”
ANDRÉ GIDE
1. A vaqueira
2. O quepe do Baes
3. O Clube dos Ratos de Cais
4. As toras flutuantes do Amsterdiep
5. As hipóteses de Jean Duclos
6. As cartas
7. Um almoço no Hotel Van Hasselt
8. Maigret e as moças
9. Reconstituição
10. Alguém espera o momento certo
11. A janela iluminada
1. A vaqueira
Quando chegou a Delfzijl, numa tarde de maio, Maigret não tinha senão noções
elementares sobre o caso que o chamava àquela cidadezinha fincada no extremo
norte da Holanda.
Um certo Jean Duclos, professor na Universidade de Nancy, fazia uma turnê de
conferências pelos países do Norte. Em Delfzijl, hospedava-se na casa de um
instrutor da Escola Naval, o sr. Popinga. Mas o sr. Popinga fora assassinado e,
embora não acusassem formalmente o professor de francês, ele foi intimado a não
deixar a cidade e a permanecer à disposição das autoridades holandesas.
Isso era tudo, ou quase tudo. Jean Duclos comunicara o fato à Universidade de
Nancy, que solicitara o envio de um membro da Polícia Judiciária em missão a
Delfzijl.
A tarefa coube a Maigret. Tarefa mais oficiosa que oficial e que ele tornara ainda
menos oficial ao deixar de avisar os colegas holandeses de sua chegada.
Por intermédio de Jean Duclos, recebera um relatório bastante confuso, seguido
de uma lista de nomes que, de uma maneira ou de outra, estavam envolvidos no
caso.
Foi essa lista que ele consultou pouco antes de chegar à estação de Delfzijl.
Conrad Popinga (a vítima), quarenta e dois anos, ex-capitão de longa data,
instrutor na Escola Naval de Delfzijl. Casado. Sem filhos. Falava inglês e alemão
fluentemente e francês razoavelmente.
Liesbeth Popinga, sua mulher, filha de um diretor de colégio de Amsterdam. Muito
culta. Conhecimentos profundos de francês.
Any Van Elst, irmã mais moça de Liesbeth Popinga, que passava umas semanas em
Delfzijl. Defendeu recentemente, e com sucesso, uma tese de doutorado em direito.
Vinte e cinco anos. Compreende um pouco o francês, mas fala mal.
Família Wienands, mora na casa vizinha à dos Popinga. Carl Wienands é professor
de matemática na Escola Naval. Tem mulher e dois filhos. Nenhum conhecimento
de francês.
Beetje Liewens, dezoito anos, filha de um fazendeiro especializado em exportação
de vacas de raça pura. Duas viagens a Paris. Francês perfeito.
Informações lacônicas. Nomes que não diziam nada, pelo menos para Maigret, que
chegava de Paris após uma noite inteira e metade de um dia dentro de um trem.
Delfzijl deixou-o desconcertado logo ao primeiro contato. De madrugada, ele
atravessara a Holanda tradicional das tulipas, depois, Amsterdam, que já conhecia.
O Drenthe, verdadeiro deserto de urzes com horizontes de trinta quilômetros
riscados por canais, o surpreendera.
Topava agora com um cenário que nada tinha em comum com os cartões-postais
holandeses e cujo caráter era cem vezes mais nórdico do que ele imaginara.
Uma cidade minúscula: no máximo, dez ou quinze ruas, pavimentadas com
bonitos tijolos vermelhos, alinhados com a mesma precisão dos ladrilhos de uma
cozinha. Casas baixas, de tijolinhos também, com entalhes de madeira em cores
claras e alegres.
Era um brinquedo. Ainda mais que um dique cercava completamente a cidade.
Nesse dique, havia passagens que podiam ser fechadas, em caso de ressaca, por
meio de pesadas comportas, semelhantes às de uma eclusa.
Do outro lado, o estuário do Ems. O mar do Norte. Uma longa fita de água
prateada. Cargueiros descarregando sob os guindastes de um cais. Canais e uma
infinidade de veleiros, grandes como barcaças, pesados como elas, mas projetados
para vencer as intempéries marítimas.
Fazia sol. O chefe da estação usava um bonito boné laranja, com o qual
cumprimentou com desenvoltura o passageiro desconhecido.
Em frente havia um bar. Maigret entrou e quase desistiu de sentar. Não só tudo
reluzia feito uma sala de jantar pequeno-burguesa, como reinava ali a mesma
intimidade.
Uma única mesa, com todos os jornais do dia em suportes de cobre. O dono do
lugar, que bebia cerveja com dois fregueses, levantou-se para receber Maigret.
— Fala francês? — este indagou.
Gesto negativo. Ligeiro mal-estar.
— Dê-me cerveja… Bier!
Uma vez sentado, tirou seu papelzinho do bolso. Foi no último nome em que seus
olhos bateram. Mostrou-o, pronunciou duas ou três vezes:
— Liewens…
Os três homens puseram-se a falar entre si. Então um deles se levantou, um
rapagão de quepe de marinheiro, e fez sinal para que Maigret o seguisse. Como o
comissário ainda não estava de posse de dinheiro holandês e queria trocar uma
nota de cem francos, repetiram para ele:
— Morgen! Morgen!
Amanhã! Era só voltar…
Já era de casa. Tudo muito simples, singelo até. Sem dizer uma palavra, o cicerone
guiava Maigret através das ruas do lugarejo. À esquerda, um hangar atulhado de
velhas âncoras, cordames, correntes, boias, bússolas, que invadiam a calçada. Mais
adiante, um marinheiro cuidava de suas velas na soleira.
A vitrine da confeitaria exibia um sortimento incrível de chocolates e doces
complicados.
— Não falar inglês?
Maigret fez sinal que não.
— Não Deutsch?
Mesmo sinal, e o homem resignou-se ao silêncio. O fim de uma rua já emendava
com o campo, pastos verdejantes, um canal, cuja largura era quase toda ocupada
por toras de madeira do Norte, boiando à espera de ser carreadas através do país.
Bem ao longe, um grande telhado de telhas envernizadas.
— Liewens! Dag, mijnheer!
E Maigret continuou sozinho, não sem tentar agradecer ao homem, que, sem o
conhecer, caminhara cerca de quinze minutos para lhe fazer uma gentileza.
O céu estava azul, a atmosfera, translúcida. O comissário contornou um depósito
de madeira ao ar livre, onde as toras de carvalho, mogno e teca empilhadas batiam
na altura das casas.
Havia um barco atracado. Crianças brincando. Depois, um quilômetro de solidão.
Mais toras no canal. Cercas brancas demarcando os pastos coalhados de vacas
magníficas.
Novo choque entre a realidade e as ideias preconcebidas: a palavra fazenda
evocava para Maigret um telhado de sapê, montes de estrume, uma promiscuidade
animal.
E ele se via diante de uma bela construção, nova, rodeada por um parque
resplandecente de flores. No canal, defronte da casa, um bote de mogno de linhas
arrojadas. Apoiada na grade, uma bicicleta feminina toda cromada.
Procurou em vão uma campainha. Chamou sem obter resposta. Um cachorro veio
se esfregar nele.
À esquerda da casa estendia-se um galpão comprido, com janelas normais, porém
sem cortinas, lembrando um alpendre feito de material mais precário e sobretudo
sem a elegância das pinturas.
Maigret ouviu um mugido vindo de lá, avançou e, após contornar uns arbustos de
flores, se viu diante de um portão aberto.
O galpão era um estábulo, porém asseado feito uma casa. Em toda parte, tijolos
vermelhos que imprimiam uma luminosidade quente, suntuosa até, à atmosfera.
Regos para escoar água. Um sistema mecânico de distribuição de comida nos
comedouros. E uma roldana, atrás de cada boxe, cuja razão Maigret só veio a
conhecer mais tarde: era destinada a manter o rabo das vacas levantado enquanto
elas eram ordenhadas para que o leite não se contaminasse.
No interior reinava uma penumbra suave. Os animais estavam do lado de fora,
menos um, deitado lateralmente dentro do primeiro boxe.
Uma moça se aproximou do forasteiro, interrogando-o primeiro em holandês.
— Srta. Liewens?
— Sim… O senhor é francês?
Enquanto falavam, ela não tirava os olhos da vaca. Havia uma ponta de ironia em
seu sorriso, que Maigret não compreendeu imediatamente.
Aqui também as ideias preconcebidas se revelavam falsas. Beetje Liewens usava
galochas pretas, que lhe davam uma aparência de vaqueira.
Por cima, um vestido de seda verde, que um jaleco de enfermeira escondia quase
por inteiro.
Um rosto cor-de-rosa, cor-de-rosa até demais, talvez. Um sorriso saudável, alegre,
ao qual, porém, faltava sutileza. Olhos grandes, num azul de porcelana. Cabelos
ruivos.
Tropeçou nas primeiras palavras em francês, que pronunciou com um sotaque
forte. Mas não demorou a recuperar a familiaridade com a língua.
— É com meu pai que deseja falar?
— Com a senhorita.
Ela quase riu.
— Me desculpe. Meu pai foi a Groningen. Só volta à noite… Os dois criados estão
no canal, descarregando carvão… A empregada, nas compras… E foi justo a hora
que a vaca escolheu para parir… Não esperávamos por isso… Estou sozinha…
Estava apoiada num guincho, que deixara preparado para a eventualidade de ter
que ajudar o animal. Sorria, radiante.
Fazia sol do lado de fora. Suas galochas reluziam como verniz. As mãos eram
carnudas e róseas, as unhas, feitas.
— É a respeito de Conrad Popinga que…
Mas ela pestanejou. A vaca acabava de dar um corcoveio doloroso e voltava a cair
pesadamente.
— Cuidado… Pode me ajudar?
Ela apanhou as luvas de borracha, que estavam preparadas.
Foi assim que Maigret começou aquela investigação, ajudando um bezerro da raça
pura frisso a vir ao mundo, na companhia de uma moça cujos gestos seguros
revelavam a prática de esportes.
Meia hora depois, enquanto o recém-nascido já procurava as tetas da mãe, ele se
curvava ao lado de Beetje sob uma torneira de cobre vermelho e ensaboava as mãos
até os cotovelos.
— É sua estreia na profissão? — brincou.
— Exatamente.
Tinha dezoito anos. Quando tirou o avental branco, o vestido de seda esculpiu
formas cheias que, talvez por causa da atmosfera ensolarada, sugeriam algo de
extremamente inebriante.
— Conversaremos tomando chá. Vamos para a casa.
A empregada voltara. A sala era austera, um pouco escura, mas confortável e
elegante. As pequenas vidraças das janelas eram de um tom rosa delicado, quase
imperceptível, que Maigret nunca vira antes.
Uma estante repleta de livros. Obras variadas sobre pecuária e veterinária. Nas
paredes, medalhas de ouro obtidas em exposições internacionais e diplomas.
Em meio a tudo isso, os mais recentes livros de Claudel, André Gide, Valéry.
Beetje deu um sorriso dengoso.
— Quer conhecer o meu quarto?
Ela estudava suas reações. Em vez de cama, um divã, forrado com veludo azul.
Papel de parede de Jouy. Prateleiras escuras e mais livros, uma boneca comprada
em Paris, cheia de fru-frus.
Quase uma alcova, não obstante a atmosfera um tanto pesada, sólida, grave.
— Não é igualzinho a Paris?
— Eu gostaria que me contasse o que aconteceu semana passada.
Beetje fechou o semblante, não muito, contudo, não o bastante para sugerir que
tomasse os acontecimentos pelo lado trágico.
Senão não teria aberto aquele sorriso vibrante de orgulho ao mostrar o quarto.
— Vamos ao chá.
Sentaram-se frente a frente, diante do bule vestido com uma espécie de anágua
que não deixava a infusão esfriar.
Beetje catava palavras. Teve uma ideia. Muniu-se de um dicionário e às vezes se
interrompia um bom tempo para encontrar o termo preciso.
Um barco deslizava pelo canal, encimado por uma grande vela cinzenta,
empurrado com a ajuda de uma vara, devido à ausência de vento. Esgueirava-se
por entre as toras de madeira que obstruíam o leito.
— Ainda não foi à casa de Popinga?
— Cheguei não faz uma hora, só tive tempo de ajudar sua vaca a parir.
— É verdade. Conrad era encantador, um homem realmente simpático. Mais
moço, viajou por todos os países, como imediato, e logo como tenente… Depois,
quando tirou o brevê de capitão, casou e, por causa da mulher, aceitou um posto de
instrutor na Escola Naval. Não é tão atraente… Ele tinha um pequeno iate. Mas a
sra. Popinga tem medo de água e ele foi obrigado a vender. Nos últimos tempos,
tinha apenas um bote no canal. Viu o meu? Quase igual! À noite, dava aulas
particulares. Trabalhava muito…
— Como era ele?
Ela não entendeu prontamente. Terminou por ir pegar uma fotografia que
mostrava um rapagão bochechudo, de olhos claros, cabelos cortados curtos,
parecendo esbanjar generosidade e saúde.
— É Conrad. Não aparenta quarenta anos, concorda? A mulher é mais velha que
ele. Talvez quarenta e cinco… Não viu! E não necessariamente as mesmas ideias.
Por exemplo… Aqui, salta aos olhos, todo mundo é protestante. Eu pertenço à Igreja
moderna. Liesbeth Popinga, por sua vez, é da Igreja nacional, que é mais severa.
Como vocês dizem? Conservadora?
— Conservadora…
— Sim! E patrocina todas as obras beneficentes.
— Não gosta dela?
— Gosto. Mas não é a mesma coisa. Ela é filha de um diretor de colégio,
compreende? Já meu pai é um simples fazendeiro. Mesmo assim, ela é muito
carinhosa, muito boazinha.
— O que aconteceu?
— Há muitas conferências por aqui. É quase um vilarejo. Cinco mil habitantes. Mas
não queremos ficar desatualizados. Na última quinta-feira, era o professor Duclos,
de Nancy. Já ouviu falar?
Ficou bastante admirada que Maigret não conhecesse o professor, que ela julgava
uma glória nacional francesa.
— Um grande advogado. Especialista em questões criminais e… como é mesmo a
palavra? Psicológicas… Falou da responsabilidade dos criminosos. Está certo? Pode
me corrigir quando eu errar.
“A sra. Popinga é presidente do grupo. Os palestrantes sempre se hospedam em
sua casa.
“Às dez horas, houve uma pequena confraternização. O professor Jean Duclos,
Conrad Popinga e a mulher, depois Wienands, mulher e filhos… E eu…
“Na casa de Popinga. Fica a um quilômetro daqui, no Amsterdiep também.
Amsterdiep é o canal que o senhor vê. Tomamos vinho, comemos bolo… Conrad
ligou o rádio. Any, eu já ia esquecendo, irmã da sra. Popinga, que é advogada,
também estava lá. Conrad quis dançar. Enrolamos o tapete. Os Wienands foram
embora antes, por causa dos filhos. O menor, que chorava… São vizinhos dos
Popinga… À meia-noite, Any disse que estava com sono. Eu tinha vindo de
bicicleta. Conrad me acompanhou na volta para casa. Pegou sua bicicleta também…
“Vim para cá. Meu pai estava à minha espera.
“Foi só no dia seguinte que soubemos da tragédia… Delfzijl estava em polvorosa…
“Não acho que tive culpa. Quando Conrad voltou, foi colocar sua bicicleta no
galpão, atrás da casa.
“Atiraram, com um revólver. Ele caiu… Morreu meia hora depois…
“Pobre Conrad! A boca aberta…”
Enxugou uma lágrima que parecia engraçada em sua face lisa e rósea como a casca
de uma maçã madura.
— Só isso?
— Só… A polícia veio de Groningen para ajudar a guarda local. Concluiu que
atiraram da casa. O professor foi visto, imediatamente depois, descendo a escada
com um revólver na mão. E era o revólver do qual partira o disparo…
— O professor Jean Duclos?
— Sim! Então, não permitiram que ele partisse.
— Em suma, nesse momento permaneciam na casa a sra. Popinga, sua irmã Any e o
professor Duclos…
— Ya!
— E, durante a festinha, além deles, os Wienands, a senhorita e Conrad…
— E Cor também! Esqueci…
— Cor?
— É, Cornelius. Um aluno da Escola Naval, que tinha aulas particulares.
— Em que momento ele saiu?
— Na mesma hora em que eu e Conrad. Mas ele virou à esquerda, com sua
bicicleta, para retornar ao navio-escola atracado no Ems-Canal. Quer açúcar?
O chá fumegava nas xícaras. Um automóvel acabava de parar ao pé da escada de
três degraus da entrada. Logo em seguida, entrou um homem, alto, espadaúdo,
grisalho, com um semblante grave, uma lentidão que lhe acentuava a calma.
Era o fazendeiro Liewens, que esperou a filha apresentar-lhe a visita.
Ele apertou vigorosamente a mão de Maigret, mas não disse nada.
— Meu pai não fala francês.
Ela serviu-lhe uma xícara de chá, que ele bebeu em pé, em pequenos goles. Então,
em holandês, ela lhe comunicou o nascimento do bezerro.
Deve ter falado do papel desempenhado pelo comissário na situação, pois o
fazendeiro olhou para ele com um espanto não isento de ironia e, após uma
saudação um tanto solene, dirigiu-se ao estábulo.
— Puseram o professor Duclos na prisão? — indagou Maigret.
— Não! Ele está no Hotel Van Hasselt, vigiado por um guarda.
— E Conrad?
— O corpo foi levado para Groningen, a trinta quilômetros daqui. Uma cidade
grande, cem mil habitantes, com uma universidade, onde Jean Duclos havia sido
recebido na véspera. Terrível, não é mesmo? Não dá para entender.
Terrível, talvez! Mas não se sentia! Provavelmente em virtude da atmosfera
cristalina, do cenário ameno e confortável, do chá fumegante e de toda aquela
cidadezinha, que parecia um brinquedo pitoresco espetado na beira do mar.
Da janela, viam-se, dominando a cidade de tijolos vermelhos, a chaminé e a
passarela de um grande cargueiro em procedimento de descarga. E os barcos, no
Ems, deslizavam ao sabor da corrente até o mar.
— Conrad costumava levá-la em casa?
— Sempre que eu ia à sua casa. Era um amigo.
— A sra. Popinga não tinha ciúmes?
Maigret perguntou mecanicamente, depois de seus olhos baterem no colo sedutor
da jovem e talvez porque dele emanara uma onda de calor.
— Por quê?
— Não sei… A noite… Vocês dois…
Ela riu, mostrando os belos dentes.
— Na Holanda isso é normal. Cor também me levava, às vezes.
— E ele não estava apaixonado?
Ela não disse sim nem não. Arrulhou. É a palavra. Um pequeno arrulho de vaidade
satisfeita.
Pela janela viram seu pai removendo o bezerro do estábulo, carregando-o como
um bebê e instalando-o na relva do pasto, para um banho de sol.
O animal vacilou sobre as quatro patas franzinas, quase caindo de joelhos, e
esboçou subitamente um galope, de quatro ou cinco metros, antes de estacar.
— Conrad nunca a beijou?
Novo arrulho, porém acompanhado de pouquíssimo rubor.
— Sim…
— E Cor?
Ela foi mais convencional, desviando a cabeça até ficar de perfil.
— Também! Por que pergunta isso?
Olhou para ele, meio ressabiada. Porventura esperava que Maigret também fosse
beijá-la?
Seu pai, do lado de fora, a chamou. Ela abriu a janela. Ele falou em holandês.
Quando ela se voltou, foi para dizer:
— Sinto muito. Tenho que ir à cidade chamar o prefeito para o pedigree do bezerro.
É muito importante. Não vai a Delfzijl?
Ele saiu com ela. Ela pegou sua bicicleta cromada pelo guidom e caminhou ao seu
lado, com um leve requebro.
— Que país bonito, não acha? Pobre Conrad, que não pode mais ver! A temporada
de banhos de mar começa amanhã! Nos outros anos, ele vinha todos os dias. Ficava
uma hora na água.
Maigret, caminhando, olhava para o chão.
2. O quepe do Baes
O posto policial era moderno, confortável, claro. Maigret era esperado. O chefe da
estação avisara de sua chegada e estranhavam que ainda não tivesse aparecido.
Ele entrou como se fosse a sua casa, tirou o sobretudo de meia-estação, jogou o
chapéu sobre um móvel.
O inspetor enviado de Groningen falava um francês arrastado e um pouco afetado.
Era um rapaz alto, louro e ressequido, incrivelmente afável, que pontuava todas as
frases com pequenas mesuras, parecendo dizer: “Compreende? Estamos de
acordo?”.
Verdade que Maigret não permitiu que ele se estendesse muito.
— Uma vez que está no caso há seis dias — disse —, deve ter verificado os horários…
— Que horários?
— Por exemplo, seria interessante saber exatamente quantos minutos a vítima
levou para acompanhar a srta. Beetje até a casa dela e voltar. Espere! Também
gostaria de saber a hora em que a srta. Beetje colocou os pés na fazenda, o que seu
pai, que a esperava, deve poder lhe responder. Por fim, a que horas o jovem Cor
chegou de volta ao navio-escola, onde sem dúvida havia um bedel de plantão.
Parecendo aborrecido, o policial levantou-se bruscamente e, como se tomado por
uma inspiração, caminhou até o fundo da sala e voltou com um quepe de
marinheiro todo destroçado. Pronunciou, então, com uma lentidão exagerada:
— Descobrimos o dono deste objeto, que foi encontrado na banheira. É… é um
homem que chamamos de o Baes… Em francês, o senhor diria o patrão…
Será que ao menos Maigret escutava?
— Ele está detido, pois queremos vigiá-lo e ele é uma figura popular na região.
Conhece a foz do Ems? Nas paragens do mar do Norte, cerca de dez milhas daqui,
deparamos com ilhas arenosas, que as grandes marés de equinócio submergem
quase por inteiro. Uma dessas ilhas se chama Workum. Um homem se instalou lá,
com família, criados, e meteu na cabeça criar seus animais ali. É o Baes… Ele obteve
uma subvenção do Estado, pois tem o fogo de um farol fixo para alimentar. Foi
inclusive nomeado prefeito de Workum, ilha da qual é o único habitante. Ele tem
um barco a motor, no qual vai e vem entre sua ilha e Delfzijl.
Maigret continuava impassível. O policial deu uma piscadela.
— Sujeito muito esquisito! Um homenzinho de sessenta anos, duro feito pedra.
Tem três filhos, piratas como ele… Porque… Cuidado! Não são coisas para sair
espalhando por aí. Deve saber que Delfzijl recebe madeira principalmente da
Finlândia e de Riga. Os vapores que fazem o transporte acondicionam parte da
carga no convés. Essa carga é presa com correntes. Mas, em caso de perigo, os
capitães têm ordens para romper as correntes e deixar a carga correr do convés para
o mar, a fim de evitar a perda integral do barco. Ainda não entendeu?
Decididamente, Maigret não parecia se interessar em nada por aquela história.
— O Baes é um espertalhão. Conhece todos os capitães que vêm aqui. Sabe se
entender com eles. Então, aproximando-se das ilhas, há sempre uma razão para
romper pelo menos uma dessas correntes. Algumas dessas toneladas de madeira
caem no mar e a maré as arrasta para a areia de Workum. Direito aos destroços!
Compreende agora? O Baes divide com os capitães. E foi seu quepe que
encontramos na banheira! Um probleminha: ele só fuma cachimbo… Mas não
estava necessariamente sozinho…
— Terminou?
— Um momento! O sr. Popinga, que conhece um monte de gente em tudo que é
lugar, ou melhor, conhecia, tinha sido nomeado vice-cônsul da Finlândia em
Delfzijl fazia quinze dias.
O rapaz magro e louro triunfava, ofegava de contentamento.
— Onde estava o barco dele na noite do crime?
Foi quase um grito:
— Em Delfzijl! No cais! Próximo à eclusa! Quer dizer, a quinhentos metros da casa.
Maigret enchia seu cachimbo, ia e vinha no escritório, olhava com um olho
indiferente relatórios dos quais não entendia uma maldita palavra.
— Não descobriu mais nada? — indagou subitamente, enfiando as mãos nos bolsos.
Mal demonstrou surpresa ao ver o policial corar.
— O senhor já sabe?
Recobrou-se:
— Verdade que passou a tarde inteira em Delfzijl! Método francês!
Falava com certo constrangimento.
— Ainda não sei o valor desse depoimento. Foi no quarto dia. A sra. Popinga
apareceu. Falou que tinha consultado o pastor para saber se devia falar… Conhece a
casa? Ainda não? Posso lhe mostrar uma planta.
— Obrigado! Tenho uma! — disse o comissário, sacando-a do bolso.
O outro, pasmo, prosseguiu:
— Vê o quarto dos Popinga? Da janela, só é possível avistar um pequeno trecho da
estrada que dá acesso à fazenda. Justamente o trecho que é iluminado pelo facho
do farol, de quinze em quinze segundos.
— E a sra. Popinga, com ciúmes, espionava o marido?
— Ela olhava… Viu passar as duas bicicletas rumo à fazenda. Depois a bicicleta do
marido voltando. Depois, imediatamente depois, cem metros atrás, a bicicleta de
Beetje Liewens.
— Em outras palavras, depois que Conrad Popinga a levou em casa, Beetje voltou
sozinha na direção da casa dos Popinga. O que ela disse?
— Quem?
— A garota…
— Nada ainda… Não quis interrogá-la imediatamente. É muito grave. E talvez o
senhor tenha dito a palavra. Ciúme! Compreende? O sr. Liewens é membro do
Conselho…
— A que horas Cor voltou à escola?
— Isso nós sabemos. Cinco minutos depois da meia-noite.
— E o tiro foi disparado…?
— Cinco minutos antes da meia-noite. Só que temos o quepe e o charuto…
— Ele tem bicicleta?
— Claro. Todo mundo aqui circula de bicicleta. É prático. Eu mesmo… Mas naquela
noite ele não a usou.
— O revólver foi examinado?
— Ya! É o revólver de Conrad Popinga. Revólver de serviço. Continuava na mesa
de cabeceira, carregado com seis balas.
— O tiro foi disparado de uma distância de quantos metros?
— Aproximadamente seis — ele pronunciava seiss. — É a distância da janela do
banheiro. É também a distância da janela do quarto do sr. Duclos. E talvez o tiro
não tenha sido disparado do alto. Não dá para saber, porque Popinga, que guardava
sua bicicleta, talvez estivesse debruçado. Em compensação, temos o boné… E o
charuto, não se esqueça!
— Que se dane o charuto! — resmungou Maigret, entre os dentes.
E em voz alta:
— A srta. Any está a par do depoimento da irmã?
— Está.
— O que ela tem a dizer?
— Não falou nada! É uma moça muito instruída. Não fala muito, não é como as
outras moças.
— É feia?
Era infalível, cada interrupção de Maigret tinha o dom de sobressaltar o holandês.
— Não é bonita!
— Bom! Então é feia! O senhor dizia…?
— Ela quer descobrir o assassino. Está investigando. Pediu para ler os autos.
Foi puro acaso. Uma moça entrava, sobraçando uma pasta de couro, vestida com
uma austeridade que beirava o mau gosto.
Andou em linha reta na direção do policial de Groningen. Desatou a falar em sua
língua, sem ver o forasteiro ou o desdenhando.
O holandês corou, jogou o peso de uma perna para a outra, remexeu em alguns
papéis para disfarçar, apontou Maigret com o olhar. Mas ela não se dignava a lhe
dar atenção.
Um tanto encabulado, em desespero de causa, o holandês articulou em francês:
— Ela diz que a lei não permite que o senhor faça interrogatórios em nosso
território.
— É a srta. Any?
Um rosto irregular. Boca grande demais, dentes acavalados, sem os quais seria tão
graciosa como qualquer outra. Peito chapado. Pés grandes. Mas, acima de tudo,
uma segurança agressiva de sufragista.
— É… Segundo a letra da lei, ela tem razão. Mas respondi que a tradição…
— A srta. Any compreende francês, certo?
— Creio que sim.
A moça nem sequer estremeceu, esperando de queixo empinado o fim daquela
confabulação que parecia não lhe dizer respeito.
— Senhorita — disse Maigret com uma cortesia exagerada —, tenho a honra de lhe
apresentar meus respeitos… Comissário Maigret, da Polícia Judiciária. Tudo que eu
gostaria de saber é o que pensa a respeito da srta. Beetje e de suas relações com
Cornelius.
Ela tentou sorrir. Um sorriso de tímida que tenta vencer a própria timidez. Olhou
para Maigret, depois para seu compatriota, e balbuciou num francês sofrível:
— Eu não… eu… não compreendo direito…
E esse esforço bastou para deixá-la vermelha feito um pimentão, enquanto seu
olhar pedia socorro.
3. O Clube dos Ratos de Cais
Até ali, Maigret não se aprofundara no drama, guardando para o fim a visita,
sempre penosa, a uma casa enlutada.
Tocou a campainha. Passava um pouco das seis da tarde. Não imaginava que os
holandeses jantassem tão cedo e, quando uma empregada baixinha abriu a porta,
que dava para a sala de jantar, ele percebeu as duas mulheres à mesa.
As duas ergueram-se num mesmo impulso, com a precipitação um tanto rígida de
alunas internas bem-educadas.
Vestiam preto da cabeça aos pés. Na mesa, havia chá, fatias de pão cortadas bem
finas e um salame. Apesar do crepúsculo, a luminária não estava acesa e apenas
uma estufa a gás, cujo fogo era visível através da grade de mica, lutava contra a
penumbra.
Foi Any que tomou a iniciativa de acender a luz, enquanto a empregada ia fechar
as cortinas.
— Queiram me desculpar — disse Maigret. — Sinto muito interromper o jantar.
A sra. Popinga esboçou um gesto tímido para uma poltrona e, embaraçada, olhou
para o vazio, enquanto a irmã se fazia de morta no recinto.
O ambiente lembrava o da fazenda. Móveis modernos, mas de um modernismo
tacanho. Tons aveludados, formando uma harmonia distinta e triste.
— O senhor veio por causa…
O lábio inferior da sra. Popinga estremeceu e ela foi obrigada a levar o lenço à boca
para conter um soluço prestes a rebentar. Any não se mexia.
— Sinto muito… Volto em outra hora…
Ela fez sinal que não. Lutava para recobrar o sangue-frio. Devia ser poucos anos
mais velha que a irmã. Era alta, muito mais mulher. Seus traços eram regulares,
com um resquício de acne nas faces, dois ou três fios de cabelo grisalhos.
E uma esmaecida distinção em todas as atitudes! Maigret lembrou-se que ela era
filha de um diretor de escola, que falava fluentemente várias línguas, que era muito
instruída. O que, seja como for, não impedia sua timidez, uma timidez de burguesa
de cidade pequena que uma coisinha à toa pode melindrar.
Lembrou-se também que ela pertencia à mais austera das seitas protestantes, que
presidia as obras de caridade de Delfzijl, os círculos intelectuais femininos…
Ela conseguiu se controlar. Olhou para a irmã como se pedisse socorro.
— Desculpe! Ninguém acredita, não é mesmo? Conrad! Um homem querido por
todos.
Seu olhar pousou no alto-falante de um rádio colocado num canto, e ela ameaçou
cair em prantos.
— Era sua única distração — ela balbuciou. — E seu barco, o verão, o pôr do sol
sobre o Amsterdiep… Ele trabalhava muito… Quem teria sido capaz de fazer uma
coisa dessas?
E, como Maigret não dizia nada, ela acrescentou, mais rosada, no tom que teria
empregado se fosse uma conversa em particular:
— Não acuso ninguém… Não sei… Não quero acreditar, compreende? Foi a polícia
que pensou no professor Duclos, porque ele saiu com o revólver na mão. Quanto a
mim, não sei de nada… É hediondo! Alguém ter matado Conrad! Por quê? Por que
ele? Não foi sequer para roubar! Então…?
— A senhora contou à polícia o que viu pela janela…
Ela ficou mais ruborizada ainda. Mantinha-se de pé, uma das mãos apoiada na
mesa servida.
— Eu não sabia se devia… Acho que Beetje não fez nada. Só que, por acaso, eu vi.
Falaram que todo e qualquer detalhe pode ser útil à investigação. Pedi conselho ao
pastor. Ele me aconselhou a depor… Beetje é uma ótima garota. Realmente, não
vejo quem! Com certeza alguém que deveria estar num hospício.
Ela não catava palavras. Seu francês era puro, matizado por um sotaque bem sutil.
— Any contou que o senhor veio de Paris. Por causa de Conrad! Dá para acreditar
numa coisa dessas?
Estava mais calma. Sua irmã, sempre no mesmo ângulo da sala, não se mexia, e
Maigret não a via senão parcialmente, por intermédio de um espelho.
— Sem dúvida quer visitar a casa…
Parecia resignar-se. No entanto, suspirou:
— Por favor, vá com… Any…
Um vestido preto atravessou o campo de visão do comissário. Ele a seguiu numa
escada guarnecida com um carpete recém-instalado. A casa, que não tinha dez
anos, era construída como um bibelô, com materiais leves, tijolo oco e pinheiro.
Mas a tinta que revestia todas as madeiras dava leveza ao conjunto.
A porta do banheiro foi a primeira a ser aberta. A tampa de madeira se achava
sobre a banheira, transformada em tábua de passar. Maigret se debruçou na janela,
avistou o galpão de bicicletas, a horta bem cuidada e, do outro lado dos campos, a
cidade de Delfzijl, onde poucas casas tinham um pavimento e nenhuma, dois.
Any esperava na porta.
— Soube que está investigando por conta própria! — disse-lhe Maigret.
Ela estremeceu, mas não falou nada, apressando-se em abrir o quarto do professor
Duclos.
Cama de cobre. Guarda-roupa de pinho. Linóleo no chão.
— Este é o quarto de quem?
Ela teve que fazer um esforço para articular:
— Meu… quando eu vinha…
— Vinha muito?
— Sim… eu…
Era de fato timidez. Os sons morriam-lhe na garganta. Seu olhar procurava
socorro.
— Entretanto, como o professor estava hospedado aqui, a senhorita dormia no
gabinete de trabalho de seu cunhado…
Ela fez sinal que sim, abrindo a porta do aposento. Uma mesa atulhada de livros,
entre os quais obras recentes sobre as bússolas giroscópicas e o comando de navios
por ondas hertzianas. Sextantes. Na parede, fotografias mostrando Conrad Popinga
na Ásia, na África, em uniforme de primeiro-tenente ou capitão.
Uma panóplia de armas malásias. Porcelanas japonesas. Sobre estrados, alguns
instrumentos de precisão e uma bússola desmontada que Popinga devia ter
resolvido consertar.
Um divã de tecido canelado azul.
— E o quarto de sua irmã?
— Ao lado.
O gabinete de trabalho se comunicava ao mesmo tempo com o quarto do professor
e com o dos Popinga, decorado com mais esmero. Uma luminária de alabastro na
cabeceira da cama. Um belíssimo tapete persa. Móveis em madeira colonial.
— A senhorita estava no gabinete de trabalho… — Maigret pensou em voz alta.
Sinal afirmativo.
— Logo, não podia sair de lá sem passar pelo quarto do professor ou pelo de sua
irmã, certo?
Outro sinal.
— Mas o professor estava no quarto dele. Sua irmã também…
Ela esbugalhou os olhos e entreabriu a boca, manifestando um estupor inaudito.
— O senhor acha…?
Ele murmurou, deambulando pelos três cômodos:
— Não acho nada! Procuro! Elimino! E, até aqui, a senhorita é a única que pode ser
logicamente eliminada, a menos que se acredite na cumplicidade de Duclos ou da
sra. Popinga…
— O senhor… o senhor…
Mas ele continuava para si mesmo:
— Duclos pode ter atirado, seja de seu quarto, seja do banheiro, isso é evidente! A
sra. Popinga, por sua vez, pode ter se esgueirado no banheiro. Mas o professor, que
entrou ali imediatamente após o disparo, não a viu… Ao contrário! Viu-a saindo do
quarto dela poucos segundos depois.
Ela pareceu perder um pouco da timidez. A estudante, como se induzida por
aquela exposição técnica, prevalecia sobre a mocinha.
— Podem ter atirado de baixo — disse, com o olhar mais alerta, o corpo magro todo
contraído. — O médico disse…
— Seja como for, o revólver que matou seu cunhado é de fato o que Duclos tinha
nas mãos. A menos que o assassino o tenha lançado ao primeiro andar, pela janela…
— Por que não?
— Claro! Por que não?
E, sem esperar, ele desceu aquela escada à primeira vista estreita demais para ele e
cujos degraus estalavam sob seu peso.
Encontrou a sra. Popinga, em pé na sala, no mesmo lugar que ocupava quando ele
saíra. Any o seguia.
— Cornelius aparecia muito por aqui?
— Quase todo dia. Só tinha aula três dias da semana, terças, quintas e sábados.
Vinha nos outros dias. Seus pais moram na Índia. Há um mês, deram-lhe a notícia
da morte da mãe, já enterrada quando ele recebeu a carta. Então…
— E Beetje Liewens?
Houve um certo embaraço. A sra. Popinga fitou Any. Any abaixou os olhos.
— Ela vinha…
— Muito?
— Sim…
— A senhorita a convidava?
A coisa ia ficando mais aguda, mais precisa. Maigret sentia que avançava, se não
na descoberta da verdade, pelo menos no entendimento da vida da casa.
— Não… sim…
— É impressão minha ou ela não tem o mesmo temperamento que o seu e o da
srta. Any?
— É muito jovem, não é mesmo? Seu pai era amigo de Conrad. Ela trazia maçãs,
framboesas, creme…
— Ela não estaria apaixonada por Cor?
— Não!
Era categórico.
— A senhora não gosta muito dela?
— Por que não? Ela vinha… Ria… Falava o tempo todo… Como um passarinho,
compreende?
— Conhece Oosting?
— Sim…
— Ele tinha algum tipo de relação com seu marido?
— Ano passado, ele mandou instalar um motor novo em seu barco. Então, foi se
aconselhar com Conrad… Conrad deu uns palpites… Eles iam caçar o zeehond…
Como vocês dizem… foca… isso, foca, nos bancos de areia…
De repente…
— Acha quê? O quepe, talvez? Impossível… Oosting!
Gemeu, novamente transtornada:
— Oosting também não! Não! Ninguém! Ninguém pode ter matado Conrad… O
senhor não o conheceu… Ele… ele…
Desviou o rosto, pois chorava. Maigret preferiu se retirar. Não lhe estenderam a
mão e ele se limitou a fazer uma mesura, balbuciando desculpas.
Do lado de fora, foi surpreendido pelo frio úmido que emanava do canal. E, na
outra margem, não longe do estaleiro de reparo, percebeu o Baes conversando com
um jovem aluno da Escola Naval em seu uniforme.
Estavam ambos em pé, no crepúsculo. Oosting parecia falar com veemência. O
rapaz abaixava a cabeça e não se via senão a forma oval de seu rosto pálido.
Maigret compreendeu que devia ser Cornelius. Teve certeza disso quando
distinguiu uma braçadeira preta na manga de tecido azul.
4. As toras flutuantes do Amsterdiep
Não foi propriamente uma emboscada. Em todo caso, Maigret em momento algum
teve a impressão de estar espionando alguém.
Saía da casa dos Popinga. Deu alguns passos. Percebeu dois homens do outro lado
do canal e parou bruscamente para observá-los. Não se escondia. Estava de pé, com
todo o seu corpanzil, rente à água, cachimbo entre os dentes, mãos nos bolsos.
Mas talvez por não se esconder, e pelos outros não o verem e prosseguirem sua
conversa acalorada, o fato é que houve alguma coisa de perturbador naquele
instante.
O lado do canal em que se encontravam os dois homens estava deserto. Um
hangar se erguia no meio de um estaleiro, onde dois barcos estavam a seco,
escorados por estacas. Botes apodreciam fora d’água.
Por fim, no próprio canal, as toras de madeira, que não deixavam ver senão um ou
dois metros da superfície líquida e espalhavam um perfume exótico na paisagem.
Anoitecera. Reinava uma semipenumbra e, não obstante, a atmosfera continuava
cristalina, conferindo toda a pureza às cores.
A calma era tão intensa que surpreendia, e o coaxar de uma rã, num charco
distante, sobressaltava.
O Baes falava. Embora não erguesse a voz, percebia-se que martelava as sílabas,
que queria ser compreendido ou obedecido. Cabisbaixo, o homem em uniforme de
aspirante escutava. Usava luvas brancas, que inseriam duas manchas incisivas, as
únicas, na paisagem.
Subitamente, um apelo dilacerante. Era um asno que cismara de zurrar, atrás de
Maigret, num capinzal. E isso bastou para quebrar o encanto. Oosting olhou na
direção do animal, que esbravejava contra os céus, percebeu Maigret e deixou que
seu olhar impassível o estudasse.
Disse ainda algumas palavras ao rapaz, acomodou o curto tubo de seu cachimbo
de barro na boca e tomou o rumo da cidade.
Aquilo não significava nada, não provava nada. Maigret também caminhava, os
dois caminhavam no mesmo compasso, cada qual em uma das margens do
Amsterdiep.
Mas o caminho que Oosting seguia não demorou a divergir da margem. O Baes
logo desapareceu atrás de novos hangares. Durante quase um minuto continuou-se
a ouvir o martelar pesado de seus tamancos.
A noite descera, a não ser por um halo imperceptível. Luzes acabavam de ser
acesas na cidade e ao longo do canal, onde a iluminação se interrompia para além
da casa dos Wienands. A outra margem, não habitada, permanecia no escuro.
Maigret voltou-se, sem saber por quê. Resmungou, porque o asno lançava um
novo zurro desesperado.
E ao longe, mais longe que as casas, viu duas manchinhas brancas dançando
acima do canal. Eram as luvas de Cornelius.
Não fosse por elas, e sobretudo pela superfície da água tomada pelas árvores, seria
um mundo de fantasmas. Aquelas mãos se agitando no vazio. O corpo se
confundindo com a noite. E, na água, o reflexo da última lâmpada elétrica.
Não se ouviam mais os passos de Oosting. Maigret foi na direção das últimas casas,
passou novamente pela dos Popinga, depois pela dos Wienands.
Continuava sem se esconder, ao mesmo tempo sabia que se confundia com a
noite. Acompanhava as luvas com os olhos. Compreendia. Cornelius, para não dar a
volta por Delfzijl, onde havia uma ponte sobre o canal, atravessava a água
recorrendo às toras, que formavam uma espécie de jangada. No meio, havia um
pulo de dois metros a ser dado. As mãos brancas se agitaram mais um pouco,
descreveram uma curva rápida e a água chapinhou.
Instantes depois, ele caminhava ao longo da margem, seguido, a apenas cem
metros, por Maigret.
Foi inconsciente de ambos os lados, e, aliás, Cornelius parecia ignorar a presença
do comissário. O fato é que, desde os primeiros passos, estavam na mesma
cadência, de modo que os rangidos no cascalho se superpunham.
Maigret se deu conta disso porque em certo momento seu pé tropeçou, e durante
um décimo de segundo o sincronismo deixou de ser absoluto.
Não sabia aonde ia. E no entanto apertava o passo à medida que o rapaz acelerava.
Melhor: sentia-se carregado aos poucos por uma espécie de vertigem.
No início, eram passadas longas e regulares. Encurtavam. Precipitavam-se.
No instante preciso em que Cornelius passava em frente ao depósito de madeira,
rebentou um verdadeiro concerto de rãs e houve uma parada súbita.
Cornelius estaria com medo? Retomou a caminhada, mais irregular agora, às vezes
vacilante, outras, ao contrário, dois ou três passos tão rápidos que parecia que ia
sair correndo.
Daí em diante, foi o fim do silêncio, pois o coro das rãs disparou, enchendo a noite
inteira.
E o passo se acelerava. O fenômeno continuava: Maigret, de tanto caminhar no
ritmo do outro, era até capaz de sentir o que lhe ia por dentro.
Cornelius estava com medo! Andava depressa porque estava com medo! Estava
ansioso para chegar. No entanto, quando passava perto de uma sombra de
contornos estranhos, montes de lenha, árvore morta, arbusto, seu pé permanecia
no ar um décimo de segundo a mais.
O canal fez uma curva. Cem metros adiante, na direção da fazenda, começava o
trecho curto iluminado pelo facho do farol.
E o rapaz pareceu tropeçar naquela luz. Voltou-se. Atravessou-a correndo,
voltando-se mais uma vez.
Deixara-a para trás e continuava virando a cabeça quando Maigret entrou
tranquilamente na zona luminosa com toda a sua envergadura, todo o seu volume,
todo o seu peso.
O outro não podia deixar de vê-lo. Parou. O tempo de tomar fôlego. Retomou a
marcha.
A luz estava atrás dele. Em frente, havia uma janela iluminada, a da fazenda. O
canto das rãs não os seguia? Por mais que se afastassem, ele continuava próximo,
envolvendo-os como se fossem centenas de animais a escoltá-los.
Parada brusca, definitiva, a cem metros da casa. Um vulto se desprendeu de um
tronco de árvore. Uma voz sussurrou.
Maigret não quis recuar. Teria sido ridículo. Não quis se esconder. Além de tudo,
era tarde demais para isso, uma vez que atravessara o facho do farol.
Sabiam que ele estava ali. Ele seguiu sem artifícios, lentamente, decepcionado por
não ter mais outro passo para fazer eco ao seu.
A escuridão era densa, pois havia árvores frondosas dos dois lados da estrada. Mas
uma luva branca pousou sobre alguma coisa…
Corpos se estreitando… A mão de Cornelius por trás da silhueta de uma moça, de
Beetje…
Mais cinquenta metros, no máximo… Maigret fez uma pausa acintosa, pegou
fósforos no bolso e riscou um para acender o cachimbo, dando assim sua localização
exata.
Depois avançou. Os namorados se mexiam. Quando ele chegou a apenas dez
metros, o vulto de Beetje se desprendeu e foi postar-se no meio da estrada, o rosto
voltado para ele como se o esperasse. Enquanto isso, Cornelius permanecia
recostado num tronco de árvore.
Oito metros…
A janela da fazenda continuava iluminada atrás deles. Um simples retângulo
avermelhado.
Subitamente um gritinho rouco, indescritível, um grito de medo, nervosismo, um
desses gritos que antecedem os soluços, as lágrimas, como um disparador.
Era Cornelius quem chorava, a cabeça nas mãos, grudado na árvore como que para
se proteger.
Beetje estava diante de Maigret. Usava um casaco, mas o comissário notou que
embaixo estava de camisola, com as pernas nuas, os pés nus dentro dos chinelos.
— Por favor, não repare…
Parecia calma! Lançou inclusive um olhar de censura, de impaciência, na direção
de Cornelius.
Ele se mantinha de costas. Tentava se acalmar. Não conseguia e sentia vergonha
pelo surto.
— Ele está nervoso. Ele acha…
— O que é que ele acha?
— Que é ele que vão acusar…
O rapaz continuava afastado. Enxugou os olhos. Será que não sairia correndo?
— Ainda não acusei ninguém! — exclamou Maigret, para dizer alguma coisa.
— Não é mesmo?
E, voltada para seu companheiro, dirigiu-se a ele em holandês. Maigret julgou
compreender, ou melhor, decifrar:
— Vê?! O comissário não acusa você! Precisa se acalmar. Que infantilidade!
Mas de repente ela se calou. Permaneceu imóvel, à espreita. Maigret não ouvira
nada. Instantes depois, também julgou perceber um estalo na direção da fazenda.
Isso bastou para dar vida a Cornelius, que olhou em volta, os traços repuxados,
sentidos em alerta.
Ninguém falava.
— O senhor ouviu…? — disse Beetje, num sopro.
O rapaz quis avançar até o local de onde vinha o barulho, com uma valentia de
galinho de briga. Tinha a respiração arfante.
Tarde demais. O inimigo estava muito mais perto do que supunham.
Era a dez metros que uma silhueta se erguia, reconhecível ao primeiro relance, a
do fazendeiro Liewens, calçando apenas chinelos nos pés.
— Beetje! — chamou.
Ela não ousou responder de pronto. Porém, como ele repetia seu nome, suspirou
medrosamente:
— Ya!
Liewens continuava a avançar. Passou primeiro por Cornelius, a quem fingiu não
ver. Ainda não teria percebido Maigret?
O fato é que foi diante dele que se plantou, olho severo, narinas frementes de
raiva. Continha-se. Permanecia rigorosamente imóvel. Quando falou, foi voltando-
se para a filha e numa voz incisiva, em surdina.
Duas ou três frases. Ela abaixou a cabeça. Então ele repetiu várias vezes a mesma
palavra num tom peremptório e Beetje articulou em francês:
— Ele quer que eu lhe diga…
O pai olhava para ele, como que para captar se ela traduzia exatamente seu
discurso.
— … que na Holanda policiais não marcam encontros noturnos com moças no
campo…
Maigret corou como raramente lhe acontecia. Um fluxo de sangue quente fez seus
ouvidos zumbirem.
A acusação era mais que estúpida! Revelava uma grande má-fé!
Pois afinal Cornelius estava ali, encolhido na penumbra, o olho inquieto, os
ombros contraídos!
E, de qualquer modo, o pai devia saber que tinha sido por ele que Beetje saíra!
Então? O que responder? Ainda mais passando pela mediação de uma tradutora!
Aliás, ninguém esperou por sua resposta! O fazendeiro estalou os dedos como se
chamasse um cão e apontou o caminho para a filha, que hesitava, que se voltou
para Maigret e, não ousando olhar para o rapaz apaixonado, obedeceu finalmente
ao pai.
Cornelius não se mexera. Quer dizer, ergueu a mão, talvez para deter o fazendeiro
na passagem, mas deixou-a cair novamente. O pai e a filha se afastaram. O portão
da fazenda bateu pouco depois.
As rãs teriam se calado durante aquela cena? Impossível afirmar, mas o concerto
virou um alarido ensurdecedor.
— Fala francês?
Cornelius não respondeu.
— Fala francês?
— Um pouquinho…
Olhava com raiva para Maigret, não descerrava os dentes senão
involuntariamente, punha-se de perfil para ficar menos exposto a um ataque.
— Por que tanto medo?
Lágrimas brotaram, mas nenhum soluço. Cornelius se assoou longamente. Suas
mãos tremiam. Uma nova crise estaria por vir?
— Teme realmente que o acusem de haver matado seu instrutor?
E Maigret acrescentou com uma voz rabugenta:
— Vamos andar!
Empurrou-o na direção da cidade. Foi loquaz, pois percebia que metade das
palavras escapava a seu interlocutor.
— É por você que sente medo?
Um fedelho! Rosto magro, com as feições ainda imprecisas, tez pálida. Ombros
estreitos no uniforme justo. O quepe de aspirante da Marinha terminava de
esmagá-lo, transformando-o num menino com roupa de marinheiro.
E havia desconfiança em todas as suas atitudes, na expressão da fisionomia. Se
Maigret alteasse a voz, sem dúvida ele ergueria os braços para se defender dos
golpes!
A braçadeira preta, no entanto, conferia um toque severo. Não fazia um mês que o
guri recebera a notícia da morte da mãe na Índia, talvez numa noite em que ele, em
Delfzijl, estava superalegre, talvez na noite do baile anual da escola?
Voltaria para casa dali a dois anos, com a patente de terceiro oficial, e seu pai iria
lhe mostrar um túmulo já velho, quem sabe outra mulher instalada na casa.
E a vida começaria num grande vapor: as horas de guarda, as escalas, Java-
Rotterdam, Rotterdam-Java, dois dias aqui, cinco ou seis horas lá…
— Onde estava no momento em que o professor foi morto?
O soluço rebentou, terrível, dilacerante. O rapaz agarrou as duas lapelas de
Maigret com as mãos nas luvas brancas, tremendo convulsivamente.
— Não verdade! Não verdade! — repetiu umas dez vezes pelo menos. — Nein! Não
compreender! Não… Não verdade…
Voltaram a ser alvos do pincel leitoso do farol. A luz os cegava e esculpia, dando
relevo a todos os detalhes.
— Onde estava?
— Por ali…
Por ali era a casa dos Popinga, o canal que ele parecia acostumado a atravessar
pulando de tora em tora.
Era um detalhe importante. Popinga morrera quando faltavam cinco minutos para
meia-noite. Cornelius chegara ao navio cinco minutos depois da meia-noite.
Mas para fazer o trajeto pelo caminho normal, isto é, pela cidade, levava-se quase
meia hora.
Mas apenas seis ou sete minutos atravessando o canal daquela maneira e evitando
o desvio!
Maigret caminhava, pesado e lento, ao lado do rapaz, que tremia feito vara verde
e, quando o zurro do asno novamente reverberou, teve um calafrio, tiritando dos
pés à cabeça como se prestes a sair em disparada.
— Ama Beetje?
Silêncio obstinado.
— Você a viu voltar depois que seu instrutor a levou em casa?
— Não é verdade! Não verdade! Não verdade!
Maigret quase o acalmou com uma cotovelada.
No entanto, envolveu-o num olhar indulgente, talvez afetuoso.
— Encontra Beetje todo dia?
Novo silêncio.
— A que horas tem de estar de volta ao navio-escola?
— Dez horas… Exceto nas folgas… quando eu ia à casa do meu instrutor, eu
poder…
— Voltar mais tarde! Então, aquela noite não…?
Estavam na beira do canal, exatamente no lugar onde Cornelius o atravessara.
Com toda a naturalidade, Maigret dirigiu-se até as toras e pôs o pé sobre uma delas,
quase caindo na água pois lhe faltava traquejo e a tora rodava sob a sola de seu
sapato.
Cornelius hesitava.
— Vamos! Daqui a pouco serão dez horas…
O rapazola se espantou. Decerto esperava nunca mais voltar ao navio-escola, ser
preso, jogado na prisão.
E eis que o terrível comissário o acompanhava, tomava impulso para saltar como
ele por cima dos dois metros de água do meio do canal! Respingaram-se
mutuamente. Na outra margem, Maigret parou para secar a calça.
— Onde estamos?
Ainda não estivera daquele lado. Era um grande terreno baldio, situado entre o
Amsterdiep e o novo canal, largo e profundo, acessível aos barcos que vinham do
mar.
Ao se voltar, o comissário percebeu uma janela iluminada no primeiro andar da
casa dos Popinga. Um vulto, o de Any, se movia atrás da cortina. Era o gabinete de
trabalho de Popinga.
Mas não era possível adivinhar em que tarefa se empenhava a jovem advogada.
Cornelius se acalmara um pouco.
— Juro… — começou.
— Não!
Isso o desconcertou. Olhou tão estupefato para seu interlocutor que Maigret lhe
deu um tapinha no ombro, dizendo:
— Nunca se deve jurar! Ainda mais na sua situação… Por acaso gostaria de se casar
com Beetje?
— Ya! Ya!
— Seu pai teria aceitado?
Silêncio. Cabisbaixo, Cornelius seguia seu caminho, por entre as velhas barcaças
encalhadas que atulhavam o terreno.
Avistaram a larga superfície do Ems-Canal. Numa curva, uma grande embarcação
preta e branca, da qual todas as vigias estavam acesas. Uma proa bem alta. Um
mastro e suas vergas.
Era um velho navio da Marinha de Guerra holandês, um barco com cem anos de
uso, que, agora impróprio para a navegação, haviam atracado ali, para alojar os
alunos da Escola Naval.
Em volta, vultos escuros, brasas de cigarros. Um som de piano vinha da sala de
jogo.
De repente, um sino sacudido com vontade fez com que todos os vultos
espalhados pelo cais formassem um enxame diante da passarela, enquanto ao
longe, no caminho que levava à cidade, quatro retardatários chegavam correndo.
Uma verdadeira volta às aulas, embora todos aqueles rapazes, entre dezesseis e
vinte e dois anos, envergassem o uniforme de oficial da Marinha, luvas brancas e o
quepe engomado com galões dourados.
Um velho contramestre, debruçado na amurada, os olhava desfilar um a um
fumando seu cachimbo.
Ambiente vibrante, jovial, alegre. Piadas, que Maigret não podia compreender, se
entrecruzavam. Os cigarros eram jogados fora no momento de atravessar a
passarela. E, a bordo, os gracejos continuavam, brigas de mentira.
Os retardatários, esbaforidos, chegavam à passarela. Cornelius, traços repuxados,
olhos vermelhos, olhar febril, voltou-se para Maigret.
— Ora, vá! — este resmungou.
O outro compreendeu o gesto melhor que as palavras, levou a mão ao quepe,
bateu desajeitadamente uma continência, abriu a boca para falar.
— Tudo bem! Vá logo…
Pois o contramestre ia debandar, enquanto um aluno assumia seu posto na
entrada.
Através das vigias, era possível ver os rapazes desdobrando as redes, atirando as
roupas num canto qualquer.
Maigret não saiu do lugar até ver Cornelius entrar no recinto, tímido, acanhado,
ombros tortos, receber um travesseiro no meio da cara e dirigir-se a uma das redes
do fundo.
Outra cena estava para começar, mais pitoresca. O comissário não dera dez passos
em direção à cidade quando avistou Oosting, que, como ele, viera assistir à volta
dos alunos.
Ambos já tinham certa idade, eram grandalhões, pesados, calmos.
Não fariam um papel ridículo, parados ali a observar rapazolas subindo em suas
redes e fazendo guerra de travesseiros?
Não pareciam galinhas gordas vigiando um pintinho desgarrado?
Entreolharam-se. O Baes não saiu do lugar, mas tocou na aba do quepe.
Sabiam antecipadamente que era impossível qualquer conversa entre eles,
considerando que não falavam a mesma língua.
— Goedenavond… — resmungou mesmo assim o homem de Workum.
— Boa noite! — ecoou Maigret.
Seguiam o mesmo trajeto, por um caminho que, após cerca de cem metros, virava
a rua e penetrava na cidade.
Caminhavam mais ou menos na mesma altura. Para separá-los, teria sido preciso
que um deles reduzisse ostensivamente o passo, e nenhum dos dois parecia
disposto a isso.
Oosting, de tamancos. Maigret, de terno. Ambos fumavam cachimbo, sendo que o
de Maigret era de urze e o de Baes, em barro branco.
A terceira casa pela qual passaram era um bar e Oosting entrou no
estabelecimento, após sacudir os tamancos, que deixou no capacho segundo o
costume holandês.
Maigret não refletiu nem um segundo e também entrou.
Eram cerca de dez marinheiros e barqueiros em volta da mesma mesa, fumando
cachimbos e charutos, bebendo cerveja e genebra.
Oosting apertou algumas mãos e, vendo uma cadeira, sentou-se pesadamente e
escutou a conversa geral.
Maigret instalou-se num canto afastado e percebeu nitidamente que a atenção
geral estava concentrada nele. O dono, que fazia parte do grupo, esperou alguns
instantes para vir lhe perguntar o que beberia.
A genebra escorreu de um barrilzinho de louça e cobre. Era seu cheiro que
imperava, como em todos os bares holandeses, e que tornava a atmosfera tão
diferente da de um bar da França.
Os olhinhos de Oosting riam todas as vezes que pousavam no comissário.
Este alongou as pernas, enfiou-as sob a cadeira, alongou-as de novo, encheu um
cachimbo, para fazer alguma coisa, e o dono levantou-se expressamente para lhe
oferecer fogo.
— Mooi weer, ja! Oostenwind…
Os demais escutavam, cutucavam-se. Alguém apontou o céu estrelado pela janela.
— Mooi weer! Tempo bom!
Tentava explicar que o vento soprava do leste, o que era perfeito.
Oosting escolhia entre os charutos de uma caixa. Manipulou cinco ou seis, que
dispôs à sua frente. Ostensivamente, pegou um manilha preto feito carvão, cuja
ponta cuspiu no chão antes de acendê-lo.
Depois mostrou seu quepe novo aos companheiros.
— Vier gulden…
Quatro florins! Quarenta francos! Seus olhinhos não paravam de sorrir.
Nesse ínterim, alguém entrou, desdobrou um jornal e comentou as últimas
cotações do frete na Bolsa de Amsterdam.
E durante a conversa animada que se seguiu, semelhante a um bate-boca por
causa das vozes sonoras e da dureza das sílabas, se esqueceram de Maigret, que
tirou um trocado do bolso e foi dormir no Hotel Van Hasselt.
5. As hipóteses de Jean Duclos
Foi do Hotel Van Hasselt, onde no dia seguinte tomava seu café da manhã, que
Maigret assistiu às buscas, que não lhe haviam sido comunicadas. Verdade que se
contentara com uma breve entrevista com a polícia holandesa.
Podiam ser oito horas da manhã. A bruma ainda não se dissipara completamente,
mas sentia-se que o sol de um dia radioso se escondia atrás dela. Um cargueiro
finlandês saía do porto, puxado por um rebocador.
Em frente a um pequeno bar, na esquina do cais, havia uma grande aglomeração
de homens, todos de tamancos e quepes de marinheiro, conversando em pequenos
grupos.
Era a Bolsa dos schippers, isto é, dos balseiros, cujas embarcações de todos os
modelos se espremiam num ancoradouro do porto, abarrotadas de mulheres e
crianças.
Mais adiante, outro grupo, um punhado de homens: o Clube dos Ratos de Cais.
Porém dois guardas de uniforme acabavam de chegar. Haviam subido ao convés
do barco de Oosting e este irrompera pela escotilha, pois, quando estava em Delfzijl,
dormia sempre a bordo.
Alguém à paisana também chegava: o sr. Pijpekamp, inspetor à frente do
inquérito. Tirou o chapéu, falou educadamente. Os dois guardas desapareceram no
interior.
As buscas tiveram início. Todos os schippers notaram. E, no entanto, não houve
nenhum alvoroço, nem sequer um movimento de curiosidade aparente.
O Clube dos Ratos de Cais parecia imóvel. Alguns olhares, se tanto.
Aquilo durou uma boa meia hora. Os guardas, ao sair, bateram continência. O sr.
Pijpekamp pareceu desculpar-se.
Aquela manhã, entretanto, o Baes não fez menção de desembarcar. Em vez de ir
juntar-se ao grupo de seus amigos, um pouco adiante, sentou-se no banco do
imediato, com as pernas cruzadas, olhou para o largo, onde o cargueiro finlandês
evoluía pesadamente, e ali permaneceu fumando seu cachimbo.
Um acaso fez com que Maigret não fosse pelo Amsterdiep, e sim pelo caminho que
atravessava as terras.
A fazenda, ao sol das onze da manhã, lembrou-lhe suas primeiras atividades em
solo holandês, a moça de galochas reluzentes no estábulo moderno, a sala de estar
burguesa e o bule de chá em sua anágua.
Reinava a mesma calma. Bem ao longe, quase no limite do horizonte infinito, uma
grande vela vermelha flutuava acima dos pastos, evocando um navio-fantasma a
vogar num oceano de capim.
Como da primeira vez, o cachorro latiu. Passaram cinco bons minutos antes que a
porta se entreabrisse, mas apenas alguns centímetros, justo o suficiente para sugerir
o rosto marcado e o avental xadrez da empregada.
Como se não bastasse, antes mesmo de Maigret falar, ela fez menção de fechar a
porta.
— A srta. Liewens? — ele indagou.
O jardim os separava. A velha permanecia na soleira e o comissário, do outro lado
do portão. Entre eles, o cachorro, que observava o intruso e arreganhava os dentes.
A empregada balançou negativamente a cabeça.
— Não está? Niet hier?
Maigret já arranhava três ou quatro palavras de holandês.
Mesmo sinal negativo.
— E o patrão? Mijnheer?
Um último aceno e a porta se fechou. Todavia, como o comissário não partiu
prontamente, a porta se moveu, alguns milímetros dessa vez, e Maigret intuiu que a
velha o espiava.
Se não partira, foi porque vira uma cortina estremecer na janela que sabia ser a da
moça. Atrás da cortina, um rosto velado. Não era possível distingui-lo. Em
contrapartida, o que Maigret distinguiu com clareza foi um sutil movimento da
mão, um movimento que talvez fosse uma simples saudação, mas que mais
provavelmente significava: “Estou aqui… Não insista… Cuidado!”.
A velha atrás da porta, de um lado. A mão leitosa, do outro. E o cachorro, que
pulava o portão, ladrando. No entorno, em seus pastos, as vacas pareciam artificiais
de tão imóveis.
Maigret arriscou uma pequena experiência. Deu dois passos à frente, como se a
despeito de tudo fosse abrir o portão. Não pôde se impedir de sorrir, pois não só a
porta voltou a se fechar precipitadamente como o próprio cão, tão feroz, recuou,
com o rabo entre as pernas.
Dessa vez o comissário foi embora, seguindo pelo caminho do Amsterdiep. Tudo o
que se deduzia daquela recepção é que Beetje estava trancada e o fazendeiro dera
ordens para a empregada despachar o francês.
Maigret dava curtas e pensativas baforadas em seu cachimbo. Por um momento,
deteve os olhos nas pilhas de toras, onde a moça e Popinga haviam parado,
paravam provavelmente muitas vezes, escorando suas bicicletas com uma das mãos
e se estreitando com o braço livre.
A calma continuava a imperar na atmosfera. Uma calma serena, quase plena
demais. Uma calma capaz de convencer um francês de que toda aquela vida era tão
artificial quanto um cartão-postal.
Por exemplo, voltou-se subitamente e a poucos metros viu uma embarcação com
a roda de proa alta, cuja chegada ele não percebera. Reconheceu a vela, mais larga
que o canal. Era a mesma que ele avistara um pouco antes no limiar do horizonte e
que já estava ali, sem que parecesse possível ter percorrido distância tão grande.
No leme, uma mulher, que dava o peito a um bebê enquanto empurrava o timão
com o quadril. E um homem, escanchado no gurupés, as mãos pendentes sobre a
água, reparava um cordame.
O barco passou em frente à casa dos Wienands, depois da dos Popinga, com a vela
ultrapassando a altura dos telhados e cobrindo por um instante toda a fachada com
sua grande sombra movente.
Maigret deteve-se mais uma vez. Hesitou. A empregada dos Popinga lavava a
soleira, cabeça baixa, quadril empinado, e a porta aberta.
Sobressaltou-se, percebendo-o de súbito atrás dela. A mão que segurava o pano de
chão tremeu.
— A sra. Popinga? — ele disse, apontando para o interior da casa.
Ela quis tomar-lhe a frente. Mas se complicara, atrapalhada com o pano de chão
do qual pingava água suja. Ele entrou primeiro no corredor. Ouviu uma voz de
homem na sala e bateu.
Um silêncio brusco desceu. Um silêncio completo, rigoroso. Mais que silêncio:
expectativa, como se a suspensão momentânea de toda a vida.
Por fim, dois passos. Do lado de dentro, uma mão roçou a maçaneta da porta. O
batente se mexeu. Maigret viu primeiro Any, que acabava de abrir e o fitava com
dureza. Depois, distinguiu um vulto de homem, em pé junto à mesa, com perneiras
cáqui e vestindo um terno de brim grosso.
O fazendeiro Liewens!
Para terminar, recostada na lareira, escondendo o rosto com as mãos, a sra.
Popinga.
Estava claro que a chegada do intruso interrompia uma conversa importante, uma
cena dramática, quem sabe um bate-boca.
Sobre a mesa guarnecida com um paninho bordado, espalhavam-se diversas
cartas, como se lançadas ali com violência e em desordem.
O semblante do fazendeiro era o mais exaltado, mas foi também o que se contraiu
mais depressa.
— Vejo que atrapalho… — começou Maigret.
Ninguém respondeu. Ninguém abriu a boca. Só a sra. Popinga, após um olhar
desconsolado à sua volta, deixou o cômodo e se dirigiu quase correndo para a
cozinha.
— Creiam-me, lamento interromper a conversa…
Liewens terminou falando alguma coisa em holandês. Dirigia à moça algumas
frases incisivas, e o comissário não pôde se impedir de indagar:
— O que ele disse?
— Que voltará! Que a polícia francesa…
Ela tentava prosseguir, embaraçada.
— … é de uma tremenda desfaçatez, não é mesmo? — completou em seu lugar o
policial. — Já tivemos oportunidade de nos encontrar, o cavalheiro e eu…
O outro tentava compreender, atento à entonação e às expressões de Maigret.
E o comissário, por sua vez, deixava seu olhar pousar nas cartas, na assinatura de
uma delas: Conrad.
O constrangimento atingiu o clímax. O fazendeiro foi pegar seu boné sobre uma
cadeira, mas não se resignou a partir.
— Ele acaba de lhe trazer as cartas que seu cunhado escrevia à filha dele?
— Como sabe?
Ora bolas! A cena era facílima de reconstituir naquela atmosfera, repulsiva de tão
densa! Liewens chega, bufando de raiva. Liewens é introduzido na sala, onde o
recebem duas mulheres assustadas, fala com virulência, atira as cartas na mesa!
A sra. Popinga, transtornada, escondendo o rosto nas mãos, talvez se negando a
acreditar na evidência, ou então desamparada a ponto de cair no mutismo.
E Any tentando fazer frente ao homem, discutindo.
Foi nesse momento que bateram à porta e todo mundo se imobilizou, enquanto
Any abria.
Ela olhou à sua volta com um calmo ar de desafio. Pegou outro bilhete. Leu
pausadamente:
E quando Maigret pareceu sugerir que aquilo era o bastante, a sra. Popinga pegou
outra carta.
— Há esta aqui, talvez a última:
Minha Beetje,
É impossível! Suplico, seja sensata. Sabe muito bem que não tenho dinheiro e que
levaria tempo até arranjar uma situação no estrangeiro.
Seja mais prudente, não se zangue. E, principalmente, tenha confiança!
Não tenha medo de nada! Se acontecesse o que receia, eu cumpriria com meu dever.
O excesso de trabalho me deixa nervoso e, quando penso em você, não me concentro.
O diretor me advertiu ontem. Fiquei muito chateado.
Vou tentar sair amanhã à noite a pretexto de vistoriar um barco norueguês no porto.
Aperto-a nos braços, querida Beetje.
A sra. Popinga fitou-os alternadamente, exaurida, olhos baços. Sua mão avançou
para o outro monte, o que ela trouxera, e o fazendeiro estremeceu. Pegou uma
carta, ao acaso.
A carta não terminara, mas a voz sumiu na garganta da sra. Popinga. Por um
instante seus dedos revolveram o monte de cartas. Ela procurava alguma coisa.
Leu outra frase, pinçada no meio de um bilhete:
… e acabei acreditando que você ama mais sua mulher do que a mim, sentindo
ciúmes, detestando-a… Caso contrário, por que se recusa a partir?
… Ouvi dizer que Cornelius estaria mais apaixonado pela sra. Popinga do que por
mim e que os dois se entenderiam muito bem… Se isso pudesse ser verdade! Então
ficaríamos tranquilos e você não teria mais escrúpulo…
O papel fugiu-lhe das mãos, indo pousar lentamente no tapete, ao pé de Any, que
lhe cravou os olhos.
Um novo silêncio se instalou. A sra. Popinga não chorava. Mesmo assim, tudo nela
era trágico, trágico de dor reprimida, de dignidade obtida à custa de um esforço
insano, trágico também em função do sentimento admirável que a movia.
Estava ali para defender Conrad! Esperava um ataque. Lutaria mais, se necessário.
— Quando descobriu essas cartas? — perguntou Maigret, acanhado.
— Um dia depois que…
Ela engasgou. Abriu a boca para sorver um gole de ar. Suas pálpebras se incharam.
— … que Conrad…
— Sim!
Ele compreendera. Olhava-a com compaixão. Não era bonita. No entanto, tinha as
feições regulares, e não aquelas arestas que enfeavam o rosto de Any.
Até seu sorriso devia ser um sorriso comportado, ponderado, sua alegria, uma
alegria comportada, em surdina!
Aos seis anos, devia ser uma criança séria! Aos dezesseis, devia ser a mesma de
hoje!
Mulheres que parecem nascidas para ser irmãs, ou tias, ou enfermeiras, ou viúvas
caridosas.
Conrad não estava presente e jamais Maigret o sentira tão vivo como naquele
instante, com seu rosto de bom moço, sua gula, melhor dizendo, seu apetite pela
vida, sua timidez, seu medo de bater de frente com alguém e aquele aparelho de
rádio cujos botões ele girava horas a fio para sintonizar uma canção de jazz em
Paris, os ciganos de Budapeste, a opereta de Viena, até mesmo as mensagens
distantes de navio a navio.
Any aproximou-se da irmã, como quem se aproxima de alguém que sofre e que vai
fraquejar. Mas a sra. Popinga moveu-se na direção de Maigret, dando pelo menos
dois passos.
— Eu nunca poderia imaginar — sussurrou. — Nunca! Eu vivia… eu… E quando ele
morreu, eu…
Por sua maneira de respirar, ele pressentiu que ela era cardíaca, e no instante
seguinte ela confirmava essa hipótese, permanecendo um bom tempo imóvel, com
uma das mãos no peito.
Alguém se deslocou no aposento: o fazendeiro, com seu olhar severo, intenso, que
avançara em direção à mesa e pegava as cartas da filha com um nervosismo de
ladrão com medo do flagrante.
Ela deixou que ele o fizesse. Maigret também.
Mesmo assim, ele não se atreveu a partir. Ouviram-no falar, não se dirigindo a
ninguém em particular. A palavra Franzose bateu de cheio nos ouvidos de Maigret e
ele teve a impressão de entender holandês, como sem dúvida Liewens, naquele dia,
entendera francês.
Reconstituiu a frase, de maneira aproximada: “Acha necessário revelar essas
coisas ao francês?”.
Deixou o boné cair no chão, recolheu-o, inclinou-se diante de Any, que estava em
seu caminho, e só diante dela resmungou ainda algumas sílabas ininteligíveis e
saiu. A empregada devia ter acabado de lavar a soleira, pois foi possível ouvir a
porta da entrada abrir e fechar, depois passos se afastando.
Apesar da presença da moça, Maigret voltou a indagar, com uma doçura de que
ninguém o julgaria capaz:
— Mostrou essas cartas à sua irmã?
— Não! Mas quando esse homem…
— Onde estavam?
— Na gaveta da mesa de cabeceira. Eu nunca a abria. Era lá também que estava o
revólver…
Any falou em holandês e a sra. Popinga traduziu mecanicamente:
— Minha irmã disse que eu deveria ir me deitar. Porque já faz três noites que não
durmo. Ele não teria partido. Deve ter sido imprudente dessa vez, não é mesmo?
Ele gostava de rir, brincar… Alguns detalhes me voltam à lembrança… Beetje, que
vinha sempre trazer frutas e bolos que ela mesma fazia. Eu achava que era para
mim. Depois vinha nos chamar para jogar tênis. Sempre em horários que ela sabia
impossíveis para mim! Mas eu não queria ver maldade. Achava ótimo Conrad se
distrair um pouco. Porque ele trabalhava muito e Delfzijl era triste para ele. Ano
passado ela quase foi a Paris conosco. E era eu que insistia!
Ela dizia isso com simplicidade, com uma lassidão em que mal havia rancor.
— Ele não queria partir. O senhor ouviu. Mas tinha medo de magoar… Era seu
caráter… Foi advertido por dar notas boas demais nas provas. Por causa disso, meu
pai não gostava dele…
Colocou um bibelô de volta no lugar e esse gesto preciso de dona de casa
contrastou com o estado de espírito ambiente.
— Eu só queria que o assunto estivesse encerrado. Porque não querem nem que ele
seja enterrado. Compreende? Não sei mais! Devolvam-me seu cadáver! Deus
decerto vai se encarregar de punir o culpado…
Exaltara-se. Prosseguiu num tom mais firme:
— Sim… É nisso que acredito… Essas coisas são um assunto entre Deus e o
assassino, não é mesmo? Nós, o que podemos saber?
Estremeceu, como se assomada por uma ideia. Apontou a porta. Disse,
atropelando as palavras:
— Talvez ele vá matá-la! Ele é capaz disso! Seria terrível…
Any olhava para ela com certa impaciência. Devia considerar todas aquelas
palavras inúteis e foi com uma voz muito calma que pronunciou:
— O que pensa agora, sr. comissário?
— Nada!
Ela não insistiu, mas seu rosto exprimia contrariedade.
— Não penso nada, porque antes de tudo temos o quepe de Oosting! — ele disse. —
A senhorita ouviu as teorias de Jean Duclos. Leu as obras de Grosz a que ele se
referiu. Um princípio: não permitir que a verdade seja distorcida por considerações
psicológicas. Seguir até o fim o raciocínio que decorre dos indícios materiais.
Impossível saber se gracejava ou falava seriamente.
— Ora, há um quepe e uma ponta de charuto! Alguém os trouxe ou introduziu na
casa.
A sra. Popinga suspirou consigo mesma:
— Não posso acreditar que Oosting…
E subitamente, erguendo a cabeça:
— Isso me lembrou uma coisa que eu tinha esquecido…
Mas se calou, temendo falar demais, como se apavorada ante as consequências de
suas palavras!
— Fale!
— Não! Isso não significa nada!
— Eu lhe peço…
— Quando Conrad ia caçar foca nos bancos de areia de Workum…
— Sim… E daí?
— Beetje ia com eles… Porque ela caça também… Aqui na Holanda as moças gozam
de grande liberdade…
— Eles dormiam a bordo?
— Às vezes uma noite… Às vezes duas…
Ela segurou a cabeça com as mãos, fez um gesto de impaciência levado a um grau
extremo e gemeu:
— Não! Não quero mais pensar! É horrível demais… Horrível demais…
Dessa vez, os soluços vinham. Nasciam. Quando iam rebentar, Any apoiou as mãos
no ombro da irmã e a empurrou mansamente para a sala contígua.
7. Um almoço no Hotel Van Hasselt
Ela tentou sorrir para ele, como das outras vezes, mas faltou espontaneidade ao
sorriso. Transpirava nervosismo. Continuava a observar a rua como se temesse a
aproximação de alguém.
— Faz meia hora que estou à sua espera.
— Quer entrar?
— No café, não, está bem?
No corredor, ele hesitou um instante. Também não podia recebê-la em seu quarto.
Então empurrou a porta do salão de baile, vasta e vazia, onde as vozes ressoaram
como num templo.
À luz do dia, o cenário do palco parecia morto, empoeirado. O piano estava aberto.
Havia uma caixa grande num canto e cadeiras empilhadas até o teto.
Atrás, guirlandas de papel que deviam ter decorado algum baile comunitário.
Beetje mantinha o visual exuberante. Vestia um tailleur azul e seus seios, sob uma
blusa de seda branca, seduziam mais do que nunca.
— Conseguiu sair de casa?
Ela não respondeu imediatamente. Tinha muita coisa a dizer, era visível, mas não
sabia por onde começar.
— Fugi! — declarou afinal. — Eu não podia mais ficar. Estava com medo! Foi a
empregada que veio me dizer que meu pai estava furioso, que seria capaz de me
matar. Ele já tinha me trancado no quarto, sem falar nada. Pois nunca diz nada
quando está com raiva. Na outra noite, voltamos para casa sem uma palavra. Ele
trancou a porta à chave. Hoje à tarde, a empregada falou comigo pelo buraco da
fechadura. Parece que ele voltou ao meio-dia, lívido. Almoçou, depois circulou com
grandes passadas pela fazenda. Terminou se dirigindo ao túmulo da minha mãe…
“Sempre que há uma grande decisão para ser tomada… Então quebrei uma
vidraça. A empregada me passou uma chave de parafuso e soltei a fechadura.
“Não posso voltar para lá. O senhor não conhece meu pai.”
— Uma pergunta! — interrompeu-a Maigret.
E ele olhava para a bolsinha de pele de cabrito envernizada que ela segurava na
mão.
— Quanto dinheiro trouxe?
— Não sei… Talvez quinhentos florins.
— Que estavam no seu quarto?
Ela corou, balbuciando:
— Que estavam no escritório. Minha primeira ideia foi ir para a estação de trem.
Mas havia um policial defronte. Pensei no senhor…
Estavam ali como numa sala de espera, onde é impossível criar um clima de
intimidade, e não lhes passava pela cabeça pegar duas das cadeiras empilhadas para
sentar.
Embora nervosa, Beetje não estava transtornada. Talvez por isso Maigret a fitasse
com certa hostilidade, que se refletiu claramente no tom com que lhe perguntou:
— A quantos homens já propôs que a raptassem?
Ela perdeu a cor. Desviou a cabeça, gaguejou:
— O que o senhor disse?
— Popinga, primeiro… Ele foi o primeiro?
— Não compreendo.
— Pergunto se foi seu primeiro amante.
Um silêncio bem longo. Depois:
— Não imaginava que seria tão cruel comigo. Eu vinha…
— Foi o primeiro? Afinal, durou pouco mais de um ano. Mas e antes disso?
— Eu… flertei com o professor de ginástica do liceu, em Groningen…
— Flertou?
— Foi ele que… que…
— Muito bem! Logo, já havia tido um amante antes de Popinga… Outros?
— Nunca! — ela gritou com indignação.
— E se envolveu com Barens?
— Não é verdade… Juro!
— Tinha encontros com ele…
— … Porque ele estava apaixonado… Ele mal ousava me beijar…
— E, por ocasião do seu último encontro, aquele que foi interrompido com a minha
chegada e a de seu pai, a senhorita lhe sugeriu que partissem…
— Como sabe?
Ele quase caiu na gargalhada! Era de uma ingenuidade desconcertante! Ela
recobrara parte do sangue-frio! Falava daquelas coisas com notável candura!
— Ele não quis?
— Tinha medo… Falou que não tinha dinheiro…
— E a senhorita lhe sugeriu que pegassem na sua casa. Em suma, não é de hoje que
a senhorita tem a doença da fuga. Seu grande objetivo na vida é deixar Delfzijl na
companhia de um homem qualquer…
— Qualquer, não! — retificou, vexada. — O senhor é mau! Não quer compreender!
— Claro que sim! Claro que sim! É inclusive de uma simplicidade infantil! A
senhorita ama a vida! Ama os homens! Ama todas as alegrias que é capaz de se
proporcionar.
Ela abaixou os olhos, remexeu na bolsa.
— A senhorita se entedia na fazenda-modelo de seu pai! Tem vontade de fazer
outra coisa! Começa no liceu, aos dezessete anos, com o professor de ginástica…
Impossível convencê-lo a partir… Em Delfzijl, passa os homens na peneira e
descobre um que parece mais audacioso que os outros. Popinga é um homem
viajado. Ama a vida também. Os preconceitos o atormentam. A senhorita se joga no
pescoço dele…
— Por que diz…
— Talvez eu exagere! Digamos que, sendo a senhorita uma moça bonita,
diabolicamente atraente, ele lhe faz uma pequena corte! Mas uma corte discreta,
tímida, pois tem medo das complicações, medo da mulher, de Any, de seu diretor,
dos alunos…
— Sobretudo de Any…
— Falaremos disso daqui a pouco. Ele a beija pelos cantos da casa. Apostaria que
nem sequer tem a audácia de desejar mais… Entretanto, a senhorita acredita que
aconteceu… Todos os dias dá um jeito de esbarrar com ele. Leva frutas para ele, em
sua casa. Introduz-se no meio do casal. Pede que ele a acompanhe de bicicleta até
sua casa e os dois param atrás do monte de toras. A senhorita lhe escreve cartas em
que manifesta sua vontade de fugir…
— O senhor leu?
— Sim!
— E acha que não foi ele que começou?
Ganhou fôlego.
— No início, ele me dizia que era muito infeliz, que a sra. Popinga não o
compreendia, que ela só pensava no-que-dirão, que era uma vida maçante, e tudo o
mais…
— Não me diga!
— O senhor bem vê que…
— Sessenta homens casados em cada cem dizem isso à primeira moça sedutora que
encontram. Só que o infeliz topou com uma moça que o levou ao pé da letra.
— O senhor é mau, mau…
Estava prestes a chorar. Continha-se, batia com o pé para enfatizar a palavra mau.
— Em suma, ele sempre adiou essa gloriosa partida para depois, e a senhorita
percebeu que ela nunca se realizaria.
— Não é verdade!
— Claro que é! Prova disso é que se garantia contra essa eventualidade aceitando a
veneração de Barens… Prudentemente! Porque ele é um rapaz tímido, bem-
educado, respeitoso, que não convém melindrar.
— Isso é horrível!
— É uma historinha real…
— O senhor me detesta, não é?
— Eu? De forma alguma…
— Detesta sim! Seja como for, estou sofrendo… Eu amava Conrad…
— E Cornelius? E o professor de ginástica?
Dessa vez ela chorou… Bateu com o pé no chão.
— Eu o proíbo…
— De dizer que não os amava! Por que não? Amava-os na medida em que eles
representavam outra vida para a senhorita, a grande partida que sempre a
deslumbrou.
Ela não escutava mais. Gemia:
— Eu não deveria ter vindo… Eu achava…
— Que eu ia tomá-la sob minha proteção? Mas é o que estou fazendo! Com a
ressalva de que nem por isso a considero uma vítima, ou uma heroína. A senhorita é
uma mocinha ávida, um pouco tola, um pouco egoísta, só isso! Uma mocinha como
há muitas por aí.
Os olhos dela brilharam com um pouco de esperança.
— Todo mundo me detesta! — rosnou.
— Todo mundo quem?
— Em primeiro lugar, a sra. Popinga, porque não sou como ela! Ela gostaria que eu
passasse a vida fazendo roupas para os aborígines da Oceania ou tricotando para os
pobres. Sei que ela disse às meninas do educandário para não me imitarem. Chegou
a declarar que eu terminaria mal se não arranjasse logo um marido. Repetiram isso
para mim…
Era novamente como uma lufada do perfume um tanto rançoso da cidade
pequena: o educandário, os mexericos, as moças de boa família reunidas em torno
de uma senhora caritativa, os conselhos e confidências pérfidas.
— Mas é sobretudo Any…
— Que a detesta?
— Sim! A maioria das vezes, inclusive, era só eu chegar para ela deixar a sala e subir
para o quarto. Eu poderia jurar que ela sabe a verdade, e não é de hoje… Já a sra.
Popinga, apesar de tudo, é uma boa mulher. Limitava-se a tentar mudar minhas
maneiras, o corte de meus vestidos. E sobretudo me fazer ler outra coisa que não
fosse romances! Mas não suspeitava de nada… Era ela que recomendava a Conrad
que me acompanhasse até em casa.
Um sorriso singular pairava no semblante de Maigret.
— Any não é a mesma coisa! O senhor a viu! Ela é feia! Tem os dentes acavalados!
Nenhum homem jamais lhe deu bola! Ela sabe disso! Sabe que ficará para titia. Foi
por isso que estudou, quis ter uma profissão. Finge detestar os homens! É membro
das ligas feministas…
Beetje exaltava-se de novo. Percebia-se o velho ressentimento aflorando
finalmente.
— Ficava sempre rondando a casa, vigiando Conrad. Uma vez que está condenada
a permanecer virtuosa, quer que todo mundo saiba… Compreende? Ela descobriu…
tenho certeza disso… Deve ter tentado desviar o cunhado de mim… E até mesmo
Cornelius! Decerto via que todos os homens olhavam para mim, inclusive
Wienands, que no entanto jamais ousou me falar nada, mas que fica todo vermelho
quando danço com ele. Sua mulher também me detesta por causa disso! Talvez Any
não tenha contado nada à irmã… Ou talvez sim… Talvez até tenha sido ela que
encontrou minhas cartas…
— E quem matou? — interrogou abruptamente Maigret.
Ela engasgou.
— Juro que não sei… Eu não disse isso! Mas Any é cheia de veneno! Tenho culpa se
é feia?
— Tem certeza de que ela nunca teve namorado?
Ah! O sorriso, na verdade a risadinha de Beetje, aquela risada instintivamente
triunfante de mulher desejável pisoteando o dragão!
Parecia coisa de adolescentes, no internato, brigando por uma futilidade qualquer.
— Pode apostar que em Delfzijl, não…
— Ela detestava o cunhado também?
— Não sei… Não é a mesma coisa! Ele era da família. E a família não lhe pertencia,
um pouco que fosse? Então, melhor vigiá-lo, protegê-lo…
— E matá-lo, não?
— O que acha! O senhor sempre diz isso!
— Não acho nada! Responda! Oosting estava sabendo de suas relações com
Popinga?
— Disseram-lhe isso também?
— Vocês iam juntos, em seu barco, até os bancos de areia de Workum! Ele os
deixava a sós?
— Sim! Ele pilotava, no convés.
— E deixava a cabine para vocês…
— Nada mais natural… Fazia frio do lado de fora…
— Nunca mais o viu, depois da morte de Conrad?
— Não! Juro…
— Ele nunca a assediou?
Ela riu, furtivamente.
— Ele?
E, não obstante, tinha de novo vontade de chorar, de nervosismo. A sra. Van
Hasselt, que terminara por ouvir o barulho, passou a cabeça pelo vão de uma porta,
balbuciou desculpas e voltou para o caixa. Houve um silêncio.
— Acha realmente que seu pai é capaz de matá-la?
— Sim! Ele faria isso…
— Logo, teria sido capaz de matar seu amante…
Ela esbugalhou os olhos, apavorada, e protestou com dureza:
— Não! Isso não é verdade! Não foi meu pai que…
— No entanto, quando a senhorita chegou em casa, na noite do crime, ele não se
encontrava lá…
— Como sabe?
— Ele chegou um pouco depois, não foi?
— Logo depois… Mas…
— Nas suas últimas cartas, a senhorita manifestava impaciência. Percebia que
Conrad lhe escapava, que a aventura começava a amedrontá-lo, que, em todo caso,
ele jamais abandonaria o lar para partir com a senhorita para o estrangeiro.
— O que pretende dizer com isso?
— Nada! Faço apenas uma observação. Seu pai certamente não vai demorar a
chegar.
Ela olhou com angústia à sua volta. Parecia procurar uma saída…
— Não tenha receio… Preciso da senhorita esta noite…
— Esta noite?
— Sim! Vamos reconstituir os passos de cada um na noite do crime.
— Ele vai me matar!
— Quem?
— Meu pai!
— Eu estarei presente. Não se preocupe.
— Mas…
A porta se abriu. Jean Duclos entrou, fechou-a bruscamente atrás de si, girou a
chave na fechadura e avançou com o semblante agitado.
— Atenção! O fazendeiro está aqui… Ele…
— Leve-a para o seu quarto…
— Para o meu…?
— Para o meu, caso prefira!
Ouviam-se passos no corredor. Próximo ao palco havia uma porta que se
comunicava com a escada de serviço. A dupla esgueirou-se por ali. Maigret girou a
chave e deu de cara com o fazendeiro Liewens, que olhava por cima do ombro do
comissário.
— Beetje?
Era novamente o problema das línguas que se interpunha. Não conseguiam se
compreender. Maigret limitou-se a obstruir a passagem com seu corpanzil e ganhar
alguns instantes, evitando ao mesmo tempo enfurecer seu interlocutor.
Jean Duclos não demorou a descer, tentando fingir descontração.
— Diga-lhe que a filha lhe será devolvida esta noite e que também precisamos dele
para a reconstituição do crime.
— É de fato necessário?
— Traduza, diacho, não vê que estou mandando?
Duclos obedeceu, com voz afetada. O fazendeiro olhou para os dois.
— Acrescente que o assassino estará atrás das grades ainda esta noite.
Isso foi traduzido. Maigret teve então apenas o tempo de dar um pulo e derrubar
Liewens, que havia pegado um revólver e tentava apontar o cano para as próprias
têmporas.
A luta foi breve. Maigret era tão pesado que seu adversário não demorou a se ver
imobilizado e desarmado, enquanto uma pilha de cadeiras, em que os dois corpos
haviam esbarrado, desmoronava estrepitosamente, ferindo sem gravidade o
comissário na testa.
— Passe a chave na porta! — gritou Maigret para Duclos. — Melhor ninguém entrar.
E levantou-se, ofegante.
9. Reconstituição
Maigret os dominava com sua envergadura, ou melhor, com sua massa. A sala era
pequena. Recostado na porta, o comissário parecia grande demais para o recinto.
Estava grave. Talvez nunca tenha sido tão humano quando, lentamente e com a
voz um pouco rouca, narrou:
— A música continua. Barens ajuda Popinga a enrolar o tapete. Num canto, Jean
Duclos fala e escuta os outros, de frente para a sra. Popinga e Any. Wienands e sua
mulher pensam em ir embora por causa das crianças, discutem a possibilidade em
voz alta. Popinga tomou uma dose de conhaque. É o suficiente para animá-lo. Ri…
Cantarola… Aproxima-se de Beetje e a convida para dançar.
A sra. Popinga não desgrudava os olhos do assoalho. Any mantinha suas pupilas
ardentes apontadas para o comissário, que concluiu:
— O assassino já sabe que irá matar. Alguém assiste a Conrad dançando e sabe que
dentro de duas horas esse homem que ri sonoramente, que gostaria de se divertir a
despeito de tudo, que tem sede de vida e emoções, não passará de um cadáver.
Foi um choque, literalmente. A boca da sra. Popinga se abriu para um grito que
não se materializou. Beetje continuava a soluçar.
A atmosfera, por conseguinte, mudara. Mais um pouco e teriam procurado Conrad
com os olhos. Conrad que dançava! Conrad que duas retinas homicidas
espreitavam!
Somente Jean Duclos deixou escapar:
— Muito sagaz!
E como ninguém ligou, ele prosseguiu com seus botões, na esperança de ser
ouvido por Maigret:
— Agora compreendi o seu método, que não tem nada de novo! Aterrorizar o
culpado, sugestioná-lo, reinseri-lo na atmosfera de seu crime para forçá-lo a
confessar. Já houve quem, tratado dessa forma, repetisse involuntariamente os
mesmos gestos…
Mas tudo não passou de um zumbido confuso. Não eram palavras apropriadas
para o momento e ninguém lhes deu atenção.
O alto-falante continuava a soar música, o que já fazia subir um grau na atmosfera.
Wienands, depois que sua mulher lhe sussurrou alguma coisa ao ouvido,
levantou-se timidamente.
— Sim! Sim! Pode ir! — disse Maigret antes que ele falasse.
Pobre sra. Wienands, pequeno-burguesa bem-educada, que gostaria de se
despedir de cada um, mandar os filhos cumprimentarem, e que não sabia como
agir, apertando a mão da sra. Popinga sem achar nada para dizer!
Havia um relógio na lareira. Marcava dez horas e cinco minutos.
— Ainda não chegou a hora do chá? — indagou Maigret.
— Sim! — respondeu Any, levantando-se e dirigindo-se à cozinha.
— Perdão, senhora! Não foi preparar o chá com a sua irmã?
— Um pouco mais tarde…
— Encontrou-a na cozinha?
A sra. Popinga passou a mão na testa. Fazia um esforço para não cair no estupor.
Voltou os olhos para o alto-falante, com desespero.
— Não sei mais… Espere! Acho que Any saía da sala de jantar, pois o açúcar fica na
copa…
— Havia luz?
— Não… Talvez… Não! Acho que não…
— A senhora não disse nada?
— Sim! Eu disse: “É bom o Conrad parar de beber, senão ele vai perder a
compostura”.
Maigret encaminhou-se para o corredor, no momento em que os Wienands
fechavam a porta da entrada. A cozinha era clara e asseada. A água esquentava
num fogareiro a gás. Any tirara a tampa de um bule de chá.
— Não vale a pena fazer o chá.
Estavam sozinhos. Any olhou-o nos olhos.
— Por que me obrigou a pegar o quepe?
— Pouco importa… Venha…
Na sala, ninguém falava, ninguém se mexia.
— Pretende deixar essa música tocando até o fim? — decidiu, em todo caso,
protestar Jean Duclos.
— Talvez. Há mais alguém que eu gostaria de ver: a empregada.
A sra. Popinga olhou para Any, que respondeu:
— Já foi se deitar… Ela deita sempre às nove horas…
— Muito bem! Vá lhe dizer que desça um instante. Não precisa mudar de roupa.
E, com a mesma voz de locutor que adotara no início, repetiu, obstinado:
— A senhorita dançava com Conrad, Beetje. No canto, conversava-se gravemente.
E alguém sabia que haveria um cadáver… Alguém sabia que era a última noite de
Popinga…
Ouviram-se rumores, passos, uma porta batendo no segundo andar da casa, andar
ocupado exclusivamente por mansardas. Depois, um murmúrio se aproximou. Any
foi a primeira a entrar. Um vulto permanecia em pé no corredor.
— Venha cá! — grunhiu Maigret. — Alguém diga a ela que não precisa ter medo de
entrar.
A empregada tinha feições vagas, um grande rosto achatado e aparvalhado.
Limitara-se a enfiar um casaco por cima de uma camisola atoalhada creme, que ia
até os pés. Cabeceava de sono, tinha os cabelos desalinhados. Cheirava a cama
quente.
O comissário dirigiu-se a Duclos.
— Pergunte-lhe em holandês se ela era amante de Popinga.
A sra. Popinga desviou a cabeça dolorosamente. A frase foi traduzida. A
empregada sacudiu a cabeça com força.
— Repita a pergunta! Pergunte-lhe se o patrão nunca tentou obter alguma coisa
dela.
Novos protestos.
— Diga-lhe que ela corre o risco de mofar na cadeia se não disser a verdade! Divida
a pergunta. Ele já a beijou? Entrou em seu alojamento com ela lá dentro?
A moça de camisola explodiu numa crise de choro, bradando:
— Não fiz nada! Juro que não fiz nada…
Duclos traduziu. Contraindo os lábios, Any cravou os olhos na empregada.
— Tinha mesmo um caso com ele?
Mas a empregada era incapaz de falar. Protestava. Chorava. Pedia perdão.
Articulava palavras que os soluços engoliam pela metade.
— Não acredito! — traduziu finalmente o professor. — Pelo que entendi, ele a
atormentava. Quando estava sozinho com ela na casa, rondava a cozinha,
assediando-a… Beijava-a… Uma vez invadiu seu quarto enquanto ela se vestia.
Dava-lhe chocolate às escondidas. Mas não mais que isso!
— Ela pode voltar para a cama.
Ouviram a moça subir a escada. Pouco depois, perceberam o rumor de passos indo
e vindo no quarto. Maigret dirigiu-se a Any.
— Quer fazer a gentileza de ir ver o que ela está fazendo?
Logo souberam.
— Quer ir embora imediatamente! Está com vergonha! Não quer ficar uma hora a
mais nesta casa! Pede desculpas à minha irmã. Falou que vai para Groningen ou
qualquer outro lugar, que não mora mais em Delfzijl.
E, agressiva, Any acrescentou:
— Era esse o seu intuito?
O relógio marcava dez e quarenta. Uma voz, no alto-falante, anunciava:
Contrariando as expectativas, Maigret não fez mais nenhuma pergunta. O que, por
sinal, criou certo mal-estar. Tinha-se a impressão de que, atingido o clímax,
houvera uma pausa súbita.
O comissário foi abrir a porta da entrada, chamando:
— Pijpekamp! Venha, por favor. Deixe Oosting onde está. Suponho que tenha visto
as luzes nas janelas dos Wienands se acenderem e apagarem. Eles devem ter ido
dormir.
— Sim…
— E Oosting?
— Permaneceu atrás da árvore.
O inspetor de Groningen olhava à sua volta com espanto. Reinava uma calma
incompreensível. Os rostos pareciam rostos de pessoas que tivessem passado noites
e noites em claro!
— Pode ficar aqui um instante? Vou sair com Beetje Liewens, como fez Popinga. A
sra. Popinga subirá até o quarto dela, bem como Any e o professor Duclos. Peço-lhes
que executem os mesmos gestos daquela noite.
E voltando-se para Beetje:
— Venha, por favor.
Fazia frio do lado de fora. Maigret contornou o prédio, encontrou no galpão a
bicicleta de Popinga e duas bicicletas femininas.
— Pegue uma…
Pouco depois, enquanto deslizavam suavemente pelo caminho de sirga, em
direção ao depósito de madeira, indagou:
— Quem sugeriu que parassem?
— Conrad…
— Ele continuava alegre?
— Não… Assim que saímos, percebi que entristecera…
Já haviam alcançado os montes de toras.
— Saltemos. Ele estava apaixonado?
— Sim e não. Estava triste. Acho que era por conta do conhaque. No início estava
alegre. Me tomou nos braços aqui. Falou que era muito infeliz, que eu era uma boa
mocinha. É, foi o que ele disse… Que eu era uma boa mocinha, mas que chegava
tarde demais e que, se não tomássemos algumas precauções, aquilo terminaria em
tragédia…
— E as bicicletas?
— Nós as apoiamos aqui… Percebi que ele estava com vontade de chorar. Já o tinha
visto assim, nas noites em que tomava um trago. Ele acrescentou que era um
homem, que para ele aquilo não tinha importância, mas que uma mocinha como eu
não devia jogar sua vida numa aventura. Então jurou que me amava muito, que
não tinha o direito de estragar minha vida, que Barens era um ótimo rapaz e que eu
terminaria sendo feliz com ele.
— Então…?
Ela respirou com força. Explodiu.
— Gritei que ele era um covarde e quis montar de novo na bicicleta…
— O que ele fez?
— Segurou o guidom… Tentava me impedir de partir… Dizia:
“Deixe-me explicar… Não é por mim… É…”.
— O que ele explicou?
— Nada! Porque falei que se ele não me soltasse eu ia gritar. Ele soltou… Eu
pedalei… Ele me seguiu, continuando a falar… Mas eu ia mais depressa… Só ouvia:
“Beetje! Beetje! Me ouça um instante…”.
— Só isso?
— Quando viu que eu tinha alcançado o portão da fazenda, deu meia-volta. Virei-
me… Eu o vi curvado sobre a bicicleta, arrasado.
— Correu atrás dele?
— Não! Estava com ódio dele, porque ele queria me fazer casar com Barens. Era
sossego que ele queria, é ou não é? Só que, quando fui empurrar o portão, notei que
estava sem o meu cachecol. Alguém poderia encontrá-lo e fui procurar. Não
encontrei ninguém. Quando finalmente cheguei em casa, meu pai não estava lá. Ele
voltou mais tarde, não me deu boa-noite… Estava pálido, com cara de mau…
Imaginei que ele nos espionara, que talvez estivesse escondido atrás do monte de
toras.
“No dia seguinte, ele deve ter revistado meu quarto… Encontrou as cartas de
Conrad, pois não as vi mais… Depois me trancou.”
— Venha!
— Aonde?
Ele não se deu ao trabalho de responder. Pedalou em direção à casa dos Popinga.
Havia luz na janela da sra. Popinga, mas esta não aparecia.
— Acha que foi ela?
O comissário resmungou consigo mesmo:
— Ele voltou desse jeito, preocupado… Desmontou da bicicleta, provavelmente
neste local… Contornou a casa, empurrando a bicicleta pelo guidom… Pressentia
sua paz ameaçada, mas era incapaz de fugir com a amante…
E subitamente imperativo:
— Não saia daqui, Beetje.
Empurrou a bicicleta ao longo da alameda que circundava a casa. Entrou no pátio
e dirigiu-se ao hangar, onde o bote envernizado se delineava como um longo fuso.
A janela de Jean Duclos estava iluminada. Era possível imaginar o professor
sentado diante de uma escrivaninha. A dois metros, a janela do banheiro,
entreaberta, porém na penumbra.
— Ele não devia estar com pressa de voltar… — monologou ainda Maigret. —
Debruçou assim, para empurrar a bicicleta para debaixo do telhado…
Dava tempo ao tempo. Fez como se estivesse à espreita de alguma coisa. E, com
efeito, alguma coisa aconteceu, mas uma coisa insólita: um rumor quase
imperceptível, no andar superior, na janela do banheiro, um estalido metálico, o
clique de um revólver descarregado. Depois, logo em seguida, indícios de briga, a
queda de dois corpos no chão.
Maigret entrou na casa pela cozinha, subiu precipitadamente ao primeiro andar,
empurrou a porta do banheiro e acendeu a luz.
Dois corpos se contorciam no chão: o do inspetor Pijpekamp e o de Barens, que
logo se viu imobilizado, enquanto sua mão direita, abrindo, largava o revólver.
11. A janela iluminada
— Imbecil!
Foi a primeira palavra de Maigret, que, no sentido mais amplo da palavra,
recolheu Barens, colocou-o de pé e o amparou momentaneamente, pois sem isso o
rapaz teria sem dúvida voltado a cair. Portas se entreabriam. Maigret urrou:
— Desçam todos!
Tinha o revólver na mão. Manipulava-o sem maiores precauções, afinal fora ele
quem substituíra as balas originais por cartuchos sem pólvora.
Pijpekamp espanava seu sobretudo empoeirado com o dorso da mão. Jean Duclos
indagava, apontando para Barens:
— Foi ele?
O rapazola da Escola Naval parecia destroçado, não como um grande culpado, mas
como um aluno flagrado em erro. Não ousava olhar para ninguém. Não sabia o que
fazer com as mãos, com os olhos.
Maigret acendeu as luzes da sala. Any entrou por último. A sra. Popinga recusou-
se a sentar e adivinhavam-se seus joelhos tremendo por baixo do vestido.
Então, pela primeira vez, o comissário pareceu embaraçado. Encheu um
cachimbo, acendeu, deixou apagar, sentou-se numa poltrona, levantou-se logo em
seguida.
— Me intrometi num assunto que não me dizia respeito! — disse muito rápido. —
Um francês era suspeito e me mandaram para cá a fim de esclarecer o caso…
Acendeu novamente o cachimbo, ganhando um tempo para refletir. Voltou-se
para Pijpekamp.
— Beetje está do lado de fora, bem como seu pai e Oosting. Diga-lhes para
voltarem para suas casas ou entrarem. Isso depende… Deseja que saibam a
verdade?
O inspetor foi até a porta. Instantes depois, Beetje entrava, humilde e tímida,
seguida por Oosting, com sua cara de turrão, depois, finalmente, junto com
Pijpekamp, um Liewens lívido e hostil.
Viram então Maigret abrir a porta da sala de jantar. Ouviram-no vasculhar um
armário. Quando voltou, tinha na mão uma garrafa de conhaque e um copo.
Bebeu sozinho. Estava mal-humorado. Uma roda se formara à sua volta e todos
pareciam amedrontados.
— Quer saber, Pijpekamp?
E abruptamente:
— Paciência! Sim! Paciência se o seu método é o correto! Somos de países
diferentes, de raças diferentes. Os climas são diferentes. Quando farejou um crime
passional, o senhor pulou em cima do primeiro depoimento que lhe permitisse
arquivar o caso. Crime cometido por um marujo estrangeiro! Talvez isso seja
preferível para a ordem pública. Nada de escândalos! Nada de mau exemplo dado
pela burguesia ao povo! Só que eu continuo a ver Popinga, exatamente aqui,
brincando com o rádio e dançando sob os olhos do assassino…
Grunhiu, sem voltar-se para ninguém:
— O revólver foi encontrado no banheiro. Portanto, o tiro partiu de dentro da casa.
Pois é idiota pensar que o culpado, depois de cometer o crime, teve presença de
espírito para mirar numa janela entreaberta e arremessar a arma. E muito menos
para ir deixar um quepe dentro de uma banheira e uma ponta de charuto na sala de
jantar!
Pôs-se a caminhar de um lado para outro, evitando sempre fitar seus
interlocutores. Oosting e Liewens, que não o compreendiam, olhavam-no
intensamente, para perscrutar o sentido de seu discurso.
— Aquele quepe, aquela ponta de charuto e, por fim, a arma apanhada na mesinha
de cabeceira do próprio Popinga, isso era demais… Compreende? Queriam provar
demais… Queriam embaralhar demais as cartas… Um Oosting, ou outro qualquer
vindo do lado de fora, talvez tivesse deixado metade desses indícios, mas não tudo!
“Logo, premeditação… Logo, vontade de furtar-se à lei…
“Só resta proceder por eliminação. O Baes é o primeiro a ser eliminado. Que razão
tinha ele para entrar primeiro na sala de jantar, largar um charuto lá, subir ao
quarto para pegar o revólver e ainda colocar o quepe dentro da banheira?
“Em seguida, descartamos Beetje, que durante a noite não foi ao primeiro andar,
não pôde deixar lá o quepe e muito menos roubá-lo a bordo, uma vez que
caminhava ao lado de Popinga.
“Seu pai poderia matar, após flagrá-la com o amante. Contudo, naquele instante,
era tarde demais para subir até o banheiro.
“Sobra Barens… Ele também não subiu. Não roubou o quepe. Sentia ciúmes de seu
instrutor, porém, uma hora antes, ainda não tinha nenhuma certeza.”
Maigret se calou e, batendo o cachimbo no salto do sapato, esvaziou-o sem se
preocupar com o tapete.
— Isso é praticamente tudo. Resta-nos escolher entre a sra. Popinga, Any e Jean
Duclos. Nenhuma prova contra nenhum dos três. Mas tampouco nenhuma
impossibilidade material. Jean Duclos saiu do banheiro com o revólver na mão.
Podemos considerar isso uma garantia de sua inocência. Mas nada nos diz que não
fosse um supremo ardil. No entanto, como ele voltou da cidade na companhia da
sra. Popinga, não pôde roubar o quepe. E a sra. Popinga, que estava com ele, da
mesma forma.
“O quepe não poderia ser roubado senão pelo último grupo: Barens ou Any. Ainda
há pouco ficou demonstrado que Any permaneceu um instante sozinha em frente
ao barco de Oosting.
“Quanto ao charuto, sem comentários… Basta se abaixar, em qualquer lugar, para
recolher uma guimba velha.
“De todos os que estavam aqui na noite do crime, Any é a única que ficou no
segundo andar sem testemunha e que, além disso, entrou na sala de jantar.
“Em compensação, no que se refere ao crime, era quem tinha o melhor álibi.”
Maigret, o olhar sempre arisco, evitando encarar seus interlocutores, colocou na
mesa a planta do local desenhada por Duclos.
— Any não pode alcançar o banheiro senão passando pelo quarto da irmã ou pelo
do francês. Quinze minutos antes do assassinato, ela está em seu quarto. Como irá
até o banheiro? Como ter certeza de, na hora precisa, passar por um dos dois quartos?
Não se esqueçam de que ela estudou não só direito, como tratados de polícia
científica. Discutiu o assunto com Duclos. Conversaram sobre a possibilidade do
crime matematicamente impune.
Any, hirta, exangue, conservava mesmo assim o sangue-frio.
— Preciso abrir um parêntese. Sou o único aqui a não ter conhecido Popinga. O que
me obrigou a construir uma imagem a partir de testemunhos. Ele tinha sede de
prazeres na mesma medida em que recuava diante das responsabilidades e, acima
de tudo, aos princípios estabelecidos. Ele assediou Beetje num dia de euforia… E ela
se tornou sua amante. Sobretudo porque ela quis! Interroguei a empregada, ainda
há pouco… Ele também a acariciou, à toa, ao passar. Não foi mais longe porque não
foi especialmente incentivado a isso.
“Em outras palavras, ele quer todas as mulheres. Comete pequenas
imprudências… Rouba um beijo, uma carícia… Mas, acima de tudo, zela por sua
segurança.
“Foi capitão de longa data. Conheceu o encanto das escalas sem amanhã. Por
outro lado, é funcionário de sua majestade e preza seu posto, como preza sua casa,
seu lar, sua mulher…
“É uma aliança entre apetite e repressão, loucura e sensatez!
“Aos dezoito anos, Beetje não compreendeu isso e acreditou que ele fugiria com
ela.
“Any vive emparedada. Que importa que não seja bonita? É uma mulher… Eis o
mistério… Um dia…”
O silêncio à sua volta era opressivo.
— Não estou afirmando que ele era seu amante. Mas, com ela também, ele foi
imprudente. Ela acreditou nele… Ficou caidinha por ele… Uma paixão menos cega
que a da sra. Popinga…
“Viveram assim os três… A sra. Popinga confiante… Any, mais fechada,
apaixonada, ciumenta, sutil…
“Ela, por seu turno, percebeu as relações dele com Beetje. Farejou a inimiga…
Talvez tenha procurado e encontrado as cartas…
“Aceitava dividi-lo com a irmã. Não podia aceitar era a moça saudável e jovem,
com quem fugir era uma possibilidade…
“Decidiu matar…”
E Maigret concluiu:
— Isso é tudo! Um amor que se transmuta em ódio! Um amor-ódio! Um sentimento
complexo, implacável, capaz de inspirar tudo… Ela decidiu matar… Decidiu
friamente. Matar sem dar margem a nenhum tipo de acusação!
“E aquela noite o professor discorrera sobre crimes impunes, assassinos
científicos…
“Ela é tão orgulhosa de sua inteligência quanto apaixonada. Cometeu o crime
perfeito… Um crime que haveria de ser fatalmente imputado a um forasteiro…
“O quepe… o charuto… E o álibi irrefutável: ela não podia sair do quarto para
matar sem passar pelo da irmã ou pelo do francês…
“Durante a conferência, ela viu mãos se procurando… No trajeto, Popinga
caminhou ao lado de Beetje… Eles beberam e dançaram… Partiram juntos em suas
bicicletas…
“Só restava imobilizar a sra. Popinga em sua janela, insinuar-lhe a suspeita…
“E enquanto a julgavam em seu quarto, ela pôde passar, já de combinação, às suas
costas. Estava tudo planejado… Ela alcançou o banheiro… Atirou… A tampa da
banheira estava aberta… O quepe estava com ela… Era só colocá-lo ali…
“Após o disparo, Duclos entrou, encontrou a arma no peitoril da janela, saiu
apressado e, encontrando a sra. Popinga no hall, desceu com ela.
“Any, já preparada, pronta para dormir, os seguiu. Quem poderia suspeitar que ela
não saía de seu quarto, que não estava transtornada, ela cujo recato era lendário e
que se mostrava naqueles trajes?
“Nenhuma compaixão! Nenhum remorso! Esses ódios amorosos extinguem todos
os outros sentimentos. Fica apenas a vontade de vencer!
“Oosting, que presenciara o furto do quepe, calou-se. Afinal, seu respeito pelo
morto, seu amor pela ordem! Não convinha escândalo em torno da morte de
Popinga. Ele mesmo ditou a Barens um depoimento sugerindo um crime hediondo
cometido por um marujo desconhecido.
“Liewens, que viu a filha chegar em casa após Popinga tê-la deixado e que, no dia
seguinte, leu as cartas, acreditou na culpa de Beetje, trancou-a no quarto, obstinou-
se em descobrir a verdade.
“Supondo que eu fosse prendê-lo, ainda há pouco, tentou matar-se.
“E, por fim, Barens… Barens, suspeitando de todos, debatendo-se contra o
mistério e sentindo-se igualmente alvo de suspeita…
“Barens, que tinha visto a sra. Popinga na janela… Não fora ela que atirara após
descobrir ser traída?
“Ele foi recebido aqui como um filho da casa. Órfão, encontrara na sra. Popinga
uma nova mãe.
“Quis sacrificar-se… Quis salvá-la… Haviam-no esquecido na distribuição dos
papéis… Ele foi pegar o revólver… Alcançou o banheiro… Quis atirar… Matar o único
homem que sabia e sem dúvida matar-se em seguida!
“Pobre rapazola heroico… Generosidade como só temos aos dezoito anos!
“Isso é tudo! A que horas sai um trem para a França?”
“Maigret empurrou a porta, parou por acaso numa saída de ar quente. Em pé,
ligeiramente apoiado na mesa gótica, o conde de Saint-Fiacre o fitava.
Ao lado dele, olhos fixos no tapete, o padre mantinha uma imobilidade rigorosa,
como se um só movimento bastasse para traí-lo.
O que os dois faziam lá, sem falar, sem se mexer?”
Marujos não conversam muito com outros homens, e conversam menos ainda
com policiais. Mas depois que o corpo do capitão Fallut foi encontrado próximo ao
vapor em que trabalhava, o Océan, todos começaram a falar em mau-olhado para
definir os acontecimentos sinistros na última viagem da embarcação.
A noite da encruzilhada
“Não que se assemelhasse aos policiais que a caricatura popularizou. Não usava
bigode nem sapatos com solas reforçadas. Suas roupas eram de lã fina, de corte
apurado. E, sim, fazia a barba todas as manhãs e cuidava das mãos.
A compleição, porém, era banal. Era grandalhão e ossudo. Músculos rijos se
desenhavam sob o paletó e deformavam rapidamente suas calças mais novas.
Tinha, acima de tudo, um estilo muito pessoal de agir, que não deixava de
desagradar a vários colegas seus.”
Título original
Un Crime en Hollande
Projeto gráfico
Bruno Romão e Alceu Chiesorin Nunes
Capa
Alceu Chiesorin Nunes
Preparação
Leny Cordeiro
Revisão
Jane Pessoa
Valquíria Della Pozza
ISBN 978-85-438-0454-5
Mucho más que documentos.
Descubra todo lo que Scribd tiene para ofrecer, incluyendo libros y audiolibros de importantes editoriales.
Cancele en cualquier momento.