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Porque

Porque os outros se mascaram mas tu não

Porque os outros usam a virtude

Para comprar o que não tem perdão

Porque os outros têm medo mas tu não

Porque os outros são os túmulos caiados

Onde germina calada a podridão.

Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem

E os seus gestos dão sempre dividendo.

Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos

E tu vais de mãos dadas com os perigos.

Porque os outros calculam mas tu não.

Sophia de Mello Breyner Andresen


 1.1. A oposição do poema é marcada pela conjunção adversativa “mas” e pelo
advérbio de negação “não”.
 2. A conjunção subordinativa causal “Porque” inicia 9 dos 14 versos do poema.
 3. Para as nove orações subordinativas causais, sem oração subordinante expressa,
podemos propor
 Eu amo-te, Eu admiro-te…
 4. Características negativas apontadas aos “outros”
 Hipocrisia: vv. 1,5-6
 Corrupção vv. 2-3, 5-6, 8-9
 Cobardia: vv. 4, 7, 11
 Calculismo: vv. 10, 13

 4.1. Qualidades do “tu”:
 Autenticidade, honestidade, integridade e coragem, ousadia, denúncia
 5. Os “outros” são todos aqueles que participam ativa ou passivamente na mentira e
nas corrupção.
 O destinatário, “tu”, representa aqueles que ousam opor-se a essa corrupção,
desonestidade e cobardia, vencendo o medo.
 A anáfora e o paralelismo antitético (isto é, as construções frásicas
paralelas/semelhantes “Porque os outros […] mas tu não.”) estão presentes em todas
as frases do poema, realçando a diferença do comportamento de duas entidades
opostas – “os outros” e “tu”.
 Para além disso, os comportamentos são apresentados de forma metafórica: nos
versos 5 e 6, por exemplo, o sujeito poético recorre à metáfora para caracterizar o
comportamento dissimulado, baseado no culto da aparência “caiados”; “calada”) dos
“outros”, comportamento que tem origem na podridão moral (“onde germina calada a
podridão”), sugerindo a preponderância da morte (“túmulos”; “podridão”).

 Classificação de orações:
1.1. A oração que introduz a 1ª frase
“Porque os outros se mascaram” (v.1);

1.2. A 2ª oração “mas tu não” (vv. 1,4,7,10,13);


1.3. “E se vendem” (v. 8); “ E tu vais de mãos dadas com os perigos” (v. 11);
1.4. “o que não tem perdão” (v. 3); “onde germina calada a podridão” (v. 6);
1.5. “para comprar o que não tem perdão” (v.3).
1.1. Oração subordinada adverbial causal
“Porque os outros se mascaram”;
1.2. Oração coordenada adversativa: “mas tu não”;
1.3. Oração coordenada copulativa: “E se vendem”; “ E tu vais de mãos dadas com os
perigos”;
1.4. Oração substantiva relativa: “o que não tem perdão”; “onde germina calada a
podridão”;
1.5. Oração subordinada adverbial final: “para comprar o que não tem perdão” .
 Quadra: rima cruzada e emparelhada + verso solto (2º)
 Terceto: verso solto + rima emparelhada
 Terceto: versos soltos
 Terceto: emparelhada+solto

Outros: falsos, opacos, virtuosos, amedrontados, maldosos, vazios, amedrontados, cobardes,


calculosos, miseráveis;

Tu: livre, transparente, sincero, natural, puro, corajoso, deteminado, tranquilo, consciente,
feliz

 denúncia das injustiças e desigualdades sociais.


 O próprio títul “Porque” reforça, através da anáfora, a ideia desenvolvida ao longo do
poema.
 parece haver um diálogo entre o sujeito poético e um “tu”, que aparece no primeiro e
último versos da primeira estrofe, assim como no último verso das estrofes seguintes.
 O sujeito poético põe em evidência as virtudes e qualidades do outro, mostrando um
verdadeiro sentimento de admiração, o que nos leva apensar poder tratar-se de um
amigo íntimo. Deste modo, verifica-se uma atitude muito contrastante em relação aos
outros e à pessoa amada, nomeadamente através da conjunção adversativa “mas”.O
sujeito poético denuncia a falsidade, “Porque os outros se mascaram”, a astúcia
“Porque os outros usam a virtude/Para comprar o que não tem perdão” (o sujeito
poético poderá referir-se à honra, honestidade,etc.), logo é referido o receio que os
outros têm em demonstrar o verdadeiro eu, ao contrário do tu. Os outros são
hipócritas ao oferecerem apenas a aparência.
 Na segunda estrofe é reforçada a ideia da corrupção, nomeadamente no primeiro e
segundo versos, uma vez que os túmulos caiados significam o disfarce, assim sendo
simbolizam os segredos, dando uma imagem de hipocrisia, onde está mais explicita
esta critica é no segundo verso da segunda estrofe. Deste modo verifica-se que todo o
poema é de intervenção social. Enquanto os outros se disfarçam para esconder os seus
defeitos e pecados, o tu confronta as pessoas com a verdade sem medo de represálias.
Assim sendo o tu pode representar aquele que denuncia as injustiças sociais.
 Na terceira estrofe verifica-se novamente uma enumeração e oposiçãode atitudes,
logo existe uma crítica ao oportunismo, “Porque os outros se compram e se vendem”
e ao calculismo “ E os seus gestos dão sempre dividendo”.

Utilizando paralelismo de construção, estabelece a oposição entre o comportamento colectivo


(«os outros» ) e o comportamento raro de quem procura coerência entre palavras e actos.

O espaço mais vasto do poema é, logicamente, o do comportamento da maioria, sendo a


minoria («tu» ) a dizer não ao culto da aparência, à falsa virtude (20) , ao medo, à podridão
moral disfarçada, à submissão injusta, ao aviltamento de se comprar e de se vender, ao
artifício hábil, à excessiva autoprotecção, ao abuso do cálculo nos actos.

Todo o poema está impregnado de valores morais;esses valores postos em prática por uma
escassa minoria, por vezes uma pessoa isolada, que põe na base da sua luta a crucial procura
da eliminação progressiva da violência no contexto social e cultural em que vive.