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Os depoimentos contraditórios da
irmã Lúcia sobre as "aparições de
Fátima"
LUÍS FILIPE TORGAL  21/02/2005 ­ 00:00

A quem cabe a responsabilidade da falsificação da história? Não creio que se
possa atribuir a Lúcia, cuja vida pública e privada foi controlada e mesmo
amordaçada desde 1921. Pode sim imputar­se a sectores da hierarquia da
Igreja Católica que utilizaram a vidente de Fátima como peão ao serviço de um
ambicioso movimento de renascimento católico de dimensões nacional e
mundial

No passado dia 13 de Fevereiro, morreu aos 97 anos (faria 98 em 30 de
Março) Lúcia de Jesus dos Santos. E, com o seu abandono do mundo dos
vivos, estão criadas condições para a hierarquia da Igreja Católica consumar
aquilo que há muito parece ser o seu desejo: beatificar a mais importante das
videntes de Fátima. Os fatimistas indefectíveis ­ e os políticos mais
oportunistas ­ irão entretanto produzir sobre ela os já previsíveis discursos
hagiográficos, os quais não deixarão de apregoar as suas incomensuráveis
virtudes católicas e invocar o seu piedoso protagonismo na história das
aparições de Fátima. A lamentável morte da irmã Lúcia poderá até servir de
álibi para relançar no país e no mundo a imagem de um santuário que no
último ano parece ter perdido demasiados peregrinos e, ainda, fornecer
fundamentos para que o Vaticano apresse também o processo de beatificação
de uma outra preciosa figura do panteão fatimista: o cónego Nunes Formigão. 
No entanto, à margem de uma história mística e laudatória que sucessivos
cronistas católicos, com o imprimatur da hierarquia da Igreja, souberam tão
bem construir e difundir desde 1917, importa responder com rigor e
objectividade a esta incontornável questão: qual o papel desempenhado pela
irmã Lúcia em todo o processo das aparições de Fátima?
Neste breve e necessariamente preambular artigo de jornal, queria apenas
propor aos leitores um exercício (que, obviamente, não é original) de análise
comparativa de um conjunto de documentos fundamentais e que permitirá
ajudar a responder à questão supracitada: os interrogatórios efectuados pelo
pároco de Fátima à mais velha dos pastorinhos, entre Maio e Outubro de 1917
(ver Documentação Crítica de Fátima I, 1992), os interrogatórios aos videntes
Lúcia, Francisco e Jacinta, feitos oficiosamente pelo cónego Nunes Formigão,
entre Setembro e Novembro de 1917 (ver op. cit.), os interrogatórios oficiais de
Lúcia, realizados pelo mesmo cónego e o padre Manuel Marques dos Santos,
em 1924 (ver Documentação Crítica de Fátima, II, 1999), e as primeiras
memórias redigidas pela freira Carmelita, entre 1935 e 1941, por ordem do
bispo de Leiria, D. José Alves Correia da Silva (ver Memórias da Irmã Lúcia,
8.º edição, 2000) ­ também ele um protagonista incontornável do processo
das aparições e culto da Cova da Iria. 
Do primeiro documento, datado de 1917, ­ e, sem dúvida, o mais fidedigno ­
ressaltam duas ideias singelas e pouco originais: a oração e a devoção, através
da recitação do Rosário; o cumprimento escrupuloso desse popular preceito
espiritual teria como contrapartida o final da guerra (de 1914­18) e a
implantação da paz no mundo. Deste interrogatório vale ainda a pena reter a
falsa profecia presumivelmente avançada por "Nossa Senhora" (em 13 de
Outubro de 1917) sobre o final imediato da guerra, efectuada nos seguintes
termos: "a guerra acaba ainda hoje; esperem cá pelos seus militares muito
breve".
Os segundos e terceiros documentos supracitados, de 1917 e 1924, introduzem
já elementos novos que complementam e tornam a mensagem primitiva mais
intricada. Atestam o mandamento Mariano da recitação do Rosário em prol
do fim da guerra e da implantação da paz no mundo. Contudo, acrescentam à
prática da oração os conceitos explícitos de penitência e conversão, aludem ao
ensinamento por Maria de uma jaculatória cujo conteúdo consubstancia a
existência de um mundo trinitário pós­terreno onde o Céu, por um lado, e o
Purgatório e o Inferno, por outro lado, se configuram respectivamente como
os destinos dos piedosos (ou seja, dos fiéis ou convertidos aos mandamentos
católicos) e dos pecadores. Os mesmos textos mencionam pela primeira vez
um (e não três) enigmático(s) e polémico(s) segredo(s) revelado(s) por "Nossa
Senhora" às crianças e uma misteriosa aparição, em 1916, de um anjo a Lúcia
e a outras crianças da freguesia de Fátima. E reformulam já a profecia feita
sobre o final da guerra, agora apresentada em duas versões ambíguas e
literariamente retocadas: "Se o povo se emendasse, acabava a guerra", ou
"convertam­se, a guerra acaba hoje, esperem pelos seus militares muito em
breve". 
Os últimos textos aqui citados, as memórias escritas pela irmã Lúcia, depois
de 1935, com singulares e misteriosos pormenores, os quais contrastam aliás
com as respostas lacónicas e simples que emitiu nos diversos inquéritos de
que foi alvo logo após os acontecimentos de 1917, retomam e ampliam
intangíveis revelações, algumas já avançadas em primeira mão pelo cónego
Nunes Formigão, ao longo da década de 20: entre muitas outras novidades, a
morte precoce de Jacinta e Francisco, a visão de um inferno dantesco e do
Imaculado Coração de Maria cercado de espinhos, o famigerado pedido da
"Virgem" para "consagrarem a Rússia ao Seu Imaculado Coração". E a
referência ao final da guerra, que aqui foi feita de maneira a depurar as
perplexidades que as mensagens anteriores encerravam: "A guerra vai acabar
e os militares voltarão em breve." 
Em face do exposto, podemos inferir que a história e a mensagem de Fátima
que conhecemos através das palavras de Lúcia não são lineares. Isto é, muitos
dos factos por ela narrados foram gradualmente alterados e efabulados entre
1917 e os anos 30. E podemos também adiantar, através da análise das
diferentes mensagens, que essas transformações estão directamente
relacionadas com as diferentes conjunturas político­ideológicas que se
verificaram, entre 1917 e a década de 30 do século passado, em Portugal e no
mundo. 
A quem cabe a responsabilidade desta inequívoca falsificação da história? Não
creio que se possa atribuir a Lúcia cuja vida pública e privada foi controlada e
mesmo amordaçada desde 1921 (tinha então 14 anos). Pode e deve antes
imputar­se a sectores poderosos da hierarquia da Igreja Católica que
oportunamente souberam utilizar a última das videntes de Fátima como
precioso peão ao serviço de um ambicioso e permanente movimento de
renascimento católico de dimensões nacional e mundial. 
Sei bem que, hoje como ontem, ­ num mundo pragmático, contaminado pela
preponderância do "parecer" sobre o "ser" ­ os argumentos que sustentam esta
perspectiva de nada valem e aqueles que a advogam são até rotulados, por
sectores católicos mais conservadores e intolerantes, de ateus e anticlericais
obstinados ou então de loucos inspirados por maquiavélicas teorias da
conspiração. São esses mesmos sectores que em público preferem
sistematicamente ignorar, omitir ou desvalorizar as contradições que a
história de Fátima encerra e branquear os axiomáticos paradoxos
consubstanciados nos depoimentos de Lúcia (e de outros cronistas) com o
fundamento de que, afinal, o culto da Cova da Iria se impôs ao mundo ­ e tal
facto, na opinião deles, legitima o argumento de que as "aparições de Fátima"
beneficiaram da mão de Deus.
Em verdade vos digo, não creio que Deus possa abençoar aqueles que em
nome de Cristo se assenhorearam deste culto de primitiva expressão popular ­
igual a tantos outros que existem no país ­ e depois construíram de modo
premeditado um conjunto elaborado de representações místicas com o
desígnio supremo de disciplinar, angariar e manipular fiéis. Contudo, estou já
profundamente convicto de que a irmã Lúcia sairá inocente de tal julgamento
divino. Historiador 

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