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A cartografia do representações diplomáticas em anos

recentes, a sociedade brasileira tam-

Brasil no mundo
bém se internacionalizou, seja pela
expansão dos investimentos no exte-
rior; pela presença internacional das
organizações e movimentos sociais
e dos atores religiosos (com o Bra-
sil figurando como o segundo maior
Prefácio por Maria Regina Soares de Lima emissor de missionários no mundo);
pelo número crescente de brasilei-
ros vivendo no exterior; pela nova di-
plomacia subnacional, e pelas mais
diversas políticas públicas exporta-
Por suas dimensões continentais, o atravessam os séculos e situam os das para os países do Sul, em parti-
Brasil tende a ser um país mais vol- eventos brasileiros em perspectiva cular América Latina e África. No
tado para dentro. Em vista da grande temporal e espacial. Ao mesmo tem- contexto de consolidação da demo-
extensão territorial, o país apresen- po, processos muitas vezes tratados cracia brasileira, o desafio para a polí-
ta uma relevante diversidade entre na atualidade como constantes são tica externa é ampliar o diálogo com
suas regiões, o que torna o estudo colocados em perspectiva história. É a sociedade civil, desenvolver uma
das diferenças regionais em varia- o caso, por exemplo, das relações co- robusta diplomacia pública, coorde-
das dimensões um atrativo objeto de merciais com os EUA que desde o nar a negociação internacional das
estudo de um país que é um mun- início da década de 1950 têm dimi- inúmeras políticas públicas que hoje
do em si mesmo. O Atlas da Política nuído sistematicamente, acompa- frequentam as agendas da coopera-
Externa Brasileira retira o Brasil de si nhando a diversificação do comércio ção internacional brasileira. Na de-
e o projeta no mundo em um duplo exterior brasileiro. A implicação é mocracia e no contexto da crescente
sentido. Em primeiro lugar, pela es- que a velha oposição entre dois mo- demanda da sociedade civil por con-
colha da cartografia temática como a delos de política externa, alinhamen- sulta e participação, a política exter-
linguagem para representar grafica- to versus diversificação, deixou de na sai do insulamento e passa a fazer
mente as dimensões quantitativas e fazer sentido. parte do rol das políticas públicas.
qualitativas de uma miríade impres-
sionante de dados, tendo como pa- O Brasil é uma potência emergen- O retrato do Brasil no mundo que
râmetro representações imagéticas te? Com riqueza e variedade de ima- emerge desta publicação é o de um
dos mesmos indicadores em diver- gens desfilam nossos ativos materiais país diverso e complexo, uma demo-
sos outros territórios nacionais. Pela e ideativos. São diversos esses recur- cracia de massa, com uma política
centralidade conferida ao espaço ter- sos, mas cada um deles represen- externa diversificada e com todas as
ritorial, a cartografia temática prati- ta um desafio particular não apenas credenciais para ser um modelo para
camente obriga ao uso da perspectiva para a cooperação internacional, os países do Sul nas águas caudalo-
comparada. Ademais, a escolha de mas para a sociedade, a política e a sas de uma economia globalizada e
uma projeção cartográfica especí- economia do país. Não se trata ape- desigual; um ordenamento geopo-
fica, colocando o país no centro do nas de somar nossas capacidades na- lítico estratificado mas com alguns
globo, nos recorda que todas as pro- cionais e compará-las com outros espaços multilaterais; e, particular-
jeções cartográficas são arbitrárias emergentes. Temos alguns ativos mente, uma enorme heterogeneida-
e refletem as preferências subjetivas que, explorados adequadamente, po- de cultural e de valores cujo manejo
de cada pesquisador. Em perspecti- dem nos colocar na linha de frente exige atores internacionais que fa-
va com outras realidades nacionais, o das discussões globais sobre questões çam da tolerância, da equidade e do
Atlas situa o Brasil no centro do pla- como alimentos, água, megadiversi- respeito à diversidade e à plurali-
neta, mas relativiza nossas alegadas dade, mas também riscos inerentes dade o núcleo duro de sua inserção
especificidades nacionais, equívoco à exploração predatória dos recursos internacional.
de se tomar o caso brasileiro como aqui e em outros países, bem como
único. o desafio de consolidar uma agenda Parabéns à equipe do Labmundo do
doméstica e de cooperação interna- IESP-UERJ, coordenada por meu
Seu pioneirismo, além da narrati- cional comprometida com a dimi- colega Carlos R. S. Milani, compos-
va plástica da linguagem dos mapas, nuição das desigualdades, a garantia ta por Enara Muñoz Echart, Rubens
também está refletido naquilo que dos direitos humanos e a participa- de S. Duarte e Magno Klein, por nos
seus idealizadores decidiram mos- ção democrática. brindar com este esplêndido Atlas
trar e comparar. Não se trata de um tão necessário nos turbulentos dias
Atlas convencional de política exter- A pluralidade, a diversidade e a he- de hoje.
na. Os seus cinco capítulos temáti- terogeneidade de atores e agen-
cos dão conta de eventos, processos, das que participam direta ou Maria Regina Soares de Lima é Pes-
dimensões quantitativas e qualita- indiretamente das questões externas quisadora Sênior do Instituto de
tivas que muitas vezes, como no ca- constituem talvez o retrato mais im- Estudos Sociais e Políticos da Uni-
pítulo sobre a formação nacional, pressionante da nova cara do Brasil versidade do Estado do Rio de Janei-
podem abarcar uma centena de anos, no mundo. Acompanhando a uni- ro (IESP-UERJ) e Coordenadora do
mas cuja concisão é obtida pelo uso versalização da política externa, cuja Observatório Político Sul-America-
imaginativo de linhas de tempo que evidência é o aumento expressivo das no (OPSA)

at l a s d a p o l í t i c a e x t e r n a b r a s i l e i r a V
Trajetória de uma (pelo menos no modo como a política
externa tende a ser compreendida no

parceria
contexto francês).

O segundo exercício de mudanças nas


escalas diz respeito às temporalidades.
Não se trata de uma concepção clássica
Apresentação por Marie-Françoise Durand da história (originária, descritiva e
teleológica), mas de pesquisas que
mobilizam elementos históricos dos
e Benoît Martin poderes, dos territórios, das trocas
e das sociedades que permitem
compreender o tempo presente.
É um grande prazer poder ver o e fluido que alia intercâmbios científi- Essa “re-historicização” possibilita
resultado, tão rápido e obtido com cos, formação e implementação, reu- evitar as armadilhas muito em voga
tamanho profissionalismo, deste nindo parceiros de distintas disciplinas da valorização excessiva das causas
ambicioso Atlas da Política Externa (ciência política e relações internacio- econômicas nas temporalidades
Brasileira, iniciado a partir de uma nais, geografia, história, sociologia) e muito curtas ou as explicações
cooperação frutífera e estimulante tradições profissionais (pesquisadores, culturalistas dos fenômenos sociais,
entre o Ateliê de Cartografia de professores, doutorandos, cartógrafos) frequentemente alternadas ou
Sciences Po e o Labmundo-Rio, grupo de dois países, Brasil e França. Assim, empregadas concomitantemente.
de pesquisa do IESP-UERJ. a equipe do Labmundo-Rio contou Ao método das articulações das
com uma diversidade de perfis indi- escalas temporais e espaciais, que
viduais e, ao mesmo tempo, logrou une os parceiros deste projeto, vem
produzir uma obra de considerável co- somar-se a novidade de associar uma
História de uma cooperação erência, apesar dos desafios organiza- rigorosa démarche científica a uma
cionais que um projeto dessa natureza ambição didática que visa a difundir
Este projeto de cooperação foi desen- envolvia. o que foi acumulado em anos de
volvido e aprofundado ao longo de pesquisa e, assim, alimentar o debate
vários anos, incluindo desde intercâm- público. A representação cartográfica
bios acadêmicos clássicos, de professo- é a ferramenta privilegiada nessa
res e pesquisadores, até o trabalho em Abordagem científica estratégia.
rede. O Ano da França no Brasil, em
2009, foi uma etapa importante nes- Este trabalho retoma, aprofunda e
se processo, uma vez que propiciou aplica a um novo objeto (a política ex-
apoios institucionais e financeiros a vá- terna brasileira) conceitos, noções e Pensar substância e forma
rias publicações (principalmente a tra- métodos já compartilhados pelas equi-
dução do Atlas da Mundialização e a pes dos dois lados do Atlântico em tor- Este Atlas é o testemunho de uma
organização do livro Relações inter- no dos processos contemporâneos da apropriação impressionante, rápida
nacionais: perspectivas francesas, por mundialização. Entre eles salientamos e profunda, da linguagem gráfica
Carlos Milani), que tiveram ampla a postura metodológica indispensável e cartográfica pela equipe do
difusão no Brasil. No contexto dessa para a compreensão das dinâmicas in- Labmundo. O resultado visibiliza
manifestação cultural e científica que ternacionais e “intersocietais”, qual imagens que facilitam a compreensão,
representou o Ano de 2009, nossa ex- seja: considerar sistematicamente as o pensamento, o debate e a ação. Não
posição Os espaços tempos do Brasil, mudanças de escala no espaço e no se trata, portanto, de uma cartografia
composta de 27 painéis, foi o primei- tempo. Uma primeira mudança de clássica em termos editoriais, ou
ro trabalho realizado em parceria em escala consiste em identificar e anali- seja, estreitamente ilustrativa de um
torno de mapas, gráficos, fotos e co- sar as dimensões concomitantemen- argumento. Nem de uma cartografia
mentários curtos. Em síntese, os pai- te territoriais e reticulares do espaço muito contemporânea e por vezes
néis apresentaram “imagens científicas” das sociedades nas escalas local, nacio- “espetacular”, como podem facilitar
que mereciam ser visitadas. nal, regional e mundial (e também no os softwares atualmente disponíveis –
sentido inverso). Portanto, o Atlas da mas cuja função e resultados podem
A publicação do Atlas da Política Ex- Política Externa Brasileira é, ao mes- não se distanciar muito da primeira
terna Brasileira, inicialmente em dois mo tempo, uma obra sobre a inser- categoria de cartografia. Não se
idiomas (português e espanhol), em ção do Brasil no mundo, sua política trata de uma cartografia geopolítica
versão impressa e disponibilizado gra- externa no sentido abrangente e as di- excessivamente fundamentada nos
tuitamente na internet graças à parce- mensões transnacionais dos atores não conflitos, em abordagens culturalistas
ria entre a Editoria da Universidade do estatais. Na qualidade de generalistas e nas relações interestatais (como
Estado do Rio de Janeiro (EdUERJ) das relações internacionais e do trata- tende a ocorrer particularmente no
e o Conselho Latino-Americano de mento gráfico da informação, especia- contexto francês), que não integre
Ciências Sociais (CLACSO), marca lizados no estudo sobre os processos de suficientemente a diversidade dos
nova mudança de escala e de natureza mundialização e suas recomposições atores. Essas duas maneiras de enxergar
na compreensão das dinâmicas de in- espaciais, apreciamos o fato de que as e tornar visível o mundo, que reduzem
serção internacional do Brasil. Trata- questões tratadas neste Atlas vão mui- o campo das relações internacionais
se, com efeito, de um trabalho denso to além do que o seu título anuncia exclusivamente às relações entre

VI at l a s d a p o l í t i c a e x t e r n a b r a s i l e i r a
os Estados, são ainda amplamente em função do problema a ser aborda- uma parte dos dados coletados foi tra-
difundidas, e isso apesar das evidentes do nas duas páginas de cada item dos tada, e novas bases de dados permane-
transformações globais. Um dos capítulos e na articulação dos resulta- cem inexploradas para novas pesquisas.
grandes méritos deste Atlas da Política dos gráficos com os textos pode, em al- Portanto, esta importante etapa con-
Externa Brasileira é ter logrado se guns casos, conduzir ao abandono de quistada pela equipe do Labmundo é
demarcar tanto da cartografia clássica algumas pistas ou à produção de docu- também um começo. Já pudemos ob-
quanto da cartografia espetacular. mentos aparentemente simples, mas servar o uso e a apropriação dos mé-
que de fato resultam de muitas tentati- todos gráficos e cartográficos pelos
Na prática, o trabalho, por vezes longo, vas, modificações e substituições. diferentes pesquisadores do Labmun-
consiste em operacionalizar uma série do, a exemplo das diferentes apresenta-
de etapas desde a reflexão sobre as Apesar dessa dificuldade, este Atlas ções durante o IX Encontro da ABCP
noções a serem explicadas, a pesquisa apresenta grande variedade de repre- (Brasília, 4-7 de agosto de 2014). En-
em torno das informações consideradas sentações gráficas, inclusive algumas riquecidas graças à presença de vários
pertinentes, até o tratamento dos que são originais (como as coleções de documentos gráficos originais, essas
dados, para ao final poder representá- curvas logarítmicas e as matrizes orde- demonstrações acabam por reforçar-se
los. Não comentamos no detalhe cada nadas). Esses tipos de representação no plano científico e em termos de co-
uma dessas etapas, mas constatamos gráfica, apesar de muito eficazes, ainda municação. O Labmundo torna-se, as-
que os autores deste Atlas foram são pouco explorados pois os softwa- sim, um polo importante em matéria
ágeis e criativos na identificação, na res atuais não os propõem automati- de uso e difusão do tratamento gráfi-
comparação, crítica e na seleção das camente. Deve-se recorrer inclusive co como “boa prática” da pesquisa, do
fontes adequadas para os argumentos a vários deles para produzir essas re- ensino e da vulgarização científica no
desenvolvidos. Isso confirma que presentações, em alguns casos traba- campo da Ciência Política e das Rela-
uma base sólida de formação em lhar manualmente. Ao mesmo tempo, ções Internacionais.
pesquisa em ciências sociais resulta os autores deste Atlas inspiraram-se,
em bons reflexos para encontrar as como no caso dos diagramas de flu-
fontes e os dados relevantes, tornando xos, em algumas inovações interessan-
secundários os “detalhes” estéticos. tes que emanam da atual explosão dos Marie-Françoise Durand é geógrafa e
dataminings e dataviz. coordenadora do Ateliê de Cartografia
O “exercício gráfico” (la graphique), de Sciences Po.
pensado e desenvolvido por Jacques Portanto, o Atlas da Política Externa
Bertin, apresentava dois componentes Brasileira é o resultado inovador des- Benoît Martin é geógrafo, cartógrafo
essenciais: a exploração dos dados e, a sa série de operações, as quais, ademais do Ateliê de Cartografia de Sciences
seguir, a comunicação fluida desses da- de sua publicação, permitem difun- Po e doutorando no Centre d’Études
dos. Isso significa que o tempo que se dir formas de pensar e de savoir-faire et de Recherches Internationales de
pode passar no tratamento dos dados muito úteis para a pesquisa. Apenas Sciences Po.

Enara Echart Muñoz

at l a s d a p o l í t i c a e x t e r n a b r a s i l e i r a VII
Lista de siglas
e abreviaturas

ABC – Agência Brasileira de Cooperação CIA – Agência Central de Inteligência dos Estados
ACNUR – Alto Comissariado das Nações Unidas para Unidos (em inglês: Central Intelligence Agency)
Refugiados CICA – Conselho Indígena Centro-Americano
AIE – Agência Internacional da Energia CID – Cooperação Internacional para o
AIEA – Agência Internacional da Energia Atômica Desenvolvimento
AIDS – Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (em CIJ – Corte Internacional de Justiça
inglês: Acquired Immune Deficiency Syndrome) CLACSO – Conselho Latino-Americano de Ciências
ALADI – Associação Latino-Americana de Integração Sociais
ALALC – Associação Latino-Americana de Livre Comércio CNI – Confederação Nacional da Indústria
ALBA – Aliança Bolivariana para as Américas CNM – Confederação Nacional dos Municípios
ALCA – Área de Livre Comércio das Américas CNPq – Conselho Nacional de Desenvolvimento
ALCSA – Área de Livre Comércio Sul-Americana Científico e Tecnológico
ANA – Agência Nacional de Águas CNT – Confederação Nacional do Transporte
ANCINE – Agência Nacional do Cinema COB – Comitê Olímpico Brasileiro
ANTT – Agência Nacional de Transportes Terrestres COBRADI – Cooperação Brasileira para o
AOD – Assistência Oficial para o Desenvolvimento Desenvolvimento Internacional
ASA – Cúpula América do Sul-África COI – Comitê Olímpico Internacional
ASPA – Cúpula América do Sul-Países Árabes COMIGRAR – Conferência Nacional sobre Migrações
BAD – Banco Africano do Desenvolvimento e Refúgio
BID – Banco Interamericano de Desenvolvimento COMINA – Conselho Missionário Nacional
BNDES – Banco Nacional do Desenvolvimento Eco- CONAB – Companhia Nacional de Abastecimento
nômico e Social CONARE – Comitê Nacional para os Refugiados
BRIC – Grupo composto por Brasil, Rússia, Índia e COSIPLAN – Conselho Sul-Americano de Infraestru-
China tura e Planejamento
BRICS – Grupo composto por Brasil, Rússia, Índia, COP – Conferência das Partes (em inglês: Conference
China e África do Sul of the Parties) da Convenção-Quadro das Nações
C40 – Grupo de Grandes Cidades para a Liderança Unidas sobre Mudança do Clima
Climática CPLP – Comunidade dos Países de Língua Portuguesa
CAD – Comitê de Assistência ao Desenvolvimento da CPS/FGV – Centro de Políticas Sociais / Fundação
Organização para Cooperação e Desenvolvimento Getulio Vargas
Econômico CS/ONU – Conselho de Segurança das Nações Unidas
CAF – Cooperação Andina de Fomento CSN – Comunidade Sul-americana de Nações
CAFTA – Tratado Centro-Americano de Livre CSS – Cooperação Sul-Sul
Comércio (em inglês: Central America Free Trade DES – Direitos Especiais de Saque
Agreement) DFID – Departamento para o Desenvolvimento
CAN – Comunidade Andina Internacional do Reino Unido
CAPES – Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal DH – Direitos Humanos
de Nível Superior DJAI – Declaração Jurada Antecipada de Importação
CARICOM – Comunidade do Caribe DJAS – Declaração Jurada Antecipada de Serviços
CASA – Comunidade Sul-Americana de Nações DNPM – Departamento Nacional de Produção
CBERS – Satélite Sino-Brasileiro de Recursos Terrestres Mineral
CBF – Confederação Brasileira de Futebol EAU – Emirados Árabes Unidos
CDIAC – Centro de Análise de Informações sobre o ECOMOG – Grupo de Monitoramento de Cessar-
Dióxido de Carbono Fogo da Comunidade Econômica dos Estados da
CDS – Conselho de Defesa Sul-Americano África Ocidental
CEED – Centro de Estudos Estratégicos de Defesa ECOSOC – Conselho Econômico e Social das Nações
CELAC – Comunidade dos Estados Latino-America- Unidas
nos e Caribenhos EDUERJ – Editora da Universidade do Estado do Rio
CELADE – Centro Latino-Americano e Caribenho de de Janeiro
Demografia EMBRAER – Empresa Brasileira Aeronáutica S/A
CEPAL – Comissão Econômica para a América Latina EMBRAPA – Empresa Brasileira de Pesquisa
e Caribe Agropecuária

VIII at l a s d a p o l í t i c a e x t e r n a b r a s i l e i r a
END – Estratégia Nacional de Defesa LC – Livre Comércio
EPE – Empresa de Pesquisa Energética LNA – Licenciamento Não Automático
EUA – Estados Unidos da América LRF –Lei de Responsabilidade Fiscal
FAO – Organização das Nações Unidas para MAB – Movimento dos Atingidos por Barragens
Alimentação e Agricultura (em inglês: Food and MAC – Mecanismo de Adaptação Competitiva
Agriculture Organization) MAPA – Ministério da Agricultura, Pecuária e
FAPERJ – Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado Abastecimento
do Rio de Janeiro MDIC – Ministério do Desenvolvimento, Indústria e
FGV – Fundação Getulio Vargas Comércio
FHC – Fernando Henrique Cardoso MDS – Ministério do Desenvolvimento Social e Com-
FIESP – Federação das Indústrias de São Paulo bate à Fome
FIFA – Federação Internacional de Futebol MEC – Ministério da Educação
FINEP – Financiadora de Estudos e Projetos MERCOSUL – Mercado Comum do Sul
FIOCRUZ – Fundação Oswaldo Cruz MINURSO – Missão das Nações Unidas para o
FIVB – Federação Internacional de Voleibol Referendo no Saara Ocidental
FMI – Fundo Monetário Internacional MINUSTAH – Missão das Nações Unidas para a
FOCAL – Fórum de Cooperação China-América estabilização no Haiti
Latina MMA – Ministério do Meio Ambiente
FOCALAL – Fórum de Cooperação América Latina- MRE – Ministério das Relações Exteriores
Ásia do Leste NAFTA – Tratado Norte-Americano de Livre Comércio
FOCEM – Fundo para a Convergência Estrutural do (em inglês: North American Free Trade Agreement)
Mercosul NOEI – Nova Ordem Econômica Internacional
FUNAG – Fundação Alexandre de Gusmão NSA – Agência de Segurança dos Estados Unidos (em
GATT – Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio (em in- inglês: National Security Agency)
glês: General Agreement on Tariffs and Trade) NSP – Grupo de Fornecedores Nucleares (em inglês:
GEF – Fundo Global para o Meio Ambiente (em inglês: Nuclear Suppliers Group)
Global Environment Fund) NYC – Cidade de Nova York (em inglês: New York
GR-RI – Grupo de Reflexão sobre Relações City)
Internacionais OACI – Organização da Aviação Civil Internacional
IBAS – Grupo composto por Índia, Brasil e África do OCDE – Organização para Cooperação e Desenvolvi-
Sul (também chamado de Fórum IBAS) mento Econômico
IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística OCMAL – Observatório de Conflitos Minerais da
IBP – Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e América Latina
Biocombustíveis ODM – Objetivos de Desenvolvimento do Milênio
ICCA – Associação Internacional de Congressos e OEA – Organização dos Estados Americanos
Convenções (em inglês: International Congress and OECS – Organização dos Estados do Caribe Orien-
Convention Association) tal (em inglês: Organisation of Eastern Caribbean
IDH – Índice de Desenvolvimento Humano States)
IED – Investimento Estrangeiro Direto OIM – Organização Internacional para as Migrações
IEP de Paris – Instituto de Estudos Políticos de Paris OIT – Organização Internacional do Trabalho
(em francês: Institut d’Etudes Politiques de Paris - OLCA – Observatório Latino-Americano de Conflitos
Sciences Po) Ambientais (em espanhol: Observatorio Latinoame-
IESP-UERJ – Instituto de Estudos Sociais e Políticos da ricano de Conflictos Ambientales)
Universidade do Estado do Rio de Janeiro OMAL – Observatório de Multinacionais na América
IFAD – Fundo Internacional para o Desenvolvimento Latina
Agrícola (em inglês: International Fund for OMC – Organização Mundial do Comércio
Agricultural Development) OMT – Organização Mundial do Turismo
IIRSA – Iniciativa para a Integração da Infraestrutura ONG – Organização Não Governamental
Regional Sul-Americana ONU – Organização das Nações Unidas
INESC – Instituto de Engenharia de Sistemas e OPEP – Organização dos Países Exportadores de
Computadores Petróleo
INPE – Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais OSAL – Observatório Social da América Latina do
INFRAERO – Empresa Brasileira de Infraestrutura Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais
Aeroportuária OSCE – Organização para a Segurança e Cooperação
IOF – Imposto sobre Operações de Crédito, Câmbio e na Europa
Seguros ou relativas a Títulos ou Valores Mobiliários OTAN – Organização do Tratado do Atlântico Norte
IPEA – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada OTCA – Organização do Tratado de Cooperação
ISARM – Programa de Gestão de Recursos e Aquíferos Amazônica
Internacionais/Transfronteiriços da UNESCO PAA – Programa de Aquisição de Alimentos
IURD – Igreja Universal do Reino de Deus PALOP – Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa
JICA – Agência de Cooperação Internacional do PARLASUL – Parlamento do Mercosul
Japão (em inglês: Japan International Cooperation PARLATINO – Parlamento Latino-Americano
Agency) PCN – Programa Calha Norte
LABMUNDO – Laboratório de Análise Política PDN – Política de Defesa Nacional
Mundial PDVSA – Petróleo Venezuela S/A

at l a s d a p o l í t i c a e x t e r n a b r a s i l e i r a IX
PEA – População Economicamente Ativa UNICA – União da Indústria de Cana-de-Açúcar
PEB – Política Externa Brasileira UNICAMP – Universidade Estadual de Campinas
PEC-G – Programa de Estudantes-Convênio de UNICEF – Fundo das Nações Unidas para a Infância
Graduação (em inglês: United Nations Children’s Fund)
PEC-PG – Programa de Estudantes-Convênio de UNIDIR – Instituto das Nações Unidas para pesquisa
Pós-Graduação sobre o Desarmamento (em inglês: United Nations
PIB – Produto Interno Bruto Institute for Disarmament Research)
PMA – Programa Mundial de Alimentos UNIFIL – Força Interina das Nações Unidas no Líbano
PNAD – Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios UNILA – Universidade Federal da Integração
do Instituto Brasileiro de Estatística Latino-Americana
PNUD – Programa das Nações Unidas para o UNILAB – Universidade de Integração Internacional
Desenvolvimento da Lusofonia Afro-Brasileira
QUAD – Grupo formado por Estados Unidos, União UNIRIO – Universidade Federal do Estado do Rio de
Europeia, Canadá e Japão Janeiro
REBRIP – Rede Brasileira pela Integração Regional UNISFA – Força Interina das Nações Unidas em Abyei
REDLAR – Rede Latino-Americana contra as Represas (em inglês, United Nations Interim Security Force
e pelos Índios for Abyei)
RENCTAS – Relatório Nacional sobre o Tráfico da UNMIL – Missão das Nações Unidas na Libéria (em in-
Fauna Silvestre glês, United Nations Mission in Liberia)
SDP – Secretaria de Desenvolvimento de Produção UNMISS – Missão das Nações Unidas na República do
SECEX – Secretaria de Comércio Exterior Sudão do Sul
SEGIB – Secretaria Geral Ibero-Americana UNOCI – Missão das Nações Unidas na Costa do
SEM – Setor Educacional do Mercosul Marfim
SENAI – Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial UNODC – Escritório das Nações Unidas sobre Drogas
SERE – Secretaria de Estado das Relações Exteriores do e Crime (em inglês: United Nations Office on Dru-
Itamaraty gs and Crime)
SESU – Secretaria de Educação Superior do Ministério UNWTO – Organização Mundial do Turismo (em in-
da Educação glês: United Nations World Tourism Organization)
SIPRI – Instituto Internacional de Pesquisas para a Paz URSS – União das Repúblicas Socialistas Soviéticas
de Estocolmo (em inglês: Stockholm International USAID – Agência dos Estados Unidos para o
Peace Research Institute) Desenvolvimento (em inglês: United States Agency
TFDD – Banco de Dados de Disputa de Água Doce for International Development)
Transfronteiriça (em inglês: Transboundary USP – Universidade de São Paulo
Freshwater Dispute Database) ZOPACAS – Zona de Paz e da Cooperação do Atlântico
TIAR – Tratado Interamericano de Assistência Sul
Recíproca
TNP – Tratado de Não Proliferação Nuclear
TPI – Tribunal Penal Internacional
UAB – Universidade Aberta do Brasil
UE – União Europeia
UERJ – Universidade do Estado do Rio de Janeiro
UFFS – Universidade da Fronteira Sul
UFMG – Universidade Federal de Minas Gerais
UFRGS – Universidade Federal do Rio Grande do Sul
UFRJ – Universidade Federal do Rio de Janeiro
UFRRJ – Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro
UFSC – Universidade Federal de Santa Catarina
UNAMAZ – Associação de Universidades Amazônicas
UNASUL – União das Nações Sul-Americanas
UNComtrade – Banco de Dados e Estatísticas sobre
Comércio das Nações Unidas
UNCTAD – Conferência das Nações Unidas sobre Co-
mércio e Desenvolvimento (em inglês: United Na-
tions Conference on Trade and Development)
UNESCO – Organização das Nações Unidas para Edu-
cação, Ciência e Cultura (em inglês: United Nations
Educational, Scientific and Cultural Organization)
UNESP – Universidade Estadual Paulista “Júlio de
Mesquita Filho”
UNFCCC – Convenção-Quadro das Nações Unidas
sobre Mudança do Clima (em inglês: 
United Na-
tions Framework Convention on Climate Change)
UNFICYP – Força das Nações Unidas para Manuten-
ção da Paz no Chipre
UNIAM – Universidade da Integração da Amazônia

X at l a s d a p o l í t i c a e x t e r n a b r a s i l e i r a
Sumário

Introdução: Uso da cartografia temática Capítulo 4: América do Sul, destino geográfico do


Escolhas teóricas e metodológicas . . . . . . . . . . . . . . . . 4 Brasil?
Como interpretar as imagens? . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 6 Projetos de integração nas Américas . . . . . . . . . . . . . 82
A escolha da projeção . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 8 Da América Latina à América do Sul . . . . . . . . . . . . 84
O mundo político . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 10 Integração na América do Sul . . . . . . . . . . . . . . . . . 86
Argentina: parceria estratégica . . . . . . . . . . . . . . . . . 88
Defesa e segurança na região . . . . . . . . . . . . . . . . . . 90
Energia e a busca da integração pela infraestrutura . 92
Capítulo 1: Formação do Brasil Assimetrias e desigualdades . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 94
Conquista e formação do Brasil colonial . . . . . . . . . . 14 Redes sociais: América Latina ou América do Sul? . . 96
Da sede do Império colonial ao Brasil imperial . . . . . 16
A República e a hegemonia dos Estados Unidos . . . . 18
Desenvolvimento e industrialização . . . . . . . . . . . . 20
Globalização e nova ordem . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 22 Capítulo 5: Novas coalizões, multilateralismo e coo-
Diversidade cultural e pluralismo étnico . . . . . . . . . 24 peração Sul-Sul
O Brasil nas relações Norte-Sul . . . . . . . . . . . . . . . . 100
Sistema ONU: meio ambiente e direitos humanos . 102
Agências econômicas mundiais . . . . . . . . . . . . . . . . 104
Capítulo 2: Brasil, potência emergente? Novos parceiros e coalizões . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 106
Agronegócio: celeiro do mundo? . . . . . . . . . . . . . . . 28 Governança global mais democrática? . . . . . . . . . . 108
Parque industrial . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 30 Cooperação: de beneficiário a doador? . . . . . . . . . . 110
Logística e desafios ao desenvolvimento . . . . . . . . . . 32 Cooperação Sul-Sul: atores e agendas . . . . . . . . . . . 112
Matriz energética e meio ambiente . . . . . . . . . . . . . . 34 Cooperação Sul-Sul em educação . . . . . . . . . . . . . . 114
Água: recurso vital e estratégico . . . . . . . . . . . . . . . . 36 Cooperação Sul-Sul: África . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 116
Minério e indústria extrativa . . . . . . . . . . . . . . . . . . 38 Cooperação Sul-Sul: América Latina . . . . . . . . . . . 118
Riqueza genética e biodiversidade . . . . . . . . . . . . . . 40
População e diversidade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 42
Pobreza e desigualdade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 44
Segurança e política de defesa . . . . . . . . . . . . . . . . . 46 Referências . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 120
Ameaças globais e transnacionais . . . . . . . . . . . . . . . 48
Cultura como soft power . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 50
O país do futebol, vôlei e talentos individuais . . . . . . 52
Turismo e imagem nacional . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 54
Pluralismo religioso . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 56

Capítulo 3: Atores e agendas


Itamaraty e diplomacia pública . . . . . . . . . . . . . . . . 60
Diplomacia presidencial . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 62
Congresso, ministérios e agências . . . . . . . . . . . . . . 64
Ação internacional dos estados . . . . . . . . . . . . . . . . 66
Ação internacional das cidades . . . . . . . . . . . . . . . . 68
Principais multinacionais brasileiras . . . . . . . . . . . . 70
Organizações e movimentos sociais . . . . . . . . . . . . 72
Atores religiosos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 74
Brasileiros no exterior . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 76
Centros de pesquisa e universidades . . . . . . . . . . . . 78
Introdução:

Uso da
cartografia
temática

Enara Echart Muñoz


Enara Echart Muñoz
Escolhas teóricas índice de Gini no Brasil, ilustram per-
feitamente esse argumento.

e metodológicas No campo da Ciência Política e das


Relações Internacionais no Brasil, este
Atlas inova em matéria de represen-
tação gráfica, semiológica e estética,
principalmente quando se conside-
ram os estudos sobre a política externa
brasileira. O Atlas permite visualizar
de maneira mais clara a internaciona-
lização das políticas públicas, a com-
paração de uma ou mais variáveis em
Este é o primeiro Atlas da Política Ex- político, social, cultural e ambiental. situações distintas, a presença (com-
terna Brasileira. Iniciado em 2012 e Pode ser de grande utilidade a profes- plementar, mas por vezes contraditó-
fruto da parceria concebida e imple- sores e estudantes de pós-graduação, ria) dos diferentes atores nacionais e
mentada entre o Ateliê de Cartogra- graduação e ensino médio, bem como internacionais nas agendas da política
fia de Sciences Po e o Labmundo-Rio, a jornalistas e profissionais da comu- externa, bem como a complexidade da
grupo de pesquisa do CNPq vincula- nicação, diplomatas, gestores da co- superposição de dados nas distintas es-
do ao IESP-UERJ, o projeto também operação internacional atuando nos calas espaciais: do local ao nacional, do
contou com a participação da Escola setores público e privado, lideranças regional ao global. A visualização dos
de Ciência Política da Unirio. O de- da sociedade civil e ativistas no campo fenômenos da política internacional,
senvolvimento do Atlas foi inspirado da política externa. As imagens (ma- agora por meio da cartografia temáti-
em iniciativas anteriores entre Sciences pas, gráficos, matrizes, cronologias) e ca, reitera a noção de que a fronteira
Po e o Labmundo, por exemplo, a tra- os textos (uma síntese de cada tema) do Estado nacional se encontra diluí-
dução para o português e publicação constituem um conjunto: sempre da no cenário contemporâneo das re-
no Brasil do Atlas da Mundialização apresentados em duas páginas, cobrem lações internacionais - diluída mas não
no ano de 2009. Foi graças à coopera- as mais variadas pautas, agências e di- apagada. A persistência da fronteira
ção institucional com o Ateliê de Car- mensões da inserção internacional do nacional ainda é marca das assimetrias
tografia do IEP de Paris e à parceria Brasil. Essa organização deveria permi- econômicas e das desigualdades polí-
acadêmica com os colegas Marie-Fran- tir ao leitor que pouco acompanha os ticas entre Estados e sociedades na re-
çoise Durand e Benoît Martin que este debates internacionais uma introdu- gião e no sistema internacional.
projeto logrou atingir seus resultados. ção aos temas da política externa sem
A ambos os queridos colegas os nossos o risco da superficialidade; aos mais in- O uso de imagens na cartografia da
mais sinceros agradecimentos. formados ou que já atuam nessa área, política externa brasileira nos reme-
deveria produzir questionamentos e te a uma segunda transformação im-
Tão importante quanto esse trabalho a renovação de suas perspectivas. Na portante. As mudanças na sociedade e
em rede internacional foi a ação co- concepção de cada item dos capítulos, na cultura fazem com que os leitores
letiva concebida no plano local, que os textos acompanham e complemen- tenham menos tempo para se debru-
mobilizou professores, pesquisadores, tam as imagens, podendo ser conside- çar sobre textos. Cada vez mais se faz
doutorandos, mestrandos e estudan- rados um convite a que o leitor atente necessário que os autores encontrem
tes de graduação de duas instituições mais cuidadosamente para a semio- meios de comunicação que tornem
de ensino superior sediadas no Rio de logia e a estética, gerando, assim, um suas mensagens mais claras, dinâmicas,
Janeiro, além de dois geógrafos e car- diálogo com as diferentes formas de que prendam a atenção do público e
tógrafos que se associaram ao projeto expressar o conteúdo e a mensagem que sejam, portanto, mais facilmente
na qualidade de bolsistas. O trabalho desejados pelos autores. compreendidas e lembradas pelos lei-
em equipe, o contínuo treinamento tores. A quantidade de dados disponí-
presencial e virtual, o diálogo inter- O uso de imagens como ilustração de veis cresce cotidianamente, graças às
disciplinar da Ciência Política e Rela- argumentos em meio a textos escritos novas tecnologias, ao dinamismo aca-
ções Internacionais com a Geografia, ou em apresentações não é novidade. dêmico e à busca por transparência de
a valorização de pesquisas em curso Atualmente, o recurso visual é ampla- diversas instituições públicas e priva-
e a realização de novos estudos são os mente empregado em apresentações das. Maior disponibilidade de dados
principais fatores que explicam o de- com retroprojetores, em textos jorna- não implica automaticamente melho-
senvolvimento deste projeto até o seu lísticos (por exemplo, os infográficos), ria na qualidade e na compreensão das
resultado mais desejado: a publicação em livros didáticos e em artigos aca- informações. A cartografia temática
deste Atlas. dêmicos. O emprego de imagens para desempenha, portanto, função social
veicular dados é muito útil para faci- de tradução e de ponte entre mundos
De fato, o Atlas da Política Externa litar o acesso a informações, esclarecer distintos.
Brasileira tem como objetivo principal ideias e conceitos, ilustrar fatos históri-
compartilhar novas leituras da política cos, realidades geográficas e estatísticas. Isso não significa, é claro, que os tex-
internacional e da política externa bra- As imagens, como os textos, veiculam tos devam ser abandonados ou sempre
sileira com pesquisadores e estudantes mensagens, refletem visões de mundo preteridos a favor das imagens. Nada
interessados nas mais diversas formas e interpretações. A escolha de classifi- disso! O Atlas foi concebido por pes-
de inserção brasileira no cenário mun- cações e a definição de recortes, nos ca- quisadores, com base em leituras e in-
dial, do ponto de vista econômico, sos do mapa da América do Sul e do terpretações críticas sobre o papel do

4 at l a s d a p o l í t i c a e x t e r n a b r a s i l e i r a
INTRODUÇÃO

Brasil no mundo. Fundamentamos TIPOS DE CLASSIFICAÇÕES EM MAPAS


Dados hipotéticos usados como base para os mapas
a nossa concepção no uso científico e
acadêmico de mapas, gráficos e matri- Argentina Bolívia Brasil Chile Colômbia Equador Guiana Paraguai Peru Suriname Uruguai Venezuela
zes, a partir de fontes publicadas por Índice 0,46 0,93 0,53 0,49 0,31 0,21 0,11 0,40 0,56 0,13 0,42 0,24
instituições internacionalmente re-
conhecidas. Da mesma modo que as
ferramentas da imagem estão sendo Classificação com base na média dos dados
mais utilizadas em jornais impressos, Bolívia 0,93
Máximo - 0,93 (Bolívia)
revistas e outros tipos de documen-
tos na mídia e redes sociais, acredita- Mínimo - 0,11 (Guiana)
Peru 0,56
Brasil 0,53
mos que a academia pode apropriar-se 0,93 - 0,11 = 0,82
dessa linguagem e desenvolver uma se- Chile 0,49
0,82 ÷ 4 = 0,205
miologia com conteúdos próprios, que Argentina 0,46
resultem de pesquisas muitas vezes de- 0,93 Uruguai 0,42
0,93 0,725 0,52 0,315 0,11

senvolvidas ao longo de anos. + 0,205


0,725
Paraguai 0,40

+ 0,205 Sem dados


Colômbia 0,31
A cartografia temática pode ser con- 0,52 disponíveis
+ 0,205 Venezuela 0,24
vertida, assim, em mais um dos ins- 0,315 Equador 0,21
trumentos disponíveis ao contínuo + 0,205
Suriname 0,13
processo de atualização e democrati- 0,11
Guiana 0,11
zação do conhecimento científico, nes-
se caso em matéria de política externa.
Em uma sociedade que se torna pro-
gressivamente mais acostumada com Classificação com base na quantidade de unidades
a tecnologia da internet, a cartografia Bolívia 0,93
temática permite uma linguagem mais Peru 0,56
moderna, dinâmica e interativa, facil- Brasil 0,53
mente adaptável para e-books, portais Chile 0,49
e sítios web, com o uso de cores, ob- Argentina 0,46
Quantidade de países = 12
jetos geométricos e outros modos de Uruguai 0,42
apelo visual. Quantidade de classes = 4 0,93 0,53 0,42 0,24 0,11

Paraguai 0,40
12 ÷ 4 = 3
Democratizar o conhecimento sobre Colômbia 0,31

política externa é fundamental, ainda Venezuela 0,24 Sem dados


disponíveis
mais quando se parte da premissa de Equador 0,21
que a política externa é uma política Suriname 0,13
pública sui generis. Sua singularidade Guiana 0,11
resultaria de dois aspectos principais: Fonte: Elaboração própria.
(i) a sua dupla inserção sistêmica (in-
ternacional, regional, o “lado de fora”
da fronteira) e doméstica (relativa a Exemplo concreto sobre o índice de Gini em municípios brasileiros, em 2010
Recorte por quantidade de municípios Recorte por média da variável
interesses e preferências em jogo na
democracia); (ii) a preocupação ao
mesmo tempo com temas constan-
tes da agenda internacional (integri-
dade territorial do Estado, soberania e
proteção dos interesses nacionais) que
lhe assegurariam o caráter de “política
1 1
de Estado”, mas também com orien- 0,54 0,75
tações estratégicas, opções políticas e 0,49 0,5
Labmundo, 2014

modelos de desenvolvimento que po- 0,45 0,25


dem variar ao longo da história e de 0 0
acordo com a conjuntura (sua faceta
de política governamental). Fonte: IBGE, 2010b

Foi com base nessa premissa que se or-


ganizaram os capítulos do Atlas, sem finalmente das relações multilaterais, todos excelente leitura e uso produtivo
pretensão de exaustividade temática. novas coalizões e cooperação Sul-Sul. e profícuo de mapas, imagens e textos.
Buscamos trazer a dimensão histórica Mais informações sobre o projeto e da-
e de formação da política externa bra- Nas duas próximas seções desta Intro- dos complementares sobre o Atlas da
sileira, embora o foco do Atlas seja a dução apresentaremos algumas no- Política Externa Brasileira podem ser
política contemporânea apresentada tas técnicas e metodológicas relativas obtidos no www.labmundo.org/atlas,
em torno dos recursos de poder (hard e à cartografia temática que nos pare- onde o leitor também encontrará um
soft) do Brasil, dos atores e agendas da cem instrumentais para a compreen- glossário para facilitar o entendimento
política externa, da inserção regional e são dos nossos leitores. Desejamos a de alguns tópicos aqui desenvolvidos.

at l a s d a p o l í t i c a e x t e r n a b r a s i l e i r a 5
Como interpretar TIPOS DE ESCALA EM GRÁFICOS
Dados usados como base para os gráficos

as imagens?
Ano 1 Ano 2 Ano 3 Ano 4 Ano 5 Ano 6
País A 9 000 7 000 9 000 11 000 13 000 16 000
País B 10 000 8 000 6 000 9 000 12 000 10 000
País C 10 40 100 140 200 300

Gráfico com escala aritmética


16 000
País A

12 000

País B
8 000
A cartografia temática é composta por coleta e tratamento dos dados, esco-
técnicas de georreferenciamento e de lhas de projeções, definições semioló- 4 000
transformação de dados em mapas, gicas e estéticas. Todo esse processo
gráficos e matrizes, podendo ser usada deve ser conduzido com o máximo de 0
País C

para a representação de diversos temas rigor, pois impacta diretamente na in- Ano 1 Ano 2 Ano 3 Ano 4 Ano 5 Ano 6

sociais, políticos, históricos, econômi- terpretação de mapas, gráficos e ma-


cos e internacionais, muitos dos quais trizes. Os tipos de escala, aritmética
de difícil mensuração. Disso resulta a e logarítmica, são usados em função Uso da escala logarítmica
necessidade de técnicas que permitam do que se pretende comparar ou de- País A

tratar dados qualitativos e quantita- monstrar: a escala aritmética permite


10 000
tivos. É com esse intuito de esclareci- a comparação de valores, ao passo que País B
mento que apresentamos, a seguir, as a escala logarítmica enseja a compara-
principais ferramentas de cartografia ção da evolução de cada curva. No caso
temática utilizadas neste Atlas. hipotético ilustrado nesta página, fica
claro que a escala logarítmica permite
As imagens apresentadas no Atlas re- enxergar uma taxa de crescimento do 1 000

sultam de extenso trabalho de pesquisa, país “C” não evidenciado pela escala
aritmética. País C

REPRESENTAÇÕES VISUAIS As representações visuais (de ma-


Representação de uma variável no plano
Tamanho em uma dimensão para quantidades absolutas
pas, gráficos e matrizes) afetam as 100
percepções do leitor, podendo ser in-
6
5
4
fluenciadas por variáveis referentes a
3
2
quantidades absolutas (em uma ou
654321 1 1 2 3 4 duas dimensões) e quantidades rela-
Tamanho em duas dimensões para quantidades absolutas
tivas (mais ou menos valor, com co- 10
16 res e representações visuais distintas).
4
Pode haver relações de proporciona-
1 lidade, ordem e diferença entre os da-
16
dos. No caso da proporcionalidade
e da ordem por hierarquias, usam-se 1
1
4
pontos, traços, quadrados ou círculos Ano 1 Ano 2 Ano 3 Ano 4 Ano 5 Ano 6

de tamanhos diferentes: o maior re-


presenta um valor evidentemente su-
Em escala de valor para quantidades relativas Gráfico com escala logarítmica
perior, devendo a legenda esclarecer a 16 000
relação gráfica com o dado quantitati- 9 000
vo. Ou seja, para representar uma mes-
Mais
Valor
Menos
Valor
ma variável no plano, usam-se barras, 300
colunas e espessura de flechas para in-
0
dicar a variação na quantidade dessa x3
única variável. A diferença, por sua vez, País C
é expressada pelo uso de cores, preen-
Representação de mais de uma variável no plano chimentos ou formatos geométricos
Em cores para mostrar diferenças distintos. A fim de demonstrar variá- País A x 1,778
veis diferentes, é necessário mudar a
cor ou a textura utilizada, evidencian-
Em textura para mostrar diferenças do a existência de duas ou mais variá-
veis, que também podem ter escalas de País B
x0
valor dentro delas. Aplicam-se diferen-
Labmundo, 2014

Labmundo, 2014

Em formas geométricas para mostrar diferenças


tes tons da mesma família de cor, em
uma escala de tom escuro para outro Ano 1 Ano 6
Fonte: Durand et al., 2009 mais claro. Fonte: Elaboração própria.

6 at l a s d a p o l í t i c a e x t e r n a b r a s i l e i r a
INTRODUÇÃO

A escolha de como recortar as classes INTERPRETAÇÃO DE TABELAS EM CÍRCULOS PROPORCIONAIS


Dados usados como base para a tabela
também é importante. Não há um
único método para criar classes; estas Sarney Collor Itamar FHC Lula Dilma**
Dilma TOTAL
podem ser divididas de acordo com a Am. do Sul 13 7 14 53 88 18 193
quantidade de unidades, com a mé- Am. Central e C. 0 0 0 5 22 1 28
dia da variável ou de modo discricio- Am. do Norte 5 3 1 14 19 5 47
nário. Cada um desses recortes resulta Europa 3 9 0 31 54 1610
000 107
em uma imagem diferente, que pode África 2 4 1 4 34 10 7000 52
levar a conclusões distintas. O recorte O. Médio 0 0 0 0 10 300
0 10
em classes pode induzir o leitor ao erro, Ásia 2 1 0 8 16 16 4000 31
caso não seja bem explicitado na legen- Oceania* 0 0 0 0 0 10 0000 0
da. Por esse motivo, o leitor deve sem- TOTAL 10 40 100 140 200 300

pre atentar à legenda dos mapas, para

is
na
entender qual o fenômeno representa-

cio
or
Quantidade absoluta de viagens presidenciais
do e como está sendo apresentado.

op
pr
L
*

los
a*
ey

TA
ar
r
lo

lm
m
rn

TO
la
C

cu
l

FH
Co

I ta

Lu
Sa

Di
No campo específico da política ex-

cír
m
Am. do

se
terna, o uso de cartografia temática Sul

a
tad
apresenta diversas vantagens. Ao repre-

en
res
Europa
sentarmos uma imagem, o território

rep
es
fica muito mais evidente para o leitor,

ad
África

tid
principalmente em temas que sofrem

an
Qu
influência direta da geografia política. Am. do
Além das fronteiras (que indicam o ter- Norte
ritório dos Estados), podem ser visua- Ásia
lizados os fluxos (econômicos, sociais,
culturais, ambientais). Por exemplo, Am. 468
em uma apresentação sobre migrações, Central

a proximidade territorial tem grande Oriente 193

influência sobre a movimentação do Médio

fluxo de pessoas; a espessura e a orien- Oceania* 18

tação das flechas, indicando um ponto


de partida e outro de chegada, permi-

Labmundo, 2014
tem vizualizar e compreender rapida- TOTAL *Oceania não foi visitada no período
mente os principais fluxos migratórios **Viagens de Dilma Rousseff até
mundiais. Portanto, a representação Fonte: Planalto, 2014 dezembro de 2013
cartográfica permite verificar quais são
as principais rotas escolhidas pelos mi-
grantes e como a geografia facilita ou entendimento da mensagem que o selecionar em função do tipo de men-
cria obstáculos (a exemplo de mares e emissor quer transmitir. sagem que o autor da imagem visa a
montanhas) para o fluxo das pessoas. construir. Portanto, visualizar e com-
Finalmente, as fontes usadas para a co- parar os mapas e as matrizes com base
Podemos argumentar no sentido de leta dos dados são muito importantes em dados diferentes também foi um
que imagens podem ser usadas para no processo de confecção de imagens, exercício contínuo no desenvolvimen-
demonstrar números e facilitar a com- como as aqui apresentadas. Algumas to deste Atlas. Por exemplo, em ma-
paração de uma ou mais variáveis, en- dificuldades podem surgir no caminho. téria de energia, utilizamos os dados
tre diversos casos. Por exemplo, ao Os serviços estatísticos dos Estados va- da Central Intelligence Agency dos
comparar a fonte de matriz energéti- riam em qualidade, e no caso brasilei- EUA, porque a fonte mais completa
ca de diversos países, para demonstrar ro a produção de dados e o acesso a além da CIA seria o Banco Mundial.
que a matriz energética brasileira é ma- eles têm-se aperfeiçoado e melhorado Ocorre que o Banco não desagregava
joritariamente limpa, um texto longo desde meados dos anos 1980. Os da- os dados por tipos de fontes de energia,
e com muitos números pode dificul- dos produzidos por organismos inter- incluindo o setor hidroenergético, que
tar o entendimento rápido da com- nacionais (agências do sistema ONU, nos interessava apresentar em separa-
paração que o autor quer comunicar Banco Mundial, OCDE, etc.) e, fenô- do. Fizemos a opção pelos dados da
a seus destinatários. Além disso, o ex- meno cada vez mais importante, por CIA porque eles também são interna-
cesso de informações em um mesmo organizações da sociedade civil e gran- cionalmente considerados de confian-
parágrafo pode tornar a leitura demo- des corporações podem complementar ça, tendo sido usados na produção de
rada, truncada e entediante, eventual- a construção de sentidos sobre a rea- outros Atlas na Europa, nos EUA e na
mente acarretando o desinteresse do lidade do mundo. Os dados, depen- América Latina. É importante esclare-
leitor. Com o uso da imagem (seja por dendo de suas fontes, podem revelar cer que a coleta de dados foi conduzi-
gráficos com círculos, seja por barras realidades nem sempre coincidentes. da ao longo de 2013 e 2014. Padronizar
ou mapas), a comparação fica muito usos e referências também é essencial.
mais evidente. A leitura e a compre- Em muitos casos, torna-se funda- Por exemplo, adotamos como padrão
ensão são imediatas, evitando ruí- mental triangular os dados, sempre o termo “dólares” para indicar dólares
dos na comunicação e facilitando o que possível diversificar as fontes e dos Estados Unidos.

at l a s d a p o l í t i c a e x t e r n a b r a s i l e i r a 7
A escolha da Os mapas nunca são exaustivos ou
completos, nem totalmente objetivos.

projeção
Orientado ao Norte? A Europa no cen-
tro? O Pacífico ou a África reduzidos?
Uma das decisões mais importantes
na concepção de um mapa diz respei-
to à escolha da projeção. Projeções
cartográficas podem ser entendidas
como um instrumento de represen-
tação do globo por meio de um dese-
nho. É um exercício de transformação
de um objeto tridimensional em uma
representação plana, razão pela qual
PROJEÇÃO DESCONTÍNUA DE GOODE as projeções são objeto frequente de
Projeção de Goode sem alterações questões, críticas e debates. As proje-
ções sempre geram distorções, mais ou
menos acentuadas, de partes do terri-
tório do planeta.

As distorções são perceptíveis mais fa-


cilmente à medida que nos aproxima-
mos dos polos. Em alguns casos, como
a projeção de Mercator, o estado es-
tadunidense do Alasca é representa-
do maior do que o território brasileiro.
Outro exemplo das distorções presen-
tes nesta projeção desenvolvida por
Gerard de Kremer é a Groenlândia, re-
presentada com território equivalente
ao do continente africano, mas que de
Áreas retiradas para a projeção padrão do Atlas fato é 50 vezes menor. Além das distor-
ções da imagem, há outros questiona-
mentos frequentemente vinculados à
confecção e ao uso de projeções carto-
gráficas. O primeiro deles é quanto à
disposição no plano: tradicionalmen-
te, devido à influência de cartógrafos
europeus, a Europa é representada no
centro da projeção. Também por in-
fluência das principais escolas de car-
tografia na Europa e nos EUA, o Norte
geográfico é geralmente representa-
do em cima do hemisfério Sul. Cabe
ressaltar que, como o planeta Terra é
um geoide, não há necessidade de re-
presentar o Norte em cima; o Sul, o
Leste ou o Oeste podem estar na par-
te superior.

Projeção padrão do Atlas Ou seja, a escolha da projeção não é


neutra, mas resulta das opções feitas
pelo cartógrafo, cabendo ao pesquisa-
dor a decisão de qual modelo é mais
adequado ao seus objetivos. Se o fenô-
meno a ser estudado ocorre principal-
mente no hemisfério Norte, é natural
que o pesquisador dê preferência a
projeções que destaquem essa região
do globo, para deixar a imagem mais
evidente ao leitor. Do mesmo modo,
se o objetivo da imagem for represen-
tar por setas algum fenômeno, deve-se
Labmundo, 2014

dar preferência a projeções que deixem


os continentes mais afastados (como a
Projeção cedida pelo Ateliê de Cartografia de Sciences Po projeção de Fuller), para que a flecha

8 at l a s d a p o l í t i c a e x t e r n a b r a s i l e i r a
INTRODUÇÃO

não passe “por cima” de territórios im- DIFERENTES REPRESENTAÇÕES E SUAS DISTORÇÕES
portantes, deixando-os ocultos ou po- Projeção de Bertin Projeção de Fuller
luindo a imagem.

O Ateliê de Cartografia Labmun-


do entende que a escolha da projeção
também deve considerar esse caráter
político da representação. Evitamos
projeções que superestimem a repre-
sentação do hemisfério Norte em
detrimento do hemisfério Sul. Preferi-
mos usar as projeções de Fuller, Bertin
e Goode. Além disso, também é ma-
nifesta a preferência por uma proje-
ção que não seja eurocêntrica, mas que Projeção de Gall-Peters Projeção de Mercator
apresente o Brasil no centro.

As projeções usadas neste Atlas são, em


sua maioria, centradas no continente
americano e não apresentam distor-
ção relevante quanto ao tamanho do
hemisfério Norte. Optamos por man-
ter a representação do Norte para cima
– e isso em função da novidade talvez
excessiva que poderia representar, aos
olhos ainda pouco habituados dos lei-
tores brasileiros, a utilização de pro-
jeções com o Sul geopolítico na parte Projeção Miller Cylindrical Projeção de Robinson
superior do planisfério. No sítio web
do Atlas os leitores poderão encontrar
exemplos de mapas com essa projeção,
que também ilustra a nossa capa.

Este projeto somente foi factível por-


que contou com o apoio de algumas
instituições e a parceria de alguns
pesquisadores, colegas e amigos. Os
apoios financeiros de Faperj, Finep e
CNPq foram decisivos. Agradecemos Projeção Brasil Alasca Índia
ao IESP-UERJ pelo amparo institu-
cional e pelo espaço físico destinado ao
grupo de pesquisa Labmundo-Rio. Os Mercator

nossos agradecimentos também se des-


tinam aos colegas e pesquisadores que
nos ajudaram na obtenção de dados e
na produção de análises, na redação ou
revisão de itens dos diferentes capítu- Miller
Cylindrical
los. Em particular, queremos agradecer
a Breno Marques Bringel, Henrique
Sartori, Cristiano A. Lopes, Bernabé
Malacalza, Rafael C. Fidalgo, Renata
Albuquerque Ribeiro, Danielle Costa Fuller
da Silva e Wallace da Silva Melo. Além
disso, agradecemos aos colegas Da-
niel Jatobá, Elsa Sousa Kraychete, Le-
ticia Pinheiro, Maria Regina Soares de
Lima e Miriam Gomes Saraiva por co- Bertin

mentários, críticas e sugestões feitos


durante o seminário acadêmico que
organizamos no IESP-UERJ em se-
tembro de 2014. É importante lembrar
que as fotos que ilustram os capítu-
Labmundo, 2014

Goode

los do Atlas são todas de Enara Echart


Muñoz, que gentilmente as cedeu para
a publicação deste Atlas. Fonte: Elaboração própria. Projeções cedidas pelo Ateliê de Cartografia de Sciences Po.

at l a s d a p o l í t i c a e x t e r n a b r a s i l e i r a 9
O mundo político

Canadá

Quirguistão Mongólia
Tajiquistão

Estados Unidos
Afeganistão China

Paquistão Nepal Butão Japão


Coreia
Coréia do Sul
Coreia
Coréia do Norte
Índia Taiwan
Myanmar Hong Kong México
Laos
Bangladesh Tailândia Macau Marianas
Vietnã GuamGuam
(EUA) Micronésia
Filipinas
Palau Ilhas Marshall
Camboja Nauru
Brunei Kiribati
Malásia
Cingapura
Sri Lanka
Maldívias
Maldivas Tuvalu
Indonésia Papua-Nova Guiné
Território Britânico Tokelau (Nova Zelândia)
do Oceano Índico
Wallis e Futuna (França)
Timor Leste
América Central: Samoa
Ilhas Salomão Samoa Americana
a- Ilhas Cayman
1- Ilhas Cayman Vanuatu
b- Turks ee Caicos
2- Turks Caicos Niue
c-
3- Ilhas Virgens (EUA) Nova Caledônia
Caledónia Polinésia Francesa
d-
4- Ilhas Virgens Britânicas (França)
e-
5- Anguilla (Reino Unido) Ilhas Cook
f-
6-Ilha
Ilhade
deSan-Martin
São Martinho(França) Austrália Ilhas Pitcairn (Reino Unido)
g- Coletividade de
7- Coletividade de São
São Bartolomeu
Bartolomeu (França) Tonga
h- Montserrat
8- Ilha (Reino Unido)
de São Martinho
i-
9-São
SãoCristóvão
CristóvãoeeNevis
Nevis Ilhas Fiji
j-
10-Antigua
Antiguae eBarbuda
Barbuda
k-
11-Guadalupe
Guadaloupe (França)
l-
12-Dominica
Dominica
m
13--Martinica
Martinica (França) Nova Zelândia
n-
14-Santa
SantaLúcia
Lúcia
o-
15-Barbados
Barbado
p-
16-São
SãoVicente
VicenteeeGranadinas
Granadinas
q-
17-Granada
Granada
r-
18-Países
PaísesBaixos
BaixosCaribenhos
Caribenhos
s-
19-Curaçao
Curação
t-
20-Aruba
Aruba

Fonte: Elaboração própria.

10 at l a s d a p o l í t i c a e x t e r n a b r a s i l e i r a
INTRODUÇÃO

Europa
1- Guernsey 21- Bósnia e Herzegovina
2- Jersey (Reino Unido) 22- Montenegro
3- Andorra 23- Albânia Groelândia Jan Mayen
4- Bélgica 24- Macedônia (Dinamarca)
5- Luxemburgo 25- Kosovo Noruega
6- Holanda 26- Sérvia Suécia
7- Mônaco 27- Åland (Finlândia) Finlândia
Suíça
8- Suiça Estônia
28- Estónia Islândia 27
9- Itália Letônia
29- Letónia Ilha de Man 28
10- Alemanha 30- Lituânia (Reino Unido) 29 Rússia
12 30
11- Liechtenstein Romênia
31- Roménia 6
12- Dinamarca 32- Bulgária Irlanda 34
13- Vaticano 33- Moldávia 4 5 10 Polônia
Reino Unido 1 2 17 Ucrânia
14- San Marino 34- Bielorrússia 11 15 18 Kasaquistão
15- Áustria 35- Chipre França 8 16 19 31 33
16- Eslovênia 36- Chipre do Norte 9 20 21 26 Azerbaijão
3
17- República Checa 7 14 22 25 24
32 Geórgia Uzbequistão
18- Eslováquia Portugal Espanha 13 23
19- Hungria Turquia Turcomenistão
20- Croácia Tunísia Armênia
Açores Grécia 35 36 Síria
Bermudas Ilha da Madeira Malta Líbano
Marrocos Iraque Irã
Palestina
Israel Jordânia Kuwait
Argélia Líbia Bahrein
Cuba Bahamas Rep. Dominicana Saara Egito Catar
Belize Porto Rico Ocidental Arábia EAU
2b Saudita
a1 3c 4d 5e
f6 g
7 10 Mauritânia Mali Omã
Jamaica 89
h j k11 Senegal Níger
Honduras Haiti i l12 Chade Sudão Eritreia Iêmen
20
t 19
s r18 13
m 14
n 15
o Cabo Verde
Nicaragua
Nicarágua p
16 17
q Burkina Djibouti
Gambia
Trinidad Guiné-Bissau
Guiné Bissau Guiné Somália
Guatemala e Tobago Nigéria
Venezuela Gana Sudão Etiópia
Serra Leoa República do Sul
El Salvador Guiana Libéria Centro-Africana
Costa Rica Colômbia Suriname Camarões
Guiana Francesa Togo Uganda
Panamá Bénin
Benin Quênia
Equador Costa
Costa do
do Marfim
Marfin República Ruanda
São Tomé e Príncipe Democrática Burundi
do Congo Comores
Guiné Equatorial Tanzânia Seychelles
Gabão
Brasil Congo
Peru Angola
Zâmbia Moçambique
Rep. de
Bolívia Maurício
Maurícia
Zimbábwe
Malawi
Malaui
Botswana Madagascar
) Namíbia
Chile
Paraguai Suazilândia
Argentina Reunião
Uruguai África do Sul Lesoto
Labmundo, 2014

Ilhas Malvinas
Ilhas Geórgia do Sul e Sandwich do Sul
100 km

at l a s d a p o l í t i c a e x t e r n a b r a s i l e i r a 11
Capítulo 1:

FORMAÇÃO
DO BRASIL

Enara Echart Muñoz


Enara Echart Muñoz
O processo histórico de constituição e desenvolvimento do Estado-nação
brasileiro legou características e potencialidades estruturais em suas for-
mas de inserção internacional. É inescapável ao analista das relações inter-
nacionais e da política externa brasileira (PEB) compreender o modo co-
mo ocorreu a consolidação territorial do país, os ciclos econômicos atra-
vessados e a importância dos fluxos migratórios internacionais. Os mais
de cinco séculos de história da inserção internacional do Brasil, primeiro
como colônia do Império português, depois Reino Unido a Portugal e,
enfim, Estado independente, foram em boa parte marcados pelo paradig-
ma agrário-exportador, que só seria modificado em meados do século
XX. As monoculturas da cana-de-açúcar, do café, da borracha e a explora-
ção de minerais como ouro e diamantes definiram decisivamente as rela-
ções exteriores do Brasil, além de reforçarem as características históricas
de sua conformação social, política e produtiva. Neste capítulo, apresen-
tamos as raízes históricas da PEB, fundamentais para a compreensão tem-
poral dos vários temas que, nos capítulos seguintes, serão analisados em
suas dinâmicas contemporâneas. Temas como migração, multilateralismo
e economia estão conectados com unidades subsequentes, e nos dois mo-
mentos o texto faz indicação expressa desta complementação (por meio
do “Veja também”), sugerindo uma leitura não linear do conteúdo, o que
é uma característica do Atlas em geral. Nos itens finais deste capítulo se-
rão apresentadas, em perspectiva histórica, as grandes transformações que
caracterizam a inserção internacional contemporânea do Brasil, por exem-
plo, seu recente ativismo em questões globais ou, em um âmbito domés-
tico, a demanda por maior participação social na formulação da política
externa brasileira.
Conquista e lados foi mais conflitivo do que amis-
toso, com saldo negativo para os indí-

formação do
genas. E foi definido por apresamento,
aculturação, estímulo a rivalidades in-
tertribais e pela difusão de doenças
europeias entre indivíduos sem imu-

Brasil colonial
nidade aos males europeus. A chegada
ao continente não desviou o interesse
europeu pelo caminho das Índias. No
Brasil, além do extrativismo, o proje-
to de colonização iniciou-se só a partir
de 1530. Dividiu-se o território em ca-
pitanias e implantou-se a monocultura
A chegada dos europeus às Améri- levaram à projeção mundial da Europa. de cana-de-açúcar. A mão de obra foi
cas resultou do processo de expansão Os primeiros europeus a aportarem inicialmente de indígenas capturados
marítima e comercial no início da in- nesta região encontraram populações e depois de escravos africanos.
ternacionalização do capitalismo. Fa- indígenas divididas em mais de 2 mil
tores culturais, políticos e econômicos povos e tribos. O contato entre os dois O território era delimitado pelo Trata-
do de Tordesilhas. Sua definição nunca
foi simples, nem levada rigorosamen-
CONTINENTE AMERICANO ÀS VÉSPERAS DA CONQUISTA EUROPEIA te em consideração. A união das cortes
Principais povos indígenas e áreas culturais As cores representam áreas culturais, ibéricas também contribuiu para o es-
definidas por etnólogos e arqueólogos
INUITS
que realizaram uma classificação das
praiamento da presença de portugue-
INUIT
S múltiplas sociedades aborígenes. ses pelo território colonial espanhol. O
ALEÚTES

As áreas culturais compartilham modo Tratado de Madri de 1750 consolidaria


de subsistência, organização política e
NUU
-
OJÍBUAS
social, sendo às vezes unificadas pela a nova divisão espacial entre portugue-
ALGONQUINOS
CH

difusão de línguas dominantes, como o ses e espanhóis. A soberania da Améri-


AH

S
HURÕES SE nahuatl na Mesoamérica ou o quechua
UE
-NU

IROQ nos Andes. ca Portuguesa foi ameaçada por outros


LTH

CHEYENNES São o produto de composições entre reinos, como França e Inglaterra. Ho-
SHOSHONE indivíduos sedentários e nômades,
NAVAJOS
COMANCHES,
CHEROKEES agricultores e guerreiros, cada grupo landeses ocuparam o Nordeste por
América do Norte
APACHES
NATCHES conservando alguns de seus longo período, criando um sistema
Ártico particularismos.
Sub-ártico Não são, porém, mundos fechados; político e econômico de duradouro
NÁUATLES ao contrário, as áreas culturais são
Costa noroeste MAIAS
OTOMIS espaços de circulação, por terra e por
Planalto mar.
Grande bacia ARUAQUES EXPORTAÇÕES COLONIAIS
S CARAÍBAS
Califórnia CHIBCHA em milhões de libras esterlinas, 1500-1822
AROS
JI V
Sudoeste ARUAQUES
ÉCHUAS
300 Açúcar
Grandes planícies QU
Nordeste TUPIS TUPIS 170 Ouro e diamantes
Sudeste 15 Couros
AIMARAS TUPIS
Mesoamérica 15 Pau-brasil e outras madeiras
S

Mesoamérica
A NI

12 Tabaco
AR

América do Sul 12 Algodão


GU

Caribe QUÉCHUAS 4,5 Arroz


Savana Orinoco 4 Café
Andes
Labmundo, 2014

3,5 Cacau e especiarias diversas


Floresta tropical 1000 km
Labmundo, 2014

Atlântico Total: 536


ALAKALUF
Sul
Fonte: Simonsen, 2005.
Fontes: L’Histoire, 2012; Barraclough, 1991.

BRASIL COLÔNIA, 1500 - 1808


1625
1492
Expedição de Colombo
1555-1567 Publicação de
Franceses ocupam a baía Do direito da guerra
chega ao continente americano
de Guanabara 1602 e da paz, de Hugo Grotius
1494 Holandeses criam a Companhia
Tratado de Tordesilhas das Índias Orientais e iniciam
1500 atuação no delta amazônico
Expedição de Cabral 1612-1615
chega a Porto Seguro, na Bahia Franceses ocupam o Maranhão
1517
1580-1640
Lutero inicia Reforma 1624-1625
União Ibérica Holandeses ocupam
1492

Protestante na Europa
1651

1529 Salvador
Eventos domésticos
Tratado de Saragoça
Golpes e mudanças de regime 1630-1654
1530
Início da ocupação
Eventos internacionais Formação das capitanias hereditárias holandesa no Nordeste
Relações internacionais do Brasil
1545 1598

14 at l a s d a p o l í t i c a e x t e r n a b r a s i l e i r a
FORMAÇÃO DO BRASIL

EUROPEUS À CONQUISTA DO MUNDO


Principais expedições nos séculos XV e XVI
* as datas indicam a chegada aproximada
John Davis, 1587 ao ponto mais distante da partida
(Inglaterra)

Jacques Cartier, 1534 Império português no séc. XVI


(França)
Jean Cabot, 1497 Territórios não conhecidos
(Inglaterra) pelos europeus
durante o séc. XVI
Áreas já alcançadas por
europeus no séc. XVI

Cristóvão
Colombo, Vasco
1492 (Espanha) da Gama,
1498
(Portugal)
Bartolomeu
Dias, 1488
(Portugal)
Américo
Vespúcio,
1497 (Espanha)

Fernão
s

de Magalhães,

Trata
esilha

1522 (Espanha) Pedro A. Cabral,


1500 (Portugal)

do d
Tord

Labmundo, 2014
e S
e

ara
T. d

Território declarado como de influência 1000 km

go
portuguesa pela Igreja Católica (exceto Europa)

ça
Fontes: Barraclough, 1991; Duby, 2003.

impacto. Sua expulsão foi um dos pri- para o avanço da urbanização, da inte- na condução do Brasil independen-
mórdios da formação da nacionalida- riorização e da diversificação das pro- te ajudam a explicar a manutenção da
de brasileira. fissões liberais, além do surgimento de unidade territorial e o processo de in-
uma camada social média. Com a mi- dependência relativamente pacífico.
O Brasil colonial teve sua inserção in- neração, deslocou-se o eixo econômico
ternacional baseada na dependên- e político, contribuindo para a transfe-
cia direta de sua metrópole e indireta rência da sede política de Salvador para VEJA TAMBÉM:
da Inglaterra, com produção econô- o Rio de Janeiro. A invasão de Portu- Brasil Império p. 16
mica marcada pela monocultura de gal por Napoleão Bonaparte deu fim Diversidade cultural p. 24
exportação (gêneros agrícolas, princi- ao período colonial. A vinda da família Integração na América do Sul p. 86
palmente a produção de cana-de-açú- real, a ascensão do Brasil a Reino Uni- Relações Norte-Sul p. 100
car). A descoberta de ouro contribuiu do e a presença de um de seus membros

1750
Portugal e Espanha 1789
1680
assinam Tratado de Madri Revolução Francesa
Fundação da Colônia do Sacramento
1648 1755
Esquadra portuguesa, armada 1681
Terremoto em Lisboa destrói
no Rio de Janeiro e com índios Chega a um milhão o número
sede do Império Português
brasileiros, reconquista de escravos trazidos de Angola
1759
Angola dos holandeses 1687 Companhia de Jesus é expulsa
1657 Fundação dos Sete Povos das Missões do Brasil pelo Marquês de Pombal
Guerra entre Portugal e Holanda 1763
1694
por disputas ultramarinas. Transferência da capital de Salvador
Descobertas as primeiras
Ao assinar Tratado de Paz (1661), para o Rio de Janeiro
1651

1810

jazidas de ouro em Minas Gerais


Portugal reconhece a perda 1773
de territórios orientais 1703 Escravidão abolida
1673 Portugal e Inglaterra no Reino de Portugal
Chegada dos primeiros assinam Tratado de Methuen 1782
casais de colonos açoreanos Ingleses desocupam Ilha de Trindade
1704 1757

at l a s d a p o l í t i c a e x t e r n a b r a s i l e i r a 15
Da sede do Com a chegada da Corte, o Brasil pas-
sou a ser centro do Império português,

Império colonial
apesar de cristalizar uma relação sub-
missa à Inglaterra, como visto, em
1808, na abertura dos portos às nações
amigas. Nem a independência alterou

ao Brasil imperial
o caráter desigual e hierárquico das re-
lações entre Brasil e Inglaterra, haja
vista que a primeira dívida externa do
Brasil independente, a fim de pagar
compensações à antiga metrópole, foi
contraída junto à coroa britânica.
GUERRA DA TRÍPLICE ALIANÇA, 1864-1870
O Brasil independente contrastava
BOLÍVIA* com o restante da América Latina: era
Corumbá
a única monarquia entre as repúblicas
Coxim da região. Esse fato, somado à unifor-
Albuquerque
midade das elites e à estabilidade polí-
Forte Coimbra tica e social do Brasil Império, criou no
imaginário político doméstico da épo-
Miranda ca a crença de um país civilizado em
da
efini meio a repúblicas caudilhescas. Nas re-
ão d Nioaque
t e i ra n guerra
Fron poca da lações regionais, sobressaía a rivalidade
àé
com a Argentina e o esforço por man-
Laguna
Dourados ter a região da bacia do Prata de modo
Rio

PARAGUAI a não ameaçar as fronteiras e os interes-


Cerro Corá
Par

ses do país, em um sistema regional de


aguai

balança de poder. Ao longo do século


BRASIL XIX, o país buscou manter sua hege-
Assunção
monia nessa região. Entre 1821 e 1828,
Itororó
Avaí
manteve a posse territorial da provín-
165 km
cia Cisplatina. Já com o Uruguai inde-
á

Humaitá
n

pendente, o Brasil buscou influenciar a


ra

Curupaiti
Pa

R io
Tuiutí
vida política do novo país, fruto da ri-
validade com Buenos Aires.
Corrientes Fronteiras atuais
Riachuelo São Borja As intervenções brasileiras na região e a
Jataí Itaqui Principais batalhas expansão econômica do Paraguai alte-
raram a balança de poder regional e re-
ARGENTINA Uruguaiana Máxima extensão
do controle paraguaio sultaram no maior conflito armado da
durante a guerra história da América do Sul, envolven-
Avanço das tropas do Brasil, Argentina, Uruguai e Para-
á
ran

paraguaias guai. A Guerra da Tríplice Aliança teve


Rio Pa

URUGUAI Área litigiosa entre resultados significativos para o Brasil,


Paraguai e vizinhos
como a consolidação de seu exército e
o aumento da dívida com a Inglater-
Labmundo, 2014

Morte de S. Lopes
e fim da guerra ra, além de contribuir indiretamente
Fontes: Albuquerque et al., 1977; Goes Filho, 1999; Montevidéu * A Bolívia não para a abolição do regime escravocrata.
Wehling e Wehling, 2002; Gurnak et al., 2010. participou da guerra As fronteiras dos países também foram

FORMAÇÃO DO ESTADO BRASILEIRO, 1808 - 1889


1801 1822
1835
Tratado de Badajoz 1811 Independência brasileira Rev. Farroupilha (fim 1845)
1807 Portugal intervém na Banda Oriental 1843
1825
Fuga de Lisboa 1817 Início Guerra Cisplatina (fim em 1828) Abertura do primeiro
1808 Rev. Pernambucana Consulado do Brasil
Chegada da corte 1827 na China, em Cantão
1820
Abertura dos portos Brasil e EUA rompem relações
Rev. Porto
1821 1844
1809-1814 Anexação da Província Cisplatina Tarifa Alves Branco
D. João ordena ocupação 1823 1845
de Caiena com apoio britânico Presidente dos EUA lança Doutrina Monroe Parlamento
1800

1850

1810 1824 britânico


Tratados entre Portugal Confederação do Equador sanciona o bill
e Grã-Bretânha de Comércio Primeiro empréstimo público externo, junto à City londrina Aberdeen
e Navegação e de Aliança e Amizade
D. Pedro I Período Regencial D. Pedro II

1810 1820 1830 1840

16 at l a s d a p o l í t i c a e x t e r n a b r a s i l e i r a
FORMAÇÃO DO BRASIL

reordenadas: o Paraguai, por exemplo, como Ministro das Relações Exterio- EXPORTAÇÕES BRASILEIRAS
perdeu cerca de 40% de seu território. res. O Barão participou diretamente Total de cada década em porcentagem do total, entre
1821 e 1890
dos acordos que garantiram a sobe- Café
Mais da metade das fronteiras brasilei- rania brasileira sobre os territórios do
50
ras foi definida ao longo do século XIX. Acre, de Palmas (SC) e do Amapá.
Fazendo uso do uti possidetis, o Brasil
realizou várias negociações fronteiriças A extensão e a unidade do território
com os vizinhos. A região Sul foi a de brasileiro também foram conseguidas Açúcar
30
maior complexidade, em função dos à custa da repressão de movimentos in- Borracha
receios dos vizinhos e da extensa fron- ternos separatistas, tais como a Confe- Algodão
teira em litígio. Acordos internacionais deração do Equador, a Cabanagem, a 10
Couros e pele
sucederam-se a partir da segunda me- Revolução Farroupilha, a República

Labmundo, 2014
tade do século XIX, porém também Juliana e a Inconfidência Mineira. Fumo

aconteceram conflitos armados que vi- 1830 1850 1870 1890

savam a garantir a soberania nacional Na economia, produtos como café, Fonte: Almeida, 2001.
sobre o território. Em geral, primou o açúcar, borracha e algodão destina-
uso pelo governo brasileiro da via di- ram-se à exportação. No caso do café, a
plomática na solução das controvérsias tecnologia empregada evoluiu vagaro- e 1883, aportaram às terras brasileiras
territoriais. samente, e ao final do século novas téc- cerca de 540 mil migrantes, dos quais
nicas aumentaram a produtividade das 220 mil portugueses, 96 mil italianos,
A consolidação das fronteiras seria fazendas e uma nova forma de mão de 70 mil alemães e 15 mil espanhóis.
completada, no começo do século XX, obra passou a ser empregada: o escravo
graças à liderança do Barão do Rio africano foi paulatinamente substituí- O mercado consumidor internacional
Branco, antes e durante o seu mandato do pelo migrante europeu. Entre 1819 do café brasileiro se expandia à medi-
da que novos centros urbanos se for-
mavam e que ascendiam novas classes
FRONTEIRAS BRASILEIRAS NA HISTÓRIA médias nos EUA e na Europa. Na vi-
Venezuela 1817 Algumas disputas fronteiriças
rada para o século XX, o café seria o
Inglaterra França
1859 1904 mais importante produto da pauta
1900
Colômbia Tratado de de exportação e os EUA o seu maior
1907 Madrid,1750
Madri, 1750 consumidor.
Peru Tratado de Santo
1851 Ildefonso, 1777 Nas vésperas da República, o Brasil ti-
Tratado de nha pouco mais de 14 milhões de habi-
Badajóz, 1801
tantes, já então bastante miscigenados
494)

Fronteiras atuais e no geral de baixa instrução. Essen-


has (1

Conflitos resolvidos cialmente agrícola e rural, tendo como


único grande centro urbano o Rio de
desil

Bolívia América
América Disputas perdidas
Áreas ainda
1867 e 1903 em disputa Janeiro, com 500 mil habitantes, o
Portuguesa
Por tuguesa
. To r

Áreas ainda
em disputa
país era pouco integrado econômica e
territorialmente.
I. da Trindade
Paraguai
1872 250 km Inglaterra
Argentina 1895 VEJA TAMBÉM:
1895
*as datas indicam o momento Integração na América do Sul p. 86
em que os dois Estados acordaram
Labmundo, 2014

Uruguai
fronteira em comum na região indicada Argentina p. 88
1851 Governança global p. 108
Cooperação Sul-Sul p. 112
Fontes: Goes Filho, 1999; Gurnak et al., 2010; Albuquerque et al., 1977.

1861 1889
1850 1867-1869
Questão Christie 1876 Proclamação
Aprovação entre Brasil Brasil e Peru rompem
relações D. Pedro II da República
da Lei Euzébio de Queirós e Grã-Bretanha é o primeiro monarca
e da Lei de Terras a visitar os EUA
1863-1865 1871
1853 Brasil e Grã-Bretanha 1884
Lei do Ventre Livre 1889
EUA pressionam rompem relações Início
para ter direito EUA, Argentina e Uruguai
da Conferência reconhecem o novo regime
à livre-circulação 1864
de Berlim
ao rio Amazonas Tropas brasileiras republicano brasileiro
1854
invadem o Uruguai I Conferencia Internacional
1879-1883 Americana, em Washington
Brasil Intervém Guerra do Pacífico,
no Uruguai Guerra Paraguai entre Peru e Bolívia
1850

1900

1859
Prússia proíbe 1866 contra o Chile, 1888
emigração O rio Amazonas é aberto em que o Brasil Abolição da escravatura
para o Brasil à navegação internacional permanece neutro
Deodoro F. Peixoto P. de Moraes C. Sales

1860 1870 1880 1890

at l a s d a p o l í t i c a e x t e r n a b r a s i l e i r a 17
A República e a RELAÇÕES COMERCIAIS
Comércio brasileiro, entre 1901 e 2010 (em milhões
de dólares)*

hegemonia dos
100 000

10 000

Estados Unidos 1 000

100
01 920 930 940 950 960 970 980 990 000 010
19 1 1 1 1 1 1 1 1 2 2
* Foi adotada a escala logarítimica

O Império do Brasil (1822-1889) man- No começo do século XX, o fortaleci-


Participação do comércio com os EUA, entre 1901
teve laços de lealdade com as famílias mento das relações Brasil-EUA visava e 2010 (% do total)
reais e as monarquias da Europa, en- a “republicanizar” a PEB. Afirmava o 50
quanto assistia com distância crítica Manifesto Republicano de 1870: nós
40
ao desenrolar da Doutrina Monroe. somos americanos e queremos ser
As relações entre Brasil e EUA muda- americanos. Resultado para a PEB: 30
ram com o advento da República no posições menos favoráveis à Europa e 20
Brasil, devido não apenas à proximi- aproximação com os EUA e vizinhos
dade ideológica dos regimes políticos hispânicos. O Acordo de Cooperação 10

e à afirmação do ideal republicano no Aduaneira, assinado em janeiro de 1891 0


0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0
/1 /2 /3 /4 /5 /6 /7 /8 /9 00 1/1
continente americano, mas também com os Estados Unidos, o apoio esta-

Labmundo, 2014
01 11 21 31 41 51 61 71 81 /2 0
19 19 19 19 19 19 19 19 19 991 20
pelos interesses econômicos dos cafei- dunidense – ao lado de ingleses, por- Exportação do Brasil para os EUA
1

cultores ligados à exportação. As rela- tugueses, italianos e franceses – aos Importação dos EUA pelo Brasil
ções do Brasil com os Estados Unidos militares republicanos sob a liderança Fonte: MIDC, 2008.
passariam, ao longo do século XX, a de Floriano Peixoto em 1893 e o Trata-
constituir-se no elemento sistêmico do de Cooperação assinado com a Ar-
mais relevante da PEB. gentina em 1896 são exemplos dessa
aproximação. XX pode ser explicado à luz dos em-
bates entre esses dois posicionamentos.
PACTO DO RIO Na transição para o século XX, as rela- Durante os primeiros trinta anos do
Participação no TIAR, entre 1947 e 2014
ções econômicas e políticas entre e Bra- século XX, o Brasil manteve sua posi-
sil e EUA passaram a ser fundamentais ção de país alinhado com os interesses
na definição das prioridades e orienta- dos EUA, procurando tirar benefícios
ções estratégicas da PEB, provocando, das condições de segurança continen-
inclusive, o desenvolvimento de visões tal garantidas na América Latina pelo
1 000 km diferenciadas da diplomacia brasilei- prestígio internacional da nova potên-
ra. Dois posicionamentos podem ser cia. Foi assim que a autonomia relativa
Membros originários considerados marcos interpretativos nos marcos de uma “aliança não escri-
Estados que aderiram
ao longo do tempo*
desenvolvidos no seio do Itamaraty so- ta” com os Estados Unidos (expressão
Estados que se retiraram** bre as relações Brasil-EUA: o da alian- de Bradford Burns, forjada em 1966)
*Datas de adesão: Nicarágua (1948),
ça com os EUA e o de uma diplomacia e o fortalecimento doméstico da PEB,
Equador (1949), Trinidad e
Tobago (1967) e Bahamas (1982).
universalista e diversificada (comér- sob a liderança do Barão do Rio Bran-
cio com a Europa ocidental e orien- co (1902-1912), garantiram ao Brasil
Labmundo, 2014

**O México (em 2004), assim como


Bolívia, Equador, Nicarágua e tal, os continentes asiático e africano, bons resultados nas negociações terri-
Venezuela (em 2012) retiraram-se
do tratado. a América Latina e o Oriente Médio). toriais com os países vizinhos na Amé-
Fontes: Itamaraty, 2013a; OEA, 2014 Muito da PEB republicana do século rica do Sul.

REPÚBLICA OLIGÁRQUICA, 1889 - 1930


1895 1904
Laudo arbitral pelos EUA 1900 Proferido o corolário Roosevelt à Doutrina Monroe
1891-1894 na questão de Palmas Laudo arbitral suíço 1905
Convênio aduaneiro com a Argentina na questão do Amapá Troca de embaixadas entre
com os EUA Tratado de amizade, comércio Brasil e EUA
e navegação com o Japão
1902-1912
1893 O Barão do Rio Branco é Ministro 1906
Apoio estrangeiro aos republicanos das Relações Exteriores III Conferência Pan-Americana
na Revolta da Armada 1902 no Rio de Janeiro
Na Argentina, é proferida
1907
1894-1896 a Doutrina Drago
Rui Barbosa na
1910
1890

Ocupação britânica 1903 II Conferência de Paz


da Ilha da Trindade Tratado de Petrópolis na Haia
com a Bolívia sobre o Acre

Deodoro F. Peixoto P. de Moraes C. Sales Rodrigues Alves Afonso Pena N. Peçanha

1895 1900 1905

18 at l a s d a p o l í t i c a e x t e r n a b r a s i l e i r a
FORMAÇÃO DO BRASIL

O Brasil aceitou o Corolário Roose- EUA E BRASIL NA INTERVENÇÃO NA REPÚBLICA DOMINICANA


velt e não apoiou a Doutrina Drago Intervenção na República Dominicana, em 1965
42
anunciada em 1902 pelo governo ar- EUA
.6 0
0
gentino. Essa doutrina afirmava que Quantidade de
tropas (acima de
nenhuma potência estrangeira pode- 150 soldados)
ria utilizar a força contra uma nação
americana a fim de lhe obrigar ao pa- Países
interventores
gamento de suas dívidas. A Argentina
era percebida pela elite brasileira como 1 60
1.1
o principal rival no Cone Sul, e as re- Honduras 30
lações entre o Brasil e os EUA nesse pelos americanos

184
Guatemala
período também serviram para minar a Vargas. Os
o projeto de construção de uma lide- EUA procura- Nicarágua
rança regional da Argentina. Em 1905, ram envolver o Costa Rica
Rio de Janeiro e Washington concor- Brasil em seu sis-
daram em elevar à categoria de embai- tema de poder a
xada suas respectivas representações fim de neutralizar a influên-
diplomáticas, e os EUA mantiveram o cia alemã. Recorde-se que a Ale-
Brasil
mesmo embaixador no Rio de Janeiro manha, em 1930, era responsável por
(Edwin Morgan) entre 1912 e 1933, fato 25% das importações brasileiras, ligei-
que contribuiu para a aproximação ramente acima dos EUA. A coopera-
entre os dois países. Em 1914, o em- ção também se deu nos campos militar
baixador Cardoso de Oliveira, repre- (sobretudo no que diz respeito à mo- Paraguai 500 km
sentante brasileiro no México, atuou dernização dos aeroportos no Nordes-
nesse país como mediador dos interes- te do Brasil) e industrial (por exemplo,

Labmundo, 2014
Uruguai
ses norte-americanos. no setor do aço, com o financiamen-
to da construção da usina de Volta
No entanto, a grande depressão de Redonda), muito embora as Forças Ar- Fonte: White, 2013
1929, a instabilidade na Europa e a in- madas estivessem divididas: Marinha
satisfação dos países da América Latina com o Reino Unido e o Exército en-
com a política dos EUA para a região, tre Alemanha e EUA. O “jogo duplo” Magalhães, primeiro embaixador nos
entre outros fatores, levaram a algumas de Vargas entre a Alemanha e os EUA EUA e depois chanceler, chegou a afir-
mudanças na postura dos EUA para a (1935-1941), conhecido como a estraté- mar “o que é bom para os EUA é bom
América Latina a partir de 1930. Apesar gia política da equidistância pragmá- para o Brasil”. Em outros momentos
das promessas retóricas de cooperação tica, associou claramente a PEB aos (Política Externa Independente, Prag-
econômica de Franklin D. Roosevelt, desafios do desenvolvimento nacional matismo Responsável e Ecumênico), a
o conteúdo real da política dos Estados e a colocou, ao final de 1945, sob nítida PEB rompeu com a tradicional conti-
Unidos não foi alterado, e a liderança área de influência norte-americana. O nuidade, ousou sair da sombra do he-
norte-americana continuou a fundar- equilíbrio entre opção preferencial pe- gemon do Norte e pensar de modo
se na Doutrina Monroe. O discurso los EUA e diversificação das parcerias autônomo e soberano suas estratégias
da cooperação ajudou, porém, os EUA é considerado uma variável explicativa de inserção internacional.
a consolidarem sua esfera de influên- da PEB ao longo do século XX.
cia hemisférica em um momento-cha-
ve do século XX: a Segunda Guerra Em alguns momentos a PEB pendeu VEJA TAMBÉM:
Mundial e a ordem da Guerra Fria. O fortemente para a associação ou o ali- Segurança e defesa p. 46
Brasil se manteve neutro no confli- nhamento quase automático com os Novas Coalizões p. 106
to até 1942, quando se alinhou com EUA (governo Dutra, primeiros anos Governança global p. 108
os Estados Unidos. Esse alinhamen- do regime autoritário, intervenção mi- Cooperação Sul-Sul p. 112
to foi facilitado por concessões feitas litar na República Dominicana). Juraci

1915 1922 1926


1909
Tratado pacifista Ascensão do fascismo Brasil veta ingresso da
Projeto de Pacto ABC,
entre países do ABC de Mussolini na Itália Alemanha na Liga das Nações,
entre Argentina, Brasil e Chile 1916 Missão naval dos EUA Brasil sai da Liga das Nações
Superando a Grã-Bretanha, Semana de Arte Moderna em nome da “dignidade nacional”
1912 os EUA se tornam o principal em São Paulo
parceiro comercial do Brasil 1927
Morte do Barão do Rio Branco
1917 Relatório com
Nomeação de Edwin Morgan
Brasil entra na primeira Guerra prioridades da PEB
como Embaixador dos EUA
Mundial contra a Alemanha na América do Sul
no Brasil (até 1933)
1919
Fundação da OIT e da Liga das Nações 1929
1910

1930

1914 Missão militar francesa


Quebra da
Tratado pacifista com os EUA Brasil na Conferência de Paz
Bolsa de Nova
Brasil na Liga das Nações
I Guerra Mundial York

Hermes da Fonseca Venceslau Brás D. Moreira Epitácio Pessoa Artur Bernardes Washington Luís

1915 1920 1925

at l a s d a p o l í t i c a e x t e r n a b r a s i l e i r a 19
Desenvolvimento POPULAÇÃO BRASILEIRA
Evolução da participação da população urbana,

e industrialização
entre 1940 e 2010 (em %)
90

80 No Brasil

70

60

50
No mundo
40

Entre 1930 e 1980 foram definidas im- consumidor do principal produto bra-
30
portantes estratégias econômicas que sileiro de exportação: o café. Getúlio
influenciaram o crescimento econômi- Vargas, salvo no Estado Novo, buscou 1940 1950 1960 1970 1980 1990 2000 2010
co e industrial do Brasil no século XX, criar um governo de compromisso que Fontes: ONU, 2013a e IBGE, 2013a.

assim como sua inserção internacional. equilibrasse os interesses de diversos


Crescimento populacional, entre 1940 e 2010
Essas cinco décadas também foram grupos políticos influentes no Brasil.
palco de grandes mudanças sociais, de- Isso permitiu a concentração do poder 190,8 mi
mográficas e políticas, em meio a um (antes muito fragmentado entre os en- 150 mi
mundo que testemunhou a Segun- tes federativos) na presidência, o que
da Guerra Mundial e a Guerra Fria. A viabilizou um projeto de industriali-
100 mi
década de 1930 foi muito importan- zação guiada e protegida pelo Estado
te para que os surtos industriais pelos nacional.
quais o Brasil passava se tornassem um 50 mi

Labmundo, 2014
projeto governamental com efeitos du- Antes da década de 1930 já existiam in-
radouros. O ano de 1930 marcou a as- dústrias no Brasil, geralmente vincula- 0
censão à presidência da República de das ao capital excedente da economia 1940 1950 1960 1970 1980 1990 2000 2010

um governo menos comprometido cafeeira. No entanto, o projeto de in- Fonte: ONU, 2013a.
com a oligarquia rural, que estava no dustrialização iniciado em 1930 e con-
poder há mais de 30 anos. Essa mu- tinuado, em menor ou maior grau,
dança política foi acompanhada dos pelos governos sucessores foi crucial e industrialização foram baseados no
efeitos da crise internacional de 1929, ficou conhecido como “modelo de in- “tripé econômico”, formado pelo capi-
que significou a retração do mercado dustrialização por substituição de im- tal público, capital privado domésti-
portações”. Apesar do que o termo co e capital privado internacional, que
pode indicar, o objetivo não era a redu- variaram em intensidade e importân-
EVOLUÇÃO DA INDÚSTRIA ção imediata dos fluxos de importação. cia ao longo do tempo. Assim, houve
% do total do PIB brasileiro, entre 1945 e 1995 Em um primeiro momento, as impor- deslocamento do centro dinâmico da
tações eram incentivadas, para que a economia brasileira do setor externo
capacidade produtiva da economia para o doméstico. Enquanto país agro-
20 brasileira fosse aumentada. O plano de exportador, a maior parte das riquezas,
desenvolvimento previa etapas de in- dos empregos e da renda era associada
dustrialização, abrangendo a indústria à produção para o mercado externo. O
15
de base, bem como a de bens duráveis desenvolvimento industrial brasileiro
e não duráveis. Desse modo, a pro- alterou a dinâmica econômica do país,
Labmundo, 2014

10
dução nacional iria, progressivamen- baseando-se a partir de então no mer-
1950 1960 1970 1980 1990
Fontes: IBGE, 2013a; Sítio web Ipeadata, 2013 e
te, agregando valor aos seus produtos. cado consumidor interno. Contribu-
Bonelli et al., 2013. Os investimentos que permitiram a íram para isso diversos fatores sociais,

DESENVOLVIMENTISMO E PROJETO NACIONAL, 1930 - 1989


1940 1950
1930
Revolução de 1930 Código de Minas veta participação Entrega aos EUA de um memorando que manifestava
de estrangeiros na mineração e na metalurgia a “frustração do governo brasileiro com a falta de reciprocidade
1932-1935 EUA aceita financiar a construção nas relações bilaterais”
Guerra do Chaco entre de siderúgica em Volta Redonda 1951
Bolívia e Paraguai 1942
Acordo de venda de materiais
1935 Brasil declara guerra ao Eixo estratégicos para os EUA
Acordo de comércio com os EUA 1945 1952- Acordo militar com os EUA
1936 Fundação da ONU 1953
Acordo de comércio com a Alemanha 1947 Criação da Petrobrás
1938 Rompimento das relações e nacionalização do petróleo
Acordo de compra diplomáticas com a URSS 1956- Plano de Metas
de armas da Krupp
1930

1958
1960

Assinatura do TIAR
(Alemanha) Lançada a
1948
Operação Pan-
II Guerra Mundial Criação da Cepal Americana
Gov. prov. Vargas Gov. const. Vargas Estado Novo Dutra Vargas Juscelino Kubitschek

1940 1950

20 at l a s d a p o l í t i c a e x t e r n a b r a s i l e i r a
FORMAÇÃO DO BRASIL

entre eles o crescimento demográfico, COOPERAÇÃO EM BUSCA DO DESENVOLVIMENTO


Membros do G77, em 2014
acompanhado de uma forte urbaniza-
ção e de planos de integração regional.

Nesse período, aprofundou-se o pro-


cesso, que conheceu o auge no final
da década de 1950, de interiorização
dirigida da população brasileira e de
aumento da conexão entre as regiões.
Como o Brasil era um país voltado à Fundadores
Fundadores que se
exportação, a integração entre suas retiraram
regiões era frágil. O Plano de Metas
optou pela construção de diversas ro- 1000 km
Fonte: Sítio web do G-77, 2014
dovias, ligando o território nacional,
como meio de superar a falta de infra- Movimento dos Não Alinhados em sua fundação
estrutura em menor tempo e de atrair
a indústria automobilística para o Bra-
sil. Outros gargalos estruturais que fo-
ram foco da intervenção estatal são a
energia e a telecomunicação. Como o
projeto previa o deslocamento do se-
tor produtivo para o mercado interno,
era evidente a necessidade de financia- Participantes plenos
mento internacional para viabilizar a Observadores
industrialização, acarretando o endivi-

Labmundo, 2014
damento externo. Além disso, esse mo-
delo de desenvolvimento se mostrou 1000 km

incapaz de superar mazelas como a dis- Fonte: Declaração de Belgrado dos Países não Alinhados, 1961
paridade econômica entre as regiões, a
desigualdade social, a pobreza e outros
desequilíbrios. Pelo contrário, o forte a superpotência estadunidense era en- menores (por exemplo, a proposta da
crescimento econômico foi acompa- tendida como meio de garantir retor- NOEI). Devido ao alto endividamen-
nhado pelo aprofundamento da con- nos difusos em outras áreas. As elites to externo, resultado de um modelo
centração de renda. políticas brasileiras não tenderam a de industrialização muito dependen-
questionar o pertencimento ao blo- te de liquidez externa, o Brasil enfren-
O Brasil entrou mais fortemente na co capitalista, mas também interpreta- tou desequilíbrios macroeconômicos,
área de influência dos EUA, juntou- vam o Brasil como um país periférico, o que resultou na exaustão do mode-
se ao esforço de guerra dos Aliados e com necessidade de crescimento e de- lo nos moldes pensados em 1930. Con-
fez parte do bloco ocidental no âmbito senvolvimento. Nesse sentido, algu- sequentemente, a busca de autonomia
da Guerra Fria. Esse alinhamento foi mas iniciativas brasileiras revelavam na política externa também sofreu um
poucas vezes automático ou ideológi- certo grau de autonomia, ao defender grande revés no final do século XX.
co, mas buscava barganhar vantagens maior equidade e justiça no cenário
econômicas ou políticas. Embora a lo- internacional e ao buscar maior di-
calização geográfica restringisse a auto- versificação de parceiros, inclusive no VEJA TAMBÉM:
nomia do Brasil, pois a América do Sul mundo comunista. Esse pragmatismo Multinacionais brasileiras p. 70
era entendida como área de influência da diplomacia brasileira era mais evi- Relações Norte-Sul p. 100
dos EUA, a política externa foi usada dente em momentos em que a capaci- Parque industrial p. 30
como um instrumento do projeto de dade econômica interna aumentava e Logística p. 32
desenvolvimento. A aproximação com em que as restrições sistêmicas eram

1972
1964 1982
I Plano Nacional de Desenvolvimento
Golpe Civil-Militar Guerra das Malvinas
1964 Pragmatismo Responsável Brasil declara moratória
1961 1974 1985
Programa de Ação 1978
Participação Econômica do Governo Proposta da Nova Apoio à criação do
como observador Ordem Econômica Tratado de Cooperação
Grupo de Contadora
da Conferência Internacional Amazônica
1965 1986
do Movimento dos Acordo do MEC com a USAID Reconhecimento do 1979
governo comunista Criação do
Não Alinhados Rompimento de relações Acordo Tripartite Grupo do Rio
diplomáticas com Cuba de Pequim (Questão Itaipu-Corpus)
Política Externa 1975 Fundação da ZOPACAS
Independente Reconhecimento da independência
1968 1989
1960

1990

de Angola, governada pelo


1962 Recusa de assinar o Tratado de Queda do
Movimento Popular pela
Cuba é suspensa da OEA Não Proliferação Nuclear Muro de
Libertação de Angola
Brasil se absteve na votação Berlim
II Plano Nacional do Desenvolvimento
JK JQ J Goulart Castelo Branco Costa e Silva Médici Geisel Figueiredo José Sarney

1970 1980

at l a s d a p o l í t i c a e x t e r n a b r a s i l e i r a 21
Globalização A política externa de Collor promo-
veu a aproximação com os EUA (visto

e nova ordem
como aliado necessário para as refor-
mas econômicas internas) e a adoção
do modelo econômico neoliberal base-
ado na abertura comercial e na inserção
competitiva no mercado internacional
(“modernização pela internacionaliza-
ção”). Procurando melhorar sua ima-
gem e credibilidade (importantes para
renegociar a dívida externa), o Brasil
começou a aderir aos regimes interna-
cionais, assinando importantes decla-
O fim do regime militar e a consequen- externa (suspensão do pagamento dos rações e tratados no campo comercial,
te redemocratização do país não impli- juros em 1987, seguida de pressões co- ambiental (no contexto da Rio-92)
caram, de início, mudanças profundas merciais dos EUA) e sucessivos progra- e de não proliferação nuclear. Nes-
na política externa. Manteve-se o foco mas de estabilização macroeconômica se contexto, o Itamaraty perdeu força
na promoção do desenvolvimento (Plano Cruzado em 1986, Plano Bres- em proveito da diplomacia presiden-
nacional, e o Itamaraty permaneceu ser em 1987 e Plano Verão em 1989). cial, que se consolidou com os gover-
como formulador central da política No âmbito latino-americano, houve nos de Fernando Henrique Cardoso
externa, embora tenham emergido no- maior aproximação com a vizinha Ar- (FHC) e, depois, com Luiz Inácio Lula
vos atores com presença destacada nas gentina (iniciando processo de integra- da Silva. Começaram a ter maior par-
agendas internacionais. Preocupado ção que levaria, anos depois, à criação ticipação outros atores, em um primei-
principalmente com o âmbito interno, do Mercosul) e se restabeleceram as ro momento o setor empresarial, mas
o governo Sarney se caracterizou por relações diplomáticas com o Estado também organizações sociais, entida-
uma forte instabilidade econômica, cubano. Desse modo, e em compara- des subnacionais, academia, etc. Cres-
com alta taxa de inflação (que quadru- ção com as décadas anteriores, tendeu ceu a pressão pela formulação de uma
plicou entre 1985 e 1988), baixo cres- a ganhar peso relativo a dimensão re- PEB mais plural e, em alguns casos,
cimento econômico, crise da dívida gional da PEB. mais democrática. No âmbito regional,
a assinatura do Tratado de Assunção,
em 1991, levou à constituição do Mer-
COMÉRCIO EXTERIOR BRASILEIRO cosul, processo de integração regional
Exportação, em 1990 Importação, em 1990 em bilhões de dólares que contribuiu para consolidar a aber-
tura econômica, mas também para que
seus integrantes (sobretudo o Brasil)
10,460 4,731 1,005 ganhassem peso e poder de negociação
Ásia Oriente Ásia
Médio Oriente
Médio
internacional.
África África
Europa Europa Com o impeachment de Collor, o Go-
Saldo comercial (em bilhões
de dólares) verno Itamar Franco deu continuida-
EUA -2 0 2 4 6 de à agenda externa de liberalização
EUA Europa
econômica, desenvolvimento e maior
EUA
Ásia
autonomia. Teve dois importantes
África chancelares (FHC em 1992-1993 e Cel-
so Amorim em 1993-1994), que busca-
Labmundo,2014

América do Sul
América
do Sul América
do Sul
Oriente Médio ram participar na definição de regimes
1000 km
déficit superávit internacionais (por exemplo, a agen-
Fonte: MDIC, 2008 da de desenvolvimento ou de direitos

GLOBALIZAÇÃO E INSERÇÃO INTERNACIONAL, 1990 - 2003


1994
1990
Reunificação alemã Formação do NAFTA
Fim do apartheid na África do Sul I Cúpula das Américas
Ratificação pelo Brasil da Convenção Protocolo de Ouro Preto
Internacional sobre os Direitos da Lançamento do Plano Real
Criança de 1989 1995
1991 Com 1.300 homens, o Brasil participa
Dissolução 1992 de Missão de Paz em Angola
da União Soviética Adesão à Convenção Interamericana Ratificação da Conv. Interamericana
I Cúpula sobre Direitos Humanos de 1969 para erradicar a Violência Contra a Mulher
Ibero-Americana Brasil contribui para que Peru e Equador
Eco-92, no Rio de Janeiro
Tratado de Assunção assinem Declaração de Paz do Itamaraty
Ratificação do Pacto Internacional
1990

1997

de Direitos Civis e Políticos 1996


e de Direitos Econômicos, I Cúpula dos Países
Sociais e Culturais de 1966 de Língua Portuguesa
Fernando Collor Itamar Franco Fernando Henrique Cardoso

1992 1995

22 at l a s d a p o l í t i c a e x t e r n a b r a s i l e i r a
FORMAÇÃO DO BRASIL

humanos da ONU) e nas sucessivas No contexto de crescente interdepen- de ação coletiva a fim de garantir os
conferências durante a década de 1990. dência derivada da globalização e de interesses brasileiros. No âmbito re-
O Brasil passou a insistir na reforma grande instabilidade econômica glo- gional, a consolidação do Mercosul
do Conselho de Segurança (exigindo bal (crises mexicana, asiática e russa, com o Protocolo de Ouro Preto (em
um assento permanente) e a atuar nas que afetaram a economia brasileira), o 1994) e o início do processo de cons-
operações de paz da ONU. No âmbi- governo de FHC deu ênfase às refor- trução da Comunidade Sul-America-
to multilateral aprofundou a integra- mas liberalizantes por meio da política na de Nações (CASA) contribuíram
ção regional sul-americana, a fim de de estabilização macroeconômica, da para promover a liderança brasileira na
se contrapor à Área de Livre Comércio abertura e liberalização das regras de América do Sul. A lusofonia ganhou
das Américas (ALCA). Em 1994, o go- comércio, da privatização e responsa- nova dimensão política e multilateral
verno brasileiro implementou o Plano bilidade fiscal. Também intensificou a com a criação da Comunidade de Pa-
Real, visando a aumentar a credibilida- participação brasileira nos foros sobre íses de Língua Portuguesa (CPLP) em
de econômica e política, a controlar as a nova ordem internacional do Pós- 1996. Como característica dos diversos
altas taxas de inflação e a melhorar os Guerra Fria. Nos debates da Terceira governos da redemocratização, a aspi-
indicadores, bem como a imagem ex- Via, FHC enfatizou a crença na coope- ração de fazer do Brasil um ator glo-
terna do país. ração e nos mecanismos multilaterais bal foi constante na PEB. Para atingir
essa meta, o Brasil democrático vem
tentando equilibrar, com ênfases dis-
IMPORTAÇÕES E EXPORTAÇÕES tintas em cada governo, a busca de cre-
Evolução do comércio internacional brasileiro por origem e destino, entre 1980 e 2006 (em bilhões de dibilidade internacional e a construção
dólares)
de autonomia (mantendo flexibilida-
Importações 22,7 Exportações
31,6
de, maior liberdade e diversificação de
20,9 parceiros) no campo da PEB.

TOP 10 - INVESTIMENTOS
ESTRANGEIROS DIRETOS NO BRASIL
Europa
3,5 31,0 em milhões de dólares, em 1980 e 1990
América do Sul EUA
16,0 Alemanha
3,5 Suíça
Libéria
24,8
Ásia Japão
Kuaite
1,6 14,4 20,8 Itália
França
Europa Panamá Ano: 1980
Antilhas H.
4,1 Estados 8,2 5,4 50 250 500
Unidos Estados 7,4 Canadá
Alemanha
Unidos EUA
América Japão
2,7 do Sul 3,5 França
Reino Unido

Labmundo, 2014
Ásia Luxemburgo
Liechtenstein
Cayman Ano: 1990
2,0 5,8 Ilhas Virgens
50 250 500
1,1
África 1,1 Fonte: Banco Central do Brasil, 2013
África
7,8
Oriente
Médio VEJA TAMBÉM:
Oriente 3,1 Ameaças globais e transnacionais p. 48
1,0
Médio
Labmundo,2014

2000 Diplomacia presidencial p. 62


1980 1990 2000 2006
Integração regional p. 82
1980 1990 2006
Relações Norte-Sul p. 100
Fonte: MDIC, 2008

1997
2001
Crise Financeira asiática
Aprovado protocolo de Quioto Atentados terroristas aos EUA
Início da Rodada Doha da OMC
I Fórum Social Mundial, em Porto Alegre
1998
Implementação do Tribunal
Penal Internacional 2002
Adesão ao Tratado de Inicia a circulação do Euro
Não Proliferação Nuclear Formação da Organização do Tratado
de Cooperação Amazônica
1999
Formação do G20 financeiro Brasil assina Protocolo de Quioto
1997

2004

Inauguração do primeiro trecho


do gasoduto Brasil-Bolívia
Fim da paridade do Real com o Dólar

F H Cardoso Fernando Henrique Cardoso Lula da Silva

1999 2002

at l a s d a p o l í t i c a e x t e r n a b r a s i l e i r a 23
Diversidade significativo, em especial em compara-
ção com outros países da América do

cultural e
Sul e da Europa, a história da migração
para o Brasil é fundamental para com-
preender seu atual panorama social e
as dinâmicas internacionais em que o

pluralismo étnico
país está inserido.

Os indígenas foram escravizados no


início da ocupação portuguesa, tendo
sido logo substituídos pelos escravos
africanos. A escravidão de africanos
para as plantations brasileiras foi um
A sociedade brasileira foi formada a à chegada dos primeiros europeus) se dos fluxos migratórios forçados mais
partir do encontro das várias popula- somaram grupos vindos da Europa, da relevantes da história. O comércio
ções originárias e daquelas que vieram África e da Ásia, e isso ao longo de qui- de escravos se aproveitava de fluxos
posteriormente se estabelecer neste ter- nhentos anos em uma dinâmica ain- já existentes no continente africano e
ritório. Aos indígenas (habitantes ori- da em operação. Apesar de atualmente foi explorado também por brasileiros.
ginários, estimados em alguns milhões o fluxo imigratório brasileiro não ser A diversidade de origens dos cativos

TRÁFICO NEGREIRO
Rotas usadas pelos traficantes, séc. XV-XIX

do Golfo da
Cultura do café
Guiné
Belém

bia
Cultura do açúcar gâm
São Luís ene
Fortaleza Natal da S
Recife
Principais zonas
de revoltas co
cis
Salvador
Salvador
n

iné
do Golfo da Gu
Fra
.
R. S

Povoamento de escravos
africanos (até 1850)

de
Be
Porto

ng
Belo Seguro

ue
Horizonte

la
de
Rotas do comércio negreiro Ca
Vitória bin
da
séc. XV ao XVII São Paulo
Rio de
Janeiro de
Lu and
ao séc. XVIII a

de
de

Lu
ao séc. XIX an
Za

da-
nz

Porto Alegre ba B eng


i

r uel
a
Labmundo, 2014

500 km

Fonte: King et al., 2010

POLÍTICA EXTERNA BRASILEIRA NO SÉCULO XXI


2003 2006 2009
EUA invadem Iraque Início do escândalo Wikileaks China se torna o principal
Fórum de Diálogo IBAS Bolívia nacionaliza atividades e petróleo e gás parceiro comercial brasileiro
Criação do G-20 na OMC Primeira Cúpula África-América do Sul Primeira Cúpula BRIC
2004
Brasil participa de intervenção 2007 2010
militar da ONU no Haiti XV Jogos Pan-Americanos no Rio Brasil e Turquia
Brasil reconhece China propõem acordo
2008
como economia de mercado para a questão
Crise Financeira Internacional
Lançamento da Comunidade nuclear iraniana
Criação da Unasul
Sul-Americana de Nações Brasil vence disputa
Lançamento do programa Bolsa Família na OMC contra
2005
2003

2011

subsídios ao algodão
Criação da Cúpula América do Sul-Países Árabes
pelos EUA
Criação do Parlasul
Início do escândalo do mensalão
Luiz Inácio Lula da Silva Luiz Inácio Lula da Silva

2007

24 at l a s d a p o l í t i c a e x t e r n a b r a s i l e i r a
FORMAÇÃO DO BRASIL

africanos explica parte das diferenças unidade cultural (oriundos no geral da MIGRANTES PARA O BRASIL
Europeus e asiáticos vindos entre 1819 e 1939
culturais presentes no país ainda hoje. região de Angola) e guardavam maior
Nacionalidade 1819-1883 1884-1940
Em sua maioria, os grupos que vi- diferença em relação aos grupos chega-
nham ao Rio e ao Recife tinham maior dos a Salvador. Essas distinções resul-
taram em particularidades na herança Italianos
religiosa e linguística que marcam o Portugueses
ESCRAVOS PARA O BRASIL Brasil atual. Espanhóis
Quantidade de escravos por destino,
entre 1500 e 1850 Japoneses
Esse processo histórico tem efeitos na
Alemanha
diplomacia brasileira contemporânea.
Russos
Total mundial O governo Lula declarou que a socie-
dade brasileira tem uma dívida his- Áustriacos
tórica com a África, o que justificaria Turcos
medidas como o perdão de dívidas, o Poloneses
apoio a projetos de cooperação para o Franceses
desenvolvimento e o estabelecimen- Ingleses
to de uma universidade no Brasil para Iugoslavos
contribuir com a formação de jovens Sírios
africanos, a Universidade da Integra-
Suíços
ção Internacional da Lusofonia Afro-
-Brasileira (Unilab). O fim do tráfico Quantidade de indivíduos
1.000.000
negreiro e a paulatina supressão da es-
Brasil
cravidão alteraram o perfil da mão de

Labmundo, 2014
obra no Brasil. Do final do século XIX 100.000
50.000
ao início do século XX, migraram cen- 10.000
tenas de asiáticos e europeus, muitos Fonte: Alvim, 1998.
em busca de trabalho em plantações
de café. Estima-se em 4,3 milhões o
número de europeus emigrados para o transatlântica entre culturas. Descen-
Brasil entre os anos de 1815 e 1930. dentes e migrantes podem desenvolver
Sudeste laços com seus países de origem, parti-
(Rio e São Paulo)
A assimilação de grupos tão diversos, cipar de ações coletivas locais e manter
não sem conflitos, contribuiu para a vínculos com suas famílias e comuni-
formação cultural do Brasil e da iden- dades (via remessas, entre outros).
tidade nacional. A configuração atual
1550 1650 1750 1850 da sociedade resultante desses fluxos Após essa breve introdução histórica,
100.00 influencia o processo de internacio- nos capítulos seguintes serão trabalha-
nalização do país. O Brasil é a maior dos temas contemporâneos da inser-
colônia de descendentes de japoneses ção internacional do país, seus atores e
75.000 fora do Japão, uma das maiores de li- agendas mais relevantes.
Mortos
na travessia
baneses fora do Líbano e de impor-
Embarcados

tância equivalente para portugueses,


50.000
espanhóis e sírios. A embaixada italia- VEJA TAMBÉM:
na calculou em 30 milhões o número População e diversidade p. 42
25.000 Desembarcados de descendentes de italianos no Brasil Organizações e movimentos sociais p. 72
em 2013. Em discursos diplomáticos,
Labmundo, 2014

Atores religiosos p. 74
apresenta-se o país como a maior na- Redes sociais e integração regional p. 96
ção negra fora da África e uma ponte
Fonte: Eltis et al., 1998.

2012
Conferência da ONU Rio +20
Criação da Aliança do Pacifico 2015
Balanço dos ODM na ONU
2013
Escândalo NSA
Agravamento da crise síria
Jornada Mundial da Juventude
Senador boliviano asilado na embaixada
brasileira em La Paz foge para o Brasil
2016
2014 Jogos Olímpicos
Copa do Mundo FIFA no Rio de Janeiro
Criação do Banco dos BRICS
2011

2019

Anúncio da criação do FOCAL


Crise argentina com “fundos abutres”
Crise na Ucrânia
Dilma Rousseff Dilma Rousseff

2015

at l a s d a p o l í t i c a e x t e r n a b r a s i l e i r a 25
Capítulo 2:

BRASIL,
POTÊNCIA
EMERGENTE?

Enara Echart Muñoz


Enara Echart Muñoz
No início dos anos 2000, volta-se a discutir a percepção que existia entre
brasileiros e estrangeiros já na década de 1970: a de que o Brasil é uma
potência. As denominações quanto à tipologia e ao conceito de potência
variaram entre potência média, regional, emergente ou em desenvolvi-
mento, mas sempre esteve presente a percepção de que o país figura entre
os mais importantes do tabuleiro de xadrez mundial. Essa imagem que o
Brasil tem de si e que outros têm dele fundamenta-se em fatores variados:
a) de natureza econômica, como o aumento do PIB absoluto em relação
a outros países de renda média (Argentina, México, etc.) e países indus-
trializados (Reino Unido e França); b) de fundamento político, visível na
existência de políticas públicas domésticas que servem de modelo inter-
nacionalmente (redução da pobreza, meio ambiente, não proliferação
nuclear e recuperação financeira); c) de origem material, por ser um
grande território rico em reservas minerais, água e biodiversidade; d) de
cunho social e cultural (riqueza, tamanho e miscigenação de sua popula-
ção, organização de sua sociedade civil, mercado consumidor interno,
cultura musical e de ritmos variados, etc.). Entretanto, o Brasil apresenta
características que dificultam sua inserção internacional e a percepção
pelos outros países como uma potência. Taxas elevadas de analfabetismo,
mortalidade infantil, desigualdade social, disparidade econômica entre as
regiões, alto índice de descrédito da população em seus representantes
políticos, falta de infraestrutura e capacidade logística, conflitos agrários,
desmatamento, tráfico de armas e de entorpecentes, prostituição infantil...
Agronegócio: produtividade por hectare e, além dis-
so, tem disponível um grande con-

celeiro do mundo?
tingente de terras aráveis ainda não
exploradas. Esses dois dados, associa-
dos a políticas governamentais de in-
centivo ao setor (apoio à pesquisa,
abertura de novos mercados, etc.), dei-
xam vislumbrar grande potencial para
o agronegócio no Brasil.

De 1976 a 2010, a produtividade brasi-


leira cresceu 2,5 vezes, permitindo que
a produção aumentasse 213% em uma
O agronegócio é constituído de in- União Europeia). A busca por conhe- área plantada de grãos e oleaginosas
dústria e comércio no setor rural, pe- cimento especializado (com destaque somente 27% maior. Algumas estima-
cuária, pesca e agricultura, tudo isso para a ação da Embrapa) fez o Brasil tivas propõem que as exportações do
associado à produção de conhecimen- superar a ideia de que o clima tempe- setor em 2014 tenham superado os 100
to e geração de tecnologias aplicadas. rado seria o mais adequado para a pro- bilhões de dólares e que seu crescimen-
Historicamente, é um dos setores mais dução de alimentos e colocou um país to entre os anos de 2005 e 2014 possa
dinâmicos da economia brasileira, re- essencialmente tropical entre os gran- ter sido de 34%.
presentando em torno de um terço des produtores mundiais. É inegável a
de seu produto interno bruto. O Bra- importância do setor para o bom de-
sil é um dos principais exportadores sempenho da balança comercial brasi- MERCADO MUNDIAL DE ALIMENTOS
Posição brasileira na exportação e na produção,
de vários produtos, como soja, cere- leira e para a expansão de suas reservas em 2010 1° 2° 3° 4°
ais, frutas e carne. A força do setor fica em moeda estrangeira.
evidente se comparada aos tradicionais Açúcar
grandes exportadores de alimentos O país apresenta crescimento contí- Café
(Canadá, Argentina, Austrália, EUA e nuo e de longo prazo de suas taxas de
Suco de
laranja

CELEIRO MUNDIAL Soja*


Participação brasileira na produção mundial de alimentos, entre 2010 e 2021 Carne
bovina

Tabaco**

Cana-de-açúcar
Safra 2014/15*

Safra 2020/21*

Etanol**
Safra 2010/11
49%
47%
44%

Aves
33%
31%
32%

30%
30%
28%

Milho

Carne
11%
12%

11%
12%
10%

10%

*projeção suína
Labmundo, 2014

Labmundo, 2014
Na exportação *dados preliminares
Carne Soja Grão Carne Bovina Carne Suína Milho
de Frango Na produção **posição em 2009
Fonte: MAPA, 2011. Fonte: MAPA, 2010.

MERCADOS DO AGRONEGÓCIO
Destino das exportações do agronegócio brasileiro, em 2011

UE Rússia

Japão
Coreia do Sul EUA
China Irã
Argélia
Taiwan Egito EAU
Hong Kong
Arábia
Saudita
Tailândia Venezuela

Malásia

Indonésia

* Valores em bilhões de dólares. Paraguai


Somente representadas vendas
Labmundo, 2014

Total das
totais acima de 1 bilhão de dólares. exportações 98,9 256,0
Valores para a União Europeia brasileiras
Argentina
apresentados consolidados. Participação do
20 10 5 1 agronegócio
Fonte: Instituto de Economia Agrícola, 2012 1000 km

28 at l a s d a p o l í t i c a e x t e r n a b r a s i l e i r a
BRASIL, POTÊNCIA EMERGENTE?

O agronegócio brasileiro apresenta, AGRONEGÓCIO


Valor da produção agropecuária, em 2006
porém, desafios equivalentes a suas po-
tencialidades: reforma agrária, desma-
tamento, logística, apoio à agricultura
familiar, êxodo rural e financiamento
da produção são exemplos de desafios
relevantes que contribuíram para que
o setor fosse tema prioritário nas últi-
mas eleições presidenciais.

O agronegócio tem sido parte relevan-


te do conjunto das exportações bra-
sileiras, beneficiado pela demanda
crescente de commodities pela China.
Apesar de apresentar produção agríco-
la diversificada, cada vez mais o setor
se especializa na soja, e isso principal-
mente em função do mercado chinês.

A China é destino de parte conside- Alto

rável da produção agrícola brasileira.


Alguns analistas debatem uma possí-
vel sinodependência e os impactos no
Brasil de uma eventual crise econômi-
ca chinesa. Pesquisas recentes que ten-
tam antecipar perspectivas futuras de
consumo de alimentos na China cons- Baixo 300 km

tataram que o padrão alimentar de sua

Labmundo, 2014
população apresentaria tendência mais
estável quando comparado ao mode-
lo chinês de desenvolvimento econô- Fonte: IBGE, 2010a.
mico. O país deve expandir a demanda
por produtos em cuja produção o Bra-
sil tem avançado, como é o caso do mi- Recentemente, o governo brasileiro todas as terras cultiváveis. No caso do
lho, da soja e das carnes bovina, suína adicionou o novo desafio de expor- Brasil, levando em consideração os de-
e de frango. tar o modelo agropecuário brasileiro safios mencionados, o país poderá rea-
para outros países, com destaque para lizar o epíteto criado na Era Vargas de
O setor é estratégico para o país, muito Moçambique, nos projetos conheci- “celeiro do mundo” e contribuir para
embora ainda deva confirmar sua ca- dos como Pró-Savana e Pró-Alimentos. abastecer de alimentos uma popula-
pacidade de expansão com baixos im- Além disso, o setor possui investimen- ção mundial estimada em 9 bilhões em
pactos sociais e ambientais, bem como, tos em vários países vizinhos com pa- 2050, com maior renda e com padrões
ao mesmo tempo, ser capaz de enfren- pel relevante na produção de grãos e de consumo mais elevados que os atu-
tar a resistência à abertura de novos gado, em especial no Paraguai e na Bo- ais. Segundo previsões da FAO publi-
mercados, em especial da União Euro- lívia. Também nesses países, o setor é cadas em 2014, até meados do século
peia e dos EUA. acusado de criação de latifúndios e de XXI, a produção de grãos precisará au-
grilagem de terras. A presença do mo- mentar pela metade, e a de carne, do-
delo agroexportador brasileiro em pa- brar. Tais metas são ambiciosas em um
COMPLEXO SOJA íses em cooperação com o Brasil com mundo com limitações para expandir
Dados entre 1983 e 2012
estímulo do governo federal tem fei- suas terras aráveis, resolver o proble-
to com que várias entidades da socie- ma de abastecimento de água, enfren-
Produção (mil toneladas) dade civil apontem a exportação das tar a crise ecológica e garantir o direito
x4,6 contradições e falhas do modelo bra- à alimentação. Nesse cenário, o Brasil
66.383
sileiro para países com quadro ainda apresenta potencial importante para
14.533 mais grave de concentração de terra e responder aos desafios colocados à co-
importância da agricultura familiar. munidade internacional, podendo re-
forçar sua importância no mercado
Área plantada (mil ha) x3
Apesar de não existir uma real inte- internacional de alimentos.
8.412
25.042 gração entre as cadeias produtivas do
agronegócio da região, a América Lati-
na já é considerada a maior exportado- VEJA TAMBÉM:
Produtividade (kg/ha)
x1,5 ra (em termos líquidos) de alimentos Logística p. 32
1.728
do mundo. Segundo relatório do BID
Labmundo, 2014

2.651
Multinacionais brasileiras p. 70
de 2014, a região fornece cerca de 11% Organizações e movimentos sociais p. 72
1983/84 1999/00 2011/12 do valor da produção mundial de ali- Energia e infraestrutura p. 92
Fonte: CONAB, 2014. mentos, mas possui cerca de 24% de

at l a s d a p o l í t i c a e x t e r n a b r a s i l e i r a 29
Parque industriais no total do comércio exte-
rior, mas poderia ser classificado como

industrial
desindustrialização? Não existe con-
senso sobre o tema na academia, mas
caso o conceito de desindustrialização
seja entendido como perda de partici-
pação da indústria na economia de um
país, os anos 1970 do “Milagre Brasi-
leiro” também apresentaram essa ca-
racterística, segundo dados do Banco
Mundial. Por outro lado, nas décadas
de 1980 e de 1990, que foram palco de
diversas crises e de retração na econo-
O desenvolvimento por meio da in- que seriam importantes para facilitar o mia nacional, a produção industrial
dustrialização sempre foi um dos crescimento de suas vendas internacio- aumentou sua participação no total do
maiores objetivos dos governantes bra- nais. Todavia, há políticos e membros PIB.
sileiros desde os anos 1930. O governo da academia que argumentam que
brasileiro promoveu uma série de po- o setor industrial, apesar de publica-
PARTICIPAÇÃO DA INDÚSTRIA
líticas desenvolvimentistas, investin- mente demandar medidas de orienta-
NAS ECONOMIAS NACIONAIS
do em infraestrutura e em tecnologia. ção liberal para o governo, também se Ao longo da década, entre 1970 e 2010 (em %)
Também ofereceu incentivos fiscais a beneficiaria de certa proteção do Esta- -10 0 10
indústrias que se instalassem em terri- do (via política cambial, tarifária, con- Sem dados
disponíveis
tório nacional e garantiu tarifas alfan- cessão de linhas de crédito especiais ou de 1970 a 1979 Perda Ganho

degárias com o objetivo de proteger a por meio de compras governamentais).


indústria nascente. Foi nesse processo Esse modelo permitiu que o Brasil ti-
de desenvolvimento por substituição vesse grande avanço em seu parque
de importações que o Brasil conheceu industrial, despontando entre os exis-
um forte crescimento industrial na se- tentes na América Latina e em outros
gunda metade do século XX. Uma das países periféricos, embora também te-
características desse processo é a par- nha contribuído para o surgimento de
ticipação central do Estado na econo- um perfil de capitalismo relativamen-
mia, traçando estratégias e prioridades, te avesso a riscos sem a proteção do 1000 km
assim como fornecendo linhas de Estado.
crédito. de 1980 a 1989

À medida que o preço internacional


O modelo de desenvolvimento basea- das commodities aumentou no início
do no tripé econômico (investimento dos anos 2000, intensificou-se a ex-
público, privado nacional e privado es- portação de produtos agrícolas. Com
trangeiro) gerou uma correlação entre isso emergiu o temor por parte de al-
o crescimento industrial e o aumen- guns economistas e responsáveis polí-
to dos gastos do governo. Os repre- ticos de que se iniciasse um processo
sentantes políticos do setor industrial de especialização regressiva das expor-
costumam ir a público para demandar tações brasileiras. Esse fenômeno indi- 1000 km
acordos de livre comércio, justificando ca a diminuição relativa dos produtos de 1990 a 1999

INDUSTRIALIZAÇÃO NO MUNDO
Evolução do valor bruto agregado, entre 2001 e 2011 (em trilhões de dólares, preços correntes)
Labmundo, 2014

Brasil ( ) em relação os países ricos e China Brasil ( ) em relação aos países emergentes

3 China
0,5
EUA Índia
Rússia
2,5
0,4 1000 km

2 México de 2000 a 2010


0,3
1,5

0,2 Turquia
1 Alemanha
Argentina
R. Unido
Áf. do Sul
Labmundo, 2014

França 0
2001 2006 2011 2001 2006 2011 1000 km

Fonte: Sítio web da base de dados do Banco Mundial, 2013 Fonte: Sítio web da base de dados do Banco Mundial, 2013

30 at l a s d a p o l í t i c a e x t e r n a b r a s i l e i r a
BRASIL, POTÊNCIA EMERGENTE?

CONCENTRAÇÃO INDUSTRIAL
Distribuição da indústria por tipo e por unidade federativa, em 2013
Be De
Au Q ns Be Tê m
to Co Eq fa uím nã xt ai
Al m u rm ic bi il e In si
im m M ip o da fo M nd
ob bu et am ac a e m s ca Ce r ov O mapa representa a quantidade total de indústrias
en ilís st al en êu et e lça lul m el ús
tíc tic íve ur tic ál fu do os át ei tri
ia gi to ico m ic ra as por unidade federativa, em bilhões de reais.
a is a s a s o s e a
DF
R. Centro-oeste

MS

MT

GO

PA
R. Norte

AM

Outros

SE
600km
R. Nordeste

PE

BA

Outros
R$ 50 bilhões
R$ 25 bilhões
SC R$10 bilhões
R$ 1 bilhão
R. Sul

PR

RS

* Somente os valores acima de R$ 0,01 bilhão


ES são representados.
R$ 50 bilhões
R. Sudeste

RJ R$ 25 bilhões
R$10 bilhões
MG R$ 1 bilhão

Labmundo, 2014
SP

Fonte: IBGE, 2013a

Apesar do receio econômico e político exemplo, a produção de aviões pela Como a maior parte dos investimen-
de uma possível desindustrialização, a Embraer. Grande parte das indústrias tos tem participação estatal, defendem
perda de participação da indústria no brasileiras são montadoras, importan- que os recursos (que são escassos) de-
total do PIB é uma tendência verifi- do as peças de maior tecnologia ao in- veriam ser concentrados em nichos
cada em diversos países das Américas, vés de desenvolver essa tecnologia em industriais mais competitivos, prete-
da África e da Europa. A exceção a essa território nacional. Por esse motivo, rindo algumas áreas menos eficientes.
tendência, além da China, são alguns embora não seja consenso, há uma
países africanos e asiáticos, que inicia- crescente demanda por parte dos eco- A produção industrial brasileira é con-
ram o seu processo de industrialização nomistas de planos que promovam a centrada em regiões mais dinâmi-
recentemente. Em termos absolutos, especialização do parque industrial e, cas do território nacional, agravando
fica evidente que o Brasil continua au- em alguns casos, de exigência de com- as disparidades econômicas espaciais.
mentando sua capacidade industrial. ponente nacional na cadeia produtiva. Apesar de alguns esforços do governo
O valor agregado da sua indústria é su- federal e de alguns estados, a indústria
perior à maioria dos países emergentes se concentra nas regiões Sul e Sudes-
e também comparável a países euro- PERDA DE PARTICIPAÇÃO INDUSTRIAL te, devido à proximidade do mercado
peus. Alguns setores se destacam nessa Evolução da participação da indústria no PIB, consumidor de maior poder aquisitivo
entre 1975 e 2010
produção, como a indústria de máqui- (inclusive do Mercosul) e à existência
nas e equipamentos elétricos, a farma- de infraestrutura de melhor qualidade.
cêutica e a automobilística. 20%

A desvantagem da produção industrial VEJA TAMBÉM:


15%
brasileira tem sido o pouco desenvol- Logística p. 32
vimento de produtos que demandem
Labmundo, 2014

Multinacionais brasileiras p. 70
produção de ponta. Apenas 10% do 10% Energia e infraestrutura p. 92
valor agregado industrial é relativo a 1980 1990 2000
Fontes: IBGE, 2013a; Sítio web do Ipeadata, 2013;
2010
Relações Norte-Sul p. 100
componentes de alta tecnologia - por Bonelli et al., 2013.

at l a s d a p o l í t i c a e x t e r n a b r a s i l e i r a 31
Logística e TRANSPORTES NO BRASIL
Rodovias, em 2013

desafios ao
desenvolvimento Rodovias

Rodovias
privatizadas

300 km
Um país que busca projeção interna- aos interesses estrangeiros, a organiza-
cional deve ter capacidades materiais e ção espacial do território que veio a ser Fontes: Ministério dos Transportes, 2014; ANTT, 2012
saber usá-las racionalmente. Por exem- do Brasil era muito semelhante a um
plo, a produção de minérios ou de bens arquipélago econômico: as regiões do Ferrovias, em 2013
manufaturados é um indicador impor- território pouco se comunicavam en-
tante para a economia de um Estado, tre si, pois a relação política e econômi-
mas a capacidade de escoar essa produ- ca mais importante era com a Europa.
ção (para a exportação ou para o mer- Com isso, os nichos dinâmicos da eco-
cado interno) repercute diretamente nomia se ligavam ao litoral, para escoar
na competitividade e na qualidade dos a produção, mas permaneciam desarti-
serviços. Uma infraestrutura de trans- culados. Essa lógica de inserção na eco-
portes, de telecomunicações (telefonia nomia mundial não foi subitamente
e internet) e de energia, por exemplo, alterada, mesmo com a independência,
pode trazer maior facilidade de gerir a o que contribuiu para a perpetuação
burocracia estatal, criar condições para das heranças dessa organização física
novos empreendimentos econômicos, de estradas e de portos que favorecia
promover a integração regional e ga- quase exclusivamente a exportação de 300 km

rantir o controle de todas as regiões do bens primários. Fonte: Ministério dos Transportes, 2014

território nacional. No caso do Brasil,


devido às dimensões continentais de No início do século XX, a ferrovia era Aeroportos, em 2013 (em milhões de passageiros)
seu território e ao déficit histórico de muito importante nesse processo de
investimento, a infraestrutura ainda é integração. Embora concentrada no li-
um desafio. toral e no Sul do território, a malha fer-
roviária representava um significativo
Até o final do século XIX, persistia o meio de deslocamento de pessoas e de
modelo econômico que fora imposto produtos. Ao longo da história brasi-
ao Brasil pela metrópole, baseado na leira, a ferrovia perdeu importância se
exportação de bens primários, neces- comparada a outros meios de transpor-
21,2
sários e complementares para o desen- te (aéreo e portuário). Essa redução do 13,2

volvimento das potências europeias. peso da ferrovia foi causada por uma 1,4

Nesse modelo, os países europeus im- decisão do governo brasileiro (incenti-


pediam a industrialização da colônia, vado por outros atores internacionais)
de modo a criar um mercado consu- de priorizar a rodovia. O processo de 300 km

midor para os seus produtos. Cabia interiorização dirigida pelo Estado Fonte: Sítio web da Infraero, 2012
às colônias, por sua vez, exportar seus teve seu começo com Getúlio Vargas,
produtos primários. Como resultado na década de 1930, mas teve seu ápi- Portos, em 2013 (valor da carga transportada,
dessa economia colonial subordinada ce na década de 1950, com o Plano de em bilhões de dólares)
Metas no governo de Juscelino Kubits-
chek. Havia o entendimento de que
TRANSPORTE DE CARGAS NO BRASIL era necessário aumentar massivamente
Distribuição por meio de transporte, em 2013
60% a rede de transporte em um curto perí-
odo de tempo. Em comparação com a
50%
ferrovia, o modelo rodoviário poderia
40% cumprir o objetivo de ligar as regiões
30%
brasileiras entre si em pouco tempo,
propiciando uma industrialização rá- 63,8
23,9
20%
pida, para atingir os níveis industriais 3,8
10% dos países europeus. Nesse sentido, a
Portos que
Labmundo, 2014

opção pelo modelo rodoviário tam-


Labmundo, 2014

transportam
bém passou por um cálculo que bus- menos de 1 bi.
io

r io

io

o
io

re
ár

ár

ár
á

cava industrializar o país. Junto com


vi

vi

vi
av
do

300 km
ro

to
u
r

Du
Aq
Ro

Fe

Fonte: CNT, 2013. tarifas alfandegárias protecionistas, a Fonte: Sítio web AliceWeb do MDIC, 2013

32 at l a s d a p o l í t i c a e x t e r n a b r a s i l e i r a
BRASIL, POTÊNCIA EMERGENTE?

RODOVIAS USUÁRIOS DE INTERNET NO MUNDO


Pavimentadas, em 2010 Em porcentagem da população, em 2012
Total
(% do total)
(em mil km)
6545 EUA

Reino
420 Unido

1028 França

137 Egito

0 25 50 75 100
367 Turquia

Labmundo, 2014
199 Irã Sem dados
disponíveis
1000 km
Fonte: Sítio web da base de dados do Banco Mundial, 2014
826 Austrália

372 México
Labmundo, 2014

substanciais para ampliar e melhorar a A opção rodoviária foi acompanhada


78 Chile qualidade da sua malha de transporte de um progressivo abandono de ou-
(não apenas a rodoviária). tros meios de transporte, aspecto que
1851 Brasil
demonstrou sinais de reversão somen-
0 20 40 60 80 100
Fonte: Sítio web da base de dados do Banco Mundial, 2014 Outra consequência negativa da op- te a partir do final do século XX, graças
ção rodoviária é o alto custo necessário aos investimentos em hidrovias e fer-
para a manutenção das estradas. Estas, rovias. A maior parte dos investimen-
garantia de um mercado consumidor comparadas às ferrovias, têm custo e tos em logística é feita pelo Estado ou
para veículos automotores atraiu as tempo de construção menor, mas ne- em parcerias público-privadas. Tam-
multinacionais do setor automobilís- cessitam de investimentos constantes e bém merece destaque a política go-
tico, que instalaram indústrias monta- robustos para a sua manutenção, uma vernamental de concessão de estradas
doras no Brasil. vez que o asfalto se deprecia mais ra- para a iniciativa privada, muito pre-
pidamente. Todos esses fatores soma- sente nos anos 1990 e 2000. Essa po-
O projeto original visava a conectar vá- dos constituem as principais causas do lítica é muitas vezes contestada, pois o
rias regiões do Brasil por meio de ro- que se convencionou chamar de “cus- investimento privado em logística não
dovias que cruzassem o país em vários to Brasil”. Esse fenômeno diz respeito parece acompanhar as necessidades do
sentidos e ligassem as diversas regiões aos altos gastos com transporte intrín- Brasil. Quase a totalidade das ferrovias,
à nova capital, Brasília. Apesar des- secos à produção e ao escoamento no por exemplo, está concedida à inicia-
se plano, muitas dessas estradas estão Brasil. Os investidores no país têm que tiva privada, mas ainda assim os seus
em estado precário ou ainda não fo- lidar com serviços de transporte len- usuários reclamam da ineficiência e da
ram construídas. O investimento mais tos, pouco eficientes e caros. Como a falta de investimento.
robusto continuou sendo na região manutenção das estradas nem sempre
mais dinâmica economicamente: o é feita do modo mais adequado, não O déficit em investimento no Brasil
centro-sul do país. Os meios de trans- é raro que ocorram acidentes e quebra também existe no âmbito tecnológi-
porte nessa região são superiores em de veículos, o que agrava ainda mais co. Serviços como telefonia e internet
qualidade e em quantidade, sobretu- os custos e atrasa a entrega dos bens. são bastante caros, ineficientes e, por-
do quando comparados as demais regi- Além disso, o Brasil torna-se muito tanto, objeto recorrente de reclamação
ões brasileiras. Também no centro-sul dependente do óleo diesel importado, dos consumidores. Em uma economia
é mais frequente a quantidade de con- um dos combustíveis mais usados para globalizada, esses tipos de serviço são
cessões de rodovias à iniciativa privada. o transporte de cargas no país. A neces- essenciais para as redes e as cadeias de
O Brasil ainda carece de investimentos sidade da importação desse combus- produção, mas também para o suces-
tível se deve à falta de capacidade das so de diversas atividades econômicas.
refinarias nacionais em produzir óleo Apesar dos altos custos e da baixa qua-
INVESTIMENTOS EM TRANSPORTE diesel em grande quantidade, a partir lidade desses serviços, alguns nichos
Entre 2011 e 2014, em bilhões de reais do petróleo produzido no Brasil. Ade- brasileiros continuam a se destacar. Os
50 mais não se trata de fonte energérica usuários de telefonia móvel e de inter-
limpa, embora seja estimulada a utili- net crescem em um ritmo bastante ace-
40 zação do biodíesel. lerado, o que faz com que o Brasil seja
um dos maiores mercados consumido-
30 res de serviços de telecomunicação e
PRIVATIZAÇÃO DO SISTEMA compras na internet.
20 Rodovias, em 2013 Ferrovias, em 2013

10 VEJA TAMBÉM:
Privatizadas Privatizadas
14.786 km 28.692 km Multinacionais brasileiras p. 70
Labmundo, 2014

Labmundo, 2014

Projetos de integração p. 82
as
as

as

s
to

rto

i
vi

vi

ov
r
do

ro

Po

po

Energia e infraestrutura p. 92
dr
r
Ro

Fe

ro

Hi

Total Total
Ae

1.584.402 km 30.129 km Relações Norte-Sul p. 100


Fonte: Ministério dos Transportes, 2014. Fonte: CNT, 2013.

at l a s d a p o l í t i c a e x t e r n a b r a s i l e i r a 33
Matriz energética CONSUMO TOTAL DE ENERGIA
Por setor, em 2012
Indústria

e meio ambiente
Transporte
Residencial
Alimentos
Setor energético
Papel e celulose
Agropecuário
Comercial
Cerâmica
Área pública
Têxtil

Labmundo, 2014
Outros
10% 20% 30%

Fonte: Empresa de Pesquisa Energética, 2012


A energia é uma das pautas mais estra- O consumo e a produção de energia
tégicas da política internacional. As são ambos estreitamente vinculados
tensões entre petróleo e geopolítica ao modelo de desenvolvimento, que comparativos, o Brasil possui a matriz
têm estado na origem de muitos con- pode ser mais ou menos destrutivo elétrica mais limpa do mundo: a hidro-
flitos entre países (por exemplo, no aos recursos ambientais e ecológicos. A eletricidade corresponde a aproxima-
Oriente Médio) e também têm in- energia pode ser entendida como um damente 84,5% da matriz. A indústria
fluenciado as grandes crises da econo- dos elos fundamentais da equação do é o setor que mais consome energia, se-
mia internacional (por exemplo, nos desenvolvimento. guido pelos transportes e pelo consu-
anos 1970). Os recursos energéticos mo residencial.
são fixos e têm localização precisa no No plano global e regional, os recursos
território soberano dos Estados. Isso energéticos fazem parte das relações Um relatório de 2013 da Agência In-
não significa que os interesses e os flu- econômicas e políticas internacio- ternacional de Energia, organismo
xos transnacionais estejam ausentes do nais. Atentos às volatilidades do preço vinculado à OCDE, aponta que os
debate, mas implica que grandes cor- do petróleo e às incertezas do abaste- combustíveis fósseis deverão continuar
porações tenham necessariamente de cimento, muitos países têm buscado dominando a matriz energética mun-
negociar com os Estados a fim de ter conquistar sua segurança energética, dial pelo menos até 2040. Além disso,
acesso a petróleo, gás e, mais recente- garantindo acesso aos recursos ener- a demanda por energia crescerá 56%
mente, combustíveis de menor im- géticos necessários para o desenvolvi- nos próximos 30 anos, em função do
pacto negativo sobre o meio ambiente mento nacional. Buscam, por exemplo, crescimento da China e dos emergen-
(hidroelétricas, biocombustíveis, etc.). reduzir as margens de incerteza e de- tes. Ainda segundo esse relatório, gra-
O debate sobre sustentabilidade am- pendência ao tentarem garantir maior ças à conscientização ecológica e às
biental fez com que as energias renová- produção no plano nacional e maior diferentes crises ambientais por que
veis, na atualidade, tenham adquirido integração energética no âmbito regio- passa o mundo (as mudanças climáti-
dimensão estratégica. Diversificar a nal. Não por acaso, uma das origens do cas e o aumento dos níveis dos oceanos,
matriz energética converteu-se, para processo de integração na Europa es- por exemplo), as fontes renováveis te-
os Estados, em resposta a demandas da teve associada à Comunidade Econô- rão um papel cada vez maior, crescen-
sociedade e em vantagem competitiva mica do Carvão e do Aço. Da mesma do 2,5 % ao ano.
no mercado energético internacional. forma, no caso da Unasul, a integração
de infraestruturas energéticas é con- Nesse contexto, o Brasil levaria alguma
Ademais, existe uma clara relação en- siderada estratégica para o futuro da vantagem, podendo despontar como
tre consumo de energia e crescimento região. uma potência em recursos energéti-
econômico: os países mais desenvol- cos considerados renováveis no futu-
vidos consomem muito mais energia No caso do Brasil, buscou-se essa segu- ro próximo. O Brasil possui expertise
do que os menos desenvolvidos. O rança por meio do processo de diver- em energias renováveis graças ao in-
consumo de energia é vital para a in- sificação da matriz energética, graças vestimento em pesquisa e tecnologia
dústria, para o desenvolvimento do aos diferentes recursos naturais de iniciado no Governo Vargas, na déca-
transporte, para a produção de alimen- que dispõe o país. A matriz energéti- da de 1930. Desde então a participação
tos, além do próprio consumo resi- ca brasileira é composta por 42,4% de das fontes renováveis na matriz ener-
dencial. É claro que existem variações energias renováveis, enquanto a média gética brasileira só tem aumentado. É
nacionais e locais quanto ao consumo mundial é 13,2%, segundo a Agência claro que a construção de grandes usi-
energético mais ou menos responsável. Internacional de Energia. Em termos nas hidroelétricas gera impacto social

DIVERSIFICAÇÃO DA MATRIZ ELÉTRICA


Distribuição por países e por fonte, em 2012 (em %)
80

60
40
Labmundo, 2014

20

Brasil Turquia Índia China México França Rússia EUA Alemanha Reino Unido África do Sul
Hidroeletricidade Combustíveis fósseis Nuclear Outras fontes (solar, geotérmica, eólica, etc.)
Fonte: CIA, 2013

34 at l a s d a p o l í t i c a e x t e r n a b r a s i l e i r a
BRASIL, POTÊNCIA EMERGENTE?

MERCADO DE ETANOL E CANA-DE-AÇÚCAR


Dados entre 2010 e 2012

Países
Coreia Reino Unido Baixos
do Sul 173 478
528
Japão EUA
436 888

Jamaica
Índia 327 Trinidad e
174 Tobago
157 Nigéria
138

Produção de
cana-de-açúcar
em 2012 (milhões
Exportação de etanol de toneladas)

Labmundo, 2014
pelo Brasil
entre 2010 e 2012 0,3 2 10 100
(milhões de dólares) Sem dados 1000 km
disponíveis
Fontes: FAO, 2012; SECEX, 2011

e ambiental, mas gera muito menos a comercialização e o uso dos bio- PRODUÇÃO DE CANA-DE-AÇÚCAR
Quantidade e variação da safra por estados
emissões de gases nocivos à atmosfera. combustíveis envolvem uma série de
É importante lembrar que todas as for- debates sobre a real sustentabilidade
mas de energia causam algum impacto associada a seu uso. Porém, o gover-
(ambiental, social) negativo. O funda- no brasileiro afirma oficialmente que
mental estaria na busca de equilíbrios a produção, principalmente de cana,
entre os ganhos e as perdas geradas. não causaria desmatamento na Ama-
zônia, apesar de pesquisadores mais
De acordo com a AIE, o Brasil ganha críticos afirmarem que a produção de
destaque na produção de biocombus- biocombustíveis poderia levar os pro- Aumento
tíveis. Juntamente com os EUA, será dutores a plantar alimentos no interior da produção
responsável por mais da metade da do Brasil ou na Amazônia, deixando as entre 1998 e 2012
- 63 %
oferta de biocombustíveis até 2040. A terras destinadas à produção de com- 300 km

produção no Brasil está voltada para bustível situadas preferencialmente no 0


Safra
dois segmentos: etanol e biodiesel. O litoral. Isso contribuiria para o aumen- + 100 %
+ 200 %
de 2012
(mil toneladas)
etanol é um biocombustível altamente to do preço dos alimentos. + 638 % 300.000
inflamável que pode ser obtido a par- Cultivo a partir
100.000
tir da cana-de-açúcar, do milho, da be- A aposta brasileira nos biocombustí- de 1999

Labmundo, 2014
Sem dados 10.000
terraba, da mandioca, da batata, entre veis e na hidroeletricidade pode ga- disponíveis
outras fontes. Já o biodiesel pode ser rantir ao Brasil autossuficiência em *A produção no período
em Santa Catarina é igual
definido como um combustível reno- consumo. Porém, com a descoberta Fonte: UNICA, 2013 a zero

vável derivado de óleos vegetais (gi- do pré-sal em 2007, a estratégia nacio-


rassol, mamona, soja, babaçu e outras nal tem-se pautado em transformar o
oleaginosas), além de matérias-pri- Brasil em importante ator no merca- petróleo são fundamentalmente polí-
mas alternativas como a gordura ani- do energético mundial. Partindo do ticas e econômicas, para se tornar um
mal ou óleos de frituras. A produção, pressuposto de que as negociações do exportador forte no ramo da energia, o
Brasil precisa estar preparado para en-
frentar os desafios da geopolítica ener-
ENERGIA E DESENVOLVIMENTO gética mundial. Além disso, precisa
Uso per capita de energia em kg de petróleo ou equivalente, em 2011
resolver problemas internos de infra-
estrutura, como armazenamento e es-
tocagem, investindo em pesquisas,
tecnologia e, ponto muito importan-
te e sensível, mão de obra qualificada.

VEJA TAMBÉM:
3.206 Multinacionais brasileiras p. 70
1.539 Projetos de integração p. 82
Labmundo, 2014

691 Energia e infraestrutura p. 92


0
Relações Norte-Sul p. 100
Sem dados 1000 km
disponíveis
Fonte: Banco Mundial, 2013.
at l a s d a p o l í t i c a e x t e r n a b r a s i l e i r a 35
Água: recurso Os principais conflitos se referem ao
controle das fontes de água potável,

vital e estratégico
mostrando que também nesse cam-
po as relações de poder se associam às
de distribuição desigual dos recursos.
Muitos países têm forte dependência
de água externa, importando mais da
metade do consumo interno (é o caso
da Bolívia, do Paraguai e do Uruguai
na América Latina). Nesse cenário, o
Brasil é uma potência hídrica, pelas
grandes reservas de água subterrânea
DISTRIBUIÇÃO DE ÁGUA NO MUNDO que possui (quase 13% de toda a água
Disponibilidade per capita de água potável, em milhares de metros cúbicos, em 2013 doce do planeta), pelas chuvas abun-
dantes em grande parte do território e
por ser um dos principais exportado-
res mundiais (o quarto, atrás de EUA,
China e Índia) do que se conhece
como “água virtual” ou pegada hídrica,
ao exportar produtos que demandam
533
70
muita água para sua produção, como
50 carne (produzir um quilo requer 15,5
30 mil litros), arroz (3 mil litros por quilo)
10 ou café (140 litros por xícara). Segun-

Labmundo, 2014
0
Sem dados do a Unesco, o Brasil exportaria indi-
1000 km
disponíveis retamente cerca de 112 trilhões de litros
de água doce por ano por meio de suas
Fonte: Sítio web da base de dados do Banco Mundial, 2013.
commodities. Em contexto de grande
escassez global, os recursos hídricos co-
locam o Brasil em lugar de destaque,
O estabelecimento da Década Inter- melhor gestão, uma exploração mais mas também exigem do Estado políti-
nacional da Água (2005-2015) pelas sustentável e um acesso mais igualitá- cas públicas responsáveis, interna e ex-
Nações Unidas revela a importância rio aos recursos hídricos. ternamente. Ao mesmo tempo em que
política e estratégica desse recurso. A o uso da água é fundamental na produ-
água é vital para a sobrevivência dos Dadas as características transnacionais ção de commodities (e para as exporta-
organismos vivos, para garantir níveis de grande parte das bacias – 19 paí- ções), é inegável sua relevância para a
de vida dígnos, para a economia e para ses dependem da bacia fluvial do Da- soberania alimentar e a sustentabilida-
o funcionamento dos ecossistemas. núbio, 13 do Congo, 11 do Nilo e 9 do de ambiental.
São muitos os campos direta ou indi- Amazonas, entre eles o Brasil –, trata-
retamente vinculados à água (saúde, se de um campo que gera importantes O consumo excessivo e descontrola-
saneamento, meio ambiente, diversi- conflitos, mas também interessantes do de água, acima da capacidade de re-
dade biológica, prevenção de desastres potencialidades e experiências de co- posição, prejudica muitas das grandes
ecológicos, agricultura e alimentação, operação. O Brasil, pelas suas caracte- bacias internacionais em todos os con-
contaminação, energia), sendo neces- rísticas e capacidades diplomáticas de tinentes, com grande impacto no nor-
sária uma ação coordenada para uma negociação em organismos multilate- te da África e no Oriente Médio. Nos
rais, poderia desempenhar um papel Estados Unidos e na Europa, princi-
muito relevante nessa agenda. pais consumidores mundiais de água
HIDROGRAFIA E FRONTEIRAS
Principais bacias hidrográficas brasileiras, em 2014
PRINCIPAIS BACIAS HIDROGRÁFICAS TRANSFRONTEIRIÇAS
Distribuição no mundo, em 2014
Atlântico
(Norte)

Atlântico
Amazônia (Nordeste)

Tocantins
São
Francisco
Atlântico
(Leste)
Paraná

Bacia internacional
com tratado
Uruguai Outras bacias
Atlântico
Labmundo, 2014

Labmundo, 2014

(Sudeste) 500 km internacionais

1000 km

Fontes: ANA, 2010; Sítio web da ISARM, 2014. Fonte: Oregon State University, 2014

36 at l a s d a p o l í t i c a e x t e r n a b r a s i l e i r a
BRASIL, POTÊNCIA EMERGENTE?

USO DA ÁGUA NO BRASIL ÁGUA POLUÍDA NO MUNDO


Usos não renováveis em 2012, por setor, em % Fluxo comercial de água poluída, em 2011
60

50

40

30

20

1000 km
10

Quantidade em
Labmundo, 2014

milhões de litros:
no

l
ia

ria

l
ra
ár

ba

Ru
st
cu

10 1 0 -1 -10 Valores máximos:


du
Ur

O mapa representa o fluxo comercial da Pegada Hídrica


pe

In

Japão: 20,9
ro

Cinza. Água “cinza” é o volume de água poluída associada


Ag

à produção de bens e serviços para indivíduos ou comu- Reino Unido: 11,5


déficit superávit
Fonte: ANA, 2012 importa poluição exporta poluição nidades. Durante a produção de um bem, uma parcela de Estados Unidos: 9,9
água é poluída. Por isso, todo produto é responsável pela

Labmundo, 2014
Sem dados
disponíveis poluição de uma quantidade de água. Se um país apresenta Valores mínimos:
déficit, significa que ele compra mais do que exporta produtos China: -53,6
que poluam a água. Caso o país apresente superávit, ele
em setores não agrícolas, a urbaniza- vende mais água poluída.
Rússia: -26,7
Índia: -16,5
ção e a industrialização crescentes têm Fonte: Water Footprint Network, 2014
forte impacto negativo. Isso sem con-
tar as consequências das mudanças
climáticas e da poluição, que causam A água representa uma dimensão es- saneamento básico provocam 2 mi-
importante declínio da quantidade sencial da segurança humana. No en- lhões de mortes por ano, mais do que
de água em regiões áridas e semiári- tanto, apesar de importantes avanços, os conflitos armados, além de produzir
das (Nordeste brasileiro), impactando um bilhão de pessoas ainda não têm fome e desnutrição, colocando em ris-
as colheitas, a alimentação e a pobre- acesso a abastecimento de água sufi- co a segurança alimentar. Isso sem es-
za. Vários estudos e encontros interna- ciente. Vivemos com o uso ineficien- quecer as inundações, que causam 15%
cionais têm denunciado o aumento de te, a poluição da água ou abuso das das mortes por desastres naturais. A
pessoas que vivem e dependem de ba- reservas subterrâneas. As doenças as- água limpa é vital para a sobrevivência
cias exploradas abusivamente. sociadas à falta de água potável e humana e do planeta, e sua proteção
faz parte dos Objetivos de Desenvol-
vimento Sustentável da Conferência
ACESSO À ÁGUA POTÁVEL E CONDIÇÕES SANITÁRIAS Rio+20.
Pessoas com abastecimento inadequado de água e de esgoto, entre 1991 e 2010 (em %)
1991 2000 2010 O mundo tem água suficiente para ga-
rantir segurança hídrica para todas as
sociedades. O desafio principal é a dis-
tribuição, que exige uma responsabi-
lidade coletiva e atuação articulada
entre os diversos atores estatais, priva-
dos e associativos para garantir o acesso
15 de forma sustentável a esse recurso. A
Labmundo, 2014

10 cooperação oferece interessantes opor-


600 km 600 km 600 km
5 tunidades para uma gestão integrada
Fonte: PNUD, 2013b. 0 de recursos hídricos e é de fato a opção
mais habitual de resolução dos confli-
tos. Existem 145 acordos sobre energia
CONTEXTO DOS RECURSOS HÍDRICOS NO BRASIL hidroelétrica, consumo, controle das
Demanda em junho Investimento previsto Desperdício total de água cheias, distribuição industrial, nave-
de 2010 (em m³/s) em abastecimento de água potável em 2010 (em %)
entre 2010 e 2015 gação, poluição e pesca. Apesar de ser
(em milhões de reais) potência hídrica, o Brasil tem grandes
desafios pela frente: assimetrias inter-
nas na distribuição e quanto ao aces-
so, uso inadequado e ineficiente, bem
como poluição dos rios e lagos.

VEJA TAMBÉM:
600 km 600 km 600 km
0 0 0 Minério e indústria extrativa p. 38
Labmundo, 2014

10 400 20% Multinacionais brasileiras p. 70


20 800 40% Organizações e movimentos sociais p. 72
30 1200 60%
100% Centros de pesquisa p. 78
Fonte: ANA, 2012

at l a s d a p o l í t i c a e x t e r n a b r a s i l e i r a 37
Minério e indústria De volta à formação geológica do ter-
ritório brasileiro, além dos escudos,

extrativa
também são encontradas bacias sedi-
mentares, continentais ou marítimas.
Com grande esforço e investimen-
to público a partir da década de 1930,
o Brasil passou a ser um importan-
te produtor de hidrocarbonetos. Ape-
sar disso, grande parte do gás natural
consumido no país é importado, prin-
cipalmente da Bolívia. As principais

Recursos minerais são fatores mate- como o nióbio. A produção brasileira INDÚSTRIA EXTRATIVA
riais clássicos da potência estatal. Tam- de nióbio se concentra em duas jazi- Produção das principais unidades federativas,
em 2013
bém são estratégicos para as economias das (uma em Minas Gerais e outra em M H M
ca idro m ine
m ine rb - et ra
nacionais no mundo todo. Os paí- Goiás), que representam aproximada- et ra
ál is
ico
on
et
ál is
ico n Ca
r
s ão vã
ses com minérios importantes têm mente 75% da produção mundial desse s os o

suas capacidades econômicas e políti- minério, sendo que há a estimativa de PR


cas aumentadas no tabuleiro mundial. que o Brasil detenha mais de 95% das

R. Sul
A autossuficiência em energia e maté- reservas mundiais. O nióbio é muito SC

rias-primas, por exemplo, diminui a utilizado na produção de metais mais RS


dependência de um Estado, tornan- leves e resistentes. As ligas metálicas

R. Centro-oeste
do-o mais livre para agir internacio- que contêm nióbio geralmente são uti- MS
nalmente. No caso de países que sejam lizadas na construção civil, em veículos
grandes exportadores de produtos es- automotores, em aeronaves, em veícu- GO

tratégicos, há um elemento político, los espaciais, etc. Apesar da importân- MA


além do fator econômico. O controle cia desse metal para diversos produtos

R. Nordeste
desses materiais pode, em última me- e do quase monopólio brasileiro, o SE
dida, influenciar a capacidade e o cus- preço internacional dele é considerado
RN
to do projeto de desenvolvimento de baixo. Esse fato gera a revolta de mui-
outros Estados, que se tornam sensí- tos especialistas, mas também há os BA
veis às decisões políticas do exporta- que afirmam que o aumento do preço
dor. Como demonstrou a Organização internacional somente iria incentivar a

R. Norte
AP
dos Países Exportadores de Petróleo produção de metais concorrentes, pois
PA
(OPEP), na década de 1970, a concen- o nióbio pode ser substituído por ou-
tração de um produto essencial para o tros metais. SP
desenvolvimento nas mãos de poucos
países pode se tornar um meio de obter

R. Sudeste
ES
conquistas políticas. EXPORTAÇÕES BRASILEIRAS
Em bilhões de dólares por ano, entre RJ
2007 e 2012
O Brasil está em uma situação con-
MG
fortável em relação às reservas mine- %
rais. Devido à sua posição na Pangeia e + 33
5,2
R$ 50 bilhões * Somente os valores
às intensas mudanças morfológicas ao Minério R$ 25 bilhões acima de 30 milhões de
reais são representados.
longo das eras geológicas, a estrutura de Ferro
+ 191
,1 R$10 bilhões

do território brasileiro pode ser consi- Óleos


R$ 1 bilhão

derada bastante diversificada. O Escu- combustíveis


%
do Brasileiro e o Escudo das Guianas + 187
,5 O mapa representa a quantidade
total de atividades extrativistas
R$ 50 bi
R$ 25 bi
são as duas formações geológicas mais Petróleo por unidade federativa. R$10 bi
R$ 1 bi
antigas que se encontram no territó- em bruto
9%
rio nacional e representam 36% dele. É + 127,
Semimanufaturados
nessas regiões que se concentra a maior de ferro

parte dos recursos minerais do Brasil.


É o caso, por exemplo, do ferro, que Alumínio - 4,7 %

pode ser encontrado principalmente Laminados


em Carajás (PA), no Quadrilátero Fer- planos
- 5,4 %

rífero (MG) e no Maciço do Urucum


(MS). O Brasil é um grande exporta- Gasolina

dor de ferro e tem como seus princi- 2007


pais mercados consumidores a China, 45 951,7 -8
8 ,3
o Japão, a Coreia do Sul e alguns países
Labmundo, 2014

30 000,0 %
Labmundo,2014

europeus. Além do ferro, o Brasil tam- 2 000,0

bém se destaca na extração de manga- 214,9


300 km

nês, cassiterita, bauxita e outros metais, Fonte: Sítio web AliceWeb do MDIC, 2013 2012 Fonte: IBGE, 2013b.

38 at l a s d a p o l í t i c a e x t e r n a b r a s i l e i r a
BRASIL, POTÊNCIA EMERGENTE?

áreas de prospecção de petróleo se situ- EXPORTAÇÃO BRASILEIRA DE FERRO E DE PETRÓLEO


am nas bacias sedimentares marítimas, Em bilhões de dólares, em 2012
Ferro Petróleo
o que fez com que o Brasil desenvol-
vesse tecnologia de ponta na extração
de petróleo em águas profundas. Essa
tecnologia contribuiu, também, para a
descoberta e, mais recentemente, para

Labmundo, 2014
a extração dos poços situados na região
do pré-sal. Apesar de ser considerado 1000 km 1000 km

de difícil prospecção (pois se situa em Fonte: Sítio web AliceWeb do MDIC, 2013 14,9 5,5 2,9 0,8

águas profundas e abaixo de diversas


camadas de rochas e de sal petrificado),
o petróleo nas Bacias de Tupi, de Iara LOCALIZAÇÃO CONHECIDA DOS MINERAIS
Em 2014
e arredores é de boa qualidade, e as re-
servas ultrapassam 33 bilhões de barris.
A descoberta desses campos de petró-
leo elevou significativamente a reserva
brasileira de hidrocarbonetos.
Diamante
Ouro Estanho
Carvão
O território brasileiro também é rico Titânio Alumínio Campo de
Hidrocarbonetos
em outros materiais estratégicos, como
Tupi

as areias monazíticas, nas quais se en- 600 km 600 km 600 km

contram minérios fundamentais para a


produção de energia nuclear. Por esse
motivo, o Brasil é membro do Nucle-
ar Suppliers Group (NSP), grupo de
países que são importantes exportado-
Níquel
res de materiais usados para finalidades Ferro Chumbo
Nióbio
nucleares. Devido à relevância estra- Alumínio Cobre
Manganês
tégica desses materiais, há um grande 600 km 600 km 600 km
controle por parte desse grupo de pa-
íses no que concerne ao comércio dos
produtos. Fazer parte do NSP significa
participar de decisões sobre esse tema
sensível na agenda internacional de
energia e de segurança. Tungstênio Berilo

Labmundo, 2014
Flúor
Urânio Calcário
A exploração econômica dos recursos Zinco
Fósforo
Sal
minerais também apresenta riscos eco- 600 km 600 km 600 km
lógicos e potenciais efeitos de degrada- Fontes: IBGE, 2013b; IBP, 2013; Ross, 1996; e DNPM, 2003
ção ambiental. A Serra do Navio, no
Amapá, é um exemplo notável de ma-
lefícios que a atividade extrativa pode
causar. O local, que era conhecido PRINCIPAIS PRODUTORES E DETENTORES DE RESERVAS DE PETRÓLEO
Produção, em 2013 (em milhões de barris/dia) Reservas, em 2013 (em bilhões de toneladas)
pela produção de manganês, foi aban- 10 8 6 4 2
Arábia
10 20 30 40
donado, pois a empresa que explora- 1° Saudita 2°

va o minério entendeu que a atividade 2° Rússia 8°

não era mais interessante economica- 3° EUA 11°

mente. Deixou como legado à comu- 4° China 14°

nidade uma enorme cratera e efeitos 5° Canadá 3°

comprometedores ao futuro de seu 6° Irã 4°


EAU
desenvolvimento. No caso do petró- 7° 7°
Kuaite
leo, a dependência excessiva pode gerar 8° 6°
Iraque
problemas econômicos (“doença ho- 9° 5°
México
landesa”), e sua extração em alto-mar 10° 17°
11° Venezuela
também apresenta riscos socioambien- 1°
12° Nigéria
tais e ecológicos. Brasil
10°
13° 15°
14° Catar 13°
15° Noruega 19°
VEJA TAMBÉM:
16° Angola 16°
Agronegócio p. 28 17° Cazaquistão 12°
Labmundo, 2014

Centros de pesquisa p. 78 18° Argélia 18°


Defesa e segurança p. 90 19° Líbia 9°
Agências econômicas mundiais p. 104 20° Reino 20°
Fonte: British Petroleum, 2013. Unido

at l a s d a p o l í t i c a e x t e r n a b r a s i l e i r a 39
Riqueza genética genética, mas também de proteção das
espécies nativas (e do conhecimento

e biodiversidade
coletivo a respeito de seu uso).

O Brasil sofre com práticas de biopi-


rataria e tráfico de animais silvestres. A
biopirataria é a exploração, manipula-
ção, exportação ou comercialização ir-
regular de recursos biológicos ou da
apropriação de conhecimentos tradi-
cionais associados oriundos de comu-
nidades indígenas e locais. O conceito
BIODIVERSIDADE NO MUNDO foi desenvolvido na Convenção sobre
Indicador de biodiversidade, em 2002 Diversidade Biológica, durante a Con-
ferência Eco-92, que definiu que os
países têm soberania sobre a biodiver-
sidade de seus territórios. O problema
afeta o país em vários setores, inclusi-
ve em sua soberania. Na busca por en-
frentar essa questão, foi criada em 2003
uma Comissão Parlamentar de Inqué-
rito exclusiva para o tema. Seu relató-
Sem dados
disponíveis
rio final indicava que o país perderia
mais de 5,7 bilhões de dólares por ano
com o tráfico ilegal de animais de sua
1000 km fauna e de conhecimentos tradicionais
0,50 Os dados indicam a diversidade e remédios de suas florestas.
Labmundo, 2014
Países Megadiversos 0,25 de espécies (mamíferos, aves, répteis,
anfíbios e plantas vasculares) e
0,10
Países Megadiversos Afins seu caráter endêmico. O tráfico de animais silvestres é, igual-
0,05 Somente considerados Estados
com mais de 5000 km2.
mente, um problema grave. Algumas
Fonte: Groombridge e Jenkins, 2002.
espécies podem valer mais de 60 mil
dólares no mercado internacional. A
ONU definiu a atividade como a ter-
O Brasil é um país de dimensões con- de pessoas; e a biomassa vegetal res- ceira atividade criminosa mais lucrati-
tinentais com grande diversidade de ponde por 30% da produção energé- va do mundo, somente atrás do tráfico
zonas climáticas e de biomas. O re- tica do país. Existe a expectativa de de drogas e armas. O impacto nos bio-
sultado disso é uma grande riqueza maiores benefícios econômicos oriun- mas pode ser muito grave: entre dez
em termos de fauna e de flora, que faz dos de patentes e de novas tecnologias aves capturadas no país para fins de co-
do país o mais biodiverso do mundo. com base no estudo de sua biodiversi- mércio irregular, somente uma ou duas
A biodiversidade tem papel de desta- dade. A preservação e a exploração sus- sobrevivem e chegam ao seu destino.
que na economia nacional: as exporta- tentável desse potencial passam por
ções agrícolas compõem mais de 30% grandes desafios, como o avanço no A apropriação de conhecimentos locais
do total exportado pelo país; ativida- conhecimento a respeito da fauna e ou a descoberta de substâncias tera-
des como extrativismo florestal e pes- da flora brasileiras. O panorama atual pêuticas de maneira irregular por par-
queiro empregam mais de 3 milhões é de subaproveitamento dessa riqueza te da indústria farmacêutica fez com o
que país perdesse o direito a patentes
de elementos originários de sua biodi-
UM PAÍS MEGADIVERSO versidade. Por exemplo, o laboratório
Dados de 2002
Espécies de anfibios Espécies de mamíferos Merck detém a patente do princípio
Brasil 798 México 491 ativo do jaborandi, planta amazônica,
Colômbia 714 RD Congo 450
Equador 467 Camarões 409
461 Brasil 394
Peru DESMATAMENTO NA AMAZÔNIA LEGAL
China 394 O Brasil possui
de 15 a 20% Em milhares de km2/ano, entre 1988 e 2012
Espécies de aves 30
Colômbia 1695
de todas as
Foi realizada
Peru 1538 espécies 25
uma média
para os anos
Indonésia 1519 de fauna e flora de 1993 e 1994.
Brasil 1492 do mundo

15
Espécies de plantas vasculares
Brasil 56.215
Colômbia 51.220
China 32.220 5
Labmundo, 2014
Labmundo, 2014

Indonésia 29.375
México 26.071
1988 1992 1996 2000 2004 2008 2012

Fonte: Groombridge e Jenkins, 2002. Fonte: INPE, 2013.

40 at l a s d a p o l í t i c a e x t e r n a b r a s i l e i r a
BRASIL, POTÊNCIA EMERGENTE?

para o combate à calvície e ao glauco- A ECONOMIA DA TERRA


Origem das espécies vegetais e animais economicamente relevantes para o Brasil (casos selecionados)
ma. O laboratório Squibb dos EUA se
aproveitou de conhecimento públi- Ásia
co divulgado pelo cientista brasileiro Equinos

Sérgio Henrique Ferreira sobre o vene- China


Ásia Menor
no da jararaca nos anos 1960 para criar soja
laranja
America Central e México
trigo
cacau
uma droga contra hipertensão até hoje Filipinas pinheiros África
comercializada. O pesquisador bra- Índia arroz capim
bovinos
sileiro publicamente já negou se tra- Nova-Guiné
cana-de-açúcar Etiópia
tar de um caso de biopirataria, mas o Brasil
café
abacaxi
exemplo evidencia a incapacidade do amendoim
país de tirar proveito de sua riqueza Austrália castanha do pará
mandioca

Labmundo, 2014
eucaliptos
biológica. caju
1000 km carnaúba

Muitas patentes de espécies brasileiras Fonte: MMA, 2006.

são registradas no exterior de modo ir-


regular. Ademais, nem sempre benefi-
ciam as comunidades locais detentoras Nacional de Unidades de Conservação. exploração madeireira, grilagem de
do conhecimento primário. O país ha- A biodiversidade marinha brasileira terras, avanço descontrolado da urba-
via se comprometido, na Convenção não é tão variada quanto a de outros nização ou mesmo da construção de
sobre Diversidade Biológica, a colo- países, mas ainda assim se estima que infraestruturas como barragens e estra-
car 10% de seus ecossistemas sob pro- o Brasil concentre cerca de 6% das es- das, o desmatamento produz desloca-
teção, mas até 2010 só tinha alcançado pécies existentes de invertebrados “não mentos forçados de comunidades, gera
a cifra de 1,5%. Ainda assim, a meta de insetos”, a maioria dos quais vive no poluição, permite a invasão de espécies
colocar 30% da Amazônia sob algu- mar. exóticas sobre a flora nativa e contribui
ma forma de proteção legal foi supera- para o aquecimento global. O país tem
da, tendo alcançado o total de 40% da Outro potencial pouco explorado no conseguido manter uma tendência de-
região. Um dos biomas menos prote- país é o consumo de peixes. O consu- clinante das taxas de desmatamento na
gidos por força de lei e menos conheci- mo desse alimento fica abaixo do valor Amazônia (área mais vigiada) desde
dos pelos cientistas é o mar, já definido sugerido pela FAO (12kg). O consumo 2004. No final de 2013, houve uma re-
pelo Ministério do Meio Ambiente anual per capita foi de 11,17 kg em 2011, versão dessa tendência, com o aumen-
como “a grande lacuna” do Sistema um recorde histórico, que significou to da taxa para 28%, embora esta tenha
aumento de 23,7% em relação aos dois sido a segunda menor média anual
anos anteriores. Parte desse progres- desde 1993. O Brasil tem enfrentado os
BIOPIRATARIA E TRÁFICO DE ESPÉCIES so é indicado como fruto das ações do desafios domésticos do desmatamen-
Valor por espécie no mercado internacional, em
2003 (em milhares de dólares)
Ministério da Pesca, secretaria especial to e da degradação ambiental, buscan-
Colecionadores particulares e zoológicos
criada em 2003 que se tornou ministé- do contribuir, no plano internacional,
Arara-azul-de-lear
rio em 2009. Apesar do consumo mo- para as negociações sobre mudanças
Harpia
desto, pesquisa realizada pelo governo climáticas (princípio das responsabili-
Mico-leão-dourado
federal entre 1995 e 2006 indicou que dades comuns mas diferenciadas).
cerca de 80% das espécies pescadas co-
Jaguatirica
mercialmente eram exploradas plena-
Fins científicos mente ou em demasia, colocando em FLORESTAS
1g de veneno - Coral verdadeira risco o consumo de longo prazo. Países com as maiores áreas de florestas, em 2010
(em milhões de hectares)
1g de veneno - Aranha marrom
Rússia 809
Jararaca-ilhoa No âmbito multilateral, a importân-
Brasil 520
1g de veneno - Escorpião cia da riqueza genética e ambiental do
Canadá 310
Algumas espécies de besouro Brasil para o mundo e seu ativismo na
EUA 304
Surucucu-pico-de-jaca diplomacia ambiental colocam o país
China 207
Animais de estimação como um ator-chave nos debates e nas
R. D. Congo 154
Sagui-da-cara-branca
negociações. O Itamaraty e o Ministé-
Austrália 149
Arara-vermelha
rio do Meio Ambiente participam de
Indonésia
Teiús
fóruns multilaterais a respeito da bio- 94

diversidade, como o grupo dos Países Sudão 70


Labmundo, 2014

Tucano-toco
Megadiversos Afins, que se organizou Índia 68
Jibóia
como mecanismo de consulta e coo- Outros 1.347

5 20 60 peração em torno dos interesses e das Fonte: FAO, 2010.


prioridades dos países membros em re-
lação à conservação e utilização susten-
Espécies brasileiras patenteadas no exterior*
tável da diversidade biológica. VEJA TAMBÉM:
Açaí Cupuaçu
Andiroba Espinheira Santa Agronegócio p. 28
Um dos graves problemas ambien-
Labmundo, 2014

Ayahuasca Jaborandi Centros de pesquisa p. 78


Copaíba Veneno da jararaca tais enfrentados pelo país é o desma- Sistema ONU p. 102
*essas patentes já foram revertidas tamento. Fruto de conversão de terras Cooperação Sul-Sul p. 112
Fontes: Sarney Filho, 2003; RENCTAS, 2001. para a agricultura, atividade pecuária,

at l a s d a p o l í t i c a e x t e r n a b r a s i l e i r a 41
População 44 milhões de habitantes), seguido de
Minas Gerais (20 milhões) e Rio de

e diversidade
Janeiro (16 milhões). No outro extre-
mo, o Norte tem uma densidade de
4,12 hab/km2, sendo Roraima o estado
menos povoado, com apenas 500.000
habitantes. Também cresce a concen-
tração urbana, cuja população repre-
senta 84,9% do total. Essa urbanização
relaciona-se, entre outros, com o sur-
gimento de megacidades como São
Paulo (com mais de 23 milhões de ha-
bitantes, é a 7ª cidade mais populosa
Com uma população que supera os distribuição geográfica dessa popula- do mundo) ou Rio de Janeiro (com
200 milhões de habitantes, segundo o ção é bastante desigual. Há uma forte 13,6 milhões).
IBGE, o Brasil é o 5º país mais popu- concentração no sudeste, onde a den-
loso do mundo. Com uma densidade sidade atinge 87 hab/km2: São Paulo Em relação à composição dessa popu-
relativamente baixa (22,4 hab/km2), a é o Estado mais populoso (com quase lação, a melhoria da expectativa média
de vida (de 69,8 anos em 2000 para
74,8 em 2013) e a queda da taxa de fe-
DEMOGRAFIA BRASILEIRA cundidade (de 2,4 filhos por mulher
Densidade demográfica, em 2010 População urbana, em 2010 (em milhões de pessoas)

GRANDES AGLOMERAÇÕES URBANAS


Evolução de grandes aglomerações urbanas, entre
1950 e 2050
1950 2010 2050*
Tóquio (Japão)
38,66 mi

40 Nova Délhi
444
(Índia)
100 14 32,94 mi
50 8
10 2 Xangai (China)
28,40 mi
0 0 11,27 mi

Mumbai (Índia)
300 km 300 km 26,56 mi

1,37 mi
Cidade do
México (México)
População rural, em 2010 (em milhões de pessoas) População rural, em 2010 (em %) 24,58 mi
5 15 25 35 4,3 mi
MA
PI
PA 2,86 mi Nova York (EUA)
23,57 mi
BA
AC São Paulo
SE 2,88 mi (Brasil)
RO 23,17 mi
AL 12,34 mi Dacca
CE (Bangladesh)
4 PB 22,91 mi
2 RR
RN Pequim (China)
1
TO 22,63 mi
0,5 AM
0 PE 2,33 mi
MT
ES Karashi
SC Paquistão)
RS 0,34 mi
20,19 mi
300 km MG
PR Calcutá (Índia)
MS 18,71 mi
AP 1,67 mi
GO
SP Manila (Filipinas)
DF 16,28 mi
1,06 mi
População por gênero e faixa etária, RJ
em 2010 (em milhões de pessoas) > 80
75 a 79 4,51 mi Los Angeles
70 a 74
65 a 69 (EUA)
15,69 mi
60 a 64
55 a 59 Buenos Aires
50 a 54
45 a 49 1,54 mi (Argentina)
40 a 44 15,52 mi
35 a 39 Rio de Janeiro
30 a 34 4,05 mi
25 a 29 (Brasil)
20 a 24 13,62 mi
15 a 19 5,10 mi
10 a 14
Labmundo, 2014
Labmundo, 2014

5a9
1a4 *Para os dados de 2050,
<1 foram consideradas
8 6 4 2 2 4 6 8 2,95 mi as projeções médias feitas
Homens Mulheres pela ONU
Fonte: IBGE, 2010b. Fonte: ONU, 2013a
42 at l a s d a p o l í t i c a e x t e r n a b r a s i l e i r a
BRASIL, POTÊNCIA EMERGENTE?

em 2000 a 1,8 em 2013) antecipam o CLASSES SOCIAIS NAS REGIÕES BRASILEIRAS


cenário de envelhecimento da popu- Número de habitantes por classe social nas regiões do Brasil, em 2009
lação, hoje ainda relativamente jovem Regiões
(população em milhões)
(“bônus demográfico”). Quanto à cor
da pele, 47% se autodeclaram brancos, Norte
Classe Social
majoritários no Sul e no Sudeste (55% 12,4
e 78% da população, respectivamen-
te), 43% pardos (majoritários no Norte
e no Nordeste), 7% pretos e 0,4% indí-
Centro-Oeste
genas (concentrados no Norte).
13,9
AB
Essa composição encontra suas origens
nos fluxos migratórios que configura-
ram historicamente a população bra-
sileira. Durante muito tempo o Brasil Sul
foi considerado um país de imigração. 27,7

Aqui foram chegando os colonizadores


portugueses, os escravos africanos ví- C
timas do tráfico negreiro, os migran-
tes vindos do Velho Mundo no final
do século XIX (principalmente traba-
lhadores portugueses e italianos, segui- Nordeste
dos de espanhóis, alemães, japoneses e 53,9
sírio-libaneses, entre outros), mudan-
do a fisionomia de várias regiões, que
hoje mostram a herança cultural des- D
ses fluxos. Diante dessas tendências no
passado, hoje os dados revelam uma
proporção de imigrantes de apenas
0,4% (diante de 0,7% de emigrantes),
e isso apesar de relativo aumento dos
fluxos mais recentes. Sudeste
E

80,3
A população brasileira ainda sofre com
Quantidade de indivíduos
vários problemas associados às desi-
gualdades sociais (tais como acesso à

Labmundo, 2014
10 milhões
educação, trabalho digno e saúde) e
às várias formas de discriminação, que 1 milhão
aos poucos vão sendo enfrentados. A Fonte: CPS/FGV, 2014.
distribuição das classes sociais está mu-
dando, com uma importante amplia-
ção da classe C, que ganhou, em uma No entanto, essa nova classe C en- um escasso nível de satisfação cidadã
década, quase 30 milhões de pesso- frenta desafios, como o alto nível de com a saúde (só 44% dos brasileiros
as oriundas da classe D. Segundo da- endividamento e problemas no aces- se declararam satisfeitos), a educação
dos da Fundação Getulio Vargas, a so a serviços básicos, mostrando os (53,7%) ou a segurança (40%). Reivin-
classe C representaria 52% da popula- limites de uma concepção da cidada- dicações de ampliação de direitos ocu-
ção, diante de 28% pertencente à clas- nia baseada só no nível de renda e de param as ruas a partir de junho de 2013,
se baixa. consumo. Dados do PNUD mostram com demandas de melhorias no trans-
porte, na habitação (7% da popula-
ção urbana mora em assentamentos
IMIGRANTES NO BRASIL precários, colocando em risco o direi-
Quantidade total de imigrantes vivendo no Brasil, em 2010 (em milhares de pessoas) to à moradia), na saúde (há apenas 1,7
médicos por cada 1000 habitantes, si-
tuação agravada nas áreas rurais) e na
s
se
s educação (apesar dos avanços na ma-
e

Japoneses

trícula, muito ainda deve ser feito para


e
gu
Ale
rtu

melhorar a qualidade).
Po

Co
rea
nos
ó is
nh
pa

VEJA TAMBÉM:
Es

s
no

s l
ia

Bolivianos
Chileno

Ita Diversidade cultural p. 24


Labmundo, 2014

Paraguaios
Pobreza e desigualdade p. 44
os

U r u u ai Redes sociais e integração regional p. 96


g
os

17,24 55,37 214,51 1000 km


A r g e n ti n Cooperção Sul-Sul p. 112
Fonte: Banco Mundial, 2011.

at l a s d a p o l í t i c a e x t e r n a b r a s i l e i r a 43
Pobreza e tendo na reconfiguração da paisagem
do desenvolvimento mundial, com

desigualdade
políticas que unem crescimento eco-
nômico e desenvolvimento humano
(que inclui a educação, a saúde, a ren-
da e o emprego).

Apesar dos avanços, 8,9 milhões de


brasileiros ainda sofrem da extrema
pobreza, e as desigualdades internas
continuam sendo muito importantes
entre regiões (há cinco vezes mais po-
bres no Nordeste do que no Sul), zonas
A luta contra a pobreza tem ocupado o York, no caso de seu programa Oppor- rurais e urbanas (a pobreza rural é três
centro das agendas da cooperação para tunity NYC: Family Rewards), além vezes maior do que a urbana) e grupos
o desenvolvimento desde a adoção dos de modelos para organismos interna- raciais (68% das pessoas que vivem em
Objetivos de Desenvolvimento do Mi- cionais como a FAO e o PNUD. Este situação de pobreza extrema são ne-
lênio (ODM) no ano 2000. Essa agen- último de fato ressaltou a ascensão do gros ou pardos, diante de 28% bran-
da permitiu importantes avanços na Sul no seu relatório de 2013, mostran- cos). Um dos grandes desafios do país
diminuição da pobreza, mas os dados do a importância que potências emer- continua sendo a diminuição das múl-
ainda são preocupantes, com 1,4 bi- gentes como o Brasil, a China, a África tiplas desigualdades para garantir um
lhão de pessoas vivendo em extrema do Sul ou a Índia, entre outros, estão nível de vida digno para todos.
pobreza (ou seja, com menos de 1,25
dólares por dia) nas regiões em desen-
volvimento, a maioria na África sub- DESENVOLVIMENTO HUMANO E DESIGUALDADES
Valores de Gini de 2010 e IDH de 2013 Austrália Irlanda
saariana e na Ásia meridional. A fome Itália Suíça
desenvolvimento humano elevado

Alemanha
continua sendo um problema global, *Nem todos os países estão representados; Israel
Canadá
Bélgica Noruega
Estados
especialmente para essas regiões, agra- IDH e Índice de Gini disponíveis para 135 Geórgia Unidos Suécia
Argentina
vado nos últimos tempos pelo impac- países exibidos.
Costa Rica Uruguai Nova Zelândia
to da crise financeira e do aumento do Chile Malásia Espanha
Finlândia
Áustria
Panamá
preço dos alimentos: 850 milhões de Equador Qatar Grécia Eslovénia
Luxemburgo
Estónia Polônia
pessoas ainda sofrem de nutrição insu- Venezuela
República Dominicana
Lituânia Hungria Quirguistão
ficiente, o que demonstra os limites de 0,8 Jamaica
Rússia Letônia Croácia
um mercado dominado pelas diretri- México
China Roménia
Bielorrússia
Bulgária
Colômbia
zes do agronegócio em detrimento da Bolívia Brasil Irã Albânia
Bósnia
Sérvia
Peru 

soberania alimentar. Nas outras áreas 


 
 Ucrânia
Paraguai Jordânia
contempladas pelos ODM (educação, Honduras
Cazaquistão
Arménia
El Salvador
saúde, igualdade de gênero, etc.), tam- Micronésia
Turquia Azerbaijão

Egito
bém houve melhorias, mas ainda in- Srilanca
Tunísia
Filipinas Síria Moldávia
Tajiquistão
suficientes, mostrando que os avanços Tailândia
Gabão Palestina Indonésia
África do Sul
foram afetados pela crise e se distribu- 0,6 Namíbia Mongólia Vietnã
Iraque
Nicarágua
IDH

íram de forma desigual entre regiões e Guatemala


Cabo Verde Marrocos Timor Leste
Suazilândia Gana Índia
países, e no interior destes (com fortes São Tomé e Príncipe
Uzbequistão
diferenças de gênero, raça, regionais, e Congo Quirguizistão Bangladeshe Paquistão
Camboja
entre as áreas rurais e urbanas). Angola Quênia
Lesoto
Haiti
Nigéria
Nepal
No Brasil, os avanços no cumprimen- Togo
to dos ODM têm sido ressaltados no Laos
0,4 Etiópia
mundo todo, principalmente no que Gâmbia
Madagáscar
Senegal
Djibouti Sudão Afeganistão
se refere à extrema pobreza (a porcen- Zâmbia
Ruanda Uganda
baixo desenvolvimento humano

tagem da população vivendo em extre- República Centro-África Mauritânia


Costa do Marfim
ma pobreza passou de 25,6% em 1990 Guiné Bissau
Burundi
a 4,8% em 2008) e à luta contra a fome Moçambique Serra Leoa Camarões Mali
(diminuindo a porcentagem de crian- República do Congo
Burquina Faso
Lituânia
Iémen Níger
ças com peso abaixo do esperado para Chade Benin
Malaui
Guiné
a sua idade de 4,2 em 1996 para 1,8% Libéria

em 2006). Os resultados obtidos pelos 60 50 40 30


programas governamentais Bolsa Fa- desigualdades Índice de Gini desigualdades
mília e Fome Zero os converteram em altas baixas

referências internacionais, sendo um América do Sul Oceania África População dos Estados, 2007
(em milhões de habitantes)
dos focos centrais da cooperação Sul– América do Norte Europa Ásia
250
Labmundo, 2014

Sul brasileira, mas também uma práti- 100


América Central e Caribe
ca institucional que inspira programas
de transferência de renda (inclusive 10
para cidades do Norte, como Nova Fonte: PNUD, 2013a

44 at l a s d a p o l í t i c a e x t e r n a b r a s i l e i r a
BRASIL, POTÊNCIA EMERGENTE?

POBREZA E BOLSA FAMÍLIA INDICADORES SOCIAIS NO BRASIL E NO MUNDO


Bolsa família por região, em milhões IDH no mundo, em 2013 IDH nos municípios brasileiros, em 2013
de famílias contempladas 7
entre 2004 e 2014 O índice varia de 0 a 1
0,30 0,54 0,71 0,81 0,96
6

Sem dados
5 disponíveis

1000 km 250 km
3
Fonte: PNUD, 2013a. Fonte: PNUD, 2013b.

Expectativa de vida no mundo, em 2013 Expectativa de vida nos municípios brasileiros,


1 em 2013
Em anos
48,1 67,4 73,2 76,7 83,6
04
05
06
07
08
09
10
11
12
13
14
20
20
20
20
20
20
20
20
20
20
20

R. Nordeste R. Sudeste R. Sul Sem dados


R. Norte R. Centro-Oeste disponíveis
Fonte: MDS, 2014

1000 km 250 km
Evolução da pobreza, em milhares de pessoas
Fonte: PNUD, 2013a. Fonte: PNUD, 2013b.
40

Gini no mundo, em 2013 Gini nos municípios brasileiros, em 2013

30 O índice varia de 0 a 1
0,23 0,32 0,39 0,46 0,80

Sem dados
20 disponíveis
Labmundo, 2014

10
1000 km 250 km

Fonte: CIA,2013. Fonte: PNUD, 2013b

Escolaridade no mundo, em 2013 Escolaridade nos municípios brasileiros, em 2013


20 1
02

20 3
04

20 5
20 6
20 7
20 8
20 9
20 0
11
0

0
0
0
0
0
1
20

20

20

Quantidade de moradores com renda domiciliar per capita:  Média de anos de


R$ 0 a 70 R$ 70,01 a 140 R$ 0 a 140 frequência escolar
1,2 5,3 8,2 10,1 13,3
Fonte: MDS, 2014
Sem dados
disponíveis

Essa é uma pequena amostra das limi-


tações de uma agenda internacional
focada quase exclusivamente na re- 1000 km 250 km

dução da pobreza e nos programas de Fonte: PNUD, 2013a. Fonte: PNUD, 2013b

crescimento econômico. Essa concep-


ção tende a desconsiderar os processos Homicídios no mundo, em 2013 Homicídios nos municípios brasileiros, em 2013
contraditórios e complexos do desen-
Homicídios por 100 mil habitantes
volvimento, além de excluir do de- 0 9 18 30 139,5
bate questões-chave para a melhoria
das condições dos cidadãos. Aspectos Sem dados
disponíveis
como a reprodução sistêmica das desi-
gualdades, a garantia universal dos di-
reitos humanos, a participação social
Labmundo, 2014

e inclusiva nas deliberações democrá- 1000 km 250 km

ticas ou ainda a dimensão estrutural


das responsabilidades comuns e dife- Fonte: UNODC, 2013. Fonte: Waiselfisz, 2014.
renciadas para a construção de relações
mais equitativas entre as nações, entre
outros, estão frequentemente ausentes responsabilidades compartilhadas en- VEJA TAMBÉM:
dessa agenda. Entender o desenvolvi- tre os países do Norte e do Sul, é uma População e diversidade p. 42
mento como a realização dos direitos das propostas com mais força nos de- Ação internacional dos estados p. 66
humanos, superando os limites da vi- bates das redes e dos movimentos in- Multinacionais brasileiras p. 70
são estreita associada às necessidades ternacionais para a definição de uma Cooperção Sul-Sul p. 112
básicas e enfatizando a visão global de agenda de desenvolvimento pós-2015.

at l a s d a p o l í t i c a e x t e r n a b r a s i l e i r a 45
Segurança golpes de 1930 e 1937 e do golpe que
instaurou a ditadura em 1964. Mes-

e política
mo assim, devido a condições inter-
nas e externas, consolidou-se no Brasil
a imagem de um país pacífico, que uti-
liza sobretudo a diplomacia como es-

de defesa
tratégia de negociação internacional e
resolução dos conflitos. Principalmen-
te após o golpe de 1964, desenvolveu-
se uma concepção segundo a qual as
Forças Armadas responderiam a pro-
blemas internos e não externos. A or-
BRASIL NAS MISSÕES DE PAZ DA ONU dem da Guerra Fria acrescentou a esse
Contingente de brasileiros no total das missões de paz, em julho de 2013 marco interpretativo condicionantes
Haiti externos, relativos à ameaça comunista
MINUSTAH 1408
e à segurança no continente america-
Líbano 260
UNIFIL
UNIFIL
UNFICYP
no. O externo e o interno convergiam
Sudão do Sul 14 MINUSTAH
MINURSO
em um movimento associado, graças
UNMISS
à doutrina da Guerra Fria elaborada
UNISFA
Saara Ocidental 10
MINURSO no meio estratégico dos EUA. A defe-
Costa do Marfim 7 sa como política nacional renasceu no
UNOCI Efetivo total
Brasil de modo mais relevante somen-
Efetivo brasileiro UNMIL
Libéria
UNMIL 4 UNOCI
UNMISS
te no período de redemocratização do
10 585
Abiey* Estado.
UNISFA 4 1000

Labmundo, 2014
Chipre
UNFICYP 1 1
*Cidade disputada na fronteira
do Sudão com Sudão do Sul 1000 km Ao final do século XX e início do XXI,
algumas mudanças ocorreram no cam-
Fontes: ONU, 2013b; Sítio web da ONU – Manutenção da Paz, 2014
po político e institucional da defe-
sa nacional. Com a transição política
na década de 1980 que pôs fim ao re-
A política de defesa diz respeito à pro- potenciais ou manifestas. O diagnós- gime militar e permitiu o desenho da
teção da soberania e à integridade ter- tico sobre as ameaças também consta nova Constituição em 1988, e, sobre-
ritorial, mas também à projeção dos dos mesmos documentos oficiais. tudo, com a criação do Ministério da
interesses nacionais no campo da segu- Defesa em 1999, a função das Forças
rança regional e coletiva. No caso do Defender a soberania no plano inter- Armadas foi alterada: ganharam aten-
Brasil, como indica o quadro apresen- nacional implica, quando necessário, o ção os temas internacionais e regionais
tando os principais documentos ofi- uso de aparato bélico e, para tanto, re- e se intensificou a projeção do Bra-
ciais, a defesa nacional é definida como sulta na aposta atual de investir em tec- sil em missões de paz. Se o Brasil aspi-
o conjunto de medidas e ações do Esta- nologias mais inovadoras e modernizar rasse a postos de coordenação política
do, com ênfase no campo militar, para recursos humanos. No Brasil, há um no plano sistêmico, deveria demons-
a proteção do território, da soberania longo histórico de atuação dos milita- trar compromisso com a estabilidade
e dos interesses nacionais contra ame- res na vida política, a exemplo da pro- regional e internacional. O Brasil pas-
aças preponderantemente externas, clamação da República em 1889, dos sou a mobilizar mais recursos (huma-
nos, financeiros e políticos) no seio das
operações de paz das Nações Unidas.
PRINCIPAIS PAÍSES EXPORTADORES DE ARMAS Desde então, houve constante aumen-
Valores absolutos em bilhões de dólares e valores per capita, em 2012
to orçamentário reservado ao campo
da defesa no Brasil. Isso pode ser ob-
8,760

8
servado, por exemplo, no gráfico de or-
8,003

7 çamentos militares no mundo, em que


6 se percebe claramente que esse setor
obteve um crescimento nos montan-
5 Valores
per capita: tes destinados pelo governo brasileiro
100
4
50 à defesa. Também ocorreram inova-
3 10 ções quanto a parcerias com o segmen-
5 to empresarial (Embraer, Odebrecht),
2 1
0
Sem dados que passou a investir em defesa e tec-
1,783

disponíveis 1000 km
1 nologia militar.
0,5

Além disso, merece destaque a publica-


Canadá
EUA
Rússia
China
Ucrânia
Alemanha
França
Reino Unido
Itália
Holanda
Espanha
Israel
Suécia

Suíça
Uzbequistão

Noruega
África do Sul
Polônia
Romênia
Chile
Cingapura
Austrália
Nova Zelândia
Finlândia
Bielorrússia
Turquia
Brasil
Líbia

Labmundo, 2014 Irlanda


Coreia do Norte

ção da Política de Defesa Nacional em


1996 e da Estratégia Nacional de De-
fesa em 2008. Esses dois documentos,
Os dados representam os valores de 2012, com exceção de Chile (2008), Coreia do Norte (2009), Líbia (2010),
Bielorrússia (2011) e Uzbequistão (2011).
sobretudo o segundo, apresentam defi-
Fontes: SIPRI, 2014a; Sítio web da base de dados do Banco Mundial, 2014. nições importantes sobre a função das

46 at l a s d a p o l í t i c a e x t e r n a b r a s i l e i r a
BRASIL, POTÊNCIA EMERGENTE?

DOCUMENTOS SOBRE DEFESA NO BRASIL


Documento Ano Objetivos Centrais Meios de Execução Principais Definições
Garantir a soberania nacional e a integridade Intensificação dos processos de regionalização e Segurança: condição em que o Estado, a sociedade
territorial cooperação com os países da América do Sul e da ou os indivíduos se sentem livres de riscos, pressões
Costa Africana ou ameaças externas
Contribuir com a estabilidade regional
Criação de órgãos regionais e multilaterais de Defesa: é o conjunto de ações do Estado, função dos
Contribuir para a manutenção da paz e segurança resolução de controvérsias militares, para a defesa do território, da soberania e
Política de 1996 internacionais dos interesses nacionais
Defesa a Integração das Bases Industriais de Defesa
Nacional 2005 Intensificar a projeção do Brasil Ambiente internacional: complexo, pós-bipolar,
Reformas nas organizações internacionais visando a globalizado, caracterizado pelas novas ameaças
Manter as Forças Armadas modernas e integradas sua maior legitimidade (terrorismo, crimes transfronteiriços)

Desenvolver a indústria de defesa nacional, visando à


autonomia no setor
Visa à reorganização e reorientação das Forças Dissuadir forças hostis Brasil como país pacífico por tradição e convicção
Armadas, da organização da Base Industrial de Defesa
e da política de composição dos efetivos da Marinha, Organizar as Forças Armadas sob o trinômio Projeto de ascensão ao cenário internacional, sem
do Exército e da Aeronáutica, contribuindo para monitoramento, mobilidade e presença buscar hegemonia
fortalecer o papel cada vez maior do Brasil no plano
internacional Fortalecer setores estratégicos: cibernético, nuclear e Nexo inextricável entre Defesa e Desenvolvimento
espacial
Estratégia 2008
Nacional de a Adensar presença nas fronteiras e priorizar a região
Defesa 2012 amazônica

Labmundo, 2014
Estimular a integração da América do Sul e preparar
as Forças Armadas para agirem em missões da ONU

Capacitar a Base Industrial de Defesa para desenvolver


autonomia tecnológica

Fonte: Ministério da Defesa, 2012.

Forças Armadas e uma nova compre- ações humanitárias organizadas e ge- Entraves e dificuldades na política
ensão do sistema internacional, exi- ridas pelas Nações Unidas. As Missões de desenvolvimento industrial mili-
gindo do Brasil uma ação diferente no de Paz da ONU são inclusive defendi- tar nacional e regional, baixa inserção
preparo de suas Forças Armadas. Por das na END do Brasil. Ou seja, uma no mercado militar mundial, sucatea-
exemplo, a PDN apresenta um siste- das funções de nossas Forças Armadas mento da tropa e dos recursos milita-
ma internacional permeado por ‘novas passou a ser participar e liderar essas res (armas, aviões, navios, artilharia e
ameaças’, como o narcotráfico, o terro- ações da ONU como meio de inten- demais itens), baixo interesse do setor
rismo, os crimes cibernéticos a biopi- sificar a participação brasileira no pla- público e congressual (“assunto de De-
rataria e outros. no internacional, contribuindo para o fesa não dá voto”) são somente alguns
aumento da influência do Brasil exter- dos problemas que o Brasil precisa en-
A partir daí, as Forças Armadas assu- namente. A defesa mudou de estatuto frentar se quiser se tornar um ator re-
mem novo papel, voltado ao plano político no século XXI e passou a dia- levante nesse setor. É evidente que há
externo. Cada vez mais também é de- logar mais fortemente com a PEB de sinais de modernização, a exemplo
fendida a utilização de militares em potência emergente. do submarino nuclear (parceria com
a França) e dos caças suecos. Como
construir em termos ideacionais e ma-
BRASIL E ORÇAMENTOS MILITARES teriais um Brasil potência se os temas
Evolução em bilhões de dólares, entre 1988 e 2012
de defesa não ocuparem espaço impor-
Entre os países ricos e China Entre os países emergentes
tante no debate público? Somente soft
700
50 power seria capaz de garantir estabili-
Desmantelamento
da URSS
EUA Redemocratização
e crises monetárias Índia dade política regional, poder de deci-
600 são e dissuasão no plano internacional?
Tudo indica que o discurso oficial em
40
matéria de defesa esteja mudando no
500
Brasil Brasil. O Ministro da Defesa até fins
de 2014, Embaixador Celso Amorim,
400
30 reconheceu que o Brasil precisa ter for-
11 de setembro ça e capacidade dissuasória e que, por-
de 2001 tanto, não seria possível conceber uma
300 realidade de Brasil potência sem consi-
20
derar seriamente a defesa nacional.
Turquia
200
China
10 México
VEJA TAMBÉM:
100 Rússia Ameaças globais p. 48
Labmundo, 2014

R. Unido Áf. do Defesa e segurança p. 90


Brasil Sul
Energia e infraestrutura p. 92
1988 2000 2012 1988 2000 2012 Novas coalizões p. 106
Fonte: SIPRI, 2014b.

at l a s d a p o l í t i c a e x t e r n a b r a s i l e i r a 47
Ameaças globais e Desenvolvimento (1992), a cons-
cientização ecológica aumentou, mas

e transnacionais
também se ampliou o leque de crises
produzidas pela ação humana sobre
a natureza. O aumento do nível dos
mares pode comprometer territorial-
mente alguns Estados. Outros tipos de
ameaças ambientais dizem respeito à
escassez de recursos (água, terra arável,
por exemplo) e ao incremento do nú-
mero de refugiados ambientais.

O Brasil não está imune a essas amea-


Em um mundo concebido em ter- para celebrar os acordos. Hoje, muitas ças transnacionais, uma vez que possui
mos de anarquia e interesses estratégi- ameaças ao território dos Estados são extenso território, é rico em diversi-
cos, a defesa e a segurança dos Estados dessa natureza, uma vez que os con- dade ecológica, em recursos minerais,
sempre estiveram no centro das rela- flitos e as ingerências seguem acon- florestas e água doce. O controle sobre
ções internacionais e dos debates so- tecendo, como no caso da invasão ao o acesso a tais recursos tem-se torna-
bre política externa. No entanto, a Iraque em março de 2003 ou da crise do, cada vez mais, um tema de segu-
natureza dos problemas de seguran- na Criméia em 2014. No caso do Bra- rança. Da Amazônia verde à Amazônia
ça e defesa mudou com o advento das sil, a maioria dos conflitos territoriais azul as Forças Armadas têm sido mobi-
bombas nucleares, a aceleração da in- se concentrou no século XIX. No sécu- lizadas e demandam sua modernização
terdependência econômica, os avan- lo XX, o país participou das duas gran- a fim de lograr responder à altura aos
ços tecnológicos da globalização, com des guerras, mas a ameaça de invasão desafios de proteção do território e dos
o crescimento dos problemas trans- territorial era distante e não provocava interesses nacionais. As ameaças evo-
nacionais ligados à crise ambiental, receios maiores entre os membros da luíram também com a própria noção
ao narcotráfico e às guerras cibernéti- elite governante. de riquezas potenciais do território dos
cas, por exemplo. A partir do momen- Estados: não somente é necessário pro-
to em que as ameaças se diversificaram, No entanto, com o final da ordem da teger os cidadãos e os recursos minerais
ao mesmo tempo, transformaram-se o Guerra Fria têm-se multiplicado os clássicos fixados ao território nacional
conteúdo, o escopo e a escala das po- sentidos e as expressões materiais da
líticas nacionais de defesa. Em alguns ameaça. As ameaças também são de
casos, os temas de defesa passaram in- natureza transnacional, relacionadas, CIBERSEGURANÇA
clusive a fazer parte da agenda de co- por exemplo, a diferentes formas do Top 10 de origens de ataques via internet ou por
meio de HTTP em 2013 (em % do total mundial)
operação dos Estados, a exemplo da crime organizado (narcotráfico, tráfi- 5 15 25
Política Externa e de Segurança Co- co de seres humanos) e às crises ecoló- China
mum da UE e do Conselho de Defe- gicas (mudanças climáticas, aumento EUA
sa da Unasul. dos níveis dos oceanos). No caso da Holanda
crise ambiental, a dimensão transna- Reino
Tradicionalmente, a principal amea- cional é ainda mais evidente: chuvas Unido
Rússia
ça à integridade territorial dos Estados ácidas, emissões de gases de efeito es-
Vietnã
provinha da ação militar de outros Es- tufa, poluição dos rios, contaminação
tados. Os exércitos estrangeiros consti- dos oceanos, entre outros, são proble- França

tuíam a principal ameaça à soberania mas que atravessam as fronteiras na- Brasil

dos Estados e às suas sociedades nacio- cionais e produzem impacto no médio Índia

nais. As metáforas mais citadas sobre e longo prazos. Desde a Conferência Japão

os atores das relações internacionais gi- de Estocolmo sobre Meio Ambiente Fonte: Symantec, 2014.
ravam em torno do soldado e do diplo- Humano (1972) até a Conferência do
mata: um para fazer a guerra e o outro Rio de Janeiro sobre Meio Ambiente
Top 10 de origem de ataques via Bot*, em 2013
(em % do total mundial)
5 15 25
CIBERSEGURANÇA EUA
Combate a crimes cibernéticos, em 2013
China
Itália
Taiwan
Brasil
Japão
Hungria
Alemanha
Crimes combatidos por Espanha
instituições militares
Canadá
Labmundo, 2014
Labmundo, 2014

Crimes combatidos por


instituições civis *Ataques por meio de programas maliciosos que
comprometem os computadores e permitem que o
1000 km Sem dados invasor controle o sistema infectado de um ponto remoto.
disponíveis
Fonte: UNIDIR, 2013. Fonte: Symantec, 2014.

48 at l a s d a p o l í t i c a e x t e r n a b r a s i l e i r a
BRASIL, POTÊNCIA EMERGENTE?

EMISSÕES DE DIÓXIDO DE CARBONO EMISSÕES DE CO2


Em bilhões de toneladas de m³, entre 1992 e 2010 Em tonelada per capita, em 2009

1 bi
0,5 bi

0,25 bi

40,3
6
11
6

Labmundo, 2014
1
China
0
1000 km
Sem dados
Fonte: Banco Mundial, 2009. disponíveis

Índia
(petróleo, gás, ouro, diamante, ferro, de CO2, as diferentes formas de pira-
etc.), mas também os recursos naturais taria, as invasões virtuais (via internet),
que passaram a ganhar valor agrega- as doenças e os tráficos transnacio-
do graças à própria evolução das fron- nais. O alargamento do sentido e do
teiras da “economia verde” (recursos conceito de segurança é acompanha-
Brasil biogenéticos, florestas, mares). A bio- do pela necessidade de pensar-se tan-
pirataria e a obtenção de certificados to a dimensão objetiva (tamanho dos
de propriedade intelectual (como no exércitos inimigos, número de ogivas
caso do arroz basmati pela Ricetec, do nucleares de que dispõe o inimigo)
África do Sul cupuaçu pela empresa japonesa Asahi quanto a dimensão subjetiva da ame-
Food) são exemplos típicos dessas “no- aça, ou seja, a percepção da ameaça e
vas” ameaças aos interesses e potenciais dos riscos existentes pela sociedade e
ganhos econômicos dos Estados. pelos tomadores de decisão.

México É claro que os agentes das ameaças Outro desafio importante colocado
transnacionais são cada vez mais di- ao Estado brasileiro diz respeito à di-
versificados, muito frequentemente mensão doméstica da segurança: as
ligados ao mercado e ao mundo das ameaças podem ter origem dentro do
EUA
corporações, cujas ações podem gerar próprio território nacional. Nesse caso,
impacto muito negativo sobre o meio podem ocorrer inclusive comporta-
ambiente. No entanto, também po- mentos abusivos de controle do Estado
dem ser grupos e indivíduos vincula- sobre a sociedade, chegando a configu-
Japão
dos a diferentes formas de terrorismo e, rar, em alguns casos, claras violações
por motivações totalmente distintas, a dos direitos humanos. Uma política de
ONG e movimentos sociais libertários segurança, ao almejar o controle total
Itália que militam contra o controle não de- dos riscos e das ameaças, pode incor-
mocrático do Estado sobre a ação dos rer em abusos e violações de direitos. A
indivíduos. O caso de Edward Snow- política de defesa do Estado nacional
França den revela essa dimensão do risco as- deve equacionar as tensões potenciais
sociado aos atos praticados por um resultantes do imperativo de seguran-
indivíduo, mais precisamente um an- ça e do respeito às liberdades individu-
Reino Unido tigo funcionário da CIA. ais e aos direitos humanos. Esse é um
dilema da ação doméstica e externa do
Essa multiplicação de agentes faz com Estado. A resposta institucional à ame-
que o conceito de segurança se torne aça terrorista adotada em alguns países
Alemanha
cada vez mais abrangente: de seguran- ocidentais (por exemplo, no caso da
ça nacional (conceito de triste lem- Lei Patriota nos Estados Unidos) ilus-
brança na América do Sul durante as tra perfeitamente essas tensões e não
ditaduras militares) à segurança regio- deveria servir de modelo de política
Rússia
nal, de segurança coletiva à segurança pública de segurança ao Brasil.
humana. Os debates sobre tais concei-
tos estão longe de produzir consenso,
mas convergem no sentido de que são VEJA TAMBÉM:
os próprios agentes estatais que geram
Labmundo, 2014

Matriz energética e meio ambiente p. 34


1992 2010
a insegurança dos Estados. No entan- Biodiversidade p. 40
to, são ameaças igualmente importan- Defesa e segurança p. 90
Fonte: CDIAC, 2013.
tes as catástrofes naturais, as mudanças Governança global p. 108
climáticas provocadas pelas emissões

at l a s d a p o l í t i c a e x t e r n a b r a s i l e i r a 49
Cultura como a rede de Institutos Culturais e Cen-
tros de Estudos Brasileiros no exte-

soft power
rior, bem como repassar os recursos
necessários às atividades de divulgação
cultural. No âmbito multilateral, am-
bos os ministérios são fundamentais
na atuação brasileira junto à Unesco.
No plano dos estados e dos municí-
pios, algumas secretarias podem ter pa-
pel mais destacado no campo cultural
(como nos casos de São Paulo, Rio de
Janeiro e Bahia).
CINEMA NACIONAL E ESTRANGEIRO NO BRASIL
Público entre 2009 e 2012, Títulos lançados entre 2009 e 2012 Renda (em milhões de reais) São exemplos de iniciativas organi-
em milhões de expectadores zadas pelo Brasil o festival de cinema
lusófono, o concurso Itamaraty de
curta-metragem, as mostras de cine-
419,4 EUA 4 179,1 ma brasileiro (o Itamaraty em coorde-
nação com a Embrafilme), o Ano do
Brasil 660,5
Brasil na França em 2005, os apoios à
72,4
capoeira na América Latina, a promo-
ção da cultura no seio da CPLP, mos-
4,7 França 51,6 tras de artes plásticas, a edição das
revistas Cultura Brasileña e Brasil Cul-
6,9
Reino 72,9 tura (respectivamente, pelas embaixa-
Unido
das em Madri e Buenos Aires), etc. A
política cultural brasileira no exterior
1,1 Argentina 11,8
Labmundo, 2014
é abundante em projetos, muito em-
bora peque por escassez de recursos e
2,4 Espanha 26,8 excessiva fragmentação das iniciativas.
100 200 300 400 500
A diplomacia cultural seria, assim, ins-
Fonte: Ancine, 2013.
trumento da inserção externa do Brasil,
devendo contribuir para consolidar a
identidade nacional, reforçar a aproxi-
A noção de soft power, o poder brando identidades e podem fazer da diploma- mação dos povos em torno de um pa-
dos Estados, pode ser definida como a cia cultural uma ferramenta de comu- trimônio comum e evitar, ao mesmo
capacidade de atrair ou seduzir indiví- nicação e de política externa. No caso tempo, que as programações culturais
duos e grupos para o lado que se este- do Brasil, literatura, música popu- sejam meras ferramentas de trabalho.
ja defendendo sem o uso da coerção. lar brasileira, bossa nova, samba, car- A diplomacia cultural deve constituir
No caso da política externa, trata-se de naval, novelas, esportes (o futebol, em prioridade política e, consequente-
convencer outros países a querer o que particular), capoeira e jiu-jitsu brasi- mente, receber recursos, financeiros e
o seu próprio país está buscando, sem leiro, cinema ou ainda a organização humanos, que sejam condizentes com
a necessidade de ordenar ou coagir por de eventos culturais, entre outros, fa- a sua função.
meios militares ou econômicos. A bar- zem parte do conjunto de vetores e ins-
ganha e a negociação são elementos trumentos culturais que projetam uma É evidente que o uso diplomático da
constitutivos do poder brando, consi- imagem sobre o Brasil no plano inter- cultura parte de visões oficiais sobre
derado a outra face do hard power. Se- nacional. Algumas dessas imagens po- a identidade de uma sociedade nacio-
riam três as suas principais fontes: a dem se converter em clichês. nal. A diplomacia cultural reflete o uso
cultura (que pode ser atraente e exercer específico da relação cultural para fins
fascínio sobre indivíduos e sociedades O Itamaraty e o Ministério da Cultu- de natureza não somente cultural, mas
de outros países), os valores políticos ra são, no âmbito federal, os principais também político, comercial ou econô-
(democracia, direitos humanos, boa promotores da diplomacia cultural mico. Ademais, tende a existir uma re-
vizinhança, justiça social, etc.) e a di- brasileira. O Ministério da Cultura lação muito estreita entre a diplomacia
plomacia (desde que considerada legí- atua por meio de sua Diretoria de Re- e a alta cultura, ainda que de manei-
tima e portadora de alguma forma de lações Internacionais. A Diretoria e o ra implícita e tácita. Nesse processo, o
respeitabilidade e autoridade moral). Departamento Cultural do Itamara- que o Estado brasileiro procura proje-
ty trabalham juntos na divulgação in- tar, em última instância, são seus va-
Dessas três fontes, a cultura talvez seja ternacional da cultura brasileira e da lores, interpretados por aqueles que
a mais descentralizada e com grande língua portuguesa. Além disso, o Ita- concebem e implementam as políticas.
capilaridade nas sociedades. Ademais, maraty negocia acordos, desempenha É claro que a existência de um regime
suas fontes e capacidades de produ- atividades de organização e estabele- democrático e a variável doméstica as-
ção se encontram em vários agen- ce contatos com vistas à realização de sociada à coalizão político-partidária
tes, no mercado, na sociedade e nas eventos culturais. Ainda é da com- no poder influenciam o processo de-
próprias políticas públicas. Os Esta- petência do Departamento Cultural cisório sobre que tipo de cultura e de
dos projetam no plano externo suas do Itamaraty acompanhar e orientar identidade cultural promover no plano

50 at l a s d a p o l í t i c a e x t e r n a b r a s i l e i r a
BRASIL, POTÊNCIA EMERGENTE?

DIPLOMACIA CULTURAL BRASILEIRA NO MUNDO É por isso que deve fazer parte da di-
Manifestações culturais com apoio do Itamaraty, em 2013 plomacia cultural brasileira não apenas
combater esses clichês, mas sobretu-
do disseminar fatos históricos e fenô-
menos culturais desconhecidos pelo
público ou pouco acessíveis no exte-
rior. Durante o Ano do Brasil na Fran-
ça, por exemplo, foram organizados
seminários e exposições sobre a heran-
ça africana no Brasil, tecnologias de
Total de eventos
ponta ligadas à aviação, diversidade
Centros Culturais cultural, arte modernista, ballet con-
Brasileiros
1000 km 6 3 Quantidade
temporâneo, políticas públicas e inser-
1 de eventos ção internacional.

Manifestações culturais por tipo de evento com apoio do Itamaraty, em 2013 Finalmente, não se pode esquecer que
Música Cinema os meios de comunicação e a mídia
têm uma posição importante como
instrumentos de influência global. A
radiodifusão internacional, durante a
Guerra Fria, havia se tornado parte in-
tegrante da agenda de política externa
1000 km 1000 km dos EUA. O controle sobre as ondas
Literatura Gastronomia de rádio, por exemplo, foi objeto de
intensa disputa Leste-Oeste.

Hoje, com a globalização da televisão


e das telecomunicações, com a desre-
gulamentação e digitalização da co-
1000 km 1000 km municação e a entrada de prestadores
Artes plásticas Dança privados de grande envergadura, a pai-
sagem se transformou profundamen-
te. Existem vários tipos de novos meios
de comunicação, alguns provenientes
de países europeus com base em velhos
padrões coloniais, que convivem com
Labmundo, 2014

Quantidade
1000 km
de eventos: 1000 km outros conteúdos mais recentes de pa-
4 3 2 1 íses do Sul, como nos casos da Telesur
Fonte: Itamaraty, 2013c. e da indústria de televisão no forma-
to de telenovela que se espalhou para a
maioria dos países da América Latina
internacional. Além disso, dependen- os estereótipos frequentemente asso- e da África (PALOP), bem como nos
do naturalmente do peso político de ciados à identidade do país – muitos continentes asiático e europeu.
um Estado, de sua importância histó- dos quais, de natureza sexista e discri-
rica global e regional, esses valores po- minatória, veiculam imagens de um
dem ter maior ou menor capacidade país de praias, mulheres lindas, liber- VEJA TAMBÉM:
de influência e irradiação. dade sexual, samba e carnaval. É bem Pluralismo étnico p. 24
verdade que, quando diplomacia cul- População e diversidade p. 42
Por meio da diplomacia cultural, o go- tural e interesses de mercado se com- Futebol e esportes p. 52
verno brasileiro procura difundir valo- binam, essas distinções entre valores Religião p. 56
res culturais que coloquem em xeque e estereótipos se tornam menos claras.

LUTAS E CULTURA
Grupos brasileiros de capoeira no exterior, em 2013 Academias brasileiras de jiu-jitsu no exterior, em 2013
Labmundo, 2014

Quantidade
Quantidade
de academias
de grupos
211
124
30
46 1
18 1000 km 1000 km

Fonte: Itamaraty, 2013d. Fontes: Sítios na web das academias, 2014

at l a s d a p o l í t i c a e x t e r n a b r a s i l e i r a 51
País do futebol, BRASIL NAS OLIMPÍADAS
Evolução da posição brasileira no ranking, entre
1984 e 2012

vôlei e talentos
Olimpíadas

*Los Angeles

Barcelona

Londres
Pequim
Sydney
Atlanta

Atenas
1984

1988

1992

1996

2000

2004

2008

2012
Seul
individuais 19
24 25 25
16
23 22

52
Desde a segunda metade do século XX, internacional, muitos jogadores des-
o Brasil tem sido reconhecido pelo seu pontam e são lembrados com carinho 1
8
1
6
2
3
3
15
0
12
5
10
3
15
3
17
desempenho esportivo, devido, prin- na memória de torcedores dos clubes
cipalmente, à seleção masculina de fu- de diversos países. Essa imagem posi-
Parolimpíadas
tebol. Os cinco títulos mundiais, as tiva pode gerar capacidades imateriais 9 8
seleções de 1970 e de 1982, assim como para o país, por facilitar as interações
14
alguns craques, podem ser citados para entre as pessoas e entre as instituições.
explicar essa imagem brasileira no ex- O esporte pode, portanto, ser usado
terior. E isso apesar da recente derro- como um instrumento da política ex- 24 25 24

ta frente à Alemanha na Copa de 2014. terna brasileira, de modo a suprir, é


32
Não é raro jogadores de futebol brasi- claro que muito parcialmente, a fal-
37
leiros terem reconhecimento interna- ta de capacidades materiais em outros
cional. Edson Arantes do Nascimento âmbitos. É o caso, por exemplo, do 7 4 3 2 6 14 16 21
28 28 7 21 22 33 47 43
(Pelé) é apontado por diferentes espe- “Jogo da Paz”, quando a seleção brasi-
*As Parolimpíadas de 1984 foram disputadas em Nova York
cialistas como um dos melhores joga- leira enfrentou a seleção do Haiti em
10 Posição do Brasil no ranking de países
dores de futebol de todos os tempos, 2004, em Porto Príncipe. Os clubes de
Arthur Antunes Coimbra (Zico) tem futebol brasileiros são menos conhe- 8 Quantidade de medalhas de ouro
6 Quantidade total de medalhas
estátuas no Brasil, no mundo árabe e cidos mundialmente, embora existam
Fonte: Sítio web da COI, 2013
no Japão, assim como as camisas “ama- indícios de que isso esteja mudando
relinhas” da seleção de futebol são (com a abertura de escolas de clubes Esportes que mais deram medalhas ao Brasil,
vendidas ao redor do mundo como brasileiros em países sul-americanos e até 2014
símbolo do “futebol-arte”. com a inclusão em contratos de forne- Vôlei 20 6

cedores esportivos de cláusulas que ga- Judô 19 3


Não somente os craques do futebol rantam venda e publicidade mundial).
Vela 17 6
contribuem para a imagem do país.
Os jogadores brasileiros passaram a ser Apesar de o Brasil despontar como o Atletismo 14 4
um produto de exportação de serviços “país do futebol”, outros esportes, além Natação 13 1
para diversos países países africanos, do futebol masculino, renderam essa

Labmundo, 2014
Futebol 7
árabes, asiáticos, europeus e america- imagem positiva. É o caso de Marta Total de medalhas

nos. Ainda que o futebol brasileiro te- Vieira da Silva, eleita por cinco vezes a Basquete 6 Medalhas de ouro

nha perdido a hegemonia no cenário melhor jogadora pela FIFA; de Ayrton Fonte: Sítio web da COI, 2013.

GRANDES EVENTOS ESPORTIVOS


Concentração dos grandes eventos esportivos entre 1900 e 2014

123
Cidades olímpicas

Sediou a Copa FIFA uma vez


Labmundo, 2014

Sediou a Copa FIFA duas vezes 1000 km

1000 km *Japão e Coreia sediaram


uma copa juntos
**Eventos realizados
Fontes: Sítios web da COI, 2013; e da FIFA, 2013. e aprovados

52 at l a s d a p o l í t i c a e x t e r n a b r a s i l e i r a
BRASIL, POTÊNCIA EMERGENTE?

ESCOLA BRASILEIRA DE FUTEBOL NO MUNDO Daniel Dias, que conquistou um total


Jogadores atuando em clubes estrangeiros da primeira divisão, em maio de 2013.
de 10 medalhas de ouro, quatro de pra-
ta e uma de bronze em Londres e em
Pequim.

Essa imagem do Brasil no exterior, por


meio do esporte, contribuiu para que
o país tenha sido escolhido, em 2014,
Quantidade pela segunda vez, para sediar a Copa
de jogadores do Mundo FIFA. Além disso, o Rio
88 de Janeiro, com um forte apoio popu-

Labmundo, 2014
30
10
1
*O círculo verde lar, foi eleito sede dos Jogos Olímpicos
representa a quantidade
1000 km
de jogadores estrangeiros de 2016. Além de ganhar visibilidade,
Fonte: Sítio web da FIFA, 2013. que jogam no Brasil. o Brasil espera que esses eventos es-
portivos impulsionem a economia do
país, em termos de investimentos, mas
Senna, no automobilismo; de Gustavo o Brasil frequentemente tem desem- também nos setores do turismo, do co-
Kuerten, no tênis; de Oscar Schmidt, penho inferior nos Jogos Olímpicos mércio, entre outros. Apesar dessa ex-
no basquete; de Anderson Silva e de em relação a países com menor de- pectativa, grande parte da população
José Aldo, nas lutas marciais; de Gil- mografia e com economias menos se mostrou insatisfeita com os resul-
berto Amaury de Godoy Filho (Giba), dinâmicas (Hungria, Coreia do Nor- tados parciais desses investimentos e
no vôlei; etc. Todavia, o futebol ten- te, Cazaquistão, Cuba, Jamaica, etc.). aproveitou a visibilidade desses gran-
de a concentrar grande parte da aten- Cabe ressaltar, também, que o Bra- des eventos para ir às ruas a fim de pro-
ção dos brasileiros e dos investimentos. sil não conquistou nenhuma meda- testar e contestar quais seriam os reais
Essa preferência popular pelo futebol, lha nos Jogos Olímpicos de Inverno, benefícios que a população terá com a
associada à falta de eficiência política dos quais participa, tradicionalmente, realização dessas competições no país.
das federações e de vários níveis do go- com delegação reduzida, e isso apesar Entre as principais reclamações estão
verno, explicam em parte a ausência da desvantagem geográfica. a falta de investimentos em educação,
de investimentos mais significativos mobilidade e saúde (diante dos expres-
em outros esportes. O esporte é, mui- O Brasil depende de resultados prin- sivos gastos com novos estádios de fu-
tas vezes, visto pela população caren- cipalmente em esportes individuais, tebol) e remoções em grande escala de
te como um recurso para conquistar como natação, vela, judô e atletismo, comunidades (obras de infraestrutura).
estabilidade econômica. Consequen- para garantir uma posição melhor no
temente, o Brasil vive de talentos indi- quadro de medalhas nos Jogos Olím-
viduais que conseguem driblar a falta picos. Os esportes brasileiros que mais VÔLEI BRASILEIRO
Medalhas no World Grand Prix /FIVB (feminino),
de investimentos, de infraestrutura e contribuíram com medalhas foram o em 2014
de apoio aos atletas nacionais. judô e a vela, que somente são supera- 16
dos pelo vôlei (se considerarmos as mo- 14 Total de medalhas
12
Esse fator pode ser usado para expli- dalidades de vôlei de quadra e de areia 10
Medalhas de ouro
car por que o Brasil não é uma po- na mesma categoria). Em curva ascen- 8
tência olímpica. Apesar de números dente desde a geração que conquistou 6
demográficos e econômicos expressi- a prata olímpica em 1984 (masculino), 4
2
vos, esses resultados não conseguem o esporte de quadra tem dado grandes
ser traduzidos em um melhor desem- títulos ao Brasil, tanto no masculino
ia

ha
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A

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EU
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Itá

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Cu

Ch

penho do esporte brasileiro. A despei- quanto no feminino. As seleções bra-


Br

la

em
Al

to de ter uma população significativa e sileiras são as maiores vencedoras dos


ser um dos 10 maiores PIB do mundo, torneios internacionais, assim como Medalhas na World League/FIVB (masculino), em
estiveram presentes em cinco das últi- 2014
mas seis finais olímpicas, nos Jogos em 18
16
JOGADORES ESTRANGEIROS Atenas, em Pequim e em Londres. Na 14
Atuando em times da Série A, em 2013
modalidade de areia, o Brasil também 12
10
Colômbia
se destaca, desde a primeira olimpíada, 8
A

em Atlanta, quando a final da modali-


EU

6
d
a

la n dade feminina foi disputada por duas


Labmundo, 2014

Equador 4
Ho 2
Espa
nha duplas brasileiras.
il

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nd

ni
EU
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rv

an
Itá

Peru
Cu


Br


la

China
Fr
Po

Bolívia Outro expoente do esporte brasilei- Fonte: Sítio web da FIVB, 2013.

Ang
ro são os resultados obtidos nas Pa-
Paraguai o la
raolimpíadas. Apesar da falta de um
apoio mais substancial e de visibilida- VEJA TAMBÉM:
Quantidade
Chile
Uruguai de jogadores de, os atletas paraolímpicos brasilei- Turismo p. 54
ros apresentam resultados animadores,
Labmundo, 2014

Argentina Religião p. 56
1 2 4 o que coloca o país entre os 10 pri- Cooperação p. 110
500 km meiros no quadro de medalha. Mui- Cooperação em educação p. 114
Fontes: Sítio web da CBF, 2013; e da FIFA, 2013. to disso se deve, também, ao nadador

at l a s d a p o l í t i c a e x t e r n a b r a s i l e i r a 53
Turismo e do Turismo, desde os anos 2000, a
quantidade de turistas estrangeiros no

imagem nacional
país oscila entre 5 e 6 milhões de in-
divíduos. Com esses valores, o país re-
cebe menos turistas que locais como
Catalunha, Tunísia e Vietnã.

Boa parte das explicações possíveis


para esse fato se encontra na distân-
cia dos principais polos emissores de
turistas (o turismo internacional é
principalmente de fronteira) e no alto
custo de hotéis e passagens domésticas.
O turismo é um dos setores econômi- A identidade nacional do Brasil está Além disso, o país tem conexões turís-
co que ganharam grande importância fortemente conectada à ideia de um ticas deficitárias com o exterior e mui-
nas últimas décadas. Estudo realizado país paradisíaco, sedutor aos estran- to concentradas em poucas cidades,
pelo Fórum Econômico Mundial em geiros e culturalmente aberto ao novo. como o Rio de Janeiro e São Paulo.
2007 indica que, entre 1950 e 2004, as Na imprensa internacional e em mí-
receitas internacionais com o turismo dias sociais é comum que o país, suas
aumentaram de 2,1 bilhões para 723 bi- cidades ou alguns de seus atrativos tu- CONTA TURISMO
lhões de dólares. No ano de 2006, o se- rísticos sejam classificados entre os pri- em bilhões de dólares, entre 2000 e 2012
25
tor foi responsável por 10,3% do PIB meiros no mundo ou como “o lugar do gastos de brasileiros no exterior
20
mundial e por 8,2% do total de empre- momento a ser visitado”.
gados no mundo. O turismo é apon- 15

tado como possível ferramenta de Apesar disso, o Brasil está inserido nos 10

desenvolvimento econômico e social fluxos turísticos internacionais de ma-

Labmundo, 2014
5
para países em desenvolvimento e fa- neira periférica. A recepção de turistas gastos de estrangeiros no Brasil
cilitador do intercâmbio entre cultu- estrangeiros é relativamente modesta 2000 2002 2004 2006 2008 2010 2012
ras e empoderamento de comunidades e teve na última década um aumento Fonte: Ministério do Turismo, 2013a.
locais. tímido. Segundo dados do Ministério

TURISMO MUNDIAL
Chegada de turistas estrangeiros, em 2012 (em milhares de indivíduos) Total de turistas internacionais, entre
1950 e 2020 (em milhões)

1800
1600
1400

1000

800
Maiores destinos
200
1. França 83,0 25
2. EUA 67,0 83 1950 1980 2000 2020*
3. China 57,7 57
4. Espanha 57,7 35
5. Itália 46,4 22 *previsão

1000 km ... 5
38. Brasil 5,7

Receitas do turismo internacional, em 2012 (em bilhões de dólares) Receita cambial, entre 1999 e 2012
(em bilhões de dólares)

Maiores receptores
1.042
1.075

1. EUA 126,2
445
475
472
474
525
633
680
745
860
944
855
930

2. Espanha 56,0
2000 2004 2008 2012
3. França 53,7
Labmundo, 2014

4. China 50,0
5. Macau 43,7
1000 km ...
35. Brasil 6,7
30 10 5 1 0
Fontes: UNWTO, 2013; Ministério do Turismo, 2013b.

54 at l a s d a p o l í t i c a e x t e r n a b r a s i l e i r a
BRASIL, POTÊNCIA EMERGENTE?

A distância da Europa, dos Estados TURISTAS ESTRANGEIROS NO BRASIL


Países emissores de mais de 100 mil turistas para o Brasil, em 2011
Unidos e da Ásia faz com que turis-
tas desses países prefiram estadas mais
longas, realizadas em várias cidades
brasileiras. Enquanto o Brasil apre-
senta problemas como infraestrutura e
longas distâncias, os demais países da
América do Sul tornam-se competiti- Principais emissores:
Argentina 1.593.775
vos por terem atrativos turísticos mais EUA 594.947
próximos uns dos outros. Uruguai 261.204
1,593 0,594 0,261 0,183 Alemanha 241.739
O Brasil adota por lei uma política de Itália 229.484

Labmundo, 2014
reciprocidade em que se exigem vistos
daqueles países que possuem a mes-
ma obrigação para brasileiros. Desse Fonte: Ministério do Turismo, 2013a.
modo, turistas americanos enfrentam
um trâmite maior para vir ao Brasil, o
que reduz o fluxo de um dos princi- elevados gastos no exterior. O turis- Segundo dados da Euromonitor In-
pais polos emissores de turistas. Des- mo realizado por estrangeiros no Brasil, ternational, a ida de turistas brasileiros
se modo, um americano em busca de porém, contribui para algumas maze- para o exterior apresentou aumento
uma viagem de praia pode encontrar las do país, como a prostituição (sobre- exponencial na última década. Esse fe-
no Caribe, e não no Brasil, um desti- tudo infantil), a descaracterização dos nômeno se reflete no grande aumen-
no com melhor infraestrutura turística, hábitos de comunidades tradicionais, to dos gastos dos turistas brasileiros
menor tempo de deslocamento, me- e serve de justificativa para investimen- no exterior, que, associado a uma es-
nos burocracia e preços equivalentes. tos públicos preferencialmente nas áre- tagnação dos gastos de turistas estran-
as nobres dos municípios brasileiros. geiros no Brasil, fez com que a conta
Além disso, as políticas de promoção turismo do país apresentasse déficit
do Brasil no exterior são marcadas pelo As recentes transformações econômi- crescente. Recentes medidas tomadas
baixo interesse em atrair grupos asi- cas e sociais têm feito do país uma re- pelo governo brasileiro, como o au-
áticos, em especial chineses, que são gião mais para emissão de turistas do mento de impostos sobre transações
uma força emergente no setor e têm que de recepção. O setor é bastante de- em cartão de crédito no exterior e o au-
pendente do mercado doméstico. E mento do IOF, têm buscado contro-
no exterior, os brasileiros se destacam lar esse aumento do consumo além das
TURISTAS BRASILEIROS pelo seu poder de consumo em cidades fronteiras.
Viagens domésticas (em milhões de viagens)
como Paris e Nova York. O turismo
2005 138,71 doméstico no Brasil tem apresentado Os destinos preferidos por brasilei-
2006 147,10
altas taxas de crescimento, acompa- ros no exterior estão concentrados
nhando a inserção de largas parcelas em poucas regiões, principalmente na
2007 156,00 da população em um novo padrão de América do Norte, na Europa Ociden-
2008 165,43 consumo. Em pesquisa realizada no tal e no Cone Sul. Por sua vez, EUA
2009
final de 2013 pelo Ministério do Tu- e Argentina são, respectivamente, os
175,44
rismo, a quantidade de pessoas que dois principais destinos dos turistas
pretendiam viajar pelo Brasil (72,7%) brasileiros no exterior. Entre as cida-
Total estimado de viagens brasileiras ao exterior
(em milhões de viagens) foi três vezes maior do que os que dese- des, destacam-se Nova York e Miami,
8,3
11 javam um destino no exterior (24,7%). Paris e Roma, assim como Buenos Ai-
7,5
2,2
Dos que miravam o turismo domésti- res e Santiago do Chile.
co, mais da metade (53,7%) escolheu
Labmundo, 2014

2002 2011 2012* 2013* a região Nordeste, que vem ganhan-


*estimativa
do peso cada vez mais significativo nos MAIORES DESPESAS EM TURISMO
Fontes: Ministério do Turismo, 2013b; Canadian Tourism Em 2013, em bilhões de dólares
Comission, 2012. fluxos turísticos brasileiros. China 102
Alemanha 83,8
EUA 83,5
RUMO AO EXTERIOR Inglaterra 52,3
Rússia 42,8
Viagens internacionais de brasileiros, em 2012 (por milhares de indivíduos) 37,2
Labmundo, 2014

França
Canadá 35,1
Japão 27,9
Austrália 27,6
Itália 26,4
Fonte: UNWTO, 2013.

Maiores destinos:
VEJA TAMBÉM:
1. Estados Unidos
2. Argentina Globalização e nova ordem p. 22
1.017
Labmundo, 2014

3. França 909 Logística p. 32


4. Portugal
Demais países 5. Itália 432 Ação internacional das cidades p. 68
265 1000 km
Brasileiros no exterior p. 76
Fonte: Euromonitor International, 2012.

at l a s d a p o l í t i c a e x t e r n a b r a s i l e i r a 55
Pluralismo BRASILEIROS NA FÉ
Evolução da religião entre os brasileiros, entre 1870
e 2010

religioso
Total de praticantes,
em milhões de fiéis
123,4

42,4

3,8

Católicos

A configuração religiosa brasileira é um contextuais, a realidade do catolicis-


elemento que contribui para o atual mo nesses países em desenvolvimen- Evangélicos
processo de internacionalização de sua to, em geral, é de hegemonia, mas com
sociedade. Os movimentos religiosos uma participação relevante de outros
brasileiros fazem parte de dinâmicas grupos religiosos, fazendo com que
internacionais que favorecem a influ- os principais países católicos do mun- Sem religião
ência externa no cotidiano domésti- do não possuam porcentagens da sua
co, bem como o impacto de nacionais população católica acima de 90%. A
no exterior. Apesar de as pesquisas de importância da religiosidade entre os
opinião pública indicarem uma im- países do Sul e a expansão de suas po- Outros
portância levemente declinante no pulações faz com que o atual panora- Espíritas
conjunto da população, com o acrésci- ma religioso, em termos mundiais, seja

Labmundo, 2014
Candomblé
e Umbanda
mo do número de ateus nas estatísticas caracterizado pela tendência ligeira-
mais recentes, o âmbito espiritual ain- mente ascendente no número de in-

70

90

40

60

80

20 0
10
0
18

19

19
18

19

20
da é fundamental para compreender as divíduos que se afirmam e consideram Fonte: IBGE, 2013a.
dinâmicas sociais no país. religiosos.

O Brasil é historicamente de maioria No caso do Brasil, a religião católica Participação de fiéis em relação ao total da
população, em 2010
católica, identidade em relativo declí- tem passado por relativo declínio. Os 64,6 %
nio em especial pela maior presença grupos de fiéis católicos têm uma das
de grupos religiosos evangélicos e neo- médias de idade mais elevadas. Os pa-
pentecostais. O país é hoje a maior co- pados recentes promoveram políticas
munidade nacional católica do mundo, que pouco incentivam a participação
mas ainda assim com peso modesto na dos fiéis nas comunidades religiosas,
alta cúpula do Vaticano. Por exemplo, principalmente quando o catolicismo 22,2 %
o país passou a ter seu primeiro santo é comparado a outras denominações.
nascido no Brasil somente em 2007, o Os católicos também seriam o grupo 8%
2,9 %
2% 0,3 %
paulista Frei Galvão. A Igreja católica que menos contribui financeiramente
mantém seu grupo de fiéis, cada vez para sua instituição. Tais aspectos, as- Labmundo, 2014
os

os

as

nd lé

s
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lic

lic

lig

Ou

mais, em países em desenvolvimento sociados à emergência dos pratican-


Um do
re

Es
Ca

an

e an
m
Ev

Se

e parece estar buscando reforçar a pre- tes de religiões evangélicas, são marca Fonte: IBGE, 2013a.
sença de jovens em suas maiores co-
munidades. Com essa perspectiva que
se poderia interpretar a visita do Papa CRISTIANISMO
Francisco ao Brasil (sua primeira via- Maiores comunidades católicas % da popopulação nacional % da população católica mundial
gem fora da Itália após sua eleição) e França 40.510.000 98,4 13,9
Itália 35.270.000 99,9
1910

12,1
a edição de um dos mais importantes Brasil 21.430.000 95,6 7,4
eventos católicos, a Jornada Mundial Espanha 20.350.000 99,9 7,0

da Juventude, na cidade do Rio de Ja- Polônia 18.750.000 77,1 6,4

neiro, em 2013. Maiores comunidades católicas % da popopulação nacional % da população católica mundial
Brasil 126.750.000 65,0 11,7

Se há cem anos as principais comu- México 96.450.000 85,0


2010

8,9
Filipinas 75.570.000 81,0 7,0
nidades católicas do mundo eram no Estados Unidos 75.380.000 24,3 7,0
geral de países europeus, a tendên- Itália 49.170.000 81,2 4,6

cia atual é de redução da importância Maiores comunidades protestantes % da popopulação nacional % da população protestante mundial
do âmbito religioso nos países desen- Estados Unidos 159.850.000 51,4 20,0
volvidos. Isso afeta o perfil do grupo Nigéria 59.680.000
2010

37,7 7,5
de fiéis da Igreja católica, aumentan-
Labmundo, 2014

China 58.040.000 4,3 7,2

do a importância de grandes países Brasil 40.500.000 20,8 5,1


África do Sul 36.550.000 72,9 4,6
do Sul, como Brasil, México, Colôm-
bia e Filipinas. Apesar das diferenças Fonte: Pew Research Center, 2011.

56 at l a s d a p o l í t i c a e x t e r n a b r a s i l e i r a
BRASIL, POTÊNCIA EMERGENTE?

PAPA MÓVEL RELIGIÕES DE MATRIZ AFRICANA


Viagens pastorais de papas fora da Itália por ano, entre 1963 e julho de 2014 Praticantes de Umbanda, em 2010

1965 1975 1985 1995 2005 2015

Paulo VI João Paulo I João Paulo II Bento XVI Francisco


1963-1978 1978-1978 1978-2005 2005-2013 2013
x9 x 104 x 24 x3

O 1º Papa a sair da Itália Permaneceu somente Viajou mais Mesma média de viagens Fez sua primeira
em mais de um século 33 dias no cargo, de 1.167.000 km de J. Paulo II se comparados viagem fora da

Labmundo, 2014
e o 1º a viajar de avião. sem realizar viagens os períodos em que Itália para o Brasil
Ficou conhecido fora da Itália tinham a mesma idade
como “Papa Peregrino”
Viagens pastorais de Papas ao Brasil
Fonte: Vaticano, 2014. 300 km

importante do contexto religioso e formação, quanto nos seus processos


brasileiro. mais recentes. São religiões brasileiras,
Praticantes de Candomblé, em 2010
no sentido de terem sido fundadas no
De fato, o fenômeno mais expressi- país, mas estão envolvidas também em
vo da dinâmica religiosa brasileira na processos de internacionalização. Os
atualidade é a ascensão dos grupos re- espíritas, por exemplo, têm sua origem
ligiosos protestantes. De acordo com no livro publicado por Allan Kardec
dados do censo do IBGE, de 2000 a no século XIX, na França, e difundido
2010 houve uma expansão de 61% no amplamente no Brasil.
número de fiéis. São grupos heterogê-
neos, sem necessariamente uma iden- As religiões de matriz africana são re-
tidade comum. Em geral, têm os fiéis sultado do sincretismo religioso a par-
mais ativos em sua comunidade reli- tir da resistência cultural de africanos.
giosa. São muito influenciados pela Não têm unidade institucional e, por
experiência evangélica nos Estados isso, apresentam grande variedade nas Quantidade de 300 km
Unidos , como se observa na influên- suas práticas e mesmo definições, algu- fiéis por município:
cia da música gospel. Destaca-se tam- mas das quais são majoritariamente re-

Labmundo, 2014
50.000 *Somente representados
bém o caráter missionário de muitos gionais, como o candomblé na Bahia 10.000 valores maiores a
5.000
desses grupos que colocam o país en- ou a macumba no Rio de Janeiro. No 1.000
1000 indivíduos.

tre os principais emissores do mundo caso do candomblé praticado na Bahia, Fonte: IBGE, 2010b.
de religiosos. as yalorixás e os babalorixás são figuras
reconhecidas internacionalmente, que
Esse grupo religioso possui uma di- servem de ponte espiritual e cultural sociais. O âmbito religioso não pode
nâmica demográfica bastante particu- entre o Brasil e a África. ser ignorado pela política externa, em-
lar: em específico, as igrejas evangélicas bora possa produzir contradições no
(como Assembleia do Reino de Deus, A importância da dimensão regional é futuro. O Estado brasileiro é constitu-
Universal, ou Igreja do Evangelho evidente em algumas religiões pratica- cionalmente laico, mas é inegável a in-
Quadrangular) têm a maior propor- das por grupos da Amazônia, do Piauí fluência de alguns grupos religiosos na
ção de fiéis com renda per capita in- e do Maranhão, onde além do sincre- política doméstica (em especial, em te-
ferior a um salário mínimo (63,7% do tismo católico e africano estão associa- mas relativos à liberdade da prática re-
total) e são predominantemente ur- dos elementos da cultura indígena. A ligiosa, ao diálogo entre as religiões e
banas, onde alcançam 13,9% do total umbanda, nascida no Rio de Janeiro à tolerância, ao ensino público da reli-
da população (em comparação com no início do século XX, é um exemplo gião, aborto e casamento homossexu-
12,2% dos que se identificam com essa dessa complexidade e riqueza, por- al). Seria possível imaginar que os mais
vertente no total do país). A disper- quanto reúne elementos da cultura diversos atores religiosos passem a in-
são de evangélicos pelo território bra- indígena, africana e católica, associa- fluenciar a política externa brasileira,
sileiro não é uniforme, havendo uma das a doutrinas do Espiritismo fran- por exemplo, em matéria de direitos
concentração na região Sudeste, em es- cês. Os filhos de santo do candomblé humanos, na defesa de valores morais
pecial nas capitais e nas regiões metro- estão presentes essencialmente nas ci- no âmbito multilateral ou na busca
politanas de Rio de Janeiro, São Paulo dades de São Paulo, Rio de Janeiro e por maior liberdade de atuação religio-
e Belo Horizonte, Goiânia e litoral da no recôncavo baiano. Os praticantes sa de brasileiros no exterior?
região sul (em especial Paraná e Santa da umbanda têm presença maior no
Catarina). centro-sul do país, com destaque para
Rio de Janeiro, São Paulo e Rio Gran- VEJA TAMBÉM:
Entre os espíritas e os praticantes de re- de do Sul. Diversidade cultural p. 24
ligiões de matriz africana (por exemplo, Itamaraty p. 60
umbanda e candomblé), podem ser O Brasil possui uma experiência re- Atores religiosos p. 74
lembradas algumas dinâmicas interna- ligiosa variada e dinâmica, recortan- Cooperação Sul-Sul: África p. 116
cionais relevantes, tanto na sua origem do distintos grupos culturais e classes

at l a s d a p o l í t i c a e x t e r n a b r a s i l e i r a 57
Capítulo 3:

ATORES
E AGENDAS

Enara Echart Muñoz


Enara Echart Muñoz
Muitos analistas consideram que a política externa brasileira é uma polí-
tica de Estado, marcada por continuidade, vinculada a um interesse na-
cional permanente e, dessa forma, protegida de influências políticas e
ideológicas, graças sobretudo à atuação do Itamaraty. Neste capítulo, o
argumento vai em outro sentido, ou seja, partimos da premissa de que a
formulação e a implementação da PEB se inserem na dinâmica política
das escolhas de governo (coalizões, barganhas, disputas, etc.). A PEB é o
resultado da ação do Estado e do governo no plano internacional. Ela
reage a mudanças no sistema internacional, relaciona-se diretamente com
a evolução das organizações multilaterais, responde aos desafios regionais,
porém a PEB não começa apenas onde termina a política doméstica. Os
atores e as agendas nacionais são de fundamental importância para enten-
der a nova configuração da política externa, principalmente no bojo dos
processos de globalização da economia e de democratização do Estado
brasileiro. Daí decorre a necessidade de analisar os atores e as agendas que
nos permitem compreender claramente esse sentido de mudança e, ao
mesmo tempo, confirmar a premissa aqui defendida de que a política
externa também deve ser tratada como política pública.
Itamaraty constituem, ao lado das Forças Arma-
das, a mais antiga e tradicional buro-

e diplomacia
cracia do Estado brasileiro. Burocracia
implica rigor no processo seletivo, re-
gras com base no mérito para a pro-
moção de seus quadros, formação e

pública
treinamento contínuos ao longo da
carreira, mas também normas hierár-
quicas que ordenam o aprendizado e
a socialização de seus agentes, criando
assim as bases sociais e culturais para o
reconhecimento mútuo no âmbito da
organização. O Instituto Rio Branco,
De acordo com a Constituição de 1988, participação nas negociações comer- fundado em 1945, é uma peça central
a política externa é da competência do ciais, econômicas, técnicas e culturais nessa arquitetura, uma vez que sele-
Presidente da República, que a dele- com governos e entidades estrangei- ciona e capacita os diplomatas brasilei-
ga ao Ministério das Relações Exterio- ras, a concepção e articulação dos pro- ros, definindo critérios para progressão
res. As áreas principais de atuação do gramas de cooperação internacional, funcional na carreira a partir do nível
Itamaraty são a implementação das es- bem como a coordenação ou o apoio de terceiro secretário.
tratégias da política internacional se- a delegações, comitivas e representa-
gundo as diretrizes do Presidente, a ções brasileiras em agências e orga- A tradição da burocracia diplomáti-
condução das relações diplomáticas nismos internacionais e multilaterais. ca também tendeu, ao longo da Repú-
e a prestação de serviços consulares, a O Itamaraty e o corpo diplomático blica, a privilegiar alguns indivíduos
(sobretudo homens) oriundos de de-
terminadas famílias e classes sociais,
DIPLOMACIA PÚBLICA NA INTERNET em detrimento de uma representação
Facebook e as páginas oficiais dos ministérios, em 2014
Usuários que curtiram página oficial, em milhão de usuários Usuários falando sobre, em milhares mais plural e condizente com a reali-
EUA EUA dade social e demográfica nacional. A
Índia Rússia competência na condução das rela-
França França
Reino Reino ções exteriores e na negociação dos
Unido Unido
Brasil Brasil interesses nacionais, reconhecida in-
Japão Índia ternacionalmente, construiu-se quase
Rússia Argentina exclusivamente com base na represen-
Argentina Japão
Espanha Espanha
tação das elites sociais, econômicas
África
do Sul
África
do Sul
e culturais. Essa realidade começou
0,1 0,2 0,3 0,4 0,5 5 10 15 20 25 30 a mudar lentamente com a redemo-
*Os Ministérios das Relações Exteriores da Turquia e da China não têm canais oficiais no Facebook
Fonte: Páginas oficiais dos ministérios no Facebook.
cratização do Estado e graças à pres-
são social e política, principalmente a
YouTube e os canais oficiais dos ministérios, em 2014 partir de 2002, quando foi lançada a
Inscritos, em milhares de usuários Vídeos, em milhares Visualizações, em milhões Bolsa Prêmio de Vocação para a Diplo-
Índia Índia Índia
EUA França França
macia com a finalidade de proporcio-
Japão Brasil Brasil nar maior igualdade de oportunidades
Brasil Japão Japão de acesso à carreira de diplomata e de
Reino
Unido EUA EUA acentuar a diversidade étnica nos qua-
Rússia
França
Turquia Turquia
dros do Itamaraty.
Rússia Rússia
Turquia Espanha Espanha
Argentina Argentina Argentina No plano internacional, foi nesse mo-
Espanha Reino
Unido
Reino
Unido mento que o Brasil se dotou de uma
África
do Sul
África
do Sul
África
do Sul
verdadeira diplomacia mundial, com
5 10 15 20 0,5 1 1,5 2 0,5 1,5 2
numerosas representações (embaixa-
*O Ministério das Relações Exteriores da China não tem canais oficiais no YouTube
**O Ministério das Relações Exteriores da Índia tem mais de um canal oficial no YouTube das, consulados e escritórios), contan-
Fonte: Canais oficiais dos ministérios no YouTube. do, em 2014, com 896 diplomatas no
Twitter e as contas oficiais dos ministérios, em 2014 exterior (526 na Secretaria de Estado
Seguindo, em milhão de usuários Tweets, em milhares em Brasília), 448 oficiais de chance-
EUA EUA
Reino
laria no exterior (305 na SERE) e 344
França
Reino
Unido
França
assistentes de chancelaria no exterior
Unido
Turquia Rússia (209 na SERE).
Índia Brasil
Japão
Brasil
Índia
No plano doméstico, a redemocrati-
Turquia
Argentina Japão
zação trouxe ao Itamaraty o desafio
Rússia Argentina de construir, paulatinamente, uma
Labmundo, 2014

Espanha Espanha dimensão de política pública para a


0,2 0,4 0,6 0,8 10 20 30
*Os Ministérios das Relações Exteriores da África do Sul e da China não têm canais oficiais no Twitter
política externa, não sem tensões e al-
**O Ministério das Relações Exteriores da Índia tem mais de um canal oficial no Twitter gumas contradições. Para fora dos mu-
Fonte: Contas oficiais dos ministérios no Twitter. ros institucionais, esse processo levou

60 at l a s d a p o l í t i c a e x t e r n a b r a s i l e i r a
ATORES E AGENDAS

REPRESENTAÇÕES DIPLOMÁTICAS
Localização das representações diplomáticas brasileiras, e quantidade de funcionários e diplomatas** nas 35 principais representações, em 2014

**A parte hachurada no gráfico representa o total de diplomatas


em cada representação.

Total dos funcionários:


500 1000 1500
Embaixadas
Países em que o Consulados
Brasil tem embaixada
Missões 70
Consulados diplomáticas

Missões em organismos 60
multilaterais
Escritórios e outras 50
representações

40
*O Brasil não reconhece os seguintes países: Abecásia; R. Turca do
Chipre do Norte; Ossétia do Sul; R. Árabe Sahauri Democrática (Saara
Ocidental); Somalilândia; Transdniéstria; e Taiwan. 30

20

10

Labmundo, 2014
ão

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Fonte: Dados oficiais obtidos do Itamaraty por meio da Lei de Acesso de Informação (Lei 12.527/2011)

EVENTOS INTERNACIONAIS também diversificou-se e passou a dia-


Por cidade, entre 2004 e 2012 logar mais regularmente com o Itama-
raty. Sob iniciativa da sociedade civil
(GR-RI), está posto o desafio de criar o
Conselho Nacional de Política Exter-
na, institucionalização desse processo
mais democrático e pluralista de diálo-
go sobre os caminhos da PEB.

Dessa realidade também resultou uma


diplomacia pública, por meio da qual
o Itamaraty tem respondido às deman-
das por informação, nem sempre com
Cidades com menos de 5 eventos
a agilidade e a transparência que exige
477 um regime democrático. Foi nesse sen-
tido que os seus setores de relação com
141 a imprensa foram ampliados e que fo-
78 ram desenvolvidos verdadeiros servi-
24 ços de relações públicas. Junto com o
Ministério do Turismo, foi pensada
uma “marca Brasil”, visando também
Top 20 de países que sediaram mais eventos a atrair o investimento estrangeiro e
internacionais em 2012
a organização de eventos internacio-
800
nais no país. A promoção dos interes-
ses nacionais passou, assim, a dispor de
600
300 km
meios públicos e recursos tecnológi-
cos dos mais diversos. Instrumento de
400
soft power da PEB, a diplomacia pú-
blica valoriza a crescente importância
das ferramentas mais contemporâne-
200 as de mídia e comunicação no mundo
cada vez mais digitalmente conectado
e globalizado.
Labmundo, 2014
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VEJA TAMBÉM:
Co

Fonte: ICCA, 2013.

Cultura e soft power p. 50


Diplomacia presidencial p. 62
o Itamaraty a ter de abrir o diálogo federais, estados e municípios, fede- Organizações e movimentos sociais p. 72
com outros ministérios (muitos com rações empresariais e organizações da Redes sociais e integração regional p. 96
assessorias internacionais), agências sociedade civil. O mundo acadêmico

at l a s d a p o l í t i c a e x t e r n a b r a s i l e i r a 61
Diplomacia dimensões continentais, como o Bra-
sil, isso era especialmente proble-

presidencial
mático, pois os meios de transporte
existentes na época não permitiam que
viagens presidenciais a outros países
fossem curtas. As viagens eram demo-
radas, aumentando o tempo em que o
chefe de Estado deveria ser substituí-
do pelo vice-presidente ou outras au-
toridades. Em alguns casos, a ausência
desses líderes tornava o ambiente do-
méstico propício para manobras polí-
ticas, muitas vezes golpistas. Quando
Visitas recíprocas entre chefes de Estado prestígio em receber esses representan- renunciou Jânio Quadros, o Vice-Pre-
e chefes de governo não são uma novi- tes, o diálogo direto entre chefes de sidente João Goulart encontrava-se em
dade no cenário político internacional. governo tende a facilitar e acelerar ne- visita oficial à China e, em um primei-
Desde a formação do Estado Nacio- gociações em diversos âmbitos, do po- ro momento, foi impedido de voltar
nal nos moldes de Westphalia, as tro- lítico ao comercial. ao país para assumir a presidência.
cas de visitas entre monarcas europeus
eram comuns e tratadas como grandes As viagens dessas autoridades políti- Os avanços tecnológicos ao longo dos
eventos da nobreza. O Brasil aderiu a cas serviam para acelerar negociações, séculos XX e XXI tornaram as viagens
essa prática desde a época do Império, estreitar relações políticas entre pa- mais céleres e baratas, criando a opor-
como as viagens de D. Pedro II à Europa, íses e fazer uma diplomacia de pres- tunidade de chefes de Estado e de go-
América do Norte e África podem com- tígio. Todavia, essa prática também verno viajarem mais frequentemente
provar. Visitas de altas autoridades na- causava desafios no âmbito domésti- e sem deixar seus postos por períodos
cionais são, geralmente, usadas para co, pois acarretava a ausência desses demorados. Se, no início do século XX,
estreitar relações comerciais e políti- líderes de seus respectivos postos. No uma viagem entre a capital (Rio de Ja-
cas entre países. Além de um evidente início do século XX e em um país de neiro) e a Europa levava semanas por

DESTINO E MÉDIA ANUAL DE VIAGENS DOS PRESIDENTES BRASILEIROS


José Sarney (março de 1985 a março de 1990) Fernando Collor (março de 1990 a outubro de 1992)

1000 km 1000 km

Itamar Franco (outubro de 1992 a janeiro de 1995) Fernando Henrique Cardoso (janeiro de 1995 a janeiro de 2003)

1000 km 1000 km

Luiz Inácio Lula da Silva (janeiro de 2003 a janeiro de 2011) Dilma Rousseff (período analisado de janeiro de 2011 a janeiro de 2015)

3
Labmundo, 2015

1
0,25
1000 km 1000 km

Fonte: Planalto, 2014; Itamaraty, 2013b. *Foram consideradas todas as viagens da presidência da República, sejam elas de caráter bilateral ou multilateral

62 at l a s d a p o l í t i c a e x t e r n a b r a s i l e i r a
ATORES E AGENDAS

via marítima, já nos anos 1950 o mes- VISITAS OFICIAIS AO BRASIL


mo percurso demorava dias por via Viagens de chefes de Estado e de governo ao Brasil entre 2003 e 2010
aérea. Hoje, aeronaves modernas per-
mitem que uma viagem entre Brasília
e as capitais europeias leve apenas al-
gumas horas.

A diplomacia presidencial teve o pre-


sidente estadunidense Theodore Roo-
sevelt como um de seus precursores.
No Brasil, Campos Sales foi o primei-
ro presidente a fazer uma visita ofi-
cial a outro país, em 1899, à Argentina.
20
Apesar de ser uma prática antiga, as vi- 10
sitas presidenciais ganharam novo fôle- 1
go na década de 1980, quando a nova

Labmundo, 2014
Constituição Federal, promulgada em
1988, reiterou que caberia exclusiva- 1000 km

mente à presidência da República a Fonte: Planalto, 2014; Itamaraty, 2013b.


função de manter relações com Esta-
dos estrangeiros.
fundamentais para ter credibilidade Dilma Rousseff, no seu primeiro man-
O Itamaraty, desde a sua criação, era nas relações internacionais. dato, já superou em termos absolutos
conhecido por ser uma instituição po- a quantidade de viagens presidenciais
liticamente independente com fun- Por esse motivo, as viagens presiden- de José Sarney em seus cinco anos de
cionários profissionais. Chanceleres e ciais são usadas por cientistas políticos governo.
diplomatas foram os grandes responsá- e internacionalistas como um indica-
veis pela formulação da política exter- dor das preferências políticas de de- O destino dessas viagens também é
na, ao longo do final do século XIX e terminado governo. Uma média anual um fenômeno muito estudado, pois
boa parte do século XX. A redemocra- elevada de viagens presidenciais ao ex- indica a preferência conferida a um
tização impactou na condução da po- terior pode indicar que esse político ou outro grupo de países. Ao compa-
lítica externa brasileira no sentido de considera a política externa uma área rar o governo de Fernando Henrique
diminuir o insulamento do Ministério de importância em seu governo e par- Cardoso com o de seu sucessor, per-
das Relações Exteriores. Progressiva- ticipa ativamente da sua condução em cebe-se que houve um crescimento de
mente, os chefes de Estado brasileiros visita a outros países e a eventos ou or- aproximadamente 110% das viagens
passaram a atuar direta e pessoalmente ganizações internacionais. Por outro presidenciais. Todas as regiões apresen-
nos assuntos internacionais. Apesar de lado, uma média anual baixa de via- taram crescimento, inclusive a Améri-
toda política externa ter preferências e gens presidenciais pode indicar que o ca do Sul (59%), a América do Norte
discursos distintos, os diplomatas ten- presidente tem preferência por assun- (71%) e a Europa (74%), mas há regiões
dem a evitar mudanças radicais, pois tos domésticos. que tiveram um crescimento robus-
estabilidade e coerência são fatores to, como a América Central e Caribe
O crescente número de visitas inter- (480%), África (750%) e Oriente Mé-
nacionais também é um indicador de dio (antes não visitado). Esses dados
QUANTIDADE DE VIAGENS uma nova realidade das relações inter- revelam que o Brasil tornou-se mais
Quantidade absoluta de viagens presidenciais, nacionais e do papel do Brasil. Com presente em outras regiões do mundo,
entre 1985 e janeiro de 2015 algumas variações, percebe-se que os sem preterir suas relações tradicionais.
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presidentes brasileiros, desde a déca-


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Am. do da de 1980, têm aumentado gradual- Do mesmo modo, chefes de Estado e


Sul
mente a quantidade de viagens oficiais. de governo de outros países também
Europa Esse aumento da diplomacia presiden- visitam o Brasil. Esse indicador é mui-
África
cial, como citado, deve-se a evoluções to importante para demonstrar que
tecnológicas nos meios de transporte, não somente o mundo está na agenda
Am. do
Norte
mas também ao aumento do protago- do Brasil, como o Brasil está na agen-
nismo brasileiro no cenário político in- da de muitos países. É possível verifi-
Ásia
ternacional. O objetivo brasileiro de se car, inclusive, a existência ou não de
Am.
Central
tornar um global player acarreta a ne- reciprocidade nas escolhas de visitas
Oriente
cessidade dos políticos brasileiros de se presidenciais.
Médio fazerem presentes em eventos interna-
Oceania cionais, reuniões de cúpula, e de dialo-
gar diretamente com líderes de outros VEJA TAMBÉM:
TOTAL países (prestígio). Nesse sentido, pode- Turismo p. 54
480
se ressaltar o alto número de viagens
Labmundo, 2015

*Viagens de Dilma Rousseff ao Itamaraty p. 60


193 longo do primeiro mandato
oficiais do Presidente Luís Inácio Lula Projetos de integração p. 82
18 da Silva, em oito anos de mandato, as- Cooperação Sul-Sul p. 112
Fonte: Planalto, 2014; Itamaraty, 2013b. sim como o fato de que a Presidenta

at l a s d a p o l í t i c a e x t e r n a b r a s i l e i r a 63
Congresso, POLÍTICA EXTERNA E
HORIZONTALIDADE
Competência internacional no Poder Executivo,

ministérios
segundo a Constituição de 1988 e leis
complementares
Com competência
56,4%

e agências
Sem competência
43,6%
Foram analisados todos os
gabinetes dos ministros e
secretarias executivas, bem
como as secretarias de Estado
da estrutura básica do poder
executivo federal, tanto da
presidência da República
quanto dos ministérios

ITAMARATY EM COMISSÕES INTERMINISTERIAIS Tipo de inserção internacional dos órgãos com


Criação de comissões interministeriais por ano, entre 1969 e 2007 competência internacional
5 Criação de comissão
interministerial Sem competência
4 43,6%
Criação de comissão
3 interministerial com
participacão do Processa informações e assessora
2 Itamaraty 26,5% políticamente outros órgãos do mesmo
ministério
1

Labmundo, 2014
Voltados a firmar acordos de
16,2% cooperação técnica internacional

Labmundo, 2014
2003

2007
1968

1973

1978

1983

1988

1993

1998

Possuem prerrogativa de negociar e


13,7% definir a posição brasileira em
processos decisórios no sistema
Fonte: Figueira, 2010. internacional
Fonte: França e Badin, 2010.

Com a redemocratização do Esta- a ação internacional. As assessorias co-


do, o Itamaraty teve de abrir-se pau- ordenam os projetos e as parcerias in- papel não apenas de ratificação de
latinamente ao diálogo com outras ternacionais do respectivo ministério. acordos internacionais, mas também
entidades governamentais. Aumen- Em 2009, somente os Ministérios das de debate público sobre temas-chave
taram as comissões interministeriais Comunicações, Integração Nacional e da PEB. Esse contexto tem produzido
criadas para tratar de temas transver- Previdência não contavam com algum uma “política burocrática” nas relações
sais. Muitos ministérios e agências órgão desse tipo. As políticas públicas entre esses distintos atores.
têm atuado em projetos internacio- encontram-se em franco processo de
nais, por meio de suas assessorias in- internacionalização. O Congresso tem A PEB e as demais políticas públicas
ternacionais ou serviços voltados para sido chamado a cumprir cada vez mais (educação, integração e fronteiras, cul-
tura, saúde, etc.) passaram a interagir
mais ativamente umas com as outras,
FRONTEIRA CONTINENTAL DO BRASIL resultando em cooperação, mas tam-
Faixa de fronteira e cidades-gêmeas, em 2014
Municípios na fronteira
bém em conflito acerca do lugar que
o Brasil deveria ocupar (ou reivindi-
te

Municípios na faixa
car) no sistema internacional. Esse fe-
or

de fronteira
oN

Cidades gêmeas nômeno de pluralização dos atores e


Arc

das agendas da PEB tende a contribuir


para um vagaroso processo de demo-
cratização do processo decisório em
política externa no país. A horizontali-
zação da política externa no Poder Exe-
cutivo coloca desafios para o Itamaraty
na busca por formular e gerir políti-
cas públicas em temas internacionais
com práticas coerentes entre si e coe-
rentes com as grandes estratégias defi-
nidas pela presidência. O aumento da
ntral

interlocução com os demais ministé-


Ce

rios vem alterando a maneira como se


co

Ar faz política externa no Brasil, anterior-


mente definida como insulada e con-
centrada no MRE.
400 km ul O Ministério da Educação tem exten-
S
Arco

sa atuação internacional. O ministério


Labmundo, 2014.

participa dos acordos educacionais no


contexto regional, como o Setor Edu-
cacional do Mercosul (desde 1991).
Fonte: Sítio web do Ministério da Integração Nacional, 2014. Outro exemplo dessa atuação é o

64 at l a s d a p o l í t i c a e x t e r n a b r a s i l e i r a
ATORES E AGENDAS

projeto conhecido como Escolas Inter- CONGRESSO E POLÍTICA EXTERNA


Assinatura pelo Executivo e ratificação pelo Congresso dos principais acordos internacionais de direitos
culturais de Fronteira, que realiza uma humanos, entre 1980 e 2014
parceria entre escolas públicas brasilei-
ras situadas em cidades de fronteira e 1980 1985 1990 1995 2000 2005 2010

escolas de países vizinhos, envolven- Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher
do em especial o intercâmbio de pro-
fessores. O ensino superior também é
Convenção contra Tortura e outros Tratamentos ou Penas Cruéis, Desumanos ou Degradantes
uma área de forte atuação da diploma-
cia educacional brasileira. Durante os
Convenção sobre os Direitos das Crianças
dois mandatos do Presidente Lula, o
Ministério da Educação fundou qua-
Estatuto de Roma do Tribunal Penal Internacional
tro universidades que têm como uma Período entre conclusão do acordo
e assinatura ou adesão pelo Brasil
de suas propostas promover a presen-
ça no Brasil de professores e estudan- Período entre a assinatura e a ratificação Protocolo Facultativo à Convenção sobre os Direitos da
Criança relativo ao envolvimento de crianças em
tes estrangeiros: a UNIAM, a UFFS, a conflitos armados
Unilab e a UNILA. O Ministério da
Integração Nacional também atua em Protocolo Facultativo à Convenção sobre os Direitos da
temas internacionais, por exemplo, no Outro ator fundamental da PEB é o Criança relativo à venda de crianças, à prostituição
infantil e à pornografia infantil
que se refere às cidades-gêmeas brasi- Congresso Nacional. Suas atribuições
leiras e à faixa de fronteira. As cidades- presvistas na Costituição de 1988 são
gêmeas brasileiras são aquelas cortadas a ratificação de tratados, convenções Protocolo Facultativo à Convenção contra a Tortura e
outros Tratamentos ou Penas Cruéis, Desumanos ou
pela linha de fronteira com integração e atos internacionais, a fiscalização Degradantes
urbana com países vizinhos e onde há das políticas governamentais por
elevado potencial de integração econô- meio de suas comissões (por exemplo, Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas
mica e cultural. Em 2014, a pedido do a Comissão de Relações Exteriores com Deficiência

Ministério da Integração, o Ministério e Defesa Nacional, do Senado


da Fazenda regulamentou a instalação Federal), a autorização ao presidente Protocolo Facultativo da Convenção Internacional
sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência
de lojas francas em fronteira terrestre para declarar guerra, celebrar a paz,
(free shops), atualmente em 26 das ci- assim como aprovar a circulação ou
dades-gêmeas brasileiras. Em matéria permanência de tropas estrangeiras no Convenção Internacional para a Proteção de Todas as
Pessoas contra Desparecimentos Forçados
de saúde pública, outro órgão estatal interior do país. Por meio da análise do
com crescente atuação internacional é tempo necessário para a aprovação de
a Fiocruz, responsável por pesquisas na acordos internacionais pelo Congresso

Labmundo, 2014
Protocolo Facultativo à Convenção sobre os Direitos da
Criança relativos aos procedimentos de comunicação
área de saúde e comercialização de me- é possível perceber que, em alguns
dicamentos. Priorizando países em de- momentos, as votações são disputadas
senvolvimento, a instituição contribui e há necessidade de negociações entre Fontes: ONU, 2014a; ONU 2014b.
para a formação das posições brasilei- o Legislativo e o Executivo para a
ras em saúde no sistema internacio- aprovação de algumas proposições,
nal e reforça laços com outros países como no caso do ingresso da do sistema político brasileiro e do
do Sul. A Fiocruz é um elo essencial do Venezuela no Mercosul (final de 2009). relativo baixo nível de interesse dos
que passou a ser conhecido como “di- Além disso, cabe ao Senado aprovar os representantes em tema de política
plomacia da saúde”. O mesmo padrão chefes de missões diplomáticas e ser externa, existe outra possibilidade
de internacionalização pode ser obser- consultado em operações externas de de interferência do Congresso no
vado no caso da Embrapa. natureza financeira. Apesar do perfil momento da aprovação do orçamento
anual da União. A “diplomacia
parlamentar” também é fenômeno
POLÍTICA EXTERNA EM EDUCAÇÃO crescente. O Congresso desenvolve
Atuação internacional do Ministério da Educação, 2014
relações com outros parlamentos nacionais,
assim como organizações internacionais
representativas dessas instituições (por
exemplo, o Parlamento do Mercosul).
Universidade da Dentro desse quadro também se inserem
Universidade
Integração Amazônica
da Integração a visita de autoridades estrangeiras e a
da Lusofonia presença de delegações parlamentares
Afro-brasileira
no exterior em uma ampla gama de
eventos, no geral acompanhando as
delegações do Poder Executivo.
*O programa Escolas Interculturais de
250 km
Fronteira tem planos de ampliação para
Colômbia, Peru, Guiana e Guiana Universidade da
Integração Programa Escolas de Fronteira:
Francesa.
O governo declara a participação de 17 Latino-americana
VEJA TAMBÉM:
Escolas no exterior
unidades de ensino no Brasil, mas só Diplomacia presidencial p. 62
indica a cidade de 14 dessas escolas. Escolas no Brasil
Labmundo, 2014

Campi de universidades Projetos de integração p. 82


Universidade com perfil internacional Assimetrias e desigualdades p. 94
da Fronteira Sul
Cooperação Sul-Sul em educação p. 114
Fonte: Ministério da Educação, 2014.

at l a s d a p o l í t i c a e x t e r n a b r a s i l e i r a 65
Ação internacional internacionais. Na América Latina,
a Argentina aprovou, em 1994, uma

dos estados
emenda à constituição que permitiu
que atores subnacionais se relacionas-
sem com outros atores estrangeiros no
que dissesse respeito aos seus respecti-
vos interesses. No Brasil, não existe ne-
nhum dispositivo constitucional que
permita expressamente a atuação in-
ternacional das unidades subnacionais.
Pelo contrário, as competências rela-
cionadas aos assuntos internacionais
são divididas entre as casas do Con-
Segundo a Constituição Federal bra- internacionalmente, buscando seus gresso e, principalmente, mantidas
sileira, a condução da PEB é de com- próprios interesses, com certa autono- pelo Executivo. Apesar disso, a ação de
petência exclusiva do Presidente da mia do governo federal. atores subnacionais torna-se cada vez
República. Ao longo de mais de um mais frequente no Brasil, à revelia de
século, essa competência foi delega- Um exemplo desses atores subnacio- um marco jurídico-normativo para tal.
da ao MRE. Entretanto, ao final do nais que, progressivamente, incluem
século XX e início do século XXI, o temas e relações internacionais em Não é raro que os estados brasilei-
insulamento do Itamaraty foi gradu- sua agenda são os estados brasileiros. ros, como unidades federativas, atuem
almente diminuindo, o que permi- A ação internacional das unidades fe- internacionalmente, buscando em-
tiu que atores subnacionais também derativas subnacionais não é novidade préstimos ou celebrando acordos de
agissem internacionalmente. Contri- em alguns países. Desde 1874, na Su- cooperação. Como exemplo recen-
buíram para esse fenômeno a redemo- íça, há dispositivo constitucional que te disso, podemos citar a escolha do
cratização do Brasil, a partir dos anos permite que os cantões atuem inter- Rio de Janeiro como cidade sede para
1980, e a globalização. Com os avan- nacionalmente. A constituição alemã os Jogos Olímpicos de 2016. Evidente-
ços tecnológicos e com a internaciona- de 1949 também confere aos landers mente, a cidade do Rio de Janeiro par-
lização da economia, ficou muito mais certo grau de liberdade para relacio- ticipou decisivamente da candidatura,
fácil para os atores subnacionais atuar nar-se com outros atores políticos mas somente com um forte compro-
metimento do governo estadual flu-
minense e da União o projeto ganhou
EXPORTAÇÃO DAS UNIDADES FEDERATIVAS força para vencer fortes candidaturas
Por destinos em bilhões de dólares, em 2013 concorrentes, como Chicago, Tóquio
e Madri. Como o estado do Rio de Ja-
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neiro é responsável por grande parte da


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O mapa representa o valor da exportação total,


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infraestrutura na região metropolita-


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A

por unidade federativa, em bilhões de dólares.


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E.
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Ch
U.
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PA
na da capital fluminense, foi necessá-
rio que o governo estatal se engajasse
Demais da internacionalmente, a fim de garantir
R. Norte
acordos de investimento em obras, co-
BA operação em programas de mobilidade
urbana e desenvolvimento de parques
Demais da
R. Nordeste
esportivos, entre outros exemplos.

GO A ação internacional dos estados tam-


bém tem gerado competição entre as
MT unidades federativas brasileiras. Para
Demais atrair o investimento estrangeiro, mui-
da R.
300 km tos governos estaduais lançam mão de
Centro-oeste
pacotes de incentivos fiscais para que
SC
empresas ou indústrias se instalem no
seu território. O objetivo desses gover-
RS
nos é atrair esses investimentos para o
59,3
20
seu território, o que aqueceria a econo-
PR
0,15 mia local e criaria empregos, compen-
ES
sando, assim, as perdas do governo em
termos de arrecadação e de isenções
RJ
fiscais concedidas. Todavia, a compe-
tição entre os governos federais tor-
MG 10,8
nou-se muito acirrada, e os incentivos
fiscais prometidos ao capital interna-
Labmundo, 2014

SP 0,5 cional chegaram a ultrapassar a capa-


0,02
cidade dos governos. Em alguns casos,
Fonte: IBGE, 2013a. os governadores buscavam evitar o

66 at l a s d a p o l í t i c a e x t e r n a b r a s i l e i r a
ATORES E AGENDAS

prejuízo político de perder a compe- PROJETOS FINANCIADOS PELO BANCO MUNDIAL


Projetos em andamento em fevereiro de 2014 Projetos concluídos até fevereiro de 2014
tição pelo investimento estrangeiro.
Para evitar situações dessa natureza,
criou-se a Lei de Responsabilidade Fis-
cal, segundo a qual cada governo esta-
dual seria responsável por fechar a sua
balança de pagamentos no positivo,
gerando superávit. Essa medida redu-
ziu a competição, mas é bastante criti-
cada por parte da sociedade civil, que
alega que, em última instância, a LRF
impediria que o governo estadual pu-
desse investir nos locais a partir dos 2000

Labmundo, 2014
1000
quais havia arrecadado os impostos. 300 km 250 300 km

Em um país democrático, a liberda- Fonte: Sítio web da base de dados do Banco Mundial, 2013.
de para que as unidades federativas se
relacionem internacionalmente pode
ser vista como algo benéfico. Ao des- Os estados tendem a se relacionar com diversidade em sua pauta comercial
centralizar a ação internacional do país, quem lhes parece mais oportuno polí- também tenderiam a concentrar suas
os estados conseguem promover ações tica, social e economicamente. É na- relações internacionais. Por fim, as
que atendam necessidades específi- tural que as unidades federativas que escolhas também passam por uma
cas de determinada região ou popula- fazem fronteira com outros países te- dimensão política. Cada unidade fe-
ção. Esse modelo descentralizado pode nham relações mais intensas com os derativa tem preferências políticas di-
causar um impacto positivo também vizinhos. Do mesmo modo, se exis- ferentes, um reflexo das preferências
na transparência do aparato burocráti- te parcela significativa de imigrantes e das trajetórias dos diversos partidos
co, pois a população fica mais próxima de determinado país vivendo em uma que estão no governo. Uma unidade
dos governos estaduais e pode cobrar região, é de se esperar que haja rela- federativa pode usar suas ações para-
resultados sobre os projetos desenvol- ções mais fortes entre o estado e os pa- diplomáticas como ferramenta de uma
vidos. Todavia, esse modelo descentra- íses de origem de seus residentes. É o “diplomacia do desafio” a fim de testar
lizado também pode causar problemas caso, por exemplo, da comunidade ja- e divulgar alternativas de inserção in-
na coerência da ação internacional do ponesa em São Paulo, das comunida- ternacional à política externa do gover-
Estado. No caso brasileiro, há um es- des de origem africana no Nordeste e no federal.
forço por parte do governo federal das comunidades germânica e italia-
para que exista um discurso estratégico na nos estados do Sul do Brasil. As re-
e coerente no campo da PEB. Quan- lações internacionais de uma unidade VEJA TAMBÉM:
do aumenta a quantidade de atores es- federativa também são pautadas pe- Brasil Império p. 16
tatais que agem internacionalmente, a los padrões econômicos daquele esta- Nova ordem p. 22
política externa tende a ser mais plural, do, dependendo do que e com quem Ação internacional das cidades p. 68
porém pode produzir resultados me- comercializam. Nesse sentido, é possí- América do Sul p. 84
nos coerentes. vel dizer que as regiões que têm menos

RIO DE JANEIRO, CIDADE OLÍMPICA


Remoções para construção de obras de infraestrutura e para parques esportivos para 2016

Região Metropolitana Baía de


do Rio de Janeiro Guanabara

Região Metropolitana
do Rio de Janeiro

Baía de Sepetiba

5 km

Oceano Atlântico
Número de famílias Moradores ameaçados Pontos de Instalações Estradas Metrô Bus Rapid
Labmundo, 2014

500 de remoção realocamento olímpicas e existentes existente Transit (BRT)


200 das famílias Porto Maravilha Nova linha
50 Moradores removidos Trem
existente do Metrô Veículo leve
construída sobre trilhos (VLT)
Fontes: Comitê Olímpico Rio 2016, 2014; Sítio web dos Comitês Populares da Copa, 2013. para os eventos

.
at l a s d a p o l í t i c a e x t e r n a b r a s i l e i r a 67
Ação internacional DIPLOMACIA MUNICIPAL BRASILEIRA
Quantidade de municípios no Brasil

das cidades
por milhares de habitantes, em 2011
acima
de 500
de 300
a 500
de 100
a 300
de 50
a 100
de 25
a 50
de 15
a 25
de 5
a 15
menos
O cenário político internacional não ensejavam participação de outros ato- de 5

é mais monopolizado pelos Estados, res (como meio ambiente, direitos hu- 500 1000 1500 2000
Fonte: Confederação Nacional dos Municípios, 2014.
mas também é composto por atores manos, combate à fome e a doenças,
subnacionais, entre eles os municí- etc.). Além disso, tem se reforçado o
pios, que agem nesse espaço, alterando entendimento de que muitos dos pro-
Busca de ações internacionais pelos municípios,
padrões e modos de ação das relações blemas mundiais são coletivos, o que

Labmundo, 2014
em 2011
internacionais. A globalização con- demanda uma resposta articulada. Um
tribuiu para esse fenômeno, no sen- exemplo disso é o grupo C40, que re- 3000

tido de que criou mecanismos que presenta um grupo de cidades que per-
reduziram a noção de espaço-tem- cebem o aquecimento global como um 2000

po e aumentaram os fluxos de pessoas, problema de todos (e não somente dos


produtos, informações e capital inter- governos centrais de seus respectivos 1000
nacionalmente. No contexto de glo- países) e tomam medidas locais e arti-
balização da política, as cidades, assim culadas, com vistas a reduzir as emis- Possui Possui Tem interesse Não tem interesse
como os estados federados, também sões de gases de efeito estufa e criar administrações funcionários
para assuntos para assuntos
em assuntos em assuntos
internacionais internacionais
internacionais internacionais
são atores subnacionais que atuam in- uma estrutura logística-organizacional
ternacionalmente. No Brasil, os go- mais eficiente. Fonte: Confederação Nacional dos Municípios, 2014.

vernos municipais, paulatinamente,


começam a se interessar por assuntos Contribuiu para o maior ativismo dos
internacionais e a agir baseados na pró- municípios nas relações internacionais dependem da economia e dos serviços
pria agenda de interesses, por vezes in- o fato de que a população mundial é ali concentrados. É nessas grandes ci-
dependentemente do governo central. majoritariamente urbana. As aglo- dades que, geralmente, se encontram
merações urbanas se tornam cada vez governos municipais que têm burocra-
Também contribuiu para esse fenô- mais centros econômicos e políticos cias específicas para tratar de assuntos
meno o entendimento de que muitos e, consequentemente, tendem a bus- internacionais.
problemas atuais não podem ser resol- car seus interesses. Um fator determi-
vidos sem uma ação conjunta no plano nante para que os governos municipais Além do tamanho, a posição geográfi-
local. Ao longo do século XX e parti- se lancem na diplomacia descentraliza- ca também é um fator relevante para
cularmente durante a Guerra Fria, a da é a relevância demográfica e econô- o interesse de uma cidade se relacio-
ação de atores subnacionais era redu- mica da cidade. Apesar de o Brasil ter nar internacionalmente e criar uma
zida, pois o Estado detinha maior con- mais de 5500 municípios, muitas regi- burocracia específica para isso. Com a
trole sobre as fronteiras. Todavia, com ões brasileiras sofrem de macrocefalia proximidade de outros países, muitas
o fim da Guerra Fria, surgiram ou- urbana. Ou seja, apesar de existir um questões econômicas, sociais, políti-
tros temas na agenda internacional, número grande de municípios, muitos cas e de segurança não respeitam os li-
além do militar e do estratégico, que deles são satélites de cidades maiores e mites fronteiriços. É comum, em caso
de cidades vizinhas de países diferen-
tes, muitas pessoas trabalhem em um
CIDADES E MEIO AMBIENTE país e morem em outro, fazer compras
Cidades participantes do C40, em 2014 no país vizinho, etc. Com esse inten-
so fluxo internacional (que também
é local), é natural que os municípios
também se preparem burocraticamen-
te para se relacionar com atores es-
trangeiros, mesmo que sejam cidades
relativamente menores. Isso ajuda a ex-
plicar, por exemplo, a concentração no
Sul do Brasil de cidades que declaram
Cidades membros
do Conselho diretor ter interesse em assuntos internacio-
nais. Também explica esse fenômeno a
Labmundo, 2014

1000 km
Cidades membros
porcentagem de municípios uruguaios
*C40 é uma rede de megacidades que tem o compromisso de
combater o aquecimento global. que atuam em projetos de cooperação
Fonte: Sítio web do C40, 2014. descentralizada, apesar de existir um

68 at l a s d a p o l í t i c a e x t e r n a b r a s i l e i r a
ATORES E AGENDAS

problema de macrocefalia urbana na- PARADIPLOMACIA DAS CIDADES


Cidades que atuam internacionalmente, em 2011
quele país.

A diplomacia descentralizada das cida-


des brasileiras ganhou impulso com a
redemocratização em meados dos anos
1980. A Constituição de 1988, além
de promover a abertura política, tem
um caráter muito menos centralizador
do que a precedente, o que permitiu
que os municípios começassem a agir
mais livremente no plano externo. Um
exemplo dessa nova fase para a ação
dos municípios é a criação, em feverei-
ro de 1980, da Confederação Nacional
de Municípios (CNM), que se defi-
ne como maior entidade municipa-
lista da América Latina, apartidária e
sem fins lucrativos. A CNM tem como
objetivo fortalecer a emancipação dos 250 km
municípios e dar apoio logístico e téc-
nico para que isso ocorra. Dentro de
suas ações estão previstos cursos prepa-
Cidades que têm
ratórios para funcionários públicos de

Labmundo, 2014
funcionários para tratar de
governos municipais que queiram se relações internacionais
Cidades que atuam
lançar na diplomacia descentralizada. internacionalmente
Fonte: Confederação Nacional dos Municípios, 2014.
Como foi ressaltado no item anterior,
sobre a ação internacional dos estados,
não há no Brasil lei que regulamente governo federal, como segurança, de- estava começando a implementar esse
a diplomacia descentralizada e, con- fesa, etc. Em geral, as atividades de di- sistema na cidade francesa. Esse acor-
sequentemente, como os municípios plomacia descentralizada em que os do foi tão bem recebido que a prefeitu-
que se relacionam internacionalmente municípios brasileiros se envolvem ra do Rio de Janeiro, em conjunto com
devem agir. É uma consequência natu- versam sobre cooperação técnica ou o governo estadual fluminense, seguiu
ral da descentralização uma tendência temas que não seriam resolvidos pela a estratégia da cidade gaúcha e foi até
maior à pluralidade e a uma possível ação exclusiva do governo federal. Paris para estudar o sistema de bicicle-
perda na unidade do discurso. Ape- tas públicas, também implementado
sar disso, a ação internacional das ci- Além desses temas, cabe ressaltar que em alguns bairros cariocas.
dades não tem prejudicado a coerência muitas cidades usam a diplomacia des-
do discurso diplomático oficial do go- centralizada para atrair turistas inter-
verno federal. As cidades tendem a res- nacionais e para fazer acordos culturais PARADIPLOMACIA NAS AMÉRICAS
peitar uma hierarquia política, antes com outras cidades ou países. O Rio Municípios na América Latina que participam
da diplomacia descentralizada, em 2011 (em %)
de atuar internacionalmente, buscan- de Janeiro, por exemplo, foi a primei-
90
do evitar setores da competência do ra cidade da América Latina a adotar,
em 2014, domínio próprio na inter-
net (.rio). Além disso, os municípios 70
ACORDOS DE IRMANAMENTO agem de acordo com suas raízes his-
Total de acordos com municípios brasileiros, tóricas, sociais e políticas. Isso é per- 50
em 2011 10 20 30 40 50
ceptível nos acordos de irmanamento
França entre cidades, em que as cidades fazem
acordos culturais, projetos de coope- 30
Portugal
ração técnica, programas de capacita-
Itália ção, entre outros. A maior quantidade 10
de acordos entre cidades irmãs ocorre
Labmundo, 2014

Espanha com cidades europeias, principalmen-


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te com a França e com Portugal. Um


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Alemanha
dos muitos exemplos que pode ser ci- Fonte: Confederação Nacional dos Municípios, 2014.

Holanda
tado de frutos da diplomacia descen-
tralizada das cidades é a adoção de
Bélgica corredores expressos de ônibus em VEJA TAMBÉM:
Porto Alegre. Atualmente, esse sistema Relações com os EUA p. 18
Reino
é muito comum nas cidades brasileiras
Labmundo, 2014

Unido Desenvolvimento e industrialização p. 20


e no exterior, mas o seu pioneirismo Ação internacional dos estados p. 66
Grécia
em território nacional se deveu a um Argentina: parceira estratégica p. 88
Fonte: Confederação Nacional dos Municípios, 2014. acordo com a prefeitura de Paris, que

at l a s d a p o l í t i c a e x t e r n a b r a s i l e i r a 69
Principais Para a economia e para a política bra-
sileiras, interessa que as empresas na-

multinacionais
cionais se internacionalizem. Em uma
economia globalizada, faz-se impor-
tante que as empresas brasileiras con-
tribuam para a inserção do país na

brasileiras
economia global. A internacionaliza-
ção do capital privado nacional pode
significar o seu fortalecimento, gerar
prestígio ao Brasil, produzir empregos
e propiciar acordos comerciais. Esse
fenômeno pode abrir caminho para
acordos de facilitação de comércio,
Se considerarmos a política externa porte. Devido ao seu tamanho, mo- cria mercado consumidor para pro-
como uma política pública, definiti- vimentam grandes fluxos de capital e dutos brasileiros, assim como permi-
vamente a atuação das empresas deve geram muito empregos. Essas carac- te acordos de cooperação técnica. Ao
ser considerada como uma de suas va- terísticas são importantes para enten- atuarem em outros países, as empresas
riáveis centrais. Toda política externa, der o motivo pelo qual os responsáveis também buscam absorver novas tecno-
e a PEB não seria distinta, tem uma políticos brasileiros costumam criar logias, adaptar-se a novas realidades e,
economia política que a fundamenta. condições políticas favoráveis para o com isso, obter um ganho de experti-
Em primeiro lugar, apesar das empre- crescimento dessas empresas. Quan- se por meio da troca de conhecimentos
sas não serem as responsáveis primárias do essas elas apresentam um aumen- técnicos com outros países, culturas e
pela condução da política externa, não to na produção, é provável que o PIB tecnologias.
há dúvida de que os tomadores de de- nacional e a geração de empregos tam-
cisão do governo brasileiro levam em bém sejam afetados. Além disso, os di- Como será aprofundado no capítulo 5,
conta os interesses do setor privado ao retores dessas empresas costumam ter há uma relação complementar, mas
formular as diretrizes da política ex- acesso aos principais tomadores de de- por vezes contraditória, entre a inter-
terna. Em segundo lugar, as empresas, cisão da política brasileira, por meios nacionalização das empresas brasileiras
ao atuarem em países desenvolvidos informais ou a convite das instituições. e a política de cooperação internacio-
e em desenvolvimento, também afe- Muitos políticos e altos diretores das nal para o desenvolvimento do Bra-
tam a imagem do Brasil no exterior, de empresas brasileiras se conhecem pes- sil. A política de cooperação brasileira
modo positivo ou negativo. soalmente, frequentaram os mesmos pode contribuir para a internacionali-
bancos escolares, foram colegas em zação das empresas brasileiras, pois cria
As grandes empresas brasileiras são cursos na universidade, vão aos mes- uma porta de entrada em outros países.
muito influentes, não apenas interna- mos eventos sociais, etc. Isso faz com Muitas vezes, as empresas nacionais
cionalmente, mas também no plano que exista um canal informal de comu- se instalam em outros países, aprovei-
da política doméstica (financiamento nicação entre a iniciativa privada e po- tando o canal de diálogo criado pela
de campanha eleitoral, lobbies junto líticos de alto nível, permitindo que as diplomacia brasileira no âmbito da co-
ao Congresso e às Assambleias Legisla- empresas expressem suas vontades e fa- operação. O governo brasileiro tam-
tivas, projetos de responsabilidade so- çam solicitações, influenciando, ainda bém se beneficia da ação das empresas,
cial). Em geral, as empresas nacionais que por meios informais, a formulação sendo elas responsáveis pela execução
que têm maior capacidade de ação in- das políticas públicas do Brasil, entre de muitos projetos de infraestrutura no
ternacional são também as de maior elas a política externa. exterior e financiadoras de projetos de

PRINCIPAIS EMPRESAS BRASILEIRAS NO MUNDO


Local das atividades por empresa, em 2014

Petrobras
Vale
Embrapa
Odebrecht
Labmundo, 2014

Andrade Gutierrez
1000 km

Fontes: Sítios web das empresas, 2014.

70 at l a s d a p o l í t i c a e x t e r n a b r a s i l e i r a
ATORES E AGENDAS

responsabilidade social, como criação INTERNACIONALIZAÇÃO DAS EMPRESAS BRASILEIRAS


de escolas, creches e hospitais. 35 empresas com maior índice de internacionalização, em 2013
0,1 0,2 0,3 0,4 0,5 0,6
JBS
O Brasil tem um número considerável Gerdau
Stefanini
de empresas atuando em outros Magnesita Refratários
países. Em alguns casos, a empresa se Marfrig Alimentos
internacionaliza por meio de franquias, Metalfrio
Ibope
em acordo com investidores locais. Odebrecht
Mas há também as que abrem filiais e Sabó
Minerva Foods
realizam operações em outros países. Tigre
O setor em que existe o maior número Vale
de empresas brasileiras atuando Weg
Suzano
internacionalmente é o de serviços. BRF
Esses serviços são bastante variados e Camargo Corrêa
consistem em consultoria econômica Embraer
Ci&T
e comercial, setor de logística, serviços Marcopolo
ligados a marketing e ao uso da Artecola

internet, entre outros. Todavia, as DMS Logistics


Indústrias Romi
empresas mais visíveis para a sociedade Cia Providência
em geral são as de indústria pesada, Votorantin
Andrade Gutierrez
empreiteiras e indústria extrativa. A Natura
Vale (antiga Companhia Vale do Rio Agrale
Doce, privatizada em 1997) é uma das Itaú-Unibanco
Bematech
empresas mais atuantes na extração Petrobrás
de minérios e tem operações em CZM
praticamente todos os continentes. Banco do Brasil
Ultrapar
A Petrobras, firma de capital misto,

Labmundo, 2014
Bradesco
mas de controle governamental, BRQ IT Services
*O índice considera a relação entre o doméstico e o internacional em três domínios: quantidade de ativos, volume de
também é uma das mais atuantes receitas e quantidade de funcionários.
internacionalmente. Além de ser Fonte: Fundação Dom Cabral, 2013.
competitiva no meio petrolífero, a
empresa desenvolveu tecnologia de
extração em águas profundas, que a bandeira brasileira como detalhe da de prospecção. Por esse motivo, o mo-
favorece na competição com outras alça do calçado. vimento dos Atingidos pela Vale, exis-
empresas do ramo. Esse é um dos tente no Brasil, tornou-se muito forte
motivos pelos quais a Petrobras é muito A internacionalização das empresas, também em Moçambique.
presente em alguns países costeiros, apesar de criar grandes oportunida-
como Angola. Fora do âmbito extrativo, des para o Brasil, também cria desa- A ação internacional das empresas é
também é marcante a existência de fios e produz contradições. A ação um fenômeno estrategicamente apoia-
conglomerados de empresas brasileiras de algumas empresas (principalmen- do pelo governo, mas não produz
que abrem fábricas e lojas em outros te no âmbito extrativo) causa impac- apenas impactos positivos. Portan-
países. A empresa Vulcabras-Azaleia tos e pode ser considerada predatória to, deve ser vista também como um
é um exemplo disso, sendo que por parte da sociedade do país em que desafio à imagem nacional. O Brasil
uma de suas marcas é responsável atua. Apesar de as empresas não se- busca mostrar-se como um país que
por patrocinar clubes de futebol na rem representantes do governo bra- pratica a diplomacia da solidariedade,
Argentina, além da seleção brasileira sileiro ou do país como um todo, as preocupado com modelos de desen-
de vôlei. A Havaianas, marca da críticas dirigidas a elas também refle- volvimento justos e equitativos. Ain-
Alpargatas S.A., obteve grande sucesso tem na imagem que o país tem no ex- da não é claro se e como a ação das
no mercado internacional de sandálias terior. Denúncias de desrespeito às leis empresas brasileiras pode ser inseri-
e tem como característica marcante a trabalhistas, por exemplo, podem ser da nesse discurso. Como as empresas
verificadas nas obras das empreiteiras não estão limitadas em sua ação inter-
brasileiras no exterior, dificultando a nacional por um marco regulatório ou
EMPRESAS BRASILEIRAS NO MUNDO credibilidade do discurso oficial bra- ético, tudo leva a crer que suas postu-
Quantidade de empresas por ramo, em 2014
14
sileiro preocupado com um desenvol- ras se assemelhem às de outras empre-
12
vimento mais justo e equitativo. Na sas globalizadas, no marco do sistema
10 América do Sul, a ação da Petrobras na internacional cuja economia política é
8 Bolívia e da Odebrecht no Equa- o próprio capitalismo.
6 dor (ambas com financiamento
4 por par te do BNDES) foi critica-
2 da pela opinião pública e pelo governo VEJA TAMBÉM:
de ambos os países. A ação da Vale no Relações com os EUA p. 18
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exterior, pela natureza da sua atividade,


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Desenvolvimento e industrialização p. 20
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causa impactos significativos no meio


Labmundo, 2014
do
I

Organizações e movimentos sociais p. 72


ro
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ambiente, além de impactos sociais,


El

*Foram consideradas as 45 empresas brasileiras com o Energia e integração p. 92


maior índice de internacionalização, segundo a Fundação
Dom Cabral
como a remoção de famílias das áreas
Fontes: Sítios web das empresas, 2014.
at l a s d a p o l í t i c a e x t e r n a b r a s i l e i r a 71
Organizações e diversa, os atores sociais brasileiros
apresentam diversas formas de inter-

e movimentos
nacionalização e um amplo leque de
dinâmicas de cooperação e formas
de expressar o conflito social. Alguns,
mais centralizados, operam princi-

sociais
palmente por coalizões estratégicas e
mobilizando expertises setoriais; em
outros, mais policêntricos, primam os
laços de afinidade e a tradução de ex-
periências vividas no cotidiano na for-
mação de opinião, demandas, agendas
e formas de ação.
Há algumas décadas assiste-se a uma recentemente, os diferentes protestos
crescente complexidade da política pelo mundo forjaram uma geopolíti- Pensando em tipologias, alguns ato-
transnacional e do ativismo além-fron- ca global das redes. Nesse novo cená- res sociais, mais próximos ao Itamaraty,
teiras. A emergência e a rearticula- rio, são cada vez mais numerosos os aos governos e às instituições, buscam
ção de atores sociais atuando, muitas movimentos sociais que geraram alian- influenciar a regulação de governos e
vezes concomitantemente, em dife- ças, agendas e campos de atuação di- dos regimes de informação, maior par-
rentes escalas (do local ao global, pas- versos, bem como variadas formas de ticipação na decisão de questões im-
sando pelo nacional e regional) são incidência política, muitas das quais portantes para o futuro do país ou a
hoje uma realidade. Redefinem-se as impactam, direta ou indiretamente, reforma de políticas. Outros, mais
solidariedades transnacionais. Os mo- nas políticas externas dos Estados. orientados à ruptura do que ao diálo-
vimentos anti/alterglobalização, as go, e normalmente com menor pro-
organizações transnacionais de advo- O caso brasileiro é paradigmático. Com ximidade das instâncias decisórias da
cacy, o movimento zapatista ou, mais uma sociedade civil ativa, ramificada diplomacia brasileira, incidem na po-
lítica externa de maneira mais exógena
e indireta, com ações que visibilizam
ORGANIZAÇÕES SOCIAIS NA ONU contradições da atuação externa bra-
Quantidade de Organizações Não Governamentais com status consultivo na ONU, entre 1946 e 2012
sileira. O gráfico sobre a evolução da
23 ONG brasileiras tiveram status consultivo na ONU, entre 1946 e 2012 participação das organizações não go-
3 637 ONG tiveram status consultivo na ONU, no total, entre 1946 e 2012 vernamentais brasileiras com status
consultivo na ONU e o mapa sobre o
300 Fórum Social Mundial assinalam dois
padrões distintos dentro de uma diver-
sidade ainda maior de atores e formas
de internacionalização das organiza-
200