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“O maior de todos, o romancista mais genuíno que já existiu.


ANDRÉ GIDE

“Adoro ler Simenon. Ele me faz pensar em Tchékhov.”


WILLIAM FAULKNER

“Soberbo... O mais viciante dos escritores...


Um contador de histórias singular.”
THE OBSERVER

“Intenso, implacável, brilhante.”


JOHN GRAY

“Um dos maiores escritores do século XX...


Simenon era inigualável na capacidade de nos fazer olhar para dentro, embora sua habilidade fosse disfarçada pela
maestria em nos manter obsessivamente absorvidos por suas histórias.”
THE GUARDIAN

“Um escritor supremo… Vivacidade inesquecível.”


THE INDEPENDENT

“Um escritor que, mais do que qualquer autor policial,


combinava grande reputação literária com apelo popular.”
P. D. JAMES

“Um escritor maravilhoso... admiravelmente fluente — lúcido,


simples, absolutamente afinado com o mundo que criava.”
MURIEL SPARK

“Seus romances são extraordinárias obras-primas do século XX.”


JOHN BANVILLE
Georges Joseph Christian Simenon nasceu em 12 de fevereiro de 1903 em
Liège, na Bélgica. Começou a trabalhar para um jornal local aos dezesseis
anos. Aos dezenove, embarcou para Paris a fim de dar início à carreira de
romancista. Começou a publicar histórias, sob vários pseudônimos, em
1923. Escreveu 75 romances e 28 contos protagonizados pelo comissário
Maigret.
O total de sua produção ultrapassa os quatrocentos livros, entre os quais
estão os famosos “romances duros”, reputados entre os de maior
densidade psicológica da literatura europeia. O realismo sombrio de seus
textos fez dele um dos autores mais adaptados para o cinema e a TV.
Faleceu em 1989, em Lausanne, na Suíça, onde passou a maior parte da
vida.
Sumário

1. A vaqueira
2. O quepe do Baes
3. O Clube dos Ratos de Cais
4. As toras flutuantes do Amsterdiep
5. As hipóteses de Jean Duclos
6. As cartas
7. Um almoço no Hotel Van Hasselt
8. Maigret e as moças
9. Reconstituição
10. Alguém espera o momento certo
11. A janela iluminada
1. A vaqueira

Quando chegou a Delfzijl, numa tarde de maio, Maigret não tinha senão noções
elementares sobre o caso que o chamava àquela cidadezinha fincada no extremo
norte da Holanda.
Um certo Jean Duclos, professor na Universidade de Nancy, fazia uma turnê de
conferências pelos países do Norte. Em Delfzijl, hospedava-se na casa de um
instrutor da Escola Naval, o sr. Popinga. Mas o sr. Popinga fora assassinado e,
embora não acusassem formalmente o professor de francês, ele foi intimado a não
deixar a cidade e a permanecer à disposição das autoridades holandesas.
Isso era tudo, ou quase tudo. Jean Duclos comunicara o fato à Universidade de
Nancy, que solicitara o envio de um membro da Polícia Judiciária em missão a
Delfzijl.
A tarefa coube a Maigret. Tarefa mais oficiosa que oficial e que ele tornara ainda
menos oficial ao deixar de avisar os colegas holandeses de sua chegada.
Por intermédio de Jean Duclos, recebera um relatório bastante confuso, seguido
de uma lista de nomes que, de uma maneira ou de outra, estavam envolvidos no
caso.
Foi essa lista que ele consultou pouco antes de chegar à estação de Delfzijl.
Conrad Popinga (a vítima), quarenta e dois anos, ex-capitão de longa data,
instrutor na Escola Naval de Delfzijl. Casado. Sem filhos. Falava inglês e alemão
fluentemente e francês razoavelmente.
Liesbeth Popinga, sua mulher, filha de um diretor de colégio de Amsterdam. Muito
culta. Conhecimentos profundos de francês.
Any Van Elst, irmã mais moça de Liesbeth Popinga, que passava umas semanas em
Delfzijl. Defendeu recentemente, e com sucesso, uma tese de doutorado em direito.
Vinte e cinco anos. Compreende um pouco o francês, mas fala mal.
Família Wienands, mora na casa vizinha à dos Popinga. Carl Wienands é professor
de matemática na Escola Naval. Tem mulher e dois filhos. Nenhum conhecimento
de francês.
Beetje Liewens, dezoito anos, filha de um fazendeiro especializado em exportação
de vacas de raça pura. Duas viagens a Paris. Francês perfeito.

Informações lacônicas. Nomes que não diziam nada, pelo menos para Maigret, que
chegava de Paris após uma noite inteira e metade de um dia dentro de um trem.
Delfzijl deixou-o desconcertado logo ao primeiro contato. De madrugada, ele
atravessara a Holanda tradicional das tulipas, depois, Amsterdam, que já conhecia.
O Drenthe, verdadeiro deserto de urzes com horizontes de trinta quilômetros
riscados por canais, o surpreendera.
Topava agora com um cenário que nada tinha em comum com os cartões-postais
holandeses e cujo caráter era cem vezes mais nórdico do que ele imaginara.
Uma cidade minúscula: no máximo, dez ou quinze ruas, pavimentadas com
bonitos tijolos vermelhos, alinhados com a mesma precisão dos ladrilhos de uma
cozinha. Casas baixas, de tijolinhos também, com entalhes de madeira em cores
claras e alegres.
Era um brinquedo. Ainda mais que um dique cercava completamente a cidade.
Nesse dique, havia passagens que podiam ser fechadas, em caso de ressaca, por
meio de pesadas comportas, semelhantes às de uma eclusa.
Do outro lado, o estuário do Ems. O mar do Norte. Uma longa fita de água
prateada. Cargueiros descarregando sob os guindastes de um cais. Canais e uma
infinidade de veleiros, grandes como barcaças, pesados como elas, mas projetados
para vencer as intempéries marítimas.
Fazia sol. O chefe da estação usava um bonito boné laranja, com o qual
cumprimentou com desenvoltura o passageiro desconhecido.
Em frente havia um bar. Maigret entrou e quase desistiu de sentar. Não só tudo
reluzia feito uma sala de jantar pequeno-burguesa, como reinava ali a mesma
intimidade.
Uma única mesa, com todos os jornais do dia em suportes de cobre. O dono do
lugar, que bebia cerveja com dois fregueses, levantou-se para receber Maigret.
— Fala francês? — este indagou.
Gesto negativo. Ligeiro mal-estar.
— Dê-me cerveja… Bier!
Uma vez sentado, tirou seu papelzinho do bolso. Foi no último nome em que seus
olhos bateram. Mostrou-o, pronunciou duas ou três vezes:
— Liewens…
Os três homens puseram-se a falar entre si. Então um deles se levantou, um
rapagão de quepe de marinheiro, e fez sinal para que Maigret o seguisse. Como o
comissário ainda não estava de posse de dinheiro holandês e queria trocar uma
nota de cem francos, repetiram para ele:
— Morgen! Morgen!
Amanhã! Era só voltar…
Já era de casa. Tudo muito simples, singelo até. Sem dizer uma palavra, o cicerone
guiava Maigret através das ruas do lugarejo. À esquerda, um hangar atulhado de
velhas âncoras, cordames, correntes, boias, bússolas, que invadiam a calçada. Mais
adiante, um marinheiro cuidava de suas velas na soleira.
A vitrine da confeitaria exibia um sortimento incrível de chocolates e doces
complicados.
— Não falar inglês?
Maigret fez sinal que não.
— Não Deutsch?
Mesmo sinal, e o homem resignou-se ao silêncio. O fim de uma rua já emendava
com o campo, pastos verdejantes, um canal, cuja largura era quase toda ocupada
por toras de madeira do Norte, boiando à espera de ser carreadas através do país.
Bem ao longe, um grande telhado de telhas envernizadas.
— Liewens! Dag, mijnheer!
E Maigret continuou sozinho, não sem tentar agradecer ao homem, que, sem o
conhecer, caminhara cerca de quinze minutos para lhe fazer uma gentileza.
O céu estava azul, a atmosfera, translúcida. O comissário contornou um depósito
de madeira ao ar livre, onde as toras de carvalho, mogno e teca empilhadas batiam
na altura das casas.
Havia um barco atracado. Crianças brincando. Depois, um quilômetro de solidão.
Mais toras no canal. Cercas brancas demarcando os pastos coalhados de vacas
magníficas.
Novo choque entre a realidade e as ideias preconcebidas: a palavra fazenda
evocava para Maigret um telhado de sapê, montes de estrume, uma promiscuidade
animal.
E ele se via diante de uma bela construção, nova, rodeada por um parque
resplandecente de flores. No canal, defronte da casa, um bote de mogno de linhas
arrojadas. Apoiada na grade, uma bicicleta feminina toda cromada.
Procurou em vão uma campainha. Chamou sem obter resposta. Um cachorro veio
se esfregar nele.
À esquerda da casa estendia-se um galpão comprido, com janelas normais, porém
sem cortinas, lembrando um alpendre feito de material mais precário e sobretudo
sem a elegância das pinturas.
Maigret ouviu um mugido vindo de lá, avançou e, após contornar uns arbustos de
flores, se viu diante de um portão aberto.
O galpão era um estábulo, porém asseado feito uma casa. Em toda parte, tijolos
vermelhos que imprimiam uma luminosidade quente, suntuosa até, à atmosfera.
Regos para escoar água. Um sistema mecânico de distribuição de comida nos
comedouros. E uma roldana, atrás de cada boxe, cuja razão Maigret só veio a
conhecer mais tarde: era destinada a manter o rabo das vacas levantado enquanto
elas eram ordenhadas para que o leite não se contaminasse.
No interior reinava uma penumbra suave. Os animais estavam do lado de fora,
menos um, deitado lateralmente dentro do primeiro boxe.
Uma moça se aproximou do forasteiro, interrogando-o primeiro em holandês.
— Srta. Liewens?
— Sim… O senhor é francês?
Enquanto falavam, ela não tirava os olhos da vaca. Havia uma ponta de ironia em
seu sorriso, que Maigret não compreendeu imediatamente.
Aqui também as ideias preconcebidas se revelavam falsas. Beetje Liewens usava
galochas pretas, que lhe davam uma aparência de vaqueira.
Por cima, um vestido de seda verde, que um jaleco de enfermeira escondia quase
por inteiro.
Um rosto cor-de-rosa, cor-de-rosa até demais, talvez. Um sorriso saudável, alegre,
ao qual, porém, faltava sutileza. Olhos grandes, num azul de porcelana. Cabelos
ruivos.
Tropeçou nas primeiras palavras em francês, que pronunciou com um sotaque
forte. Mas não demorou a recuperar a familiaridade com a língua.
— É com meu pai que deseja falar?
— Com a senhorita.
Ela quase riu.
— Me desculpe. Meu pai foi a Groningen. Só volta à noite… Os dois criados estão
no canal, descarregando carvão… A empregada, nas compras… E foi justo a hora
que a vaca escolheu para parir… Não esperávamos por isso… Estou sozinha…
Estava apoiada num guincho, que deixara preparado para a eventualidade de ter
que ajudar o animal. Sorria, radiante.
Fazia sol do lado de fora. Suas galochas reluziam como verniz. As mãos eram
carnudas e róseas, as unhas, feitas.
— É a respeito de Conrad Popinga que…
Mas ela pestanejou. A vaca acabava de dar um corcoveio doloroso e voltava a cair
pesadamente.
— Cuidado… Pode me ajudar?
Ela apanhou as luvas de borracha, que estavam preparadas.

Foi assim que Maigret começou aquela investigação, ajudando um bezerro da raça
pura frisso a vir ao mundo, na companhia de uma moça cujos gestos seguros
revelavam a prática de esportes.
Meia hora depois, enquanto o recém-nascido já procurava as tetas da mãe, ele se
curvava ao lado de Beetje sob uma torneira de cobre vermelho e ensaboava as mãos
até os cotovelos.
— É sua estreia na profissão? — brincou.
— Exatamente.
Tinha dezoito anos. Quando tirou o avental branco, o vestido de seda esculpiu
formas cheias que, talvez por causa da atmosfera ensolarada, sugeriam algo de
extremamente inebriante.
— Conversaremos tomando chá. Vamos para a casa.
A empregada voltara. A sala era austera, um pouco escura, mas confortável e
elegante. As pequenas vidraças das janelas eram de um tom rosa delicado, quase
imperceptível, que Maigret nunca vira antes.
Uma estante repleta de livros. Obras variadas sobre pecuária e veterinária. Nas
paredes, medalhas de ouro obtidas em exposições internacionais e diplomas.
Em meio a tudo isso, os mais recentes livros de Claudel, André Gide, Valéry.
Beetje deu um sorriso dengoso.
— Quer conhecer o meu quarto?
Ela estudava suas reações. Em vez de cama, um divã, forrado com veludo azul.
Papel de parede de Jouy. Prateleiras escuras e mais livros, uma boneca comprada
em Paris, cheia de fru-frus.
Quase uma alcova, não obstante a atmosfera um tanto pesada, sólida, grave.
— Não é igualzinho a Paris?
— Eu gostaria que me contasse o que aconteceu semana passada.
Beetje fechou o semblante, não muito, contudo, não o bastante para sugerir que
tomasse os acontecimentos pelo lado trágico.
Senão não teria aberto aquele sorriso vibrante de orgulho ao mostrar o quarto.
— Vamos ao chá.
Sentaram-se frente a frente, diante do bule vestido com uma espécie de anágua
que não deixava a infusão esfriar.
Beetje catava palavras. Teve uma ideia. Muniu-se de um dicionário e às vezes se
interrompia um bom tempo para encontrar o termo preciso.
Um barco deslizava pelo canal, encimado por uma grande vela cinzenta,
empurrado com a ajuda de uma vara, devido à ausência de vento. Esgueirava-se
por entre as toras de madeira que obstruíam o leito.
— Ainda não foi à casa de Popinga?
— Cheguei não faz uma hora, só tive tempo de ajudar sua vaca a parir.
— É verdade. Conrad era encantador, um homem realmente simpático. Mais
moço, viajou por todos os países, como imediato, e logo como tenente… Depois,
quando tirou o brevê de capitão, casou e, por causa da mulher, aceitou um posto de
instrutor na Escola Naval. Não é tão atraente… Ele tinha um pequeno iate. Mas a
sra. Popinga tem medo de água e ele foi obrigado a vender. Nos últimos tempos,
tinha apenas um bote no canal. Viu o meu? Quase igual! À noite, dava aulas
particulares. Trabalhava muito…
— Como era ele?
Ela não entendeu prontamente. Terminou por ir pegar uma fotografia que
mostrava um rapagão bochechudo, de olhos claros, cabelos cortados curtos,
parecendo esbanjar generosidade e saúde.
— É Conrad. Não aparenta quarenta anos, concorda? A mulher é mais velha que
ele. Talvez quarenta e cinco… Não viu! E não necessariamente as mesmas ideias.
Por exemplo… Aqui, salta aos olhos, todo mundo é protestante. Eu pertenço à Igreja
moderna. Liesbeth Popinga, por sua vez, é da Igreja nacional, que é mais severa.
Como vocês dizem? Conservadora?
— Conservadora…
— Sim! E patrocina todas as obras beneficentes.
— Não gosta dela?
— Gosto. Mas não é a mesma coisa. Ela é filha de um diretor de colégio,
compreende? Já meu pai é um simples fazendeiro. Mesmo assim, ela é muito
carinhosa, muito boazinha.
— O que aconteceu?
— Há muitas conferências por aqui. É quase um vilarejo. Cinco mil habitantes. Mas
não queremos ficar desatualizados. Na última quinta-feira, era o professor Duclos,
de Nancy. Já ouviu falar?
Ficou bastante admirada que Maigret não conhecesse o professor, que ela julgava
uma glória nacional francesa.
— Um grande advogado. Especialista em questões criminais e… como é mesmo a
palavra? Psicológicas… Falou da responsabilidade dos criminosos. Está certo? Pode
me corrigir quando eu errar.
“A sra. Popinga é presidente do grupo. Os palestrantes sempre se hospedam em
sua casa.
“Às dez horas, houve uma pequena confraternização. O professor Jean Duclos,
Conrad Popinga e a mulher, depois Wienands, mulher e filhos… E eu…
“Na casa de Popinga. Fica a um quilômetro daqui, no Amsterdiep também.
Amsterdiep é o canal que o senhor vê. Tomamos vinho, comemos bolo… Conrad
ligou o rádio. Any, eu já ia esquecendo, irmã da sra. Popinga, que é advogada,
também estava lá. Conrad quis dançar. Enrolamos o tapete. Os Wienands foram
embora antes, por causa dos filhos. O menor, que chorava… São vizinhos dos
Popinga… À meia-noite, Any disse que estava com sono. Eu tinha vindo de
bicicleta. Conrad me acompanhou na volta para casa. Pegou sua bicicleta também…
“Vim para cá. Meu pai estava à minha espera.
“Foi só no dia seguinte que soubemos da tragédia… Delfzijl estava em polvorosa…
“Não acho que tive culpa. Quando Conrad voltou, foi colocar sua bicicleta no
galpão, atrás da casa.
“Atiraram, com um revólver. Ele caiu… Morreu meia hora depois…
“Pobre Conrad! A boca aberta…”
Enxugou uma lágrima que parecia engraçada em sua face lisa e rósea como a casca
de uma maçã madura.
— Só isso?
— Só… A polícia veio de Groningen para ajudar a guarda local. Concluiu que
atiraram da casa. O professor foi visto, imediatamente depois, descendo a escada
com um revólver na mão. E era o revólver do qual partira o disparo…
— O professor Jean Duclos?
— Sim! Então, não permitiram que ele partisse.
— Em suma, nesse momento permaneciam na casa a sra. Popinga, sua irmã Any e o
professor Duclos…
— Ya!
— E, durante a festinha, além deles, os Wienands, a senhorita e Conrad…
— E Cor também! Esqueci…
— Cor?
— É, Cornelius. Um aluno da Escola Naval, que tinha aulas particulares.
— Em que momento ele saiu?
— Na mesma hora em que eu e Conrad. Mas ele virou à esquerda, com sua
bicicleta, para retornar ao navio-escola atracado no Ems-Canal. Quer açúcar?
O chá fumegava nas xícaras. Um automóvel acabava de parar ao pé da escada de
três degraus da entrada. Logo em seguida, entrou um homem, alto, espadaúdo,
grisalho, com um semblante grave, uma lentidão que lhe acentuava a calma.
Era o fazendeiro Liewens, que esperou a filha apresentar-lhe a visita.
Ele apertou vigorosamente a mão de Maigret, mas não disse nada.
— Meu pai não fala francês.
Ela serviu-lhe uma xícara de chá, que ele bebeu em pé, em pequenos goles. Então,
em holandês, ela lhe comunicou o nascimento do bezerro.
Deve ter falado do papel desempenhado pelo comissário na situação, pois o
fazendeiro olhou para ele com um espanto não isento de ironia e, após uma
saudação um tanto solene, dirigiu-se ao estábulo.
— Puseram o professor Duclos na prisão? — indagou Maigret.
— Não! Ele está no Hotel Van Hasselt, vigiado por um guarda.
— E Conrad?
— O corpo foi levado para Groningen, a trinta quilômetros daqui. Uma cidade
grande, cem mil habitantes, com uma universidade, onde Jean Duclos havia sido
recebido na véspera. Terrível, não é mesmo? Não dá para entender.
Terrível, talvez! Mas não se sentia! Provavelmente em virtude da atmosfera
cristalina, do cenário ameno e confortável, do chá fumegante e de toda aquela
cidadezinha, que parecia um brinquedo pitoresco espetado na beira do mar.
Da janela, viam-se, dominando a cidade de tijolos vermelhos, a chaminé e a
passarela de um grande cargueiro em procedimento de descarga. E os barcos, no
Ems, deslizavam ao sabor da corrente até o mar.
— Conrad costumava levá-la em casa?
— Sempre que eu ia à sua casa. Era um amigo.
— A sra. Popinga não tinha ciúmes?
Maigret perguntou mecanicamente, depois de seus olhos baterem no colo sedutor
da jovem e talvez porque dele emanara uma onda de calor.
— Por quê?
— Não sei… A noite… Vocês dois…
Ela riu, mostrando os belos dentes.
— Na Holanda isso é normal. Cor também me levava, às vezes.
— E ele não estava apaixonado?
Ela não disse sim nem não. Arrulhou. É a palavra. Um pequeno arrulho de vaidade
satisfeita.
Pela janela viram seu pai removendo o bezerro do estábulo, carregando-o como
um bebê e instalando-o na relva do pasto, para um banho de sol.
O animal vacilou sobre as quatro patas franzinas, quase caindo de joelhos, e
esboçou subitamente um galope, de quatro ou cinco metros, antes de estacar.
— Conrad nunca a beijou?
Novo arrulho, porém acompanhado de pouquíssimo rubor.
— Sim…
— E Cor?
Ela foi mais convencional, desviando a cabeça até ficar de perfil.
— Também! Por que pergunta isso?
Olhou para ele, meio ressabiada. Porventura esperava que Maigret também fosse
beijá-la?
Seu pai, do lado de fora, a chamou. Ela abriu a janela. Ele falou em holandês.
Quando ela se voltou, foi para dizer:
— Sinto muito. Tenho que ir à cidade chamar o prefeito para o pedigree do bezerro.
É muito importante. Não vai a Delfzijl?
Ele saiu com ela. Ela pegou sua bicicleta cromada pelo guidom e caminhou ao seu
lado, com um leve requebro.
— Que país bonito, não acha? Pobre Conrad, que não pode mais ver! A temporada
de banhos de mar começa amanhã! Nos outros anos, ele vinha todos os dias. Ficava
uma hora na água.
Maigret, caminhando, olhava para o chão.
2. O quepe do Baes

Contrariando seus hábitos, Maigret verificou alguns detalhes materiais, sobretudo


topográficos; na verdade passou os olhos, pois na sequência a solução dependeria
de uma questão de minutos e metros.
Entre a fazenda dos Liewens e a casa dos Popinga havia aproximadamente mil e
duzentos metros. As duas habitações situavam-se à beira do canal e, para ir de uma
à outra, seguia-se o caminho de sirga.
Canal praticamente desativado, aliás, após a escavação de outro, bem mais largo e
profundo, o Ems-Canal, que ligava Delfzijl a Groningen.
Naquele, o Amsterdiep, cheio de lodo, tortuoso, sombreado por bonitas árvores, só
passavam balsas de lenha e algumas embarcações de baixa tonelagem.
Fazendas, de quando em quando. Um estaleiro de reparo.
Saindo da casa dos Popinga na direção da fazenda, topava-se primeiro, bem
próximo, a trinta metros, com a casa de veraneio dos Wienands. Depois, com uma
casa em construção. Em seguida, com um terreno amplo e ermo e o depósito onde
se armazenavam as pilhas de toras.
Do outro lado do depósito, outro terreno desocupado, após uma curva do canal e
do caminho. Daquele ponto, percebiam-se nitidamente as janelas dos Popinga e,
bem à esquerda, o farol branco localizado do outro lado da cidade.
— É um farol giratório? — perguntou Maigret.
— É.
— Então à noite deve iluminar esse trecho da estrada.
— É! — ela repetiu, arrulhando novamente, como se aquilo lhe despertasse uma
lembrança alegre.
— Os namorados é que não devem gostar! — ele concluiu.
Ela se despediu dele antes da casa dos Popinga, como se fosse pegar um atalho,
porém, provavelmente, para não ser vista com ele.
Maigret não parou. A casa era moderna, de tijolos, com um jardinzinho na frente,
uma horta atrás, uma alameda à direita e um terreno baldio à esquerda.
Preferiu dirigir-se à cidade, distante apenas quinhentos metros. Chegou assim à
eclusa que separava o canal do porto. A marina pululava de embarcações de cem a
trezentas toneladas, atracadas lado a lado, mastros em riste, formando um mundo
flutuante.
À esquerda, o Hotel Van Hasselt, onde ele entrou.
Uma sala escura, de madeira envernizada, onde imperava um cheiro complexo de
cerveja, genebra e lustra-móveis. Um grande bilhar. Uma mesa com alças de cobre
para os jornais.
Num canto, um homem se levantou assim que Maigret entrou e se aproximou
dele.
— Foi o senhor que a polícia francesa mandou por minha causa?
Era alto, magro, ossudo, rosto comprido com feições bem delineadas, óculos de
tartaruga e cabelo volumoso cortado à escovinha.
— O senhor deve ser o professor Duclos — replicou Maigret.
Não o imaginara tão jovem. Duclos podia ter entre trinta e cinco e trinta e oito
anos. Contudo, havia nele algo indefinido que impressionou Maigret.
— O senhor é de Nancy?
— Quer dizer, ocupo uma cátedra de sociologia na universidade.
— Mas não nasceu na França!
Começava uma espécie de guerrinha.
— Na Suíça romanda. Sou naturalizado francês. Fiz todos os meus estudos em Paris
e Montpellier.
— E é protestante?
— O que lhe sugere isso?
Nada! O conjunto! Duclos pertencia a uma categoria de homens que o comissário
conhecia bem. Homens de ciência. O estudo pelo estudo! A ideia pela ideia! Certa
austeridade nas maneiras e na condução da vida, aliada a uma tendência ao
cosmopolitismo. Paixão por conferências, congressos, intercâmbios e
correspondências com pares estrangeiros.
Parecia bastante nervoso, se é possível aplicar o termo a um homem cujos traços
não deviam se alterar nunca. Em sua mesa, uma garrafa de água mineral, dois
calhamaços e papéis espalhados.
— Não vejo o policial encarregado de vigiá-lo.
— Dei minha palavra de honra de que não sairia daqui. Observe que sou aguardado
por sociedades literárias e científicas de Emden, Hamburgo e Bremen. Darei minha
conferência nessas três cidades antes de…
Uma mulher gorda e loura, dona do hotel, apareceu e Jean Duclos lhe explicou em
holandês quem era o forasteiro.
— Foi totalmente por acaso que pedi para mandarem um policial. Enfim, espero
conseguir esclarecer o mistério.
— Pode me contar o que sabe?
E Maigret, derreando-se numa cadeira, pediu:
— Um Bols! Num copo longo.
— Antes de qualquer coisa, aqui estão as plantas, desenhadas na escala exata.
Posso deixar uma cópia com o senhor. A primeira mostra o andar térreo da casa dos
Popinga: corredor à esquerda; à direita, a sala de estar, depois a sala de jantar; nos
fundos, a cozinha; atrás, uma despensa, onde Popinga costumava guardar seu bote
e suas bicicletas.
— Todos permaneceram na sala?
— Sim. Por duas vezes a sra. Popinga e, depois, Any foram à cozinha preparar um
chá, pois a empregada fora se deitar. Esta é a planta do primeiro andar: atrás, bem
em cima da cozinha, um banheiro; na fachada, dois cômodos: à esquerda, o quarto
dos Popinga; à direita, um gabinete de trabalho, onde Any dormia num sofá; atrás,
por fim, o quarto a mim destinado.
— De que cômodos é fisicamente possível ter partido o tiro?
— Meu quarto, o banheiro e a sala de jantar do térreo.
— Conte-me como foi a noite.
— Minha conferência foi um triunfo. Eu a fiz nesse salão, que o senhor pode ver.
Um salão comprido, decorado com guirlandas de papel, usado para bailes sociais,
banquetes e apresentações teatrais. Um estrado, com cenários representando um
parque de castelo.
— Em seguida, caminhamos na direção do Amsterdiep.
— Margeando o cais? É capaz de me dizer a ordem em que caminhavam?
— Eu seguia na frente, com a sra. Popinga, que é uma senhora muito culta. Conrad
Popinga flertava com aquela fazendeira imbecil, que só sabe rir e que não entendeu
patavina da minha argumentação. Atrás vinham os Wienands, Any e o jovem aluno
de Popinga, um fedelho pálido.
— Os senhores chegaram à casa…
— Devem ter lhe falado que discorri sobre a responsabilidade penal dos assassinos.
A irmã da sra. Popinga, que se formou em direito e lecionará na volta às aulas, me
interrogou acerca de alguns detalhes. A conversa nos levou ao papel do advogado
num processo criminal. Depois o assunto foi polícia científica e me lembro que lhe
recomendei ler as obras do professor vienense Grosz. Defendi a tese de que o crime
impune é rigorosamente impossível. Dissertei a respeito de impressões digitais,
análise de vestígios de todo tipo, deduções. Enquanto isso, Conrad Popinga
pelejava para sintonizar a Radio-Paris!
Maigret tentava sorrir.
— Conseguiu! Tocava um jazz. Popinga foi pegar uma garrafa de conhaque e
estranhou um francês que não bebesse. Ele, por sua vez, bebeu, assim como a
fazendeira! Estavam bastante alegres. Dançaram…
“‘Como em Paris!’, exultava Popinga.”
— O senhor não gosta dele! — observou Maigret.
— Um sujeitinho inexpressivo! Já Wienands, mesmo sendo da matemática, nos
escutava. Um bebê chorou… Os Wienands foram embora… A fazendeira estava
superanimada… Conrad ofereceu-se para acompanhá-la até sua casa e os dois
partiram de bicicleta. A sra. Popinga me conduziu até o meu quarto. Pus alguns
papéis em ordem dentro da minha pasta. Ia fazer anotações para um volume que
estou em vias de preparar quando ouvi um tiro, tão próximo que parecia disparado
dentro do meu próprio quarto. Corri para o lado de fora. O banheiro estava
entreaberto. Empurrei a porta… Janela escancarada… Alguém estertorava no
jardim, perto do galpão das bicicletas.
— Não havia luz no banheiro?
— Não… Debrucei na janela. Minha mão posou na coronha de um revólver, que
recolhi mecanicamente. Entrevi uma forma deitada, junto ao galpão. Quis descer.
Esbarrei na sra. Popinga, que, atarantada, saía de seu quarto. Despencamos escada
abaixo. Ainda não tínhamos atravessado a cozinha quando Any se juntou a nós, tão
atordoada que descera de combinação. Vai entender melhor quando a conhecer…
— E Popinga?
— Nas últimas… Fitou-nos com os olhos arregalados e turvos, apertando o peito
com a mão. Quando tentei levantá-lo, enrijeceu-se. Estava morto, com uma bala no
coração.
— É tudo que sabe?
— Telefonamos para a guarda municipal, para o médico… Chamamos Wienands,
que veio nos ajudar… Senti um certo mal-estar… Esqueci que tinha sido visto com o
revólver na mão. O guarda me apontou o fato, me pediram explicações. Solicitaram
educadamente que eu me mantivesse à disposição.
— Isso aconteceu há seis dias?
— Exatamente. Estou trabalhando no problema, pois outra coisa não é! Examine
estes papéis.
Maigret esvaziou o cachimbo, sem dirigir um olhar para os mencionados papéis.
— Não sai do hotel?
— Poderia, mas prefiro evitar um possível incidente. Popinga era muito querido
pelos alunos, com os quais esbarramos o tempo todo na cidade.
— Não descobriram nenhum indício material?
— Com sua licença! Any, que resolveu fazer uma investigação por conta própria e
espera ser bem-sucedida, embora lhe falte método, me traz informações de vez em
quando. Saiba em primeiro lugar que a banheira estava coberta com uma tampa de
madeira que a transforma em tábua de passar roupa. Na manhã seguinte, ergueram
essa tampa e encontraram um velho quepe de marinheiro nunca visto na casa. No
térreo, as investigações tiveram como resultado descobrir, no tapete da sala de
jantar, uma ponta de charuto de fumo bem escuro, de Manila, creio, de um tipo que
nem Popinga nem Wienands nem o jovem aluno fumavam. Quanto a mim, nunca
fumo. Ora, a sala de jantar havia sido varrida logo após o jantar…
— Então o senhor conclui…?
— Nada! — murmurou Jean Duclos. — Farei isso quando chegar a hora. Desculpe tê-
lo feito vir de tão longe. Além do mais, poderiam ter escolhido um policial que
conhecesse a língua do país. O senhor só me será útil na eventualidade de tomarem
medidas a meu respeito contra as quais tenha de protestar formalmente.
Maigret acariciava o nariz, enquanto exibia um sorriso verdadeiramente divertido.
— É casado, sr. Duclos?
— Não!
— E não conhecia antes nem os Popinga, nem a irmãzinha Any, nem nenhuma das
pessoas presentes?
— Nenhuma! Elas me conheciam de reputação.
— Naturalmente! Naturalmente!
E recolheu na mesa as duas plantas executadas com tira-linhas, meteu-as no
bolso, tocou na aba do chapéu e saiu.

O posto policial era moderno, confortável, claro. Maigret era esperado. O chefe da
estação avisara de sua chegada e estranhavam que ainda não tivesse aparecido.
Ele entrou como se fosse a sua casa, tirou o sobretudo de meia-estação, jogou o
chapéu sobre um móvel.
O inspetor enviado de Groningen falava um francês arrastado e um pouco afetado.
Era um rapaz alto, louro e ressequido, incrivelmente afável, que pontuava todas as
frases com pequenas mesuras, parecendo dizer: “Compreende? Estamos de
acordo?”.
Verdade que Maigret não permitiu que ele se estendesse muito.
— Uma vez que está no caso há seis dias — disse —, deve ter verificado os horários…
— Que horários?
— Por exemplo, seria interessante saber exatamente quantos minutos a vítima
levou para acompanhar a srta. Beetje até a casa dela e voltar. Espere! Também
gostaria de saber a hora em que a srta. Beetje colocou os pés na fazenda, o que seu
pai, que a esperava, deve poder lhe responder. Por fim, a que horas o jovem Cor
chegou de volta ao navio-escola, onde sem dúvida havia um bedel de plantão.
Parecendo aborrecido, o policial levantou-se bruscamente e, como se tomado por
uma inspiração, caminhou até o fundo da sala e voltou com um quepe de
marinheiro todo destroçado. Pronunciou, então, com uma lentidão exagerada:
— Descobrimos o dono deste objeto, que foi encontrado na banheira. É… é um
homem que chamamos de o Baes… Em francês, o senhor diria o patrão…
Será que ao menos Maigret escutava?
— Ele está detido, pois queremos vigiá-lo e ele é uma figura popular na região.
Conhece a foz do Ems? Nas paragens do mar do Norte, cerca de dez milhas daqui,
deparamos com ilhas arenosas, que as grandes marés de equinócio submergem
quase por inteiro. Uma dessas ilhas se chama Workum. Um homem se instalou lá,
com família, criados, e meteu na cabeça criar seus animais ali. É o Baes… Ele obteve
uma subvenção do Estado, pois tem o fogo de um farol fixo para alimentar. Foi
inclusive nomeado prefeito de Workum, ilha da qual é o único habitante. Ele tem
um barco a motor, no qual vai e vem entre sua ilha e Delfzijl.
Maigret continuava impassível. O policial deu uma piscadela.
— Sujeito muito esquisito! Um homenzinho de sessenta anos, duro feito pedra.
Tem três filhos, piratas como ele… Porque… Cuidado! Não são coisas para sair
espalhando por aí. Deve saber que Delfzijl recebe madeira principalmente da
Finlândia e de Riga. Os vapores que fazem o transporte acondicionam parte da
carga no convés. Essa carga é presa com correntes. Mas, em caso de perigo, os
capitães têm ordens para romper as correntes e deixar a carga correr do convés para
o mar, a fim de evitar a perda integral do barco. Ainda não entendeu?
Decididamente, Maigret não parecia se interessar em nada por aquela história.
— O Baes é um espertalhão. Conhece todos os capitães que vêm aqui. Sabe se
entender com eles. Então, aproximando-se das ilhas, há sempre uma razão para
romper pelo menos uma dessas correntes. Algumas dessas toneladas de madeira
caem no mar e a maré as arrasta para a areia de Workum. Direito aos destroços!
Compreende agora? O Baes divide com os capitães. E foi seu quepe que
encontramos na banheira! Um probleminha: ele só fuma cachimbo… Mas não
estava necessariamente sozinho…
— Terminou?
— Um momento! O sr. Popinga, que conhece um monte de gente em tudo que é
lugar, ou melhor, conhecia, tinha sido nomeado vice-cônsul da Finlândia em
Delfzijl fazia quinze dias.
O rapaz magro e louro triunfava, ofegava de contentamento.
— Onde estava o barco dele na noite do crime?
Foi quase um grito:
— Em Delfzijl! No cais! Próximo à eclusa! Quer dizer, a quinhentos metros da casa.
Maigret enchia seu cachimbo, ia e vinha no escritório, olhava com um olho
indiferente relatórios dos quais não entendia uma maldita palavra.
— Não descobriu mais nada? — indagou subitamente, enfiando as mãos nos bolsos.
Mal demonstrou surpresa ao ver o policial corar.
— O senhor já sabe?
Recobrou-se:
— Verdade que passou a tarde inteira em Delfzijl! Método francês!
Falava com certo constrangimento.
— Ainda não sei o valor desse depoimento. Foi no quarto dia. A sra. Popinga
apareceu. Falou que tinha consultado o pastor para saber se devia falar… Conhece a
casa? Ainda não? Posso lhe mostrar uma planta.
— Obrigado! Tenho uma! — disse o comissário, sacando-a do bolso.
O outro, pasmo, prosseguiu:
— Vê o quarto dos Popinga? Da janela, só é possível avistar um pequeno trecho da
estrada que dá acesso à fazenda. Justamente o trecho que é iluminado pelo facho
do farol, de quinze em quinze segundos.
— E a sra. Popinga, com ciúmes, espionava o marido?
— Ela olhava… Viu passar as duas bicicletas rumo à fazenda. Depois a bicicleta do
marido voltando. Depois, imediatamente depois, cem metros atrás, a bicicleta de
Beetje Liewens.
— Em outras palavras, depois que Conrad Popinga a levou em casa, Beetje voltou
sozinha na direção da casa dos Popinga. O que ela disse?
— Quem?
— A garota…
— Nada ainda… Não quis interrogá-la imediatamente. É muito grave. E talvez o
senhor tenha dito a palavra. Ciúme! Compreende? O sr. Liewens é membro do
Conselho…
— A que horas Cor voltou à escola?
— Isso nós sabemos. Cinco minutos depois da meia-noite.
— E o tiro foi disparado…?
— Cinco minutos antes da meia-noite. Só que temos o quepe e o charuto…
— Ele tem bicicleta?
— Claro. Todo mundo aqui circula de bicicleta. É prático. Eu mesmo… Mas naquela
noite ele não a usou.
— O revólver foi examinado?
— Ya! É o revólver de Conrad Popinga. Revólver de serviço. Continuava na mesa
de cabeceira, carregado com seis balas.
— O tiro foi disparado de uma distância de quantos metros?
— Aproximadamente seis — ele pronunciava seiss. — É a distância da janela do
banheiro. É também a distância da janela do quarto do sr. Duclos. E talvez o tiro
não tenha sido disparado do alto. Não dá para saber, porque Popinga, que guardava
sua bicicleta, talvez estivesse debruçado. Em compensação, temos o boné… E o
charuto, não se esqueça!
— Que se dane o charuto! — resmungou Maigret, entre os dentes.
E em voz alta:
— A srta. Any está a par do depoimento da irmã?
— Está.
— O que ela tem a dizer?
— Não falou nada! É uma moça muito instruída. Não fala muito, não é como as
outras moças.
— É feia?
Era infalível, cada interrupção de Maigret tinha o dom de sobressaltar o holandês.
— Não é bonita!
— Bom! Então é feia! O senhor dizia…?
— Ela quer descobrir o assassino. Está investigando. Pediu para ler os autos.
Foi puro acaso. Uma moça entrava, sobraçando uma pasta de couro, vestida com
uma austeridade que beirava o mau gosto.
Andou em linha reta na direção do policial de Groningen. Desatou a falar em sua
língua, sem ver o forasteiro ou o desdenhando.
O holandês corou, jogou o peso de uma perna para a outra, remexeu em alguns
papéis para disfarçar, apontou Maigret com o olhar. Mas ela não se dignava a lhe
dar atenção.
Um tanto encabulado, em desespero de causa, o holandês articulou em francês:
— Ela diz que a lei não permite que o senhor faça interrogatórios em nosso
território.
— É a srta. Any?
Um rosto irregular. Boca grande demais, dentes acavalados, sem os quais seria tão
graciosa como qualquer outra. Peito chapado. Pés grandes. Mas, acima de tudo,
uma segurança agressiva de sufragista.
— É… Segundo a letra da lei, ela tem razão. Mas respondi que a tradição…
— A srta. Any compreende francês, certo?
— Creio que sim.
A moça nem sequer estremeceu, esperando de queixo empinado o fim daquela
confabulação que parecia não lhe dizer respeito.
— Senhorita — disse Maigret com uma cortesia exagerada —, tenho a honra de lhe
apresentar meus respeitos… Comissário Maigret, da Polícia Judiciária. Tudo que eu
gostaria de saber é o que pensa a respeito da srta. Beetje e de suas relações com
Cornelius.
Ela tentou sorrir. Um sorriso de tímida que tenta vencer a própria timidez. Olhou
para Maigret, depois para seu compatriota, e balbuciou num francês sofrível:
— Eu não… eu… não compreendo direito…
E esse esforço bastou para deixá-la vermelha feito um pimentão, enquanto seu
olhar pedia socorro.
3. O Clube dos Ratos de Cais

Eram cerca de dez homens, em pesadas japonas de lã azul, quepes de marinheiro e


tamancos revestidos de verniz, uns recostados no pórtico da cidade, outros
apoiados em pinos de amarração, outros, por fim, plantados sobre suas pernas que
calças folgadas faziam parecer monumentais.
Fumavam, mascavam, sobretudo escarravam, e, de vez em quando, uma frase os
fazia gargalhar estapeando as coxas.
A poucos metros deles, os barcos. Atrás, a cidadezinha, cristalizada, com seus
diques. Mais adiante, um guindaste descarregava carvão de uma balsa.
A princípio os homens do grupo não perceberam Maigret, que circulava ao longo
do werf, o estaleiro. De modo que o comissário teve tempo de observá-los.
Ele sabia que em Delfzijl aquele tipo de grupelho era ironicamente apelidado de
Clube dos Ratos de Cais. Sem que ninguém lhe houvesse informado, intuíra que a
maioria daqueles marinheiros passava a maior parte de seus dias no mesmo lugar,
debaixo de chuva ou de sol, jogando conversa fora preguiçosamente e constelando
o chão com jatos de cuspe.
Um deles era proprietário de três clippers, bonitos barcos a vela e a motor de
quatrocentas toneladas, um dos quais vinha subindo o Ems e não tardaria a entrar
no porto.
Havia pessoas menos ilustres, um calafetador que não devia calafetar grande
coisa, além do funcionário de uma eclusa desativada, usando quepe do governo.
No meio da roda, contudo, um sujeitinho ofuscava os demais porque, além de ser
o mais gordo, atarracado e de cara mais vermelha, sentia-se nele uma
personalidade mais forte.
Tamancos. Japona. Na cabeça, um quepe novinho em folha que ainda não tivera
tempo de ganhar a forma da cabeça e por isso era ridículo.
O homem era Oosting, vulgo Baes, o qual se limitava a fumar um cachimbo curto
de barro e a escutar o que os colegas contavam.
Sorria vagamente. De quando em quando, tirava o cachimbo da boca para deixar a
fumaça escapar mais devagar dos lábios.
Um paquiderme em miniatura. Um brutamontes compacto, tendo não obstante
olhos doces e alguma coisa ao mesmo tempo dura e macia em toda a sua pessoa.
Seus olhos estavam apontados para um barco, de cerca de quinze metros,
atracado no cais. Uma embarcação veloz, bem dividida, um ex-iate possivelmente,
mas suja e malcuidada.
Era o barco dele e daquele ponto era possível, mais além, ver o Ems, com seus
vinte quilômetros de largura, e uma cintilação distante, já do mar do Norte, onde,
em alguma paragem, se estendia a faixa de areia ruiva que constituía a ilha de
Workum, domínio de Oosting.
Anoitecia e as luzes vermelhas do poente avermelhavam ainda mais aquela cidade
de tijolos, inflamando o zarcão de um cargueiro em reparo cujos reflexos se
esgarçavam na água da marina.
O olhar do Baes, vagando detidamente sobre as coisas, terminou por colher
Maigret na paisagem. Suas retinas, azul-esverdeadas, eram pequeninas e
permaneceram cravadas no comissário por um bom tempo. Depois disso, o homem
esvaziou o cachimbo, batendo-o no tamanco, escarrou, procurou no bolso uma
bexiga de porco com o fumo e recostou-se com mais conforto na parede.
Desde então Maigret não parou de sentir sobre si aquele olhar no qual não havia
nem ostentação nem desafio, um olhar calmo e não obstante preocupado, um olhar
que media, pesava, calculava.
O comissário fora o primeiro a deixar o posto policial, após marcar um encontro
com o inspetor holandês Pijpekamp.
Any ficara mais um tempo e dali a pouco passou celeremente, sobraçando sua
pasta, o corpo um pouco curvado para a frente, bancando a mulher que não se
interessa pelo movimento da rua.
Não foi para ela que Maigret dirigiu o olhar, e sim para o Baes, que a seguiu muito
tempo com os olhos e, enrugando mais a testa, voltou-se em seguida para Maigret.
Nesse momento, sem saber exatamente por quê, este avançou até o grupo, que se
calou. Dez rostos se voltaram para o seu lado com certo espanto.
Ele interpelou Oosting.
— Com licença! Por acaso entende francês?
O Baes não se mexeu, pareceu refletir. Um marinheiro magro, ao seu lado,
explicou:
— Frenchman! French-politie!
Foi talvez um dos minutos mais estranhos da carreira de Maigret. Seu
interlocutor, voltado um instante para o barco, pareceu hesitar.
Era visível sua vontade de convidar o comissário para subir a bordo com ele.
Distinguia-se uma pequena cabine com divisórias de carvalho, uma arandela e uma
bússola.
Os outros esperavam. Ele abriu a boca.
Depois subitamente encolheu os ombros, parecendo concluir: “Tolice!”.
Não foi o que ele disse. Articulou, com uma voz constipada que saía da laringe:
— Não entender… Hollandsch… English…
Via-se o vulto escuro de Any, com seu véu de luto, atravessando a ponte do canal
e seguindo pela margem do Amsterdiep.
O Baes surpreendeu o olhar que Maigret lançava para o seu quepe novo, mas não
estremeceu. Foi antes a sombra de um sorriso que se desenhou em seus lábios.
Naquele momento, o comissário teria dado tudo para conversar com aquele
homem, em sua língua, nem que fosse por cinco minutos. Sua disposição era tão
grande que tartamudeou algumas sílabas inglesas, mas com um sotaque que
ninguém entendeu:
— Não entender! Ninguém entender! — repetiu aquele que já se manifestara.
Voltaram então à sua conversa, enquanto Maigret se afastava com a confusa
sensação de que acabava de resvalar no âmago do enigma e que, por falta de
compreensão mútua, dele se afastava.
Regressou minutos mais tarde. O grupo dos Ratos de Cais continuava a
matraquear no poente e os últimos raios do sol tornavam ainda mais púrpura a face
calejada do Baes, sempre voltada para o policial.

Até ali, Maigret não se aprofundara no drama, guardando para o fim a visita,
sempre penosa, a uma casa enlutada.
Tocou a campainha. Passava um pouco das seis da tarde. Não imaginava que os
holandeses jantassem tão cedo e, quando uma empregada baixinha abriu a porta,
que dava para a sala de jantar, ele percebeu as duas mulheres à mesa.
As duas ergueram-se num mesmo impulso, com a precipitação um tanto rígida de
alunas internas bem-educadas.
Vestiam preto da cabeça aos pés. Na mesa, havia chá, fatias de pão cortadas bem
finas e um salame. Apesar do crepúsculo, a luminária não estava acesa e apenas
uma estufa a gás, cujo fogo era visível através da grade de mica, lutava contra a
penumbra.
Foi Any que tomou a iniciativa de acender a luz, enquanto a empregada ia fechar
as cortinas.
— Queiram me desculpar — disse Maigret. — Sinto muito interromper o jantar.
A sra. Popinga esboçou um gesto tímido para uma poltrona e, embaraçada, olhou
para o vazio, enquanto a irmã se fazia de morta no recinto.
O ambiente lembrava o da fazenda. Móveis modernos, mas de um modernismo
tacanho. Tons aveludados, formando uma harmonia distinta e triste.
— O senhor veio por causa…
O lábio inferior da sra. Popinga estremeceu e ela foi obrigada a levar o lenço à boca
para conter um soluço prestes a rebentar. Any não se mexia.
— Sinto muito… Volto em outra hora…
Ela fez sinal que não. Lutava para recobrar o sangue-frio. Devia ser poucos anos
mais velha que a irmã. Era alta, muito mais mulher. Seus traços eram regulares,
com um resquício de acne nas faces, dois ou três fios de cabelo grisalhos.
E uma esmaecida distinção em todas as atitudes! Maigret lembrou-se que ela era
filha de um diretor de escola, que falava fluentemente várias línguas, que era muito
instruída. O que, seja como for, não impedia sua timidez, uma timidez de burguesa
de cidade pequena que uma coisinha à toa pode melindrar.
Lembrou-se também que ela pertencia à mais austera das seitas protestantes, que
presidia as obras de caridade de Delfzijl, os círculos intelectuais femininos…
Ela conseguiu se controlar. Olhou para a irmã como se pedisse socorro.
— Desculpe! Ninguém acredita, não é mesmo? Conrad! Um homem querido por
todos.
Seu olhar pousou no alto-falante de um rádio colocado num canto, e ela ameaçou
cair em prantos.
— Era sua única distração — ela balbuciou. — E seu barco, o verão, o pôr do sol
sobre o Amsterdiep… Ele trabalhava muito… Quem teria sido capaz de fazer uma
coisa dessas?
E, como Maigret não dizia nada, ela acrescentou, mais rosada, no tom que teria
empregado se fosse uma conversa em particular:
— Não acuso ninguém… Não sei… Não quero acreditar, compreende? Foi a polícia
que pensou no professor Duclos, porque ele saiu com o revólver na mão. Quanto a
mim, não sei de nada… É hediondo! Alguém ter matado Conrad! Por quê? Por que
ele? Não foi sequer para roubar! Então…?
— A senhora contou à polícia o que viu pela janela…
Ela ficou mais ruborizada ainda. Mantinha-se de pé, uma das mãos apoiada na
mesa servida.
— Eu não sabia se devia… Acho que Beetje não fez nada. Só que, por acaso, eu vi.
Falaram que todo e qualquer detalhe pode ser útil à investigação. Pedi conselho ao
pastor. Ele me aconselhou a depor… Beetje é uma ótima garota. Realmente, não
vejo quem! Com certeza alguém que deveria estar num hospício.
Ela não catava palavras. Seu francês era puro, matizado por um sotaque bem sutil.
— Any contou que o senhor veio de Paris. Por causa de Conrad! Dá para acreditar
numa coisa dessas?
Estava mais calma. Sua irmã, sempre no mesmo ângulo da sala, não se mexia, e
Maigret não a via senão parcialmente, por intermédio de um espelho.
— Sem dúvida quer visitar a casa…
Parecia resignar-se. No entanto, suspirou:
— Por favor, vá com… Any…
Um vestido preto atravessou o campo de visão do comissário. Ele a seguiu numa
escada guarnecida com um carpete recém-instalado. A casa, que não tinha dez
anos, era construída como um bibelô, com materiais leves, tijolo oco e pinheiro.
Mas a tinta que revestia todas as madeiras dava leveza ao conjunto.
A porta do banheiro foi a primeira a ser aberta. A tampa de madeira se achava
sobre a banheira, transformada em tábua de passar. Maigret se debruçou na janela,
avistou o galpão de bicicletas, a horta bem cuidada e, do outro lado dos campos, a
cidade de Delfzijl, onde poucas casas tinham um pavimento e nenhuma, dois.
Any esperava na porta.
— Soube que está investigando por conta própria! — disse-lhe Maigret.
Ela estremeceu, mas não falou nada, apressando-se em abrir o quarto do professor
Duclos.
Cama de cobre. Guarda-roupa de pinho. Linóleo no chão.
— Este é o quarto de quem?
Ela teve que fazer um esforço para articular:
— Meu… quando eu vinha…
— Vinha muito?
— Sim… eu…
Era de fato timidez. Os sons morriam-lhe na garganta. Seu olhar procurava
socorro.
— Entretanto, como o professor estava hospedado aqui, a senhorita dormia no
gabinete de trabalho de seu cunhado…
Ela fez sinal que sim, abrindo a porta do aposento. Uma mesa atulhada de livros,
entre os quais obras recentes sobre as bússolas giroscópicas e o comando de navios
por ondas hertzianas. Sextantes. Na parede, fotografias mostrando Conrad Popinga
na Ásia, na África, em uniforme de primeiro-tenente ou capitão.
Uma panóplia de armas malásias. Porcelanas japonesas. Sobre estrados, alguns
instrumentos de precisão e uma bússola desmontada que Popinga devia ter
resolvido consertar.
Um divã de tecido canelado azul.
— E o quarto de sua irmã?
— Ao lado.
O gabinete de trabalho se comunicava ao mesmo tempo com o quarto do professor
e com o dos Popinga, decorado com mais esmero. Uma luminária de alabastro na
cabeceira da cama. Um belíssimo tapete persa. Móveis em madeira colonial.
— A senhorita estava no gabinete de trabalho… — Maigret pensou em voz alta.
Sinal afirmativo.
— Logo, não podia sair de lá sem passar pelo quarto do professor ou pelo de sua
irmã, certo?
Outro sinal.
— Mas o professor estava no quarto dele. Sua irmã também…
Ela esbugalhou os olhos e entreabriu a boca, manifestando um estupor inaudito.
— O senhor acha…?
Ele murmurou, deambulando pelos três cômodos:
— Não acho nada! Procuro! Elimino! E, até aqui, a senhorita é a única que pode ser
logicamente eliminada, a menos que se acredite na cumplicidade de Duclos ou da
sra. Popinga…
— O senhor… o senhor…
Mas ele continuava para si mesmo:
— Duclos pode ter atirado, seja de seu quarto, seja do banheiro, isso é evidente! A
sra. Popinga, por sua vez, pode ter se esgueirado no banheiro. Mas o professor, que
entrou ali imediatamente após o disparo, não a viu… Ao contrário! Viu-a saindo do
quarto dela poucos segundos depois.
Ela pareceu perder um pouco da timidez. A estudante, como se induzida por
aquela exposição técnica, prevalecia sobre a mocinha.
— Podem ter atirado de baixo — disse, com o olhar mais alerta, o corpo magro todo
contraído. — O médico disse…
— Seja como for, o revólver que matou seu cunhado é de fato o que Duclos tinha
nas mãos. A menos que o assassino o tenha lançado ao primeiro andar, pela janela…
— Por que não?
— Claro! Por que não?
E, sem esperar, ele desceu aquela escada à primeira vista estreita demais para ele e
cujos degraus estalavam sob seu peso.
Encontrou a sra. Popinga, em pé na sala, no mesmo lugar que ocupava quando ele
saíra. Any o seguia.
— Cornelius aparecia muito por aqui?
— Quase todo dia. Só tinha aula três dias da semana, terças, quintas e sábados.
Vinha nos outros dias. Seus pais moram na Índia. Há um mês, deram-lhe a notícia
da morte da mãe, já enterrada quando ele recebeu a carta. Então…
— E Beetje Liewens?
Houve um certo embaraço. A sra. Popinga fitou Any. Any abaixou os olhos.
— Ela vinha…
— Muito?
— Sim…
— A senhorita a convidava?
A coisa ia ficando mais aguda, mais precisa. Maigret sentia que avançava, se não
na descoberta da verdade, pelo menos no entendimento da vida da casa.
— Não… sim…
— É impressão minha ou ela não tem o mesmo temperamento que o seu e o da
srta. Any?
— É muito jovem, não é mesmo? Seu pai era amigo de Conrad. Ela trazia maçãs,
framboesas, creme…
— Ela não estaria apaixonada por Cor?
— Não!
Era categórico.
— A senhora não gosta muito dela?
— Por que não? Ela vinha… Ria… Falava o tempo todo… Como um passarinho,
compreende?
— Conhece Oosting?
— Sim…
— Ele tinha algum tipo de relação com seu marido?
— Ano passado, ele mandou instalar um motor novo em seu barco. Então, foi se
aconselhar com Conrad… Conrad deu uns palpites… Eles iam caçar o zeehond…
Como vocês dizem… foca… isso, foca, nos bancos de areia…
De repente…
— Acha quê? O quepe, talvez? Impossível… Oosting!
Gemeu, novamente transtornada:
— Oosting também não! Não! Ninguém! Ninguém pode ter matado Conrad… O
senhor não o conheceu… Ele… ele…
Desviou o rosto, pois chorava. Maigret preferiu se retirar. Não lhe estenderam a
mão e ele se limitou a fazer uma mesura, balbuciando desculpas.
Do lado de fora, foi surpreendido pelo frio úmido que emanava do canal. E, na
outra margem, não longe do estaleiro de reparo, percebeu o Baes conversando com
um jovem aluno da Escola Naval em seu uniforme.
Estavam ambos em pé, no crepúsculo. Oosting parecia falar com veemência. O
rapaz abaixava a cabeça e não se via senão a forma oval de seu rosto pálido.
Maigret compreendeu que devia ser Cornelius. Teve certeza disso quando
distinguiu uma braçadeira preta na manga de tecido azul.
4. As toras flutuantes do Amsterdiep

Não foi propriamente uma emboscada. Em todo caso, Maigret em momento algum
teve a impressão de estar espionando alguém.
Saía da casa dos Popinga. Deu alguns passos. Percebeu dois homens do outro lado
do canal e parou bruscamente para observá-los. Não se escondia. Estava de pé, com
todo o seu corpanzil, rente à água, cachimbo entre os dentes, mãos nos bolsos.
Mas talvez por não se esconder, e pelos outros não o verem e prosseguirem sua
conversa acalorada, o fato é que houve alguma coisa de perturbador naquele
instante.
O lado do canal em que se encontravam os dois homens estava deserto. Um
hangar se erguia no meio de um estaleiro, onde dois barcos estavam a seco,
escorados por estacas. Botes apodreciam fora d’água.
Por fim, no próprio canal, as toras de madeira, que não deixavam ver senão um ou
dois metros da superfície líquida e espalhavam um perfume exótico na paisagem.
Anoitecera. Reinava uma semipenumbra e, não obstante, a atmosfera continuava
cristalina, conferindo toda a pureza às cores.
A calma era tão intensa que surpreendia, e o coaxar de uma rã, num charco
distante, sobressaltava.
O Baes falava. Embora não erguesse a voz, percebia-se que martelava as sílabas,
que queria ser compreendido ou obedecido. Cabisbaixo, o homem em uniforme de
aspirante escutava. Usava luvas brancas, que inseriam duas manchas incisivas, as
únicas, na paisagem.
Subitamente, um apelo dilacerante. Era um asno que cismara de zurrar, atrás de
Maigret, num capinzal. E isso bastou para quebrar o encanto. Oosting olhou na
direção do animal, que esbravejava contra os céus, percebeu Maigret e deixou que
seu olhar impassível o estudasse.
Disse ainda algumas palavras ao rapaz, acomodou o curto tubo de seu cachimbo
de barro na boca e tomou o rumo da cidade.
Aquilo não significava nada, não provava nada. Maigret também caminhava, os
dois caminhavam no mesmo compasso, cada qual em uma das margens do
Amsterdiep.
Mas o caminho que Oosting seguia não demorou a divergir da margem. O Baes
logo desapareceu atrás de novos hangares. Durante quase um minuto continuou-se
a ouvir o martelar pesado de seus tamancos.
A noite descera, a não ser por um halo imperceptível. Luzes acabavam de ser
acesas na cidade e ao longo do canal, onde a iluminação se interrompia para além
da casa dos Wienands. A outra margem, não habitada, permanecia no escuro.
Maigret voltou-se, sem saber por quê. Resmungou, porque o asno lançava um
novo zurro desesperado.
E ao longe, mais longe que as casas, viu duas manchinhas brancas dançando
acima do canal. Eram as luvas de Cornelius.
Não fosse por elas, e sobretudo pela superfície da água tomada pelas árvores, seria
um mundo de fantasmas. Aquelas mãos se agitando no vazio. O corpo se
confundindo com a noite. E, na água, o reflexo da última lâmpada elétrica.
Não se ouviam mais os passos de Oosting. Maigret foi na direção das últimas casas,
passou novamente pela dos Popinga, depois pela dos Wienands.
Continuava sem se esconder, ao mesmo tempo sabia que se confundia com a
noite. Acompanhava as luvas com os olhos. Compreendia. Cornelius, para não dar a
volta por Delfzijl, onde havia uma ponte sobre o canal, atravessava a água
recorrendo às toras, que formavam uma espécie de jangada. No meio, havia um
pulo de dois metros a ser dado. As mãos brancas se agitaram mais um pouco,
descreveram uma curva rápida e a água chapinhou.
Instantes depois, ele caminhava ao longo da margem, seguido, a apenas cem
metros, por Maigret.
Foi inconsciente de ambos os lados, e, aliás, Cornelius parecia ignorar a presença
do comissário. O fato é que, desde os primeiros passos, estavam na mesma
cadência, de modo que os rangidos no cascalho se superpunham.
Maigret se deu conta disso porque em certo momento seu pé tropeçou, e durante
um décimo de segundo o sincronismo deixou de ser absoluto.
Não sabia aonde ia. E no entanto apertava o passo à medida que o rapaz acelerava.
Melhor: sentia-se carregado aos poucos por uma espécie de vertigem.
No início, eram passadas longas e regulares. Encurtavam. Precipitavam-se.
No instante preciso em que Cornelius passava em frente ao depósito de madeira,
rebentou um verdadeiro concerto de rãs e houve uma parada súbita.
Cornelius estaria com medo? Retomou a caminhada, mais irregular agora, às vezes
vacilante, outras, ao contrário, dois ou três passos tão rápidos que parecia que ia
sair correndo.
Daí em diante, foi o fim do silêncio, pois o coro das rãs disparou, enchendo a noite
inteira.
E o passo se acelerava. O fenômeno continuava: Maigret, de tanto caminhar no
ritmo do outro, era até capaz de sentir o que lhe ia por dentro.
Cornelius estava com medo! Andava depressa porque estava com medo! Estava
ansioso para chegar. No entanto, quando passava perto de uma sombra de
contornos estranhos, montes de lenha, árvore morta, arbusto, seu pé permanecia
no ar um décimo de segundo a mais.
O canal fez uma curva. Cem metros adiante, na direção da fazenda, começava o
trecho curto iluminado pelo facho do farol.
E o rapaz pareceu tropeçar naquela luz. Voltou-se. Atravessou-a correndo,
voltando-se mais uma vez.
Deixara-a para trás e continuava virando a cabeça quando Maigret entrou
tranquilamente na zona luminosa com toda a sua envergadura, todo o seu volume,
todo o seu peso.
O outro não podia deixar de vê-lo. Parou. O tempo de tomar fôlego. Retomou a
marcha.
A luz estava atrás dele. Em frente, havia uma janela iluminada, a da fazenda. O
canto das rãs não os seguia? Por mais que se afastassem, ele continuava próximo,
envolvendo-os como se fossem centenas de animais a escoltá-los.
Parada brusca, definitiva, a cem metros da casa. Um vulto se desprendeu de um
tronco de árvore. Uma voz sussurrou.
Maigret não quis recuar. Teria sido ridículo. Não quis se esconder. Além de tudo,
era tarde demais para isso, uma vez que atravessara o facho do farol.
Sabiam que ele estava ali. Ele seguiu sem artifícios, lentamente, decepcionado por
não ter mais outro passo para fazer eco ao seu.
A escuridão era densa, pois havia árvores frondosas dos dois lados da estrada. Mas
uma luva branca pousou sobre alguma coisa…
Corpos se estreitando… A mão de Cornelius por trás da silhueta de uma moça, de
Beetje…
Mais cinquenta metros, no máximo… Maigret fez uma pausa acintosa, pegou
fósforos no bolso e riscou um para acender o cachimbo, dando assim sua localização
exata.
Depois avançou. Os namorados se mexiam. Quando ele chegou a apenas dez
metros, o vulto de Beetje se desprendeu e foi postar-se no meio da estrada, o rosto
voltado para ele como se o esperasse. Enquanto isso, Cornelius permanecia
recostado num tronco de árvore.
Oito metros…
A janela da fazenda continuava iluminada atrás deles. Um simples retângulo
avermelhado.
Subitamente um gritinho rouco, indescritível, um grito de medo, nervosismo, um
desses gritos que antecedem os soluços, as lágrimas, como um disparador.
Era Cornelius quem chorava, a cabeça nas mãos, grudado na árvore como que para
se proteger.
Beetje estava diante de Maigret. Usava um casaco, mas o comissário notou que
embaixo estava de camisola, com as pernas nuas, os pés nus dentro dos chinelos.
— Por favor, não repare…
Parecia calma! Lançou inclusive um olhar de censura, de impaciência, na direção
de Cornelius.
Ele se mantinha de costas. Tentava se acalmar. Não conseguia e sentia vergonha
pelo surto.
— Ele está nervoso. Ele acha…
— O que é que ele acha?
— Que é ele que vão acusar…
O rapaz continuava afastado. Enxugou os olhos. Será que não sairia correndo?
— Ainda não acusei ninguém! — exclamou Maigret, para dizer alguma coisa.
— Não é mesmo?
E, voltada para seu companheiro, dirigiu-se a ele em holandês. Maigret julgou
compreender, ou melhor, decifrar:
— Vê?! O comissário não acusa você! Precisa se acalmar. Que infantilidade!
Mas de repente ela se calou. Permaneceu imóvel, à espreita. Maigret não ouvira
nada. Instantes depois, também julgou perceber um estalo na direção da fazenda.
Isso bastou para dar vida a Cornelius, que olhou em volta, os traços repuxados,
sentidos em alerta.
Ninguém falava.
— O senhor ouviu…? — disse Beetje, num sopro.
O rapaz quis avançar até o local de onde vinha o barulho, com uma valentia de
galinho de briga. Tinha a respiração arfante.
Tarde demais. O inimigo estava muito mais perto do que supunham.
Era a dez metros que uma silhueta se erguia, reconhecível ao primeiro relance, a
do fazendeiro Liewens, calçando apenas chinelos nos pés.
— Beetje! — chamou.
Ela não ousou responder de pronto. Porém, como ele repetia seu nome, suspirou
medrosamente:
— Ya!
Liewens continuava a avançar. Passou primeiro por Cornelius, a quem fingiu não
ver. Ainda não teria percebido Maigret?
O fato é que foi diante dele que se plantou, olho severo, narinas frementes de
raiva. Continha-se. Permanecia rigorosamente imóvel. Quando falou, foi voltando-
se para a filha e numa voz incisiva, em surdina.
Duas ou três frases. Ela abaixou a cabeça. Então ele repetiu várias vezes a mesma
palavra num tom peremptório e Beetje articulou em francês:
— Ele quer que eu lhe diga…
O pai olhava para ele, como que para captar se ela traduzia exatamente seu
discurso.
— … que na Holanda policiais não marcam encontros noturnos com moças no
campo…
Maigret corou como raramente lhe acontecia. Um fluxo de sangue quente fez seus
ouvidos zumbirem.
A acusação era mais que estúpida! Revelava uma grande má-fé!
Pois afinal Cornelius estava ali, encolhido na penumbra, o olho inquieto, os
ombros contraídos!
E, de qualquer modo, o pai devia saber que tinha sido por ele que Beetje saíra!
Então? O que responder? Ainda mais passando pela mediação de uma tradutora!
Aliás, ninguém esperou por sua resposta! O fazendeiro estalou os dedos como se
chamasse um cão e apontou o caminho para a filha, que hesitava, que se voltou
para Maigret e, não ousando olhar para o rapaz apaixonado, obedeceu finalmente
ao pai.
Cornelius não se mexera. Quer dizer, ergueu a mão, talvez para deter o fazendeiro
na passagem, mas deixou-a cair novamente. O pai e a filha se afastaram. O portão
da fazenda bateu pouco depois.
As rãs teriam se calado durante aquela cena? Impossível afirmar, mas o concerto
virou um alarido ensurdecedor.
— Fala francês?
Cornelius não respondeu.
— Fala francês?
— Um pouquinho…
Olhava com raiva para Maigret, não descerrava os dentes senão
involuntariamente, punha-se de perfil para ficar menos exposto a um ataque.
— Por que tanto medo?
Lágrimas brotaram, mas nenhum soluço. Cornelius se assoou longamente. Suas
mãos tremiam. Uma nova crise estaria por vir?
— Teme realmente que o acusem de haver matado seu instrutor?
E Maigret acrescentou com uma voz rabugenta:
— Vamos andar!
Empurrou-o na direção da cidade. Foi loquaz, pois percebia que metade das
palavras escapava a seu interlocutor.
— É por você que sente medo?
Um fedelho! Rosto magro, com as feições ainda imprecisas, tez pálida. Ombros
estreitos no uniforme justo. O quepe de aspirante da Marinha terminava de
esmagá-lo, transformando-o num menino com roupa de marinheiro.
E havia desconfiança em todas as suas atitudes, na expressão da fisionomia. Se
Maigret alteasse a voz, sem dúvida ele ergueria os braços para se defender dos
golpes!
A braçadeira preta, no entanto, conferia um toque severo. Não fazia um mês que o
guri recebera a notícia da morte da mãe na Índia, talvez numa noite em que ele, em
Delfzijl, estava superalegre, talvez na noite do baile anual da escola?
Voltaria para casa dali a dois anos, com a patente de terceiro oficial, e seu pai iria
lhe mostrar um túmulo já velho, quem sabe outra mulher instalada na casa.
E a vida começaria num grande vapor: as horas de guarda, as escalas, Java-
Rotterdam, Rotterdam-Java, dois dias aqui, cinco ou seis horas lá…
— Onde estava no momento em que o professor foi morto?
O soluço rebentou, terrível, dilacerante. O rapaz agarrou as duas lapelas de
Maigret com as mãos nas luvas brancas, tremendo convulsivamente.
— Não verdade! Não verdade! — repetiu umas dez vezes pelo menos. — Nein! Não
compreender! Não… Não verdade…
Voltaram a ser alvos do pincel leitoso do farol. A luz os cegava e esculpia, dando
relevo a todos os detalhes.
— Onde estava?
— Por ali…
Por ali era a casa dos Popinga, o canal que ele parecia acostumado a atravessar
pulando de tora em tora.
Era um detalhe importante. Popinga morrera quando faltavam cinco minutos para
meia-noite. Cornelius chegara ao navio cinco minutos depois da meia-noite.
Mas para fazer o trajeto pelo caminho normal, isto é, pela cidade, levava-se quase
meia hora.
Mas apenas seis ou sete minutos atravessando o canal daquela maneira e evitando
o desvio!
Maigret caminhava, pesado e lento, ao lado do rapaz, que tremia feito vara verde
e, quando o zurro do asno novamente reverberou, teve um calafrio, tiritando dos
pés à cabeça como se prestes a sair em disparada.
— Ama Beetje?
Silêncio obstinado.
— Você a viu voltar depois que seu instrutor a levou em casa?
— Não é verdade! Não verdade! Não verdade!
Maigret quase o acalmou com uma cotovelada.
No entanto, envolveu-o num olhar indulgente, talvez afetuoso.
— Encontra Beetje todo dia?
Novo silêncio.
— A que horas tem de estar de volta ao navio-escola?
— Dez horas… Exceto nas folgas… quando eu ia à casa do meu instrutor, eu
poder…
— Voltar mais tarde! Então, aquela noite não…?
Estavam na beira do canal, exatamente no lugar onde Cornelius o atravessara.
Com toda a naturalidade, Maigret dirigiu-se até as toras e pôs o pé sobre uma delas,
quase caindo na água pois lhe faltava traquejo e a tora rodava sob a sola de seu
sapato.
Cornelius hesitava.
— Vamos! Daqui a pouco serão dez horas…
O rapazola se espantou. Decerto esperava nunca mais voltar ao navio-escola, ser
preso, jogado na prisão.
E eis que o terrível comissário o acompanhava, tomava impulso para saltar como
ele por cima dos dois metros de água do meio do canal! Respingaram-se
mutuamente. Na outra margem, Maigret parou para secar a calça.
— Onde estamos?
Ainda não estivera daquele lado. Era um grande terreno baldio, situado entre o
Amsterdiep e o novo canal, largo e profundo, acessível aos barcos que vinham do
mar.
Ao se voltar, o comissário percebeu uma janela iluminada no primeiro andar da
casa dos Popinga. Um vulto, o de Any, se movia atrás da cortina. Era o gabinete de
trabalho de Popinga.
Mas não era possível adivinhar em que tarefa se empenhava a jovem advogada.
Cornelius se acalmara um pouco.
— Juro… — começou.
— Não!
Isso o desconcertou. Olhou tão estupefato para seu interlocutor que Maigret lhe
deu um tapinha no ombro, dizendo:
— Nunca se deve jurar! Ainda mais na sua situação… Por acaso gostaria de se casar
com Beetje?
— Ya! Ya!
— Seu pai teria aceitado?
Silêncio. Cabisbaixo, Cornelius seguia seu caminho, por entre as velhas barcaças
encalhadas que atulhavam o terreno.
Avistaram a larga superfície do Ems-Canal. Numa curva, uma grande embarcação
preta e branca, da qual todas as vigias estavam acesas. Uma proa bem alta. Um
mastro e suas vergas.
Era um velho navio da Marinha de Guerra holandês, um barco com cem anos de
uso, que, agora impróprio para a navegação, haviam atracado ali, para alojar os
alunos da Escola Naval.
Em volta, vultos escuros, brasas de cigarros. Um som de piano vinha da sala de
jogo.
De repente, um sino sacudido com vontade fez com que todos os vultos
espalhados pelo cais formassem um enxame diante da passarela, enquanto ao
longe, no caminho que levava à cidade, quatro retardatários chegavam correndo.
Uma verdadeira volta às aulas, embora todos aqueles rapazes, entre dezesseis e
vinte e dois anos, envergassem o uniforme de oficial da Marinha, luvas brancas e o
quepe engomado com galões dourados.
Um velho contramestre, debruçado na amurada, os olhava desfilar um a um
fumando seu cachimbo.
Ambiente vibrante, jovial, alegre. Piadas, que Maigret não podia compreender, se
entrecruzavam. Os cigarros eram jogados fora no momento de atravessar a
passarela. E, a bordo, os gracejos continuavam, brigas de mentira.
Os retardatários, esbaforidos, chegavam à passarela. Cornelius, traços repuxados,
olhos vermelhos, olhar febril, voltou-se para Maigret.
— Ora, vá! — este resmungou.
O outro compreendeu o gesto melhor que as palavras, levou a mão ao quepe,
bateu desajeitadamente uma continência, abriu a boca para falar.
— Tudo bem! Vá logo…
Pois o contramestre ia debandar, enquanto um aluno assumia seu posto na
entrada.
Através das vigias, era possível ver os rapazes desdobrando as redes, atirando as
roupas num canto qualquer.
Maigret não saiu do lugar até ver Cornelius entrar no recinto, tímido, acanhado,
ombros tortos, receber um travesseiro no meio da cara e dirigir-se a uma das redes
do fundo.
Outra cena estava para começar, mais pitoresca. O comissário não dera dez passos
em direção à cidade quando avistou Oosting, que, como ele, viera assistir à volta
dos alunos.
Ambos já tinham certa idade, eram grandalhões, pesados, calmos.
Não fariam um papel ridículo, parados ali a observar rapazolas subindo em suas
redes e fazendo guerra de travesseiros?
Não pareciam galinhas gordas vigiando um pintinho desgarrado?
Entreolharam-se. O Baes não saiu do lugar, mas tocou na aba do quepe.
Sabiam antecipadamente que era impossível qualquer conversa entre eles,
considerando que não falavam a mesma língua.
— Goedenavond… — resmungou mesmo assim o homem de Workum.
— Boa noite! — ecoou Maigret.
Seguiam o mesmo trajeto, por um caminho que, após cerca de cem metros, virava
a rua e penetrava na cidade.
Caminhavam mais ou menos na mesma altura. Para separá-los, teria sido preciso
que um deles reduzisse ostensivamente o passo, e nenhum dos dois parecia
disposto a isso.
Oosting, de tamancos. Maigret, de terno. Ambos fumavam cachimbo, sendo que o
de Maigret era de urze e o de Baes, em barro branco.
A terceira casa pela qual passaram era um bar e Oosting entrou no
estabelecimento, após sacudir os tamancos, que deixou no capacho segundo o
costume holandês.
Maigret não refletiu nem um segundo e também entrou.
Eram cerca de dez marinheiros e barqueiros em volta da mesma mesa, fumando
cachimbos e charutos, bebendo cerveja e genebra.
Oosting apertou algumas mãos e, vendo uma cadeira, sentou-se pesadamente e
escutou a conversa geral.
Maigret instalou-se num canto afastado e percebeu nitidamente que a atenção
geral estava concentrada nele. O dono, que fazia parte do grupo, esperou alguns
instantes para vir lhe perguntar o que beberia.
A genebra escorreu de um barrilzinho de louça e cobre. Era seu cheiro que
imperava, como em todos os bares holandeses, e que tornava a atmosfera tão
diferente da de um bar da França.
Os olhinhos de Oosting riam todas as vezes que pousavam no comissário.
Este alongou as pernas, enfiou-as sob a cadeira, alongou-as de novo, encheu um
cachimbo, para fazer alguma coisa, e o dono levantou-se expressamente para lhe
oferecer fogo.
— Mooi weer, ja! Oostenwind…
Os demais escutavam, cutucavam-se. Alguém apontou o céu estrelado pela janela.
— Mooi weer! Tempo bom!
Tentava explicar que o vento soprava do leste, o que era perfeito.
Oosting escolhia entre os charutos de uma caixa. Manipulou cinco ou seis, que
dispôs à sua frente. Ostensivamente, pegou um manilha preto feito carvão, cuja
ponta cuspiu no chão antes de acendê-lo.
Depois mostrou seu quepe novo aos companheiros.
— Vier gulden…
Quatro florins! Quarenta francos! Seus olhinhos não paravam de sorrir.
Nesse ínterim, alguém entrou, desdobrou um jornal e comentou as últimas
cotações do frete na Bolsa de Amsterdam.
E durante a conversa animada que se seguiu, semelhante a um bate-boca por
causa das vozes sonoras e da dureza das sílabas, se esqueceram de Maigret, que
tirou um trocado do bolso e foi dormir no Hotel Van Hasselt.
5. As hipóteses de Jean Duclos

Foi do Hotel Van Hasselt, onde no dia seguinte tomava seu café da manhã, que
Maigret assistiu às buscas, que não lhe haviam sido comunicadas. Verdade que se
contentara com uma breve entrevista com a polícia holandesa.
Podiam ser oito horas da manhã. A bruma ainda não se dissipara completamente,
mas sentia-se que o sol de um dia radioso se escondia atrás dela. Um cargueiro
finlandês saía do porto, puxado por um rebocador.
Em frente a um pequeno bar, na esquina do cais, havia uma grande aglomeração
de homens, todos de tamancos e quepes de marinheiro, conversando em pequenos
grupos.
Era a Bolsa dos schippers, isto é, dos balseiros, cujas embarcações de todos os
modelos se espremiam num ancoradouro do porto, abarrotadas de mulheres e
crianças.
Mais adiante, outro grupo, um punhado de homens: o Clube dos Ratos de Cais.
Porém dois guardas de uniforme acabavam de chegar. Haviam subido ao convés
do barco de Oosting e este irrompera pela escotilha, pois, quando estava em Delfzijl,
dormia sempre a bordo.
Alguém à paisana também chegava: o sr. Pijpekamp, inspetor à frente do
inquérito. Tirou o chapéu, falou educadamente. Os dois guardas desapareceram no
interior.
As buscas tiveram início. Todos os schippers notaram. E, no entanto, não houve
nenhum alvoroço, nem sequer um movimento de curiosidade aparente.
O Clube dos Ratos de Cais parecia imóvel. Alguns olhares, se tanto.
Aquilo durou uma boa meia hora. Os guardas, ao sair, bateram continência. O sr.
Pijpekamp pareceu desculpar-se.
Aquela manhã, entretanto, o Baes não fez menção de desembarcar. Em vez de ir
juntar-se ao grupo de seus amigos, um pouco adiante, sentou-se no banco do
imediato, com as pernas cruzadas, olhou para o largo, onde o cargueiro finlandês
evoluía pesadamente, e ali permaneceu fumando seu cachimbo.

Quando Maigret se voltou, Jean Duclos descia de seu quarto, os braços


atrapalhados com uma pasta, livros, maços de papel, que ele foi colocar na mesa
que lhe era reservada.
Fingiu indagar, sem cumprimentar Maigret:
— E então?
— E então! Acho que lhe desejo um bom dia…
O outro o fitou com certo espanto, deu de ombros, como se lhe dissesse que não
valia realmente a pena melindrar-se.
— Descobriu alguma coisa?
— E o senhor?
— Sabe perfeitamente que estou impedido de sair daqui. Por sorte seu colega
holandês compreendeu que meus conhecimentos lhe poderiam ser úteis e sou
mantido a par dos resultados do inquérito. São protocolos nos quais a polícia
francesa poderia se inspirar às vezes.
— Só me faltava essa!
O professor precipitou-se para a sra. Van Hasselt, que entrava, com grampos nos
cabelos, cumprimentou-a como teria feito numa recepção e, aparentemente,
perguntou por sua saúde.
Maigret, por sua vez, observava os papéis espalhados, reconhecia novas plantas e
esquemas não só da casa dos Popinga como da cidade quase inteira, com traços
pontilhados que deviam representar o trajeto feito por determinadas pessoas.
O sol, que atravessava os vitrais multicoloridos das janelas, enchia a sala de
divisórias envernizadas com luzes verdes, vermelhas e azuis. Um caminhão de
cervejaria estacionara em frente à porta e, durante toda a conversa que se seguiu,
dois brutamontes não pararam de rolar barris sobre o assoalho, vigiados pela sra.
Van Hasselt em trajes matinais. Nunca o cheiro de genebra e cerveja fora tão denso.
Nunca tampouco Maigret sentira a Holanda com tamanha intensidade.
— Já descobriu o culpado? — ele disse, entre divertido e rabugento, apontando as
pastas.
Olhar intenso e agressivo de Duclos. E a réplica:
— Começo a achar que os estrangeiros é que têm razão! O francês é acima de tudo
um homem que não abre mão da ironia. No caso, ela é completamente
despropositada, cavalheiro!
Maigret o fitava sorrindo, de forma alguma desarmado. E o outro prosseguia:
— Não descobri o assassino, não! Talvez tenha feito um pouco mais. Analisei o
drama. Dissequei-o. Isolei todos os seus elementos e agora…
— E agora…?
— Será provavelmente um homem como o senhor, aproveitando-se de minhas
deduções, que irá solucionar o caso.
Sentara-se. Estava claramente decidido a falar, mesmo naquele ambiente que ele
mesmo tornara hostil. Maigret instalou-se à sua frente, pediu uma dose de Bols.
— Sou todo ouvidos!
— Em primeiro lugar, note que não lhe pergunto sequer o que fez ou o que pensa
sobre o caso. Vamos ao primeiro possível assassino, isto é, eu… Eu tinha, se me
permite, a melhor posição estratégica para matar Popinga, além disso, fui visto com
a arma do crime na mão instantes após o atentado.
“Não sou rico e, embora conhecido no mundo inteiro, ou quase isso, é por um
pequeno número de intelectuais. Levo uma vida difícil, de classe média. Por outro
lado, não houve furto e de forma alguma eu poderia esperar tirar algum proveito da
morte do instrutor.
“Calma! Isso não quer dizer que não possam me incriminar. E não deixarão de
lembrar que, durante a confraternização, como o assunto era polícia científica,
defendi a tese de que um homem inteligente que cometesse um crime a sangue-
frio, recorrendo a todas as suas aptidões, seria capaz de desafiar uma polícia mal
preparada.
“Portanto haverá quem deduza que pretendi ilustrar minha teoria com um
exemplo. Cá entre nós, eu diria que, se assim fosse, a possibilidade de suspeitarem
de mim nem sequer teria existido.”
— À sua saúde! — disse Maigret, que acompanhava as idas e vindas dos
carregadores com pescoço de touro.
— Prossigo. E afirmo que, se não cometi esse crime, que não obstante, como tudo
permite supor, foi cometido por alguém que se encontrava na casa, toda a família é
culpada.
“Não se assuste! Examine esta planta! E, principalmente, tente compreender as
poucas considerações psicológicas que vou desenvolver.”
Dessa vez, ante a condescendência desdenhosa do professor, Maigret não
conseguiu se abster de sorrir.
— Decerto ouviu falar que a sra. Popinga, em solteira Van Elst, pertence à linha
mais ortodoxa da Igreja protestante. Seu pai, em Amsterdam, é visto como um
ferrenho conservador. E sua irmã Any, aos vinte e cinco anos, já engatinha na
política, com as mesmas ideias.
“O senhor só chegou aqui ontem, havendo diversas sutilezas nos costumes que
ainda não conhece. Por exemplo, sabia que um instrutor da Escola Naval ganharia
uma severa reprimenda se o vissem entrando num café como este?
“Um deles foi suspenso só porque teimava em receber um jornal que passa por
avançado.
“Não estive com Popinga senão por uma noite. Foi o suficiente, sobretudo depois
do que ouvi falar a seu respeito.
“O senhor diria um bom sujeito! Até mesmo um excelente sujeito! Rosto rosado!
Olhos claros, alegres!
“Só que ele viajou, como marujo. Na volta, vestiu uma espécie de uniforme de
austeridade. Mas o uniforme arrebentava em todas as costuras.
“Compreende? Sorria! Um sorriso de francês. Quinze dias atrás, ele foi à reunião
semanal do clube ao qual pertencia. Como os holandeses não frequentam
botequins, eles se reúnem, sob a fachada de clube, numa sala reservada, jogam
bilhar, boliche.
“Pois bem! Há quinze dias, às onze da noite, Popinga estava bêbado. Na mesma
semana, a obra de caridade presidida por sua esposa fazia uma coleta para comprar
roupas para os nativos das ilhas oceânicas. E ouvimos Popinga exclamar, com as
bochechas vermelhas e os olhos acesos:
“‘Que tolice! Ficam tão bem nus! Em vez de comprar roupas para eles, faríamos
melhor imitando-os…’
“O senhor sorri, é claro! Isso parece irrisório! Seja como for, o escândalo ainda
perdura e, se as exéquias de Popinga forem realizadas em Delfzijl, haverá gente que
evitará comparecer!
“Pincei apenas um detalhe, entre cem, entre mil! Era por todas as costuras, repito,
que rachava a casca de responsabilidade de Popinga.
“Procure imaginar o que significa embriagar-se aqui! Alunos o encontraram nesse
estado! Talvez seja por isso que o adoram!
“Agora, reconstitua a atmosfera da casa, às margens do Amsterdiep. Lembre-se da
sra. Popinga e de Any.
“Olhe pela janela. Dos dois lados é possível avistar os limites da cidade. É
minúscula. Todo mundo se conhece. Um escândalo não leva uma hora para correr a
cidade inteira.
“Até as relações de Popinga com o tal do Baes, que, vale notar, é uma espécie de
salteador! Foram caçar foca juntos. O instrutor bebia genebra a bordo do barco de
Oosting.
“Não lhe peço para concluir imediatamente. Apenas repito, guarde bem a frase,
que se o crime foi cometido por alguém da casa, é toda a casa que é culpada…
“Quanto a Beetje, essa tresloucada que Popinga nunca deixava de levar em casa.
Quer mais um traço de caráter? Ela é a única que toma banho de mar todo dia, e
não de maiô com saiote, como todas as damas aqui, mas de maiô colante. E
vermelho ainda por cima!
“Deixo o senhor com sua investigação. Fiz questão de lhe fornecer alguns
elementos que a polícia costuma desprezar.
“Quanto a Cornelius Barens, para mim, faz parte da família, do lado das mulheres.
“De um lado, se quiser, a sra. Popinga, sua irmã Any e Cornelius…
“Do outro, Beetje, Oosting e Popinga…
“Se compreendeu minhas palavras, talvez chegue a um resultado.”
— Uma pergunta! — disse gravemente Maigret.
— Faça.
— O senhor também é protestante?
— Pertenço à Igreja reformada, sem pertencer à mesma Igreja.
— De que lado da barricada o senhor se posiciona?
— Eu não gostava de Popinga!
— De modo que…?
— Reprovo o crime, seja ele qual for!
— Ele não pôs para tocar um disco de jazz e dançou, enquanto o senhor
conversava com essas damas?
— Outro traço de caráter, que não me ocorreu lhe comunicar.
Maigret caprichou na seriedade, na solenidade mesmo, enquanto se levantava,
declarando:
— Em suma, quem me aconselha prender?
O professor Duclos quase caiu para trás.
— Não falei em prisão. Dei-lhe algumas diretrizes genéricas, puramente no âmbito
das ideias, se me permite.
— Evidentemente! Mas no meu lugar…?
— Não sou da polícia! Busco a verdade pela verdade e nem o fato de eu mesmo ser
suspeito é capaz de influenciar meu julgamento.
— De modo que não devemos prender ninguém?
— Eu não disse isso… Eu…
— Agradeço-lhe! — concluiu Maigret, estendendo a mão.
E bateu no copo com uma moeda para chamar a dona. Duclos olhou atravessado
para ele.
— Um gesto a ser evitado aqui! — murmurou. — Quer dizer, se é que pretende
passar por um gentleman…
Fecharam o alçapão pelo qual haviam descido os barris à adega. O comissário
pagou, deu uma última espiada nos esquemas.
— Quer dizer, ou o senhor ou a família inteira…
— Não foi o que eu disse… Escute…
Mas ele já estava na porta. De costas, relaxara as feições, e, se não ria às
gargalhadas, sorria, fascinado.
Do lado de fora, um banho de sol, calor ameno, quietude. O dono do ferro-velho
estava na soleira de sua porta. O judeuzinho que vendia equipamento náutico
contava suas âncoras e as marcava com tinta vermelha.
O guindaste continuava a descarregar o carvão. Schippers içavam suas velas, não
para partir, mas para secar a lona. E, na balbúrdia de mastros, eram como grandes
drapejados brancos e marrons ondulando preguiçosamente.
Na popa de sua chalupa, Oosting fumava seu cachimbo curto de barro. Alguns
Ratos de Cais conversavam sem entusiasmo.
Mas bastava voltar-se para a cidade para ver as casas burguesas, bem pintadas,
com seus vidros transparentes, cortinas imaculadas, plantas ornamentais em todas
as janelas. Do outro lado dessas janelas, uma sombra impenetrável.
Isso tudo não ganhava um sentido novo à luz da conversa com Jean Duclos?
De um lado, o porto, os homens de tamancos, os barcos, as velas, o cheiro de
alcatrão e água salgada…
Do outro, casas bem fechadas, com móveis encerados e reposteiros escuros, onde
nos últimos quinze dias o assunto era um instrutor da Escola Naval que bebera um
ou dois tragos a mais.
O céu, de uma limpidez de sonho, era o mesmo. Mas que fronteira entre aqueles
dois mundos!
Maigret então imaginava Popinga, que ele jamais tinha visto, nem morto, mas cujo
semblante rosado denunciava seus apetites vorazes.
Imaginava-o naquela fronteira, observando o barco de Oosting, o cinco-mastros
cuja tripulação saqueara todos os portos da América do Sul, os grandes navios
holandeses, a cujo encontro, na China, vinham juncos cheios de mulheres
pequeninas e bonitas como bibelôs de aparador…
Agora só lhe permitiam ter um bote inglês bem envernizado, ornamentado com
cobres reluzentes, nas águas mansas do Amsterdiep, onde era preciso driblar as
toras de madeira procedentes do Norte e das florestas equatoriais.
Pareceu a Maigret que o Baes o fitava de uma maneira singular, como se quisesse
se aproximar dele, interpelá-lo. Mas isso era impossível! Não conseguia trocar duas
palavras!
Oosting sabia disso e permanecia imóvel, limitando-se a fumar um pouquinho
mais rápido, enquanto suas pálpebras quase se fechavam por conta do sol.
Àquela hora, Cornelius Barens estava na sala de aula assistindo a alguma aula de
trigonometria ou astronomia. Ainda devia estar branco feito cera.
O comissário foi recostar num pino de atracação de bronze, quando percebeu o
inspetor Pijpekamp avançando em sua direção, mão estendida.
— Descobriu alguma coisa a bordo hoje de manhã?
— Ainda não… Era uma formalidade…
— Suspeita de Oosting?
— Temos o quepe…
— E o charuto!
— Não! O Baes só fuma brasil e aquele era um manilha…
— De modo que…?
Pijpekamp arrastou-o um pouco mais adiante, para não ficar à vista do dono da
ilha de Workum.
— A bússola de bordo pertenceu a um barco de Helsinfors… As boias salva-vidas
vêm de um carvoeiro inglês… E assim por diante…
— Furtos?
— Não! É sempre assim! Quando um cargueiro chega ao porto, há sempre alguém,
mecânico, terceiro oficial, marujo, às vezes um capitão, para revender alguma
coisa… Compreende? Dizem à companhia que as boias foram levadas por um
vagalhão… Que a bússola tinha parado de funcionar… E os sinalizadores! E tudo! Às
vezes até um escaler!
— De modo que isso não prova nada!
— Nada! O judeu, cuja birosca o senhor vê, vive exclusivamente desse tráfico.
— Então, sua investigação…?
O inspetor desviou a cabeça com cara de fastio.
— Eu lhe disse que Beetje Liewens não voltara imediatamente. Que ela fizera
meia-volta. É assim que vocês falam?
— Claro que sim! Vá em frente!
— Talvez ela não tenha atirado…
— Ah!
Era visível que o inspetor não estava à vontade. Sentiu necessidade de abaixar a
voz e arrastar Maigret até uma parte do cais absolutamente deserta para continuar:
— Pense no monte de toras… Sabe? O timmerman… na língua dos senhores é
carpinteiro… sim! O carpinteiro afirma que já viu, à noite, Beetje e o sr. Popinga…
Sim! Os dois…
— Aninhados à sombra do monte, não é?
— Sim… e penso…
— Pensa…
— Que poderia haver outras duas pessoas nos arredores… Pronto, falei! O rapaz da
escola, Cornelius Barens. Ele queria se casar com Beetje. Encontramos a fotografia
da moça em seu baú.
— Sério?
— Além do sr. Liewens… O pai de Beetje… ele é muito importante. Criação de vacas
para exportação. Manda até para a Austrália. É viúvo… Não tem outros filhos…
— Ele poderia ter matado Popinga?
O inspetor estava tão sem jeito que Maigret quase teve pena. Via-se que era
penoso para ele acusar um homem importante, criador de vacas expedidas até para
a Austrália.
— Se ele viu, não é mesmo?
Maigret estava impiedoso.
— Se ele viu o quê?
— Perto do monte de toras… Beetje e o professor…
— Ah, sim!
— Isso é absolutamente confidencial…
— Não me diga! Mas e Barens?
— Pode ter visto também. Talvez tenha sentido ciúmes. Por outro lado, chegou à
escola cinco minutos depois do crime. Isso é que eu não entendo.
— Resumindo — disse o comissário, com a mesma gravidade com que se dirigia a
Jean Duclos —, o senhor suspeita do pai de Beetje e de seu namorado Cornelius.
Silêncio constrangedor.
— Também suspeita de Oosting, cujo quepe foi encontrado na banheira.
Pijpekamp fez um gesto de desânimo.
— E também, naturalmente, do homem que deixou um manilha na sala de jantar.
Quantos vendedores de charutos há em Delfzijl?
— Quinze.
— Isso não facilita as coisas. Por fim, suspeita do professor Duclos.
— Por causa do revólver em sua mão. Não posso liberá-lo… Compreende?
— E como!
Percorreram cerca de cinquenta metros sem dizer uma palavra.
— O que acha? — murmurou finalmente o policial de Groningen.
— Eis a questão! E também a diferença entre nós dois! O senhor pensa alguma
coisa! Pensa inclusive um monte de coisas! Ao passo que eu acho que ainda não
penso nada.
Subitamente, uma pergunta:
— Por acaso Beetje Liewens conhece o Baes?
— Não sei. Não creio.
— E Cornelius o conhecia?
Pijpekamp passou a mão na testa.
— Talvez sim… Talvez não… Mais provável que não! Posso saber…
— Isso! Tente saber se eles tinham uma relação qualquer antes do crime.
— Acha…?
— Não acho absolutamente nada! Mais uma pergunta: há um rádio na ilha de
Workum?
— Ignoro!
— Outro fato a ser estabelecido.
Impossível dizer como a coisa se dera, mas instalara-se uma espécie de hierarquia
entre Maigret e seu companheiro, que olhava para ele como teria olhado para um
superior.
— Estude então esses dois pontos! Tenho que fazer uma visita.
Pijpekamp era bem-educado o bastante para não indagar a respeito daquela visita,
mas seus olhos eram um poço de interrogação.
— À srta. Beetje! — concluiu Maigret. — O caminho mais curto…?
— Margeando o Amsterdiep.
Via-se a lancha de praticagem de Delfzijl, um belo vapor de quinhentas toneladas,
descrever uma curva no Ems antes de entrar no porto. E o Baes, andando de um
lado para outro em passos lentos porém pesados, cheios de tensão concentrada, no
convés de seu barco, a cem metros dos Ratos de Cais entorpecidos pelo sol.
6. As cartas

Um acaso fez com que Maigret não fosse pelo Amsterdiep, e sim pelo caminho que
atravessava as terras.
A fazenda, ao sol das onze da manhã, lembrou-lhe suas primeiras atividades em
solo holandês, a moça de galochas reluzentes no estábulo moderno, a sala de estar
burguesa e o bule de chá em sua anágua.
Reinava a mesma calma. Bem ao longe, quase no limite do horizonte infinito, uma
grande vela vermelha flutuava acima dos pastos, evocando um navio-fantasma a
vogar num oceano de capim.
Como da primeira vez, o cachorro latiu. Passaram cinco bons minutos antes que a
porta se entreabrisse, mas apenas alguns centímetros, justo o suficiente para sugerir
o rosto marcado e o avental xadrez da empregada.
Como se não bastasse, antes mesmo de Maigret falar, ela fez menção de fechar a
porta.
— A srta. Liewens? — ele indagou.
O jardim os separava. A velha permanecia na soleira e o comissário, do outro lado
do portão. Entre eles, o cachorro, que observava o intruso e arreganhava os dentes.
A empregada balançou negativamente a cabeça.
— Não está? Niet hier?
Maigret já arranhava três ou quatro palavras de holandês.
Mesmo sinal negativo.
— E o patrão? Mijnheer?
Um último aceno e a porta se fechou. Todavia, como o comissário não partiu
prontamente, a porta se moveu, alguns milímetros dessa vez, e Maigret intuiu que a
velha o espiava.
Se não partira, foi porque vira uma cortina estremecer na janela que sabia ser a da
moça. Atrás da cortina, um rosto velado. Não era possível distingui-lo. Em
contrapartida, o que Maigret distinguiu com clareza foi um sutil movimento da
mão, um movimento que talvez fosse uma simples saudação, mas que mais
provavelmente significava: “Estou aqui… Não insista… Cuidado!”.
A velha atrás da porta, de um lado. A mão leitosa, do outro. E o cachorro, que
pulava o portão, ladrando. No entorno, em seus pastos, as vacas pareciam artificiais
de tão imóveis.
Maigret arriscou uma pequena experiência. Deu dois passos à frente, como se a
despeito de tudo fosse abrir o portão. Não pôde se impedir de sorrir, pois não só a
porta voltou a se fechar precipitadamente como o próprio cão, tão feroz, recuou,
com o rabo entre as pernas.
Dessa vez o comissário foi embora, seguindo pelo caminho do Amsterdiep. Tudo o
que se deduzia daquela recepção é que Beetje estava trancada e o fazendeiro dera
ordens para a empregada despachar o francês.
Maigret dava curtas e pensativas baforadas em seu cachimbo. Por um momento,
deteve os olhos nas pilhas de toras, onde a moça e Popinga haviam parado,
paravam provavelmente muitas vezes, escorando suas bicicletas com uma das mãos
e se estreitando com o braço livre.
A calma continuava a imperar na atmosfera. Uma calma serena, quase plena
demais. Uma calma capaz de convencer um francês de que toda aquela vida era tão
artificial quanto um cartão-postal.
Por exemplo, voltou-se subitamente e a poucos metros viu uma embarcação com
a roda de proa alta, cuja chegada ele não percebera. Reconheceu a vela, mais larga
que o canal. Era a mesma que ele avistara um pouco antes no limiar do horizonte e
que já estava ali, sem que parecesse possível ter percorrido distância tão grande.
No leme, uma mulher, que dava o peito a um bebê enquanto empurrava o timão
com o quadril. E um homem, escanchado no gurupés, as mãos pendentes sobre a
água, reparava um cordame.
O barco passou em frente à casa dos Wienands, depois da dos Popinga, com a vela
ultrapassando a altura dos telhados e cobrindo por um instante toda a fachada com
sua grande sombra movente.
Maigret deteve-se mais uma vez. Hesitou. A empregada dos Popinga lavava a
soleira, cabeça baixa, quadril empinado, e a porta aberta.
Sobressaltou-se, percebendo-o de súbito atrás dela. A mão que segurava o pano de
chão tremeu.
— A sra. Popinga? — ele disse, apontando para o interior da casa.
Ela quis tomar-lhe a frente. Mas se complicara, atrapalhada com o pano de chão
do qual pingava água suja. Ele entrou primeiro no corredor. Ouviu uma voz de
homem na sala e bateu.
Um silêncio brusco desceu. Um silêncio completo, rigoroso. Mais que silêncio:
expectativa, como se a suspensão momentânea de toda a vida.
Por fim, dois passos. Do lado de dentro, uma mão roçou a maçaneta da porta. O
batente se mexeu. Maigret viu primeiro Any, que acabava de abrir e o fitava com
dureza. Depois, distinguiu um vulto de homem, em pé junto à mesa, com perneiras
cáqui e vestindo um terno de brim grosso.
O fazendeiro Liewens!
Para terminar, recostada na lareira, escondendo o rosto com as mãos, a sra.
Popinga.
Estava claro que a chegada do intruso interrompia uma conversa importante, uma
cena dramática, quem sabe um bate-boca.
Sobre a mesa guarnecida com um paninho bordado, espalhavam-se diversas
cartas, como se lançadas ali com violência e em desordem.
O semblante do fazendeiro era o mais exaltado, mas foi também o que se contraiu
mais depressa.
— Vejo que atrapalho… — começou Maigret.
Ninguém respondeu. Ninguém abriu a boca. Só a sra. Popinga, após um olhar
desconsolado à sua volta, deixou o cômodo e se dirigiu quase correndo para a
cozinha.
— Creiam-me, lamento interromper a conversa…
Liewens terminou falando alguma coisa em holandês. Dirigia à moça algumas
frases incisivas, e o comissário não pôde se impedir de indagar:
— O que ele disse?
— Que voltará! Que a polícia francesa…
Ela tentava prosseguir, embaraçada.
— … é de uma tremenda desfaçatez, não é mesmo? — completou em seu lugar o
policial. — Já tivemos oportunidade de nos encontrar, o cavalheiro e eu…
O outro tentava compreender, atento à entonação e às expressões de Maigret.
E o comissário, por sua vez, deixava seu olhar pousar nas cartas, na assinatura de
uma delas: Conrad.
O constrangimento atingiu o clímax. O fazendeiro foi pegar seu boné sobre uma
cadeira, mas não se resignou a partir.
— Ele acaba de lhe trazer as cartas que seu cunhado escrevia à filha dele?
— Como sabe?
Ora bolas! A cena era facílima de reconstituir naquela atmosfera, repulsiva de tão
densa! Liewens chega, bufando de raiva. Liewens é introduzido na sala, onde o
recebem duas mulheres assustadas, fala com virulência, atira as cartas na mesa!
A sra. Popinga, transtornada, escondendo o rosto nas mãos, talvez se negando a
acreditar na evidência, ou então desamparada a ponto de cair no mutismo.
E Any tentando fazer frente ao homem, discutindo.
Foi nesse momento que bateram à porta e todo mundo se imobilizou, enquanto
Any abria.

Nessa reconstituição, em todo caso, ao menos no que se refere ao caráter de um


dos personagens, Maigret se enganava. Pois a sra. Popinga, que ele imaginava na
cozinha, arrasada em consequência da revelação, sem nervos e apática, voltava
instantes depois, calma como só se fica no ponto culminante da emoção.
E lentamente colocou outras cartas sobre a mesa. Não as atirou. Pousou-as. Olhou
para o fazendeiro, depois para o comissário. Abriu diversas vezes a boca, antes de
conseguir falar, e então disse:
— Alguém precisa julgar… Alguém precisa ler…
No mesmo instante o rosto de Liewens foi invadido por um fluxo de sangue. Ele
era holandês demais para se precipitar sobre as cartas, mas elas o atraíam feito uma
vertigem.
Uma letra de mulher… Papel azulado… Cartas de Beetje, evidentemente…
Uma coisa chocava: a desproporção entre os dois montes. Talvez houvesse dez
bilhetes de Popinga, de uma só folha, cobrindo o mais das vezes quatro ou cinco
linhas.
De Beetje, eram trinta cartas, longas, densas!
Conrad estava morto. Restavam aqueles dois montes desiguais e as toras
empilhadas, cúmplices daqueles encontros, ao longo do Amsterdiep.
— É melhor se acalmar! — disse Maigret. — E talvez seja preferível ler essas cartas
sem raiva…
O fazendeiro o fitava com uma concentração extraordinária e deve ter entendido,
pois, à sua revelia, deu um passo em direção à mesa.
Maigret apoiava-se nela com as duas mãos. Pegou um bilhete de Popinga, ao
acaso.
— Pode fazer a gentileza de traduzi-lo, srta. Any?
Mas a jovem parecia não ouvir. Olhava a caligrafia sem dizer nada. Sua irmã tirou-
lhe o bilhete das mãos, grave e digna.
— Foi escrito na escola — ela disse. — Não há data. Em cima está assinalado “seis
horas”. Depois:

Minha querida Beetje,


É melhor não vir esta noite, pois o diretor vai tomar uma xícara de chá lá em casa.
Até amanhã. Beijos.

Ela olhou à sua volta com um calmo ar de desafio. Pegou outro bilhete. Leu
pausadamente:

Linda e querida Beeeje


Acalme-se. Pense que tem uma vida pela frente. Ando sobrecarregado por causa das
provas dos alunos do terceiro ano. Não poderei ir hoje à noite.
Por que vive repetindo que eu não te amo? Só que não posso deixar a escola. O que
faríamos?
Mantenha-se calma. Temos tempo pela frente. Um beijo afetuoso.

E quando Maigret pareceu sugerir que aquilo era o bastante, a sra. Popinga pegou
outra carta.
— Há esta aqui, talvez a última:

Minha Beetje,
É impossível! Suplico, seja sensata. Sabe muito bem que não tenho dinheiro e que
levaria tempo até arranjar uma situação no estrangeiro.
Seja mais prudente, não se zangue. E, principalmente, tenha confiança!
Não tenha medo de nada! Se acontecesse o que receia, eu cumpriria com meu dever.
O excesso de trabalho me deixa nervoso e, quando penso em você, não me concentro.
O diretor me advertiu ontem. Fiquei muito chateado.
Vou tentar sair amanhã à noite a pretexto de vistoriar um barco norueguês no porto.
Aperto-a nos braços, querida Beetje.

A sra. Popinga fitou-os alternadamente, exaurida, olhos baços. Sua mão avançou
para o outro monte, o que ela trouxera, e o fazendeiro estremeceu. Pegou uma
carta, ao acaso.

Querido e amado Conrad


Uma boa notícia: no meu aniversário, papai depositou mais mil florins na minha
conta bancária. É o suficiente para irmos para os Estados Unidos, vi o preço da
passagem de navio no jornal. E podemos viajar de terceira classe!
Mas por que não está mais apressado? A vida perdeu a graça para mim. A Holanda
me sufoca. Parece que as pessoas de Delfzijl me olham com reprovação…
E, no entanto, estou tão feliz e orgulhosa de pertencer a um homem como você!
Precisamos partir impreterivelmente antes das férias, pois papai quer que eu passe
um mês na Suíça e eu não quero. Caso contrário, nosso plano terá de ficar para o
inverno.
Comprei livros de inglês. Já sei falar várias frases.
Depressa! Depressa! E teremos uma bela vida a dois! Não é mesmo? Não podemos
mais ficar aqui… Ainda mais agora! Acho que a sra. Popinga me despreza… E sempre
tive medo de Cornelius, que me corteja e a quem não consigo dissuadir… É um bom
rapaz, bem-educado, mas como é burro!
Sem falar que não é um homem, Conrad, um homem como você, viajado, que sabe
tudo…
Lembra-se quando, há um ano, eu corria atrás de você e você nem sequer olhava
para mim?
E pensar que agora posso ter um filho seu! Em todo caso, poderia!
Mas por que essa frieza? Será que me ama menos?

A carta não terminara, mas a voz sumiu na garganta da sra. Popinga. Por um
instante seus dedos revolveram o monte de cartas. Ela procurava alguma coisa.
Leu outra frase, pinçada no meio de um bilhete:

… e acabei acreditando que você ama mais sua mulher do que a mim, sentindo
ciúmes, detestando-a… Caso contrário, por que se recusa a partir?

O fazendeiro não compreendia as palavras, mas sua atenção estava tão


concentrada que se jurava que ele adivinhava.
A sra. Popinga engoliu a saliva, pegou a última folha e leu com uma voz ainda mais
contida:

… Ouvi dizer que Cornelius estaria mais apaixonado pela sra. Popinga do que por
mim e que os dois se entenderiam muito bem… Se isso pudesse ser verdade! Então
ficaríamos tranquilos e você não teria mais escrúpulo…

O papel fugiu-lhe das mãos, indo pousar lentamente no tapete, ao pé de Any, que
lhe cravou os olhos.
Um novo silêncio se instalou. A sra. Popinga não chorava. Mesmo assim, tudo nela
era trágico, trágico de dor reprimida, de dignidade obtida à custa de um esforço
insano, trágico também em função do sentimento admirável que a movia.
Estava ali para defender Conrad! Esperava um ataque. Lutaria mais, se necessário.
— Quando descobriu essas cartas? — perguntou Maigret, acanhado.
— Um dia depois que…
Ela engasgou. Abriu a boca para sorver um gole de ar. Suas pálpebras se incharam.
— … que Conrad…
— Sim!
Ele compreendera. Olhava-a com compaixão. Não era bonita. No entanto, tinha as
feições regulares, e não aquelas arestas que enfeavam o rosto de Any.
Até seu sorriso devia ser um sorriso comportado, ponderado, sua alegria, uma
alegria comportada, em surdina!
Aos seis anos, devia ser uma criança séria! Aos dezesseis, devia ser a mesma de
hoje!
Mulheres que parecem nascidas para ser irmãs, ou tias, ou enfermeiras, ou viúvas
caridosas.
Conrad não estava presente e jamais Maigret o sentira tão vivo como naquele
instante, com seu rosto de bom moço, sua gula, melhor dizendo, seu apetite pela
vida, sua timidez, seu medo de bater de frente com alguém e aquele aparelho de
rádio cujos botões ele girava horas a fio para sintonizar uma canção de jazz em
Paris, os ciganos de Budapeste, a opereta de Viena, até mesmo as mensagens
distantes de navio a navio.
Any aproximou-se da irmã, como quem se aproxima de alguém que sofre e que vai
fraquejar. Mas a sra. Popinga moveu-se na direção de Maigret, dando pelo menos
dois passos.
— Eu nunca poderia imaginar — sussurrou. — Nunca! Eu vivia… eu… E quando ele
morreu, eu…
Por sua maneira de respirar, ele pressentiu que ela era cardíaca, e no instante
seguinte ela confirmava essa hipótese, permanecendo um bom tempo imóvel, com
uma das mãos no peito.
Alguém se deslocou no aposento: o fazendeiro, com seu olhar severo, intenso, que
avançara em direção à mesa e pegava as cartas da filha com um nervosismo de
ladrão com medo do flagrante.
Ela deixou que ele o fizesse. Maigret também.
Mesmo assim, ele não se atreveu a partir. Ouviram-no falar, não se dirigindo a
ninguém em particular. A palavra Franzose bateu de cheio nos ouvidos de Maigret e
ele teve a impressão de entender holandês, como sem dúvida Liewens, naquele dia,
entendera francês.
Reconstituiu a frase, de maneira aproximada: “Acha necessário revelar essas
coisas ao francês?”.
Deixou o boné cair no chão, recolheu-o, inclinou-se diante de Any, que estava em
seu caminho, e só diante dela resmungou ainda algumas sílabas ininteligíveis e
saiu. A empregada devia ter acabado de lavar a soleira, pois foi possível ouvir a
porta da entrada abrir e fechar, depois passos se afastando.
Apesar da presença da moça, Maigret voltou a indagar, com uma doçura de que
ninguém o julgaria capaz:
— Mostrou essas cartas à sua irmã?
— Não! Mas quando esse homem…
— Onde estavam?
— Na gaveta da mesa de cabeceira. Eu nunca a abria. Era lá também que estava o
revólver…
Any falou em holandês e a sra. Popinga traduziu mecanicamente:
— Minha irmã disse que eu deveria ir me deitar. Porque já faz três noites que não
durmo. Ele não teria partido. Deve ter sido imprudente dessa vez, não é mesmo?
Ele gostava de rir, brincar… Alguns detalhes me voltam à lembrança… Beetje, que
vinha sempre trazer frutas e bolos que ela mesma fazia. Eu achava que era para
mim. Depois vinha nos chamar para jogar tênis. Sempre em horários que ela sabia
impossíveis para mim! Mas eu não queria ver maldade. Achava ótimo Conrad se
distrair um pouco. Porque ele trabalhava muito e Delfzijl era triste para ele. Ano
passado ela quase foi a Paris conosco. E era eu que insistia!
Ela dizia isso com simplicidade, com uma lassidão em que mal havia rancor.
— Ele não queria partir. O senhor ouviu. Mas tinha medo de magoar… Era seu
caráter… Foi advertido por dar notas boas demais nas provas. Por causa disso, meu
pai não gostava dele…
Colocou um bibelô de volta no lugar e esse gesto preciso de dona de casa
contrastou com o estado de espírito ambiente.
— Eu só queria que o assunto estivesse encerrado. Porque não querem nem que ele
seja enterrado. Compreende? Não sei mais! Devolvam-me seu cadáver! Deus
decerto vai se encarregar de punir o culpado…
Exaltara-se. Prosseguiu num tom mais firme:
— Sim… É nisso que acredito… Essas coisas são um assunto entre Deus e o
assassino, não é mesmo? Nós, o que podemos saber?
Estremeceu, como se assomada por uma ideia. Apontou a porta. Disse,
atropelando as palavras:
— Talvez ele vá matá-la! Ele é capaz disso! Seria terrível…
Any olhava para ela com certa impaciência. Devia considerar todas aquelas
palavras inúteis e foi com uma voz muito calma que pronunciou:
— O que pensa agora, sr. comissário?
— Nada!
Ela não insistiu, mas seu rosto exprimia contrariedade.
— Não penso nada, porque antes de tudo temos o quepe de Oosting! — ele disse. —
A senhorita ouviu as teorias de Jean Duclos. Leu as obras de Grosz a que ele se
referiu. Um princípio: não permitir que a verdade seja distorcida por considerações
psicológicas. Seguir até o fim o raciocínio que decorre dos indícios materiais.
Impossível saber se gracejava ou falava seriamente.
— Ora, há um quepe e uma ponta de charuto! Alguém os trouxe ou introduziu na
casa.
A sra. Popinga suspirou consigo mesma:
— Não posso acreditar que Oosting…
E subitamente, erguendo a cabeça:
— Isso me lembrou uma coisa que eu tinha esquecido…
Mas se calou, temendo falar demais, como se apavorada ante as consequências de
suas palavras!
— Fale!
— Não! Isso não significa nada!
— Eu lhe peço…
— Quando Conrad ia caçar foca nos bancos de areia de Workum…
— Sim… E daí?
— Beetje ia com eles… Porque ela caça também… Aqui na Holanda as moças gozam
de grande liberdade…
— Eles dormiam a bordo?
— Às vezes uma noite… Às vezes duas…
Ela segurou a cabeça com as mãos, fez um gesto de impaciência levado a um grau
extremo e gemeu:
— Não! Não quero mais pensar! É horrível demais… Horrível demais…
Dessa vez, os soluços vinham. Nasciam. Quando iam rebentar, Any apoiou as mãos
no ombro da irmã e a empurrou mansamente para a sala contígua.
7. Um almoço no Hotel Van Hasselt

Quando chegou ao hotel, Maigret percebeu alguma coisa de incomum


acontecendo. Na véspera, jantara numa mesa ao lado da de Duclos.
Mas três jogos de talheres estavam postos na mesa redonda que ficava no centro
da sala. A toalha brilhava, ainda com todas as suas pregas. Por fim, havia três taças
para cada comensal, o que na Holanda só é praxe no caso de uma verdadeira
cerimônia.
Logo na entrada, o comissário foi recepcionado pelo inspetor Pijpekamp, que foi
até ele com a mão estendida e um sorriso de alguém que preparou uma surpresa
auspiciosa.
Estava em traje de festa! Um colarinho postiço de oito centímetros! Um colete!
Escanhoado. Recém-saído das mãos do barbeiro, pois ainda deixava um rastro de
loção de violeta.
Mais apagado, Jean Duclos, ares de tédio, se mantinha ao seu lado.
— O senhor vai me desculpar, caro colega… Eu deveria tê-lo avisado hoje de
manhã. Gostaria de recebê-lo em minha casa, mas moro em Groningen e sou
solteiro. Tomei então a liberdade de convidá-lo para almoçar aqui mesmo! Oh, um
almoço modesto, informal!
Enquanto pronunciava essas palavras, olhava para os talheres e cristais,
claramente esperando os protestos de Maigret.
Que não vieram.
— Pensei, uma vez que o professor é seu compatriota, que o senhor ficaria
satisfeito se…
— Ótimo! Ótimo! — disse o comissário. — Permite que eu lave as mãos?
Fez isso lentamente, mal-humorado, na pequena pia adjacente. A cozinha não
ficava longe e ele ouvia um rumor atarefado de travessas e panelas se chocando.
Quando voltou à sala, Pijpekamp servia pessoalmente o vinho do Porto nos cálices
e, com um sorriso deslumbrado, modesto, murmurava:
— Como na França, não é? Prosit! Saúde, caro colega.
Sua boa vontade era comovedora. Esforçava-se para encontrar fórmulas
sofisticadas, mostrar-se cosmopolita até a ponta das unhas.
— Já deveria tê-lo convidado ontem. Mas esse caso me deixou tão… como dizer?
Abalado… Descobriu alguma coisa?
— Nada!
As retinas do holandês faiscaram e Maigret pensou: “Você, meu homenzinho, tem
uma vitória a me comunicar e vai sacá-la na sobremesa… A menos que não tenha
paciência de esperar até lá…”.
Não se enganava. O primeiro prato foi uma sopa de tomates, servida junto com um
Saint-Émilion açucarado e enjoativo, manifestamente batizado para exportação.
— Saúde!
Bravo Pijpekamp! Fazia todo o possível e até mais que o possível! E Maigret fingia
não perceber! Não estava gostando!
— Na Holanda, nunca bebemos durante as refeições… Só depois… À noite, em
reuniões mais solenes, uma pequena taça de vinho com o charuto. Também nunca
colocamos pão na mesa.
E espichava os olhos para a cesta de pão que encomendara. Até o Porto ele
escolhera, substituindo a genebra nacional!
Alguém faria melhor? Ele estava rutilante! Olhava enternecido para a garrafa de
vinho dourado. Jean Duclos comia, com a cabeça longe.
Pijpekamp ardia de vontade de imprimir entusiasmo, alegria, criar em torno
daquele almoço uma atmosfera de loucura, de verdadeira orgia à francesa!
Trouxeram o huchpot. O prato nacional. A carne boiava em litros de molho e
Pijpekamp fez uma cara misteriosa para articular:
— O senhor me dirá se gostou!
O pior é que Maigret não estava com apetite. Farejava à sua volta um pequeno
mistério que ainda não conseguia explicar muito bem.
Parecia haver uma espécie de conluio entre Jean Duclos e o policial. Por exemplo,
todas as vezes que este último enchia o copo de Maigret, Pijpekamp olhava de
relance na direção do professor.
Um Borgonha aguardava ao lado da estufa.
— Eu achava que o senhor bebia muito mais vinho…
— Isso depende…
Era visível que Duclos não estava nada à vontade. Evitava entrar na conversa.
Alegando uma dieta, bebia água mineral.
Pijpekamp não se aguentou por muito mais tempo. Falara da beleza do porto, da
importância do tráfego pelo Ems, da Universidade de Groningen, onde os maiores
cientistas do mundo vinham dar conferências.
— Saiba que temos novidades…
— Sério?
— À sua saúde! À saúde da polícia francesa! Sim, agora o mistério está praticamente
esclarecido.
Maigret voltou para ele seus olhos mais neutros, sem nenhum indício de emoção,
nem sequer curiosidade.
— Pela manhã, por volta das dez horas, vieram me avisar que alguém me
aguardava em meu gabinete. Adivinhe quem?
— Barens! Continue…
Pijpekamp ficou ainda mais atônito que diante do mísero efeito que produzira
sobre seu comensal a mesa tão suntuosamente servida.
— Como sabe? Alguém lhe contou, certo?
— Em absoluto! O que ele queria?
— O senhor o conhece… ele é muito tímido… muito… a palavra francesa… sim,
fechado… Não ousava me encarar… Parecia que ia chorar… Confessou que, ao sair
da casa dos Popinga na noite do crime, não retornou para bordo imediatamente…
O inspetor deu uma série de piscadelas.
— Compreende? Ele ama Beetje! E estava com ciúmes, porque Beetje dançara com
Popinga! E contrariado, porque ela bebera conhaque! Ele viu os dois saindo.
“Seguiu, de longe. Fez o caminho de volta, atrás de seu instrutor.”
Maigret foi impiedoso. Mesmo vendo que o outro teria dado tudo por um sinal de
espanto, admiração, angústia.
— À sua saúde, sr. comissário! Barens não falou imediatamente, porque estava com
medo. Mas eis a verdade! Logo em seguida ao disparo, ele viu um homem correndo
em direção ao monte de toras, onde deve ter se escondido.
— Descreveu-o em minúcias, certo?
— Sim…
O outro suava em bicas. Perdera qualquer esperança de desconcertar o colega. Sua
história fora um fiasco.
— Um marinheiro. Com certeza um marinheiro estrangeiro. De alta estatura,
magro, bem escanhoado…
— E naturalmente um navio, que partiu no dia seguinte…
— Partiu três dias depois… A coisa é clara! Não é em Delfzijl que devemos procurar.
Foi um forasteiro que matou. Sem dúvida um marujo que conheceu Popinga em
outros tempos, quando ele navegava. Um marinheiro que ele deve ter mandado
castigar quando era oficial, ou capitão…
Jean Duclos oferecia obstinadamente seu perfil ao olhar de Maigret. Pijpekamp
fazia sinal à sra. Van Hasselt, que, em vestido de gala, se mantinha no caixa, para
que trouxesse outra garrafa.
Faltava degustar uma obra-prima, um bolo guarnecido com três tipos de creme,
sobre o qual, ademais, se via o nome Delfzijl desenhado com chocolate.
O inspetor abaixava os olhos com modéstia.
— Pode cortar…
— O senhor liberou Cornelius?
Na mesma hora seu interlocutor sobressaltou-se e fitou Maigret, se perguntando
se ele não enlouquecera.
— Mas…
— Se não se incomodar, o interrogaremos juntos daqui a pouco.
— Isso é muito fácil! Vou telefonar para a escola…
— Aproveite e telefone para que tragam Oosting também, que interrogaremos em
seguida.
— Por causa do quepe? Agora isso se explica, certo? Um marinheiro, ao passar, viu
o quepe no convés… Pegou-o e…
— Naturalmente!
Pijpekamp queria chorar. Aquela ironia pesada, quase intangível, de Maigret o
desconcertava a ponto de ele esbarrar na moldura da porta ao entrar na cabine
telefônica.
O comissário ficou um momento a sós com Jean Duclos, que mantinha o nariz
enfiado no prato.
— Por acaso o senhor não o aconselhou, aproveitando que ainda está aqui, a me
passar discretamente alguns florins?
Essas palavras foram pronunciadas baixinho, sem rancor, e Duclos, erguendo a
cabeça, abriu a boca para protestar.
— Psiu! Não temos tempo de discutir. O senhor o aconselhou a me oferecer um
bom almoço, generosamente alcoólico. Disse-lhe que na França é assim que se
amacia um funcionário. Silêncio, já falei! E que depois disso eu ficaria doce feito
mel…
— Juro que…
Maigret acendeu seu cachimbo e voltou-se para Pijpekamp, que voltava do
telefone e que, olhando para a mesa, tartamudeou:
— Aceitaria uma pequena dose de conhaque? Temos do envelhecido…
— Permita que seja eu a oferecer! Queira apenas dizer à madame para trazer uma
garrafa e copos para degustação.
Então a sra. Van Hasselt trouxe cálices. O comissário levantou-se e foi ele mesmo
pegar outros numa prateleira, enchendo-os até a borda.
— À saúde da polícia holandesa! — disse.
Pijpekamp não ousou protestar. A bebida, de tão forte, deixou seus olhos
marejados. O comissário, risonho, feroz, fazia vários brindes, repetindo:
— À saúde da sua polícia! A que horas Barens estará em seu gabinete?
— Dentro de meia hora! Um charuto?
— Obrigado! Prefiro meu cachimbo…
E Maigret encheu novamente os copos, com tamanha autoridade que nem
Pijpekamp nem Duclos se atreveram a recusar a bebida.
— Belo dia! — repetiu duas ou três vezes. — Pode ser que eu me engane! Mas algo
me diz que o assassino do coitado do Popinga será preso hoje à noite.
— A menos que esteja navegando no Báltico! — replicou Pijpekamp.
— Bah! Acha que ele está tão longe assim?
Duclos ergueu um rosto pálido.
— É uma insinuação, comissário? — indagou, com uma voz cortante.
— Insinuação?
— O senhor parece afirmar que, se ele não está longe, talvez esteja muito perto…
— Que imaginação, professor!
Estiveram a dois dedos da discussão. Isso se devia em parte aos generosos copos
de conhaque. Pijpekamp estava um pimentão. Seus olhos brilhavam.
Em Duclos, ao contrário, a ebriedade se traduzia numa palidez mórbida.
— Um último copo, cavalheiros, e iremos interrogar esse pobre menino!
A garrafa estava sobre a mesa. Cada vez que Maigret servia, a sra. Van Hasselt
molhava a ponta de seu lápis nos lábios e marcava as doses num caderno.
Transposta a soleira, mergulharam numa atmosfera pesada de sol e calma. O barco
de Oosting permanecia no mesmo lugar. Pijpekamp sentiu necessidade de
empertigar-se mais do que já o fazia normalmente.
Eram apenas cem metros a percorrer. As ruas estavam desertas. As lojas se
alinhavam, vazias, porém limpas e sortidas, como se para uma exposição universal
cujas portas estivessem prestes a se abrir.
— Será quase impossível botar as mãos nesse marinheiro — disse Pijpekamp. — Mas
é bom saber que foi ele, pois assim não suspeitamos mais de ninguém. Vou fazer um
relatório para liberar completamente o sr. Duclos.
Entrou com um passo muito seguro nos escritórios da polícia local e esbarrou num
móvel ao passar, sentando-se de maneira abrutalhada.
Não estava propriamente bêbado. Mas o álcool lhe tirava parte daquela doçura,
daquela polidez que caracteriza a maioria dos holandeses.
Foi com um gesto descontraído que apertou uma campainha elétrica, enquanto
jogava a cadeira para trás. Dirigiu-se em holandês a um agente uniformizado, que
desapareceu e voltou no instante seguinte na companhia de Cornelius.
Embora o policial o recebesse com uma cordialidade exagerada, o rapaz pareceu
vacilar ao entrar no gabinete, e isso porque seu olhar batera imediatamente em
Maigret.
— O comissário quer lhe perguntar umas coisinhas! — disse Pijpekamp em francês.
Maigret não tinha pressa. Andava de um lado para outro no gabinete, dando
pequenas baforadas no cachimbo.
— Vamos, me conte, meu pequeno Barens! O que o Baes lhe falou ontem à noite?
O outro moveu sua cabeça magra em todos os sentidos, como um passarinho
atarantado.
— Eu… acho…
— Bom! Vou ajudá-lo… Você ainda tem um papai, não é? Lá na Índia… Ele ficaria
muito triste se lhe acontecesse alguma coisa. Chateações… sabe-se lá! Pois bem! Um
falso testemunho, num caso como este, se paga com alguns meses de prisão.
Cornelius sufocava, não ousava fazer um movimento, não ousava mais olhar para
ninguém.
— Confesse que era Oosting que o esperava ontem na margem do Amsterdiep, e
que ele o aconselhou a responder à polícia exatamente o que o senhor respondeu.
Confesse que nunca viu homem alto e magro em volta da casa dos Popinga.
— Eu…
Não! Não tinha mais força para resistir. Explodiu em soluços. Desmoronou.
Maigret olhou primeiro para Jean Duclos, depois para Pijpekamp, com aquele
olhar pesado mas impenetrável que fazia alguns o julgarem um imbecil. Pois era um
olhar tão vítreo que parecia vazio!
— O senhor acha…? — começou o inspetor.
— Veja com seus próprios olhos!
O rapaz, que o uniforme de oficial fazia ainda menor, por contraste, se assoava,
cerrava os dentes para prender os soluços, e terminou balbuciando:
— Eu não fiz nada…
Olhavam todos para ele, enquanto ele tentava se acalmar.
— Isso é tudo! — concluiu Maigret. — Eu não disse que você tinha feito alguma
coisa. Oosting lhe pediu para falar que viu um estranho nas proximidades da casa.
Sem dúvida alegou que era o único jeito de salvar determinadas pessoas. Quem?
— Juro pela cabeça da minha mãe que ele não foi claro… Não sei… Eu queria
morrer…
— Que graça! Com dezoito anos, sempre queremos morrer. Mais alguma pergunta,
sr. Pijpekamp?
Este deu de ombros, num gesto que sugeria não estar entendendo nada.
— Então, mocinho, pode zarpar.
— O senhor sabe que não foi Beetje…
— É bem possível! Está na hora de encontrar seus colegas na escola.
Empurrou-o para fora, grunhindo:
— Agora o outro! Oosting chegou? Pena que esse não entende francês…
Ouviu-se a campainha. Pouco depois, o agente introduziu o Baes, que segurava na
mão seu quepe novo junto com o cachimbo, que ele deixara apagar.
Olhou uma única vez para Maigret. E, coisa estranha, era um olhar de censura.
Manteve-se em pé, diante da mesa do inspetor, que o cumprimentou.
— É muito sacrifício lhe perguntar onde ele estava na hora em que Popinga foi
morto?
O policial traduziu. Oosting começou um discurso comprido que Maigret não
entendeu, o que não o impediu de cortá-lo:
— Não! Interrompa-o! Uma resposta em três palavras!
Pijpekamp voltou a traduzir. Novo olhar de censura. Uma réplica, prontamente
traduzida.
— Estava a bordo de seu barco!
— Diga-lhe que isso não é verdade!
E Maigret ia e vinha o tempo todo, mãos nas costas.
— O que ele responde a isso?
— Ele jura!
— Bom! Nesse caso, que ele diga quem roubou seu quepe.
Pijpekamp era de uma docilidade absoluta. Verdade que Maigret passava uma
impressão de força!
— E então?
— Ele estava na cabine… Fazia contas… Percebeu, através das vigias, umas pernas
no convés… Reconheceu uma calça de marinheiro…
— E seguiu o homem?
Oosting hesitou, semicerrou as pálpebras, estalou os dedos e desatou a falar.
— O que ele disse?
— Que prefere falar a verdade! Que sabe que no fim terão de reconhecer sua
inocência. Quando ele subiu ao convés, o marinheiro se afastava. Seguiu-o de
longe… Assim, viu-se conduzido, ao longo do Amsterdiep, até as proximidades da
casa dos Popinga. Nesse momento, o marinheiro se escondeu… Intrigado, Oosting
aguardou, escondido também…
— Ele ouviu o tiro, duas horas mais tarde?
— Sim. Mas não conseguiu alcançar o homem, que bateu em retirada.
— Ele viu esse homem entrar na casa?
— No jardim pelo menos… Supõe que ele subiu ao primeiro andar usando a calha.
Maigret sorria. Um sorriso vago, bem-aventurado, de alguém que faz uma
excelente digestão.
— Ele reconheceria o homem?
Tradução. Grunhido do Baes.
— Não tem certeza…
— Ele viu Barens espionando Beejte e o instrutor?
— Sim…
— Só que, como ele teme ser acusado e por outro lado quis dar a pista correta à
polícia, encarregou Cornelius de falar em seu lugar.
— É o que ele afirma… Não devo acreditar nele, certo? É ele o culpado, é
evidente…
Jean Duclos dava sinais de impaciência. Oosting permanecia calmo, parecendo
pronto para tudo. Pronunciou uma frase que o policial traduziu.
— Diz que agora podemos fazer dele o que bem entendermos, mas que Popinga era
ao mesmo tempo seu amigo e seu benfeitor.
— E o senhor, o que vai fazer?
— Mantê-lo à disposição da Justiça. Ele confessa que estava lá.
Ainda em decorrência do conhaque, a voz de Pijpekamp soava mais alto que de
costume, seus gestos eram mais bruscos e suas decisões refletiam isso. Queria
parecer categórico. Achava-se diante de um colega estrangeiro e fazia questão de
salvar sua reputação, bem como a da Holanda.
Assumiu um ar grave, apertou mais uma vez o botão da campainha.
E, ao agente que se precipitava, ordenou, dando umas batidinhas com a espátula
na mesa:
— Prenda este homem… Leve-o daqui! Irei vê-lo mais tarde…
Isso era dito em holandês, mas o tom bastava para traduzir o sentido.
Em seguida, levantou-se e explicou:
— Vou terminar de esclarecer esse caso… Não deixarei de ressaltar o papel que o
senhor desempenhou… Naturalmente, seu compatriota está livre…
Não desconfiava que, vendo-o gesticular com os olhos rutilantes, Maigret pensava
com seus botões: “Você, meu pobre velho, se arrependerá amargamente do que
acaba de fazer, quando, dentro de poucas horas, tiver se acalmado!”.
Pijpekamp abriu a porta. O comissário não se decidia a partir.
— Eu gostaria de lhe pedir um último favor! — disse, com uma polidez inusitada.
— A seu dispor, caro colega.
— Ainda não são quatro horas. Esta noite, poderíamos reconstituir o crime com a
presença de todos os que estão envolvidos de uma maneira ou de outra. Quer
tomar nota dos nomes? A sra. Popinga… Any… o sr. Duclos… Barens… os
Wienands… Beetje… Oosting… E por fim o sr. Liewens, pai de Beetje…
— O senhor pretende…
— Retraçar os acontecimentos desde o instante em que terminou a conferência no
salão Van Hasselt…
Houve um silêncio, Pijpekamp refletia.
— Vou telefonar para Groningen — disse finalmente — para consultar meus chefes…
Acrescentou, sem estar muito seguro da piada e espreitando a reação de seus
interlocutores:
— Tem um, por exemplo, que vai faltar. Conrad Popinga, que não poderá…
— Farei o papel dele — concluiu Maigret.
E, seguido por Jean Duclos, saiu, após exclamar:
— E obrigado pelo excelente almoço!
8. Maigret e as moças

O comissário, em vez de atravessar a cidade para ir do posto policial ao Hotel Van


Hasselt, desviou pelo cais, seguido por Jean Duclos, cujo andar, postura da cabeça e
fisionomia exalavam mau humor.
— Sabia que está se tornando odioso? — rosnou finalmente, enquanto observava o
guindaste, cuja caçamba acabava de roçar em suas cabeças.
— O motivo é…?
Duclos encolheu os ombros e deu alguns passos, sem responder.
— Parece que não entende! Ou não quer entender! O senhor é igualzinho a todos os
franceses…
— Eu achava que tínhamos a mesma nacionalidade.
— Com a diferença de que sou um sujeito viajado. Tenho uma cultura universal.
Sei me adaptar às circunstâncias do país onde vivo. Desde que está aqui, o senhor
atropela todo mundo, sem se preocupar com as contingências.
— Sem me preocupar em saber, por exemplo, se desejam descobrir o culpado!
Duclos se exaltou.
— E por que não? Não se trata de um crime hediondo… Logo, o autor não é um
profissional do assassinato e do roubo… Não é um indivíduo que necessita ser
acobertado para proteger a sociedade…
— E nesse caso?
Maigret tinha uma maneira alegre de fumar seu cachimbo, de manter as mãos nas
costas.
— Olhe… — murmurou Duclos, apontando o cenário que os circundava, a cidade
asseada e organizada como a mesa de uma boa dona de casa, o porto no tamanho
ideal para que a atmosfera não seja agressiva, as pessoas serenas e firmes em seus
tamancos amarelos.
Prosseguiu:
— Todos ganham suas vidas. Todos são razoavelmente felizes. E, sobretudo, todos
refreiam seus instintos, porque essa é a regra, uma necessidade para quem pretende
viver em sociedade. Pijpekamp confirmará para o senhor que os furtos são coisa
raríssima. Verdade que quem rouba um pão de duas libras não se safa sem cumprir
algumas semanas de prisão. Onde o senhor vê desordem? Nenhum assaltante!
Nenhum mendigo. É a propriedade organizada.
— E eu vim quebrar a louça!
— Espere! As casas, à esquerda, perto do Amsterdiep, são as casas dos figurões, dos
ricos, dos que detêm um poder qualquer. Todo mundo os conhece. São o prefeito,
os pastores, os professores, os funcionários públicos, todos os que zelam para que a
cidade não seja perturbada e cada um se mantenha em seu lugar sem esbarrar no
vizinho. Essas pessoas, creio ter dito ao senhor, não admitem sequer o direito de
alguém frequentar um botequim, pois isso seria dar mau exemplo. Ora, um crime é
cometido… O senhor fareja um drama passional…
Maigret escutava, enquanto mirava os barcos, com os conveses muito mais altos
que o cais, erguendo-se como muros multicoloridos, pois era maré alta.
— Desconheço a opinião de Pijpekamp, que é um inspetor muito estimado. O que
sei é que todo mundo julga preferível anunciarem esta noite que o assassino do
professor é um marujo estrangeiro e que as buscas continuarão… Todo mundo! A
sra. Popinga! Sua família! Seu pai, entre outros, que é um intelectual ilustre! Beetje e
o sr. Liewens… Mas sobretudo pelo exemplo! Para as pessoas de todas as casas
modestas da cidade que observam o que se passa nas casas ilustres do Amsterdiep e
que estariam dispostas a fazer a mesma coisa. Já o senhor quer a verdade pela
verdade, pela glória vã de elucidar um caso difícil.
— Isso foi o que Pijpekamp lhe disse hoje de manhã? Na mesma oportunidade, ele
perguntou como fazer para aplacar meu ardor desordeiro. E o senhor lhe disse que
na França pessoas como eu se conquista com um bom almoço, quem sabe uma
propina…
— Não pronunciamos palavras tão diretas…
— Sabe no que estou pensando, sr. Jean Duclos?
Maigret parara a fim de melhor apreciar o panorama do porto. Um barco
minúsculo, improvisado como loja, ia de navio em navio, abordava barcaças e
veleiros, espocando e fumegando com seu motor à gasolina, vendendo pão,
condimentos, tabaco, cachimbos e genebra.
— Sou todo ouvidos…
— Que tem sorte por ter saído do banheiro com o revólver na mão.
— Isso significa?
— Nada! Repita apenas que não viu ninguém naquele banheiro…
— Não vi ninguém.
— E não ouviu nada?
Ele desviou a cabeça.
— Não ouvi nada de preciso. Talvez tenha tido a impressão de que alguma coisa se
mexia sob a tampa da banheira.
— Dá licença? Acabo de ver alguém que está à minha espera.
E com grandes passadas se dirigiu à porta do Hotel Van Hasselt, onde via Beetje
Liewens para lá e para cá na calçada, vigiando sua chegada.

Ela tentou sorrir para ele, como das outras vezes, mas faltou espontaneidade ao
sorriso. Transpirava nervosismo. Continuava a observar a rua como se temesse a
aproximação de alguém.
— Faz meia hora que estou à sua espera.
— Quer entrar?
— No café, não, está bem?
No corredor, ele hesitou um instante. Também não podia recebê-la em seu quarto.
Então empurrou a porta do salão de baile, vasta e vazia, onde as vozes ressoaram
como num templo.
À luz do dia, o cenário do palco parecia morto, empoeirado. O piano estava aberto.
Havia uma caixa grande num canto e cadeiras empilhadas até o teto.
Atrás, guirlandas de papel que deviam ter decorado algum baile comunitário.
Beetje mantinha o visual exuberante. Vestia um tailleur azul e seus seios, sob uma
blusa de seda branca, seduziam mais do que nunca.
— Conseguiu sair de casa?
Ela não respondeu imediatamente. Tinha muita coisa a dizer, era visível, mas não
sabia por onde começar.
— Fugi! — declarou afinal. — Eu não podia mais ficar. Estava com medo! Foi a
empregada que veio me dizer que meu pai estava furioso, que seria capaz de me
matar. Ele já tinha me trancado no quarto, sem falar nada. Pois nunca diz nada
quando está com raiva. Na outra noite, voltamos para casa sem uma palavra. Ele
trancou a porta à chave. Hoje à tarde, a empregada falou comigo pelo buraco da
fechadura. Parece que ele voltou ao meio-dia, lívido. Almoçou, depois circulou com
grandes passadas pela fazenda. Terminou se dirigindo ao túmulo da minha mãe…
“Sempre que há uma grande decisão para ser tomada… Então quebrei uma
vidraça. A empregada me passou uma chave de parafuso e soltei a fechadura.
“Não posso voltar para lá. O senhor não conhece meu pai.”
— Uma pergunta! — interrompeu-a Maigret.
E ele olhava para a bolsinha de pele de cabrito envernizada que ela segurava na
mão.
— Quanto dinheiro trouxe?
— Não sei… Talvez quinhentos florins.
— Que estavam no seu quarto?
Ela corou, balbuciando:
— Que estavam no escritório. Minha primeira ideia foi ir para a estação de trem.
Mas havia um policial defronte. Pensei no senhor…
Estavam ali como numa sala de espera, onde é impossível criar um clima de
intimidade, e não lhes passava pela cabeça pegar duas das cadeiras empilhadas para
sentar.
Embora nervosa, Beetje não estava transtornada. Talvez por isso Maigret a fitasse
com certa hostilidade, que se refletiu claramente no tom com que lhe perguntou:
— A quantos homens já propôs que a raptassem?
Ela perdeu a cor. Desviou a cabeça, gaguejou:
— O que o senhor disse?
— Popinga, primeiro… Ele foi o primeiro?
— Não compreendo.
— Pergunto se foi seu primeiro amante.
Um silêncio bem longo. Depois:
— Não imaginava que seria tão cruel comigo. Eu vinha…
— Foi o primeiro? Afinal, durou pouco mais de um ano. Mas e antes disso?
— Eu… flertei com o professor de ginástica do liceu, em Groningen…
— Flertou?
— Foi ele que… que…
— Muito bem! Logo, já havia tido um amante antes de Popinga… Outros?
— Nunca! — ela gritou com indignação.
— E se envolveu com Barens?
— Não é verdade… Juro!
— Tinha encontros com ele…
— … Porque ele estava apaixonado… Ele mal ousava me beijar…
— E, por ocasião do seu último encontro, aquele que foi interrompido com a minha
chegada e a de seu pai, a senhorita lhe sugeriu que partissem…
— Como sabe?
Ele quase caiu na gargalhada! Era de uma ingenuidade desconcertante! Ela
recobrara parte do sangue-frio! Falava daquelas coisas com notável candura!
— Ele não quis?
— Tinha medo… Falou que não tinha dinheiro…
— E a senhorita lhe sugeriu que pegassem na sua casa. Em suma, não é de hoje que
a senhorita tem a doença da fuga. Seu grande objetivo na vida é deixar Delfzijl na
companhia de um homem qualquer…
— Qualquer, não! — retificou, vexada. — O senhor é mau! Não quer compreender!
— Claro que sim! Claro que sim! É inclusive de uma simplicidade infantil! A
senhorita ama a vida! Ama os homens! Ama todas as alegrias que é capaz de se
proporcionar.
Ela abaixou os olhos, remexeu na bolsa.
— A senhorita se entedia na fazenda-modelo de seu pai! Tem vontade de fazer
outra coisa! Começa no liceu, aos dezessete anos, com o professor de ginástica…
Impossível convencê-lo a partir… Em Delfzijl, passa os homens na peneira e
descobre um que parece mais audacioso que os outros. Popinga é um homem
viajado. Ama a vida também. Os preconceitos o atormentam. A senhorita se joga no
pescoço dele…
— Por que diz…
— Talvez eu exagere! Digamos que, sendo a senhorita uma moça bonita,
diabolicamente atraente, ele lhe faz uma pequena corte! Mas uma corte discreta,
tímida, pois tem medo das complicações, medo da mulher, de Any, de seu diretor,
dos alunos…
— Sobretudo de Any…
— Falaremos disso daqui a pouco. Ele a beija pelos cantos da casa. Apostaria que
nem sequer tem a audácia de desejar mais… Entretanto, a senhorita acredita que
aconteceu… Todos os dias dá um jeito de esbarrar com ele. Leva frutas para ele, em
sua casa. Introduz-se no meio do casal. Pede que ele a acompanhe de bicicleta até
sua casa e os dois param atrás do monte de toras. A senhorita lhe escreve cartas em
que manifesta sua vontade de fugir…
— O senhor leu?
— Sim!
— E acha que não foi ele que começou?
Ganhou fôlego.
— No início, ele me dizia que era muito infeliz, que a sra. Popinga não o
compreendia, que ela só pensava no-que-dirão, que era uma vida maçante, e tudo o
mais…
— Não me diga!
— O senhor bem vê que…
— Sessenta homens casados em cada cem dizem isso à primeira moça sedutora que
encontram. Só que o infeliz topou com uma moça que o levou ao pé da letra.
— O senhor é mau, mau…
Estava prestes a chorar. Continha-se, batia com o pé para enfatizar a palavra mau.
— Em suma, ele sempre adiou essa gloriosa partida para depois, e a senhorita
percebeu que ela nunca se realizaria.
— Não é verdade!
— Claro que é! Prova disso é que se garantia contra essa eventualidade aceitando a
veneração de Barens… Prudentemente! Porque ele é um rapaz tímido, bem-
educado, respeitoso, que não convém melindrar.
— Isso é horrível!
— É uma historinha real…
— O senhor me detesta, não é?
— Eu? De forma alguma…
— Detesta sim! Seja como for, estou sofrendo… Eu amava Conrad…
— E Cornelius? E o professor de ginástica?
Dessa vez ela chorou… Bateu com o pé no chão.
— Eu o proíbo…
— De dizer que não os amava! Por que não? Amava-os na medida em que eles
representavam outra vida para a senhorita, a grande partida que sempre a
deslumbrou.
Ela não escutava mais. Gemia:
— Eu não deveria ter vindo… Eu achava…
— Que eu ia tomá-la sob minha proteção? Mas é o que estou fazendo! Com a
ressalva de que nem por isso a considero uma vítima, ou uma heroína. A senhorita é
uma mocinha ávida, um pouco tola, um pouco egoísta, só isso! Uma mocinha como
há muitas por aí.
Os olhos dela brilharam com um pouco de esperança.
— Todo mundo me detesta! — rosnou.
— Todo mundo quem?
— Em primeiro lugar, a sra. Popinga, porque não sou como ela! Ela gostaria que eu
passasse a vida fazendo roupas para os aborígines da Oceania ou tricotando para os
pobres. Sei que ela disse às meninas do educandário para não me imitarem. Chegou
a declarar que eu terminaria mal se não arranjasse logo um marido. Repetiram isso
para mim…
Era novamente como uma lufada do perfume um tanto rançoso da cidade
pequena: o educandário, os mexericos, as moças de boa família reunidas em torno
de uma senhora caritativa, os conselhos e confidências pérfidas.
— Mas é sobretudo Any…
— Que a detesta?
— Sim! A maioria das vezes, inclusive, era só eu chegar para ela deixar a sala e subir
para o quarto. Eu poderia jurar que ela sabe a verdade, e não é de hoje… Já a sra.
Popinga, apesar de tudo, é uma boa mulher. Limitava-se a tentar mudar minhas
maneiras, o corte de meus vestidos. E sobretudo me fazer ler outra coisa que não
fosse romances! Mas não suspeitava de nada… Era ela que recomendava a Conrad
que me acompanhasse até em casa.
Um sorriso singular pairava no semblante de Maigret.
— Any não é a mesma coisa! O senhor a viu! Ela é feia! Tem os dentes acavalados!
Nenhum homem jamais lhe deu bola! Ela sabe disso! Sabe que ficará para titia. Foi
por isso que estudou, quis ter uma profissão. Finge detestar os homens! É membro
das ligas feministas…
Beetje exaltava-se de novo. Percebia-se o velho ressentimento aflorando
finalmente.
— Ficava sempre rondando a casa, vigiando Conrad. Uma vez que está condenada
a permanecer virtuosa, quer que todo mundo saiba… Compreende? Ela descobriu…
tenho certeza disso… Deve ter tentado desviar o cunhado de mim… E até mesmo
Cornelius! Decerto via que todos os homens olhavam para mim, inclusive
Wienands, que no entanto jamais ousou me falar nada, mas que fica todo vermelho
quando danço com ele. Sua mulher também me detesta por causa disso! Talvez Any
não tenha contado nada à irmã… Ou talvez sim… Talvez até tenha sido ela que
encontrou minhas cartas…
— E quem matou? — interrogou abruptamente Maigret.
Ela engasgou.
— Juro que não sei… Eu não disse isso! Mas Any é cheia de veneno! Tenho culpa se
é feia?
— Tem certeza de que ela nunca teve namorado?
Ah! O sorriso, na verdade a risadinha de Beetje, aquela risada instintivamente
triunfante de mulher desejável pisoteando o dragão!
Parecia coisa de adolescentes, no internato, brigando por uma futilidade qualquer.
— Pode apostar que em Delfzijl, não…
— Ela detestava o cunhado também?
— Não sei… Não é a mesma coisa! Ele era da família. E a família não lhe pertencia,
um pouco que fosse? Então, melhor vigiá-lo, protegê-lo…
— E matá-lo, não?
— O que acha! O senhor sempre diz isso!
— Não acho nada! Responda! Oosting estava sabendo de suas relações com
Popinga?
— Disseram-lhe isso também?
— Vocês iam juntos, em seu barco, até os bancos de areia de Workum! Ele os
deixava a sós?
— Sim! Ele pilotava, no convés.
— E deixava a cabine para vocês…
— Nada mais natural… Fazia frio do lado de fora…
— Nunca mais o viu, depois da morte de Conrad?
— Não! Juro…
— Ele nunca a assediou?
Ela riu, furtivamente.
— Ele?
E, não obstante, tinha de novo vontade de chorar, de nervosismo. A sra. Van
Hasselt, que terminara por ouvir o barulho, passou a cabeça pelo vão de uma porta,
balbuciou desculpas e voltou para o caixa. Houve um silêncio.
— Acha realmente que seu pai é capaz de matá-la?
— Sim! Ele faria isso…
— Logo, teria sido capaz de matar seu amante…
Ela esbugalhou os olhos, apavorada, e protestou com dureza:
— Não! Isso não é verdade! Não foi meu pai que…
— No entanto, quando a senhorita chegou em casa, na noite do crime, ele não se
encontrava lá…
— Como sabe?
— Ele chegou um pouco depois, não foi?
— Logo depois… Mas…
— Nas suas últimas cartas, a senhorita manifestava impaciência. Percebia que
Conrad lhe escapava, que a aventura começava a amedrontá-lo, que, em todo caso,
ele jamais abandonaria o lar para partir com a senhorita para o estrangeiro.
— O que pretende dizer com isso?
— Nada! Faço apenas uma observação. Seu pai certamente não vai demorar a
chegar.
Ela olhou com angústia à sua volta. Parecia procurar uma saída…
— Não tenha receio… Preciso da senhorita esta noite…
— Esta noite?
— Sim! Vamos reconstituir os passos de cada um na noite do crime.
— Ele vai me matar!
— Quem?
— Meu pai!
— Eu estarei presente. Não se preocupe.
— Mas…
A porta se abriu. Jean Duclos entrou, fechou-a bruscamente atrás de si, girou a
chave na fechadura e avançou com o semblante agitado.
— Atenção! O fazendeiro está aqui… Ele…
— Leve-a para o seu quarto…
— Para o meu…?
— Para o meu, caso prefira!
Ouviam-se passos no corredor. Próximo ao palco havia uma porta que se
comunicava com a escada de serviço. A dupla esgueirou-se por ali. Maigret girou a
chave e deu de cara com o fazendeiro Liewens, que olhava por cima do ombro do
comissário.
— Beetje?
Era novamente o problema das línguas que se interpunha. Não conseguiam se
compreender. Maigret limitou-se a obstruir a passagem com seu corpanzil e ganhar
alguns instantes, evitando ao mesmo tempo enfurecer seu interlocutor.
Jean Duclos não demorou a descer, tentando fingir descontração.
— Diga-lhe que a filha lhe será devolvida esta noite e que também precisamos dele
para a reconstituição do crime.
— É de fato necessário?
— Traduza, diacho, não vê que estou mandando?
Duclos obedeceu, com voz afetada. O fazendeiro olhou para os dois.
— Acrescente que o assassino estará atrás das grades ainda esta noite.
Isso foi traduzido. Maigret teve então apenas o tempo de dar um pulo e derrubar
Liewens, que havia pegado um revólver e tentava apontar o cano para as próprias
têmporas.
A luta foi breve. Maigret era tão pesado que seu adversário não demorou a se ver
imobilizado e desarmado, enquanto uma pilha de cadeiras, em que os dois corpos
haviam esbarrado, desmoronava estrepitosamente, ferindo sem gravidade o
comissário na testa.
— Passe a chave na porta! — gritou Maigret para Duclos. — Melhor ninguém entrar.
E levantou-se, ofegante.
9. Reconstituição

Os Wienands foram os primeiros a chegar, pontualmente, às sete e meia. Naquele


momento, no salão de festas do Hotel Van Hasselt, havia apenas três homens, cada
um esperando no seu canto, sem se dirigirem a palavra: Jean Duclos, um pouco
nervoso, indo e vindo de uma ponta a outra do aposento; o fazendeiro Liewens,
taciturno, imóvel numa cadeira; e Maigret, recostado no piano, cachimbo entre os
dentes.
Ninguém cogitara acender todas as luzes. Uma única e volumosa luminária,
pendurada bem no alto, espalhava uma luz baça. As cadeiras continuavam
amontoadas no fundo, menos uma fileira, a primeira, que Maigret mandara
recompor.
No pequeno palco, vazio, uma mesa forrada com um feltro verde, uma cadeira.
Os Wienands vieram em roupas de domingo. Haviam obedecido ao pé da letra as
instruções recebidas, uma vez que haviam trazido os dois filhos. Percebia-se que
tinham jantado às pressas, sem tirar a mesa, para chegar na hora marcada.
Ao entrar, Wienands tirou o chapéu, procurou alguém para cumprimentar e, após
fazer menção de andar na direção do professor, arrastou a família para um canto,
onde, em silêncio, aguardou. Seu colarinho postiço era alto demais, o nó da gravata,
mal confeccionado.
Cornelius Barens chegou quase imediatamente depois, tão pálido e nervoso que
parecia disposto a fugir ao menor sinal de alarme. Também buscou com quem
formar um grupo, mas não ousou ir em direção a ninguém e se apoiou na montanha
de cadeiras.
O inspetor Pijpekamp trouxe Oosting, cujo olhar foi logo para Maigret. E as últimas
a chegar: a sra. Popinga e Any, que entraram num passo célere, detiveram-se um
segundo e se encaminharam para a primeira fileira de cadeiras.
— Mande Beetje descer! — disse Maigret ao inspetor. — Que um de seus agentes
vigie Liewens e Oosting. Eles não estavam aqui na noite do crime. Só precisaremos
deles daqui a pouco. Podem ficar no fundo da sala.
Quando Beetje afinal apareceu, a princípio um pouco atordoada, depois, numa
reação de orgulho ao ver Any e a sra. Popinga, propositalmente empertigada, houve
como que uma pausa em todas as respirações.
E não porque a atmosfera fosse dramática! Não era! Ao contrário, era sórdida!
Parecia um bolinho de humanos naquela grande sala vazia iluminada por uma
única lâmpada no teto.
Era preciso um esforço para imaginar que, dias antes, os figurões de Delfzijl
haviam pagado pelo direito de sentar numa das cadeiras empilhadas, adentrado o
salão fazendo pose, trocado sorrisos, apertos de mão, ocupado seu lugar diante do
palco, bem-arrumados, aplaudido a entrada de Jean Duclos.
Era exatamente como se, de uma hora para outra, o mesmo espetáculo fosse visto
pela lente de uma luneta!
Em virtude da espera, da incerteza de todos acerca do que iria acontecer, os rostos
não exprimiam sequer inquietude ou sofrimento. Era outra coisa! Olhos lúgubres,
vazios de pensamento. As feições, repuxadas, amarfanhadas.
A luz deixava todas as peles pardacentas. A própria Beetje perdera toda a
opulência.
Não havia nenhuma magia, nenhuma grandeza. Era deplorável e risível.
Do lado de fora, uma pequena e silenciosa aglomeração, pois à tarde correra o
boato de que alguma coisa estava para acontecer. Mas decerto ninguém imaginava
espetáculo tão sem graça.
Foi à sra. Popinga que Maigret se dirigiu primeiro.
— Poderia se instalar no mesmo lugar que ocupou aquela noite? — disse.
Em casa, poucas horas antes, estava arrasada. Chegara ao fim. Parecia mais velha.
Notava-se que seu tailleur, mal cortado, a deixava com um ombro mais alto que o
outro, e que seus pés eram grandes. E tinha também uma cicatriz no pescoço,
abaixo da orelha.
Era pior no caso de Any, cujo rosto nunca estivera tão assimétrico. Seus trajes
eram grotescos, apertados, o chapéu, de mau gosto.
A sra. Popinga sentou-se bem no meio da primeira fila, no lugar de honra. No dia
da conferência, em meio às luzes, e com toda Delfzijl atrás dela, devia estar cor-de-
rosa de orgulho e prazer.
— Quem estava ao seu lado?
— O diretor da Escola Naval…
— E do outro?
— O sr. Wienands…
Pediram-lhe que ocupasse o seu lugar. Ela permanecia de casaco. Sentou-se
desajeitadamente, olhando para o vazio.
— E a sra. Wienands?
— Bem na ponta, por causa das crianças.
— Beetje?
Esta foi ocupar seu lugar voluntariamente, deixando uma cadeira vazia entre ela e
Any: a cadeira de Conrad Popinga.
Pijpekamp mantinha-se em pé a pouca distância, desorientado, atônito,
incomodado, inquieto. Jean Duclos aguardava sua vez.
— Suba ao palco! — disse-lhe Maigret.
Era talvez quem mais perdera prestígio. Emagrecera, estava malvestido. Difícil
admitir que cem pessoas se deram ao trabalho de ir ouvi-lo aquela noite.
O silêncio era tão angustiante como a luz, ao mesmo tempo implacável e
insuficiente, que caía do teto distante. Ao fundo da sala, o Baes tossiu quatro ou
cinco vezes, exprimindo o mal-estar generalizado.
O próprio Maigret não dissimulava certa inquietude. Vigiava sua mise-en-scène.
Seu olhar pesado ia de um personagem a outro, detendo-se nos mínimos detalhes,
na pose de Beetje, na saia comprida demais de Any, nas unhas sujas de Duclos, que,
de sua mesa de conferencista, sozinho diante da sala, tentava manter a
compostura.
— O senhor falou durante quanto tempo?
— Quarenta e cinco minutos.
— Leu a conferência?
— Que ideia! É a vigésima vez que a pronuncio. Não preciso mais sequer das
minhas anotações.
— Quer dizer que olhava para a plateia…
Foi sentar-se um instante entre Beetje e Any. As cadeiras estavam muito
próximas. Seu joelho tocou o de Beetje.
— A que horas a noite terminou?
— Pouco antes das nove… Porque, na abertura, uma moça tinha tocado piano…
Esse piano continuava aberto, com uma “Polonaise”, de Chopin, na estante. A sra.
Popinga começava a mordiscar seu lenço. Oosting se mexia, ao fundo. Seus pés não
paravam quietos sobre o assoalho coberto de serragem.
Passavam poucos minutos das oito. Maigret levantou-se, começou a andar.
— Poderia, sr. Duclos, me resumir o tema de sua conferência?
Mas Duclos não conseguiu falar. Ou melhor, fez menção de começar sua palestra
textualmente. Murmurou, após alguns pigarros:
— Não é à inteligente população de Delfzijl que farei a ofensa de…
— Tudo bem! O senhor falava de criminalidade. Em que sentido?
— Da responsabilidade dos criminosos…
— E afirmava…
— Que a nossa sociedade é responsável pelos erros cometidos em seu seio e que
denominamos crimes. Nós organizamos a vida para o maior bem de todos. Criamos
classes sociais e é necessário inserir cada indivíduo em uma delas.
Enquanto falava, fitava a toalha verde da mesa. Faltava clareza à sua voz.
— Já chega! — grunhiu Maigret. — Sei como é: “Há indivíduos singulares, doentes
ou desajustados. Eles se chocam com barreiras intransponíveis. São rejeitados de
ambos os lados e naufragam no crime…”. Suponho que seja mais ou menos isso,
certo? Nenhuma novidade… Conclusão: “Acabemos com as prisões, criemos centros
de recuperação, hospitais, casas de repouso, clínicas”.
Duclos, mal-humorado, não respondeu.
— Resumindo, o senhor levou quarenta e cinco minutos para dizer isso, com
alguns exemplos demolidores… Citou Lombroso, Freud e companhia.
Consultou seu relógio, dirigiu-se especialmente à primeira fileira de assentos.
— Peço que aguardem mais alguns minutos.
Nesse momento preciso, um dos filhos de Wienands abriu o berreiro. A mãe,
transtornada, sacudiu-o para acalmá-lo. Wienands, vendo que ela não conseguia
nada, pegou o guri no colo e, depois de uma festinha, lascou-lhe um beliscão no
braço para fazê-lo calar-se.
Era preciso olhar para a cadeira vazia, entre Any e Beetje, para lembrar que se
tratava de um crime. Mesmo assim! Será que Beetje, com sua figura saudável,
porém banal, tinha o direito de semear a cizânia num casal?
Ela só tinha uma coisa atraente, e cabia à magia daquela encenação ressaltar assim
a verdade pura, conferindo aos acontecimentos sua crueza primordial: dois belos
seios que a seda deixava ainda mais sedutores, seios de dezenove anos arfando
sutilmente sob a blusa, na medida exata para dar-lhes mais vida.
Um pouco adiante, a sra. Popinga, que nem sequer aos dezenove anos tivera seios
parecidos, a sra. Popinga, vestida demais, com várias camadas de roupas sóbrias, de
bom-tom, que lhe subtraíam qualquer atração física.
A seguir, Any, angulosa, feia, achatada, porém enigmática.
Popinga conhecera Beetje, um Popinga bon-vivant, um Popinga sequioso pelas
coisas boas da vida! E não foi o rosto de Beetje que ele viu, seus olhos de louça, a
vontade de fuga escondida por trás daquele rosto de boneca.
Viu aquele peito vivo, aquele corpo saudável, atraente!
A sra. Wienands, por sua vez, deixara de ser mulher. Era mãe, dona de casa. Fazia
a criança, que não tinha mais forças para chorar, assoar-se.
— Devo permanecer aqui? — indagou Jean Duclos, do tablado.
— Por favor…
E Maigret aproximou-se de Pijpekamp, dizendo-lhe algumas palavras baixinho. O
policial de Groningen saiu pouco depois com Oosting.
Pessoas jogavam bilhar no café. Ouviam-se as bolas carambolando.
E, na sala, ninguém respirava. Era uma atmosfera de sessão espírita, de
expectativa de alguma coisa prodigiosa. Any foi a única a ousar levantar-se,
bruscamente, interpelando-o, após hesitar um bom tempo:
— Não vejo aonde o senhor quer chegar… É… é…
— Está na hora. Com licença! Onde está Barens?
Não pensara mais nele. Avistou-o bem ao fundo da sala, recostado numa parede.
— Por que não ocupou seu lugar?
— O senhor disse: como naquela noite…
Seu olhar era irrequieto, a voz, ofegante.
— Naquela noite, eu estava no setor de cinquenta centavos, com os outros alunos.
Maigret não lhe deu mais atenção. Foi abrir a porta de comunicação com um
pórtico que, por sua vez, dava na rua e permitia evitar o café. Viu apenas três ou
quatro vultos na penumbra.
— Suponho que, terminada a conferência, houve uma aglomeração ao pé do
tablado. O diretor da escola… O pastor… Alguns notáveis parabenizando o orador…
Ninguém respondeu, mas essas palavras bastavam para visualizar a cena: os
espectadores se dirigindo à saída, o barulho das cadeiras, as conversas, e ali, perto
do palco, uma aglomeração, apertos de mãos, elogios…
A sala se esvaziando… O último grupo alcançando por fim a porta… Barens
juntando-se aos Popinga…
— Pode vir, sr. Duclos.
Todos se puseram de pé. E todos pareciam hesitar quanto ao papel a
desempenhar. Olhavam para Maigret. Any e Beetje fingiam não se ver. Wienands,
atrapalhado, sem jeito, carregava seu mais recente bebê.
— Sigam-me.
E um pouco antes da porta:
— Vamos para a casa dos Popinga na mesma ordem do dia da conferência. A sra.
Popinga e o sr. Duclos…
Os dois entreolharam-se, hesitaram, deram alguns passos na rua escura…
— A srta. Beetje! A senhorita caminhava com Popinga… Faça a mesma coisa… Irei
para o seu lado daqui a pouco.
Ela mal ousava partir sozinha para a cidade, temendo, acima de tudo, o pai,
vigiado por um policial no canto da sala.
— O sr. e a sra. Wienands…
Estes foram mais naturais, pois tinham as crianças para cuidar.
— A srta. Any e Barens…
Este último quase explodiu em soluços, contraindo os lábios na hora de passar por
Maigret.
O comissário voltou-se então para o policial, que vigiava Liewens.
— Na noite do crime, ele estava na casa da fazenda a essa hora. Poderia fazer a
gentileza de levá-lo até lá e lhe pedir que faça exatamente o que fez na ocasião?
Parecia uma procissão mal organizada. Os primeiros a partir se detinham,
perguntando-se se deviam seguir adiante. Havia hesitações, pausas.
A sra. Van Hasselt, de sua porta, assistia à cena, enquanto atendia os jogadores de
bilhar, que a interpelavam.
A cidade estava quase toda adormecida, as lojas, fechadas. A sra. Popinga e Duclos
tomaram diretamente o caminho do cais, e percebia-se que o professor tentava
tranquilizar seu par.
Luz e penumbra se alternavam, pois os bicos de gás eram espaçados.
Era possível ver a água escura, os barcos balouçando, todos com um fanal na
mastreação. Beetje, percebendo Any atrás de si, tentava caminhar
descontraidamente, mas o fato de estar sozinha dificultava essa atitude.
Havia alguns passos entre cada grupo. Cem metros adiante, surgiu com toda a
nitidez o barco de Oosting, pois era o único pintado de branco. Não havia luz nas
vigias. O cais estava deserto.
— Parem todos onde estão! — disse Maigret, de maneira a ser ouvido por todos os
grupos.
Imobilizaram-se todos. Era uma noite escura. O pincel luminoso do farol passava
bem acima da cabeça deles e não iluminava nada.
Então Maigret se dirigiu a Any:
— A srta. ocupava realmente este lugar na fila?
— Sim…
— E você, Barens?
— Sim… Acho que sim…
— Não tem certeza? Caminhava na companhia de Any?
— Sim… Espere… Não foi aqui, mas dez metros à frente, que Any me apontou o
casaco de uma das crianças arrastando no chão…
— E deu alguns passos para avisar Wienands?
— A sra. Wienands…
— Isso durou apenas poucos segundos?
— Sim… Os Wienands foram em frente… Esperei Any…
— Não notou nada de anormal?
— Nada!
— Avancem todos dez metros! — ordenou Maigret.
Deu-se então que a irmã da sra. Popinga ficou justamente diante do barco de
Oosting.
— Caminhe na direção dos Wienands, Barens…
E para Any:
— Pegue o quepe que está no convés!
Bastava dar três passos e se debruçar. O quepe estava ali, preto no branco, bem
visível, com seu escudo que emitia um reflexo metálico.
— Por que isso?
— Pegue-o!
Mais à frente, entreviam-se os outros, tentando compreender o que acontecia.
— Mas eu não…
— Pouco importa! Não estamos todos aqui… Cada um deve fazer vários papéis… É
só um teste…
Ela pegou o quepe.
— Esconda-o debaixo do casaco… Junte-se novamente a Barens…
Ele mesmo subiu ao convés do barco e chamou:
— Pijpekamp!
— Ya!
O policial apareceu na escotilha da proa. Era a escotilha do posto de comando
onde dormia Oosting. Nesse compartimento, não havia altura suficiente para um
homem permanecer de pé, de modo que, para fumar um último cachimbo, por
exemplo, era lógico deixar a cabeça passar e apoiar os cotovelos no convés.
Oosting estava precisamente ali, naquela posição. Do cais, do local onde se
encontrava o quepe, não era possível vê-lo, mas ele via perfeitamente o ladrão do
quepe.
— Ótimo! Faça-o fazer a mesma coisa que naquela noite.
E Maigret foi passando de volta pelos grupos.
— Continuem andando! Ocuparei o lugar de Popinga.
Viu-se ao lado de Beetje, tendo à sua frente a sra. Popinga e Duclos, atrás dos
Wienands, depois finalmente Any e Barens. Era possível ouvir um barulho, um
pouco mais afastado: Oosting, vigiado pelo inspetor, que se punha a caminho.
Dali em diante não deviam mais passar por ruas iluminadas. Depois do porto,
margearam a eclusa deserta que separava o mar do canal. Veio então o caminho de
sirga, com árvores à direita, e, a meio quilômetro, a casa dos Popinga.
Beetje balbuciou:
— Não compreendo…
— Psiu! É uma noite calma. Assim como ouvimos as vozes dos que nos precedem e
dos que nos seguem, eles também podem nos ouvir. Popinga deve ter comentado
em voz alta uma coisa ou outra, sem dúvida a respeito da conferência…
— Sim…
— Entretanto, a senhorita o repreendeu em voz baixa…
— Como sabe disso?
— Pouco importa… Espere! Durante a conferência, a senhorita estava perto dele…
Tentou tocar sua mão… Ele não a teria repelido?
— Sim! — ela balbuciou, impressionada, fitando-o com as pupilas esbugalhadas.
— E a senhorita voltou à carga…
— Sim… Antes, ele não era tão prudente… Me beijava até na casa dele, atrás da
porta… Mais que isso! Uma vez, na sala de jantar, enquanto a sra. Popinga estava na
sala de estar e falava conosco… Só nos últimos tempos é que ele andava ressabiado.
— Quer dizer, a senhorita se lamuriou. Repetiu que queria partir com ele, sem
interromper a conversa em voz alta.
Ouviam-se passos à frente, atrás, murmúrios, Duclos dizendo:
— … lhe garanto que isso não corresponde a nenhum método de investigação
policial…
Na retaguarda, a sra. Wienands, ralhando com o filho em holandês.
Avistaram a casa na penumbra. Não havia nenhuma luz. A sra. Popinga parou na
soleira.
— A senhora parou exatamente assim, não foi? Porque era seu marido que estava
com a chave?
— Sim…
Os grupos se compactavam.
— Abra! — disse Maigret. — A empregada estava deitada?
— Sim… como hoje.
Aberta a porta, ela apertou o interruptor. O corredor se iluminou, bem como o
cabide de bambu à esquerda.
— Popinga já estava alegre a essa hora?
— Muito alegre! Mas muito espontâneo… Falava alto demais…
Todos tiravam casacos e chapéus.
— Um instante! Todo mundo tirou os agasalhos aqui?
— Menos Any e eu! — disse a sra. Popinga. — Subimos aos nossos quartos para nos
arrumar um pouco.
— Sem entrar primeiro em outro cômodo? Quem acendeu a sala de estar?
— Conrad.
— Podem fazer a gentileza de subir?
E subiu com elas.
— Any não parou no quarto da senhora, que ela precisava atravessar para chegar
ao dela?
— Não… não creio…
— Repitam, por favor, os mesmos gestos. Srta. Any, queira por favor deixar o
quepe, seu casaco e seu chapéu no seu quarto. O que fez com eles aquela noite?
O lábio inferior da sra. Popinga avançou.
— Um pouco de pó de arroz… — ela disse, com voz de criança. — Um jeito nos
cabelos… Mas não posso… é horrível! Me parece… Eu ouvia a voz de Conrad,
embaixo… Ele se referia ao rádio, queria sintonizar na Radio-Paris…
A sra. Popinga jogou seu casaco na cama. Chorava sem lágrimas, de nervosismo.
Any, ereta feito um poste no centro do gabinete que lhe servia de quarto, esperava.
— Desceram juntas?
— Sim… Não! Não sei mais… Acho que Any desceu um pouco depois… Eu pensava
em fazer o chá…
— Nesse caso, poderia descer, por favor?
Ele ficou sozinho com Any, não falou uma palavra, tomou-lhe o quepe das mãos,
olhou à sua volta e o escondeu embaixo do sofá.
— Venha…
— Por acaso acha que…?
— Não! Venha… A senhorita não passou pó de arroz…
— Jamais!
Any tinha olheiras. Maigret lhe deu passagem. Os degraus da escada estalaram.
Embaixo, reinava um silêncio absoluto. Uma atmosfera irreal os esperava na sala.
Parecia um museu de figuras de cera. Ninguém ousava sentar-se. Apenas a sra.
Wienands arrumava os cabelos desalinhados de seu mais velho.
— Posicionem-se como naquela noite. Onde está o aparelho de rádio?
Ele mesmo encontrou, girou os botões, fazendo ressoar chiados, cacos de vozes,
fiapos de música, sintonizando finalmente numa estação em que dois cômicos
representavam um esquete francês.

O coronel dizia ao capitão…

A voz amplificou-se com o ajuste. Dois ou três chiados ainda.

...e é um bom sujeito o capitão… Mas o coronel, meu velho…

Aquela voz popularesca, cínica, ressoava na sala bem-arrumada, onde todos


mantinham uma imobilidade absoluta.
— Sentem-se! — estrondeou Maigret. — Façam o chá! Desembuchem!
Quis ver através da janela, mas os postigos estavam fechados. Foi abrir a porta,
chamou:
— Pijpekamp!
— Sim… — respondeu uma voz na sombra.
— Ele está aí?
— Atrás da segunda porta!
Maigret entrou. A porta bateu. O esquete terminara e a voz do locutor anunciava:

… disque Odéon número 28-675…

Um chiado. Uma música de jazz. A sra. Popinga colada na parede. No meio da


audição, percebia-se outra voz silvando numa língua estrangeira, então houve um
estalo e a música recomeçou…
Maigret procurou Beetje com os olhos. Estava prostrada numa cadeira. Chorava
copiosamente. Balbuciava entre soluços:
— Pobre Conrad! Conrad!
E Barens, exangue, mordia os lábios.
— O chá! — ordenou Maigret a Any.
— Ainda não é a hora… Enrolamos o tapete… Conrad foi dançar…
Beetje emitiu um soluço mais agudo. Maigret olhou para o tapete, a mesa de
carvalho com a toalha bordada, na janela, a sra. Wienands, que não sabia mais o
que fazer com os filhos.
10. Alguém espera o momento certo

Maigret os dominava com sua envergadura, ou melhor, com sua massa. A sala era
pequena. Recostado na porta, o comissário parecia grande demais para o recinto.
Estava grave. Talvez nunca tenha sido tão humano quando, lentamente e com a
voz um pouco rouca, narrou:
— A música continua. Barens ajuda Popinga a enrolar o tapete. Num canto, Jean
Duclos fala e escuta os outros, de frente para a sra. Popinga e Any. Wienands e sua
mulher pensam em ir embora por causa das crianças, discutem a possibilidade em
voz alta. Popinga tomou uma dose de conhaque. É o suficiente para animá-lo. Ri…
Cantarola… Aproxima-se de Beetje e a convida para dançar.
A sra. Popinga não desgrudava os olhos do assoalho. Any mantinha suas pupilas
ardentes apontadas para o comissário, que concluiu:
— O assassino já sabe que irá matar. Alguém assiste a Conrad dançando e sabe que
dentro de duas horas esse homem que ri sonoramente, que gostaria de se divertir a
despeito de tudo, que tem sede de vida e emoções, não passará de um cadáver.
Foi um choque, literalmente. A boca da sra. Popinga se abriu para um grito que
não se materializou. Beetje continuava a soluçar.
A atmosfera, por conseguinte, mudara. Mais um pouco e teriam procurado Conrad
com os olhos. Conrad que dançava! Conrad que duas retinas homicidas
espreitavam!
Somente Jean Duclos deixou escapar:
— Muito sagaz!
E como ninguém ligou, ele prosseguiu com seus botões, na esperança de ser
ouvido por Maigret:
— Agora compreendi o seu método, que não tem nada de novo! Aterrorizar o
culpado, sugestioná-lo, reinseri-lo na atmosfera de seu crime para forçá-lo a
confessar. Já houve quem, tratado dessa forma, repetisse involuntariamente os
mesmos gestos…
Mas tudo não passou de um zumbido confuso. Não eram palavras apropriadas
para o momento e ninguém lhes deu atenção.
O alto-falante continuava a soar música, o que já fazia subir um grau na atmosfera.
Wienands, depois que sua mulher lhe sussurrou alguma coisa ao ouvido,
levantou-se timidamente.
— Sim! Sim! Pode ir! — disse Maigret antes que ele falasse.
Pobre sra. Wienands, pequeno-burguesa bem-educada, que gostaria de se
despedir de cada um, mandar os filhos cumprimentarem, e que não sabia como
agir, apertando a mão da sra. Popinga sem achar nada para dizer!
Havia um relógio na lareira. Marcava dez horas e cinco minutos.
— Ainda não chegou a hora do chá? — indagou Maigret.
— Sim! — respondeu Any, levantando-se e dirigindo-se à cozinha.
— Perdão, senhora! Não foi preparar o chá com a sua irmã?
— Um pouco mais tarde…
— Encontrou-a na cozinha?
A sra. Popinga passou a mão na testa. Fazia um esforço para não cair no estupor.
Voltou os olhos para o alto-falante, com desespero.
— Não sei mais… Espere! Acho que Any saía da sala de jantar, pois o açúcar fica na
copa…
— Havia luz?
— Não… Talvez… Não! Acho que não…
— A senhora não disse nada?
— Sim! Eu disse: “É bom o Conrad parar de beber, senão ele vai perder a
compostura”.
Maigret encaminhou-se para o corredor, no momento em que os Wienands
fechavam a porta da entrada. A cozinha era clara e asseada. A água esquentava
num fogareiro a gás. Any tirara a tampa de um bule de chá.
— Não vale a pena fazer o chá.
Estavam sozinhos. Any olhou-o nos olhos.
— Por que me obrigou a pegar o quepe?
— Pouco importa… Venha…
Na sala, ninguém falava, ninguém se mexia.
— Pretende deixar essa música tocando até o fim? — decidiu, em todo caso,
protestar Jean Duclos.
— Talvez. Há mais alguém que eu gostaria de ver: a empregada.
A sra. Popinga olhou para Any, que respondeu:
— Já foi se deitar… Ela deita sempre às nove horas…
— Muito bem! Vá lhe dizer que desça um instante. Não precisa mudar de roupa.
E, com a mesma voz de locutor que adotara no início, repetiu, obstinado:
— A senhorita dançava com Conrad, Beetje. No canto, conversava-se gravemente.
E alguém sabia que haveria um cadáver… Alguém sabia que era a última noite de
Popinga…

Ouviram-se rumores, passos, uma porta batendo no segundo andar da casa, andar
ocupado exclusivamente por mansardas. Depois, um murmúrio se aproximou. Any
foi a primeira a entrar. Um vulto permanecia em pé no corredor.
— Venha cá! — grunhiu Maigret. — Alguém diga a ela que não precisa ter medo de
entrar.
A empregada tinha feições vagas, um grande rosto achatado e aparvalhado.
Limitara-se a enfiar um casaco por cima de uma camisola atoalhada creme, que ia
até os pés. Cabeceava de sono, tinha os cabelos desalinhados. Cheirava a cama
quente.
O comissário dirigiu-se a Duclos.
— Pergunte-lhe em holandês se ela era amante de Popinga.
A sra. Popinga desviou a cabeça dolorosamente. A frase foi traduzida. A
empregada sacudiu a cabeça com força.
— Repita a pergunta! Pergunte-lhe se o patrão nunca tentou obter alguma coisa
dela.
Novos protestos.
— Diga-lhe que ela corre o risco de mofar na cadeia se não disser a verdade! Divida
a pergunta. Ele já a beijou? Entrou em seu alojamento com ela lá dentro?
A moça de camisola explodiu numa crise de choro, bradando:
— Não fiz nada! Juro que não fiz nada…
Duclos traduziu. Contraindo os lábios, Any cravou os olhos na empregada.
— Tinha mesmo um caso com ele?
Mas a empregada era incapaz de falar. Protestava. Chorava. Pedia perdão.
Articulava palavras que os soluços engoliam pela metade.
— Não acredito! — traduziu finalmente o professor. — Pelo que entendi, ele a
atormentava. Quando estava sozinho com ela na casa, rondava a cozinha,
assediando-a… Beijava-a… Uma vez invadiu seu quarto enquanto ela se vestia.
Dava-lhe chocolate às escondidas. Mas não mais que isso!
— Ela pode voltar para a cama.
Ouviram a moça subir a escada. Pouco depois, perceberam o rumor de passos indo
e vindo no quarto. Maigret dirigiu-se a Any.
— Quer fazer a gentileza de ir ver o que ela está fazendo?
Logo souberam.
— Quer ir embora imediatamente! Está com vergonha! Não quer ficar uma hora a
mais nesta casa! Pede desculpas à minha irmã. Falou que vai para Groningen ou
qualquer outro lugar, que não mora mais em Delfzijl.
E, agressiva, Any acrescentou:
— Era esse o seu intuito?
O relógio marcava dez e quarenta. Uma voz, no alto-falante, anunciava:

Nosso programa chega ao fim. Boa noite, senhoras, senhoritas e senhores…

Ouviu-se então uma música distante, quase imperceptível, de outra estação.


Com certo nervosismo, Maigret desligou e instalou-se um silêncio brutal, absoluto.
Embora não mais chorasse, Beejte continuava a esconder o rosto com as mãos.
— A conversa continuou? — indagou o comissário, visivelmente cansado.
Ninguém respondeu. Os semblantes pareciam mais apreensivos do que no salão
do Hotel Van Hasselt.
— Sinto muito por esta noite difícil…
Maigret dirigia-se especialmente à sra. Popinga.
— … mas não se esqueça de que seu marido ainda estava vivo. Estava aqui, um
pouco alto em decorrência do conhaque… Deve ter bebido mais…
— Sim…
— Ele estava condenado, compreenda! E por alguém que o observava. Outros, aqui
presentes neste momento, se recusam a dizer o que sabem, tornando-se assim
cúmplices do assassino…
Barens engasgou, começou a tremer.
— Não é mesmo, Cornelius? — pressionou-o Maigret à queima-roupa, olhando-o
nos olhos.
— Não! Não! Isso não é verdade.
— Então por que está tremendo?
— Eu… eu…
Estava prestes a ceder a uma nova crise, como no caminho da fazenda.
— Preste atenção! Estamos no momento em que Beetje sai com Popinga. Você saiu
logo depois, Barens. Seguiu-os por um tempo. Viu alguma coisa.
— Não! Não é verdade…
— Espere! Após essa tripla partida, só ficaram aqui a sra. Popinga, Any e o professor
Duclos. Essas três pessoas foram para o primeiro andar…
Any assentiu com a cabeça.
— Cada qual foi para o respectivo quarto, certo? Diga-me o que viu, Barens!
Ele se agitou em vão. Maigret o mantinha, arfante, em seu campo de visão.
— Não! Nada! Nada!
— Não viu Oosting escondido atrás de uma árvore?
— Não!
— Seja como for, ficou rondando em volta da casa. Logo, viu alguma coisa…
— Não sei… Não quero… Não! Isso é impossível!
Todo mundo olhava para ele. Ele não ousava olhar para ninguém. E Maigret,
impiedoso:
— Foi primeiro na estrada que você viu alguma coisa. As duas bicicletas tinham
partido. Deveriam passar no trecho iluminado pelo farol. Você estava com ciúmes…
Aguardava… E deve ter aguardado um bom tempo… Um tempo que não
correspondia à extensão do trajeto…
— Sim…
— Resumindo, o casal havia se detido na sombra das pilhas de toras. Isso não era
suficiente para assustá-lo. Somente para deixá-lo com mais raiva ainda, ou para
desesperá-lo. Portanto, você viu outra coisa, esta, sim, assustadora. Assustadora o
bastante, em todo caso, para que permanecesse nos arredores quando estava na
hora de retornar à escola. Você estava bem na direção do monte de toras… Não
podia ver senão uma janela…
Transtornado, Barens levantou-se assustado, perdendo todo autocontrole.
— Não é possível que o senhor saiba… Eu… eu…
— … A janela da sra. Popinga… Havia alguém nessa janela… Alguém que, como o
senhor, tinha visto o casal passar muito mais tarde pelo facho luminoso do farol,
logo, alguém que sabia que Conrad e Beetje haviam se demorado um bom tempo na
penumbra…
— Eu! — disse com toda a nitidez a sra. Popinga.
Foi a vez de Beetje perder o controle, olhando-a com olhos encarquilhados de
pavor.

Contrariando as expectativas, Maigret não fez mais nenhuma pergunta. O que, por
sinal, criou certo mal-estar. Tinha-se a impressão de que, atingido o clímax,
houvera uma pausa súbita.
O comissário foi abrir a porta da entrada, chamando:
— Pijpekamp! Venha, por favor. Deixe Oosting onde está. Suponho que tenha visto
as luzes nas janelas dos Wienands se acenderem e apagarem. Eles devem ter ido
dormir.
— Sim…
— E Oosting?
— Permaneceu atrás da árvore.
O inspetor de Groningen olhava à sua volta com espanto. Reinava uma calma
incompreensível. Os rostos pareciam rostos de pessoas que tivessem passado noites
e noites em claro!
— Pode ficar aqui um instante? Vou sair com Beetje Liewens, como fez Popinga. A
sra. Popinga subirá até o quarto dela, bem como Any e o professor Duclos. Peço-lhes
que executem os mesmos gestos daquela noite.
E voltando-se para Beetje:
— Venha, por favor.
Fazia frio do lado de fora. Maigret contornou o prédio, encontrou no galpão a
bicicleta de Popinga e duas bicicletas femininas.
— Pegue uma…
Pouco depois, enquanto deslizavam suavemente pelo caminho de sirga, em
direção ao depósito de madeira, indagou:
— Quem sugeriu que parassem?
— Conrad…
— Ele continuava alegre?
— Não… Assim que saímos, percebi que entristecera…
Já haviam alcançado os montes de toras.
— Saltemos. Ele estava apaixonado?
— Sim e não. Estava triste. Acho que era por conta do conhaque. No início estava
alegre. Me tomou nos braços aqui. Falou que era muito infeliz, que eu era uma boa
mocinha. É, foi o que ele disse… Que eu era uma boa mocinha, mas que chegava
tarde demais e que, se não tomássemos algumas precauções, aquilo terminaria em
tragédia…
— E as bicicletas?
— Nós as apoiamos aqui… Percebi que ele estava com vontade de chorar. Já o tinha
visto assim, nas noites em que tomava um trago. Ele acrescentou que era um
homem, que para ele aquilo não tinha importância, mas que uma mocinha como eu
não devia jogar sua vida numa aventura. Então jurou que me amava muito, que
não tinha o direito de estragar minha vida, que Barens era um ótimo rapaz e que eu
terminaria sendo feliz com ele.
— Então…?
Ela respirou com força. Explodiu.
— Gritei que ele era um covarde e quis montar de novo na bicicleta…
— O que ele fez?
— Segurou o guidom… Tentava me impedir de partir… Dizia:
“Deixe-me explicar… Não é por mim… É…”.
— O que ele explicou?
— Nada! Porque falei que se ele não me soltasse eu ia gritar. Ele soltou… Eu
pedalei… Ele me seguiu, continuando a falar… Mas eu ia mais depressa… Só ouvia:
“Beetje! Beetje! Me ouça um instante…”.
— Só isso?
— Quando viu que eu tinha alcançado o portão da fazenda, deu meia-volta. Virei-
me… Eu o vi curvado sobre a bicicleta, arrasado.
— Correu atrás dele?
— Não! Estava com ódio dele, porque ele queria me fazer casar com Barens. Era
sossego que ele queria, é ou não é? Só que, quando fui empurrar o portão, notei que
estava sem o meu cachecol. Alguém poderia encontrá-lo e fui procurar. Não
encontrei ninguém. Quando finalmente cheguei em casa, meu pai não estava lá. Ele
voltou mais tarde, não me deu boa-noite… Estava pálido, com cara de mau…
Imaginei que ele nos espionara, que talvez estivesse escondido atrás do monte de
toras.
“No dia seguinte, ele deve ter revistado meu quarto… Encontrou as cartas de
Conrad, pois não as vi mais… Depois me trancou.”
— Venha!
— Aonde?
Ele não se deu ao trabalho de responder. Pedalou em direção à casa dos Popinga.
Havia luz na janela da sra. Popinga, mas esta não aparecia.
— Acha que foi ela?
O comissário resmungou consigo mesmo:
— Ele voltou desse jeito, preocupado… Desmontou da bicicleta, provavelmente
neste local… Contornou a casa, empurrando a bicicleta pelo guidom… Pressentia
sua paz ameaçada, mas era incapaz de fugir com a amante…
E subitamente imperativo:
— Não saia daqui, Beetje.
Empurrou a bicicleta ao longo da alameda que circundava a casa. Entrou no pátio
e dirigiu-se ao hangar, onde o bote envernizado se delineava como um longo fuso.
A janela de Jean Duclos estava iluminada. Era possível imaginar o professor
sentado diante de uma escrivaninha. A dois metros, a janela do banheiro,
entreaberta, porém na penumbra.
— Ele não devia estar com pressa de voltar… — monologou ainda Maigret. —
Debruçou assim, para empurrar a bicicleta para debaixo do telhado…
Dava tempo ao tempo. Fez como se estivesse à espreita de alguma coisa. E, com
efeito, alguma coisa aconteceu, mas uma coisa insólita: um rumor quase
imperceptível, no andar superior, na janela do banheiro, um estalido metálico, o
clique de um revólver descarregado. Depois, logo em seguida, indícios de briga, a
queda de dois corpos no chão.
Maigret entrou na casa pela cozinha, subiu precipitadamente ao primeiro andar,
empurrou a porta do banheiro e acendeu a luz.
Dois corpos se contorciam no chão: o do inspetor Pijpekamp e o de Barens, que
logo se viu imobilizado, enquanto sua mão direita, abrindo, largava o revólver.
11. A janela iluminada

— Imbecil!
Foi a primeira palavra de Maigret, que, no sentido mais amplo da palavra,
recolheu Barens, colocou-o de pé e o amparou momentaneamente, pois sem isso o
rapaz teria sem dúvida voltado a cair. Portas se entreabriam. Maigret urrou:
— Desçam todos!
Tinha o revólver na mão. Manipulava-o sem maiores precauções, afinal fora ele
quem substituíra as balas originais por cartuchos sem pólvora.
Pijpekamp espanava seu sobretudo empoeirado com o dorso da mão. Jean Duclos
indagava, apontando para Barens:
— Foi ele?
O rapazola da Escola Naval parecia destroçado, não como um grande culpado, mas
como um aluno flagrado em erro. Não ousava olhar para ninguém. Não sabia o que
fazer com as mãos, com os olhos.
Maigret acendeu as luzes da sala. Any entrou por último. A sra. Popinga recusou-
se a sentar e adivinhavam-se seus joelhos tremendo por baixo do vestido.
Então, pela primeira vez, o comissário pareceu embaraçado. Encheu um
cachimbo, acendeu, deixou apagar, sentou-se numa poltrona, levantou-se logo em
seguida.
— Me intrometi num assunto que não me dizia respeito! — disse muito rápido. —
Um francês era suspeito e me mandaram para cá a fim de esclarecer o caso…
Acendeu novamente o cachimbo, ganhando um tempo para refletir. Voltou-se
para Pijpekamp.
— Beetje está do lado de fora, bem como seu pai e Oosting. Diga-lhes para
voltarem para suas casas ou entrarem. Isso depende… Deseja que saibam a
verdade?
O inspetor foi até a porta. Instantes depois, Beetje entrava, humilde e tímida,
seguida por Oosting, com sua cara de turrão, depois, finalmente, junto com
Pijpekamp, um Liewens lívido e hostil.
Viram então Maigret abrir a porta da sala de jantar. Ouviram-no vasculhar um
armário. Quando voltou, tinha na mão uma garrafa de conhaque e um copo.
Bebeu sozinho. Estava mal-humorado. Uma roda se formara à sua volta e todos
pareciam amedrontados.
— Quer saber, Pijpekamp?
E abruptamente:
— Paciência! Sim! Paciência se o seu método é o correto! Somos de países
diferentes, de raças diferentes. Os climas são diferentes. Quando farejou um crime
passional, o senhor pulou em cima do primeiro depoimento que lhe permitisse
arquivar o caso. Crime cometido por um marujo estrangeiro! Talvez isso seja
preferível para a ordem pública. Nada de escândalos! Nada de mau exemplo dado
pela burguesia ao povo! Só que eu continuo a ver Popinga, exatamente aqui,
brincando com o rádio e dançando sob os olhos do assassino…
Grunhiu, sem voltar-se para ninguém:
— O revólver foi encontrado no banheiro. Portanto, o tiro partiu de dentro da casa.
Pois é idiota pensar que o culpado, depois de cometer o crime, teve presença de
espírito para mirar numa janela entreaberta e arremessar a arma. E muito menos
para ir deixar um quepe dentro de uma banheira e uma ponta de charuto na sala de
jantar!
Pôs-se a caminhar de um lado para outro, evitando sempre fitar seus
interlocutores. Oosting e Liewens, que não o compreendiam, olhavam-no
intensamente, para perscrutar o sentido de seu discurso.
— Aquele quepe, aquela ponta de charuto e, por fim, a arma apanhada na mesinha
de cabeceira do próprio Popinga, isso era demais… Compreende? Queriam provar
demais… Queriam embaralhar demais as cartas… Um Oosting, ou outro qualquer
vindo do lado de fora, talvez tivesse deixado metade desses indícios, mas não tudo!
“Logo, premeditação… Logo, vontade de furtar-se à lei…
“Só resta proceder por eliminação. O Baes é o primeiro a ser eliminado. Que razão
tinha ele para entrar primeiro na sala de jantar, largar um charuto lá, subir ao
quarto para pegar o revólver e ainda colocar o quepe dentro da banheira?
“Em seguida, descartamos Beetje, que durante a noite não foi ao primeiro andar,
não pôde deixar lá o quepe e muito menos roubá-lo a bordo, uma vez que
caminhava ao lado de Popinga.
“Seu pai poderia matar, após flagrá-la com o amante. Contudo, naquele instante,
era tarde demais para subir até o banheiro.
“Sobra Barens… Ele também não subiu. Não roubou o quepe. Sentia ciúmes de seu
instrutor, porém, uma hora antes, ainda não tinha nenhuma certeza.”
Maigret se calou e, batendo o cachimbo no salto do sapato, esvaziou-o sem se
preocupar com o tapete.
— Isso é praticamente tudo. Resta-nos escolher entre a sra. Popinga, Any e Jean
Duclos. Nenhuma prova contra nenhum dos três. Mas tampouco nenhuma
impossibilidade material. Jean Duclos saiu do banheiro com o revólver na mão.
Podemos considerar isso uma garantia de sua inocência. Mas nada nos diz que não
fosse um supremo ardil. No entanto, como ele voltou da cidade na companhia da
sra. Popinga, não pôde roubar o quepe. E a sra. Popinga, que estava com ele, da
mesma forma.
“O quepe não poderia ser roubado senão pelo último grupo: Barens ou Any. Ainda
há pouco ficou demonstrado que Any permaneceu um instante sozinha em frente
ao barco de Oosting.
“Quanto ao charuto, sem comentários… Basta se abaixar, em qualquer lugar, para
recolher uma guimba velha.
“De todos os que estavam aqui na noite do crime, Any é a única que ficou no
segundo andar sem testemunha e que, além disso, entrou na sala de jantar.
“Em compensação, no que se refere ao crime, era quem tinha o melhor álibi.”
Maigret, o olhar sempre arisco, evitando encarar seus interlocutores, colocou na
mesa a planta do local desenhada por Duclos.
— Any não pode alcançar o banheiro senão passando pelo quarto da irmã ou pelo
do francês. Quinze minutos antes do assassinato, ela está em seu quarto. Como irá
até o banheiro? Como ter certeza de, na hora precisa, passar por um dos dois quartos?
Não se esqueçam de que ela estudou não só direito, como tratados de polícia
científica. Discutiu o assunto com Duclos. Conversaram sobre a possibilidade do
crime matematicamente impune.
Any, hirta, exangue, conservava mesmo assim o sangue-frio.
— Preciso abrir um parêntese. Sou o único aqui a não ter conhecido Popinga. O que
me obrigou a construir uma imagem a partir de testemunhos. Ele tinha sede de
prazeres na mesma medida em que recuava diante das responsabilidades e, acima
de tudo, aos princípios estabelecidos. Ele assediou Beetje num dia de euforia… E ela
se tornou sua amante. Sobretudo porque ela quis! Interroguei a empregada, ainda
há pouco… Ele também a acariciou, à toa, ao passar. Não foi mais longe porque não
foi especialmente incentivado a isso.
“Em outras palavras, ele quer todas as mulheres. Comete pequenas
imprudências… Rouba um beijo, uma carícia… Mas, acima de tudo, zela por sua
segurança.
“Foi capitão de longa data. Conheceu o encanto das escalas sem amanhã. Por
outro lado, é funcionário de sua majestade e preza seu posto, como preza sua casa,
seu lar, sua mulher…
“É uma aliança entre apetite e repressão, loucura e sensatez!
“Aos dezoito anos, Beetje não compreendeu isso e acreditou que ele fugiria com
ela.
“Any vive emparedada. Que importa que não seja bonita? É uma mulher… Eis o
mistério… Um dia…”
O silêncio à sua volta era opressivo.
— Não estou afirmando que ele era seu amante. Mas, com ela também, ele foi
imprudente. Ela acreditou nele… Ficou caidinha por ele… Uma paixão menos cega
que a da sra. Popinga…
“Viveram assim os três… A sra. Popinga confiante… Any, mais fechada,
apaixonada, ciumenta, sutil…
“Ela, por seu turno, percebeu as relações dele com Beetje. Farejou a inimiga…
Talvez tenha procurado e encontrado as cartas…
“Aceitava dividi-lo com a irmã. Não podia aceitar era a moça saudável e jovem,
com quem fugir era uma possibilidade…
“Decidiu matar…”
E Maigret concluiu:
— Isso é tudo! Um amor que se transmuta em ódio! Um amor-ódio! Um sentimento
complexo, implacável, capaz de inspirar tudo… Ela decidiu matar… Decidiu
friamente. Matar sem dar margem a nenhum tipo de acusação!
“E aquela noite o professor discorrera sobre crimes impunes, assassinos
científicos…
“Ela é tão orgulhosa de sua inteligência quanto apaixonada. Cometeu o crime
perfeito… Um crime que haveria de ser fatalmente imputado a um forasteiro…
“O quepe… o charuto… E o álibi irrefutável: ela não podia sair do quarto para
matar sem passar pelo da irmã ou pelo do francês…
“Durante a conferência, ela viu mãos se procurando… No trajeto, Popinga
caminhou ao lado de Beetje… Eles beberam e dançaram… Partiram juntos em suas
bicicletas…
“Só restava imobilizar a sra. Popinga em sua janela, insinuar-lhe a suspeita…
“E enquanto a julgavam em seu quarto, ela pôde passar, já de combinação, às suas
costas. Estava tudo planejado… Ela alcançou o banheiro… Atirou… A tampa da
banheira estava aberta… O quepe estava com ela… Era só colocá-lo ali…
“Após o disparo, Duclos entrou, encontrou a arma no peitoril da janela, saiu
apressado e, encontrando a sra. Popinga no hall, desceu com ela.
“Any, já preparada, pronta para dormir, os seguiu. Quem poderia suspeitar que ela
não saía de seu quarto, que não estava transtornada, ela cujo recato era lendário e
que se mostrava naqueles trajes?
“Nenhuma compaixão! Nenhum remorso! Esses ódios amorosos extinguem todos
os outros sentimentos. Fica apenas a vontade de vencer!
“Oosting, que presenciara o furto do quepe, calou-se. Afinal, seu respeito pelo
morto, seu amor pela ordem! Não convinha escândalo em torno da morte de
Popinga. Ele mesmo ditou a Barens um depoimento sugerindo um crime hediondo
cometido por um marujo desconhecido.
“Liewens, que viu a filha chegar em casa após Popinga tê-la deixado e que, no dia
seguinte, leu as cartas, acreditou na culpa de Beetje, trancou-a no quarto, obstinou-
se em descobrir a verdade.
“Supondo que eu fosse prendê-lo, ainda há pouco, tentou matar-se.
“E, por fim, Barens… Barens, suspeitando de todos, debatendo-se contra o
mistério e sentindo-se igualmente alvo de suspeita…
“Barens, que tinha visto a sra. Popinga na janela… Não fora ela que atirara após
descobrir ser traída?
“Ele foi recebido aqui como um filho da casa. Órfão, encontrara na sra. Popinga
uma nova mãe.
“Quis sacrificar-se… Quis salvá-la… Haviam-no esquecido na distribuição dos
papéis… Ele foi pegar o revólver… Alcançou o banheiro… Quis atirar… Matar o único
homem que sabia e sem dúvida matar-se em seguida!
“Pobre rapazola heroico… Generosidade como só temos aos dezoito anos!
“Isso é tudo! A que horas sai um trem para a França?”

Nenhuma palavra. Pessoas paralisadas pelo estupor, a angústia, o medo ou o


horror. No fim, Jean Duclos sentenciou:
— Como vê, o senhor ajudou muito…
Enquanto isso, a sra. Popinga saía num passo de robô e, instantes mais tarde, era
encontrada deitada em sua cama, às voltas com uma crise cardíaca.
Any não se mexera. Pijpekamp tentou fazê-la falar:
— Tem alguma coisa a replicar?
— Falarei na presença do juiz.
Estava branca feito cera. Suas olheiras comiam-lhe metade das faces.
Calmo, só Oosting, embora encarando Maigret com olhos cheios de censura.
Fato é que às cinco e cinco da manhã o comissário embarcava sozinho no trem na
pequena estação de Delfzijl. Ninguém o acompanhara. Ninguém lhe agradecera.
Nem mesmo Duclos, que alegou uma desculpa para pegar outro trem!
O dia raiou quando o trem atravessava uma ponte sobre um canal. Embarcações
aguardavam, velas recolhidas. Um funcionário se preparava para manobrar a ponte
assim que a composição passasse.
Dois anos mais tarde, em Paris, o comissário reencontrou Beetje, que se casara
com um vendedor de luminárias elétricas holandesas e estava grávida. Ela corou ao
reconhecê-lo.
Contou que tinha dois filhos, deixando subentendido que o marido lhe dava uma
vida medíocre.
— E Any? — ele perguntou.
— Não sabe! Todos os jornais da Holanda noticiaram… Matou-se, com um garfo, no
dia do julgamento, minutos antes de depor no tribunal.
Acrescentou:
— Venha nos visitar. Avenida Victor Hugo, 28. Não demore muito, pois partimos
semana que vem para esquiar na Suíça.
Nesse dia, na Polícia Judiciária, nenhum dos inspetores escapou ao seu furor…
O caso Saint-Fiacre

“Maigret empurrou a porta, parou por acaso numa saída de ar quente. Em pé,
ligeiramente apoiado na mesa gótica, o conde de Saint-Fiacre o fitava.
Ao lado dele, olhos fixos no tapete, o padre mantinha uma imobilidade rigorosa,
como se um só movimento bastasse para traí-lo.
O que os dois faziam lá, sem falar, sem se mexer?”

A vida pregressa de Maigret vem à tona neste romance, ambientado na cidade


natal do comissário. Ao encontrar um bilhete anônimo que prenuncia um crime
durante a missa de Finados, ele volta ao vilarejo depois de muitos anos ausente e se
depara com lembranças perturbadoras.
Inferno a bordo

“Era de fato uma fotografia, um retrato de mulher. No entanto, a cabeça estava


completamente riscada com tinta vermelha. Houvera um desejo raivoso de
eliminar aquela cabeça. A pena arranhara o papel. Linhas se espalhavam em todas
as direções, a ponto de não existir mais um milímetro quadrado visível.
Em contrapartida, abaixo do rosto, o busto estava intacto. Um colo opulento.
Vestido de seda clara, justo e cavado.”

Marujos não conversam muito com outros homens, e conversam menos ainda
com policiais. Mas depois que o corpo do capitão Fallut foi encontrado próximo ao
vapor em que trabalhava, o Océan, todos começaram a falar em mau-olhado para
definir os acontecimentos sinistros na última viagem da embarcação.
A noite da encruzilhada

“Ela avançava, os contornos indecisos na semiescuridão. Ela avançava como a


estrela de um filme, ou melhor, como a mulher ideal num sonho de adolescente.
— Disseram-me que desejava falar comigo, comissário. Mas antes queira sentar-se.
Seu sotaque era mais acentuado que o de Carl. A voz cantava, baixava na última
sílaba das palavras.
E seu irmão se mantinha perto dela como o escravo ao lado de uma soberana que
ele tem por encargo proteger.”

Não está fácil para o comissário Maigret desvendar os motivos da morte de um


vendedor de diamantes. O corpo foi encontrado na mansão de Carl Andersen, um
milionário dinamarquês, interrogado por dezessete horas sem sucesso. Talvez a
irmã dele, Else, que vive num dos quartos da mansão, tenha a solução para o
mistério.
A cabeça de um homem

“Os jornais desta manhã publicam um comunicado semioficial anunciando que


Joseph Heurtin, condenado à morte pelo tribunal do júri do Sena e detido na Santé,
na ala de segurança máxima, fugiu em circunstâncias inexplicáveis.
Podemos acrescentar que as circunstâncias não são inexplicáveis para todo
mundo.
Ainda não é possível darmos detalhes da odiosa comédia encenada esta noite na
Santé, mas afirmamos que foi a própria polícia, em concordância com as
autoridades judiciárias, que presidiu ao simulacro de evasão.”

Maigret tenta provar a inocência de um homem condenado à morte pelo


assassinato brutal de duas mulheres. Enquanto se desenrola seu plano, ele encontra
expatriados americanos cheios de segredos capazes de trazer a verdade à tona.
Pietr, o letão

“Não que se assemelhasse aos policiais que a caricatura popularizou. Não usava
bigode nem sapatos com solas reforçadas. Suas roupas eram de lã fina, de corte
apurado. E, sim, fazia a barba todas as manhãs e cuidava das mãos.
A compleição, porém, era banal. Era grandalhão e ossudo. Músculos rijos se
desenhavam sob o paletó e deformavam rapidamente suas calças mais novas.
Tinha, acima de tudo, um estilo muito pessoal de agir, que não deixava de
desagradar a vários colegas seus.”

Neste primeiro romance estrelado pelo comissário Maigret, o lacônico detetive é


levado de bares sombrios a hotéis de luxo enquanto investiga a verdadeira
identidade de Pietr, o letão.
Copyright © 1931 by Georges Simenon Limited
GEORGES SIMENON ® Simenon.tm
MAIGRET ® Georges Simenon Limited
Todos os direitos reservados.

Grafia atualizada segundo o Acordo Ortográfico da Língua


Portuguesa de 1990, que entrou em vigor no Brasil em 2009.

Título original
Un Crime en Hollande

Projeto gráfico
Bruno Romão e Alceu Chiesorin Nunes

Capa
Alceu Chiesorin Nunes

Preparação
Leny Cordeiro

Revisão
Jane Pessoa
Valquíria Della Pozza

ISBN 978-85-438-0454-5

EDITORA SCHWARCZ S.A.


Rua Bandeira Paulista, 702, cj. 32
04532-002 — São Paulo — SP
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