Está en la página 1de 13

651

Narrativas sobre risco e culpa entre usuários


e usuárias de um serviço especializado em
infecções por HIV: implicações para o cuidado
em saúde sexual
Narratives about risk and guilt among patients of a specialized
HIV infection service: implications for care in sexual health

Cristiano Hamann Resumo


Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, RS,
Brasil.
E-mail: cristiano.hamann@gmail.com O objetivo deste estudo é compreender como se
articulam percepções sobre HIV e aids em narra-
Adolfo Pizzinato
Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Porto
tivas de usuários e usuárias do Sistema de Saúde,
Alegre, RS, Brasil. trazendo elementos qualitativos que demonstram
E-mail: adolfo.pizzinato@pucrs.br a importância do aconselhamento em saúde sexual.
João Luís Almeida Weber Foram entrevistados nove usuárias e usuários de
Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Porto um serviço de saúde especializado (CTA) em Porto
Alegre, RS, Brasil. Alegre, no momento da procura pelo Teste Rápido
E-mail: jlweber27@gmail.com para HIV, sífilis e hepatites B e C. As narrativas
Kátia Bones Rocha geraram dois eixos de compreensão: Risco/Promis-
Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Porto cuidade e Culpa/Responsabilização. Estes eixos
Alegre, RS, Brasil. sintetizaram algumas das inúmeras possibilidades
E-mail: katiabonesrocha@gmail.com de significação frente à necessidade de realização
do teste de HIV. Os elementos promiscuidade, risco,
culpa e responsabilização se compunham a partir
de diferentes marcadores sociais, envolvendo expe-
riências sociais que se articulavam com o discurso
biomédico epidemiológico. Neste contexto, o acon-
selhamento se apresenta como um espaço potente
para desconstruir significações essencialistas e
noções estereotipadas de risco. Este estudo mostra
que as narrativas reiteram entendimentos de sexua-
lidade como dimensão individualizada, indicando a
necessidade de propostas de trabalho em saúde pela
via da singularidade. Considera-se que análises qua-
litativas centradas na experiência de usuários(as)
Correspondência são estratégicas num projeto de promoção de saúde
Kátia Bones Rocha sexual como processo coletivo.
Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Av. Ipiranga, Palavras-chave: Aconselhamento; HIV; Sexualidade;
6.681, prédio 11, sala 931. Porto Alegre, RS, Brazil. CEP 90619-900.
SUS; Teste Rápido.

DOI 10.1590/S0104-12902017170669 Saúde Soc. São Paulo, v.26, n.3, p.651-663, 2017 651
Abstract Introdução
The objective of this study is to understand how O acesso facilitado de usuários(as) dos sistemas
perceptions about HIV and AIDS are articulated de saúde a serviços oferecidos está relacionado com
in narratives of male and female patients of the melhores níveis de saúde e qualidade de vida. Ainda
Public Health System, with qualitative elements que existam investigações que corroborem esta
that demonstrate the importance of sexual health informação, análises atuais demonstram que, no
counseling. Nine male and female patients of a Brasil, diversas populações têm graves dificuldades
specialized health service (CTA) were interviewed de acesso, inclusive por discriminação econômica,
in Porto Alegre when they visited the CTA for the de classe, raça/etnia e sexo/gênero (Boccolini et al.,
HIV, Syphilis and Hepatitis B and C Rapid Test. 2016). No campo de análise em que se encontram os
The narratives generated two understanding Estudos de Gênero e Sexualidade com a Psicologia
axes: Risk/Promiscuity and Guilt/Accountability. da Saúde, especificamente, temáticas como as vul-
These axes synthesized some of the innumerable nerabilidades ao HIV/aids, estratégias de cuidado
possibilities of meaning in relation to the need to e formas preventivas de ação têm colaborado para
perform the HIV test. The elements promiscuity, problematizações acerca da diversidade da popu-
risk, guilt and accountability were composed of dif- lação atendida nos serviços públicos de saúde e,
ferent social markers, involving social experiences concomitantemente, da dificuldade de acesso envol-
that were articulated with the epidemiological vido neste processo (Costa; Nardi, 2015). Aspectos
biomedical discourse. In this context, counseling relacionados à estigmatização e exclusão das inti-
represents a powerful space to deconstruct essen- tuladas “minorias sexuais”, por exemplo, têm sido
tialist meanings and stereotyped notions of risk. alvo de pesquisas e trabalhos recentes, apontando
This study shows that the narratives reaffirm the ter relação com a precária situação do acesso no sis-
understanding of sexuality as an individualized di- tema de saúde por parte da população de Lésbicas,
mension, which indicates the need for health work Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Queers
proposals on singularity. Qualitative analyses (Alencar Albuquerque et al., 2016).
focused on the patients’ experience are strategic De outra forma, os tensionamentos provocados
measures in a project to promote sexual health as pelas discussões atuais no campo das identidades/
a collective process. diferenças podem ser notados quando atentamos
Keywords: Counseling; HIV; Sexuality; SUS; HIV para a relação, e certa falta de articulação, entre
Rapid Test. dados epidemiológicos (com o uso de terminologias
generalistas, que procuram contribuir abarcando
uma maior dimensão populacional), e estudos
qualitativos (que atentam para as potencialidades
de se pensar os atuais microcontextos) no campo
da saúde sexual. Pesquisas recentes, por exemplo,
procuram enfatizar categorias estratégicas como
HSH (homens que fazem sexo com homens), não
sem suscitar tensões quanto às fragilidades de
suspender da discussão em saúde aspectos de iden-
tificação e práticas sexuais particulares (Hamann;
Ew; Pizzinato, 2017; Young; Meyer, 2005). Ainda que
as informações epidemiológicas sejam importante
forma de prospecção de aspectos relacionados à
saúde das populações – como contextos de vulne-
rabilidade –, a necessidade de estudar dimensões
discursivas relacionadas a sexo/gênero, moralidade

652 Saúde Soc. São Paulo, v.26, n.3, p.651-663, 2017


e discriminação são indicados como estratégicas por envelhecimento, baixa escolarização, interiorização
muitos dos e das estudiosas da área, podendo com- e pauperização da epidemia (Brasil, 2015a).
plexificar análises e ampliar horizontes (Alencar O conceito de vulnerabilidade proporcionou
Albuquerque et al., 2016). uma visão dos processos de saúde/doença para
Ainda que o Brasil desenvolva pesquisas desde além da perspectiva dos “grupos de risco”, promo-
o surgimento da aids, na tentativa de subsidiar o vendo também a interpretação destes fenômenos
enfrentamento de demandas do âmbito das rela- como conjunções de aspectos individuais, sociais e
ções e práticas sexuais, essas pesquisas acompa- institucionais (Ayres et al., 2003; Parker; Camargo
nharam os conflitos anteriormente indicados com Junior, 2000). A noção de vulnerabilidade, que com-
uma entrada menor no campo subjetivo e ênfase põe algumas das facetas relacionadas ao processo
em dados epidemiológicos. Desde os princípios conhecido como ‘resposta brasileira à aids’, conside-
da epidemia, modificaram-se as estratégias de rava uma perspectiva alinhada à noção de direitos
cuidado delineadas em diferentes diretrizes que humanos e implicada num processo de identificação
precisaram migrar de uma perspectiva curativa do fenômeno nas esferas reconhecidas como social,
de saúde para uma de acolhimento e promoção programática e individual (Paiva, 2013).
de saúde. As formas de compreender o cuidado Entre os ganhos da resposta brasileira às DSTs
são particularmente importantes nessa cami- e à aids está a ênfase nas noções de território, di-
nhada, em especial se indicamos um projeto versidade, atenção e prevenção em saúde, enquanto
não hegemônico ou generalista no cuidado com aspectos vinculados a uma perspectiva de saúde/
o(a) usuário(a) ou os(as) trabalhadores(as). Isto doença que concebe, simultaneamente, o caráter
implica aos profissionais da saúde sensibilidade biológico e social (Rocha; David, 2015). Estas pers-
para atender as necessidades da população, espe- pectivas procuram refletir sobre as sexualidades e
cialmente quando mapear suas idiossincrasias sua interlocução com os cenários sociais e centram
se transforma em uma possibilidade de trabalho. seus olhares às práticas cotidianas, enquanto forma
Implica, concomitantemente, às pesquisas, indi- de desnaturalizar certas condutas relacionadas a
car as particularidades e necessidades dos usuá- grupos específicos, assim como fortalecer a ‘diversi-
rios e da relação que se constrói com os serviços dade’ enquanto conceito que deve compor a agenda
e profissionais. de discussões em saúde pública. Esse campo de
Historicamente as análises de necessidades diálogo no Brasil vem se modificando, em especial
e particularidades populacionais operavam em no transcorrer das últimas três décadas. Um dos
associações entre aspectos identitários e doenças aspectos que passa a ser enfatizado nessa trajetória
sexualmente transmissíveis (como a prostitutas(os), é a do cuidado centrado na(o) usuária(o) do Sistema
homossexuais, transexuais e travestis, usuários Único de Saúde.
de drogas injetáveis) e tensionavam a projeção de Há de se salientar ainda a importância de duas
direitos e visibilidade social com a possibilidade de correntes de militâncias no que concerne à trans-
novas formas de estigmatização. A noção de “grupos formação da noção de grupo de risco para uma
de risco”, por exemplo, ao passo que tentava delimi- compreensão mais dinâmica das vulnerabilidades
tar a dinâmica de infecções em certas populações, do campo da saúde. A primeira, de perspectiva fe-
gerava ações de propósitos higienistas e morali- minista, coloca em pauta as implicações do controle
zantes. Já que estas ações se coadunavam com pers- biomédico, em especial no que concerne ao campo
pectivas essencializantes que responsabilizavam de direitos sexuais e reprodutivos (Diniz; Guilhem,
exclusivamente os indivíduos por seu “contágio”, 2008). Nesse espaço de discussão, a ampliação da
as formas de identificação baseadas na doença se conceituação de ‘saúde da mulher’ para o âmbito
atualizavam. A limitação estigmatizante do concei- específico dos ‘direitos reprodutivos’ nos anos 1980
to de “grupo de risco” como vetor operacional das e 1990 no Brasil (Lemos, 2014), por exemplo, indica
evidências na propagação do HIV explicitou-se com movimentações de incorporação de discussões crí-
os processos de heterossexualização, feminilização, ticas em relação às naturalizações do corpo, assim

Saúde Soc. São Paulo, v.26, n.3, p.651-663, 2017 653


como estabelece diálogos com esferas de sexualida- sociais envolvidas, analisar e ressignificar as diver-
de não heteronormativa. Neste período, a incorpora- sas esferas de práticas sexuais e atravessamentos
ção das noções de ‘direitos reprodutivos’ e ‘direitos discursivos envolvidos. Seguindo essa perspectiva,
sexuais’ como facetas indissociáveis da noção de esse artigo busca compreender como se articulam
‘direitos humanos’, permitiu a construção de cam- percepções sociais sobre HIV e aids em narrativas
pos de discussão política que não se restringem às de usuários e usuárias do Sistema de Saúde, tra-
leituras tradicionais de saúde e legalidade. A outra zendo elementos qualitativos que demonstram a
dimensão de militância que promove mudanças em importância do aconselhamento em saúde sexual.
relação ao estatuto generalista do sujeito em saúde
é a dos movimentos trans. Guaranha (2014) atenta Método
que a reflexão operada por estes movimentos criti-
ca a reiteração de um sistema cissexista, no qual O presente estudo é resultado de uma pesquisa
a vivência de pessoas cisgêneras – que vivem com realizada no Centro de Testagem e Aconselhamento
uma identificação de gênero em consonância com (CTA) do Ambulatório de Dermatologia Sanitária
a designação sexo/genital – é considerada legítima (ADS), Porto Alegre/Rio Grande do Sul, Brasil.
e universal. O CTA/ADS foi o primeiro CTA do Brasil, criado
Mesmo que de forma nem sempre continuada, a pelo Ministério da Saúde em 1988. Está sediado
relação estabelecida entre diferentes movimentos no ADS, que funciona desde 1920, historicamente
sociais e gestores de saúde no Brasil gerou polí- destinado ao tratamento de problemas derma-
ticas e ações programáticas coconstruídas e com tológicos, hanseníase e doenças sexualmente
grande adesão. Se, por um lado, as propostas de transmissíveis, tendo agregado na década de 1980
enfrentamento da epidemia desenvolvidas no Brasil o atendimento aos primeiros casos de aids do país.
compõem-se atualmente em outro cenário, como os Neste sentido, o CTA, assim como o ADS, funciona
investimentos em dispositivos tecnológicos – como como importante referência na capital e no Estado
o fluido oral pelo projeto “Viva Melhor Sabendo” para o diagnóstico e o tratamento de DST/HIV/
(Brasil, 2015b) –, ou na possibilidade de comunicação aids, tendo ampla tradição de acesso a segmentos
com novos coletivos sociais, o panorama nacional populacionais mais vulneráveis.
ainda se mostra demasiadamente discriminatório. Foram convidadas pessoas que procuraram o
Essa discrepância é perceptível em estudos atual- CTA no período de março a julho de 2015 para a rea-
mente desenvolvidos no país com foco em popula- lização do Teste Rápido. Participaram nove pessoas
ções tradicionalmente estratégicas, como profissio- que acessaram o serviço no período (duas usuárias
nais do sexo (Salmeron; Pessoa, 2012) e pessoas em mulheres cisgênero, seis homens cisgênero e uma
situação de rua (Carneiro Junior; De Jesus; Crevelim, usuária mulher transgênero). Os entrevistados e
2010). Neste sentido, a articulação entre as políticas entrevistadas tinham entre 24 e 55 anos, em sua
de saúde no Brasil e as práticas de cuidado merece maioria com Ensino Superior completo, todos(as)
ser alvo de questionamento. Uma das formas de brancos(as) e solteiros(as) (aspectos não elencados
problematização pode operar por meio do enfoque como critério, mas que caracterizaram as pessoas
no encontro entre as tecnologias (duras e leves) e entrevistadas). As entrevistas tiveram duração
como elas reverberam nos espaços de diálogo entre aproximada de quarenta minutos, foram gravadas,
usuários(as) e profissionais de saúde. transcritas e digitalizadas, reunindo um corpus
Sabemos que é preciso desenvolver formas único de análise. As entrevistas com as pessoas
de aconselhamento mais efetivamente focadas participantes desse estudo compunham o “estu-
nas necessidades de cada pessoa (Carvalho et al., do–piloto” para a consolidação da pesquisa “Testes
2016; Terto Junior, 2015). Entretanto, na esteira rápidos para HIV, sífilis e hepatites virais: análise
dessa discussão, considera-se necessário oferecer do impacto dessa tecnologia de cuidado no acesso
também subsídios para que os(as) profissionais a populações em situação de maior vulnerabilida-
possam se apropriar das diferentes dinâmicas de em um Centro de Testagem e Aconselhamento

654 Saúde Soc. São Paulo, v.26, n.3, p.651-663, 2017


(CTA) de Porto Alegre/RS”1, que avaliou o impacto às afirmativas nesse campo foi incorporado de dis-
da implantação do Teste Rápido em Porto Alegre. tintas formas nas falas destes(as). Alguns exemplos
Os dados gerados foram analisados a partir dos das diferenças de posicionamento são da Usuária
pressupostos da análise temática. Seguiram-se os 12 e do Usuário 23 que serão apresentados a seguir.
1

passos estabelecidos por Braun e Clarke (2006): Os dois participantes não usaram preservativo com
familiarização com os dados (por meio do proces- seus respectivos parceiros, indicando esse aspecto
so de transcrição, leitura e releitura dos dados), como motivo da procura do serviço de saúde.
geração de códigos iniciais (produção de códigos Para a Usuária 1, a prática sexual que considera
sistemáticos, ao longo de toda a entrevista, agru- indevida, relacionada a quem corre maior risco, é
pando dados relevantes), procura por temas (agru- aquela realizada por quem faz sexo “com várias
pamento de códigos em temas), revisão dos temas, pessoas”. Segundo a Usuária, o problema seria a
definição e nomeação dos temas finais e produção “promiscuidade” que engloba suas formas de agir e
do relato. Os resultados, por fim, sustentaram dois de pensar. Essa usuária faz uma distinção bastante
eixos temáticos: Promiscuidade/Risco e Culpa/ clara a sua situação em relação à doença e a posição
Responsabilização, que demonstram algumas das social desempenhada pelos outros: “Existem pesso-
inúmeras possibilidades de significação do mo- as que não têm esclarecimento nenhum [.... É o meio
mento vivido no CTA, assim como articulações do em que eles vivem, estão acostumados com esse tipo
aconselhamento com discursos sociais que envol- de coisa.” (Usuária 1). A participante faz essa afir-
vem este campo de pesquisa – e que compreendem mação logo após comentar que havia sido infectada
uma dimensão emergente e carente de estudos pelo marido, categorizado como promíscuo e com
qualitativos. hábitos de vida condenáveis. Ainda que a posição
social possa modificar-se, a ideia de responsabiliza-
Resultados e discussão ção e ‘personalização’ esteve presente para outros
participantes que, como ela, responsabilizavam
Os eixos temáticos apresentados foram organi- totalmente parceiros(as) promíscuos(as) – ou a si
zados a partir das narrativas das diferentes usuá- mesmos, quando entendidos como tal.
rias e usuários do serviço de saúde. As dimensões Para o Usuário 2, as ideias de promiscuidade e
teóricas que os organizam (promiscuidade/risco e de risco (termos utilizados pelo próprio usuário)
culpa/responsabilização) são discutidas à luz da se mostram intrinsecamente vinculadas a ser gay:
literatura que tensiona as formas de apreensão
de fenômenos relacionados à promoção de saúde. Agora eu decidi fazer porque com o meu ex eu fiz
Essa discussão procura, além disto, compreender sem camisinha, e a gente acaba fazendo sexo oral
alguns dos possíveis lugares ocupados pelos(as) sem camisinha, sabe? Muitas vezes a gente não
implicados(as) neste contexto, que estão intrin- se cuida, e acaba saindo muitas vezes em festas
secamente relacionados a estratégias futuras no onde tem dark room.... Sabe como é que é né, gay...
processo de aconselhamento em saúde sexual. A gente acaba indo no embalo e.... A gente acaba
não se cuidando (Usuário 2, grifo nosso).
Promiscuidade/risco
Essa noção de um tipo de atitude ou forma de
A noção de promiscuidade e exposição a situa- ser gay, enquanto intrinsecamente vinculada à
ções de risco permeou as narrativas das e dos parti- promiscuidade, é uma leitura recorrente. Podemos
cipantes. Entretanto, o posicionamento em relação compreender que as repetições que constituem este

1 Pesquisa aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da PUCRS, financiada pelo Ministério da Saúde (Edital para seleção de
subprojetos de pesquisa em DST, HIV/aids e Hepatites Virais – 2013/1).
2 Mulher cisgênero, branca, heterossexual, casada, 55 anos, ensino superior completo.
3 Homem cisgênero, branco, homossexual, solteiro, 29 anos, ensino superior completo.

Saúde Soc. São Paulo, v.26, n.3, p.651-663, 2017 655


campo normativo se manifestam historicamente e os processos vitais que estão constantemente se
relacionadas a movimentos de patologização ou atualizando nos serviços de saúde. Este campo,
estereotipia das sexualidades consideradas dissi- que pode ser composto no que se reconhece como
dentes (Pelúcio; Miskolci, 2009). Neste processo, biopolítica (em certa medida estatal, disciplinar e
enunciados que manifestam a suposta promiscui- controladora dos corpos), aponta para enunciados
dade intrínseca aos gays contemplam uma lógica não unilaterais, mas (co)atuantes e atualizando-se
social que reitera um funcionamento de vigilância em redes discursivas. Neste sentido, circunscrever
moral, assim como uma suposta ‘substância’ des- a narrativa utilizando-se de um pressuposto cienti-
sas pessoas. Na fala do Usuário 2, o processo de ficista, em expressões como “índices que mostram”
identificação com o ‘ser gay’ surge na narrativa (Usuário 3), demonstra como os enunciados do
como uma justificativa, um argumento diante da campo da biopolítica organizam-se dinamicamente
‘acusação’ não manifesta pelo entrevistador, mas e não verticalmente, sendo reproduzido por quem é
presente socialmente, de que gays são propensos alvo desse tipo de produção social.
a atitudes consideradas promíscuas, impróprias Para o Usuário 4 5, existe atualmente uma
moralmente. Simultaneamente, a identificação com liberação sexual e de possibilidades de práticas
esse discurso é presente, e se desenvolve como uma diversas muito ligadas às possibilidades tecnoló-
possibilidade de ação dentro do que se parece con- gicas de comunicação interpessoal. Entretanto, é
ceber nas narrativas como um tipo de experiência importante atentar para a noção de comunicação
gay da qual se é convocado quotidianamente a falar. nesse contexto, que está intrinsecamente vinculada
O Usuário 34 reitera a ideia de que os homosse-
5
às possibilidades estabelecidas pelo anonimato.
xuais são mais propensos ao HIV do que heterosse- Apesar do alargamento das possibilidades sociais
xuais. Ainda que possamos compreender este fato de homoerotização, a prática sexual homossexual
como um resquício do discurso propagado no início ainda é muito associada a noções como discrição e
da epidemia, na década de 1980, chama atenção a traição conjugal.
organização e os atributos narrativos utilizados:
Essas ferramentas de encontro pela internet e te-
Eu acho que a procura do público homossexual lefone, até de casais ditos heterossexuais. Até que
é bem maior que a do público heterossexual, no você falou ‘homem que faz sexo com homem’... A
serviço de testagem. Primeiro pelos índices que quantidade de heterossexuais que fazem sexo com
mostram que os homossexuais têm bem mais homem é muito maior do que tu possas imaginar.
HIV que os heterossexuais. Eu acho que por isso É tudo mais tranquilo, mais fácil, pode ser feito de
o homossexual procura bem mais o serviço que uma forma discreta (Usuário 4, grifo nosso).
o heterossexual. As pessoas que trabalham com
isso já estejam mais preparadas para lidar com o É importante notar que, por diversas vezes ao
homossexual mesmo (Usuário 3, grifo nosso). longo das entrevistas, referências a “falsos” ou
“verdadeiros” heterossexuais estão presentes. Esses
O uso nas entrevistas de supostas informações posicionamentos podem ser lidos como movimentos
sobre infecção e homossexualidade, como na fala do persecutórios em relação à homossexualidade ou ao
Usuário 3, leva a pensar nas interfaces existentes exercício de práticas sexuais entre homens, parte do
entre os discursos sociais e o campo científico numa discurso social heteronormativo. Considerando as
lógica de controle e vigilância. Concebido como for- orientações sexuais como processos estabelecidos
ma de poder/saber e inscrito nesta lógica, a noção de por meio da autonomeação (enquanto dinâmicas
biopolítica (Foucault, 1999) atenta para a organiza- identificatórias), é interessante observar que esteja
ção de certos discursos sociais sobre os itinerários presente em diversas falas a noção da sexualidade

4 Homem cisgênero, branco, homossexual, 24 anos, ensino superior incompleto.


5 Homem cisgênero, branco, homossexual, solteiro, 39 anos, ensino superior completo.

656 Saúde Soc. São Paulo, v.26, n.3, p.651-663, 2017


ou orientação ‘velada’. Trata-se aqui de que tipo algumas destas construções sociais. O termo cunha-
de exercício da sexualidade pode ser legitimado e do pelo autor procura abarcar o conjunto de lugares
compreendido dentro de um espectro social discur- e espaços destinados à estruturação do masculino
sivamente heteronormativo e discriminatório. Além – como grupos de interação na escola, bares, clubes
disto, tais movimentações reiteram uma lógica na ou cafés – nos quais o homoerotismo pode ser ex-
qual as práticas sexuais supostamente dariam conta perimentado, permitindo a incorporação de sabe-
da complexidade das posições sociais e subjetivas res estruturados em códigos e ritos, e nos quais a
de todos os homens e mulheres, numa espécie de aprendizagem se conduz pela via do sofrimento e da
holismo generalizante. dissimulação. Como fica evidente na fala, a concep-
O foco deste tipo de discurso (persecutório em re- ção de homem e mulher, assim como do exercício de
lação à orientação) aparece voltado para os homens, atributos masculinos e femininos, se dá de maneira
especialmente com ligação às formas diversas de relacional. Deste modo, na narrativa do Usuário 4, as
exercício da(s) masculinidade(s), ainda que diver- referências a uma forma genérica de mulher servem
sos marcadores, como raça, gênero e sexualidade como forma de circunscrever um atributo tomado
atentem para a necessidade de interpretações mais como essencialmente do homem, a masculinidade.
dinâmicas do ‘ser homem’ na contemporaneidade Esses saberes/fazeres se inserem em uma lógi-
(Vigoya, 2011). Nesta perspectiva, poderíamos com- ca cotidiana de vigilância que assume diferentes
preender que formas persecutórias de ‘desvelar’ a maneiras – por exemplo, no que concerne à ansie-
sexualidade verdadeira funcionariam tanto numa dade gerada na possível identificação dos homens
lógica de ‘sexualidade normal’, como em uma forma com o feminino (Torrão Filho, 2005) por meio de
de exame em uma perspectiva identitária essen- determinadas práticas e exercícios da sexualidade.
cialista, marcada pelo medo da identificação com Compreensões tradicionais das práticas sexuais,
o feminino e as possíveis práticas relacionadas à que envolvem penetração e que operam sobre a dis-
posição historicamente subalterna das mulheres. tinção hierárquica ativo/passivo (Carrara; Simões,
O Usuário 4 ainda comenta, no que se refere a in- 2007) e se atualizam nas narrativas cotidianamente,
formação entre gays e aspectos de masculinidade: nos dão um bom panorama dessas questões. Uma
fala que ilustra este discurso tradicional e norma-
A gente fala mais sobre isso entre nós. Agora, eu tivo é a do Usuário 2, que em certo momento de sua
acho que entre famílias isso é tudo velado, mas se narrativa, enquanto descreve um de seus parceiros,
tu fores ver na internet tá cheio de homens casados indica: “Quando ele cheira, ele deixa de ser homem
buscando sexo. É muito mais frequente, só que não e quer dar o cu”. Para este Usuário, o ‘ser homem’
é falado, as pessoas não sabem isso. Eu acho que as está relacionado às posições penetrante/penetrado
mulheres são outras que vivem no ministério, no no ato sexual, o que nos remete a certas atualiza-
ministério do lar [risos]. Acho que elas nunca sa- ções discursivas de temáticas que continuam a ter
bem do que está acontecendo, ela sempre acredita reverberação social.
que o homem é fiel, aquela coisa que eu acho que De outra forma, muitas(os) usuárias(os) utilizam
é muito masculina, né? Eu digo, essas questões de terminologias científicas, orientadas à hegemonia
promiscuidade, traição... não é uma coisa de gay, do saber biomédico sobre a sexualidade, na consti-
é uma coisa masculina (Usuário 4, grifo nosso). tuição de suas narrativas sobre as demandas e o ser-
viço de saúde. Algumas falas deixam mais evidente a
Por diversas vezes, no contexto de pesquisa, a interlocução pesquisadoras(es)/pesquisadas(os), ou
conjuntura masculinidade/traição/virilidade este- seja, de uma investigação contextualmente realiza-
ve relacionada com promiscuidade. Estes aspectos da em um Centro de Saúde e que, portanto, convoca
coadunam-se a outras interpretações sobre o exer- os interlocutores e interlocutoras a um exercício de
cício da sexualidade no contexto da masculinidade. comunicação situada. Contudo interessa-nos parti-
Welzer-Lang (2001, p. 462), por exemplo, defende cularmente a forma estratégica nas narrativas que
o termo ‘a casa dos homens’ para compreender estas aproximações ao discurso biomédico fazem

Saúde Soc. São Paulo, v.26, n.3, p.651-663, 2017 657


despontar. O Usuário 56, por exemplo, nos atenta
7
essas falas. Porém, no que se refere às mulheres, o
para algumas das interpretações sociais vincula- movimento não se mostrou o mesmo:
das a doenças infecciosas por meio do uso destas
expressões do campo científico. Nesse movimento, Uma pessoa me perguntou e eu recomendei. Por
reitera as noções de promiscuidade e risco como que também a outra pessoa tem uma vida sexual
características dos homens – especialmente os que bem perturbada. É uma colega de trabalho minha
fazem sexo com outros homens. que sai e dá para um cara, a cada três dias ela sai e
dá para um cara diferente. Mas não me conta se é
Mesmo que eu me cure de algum detalhezinho, tipo, com ou sem camisinha, mas pelo jeito dela parece
eu tenho relacionamento com homens, sabe? E aí ser bem promíscuo (Usuária, 67, grifo nosso).
sei que é um grupo de risco, promiscuidade é muito
grande, pega um monte de cara casado que fica No contexto da pesquisa, se a desconfiança
com outros e aí tu não pode confiar em ninguém, em relação aos homens teve um tom de acusação
ninguém hoje em dia confia em ninguém. Não dá quanto à possibilidade de doença, para as mulheres
pra confiar (Usuário 5, grifo nosso). as narrativas estiveram focadas na exposição da se-
xualidade e das práticas sexuais. Se no contexto dos
Mesmo que o “detalhezinho” possa represen- homens o movimento acusatório está relacionado ao
tar alguma Infecção Sexualmente Transmissível anonimato e à disponibilidade de itinerários sexuais
(IST) e que a evidente desconfiança em relação a discretos e perigosos, no contexto das mulheres esse
possíveis parceiros possa configurar uma atitude movimento mostra-se voltado para o que ela ‘parece
protetiva, o que mais destaca-se nessa fala é a fazer’. Para a Usuária 6, por exemplo, essa forma
assunção identitária do termo “grupo de risco”. A de agir é um indicativo sobre as práticas sexuais.
literatura proveniente do campo das políticas para Os aspectos que atravessam as falas das pessoas
HIV e ISTs apontada para a noção de “grupos de entrevistadas levam a pensar o eixo promiscuidade/
risco” incrementou ações de propósito higienistas risco como dimensão estratégica das negociações
e moralizantes (Parker; Camargo Junior, 2000). Por pessoais de gestão de risco. As narrativas em grande
meio desta fala, compreendemos que tal processo medida tinham caráter acusatório, no qual a possi-
não é unilateral, mas, sim, atualizado na forma de bilidade de personalização do problema do HIV se vê
enunciados. Neste contexto, é evidente a ênfase intrinsecamente articulada com formas de morali-
dada pelo Usuário 5 no que se refere à sensação de zação dos exercícios da sexualidade, ou com a igno-
desconfiança em relação a parceiros e parceiras rância. Seja pela associação de uma experiência gay
sexuais. Entretanto, para os/as participantes, essa a uma ideia de vida promíscua – que apesar de fator
desconfiança apareceu principalmente relacionada histórico ainda é fortemente presente nos serviços
a figura dos homens. Na fala do Usuário 5, o foco –, de certo “jeito de ser” como indício dessa promis-
são os homens casados que têm disponibilidade de cuidade entre diferentes orientações sexuais, ou
circular em ambientes diversos, com a discrição pro- da figura do homem ‘ilegítimo’ que, mesmo casado,
porcionada pelos meios de comunicação ‘anônimos’ circula entre homens com quem faz sexo, mostra-se
como a internet e aplicativos móveis. Essa disposi- um campo de certas legitimidades que se organizam
ção histórica dos homens (tanto no incentivo social sob efeitos de pânico moral (Miskolci, 2007).
para o exercício do sexo pelos meninos e homens,
como de um processo de dominação masculina na Culpa/Responsabilização
qual a virilidade está relacionada à traição e ao
número de parcerias sexuais) nos dá indicativos As falas das Usuárias e dos Usuários, que comu-
sobre que tipo de feixe discursivo que atravessa mente se associam à temática da “contaminação”,

6 Homem cisgênero, homossexual, casado, 30 anos, ensino superior.


7 Mulher trangênero, branca, bissexual, separada, 37 anos, ensino médio completo.

658 Saúde Soc. São Paulo, v.26, n.3, p.651-663, 2017


pendem entre posicionamentos mais próximos ou e proteção ao HIV (Guilhem; Azevedo, 2008). Se as
mais distantes das noções de culpa/responsabiliza- falas das entrevistadas denotam a perda de confian-
ção. Para a Usuária 78, por exemplo, a responsabili-
9
ça em seus cônjuges, de alguma forma retomam um
dade pela “contaminação” aparece muito vinculada discurso de proteção associada à conjugalidade, ao
à figura masculina: amor romântico, à fidelidade, ao respeito e à cum-
plicidade construídos historicamente no Ocidente,
Ninguém vai querer saber se foi do meu ex-marido, entretanto, contextualizam esse discurso pela via
se foi do namorado. É pelo estigma que o soropositi- da perda de um suposto espaço de proteção.
vo carrega. É o que eu penso de um soropositivo. Eu Na argumentação construída pela Usuária 7
abro aspas para mim e mais duas ou três pessoas. é interessante notar que, além da tentativa de
Porque são pessoas inconsequentes, que caem afastamento que faz dos homens da cumplicidade
na noite, usam drogas, dormem.... Transam com conjugal, tenta descolar de si o estigma do HIV da
qualquer pessoa. Foi o que o meu marido fez. Eu história de sua infecção: “ninguém vai querer saber
sabia o que estava acontecendo, porque os homens se foi do meu ex-marido, se foi do namorado. É pelo
estão trazendo isso para as mulheres, cada vez estigma que o soropositivo carrega” (Usuária, 7).
mais (Usuária 7, grifo nosso). Durante parte de sua entrevista, ela reitera a noção
tradicional de coexistência de duas possibilidades
A separação entre “nós” e “eles” é um processo distintas de exercício da sexualidade que variam
comum na qual os atributos positivos podem estar conforme o gênero, na qual às mulheres caberia
vinculados ao grupo de ‘pertencimento’ de quem fala o exercício com função de reprodução, atrelada à
e os atributos negativos, aos que fazem parte dos monogamia conjugal, enquanto, para o homem,
‘outros’ (Tajfel, 1981). A Usuária 7 coloca de maneira estaria ligado ao prazer, seja dentro de uma relação
contundente que os culpados pela “contaminação” monogâmica ou extraconjugal (Lôbo; Silva; Santos,
das mulheres casadas são os maridos. Para além da 2012). Tais aspectos falam de formas consideradas
já notada noção de promiscuidade como algo indi- legítimas de infecção, como pelas crianças e mulhe-
cado enquanto do âmbito masculino, reiterada na res, sobretudo as com parceiros fixos, e outros que
fala da Usuária 7, vemos que a posição das mulheres não ameaçam ideias moralizantes de exercício da
no que se refere ao uso de preservativo não é linear. sexualidade e das ilegítimas, promovidas por pes-
Os significados atribuídos ao uso de preservativos soas que põem em conflito o imaginário dominante
podem ser atravessados pelas formas de dominação (Guilhem; Azevedo, 2008).
masculina no âmbito conjugal (Heilborn, 2004), Para o Usuário 89, o posicionamento em relação
mas, para além disto, o movimento feito pela usuá- à contaminação é de maior proximidade e de grande
ria é de reiterar ao longo da narrativa pessoal uma sofrimento.
distância muito bem marcada entre sua situação
e a dos outros. Esse movimento de afastamento e hoje, eu não conseguiria transar com alguém sem
diferenciação, entretanto, mostra-se balizado por camisinha. Sabendo que eu posso estar passando
atributos morais que a diferenciam em relação aos isso para.... Prejudicando alguém. Então essa é a
outros, fora das suas “aspas” de segurança. Os que minha.... Talvez (choro). Talvez seja o meu castigo
estão fora das “aspas” são inconsequentes, droga- agora, né? De todas as vezes que eu fui teimoso e
dos, promíscuos. não quis usar porque era desconfortável, porque
Alguns discursos sociais vinculam a noção de tem gente que não gosta de usar. Talvez aí seja o
cuidado, resguardo e proteção, mascarando relações meu castigo, a minha consciência, porque eu nun-
sexistas de domínio masculino que tornam nebulo- ca quis prejudicar ninguém, nunca quis o mal de
sas as interpretações lineares entre conjugalidade ninguém (Usuário 8, grifo nosso).

8 Mulher cisgênero, branca, heterossexual, separada, 32 anos.


9 Homem cisgênero, branco, homosexual, 24 anos, solteiro, ensino médio completo.

Saúde Soc. São Paulo, v.26, n.3, p.651-663, 2017 659


O uso recorrente de expressões como “castigo”, sexualidade fora dos limites da heteronormativi-
“consciência”, “o mal”, ao longo da entrevista com dade e do amor romântico. Cabe destacar que as
este usuário, denota uma posição que não pode ser formas de viver a sexualidade para além destas
compreendida simplesmente como justificativa ou normativas foi vista em si mesmo como potencial-
desculpa, e sim como uma resposta a um contexto mente perigosa e arriscada. As narrativas também
de julgamento moral sobre a infecção que remete ao indicam o antagonismo entre culpados e vítimas em
discurso de culpa cristã. A dimensão religiosa, para relação ao “contágio” com o vírus, o que de alguma
além de estudos que trabalham com possibilidades forma mostra que existe uma hierarquia entre as
de coping em contextos de promoção de saúde, é pessoas e suas práticas sexuais, na qual algumas
indicada como práticas, saberes e vivências que são mais vítimas que outras. Estas hierarquias
atravessam e constituem subjetividades. Os as- também se refletem na ideia da “contaminação”
pectos discursivos de cunho religioso colocam em enquanto castigo.
pauta um ponto nodal acerca da memória social a Também podemos concluir que os mecanismos
respeito da aids, como indicam, considerando as de controle das condutas –estabelecidos por lógicas
diversas expressões do sagrado no discursivo, um de repressão, não reconhecimento das diferenças,
campo que impacta fortemente a promoção de saúde e por vezes sob o pretexto da defesa social – nos
(Lobato Vianna, 2014). indicam a necessidade de pensar na saúde sexual a
O posicionamento tomado pelo Usuário 8 denota partir da noção de diversidade e de alteridade. Isto
uma dimensão do condenável, compreendida aqui se dá, especialmente no contexto do atendimento
como algo digno de repressão. Em outros contextos, em saúde sexual, quando da percepção de que as
a noção de defesa social (Moutinho, 2014) parece interlocuções em saúde estão envolvidas em um
despontar num discurso de caráter higienista. Para espaço social que privilegia uma premissa de sexo
o Usuário 910 por exemplo: heterossexual e masculino, tanto por parte de
usuários e usuárias – como indicam as entrevistas
Acho que devia ser obrigatório, como a vacina. Vai realizadas – como por parte de ações de profissio-
contra a liberdade das pessoas, mas se tu tens por nais da saúde. Ainda que o campo de pesquisas e
que é que tu não vai cuidar? Por que tu não vai experiências profissionais na área indique avanços
evitar passar pra outra pessoa? Acho que devia ser na singularização de estratégias de atenção, cabe
obrigatório, tu é obrigado a votar, é mais medo do um apelo à reflexão sobre as necessidades éticas de
que noção (Usuário 9, grifo nosso). incremento de análises nessa direção.

Essa perspectiva – que tensiona promoções de Considerações finais


autonomia no contexto de saúde/ISTs – retoma
uma noção de controle dos corpos, vinculando as O alarmante panorama epidemiológico da infec-
narrativas sobre a saúde pública a discursos que ção por HIV no contexto porto-alegrense indica que
pendem entre a proteção social e a coerção (Souza; é necessário investir em diferentes análises relacio-
Czeresnia, 2007). Além disso, ao passo que a fala do nadas ao cuidado em serviço de saúde, em especial
Usuário 9 coloca uma ideia de defesa social como por meio de estudos qualitativos, que figuram de
foco da atenção, e em oposição a possibilidade de forma periférica no Brasil, ainda que a literatura
autonomia, silencia pelo não reconhecimento públi- aponte a necessidade deste tipo de problematização.
co de formas diferentes de vivenciar a sexualidade Seguindo tal perspectiva, considera-se importan-
(Moutinho, 2014). te investigar a situação dos usuários e usuárias,
O discurso científico, como os “dados epidemio- compreendendo a dimensão cultural na qual se
lógicos”, é utilizado para legitimar um discurso encontram, de modo que produzam condições para
estereotipado em relação às formas de viver a mudanças nesta conjuntura.

10 Homem cisgênero, branco, homossexual, 29 anos, casado, ensino médio completo.

660 Saúde Soc. São Paulo, v.26, n.3, p.651-663, 2017


Neste estudo, a diversidade das narrativas Esse panorama, que torna o aconselhamento em
dos/das participantes girava entre os eixos: saúde sexual e reprodutiva um dispositivo impor-
Promiscuidade/Risco e Culpa/Responsabilização. tante de investigação e de atenção social, também
Estes sintetizaram algumas das possibilidades de permitiria vislumbrar alguns pontos nodais, por
significação frente à necessidade de realização do exemplo, no que concerne ao acesso e à permanência
teste HIV. Os discursos de promiscuidade, risco, nos serviços da saúde pública. Pensar em um espaço
culpa e responsabilização articulam-se a partir de de desconstrução de estereótipos e problematização
diferentes marcadores sociais. Podemos perceber das noções de risco e culpa, a partir de um olhar sin-
isso quando da articulação entre as relações de gular sobre os usuários, permite que estes também
feminilização e heterossexualização do HIV e das possam elaborar e construir de forma mais autôno-
atualizações do discurso de amor romântico (intrin- ma sua sexualidade, bem como delinear estratégias
secamente relacionado às estratégias de cuidado de autocuidado em seu itinerário sexual.
sexual), nas formas de colagem identitária entre a
experiência sexual não heteronormativa e a noção Referências
de grupo de risco, ou outros aspectos transversais
ALENCAR ALBUQUERQUE, G. et al. Access to
aos conteúdos narrativos, como os mecanismos
health services by lesbian, gay, bisexual, and
de culpa e as estratégias narrativas vinculadas ao
transgender persons: systematic literature
discurso biomédico.
review. BMC International Health and Human
A permanência e transversalidade de discursos
Rights, London, v. 16, n. 2, p. 1-10, 2016.
estigmatizantes que compõem certa memória de
‘grupo de risco’ também nos convida a pensar nas AYRES, J. R. C. M. et al. O conceito de
atuais estratégias nos atendimentos em saúde se- vulnerabilidade e as práticas de saúde: novas
xual e o trabalho na interface saúde/cuidado que perspectivas e desafios. Promoção da saúde:
vem sendo promovido. Formas de manutenção de conceitos, reflexões, tendências. Rio de Janeiro:
aspectos normativos são vislumbrados nestas nar- Fiocruz, 2003, p. 117-139.
rativas e, ainda que não se resumam a estagnação e BOCCOLINI, C. S. et al. Fatores associados à
impossibilidade de promoção de saúde, são centra- discriminação percebida nos serviços de saúde do
das em um sujeito heteronormativo e masculino que Brasil: resultados da Pesquisa Nacional de Saúde,
se atualiza com foco no controle da saúde sexual. 2013. Ciência & Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v.
A reiteração desses marcadores – como práticas 21, n. 2, p. 371-378, 2016.
sexuais específicas ou identificações em termos de
orientação, por exemplo – nos indica que ainda ca- BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de
rece, na atenção à saúde sexual e reprodutiva, uma Vigilância em Saúde. Boletim epidemiológico:
visão que possa operar em prol da desconstrução de aids e DST. Boletim Epidemiológico, Brasília, DF,
uma sexualidade entendida como individualizada v. 4, n. 1, 2015a. Disponível em: <https://goo.gl/
(e, portanto, passível de uma forma de controle ver- dLbK1y>. Acesso em: 9 jun. 2016.
ticalizado). Entende-se que o trabalho com foco no BRASIL. Ministério da Saúde. Ministério da
aconselhamento deve operar de maneira singular Saúde inicia distribuição de teste oral para AIDS
à particularidade dos itinerários sexuais, vistos no SUS. Blog da Saúde, Brasília, DF, 6 fev. 2015b.
como não descolados de uma tessitura social que Disponível em: <https://goo.gl/1ifMoV>. Acesso
lhe compõem. Assim, estratégias de cuidado po- em: 9 jun. 2016.
derão ser elaboradas nos acolhimentos no sentido
de proporcionar encontros entre histórias que, a BRAUN, V.; CLARKE V. Using thematic analysis in
despeito do que se lê nas narrativas elencadas, são psychology. Qualitative Research in Psychology,
construídas num mesmo campo social complexo, Abingdon, v. 3, p. 77-101, 2006.
proporcionando produção de saúde para além da CARNEIRO JUNIOR, N.; DE JESUS, C. H.;
relação entre profissional/usuário(a). CREVELIM, M. A. A Estratégia Saúde da Família

Saúde Soc. São Paulo, v.26, n.3, p.651-663, 2017 661


para a equidade de acesso dirigida à população LEMOS, A. Direitos sexuais e reprodutivos:
em situação de rua em grandes centros urbanos. percepção dos profissionais da atenção primária
Saúde e Sociedade, São Paulo, v. 19, n. 3, p. 709- em saúde. Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 38,
716, 2010. n. 101, p. 244-253, 2014.
CARRARA, S.; SIMÕES, J. A. Sexualidade, cultura e LOBATO VIANNA, J. H. Cuidar, rezar, falar: o
política. Cadernos Pagu, Campinas, n. 28, p. 65-99, soropositivo, memórias e religiosidades. Boletim
2007. Academia Paulista de Psicologia, São Paulo, v. 34,
n. 86, p. 80-98, 2014.
CARVALHO, F. T. et al. Counselling in STD/HIV/
AIDS in the context of rapid test: perception of LÔBO, M. B.; SILVA, S. R. F. F.; SANTOS, D. S.
users and health professionals at a counselling Segredos de liquidificador: conhecimento e
and testing centre in Porto Alegre. Journal of práticas de sexo seguro por pessoas vivendo com
Health Psychology, Londres, v. 21, n. 3, p. 379-389, HIV/AIDS. Revista Eletrônica de Enfermagem,
2016. Goiânia, v. 14, n. 2, p. 395-403, 2012.
COSTA, A. B.; NARDI, H. C. Homofobia e MISKOLCI, R. Pânicos morais e controle social:
preconceito contra diversidade sexual: debate reflexões sobre o casamento gay. Cadernos Pagu,
conceitual. Temas em Psicologia, Ribeirão Preto, Campinas, n. 28, p. 101-128, 2007.
v. 23, n. 3, p. 715-726, 2015. MOUTINHO, L. Diferenças e desigualdades
DINIZ, D.; GUILHEM, D. Bioética feminista negociadas: raça, sexualidade e gênero em
na América Latina: a contribuição produções acadêmicas recentes. Cadernos Pagu,
das mulheres. Revista Estudos Campinas, n. 42, p. 201-248, 2014.
Feministas, Florianópolis, v. 16, n. 2, p. 599-612, PAIVA, V. S. F. Psicologia na saúde: sociopsicológica
2008.  ou psicossocial? Inovações do campo no contexto
FOUCAULT, M. Em defesa da sociedade. São da resposta brasileira à AIDS. Temas em Psicologia,
Paulo: Martins Fontes, 1999. Ribeirão Preto, v. 21, n. 3, p. 531-549, 2013.

GUARANHA, C. O desafio da equidade e da PARKER, R.; CAMARGO JUNIOR, K. Pobreza


integralidade: travestilidades e transexualidades e HIV/AIDS: aspectos antropológicos e
no Sistema Único de Saúde. 2014. Dissertação sociológicos. Caderno de Saúde Pública, Rio de
(Mestrado em Psicologia) – Programa de Pós- Janeiro, v. 16, n. 1, p. 89-102, 2000.
Graduação em Psicologia Social e Institucional, PELÚCIO, L.; MISKOLCI, R. A prevenção do
Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2014. desvio: o dispositivo da aids e a repatologização
GUILHEM, D.; AZEVEDO, A. M. Bioética e gênero: das sexualidades dissidentes. Sexualidad, Salud
moralidades e vulnerabilidade feminina no y Sociedad, Rio de Janeiro, n. 1, p. 125-157, 2009.
contexto da Aids. Revista Bioética, Brasília, DF, v. ROCHA, P. R.; DAVID, H. M. S. L. Determinação
16, n. 2, p. 229-240, 2008. ou determinantes? Uma discussão com base
HAMANN, C.; EW, R.; PIZZINATO, A. Homens na Teoria da Produção Social da Saúde.
que fazem sexo com homens: uma categoria Revista da Escola de Enfermagem da USP, São
de inclusão ou apagamento? In: STREY, M. N.; Paulo, v. 49, n. 1, p. 129-135, 2015.
CÚNICO, S. (Org.). Teorias de gênero: feminismos SALMERON, N. A.; PESSOA, T. A. M. Profissionais
e transgressão. Porto Alegre: ediPUCRS, 2017. p. do sexo: perfil socioepidemiológico e medidas de
151-171. redução de danos. Acta Paulista de Enfermagem,
São Paulo, v. 25, n. 4, p. 549-554, 2012.
HEILBORN, M. L. Dois é par: gênero e identidade
sexual em contexto igualitário. Rio de Janeiro: SOUZA, V., CZERESNIA, D. Considerações sobre
Garamond, 2004. os discursos do aconselhamento nos centros de

662 Saúde Soc. São Paulo, v.26, n.3, p.651-663, 2017


testagem anti-HIV. Interface: Comunicação, Saúde, VIGOYA, M. V. Teorías feministas y estudios sobre
Educação, Botucatu, v. 11, n. 23, p. 531-548, 2007. varones y masculinidades: dilemas y desafíos
TAJFEL, H. Human groups and social categories. recientes. La Manzana de la Discórdia, Cali, v. 2,
New York: Cambridge University Press, 1981. n. 4, p. 25-36, 2011.

TERTO JUNIOR, V. Diferentes prevenções geram WELZER-LANG, D. A construção do masculino:


diferentes escolhas? Reflexões para a prevenção dominação das mulheres e homofobia. Revista
de HIV/AIDS em homens que fazem sexo com Estudos Feministas, Florianópolis, v. 9, n. 2, p.
homens e outras populações vulneráveis. Revista 460-482, 2001.
Brasileira de Epidemiologia, São Paulo, v. 18, p. YOUNG, R. M.; MEYER, I. H. The trouble
156-168, 2015. Suplemento 1. with “MSM” and “WSW”: erasure of the
TORRÃO FILHO, A. Uma questão de gênero: onde sexual-minority person in public health
o masculino e o feminino se cruzam. Cadernos discourse. American Journal of Public Health,
Pagu, Campinas, n. 24, p. 127-152, 2005. Washington, DC, v. 95, n. 7, p. 1144-1149, 2005.

Contribuição dos autores


Rocha e Pizzinato elaboraram o projeto inicial. Hamann redigiu
a primeira versão do manuscrito. Todos os autores participaram
no desenho do estudo e contribuíram para a análise dos dados,
elaboração e revisão crítica do manuscrito e aprovação final da
versão a ser publicada.

Recebido: 17/10/2016
Reapresentado: 21/08/2017
Aprovado: 23/08/2017

Saúde Soc. São Paulo, v.26, n.3, p.651-663, 2017 663