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I Congresso TeleVisões – Niterói, RJ – 27 de outubro de 2017

PARA ALÉM DA TV OCIDENTAL: OS CASOS DE TERRACE HOUSE E


ABNORMAL SUMMIT NA NETFLIX

Krystal URBANO,(UFF)1
Mayara ARAUJO,(UERJ)2
Pollyana ESCALANTE,(UERJ)3

Resumo: O trabalho aborda o advento e a expansão da cultura televisiva dos países do Extremo
Oriente (Moran & Keane, 2004; Ashuri, 2010) no cenário midiático global – a partir dos casos
de Terrace House e Abnormal Summit na Netflix - buscando discutir os novos desafios e
oportunidades que se apresentam para a cultura midiática, que se afigura como mais multipolar
e descentralizada (Albuquerque & Cortez, 2015). A premissa central é a de que a emergência de
uma cultura televisiva regional, sólida e original, compartilhada entre os países do Extremo
Oriente, ilustra uma tendência de contestação da tese de homogeneização cultural (Straubhaar,
1991), como também revela a importância de se olhar mais atentamente os formatos e
conteúdos de mídia que estão sendo produzidos para além do contexto americano e ocidental
(Martel, 2012; Curran & Park, 2000; Wang, 2011).

Palavras-chave: Cultura midiática; programas televisivos; desocidentalização; Extremo


Oriente; Netflix.

Abstract: This paper deals with the advent and expansion of Far Eastern's countries formats of
TV medias (Moran & Keane, 2004; Ashuri, 2010) in the global media landscape - from Terrace
House and Abnormal Summit Cases on Netflix- seeking to discuss the new challenges and
opportunities presented to the media culture, which seems to be more multi-polar and
decentralized (Albuquerque & Cortez, 2015). The central assumption is that the emergence of a
solid and original regional TV culture shared by Far Eastern's countries illustrates a tendency to
challenge the thesis of cultural homogenization (Straubhaar, 1991) and also reveals the
importance of looking more closely at formats and media contents that are being produced
beyond American and Westerns context (Martel, 2012; Curran & Park, 2000; Wang, 2011).

Key Words: Media Culture; TV Programs; Non-Western perspective; Far East; Netflix.

1
Doutoranda em Comunicação pela Universidade Federal Fluminense (PGGCOM | UFF), na linha de
pesquisa Mídia, Cultura e Produção de Sentidos. Coordenadora Adjunta do Asian Club – Grupo de
pesquisa dedicado a Cultura Pop produzida no contexto dos países do Extremo Oriente e vinculado à
Graduação de Estudos de Mídia da UFF. Email: krystal.cortez@gmail.com
2
Mestranda em Comunicação pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (PPGCOM | UERJ), na
linha de pesquisa Tecnologias da Comunicação. Membro do Asian Club – Grupo de pesquisa dedicado a
Cultura Pop produzida no contexto dos países do Extremo Oriente e vinculado à Graduação de Estudos de
Mídia da UFF. Email: msoareslpa@yahoo.com.br
3
Mestre em Comunicação pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (PPGCOM | UERJ), na linha
de pesquisa Tecnologias da Comunicação e Cultura.. Bolsista Qualitec/InovUerj do Laboratório de
Mídias Digitais e integrante do grupo de pesquisa CiberCog (UERJ). Email:
pollyana.escalante@gmail.com

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1. INTRODUÇÃO

Já imaginou dividir uma luxuosa mansão em Tóquio ou no Hawaii com cinco


japoneses desconhecidos, desfrutando do melhor e do pior da convivência? Ou
participar de um acalorado debate com estrangeiros que residem na Coreia do Sul,
simulando um encontro de líderes mundiais? As duas hipotéticas situações citadas não
só são possíveis, como compõe a experiência da cultura televisiva contemporânea
produzida no Japão e na Coreia do Sul. Nos referimos, especificamente, ao reality show
japonês Terrace House e do talk-show sul-coreano Abnormal Summit. Programas
televisivos que têm conquistado audiências locais e internacionais, por apresentarem
propostas culturalmente distintas do que estamos habituados a consumir no nosso
cotidiano de fruição televisiva. Sem dúvidas, os formatos e conteúdos televisivos que
são exportados e costumam compor as grades das programações das TVs abertas e
fechadas no Brasil, por exemplo, são majoritariamente ocidentais e/ou americanos, e é
justamente oferecendo uma alternativa a esse fenômeno que o texto que ora segue neste
artigo se insere.

Partindo de um olhar desocidentalizante (Curran & Park, 2000; Wang, 2011) e,


em vista dos objetivos propostos, o argumento do texto se desenvolve em três seções.
Inicialmente, exploramos a questão de maneira geral, tendo em vista o contexto social,
econômico, cultural e político da emergência das indústrias midiáticas dos países do
Extremo Oriente como agentes do movimento de contrafluxo de mídia global, bem
como as recentes mudanças que, ao menos por ora, parecem apontar na direção de uma
paisagem midiática global mais multipolar e descentralizada, a partir da emergência de
formatos e gêneros televisivos que, até pouco tempo atrás, não figuravam no
mainstream da mídia global. As duas partes seguintes apresentam aspectos da
construção e a expansão dos formatos e conteúdos televisivos produzidos no Japão e na
Coreia do Sul, tendo em vista suas características específicas e, em particular, a partir da
análise dos casos de dois programas televisivos em questão - o reality show japonês
Terrace House e o talk-show sul-coreano Abnormal Summit.

Nossa aposta é a de que a emergência de uma cultura televisiva regional sólida e


original, compartilhada entre os países do Extremo Oriente, ilustra uma tendência de

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contestação da tese de homogeneização cultural (Straubhaar, 1991), como também


revela a importância de se olhar mais atentamente os modelos de negócios, formatos e
conteúdos de mídia, que estão sendo produzidos para além do contexto americano e
ocidental (Martel, 2012; Curran & Park, 2000; Wang, 2011) que são tidos,
naturalmente, como universais e/ou globais.

2. DA CULTURA MIDIÁTICA DOS PAÍSES DO EXTREMO ORIENTE: O


CONTRAFLUXO DO JAPÃO E DA COREIA DO SUL

O desenvolvimento de uma sólida indústria midiática e televisiva no Extremo


Oriente pode ser entendida tanto como uma consequência direta da onda de
globalização a partir do Ocidente, iniciada na década de 1980, quanto uma reação local
a ela (Iwabuchi, 2007; Kim, 2008; Siriyuvasak, 2010). Trata-se de um processo
complexo, que envolve injunções de natureza econômica, sociopolítica e cultural. Com
relação ao primeiro aspecto, a partir da década de 1960, os países do Extremo Oriente
começaram a emergir como um polo relevante da economia mundial (Rowen, 1998). O
processo foi capitaneado inicialmente pelo Japão, cuja economia se tornou a segunda
maior do mundo na década de 1980, atrás apenas dos Estados Unidos. A partir dessa
década outros países também passaram a se destacar no campo econômico: Coreia do
Sul, Cingapura, Taiwan e Malásia. Finalmente, na virada do milênio a China – que
flexibilizou o seu modelo comunista de modo a torná-lo compatível com instituições
características da sociedade de mercado – se afirmou como uma potência econômica
global – o que contribuiu para aumentar a relevância econômica da região. Ainda mais
importante, os países da região ampliaram consideravelmente a sua integração
econômica e cultural não só entre si, mas também com outros países do Extremo
Oriente, tais como Tailândia, Indonésia e Filipinas (Dobson & Yue, 1997; Rowen,
1998).

Com efeito, o contrafluxo midiático dos países do Extremo Oriente pode ser
compreendido como uma reação à expansão de conglomerados midiáticos ocidentais,
percebida como uma evidência do imperialismo midiático (Albuquerque & Cortez,
2015). No campo intelectual ele esteve associado a um esforço de relativização dos

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modelos interpretativos oriundos do Ocidente, através de um esforço de sua


“provincialização” (Chakrabarty, 2000) ou “desocidentalização” (Curran & Park, 2000;
Wang, 2011) e a proposição de alternativas analíticas como a construção de um campo
de estudos inter-asiáticos (Erni & Chua, 2005; Iwabuchi, 2014; Kim, 2008). No que diz
respeito ao âmbito midiático, a primeira reação dos governos locais dos países do
Extremo Oriente, foi estabelecer diversos limites à penetração de conteúdo midiático
ocidental, seja por meio da proibição da instalação de antenas parabólicas sem
autorização, do estabelecimento de cotas máximas de programação estrangeira nas
televisões do país ou outras formas de controle. Num segundo momento, eles se
esforçaram para desenvolver conteúdo local, dotado do potencial de produzir um
sentido de proximidade cultural (e identificação étnica) por parte da sua audiência
(Chadha & Kavoori, 2000; Kim, 2008; Straubhaar, 1991). Este esforço não tardou a
produzir resultados, levando à constituição de um vigoroso mercado para a cultura
midiática regional, por intermédio da construção de um patrimônio cultural
compartilhado entre esses países.

A este respeito, cabe destacar a importância do papel que as indústrias


midiáticas, sobretudo, as indústrias televisivas locais, têm desempenhado tanto como
setor dinâmico da economia de alguns destes países, quanto como elemento estratégico
de integração regional. De fato, o primeiro agente que foi capaz de produzir formatos e
conteúdos televisivos que tivessem certo apelo regional foi o Japão - como os animes4 e,
também, com os dramas de TV5 - mas sua posição frente aos demais países asiáticos era
complicada. Primeiro, devido a insistência japonesa em destacar a especificidade
cultural (psiquê nipônica) na sua produção televisiva e, ainda mais importante: o
enorme ressentimento contra o país, que levou a que alguns outros – como a Coreia do
Sul, por exemplo, a estabelecer políticas oficiais de restrição a produtos culturais
japoneses (Iwabuchi, 2002) até pouco tempo atrás. A Coreia do Sul, por sua vez,

4
Leia-se, desenhos animados japoneses, sob uma lógica serializada.
5
Drama de TV é um termo que designa as produções seriadas produzidas sob as normas da indústria
televisiva do Extremo Oriente. O formato, que seria um híbrido entre a telenovela e as séries televisivas
ocidentais, nasce no Japão na década de 1960 com os “doramas” (pronúncia para a palavra dramas), se
expandindo e adquirindo novos contornos na década de 1990. Tal formato deu origem a várias emulações
por parte dos países vizinhos - TW-Drama (Taiwan), C-Drama (China), HK-Dramas (Hong Kong),
dentre as quais se destaca a Coréia do Sul, com os K-dramas.

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apostou em uma estratégia diferente, investindo em elementos genéricos e estratégias de


hibridização (Shim, 2006) - capazes de propiciar um sentimento de proximidade cultural
por parte de um público mais amplo - como demonstra o caso de sucesso dos k-dramas
em toda região, incluindo no próprio Japão. Sobre o vigoroso comércio de formatos e
conteúdos televisivos no Extremo Oriente, Martel (2012) comenta:

A guerra do audiovisual na Ásia oriental, entre o Japão e a Coreia, entre


a Coreia e Taiwan, entre Taiwan e a China, é na realidade uma batalha
de formatos tanto quanto uma batalha de programas. E por sinal
costuma-se falar de “format trade”: o comércio de formatos. Seguindo
o exemplo dos japoneses, os coreanos tornaram-se poderosos
exportadores de formatos de dramas. Sua língua é pouco falada na
Ásia, e portanto eles têm interesse em comercializar conceitos, mais
que produtos acabados. E é de fato o que acontece: a Coreia vende duas
vezes mais formatos que sérias prontas. E o fascinante é a globalização
desses formatos e de seu mercado (Martel, 2012, p. 260).

Para fins dessa discussão, nos interessa destacar que o desenvolvimento


tecnológico, juntamente com o surgimento dos novos meios de produção e
compartilhamento de conteúdo, se impõe como um dado de relativa importância para
refletirmos acerca do espaço que as produções televisivas oriundas de outras regiões do
globo, para além da ocidental, têm gradativamente conquistado no mercado midiático
global. O desenvolvimento de novos meios de distribuição e consumo audiovisual
surgidos no último decênio no mercado global, como é o caso dos proeminentes
serviços de streaming de vídeo on-line, vêm demonstrando mudanças significativas na
paisagem midiática, na qual se observa o aumento da diversidade de nacionalidades de
origem nos fluxos da cultura televisiva contemporânea.

Enquanto alguns desses sites de streaming são financiados pela publicidade e,


assim, podem oferecer transmissão gratuita, outros cobram dos espectadores uma taxa
como é o caso do Crunchyroll6, voltado para distribuição de produções televisivas
japonesas, como animes e doramas. Através do site é possível consumir conteúdo
fornecido diretamente por empresas de mídia japonesas como a TV Tokyo, Gonzo e a
Toei Animation, quase em seu tempo real de transmissão na TV japonesa. Além de

6
Disponível em: http://www.crunchyroll.com.br/. Acesso em 20 set 2017.

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Crunchyroll, muitos sites de streaming estão atualmente operando como o Viki7 e


DramaFever8 que oferecem diversos dramas asiáticos, dentre eles produções sul-
coreanas, japonesas, taiwanesas, chinesas e tailandesas, além de séries e novelas latinas,
de modo a preencher a falta de canais oficiais voltados para conteúdos televisivos
produzidos sob uma lógica local-regional. Nestes dois últimos, pode ser observada uma
predominância de títulos de produções sul-coreanas, enquanto os dramas japoneses são
oferecidos em menor medida, entre séries e minisséries. Por fim, a Netflix (Matrix,
2014; Castellano & Meimaridis, 2016; Stumer & Silva, 2015), site que obtém cada vez
mais adeptos no mundo todo, disponibiliza alguns títulos de filmes, animes, dramas e
programas de TV legendados para atender a grande parcela de usuários interessados
pelo audiovisual advindo do Extremo Oriente.

Os casos de Terrace House e Abnormal Summit, programas de TV oriundos do


Japão e da Coreia do Sul são elucidativos neste sentido. A presença desses programas
na referida plataforma oferece evidências suplementares como formatos e conteúdos
televisivos produzidos num contexto local-regional, podem se expandir para além de
suas fronteiras nacionais e regionais, alcançando o mercado global.

3. TERRACE HOUSE: O MODO JAPONÊS DE PRODUZIR REALITY SHOW

Desenvolvida em 1957 e sediada em Odaiba (Tóquio), a Fuji TV nasceu no auge


da expansão da televisão japonesa devido aos vindouros Jogos Olímpicos de 1964, que
foram transmitidos e colaboraram para aumentar os índices de audiência de programas
domésticos pela primeira vez (TANAKA & SAMARA, 2012). Gozando de um cenário
privilegiado influenciado pelo desenvolvimento de novas tecnologias e fim da segunda
guerra mundial, observa-se que a "marca Fuji" é tão importante que o edifício da
emissora se tornou um dos principais pontos turísticos da cidade. Mas não apenas, o
imaginário dos fãs de suas produções está inundado de imagens desse prédio, devido as
constantes aparições desenhadas em animês produzidos lá.

7
Disponível em: https://www.viki.com/?locale=pt. Acesso em 20 set 2017.
8
Disponível em: http://www.dramafever.com/pt/. Acesso em 20 set 2017.

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Com o passar do tempo, a Fuji TV passou a ser reconhecida como uma das
principais redes televisivas privadas do Japão, por ter desenvolvido uma vasta grade de
televisão ao produzir incontáveis animes, dramas de televisão, tokusatsus e programas
de variedades. Em outubro de 2012, a emissora lançou uma proposta enfatizando o
público jovem, ao criar a Fuji TV's COOL TV. Assim, de segunda à sexta, às 23h, um
novo programa original é exibido. "Todos os novos programas originais são
direcionados para a geração mais jovem, sensível, consciente de seu estilo, e ainda
inclui um revolucionário reality show que nunca havia sido realizado no Japão".9" (FUJI
TV, 2012). O Reality Show revolucionário descrito na chamada do site oficial da Fuji
TV é justamente Terrace House10, televisionado todas as sextas-feiras.

Neste mesmo ano, em 2012, Terrace House (Boys x Girls Next Door) foi ao ar
em sua primeira edição e teve a duração de oito temporadas, com um total de 98
episódios, transmitidos até 2014. Em setembro de 2015 a Netflix chegou ao Japão11 e,
com isso, diversas propostas de produções originais e em parceria com as redes de
televisão locais foram firmadas. Assim, a Netflix adquiriu os direitos do reality12 e
produziu, no mesmo ano, a segunda temporada de Terrace House: Boys x Girls in the
City (2015-2016), contendo 46 episódios13. A terceira temporada, Aloha State (2016-
2017), traz a novidade de ser ambientada no Hawaii ao invés de Tóquio e conta com 48
episódios. Além disso, cabe ressaltar que o reality foi renovado para mais uma
temporada em parceria com a plataforma de streaming14.

A premissa parece simples e familiar: seis desconhecidos (três homens e três


mulheres) compartilham uma luxuosa mansão em Tóquio. No entanto, diferentemente

9
"The all new original programs are targeted at the sensible, style conscious younger generation, and
include a revolutionary reality show that was yet to be realized in Japan." Disponível em:
<http://www.fujitv.co.jp/en/wn0072.html>
10
Para mais informações: <https://goo.gl/RWuf4P > . Acesso em 09 ago 2017.
11
Disponível em: <https://oglobo.globo.com/sociedade/tecnologia/netflix-estara-disponivel-no-japao-em-
breve>
12
Desde então, Terrace House se tornou uma parceria de produção partilhada entre a Netflix e a Fuji TV.
O programa, além de constar no catálogo da Netflix Japão, continua a ser transmitido localmente.
13
Nessa temporada, o apresentador Ryota Yamasato compartilha a notícia de que a franquia Terrace
House foi adquirida pela Netflix no programa. Em seguida, ressalta que a partir de então, o programa
passa a ser transmitido de forma "global", uma vez que a empresa atua em ampla escala, em diversos
países do mundo.
14
O último episódio da temporada Aloha State termina com a mensagem "See you at next Terrace House"
deixada no quadro de avisos da casa. Disponível em: < https://goo.gl/xcY9ja > . Acesso em 09 ago 2017.

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dos reality shows produzidos e transmitidos no Brasil (como Big Brother e The Voice),
Terrace House não estimula a competição entre os participantes a fim de conquistar um
prêmio em dinheiro ou completar um objetivo pré-estabelecido pelos produtores. Não
há um prêmio específico para ser obtido e os objetivos que cada um deseja cumprir são
individuais. Por exemplo, muitos dos participantes do programa almejam desenvolver
carreiras de cunho artístico (atores, modelos, músicos, etc) e aproveitam-se da
visibilidade do reality show para alavancá-la. Outros querem desenvolver alguma
habilidade (interpessoal, melhorar o inglês). Há aqueles que visam criar uma marca
própria (de roupas, chapéus). E, por fim, também existe o grupo que vai em busca de
uma experiência diferenciada.

A grande questão é que nesse programa os participantes são livres para ir e vir
quando quiserem, de forma que continuam levando suas vidas normalmente. Da mesma
maneira, eles também são livres para decidir a hora em que desejam sair da casa e, com
isso, um novo participante toma o seu lugar. Como ressalta a apresentadora You 15 em
todos os episódios do programa: "A produção do programa providenciou uma bela casa
e um belo carro. Todo o resto, é com eles. Também não há roteiro. 16" (Tradução livre).
Além disso, os participantes não estão "desconectados" do mundo: eles têm acesso aos
meios de comunicação, bem como gozam da possibilidade de assistir a edição
transmitida do programa de dentro da casa. Os espectadores, por sua vez, possuem
apenas a possibilidade de interagir com os participantes através de mídias sociais como
o Twitter ou o Instagram17, uma vez que a televisão não media esse contato com o
público e o programa não é transmitido ao vivo.

15
You é uma modelo, atriz, cantora e personalidade da mídia japonesa. Ela é a primeira apresentadora a
aparecer na franquia Terrace House e permanece atuando até a edição atual do programa, Aloha State.
16
Aqui é importante ressaltar que, apesar da apresentadora dizer que não há roteiro e que os participantes
têm autonomia para decidir o rumo, em Aloha State, Avian Koo e Yuya Shibusawa estavam demorando
para se tornar um casal por conta da diferença de idade e a produção do programa pediu o auxílio de
Seina Shimabukuro (participante da primeira edição) para conversar com eles. Assim, Seina faz uma
visita a casa e conta suas experiências românticas dentro de Terrace House.
17
Na primeira edição do programa, por exemplo, há episódios que mostram os participantes lendo
comentários sobre eles na internet e a especulação dos fãs sobre a possível formação de casais.

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Figura 1: Imagens promocionais de Terrace House Boys x Girls Next Door, Boys x Girls in the
City e Aloha State

Outro ponto observado é a forte relevância dos apresentadores do programa. Os


episódios são comentados por uma equipe de celebridades japonesas (as celebridades
que apresentam e comentam a franquia Terrace House disponibilizada na Netflix são: a
atriz You, a tarento Reina Triedl [Tori-chan], o comediante Yoshimi Tokui, a atriz
Azusa Babazono, o jovem ator Kentaro e o comediante/personalidade do rádio Ryota
Yamasato) que expressam suas opiniões sobre o que ocorreu e especulam acerca do
desenrolar dos acontecimentos. Dessa maneira, a edição de Terrace House é preparada
para exibir os apresentadores assistindo ao programa em momentos de clímax: eles
retiram os fones de ouvido e conversam sobre o que viram de forma bem humorada.

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Figura 2: Apresentadores da franquia Terrace House (Da esquerda para direita: Azusa Babazono,
Yoshimi Tokui, You, Tori-Chan, Kentaro e Ryota )

Além disso, pode-se dizer que essas celebridades também fazem o papel de
"mediadores culturais" entre os participantes e o público. Mesmo antes do programa ser
adquirido pela Netflix, um circuito informal de distribuição dessa produção, encabeçado
por fãs- tradutores internacionais, já estava consolidado nas redes digitais. Dessa forma,
os episódios eram legendados por pessoas interessadas pelo programa e, em seguida,
disponibilizado online para que outros fãs pudessem assistir18. Isso indica que Terrace
House é atraente também para um público global. Evidentemente, esse quadro se
expande a partir da inserção no catálogo da Netflix. Retomando a ideia do "mediador
cultural", diversas vezes os apresentadores explicam para o público situações ocorridas
entre os participantes, como, por exemplo, foi o caso do mercado Costco19. Essa
tradução cultural implica na busca pelo "diferencial autêntico" do programa,
caracterizado pela especificidade de se mostrar a forma japonesa de lidar com as
relações humanas, em detrimento das pautadas em um imaginário hollywoodiano.

18
Essa prática continua sendo feita pelos grupos de fãs de Terrace House. Nesse sentido, a primeira
edição do programa, Terrace House Boys x Girls Next Door (2012-2014), não consta no catálogo da
Netflix. Porém, os fãs legendam voluntariamente e divulgam links na fanpage Terrace House Fandom
para que todos possam assistir.
19
Ryota Yamasato conta em um episódio que um jornalista norte-americano entrou em contato com ele
para dizer que não sabia que os japoneses tinham o Costco (uma rede de supermercados) como um lugar
possível para encontros românticos. Tal jornalista fez referência a uma cena em que o participante Yuki
Adachi convida a participante Arisa Ohata para sair e ela responde que eles podem ir no Cotsco como
forma de se esquivar do convite.

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Tomando como ponto de partida as reflexões cunhadas por Annette Hill (2005),
entende-se aqui o gênero reality TV é caracterizado pela presença de pessoas "reais", em
situações "reais" em determinados programas de televisão que englobam diversos
estilos (HILL, 2005), dentre os quais o reality show. Além disso, um dos motivos que
esse gênero televisivo ser tão atraente para o mercado, é devido ao apelo à jovens
adultos (HILL, 2005, p. 5). Nesse sentido, Terrace House não somente cumpre os
requisitos para ser denominado como tal, como também traz inovações. O produtor Dai
Ota comenta que transforma Terrace House em um reality show interessante e, acima
disso, autêntico, é a possibilidade de se observar as diferenças culturais e o fato de que o
espectador nunca terá certeza sobre como o relacionamento entre os participantes
evoluirá20. Entretanto, a incerteza não impede que a edição do programa procure
enfatizar uma estrutura episódica novelizada21 (semelhante a dos doramas), que esteja
em consonância com os valores e premissas da sociedade japonesa. Para isso, a
narrativa tecida pelos apresentadores sempre procura enfatizar os relacionamentos
íntimos entre os participantes, seja no âmbito romântico ou de desafetos dentro da casa.

Figura 3: Da esquerda para direita: Yuya e Avian (Aloha State), Byrnes e Misaki (Boys x Girls in the
City) e Seina e Daiki (Boys x Girls Next Door)

20
Disponível em: <https://goo.gl/6Dx7hW > . Acesso em 09 ago 2017.
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Nesse sentido, também cabe ressaltar que cada episódio possui um título que dialoga com os
acontecimentos da casa e que os próprios apresentadores do programa falam sobre isso.

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A edição também tende a favorecer determinados participantes ao centralizar o


foco do episódio em seus passos, e acabar transformando-os em protagonistas.
Autêntica ou não, a edição do programa busca maneiras de iniciar e finalizar as histórias
dos participantes de forma lógica, linear e com coerência.

Por fim, Terrace House nos convida a refletir sobre outras formas de se pensar
os reality shows, para além dos modelos ocidentais. Através de sua premissa simples,
porém inovadora, o programa conquistou audiência cativa e internacional que inclusive
mobiliza comunidades de fãs nas redes digitais.

4. ABNORMAL SUMMIT: UM TALK SHOW PARA GRINGO VER?

Joongang Tongyang Broadcasting Company (JTBC22) é uma emissora de TV a


cabo sul coreana lançada em 1º de dezembro de 2011. Comandada pelo jornal
JoongAng Ilbo (um dos três maiores do país), o canal é considerado a “reencarnação”
da TBC (Tongyang Broadcasting Company), emissora que operou durante 16 anos e foi
mesclada durante o regime militar com a KBS (Korean Broadcasting System), a maior
emissora estatal do país. Além do canal 15 da TV a cabo, é possível assistir a
programação via KT SkyLife (satélite de transmissão coreano) e plataformas IPTV
(serviço de TV via internet). Apesar de ser nova (a KBS, por exemplo, tem mais de 60
anos), possui em sua grande programas de sucesso como os talk shows Knowing
Brothers e Please Take Care of My Refrigerator ; os dramas Strong Woman Do Bong-
soon, Age of Youth e Man to Man. É neste cenário que inserimos o programa Abnormal
Summit, objeto de análise desta seção. O talk show, antes mesmo de estrear na Netflix,
já continha uma base internacional de fãs dedicada em legendar e distribuir seus
episódios e disponibilizá-los na rede, o que parece ter contribuído para sua posterior
popularidade quando adquirido pela empresa esse ano.

Abnormal Summit (AS) ou Non - Summit estreou em 2014 na emissora JTBC23.


Segundo o perfil oficial no Instagram24, o programa é exibido na Coreia todas as

22
Fonte: < https://goo.gl/UdMgSL >Acesso em 24 set 2017.
23
Disponível em: < jtbc.joins.com > Acesso em 13 ago 2017.

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segundas-feiras, às 22:50, com duas temporadas e um total de 167 episódios25. Em


2017, a Netflix adquiriu os direitos de exibição do programa, disponibilizando em
ordem aleatória 15 episódios intitulados “o melhor de 2014-2015” e 11 capítulos na
categoria “2017”. Em decorrência da popularidade do programa, surgiu o spin-off
Where Is My Friend's Home26 (2015) no qual parte do elenco de Non - Summit visita o
país de algum amigo e/ou integrante do grupo. Outra curiosidade é a exportação 27 do
formato para a China28 e Turquia29. A versão chinesa segue o perfil coreano enquanto
que a versão turca possui uma plateia no estúdio, trazendo inovações.

A ideia do show é simular um encontro de líderes mundiais que debatem com


bom humor assuntos diversos. O elenco é formado por homens estrangeiros que vivem
na Coreia do Sul e conversam em hangul30 as questões enviadas pelos telespectadores
e/ou convidados. É a partir da pergunta enviada que os membros irão julgar se a pessoa
é “normal” ou “anormal”. Temas como abandonar o cargo público para abrir o próprio
negócio, educação sexual nas escolas e viver na casa dos pais depois dos 30 anos já
foram abordados. Além disso, os rapazes apresentam curiosidades sobre o país de
origem e ainda pesquisam sobre a terra natal dos colegas de elenco para enriquecer a
conversa. A primeira temporada teve a participação de onze (11) pessoas de diferentes
países intitulados de “G11”31, além de três apresentadores que mediam as discussões
que acontecem ao longo do programa. O cenário de AS simula uma sala de reuniões
rodeada de bandeiras dos respectivos países, onde todos estão sentados em volta de uma
mesa no formato da letra “U”.
24
Fonte: <https://goo.gl/RETiMo > . Texto original: “비정상회담 다국적 청년들의 고품격
비정상 토론 프로그램 매주 월요일 밤 10시 50분 “ Tradução do dicionário Babylon: “The
summit of the young men, and non-standard abnormal debate program, a multinational every Monday at
10:50 p.m.”. Acesso em 28 set 2017.
25
A primeira temporada engloba os anos de 2014 a 13/06/2016 e possui 102 episódios. A segunda
temporada engloba o ano de 2016 (20/06) até 2017, com 64 capítulos (até a data de pesquisa:
28/09/2017).
26
No catálogo da Netflix o nome do programa está descrito como “The Homecoming”. Site
oficial:<https://goo.gl/2KHZKD >. Acesso em 09 ago 2017.
27
Fonte: <https://goo.gl/CWCcT7 >The Chinese And Turkish Versions Of ‘Non-summit’ Reveal Its
Poster. Acesso em: 24 set 2017.
28
Versão Chinesa:<https://goo.gl/JSKQR1 >Acesso em: 24 set 2017.
29
Versão Turca: <https://goo.gl/WJjNn7 >Acesso em: 24 set 2017.
30
Língua coreana.
31
G11 foi inspirada na sigla G-20, abreviatura para Grupo dos 20, formado por 19 lideranças mundiais e
União Européia. O grupo G-20 tem como um dos objetivos discutir os caminhos da economia mundial.
Fonte: <https://goo.gl/xFJ4YX > Acesso em 13 ago 2017.

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Conduzido pelos "presidentes" Jun Hyun moo e Sung Si kyung e pelo "secretário
geral"32 Yoo Se yoon, o trio de apresentadores comanda a atração desde seu primeiro
episódio e tratam com seriedade e humor os temas discutidos pelo programa. Jun Hyun-
moo é considerado veterano na TV sul-coreana, tendo conquistado vários prêmios na
área do entretenimento. Já Yoo Se Yoon é comediante (SNL Korea), cantor da dupla
UV e também participou do spin-off Where is My Friend’s Home. Por fim, o cantor
Sung Si Kyung fecha a tríade. Suas baladas fizeram sucesso nas trilhas sonoras de
dramas de sucesso como Secret Garden e The Legend of the Blue Sea.

Figura 4: Os apresentadores Jun Hyun moo, Yoo Se yoon e Sung Si kyung 33.

Non-Summit é um sucesso na Coreia34. A maioria dos estrangeiros que foram


escolhidos para participar do programa estava/está no país à trabalho e/ou estudos. Em 6
de julho de 201535 o brasileiro Carlos Gorito36 entrou para o programa e sua estreia foi
bastante comentada nas redes sociais por causa da discussão37 “acalorada” entre ele e o
egípcio Sami El-Baz.

32
Curiosidade: o posto de Secretário-Geral existe na ONU e é considerado o cargo máximo da instituição.
Fonte: < https://goo.gl/aR7KxX >Acesso em 30 set 2017.
33
Fonte: <https://goo.gl/TQwvze >Acesso em 24 set 2017
34
Em 2015 ganhou o 51º Prêmio de Artes Baeksang de melhor programa de entretenimento. Fonte:
Netflix.
35
Entrevista com Carlos Gorito - De Prosa na Coreia. Fonte: <https://goo.gl/FZfU33 >Acesso em 24 set
2017.
36
Disponível em: < https://goo.gl/8uSMPF >>. Acesso em 09 ago 2017.
37
Disponível em: <https://goo.gl/sLQEUp >Acesso em 13 ago 2017.

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Figura 5: Abertura de Abnormal Summit apresentando Carlos Gorito38, representante do Brasil

No episódio 53 da 1ª temporada os rapazes discutiram o tema “Países bons para


se viver”. No decorrer do bate papo Sami pergunta para Carlos com quantas mulheres
ele já tinha namorado e pontuou que no Brasil as pessoas traem e divorciam com
frequência, gerando um olhar de surpresa dos demais participantes diante da pergunta e
comentário inusitados. Neste momento, Carlos respondeu que a questão fugia do tema e
que situações privadas das pessoas não são importantes e sim a liberdade de escolha que
elas podem ter, algo que o povo do Catar não possui. Ainda no mesmo episódio, Sami
afirma que o seu país é um bom lugar para se viver porque todos tem acesso a
eletricidade, água e cuidados médicos gratuitos. As alegações de El-Baz não convenceu
o presidente Jun Hyun moo, que contra argumentou afirmando que o Catar não está na
lista de melhores lugares para se viver. Em seguida, Carlos questiona dizendo que não
adianta ter esses benefícios e não ter liberdade. Gorito ainda complementa que quem
mais sofre no país são os trabalhadores estrangeiros que não desfrutam dos direitos
básicos que os cidadãos nativos recebem do governo catariano.

Durante a discussão aparece frases em coreano na tela como “o debate está


pegando fogo”, “explosão química no primeiro dia”, “essa briga vai varar a noite” e
também “브라질산 쌈바논객”39que significa “Guerreiro Brasileiro do Samba”. Quem
está acostumado a assistir programas sul-coreanos certamente já se acostumou com esse

38
Fonte: Print screen nosso na plataforma Netflix em 29 set 2017.
39
Fonte: <https://goo.gl/teWzUH > e <https://goo.gl/ra62XP > . Acesso em 29 set 2017.

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tipo de intervenção. É comum aparecer textos estilo “pop-up” além de onomatopéias.


Esse recursos são utilizados em AS frequentemente como elementos para reforçar o
humor, para explicar algo que foi dito ou apenas a título de informação.

Hoje, além da vida de “celebridade”, Gorito trabalha no setor de educação da


Embaixada Brasileira em Seul. Assim como as celebridades coreanas, os estrangeiros de
AS também passam por um processo rigoroso de aceitação: são bonitos, têm bons
antecedentes e são apaixonados por seus países de origem. Ainda assim, mesmo com
esse conjunto de qualidades, Carlos teve que perder peso e mudar o corte de cabelo para
poder estrear no programa.

Figura 6: Diferenças de cores entre a primeira e a segunda temporada 40.

Com o passar das temporadas, o talk show ganhou nova decoração (o cenário
escuro e sóbrio, em tons de madeira mudou para mais claro e iluminado, em tons
branco e azul ) e o elenco de estrangeiros é sempre reformulado (com exceção do
italiano Alberto Mondi e do canadense Guillaume Patry, que estão desde a primeira
temporada). Isto é, a maioria já deixou o programa para seguir novos caminhos41. Outra
tática do programa para alavancar a audiência é convidar famosos como o boygroup
SHINee e Song Jihyo, atriz e apresentadora do programa Running Man.

Apesar da diversidade do elenco, os membros de AS são associados a


estereótipos, que muitas vezes são atribuídos dado o país de origem dos participantes: o

40
Fonte: Print screen nosso na plataforma Netflix em 24 set 2017.
41
Por exemplo, Carlos Gorito virou apresentador do quadro "Em busca da terra do Carlos", no Live Info
Show [Canal KBS], colunista do jornal Joongang Ilbo e professor do curso Coreano Online); o alemão
Daniel Lindemann e o ganês Samuel Okyere viraram atores/apresentadores; o belgo Julian Quintart é DJ
e apresentador; o inglês James Hooper continuou com a vida acadêmica com um doutorado na Austrália.

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perfeito (Alberto), o inteligente (Tyler), o sem graça (Daniel), o conservador (Yuan), o


tagarela (Sam e Julian) etc. São características que percebemos no decorrer dos
episódios, seja por meio das piadas ou pelo comportamento de cada um. No episódio nº
1 na Netflix (corresponde ao 3º na 1ª temporada do programa) eles brincam sobre isso,
revelando o que cada um pensa de si e algumas características são apresentadas na
abertura do show (que muda a cada temporada): o explorador (James), o ídolo
desleixado (Takuya), o cara da baguete (Robin), o confucionista erudito (Enes), entre
outros.

Figura 7: Parte do elenco de Non-Summit42

Non-Summit se destaca também pelo temas abordados, muitas vezes


considerados tabus pela sociedade coreana43. Outro ponto interessante de se perceber é
que, apesar das rivalidades históricas entre alguns países, sobretudo entre EUA e China

42
Fonte: 'Non-Summit' celebrates 100th episode. <https://goo.gl/GKnGEy >. Acesso em 24 set 2017.
43
A Coreia do Sul é um país conservador e quando se trata de relacionamentos os coreanos só apresentam
aos pais a pessoa amada se realmente for casar. Se os pais não aprovarem,, eles não casam. Logo, sexo,
em “teoria”, só depois do casamento.O tema Educação Sexual nas Escolas (“o melhor de 2014-2016”, ep.
2, Netflix) é um tabu justamente por tocar em um ponto que está no cotidiano das pessoas e que não é
comentado no dia a dia. Já o tema Divórcio e Adultério (“o melhor de 2014-2016”, ep. 14, Netflix), até
fevereiro de 2015 trair o cônjuge era considerado um crime, com pena de até 2 anos de prisão. O
integrante turco Enes Kaya teve que sair do elenco de AS por ter se envolvido em um escândalo de
traição. Disponível em: < https://goo.gl/LV8Ub8 > Acesso em: 29 set 2017.

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ou Japão e China, a amizade entre os membros desses lugares se tornou aparentemente


mais forte com o decorrer do programa44, além do respeito que cada um tem pelo outro,
independente de concordarem ou não com a posição dos colegas. Ao entrar para o
serviço de streaming da Netflix, Non-Summit ganha visibilidade e mostra para o mundo
que é possível um estrangeiro viver na Coreia, além de apresentar os costumes e
comportamentos de diversas partes do mundo. Diferente de outros produtos de
entretenimento, AS abriu portas para que a Coreia conhecesse o mundo e vice-versa.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A expansão da Netflix é acompanhada pela produção e distribuição de novos


conteúdos originais, para além do mercado audiovisual americano e/ou ocidental,
ilustrando assim uma paisagem midiática televisiva diversificada em termos de
representatividade regional. Ao firmar parceria com televisões japonesas e sul-coreanas,
a plataforma de streaming rapidamente se incumbiu de desenvolver programas que
tenham apelo para o público desses países, bem como potencial para o alcance global.
Foi situado nessa lógica que Terrace House e Abnormal Summit estrearam no catálogo
internacional da Netflix. Enquanto o caso de Terrace House colabora para redefinir
ideias sobre a produção audiovisual japonesa que, na maioria das vezes, são fortemente
vinculadas às animações; em Abnormal Summit, o imaginário vinculado a onda coreana
e a música k-pop é substituído pela mediação promovida por representantes estrangeiros
(e convidados coreanos) ao debaterem os problemas e abordarem as diferenças culturais
entre sociedade coreana e seus países de origem. Dessa forma, o reality show Terrace
House e o talk show Abnormal Summit se apresentam como alternativas viáveis às
produções ocidentais, assim como contribuem para desmistificar estereótipos culturais
associados ao Extremo Oriente.

A guisa de encaminhamento da discussão é preciso considerar que algumas


questões relevantes sobre o fenômeno permanecem em aberto como, por exemplo, o

44
Esse fator é percebido principalmente no spin-off, onde os mesmos demonstram mais intimidade entre
si. Quando eles visitaram a França, Sam mostrou interesse em ficar perto de Yuan justamente por não ter
tanta intimidade com ele. Ou Tyler que se esforçou para escrever uma carta em Chinês para a mãe de
Yuan e o deixou emocionado.

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circuito de consumo e recepção desses programas no Brasil, os diferentes tipos de


mediação (formal e informal) em jogo na distribuição dessas produções sob uma
perspectiva local, bem como um panorama mais apurado sobre a presença do
audiovisual produzido no Japão e na Coreia do Sul disponibilizado, até então, no
catálogo da Netflix brasileira. Além disso, dada a expressiva comunidade de brasileiros
de ascendência japonesa e sul-coreana residente em nosso país, questões sobre
identidade e representação se constituem em possíveis caminhos para se pensar a
distribuição e recepção dessas produções em nosso país. Essas e outras questões,
previamente elencadas aqui, que ensejamos nos aprofundar devidamente no decorrer da
reflexão que seguirá a posteriori.

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