convenções morais e éticas, é abalada a
harmonia da vida em sociedade. Essas condutas ilegais e imorais vão desde um fato
transitório (ofensas verbais) a fatos duradouros, que devem ser comprovados por
pessoas para isso capacitadas, conforme a natureza dos vestígios deixados.
O técnico qualificado, nesse caso, é genericamente chamado de perito, que pode
examinar uma pessoa ou uma coisa, dependendo da natureza da infração.
A finalidade da perícia na necropsia médico-legal, assim como em qualquer outra
perícia, é produzir a prova - elemento de demonstração do fato - que vai auxiliar na
convicção do juiz sobre os elementos necessários para a decisão da lide.
Assim, a necropsia tem a faculdade de contribuir para a revelação da existência ou
não de um fato contraditório ao Direito.
Em termos práticos, a necropsia médico-legal tem como outras funções a identi-
ficação do cadáver, a determinação da causa médica da morte e, em alguns casos, a
determinação da data provável da morte.
Obedecendo sempre aos conceitos éticos, morais e legais, os peritos, técnicos e
auxiliares de necropsia têm de manter o sigilo exigido, ser competentes naquilo que
fazem, ser honestos, atuar com total isenção para não modificar o resultado do tra-
balho e agir com modéstia e sem vaidade.
Seguindo os preceitos éticos e morais, com respaldo legal, todos esses profissio-
nais certamente vão assegurar um bom trabalho e evitar problemas, visto que uma
sociedade sem valores legais e éticos não conseguiria subsistir.

BIBLIOGRAFIA

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Nacional de Direitos Humanos - PNDH, instituído pelo Decreto ne 1.904, de 13 de maio de 1996, e
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3
\
Instrumental Utilizado em Necropsia

Grande parte do instrumental utilizado em necropsia é de aplicação cirúrgica. No


Brasil, há pequenas variações com relação ã utilização de equipamentos e manobras
realizadas em necropsias policiais, porém, o que se observa é que essa variação de-
corre mais da preferência dos profissionais envolvidos do que necessariamente de
alteração da técnica.
A seguir, apresentamos uma lista do instrumental cirúrgico utilizado em necropsia
forense na maioria dos Institutos Médico-Legais do Brasil.

• Agulha para sutura, triangular, reta, com cerca de 10cm de comprimento.


• Agulha para sutura, triangular, semi-reta, com cerca de 10cm de comprimento.
• Balança para pesar o corpo.
• Balança para pesar órgãos grandes.
• Balança para pesar órgãos pequenos.
• Balança de análise para pesar órgãos muito pequenos, tais como as glândulas
paratireóides.
• Bandagem ou tecido de algodão.
• Bisturi abotoado.
• Bisturi descartável.
• Bisturi escalpelo pequeno/grande.
• Bisturi Esmarch.
• Cepo.
• Chaira.
• Cinzel de Hibbs.
• Cisalha de Liston articulada.
• Concha em aço inoxidável com cuba e cabo em peça única, tendo o cabo cerca
de 20cm de comprimento e a concha 100mL de volume.
• Costótomo.
26 Manual de Técnicas em Necropsia Médico-Legal

• Enterótomo.
• Escopro.
• Estilete em aço inoxidável.
• Faca de amputação de Collin.
• Faca de Virchow.
• Formão com lâmina em aço inoxidável de 3cm x 10cm.
• Linha crua.
• Machadinha.
• Martelo Hajek.
• Mayon.
• Osteótomo.
• Paquímetro em aço inoxidável para medidas de até 150mm.
• Pedra para afiar lâminas, de dupla face, com no mínimo 20cm de comprimento e
no máximo 4cm de largura.
• Pinça de Backhaus, Lorna e Benhard.
• Pinça de Collin para extração de projetis.
• Pinça de dissecção anatômica, em aço inoxidável, com 25cm de comprimento,
com bordas rombas e parte interna serrilhada.
• Pinça de dissecção do tipo dente de rato, em aço inoxidável, com 20cm de com-
primento.
• Pinça de dissecção do tipo dente de rato, em aço inoxidável, com 25cm de com-
primento, com bordas rombas e parte interna serrilhada.
• Pinça hemostática de Crile, Kocher e Kelly.
• Pinça para osso.
• Pino de Steinmann.
• Raquítomo.
• Rugina de Farabeuf reta e curva.
• Rugina de Putti.
• Rugina de Robert Jones.
• Serra Mathieu com três lâminas.
• Serras de Weiss, de Collin, de Charriere, de Saterrice ou serra de arco utilizada em
construção civil.
• Serra vibratória.
• Sonda de 1 mm de diâmetro.
• Tentacânula em aço inoxidável, com cerca de 18cm de comprimento.
• Tesoura abotoada.
• Tesoura Mayo curva, em aço inoxidável, com 22cm de comprimento, pontas rom-
ba-romba.
• Tesoura Mayo reta, em aço inoxidável, com 17cm de comprimento, pontas finas.
• Tesoura Mayo reta, em aço inoxidável, com 17cm de comprimento, pontas fina-
romba.
Instrumental Utilizado em Necropsia 27

• Tesouras Reyman, Smith, Lister, Esmarch, Seutin, Metzenbaum, (ris e Mayo.


• Trena em aço inoxidável, com 2m de comprimento.

O presente trabalho tem por objetivo descrever o instrumental e sua utilização


na rotina das dependências das salas de necropsia do Instituto Médico-Legal Afrânio
Peixoto do Estado do Rio de Janeiro.
Por motivos didáticos, dividiremos o instrumental em dois grupos e a necropsia
em quatro tempos. No primeiro grupo do instrumental encontram-se os instrumentos
utilizados diretamente na necropsia e, no segundo grupo, os instrumentos de medi-
das. A necropsia, por sua vez, foi dividida em quatro tempos principais:

1. Incisões.
2. Craniotomia. «
3. Inspeção da cavidade toracoabdominal.
4. Reconstituição.

TEMPOS DA NECROPSIA

Incisões
As principais incisões são a incisão bimastóidea, que possibilita o afastamento dos re-
talhos anterior e posterior do couro cabeludo, expondo o crânio, e as que se destinam
a expor as cavidades torácica e abdominal. No IML Afrânio Peixoto do Rio de Janeiro
utilizam-se rotineiramente as incisões bimastóideas e submentoxifopubiana.
Os instrumentais utilizados nas incisões são:

• Cepo.
• Chaira.
• Pedra para afiar lâminas, de dupla face, com no mínimo 20cm de comprimento e
no máximo 4cm de largura.
• Bisturi descartável.
• Bisturi do tipo escalpelo pequeno/grande.
• Faca de amputação de Collin.
• Tesoura de Smith.
• Faca de Virchow.

Cepo
Compõe-se de um bloco maciço em forma de paralelepípedo, de material sintético
liso, com uma concavidade em um dos lados maiores, em que se observam elevações
transversais ao fundo. É utilizado para apoiar a cabeça ou o tronco do cadáver, com
isso melhorando o ângulo de trabalho (Figura 3.1).
F i g u r a 3.1 Cepo

Chaira e pedra de afiar


São instrumentos utilizados para manter afiado o gume das lâminas (Figuras 3.2 e
3.3), exigindo-se do operador destreza para o procedimento de afiar. Nos casos de
material cirúrgico de aço é preferível que o mesmo seja tratado por pessoal especia-
lizado.
A chaira não gera o fio, apenas o mantém. É composta de uma peça de plástico
resistente, com duas abas laterais. Nesse cabo plástico encontra-se encravada uma
peça de aço com ranhuras longitudinais. A chaira é usada corretamente da seguinte
maneira:

• O operador volta o cabo para si e encaixa o polegar sob uma das abas.
• Ergue a chaira à sua frente na altura do peito, confortavelmente afastada do corpo.
• Em seguida, desliza a faca formando um ângulo de cerca de 30°, com o corpo da
chaira na direção do seu corpo, ou seja, para baixo, conduzindo a ponta da faca
para a região inferior da chaira.
• Repete o mesmo com a outra face da faca, um movimento para cada lado.
• Para testar o grau do corte, é utilizado o próprio tecido do cadáver.

Figura 3 . 2 Tipos de pedra de afiar


Instrumental Utilizado em Necropsia 29

Figura 3.3 Chaira

Esses procedimentos garantem mais segurança, menos esforço e preservação do


material.

Bisturi e facas de Collin e de Virchow


São instrumentos destinados a incisão da pele e para a abertura do tecido subcutâneo
e dos tecidos adjacentes (Figuras 3.4 a 3.6). A faca de amputação também podê ser
utilizada para cortar órgãos quando se deseja apurar lesões intraparenquimatosas ou
objetivando enviar amostras para exames histopatológico e toxicológico.
É importante que a faca tenha um corte bem afiado, pois a precisão do corte
garante fatias mais uniformes, melhorando a ação do formol e facilitando a tarefa de
criar lâminas de boa qualidade.
Para o bom desempenho funcional e com todo o rigor de segurança, o profissio-
nal deve abster-se de utilizar material inadequado ao que se propõe.

Figura 3.4 Facas de Virchow

Figura 3.5 Forma correta de empunhar o


bisturi, segundo Lazzeri
30 Manual de Técnicas em Necropsia Médico-Legal

Figura 3.6 Alguns tipos de lâminas e bisturis descartáveis

É oportuno lembrar a frase sempre dita pelo saudoso anatomista Celestino Pedro
Rezende Neto: "Por motivos de segurança, as facas e os bisturis, quando não estive-
rem sendo utilizados, deverão estar sempre sobre a mesa, da mesa para o cadáver e
do cadáver para mesa."

Tesoura de Smith
É uma tesoura robusta utilizada para cortes grosseiros que não requerem regularida-
de ou precisão, como cortar vestes e bandagens presentes no cadáver (Figura 3.7).
Instrumental Utilizado em Necropsia 31

Craniotomia
A craniotomia é um procedimento que se segue à incisão bimastóidea e ao afasta-
mento dos retalhos anterior e posterior do couro cabeludo. 0 tipo de craniotomia
depende da faixa etária do cadáver. Na abertura do crânio de adulto, utiliza-se a serra
elétrica. Na criança pequena, principalmente naquelas com idade inferior a 1 ano,
utiliza-se a tesoura como preconiza a técnica de Benecke. O instrumental utilizado na
craniotomia compõe-se de:

• Rugina Lambotte.
• Ruginas de Farabeuf, reta e curva.
• Rugina de Putti.
• Rugina de Robert Jones.
• Serra Mathieu (também conhecida como serra de Farabeuf).
• Serra vibratória.
• Serras de Weiss, de Collin, de Charriere, de Saterrice ou serra de arco utilizada em
construção civil.
• Cinzel e escopro.
• Martelo de Hajek.

Ruginas
As ruginas são instrumentos utilizados para desgastar o periósteo craniano por atrito
ou por pequenos golpes, deixando os ossos desnudos, permitindo apurar detalhes,
bem como facilitar a ação da serra (Figura 3.8).

Figura 3.8 Rugina Lambotte

Serras
As serras podem ser manuais, elétricas circulares e vibratórias. As primeiras são as
mais utilizadas no trabalho diário e têm a preferência da maioria das técnicas. A serra
elétrica circular apresenta o inconveniente de possibilitar, mais facilmente, a dispersão
de aerossóis e de partículas de osso, comprometendo os níveis de biossegurança. As
serras vibratórias são de alto custo e não são utilizadas em nosso meio.
É preciso cuidado durante a aplicação da serra para não atingir estruturas internas
como meninges e encéfalo. O técnico procura criar uma fissura de fragilidade, que
permite a ação de uma ferramenta para dar apoio à abertura do crânio.
32 Manual de Técnicas em Necropsia Médico-Legal

Os modelos de serras preferencialmente usados são: serra Mathieu, serra Charriere


e serra de arco comum de uso na construção civil (Figura 3.9).

Figura 3.9 (A) Serra manual (arco de serra). (B) Serra Charriere

Escopro, cinzel e martelos


São instrumentos utilizados para romper a tábua interna da caixa craniana e remover
a calota após a demarcação da linha de menor resistência pela serra.
O escopro e o cinzel (osteótomo) são compostos de barras estreitas e finas, de aço
inoxidável, e que terminam em cunha (Figura 3.10). A diferença consiste no fato de
o cinzel apresentar cabo, geralmente formando peça única com a barra, enquanto o
escopro é o próprio corpo da barra.
Para remover a calota craniana, introduz-se o escopro ou o cinzel no sulco feito
pela serra, bate-se com o martelo e gira-se o instrumento sobre seu próprio eixo.
Ouve-se um ruído característico do rompimento da tábua interna do crânio.
Feito isso em três ou quatro pontos, coloca-se o gancho do martelo na fenda e
traciona-se contra si, forçando assim a saída da calota craniana.

Figura 3.10 (A) Escopro de Virchow. (B) Osteótomo Stille reto


Instrumental Utilizado em Necropsia BB

A Figura 3.11 apresenta os martelos de Hajek e Neufield usados na craniotomia e,


na Figura 3.12, encontram-se outros tipos de martelo.

Figura 3.11 (A) Martelo de Hajek. (B) Martelo de Neufield

com 1 ponta de náilon

Figura 3.12 Diferentes modelos de martelo

Inspeção das cavidades do tronco


Para a inspeção das cavidades torácica e abdominal são utilizados os seguintes ins-
trumentos:
• Bisturi descartável.
• Faca de amputação de Collin.
34 Manual de Técnicas em Necropsia Médico-Legal

• Costótomo.
• Cisalha de Liston articulada.
• Concha em aço inoxidável com cuba e cabo em peça única, tendo o cabo cerca
de 20cm de comprimento e a concha 100mL de volume.
• Enterótomo.
• Pinça de dissecção anatômica, em aço inoxidável, de 25cm de comprimento, com
bordas rombas e a parte interna serrilhada.
• Pinça de dissecção do tipo dente de rato, em aço inoxidável, com 25cm de com-
primento, com bordas rombas e a parte interna serrilhadas.
• Pinça hemostática de Crile, Kocher e Kelly.
• Tentacânula em aço inoxidável com cerca de 18cm de comprimento.
• Pinça de Collin para extração de projetis.
• Sonda de 1 mm de diâmetro.
• Raquítomo.
• Tesoura Mayo curva, em aço inoxidável, com 22cm de comprimento, pontas rom-
ba-romba.
• Tesoura Mayo reta, em aço inoxidável, com 17cm de comprimento, pontas finas.
• Tesoura Mayo reta, em aço inoxidável, com 17cm de comprimento, pontas fina-
romba.

Bisturi e facas de amputação


São utilizados nos cortes de estruturas, aderências e amostra de materiais para exa-
mes complementares.

Costótomo e cisalha
São instrumentos destinados à retirada do plastrão esternal através de corte na carti-
lagem costosternal ou diretamente sobre o osso da costela (Figura 3.13).
O costótomo é um potente alicate de corte formado por uma ponta cega e romba
e a outra pontiaguda e afiada, ambas em arco. Os braços são unidos por uma mola
laminar espiral. A ponta cega é introduzida nos espaços intercostais sob a cartilagem
costosternal, a qual é cortada.
A cisalha também é um alicate de corte, porém com três pontos de apoio na
alavanca para otimizar a força, duas lâminas cortantes e uma haste flexível entre os
braços. A cisalha corta diretamente o osso da costela. Vale a pena ressaltar que essa
manobra deixa uma borda cortante, que deve ser forrada com tecido ou atadura para
evitar acidentes ao operador.
Existe uma variante denominada costótomo Semb, que apresenta os braços com a
arquitetura da cisalha, mas cuja utilização é semelhante à do costótomo.
Instrumental Utilizado em Necropsia 35

Figura 3.13 (A) Costótomo de Collin. (B) Cisalha

Concha em aço inoxidável


A concha em aço inoxidável é semelhante a uma concha doméstica, porém com cuba
e cabo em peça única, sendo o cabo com cerca de 20cm de comprimento e a concha
com 100mL de volume. É utilizada para retirar conteúdo líquido das cavidades e do
estômago (Figura 3.14).

Figura 3.14 Concha em aço inoxidável

Enterótomo
É uma tesoura formada por uma ponta protegida por uma espécie de capuz moldado
a partir da própria lâmina e outra ponta romba. A ponta protegida é inserida na luz
de órgãos como intestino, estômago e coração, orientando o corte sem danificar a
estrutura interna (Figura 3.15).
36 Manual de Técnicas em Necropsia Médico- égal

Figura 3.15 Tesoura


enterótomo de 21 cm

Pinças de dissecção
São pinças interpotentes utilizadas para firmar o material para exposição, corte ou
sutura. A pinça anatômica é utilizada quando da manipulação de tecidos friáveis,
para evitar danificá-los. Já a pinça do tipo dente de rato é aplicada quando se objetiva
tracionar tecidos resistentes (Figura 3.16).

Figura 3.16 Pinças de dissec-


ção: (A) pinça tipo dente de rato
e (B) pinça anatômica

Pinça hemostática
Trata-se de um tipo de pinça interfixa com dentes fixadores na extremidade. Os mo-
delos mais utilizados em necropsia são as pinças de Crile, de Kocher e de Kelly. São
utilizadas para fechar possíveis lesões em vísceras, evitando extravasamentos, ou para
promover oclusão de órgãos (Figura 3.17).
Instrumental Utilizado em Necropsia 37

Tentacânula
É uma lâmina sulcada com uma extremidade dilatada (Figura 3.18). O sulco é usado
para orientar profundamente cortes feitos com bisturi ou tesoura.

Figura 3.18 Tentacânula

Pinça de Collin para extração de projetis


É uma pinça interfixa longa utilizada para remover projetis, de modo que os preserve
com segurança. Deve ser constituída de material sintético ou plástico para não produ-
zir deformidade ou abrasões nos projetis, quando utilizadas. A remoção de projetis
de cadáveres deve ser feita com muito cuidado para não alterar a forma e disposição
das microestrias, possibilitando correta microcomparação balística.

Sonda metálica de 1mm de diâmetro


Sonda utilizada para a exploração de artérias coronárias, condutos biliares e pancreá-
ticos, ureteres, uretra e tubas uterinas.

Raquítomo ou raquiótomo
É composto de uma cunha que forma com o cabo uma peça única em semi-arco. O
cabo apresenta uma concavidade, que melhora o apoio.
O raquítomo é utilizado como uma machadinha, para cortar o corpo das vértebras
e para se obter a medula espinal completa (Figura 3.19).

Figura 3.19 Raquítomo

Tesoura Mayo, Tesoura Metzenbaum e Tesoura Iris


A tesoura Mayo longa é comumente utilizada para corte de fios ou linhas cruas de
fechamento. A tesoura Metzenbaum, muito útil em cirurgias, deve ser utilizada para
38 Manual de Técnicas em Necropsia Médico-Legal

cortar tecidos mais delicados, e sua curvatura permite cortes curvilíneos. As tesouras
Iris, por seu tamanho menor e ponta fina, devem ser usadas para corte de pequenas
estruturas ou abertura de estruturas como artérias coronárias, vias biliares, pancreáti-
cas e pequenas artérias. As tesouras com as duas pontas rombas são empregadas para
extração das artérias do pescoço e para dissecações rombas (Figuras 3.20 e 3.21).

Figura 3.20 (A) Tesoura Mayo longa de 20cm. (B) Tesoura Metzenbaum de 18cm. (C) Tesoura
M a y o curta de 15cm

Figura 3.21 (A) Tesoura abotoada de 15cm. (B) Tesoura Iris curva. (C) Tesoura Iris reta
Figura 3.22 Forma correta de segurar tesouras e pinças hemostáticas

Reconstituição

Compreende uma técnica de fechamento que visa deixar o cadáver no melhor estado
de apresentação possível. O corpo deve ser reconstituído de modo que, depois de
vestido, não haja evidências da necropsia.
O material utilizado na reconstituição compõe-se de:

• Pinças anatômicas do tipo dente de rato.


• Agulha para sutura, triangular, reta, de cerca de 10cm de comprimento.
• Agulha para sutura, triangular, semi-reta, de cerca de 10cm de comprimento.
• Linha crua.
• Tesoura de Mayo.
• Bandagem ou tecido de algodão.

Pinças anatômica e do tipo dente de rato


Servem para fixar melhor os tecidos a serem suturados. A pinça do tipo dente de rato
é de melhor utilização para a pele (ver Figura 3.16).

Agulhas
As agulhas utilizadas na recomposição do cadáver apresentam as seguintes carac-
terísticas: corpo robusto com aproximadamente 10cm, fundo rombo, corpo reto ou
semi-reto e ponta de reverso cortante. São muito comuns agulhas longas com pontas
cortantes, utilizadas para costurar tecidos ou couro.
40 Manual de Técnicas em Necropsia Médico-Legal

Linha crua
Preferencialmente, a linha utilizada na sutura de cadáveres é de fibra de cânhamo
devido às vantagens apresentadas, tais como resistência, durabilidade, aderência, dis-
ponibilidade no mercado e preço (Figura 3.23).
As suturas mais freqüentes são uma variante da sutura de Schmieden (Figura 3.24)
e da sutura de Cushing.

Figura 3.23 Linha de cânhamo crua e agulha longa com ponta cortante para fechamento

Figura 3.24 Fechamento em sutura contínua da parede abdominal do tipo Schmieden (ver
cad. cor)
Instrumental Utilizado em Necropsia 41

Tesoura Mayo
Usada para cortar a linha de sutura.

Bandagem ou tecido de algodão


Usada para envolver o encéfalo, dando-lhe resistência, antes de reintroduzi-lo no
crânio. Outra utilização da bandagem é envolver a cabeça dos cadáveres com faces
traumatizadas, cobrindo as lesões apresentadas.

INSTRUMENTOS DE MEDIDAS

• Balança para pesar o corpo.


• Balança para pesar órgãos grandes.
• Balança para pesar órgãos pequenos.
• Balança de análise para pesar órgãos muito pequenos, tais como as glândulas
paratireóides.
• Estilete em aço inoxidável (pino de Steinmann).
• Paquímetro em aço inoxidável para medidas de até 150mm.
• Trena em aço inoxidável com 2m de comprimento.
• Régua antropométrica (Figura 3.25A).
• Régua milimetrada para fotografia (Figura 3.25B).

B
a

Figura 3.25 (A) Régua milimetrada para fotografia. (B) Régua antropométrica

Balanças
O uso de cada tipo de balança foi descrito anteriormente.

Estilete de aço inoxidável


Usado para determinar o trajeto de projetis e relacionar os orifícios de entrada com os
orifícios de saída. Esse estilete geralmente é um pino de Steinmann liso.
42 Manual de Técnicas em Necropsia Médico-Legal

Paquímetro em aço inoxidável para medidas de até 150mm


Utilizado para medir projetis, bem como a extensão de lesões de órgãos, tumores,
entre outros (Figura 3.26).

Figura 3.26 Paquímetro em aço inoxidável para medidas

Trena de aço com 2m de comprimento


Usada para aferir a estatura do indivíduo.

CUIDADOS COM O MATERIAL

A seguir relacionamos alguns cuidados a serem observados para assegurar maior vida
útil e melhor utilização do material:

• Usar o material sempre para a sua função específica e não exceder os limites esta-
belecidos pelo fabricante. O aço inoxidável, apesar da denominação, está sujeito
a oxidação.
• As partes ativas do instrumental, assim como cortes, articulações e serrilhas, têm
vida útil limitada, variando conforme a freqüência de uso e a maneira como o
instrumento é utilizado.
• Limpeza: todo o instrumental deve ser bem lavado após o uso, de preferência em
água corrente quente ou fria, utilizando-se escova com cerdas de náilon e deter-
gente neutro.
• Esterilização química:
• Etapa 1: aplicar produto bactericida na proporção de 4 ou 5mL de produto
para cada litro de água, por 5 minutos.
• Etapa 2: lavar novamente o instrumental em água corrente a fim de retirar os
resíduos do produto.
Instrumental Utilizado em Necropsia 43

• Etapa 3: secar completamente o instrumental com pano antes de colocá-lo na


estufa. Nunca se deve deixá-lo secar naturalmente, para evitar manchas bran-
cas ou amareladas.
Esterilização em estufa:
• Etapa 1: separar os materiais cromados dos materiais feitos de aço inoxidável.
Consultar sempre o responsável pelo setor para tirar dúvidas antes de pros-
seguir, pois jamais se deve colocar os dois tipos juntos na mesma estufa ou
autoclave.
• Etapa 2: separar o instrumental pesado do instrumental leve para evitar defor-
mações, e o novo do velho, para evitar que possíveis pontos de oxidação sejam
transferidos de um para o outro.
• Etapa 3: em peças que possuam cremalheira, esta não deve estar travada, pois
podem ocorrer deformações e, em conseqüência, desajustes.
• Etapa 4: envolver o instrumental com papel de grau cirúrgico ou em campo de
tecido de algodão cru duplo.
Recipiente: recomenda-se a utilização de caixas cirúrgicas perfuradas na tampa
e na lateral, que possibilitam uma boa oxigenação e a circulação de vapores no
interior da caixa.
Temperatura e tempo de estufa: a temperatura usual é de 150°C a um tempo de
90 minutos (contínuo). Caso a estufa seja requisitada durante o processo, esses
valores poderão ser 170°C a um tempo de 120 minutos, não podendo exceder
esses limites, pois a resistência do material à corrosão pode ser definitivamente
comprometida. Além disso, pode-se mudar o ponto certo de têmpera e causar
quebras prematuras, porque o material perde a flexibilidade às tensões a que foi
submetido.
Autoclaves: na convencional, 120°C a um tempo de 30 minutos; na autovácuo,
132°C a um tempo de 4 minutos.
Consertos e gravações não devem ser feitos por qualquer pessoa ou até mesmo
por profissionais do ramo que não tenham familiaridade com equipamentos cirúr-
gicos.
Muitas gravações eletroquímicas efetuadas na própria instituição ou por terceiros
não são cuidadosamente neutralizadas, ocasionando oxidação prematura. A pró-
pria gravação não pode ser realizada em qualquer ponto da superfície da peça,
pois pode ocasionar infiltrações do produto corrosivo.
Gravações em forma de "riscos" com objetos pontiagudos na peça são absolu-
tamente erradas, porque o aço inoxidável só apresenta suas características apro-
priadas ao uso cirúrgico devido ao polimento e ao tratamento em sua superfície.
Sendo assim, qualquer agressão à superfície causará oxidação e até mesmo perda
da resistência original.
44 Manual de Técnicas em Necropsia Médico-Legal

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Página na Internet
h tt pZ/www. swi 11. co m. b r
Biossegurança

INTRODUÇÃO

A biossegurança é um conjunto de ações educativas de fundamental importância


em qualquer atividade profissional, especialmente em serviços de saúde. Isto não só
porque aborda medidas de controle de infecções, mas também porque tem um papel
fundamental na promoção da consciência sanitária na comunidade em que atua, da
preocupação com a preservação do meio ambiente, na manipulação e no descarte
de resíduos químicos, tóxicos e infectantes e da redução geral de riscos à saúde e
acidentes ocupacionais.
Os principais fatores de risco que envolvem as atividades em geral são:

• Agentes biológicos.
• Agentes químicos.
• Riscos radiológicos.
• Acidentes de trabalho com instrumentos perfurantes e cortantes (agulhas, bistu-
ris, vidrarias).

PRINCÍPIOS DE BIOSSEGURANÇA

O principal objetivo da biossegurança é criar um ambiente de trabalho no qual se pro-


mova a contenção do risco de exposição a agentes potencialmente prejudiciais ao tra-
balhador e ao meio ambiente, de modo que esse risco seja minimizado. Os métodos
utilizados para obter tal contenção são classificados como primários ou secundários.
A contenção primária é a proteção pessoal e do ambiente de trabalho contra a
exposição a agentes biológicos ou a acidentes pessoais. É obtida através da prática de
necropsia-padrão e pelo uso adequado dos equipamentos de segurança.
46 Manual de Técnicas em Necropsia Médico-Legal

A contenção secundária é a proteção do ambiente externo contra a exposição


a agentes biológicos. É obtida por meio de uma estrutura física adequada e pela
conscientização dos funcionários para uso, limpeza e desinfecção corretos do local de
trabalho e dos instrumentos.
Um manual de biossegurança deve ser preparado de acordo com as especificidades
das atividades realizadas e todo o pessoal deve ser orientado sobre os possíveis riscos
e sobre a necessidade de seguir as especificações de cada rotina de trabalho, de cada
procedimento de biossegurança e das práticas estabelecidas no manual. Dessa forma,
é preciso conscientizar os trabalhadores quanto à importância de adotar posturas que
visem à plena preservação da saúde, ao conforto laboral e à qualidade de vida.

NÍVEIS DE BIOSSEGURANÇA

Os níveis de biossegurança são classificados de 1 a 4 e foram desenvolvidos com a inten-


ção de ajudar no controle de agentes biológicos que possam causar doenças. São eles:

• Nível de biossegurança 1 (NB-1) ou proteção básica 1 (P-1): para o trabalho


que envolve agente com o menor grau de risco individual e para o meio ambiente.
Não são exigidos equipamentos de contenção específicos. Muitos agentes que
geralmente não estão associados a processos patológicos em homens são pató-
genos oportunistas que podem causar infecção.
• Nível de biossegurança 2 (NB-2): é adequado ao trabalho que envolve agentes de
risco individual moderado e risco limitado para o ambiente. O patógeno pode causar
doença ao homem ou aos animais, mas não constitui sério risco para quem o mani-
pula em condições de contenção. As exposições laboratoriais podem causar infecção,
mas a obediência às medidas eficazes de tratamento e prevenção limita o risco.
• Nível de biossegurança 3 (NB-3): para agentes biológicos que causam doenças
graves ao homem ou aos animais e podem representar sério risco para quem
os manipula, mas apresentam baixo risco de transmissão. Tais agentes podem
representar um risco se forem disseminados no ambiente, mas em geral existem
medidas de tratamento e de prevenção.
• Nível de biossegurança 4 (NB-4): adequado para os agentes que representam
grande ameaça para o ser humano e para os animais. Tais agentes representam
grande risco para quem os manipula e têm grande poder de transmissibilidade
de um indivíduo a outro, direta ou indiretamente. Em geral, não existem medidas
preventivas e de tratamento para esses agentes.

Existem alguns fatores que determinam a segurança no local de trabalho:

• Fatores físicos: iluminação, ventilação, instalações elétricas e hidráulicas adequa-


das, além de pouco ruído.
• Características do material utilizado: boa qualidade e fácil manuseio.
Biossegurança 47

• Informação: processo de comunicação em prática na instituição. Deve haver uma


comunicação eficiente entre os trabalhadores e entre os setores do Serviço.
• Formação de pessoal: treinamento, valorização dos recursos humanos e agrega-
ção de valores éticos, filosóficos e técnicos para os trabalhadores; isto gera um per-
fil de qualificação compatível com as exigências e mostra a qualidade do Serviço.
A implementação do setor de Educação Continuada é de suma importância para a
manutenção dos conhecimentos e o acréscimo das informações que surgirem.

A evolução tecnológica, o progresso científico e o rigor das legislações vêm


contribuindo de forma sistemática para a redução dos acidentes laboratoriais.
Para isso, torna-se importantíssimo desenvolver no ambiente de trabalho a cultura da
biossegurança.

NÍVEIS DE CONTENÇÃO

Os métodos empregados para se obter a contenção do risco do trabalhador de expo-


sição a agentes nocivos representam as bases da biossegurança e são considerados
primários ou secundários.
Como já afirmamos, a contenção primária, ou seja, a proteção do trabalhador e
do ambiente de trabalho contra a exposição a agentes infecciosos, é obtida por meio
de técnicas seguras e pelo uso adequado dos equipamentos de segurança. O uso de
vacinas, tais como a vacina contra a hepatite B, incrementa a segurança do trabalha-
dor e faz parte das estratégias de contenção primária.
A contenção secundária compreende a proteção do ambiente externo contra a
contaminação proveniente do laboratório e/ou de setores que manipulam agentes
nocivos. Essa forma de contenção é alcançada tanto pela adequada estrutura física
do local como também pelas rotinas de trabalho, tais como descarte de resíduos sóli-
dos, limpeza e desinfecção de artigos e áreas.

Contenção primária
Técnicas seguras
A prática correta das técnicas é o objetivo da biossegurança. O cumprimento à risca
das regras deve ser estimulado pelas chefias competentes, visando à sua incorporação
às rotinas de cada setor.

• O símbolo internacional de biossegurança deve estar afixado na entrada dos locais


em que se manipulam microrganismos de risco 2 ou maior.
• Os funcionários devem lavar as mãos após manipularem material infectante e
antes de saírem do necrotério.
• Não se deve fumar, comer, beber, mascar chicletes, guardar alimentos ou aplicar
cosméticos dentro do necrotério.
48 Manual de Técnicas em Necropsia Médico-Legal

• Não se deve lamber etiquetas ou colocar qualquer material na boca (p. ex., caneta).
• Manter o local limpo, organizado e livre de materiais não pertinentes ao trabalho
ali desempenhado.
• Todos os procedimentos técnicos devem ser realizados para minimizar a formação
de aerossol e gotículas.
• Aventais devem ter seu uso restrito à sala de necropsia. Não devem ser usados em
áreas externas, tais como áreas administrativas, a biblioteca ou a cantina.
• Deve-se ter extrema precaução ao manusear objetos cortantes.
• Não usar sandálias.
• Não guardar aventais em armários nos quais são guardadas roupas que são usa-
das fora do local de trabalho.
• Não permitir a entrada de pessoas que desconheçam os riscos potenciais de expo-
sição, crianças e animais. Manter as portas da sala de necropsia fechadas durante
o trabalho.
• Usar luvas em todos os procedimentos que impliquem risco de exposição a mate-
rial infectante. Não descartar luvas e outros equipamentos de proteção em lixeiras
de áreas administrativas ou banheiros e sim em lugares apropriados.

Equipamentos de proteção individual


Equipamentos de proteção individual complementam a função da prática segura.
São todo dispositivo ou produto de uso individual utilizado pelo trabalhador com fins
de proteção contra riscos que possam ameaçar a segurança e a saúde no trabalho,
já que conferem proteção a cada profissional individualmente. A proteção é dada à
cabeça, ao tronco, aos membros superiores, aos membros inferiores, à pele e ao apa-
relho respiratório do indivíduo. A Lei 6.514 de 22/12/77 altera o Capítulo V do Título
II da Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT), estabelecendo uma série de disposições
quanto a segurança e medicina do trabalho, além da Portaria na 3.214/78, que apro-
va as Normas Regulamentadoras do mesmo Capítulo. Portanto, o não-cumprimento
das normas de segurança poderá acarretar ações por irresponsabilidade cível e penal,
além de multa aos infratores.
Os equipamentos mais usados em área de necrotério conferem proteção à cabeça,
aos membros superiores, ao tronco e aos membros inferiores: luvas, máscara, gorro,
óculos de proteção, capote (avental) e botas. Atendem às seguintes indicações:

• Proteção para a cabeça (Figuras 4.1 a 4.3):


• Máscara (tecido, fibra sintética descartável, com filtro HEPA, filtros para gases, pó
etc.) e gorro: devem ser usados durante a realização de procedimentos em que haja
possibilidade de respingo de sangue e de outros fluidos corporais, nas mucosas da
boca, no nariz e nos olhos do profissional.
• Óculos de proteção e protetor facial (protege contra salpicos, borrifos, gotas e
impacto).
Biossegurança 49

Figura 4.1 Gorro, máscara e óculos de Figura 4.2 Protetor facial


proteção
50 Manual de Técnicas em Necropsia Médico-Legal

• Proteção para os membros superiores:


• Luvas, mangas de proteção ou cremes protetores: são usados como barreiras de
proteção em trabalhos em que haja perigo de lesão provocada por:
- materiais ou objetos escoriantes, abrasivos, cortantes ou perfurantes e con-
taminados;
- produtos químicos corrosivos, cáusticos, tóxicos, alergênicos, oleosos, gra-
xos, solventes orgânicos e derivados de petróleo;
- risco de contaminação por material biológico.

O uso de luvas não substitui a necessidade de lavagem das mãos, porque as luvas
podem ter pequenos orifícios não aparentes ou danificar-se durante o uso, podendo
contaminar as mãos quando removidas. Devem ser utilizadas observando-se rigoro-
samente a técnica de calçar e remover as luvas para evitar uma provável e indesejada
contaminação (Figura 4.4).

Figura 4.4 (A e B) Disposição das luvas (ver cad. cor)

Usar luvas de látex sempre que houver possibilidade de contato com sangue, flui-
dos do corpo, dejetos, trabalho com microrganismos e amostras para laboratório
(Figura 4.5). As luvas de PVC (Figura 4.6) são para manuseio de citostáticos; são mais
resistentes, porém bloqueiam menos a sensibilidade. As luvas devem ser utilizadas
também para a lavagem dos instrumentais, roupas e superfícies de trabalho, e devem
ser retiradas após os procedimentos. Com isso evita-se que haja contaminação de
maçanetas e telefones, por exemplo, por distração do funcionário.
Biossegurança 51

Figura 4.5 Luvas de látex Figura 4.6 Luvas de PVC

Após o uso, as luvas de PVC podem ser reutilizadas se permanecerem por 12


horas em solução de hipoclorito de sódio a 0,1% (1 g/L de cloro livre = I.OOOppm)
e se for verificada a integridade das luvas após a desinfecção. As luvas de látex são
descartáveis. Ainda se utilizam luvas de pano sobre as demais, para diminuir o risco de
escape do instrumental das mãos do funcionário. As luvas de pano também podem
ser reutilizadas, após lavagem e desinfecção (Figura 4.7).

Figura 4.7 Luvas de pano

• Proteção para o tronco:


• Avental, capote e outras vestimentas especiais de proteção devem ser usados
durante os procedimentos em que haja possibilidade de contato com material
biológico e químico em todas as etapas envolvidas na atividade de necropsia
que implique maior risco de exposição do profissional (Figuras 4.8 e 4.9).
52 Manual de Técnicas em Necropsia Médico-Legal

Figura 4.9 Profissional usando capote, avental e todo o equipamento de segurança. (A) Fren-
te. (B) Perfil (ver cad. cor)
Biossegurança 53

• Proteção para os membros inferiores:


• Uso de botas para proteção dos pés em locais úmidos ou que contenham quan-
tidade significativa de material infectante contra agentes biológicos agressivos
(Figura 4.10).

Figura 4.10 Botas de látex

A melhor maneira de sensibilizar e informar o uso correto dos equipamentos de


proteção individual (EPI) é promover palestras, cursos e discussões sobre biossegu-
rança, mostrando a redução dos riscos quando se utilizam adequadamente esses
equipamentos. A escolha correta do EPI deve ser fundamentada na identificação dos
agentes de risco, determinando sua intensidade e extensão além da freqüência da
exposição. Com base nos resultados, deve-se levar em consideração a qualidade,
durabilidade, facilidade de adaptação do usuário e o custo/benefício.
Conforme prevê a NR n2 6 quanto às obrigações dos empregados, os EPI devem
ser usados apenas para a finalidade a que se destinam. O empregado é responsável
por sua guarda e conservação, por não portá-los fora da área técnica e por comunicar
ao empregador qualquer alteração que torne o equipamento impróprio para uso.

Contenção secundária
Conforme já afirmamos, consiste na proteção do ambiente e também do indivíduo
entre possíveis contaminações. Alguns princípios de contenção secundária são:

• A sala deve ser ampla.


• Paredes, tetos e chão devem ser fáceis de limpar, impermeáveis a líquidos e resis-
tentes aos agentes químicos propostos para sua limpeza e desinfecção. O chão
não deve ser escorregadio.
• Tubulação exposta deve estar afastada das paredes.
54 Manual de Técnicas em Necropsia Médico-Legal

• A iluminação deve ser adequada para todas as atividades.


• As bancadas devem ser fixas às paredes, impermeáveis à água e resistentes aos
desinfetantes, ácidos, solventes orgânicos e calor.
• O mobiliário deve ser de fácil limpeza. O espaço entre os equipamentos deve per-
mitir a limpeza de toda a área.
• Os materiais de uso diário podem ficar em estoque pequeno dentro da sala, po-
rém nunca sobre as bancadas.
• A autoclave deve estar disponível próximo às salas de necropsia.
• As portas devem ser mantidas fechadas.
• A área destinada à guarda de objetos pessoais e ao armazenamento de alimentos
para consumo diário deve estar fora da sala.
• Em caso de falta de energia elétrica, setores que dispõem de freezer e câmaras
frias e que necessitam ficar continuamente ligados devem dispor de geradores
que se ligam automaticamente.
• Deve ser providenciado um programa rotineiro de controle de roedores e insetos.
• Qualquer janela que precise permanecer aberta durante os procedimentos deve
ser protegida por tela, para evitar insetos e, em conseqüência, possível fonte de
contaminação cruzada.
• O ambiente deve dispor de uma pia com torneira de fácil acionamento, para lava-
gem das mãos.

Os equipamentos de proteção coletiva (EPC) são todos os dispositivos instalados


com o objetivo de proteger a integridade física e a saúde dos funcionários e são uti-
lizados para minimizar, isolar ou eliminar a exposição dos trabalhadores aos riscos e,
em caso de acidentes, reduzir suas conseqüências.
"Lava-olhos" são equipamentos utilizados em caso de acidente com a mucosa
ocular. O jato de água deve ser forte e dirigido aos olhos, para possibilitar a remo-
ção imediata da substância, reduzindo os danos para o indivíduo. Os chuveiros de
emergência são essenciais em casos de acidentes que envolvam mais de uma área do
corpo contaminada, e devem ser instalados, preferencialmente, junto ao lava-olhos.
Outro material importante para a segurança coletiva é o extintor de incêndios, que
deve estar em local de fácil visualização e acesso.

Manutenção da qualidade dos equipamentos


É importante sempre verificar se os EPI têm Certificado de Aprovação e inspecioná-
los quando estiverem sendo utilizados por outros trabalhadores, para verificação de
sua qualidade. Além disso, os EPI devem ser lavados e guardados corretamente, para
assegurar vida útil mais longa. Alguns cuidados importantes na lavagem e no acondi-
cionamento devem ser observados:

• Usar luvas à base de nitrila ou neoprene para a lavagem.


Biossegurança 55

• A lavagem deve ser feita de maneira cuidadosa, de preferência com sabão neutro
(sabão de coco). As vestimentas não devem ficar de molho. O uso de alvejantes
não é recomendado, pois danificam o tratamento do tecido.
• As vestimentas de proteção devem ser abundantemente enxaguadas com água
corrente para diluir e remover os resíduos e devem ser secas à sombra.
• Somente usar máquina de lavar ou de secar quando houver recomendações do
fabricante.
• As botas, as luvas e a viseira devem ser enxaguadas com água abundante após
cada uso. É importante que os óculos não sejam esfregados, pois isto poderá ar-
ranhá-los, diminuindo a transparência.
• Antes do descarte, os capotes de proteção descartáveis devem ser rasgados, para
evitar que sejam reutilizados.

TIPOS DE PRECAUÇÕES

Precaução-padrão
É a mais importante das precauções. A precaução-padrão está designada para o
cuidado com todo tipo de necropsiados, independentemente do diagnóstico ou do
presumido estado de infecção. Objetiva reduzir o risco de transmissão de microrganis-
mos que podem provocar infecção. É indicada para a manipulação de equipamentos
ou artigos contaminados ou sob suspeita de contaminação, e deve ser adotada na
manipulação de sangue, fluidos corporais, secreções, excreções, pele não-íntegra e
mucosas. É necessário lembrar que, ocasionalmente, o pedido de necropsia não é
corretamente preenchido, logo todo exame deve ser encarado como de risco e o pron-
tuário, caso esteja disponível, deve ser lido atentamente à procura de sinais, sintomas
e dados epidemiológicos e laboratoriais sugestivos de doença infecciosa.
As precauções-padrão compreendem: lavagem das mãos antes e após contato
com o paciente e antes e após usar luvas; uso de equipamentos de proteção indivi-
dual, tais como luvas, jaleco, máscara e protetor ocular; e uso de vacina contra hepa-
tite B e tétano.
Outras medidas importantes devem ser observadas, tais como a manipulação cuida-
dosa de materiais perfurocortantes - por exemplo, encapar agulhas; descartar as agu-
lhas em recipientes de paredes rígidas; e ter cuidado no manuseio do instrumental.

Precauções fundamentadas na transmissão


As precauções fundamentadas nas vias de transmissão são aquelas voltadas contra
indivíduos infectados, colonizados ou sob suspeita de infecção por microrganismos
de importância epidemiológica.
56 Manual de Técnicas em Necropsia Médico-Legal

Precauções de transmissão aérea (ou seja, precauções com o


isolamento aéreo)
Essas precauções são elaboradas para evitar a transmissão de partículas (menores ou
iguais a 5^m) que ficam em suspensão ou de partículas de sujeira que contêm agen-
tes infecciosos que podem ser transportados por longas distâncias após terem se de-
positado nas mucosas ou terem sido inaladas por pessoas suscetíveis, principalmente
quando houver correntes de ar.
É necessário que seja observada em tais situações a precaução-padrão. O ideal
é usar um sistema especial de ventilação com pressão de ar negativa em relação à
ante-sala e ao corredor, com seis trocas de ar/hora, com sistema de recarga adequado
e tratamento do ar que circula no ambiente privativo. Isto pode ser feito através de
dispositivos de filtração de alta eficiência e do uso de máscara e luvas (neste caso,
somente para varicela e herpes-zoster disseminado, por serem também transmissíveis
por contato).

Precauções de contato/isolamento de contato


São elaboradas para se evitar a transmissão de infecções através do contato, que
pode ser:

• Direto: envolve contato direto com a superfície corporal e transferência física de


microrganismos entre uma pessoa colonizada ou infectada e um hospedeiro sus-
cetível.
• Indireto: envolve o contato de um hospedeiro suscetível com objetos contamina-
dos ou através das mãos.

Devem ser observadas as precauções-padrão, o uso de luvas e capote (no contato


com cadáver ou com objeto contaminado) e o uso de máscara além das precauções
contra perdigotos.

Especificação para as precauções


A precaução-padrão consiste em lavagem das mãos, uso dos equipamentos de pro-
teção individual (ou seja, luvas de procedimento, óculos, capote, calçado fechado
e impermeável e máscara) e cuidados com equipamentos usados, sujos e perfuro-
cortantes, tais como desinfecção de artigos, limpeza e desinfecção de instrumental,
cuidado com a coleta e o transporte do lixo e da roupa suja, uso de caixa coletora
para perfurocortantes.
A lavagem das mãos deverá ser feita antes e após o contato com o cadáver, após
o contato com sangue, fluidos corporais, secreções, excreções e/ou objetos conta-
minados e imediatamente após a retirada das luvas. O profissional deve calçar luvas
quando for tocar - ou quando houver risco de tocar - sangue, fluidos corporais,
Biossegurança 57

secreções, excreções, objetos contaminados, mucosa e pele não-íntegra. As luvas


devem ser retiradas imediatamente após o uso e as mãos devem ser lavadas. Deve-
se lembrar que luvas limpas são o suficiente. Outro EPI que deve ser utilizado é a
máscara, que serve para proteger as mucosas (olhos, nariz, boca) quando há risco de
spray ou respingos com sangue, fluidos corporais, secreções e excreções. O avental
deve ser vestido quando houver risco de respingo ou spray de sangue, fluido corporal,
secreções e excreções. Deve ser retirado imediatamente após o uso e as mãos devem
ser lavadas.
Os equipamentos usados e sujos devem ser manipulados de maneira a não con-
taminar o profissional. Os objetos utilizados em uma necropsia não devem ser uti-
lizados em outra sem as devidas limpeza e desinfecção. Na hora da limpeza e do
descarte, deve-se ter cuidado com agulhas e instrumentos de corte, nunca reenca-
pando agulhas e colocando o coletor de materiais perfurocortantes o mais próximo
possível.
As roupas usadas e sujas devem ser manuseadas de maneira que os profissionais
e o ambiente não se contaminem.

Fundamentos de isolamento e precauções


As medidas para o controle de infecções envolvem o uso de barreiras à transmissão,
que são peças ou técnicas que bloqueiam a transferência de elementos patogênicos
de cadáveres infectados para o meio ambiente ou de substâncias contaminadas para
si ou para os outros.

• Lavagem das mãos e uso de luvas: a lavagem das mãos é a única e mais
importante medida para se prevenir a disseminação de infecções. Deve ser feita
minuciosamente e com a técnica correta para abranger todas as partes da mão,
tornando a lavagem eficaz. Deve ser realizada pouco antes e logo após o contato
com o necropsiando, com sangue, fluido corporal, secreções, excreções, equipa-
mento ou artigos contaminados. As luvas são usadas para proporcionar proteção
de barreira e prevenção de contaminação das mãos e para reduzir o potencial de
transmissão de microrganismos entre as mãos do profissional e o cadáver.
• Máscaras, protetores respiratórios, protetores oculares e de face: vários ti-
pos de máscaras, óculos e protetores da face são usados sozinhos ou em combi-
nação para proporcionar uma proteção de barreira. Esses protetores são usados
durante procedimentos, em que possam ocorrer respingos de sangue, fluidos cor-
porais, secreções e excreções e protegem a membrana mucosa dos olhos, nariz e
boca.
• Capote e vestuário protetor: o capote é usado para prevenir a contaminação
de roupas e proteger a pele do profissional do contato com de sangue, fluidos
corporais, secreções e excreções e demais substâncias nocivas.
58 Manual de Técnicas em Necropsia Médico-Legal

• Remoção de peças do vestuário: as roupas devem ser retiradas de modo que


o profissional saia do necrotério sem contaminar a si mesmo ou o uniforme. As
peças mais contaminadas são retiradas primeiro, enquanto o uniforme limpo sob
elas é preservado.
• Descarte de roupas, equipamento e itens contaminados: os recipientes de
lixo sólido são esvaziados ao término de cada turno ou com mais freqüência, caso
ocorra acúmulo de conteúdos. Para evitar a disseminação de elementos patogêni-
cos, alguns itens são duplamente embalados.

Tipos de máscara
As máscaras são usadas durante atividades que impliquem risco de respingos de ma-
terial orgânico nas mucosas nasal e oral e durante contato com pacientes portadores
de doenças transmissíveis pelo ar.
As máscaras utilizadas por precaução podem ser de dois tipos: as cirúrgicas e
aquelas que têm proteção contra micropartículas, também chamadas respiradores
(ver Figura 4.3).

• Cirúrgica: para prevenção de contato de secreções ou sangue com mucosas.


• Com proteção para micropartículas: utilizada na prevenção de transmissão aé-
rea. Filtra partículas pequenas (menores de 5|iim de diâmetro) que se ressecam
e ficam suspensas no ar, podendo aí permanecer durante horas. Esse tipo de
máscara também é conhecido pela classificação norte-americana N95 (95% de
eficiência de filtragem de partículas não-oleosas), e no Brasil é classificado como
P2).

O ar ambiente deverá ter um teor de oxigênio superior a 18% p.v. Antes da utiliza-
ção, deve-se verificar se a máscara não apresenta fenda ou furos. Barba ou cicatrizes
podem afetar a vedação. O tempo útil depende da forma de utilização. O usuário per-
ceberá o limite da utilização por saturação, cheiro ou respiração dificultada. Deve ser
mantida na embalagem original, em local sem umidade e a temperatura ambiente.

ACIDENTES NO LOCAL DE TRABALHO

Os treinamentos para a execução das atividades e a prática dos procedimentos e nor-


mas de biossegurança são decisivos para a prevenção de acidentes. Porém, se houver
um acidente, o fato deve ser obrigatoriamente comunicado à chefia imediata. A no-
tificação do acidente é importante para se comprovar a ocorrência do mesmo e suas
conseqüências, possibilitando que todas as medidas, inclusive legais, sejam adotadas.
Quando ocorre um acidente é fundamental que seja feita uma análise de suas causas
e se adotem medidas corretivas para evitar a sua repetição.
Biossegurança 59

Tipos de acidente
Exposição a material biológico
Após exposição a material biológico, devem ser imediatamente iniciados cuidados lo-
cais com a área exposta. Recomenda-se lavagem exaustiva da área com água e sabão
em caso de exposição percutânea. Também pode ser recomendado o uso de solução
anti-séptica degermante (PVP - iodo ou clorexidina), embora não haja evidência de
vantagem em relação ao uso do sabão. Após exposição de mucosas, é recomendada
a lavagem exaustiva com água ou solução fisiológica.
Procedimentos que aumentam a área exposta (cortes, injeções locais) e a utilização
de soluções irritantes, tais como éter, hipoclorito ou g lutara Ide ido, é contra-indicada.

Acidentes com perfurocortantes


As luvas são excelentes barreiras contra matéria orgânica, mas frágeis para manipu-
lação de instrumentos cortantes e perfurantes. Bisturi, facas, agulhas, arcos de serra,
raquítomos, entre outros, são instrumentos que podem facilmente destruir essa pro-
teção. Nas incisões, é importante ter em mente o que realmente deve ser feito antes
de usar a faca de amputação ou o bisturi.
No procedimento de reconstrução do cadáver com linha e agulha, as luvas podem
ser furadas ao mínimo toque - portanto, a agulha não deve ser segurada pela ponta.
Pode-se utilizar ainda uma pinça, para auxílio no manuseio e para manter mais afas-
tadas as mãos. Na abertura de crânio por serra manual, serras novas podem diminuir
o risco de escape do arco de serra, preservando o cadáver e evitando acidentes. Estes
são alguns exemplos de como evitar acidentes.
Se o profissional sofrer um corte, recomenda-se lavar o local com água corrente e
sabão. Embora não existam evidências de que o uso de anti-séptico ou a prática de
pressionar o local para saída de fluido/sangue da lesão reduzam o risco de transmis-
são de patógenos (HIV, vírus das hepatites B e C), seu uso não está contra-indicado.
Assim, a solução aquosa de polivinil pirrolidona - iodo ou outra que contenha iodo
podem ser usadas.
Posteriormente, deve-se comunicar à chefia imediata, fazer o CAT (Comunicação
do Acidente de Trabalho) e buscar a Emergência de um serviço de saúde para receber
o protocolo de prevenção das doenças infecto-contagiosas.

Exposição de mucosa ocular ou outras mucosas


Ocorrendo exposição da mucosa ocular a qualquer respingo, recomenda-se não fric-
cionar os olhos e lavá-los imediatamente no lava-olhos, quando disponível, ou com
água corrente por 10 minutos ou até que a substância tenha sido totalmente removi-
da. Se o acidentado estiver utilizando lentes de contato, estas só devem ser retiradas
60 Manual de Técnicas em Necropsia Médico-Legal

depois da lavagem. Para qualquer outra mucosa, recomenda-se lavar abundantemen-


te com água ou solução fisiológica.

Exposição cutânea
Havendo contato de pele íntegra com sangue, urina, fezes, líquido pleural, liquor ou
outras secreções, recomenda-se lavar o local atingido com água corrente em abun-
dância e sabão, fazendo-se uso, em seguida, de álcool a 70% para desinfecção da
pele. Procedimentos que aumentam a área exposta (cortes, injeções locais) e a uti-
lização de soluções irritantes, tais como éter, hipoclorito ou glutaraldeído, é contra-
indicada.

Exposição a material químico


Em caso de vazamento de substâncias, a área deve ser imediatamente isolada e deve-
se eliminar qualquer fonte de ignição. Não se deve tocar no produto sem luvas ade-
quadas, e o material pode ser absorvido com areia ou com outro material absorvente
não-combustível.
Se houver vapores, pode-se utilizar, em muitos casos, neblina de água. Nessas
situações o recomendado é o uso de EPI para o manuseio, incluindo máscara para
proteção respiratória. Em caso de escapamento de gases no laboratório, pode-se
controlar o vazamento abrindo janelas e portas para a eliminação desses gases. Pode
ser útil ter a ajuda de alguém que não esteve no local na identificação dos gases que
escapam, pois após 2 minutos de exposição o olfato humano se acostuma com o
cheiro. Alguns produtos altamente tóxicos, tal como o cianeto, não são percebidos
por todas as pessoas. É bom estar atento a qualquer sinal de odor estranho no local.
No ambiente do necrotério, as substâncias mais comuns e passíveis de causar
acidentes são:

• Álcool: atua como enérgico depressor do sistema nervoso central.


• Cianeto: a não ser em doses muito pequenas, provoca o colapso da vítima. A
morte é rápida em conseqüência de paralisia respiratória. Pode ser ingerido ou
absorvido por um ferimento ou através da pele. É usado em certos formicidas e
pode ser encontrado em conteúdos estomacais.
• Chumbo: a intoxicação aguda por chumbo pode provocar anorexia, vômitos, mal-
estar, convulsões e lesão permanente no cérebro. Os casos crônicos evidenciam-se
por perda de peso, fraqueza e anemia.
• Álcool metílico: tem um efeito especíifico de degeneração do nervo óptico que
pode provocar lesão permanente e cegueira, mesmo quando a quantidade assi-
milada tiver sido pequena.
• Piretrina: encontrada em certos inseticidas. Provoca hiperexcitabilidade, descoor-
denação e paralisia dos músculos e das ações respiratórias.
Biossegurança 61

• Nitrato de prata: o contato com a pele ou com as mucosas pode ser cáustico e
irritante. A ingestão pode causar gastrenterite aguda e até a morte.

Quando se pode determinar o tipo de veneno que foi assimilado, não se deve
provocar a expulsão dessas matérias por vômito: benzeno, hipoclorito de sódio (água
sanitária), carbonato de sódio, creosoto (creolina, fenóis), querosene, desinfetantes
fenólicos, soda (hidróxido de sódio), detergentes, soda para lavagem (barrilha) e re-
movedores de tintas. Nesses casos, uma nova passagem faria com que o veneno
corrosivo retornasse mais uma vez através dos delicados tecidos do aparelho digesti-
vo. Para diluir o material, recomenda-se a administração de líquidos, tais como água
ou leite, no volume de até um litro. É imprescindível o atendimento por profissional
competente ou hospitalização nos casos de intoxicação.

BIOSSEGURANÇA EM NECROPSIAS DE CADÁVERES DE


VÍTIMAS CONTAMINADAS POR MATERIAL RADIOATIVO

A manipulação desses cadáveres deve abranger os mesmos cuidados básicos já des-


critos neste capítulo, mas incluir a radioproteção de quem manipula resíduos radioa-
tivos sólidos, líquidos e gasosos em geral.
É sabido que a radiação ionizante não interage com nossos sentidos, de modo
que este é um dos fatores que contribuem para aumentar os riscos de exposições,
como a quantidade de energia depositada pela radiação por unidade de massa do
volume irradiado. É a grandeza física fundamental na avaliação dos efeitos biológicos
que podem resultar de uma exposição. A unidade-padrão de dose absorvida é o gray
(1 Gy = 1 joule/quilograma). Embora 1 Gy aumente a temperatura da água em apenas
0,0002°C, este valor de dose é muito elevado em termos de conseqüências biológi-
cas, em razão do fato de que a transferência de energia se faz diretamente no nível
atômico-molecular.
Quando se leva em consideração o tipo de radiação (p. ex., raios X ou gama, elé-
trons, prótons, nêutrons e partículas alfa), a grandeza da dose absorvida passa a ser
denominada dose equivalente, atribuindo-se a esta uma nova unidade: o sievert (Sv).
Se, além disso, for considerada a radiossensibilidade do tecido ou órgão atingido, a
dose equivalente recebe a denominação dose efetiva, caracterizando, dessa forma,
uma grandeza de radioproteção propriamente dita.
O conhecimento dos níveis de doses em radioproteção é um passo importante
para a avaliação dos riscos associados às exposições individuais ou coletivas. Com
isso, instituições internacionais recomendam limites de doses para trabalhadores e
membros do público, objetivando restringir esses riscos acidentais. A interação da
radiação ionizante com a matéria viva traduz-se pela transferência de energia da ra-
diação para o meio irradiado. A dose absorvida é definida na Tabela 4.1.
62 Manual de Técnicas em Necropsia Médico-Legal

Tabela 4.1 Limites primários anuais de dose de material radioativo para o trabalhador e
indivíduos em geral, adotados como referência no Brasil

Dose equivalente Trabalhador Indivíduo em geral

Efetiva (corpo inteiro) 50mSv* 1mSv

Cristalino 150mSv 50mSv

Pele 500mSv 50mSv

Extremidades** 500mSv 50mSv

* mSv = milisievert = 0,001 Sv.


** Mãos, antebraços, pés e tornozelos.
Fonte: CNEN (1988).

Em análise rápida, pode-se inferir, por exemplo, que as extremidades (mãos, ante-
braços, pés e tornozelos) são mais resistentes que o cristalino aos efeitos indesejáveis
de uma irradiação localizada.

Tipos de exposição ao cadáver contaminado por radioatividade


As exposições externas à radiação ionizante podem ser:

• A distância: esta é a forma mais comum, pois, mesmo distantes dos cadáveres
radioativos, todas as partes do corpo do manipulador estão geralmente expostas
à radiação, exceto quando da utilização de acessórios de proteção (avental de
chumbo, protetor de tireóide etc.).
• Por contato: a manipulação de substâncias radioativas leva o manipulador a en-
trar em contato com fluidos biológicos contendo essas substâncias, podendo oca-
sionar o depósito do material radioativo sobre a pele.
• Por imersão: ocorre durante a manipulação de fontes radioativas gasosas, em
particular em atividades envolvendo elementos radioativos de meia-vida curta.

Medidas de radioproteção e biossegurança


Podemos definir a radioproteção como o conjunto de medidas que devem ser seguidas
para a manutenção dos níveis de radiação ionizante dentro dos limites estabelecidos
pelos institutos oficiais, visando à proteção do homem e do meio ambiente contra os
efeitos indesejáveis causados pela exposição à radiação. No Brasil, a Comissão Nacio-
nal de Energia Nuclear (CNEN) e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA)
são complementares na regulamentação das práticas relacionadas com o manuseio
de substâncias marcadas com radioisótopos. Essas regras são, em sua maioria, funda-
mentadas nas recomendações de órgãos internacionais, como a International Com-
mission on Radiological Protection e a International Atomic Energy Agency.
Biossegurança 63

No que tange à monitoração individual, o uso de dosímetros compatíveis com


as condições de exposição (isto é, dosímetros fotográficos e termoluminescentes)
faz parte das normas de radioproteção. Nesse contexto, o emprego de tecnologias
modernas para a dosimetria operacional e individual permite melhor estimar a dose
absorvida para cada procedimento. Dessa forma, a utilização de detectores semicon-
dutores possibilita a obtenção de medidas de dose e índices de dose em tempo real,
melhor definindo as precauções a serem tomadas diante dos riscos associados às dife-
rentes tarefas desempenhadas. A gestão da radioproteção apresenta significativa im-
portância no processo de controle de qualidade em pesquisas envolvendo aplicação
de material radioativo. Essa gestão passa necessariamente pela monitoração, tanto
da área de trabalho quanto individual. Os instrumentos de monitoração de área de-
vem ser escolhidos em função do radioisótopo utilizado. De modo geral, um detector
Geiger-Müller simples (Figura 4.11) constitui ferramenta importante na investigação
das condições de radioproteção laboratorial.
Além disso, nos necrotérios onde ocorre manipulação de material radioativo, o
uso de equipamentos de proteção individual deve constituir uma prática corrente.
Protetores faciais (óculos e máscaras), roupas de proteção, luvas de látex ou vinil são
alguns dos acessórios essenciais para diminuir os riscos de contaminação. O uso de
protetores de sapatos evita a contaminação de outras áreas externas ao laboratório
de pesquisa, uma vez que são retirados e descartados em locais apropriados. É preciso
seguir as normas de biossegurança, eliminando condições ambientais de inseguran-
ça e atos inseguros para reduzir ao máximo a possibilidade de acidentes e doenças
ocupacionais.
Portanto, os cadáveres vítimas de acidentes com material radioativo terão de ser
primeiramente monitorados pela CNEN (Comissão Nacional de Energia Nuclear), de
maneira que possa ser informado ao serviço de necropsia se estão ainda contami-
nados pela radioatividade, usando a mensuração feita por meio de dosímetros co-
locados junto as vítimas, com a finalidade de detectar se as doses de radioatividade
emitidas são prejudiciais ao pessoal técnico, incluindo transporte, manipulação, ne-

Figura 4.11 Contador de Geiger-Müller


64 Manual de Técnicas em Necropsia Médico-Legal

cropsia até a liberação do corpo para sepultamento . Esse parecer deverá ser exarado
por escrito, constando, outrossim, a "meia-vida" do radioisótopo, do sal, material
radioativo e/ou minério.
Primeiramente, os corpos que são fontes da radioatividade serão levados ao ser-
viço de necropsia em urnas construídas com "isolantes", de tal modo que, conforme
os índices de emissão radioativa, estas poderão ser constituídas de materiais como
chumbo, concreto ou mesmo madeira.
No que concerne aos cuidados com a manipulação dos cadáveres propriamente
ditos, sabe-se que estes deverão ser manipulados por pessoal resguardado por equi-
pamentos de proteção individual, produzidos com "isolantes" da radioatividade, tais
como aventais, macacões, luvas, gorros, botas, protetores de tireóide, máscaras e
óculos, sendo os materiais mais facilmente disponíveis em nosso meio elaborados à
base de chumbo - os plumbíferos.
Com relação às salas de exames, estas devem ser exclusivas para o exame desses
cadáveres, tendo entrada independente e sendo restritas ao pessoal envolvido no
serviço, devendo, portanto, possuir a sinalização apropriada, como o símbolo inter-
nacional de radioatividade (Figura 4.12).
Uma vez concluída a perícia, esses locais deverão ser descontaminados por pes-
soal especializado do CNEN, e todo o material utilizado, recolhido e encaminhado a
depósitos seguros.

Figura 4.12 Símbolo da radioatividade

BIOSSEGURANÇA EM NECROPSIAS DE CADÁVERES


SUBMETIDOS EM VIDA A TRATAMENTO RADIOTERÁPICO

Para iniciarmos, é preciso ter em mente que a radioterapia é o tratamento utilizado


para tumores, cânceres e outras doenças malignas, valendo-se da radioatividade ioni-
Biossegurança 65

zante. Podem ser empregados: raios X (alta energia) de 250 a 500Kv, cobalto 60 ou
césio 137 e aceleradores lineares de raios X, que aceleram elétrons à altíssima veloci-
dade contra um alvo. Os tipos principais da radioterapia são a teleterapia ou terapia
a distância e a braquiterapia, em que a fonte de radiação está muito próxima ou no
interior do paciente, como na vagina e na cavidade uterina, ou mesmo implantes de
fármacos radioativos nos tecidos da próstata, do cérebro e da mama. Há também
terapias que se utilizam de radioisótopos, funcionando como braquiterapia enquanto
durar a "meia-vida" desses agentes.
No que concerne aos cadáveres submetidos à teleterapia, não existem preocu-
pações do ponto de vista da radioatividade, no que tange aos cuidados quanto à
biossegurança/radioproteção. Aos demais, nos remetemos aos cuidados já descritos
quando tratamos das vítimas contaminadas por material radioativo (não-seladas).

RECOMENDAÇÕES PARA A UTILIZAÇÃO DE FONTES


RADIOATIVAS NÃO-SELADAS

Instalações (salas de necropsia)


As recomendações para as salas de necropsia podem ser vistas na Tabela 4.2.

Tabela 4.2 Recomendações para as instalações

• A construção deve estar de acordo com as mesmas normas vigentes para a prevenção de
incêndios

• Os locais devem ser sinalizados com o símbolo de presença de radiação ionizante (ver Figura
4.12)

• Paredes, pisos, tetos, portas e superfícies em geral devem ser tais que a limpeza seja fácil,
devendo ser, portanto, revestidos de material lavável

• O mobiliário deve ser reduzido ao mínimo necessário, bem como ser constituído sempre de
material lavável e com disposição que facilite a circulação. Objetos e obstáculos desnecessá-
rios devem ser removidos

• A iluminação deve ser adequada, seguindo as normas vigentes. O nível de iluminação é medi-
do por um aparelho chamado luxímetro, e os valores mínimos recomendados para cada tipo
de atividade estão descritos na norma NBR-57 da ABNT (Associação Brasileira de Normas e
Técnicas)

• A ventilação deve ser adequada

• Nos locais onde houver manipulação de material radioativo volátil, devem existir capelas com
exaustão de gases, que devem ser lançados para ambiente externo, respeitados os limites
previstos para o radionuclídio em questão

Fonte', adaptada de Recomendações para a utilização de fontes radioativas não-seladas da Faculdade de Medi-
cina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP/USP).
66 Manual de Técnicas em Necropsia Médico-Legal

Armazenamento de material radioativo


As recomendações para armazenamento de material radioativo encontram-se na Ta-
bela 4.3.

Tabela 4.3 Recomendações para armazenamento de material radioativo

• O material radioativo, retirado do cadáver, deve permanecer armazenado em local destinado


especificamente a ele
• A escolha do local de armazenamento de material radioativo deve minimizar o percurso ao
local de manipulação e possibilitar o acesso a pessoas autorizadas
• O local de armazenamento deve ser adequadamente blindado e devidamente sinalizado
• O local de armazenamento deve ser inspecionado regularmente e testado quanto à contami-
nação
• Todas as fontes radioativas devem estar claramente rotuladas com informações acerca da
atividade e natureza
• Devem ser mantidos registros atualizados de todas as fontes armazenadas. Esses registros de-
vem apresentar informações a respeito de tipo de fonte, atividade, retiradas e nome da pessoa
responsável pelas retiradas
• O armazenamento de líquidos e fluidos radioativos deve ser feito em recipientes inquebráveis
e adequadamente vedados

Fonte: adaptada de Recomendações para a utilização de fontes radioativas não-seladas da Faculdade de Medi-
cina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP/USP).

Manipulação de material radioativo


Quanto à manipulação de material radioativo, as recomendações são apresentadas
na Tabela 4.4.

Tabela 4.4 Recomendações para manipulação de material radioativo

• As operações com material radioativo devem ser planejadas para que se limite o espalhamento
ou a dispersão desse material. Nesse sentido, a movimentação desnecessária de pessoas ou
materiais deve ser evitada
• As áreas de manipulação de material radioativo devem ser especialmente designadas para esse
fim. Os locais devem ser devidamente sinalizados e monitorados periodicamente
• Vidraria, instrumentais e equipamentos em geral utilizados em qualquer operação com mate-
rial radioativo devem sem separados daqueles usados para outras operações
• O uso de novas técnicas deve ser inicialmente testado com material inativo
• As bancadas para a manipulação de material radioativo não devem ser utilizadas para outras
operações. Devem ser revestidas de material lavável e impermeável e, durante a manipulação,
devem ser forradas com papel absorvente descartável, o qual deverá, posteriormente, ser tra-
tado como rejeito radioativo
• O cadáver radioativo deve ser levado à mesa de necropsia sobre bandeja devidamente forrada.
O mesmo procedimento deve ser realizado na retirada do material e dos instrumentos utiliza-
dos, para evitar que o material respingue ou derrame em áreas adjacentes
• Equipamentos, vidraria e instrumentos, quando não descartáveis, devem passar por processo
de descontaminação radioativa
(continua)
Biossegurança 67

Tabela 4.4 Recomendações para manipulação de material radioativo ( continuação)

• Quando a meia-vida do radionuclídio for pequena (menor que 60 dias) é desejável aguardar o
decaimento radioativo para dar continuidade à descontaminação
• São passíveis de descontaminação os equipamentos em que os contaminantes radioativos
foram prontamente solúveis ou dispersíveis em água
• A descontaminação radioativa dos equipamentos deve ser feita:
• Logo após o uso
• Em local exclusivo a essa operação
• Com água abundante
• Com os agentes químicos usuais
• As pias utilizadas para a descontaminação radioativa devem ser exclusivas para essa operação.
Devem, também, ter revestimento sem imperfeições ou rachaduras que provoquem acúmulo
de resíduos e de profundidade apropriada para evitar contaminações
• A quantidade de material radioativo lançada diariamente na rede de esgotos não deve ultra-
passar os limites previstos pela CNEN-NE 6.05
• Os equipamentos descartáveis usados devem ser tratados como rejeito radioativo
• A manipulação de material radioativo volátil só deve ser feita em capela com exaustão de gases
Fonte, adaptada de Recomendações para a utilização de fontes radioativas não-seladas da Faculdade de Medi-
cina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP/USP).

Proteção individual
A Tabela 4.5 apresenta as recomendações para proteção individual.

Tabela 4.5 Recomendações para a proteção de profissionais que manipulam cadáveres de


vítimas contaminadas por material radioativo

• Não se deve manipular cadáver radioativo com as mãos desprotegidas. O uso de luvas imper-
meáveis é indispensável; aconselha-se o uso de luvas descartáveis
• Não se deve manipular material radioativo sem estar vestindo um avental. Após o uso, o
avental deve ser mantido em lugar apropriado, separado de objetos de uso pessoal. É preciso,
ainda, lavá-lo separadamente
• A pessoa que tiver qualquer ferimento nas mãos, até a altura dos pulsos, não deve manipular
material radioativo
• A utilização de recipientes, vidraria, entre outros, com arestas pontiagudas que possam ferir as
mãos, deve ser evitada
• Nos locais de trabalho, não deve ser permitida a entrada dos seguintes itens:
• Comida e bebida
• Fumo
• Bolsas
• Batons e outros cosméticos
• Lenços de uso pessoal
• Utensílios para comida e bebida
• Os funcionários mais sujeitos à incorporação de material radioativo, por ingestão ou inalação,
devem ser submetidos a exames periódicos adequados que indiquem a quantidade de material
incorporado
• Os funcionários sujeitos à irradiação externa devem usar dosímetros pessoais
Fonte: adaptada de Recomendações para a utilização de fontes radioativas não-seladas da Faculdade de Medi-
cina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP/USP).
68 Manual de Técnicas em Necropsia Médico-Legal

Rejeitos radioativos
A Tabela 4.6 apresenta as recomendações para eliminação de rejeitos radioativos.

Tabela 4.6 Recomendações para a eliminação de rejeitos radioativos

• Os rejeitos radioativos devem ser separados fisicamente de quaisquer outros materiais


A eliminação de rejeitos radioativos sólidos no sistema de coleta de lixo urbano deve ter sua
atividade especializada
• A eliminação de rejeitos radioativos líquidos e gasosos deve respeitar as concentrações e os limi-
tes previstos pela norma CNEN-NE 6.05, que são diferenciados para os vários radionuclídios
• Os rejeitos radioativos que não puderem ser lançados no sistema de coleta de lixo urbano ou
na rede de esgotos, de acordo com os limites estabelecidos pela norma CNEN-NE 6.05, devem
ser segregados e devidamente acondicionados para serem armazenados em caráter provisório
até que sejam eliminados ou transferidos para local conveniente
• A segregação de rejeitos radioativos deve ser feita no local de trabalho, levando-se em conta
as seguintes características:
• Sólidos ou líquidos
• Orgânicos ou inorgânicos
• Putrecíveis
• Patogênicos
• Outros
• Os recipientes para armazenamento provisório de rejeitos radioativos devem ser adequados
às características físicas, químicas, biológicas e radiológicas dos materiais a que se destinam e
etiquetados

Fonte: adaptada de Recomendações para a utilização de fontes radioativas não-seladas da Faculdade de Medi-
cina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP/USP).

Monitoração da área
Na Tabela 4.7, encontram-se os procedimentos para monitoração da área com fontes
de radiação ionizante.

Tabela 4.7 Monitoração de área

• Todas as áreas que circundam fontes de radiação ionizante devem ser monitoradas com instru-
mentos adequados
• Tudo o que é utilizado no trabalho com material radioativo deve ser monitorado: mesas de
necropsia, bancadas, capelas, pisos, paredes, roupas etc. Sempre que forem encontrados níveis
superiores aos limites previstos, será necessário realizar a descontaminação
• Nos casos em que há liberação de gases ou vapores radioativos para o meio ambiente, deve ser
feita a monitoração do ar
• Quando há lançamento de rejeitos radioativos na rede de esgotos, deve ser feita a monitoração
de amostras dos líquidos desprezados. É preciso, então, proceder ao cálculo da diluição do
material no volume total do esgoto da instituição
• Os resultados de todas as monitorações devem ser registrados periodicamente em livro conve-
niente que permita a execução de inventários sempre que for necessário

Fonte: adaptada de Recomendações para a utilização de fontes radioativas não-seladas da Faculdade de Medi-
cina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP/USP).
Biossegurança 69

Monitoração pessoal do trabalhador


A monitoração pessoal é sempre recomendável (Tabela 4.8).

Tabela 4.8 Monitoração pessoal do trabalhador

• Os resultados de monitoração pessoal devem ser obrigatoriamente registrados quando a dose


acumulada em qualquer período atingir 1/10 do limite previsto para aquele período
• Os resultados da monitoração pessoal devem ser obrigatoriamente investigados toda vez que
a dose acumulada em qualquer período atingir 3/10 do limite previsto para aquele período
• A monitoração pessoal de irradiação externa deve ser feita com instrumentos adequados ao(s)
tipo(s) de radiação ionizante empregada
• A monitoração pessoal de contaminação interna deve ser realizada, com a freqüência deter-
minada pelo responsável pela radioproteção da instituição e sempre que houver suspeita de
incorporação acidental de material radioativo. As técnicas utilizadas devem ser adequadas às
possíveis incorporações, podendo incluir: contagem de corpo inteiro, contagem de tireóide,
análise radioquímica de urina, fezes etc.

Fonte: adaptado de Recomendações para a utilização de fontes radioativas não-seladas da Faculdade de Medi-
cina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP/USP).

BIOSSEGURANÇA EM NECROPSIAS DE CADÁVERES


PORTADORES DE MARCA-PASSOS

Os marca-passos são próteses eletroeletrônicas, impulsionadas por energia proveniente


de um acumulador eletrolítico (bateria), sendo indicados, como terapêutica, em pacien-
tes portadores de arritmias cardíacas, refratários muitas vezes ao tratamento farmaco-
lógico, com a finalidade de reestabelecer artificialmente a fisiologia cardíaca, e instala-
dos, em geral, na cavidade torácica. Hodiernamente, existem marca-passos utilizados
para reestabelecer os impulsos elétricos cerebrais, indicados na doença de Parkinson.
Com relação à biossegurança, não existem recomendações especiais no que con-
cerne à manipulação do cadáver portador desses equipamentos. Uma vez retirado
o equipamento, pelo fato de este possuir metais pesados em seus acumuladores de
energia regulamentados por leis ambientais, não deve ser descartado no meio am-
biente sem os devidos cuidados.
Cada equipamento possui um número de série colocado pelo fabricante, que con-
trola sua fabricação e destino, facilitando, com isso, a manutenção e o controle de
patrimônio.

BIBLIOGRAFIA

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www.orcbs.msu.edu acesso em 30/3/2005
Técnicas de Necropsia

DEFINIÇÃO

Ao longo do tempo, o exame do cadáver para investigação da causa mortis, realizado


por meio de estudo anatomopatológico ou com finalidade médico-legal, sempre foi
chamado de autopsia, no sentido de "ver com os próprios olhos". Todavia, parece
mais apropriado e de caráter mais específico o emprego do termo necropsia.
Sob o prisma etimológico, o termo necropsia, que é originado do grego e forma-
do pelo radical nekrós - morto, cadáver + opsis = ação de ver + sufixo -ia, significa
"inspeção do cadáver". Foi introduzido na língua portuguesa no início do século XIX,
a partir do francês.
Existe uma divergência de natureza prosódica, relacionada com o sufixo -ia, que
pode derivar-se tanto do grego, sendo a vogal /'tónica, como do latim, em que é áto-
na. Logo, a pronúncia correta torna-se indiferente, podendo ser autopsia ou autópsia,
necropsia ou necropsia.
Outro problema é o fato de que os termos autopsia e necropsia sejam considera-
dos sinónimos. A maioria dos autores acredita que sejam sinónimos, mas em nosso
meio se estabelece uma leve distinção: a de que a palavra autopsia deve ser usada
para a espécie humana (auto quer dizer "a si mesmo"), enquanto necropsia abrange
todas as espécies animais.
O importante aqui é ressaltar o significado atual do termo, que consiste no exame
minucioso do cadáver, externo e interno, feito por especialista habilitado, para deter-
minar o momento, as circunstâncias e a causa da morte.

IMPORTÂNCIA

A necropsia ou autopsia é um procedimento médico, praticado desde a Antiguidade,


que visa analisar a anatomia, o motivo da morte e as sucessivas alterações orgânicas
que acontecem após a morte do corpo.
72 ' Manual de Técnicas em Necropsia Médico-Legal

Esse procedimento é de extrema importância no aprendizado e no aprimoramento


da Medicina, pois funciona como material para ensino e pesquisa, de modo a propor-
cionar o reconhecimento de novas doenças e tipos de lesões, a avaliação do controle
de qualidade no diagnóstico de enfermidades, a verificação da eficácia da terapêutica
utilizada na evolução da moléstia e a elucidação de casos que não têm diagnóstico
clínico firmado ou naqueles em que a morte do paciente foi súbita ou inesperada.
A necropsia é de grande auxílio à Justiça para esclarecimento quando o cadáver é
o vestígio material do crime, sendo o exame de necropsia o próprio exame do corpo
de delito. O estudo detalhado da vítima possibilita estabelecer subsídio para a sua
identificação, determinar a hora aproximada da morte, a sua causa básica, o meio ou
o instrumento que a produziu e as condições preexistentes, intercorrentes ou super-
venientes que possam ter contribuído para a mesma.
Além disso, constitui fonte precisa de informação para as Secretarias de Saúde e
de Segurança Pública, possibilitando a elaboração de dados estatísticos sobre a inci-
dência de doenças e de mortes provocadas por causas externas (acidentes e violên-
cias), de modo a influenciar nas políticas de prevenção do Estado e do município.

TIPOS

Necropsia médico-legal ou forense


A necropsia médico-legal é um tipo especial de exame necroscópico, que visa atender
solicitações da justiça. É ordenada pelas autoridades competentes (delegado ou juiz)
em situações de morte violenta*, suspeita** ou súbita***. É efetuada por profissio-
nais qualificados e experientes no assunto, designados peritos. Constitui prova técni-
ca nos processos penais e sua execução dispensa autorização de familiares do falecido
ou de seu representante legal.

Verificação de óbito
É uma modalidade de necropsia realizada por médicos patologistas nos eventos de
morte não-violenta ou natural, decorrente de estados mórbidos diversos ou do pro-
cesso normal de envelhecimento, que ocorreu em indivíduo não assistido por médico,
ou em indivíduo que se encontrava em acompanhamento ambulatorial.

*Morte violenta é aquela resultante de fatores externos, acidentais ou intencionais, não relacionados com
a curva vital.
**Morte suspeita é a que não tem diagnóstico evidente e deve ser assim considerada sempre que houver
a possibilidade de não ter sido natural a sua origem. Os motivos da suspeição decorrem das circunstâncias
do local de encontro do corpo e/ou das características próprias do cadáver.
***Morte súbita refere-se mais à inexistência de uma patologia prévia que possa explicá-la do que ao seu
rápido tempo de evolução.
Técnicas de Necropsia 73

Nos locais em que não existe um Serviço de Verificação de Óbitos, apesar de ser
permitido a qualquer médico do serviço público ou particular o provimento da decla-
ração de óbito, em geral o corpo é encaminhado para o Instituto Médico-Legal mais
próximo, a fim de ser realizada uma necropsia.

Anatomopatológica ou hospitalar
É a necropsia desempenhada por patologistas no cadáver de paciente internado sob re-
gime hospitalar, que faleceu em decorrência de doença, que necessita de esclarecimen-
to sanitário e científico, correlacionando os achados macroscópicos e microscópicos do
exame das vísceras com as informações da história clínica e do tratamento instituído.
Requer autorização expressa de parentes próximos do paciente ou de seus res-
ponsáveis legais.

ASPECTOS LEGAIS

Os dispositivos legais que regulamentam a obrigatoriedade da necropsia são elenca-


dos no Código de Processo Penal Brasileiro (Título VII: Da prova; Capítulo II: Do exame
de corpo de delito e das perícias em geral) em seus artigos 158, 159 (alterado pela Lei
ns 11.690/2008), 160, 161 e 162.

Art. 158 Quando a infração deixar vestígios, será indispensável o exame de corpo
de delito, direto ou indireto, não podendo supri-lo a confissão do acusado.
Art. 159 O exame de corpo de delito e outras perícias serão realizados por perito
oficial, portador de diploma de curso superior.
§ 12 Na falta de perito oficial, o exame será realizado por 2 (duas) pessoas idôneas,
portadoras de diploma de curso superior preferencialmente na área específica, dentre
as que tiverem habilitação técnica relacionada com a natureza do exame.
§ 2a Os peritos não-oficiais prestarão o compromisso de bem e fielmente desem-
penhar o encargo.
§ 32 Serão facultadas ao Ministério Público, ao assistente de acusação, ao ofendido,
ao querelante e ao acusado a formulação de quesitos e indicação de assistente técnico.
§ 42 O assistente técnico atuará a partir de sua admissão pelo juiz e após a con-
clusão dos exames e elaboração do laudo pelos peritos oficiais, sendo as partes inti-
madas dessa decisão.
§ 52 Durante o curso do processo judicial, é permitido às partes, quanto à perícia:
I - requerer a oitiva dos peritos para esclarecerem a prova ou para responderem a
quesitos, desde que o mandado de intimação e os quesitos ou questões a serem es-
clarecidas sejam encaminhados com antecedência mínima de 10 (dez) dias, podendo
apresentar as respostas em laudo complementar;
II - indicar assistentes técnicos que poderão apresentar pareceres em prazo a ser
fixado pelo juiz ou ser inquiridos em audiência.
74 Manual de Técnicas em Necropsia Médico-Legal

§ 62 Havendo requerimento das partes, o material probatório que serviu de base


à perícia será disponibilizado no ambiente do órgão oficial, que manterá sempre sua
guarda, e na presença de perito oficial, para exame pelos assistentes, salvo se for
impossível a sua conservação.
§ 7a Tratando-se de perícia complexa que abranja mais de uma área de conheci-
mento especializado, poder-se-á designar a atuação de mais de um perito oficial, e a
parte indicar mais de um assistente técnico.
Art. 160 Os peritos elaborarão o laudo pericial, onde descreverão minuciosamen-
te o que examinarem, e responderão aos quesitos formulados.
Parágrafo único. O laudo pericial será elaborado no prazo máximo de 10 (dez) dias,
podendo esse prazo ser prorrogado em casos excepcionais, a requerimento dos peritos.
Art. 161 O exame de corpo de delito poderá ser feito em qualquer dia e a qual-
quer hora.
Art. 162 A autópsia será feita pelo menos 6 (seis) horas depois do óbito, salvo
se os peritos, pela evidência dos sinais de morte, julgarem que possa ser feita antes
desse prazo, o que declararão no auto.
Parágrafo único. Nos casos de morte violenta, bastará o simples exame externo
do cadáver, quando não houver infração penal que apurar, ou quando as lesões exter-
nas permitirem precisar a causa da morte e não houver necessidade de exame interno
para a verificação de alguma circunstância relevante.
De maneira similar, o Conselho Federal de Medicina, por meio da Resolução na
1.779/2005, estabelece a normatização quanto à responsabilidade médica no forne-
cimento da Declaração de Óbito:
Art. 1a O preenchimento dos dados constantes na declaração de óbito é da res-
ponsabilidade do médico que atestou a morte.
Art. 2a Os médicos, no preenchimento da declaração de óbito, obedecerão às
seguintes normas:

1. Morte natural
I. Morte sem assistência médica
a. Nas localidades em que haja Serviço de Verificação de Óbitos (SVO), a declara-
ção de óbito deverá ser fornecida pelos médicos do SVO.
b. Nas localidades que não disponham de SVO, a declaração de óbito deverá ser
fornecida pelos médicos do serviço público de saúde mais próximo do local em que
ocorreu o evento e, na ausência desses, por qualquer médico da localidade.
II. Morte com assistência médica
a. A declaração de óbito deverá ser fornecida, sempre que possível, pelo médico
que vinha prestando assistência ao paciente.
b. A declaração de óbito do paciente internado sob regime hospitalar deverá ser
fornecida pelo médico assistente e, na falta desse, por médico substituto pertencente
à instituição.
Técnicas de Necropsia 75

c. A declaração de óbito do paciente em tratamento sob regime ambulatorial


deverá ser fornecida por médico designado pela instituição que prestava assistência
ou pelo SVO.
d. A declaração de óbito do paciente em tratamento sob regime domiciliar (Pro-
grama Saúde da Família, internação domiciliar e outros) deverá ser fornecida pelo
médico pertencente ao programa ao qual o paciente estava cadastrado, ou pelo SVO,
caso o médico não consiga correlacionar o óbito ao quadro clínico concernente ao
acompanhamento do paciente.

2. Morte fetal
Em caso de morte fetal, os médicos que prestaram assistência à mãe ficam obriga-
dos a fornecer a declaração de óbito do feto, quando a gestação tiver duração igual
ou superior a 20 semanas ou o feto tiver peso corporal igual ou superior a 500g e/ou
estatura igual ou superior a 25cm.

3. Morte violenta ou não-natural


A declaração de óbito deverá obrigatoriamente ser fornecida pelos serviços mé-
dico-legais.
Parágrafo único: na localidade em que existir apenas 1 médico, este é o respon-
sável pelo fornecimento da declaração de óbito.

Portanto, conclui-se que, de modo geral, a necropsia deverá ser indispensável na


ocorrência dos seguintes casos:

• Morte violenta.
• Morte suspeita.
• Morte natural não-assistida.
• Internação hospitalar e morte em menos de 24h sem que tenha sido estabelecido
um diagnóstico.

No Estado do Rio de Janeiro, a Resolução nQ 550/1990 da Secretaria de Saúde


dispõe sobre a expedição de Atestado de Óbito, na qual consta, nos artigos 1Q e 2a, a
determinação de que caberá ao médico plantonista ou médico substituto fornecer tal
documento, para pacientes que venham a falecer de causa natural a caminho das, ou
nas dependências de pronto-socorro ou de ambulatório públicos ou privados.
Todavia, a maioria dos profissionais de saúde não se compromete a cumprir tal
Resolução, valendo-se dos artigos 114 e 115 do Código de Ética Médica* e, na práti-
ca, ao se deparar com situação semelhante, interroga morte suspeita, comunicando

*É vedado ao médico: Art. 144 Atestar óbito quando não o tenha verificado pessoalmente, ou quando não
tenha prestado assistência ao paciente, salvo no último caso, se o fizer como plantonista, médico substi-
tuto, ou em caso de necropsia e verificação médico-legal. Art. 155 Deixar de atestar óbito de paciente ao
qual vinha prestando assistência, exceto quando houver indícios de morte violenta.
76 Manual de Técnicas em Necropsia Médico-Legal

o fato à autoridade policial da circunscrição para ciência e encaminhamento do corpo


ao Instituto Médico-Legal.
Somado a isso, como ainda não foi criado um Sistema de Verificação de Óbitos em
nosso Estado, grande parte das necropsias de indivíduos que sucumbiram por morte
não-violenta também é realizada nos Institutos Médico-Legais, implicando desvio de
função e sobrecarga de trabalho para os técnicos policiais e peritos oficiais.
Considerando que o Instituto Médico-Legal Afrânio Peixoto/RJ não possui Serviço
de Verificação de Óbitos, não é de sua responsabilidade e competência a emissão da
Declaração de Óbito em situações de mortes naturais com e sem assistência médica.
Entretanto, o médico deve levar em consideração o trauma que a necropsia re-
presenta para os familiares do indivíduo falecido, que merecem toda a atenção e o
máximo respeito, cuidando para que não haja morosidade na liberação do corpo nem
que seja feito qualquer estrago desnecessário a este.
Para que os cadáveres provenientes de unidades hospitalares públicas ou privadas
ou postos de saúde sejam encaminhados ao IML/RJ, será necessário enviar juntamen-
te ao corpo o Prontuário ou Ficha Clínica afastando as causas de morte natural, na
forma da Resolução CFM n2 1.658/2002, que normatiza a emissão de atestados mé-
dicos e dá outras providências e diz, em seu art. 22: "Ao fornecer o atestado, deverá o
médico registrar em ficha própria e/ou prontuário médico os dados dos exames e tra-
tamentos realizados, de maneira que possa atender às pesquisas de informações dos
médicos peritos das empresas ou dos órgãos públicos da Previdência Social e da Jus-
tiça" e da Resolução Cremerj n2 216/2006, que dispõe sobre o envio de informações
médico-hospitalares com os cadáveres encaminhados aos Institutos Médico-Legais e
Serviços de Verificação de Óbito para realização de necropsia, instituindo a padroni-
zação de um modelo de ficha criado para facilitar o envio e manuseio de informa-
ções médico-hospitalares, de modo resumido, todavia fidedigno, com a finalidade de
orientar o exame de necropsia. Recentemente, a Polícia Civil do nosso Estado adotou
esse modelo na forma da Portaria n2 475, de 2 de setembro de 2008, que disciplina o
registro de ocorrência e a requisição de exame de corpo de delito-necropsia ao Insti-
tuto Médico-Legal pertinentes a cadáveres oriundos de instituições hospitalares.
A Lei Federal n2 8.501/1992 dispõe sobre a utilização de cadáver não reclamado
para fins de estudos ou pesquisas científicas:
Art. 12 Esta Lei visa disciplinar a destinação de cadáver não reclamado junto às
autoridades públicas, para fins de ensino e pesquisa.
Art. 22 O cadáver não reclamado junto às autoridades públicas no prazo de trinta
dias poderá ser destinado às escolas de medicina, para fins de ensino e de pesquisa
de caráter científico.
Art. 3fi Será destinado para estudo, na forma do artigo anterior, o cadáver:
I. sem qualquer documentação;
II. identificado, sobre o qual inexistem informações relativas a endereços de paren-
tes ou responsáveis legais.
Técnicas de Necropsia 77

§ 1a Na hipótese do inciso II deste artigo, a autoridade competente fará publicar


nos principais jornais da cidade, a título de utilidade pública, pelo menos dez dias, a
notícia do falecimento.
§ 2a Se a morte resultar de causa não-natural, o corpo será obrigatoriamente sub-
metido a necropsia no órgão competente.
§ 3a É defeso encaminhar o cadáver para fins de estudo quando houver indício de
que a morte tenha resultado de ação criminosa.
§ 4a Para fins de reconhecimento, a autoridade ou instituição responsável mante-
rá, sobre o falecido:

a. os dados relativos às características gerais;


b. a identificação;
c. as fotos do corpo;
d. a ficha datiloscópica;
e. o resultado da necropsia, se efetuada; e
f. outros dados e documentos julgados pertinentes.

Art. 4° Cumpridas as exigências estabelecidas nos artigos anteriores, o cadáver


poderá ser liberado para fins de estudo.
Art. 5e A qualquer tempo, os familiares ou representantes legais terão acesso aos
elementos de que trata o § 4a do art. 3Q desta Lei.

Convém fazer referência ao envolvimento legal quanto aos crimes contra o respei-
to aos mortos, Artigos 211 e 212 do Código Penal Brasileiro:

Art. 211 Destruir, subtrair ou ocultar cadáver ou parte dele:


Pena - reclusão de um a três anos e multa.
Art. 212 Vilipendiar cadáver ou suas cinzas:
Pena - detenção de um a três anos e multa.

Por fim, é preciso não esquecer que na necropsia, assim como em qualquer outro
ato médico, deve ser mantida a inviolabilidade do sigilo profissional (Artigo 154 do
Código Penal), passível de punição penal de todos os participantes que revelarem o
segredo e punição ético-profissional somente ao perito médico (Artigo 102 do Códi-
go de Ética Médica).
Segundo o Código de Ética Médica, é vedado ao médico:

Art. 102 Revelar fato de que tenha conhecimento em virtude do exercício de sua
profissão, salvo por justa causa, dever legal ou autorização expressa do paciente.
Parágrafo único: Permanece essa proibição: a) Mesmo que o fato seja de conhe-
cimento público ou que o paciente tenha falecido, b) Quando do depoimento como
testemunha. Nessa hipótese, o médico comparecerá perante a autoridade e declarará
seu impedimento.
78 Manual de Técnicas em Necropsia Médico-Legal

Art. 114 Atestar óbito quando não o tenha verificado pessoalmente, ou quando
não tenha prestado assistência ao paciente, salvo, no último caso, se o fizer como plan-
tonista ou médico substituto, ou em caso de necropsia e verificação médico-legal.
Art. 115 Deixar de atestar óbito de paciente ao qual vinha prestando assistência,
exceto quando houver indícios de morte violenta.

TÉCNICAS

A necropsia consiste no estudo das características externas do corpo e das mudanças


ocorridas em todos os órgãos depois da morte, a partir do exame macroscópico, que
fornece material para o exame microscópico, no qual serão vistas as alterações tissu-
lares e celulares.
O médico deve estabelecer relação entre os achados macroscópicos e microscópi-
cos com as informações da história do paciente, podendo então diagnosticar a causa
da morte, a doença de base e outras patologias concomitantes.
Existem quatro técnicas básicas de necropsia (The University of Texas, 2004):

• Técnica de Rokitansky (1842): os órgãos são abertos e examinados no próprio


sítio anatômico, sendo posteriormente retirados de maneira isolada.
• Técnica de Ghon (1890): a evisceração se dá através de monoblocos de órgãos
relacionados anatomicamente e/ou funcionalmente.
• Técnica de Virchow (1893): os órgãos são removidos um a um e, em seguida,
examinados fora do seu local anatômico.
• Técnica de Letulle (1900): faz-se uma grande incisão nas cavidades torácica e
abdominal, a fim de se ter uma ampla visão do conjunto de suas vísceras; o con-
teúdo das cavidades torácica e abdominal é retirado em um só bloco.

Alguns autores modificaram ou aperfeiçoaram essas técnicas, com a finalidade


de adequar a tarefa com o tipo específico de necropsia. Cada serviço de patologia e
de necropsia forense tem sua própria técnica, que na verdade é uma variante ou um
misto de uma ou mais das quatro técnicas básicas de necropsia.

Técnica de Rokitansky
Introdução
A primeira técnica completa de autopsia a ser descrita, ou seja, realizada de maneira
sistemática e ordenada, foi a técnica de Rokitansky (1842). Nela eram efetuados o
exame de ectoscópico, a dissecção in situ das vísceras e, em seguida, a remoção in-
dependente de cada órgão.
Carl Rokitansky, objetivando descobrir as alterações sistêmicas que conduziram ao
óbito, desenvolveu uma metodologia de avaliação do cadáver através de uma crite-
Técnicas de Necropsia 79

riosa inspeção do corpo, que consistia em examinar in locu todas as estruturas anatô-
micas, independentemente de sua improvável participação no processo mórbido.
Rokitansky foi hábil em associar os sintomas das doenças às lesões observadas
nos cadáveres que apresentavam a enfermidade tendo como base a anatomia e a
fisiologia, duas ciências complementares que se baseiam no princípio de que a forma
existe em razão da função fisiológica e vice-versa. Apoiado nesse axioma, ele cons-
tatou que alterações morfológicas levavam a mudanças fisiológicas que, por sua vez,
comprometiam todo o sistema, sendo o oposto também verdadeiro. Por tudo isso,
Rokitansky é considerado um dos fundadores da anatomia patológica.

Técnica
Na sua técnica de necropsia, Rokitansky buscava desvendar se os elementos físicos
representavam o padrão de referência quanto ao aspecto e à topografia usuais; após
essa etapa, seguia-se o exame peculiar de cada órgão, considerados como um único
bloco - um monobloco. Os órgãos eram incisados em sua posição anatômica, anali-
sados no próprio local e só depois se realizava a exérese de cada órgão individualmen-
te, a despeito de sua associação funcional com os demais. Essa investigação difere
grandemente de outras técnicas que aplicam a anatomia sistêmica para a retirada dos
órgãos, porque fundamenta-se na anatomia organológica.
O procedimento da retirada dos órgãos segue tradicionalmente o sentido cefa-
locaudal. Entretanto, essa seqüência de trabalho pode ser alterada em função de
diversas variantes, tais como o estado de conservação do cadáver, o interesse clínico
por uma determinada região anatômica ou simplesmente por deliberação do legista
responsável.
Pode-se afirmar que a técnica de Rokitansky apóia-se em três pilares: ectoscopia,
avaliação in locu de todos os órgãos e inspeção do monobloco.

Técnica de Ghon
Introdução
Essa técnica de autopsia foi criada pelo patologista austríaco Anton Ghon (1866-
1936), que trabalhou em vários países da Europa e nos EUA, reconhecido mundial-
mente pela realização de importantes descobertas científicas, principalmente na área
da patologia pulmonar.
Ghon modificou a técnica original de Rokitanski, introduzindo métodos de evisce-
ração em monoblocos vinculados anatomicamente e/ou funcionalmente, razão pela
qual seu nome foi dado a essa técnica.
Durante o exame interno de um cadáver, a técnica de Ghon modificada é realizada
na seguinte ordem:
80 Manual de Técnicas em Necropsia Médico-Legal

• Abertura do crânio.
• Abertura da cavidade toracoabdominal.
• 12 monobloco.
• 22 monobloco.
• 32 monobloco.
• 42 monobloco.

Abertura da cavidade craniana


Remoção do cérebro
Inicialmente, a incisão no couro cabeludo, chamada de bimastóide, deve ser feita cer-
ca de 1 a 2cm atrás da borda inferior do pavilhão auricular direito, estendendo-se pela
convexidade do crânio até alcançar o ponto correspondente contralateral. As duas
partes devem ser descoladas da calota craniana e rebatidas: a anterior até próximo
das órbitas e a posterior até a protuberância occipital externa. Caso os cabelos sejam
longos, há necessidade de enrolá-los e protegê-los (Figura 5.1).
A calota craniana de cadáveres adultos pode ser aberta de três maneiras: 1. Rea-
lizar uma única incisão circular 5cm acima das órbitas e 2cm acima dos ouvidos. Essa
abertura é prática, mas tem a desvantagem de permitir o deslocamento da calota
após o fechamento do couro cabeludo, desfigurando o corpo. 2. Fazer três incisões
retilíneas - a primeira, de disposição oblíqua e ascendente, desde o ponto retroau-

d c

Figura 5.1 Tipos de incisão no couro cabeludo. A mais utilizada é aquela que compreende as
linhas a-d (direita) e a-d (esquerda)
Técnicas de Necropsia 81

ricular até a região occipital, acima da sutura lambdóide; a segunda, do outro lado,
idêntica à anterior; e a terceira, ligando os dois pontos retroauriculares, passando pela
região frontal. Esta é um pouco mais trabalhosa, mas dá melhor resultado estético e
não permite o desencaixe da calota após o fechamento do couro cabeludo. 3. Efetuar
uma incisão circular, tal como no primeiro tipo descrito, exceto em três segmentos
dos ossos frontal e temporais, onde serão cortados três entalhes de 3cm, em forma
de V invertido, que auxiliam na retenção da calota quando da reconstituição do corpo
(Figura 5.2).
Não se deve cortar completamente o osso com a serra - a porção interna da
tábua óssea deve ser quebrada com raquítomo e martelo. Deve-se proceder desse
modo para evitar lesões do cérebro e também porque as bordas irregulares, assim
formadas, poderão fornecer pontos de fixação para a calota após o fechamento do
couro cabeludo.
Não é necessário quebrar toda a circunferência da calota com o martelo e o ra-
quítomo; basta quebrar três a quatro pontos e inserir o raquítomo fazendo pressão
para baixo e para os lados, simultaneamente, que o restante do osso vai se soltar.
Feito isso, utiliza-se a extremidade em gancho do martelo e puxa-se a calota. Deve-
se então examiná-la em busca de áreas de fratura, infiltrações hemorrágicas e lesões
líticas (aparecem como áreas mais transparentes quando a calota é colocada contra
a luz, geralmente causadas por destruição óssea provocada por tumores, tais como
mieloma múltiplo e metástases) (Figuras 5.3 e 5.4)

Figura 5.2 Tipos de corte da calota craniana. O plano de Griesinger compreende o corte a-b
O corte mais utilizado compreende o plano a-e
82 Manual de Técnicas em Necropsia Médico-Legal

Figura 5.3 Técnica de incisão do couro cabeludo (ver cad. cor)

O passo seguinte é a inspeção da dura-máter, membrana que reveste o cérebro,


e a abertura do seio sagital. Retira-se a dura-máter cortando-a com a tesoura, acom-
panhando as linhas de incisão da calota e, em seguida, secciona-se a foice do cére-
bro, sem, no entanto, soltá-la totalmente em sua porção posterior. Ocorre, então, a
exposição da convexidade cerebral. Para liberar o cérebro, é necessário introduzir os
dedos indicador e médio esquerdos entre os lobos frontais e a dura-máter, tracionan-
do-o delicadamente para trás, até a visualização dos nervos ópticos, para que sejam
cortados rentes. Continua-se tracionando o cérebro posteriormente, com a secção
gradativa dos nervos cranianos e das artérias carótidas internas; depois, devem-se
afastar os lobos temporais da base do crânio para cortar a tenda do cerebelo, próximo
à sua inserção óssea.
A última etapa consiste em incisar os nervos cranianos restantes e a medula es-
pinal o mais profundo possível. O cérebro está solto, e deve ser retirado com a mão
esquerda apoiada na convexidade, com os dedos médio e indicador da mão direita
colocados em torno do tronco cerebral, puxando-o para fora. Após a retirada do
encéfalo, deve-se examinar a base do crânio com a abertura dos seios venosos e, pos-
teriormente, proceder à remoção da hipófise. A dura-máter basal deve ser retirada,
principalmente se houver suspeita de fratura de ossos da base do crânio.
Técnicas de Necropsia 83

Figura 5.4 (A a M) Seqüência da técnica demonstrando a abertura do crânio (ver cad. cor)
(continua)
84 Manual de Técnicas em Necropsia Médico-Legal

Figura 5.4 (A a M) Seqüência da técnica demonstrando a abertura do crânio ( continua)


Figura 5.4 (A a M) Seqüência da técnica demonstrando a abertura do crânio ( continua)
Manual de Técnicas em Necropsia Médico-Legal

Figura 5.4 (A a M) Seqüência da técnica demonstrando a abertura do crânio ( continua)


Figura 5.4 (A a M) Seqüência da técnica demonstrando a abertura do crânio

Remoção da hipófise
Para ter acesso à glândula hipófise, secciona-se o diafragma da sela túrcica em toda
a sua extensão. A ponta do raquítomo é colocada na borda posterior da sela, e mar-
tela-se com o instrumento orientado para trás. Há também uma técnica mais simples,
feita com a tesoura de Mayo, que possibilita quebrar os processos clinóides do osso
esfenóide. Uma vez identificada, a glândula deve ser dissectada e retirada. A hipófise
também pode ser removida juntamente com o arcabouço ósseo que a envolve (em
casos de tumores hipofisários, por exemplo), bastando serrar os ossos da base do
crânio em torno da mesma, de maneira a formar um pentágono, com o ápice voltado
para a frente (Figura 5.5).

3
88 Manual de Técnicas em Necropsia Médico- egal

Abertura da cavidade toracoabdominal


Primeiramente deve-se idealizar uma incisão adequada para que a cavidade possa ser
bem visualizada, o que facilita o trabalho do técnico de necropsia e do médico.
Realiza-se uma incisão descendente, em forma de Y, que se inicia no ombro es-
querdo, passando internamente aos mamilos até atingir o terço inferior da região es-
ternal e, em seguida, ascende ao ombro direito. Aprofunda-se a incisão até encontrar
o gradil costal, começando a dissecção por baixo dos planos musculares, em direção
ao pescoço. O retalho cutâneo deve ser tracionado para cima e para trás. Ao abordar
as clavículas, a dissecação passa a ser subcutânea, devendo-se alcançar a mandíbula
e os acrômios. Deve-se ter cuidado para não lesionar a pele, mantendo o bisturi o
mais vertical possível.
Exposto o gradil costal, faz-se uma incisão mediana desde a margem inferior do
corte anteriormente referido até o púbis, desviando da cicatriz umbilical, que tem
de ser profunda o bastante para atingir a aponeurose e o peritônio, mas sem lesio-
nar os órgãos subjacentes. Disseca-se a pele e seccionam-se os músculos da parede
abdominal rente ao rebordo inferior do gradil costal de ambos os lados, exibindo-se
toda a cavidade abdominal. Os órgãos precisam ser examinados antes de eviscerados
para que sejam observadas possíveis mudanças na sua posição e relação, presença de
aderências, fístulas, deiscência de suturas, abscessos, peritonite etc. Depois de retira-
dos, não há mais como avaliar a maioria dessas alterações, ou ter certeza de que já
existiam antes e não foram provocadas pela própria evisceração (no caso de rupturas,
por exemplo).
Essa incisão descrita é chamada de biacromioxifopubiana. Outro tipo de incisão
utilizado na prática é a incisão submentoxifopubiana que, embora mais prática, apre-
senta pior resultado estético após o fechamento da pele.
A fase seguinte consiste na remoção do gradil costal. Inicialmente, movem-se
os ombros do cadáver para discriminar as articulações esternoclavículares, nas quais
deve ser aplicado um bisturi abotoado no sentido vertical, seccionando-as em toda
a sua extensão e também os músculos que se encontram inseridos na porção medial
das clavículas, de modo a desarticulá-las do osso esterno. Depois, com o auxílio de
um costótomo, cortam-se todas as costelas na direção longitudinal de uma linha
imaginária que passa pelo meio das clavículas, assim como a musculatura intercostal.
Por fim, para liberar o gradil e expor as vísceras intratorácicas, secciona-se a borda
anterior do músculo diafragma, ligada ao gradil, e os músculos que se inserem no
manúbrio esternal, tendo o cuidado de não lesionar o saco pericárdico que reveste o
coração.
Para a proteção das pessoas que manuseiam o cadáver, as extremidades das cos-
telas seccionadas devem ser recobertas com gazes, compressas ou com o próprio
retalho cutâneo obtido pela incisão externa.
Técnicas de Necropsia 89

Ao examinar as cavidades, deve-se atentar para a existência de aderências entre as


vísceras e observar se há presença de líquidos anormais em seu interior. Caso sejam
encontrados derrames, estes devem ser analisados quanto às suas características,
esvaziados e medidos, com precaução em relação à contaminação por sangue prove-
niente da técnica de necropsia (Figuras 5.6 e 5.7).

Figura 5.6 Incisão submentoxifopubiana pela técnica de Virchow (ver cad. cor)
90 Manual de Técnicas em Necropsia Médico-Legal

Figura 5.7 (A a E) Seqüência demonstrando a técnica de abertura da cavidade toracoabdo-


minal (ver cad. cor) ( continua)
Técnicas de Necropsia 91

Figura 5.7 (A a E) Seqüência demonstrando a técnica de abertura da cavidade toracoabdo-


minal

Primeiro monobloco
0 primeiro monobloco é formado pelas estruturas anatômicas que se encontram no
mediastino, estendendo-se até os pulmões e os órgãos da boca e do pescoço. Essa
composição abrange resumidamente todos os seus constituintes, pois o mediastino é
o intervalo entre as duas pleuras, que compreende um mediastino superior, acima do
nível do pericárdio, e três divisões inferiores, denominadas anterior, média e posterior
- ou seja, ele contém o coração e o pericárdio, os grandes vasos relacionados com o
coração, o esôfago, a artéria aorta torácica, o timo, a traquéia, além dos brônquios
principais e outras estruturas dos hilos pulmonares.
92 Manual de Técnicas em Necropsia Médico-Legal

A técnica se inicia com a secção dos músculos ântero-laterais cervicais, aprofun-


dando-se o corte até o arco da mandíbula, de cada lado da laringe, sem lesionar a
pele do pescoço, até alcançar as glândulas submandibulares, que servirão de base
para a secção seguinte, visto que estarão dentro do material retirado no início desse
primeiro monobloco. Logo, o corte deverá ser feito bem adjacente a elas, seccio-
nando-se, sob a mandíbula, todo o assoalho da boca juntamente com a língua e
a extremidade inferior da orofaringe. A partir daí, traciona-se com as mãos todo
o conteúdo cervical, inclusive o esôfago, pertencente ao segundo monobloco, que
sairá junto com o material do primeiro. Nessa fase, as pleuras parietais são liberadas
do gradil costolateral com as mãos, para assim soltar os pulmões e, com a mesma
técnica, liberar o esôfago da coluna vertebral. Após esse último procedimento, o
esôfago deverá ser desprendido da traquéia por meio de dissecção com uma tesoura
do tipo Metzenbaum. É feita uma ligadura na extremidade inferior do esôfago com
o propósito de que não ocorra extravasamento do conteúdo gástrico, com posterior
secção acima desse nível. A porção superior do esôfago seguirá em definitivo com
o primeiro monobloco, tendo em vista que não foi dissecada da traquéia. Já as suas
porções média e inferior seguirão com o segundo monobloco.
O coração é a última parte a ser solta, devendo ser circundado com a mão do
operador colocada por detrás dele, estando a aorta descendente e a veia cava inferior
pinçadas entre os seus dedos polegar e indicador, utilizando-se de uma faca ou tesou-
ra para cortar abaixo da preensão e liberar de vez o monobloco.

Segundo monobloco
O segundo monobloco é constituído pelo sistema digestivo, representado por segmen-
to do esôfago (terço inferior) e do duodeno, estômago, pâncreas, fígado, sistema biliar
e baço. Em primeiro lugar, com o objetivo de facilitar as etapas subseqüentes, secciona-
se a porção central das cúpulas diafragmáticas com uma faca, no sentido ântero-pos-
terior, possibilitando que o fígado seja rebatido. Na seqüência, deverão ser liberados o
baço, o pâncreas e o segmento do duodeno que atinge a coluna vertebral, cortando-se
a artéria celíaca e a veia cava, tomando-se cuidado para que a artéria aorta permaneça
intacta. Depois, dissecam-se as aderências e os ligamentos falciforme e redondo do
fígado, utilizando os dedos ou o bisturi, para que ele seja solto do diafragma.

Terceiro monobloco
O terceiro monobloco compõe-se das glândulas supra-renais, rins, ureteres, bexiga,
reto, próstata e vesículas seminais (sistema urogenital masculino), útero, tubas ute-
rinas e ovários (sistema urogenital feminino). A retirada desse monobloco não pode
ser feita com os intestinos ainda no local. Inicia-se com a liberação do rim e da supra-
renal esquerdos, incisando-se o peritônio de revestimento e separando-os da museu-
Técnicas de Necropsia 93

latura subjacente. Feito isso, prossegue-se a dissecação em direção à pelve, por baixo
da artéria aorta, até chegar à coluna vertebral lombar. Durante esse procedimento,
deve-se ter extremo cuidado para não lesionar o ureter. Em seguida, realiza-se o
mesmo trabalho no lado direito. Adiante, a dissecação passa a ser realizada com os
dedos, sem que se consiga visualizar os planos de corte, com o objetivo de liberar
os órgãos pélvicos: bexiga, reto e órgãos genitais internos. Em seguida, cortam-se os
vasos ilíacos e as ligações restantes no assoalho pélvico. Caso a necropsia esteja sendo
realizada em um homem, os testículos também deverão ser retirados.

Quarto monobloco
O quarto monobloco é formado pelo segmento terminal do duodeno, jejuno, íleo e
cólon. Embora seja o último, esse monobloco deverá ser o primeiro a ser examinado
logo após a abertura das cavidades abdominal e torácica, devido á rápida autólise
que ocorre no trato gastrintestinal. Em primeiro lugar, rebate-se para a direita todo o
intestino delgado, identificando-se a área de passagem do duodeno, a partir do re-
troperitônio, para o interior da cavidade peritoneal (ou seja, a alça fixa do duodeno).
Em seguida, depois de incisar o mesentério, fazem-se duas ligaduras no jejuno com
10cm de intervalo entre si e o segmento interposto é seccionado. Prossegue-se identi-
ficando o cólon sigmóide e realizando o mesmo procedimento citado anteriormente,
com secção na altura do reto. Desse modo, o intestino grosso é solto e retirado jun-
tamente com o mesocólon, tendo-se cuidado para não lesionar as estruturas situadas
inferiormente. Por fim, secciona-se a raiz do mesentério, o mais próximo possível da
artéria aorta, para que todo o intestino delgado seja removido.
Finalizada a técnica, todo o líquido contido das cavidades deverá ser drenado.
Em seguida, ocluem-se com material absorvente (estopa, gaze, algodão ou qualquer
outro tecido disponível) os orifícios naturais do corpo. Recolocam-se no interior do
cadáver todos os órgãos que não serão apreciados em exames subsidiários e, em se-
guida, reposiciona-se o gradil costal. Sutura-se a pele por pontos oblíquos, de baixo
para cima, distantes cerca de 1cm um do outro. Todos esses cuidados têm por ob-
jetivo garantir que, após a evisceração, o cadáver seja reconstituído de modo a não
deixar evidências da necropsia depois de vestido. O trabalho termina com a lavagem
cuidadosa do corpo com água, de maneira que todas as manchas de sangue ou se-
creções sejam removidas.

Técnica de Virchow
Introdução
A técnica de Virchow foi desenvolvida por Rudolf Virchow em 1893 e ainda hoje é
bastante utilizada.
Consiste na retirada de órgão a órgão como uma forma de estudo particularizada,
sendo de grande valia na patologia forense.
94 Manual de Técnicas em Necropsia Médico-Legal

Rudolf Virchow, um dos mais proeminentes médicos do século XIX, cientista e


político alemão, foi pioneiro no conceito moderno do processo patológico da doen-
ça. Ele enfatizou que as doenças se iniciam não nos órgãos ou tecidos em geral, mas
primeiramente nas células individuais. Virchow também contribuiu para o desenvolvi-
mento da Antropologia como uma ciência moderna.
Por seu trabalho voltado para a área de anatomia patológica, mais especificamen-
te para o estudo de doenças, Virchow desenvolveu uma técnica de necropsia de aná-
lise individual, que requer um sólido conhecimento do corpo humano. Pelo método
de Virchow, os órgãos são retirados separadamente e, uma vez extraídos do corpo,
procede-se a um exame técnico e minucioso de cada um.

Técnica
A principal característica da técnica de Virchow consiste no reconhecimento global das
vísceras no seu local anatômico e na análise posterior de cada órgão separadamente.
Essa técnica costuma ser empregada pelos mais experientes patologistas forenses.
Consiste em uma incisão única, medial, que se inicia na margem inferior do men-
to, seguindo a linha média, pela face anterior do pescoço, tórax e abdome, contor-
nando neste último o umbigo, pelo lado esquerdo, até atingir o púbis. Em seguida,
descolam-se com a faca todas as partes moles que recobrem o plastrão costocon-
droesternal, rebatendo para ambos os lados a pele, o tecido celular subcutâneo e
os músculos. Em seguida, de posse do costótomo, procede-se ao corte das costelas,
partindo da última para a primeira, ou seja, de baixo para cima, percorrendo a linha
axilar anterior ou a linha axilar média, de modo a ter uma boa exposição da cavidade
torácica. Completa-se com a desarticulação de ambas as clavículas do manúbrio es-
ternal. Desse modo, ficando livre o plastrão, este é então retirado, desinserindo-se o
músculo diafragma através de um corte rente às costelas, seccionando-se os planos
celulares do mediastino anterior à medida que este é levantado. Uma vez que as
costelas seccionadas apresentam irregularidades em suas extremidades, passíveis de
causar lesão no operador, é recomendável que os retalhos superficiais que ficaram em
ambos os lados do corte longitudinal sejam voltados para dentro, de maneira a cobrir
as margens ósseas costais, com isso aumentando-se a segurança individual. Poste-
riormente, efetua-se a retirada órgão a órgão, a fim de analisar separadamente cada
estrutura, para determinar em qual deles encontrava-se a patologia ou traumatismo
que levou à morte do indivíduo necropsiado.

Técnica de Letulle
Exame externo
O exame externo do cadáver, ou ectoscopia, é de grande valor no esclarecimento e
no diagnóstico de muitos processos patológicos, assim como na descoberta de lesões
Técnicas de Necropsia 95

traumáticas. Basicamente, certos caracteres devem ser pesquisados e minuciosamen-


te relatados:

• O desenvolvimento do esqueleto, fazendo-se referência a deformidades existentes.


• O estado de nutrição, avaliado pela quantidade de tecido adiposo subcutâneo e
de massa muscular.
• Os fenômenos cadavéricos tardios, que constituem alterações passivas decorrentes
de mecanismos de ordem física: desidratação tegumentar, resfriamento corporal e
livores de hipóstase; e de ordem química: autólise, rigidez muscular e putrefação,
sendo utilizados em conjunto para a determinação da hora da morte.
• O aspecto da pele, observando-se a presença de lesões cutâneas, cicatrizes, inci-
sões, tatuagens ou alterações de coloração (que podem ser patológicas, traumá-
ticas ou decorrentes dos sinais tardios de morte).
• Secreções provenientes do nariz, da boca, dos ouvidos, da uretra, da vagina e do
ânus.

Crânio e medula espinal


Para facilitar a incisão do couro cabeludo, coloca-se um cepo debaixo do pescoço do
cadáver, em posição de decúbito dorsal, a fim de levantar a cabeça. Separa-se o cabe-
lo em dois grupos, anterior e posterior, para que fique livre a linha de incisão dos te-
cidos moles; essa linha de incisão começa e termina na altura do vértice das apófises
mastóides e passa pelo ápice da cabeça, de modo a se obterem dois retalhos: um an-
terior e outro posterior. Caso se torne necessário, é possível prolongar a incisão para
as regiões parotidianas a fim de examinar as glândulas ali situadas. Outra vantagem
da incisão bimastóidea é que, quanto mais extenso for o corte dos tecidos moles,
mais fácil será o exame dos ossos por eles cobertos e as manobras subseqüentes.
O couro cabeludo é liberado dos ossos do crânio com o auxílio do bisturi; despren-
de-se o retalho anterior até as arcadas supra-orbitárias e o retalho posterior deve ser
destacado até a altura da protuberância occipital externa.
É importante rebater os músculos temporais para diante e para baixo e, em se-
guida, ruginar todos os ossos expostos do crânio, a fim de proceder a um minucioso
exame da tábua externa, observando as suas particularidades e as lesões anatômicas
de que porventura seja sede.
No corte dos ossos do crânio será adotada a linha circular. Marcam-se dois pontos
com um lápis ou com um ligeiro traço de serra, um anterior e outro posterior, que
devem ficar situados, o primeiro, dois dedos acima da raiz do nariz e, o segundo, dois
dedos acima da protuberância occipital superior. Reúnem-se os pontos por um traço,
assinalando o plano gerido por eles. Coloca-se a serra na linha de corte e cava-se o
sulco que deverá ser percorrido pelo instrumento; o operador deve aplicar a mão
sobre a abóbada craniana, firmando-a durante o procedimento, mas de modo que
96 Manual de Técnicas em Necropsia Médico-Legal

possa mover a cabeça para um ou outro lado, no intuito de exibir novas regiões aos
dentes do instrumento. Começa-se serrando vagarosamente e, depois, de maneira
mais vigorosa e rápida, para que no final da operação volte-se a trabalhar devagar e
sem exercer pressão forte. O corte interessa à totalidade do osso e deve-se ter cautela
para não lesionar a dura-máter e o encéfalo.
A linha acima indicada tem a vantagem de passar por pontos em que o osso tem
espessura menor e mais uniforme. Alguns autores atentam para o fato de se fazerem
chanfros na incisão do crânio ou, ainda, um corte angular, para impedir que a abóba-
da craniana não saia do lugar ao se reintegrar o corpo.
Para retirar a abóbada é conveniente o emprego do martelo e do escopro. Pode-se
executar essa manobra com os ossos bem serrados; basta introduzir o escopro aden-
tro para alargar a fenda e possibilitar a introdução do gancho, situado na extremidade
do cabo do martelo, com a ponta voltada para cima e para trás, exercendo tração na
altura da linha média; deve-se amparar a abóbada com a mão.
O patologista dedica agora sua atenção ao exame da dura-máter, verificando se
está simetricamente disposta e uniforme, com a mesma tensão de cada lado da linha
média, e se consegue levantá-la em pregas na parte anterior com facilidade. Analisa
os vasos meníngeos, notando se estão igualmente distendidos; a riqueza de granu-
lações, a coloração, a espessura e a transparência da meninge. Abre-se então o seio
sagital superior, usando uma tesoura de ponta romba.
No caso da dura-máter, levanta-se uma prega no seu pólo frontal e, com a mesma
tesoura, inicia-se a incisão no sentido ântero-posterior em direção ao occipital. Os
retalhos obtidos são rebatidos lateralmente para fora e cada um deles é dividido ao
meio, totalizando quatro retalhos.
Com tesoura ou bisturi, desprende-se a foice do cérebro da apófise crista galli, in-
clinando-o para trás até a parte posterior do corte do osso. Com os quatro últimos de-
dos da mão esquerda, afastam-se os lobos frontais da base do crânio, possibilitando
a visualização dos pares de nervos óptico e olfatório; cortam-se os nervos ópticos e,
cuidadosamente, levantam-se os bulbos olfatórios. Em seguida, seccionam-se as arté-
rias carótidas internas, o pedúnculo da hipófise e os nervos oculomotores. É realizada
a incisão da tenda do cerebelo e a secção dos outros nove pares de nervos cranianos
(troclear, trigêmeo, abducente, facial, vestibulococlear, glossofaríngeo, vago, acessó-
rio e hipoglosso) e, por fim, incisa-se a medula espinal com as artérias vertebrais; esse
corte deve ser feito o mais distante possível do encéfalo. Uma vez retirado o encéfalo,
tem-se acesso às meninges aderidas à base do crânio, sendo muito importante a ins-
peção dos ossos da base do crânio após a extração das mesmas.

• Método de Maurice Letulle: coloca-se o encéfalo sobre a mesa, assentando-o


pela convexidade; cortam-se os pedúnculos cerebrais perpendicularmente ao seu
eixo e imediatamente acima da protuberância. Procede-se ao exame do cerebelo,
Técnicas de Necropsia 97

da protuberância e do bulbo, começando pelo cerebelo. O bulbo raquidiano fica


com a face anterior voltada para a mesa e a superfície de secção voltada para o
lado do operador. Divide-se o hemisfério cerebelar direito em quatro fatias por
meio de quatro golpes verticais, paralelos ao eixo do vérmix e incompletos, visto
que se deixa uma porção por cortar, que funciona como charneira. Faz-se uma in-
cisão vertical indo do vérmix superior ao inferior, abrindo o quarto ventrículo. Vol-
tam-se depois as vísceras, de modo a ficar a protuberância do lado do operador,
para que se cortem os hemisférios cerebelares de maneira idêntica. Em seguida,
coloca-se o bulbo e a protuberância com a face posterior sobre a mão esquerda,
a superfície de secção do bulbo virada para o punho, e executa-se uma série de
cortes paralelos entre si e distanciados em 0,5cm, perpendiculares ao eixo bulbo-
protuberancial. Terminado o exame, procede-se à pesagem das estruturas.
Depois, o operador prossegue na autopsia do cérebro, conservando-o na posição
em que tinha sido anteriormente deixado, ou seja, apoiado pela convexidade e
com os lobos frontais voltados para si. Separando com os dedos os tubérculos
quadrigêmeos, incisa a glândula pineal, a qual é examinada através de secção
transversal mediana. Levanta os hemisférios cerebrais, assenta-os na mesa com
a base voltada para baixo e separa um do outro, dividindo o corpo caloso na
direção da frente para trás. A essa altura, efetua a decorticação de cada um dos
hemisférios, mas nâo o faz completamente. Deita sobre a mesa o hemisfério, pela
face externa, introduz o dedo indicador esquerdo no corno occipital do ventrículo
lateral e põe-no a descoberto. Em seqüência, abre o corno esfenoidal e o frontal.
Termina a autopsia realizando cortes histológicos apropriados, e só por último é
que se pesa o cérebro.

• Extração da medula espinal: o cadáver deve ser posicionado em decúbito ven-


tral, pois a via de acesso adotada será posterior; é aconselhável realizar essa téc-
nica antes da abertura do tórax e do abdome, já que os órgãos dessas cavidades,
quando em suas posições anatômicas, conferem maior suporte ao corpo. A cabe-
ça tem de ficar para fora da mesa, ou ainda sobre esta, mas com o rosto ampara-
do por uma toalha.
A incisão da pele começa na base do crânio (acima da nuca) e em formato de Y,
descendo linearmente sobre a região da coluna vertebral até o sacro. Os múscu-
los paravertebrais e as aponeuroses de ambos os lados do processo espinhoso
vertebral, que recobrem o par de lâminas vertebrais, são retirados com escopro
ou bisturi. Efetua-se uma laminectomia com a serra vibratória ou com outro ins-
trumento. Para completar a separação, utilizam-se escopro e martelo. As apófises
espinais que se encontram unidas às lâminas sâo extraídas inteiras. As lâminas da
primeira vértebra cervical nâo devem ser cortadas, porque a cabeça do cadáver
ficaria instável, com movimento rotatório exacerbado sobre a coluna.
98 Manual de Técnicas em Necropsia Médico-Legal

Após a secção de todos os nervos espinais na área compreendida entre as raízes


nervosas e seu gânglio espinal, consegue-se extrair a medula espinal junto com
a dura-máter. Depois, corta-se o tecido epidural com o bisturi e abre-se a dura-
máter com uma tesoura de ponta romba, seguindo a linha média. O processo de
extração da medula deve ser feito com todo o cuidado para que esta não sofra
lesão.

Pescoço, tórax e abdome


A incisão do pescoço, que é feita com uma faca, tem início logo abaixo do mento e
se prolonga até o manúbrio esternal. Já a abertura do tórax e do abdome, segundo a
técnica de Letulle, é feita simultaneamente por meio de uma única incisão elipsóide
e oval, que abrange a parede anterior de ambas as cavidades. O corte começa na
articulação acromioclavicular direita, contorna lateralmente o mamilo e desce pela
linha axilar anterior até alcançar a fossa ilíaca homolateral, pouco acima da espinha
ilíaca ântero-superior; nesse nível, a incisão curvilínea é desviada medialmente na
direção do púbis, atingindo a fossa ilíaca contralateral e, a partir daí, ascende de
forma simétrica à inicial. Este é considerado o procedimento de escolha nos casos de
embalsamamento.
Desarticula-se a extremidade interna das clavículas com um bisturi fino, para, em
seguida, cortar todas as costelas com o costótomo. Seccionam-se o diafragma e o
ligamento redondo do fígado. Levanta-se a tampa constituída pela parede toracoab-
dominal, recostando-a sobre as coxas do cadáver, o que permite uma ampla abertura
das duas cavidades. As margens costais devem ser cobertas com gaze para evitar a
exposição de áreas cortantes.
Na técnica de Maurice Letulle, extraem-se todos os órgãos do tórax e do abdome
em um só bloco.
Para extrair a língua, as amígdalas e o palato mole, o acesso à cavidade bucal
é realizado através do assoalho da boca. Secciona-se o palato mole na sua área de
união com a porção óssea e se aprofunda a incisão, cortando a parede posterior da
faringe.
Para separar os outros órgãos cervicais da coluna vertebral continua-se dissecando
o espaço pré-vertebral.
No tórax, prossegue-se destacando os órgãos da coluna dorsal.
Na pelve, com os dedos encaixados nos tecidos extraperitoneais, por trás da sínfise
púbica, descolam-se da parede pélvica a bexiga e a próstata ou o útero e a vagina.
Depois de comprimir para cima o conteúdo retal e fazer as ligaduras, corta-se e
efetua-se a dissecação atrás do reto.
A uretra é seccionada próximo à sua saída da pelve. Os órgãos pélvicos são dobra-
dos para cima e para fora. Removem-se os tecidos resistentes, incluindo o diafragma
Técnicas de Necropsia 99

e, em seguida, se extrai a massa completa de órgãos, colocando-a sobre a mesa de


dissecção com a superfície posterior voltada para cima.
Uma vez extraído o monobloco, passa-se ao exame das cavidades; será verificado
se existem fraturas costais, lesões vertebrais ou qualquer outra alteração.
No monobloco consegue-se identificar o conduto torácico. As veias ilíacas e a veia
cava são abertas com tesouras, cortando-se suas principais tributárias.
Devem-se examinar os gânglios linfáticos retroperitoneais. As artérias ilíacas e a
aorta são abertas em toda a sua extensão, até a altura do arco aórtico. Observam-se
a espessura das paredes, o tamanho e as características dos orifícios dos ramos princi-
pais da aorta, especialmente os das artérias renais e carótidas primitivas.
As glândulas supra-renais são extraídas e posteriormente dissecadas, depois de
retirada a gordura adjacente.
Os rins e os ureteres são liberados dos tecidos circundantes e a artéria aorta é
separada da inserção do mesentério. A artéria aorta, as artérias renais e os rins são
afastados para baixo e os ureteres também seguem até a bexiga.
O corte e o exame das vísceras devem ser realizados, bem como a pesagem de
todas elas. Havendo necessidade de exames complementares, coleta-se material para
toxicologia e/ou histopatologia. A necropsia termina com a devolução das vísceras ao
corpo, restauração e limpeza do cadáver (Figuras 5.8 e 5.9).

Figura 5.8 (A a G) Seqüência demonstrando a técnica de fechamento do couro cabeludo


(ver cad. cor) ( continua)
100 Manual de Técnicas em Necropsia Médico-Legal

Figura 5.8 (A a G) Seqüência demonstrando a técnica de fechamento do couro cabeludo


(continua)
Figura 5.8 (A a G) Seqüência demonstrando a técnica de fechamento do couro cabeludo
102 Manual de Técnicas em Necropsia Médico-Legal

Figura 5.9 (A a E) Seqüência demonstrando a técnica de fechamento das cavidades torácica


e abdominal (ver cad. cor) ( continua)
Técnicas de Necropsia 103

Figura 5.9 (A a E) Seqüência demonstrando a técnica de fechamento das cavidades torácica


e abdominal

NECROPSIA EM FETOS, RECÉM-NASCIDOS E LACTENTES

Geralmente, a técnica de necropsia utilizada em fetos, recém-nascidos e lactentes é


similar à que se emprega em indivíduos adultos, com algumas variações que serão
discutidas adiante.
Há de se considerar que a maior dificuldade nesse tipo de exame encontra-se na
grande diferença de tamanho, pois seus órgãos são comparativamente menores, al-
104 Manual de Técnicas em Necropsia Médico-Legal

gumas vezes minúsculos, na dependência da idade gestacional, o que requer, obriga-


toriamente, análise mais atenta e meticulosa, com demanda de uma gama diferente
de instrumentos apropriados, muitas vezes indisponíveis nos serviços de medicina
forense.
Outro entrave na execução dessas perícias é a necessidade de conhecimento es-
pecializado em patologia pediátrica, uma vez que o aspecto macroscópico normal de
alguns órgãos e estruturas anatômicas pode confundir-se com distúrbios ou lesões, se
comparado ao observado em crianças maiores ou mesmo adultos (Figura 5.10).
Uma série de mensurações essenciais devem ser incluídas no exame externo,
como peso corporal, comprimentos cabeça-calcãneo e cabeça-nádega, bem como a
aferição do diâmetro biparietal e das circunferências da cabeça, do tórax e do abdo-
me. O peso dos órgãos internos maiores, sobretudo cérebro, coração, pulmões, timo,
fígado, baço, rins e adrenais, também deve ser medido. O comprimento do fémur é
de importante valia no cálculo da idade gestacional.
Em fetos com menos de 12 semanas de gestação ou comprimento inferior a
70mm, como são muito pequenos, o método recomendado e acessível consiste no

Figura 5.10 Incisão para abertura das cavidades torácica e abdominal no recém-nascido (ver
cad. cor)
Técnicas de Necropsia 105

corte global do embrião em fatias de aproximadamente 1 cm, para exame em micros-


cópio de dissecção.
A partir do segundo trimestre de gestação, pode-se proceder à necropsia conven-
cional, com remoção dos órgãos em bloco para inspeção, deixando os rins, os urete-
res e a bexiga in situ para exame posterior. A retirada em bloco é a mais adequada por
preservar a relação habitual entre os órgãos, permitir a avaliação da microanatomia
de uma área particular de um órgão em comparação com as demais regiões do mes-
mo e possibilitar a visualização mais fácil de anomalias ou más-formações.
Com relação ao exame da cabeça, utiliza-se a incisão bimastóidea, assim como no
adulto. O uso corrente de abrir o crânio com serra é eficiente para crianças maiores,
ainda que não seja aconselhável em fetos e recém-nascidos, nos quais está indicado
o emprego de tesouras fortes para efetuar um corte em forma de cruz, no sentido
das fontanelas e linhas de sutura, separando-se os ossos como se fossem pétalas de
uma flor. Aplica-se a tesoura na porção central da fontanela anterior ou bregmática,
direcionando-se o corte inicialmente para frente, ao longo da sutura metópica e, em
seguida, para trás, em sentido longitudinal, até atingir a fontanela posterior ou lamb-
dóide, no nível do osso occipital. Depois, partindo do mesmo ponto inicial, realiza-se
a incisão na sutura coronal, entre o osso frontal e os parietais, bilateralmente, com
afastamento manual dos retalhos ósseos assim obtidos e subseqüente exposição do
encéfalo envolto nas leptomeninges, uma vez que a dura-máter costuma estar muito
aderida aos ossos nessa fase da vida e sai presa a eles, quando abertos e afastados
pela técnica descrita.
Deve-se ter muita cautela na retirada do encéfalo porque sua consistência é bas-
tante amolecida em fetos e lactentes, podendo-se desfazer durante a extirpação.
Alguns serviços recomendam a fixação prévia do encéfalo em solução de formol, após
a coleta de material para exames microbiológico e toxicológico, quando necessários,
antes de ser removido por técnica idêntica à usada em indivíduos adultos.
Em algumas circunstâncias, impõe-se a abertura do ouvido, que deve ser exami-
nado em suas três porções: conduto externo, ouvidos médio e interno, de ambos os
lados, sendo requerida técnica especial e complexa, que envolve a remoção de seg-
mentos de ossos da base do crânio (temporais).
O exame da coluna vertebral para a extração da medula espinal segue o mesmo
método indicado para adultos, com o emprego de tesouras que permitem liberar e
seccionar as lâminas vertebrais com facilidade, uma vez que estas ainda não se en-
contram ossificadas.
A incisão externa do pescoço e do tronco pode ter início na região submentoniana
ou biacromial, seguindo a linha média nas regiões esternal e epigástrica, onde deverá
cercar o umbigo de ambos os lados, com desvio oblíquo para baixo e para fora, em
forma de "V" invertido, até atingir as fossas ilíacas, no nível das eminências pectíneas,
para garantir a integridade dos vasos sanguíneos umbilicais durante a sua apreciação.
106 Manual de Técnicas em Necropsia Médico-Legal

Esses vasos e o úraco são examinados desde o exterior, com secção da veia umbilical
um pouco abaixo do fígado, reclinando-se para cima do púbis o triângulo de partes
moles obtido com os cortes divergentes aqui descritos, para sua abertura longitudinal
ou por meio de pequenos cortes transversais e paralelos.
Em seqüência, aberta a cavidade torácica, examinam-se os órgãos em sua posição
anatômica, de modo que estes, em seguida, deverão ser liberados em bloco, junta-
mente às estruturas cervicais. Se há suspeita ou conhecimento de qualquer anorma-
lidade geniturinária ou anal, a incisão poderá estender-se em volta do períneo para
incluir o exame da genitália externa e do ânus, com prévia disjunção da sínfise pubia-
na e afastamento ósseo por abertura dos membros inferiores.
Após a secção dos ligamentos e das inserções musculares com bisturi ou tesoura
delicada, admite-se usar dissecção manual para a completa exposição dos órgãos
cervicais, com retirada da língua e da laringe inteiras, compreendendo a epiglote e a
faringe, na busca da eventual presença de obstruções, de ocorrência freqüente nessa
faixa etária.
Por ocasião do criterioso exame do coração, com vista à detecção de anomalias
sutis ou más-formações evidentes, convém pesquisar o forame interauricular e o con-
duto arterioso, que costumam obliterar-se alguns dias depois do nascimento, com
transformação deste último em um cordão fibroso situado entre as artérias aorta e
pulmonar.
Em Medicina Legal, é extremamente importante determinar se o feto apresentou
respiração espontânea ou não. Para estabelecer com segurança tal acontecimento,
não é suficiente a análise visual macroscópica dos pulmões, sendo proposta a execu-
ção de várias provas, denominadas docimásias pulmonares. O pulmão que não res-
pirou apresenta coloração vinhosa, consistência carnosa similar ao fígado, não cobre
a área cardíaca, achando-se encostado ao canal vertebral, não crepita ao corte e não
flutua na água; ao contrário, aquele que respirou tem tonalidade rosada, consistên-
cia macia ou elástica, mostra-se expandido, com cobertura parcial anterior do saco
pericárdico pelo esquerdo, crepita ao corte e quando espremido sob a água, além de
flutuar nela. Todavia, uma vez que esses testes podem exibir resultados falso-positi-
vos, como na reanimação cardiopulmonar, e falso-negativos, como na síndrome da
membrana hialina, é conveniente confirmar se houve respiração de fato por meio da
docimásia histológica dos pulmões.
O exame da placenta, quando disponível, é parte integrante da necropsia fetal
e perinatal, que demanda a inspeção das membranas fetais, de suas superfícies do
lado fetal e materno e do cordão umbilical, com descrição de sua forma, aferição de
peso e tamanho, para constatar anomalias e possíveis áreas de hemorragia com des-
colamento, infartos, trombos, infecção etc., que podem ter causado diretamente ou
contribuído para a morte. A análise microscópica de cortes seriados da placenta em
intervalos de 1cm também merece distinção.
Técnicas de Necropsia 107

VIRTOPSIA

A virtopsia é a denominação usada para se referir à necropsia virtual, sem necessi-


dade de abrir o cadáver. É uma técnica avançada de diagnóstico por imagem em
substituição à necropsia tradicional e usa, sobretudo, a tomografia computadorizada
e a ressonância magnética. Substitui e/ou complementa a necropsia com abertura de
cadáver por um sistema iminentemente virtual, que se baseia na realização do exame
interno do cadáver por imagens.
São, ainda, discutíveis as vantagens dessa metodologia, inclusive em razão de seu
custo elevado.
Ainda que já seja indiscutível a relevância do diagnóstico pelos métodos de resso-
nância magnética e tomografia computadorizada nas necropsias e demais perícias,
discute-se se a virtopsia seria capaz de substituir as necropsias e demais perícias médi-
co-legais. Acredita-se que a virtopsia é um importante procedimento auxiliar, tanto no
exame do vivo como do morto, sem, no entanto, ser capaz de substituir a necropsia
tradicional.
Essa contribuição será, sem dúvida, cada vez mais significativa no estudo do ras-
treamento do projétil em seu trajeto, na superposição de imagens em técnicas de
identificação e, provavelmente, junto à histoquímica, na obtenção de resultados mais
confiáveis nas questões do tempo aproximado de morte. O uso da virtopsia na con-
servação das estruturas anatômicas para facilitar novos exames e a não-aceitação da
necropsia por motivos religiosos ou sentimentais merecem regulamentação.
Torna-se evidente que os meios utilizados na virtopsia não substituem a visão
humana direta sobre as estruturas, não fornecendo, assim, idéia precisa do conjunto
de determinadas lesões (quando muitas de suas características escapariam de uma
análise mais procedente, como tonalidade, consistência e suas relações com outras
estruturas), além da falta do diagnóstico definitivo, obtido, na maioria das vezes, ape-
nas por análise microscópica. A única contra-indicação formal, no entanto, seriam as
intoxicações e os envenenamentos.

NECROPSIA NO INSTITUTO MÉDICO-LEGAL


AFRÂNIO PEIXOTO

A necropsia forense, conforme referida na legislação, tem de ser feita por um perito-
médico, acompanhado de um técnico, um auxiliar e um escrevente.
É um procedimento que, pelo fato de exigir muita atenção em razão da riqueza
e da natureza dos elementos que deverão ser avaliados e minuciosamente descritos,
deve ser executado no horário diurno, exceto em situações especiais.
Os profissionais envolvidos devem usar roupas especiais, equipamentos adequa-
dos de proteção e instrumental específico, às vezes improvisados em nosso Instituto
por carência de material.
108 Manual de Técnicas em Necropsia Médico-Legal

A perícia necroscópica compreende duas etapas principais: inspeção ou exame


externo e inspeção ou exame interno.
Na inspeção externa, a primeira anotação refere-se ao exame das vestes e dos
objetos que se apresentam junto com o indivíduo morto.
Em seguida, inicia-se a análise do cadáver, que habitualmente é realizada no senti-
do craniocaudal, obedecendo a uma seqüência lógica: caracteres individuais de iden-
tidade, sinais de morte, exame da cabeça, do pescoço, do tórax, do abdome, dos ór-
gãos genitais, do ânus, dos membros superiores e inferiores e, por último, do dorso.
Os ferimentos devem ser abordados minuciosamente apontando o número de
lesões, sua sede, a orientação, o formato, o aspecto das bordas, as dimensões e o
caráter vital, sendo hábil desenhá-los em esquemas ou fotografar, para que tais repro-
duções acompanhem o laudo e auxiliem na compreensão do fato.
Uma vez terminado o exame externo, o perito orienta quanto à abertura das
cavidades corporais, que poderá ter início pela cavidade correspondente à região do
corpo em que foram visualizadas lesões passíveis de fornecer evidências que condu-
zam a uma suspeita da causa da morte ou, em caso contrário, deverá seguir a rotina
recomendada: crânio, tórax, abdome e pescoço.
Na região metropolitana do Rio de Janeiro, o Instituto Médico-Legal Afrânio Peixoto
atende a todas as ocorrências registradas em mais de trinta Delegacias Policiais, dos
diversos bairros, sem levarmos em consideração as Delegacias Especializadas. 0 núme-
ro estimado de necropsias por ano aproxima-se de 8 mil. Diante de uma demanda tão
grande de perícias, há que se adaptar às condições de trabalho, modificando as técni-
cas conhecidas e, inclusive, criando outras mais simples e de mais rápida execução.
No âmbito forense, de acordo com o caso que se apresenta, o perito-legista respon-
sável pelo exame irá decidir qual é a melhor técnica de necropsia a ser utilizada. As téc-
nicas de Virchow e de Letulle são, em geral, as mais usadas na necropsia médico-legal.
Quanto aos tipos de incisões para abertura da cavidade craniana, sempre se utiliza
a bimastóidea; na abertura das cavidades toracoabdominal e do pescoço, as mais
comuns são as submentoxifopubiana e a biacromioesternopubiana.
Um novo tipo de incisão, designada mastoidepubiana, foi idealizado pelo técnico
de necropsia policial Edson Galhardo de Almeida, lotado em nosso Instituto e tem
sido empregado com sucesso em muitos eventos, principalmente nos casos de mortes
por asfixia, pois preserva as estruturas cervicais. Inicia-se no processo mastóide atrás
do lobo da orelha de um dos lados do pescoço, desce lateralmente e em diagonal,
passando pela fúrcula esternal, e termina na região pubiana. Essa incisão mastoide-
pubiana une a praticidade da incisão longitudinal ao melhor resultado estético após
o fechamento, devido à lateralização da incisão no pescoço. Também possibilita uma
reconstituição ininterrupta por fio de sutura, desde o couro cabeludo até o púbis.
Por ocasião da inspeção interna, como já foi dito, costuma-se proceder ao exame
individual de cada órgão, após a sua retirada do local anatômico, ou removem-se to-
das as vísceras em um único bloco, conforme o tipo de necropsia que se apresenta.
Técnicas de Necropsia 109

Algumas vezes, recorre-se a exames subsidiários: radiológico, histopatológico e


toxicológico, para viabilizar a conclusão da perícia.

BIBLIOGRAFIA

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tuto Médico-Legal Afrânio Peixoto, no Rio de Janeiro, durante o primeiro semestre de 2005.
VANRELL, J. P. Manual de medicina legal: tanatologia. 2. ed. São Paulo: LED-Editora de Direito Ltda.,
2004.
Vias de Acesso para o
Exame Odonto-Legal

A odontologia forense apresenta papel determinante no campo da identificação de


cadáveres. Muitos são os casos em que as condições de identificação pelo método
dactiloscópico ficam prejudicadas em razão de os cadáveres terem ficado imersos
durante período significativo, seja por terem sido mutilados, carbonizados ou por já
se encontrarem em avançado estado de decomposição. Nos casos de corpos carbo-
nizados, tanto os dentes sadios como os restaurados representam poderosa arma no
estabelecimento da identidade humana, por resistirem fortemente ao calor. Isso ocor-
re não somente pela sua estrutura altamente mineralizada, mas também por estarem
protegidos naturalmente pela língua, pelos lábios e pelos músculos da face.
Mesmo com o advento do exame de análise do ácido desoxirribonucléico (DNA),
a identificação pelas arcadas permanece como importante método no estabeleci-
mento da identidade, por se tratar de exame preciso, rápido e muito menos oneroso.
Contudo, quando o exame de DNA é necessário, os dentes, em razão de sua grande
resistência, são considerados fonte importante de material para análise.
O universo de informações que podem ser obtidas a partir do exame odonto-legal
possibilita o estabelecimento da identidade, muitas vezes por um único elemento.
Como exemplo dos itens a serem estudados, temos:
• Dentes, que podem fornecer informações identificadoras por meio de restaura-
ções existentes, próteses, tratamentos endodônticos, ausências dentárias, oclu-
são, dentes supranumerários, alterações cromáticas e anatômicas, restos radicula-
res, desgastes profissionais, cronologia dentária e estimativa de estatura.
• Arcos dentários.
• Cefalometria, radiografias panorâmicas, periapicais e oclusais.
• Superposição fotográfica.
• Rugosidades palatinas.
• Antropologia.
112 Manual de Técnicas em Necropsia Médico-Legal

Para que o perito odonto-legista possa executar suas funções com qualidade e
precisão, é necessário que se estabeleça um acesso favorável, amplo e com boa vi-
sibilidade ao local anatômico de trabalho, ou seja, a cavidade bucal e as estruturas
adjacentes.
A respeito das vias de acesso para o exame odonto-legal no cadáver, existe o
método de abertura manual com ou sem alavancas e as técnicas de dissecção pro-
priamente ditas.
Imediatamente após a morte, antes que se estabeleça o rigor cadavérico e em
casos de moderada decomposição, é possível abrir os maxilares manualmente ou com
auxílio de alavanca de abertura de boca. Em ambos os casos, deve-se inserir um bloco
de mordida do lado oposto ao que se quer examinar, a fim de manter a boca aberta,
com bom acesso e boa visibilidade.
Raros são os casos em que a técnica de abertura manual dos arcos pode ser em-
pregada, já que, usualmente, nos deparamos com dentes em oclusão cerrada. Ten-
tativas forçadas de ganhar acesso à cavidade bucal geralmente resultam em prejuízo
aos dentes, às restaurações e a outros elementos significativos do exame.
Deste modo, para um exame correto, deve-se proceder à retirada dos arcos maxi-
lar e mandibular para facilitar o manuseio, obtendo-se, com isso, toda a informação
dental, inclusive a possibilidade de obter radiografias, podendo-se captar o maior
número de informações que permitam a caracterização precisa.
Após o registro dessas informações, para que a identificação pelas arcadas possa
ser realizada, é preciso que o perito tenha acesso ao prontuário odontológico da ví-
tima, e este deve conter todos os registros orais do paciente. Fotos, radiografias dos
dentes, dos arcos dentários e da face, modelos em gesso de todas ou de parte das
arcadas dentárias, bem como os demais itens componentes do prontuário odonto-
lógico da vítima também podem e devem ser utilizados como auxiliares no processo
de identificação.
Partindo dessas explicações, o técnico de necropsia será capaz de compreender a
relevância do seu trabalho.

TÉCNICAS NECROSCÓPICAS PARA ACESSO À


CAVIDADE BUCAL

Para o bom desempenho dos passos operatórios, o primeiro cuidado que se deve ter
diz respeito ao ambiente para a execução da necropsia - o necrotério.
Este deve apresentar condições propícias para o exame, como boa iluminação
natural e ter disponíveis focos auxiliares, se necessário. Só devem estar presentes
profissionais habilitados às práticas de necropsia, tendo a seu dispor material e instru-
mentais adequados. Alguns autores recomendam que as necropsias sejam praticadas
somente à luz do dia, pois a luz artificial, além de criar sombras em diversos ângulos
Vias de Acesso para o Exame Odonto-Legal 113

de incidência, principalmente nas cavidades, jamais substitui a luz natural, podendo,


portanto, desvirtuar a boa observação do perito.
A equipe de necropsia deve utilizar o equipamento de biossegurança completo
durante todo o exame.
Deve-se ter atenção especial à etapa de cortes, em que são desprendidos frag-
mentos e aerossóis infectados, que podem trazer prejuízos à saúde da equipe. Os
profissionais que compõem essa equipe devem usar acessórios como: óculos de pro-
teção, avental, máscara cirúrgica, gorro e luvas.
São descritas na literatura especializada duas técnicas para acesso e posterior re-
moção dos arcos maxilares para estudo isolado. A primeira é a técnica de Luntz, em
que são feitas duas incisões na face para ampliar o acesso. A segunda é a técnica
submandibular, em que se faz apenas a incisão ao longo da borda inferior do arco
mandibular, de modo que esta é mais favorável em termos estéticos.

Técnica de Luntz
Passos operatórios
• Execução de duas incisões bilaterais a partir das comissuras labiais de cada lado.
• Prolonga-se a incisão superior posteriormente, atingindo o arco zigomático.
• Prolonga-se a incisão inferior posteriormente, atingindo o ângulo da mandíbula
ou gônio.
- Removem-se as inserções das partes moles aderidas à mandíbula, como músculos
da mastigação e ligamentos.
• Desarticula-se a articulação temporomandibular (ATM).
• Procede-se à incisão em forma de ferradura, tangenciando toda a borda inferior
da mandíbula, pelo lado lingual.
• Aprofunda-se a incisão para alcançar o assoalho bucal, seccionando-se todas as
inserções musculares, até isolar completamente a mandíbula.
• O arco maxilar é isolado através de um corte horizontal, acima dos ápices dentá-
rios, realizado com serra e escopro.

A aplicação dessa técnica (Figura 6.1) começa com a realização de duas incisões
bilaterais que se iniciam na altura das comissuras labiais: uma superior e outra infe-
rior, de ambos os lados. Essas incisões tomam uma trajetória posterior e tornam-se
divergentes entre si.
A incisão superior é realizada em sentido ascendente até alcançar o arco zigomá-
tico, para que se tenha acesso ao côndilo mandibular articulado à fossa mandibular
do osso temporal, formando a articulação temporomandibular.
A incisão inferior seguirá posteriormente em direção ao ângulo mandibular. Depois
de executadas as incisões iniciais, o técnico deve dissecar as partes moles que estão
aderidas ao osso mandibular, rebatendo-as tanto na face vestibular como na lingual.
114 Manual de Técnicas em Necropsia Médico-Legal

Figura 6.1 Técnica de Luntz: (A) Linhas tracejadas mostram os locais das incisões. (B) Reba-
timento do tecido. (C) Rebatimento dos tecidos moles e de toda a musculatura, inclusive do
soalho bucal. (D) Remoção dos ligamentos e inserções musculares para desarticular a ATM.
(E) Desarticulação da mandíbula. (F) Corte da maxila (ver cad. cor)
Vias de Acesso para o Exame Odonto-Legal 115

As inserções dos músculos da mímica - músculo bucinador, músculo depressor


do ângulo da boca, músculo do mento, músculo depressor do lábio inferior - são
rebatidas.
Os músculos da mastigação relacionados com esta face da mandíbula também de-
vem ser seccionados em suas inserções. A mandíbula deve ser dissecada para ficar livre
do músculo masseter, que possui suas inserções na parte lateral do ramo mandibular,
próximo ao gônio, e o músculo temporal, com inserções no processo coronóide e algu-
mas fibras que se estendem até o trígono retromolar. Do trígono retromolar também
devem ser removidos o ligamento pterigomandibular, o músculo pterigóide lateral, o
disco articular e a fóvea pterigóide no colo da mandíbula, em que se localiza também
a inserção do ligamento pterigoespinhoso e o ligamento lateral externo da ATM.
Em seqüência, o técnico deve obter o acesso à ATM e desarticulá-la, removendo as
inserções da cápsula articular e ligamentos, como o medial e o posterior, que também
têm inserção no colo da mandíbula.
A próxima etapa inicia-se com a mandíbula desarticulada da cavidade glenóide do
osso temporal. Deve-se realizar uma incisão tangenciando toda a borda inferior da
mandíbula, estendendo-a de ângulo a ângulo. O instrumento deverá ser posicionado
respeitando uma orientação lingual com relação à face basilar da mandíbula.
O técnico aprofundará, então, essa incisão inicial pelo lado lingual da mandíbula,
visando atingir o assoalho bucal, passando pela musculatura e por outras estruturas
da região, seccionando-as para liberar a mandíbula já desarticulada.
Nesta etapa, será seccionado principalmente, entre outras estruturas, o músculo
platisma, com inserção em todo o rebordo inferior da mandíbula.
Na região geniana, serão removidas as inserções dos músculos genioióideo e ge-
nioglosso, que se fixam nas espinhas mentais inferiores e superiores, respectivamente.
Nessa região, fixam-se bilateralmente os ventres anteriores dos músculos digástricos
nas fossas digástricas da mandíbula, que devem ser também incisados. O próximo
músculo a ser seccionado é o miloióideo, que possui inserção ao longo da linha milo-
ióide. O músculo pterigóide medial agora deve ser seccionado, tendo este inserção na
face medial do ramo da mandíbula, na tuberosidade pterigóide.
Os ligamentos da ATM devem ser seccionados. Os ligamentos esfenomandibular e
estilomandibular serão dissecados de suas inserções. O feixe vasculonervoso alveolar
inferior, que entra no canal mandibular pelo forame mandibular, também deverá ser
seccionado.
Após esses procedimentos, a mandíbula encontra-se totalmente liberada para ser
removida e estudada separadamente do corpo. Parte-se, então, para o corte do arco
maxilar.
A maxila deve ser separada através de um corte, feito com uma serra manual ou
elétrica, com o auxílio de um escopro. Os tecidos devem ser rebatidos para possibilitar
a realização do corte, que se inicia na espinha nasal anterior, estende-se posterior-
mente de ambos os lados, passa pelas paredes laterais dos seios maxilares e prolon-
116 Manual de Técnicas em Necropsia Médico-Legal

ga-se até atingir os processos pterigóides do osso esfenóide e as lâminas verticais dos
ossos palatinos. O técnico deve incisar respeitando um sentido paralelo ao rebordo
alveolar e sempre acima dos ápices das raízes dentárias, cuja observação é salutar na
perícia.
Em seguida, o bloco maxilar e as estruturas de suporte devem ser destacados para
baixo, utilizando-se um cinzel de osso, tal como o escopro em T. Os autores apontam
esta etapa como difícil, uma vez que cortar a maxila de lado a lado e, posteriormente,
em toda a sua estrutura, pode requerer a necessidade de maior força para o destaca-
mento do arco maxilar dos processos pterigóides e do septo nasal.
Uma vez destacado o arco, os músculos bucinador, pterigóide e os músculos do
palato devem ser incisados e o arco maxilar removido como uma só peça.

Técnica submandibular
Esta técnica deve ser adotada para se obter o acesso à cavidade oral, principalmente
nos casos em que a vítima será vista posteriormente por familiares, visto que causa
menor prejuízo às estruturas faciais, e menor impacto aos olhos de terceiros.

Passos operatórios
• Incisão inicial do tipo ferradura (horse-shoe) ao longo da face basilar da mandí-
bula.
• A incisão é prolongada bilateralmente até o gônio.
• Dissecção por completo da gordura e dos tecidos musculares do pescoço expostos
na região da borda inferior da mandíbula.
• Afastamento dos tecidos moles das superfícies lateral e anterior da mandíbula,
seccionando-se os músculos necessários.
• Incisão da mucosa oral.
• Os tecidos moles são rebatidos superiormente, expondo os arcos maxilar e man-
dibular.
• Incisão de todo o vestíbulo labial e bucal da maxila, com rebatimento para cima
da região nasal.
• Secção do ramo mandibular com serra manual ou elétrica e escopro, na altura dos
terceiros molares inferiores.
• Remoção das inserções musculares e demais estruturas da face lingual da mandí-
bula aprofundando-se a incisão pelo lado lingual da borda inferior e excisando-se
o arco mandibular.
- Corte do arco maxilar acima do nível dos ápices dentários com serra manual ou
elétrica e escopro.
• Destacamento da peça maxilar (com auxílio do escopro em T) e remoção das es-
truturas inseridas.
Vias de Acesso para o Exame Odonto-Legal 117

O acesso submandibular (Figura 6.2) inicia-se com uma incisão em formato de


ferradura (horse-shoe) contínua estendendo-se do gônio direito ao gônio esquerdo e
ligeiramente deslocada para a face lingual da borda inferior da mandíbula.
Segue-se, então, a dissecção de modo semelhante ao acesso pela técnica de Luntz.
Os tecidos expostos na região da borda inferior da mandíbula devem ser seccionados e
rebatidos. O tecido adiposo, a musculatura cervical exposta e, principalmente, o mús-
culo platisma inserido em toda a face basilar da mandíbula devem ser dissecados.

Figura 6.2 Técnica submandibular: (A) Local da incisão mostrado por linha tracejada. (B) Te-
cidos e musculatura rebatidos. (C) Região da mandíbula onde é feita a disjunção com a serra
(D) Disjunção e remoção do maxilar (ver cad. cor)
118 Manual de Técnicas em Necropsia Médico-Legal

Na face vestibular da base da mandíbula, a dissecção segue em direção ao rebordo


alveolar, de modo que os tecidos moles possam ser deslocados para as superfícies
lateral e anterior da mandíbula em direção superior.
As inserções dos músculos bucinador, masseter, além dos músculos da mímica da
região, são seccionadas como já descrito na técnica de Luntz. Os tecidos moles serão
rebatidos para cima, expondo a região labial da mandíbula até que a mucosa oral seja
alcançada.
A mucosa oral deve agora ser incisada, deixando intacta a gengiva vestibular. Com
isso os tecidos moles podem ser tracionados em direção ascendente, sobre a região
nasal, expondo os dentes superiores e inferiores, as superfícies lateral e anterior da
mandíbula, assim como a região retromolar.
O técnico terá de incisar os vestíbulos labial e bucal da maxila e deslocar os tecidos
moles da região, permitindo, assim, o rebatimento da máscara facial para cima da re-
gião nasal. A espinha nasal anterior e a abertura piriforme podem ser expostas nessa
etapa. A mandíbula está pronta para o corte completo dos ramos, posteriormente aos
últimos molares de cada lado.
Passa-se, então, à etapa de secção dos ramos mandibulares, em que será utilizada
a serra manual ou elétrica e um escopro em T. 0 corte deve ser feito na altura dos ter-
ceiros molares inferiores, continuando posteriormente em uma orientação horizontal
até a borda posterior do ramo correspondente. 0 corte horizontal é mais seguro que
o oblíquo, pois é feito sem riscos de prejuízo aos ápices radiculares dos terceiros mo-
lares inferiores.
A face lingual da mandíbula seccionada deve ser isolada de suas inserções, de
modo semelhante ao descrito na técnica de Luntz. Devem ser rebatidos os músculos
miloióideo, digástrico, genioióide, genioglosso e pterigóide medial, os ligamentos
esfenomandibular e estilomandibular, além do feixe vasculonervoso alveolar inferior.
Com isso, o arco mandibular fica livre e pode ser excisado.
0 arco maxilar será, agora, seccionado por meio de um corte, feito com serra
manual ou elétrica, com auxílio de um escopro em T.
0 corte é feito de modo semelhante ao descrito na técnica de Luntz, iniciando-
se na espinha nasal anterior, estendendo-se bilateralmente, passando pelas paredes
laterais dos antros maxilares, até atingir os processos pterigóides, posteriormente, e
as lâminas verticais dos ossos palatinos, sendo sempre paralelo ao rebordo alveolar e
acima dos ápices das raízes dentárias preservando-as.
0 arco maxilar será destacado para baixo, utilizando-se um cinzel de osso, como
um escopro em T.
Os músculos bucinador e pterigóides e os músculos do palato deve ser secciona-
dos para liberar a maxila.
Em seqüência, o técnico prosseguirá nas etapas de reposição dos tecidos moles e
de processamento das peças obtidas, descritas mais adiante.
Vias de Acesso para o Exame Odonto-Legal 119

REPOSIÇÃO DOS TECIDOS MOLES

A remoção dos blocos ósseos da mandíbula e da maxila deixará um defeito maciço e


amplo na face, não oferecendo suporte aos tecidos moles da face, o que geraria um
quadro deformante e com aspecto muito desagradável.
Esse inconveniente pode ser minimizado com a inserção de massas de gaze e/ou
algodão nos espaços deixados pelas excisões, em quantidade suficiente para susten-
tar as regiões labiais superior e inferior, e arranjando-se um suporte adequado para
os tecidos moles da face.
Os tecidos moles podem, então, ser tracionados para sua região de origem, apro-
ximando-se as bordas das incisões para a realização das suturas.
No caso da técnica submandibular, haverá apenas uma sutura na borda inferior na
mandíbula, o que é esteticamente mais favorável. Já pela técnica de Luntz, as suturas
atravessarão a face.

PROCESSAMENTO PARA LIMPEZA DAS PEÇAS OBTIDAS

Os arcos maxilares e mandibulares, juntamente aos elementos dentários, após ex-


cisados, mostram-se recobertos por fragmentos e restos de tecidos moles e duros,
podendo estes ser de fácil ou difícil remoção.
Para a realização de um estudo posterior mais minucioso, preciso e facilitado, as
peças removidas do corpo ou da parte periciada devem passar por um processamento
que as deixará em condições favoráveis ao exame. Na literatura são descritos alguns
métodos e agentes que podem ser utilizados, separadamente ou em conjunto, para
se obter material adequado para exame (Figura 6.3).
Os fragmentos soltos ou pouco aderidos são facilmente removidos pela simples
lavagem com esponjas e água. Caso a cavidade oral também esteja extensamente
coberta por fragmentos e materiais queimados resultantes dos passos operatórios,
pode ser necessário o uso de uma escova de dentes e solução detergente para a
lavagem adequada.
Objetivando-se eliminar os restos de tecidos moles aderidos às peças, alguns au-
tores preconizam a fervura dos arcos retirados em água acrescida de solução deter-
gente ou em água com cristais de soda cáustica, bicarbonato de sódio e peróxido de
hidrogênio.
Ao fim, as partes excisadas podem ser submetidas ao branqueamento dos ossos
pela ação do peróxido de hidrogênio (água oxigenada a 30 volumes), em que podem
ficar mergulhadas por 24 horas. Após as etapas de processamento, as peças devem
ser secadas.
120 Manual de Técnicas em Necropsia Médico-Legal

Figura 6.3 As peças removidas (maxilar superior e mandíbula) passam por um processamento
de limpeza

Deve-se ter em mente que a remoção dos arcos maxilar e mandibular está indi-
cada quando existe necessidade de tomadas radiográficas ou visando medições para
maiores estudos. Na prática diária, o técnico de necropsia realiza as dissecções dos
tecidos cutâneos, adiposos, musculares e demais estruturas em conformidade com as
técnicas aqui descritas, de modo que permita amplo acesso à cavidade oral, possibili-
tando que o exame odontoscópico com fim pericial seja realizado.

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Técnicas de Conservação de Cadáveres

ASPECTOS HISTÓRICOS

A prática da conservação de corpos humanos surgiu com a primeira grande civiliza-


ção da humanidade - os egípcios, que criaram a mumificação em aproximadamente
3.000 anos a.C. A conservação de corpos surgiu graças à profunda influência que
exercia a religião egípcia na vida de seu povo.
Os egípcios antigos preocupavam-se muito com a vida após a morte. Sabiam que
o corpo humano, uma vez morto, jamais poderia renascer. Porém, mantinham a cren-
ça de que o espírito da pessoa morta precisava se identificar com seu corpo. Assim,
eles acreditavam na necessidade de se manter o corpo físico com suas características
preservadas, para que a alma pudesse sobreviver. A destruição do corpo levava a
perda da vida eterna.
Embora a mumificação tenha sido muito utilizada pelos egípcios, ainda hoje não
foi encontrado nenhum documento que relatasse todas as técnicas das várias etapas
do processo de mumificação. A tradição era passada de boca em boca, pois eles a
consideravam um rito muito importante para ser registrado através de um docu-
mento. Existe, porém, o relato do grego Heródoto, que esteve no Egito no ano 450
a.C., descrevendo como era feita a mumificação. Heródoto não assistiu a nenhuma
mumificação, e tudo o que ele escreveu foi embasado no relato que lhe foi feito pelos
sacerdotes.
A mumificação era realizada por sacerdotes-médicos, que tinham grande conhe-
cimento de anatomia e presidiam a cerimônia religiosa. Mumificar um corpo era um
processo demorado. Consistia primeiro na evisceração, ou seja, retirada dos órgãos.
O cérebro era retirado por um gancho introduzido através das narinas, e o restante
das vísceras era retirado através de uma incisão no abdome.
Após a evisceração, procedia-se à desidratação, ou seja, a retirada da umidade
do corpo. Durante 40 dias, o corpo era coberto com natrão, uma mistura de sulfato,
124 Manual de Técnicas em Necropsia Médico-Legal

cloreto, bicarbonato e carbonato de sódio. Ao fim desse período, só restava pele,


ossos e carne endurecida.
O enfaixamento do corpo era feito com bandagens de linho, iniciando pelos de-
dos, depois os membros, a cabeça e, por último, o tronco. Entre as bandagens eram
colocados jóias e amuletos para proteger o morto. Após o enfaixamento, aplicava-se
um banho de resina, e colocava-se uma máscara na cabeça. Depois, a múmia era
depositada em um sarcófago.
Hoje, as técnicas de conservação de cadáveres utilizam substâncias químicas, com
o objetivo de preservar o corpo até o funeral, prevenir a propagação de infecções,
assim como conservar o corpo humano para fins acadêmicos.

OBJETIVOS

A conservação do corpo humano depois da morte tem por objetivo primordial evitar
que os fenômenos transformadores cadavéricos, iniciados com o processo de putre-
fação, evoluam e possam atingir as partes moles e vísceras, resultando em destruição
total do arcabouço corporal.
A prática do embalsamamento é feita nos casos em que o cadáver já foi necrop-
siado e teve suas vísceras manipuladas, de alguma forma. Tais situações são muito
comuns em mortes violentas, nas quais o cadáver é submetido à necropsia médico-
legal, ou, ainda, nas necropsias, para a verificação de óbito.
Já a prática de tanatopraxia está preconizada para os corpos que não foram
submetidos à necropsia, nem eviscerados, como nos casos de mortes causadas por
doenças.
Nos EUA, as técnicas de conservação são aplicadas em 95% dos casos; na Grã-
Bretanha, em 80%; e, na França, em 30%.
Ambos os procedimentos estão indicados para permitir o transporte seguro de
cadáveres para qualquer lugar do País ou do exterior, desde que sejam cumpridas
as normas sanitárias municipais, estaduais, federais e ainda internacionais. A con-
servação do corpo ainda contempla os casos de velórios prolongados, nos quais são
prestadas honras e homenagens póstumas por vários dias.
A preparação e conservação do cadáver podem ainda ser realizadas para fins cien-
tíficos, estudos anatômicos, preparação de peças, exposições e ensino nas faculdades
de medicina.

REQUISITOS

A conservação do cadáver, em geral, é solicitada por familiares ou por exigências


legais de caráter sanitário, toda vez em que o corpo for transportado e inumado em
Técnicas de Conservação de Cadáveres 125

outra localidade. Ainda que expressem suas razões para a conservação do cadáver,
os familiares ou o responsável legal deverão lavrar autorização expressa para o pro-
cedimento.
Para o transporte de cadáver sem conservação, o prazo máximo, segundo a Agên-
cia Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), é de 24 horas entre o falecimento e
sepultamento, excetuando-se os casos de interesse médico-legal ou oriundos dos
serviços de verificação de óbitos.
Entretanto, em alguns casos de doenças infecto-contagiosas, como febre amare-
la, tifo exantemático, meningites, febre tifóide, septicemias, tuberculose, gangrena
gasosa, carbúnculo, tétano e raiva, tal prática deverá ser evitada. Casos de encefalite
espongiforme e febre hemorrágica são vedados para translado nacional ou interna-
cional pela Anvisa.
A preparação do corpo por meio da técnica de tanatopraxia previne a propaga-
ção de enfermidades na comunidade, de maneira que é pré-requisito das empresas
que disponibilizam esse serviço a organização de um laboratório de acordo com os
padrões de biossegurança.
A técnica exige boa preparação do profissional que irá aplicá-la, o qual deverá ter
concluído um curso de tanatopraxia, com sólidos conhecimentos acerca da teoria, da
composição dos líquidos químicos e dos equipamentos utilizados, além, naturalmen-
te, do treinamento prático.
As técnicas de embalsamamento ou de tanatopraxia deverão ser realizadas em
ambiente adequado como salas anatômicas ou tanatórios, com todo o rigor das nor-
mas de biossegurança.
Esses procedimentos são considerados atos médicos e, portanto, devem ser sem-
pre realizados por técnico habilitado e com a supervisão de um médico, de prefe-
rência patologista ou legista, que elaborará um relatório com a técnica utilizada e os
produtos empregados.
A legislação exige a lavratura de uma "Ata de embalsamamento", assinada pelo
médico responsável, que acompanhará o corpo durante seu transporte, seja terrestre,
marítimo ou aéreo, e será exigida pelas autoridades nos portos ou aeroportos nacio-
nais e internacionais. Além da ata, deverá acompanhar o corpo uma Guia de Trans-
lado lavrada pela Autoridade Policial, que será sempre apresentada, pelo responsável
pelo transporte, quando solicitada.
O francês Jacques Marret, um dos mais conceituados tanatopraxistas do mundo,
já esteve no Brasil falando sobre o assunto, e é proprietário de uma empresa na
França dedicada à realização da técnica de tanatopraxia. Apesar de ser um assunto
pouco abordado pela maioria das pessoas, que rejeitam o tema morte, a tanatopraxia
auxilia principalmente famílias que desejam levar o corpo para ser sepultado em outra
cidade ou outro estado, além de propiciar que este readquira o aspecto mais natural
possível. Como costuma dizer Jacques Marret: "A tanatopraxia humaniza a morte."
126 Manual de Técnicas em Necropsia Médico-Legal

TÉCNICAS

A opção por umas das técnicas de conservação depende do tipo de cadáver a ser
trabalhado, se foi ou não necropsiado e eviscerado previamente, e ainda do destino
final do corpo. Vale ressaltar ainda que a formalização e a plastinação são também
empregadas na preparação de peças anatômicas para estudo ou exposição.

Tanatopraxia
A tanatopraxia é uma técnica que permite a conservação do cadáver, muito utilizada
no setor funerário, associando a preservação dos tecidos à melhor apresentação do
corpo à família.
Para obter resultados que atendam ao mercado funerário, empresas brasileiras
oferecem produtos e serviços, cada vez mais especializados, voltados para a tanato-
praxia. Como resultado final do procedimento, teremos um corpo conservado, higie-
nizado e em condições dignas de ser velado por seus entes queridos ou transportado
para outras localidades (Figura 7.1).
O primeiro procedimento a ser realizado pelo técnico, ao receber um cadáver no
tanatório, é verificar a documentação que o acompanha. Essa documentação con-
siste em cópia da declaração de óbito, cópia da identidade do falecido, cópia da
identidade da pessoa responsável pelo cadáver e autorização para a realização do
procedimento assinada por ela.
Outro fator importante para a realização do serviço será determinar por quanto
tempo o cadáver permanecerá conservado. Por exemplo, caso seja necessária a con-
servação por 48 ou 72 horas, a técnica será aplicada de determinada maneira e com
baixa concentração de produto conservante. Sendo necessária a conservação com
prazo superior a 72 horas, ou até mesmo por 15 dias ou mais, a técnica será aplicada
de outro modo e com alta concentração de produto conservante.
Determinado o tempo de conservação, a próxima etapa é realizar a ectoscopia do
cadáver, a fim de identificar quaisquer alterações externas, como lesões, feridas, úlce-
ras, icterícia, equimoses, livores, edemas, entre outras, que deverão receber atenção
especial. Logo em seguida, aplica-se uma solução bactericida à base de aldeído fór-
mico sobre o corpo, utilizando-se um borrifador, deixando-a agir por alguns minutos
antes de iniciar o procedimento.
Quanto à escolha da técnica a ser aplicada, já vimos que a determinação do tempo
de conservação do cadáver é imprescindível, assim como determinar a procedência
do cadáver. Em casos de doenças, oriundos de hospitais ou de residências, o cadáver
encontra-se fechado, ou seja, não-necropsiado. Nesses casos, será escolhida uma via
arterial de grande calibre, como artéria femoral ou carótida, e uma via venosa tam-
bém calibrosa, como veia femoral ou jugular.
Técnicas de Conservação de Cadáveres 127

Figura 7.1 Aspecto interno de um tanatório (Tanatório da Casa Bom Pastor - Serviços Fune-
rários, Rio de Janeiro) (ver cad. cor)

No caso de cadáver necropsiado, seja por morte violenta ou simplesmente para


verificação da causa da morte, este apresenta-se com a caixa craniana, a cavidade
torácica e o abdome abertos. Nessa situação devem-se abrir as vias arteriais e veno-
sas e fechar outras vias que porventura estejam interrompidas. A injeção arterial em
cadáveres necropsiados normalmente ocorre de maneira segmentar, em que cada
membro será injetado individualmente, seguido pelo tronco e pela cabeça. Caso a
aorta torácica e sua porção descendente estejam preservadas, a injeção do tronco e
dos membros inferiores poderá ser realizada simultaneamente. Em seguida, injeta-se
fluido arterial, através do arco aórtico, para os membros superiores e a cabeça.

Aplicação da técnica
A técnica de tanatopraxia consiste na substituição do sangue por um produto con-
servante, aqui denominado fluido arterial. Para a aplicação do fluido, será utilizada
uma bomba injetora, dotada de um reservatório com capacidade para 10 litros, que
será regulada por duas válvulas, uma de injeção e outra reguladora de pressão (Figura
7.2). A pressão adequada para a realização de um procedimento de tanatopraxia
varia em torno de 9 a 12lb/pol2.
O fluido arterial será diluído em água na proporção de 1 litro de fluido arterial
concentrado para 7 litros de água, perfazendo um total de 8 litros de fluido arterial.
Essa medida serve como referência para a conservação de até 72 horas. Para conser-
vação mais prolongada, devem-se repetir as injeções ou, até mesmo, concentrar mais
128 Manual de Técnicas em Necropsia Médico-Legal

Figura 7.2 Bomba aspiradora e injetora de fluidos (ver cad. cor)

o fluido arterial, dobrando a quantidade de concentrado. Para isso, devem-se avaliar


o tamanho do cadáver, o tempo de conservação, e ainda se foi necropsiado ou não,
se teve suas vísceras manipuladas ou não. Em casos necropsiados com injeção seleti-
va, considera-se a seguinte quantidade de fluido para cada segmento: 1 litro para a
cabeça, 1 litro para cada membro superior, 2 litros para o tronco e 1,5 litro para cada
membro inferior, perfazendo um total de 8 litros de fluido arterial para todo o corpo.
É importante ressaltar que a quantidade de injeções ou a concentração do fluido po-
derá ser alterada em função das indicações dos procedimentos.
Considerando a artéria carótida comum esquerda para injeção, será necessária a
abertura da veia jugular esquerda para drenagem do espurgo venoso. Por meio de
uma cânula de injeção, será injetado o fluido conservante, após a regulagem de fluxo
e pressão da bomba. À medida que o fluido circula pelo sistema arterial, promove a
lavagem de todo o sistema circulatório, promovendo, inclusive, mudança no aspecto
geral do cadáver. A principal mudança é o desaparecimento de livores, o retorno do
aspecto rosado da pele, o enrijecimento de tecidos moles e, principalmente, a ação
bactericida do fluido conservante.
Após a injeção arterial, fecham-se as vias, faz-se a sutura do acesso e inicia-se a
fase de aspiração do corpo.
A aspiração em um cadáver não-necropsiado será realizada por meio de pequena
perfuração na região abdominal, por onde, por intermédio de uma bomba aspiradora
e um trocarte (Figuras 7.3 e 7.4) será realizada a aspiração da cavidade torácica e ab-
dominal. Inevitavelmente, haverá perfuração de órgãos, assim como desejavelmente
Técnicas de Conservação de Cadáveres 129

ocorrerá, também, a perfuração de alças intestinais, permitindo a aspiração de seu


conteúdo e facilitando a ação do líquido cavitário.
Após a aspiração, será injetado por gravidade 1 litro de fluido conservante de
cavidade. Este deverá ser injetado na razão aproximada de 1/2 litro para cada cavi-
dade. Ao final, a perfuração é fechada utilizando-se um botão rosqueável aderente
ao tecido.
Como na injeção arterial, a aspiração e a injeção intracavitária também serão in-
fluenciadas pelo tempo em que se deseja conservar o cadáver. Para a conservação
mais prolongada, são necessárias duas ou até três aspirações, sempre injetando mais
fluido cavitário ao final da aspiração e aguardando um intervalo de 30 minutos entre
uma injeção e uma nova aspiração da cavidade. Ao final do processo, será observada
dificuldade em movimentar o trocarte em função da absorção do líquido cavitário
pelas vísceras.
A aspiração em cadáver necropsiado ocorre após a evisceração das cavidades cra-
niana, torácica e abdominal. As cavidades serão aspiradas e tratadas com gel à base
de aldeído fórmico, um preparado de serragem fina com naftalina, cal hidratada,
sulfato de magnésio, paraformaldeído e hidróxido de sódio. As vísceras serão tratadas
fora do cadáver em um recipiente apropriado com fluido cavitário, onde serão per-
furadas e mantidas imersas por 30 minutos para fixação. Após esse período, deverão
ser retiradas do recipiente e colocadas em um saco plástico apropriado, onde será
adicionado mais 1 litro de fluido cavitário, que será fechado e devolvido ao cadáver.
O fechamento do corpo cadavérico deverá ser realizado com as vísceras ensacadas e
devidamente tratadas.

Figura 7.3 Bomba portátil aspiradora de fluidos e trocarte de aspiração (ver cad. cor)
130 Manual de Técnicas em Necropsia Médico-Legal

Figura 7.4 Frasco para injeção de fluidos cavitários por gravidade e trocarte de injeção (ver
cad. cor)

A apresentação do cadáver é a etapa final da tanatopraxia. Dela fazem parte o


tamponamento das vias aéreas superiores, a vestimenta e a maquiagem. Em alguns
casos, como nas mortes violentas, muitas vezes é necessária a realização de reconsti-
tuição ou reconstrução de tecidos ou partes ósseas. Para tanto, utilizam-se próteses,
massas, ceras, telas, fios de aço, gesso, algodão, silicone, cola, hidrocolóides, entre
outros, que são recursos adicionais para a eficácia da técnica.

Produtos utilizados em tanatopraxia


Atualmente, duas empresas possuem reconhecimento nacional na produção e comer-
cialização de produtos para tanatopraxia (Figura 7.5), assim como oferecem treinamen-
to para a aplicação da técnica. Os produtos variam desde fluidos conservantes arteriais
e cavitários a próteses de olho, moldes para a boca, botões para perfurações etc.
O fluido conservante arterial possui:

• Aldeído fórmico 3% P-P como princípio ativo.


• Metanol 1,5% P-P.
• Hidroxibenzeno.
• Álcool metílico.
• Sorbitol.
• Tetraborato de sódio.
• Eritrosina.
Técnicas de Conservação de Cadáveres 131

• Glicerina.

• Corante e água.

O fluido conservante de cavidade é constituído por:

• Aldeído fórmico.
• Fosfato de sódio.
• Dimetilssulfato.
• Hidróxido de sódio.
• Ácido clorídrico.
• Clorato de zinco.
• Álcool.
• Corante e água.
Basicamente todos os produtos produzidos que visam à conservação ou tenham
ação bactericida possuem em sua composição aldeído fórmico.
A solução bactericida utilizada na preparação inicial do cadáver é composta de:

• Aldeído fórmico.
• Cloreto de alquil dimetil benzil amônico linear.
• Alquil benzeno.
• Sulfonato de sódio.
• Água e corante.

Figura 7.5 Produtos utilizados na tanatopraxia


132 Manual de Técnicas em Necropsia Médico-Legal

Alguns produtos são utilizados com finalidade estética, como corantes faciais e
labiais, além da maquiagem propriamente dita, como cremes, adstringentes, pastas
e bases, com tonalidades variáveis, para melhor adequar as necessidades encontra-
das e proporcionar feição mais natural aos familiares. Um acabamento utilizando as
técnicas de necromaquiagem, ou reconstituição facial, ostenta ao cadáver aparência
mais serena e tranqüila.
Conservar os traços do ente querido, devolver-lhe a coloração natural da pele e
realizar o velório por mais tempo é o que objetiva essa técnica.

Ambiente e equipamentos
A técnica deverá ser desenvolvida em ambiente apropriado composto de sala ampla
com correta ventilação e exaustão, mesa de aço inoxidável, com regular e constante
aporte de água, por mangueiras, equipamentos específicos para os procedimentos e
eficaz sistema de escoamento e esgotamento com tratamento de efluentes.
Antes de iniciar os procedimentos, os técnicos devem se certificar de que todos
devem portar os equipamentos de proteção individual, conforme as normas de bios-
segurança, já especificadas no Capítulo 4.
Os principais instrumentos utilizados na tanatopraxia são (Figuras 7.6 a 7.11):

• Diversos tipos de agulhas.


• Tesoura Mayo.
• Dissecadores.
• Afastador.
• Bisturi.

Figura 7.6 Diversos tipos de agulhas para reconstituição e fechamento


Figura 7.7 Instrumental utilizado em tanatopraxia. (A) Pinças Backaus e tesoura Mayo.
(B) Pinças diversas. (C) Pinças Kelly e dissectores. (D) Afastador e bisturi
134 Manual de Técnicas em Necropsia Médico-Legal

Figura 7.8 Pinça para cânula e cânulas de injeção arterial de vários calibres

Figura 7.9 Cânula de drenagem e aspiração venosa

Figura 7.10 Fixador de mandíbula


Técnicas de Conservação de Cadáveres 135

Figura 7.11 Modelos de prótese bucal e ocular

• Pinças Backaus, Kelly, entre outras.


• Pinça para cânula.
• Cânulas de injeção arterial, de drenagem e de aspiração venosa.
• Fixador de mandíbula.
• Próteses bucal e ocular.

Plastinação
A técnica de plastinação é um método de conservação de cadáver, ou de partes dele,
criado pelo anatomista alemão Gunther von Hagens.
Sem sombra de dúvida, Von Hagens teve uma grande idéia: o desenvolvimento
de uma técnica de conservação que possibilita o estudo macroscópico de cadáveres
sem os incômodos odores ou as mudanças de tonalidade dos tecidos, normalmente
produzidos pelos produtos químicos, tradicionalmente usados para a conservação. A
partir desse método, os estudos de anatomia e pesquisa do corpo humano passaram
a ser mais didáticos e esclarecedores.
Por meio dessa técnica, substâncias orgânicas de corpos mortos são substituídas
por materiais plásticos (silicone, resina de epóxi e poliéster), o que permite que os
materiais molhados do corpo adquiram plasticidade, ou seja, permaneçam maleáveis,
inodoros e secos. Além disso, toda a água e a gordura do corpo são retiradas.
Uma exposição denominada "Corpo Humano" viaja pelo mundo expondo vários
cadáveres conservados por essa técnica. No final de 2008 e início de 2009, essa exposi-
ção esteve no Rio de Janeiro, demonstrando os detalhes da anatomia humana em seus
diversos sistemas e cortes realizados nos cadáveres. Os vários órgãos são conservados
com sua cor natural, o que proporciona visão extremamente real da anatomia humana.
No final deste livro, nos Anexos I, II e II, encontram-se documentos e resoluções
concernentes ao embalsamamento, à conservação e à restauração de cadáveres hu-
manos, no que diz respeito aos profissionais e instituições autorizados para exercerem
estas práticas.
136 Manual de Técnicas em Necropsia Médico-Legal

BIBLIOGRAFIA

FAILLACE, S. Medicina legal. São Paulo: Livraria Atheneu, 1972.


FAVERO, F. Medicina legal. 12. ed. Belo Horizonte: Villa Rica Editoras Reunidas, 1991.
MARTINS, A. Perito e perícias médico-legais. 2. ed. Curitiba/São Paulo: Editora Guairá, 1940.
VANRELL, J.P. Manual de medicina legal - tanatologia. 3. ed. São Paulo: Editora Mizuno, 2007.
MAYER, J. S. Restorative art. Dallas, Texas: Professional Training Schools, Inc., 2001; 398p.
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Training Schools, Inc., 1999; 435p.
FREDERICK, L. G. D.; STRUB, C. G. The principles and pratice of embalming. 5. ed. Dallas, Texas:
Professional Training Schools, Inc., 1989; 489p.

Páginas na Internet
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www.terra.com.br/planetweb, Em 20/3/2005. (mumificação).
Rotina de Funcionamento do
Instituto Médico-Legal Afrânio Peixoto

O Instituto Médico-Legal Afrânio Peixoto foi inaugurado em 31 de janeiro de 1949, e


tem como atribuições a realização de perícias médico-legais e de necropsias nos casos
de morte violenta ou suspeita. A história de sua criação se confunde com o advento
da Medicina Legal como especialidade no Estado do Rio de Janeiro.

BREVE HISTÓRICO

Em 1830, surgiu o primeiro Código Penal Brasileiro, o qual determinava que o juiz
deveria ouvir os peritos antes da sentença. Em 1856, foi criado o primeiro necrotério
do Rio de Janeiro no depósito de mortos da Gamboa, que era utilizado para guardar
os cadáveres de escravos, indigentes e presidiários. Somente em 1891 foi criado outro
necrotério, sediado na Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro.
A assessoria médica foi transformada em gabinete médico-legal, e posteriormen-
te, em 1907, esse gabinete deu origem ao Serviço Médico-Legal, cujo primeiro diretor
foi Afrânio Peixoto. O serviço médico-legal foi então transferido do galpão da Polícia
Central em 1922. Naquele mesmo ano foi redigido o Decreto 15.848, que determi-
nava a transformação do serviço médico-legal em Instituto Médico-Legal. Em 1924
foi construído um novo necrotério, localizado na Praça XV.
Em 1949, foi construída a atual sede do Instituto Médico-Legal, que trouxe em
seu nome uma homenagem a Afrânio Peixoto. Esta realização tinha como objetivo
atender a uma resolução incluída no plano especial de obras e aparelhamento de
Defesa Nacional de 1939, devido ao estado de guerra na Europa. As novas insta-
lações comportavam os setores correspondentes ao exame de corpo de delito, ao
necrotério e aos laboratórios de anatomia patológica, de toxicologia e de patologia
clínica.
138 Manual de Técnicas em Necropsia Médico-Legal

Afrânio Peixoto
Júlio Afrânio Peixoto, médico-legista, político, professor, crítico, ensaísta, romancista,
historiador literário, nasceu na Bahia em 17 de dezembro de 1876 (Figura 8.1). Diplo-
mou-se em Medicina em 1897 em Salvador e mudou-se em 1902 para o Rio de Janei-
ro, onde foi inspetor de Saúde Pública e Diretor do Hospital Nacional de Alienados.
Após concurso, foi nomeado professor de Medicina Legal da Faculdade de Medici-
na do Rio de Janeiro. Em 1906, submeteu-se às provas do concurso em que ganharia
as cadeiras de Medicina Legal e Higiene. Quando da morte de Euclides da Cunha em
1909, foi Afrânio Peixoto quem examinou o corpo do escritor assassinado e assinou
o respectivo laudo, sem sequer suspeitar de que lhe sucederia na Academia Brasileira
de Letras.
Ao vir para o Rio, sua intenção era de apenas ser médico, tanto que deixara de in-
cursionar pela literatura após o lançamento de seu primeiro livro, enquanto sua obra
médico-legal se avolumava. Era membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro,
da Academia das Ciências de Lisboa, da Academia Nacional de Medicina Legal, do
Instituto de Medicina de Madri e de outras instituições. Faleceu no Rio de Janeiro em
12 de janeiro de 1947.

FUNCIONAMENTO DO NECROTÉRIO

Recepção
A entrada dos cadáveres se dá por uma portaria reservada para essa finalidade. Os
cadáveres são levados ao Instituto Médico-Legal por veículo próprio da Defesa Civil

Figura 8.1 Afrânio Peixoto


Rotina de Funcionamento do Instituto Médico-Legal Afrânio Peixoto 139

- Corpo de Bombeiros Militares do Estado do Rio de Janeiro, conhecido como Auto


de Remoção de Cadáveres (rabecão ou ARC). Eventualmente, outros veículos podem
conduzir os cadáveres ao IML desde que sejam autorizados e tenham a Guia de Re-
moção, expedida por autoridade policial.
A Guia de Remoção de Cadáver é um documento oficial, obrigatório, expedido e
assinado por autoridade policial em três vias, que autoriza e determina a remoção do
cadáver do local em que se encontra para o IML. Uma das vias fica anexada ao regis-
tro de ocorrência que deu origem à remoção, outra via é anexada à documentação
do cadáver, e a última via fica arquivada no Setor de Óbito.
Essa guia de remoção de cadáveres deve apresentar, também, todas as informa-
ções necessárias ao perito-legista para que este realize corretamente a necropsia
médico-legal. Tais dados incluem o fato presumido, as condições prováveis em que
ocorreu o óbito, a provável identificação do cadáver e, quando houver assistência
médica, será obrigatória a guia hospitalar com todas as informações a respeito do
atendimento médico prestado, de acordo com a Resolução do Conselho Regional de
Medicina n fi 216/2006, que dispõe sobre o envio de informações médico-hospitalares
com os cadáveres encaminhados aos Institutos Médico-Legais e Serviços de Verifica-
ção de Óbito para a realização de necropsia.
O cadáver é recebido no Setor de Permanência, mediante apresentação da Guia
de Remoção de Cadáver e dos documentos complementares que auxiliarão na for-
malização de sua entrada. Feita a entrada, o cadáver é registrado no Livro de Entrada
de Cadáveres sob um número determinado por ordem cronológica. Esse número dá
origem, por sua vez, ao número de laudo interno, que acompanhará o cadáver e toda
a sua documentação no Instituto até a liberação.
Ainda constam nesse registro o nome do cadáver, a data e a hora de entrada, a
provável causa da morte, o número da Guia de Remoção e a Delegacia Policial de
procedência, além do número da viatura de remoção de cadáver responsável pelo
transporte do corpo.
Caso o nome do cadáver não seja conhecido, este é descrito como homem, mu-
lher, criança, feto ou despojos humanos.
Após o preenchimento do registro de entrada, os dados são transcritos em uma
etiqueta - o Cartão de Identificação do Cadáver -, que será atada à perna deste por
meio de um fio metálico (Figura 8.2). Há, ainda, uma segunda etiqueta de identifica-
ção, feita de fenolite com números de cobre, material resistente ao calor e à umidade,
ou em alumínio com números cunhados, que também é presa ao cadáver e pode ser
encontrada mesmo após a exumação.
Por ocasião do recebimento do cadáver, seus pertences deverão ser recolhidos em
embalagens ou envelopes plásticos apropriados (Figura 8.3), nos quais serão descritas
informações de identificação que os vinculem àquele cadáver. Além disso, deverá ser
discriminado o conteúdo de cada embalagem. O envelope que contém os pertences
deverá ser lacrado e anexado à guia de remoção na qual foi registrado o conteúdo
140 Manual de Técnicas em Necropsia Médico-Legal

Figura 8.2 Cartão de Identificação do Cadáver

Figura 8.3 Envelopes plásticos para acondicionamento de vestes, objetos e projetis recolhidos
do cadáver
Rotina de Funcionamento do Instituto Médico-Legal Afrânio Peixoto 141

do envelope. Em seguida, o corpo segue para a sala de necropsia, onde o técnico


ou auxiliar de necropsia procederá à descrição dos pertences e trajes no campo de
observações do Termo de Reconhecimento de Cadáver, que será posteriormente as-
sinado pela família. O envelope seguirá para o Setor de Óbito, para posterior entrega
a alguém da família ou ao responsável pelo cadáver, mediante recibo de entrega, no
próprio Termo de Reconhecimento de Cadáver.
É também de grande importância o contato com a autoridade policial que deter-
minou a remoção do corpo e os agentes envolvidos na ocorrência, buscando acres-
centar informações importantes que não estejam descritas na guia ou no caso de
haver alguma discrepância ou irregularidade em seu preenchimento.
Depois de devidamente identificado, o cadáver é então encaminhado para o Setor
de Necropsia.

A Necropsia
A necropsia consiste no exame médico-pericial pela dissecção de cadáveres. No Insti-
tuto Médico-Legal Afrânio Peixoto, esse processo restringe-se aos casos de morte vio-
lenta ou de óbito em circunstâncias suspeitas. Tendo em vista a inexistência de Serviço
de Verificação de Óbito (SVO) no Estado do Rio de Janeiro, são ainda necropsiados
os casos de morte sem assistência médica para tais verificações, embora não seja da
competência técnica dos institutos médico-legais a realização desse procedimento.
Entre os anos de 2000 e 2004, o IMLAP realizou, segundo o Setor de Processamento
de Dados, uma média de 8.500 necropsias por ano.
O cadáver devidamente identificado é levado à sala de necropsia com todos os
documentos necessários. Após o recebimento do cadáver, o auxiliar de necropsia, na
presença do perito, retira as vestes do cadáver e as expõe ao perito que irá examiná-
las. O cadáver é colocado na mesa de necropsia em decúbito ventral para que seja
efetuada a limpeza deste. Segue-se, então, a inspeção do dorso.
O cadáver é então posto em decúbito dorsal. Nesse momento o corpo será medi-
do e serão verificados o sexo, a cor, a estatura, estado de nutrição, idade aproxima-
da, presença de cicatrizes, marcas, tatuagens, características que poderão auxiliar na
identificação. Os olhos devem ser observados, descrevendo-se a cor da íris e a trans-
parência de córnea, assim como a cavidade oral quanto ao estado de conservação
dos dentes e à presença de próteses. Os orifícios naturais são examinados e verifica-se
se há presença de secreção. Em seguida, inicia-se o exame externo, com inspeção de
todo o corpo, inclusive das áreas cobertas por pêlos, observando-se a presença de
livores, equimoses e de todas as lesões violentas, tais como orifícios de entrada e saída
de projéteis de arma de fogo. Essas lesões são assinaladas em esquemas anatômicos
do corpo humano (Figuras 8.4 a 8.10), para possibilitar melhor entendimento de sua
localização. Ainda é importante detectar se há deformidades e fraturas em membros
e na região cervical, além de estabelecer a existência de rigidez cadavérica.
142 Manual de Técnicas em Necropsia Médico-Legal

Figura 8.4 Esquema das lesões localizadas na face anterior do corpo (homem)
Rotina de Funcionamento do Instituto Médico-Legal Afrânio Peixoto 143

Figura 8.5 Esquema das lesões localizadas na face posterior do corpo


144 Manual de Técnicas em Necropsia Médico-Legal

Figura 8.6 Esquema das lesões existentes na face anterior do corpo (mulher)
Rotina de Funcionamento do Instituto Médico-Legal Afrânio Peixoto 145

Figura 8.7 Esquema das lesões localizadas na face direita do corpo


146 Manual de Técnicas em Necropsia Médico-Legal

Figura 8.8 Esquema das lesões localizadas na face esquerda do corpo


Rotina de Funcionamento do Instituto Médico-Legal Afrânio Peixoto 147

Figura 8.9 Esquema das lesões localizadas na face esquerda da cabeça


148 Manual de Técnicas em Necropsia Médico-Legal

Figura 8.10 Esquema das lesões localizadas na face posterior da cabeça


Rotina de Funcionamento do Instituto Médico-Legal Afrânio Peixoto 149

Terminado o exame externo, o técnico de necropsia, supervisionado pelo médi-


co-legista, dará início à necropsia. A técnica mais comumente utilizada no Instituto
Médico-Legal Afrânio Peixoto é a retirada em blocos, que permite a análise dos sis-
temas, individualmente. As incisões normalmente empregadas são a bimastóide e a
submentopubiana. A primeira tem como objetivo rebater o couro cabeludo para ex-
por a calota craniana, enquanto a segunda possibilita o acesso às cavidades torácica
e abdominal.
Caso haja necessidade, são coletados materiais para a realização de exames la-
boratoriais. Ao Setor de Toxicologia podem ser enviados sangue, encéfalo, pulmão,
estômago e conteúdo, fígado e vesícula biliar, rins e supra-renais e quaisquer outros,
a critério do perito. Para o Setor de Patologia são armazenados em formol fragmen-
tos do rim, fígado, timo, supra-renal, pâncreas, pulmão, encéfalo, coração e outros
órgãos que apresentem alterações e devam ser analisados. Todo o material coletado
é encaminhado ao laboratório acompanhado da requisição de exame de laboratório.
Atualmente, existe um técnico, de plantão, especialmente treinado para a coleta e o
armazenamento de fragmentos, líquidos biológicos e peças para realização de exa-
mes complementares, o que facilita o trabalho do perito. Após o exame interno do
cadáver, é feito o fechamento das incisões.
O médico perito-legista é responsável pelo relato do que ocorreu na necropsia,
documentado pelo laudo cadavérico, relatado ao digitador, que irá inserir no Sistema
Informatizado de Laudos (Laudo WEB) o Auto de Exame Cadavérico, incluindo todas
as lesões encontradas. O perito também tem a tarefa de preencher a Minuta da De-
claração de Óbito (Figura 8.11), cuja versão original e definitiva será, posteriormente,
preenchida e assinada e, em seguida, entregue aos familiares para registro em Car-
tório.
O cadáver é identificado pelas técnicas usuais e, havendo identificação pelos fami-
liares, o corpo é então preparado para ser entregue. Não ocorrendo o reconhecimen-
to pelos familiares diretos, o cadáver é armazenado na câmara frigorífica.

Exames complementares
Radiologia
O exame realizado é a radioscopia, por meio de equipamento radiológico acoplado
ao monitor, destinado a localizar projéteis de arma de fogo para que estes sejam
recolhidos durante a necropsia, constituindo provas importantes para a investigação
policial.
Considerando todas as necropsias realizadas no Instituto Médico-Legal, anual-
mente, cerca de 40% corresponderam a necropsias de baleados. A radioscopia é de
fundamental importância na localização dos projéteis ou fragmentos destes, principal-
mente naqueles casos de muitos tiros, em cadáveres carbonizados e em putrefeitos.
150 Manual de Técnicas em Necropsia Médico-Legal

Figura 8.11 Minuta da Declaração de Óbito


Rotina de Funcionamento do Instituto Médico-Legal Afrânio Peixoto 151

Vale ressaltar a importância do recolhimento desses projéteis, que podem ser im-
portantes para o exame de microcomparação balística, realizado pelo Instituto de
Criminalística Carlos Éboli (ICCE). Cadáveres sendo inumados ainda com a presença
de projéteis podem possibilitar futuros questionamentos judiciais e necessitar de exu-
mações, a critério da Autoridade Judicial.

Patologia
O Laboratório de Patologia do IMLAP é o único existente no Rio de Janeiro para exa-
mes destinados à patologia forense, recebendo, portanto, material para análise de
todos os Postos de Polícia Técnica do Estado.
Esse material chega ao laboratório com uma etiqueta de identificação contendo o
número do laudo da necropsia, o nome do perito legista responsável pelo laudo e os
órgãos que foram coletados e um histórico sumário. O material é registrado em um
livro de entrada e recebe um número de identificação para controle interno.
As amostras chegam acondicionadas em recipientes de vidro contendo formol a
10%. O ideal é que seja observada a proporção de 1/3 de vísceras para 2/3 de formol,
à temperatura ambiente. Os tecidos sem formol ou congelados tornam-se autolisa-
dos e ficam inviabilizados para pesquisa anatomopatológica. Todas as amostras de
tecidos do cadáver, mesmo os de vísceras diferentes (cérebro, rim, pulmão etc.), ficam
juntas em um só recipiente.
A pesquisa patológica se dá através das seguintes etapas gerais:

• Fixação: corresponde à fixação do formol nos tecidos. Esse processo ocorre em


dois tempos. No primeiro, os fragmentos das vísceras permanecem tal como che-
garam 5 a 7 dias na fixação; no segundo, permanecem 2 a 3 dias após clivados.
• Clivagem: é o corte em pedaços menores das partes interessantes para a confec-
ção das lâminas histológicas de acordo com o objetivo da pesquisa. Nessa etapa,
são separados cortes de cada víscera, que ficarão armazenados até a finalização
do laudo para uma eventual contraprova.
• Desidratação: processo de secagem e endurecimento das peças, realizado por
maquinário técnico específico e com o uso de álcool.
• Blocos de parafina: cada pedaço de tecido é colocado em uma fôrma com pa-
rafina líquida; a parafina, ao endurecer, forma blocos que facilitarão o corte.
• Cortes histológicos: em um micrótomo, os blocos de parafina são cortados em
finas fatias e colocados sobre lâminas de vidro.
• Coloração: os cortes histológicos são corados com corantes específicos, de acor-
do com a finalidade da investigação, e são colocados em uma estufa para a fixa-
ção do corante.

Após a confecção das lâminas, estas são examinadas ao microscópio por peritos.
Estes, com base no exame, emitem então o laudo anatomopatológico. Todo o pro-
152 Manual de Técnicas em Necropsia Médico-Legal

cesso, desde a fixação das peças em formol até a emissão definitiva do laudo, pode
levar cerca de 15 a 20 dias.
Esse laudo, demonstrando o resultado da investigação anatomopatológica, é en-
caminhado à Seção de Administração de Perícias (SAP), para ser anexado ao Laudo
Cadavérico, que deve ser complementado pelo perito responsável com o exame de
necropsia realizado.

Toxicologia
O Laboratório de Toxicologia é, também, o único existente em Toxicologia Forense
no Rio de Janeiro, sendo responsável, por isso, por toda a demanda de exames do
Estado.
São realizados nesse setor, de interesse para a necropsia, os seguintes exames:

• Pesquisa indeterminada de tóxicos: para determinação de drogas ilícitas e fár-


macos.
• Dosagem alcoólica: para quantificação dos níveis de álcool no sangue.
• Pesquisa de monóxido de carbono: em sangue e urina.

Para a realização desses exames, são necessários um técnico treinado ao procedi-


mento, coleta durante a necropsia, bem como amostras de sangue, urina e vísceras,
conforme interesse dos peritos. As amostras são identificadas e seguem acompanha-
das da requisição de exames de laboratório. O profissional do laboratório que recebe
esse material confere a quantidade e o tipo das amostras e verifica se estão em acor-
do com o que solicita a requisição. Em casos de pesquisa indeterminada, faz-se ne-
cessário, ainda, consultar as informações preliminares da necropsia, para confirmação
dos exames pedidos de acordo com o que foi coletado do cadáver, ou também com
o objetivo de direcionar a pesquisa para uma substância mais específica.
Cada amostra que chega ao laboratório é registrada no Livro de Registro de Exa-
me Toxicológico, recebendo um número (diferente daquele que consta no laudo da
necropsia) para controle interno.
A conservação do material coletado é feita por refrigeração no próprio necrotério.
As amostras de sangue e urina também são armazenadas sob refrigeração, e as vísce-
ras (sem formol) são colocadas em freezeraté serem encaminhadas ao laboratório.
No laboratório, registra-se o peso total das vísceras. Retiram-se 100g para o pro-
cessamento, sendo 50g para análise e 50g para reserva. A parte reservada fica guar-
dada por três meses após o laudo final para posterior contraprova.
A amostra a ser analisada passa pelos processos de corte, liquidificação e extração,
resultando em laudo toxicológico conclusivo, ou não, da análise realizada. De manei-
ra similar, esse laudo é encaminhado à SAP, para ser anexado ao Laudo Cadavérico,
que deve ser complementado pelo perito responsável pelo exame de necropsia.
Rotina de Funcionamento do Instituto Médico-Legal Afrânio Peixoto 153

Hematologia e análises clínicas


Em casos de cadáveres sob suspeita de terem sido vítimas de estupro ou crimes sexuais,
o perito solicita exame para pesquisa de espermatozóide, que será realizado no labo-
ratório de hematologia e análises clínicas. A coleta é feita por meio de swab, realizan-
do-se um esfregaço desse material, em lâmina, de preferência no momento da coleta,
pois o material estará fresco e, portanto, há possibilidade de se encontrarem esper-
matozóides. Se for enviado somente o swab, esse material sofrerá ressecamento. Isso
dificulta a detecção das células, já que o material deverá ser solubilizado em solução
salina. Essa lâmina vem identificada com uma requisição de exame de laboratório.
No laboratório essa lâmina será corada, por meio da coloração Shore, e será feita
a pesquisa de espermatozóides, em microscópio óptico. O resultado é enviado com o
número do laudo da necropsia, o número da requisição e o número do próprio setor
que é encaminhado à SAP para a complementação do laudo cadavérico pelo perito
responsável.
Os diversos materiais, como cabelo, dentes, ossos e tecidos, são coletados por
peritos-legistas treinados, e essas amostras são devidamente armazenadas e enviadas
ao Laboratório de Pesquisa em Genética Forense para pesquisa de DNA.

Setor de Óbito e identificação


O Setor de Óbito detém grande responsabilidade no que concerne à liberação dos
cadáveres e sua documentação. Fornecer a declaração de óbito a um familiar re-
presenta tarefa complexa e com importância legal criminal. Portanto, para que isso
ocorra, necessita-se de total certeza e segurança com relação aos atos administrativos
praticados. Existem normas impostas, sem as quais essa prestação de serviços seria
desordenada e completamente sem valor legal.
A identificação dos cadáveres é um processo lento e trabalhoso, porém de im-
portância fundamental. Inicialmente, são obtidas fotografias dos cadáveres, princi-
palmente de cicatrizes e tatuagens que possam facilitar o reconhecimento do corpo.
Essas fotos ficam armazenadas eletronicamente e são disponibilizadas no Setor de
Atendimento Social do IMLAP.
Em seguida, realiza-se a coleta de impressões digitais pelos papiloscopistas. Essa
coleta deve ser feita ao final da necropsia, para que não sejam alteradas as caracterís-
ticas do cadáver, já que muitas vezes para tal processo a rigidez cadavérica é desfeita.
Futuramente esses dados serão comparados àqueles encontrados em documentação
trazida pelos familiares ou aos registros do Instituto Félix Pacheco. Havendo positivi-
dade no confronto, a declaração de óbito é preenchida conforme o termo de reco-
nhecimento e lavrada pelos peritos de plantão.
Muitas vezes, há grande dificuldade de identificação por esse método, tal como
nos casos de cadáveres carbonizados ou em avançado estado de putrefação, ou
154 Manual de Técnicas em Necropsia Médico-Legal

quando há alterações nas papilas digitais ou ainda quando inexiste identificação nos
arquivos aos quais se tem acesso, como, por exemplo, de crianças, moradores de rua,
moradores de outros estados ou países.
Caso não seja possível a identificação por métodos papiloscópicos, é também uti-
lizado o Serviço de Odontologia Médico-Legal. Este auxilia na identificação por meio
de uma técnica de comparação odonto-legal das arcadas dentárias do cadáver com
uma ficha odontológica - o odontograma -, que deverá ser fornecida pelo dentista
da pessoa falecida, em que são registrados todos os trabalhos, obturações ou proce-
dimentos odontológicos realizados (Figura 8.12).
O necrotério envia ao serviço de odontologia os nomes dos corpos que deverão
ser examinados pelo serviço de odontologia. Fazem parte dessa lista os cadáveres
que não têm condição de identificação por papiloscopia (Figura 8.13), os corpos que
já estão no IMLAP completando 72 horas, os que não foram reclamados pelos fa-
miliares, e até mesmo os identificados, pois, provavelmente, serão inumados como
indigentes.
O perito odonto-legista encaminha-se o necrotério para a identificação. O exame
é feito após a necropsia, antes do armazenamento na câmara frigorífica. O técnico
de necropsia faz o acesso para o perito. Esse acesso pode ser realizado simplesmente
abrindo a boca do cadáver e analisando cuidadosamente as arcadas dentárias. Mas
há alguns casos em que se torna necessário realizar uma técnica de acesso odonto-le-
gal, deixando a cavidade oral exposta ou dissecada. São examinados detalhadamente
os dentes, a forma da arcada e a oclusão. Quando há necessidade de um exame mais
detalhado, a mandíbula é levada ao Setor de Odontologia Legal, para ser mais bem
analisada e, depois, é devolvida ao serviço de necropsia.
Os exames são registrados no odontograma do cadáver, e ficam arquivados em
ordem cronológica. Caso a família disponha da documentação odontológica daquele
corpo, é possível fazer a comparação e chegar à identificação. Entretanto, a identifi-
cação dos cadáveres pelos odontogramas é de difícil execução, em razão do reduzido
acesso da população à assistência odontológica.
Caso haja determinação judicial, ainda podem ser realizados exames de DNA para
identificação dos cadáveres. Esses exames são realizados pelo Laboratório de Pesquisa
em Genética Forense da Polícia Civil e, futuramente, possibilitarão a identificação de
cadáveres de pessoas consideradas desaparecidas, por meio do cruzamento de ban-
cos de dados.
Após aguardar o prazo estabelecido de 72 horas e envidados todos os esforços
para a devida identificação do cadáver, não se obtendo êxito, o cadáver é inumado
sem identificação, constando na declaração de óbito apenas "um homem ou uma
mulher não-identificado".
Da mesma forma, compreendendo o prazo de 72 horas, toda a documentação
pertencente a cadáveres que não tenham sido reclamados, ou seja, sem família ou
Rotina de Funcionamento do Instituto Médico-Legal Afrânio Peixoto 155

Figura 8.12 Odontograma de cadáver


156 Manual de Técnicas em Necropsia Médico-Legal

Figura 8.13 Campo para declaração no livro de saída de cadáveres


Rotina de Funcionamento do Instituto Médico-Legal Afrânio Peixoto 157

responsável legal, será encaminhada ao registro em cartório para inumação, estejam


identificados ou não pelo Instituto Félix Pacheco.
Vale ressaltar ainda que todo município tem a obrigação de enterrar seus mortos
indigentes.* Mesmo que a família se apresente e, ainda que seja identificado o ca-
dáver, ao se comprovar a miserabilidade da família e de seu ente falecido, há de se
considerar a indigência.
Na cidade do Rio de Janeiro, a Santa Casa da Misericórdia mantém relacionamen-
to com a administração municipal, sendo oficialmente encarregada de conceder total
assistência funeral aos familiares indigentes do município. Igualmente, foi celebrado
convênio entre a Chefia de Polícia Civil e a Santa Casa da Misercórdia para que as
providências funerárias sejam o mais rapidamente tomadas, nesses casos.
Outro ponto importante diz respeito à entrada de partes de cadáver (cabeça,
membros ou partes do corpo), de maneira que nesses casos, após a devida perícia
médico-legal, não se produzirá uma declaração de óbito e sim uma Guia de Sepulta-
mento Parcial.

Setor de protocolo
Atualmente o IML dispõe de um sistema integrado ao Programa Delegacia Legal de-
nominado "Laudo Web", no qual o Auto de Exame Cadavérico e seus respectivos
quesitos e observações são inseridos no sistema pelos digitadores, por meio de se-
nhas individuais de acesso que fornecem total segurança ao sistema. Os laudos são
impressos em duas vias e encaminhados ao Setor de Administração de Perícias para
processamento. Esse setor emitirá a guia de remessa para que uma via do laudo seja
colocada à disposição da Delegacia de Polícia que o solicitou. Pelo sistema "Laudo
Web", somente a autoridade policial tem acesso ao sistema, portanto o laudo im-
presso e assinado será colocado à disposição da Delegacia Policial que o requisitou.
Os laudos serão retirados por policiais credenciados por cada Delegacia de Polícia. A
outra via do laudo cadavérico ficará arquivada no Setor de Administração de Perícias
(SAP).
Os laboratórios no IMLAP também atendem à solicitação de exames de outros
serviços médico-legais do Estado do Rio de Janeiro. Quando um exame solicitado por
outro serviço é concluído, o protocolo faz uma guia de remessa (Figura 8.14) para o
local que solicitou o exame.
De forma sistemática, anexado à guia de remessa, é enviado o laudo cadavérico,
para a delegacia de origem, assinado pelo perito responsável, relatando tudo o que
foi registrado durante a necropsia; o termo de reconhecimento assinado pelo familiar
responsável pela liberação do corpo, com a documentação do cadáver, a documen-

* Indigente (do latim indigentia): falta do necessário para viver, pobreza extrema; penúria, miséria, inópia;
Fig. Carência, privação, falta, indigência de recursos.
158 Manual de Técnicas em Necropsia Médico-Legal

Figura 8.14 Guia de remessa


Rotina de Funcionamento do nstituto Médico-Legal Afrânio Peixoto 159

tação da família, o esquema das lesões encontradas, bem como projéteis retirados,
devidamente identificados e embalados.

Seção de Administração de Perícias (SAP)


Esta seção é responsável por anexar o laudo final aos demais documentos, tais como
Guia de Remoção, Minuta da Declaração de Óbito, Termo de Reconhecimento, Esque-
mas, entre outros, reunidos em uma capa de laudo, e por fazer a inclusão do laudo no
banco de dados do Instituto Médico-Legal Afrânio Peixoto. Além disso, a SAP ainda
tem como tarefa a verificação de quaisquer pendências e assinaturas devidas, bem
como o envio desses documentos ao protocolo. A SAP também procede à separação
daqueles laudos que ficam à disposição das diversas delegacias dos documentos que
seguem para serem arquivados.
Quando o laudo não é concluído por ocasião da necropsia, permanecendo à espe-
ra dos resultados dos exames complementares, fica arquivado nap SAP. No momento
em que o laudo do exame chega à seção, este é anexado aos documentos relaciona-
dos com a necropsia e enviado ao perito para que proceda à conclusão do laudo. Só
então é que o laudo é incluído no sistema do Instituto e encaminhado ao Setor de
Protocolo.
A SAP também é responsável pela disponibilidade de cópias autênticas, nas quais
uma via original do laudo é xerocopiada e autenticada por peritos lotados na Direção.
São atendidas, nesses casos, as requisições oficiais de autoridades policiais e judiciá-
rias, bem como do Ministério Público ou da Defensoria Pública.

Arquivo
Ficam arquivados no Instituto Médico-Legal Afrânio Peixoto documentos importantes
de cada cadáver, tais como cópia do laudo, guia de remoção, termo de reconheci-
mento e exames laboratoriais, armazenando todas as informações relacionadas com
o óbito, reunidos em um processo individual com capa.
Todos os documentos correspondentes ao período de 1962 a 1982 estão arqui-
vados em microfilme. Os documentos correspondentes aos outros anos ainda estão
arquivados em papel.
Um projeto de digitalização de todos os laudos emitidos no IMLAP está sendo
desenvolvido e será de grande importância no futuro.

Saída dos cadáveres


A saída dos corpos é registrada no livro de saída, em que são descritos os dados do
cadáver, o número do laudo, o nome da funerária que recolherá o corpo e o cadastro
160 Manual de Técnicas em Necropsia Médico-Legal

dos agentes funerários autorizados a remover cadáveres, bem como o cemitério de


destino (Figura 8.15).
Os familiares chegam ao Instituto Médico-Legal acompanhados por um agente da
funerária escolhida, levando a roupa que vestirá o corpo, o caixão e a Declaração de
Óbito. Um familiar deverá, então, assinar o Termo de Reconhecimento e Identificação
de Cadáver (Figuras 8.16 e 8.17). O corpo pode, em seguida, deixar o IML no carro
da funerária para o sepultamento.

Figura 8.1 í Campo para declaração no livro de saída de cadáveres


Rotina de Funcionamento do instituto Médico-Legal Afrânio Peixoto 161

Figura 8.16 Termo de reconhecimento e identificação de cadáver (frente)


162 M a n u a l de Técnicas em Necropsia Médico-Legal

TERMO DE RECONHECIMENTO E IDENTIFICAÇÃO DE CADÁVER

GUIA POLICIAL N.° I DA D.P.

1? Testemunha:
Identidade n? emitida por
Endereço:

2* Testemunha:
Identidade n.° emitida por
Endereço:

IDENTIFICAÇÃO DATILOSCÓPICA:

Confronto:
Através do confronto datiloscópico direto entre a impressão colhida do polegar direito do cadáver acima referido
e a aposta no anverso do documento número , expedido por , em / / ,
é acusada a identidade entre as mesmas.

Papi losco pista

Identificação pelo IFP:


Mem." n." I de I / .
Remessa n.° I .
OBA.:

NOME ANOTADO NA DECLARAÇÃO DE ÓBITO:

Funcionário responsável pelo preenchimento do presente termo:

Observações, se necessárias, do responsável pelo preenchimento do óbito, do papiloscoplsta, do odontolegistaou perito-


legista quanto à confirmação ou não do reconhecimento visual e a razão do nome anotado na declaração de óbito.

Data: I I

Figura 8.17 Termo de r e c o n h e c i m e n t o e identificação de cadáver (verso)


Rotina de Funcionamento do Instituto Médico-Legal Afrânio Peixoto 163

BIBLIOGRAFIA

ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS. Biografia de Afrânio Peixoto.


OLIVEIRA, S. Importância da radiologia nos exames necroscópicos de baleados do IMLAP. Disserta-
ção de Mestrado, UFRJ, 2004.
SOUZA, M. Instituto Médico-Legal Afrânio Peixoto - O resgate de uma história viva. 2003.
^ ^ ^ Anexo

PROCESSO CONSULTA CFM N» 1.815/87


PC/CFM/N» 16/1988

INTERESSADO: CONSELHO REGIONAL DE MEDICINA DO ESTADO DE GOIÁS


RELATOR: Conselheiro Cláudio Balduíno Souto Franzen

PARECER

O Conselho Regional de Medicina do Estado de Goiás recebeu consulta da Secreta-


ria de Segurança Pública - Divisão de Medicina Legal daquele Estado sobre a exclusivi-
dade da prática de formalização e embalsamamento por médicos. Indaga, também, se
profissionais de outras áreas podem atuar nessa prática, e se há alguma implicação para
os hospitais onde esses procedimentos são realizados por auxiliares de enfermagem.
A Assessoria Jurídica daquele Conselho Regional respondeu que pela legislação
vigente em Goiás o embalsamamento e a formalização de cadáveres somente podem
ser feitos por médicos (Decreto Estadual n2 334, de 18 de dezembro de 1974).
O processo, por deliberação do Plenário do Conselho Regional de Medicina do Es-
tado de Goiás, foi remetido a este Conselho Federal para esclarecimento da existência
de Jurisprudência a respeito.
A Assessoria Jurídica do Conselho Federal referiu que a legislação do Estado de
São Paulo, no que se refere a esse assunto, não exige que esse ato seja praticado por
médicos necessariamente, podendo ser praticado por um técnico de necropsia, sob
a responsabilidade de um médico, que deverá supervisionar sua realização. Informa,
também, inexistir jurisprudência sobre o assunto em tela a nível de Conselho Federal
de Medicina.
Efetivamente, o embalsamamento endoarterial é, no Brasil, o mais usual processo
de conservação do corpo humano, para transporte e velório em câmaras especiais.
A formalização é um embalsamamento arterial incompleto, pois não se pratica a
166 Manual de Técnicas em Necropsia Médico-Legal

evisceração. Da própria leitura de como são executados os procedimentos referidos,


conclui-se que só um médico teria conhecimento e aptidão para realizá-los (Perícia
Médica Judicial-Hermes Rodrigues de Alcântara, páginas 280/283).
A própria legislação de São Paulo, invocada pela Assessoria Jurídica, caracteriza
também o ato em questão como médico, considerando que a supervisão e responsa-
bilidade deve ser de um médico.
Registra-se, também, que Hermes Rodrigues de Alcântara destaca como finalida-
des da conservação do corpo humano, o seguinte: impedir os fenômenos cadavé-
ricos transformadores, para que os responsáveis pelo corpo tomem as providências
relacionadas com o seu destino final; preparar o corpo para ser transportado por via
terrestre, aérea ou marítima para qualquer lugar do país ou do exterior, obediente
aos regulamentos Sanitários Internacional, Nacional, Estaduais e Municipais; preparar
o corpo para que, exposto em câmara especial, receba homenagens póstumas, e
preparar o corpo para que sirva aos estudos da anatomia da técnica cirúrgica e da
patologia, nas escolas de medicina e de odontologia.
Finalmente, Flaminio Favero (Medicina Legal, 2a Volume) ensina que, quando o
médico fizer um embalsamamento, deve ter certos cuidados indispensáveis a fim de
que não seja ele responsabilizado por quaisquer danos dai resultantes. Assim, em
primeiro lugar, é necessária a permissão da autoridade policial da localidade ou do
distrito e, também, segundo a praxe estabeleceu, a da autoridade sanitária, embora
esta não seja indispensável.
Em seguida, será firmado com rigor o diagnóstico da realidade do óbito para que,
em qualquer tempo, se afaste a alegação de que possivelmente o indivíduo ainda se
achava com vida quando foi iniciado o processo de embalsamamento.
Estudando convenientemente os vários fenômenos cadavéricos, pode obter-se o
diagnóstico exigido sem receio de erros. Diz ainda o autor que, resolvidas essas ques-
tões preliminares, o médico embalsamador e seus auxiliares passarão à técnica pro-
priamente dita, empregando os processos que melhor lhes parecem, quer na fórmula
dos líquidos, quer na sua utilização, quer na preparação posterior do cadáver.
Portanto, embora não exista legislação específica, mas apenas genérica, as fina-
lidades e formalidades dos procedimentos em exame demonstram claramente que
é um ato médico. Conseqüentemente, outros profissionais somente podem atuar
como auxiliares do médico responsável pelo embalsamamento ou formalização, mas
sempre sob a supervisão e direção do mesmo médico. A realização de tais atos em
hospitais, sem direção e supervisão médicas, implicará responsabilidade para a admi-
nistração hospitalar e para os agentes executores do ato.

É o parecer, s.m.j.

Rio de Janeiro, 20 de maio de 1988.

Cláudio Balduíno de Souto Franzen


Conselheiro-Relator
Anexo II

RESOLUÇÃO "SMO" Na 696 DE 26 DE SETEMBRO DE 2000

Dispõe sobre a autorização, o funcionamento e o contro-


le das atividades de Embalsamamento, Conservação e/ou
Restauração de Cadáveres Humanos, e cria documentos de
uso obrigatório pelas Permissionárias.

A Secretária Municipal de Obras e Serviços Públicos, no uso das atribuições que


lhe são conferidas pela legislação em vigor, e tendo em vista o que consta do Processo
n2 06/050.121/2000.
Considerando a necessidade de disciplinar a autorização, o funcionamento e o
controle das atividades de embalsamamento, conservação e/ou restauração de cadá-
veres humanos no Município do Rio de Janeiro, assim como a atuação dos profissio-
nais qualificados, em locais permitidos pela legislação;
Considerando o disposto no art. 84 do Regulamento aprovado pelo Decreto "E"
n2 3.707 de 6 de fevereiro de 1970 e no artigo 64 do Regulamento aprovado pelo
Decreto n2 8.734 de 14 de setembro de 1989;

RESOLVE:

Art. 1e - As pessoas jurídicas permissionárias para o exercício das atividades de


embalsamamento, conservação e/ou restauração de cadáveres humanos, subordina-
das à disciplina prevista nos artigos 17 a 22 do Decreto n2 8.734, de 14 de setembro
de 1989, estão obrigadas ao cumprimento do disposto nesta Resolução.
Art. 2a - Fica criada, de acordo com o modelo anexo, a AUTORIZAÇÃO E NOTA DE
EMBALSAMAMENTO, CONSERVAÇÃO E/OU RESTAURAÇÃO DE CADÁVERES HUMA-
NOS, para emissão em ordem seqüencial, em três vias, com a seguinte destinação:
168 Manual de Técnicas em Necropsia Médico-Legal

1 a primeira via, ao solicitante da atividade;


2 a segunda via, para acompanhamento do corpo, e
3 a terceira via, ao emitente, para guarda e exibição à O/DCF.

Art. 3a - Fica criado o LIVRO DE REGISTRO DE EMBALSAMAMENTO, CON-


SERVAÇÃO E/OU RESTAURAÇÃO DE CADÁVERES HUMANOS, para registro obri-
gatório das atividades mencionadas, contendo folhas numeradas seqüencialmente,
termo de abertura e encerramento, o qual será apresentado à Diretoria de Controle de
Cemitérios e Serviços Funerários para aprovação, autenticação e rubrica das folhas.
Art. 4a - No Livro de Registro de Embalsamamento, Conservação e/ou Restaura-
ção de Cadáveres Humanos deverão constar obrigatoriamente os seguinte dados:

I Data de entrada e saída do corpo;


II Nome da pessoa falecida;
III Local e data do óbito;
IV Número e data do atestado de óbito;
V Nome do médico atestante, com o devido Cremerj;
VI Tipo de atividade realizada;
VII Nome do solicitante do serviço, sua qualificação e grau de relação com o fa-
lecido.

Art. 5a - O Livro de Registro de Embalsamamento, Conservação e/ou Restauração


de Cadáveres Humanos poderá ser substituído por modelo alternativo de controle,
desde que ofereça segurança para o acompanhamento das atividades realizadas, ou-
vida a Diretoria de Controle de Cemitérios e Serviços Funerários.
Art. 6a - O documento de que trata o art. 2Q e o livro criado no art. 32 deverão
ser mantidos no local do exercício das atividades permitidas de EMBALSAMAMEN-
TO, CONSERVAÇÃO E/OU RESTAURAÇÃO DE CADÁVERES HUMANOS, de lá SÓ
podendo serem retirados para atender requisição, intimação escrita, da Diretoria de
Controle de Cemitérios e Serviços Funerários.
Art. 7a - O descumprimento de quaisquer das obrigações instituídas por esta
Resolução implicará a lavratura de Auto de Infração com a aplicação das cominações
previstas no Decreto ne 9.532, de 3 de agosto de 1990.
Art. 8a - Esta Resolução entrará em vigor na data de sua publicação, revogadas
as disposições em contrário.

ANGELA NÓBREGA FONTI


Secretária Municipal de Obras e Serviços Públicos

Republicado no D.O. Rio de Janeiro de 29.09.2000


Página 11
Anexo III

*ANEXO DA RESOLUÇÃO "SMO" Na 696 DE 26 DE SETEMBRO DE 2000


AUTORIZAÇÃO E NOTA DE EMBALSAMAMENTO, CONSERVAÇÃO E/OU
RESTAURAÇÃO DE CADÁVERES HUMANOS

N° VIA Data de Emissão / /

Nome da Permissionária:
Permissionária Municipal na:
Local completo do exercício da atividade:
Telefone:
Inscrição Municipal na CNPJ na

Solicitante:
Residente: n2 Bairro:
Complemento: CEP:
Município: Estado: Tel.:
Identidade: Órgão emissor:
Falecido:
Declaração de óbito na Firmado pelo médico:
Cremerj
Em, / / , autorizo a realização de
, pelos profissionais:
Médico: Cremerj
Técnico: CONSELHO/IDENTIDADE
170 Manual de Técnicas em Necropsia Médico-Legal

Assim como solicitante, tenho o conhecimento de que:

1) Para a execução do embalsamamento a técnica utilizada será a


, sendo obrigatória
a apresentação de declaração de óbito e documento de identidade do(a) falecido(a),
bem como as cópias, sem as quais o embalsamamento não poderá ser executado.
2) Já se passou mais de 6 (seis) horas do falecimento.
3) Os líquidos fixadores utilizados poderão alterar os resultados dos exames laborato-
riais toxicológicos que porventura venham a ser realizados no corpo.
4) Seguirá dentro da urna, junto ao corpo, frascos de amostras de líquidos
fixadores utilizados.
5) Declaro que acompanha o corpo os seguintes paramentos: órteses e/ou próteses
e/ou valores etc., a saber:

identidade
(Solicitante)

identidade
(Representante da Permissionária)

identidade
(Testemunha)

*Republicado por ter saído com incorreção no DO-Rio n2 136 de 27/09/2000.

Publicado no DO-Rio de 9 de maio de 2001.


índice

- em necropsias de cadáveres, 61
Abdome, necropsia de, 98 - - de vítimas contaminadas por material
Acesso, vias de, para o exame radioativo, 61
odonto-legal, 111-121 - - portadores de marca-passos, 69

- processamento para limpeza das peças - - submetidos em vida a tratamento

obtidas, 119 radioterápico, 64

- reposição dos tecidos moles, 119 - níveis de, 46


- níveis de contenção, 47
- técnicas necroscópicas para acesso à
- - manutenção da qualidade dos
cavidade bucal, 112
equipamentos, 54
Acidentes no local de trabalho, 58
- - primária, 47
- com perfurocortantes, 59
- - secundária, 53
- exposição, 59
- princípios de, 45
- - cutânea, 60
- recomendações para a utilização de fontes
- - de material biológico, 59
radioativas não-seladas, 65
- - de material químico, 60
- - armazenamento de material
- - de mucosa ocular ou outras
radioativo, 66
mucosas, 59
- - instalações ou salas de necropsia, 65
Afastadores, 133
- - manipulação de material radioativo, 66
Agulhas, 39
- - monitoração da área, 68
- tipos de, para reconstituição e
- - monitoração pessoal do trabalhador, 69
fechamento, 132 - - proteção individual, 67
Álcool, 60 - - rejeitos radioativos, 68
- tipos de precauções, 55
Amputação, bisturi e facas de, 34
- - especificação para as precauções, 56
- - fundamentadas na transmissão, 55
B
- - fundamentos de isolamento, 57
Backaus, pinça, 133 - - precaução-padrão, 55
Balanças de medida, 41 Bisturi, 29, 133
Bandagem ou tecido de algodão, 41 - e facas de amputação, 34
Biossegurança, 45-70 Bomba aspiradora e injetora de fluidos, 128
- acidentes no local de trabalho, 58
172 Manual de Técnica em Necropsia Médico Legal

- - tentacânula, 37
Cadáver(es), 18 - - tesoura(s), 37
- biossegurança em necropsias de, 61 - - - de (ris, 37
- - de vítimas contaminadas por material - de Mayo, 37
radioativo, 61 - de Metzenbaum, 37
- - portadores de marca-passos, 69 - toracoabdominal, 88
- - submetidos em vida a tratamento - - incisão para abertura da, no recém-
radioterápico, 64 nascido, 104
- envelopes plásticos para acondicionamento - - técnica de abertura da, 88, 90
de vestes, objetos e projetis recolhidos do, - - técnica de fechamento da, 102
140 Cepo, 27
- identificação do, 18 Chaira e pedra de afiar, 28
- - cartão de, 140 Chumbo, 60
- odontograma de, 155 Cianeto, 60
- técnicas de conservação de, 123-136 Cinzel, 32
- - aspectos históricos, 123 Collin, 37
- - objetivos, 124 - facas de, 29
- - plastinação, 135 - pinça de, 37
- - requisitos, 124 Concha em aço inoxidável, 35
- - tanatopraxia, 126 Conservação de cadáveres, técnicas
- ambiente e equipamentos, 132 de, 123-136
- aplicação, 127 Contador de Geiger-Müller, 63
- produtos utilizados em, 130 Contenção, níveis de, 47
Calota craniana, tipos de corte da, 81 - manutenção da qualidade dos
Cânula(s), 134 equipamentos, 54
- de drenagem e aspiração venosa, 134 - primária, 47
- de injeção arterial de vários calibres, 134 - secundária, 53
- pinça para, 134 Costótomo de cisalha, 34
Cartão de identificação do cadáver, 140 Couro cabeludo, 80
Cavidade - técnica de fechamento do, 99
- bucal, técnicas necroscópicas para acesso - técnica de incisão do, 82
à, 112 Crânio, 95
- craniana, técnica de abertura da, 80 - necropsia do, 95
- - remoção da hipófise, 87 - técnica de abertura do, 83-87
- - remoção do cérebro, 80 Craniotomia, instrumentos utilizados em, 31
- do tronco, instrumentos utilizados em - escopro, cinzel e martelos, 32
inspeção das, 33 - ruginas, 31
- - bisturi e facas de amputação, 34 - serras, 31
- - concha em aço inoxidável, 35
- - costótomo de cisalha, 34
- - enterótomo, 35 Declaração de óbito, 150
- - pinça(s), 36 Dissecção, pinças de, 36
- de Collin para extração de projetis, 37 Dissectores, 133
- de dissecção, 36 Drenagem, cânula de, e aspiração venosa, 134
- hemostática, 36
- - raquítomo ou raquiótomo, 37
- - sonda metálica, 37 Enterótomo, 35
História da Necropsia no Brasil 173

Equipamentos de proteção individual, 48 - instrumentos utilizados em, 27


Escopro, cinzel e martelos, 32 - - bisturi, 29
Estilete de aço inoxidável de medida, 41 - - cepo, 27
Exame odonto-legal, vias de acesso - - chaira e pedra de afiar, 28
para o, 111-121 - - facas, 29
- processamento para limpeza das peças - - - d e Collin, 29
obtidas, 119 - - - de Virchow, 29, 89
- reposição dos tecidos moles, 119 - - tesoura de Smith, 30
- técnicas necroscópicas para acesso à - para abertura da cavidade toracoabdominal
cavidade bucal, 112 no recém-nascido, 104
- - de Luntz, 113 - submentoxifopubiana, 89
- - submandibular, 116 Injeção, cânula de, arterial de vários
Exposição calibres, 134
- cutânea, 60
Inspeção das cavidades do tronco,
- de material biológico, 59
instrumentos utilizados em, 33
- de material químico, 60
Instituto Médico-Legal Afrânio Peixoto, 107
- de mucosa ocular ou outras mucosas, 59
- necropsias no, 19
- - procedimentos administrativos e
legais, 137-163
Faca(s), 29
- breve histórico, 137
- de amputação, bisturi e, 34
- funcionamento do necrotério, 138
- de Collin, 29
Instrumental utilizado em necropsia, 25-44
- de Virchow, 29
- cuidados com o material, 42
Fetos, necropsia em, 103
- de medidas, 41
Fixador de mandíbula, 134
- - balanças, 41
Fluidos, bomba aspiradora e injetora de, 128
- - estilete de aço inoxidável, 41
Fontes radioativas não-seladas,
- - paquímetro em aço inoxidável para
recomendações para a utilização de, 65
medidas de até 150mm, 42
- armazenamento de material radioativo, 66
- - trena de aço com 2m de comprimento, 42
- instalações ou salas de necropsia, 65
- em tanatopraxia, 133
- manipulação de material radioativo, 66
- tempos da necropsia, 27
- monitoração da área, 68
- - craniotomia, 31
- monitoração pessoal do trabalhador, 69
- escopro, cinzel e martelos, 32
- proteção individual, 67
- rejeitos radioativos, 68 - ruginas, 31
- serras, 31
- - incisões, 27

Geiger-Müller, contador de, 63 - bisturi e facas de Collin e de Virchow, 29

Ghon, técnica de, 79 - cepo, 27


Griesinger, plano de, 81 - chaira e pedra de afiar, 28
- tesoura de Smith, 30
- - inspeção das cavidades do tronco, 33
Hajek, martelo de, 33 - bisturi e facas de amputação, 34
Hematologia e análises clínicas, 153 - concha em aço inoxidável, 35
- costótomo de cisalha, 34
- enterótomo, 35
Incisão(ões), 30 - pinça de Collin para extração de
- do couro cabeludo, 80, 82 projetis, 37
174 Manual de Técnica em Necropsia Médico Legal

— pinça hemostática, 36 Medicina legal, evolução da, no Brasil, 2


— pinças de dissecção, 36 - fase de nacionalização, 3
— raquítomo ou raquiótomo, 37 - fase de transição, 3
— sonda metálica de 1mm de diâmetro, 37 - fase estrangeira, 2
— tentacânula, 37 Medidas, instrumentos de, 41
— tesoura de íris, 37 - balanças, 41

— tesoura de Mayo, 37 - estilete de aço inoxidável, 41

— tesoura de Metzenbaum, 37 - paquímetro em aço inoxidável, 42

— - reconstituição, 39 - trena de aço, 42

— agulhas, 39 Medula espinal, necropsia de, 95

— bandagem ou tecido de algodão, 41 Metzenbaum, tesoura de, 37

— linha crua, 40 Morte, 18

— pinças anatômica e do tipo dente de - determinação da causa médica da, 18


- determinação da data provável da, 19
rato, 39
- subsídios para a determinação da causa
— tesoura de Mayo, 41
jurídica da, 18
fris, tesoura de, 37
Mucosa ocular, exposição de, ou outras
mucosas, 59

Kelly, pinça de, 36, 133


N
Necropsia médico-legal ou forense,
15-24, 72
Lactentes, necropsia em, 103
- aspectos éticos, 19
Letulle, técnica de, 78, 94
- - conceituação, 19
Linha crua, 40
- - decálogo ético do perito, 20
Luntz, técnica de, 113
- - utilizando a ética e evitando
problemas, 21
M
- aspectos legais, 17
Mandíbula, fixador de, 134
- - conceituação, 16
Marca-passos, biossegurança em necropsias
- - dispositivos legais, 17
de cadáveres portadores de, 69
- - finalidades, 18
Martelo(s), 32
- - Instituto Médico-Legal Afrânio Peixoto, 19
- de Hajek, 33 - introdução, 15
- de Neufield, 33 - objetivos, 15
- tipos de, 33 - procedimentos administrativos e legais em,
Máscara(s), 58 no Instituto Médico-Legal Afrânio
- contra odores e partículas, 49 Peixoto, 137-163
- tipos de, 58 - - breve histórico, 137
Material - - funcionamento do necrotério, 138
- biológico, exposição a, 59 - a necropsia, 141
- químico, exposição a, 60 - arquivo, 159
- radioativo, 66 - exames complementares, 149
- - armazenamento de, 66 - recepção, 138
- - biossegurança em necropsias de cadáveres - saída dos cadáveres, 159
de vítimas contaminadas por, 61 - seção de administração de perícias, 159
- - manipulação de, 66 - setor de óbito e identificação, 153
Mayo, tesoura de, 37, 41, 133 - setor de protocolo, 157
História da Necropsia no Brasil 175

Necropsia, 69 - setor de óbito e identificação, 153


- biossegurança em, de cadáveres, 61 - setor de protocolo, 157
- - de vítimas contaminadas por material Neufield, martelo de, 33
radioativo, 61 Nitrato de prata, 61
- - portadores de marca-passos, 69
- - submetidos em vida a tratamento O
radioterápico, 64 Óbito, 72
- história da, no Brasil, 1-14 - minuta da declaração de, 150
- - evolução da medicina legal no Brasil, 2 - setor de, e identificação, 153
- instrumental utilizado em, 25-44 Odontograma de cadáver, 155
- - cuidados com o material, 42
- - de medidas, 41
- - tempos da necropsia, 27 Paquímetro em aço inoxidável, 42
- craniotomia, 31
Parênquima cerebral, cortes de Pittres para
incisões, 27
estudo do, 87
- inspeção das cavidades do tronco, 33
Perícias, seção de administração de, 159
reconstituição, 39
Pescoço, necropsia de, 98
- salas de, 65
Pinça(s), 36
- técnicas de, 71-109
- anatômica e do tipo dente de rato, 39
- - abertura da cavidade craniana, 80
- de Backaus, 133
- - aspectos legais, 73
- de Collin para extração de projetis, 37
- - crânio e medula espinal, 95
- de dissecção, 36
- - de Ghon, 79
- d e Kelly, 36, 133
- - de Letulle, 94
- hemostática, 36
- - de Rokitansky, 78
- para cânula, 134
- - de Virchow, 93
Piretrina, 60
- - definição, 71
Pittres, cortes de, para estudo do
- - em fetos, 103
parênquima cerebral, 87
- - em lactentes, 103
- - em recém-nascidos, 103 Plastinação, 135

- - importância, 71 Prata, nitrato de, 61

- - Instituto Médico-Legal Afrânio Projetis, pinça de Collin para extração de, 37

Peixoto, 107 Proteção individual, 67


- - pescoço, tórax e abdome, 98 - equipamentos de, 48
- - tipos, 72 Prótese bucal e ocular, modelos de, 135
- - virtopsia, 107 Protetor facial, 49
Necrotério, funcionamento do, 138
- a necropsia, 141
- arquivo, 159 Radioatividade, símbolo de, 64
- exames complementares, 149 Radiologia, 149
- - hematologia e análises clínicas, 153 Radioproteção, medidas de, e biossegurança,
- - patologia, 151 62
- - radiologia, 149 Raquítomo ou raquiótomo, 37
- - toxicologia, 152 Recém-nascido(s), 103
- recepção, 138 - incisão para abertura da cavidade
- saída dos cadáveres, 159 toracoabdominal no, 104
- seção de administração de perícias, 159 - necropsia em, 103
176 Manual de Técnica em Necropsia Médico Legal

Reconstituição, instrumentos utilizados - do couro cabeludo, 82, 99


em, 39 - em fetos, 103
- agulhas, 39 - em lactentes, 103
- bandagem ou tecido de algodão, 41 - em pescoço, tórax e abdome, 98
- linha crua, 40 - em recém-nascidos, 103
- pinças anatômica e do tipo dente de - importância, 71
rato, 39 - Instituto Médico-Legal Afrânio Peixoto, 107
- tesoura de Mayo, 41 - tipos, 72
Rejeitos radioativos, 68 - toracoabdominal, 88, 90, 102
Rokitansky, técnica de, 78 - virtopsia, 107
Ruginas, 31 Tentacânula, 37
Tesoura(s), 41
- de (ris, 37
Salas de necropsia, 65 - de Mayo, 37, 41, 133
Serras, 31 - de Metzenbaum, 37
Símbolo de radioatividade, 64 - de Smith, 30
Smith, tesoura de, 30 Tórax, necropsia do, 98
Sonda metálica, 37 Toxicologia, 152
Trabalho, acidentes no local de, 58
Trena de aço, 42
Tanatopraxia, 126 Tronco, inspeção das cavidades do,
- ambiente e equipamentos, 132 instrumentos utilizados em, 33
- aplicação, 127 - bisturi e facas de amputação, 34
- instrumental utilizado em, 133 - concha em aço inoxidável, 35
- produtos utilizados em, 130 - costótomo de cisalha, 34
Tanatório, 127 - enterótomo, 35
Tecidos moles, reposição dos, 119 - pinças, 36
Tiécnica(s) de necropsia, 71-109 - raquítomo ou raquiótomo, 37
- aspectos legais, 73 - sonda metálica de 1mm de diâmetro, 37
- de conservação de cadáveres, 123-136 - tentacânula, 37
- de crânio, 80, 83-88 - tesouras, 37
- - e medula espinal, 95
- de Ghon, 79
- de Letulle, 78, 94 Vias de acesso (v. Acesso, vias de)
- d e Luntz, 112, 114 Virchow, 93
- de Rokitansky, 78 - faca de, 29
- de Virchow, 78, 89, 93 - técnica de, 78, 89, 93
- definição, 71 Virtopsia, 107