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Quem mandou Marielle Franco sair da Senzala, ou da preferia como queiram?

Quem
mandou ela se erguer contra o “cativeiro social”? Quem mandou?

Quem a mandou não ficar recatada e, talvez, no lar? Quem mandou tentar fazer
tremer as estruturas escravocratas? E sonhar com a libertação?

Não sabia que sendo mulher, negra e favelada não deveria ousar tanto? Ter tanta
audácia e andar com a cabeça tão erguida? Imaginou que poderia olhar de igual para igual os
senhores da Casa Grande?

Será que imaginou que estava extinta a escravidão? Terá sonhado ser gente igual todas
as gentes, em especial homens brancos? Pobre Marielle. Pobre de nós.

“Meu Deus! Meu Deus! Se eu chorar, não leve a mal”, eu choro pela Marielle, choro
pela juventude negra dizimada nesse país. Choro pelas mulheres negras vítimas de violência de
gênero e de etnia. “Amparo do Rosário ao negro Benedito; Um grito feito pele do tambor; Deu
no noticiário, com lágrimas escrito; Um rito, uma luta, um homem de cor”.

Não, Marielle sabia, muito bem por onde andava e o que fazia, ela se sabia semente de
luta, sabia que todo sangue que cai na terra em meio à luta, não se esparrama a toa, mas faz
germinar a terra. Liga não, Marielle, outros e outras virão, para segurar as tuas bandeiras,
agora iluminados com a luz do candeeiro no qual tu te transformas. “Ê, Calunga Preto Velho me
contou; Onde mora a Senhora Liberdade; Não tem ferro nem feitor”.

Pego emprestado neste texto os belos versos do samba enredo da escola de samba
Paraíso do Tuiuti, a saber, a escola, no desfile de 2018, questionou se está extinta mesmo a
escravidão. “Eu fui mandiga, cambinda, haussá; Fui um Rei Egbá preso na corrente; Sofri nos
braços de um capataz; Morri nos canaviais onde se plantava gente”. A morte de Marielle me fez
lembrar essa letra e esses versos. Marielle sofreu como tantos e tantas, e será enterrada nesses
canaviais sociais, ali onde se enterra gente pobre e preta. Mas se enterra o corpo não as ideias,
essas germinam molhadas com lágrimas e sangue.

“Tenho sangue avermelhado; O mesmo que escorre da ferida” o mesmo derramado


pelo genocídio da juventude negra, a saber, sete a cada dez jovens assassinados no Brasil é
preto. O sangue deles é o meu sangue sendo derramado. O sangue que escorre de nossas
feridas, das chagas que nos abre, chaga como o assassinato da Marielle.

Mas não podemos desistir, enxugamos as lágrimas e seguimos nosso destino é “Onde
mora a Senhora Liberdade; Não tem ferro nem feitor”.

Marielle, presente.