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Eni Pulcinelli Orlandi DISCURSP, JEITURA 74 edicao CORTEZ Ss O inteligivel, o interpretavel e 0 compreensivel Introdugao Minhas discussées a respeito da leitura, enquanto proposta para considera-la na perspectiva discursiva, tém objetivos externos e internos. Um dos objetivos externos é problematizar, ou melhorar, questio- nar os processos de producgao da leitura junto aos que trabalham com seu ensino. O objetivo interno é apreender, no dominio do discurso, o funcio- namento da “compreensao”: o que é, quais sao seus mecanismos, o que representa em termos de discurso etc. Por sua vez, a reflexdo sobre o funcionamento discursivo da com- preensdo tem, como veremos, um retorno que incide sobre uma questéo crucial para a prépria andlise de discurso: a constituigéo dos processos de significagao. Nao é s6 quem escreve que significa; quem Ié também produz sentidos. E 0 faz, nao como algo que se da abstratamente, mas em condi- goes determinadas, cuja especificidade esta em serem sdcio-histéricas. Temos, pois, procurado discernir 0 que é leitura no conjunto de reflexdes do que se tem definido como teoria do discurso: a determina- ¢do histérica dos processos de significagéo. E pela reflexdo sobre a determinagao histérica desses protessos que vemos a (produgao da) leitura como parte constitutiva deles. Quer dizer: quando lemos estamos produzindo sentidos (reproduzindo-os ou trans- formando-os). Mais do que isso, quando estamos lendo, estamos partici- pando do processo (sécio-histérico) de produgao dos sentidos e o faze- mos de um lugar social e com uma diregao histérica determinada. 102 DISCURSO E LEITURA Queiramos ou nado, quando fazemos parte do conjunto dos chama- dos sujeitos-leitores — além de constituir um “puiblico” com suas impli- cagdes e conseqliéncias — estamos fazendo parte de urn processo do qual resulta a institucionalizacéo dos sentidos. O cerne da produgao de sentidos esta no modo de relagao (leitura) entre o dito e o compreendido. Quando dizemos isso, nao estamos, teoricamente, fazendo mais do que levar em conta o princ{pio da dialogia como fundamento da lingua- gem, de acordo com Voloshinov (1976): “o signo (...) resulta(ndo) de um consenso entre individuos socialmente organizados no curso de um pro- cesso de interacaéo”. O signo pede assim a co-presenga de individuos (au- tor/leitor) no quadro das relagées sociais (e nao fora delas), no confronto de forcas politicas e ideolégicas. O homem faz histéria mas a histéria ndo lhe é transparente. Por isso, acreditamos que uma metodologia de ensino conseqtiente deve explicitar, para o processo de leitura, os mecanismos pelos quais a ideolo- gia torna evidente o que no é e que, no contrario, resulta de espessos pracessos de produgao de sentido, historicamente determinados. A “na- turalidade” dos sentidos é, pois, ideologicamente construfda. A transpa- Wéncia dos sentidos que “brotam” de um texto é aparente, e-tanto quem \ensina quanto. quem aprende a ler deve_procurar conhecer os mecanis- mos que.al estéo jogando,- © fe neea eee thee Desse modo, temos procurado, na perspectiva discursiva, trazer para a discusséo 0 modo pelo qual, no funcionamento da ideologia, o leitor se instala nesse processo de produgao de sentidos fazendo parte da histéria desse processo. Vale ressaltar que a historicidade é central para nossas considera- Ges, uma vez que a “andlise de discurso trabalha (...) um objeto inscrito na relacdo da lingua com a histéria” (Courtine, 1982). Para finalizar essa introdugdo, gostariamos de dizer que levar em conta esses aspectos é uma maneira de reconhecer que a linguagem é um fenémeno complexo que tem sua especificidade num modo de fun- cionamento que se dimensiona no tempo e no espaco das praticas do homem. Particularmente, no que se refere a relacdo que fazemos entre o lingiifstico e o ideolégico, vale observar que “o discursivo materializa o contato entre o ideoldgico e 0 lingilistico no sentido em que ele represen- ta, no interior da lingua, os efeitos das contradigdes ideolégicas e, inver- samente, ele manifesta a exist€ncia da materialidade lingUistica no inte- rior da ideologia” (Courtine, 1982). ENT PULCINELL ORLANOI 103 Os sentidos néo nascem ab initio. Sao criados. Séo construidos em confrontos de relages que so sécio-historicamente fundadas e permea- das pelas relages de poder com seus jogos imagindrios. Tudo isso tendo como pano de fundo e ponto de chegada, quase que inevitavelmente, as instituigdes, Os sentidos, em suma, s40 produzidos. © modo de leitura eo sujeito-leitor correspondente £ uma afirmacao elementar para o analista de discurso a de que, na mas efeitos de sentido entie Jocutores (Pécheux, 1969). Daf decorre o que “Se Pode chamar dé “efeito leitor”. A noso de efeito supée, entre outras coisas, a relagao de inter- locugao na construgao de sentidos. Sem esquecer que os sentidos nao sao propriedades privadas: nem do autor, nem do leitor. Tampouco de- rivam da intensdo e consciéncia dos interlocutores. Sao efeitos da troca de linguagem. Que nado nascem nem se extinguem no momento em que se fala. Essas nossas observacées se voltam criticamente contra o imedia- tismo de algumas tendéncias interacionistas que nao referem, como o faz Voloshinov (1976), 0 conceito de enunciagéo a formacao social. Os sentidos s4o, pois, partes de um processo. Realizam-se num con- texto mas no se limitam a ele. Tém historicidade, tém um passado e se projetam num futuro. Esse projeto significante, se assim podemos denominar, ao mesmo tempo que “desgruda” o sujeito do imediatismo de uma relacéo mecani- ca com a situagéo de enunciacao, o “prende” na responsabilidade do dizer, 0 de ser autor (Ieitor) e, logo, o de ser a origem, nao do discurso, mas de sua unidade e coeréncia Para esclarecer essa pratica “responsdvel”, disciplinada, & que fare- mos consideragées a respeito das nocées de “interdiscurso”, “memdéria” e de “formagao discursiva", nogées necessdrias para o entendimento dos processos discursivos de significacao. O lugar social da leitura: O alocutario, o destinatario, o leitor Arepresentacao de unidade textual, efeito da relagéo do autor com 0 texto (ver "Unidade e dispersao: uma questao do texto e do sujeito”, 108 DISCURSO E LEITURA neste volume), corresponde a unidade da leitura (coeréncia, néo-contra- digdo, progressao, etc.) resultante do efeito-leitor. Em grande medida, nossa tarefa nesse presente estudo é expor 0 modo de constituigéo desse efeito e a forma como atuam esses “princi- pios" de coeréncia, consisténcia, néo-contradigéo, progressdo e unidade, na leitura, enquanto configuragées do efeito-leitor. Assim como, na perspectiva da emissdo (“formulag4o”, para Pécheux, 1969), ha trés fungdes enunciativo-discursivas do sujeito — a de locutor, a de enunciador e a de autor (idem) —, consideramos na recepgao (“com- preensao”, para Pécheux, 1969) também ha trés fungdes: o alocutario, o destinatério € o leitor. Como.sabemos (Ducrot, 1984), o locutor é aquele que se represen- ta como “eu” no discurso; 0 enunciador corresponde as perspectivas com que esse “eu” se apresenta; e o autor (Foucault, 1971) € o principio de agrupamento do discurso, unidade e origem das suas significagdes. Nes- Sa perspectiva, o autor é a fungdo que o “eu” assume enquanto produtor de linguagem, sendo a dimens&o do sujeito mais determinada pela rela- ¢4o com a exterioridade, com o social. Pais bem, do lado da “recep¢ao”, 0 alocutdrio corresponde a fun- ¢40 do locutor; o destinatério 4 do enunciador; e, em nossa proposta, 0 leitor @ a fungdo enunciativo-discursiva que corresponde a do autor. 0 alocutario 6 0 “tu” 2a quem o “eu” do locutor se dirige; o destina- tario 6 0 “outro” da perspectiva do enunciador, ou seja, uma perspectiva de leitor construfda pelo enunciador, é 9."leitor-ideal” inscrito no texto, por antecipagdo. Eo leitor é aquele que se assume como tal na pratica da leitura, numa ordem social dada, em um lugar especifico. A fungaéo enunciativo-discursiva, que é a do leitor, constitui um su- jeito afetado pela sua inscrigé0 no social, Quer dizer que 0 efeito-leitor é determinado historicamente pela relagéo do sujeito com a ordem social. Isto se dé de tal modo que nao é do alocutario (do "tu”) ou do destinatario (do leitor-ideal), mas do leitor (inscrito no social), que se cobra um modo de leitura (coer&ncia, unidade, etc.). Dessa forma, na producao de Jeitura, ele entra com as condigGes que o caracterizam s6- cio-historicamente. Ele tera, assim, sua identidade de leitura configurada pelo seu lugar social e 6 em relagdo a esse “seu” lugar que se define a “sua” leitura. O efeito-leitor 6, pois, relativo 4 posigado do sujeito. Das trés fungées — alocutario, destinatario, leitor —, esta ultima (coma, na emissao, a de autor) é a que esta mais determinada pelo sacial. EN! PULCINELU ORLANDI a Individualidade e individuagao: as duas faces da subjetividade 0 sujeito do discurso é constituido pela interpelagao ideolégica e representa uma “forma-sujeito” historicamente determinada. Essa forma-sujeito, portanto, pode sér diferente nos diferentes momentos histéricos. A forma-sujeite constitulda pelas relagdes de uma formacao social como a nossa é a de um sujeito ao qual se atribui auto- nomia (e, logo, responsabilidade), ao mesmo tempo que se considera que ele é determinado pela sua relagdo com a exterioridade. Ha, assim, dupla determinag4o: uma determinagao interna pelo su- jeito e uma determinacao externa do sujeito. E aqui vale lembrar Foucault (1977), que nos mostra com muita lucidez como o poder se inscreve nos aparelhos disciplinares, pelo viés de mecanismos “individualizantes”, con- tribuindo para fabricar um certo tipo de "individualidade sujeito capitalist. no caso, a do Nossa passagem por essas consideragées 6 para lembrar que o su- jeito de nossa formagao social esta, de certo modo, “amarrado” a indivi- dualidade. Ou seja, esta nao é a simples expressdo de sua liberdade mas, até certo ponto, é uma injungao: injungdo esta que, nos procedimentos pedagdgicos, aparece como a compulsdo a “originalidade” ou obsessao da “criatividade”’ obrigatéria. Essa exigéncia mostra, na realidade, a ne- cessidade que temos de um sujeito individualizado, visivel, calculavel, logo, identificavel e, portanto, passivel de controle. Um sujeito que se apresen- 1, Quanto a critica a esse conceito, gostaria de remeter a um fragmento de texto que apresentei em uma mesa redonda (6/1 1/1976) e que foi publicado poste- riormente na Série Estudos, n. 4 (1978); “Amarrada ao lago da produtividade — em que o insigne homem médio é 0 agente da aspiragdo da fabrica da cultura homo- geneizada —, a ambigilidade do conceito de criagao tropega na técnica e circula mal entre um real fazer individual e a aceitagéo dos padrées do mercado consu- midor. E a linguagem, passada a limpo pela sociedade de consumo,*ganha seu quinhao e se dé como produtividade infinita. Assim se fez a passagem’da criacao para a produtividade. E 0 seu protagonista, o homem, sente-se realgado em sua especificidade de ser racional que manipula instrumento tao habil e sem limites: acredita criar linguagem. Mas estranha é esta criatividade que j4 considera, de inicio, a linguagem como produto. Mais estranha ainda é esta criatividade que mantém o homem num retorno constante a um mesmo espaco dizivel: a paréfra- se. Nesta visdo, melhor seria, pois, falar em produtividade e nao em criatividade". Retomei posteriormente esta relacao entre produtividade/criatividade e polissemia/ par4frase em "O sentido dominante: a literalidade como produto da histéria", apre- sentado no Encontro Nacional do Rio de Janeiro, em 1981, e publicado em A fin- guagem e seu funcionamento (1983). : 106 DISCURSO E LETTURA te com coeréncia, com certa permanéncia (durago), certa especificidade, e do qual se pode dizer algo, podendo-se, conseqiientemente, ter dele um certo dominio.” Esse sujeito é historicamente determinado e, no caso da leitura, que & 0 que nos interessa aqui, podemos expressar isso dizendo que 0 sujeito-leitor do século XIII, 0 do século XVII e o de hoje sao diferentes (Ver “A histéria do sujeito leitor: uma questao para a leitura”, neste volu- me). Por isso, quando falamos da fungao social do sujeito-leitor, estamos falando do “nosso” sujeito-leitor. Esse sujeito leitor que, como dissemos, acolhe ao mesmo tempo a idéia de individualismo e 0 mecanismo coercitivo de individuagdo impos- to pela instituigdo (idem) e que produz sentidos, ao ler. O que nos interes- sa finalmente, saber nesse passo é: que sentidos ele é capaz de produzir, j que a constituigdo do sujeito (da linguagem) e a dos sentidos estao materialmente ligadas? Arelacao entre o cantexto de enunciacao e a contexto historico Ha, como sabemos, duas instancias de constituigéo do discurso a que temos chamado, em geral, de contexto de situacdo em sentido estri- to (ou circunst4ncia de enunciagéo) e em sentido amplo (ou contexto s6cio-histérico). No interior do domfnio do contexto sécio-histérico é que podemos considerar a instancia do enunciado que, por sua vez, tem seu contra- ponto na instancia da enunciagdo que é a do eu-aqui-agora. O que se produz na instancia do enunciado é uma forma indefini- damente repetivel, mas que pode dar lugar a enunciagdes as mais diver- sas e dispersas. : Essa forma est ligada a uma noco de repeticao que, de acordo com Courtine (s.d.) se “enderega, segundo uma dimensdo de algum modo ver- tical, as condigdes de existéncia dos diferentes conjuntos significantes”. 2. Nao devemos imobilizar a nocdo de individualidade no processo de seu apagamento. Uma forma de evitar isso é resguardar o fato de que a identidade no se reduz ao processo de individuagio (identificagéo). Este é apenas parte dela. Mas é no processo de identificagéo que a linguagem age com toda sua violéncia simbdlica: gregaridade, repeticdo, autoridade da assergao. Eu digo, eu afirmo, eu “assento” aquilo que eu repito (Barthes, 1977). Daf a necessidade de refletir sobre esse process. ENI PULCINELLI ORLANDI 107 A instancia do enunciado é, pois, a do “repetivel”, a que podemos chamar de interdiscurso: séries de formulagées (verticalidade) que fazem parte de enunciagées distintas e dispersas. Parafraseando, para a leitura, o que afirma Courtine (1982) para o dizivel, afirmariamos que 6 nesse espaco do interdiscurso — cor- respondente ao que se chama “dominio do saber” da formacdo discur- siva — que se constituiria a exterioridade do “legivel” para o sujeito- leitor, na formagao dos “preconstrufdos” (0 repetivel) de que sua leitura se apropria. A voz que af ressoa é uma voz sem nome, pois nao ha lugar para o sujeito especifico. Esse repetivel preexiste a situacSo de enunciacdo eo sujeito desta, ao produzir linguagem, se apodera dele e intervém no repetivel. Formagao discursiva, pré-construido e referencialidade Como se da, ha leitura, essa inscrigao do espaco do repetivel? Memoria e esquecimento se misturam. Como retoma Courtine: a luta do homem contra o poder é a luta da meméria contra 0 esquecimento (Kundera, apud, Courtine, 1981). No entanto, na relagdo com o poder, o contrario também pode ser afirmado e, como diz Barthes (1977): "se, pois, eu quero viver, devo es- quecer que meu corpo é histérico, eu devo me langar na ilusdo de que sou contemporaneo dos jovens corpos presentes e nao do meu prdéprio corpo, passado (...). Eu procuro, pois, me deixar levar pela forca da toda vida viva: eu esquego”. As vezes, lembrar é resistir e, as vezes, esquecer é que é resistir. Voltemos 4 ambigiiidade do historico e a sua relagéo com o que muda eo que permanece ja que, como dissemos no inicio, a historia nao é transparente. Essa ambigiiidade, no nivel de discurso, é a que se da entre o polissémico (0 diferente) e a parafrase (0 mesmo), entre a concre- tude (contraditéria) do corpo e o formalismo (ideal) do sistema. Que mantém entre si a mesma relagdo tensa e necessaria de constituigdo. Se recobrem. Esquecer é mudar e também nao mudar. Assim como lembrar, tan- to pode ser reproduzido como transformar. Ndo ha nenhuma garantia a priori, Depende de uma conjuntura da qual o sujeito nao tem o privilégio de possuir a consciéncia plena ou o controle, mas na qual intervém. 108 DISCURSO & LETURA Memoria e esquecimento estao irremediavelmente emaranhados. E isso € visto pelos analistas de discurso como uma necessidade. Essa ne- cessidade, por sua vez, tem sua razdo na observacdo de uma trajetéria pela espessura estratificada (verticalidade) do discurso em suas possiveis transformagées. Sujeito, meméria, sentido Voltando & relagdo entre enunciado e enunciagdo, podemos dizer que ela esté na base de processos discursivos importantes dos quais enunciare- mas dois deles e que estdo ligados a “ilusdo do sujeito” (P&cheux, 1975). Como se sabe, essa ilusdo se realiza por dois esquecimentos: a) o de que o discurso nao nasce no sujeito, por isso, os sentidos nao se originam nele, so retomados por ele; b) o de que ao longo do seu dizer se formam familias parafrsticas com aquilo que ele poderia dizer mas vai rejeitando para c ndo-dito, e que também constitui 0 seu dizer (enquanto “margens”). Do primeiro esquecimento se origina a ilusdo do sujeito ser fonte de seu discurso (“o que eu digo tem o sentido que eu quero”, onipotén- cia do sujeito), e do segundo se origina a ilusao da realidade de seu pen- samento ("o que eu disse s6 pode significar x”, onipoténcia do sentido). No primeiro se inscreve a “eficdcia do assujeitamento” (ou ilusdo da au- tonomia do sujeito), no segundo, a “estabilidade referencial” (ou ilusdo da transparéncia dos sentidos). Observando-se os esquecimentos a luz da relagao entre enunciado/ enunciagdo podemos melhor apreciar a construgdo desses seus efeitos. E 9 que procuraremos fazer. a. Formagao discursiva e constitui¢ao do sentido Vamos tornar mais preciso 0 uso que estamos fazendo da nogao de formagao discursiva, pois esta nogdo é basica para essa reflexdo. As formagées discursivas representam, na ordem do discurso, as formagées ideolégicas que |hes: correspondem. & a formagao discursiva que determina o que pode e deve ser dito, a partir de uma posigao dada numa conjuntura dada. Isso significa que as palavras, expressdes etc. re- cebem seu sentido da formagao discursiva na qual sao produzidas. Dito de forma mais direta, a formagao discursiva e o “lugar da cons- trugdo do sentido (sua ‘matriz’, por assim dizer)” (Pécheux, 1975). O que nos leva a entender que “o sentido de uma palavra, de uma expressao, de EN] PULCINELLI ORLANDI 109 uma proposi¢ao etc. nao existe em si mesmo (isto é, em sua relagao trans- Parente com a literalidade do significante) mas é determinado pelas posi- GOes ideolégicas postas em jago no processo social-histérico em que as palavras, expressdes e preposicgdes séo produzidas (isto é, reproduzidas), Poder-se-ia resumir esta tese dizendo: as palavras, expressGes, proposi- ges etc. mudam de sentido segundo as posigées mantidas pelos que as empregam, o que significa que elas tomam seu sentido em referéncia a essas posigées, isto &, em refer€ncia as formagées ideolégicas nas quais essas posicdes se inscrevem” (Pacheux, 1975). A formagao discursiva — em sua correspondéncia com a formagéo ideolégica — define as condic6es de exercicio da fungao enunciativa. Ela é fundamental para o analista de discurso porque permite apreciar o modo de inscrigdo histérico pelo qual uma dispersdo de textos pode ser defini- da como um espaco de regularidades enunciativas (Maingueneau, 1984), Na formagao discursiva é que se constitui o dominio de saber que funciona como um princfpio de aceitabilidade discursiva para um conjun- to de formulacées (0 que pode e deve ser dito) e, ao mesmo tempo, como principio de exclusdo do naéo-formulavel. No entanto, é preciso enfatizar que a formacao discursiva nao fun- ciona como uma maquina légica, Ao contrario, ela é uma unidade dividi- da, uma heterogeneidade em relagao a si mesma. Hé um deslocamento continuo em suas fronteiras, em funcao das “jogadas” da luta ideoldgica, dos confrontos polftico-sociais. A especificidade da formacao discursiva esta justamente na contra- digdo que a constitui. Ela nao é imével e fechada. Cada formacao discur- siva define-se em sua relacao com as varias outras formacées, em sua articulagdo (contraditéria) com a ideolagia. Para apreciar esse movimento constitutive da nogéo de formagao discursiva, consideremos 0 exemplo que segue, no qual terlamos: 1. Abragar uma causa. 2. Assumir uma responsabilidade. 3. Tomar uma posigao. Em uma situagéo na qual o sujeito deve falar de sua opgdo diante de um projeto de ado, ao usar uma ou outra das possibilidades acima, estar definindo diferentes relacdes com a ideologia, ou seja, estard ins- crevendo seu dizer em uma ou outra formagaéo discursiva, as quais, por sua vez, se relacionam, se confrontam, na produgao de sentidos. Por isso € que, em andlise de discurso, se considera que o que define o sujeito é 0 lugar do qual ele fala em relagdo aos diferentes lugares de uma formagao: 110 DISCURSO E LEITURA social, Para entender o sentido de cada uma das construgdes apresenta- das acima é preciso pensar sua relacéo com as demais. No caso do pre- sente exemplo, se poderia dizer que a diferenca de sentido esté em que (1) remete a sentidos matizados pela ordem do discurso religioso, (2) ao jurfdico e (3) ao politico, Estas distingdes significam e dizem respeito tan- to ao sujeito quanto ao(s) sentido(s) produzidos. Courtine fala da contradi¢éo com o principio da formagéo discursi- va, e para isso retoma Foucault (1969): “Tal contradigaéo, longe de ser aparéncia ou acidente do discurso, longe de ser aquilo de que é preciso livré-lo para que ele libere enfim sua verdade desfraldada, constitui a propria lei de sua existéncia. A contradigéo funciona, entao, no fio do discurso, como principio de sua historicidade”. Ha as “condigées de produgdéo” de um enunciado — relacdo da seqléncia discursiva com o sujeito e com a situacdo, relagéo dos inter- locutores com a ideologia numa conjuntura histérica dada etc. — e ha as “condig6es de formagaéo” da formagao discursiva especifica em que se inscreve o enunciado — a constituigdo do saber préprio a essa formagao discursiva, na dependéncia do interdiscurso (0 repetivel). Da articulagdo entre as condigées de produgda com as condigdes de formagio é que deriva o dominio de meméria da seqiiéncia discursiva. Esse dominio pode ser definido como “um conjunto de seqiiéncias dis- cursivas que preexistem a enunciagéo da seqiiéncia discursiva em ques- tao, no seio de um processo” (Courtine, 1985). A partir do dominio de meméria é que se pode entender os efeitos que séo produzidos numa seqiéncia discursiva. E nesse dominio (o da meméria) que podemos obser- var a “pluralidade contraditétia" das seqdéncias discursivas j4 que, como vimos, estas se ligam (necessariamente) a diferentes formacées discursi- vas: a uma delas por dominancia, mas também a outras por diferentes relagdes, seja de antagonismo, recobrimento, alianca etc. Por af se pode ver que a relagdo com a ideologia (através do jogo entre as formagoes discursivas) ndo é homogénea, nem automatica, nem estatica. Como também ndo 0 é nem o sujeito, nem os sentidos. Contra- digdo, reprodugao, transformagéo, meméria, esquecimento, o mesmo e i diferente, jagam todo o tempo na produgao de um discurso, ou de uma eitura. b. Formacao discursiva e repetivel Consideremos, como o fizemos mais acima, que a relacao entre enun- ciado e enunciagao corresponde a duas dimensées constitutivas de dis- ENT PULCINELL ORLANDO! 1 curso: 4 enunciagao corresponde a sua “horizontalidade”, enquanto que 9 enunciado dimensiona o discurso na “verticalidade” (interdiscurso). E a verticalidade do discurso que se pode atribuir 0 dominio do repetivel, onde se trama a constituigéo do dizer (exterior ao sujeito). Na dimensao horizontal se tem formulagdo discursiva, isto 6, a pro- dugao da seqiiéncia lingiifstica espectfica (onde o sujeito intervém). Segundo Courtine (1982), “essa horizontalizagéo da dimensao ver- tical de constituigéo do enunciado é contemporanea da apropriagdo por um enunciador? que ocupa lugar determinado no seio de uma formagao discursiva; dos elementos de saber da formagao discursiva na enunciagdo do intradiscurso de uma seqiéncia discursiva, em uma situagao de enun- ciagdo dada”. Constituigdo e formulagao sdo, pois, duas instancias, mas sao inseparaveis. E assim que 0 sujeito intervém no repetivel (e 0 repetivel se inscreve nele). Isto, dito em outras palavras, significa que o interdiscurso (0 repetivel) est no intradiscurso (seqiiéncia lingiifstica especifica). Mais radicalmente, podemos dizer que toda caracterizagao em ter- mo de funcionamento ou efeitos discursivos engaja assim uma relagao do enunciado (0 repetivel) com a formulagao (a enunciagao). Relacao entre a dimensao vertical estratificada (desnivelada), onde se elabora o saber da formacao discursiva com a dimensao horizontal, em que os elementos desse saber se linearizam, tornando-se objetos de enunciagdo. Dessa re- lagao se produz a realidade do discurso: sua historicidade. Desse modo é que — diferentemente da lingiiistica, em que a repe- tigdo tem a ver com a nogao de informagao, de redundancia, de comple- tude e de marcas formais — 0 repetfvel, na ordem do discurso, se instala como uma das dimensées da historicidade, da relagéo com a formagao discursiva e com o seu dominio de saber: o enunciavel. O repetivel (dominio de saber) € uma sistematicidade do discurso que nao é abstrata, incorpérea — como as sistematicidades da lingua —, ao contrario, é histérica. E na relacao com a memoria, assim concebida, enquanto espago de recorréncia das formulagées na relagéo com a ideologia, que os objetos do discurso adquirem sua estabilidade referencial. Como se da isso? 3. Aqui, “enunciador” esté sendo utilizado no quadro tedrico de Courtine, que nao est4, portanto, referido as distingdes que propusemos acima. Seria equi- valente a “sujeito”. 12 DISCURSO E LEITURA, Os objetos de discurso — que na enunciag4o s4o colocados por conta do sujeito — adquirem sua estabilidade referencial pelo repetivel (0 pré-construfdo). Sem esquecer que o que joga na relagdo com o repetivel nao 6 0 sujeito em si, mas as posigées do sujeito* que regulam ja o pré- prio ato de enunciagao. Como estamos vendo, nao hé como desligar o contexto de enuncia- go do contexte do enunciado. Eles estao inextricavelmente ligados e se intercomunicam necessariamente. 0 interdiscurso fornece os objetos do discurso de que a enunciagao se sustenta, ao mesmo tempo que organiza 0 ajuste enunciativo que cons- titui a formulagao pelo sujeito. Esse ajuste acaba por desaparecer aos olhos de quem enuncia, ga- rantindo, na aparigéo de um eu — aqui — agora, a eficdcia do assujeita- mento: o sujeito tem a ilusdo de ser a origem do que diz (e do que Ié). Reencontramos o efeito discursivo da identificagéo, da constituigéo, da subjetividade. Af est4 a interpelacdo do individuo pela ideologia, af esta constituida a forma-sujeito com sua autonomia, sua responsabilida- de e sua determinagao pela exterioridade. E af esta nosso sujeito-leitor. O sujeito-leitor, constitufdo por esses efeitos, representa a conjun- Go de duas historicidades: a histéria de suas (do leitor) leituras e a histé- ria de leituras do texto (ver "As historias das leituras”, neste volume), que atuam dinamicamente na constituiggo de uma “sua” leitura especifica, em um momento dado. Os sentidos séo muitos, mas hé sempre um enuncidvel — um legivel, em nosso caso — exterior e preexistente, e é a partir dele que, como vimos, cada um pode intervir. Assim como o enunciavel é exterior ao sujeito da enunciag4o, tam- bém o legivel é exterior (preexiste) ao sujeito-leitor, ao mesmo tempo que, no momento da leitura, coloca-se como contemporaneo a ele. E no interior dessa contradigéo entre o preexistente e a contemporaneidade que se produz a leitura com seu(s) sujeito(s) e seu(s) sentida(s). Uma metafora visual: texto e percepcao Tendo como objeto da reflexéo a questao da autoria, pudemos che- gar a algumas elaboragdes que nos mostram que o texto nado é uma uni- 4. As posigées, é importante esclarecer, so da ordem das formagées imagina- rias (P&cheux, 1969) e correspondem a “lugares” na formagao social. NI PULCINELLI ORLANDI 113 dade homogénea (ver “Unidade e dispersdo: uma questdo do texto e do sujeito”, neste volume). Na perspectiva da andlise de discurso, 0 texto pode ser considerado como uma dispersdo do sujeito. Ele é atravessado por varias formagées discursivas e isso pode ser entendido dizendo-se que, no texto, © sujeito pode aparecer em varias posigées. No caso da leitura como seria? Para expor a questao da pluralidade possivel de leituras e a hetero- geneidade constitutiva da relagao do leitor com os sentidos, vou langar mao de uma aproximagaéo metaférica. Para tal, gostaria de relatar o que aprendi a partir da reflexdo sobre postura tedrico-critica de um artista plastico, David Hockney. Através do trabalho desse artista plastico, tomei conhecimento de um fato, a meu ver, importantissimo na relagdo com a linguagem: mesmo a percepgao nao é linear, completa, fechada, “plana”. Esse trabalho foto« grafico mostra como nosso olhar, ao perceber, por exemplo, uma 4rvore, desloca-se de um detalhe para outro, de um lugar para outro, apreen- dendo formas com dimensées, espessuras, brilhos etc., diferentes. Ele mostra isso produzindo fotos que sdo o resultado de uma espécie de colagem de detalhes justapostos e que privilegiam como “entrada” do olhar ora um ora outro ponto. O resultado é que a foto nao é mais uma representacao no sentido plano, e a drvore ganha em forga de realidade. Eu diria que é uma 4rvore muito mais arvore. . A nossa percepcao é “desorganizada”, ou melhor, a percepgao ndo é fixa, nao se faz de um lugar sé. O olhar é mével, atinge e se desloca por pontos (posig6es) diferentes. A fotografia tal como a conhecemos , desse mado, uma represen- taco achatada, “construfda” (enquanto produto acabado), em uma pa- lavra; domesticada. Nao dé a espessura, a “histdria” da nossa percepgao. O que podemos expressar, dizendo que hé varias perspectivas que o olhar assume (a polifonia, na linguagem verbal) e a foto fixa uma, idealizada. Por outro lado, ha, correspondentemente, varios pontos de fuga.* Pers- 5, Agradeso a J. Baptista C, Aguiar a oportunidade de conhecer esses traba- Ihos fotograficos. Quanto a nocao de ponto de fuga, aqui a tomo em seu sentido mais geral, como ponto em que se organiza a perspectiva, Gostaria também de lembrar 0 seu sentido de fuga em mdsica: “composicao polifénica, em estilo contrapontistico, sobre um tema tinico (sujeito) expostos sucessivamente em uma ordem tonal determinada pelas leis da cadéncia. O estilo contrapontistico da fuga baseia-se (...) na reprodugdo sucessiva dos mesmos desenhos ritmicos ou meldédi- cos, de duas ou mais vozes, nos diversos graus de escala". Nao é muito diferente do que penso para a leitura. : : 14 DISCURSO € LETTURA pectivas (ou pontos de entrada) e pontos de fuga estao correlacionados dinamicamente. Em conseqiiéncia desse movimento, a unidade do todo nao é linear, plana. A unidade é “selvagem”, dispar. Pois bem, apés ver as "fotografias” de D. Hockney “recuperei” o sentido da imagem, sua espessura, sua historicidade; problematizei, por assim dizer, minha percep¢ao. E aprendi que se isso se da com o olhar e as imagens visuais, 0 mesmo também se passa com a linguagem verbal. Problematizei, assim, mais um efeito da ideologia: 0 do “achatamento” do leitor e da “domesticagéo” da unidade textual. Desse modo se poderia apreciar que também a unidade do texto nao é plana, nem simétrica, nem “bem comportada”, eo “olhar” do leitor o atinge em diversos “pon- tos”. A unidade do texto, para o leitor, ¢ “fugaz”. Essas consideracées nos levam a pensar a pluralidade inscrita no efeito-leitor da maneira que segue. Todo texto em relagao a leitura teria, pois, varios pontos de entrada e varias pontos de fuga. Os pontos de entrada corre: sponderiam a multiplas posigdes do sujeito, Os pontos de fuga sao as diferentes perspectivas de atribuic&o de sentidos: ao relacionar-se com os varios pontos de entrada, 0 leitor pode produzir leituras que encaminham-se em varias diregées. Nao necessariamente previstas, nem organizadas, nem passiveis de calculo. Ha varias perspectivas de leituras. HA diferentes posicdes do sujeito-leitor. Os _pontos de entrada sao efeitos da relagdo do sujeito-leitor com a historicidade do texto. Os pontos de fuga sao o percurso da historicidade do leitor, em relagao ao texto. O acontecimento-leitura poderia, entao, ser descrito mais ou menos { da seguinte forma: diante de um texto, um sujeito x esta afetado pela sua historicidade e se relaciona com o'texto por alguns pontos de entrada, que } tém aver coma icidade do texto e a sua. Como o texto nao é transpa- frente em sua matéria sigrifficante, hd um efeito de “refraco” em relacdo A sua (do leitor) histéria de leituras, efeito esse que é funcdo da historicidade do texto (sua espessura, sua resist€ncia). Assim se d4 o processo de produ- ao dos sentidos, de forma a que o sujeito-leitor se apodere e intervenha no legivel (o repetivel). E desse modo, portanto, que se pode entender a relagdo dinamica entre constituigéo e formulagao do sentido. Em conseqiiéncia, pela consideragao dessa relagao entre pontos de entrada e pontos de fuga é que podemos dizer que os sentidos ndo cami- nham em linha reta.° Eles saem da linha. Em muitas e diversas direcdes. Ao mesmo tempo. De forma dispersa. Cadtica mesmo, 6. Isto leva 4 problematizagao tanto da linearidade, como da literalidade e da completude. ENT PULCINELLI ORLANDI 115 Paralelamente & ndo homogeneidade do texto ha a dispersao do sujeito-leitor. O que temos, em termos de uma representacao grafica, pode aparecer assim: sentidos lidos pontos de fuga TEXTO ———>- pontos de entrada A relagao entre o sujeito-leitor e o texto nao é, pois, nem direta nem mec@nica. Ela passa por mediagées, por determinagdes de muitas e variadas espécies que so a sua experiéncia da linguagem. Nem tampouco se pode separar, de forma estanque, a historicidade do texto e a do leitor. Elas sao relativas (entre si) e se entrecruzam de varias maneiras no processo de leitura. Os pontos de entrada e os de fuga nao existem independentemente dessa relacdo (a priori). Conclusdo: a forma-sujeito e a compreensdo A. Trés relagdes do sujeito com a significagao Todas essas consideragdes nos encaminham para uma distingéo fundamental. A que existe entre o inteligivel, o interpretavel e 0 com- preensivel._ aes ~ "Essa distingdo se organiza em torno da questao do assujeitamento e pée em foco a relacdo entre individuacao e individualidade, entre enun- ciagdo (formulagao) e enunciado (constituigao), entre pontos de entrada e pontos de fuga. Se nos reportarmos a Halliday (1976), podemos distinguir 0 que é inteligivel e o que é interpretavel. Segundo esse autor uma sentenga como “Ele disse isso” é inteligf- vel mas nao é interpretavel, pois, na falta de elementos que garantam (especificam) sua coesdo, ou seja, das relagdes semAnticas que assegu- 116 DISCURSO E LEITURA ram a coeréncia interna do texto, nao se Ihe pode atribuir uma interpreta- go (Quem é gle? O que (isso) ele disse?). Mantendo ainda a concepgo desse autor, quando fala que a textualidade resulta da coeréncia interna (coesdo) e da coeréncia externa (ou consisténcia de registro), podemos fazer uma extensdo desse seu con- ceito, pensando uma dimensao de atribuigéo de sentidos que se reporta & exterioridade (& coeréncia externa), Trata-se agora do que podemos chamar compreensao. Dirlamos — partindo da perspectiva de Halliday e chegando no dis- cursive — que a compreensdo do nivel da consisténcia de registro (coe- réncia externa). Temos, assim: a) 9 inteligivel: a que se atribui sentido atomizadamente (codifi- “cagaa); b) 9 interpretavel: a que se atribui sentido levando-se em conta o contexto linguistico (coesao); <) 9 compreenstvel: é a atribuigao de sentidos considerando o pro- ‘cess6 de significagéo no contexto de situagSo, colocando-se em relagéo enunciado/enunciagao. Do ponto de vista discursivo, e para além do proposto por Halliday, assim caracterizada, a compreensdo se instaura no reconhecimento de que o sentido é sécio-historicamente determinado e esta ligado a for- ma-sujeito que, por sua vez, se constitui pela sua relagdo com a forma- cao discursiva. A partir desse reconhecimento pode-se levar em conta o chamado dominio de saber, o da constituicéo do sentido. £ ainda atra- vés desse reconhecimento, assim caracterizado, que também se pode atingir a produgao do efeito de estabilidade referencial, produzido pelo interdiscurso. No nivel. da compreensdo e que é possivel apreender o fato de que 0 dominio de saber de qualquer formaco discursiva esta articulado com 0 dominio da enunciagao, podendo-se assim, mostrar que sujeito e for- magao discursiva se relacionam contraditoriamente. _Compreender, em suma, é refletir sobre a (e ndo refletir a) fungdo do efeito do eu-aqui-agora, que é a instancia das formulagées (horizonta- lidade), em sua necessdria relagdo com a constituigdo (verticalidade) dos sentidos, esclarecendo que estes sao fundamentalmente contraditérios, ou politicos, como o diz Geertz (1978). Compreender, eu diria, 6 saber que o sentido poderia ser outro. ENI PULCINELLI ORLANDI 7 Quanto & interpretagao e ao intérprete, eis o que se passa. O intérprete formula apenas o(s) sentido(s) constituido (0 repetivel), estando ele (leitor) afetado tanto pela ilusdo que produz a eficacia do assu- jeitamento quanto pela que institui a estabilidade referencial, de que resul- ta a impressiéo de que ha uma relacao direta entre o texto e o que ele significa. Portanto, enquanto intérprete, o leitor apenas reproduz 0 que jé esté lé produzido. De certa forma podemos dizer que ele nao 1é, é “lido”, uma vez que apenas “reflete” sua posigao de leitor na leitura que produz. Ao realizar uma relagéo direta e automatica com o texto, a leitura do intérprete nao desconstréi o funcionamento ideolégico de sua posi- 40 como (forma) sujeito-leitor, apenas a reflete, como dissemos. Pela nogao de compreensao sabemos que nao ha essa relagao di- reta e automatica, ja que nem o sujeito nem o texto sao transparentes e tampouco mantém uma relagao unfvoca, termo a termo, quanto a signi- ficagao. Ent&o, para chegar 4 compreensao nao basta interpretar, é preciso ir ao contexto de situagdo (imediato e histérico). Ao fazé-lo, pode-se apre- ciar o lugar em que o leitor se constitui como tal e cumpre sua-fungdo social. Podemos melhor apreciar a relagdo entre pontos de entrada e pontos de fuga. ‘| ce Ter acesso,8 compreensao\é atingir (desconstruir) a relagéo enun- ciag4o/enunciado, formulagao/constituigéo do sentido. £ chegar no do- minio em que se elaboram as conseqiiéncias da ilusdo do sujeito as quais nos referimos anteriormente: o assujeitamento e a estabilidade referen- cial. E isto sé se dé, segundo nossa perspectiva, através da teoria. \ O.sujeito que produz uma leitura a partir de sua posigao, interpre- { ~ ta, O sujeito-leitor que se relaciona criticamenté com sua posigao, que a 7 problematiza, explicitando as condicées de produgao da sua leitura, com- } _preende. Sem teoria ndo hé compreensao. : No seu trato usual com a linguagem, o sujeito apreende o inteligt- | vel, e se constitui em intérprete. A compreensao, no entanto, supde uma f ‘relagéo com a cultura, com a histéria, com o social e com a linguagem, ) que é atravessada pela reflexao e pela critica. Se é assim, perguntariamos: a escola, quando ensina a ler, propicia ao aluno condigées para que se produza a compreensao? Atinge o fun- cionamento ideoldégico da linguagem? Tendo enfim em conta o fato de que compreender é desconstruir teoricamente, chegamos a formulagdo de mais um aspecto da historici- 118 DISCURSO LEITURA dade que caracteriza 0 discursivo: 0 conceito histérico (politico) de com- preensdo. O que nos leva a outra afirmagao igualmente relevante: nao ha compreensao sem historicidade. £ isto esté de acordo com a afirmagao da andlise de discurso de que a textualidade é histérica. B. A interpretagao: hermenéutica e andlise de discurso A anélise de discurso nao se constitui em uma hermenéutica na relagda com o texto. Na hermenéutica se visa uma forma de interpretagdo e como tal se procura extrair um (varios) sentido(s) do texto. A anilise de discurso néo é um método de interpretagao’ nao atri- bui nenhum sentido ao texto. O que ela faz 6 problematizar a relacdo com o texto, procurando apenas explicitar os processos de significacao que nele estao configurados, os mecanismos de produgao de sentidos que estao funcionando. Compreender, na perspectiva discursiva, no 6, pois, atribuir um sentido, mas conhecer os mecanismos pelos quais se pde em jogo um determinado processo de significagao. Desse modo, podemos dizer que a andlise de discurso visa a com- preenséo na mesma medida em que visa explicitar a hist6ria dos proces- sos de significacao, para atingir os mecanismos de sua produgio. O que temos a dizer, finalmente, 6 que, ao acolher a compreensdo entre seus objetos de reflexao, a andlise de discurso pode fornecer uma contribuigao substancial para o trabalho sobre leitura. E foi isso que pro- curamos fazer nesse nosso estudo. Referéncias bibliograficas BARTHES, R. Legon. Paris, Seuil, 1977. COURTINE, J. J. “La toque de Clementis”, in Le discours psychanalytique, s.d, (mimeo.). . "Définition d’orientations théoriques et construction des procedures en analyse de discours”, in Philosophiques, v. Xl, n. 2, Paris, 1982. ‘Quelques problémes théoriques et méthodologiques in analyse de discours”, in Langages, n. 62, Paris, Larousse, 1981. DUCROT, O. Le dire et le dit. Paris, Minuit, 1981. 7. Valeria a pena pensar essas preensivel — no interior da psicandlise. ingdes — inteligivel, interpretavel e com- ENI PULCINELLI ORLANDI 15 FOUCAULT, M. Larchéologie du savoir. Paris, Gallimard, 1971. . “ ordre du discours. Paris, Gallimard, 1971. . Vigiar e punir. 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