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1 2 3 da Semiótica

.Júlio Pint:o

Julio Pinto
1; Z; J da Semiótica

Belo Horizonte
Editora UFMG
1995
1, 2, 3 da SeRl iót:ica

Copyright © 1995 by Julio Pinto

Este livro, ou parte dele, não pode ser reproduzido por qualquer
meio sem autorização escrita do Editor.

Projeto gráfico e capa: Ready Made Multimídia e Comunicação


Editoração de texto: Ana Maria de Moraes
Formatação: César de Almeida Correia

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Beatriz Alvarenga Álvares, Geraldo Norberto Chaves Sgarbi, Heitor
Capuzzo Pilho.joaquim Carlos Salgado, Manoel Otávio da Costa Rocha,
Paulo Bernardo Vaz, Sônia Queiroz (Presidente), Wander Melo Miranda.

Ficha Catalográfica

Pinto, Julio
P 659 1,2,3 da semiótica / Julio Pinto. - Belo Horizonte:
Editora UFMG, 1995.
70 p.

1. Semiótica. I. Titule.

c.D.U.003

Elaborada .pela Divisão de Planejamento e Divulgação da Biblioteca


Universitária.

ISBN: 85-7041-098-0
.Júlio Pint:o

The universe is a perfusion ofsigns.

Man Js trutb is neverabsolute


because the basis ofFact is hypothesis.

Charles S. Peirce
1, 2, 3 da SeRliót:ica

s u R o
NOTA INTRODUTÓRIA : 09

GUIA DE CONSULTA AOS VERBETES 11

VERBETES 13
Abdução, Indução, Dedução 13
Argumento 16
Categorias 17
Degenerescência 19
Dicissigno 21
Erro 22
Ícone 24
Imagem 26
Índice 28
Interpretante 29
Interpretante dinâmico 30
Interpretante final 31
Interpretante imediato 32
Legissigno 33
Lógica do vago 34
Objeto 37
Objeto dinâmico 39
Objeto imediato 40
Primeiridade 41
Qualissigno " 43
Rema 44
Réplica : 45
Representâmen ." 46
Secundidade : 47
Semiose 49
Signo 50
.Júlio Pint:o

Símbolo 54
Sinsigno 56
Terceiridade 57
Tricotomia 59
SUGESTÕES DE LEITURA 61

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 63
ÍNDICE REMISSNO DE ASSUNTOS 65
1, 2, 3 da SeRliõtica

NO I A I NT R O DU T ÓRIA

Este livro surgiu de uma lacuna. No decorrer de meu


trabalho com Semiótica, vi-me, não raro, às voltas com certas
demandas de alunos, colegas e associados de pesquisa,
concernentes a explicações sobre a terminologia própria
da área que, ao mesmo tempo, propiciassem um esboço
geral da teoria. Procurei, assim, elaborar um texto que
pudesse dar acesso rápido aos termos específicos de
Semiótica sem, com isso, trivializar conceitos ou pecar por
esquematização.
É importante frisar que não se trata de um dicionário,
apesar de estar organizado em verbetes, e nem de um
tratado geral, embora às vezes procure esmiuçar um ou
outro conceito central de maneira um pouco mais profunda.
Procurei fazer com que os verbetes fossem suficientemente
explicativos, mas não a ponto de dar ao leitor a ilusão de
que poderia dispensar os textos de Semiótica a que eles se
referem, Trata-se de um livro _de consulta rápida, algo que
se tem ao lado no momento da leitura de outros trabalhos
que utilizem esses conceitos, algo a que se pode recorrer
para esclarecimento.
Este é, portanto, um operador de leitura. Dado esse
propósito um tanto propedêutico, escolhi privilegiar os
conceitos que julgo importantes para a compreensão dos
princípios gerais da Semiótica, em detrimento de certos
detalhes e refinamentos teóricos que interessam mais aos
especialistas ja seduzidos pelos tortuosos caminhos da
semiose.
O enfoque central e quase exclusivo deste texto é a
semiótica de Charles Sanders Peirce (1839-1914) pensador
americano cujas contribuições de longo alcance aos estudos
de Lógica (tanto da Lógica Simbólica, de que foi um dos
iniciadores, quanto da Lógica Informal) ainda estão por ser
devidamente avaliadas. A sua semiótica (semeiótica, como
ele preferia, respeitando as raízes gregas do termo) é, na
.Júlio Pinto

verdade, uma teoria dos signos e da representação que


efetua uma extensão da Lógica para os limites da cognição
e da experiência dos fenômenos. É, por isso, também uma
teoria do conhecimento, além de propor novos insights sobre
questões referentes à significação e à produção de sentido.
A semiótica de Peirce é uma resposta ao repto lançado
por Locke no seu Ensaio sobre o Entendimento Humano, a
saber, que uma lógica da significação, a se chamar Semiótica,
deveria ser elaborada. Não se trata, portanto, de uma teoria
de extração lingüística associada ao pensamento serniológico,
na tradição de Saussure, embora tenha com ele muitos pontos
de contacto. Caracteriza-se, principalmente, por não ser
logocêntrica: não aplica os códigos verbais aos demais
domínios da significação. Ao contrário, Peirce vê os signos
verbais corno um subconjunto das manifestações sígnicas.
Isso tornou possível - como hoje já se faz - o estudo da
zoosserniose e da fítossemiose, em bases diferentes da
lingüística.
O pensamento semiótico de Peirce se faz sobre uma
lógica ternária - urna outra diferença da tradição francesa,
assentada no bínarísmo da relação entre um significante e
um significado - que chegou a seduzir pensadores corno
Derrida e Lacan. A partir das noções de primeiridade,
secundidade e terceiridade (as três categorias da experiência
para ele) Peirce demonstra o caráter triádico da relação de
representação e propõe a noção de semiose: a geração de
signos por outros signos. Daí o título 1, 2, 3 da Semiótica.
Uma outra razão justifica este livro. A obra de Peirce
publicada nos Estados Unidos soma cerca de doze mil
páginas impressas, e seus manuscritos conhecidos chegam
a aproximadamente oitenta mil páginas. Sua obra completa,
portanto, teria cerca de cem volumes de quinhentas páginas
cada. Existem no Brasil apenas duas traduções de excertos
dos excertos publicados em inglês. O 1, 2, 3 da Semiôtica
seria, assim, um esforço somado ao de dois ou três outros
semioticistas brasileiros, no sentido de divulgar uma obra
cujo. alcance ainda não chegou a ser vislumbrado e cuja
importância para os estudos de comunicação, literatura,
lingüística, psicanálise, artes e ciências sociais se faz sentir
mais e mais.

Julio Pinto
o
1, 2, 3 da SeRl iót:ica

GUIA Df CONSULTA AOS VfRBfTf~

Em cada verbete, os assuntos correlatos estão indicados


em caracteres itálicos seguidos de (v.). Este código indica
que há um verbete também para aquele assunto. Quando
há referência bibliográfica, esta é feita no texto através do
nome do autor enl caixa alta, seguida do ano de publicação
do volume e número da(s) página(s). A citação, através da
data de publicação, facilita a localização da referência
completa ao fím do livro, que está listada por autor e ano
de publicação.
As duas exceções a essa nornla referem-se a duas
publicações da obra de Peirce, nos Estados Unidos. Os
Collected Papers, em oito volumes, estão organizados em
parágrafos numerados. De acordo com a maneira tradicional
de citação dos estudos peirceanos, usam-se as letras CP,
seguidas do núrnero do volume e o número do parágrafo.
Assim, CP 2.228 refere-se ao parágrafo 228 do volume 2,
dos Collected Papers.
Ainda de acordo com a prática dos estudiosos da
obra de Peirce, a edição cronológica de seus escritos
(programa em andamento no Peirce Edition Project, em
Indiana) está citada corno Writings, seguida do número do
volume em algarismos romanos e o número dats) página(s)
em algarismos arábicos.
Há também, no fim do volume, um índice remissivo
de assuntos. O código adotado para o índice é o seguinte:
• se o assunto tem um verbete próprio, ao título do
verbete segue-se o número da página onde encontrá-lo,
seguido da indicação de outros verbetes, separados por
ponto e vírgula, onde também se discute ou se menciona o
assunto. Essa indicação é precedida pela expressão ver
também;
• se o assunto não tem um verbete próprio, mas tem
.Júlio Pinto

importância suficiente para justificar sua presença no índice,


indica-se apenas o verbete onde encontrá-lo. Se há dois ou
mais verbetes, estes vêm separados por ponto e vírgula.
No corpo do texto, ao lado de cada verbete, há um campo
em que se listam esses assuntos de acordo com a remessa
feita no índice.

12
1, 2, 3 da SeRliõt:ica
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HIPÓTESE
dedução - tem importante papel na lógica, tal corno Peirce a '.'.. '

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propõe. Nos escritos de Peirce, esse tipo de inferência é INFERÊNCIA HIPOTÉTICA


alternativamente chamado de retrodução, hipótese, inferência
LÓGICA DA DESCOBERTA
hipotética e abdução, e seu papel é vital no sentido de que a
inferência hipotética é a responsável pela lógi~ da descoberta. ERRO

Muitas vezes considerada pelos estudiosos de lógica como PREVISÃO


um tipo de indução, a abdução recebe de Peirce un1 tratamento
especial e é considerada à parte por se tratar do mecanismo pelo
qual hipóteses são formuladas e teorias são criadas. Poder-se-ia
dizer que a inferência hipotética é "um argumento que supõe que
um termo que necessariamente envolve Un1 certo número de
caracteres... pode ser predicado de qualquer objeto que possua
aqueles caracteres" (Writings, 1I:48), ou ainda, "urna afirmação
categórica de algo ainda não experimentado" (Writing~~ 1:267). A
inferência hipotética nos capacita a formular urna previsão geral
sem que tenhamos a garantia de um resultado correto.
Un1 dos exemplos mais famosos que Peirce dá dos três
tipos de inferência, o da saca de feijões (encontrado em CP 2.623)
toma bastante clara a distinção entre a abdução e os outros dois
tipos de inferência:

Dedução
Todos os feijões daquela saca são brancos.
Esses feijões são daquela saca.
Logo, esses feijões são brancos.
1, 2, 3 da SeRliõt:ica

v R B I s
ABDUCÃO, INDUCÃO, DfDUCÃO

Embora não amplamente reconhecido nos meios científicos,


o conceito de alxtução - em contraste com a indução e a
dedução - tem importante papel na lógica, tal corno Peirce a
propõe. Nos escritos de Peirce, esse tipo de inferência é INFERÊNCIA HIPOTÉTICA
alternativamente chamado de retrodução, hipótese, inferência
LÓGICA DA DESCOBERTA
hipotética e abdução, e seu papel é vital no sentido de que a
inferência hipotética é a responsável pela lógi~ da descoberta. ERRO

Muitas vezes considerada pelos estudiosos de lógica como PREVISÃO


um tipo de indução, a abdução recebe de Peirce unl tratamento
especial e é considerada à parte por se tratar do mecanismo pelo
qual hipóteses são formuladas e teorias são criadas. Poder-se-ia
dizer que a inferência hipotética é "um argumento que supõe que
um termo que necessariamente envolve um certo número de
caracteres... pode ser predicado de qualquer objeto que possua
aqueles caracteres" (Writings, 1I:48), ou ainda, "urna afirmação
categórica de algo ainda não experimentado" (Writing~~ 1:267). A
inferência hipotética nos capacita a formular urna previsão geral
sem que tenhamos a garantia de um resultado correto.
Um dos exemplos mais famosos que Peirce dá dos três
tipos de inferência, o da saca de feijões (encontrado em CP 2.623)
toma bastante clara a distinção entre a abdução e os outros dois
tipos de inferência:

Dedução
Todos os feijões daquela saca são brancos.
Esses feijões são daquela saca.
Logo, esses feijões são brancos.
.Júlio Pint:o

Indução
Esses feijões são daquela saca.
Esses feijões são brancos.
Logo, todos os feijões daquela saca são brancos.

Abdução
Todos os feijões daquela saca são brancos.
Esses feijões são brancos.
Logo, esses feijões são daquela saca.

Vê-se, logo de início, que a abdução compartilha com


a dedução o fato de ter a regra geral como premissa inicial
(todos os feijões, etc.). Entretanto, corno a indução ela arrisca
um palpite que pode dar errado. Olhada dessa maneira, a
abdução está, portanto, entre a indução e a dedução.
Contudo, ela difere das duas t.amb m pela ma ior
é

possibilidade de erro implícita na hipótese que ela lança,


porque é fácil perceber como tanto a indução quanto a
dedução estão baseadas na experiência.
Portanto, a lógica não pode se basear apenas nesses
dois tipos de inferência, porque a experiência humana
sugere urna maneira de se derivar ou manipular informações
que não é tão bem definida, corno a indução ou a dedução,
mas que, ainda assim, é responsável pela descoberta do
não conhecido . O caráter de previsão da abdução é, por
isso, mais marcante. Há nela urna certa audácia que as outras
inferências não apresentam (cf. SEBEOK,1983).
Dos tipos possíveis de inferência, portanto, a abdução
constitui o único que se projeta para o futuro, já que tanto a
dedução quanto a indução d izern do passado, do já
conhecido, na medida em que se referem à experiência.
Corno palpites, os processos abdutivos podem levar a erros
(v. erro), mas a falibilidade de urna hipótese não quer dizer
que a abdução seja u m processo de ensaio e erro.
Fundanlentalnlente, o que acontece é que urna hipótese é
formulada com base na experiência, através da escolha de
um interpretante (v.) logicamente possível para os signos
(v.) que se oferecem à observação.
A inferência abdutiva é, portanto, um palpite
razoavelmente bem fundamentado acerca de uma semiose
(v.) qualquer e que deve ser posteriormente testado por
14
1, 2, 3 da SeRliót:ica

dedução, a fim de que se chegue a uma inferência indutiva


sobre o universo representado por aquela serniose (PINTO,
1989:106). Enquanto previsão, a inferência hipotética se
insere na tercei ridade (v.) mas, corno é um ato de insight
que "se nos apresenta corno um flash de luz" (CP 5.181), é
um terceiro com teor de primeiro, principalmente, também,
em virtude de seu caráter essencialmente remático (v. remai.
Assim, a abdução apresenta-se no esquema triádico da
experiência no nível de primeiridade (v.) em relação aos
dois outros tipos de inferência, ainda que os três processos,
por envolverem atividade sígnica, sejam da ordem do
terceiro.

15
.Júlio Pint:o

ARGUMfNIO

PROPOSIÇÃO
Terceiro termo da terceira tricotomia (v.) dos signos,
a que apresenta o signo em sua relação con1 o interpretante
SUADISSIGNO (v), o argumento é definido por Peirce como um signo que
FCNÇÃO é representado em seu interpretante, não como signo do
PROPOSICIONAL interpretante, mas como se fosse um signo do interpretante.
REMA Dizendo isso de outra forma, o argumento seria uma
proposição complexa apresentada corno verdadeira, com
base ern urna outra proposição (ou um conjunto de
proposições apresentadas numa única proposição composta).
Se o rema (v.) é urna função proposicional, do tipo x
ama y, e o dicissigno (v.) un1a proposição como Maria ama
João, o argumento seria uma proposição como Maria ama
[oão porquefaz tudo por ele, por exemplo. Pode-se também
definir o argumento corno um signo complexo, composto
de dois ou mais dicissignos, um dos quais é interpretante
does) outrots) (cf, RANSDELL,1983a:59). Dado seu parentesco
com a noção de silogismo, sua evidente função argumen-
tativa e possibilidades retóricas, o argumento é também
chamado suadissigno (a partir de persuadir e dissuadir).

16
1, 2, 3 da SelTliót:ica

CAlEGORIAS

A triadicidade que está na base de todo o edifício


teórico da semiótica de Peirce parte da concepção de que
ENS RA770NIS
a experiência do fenômeno apresenta três, e apenas três,
tipos de propriedades correspondentes a categorias, que ENSREALE
recebem o nome de primeiridade (v.), secundidade (v.) e
LÓGICA DO VAGO
terceiridade Cv.), Entenda-se corno fenômeno qualquer coisa
que se torne manifesta ou disponível para unl observador. PRI~v1EIRIDADE

Pode ser um objeto no mundo "real", ou uma percepção, SECLNDIDADE


um sentimento, uma sensação, urna abstração, enfim, qualquer
coisa passível, ainda que minimamente, de conhecimento TERCEI RIDADE

ou descrição. O signo (v.) - e qualquer fenômeno pode PROPOSIÇÃO


ser um signo - não é, assim, necessariamente atribuível a
uma dada realidade.
En1 inglês, essas categorias receberam o nome de
firstness, secondness e tbirdness e, dada a liberalidade com
que se usa o sufixo -ness em língua inglesa, talvez sua
melhor tradução em português devesse usar urn sufixo
igualmente corrente, o -eza, para que urn registro semelhante
pudesse ser mantido. Além do mais, os termos primeireza,
segundeza e terceireza evitar iam as conotações
indesejáveis que surgem com o sufixo -idade (tais corno
laivos de hierarquia, idade, gradação, etc.) e mantêm a noção
de qualidade que é o que está implícito em -ness.
Todavia, a prática generalizada no Brasil tem sido o
uso do sufixo -idade e, apenas por essa razão, manteremos
aqui esse sufixo.
É importante ressaltar que, apesar de o termo
categorias poder conduzir o leitor a um tipo de raciocínio
taxonôrnico ou, no mínimo, hierarquizado, esse não é o
que se quer dizer. Na verdade, não há qualquer relação de
hierarquia ou prioridades entre a pr irne ir ida de , a
secundidade e a terceiridade. As três estão simulta-
neamente presentes em qualquer fenômeno, e qualquer
delas pode estar mais manifesta (ou ser selecionada pelo
observador) a qualquer n10n1ento, dependendo do que se
busca ao se pensar, estudar, examinar, sentir, sonhar, imaginar
ou perceber o fenômeno.
Afirmar que as categorias constituem o fundamento

17
.Júlio Pint:o

da semiótica é o mesmo que dizer que elas foram o primeiro


passo para Peirce. Depois de desenvolvidas, elas
propíclaram a derivação das formas lógicas (os tipos de
signos) através de sua aplicação recursiva. A noção de
categoria foi desenvolvida conl o finl de se conseguir unIa
base para um método capaz de buscar quaisquer
"concepções elementares intermediárias entre a pluralidade
da substância e a unidade do ser" (Writings, II:5l). Em
termos lógicos, a substância é o sujeito de urna proposição,
e o ser é a cópula. O que está entre a proposição e a
cópula é o predicado, isto é, um signo da substância. Em
outras palavras, e olhada dessa forma, a semiótica seria
uma teoria dos predicados.
Dessa maneira, pode-se dizer que qualquer entidade
(essa palavra é aqui usada enl seu sentido mais antigo, que
compreende tanto o ens reale quanto o ens rationis) apresenta
propriedades passíveis de descrição por meio de predicados
monádicos (prirneiridade), diádicos (secundidade) e triádicos
(terceiridade). A (Injdeterminabilidade do signo está, assim,
diretamcnte ligada ao seu modo de descrição, isto é, do
mais extenso (mónadas) ao mais intenso (tríadas) (v. também
erro, lógica do vago e signo).

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1, 2, 3 da SelTliót:ica

'.'.

DEGENERESCÊNCIA
...
•••
'.

.' .

:. .

Peirce discute esse aspecto da relação sígnica a partir ... DIAGRAMA


..:..
do conceito de genuinidade dentro da tríade
... GENCINIDADE
representacional. Para ele (ver, por exemplo, PEIRCE, 1977:
63 et seq.) a relação triádica é genuína se ela não consiste :.... : HIPOÍCONE
em nenhum complexo de relações diádicas. Isso quer dizer ,.
HIPOSSEMA
que um primeiro (um signo, v.) deve estar numa relação tal .

com um segundo (seu objeto, v.) que é capaz de determinar ÍCONE



,..
um terceiro (um interpretante, v.) que assuma a mesma ...

IMAGEM
relação triádica con1 seu objeto, de modo a determinar um ..
.:. METÁFORA
segundo terceiro, e assim por diante.
:.
En1 outras palavras, um interpretante não deve se RÉPLICA

colocar numa relação binária com o objeto, mas sim ter TERCEIRIDADE
com o objeto a mesma relação que o signo tem. Isso significa
que um terceiro só poderia gerar um outro terceiro, na
medida em que a relação sígnica é uma terceiridade (v.).
Essa situação faz com que os signos genuínos sejam
apenas os legissignos (v.), simbolos (v.) e argumentos (v.)
que são os genuinamente terceiros nas tricotomias (v.). As
demais funções lógicas (os ícones, índices, qualissignos,
sinsignos, remas e dicissignos, lv.D constituem versões
degeneradas dos terceiros dentro de cada tricotomia, de
vez que se r i arn terceiridades que priv ile g iar ia m a
primeiridade (v.), no caso dos ícones, qualissignos e remas,
ou a secundidade (v.), no caso dos sinsignos, índices e
dicissignos. O privilégio da primeiridade e da secundidade
nesses casos é un1 resultado necessário da aplicação recursiva
do conceito de categoria (v.) à noção de signo, evidenciada
inclusive no fato de o signo ser qualificado de primeiro, o
objeto de segundo e o interpretante de terceiro.
Esse raciocínio leva à conclusão de que não há, por
exemplo, ícones puros (já que a primeíridade é apenas
virtual e potencial) ou índices puros (porque a secundidade
constitui uma singularidade e singulares não significam, a
menos que sejam réplicas lv.l de urna abstração reguladora
de caráter geral, ou seja, de um terceiro). Note-se, a
propósito, que o termo degenerado não carrega um
conteúdo negativo, mas refere-se apenas à noção de caso
especial.

19
.Júlio Pint:o

Dessa maneira, quando se diz que "nuvens baixas e


escuras são índice de chuva", recorre-se a uma simplificação,
de vez que só se chegou a esse "índice" (a rigor, um símbolo
indicial ou um argumento lv.D após a constatação repetida,
e portanto, generalizada, de várias instâncias de chuva
naquela situação. Por isso, na verdade e ern sentido estrito,
os termos ícone, índice, etc., são recursos telegráficos
usados no lugar de signos icônicos ou signos indiciais,
por exemplo, em se tratando, bem entendido, de sinsignos,
isto é, manifestações perceptíveis de signos.
A recursividade do pensamento categórico aplicado à
relação sígnica leva Peirce a postular, dentro da primeiridade,
a noção de hipoícones (Primeiro do Primeiro, Segundo do
Primeiro e Terceiro do Primeiro). Assim, as imagens são a
Primeira Prirneiridade, porque "participam das qualidades
simples" dos objetos (CP 2.277). A Segunda Primeiridade
representa as relações binárias de partes de objetos, através
de relações análogas entre suas partes: é o caso de mapas
e diagramas. A Terceira Primeiridade, que estaria mais
próxima da noção de representação, representa o caráter
representativo de um signo através de analogia com o objeto
e seria o campo da metáfora.
Analogamente, pode-se falar em hipossemas ou sub-
índices (CP 2.284). Trata-se de signos que se tornam índices
em virtude de uma conexão real ou existencial com o objeto.
É o caso de nomes próprios, demonstrativos, pronomes
relativos. Dado não serem singularidades, não são índices
genuínos, mas funcionam corno se o fossem. Estritamente
falando, são símbolos indiciais.

2O
1, 2, 3 da SelTliót:ica

DICISSIGNO

Segundo elemento da terceira tricotomia (v.) dos DICENTE


signos (rema, dicissigno, argumento), aquela que vê o signo
FL'NÇÃO PRO POSICIONA
em sua capacidade de produzir interpretantes e em sua
relação com esses interpretantes, o dicissigno (ou signo PROPOSIÇÃO
dicente) pode ser definido conlO aquele signo que é capaz
de ser afirmado. Ele é, portanto, aquilo que se entende
como proposição, isto é, ele contém elementos significativos
que indicam suficientemente sua referência, ao contrário
do rema (v.). Se o rema é uma função proposicional, do
tipo x ama y, o dicissigno preenche as incógnitas (Maria
ama João), tornando-se mais referencial (cf. RANSDELL,
1983a:59-6ü). (Ver também argumento).

21
.Júlio Pint:o

ERRO

TELEOLOGIA
Partindo da definição de signo (v.), conclui-se que a
semiose (v.), por ser urna cadeia infinita, que tem como
VERDADE mola propulsora o fato de ser um processo teleológico,
HIPÓTESE tende para um estádio em que o signo se tornaria seu
objeto (v.). Isso seria o que poderíamos chamar de verdade
INDETERMINAÇÃO
semiótica, isto é, aquele momento em que o signo, o
objeto e o interpretante (v.) se confundiriam, Logicamente,
dada a natureza infinita do processo de semiose, tal estádio
é apenas urna possibilidade teórica, de vez que entre um
signo qualquer, n, e unl signo anterior a esse, sempre se
pode postular a existência de um signo n-L. Para todos os
efeitos, portanto, essa verdade nunca é alcançada.
Chega-se a essa conclusão por via da noção de que
um signo representa seu objeto em algum aspecto ou
capacidade, o que quer dizer que o signo revela algum
aspecto do objeto em seu interpretante. Dizendo isso de
outra maneira, o interpretante se refere do mesmo modo
que o signo àquilo ao qual o signo se refere. Essa formulação
aparentemente exclui a possibilidade de erro, de vez que
o interpretante não pode mudar sua referência. Em outras
palavras, não pode haver interpretante errado (em inglês,
misinterpretani). Entretanto, pode haver erro de interpretação
por parte do intérprete (em inglês, misinterpretation).
A existência de erro de interpretação pode ser
examinada de três modos:
a) qualquer signo é necessariamente índetermínado e
vago até certo ponto (v. Lógica do vago);
b) essa indeterminação pode conduzir a erro relativo
ao interpretantefinal Cv), mas não ao interpretante
imediato (v.);
c) quando se fala enl tendência, não se está pensando
enl tendências rígidas (do tipo se A, então B).
Tender para algo significa, semio.icamente, tender
na direção geral desse algo (corno um zigue-zague, e não
urna linha reta, por assim dizer). Essa tendência real é o
que se entende por teleologia em semiótica, isto é, a semíose
seria um processo télico nesse sentido da completude da
representação.
22
1, 2, 3 da SelTliót:ica

A relação entre erro e acerto fica mais clara no


seguinte trecho de Peirce:

o seguinte tipo de argumento produziria, no final (a partir


de premissas verdadeiras), uma conclusão verdadeira dois
terços das vezes:
A é tirado aleatoriamente dos B;
2/3 dos B são C;
Logo, A é C.
(Wrítings, II: 99)

Dar uma margem de 1/3 de erros não invalida o fato


de que, a longo prazo, os interpretantes inadequados são
correlativos ao objeto, isto é, o erro é correlativo ao acerto.
A expressão a longo prazo significa que o erro só pode
ser identificado em termos do interpretante final, e não do
interpretante imediato,
Na leitura de uma narrativa de ficção, por exemplo, o
leitor estabelece uma hipótese acerca da natureza de um
personagem baseado em algo que o personagem tenha
feito (v. abdução). A ação do personagem é um signo e a
hipótese do leitor é um interpretante dinâmico desse signo.
Quando a hipótese é formulada, deve ter havido uma forte
evidência conduciva a ela, isto é, ela é uma hipótese correta
nesse momento. Entretanto, ao final da leitura, o leitor
pode verificar que essa hipótese não se encaixa no quadro
geral das possibilidades para aquele personagem. Somente
agora pode-se identificar o erro, embora, em um certo
sentido, esse erro tenha contribuído para o "acerto" final.
Percebe-se que essa visão do erro não é diádica, pois
ele não se situa, à maneira estruturalista, na extremidade
oposta ao acerto. Ao contrário, o erro é correlativo ao
acerto. De uma certa maneira, portanto, o erro é um
interpretante do acerto e vice-versa, dentro de uma semiose
acerca de outra serniose ou, em termos mais correntes,
dentro de uma meta-semíose.

23
.Júlio Pint:o

íCONE

REPRESENTÂMEN Primeiro termo da segunda tricotomia (v.) dos signos


(v.), o ícone é caracterizado por Peirce, em uma de suas
IMAGEM SEMELHANÇA
muitas definições, c.2-I!!Q_~ÇLl},~!~_~igD·_<:)qu~~~,"<ieterlnj1)~S!O
CONVENÇÃO por seu objeto (v.) por compartilhar das características dele.
Confira as seguintes definições: ---------.---------------
SÍMBOLO

SLjEITO Um ícone é um signo que se refere ao objeto que ele


denota simplesmente em virtude de caracteres dele [o signo]
mesmo, e que ele possui independentemente da existência
do objeto ou não. (CP 2.247)

Um ícone é um Representâmen cuja Qualidade


Representativa é uma primeiridade dele enquanto Primeiro.
Isto é, uma qualidade que ele tem qua coisa torna-o capaz
de ser um representâmen. Assim, qualquer coisa pode
substituir algo com que se pareça. (CP 2.276)

Percebe-se que o princípio básico é o de uma relação


analógica que não envolva uma comparação de dois
termos, tanto que, inicialmente, o nome dado por Peirce a
essa função sígnica foi o de likeness Csemelhança'). Na
verdade, con1partilhar das características do objeto significa
ter con1 ele algun1a sin1ilaridade, de vez que o signo não
pode estabelecer uma relação diádica com o objeto, sob
pena de desfocar sua primeiridade (v~fe~onseqÜentemen­
te, tornar menos perceptível sua identidade corno ícone.
Essa semelhança com o objeto, contudo, não é
necessariamente especular, corno numa fotografia, embora
possa sê-lo. É suficiente que o signo con1partilhe de un1a
única propriedade n10nádica con1 o objeto, un1 traço,J2_~~él
que possa ser visto pelo sujeito como ícone daquele objeto.
De qualquer maneira, existe--na-IdeniTd-adedü-Tconeuma
relação de analogia, qualquer que seja ela, fazendo de
qualquer imagem, (visual, auditiva, olfativa, etc.) um ícone
em potencial que depende, para su., atualização, da
interferência do sujeito.
Con10 diz Peirce, no CP 2.276, urn signo por
Primeiridade é uma imagem de seu objeto e uma imagem
só pode ser uma idéia. A função sígnica do ícone é,_assim,
a de exibir en1 si traços 0e. seu obiet.Q.-1!~_!'~..~!?-~~_I11ente.
24
1, 2, 3 da SelTliót:ica

Por isso, uma de suas Importantes características é a de


que, através da observação direta dos ícones, podem ser
descobertas outras verdades acerca de seu objeto, além dos
traços que bastaram para a sua identificação, isto é, o í<:on~
é responsável pela revelação de inierpretantes (v.)
inesperados (cf. CP 2.279). Vale dizer que, assim como o
rema (v.), o ícone é aquele signo do qual se deriva a
informação, ao contrário do dicissigno (v.), aquela função
sígnica que veicula a informação.
Os processos icônicos se fundamentam na forma, seja
ela concreta (o mapa de unl território, por exemplo) ou
abstrata (duas idéias diferentes, porém análogas, podem
perfeitamente ser vistas corno icônicas uma da outra). É
possível, também, dizer-se de uma análise estrutural - e a
referência aqui é ao movimento intelectual conhecido como
Estruturalismo - queela t~l!q~_'p_~~_~__!çs>_nicidade, na nledida
em que busca ísomorfismos definidores de certos elernentos
_o
conlO pertencentes a unla dad~_~~tr~_~~~-. ---'~-_'~"-'_.-._", 00 -

Os formalismos, de maneira geral, também seriam


processos icônicos, e é por isso que Peirce pensa a
Matemática como urna disciplina que tende para a
primeiridade por, em última análise, basear-se na noção de
semelhança. A Álgebra, por exemplo, se ocupa de relações
isomórficas entre quantidades definidas abstratarnente
através de incógnitas (que, em si mesmas, não são ícones
porque constituem estipulações feitas a priori). O nlesnlo
pode ser dito do discurso poético, na medida em que ele
tende para a imagem.
Naturalmente, dado ofato de o ícone ser signo e, portanto,
estar inscrito ab initio na terceiridade (v.), .?_~~.ª,pri.ll!~irid~c.I.~~
definida nlediante sua relaçã~ CO!l1 os?utros dois~ignos da
o
o

tricotomia, o índice (v·.)·-e' ,Ç{11zbeJlo év.)~·\Tal-;;;-'dize~·q~e, a


rigor, não existe ícone pllfo-e-n1efhor- seria falar de signo
icônico, de vez que, preso à terceiridade, o ícone sofre o
controle do simbólico. Assim, mesmo a nossa percepção
sensorial e, os interpretantes que produzimos a partir dela
estão "contaminados" com as implicações convencionais,
habituais, ideológicas e regularizadoras, presentes no signo (v.
degenerescência). Isso não quer dizer, contudo, que não se
possa caracterizar um determinado discurso, o poético, por
exemplo, corno tendente para o icônico, na medida em que
busca ~,.e~e~~o.em vez da intensão lógica do vago).
Lv
25
.Júlio Pint:o

I/MGtM

SEMElliANÇA A idéia de imagem está ligada ao conceito de ícone (v.).


Peirce diz, no CP 2.276, que um ícone é um representâmen
FUNDAMENTO
(v.) "cuja qualidade representativa é uma sua Primeiridade
REPRESENTÂMEN (v.) corno primeiro". E mais, "um signo por primeiridade é
uma imagem de seu objeto" e "só pode ser uma idéia, pois
SIMUACRO
deve produzir uma idéia interpretante (v.)", Num parágrafo
subseqüente (2.280), ele fala de mimetismo conlO sendo urna
das propriedades do ícone. A imagem, concluir-se-ia então,
tem um caráter inegável de semelhança.
Baseia-.se nessa constatação - feita a partir de outras
bases teóricas, mas essencialmente a mesma idéia - uma
certa maneira ingênua de se pensar a mímese, a representação
de uma "realidade". Em outras palavras, uma imagem mimetiza
seu objeto e o propõe através de si mesma, Esse seria um
simples processo referencial, isto é, o signo apontando para
um referente, que consiste na apresentação de algo como se
fosse aquilo que é. Na relação imagem/objcto, portanto,
privilegia-se a identificação da qualidade material do ícone
(seu fundamento) com a do objeto. Nesse tipo de relação, o
objeto é o referente constante.
Assim, o tratamento tradicional da imagem (e pensa-se
aqui não apenas a imagem visual, mas também a poética, a
acústica e outras) baseia-se na tentativa de se alcançar o algo
que é, através da estratégia de chamar o como se (i.e., o
signo) de é (i.e., objeto) desprezando, em certo sentido, o
veículo, o como se, a fim de se concentrar na busca daquilo
que se supõe que o como se representa. Esse seria o
fundamento da postura estética conhecida corno realismo (cf.
PINTO, 1992:10;1993:138-139).
Há, entretanto, uma outra maneira de se pensar o signo
imagético que pode levar a urna concepção menos trivial de
mímese. Um signo representa, mas é, também ele, um objeto
(essa é uma implicação direta do processo da semiose lv.l).
Dito de outra maneira, um signo é uma entidade, um isso e,
portanto, uma id-entidade. Ao se mostrar, o signo tanto pode
exibir seu objeto (e, assim, ser ícone) ou exibir-se a si mesmo,
obscurecendo seu objeto (mostrando-se, nesse caso, corno unl
qualissigno lv.D.

26
1, 2, 3 da SelTliót:ica

Ao exibir seu caráter de primeira, de signo (todo signo


é um primeiro dentro da relação de representação), a
imagem como que se absolutiza. Ao eclipsar o objeto, a
imagem emerge como unl como se, quer dizer, ela aparece
como se fosse um como se, não-como se fosse um algo
que é. O ser da coisa desaparece, substituído pela imagem,
o artifício se torna o objeto, e a ordem de coisas a que se
costuma chamar de realidade perde seus contornos para se
tornar, ela mesma, signo (cf.PINT0,1993:14ü-141).
Estabelece-se, dessa maneira, o estatuto do simulacro:
realiza-se a representação, em vez de representar-se a
realidade. Isso faz com que a representação seja urna
profusão de signos dissociados de seus objetos "reais", num
tipo de relação representacional que não se ancora em
arranjos simbólicos, para além daqueles produzidos por e
para suas próprias necessidades internas.
Não se pode, portanto, pensar a imagem somente
como representação do objeto (de resto, não se pode fazer
isso com signo algum). Considerar a imagem desse único
ponto de vista é sucumbir a uma forma sutil de estruturalismo
binário, a do signum/signatum. Pensar a imagem ímagis-
ticamente, contudo, é vê-la não apenas corno um primeiro
do terceiro, mas também corno um primeiro do primeiro, e
percebê-la como a qualidade (Dmaterial da relação repre-
sentacional, que faz com que o objeto seja (des)conhecido.

27
.Júlio Pint:o

íNDlCf

FORÇA Segundo termo da segunda tricotomia (v.) dos signos


BRuTA (v.), o índice se define, em contraposição ao ícone (v.),
RElAçÃO como aquela função sígnica que, em vez de exibir em si
EXISTENCIAL traços do objeto (característica do ícone) aponta para fora
de si na direção do objeto (v.):
PROPOSIÇÃO

Um índice é um signo que se refere ao Objeto que ele


'denota em virtude de ser realmente afetado por aquele
objeto... Na medida em que o índice é afetado pelo Objeto,
ele necessariamente tem alguma Qualidade em comum
com o Objeto e é com respeito a essa qualidade que ele
se refere ao objeto. (Cp 2.248)

Ser afetado por um objeto seria o que Peirce chama


de estar numa relação de força bruta. O primordial no
índice não é, portanto, a analogia. Para ser índice, na
verdade, basta que o signo esteja numa relação diádica -
de dois termos - com seu objeto (quer dizer, uma relação
existencial) independentemente da natureza dessa relação
(que pode ser de contraste, ação e reação, causa e efeito,
contigüidade, etc.). Em outras palavras, o índice é a instância
da secundidade (v.) dentro da tricotornía que também é
segunda (a dos signos definidos de acordo com sua relação
com o objeto, sern qualquer preocupação com o interpretante
que virá a ser gerado nessa mesma relação).
Dessa forma, qualquer proposição do tipo "Se A, então
B" é indiciaI. Os ch ama d o s "signos naturais" são
freqüentemente arrolados como exemplos de índices: nuvem
(signo de chuva), pegadas (signo da passagem de alguém),
o barulho de um tiro de revólver (como signo do tiro) e
assim por diante. A semiologia médica é indiciaI, na medida
em que lida com sintomas. Na linguagem, os demonstrativos,
os pronomes pessoais, os nomes próprios, os advérbios de
tempo e lugar são também considerados índices, mesmo
sendo obviamente convencionais, de vez que, no contexto
da linguagem, eles diferem das onomatopéias (signos verbais
icônicos) e dos substantivos comuns (sínlb%s, lv.l).

28
1, 2, 3 da Semiót:ica

INTERPRETANTE

Na estrutura indissoluvelmente triádica do signo (v.), o SLJEITO (INTÉRPRETE)


interpretante é aquele termo que se produz da relação do
SEMIOSE
signo com seu objeto (v.). A palavra interpretante não deve
ser confundida com intérprete, nem com interpretação (isto CORRELATO/RELATO
é, o processo de interpretar). Entende-se o interpretante corno
VERDADE
um conteúdo objetivo que se depreende da referência que
o signo faz a seu objeto e somente nesse sentido pode ser
visto corno uma interpretação (assim como na pergunta: "Qual
é a sua interpretação desses fatos?"). Ou, alternativa e
complementarmente, pode-se ver o interpretante conlo algo
que se aduz do signo, urna espécie de conclusão lato senst i de
um raciocínio silogístico em que o signo e o objeto seriam
premissas. Em um certo sentido, portanto, a relação de
representação é dialética.
Dentro da relação de representação, o interpretante é o
terceiro termo, a terceiridadetv), em comparação conl o objeto
- o correlato a que o signo se refere, quer dizer, uma
secundidade (v.) - e o próprio signo enl si, uma abstração
pura, uma primeiridade (v.). O interpretante é um terceiro
porque, corno diz o próprio Peirce, "a ocasião de referência a
unl correlato é obviamente por comparação" ou, enl outras
palavras, o interpretante é "urna relação mediadora que
representa o relato [o signo] corno representação de um correlato
[o objeto] COnlO qual essa representação mediadora também
está em relação" (Writing...,~ 11:53).
Corno terceiro, o interpretante é o responsável pela
dinâmica da significação, na medida em que ele a enlpurra
para a frente, adfuturum, já que o relato por ele representado
pode também ser considerado seu correlato, fato que faz dele
um signo que produz um interpretante, e assim por diante.
Essa característica, a de ser mola mestra do processo da semiose
(v.), investe o interpretante com o traço distintivo da semiótica
de Peirce, tornando-a radicalmente diferente das teorias
puramente referenciais, assentadas na distinção apenas entre
signum e signatum, isto é, voltadas unicamente para a
retrospecção sobre a experiência. A noção de interpretante
torna possível a prospecção, a especulação e, ao mesmo tempo,
toma impossível qualquer fechamento em torno de verdades
unas e definitivas.
29
.Júlio Pint:o

INTERPRETANTE DINÂMICO

SEMIOSE o interpretante dinâmico é aquele escolhido pelo


intérprete dentre as possibilidades interpretativas que o signo
oferece em um determinado momento da semiose (v.). O
interpretante dinâmico é, assim, o responsável pelo
andamento da serníose (é dinâmico por ser o portador da
dunamos do sentido) e, ao contrário do objeto dinâmico
(v.), ele é o que realmente acontece, é o fator atual naquela
serniose. A escolha desse interpretante determina todo o
curso futuro da cadeia semíósíca, mesmo que, a longo prazo,
essa escolha se revele C0010 U01 erro (v. erro, interpretante
imediato, interpretante final).

3O
1, 2, 3 da SelTliót:ica

INTERPRETANTE fiNAL

Das caracterizações de ,Çíg110 (v.) depreende-se que, CAUSA FINAL


logicamente falando, qualquer signo está infinitamente
PREVISÃO
distante de seu objeto originário (o objeto dinâmico, lv.D e
também de seu último interpretante (v.). Entre o objeto, SEMIOSE

mesmo o imediato (v.) e qualquer de seus signos existe


TELEOLOGIA
sempre um signo n-I do qual o signo n é um interpretante.
Não faz sentido, portanto, entender-se o interpretante final
como o último de uma cadeia serniósica. O interpretante
final seria, então, urna antecipação do curso futuro da se-
míose, uma previsão de corno seria o interpretante imediato
(v.) nu m futuro ern que o signo cessasse de produzir
interpretantes.
Ele seria, assim, uma antecipação (feita no momento
da interpretação) de qual seria a gama completa de
possibilidades interpretativas de um dado signo. En1 outras
palavras, haveria un1a hipotética coincidência entre o
interpretante imediato e o final. Essa antecipação de um
estádio futuro da interpretabilidade de um signo é que
determina, em última análise, a escolha de um interpretante
dinâmico (v.) no momento da investigação. Esse, por sinal,
é um dos aspectos da noção de causalidade final, inscrita
no processo teleológico da serniose, de vez que é urna
causa futura a que vai determinar, até certo ponto, a escolha
de um interpretante num instante presente.
Un1 juiz, por exemplo, ao julgar urna questão obscura,
em que o texto legal é ambíguo (e textos legais são sempre
ambíguos), certamente terá corno motivação colateral (se
não central) a tentativa de firmar uma jurisprudência acerca
daquele assunto. Assim, sua decisão será tomada mediante
o que ele julga dever ser a interpretação do texto legal em
instâncias futuras daquele caso, apesar de essa decisão (seu
interpretante dinâmico) estar baseada em possibilidades
presentes reais Cisto é, no que ele pensa ser o interpretante
imediato do texto legal). É nesse sentido que se diz que a
escolha do interpretante dinâmico pode vir a determinar o
curso futuro da serníose (cf.RANSDELL, 1983b:41-44).

31
.Júlio Pint:o

INTERPRETANTE IMEDIATO

OPACIDADE O interpretante imediato (e a palavra imediato pode


ser entendida corno não-mediado) não é aquele que
SLjEITO
imediatamente sucede ao signo (v.) numa cadeia linear
ERRO (mesmo porque nenhuma cadeia serniósica pode ser
entendida corno linear sem perigo de supersimplificação).
Ao contrário, ele é concebido como o conjunto de interpre-
tantes dinâmicos (v.) possíveis de um dado signo, num
mesmo momento da semiose (v.). Vale dizer que o interpre-
tante imediato representa uma gan1a de possibilidades
interpretativas que um dado signo vai ter num certo
momento da serniose. Ele é uma conseqüência da opacidade
do signo, isto é, do fato de nenhum signo ser transparente
em termos de significado. Ele sempre pode produzir esse
ou aquele interpretante, dependendo do contexto, do sujeito
interpretador e de outras variáveis (ver também erro).

32
1, 2, 3 da SeRliót:ica

LEGISSIGNO

Terceiro elemento da primeira tricotomia (v.) dos RÉPLICA


signos - aquela que se refere a uma entidade como signo,
LEI
na medida em que o olhar recai na sua identidade como
signo - , o legissigno se define por seu caráter abstrato.
Peirce diz ser ele uma lei geral e com isso deve-se entender
que o legissigno é capaz de gerar um ordenamento triádico,
já que lei, em semiótica, refere-se, na maioria das vezes, à
própria idéia de representação. O legissigno se manifesta
através de seus sinsignos (v.) ou réplicas (v.) cuja aparição
remete a unla abstração reguladora do sentido das diversas
manifestações singulares.
Em outras palavras, o legissigno "não é um objeto
singular, porém um tipo geral que, tenl-se concordado, será
significante" (PEIRCE, 1977:52). Quer dizer, urna réplica,
em si, não é significante, de vez que ela constitui urna
singularidade. Ela só significa na medida ern que se insere
num legissigno que lhe empresta significação.
Assim, certas configurações formais, digamos, os
desenhos a e A, aparecem numa página um certo número
de vezes. Cada vez que elas aparecem constitui uma réplica
(ou um sinsigno) em si destituída de sentido. Seu significado
só se dá quando cada manifestação desses desenhos é
associada a urna abstração (a idéia da letra A), que permite
reconhecer neles uma determinada letra do alfabeto. O
conceito de A é, portanto, um legissigno.

33
.Júlio Pint:o

lÓGICA DO VAGO

ERRO Peirce, um dos primeiros lógicos a se preocupar com


a manifestação do vago, do impreciso e do não-delimitado,
EXTENSÃO
trabalha com questões relativas principalmente à
INTENSÃO indeterminação dos simbolos (v .). Esses problemas seriam,
INDETERMINAÇÃO
mais tarde, reabordados e desenvolvidos por, entre outros,
Russell, Frege (que fala da "maciez e mutabilidade da
OPACIDADE língua") e pela filosofia analítica (que traduz a questão do
vago em termos de intensão e extensão). Todos esses
esforços tênl sido na direção da satisfação da necessidad~-
p-eirce-;-

~
de uma teoria exata da inexatidão e, conl exceção de
todos os que tênl trabaffiadü-nessã-âreafuZênl::no-con1base
.nos dados das línguas naturais, isto é, pensando a jnexatidão
enl ternlOS puranlente lingüísticos (cf.FREGE, 1978).
Em um certo sentido, todos esses esforços posteriores
constituem urna regressão, e não um avanço, em termos do
trabalho de Peirce. Para ele, essa lógica do vago é urna
teoria geral da relação 'enúe" -õdetemlinãd~e"oindetern1i =--
~~~-ª2~t~C~~~i~~~1~_~.~.~ 9~9·.·n9.p~~satii~~~~-~~-~~·<?~~~PE9~~~~"
cornunicacionais e significativos, independentemente de sua
nlanifestãçãü Ti~giiístiêa.' -Pa·~ã Peirce;~) pensarésemiótíco.
Nãü--se pode pensar senl signos (cf. PEIRCE, 1977:241 et
seq.). -
Ora, o signo é, ele mesmo , indeterminado, e sua
indefinição e vagueza se derivam:
a) çl~_§J:.~-ª._I~lª~ com o objeto (v.), enl cujo caso
tem-se o que Peirce chama de breadth (amplitude,
significado, referência);
b) de sua relação com o interpretante (v.), quando se
tenl a indefinição e m termo s de deptb
(profundidade, sentido, significância).
Em outras palavras, o signo é sempre parcialmente
opaco (signo algum consegue dar conta exata de seu objeto
e, assim, produzir um interpretante que o explique
fielmente), e é opaco tanto enl termos do que ele cobre
quanto do que ele delimita. A noção da indeterminabilidade
do signo está implicada nas caracterizações da relação de
representação (um signo representa unl objeto em algum
~_~!~) e nos conceitos de sen1Í(;se(;)ê-·êrr()· ·(v~).---- -·--

34
1, 2, 3 da Se.,., iót:ica

Corno as noções de deptb e breadth são muito


semelhantes às de intensão e extensão, respectivamente,
preferimos usar essas últimas para traduzir as duas primeiras.
En1termos simples, e para usar uma analogia com vocábulos
que não fazem parte do corpus teórico de Peirce, a extensão
está para o sintagma, a intensão para o paradigrna. Isso
quer dizerqu~no'-tõcante 'aosenti<:lo, a-Tntensão'é mais
definida, apesar de mais geral, enquanto que a extensão,
ao se apoiar no singular, é mais vaga.
Dito de outra forma, centrando-se a discussão na
segunda tricotomia (v.) do signo, o caminho do símbolo
para o ícone Cv.) faz-se na direção da-e~te-nsãô-.--6-"cãnlfnho·
inverso, do ícone para õ- sín1boiO:-ganha-e-n1 definição e
perde en1 singularidade, o que equivale a dizer que o
símbolo, com sua dimensão de lei, tem um caráter mais
geral, se bem que mais definidor. O sín1bolo, un1 non1e,
por exemplo, é um paradigma generalizador, do qual todos
õs-ínCITces"Casrépfíc'as-'particuTares) são'-instâncias" e
podem
receber o n1esn10 non1e gerãI:ap-esar--ae'suas-cãraêiefisÜca~.
individuais. Assim, uma gameleíra, un1a mangueira, urna
laranjeira, podem todas receber o nome genérico árvore, ~
que circunscreve o interpretante em contraposição àquilo
que árvore não é.
O ícone, ao contrário, é muito mais vago em sua
singularidade (e é também por isso que se pode dizer que
outras verdades acerca do objeto podem ser depreendidas
pelo exame de um seu ícone). Uma mesma fotografia, por
exe mpl o , pode incitar as ma is diversas reações e
interpretantes diferentes por parte de observadores
diferentes. Pode-se dizer, as~lE!!, que.~l~J~<2!:l~.§:t:I_g~~~_I"!~l~i!º
1!~~}~~<1~d iZ'-~..!~__~_L_.~p_~~s,er:t a .l~l1~ _~(),flJt.~.!1 to ..de.
possibilidades interpretativas - um interpretante imediato
év)-=--IllüTtOmarorqué-osín1J;:>o~o.]~.J?S?~ess_~azão que _~~~
alínha o ícone na categoria (v.)daprinzeirida4e. çV.),que é
~}Í1~~~cia do v!!!~aIL~?_P2~~~fl~~i~-d9-(I1dizí;ei.~-- ." . .
Daí se dizer que o símbolo se adequa perfeitamente
ao discurso dito denotativo, ao discurso da história, ao dizer
da ciência, à fala acadêmica, enquanto que o signo icânico
t~.~_se~s don1ínjos nO_~.~~~~_r.~9_Eg_é_ti~Q,_11~_i1!1.~g~n1~ .nas
artes.
Peirce, portanto, pensa a vagueza do ponto de vista
qa representação Cenão daquilo que é representado). Con10
ele próprio diz no CP 4.505, ~lL1}1.,._~1E!lQ_~_Q!?i~!1Y-ª!11~11t.~
35
.Júlio Pint:o

yago na nledida enl que, ao deixar sua interpretação mais


Q.!-l-!l!~gºs i~d~~~~!!"!!rl-ªg~,.~J~ r.~~~.~.Q~-!:.a algup10utrü-'sigrió
ou experiência possível a função _~. __s.om~ a
determinação". Nessa concepção semiótica da indefinição
"0-;ago é parte implíclra de qualquer proc~sso sígnico e a
ce>nscIêncÍ€ldclêfazpaite---crã-con'sciência-senl-iótica),--C;
fen'ôn1enoda vagueza é universare-ãfeiã-ã-ióglcãCiã- não-
contradição (NADIN, 1980:354). Dessa maneira, não há
lógica sen1 contradiçã<::>, .e o erro deve. ser corfela'ti~-'e
neceSSãrio. Ape-nas'-êssa cõnstatação'bastari~-para '--af;-~ta~
Peirce do -grupo dos pensadores positivistas.

36
1 2 3 da SeRliót:ica

OBJfTO

De acordo com o que se entende por signo (v.), o COISA


objeto é aquilo que é denotado por uma representação. No
PREVISÃO
CP 2.230, Peirce afirma que usa o termo signo para denotar
um objeto perceptível, ou apenas imaginável, ou ainda OBJETNIDADE
inimaginável em algum sentido e dá como exemplo a
REFERENTE
palavra inglesa fast ('rápido', 'imóvel' ou 'jejum'). Diz ele
que essa palavra, que é um signo, não é imaginável porque SUBJETIVIDADE

não é a palavra em si que se escreve ou se fala, mas


apenas urna instância dela. Além disso, é a mesma palavra
quando se escreve ou se fala, mas é um vocábulo diferente
quando significa rápido, um outro quando significa imóvel,
e um outro ainda quando se refere a jejum. Ternos aqui
um caso de um único signo, em si não imaginável, que
pode se referir a mais de um objeto.
Entretanto, para que algo seja visto como signo, ele
deve representar pelo menos urna outra entidade, seu objeto.
Vê-se, com isso, que um objeto é um referente, algo ao
qual algo se refere. En1 outras palavras, um objeto não é
uma coisa, e essa distinção entre coisa e objeto é funda-
mental em semiótica.
Acredita-se que podemos ter com as coisas urna
relação direta e o argumento é conhecido: não é senão por
isso que, ao chutarmos urna pedra, sentimos dor. E, crê-se,
essa dor é tão verdadeira quanto a visão de um fato
presenciado ou a percepção de um pensamento pensado.
Entretanto, existe uma diferença entre a dor ainda não sentida
e aquela já experimentada. A dor ainda não sentida pode
mais ou menos ser prevista com base na experiência
prévia, da qual já existe um registro que, diga-se de
passagem, não é perfeito ou, em outras palavras, não é
inteiramente verdadeiro, pela mesma razão porque não é
possível a ninguém lembrar-se com perfeita exatidão do
rosto de urna pessoa, mesmo que essa pessoa seja muito
familiar (v. Lógica do vago).
Logo, há uma diferença entre aquilo que não se
conhece e aquilo que se conhece, e a diferença está no
(não-)conhecimento delas. O que se conhece é um objeto,
o que não se conhece é urna coisa. Em outras palavras,
aquela coisa que passa para a esfera do conhecimento -
37
.Júlio Pint:o

ou mesmo algo inventado - torna-se objeto daquele


conhecimento. A coisa é um existente, conhecido ou não,
e o objeto é um conhecido, existente ou não. Há, portanto,
coisas que são apenas coisas , coisas que são objetos , e
também objetos que não são coisas (um mito, um unicórnio
e os interpretantes de urna obra de ficção, por exemplo,
são objetos não-coisas).
Para que se conheça algo, é necessano que haja
representação , isto é, para que haja objetos é preciso haver
signos. Qualquer relação com qualquer objeto é já uma
relação sígnica, e o próprio signo já é um objeto. Ao se
ocupar dos signos, a semiótica ocupa-se do objeto, e nisso
está sua objetividade. Essa visão é diametralmente oposta à
da ciência positivista que pretende ocupar-se das coisas ,
recusando-se a admitir que o trânsito no mundo das coisas
- a percepção (= conhecimento) delas - é forçosamente
medíado por relações ontológicas puras às quais se dá o
nonle de signos. Dessa maneira, o que o positivista chama
de subjetivo é a única objetividade possível.
Em outras palavras, a concepção semi ótica do termo
objeto não é de todo diferente do que se entende por
objeto em gram ática . Diz-se do objeto (direto ou indireto)
de um verbo assim como do objeto de um signo.

38
1 2 3 da SelTliót:ica

OBJfTO DINÂMICO

Pensa-se o objeto dinâmico, em contraposição ao objeto ORIGEM


imediato (v.), corno o objeto originador de uma dada semiose
REMEMORAÇÃO
(v.), isto é, aquele objeto ao qual todos os signos de urna
determinada cadeia ultimamente se referem, Entretanto, essa SEMIOSE

é uma mera virtualidade porque, mediante a noção da in-


finitude da semiose (v.), o processo de geração de sentidos,
derivada da concepção triádica do signo (v.) e, principal-
mente, do interpretante (v.), conclui-se que entre o signo e
seu objeto pode sempre haver um outro objetointermediário
e que a cadeia semiósica é infinita em ambos os sentidos.
A serniose seria, então, na medida em que o objeto tende a
se revelar através de seus signos, a busca contínua da futura
restauração desse objeto. Nesse sentido, conclui-se que
um processo de rememoração não seria urna busca feita no
passado, mas urna construção que se faz na direção do
futuro.
Isso significa que o objeto original é, em princípio,
inalcançável, tanto em termos de referência (num movimento
arqueológico, voltado para o passado mas que, estranha-
mente, consegue apenas se dirigir para futuros interpretantes
que reflitam esse objeto passado), quanto em termos de
significação propriamente dita (em que o esforço seria
principalmente especulativo). A noção de origem em
semiótica é, portanto, vazia, quando por origem quer-se
dizer a coisa que gerou, o grande objeto originador. Pode-
se, quando muito, falar em objeto originário, delimitado
pragmaticamente em termos dos objetivos de pesquisa.

39
.Júlio Pint:o

OBJfTO IMEDIATO

REFERENTE o objeto Imediato, em contraposição ao objeto


dinâmico (v.) e analogamente ao interpretante dinâmico
(v.), é aquele visto como referente do signo (v.) e do
interpretante (v.) na relação de representação. É, por isso,
o objeto (v.) imed iatamc ntc disponível quando do
estabelecimento da referência de um signo. Assim, cm
termos de praxis semiótica, sempre que se fala em objeto
de um signo, quer-se dizer, simplificadamente, objeto
imediato, a menos que uma referência específica seja feita
ao objeto dinâmico.

4O
1 2 3 da SeRliót:ica

PRIMtlRIDADf

Primeiridade é o nome dado por Peirce para a prín1eíra


das três categorias (v.) da experiência. Ela pode ser
SENSAÇÃO
caracterizada como relativa àquelas propriedades do
fenômeno que podem ser descritas por meio de predicados PREDICADO MONÁDICO

mo nádicos, contanto que essas propriedades sejam


observadas numa entidade considerada em si mesma, senl
nenhuma relação conl qualquer outra entidade. A forma
lingüística de um predicado monádico seria algo como "X é
verde".
Essa forma, na verdade, não é muito adequada, pois
pode levar a pelo menos duas significações. Se, ao se dizer
"X é verde", está-se atribuindo a X simplesmente uma
qualidade, senl qualquer referência implícita a uma outra
coisa, então "X é verde" é um predicado rnonádico. Se, no
entanto, estiver implícita na frase uma referência a algo
que, e m contrapartida, não é verde, haveria urna
contraposição a outro algo, e a frase não estaria inserida no
que se entende por primeiridade.
Em outras palavras, os aspectos fenomenais puramente
qualitativos estariam nessa categoria (que Peirce inicialmente
denominava qualidade). Em termos lógicos, uma proposição
rnonádica tem sempre um termo que expressa a substância
(o sujeito), um termo que expressa a qualidade da substância
(o predicado) e a cópula, que une a substância e sua
qualidade. Assim, Peirce conclui que "a qualidade, C..) em
seu sentido mais amplo, é a primeira concepção, seguindo-
se a ordem que surge ao se passar do ser para a substância"
(Writing,~ 11:52).
A primeiridade refere-se, assim, a urna abstração
pura. Na proposição "X é verde", o termo verde remete
a "verdeza", pois dizer que "Há verdeza em X" é o
mesmo que dizer que "X é verde". A abstraçào pura é
pré-reflexiva, mais ou menos como um sentimento. Assim,
a prirneiridade é também a categoria da sensação ou do
sentimento, entendidos corno pré-reflexivos, isto é,
anteriores a urna consciência deles. De acordo com Peirce,
a prirneiridade é
41
.Júlio Pint:o

uma instância daquele tipo de consciência que não envolve


qualquer análise, comparação ou processo análogo, nem
consiste, no todo ou em parte, em qualquer ato pelo qual
uma porção da consciência é distinguida de outra. (CP
1.306)

Isso equivale a dizer que, sendo a categoria do pré-


reflexivo, a prirneiridade foge de nosso alcance pois, no
momento cm que ela atinge nossa consciência, através de
reflexão ou reconhecimento, ela deixa de ser primeira. Pode-
se também pensar nela corno uma possibilidade (no sentido
de uma qualidade ainda não atualizada ou realizada, isto é,
uma abstração pura), um potencial ou algo imediato (no
sentido de não-mediado, sem qualquer mediação). O
sentimento, então, deve ser entendido aqui corno algo
experimentado de maneira completamente ingênua e não-
elaborada.
Isso faz da primeiridade a categoria do Ser, do indizível,
do que não se descreve, do intangível, porque o primeiro
é aquilo que está mais próximo, enl termos de signo (v.),
do objeto (v.) ao qual o signo se refere. Em outras palavras,
o primeiro é aquilo que está mais próximo do continuum
no qual o signo vai inscrever sua diferença. Portanto, o
interpretante (v.) desse signo será o mais amplo possível
e, conseqüentemente, será aquele que menos diz .
Por essa razão, associa-se a primeiridade à noção de
eu, em oposição ao ele (um segundo) e tu (um terceiro) e,
e m termos te m po ra is , à idéia de presente, e m
contradistinção ao passado (um segundo) e ao futuro (um
terceiro).

42
1 2 3 da SelTliót:ica

QUAlISSIGNO

Primeiro elemento da primeira tricotomia (v.) dos QUAUDADE


signos, aquela que pensa o signo em si, sem considerar a
RÉPLICA
relação entre o signo, o objeto e o interpretante, o qualissigno Fi
constitui a primeiridade em relação ao sinsigno (v.) e ao ............

legissigno (v.), que se alinham com a secundidade e a


terceiridade, respectivamente. O qualissigno é puramente
o caráter formal do signo, o diferencial que estabelece
distinções e identidades entre os sinsignos de um mesmo
legissigno. Peirce assim o define:

Um Qualissigno é uma qualidade que é um Signo. Não


pode realmente atuar como signo até que se corporifique;
mas esta corporificação nada tem a ver com seu caráter
como signo. (PEIRCE, 1977:52)

O qualissigno não pode atuar corno signo em virtude


de seu caráter de primeiro, de virtualidade, de algo ainda
não atualizado. Entretanto, ele é um primeiro dentro de
urna relação em si já da ordem da terceiridade (a relação
sígnica). Por isso, o seu caráter corno signo não necessita,
para ser experimentado, do que Peirce chama de corpori-
ficação.
O qualissigno seria um fator determinante, por
exemplo, na verificação da relação de identidade de cópias
ou réplicas com um determinado original. Diversas
reproduções de um quadro qualquer são identificáveis corno
reproduções daquele quadro, em virtude da presença nelas
de qualissignos semelhantes aos do quadro. Ao contrário, a
identificação de urna falsificação de um quadro dar-se-ia
pela presença de qualissignos em um que não se manifestam
no outro.

43
.Júlio Pint:o

REMA

FuNÇÃO Primeiro elemento da terceira tricotomia (v.) dos


PROPOSICIONAL signos, a tríade que se refere aos modos de relação do
INDETERMINAÇÃO
signo con1 seu objeto, de maneira a produzir um inter-
pretante (em outras palavras, a tríade que lida com a
significação do signo propriamente dita), o rema seria
caracterizado corno aquele signo cujo interpretante tem uma
existência sabida, mas cujo sentido é obscuro. En1 outras
palavras, um rema é urna função proposicional, em que os
termos seriam incógnitas. Peirce pensa o rema corno aquele
signo que não é nen1 verdadeiro, nem falso: algo que seria
urna proposição, se não lhe faltasse pelo menos um dos
elementos que deveriam estar presentes para que sua
significação pudesse ser avaliada em termos de falso e
verdadeiro (cf. RANSDELL, 1983a:59).
Um rema é, portanto, um signo cujo interpretante não
é Iimitado naquilo ao qual ele pode se referir corno objeto,
isto é, é um signo aberto e indeterminado, no sentido de
que seu interpretante contém pelo menos uma variável
livre, ass ím corno x ama y. Tem-se aí a idéia de urna relação
entre um sujeito e um objeto, tal que o sujeito ama o objeto,
mas não se sabe cxatamentc a que ou a quem tal proposição
se refere. A ilusão de referencialidade seria muito maior se
o signo fosse Maria ama João, que seria um dicissigno
(v.), aquele signo capaz de afirmar algo.

44
1 2 3 da SeRliót:ica

..

RÉPLICA ...
...

...
Uma réplica é urna manifestação singular de urn ... LEGISSIGNO
legissigno (v.). O termo é usado alternativamente a sinsigno
(v.), podendo ser considerado seu sinónimo.

45
.Júlio Pint:o

RfPRfSfNTÂMEN

GENCINIDADE A palavra representâmen é , algumas vezes, usada


nos escritos de Peirce corno sinónima de signo (v.). Outras
SLJEITO
vezes, entretanto, parece haver urna sutil distinção entre os
INTERPRETANTE MENTAL dois conceitos. Assim, o CP 2.274 diz que "u m signo, ou
reprcsentâmen, é um primeiro ..." e , a partir dessa aparente
identificação, desenvolve um raciocínio acerca da noção
de genuinidade (v. degenerescência) . Todavia, mais adiante,
no mesmo parágrafo, Peirce afirma que "um signo é um
representârnen com um interpretante rnental" e que
"[p lo ssive lme n tc , poderá haver Representâmens que não
sejam signos" .
Para explicar a segunda parte dessa assertiva, Peirce
dá o seguinte exemplo:

Assim, se um girassol, ao virar-se na direç ào do sol, tornar-


se por esse mesmo ato inteiramente capaz, sem nenhuma
outra condição, de reproduzir um girassol que de um modo
exatamente correspondente se volte na direção do sol,
realizando isto com o mesmo poder reprodutor, o girassol
se transformaria num Representâmen do sol. Mas o
p ensamento é o principal, senão o único , modo de
representação. (CP 2.274)

Deve-se entender com isso que um representãmen é


um signo ainda não atualizado corno signo para um sujeito,
isto é , algo que já participa de uma relação de representação
sem, contudo, ter sido percebido corno signo. Em outras
palavras, o representãmen seria um signo enl potencial. O
importe dessa conclusão é que a significação está no signo
e não em quem o experimenta. O observador é aquele
capaz de extrair do signo algum tipo de interpretante, n ão
sendo capaz de nenhum ato criador de sentido.

46
1 2 3 da SelTliót:ica

....

SECUNDlDADE
..

...

.....
....
Secundidade é o nome dado por Peirce à segunda PREDICADO DIÁDICO
categoria (v.) da experiência, a categoria da ocorrência,
ACIDENTE
daquilo que se manifesta, da existência, em contraposição •••

à primeiridade (v.) que seria a categoria do Ser. Qualquer QCAUDADE


....
coisa é um segundo na medida em que existe, pois existir ..
REl.AÇÃO EXISTENCIAL
significa entrar enl relação com um outro. Em outras palavras, ..

para existir, algo deve ser um objeto para um sujeito, o que ....... CORRELATO

significa que algo é um segundo enquanto participante de FORÇA BRCTA


uma relação diádica. Tornamo-nos conscientes da qualidade
.
apenas ao contrastá-la ou compará-la com urna outra, ou,
... ..
para usar urna terminologia também empregada por Peirce,
....
apenas por referência a um correlato. . .....
Pode-se também dizer, com Zeman, e em termos
temporais, que:

As coisas segundas são existências singulares, tanto no


espaço quanto no tempo ... Enquanto a primeiridade é
essencialmente atemporal, a secundidade fornece os
pontos discretos e distintos pelos quais ordenamos a
seqüência temporal. (ZEMAN,1977:24)

Esse co me ntár io sublinha a incapacidade da


primeiridade de dizer da existência e da ocorrência, e mostra
que a noção de tempo apenas começa a ter fundamento a
partir da secundidade, não sendo, portanto, um a priori.
Entende-se também porque Peirce associa a secundidade à
noção de passado, isto é, o outro, o ele.
Urna for ma de representar a secundidade
Iingüístícamente é o uso de predicados diádicos, apesar de
a forma lingüística enl si mesma não ser inteiramente
adequada por poder implicitamente apontar para urn terceiro
termo. Assim, se se disser que "X bateu cm Y" conl o
intuito de significar que a colisão foi acidental e não
premeditada, tal corno o encontro de dois corpos celestes
no espaço, então esse predicado é diádico e representa
uma secundidade. Se, no entanto, estiver implícita na frase
a idéia de que "X bateu em Y com Z" ou "por causa de Z",
etc., a frase acrescenta unl elemento instrumental ou causal,
etc., e não mais caracteriza a secundidade. Os comentários

47
.Júlio Pint:o

acima ressaltam o caráter singular e acidental da


secundidade. Os signos segundos, portanto, não dizem da
regularidade, do hábito, do propósito ou da lei. Falam,
entretanto, de aç ão e reação, de resistência ao impacto, de
causa e efeito, de força bruta. Assim, enquanto o sentimento
não analisado estaria na primeiridade, o registro do
sentimento, a atenção a ele, seria um fato na secundidade,
porque implica por parte de quen1 o sente urna resistência
análoga à que urna parede oferece ao tato.

48
1 2 3 da SelTliót:ica

SfMIOSf

Conceito fundamental da semiótica de Peirce, CACSA FIl~AL


responsável pelo avanço que essa teoria propõe em relação ,
ERRO
às anteriores (todas baseadas na dicotomia signum/signatuni),
a semiose está intimamente ligada à noção de interpretante SIGNO
(v.). Por semiose entende-se, estritamente, a produção de
TELEOLOGIA
sentido, processo infinito pelo qual, através de sua relação
com o objeto (v.), o signo (v.) produz um interpretante que, VERDADE

por sua vez, é um signo que produz um interpretante e SCjEITO


assim por diante.
Os termos gera, produz, cria, determina, e
análogos, que aparecem nas caracterizações do signo,
índícarn esse caráter causal e lógico que marca a cadeia
semiósica. A semiose é comandada, em última análise, por
uma causa final, constituindo, assim, um processo télico, na
medida em que tende (sern nunca chegar) para urna
representação perfeita do objeto (o que poderia ser chamado
de verdade semiótica). Em outras palavras, haveria um
estádio "final" nessa cadeia em que o signo seria idêntico
ao objeto (tudo isso é dito no futuro do pretérito por ser
urna impossibilidade, corno vimos).
Vista nessa perspectiva, a serníose pode ser consi-
derada um processo quasi-cibernético, de vez que se um
signo determina que unl interpretante se refira ao objeto
da mesma maneira que ele, e se esse interpretante qua
signo determina que um interpretante posterior se refira ao
signo anterior corno seu objeto, há realmente urna tendência
de o objeto se revelar naqueles aspectos que seus signos
manifestam. Entretanto, dizer que um determinado processo
é cibernético implica a possibilidade de erro, já que
mecanismos cibernéticos são autocorretivos. Há aqui urna
aparente contradição: por definição, os signos não mentem
e, por definição, a serniose que os signos produzem pode
levar a erro. A saída lógica é a de que o erro não está no
interpretante, mas sim no que o sujeito interpretador
supõe ser o interpretante, pois qualquer signo pode
facilmente ser entendido corno signo de algo diferente
daquilo de que, naquele contexto, ele está sendo signo. (v.
erro).

49
.Júlio Pint:o

SIGNO

hNS RA710NIS A concepção peirceana de signo está assentada na


idéia de terceiridade (v.) e consiste num refinamento teórico
Ess REALE
do que poderíamos chamar de "definição de dicionário" ou
hNS RELA71VWvf conceito fundado no senso comum (qualquer coisa corno
"algo que está no lugar de [representa] outra coisa para al-
Sl:JEITO
guém").
11'~DETER!',,1I~.JAÇÀO
Há, nos escritos de Peirce, muitas caracterizações de
signo, e essa pluralidade se deve à tentativa de emprestar
generalidade a esse conceito, já que urna definição tende a
ser redutora. Duas das mais conhecidas são:

[Signo é] algo que representa algo para alguém em algum


aspecto ou capacidade. Dirige-se a alguém, isto é, cria na
mente dessa pessoa um signo equivalente, ou talvez mais
desenvolvido. A esse signo que ele cria dou o nome de
interpretante do primeiro signo. O signo representa algo,
seu objeto. (CP 2.228)

[Um signo é] qualquer coisa que determine que uma outra


coisa (seu interpretante) se refira a um objeto ao qual
ele mesmo se refere do mesmo modo, o interpretante se
tornando um signo, e assim por diante, ad infinitum. (CP
2.303)

Essas duas definições são fundamentais em mais de


um aspecto. En1 primeiro lugar, elas deixam claro que o
interpretante (v.) não é o intérprete, ao mostrar que o
interpretante é um signo que se refere ao objeto da mesma
forma que o signo do objeto. Urna outra implicação delas é
a de que o signo é ativo (e é esse o importe da frase cria
na mente dessa pessoa, na primeira caracterização, e do
verbo determinar, na segunda). O signo cria significação,
em vez de passivamente esperar que o sujeito o invista de
sentido. En1 outras palavras, o sujeito interpreta o signo à
sua maneira e gera nesse processo seus próprios interpre-
tantes, mas o signo não é vazio, e o sujeito não o preenche
através de um fiat divino.
Mesmo não sendo vazio, entretanto, o signo não é
urna entidade cuja produção de interpretantes se faz
univocamente, isto é, nunca se pode dizer com certeza que
5O
1 2 3 da SelTliót:ica

o signo tem aquele interpretante. Isso se deduz da expressão


em algum aspecto ou capacidade. Na verdade, basta um
traço que funcione corno ground ou fundamento, para que
o signo seja entendido corno signo de, o que quer dizer
que não há transparência de significação.
Além do mais, se qualquer coisa pode ser signo, então
nenhum signo é só signo, o que contradiz um certo tipo de
pensamento semíológico que insiste em pensar o signo corno
apenas signo, isto é, que coloca nele urna camisa de força
ontológica, a de Ser Signo (cf. RANSDELL, 1980:135-137).
A terceiridade do signo sugere ainda que ele constitui
um lugar-entre, um algo-entre. Ele é algo que circula, que
está num momento com alguém e é logo repassado para
outrem, não pertence a ninguém ou apenas pertence na
medida da duração de seu uso. É o instrumento da troca
cornunícacional: é, mais que um ser signo, um estar signo.
Essa noção de signo corno et1~r~l~l,g~T. sl~J:orr~ .de um
raciocínio desenvolvido ao longo dos'·s{clil;-s. Vem de Santo
Agostinho uma clássica definição de signo:

Um signo é algo que, ao ser percebido, traz à consciência


alguma coisa que não ele mesmo.CDe doctrina christiana,
apud DEELY, 1982:57)

Essa definição retrata o signo unicamente corno algo


perceptível pelos sentidos, não concedendo, portanto, à
noção de idéia o status de signo, mas é perfeitamente
compatível com o papel do conceito de signo ern sua
doutrina. Por isso, permaneceu, durante muitos séculos,
como o esteio do que poderia ser chamado xie teologia
sacramental, até pelo menos 1632, com a publicação de
um livro chamado Tractatus de Signis, do português João
Poinsot.
o prestígio dessa conceituação ele signo COI110 algo
necessariamente perceptível pelos sentidos manteve-se para
os estudiosos de lógica, mesmo com a influência que Boethius
paralelamente teve, com seu Comentário (510 A.D.) a
Aristóteles, no desenvolvimento da controvérsia sobre as
relações, isto é, a questão do ens relatiuum, passando pelos
conceitos de ens reale (ser independente da mente) e ens
rationis (ser dependente da mente). Essa polémica estimulou
Guilherme de Ockharn (circa 1340) a afirmar a idéia corno
signo dentro da mente (portanto, ens rationis), ern
contraposição à palavra falada Cens realei.
51
.Júlio Pint:o

Essa e outras divergências da douta autoridade de


Santo Agostinho não passaram, contudo, de pequenas
subversões ao longo da Idade Média e, como aponta Deely
(1982:46), demonstram que apenas começava a ser vislum-
brada a possibilidade de un1a análise semiótica dos conceitos,
isto é, uma análise do ser próprio dos conceitos considerados
con10 signos, porque os filósofos medievais insistiam numa
teoria do conhecimento elaborada a partir de uma perspecti-
va ontológica ou metafísica, em vez de urna abordagem
epistemológica.
En1 1564, surge em Portugal um importante livro, o
Institutionum Dialectarum Libri Octo, de Pedro da Fonseca,
S.]., um dos chamados Conimbricenses. Nesse livro, que é
essencialmente um texto de lógica, como o título sugere,
Fonseca tenta assimilar à tradição ontológica um outro ponto
de vista, o da significação propriamente dita.
Apesar de ainda defender a definição de Santo
Agostinho, Fonseca tenta mostrar que os conceitos da mente,
isto é, as estruturas que informam nossa percepção da
natureza, fu ncio n am e xat arne n t e como os signos
agostinianos, na medida em que estes últimos funcionam
enquanto signos. Vale dizer que as idéias funcionam como
signos sem, contudo, serem perceptíveis pelos sentidos.
Do ponto de vista da significação, contudo, foi
realmente João Poinsot quem fez as exéquias da definição
de Santo Agostinho. O seu Tractatus de Signis, publicado
no ano de nascimento de John Locke (1632), mostra
definitivamente que o essencial na nossa experiência do
signo (e experiência é um termo marcado, aqui, no sentido
de apontar para um viés epistemológico) não é a sua
perceptibilidade, mas sim o fato de trazer à nossa consciência
algo diferente dele mesmo. E, além do mais, isso se torna
possível, demonstra Poinsot, porque o signo é da ordem da
relação, o que quer dizer que ele é uma intersubjetividade
baseada na representação, que é o fundamento da relação
sígnica. Enquanto um ser relativo, ele transcende a clássica
divisão entre o ser do real e o ser da razão. Assim, a
idéia, a nuven1 como sinal de chuva, um conceito, um sonho,
a imagem mental, a imagem acústica, um cheiro, uma cruz
num cemitério, na medida em que funcionam como signos,
funcionam da mesma maneira em virtude de serem seres
relativos, isto é, lugares-entre.
. É essa a idéia que Peirce retoma, ao dar à relação
52
1 2 3 da SeRliót:ica

sígnica o seu caráter triádico. Como um terceiro dentro da


relação de representação (que é também, em si, um terceiro),
o interpretante está entre o primeiro (o signo) e o segundo
(o objeto), da mesma forma que o meio, que só pode existir
em virtude da existência de um princípio e um .fim, está
entre o princípio e o fim. Da mesma forma, entre um signo
eu e um objeto ele está um interpretante tu, que é um ele-
eu ou um eu-ele.
Há, ainda, uma outra maneira de se pensar o signo
como lugar-entre. A geração infinita de signos por outros
signos é o processo da semiose (v.). Seja do ponto de vista
da interpretação, seja da perspectiva da produção
propriamente dita, em qualquer momento da cadeia sígnica,
qualquer signo pode fazer parte - e geralmente o faz -
de urna variedade de sernioses. Assim, numa conferência,
por exemplo, cada ouvinte interpreta o que ouve usando o
input específico de sua formação, de suas leituras e de sua
experiência. Os seus interpretantes serão, portanto, uma
encruzilhada onde vão se encontrar a informação do
conferencista ea experiência dos ouvintes. Entretanto, algo
da ordem de um conteúdo objetivo que "está entre" vai ter
que se dar, sob pena de não haver entendimento algum.
O caráter triádico do signo, portanto, é a mola da
semiose e constituiu a grande contribuição de Peirce ao
entendimento dos processos de significação.

53
.Júlio Pint:o

SíMBOLO

LEI Urna das caracterizações que Peirce faz do símbolo


(CP 2.243) descreve-o corno aquele signo (v.) cuja relação
PREVISÃO
com o objeto (v.) consiste numa relação com o interpretante
CONVENÇÃO (v.). Essa definição não é tão enigmática quanto parece
pois, corno uma terceiridade (v.) (o símbolo é o terceiro
termo da segunda tricotomia lv.l dos signos, o primeiro dos
quais é o ícone ív.l e o segundo o índice lv.D, essa função
sígnica dirige-se para o futuro em termos de regularidade
ou lei. Isso quer dizer q1Je o símbolo é aquele signo que
será representado em seu interpretante conlO signo de seu
objeto. Em outras palavras, o interpretante de um símbolo é
previsível porque seu objeto já é conhecido.
Ora, um signo cujo objeto é conhecido e cujo
interpretante pode ser facilmente alcançado é aquele signo
que representa unla lei, urna regularidade, um hábito, urna
convenção, urna previsão ou conceitos parecidos. Por isso
mesmo, a representação do objeto não se faz no símbolo
por uma relação de deixis (em cujo caso esse signo seria
um índice) e nem se deve a qualquer relação de analogia
ou semelhança com o objeto (que seria um fator icónico).
Chamar um signo de símbolo simplesmente significa que
seu interpretante refletirá seu objeto. Daí a identificação
do conceito de símbolo com os conceitos de lei, hábito,
convenção, regularidade. Entretanto, deve haver um certo
cuidado nessa identificação. O símbolo não reflete esses
conceitos, isto é, ele não se conforma a uma prática ou
segue urna regra. Ao contrário, ele é a lei, é a regularidade ,
é o hábito e assim por diante .
Assim, uma outra caracterização de símbolo poderia
ser a de que seu caráter representativo consiste precisamente
no fato de que ele é urna regra que vai determinar seu
interpretante. Dizendo isso de outra forma, qualquer símbolo
controla seu significado. Por isso mesmo, qualquer
substantivo comum é simbólico, enquanto que um nome
próprio é indicial relativamente ao substantivo comum. O
nome próprio simplesmente aponta para seu portador (um
singular dentro daquela espécie) , mas o substantivo comum
nomeia coletivamente todos os seres daquela espécie e ao
mesmo tempo exclui os não pertencentes àquela espécie.
54
1 2 3 da SelTliót:ica

Un1 intérprete sabe que a palavra "mulher" denota todos os


membros da espécie humana que sejam do sexo feminino
e somente esses.
De maneira análoga, os chamados símbolos sociais
têm a função de controlar o comportamento dos cidadãos,
na medida em que seus interpretantes são previsíveis. Nesta
classe encontram-se o papel-moeda, os rituais sociais/
religiosos, os adereços, a vestimenta, as bandeiras nacionais,
a sinalização de trânsito, por exemplo. De um modo geral,
poder-se-la dizer que a cultura é simbólica, na medida em
que ela dita e é responsável por certos padrões comporta-
mentais, sociais, intelectuais e ideológicos de uma deter-
minada comunidade.

55
.Júlio Pint:o

SINSIGNO

RÉPLICA Segundo elemento da primeira tricotomia (v.) dos


signos (v.), a que focaliza o signo enquanto signo e na sua
identidade de signo, sem pensar na relação dele com o
objeto (v.) e o interpretante (v.), o sinsigno (o prefixo sin-
é o meSillO de sincronia, pOí exeillplo) é simplesmente
aquele signo em secundidade, isto é, que se manifesta, que
se torna presente e chama a atenção para seu caráter de
signo. Todo signo que se manifesta e é, por isso um existen-
te, é, en1 virtude de existir, um sinsigno.
Dentro da tríade, o sinsigno é um segundo que, tendo-
se em vista seus qualissignos (v.), é identificado como urna
réplíca(v.) de um legisstgnotv.). Como abstração o legissigno
só se manifesta através de seus sinsignos.

56
1 2 3 da SelTliót:ica

TfRCElRIDADf

Se a primeiridade (v.) é referência a uma abstração


pura, a secundidade (v.) é referência a um correlato. Peirce
PREVISÃO
afirma, contudo, que "a ocasião da referência a um correlato
é obviamente por comparação" (Writings, II:53). Um exern- SÍMBOLO
plo do que se quer dizer com comparação seria o de um
LEI
assassino considerado em relação à pessoa assassinada:

Nesse caso concebemos o assassinato, e nessa concepção


está representado que uma pessoa assassinada cor-
responde a cada assassino (e também a cada assassinato);
e assim, apelamos novamente a uma representação
mediadora que representa o relato em sua representação
de um correlato com o qual a representação mediadora
está também em relação. (Writings, 11:53)

Em outras palavras, Peirce está aqui falando/da relação


de representação, isto é, da relação que existe entre signo
(v.), objeto (v.) e interpretante (v.). Essa é uma das muitas
maneiras de se definir a terceiridade, isto é, da capacidade
que algo tem de representar (3-0), se esse algo existe (2°)
e é (10).
A terceiridade tem a ver com o futuro. É um modo de
ser que consiste no fato de que futuras instâncias de
secundidade assumirão um caráter geral determinado. A
terceiridade será, assim, o modo da previsão, na medida
em que o prever tende para sua realização, e eventos futuros
são, até certo ponto, governados por algum tipo de
regularidade ou lei. Além do mais, "urna lei é um fato
geral, contanto que se admita que o geral encerra sempre
uma parcela de potencialidade" (CP 1.418).
Isso quer dizer que, em sua generalidade, o terceiro
tem algo a ver com o mundo potencial da qualidade e com
o mundo factual dos existentes, embora se distinga tanto da
qualidade (1°) quanto do fato (2°). O terceiro é, na verdade,
a conexão entre a qualidade e o fato, entre o primeiro e o
segundo. Assim, o princípio é um primeiro, o fim um
segundo e o meio um terceiro, e não é sem razão que
Peirce inicialmente pensava a terceiridade como a categoria
do tu (Tbou), em contraposição à secundidade (ele, Ii) e à
primciridade (eu, I).
57
.Júlio Pint:o

A linguagem verbal, por seu caráter de lei, geral,


simbólico e regulador, é um terceiro. E o é também por
constituir uma poderosa conexão que temos entre aquilo
que é e aquilo que está aí, a nossa via privilegiada de
acesso, sempre parcial às coisas e suas qualidades.
Considerar algo como um terceiro, portanto, é
considerar esse algo como signo. Entretanto, um terceiro
inclui um segundo, que inclui um primeiro. Por outro lado,
nada que não possa inicialmente ser descrito por um
predicado monádico (v. primeiridade) pode ser pensado
como signo. Isso não quer dizer, contudo, que um
ajuntamento de três primeiros, ou um segundo e um primeiro,
possa constituir um terceiro. A implicação não é a de que
um terceiro seja uma somatória, mas a de que um signo é
outras coisas além de signo.

58
1 2 3 da SeRliót:ica

TRICOTOMIA

Tendo definido a relação de representação por meio TERCEIRIDADE


das categorias (v.), e coerente com a noção de que qualquer
LEI
coisa, inclusive um signo, pode ser vista em termos de
primeiridadetv), secundidade(v.) e terceiridadetv.), Peirce RELAçÃO EXISTENCIAL

aplica recursivamente a noção das categorias à relação de CATEGORIAS


representação e, assim, obtém dez conjuntos básicos de
tipos de signos com três tipos cada. Dessas tríades
(tricotomlas, em oposição à idéia de dicotomia), três foram
extensamente desenvolvidas pelo próprio Peirce e estão,
portanto, bem estabelecidas teoricamente: qualissigno/
sinsigno/legissigno (v.), ícone/índice/símbolo (v.) e remai
dicissigno/argumento (v.). O quadro abaixo pode dar uma
idéia de como esses tipos de signos e as tríades que eles
compõem se relacionam entre si:

cc'

Primeiro Segundo Terceiro


Primeiro qualissigno ícone rema
Segundo sinsigno índice dicissigno
Terceiro legissigno símbolo argumento

Cada uma das tricotomias é definida de acordo com


os elementos da relação de representação. Assim, a tríade
qualissigno/sinsigno/legissigno é baseada na noção de
signo enquanto signo, isto é, no signo considerado apenas
em sua identidade de signo, sem qualquer referência a seu
objeto (v.) ou seu interpretante (v.). Os ícones, índices e
símbolos são signos considerados em termos de sua
referência a um objeto, enquanto o conjunto remaI
dicissigno/argumento constitui a tríade na sua terceiridade,
isto é, consideram também a relação com o interpretante.
No CP 2.243, Peirce explica seus critérios na determinação
dessas tricotomias:

59
.Júlio Pint:o

Os signos são divisíveis em três tricotomias; primeiro, no


tocante ao signo ser, ele mesmo, uma mera qualidade, um
existente ou uma lei geral; segundo, de acordo com o fato
de a relação do signo com seu objeto consistir no signo ter
alguma característica dele [do objeto] em si mesmo, ou
em ter alguma relação existencial com o objeto, ou consistir
em sua relação com um Interpretante; terceiro, se o
Interpretante o representa como signo de uma possibili-
dade, ou signo de fato, ou signo de razão.

As categorias estão presentes enl cada conjunto, na


medida em que o qualissigno, o ícone e o rema têm a ver
com a primeiridade; o sinsigno, o índice e o dicissigno são
segundos; e o legíssigno, o símbolo e o argumento são ter-
ceiros.
A existência dessas tricotomias e o falar-se em tipos
de signos pode conduzir a uma leitura apressada do papel
que essas tríades têm em semiótica. Já se apontou essa
discriminação de funções sígnicas como uma tendência
taxonômico-descritivista, ernpobrecedora da adequação
explanatória e analítica da semiótica. O raciocínio por detrás
dessa opinião é o de que a palavra tipo implica tipologia,
ou taxonomia, significando que, se algo é definido como
sinsigno, não pode ser índice, por exemplo, em virtude de
sua definição corno sinsigno (que é o que acontece, digamos,
na taxonomia dos seres vivos, em que primara é primara e
nunca pode ser réptil).
Entretanto, dados os postulados da teoria semi ótica,
isso não é verdade. Pode-se falar - e muitas vezes se fala
- em símbolos icônicos ou argumentos indiciais. Esses
"tipos" são distinções teóricas, formas lógicas que visam
caracterizar um signo mais detalhadamente de modo a torná-
. lo unl instrumento analítico mais preciso. Além do mais ,
um mesmo signo pode ser visto de várias maneiras,
dependendo do ângulo de abordagem do investigador e de
seus objetivos de análise. Deve-se apenas ter em mente
que há algumas restrições às possibilidades combinatórias
dessas funções lógicas a que estamos dando o nome de
tipos, e essas restrições tê111 a ver com o fato que U01
terceiro pressupõe um segundo, e U111 segundo pressupõe
um primeiro (para significar, algo tem que existir - qualquer
que seja o modo de existência - , e para existir, algo tem
que ser). O contrário, todavia, não é possível. Por isso, não
se pode falar em ícone simbólico, na medida em que U111
primeiro não pode conter un1 terceiro.
6O
1 2 3 da SeRliõtica

SUGfSTÕfS Df LflTURA

CHNAlDfR/MN, "'iriam. [maioJ de pJicanóhie e Jemiófica. São Paulo: Escuta, 1989.


Estes ensaios são de especial interesse para aqueles
que gostariam de investigar os possíveis pontos de contato
entre as duas áreas, na medida em que são informados por
Lacan, Derrida e Peirce, entre outros.

COHHO NHO, J. Teixeira. femiófico, informarão e comunicarão. São Paulo:


Perspectiva, 1983.
Neste livro, J. T. Coelho Neto, que é o tradutor e
organizador da edição e seleção mais completa dos textos de
Peirce no Brasil, publicada pela Perspectiva (ver Referências
Bibliográficas), procura pensar os fenômenos da informação e
da comunicação social, através do aparato teórico da semiótica
de Peirce. Defende a semiótica corno a teoria capaz de transitar
entre as diversas abordagens em comunicação e fornecer urna
linguagem comum nesse território transdisciplinar.

DHlY, John. femióhca bÓJ/ca Trad. Julio Pinto. São Paulo: Mica, 1991.
Conhecido pesquisador da história da semiótica, John
Deely propõe, neste volume, uma visão geral da teoria tal
corno ela se apresenta na contemporaneidade, com-
plenlentando assim o trabalho iniciado no seu Introdt icing
Semiotic (ver Referências Bibliográficas). Pensando, tal corno
Peirce, a semiótica corno urna teoria abrangente da significação
que abarca o fenômeno comunícacíonal para além das fronteiras
lingüísticas, Deely dedica vária páginas à discussão da serníose
nos mundos vegetal e animal (fito- e zoosserniose).

NflVA JR., fduardo. Um inferno de eJpe/hor. comunicação, cultura e mundo natural.


Rio de Janeiro: Rio fundo fditora, 1992.
Professor de Comunicação na PUC, UFF e UER], Neiva
propõe um olhar serniótico sobre as interrelações da
.Júlio Pinto

comunicação e da cultura ancoradas na concepção de um


mundo natural, não entendido como mera ambiência e não
muito distante' dos conceitos de Umuielt, Lebenswelt e
Innenwe!t, de J. von Uexküll.

SANTAHLA, Lúcia. {u/luro daI mídioJ. São Paulo: Razão Social, 19920.
Nesta coletânea de artigos, Lúcia Santaella, autora de
O que é semiótica (Brasiliense, 1983), faz uma análise dos
meios de comunicação e da cultura, privilegiando a poesia
e a arte e procurando demonstrar que as dicotomias
rigidamente codificadas (cultura de elite vs. cultura de massa,
etc.) não mais constituem operacionalizações factíveis, dada
a crescente interpenetração promovida pelos meios de
comunicação.

SANTAHLA, Lúcia. .4 oll/no/uro dai (oiJOJ. São Paulo: Imago, 1992b.


Estudam-se aqui as relaçôes entre a semiótica de Peirce
e a literatura e teoria literária, inclusive com uma seção do
texto dedicada à revisão e resenha dos trabalhos que têm
sido feitos na área.

62
1 2 3 da SeRliótica

REfERÊNCIAS BIBLIOGRÁfiCAS

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Citado no texto como CP, seguido do número do
volume e do número do parágrafo.

PEIRCE, Charles S. 1982-1988. Writings: a chronological


edition.Bloorníngton-In.: Indiana University Press. 4 V.
(Org. Max Fisch).
Citado no texto como Writings, seguido do número do
volume em algarismos romanos e número de página
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64
1 2 3 da SeRliõtica

íNDICf RfMISSIVO Df ASSUNTOS

A
Abdução: ver Abdução, indução, dedução.
Abdução, índução, d.edução: 13. Ver também Erro;
Lógica do vago.
Acidente: ver Secundidade.
Argumento: 16. Ver também Dicissigno; Rema;
Tricotomia.

(
Categorias: 17. Ver também Primeiridade; Secundidade,
Terceiridade; Tricotomia.
Causa fínah ver Interpretante final; Semiose.
Coisa: ver Objeto.
Convenção: ver Ícone; Índice; Símbolo.
Correlato: ver Interpretante; Secundidade; Terceiridade.

o
Dedução: ver Abdução, indução, dedução.
Degenerescência: 19. Ver também Categorias;
Represeruâmen; Tricotomia.
Diagrama: ver Degenerescência.
Dicente: ver Dicissigno.
Dicissigno: 21. Ver também Argumento; Rema; Tricotomia.
.Júlio Pinto

Bns rationis: ver Categorias; Signo.


Bns reatei ver Categorias; Signo.
Bns Relativum: ver Signo.
Erro: 22. Ver também Abdução, indução, dedução;
Interpretante final,' Lógica do vago; Semiose.
Extensão: ver Lógica do Vago.

f
FenôOleno:ver Caregorias.
Força brutas ver Índice; Secundidade.
Função proposicional: ver Argumento; Dicissigno,
Rema; Tricotomia.
Fundamento: ver Imagem; Signo.

G
Genuinidade: ver Degenerescência; Representâmen.

H
Hipoícone: ver Degenerescência.
Hípossemas ver Degenerescência.
Hipótese: ver Abdução, indução, dedução; Erro.

Ícones 24. Ver também Degenerescência; Imagem; Índice;


Símbolo; Tricotomia.
Imagem: 26. Ver também Degenerescência; Ícone.
Indeterminação: ver Categorias; Erro; Lógica do vago; Rema.
lndice: 28. Ver também Ícone; Símbolo; Tricotomia.
Indução: ver Abdução, indução, dedução.
1 2 3 da SelTliót:ica

Inferência hipotética: ver Abdução, indução, dedução.


Intensão: ver Lógica do Vago.
Interpretante: 29. Ver também Abdução, indução;
dedução; Erro; Representâmen, Signo; Semiose;
Terceiridade.
Interpretante dinllmico: 30. Ver também Erro; Inter-
pretante final; Interpretante imediato.
Interpretante final: 31. Ver também Erro; Interpretante
dinâmico; Interpretante imediato.
Interpretante imediato c 32. Ver também Erro;
Interpretante dinâmico; Interpretante final.
Interpretante mental: ver Representâmen.

l
Legissigno: 33. Ver também Réplica, Qualissigno;
Sinsigno; Tricotomia.
Lei: ver Legissigno, Símbolo; Terceiridade; Tricotomia.
Lógica da descoberta: ver Abdução, indução, dedução.
Lógica do vago: 34. Ver também Categorias, Erro;
Interpretante imediato; Objeto, Signo.

Metáfora: ver Degenerescência.

o
Objeto: 37. Ver também Erro; Interpretante; Signo.
Objeto dinllmico: 39. Ver também Interpretante
imediato; Objeto Imediato; Semiose.
Objeto imediato: 40. Ver também Interpretante imediato;
Objeto dinâmico; Semiose.
Objetividade: ver Objeto.
Opacidade: ver Interpretante imediato; Lógica do vago.
Origem: ver Objeto dinâmico.
67
.Júlio Pint:o

p
Predicado diádico: ver Secundidade.
Predicado monádico: ver Primeiridade.
Previsão: ver Abdução, indução, dedução; Interpretante
final; Objeto; Símbolo; Terceiridade.
Primeiridade: 41. Ver também Abdução, indução,
dedução; Categorias; Degenerescência; Ícone;
Imagem.
Proposição: ver Argumento; Categorias; Dicissigno;
Argumento.

Q
Qualidade: ver Primeiridade; Qualissigno, Secundidade.
Qualissigno: 43. Ver também Imagem; Legissigno,
Sinsigno; Tricotomia.

R
Referente: ver Imagem; Obfeto, Objeto imediato.
Relação existencial: ver Degenerescência; Índice;
Tricotomias.
Relato: ver Interpretante; Terceiridade.
Rema: 44. Ver também Abdução, indução, dedução;
Argumento; Ícone; Dicissigno, Tricotomia.
Rememoração: ver Objeto dinâmico.
Réplica: 45. Ver também Degenerescência; Legissigno,
Qualissigno; Sinsigno.
Representãmeni 46. Ver também Ícone; Imagem.
Retrodução: ver Abdução, indução, dedução.

s
Secundidade: 47. Ver também Categorias, Degenerescên-
cia; Índice; Primeiridade; Terceiridade, Tricotomia.
68
1 2 3 da SeRliót:ica

Semelhança: ver Ícone; Imagem.


Semiose: 49. Ver também Abdução, indução, dedução;
Erro; Interpretante; Interpretante final; Interpretante
imediato; Lógica do vago; Objeto dinâmico; Signo.
Sensação: ver Primeiridade.
Signo: 50. Ver também Abdução, indução, dedução;
Categorias; Erro; Semiose.
Símbolo: 54. Ver também Ícone; Índice; Lógica do vago,
Terceiridade, Tricotomia.
Simulacro: ver Imagem.
Sinsigno: 56. Ver também Legissigno, Qualissigno;
Tricotomia.
Suadissigno: ver Argumento.
Subjetividade: ver Objeto.
Sujeito: ver Ícone; Interpretante; Interpretante imediato;
Representâmen, Semiose, Signo.

T
Teleologia: ver Erro; Interpretante final; Semiose.
Terceiridade: 57. Ver também Abdução, indução,
dedução; Categorias, Degenerescência; Interpretante;
Signo; Tricotomia.
Tricotomia: 59. Ver também Categorias.

v
Verdade: ver Erro; Interpretante; Semiose.

69