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de calar as objecdes era desqualificd-los teoricamente. A distingao entre 0 autor, o texto € 0 leitor tornou-se friével em Eco ou em Barthes, até que Fish, magistralmente, descartou-se dos trés de uma 36 vez. Na realidade, o primado do leitor levanta tantos problemas quanto, anteriormente, 0 do autor € 0 do texto, ¢ o leva a sua perda. Parece impossivel teoria reservar 0 equilibrio entre os elementos da literatura. Como (se a prova da pritica nao fosse mais necessétia, a radicalizacao te6rica parece muitas vezes uma fuga para frente, para evitar as dificuldades, que — Fish lembava — nao devem sua exis- téncia Sendo a “comunidade interpretativa” que as faz surgir. Por isso a teoria leva &s vezes a pensar na gnose, numa ciéncia suprema, desprovida de todg objeto empirico Uma vez mais, entre as duas teses extremas que tém a seu favor uma certa consisténcia te6rica, mas que sao claramente exacerbadas e insustentiveis — a autoridade do autor e do texto permite instituir um discurso objetivo (positivista ou formal) sobre a literatura, e a autoridade do leitor, ins ‘um discurso subjetivo —, todas as posicBes medianas parecem frageis e dificeis de ser defendidas. £ sempre mais mentar a favor de doutrinas desmedidas e, afinal de contas, nao deixamos de nos confrontar com a altemativa de Lanson € de Proust, Mas, na pratica, vivemos (e lemos) no espago existente entre os dois. A experiéncia da leitura, como to experiéncia humana, é fatalmente uma experiéncia di ambigua, dividida: entre compreender e amar, entre a filologia © a alegoria, entre a liberdade e a imposicao, entre a atencao do outro e a preocupacao consigo mesmo. A situacio mediana repugna aos verdadeiros te6ricos da literatura. Mas, como dizia Montaigne, na "Apologie de Raymond Sebond” [Apologi de Raymond Sebond]: “ uma grande temeridade perder-vos ‘v6s mesmos para perder um outro.” 164 0 EST Quinta nogo a ser examinada, depois da literariedad da intengéo, da representagao e da recepedo: a relacio d texto com a lingua. Foi com 0 nome de estilo que escoll aborda-la, porque essa palavra pertence ao vocabul corrente da literatura, ao Iéxico popular do qual a teori literdria tenta em vao libertar-se. A lingua literaria, trata-s de um lugar-comum — se caracteriza por seu esti contraste com a lingua de todos os dias, que carece de esti Entre a lingua e a literatura, o estilo figura como um meic fermo. Da mesma maneira, entre a lingiistica e a critica, h lugar para o estudo do estilo, isto €, a estilistica. Forat Precisamente essa evidéncia do estilo e essa validade d estilistica que a teoria literdria contestou. Mas 0 estilo, co a literatura, como 0 autor, como o mundo, como o | resistiu a esses ataques. Como aconteceu com as nocées precedentes, apresentar. Primeiramente as duas teses extremas: por um lado, o st idéias precor cebidas sobre a literatura, pertence ao senso comum; po outro, o estilo € uma ilusio da qual, como a intencdo, com a referencia, € imperioso libertar-se. Durante um certo tempo a teoria, sob influéncia da lingtistica, pensou ter acabad com o estilo. Esta nocao “pré-teorica’, que ocupara um luga de destaque desde o fim da ret6rica, no decorrer do sécul XIX, parecia ter cediclo definitivamente o terreno A descrica lingiiistica do texto literitio. O estilo tornou-se nulo e person non grata, depois de um curto tempo em voga nos estudo: literdrios, ¢ a estilistica se contentara em ocupar a regen entre 0 reino da retérica e 0 da lingiistica. Ora, o estilo hoje renasce das cinzas e passa bem. Por mais que se decrete a mort a ilusio ceferencial do autor, que se denuncic que se critique a ilusao afetiva, ou se assimilem os desvios estilisticos a diferengas semanticas, o autor, a referencia, o leitor, 0 estilo sobrevivem na opinito geral e vem a tona logo que os censores relaxam a vigilincia, mais ou menos como esses micrdbios que julgavamos erradi cados para sempre e que voltam para nos lembrar que estio vivos, Nao se elimina o estilo por um fiat. Assim é melhor procurar defini-lo com justeza. Sem reabilita-lo tal como era antes, entremos em sintonia com ele e submetamo-lo a critica. Darei irés exemplos importantes da aparentemente ine tavel restauracao do estilo, cada vez que ele ameaca desaparecer da paisagem literaria. Barthes, em Le Degré Zéro de l'Ecriture (0 Grau Zero da Escritural (1953) Riffaterte em seus pour 'Analyse du Style” [Critérios para a Anilise do Fstilol (1960), e Nelson Goodman em “Le Statut du Style” [O Estatuto do Estilo] (1975), dentre outros, evidentemente, reabilitaram sucessivamente um ou outro aspecto do estilo, & medida que 08 lingUistas 0 demoliam e se apropriavam de seus despojos, de maneira que o estilo, agora pode-se constatar, nunca correu perigo de vida. Mas, percorramos primeiramente 0s registros do uso dessa palavra O ESTILO E TODOS OS SEUS HUMORES ‘A palavra estilo nto tem origem em vocabulério especializado, Além disso, ele nao é reservado 3 literatura nem mesmo a lingua: “Que estilo! Ele tem estilo!” diz-se de um jogador de ténis ov de um costureizo. A nocao de estilo abrange nume- rosas areas da atividade humana: a hist6ria da arte e a critica da arte, a sociologia, a antropologia, o esporte, a moda usam ¢ abusam deste temo. E uma desvantagem séria, talvez fatal para um conceito te6rico. Seria preciso limps-lo, purifica-lo para dele extrair-se um conceito? Ou devemos nos contentar em descrever seu uso comum, de qualquer maneira impossiv de bani Otero é fundamentalmente ambiguo em seu uso moderne: ele denota ao mesmo tempo a individualidade— *O estilo, é © proprio homem”, dizia Buffon —, a singularidade de uma obra, a necessidade de uma escritura € 20 mesmo tempo uma classe, uma escola (como familia de obras), um género (como 166 familia de textos situados historicamente), um perfodo (como o estilo Luis XIV), um arsenal de procedimentos expressivos, de recursos a escolher. O estilo remete ao mesmo tempo a uma necessidade e a uma liberdade. Nao € inuitil retragar-se rapidamente a hist6ria da palavra, para compreender seu destino, € a extensio progressiva de seu registro de emprego, a partir de uma acepgao afinal de contas bastante especializada. Segundo Bloch e Wartburg Estilo, 1548, no sentide de “maneica de exprimir seu pensa de onde se originaram os sentidos modemos, sobretudo XVIL. Empréstimo do latim stilus, eserito também stylus, de onde vem a ortagrafia do francés, sei por falsa analogias do para eserever™, snos em. 1380. [ ais ou menos 1280, sentido tomado de empréstimo mais oun sido tomado de empr nas formas stile, estile, no sentido juridico de *maneira de proceder’, de onde "métier", depois, “maneira de combater’ uulo XV e “maneira de agi” (em geral), ainda usual no XVIL, hoje usado somente em locucces tais (farce) mudat de estilo [1 est stylistik (atestado desde 1800), Estas informag6es sio interes em italiano, stile, e em espanhol, estilo, 0 sex fidico € geral (antropoldgico) de “maneira de agit” é mais antigo (Século XIID, dando ainda "stylé”, “bien et mal stylé”, em francés moderno. E 0 sentido moderno, especializado, limitado a0 dominio verbal, € fiel ao latim, € mais recente, datando do Renascimento. Houve, pois, dois empréstimos sucessivos do francés ao latim, © primeiro, no sentido geral de habitus, o segundo num sentido resirito 2 expressio verbal. Em seguida, a hist6ria da palavra foi a da reconquista da generalidade de sua aplicacao. Resulta dai, como lembra Jean Molino, que os aspectos da nogao de estilo, tanto verbal como nao verbal, 80 hoje muito numerosos.* O estilo 6 uma norma. O valor normativo e prescritivo do € 0 que Ihe esta associado tradicionalmente: 0 “bom € um modelo a ser imitado, um cAnone. Como tal, 0 estilo é inseparavel de um julgamento de valor. 0 estilo € um ornamento, A concepcao ornamental do estilo é evidente na ret6rica, de acordo com a oposigao entre 167 as coisas € as palavras (res € verba) ou entre as duas primeiras © estilo, significa refutar a dualidade da linguagem e do partes da ret6rica, relativas as idéias Cinventio e dispositio) pensamento e rejeitar o principio senVimtice da sinonimia a terceira, relativa & expressio através das palavras (elo~ * Oestilo é um género ou um tipo. Segundo a antiga ret6ric cutio). © estilo (exis) € uma variacio contra um fundo © estilo, enquanto escolha entre meios expressivos, estava comum, efeito, como lembram as metiforas numerosas que ligado & nogao de aptum ou de “conveniéncia"; por exemplo, jogam com o contraste entre © corpo € a roupa, ou entre a no tratado do estilo de Demétrio, ou ainda na Retérica de carne € a maquiagem. Dai uma suspeita que plana sobre Aristételes: "Nao basta possuir a matéria de seu discurso, € estilo: a da bajulacio, da hipocrisia, da mentira. preciso, além disso, falar como se deve [segundo a neces na Retérica’ distingue assim 0 efeito do argu dade da situagaol; € a condicao para dar ao discurso uma mento, e explica a procura do efeito pela imperfeicao moral bboa aparéncia.”* O estilo designa a propriedade do discurso, 10. Chega até a manifestar seu desprezo pelo estilo isto é, a adaptagao da expressio a seus fins 6 dizendo futilidades a seu respeito, pareciam Os tratados de ret6rica distinguiam tradicionalmente nem / ilo a gloria que adquiriam’,* — seguindo uma mais nem menos trés tipos de estilo: o stilus humilis (simples), | tradigao bem definida posteriormente. © stilus mediocris (modérado), € 6 stylus gravis (elevado ou \ O estilo & um desvio. A variacio estilistica, nas mesmas sublime). Cicero, no Orator, associava esses trés estilos as \ paginas em que Arist6teles 0 identifica 10 efeito e a0 oma- Uu@s escolas de elogiléncia (0 asiatismo, que se caracterizava mento, define-se pelo desvio em relag3o ao uso corrente: “a pela abundancia ou empolagao, 0 aticismo, pelo gosto seguro substituicao de uma palavra por uma outra dé a elocucao, € 0 género rédio, genero intermedidrio). Na Tdade Média, uma forma mais elevada".‘ Por um lado, ha, pois, a elocugio Diomedes identificou esses trés estilos aos grandes géneros, au baixa, ligada aos termos proprios e, por outro lado, depois Donat, em seu comentirio de Virgilio, relacionou-os a elocucao elegante, jogando com o desvio € com a substituicao, 0s temas das Bucdlicas, das Gedrgicas e da Eneida, isto é, 2 que “da & linguagem uma marca estranha, pois a distancia poesia pastoril, a poesia didatica e a epopéia. Essa tipologia motiva 0 espanto, € 0 espanto uma coisa agradavel” > dos tr@s tipos de estilo, difundida desde entao com o nome de rota Virgilif, “toda de Virgilio", gozou de uma longa esta-* bilidade, de mais de mil anos. Ela cofresponde a uma hierarquia | entende como um ornamento formal, definido pelo desvioem amiliar, média, nobre) que engloba o fundlo, a expressioe relac4o ao uso neutro ou normal da linguagem. Algumas @ composi¢ao. Montaigne vai transgredi-la deliberadamente oposi¢oes bindrias bem conheciclas decorrem da nogio de escrevendo sobre assuntos “mediocres” ¢ eventvalmente estilo assim compreendida: sao “fundo e forma", “contetido € “sublimes" no estilo “cémico e privado” das letras e da conversa¢a0. expresso”, “matéria ¢ maneira”, Como principio de todas ‘Ora, os ir@s tipos de esti essas polaridades esta naturalmente o dualismo fundamental o nome de genera dicendi: assim, Esses dois thtimos tragos do estilo, ormamento € desvio, ‘sAo inseparavei , pelo menos desde Aristételes, s sto igualmente conhecidos sob a nogio de estilo que se linguagem e pensamento. A legitimidade da nogio tradicional acha na origem da nocao de género, ou, mais exatamente, € de estilo depende desse dualismo. O axioma do estilo é, pois, através da nogio de estilo (€ a teoria dos trés estilos classifica este: bd udrias maneiras de dizer a mesma coisa, manciras 08 discursos € os textos) que as diferencas genéricas foram que 0 estilo distingue. Assim, 0 estilo, no sentido de orna- tratadas por muito tenipo, Por isso, quando mencionei o género, mento e de desvio pressupde a sinonimia. Em seus Exercices no Capitulo IV, como modelo de recepeao, fiz. a observaeao de Style, Raymond Queneau defenden, emi meados do século de que ele poderia também ser abordado a propésito do estilo (20%, 0 estilo como variacio sobre um tema: a mesma anedota : ‘A teoria dos ts tipos de estilo além de nao excluir uma jf repetida noventa e nove vezes em todos os tons possiveis € anilise estilistica mais detalhada, torna mais precisas as carac- enrtodos os estigios da lingua francesa. Contestar, desacreditar teristicas proprias do estilo de cada um, em particular dos 168 169 poetas ¢ oradores considerados como modelos de estilo; mas fessas diferencas estilisticas nem por isso S40 consideradas como expressao de individualidades subjetivas. © estilo é propriedade do discurso; ele tem, pois, a objetividade de um cédigo de expresso. Se ele se particulariza, é que ele é mais, ‘ou menos (bem) adaptado, convém mais ou menos 2 questi. Nesse sentido, 0 estilo esta ligado a uma escala de valores € a uma prescrig2o, Cicero observava também, no Orator, que 08 tr@s estilos correspondiam aos trés objetivos a que o orador se propde: probere, delectare e flectere (“provar “encantar" e “comover’). — Ceestilo Bum sintoma. A associacio do estilo. a0 individuo manifestou-se pouco a pouco a partis do século XVII’ La Mothe Le Vayer opde, por exemplo, o estilo individual aos caracteres genéricos; em seguida Dumarsais e D'Alembert descrevem o estilo como individualizacao do artista.” A ambigtidade inse. paravel do termo “estilo”, em seu emprego contemporaineo, aparece desde entao bem claramente. © estilo tem duas vertentes: ele € objetivo, como cédigo de expressio, e subjetivo, como reflexo de uma singularidade. Essencialmente equivoca, a palavra designa a0 mesmo tempo a diversidade infinita dos individuos e a classificagio regular das espécies. Segundo a concep¢ao moderna, herdada do romantismd, o estilo esti associado ao génio, muito mais que ao género, ¢ ele s€ torna objeto de um culto, como ém Flaubert, obcecado pelo trabalho do estilo. “O estilo para o escritor tanto quanto @ cor para © pintor, € uma questao nao de técnica, mas de visio”, escreverd Proust, por ocasio da revelagao estética de O Tempo Redescoberto’ concluindo assim a transicao para uma definicao do estilo como visto singular, marca do sujeito no discurso. Foixesse sentido que a estilistica, nova disciplina do século XIX, herdou do termo, esvaziado apés a morte da retérica, ‘Como traco sintomatico, a nocio de estilo entrou com todo vigor para o vocabuldrio das artes plisticas, a partir do fim do século XVIIL. Sua enorme importancia na critica da arte e na hist6ria da arte esti ligada ao problema da atribuicao e da autenticidade das obras, cada vez mais fundamental com 0 desenvolvimento do mercado da arte. O estilo torna-se, entao, um valor de mercado;la identificagao de um estilo esta dora- vante ligada a uma avalia¢lo mensuravel, um prego. Uma obra retirada do catélogo de um pintor, atribuida 2 escola mais do x70 I que a mestre, perde quase todo 0 seu valor, e vice-versa; {sso naturalmente nao acontece com as obras literdrias. Dora- vante, o estilo no esta mais ligado a tracos genériegs macrosco- picos mas a detalhes microsc6picos, a indicios ténues, a trasos 4 infimos, como 0 toque de uma pincelada, 0 contorng dé uma’ unh ow de um lébulo de orelha, que vao permitir identifica 7 © artista, O estilo liga-se a mindcias que escaparam a0 con- / trole do pintor que o falsirio nao pensar em reproduzit; 0 modelo cinegético esté novamente na ordem do dia. Segundo o historiador da arte Meyer Schapiro, em seu excelente artigo sobre “La Notion de Style” [A Nocao de Estilo] (1953), para 0 arquedlogo, 0 est {esta num motive ou num desenho, ou na qualidade da obra de arte que ele capta direta mente e que o ajuda a localizar ou a datar 2 obra, estabelecen- do elos entre grupos de obras ou entre culturas. O estilo, neste ca50, € um trago sintomético, como 0s caracteres no estéticos luto artesanal © estilo tornou-se, ento, © conceito fundamental da historia da arte no decorrer do século XIX, em todos os sentidos do termo ¢ em todos os niveis estéticos. Verificam-se em Heinrich Wélfflin que opde © Renascimento ao barr0co, ,, como dois estilos 20 mesmo tempo hist6ricos € intemporais, duas maneiras de ver independentes do contetido. Wolfflin concebia cinco pares de polaridades para definir os estilos opostos do Renascimento ¢ do século XVII barroco, em arqui tetura, pintura, escultura © nas artes decorativas: linea pitoresco, forma paralela a superficie/forma obliqua na profun- didade, fechado/aberto, composto/continuo, claro/relativa mente confuso. Ademais, essas oposicées Ihe permitiam reconhecer nao somente 0 clissico e 0 barroco dos séculos XVI e XVII, mas detectar a passage necesséria, na maior parte dos perfodos da histéria, de uma variante classica a uma variante barroca de cada estilo. Tendo adquirido essa importancia na historia da arte, a nocao de-est#lerreapareceu. nos estudos literarios no sentido de detalhe sintomitico, sobretudo em Leo Spitzer, cujos estudos de estilo procuram sempre deserever a rede de desvios infimos que permitem caracterizar a visio de mundo de um individuoy assim como a marca qué ele deixou no espirit6 coletivo, Mas m lo como visa0, tal como Proust o definia, é também o ponto de partida da critica da consciéncia e da critica tematica, que poderiam muito bem ser descritas como estilisticas das profundidades O estilo, enfim, é uma cultura, no sentido sociolégico & antropoldgico que o alemao (Kultur) ¢ o inglés, mais recen. temente o frances, deram a essa palavra, para resumir 0 espirit, a visio do mundo propria a uma comunidade, qualquer que seja a dimensio desta, sua Weltanschauung, segundo.o termo forjado por Schleiermacher..A cultura corresponde ao que os bistoriadores chamavam no século XIX de alma de uma nacao,, ou a raga, no sentido filolégico,do termo, como unidade da lingua ¢ das manifestagoes simbélicas de um grupo. Tomada de empréstimo a teoria da arte e aplicada ao conjunto de uma cultura, a nogio de estilo designa, tio, um valor domifiante eum piincipio de unidade, um “trago familiar’, caracteristico, de uma comunidade no conjunto de suas manifestagdes simbé- licas, Schapiro comeca seu artigo sobre o estilo nestes fermos: mnstante — eas veres, 0 Jos. O termo se fduo ou de uma ‘ono quando se fala de um “estilo de vida” ou do ao" ‘A-dificuldade aparece imediatamente: 0 estilo designa uma constante tanto num individu quanta_numa civilizacao, A seqiiéncia do texto revela 0 humanismo que justifica analogia: ° des do pensam 1m modelo global, ident, {O Declinio \egou a caracterizar todo 0 uum motivo dominante, Em Le Déclin de 'Oc Spengler [As catedrais, 05 relbgios, o crédito, © contraponto, o célculo ide e a perspectiva na pintura ilustram fem diregio a0 infinito — que | considerada no seu con} caracteriza a cultura ociden Nesta imensa generalizacio, a vulnerabilidade da nogio diante das ofensivas dos lingilistas salta aos olhos. Assim, o estilo, no sentido mais amplo, € um conjunto de tracos formais detectiveis, e ao mesmo tempo o sintoma de-um persona dade Gindividuo, grupo, perfodo). Descrevendo, analisando um estilo em seu detalhe complicado, o intérprete reconstitui a alma dessa personalidade. © estilo, pois, esté longe de ser um conceto puro; € uma nogio complexas riéa, ambigua;mulltipla: Em vex de set despojada de suas acepcdes anteriores 4 medida que adquiria outras, a palavra acumutousas © hoje pode compor- téelas todas: norma, ornament >desvio} tipo, sintoma, cultura, € tudo isso que queremos dizer, separadamente ou simulta- neamente, quando falamos de um estilo. LINGUA, ESTILO, ESCRITURA Depois do desaparecimento da ret6rica no século XIX, a estilistica herdou a questao do estilo: como Bloch e Wartburg observaram, 0 nome dessa disciplina, tomado de empréstimo ao alemAo, surgiu no francés na segunda metade do século XIX. Mas logo surgiram intimeras objecdes: de que vale uma classificagao que vai até aos individuos? Velho problema: pode haver uma ciéncia do particular? A estilistica tornou-se uma matéria instavel em razio da polissemia do estilo ¢ sobretudo em raza0 da tensio, do equilibrio frégil, ow mesmo impossivel, que caracteriza uma nocao que pertence a mesmo tempo ao privado e a0 piblico, ao individuo e 2 multidao. Inevitavelmente o estilo tem dois aspectos, um aspecto coletivo eum aspecto individual, ou um lado voltado para o socioleto ‘¢ um outro voltado para 0 idfoleto, para usarmos palavras modernas. A antiga retérica mantinha coesos esses dois aspectos do estilo. Por um lado, ela pensava que os estilos nao eram em niimero infinito, nem mesmo que eram multiples, iam a trés (elevado, mediocre € humilde). Por 3 outro lado, ela distinguia 0 estilo de Deméstenes do estilo de Isocrates. Mas ela solucionava essa divergéncia — ha és estilos; a cada um seu estilo — afirmando que o estilo indivi- dual nao era nada mais que 0 estilo coletivo, mais ou menos adaptado, mais ou menos apropriado A questo. Depois da ret6ricay-no entanto, 0 lado coletivo e deliberado do estilo tomou-se cada vez mais desconhecido, substituido pelo estilo como expressio de uma subjetividade, como manifestacao sintomatica de um homem, - Reagindo contra esta orientaca0, Charles Bally, aluno de Saussure, em seu Précis de Stylistique [Compéndio de Estilistical (2905), procurou criar uma cigncia da estlistica, separando 0 40 mesmo tempo do indigfduo e da literatura (como Saussure havia mantido a distancia a fala, para fazer da lingua © objeto da ciéncia linghistica). A estilistica de Bally é, pois, uum levantamento dos meios expressivos da lingua oral. Excetu- ando-se isso, a estilstica sempre esteve do lado do individuo e da literatura, como nestas monografias de escritores — “O Homem e 2 Obra” — que terminavam normalmente por um capitulo sobre aquilo que se chamava *O Estilo de André Chénier” ou “O Estilo de Lamartine". Na Franga, a estilistica literaria da primeira metade do século XX teve como objeto, semelhanga da historia lteraria de que ela dependia, os grandes escritores franceses Ora, quando um lado do estilo é desconhecido, ele volta logo com um outro nome. © trabalho de Barthes, em Le Degré Zéro de l'Ecriture(O Grau Zero da Escritural, € bastante in ressante nesse aspecto, até mesmo irénico, sem que se compreenda bem se o proprio Barthes o considerava assim. Ele distingue a lingua, como um dado social contra 0 qual o escritor nada pode — ela jé existe e cle deve curvarse a ela e 20 estilo, com o tinico sentido que se impas desde o romantismo, como natureza, corpo, singularidade inaliendvel contra a qual ele também nao tem nenhum poder, pois ela é seu préprio ser. Mas esta duslidade nao € suficiente para que Barthes descreva a literatura. A partir dai, entre os dois, entre € estilo, todos dois impostos, de fora ou de dentro, ee inventa a escritura, “Lingua e estilo’, diz ele, “sao forcas cegas; a escritura é um ato de solidariedade histérica”." “Escrituras”, continua ele, “existem varias em um determinado momento, hoje, por exemplo, mas elas no sao em nimero infinito; sao soimente algumas dente as quais € preciso escolher. Na 174 realidade, so somente quatro — a elaborada, a populista, a neutra ¢ a falada’;* “talvez mesmo tés, pois a segunda, a populista, nao € sendo uma variante da primeira, a elaborada’ Enfim, existem trés tipos de escrituras: 2 elaborada, a neutra € 2 falada: essa tripartiglo se parece, se nao nos enganamos, aos trés estilos da velha ret6tica, 0 alto, 0 médio.€ o-baixo. Com o nome de escritura, Barthes reinventou o que a ret6rica denominava estilo, “a escolha geral de um tom, de um étbos, pode-se dizer’. Como algo de que nao se pudesse fugi encontrou sozinho a triparticlo dos genera dicendi, a ficacto terciaria dos géneros, tipos ou maneiras de falar com 2 qual, durante um milénio, o estilo se identificara. Em certo sentido, Barthes passou a vida tentando fazer renascer a retérica, até o momento em que se deu conta do fato e dedicou um Seminario & questio —‘L’Ancienne Rhétorique, Aide- Memoire” [A Antiga Retorica, Memento], (1970). Sabia Barthes, por volta de 1950, que com o nome de escritura ele reabilitava a nogio classica de estilo? Ou estava ele tao imbuido da nogao romantica de estilo — “O estilo é o proprio homem” — que acreditava na novidade dese pequeno espaco que ele incrustava entre a lingua € 0 estilo, no sentido moderno? Como saber? Na época, Barthes nao estava familiarizado com Saussure, nem com Bally. O estilo para Bally jé era um pequeno espago entre a lingua e a fala de Saussure, ou um componente coletivo da fala, diferente da lingua. Mas o estilo de Bally nao era lite- rario, enquanto que a escritura de Barthes é a propria definigdo da literatura: “Situada no centro da problemitica literdria, que 86 comeca com ela, a escritura é, pois, essencial ‘mente, a moral da forma.” # melhor pensar que Barthes nao estava sabendo que caira na velha nogao retorica de estilo, com o nome de escritura. A reiGrica desaparecera do ensino desde 1870, Barthes pertencia a segunda geracio de estudantes que nao aprenderam os rudi- mentos da antiga arte de convencer e de agradar. A ret6rica Ihe fazia falta, como fazia falta a Paulhan em As Flores de Tarbes, mas ele ignorava o que era ela. A retGrica nao faz falta a Sartre que, em O que é Literatura’, suprime uma mediacao enire as palavras e as coisas, ou pensa que a poesia utiliza as proprias palavras como coisas. Ora, € realmente o estilo no sentido retGrico que Barthes ressuscitou, Sua nocio de escri- tura, se ela se distingue do estilo n6 sentido individualista, na 15 EEETEKDESS!:'CS realidade nao se identifica muito menos 20 estilo tal como tra digio germinica elaborou no decorrer do século XIX: o estilo como Kultur, isto é, como vimos, como pensamento, como es- séncia de um grupo, de um perfodo ou de uma escola, ou até de uma nagao. Barthes volta varias vezes ao problema da es colha inevitivel da escritura. Continuemos a ler a passagem citada acima: “A escritura 6, pois, essencialmente, a moral da forma, é a escolha da area social no interior da qual o escritor decide situar a Natureza de sua linguagem.” Escolha, respon- sabilidade, liberdade: a escritura é, na verdade, ret6rica, nao orginica. A invengao barthesiana da escritura provaria, pois, © cariter imbativel da nogao retérica do estilo: dela nio se escapa. \ CLAMOR CONTRA O ESTILO Em 1953, Barthes ainda nao denunciava o estilo da estlistca, ‘mas reinventava paralelamente o estilo da ret6rica. No entanto, com a ascensio da lingiistica, 0 descrédito seria langado sobre © estilo devido a sua ambigiidade, & sua impureza tedrica. O estilo depende do dualismo, atacado firmemente pela teoria literdria. A nocao tradicional de estilo é solidéria com outras si ovelhas negras da teoria literiria: baseada na possibilidade da sinonimia (ha varias maneiras de sé dizer a mesma coisa), ela Pressupée a referéncia (uma coisa a ser dita), € a intencao (uma escolha entre diferentes maneiras de dizer), Os ataques da lingti—stica, na época de sua maior gl6ria, nao pouparam, pois, a estlistica, tratada como disciplina tran. Sit6ria entre a morte da retorica e a ascensao da nova postica (entre 1870 € 1960). © estilo foi, entao, considerado um con- “pré-te6rico” a ser superado pela ciéncia da lingua. O nuimero 3 da revista Langue Francaise, em 1969, com o titulo {a Estilistical acabava, na verdade, com essa Arrivé, em seu "Postulats pour la Description » Linguistique des Textes Littéraries” [Postulados para a Descrigao )* Lingiistica dos Textos Liteririosl, declarava que a estil estava “quase morta" e destinada a desaparecer, substituida pela descricAo lingtiistica do texto literdirio, segundo o modelo ‘ystruturalista ou transformacional, descrito no famoso artigo de Jakobson e Lé “Os Gatos", de Baudelaire (1962), doravante paradigma de andlise. Riffaterre, cujos primeiros trabalhos teriam sido publicados sob os auspicios da “estilistica estrutural”, no falaria mais de estilo nem de esti- ica depois de 1970, substituindo esta tiltima pela “semistica da poesia” A contestacao do estilo atuou essencialmente sobre sua definico como escolha consciente entre possibilidades; estava, pois, muito relacionada & critica da intengo. Bally supunha, por exemplo, que o literato “faz da lingua um emprego voluntirio e consciemte [... e sobretudo que ele emprega a lingua com uma intencao estética’.” Ou, como afirmava Stephen Ullmann, no inicio de uma obra clissica sobre 0 » Publicada nos anos cingilenta: “no se pode falar de estilo, a menos que o locutor ou 0 escritor tenha a possibilidade de escolher entre formas de expressao distintas. A sinonimia, no sentido mais amplo, esti na raiz de todo problema de estilo" Esta condicdo necessiria e suficiente do estilo seria logo rejeitada pelos lingitistas, pois a seus olhos as variagdes estilisticas nao s30 mais que diferengas semdnticas. O principio segundo 0 qual-a forma (0 estilo) variaria, ao paso qué 0 contetido (0 sentido) permaneceria constante, € contestivel. ‘Como observava um critico britinico, no entanto pouco teérico, no final dos anos sessenta: “Quanto mais se reflete sobre este problema, mais duvidosa toma-se a possibilidade de falar das diferentes maneiras de dizer algo; dizer de maneira diferente nao € em realidade dizer outra coisa?” A sinonimia €. suspeita ¢ ilus6ria, ou mesmo indefensavel: dois termos nunca tém exatamente a mesma significacao, duas frases nunca tém exatamente a mesma significacao, duas frases nunca tm totalmente o mesmo sentido. Conseqientemente, o estilo, esvaziado de substéncia, seria nulo e mal recebido, e a estilistica € condenada a fundir-se na lingiis Stanley Fish, ja citado quando se falou de sua critica radical as teorias da recepgio, mostrou-se também o mais intransi- gente dos censores em relacao ao principio fundam el dizer-se a mesma coisa sob formas ow ha diferentes maneiras de se dizer a mesma coisa — defendendo, em seus dois artigos de 1972 e 197, que esse principio era um circulo vicioso. Esse principio realmente autoriza um procedimento em duas etapas, mas a0 serem analisadas, essas duas etapas revelam-se insepariveis, © contradit6rias: = esquemas formais si0 primeiramente detectados com a ajuda de um modelo descritive Cinguistico, ret6rico, postico); ~ em seguida esses esquemas formais sio interpretados, isto &, julgados como expressivos quanto as significagdes, que podem ser isoladas, e que poderiam ser expressas por outros meios, que nao as teriam refletido (como icones ou indices, na terminologia de Peirce), mas significado (como simbolos, segundo Peirce) A argumentacao de Fish é seqnelhante aquela que ele utili- zava contra as teorias da recepgio, quando atacava o “leitor implicito”, como substituto do autor, ¢ afirmava que a inter pretacdo prevalecia obrigatoriamente sobre o texto. Se 0 procedimento da estilistica é circular, ou paradoxal e vicioso € porque a articula¢ao, ou a passagem da descricdo para a interpretagao € atbitraria, e que a interpretacio precede necessariamente a descricio. S6 se descreve 0 que ja se pré-interpretou, A definicao das configuracdes pertinentes para a descricao é, pois, guiada por uma interpretacio implicita: © ato de descriglo — afirma Fish — é ele proprio uma inter- pretacao, e 0 teérico da estilistica nao esti nunca, pois, em contato com um fato que tenha sido definido independente- mente (isto é, objetivamente). Na verdade, 0 proprio formalismo, + que supostamente cria sua andlise [..1 nao deixa de ser uma consteucao interpretativa, tanto quanto 0 poema que ele pretende explicar: [..J 4 construcao de uma interpretacao © a construcao da gramética sio uma nica © mesma atividade.* Embora Heidegger tenha alertado para essa assimilacio, Fish denuncia todo circulo hermenéutico como um circulo vicioso. “O ‘circulo filologico”, reiterava Spitzer depois de Heidegger, ‘nao implica que se fique girando em torno daquilo que ja se conhece; nao se trata de ficar andando no mesmo lugar’. Mas tais formulas sao doravante consideradas puras denegagdes. Devolver 0 outro & sua alteridade, restituir valores alienados pelo tempo ou pela distincia, projeto que comespondia a critica da razao identificat6ria, nao resiste & abordagem 178 descontinuista que isola as comunidades ¢ os individuos em sua identidade. © estudo do estilo, insistem adversérios como Fish, repousa em duas hip6teses inconcilidveis: = a separacio da forma ¢ do fundo, que permite isolar um componente formal (descrevé-lo) ~ a ligacao orginica da forma e do fundo, que permite in- terpretar um fato estilistico, Se se focaliza o essencial, observa-se que foi o dualismo, © binarismo, sobre 0 qual se criou a nogao tradicional de estilo, que foi julgado absurdo € insustentavel pelos lingiiistas €¢ te6ricos literarios. No coragio da idéia de estilo, a distingao centre pensamento € expresso, que torna possivel a sinonfmia, foi o alvo escolhido, A nogio de expressio supde que haja um contetido distinto dessa expresso, como sugerem os pares habituais dentro e fora, corpo e roupagem etc, Dai uma concepcao instrumental da expresso como suplemento ¢ ornamento, uma visio da linguagem como traducio do pensamento através dos recursos de expresso, que chega a caricatura, nas teses © monografias sobre *O Homem e a Obra”, em que 0 tltimo capitulo € dedicado ao “estilo do escritor", capitulo que devia ser precedido naturalmente pelo essencial, © pensamento. dualismo do contetido e da forma, lugar-comum do pen- samento ocidental, estava presente em Aristoteles no par mutbos-e lexis, a hist6ria ou assunto de um lado, ¢ a expressio de outro. A expressio, dizia Aristételes, é ‘a manifestacao do sentido (berméneia) com a ajuda dos nomes".* A estilistica, sucedendo-se a ret6rica, perpetuou, explicitamente ou nio, © dualismo da inventio€ elocutio. Bally opée sistematicamente conhecimento © emiogdo: “A estilistica estuda os fatos de ‘expressao da linguagem, organizada do ponto de vista de seu contetido afetivo, isto 6, a expressio dos fatos da sensi- bilidade pela linguagem e 2 ag20 dos fatos da linguagem sobre a sensibilidade.”* Combatendo tal dualismo, a nova descricao lingtiistica, fem ascensio nos anos sessenta, queria constituir uma estlistica da unidade da linguagem e do pensamento, ou melhor, uma antiestilistica, revertendo o axioma da antiga estilistica dos meios ¢ procedimentos. Benveniste, num artigo importante, “Categories de Pensée et Catégories de Languague” (Categorias 179 de Pensamento ¢ Categorias de Lingua” (1958), afirmava que sem a lingua o pensamento € to vago e indiferenciado que se torna inexprimivel. Como “apreendé-lo como contetido, distinto da forma que a linguagem Ihe confere?" Ele deduzi dai que “a forma lingiistica é, pois, ndo somente a condicao de transmissibilidade, mas, em primeiro lugar, a condi¢ao de realizagio do pensamento. Nos s6 conhecemos © pensamento quando ja enquadrado na linguagem, Atese da ui \guagem, novo lugar-comum sobre o qual insistiram a filosofia e a lingtiistica contemporaneas da teoria literiria, parecia assinar 0 decreto de morte dos estudos do estilo, ja que 0 principio deviam ser sacrificados em nome desse preceito do tudo ou do nada aplicado pelos tedricos literdrios a0 autor, a0 mundo © ao leitor. O questionamento da estilistica orientou, pois, a terdria em duas disegoes diametral ‘mente opostas: por um lado, a descricao lingdistica do texto, pretensamente objetiva e sistemitica, despojada de toda interpretacdo, como se isso fosse possivel; por outro lado, essa estilistica que chamei de “profunda”, explicitamente interpretativa, ligando formas e temas, obsessoes e mentali- dades. Ambas, descrigio Linguistica do texto litersrio € esti listica da profundidade, através de um paradoxo pelo menos 120 curioso quanto 0 paradoxo com o qual Barthes reinventou levaram ao retorno do estilo. NORMA, DESVIO, CONTEXTO © problema da estilistica, analisado por Stanley Fish, era a sua circularidade: a interpretacio pressupunha a descricao, mas a descrig’io pressupunha a interpretacao. Para sair disso, pensaram os literatos marcados pela teoria e pela lingiistica, suficiente aspirar exaustivamente a descrever tudo, sem interpretar os tragos detectados, sem se preocupar com lo, nem com sua significagio? A partir desse modelo, © estudo formal mais profundo, em todo caso © mais conhecido, referéncia obrigatoria de toda descriglo linguistica do texto vliteririo, foi o artigo de Jakobson e Lévi-Strauss sobre “Os 180 ECE EE Gatos” (1962). Mas a objecio nao tardaria e ela era previsivel. Este método nao tinha objeto Riffaterre desde 1966, pois as categorias da descricao lingiistica nao sto neces mente pestinentes do ponto de vista literério: “Nenhuma andlise Bramatical de um poema pode dar-nos mais do que a grama. tica do poema’,” respondeu ele numa formula memorivel. A linguistica estrutural pretendia abolir a estili sas € intiteis sobre 0 estilo do poeta pela descricao ‘a € 0 estudo formal da Iingua do poema. A critica de iffaterre se referia 2 pertinéncia (relevance) ou 3 validade literéria das categorias lingUisticas utilizadas por Jakobson € Lévi-Strauss. Todas as suas descricdes sto belas ¢ boas, a ambigao de exaustividade & admirivel, mas © que prova que as estruturas que detectam sao nao somente lingiisticas mas também literdrias? O que nos diz que o leitor as percebe, que fazem sentido? O problema € ainda o da mediacao, desta vez ando resolver uma exacerbada, Uma descricio linguistica € ipso facto literdria? Ou existiria entre as duas um nivel que tornaria um determ nado traco lingiistico literariamente pertinen camente marcado para o leitor Tradicionalmente, as nocdes solidérias de norma e de desvio pemmitiam resolver a questio da pertinéncia literdria de um traco lingistico. © estilo era substancialmente a licenca poética, 0 desvio em relagao ao uso da linguagem tido como normal. Ora, em Jakobson, a nogio de estilo desapareceu e com ela a dual dade norma e desvio. Segundo o esquema funcional da comuni- cagio literiria, 0 estilo dispersou-se entre a fungio emotiva ou eapressiva da linguagem, cuja tOnica € 0 locutor, e a funcao oetica, que insiste sobre a mensagem em si mesma. Mas qual é 4 anise responsiivel pelo estudo da funciio expressiva? Isso no E dito. Ea poética se encamega da Fungo poética, com exclusio das outras? Também isso nao é dito. Enfim, parece que nem a fun- (Ao expressiva nem a funcdo poética sio mais avaliadas em referéncia a uma norma. Para Riffaterre, tratava-se de um problema bastante seme- hante ao que Barthes enfrentara: o de salvar a nogo de estilo — ifaterre nao chegara a desvencilhar-se dele — sem recorrer 20 dlualismo da norma e do desvio, doravante mal visto, como todo dualismo, pois remetia, em tiltima instin: 181 linguagem e pensamento. Um verdadeiro quebra-cabegas que ele resolve admiravel ¢ acrobaticamente, num outro artigo contemporineo, “Critétios Para a andlise do Estilo” (1960): “O estilo, decreta ele, € compreendido como uma énfase (emphasis, expressiva, afetiva ou estética) acrescentada & informacao trans- lteracdo de sentido.” do € continua fie npre: o estilo € um suplemento que acrescenta algo 20 sentido cognitive, sem modificé-lo, uma variagio oma: mental sobre um invariante semantico, uma valorizaclo, uma acentuagao da significagio por outros Meios, Sobretudo expres sivos. Tudo bem, E af estamos nésde volta a velha problematica do estilo como roupagem, mascara ou maquiagem, ¢ esta problemdtica tomou-se censuravel. Como pensar um desvio sem referéncia a uma norma, uma varia¢io sem um invariante subjacente? Nesse ponto, Riffaterre desenvolve um grande paréntese, dos mais sutis: Definicio inibil, pois parece pressupor uma significagio de base — uma espécie de grav 2ero — em relacto a qual n se-iam intensidades. T s6 se pode obter lo pode apresentar aos olhos de um mo ¢ retira imediatamente aquilo que acabara de dizer. Conceber o estilo como desvio ou énfase pres- supe uma norma ou uma referencia, isto é, alguma coisa a ser acentuada e sublinhada: uma intengio, um pensamento exterior @ linguagem, ou que preexiste a ela. Entio, ele se corrige: sdida, em cada ponto do en ico), sobre o eixo paradigat lavea que figura tido. Mas seu sentido, qualquer que ele seja, no nivel gua, é necessariamente alterada no texto pelo que @ pre: jue (sete02ga0). 182 FE EEEEEEEEIEEID Essa explicacto nao € totalmente clara, Em todo caso, ela visa evitar que a definicao do estilo pela énfase pressuponha um principio de sinonimia, No entanto, a palavra esti 14 “sindnimos ou substitutos possiveis". Riffaterre procura deslizar do paradigma para o sintagma, como referéncia ov padrao da énfase. Sem duivida a énfase é medida em relag3o a um sindnimo ou substituto ausente (no paradigma), mas a énfase se mede igualmente — uma outra énfase ou a mesma — em relagao ao contexto sintagmatico, ou, em todo caso, € 0 contexto que permite reveli-la. Riffaterre passa, assim, de uma noo de desvio em relagao a uma norma para uma nogao de desvio em relacdo a um contexto. Sem negar que o estilo depende de uma relacio in absentia (sinonimia ou substituicao), Riffaterre afirma que essa relagio € designada (acentuada) por uma relacio in praesentia (que ele chamara posterior mente de agramaticalidade). Um desvio na linha sintagmatica (agramaticalidade contextual, ou “co-textual”) designa um desvio na linha paralela (traco de estilo, no sentido tradicional): er que o € certos elementos da seqiiéncia verbal i tor, de tal mans ilo no sentido t entendido como a racionalizacao (em profundidade) de um efeito de leitura (na superficie). O estilo é a expectativa enga- nada ou, pelo menos, nao ha estilo sem isso. E Riffaterre pode, eno, fechar seu paréntese © retomar sua definicao prévia do estilo, doravante relegitimada: *O que vale dizer que a linguagem exprime 0 que o estilo valoriza (...)” A introduclo do leitor resolveu © problema levantado pela definicto do estilo como énfase sobre o que nao existia antes do estilo. O estilo nao se opde mais a referéncia, pois o fundo contra o qual ele € percebido, como um alto-relevo, nao seria ele Proprio percebido sem este alto-relevo. Perguntavamo-nos se Barthes sabia que ele reinventava 0 estilo como genus dicendi. Quanto a Riffaterre, a premeditagio € certa e © trabalho de recriacio do estilo como desvio ou 183 OO ormamento rigorosamente deliberado: um desvio ou um ormamento que constitui aquilo do qual ele se afasta e que ele ormamenta, mas que nem por isso deixa de ser um desvio © um ornamento. Com Riffaterre, nao é mais o antigo sentido: ret6rico do estilo que ressurgiv, a rota Virgii, mas seu sentido classic e tradicional, das retéricas da elocutio em que topo ¢ a figura se impuseram em primeiro plano, em detri- mento da triparticao dos estilos. Mais tarde Riffaterre evitard falar do estilo, palavra que logo se tornou tabu; sua “estilis tica estrutural”, como ele a chamava na época, cederd lugar a uma “semitica da poesia”. O estilo, como desvio, designado pelo contexto, sera rebatizado de “agramaticalidade’, palavra claramente tomada de empréstimo a lingilistica, doravante cincia de referencia. Mas a noco nao mudou fundamental- mente de sentido: ela permite continuar uma anilise do des- vio, mesmo se o termo estilistica teve que ser sacrificado aos deuses do momento. O ESTILO COMO PENSAMENTO A utopia da descricao lingtiistica objetiva e exaustiva do texto literdrio absorveu muitas intel senta ¢ setenta: foram intimeros os pastiches de “Os Gatos” de Jakobson e Lévi-Strauss, Outra tentagao era aceitar a definicao de estilo como visio de mundo, prépria de um individuo ou de uma classe de individuos, sentido que a historia da arte legi- timara. lids, a esta concepgio de estilo nao faltavam gran- des precursores. Ela lembra a tradicio lingiifstica romantica © pOs-romiintica alema que, de Johann Herder ¢ Wilhelm von Humboldt até Ernst Cassirer, identificava lingua com literatura e cultura." Fssa filosofia da linguagem, em voga entre os compa- rativistas indo-europeus, estava presente igualmente na Franca, por exemplo, em Antoine Meillet e Gustave Guillaume, ¢ talvez tenha sido por esse caminho que ela chegou até Ben- veniste, no artigo em que ele relaciona categorias de lingua ¢ categorias de pensamento. O perigo do dualismo foi evitado, ja que a lingua € considerada como principio do pensamento, endo como sua expresso, conforme uma doutrina que também nao era estranha a0 pensamento de Saussurre, também um indo-europeista, para quem a lingua correspondia a um 184 recorte simultneo do real em unidades de som ¢ em unidades de sentido. Uma pare da reflexio sobre o estilo retomou, pois, 0 sentido que a histéria da arte e a antropologia haviam dado a essa palavra. Ja assinalei a conformidade da estilistica de Spitzer ou ainda da critica tematica com essa concepgio do estilo. No momento em que a linguistica questionava a estlistica, Jean Starobinski propunha para esta um projeto alternativo: “Quando se trata de critica, a operagao convergente da feno- menologia ¢ da psicandlise poderia chamar-se estilistica.”" A ambiga0 que a estilistica podia ainda reivindicar junto & linguistica era a de constituir uma fenomenologia psicanalitica do texto literario, seguindo os passos de Gaston Bachelard e da escola de Genebra Acestilistica de Spitzer baseava-se no principio da unidade orginica do pensamento ¢ da lingua, ao mesmo tempo do Ponto de vista da coletividade ¢ do ponto de vista do individuo. Como ele lembrava em 1948, sua pergunta, andloga 2 que seu amigo Karl Vossler fazia sobre 0 conjunto de uma litera- tura nacional em relacio a totalidade de sua lingua, porém mais modesta, era originalmente esta: “Pode-se reconhecer 0 de um escritor a partir de sua linguagem particular?” do estudo do estilo, gracas a caracterizagto da indi- vidualidade de um escritor baseada em seu desvio estilistico, ele esperava poder “langar uma ponte entre lingiistica e his t6ria literdria”,* ¢ dessa maneira reconciliar os velhos irmaos inimigos das letras, Assim, o estilo nio € mais para ele uma escolha consciente do autor, mas, enquanto desvio, é expres- sdo de um “etymon espiritual”, de uma “raiz psicolégica” Quando eu tia romances franceses modernos, cultivava 0 hi- bito de sublinhar as expressdes cujo desvio em relacio a0 uso geral me impressionava; © muitas vezes a5 passagens assim. acentuadas, logo que reunidas, pareciam tomar uma certa con- sisténcia. Eu me perguntava se no se poderia estabelecer um denominador comum para todos ou quase todos esses desvios: no se poderia achar 6 radi diferentes tragos de esti ‘um eseritor?™ marcam a individualidade de © truco de estilo se apresenta & interpretacio como sintoma, individual ou coletivo, da cultura na lingua. E, como na 185 historia da arte, ele se manifesta por um detalhe, um fragmento, tum indfcio sutil e marginal que permite reconstruir toda uma visio do mundo. O modelo do te6rico do estilo é novamente © do cacador, do detetive ou do adivinho, posto em destaque por Ginzburg. Na realidade, Spitzer age como no citculo hermenéutico, no vaivém entre os detalhes periféricos e o principio criador, procedendo por antecipacao ou adivinhagao do todo, Cada um dos estudos do estilo de Spitzer “considera sério tanto um detalhe linguistico quanto o sentido de uma obra de arte" e procura, assim, identificar uma visto do mundo coletiva ¢ individual, um pensamento nao racional, mas sim- bélico, com o principio de uma obra Nessa teoria do estilo comowpensamento ou visto, a seme- Ihanca com Proust é clara, Mas, de maneira mais geral, € toda a critica tematica que poderia ser descrita como uma estilistica dos temas, j4 que ela se baseia igualmente na hipotese de ‘uma unio profunda da linguagem e do pensamento, Jé tratamos disso quando falamos da intencao (ver Capitulo ID), como de uma Ultima trincheira dos partidérios do autor, identificada com seu "pensamento indeterminado", uma vez que a idéia de sua “intengdo clara e licida” havia sido desacreditada. Com © estilo, encontramos essa linha critica exatamente no mesmo lugar mediano, logo, pouco confortavel, que tenta distanciar-se dos extremos, a meio-