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LATIFÚNDIO E MONOCULTURA: UM DEBATE INTERDISCIPLINAR

Cássia Queiroz da Silva


Flavio Paes Sossoloti

CÂMPUS DE TRÊS LAGOAS – UFMS

cassia_queir0z@hotmail.com - fsossoloti@yahoo.com.br

INTRODUÇÃO

A situação fundiária e a agricultura brasileira têm constituído objeto de


estudo das disciplinas Geografia e História tanto no âmbito acadêmico quanto no
ensino básico. Contudo, no ambiente escolar não vêm sendo estimulada uma maior
reflexão sobre esses temas. Alguns livros didáticos, atualmente, uns mais outros
menos, já trazem discussões como a reforma agrária e a consolidação da
propriedade no Brasil, em Geografia e História respectivamente, porém para que um
debate se desenvolva nas salas de aula é necessário que os professores estejam
atentos para questão e abordem o tema como um conteúdo fundamental e não mais
uma leitura complementar.
Pretendemos neste artigo não só propor um trabalho interdisciplinar, além
disso, propor o desenvolvimento do professor pesquisador. Desta maneira,
possibilitar tanto ao professor como ao aluno maior nível de aprendizagem, pois
como elucida Oliveira (1990): “o ensino atual da geografia não satisfaz nem ao aluno
e nem mesmo ao professor que o ministra (...), o livro didático tornou-se uma ‘bíblia’”
(p. 137).
A proposta de trabalho interdisciplinar é interessante uma vez que não só
instiga ao aluno o conteúdo, como também o professor a pesquisar de qual maneira
trabalhar melhor, e/ou diferenciando a didática consegue propor uma conversação
entre as disciplinas.
Diante dos dinâmicos processos em que se dão as transformações
econômicas atualmente, da relevância que a agro - exportação tem apresentado na
economia brasileira ao longo dos séculos e a própria situação fundiária do país,
tornou-se imprescindível democratizar o debate sobre as reminiscências do tripé da
economia colonial latifúndio – monocultura – escravidão no ensino básico. Essa
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tarefa cabe, sem dúvida, principalmente às ciências humanas, sendo objeto direto
da História e da Geografia.
No âmbito dos estudos agrários as duas disciplinas são especialmente
complementares, portanto o que se propõe neste trabalho é que o tema latifúndio e
monocultura no Brasil sejam desenvolvidos interdisciplinarmente relacionando
inclusive com a literatura objetivando possibilitar ao aluno, mais que fixação do
conteúdo, fundamentando também, a reflexão necessária para construção de seu
conhecimento.

Interdisciplinaridade e relação escola - academia

A questão agrária permeia toda a história do Brasil desde a colonização


portuguesa até o tempo presente. Considerando o caráter localizado da
industrialização que, se concentrando principalmente na região sudeste, se erradia
lentamente para outras regiões, pode-se afirmar que o Brasil ainda é um país rural e
exportador de produtos basicamente agrícolas. Partindo do olhar sobre a situação
presente e utilizando dados concretos sobre ele pode-se instigar nos alunos do
ensino básico uma curiosidade sobre a historicidade dessa situação. Afinal, qual
poderia ser o objetivo das disciplinas Geografia e História no debate aqui proposto
se não possibilitar ao aluno um olhar crítico sobre a realidade atual
percebendo-se das rupturas e continuidades do processo histórico?
Para despertar interesse nos alunos para esse e qualquer outro tema ou
disciplina, um caminho interessante é ter como ponto de partida a realidade do
aluno, seja de seu bairro ou país. A proposta que hora se apresenta não se trata de
uma reflexão sobre o latifúndio e a monocultura no nordeste açucareiro colonial
apenas, mas sim sobre a realidade agrária brasileira atual. O ensino de história que
enfoca o passado pura e simplesmente, recortado em temas desconexos, é
sonolento e desinteressante às crianças e adolescentes que sem se perceber de
processo algum questionam sem hesitar “por que estudar história”? Devemos
desenvolver em sala de aula situações onde os alunos se familiarizem com a
situação histórica, como afirmam Jaime Pinsky e Carla B. Pinsky:

Cada aluno tem que se aperceber como um ser social, alguém que
vive numa determinada época, num determinado país ou região,
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oriundo de determinada classe social, contemporâneo de


determinados acontecimentos [...] Quanto mais o aluno sentir a
História como algo próximo dele, mais terá vontade de interagir com
ela, não como uma coisa externa, distante, mas como uma prática
que ele se sentirá qualificado a exercer. O verdadeiro potencial
transformador da História é a oportunidade que ela oferece de
praticar a “inclusão histórica”... (2005, p.29).
Por meio dessa inclusão histórica onde o aluno se localiza como sujeito
histórico ele é levado a reflexão sobre que papel lhe cabe na história e na realidade
do espaço que o cerca iniciando assim uma postura crítica diante de sua realidade.
O estímulo a reflexão na sala de aula não significa a supervalorização do debate em
detrimento dos conteúdos, ou a crítica pura e simples até por que a reflexão precisa
ser solidamente fundamentada pelo conhecimento. A crítica sem base é um vício,
dentre outros disseminados que “contribuem para a queda da qualidade do ensino
em geral, mas que afetam de forma particular as aulas de História” (PINSKY, J. e
PINSKY, C. B., 2005, p.24).
Essas considerações também são pertinentes ao ensino da Geografia.
(DESENVOLVER MELHOR ESTA IDÉIA – OU ENCAIXAR MELHOR MAIS TARDE)
Um dos pontos que propõem-se aqui é se de uma atenção especial à
localização do aluno em tempo espaço sua percepção e situação enquanto ser
social que é interessante não só para o trabalho da questão agrária mas para
qualquer outro, afinal saber localizar-se é fundamental para compreensão de
qualquer questão.

Os historiadores, além de se preocuparem em situar as ações


humanas no tempo, têm a tarefa de situá-las no espaço. Não se
pode conceber um “fazer humano” separado do lugar onde esse
fazer ocorre. O ambiente natural ou urbano, as paisagens, o
território, as trajetórias, os caminhos por terra e por mar são
necessariamente parte do conhecimento histórico. Mudanças do
espaço realizadas pelos homens assim como as memórias desses
“lugares” também integram esse conhecimento.
[...] as apreensões do espaço em suas relações mais complexas
tornaram-se fundamentais para o conhecimento histórico e não se
limitam apenas a localizar os espaços pelas representações
cartográficas. Estas são, sem dúvida, fundamentais, mas precisam
estar associadas a apreensões dos espaços vividos e percebidos
pelos diferentes grupos sociais. A formação das fronteiras nacionais
da América e os conflitos delas decorrentes só serão efetivamente
entendidos se pudermos apresentar as diferentes concepções de
territórios das populações indígenas e dos dominadores estrangeiros
e não limitar o estudo às disputas entre os países europeus ou,
posteriormente, entre governos dos Estados nacionais. O sentimento
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de pertença a determinados espaços nacionais, regionais ou locais


faz parte de uma história. (BITTENCOURT, 2004, p. 208 e 210)
O diálogo entre História e Geografia, disciplinas onde se encontra a
“questão agrária” nas escolas e que têm na maioria das vezes a trabalhado em
“monólogos” facilita ao aluno a noção de continuidade nos conteúdos e também
sua localização, pessoal e dos conteúdos, no tempo e espaço. Não se trata aqui de
legar à Geografia o estudo do presente e à História o estudo do passado, menos
ainda de juntar as duas disciplinas num “pacotão” das ciências sociais, até porque
isso representaria um regresso. Propõe-se aqui desenvolver um trabalho conjunto
das disciplinas História, Geografia, neste caso, sobre o tema “latifúndio e
monocultura no Brasil” e é perfeitamente possível faze-lo sem negar de forma
alguma as especificidades de cada disciplina. Um exemplo prático para se pensar
como o diálogo entre disciplinas pode proporcionar um maior aproveitamento dos
conteúdos é o tema “Primeira Guerra Mundial” enquanto a Geografia ressalta a re-
configuração das fronteiras européias as diferenças políticas e conflitos atuais a
História pode destacar a questão do sentimento nacionalista e o imperialismo. Seria
interessante repensar ao menos a distribuição dos conteúdos ao longo do ano letivo
para que houvesse um maior sincronismo entre os conteúdos das várias disciplinas.
Enquanto o professor de Geografia trabalha algum tema referente ao Brasil os
professores de História e Literatura trabalharem com temas mais ou menos
correspondentes. Essa proposta cabe a diversos temas, entre Geografia e História
proporcionar uma conversação entre os conteúdos é mais simples considerando que
em alguns temas as abordagens são especialmente complementares, mas a
aproximação com a Literatura é sem dúvida muito útil e necessária. Nesta proposta
a Literatura será utilizada principalmente como fonte.

CONSIDERAÇÕES SOBRE A HISTÓRIA AGRÁRIA

A discussão de conceitos tem sido cada vez mais presente nos livros
didático, seja em forma de capítulo ou pequenas notas. Sobre essa questão Jaime
Pinsky e Carla B. Pinsky, afirmam que um modo mais construtivo que o
descronstrutivismo que adotado sem cautela “supervaloriza o relativismo e tira o
poder de ação da mão dos sujeitos históricos” seria
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Adotar como postura de ensino (que se quer crítico) a estratégia de


abordar a História a partir de questões, temas e conceitos. Quais
seriam as questões relevantes que podem ser feitas ao presente e,
por extensão, ao passado? Qual a relevância dos recostes temáticos
feitos pela historiografia? Quais os conceitos importantes a serem
discutidos com os alunos? (2005, p. 25)

As primeiras noções de história agrária brasileira no ensino básico


normalmente se dão durante o estudo da colonização portuguesa na América, se
tratando mais especificamente das capitanias hereditárias. Dentro desse tópico já é
possível propor ao aluno uma reflexão sobre o conceito de propriedade1 se a
discussão não é feita pelo livro didático adotado ela pode ser viabilizada pelo
professor.
Trabalhado o conceito de propriedade a próxima discussão pode ser feita
em torno da origem do latifúndio. Segundo Stanley e Barbara Stein a herança mais
significativa deixada pelo colonialismo ibérico foi a tradição da grande propriedade,
voltada para o cultivo de gêneros alimentícios e matérias-primas para consumo
interno ou exportação para os mercados da Europa ocidental (1997, p. 107). O
latifúndio na América Latina teria nascido então sob o signo da economia colonial,
voltada à exportação e baseada na mão de obra escrava, sendo esse outro ponto a
ser trabalhado. Já há algum tempo que a historiografia tem enxergado brechas
dentro dos latifúndios, grandes lavouras e da própria escravidão, porém não nega, e
não há como, o peso desse tripé REFERENCIAR PRADO JUNIOR. Aparece então a
questão: como trabalhar com os alunos essas brechas dentro da economia colonial
sem relativizar demasiadamente esses três fatores principais? Um caminho possível
é pontuar, por exemplo, questões como a existência e o papel desempenhado por
posseiros ou pequenos proprietários, suas diferentes relações com a terra,
destacando que a sociedade colonial não se resumia apenas em senhores e
escravos e latifúndios.
Não é tarefa das mais simples fazer a transposição didática de temas
discutidos na academia para alunos de 12 ou 14 anos, e também nem todas as
discussões realizadas na academia são interessantes ao conteúdo escolar, porém
algumas discussões que nem são tão recentes têm sido insistentemente

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MONTELLATO, A. R. D, CABRINI, C. A., CATELLI JÚNIOR R. História Temática: Terra e Propriedade/ 7ª
série. São Paulo Scipione, 2002 (coleção História Temática). O primeiro capítulo “Posse e Propriedade” trabalha
com estes conceitos, trazendo inclusive tópicos como “Propriedade da Terra” “Origem da propriedade no Brasil”
e “Reforma Agrária”.
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negligenciadas na escola, o papel dos homens livres na ordem escravocrata por


exemplo, destacado por Maria Silvia de Carvalho Franco desde a década de 70 do
século passado REFERENCIAR FRANCO ainda hoje é uma novidade, mal
divulgada diga-se de passagem, nas salas de aula de um modo geral e a sociedade
colonial continua sendo explicada como se só senhores e escravos existissem
firmando uma visão pobre e determinista.
Ainda segundo Stanley e Barbara Stein (VER COMO ENCAIXAR
MELHOR)

O Brasil do século XIX constitui um exemplo clássico da forma pela


qual a herança colonial da agricultura de exportação baseada na
exploração da mão-de-obra escrava modelou os padrões de
transformação econômica e social no período pós-colonial, gerando
uma estrutura neocolonial de predizíveis e inevitáveis conseqüências
sociais. (1977, p.107).

Outro ponto a ser abordado então seria até onde situação agrária atual se
apresenta como uma pesada herança colonial.
- O uso da literatura
- O agro negócio
Referências bibliográficas
BITTENCOURT, Circe M. F. Ensino de História: Fundamentos e Métodos. São
Paulo, Cortez, 2004. (Coleção Docência em Formação).

MONTELLATO, Andrea. R. D, CABRINI, Conceição A., CATELLI JÚNIOR, Roberto.


História Temática: Terra e Propriedade/ 7ª série. São Paulo Scipione, 2002.
(Coleção História Temática).
STEIN, Stanley J. e STEIN, Barbara H., tradução de José Fernandes Dias. A Herança
Colonial da América Latina: ensaios de dependência econômica. 3ª ed. Rio de janeiro,
Paz e Terra, 1997. (Estudos Latino-Americanos v. 4).
PINSKY, Jaime e PINSKY, Carla B. Por uma História Prazerosa e Conseqüente. IN:
KARNAL, Leandro. História na Sala de Aula: conceitos práticas e propostas.
São Paulo Contexto, 2005.