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Do adorno: Cabelos e modos miméticos do eu feminino no protestantismo

Rita Gonçalo

Aliada ao suporte biológico que é o corpo humano, a estética é um dos veículos de identificação dos indivíduos. Todo o
aparato social de formação de uma identidade ou de uma persona, aqui entendida como máscara social (Goffman, 2002), virá a
sedimentar-se sobre a relação de apresentação de si no cotidiano. Para tanto, o trabalho de apresentação de si empreendido pelo
sujeito pressupõe uma primeira educação que acontece pela absorção, por meio das interações sociais, de uma matriz de práticas
regidas por códigos. Práticas envolvem não só o engajamento em certas atividades, mas também a apropriação destas como canais
de informação sobre determinada mensagem. Com a posse de informações sobre a roupa e os modos de vestir, o indivíduo investe na
construção de uma identidade visual personalizada circulando entre os diferentes grupos para demarcar sua diferenciação social e
estética.
Elizabeth Wilson (1985:13) afirma que nas sociedades “onde o corpo é vestido, as os adornos têm um papel simbólico de
comunicação e um papel estético”. Ao mesmo tempo, o adorno “reforça a solidariedade social e impõe normas de grupo, enquanto
os desvios da moda são considerados chocantes ou perturbadores” (Ibidem). Esse aspecto denota que as implicações morais da
estética estão enraizadas tão intimamente na consciência social que até a própria língua os reflete, utilizando adjetivos disjuntivos
como “certo/errado”, “bonito/feio”, “aceitável/não aceitável” entre outros, que pertencem propriamente à discussão das categorias
em termos de moralidade.
É possível pensar que a estética do corpo das evangélicas associada a outros elementos cria uma imagem que afirma um
posicionamento no mundo e constitui estratégia de afirmação da alteridade. Michael Taussig (1993), ao refletir sobre alteridade e
mimesis, propõe que os modos miméticos de percepção nos levam a um entendimento do que é narrado ou apresentado pela
performance corporal. Taussig mostra também que a escuta e observação daquela narrativa demanda um estado de percepção que
não se resume apenas à contemplação, mas corresponde a um deslocamento, um sair de si mesmo para perceber as coisas fora de
nós em contato com a distinção. Essa alteridade a que me refiro se traduz na diversidade de gostos estéticos encontrados nas igrejas
protestantes. Nas duas pontas entre a modéstia rígida e a modéstia muito flexível, o que se verifica são atos performativos como
propriedades de constituição de si face à vertente religiosa a que pertence. A maneira pela qual o universo religioso evangélico é
representado através das imagens e posturas do corpo feminino assume uma identidade que repercute na totalidade de uma
orientação existencial organizada pela corrente religiosa.
A etnografia que realizei no ano de 2015 em igrejas evangélicas do Rio de Janeiro e São Paulo traz alguns exemplos1. O que
a observação empírica permitiu mostrar foi que nas correntes denominacionais mais ortodoxas, nos templos pentecostais e nas
regiões de camadas populares os códigos de distinção a partir do vestuário são mais rígidos, não havendo muita variação de escolhas
estéticas. Em certa medida, as evangélicas dessas denominações conservam padrões indumentários antigos e relativamente
ascéticos, que para elas são um modo de preservar a modéstia e a decência, e até mesmo conduzi-las a uma experiência ativa e de
intimidade com a dimensão do sagrado. Paradoxalmente, as tradições seguidas pelas evangélicas mais ortodoxas se tornam
instrumentos da afirmação pessoal, pela disposição de exibir uma diferença claramente tangível de sua identidade religiosa através
das roupas.
Por outro lado, nas denominações históricas - e especialmente nas igrejas alternativas2 - o que observei foi um padrão
indumentário bastante flexível. Vi aí intensa manipulação de elementos estéticos (como cabelo e maquiagem) e principalmente um
modo de agenciamento corporal bastante individualista, de modo a evidenciar os gostos individuais sem abrir mão dos princípios de
decência e modéstia caros ao protestantismo. Essas igrejas cujos costumes são mais flexíveis resultam de um processo (ainda em
trânsito) de secularização no protestantismo, em que há uma transformação mais rápida do corpo coletivo sem fraturar grandes
equilíbrios e princípios basilares, como a modéstia e o decoro. De um conjunto concreto de regras práticas ancoradas em processos
específicos de poder e conhecimento, o protestantismo brasileiro contemporâneo tem se tornado relativamente mais versátil.
Mesmo em diálogo com as perspectivas de secularização da religião, no protestantismo um novo modo de vestir está
intimamente ligado às experiências com o sagrado, aqui objetificado na figura do Espírito Santo. Estes evangélicxs acreditam que
essa entidade mística opera na razão dos seres humanos. No caso da mulher evangélica, à medida que ela adquire maturidade
religiosa e intimidade com o Espírito, este conduz o corpo a se vestir da maneira como convém: com modéstia e discrição. Modéstia
aqui é entendida pelxs evangélicxs como a atitude de não chamar a atenção para aquilo que não convém. Em outras palavras, a
modéstia protestante é traduzida em bom senso, uma recusa a ultrapassar os limites, uma reserva apropriada3. Este conceito seria,
nos termos de Strathern (2006), um estilo de vida estético, a maneira como as pessoas entendem o que seja uma forma adequada à
sua sociabilidade - dentro e fora do templo religioso.
Algo bastante recorrente no pensamento dxs evangélicxs é o antes e depois da conversão. Esse aspecto é determinante
para diferentes níveis da vida humana: saúde, sexo, moral coletiva, organização da vida econômica, vestuário, entre outros. A
conversão opera como um drama marcante para o indivíduo, especialmente para a mulher. Mas é importante salientar que essa
conversão, em geral, não é abrupta. Normalmente corresponde a um processo de autoconvencimento e doutrinação, no qual
constantemente se reavaliam os valores, os conceitos e as atitudes de acordo com os princípios de cada corrente denominacional.
O processo ritual de conversão é o ponto chave para compreender a sutileza dos fenômenos estéticos que ele provoca nas
mulheres. O modo de vestir, o comprimento do cabelo, o uso (ou não) de maquiagem e adereços, tudo isso está associado, segundo
dizem, às experiências metafísicas com o sagrado. Entre as pentecostais e neopentecostais, principalmente, esse fenômeno é
bastante recorrente, pois as mesmas revelam ouvir a voz do Espírito Santo ditar como devem se vestir. E que o Espírito Santo é
aquele quem “faz a obra”, como se o corpo e sua carga simbólica fossem (re)construídos ao longo do tempo. Não obstante, a
conversão opera não apenas em distintos modos de vestir, mas também em diferentes maneiras de manipular e cuidar da estética
capilar. O cabelo passa a ser um instrumento carregado de valor, de mana4: nos termos de Leach (1983) ele não apenas “diz” alguma
coisa, como também produz ações e desperta emoções. Neste sentido, o cabelo tem participação importante na corporeidade da
mulher convertida, sendo uma ferramenta de expressão da sua religiosidade, de respeito ao seu deus e, também, um símbolo de
conexão com a esfera do sagrado.
A seguir, exponho alguns elementos de agência feminina evangélica que se desenvolvem nos contextos de conversão e de
gestualidade do cabelo - entendido pelxs evangélicxs como um dos veículos de expressão da identidade religiosa. Experiências
pessoais e o espaço do templo funcionam como componentes da dinâmica performativa, os quais permitem pensar o corpo feminino
evangélico como texto, observando os códigos de comunicação nele investidos e materializados em termos de moralidade estética.

Cabelos, magia e honra


O cabelo é um dos elementos mais visíveis e destacados do corpo. Como parte de nossa corporeidade, gestualidade ou
performance corporal, o cabelo revela o self do ser humano. (Synnott, 2002). Em todo grupo social ele é tratado e manipulado, mas a
sua significação difere de uma cultura para a outra. Esse caráter universal e particular do cabelo atesta a sua importância como
significante de identidade, particularmente como suporte para a construção das identidades de gênero. Entre as evangélicas esse
aspecto não é diferente: o cabelo, além de figurar como uma importante via para o consumo estético, transmite também alguns
significados da cultura protestante.
Em torno da manipulação do cabelo há diferentes narrativas. Em linhas gerais, a cultura evangélica atribui grande valor aos
cabelos compridos, cujo fundamento encontra-se nas recomendações das cartas do apóstolo Paulo no período da Igreja Primitiva, tal
como descrito no livro de 1ª Coríntios Cap. 11, versos 5 a 15 (SBB, 2009):
Mas toda a mulher que ora ou profetiza com a cabeça descoberta, desonra a sua própria cabeça, porque é como se
estivesse rapada. Portanto, se a mulher não se cobre com véu, tosquie-se também. Mas, se para a mulher é coisa
indecente tosquiar-se ou rapar-se, que ponha o véu. O homem, pois, não deve cobrir a cabeça, porque é a imagem e glória
de Deus, mas a mulher é a glória do homem. Porque o homem não provém da mulher, mas a mulher do homem. Portanto, a
mulher deve ter sobre a cabeça sinal de poderio, por causa dos anjos. Julgai entre vós mesmos: é decente que a mulher ore
a Deus descoberta? Ou não vos ensina a mesma natureza que é desonra para o homem ter cabelo crescido? Mas ter a
mulher cabelo crescido lhe é honroso, porque o cabelo lhe foi dado em lugar de véu. (Grifo meu)

Segundo este modelo bíblico o cabelo é percebido como marcador distintivo. O preceito geral deste código estético-moral
entre xs evangélicxs é: cabelos curtos para o homem, cabelos médios ou longos para a mulher. Quando a evangélica transforma este
princípio em “radicalismo” – deixando os cabelos curtos ou pintando-os de vermelho, por exemplo -, ocorre um relativo deslocamento
do que os papéis de gênero possuem entre os protestantes. Há nesse esquema de signos uma noção reveladora: mulher de cabeça
“descoberta”, dependendo do corte e da cor, pode aparentar sinal de desobediência, rebeldia, ou até mesmo a imposição de uma
relativa igualdade ou superioridade ao homem.
A Igreja Primitiva adotava o uso do véu para as mulheres como sinal de submissão a Deus e ao homem. Nos dias atuais, do
véu para o cabelo comprido entende-se que ocorreu uma concessão, uma espécie de modernização do uso do véu. Todavia, a noção
que fica presente é a de que o cabelo possui ingredientes mágicos e detém potencialidades de estabelecer uma conexão mais
intensa e direta com o sagrado. Nos discursos de muitas entrevistadas, o cabelo longo exprime santidade.
Ao longo da etnografia observei que o cabelo comprido é recorrente em todas as correntes denominacionais, tendo relativa
variação nas denominações históricas e alternativas, pois nestas há diferentes formas de manipulação das possibilidades capilares:
comprimentos de cabelo indo do médio ao longo, matizes distintas, cortes em fio reto ou repicado etc. Nas denominações em que o
entendimento da modéstia é mais rígido, o cabelo feminino comprido é quase unanimidade. Nas igrejas tradicionais é possível
encontrar cabelos longos em todas as faixas etárias, principalmente entre mulheres acima dos 50 anos. Em relação às mulheres
evangélicas negras - cujos fios capilares são mais sensíveis e possuem outro ritmo e forma de crescimento -, percebi que muitas
delas recorreram ao uso de apliques capilares como estratégias de visibilidade - principalmente aquelas exerciam algum cargo na
denominação. No contexto do templo protestante, fios longos – ainda que sejam extensões de cabelos (apliques) - podem ser vistos
como adornos empoderadores (Mizhari, 2015).

Cabelo e juízo estético entre evangélicas negras e brancas


Nos tempos modernos, a corrente denominacional que ainda guarda os princípios da Igreja Primitiva relacionados ao cabelo
é a Congregação Cristã do Brasil (CCB), reconhecida entre evangélicxs como a “igreja do véu”, em razão de as mulheres cobrirem a
cabeça com véu durante os serviços religiosos. A CCB segue a recomendação do apóstolo Paulo sobre o véu escrito nas cartas
bíblicas de 1ª Coríntios e 1ª Timóteo, que orientam as mulheres a cobrirem-se com o véu ao orar ou profetizar.
Estava presente em um culto na Congregação Cristã do Brasil em Vila Isabel, igreja matriz na cidade do Rio de Janeiro, onde
a presença do público feminino era altamente relevante (aparente, cerca de 2/3 do público total). Naquela noite de domingo as
mulheres ocupavam três grandes fileiras de bancos, todas elas cobertas pelo véu, inclusive as crianças do sexo feminino. O
comprimento dos cabelos variava da altura do busto até o quadril – uma jovem, em especial, tinha cabelos castanhos levemente
ondulados na região abaixo dos quadris. Verifiquei que um número relativo de mulheres negras usava implantes de fios crespos
cacheados; outras negras, na faixa etária dos 50-60 anos, adotavam cabelos curtos com a aparência de alisados por escova
progressiva ou henê. Todavia, visualmente a valorização da estética capilar entre as congregantes era a do cabelo longo “arrumado”
por meio de escova e piastra (mais conhecida como “chapinha”). Pouquíssimas irmãs estavam com as cabeças descobertas. Ao
questionar um cooperador este detalhe, ele afirmou que as mulheres que não usam o véu no templo possivelmente são visitantes ou
irmãs recém convertidas, em processo de adaptação à adoção dos costumes da igreja.
Em outra visita à Congregação, minha interlocutora Gislaine ofereceu-me o véu para por sobre a cabeça logo assim que
cheguei à igreja. As visitantes não são obrigadas a usar o véu, mas mesmo assim quis experimentar para provar da sensação. Como
observadora de fora, a estética do véu me causou duas impressões. A primeira foi a de que fora do culto, do espaço do templo, o
clima é completamente diferente. As mulheres se parecem muito mais bonitas e charmosas sem o véu – sobretudo as jovens com o
uso das saias compridas e ajustadas ao corpo, cabelos longos jogando pra lá e pra cá, e tudo o mais. No espaço exterior ao templo
percebi certo jogo de sensualidade. Todavia, durante o culto observei que, de fato, o véu homogeneíza todas as mulheres para que
elas não se sobressaiam umas às outras. Mais que isso, o véu para a as fiéis da Congregação Cristã representa “poderio dos anjos”,
modo de expressão de uma experiência mística com o divino. Em termos antropológicos, o véu para elas representa um mana, a força
espiritual que simboliza a conexão direta com Deus, tanto que, por meio dele, uma oração pode ser respondida mais rapidamente ou
um indivíduo pode ser curado de uma enfermidade, por exemplo. Heloísa, uma senhora branca, falante e bastante observadora da
Congregação, contou-me o seguinte:
Olha, presta atenção: nós não podemos compor cabelo curtinho. Como é que uma rainha se comporta diante de um rei?
Bem adornada; acredito que até na televisão você já deve ter visto. Concorda comigo? E por que nós, que somos servas do
Deus Altíssimo, não podemos se adornar diante do rei da glória? Agora, se a pessoa de cor o cabelo dela não cresce, a
gente não pode fazer nada. Deus não tem acepção de cor. Se não cresce o cabelo é permissão de Deus; a pessoa é assim,
Deus fez assim, criou ela assim. Agora, se a pessoa é branca e tem cabelos grandes, é o certo. (Grifo meu)

Para além dos costumes congregacionais, muitas informantes citaram que gostam bastante de cuidar do cabelo, variando
de acordo com suas possibilidades econômicas e acesso aos espaços de beleza: algumas efetuam os cuidados no recinto doméstico,
outras recorrem frequentemente a cabeleireiros. A beleza da mulher e seus cuidados aparecem no discurso das evangélicas não
apenas como um prazer, mas também como uma obrigação social. Elas citam que o cabelo “é a moldura de toda mulher”; por essa
razão, toda mulher tem que cuidar do cabelo, principalmente para não se assemelhar ao homem. Como afirma Sueli, membro da
Adventista do Sétimo Dia, o cabelo é um dos principais dispositivos de distinção da mulher protestante. Nas palavras dela: “você tem
que olhar pros dois e saber que o homem é homem e que a mulher é mulher”.
Essas mulheres que constroem sua identidade para se apresentarem socialmente, preocupadas com o olhar e a aprovação
do outro, acreditam que é também por meio do cabelo que muitas vezes são rotuladas e classificadas. Vivian, por exemplo, é uma
jovem batista, branca, professora universitária e circula pelos diversos ambientes do mundo acadêmico. Alega que sempre gostou de
trabalhar a aparência estética e que faz de tudo para se distanciar da imagem de acadêmica mal cuidada, pois, segundo ela,
“pesquisadora é tudo largada, não gosta de se cuidar”. Em razão disso são proferidos a ela inúmeros comentários no instituto de
pesquisa onde trabalha. Ela é conhecida como a “arrumadinha”, “vaidosa” e “cheirosa”. Vivian gosta de ser reconhecida pela sua
estética cool. Durante certo tempo manteve os fios de seus cabelos loiros, e reconhece que essa transformação provocava o
imaginário masculino. Com o loiro Vivian recebia mais “cantadas” de homens solteiros e casados, e até mesmo de outras mulheres.
Em sua concepção isso representava um “perigo” para sua vida espiritual, pois com o assédio estaria mais suscetível às “fraquezas da
carne”. A partir de então, na tentativa de gerenciar as impressões alheias, ela decide mudar a cor de seus cabelos, objetivando, por
meio do consumo de tonalizantes, negar a identidade de mulher solteira e disponível que atribui ao cabelo loiro. Com os cabelos agora
castanhos, ela afirma que se sente mais madura, diferente, e que essa cor minimizou o assédio, permitindo-a manter certo nível de
espiritualidade que ela busca em suas práticas cotidianas.
Outros diferentes significados podem ser notados nas falas das entrevistadas ao justificarem suas escolhas de consumo,
refletindo a preocupação das participantes em estarem de acordo com os padrões de beleza contemporâneos. Algumas dão
preferência à manutenção do cabelo liso, atribuindo o significado de praticidade aos fios alisados. Adélia, da Igreja Cristã Renovada
em Cristo Jesus, denominação pentecostal, é negra e afirma que já sentiu uma imposição (in)voluntária por parte das irmãs da
congregação para que ela alisasse seus fios crespos. Após o alisamento, ela diz que passou a ser mais elogiada pelas pessoas da
igreja, o que a convence a estar “em dia” com a estética capilar, retocando os fios com chapinha em uma freqüência quase diária.
Pergunto a Rosane, negra e participante também da Cristã Renovada, se as pessoas da congregação elogiam seu cabelo.
Dela emana um riso sarcástico e em seguida afirma: “Só quando estou ‘arrumada’”. Desse arrumada entende-se estar com os
cabelos manipulados por escova e chapinha. Para ela, hoje há uma vasta gama de produtos destinados aos fios crespos e, por isso,
“as coisas se tornaram mais fáceis”. Rosane se sente confortável com os cabelos alisados, acha que isso já se constitui em um
fenômeno “normal”, naturalizado no seio das igrejas evangélicas. Tanto que, ao ser questionada se pensa em abandonar a prática do
alisamento, ela afirma que não voltaria a usar os cabelos “naturais”.
Bourdieu (2013) chama atenção para a manipulação de condutas geradoras de redes comportamentais que, por sua vez,
motivam atitudes. Todos os ambientes dos quais fazemos parte possuem seus códigos de conduta e, uma vez inseridos neles,
absorvemos seus sinais não verbais sobre o que é aceitável e o que não é aceitável, adequando assim nossos comportamentos.
Dessa maneira, ainda que nem sempre conscientemente, estabelecemos uma dinâmica baseada em um script comportamental entre
o estruturante (o meio) e o estruturado (nós) em cada uma das searas das quais participamos. Cada ambiente do qual façamos parte
produzirá seu habitus sobre o indivíduo, que será expresso por seus comportamentos e gestualidades. É possível afirmar, portanto,
que o habitus é também um signo da corporeidade resultante da construção semiótica de cada cultura. Para os meios protestantes, o
cabelo comprido liso ou relaxado é, com freqüência, considerado “ideal”, tornando-se a principal expectativa para as mulheres
membros.
De acordo com os depoimentos, é possível pensar que há, entre elas, pequena conscientização dessa “estetização de si”
influenciada pelo universo religioso, social e miditático, vez por outra explicitado nos discursos. Os relatos expostos atestam a
importância simbólica do cabelo como veículo de comunicação de identidade. Diferentes formas de manipulação estética do cabelo
são usadas com a finalidade de trabalhar a apresentação de si em consonância com o ethos religioso protestante. E ainda, mesmo
que nas recomendações do apóstolo Paulo não haja a proibição explícita ao corte de cabelo das mulheres, em linhas gerais verifica-se
a valorização do caráter significativo do cabelo comprido naquele momento bíblico (entre os anos 50/60 d. C.) transposto para o
cenário contemporâneo.

Que faremos para contrapor padrões de beleza no protestantismo?


Nesse regime de distinção e identificação que se estabelece a partir da estética, vê-se que a identidade feminina entre
protestantes repercute em uma concepção de sujeito que consagra na modéstia do corpo o ponto nodal para o estabelecimento da
diferença na relação “nós” versus “outro(s)”. Esses valores morais são traduzidos em termos de materialidade estética por meio de
dois eixos principais - roupa e cabelo – onde a conversão atua como drama fundamentador das performances corporais.
O cabelo da protestante remete a um símbolo de abstração metafísica – substância de ligação com a esfera mística,
proeminente de um “poder pessoal”. Para tanto, é necessário que ela tenha adornos capilares que simbolizem essa mística com o
sagrado (lê-se aqui: cabelos lisos e longos). Aquelas que detêm outra disposição estética (em especial, as mulheres negras) são
compelidas subjetivamente a adotarem o padrão de beleza do senso comum, principalmente quando são consagradas às esferas
dirigentes na estrutura eclesiástica, ao se tornarem diaconisas, líderes, pastoras.
Esse cabelo longo e liso parece ser um elemento de notável importância na cosmologia protestante, o qual exprime valores
de decência e virtude. Com isso, as mulheres evangélicas negras tornam-se fortemente influenciadas a recorreram ao uso de técnicas
(como o alisamento e uso de apliques capilares) que funcionam como estratégias de visibilidade para elas dentro da religião,
principalmente quando exercem algum cargo na denominação. Essas operações têm um efeito deletério, pois ao mesmo tempo em
que as correntes gerais do protestantismo não contextualizam o entendimento sobre as recomendações do apóstolo Paulo às
mulheres do cristianismo primevo e não rompem com os estigmas impostos sob essa representação, acaba-se reproduzindo uma
lógica dos discursos dominantes dentro de uma religião que pretende proclamar a aceitação do outro e a não acepção de pessoas.
Para contestar e fissurar essa lógica, torna-se necessário discutir no protestantismo a questão da identidade negra a partir
do cabelo, para que assim paulatinamente sejam suprimidas as dificuldades de evangélicas negras, jovens e mulheres, a aceitarem
seu cabelo natural, crespo. É preciso também romper com a abordagem histórica e cultural que foi criada dentro da religião – a de
que, para ser crente, a mulher tem que ter o cabelo longo, como símbolo do feminino e distinção ao masculino. Este é o momento em
que evangélicxs devem discutir a relação com seus corpos, pensando numa perspectiva pedagógica e religiosa, mas também política,
despontando arquétipos e colaborando para a construção de uma unidade cristã na Diversidade.

RITA GONÇALO
Antropóloga, doutoranda em Planejamento Urbano pelo IPPUR/UFRJ, mestra em Comunicação Social pela PUC-Rio. Suas
pesquisas investigam sobre a ética/estética do gênero feminino no protestantismo e os desdobramentos dessa relação em
contextos urbanos. Autora do trabalho Qual é o dress code? Moral e juízo estético no vestir feminino evangélico, indicado ao
Prêmio Compós de Teses e Dissertações 2017. E-mail: ritaantropologia@gmail.com

Referências bibliográficas
BOURDIEU, Pierre. A Distinção: crítica social do julgamento. Porto Alegre (RS): Zouk, 2013.
GOFFMAN, Erving. A representação do eu na vida cotidiana. Petrópolis, RJ: Vozes, 2002.
BÍBLIA SAGRADA. 1ª Coríntios / 1ª Timóteo. Tradução em português de João Ferreira de Almeida. São Paulo: Sociedade Bíblica do
Brasil, 2009.
LEACH, Edmund. Cabelo Mágico. In: DAMATTA, Roberto (Org.). Edmund Leach: Antropologia. São Paulo: Ática, 1983, pp. 139-169.
MIZHARI, Mylene. Cabelos ambíguos: beleza, poder de compra e “raça” no Brasil urbano. In: Revista Brasileira de Ciências Sociais,
vol. 30, nº 89, outubro 2015, pp. 31-45.
SYNNOTT, Anthony. Hair: shame and glory. In: The body social: symbolism, self and society. Oxford: Taylor & Francis e-Library, 2002,
pp. 103-127.
STRATHERN, Marilyn. O gênero da dádiva: problemas com as mulheres e problemas com a sociedade melanésia. Campinas (SP):
Editora UNICAMP, 2006.
TAUSSIG, Michel. Mimesis and Alterity: a particular history of the senses. New York/ London: Routledge, 1993.
WILSON, Elizabeth. Enfeitada de sonhos: moda e modernidade. Rio de Janeiro: Edições 70, 1985.
Notas

1
O trabalho etnográfico compôs o material da dissertação de mestrado Qual é o dress code? Moral e juízo estético no vestir feminino
evangélico (PUC-Rio, 2016), cuja mesma foi indicada ao Prêmio Compós de Teses e Dissertações Eduardo Peñuela.
2
Os grupos evangélicos são divididos em quatro categorias, adotadas atualmente pelo IBGE para fins de recenseamento e produção
de demais dados estatísticos. São elas: a) históricas ou evangélicas de missão - originadas a partir da Reforma Protestante ou em
períodos bem próximos a ela. Representantes desse segmento são as igrejas Luteranas, Presbiterianas, Anglicanas, Batistas, e
Metodistas; b) pentecostais - englobam as que tiveram início no reavivamento e nas experiências místicas com o Espírito Santo no
primeiro quartel do século XX nos Estados Unidos; c) neopentecostais - são oriundas do pentecostalismo originalmente brasileiro,
com ênfase na teologia da prosperidade; nos anos 1960, bem após a inserção do pentecostalismo de tradição norte-americana; e d)
novas matrizes evangélicas - são as igrejas que surgiram na virada do século XX para o XXI, caracterizadas pela interpretação e
vivência do cristianismo de maneira mais flexível. Classifico como “alternativas” as igrejas que apresentam uma interpretação mais
contemporânea dos preceitos bíblicos, e que incluem em seu rol de membros pessoas comumente identificadas como outsiders pelas
igrejas evangélicas em geral, tais como homossexuais, metaleiros, hippies, entre outros.
3
O aspecto distintivo da modéstia pode se expressar em outros códigos mais sutis, tais como: comportamento, fala, "brilho do
Espírito Santo", condutas morais ou éticas, e até mesmo em características como generosidade e amabilidade. É a partir desses
elementos que xs evangélicxs se identificam entre si, e por meio desses componentes - conjugados ao vestuário - uma mulher
protestante pode ser identificada pelos de fora do grupo e por seus semelhantes.
4
Para um entendimento da noção de mana enquanto produção de energia espiritual na economia da reciprocidade, ver Mauss, 2003.