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Ciência e Profissão

Ano 7 • Nº 7 • Julho 2010

política de assistência social


• Psicologia: contribuições, desafios
e trabalho com assistentes sociais
• Suas; O papel dos cras e dos creas
• Desafios intersetoriais, controle
social e protagonismo dos usuários

Julho 2010
expediente

Editores Responsáveis Jornalista responsável


Elisa Zaneratto Rosa Patrícia Cunegundes
Marta Elizabeth Souza DRT/CE 1050
Odete G. Pinheiro Liberdade de Expressão Agência
e Assessoria de Comunicação
Conselho editorial
Região: CRP – 12 (Região Sul) Reportagem
Juliana Perucchi Rogério dy la Fuente
Vinícius Silva
Região: CRP – 14 (Região Centro-Oeste)
Maria Aparecida Morgado Revisão
Joíra Coelho
Região: CRP – 03 (Região Nordeste)
Sonia Maria Rocha Sampaio Projeto Gráfico
Rui de Paula e Fabrício Martins
Região: CRP – 16 (Região Sudeste)
Bernadete Baltazar Capa
Luana Melo
Região: CRP – 10 (Região Norte)
Francisco Maria Bordin Diagramação
Luana Melo e Guilherme Werner

Liberdade de Expressão Agência


e Assessoria de Comunicação

Impressão
Gráfica BarbaraBela
julho/2010
Setor de Administração Federal
Sul (SAF/Sul), Quadra 2, Lote 2, Tiragem
Edifício Via Office, sala 104, 130.000
CEP 70.070-600,
Brasília, DF

E-mail: revistadialogos@pol.org.br
Distribuição gratuita aos psicólogos inscritos nos CRPs
versão on line no site www.pol.org.br
sumário

Cartas e repercussão 4 Cara a cara 32


Os desafios da Assistência Social no Brasil:
Editorial 6 contribuições dos psicólogos e dos assistentes sociais
Jacques Akerman e Elisabete Borgianni
Entrevista 7
Psicólogo Fábio Porto Artigo 36
O controle social nas políticas públicas
Caminhos e contextos 12 José Antonio Moroni

Direitos sociais para construir cidadania


Palavra de usuário 42
Artigo 17 Samuel Rodrigues
O SUAS e o princípio da universalidade Carlos Eduardo Ferrari
Nathália Eliza de Freitas
Acontece na área 44
Artigo 20
Para além da centralidade da família Filme 46
Irene Rizzini Quanto vale ou é por quilo?
Marcus Vinícius Oliveira

Artigo 23
A atuação dos psicólogos nos CRAS Inclusão produtiva 48
Laura Freire Da exclusão à cidadania por
meio do trabalho
Intersetorialidade 26
O desafio da articulação Resenha de livros 52
pública Qualidade de vida na velhice:
enfoque multidisciplinar
Isolda de Araújo Günther

Ilustração 54

Julho 2010 3
cartas e repercussão

Informamos que, para contemplar pedidos de


exemplares para ampla divulgação, o CFP torna
disponível a revista Diálogos na internet. A ver-
são online pode ser acessada no endereço www.
pol.org.br/pol/cms/pol/publicacoes/revista/.

S
ou psicóloga, trabalho atualmente na pre- emocional. Portanto, olhem também o outro lado
venção de estresse e na manutenção do e não julguem. Em todas as profissões há aqueles
equilíbrio emocional dos policiais militares que se desvirtuam, temos psiquiatras que sedam
da região oeste de São Paulo. Recebi no mês de jovens para manipulá-los sexualmente, temos psi-
dezembro/09 a revista Diálogos e deparei com cólogos que falam de fofocas na TV, jornalistas
o tema Drogas, crimes e ação policial da Questão assassinos, cirurgiões psicóticos que esquarteja a
Policial (pág. 43). Com tudo o que está ali descrito, vítima... Como se vê, senhoras, aqui na Polícia Mili-
temos de concordar, porém, não podemos genera- tar do Estado de São Paulo estamos tentando mi-
lizar, pois o policial militar tem de tomar decisões nimizar os problemas, as Escolas de Formação já
extremamente eficientes e eficazes, para que esteja estão priorizando Direitos Humanos, os psicólogos
a contento da Instituição Estadual Policial Militar já estão ocupando seu devido campo e aos pou-
do Estado de São Paulo e da Sociedade Civil. Sua cos o preconceito de que “psicólogo é para louco”
ação tem que se desenvolver em fração de segun- está diminuindo em nosso público interno. Com
isso esperamos pessoas mais centradas em seu
dos, pois lidam com vidas.
emocional.
Não podemos nos esquecer de que esses homens
Obrigada pela atenção e não se esqueça de
e mulheres são seres humanos, dotados de emoções,
que por trás da farda existem INDIVíDUOS.
com problemas diversos, treinados para lidar com
situações conflitantes e para resolvê-los, porém, não
podemos esquecer de que o acúmulo de situações Valéria Rodrigues Marques
conflitantes, não canalizadas, causam desequilíbrio Psicóloga – CRP 45819/06

Resposta

Em primeiro lugar gostaríamos de agradecer o contato. Sua manifestação mostra a importância do


diálogo entre o Conselho Federal de Psicologia e a categoria.
Concordamos com a necessidade do reconhecimento das questões subjetivas dos sujeitos que
compõem a Polícia. Entendemos que o foco da análise foi problematizar a relação entre
drogas, crimes e ação policial. Ao fazer isso, os entrevistados, que analisam amplamente
a instituição e a questão do Estado, entre outros aspectos que envolvem essa pro-
blemática, corroboram para apontar a complexidade das questões que compõem
essa relação e em que esses indivíduos estão engendrados. O box da matéria,
que apresentou pesquisa realizada sobre o sofrimento mental dos policiais,
procurava justamente dar visibilidade à questão da vivência subjetiva dos
policiais nesse tecido complexo.

4 Julho 2010
O Conselho Federal de Psicologia promoveu Debate on-line com o tema Álcool e
Outras Drogas, no dia 17 de março, para lançamento da revista Diálogos nº 6.
O número de conexões chegou a 1.100. Estudantes, profissionais, instituições de saúde acompanharam
online, enviaram perguntas e contribuíram para o avanço do debate. Publicamos, aqui, algumas dessas
manifestações. A íntegra do debate pode ser acessada no link http://www.pol.org.br/pol/cms/pol/publi-
cacoes/videos/videos_100319_003.html.

Não precisamos “dar voz” ao usuário, mas acre- “Tendo em vista a complexidade do tema, a necessi-
dito, criar mais dispositivos para que esta seja pro- dade das diversas áreas confluírem para melhor atu-
duzida e analisada coletivamente. Somos “porta- ação da prática voltada à saúde, quero saber duas
vozes” dos usuários? Como estamos usando nossos coisas, se possível: 1) já estamos articulando com
lugares de especialistas? Nos trancando no “íntimo” os meios acadêmicos sobre isto? Nas formações da
no “subjetivo”, mesmo quando atuamos em CAPS saúde e afins, já estamos conversando sobre álcool
ou hospitais ou escolas? Agradeço pela oportunida- e outras drogas, redução de danos e outros, como
de e creio que este evento já seja um dos dispositi- matéria ‘obrigatória’?; 2) com relação à participação
vos que mencionei.” social, qual o meio mais efetivo de chamarmos para
perto esta sociedade, já que me parece que muitos
Marcelo Tavares, UERJ
não têm nem noção da importância em participar e
nem sabe sobre a importância de ser conselheiro?”
“Denis Petuco, é com grande prazer que par-
Mônica D. S. Leite, Psicologia – SP / Especializa-
ticipo deste evento e gostaria de aproveitar para
ção: Dependência Química pelo CRATOD SP / Tu-
parabenizar por seu trabalho na militância da RD
tora nos projetos da SENAD SUPERA e FÉ em SP.
(redução de danos). Acompanho o seu trabalho já
há algum tempo. Você se referiu à possibilidade de
deslocamento de jovens vítimas de ameaças para “Gostaria de aproveitar o momento que vive-
outros bairros ou até outras cidades. Com relação a mos por conta dos debates sobre as Conferências
essa questão, como vocês pensam trabalhar a ques- de Saúde Mental (municipal/regional, estadual e
tão do território existencial desses sujeitos (suas nacional) para perguntar aos palestrantes: como
relações, cultura, família...)? Algumas pessoas não tem sido trabalhada a temática deste debate nos
suportam o afastamento repentino desses territó- povos indígenas? Ações, pesquisas, recomendações
rio existencial e retornam mesmo conscientes dos etc. principalmente na mobilização desse público,
riscos desse retorno.” no empoderamento, etc.”
Renata Almeida – Gerente CAPSad Camaragibe Fabiano Carvalho-FUNASA-Palmas/TO.
– PE / Assessora técnica do DSV Recife – PE / Psi-
cóloga, fonoaudióloga / Mestranda em Psicologia
clínica pela UNICAP.

debate online

Julho 2010 5
editorial

C
onquista da sociedade brasilei- trajetória histórica construiu essa perspec-
ra, o Sistema Único de Assistên- tiva de atuação de forma contra-hegemôni-
cia Social (SUAS) instituiu-se ca. Dessa maneira, muitos desafios teórico-
no ano de 2005 como política práticos se colocam para a Psicologia desde
pública que deve garantir ações integradas a sua inserção obrigatória no SUAS.
e integrais de assistência social à popula- Essa edição da Diálogos vem se somar
ção. Podemos pontuar também como uma aos inúmeros espaços de debates abertos
conquista nesse processo a participação para a discussão e a elaboração de refe-
dos psicólogos nessa política: conquista rências para essa área. Parte do reconheci-
que aponta o reconhecimento da Psicolo- mento de que o tema, ainda longe de estar
gia como ciência e profissão que pode con- esgotado, requer reflexões, troca e experiên-
tribuir em políticas voltadas para o alcance cias, novos conhecimentos. Nessa medida, a
da cidadania e para os avanços da constru- revista pretende abordar os alicerces dessa
ção da democracia na sociedade brasileira. política e da perspectiva de intervenção a
Desde então, o debate sobre a atuação ela pautada, assim como pretende dar vi-
dos psicólogos no SUAS tem se intensifica- sibilidade a algumas intervenções e pro-
do. Os desafios postos para a participação duções construídas pela Psicologia nesse
da Psicologia nessa política são muitos, campo. Pretende ainda intensificar o diálo-
assim como são muitos os desafios para a go necessário uma outra área de conheci-
consolidação da própria Política Nacional mento e de atuação, pautando o trabalho
de Assistência Social no Brasil. Num país conjunto com os assistentes sociais e colo-
marcado pela desigualdade social, é urgente cando-o em debate, na certeza de que é ne-
a garantia de ações do Estado que promo- cessário compor saberes e construir novos
vam a equidade e os direitos da população. fazeres em conjunto com profissionais que
É necessário ainda que essas políticas se foram protagonistas essenciais da política
efetivem fortalecendo a perspectiva da par- de assistência social que temos hoje.
ticipação e do protagonismo social da po- Com isso, o Conselho Federal de Psico-
pulação, na busca do seu fortalecimento e logia não pretende, sem dúvida, esgotar
empoderamento. Essas prerrogativas estão o debate, mas disponibilizar elementos e
postas ao SUAS. E na medida em que estão subsídios para a qualificação e o reconhe-
postas pautam-se como desafios para a in- cimento do trabalho do psicólogo nesse
tervenção dos profissionais que nele atuam. projeto comprometido com a transforma-
Se por um lado a inclusão dos psicólo- ção da sociedade brasileira na direção da
gos no SUAS representa o reconhecimento igualdade e da democracia. Que este seja o
da contribuição da Psicologia aos processos compromisso da Psicologia nessa política e
de transformação social e de fortalecimen- que avancemos na qualidade da interven-
to dos sujeitos, por outro sabemos que sua ção que o faça efetivo!
Ilustração: Lívia Barreto

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entrevista

“Ação conjunta de
psicólogos e assistentes
sociais é essencial para a
garantia da emancipação e do
protagonismo social da população”

P
sicólogo comunitário e do trabalho, buições da Psicologia para as políticas públicas
mestre em Psicologia com formação sociais, especialmente para o SUAS, ensinando
em psicoterapia fenomenológico- que o profissional de Psicologia pode contribuir
existencial, Fábio Porto é professor de enormemente com o desenvolvimento da pró-
Psicologia da Universidade Federal do Ceará pria equipe, bem como incrementar a atuação
(UFC). Ele já atuou no poder público munici- dos demais profissionais, ou mesmo contribuir
pal e também em ONGs nas áreas de assistên- para a ampliação da compreensão dos fenôme-
cia social, inclusão produtiva, saúde, esporte e nos sociopsicológicos implicados na promoção
lazer, desenvolvimento de projetos de atuação da proteção social. Na construção desse tra-
psicossocial, saúde comunitária, mapeamento balho, um princípio é fundamental e deve ser
psicossocial, mobilização e participação social, orientador essencial da prática da Psicologia: a
facilitação de grupos comunitários e desenvol- garantia da emancipação e o protagonismo so-
vimento organizacional. Nessas experiências cial da população.
profissionais, trabalhou com o Sistema Único Sobre a participação de psicólogos e as-
de Assistência Social (SUAS) e enfrentou os de- sistentes sociais nesse processo, considera
safios para a sua implantação. “muito necessária e eficaz a atuação conjun-
Nesta entrevista, Porto aponta os desafios da ta entre as duas áreas, que tão mais potência
Política Nacional de Assistência Social em seu terá quão mais se intensificar a vivência prá-
processo de consolidação. Discute as contri- tica da interdisciplinaridade”.

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DIÁLOGOS – A partir da criação do Sistema para o processo de conquista e construção de uma
Único de Assistência Social (SUAS), em 2005, cidadania ativa e efetiva, favorecendo o trânsito do
como o senhor analisa hoje a política de assis- “indivíduo-recebedor-de-caridade” para sujeito de di-
tência social no Brasil? reitos; a intensificação do confronto entre uma nova
Fábio Porto – Vejo a Política Nacional de Assistência cultura participativa emancipatória; a organicidade
Social (PNAS) como uma jovem política, cheia de es- sem precedentes na história das proto-políticas so-
peranças e desafios de de- cioassistenciais; a pactuação federativa
senvolvimento. Penso que para o desenvolvimento da PNAS e de
Arquivo pessoal

se encontra em um mo- suas ações; a valorização do município


mento de implementação, na implementação e desenvolvimen-
ampliação e consolidação to da política pública de Assistência
na realidade política, go- Social; a territorialização da atuação;
vernamental e territorial a adoção da família como matriz es-
brasileira. A implantação tratégica a partir da qual se efetivaria
do SUAS contribui enor- a concreta promoção da proteção so-
memente com a confor- cial; a reorganização das ações de pro-
mação de uma organici- teção social com base em diferentes
dade nacional da PNAS, o níveis de complexidade; o reconhe-
que é fundamental para cimento das lutas e da resistência de
seu devido funcionamen- várias populações e categorias sociais,
to. Contudo, como apre- consideradas nas estratégias e ações de
senta um forte diferencial proteção social, como mulheres, crian-
discursivo, concernente à ças, idosos, afro-descendentes e indí-
superação dos anteceden- genas; o reconhecimento dos aspectos
tes históricos da prática e fatores sociopsicológicos condicio-
socioassistencial(ista), em Com Paulo Freire, nantes dos quadros de vulnerabilidade
um país que nunca insta- das pessoas e populações, tendendo a
lembramos que
lou o tão almejado Estado ampliar e aprofundar as iniciativas de
de Bem-Estar Social, cha- é o sonho que proteção social.
ma para si desafios her- Os problemas, em cinco grandes
cúleos, como pretender a nos alimenta a categorias, seriam eles: a contradição
promoção da emancipa- estrutural inerente à relação entre Es-
esperança, que
ção social de populações tado e sociedade civil; a cultura partici-
vítimas de uma pobreza se dá na medida pativa ainda profundamente marcada
crônica e historicamente por práticas socioideológicas pater-
produzida (com definitiva em que buscamos nalistas, assistencialistas e clientelistas,
atuação do próprio Esta- fragilizando a participação popular e
transformar nossa
do, que propõe as políti- truncando a constituição dos cidadãos
cas públicas). Com Paulo realidade. atendidos como sujeitos de direitos,
Freire, lembramos que é o críticos e atuantes; o significativo nú-
sonho que nos alimenta a mero de administrações municipais
esperança, que se dá na medida em que buscamos com qualificação muito deficitária (em termos téc-
transformar nossa realidade. Creio que passa por aí nico-sociais e ético-políticos); as equipes com forma-
a trajetória de consolidação da Assistencial Social ção acadêmica e profissional distanciada da realidade
no Brasil, em nossos dias. e da dinâmica técnica, política e social das políticas
públicas (muito desafiante à inserção do profissional
DIÁLOGOS – Quais as conquistas e os problemas? de Psicologia nesse contexto); a expressiva fragilida-
Fábio Porto – Primeiramente, as conquistas: a conso- de da integração interdisciplinar e ideológica, entre
lidação da Assistência Social como política de Estado, as diversas categorias profissionais e paraprofissionais
constituinte da seguridade social brasileira, ao lado que coordenam e executam as ações e serviços, com
da Saúde e da Previdência Social; a universalização do sérios entraves corporativistas, ético-políticos, teóri-
acesso aos direitos socioassistenciais; a contribuição cos e metodológicos.

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Fico contente por a lista de conquistas ser maior que a social, podemos estender a necessidade de ampliação
de problemas, que por sua vez, possuem raízes profun- e aprofundamento do preparo dos trabalhadores do
das, estruturais que são, pois vêm sendo historicamen- SUAS às outras categorias, envolvendo inclusive o pró-
te alimentados, ideologicamente cultivados, seja pela prio Serviço Social.
omissão, pela desorganização, pela corrupção, pelo Por fim, temos desafios organizativos e organiza-
discurso fatalista, ou pela “inibição cionais, que diriam respeito à
práxica”, como nos diria o psicólo- própria evolução da organici-
go hispano-salvadorenho Ignacio O papel da dade nacional do sistema, seu
Martín-Baró. funcionamento otimizado e
psicologia, como eficiente, envolvendo a relação
DIÁLOGOS – O que é necessário funcional entre as três esferas de
para consolidar o SUAS? conjunto integrado governo, segundo a pactuação
Fábio Porto – Penso que a equa- de diversos saberes de compromissos e atribuições
ção entre conquistas e problemas institucionais.
na implementação do SUAS nos e práticas, como
aponta grandes desafios, cuja su- DIÁLOGOS – Qual é a sua ava-
peração exige de nós, atores socio- práxis sobre uma liação do Centro de Referência
institucionais comprometidos com dada realidade, de Assistência Social (CRAS) e
a promoção do desenvolvimento do seu papel no SUAS?
humano e social, um amplo e con- pode ser resumido Fábio Porto – Considero o
sistente nível de organização e in- CRAS como um espaço funda-
tegração. A consolidação do SUAS, simplesmente na mental para a vivência concreta
a meu ver, passa justamente pela contribuição com dos desafios postos pelas con-
superação histórica desses desafios. tradições estruturais que per-
Aqui, podemos distinguir basica- o processo de passam a relação entre a ação
mente três tipos de desafios a ser governamental e a participação
superados: aqueles de ordem políti- emancipação social popular. Podemos dizer que o
co-participativa, os técnico-sociais e previsto na PNAS CRAS teria um papel de promo-
de tipo organizacional. ver a proteção social, mediante
Os desafios de caráter político- e no SUAS, que o acesso direto a direitos socio-
participativo apontariam para a su- assistenciais, favorecendo tam-
peração de modos de participação exige, logicamente, bém o desenvolvimento pesso-
(de usuários e operadores do siste- a superação das al, familiar e comunitário, uma
ma!) alicerçados na acomodação e vez que prevê o fortalecimento
na adaptação acrítica à realidade situações de e a integração dos vínculos afe-
vivida, decorrentes da cultura par- tivo-sociais dos indivíduos com
ticipativa paternalista e assisten- vulnerabilidade e seus contextos interacionais
cialista. Outro tipo de desafio é o risco social em que as imediatos (si mesmos, família e
técnico-social, que remete tanto à comunidade). Percebo o CRAS
atuação dos operadores propria- pessoas se encontram como um grande avanço, pois
mente dita, ao momento de exe- teria, conceitual e estrategica-
cução das ações e serviços, como há gerações mente, potencial para fomen-
também a sua coordenação (ges- tar mudanças substanciais na
tão da política pública), especial- forma de relação do usuário
mente no âmbito dos territórios onde se implantam com o sistema, na constituição do sujeito de direitos,
os equipamentos de proteção social. justamente por atuar no nível básico, com ênfase so-
Ainda é bem incipiente a tematização acadêmica ciocultural e ético-política. Contudo, para a constru-
sistemática em torno da relação entre a Psicologia e ção de cidadania ativa, o trabalho do CRAS deve ir
as políticas públicas e sociais. Ainda que a Psicologia além da concessão de benefícios eventuais (óculos,
seja uma categoria que sofra bastante com a tematiza- cestas básicas, cadeiras de roda) e continuados (salá-
ção formativa tardia (acadêmica e profissional) acerca rio mínimo para deficientes incapacitados de se sus-
do mundo das políticas públicas de desenvolvimento tentar e idosos com mais de 65 anos).

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DIÁLOGOS – O que teria a dizer sobre o trabalho profissional, mas de questões mais circunstanciais,
desenvolvido pelos diversos profissionais em servi- como o fato de ser uma categoria com amplo es-
ços como esse? pectro de atuação, com possibilidade de contribuir
Fábio Porto – Penso que a equipe multiprofissional, nos diferentes níveis de complexidade da proteção
proposta ao CRAS, é um avanço, mas devemos ter social. Além disso, seria um saber com muitas in-
em mente que não basta haver profissionais de di- terfaces e campos compartilhados com o serviço
ferentes áreas compondo uma mesma equipe para social (o que historicamente gera muitos conflitos
termos uma atuação em equipe, uma atuação con- e tensões quando da atuação). Tanto é que o pro-
junta desses diversos saberes. Há um significativo fissional de Psicologia, além de estar presente nas
acúmulo de massa crítica em torno da questão da equipes de proteção social básica, integra também
interdisciplinaridade, seus limites os serviços de proteção so-
e possibilidades, bem como de sua cial especial (executados
necessária e urgente efetivação para Percebemos pelos Centros de Referência
o desenvolvimento das políticas pú- Especializada de Assistên-
blicas, constituindo tema básico das uma significativa cia Social – (CREAS), por
capacitações para operadores desse exemplo, atuando com o
setor. Já podemos notar iniciativas consistência que definem como “acom-
de definição conjunta de fluxos e panhamento psicossocial”).
epistemológica
procedimentos de trabalho, em um De forma mais específica,
movimento de dinamização das na relação entre o profissional de Psicologia
interfaces entre as diferentes áreas, pode contribuir enorme-
e até mesmo experiências de equi- a subjetivação mente com o desenvolvi-
pes que integram seus processos de mento da própria equipe,
atendimento às famílias, como no
do ser humano e bem como incrementar a
continuum acolhida – atendimen- sua constituição atuação dos demais profis-
to social – acompanhamento so- sionais, ou mesmo para am-
ciopsicológico – encaminhamento como sujeito de pliar a compreensão dos fe-
para rede. Deve haver também um nômenos sociopsicológicos
exercício crítico para a definição das sua realidade, de implicados na promoção da
espeficifidades e complementarida- proteção social.
des entre os diversos procedimentos
seu mundo vivido,
técnico-sociais presentes no CRAS, que é tanto sócio- DIÁLOGOS – Qual é o papel
como é o caso das visitas. Podemos da psicologia?
notar facilmente que há procedi- psicológico quanto Fábio Porto – O papel da
mentos básicos, que devem ser rea- Psicologia, como conjunto
lizados por todos, como a acolhida histórico-cultural integrado de diversos sabe-
e a dinamização da sala de situação, res e práticas, como práxis
e também aqueles mais específicos, sobre uma dada realidade,
da competência restrita (mas complementar!) às di- pode ser resumido simplesmente na contribuição
versas áreas, como o são o atendimento sociopsico- com o processo de emancipação social previsto na
lógico e a efetivação do cadastro social. PNAS e no SUAS, que exige, logicamente, a supera-
ção das situações de vulnerabilidade e risco social
DIÁLOGOS – E a entrada do psicólogo nesse con- em que as pessoas se encontram há gerações (o que
texto: como se deu e qual sua contribuição? é reconhecidamente um problema de ordem estru-
Fábio Porto – Esta é uma pergunta que comecei a tural, não meramente circunstancial ou eventual).
me fazer há anos, logo quando foi lançado o protó- Para ilustrar isso, tomemos para nossa reflexão um
tipo do CRAS, o muito bem denominado “Casa da procedimento básico de trabalho na proteção so-
Família”, a que tive acesso pelos idos de 2004. Com- cial: a visita domiciliar. Podemos também abordar
preendo que a entrada da Psicologia no contexto o trabalho com grupos comunitários, a prática da
da política pública da Assistência Social não partiu entrevista e o acolhimento, por exemplo, bem como
de uma profunda e sistemática reflexão crítica, de a elaboração de metodologias e estratégias de atua-
caráter ético-político, conceitual, metodológico e ção que favoreçam a integração entre o crescimento

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pessoal e o desenvolvimento comunitário, a partir da humano e sua constituição como sujeito de sua re-
identificação e da efetivação de recursos e potenciais alidade, de seu mundo vivido, que é tanto sociopsi-
individuais e coletivos, familiares e comunitários. cológico quanto histórico-cultural. Nessa perspec-
tiva, o sujeito psicológico é sujeito histórico, é ator
DIÁLOGOS – Em termos dos desafios dessa políti- com papel ativo, protagonista de sua existência, em
ca, como superar perspectiva assistencialista? seu tempo, onde está. E é uma característica defi-
Fábio Porto – Acredito que um primeiro passo para nidora do ser sujeito a autonomia, a capacidade
o profissional mergulhado na acelerada e intensa de autorregulação da própria conduta (como nos
rotina de trabalho, em um CRAS atuante, seja mes- revela com rara consistência científica o psicólogo
mo querer e conseguir identificar criticamente a tal russo Vigotski, em seus estudos sobre a consciên-
“perspectiva assistencialista”. O que vi- cia e a atividade humana),
ria mesmo a ser isso? Como se expres- a auto-orientação do pró-
sa no cotidiano? Seria um fenômeno O profissional prio comportamento, de
verificável ou apenas mais uma ela- seu jeito de ser e estar no
boração conceitual, mais um “ismo”? da Psicologia mundo, com o qual man-
Isso requer, de fato, um movimento pode contribuir tém relação de mútua
analítico de leitura crítica da realidade constituição, mediante
de trabalho vivida pelo trabalhador da
enormemente com o suas ideias e ações trans-
Psicologia, neste caso específico. Caso desenvolvimento da formadoras (práxis). Sen-
contrário, nem sequer identificaria a do assim, a Psicologia tem
ocorrência deste fenômeno, por um
própria equipe, bem muitíssimo a contribuir
lado, ou apenas o tornaria um “jargão”, como incrementar a com a compreensão cien-
um clichê conceitual, esvaziando-o de tífica e promoção técnico-
atuação dos demais
significado, caindo em uma postura social da “autonomização”
fatalista, naturalizando e banalizando profissionais, ou dos indivíduos, grupos e
o assistencialismo. Ambas posturas fa- comunidades. Esse pro-
mesmo para ampliar
vorecem a expansão, a legitimação e a cesso de fortalecimento da
proliferação das práticas assistencialis- a compreensão autonomia, intimamente
tas, e seus desdobramentos. dos fenômenos vinculado à cidadania críti-
Lembramos aqui as Referências Téc- ca e ativa, é qualificado na
nicas para Atuação do(a) Psicólogo(a) sociopsicológicos própria PNAS como uma
no CRAS, do CREPOP, que reúnem implicados na via estratégica de supera-
vários elementos que devem ajudar ção dos quadros de vul-
profissionais de Psicologia nesse movi- promoção da nerabilização psicossocial,
mento. No mais, acreditar, compreen- proteção social bem como de construção
der e sentir que esse movimento vale da emancipação social.
a pena, é significativo, é digno de ser
vivido, e vivê-lo com inteireza e intensidade, atuando DIÁLOGOS – Como compreende o campo de tra-
ativa e expressivamente na construção dessa história, balho conjunto dos psicólogos e assistentes sociais?
atualizando nosso devir-sujeito. Fábio Porto – Vejo como muito necessária e eficaz
a atuação conjunta entre as duas áreas, que tão mais
DIÁLOGOS – Qual a contribuição do psicólogo potência terá quão mais se intensificar a vivência prá-
para essa perspectiva da valorização, autonomia e tica da interdisciplinaridade, que resultaria em uma
protagonismo do sujeito? práxis dialógica, digamos. Isto é, uma atuação técni-
Fábio Porto – Eis um tema que penso ser capaz co-social e acadêmico-profissional, que parte de um
de integrar as diversas teorias e abordagens em encontro entre identidades bem distintas, muitas ve-
Psicologia: o processo de construção, constitui- zes inclusive antagônicas, mas aproximadas por um
ção e desenvolvimento da subjetividade humana, horizonte ético-político de libertação e emancipação
ou o processo de tornar-se humano (hominiza- social. Esse encontro, para ser efetivo (para ser inter
ção e humanização). e não apenas múlti), precisa se dar em uma ambiên-
Percebemos uma significativa consistência epis- cia de diálogo, e também de problematização, como
temológica na relação entre a subjetivação do ser sempre nos lembra Paulo Freire.

Julho 2010 11
caminhos e contextos

Direitos
sociais para
construir
cidadania
E
stá previsto na Constituição Federal: as-
sistência social é um direito do cidadão e
dever do Estado. A Constituição de 1988
foi um marco para a superação do assis-
tencialismo histórico na assistência social no Bra-
sil, estabelecendo um padrão de proteção social
afirmativo de direitos sociais como direitos de ci-
dadania. Até aquele momento, a assistência social
era tratada como uma política isolada e comple-
mentar à previdência social. Mas o quadro mudou
e está em permanente mudança, como avalia o pelo Sistema Único de Assistência Social (SUAS)
ex-ministro do Desenvolvimento Social, Patrus mais de 15 anos depois”.
Ananias: “atualmente a assistência social efetiva- Mas os desdobramentos do que estava previsto
mente compõe o tripé da seguridade social, numa para a assistência social no texto da Constituição
perspectiva em construção no país, junto com a representaram um processo complexo. Em 1990,
saúde e a previdência social”. a primeira redação da Lei Orgânica da Assistência
Segundo a psicóloga Marisa Helena Alves, de Social (LOAS) foi rejeitada pelo Congresso Nacio-
Mato Grosso do Sul, “até a Constituição de 88 o nal. Isso gerou negociações, envolvendo gestores
único direito social universal era assegurado na municipais, estaduais, ONGs, com o governo fe-
educação, o acesso à educação primária”. Para o deral e parlamentares para a aprovação da LOAS,
professor de Psicologia da Universidade Federal a Lei nº 8.742, que só ocorreu em 1993. Era o iní-
de Mato Grosso do Sul (UFMS), Angelo Motti, cio do processo de construção da gestão pública
que participou do Movimento Criança Consti- e participativa da Assistência Social por meio de
tuinte no final da década de 1980 “toda a par- conselhos deliberativos com participação paritária
ticipação dos movimentos sociais nos governos federal, estadual e municipal.
veio se estruturando ao longo do Patrus Ananias avalia que “as políticas sociais
tempo e as discussões da Assem- alcançaram um caráter estruturante”, ressaltando
bleia Nacional Constituinte for- que “as nossas políticas podem se desenvolver na
maram as bases para a política linha de construção de um Estado de Bem-Estar
de assistência social instituída Social, com objetivo de criar condições para que

12 Julho 2010
www.morguefile.com

todos tenham no Brasil os mesmos direitos e as do direito social é um avanço que tem encontrado
mesmas oportunidades”. Nesse sentido, Ananias algumas barreiras para se consolidar”. Para ela, a
afirma que a partir de “uma gestão descentraliza- primeira barreira é “o entendimento do que seja
da e participativa, a sociedade civil pode ser uma universalizar”, o que significa “dizer que todos têm
importante parceira”. direito, e não apenas aqueles que estão em risco
Nessa perspectiva de gestão participativa a so- ou são mais vulneráveis”. Na avaliação da psicólo-
ciedade brasileira conquistou o Sistema Único de ga, superar o assistencialismo vem a ser um desa-
Assistência Social (SUAS). Na IV Conferência Nacio- fio fundamental: “uma política de assistência so-
nal de Assistência Social, em 2003, foi aprovada a cial na perspectiva do direito social muda o modo
Política Nacional de Assistência Social (PNAS), que e compreensão de ver o indivíduo, não apenas
previa a construção e a implantação do SUAS com como carente, mas como cidadão de direitos”.
um modelo de gestão descentralizado e participa- De acordo com o Censo SUAS 2009, realiza-
tivo. Entre os princípios e diretrizes do SUAS estão do pela Secretaria Nacional de Assistência So-
a universalização do sistema, a territorialização da cial do Ministério do Desenvolvimento Social, o
rede, a descentralização político-administrativa, a país tem cerca de 5,8 mil Centros de Referência
padronização dos serviços de assistência social, a de Assistência Social (CRAS) em mais de 4 mil
integração das iniciativas, a garantia de proteção municípios, com 90% destes estabelecimentos
social, a substituição do modelo assistencialista. beneficiados com recursos federais. Além disso,
Contudo, segundo Marisa Helena Alves, “ter há 1,2 mil Centros de Referência Especializados
uma política de assistência social na perspectiva de Assistência Social (CREAS), divididos em CRE-

Julho 2010 13
AS municipais (1.057) e CREAS regionais (43) – que
O orçamento do MDS também recebem dinheiro do Ministério do Desenvol-
para 2010 é vimento Social. Os atuais programas de assistência so-

R$ 25,8 bilhões, cial do MDS, como Benefício de Prestação Continuada


(BPC), voltado para pessoas com comprometimento
apenas para a da capacidade laboral, e o Projovem Adolescente,
atendem mais de 5 milhões de brasileiros.
Assistência Social, sem As ações desenvolvidas no SUAS se dividem em pro-
a participação dos teção social básica, para prevenir situações de risco e o
programas de segurança fortalecimento de vínculos familiares e comunitários, e
a proteção social especial, destinadas a famílias e indi-
alimentar e nutricional e víduos que se encontram em situação de risco pesso-
o Bolsa Família. al e social, tais como abandono, maus-tratos físicos ou
psíquicos, abuso sexual, uso de substâncias psicoativas,
população juvenil em conflito com a lei, população em
situação de rua, trabalho infantil, entre outras situações
Atualmente, que caracterizam violação dos direitos.
Na opinião da professora de Serviço Social da Ponti-
o SUAS tem fícia Universidade Católica de São Paulo, Aldaíza Sposati,
aproximadamente “analisar a especificidade/particularidade da política de
assistência social no Brasil significa entender que esta-
44 mil profissionais mos tratando de um objeto sócio-histórico, econômica e
que trabalham nos geograficamente situado, e que, portanto, se está tratan-
do de uma dada relação de forças sociais, econômicas e
CRAS. Desse total,
políticas que, no caso, constrói o formato do regime bra-
Números

mais de 21 mil são sileiro de Assistência Social”.


de nível superior, Sposati argumenta que “essa relação de forças é con-
junturalmente mutável a partir da relação democrática
sendo 9,3 mil entre sociedade, mercado, governo, Estado, Executivo,
assistentes sociais, Legislativo, Judiciário”, destacando que “embora a exe-
cução da política social esteja a cargo do Executivo, seu
5,8 mil psicólogos e
alcance sob o regime democrático depende do Legisla-
2,1 mil pedagogos, tivo — pela construção de normas e aprovação orça-
entre outros; cerca mentária — bem como do Judiciário, pelo ritmo que
imprime, e opera, a processualidade jurídica, em defesa
de 15 mil são de dos direitos dos cidadãos”.
nível médio.

Os CREAS têm mais de 11 mil


profissionais, dos quais mais de 6,5 mil
são de nível superior – 2,4 mil assistentes
sociais, 2 mil psicólogos e mais de 800
pedagogos – e aproximadamente 3 mil
são de nível médio.

14 Julho 2010
A professora da PUC-SP faz uma comparação “Acredito que o caminho está
entre as realidades da Assistência Social no Brasil dado: as políticas sociais vieram
e na Europa. “Enquanto na Europa a construção para ficar”, acentua Patrus Ananias.
do modelo de Estado Social, conhecido como Segundo ele, “as políticas que esta-
Welfare State, ocorreu a partir do final da II Guer- mos implantando no país estão modi-
ra Mundial, no Brasil, e na maioria dos países ficando a nossa realidade, mostraram que
latino-americanos, o alargamento da responsabi- desenvolvimento econômico e desenvolvi-

ONG Lua Nova


lidade pública pela provisão social — não pro- mento social não são incompatíveis, mas, sim,
priamente um welfare — só foi ocorrer nas duas complementares”. E cita como exemplo “a im-
últimas décadas do século XX, pela presença e portância das políticas sociais no comportamento
luta de movimentos sociais, além dos movimen- exemplar do Brasil durante a crise econômica, quan-
tos sindicais”. do conseguimos manter a redução da desigualdade”.

Histórico

A
construção de um sistema de proteção segmentos organizados da classe trabalhadora”.
social no Brasil teve início na década Estavam criadas as bases do assistencialismo nas
de 30 do século passado, quando o políticas sociais brasileiras.
processo de industrialização do país Mal começara a inovação legislativa da assistên-
fez surgir a necessidade de regulação dos conflitos cia social e, em 1937, com a Constituição do Estado
dessa nova realidade socioeconômica. A Constitui- Novo se estabelece um retrocesso nas liberdades
ção de 1934, a terceira do país, foi a primeira a ter políticas e nos direitos sociais, como a limitação à
um capítulo sobre a ordem econômica e social e educação universal, a ampliação do controle esta-
também a primeira da definir as responsabilidades tal sobre a organização sindical trabalhista e a re-
do Estado, como a assistência médica e sanitária definição das competências dos governos regionais
ao trabalhador e à gestante. Eram novos serviços e locais nas ações de política social, gerando uma
sociais que surgiam para responder à demanda de grande concentração de competências e ações no
reprodução e qualificação da mão de obra. Mas a governo federal.
proteção social só chegava a quem tinha carteira O primeiro órgão público de Assistência Social
de trabalho, com profissão e sindicatos reconheci- do Estado brasileiro foi o Conselho Nacional de Ser-
dos pelo Estado. viço Social (CNSS), criado em 1938, como um dos
Antes da década de 30, a pobreza não era tratada órgãos de cooperação do Ministério da Educação
com uma questão social, mas compreendida como e Saúde, funcionando com a participação de perso-
uma disfunção social, como “caso de polícia”, sobre nalidades da área cultural e filantrópica do país. O
a qual o poder público agia com os seus meios re- CNSS tinha uma certa autonomia para decidir quais
pressivos. Segundo a professora de Serviço Social as organizações de amparo social que deveriam ser
da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Ma- auxiliadas com o dinheiro público. Mas o conceito
ria Luiza Rizotti, “por um lado, a introdução dessas de amparo social se identifiava com a benemerência
obrigações do poder público no novo sistema legal na assistência social.
indicava um salto de qualidade nos serviços sociais Quatro anos depois, em 1942, é criada a Legião
existentes na época, expressando novas determina- Brasileira de Assistência (LBA), a primeira gran-
ções políticas e ideológicas na relação entre o Estado de instituição de assistência social do Brasil, que,
e a sociedade civil”. desde seus primeiros momentos, tem sua gestão
Rizzoti pondera que havia também outro as- marcada pela presença de primeiras-damas da Re-
pecto. “Além de manifestamente assistencialistas, pública e pelo patriotismo. Darcy Vargas, esposa
as formulações da política social introduzidas do presidente da República Getúlio Vargas foi a
eram correntemente utilizadas como instrumen- primeira presidenta da LBA. O objetivo inicial da
tos de controle e repressão das reivindicações instituição foi o atendimento materno-infantil às
por melhores condições de vida promovidas por famílias dos pracinhas que foram para a Segunda

Julho 2010 15
ONG Lua Nova

Guerra Mundial. Com país. O assistencialismo representaria a organização


passar dos anos, a LBA da seguridade social e os serviços sociais prestados
foi se desenvolvendo, pelo governo federal ficaram mais seletivos. Nesse
chegando a ter repre- contexto, é importante destacar as iniciativas filan-
sentação em 26 estados e trópicas como responsáveis por atender parcela im-
no Distrito Federal, com 15 portante dos serviços. Foi um período de negação
linhas de atuação, de assistên- ou redução de direitos assegurados na legislação e
cia social a programa de volun- crise da previdência social.
tariado, passando por distribui- Só em 1977, no governo do general Ernesto Gei-
ção de alimentos e geração de renda. sel, é que seria criado o Ministério da Previdência e
Também em 1942 a iniciativa privada Assistência Social, baseado na centralidade e na ex-
criou o Serviço Nacional de Aprendiza- clusividade da ação federal. A partir da importante
gem Industrial (Senai) e, em 1946, o Serviço Social construção dos movimentos pela democratização da
da Indústria (Sesi), que contribuíram para o con- sociedade brasileira e da forte mobilização em torno
servadorismo das ações sociais daquela época, do processo Constituinte, temos em 1988 um marco
com o controle dos movimentos sociais emergen- importante com a nova Constituição, na perspectiva
tes e da legislação social corporativa. da afirmação dos direitos sociais e dos processos de
Após o fim do Estado Novo, entre 1945 e 1964, a participação e controle das políticas públicas.
história brasileira é marcada pela política populista, Em 1989, um ano após a promulgação da Cons-
cujas bases foram estabelecidas no governo Vargas. tituição Cidadã, o governo federal cria o Ministério
Uma nova Constituição é promulgada em 1946, com do Bem-Estar Social. Uma medida que foi conside-
mudanças no capítulo da Ordem Econômica e Social. rada contrária aos princípios constitucionais e que
O Estado passa a ter um papel maior no desenvol- fortalecia o modelo centralizador representado
vimento econômico com responsabilidade pela justi- pela Legião Brasileira de Assistência, que foi extinta
ça social, com a defesa permanente contra endemias pelo presidente da República, Fernando Henrique
e pela regulamentação da legislação social. O artigo Cardoso, em 1995.
145 diz: “A ordem econômica deve ser organizada É editada em 1997 a Norma Operacional Básica
conforme os princípios de justiça social, conciliando (NOB) que conceituou o sistema descentralizado e
a liberdade de iniciativa com a valorização do tra- participativo da assistência social, ampliando a com-
balho humano. Em seu parágrafo único, esse artigo petência dos governos federal, estaduais e municipais
afirma que “A todos é assegurado que possibilite exis- e instituindo a exigência de criação de Conselho, Fun-
tência digna. O trabalho é obrigação social”. do, Plano Municipal de Assistência Social para o rece-
Na década de 60, o caráter privado, a seletividade bimento de recursos federais. No ano seguinte, saiu
e o caráter corporativo são as principais característi- uma nova versão da NOB, que diferencia serviços, pro-
cas das políticas sociais. A privatização ocorria com a gramas e projetos, amplia as funções dos Conselhos e
transferência da maior parte dos serviços sociais pú- cria as Comissões Intergestoras Bipartite e Tripartite
blicos para as instituições organizadas da sociedade com a presença de representantes dos municípios, dos
civil, a partir da articulação de pequenos núcleos de estados e do governo federal.
poder social em torno da assistência pública. As po- Em 2004, o presidente da República, Luiz Iná-
líticas sociais eram destinadas praticamente apenas cio Lula da Silva, criou o Ministério do Desenvol-
para os segmentos sociais incorporados ao mercado vimento Social e Combate à Fome (MDS), que, no
de trabalho e deixavam de lado as classes subalternas, mesmo ano, editou a Política Nacional de Assis-
revelando sua seletividade. Havia uma desigualdade tência Social (PNAS). Depois de discutida em se-
entre os direitos sociais da classe trabalhadora e os di- minários municipais e regionais, com o apoio do
retos daqueles menos organizados e mais numerosos MDS, a NOB 2005 foi aprovada pelo Conselho Na-
que sentiam a falta de uma assistência pública às suas cional de Assistência Social. A norma dispôs sobre
necessidades na vida pessoal e no trabalho. as características, a gestão e o financiamento do
Com a ditadura militar, em 1964, há uma mu- Sistema Único de Assistência Social, que se torna a
dança significativa na conjuntura política e social do partir de então uma realidade.

16 Julho 2010
artigo Nathália Eliza de Freitas
Assistente social, mestranda em política social pelo Programa
de Pós-Graduação em política social da Universidade de
Brasília; pesquisadora do Grupo de Estudos e Pesquisas em
Seguridade Social e Trabalho – GESST / UnB
Contato: nath_eliza@yahoo.com.br

O SUAS e o princípio
da universalidade
Nathália Eliza de Freitas

O SUAS está efetivamente alicerçado no princípio da


universalidade? Nesse artigo, a autora apresenta uma classificação
das políticas sociais segundo seu grau de proteção e problematiza
a possibilidade de universalização do acesso à Política Nacional de
Assistência Social, consideradas as referências que a orientam

M
uitas vezes, falar em Assistência So- nefícios e serviços. Adiante, no artigo 203, é determi-
cial pode gerar uma série de pensa- nado que a prestação de serviços socioassistenciais
mentos e opiniões que despertam seja para aqueles que dela necessitarem. Nos espaços
defesa ou repúdio. Controvérsias as- de discussão sobre Assistência Social, seja entre tra-
sim são resultados do fardo histórico que a assistên- balhadores da área, acadêmicos, seja antre estudan-
cia social carrega de não ser considerada um direito, tes de Ciências Humanas, sempre há a dúvida se esse
e nem mesmo de ser passível de atenção pública am- é um direito com caráter universal ou não.
pliada. Há que se considerar que, com o tempo, a As- Quando se fala em política social muitas vezes
sistência Social tem se firmado cada vez mais como subentende-se a participação de um Estado prote-
direito social. O Sistema Único de Assistência Social tor que tem a função de garantir direitos que con-
(SUAS) é a mais nova estratégia estatal de configurar templem necessidades humanas ou que subsidie
a Assistência Social como direito no Brasil. a convivência social. Acontece que não se trata de
Desde a Constituição de 1988 a Assistência Social uma relação tão simples e tão lógica assim. Quan-
foi reconhecida como direito. Da Carta Magna com- do se analisa o papel de uma política social em uma
preende-se que a Assistência Social, política de segu- sociedade, principalmente no que se refere à sua
ridade social, tem como objetivo a universalidade da amplitude de proteção, é fundamental considerar
cobertura e do atendimento e, ao mesmo tempo, a as forças sociais, políticas, econômicas e ideológicas
seletividade e a distributividade na prestação dos be- que a circundam.

Julho 2010 17
Universalidade,
seletividade focalização
e residualidade
O grau de proteção de uma po-
lítica social pode ser avaliado em
relação à cobertura dos bens e
serviços. Nesse sentido existem
algumas classificações, como uni-
versalista, privatista, e seletiva /
focalizada. Na percepção da univer-
salidade, a produção e distribuição de
bens e serviços sociais devem ser dadas
com participação irrestrita dos membros
da sociedade. Na perspectiva privatista, so-
mente o mercado pode atender às demandas
sociais, sendo cada indivíduo o responsável pelo
seu bem-estar independentemente das condições
sociais que lhes sejam impostas. A maneira inter-
mediária seriam as políticas seletivas e focalizadas,
ou seja, aquelas nas quais existe a garantia
da prestação de serviços sociais, contu-
do só as utiliza quem estiver dentro
dos critérios para tanto.
Essa classificação da presta-
ção de serviços sociais tem bases
nas tipologias sobre os Estados de
bem-estar social de Richard Titmuss
(1963) que tratam de três modelos: o
residual, o meritocrático–particula-
rista, e o institucional redistributivo.
O modelo residual se caracteriza pela
intervenção estatal somente quando
os canais tradicionais não forem su-
ficientes. Esses canais são o mercado e a
família. Já o modelo meritocrático–particu-
larista considera o empenho individual como
forma de atingir o bem-estar. Os bens e serviços baseados em critérios e contrapartidas que res-
de bem-estar são encontrados no mercado e so- tringem o acesso. Não é suficiente ser cidadão e
mente se este falhasse é que seriam utilizadas as necessitar dessa política.
políticas sociais. A universalização do bem-estar A política de assistência social no Brasil tem
de forma ampliada a todos os indivíduos sem em seu histórico a focalização na pobreza extre-
qualquer distinção só seria possível no modelo ma o que contribui para a desvinculação do en-
institucional redistributivo. tendimento dessa política como garantidora de
A universalização dos direitos sociais ainda direitos e leva à compreensão desta como mera
não é garantida na implementação das políticas benesse governamental. É nesse tipo de situação
sociais no Brasil, o que tem sido agravado pela ex- que Aldaíza Sposati afirma que “a possível polí-
trema focalização em padrões situacionais especí- tica de proteção social se exprime em manifes-
ficos. Na assistência social é visível a sua submissão tação de protecionismo” (SPOSATI, 2002, p. 21).
aos princípios da seletividade e focalização, pois a Para Boschetti (2003) o princípio da seleti-
maioria de seus programas, ações e serviços são vidade trata de uma escolha, por meio de esta-

18 Julho 2010
belecimento de critérios, de quem terá garantido sua resposta na família e na comunidade. Esse pro-
determinado direito social. Essa escolha, como cesso dificulta a mudança para uma perspectiva
afirma a autora, nada tem a ver com questão de de universalização com adoção de práticas estru-
prioridade, mas sim, com restrição. turais que tragam resolutividade nos campos ma-
A seletividade e a focalização são teriais, sociais, políticos, econômicos e culturais.
classificações historicamen- Tratar as vicissitudes sociais em um sistema
te presentes nas políticas único de proteção socioassistencial em que todas
sociais brasileiras. Isso as ações, programas, projetos e serviços se con-
nos levaria a relacionar centram em achar a solução no âmbito familiar ou
o Estado brasileiro a comunitário é tentar retirar a responsabilidade do
um modelo merito- contexto político-econômico em que estão inseri-
crático–particularis- das as populações.
ta, como fez Draibe É nesse sentido, que o modelo de proteção so-
(1989) ao analisar o cial oferecido pelo SUAS aproxima-se muito mais
sistema de proteção de uma residualidade – conforme o modelo resi-
social brasileiro na dual proposto por Titmus – do que da universali-
década de 80. Porém, dade, pois, concentra seus esforços em uma insti-
em relação à Assis- tuição em particular – a família –, e oferece bens
tência Social executada e serviços sociais de forma restrita, seletiva em
atualmente pelo SUAS, há critérios e condicionalidades e focalizados na ex-
uma mudança na configu- trema pobreza, o que distancia a assistência social
ração da participação do Es- de uma perspectiva protetiva de segurança social
tado na garantia desse direito. sem exclusão de indivíduos.

O SUAS e seu
caráter residual
Bibliografia
Conforme está proposto na
Política Nacional de Assistência BOSCHETTI, Ivanete. Implicações da reforma da
Social de 2004 (PNAS), é no previdência social na seguridade social brasileira.
sentido de combater a se- Psicologia e Sociedade, Abrapso, São Paulo, v. 15, n.
1, 2003.
letividade e partir para a
universalização do acesso BRASIL. Constituição da República Federativa do
à política de Assistência So- Brasil, 1988.
cial que todo o atendimen- DRAIBE, Sônia. As políticas sociais Brasileiras: diag-
Ilustração: Lívia Barreto
to no SUAS será efetivado nósticos e perspectivas. In: Para a Década de 90:
considerando a matricialidade prioridades e perspectivas de políticas públicas -
sociofamiliar. Contudo, a matriciali- Políticas Sociais e Organização do Trabalho. Brasília:
dade sociofamiliar, ao tratar das questões de riscos e IPEA, 1989. v. 4.
vulnerabilidades sociais por meio do fortalecimento BRASIL. MINISTÉRIO DO DESENVOLVIMENTO
de vínculos em família e comunidade, pode sublimar SOCIAL E COMBATE À FOME (MDS). CONSELHO
o contexto socioeconômico e político que envolve NACIONAL DE ASSISTÊNCIA SOCIAL (CNAS). Re-
a situação tratada pelos serviços socioassistenciais. solução n 145, de 15 de outubro de 2004. Política
Esse método pode mirar o papel do Estado apenas Nacional de Assistência Social – PNAS. Brasília,
2004.
na atenção do fenômeno isolado, sem considerar a
sua totalidade, além de atribuir a uma única institui- SPOSATI, Aldaíza (Org.). Os Direitos do (dês)assis-
ção (família e/ou comunidade) a responsabilidade tidos Sociais. 4° ed. São Paulo. Ed Cortez, 2002.
de superação de determinada circunstância. TITMUSS, Richard. Essays on the welfare state.
Dessa forma, os direitos socioassistenciais fun- Londres: Allen & Unwin, 1963.
cionam como remédios para situações que são
analisadas como ambientes fechados e que têm a

Julho 2010 19
artigo Irene Rizzini
Professora e pesquisadora do Departamento de Serviço Social
da PUC-Rio e presidente do CIESPI (Centro Internacional de
Estudos e Pesquisas sobre a Infância, em convênio com a PUC-
Rio). Para uma análise mais aprofundada das questões aqui as-
sinaladas, ver Rizzini et al, 2006.
Contato: irenerizzini@yahoo.com.br

Para além da
centralidade
da família Irene Rizzini

O
foco sobre a família na literatura saltar a centralidade do papel
brasileira e internacional referente da família no cuidado, formação
às discussões de políticas públicas e educação das crianças1. Tanto
não é algo novo, mas vem receben- nos textos das leis e políticas públi-
do grande destaque nas últimas décadas. A família cas brasileiras, quanto no âmbito dos
– vista como “base de tudo”, frequentemente idea- sistemas de atendimento à população em
lizada como sinônimo de afeto, proteção e perten- vários campos, a família aparece como central.
cimento, vem sendo também neste período des- Termos como “matricialidade” e “centralidade” da
mistificada como espaço seguro e protetor para as família aparecem, por exemplo, como a base das di-
crianças, diante das denúncias de violências que retrizes das políticas de assistência, através do Siste-
ocorrem em seu seio. ma Único de Assistência (SUAS).
No Brasil, vários estudos têm destacado a im- No Brasil, por exemplo, a Política Nacional de
portância de se analisar a diversidade de desenhos Assistência Social está pautada na “matricialida-
existentes de família (Sousa, Rizzini, 2001; Carvalho, de sociofamiliar”, ou seja, a “rede socioassistencial”
2002; Pereira, 2004; Deslandes, Assis, Silva 2004). deve estar voltada para atender às necessidades
Eles apontam o atual foco sobre a família nas di- da família, seus membros e indivíduos, segundo o
retrizes de políticas públicas e uma “redescoberta” “pressuposto de que para a família prevenir, prote-
da importância dos laços familiares, tendo a mãe ger, promover e incluir seus membros é necessário,
como eixo central das famílias (Segalen, 1999 em primeiro lugar, garantir condições de sustentabi-
Apud Fonseca 2004). lidade para tal” (2004: 34-36).
A tendência atual na esfera das políticas sociais Perfeito como orientação, porém, na prática, há
e econômicas nacionais e internacionais é a de res- muitos fatores a ser levados em consideração. Indi-

1. A questão da centralidade da família na vida social e como foco da proteção da sociedade e do Estado aparece em diversos outros documen-
tos, como a Declaração dos Direitos Humanos da ONU (1949), a Constituição Federal Brasileira (1988), a Convenção das Nações Unidas sobre
os Direitos da Criança (1989), a Lei Orgânica da Assistência Social (LOAS, 1993) e o Estatuto do Idoso (1998). Para uma discussão sobre aspectos
conceituais e metodológicos relacionados ao tema, ver Vasconcelos e Morgado, 2005.

20 Julho 2010
ONG Lua Nova
parentais e de gênero estão se modi-
ficando em diversas sociedades.
Lançado em 2006, o Plano Nacional
de Promoção, Defesa e Garantia do Direito
de Crianças e Adolescentes à Convivência Fami-
liar e Comunitária assim retrata a tendência da
ideia de centralidade da família:

Trata-se da mudança do olhar e do fazer, não


apenas das políticas públicas focalizadas na in-
fância e na juventude, mas extensiva aos demais
atores do chamado Sistema de Garantia de Direi-
tos e de Proteção Social, implicando a capacida-
de de ver as crianças e adolescentes de maneira
indissociável do seu contexto sociofamiliar, per-
cebendo e praticando a centralidade da família
enquanto objeto de ação e de investimento.
cadores globais sobre o tema têm mostrado que as
famílias têm sofrido mudanças profundas, apresen- Esses referenciais, também presentes na le-
tando diversos arranjos e adotando novos valores gislação brasileira, enfatizam a responsabilidade
e referenciais, particularmente no âmbito das rela- da família e o direito da criança a permanecer
ções entre seus membros. em seu contexto familiar e comunitário: “Toda
Nas últimas décadas, registram-se mudanças criança ou adolescente tem direito a ser criado
significativas na dinâmica da vida familiar, devido e educado no seio de sua família e, excepcio-
a rápidas transformações políticas, econômicas e nalmente, em família substituta, assegurada a
sociais. Algumas dessas mudanças, apontadas em convivência familiar e comunitária, em ambien-
grande parte do mundo, são: (a) as famílias apresen- te livre da presença de pessoas dependentes de
tam-se cada vez menores; (b) elas são chefiadas por substâncias entorpecentes” (Estatuto da Criança
mulheres em percentuais que aumentam de forma e do Adolescente, 1990, Artigo 19).
rápida; (c) mais mulheres entram no mercado de Ao poder público cabe assegurar as condições
trabalho e as famílias necessitam de novos arranjos necessárias para que isso seja possível, como estipu-
para a criação de seus filhos; (d) crescem as distân- lam diversos artigos do Estatuto. Esse é um ponto
cias entre a casa e o trabalho nas grandes cidades, o crucial para a análise das políticas e ações que vêm
que leva a que crianças permaneçam mais tempo sendo desenvolvidas no país, porque trata de uma
sem a presença dos pais; (e) a dinâmica dos papéis questão que permanece na esfera da utopia.

Julho 2010 21
Ambiguidades e contradições Bibliografia
do discurso
CARVALHO, Maria do Carmo B. A família contem-
Cabe assinalar que há um grande descompasso porânea em debate. São Paulo: Cortez, 2002.
no Brasil entre a importância atribuída ao papel da
família no discurso e a falta de condições mínimas DESLANDES, Suely F., ASSIS, Simone G., SILVA, He-
de vida digna que as famílias enfrentam, na práti- lena O. Famílias: parceiras ou usuárias eventuais?
Brasília: Claves, UNICEF, 2004.
ca, para que possam criar seus filhos. É importante
considerar as ambiguidades e contradições entre o MINISTÉRIO DO DESENVOLVIMENTO SOCIAL E
discurso de direitos e o de igualdade como orien- COMBATE À FOME; CNAS (Conselho Nacional de
tadores das leis e das políticas públicas e o que se Assistência Social). Política Nacional de Assistência
observa na realidade: elas parecem manter o foco Social. Brasília: MDS/CNAS, novembro de 2004.
na parcela pobre da população.
MINISTÉRIO DO DESENVOLVIMENTO SOCIAL
O discurso contemporâneo sobre a competência E COMBATE À FOME, SECRETARIA ESPECIAL DE
das famílias no cuidado dos filhos é com frequên- DIREITOS HUMANOS. Subsídios para Elaboração
cia acompanhado por discursos e práticas que res- do Plano Nacional de Promoção, Defesa e Garan-
ponsabilizam (ou culpabilizam) as famílias quando tia do Direito de Crianças e Adolescentes à Con-
não dão conta do encargo de cuidar deles. A pro- vivência Familiar e Comunitária. (Versão prelimi-
messa de apoio às famílias tem se materializado em nar, para discussão e deliberação do CONANDA e
do CNAS). Brasília/DF, julho de 2005.
respostas fragmentadas, insuficientes ou mesmo
inadequadas. Recursos advindos de programas de PEREIRA, Potyara A. Mudanças estruturais, políti-
transferência de renda e de apoio financeiro, como ca social e papel da familia: crítica ao pluralismo de
o Bolsa família e o Benefício de Prestação Continua- bem-star. São Paulo: Cortez, 2004. In: SALES, Mione
da (BPC), vêm causando impactos positivos, porém A., MATOS, Maurílio C, LEAL, Maria Cristina (orgs).
Política Social, família e juventude: uma questão
só atingem uma parcela extremamente pobre da
de direitos. São Paulo : Cortez, 2004.
população (e, nessa parcela, não necessariamente
os mais necessitados). As dificuldades de seleção RIZZINI, Irene. Urban children and families in dis-
dos usuários desses programas e em seu acesso, as- tress: global trends and concerns. In: SMITH, Anne
sim como, o estigma a eles associados, são alguns at all (Ed.). Advocating for children. International
dos problemas que estes programas apresentam. perspectives on children’s rights. Dunedin, New
Zealand: Children’s Issues Centre at the University
Portanto, persiste como desafio a distância entre o
of Otago. 176-190, 2001.
discurso e a prática.
Cabe, então, perguntar, para além da retórica da RIZZINI, Irene et al. Acolhendo crianças e adoles-
centralidade da família, em que se avançou? centes. São Paulo: Ed. Cortez, 2006.
Em muitos aspectos. A despeito das contradi-
SEGALEN, M. Introduccion. La famille en Europe:
ções e dificuldades identificadas, o conceito e as
parenté et perpétutation familiae. Paris. Editions
práticas sobre a centralidade da família desafiam La Decouverte, 1995.
as sociedades contemporâneas a rever formas tra-
dicionais de cuidado e proteção das crianças. As SOUSA, Sônia, RIZZINI, Irene. Desenhos de famí-
profundas e rápidas transformações ocorridas na lia. Criando filhos: a família goianiense e os elos
parentais. Goiânia: Cânone editorial, 2001.
esfera familiar, acrescidas de significativas mudan-
ças nas relações de gênero, nos papéis parentais e VASCONCELOS, Eduardo M., MORGADO, Rosana.
nas concepções de infância, desafiam as Proposta conceitual do PAIF. Subsídios analíti-
sociedades contemporâneas a construir cos e metodológicos na lógica do Sistema Único
outras formas de conceber a família e de Assistência Social – SUAS e do Programa de
novas práticas de acolhimento e de cui- Atendimento Integral à família – PAIF/RJ. Rio de
Janeiro: Governo do Estado do Rio de Janeiro/Se-
dado das crianças com base em novos
cretaria de Estado da Família e da Assistência So-
parâmetros e paradigmas. cial, 2005.

22 Julho 2010
artigo Laura Freire de Andrade
Gradução e mestrado em Psicologia pela PUC-MG, professora de
Psicologia da Faculdade Ciências da Vida (Sete Lagoas-MG). Já foi
coordenadora de CRAS e psicóloga do Centro de Internação para
adolescentes, além de realizar atendimento com adolescentes em
conflito com a lei.
Contato: laurafreire.8@hotmail.com

A atuação dos
psicólogos nos CRAS Laura Freire

Dispositivo central do SUAS, os Centros de Referên-


cia de Assistência Social (CRAS) hoje incorporam
o trabalho de muitos psicólogos, que, em conjunto
com outros profissionais, destacadamente assisten-
tes sociais, enfrentam o desafio de construir uma in-
tervenção de transformação no território, na dire-
ção de promover melhores condições de vida. Sem
pretender esgotar a temática proposta, este artigo
lança questionamentos e desafios sobre o fazer da
Psicologia no CRAS, no intuito de contribuir com a
construção de referências para essa prática.

A
proposta de atenção ao usuário na Assistência Social deixou
de ser puramente assistencialista e ganhou novo enfoque, vi-
sando à garantia dos direitos do cidadão, a promoção de au-
tonomia e responsabilização do poder público e da sociedade
civil. Com isso, a Assistência Social ganhou maior visibilidade e importância
nas políticas públicas, gerando novos programas e projetos. O Centro de
Referência da Assistência Social (CRAS), fazendo parte da política de
Assistência Social, como uma unidade de atenção social básica, é res-
ponsável pela oferta de serviços às famílias, grupos e indivíduos, atuan-
do na prevenção de riscos e no fortalecimento dos vínculos familiares
e comunitários. Muitos profissionais estão envolvidos nessas atividades e
o psicólogo é peça importante nas ações e na promoção de impactos nos
modos de existência dos usuários do CRAS.

Julho 2010 23
ONG Lua Nova

Nos encontros entre profissionais e usuários a capacidade da comunidade em descobrir suas


do CRAS estão presentes também as relações com demandas e se organizar de forma que ela própria
professores, médicos, enfermeiros, agentes comu- construa os dispositivos necessários para a melho-
nitários de saúde e tantos outros profissionais e ria de suas vidas. Nessa recuperação do saber co-
equipamentos localizados no território referen- munitário, as relações horizontais entre usuários e
ciado de cada unidade. O CRAS, portanto, pos- especialistas propiciam ações reinventivas da vida.
sui uma realidade multideterminada e complexa, A família como lugar de destaque no CRAS pre-
na qual incidem questões sociais, econômicas, cisa também ser problematizada. Há uma contradi-
históricas, subjetivas, entre outras. E como uma ção entre o que as pessoas pensam sobre a família
unidade recente propicia alguns apontamentos e e a forma como ela é vivida. Em algumas ou muitas
discussões sobre os desafios que a Psicologia en- das famílias acompanhadas no CRAS, a mulher é
frenta dentro e fora do CRAS. quem assume o papel de chefe. Todavia, o mode-
lo dominante entende que a família “estruturada”
tem em sua composição um homem, geralmente
Os desafios o provedor, e que em torno dele toda sua estrutu-
O contexto da contemporaneidade configura- ra se organize. Para aquelas que não se encaixam
do pelo estado de fragmentação, pelo pluralismo nesse modelo, avaliamos, comparativamente, esse
e pelo individualismo reflete nas ações e interven- arranjo familiar como “desestruturado”. E a família
ções do cotidiano de trabalho dentro dos CRAS. Os vivida, dentro de suas possibilidades econômicas,
usuários, ao buscar os serviços nas unidades, sejam históricas, culturais e sociais, deve ser compreendida
elas de saúde, da assistência social ou alguma ou- a partir de seus modos de agir habituais, a partir dos
tra, tornam-se sujeitos compartimentados. Cada quais se manifestam as possibilidades de processos
serviço o atende naquilo que é específico das atri- singulares que as “libertam” de qualquer culpabiliza-
buições dos especialistas e da unidade que o aco- ção por não se “enquadrarem” ao modelo.
lhe, e, os próprios especialistas muitas vezes sepa-
ram o que é da Psicologia, o que é do Serviço Social,
Além desses, outros desafios se
o que é da Saúde e assim por diante. Entretanto,
apresentam
no manual de orientações técnicas para o CRAS as
funções dos psicólogos e dos assistentes sociais são É comum ter profissionais recém-formados na
as mesmas, apontando a realização de um traba- equipe dos CRAS que enfrentam grandes dificulda-
lho interdisciplinar ou mesmo trandisciplinar. Para des no trabalho. Entre elas, há aquelas claramente
a efetivação desses modos de trabalho, bem como decorrentes da formação caracterizada por uma
da conexão entre os serviços de atenção ao usuá- hegemonia na ênfase clínica, voltada para o aten-
rio, é necessário abandonar a hiperespecialização, o dimento das camadas sociais com grande poder
individualismo e o corporativismo, para promover aquisitivo; porém, o mercado de trabalho oferece
encontros entre os diferentes saberes. Além disso, oportunidades no atendimento da população po-
é preciso que as práticas se conectem e refaçam bre, sobretudo por meio das políticas públicas. A
seus campos com outros objetivos: o da implicação Psicologia fica habitada por um abismo entre o sa-
dos usuários e a “devolução”, a eles, do saber que ber acadêmico, adquirido na graduação, e a realida-
lhes foi destituído. Para isso, é preciso desenvolver de vivida no cotidiano.

24 Julho 2010
O trabalho no CRAS é constituído por serviços
burocráticos, visitas domiciliares, atendimentos Bibliografia
descontínuos, dificuldade em obter recursos e re-
passe de verbas e intervenções feitas em locais inu- ANDRADE, Laura Freire de. O Psicólogo no Cen-
sitados que convocam os psicólogos para “fora” do tro de Referência da Assistência Social (CRAS)
de Fortuna de Minas – MG: na trilha cartográfica
setting tradicional dos consultórios. Os psicólogos
dos territórios subjetivos. Dissertação (Mestrado
são arremessados num espaço que pode gerar in- em Psicologia), Pontifícia Universidade Católica
compreensão do seu fazer, pois outros profissionais de Minas Gerais, Belo Horizonte. 2009.
ainda esperam da Psicologia a manutenção do seu
BAREMBLITT, Gregório. Compêndio de análise
modelo instituído, como uma prática liberal e pri-
institucional e outras correntes: teoria e práti-
vada, responsável pelo diagnóstico e acompanha- ca. 5. ed. Belo Horizonte: Instituto Felix Guattari,
mento psicoterápico. 2002.
Atualmente, as discussões acerca da construção de
outro modelo clínico que não seja somente o tradicio- BENEVIDES DE BARROS, Regina Duarte; PASSOS,
Eduardo. Complexidade, transdisciplinariedade e
nal convocam-nos a pensar sobre o lugar dessa clínica
produção de subjetividade. In: FONSECA, Tânia
que transpõe a escuta da clínica privada para os con- Galli e KIRST, Patrícia Gomes (Orgs). Cartografias
textos sociais. Conhecida como clínica social, não se e devires: a construção do presente. Porto Alegre:
destina apenas às camadas mais baixas: ela se configu- Editora da UFRGS, p. 81-89. 2003.
ra como uma resposta à multiplicidade que permeia
CENTRO BRASILEIRO PARA A INFÂNCIA E ADO-
todos os espaços onde os psicólogos estão inscritos e
LESCÊNCIA. Cadernos de ação: trabalhando com
que se relaciona a um modo de escuta que possibili- famílias. São Paulo: CBIA/Escritório Regional São
ta a produção da diferenciação. Isso implica uma ati- Paulo, n. 1, mar.1992.
tude não totalizadora, que desloca enquadramento,
FERREIRA NETO, João Leite. A formação do psi-
diagnósticos e patologias para novas configurações de
cólogo – clínica, social e mercado. São Paulo: Es-
sentido, seja no consultório particular, seja nas práti- cuta, 2004; Belo Horizonte: FUMEC/ FCH, 2004.
cas emergentes. É preciso, portanto, estar atentos às
intervenções que insistem na repetição de condutas KUMAR, Krishan. Da sociedade pós-industrial à
que mantêm o instituído, por meio da reprodução pós-moderna: novas teorias sobre o mundo con-
temporâneo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997,
dos modelos e que tendem a encapsular os sujeitos
Cap. 4 e 5, p. 78-158.
em modos de existência hegemônicos. Ao contrário,
devemos agenciar intervenções que se comprometam MINISTÉRIO DO DESENVOLVIMENTO SOCIAL E
com um modo de fazer libertário. COMBATE À FOME. Proteção Básica do Sistema
O trabalho no CRAS é um convite para nós psi- Único da Assistência Social: Orientações Técni-
cas para o Centro de Referência da Assistência
cólogos lançarmos novos olhares sobre a Psicologia
Social. Versão Preliminar. Brasília: Secretaria Na-
inscrita nos espaços públicos. Sem dúvida, esse é cional de Assistência Social, 2006a.
um campo em que muito ainda se tem a conhecer,
pois sua recente implantação traz desafios constan- ROMAGNOLI, Roberta Carvalho. Algumas refle-
xões acerca da clínica social. Revista do departa-
tes para a Psicologia, assim como para as políticas
mento de Psicologia da UFF. Niterói, v. 18, n. 2, p.
públicas. Uma construção em andamento e sempre 47 -56, jul./dez. 2006.
inacabada, que integra a processualidade da vida.

Julho 2010 25
intersetorialidade

O desafio da artic
C
onvergência de iniciativas para e de eficácia, pois, em todas as experiências re-
otimizar esforços e investimentos, conhece-se claramente que ela se constrói sobre
ampliando os resultados das polí- a necessidade das pessoas e setores de enfrentar
ticas públicas de assistência social. problemas concretos”. Por exemplo, o programa
É o desafio da intersetorialidade, Bolsa Família se baseia na articulação de três di-
“a articulação de saberes e experiências com vistas mensões para a superação da fome e da pobreza:
ao planejamento, para a realização e a avaliação de transferência de renda, reforço aos direitos sociais
políticas, com o objetivo de alcançar resultados si- básicos na saúde e na educação e a coordenação
nergéticos em situações complexas”, na definição de programas sociais complementares, como a ge-
de Rose Inojosa, técnica em Planejamento e Ges- ração de trabalho e renda, a alfabetização de adul-
tão da Fundação de Desenvolvimento Administra- tos e o fornecimento de documentos.
tivo (Fundap) do Governo de São Paulo e estudio- A ação intersetorial vai de encontro à tradição
sa do assunto. do Estado brasileiro, no qual a Assistência Social
A psicóloga Lourdes Machado considera que a não caminha junto com a educação, esta não se
intersetorialidade “envolve a expectativa de maior aproxima da saúde, que fica distante dos esforços
capacidade de resolver situações, de efetividade da habitação, do trabalho, da cultura, do lazer.

26 Julho 2010
Patrícia Cunegundes

ulação pública
Uma forma de gestão pública, na avaliação da tribuição de renda e outras ações sociais”, acres-
professora de Serviço Social da Universidade Esta- centando que “coisas separadas ou itens isolados
dual de Ponta Grossa, Jussara Bourguignon, capaz não dão conta de promover a qualidade de vida,
de gerar “fragmentação da atenção às necessida- de fomentar o desenvolvimento, de superar a ex-
des sociais; paralelismo de ações; centralização das clusão social”. O Sistema Único de Assistência So-
decisões, informações e recursos; rigidez quanto cial (SUAS), com a sua gestão descentralizada e
às normas, regras, critérios e desenvolvimento dos participativa, baseada em conselhos municipais,
programas sociais; divergências quanto aos objeti- segue essa nova perspectiva de atuação interseto-
vos e papel de cada área, unidade, instituição ou rial, contribuindo para que as iniciativas deixem de
serviço participante da rede; fortalecimento de ser setorializadas, desarticuladas, com característi-
hierarquias e poderes políticos/decisórios e fragi- cas centralizadoras e hierárquicas.
lização do usuário – sujeito do conjunto das aten- Uma ação pioneira neste sentido, que precede
ções na área social”. a constituição do Sistema Único de Assistência So-
Inojosa cita como exemplo o fato de que “a cial (SUAS), foi a Casa de Inverno, desenvolvida no
violência não se resolve com a repressão à crimi- município paulista de Santos. Ela teve à frente o
nalidade, mas, principalmente, com educação, dis- psicólogo e psicanalista Antônio Lancetti, que em

Julho 2010 27
1993 era diretor do Departamento de Cidadania quem se responsabilizava, eram redes quentes,
da Prefeitura de Santos e já acumulava experiên- tensionadas e não uma divisão de tarefas” explica
cias de participação no movimento de Reforma o psicólogo, que não gosta da carga tecnocrática
Psiquiátrica. “Iniciamos um trabalho com popu- da palavra intersetorialidade. “Como isso se tece
lação de rua que já nasceu intersetorial, fizemos na práxis, quando você vai a um território e tem de
uma intervenção que foi precedida do cadastro desenvolver um trabalho, é necessário atuar junto
dessa população e depois se seguiu ao convite e isso não é fácil, as pessoas têm de estar implica-
para irem para a Casa” recorda. das junto”, complementa.
Uma característica da experiência da Casa de A focalização, com base regional, em segmen-
Inverno é que ela era temporária e não permanen- tos da população, e a preocupação com resultados
te. “Abrigo não é lugar! Abrigo é um recurso. Não e impactos são dois aspectos fundamentais para
tinha revista, a recepção era coletiva, as pessoas a formulação, a realização e a avaliação de políti-
tinham lugar para guardar seus pertences e tudo cas, programas e projetos intersetoriais, de acordo
era feito segundo a metodologia de agir coletiva- com a técnica da Fundap, Rose Inojosa. Entre as
mente, em um acordo com a equipe da prefeitura principais dificuldades do trabalho em perspectiva
que era multidisciplinar: tinha gente da Saúde, da intersetorial, aponta Machado, estão “a utilização
Assistência, da Cultura e havia muitas interven- de meios tradicionais de comunicação, de alcance
ções que não eram formais”, relata Lancetti. A bastante limitado; a utilização da linguagem técni-
experiência foi bem-sucedida e quase todos os ca de cada setor; a falta de gestão e a ausência de
que passaram pela casa não retornaram às ruas. cultura intersetorial; e os problemas referentes ao
“Não usávamos a palavra intersetorial, usávamos financiamento, considerando que as rubricas dos
“cuideplantão”, que era quem cuidava do caso, orçamentos são setorializadas.

28 Julho 2010
Patrícia Cunegundes
A experiência na ponta − intersetorialidade
para combater o trabalho infantil
Atuante em um Centro de Referência e Assis- processo histórico dessas conquistas sociais, que
tência Social no município de São Paulo, a psi- é recente.” Ela, que já atuou com erradicação de
cóloga Alessandra Ávila, trabalha desde 2001 na trabalho infantil, crianças em situação de trabalho
Secretaria de Assistência Social e Desenvolvimen- informal urbano e, até mais recentemente, com
to com proteção social especial. “Em toda a mi- adolescentes cumprindo medidas socioeducativas
nha trajetória como ‘profissional Psi’ eu sempre em meio aberto de prestação de serviços à comu-
atuei com crianças e adolescentes e na militância nidade, com medidas de proteção e acolhimento
da doutrina de proteção integral e eu acho que institucional, avalia que o profissional psicólogo
fui aprendendo a fazer, cotidianamente, graças à tem muito a contribuir no processo de integração
perspectiva de sempre olhar para o direito desses se valorizar uma das forças de seu trabalho: “A gen-
indivíduos mais suscetíveis nas situações de vul- te minimiza, por vezes, o valor da escuta. É preci-
nerabilidade social”, diz ela. so avaliar e promover o instrumento da escuta na
Alessandra considera que uma dificuldade da perspectiva de ser um cuidado, um instrumento
ação intersetorial, intrínseca a toda a Política Na- de assistência importante”, avalia.
cional de Assistência Social, é que a maior parte Uma das experiências intersetoriais mais
dos profissionais não considera a própria histó- bem-sucedidas no combate ao trabalho infantil
ria do SUAS e da Política. “Fica parecendo que é ocorreu na Bahia. Desde 1996, os governos fede-
uma coisa impositiva, porque a maioria dos pro- ral e estadual atuam conjuntamente e criaram a
fissionais e das entidades envolvidas desconhece o Comissão Estadual de Erradicação do Trabalho

Julho 2010 29
Infantil, composta por 11 representantes do poder público, para
implementar o Programa de Prevenção e Erradicação do Traba-
lho Infantil no Estado.
Na região de produção de Sisal, uma planta da qual se produz
cordas e tapetes a partir das suas folhas, foi implantado o PETI,
inicialmente, em cinco municípios. A região era marcada pela
intensidade do atraso, da pobreza e de vulnerabilidades, como
a utilização da mão de obra infantil, agravada pelo fato de que
as máquinas de beneficiamento do sisal provocavam mutilações.
Com projetos como Bode Escola, de caprinocultura, e o Baú
de Leitura, de incentivo ao consumo prazeroso de livros e exer-
cício da crítica nas escolas públicas, entre outros, o programa
cresceu. Ele atende atualmente 99 municípios em 15 regiões
econômicas da Bahia, assistindo mais de 120 mil crianças e ado-
lescentes na faixa etária de 7 a 15 anos, em diversas atividades
de trabalho.
Apesar desse esforço, 10% das crianças que trabalham no
país são baianas. Segundo a PNAD/IBGE det 2008, 471 mil crian-
ças baianas com idades entre 5 e 17 anos trabalham, o que re-
presenta 45% dos casos registrados na Região Nordeste. Desde
de 2002, o governo baiano passou a priorizar combate ao tra-
balho infantil nas cidades e em 2008 recebeu o reforço de um
programa da Organização Internacional do Trablho (OIT) para
18 municípios do semiárido, atendendo as crianças e os adoles-
centes trabalhadores com reciclagem em lixões, os vendedores
ambulantes, trabalhadores infantis domésticos e aqueles que es-
tão sob o risco de exploração sexual.
Segundo a oficial de projetos da OIT, Cynthia Ramos, atu-
almente a concentração do Projeto de Apoio aos Esforços Na-
cionais em Prol de um Estado Livre de trabalho infantil, Bahia
– Brasil é no fortalecimento das capacidades institucionais e na
promoção de atividades que favoreçam as instâncias locais a
trabalharem de forma intersetorial. “Na verdade, praticamente
todos os municípios podem se beneficiar com a sensibilização
e a capacitação de profissionais nas áreas de Assistência Social,
Saúde e Educação para atuar de forma integrada. Por exemplo, é
preciso que um professor possa identificar uma criança em situ-
ação de trabalho e encaminhá-lo para órgãos da rede de garantia
de direitos, para que receba a assistência adequada”, diz Ramos.

30 Julho 2010
r abalh o I nfantil
T

a b a l h o infa ntil:
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tiva sobre os e ce que o país te e s pelas quais p
assou.
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Juan Somavia s às transf no espí-
co n d iç ã o d e líder, graça co ra ja d a s, p orque estão
Sul-Sul, na em ser en embros a
s co m o a s do Brasil dev e co n cl a m a os países m
“Iniciativ a ,q u do
º d a C o n v e nção nº 182 e n te n o e n frentamento
o8 r-se mutua m
rito do artig ri o s para ajuda
s n e ce ss á
dar os passo a Somavia. acional de P
revenção
fa n ti l”, a fi rm o F ó ru m N
trabalho in ria executiva
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Para a sociólo o Infantil, Is
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desafios d qu e lho
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na proteção senvolvime imentos.
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Infantil (PE tra aumento
a se c re tá ri a, “não regis
segundo no a ano”.
re d u ç ã o d o orçamento a
Houve

Julho 2010 31
cara a cara

Os desafios da
Assistência Social
no Brasil : dos
contribuições
psicólogos e
Akerman é mestre em Psicologia Social pela
dos assistentes
Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG),
professor de Psicologia da Universidade da sociais
Fundação Mineira de Educação e Cultura (FUMEC),
psicanalista e supervisor do Centro de Referência
Especializado de Assistência Social (CREAS), da
cidade mineira de Betim (MG).
Contato: jacquesakerman@terra.com.br

“O paradigma psicossocial,
que já é considerado essencial
em algumas ciências e práticas,
tem no trabalho conjunto
entre psicólogos e assistentes
sociais uma referência que
aproxima as duas profissões”
Arquivo Pessoal

Jacques Akerman

32 Julho 2010
Borgianni é doutora em Serviço Social pela
Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São
Paulo, é presidente da Associação dos Assistentes
Sociais e Psicólogos do Tribunal de Justiça de São
Paulo (AASPTJ/SP), gestão 2009/2013, presidiu o
Conselho Federal de Serviço Social de 2005 a 2008,
foi conselheira do Conselho Nacional dos Direitos
da Criança e do Adolescente (Conanda) de 2002 a
2007 e atua também como assessora editorial da
Cortez Editora para a área de Serviço Social.
Contato: aasptjsp@aasptjsp.org.br

“Psicólogos e assistentes sociais


têm tudo para realizar um
exitoso trabalho conjunto
na formulação de respostas
às múltiplas expressões da

acervo cfess/2008
questão social do país”
Elisabete Borgianni

O
desenvolvimento da política de Como avalia os desafios da política de assistên-
assistência social no Brasil passa cia social em vigor no Brasil?
pela contribuição de psicólo-
Akerman – Os desafios estão por todos os la-
gos e assistentes sociais. Nessa
dos, mas os maiores, em minha opinião, e que
edição, o Cara a Cara, que tradicionalmente
não se referem somente à política de assistên-
evidencia dois pontos de vista antagônicos
cia social, dizem respeito à profissionalização da
na Psicologia em relação a um mesmo tema,
gestão das políticas públicas e a realização de
ousou uma proposta diferente: trazer dois
concursos públicos. Infelizmente, a experiência
profissionais não para aprofundar e debater
divergências, mas para buscar avanços em um tem demonstrado que os partidos não dispõem
trabalho de composição necessário à atuação de quadros gestores consistentes para as políti-
no SUAS, a partir das contribuições e leituras cas públicas e muitas vezes designam filiados ou
da Psicologia e do Serviço Social para a área. amigos sem qualquer qualificação ou experiên-
A Diálogos entrevistou o psicólogo Jacques cia. Na assistência social, temos um traço pecu-
Akerman e a assistente social Elisabete Bor- liar, pois parece que se pensa que qualquer um
gianni. Eles avaliam os desafios da assistência que gosta de ajudar os outros pode ser gestor
social, o significado da assistência social como ou trabalhador da área. O que se espera é que
um direito, e não como assistencialismo, o servidores públicos concursados possam ser ca-
trabalho conjunto realizado por psicólogos e pacitados e qualificados de forma mais consis-
assistentes sociais, como eles se articulam e os tente, garantindo a qualidade da assistência e a
resultados dessa produção interdisciplinar. continuidade dos serviços.

Julho 2010 33
Borgianni – Os desafios da política de assistência Akerman – O paradigma psicossocial, que já é
social em vigor no Brasil são os mesmos de toda considerado essencial em algumas ciências e prá-
a política social dos últimos governos no país, e ticas, tem no trabalho conjunto entre psicólogos e
estão relacionados diretamente com a questão assistentes sociais uma referência que aproxima as
do financiamento público. Este tem sido sempre duas profissões. Na minha experiência na proteção
insuficiente para os objetivos de universalização social especial, estabeleceu-se boa parceria de tra-
do acesso aos direitos sociais. No caso da política balho, em que temos a perspectiva de construção
de assistência, propriamente dita, os estudos têm de uma prática transdisciplinar, com os saberes
mostrado que a maior parte do orçamento vai apresentando suas bases e com os profissionais se
para os programas de transferência de renda (Bol- apropriando destes saberes para a sustentação do
sa Família e Benefício de Prestação Continuada) e trabalho de atendimento psicossocial.
quase nada para as ações chamadas de estruturan-
Borgianni – Psicólogos e assistentes sociais têm
tes (trabalho, saúde, habitação, etc.); essas ações
tudo para realizar um exitoso trabalho conjunto
seriam aquelas que permitiriam que as pessoas po-
na formulação de respostas às múltiplas expres-
bres avançassem em suas condições gerais de vida,
sões da questão social no país. Ambas as profis-
para, aos poucos, não depender mais dos repasses
sões contam com códigos de ética profissionais
diretos do Estado. Outros estudos mostram ainda
avançados, que propugnam o compromisso com a
que a transferência de renda da massa da popula-
população atendida e também vêm estabelecendo
ção pobre às parcelas mais privilegiadas nunca foi
parcerias importantes nos locais de trabalho, seja
tão grande no país.
no SUAS, no SUS ou nas centenas de Varas da In-
No seu ponto de vista, o que representa a mu- fância e da Juventude e de Família e Sucessões, no
dança de perspectiva de afirmação da assistência Poder Judiciário.
como direito e não como assistencialismo?
Qual é a contribuição de cada área?
Akerman – Por ser uma área muito propensa a
Akerman – Os saberes “psi” apresentam a dimen-
toda sorte de manipulação, a mudança de pers-
são da escuta para além do manifesto, tentando
pectiva da assistência como direito foi funda-
identificar no discurso dos usuários os pontos de
mental, pois representa, na mesma medida, uma
impasse e repetição que engendram as situações
perspectiva de mudança da percepção da popu-
de violência concernentes ao trabalho da prote-
lação sobre as determinações das suas condições
ção especial. Os saberes do social trazem na sua
de vida. O direito que consta na Constituição
tradição um olhar sobre as marcas que as condi-
passa a ser um direito reivindicável e um dever
ções de vida imprimem na história dos usuários e
do Estado, e as pessoas que necessitarem de as-
que também podem esclarecer os determinantes
sistência social não devem se considerar e ser
dos atos violentos que transbordam, sejam eles
consideradas objetos de caridade, mas cidadãos
sutis ou radicais.
portadores de direitos.
Borgianni – Enquanto o psicólogo tem toda a
Borgianni – Este foi um dos grandes ganhos que
condição de trabalhar com as expressões da sub-
tivemos no país após anos de luta dos segmen-
jetividade e da vida emocional da população que
tos mais lúcidos dos trabalhadores da área social,
atende, os assistentes sociais têm as qualificações
como os assistentes sociais, os psicólogos e outros.
necessárias para compreender as expressões mate-
Mas a consolidação dessa perspectiva e sua obje-
riais e culturais que estão subjacentes às necessida-
tivação concreta, em forma de ações efetivas, de-
des de cada indivíduo, de cada família ou comuni-
pende de muito trabalho e do controle social, pois
dade que precisa da intervenção institucional para
a tendência em nosso país é sempre a de reforçar o
acessar seus direitos de cidadania.
favor, e não o direito, a benemerência, e não as po-
líticas públicas que garantem direitos universais. Há áreas de atuação comuns?

Como analisa o trabalho conjunto entre psicólo- Akerman – Na proteção social especial da Secre-
gos e assistentes sociais que vem sendo realizado? taria de Assistência Social de Betim temos traba-

34 Julho 2010
lhado sem separação de atividades entre psicólo- um ou outro profissional, dar conta sozinho da
gos e assistentes sociais. Todos os atendimentos complexidade das questões que são trazidas pelas
e atividades, inclusive visitas domiciliares, podem famílias ou pelos indivíduos que estão vivendo em
ser realizados por ambos profissionais, que têm condição de pobreza ou miséria.
como base uma mesma ética que orienta seu
A articulação muda, dependendo do nível de
trabalho, o que não quer dizer que não haja dife-
proteção social?
rentes estilos, vocações ou preferências entre os
diversos profissionais. Akerman – Acredito que o trabalho se articula
de maneira indistinta nas duas proteções, uma
Borgianni – Há muitas áreas de atuação comum
vez que se trata, sempre, de identificar, a partir
como já explicitei, seja nas políticas de assistência
do paradigma psicossocial, os pontos de impasse
social, saúde, educação, habitação, seja como pe-
que impedem a autonomia e o protagonismo de
ritos judiciais, trabalhando nas Varas da Infância e
indivíduos, famílias e comunidades. O trabalho do
da Juventude, nas Varas de Família e também nas
SUAS é um trabalho de cuidado em relação aos
Varas que hoje trabalham com a violência domés-
vínculos que sustentam as pessoas nos seus terri-
tica (Lei Maria da Penha) ou de questões relacio-
tórios geográficos e subjetivos.
nadas ao idoso.
Borgianni – Penso que a proteção especial exige
Como o trabalho de um psicólogo se articula
mais articulações com toda a rede de atendimento
com o de um assistente social, considerando os
especializado. Veja, por exemplo, um caso de abu-
níveis diferentes de proteção social – básica e
so sexual de uma criança, a necessidade de prote-
especial?
gê-la imediatamente do suposto agressor; o trata-
Akerman – Alguns acreditam que os assistentes mento físico e psicológico de que ela necessita; o
sociais estariam mais à vontade na proteção básica trabalho que tem de ser feito com a família dela
e os psicólogos, na proteção especial. Essa é uma e também com o agressor, etc. Pense também no
divisão que empobrece os dois saberes e poderia trabalho necessário com um adolescente que está
produzir o engano de que o trabalho em uma pro- cumprindo medida socioeducativa de internação,
teção é mais fácil ou mais leve do que em outra. o quanto é necessário esse trabalho multiprofissio-
Nos acostumamos a pensar que o nosso público nal, que leve em consideração seu desenvolvimen-
é o mesmo, seja na básica, seja na especial de mé- to como adolescente, sua relação com a família e
dia e alta complexidade, o que muda são as situa- com a comunidade onde vive.
ções em que estão envolvidos. A experiência tem
Como será o resultado dessa parceria entre essas
demonstrado que algumas vezes o direito violado
áreas em sua opinião?
pode ser facilmente superado, enquanto uma situ-
ação de vulnerabilidade pode ser de difícil mane- Akerman – Já temos como resultado a superação
jo. Nesse sentido, a articulação do trabalho entre de práticas fragmentadas e tradicionais de psi-
psicólogos e assistentes sociais das duas proteções cólogos e assistentes sociais e a consideração da
deve se dar para produzir integralidade entre os problemática dos usuários como sendo de natu-
dois níveis, evitando o desenvolvimento de ações reza psicosocial. Esta parceria inaugura um campo
fragmentadas ou estanques. ético que nos convoca para o desenvolvimento de
práticas e teorias que propiciem um novo patamar
Borgianni – A proteção básica está voltada prin-
da Assistência Social no Brasil.
cipalmente a pessoas que, embora em uma con-
dição de vulnerabilidade, ainda mantêm os vín- Borgianni – Sempre que essa parceria for possí-
culos familiares; já a proteção especial vai incidir vel, os resultados serão os melhores e todos nós,
naquelas que estão com esses vínculos rompidos assistentes sociais e psicólogos, precisamos traba-
ou dificultados por alguma necessidade mais com- lhar diuturnamente, para, além de ver respeitadas
plexa. Em ambas as esferas de proteção o trabalho nossas prerrogativas profissionais, poder atuar de
articulado de assistentes sociais e psicólogos é pri- forma conjunta e debater e refletir sobre cada caso
mordial, pois é muito difícil, senão impossível, para que atendemos.

Julho 2010 35
artigo José Antonio Moroni
Colegiado de gestão do INESC
Contato: moroni@inesc.org.br

O controle social nas


políticas públicas
José Antonio Moroni
Ilustração: Lívia Barreto

36 Julho 2010
1. Introdução
No final da década de 70 e no inicio dos anos 80, titucionalizado e público, assim como nas políti-
o movimento social1 retomou, com mais ênfase, a cas que definem o “modelo de desenvolvimento”.
questão da democratização do Estado, colocando- Sendo assim, a Constituição de 1988 apresen-
se a seguinte questão: que mecanismos são necessá- tou grandes avanços em relação aos direitos sociais,
rios criar para democratizar o Estado e torná-lo real- apontando, claramente, para a construção de um
mente público? Nessa indagação já estava embutida Estado de Bem-Estar provedor da universalização
a avaliação de que a democracia representativa, via dos direitos sociais2. Além disso, introduziu instru-
partidos e processo eleitoral, não é suficiente para mentos de democracia direta (plebiscito, referendo
complexidade da sociedade moderna. Era neces- e iniciativa popular), que o Congresso Nacional re-
sário criar outros mecanismos de participação. gulamentou de forma limitada, e abriu possibilida-
Surgem nesse período várias tentativas de se criar de de criação de mecanismos de democracia parti-
“conselhos populares”, alguns “dentro do Estado”, cipativa (os conselhos, por exemplo).
outros “fora”. O período pós-constituinte é marcado por
Com o processo Constituinte, essa questão é modificações, especialmente no que se refere à
aprofundada. O movimento social traz para esse gestão das políticas públicas, por meio do prin-
processo, além da democratização e publicização cipio da descentralização político-administrativa,
do Estado, a necessidade do controle social, que alterando as normas e regras centralizadoras e dis-
incorpora cinco dimensões: tribuindo melhor as competências entre o poder
i) a formulação, central, poderes regionais e locais. Também, com
ii) a deliberação, a descentralização aumenta o estímulo à maior
iii) o monitoramento, participação das coletividades locais – sociedade
iv) a avaliação, civil organizada – e à criação de mecanismos de
v) o financiamento das políticas públicas (or- controle social. Existe uma contradição entre esse
çamento público). processo e o momento histórico vivido internacio-
nalmente, que era da ampliação e fortalecimento
A Constituição de 1988 transforma essas das políticas neoliberais. Ao mesmo tempo que
questões em diretrizes de diversas políticas, es- construímos uma Constituição que aponta para
pecialmente as chamadas políticas sociais. Na re- a construção do Estado do Bem-Estar Social, po-
gulamentação dessas diretrizes se incorporam os liticamente estávamos entrando na era neoliberal
conselhos e as conferências como mecanismos de com a eleição para presidente de Fernando Collor
democratização e de controle social e que cha- de Mello. Nesse aspecto, até que ponto o discurso
mamos de sistema descentralizado e participati- da participação, usado na época por todas as for-
vo. Vale ressaltar que na política econômica não ças políticas, não serviu para o fortalecimento do
se criou nenhum mecanismo de participação ins- pensamento hegemônico do “Estado mínimo”?

1. Apesar de existir vários e diversos Movimentos Sociais usaremos no singular, pois não falamos de um especifico, mas de um conjunto de ações
da sociedade civil que se materializou na organização de um movimento social amplo, com características, filosofias e concepções comuns, que
era o que se denominou campo democrático e popular e com a agenda política a construção do Estado de Direito e democrático.
2. Estamos utilizando como conceituação de Estado de Bem-Estar a definição apresentada por Falcão, 1991. Segundo a autora, o Estado de Bem-
Estar é o Estado constituído nos países de capitalismo avançado, e possui como características:
a) os direitos sociais como paradigma,
b) origem em um pacto social e político entre Capital-Estado-Trabalho,
c) configura-se como agente central na reprodução social,
d) gestor poderoso das políticas sociais, que é a expressão essencial do Estado.

Julho 2010 37
2. O sistema participativo e
descentralizado
O sistema descentralizado e participativo é
um espaço essencialmente político, instituído
por representações governamentais e não gover-
namentais responsáveis por elaborar, deliberar e
fiscalizar a implementação de políticas públicas, 3. Relação Democracia
e que estão presentes nos âmbitos municipal, es- participativa e sistema
tadual e nacional. Dessa forma, inaugura-se nova
concepção de espaço público ou mes­mo de de-
descentralizado
mocracia. Podemos afirmar, também, que a con- Podemos afirmar que o principal objeti-
cepção do sistema descentralizado e participati- vo estratégico da democracia participativa é a
vo (especialmente os conselhos e as conferências) univer­s alização da cidadania e, portanto, a cons-
está relacionada à questão da democratização e trução de uma democracia cotidiana. A democra-
da publicização do Estado. É uma das possibilida- cia não pode ser algo abstrato na vida das pessoas
des criadas para enfrentar a ausência de mecanis- ou, apresentar apenas as eleiçõescomo fato con-
mos eficazes de controle da população sobre os creto. Deve proporcionar aos cidadãos a partici-
atos do Estado. pação plena nas questões que lhes dizem respeito,
Podemos definir “conselho de política públi- além de favorecer sua soberania, autodetermina-
ca” como espaço fun­damentalmente político, ins- ção e autonomia.
titucionalizado, funcionando de forma colegiada, A universalização da cidadania, do ponto de vis-
autônomo, in­tegrante do poder público, de cará- ta ético-político, pressupõe o combate a to­das as
ter deliberativo, composto por membros do go- formas de discriminação, a promoção da igualdade
verno e da sociedade civil, com as finalidades de de condições e de oportunidades entre os diferen-
elaboração, deliberação e controle da execução tes que foram tornados desiguais. “Universalizar”
das políticas públicas. significa estender, a todos e a todas, a cobertura de
Na verdade, o conselho é um instrumento para iguais direitos e, também, responsabilizá-los pela
a concretização do controle social – uma moda- efetivação de tais direitos. A universalização da cida-
lidade do direito à participação política que deve dania, no caso brasileiro, não será alcançada sem a
interferir efetivamente no processo deci­s ório dos implementação de políticas reparadoras dos danos
atos governamentais. Em uma leitura simplifica- causados por séculos de exploração, desigualdades,
da, podemos dizer que os conselhos deslocam o preconcei­tos e discriminações.
espaço de decisão do estatal-privado para o es- A construção da democracia nos impõe vigi-
tatal-público, dando oportunidade à transforma- lância permanente e constante no sentido de criar
ção dos sujeitos so­ciais em sujeitos políticos. mecanismos institucionais de participação com
As conferências são espaços institucionais de regras definidas e claras, que equacionem as pres-
deliberação das diretrizes gerais de uma deter- sões das maiorias sobre as minorias, ou das mi-
minada política pública. São mais amplos que os norias ativistas contra as maiorias passi­vas. Nesse
conselhos, envolvendo outros sujeitos políticos, sentido, esses espaços devem ter estratégias claras
por isso têm também caráter de mobilização so­ e eficazes com vistas a incorporar indivíduos ou
cial. Governo e sociedade civil, de forma paritária, grupos sociais alheios à participação – os chama-
por meio de suas representações, deliberam de dos “desiludidos” da vida social.
forma pública e transparente. Permitem a cons- Da mesma forma que uma sociedade democrá-
trução de espaços de negociação, a construção tica força o Estado a se democratizar, o in­verso tam-
de consensos e dissensos, compar­tilhamento de bém tem de ser verdadeiro, pois a democracia exige
poder e a corresponsabilidade entre o Estado e a postura democrática dos cidadãos e das cidadãs,
sociedade civil. seja nos espaços públicos, seja nos privados.

38 Julho 2010
Ilustração: Lívia Barreto

• A participação, por si só, muda a realida-


de: é um mito que despolitiza a participação,
pois não percebe que há sujeitos políticos
que não querem que as coisas mudem, não
percebe a correlação de forças e, por conse-
quência, não percebe que há outras formas e
interesses, alguns legítimos, outros nem tan-
to, que definem também as políticas.

• A sociedade não está preparada para


participar como protagonista das políticas
públicas: esse mito baseia-se no precon-
ceito do saber, em que a burocracia ou o
político detém o saber e a delegação para
decidir. Justifica a tutela do Estado sobre a
sociedade civil, o que leva, por exemplo, o
Estado a não criar espaços institucionaliza-
dos de parti­cipação ou a indicar, escolher e
determinar quem são os representantes da
sociedade nos espaços criados, assim como,
não disponibilizar as informações (porque
a “sociedade não vai entender”). Esse mito
também se expressa no discurso que a so-
ciedade civil precisa ser capacitada para
participar. Por ser uma coisa nova na cultura
política brasileira, todos os agentes, gover-
namentais ou não, precisam ser capacitados
para entender e participar.

• A sociedade não pode compartilhar da


4. Alguns mitos relacionados
governabilidade, isto é, da construção das
à participação condi­ções políticas para tomar e imple-
A participação da sociedade civil nas instân- mentar decis ões, porque o momento de
cias de decisão é, na maioria das vezes, cercada participação da sociedade e de cidadãos e
de mitos criados pelos discursos governamentais cidadãs é o voto. Essa concepção torna o
e reproduzidos, sem senso critico, por segmen- Estado privado, por intermédio do partido
tos da sociedade civil. Vamos citar apenas quatro que ganha a eleição. Durante o mandato,
desses mitos que dificultam a participação: o partido decide o que fazer conforme os
Esses mitos são disfarces ideológicos forja- interesses partidários.
dos por aqueles que detêm o poder político
no Brasil (seja oriundo do poder econômico, • A sociedade é vista como elemento que
da ocupação de um cargo buro­crático, seja de dificulta a tomada de decisões, seja pela
um cargo eletivo) e que não querem nenhum questão do tempo (demora em decidir,
mecanismo de partilha desse poder. Tais mitos obrigatoriedade de convocar reuniões, etc.),
devem ser desconstruídos com base em uma seja pela questão de posicionamento crítico
concepção ampliada de democracia e da poli- diante das propostas ou da ausência delas
tização da participação. por parte do Estado.

Julho 2010 39
5. O controle social na Assistência Social
Em termos legais, o controle social da Assistên- No universo dos conselhos, convivem vários se-
cia Social está previsto no inciso II do Art. 204 da tores da sociedade civil que, em si, não é homogênea
Constituição Federal, que diz: “participação da po- No campo da Assistência Social, têm-se as
pulação, por meio de organizações representativas, entidades filantrópicas, geralmente com agen-
na formulação das políticas e no controle das ações da corporativa e lógica privatista, ora pautada
em todos os níveis”. pela concepção de solidariedade, ora por ajuda
A LOAS, Lei Orgânica da Assistência Social de e benemerência. Há, também, as entidades que
1993, regulamenta o Art. 204 da Constituição de atuam na defesa dos interesses públicos sobre os
1988, criando como instrumento para o controle privados e que pautam sua atuação na democra-
social o CNAS (Conselho Nacional de Assistência cia participativa, rumo a reformas qualitativas e
Social) e as conferências nacionais, precedidas das substantivas do Estado. Essa parcela, que emergiu
municipais e estaduais, a cada dois anos. das lutas pró-Constituição, na Assistência Social,
O CNAS é o órgão superior de deliberação da perdeu terreno nos últimos anos.
política pública de Assistência Social. Além da de- O fortalecimento do campo conservador nos
liberação, a LOAS deu atribuições executivas/car- conselhos de assistência social tem a ver com mode-
toriais ao CNAS, ao atribuir a concessão/renovação lo de representação da sociedade civil que privilegia
do Certificado de Entidade Beneficente de Assistên- as entidades assistências em detrimento da repre-
cia Social (CEBAS). Esta atribuição foi retirada do sentação direta dos usuários.
CNAS, de forma acertada, em 2009. Tomando como foco o CNAS, que não difere
No processo de construção da LOAS, prevaleceu dos demais conselhos, o quadro da representação
a ideia que a certificação deveria ser um instrumen- pouco se altera a cada eleição. Realiza-se muito
to da política e que precisava estar sobre o olhar do mais a “dança das cadeiras” do que mudanças
controle social. Lembrando que esse debate se deu substanciais.
justamente no momento da CPI dos Anões do Or- O SUAS procura enfrentar alguns vícios desse
çamento, em que um dos instrumentos de corrup- processo. Por exemplo, com a melhor definição
ção eram as subvenções sociais e as concessões do do que sejam entidades de assistência social, or-
certificado de filantropia feitas pelo antigo Conse- ganizações de usuários e de trabalhadores(as) da
lho Nacional do Serviço Social (CNSS), substituído assistência.
pelo CNAS. O CNAS, como órgão superior de deli- Essa é uma das possibilidades da correção do
beração da política, deve decidir as normas e fazer o problema da super-representação das entidades
controle social, ficando o órgão gestor com a função de Assistência Social, ora representando seu es-
fazer a concessão. paço legítimo, ora representando o usuário e/ou
As forças políticas que atuavam no antigo CNSS organizações de usuários.
continuam atuando no CNAS. Dessa forma, não re- A participação dos usuários, definidos na Re-
conhecem o CNAS como espaço público, conquista solução CNAS nº 24/2006, como pessoas vincula-
da sociedade pela defesa de uma política pública e das aos programas, projetos, serviços e benefícios
não corporativa. Aqui cabe perguntar: até que pon- da Política Nacional de Assistência Social (PNAS),
to os conselhos de Assistência Social se constituí- e suas representações, deixa claro que as entida-
ram como espaço público não corporativo e com des prestadoras de serviços não representam, au-
olhar estratégico sobre a política? tomaticamente, os interesses dos usuários.

40 Julho 2010
Conclusão
O sistema descentralizado e participativo confi-
gura-se como instituto político não tradicional de
gestão de políticas públicas, voltado para a demo-
Bibliografia
cratização do aparelho de Estado e da sociedade
BOBBIO, N. O Futuro da Democracia,
civil, podendo impulsionar uma mudança qualita-
Rio e Janeiro, Paz e Terra, 1986.
tiva na forma de organização social e política , le-
vando-nos a uma ordem mais próxima da utópica ______________. Crise e Redefinição
radicalidade democrática. do Estado Brasileiro. In: Lesbaupin, I e
Não consideramos os conselhos como espaços Peppe A. (orgs), Revisão Constitucional
únicos, muito menos exclusivos, porém importan- e Estado Democrático. Rio de Janeiro,
tes e estratégicos para ser ocupados pela socieda- Centro João XXIII, 1993.
de civil organizada e comprometida efetivamente
FALCÃO, M. C. A seguridade na travessia
com a alteração do perfil estatal brasileiro.
do Estado Assistencial Brasileiro. In: SPO-
Além disso, a estrutura organizativa e a prática
SATI, A. et alli. Os Direitos (dos desas-
de funcionamento dos conselhos podem fortale- sistidos) Sociais. São Paulo. Cortez, 1991.
cer o estabelecimento da cultura democrática que
propiciou sua criação. Em outras palavras, a base PINHEIRO, M. M. B e Moroni. J. A. For-
cultural que possibilitou a criação dos conselhos matos e processos de escolha dos repre-
não está consolidada em nosso país, porém seu sentantes da sociedade civil nos conse-
funcionamento poderá servir como estrutura de lhos de assistência social. In: Cadernos de
textos: Participação e controle social no
reforço para a efetiva solidificação de uma cultura
SUAS, MDS/CNAS, BSB 2009.
democrática participativa.
Os conselhos são mecanismos limitados para a
RAICHELIS, Raquel. A construção da es-
transformação social. Porém, para a realidade bra- fera pública no âmbito da política de
sileira, são mecanismos que podem provocar mu- assistência social. Tese de Doutorado,
danças substantivas na relação Estado-Sociedade. PUC/SP, 1997.
Da mesma forma, esses mecanismos podem con-
tribuir com a construção/consolidação de uma SOUZA FILHO, R. Rumo à democracia
cultura política contra-hegemônica, por meio da participativa. Dissertação de Mestrado,
ESS/UFRJ, Rio de Janeiro, mimeo, 1996.
prática da socialização da política e distribuição
do poder.
Não se deve desistir do processo de implemen-
tação destes mecanismos de participação demo-
crática, apesar do pouco avanço no sentido de
transformar em poder de fato o poder legal que
esses conselhos possuem.

Julho 2010 41
Bruno Spada/MDS

palavra de usuário

Samuel Rodrigues
Coordenador do Movimento Nacional
de População de Rua, conselheiro
representante dos usuários no Conselho
Nacional de Assistência Social (CNAS).

E
m uma política orientada pelo protagonismo e empoderamento da população, a participação
dos usuários no controle social é fundamental e tem representado intervenção efetiva nos seus
avanços. Aqui, usuários de dois campos falam das necessidades para suas áreas, refletem tam-
bém sobre o papel de sua trajetória e das ações de seus movimentos organizados e apresentam avalia-
ções e necessidades relativas ao trabalho da Psicologia na Política Nacional de Assistência Social.

“O Movimento dos Moradores de Rua


vem se estruturando desde 2004. É algo
recente e começou a ser organizado a
partir do IV Festival Lixo e Cidadania
rua nem sempre porta documentos ou tem acesso
a um banheiro público para fazer sua higiene pes-
soal e então é negado o direito, muitas vezes, de ser
atendido em um posto de saúde. Outra questão é o
em Belo Horizonte (MG). Hoje, tem presença em Mi- não reconhecimento como cidadão brasileiro. Eu po-
nas Gerais, em São Paulo, no Rio Grande do Sul, No deria dizer, como exemplo: a população de rua não
Rio de Janeiro, no Paraná, no Ceará, na Bahia e tem é incluída no censo do IBGE. E agora é que nós esta-
uma célula começando no Distrito Federal. Fui mo- mos começando uma discussão com o IBGE, visando
rador de rua, hoje não sou mais. Fui trecheiro, que a que em 2020 essa população possa ser incluída.
são essas pessoas que andam pelas rodovias, de um Além disso, há a questão do acesso à educação, por
estado para o outro, durante um bom período da exemplo. São pessoas na rua, ou que estão no alber-
minha vida. Eu diria que uns 12, 13 anos, pelo me- gue, um número pequeno tem condições de iniciar
nos. Eu estava indo do Espírito Santo para o Recife ou retomar os estudos. Hoje os albergues têm mui-
e passei por Belo Horizonte, com a proposta de co- to poucos psicólogos, certo? Até sei sobre o trabalho
nhecer o Mineirão e a Lagoa da Pampulha e acabei dos psicólogos, por ser uma categoria que vem se
conhecendo o Movimento. Estou no Movimento há aproximando e que vem se mostrando interessada
três anos e meio e hoje minha principal atividade na no tema. Nos Centros de Atendimento e Referência
coordenação nacional é fazer a divulgação e a de- Social e nos CREAS, propriamente ditos, eu confesso
fesa dos interesses do Movimento ao participar do que não conheço em profundidade. A gente frequen-
Conselho Nacional de Assistência Social. Como é um ta esses serviços. Eu moro em Belo Horizonte e na ci-
público heterogêneo, que possui várias demandas, a dade tem um Centro de Referência da população de
gente trabalha na questão da ausência da habitação, rua, mas ele não tem psicólogo. Há monitores, tem
da negação do direito, na questão da saúde. A nega- um gerente, mas o centro não trabalha na linha de
ção do direito passa por algumas questões: para ser ter um psicólogo. O ideal é aumentar essa participa-
atendido em um posto de saúde você muitas vezes ção e aproximar a categoria da população de rua
precisa ter documento e estar limpo e a população de em todo o país.”

42 Julho 2010
“N ós estamos em um momento, em um
processo de crescimento bastante signi-
ficativo. Para mim, o papel do psicólogo
no SUAS é de fundamental importância,
biente Extraclínica, em que se trabalha dentro da co-
munidade. Então, ao invés de esperar que a pessoa
venha para dentro da entidade, a gente vai para den-
tro das comunidades e faz esse trabalho de identifica-
principalmente no que se refere ao restabelecimento ção e orientação, porque acontece o seguinte, muitas
ou fortalecimento dos vínculos familiares. Fazendo vezes, tem aquela pessoa que tem determinada defi-
essa aproximação, muitas vezes, ou essa construção ciência e a família não sabe. Um exemplo comum é
dos vínculos ele acaba resgatando autoestima, ele o déficit visual. Na maior parte das vezes a criança
acaba promovendo efetivamente a inserção desse não vai bem na escola, não consegue acompanhar e
indivíduo na sociedade. Eu, por exemplo, como usu- a família pensa que é por má vontade ou indolência.
ário da política, tive vários psicólogos em minha vida, Dentro da comunidade, interagindo com a família, se
ao longo da minha história, então eu sei muito bem identificam possíveis deficiências ou muitas vezes se
o quanto que isso foi importante. Eu sou cego, nasci identificam outras situações que não são deficiências
com uma patologia chamada glaucoma, e com sete e são entendidas como tais pelos familiares.
anos eu perdi toda a visão. Com sete anos ela zerou. É necessário salientar a importância do psicólogo,
Então desde muito cedo eu conheci esse trabalho do na condição de trabalhador, na construção do SUAS.
psicólogo com a família, para fazer os encaminha- Os trabalhadores devem entender que o papel deles
mentos, para fazer que a família acreditasse que era é fundamental para o protagonismo do usuário, re-
possível o processo de reabilitação, de habilitação no conhecendo que eles são o principal meio para esti-
meu caso, e fazer que minha mãe pudesse ir atrás mular o usuário para que ele entenda que pode ser
dos recursos. A ação da Psicologia foi fundamental o protagonista de sua própria história. Os trabalha-
para que ela acreditasse que era possível. Então, não dores atentos a isso poderão fazer um sistema mui-
é daquele psicólogo de gabinete que eu estou falando, to mais forte, tanto na qualidade de atendimento,
daquele que fica na sala. É o que interage com a co- quanto no que se refere ao controle social a partir do
munidade, que vai para a comunidade e que traba- controle do usuário.”
lha nessa perspectiva da assistência social.
As entidades de valorização da pessoa com defi-
ciência têm hoje um programa chamado PAIAEC ˗
Programa de Atendimento Interdisciplinar em Am- Carlos Eduardo Ferrari
Vice-presidente da Federação Nacional
das Associações de Valorização da Pessoa
com Deficiência (Fenavape), conselheiro
representante dos usuários no Conselho
Nacional de Assistência Social (CNAS).
Ana Nascimento/MDS

Mesa esq/dir: secretária nacional de Renda de Cidadania do MDS, Lúcia Modesto; conselheiro do CNAS, Carlos Eduardo Ferrari;
ministra do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Márcia Lopes, secretário-executivo substituto do MDS, Rômulo Paes de
Sousa, e a secretária nacional de Assistência Social adjunta, Valéria Goneli

Julho 2010 43
acontece na área Controle participativo
Neste eixo foram aprovadas 17 resoluções.
Destacam-se:
VII Conferência Nacional de Assistên- • esforços na estruturação e no fortale-
cia Social (CNAS) ocorreu entre os dias 30 cimento da participação popular das
de novembro e 3 de dezembro de 2009, com instâncias de controle social do SUAS;
o tema Participação e Controle Social no Sis- • o estímulo à criação de fóruns perma-
tema Único de Assistência Social (SUAS). Co- nentes de Assistência Social;
nheça algumas das deliberações, cuja adoção
• capacitação e empoderamento de
vai impactar na ação dos psicólogos no Sistema
conselheiros;
Único de Assistência Social (SUAS).
• a criação de condições materiais, físi-
cas e financeiras para esta participação
popular;
• a adoção de novas tecnologias para os
Gestão democrática processos de capacitação;
O terceiro eixo da VII CNAS previu a resoluções
• treinamento de conselheiros como for-
para a democratização da gestão do SUAS e
ma de fortalecimento;
aprovou 13 resoluções, tais como:
• estímulo à criação de frentes parla-
• a publicização de informações da rede socioas-
mentares em defesa da assistência so-
sistencial para melhor controle por parte dos
cial nas instituições legislativas;
usuários e da sociedade;
• a definição de indicadores e índices padroniza- • integração dos conselhos de assistência
social com outras instituições públicas
dos de acompanhamento e avaliação da ges-
como ouvidorias, controladorias e tri-
tão, considerando as peculiaridades regionais e
bunais de contas.
as três esferas de governo.

Orçamento da Seguridade A interface usuário-trabalhador do SUAS


Foram aprovadas 15 resoluções, entre elas:
Neste eixo foram aprovadas 12
resoluções. • preparação dos trabalhadores do SUAS para ga-
rantir a valorização do papel do usuário como su-
Algumas são:
jeito de direito na política pública;
• viabilizar a elaboração do orça-
mento da seguridade social de
• sensibilizar e capacitar, de forma continuada, os
trabalhadores, gestores e conselheiros para atua-
forma articulada entre as três po-
rem como facilitadores no processo de empode-
líticas setoriais ˗ Saúde, Previdên-
ramento dos usuários, considerando suas diversi-
cia Social e Assistência Social;
dades, na perspectiva de eliminar os preconceitos,
• mobilização para aprovação da
de modo a superar as relações de subordinação e
Proposta de Emenda Constitu-
pautar a prestação de serviços na lógica de direi-
cional ˗ PEC 431/01, que trata da
tos, em cumprimento da NOB/RH/SUAS;
destinação de percentual míni-
mo de recursos orçamentários,
• adoção de um sistema nacional unificado e infor-
matizado pelo governo federal, interligado aos
excluindo os recursos do BPC e
municípios, garantindo o que preveem as leis de
transferência de renda, para o fi-
regulação das profissões e devidos códigos de éti-
nanciamento da política de assis-
ca para protocolos de registro de atendimento de
tência social.
todos os usuários da política de Assistência Social.

44 Julho 2010
Debate amplo
De 21 a 23 de junho psicólogos de todo o
país puderam participar, por meio de vi-
deoconferência e transmissão na web, do
seminário “A atuação dos psicólogos no
Sistema Único de Assistência Social”. Pro-
movido em Brasília pelo Conselho Federal
de Psicologia, juntamente com o CREPOP
e o Ministério do Desenvolvimento Social,
o seminário discutiu a elaboração e apro-
priação de marcos éticos e normativos
do SUAS, os dilemas da atuação interdis-
ciplinar na proteção social, a Psicologia
nos serviços de proteção social básica e a
atuação do psicólogo na proteção social
especial.
Registros unificados
O Ministério do Desenvolvimento Social
(MDS), por meio do Departamento de
Gestão do SUAS da Secretaria Nacional de
Assistência Social criou uma comissão que
discute, com a participação de represen-
tantes da sociedade civil e dos profissionais
da proteção social, a unificação dos regis-
tros de atendimento no SUAS. Segundo
a diretora do Departamento de Gestão,
Simone Albuquerque, a unificação dos re-
gistros é um primeiro passo para a consti-
tuição de um sistema de identificação igual
que permita a implantação de um sistema
nacional de vigilância social. “Todas as nos-
sas discussões têm se pautado pelo prin-
cípio de que o registro em um prontuário
pertence ao usuário. Não é do profissional
nem do poder público”, afirma Simone. O
CFP participa das reuniões do grupo de
discussões.

Os resultados da VII Conferência Nacional de Assistência Social estão


publicados no site do Conselho Nacional de Assistência Social e podem ser
acessados pelo link:
http://www.mds.gov.br/cnas/vii-conferencia-nacional/as-deliberacoes-da-
vii-conferencia.
A VIII Conferência Nacional tem previsão de ser realizada entre novembro
e dezembro de 2011, precedida de etapas locais, regionais e estaduais.

Julho 2010 45
filme Marcus Vinícius Oliveira
Psicólogo formado pela Fundação Mineira de Educação e Cultura, com
mestrado em Saúde Pública pela Universidade Federal da Bahia (1995)
e doutorado em Saúde Coletiva pela Universidade do Estado do Rio de
Janeiro (2003). Tem experiência na área de Saúde Coletiva, com ênfase
em Saúde Pública, atuando principalmente nos seguintes temas:
Reforma Psiquiátrica e Saúde Mental, Clínica Psicossocial das Psicoses,
Psicologia e Direitos Humanos, Desigualdade Social e Subjetividade
Contato: matraga2@uol.com.br.

Quanto vale
ou é por quilo?
Marcus Vinícius Oliveira
Divulgação

Quanto vale ou é por quilo?


Brasil 2005 • cor • 104 min
Produção/Direção:
Sérgio Bianchi
Roteiro:
Sérgio Bianchi
Eduardo Benaim
Newton Canitto
Elenco:
Antonio Abujamra
Caio Blat
Herson Capri
Joana Fomm
Bárbara Paz
Gênero: drama
Idioma original: Português

46 Julho 2010
A
arte dos caricaturistas é a busca dos espécie de gente de terceira categoria, em um dos
traços distintivos de cada rosto, que, países cuja economia mais cresceu durante todo
exagerados, ao deformar a imagem do o século XX? Por que é que, distintamente daquilo
modelo, o tornam inconfundivelmen- que seria de se esperar do capitalismo regido pelo
te identificável. Aos filmes do paranaense Sérgio mercado e pela democracia, o país segue, anormal-
Bianchi (2005 ˗ Quanto vale ou é por quilo?; 2000 mente, multiplicando gerações e gerações de mise-
˗ Cronicamente inviável; 1994 - A causa secreta) ráveis, uma gentalha que merece ser castigada por
costuma-se atribuir, como categoria de acusação, sua insistência “em se reproduzir”?
negativa para as artes cinematográficas, a caracte- Se em Cronicamente inviável Sérgio Bianchi
rística de representar a realidade ao modo das cari- “exagerou” na busca da tradução do caráter amo-
caturas, de forma muito esquemática. Impedindo a ral e delirante dos grupos “privilegiados” que do-
positiva alienação que permite ao espectador pas- minam os ócios, os negócios e a política brasileira,
sar um bom par de horas de forma inconsequente. nesse Quanto vale ou é por quilo? sua condução
Do cinema engajado ou dito “de arte” se exigem mais “sóbria” parece ter como ponto de sustenta-
as sutilezas simbólicas ou as sofisticadas experi- ção a precisão do diagnóstico, que vai deduzir da
mentações que, sempre de modo indireto, logrem história das relações raciais a preciosa conclusão
capturar o sujeito por vias não convencionais da de que nossos males se ancoram na obstinada re-
linguagem e Sergio Bianchi não é nada disso. Sua cusa do pressuposto da mera igualdade jurídica,
aposta agressiva parte logo para “as vias de fato”. comezinha da edificação da democracia e do ca-
Direto! Sérgio não sai pela tangente. Não desvia e pitalismo. Recusa essa que, por sua vez, não reflete
não deixa que nós nos desviemos de um encontro qualquer tipo de incompreensão acerca das regras
imediato com a alucinada realidade social que rege do jogo, mas insiste exatamente em sua perver-
tudo a nossa volta. Ao modo do cirurgião, expõe as são, como condição da manutenção de violentas
vísceras. Nossas vísceras. vantagens e privilégios. Talvez, como peixes no
Seu assunto, como variações sobre o mesmo aquário, para nós brasileiros essa absurda condição
tema, é derivado do diagnóstico preciso que seu valorativa, que reduz parte da humanidade a uma
olhar, ao modo dos caricaturistas, identifica como condição animal, tratados como puro corpo bru-
traço central da nossa perversidade, enquanto to, bestializados e que naturaliza, ao mesmo tem-
sociedade brasileira: a opaca conjugação valora- po, para dominados e dominadores, um script que
tiva que divide os brasileiros entre “aprazíveis” e parece eterno, careça mesmo, para se deslocar, ser
“desprezíveis”, estruturando instituições, poderes, sacudida pela sequência de provocações que o fil-
saberes e práticas. Conjugação que opaca, profun- me pretende detonar. Para o assunto em tela neste
da, naturalizada, pode se dar ao luxo conviver de número da revista Diálogos, recomendo particular
“consciência tranquila” com suas absurdas e aber- atenção ao fato de que, como mostra o filme, as
rantes consequências, destituída de qualquer for- atividades de Assistência Social e os valores eco-
ma de culpa ou pudor. O cínico conceito da meri- nômicos movimentados pela bem-intencionada
tocracia empunhado como argumento imunizador “filantropia” das ONGs – que nos fazem parecer
oferece coletivamente o antídoto tranquilizador e muito melhores do que somos – podem se cons-
suficiente. No Brasil, pobres são aqueles que “esco- tituir em apenas mais uma forma de “extração de
lhem” ser pobres e, portanto, que arquem com as mais-valia” que aprofunda a “funcionalização” da
conseqüências de sua “escolha”. existência dessas ralés. Se para o grande capital,
Em Quanto vale ou é por quilo?, Sérgio aposta elas são meramente descartáveis, para as classes
em mais uma tentativa de desvelar o óbvio ululan- médias elas garantem, além do importante merca-
te: o que está por detrás, no Brasil, dos seculares do dos trabalhos domésticos, centenas de milhares
processos de reprodução de uma imensa ralé, uma de empregos. Todos pelo social!

Julho 2010 47
inclusão produtiva

Da exclusão à cidadania
por meio do
D
e moradores de rua que lutavam Solidária da Secretaria Municipal Adjunta de As-
para sobreviver com a venda do sistência Social (SMAAS), a Asmare recebe R$ 51
que conseguiam recolher dos mil por mês para a compra de vale-transporte e
detritos da cidade de Belo Hori- uniforme para os seus associados e também para
zonte, enfrentando o preconceito, a violência o pagamento de um funcionário da entidade.
urbana e o medo, em vinte anos eles passaram Trata-se de um suporte técnico e financeiro, que
a fazer parte da política de coleta seletiva de passa por organização, qualificação e acompa-
lixo da capital mineira, com apoio da prefeitura nhamento social, gerando trabalho e renda. Além
e o reconhecimento da sociedade e tornaram- disso, “tem uma bolsa moradia para tirar o pesso-
se, também, promotores de cidadania. Criada al da rua, que dura de dois a três anos. Após esse
em 1990, com o apoio da Pastoral de Rua da prazo, a prefeitura compra a moradia definitiva”,
Igreja Católica, a Associação dos Catadores de ressaltou dona Geralda.
Papelão e Material Reaproveitável (Asmare) co- Esse apoio contribui para o trabalho de cole-
meçou com 230 catadores de papel. Atualmen- ta seletiva em três galpões localizados em duas
te, são cerca 400 associados e os benefícios se áreas da cidade. Em uma dessas áreas, na Aveni-
estendem a mais de 1.500 pessoas. “O trabalho da Contorno, fica a administração da entidade e
da Asmare trouxe cidadania, autoestima, direi- funcionam dois galpões nos quais trabalham 110
tos e deveres, e o catador não sabia o que era catadores e mais 20 triadores que fazem a sepa-
isso”, afirma Maria das Graças Marçal, mais co- ração desse material, que é levado para lá com o
nhecida como dona Geralda, de 59 anos, que apoio de três caminhões de lixo. No outro local,
participa da entidade desde o início e tornou-se tem apenas um galpão em que é feita a triagem de
símbolo do trabalho. “Foi a primeira associação material, mas também funciona uma marcenaria
de Belo Horizonte. Foi a modelo”. que produz móveis de material reciclado a par-
Com o apoio da prefeitura de capital minei- tir de encomendas. Antes de ir para a reciclagem,
ra, por meio do Serviço de Apoio a Economia todo o material coletado é separado, prensado e

48 Julho 2010
trabalho
O trabalho com catadores de papel e
Google Images

outros grupos exluídos em projetos


de inclusão produtiva é um campo
possível e rico para o psicólogo. Há o
trabalho de organização do coletivo,
tanto na organização política,
quanto do trabalho, centrado na
estruturação da própria associação
como um empreendimento
coletivo e solidário, mas há também
a possibilidade e atuação no
fortalecimento do protagonismo
na discussão da coleta seletiva e da
própria organização dos catadores,
na questão do resgate da autoestima.
− Rosimeire Silva, coordenadora de
Saúde mental da Secretaria de Saúde
de Belo Horizonte.
ONG Lua Nova

Julho 2010 49
estocado. A Asmare tem parcerias com empre- manência no mercado de trabalho, capacitan-
sas, escolas, condomínios, entre outros. Em Belo do-os para atender às exigências impostas pelas
Horizonte, as políticas de Assistência Social e de relações do mundo do trabalho. Essa inclusão
limpeza urbana se articulam para promover a in- começou a ser discutida a partir da Constituição
clusão social associada à coleta seletiva. de 1988 e da Lei Orgânica de Assistência Social
O caráter do trabalho da Asmare não tem (LOAS) em 1993.
vinculação direta a qualquer profissão espe- “Com o objetivo de viabilizar aos usuários
cífica, mas a psicóloga Rosemeire Silva, hoje dos serviços e programas o acesso ao mundo do
coordenadora de Saúde Mental da Secretaria trabalho, o desenvolvimento de sua capacidade
Municipal de Saúde de Belo Horizonte, teve produtiva, possibilitando que esses usuários pos-
a oportunidade de atuar na entidade em dois sam transitar do lugar de beneficiário para o de
momentos. “Minha atuação se deu mais como trabalhador que pode garantir seu próprio sus-
técnica na Asmare, mas o tra- tento e sua sobrevivência”,
balho com catadores de papel A importância das ações avalia. Além disso, a geren-
e outros grupos excluídos em te considera importante a
projetos de inclusão produti- dá a medida em que se compreensão de que “o pú-
va é um campo possível e rico blico que procura os servi-
para a atuação do psicólogo.
consegue preparar o
ços ofertados pela Assistên-
Há o trabalho de organização usuário da assistência cia Social geralmente tem
do coletivo, tanto na organiza- sua vida marcada por tra-
ção política quanto do traba- social, visando oferecer- jetória de exclusão social, o
lho, centrado na estruturação não acesso a bens e serviços,
lhe oportunidade
da própria associação como o rompimento dos vínculos
empreendimento coletivo e so- de inclusão social sociais, familiares e comuni-
lidário, mas há também a pos- tários e situações reconheci-
sibilidade de atuação no forta-
e permanência no das por alguns teóricos que
lecimento do protagonismo na mercado de trabalho debruçam sobre o tema da
discussão da coleta seletiva e exclusão social como a de
da própria organização dos ca- − Ana Maria Wolbert, ’não pertencimento’”.
tadores, na questão do resgate “Entre os serviços e pro-
da autoestima”, avalia.
gerente de Inclusão
gramas previstos na LOAS
Além da atuação na Asma- Produtiva são indicados aqueles que
re, a prefeitura da capital mi- visam ao fortalecimento de
neira desenvolve outras ações formas de organização e ini-
de inclusão produtiva, como os ciativas produtivas que con-
serviços de formação profissional, que oferece tribuam com a melhoria das condições de vida
cursos de qualificação de nível básico para os das camadas pobres, para que possam superar a
usuários das políticas sociais do município; in- situação de pobreza em que vivem, objetivando
termediação de mão de obra para pessoas com sua ‘saída’ do circuito das políticas emergenciais
deficiência e apoio ao adolescente trabalhador de Assistência Social”, observa a professora do
de 16 a 18 anos em situação de risco, que recebe Departamento de Serviço Social da Universida-
acompanhamento socioeducacional e é contra- de de Brasília (UnB) Daniela Neves. Ela adverte,
tado por tempo determinado para trabalhar na entretanto, que “esses segmentos não estão ex-
prefeitura. cluídos já que é próprio da dinâmica da socieda-
Para a gerente de Inclusão Produtiva Ana de capitalista a produção de pobreza econômica
Maria Wolbert, a importância dessas ações se articulada à produção da riqueza”. Isso significa,
dá na medida em que se consegue preparar o na análise da professora, que “os segmentos po-
usuário da Assistência Social, visando a ofere- pulacionais que se encontram na pobreza e no
cer-lhe oportunidade de inclusão social e per- desemprego influenciam para determinar os sa-

50 Julho 2010
lários dos que estão alocados nos espaços pro- associados. “O catador de rua conquistou a mo-
dutivos, o que nos impede de falar em ‘inclusão radia. Ninguém mora mais na rua. Todo mundo
social ou produtiva’ para as camadas pobres, já está com a visão de melhoria. Sabe de tem que
que estamos todos inteiramente relacionados a colocar os filhos na escola”, acentua dona Geral-
partir da dinâmica da sociedade capitalista”. da, que começou a trabalhar como catadora de
O Sistema de Informações em Economia Soli- papel na infância e já criou nove filhos, com ida-
dária (SIES) do Ministério do Trabalho e Empre- des entre 43 e 23 anos. Em 2009, como finalista da
go, segundo Neves, registra que “cerca de 30% premiação de uma revista brasileira, ela foi aos Es-
das atividades ditas solidárias do país têm fatu- tados Unidos para falar sobre a Asmare no Banco
ramento mensal igual a zero. Ou seja, quase um Mundial, em Washington, e na ONU, em Nova
terço das atividades que se propõem produtivas Iork. Apaixonada pelos resultados do trabalho
e com características de ‘inclusão social’ e cons- continuado de inclusão produtiva da Asmare, Ro-
trução da cidadania não têm, mês a mês, qual- semeire Silva salienta: “Hoje os filhos dos antigos
quer renda que possa melhorar as condições de moradores de rua trabalham no Centro Cultural
vida de seus componentes. Dentre os 21.859 ‘em- Reciclo e auxiliam, com seus projetos e oficinas, a
preendimentos de economia solidária’ existentes inserir outros moradores de rua que não são ca-
no Brasil em 2007, apenas uma parcela muito tadores de papel em atividades produtivas. Além
pequena consegue se destacar economicamente disso a associação promove o Festival Lixo e Cida-
e socialmente, como é o caso da Asmare. A pro- dania e consegue, com ele, influenciar a política
fessora da UnB, porém, analisa que isso ocorre de resíduos sólidos do município.” Tornaram-se
“muito mais por seu conteúdo social, pois traba- atores com direito e legitimidade para influenciar
lham com a remoção e a seleção do lixo urbano, na política ambiental da cidade e, também, na
o que nos tempos atuais tem grande visibilidade, política de assistência social.
dadas as prioridades governamentais perante as
demandas internacionais para cumprir as metas
de preservação ambiental”.
Os 20 anos da Asmare mostram que há re-
Google Images

sultados do trabalho da entida-


de para os seus

Julho 2010 51
Resenha de livros
Isolda de Araújo Günther
Ph.D. em Psicologia do Desenvolvimento pela
Michigan State University (EUA), é pesquisadora
colaboradora sênior no Instituto de Psicologia, UnB
(DF). Endereço para correspondência: Instituto de
Psicologia, ICC Sul, Campus Darcy Ribeiro, UnB CEP
70.919-910, Brasília, DF. Tel.: 61 3307-2625 r. 423.
E-mail:Isolda.gunther@gmail.com

U
ma das vertentes de atuação que rios fazeres possíveis, uma vez que a própria
constitui desafio principalmente política e a participação do psicólogo nela
na proteção básica é a qualidade são processos recentes. Por causa disto, não
de vida do idoso. “Nesse aspecto, há receitas prontas.”
como em outros, é importante construir uma Na proteção social básica e na proteção
relação de confiança com o idoso e com os de- social especial os fazeres devem, por obediên-
mais integrantes da família; a qualidade passa cia às diretrizes da política, ser interdisciplina-
sobretudo pela possibilidade de um posicio- res. A partir da experiência prática cotidiana,
namento ético-político: não é só uma questão Rita de Cássia pondera que entender o sujeito
de formação e de se apanhar um conceito e se- como parte de uma estrutura complexa, que
gui-lo”, observa Rita de Cássia Oliveira Assun- é a família, e perceber esta família de forma
ção, psicóloga atuante na coordenadoria de diferenciada consiste em outro desafio. “Hoje
Proteção Social Básica da Secretaria Municipal a gente tem aí outra compreensão da impor-
de Cidadania, Assistência e Inclusão de Cam- tância da família, e é necessário considerar de
pinas. Ela pondera que para atuar no campo é forma integrada o ambiente como constituin-
necessário ao psicólogo um perfil que contem- te do indivíduo. Ao pertencer a um coletivo,
pla a identificação das demandas do outro, de seja a unidade familiar, seja, mesmo, a um gru-
modo a viabilizar o seu empoderamento. po de moradores ou de trabalho, a demanda
Dentro da Política de Assistência Social que é levada aos serviços de assistência ganha
para os trabalhadores de todas as áreas há outra dimensão. Isso não pode ser perdido de
uma série de desafios. Talvez o principal deles vista”, afirma Rita de Cássia. Esses princípios
seja o de construir coletivamente ações pro- devem orientar também o trabalho com ido-
tetivas. Um desafio específico que é pertinen- sos nas políticas de Assistência Social. Para
te aos profissionais da Psicologia é o de edifi- aqueles que atuam com essa população, o li-
car as práticas de intervenção. Na opinião de vro de Anita Liberaleso Neri, comentado por
Rita de Cássia, “essas práticas de intervenção Isolda de Araújo Gunther, traz contribuições
devem ser diferenciadas e atender ao princí- importantes, uma vez que aborda aspectos
pio de respeitar o território de atuação, a co- relativos a essa etapa da vida humana, assim
munidade e suas especificidades, devem vir como aqueles relativos à garantia de qualida-
ao encontro de um diagnóstico e permitir vá- de de vida para os idosos.

52 Julho 2010
Qualidade de vida na velhice: enfoque multidisciplinar.
Anita Liberalesso Neri (Org.). Campinas: Alínea, 2007, 300 pp.
Resenha elaborada por Isolda de Araújo Gunther - Universidade de Brasília

O
livro Qualidade de vida na velhice: Os capítulos 5
enfoque multidisciplinar é organi- a 11, examinam as-
zado por Anita Liberalesso Neri, pectos específicos da
pioneira no ensino e na pesquisa qualidade de vida na
sobre a Psicologia do envelhecimento, introduto- velhice. Nesse sentido
ra e divulgadora da perspectiva do Curso de Vida Ilka Nicéia D’Aquino
(life span) no Brasil. Essa perspectiva é responsável Oliveira Teixeira exa-
pela mudança paradigmática no conceito de de- mina no capítulo 5 os conceitos, as definições e os
senvolvimento humano, preconiza que o estudo modelos envolvidos da síndrome de fragilidade. No
do desenvolvimento do indivíduo, a ontogêne- capítulo 6, Cássio Machado de Campos Bottino e
se, envolve desde a concepção até a morte e tem Marco Antonio Moscoso Aparício analisam o con-
como principal teórico Paul Baltes, a quem o livro ceito multifacetado de qualidade de vida sob o pris-
é dedicado. ma da saúde mental. Pricila Cristina Correa Ribeiro e
Compreende uma apresentação, escrita pela Mônica Sanches Yassuda trazem à tona, no capítulo
organizadora, doze capítulos, além de uma breve 7, as relações entre desempenho cognitivo e estilo
descrição dos vinte e um autores, profissionais das de vida. Maria da Luz Rosário de Souza, Fernando
áreas de Arquitetura, Assistência Social, Ciências Neves Hugo e Débora Dias da Silva abordam no ca-
Sociais, Odontologia, Economia, Fisioterapia, Le- pítulo 8 a adequação do tratamento odontológico
tras, Medicina, Pedagogia e Psicologia, o que justi- às necessidades dos idosos. No capítulo 9 Adriana
fica plenamente a menção ao enfoque multidisci- Romeiro de Almeida Prado e Mônica Sanches Yassu-
plinar contida no subtítulo. da contribuem com a questão do planejamento am-
Na apresentação, a organizadora relata a histó- biental destinado às pessoas idosas, a chamada Ge-
ria não contada das publicações sobre a Psicologia rontologia Ambiental. Marinéia Crosara de Resende
do Envelhecimento no país, deixando vislumbrar e Anita Liberalesso Neri fazem importante contri-
como seu esforço na geração, disseminação e apli- buição ao tratar, no capítulo 10, das possibilidades e
cação de conhecimentos foi fundamental para o limitações de Envelhecer com deficiência física. Outro
desenvolvimento e a consolidação da área. subsídio relevante e inovador diz respeito ao capí-
O capítulo I Qualidade de vida na velhice e sub- tulo 11, no qual Maria Eliane Catunda de Siqueira e
jetividade, apresenta os conceitos basilares e dis- Anita Liberalesso Neri focalizam a Qualidade de vida
cute os temas, o caráter multidimensional e a ne- das pessoas que envelhecem com deficiência mental.
cessária contextualização sócio-histórica para o Finalmente, no capítulo 12, O idoso na relação com a
estudo do envelhecimento. No capítulo 2, Eduar- morte: aspectos éticos, Johannes Doll e Ligia Py enri-
do Chachamovich, Clarissa Trentini e Marcelo Pio quecem esta publicação ao discutir as questões his-
de Almeida Fleck discutem, a partir das ciências tórico-culturais e éticas ligadas à finitude da condi-
da saúde, a Qualidade de vida em idosos e acres- ção humana e chamam atenção para a necessidade
centam às medidas de desfecho (diminuição de de sermos “autocuidadores e cuidadores solidários
sintomas, morbidade e mortalidade) o construto daqueles que dependem do nosso afeto e do nosso
qualidade de vida. No capítulo 3, Tomás Engler trabalho” (p. 297).
pondera sobre o papel da economia na constru- Ao mesmo tempo que se chama atenção para a
ção de uma velhice bem-sucedida, analisando da- visão integradora do livro, considera-se que o leitor
dos brasileiros e latino-americanos. No capítulo pode selecionar capítulo(s) específico(s) de inte-
4 Ana Amélia Camarano, Maria Tereza Pasinato resse, sem correr o risco de perder a conectividade.
e Vanessa Regina Lemos discorrem sobre Os cui- Com base em seu conteúdo, estilo e mérito tra-
dados de longa duração para a população idosa, ta-se de leitura recomendada para estudantes, pro-
dando ênfase ao questionamento do componen- fissionais e para todos aqueles que desejam conhe-
te gênero na velhice. cer ou se atualizar nas questões do envelhecimento.

Julho 2010 53
ilustração
Algumas ilustrações dessa edição foram retiradas de dese-
nhos produzidos por adolescentes e jovens mães atendidas na
Associação Lua Nova (Araçoiaba da Serra ˗ SP). A Associação
visa a oferecer às adolescentes em situação de risco a possibi-
lidade de viver com seus filhos, durante um processo terapêu-
tico social, criando alicerces para um futuro digno.
A revista Diálogos agradece a colaboração das jovens: Ka-
rita, Aline, Mariana, Vanessa, Fernanda, Larissa, Jaqueline,
Grazielle, Tatiane e Alessandra.

54 Julho 2010
CONSELHOS REGIONAIS DE PSICOLOGIA

1ª REGIÃO 11ª REGIÃO


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